A Imagem de Maioral

Por Danilo Coppini

Dentro dos costumes e tradições da Quimbanda, a grande maioria dos Templos/Terreiros usa uma imagem muito similar à Deusa “Baphomet” para representar o “Imperador Maioral”. Essa forma de idolatria também ocorreu por conta do sincretismo religioso ocorrido na formação do culto, principalmente pela grande influência das obras literárias do “mago cristão” Eliphas Levi, criador da imagem. Dentre suas obras, o livro “Dogma e Ritual da Alta Magia” foi um dos responsáveis pela profanação da “Senhora da Terra” e pela propagação de um dos maiores erros no círculo ocultista. Transcreveremos um trecho dessa obra que expõem sobre Baphomet:

“Figura panteística e mágica do Absoluto. O facho colocado entre os dois chifres representa a inteligência equilibrante do ternário; a cabeça de bode, cabeça sintética, que reúne alguns caracteres do cão, do touro e do burro, representa a responsabilidade só da matéria e a expiação, nos corpos, dos pecados corporais. As mãos são humanas para mostrar a santidade do trabalho; fazem o sinal do esoterismo em cima e em baixo, para recomendar o mistério aos iniciados e mostram dois crescentes lunares, um branco que está em cima, o outro preto que está em baixo, para explicar as relações do bem e do mal, da misericórdia e da justiça. A parte baixa do corpo está coberta, imagem dos mistérios da geração universal, expressa somente pelo símbolo do caduceu. O ventre do bode é escamado e deve ser colorido em verde; o semicírculo que está em cima deve ser azul; as pernas, que sobem até o peito devem ser de diversas cores. O bode tem peito de mulher e, assim só traz da humanidade os sinais da maternidade e do trabalho, isto é, os sinais redentores. Na sua fronte e em baixo do facho, vemos o signo do micro-cosmo ou pentagrama de ponta para cima, símbolo da inteligência humana, que colocado assim, em baixo do facho, faz da chama deste uma imagem da revelação divina. Este panteus deve ter por assento um cubo, e para estrado quer uma bola só, quer uma bola e um escabelo triangular” Levi, Eliphas. Dogma e Ritual da Alta Magia, Editora Madras – 2008.”

Segundo essa descrição, Baphomet trata-se de uma figura filosófica, hermafrodita, cuja principal função é manter o equilíbrio entre os polos energéticos (+ e -) e promover uma suposta redenção motivada por impulsos de misericórdia e justiça. O ídolo Baphomet foi concebido por esses estudiosos cristitas como sendo um conjunto de fagulhas das mais diversas culturas antigas que capacitaram o entendimento da geração, polaridade, dualidade, entre tantos outros significados.

“Baphomet”, segundo nossos entendimentos, não é a figura panteística do “Absoluto”, tampouco, algum esboço representativo da santidade do homem. Acreditamos que a palavra “Baphomet” é junção das palavras gre-gas “Baphe-Metra” (Βαφή μητερα), que corresponde à “Mãe tingida/sangrenta”, “A tintura da Mãe” ou ainda “o batismo da Mãe” onde ocorre o encontro com a face da Deusa Sinistra. O nome, apesar de filosófico, representa o “Grande Útero Negro” que gerou e capacitou forças para guerrear contra a inércia das religiões estigmatizadas.

Para desmistificar algumas ideias, vamos expor um conjunto de conceitos que nos fazem acreditar que “Baphomet ou Bafomé” não é o “Antigo deus templário” que motivou autoridades católicas e reis perseguirem os “cavaleiros de cristo” ou “uma corrupção do nome Maomé” como infelizes ocultistas persistem perpetuando em escritos sem nexo.

Visivelmente, a imagem de Baphomet é carregada de significados esotéricos. Tais sinais são tão amplos que dão margem à diversas interpretações, por tal motivo, cada corrente filosófica enxerga a imagem com atributos diferentes. Associam-na ao deus Pan (panteão grego), ao Vigilante Azazel (hebreu), ao demônio Behemot e ao próprio Satanás cristão. Alguns alegam que a imagem é o puro “Akasha” (primeiro espírito), outros que representa o “Batismo da Sabedoria” (corrupção da expressão grega “BaphesMetis”) ou “Sophia” e os mais infortunados alegam ainda que o nome é uma corrupção de “Abufihamat” (ou ainda Bufihimat, como pronunciado na Espanha), expressão moura para “Pai do Entendimento” ou “Cabeça do Conhecimento”. Dezenas de teorias enxertam a massa formadora do ícone gnóstico mais corrompido da história da filosofia esotérica.

Como dito anteriormente, o autor e ocultista cristão Eliphas Levi, que outrora se tratava de um abade com impulsos ao “desconhecido”, moldou através dos conceitos preexistentes uma figura filosófica repleta de significados e nomeou-a como “O bode Baphomet ou o Bode de Sabbath”, uma figura visivelmente corrompida e repleta de influências demoníacas. Portanto, o ídolo Baphomet foi construído nas pranchetas de um abade que fundiu dezenas de conceitos e culturas para desenhá-lo.

A imagem de Baphomet, carregada de traços demoníacos e simbologias não cristãs, foi o vaso perfeito para a habitação do “inimigo de Deus”. A Igreja cristã fundiu os dois conceitos e criou uma forma física para propagar o medo que sua doutrina necessita para manter-se viva. A imagem de Baphomet torna-se a imagem de Satã/Lúcifer, cultuado pelos bruxos em suas ritualísticas de “Sabbat Negro”, onde o deus adorado era o “bode negro”, também conhecido como “Mestre Leonardo”.

No processo formador da Quimbanda, a imagem de Levi chegou em terras brasileiras concomitantemente aos demais livros inquisitórios de demonologia. Como a imagem é forte e expressiva, ostentando a cabeça de um bode (animal repudiado), não tardou para ser proliferada como a imagem do próprio demônio ou ainda a imagem que retratava o demônio e suas legiões. Dessa forma, foi a imagem usada para representar as forças de Maioral e a amplitude de seus poderes dentro do culto da Quimbanda. Esse conhecimento é fundamental para a compreensão da imagem de Maioral.

Evidentemente que fica uma lacuna na mente dos adeptos: “Se a imagem de Maioral foi o desenho de um abade esotérico corrompido pela Igreja Católica, a mesma torna-se uma figura desprovida de poder e verdade dentro do culto da Quimbanda. Como seria a imagem de Maioral?” Para sanarmos essa lacuna, temos de readaptar nosso entendimento acerca da imagem, bem como os fundamentos que a mesma carrega. Segundo nossa Tradição V.S. Maioral é um Ser amorfo, portanto, todas as imagens ou gravuras são apenas formas representativas que facilitam o processo evolutivo. Outro ponto importante é que independente da imagem ter sido fruto da imaginação de um ser humano, a mesma adquiriu um poder energético condensado por centenas de anos de egrégora. Cabe aos dirigentes espirituais entenderem e adaptarem novos conceitos para que a imagem possa ser usada nos cultos.

Ao observarmos a imagem de Baphomet, encontraremos alguns aspectos deveras importantes para associá-la ao culto de Maioral. A imagem possui:

Asas: Representa o elemento ar, associado ao “Maioral Beelzebuth”. As asas são a expressão de liberdade que quebram as barreiras mentais.

Escamas: Representa o elemento água, associado ao “Maioral Leviatã”. As escamas são intransponíveis armaduras que garantem a continuidade do astral amorfo, ou seja, a libertação de tudo que escraviza no astral.

Cascos: Representa o elemento terra, associado ao “Maioral Belial”. Os cascos são fortes e as fendas garantem o equilíbrio sob qualquer circunstância. Esse é o símbolo da força necessária para destruir as correntes aprisionadoras físicas, os vícios, as falhas, o ego, o humanismo, a necessidade de auto afirmação, dentre outros comportamentos aprisionadores.

Tocha/Archote: Representa o elemento fogo, associado ao “Maioral Lúcifer”. Esse elemento é responsável pela busca da iluminação interior e espiritual. É o fogo que transforma nossa “Pedra Filosofal” no “Diamante Negro”. É o sacrifício que logra êxito nas jornadas espirituais.

Os quatro Maiorais são os formadores do Grande Dragão Negro e suas representações, bem como seus poderes estão simbolizados na imagem. A cabeça do bode indica uma relação direta com a bestialidade, com o caos, instintos animais, agressivos que o homem tenta sufocar e as Leis aprisionar. É uma forma de entender que apesar da aparência, somos animais e devemos saciar nossos instintos. A tocha sobre a cabeça lembra-nos que tais instintos devem ser controlados e manipulados segundo a necessidade e vontade. Os cornos também são uma expressão do lado animal e da dualidade energética (pela força de penetração e por sua abertura em forma de receptáculo) que todos os adeptos possuem. Indicam a ancestralidade, o poder, a coroa e a proteção ao archote de Lúcifer, afinal, “é a luz que cega os profanos”. Os chifres do bode são um símbolo de sexualidade e procriação, mostrando a ligação com a Terra e todas as disputas que ocorrem nela. Sob uma visão mais esotérica, tais chifres são símbolos relacionados aos poderes infernais, afinal, representam o aspecto lunar e não solar como os do carneiro. Resumimos toda essa explanação em uma frase dita pelo grandioso Exu Pantera Negra: “Abra os olhos, seja corajoso e se torne um bode preto!”.

– 69 -Sob tal entendimento, apesar de Maioral possuir a chama de Lúcifer em sua essência, protege-a de tolos profanos. Seus chifres representam que na Terra é Imperador e possui poderes receptivos e dinâmicos, masculinos e femininos, positivos e negativos, construindo ou destruindo conforme a necessidade. Não se trata de um Ser andrógino, mas de um Ser que possui domínio sob ambas as energias.

Diversas culturas pagãs acreditavam que o bode era um animal divino e carregado de forças de libido e procriação, cujo sangue possui o poder de “temperar o ferro” em associação ao próprio fogo. Todavia, a figura de animal expiatório, iniciada através das religiões de Israel que concentravam a redenção de seus pecados simbolicamente na cabeça desses animais. A religião cristita fez do bode a própria figura do “diabo”, retirando desse animal sagrado o direito de ser divino e repleto de energias de procriação.

“… em ambos os casos, contudo, é importante salientar que tanto o carneiro quanto o bode são claros símbolos de divindades solares, sendo que no primeiro tem-se a exaltação da divindade, enquanto que no segundo a expiação e morte do deus.” Chevalier, Alain Jean Geerbrant. Dicionário de Símbolos. José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 2000); p. 134

A imagem apresenta em cima do chacra Ajna, que na nossa tradição chama-se “Abaddon”. Esse centro energético está diretamente ligado ao Senhor Astaroth e no mergulho para a mente inconsciente que possui sombrios “vales”, a fim de encontramos respostas para nossos caminhos evolutivos. Na imagem tradicional, um pentagrama cósmico representa esse centro energético, todavia, segundo nosso entendimento, apenas o pentagrama invertido pode representar esse caminho, pois a ponta que representa o espírito deve estar voltada para o submundo (para baixo), local de onde habita a escuridão em nossos inconscientes. Dessa forma, existirá o autoconhecimento e a força de Maioral terá o poder de libertação sobre seus escolhidos através da unificação das forças elementares, assim como reza as antigas tradições dos deuses corníferos.

Os braços musculosos mostram o lado guerreiro, forte e onipotente, portador dos garfos (tridentes) eternos no culto da Quimbanda e as mãos, posicionadas para cima e para baixo são símbolos da equação: “O que está em cima e o que está embaixo são mistérios que só os iniciados enxergarão!”, todavia, como apenas dois dedos apontam o caminho (Luz ou Escravidão), concluímos que o caminho oculto deve ser preservado. Não se trata de um símbolo de equilíbrio, trata-se do mistério da escalada do próprio autoconhecimento.

Os seios na imagem de Maioral são apenas representações do “oceano primordial” e honrarias ao ser que deu origem à sagrada linhagem. Também mostram que foi criado como forma de embate aos dogmas e comportamentos preestabelecidos, um Ser que protege seus escolhidos eternamente.

Na barriga da imagem encontramos um dos elementos mais importantes da mesma: “O falo emblemático” denominado como “Caduceu de Hermes/Mercúrio”. O falo aparece de forma peculiar, afinal, salta de um manto que cobre as pernas do ídolo. O mesmo atravessa um “semicírculo” que divide a imagem. Entendemos que esse semicírculo represente as constelações. O falo fecunda e age como um totem para forças além-matéria, e é como um cetro de poder regendo o equilíbrio dinâmico de duas forças. Segundo a tradição esotérica que seguimos e entendemos como correta (não desmerecendo as demais), representa a ascensão do Dragão Cego carregando Lilith através dos centros energéticos do corpo para promover o reencontro com Samael/Satã e receber as sagradas sementes. É um símbolo para despertar uma forma de serpente/dragão, profanamente denominada de “Kundalini” e gerar uma poderosa descarga energética no microcosmo que refletirá no macrocosmo.

Essa imagem possui duas cobras entrelaçadas que posicionam suas cabeças como se estivessem aptas à guerra. Essas duas serpentes possuem uma grande gama de explicações, todavia, acreditamos que no culto ao Senhor Maioral, representem as duas polaridades em embate, comunhão e procriação. Além disso, também comungamos a ideia de que representem a unidade em um mesmo corpo de Luz e Trevas (base de toda nossa crença). De forma esotérica, junto com o falo (eixo central) representa o desenho da própria Otz Daath (Árvore da Morte). Outro conceito interessante é associar as duas serpentes com as correntes lunares e solares, denominadas de Ob e Od (veneno e antídoto).

O manto cobre aquilo que não deve ser visto, que ainda se forma ou que nunca existiu. Cobre as pernas entrecruzadas de Maioral, numa espécie de posição autoritária, assentado sobre a Terra donde rege Seus reinos, povos e legiões, assim como seus escravos.

Sob esses prismas, a imagem de Baphomet, adaptada ao culto de Quimbanda para representar o Senhor Maioral torna-se real e verdadeira. Alguns enxergam a imagem como representação do Senhor Maioral Beelzebuth. Essa visão também é válida, afinal, a imagem contêm a essência desse “Ser” em sua formação.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-imagem-de-maioral/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-imagem-de-maioral/

O Monte Hermon

A ligação entre o povo judeu e as Colinas do Golã remonta aos tempos bíblicos. Diz a tradição judaica que foi no Monte Havtarim, na região do Monte Hermon, a 1.296m acima do nível do mar, nos declives de Katef Sion, que D’us prometeu a Abrão que lhe daria a terra para seus descendentes. Um antigo túmulo marca o local e um robusto carvalho ergue-se, ao lado.

“Os olhos de Israel”. Assim é carinhosamente chamado o Monte Hermon, ponto culminante do país, localizado no topo da Cordilheira do mesmo nome, entre a fronteira de Israel e a Síria. Assim denominado por causa de seus picos, é um dos principais centros de prática de esportes de inverno. Com 2.224m, foi o local escolhido para a implantação de um centro de lazer para turistas e amantes do esqui, pois a neve faz parte da paisagem natural da área de novembro a março, cobrindo de branco os picos do Hermon. De suas encostas, que degelam após o inverno, nasce o rio Jordão. Nos dias claros de verão, do alto das montanhas, tem-se uma das vistas mais belas da Galiléia. A região é apreciada também por outro tipo de turistas, além dos esquiadores: os observadores de pássaros. Por sua altura e a existente fauna e flora, é considerada uma das melhores áreas da região.

Fundamentalmente estratégicas para a defesa do país, somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, as Colinas do Golã e o Monte Hermon passaram do controle sírio para o de Israel, inaugurando uma era de tranqüilidade como não conhecia, há décadas, a população israelense do norte do país.

Vestígios da antigüidade

Dizem os historiadores que a região sempre foi disputada pelos povos que lá viveram. Os amoritas a dominaram do 3º ao 2º milênio antes da nossa era, quando foram derrotados pelos arameus. Posteriormente denominada Bashan, foi uma área disputada pelo reino de Israel e o dos arameus, a partir do ano 800 a.E.C. A partir daí, se seguiram constantes trocas de poder: assírios, babilônios, persas. No século V a.E.C, a região volta a ser povoada pelos judeus que retornavam do exílio da Babilônia.

Alexandre, o Grande, conquistou as montanhas no século IV antes desta era, mantendo-as sob controle helenístico até sua captura pelos romanos. É quando passa a ser chamada de Golã. Os gregos costumavam referir-se às redondezas como “Gaulanistis”, termo usado pelos romanos, daí o nome Golã. A 1ª. Revolta Judaica contra as forças de Roma aconteceu de 66 a 73 da Era Comum, quando um grupo de judeus ocupou a colina de Gamla. Estes foram derrotados e a cidade, destruída. O local tornou-se conhecido como “A Massada do Golã”.

Durante o reinado dos romanos, chegaram os gassânidas, em 250 da E.C. e construíram sua capital em Jabiyah. Dividido o Império Romano, em 391, as Colinas do Golã ficaram sob influência bizantina e controle dos gassânidas. Depois vieram os sassânidas e mais tarde os árabes muçulmanos, sob domínio omíada, iniciando um novo capítulo na história local.

Os druzos começaram a chegar ao norte do Golã e arredores do Monte Hermon a partir do século XV, seguidos um século depois pelos turcos otomanos, que lá permaneceram até o final da 1ª Guerra Mundial. Em 1880, um grupo de pioneiros sionistas fundou um núcleo judaico denominado Ramataniya, que desapareceria em apenas um ano. Finda a 1ª. Guerra, em 1920 o destino do Golã é definido por um acordo entre França e Grã-Bretanha, que concedia aos primeiros o controle sobre a maior parte do território. Isto ocorreu somente em 1924, um ano após os ingleses assumirem o mandato sobre a então Palestina. Ainda pelo mesmo tratado, uma pequena parcela do território passou da Síria para a Palestina. Assim, a França estendia seu mandato sobre a Síria. Ao término deste, em 1944, este último país fica com o controle da área.

Logo após a Independência de Israel, em 1948, Damasco aumenta sua presença militar nas colinas, de onde atacava constantemente a população civil israelense do norte do país. Depois de assinado o armistício em 1949, entre israelenses e sírios, parte da área foi desmilitarizada, mas as violações destes últimos continuaram até 1967, quando Israel ocupa a região, pondo fim a 18 anos de bombardeios sobre seus cidadãos. Atualmente, 18 mil pessoas moram na região do Golã, em 35 povoados

Trilha das sinagogas

Um dos símbolos mais conhecidos do legado judaico na região é o povoado de Gamla, destruído durante o ano 67 da E.C., durante a 1ª Revolta Judaica. A escavação da cidade e sua identificação só foram possíveis após 1967. Para os visitantes, transformou-se em interessante ponto turístico. Para os estudiosos, a mais importante evidência da vida judaica no Golã, durante a Antigüidade, e da política destrutiva dos Césares contra os povoados judaicos.

Tal perspectiva, no entanto, só voltou a ser estudada quando o arqueólogo Haim Ben-David aprofundou suas pesquisas sobre as ruínas das comunidades judaicas, no Golã, do período mishnaico e talmúdico. Como parte de sua investigação, analisou artefatos encontrados em mais de 50 sítios, habitados entre o século I a.E.C. e o século VI. Ben-David datou cuidadosamente cada um dos fragmentos, ressaltando que, diferentemente de outros sítios arqueológicos do período romano-bizantino, os mínimos detalhes encontrados na região do Golã eram cruciais para uma compreensão da história local.

Após estudar cerca de 6 mil fragmentos, chegou a uma conclusão surpreendente: “Gamla foi o único povoado destruído durante a 1ª. Revolta Judaica…. As evidências indicam que pelo menos 25 continuaram a existir… e suas ruínas estão no que hoje se conhece como Ein Nashut, Yehudiya Dir Aziz”. O arqueólogo concluiu, também, que, nessa região central encontra-se um padrão contínuo de vilarejos judaicos desde o período do Segundo Templo até o final do domínio bizantino; e que alguns ainda se estenderam pelo início do período islâmico, em meados do século VIII.

No entanto, Ben David faz questão de ressaltar que sua conclusão não significa que todos os povoados judaicos sobreviveram até o domínio bizantino; demonstra apenas que aqueles cujos vestígios foram encontrados não foram destruídos nos confrontos. O estudioso encontrou sinais de 15 assentamentos judaicos abandonados no século IV, final do período romano. Segundo suas pesquisas, os povoados iam sendo abandonados à medida que os bizantinos ocupavam as terras mais férteis do Golã. Os judeus, por sua vez, foram-se concentrando em áreas cada vez mais remotas, distanciando-se, gradativamente, do poder central. As análises do arqueólogo também levaram à conclusão de mais uma característica comum entre tais povoados: a presença de edifícios públicos elaborados, incluindo-se sinagogas bem decoradas, geralmente nos pontos mais altos das montanhas.

Outra forte marca da presença judaica nas regiões mais remotas do Golã foi a descoberta de uma sinagoga nas ruínas do vilarejo sírio de Dir Aziz, próximo ao Moshav Kanaf. Era parte de um assentamento judaico, datado do século I desta Era. Foi justamente na área em que começaram a se delinear as primeiras teorias de Ben-David sobre as antigas comunidades do Golã. Antes dele, no entanto, o explorador Laurence Oliphant, em suas andanças pela Terra Santa, em 1885, já mencionara a existência de uma sinagoga no local. Descreveu a fachada ocidental do edifício, com 3m de altura, então intacta. Somente após 1970 iniciaram-se trabalhos arqueológicos mais intensos.

Mas os primeiros pesquisadores não encontraram a sinagoga, provavelmente em virtude de um terremoto na área, em 1920, que a teria posto abaixo. Zvi Ilan foi o primeiro a coordenar as pesquisas, seguido, décadas depois por Zvi Maoz, do órgão responsável pelo patrimônio de Antiguidades, em Israel. As informações iniciais de Oliphant foram confirmadas: em Dir Aziz, de fato existira uma sinagoga. Por insistência de Ben-David e Maoz, as escavações foram retomadas em 1998, quando finalmente se encontrou a estrutura da sinagoga. Bem conservada, mantinha quatro colunas ao longo do muro norte e o piso de pedras artisticamente talhadas. Além de surpresos pelo bom estado da construção, Ben-David e Maoz entusiasmaram-se com algumas de suas singularidades.

Por exemplo, a escada para o saguão principal e sua construção, voltada ao Oriente. A maioria das sinagogas do Golã e da Galiléia aponta para o sul, em direção a Jerusalém. A bimá, por sua vez, ergue-se ao longo do muro sul do edifício. Em artigo publicado no Haaretz, em 2003, Ben-David dizia que a estrutura da sinagoga de Dir Aziz era muito parecida com as construídas na região sul de Hebron, o mesmo acontecendo com o local do Aron Hakodesh.

Mas a maior surpresa dos pesquisadores foi depararem-se com um pequeno jarro de barro, sob o piso da sinagoga, contendo catorze moedas de ouro do reinado do imperador Justiniano, de Bizâncio. “Sabíamos que, na época, era costume enterrarem-se moedas, mas, quase sempre, as de bronze. Os achados de Dir Aziz constituem um verdadeiro tesouro”.

Ao longo das escavações, foram-se sucedendo as surpresas. Quando desmontaram um muro divisório construído no vilarejo durante o período sírio, encontraram uma inscrição em grego em uma pedra antiga, reutilizada, do período bizantino. Havia apenas uma palavra: “Azizo”. Sobre a palavra, os arqueólogos observam que havia na região de Hebron um povoado chamado Kfar Aziz. Há, também, outras explicações para a semelhança entre os termos Azizo e Aziz – ambos usados como prenomes entre os semitas. É possível que os fundadores da sinagoga tenham gravado o nome do doador da obra. Apesar das escavações não terem sido ainda encerradas, os estudiosos acreditam que a sinagoga foi utilizada até o início do domínio islâmico, durante as dinastias omíada e abássida.

Durante o período romano, a região denominada Golã incluía principalmente a parte central do planalto, entre Nahal Jalabun, ao norte, e Nahal Kanaf, ao sul. Aí floresceram os povoados judaicos. O atual “sul do Golã” era genericamente descrito como Hippos, provavelmente pela influência grega dominante. Ao redor da cidade foram construídos também alguns vilarejos judaicos. Na literatura rabínica é também conhecida como Susita.

Se durante a dominação romana os judeus se dedicavam quase que exclusivamente ao cultivo de vinhedos, com o domínio bizantino e seu contínuo deslocamento para áreas mais distantes e menos férteis passaram a produzir azeite de olivas. Segundo Ben-David, restos de prensas encontrados na região comprovam a florescente indústria desenvolvida pelos judeus, que chegavam a exportar a produção.

Todo povoado construído no período bizantino possuía sua sinagoga, tendo-se provas da existência de no mínimo 25, em comunidades vizinhas. Para o arqueólogo, há uma relação inegável entre o êxito na indústria de azeite do povoado e o porte de sua sinagoga. Quanto mais bem sucedida a comunidade, mais monumental a construção. Tal pujança, no entanto, desapareceu no início da Idade Média. Foram abandonados todos os assentamentos da região central do Golã, inclusive os ishuvim judaicos. A localização exata de locais como Nov, Hispin, Afik e Kfar Haruv – mencionados em fontes históricas e na literatura rabínica – se perdeu.

Para Ben-David, no entanto, Dir Aziz pode-se vangloriar de ser o único povoado do Golã onde se encontrou uma evidência de seu nome hebraico, preservada por mais de vinte séculos.

Inúmeras atrações

Palco de tantos eventos da história antiga, a região norte do Golã traz, em sua paisagem, marcas de vários períodos. Entre as colinas foi construída Ka’alat Namrud, uma das melhor preservadas fortalezas mamelucas, do período dos cruzados. De suas muralhas é possível se ter uma visão panorâmica das Cachoeiras de Banias, recanto dos mais procurados pelos israelenses que fogem das altas temperaturas que assolam o país, no verão. O vilarejo de Ein Kinya, por sua vez, permite aos visitantes aprender um pouco sobre o estilo de vida e a cultura drusa.

A capital do Golã é Katzrin, cidade com várias opções turísticas. Com mais de 5 mil habitantes, situa-se entre os rios Zavitan e Meshushim. O Museu Arqueológico do Golã é parada obrigatória para os visitantes. Abriga uma coleção de artefatos que é uma verdadeira retrospectiva da história do homem e da cultura na região, dos tempos pré-históricos até o período talmúdico. Nesse museu estão expostos, entre outros, armas usadas nos embates entre os habitantes de Gamla e as legiões romanas.

O próximo passo do roteiro dos visitantes é o antigo Parque de Katzrin, nas proximidades da zona industrial da cidade. Lá se vêem reconstituições de construções do período talmúdico, inclusive a magnífica sinagoga e duas residências.

Ainda na zona industrial estão as vinícolas, que hoje fazem a fama dos vinhos israelenses, no mundo, com uvas cultivadas nos vinhedos locais. Algumas horas de visita bastam para provar que se está no coração dos famosos Vinhos do Golã. Sua região central se caracteriza pela presença de cachoeiras e rios que se estendem por quase toda a área – uma paisagem bem diferente do semi-árido que marca o sul de Israel. O verde é uma constante mais ao sul do Golã, no inverno e na primavera. De lá se tem uma vista panorâmica do lago Kineret, também chamado do Mar da Galiléia. Em suas águas, é muito refrescante um mergulho, no verão. Na área corre o Nahal El-Al, o mais perene dos rios do Golã, com duas famosas quedas de água – a Cachoeira Negra, cujas águas correm sob rochas negras de basalto; e a Cachoeira Branca, que deságua em um solo de calcário.

Ainda na área, não importa a época do ano, é sempre bom passear pela região termal de Hammat Gader, famosa por suas propriedades luxuosas, da primeira fase do período romano. Outro ponto obrigatório é a cidade greco-romana de Susita, com igrejas bizantinas e ruas de colunas monumentais.

Também conhecida como Ba’al Hermom, Mt. Líbano, Jabel A-talg, ‘Arqub, Hermon Massif, Pistas de Hermon, Jebel esh-Sheikh, Senir, Shenir, Sion, Sirion

A ligação entre o povo judeu e as Colinas do Golã remonta aos tempos bíblicos. Diz a tradição judaica que foi no Monte Havtarim, na região do Monte Hermon, a 1.296m acima do nível do mar, nos declives de Katef Sion, que D’us prometeu a Abrão que lhe daria a terra para seus descendentes. Um antigo túmulo marca o local e um robusto carvalho ergue-se, ao lado.

“Os olhos de Israel”. Assim é carinhosamente chamado o Monte Hermon, ponto culminante do país, localizado no topo da Cordilheira do mesmo nome, entre a fronteira de Israel e a Síria. Assim denominado por causa de seus picos, é um dos principais centros de prática dos desportos de inverno. Com 2.224m, foi o local escolhido para a implantação de um centro de lazer para turistas e amantes do esqui, pois a neve faz parte da paisagem natural da área de novembro a março, coberto de branco os picos do Hermon. Das suas encostas, que degelam depois do inverno, nasce o rio Jordão

Vista de Hazor

Mt. Hermon é o extremo sul da cordilheira Anti-Líbano. Seu pico mais elevado é 9230 pés e o ponto mais alto dentro das fronteiras de Israel hoje é Mizpe Shelagim em 7295 pés.

A montanha é o único lugar com esqui na neve no país.

Fronteira com a Síria

A montanha tem sido conhecida como Ba’al Hermom, Senir, Sirion, Sião, e por Josefo como Mt. Líbano. Hoje, os árabes chamam de “Jabel A-talg” que se traduz como “a montanha de neve.” Mais de vinte templos antigos foram encontrados na montanha ou na sua proximidade.

Mt. Hérmom

Sl 133:3 (NVI) “É como se o orvalho de Hérmon estavam caindo sobre o monte Sião”.

Cântico dos Cânticos 4:8 (NIV) “Vem comigo do Líbano, minha noiva …. descer do cume do Amana, do alto de Senir, o cume do Hermon, das cavernas dos leões e das principais atracções da montanha dos leopardos . “

Bibliografia:

Duby, Tal & Haramati, Moni. Golan. Skyline , Ministry of Defense Publishing House,2001

Ya’acov Shkolnik, “Secrets from the Golan’s Ancient Synagogues”, The Book – 1985-2005.

A selection of articles from ERETZ Magazine

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-monte-hermon

Bruxas (folclore)

Bruxa (mulher) ou bruxo (homem), no Brasil e em Portugal, equivale em muitos à Bruja da Espanha, à strega italiana e à tlahuelpuchi do México, a bruxa chupadora de sangue, sua versão espanhola e das américas era um ser vivo capaz de se transformar em vários tipos de animais para atacar crianças. A bruxa era uma figura pré-cristã que se tornou proeminente na Idade Média. Naquele tempo a Inquisição deu especial atenção às crenças pagãs e as considerou endemoninhadas, como atividades maléficas de Satã. Nas regiões rurais de Portugal a crença na bruxaria sobreviveu até o século XX e o governo tem tomado medidas periodicamente para desfazer sua continuada influência.

A Bruxa erai considerada um ser horripilante, um dos maiores pesadelos a serem temidos dentre os que andam pelas noites. No conceito popular que dominou o ocidente por séculos, uma Bruxa à noite se transforma, adquirindo feições horríveis ou assumindo a forma de uma pata, ratazana, o pombo ou a formiga. ou algum outro animal.

Como pessoa, pode ser moça. Não é obrigatoriamente velha nem feia. Chupa o umbigo dos recém-nascidos e carrega consigo crianças, que esquece depois em outras cidades. Nas noites de encantamento deve correr sete praças, isto é, visitar sete cidades e voltar ao lugar de partida entre a meia-noite e as três horas da madrugada. Se transformada em animal não alcançar, dentro desse rprazo, o lugar onde deixou a roupa, aparecerá nua, onde estiver. Ela entra e sai das casas pelo buraco da fechadura.

As bruxas da região reuniam-se nas encruzilhadas às terças e sextas-feiras e esses dias assumiam uma conotação negativa no folclore português. Durante suas reuniões acreditava-se que as bruxas adoravam Satã, de quem teriam recebido vários poderes do mal, entre os quais o olho maligno.

Como é que alguém vira Bruxa?

A Bruxa é sempre a última filha de uma série de sete mulheres. Seu fadário (maldição) é de sete anos. Para escapar a ele deverá ser batizada pela irmã mais velha. Mais tarde será madrinha de crisma dessa irmã. Ela gosta de sal, Cada vez que o recebe está aliviando sua pena, porque o sal é sagrado.

Uma informante estava em casa, com toda a farmília, à noite, quando começou a ouvir um assobio fininho e prolongado. O pai falou: – Fiquem quietos, porque é a Bruxa. E, para ser ouvido por ela, levantou a voz: – Amanhã bem cedo venha buscar sal. O assobio cessou. No dia seguinte, logo que se levantou e foi para o quintal picar lenha, apareceu uma velhinha que ele conhecia, porque morava no bairro. Olhou para ele, calada. Ele também nada perguntou. Entregou-lhe um punhado de sal. Ela agradeceu e partiu. Suas suspeitas, de que havia uma Bruxa nas vizinhanças, confirmaram-se. E ficou sabendo quem era ela.

Bruxas rondam as casas onde há bebês. Se são recém-nascidos e, principalmente, se ainda não foram batizados, é preciso deixar uma luz acesa e não descuidar deles; ela costuma chupar-lhes o umbigo, matando-os por essa forma. Se são crianças maiores, carrega-as para outros lugares, longe de casa, entra sempre em uma venda onde há bebida alcoólica e embebeda-se. Depois volta correndo e esquece-as lá.

Uma Bruxa metamorfoseada em pata apanhou uma menina e transformou-a também em pata. Foram para longe, a Bruxa preocupou-se em procurar bebida e lá esqueceu a menina. No dia seguinte, o dono da venda encontrou a menininha nua, perto das bebidas. Nesses casos é preciso sair procurando os pais das crìanças, para devolvê-las.

Havia duas moças, muito amigas. Uma delas era Bruxa. Fazia orações e gestos especiais e transformava-se. A outra resolveu imitá-la e conseguiu também se transformar, acompanhando-a para local distante, onde havia uma venda com bebidas. Lá beberam bastante. A certa altura, a Bruxa mais recente começou a arrepender-se do que fizera e então voltou à forma humana. A primeira passou pelo buraco da fechadura e foi-se embora. A outra ali ficou, nua. Apanhou um saco vazio e com ele se cobriu. Quando o dono da venda chegou, pela manhã, ficou muito espantado. – Como ê que você conseguiu entrar aqui, com tudo trancado? A moça, chorando, explicou o que acontecera e contou-lhe do seu arrependimento. A esposa do vendeiro emprestou-lhe roupas e ela voltou para casa. Nunca mais quis acompanhar a amiga, a qual, envergonhada, mudou-se do lugar.

Proteção contra bruxas

A proteção contra as bruxas era fornecida por uma série de amuletos mágicos. As crianças também eram protegidas pelo uso de ferro e aço. Um prego de aço fincado no chão ou uma tesoura sob o travesseiro manteria as bruxas afastadas. Havia também uma crença na palavra falada e o folclore era rico em exemplos de inúmeros encantamentos contra as bruxas. Dentes de alho costurados nas roupas das crianças evitariam que fossem levadas pelas bruxas.

Após um ataque eram feitas tentativas de identificar a bruxa maligna. A mãe da criança morta poderia ferver as roupas da criança enquanto as cutucava com um instrumento perfurante. A bruxa, supostamente, sentiria os golpes em seu próprio corpo e seria compelida a voltar para pedir misericórdia. Ou a mãe poderia pegar uma vassoura e varrer a casa ao contrário, da porta para dentro, enquanto repetia o feitiço para que a bruxa se manifestasse. A vassoura, símbolo da bruxaria, era usada para fazer com que as bruxas se acalmassem. Já em 1932 o autor Rodney Gallop relatou o caso de uma criança na cidade de Santa Leocádia de Baião que morreu sufocada. Os pais tinham certeza de que a criança tinha sido “chupada pelas bruxas”. A avó disse que viu a bruxa sair voando disfarçada num pardal preto.

Devido à sua habilidade de se transformar em várias formas de animais a bruxa era freqüentemente associada ao lobisomem, que, na crença popular, também se transformava às terças e sextas-feiras, os mesmo dias em que as bruxas se reuniam.

Para estudos aprofundados:

O Martelo das Feiticeiras,  Heinrich Kramer e J. Sprenger
O Manual do Inquisitor, Antonio Lobos Antunes

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/a-visao-folclorica-das-bruxas/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/a-visao-folclorica-das-bruxas/

Eros Vendado

Dizem que foi sua prometida quem desesperou-se ao ver-se privada de sua beleza, mas os mitos não contaram esta outra história acerca de Eros:

O deus estava arrependido da brutalidade com que tratou Psiquê quando esta, pensando que o amado fosse um monstro, retirou suas vendas enquanto dormia, e pôde enfim admirar toda a sua beleza… Assim, desde então, Eros andava enlouquecido em meio ao Elísio, coberto de vergonha…

Como estava vendado, e se recusava a ver toda a beleza a sua volta, tornou-se amargo, temeroso do contato íntimo com qualquer um que lhe cruzasse o caminho: “vão retirar minha venda, vão ver minha beleza, mas somente Psiquê é digna de me ver!” – pensava consigo mesmo, angustiado.

Zeus, que tudo via e sabia, encarregou seu mensageiro, Hermes, de tentar convencer Eros a retornar a razão…

Então, cortando os céus feito um corcel alado, o mensageiro seguia o rastro de sangue que Eros deixara pelos caminhos do Elísio… Pobres animais, homens e semideuses, todos alvejados pelas flechas venenosas do Eros Vendado. As mesmas que antes traziam o amor, agora traziam a agonia.

Retirando a flecha negra do peito de um velho mercador de frutas que agonizava na estrada, Hermes lhe indagou acerca de seu encontro com Eros:

“Tudo o que fiz foi lhe oferecer uma de minhas maças, eu juro! Mais parecia um mendigo andarilho, pobre e esfomeado… Não sabia se tratar de um deus, por isso achei que fosse apreciar uma de minhas maças… Ofereci-lhe o alimento de coração, não pretendia ganhar nada em troca. Mas o deus estava louco, e zombou de minha caridade, alvejando-me em seguida… Nossa, como doem essas flechas negras…”

Restaurado, o mercador apontou a direção na qual o deus enlouquecido seguiu, e, tão rápido quanto um pensamento, Hermes estava lá, frente a frente com o Eros Vendado:

“Irmão, nosso pai deseja lhe ver…”

“E eu… Eu desejo ver meu pai… Mas como saberei se você é mesmo meu irmão? Como saberei se não é mais um truque da Beleza para que eu jamais veja minha amada novamente? Saia daqui!” – bradou o deus descontrolado, mas ainda muito preciso com seu arco que, sabe-se lá como, estava perfeitamente posicionado na direção de Hermes, ainda que Eros nada pudesse enxergar.

“Irmão, se você não me vê agora, como poderia ver sua amada, ainda que ela estivesse ao meu lado?” – respondeu Hermes ainda muito calmo, embora uma flecha negra e peçonhenta estivesse endereçada a sua fronte.

“Quem é você para falar dela? Maldito!” – atirou a flecha com tamanha precisão que, não fosse pelo elmo alado de seu irmão, o alvo teria sido atingido.

Hermes agachou-se e retirou a flecha do elmo que caíra ao solo. Então, com agilidade divina, o deus mensageiro rolou pelo chão e, antes que seu irmão pudesse atirar outra flecha, cravou-a bem no peito esquerdo, através do coração.

Ali morrera o Eros Vendado. Mas, como os deuses não permanecem mortos por muito tempo, Hermes tratou de levá-lo até a fonte d’água mais próxima e, o tendo lavado e desvendado, deixou-o ali na margem, bem morto, e esgueirou-se para detrás de um arbusto…

Quando finalmente ressuscitou, Eros parecia desnorteado, mas não louco… Na verdade, era como se tivesse acordado de um longo sono de loucura, e aparentemente recuperado sua sanidade novamente. A primeira coisa que fez foi lavar o rosto no espelho d’água. Foi quando Hermes se reapresentou, ele precisava ter certeza:

“Veja seu rosto no espelho, irmão, e diga-me: qual é o mais belo dos deuses?”

Eros procedeu conforme instruído e, virando-se para Hermes, com a face feita ainda mais bela, com pingos d’água a escorrer em torno dos largos olhos, refletindo ao sol, disse-lhe:

“Ninguém… E todos… Todos os deuses são belos; e mais bela ainda é a humanidade, por tê-los imaginado…”

Então, Hermes sorriu: a missão estava cumprida, o Amor havia retornado a sanidade.

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***

Lá onde nasce o verdadeiro amor

morre o “eu”, esse tenebroso déspota.

Tu o deixas expirar no negro da noite

e livre respiras à luz da manhã.

(Jalal ud-Din Rumi)

***

Crédito da foto: BürgerJ (escultura Eros Bendato, de Igor Mitoraj)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/eros-vendado

A Revolução da Alma

» Parte final da série “Todas as guerras do mundo” ver parte 1 | ver parte 2 | ver parte 3

Até que a filosofia que sustenta uma raça superior e outra inferior seja finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada, haverá guerra, eu digo: guerra…
Guerra no leste, guerra no oeste, guerra no norte, guerra no sul, guerra, guerra, rumores de guerra…
(War, Bob Marley – composição de Allen Cole e Carlie Barrett)

Em 3 de junho de 1989, tanques e soldados do exército chinês invadiram a Praça da Paz Celestial, na capital, Pequim. Lá estavam cerca de 100 mil manifestantes que protestavam pacificamente há quase 2 meses, criticando a corrupção e a repressão da liberdade individual vindas de um governo que se dizia comunista [1]. Haviam entre eles muitos intelectuais, professores, estudantes e trabalhadores insatisfeitos com o rumo geral da política chinesa. Mas o Partido Comunista já havia perdido a paciência com eles; Como haviam ignorado as ordens para que as manifestações fossem encerradas, a ala do Partido mais propensa à violência aprovou a ordem para que fosse iniciado o massacre. Na Praça da Paz Celestial, na noite de 3 de junho de 1989, o exército chinês matou 2.600 manifestantes e feriu outros 10 mil [2].

No dia 4 os protestos se intensificaram muito, principalmente por parte dos jovens estudantes. Há essa altura os jornalistas de todo o mundo já estavam se hospedando nos hotéis próximos a Praça, visto que era uma área nobre da capital, e preparavam os flashes para o próximo massacre… Talvez por conta dessa exposição indesejada na mídia mundial, a ala violenta do Partido Comunista recuou, e o que se viu naquele dia foram tanques passeando em torno da Praça, enquanto os jovens prosseguiam com seu protesto ainda pacífico.

No dia 5, ante as manobras de dezenas de tanques pela avenida em torno da Praça, um homem solitário surgiu no meio da rua, impávido ante o avanço de uma coluna de vários tanques enfileirados, enquanto outros civis mais precavidos fugiam desesperadamente do avanço militar… Quando o primeiro tanque da fileira chegou próximo dele, foi obrigado a desviar para não o atropelar. Mas o homem se moveu de lado, brecando o tanque. Ele parecia querer conversar…

Subiu na máquina e trocou algumas palavras com seu piloto, até que duas pessoas (que todos esperam que fossem seus amigos) surgiram na cena e convenceram o homem a desistir de papear com aqueles soldados, que os haviam massacrado dois dias antes. Esta cena foi filmada e fotografada por jornalistas de todo o mundo, e o homem, até hoje um desconhecido, se tornou um mito: o Rebelde Desconhecido… Até hoje tampouco se sabe se ele teria ou não sobrevivido. Especula-se que, mesmo um ano após o incidente, quando às manifestações já havia terminado há meses, o próprio governo chinês ainda procurava pelo homem desconhecido. Aquela altura, seria um grande benefício para o Partido Comunista mostrar aquele mito vivo e intacto, provando para o mundo que ele não havia sido preso, torturado, ou morto (como tantos milhares de civis).

Hoje, entretanto, a China é um outro país, e embora esteja evoluindo lentamente para uma sociedade mais aberta e um governo menos repressor, o mito do Rebelde Desconhecido perdura. Assim se dá com os mitos: eles existem sempre, e sobrevivem ao nascer e ao findar dos impérios. Quem seria aquele chinês corajoso? Um jovem estudante, ou um professor? O que ele teria tentado dizer ao piloto do tanque? “Parem, vocês estão dizimando nosso futuro, nossa liberdade, nossa dignidade” – teria sido algo assim?

Talvez a única coisa que possamos afirmar em relação ao Rebelde Desconhecido é que ele era alguém que havia descoberto como pensar por si mesmo. Um real revolucionário: aquele que travou todas as guerras do mundo no interior, e realizou a revolução na própria alma.

Falávamos a pouco do Deus Bom e do Deus Mal do zoroastrismo. Estes são também mitos, propostos pelo profeta Zoroastro. Dissemos também que se tratava de um conceito infantil e superficial… Mas, será que isso foi mesmo culpa de Zoroastro, ou daqueles que vieram muito depois e, não sabendo interpretar sua mitologia, tomaram-na de forma literal, e a adaptaram para seus próprios interesses?

Ora, será mesmo que uma religião sobreviveu por tantos séculos baseada num conceito superficial, ou são os seus detratores que jamais se interessaram em compreender o que diabos é exatamente um mito, uma interpretação simbólica, uma metáfora? Não quero transformar esta série num tratado sobre mitologia [3], mas vamos considerar aqui, de forma bastante breve, uma outra visão para os deuses do zoroastrismo:

Aúra-Masda, o Deus Bom, não era invenção de Zoroastro, mas uma divindade já existente na cultura indo-iraniana, com muitas semelhanças a deuses ainda bem mais antigos da Índia Védica. Aúra-Masda, ou o Senhor Sábio, era um mito associado ao sol e ao fogo. Através de sua luminosidade, as trevas da ignorância poderiam ser vencidas. Era precisamente através do fogo e suas chamas mensageiras que os homens poderiam se comunicar com o Senhor Sábio.

Já seu irmão, Arimã, o Deus Mal, era o senhor da devassidão e da corrupção, o lado negro da alma de todos os homens, que os atraia para o mau pensamento e o mau governo de sua própria existência. Ora, é precisamente este que foi associado a Lúcifer. Porém, há uma característica essencial do mito que não foi transferida para o cristianismo: Arimã não está no mundo lá fora, mas dentro da alma de cada um de nós. Arimã não nos “seduz” para o mal, mas é antes a própria presença das trevas da ignorância que ainda pairam dentro de nosso coração, impedindo que vejamos a luminosidade do bem.

Percebem a enormidade da diferença? Não se trata mais de deuses criadores do mundo ou do Cosmos, mas de aspectos da própria alma, da mente humana, e de sua longa caminhada em direção à luminosidade, a extinção das trevas da ignorância; Enfim: a evolução da consciência. Zoroastro não estava preocupado com a origem das coisas, do porque existe algo e não nada, mas sim com a origem da ignorância humana, e de como proceder para que os homens reformem a si mesmos, e se tornem melhores e mais sábios. Mas a luz de Zoroastro, quando chegou aos homens da Igreja, foi corrompida em algo menor. Tal qual Lúcifer caiu dos céus, os eclesiásticos também caíram nas trevas da ignorância, e houve mesmo aqueles demônios que um dia acreditaram que Deus pediu guerras santas e conversões sob as torturas mais bárbaras – e os demônios da Igreja diziam falar em nome de Deus.

Mas como falar em nome de um aspecto apenas nosso, uma luz que habita dentro de cada alma, e que em cada uma delas é uma luz distinta, como a íris dos olhos? Somente Deus pode falar por si, mas quando o faz, fala direto a alma daqueles que souberam lhe escutar… Os outros todos que acreditam falar em nome dele devem tomar muito cuidado, pois estes sim terão muito a explicar no Juízo Final. Este sim, terão dificuldades em espantar Lúcifer.

O rabi da Galileia disse que veio trazer a espada, e não a paz. E ele tinha razão: necessitamos de uma espada para batalhar na guerra da alma, para nos livrar dos preconceitos, dos apegos, das zonas de conforto, da estagnação. Como é possível estar em paz com tanta violência, tantas guerras e sofrimento pelo mundo afora? Com a luz do amor voltada para o sistema inteiro, e não para um pequeno grupo, uma pequena região, uma pequena parte do tempo. Quem com ferro fere, com ferro será ferido – disse ele também: a solução não é o olho por olho nem o dente por dente, a solução não é guerrear no mundo lá fora, nem propriamente enfrentar exército com exército, e bomba com bomba. Bastam algumas bombas atômicas explodirem a mais, e todos estarão cegos e desdentados: hoje ao menos sabemos disso.

A solução é a revolução da alma, para que possamos oferecer a outra face ante toda a violência: a face da tolerância, da sobriedade, da espiritualidade. Nenhum soldado jamais será, afinal, tão corajoso, tão heroico, tão mítico, quanto o Rebelde Desconhecido, que não estava mais preocupado consigo mesmo, mas com o rumo que sua pátria iria tomar, continuassem os tanques e os outros soldados dizimando aqueles que lutavam, sem armas que não o próprio pensamento, na guerra pela paz.

E a paz só virá, efetivamente, após a espada, após a guerra que se dá internamente, após a revolução da alma. Só mudando a si mesmo que o homem pode mudar o que está a sua volta. Se o pensamento não muda, o que vemos é o que temos visto pelo mundo afora: um Império substituindo ao outro, e um opressor sentando no trono sangrento de outro opressor. Enquanto o homem não muda a si mesmo, o que vemos é apenas escuridão e ranger de dentes.

Até este precoce despertar da consciência humana, a Natureza nos guiou, através da “guerra da fome e da morte”, por seus caminhos multimilenares: ora presa, ora predador. Lutamos em muitas guerras, e muitas foram com unhas e dentes, e paus e pedras. Fomos alvejados e esquartejados, transpassados e devorados, e decerto por muito tempo pagamos ao olho por um outro olho, e ao dente por um outro dente. Um dia, porém, alguns de nos se cansam deste jogo, e decidem se voltar para a luz, e não mais para a escuridão… Agradecem ao sistema por tê-los feito chegar aonde chegaram, mas agora tratam de viver, não mais sobreviver. E amar, não mais assassinar.

Eis que todo incêndio um dia começou pequeno. Eis que os ventos das asas do Grande Dragão, Arimã, se antes conseguiam extinguir a chama de uma vela, hoje mal conseguem abalar a fogueira que arde no coração daquele que deu os primeiros passos no caminho em direção à luz. Agora, as pedras não mais se chocam para se destruírem e arrancarem lascas umas das outras, mas para produzir ainda mais faíscas de luz, para que o fogo aumente, e aumente, sempre adiante… A ignorância alheia não mais ameaça a nossa convicção. Não há ninguém para ser convertido, há apenas seres para serem amados – e por todos os cantos.

Há seres no leste e no oeste, ao norte e ao sul, acima e abaixo, há vida e beleza, há pensamentos de luz por toda a parte. Há amor por toda a parte. Não há mais nada a temer, nem a duvidar. Então, quando todas as guerras do mundo ficam para trás, nos recônditos da alma que deixou de ser pequena, apenas se é. A paz foi finalmente alcançada, a fera foi domesticada: Arimã, quem diria, também é nosso amigo.

Neste céu de liberdade, Pai, deixe meu país acordar (Tagore)

***

[1] O comunismo de Marx, descrito em sua filosofia, foi algo um tanto distante do comunismo do mundo real. Como alguém já disse: “amo Marx, mas odeio os marxistas”.

[2] Segundo a Cruz Vermelha chinesa.

[3] Para tal, recomendo consultaram a série Os corvos de Wotan.

Crédito das imagens: [topo] Alguns fotógrafos corajosos; [ao longo] Anônimo (encontradas no Facebook, sem crédito dos autores)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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Al-Wahhab

 

Muhammad Ibn Abd al-Wahhab (1703- 1791) foi um reformador religioso conservador que lançou o movimento Wahhabi e ajudou a fundar o primeiro estado saudita.

Ibn Abd al-Wahhab nasceu em Uyayna, uma cidade oásis localizada no Najd, a região central do que hoje é a Arábia Saudita.

Ele foi criado em uma família de juristas e estudiosos religiosos da Escola Hanbali e demonstrou um interesse inicial em estudar o Alcorão e outras áreas do aprendizado islâmico, especialmente os estudos sobre a Hadith (Coletânea de Narrações e Ditos do Profeta Muhammad e seus Companheiros).

Seu pai, um juiz da Escola Hanbali e professor da Hadith e da Fiqh (a Jurisprudência Islâmica), lhe proporcionou sua educação precoce nas ciências religiosas.

Mais detalhes sobre o início da carreira de Ibn Abd al-Wahhab são anedóticos, mas parece que ele começou a defender um rigoroso reformismo islâmico quando estava na casa dos 20 anos.

Ele ganhou seguidores em sua cidade natal, mas a oposição política o forçou a ir a Meca e Medina, onde ele se encontrou e estudou com outros Ulamas (teólogos islâmicos) reformistas.

Ele se familiarizou com os escritos do reformador medieval da Escola Hanbali, Ibn Taymiyya, e se destacou por seu conhecimento da lei Hanbali.

Mais tarde ele viajou para Basra, uma cidade portuária no Iraque, onde encontrou doutrinas e práticas do Xiismo que encontraram sua desaprovação por terem se afastado do Islã do Alcorão e da Sunna.

Depois de Basra, Ibn Abd al-Wahhab mudou-se para Huraymila, a cidade Najdi onde seu pai vivia.

Foi aqui que ele escreveu O Livro da Unidade (Kitab al-Tawhid), no qual expressou muitos dos seus principais ensinamentos.

Cópias do mesmo foram espalhadas por todo o Najd.

Após a morte de seu pai em 1740, sua missão tornou-se mais pública.

Ele promoveu a doutrina do Tawhid, a crença na unicidade absoluta de Deus e a rejeição do politeísmo (shirk), da idolatria e da descrença.

Sua crença de que o Tawhid incluía seguir os mandamentos e as proibições de Deus significava que ele também procurava tratar das questões morais em sua sociedade e cultura.Ele favoreceu a aplicação rigorosa da Sharia (a Lei Islâmica), incluindo a realização de orações, a entrega do Zakat (esmolas) e a aplicação de punições por adultério.

Aqueles que falharam em atender seus ensinamentos eram vistos como descrentes (Kafirs, os infiéis) e podiam ser subjugados através da Jihad.

Líderes tribais e Ulamas em Huraymila decidiram que não queriam que Ibn Abd al-Wahhab minasse a autoridade deles, então conspiraram contra a sua vida, forçando-o a voltar para Uyayna, sua cidade natal.

Uthman ibn Hamid ibn Muammar (d. 1749), o governante de Uyayna, a princípio deu as boas-vindas ao reformador, até mesmo providenciando para que ele se casasse com a sua tia.

A situação mudou, porém, quando ele cortou uma das árvores sagradas da cidade, demoliu um santuário pertencente a Zayd ibn al-Khattab (um dos companheiros do profeta) e, acima de tudo, condenou uma mulher à morte por apedrejamento depois que ela confessou adultério.

O clamor público que essas ações provocaram fez com que Uthman retirasse o seu apoio a Ibn Abd al-Wahhab, o qual teve que fugir de Uyayna em 1744.

Ele se estabeleceu em Diriya, a cerca de 65 quilômetros de Uyayna, perto de Riyadh.

A pequena cidade era governada pelo clã dos Saud, liderado por Muhammad ibn Saud.

Nesse mesmo ano, “os dois Muhammads” chegaram a um acordo mútuo: Ibn Saud protegeria Ibn Abd al-Wahhab de seus inimigos e o tornaria o Imã (líder religioso islâmico) de Diriya, enquanto Ibn Abd al-Wahhab coletaria Zakat para o governante saudita e o ajudaria a estender seu controle sobre a região de Najd através de sua pregação e da sua declaração da Jihad contra os inimigos dos sauditas.

Estes incluíam os “infiéis” que não atendiam ao chamado de Ibn Abd al-Wahhab (Daawa) para aceitar sua versão do Islã, bem como as tribos que não se submeteriam ao domínio saudita.

O acordo acabou sendo mais frutífero do que os dois poderiam ter imaginado.

A partir dele eles puderam criar uma confederação de grupos tribais, tanto estabelecidos como nômades, a qual forneceu a base para um novo estado na Arábia Central.

Quando Muhammad ibn Saud morreu em 1765, Ibn Abd al-Wahhab continuou a aliança com seu filho Abd al-Aziz ibn Muhammad (m. 1803).

Ele manteve sua base em Diriya, onde ensinou e escreveu, procurando conquistar outros para sua causa.

Sua estratégia incluía a designação de juízes Wahhabi para as cidades e oásis que se haviam submetido ao domínio saudita.

Na época de sua morte, o governo saudita Wahhabi alcançou Riad (a futura capital saudita) e as margens do Golfo Pérsico.

Alguns anos mais tarde, o governo saudita abrangeu a maior parte da Península Arábica, incluindo as cidades sagradas de Meca e Medina.

O legado de Ibn Abd al-Wahhab foi levado adiante por seus descendentes e discípulos.

Seu filho Abd Allah escreveu obras contra o Xiismo e endossou as incursões Wahhabi no sul do Iraque no início de 1801.

Seu neto Sulayman (m. 1818) serviu como juiz em Diriya até ser executado pelas forças otomanas-egípcias enviadas do Egito para a Arábia para destruir o estado saudita primitivo.

Hoje, seus ensinamentos fazem parte da ideologia oficial do Reino da Arábia Saudita, que surgiu das cinzas do primeiro estado saudita sob a liderança do rei Abd al-Aziz ibn Saud (m. 1953) no início do século 20.

Os herdeiros de Ibn Abd al-Wahhab, conhecidos como Al al-Shaykh (a família do Shaykh Ibn Abd al-Wahhab), agora ocupam poderosos cargos no governo saudita e se casam com membros da família real saudita.

Suas obras estão amplamente disponíveis em forma impressa, e suas ideias prevalecem entre os reformadores religiosos conservadores e radicais em muitos países Sunitas.

Entre aqueles influenciados pelos ensinamentos de Ibn Abd al-Wahhab estava Osama bin Laden, líder da organização Al-Qaeda responsável pelos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono em 2001.

No entanto, muitos muçulmanos, Sunitas, e Xiitas rejeitam o entendimento puritano do Islã conforme feito por Ibn Abd al-Wahhab.

Leitura adicional:

– Natana J. DeLong-Bas, Wahhabi Islam: From Revival to Global Jihad (Oxford: Oxford University Press, 2004);

– Madawi al-Rasheed, A History of Saudi Arabia (Cambridge: Cambridge University Press, 2002), 14–23;

– John O. Voll, “Muhammad Hayat al-Sindi and Muhammad Ibn Abd al-Wahhab: An Analysis of an Intellectual Group in Eighteenth Century Medina.” Bulletin of the School of Oriental and African Studies 38, no. 1 (1975): 32–39.

***Fonte:

Encyclopedia of Islam

Copyright © 2009 by Juan E. Campo

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/al-wahhab/

Batendo na porta do céu: Rituais Básicos de Feitiçaria Taoísta

MIN TZU, excerto de CHINESE TAOIST SORCERY

Para realizar um ritual de feitiçaria, o mago monta um altar em sua casa, em uma sala usada exclusivamente para esse fim. A cerimônia pode então ser aberta e encerrada adequadamente em plena conformidade com os princípios religiosos taoístas. Durante a realização de um ritual, as portas e janelas são mantidas fechadas e as janelas cobertas com cortinas azuis ou vermelhas. Também é tomado cuidado para que as pessoas não entrem ou saiam com frequência da sala; caso contrário, as divindades convocadas poderiam partir e ou mesmo se irritar.

O próprio altar, também chamado de mesa de sacrifício, é quadrado e representa de forma simbólica a terra. Ele é colocado no centro da sala ou contra a parede norte e coberto com um pano amarelo. Quando
o mago fica na frente do altar, ele também estará virado para o norte. Duas velas vermelhas são colocadas na parte superior da mesa, uma em cada canto. As curvas e a luz das velas representam o Céu e juntando a  mesa e o oficiante, eles formam uma trindade simbólica que se funde com aquela formada pelas forças Chi, Yin e Yang. Este é o símbolo chave necessário para entrar no mundo metafísico.

O mago pode colocar no em cima do altar qualquer ícone de sua preferência. Outros objetos colocados sobre a mesa incluem: uma espada de madeira ou faca de tamanho médio usada para expulsar fantasmas malignos, um pequeno incensário, uma xícara contendo uma pequena quantidade de arroz cru, uma tigela pequena cheia de água e outra de vinho, uma grande cinzeiro em que o dinheiro espiritual é queimado e uma tigela cheia de frutas frescas. O feiticeiro está ciente de que até que ele acenda as velas e queime o dinheiro espiritual, as portas do mundo espiritual permanecerão fechadas e os deuses não poderão ouvir suas súplicas ou aceitar suas oferendas.

Quando o oficiante abre a cerimônia, ele se torna parte do triângulo taoísta de poder formado pelo Homem, Terra e Céu. Neste triângulo, ele representa a humanidade de pé ou ajoelhado na terra e eleva suas oferendas ao céu. Desta forma, ele atrai divindades benevolentes para o seu lado, aquelas mais inclinadas a oferecer assistência bondosa às pessoas que as chamam. O tipo e a cor das roupas que ele veste são menos importantes do que a atitude que ele demonstra em relação ao Céu durante o ritual. No entanto, ele evita usar roupas brancas, cor ligada ao luto. O uso de uma touca pequena e redonda é opcional.

Uma vez no meio de um ritual, sua eficácia geralmente depende do nome da divindade invocada pelo mago. Se ele não invocar um deus em particular, a identidade dos espíritos que respondem às suas invocações será desconhecida para ele.

ABERTURA DA CERIMÔNIA

No dia em que faz seu ritual, o oficiante primeiro seleciona a hora correta para abrir a cerimônia. O momento ideal é durante o dia, quando a influência do sol é mais forte na Terra. Rituais realizados à noite, quando a terra está sob a influência da lua, apelam para entidades malignas.

Para iniciar a cerimônia, o oficiante lava as mãos e veste roupas limpas. Ele despeja água fresca e vinho nas xícaras sobre a mesa e coloca frutas frescas na tigela. As portas e janelas do recinto são fechadas ou cobertas para evitar que estranhos interrompam a cerimônia e perturbem a aura pacífica do ritual. Ele então se aproxima da mesa e acende as velas. Ele escreve a palavra “Tao” em tinta vermelha em uma folha de papel branco e a coloca entre as velas.

Tao

Ele junta as palmas das mãos à sua frente em posição de oração e respeitosamente se curva três vezes em direção ao altar.
Neste exato momento, a cerimônia é considerada aberta. Uma ponte metafísica foi construída entre este mundo e o além. O oficiante usa a ponte para unir-se aos bons espíritos, ou para separá-lo dos maus.
Para permanecer no controle total dos poderes sobrenaturais sob seu comando, o oficiante se concentra totalmente no ritual. Nenhum outro pensamento passa por sua mente durante o restante da cerimônia – nenhum pensamento sobre sua família, seu trabalho, sua agenda para o dia ou qualquer outra coisa. Sua mente está absolutamente focada em
Céu acima e terra abaixo.

Em seguida, o oficiante dedica o ritual a um deus específico através da petição escrita. Este é um aspecto importante da feitiçaria porque uma vez que ele tenha entrado no mundo espiritual, ele não receberá ajuda de seus habitantes se apenas vagar sem rumo. Esta situação é semelhante a entrar em uma nova cidade neste mundo. Uma pessoa não pode esperar receber ajuda em nenhum lugar, a menos que conheça alguém que resida lá. Com isso em mente, o oficiante dirige sua cerimônia a um deus amigo que estará disposto a ouvir suas súplicas e receber suas orações. Isso o ajuda a centrar seus pensamentos naquela divindade em particular.

Uma divindade importante no panteão chinês cujo nome é frequentemente usado é “Kuan Ti (ou Guan Yu)”. Se ele for escolhido, o feiticeiro escreve seu nome em um pedaço de papel amarelo separado ou escreve com tinta vermelha em papel branco, e também coloca esse papel entre as velas.

關羽 – Guan Yu

É importante que o feiticeiro entenda uma coisa sobre divindades: como acontece com as pessoas, quando um deus é invocado inesperadamente, ele pode não estar em casa. No entanto, outros deuses menores já são designados como seus ajudantes e geralmente assumem a responsabilidade de prestar ajuda a quem o invoca Só assim uma única divindade pode cuidar de todas as invocações que lhe venham de todas as partes do mundo. Ele não precisa responder a todas elas sozinho.

Depois que o ritual foi endereçado ao deus apropriado, o feiticeiro escreve uma petição. Uma petição é uma carta escrita em um pedaço de papel amarelo, na qual o feiticeiro expressa todos os desejos que deseja que sejam atendidos. Há petições para purificar um lugar ou pessoa, para ajudar os espíritos dos ancestrais do oficiante, para pedir saúde e amor, e até para pedir sucesso financeiro aos deuses. Não há limites para o que uma pessoa pode pedir, exceto aqueles ditados por sua própria consciência. Ele pode escrever sobre qualquer coisa que o perturbe, seguro de que receberá uma resposta rápida e positiva do deus.

Depois de descrever seus desejos por escrito, o mago usa tinta vermelha para escrever o nome do deus que ele escolher (ou seja, o Deus da Riqueza, o Deus da Saúde, etc..), em letras grandes sobre toda a petição. Na parte inferior da petição, ele escreve seu próprio nome, data de nascimento e assinatura.

Se nenhuma solução para seus problemas surgir em breve isso pode significar que o deus específico que ele invocou não é capaz de responder às orações naquele momento. Se isso acontecer, o oficiante reza para outras divindades até que uma finalmente responda aos seus apelos e seu caso chegue a uma conclusão favorável.

Depois de escrever a petição, o oficiante prepara uma oferta em dinheiro para os espíritos. Além das oferendas de água, vinho e frutas, esta é a oferenda mais importante que ele fará porque o mundo do além é estruturado de forma muito parecida com este mundo e os espíritos que ajudam os deuses também precisam de dinheiro. Esses espíritos são os fantasmas de pessoas mortas, então eles devem comprar sua passagem de um nível para um mais alto do pós-vida. Se seus parentes não lhes dão dinheiro, sua melhor esperança é recebê-lo regularmente ajudando deuses conhecidos a responder às orações de suplicantes que também queimam dinheiro espiritual. Por esta razão, os chineses dizem que “Até os deuses amam o dinheiro”.

Os deuses permitem que certos espíritos usem o dinheiro queimado que vem deste mundo. A fumaça desse dinheiro queimado cruza a fronteira entre os dois mundos e pode ser  recebida e usada pelos ajudantes fantasmagóricos que aparecem na sala do altar para ouvir as orações da pessoa.

Para garantir que os espíritos malignos não se apressem para pegar o dinheiro destinado aos espíritos bondosos, o oficiante escreve o nome do deus a quem ele está sacrificando no dinheiro espiritual para ser queimado. Uma nota pequena como um dólar, ou seu equivalente, é suficiente como oferta. Em países onde é ilegal queimar moeda nacional (Como no Brasil), o dinheiro fantasma é usado.

Para reduzir as despesas, alguns feiticeiros preferem oferecer dinheiro fantasma aos espíritos, mesmo que seja legal queimar dinheiro real. Mas os espíritos não podem ser enganados. Se eles receberem dinheiro de mentira sem necessidade, eles concederão favores de mentira também. Afinal, se dinheiro real deve ser trocado por bens e serviços neste mundo, os feiticeiros não podem esperar que seja diferente no outro.

Para fazer a oferenda em dinheiro, o oficiante fura uma nota com a espada ou faca de madeira, acende-a com a chama da vela à sua direita e a segura sobre o cinzeiro até que esteja totalmente queimada. Só então o deus invocado, ou os espíritos que o representam, entrarão na sala para recolher as oferendas e ouvir a petição do oficiante.

Inevitavelmente, alguns espíritos malignos também conseguirão entrar na sala neste momento, mas por enquanto o feiticeiro não deve se preocupar com eles, veremos isso a seguir. Ele continua a cerimônia queimando a petição sobre o cinzeiro. Neste momento, o oficiante tornou-se um com a eternidade, aquecendo-se em uma luz invisível, irradiada por um verdadeiro deus que se torna como um sol no altar. Tudo o que resta é que o ritual seja devidamente encerrado, ou finalizado.

ENCERRAMENTO DA CERIMÔNIA

Durante o encerramento da cerimônia, a sala do altar deve ser limpa de quaisquer espíritos malignos que tenham entrado durante o ritual. Essas entidades devem ser enviadas de volta para onde vieram para que não escapem para o mundo exterior e incomodem outras pessoas.
Para conseguir um final perfeito para sua cerimônia, o oficiante escreve uma última petição pedindo a todos os espíritos ao redor do altar, bons e maus, que retornem imediatamente aos seus lugares de origem porque a cerimônia está prestes a ser encerrada.

A água e o vinho no altar já foram abençoados pelo grande poder do ritual; portanto, o oficiante borrifa algumas gotas de cada uma sobre as petições. Ele então perfura as petições com a ponta da espada de madeira, acende-as com a vela do lado esquerdo do altar e as segura sobre o cinzeiro até que estejam completamente queimadas.

Depois de se curvar três vezes em direção ao altar, o oficiante apaga as chamas de ambas as velas e descarta a água e o vinho nas taças. As portas e pontes que conectam este mundo com o futuro estão agora totalmente fechadas e o ambiente protegido. A cerimônia está oficialmente encerrada.

Ao se preparar para um novo ritual, o oficiante pode reutilizar as velas, frutas, grãos e flores de cerimônias anteriores, mas o vinho, a água e o dinheiro espiritual devem ser novos a cada vez. Idealmente, cada cerimônia é feita para atender uma necessidade do oficiante.

Uso do rito para Culto aos Ancestrais

O desejo consciente de realizar rituais pelos mortos coloca o homem bem acima dos animais e o permite encontrar  paz no mundo além. Os mortos ainda gostam das coisas terrenas de que desfrutavam enquanto estavam vivos e, embora não precisem de itens como comida ou roupas no sentido que as pessoas vivas precisam, ainda podem usá-las à sua maneira. Por exemplo, mesmo que não tenham mais bocas ou corpos, eles ainda sentem fome e sede e, embora só possam absorver o cheiro da comida e bebida que lhes é oferecida em rituais, isso é suficiente para satisfazer seus desejos.

Os bons filhos nunca permitem que seus pais falecidos fiquem famintos ou desamparados e assim ofereçam comida aos seus antepassados. Orações e flores são boas oferendas, mas não são suficientes.

É fato que a boa sorte das pessoas pode ser consolidada se elas fizerem oferendas aos seus parentes falecidos e receberem em troca sua ajuda sobrenatural. Tais demonstrações de piedade filial também ajudam a diminuir o número de fantasmas famintos que vagam pela terra.
Como o taoísmo é a religião mais antiga praticada no mundo e existe há pelo menos cinco mil anos, pode-se dizer que os chineses sabem uma ou duas coisas sobre assuntos religiosos profundos. Se eles acreditam no culto aos ancestrais é útil, deve haver algo ai. Seria tolice descartar essa crença como simples superstição.

O ritual realizado para adorar os ancestrais requer o mais simples dos altares. Para fazer o altar, o oficiante coloca uma pequena mesa sob uma foto de seus pais falecidos ou sob uma tabuinha ou papel com seus nomes, e a cobre com um pano vermelho. O altar pode ser instalado em qualquer parte da casa, incluindo a sala de estar, e uma vez instalado, pode ser deixado no mesmo local permanentemente. Um par de castiçais ou um incensário é colocado sobre a mesa.

Quando uma pessoa deseja fazer uma oferenda a seus parentes falecidos, ela traz comida recém-preparada para o altar e a coloca sobre a mesa entre as velas, acende uma vela ou incenso e curva-se três vezes em direção às imagens enquanto oferece mentalmente a eles e deixa a comida no altar por alguns minutos para que os espíritos possam apreciá-la, depois disso leva a comida a mesa de jantar para ser consumida pela família. Até os céticos desse método perceberão que a comida perderá um pouco do sabor porque foi absorvido.

Por mais simples que seja esse ritual, ele garante alegria e bênçãos para o oficiante e sua família se praticado continuamente. Se as oferendas são feitas dessa forma, nenhuma outra cerimônia é necessária.
Se o oficiante também deseja escrever petições para seus ancestrais, uma cerimônia formal é aberta. Nesta cerimônia, ele oferece comida e dinheiro espiritual para seus ancestrais, então queima uma carta na qual ele fala sobre problemas particulares e pede que eles o ajudem a resolver Essa prática traz paz tanto para os espíritos quanto para seus descendentes vivos.

É preferível que o filho mais velho conduza a cerimônia de culto aos antepassados, mas quando uma pessoa ou casal morre sem filhos, qualquer parente pode assumir esse dever. Há também outras alternativas, como quando um aluno cultua seu professor se este morrer sem filhos. Em outros casos, as pessoas adoram os espíritos daqueles a quem são gratos mesmo que não sejam parentes, como quando um indivíduo é adorado por admiradores. É o caso de Confúcio, que ainda é homenageado milhares de anos após sua morte.
De qualquer forma, o que importa é a devoção que o oficiante demonstra pelo falecido em seus rituais, independente do tipo de relacionamento que mantinham.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/bate-a-porta-do-ceu-rituais-basicos-taoistas/

A cultura gótica

Alguém não é dito gótico por estar de preto da cabeça aos pés, ter infindável amor pela literatura gótica, “spleen”, regar suas noites em cemitérios ao vinho, ou por ser fanático pelo obnóxio Marilyn Manson; este alguém é gótico porque em seu âmago arde uma fria chama gótica. O goticismo está profundamente ligado à psique humana, às reações, ao modo de filtrar os fatos ao seu redor. Toda produção artística tenebrosa e qualquer outro aspecto ligado ao goticismo é apenas a expressão da visão e do pensamento, manifestação da essência, e não o oposto.

O goticismo não é um estado de “depressão”, “síndrome do pânico” ou qualquer outra doença; alguém que acha que é gótico porque ouve Manson, ou porque é depressivo, ou porque gosta de coisas obscuras, ou suas roupas preferidas são pretas, ou Lorde Byron é seu ídolo ou qualquer fator análogo a esses é um poser. Não devemos, nem podemos, julgar alguém por isso ou por aquilo, mas, sim, acabei de fazê-lo e não há retorno.

O gótico é uma alma corroída, um ser recluso, uma mente brilhante e tenebrosa, não alguém com um rosto amargo que incessantemente atira no esgoto de pobres mentes palavras sobre a morte, lascivas, ou clichês e outras meras “reflexões” superficiais que leu em algum lugar; goticismo é um modo de ver a vida, uma linha de pensamento, é refletir e apurar toda dor e todo riso, é olhar para si mesmo e perguntar-se o porque de cada coisa, é extrair sabedoria de onde as pessoas só extraem lágrimas, extrair das lágrimas força e consciência para não dobrar os joelhos perante toda agonia que a existência os traz e ainda assim resistir diante da consciência da sina universal. Todo pensamento extrato da essência gótica reflete a experiência pessoal de cada indivíduo e não uma generalização, de uma linha em um ponto [quanto aos pensamentos extratos, isso varia de pessoa a pessoa, por isso cada um tem sua própria visão do que é goticismo; porque ele é algo essencial e não imposto].

O gótico, em relação à sociedade, é mais dissimulado do que expressivo, principalmente quando tratamos do sofrimento consciente; o gótico é retraído e isso não quer dizer que ele não fala com ninguém, nunca ri ou sofre de algum tipo de timidez excessiva. O gótico é retraído porque ele esconde sua real natureza, ele é retraído e é tímido, porque não quer que ninguém o conheça, ele é retraído porque ele sabe que as outras pessoas não suportariam seu fardo: o sofrimento consciente, a agonia existencial, o angst – isto é – o conhecimento adquirido nas longas e frias noites regadas às lágrimas, em que todos estavam acamados em aconchegantes leitos e somente ele estava no escuro, calado e sentado na dura e fria pedra, pensando sobre a vida, o amor, a injustiça, o ódio e a morte [pode ser que um dia aquele serelepe ser que você sempre viu acompanhado de raios de sol se revele uma mente extremamente reflexiva, forte, consciente e mórbida]. Não estou falando de ser falso ou mentir, mas existem certas coisas que não devem ser mencionadas, principalmente quando não se está em meio a amigos e iguais.

Se o gótico acredita em Deus, ou Satã, ou Wicca ou Set, Lóki, Zeus? Ou se ele deve ser ateu e adverso a qualquer crença ou religião? Tudo é uma mera questão de consciência. Muitos “góticos” dizem que o gótico deve ser ateu, “se não é ateu não é gótico”, mas eles mesmos se contradizem ao dizer que o gótico é um pensador livre. Que tipo de pensador livre é este que tem seus alicerces manipulados e para ser enxertado num estereótipo deve abandonar seus pensamentos? Que tipo de gótico abandona sua consciência em nome de um estereótipo?! O gótico é uma mente livre, cabe a ele e como ele vê a vida a decisão de servir a Satã, a Deus, Gautama Buda ou qualquer outra nume ou divindade! Esses “góticos” criam inúmeras regras para o goticismo, todas refletem sua experiência pessoal e jamais regra geral; e apenas tolos e posers seguem-nas, pessoas de mente realmente fraca, e de certo modo irracionais. Se não é ateu, não é gótico?! Afirmamos, se segue regrinhas e estereótipos tolos e irracionais não é gótico!

Na realidade, os godos (góticos) foram os povos que mais rapidamente assimilaram o cristianismo a sua cultura; sabe-se que os góticos do século XVIII eram cristãos, por mais que alguns deles fizessem menção à Satã ou a Natureza, e a maior parte dos góticos de hoje em dia veio de lares cristãos, querendo ou não, o cristianismo exerce uma grande influência em sua mentalidade. Para mim, o cristianismo é a religião que mais se liga ao goticismo, sendo o sonho concreto de cada gótico, mas falo disso depois.

Quanto a só vestir preto, ouvir música gótica, e ser depressivo; tudo está ligado ao gosto, estilo e personalidade de cada um. Devemos ressaltar apenas que a cultura é um subproduto da mente, da essência gótica; um gótico real sabe ser prudente no que busca. Em outras palavras, poderíamos ditar a regra: “nada de perder tempo com coisas que não vão desenvolver seu pensamento, sua visão, seus modos, sua cultura”; mas não devemos fazê-lo, pois poderíamos esquecer de nossa essência gótica, convertendo assim o goticismo num mero conjunto de regras tolas e irracionais, apenas a fim de enxertar ou enxotar pessoas de uma “tribo urbana”, formada por mentes medíocres.

Todos os motivos pelos quais alguns góticos só vestem roupas pretas, escutam este ou aquele estilo de música, são depressivos, fumam aquela marca de cigarro, bebem vinho, fazem tatuagens, são bissexuais, são homofóbicos ou jogam rpg, são considerações pessoais e jamais devem ser vistos como regras e etc., em contra partida, se não há um motivo real, considerando o seu agrado como um, não é subproduto da essência e sim regra manipulada, e isso é ser poser…
Muitos góticos carregam horríveis cicatrizes, mas, e é aí que se encontra a ironia, são motivados a continuar a busca por algo, justamente por isso alguns externam seus sentimentos, externam marcos que devem ser memoráveis, marcos que os motivam, ou fazem tudo de modo a fugir da realidade, tudo para esquecer: fazem tatuagens, escrevem poesia, bebem vodka, ou só vestem preto…

Justamente pelos incontáveis e inimagináveis motivos que assombram a consciência de cada um, não podemos tratar ninguém com preconceito. Seja por sua religião, sexualidade, estilo de música favorito, ideologia ou qualquer outra fator. Que tipos de pensadores são os góticos que desprezam o pensamento e a consciência dos outros? Onde está o respeito pela “liberdade” [mesmo que pela liberdade de escolha de ser manipulado] pelos outros? E pela natureza de cada um? Que divirjamos, e toleremos, jamais defendamos, mas respeitemos!

O goticismo pode ser resumido em uma pequena frase: “é a essência reflexiva, consciente, trágica e mórbida que faz do gótico o real gótico” a subcultura gótica é formada pelas produções e expressões de góticos reais, sendo residual.

Quanto ao suicídio, o gótico que suicida, ao meu ver, se revela um fracassado; não foi capaz de resistir diante do negro da vida e sucumbiu ao seu outono. Esta vida jamais deve ser o mais importante, mas desfazer-se dela é desfazer-se de sua natureza gótica; suicidar é destruir a essência gótica.

A Origem do Movimento Gótico

Era o final dos anos Setenta, o cenário era extremo. De um lado encontrava-se a contestação ao sistema de extrema direita, feita pelos punks. Do outro lado uma cultura jovem alienada e psicodélica das discotecas. Neste conturbado período os jovens que procuravam pela arte e a cultura, estavam desfalcados e procurando por um espaço próprio de expressão de suas idéias. Este espaço começou a surgir com o aparecimento do estilo musical “coldwave” (onda fria, em inglês), era um som mais frio, gelado e apropriado para estes jovens que se reuniam em casas abandonadas, cemitérios para discutirem sobre cultura, realizarem saraus literários e apreciarem um bom vinho ou absinto.

O “coldwave” aos poucos começou a atrair músicos de outros estilos, algumas bandas originalmente punks e os chamados ultra-românticos, desse modo formando os primeiros Darks nos primórdios dos anos oitenta. Neste período a coldwave se espalhou pelo mundo, originando bandas como Siouxie and the Banshees, Bauhaus, Joy Division, The Cure, Xmal Deutschland, The Sisters of Mercy e tantos outros.

Na virada dos anos oitenta para noventa, os primeiros darks saíram de cena e abriram espaço para os góticos. Estes chegaram com um visual mais complexo e estiloso, buscando ainda mais por um refinamento musical e assumindo uma atitude de estilo de vida sombrio.

A cultura gótica sempre esteve ligada com a arte. Não importando qual fosse essa, música, poesia, pintura, escultura, e vem manifestando-se ora como um sentimento nostálgico, ora melancólico, ás vezes tenebroso e sempre celebrando um lado sombrio da vida e da arte. Você não se torna gótico, você nasce como um desde o primeiro dia de sua vida, encontrando a arte na escuridão.

Literatura Gótica

Na literatura o termo gótico se refere a uma forma peculiar de romance popular do século XVIII. Romances góticos continuaram a serem escritos no século XIX e reapareceram com maior intensidade no século XX. É também conhecida como a “literatura do pesadelo”.

Esse tipo de literatura emergiu como uma forma de romantismo, mas procurando mostrar o lado mais negro e obscuro do ser. A literatura gótica impõe o sentido do pavor, uma fusão entre o medo, dor e melancolia.

A literatura Gótica faz uma grande distinção entre o bem e o mal. São muito citados nos textos góticos a noite, o pessimismo, a loucura, os sonhos, as sombras, as quedas, o medo, a decomposição, a atração pelo abismo, sem se esquecer da principal a morte e a vida.

Podemos citar diversos autores, não só aqueles obvimente citados entre os autores góticos, como também aqueles mais classificados como romancistas, expressionistas, surrealistas, etc… Anne Rice, H.P Lovecraft, Álvares de Azevedo, Adous Huxley, George Orwell, Edgar Allan Poe, Lord Byron… são apenas alguns nomes da extensa lista de autores do estilo gótico.

Entre as obras mais famosas desse gênero podemos citar: Frankenstein (Mary Shellley),
As Flores do Mal, Drácula (Bram Stoker), A Rainhas dos Condenados e Entrevista com o Vampiro (Anne Rice), entre muitos outras.

No Brasil, a literatura gótica foi conhecida como Segunda Geração do Romantismo, ou Geração do Mal-do-Século. Podemos destacar nela, autores como Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela, ambos influenciados por Lord Byron e Musset, chamada também de geração byroniana. Suas principais características, assim como a literatura gótica européia, era o egocentrismo, negativismo, pessimismo, dúvidas, desilusão adolescente e tédio constante. O tema preferido desses autores era a fuga da realidade, uma forma de manifesto e repúdio a sociedade da época e na exaltação da morte, outra forma de repúdio, mas através da liberdade que a morte traz em nos tirar desse mundo.

A Música Gótica

No final dos anos 70 e início dos anos 80, a raiva e a agressividde que incendiavam o movimento punk começam a ceder lugar a uma profunda depressão e um sentimento de insatisfação de um lado e falta de perspectiva do outro.

Na Inglaterra Margareth Tatcher assume o poder, triplica-se o desemprego e aumenta a inflação. Este é o cenário triste da chamada década perdida. Nas paradas musicais domina a pose e o “glamour” do pop inglês e da dance music com seus artistas poseurs e cintilantes.

Entretanto algo estava para acontecer em uma cidadezinha chamada Manchester, onde havia muita gente morando em subúrbios cinzentos recusando-se a enterrar o legado punk, e achando que aquele “pop poseur” tinha muito pouco a ver com a vida real na Inglaterra.

E é na mesma Manchester que surge o porta voz ideal destes angustiados de quarto, na figura de Ian Curtis, um dos primeiros a transformar toda essa melancolia e desilusão em música, através da sua banda Joy Division, que apesar da curta duração devido ao suicídio de Ian, seu vocalista, deixou como legado o rock mais melancólico e desesperado já feito, sendo uma das bandas mais representativas do movimento pós-punk, como ficou conhecido este substilo musical do rock, que apresentava elementos musicais do punk mas com uma dose de melancolia mais acentuada. E é dentro do pós-punk que encontramos as mais representativas bandas do chamado estilo gótico, que no Brasil também foi chamado de “dark”, devido a preferência por roupas pretas de seus adeptos.

É nos anos 80 que a morte será o tema mais recorrente nas canções, sendo igualmente comuns temas como melancolia, desespero, abandono, decepções amorosas e falta de perspectivas. Estes temas se fazem presentes nas músicas de um certo grupo suburbano de Crowley, Sussex, Inglaterra, chamado The Cure, cujo vocalista Robert Smith com seu jeito soluçante de cantar, cabelos desgrenhados e olhos pintados de preto, fez a “alegria” dos cultuadores de deprê em suas canções.

Entretanto a cristalização do gótico enquanto gênero esteve a cargo de um quarteto de Northampton (Inglaterra), que em seu primeiro single fala de um tal Bela Lugosi, famoso vampiro dos anos 30, e cujo vocalista Peter Murphy delirava pesadelos com sua voz soturna sob um baixo pesadão e efeitos macabros de guitarra, falando de temas como morte, vampiros, morcegos e rituais pagãos. O nome do grupo, Bauhaus era uma referência a escola alemã de arquitetura que na década de 1930 teve suas portas fechadas pelos nazistas devido a ligações com o expressionismo alemão, considerado por Hitler uma “arte degenerada”.

A voz igualmente soturna de Andrew Eldritch foi o selo definitivo do movimento gótico, sendo seu grupo, “The Sister of Mercy” considerado, com toda razão,um dos maiores representantes do gênero, além de possuirem até hoje uma influência marcante em tudo que diga respeito ao estilo. Dois ex-membros do SOM formaram ainda um outro grupo seminal do gótico em 1985, “The Mission”.

Não se pode também esquecer as musas, pra ser mais exata duas musas, madrinhas, divas e rainhas máximas do gótico: Siouxsie Sioux e Anja Howe.

Comecemos por Siouxsie, com seu estilo misto de diva dos anos 20 e de prostituta nos seus belos olhos extremamente maquiados. Siouxsie e seus banshees eram majestades únicas do reinado gótico. Guitarras distorcidas, batida tribal, harmonias fluidas e climas mórbidos se traduziam em pérolas como “A Kiss in the Dreamhouse”, “Kaleidoscope” e “Nocturne”. Siouxsie também foi uma das primeiras cantoras a liderar uma banda “mais pesada”. Nascidos no movimento punk,”Siouxsie & The Banshees” souberam fazer a perfeita transição para o gótico, sendo um dos precursores do estilo.

Quanto a sua majestade loira, Anja Howe, a vocalista da banda underground alemã “X-Mal Deutschland”, pode ser considerada pioneira do estilo gótico na terra de Goethe, com sua voz inconfundível, acompanhada de guitarras e baixo linha serra elétrica. Eram também comuns na banda o uso de recursos eletrônicos, criando sons viajantes que mesclados ao vocal sedutor criavam texturas delirantes num perfeito clímax lírico-depressivo, levando os “mortos vivos” à loucura através de obras primas como “Incubus Succubus”,”Tocsin” e a maravilhosa “Matador”.

Seria ainda uma grande injustiça da minha parte deixar de citar outras bandas igualmente seminais do estilo gothic e do darkwave como Clan of Xymox, Mission, Opera Multi Steel, Poesie Noire, Cult, Switchblade Symphony, Love is Colder than Death…bem são tantas que fica até difícil citar todas, em mais uma prova do quanto o estilo é prolífico.

No finalzinho da segunda metade da década de 1980 porém, o clima começa a tornar-se inóspito para morcegões e afiliados, e o estilo gótico começa a entrar em decadência, significando o fim de muitos grupos que consagraram o gênero, deixando orfãos e famintos de sangue muitos “nosferatus”, e fazendo as noites enevoadas de Londres perder muito de seu charme.

Por Beatrix Algrave

Gothic Metal

Quem disse que o gótico morreu no final da década de 80 estava muito enganado. Aqui está o gothic metal para provar o contrário.

Como uma fênix nascida das cinzas de um estilo praticamente acabado, a música gótica ganhou peso e uma nova roupagem, mas sem deixar de lado a melancolia e obscuridade que caracterizavam o estilo.

Na década de 90, várias bandas começam a fazer um som mais voltado para o lado do peso, mas ao mesmo tempo sem deixar de lado a raiz negra que caracterizava o estilo anos atrás. A melancolia, a depressão, a angústia, o clima mórbido das canções, tudo estava lá, ainda mais completo, contando com elementos da música clássica, tudo isso sem esquecer dos contrastes dos vocais líricos e os guturais.

Aliado a novos fatores agora a música gótica, em sua versão século XXI, vem acompanhada de outros estilos que completam ainda mais a sonoridade de cada banda. Podendo ser misturada ao black metal, ao death metal, ao power metal, a música gótica atual deixou de ser apenas um filho bastardo do movimento punk para ganhar seu próprio espaço dentro da música.

Uma das principais inovações do gothic metal é o famoso metal “Bela e a Fera”, que é uma característica muito comum na maioria das bandas góticas. Representando a ambivalência presente nesse estilo, é o mais perfeito contraste entre os doces e belos vocais líricos e dos nervosos vocais guturais.

After Forever, Within Temptation, Tristania, The Sins of Thy Beloved, Theatre of Tragedy, Sirenia, Epica, etc. são apenas algumas das diversas bandas que possuem os vocais “bela e fera”, claro que cada uma possui diversas outras características que tornam sua sonoridade única.

A banda sueca Therion também possui vozes masculinas e femininas, mas na fase atual da banda, esses vocais dividem-se em soprano e tenores.

A Finlândia é um dos países onde mais nascem bandas com influências góticas, talvez o clima frio seja propício para isso… Sendo a finlandesa Nightwish o mais perfeito exemplo disto. Eles fazem um metal gótico misturado ao power metal, sendo uma das mais influentes do estilo. Mas isso já era de se imaginar, a banda possui o belíssimo vocal lírico de Tarja Turunen, aliado as profundas composições de Tuomas Holopainen e ainda conta com músicos de altíssima qualidade para complementar ainda mais a sonoridade do Nightwish.

Saídos do mesmo território que o Nightwish não poderíamos deixar de lado o love metal das bandas HIM e To/Die/For.
Também não podemos esquecer do For My Pain, do tecladista do nightwish e músicos da extinta Eternal Tears of Sorrow, do Poisonblack de Ville Laihiala ex-sentenced, do próprio Sentenced, dos veteranos do The 69 Eyes, do Entwine, entre muitas outras, afinal as bandas finlandesas nunca param de aparecer…

O Brasil também possui diversas bandas que fazem um som de altíssima qualidade, apenas ainda não caíram nas graças das grandes gravadoras, mas esbanjam competência para isso. Bons exemplos de bandas góticas nacionais podemos ter com a Simphonia Nocturna e a santista Master of Darkness, que além de covers possuem trabalhos próprios e estão apenas esperando ser descobertos para compartilhar seu talento com o resto do mundo.

Portugal já contribuiu com o cenário gótico mundial com a maravilhosa Moonspell, que vem presenteando o mundo com as composições de Fernando Ribeiro desde 1989.

Dos países latinos a Itália também gerou o Lacuna Coil, que agora encanta ao mundo com a belíssima voz de Cristina Scabbia.

Recentemente temos ouvido falar muito de duas bandas, cujos líderes deixaram suas antigas bandas que já tinham conquistado seu lugar na cena gótica, para partirem para novos projetos.

É esse o caso do recém surgido Epica, do ex-After Forever Mark Jansen, com seu som inovador repleto de influências árabes, e a mais perfeita harmonia entre o vocal gutural e o lírico. Possui apenas um álbum full-length lançado, o The Phanton Agony, mas já conquistou inúmeros fãs em todos os cantos do mundo. É o caso também do Sirenia, que surgiu logo depois de Morten Veland deixar o Tristania. Morten sentiu se realizado com a banda, tanto como compositor quanto como músico. Compôs, arranjou e tocou os dois álbuns da banda, que existe deste 2001.

Por Daniele Ferreira
16 de Junho de 2004.

A arquitetura Gótica

A arquitetura gótica, em termos de estética, qualidade, estrutura e acabamento, é considerada uma das mais belas e fascinantes de todo o mundo.

O estilo gótico é identificado como o período das grandes catedrais. De fato, com suas construções começaram a ser definidos os princípios fundamentais desse estilo. O gótico teve início na França, novo centro de poder depois da queda do Sacro Império, emmeados do século XII, e terminou aproximadamente no século XIV, embora em alguns países do resto da Europa, como a Alemanha, se entendesse até bem depois de iniciado o século XV.

O gótico era uma arte imbuída da volta do refinamento e da civilização na Europa e o fim do bárbaro obscurantismo medieval. A palavra gótico, que faz referência aos godos ou povos bárbaros do norte, foi escolhida pelos italianos do renascimento para descrever essas descomunais construções que, na sua opinião, escapavam aos critérios bem proporcionados da arquitetura.

Foi nas universidades, sob o severo postulado da escolástica – Deus Como Unidade Suprema e Matemática -, que se estabeleceram as bases dessa arte eminentemente teológica. A verticalidade das formas, a pureza das linhas e o recato da ornamentação na arquitetura foram transportados também para a pintura e a escultura. O gótico implicava uma renovação das formas e técnicas de toda a arte com o objetivo de expressar a harmonia divina.

A arquitetura gótica se apoiava nos princípios de um forte simbolismo teológico, fruto do mais puro pensamento escolástico: as paredes eram a base espiritual da Igreja, os pilares representavam os santos, e os arcos e os nervos eram o caminho para Deus. Além disso, nos vitrais pintados e decorados se ensinava ao povo, por meio da mágica luminosidade de suas cores, as histórias e relatos contidos nas Sagradas Escrituras.

O século X encontra a Europa em crise. O poder real, enfraquecido, foi substituído pelo feudalismo. Invasões ameaçam a França. Desprotegidos, o povo se organiza em torno dos castelos feudais, únicas – e precárias – fortalezas. A tensão popular conttribui para que se espalhe a crença propagada pela Igreja de que se aproxima o juízo final: o mundo vai acabar no ano 1000. A arte românica, expressão estética do feudalismo, reflete o medo do povo. Esculturas anunciam o apocalipse, pinturas murais apavorantes retratam o pânico que invade não só a França mas toda a Europa Ocidental. Chega o ano 1000 e o mundo não acaba. Alguma coisa precisa acontecer.
Em 1905, surgem as primeira Cruzadas. O feudalismo ainda permanece, mas tudo indica que não poderá resistir por muito tempo. Novos pensadores fazem-se ouvir, propagando suas idéias. Fundam-se as primeiras Universidades. Subitamente, a literatura cresce em importância. Muitos europeus, até então confinados à vida nas aldeias, passam a ter uma visão mais ampla do mundo. Profunda mudança social está a caminho.

Pressentindo a queda do feudalismo, a arte antecipa-se aos acontecimentos e cria novo estilo, que irá conviver durante certo tempo com o românico, mas atendendo às novas necessidades. Verdadeiro trabalho de futuristas da época, o estilo gótico surge pela primeira vez em 1127, na arquitetura da basílica de Saint-Denis, construída na região de Ile-de-France, hoje Paris.

As Catedrais Góticas

A primeira diferença que notamos entre a igreja gótica e a românica é a fachada. Enquanto, de modo geral, a igreja românica apresenta um único portal, a igreja gótica tem três portais que dão acesso à três naves do interior da igreja a nave central e as duas naves laterais.

A arquitetura expressa a grandiosidade, a crença na existência de um Deus que vive num plano superior; tudo se volta para o alto, projetando-se na direção do céu, como se vê nas pontas agulhadas das torres de algumas igrejas góticas.

A rosácea é um elemento arquitetônico muito característico do estilo gótico e está presente em quase todas as igrejas construídas entre os séculos XII e XIV.

Outros elementos característicos da arquitetura gótica são os arcos góticos ou ogivais e os vitrais coloridíssimos que filtram a luminosidade para o interior da igreja.

As catedrais góticas mais conhecidas são Catedral de Notre Dame de Paris e a Catedral de Notre Dame de Chartres.

A Pintura Gótica

A pintura gótica desenvolveu-se nos séculos XII, XIV e no início do século XV, quando começou a ganhar novas características que prenunciam o Renascimento. Sua principal particularidade foi a procura o realismo na representação dos seres que compunham as obras pintadas, quase sempre tratando de temas religiosos, apresentava personagens de corpos pouco volumosos, cobertos por muita roupa, com o olhar voltado para cima, em direção ao plano celeste.

Os principais artistas na pintura gótica são os verdadeiros precursores da pintura do Renascimento.

Giotto é um dos maiores e melhores representantes desse estilo, a principal característica do seu trabalho foi a identificação da figura dos santos com seres humanos de aparência bem comum. E esses santos com ar de homem comum eram o ser mais importante das cenas que pintava, ocupando sempre posição de destaque na pintura. Assim, a pintura de Giotto vem ao encontro de uma visão humanista do mundo, que vai cada vez mais se firmando até ganhar plenitude no Renascimento.

Suas maiores obras são os Afrescos da Igreja de São Francisco de Assis (Itália) e Retiro de São Joaquim entre os Pastores.

O pintor Jan Van Eyck procurava registrar nas suas pinturas os aspectos da vida urbana e da sociedade de sua época. Nota-se em suas pinturas um cuidado com a perspectiva, procurando mostrar os detalhes e as paisagens.

Suas maiores obras são: O Casal Arnolfini e Nossa Senhora do Chanceler Rolin.

A ilustração gótica

Iluminura é a ilustração sobre o pergaminho de livros manuscritos (a gravura não fora ainda inventada, ou então é um privilégio da quase mítica China). O desenvolvimento de tal genero está ligado à difusão dos livros ilustrados patrimônio quase exclusivo dos mosteiros: no clima de fervor cultural que caracteriza a arte gótica, os manuscritos também eram encomendados por particulares, aristocratas e burgueses. É precisamente por esta razão que os grandes livros litúrgicos (a Bíblia e os Evangelhos) eram ilustrados pelos iluministas góticos em formatos manejáveis.

Durante o século XII e até o século XV, a arte ganhou forma de expressão também nos objetos preciosos e nos ricos manuscritos ilustrados. Os copistas dedicavam-se à transcrição dos textos sobre as páginas. Ao realizar essa tarefa, deixavam espaços para que os artistas fizessem as ilustrações, os cabeçalhos, os títulos ou as letras maiúsculas com que se iniciava um texto.

Da observação dos manuscritos ilustrados podemos tirar duas conclusões: a primeira é a compreensão do caráter individualista que a arte da ilustração ganhava, pois destinava-se aos poucos possuidores das obras copiadas, a segunda é que os artistas ilustradores do período gótico tornaram-se tão habilidosos na representação do espaço tridimensional e na compreensão analítica de uma cena, que seus trabalhos acabaram influenciando outros pintores.

Os vitraios

O efeito milagroso dos vitrais, que foram usados em quantidades cada vez maiores à medida que a nova arquitetura começava a comportar mais janelas, de dimensão cada vez maiores. No entanto, a técnica do vitral já havia sido aperfeiçoada no período românico, e os estilo dos desenhos demorou a mudar, embora a quantidade de vitrais exigida pelas novas catedrais fizesse com que as iluminuras deixassem de ser a forma principal de pintura. Criar uma figura verdadeiramente monumental com as técnicas dos escultores, em si é algo como um milagre: os primitivos métodos medievais de manufatura de vidros não permitiam a produção de grandes vidraças, de modo que essas obras não de pintavam sobre vidro, mas sim “pintura com vidro”, com exceção dos traços em preto ou marrom que delineavam os contornos das figuras. Sendo mais trabalhosa que a técnica dos mosaicistas bizantinos, a dos mestres-vidreiros envolvia a junção, por meio das tiras de vidro, dos fragmentos de formas variadas que acompanhavam os contornos de seus desenhos. Sendo bastante adequado quando ao desenho ornamental abstrato, o vitral tende a resistir a qualquer tentativa de se obter efeitos tridimensionais.

O uso do arcobotante e dos contrafortes tornou possível o emprego de grandes aberturas preenchidas com belíssimos vitrais.

A função dos vitrais não se reduz à de mero complemento decorativo da igreja gótica. O vitral – parede translúcida – adquire caráter estrutural ao contribuir decisivamente para a configuração de um determinado sentido da arquitetura; mais exatamente do espaço interior.
Após 1250, houve um declínio da atividade arquitetônica, o que reduziu as encomendas de vitrais. Nessa época, entretanto, a iluminura adaptara-se ao novo estilo, cujas origens remontavam às obras em pedra e vidro.

Giotto

Giotto di Bondone, 1267-1337. O revolucionário tratamento que dava à forma e o modo que representava realisticamente o espaço “arquitetônico” (de maneira que as dimensões das figuras eram proporcionais às das construções e paisagens circundantes) assinalaram um grande passo adiante na história da pintura. A opinião generalizada é que a pintura gótica chegou a seu ápice com Giotto, o qual veio a ordenar, abarcar e revigorar tão esplendidamente tudo que se fizera antes.Pela primeira vez temos na pintura européia o que o historiador Michael Levey denomina “uma grande personalidade criativa”. No entanto, a verdadeira era das personalidades criativas foi a Renascença, e não sem motivo que os estudiosos desse período começam sempre por Giotto.Um gigante, ele encompassa as duas épocas, sendo homem de seu tempo e, simultaneamente, estando à frente dele.As datas, porém coloca-nos firmemente no período gótico, com sua ambiência de graça espiritual e um deleite primaveril no frescor das cores e na beleza do mundo visível. A realização das artistas góticos foi representar solidez da forma, ao passo que pintores anteriores mostravam um mudo essencialmente linear, carente de volume e pobre de substância (a despeito de seu vigor espiritual).

Para Giotto, o mundo real era a base de tudo. O pintor tinha verdadeira intuição da forma natural, criando uma maravilhosa solidez escultórica e uma humanidade sem afetações, características que mudaram os rumos da arte.

A Capela degli Scrovegni, em Pádua, Itália, está adornada com a maior das obras de Giotto que chegaram até nós, um ciclo de afrescos pintado por volta de 1305 para mostrar cenas da vida da Virgem e da Paixão.Os afrescos dão volta às paredes da capela.

Outros artistas sobressaíram na pintura gótica, sendo eles: Simone Martini (discípulo de Duccio), os irmãos Lorenzetti Pietro e Ambrogio (identificaram com Giotto).

Escultura Gótica

De modo geral a escultura do período gótico estava associada à arquitetura. Nos tímpanos dos portais, nos umbrais ou no interior das grandes igrejas, os trabalhos de escultura enriqueceram artisticamente as construções e documentaram na pedra, os aspectos da vida humana.

Os portais da fachada de Saint-Denis e os admiráveis portais principais da Catedral de Chartres trata-se, provavelmente, dos mais antigos e completos exemplos da escultura gótica. A simetria e a clareza substituíram os movimentos frenéticos e as multidões; as figuras não são mais emaranhadas entre si, mas eretas e independentes, de modo que se visualiza muito melhor o conjunto a grande distância. É particularmente admirável o tratamento dado às ombreiras da porta, onde se alinham os de alinham figuras esguias adossadas a colunas. Em vez de serem tratadas essencialmente como relevos esculpidos na cantaria, ou projetando-se a partir dela, são na verdade estátuas, cada qual com seu próprio eixo; pelo menos em teoria, poderiam ser destacadas das colunas que lhes servem de suporte. As suas cabeças já possuem uma suavidade humana que evidencia a busca por uma maior realismo.

Na Alemanha a arte gótica como a conhecemos até o presente, reflete um desejo de conferir aos temas tradicionais do cristianismo, um apelo emocional cada vez mais intenso, mas destinada a devoções particulares. A escultura gótica italiana, assim como a arquitetura, ocupa um lugar a parte em toda a Europa. Iniciou-se provavelmente no extremo sul, na Apúlia e na Sicília, que tinham preferências que favoreciam ao estilo clássico.

Cinema Gótico

A sétima arte está repleta de obras-primas do gênero terror-suspense, filmes que de uma forma ou de outra expressam e exibem a face obscura e irracional da imaginação humana.

O gênero de cinema gótico nos remete as mais diversas sensações, desde o horror até os mais profundos sentimentos humanos.

Os filmes de terror nasceram praticamente junto com a cinematografia. O primeiro filme do gênero surgiu em 1896 e chamava-se “Escamotage d’Une Dame Chez Robert Houdin”, e em 1912 veio “A conquista do pólo” no qual um expedicionário era devorado pelo abominável homem das neves.

Passando por clássicos como O gabinete do Dr. Caligari de Weine e Nosferatu de Murnau, até o sádico Freddy Krueger nos anos 80, o gênero é um dos mais prolíficos já inventados.

Dentre os muitos filmes do gênero gótico famosos em todo o mundo, podemos citar entre os mais antigos “Frankenstein” e “Nosferatu”, que se transformaram em mitos do cinema gótico através dos anos. Entre os filmes mais atuais, podemos citar “A Lenda do cavaleiro sem cabeça”, “Entrevista com o vampiro”, “A Rainha dos Condenados”, entre muitos outros.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/a-cultura-gotica/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/a-cultura-gotica/

A Compreensão Espagírica dos Remédios

Beat Krummenacher

Excerto de Spagyric Tinctures: tradition, Preparation and Usage

Quase todos os métodos usados ​​hoje para preparar fitoterápicos (remédios vegetais) têm o objetivo comum de isolar, ou pelo menos reforçar, um ingrediente eficaz da planta. A tendência é obter uma caracterização clara e inequívoca de preparações farmacologicamente ativas e puras. Além dessa abordagem (de isolar ingredientes eficazes), há também o uso histórico e bem-sucedido de extratos de toda a planta, que muitas vezes é mais eficaz do que os compostos eficazes isolados. Uma explicação para este fenômeno é que em toda a planta existem substâncias “transmissoras” que permitem uma melhor absorção dos compostos eficazes no trato gastrointestinal. Mas mesmo em casos como esse é assumida uma correlação direta entre a substância química e a eficácia do remédio. Todos os métodos comumente usados ​​para preparar remédios de ervas são muito simples. Na maioria das vezes, a abordagem é preparar um extrato aquoso ou alcoólico de uma planta por maceração, extração ou outros métodos simples. Esses métodos têm o único objetivo de concentrar ou isolar os compostos eficazes que são conhecidos ou suspeitos de existirem. Assim, os métodos contemporâneos podem ser vistos como um resultado direto da compreensão teórica moderna do que constitui um remédio.

Aqui não encontramos diferença na Espagíria. Na Espagíria, também, a compreensão teórica determina os métodos práticos de trabalho. Assim, não se deve descartar prematuramente os métodos espagíricos sem conhecer a teoria espagírica. A falta ou o conhecimento insuficiente da teoria (da Alquimia) levou há algum tempo à conclusão de que a Espagíria é apenas a precursora da química moderna. Assim a espagíria é entendida como legitimamente descartada, porque sua teoria está desatualizada. Mas tal julgamento é prematuro e não faz justiça a a matéria. O fato é que os métodos simples para preparar tinturas de plantas comuns também eram bem conhecidos dos alquimistas. No entanto, eles não pouparam esforços para fazer seus remédios espagíricos. Repetidas vezes eles enfatizaram que o laborioso caminho da espagiria estava levando precisamente a remédios significativamente mais eficazes e mais benéficos do que os métodos dos “químicos”. Tal afirmação de quem conhecia os dois caminhos deveria nos fazer parar e pensar. Infelizmente, não temos estudos modernos que possam dar evidência clínica à afirmação de que as essências espagíricas são mais eficazes. Assim, teremos que primeiro tentar obter uma maior compreensão do lado teórico das preparações espagíricas.

Compreender os processos espagíricos básicos também nos ajuda a distinguir os procedimentos espagíricos verdadeiramente significativos dos “pseudospagíricos”. Mesmo nos círculos alquímicos, muitas vezes encontramos ignorância dos processos alquímicos reais, o que levou à introdução de elementos alienígenas nos procedimentos espagíricos de hoje. O quão importante é lidar seriamente com a Espagíria hoje se reflete no crescente interesse público em métodos alternativos de cura – que também incluem remédios espagíricos. Que o valor real das preparações espagíricas é muito maior do que o registro histórico mostra também é evidente quando consultamos o (Homeopathic Remedy Book), métodos espagíricos foram registrados lá, o que indica sua presença no mercado farmacológico. Para nos aproximarmos de uma compreensão da medicina espagírica, temos que explorar os importantes conceitos alquímicos dos Arcanos, de polaridade, bem como os três princípios alquímicos básicos.

Sobre o Arcano

Arcanum significa literalmente aquilo que é secreto. Seu significado é ilustrado pela seguinte citação de Paracelso: “O que vemos não é o remédio, mas o portador do remédio. Porque os arcanos dos elementos e do homem são invisíveis. O que é visível é o superficial, que não faz parte da essência curativa.” Essa parte invisível de cada substância médica é “toda a virtude da substância em mil vezes melhorada.” O Arcano é aquilo que é não-físico e indestrutível – é a parte eternamente viva da Natureza”. Um remédio, ou mais precisamente o que faz de uma substância um remédio, é aqui chamado de “arcano dos elementos”. Esses poderes de cura devem ser entendidos como princípios puramente abstratos ou espirituais, não materiais. Se entendermos os arcanos como princípios de cura imateriais que não podemos definir por sua substância material, isso não significa necessariamente que eles sejam ineficazes. No entanto, de acordo com o paradigma atualmente dominante, apenas assumimos como real aquilo que podemos perceber com os nossos sentidos e que é mensurável fisicamente. Este paradigma não permite uma avaliação concreta do conceito de arcanos, pois, segundo a tradição, os arcanos não são matéria bruta, mas realidades energéticas sutis. Paracelso muitas vezes chamou esses remédios transmitindo “arcanos” ao paciente e deixa inequivocamente claro que eles devem ser preparados alquimicamente: “Faça arcanos e aponte-os contra as doenças … Este é o caminho para curar e tornar saudável – tudo isso é realizado pela alquimia, sem a qual não poderia acontecer.” Com esta afirmação, ele também trouxe o fato de que os arcanos imateriais podem ser transmitidos. Isso significa que é possível preparar transmissores (os remédios espagíricos), que servem como veículos materiais dos poderes ocultos (arcanos). Esse tipo de pensamento diverge muito do nosso entendimento contemporâneo, que faz uma conexão causal entre o efeito e a substância. No entendimento atual, é a própria substância que realiza a cura, devido a alguma interação físico-química com o organismo. Para Paracelso e os alquimistas, a substância material não produz cura, mas é o veículo para os poderes causadores do efeito (curativo). A substância é apenas a matriz ou forma que serve para encarnar os arcanos.

Sobre as polaridades

Os hermetistas enfatizaram repetidamente que tudo o que existe está sujeito à lei da polaridade. Eles expressaram isso na forma da seguinte afirmação axiomática como parte dos sete princípios herméticos mencionados antes: “Tudo é duplo – tudo tem dois pólos, tudo tem seu par de opostos; semelhante e diferente é o mesmo; opostos são idênticos em natureza, apenas diferentes em grau; os extremos estão conectados; todas as verdades são apenas meias verdades; todas as contradições podem ser reconciliadas”. (Do Caibalion) Em todos os lugares encontramos polaridades: dia e noite, claro e escuro, quente e frio, atração e repulsão em eletricidade estática e magnetismo, grande e pequeno etc.

Mas esses extremos aparentemente opostos são apenas diferentes graus de expressão para uma mesma força básica. Dessa forma, atração e repulsão são resultados do mesmo magnetismo. Assim, atração e repulsão permanecem inalteradas quando nos aproximamos de um ímã com um pedaço de ferro – o poder magnético é o mesmo. Quente ou frio são ambos os aspectos da temperatura. Da mesma forma, dia (claridade) e noite (escuridão) são apenas aspectos da Luz que diferem em intensidade, enquanto grandes ou pequenos são aspectos de Tamanho.

Polo Negativo  ⬅️  Magnetismo ➡️  Polo Positivo

Frio  ⬅️  Temperatura  ➡️ Calor

Noite  ⬅️   Luminosidade  ➡️  Dia

Ilustração: Cada atributo, na verdade tudo o que existe, contém em si uma polaridade. Opostos (polaridades) são aspectos de uma propriedade ou força básica.

Os extremos aparentemente opostos de uma polaridade, assim, provam ser de natureza idêntica em relação à sua propriedade básica. Eles estão apenas ‘diferindo em grau’. Ambos os extremos tornam-se significativos apenas pelo efeito concreto que têm sobre um terceiro princípio. Também é possível defini-los pela existência ou ausência total de um dos princípios. Por exemplo, distinguimos entre luz e escuridão porque nosso olho percebe muita ou pouca luz. Mas na escuridão absoluta não há mais luz presente – o próprio princípio (luz) não aparece mais.

Da mesma forma, a potência médica como uma soma total de atributos curativos se manifesta de acordo com o princípio hermético da polaridade na forma de opostos polares. Um lembrete: Os poderes de cura que causam os efeitos curativos foram chamados de “arcanos” por Paracelsus. A alquimia define assim um remédio como uma preparação que transmite a potência dos arcanos para fins de cura. O oposto polar de curar é adoecer ou envenenar. Aqui também é verdade que o “grau” dos arcanos é experimentado por meio de sua interação com um terceiro princípio, ou seja com o organismo, onde demonstre atuar como agente curativo ou envenenador. A relatividade dessa determinação pode ser vista no fato de que algumas substâncias são curativas ou neutras para um animal, mas tóxicas para o ser humano. Paracelso, portanto, usa o termo “arcano” em um sentido duplo, o que é um fator crucial a ser considerado. Ele entende “arcano” como o remédio com poderes em geral, bem como o efeito que um extremo polar tem no corpo (cura), que ele chamou de remédio. Para evitar a falta de clareza nas páginas seguintes, nos referiremos aos arcanos apenas como os poderes imateriais subjacentes à cura ou envenenamento. O efeito desses poderes no organismo situa-se entre os extremos do remédio ou do veneno.

Veneno  ⬅️   Arcana  ➡️  Remédio

ilustração: “veneno ou remédio” é um par de opostos das forças ocultas de cura chamada arcana.

A diferença entre remédio e veneno em seu efeito sobre o organismo humano é, portanto, apenas uma questão de grau. Definimos o efeito curativo sobre o ser humano como construtivo, potencializador e harmonizador, enquanto o efeito do veneno é destrutivo, diminutivo e desarmônico.

A compreensão moderna vê a causa direta do efeito curativo de um remédio na substancialidade material do agente curativo. De acordo com os pensamentos desenvolvidos acima, a substância consiste em veneno e remédio! É por isso que o efeito depende da dosagem.

Quanto mais substância aplicarmos no paciente, mais intenso será o efeito farmacológico e uma dose alta pode até causar o inverso do efeito curativo desejado: uma overdose pode causar a morte do paciente. Paralelamente ao aumento da dosagem, o efeito curativo cresce, mas é sempre limitado pelo efeito venenoso: as propriedades destrutivas do veneno são potencializadas junto com os efeitos construtivos do remédio, até causar sintomas e defeitos manifestos ao impedir as funções celulares.

O Alquimista vai mais fundo: para ele, a substância é apenas o veículo dos arcanos. Não há nenhuma conexão convincente entre a substância física e seu efeito. Ele vê o efeito corretivo também nas substâncias “químicas” não processadas. No entanto, a conexão entre dosagem e efeito é interpretada de forma diferente em não-químicos, ou seja, preparações espagíricas, tomando uma forma alquímica. O alcance terapêutico é especialmente muito ampliado. Isso é conseguido primeiro dissociando e depois separando os princípios por procedimentos espagíricos: os arcanos são alterados em sua estrutura interna pela dissociação e depois liberados de sua conexão íntima com a substância física pela separação.

A diferença teórica básica entre as duas abordagens se reflete em sua prática: o Químico apenas separa, enquanto o Alquimista dissocia e depois separa. Essa importante diferença teórica e prática das duas abordagens também é encontrada na obra de Paracelso. Todas as citações citadas acima se referiam a Paracelso, o Alquimista. Mas, ao mesmo tempo, Paracelso estava bem ciente da diferença entre alquimia e química. A seguir, uma passagem muito citada de suas obras, quando a questão é retratar Paracelso como o fundador da química moderna: “Todas as snstâncias são venoosas, e nada é sem veneno, apenas a dose determina que uma substância seja não venenosa.”

Esta citação nos mostra que ele conhecia as características típicas da substância puramente química. Mas é também aparentemente uma contradição com a abordagem alquímica. Porque, enquanto o remédio não for preparado espagiricamente, o efeito sempre se mostra ligado à substância. O próprio Paracelso distinguiu precisamente entre as propriedades da matéria-prima não processada e da preparada quimicamente, por um lado, e as propriedades da preparação alquímica, por outro. Enquanto de acordo com Paracelsus na abordagem química a dosagem determina o veneno, isso não é verdade para a abordagem alquímica! A razão dessa diferença está no processo de dissociação dos arcanos, que é o elemento mais importante da Espagírica. Se aplicarmos a estrutura dada acima, podemos elucidar ainda mais essa diferença comumente incompreendida.

Separação Química: Os arcanos entre os extremos do veneno e do remédio são inseparáveis ​​da substância material, a menos que sejam dissociados via procedimento Alquímico. Ao usar extrações simples, também estamos aplicando um processo de separação. Certas substâncias aparecem no extrato, outras ficam no resíduo. Mas os alquimistas afirmam que uma simples extração não dissocia o “puro do impuro” (‘puri ab impuro’); é apenas um processo de separação.

Apenas a Putrefação pode levar à dissociação dos arcanos. Por enquanto, aceitaremos essa alegação como verdadeira e examinaremos as consequências que isso tem sobre os procedimentos químicos. O extrato também contém os arcanos sem alterá-los; na melhor das hipóteses, aumentamos sua concentração se os compostos ativos que carregam os arcanos forem dissolvidos no extrato. Podemos então reduzir a dosagem, mas em princípio não mudamos nada. Dependendo da dosagem, o homem ainda está confinado ao alcance efetivo dos arcanos entre veneno e remédio.

Substância Bruta:

Veneno  ⬅️       Arcana      ➡️  Remédio
(separação química)

Remédio Químico:

Veneno  ⬅️        Arcana        ➡️  Remédio
⬇️                            ⬇️
⬇️                            ⬇️
⬇️                            ⬇️  


Veneno  ⬅️Substancias isoladas➡️ Remédio

   Ilustração 5: Nas preparações químicas os arcanos não são alterados estruturalmente. Eles continuam a afetar o homem na polaridade ‘Veneno’ e ‘Remédio’.

Dissociação Espagírica: Em contraste, a Putrefação dos Alquimistas leva a uma mudança na estrutura interna dos arcanos. O Alquimista sabe exaltar (elevar) os Arcanos para que não haja mais efeitos venenosos sobre o homem. Os mesmos arcanos são transmitidos através de um remédio alquímico, mas são alterados na medida em que têm um efeito unicamente harmonizador sobre o organismo humano. Efeitos destrutivos não são mais possíveis. Esse fato pode ser resumido na seguinte frase: O remédio é dissociado do veneno. (Dissociação do ‘Falso’ do ‘Verdadeiro’). E ainda assim a polaridade é preservada! Porque o pólo que anteriormente chamamos de “remédio” é em si mesmo de natureza dual. O remédio mostra um lado nobre e um lado menos nobre. Mas em relação ao homem ambos os pólos têm um efeito curativo, porque através do processo espagírico todas as energias destrutivas (venenos) foram eliminadas. Este é o aspecto invisível da dissociação alquímica (ilustração abaixo). Em um processo paralelo, os arcanos também são separados de sua substância portadora física: é possível isolar, por métodos simples de separação, apenas aquelas substâncias químicas que servem como portadores ótimos dos arcanos em sua forma exaltada. Todos os elementos que obstruem o efeito do remédio são eliminados. A essência espagírica emerge assim também em uma forma externamente purificada. Este é o aspecto visível da dissociação alquímica.

Substância Bruta:

Veneno  ⬅️       Arcana      ➡️  Remédio
(separação química)

Dissociação Espagírica:

Veneno  ⬅️       Arcana      ➡️  Remédio
❌                      ⬇️
⬇️
⬇️
Menos Nobre  ⬅️Remédio➡️ Mais Nobre

Ilustração: Na preparação espagírica há sempre primeiro uma mudança na estrutura interna dos arcanos. Somente o pólo remédio dos arcanos afeta o homem. Mas a polaridade do poder de cura também tem uma natureza dupla, que é indicada pelo sinal + (para o aspecto nobre) e pelo sinal – (para o aspecto menos nobre).

Uma citação da “Carruagem Triunfante do Antimônio” de Basilius Valentinus ilustra esses pensamentos. Seu texto trata do processamento espagírico do antimônio, que na época era o nome do minério de sulfeto de antimônio (stibnita). Como a base teórica da Espagírica é universal, também podemos consultar um trabalho sobre minerais para fins de ilustração. Veremos que os parágrafos acima correspondem exatamente ao pensamento alquímico em geral.

Basil Valentine tem plena consciência de que o antimônio comum é venenoso e inutilizável como remédio: … “É por isso que ninguém o usa – porque é venenoso.” Mas isso muda à medida que o espagirista processa o antimônio: “Depois da correta e verdadeira preparação do antimônio não há mais nenhum veneno presente, o antimônio deve ser totalmente e completamente modificado pela arte espagírica, para que o veneno possa se transformar em um remédio. Sem tal preparação você não terá uso do antimônio, mas virá a causar danos e problemas.” Ele descreve o processo de dissociar o puro e o impuro, o veneno e o remédio da seguinte forma: “Você deve cuidadosamente dissociar o Antimônio, o bom do ruim, o fixo, do não-fixo e o remédio do veneno, para que assim possa resultar em verdade e honra… Ninguém deve se surpreender que nós dissociemos o puro do impuro, o veneno do remédio… porque isso é provado no trabalho diário da experiência do Proba… Porque o veneno é removido pelo processo de dissociação e a mudança do mal ao bem ocorre.. é assim que o fogo trás a dissociação do veneno e do remédio, do bem e do mal.”

Os Três Princípios Alquímicos

Estabelecemos que os alquimistas entendiam os arcanos como os poderes invisíveis de cura em uma forma material específica. O arcano aparece como uma polaridade entre o veneno e o remédio em relação a um terceiro princípio, o organismo humano. Mas os arcanos são energias invisíveis escondidas na substância, que é apenas seu portador ou matriz. Dissemos também que o processo espagírico é distinto do método químico na medida em que provoca uma mudança na estrutura interna dos arcanos por meio da Putrefação. Foi assim que descrevemos o processo espagírico fundamental de dissociação. Mas isso ainda não é o suficiente para explicar o mecanismo da mudança nos arcanos e na substância. Ainda não está claro o que permite a transmutação de um veneno em um agente curativo.

Para responder a esta questão, temos que olhar mais de perto os arcanos: Os alquimistas afirmam que tudo na natureza consiste em três princípios essenciais, que eles denominaram Sal (sal), Sulfur (enxofre) e Mercurius (mercúrio): “Estes três – mercúrio, enxofre e sal – nunca estão sem o outro; onde você encontra um, há sempre todos os três unidos, e em todo o mundo não há nada que não consista desses três – e destes três é feito tudo o que está no mundo.”

Ilustração: Os três princípios alquímicos e seus símbolos

É claro que os três princípios não são idênticos ao que hoje entendemos como mercúrio, enxofre ou sal químicos. Repetidamente este fato tem levado e leva a mal-entendidos. No entanto, as palavras não foram escolhidas aleatoriamente – as propriedades do sal comum, mercúrio e enxofre correspondem fenomenologicamente às propriedades dos princípios alquímicos abstratos. Curiosamente, os três princípios alquímicos encontram uma representação surpreendente na física. Contemplando a descrição de uma vibração física, cuja forma mais simples é a curva seno ou cosseno, podemos distinguir três parâmetros que descrevem completamente uma curva:

1. A forma da curva, no nosso caso senos ou cossenos. Esta é uma expressão da qualidade, a maneira como algo vibra ou como vibra.

2. A amplitude, que é a medida para a quantidade ou grau de desvio do meio

3. A frequência ou o número de vibrações por unidade de tempo, que é uma medida para o movimento da vibração, sua excitação.

Cada vibração – por mais complicada que seja – pode ser demonstrada como um padrão de interferência único de vibrações harmônicas (análise de Fourier). A forma ou qualidade de uma vibração mais complicada é expressa no espectro de frequências, a quantidade de amplitudes – sendo a amplitude total composta pela soma das amplitudes individuais – e também a própria frequência que define a vibração. Podemos comparar essas formas de definir uma curva com a descrição dos três princípios alquímicos, como os encontramos nos textos alquímicos:

O sal é o princípio de condensação e endurecimento, que permite a coesão da matéria. O sal também pode ser chamado de princípio de fixação ou firmeza. É o componente material ou estático (fixo) em todas as coisas, a corporeidade da substância e da materialização. Depois de submeter uma substância ao fogo, o Sal permanece como a parte indestrutível da substância – sem forma. Assim, podemos caracterizar o Sal também como relacionado à quantidade (amplitude). Em relação ao homem, Sal significa o corpo físico como um todo.

O enxofre é a propriedade característica de uma substância. Ele define a essência, a alma. O enxofre nos mostra com o que estamos lidando – denota forma, cor, forma e outras propriedades características. O enxofre também indica quão bem uma substância queima. Assim, Enxofre refere-se à qualidade de uma substância. No homem, o enxofre significa a alma.

O princípio do movimento está contido em Mercúrio. Mercúrio é também o princípio vivificante, o espírito. Mercúrio é a energia vital, a força motriz, despertando para a vida as qualidades específicas (Enxofre) dentro do corpo (Sal). Movimento é mudança, e mudança está ligada ao tempo. Mercúrio, portanto, relaciona-se com o conceito de frequência. No homem, o mercúrio é a essência da vida ou espírito.

Sal, Enxofre e Mercúrio (corpo, alma e espírito) são, portanto, análogos às propriedades físicas que descrevem exaustivamente uma vibração. Mas, de acordo com a física moderna, tudo o que é material nada mais é do que energia – energia vibratória. Nesse contexto, a afirmação dos alquimistas de que tudo consiste em três princípios básicos é surpreendentemente relevante e significativa.

Sal Sulfur Mercurius
Sal Enxofre Mercurio
Amplitude Forma da Curva Frequência
Quantidade Qualidade Movimento
Ser Físico Gestalt, Essência Energia Vital, Mutabilitade
Corpo Alma Espírito

Ilustração: Algumas analogias para os três princípios alquímicos

Agora podemos entender melhor o significado abstrato dos três princípios. Mas temos que ter em mente que Sal, Enxofre e Mercúrio também podem se manifestar fisicamente. Todo princípio se materializa na forma física de acordo com suas propriedades. Também temos que considerar a polaridade do visível e do invisível. As três manifestações materiais juntas formam o “Corpus”, que percebemos com nossos sentidos; suas potências internas de poder, porém, os tríplices arcanos, permanecem invisíveis É somente através do processo espagírico que o Corpus pode ser destruído e Sal, Enxofre e Mercúrio, tanto em sua forma física quanto em sua forma invisível, podem ser acessados ​​para uso terapêutico.

Paracelso descreve o aspecto material dos três princípios da seguinte forma: “Há três substâncias que dão a cada coisa seu Corpus – três coisas compõem cada coisa física. Os nomes dessas três coisas são Enxofre, Mercúrio e Sal. Quando esses três são unidos em um, então isso é chamado de corpus… Então, em uma forma de qualquer corpus, estão contidas invisivelmente todas as três substâncias… por exemplo, se você pegar um pedaço de lenha na mão, então verá só uma coisa (corpo/corpus) … agora queime-o … o que queima é o enxofre – nada queima além do enxofre; a fumaça indica o Mercúrio – nada sublima além de Mercúrio, e o que você encontra como cinzas é Sal – nada sobra nas cinzas, senão Sal.”

A passagem a seguir explica o significado abstrato dos três princípios: “Sabemos assim que nos três princípios, tudo o que é quebrado ressuscita; uma árvore vazia de seu líquido (mercúrio) secaria, se o enxofre fosse retirado da árvore não teria forma e se o sal fosse retirado, não teria coesão, mas ele se desfaria como um barril sem o anel de ferro … “A manifestação visível e invisível dos três princípios torna-se ainda mais evidente quando as estamos rastreando em uma planta: “cada planta de acordo com sua natureza é composta de três coisas, ou seja, sal, enxofre e mercúrio: esses três se juntam e então formam um corpus, um ser unificado. .. Mas sabemos que forma esses três princípios assumem: um é um líquido e esse é o mercúrio, outro é um óleo e esse é o enxofre e um é alcalino e esse é o sal”.

Especificado quimicamente:

Sal: Os sais minerais solúveis lixiviados da substância vegetal calcinada são chamados de álcalis ou Sal. Este ao mesmo tempo é o princípio da fisicalidade – indestrutível pelo fogo – a quantidade.

Enxofre: As partes voláteis, oleosas e principalmente perfumadas da planta são o enxofre. Mais proeminentemente encontramos este princípio nos óleos essenciais. Essas substâncias que caracterizam cada planta também são uma ilustração adequada do modelo alquímico: o enxofre pode ser entendido como a alma ou essência de uma planta.

Mercúrio: Mercúrio foi definido como energia vital, como o princípio do movimento. É o espírito ainda invisível que só se manifesta após a putrefação (fermentação). Se fermentamos uma planta obtemos seu espírito como álcool etílico e outros produtos altamente voláteis da fermentação. Ainda hoje a palavra “espíritos” é usada para bebidas alcoólicas em referência a essa conexão. (Ilustração 10)! O princípio vivificante do mercúrio não está vinculado a nenhuma espécie de planta. Todas as plantas compartilham o princípio da vida. O ponto de vista alquímico explica assim facilmente que após a fermentação de diferentes espécies vegetais o mesmo espírito aparece na forma física (matriz química) do álcool etílico.

Ilustração: Forma material dos três princípios dentro das plantas (Corpo, Alma e Espírito), (Sais Minerais, Óleos Essenciais e Álcool)

A Estrutura Interna dos Arcanos

Agora podemos entender mais precisamente a estrutura interna dos arcanos: Os arcanos são, por um lado, a potência curativa ou poderes ocultos de cura da planta; por outro lado, estão vinculados à manifestação material da planta. Os arcanos são energias, mostrando-se em forma tríplice. A substância, como portadora dos arcanos, também espelha sua estrutura interna de forma tripla. Esses três princípios, invisíveis e visíveis, são chamados de Sal, Enxofre e Mercúrio. Os arcanos também estão sujeitos à polaridade. Definimos os dois pólos dessa polaridade como veneno e remédio. Podemos agora entender a polaridade do veneno e do remédio como um efeito da tríplice subestrutura dos arcanos. Assim podemos retratar.

Veneno  ⬅️       Arcana      ➡️  Remédio
↕️                       ↕️                        ↕️
Veneno  ⬅️           Sal         ➡️  Remédio
Veneno  ⬅️       Enxofre     ➡️  Remédio
Veneno  ⬅️       Mercúrio     ➡️  Remédio

Ilustração: Em sua estrutura interna, os arcanos mostram uma tripla polarização

Se quisermos liberar apenas o lado do remédio dos arcanos, temos que considerar corretamente sua estrutura interna. Só então podemos escolher o procedimento certo para alcançar uma completa dissociação e separação. Apenas assim podemos prosseguir na compreensão do processo espagírico básico.

O Processo Espagirico

O objetivo do processo espagírico é obter os arcanos – que definimos como energias de cura vibratórias – de tal forma que a preparação espagírica resultante contenha apenas frequências, amplitudes e formas curvas de cura que são benéficas para o organismo tratado. Todas as vibrações desarmônicas de frequência inferior devem ser eliminadas. Como poderes de cura invisíveis, os arcanos não podem ser acessados ​​diretamente, mas apenas indiretamente através da substância transportadora. Assim, é vital eliminar e separar todas as substâncias portadoras de materiais com baixas frequências, formas de curvas desarmônicas ou amplitudes ásperas (grossas). O procedimento mais fácil seria obter os arcanos em um  único passo – e fazê-lo como um todo – na forma de um remédio puro. Mas quando na prática processamos as plantas, percebemos que esse método de uma etapa é impossível. Se extraímos assim, partes essenciais da planta ficam no resíduo e sua quantidade depende do solvente. Se destilamos, obtemos apenas as partes voláteis, e todos os minerais são perdidos nesse processo. Se queimamos a planta, queimamos os óleos e substâncias etéreas típicos junto com os componentes orgânicos e os únicos resíduos são os componentes inorgânicos. Em suma, é impossível obter todos os três princípios ao mesmo tempo. A separação “química” de um princípio leva à destruição ou perda dos outros. Assim, só nos resta uma escolha: primeiro temos que deixar a planta morrer, ou seja, precisamos processá-la de maneira que os três princípios firmemente unidos na planta viva sejam dissociados sem destruição ou perda de nenhum princípio. Este primeiro passo de todos os processos espagíricos os alquimistas chamavam de Putrefatio (putrefação), Digestão, Fermentação etc. Há diferentes nomes para este processo, porque diferentes métodos são aplicados dependendo das substâncias que são a base da dissociação. Somente a putrefação pode dissociar os princípios alquímicos e separar sua polaridade inata de veneno e remédio. Somente a morte da substância possibilita o nascimento da essência pura. Um autor anônimo descreveu esse processo em 1782 da seguinte forma: “A morte é a putrefação, a separação do bem e do mal, do puro do impuro; através disso, o novo corpo e a tintura podem renascer. como uma folha de grama cresce de uma semente, assim também o corpo velho dá à luz o novo corpo através da putrefação.” Kirchweger diz: “Nós, portanto, começamos no portão principal da natureza – na chave e ponto de origem de todo nascimento, destruição e renascimento – sem esta chave não podemos sondar o fundo dos mistérios da Natureza, e esta chave é o ponto focal da arte da dissociação: chama-se putrefação… Portanto, não podemos esperar a verdadeira dissociação sem maceração, digestão ou fermentação … ”

Ilustração: Somente a morte permite o despertar para uma nova vida. Quem sabe isso colherá frutos abundantes (simbolizado pelo trigo na beira do túmulo) e acertará o alvo, ou seja, praticará com sucesso. A putrefação correta é a chave para toda a arte (veja a chave acima do alvo).

Tendo assim desvendado a substância, temos que separar os princípios uns dos outros. Somente após essa dissociação os procedimentos de separação “químicos” fazem algum sentido, pois os princípios dissociados podem agora ser isolados. Agora podemos obter Sal, Enxofre e Mercúrio sem destruir ou perder nenhum dos outros princípios. Para este fim são utilizados os processos de destilação, calcinação, etc. Mas não basta separar Sal, Enxofre e Mercúrio um do outro. Também temos que purificar cada princípio de acordo com sua polaridade inerente. A purificação é conseguida através do uso de um fogo externo. Porque cada substância pode ser purificada sem destruir sua essência no fogo.” No entanto, a temperatura certa deve ser aplicada, dependendo das propriedades específicas da substância. Exemplo: Os compostos de sal ativamente carregados são os únicos componentes que sendo sais amorfos são mortos e alquimicamente inúteis – por isso foram apropriadamente chamados de ‘caput mortuum’ (cabeça da morte). Se usarmos (relativamente falando) temperaturas muito altas na calcinação de uma planta, obtemos os componentes inorgânicos nas cinzas. Só neste ponto podemos dissolver os sais alquimicamente valiosos do ‘caput mortuum’, mas se quiséssemos fazer uma destilação para obter enxofre e mercúrio nas mesmas altas temperaturas, isso levaria à queima dos resíduos no frasco, inutilizando todo o destilado. Se finalmente separamos e purificamos os princípios, eles devem ser trazidos para uma nova unidade. Isso porque somente a conjunção do três princípios constituem os arcanos, que agora aparecem em uma nova e completa forma (Gestalt) como a potência ativa de cura sem a polaridade do veneno. Assim, o processo espagírico básico prossegue em quatro etapas:

1. A Putrefactio (Putrefação) ou fermentação
2. A Separatio (Separação) dos princípios
3. A Purificatio (Purificação) dos princípios
4. A Cohobatio (Coobação ou conjunção) dos princípios ou o casamento químico, produzindo a essência espagírica

Neste processo quaternário está o segredo da obtenção de preparações espagíricas. Agora podemos ver que  tinturas comuns, extrações, decocções etc., só em parte podem fazer uso dos poderes curativos das plantas. Nessas preparações, os três princípios não são completos, nem purificados, nem combinados em suas propriedades curativas. Também o processo de putrefação – tão essencial à dissociação dos três princípios – está ausente nos procedimentos químicos. Portanto, os ‘quimistas’ nunca podem libertar um princípio sem destruir outros ao mesmo tempo. Em contraste, a preparação espagírica “desbloqueia” completamente a planta, de modo que o caminho é aberto para a obtenção da essência espagírica contendo apenas os princípios purificados.

Traduçao: Tamosauskas

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-compreensao-espagirica-dos-remedios/

Astrologia: Alavanca ou Muleta?

Por Divani Terçarolli

Quem ama a Astrologia e a conhece de fato, sabe o quanto ela é verdadeira e conhece seu potencial inesgotável de elucidar vários aspectos de nossa vida – material, emocional, espiritual, etc. Infelizmente a maioria das pessoas ainda não descobriu o valor desse saber milenar e a vê como coisa de pessoas supersticiosas, influenciáveis ou intelectualmente carentes.

Muitos astrólogos têm dedicado suas vidas a esclarecer as pessoas sobre a natureza e a utilidade prática da Astrologia. A CNA – Central Nacional de Astrologia tem feito isto pelo Brasil afora. É nossa vocação defender a Astrologia. Deve ser a paixão que nutrimos por essa ‘velha senhora’ que faz de cada um de nós um leão quando se trata de defendê-la.

Mas todo esse esforço se torna em vão quando muitas pessoas, que tiveram acesso ao conhecimento astrológico, dele se valem para justificar atitudes equivocadas e até grosseiras. É comum ouvir pessoas dizendo que são do jeito que são porque tem Saturno ou Plutão no Ascendente ou Lua em quadratura com este ou aquele planeta. Eu, particularmente, fico perplexa com isso. Afinal, a Astrologia não é para o autoconhecimento? E de que vale sabermos que somos desse ou daquele jeito, que temos esta ou aquela deficiência, se nada fazemos para melhorar? Conhecer-se deveria ser a senha para procurar lapidar a si mesmo, não é? Quem utiliza a influência astrológica como desculpa esfarrapada para suas dificuldades pessoais não merece a Astrologia, não está à altura desse conhecimento sagrado, pois como todos sabem os planetas não causam os acontecimentos, apenas os refletem, assim como o relógio não cria o tempo, apenas o mede.

A Astrologia constitui uma excelente ferramenta de diagnóstico. Infelizmente ela não trata. Não temos como saber o que a pessoa vai fazer com a informação que obtém. Mas como se diz por ai “o primeiro passo para a cura é reconhecer que estamos doentes’.

O valor da Astrologia está, principalmente, em conscientizar o indivíduo, mostrar-lhe onde estão suas dificuldades e facilidades. Ela pode fazê-lo perceber sua participação em tudo o que lhe acontece. A partir disto é provável que a pessoa comece a se policiar, a prestar mais atenção em suas atitudes, a notar quais delas causam problemas e quais as que geram simpatia e confiança. E assim ela vai mudando e melhorando a si mesma, seus relacionamentos, sua autoestima, sua vida.

Bem, esse é o uso benéfico, e mais desejável, da Astrologia – quando a usamos para o autoconhecimento e conseqüente aperfeiçoamento de nós mesmos. É por isto que gosto de dizer que a Astrologia tem o potencial de mudar, transformar vidas, o que é verdade. Mas a mudança só acontece se quisermos, se tivermos os olhos abertos e aproveitarmos a oportunidade.

Por outro lado, muitas pessoas utilizam a Astrologia como uma muleta para sua falta de vontade de agir, evitando responsabilizarem-se por si mesmas e promover as mudanças pessoais necessárias. Essa atitude não ajuda em nada à Astrologia, na medida em que pressupõe a existência de um fatalismo que deságua no conformismo e na inércia.

Há pessoas que cultivam problemas como quem cultiva um jardim e não querem realmente se livrar deles. Elas se comprazem em se lamentar como se tudo o que ocorre em suas vidas fosse obra de algum deus perverso, e não resultado de suas próprias atitudes.

Acredito que era isso que meu velho mestre queria dizer quando falava que “a Astrologia não é para quem quer e sim para quem merece”. Passados tantos anos, tendo atendido muitas pessoas e também tido a oportunidade de dar aulas para iniciantes, acho que finalmente compreendi o que ele queria dizer com aquela frase: que muitas pessoas podem ter acesso ao saber astrológico, mas só em umas poucas ele vai fincar raízes, vai frutificar em termos de entendimento de si mesmo e transbordar na forma de compreensão e amor ao próximo. (É assim que a gente se torna um estudante de Astrologia…)

E você, amigo, pretende ser terra fértil onde o conhecimento germinará ou apenas mais um curioso, tentando encontrar do lado de fora, o que está dentro de você mesmo?

#Astrologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/astrologia-alavanca-ou-muleta