Goécia

goecia

Uma das etapas mais importantes do desenvolvimento mágico na Tradição Esotérica Ocidental, mas também uma das mais incompreendidas, é o trabalho goético, ou invocação dos demônios. Foi sobretudo graças à Goécia que a magia adquiriu uma reputação tão sinistra no ocidente, especialmente em uma sociedade como a medieval, em que a palavra demônio evocava a noção de criaturas infernais, dotadas de chifres e rabo pontiagudo, sempre com um tridente na mão e envoltas em exalações sulfurosas. Essa idéia era compartilhada tanto pelo pio cristão quanto pelos pseudomagos que se aproximavam do trabalho goético ávidos por fama e poder, o que deu origem à lenda popular do pacto com o Diabo, que acabou se cristalizando na lenda de Fausto.

Foi só a partir das pesquisas de McGregor Mathers, um dos fundadores da Golden Dawn, que a Goécia começou a recuperar seu sentido original. Rato incansável de biblioteca, Mathers descobriu, traduziu e publicou a obra mais importante da tradição goética, a Clavícula de Salomão, cujas instruções serviram de base para a composição do Livro da Serpente Negra, o qual registra a versão Golden Dawn da Goécia. Na interpretação moderna adotada por Mathers e seus colegas, os demônios com os quais a Goécia trabalha são vistos como uma personificação das forças sombrias que agem nas profundezas da psique do próprio mago. Elas tornam-se demoníacas na medida em que são apartadas da consciência e, conseqüentemente, se voltam contra esta, o que não deixa de antecipar as teorias freudianas sobre o recalque e o retorno do recalcado. O objetivo do trabalho goético é recuperar essas forças e integrá-las à totalidade da psique, transformando-as em energias positivas que contribuem para a evolução interior do mago.

Com o costumeiro tom pragmático e pé-no-chão que adotava sempre que não estava preocupado demais em impressionar os basbaques com sua persona de Grande Mago, Crowley foi direto ao ponto, na célebre introdução que escreveu para a tradução de Mathers da Clavícula de Salomão: “Os espíritos da Goécia são parcelas do cérebro humano.”

Mais prudente que Crowley, Israel Regardie evita atribuir uma base cerebral para os demônios goéticos, mas não deixa de insistir sobre o paralelo entre eles e os complexos inconscientes estudados pela psicanálise:

complexo, enquanto for um impulso subconsciente oculto, à espreita e destituído de configuração ou forma no inconsciente do paciente, ainda com força para romper a unidade do consciente, não pode ser adequadamente confrontado. A mesma base racional subjetiva estende-se ao aspecto goético da magia, a evocação dos espíritos. Enquanto na constituição do mago permanecem ocultos, descontrolados e desconhecidos esses poderes subconscientes, ou espíritos (…), ele é incapaz de enfrentá-los adequadamente, examiná-los ou desenvolvê-los visando modificar um e banir outro do campo total da consciência. Eles precisam assumir forma antes que possam ser usados. Mediante um programa de evocação, porém, os espíritos ou poderes subconscientes são convocados das profundezas, e sendo atribuída a eles forma visível no triângulo de manifestação, podem ser controlados por meio do sistema mnemônico de símbolos transcendentais e conduzidos ao terreno da vontade espiritualizada do teurgo.

Mesmo que Regardie use palavras com as quais os psicólogos contemporâneos não se sentem muito à vontade – como subconsciente, por exemplo -, sua descrição da Goécia é clara o suficiente para reconhecermos que o trabalho goético não é outra coisa senão o que os junguianos denominam de confronto com a sombra.

Sombra

Classicamente, a psicologia junguiana define a sombra como os aspectos da personalidade que o ego se recusa a reconhecer e que, dessa forma, são banidos para o inconsciente. Os motivos dessa recusa são vários mas, de um modo geral, têm uma base sociocultural: o indivíduo reprime aqueles traços que não são valorizados pela sociedade ou que, durante a infância, os pais o ensinaram a encarar como feios, maus ou indesejáveis. Alguns desses elementos foram simplesmente expulsos do campo da consciência. Outros nunca chegaram a fazer parte dele e foram barrados antes mesmo que tivessem condições de se desenvolver. Formam a base do que Jung descreveu como o inconsciente pessoal e que coincide mais ou menos com o conceito de inconsciente que Freud desenvolveu no início da psicanálise, antes que formulasse a célebre distinção entre ego, superego e id.

Nos sonhos e fantasias das pessoas, os componentes da sombra costumam aparecer sob a forma de figuras perturbadoras, más ou demoníacas. De fato, a interpretação junguiana tradicional identifica os demônios da religião aos complexos que constituem a sombra, e é esse o fundamento da explicação que Regardie dá para os demônios goéticos. No entanto, é importante frisar que esses complexos não são bons ou maus em si mesmos. São forças psíquicas, moralmente neutras, e é apenas à luz dos valores do ego que eles adquirem uma conotação maléfica.

Para dar um exemplo, durante boa parte da história, a sociedade patriarcal classificou os sentimentos como um atributo feminino e inferior. A expressão dos sentimentos pelos homens era vista como sinal de fraqueza, o que ainda persiste em ditados como o de que “homem não chora”. Para onde vão os sentimentos que os homens são proibidos de exprimir? Para a sombra, claro. Uma vez lá, tornam-se complexos inconscientes, em constante pé-de-guerra com o ego, e que exercem uma influência perturbadora sobre a consciência, apossando-se dela em determinadas circunstâncias – por exemplo, quando o homem explode em um ataque de raiva incontrolável. Essa raiva é um demônio porque possui a consciência, escapa ao seu controle e causa efeitos destrutivos para o próprio indivíduo e para os que o rodeiam. Mas ela não é essencialmente má. É uma força positiva, o sentimento, que só se tornou destrutiva devido à repressão que a impede de ser canalizada de uma forma mais construtiva. A mesma coisa vale para todos os elementos que constituem a sombra.

Os junguianos freqüentemente se referem à sombra no singular, como se fosse uma entidade única, mas não devemos nos iludir com isso. A sombra é uma instância múltipla, composta por diferentes forças que só têm em comum o fato de terem sido reprimidas pelo ego, e que muitas vezes, além de estarem em conflito com a consciência, também se opõem entre si. Imagine uma multidão de demônios, pequenos e grandes, em constante luta uns com os outros, uivando, berrando, e você vai ter uma boa idéia do que se passa no território da sombra. É esse quadro que está na origem do termo goécia, palavra que em grego significa um uivo feroz e inarticulado.

O desenrolar do processo de individuação – que, como foi dito em outra parte, é nada mais, nada menos do que a iniciação de que falam os esoteristas – leva a consciência a se identificar cada vez menos com o ego, alargando seu campo para integrar os conteúdos do inconsciente, tanto do inconsciente pessoal quanto do coletivo. É inevitável, portanto, que em determinada altura do caminho, ela se defronte com o problema de recuperar a sombra, trazendo seus demônios para a superfície, exorcizando o caráter destrutivo dessas forças e integrando-as a seu próprio campo.

No âmbito da psicologia junguiana, esse trabalho é feito com a ajuda do terapeuta. Antes que a psicologia fosse inventada, contudo, as religiões e escolas esotéricas desenvolveram uma bateria de rituais com o propósito de alcançar esse objetivo. A magia goética, tal como descrita pela Clavícula de Salomão, é um desses procedimentos.

A Sombra e a Sístase

Antes de continuar, consideremos a questão da sombra à luz do conceito gnóstico de sístase.

Quem vem acompanhando o Franco-Atirador há algum tempo deve se lembrar de que a sístase é o nome que os gnósticos davam para o sistema de dominação que aprisiona o ser humano, limitando seu potencial. Esse sistema tem ramificações que se estendem por todos os níveis, do cósmico ao psicológico, mas suas principais manifestações são:

1. Giger_bNo campo social, um conjunto de valores que determina o que é ou não aceitável, e inclusive o que deve ser considerado como real ou irreal. É o que o marxismo descreve sob a rubrica de ideologia.

2. No campo psicológico, padrões estereotipados de cognição e comportamento, que filtram as percepções das pessoas e moldam suas ações e interações. A psicanálise se refere a esses padrões como o superego.

3. No campo fisiológico, um sistema de tensões físicas – sobretudo musculares, mas não só – que impedem a energia de circular livremente pelo organismo. Reich batizou esse sistema de tensões de couraça caracteriológica ou couraça muscular.

Esses três níveis estão, obviamente, inter-relacionados. É a internalização da ideologia que está na origem do superego, e é o superego que se ancora no corpo sob a forma de um encouraçamento do organismo. Uma vez constituídos, superego, couraça e ideologia reforçam-se mutuamente em um circuito de retroalimentação (feedback). O circuito age como um filtro, que deixa passar algumas percepções, emoções e atitudes, com os quais a nossa realidade consensual (a visão que temos de nós mesmos e do mundo) é construída, enquanto outros, que não são considerados compatíveis com a realidade consensual, são sumariamente excluídos. O que mantém esse circuito funcionando é a energia dos próprios impulsos reprimidos, desviada e canalizada para alimentar o sistema.

Como o leitor deve ter percebido, a descrição gnóstica e a teoria junguiana da sombra descrevem a mesma coisa sob dois pontos-de-vista ligeiramente diferentes. A partir dessas duas visões, não é difícil perceber também que as relações entre o ego e a sombra são mais complexas, mais dialéticas, do que uma leitura superficial permitira supor. O mundo do ego rejeita a sombra mas, ao mesmo tempo, precisa da energia dela para existir. Nossa realidade consensual só se mantém à custa da força que extrai daquilo mesmo que ela exclui. Os impulsos reprimidos são transformados em demônios, mas são esses demônios que sustentam a estrutura que os reprime.

Conseqüentemente, é impossível superar a sístase enquanto ela for constantemente energizada pelo reprimido em nós. Daí que a integração da sombra, trazer os demônios do inconsciente à luz da consciência e, numa palavra, redimi-los, é uma condição sine qua non para a dissolução do estado de sístase. O que dá toda uma nova perspectiva ao trabalho goético.

A Clavícula de Salomão

Apesar de ser atribuído ao rei Salomão – que, segundo o folclore judaico, tinha o poder de controlar os demônios do céu, da terra e do inferno -, o texto da Clavícula não tem nada a ver com o legendário soberano judeu. De acordo com os filólogos que estudaram a composição do texto, ele deve ter sido escrito por volta do sec. XII d.C., provavelmente na região do Império Bizantino, que herdou boa parte do conhecimento clássico e helenístico, inclusive no que se refere ao esoterismo.

Como todos os tratados de magia medieval, a Clavícula descreve um procedimento ritualístico bastante complexo, com a utilização de toda uma parafernália cerimonial de robes, pantáculos, amuletos e talismãs, que devem ser confeccionados seguindo à risca as precisas instruções contidas em cada capítulo. Um leitor moderno que vá ler o texto à procura de um manual prático ficará inevitavelmente decepcionado – pode-se dizer o que for dos rituais seguidos pelos magos medievais, menos que eles são práticos. Mesmo problema, aliás, do Livro de Abramelin. E não ajudam nada as constantes advertências de que o menor erro pode fazer com que a alma do mago seja arrastada para o inferno pelas entidades que ele imprudentemente evocar.

Mas não há motivo para susto. A razão pela qual a magia cerimonial antiga é tão abstrusa é a necessidade de mobilizar e canalizar as forças da imaginação, que são, afinal de contas, o único instrumento realmente necessário para a prática da magia. Todo o aparato que o mago é instruído a fabricar tem um significado acima de tudo simbólico, e espera-se que as dificuldades que ele vai encontrar ao fazê-los sejam suficientes para direcionar sua vontade em direção ao objetivo. Já no Renascimento, os criadores do que se tornou conhecido como magia hermética – Marsilio Ficino, Giordano Bruno e Pico della Mirandola, entre outros – compreenderam que uma capacidade de visualização bem-desenvolvida pode substituir com proveito essa tralha toda. A Golden Dawn aprofundou ainda mais essa trilha do uso mágico da imaginação, que consiste na visualização de símbolos e interação com eles em uma esfera puramente psíquica (o astral, como se costuma dizer). E AOSpare e a magia do caos levaram a tendência a seu limite extremo, substituindo até o simbolismo tradicional por símbolos e imagens que fossem eficientes e adequados à psicologia individual de cada mago.

(Por outro lado, para os que gostam da pompa e circunstância da magia cerimonial, Carroll “Poke” Runyon desenvolveu uma versão contemporânea da magia de Salomão que, embora eu não tenha testado na prática, me pareceu bem interessante e vale pelo menos uma olhada, apesar das horrendas ilustrações kitsch com que ele recheou seu livro…)

O Círculo Mágico e o Triângulo da Manifestação

Alegorias de escola de samba à parte, a magia goética se apóia sobre dois instrumentos: o círculo mágico e o triângulo da manifestação. Circle_goetiaO círculo mágico é um velho conhecido de todos os que estudam magia. É no interior dele que fica o mago e sua função tradicional é protegê-lo das forças que o ritual se destina a evocar. Autores contemporâneos, embora não neguem esse papel de proteção, tendem a ver o círculo mágico muito mais como a constituição de um espaço sagrado, separado da realidade quotidiana, no interior do qual a consciência se desloca para um estado alterado no qual a magia é possível. (Um exemplo dessa nova abordagem do círculo mágico pode ser encontrada aqui.) De qualquer forma, embora o mago medieval laboriosamente traçasse o círculo fisicamente no chão, não existe motivo pelo qual ele não possa ser simplesmente visualizado, que é a alternativa adotada por um bom número de adeptos nos dias de hoje.

A mesma coisa se aplica ao triângulo da manifestação, no interior do qual muitas vezes colocava-se um espelho mágico. De acordo com a Clavícula, ele deve ser feito de madeira, com as dimensões exatadas dadas pelo texto, mas pode-se perfeitamente visualizá-lo apenas na imaginação. Como o próprio nome diz, é no interior do triângulo que as entidades evocadas se manifestam. E as explicações dadas por Regardie e outros deixam bem claro que seu valor é antes de mais nada simbólico.

Identificando os demônios pessoais

Levando-se em conta o caráter simbólico de seus elementos, o ritual goético pode ser simplificado ao extremo, tornando-se uma forma de meditação voltada para a integração dos conteúdos que compõem a sombra.

O primeiro passo é identificar esses conteúdos. Você pode preferir trabalhar com os próprios demônios goéticos que, afinal, em última análise, são uma personificação das tendências sombrias da psique. Se optar por essa alternativa, vai encontrar uma descrição pormenorizada dessas entidades em qualquer edição da Clavícula de Salomão (no início do post, dei o link de uma). Eu, porém, não recomendo essa abordagem. Embora sejam uma representação arquetípica, os demônios da Goécia são também clichês elaborados em um contexto – o do cristianismo medieval – que tem pouca ou nenhuma relevância para a psique contemporânea. E apesar do núcleo da sombra ser constituído de partes arquetípicas, ela é também uma montagem altamente individualizada de impulsos reprimidos e traços negativos da sua personalidade. Ou seja, todo mundo tem uma sombra, mas a sombra não é igual para todo mundo. Por esse motivo, é preferível dar espaço para que seus demônios pessoais se revelem sob uma forma igualmente pessoal, em vez de tentar encaixá-los na marra em uma representação coletiva.

Normalmente, as partes da sombra podem ser identificadas através de suas manifestações emocionais. São emoções que se apoderam subitamente da consciência sem causa aparente ou com uma intensidade desproporcional a sua pretensa causa. Por exemplo, ataques de raiva cega ou destrutiva, sentimentos de opressão ou depressão não motivados (pelo menos, não inteiramente) pelas circunstâncias externas, inveja ou ciúme patológicos, etc.

Antes de proceder ao trabalho goético propriamente dito, é preciso mapear esses sentimentos. Uma forma simples de fazer isso é manter um registro escrito no qual se anota escrupulosamente todos os sentimentos que se quer trabalhar. Se preferir, você pode dar um nome a esses sentimentos (por exemplo, o Demônio da Raiva ou o Espírito da Depressão). Personalizar os conteúdos da sombra facilita a etapa seguinte, que é evocar sistematicamente seus demônios, com o objetivo de exorcizá-los.

Exorcismo da sombra

Exorcizar os demônios, ao contrário do que o filme de William Friedkin e séculos de tradição católica dão a entender, não significa expulsá-lo. Isso seria o equivalente teológico da repressão e eles já estão mais do que reprimidos, obrigado. É por isso, aliás, que se tornaram destrutivos.

A palavra exorcismo vem do grego exos, exterior, e significa simplesmente trazer para fora o que estava oculto. Exorcizar um demônio significa apenas expor à luz da consciência um conteúdo que se encontrava reprimido no inconsciente.

Para isso, primeiro visualize a si mesmo no interior de um círculo de proteção ou visualize um círculo de proteção ao seu redor. Se achar necessário, pode traçar o círculo fisicamente, com giz ou que o valha, mas mentalizar um círculo de luz branca ao seu redor é o suficiente. Procure ver o círculo com a máxima nitidez possível. Sinta a proteção que ele oferece, isolando-o de todas as influências negativas, inclusive e sobretudo das forças que você vai evocar.

Em seguida, imagine um triângulo em frente a você, mas fora do perímetro do círculo. Ele corresponde ao triângulo da manifestação da Goécia clássica. Eu o vejo como um triângulo de luz vermelha, provavelmente porque a emoção característica da minha sombra é a raiva, mas a cor não é de fato importante. O essencial é imaginá-lo com nitidez e, de novo, se quiser, pode desenhar um triangulo concreto diante de seu círculo.

O passo seguinte é vivenciar a emoção que vai ser trabalhada. O momento ideal para isso seria quando ela surge espontaneamente, mas na maior parte das vezes isso é muito difícil, beirando o impossível. Um dos traços mais marcantes das emoções da sombra é seu caráter compulsivo e, no calor da emoção, não se pode censurá-lo por não conseguir parar para visualizar o círculo e o triângulo.

Evocando os Demônios Pessoais

Em vez disso, depois de confortavelmente instalado em seu círculo, defronte o triângulo da manifestação, procure se lembrar das ocasiões em que você experimentou a emoção da sombra. Escolha apenas uma emoção de cada vez, ou será impossível lidar com a horda de demônios que vai irromper pelas janelas da mente.

Tente se lembrar não das circunstâncias externas, que são irrelevantes, mas das sensações que você teve quando a sombra irrompeu. Trate de evocar nos mínimos detalhes como você se sentiu nessas ocasiões.

Quando perceber que conseguiu estabelecer contato com a emoção, visualize-a fluindo de você para o triângulo da manifestação, onde ela se acumula como uma massa luminosa de intensidade crescente. Depois de algum tempo, essa massa vai se coagular e assumir uma forma concreta. Pode ser uma pessoa, um animal ou um objeto. Não tente antecipar ou impor uma forma, deixe que o processo seja espontâneo.

No entanto, caso ela surja sob o aspecto de uma pessoa real, de carne e osso, peça-lhe para adotar outra forma. Isso significa que você tende a projetar a emoção em questão sobre a pessoa que apareceu, e confundir as duas só vai trazer dor-de-cabeça para você e para a pessoa. Jung dizia que praticar qualquer espécie de imaginação ativa sobre a imagem de uma pessoa real é magia negra, e ele tinha toda a razão quanto a isso.

Pode ser que a imagem demore um pouco para se estabilizar, adotando várias formas seguidas, como se o conteúdo estivesse decidindo qual é a mais adequada. Mas, uma vez estabilizada, ela é o seu demônio. E está pronto para ser confrontado.

Agora eu tenho sua Atenção

Uma questão importante antes de sair evocando os espíritos goéticos é: o que fazer quando eles aparecem? Você está escancarando os porões do inconsciente para dar passagem a seus piores demônios. Agora que eles estão plantados diante de você, como lidar com esses visitantes infernais?

Os magos medievais e renascentistas que usavam a Goécia não tinham grandes problemas com isso. Como eles trabalhavam com um sistema de crenças objetivo, a integração dessas forças à consciência não se colocava. Suas finalidades eram práticas até o talo: queriam conhecimento, poder ou diversão, e ponto final. Quando os espíritos goéticos surgiam, eles os botavam pra trabalhar. Depois, se tivessem cumprido sua tarefa a contento, recebiam uma licença para partir e tornavam a mergulhar nos porões sulfúreos do inconsciente, autônomos e não-integrados. Ou, se o mago não tivesse cumprido sua tarefa a contento, invadiam o círculo de proteção e se apossavam de sua alma (um fenômeno que a psicologia analítica conhece como inflação do ego e ao qual os psicólogos junguianos se referem como possessão do ego por um conteúdo do inconsciente).

Não admira que a Goécia tenha adquirido uma reputação tão ruim, não só entre os leigos, mas entre os próprios adeptos. Sempre que questionados sobre as operações goéticas, os membros da Golden Dawn saíam pela tangente, e davam a mesma resposta do Jesus de South Park: “Meu filho, eu não tocaria nisso nem com uma vara de dois metros.” E isso a despeito de ter sido McGregor Mathers quem traduziu a Clavícula de Salomão para o inglês.

No entanto, é preciso tocar nisso, com ou sem uma vara de dois metros.

Psicologia do Ego

A resposta do necromante clássico é obviamente insatisfatória. Usar nossos demônios para atender desejos pessoais é colocar essas forças a serviço do ego. Seu equivalente contemporâneo poderia ser a ego psychology, que pretende drenar o inconsciente para criar um ego forte, plenamente adaptado ao princípio da realidade e capaz de submeter os “caprichos” do inconsciente ao domínio imperioso de sua vontade (que não deve ser confundida com a Verdadeira Vontade de Crowley e da Thelema).

Isso é o oposto da integração.

Os espíritos goéticos devem ser integrados à consciência, e não ao ego, e enquanto essa distinção não for compreendida, não importa o rótulo que se empregue, estaremos praticando magia negra da pior espécie.

O que fazer?, perguntaria o camarada Lênin, confiando seu cavanhaque com o olhar perdido no vazio.

O que fazer?

Diálogo com a Sombra

Os espíritas diriam que é preciso doutrinar os espíritos, isto é, esclarecê-los quanto à verdadeira doutrina de Kardec, tirá-los das trevas da inconsciência e permitir que eles se aperfeiçoem pela prática de obras de caridade.

Contenha o sorriso, meu caro leitor cínico. Eles estão certos.

Não da maneira que eles pensam, evidentemente. Os espíritas pecam por uma certa ingenuidade e uma compreensão literal das coisas – daí acreditarem piamente que existem linhas de ônibus em Nosso Lar – mas, talvez até por causa de sua inocência, descobriram um princípio importante.

Os espíritos são tirados do inconsciente através do diálogo.

Os espíritos são integrados à consciência estabelecendo-se uma conexão entre eles e alguma coisa maior que o ego.

Além do Ego

Esse eixo de referência maior que o ego é, evidentemente, o Self – ou o SAG, se você preferir o vocabulário mágico.

É isso que significa o círculo mágico de proteção. O círculo é o emblema geométrico do Self, e você vai notar que, na descrição da Clavícula, não é o nome do mago que está escrito em sua periferia, mas os nomes de Deus. Você notará também que mesmo a invocação goética tradicional conclama os espíritos a obedecerem em nome de Deus. É claro que invocar o poder divino para obrigar o espírito a encher seus cofres de ouro é uma traição do ego, mas o ponto não é esse. O ponto é que a força que submete os espíritos se origina de além do ego.

Desnecessário dizer, se o mago não tiver estabelecido ele próprio essa conexão entre a consciência e o Self, a evocação goética não passa de palavrório vazio. Pior que isso, é um blefe, porque o mago estará se apoiando em um poder que ele não possui. E um blefe que, com toda a probabilidade, não vai demorar a ser desmascarado, uma vez que, se a consciência não estiver solidamente ancorada no Self, não terá como fazer frente ao fascinium tremendum que emana dos complexos do inconsciente e que é descrito nos tratados tradicionais como a irresistível capacidade de sedução dos espíritos infernais.

O resultado disso, numa palavra?

Loucura.

Foi só porque teve o bom-senso de se amarrar ao mastro do navio que Ulisses pôde resistir ao canto das sereias.

É por esse motivo que, segundo Abramelin, o trato com os espíritos infernais vem depois da conversação com o Santo Anjo Guardião. Abramelin vai ainda mais longe e diz que é o próprio SAG quem ensina o mago a melhor maneira de evocar e controlar os espíritos. E adverte enfaticamente sobre o risco mortal que é a evocação dos espíritos infernais sem a imprescindível retaguarda fornecida pelo SAG. Esqueçam estes charlatões prometendo contato com kiumbas e eguns; eles não têm poder para nada, se tivessem, estariam ricos e não precisariam vender pactos para viver. Os verdadeiros demônios que podem ser negociados estão dentro de cada um de nós.

Por Lucio Manfredi.

#Goécia #MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/go%C3%A9cia

Enoque

(Texto original em inglês extraído da The Encyclopedia of Jewish Myth, Magic and Mysticism, de Rabbi Geoffrey Dennis)

Enoque, do hebraico “Chanokh”, é um dos ancestrais primordiais da humanidade.

Ele foi, significativamente, o sétimo nas primeiras dez gerações de humanos listados em Gênesis.

De acordo com as Escrituras, Enoque era o mais Justo dos antediluvianos e “foi com Deus … e ele não foi, porque Deus o levou”.

A partir dessas informações mínimas, muito é extrapolado.

Enoque aparece como uma figura importante em uma série de obras apócrifas (I Enoque; Jubileus; Livro dos Gigantes).

A ele é atribuída a criação da escrita, da astrologia e do recebimento do calendário solar oelos Anjos, calendário esse que era tão precioso para os sacerdotes que coletaram os Manuscritos do Mar Morto.

Para aqueles sacerdotes, ele era o protótipo de todos os escribas, sábios e sacerdotes (I Enoque 12, 14, 80–82, 106–7; Jubileus 4).

Ele também era um oniromante, isto é, um adivinhador de sonhos (Livro dos Gigantes).

Em alguns lugares, seu papel é tão exaltado que ele funciona como o principal canal do conhecimento divino para os mortais.

Algumas tradições judaicas sustentavam que Enoque ascendeu corporalmente ao céu, onde foi transubstanciado no príncipe angelical Metatron (III Enoque), embora haja pelo menos uma tradição que rejeita essa afirmação (Targum Onkelos de Gênesis 5:24; Gênesis Rabbah 5:24).

Junto com a mudança de nome, seu corpo material é consumido e substituído por um corpo de fogo supremo.

Ele é conhecido por vários títulos e nomes angelicais, incluindo Sar ha-Panim, o Príncipe do Rosto Divino e/ou Bar Enosh, “Filho do Homem”.

Os textos hebraicos sobre Enoque e sua translação angelical incluem Sefer Hechalot, Hechalot Rabbati e Sefer Chanoch.

Os Livros de Enoque

Existem vários livros em grego, hebraico e aramaico associados ao nome de Enoque, como III Enoque, o Livro dos Gigantes e Sefer ha-Razim de Chanoch.

Vários outros livros foram preservados apenas em traduções (eslavo e etíope).

Existem muitas variações entre os textos, e alguns se contradizem, mas o conjunto de elementos que se sobrepõem em diferentes versões é a história do papel terreno de Enoque antes do Dilúvio, sua ascensão ao céu, sua experiência de revelações apocalípticas lá, seu envolvimento nos assuntos dos anjos (caídos), e sua translação em anjo.

Abordaremos agora acerca dos livros existentes que são atribuídos a Enoque:

O Primeiro Livro de Enoque, também conhecido como I Enoque:

Este livro existe apenas em duas traduções variantes, grega e etíope.

O original hebraico não existe mais, embora tenhamos encontrado fragmentos hebraicos/aramaicos entre os Manuscritos do Mar Morto.

A tradução etíope é um apocalipse dividido em cinco livros: o Livro dos Vigilantes, o Livro das Similitudes, o Livro do Curso dos Luminares Celestiais, o Livro dos Sonhos e a Epístola de Enoque.

O livro de I Enoque Inclui a lenda dos anjo caídos, visões de sonhos, visões do julgamento final e outras parafernálias e refugos literários

A versão grega de I Enoque compartilha alguns textos e tem apenas um terço do tamanho da versão etíope.

O Segundo Livro de Enoque, também conhecido como II Enoque:

II Enoque é uma obra pseudoepigráfica judaica, provavelmente escrita no Egito, do século I EC.

Apenas manuscritos eslavos antigos (em duas versões) sobreviveram até hoje.

Este livro bastante enigmático também é um apocalipse, revelando o funcionamento do céu, do inferno e do fim do mundo.

O livro é um dos primeiros a expor os sete céus e a dar uma descrição detalhada dos prazeres do Paraíso (e o primeiro a associar a vida após a morte celestial ao Éden) para os mortos justos.

O Terceiro Livro de Enoque, também conhecido como III Enoque:

III Enoque também é conhecido como Sefer ha-Hechalot, Sefer Chanoch ou “o Enoque Hebraico”, este livro descreve o processo de ascensão mística.

Ao contrário dos primeiros livros de Enoque, que refletem mais puramente uma espiritualidade sacerdotal, esta obra também está claramente enraizada no judaísmo rabínico.

Um Sábio Sacerdote talmúdico, Rabi Ishmael ben Elisha ha-Kohen, é a figura central, e o trabalho é provavelmente um produto dos místicos merkavá.

III Enoque foi agrupado com os outros livros enoqueanos anteriores principalmente porque Rabi Ismael encontra Enoque no céu, em sua forma angélica de Metatron.

Este texto narra a ascensão mística de Rabi Ismael aos sete céus e seus encontros lá com seres angélicos.

Ele detalha os passos da angelificação e transubstanciação de Enoque.

Inclui uma descrição do guf ha-briyot, o Tesouro das Almas e a transmigração das almas.

O Quarto Livro de Enoque, também conhecido como IV Enoque:

IV Enoque é uma obra aramaica fragmentária encontrada entre os Manuscritos do Mar Morto, que inclui muitas partes de outros livros enoquianos e pode de fato ser a versão mais antiga dessas obras que temos agora.

O Livro dos Gigantes também pode pertencer à biblioteca Enoqueana.

Traduzido e adaptado do inglês para o português por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/enoque/

Ge Hong

gehong

Por Gilberto Antônio Silva

Vida

Muito do que se sabe de sua vida provém de uma autobiografia na qual revela descender de uma longa linhagem de intelectuais e pessoas ligadas à corte imperial por ao menos dez gerações. Seu pai, Ge Ti, era um intelectual que ascendeu a altos postos, incluindo governador de província. Na infância Ge Hong não gostava de brincar como as outras crianças, nem se interessava por estudos mais sérios. Apenas depois da morte do pai, quando contava 12 anos, começou a se interessar pelos clássicos confucionistas. A partir dos 14 anos começou a ampliar suas leituras e a compor poesia e textos curtos, sob a tutela de Zheng Yin, um intelectual com mais de 80 anos que dominava os clássicos, a música e artes divinatórias e alquimia. Ele também recebeu de seu tutor três escrituras da tradição taoista da Suprema Pureza (Taiqing), uma importante ramificação taoista do norte da China e pouco conhecida no local onde morava, além de conhecimentos-chave transmitidos por via oral. Esses conhecimentos mais profundos e fechados foram passados a Ge Hong principalmente pelo fato de seu tutor manter estreitas relações com sua família, tendo sido discípulo de seu tio-avô, Ge Xuan.

Aos 20 anos começou a carreira pública pelo serviço militar, tendo estado em combate algumas vezes contra rebeldes. Vencidos os rebeldes ele deu baixa no serviço de forma honrosa e foi à capital, Luoyang, em busca de livros raros. Por volta de 306, prestou serviços para Ji Han, então Inspetor Regional de Guangzhou e autor de obras sobre medicamentos e fármacos. O serviço durou pouco pois Ji Han foi morto quando ia assumir novo posto.

Desempregado, Ge Hong viveu oito anos como recluso no Monte Luofu, voltando para sua província natal em 314. A temporada em Luofu foi muito proveitosa, pois travou amizade com Bao Jing, um alto funcionário governamental e estudioso de artes esotéricas que lhe ensinou medicina e artes alquímicas, tendo casado sua filha com Ge Hong. Também nesse período Ge Hong escreveu profusamente e, embora muito desse trabalho tenha se perdido, foi a época em que escreveu Baopuzi e o Shenxian zhuan, duas de suas principais obras.

De volta à sua terra natal foi conselheiro do Primeiro-ministro Sima Rui até 316. Depois de revoltas internas, Sima Rui se autoproclamou Imperador Yuan, iniciando a Dinastia Jin do Leste (317-420). Ge Hong serviu em vários postos administrativos até 331, quando aos 49 anos pediu para ser designado para Julou, atual Vietnã. Lá ele esperava encontrar materiais e substâncias para seus experimentos alquímicos. Começou a mudança com toda a sua família mas foi impedido por um governador que não desejava que saísse do território do império Jin. Ge Hong acabou por se instalar novamente no Monte Luofu, dando por encerrada sua vida administrativa. A partir desse instante, por volta de 339, ele se dedicou integralmente aos estudos, pesquisas alquímicas e escritos. Em 343 Ge Hong morre no Monte Luofu. Posteriormente a região ficou conhecida pela influência taoista e diversas escolas importantes como a tradição Quanzhen estabeleceram sua sede naquele local.

Obra

Uma de suas obras mais importantes é Shenxian Zhuan (“Biografias dos Imortais Divinos”), com forte orientação taoista. Junto com seu Yin Yi Zhuan (“Biografias de Reclusos”), representam as mais importantes obras biográficas de mestres e reclusos taoistas, usadas como fonte histórica até hoje.

Mas o que é considerado sua obra principal é o Baopuzi (“O Mestre que Abraça a Simplicidade”), escrito em 70 capítulos divididos em “Capítulos Internos” (Nei Pian) versando sobre filosofia, alquimia e transcendência e “Capítulos Externos” (Wai Pian), versando sobre crítica literária e social. Os capítulos internos são mais esotéricos e tratam de imortalidade, transcendência, alquimia, elixir, meditação, daoyin (qigong) e demonologia. Os capítulos externos são exotéricos e lidam com coisas do cotidiano como literatura, a Escola Legalista, política e sociedade, tendo um viés mais confucionista. Embora sejam publicados geralmente juntos, muitos consideram as duas partes como independentes e estudiosos tendem a considerar como Baopuzi apenas os capítulos internos. Ge Hong relaciona o Tao como o Mistério e o livro insiste na necessidade de se ter um Mestre adequado (“Mestre Iluminado”, em suas palavras) para se progredir rumo à imortalidade. Nele Laozi é colocado como o fundador do Taoismo.

Seu livro de medicina mais conhecido é o Zhouhou Beijifang (“Manual de Prescrições para Emergências”), que norteou a pesquisa da Dra. Tu. Foi a primeira obra na história a documentar a varíola (posteriormente os chineses criaram uma vacina) e o tifo, além de disenteria, malária e cólera, desenvolvendo métodos de prevenção e cuidados especiais incluindo a quarentena para os infectados.

Outras obras de medicina são Zhou hou jiu zu Fang (“Precrições para Resgatar Moribundos depois da Leitura do Pulso”), Yu han fang (“Prescrições da Caixa de Jade”), Jin gui (Receitas do Armário Dourado).

Legado

Acredita-se que sua obra tenha influenciado de maneira consistente a Tradição Taoista Lingbao (Tesouro Luminoso), que pregava que o adepto não tinha apenas que cultivar a si mesmo de modo a alcançar a imortalidade (o Tao), mas deveria ajudar as outras pessoas a obtê-lo também. Essa tradição afirmava que suas escrituras foram concebidas por Ge Xuan, sobrinho-neto de Ge Hong, e compiladas por Ge Chaofu (outro membro da família de Ge Hong) durante o período entre 397–402. Essa escola fez uma síntese das principais correntes taoistas de seu tempo, incorporando elementos das tradições Zhengyi e Shangqing, além do Budismo. Causou grande impacto na formalização dos rituais taoistas, enfatizando a prática litúrgica especialmente nos Ritos de Purificação (zhai) e nos Ritos de Oferenda (jiao), também conhecidos como Rituais de Renovação Cósmica. Os rituais taoistas seriam formas de se harmonizar o mundo humano com o invisível. O Taoismo Lingbao acabou por ser totalmente absorvido pelas tradições Zhengyi e Quanzhen, desaparecendo como linhagem autônoma mas deixando uma forte influência nestas escolas.

Ge Hong fez importante aproximação entre Taoismo, Confucionismo e Legalismo. Ensinou que os conhecimentos do mundo e os transcendentais são ambos importantes para o aperfeiçoamento humano até atingir a imortalidade.

Seus trabalhos médicos são, ainda hoje, matéria de estudo nas universidades chinesas.

*** Artigo publicado na primeira edição da revista Daojia, a primeira revista brasileira sobre Taoismo e suas técnicas. Baixe gratuitamente seu exemplar em nosso site: www.laoshan.com.br

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

#Tao #taoísmo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ge-hong

Extraterrestres na Idade Média

Em 13 de agosto de 1491, Facius Cardan, pai do matemático Jerôme Cardan, anotou esta aventura:

Quando eu completei os ritos habituais, por volta das vinte horas, sete homens me apareceram, portando roupas de seda que lembravam tunicas gregas e calçados cintilantes. Usavam cotas de malha e, sob elas, roupas interiores vermelhas de extraordinária graça e beleza.  Dois deles pareciam ser um pouco mais nobres que os outros. O que tinha ar de comando tinha o rosto de cor vermelho-escuro. Disseram ter quarenta anos, embora nenhum deles parecesse ter mais que trinta. Perguntei quem eram. Responderam que eram homens compostos de ar, e seres como nós , sujeitos ao nascimento e à morte. Sua vida era muito mais longa que a nossa, podendo chegar a três séculos. Interrogados sobre a imortalidade da alma, responderam que nada sobrevive. Interrogados sobre o porque não revelavam aos homens os tesouros do seu conhecimento, responderam que uma lei severa impunha penalidades àqueles que revelavam seu saber aos homens. Demoraram com meu pai cerca de três horas. O que parecia ser o chefe negou que Deus tenha feito o mundo para toda a eternidade. Ao contrário, disse ele, o mundo é criado a cada instante ; caso Deus “desanime” , o mundo corre perigo.”

Os visitantes de Facius Cardan parecem ter sido os últimos de uma longa série , surgidos na Idade Média. Tinham o particular de se poder comunicar com os homens, não pretendiam em hipótese alguma ser anjos, não traziam nenhuma revelação; ao contrário , sua atitude parecia mais ainda com o nosso racionalismo moderno. Os visitantes de Facius Cardan negaram até a existencia de uma alma imortal, defendendo uma espécie de teoria a respeito da criação continua do Universo.

Os alquimistas e os místicos da Idade Média procuraram , evidentemente , ligar estes visitantes aos espíritos dos quais falam a Bíblia e a Cabala, mas se trata, evidentemente, de uma colaboração mitológica. De fato, houve, aparentemente, contatos com seres “fabricados”, “feitos a partir do ar”, segundo os visitantes de Cardan. Estes insistiram nos castigos que sofreriam se revelassem qualquer segredo.  Toda esta tradição permaneceu até o século XVIII data em que , nós o veremos, certos segredos serão desvendados.

Em outras regiões , estes seres foram assinalados mais tarde que na Europa: nos fins do século XVIII no Japão e para os índios da América do Norte. Nesta época os indios da Califórnia descreveram seres humanos luminosos , que paralisavam as pessoas com a ajuda de um pequeno tubo. A lenda índia precisa que as pessoas que foram para lisadas tiveram a impressão de terem sido bombardeadas com agulhas de cactus. Na Escócia, na Irlanda, tais aparições foram mencionadas desde tempos imemoriais, e até o século XIX, algumas vezes até o século XX. No século XIX, encontraram-se traços de um personagem estranho chamado Springheel Jack, luminoso à noite , capaz de saltar e voar ( Vide a musica dos Rollings Stones : Jumping Jack Flash ) , e que tentou entrar em comunicação com os homens. A primeira aparição data de novembro de 1837 – segundo testemunhas as mais seguras e precisas  –  em 20 de fevereiro de 1838, e a ultima em 1877. Desta vez, o estranho visitante cometeu a imprudencia de aparecer perto do campo de manobras de Aldershot. Duas sentinelas atiraram; o visitante revidou com jatos de chamas azuis , que exalavam um odor de ozona . As sentinelas se volatilizaram, e o visitante nunca mais apareceu.

Trata-se talve de reminiscencias . Com efeito, a densidade do fenomeno é muito inferior à do da Idade Média, onde se observa , a cada ano , aparições de estrangeiros luminosos. Em todo os relatos , estes são inseparaveis da idéia do fogo: a noção de energia não havia sido ainda inventada. Entretanto, quando interrogados, respondiam que não eram nem salamandras nem criaturas do fogo, mas homens de outra espécie.

É tentador quere atribuir-lhes a estranha série de incendios que , durante a grande peste de Londres , destruiu de súbito todas as casas que haviam sido contaminadas , e estas sómente , impedindo assim que a peste se propagasse , exterminando toda a população da Inglaterra. Seria um caso interessante de intervenção benéfica e benvinda.

É igualmente  chocante o fato de que estes visitantes sejam associados não sómente ao fogo , mas igualmente a poderes mais ou menos ligados ao fogo, em particular o poder de transmutação de metais.  Toda a Idade Média é cheia de lendas , e mesmo de sólidas crenças , a respeito da possibilidade de assinar pactos com estes visitantes. Infelizmente , nos é muito dificil compreender a mentalidade medieval.

A idéia racionalista , defendida por M. Homais , da Idade Média como um periodo de trevas , é uma caricatura da qual precisamos nos desembaraçar. A Idade Média foi um periodo de progressos rápidos , mais rápidos talvez que os nossos, mas que visavam a outros objetivos. Nós perdemos a noção mas ela seria necessária para que pudéssemos nos colocar  na mente de um homem no ano de 1000 ou do ano 1200, e compreender sua atitude frente aos visitantes que considerava como fazendo parte do
mundo em que ele vivia. Faz-se necessário salientar que os homens da Idade Média , que criam nos visitantes , eram espiritos essencialmente racionalistas, sem ligações com bruxarias ou com a Inquisição, fenomenos diferentes. Não se nega que estes contatos podem ter ocorrido , e as informações trocadas , entre os visitantes e homens como Roger Bacon, Jerôme Cardan ou Leonardo da Vinci. Em todo caso ,  a Idade Média admite, praticamente sem discussão , que é possivel entrar
em contato com criaturas revestidas de armaduras luminosas que se chamam demônios . O termo “demônio”não comporta as  conotações pejorativas de mal ou diabólico que apresenta em nossa linguagem. Ele lembra antes o sentido dos demonios de Sócrates, que discutiam com ele e lhe sugeriam idéias.

Depois de ter feito aparições no começo da era cristã , os demônios luminosos surgiram com as primeiras manifestações da franco-maçonaria, desde os séculos XIII e XIV . Foi por causa deles que os francos-maçons se denominaram “Filhos da Luz” e, a seguir , contarão os anos não a partir do nascimento do Cristo , mas sim de um ano de luz obtido adicionando-se 4.000 anos à era cristã.

Começam a se ligar a eles aspectos mais ou menos interplanetários. Em 1823, o Dr. George Oliver , historiador da franco-maçonaria , escreveu : “Anatiga tradição maçonica – e tenho boas razões para ser desta opinião – diz que nossa ciencia secreta existe desde antes da criação do globo terrestre e que ela foi largamente expandida através de outros sistemas solares”.

É contudo na Idade Média que ocorrem as aparições mais maciças de criaturas com vestimentas  de luz . Este mensageiros vão encontrar os rabinos , com quem discutem longamente sobre a Cabala, os poderes de Deus, o conhecimento e a exploração do tempo etc. Afirmam conhecer os guardiões do céu , dos quais , entretanto, não fazem parte. Vão aparecer igualmente entre os monges e os santos do Islão . São descritos sempre do mesmo modo, sua atitude intelectual é sempre racionalista. Falam de geometria, de uma sabedoria racional, à qual mesmo Deus se submete.

Saber-se-ia mais sobre eles se os arquivos dos Templários e dos Ismaelistas nos tivesse chegado às mãos . O que infelizmente não aconteceu. É certo , contudo, que, como os Templários , os Ismaelistas tinham por missão aguardar a entrada de uma Terra Santa que não é de nenhum modo, a Palestina. Uma Terra Santa que não é  localizável em nosso tempo e em nosso espaço, que possui uma geografia sacra diferente da nossa , estudada especialmente por dois franceses, Guénon e Henri Corbin. Também aí, pode-se tentar substituir a mitologia antiga por uma moderna , falar não de uma Terra Santa, mas de uma porta que se abre para uma outras dimensões que não são as três conhecidas , uma estrutura da Terra mais complexa que o globo que se vê de um satelite e na qual nossa civilização crê de maneira tão pouco crítica quanto outras civilizações acreditam na Terra plana.

Isto não é proibido, mas é ainda a troca de uma mitologia tradicional por outra mitologia saída da ficção cientifica e dos desenhos animados.E não é certo que se tenha a ganhar com isso. De maneira geral , deve-se desconfiar do simbolismo.  René Alleau escreveu: “Pode-se estabelecer ligações entre esse simbolo e as duas serpentes do caduceu de Hermes, simbolos de força que destrói e edifica, isto é, o duplo poder das chaves  de um mesmo fogo sagrado”

Tudo isso é muito belo. Mas não se pode dizer que o caduceu de Hermes representa a hélice dupla do ADN. Antes de se contentar com simbolos, é preciso , me parece, admitir que há no mundo fenomenos que não são unicamente devidos à atividade da natureza ou à atividade voluntária do homem. Depois ,estudar estes fenomenos , certamente com uma idéia preconcebida , mas sem pretender que se receba essa idéia da revelação de mestres desconhecidos ou de mansucritos provenientes de um monastério tibetano que não existe nos mapas, e apresentar esta idéia preconcebida como uma questão de fé. Não pretendo me pronunciar com autoridade absoluta sobre a origem e a constituição desses demonios luminosos. Simplesmente direi que, a meu ver, trata-se de pesquisadores enviados por seres capazes de acender e extinguir as estrelas à vontade, pesquisadores talvez criados por tais seres . Eu creio que sua origem talvez seja  a própria Terra , mas em uma região dificilmente localizável
em um mapa-múndi.

Sabe-se , com certeza , que após se manifestarem frequentemente na Idade Média , prosseguiram em suas atividades durante o Renascimento . Visitaram Cardam . Assim como seu quase contemporâneo J. N. Porta ( 1537-1615) que escreveu uma enciclopédia , Magia naturalis , cuja primeira edição data de 1584, na qual, segundo o próprio autor , ele procura associar , à pesquisas experiemtntais , um saber recebido de fonte natural. Daí o titulo : “Magia natural” Porta será o primeiro a estudar cientificamente as lentes , a descrever um telescópio, a predizer a fotografia . Ele tem , portanto , merecido lugar na história das ciencias. Mas ele foi menos estudado no domínio que nos interessa.

O Cardeal d’Este , que se apaixonava pelos seus trabalhos , fundou em 1700 uma organização , que se reunia em sua casa , e que se chamava , muito significativamente, Academia de Segredos . Muitos vêem nela a primeira academia de ciencias. De minha parte, eu (J.Bergier) a vejo acima de tudo como um organismo intermediário entre os agrupamentos desconhecidos da Idade Média e do inicio da Renascença , e o Colégio Invisivel , do qual ja falamos muito. Observemos de passagem que , sobre a Rosa-Cruz, cujos escritos mencionam constantemente os demonios, assim como as lâmpadas perpétuas que lhes deixaram, Fulcanelli escreveu, e com razão :

Os adeptos portadores do titulo são sómente irmãos pelo conhecimento e pelo sucesso de seus trabalhos. Nenhum juramento era exigido , nenhum estatuto os ligava entre si, nenhuma regra além da disciplina hermética livremente aceita, voluntáriamente observada, influenciava seu livre arbítrio. Foram e são ainda isolados, trabalhadores dispersos no mundo, pesquisadores cosmopolitas, segundo a mais estreita acepção do termo. Como os adeptos não reconheciam nenhum grau de hierarquia , a Rosa-Cruz não era uma graduação , mas apenas a consagração de seus trabalhos secretos, a da experiencia, luz positiva cuja fé viva lhes havia revelado a existencia . . . Jamais houve entre os possuidores do título outro laço senão a verdade cientifica confirmada pela aquisição da pedra. Se os Rosa-Cruzes são irmãos pela descoberta, o trabalho e a ciência, irmãos pelas obras e pelos atos, isso ocorre com um conceito filosófico , o qual  considera todos os individuos como membros da mesma familia humana

Quer dizer que não creio absolutamente em uma organização estruturada dos Rosa-Cruzes, como lojas ou células. Eu creio em encontros entre pesquisadores livres, alguns dos quais já visitados pelos demonios. Muitos tiveram em seguida conhecimentos surpreendentes, e pode-se perguntar de onde Cyrano de Bergerac tirou a descrição de um foguete por estágios ou de um poste receptor de TSF.  Pois. se os demonios não difundem o saber , eles o transportam talvez de um pesquisador a outro. Talvez mesmo mantivessem eles fora do alcance da Inquisição, um centro de saber onde seriam conservados os manuscritos. Encontram-se estas concepções no esoterismo judaico da Idade Média.

Estas criaturas de luz, muito ativas, do ano 1.000 ao ano 1.500 , desapareceram totalmente: no século XVII, são encontrados em pequeno número, e desaparecem inteiramente no século XVIII. Nada mais em seguida, senão uma curiosa visão de Goethe, visão que ocorreu em uma época em que ele estava muito doente.

Os demonios deixaram atrás de si, estranhos objetos. Por exemplo, esta esfera metálica da qual falam os Templários em suas confissões. Ela não sómente emitia luz, mas também radiações hoje desconhecidas. Em Chipre, ela teria destruido várias cidades e muitos castelos. Quando foi lançada no mar, uma tempestade se elevou e nesta região nunca mais houve peixes.

Há também as lâmpadas perpétuas que se encontram tanto na tradição judaica da Idade Média , como na do Islã ou da Rosa-Cruz: as lâmpadas funcionariam indefinidamente , sem azeite, sem produto que queima ou se consome. Não se podia toca-la, sob pena de provocar uma explosão capaz de destruir uma cidade inteira. Também aí encontra-se a utilização de forças , de energia, que parecem físicas , e que não correspondem aos conhecimentos da época. Muitos textos judaicos afirmam que estas lâmpadas provêm de lâmpadas do céu.

Infelizmente, nenhum dos relatos que datam da Renascença ou de depois e que fazem alusão às lampadas deste tipo encontradas em tumbas na Alemanha e Inglaterra, puderam ser confirmados. Lâmpadas muito estranhas e de grande beleza foram encontradas em Lascaux, mas ignora-se como funcionavam.

Uma tradição persistente afirma que a descoberta de um túmulo secreto contendo uma lâmpada perpétua teria sido a origem da criação da maçonaria inglesa. Esta descoberta teria ocorrido poucos anos antes da iniciação de Elias Ashmole em Warrington, em 1646. Nada o confirma. De modo geral, todas as tentativas de ligar a franco maçonaria a tradições anteriores a 1600 têm o presente momento , abortado.

Tem-se pretendido , em particular , que a Ordem do Templo não tenha sido perseguida na Inglaterra, como sistematicamente o foi em toda a Europa, e que os sobreviventes da Ordem teriam fundado a maçonaria inglesa, transportando diretamente as tradições da Ordem para esta fundação, mais ou menos em 1600. Muitos maçons sinceros crêem nesta tradição, mas nunca eu jamais encontrei quem a  confirmasse verdadeiramente. Nós temos documentos certos que provam que as lojas maçonicas funcionavam na Escócia já em 1599. Nada antes disso. De que há ligações entre a maçonaria e as “criaturas de luz”, vindas para ensinar , não há duvida. Mas não se pode sustentar que se possa deduzir  que a maçonaria prolongou a tradição dos “guardiões do céu”.

Esta tradição corresponde às aparições precisas , humanamente controláveis, e que determinaram uma  fase precisa da série de intervenções hipotéticas estudadas neste livro. Para um homem da Idade Média  , fosse ele cristão , muçulmano ou judeu, seria tão natural discutir com um ser de luz como receber a  visita de um viajante de país longinquo. Se estas criaturas inspiravam curiosidade e por vezes cobiça pelos conhecimentos que possuiam, nunca inspiraram medo ou terror. A partir de um certo nível de cultura, parecia que os cristãos , muçulmanos ou judeus, acreditavam num Centro onde o alto saber era conservado e onde os visitantes vinham até eles. Eis porque, por exemplo, a visita dos embaixadores  vindos do reino do Padre João provocou curiosidade, mas não surpresa.

Hoje em dia, certos eruditos do Islão acreditam na existencia desses Centros, mas poucas pessoas na Europa , ou na América o crêem. Em compensação na Idade Média , a existencia deste Centro e de um  Rei do Mundo governado a partir deste Centro, era geralmente admitida, e parecia totalmente natural que  esse rei enviasse mensageiros. Assim como é natural para os primitivo, hoje, ver pousar aviões, provenientes dos Estados Unidos ou do Japão, em regiões da Nova Guiné  ou da América do Sul, onde  não existe contato com a civilização avançada. Os habitantes dessas regiões sabem da existencia de  um ou vários centros de civilização mais avançada que a sua. Mas fazem idéias extremamente vagas desses centros, se bem que fundamentem nessas visitas religiões que se chamam “os Cultos do Cargo“.

Do muito tempo dos demonios luminosos nos resta um manuscrito que poderia talvez nos revelar os segredos se soubermos decifra-lo. É o famoso manuscrito Voynich.

Algumas palavras antes de entrar no mistério do manuscrito. A criptografia , arte de compor mensagens secretas , se desenvolveu paralelamente à alquimia e ao esoterismo. Para não dar mais do que dois exemplos. Trithème e Blaise de Vigenère são , ao mesmo tempo, dois grandes alquimistas, dois grandes mágicos e pioneiros da criptografia. Se, graças a eles, a criptografia progrediu até chegar a ser uma ciência exta, a arte de decifrar mensagens sem conhecer os códigos ou os simbolos é muito menos avançada. Os grandes ordenadores, certamente, facilitam o trabalho, mas não o fazem por si mesmos. Um grande decifrador funciona graças a uma espécie de percepção extra-sensorial, que o faz descobrir a informação num caos de numeros e letras.

Como testemunha esta anedota que vivi: Um dos grandes decifradores franceses, cujo nome não me é possivel citar, foi insistentemente procurado por um cura que afirmava ter inventado um código à prova de qualquer decifração. Finalmente, o decifrador consentiu em recebe-lo. Assisti à entrevista. O cura se sentou e estendeu a meu amigo uma folha de papel recoberta de grupos de cinco letras. Meu amigo deu uma olhadela , e cinco segundos depois dizia:

    –    Senhor Padre, o texto evidente de vossa mensagem é: Duas pombas se amam com amor
terno, de La Fontaine
    O cura se persignou , aterrorizado. Perguntou:
   –   Como pode o senhor. . . ?
    E ele me respondeu :
    –    Nem eu mesmo sei. Qualquer coisa na estrutura da mensagem me sugeria: Duas pombas se
amam com amor terno.

Se este relampejar de gênio não existisse, a decifração seria impossivel. Uma idéia muito simples pode
se ocultar totalmente, porque o decifrador não pensa nela.

Estamos agora prontos a  enfrentar os mistérios do manuscrito Voynich. Este manuscrito poderá ser seu, se quiser pagar por ele um milhão e cem mil francos novos. Tem duzentas e quatro páginas, vinte e  oito outras foram perdidas. Não se pode decrifar uma só palavra. Por que então esse preço astronomico,  por que desperta tanto interesse?

É que, quando o manuscrito foi descoberto em 1912 pelo especialista em livros raros, Wilfrid Voynich, ele tinha comprado da escola de jesuitas de Mondragone,  em Frascati. Itália , documentos antigos da Companhia. Documentos sensacionais . Uma missiva de 19 de agosto de 1966 , assinada por Johanes Marcus MArci, reitor da Universidade de Praga, recomendava o manuscrito ao Padre Athanase Kircher, o mais célebre criptografo de seu tempo. O reitor afirmava  que o manuscrito era de Roger Bacon. O manuscrito foi oferecido por volta de 1585 ao Imperador Rodolfo II pelo alquimista e mágico John Dee, que não havia conseguido decifra-lo, mas estava persuadido que ele continha os mais formidáveis segredos. Voynich levou o manuscrito aos Estados Unidos , onde os melhores decifradores inclusive os das Forças Armadas Americanas , o examinaram , sem nenhum sucesso.

 Em 1919 , Voynich tirou fotocópias do manuscrito e levou-as ao professor William Romaine  Newbold, que era um grande decifrador e havia prestado inumeráveis bons serviços ao governo americano. O professor de filosofia, Newbold, com cinquenta e quatro anos de idade, era um homem de cultura prodigiosa. Pretendia-se  na época ser ele o unico a saber onde estava o Santo Graal.

Em abril de 1921 , Newbold anunciou os primeiros resultados. Fantásticos. Segundo os textos, Roger Bacon havia identificado a nebulosa de Andromeda como uma galáxia, conhecia os cromossomos e seu  papel, construira um microscópio, um telescópio e outros instrumentos. Isto causou sensação no mundo inteiro, mas muitos outros decifradores não estavam de acordo com a solução de Newbold. Esta , de qualquer  modo, não era senão parcial e cobria , no máximo , um quarto do manuscrito. Parece que em certo momento o próprio método de codificação do manuscrito se modifica .

Era preciso encontrar a solução completa. Newbold não teve tempo de fazê-lo antes de sua morte, em 1926. Seu trabalho foi continuado por um dos seus colegas, Rolland Grubb Kent, que publicou resultados bem recebido por certos historiadores , não tão bem por outros. A grande objeção  feita ao trabalho de Newbold era que Bacon não podia , em sua época , conhecer as nebulosas espirais nem a constituição do nucleo celular. Eu ( J.Bergier) não estou totalmente de acordo com essa objeção: se Bacon entrou em contato com o exterior, pode muito bem ter recebido informações que parecem provir do seu futuro, e mesmo do nosso futuro.

Em 1944, o Cel. William F. Friedman, que durante a Segunda Grande Guerra decifrou o código japonês, organizou um grupo multidisciplinar constituido por matemáticos , historiadores, astrônomos e especialistas em criptologia. Este grupo utilizou máquinas muito aperfeiçoadas mas não conseguiu decifrar o manuscrito. Entretanto, encontrou-se a razão deste malogro: o manuscrito não era escrito em inglês, nem em latim, mas em uma lingua artificial, inventada não se sabe por quem ( as primeiras linguas artificiais datam do século XVII e são muito posteriores a Bacon), e não correspondem a nenhuma lingua humana conhecida. Nestas condições, como Newbold pôde decifrar  uma parte, pelo menos, do manuscrito? Por uma intuição genial, que o conduziu ao sentido pela linguagem artificial, mas que não se aplica a certas partes do manuscrito. As pesquisas continuam. Todo mundo se põe de acordo com o fato de que este manuscrito apresenta sentido e que não é brincadeira ou mistificação. Voynich morreu em 1930 , sua mulher em 1960, e seus herdeiros venderam o manuscrito a um livreiro de Nova York, Hans P. Kraus, que pede atualmente por ele um milhão e cem mil francos. E Kraus declarou recentemente que , decifrado, o manuscrito valerá dez milhões de dólares.

Pretendeu-se propor métodos de decifração fundados na “linguagem dos demonios luminosos”, que John Dee descreveu com certa precisão. Essas tentativas fracassaram. Um dos objetivos da  INFO (International Fortiana) que continuou a obra de Charles Fort, é decifrar o manuscrito Voynich. Até o presente, não o conseguiu. O segredo dos demônios e talvez outros ainda mais extraordinários se encontram nestas páginas recobertas de uma escrita medieval.
Extraido do livro Os Extraterrestres na História de Jacques Bergier  –  Editora Hemus –  1970

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/extraterrestres-na-idade-media/

Arcano 8 – A Força – Teth

Uma mulher abre com as duas mãos as mandíbulas de um leão. É vista de três quartos e olha para a direita; o leão, por sua vez, está de perfil. A mão direita da mulher, está apoiada no focinho do leão, enquanto que a esquerda segura o maxilar inferior.

O personagem veste uma saia azul e uma capa ou manto vermelho, com laterais de tamanhos diferentes, já que a da direita chega ao chão enquanto que a da esquerda não passa da cintura.

Todas as partes visíveis de seu corpo estão representadas em cor carne; tem ainda um chapéu, cuja forma lembra o do Prestidigitador (O Mágico).

Do leão, vê-se apenas a cabeça, a juba e as patas dianteiras. O fundo e o chão são incolores. Em algumas versões, a sandália da mulher, que surge debaixo da roda da saia, parece apoiar-se no ar.

Significados simbólicos
Virtude. Coragem. Potência anímica. Integração harmoniosa das forças vitais.

Força moral, autodisciplina, controle

Interpretações usuais na cartomancia
Energia moral, calma, coragem. Espírito que domina a matéria. A inteligência que doma a brutalidade. Subjugação das paixões.

Lucro nos empreendimentos empresariais.

Mental: Esta carta traz uma grande agudeza para distinguir entre o verdadeiro e o falso, o útil e o inútil, e uma clareza precisa na avaliação.

Emocional: Domínio sobre as paixões, poder de conquista. Para uma mulher que está para se casar: conseguirá que sua personalidade não seja anulada pelo afeto que sente pelo marido. Proteção afetuosa.

Físico: Vontade para vencer os obstáculos, domínio da situação; faz valer seus legítimos direitos. Capacidade para tomar direção em todos os assuntos materiais.

Sentido negativo: A pessoa não é dona da sua força; é brutal, desatenta, deixa-se levar pelo poder em vez de utilizá-lo.Os fatos ou as pessoas o abatem; sua força será aniquilada, e será vítima de forças superiores. Impaciência.

Cólera, ardor incontido. Insensibilidade, crueldade.

Luta, guerra, conquista violenta. Operação cirúrgica. Veemência, discórdia. Incêndio.

História e iconografia
A Força, simbolizada pelo homem triunfante sobre os animais ou sobre a natureza, foi amplamente glorificada na literatura antiga e na arte medieval. No Antigo Testamento aparece a história de Sansão, e na mitologia greco-latina a saga dos trabalhos de Hércules. A batalha do herói com o leão de Neméia foi usada provavelmente como alegoria da força desde a antigüidade mais remota: nas escavações realizadas nos arredores de Tróia, encontrou-se um capacete do século VII a.C. com o desenho de um homem que abre com as mãos as mandíbulas de um leão. A Idade Média recorre com freqüência a esta imagem, como símbolo da força moral e espiritual, usando como protagonista Sansão ou então o Rei Davi.

No Tarô, porém, é uma mulher que representa a Força, na mais difundida alegoria do leão (versão de Rider Waite), incluindo as colunas (Tarô de Carlos VI). O antecedente mais ilustre desta transposição alegórica é a lenda de Cirene, a ninfa caçadora que envergonhou e seduziu o instável Apolo.

Píndaro conta de uma excursão do deus até o monte Pelion, na Tessália, para a qual ele teria partido formidavelmente bem armado, a fim de prevenir-se dos perigos que poderiam lhe acontecer em tão longa travessia; ali encontrou Cirene, que “sozinha e sem uma lança combatia um imenso leão…”

Embora o Arcano VIII seja uma ilustração perfeita desta lenda, não se encontra um só exemplo que a reproduza nos manuscritos medievais. Iconograficamente, a carta da Força seria assim uma das contribuições mais originais do Tarô.

Uma instrução curiosa, escrita na margem de uma página da Somme du Roi, manuscrito do ano 1295, orienta o pintor que iria ilustrar os textos. Embaixo do número 8, pode-se ler: “Aqui vai uma dama de pé que domina um leão. O nome da dama é Força”. Mas a miniatura nunca foi executada.

A dama serena e triunfante do Arcano VIII representa, assim, a culminação da via seca e racional inaugurada pelo Prestidigitador. Iconograficamente, liga-se a ele pela expressão corporal – de pé, em atitude de ação repousada e, fundamentalmente, pelo chapéu que segue no seu desenho o signo do infinito.

Um exercício curioso de “adição e redução mística” permite relacionar as quatro figuras femininas da primeira parte do Tarô. Com efeito: 3 (Imperatriz) + 8 (Força) = 11 (Justiça), que se reduz a: 11 = 1 + 1 = 2 (Sacerdotisa). Partindo da via seca (masculina) dos arcanos, este esquema feminino (úmido e intuitivo) se presta a múltiplas especulações combinatórias.

Alguns estudiosos vêem na Força uma clara alusão zodiacal: Leão vencido por Virgem, ou, o que dá no mesmo, o calor ardente, que corresponde à plenitude do verão, domado pela antecipação serena do outono (no hemisfério norte).

Neste sentido é preciso interpretar a parábola esotérica do Arcano VIII: o personagem não mata o leão, mas o doma; a sabedoria consiste em não desprezar o inferior, em não aniquilar o que é bestial, mas sim em utilizá-lo. Não é outro o resultado natural que se depreende da Grande Obra alquímica.

Por Constantino K. Riemma
http://www.clubedotaro.com.br/

@MDD – Obs: a imensa maioria dos tarólogos brasileiros, que nunca estudaram Kabbalah, atribuem errôneamente o Arcano da Força ao Arcano XI, por conta do Baralho de Marselha, o mais difundido aqui no Brasil. O Tarot Mitológico, segundo mais utilizado, não atribui números aos Arcanos em suas lâminas.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-8-a-for%C3%A7a-teth

Genesis Reload

Em alguns níveis, um sonho privado se insere em temas verdadeiramente míticos e não pode ser interpretado senão em analogia com o mito. Jung fala de duas ordens de sonho, o sonho pessoal e o sonho arquetípico, ou o sonho com dimensão mítica. Você pode interpretar um sonho pessoal por associação, deduzindo o que ele diz sobre sua própria vida, ou em relação a seus problemas pessoais. Mas a qualquer momento surge um sonho que é puro mito, que contém um tema mítico, ou, como se diz, que provém do Cristo interior.

Agora, existe um outro sentido, mais profundo, do tempo do sonho, o de um tempo que é não tempo, apenas um estado de ser que se prolonga. Existe um importante mito, da Indonésia, que fala dessa era mitológica e seu término. No início, de acordo com essa história, os ancestrais não se distinguiam, em termos de sexo. Não havia nascimentos, não havia mortes. Então uma imensa dança coletiva foi celebrada e no seu curso um dos participantes foi pisoteado até a morte, cortado em pedaços, e os pedaços foram enterrados. No momento daquela morte, os sexos se separaram, para que a morte pudesse ser, a partir de então, equilibrada pela procriação, procriação pela morte, pois das partes enterradas do corpo desmembrado nasceram plantas comestíveis. Tinha chegado o tempo de ser, morrer, nascer, e de matar e comer outros seres vivos, para a preservação da vida. O tempo sem tempo, do início, tinha terminado, por meio de um crime comunitário, um assassinato ou sacrifício deliberado.

Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer a si mesma! A vida vive de vidas, e a conciliação da mente e da sensibilidade humanas com esse fato fundamental é uma das funções de alguns daqueles ritos brutais, cujo ritual consiste basicamente em matar por imitação daquele primeiro crime primordial, a partir do qual se gestou este mundo temporal, do qual todos participamos. A conciliação entre a mente humana e as condições da vida é fundamental em todas as histórias da criação. Quanto a isso, todas se parecem muito.

Considerando a história da Criação no Gênesis, por exemplo, vemos que ela é semelhante a outras histórias de Criação.

Gênesis: “No início Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, e a escuridão vagava sobre a face do abismo”.

Canção do mundo: “No início havia apenas escuridão por toda parte escuridão e água. E a escuridão se reuniu e se tornou espessa em alguns lugares, acumulando se e então separando se, acumulando e separando…”

Gênesis: “E o espírito de Deus se moveu sobre a face das águas. E Deus disse: Faça se a luz, e a luz se fez”.

Upanixades: “No início, havia apenas o grande Uno refletido na forma de uma pessoa. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: Este sou eu”.

Gênesis: “Então Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Sede férteis e multiplicai vos”.

Lenda dos Bassari: “Unumbotte fez um ser humano. Seu nome era Homem. Em seguida, Unumbotte fez um antílope, chamado Antílope. Unumbotte fez uma serpente, chamada Serpente… E Unumbotte lhes disse: A terra ainda não foi preparada. Vocês precisam tornar macia a terra em que estão sentados. Unumbotte deu lhes sementes de todas as espécies e disse: Plantem-nas.”

Gênesis: “Então os céus e a terra ficaram prontos, e todos os seus hóspedes. E no sétimo dia Deus terminou o trabalho que tinha realizado…”

Índios Pima: “Eu faço o mundo e eis que o mundo está terminado. Então eu faço o mundo, e eis! O mundo está terminado”.

Gênesis: “E Deus viu tudo o que tinha feito e eis que tudo era bom”.

Upanixades: “Então ele se deu conta, Eu verdadeiramente, Eu sou esta criação, pois Eu a retirei de mim mesmo. Desse modo, ele se tornou a sua criação. Em verdade, aquele que conhece isso se torna, nessa criação, um criador”.

Aí está a chave. Quando você sabe isso se identifica com o princípio criativo, que é o poder de Deus no mundo, quer dizer, dentro de você. Isso é belo.

Mas o Gênesis continua: “Vós comestes da árvore da qual ordenei que não comêsseis? O homem disse: A mulher que me destes para estar comigo, essa mulher me deu o fruto da árvore e eu comi. Então o Senhor Deus disse à mulher: Que fizestes vós? E a mulher disse: A serpente me enganou e eu comi”.

Isso de transferir responsabilidades começou muito cedo.

A lenda Bassari continua no mesmo caminho: “Um dia a Serpente disse: Nós também devíamos comer desses frutos. Por que devemos ficar com fome? O Antílope disse: Mas não sabemos nada desse fruto. Então o Homem e sua mulher colheram alguns frutos e o comeram. Unumbotte desceu do céu e perguntou: Quem comeu o fruto? Eles responderam: Nós comemos. Unumbotte perguntou: Quem lhes disse que podiam comer desse fruto? Eles responderam: A Serpente disse.”

É praticamente a mesma história. Os protagonistas apontam um terceiro como o iniciador da Queda, e em ambas as histórias, a serpente é o símbolo da vida desfazendo-se do passado e continuando a viver. O poder da vida leva a serpente a se desfazer de sua pele, exatamente como a lua se desfaz da própria sombra, para renascer. São símbolos equivalentes. Às vezes a serpente é representada como um círculo, comendo a própria cauda. É uma imagem da vida. A vida se desfaz de uma geração após outra, para renascer. A serpente representa a energia e a consciência imortais, engajadas na esfera do tempo, constantemente atirando fora a morte e renascendo. Existe algo extremamente horrível na vida, quando você a encara desse modo. Com isso, a serpente carrega em si o sentido da fascinação e do terror da vida, simultaneamente.

Além disso, a serpente representa a função primária da vida, sobretudo comer. A vida consiste em comer outras criaturas. Você não pensa muito a respeito quando faz uma boa refeição, mas o que está fazendo é comer algo que há pouco estava vivo. E quando você olha para a bela natureza e vê os passarinhos saltitando daqui para ali… eles estão comendo coisas. Você vê as vacas pastando, elas estão comendo coisas. A serpente é um canal alimentar que se move, isso é tudo. Ela lhe dá aquela sensação primária de espanto, da vida em sua condição mais primitiva. Este é um dos mistérios que aquelas formas simbólicas, paradoxais, tentam representar. Agora, em muitas culturas é dada uma interpretação positiva à serpente. Na Índia, mesmo a mais venenosa das serpentes, a naja, é um animal sagrado, e a mitológica Serpente Rei é quem está ao lado do Buda. A serpente representa o poder da vida, engajado na esfera do tempo, e o da morte, não obstante eternamente viva. O mundo não é senão a sua sombra – a pele rejeitada.

A serpente também era reverenciada nas tradições dos índios americanos. Era concebida como um meio muito importante de se fazer amigos. Vá aos pueblos, por exemplo, e observe a dança da serpente, dos hopi, em que eles tomam as serpentes na boca, usam-nas para fazer amigos e depois as mandam de volta para as colinas. Elas são mandadas de volta para levar a mensagem humana às colinas, assim como tinham trazido a mensagem das colinas aos homens. A interação do homem com a natureza está representada nessa relação com a serpente. A serpente flui como a água e por isso é aquática, mas sua língua continuamente dispara fogo. Assim você tem aí o par de opostos, reunidos na serpente.

Já na história cristã a serpente é o sedutor. Isso representa a recusa em afirmar a vida. Na tradição bíblica que herdamos, a vida é corrupta e todo impulso natural é pecaminoso, a menos que tenha havido circuncisão ou batismo. A serpente é aquele ser que trouxe o pecado ao mundo. E a mulher é quem ofereceu a maçã ao homem. Essa identificação da mulher com o pecado, da serpente com o pecado, e portanto da vida com o pecado, é um desvio imposto à história da criação, no mito e na doutrina da Queda, segundo a Bíblia. A idéia é que a natureza, como a conhecemos, é corrupta, o sexo em si é corrupto, e a fêmea, como epítome do sexo, é um ser corruptor.

Por que o conhecimento do bem e do mal foi proibido a Adão e Eva? Sem esse conhecimento, seríamos todos um bando de bebês, ainda no Éden, sem nenhuma participação na vida. A mulher traz a vida ao mundo. Eva é a mãe deste mundo temporal. Anteriormente, você tinha um paraíso de sonho, ali no jardim do Éden – sem tempo, sem nascimento, sem morte, sem vida. A serpente, que morre e ressuscita, largando a pele para renovar a vida, é o senhor da árvore primordial, onde tempo e eternidade se reúnem. A serpente, na verdade, é o primeiro deus do jardim do Éden. Jeová, o que caminha por ali no frescor da tarde, é apenas um visitante. O Jardim é o lugar da serpente. Esta é uma velha, velha história. Existem sinetes sumerianos, que remontam a 3500 a.C., mostrando a serpente, a árvore e a deusa, e esta oferecendo o fruto da vida ao visitante masculino. A velha mitologia da deusa está toda aí.

Existe, na realidade, uma explicação histórica para essa imagem negativa da serpente na Bíblia, baseada na chegada dos hebreus a Canaã e na subjugação do povo de Canaã. A principal divindade desse povo era a Deusa, e, associada à Deusa, estava a serpente. Este é o símbolo do mistério da vida. Os hebreus, orientados na direção do deus masculino, rejeitaram isso. Em outras palavras, existe uma rejeição histórica da Deusa Mãe, implícita na história do jardim do Éden.

MOYERS: Que é que o mito de Adão e Eva nos diz sobre os pares de opostos? Que é que significa?

CAMPBELL: A coisa começou com o pecado – em outras palavras, com o abandono do mundo mitológico de sonhos do jardim do Paraíso, onde não há tempo e onde o homem e a mulher sequer sabem que são diferentes um do outro. Ambos são apenas criaturas. Deus e homem são praticamente o mesmo. Deus caminha no frescor da tarde no jardim onde eles estão. Aí eles comem a maçã, o conhecimento dos opostos. E quando descobrem que são diferentes, homem e mulher cobrem suas vergonhas. Como você vê, eles não pensaram em si mesmos como opostos. Macho e fêmea constituem uma oposição. Outra oposição é entre o homem e Deus. Deus e o mal é uma terceira oposição. As oposições primárias são a sexual e aquela entre seres humanos e Deus. Então surge a idéia de bem e mal no mundo. Assim, Adão e Eva se expulsaram a si mesmos do jardim da Unidade Atemporal, você pode dizer assim, pelo simples fato de haverem reconhecido a dualidade. Saindo para o mundo, você tem de agir em termos de pares de opostos. Existe uma imagem hindu (Yantra) que mostra um triângulo, que é a Deusa Mãe, e um ponto no centro do triângulo, que é a energia do transcendente ingressando na esfera do tempo. Então, a partir desse triângulo, formam se pares de triângulos em todas as direções. Do um provêm dois. Todas as coisas, na esfera do tempo, são pares de opostos. Assim, essa é a mudança de consciência, da consciência da identidade para a consciência de participação na dualidade. E então você se encontra na esfera do tempo.

MOYERS: Estará a história tentando dizer que, antes do que aconteceu nesse Jardim para nos destruir, havia a unidade da vida?

CAMPBELL: É uma questão de planos de consciência. Não tem nada a ver com o que tenha acontecido. Existe o plano de consciência em que você pode se identificar com o que transcende os pares de opostos.

MOYERS: Que vem a ser…?

CAMPBELL: Inominável. Inominável. Transcende todos os nomes.

MOYERS: Deus?

CAMPBELL: “Deus” é uma palavra ambígua, em nossa língua, pois parece referir alguma coisa conhecida. Mas o transcendente é desconhecido e incognoscível. Deus, em suma, transcende qualquer coisa, mesmo o nome “Deus”. Deus está além de nomes e formas. Mestre Eckhart disse que a suprema e mais alta renúncia é abandonar Deus por Deus, abandonar a noção de Deus por uma experiência daquilo que transcende a todas as noções. O mistério da vida está além de toda concepção humana. Tudo o que conhecemos é limitado pela terminologia dos conceitos de ser e não ser, plural e singular, verdadeiro e falso. Sempre pensamos em termos de opostos. Mas Deus, o supremo, está além dos pares de opostos, já contém em si tudo.

MOYERS: Por que pensamos em termos de opostos?

CAMPBELL: Porque não podemos pensar de outro modo. Essa é a natureza de nossa experiência da realidade. Homem/mulher, vida/morte, bem/mal, eu/você, verdadeiro/falso – tudo tem o seu oposto. Mas a mitologia sugere que sob essa dualidade existe uma singularidade em relação à qual a dualidade desempenha um papel de jogo de sombras. “A eternidade está apaixonada pela produção do tempo”, diz o poeta Blake. A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a idéia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na Índia, o deus que repousa em mim é chamado o “habitante” do corpo. Identificar se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar se com a divindade.

A suprema palavra, em nossa língua, para o transcendente é Deus. Mas aí você tem um conceito, percebe? Você pensa em Deus como o pai. Agora, nas religiões em que o deus ou o criador é a mãe, o mundo inteiro é o corpo dela. Fora daí não há nada. O deus masculino geralmente está em alguma outra parte. Mas masculino e feminino são dois aspectos de um só princípio. A divisão da vida em sexos foi uma divisão tardia. Biologicamente, a ameba não é macho nem fêmea. As células primitivas são apenas células. Elas se dividem e se tornam duas por reprodução assexual. Não sei em que estágio a sexualidade aparece, mas é um estágio tardio. Eis por que é absurdo falar em Deus como deste ou daquele sexo. O poder divino é anterior à separação sexual.

A polaridade (O “ele”, ou “ela”) é um trampolim para lançar você na direção do transcendente, e transcender é ir além da dualidade. Tudo na esfera de tempo e espaço é dual. A encarnação aparece ou como macho ou como fêmea, e cada um de nós é a encarnação de Deus. Você nasce com apenas um aspecto da sua verdadeira dualidade metafísica, pode se dizer.

MOYERS: O que diz o mito a respeito de termos tantas coisas em comum, muitas dessas histórias contendo elementos semelhantes – o fruto proibido, a mulher? Por exemplo, esses mitos, essas histórias da criação, contêm um “não farás”.

CAMPBELL: Há um motivo padrão do conto folclórico chamado “A coisa proibida”. Lembra se do Barba Azul, que diz à mulher: “Não abra aquele armário”? E aí sempre há alguém que desobedece. Na história do Velho Testamento, Deus aponta para a coisa proibida. Ora, Deus com certeza sabia muito bem que o homem ia comer o fruto proibido. Mas só procedendo assim é que o homem poderia se tornar o iniciador de sua própria vida. A vida, na realidade, começou com aquele ato de desobediência.

MOYERS: Como você explica essas similaridades?

CAMPBELL: Há duas explicações. Uma é que a psique humana é essencialmente a mesma, em todo o mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos. A partir desse solo comum, constitui se o que Jung chama de arquétipos, que são as idéias em comum dos mitos.

Agora, existe também a contrateoria da difusão, que pretende dar conta da similaridade dos mitos. Por exemplo, a arte de lavrar o solo avança a partir da área em que se desenvolve primeiro, levando consigo uma mitologia que tem a ver com a fertilização da terra, com plantar e cultivar plantas alimentícias – mitos como aquele antes descrito, de matar uma divindade, cortá-la em pedaços, enterrar as partes, e daí o crescimento das plantas alimentícias. Um mito desse tipo acompanhará uma tradição agrária ou lavradora. Mas você não o encontrará numa cultura voltada para a caça. Assim, há aspectos tanto históricos como psicológicos nessa questão da similaridade dos mitos.

Quando você se dá conta de que Deus é a criação, e que você é uma criatura, percebe que Deus está dentro de você, assim como dentro do homem ou mulher com quem você conversa. Assim se dá a conscientização de dois aspectos de uma divindade. Existe o motivo mitológico básico de que, na origem, tudo era um, e então houve a separação – céu e terra, macho e fêmea, e assim por diante. Como foi que perdemos contato com a unidade? Você pode dizer que a separação foi culpa de alguém – eles comeram o fruto errado ou dirigiram a Deus as palavras erradas, que o deixaram furioso e ele se afastou. Por isso, agora, o eterno de algum modo está longe de nós e temos de encontrar um meio de restabelecer contato com ele.

Há duas ordens de mitos. Os grandes mitos, como o da Bíblia, por exemplo, são os mitos do templo ou dos grandes rituais sagrados. São explicativos dos ritos por meio dos quais as pessoas vivem em harmonia entre si e com o universo. É normal o entendimento dessas histórias como alegóricas.

Em quase todas as culturas, há duas ou três histórias da criação, e não apenas uma. Há duas na Bíblia, embora as pessoas as considerem somente uma. Você se lembra, no jardim do Éden, da história do capítulo 2: Deus pensa numa forma de entreter Adão, que ele tinha criado para ser seu jardineiro, para tomar conta do seu jardim. Esta é uma velha, velha história, tomada de empréstimo aos antigos Sumérios. Mas o jardineiro de Jeová está entediado. Então Deus tenta inventar brinquedos para ele. Cria os animais, mas tudo o que o homem pode fazer é nomeá-los. Aí Deus concebe essa magnífica idéia de extrair do próprio corpo do homem a alma da mulher – que é uma história de criação muito diferente daquela do capítulo 1 do Gênesis, em que Deus criou Adão e Eva, juntos, à sua imagem, como macho e fêmea. Ali, Deus, ele próprio, é o andrógino primordial. A história do capítulo 2 é, de longe, mais antiga, tendo se originado, talvez, por volta do século VIII a.C., enquanto a do capítulo 1 provém de um assim chamado texto sacerdotal, de cerca do século IV a.C., ou mais tarde.

Na história hindu da Identidade que sentiu medo, depois desejo e então dividiu se em dois, temos a contraparte do Gênesis 2. No Gênesis, é o homem, e não Deus, que se divide em dois.

A lenda grega, contada por Aristófanes no Banquete de Platão, é outra história dessa espécie. Aristófanes diz que, no início, havia criaturas compostas de partes que correspondem, agora, a dois seres humanos. Essas criaturas eram de três tipos: macho/fêmea, macho/macho e fêmea/fêmea. Os deuses, então, dividiram a todos em dois. Uma vez separados, tudo o que pensaram fazer foi abraçar se uns aos outros, de novo, a fim de reconstituir as unidades originais. Por isso passamos nossas vidas tentando encontrar, para tornar a abraçar, nossas metades.

MOYERS: Você está sugerindo que a mitologia é o estudo de uma única grande história da espécie humana? Qual é essa grande história única?

CAMPBELL: Que nós procedemos de um só fundamento de ser, como manifestações na esfera do tempo. A esfera do tempo é uma espécie de jogo de sombras sobre um fundamento atemporal. Jogando o jogo na esfera da sombra, você empenha o seu lado da polaridade, com todo o vigor. Mas você sabe que o seu inimigo, por exemplo, é apenas o outro lado do que você poderia ver, enquanto você mesmo, caso pudesse situar se numa posição medial.

MOYERS: Então a grande história única é nosso esforço para encontrar nosso lugar em cena?

CAMPBELL: Para entrar em acordo com a grande sinfonia que é o mundo, para colocar a harmonia do nosso corpo em acordo com essa harmonia.

#espiritualismo #Mitologia

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Macacos Cirurgiões e Metalurgicos

A “idade da pedra antiga” ou paleolítica indica aproximadamente o décimo milênio antes de nossa era. O Grande Atlas Mundial do Reader’s Digest, composto com a colaboração de todas as grandes Escolas, das Academias e dos  Serviços Oficiais do mundo inteiro e também da UNESCO , publica à pág. 148:

“O período paleolítico  superior perdura mais ou menos de 35.000 a 8.000 anos antes de nossa era. . . Seguem o mesolítico e o neolítico . . . os machados são de pedra polida . . . Na Europa ocidental a idade do bronze se localiza em volta de 2.500 anos, a idade do bronze por volta de 2.000 anos atrás . O uso do ferro começou com os hititas, aproximadamente 1.500 anos antes de Cristo.

Vocês entenderam direito: os autores das Vedas, os linguistas , os literatos do sanscrito indo-europeu , os construtores dos templos antigos do Egito , os escultores das pedras de Palenque no México e da Porta do Sol na Bolivia , não conheciam o ferro , nem o bronze , nem o cobre!

Eles construiram as pirâmides , cortaram as pedras de Abydos , de carnac e de Luxor com buris e martelos de madeira ou pedra ! Os homens vestidos, gravados nos seixos de Lussac-les-Chateaux , não conheciam o ferro nem em forma de meteoros , e os pintores dos afrescos de Montignac-Lascaux também partilhavam da mesma ignorância!

Há coisas mais estranhas ainda:  os inúmeros povos da Ásia  e da Europa , de Lepenski-Vur e de Chatal-Huyuk , os do norte da Europa , em cujos túmulos foram encontrados objetos de bronze , de ouro e de cobre . . . sim, é isso mesmo! Esses produtores de objetos de bronze de 10.000 anos atrás desconheciam o bronze! Quem disser o contrário, quem mostrar o que é evidente , não passa de um herege!

Mas em se falando de Ancestrais Superiores, o amago do problema é a controvertida origem do homem.

—    Descendemos de macacos , ou pelo menos de animais parecidos ao gibão e ao orangotango. . . isso é que nos ensina nossa pré-história oficial!

Então , o homem descende do macaco? Vamos admitir essa hipótese: e nossa história ficaria parada por uma consideração pouco agradável e que não traria outro beneficio a não ser o de comprovar a teoria darwiniana a respeito da evolução . Por outro lado , uma segunda hipotese muito mais plausivel e muito mais edificante leva-nos a acreditar que o homem terrestre teve Ancestrais Superiores. Nesse caso , a aventura humana torna-se prodigiosa, fecunda , exaltadora!

Descobertas perigosas poderiam explicar a “punição” do Diluvio, a perda do “Paraiso terrestre” e amultidão de tradições distorcidas mas assim mesmo vivas que chegaram até nós. Assim poderiam também ser explicadas os vestigios de civilizações desconhecidas que nos deixam perplexos  e as invenções , as sábias idéias de nossos antepassados egípcios, gregos, hindus , incas e mexicanos.

Não temos o direito de eliminar essa tese na pesquisa de nossa gênese , porque somente ela leva ao passado fantástico e, sem duvida , à verdade.

Foi realmente fantástico esse passado que foi o presente de nossos Antepassados Superiores. 100.000 anos atrás eles faziam transplantes de coração da mesma forma que nossos melhores cirurgiões , aliás melhor do que ele, pois os transplantes eram coroados de exito!

—    Isso é impossivel, dirão os “pré-historiadores”! 100.000 anos atrás estavamos na época do Pitecantropo ( de 100.000 a 500.000 anos ) ou do homem de Mauer, ou então no início do homem de Neandertal!

Será possivel imaginar uma criatura parecida com um macaco , que mal consegue cortar o quartzo  , praticando a mais dificil operação cirúrgica em um corpo humano?

Durante uma exploração na äsia Central, em 1969, o professor soviético Leonidof Marmadjaidjan , que estava dirigindo os trabalhos de um grupos de pesquisadores das universidades de Leningrado e de Achkhabad , descobriu uma necrópole dentrode uma caverna. Abriram uma vala comum que continha trinta esqueletos em perfeito estado de conservação e que, tão logo o grupo chegou em Achkhabad , foram submetidos a testes de radiocarbono.

O carbono 14 acusou uma idade superior a 20.000 anos ( O carbono 14 pode datar fósseis até 10.000 anos ; além disso torna-se inexato).

Análises mais apuradas levaram à conclusão científica de que os esqueletos tinham aproximadamente 100.000 anos . Além disso, apresentavam curiosas marcas de operações no toráx; por causa de sua antiguidade e importancia da descoberta, os cientistas soviéticos começaram a fazer apurados exames osteológicos. Os ossos de nossos antepassados de 100 milenios atrás foram examinados um a um e o resultado do estudo foi publicado com o seguinte titulo:

RELATÓRIO DA EXPEDIÇÃO CIENTIFICA MARMADJAIDJAN NA ASIA CENTRAL SOVIÉTICA EM 1969, PATROCINADA PELA SOCIEDADE UNINAL ( sic! ) DE ANTROPOLOGIA DO TURQUE MENISTÃO.”

Com o benefício de tal sociedade o relatório , em fins de novembro de 1969 , foi enviado à Academia de Ciencia da URSS. O rela’torio especificava que oito dos esqueletos em questão apresentavam sinais de graves lesões ósseas , acontecidas quando os individuos ainda estavam vivos.

Essas lesões pareciam provocadas por lutas contra animais ( ursos, panteras, tigres da Sibéria? ) porque a superfice de alguns ossos trazia claramente marcas de garras. Outros ossos tinham lesões muito profundas provocadas pelas mordidas de feras com presas poderosas. Um dos esqueletos apresentava um “recorte do centro do lugar entalhado por uma trepanação”. A coisa mais estranha porém, é que foram encontrados vestígios de uma intervenção cirúrgica nos ossos em volta da cavidade torácica.

No lado esquerdo dos esqueltos foram encontrados cortes feitos nas costelas por meio de uma pedra afiada ou de outra forma. Um estudo aprofundado das partes operadas permitiu chegar à conclusão de que após a resecção das costelas a abertura fora aumentada por meio de dilatação , para facilitar uma intervenção ciriurgica. Os ossos afetados estavam cobertos de periósteo ( a membrana fibrosa que envolve os ossos e favorece a calcificação) e os cientistas de Achkhabad e Leningrado chegaram à seguinte conclusão : A importante intervenção cirúrgica tivera pleno exito, o paciente sarou e viveu mais três ou cinco anos, como é dado a ver pela espessura do periósteo.

Constataram mais um fato importante : as costelas seccionadas são exatamente aquelas que correspondem à janela cardíaca praticada em nossos dias pelos émulos do Dr. Barnard! Antes disso já tinham sido observadas intervenções praticadas , nos ossos das caixas torácicas de esqueletos encontrados no Oriente Médio ( Palestina, Síria, Irã ) cuja idade fora estimada em 50.000 anos. ( Numa capela da catedral de Valencia ( Espanha ) um retábulo esculpido do século XIV mostra um transplante de perna. O doador é um negro, o receptor um nobre branco. O cirurgião segura o membro que acaba de amputar.)

A mesma coisa foi observada nos restos de uma mulher jovem, em Eyzies , na França . A moça vivera no paleolítico superior, mas as pesquisas foram feitas em fragmentos ósseos , e as conclusões portanto não ultrapassaram a fase das hipoteses.

A descoberta dos  cientistas soviéticos serve para refutar os céticos alunos do finado abade Breuil que afirmava que os homens da pré-história não passavam de seres rústicos e animalescos. De fato, os homens de Neardental que 100.000 anos atrás conseguiram fazer transplantes de coração com pleno sucesso , tinham conhecimentos científicos extraordinariamente desenvolvidos.

Um papiro em idioma copto na biblioteca de Alexandria no Egito, reproduz um texto mais antigo que relata  de que forma sarou um soldado atingido por uma lança no coração.

O homem estava prestando serviço na guarda do rei quando foi atingido.

O faraó que o protegia pediu aos seus médicos que o salvassem. O papiro descreve a operação e explica que o cirurgião foi inspirado a substituir o coração do soldado pelo coração de um jovem touro Ápis. O papiro termina dizendo que a operação teve exito pleno .(Nota do autor : Recebemos a informação do prof. Todericiu. Apesar de todos os nossos esforços não coseguimos indicações certas a respeito do documento. Poderia ser o papiro Ebers, que é um tratado sobre o coração. Os egipcios possuiam uma medicina muito avançada, especializada em afecções das vias respiratórias , do aparelho digestivo, das vias urinárias e da cabeça. Utilizavam supositórios , lavagens e laxantes. Os dentistas obturavam dentes, os oculistas tratavam com sucesso o tracoma, as cataratas e a hemeralopia. O papiro Edwyn Smith prova que os cirurgiões da época dos faraós praticavam a cirurgia óssea em bases cientificas. Hipócrates e galieno não negaram que uma parte de seus conhecimentos vinha de trabalhos por eles consultados no templo de Imhotep , em Memphis.)

É possivel que esse transplante de coração nos tempos dos faraós da mesma forma que a dos homens de Neandertal , foi
possivelmente excepcional e praticado por Estranhos em nosso Planeta.

Se ele aconteceu durante o reino do rei Djéser (III.ª Dinastia ) , quando ainda vivia o sábio e divino Imhotep , poderíamos observar que naquela época , mais ou menos 5.000 anos atrás, os “Iniciadores Venusianos” operavam milagres também na Assiria-Babilonia, na Fenícia e entre os Incas e os Maias.

Nesse sentido, os Ancestrais Superiores , responsáveis pelos transplantes de coração , não poderiam ser autóctones terrestres.  .  .

Qualquer que seja a verdade, apenas mencionada de leve por um pequeno número de homens , os fatos  históricos provam que homens muito evoluidos chegaram à Terra em tempos passados para ensinar aos nossos ancestrais. As escrituras sagradas de todos os povos falam na vinda de Estrangeiros, anjos ou cosmonautas, e as tradições afirmam que eles eram Venusianos.

Cerca de 5.000 anos atrás os Iniciadores fizeram desabrochar a civilização dos maias no México. O mesmo fenomeno aconteceu com os incas no Peru, com os assírios-babilonicos , os fenicios  e os persas.

É impossivel explicar a súbita explosão das respectivas civilizações desses povos sem essa ajuda , e todas as civilizações foram colocadas sob o signo de Venus , com “deuses”, ou seja seres superiores , chamados venusianos : Quetzalcoatl, Orejona, Viracocha , Ishtar , Astarte , Anaita.

Há 10.000 anos atrás um milagre da mesma espécie iniciava a civilização egipcia  com “reis divinos, vindos do céu”. Tudo é um ciclo e tudo começa de novo. Os homens da Terra estão se apontando para se tornar também Iniciadores e “deuses” de algum longinquo planeta. Estaria perfeitamente na linha da ordem universal que, num futuro próximo, outros Extraterrestres viessem ao nosso globo para dar nos uma confirmação fantástica e tranquilizadora de nossa tese.

Os “pré-historiadores” clássicos , e por isso caducos, refutam essa visão profética e a tacham de fantasia. Mas para nós, que ousamos nos intitular homens do amanhã , a pré-história clássica não passa de uma péssima novela, adulterada e tola, inacreditável porque mentirosa.

Extraído ( não cirurgicamente ) do livro  O Mundo dos Livros Esquecidos de Robert Charroux  –  Editora Hemus –  1975

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/macacos-cirurgioes-e-metalurgicos/

Ars Memorativa: introdução à arte hermética da memória

John Michael Greer (Caduceus Vol. 1, No. 1 e 2)

I. Os Usos da Memória

No atual renascimento oculto, a Arte da Memória é talvez o mais completamente negligenciado de todos os métodos técnicos do esoterismo renascentista. Enquanto as pesquisas da falecida Frances Yates(1) e, mais recentemente, o ressurgimento do interesse pelo mestre mnemonista Giordano Bruno(2) tornaram a Arte da Memória algo conhecido nos círculos acadêmicos, o mesmo não acontece na comunidade esotérica mais ampla; mencionar a Arte da Memória na maioria dos círculos ocultistas hoje em dia, para não falar do público em geral, é fazer um convite a olhares vazios.

Em sua época, porém, os métodos mnemônicos da Arte ocupavam um lugar especial entre os conteúdos do kit de ferramentas mentais do mago praticante. A filosofia neoplatônica que subjaz a toda a estrutura da magia renascentista deu à memória e, portanto, às técnicas mnemônicas, um lugar crucial no trabalho de transformação interior. Por sua vez, esta interpretação da memória deu origem a uma nova compreensão da Arte, transformando o que antes era uma forma puramente prática de armazenar informações úteis em uma disciplina meditativa que apela a todos os poderes da vontade e da imaginação.

Este artigo busca reintroduzir a Arte da Memória na tradição esotérica ocidental moderna como uma técnica praticável. Esta primeira parte, “Os Usos da Memória”, dará uma visão geral da natureza e do desenvolvimento dos métodos da Arte e explorará algumas das razões pelas quais a Arte tem valor para o esoterista moderno. A segunda parte, “O Jardim da Memória”, apresentará um sistema básico de memória hermética, desenhado segundo as linhas tradicionais e valendo-se do simbolismo mágico renascentista, como base para experimentação e uso prático.

O método e seu desenvolvimento (3)

Já foi quase obrigatório começar um tratado sobre a Arte da Memória com a lenda clássica de sua invenção. Esse hábito tem algo a recomendá-lo, pois a história de Simônides é mais do que uma anedota colorida; também oferece uma boa introdução aos fundamentos da técnica.

O poeta Simônides de Ceos, segundo a lenda, foi contratado para recitar uma ode no banquete de um nobre. À moda da época, o poeta começava com alguns versos em louvor às divindades — neste caso, Castor e Pólux — antes de passar ao sério assunto de falar de seu anfitrião. O anfitrião, no entanto, se opôs a esse desvio da lisonja, deduziu metade dos honorários de Simônides e disse ao poeta que ele poderia buscar o resto dos deuses que havia elogiado. Pouco depois, foi trazido ao poeta um recado de que dois jovens haviam chegado à porta da casa e desejavam falar com ele. Quando Simônides foi vê-los, não havia ninguém lá – mas na sua ausência o salão de banquetes desabou atrás dele, matando o nobre ímpio e todos os convidados do jantar também. Castor e Pollux, tradicionalmente representados como dois jovens, de fato pagaram sua metade da taxa.

Contos desse tipo eram um lugar-comum na literatura grega, mas este tem uma moral inesperada. Quando os escombros foram removidos, as vítimas foram encontradas tão mutiladas que suas próprias famílias não puderam identificá-las. Simônides, porém, evocou na memória uma imagem do salão de banquetes tal como a vira pela última vez, e a partir dela pôde recordar a ordem dos convidados à mesa. Ponderando isso, segundo a lenda, ele começou a inventar a primeira Arte clássica da Memória. A história é certamente apócrifa, mas os elementos-chave da técnica que descreve – o uso de imagens mentais colocadas em configurações ordenadas, muitas vezes arquitetônicas – permaneceram centrais para toda a tradição da Arte da Memória ao longo de sua história e forneceram a estrutura sobre a qual foi construída a adaptação hermética da Arte.

Nas escolas romanas de retórica, essa abordagem da memória foi refinada em um sistema preciso e prático. Os alunos foram ensinados a memorizar o interior de grandes edifícios de acordo com certas regras, dividindo o espaço em loci ou “lugares” específicos e marcando cada quinto e décimo locus com sinais especiais. Os fatos a serem lembrados foram convertidos em imagens visuais marcantes e colocados, um após o outro, nesses loci; quando necessário, o retórico precisava apenas passear em sua imaginação pelo mesmo prédio, observando as imagens em ordem e relembrando seus significados. Em um nível mais avançado, imagens podem ser criadas para palavras ou frases individuais, de modo que grandes passagens de texto possam ser armazenadas na memória da mesma maneira. Os retóricos romanos que usavam esses métodos atingiram níveis vertiginosos de habilidade mnemônica; um famoso praticante da Arte foi registrado por ter participado de um leilão de um dia inteiro e, no final, repetido de memória o item, o comprador e o preço para cada venda do dia.

Com a desintegração do mundo romano, essas mesmas técnicas passaram a fazer parte da herança clássica do cristianismo. A Arte da Memória assumiu um caráter moral, pois a própria memória foi definida como parte da virtude da prudência, e assim a Arte passou a ser cultivada pela Ordem Dominicana. Foi desta fonte que o ex-Dominicano Giordano Bruno (1548-1600), provavelmente o maior expoente da Arte, traçou as bases de suas próprias técnicas.(4)

Os métodos medievais da Arte diferiam muito pouco daqueles do mundo clássico, mas certas mudanças no final da Idade Média ajudaram a lançar as bases para a Arte Hermética da Memória do Renascimento. Uma das mais importantes foi uma mudança nas estruturas usadas para loci de memória. Junto com as configurações arquitetônicas mais utilizadas na tradição clássica, os mnemonistas medievais também passaram a fazer uso de todo o cosmos ptolomaico de esferas aninhadas como cenário para imagens de memória. Cada esfera de Deus na periferia através dos níveis angélico, celestial e elemental até o Inferno no centro, portanto, continha um ou mais loci para imagens de memória.

Entre este sistema e o dos hermetistas renascentistas há apenas uma diferença significativa, e esta é uma questão de interpretação, não de técnica. Imersos no pensamento neoplatônico, os magos herméticos da Renascença viam o universo como uma imagem das Idéias divinas, e o ser humano individual como uma imagem do universo; eles também conheciam a afirmação de Platão de que todo “aprendizado” é simplesmente a lembrança de coisas conhecidas antes do nascimento no reino da matéria. Em conjunto, essas ideias elevaram a Arte da Memória a uma nova dignidade. Se a memória humana pode ser reorganizada à imagem do universo, nessa visão, ela se torna um reflexo de todo o reino das Idéias em sua plenitude – e, portanto, a chave para o conhecimento universal. Este conceito foi a força motriz por trás dos complexos sistemas de memória criados por vários hermetistas renascentistas e, sobretudo, por Giordano Bruno.

Os sistemas mnemônicos de Bruno formam, em grande medida, o ápice da Arte Hermética da Memória. Seus métodos eram vertiginosamente complexos e envolvem uma combinação de imagens, idéias e alfabetos que exigem uma grande habilidade mnemônica para aprender em primeiro lugar! A filosofia hermética e as imagens tradicionais da magia astrológica aparecem constantemente em sua obra, ligando o quadro de sua Arte ao quadro mais amplo do cosmos mágico. A dificuldade da técnica de Bruno, no entanto, foi ampliada desnecessariamente por autores cuja falta de experiência pessoal com a Arte os levou a confundir métodos mnemônicos bastante diretos com obscuridades filosóficas.

Um exemplo central disso é a confusão causada pela prática de Bruno de vincular imagens a combinações de duas letras. A interpretação de Yates da memória brunoniana baseou-se em grande parte em uma identificação desta com as combinações de letras do lullismo, o sistema filosófico semi-cabalístico de Raimundo Lúlio) (1235-1316) que exclusivamente em termos luliolistas perde o uso prático das combinações: elas permitem que o mesmo conjunto de imagens seja usado para lembrar ideias, palavras ou ambas ao mesmo tempo.

Um exemplo pode ajudar a esclarecer este ponto. No sistema do De Umbris Idearum de Bruno (1582), a imagem tradicional do primeiro decanato de Gêmeos, um servo segurando um bastão, poderia representar a combinação de letras Be; a de Suah, o lendário inventor da quiromancia ou quiromancia, para Ne. Os decanos-símbolos fazem parte de um conjunto de imagens anteriores aos inventores, estabelecendo a ordem das sílabas. Colocado em um locus, o todo formaria a palavra bene.(6)

O método tem muito mais sutileza do que este exemplo mostra. O alfabeto de Bruno incluía trinta letras, o alfabeto latino mais as letras gregas e hebraicas que não têm equivalentes latinos; seu sistema permitia assim que textos escritos em qualquer um desses alfabetos fossem memorizados. Ele as combinou com cinco vogais e forneceu imagens adicionais para letras únicas para permitir combinações mais complexas. Além das imagens astrológicas e dos inventores, há também listas de objetos e adjetivos correspondentes a esse conjunto de combinações de letras, e tudo isso pode ser combinado em uma única imagem-memória para representar palavras de várias sílabas. Ao mesmo tempo, muitas das imagens representam tanto ideias quanto sons; assim, a figura de Suah mencionada acima também pode representar a arte da quiromancia se esse assunto precisasse ser lembrado.

A influência de Bruno pode ser rastreada em quase todos os tratados de memória hermética subsequentes, mas seus próprios métodos parecem ter se mostrado muito exigentes para a maioria dos magos. Registros maçônicos sugerem que seus mnemônicos, transmitidos por seu aluno Alexander Dicson, podem ter sido ensinados em lojas maçônicas escocesas no século XVI;(7) mais comuns, porém, eram métodos como o diagramado pelo enciclopedista hermético Robert Fludd em sua História da o Macrocosmo e o Microcosmo. Esta foi uma adaptação bastante direta do método medieval tardio, usando as esferas dos céus como loci, embora Fludd mesmo assim o classificasse junto com profecia, geomancia e astrologia como uma “arte microcósmica” de autoconhecimento humano. a Arte e esta classificação permaneceu padrão nos círculos esotéricos até que o triunfo do mecanismo cartesiano no final do século XVII enviou a tradição hermética para o subsolo e a Arte da Memória no esquecimento.

O método e seu valor

Essa profusão de técnicas levanta duas questões, que precisam ser respondidas para que a Arte da Memória seja restaurada a um lugar na tradição esotérica ocidental. Em primeiro lugar, os métodos da Arte são realmente superiores à memorização mecânica como forma de armazenar informações na memória humana? Colocando mais claramente, a Arte da Memória funciona?

É justo salientar que este tem sido um assunto de disputa desde os tempos antigos. Ainda assim, então como agora, aqueles que contestam a eficácia da Arte são geralmente aqueles que nunca a experimentaram. Na verdade, a Arte funciona; ele permite que as informações sejam memorizadas e lembradas de forma mais confiável e em quantidade muito maior do que os métodos de memorização. Há boas razões, fundadas na natureza da memória, para que assim seja. A mente humana evoca imagens com mais facilidade do que idéias, e imagens carregadas de emoção ainda mais facilmente; as memórias mais intensas de alguém, por exemplo, raramente são ideias abstratas. Ele usa cadeias de associação, em vez de ordem lógica, para conectar uma memória a outra; truques mnemônicos simples, como o laço de corda amarrado em um dedo, dependem disso. Segue habitualmente ritmos e fórmulas repetitivas; é por essa razão que a poesia costuma ser muito mais fácil de lembrar do que a prosa. A Arte da Memória usa todos esses três fatores sistematicamente. Ele constrói imagens vívidas e atraentes como âncoras para cadeias de associação e as coloca no contexto ordenado e repetitivo de um edifício imaginado ou estrutura simbólica em que cada imagem e cada locus conduzem automaticamente ao próximo. O resultado, com treinamento e prática, é uma memória que trabalha em harmonia com suas próprias forças inatas para aproveitar ao máximo seu potencial.

O fato de que algo pode ser feito, no entanto, não prova por si só que deva ser feito. Em uma época em que o armazenamento digital de dados é justo para tornar a mídia impressa obsoleta, em particular, questões sobre a melhor forma de memorizar informações podem parecer tão relevantes quanto a escolha entre diferentes maneiras de fazer tabletes de argila para escrever. Certamente alguns métodos de fazer essa tarefa vital são melhores do que outros; E daí? Essa maneira de pensar leva à segunda questão que um renascimento da Arte da Memória deve enfrentar: qual é o valor desse tipo de técnica?

Essa questão é particularmente forte em nossa cultura atual porque essa cultura e sua tecnologia têm consistentemente tendido a negligenciar as capacidades humanas inatas e substituí-las sempre que possível por equivalentes mecânicos. Não seria ir longe demais ver todo o corpo da moderna tecnologia ocidental como um sistema de próteses. Nesse sistema, a mídia impressa e digital serve como uma memória protética, fazendo muito do trabalho antes feito nas sociedades mais antigas pelas mentes treinadas dos mnemonistas. É preciso reconhecer, também, que esses meios podem lidar com volumes de informação que diminuem a capacidade da mente humana; nenhuma Arte da Memória concebível pode conter tanta informação quanto uma biblioteca pública de tamanho médio.

O valor prático dessas formas de armazenamento de conhecimento, como o de grande parte de nossa tecnologia protética, é real. Ao mesmo tempo, há um outro lado da questão, um lado especialmente relevante para a tradição hermética. Qualquer técnica tem efeitos sobre quem a usa, e esses efeitos não precisam ser positivos. A dependência de próteses tende a enfraquecer as habilidades naturais; quem usa um carro para viajar para qualquer lugar a mais de dois quarteirões de distância encontrará dificuldades até mesmo para caminhadas modestas. O mesmo é igualmente verdadeiro para as capacidades da mente. Nos países islâmicos, por exemplo, não é incomum encontrar pessoas que memorizaram todo o Alcorão para fins devocionais. Deixe de lado, por enquanto, questões de valor; quantas pessoas no Ocidente moderno seriam capazes de fazer o equivalente?

Um objetivo da tradição hermética, ao contrário, é maximizar as capacidades humanas, como ferramentas para as transformações internas buscadas pelo hermetista. Muitas das práticas elementares dessa tradição – e o mesmo vale para os sistemas esotéricos em todo o mundo – podem ser melhor vistas como uma espécie de calistenia mental, destinada a alongar as mentes enrijecidas pelo desuso. Essa busca para expandir os poderes do eu se opõe à cultura protética do Ocidente moderno, que sempre tendeu a transferir o poder do eu para o mundo exterior. A diferença entre esses dois pontos de vista tem uma ampla gama de implicações – filosóficas, religiosas e (não menos) políticas – mas o lugar da Arte da Memória pode ser encontrado entre eles.

Do ponto de vista protético, a Arte é obsoleta porque é menos eficiente do que os métodos externos de armazenamento de dados, como livros, e desagradável porque requer o desenvolvimento lento de habilidades internas, em vez da compra de uma máquina ou dispositivo. Do ponto de vista hermético, por outro lado, a Arte é valiosa em primeiro lugar como meio de desenvolver uma das capacidades do eu, a memória, e em segundo lugar porque usa outras capacidades – atenção, imaginação, imagens – que têm um grande papel em outros aspectos da prática hermética.

Como outros métodos de autodesenvolvimento, a Arte da Memória também traz mudanças na natureza da capacidade que molda, não apenas na eficiência ou volume dessa capacidade; seus efeitos são tanto qualitativos quanto quantitativos — outra questão não bem abordada pela estratégia protética. Normalmente, a memória tende a ser mais ou menos opaca à consciência. Uma memória perdida desaparece de vista, e qualquer quantidade de pesca aleatória ao redor pode ser necessária antes que uma cadeia associativa que leve a ela possa ser trazida das profundezas. Em uma memória treinada pelos métodos da Arte, ao contrário, as cadeias de associação estão sempre no lugar, e qualquer coisa memorizada pela Arte pode ser encontrada assim que necessário. Da mesma forma, é muito mais fácil para o mnemonista determinar o que exatamente ele ou ela sabe e não sabe, fazer conexões entre diferentes pontos de conhecimento ou generalizar a partir de um conjunto de memórias específicas; o que é armazenado através da Arte da Memória pode ser revisto à vontade.

Apesar do desgosto de nossa cultura pela memorização e pelo desenvolvimento da mente em geral, a Arte da Memória tem, portanto, algum valor prático, mesmo além de seus usos como método de treinamento esotérico. Na segunda parte deste artigo, “O Jardim da Memória”, algumas dessas potencialidades serão exploradas através da exposição de um sistema de memória introdutório baseado nos princípios tradicionais da Arte.

Parte II. O Jardim da Memória

Durante o Renascimento, a época em que atingiu seu auge de desenvolvimento, a Arte Hermética da Memória assumiu uma ampla gama de formas diferentes. Os princípios centrais da Arte, desenvolvidos nos tempos antigos através da experiência prática do modo como a memória humana funciona melhor, são comuns a toda a gama de tratados de memória renascentistas; as estruturas construídas sobre essa base, porém, diferem enormemente. Como veremos, mesmo alguns pontos básicos da teoria e da prática eram objeto de constante disputa, e seria impossível e inútil apresentar um único sistema de memória, por mais genérico que fosse, como algo “representativo” de todo o campo da Hermética. mnemônicos.

Esse não é o meu propósito aqui. Como a primeira parte deste ensaio apontou, a Arte da Memória tem valor potencial como técnica prática mesmo no mundo atual de sobrecarga de informações e armazenamento de dados digitais. O sistema de memória que será apresentado aqui é projetado para ser usado, não meramente estudado; as técnicas nele contidas, embora quase inteiramente derivadas de fontes renascentistas, são incluídas apenas pelo simples fato de funcionarem.

Escritos tradicionais sobre mnemônicos geralmente dividem os princípios da Arte em duas categorias. A primeira consiste em regras para lugares – isto é, o desenho ou seleção dos cenários visualizados nos quais as imagens mmonicas estão localizadas; a segunda consiste em regras para imagens — isto é, a construção das formas imaginadas usadas para codificar e armazenar memórias específicas. Essa divisão é bastante sensata e será seguida neste ensaio, com o acréscimo de uma terceira categoria: regras para a prática, os princípios que permitem que a Arte seja efetivamente aprendida e colocada em uso.

Regras para lugares

Um debate que perdurou grande parte da história da Arte da Memória foi uma discussão sobre se o mnemonista deveria visualizar lugares reais ou imaginários como cenário para as imagens mnemônicas da Arte. Se os relatos clássicos meio lendários (10) das fases iniciais da Arte puderem ser confiáveis, os primeiros lugares usados ​​dessa maneira foram os reais; certamente os retóricos da Roma antiga, que desenvolveram a Arte com alto grau de eficácia, usaram a arquitetura física ao seu redor como estrutura para seus sistemas mnemônicos. Entre os escritores herméticos da Arte, Robert Fludd insistiu que os edifícios reais deveriam sempre ser usados ​​para o trabalho de memória, alegando que o uso de estruturas totalmente imaginárias leva à imprecisão e, portanto, a um sistema menos eficaz.(9) Por outro lado, muitos antigos e renascentistas escritores da memória, entre eles Giordano Bruno, deram o conselho oposto. A questão toda pode, no final, ser uma questão de necessidades pessoais e temperamento.

Seja como for, o sistema aqui apresentado utiliza um conjunto de lugares resolutamente imaginário, baseado no simbolismo numérico do ocultismo renascentista. Tomando emprestada uma imagem muito utilizada pelos herméticos do Renascimento, apresento a chave de um jardim: Hortus Memoriae, o Jardim da Memória.

Diagrama 1

O Jardim da Memória está disposto em uma série de caminhos circulares concêntricos separados por sebes; os primeiros quatro desses círculos estão mapeados no Diagrama 1. Cada círculo corresponde a um número e tem o mesmo número de pequenos gazebos nele. Esses gazebos – um exemplo, o do círculo mais interno, é mostrado no Diagrama 2 – ostentam símbolos que são derivados da tradição dos números pitagóricos da Renascença e das tradições mágicas posteriores, e servem como lugares neste jardim de memória. todos os lugares de memória, estes devem ser imaginados como bem iluminados e convenientemente grandes; em particular, cada gazebo é visualizado como grande o suficiente para conter um ser humano comum, embora não precise ser muito maior.

Diagrama 2

Os primeiros quatro círculos do jardim são construídos na imaginação da seguinte forma:

O Primeiro Círculo

Este círculo corresponde à Mônada, o número Um; sua cor é branca e sua figura geométrica é o círculo. Uma fileira de flores brancas cresce na borda da cerca viva. O gazebo é branco, com guarnição de ouro, e é encimado por um círculo dourado com o número 1. Pintada na cúpula está a imagem de um único olho aberto, enquanto os lados trazem a imagem da Fênix em chamas.

O Segundo Círculo

O próximo círculo corresponde à Díade, o número Dois e ao conceito de polaridade; sua cor é cinza, seus símbolos primários são o Sol e a Lua, e sua figura geométrica é a vesica piscis, formada a partir da área comum de dois círculos sobrepostos. As flores que cercam as sebes neste círculo são cinza-prateadas; de acordo com a regra dos trocadilhos, que abordaremos um pouco mais tarde, podem ser tulipas. Ambos os dois gazebos neste círculo são cinza. Um, encimado com o número 2 em uma vesica branca, tem guarnição branca e dourada, e traz a imagem do Sol na cúpula e a de Adão, com a mão no coração, na lateral. O outro, encimado com o número 3 em uma vesica preta, tem guarnição preta e prata, e traz a imagem da Lua na cúpula e a de Eva, sua mão tocando sua cabeça, de lado.

O Terceiro Círculo

Este círculo corresponde à Tríade, o número Três; sua cor é preta, seus símbolos primários são os três princípios alquímicos de Enxofre, Mercúrio e Sal, e sua figura geométrica é o triângulo. As flores que cercam as sebes são pretas, assim como os três gazebos. O primeiro dos gazebos tem guarnição vermelha e é encimado com o número 4 em um triângulo vermelho; traz, na cúpula, a imagem de um homem vermelho tocando a cabeça com as duas mãos, e nas laterais as imagens de vários animais. O segundo gazebo tem acabamento branco e é encimado pelo número 5 em um triângulo branco; traz, na cúpula, a imagem de um hermafrodita branco tocando seus seios com ambas as mãos, e nas laterais as imagens de várias plantas. O terceiro gazebo é preto sem relevo e é encimado com o número 6 em um triângulo preto; traz, na cúpula, a imagem de uma mulher negra tocando a barriga com as duas mãos, e nas laterais as imagens de vários minerais.

O Quarto Círculo

Este círculo corresponde à Tétrade, o número Quatro. Sua cor é azul, seus símbolos primários são os Quatro Elementos e sua figura geométrica é o quadrado. As flores que cercam as sebes são azuis e de quatro pétalas, e os quatro gazebos são azuis. O primeiro deles tem guarnição vermelha e é encimado pelo número 7 em um quadrado vermelho; tem a imagem de chamas na cúpula e a de um leão rugindo nas laterais. O segundo tem guarnição amarela e é encimado com o número 8 em um quadrado amarelo; traz as imagens dos quatro ventos soprando na cúpula, e a de um homem derramando água de um vaso nas laterais. O terceiro é azul sem relevo e é encimado com o número 9 em um quadrado azul; tem a imagem de ondas na cúpula e as de um escorpião, uma serpente e uma águia nas laterais. O quarto tem guarnição verde e é encimado pelo número 10 em um quadrado verde; traz, na cúpula, a imagem da Terra, e a de um boi puxando um arado nas laterais.

Para começar, esses quatro círculos e dez lugares de memória serão suficientes, fornecendo espaço suficiente para ser útil na prática, mas ainda pequenos o suficiente para que o sistema possa ser aprendido e colocado em funcionamento em um tempo bastante curto. Círculos adicionais podem ser adicionados à medida que a familiaridade facilita o trabalho com o sistema. É possível, dentro dos limites do simbolismo numérico tradicional usado aqui, chegar a um total de onze círculos contendo 67 lugares de memória.(11) É igualmente possível desenvolver diferentes tipos de estruturas de memória nas quais as imagens podem ser colocadas. Desde que os lugares sejam distintos e organizados em alguma seqüência facilmente memorável, quase tudo servirá.

O Jardim da Memória, conforme descrito aqui, precisará ser comprometido com a memória para ser usado na prática. A melhor maneira de fazer isso é simplesmente visualizar a si mesmo andando pelo jardim, parando nos mirantes para examiná-los e depois seguir adiante. Imagine o perfume das flores, o calor do sol; como acontece com todas as formas de trabalho de visualização, a chave para o sucesso está nas imagens concretas de todos os cinco sentidos. É uma boa ideia começar sempre no mesmo lugar — o primeiro círculo é melhor, por razões práticas e filosóficas — e, durante o processo de aprendizagem, o aluno deve percorrer todo o jardim a cada vez, passando cada um dos gazebos em Ordem numérica. Ambos os hábitos ajudarão as imagens do jardim a se enraizarem no solo da memória.

Regras para Imagens

As imagens do jardim descritas acima compõe metade da estrutura desse sistema de memória – a metade estável, pode-se dizer, permanecendo inalterada enquanto o próprio sistema for mantido em uso. A outra metade, que muda, consiste nas imagens que são usadas para armazenar memórias dentro do jardim. Estes dependem muito mais da equação pessoal do que das imagens de enquadramento do jardim; o que permanece em uma memória pode evaporar rapidamente de outra, e uma certa quantidade de experimentação pode ser necessária para encontrar uma abordagem para imagens de memória que funcione melhor para qualquer aluno.

Na clássica Arte da Memória, a única regra constante para essas imagens era que elas fossem impressionantes – hilárias, atraentes, horríveis, trágicas ou simplesmente bizarras, isso não fazia (e faz) diferença, desde que cada imagem capturasse a mente e despertasse alguma resposta além do simples reconhecimento. Esta é uma abordagem útil. Para o praticante iniciante, no entanto, pensar em uma imagem apropriadamente impactante para cada informação a ser registrada pode ser uma questão difícil.

Muitas vezes é mais útil, portanto, usar familiaridade e ordem em vez de pura estranheza em um sistema de memória introdutório, e o método dado aqui fará exatamente isso.

É necessário para esse método, antes de tudo, criar uma lista de pessoas cujos nomes comecem com cada letra do alfabeto, exceto K e X (que muito raramente começam palavras em inglês). Estas podem ser pessoas conhecidas do aluno, figuras da mídia, personagens de um livro favorito – meu próprio sistema dervia extensivamente da trilogia do Anel de Tolkien, de modo que Aragorn, Boromir, Cirdan e assim por diante tendem a povoar meus palácios de memória. Pode ser útil ter mais de um algarismo para letras que geralmente vêm no início de palavras (por exemplo, Saruman e Sam Gamgee para S), ou algarismos para certas combinações comuns de duas letras (por exemplo, Theoden para Th , onde T é Treebeard), mas estes são desenvolvimentos que podem ser adicionados posteriormente. O ponto importante é que a lista precisa ser aprendida o suficiente para que qualquer letra evoque sua imagem adequada imediatamente, sem hesitação, e que as imagens sejam claras e instantaneamente reconhecíveis.

Uma vez que isso seja gerenciado, o aluno precisará criar um segundo conjunto de imagens para os números de 0 a 9. Há uma longa e ornamentada tradição de tais imagens, principalmente baseada na simples semelhança física entre número e imagem – um dardo ou mastro para 1, um par de óculos ou de nádegas para 8, e assim por diante. No entanto, qualquer conjunto de imagens pode ser usado, desde que sejam simples e distintos. Estes também devem ser aprendidos de cor, para que possam ser lembrados sem esforço ou hesitação. Um teste útil é visualizar uma fila de homens marchando, carregando as imagens que correspondem ao número de telefone de alguém; quando isso pode ser feito rapidamente, sem confusão mental, as imagens estão prontas para uso.

Esse uso envolve duas maneiras diferentes de colocar as mesmas imagens para funcionar. Um dos lugares-comuns mais antigos em toda a tradição da Arte da Memória divide a mnemônica em “memória para coisas” e “memória para palavras”. No sistema dado aqui, entretanto, a linha é traçada em um lugar ligeiramente diferente; memória para coisas concretas – por exemplo, itens em uma lista de compras – requer uma abordagem ligeiramente diferente da memória para coisas abstratas, sejam conceitos ou pedaços de texto. As coisas concretas são, em geral, mais fáceis, mas ambas podem ser feitas usando o mesmo conjunto de imagens já selecionado.

Vamos examinar a memória para coisas concretas primeiro. Se uma lista de compras precisa ser memorizada – essa, como veremos, é uma excelente maneira de praticar a Arte – os itens da lista podem ser colocados em qualquer ordem conveniente. Supondo que dois sacos de farinha estejam no topo da lista, a figura correspondente à letra F é colocada no primeiro gazebo, segurando o símbolo de 2 em uma mão e um saco de farinha na outra, e carregando ou vestindo pelo menos uma outra coisa que sugira farinha: por exemplo, um terço de trigo trançado na cabeça da figura. As roupas e acessórios da figura também podem ser usados ​​para registrar detalhes: por exemplo, se a farinha desejada for integral, a figura pode usar roupas marrons. Esse mesmo processo é feito para cada item da lista, e as imagens resultantes são visualizadas, uma após a outra, nos mirantes do Jardim da Memória. Quando o Jardim for visitado novamente na imaginação – na loja, neste caso – as mesmas imagens estarão no lugar, prontas para comunicar seu significado.

Isso pode parecer uma maneira extraordinariamente complicada de se lembrar das compras, mas a complexidade da descrição é enganosa. Uma vez praticada a Arte, mesmo que por pouco tempo, a criação e colocação das imagens leva literalmente menos tempo do que escrever uma lista de compras, e sua recuperação é um processo ainda mais rápido. Rapidamente também se torna possível ir aos lugares do Jardim fora de sua ordem numérica e ainda recordar as imagens com todos os detalhes. O resultado é uma maneira rápida e flexível de armazenar informações – e que dificilmente será deixada de fora acidentalmente no carro!

A memória para coisas abstratas, como mencionado anteriormente, usa esses mesmos elementos da prática de uma maneira ligeiramente diferente. Uma palavra ou um conceito muitas vezes não pode ser retratado na imaginação da mesma forma que um saco de farinha pode, e a gama de abstrações que podem precisar ser lembradas e discriminadas com precisão é muito maior do que a gama possível de itens em uma lista de mercado (quantas coisas existem em uma mercearia que são marrom-claras e começam com a letra F?). Por esse motivo, muitas vezes é necessário compactar mais detalhes na imagem de memória de uma abstração.

Nesse contexto, uma das ferramentas mais tradicionais, bem como uma das mais eficazes, é um princípio que chamaremos de regra dos trocadilhos. Grande parte da literatura de memória ao longo da história da Arte pode ser vista como um extenso exercício de trocadilhos visuais e verbais, como quando um par de nádegas aparece no lugar do número 8, ou quando um homem chamado Domiciano é usado como imagem para as palavras latinas domum itionem. Uma abstração geralmente pode ser memorizada com mais facilidade e eficácia fazendo um trocadilho concreto com ela e lembrando-se do trocadilho, e parece ser lamentavelmente verdade que quanto pior o trocadilho, melhores os resultados em termos mnemônicos.

Por exemplo, se – para escolher um exemplo totalmente ao acaso – for necessário memorizar o fato de que a bactéria estreptococo causa dor de garganta e febre escarlatina, a primeira tarefa seria a invenção de uma imagem para a palavra “estreptococo”. Uma abordagem pode ser transformar essa palavra em “extrato de coco” e visualizar a figura que representa a letra D bebendo água de um coco enorme. A escarlatina poderia ser vista como o personagem Scar, do Rei Leão vestino de mulher latina com vestido e flor na cabeça e aninhad ao pé de D. D ainda pode estar com o pescoço vermelho e inflamado para reforçar a imagem. Novamente, isso leva muito mais tempo para explicar, ou mesmo para descrever, do que para realizar na prática.

A mesma abordagem pode ser usada para memorizar uma série encadeada de palavras, frases ou ideias, colocando uma figura para cada um em um dos gazebos do Jardim da Memória (ou nos lugares de algum sistema mais extenso). Diferentes séries vinculadas podem ser mantidas separadas na memória marcando cada figura em uma determinada sequência com o mesmo símbolo – por exemplo, se a imagem do estreptococo descrita acima for um de um conjunto de itens médicos, ela e todas as outras figuras do conjunto pode usar estetoscópios. Ainda assim, essas são técnicas mais avançadas e podem ser exploradas uma vez que o método básico seja dominado.

Regras para prática

Como qualquer outro método de trabalho hermético, a Arte da Memória requer exatamente isso – trabalho – para que seus potenciais sejam abertos. Embora bastante fácil de aprender e usar, não é um método sem esforço, e suas recompensas são medidas exatamente pela quantidade de tempo e prática investidos nele. Cada aluno precisará fazer seu próprio julgamento aqui; ainda assim, os antigos manuais da Arte concordam que a prática diária, mesmo que apenas alguns minutos por dia, é essencial para que qualquer habilidade real seja desenvolvida.

O trabalho que precisa ser feito se divide em duas partes. A primeira parte é preparatória e consiste em aprender os lugares e imagens necessários para colocar o sistema em uso; isso pode ser feito conforme descrito nas seções acima. Aprender o caminho do Jardim da Memória e memorizar as imagens alfabéticas e numéricas básicas geralmente pode ser feito em algumas horas de trabalho real, ou talvez uma semana de momentos livres.

A segunda parte é prática e consiste em utilizar o sistema de fato para registrar e lembrar as informações. Isso deve ser feito incansavelmente, diariamente, para que o método se torne eficaz o suficiente para valer a pena ser feito. É muito melhor trabalhar com assuntos úteis e cotidianos, como listas de compras, agendas de reuniões, agendas diárias e assim por diante. Ao contrário do material irrelevante às vezes escolhido para o trabalho de memória, estes não podem ser simplesmente ignorados, e cada vez que se memoriza ou recupera tal lista, os hábitos de pensamento vitais para a Arte são reforçados.

Um desses hábitos – o hábito do sucesso – é particularmente importante para cultivar aqui. Em uma sociedade que tende a denegrir as habilidades humanas em favor das tecnológicas, muitas vezes é preciso se convencer de que um mero ser humano, sem a ajuda de máquinas, pode fazer qualquer coisa que valha a pena! Como acontece com qualquer nova habilidade, portanto, tarefas simples devem ser testadas e dominadas antes das complexas, e os níveis mais avançados da Arte devem ser dominados um estágio de cada vez.

Notas
1. Yates, Frances A., The Art Of Memory (Chicago: U. Chicago Press, 1966) continua sendo o trabalho padrão em língua inglesa sobre a tradição.

2. Bruno, Giordano, On the Composition of Images, Signs and Ideas (NY: Willis, Locker & Owens, 1991), e Culianu, Ioan, Eros and Magic in the Renaissance (Chicago: U. Chicago Press, 1987) são exemplos .

3. A breve história da Arte aqui apresentada é extraída de Yates, op. cit.

4. Para Bruno, ver Yates, op. cit., cap. 9, 11, 13-14, bem como seu Giordano Bruno and the Hermetic Tradition (Chicago: U. Chicago Press, 1964).

5. Ver Yates, Art of Memory, cap. 8.

6. Ibid., pp. 208-222.

7. Stevenson, David, The Origins of Freemasonry: Scotland’s Century (Cambridge: Cambridge U.P., 1988), p. 95.

8. Ver Yates, Art of Memory, cap. 15.

9. Ver Yates, Frances, Theatre of the World (Chicago: U. of Chicago P., 1969), pp. 147-9 e 207-9.

10. O simbolismo usado aqui é retirado de várias fontes, particularmente McLean, Adam, ed., The Magical Calendar (Edimburgo: Magnum Opus, 1979) e Agrippa, H.C., Three Books of Occult Philosophy, Donald Tyson rev. & ed. (St. Paul: Llewellyn, 1993), pp. 241-298. No entanto, peguei emprestado as escalas de cores padrão da Golden Dawn para as cores dos círculos.

11. Os números dos círculos adicionais são 5-10 e 12; o simbolismo apropriado pode ser encontrado em McLean e Agripa, e as cores em qualquer livro sobre a versão da Cabala da Golden Dawn. A numerologia pitagórica da Renascença definiu o número 11 como “o número de pecado e punição, sem mérito” (ver McLean, p. 69) e, portanto, não lhe deu nenhuma imagem significativa. Aqueles que desejam incluir um décimo primeiro círculo podem, no entanto, emprestar as onze maldições do Monte Ebal e os Qlippoth associados ou poderes primitivos demoníacos de fontes cabalísticas.

~ Tradução Tamosauskas

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/ars-memorativa/

O Diabo Eleito

por Nicholaj de Mattos Frisvold

“Replicou-lhes Jesus: Não vos escolhi eu em número de doze?

Contudo, um de vós é diabo.”

– Do Evangelho de João 6:70

O drama que cerca a Última Ceia detalha um Grande Mistério, pois vemos aqui a necessidade cósmica do Diabo como aquele que afirma o desígnio. O papel do Diabo pode ser dado de acordo com o ditame de Destino ou ao se nomear alguém que mantenha esta dignidade. Em ambos os casos, o Diabo é aquele que marca o limite exterior da possibilidade, a contração dos mundos na dor ou prazer já que afirma a beleza e a bem-aventurança. Em suas atividades mais profanas, o Diabo apontado é meramente percebido como um causador de problemas, uma nuance, um difamador, um mentiroso – um filho desobediente de Mercúrio em todas as medidas. Ainda assim, ao ser apontado como Diabo, uma tensão é estabelecida e afirma a intenção daquele que apontou seu acusador – e o acusador então afirmará a verdade e a mentira através de sua mera existência.

Comumente “Diabo” e “Demônio” são usados intercambiavelmente, mas é importante aqui distingui-los. Se seguirmos as primeiras transcrições gregas da Bíblia Sagrada, o Manuscrito de Vaticano número 1209, também conhecido com o “Emphatic Diaglott”, é interessante notar que no Evangelho de João, capítulo 6 onde Jesus aponta Judas como seu diabo, a palavra grega original é diabolos. Em outra passagem onde a versão King James (Rei James/Tiago) usa “diabo”, como através do 11º capítulo do Evangelho de Lucas, encontramos o daimone/demônio grego em uso. Na versão de King James, esta distinção é ausente e diabo é a tradução tanto para diabolos e daimone. Diaglott nos deixa claro que o chefe dos demônios é Baelzebubth/Baelzebub – e foi com o auxílio de Baelzebubth que Jesus, o Cristo, foi acusado de controlar a hoste demoníaca. Não há conexão aqui com demônios sempre serem diabolos.

Barry W. Hale comenta, em relação a isto, em seu excelente tratado demonológico “Legion 49” que “Diabolus” também pode ser interpretado como “o que traz para baixo”, não apenas como “acusador”. Esta observação é interessante, pois Diabolus pode ser visto como aquele que descende ou cai tal qual um ídolo celestial encarnando uma intenção particular que é feita na revelação do ato de acusar.

Logo, a qualidade diabólica, ou seja, a acusação, não deve ser entendida somente como uma categoria nefasta ou profana – porque isto tornaria este mistério vulgar. Como João 6 demonstra, este é um mistério embutido na concepção cósmica. Em relação a isto, Hale menciona em um comentário sobre Mateus 12:25 que aqui falamos de um “reinado dividido contra si mesmo”. O mistério diabólico, a acusação e difamação que tomam forma internamente são relacionados à divisão dentro de si mesmo. O santo para esta divisão interna deve ser Judas Iscariotes.

Judas Iscariotes, o diabo apontado, foi instrumental para o cumprimento do propósito através da traição e acusação. Pela divisão interna ele afirmou o desígnio. A afirmação do desígnio do salvador veio com a promessa de má reputação e calúnias sobre seu legado, encontrando sua libertação ao se enforcar pelo caminho de prata. Este tema também lança luz no comentário enigmático nos Eddas, que fala sobre o penduramento de Odin como o sacrifício de si para si, e as nove noites revelando a presença do caminho e chave de prata – ao afirmar a divisão temporal e restabelecer a unidade.

Sobre isto podemos ver na cruz o símbolo atemporal para o equilíbrio, interação, sacrifício, manifestação, unidade e potência. Na cruz, o círculo se torna “quadrado” e assim, o atemporal é manifesto ao longo do rio da repetição em terras de diferença.

Na sabedoria bogomila, como em algumas linhagens Sufis como silsilyah e tariqah, o Diabolus, sob o nome Satanael, Iblis ou outro de seus muitos nomes, é considerado como o poder que define os limites e afirma a criação. Curiosamente, estes pensamentos também são expressos por Maria de Naglowska e sua exposição sobre o Terceiro Termo da Trindade, onde Judas Iscariotes assume um papel similar em relação ao drama da salvação em torno de Jesus, o Cristo. Naglowska também menciona o significado mais profundo do enforcamento de Iscariotes propriamente, carregando sua própria salvação pela afirmação e remorso nascidos pelo amor.

Parece-me que o diabo, assim como demônio, representa em geral qualquer deidade ou espírito estrangeiro e particularmente a corte de anjos caídos, enquanto o diabo, como em Diabolus, é mais uma reminiscência de um ofício, uma função, um verbo, em conformidade com a função jurídica mesopotâmica de ha-satan, o acusador, que poderia ser material ou imaterial. Segue-se daqui um anjo, caído ou não, bem como um homem que assume esta função seja pelo Destino ou pela nomeação. Como tal, uma calúnia direcionada ao Diabolus toma forma de fogo que permite ao acusador afirmar a verdade velada dentro do caluniador. Em face da calúnia, o Diabo somente responderá a única coisa apropriada para seu ofício, ou seja, “abençoado seja”.

A função jurídica do acusador era a de provocar o surgimento da verdade ao salientar a Companhia da Mentira. Esta função, traduzida para uma compreensão metafísica, tomará então a forma de afirmar a verdade. A verdade não deve ser confundida com simples fatos, mas sim tomada com a pureza de uma Idéia ou forma particular. Ela toma, por todas as formas e intenções, a completa profundidade da freqüente declaração de Robin the Dart, o Magister do Clan of Tubal Cain: “Que a Palavra lhe proteja da Mentira”. Com este reconhecimento, a forma do estado apropriado pode também ser percebida, assim como a Palavra se tornou Carne – porque no coração deste drama repousa a percepção, livre da corrupção, completa e pura na forma em que percebe o mundo e seus caminhos.

Nota Biográfica:

Nicholaj de Mattos Frisvold é um antropólogo e psicólogo com uma inclinação para a metafísica dos cultos de uma genealogia tradicional. Ele é um especialista nas obras de Marsilio Ficino, e é um astrólogo tradicional praticante. Autor de várias obras, entre as quais estão “Artes da Noite – A história da prática da bruxaria” (Ed. Rosa Vermelha), “Craft of the Untamed – An inspired vision of Traditional Witchcraft” (Mandrake of Oxford), “Invisible Fire” (Capall Bann) e “Pomba Gira and the Quimbanda of Mbuma Nzila” (Scarlet Imprints). É um irmão jurado do Clã de Tubal Caim e Magister do Lilium Umbrae Cuveen, sua extensão no hemisfério sul. O autor mantém o blog “The Starry Cave” (http://www.starrycave.com/).

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-diabo-eleito

Bob Esponja e os 7 Pecados Capitais

Calma! Antes que algum Thelemita de grau 11 reclame no Facebook, devemos colocar que quem afirmou isso foi o próprio criador da série, Stephen Hillenburg, nos comentários de Audio da primeira temporada do DVD. Segundo ele, todos os 7 principais personagens do desenho foram moldados nos sete pecados capitais. Confira a seguir:

Patrick – Preguiça/Lua. Mora debaixo de uma pedra e nunca faz nada sem ser empurrado pelos outros. Em um dos episódios, recebe o título de “alguém que nunca fez nada por mais tempo do que ninguém”.

Plankton – Inveja/Mercúrio. Tenta roubar a receita do sucesso dos outros. sua existência é baseada em obter o segredo do sucesso do Siri Cascudo.

Bob Esponja – Luxúria/Vênus. “Luxúria” (Lust) no original, possui um significado diferente do que estamos acostumados (que tem a ver com sexo). Luxúria, em seu significado real e como defeito de vênus, quer dizer alguém que é levado e dominado pelas paixões e emoções, acima da razão. Nem preciso explicar por quê o Bob Esponja esta relacionado a esta planeta, certo?

Sandy – Orgulho/Sol. O autor coloca Sandy como sendo do Texas, além de ser a única criatura “do sol” vivendo debaixo d´água, o que a torna diferente de todos os demais. além disso, sandy não perde uma oportunidade de mostrar seus troféus e vitórias para os outros.

Lula Molusco – Ira/Marte. Este é muito fácil de perceber.

Gary – Gula/Júpiter. Segundo o autor, todas as ações ao redor do Gary lidam com ele estar com fome ou querer algo para comer, e sempre mostrado comendo alguma coisa.

Sr Sirigueijo – Avareza/Saturno. Outra relação muito fácil de perceber.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/bob-esponja-e-os-7-pecados-capitais