Aleksandr Dugin – Eurasianismo, a Ideologia da Nova Rússia e a “Civilização Ocidental”

C. Baptista
No Brasil que alcançou o “sexto PIB do mundo” pouquíssimas pessoas conhecem sua própria história, muito menos a história universal ou a de um país como a Rússia, milenar e decisivo no jogo político internacional. Não falo simplesmente do seu passado remoto, muito menos de sua herança cultural herdada de Bizâncio. Sequer me refiro à URSS e, fazendo justiça ao acervo cultural do brasileiro médio, nem mesmo ao período recente de Yeltsin e Putin. Seria pedir demais, muito pedantismo “pequeno-burguês” de nossa parte. Bobagem conhecer a história ou se informar sobre acontecimentos de outros países.

Um traço “diretor” do caráter do brasileiro é a compulsão em se enxergar como discriminado e diminuído pelo “preconceito” europeu e americano, mas ele mesmo, como apedeuta e preguiçoso que é, esquiva-se de estudar e nem se esforça, – minimamente que seja – para compreender realidades externas ao seu torrão natal. Neste quesito fica atrás dos EUA, onde ao menos existe uma elite intelectual que por trás de uma massa de nulidades se aprofunda criticamente sobre os dilemas mundiais, o que não ocorre no Brasil onde o próprio Itamaraty se transformou em aparelho barato do governo de ocasião.  Mas, este artigo, pouco original e simplório, é direcionado ao restrito clubinho de compatriotas sequiosos de alcançar a verdade, para os quais nunca há limites para a obtenção de novas informações.

Através de um amigo que freqüenta os cursos do filósofo Olavo de Carvalho, tomei conhecimento há algum tempo da obra e ação política do russo Aleksandr Dugin. Para alguém que há mais de 20 anos estuda a história e economia soviética e escreveu há muitos anos atrás um análise sobre o que era a economia russa antes de 1917 (sem contar que minha monografia de graduação em economia em 1994 foi centrada na história recente da URSS e as reformas no início dos anos 90), embora um pouco afastado do tema, foi uma indicação oportuna, sobretudo pelo avanço no neo-comunismo russo de Guenady Zyuganov sobre Putin que se avizinha do ocaso esperado.

Expoente maior na atualidade do “Eurasianismo”, Aleksandr Dugin é alguém bastante próximo da linha dura comunista pós-soviética, de poderosos elementos das agências de (des) informação, membros da Duma (Parlamento) e do Executivo russo. Além disso, é quadro do Partido Político “Eurasia” é autor de “Fundamentos de Geopolítica”, um dos manuais empregados em cursos da Academia Militar Russa sob chancela do Alto Comando das Forças Armadas. Adicionalmente, participou recentemente de um debate com o pensador brasileiro radicado nos EUA, Olavo de Carvalho, que merece ser avaliado por todos que busquem melhor compreensão das implicações do “Eurasianismo”.

Resta um paralelo indelicado com o Brasil. Enquanto nosso país adota um “modelo” de crescimento ancorado no mercado externo e exportações de commodities (o que nos torna uma economia baseada em um tipo de especialização produtiva escravizada pela nova “divisão internacional do trabalho”, para usar termo emprestado de reconhecidos economistas marxólogos) de curto prazo e vulnerável a oscilações da economia internacional (ora, ao acusador cabe o ônus da prova, esta não é a tese cepalina?), a Rússia não só tem crescido como recuperado parte do seu capital humano, sendo capaz de modernizar seu setor militar-industrial. A “sonolenta” Rússia e os países da “ex-URSS”, antigas repúblicas soviéticas, são mais diretamente responsáveis pela queda das potências centrais no “ranking” do PIB que a suposta ascenção de países do “futuro” como o Brasil.

Voltando ao tema principal, não tenho conhecimento de títulos subscritos por Dugin em língua portuguesa. Apenas traduções amadoras na internet e parcas referências biográficas. Em inglês o interessado, entretanto, pode fazer o download de alguns “papers” que abordam com metodologia de qualidade variável o conceito de “eurasianismo” e filigranas de seu pensamento, uma mescla assaz inventiva e inteligente da religiosidade e misticismo russos (a “alma” da Velha Rússia) e leituras de Karl Schmidt,  Karl Haushofer, Guido Von Lizt, René Guénon e uma pequena plêiade de autores que estão longe de pertencer ao “mainstream” de abobalhados e papagaios de pirata que vêm arruinando a academia ocidental.

Bem, nos comentários à biografia e idéias de Aleksandr Dugin do Sr. John Dunlop pudemos encontrar uma apreciação global do que é o “Eurasianismo” e suas implicações como fundamento ideológico do imperialismo pós-soviético. Não podemos crer “in totum” nem no Sr. Dunlop (um defensor aberto da ‘sociedade atlanticista’) nem no que atribui ao Sr. Dugin, assim como não poderíamos, ao que tudo indica, depositar fé irrestrita em um intelectual russo que prega a desinformação sistemática como técnica de enfraquecimento do Ocidente. È pois crucial à política preconizada por Dugin o conceito de “revolução conservadora” que restaure os valores heróicos de uma tradição renovada. Mas, enfim, o que é o “Eurasianismo”? O que faz dele uma doutrina importante na Rússia atual e como sua gradual penetração entre as elites daquele país (onde tem se tornado uma “moda de salão”) impacta de forma preocupante a sociedade ocidental.

Recorrendo à extensa literatura do século XX sobre geopolítica – e especialmente a escola alemã do entre-guerras de Karl Haushofer – Dugin coloca um conflito dualístico entre o “Atlanticismo” (países “do mar” e civilizações com os Estados Unidos e a Grã Bretanha) e “Eurasianismo” (estados baseados na terra e civilizações como a Eurásia-Rússia). Como Wayne Allensworth percebeu, uma vez que se penetra a linguagem aparentemente reacional e acadêmica em “Fundamentos de Geopolítica”, tornamo-nos cientes de que ‘A geopolítica de Dugin é mística e oculta em essência, o formato das civilizações mundiais e os vetores conflitantes do desenvolvimento histórico são retratados como formatados por forças espirituais invisíveis além da compreensão do Homem
A partir de abril de 2001, um Dugin antes anônimo tornou-se uma personalidade política famosa na Rússia com a fundação do Movimento Político e Social Eurásia, que passava a atender inúmeras expectativas políticas voltadas para a primazia do Estado sobre o indíviduo, através de uma fórmula que combinava autocracia, submissão ao regime e xenofobia. Seu foco não é o recurso a meios militares para que a Rússia passe a predominar na “Eurásia”, mas um programa de desestabilização dos potenciais inimigos através da desinformação patrocinada pelos agentes do regime russo e seus aliados. O objetivo final é reestabelecimento de um império pós-soviético, após a capitulação de Gorbachev diante do Oeste, que sucumbiu à estratégia dos “atlanticistas”, particularmente os Estados Unidos da América. Neste sentido, Dugin enxerga a Federação Russa de 1991 não como um Estado em sentido lado, mas como uma “formação transicional no amplo e dinâmico processo geopolítico global”.

 

No enredo escrito pelos teóricos da “Grande Eurásia”, os russos étnicos cumprem o papel de sustentáculos de uma civilização única, um povo messiânico e “portador de significância pan humana”. Este povo deve funcionar como o substrato étnico do novo império (o que não difere muito do que ocorrera na extinta URSS). Ignorar o povo russo como um “fenômenos civilizacional” equivaleria do fim da Rússia enquanto civilização. Os russos, diz Dugin, são em primeiro lugar ortodoxos, russos em segundo e apenas no terceiro lugar, pessoas.

 

O maior inimigo a atacar seria a “Anaconda Americana”, uma metáfora da pressão que os EUA e seus aliados exercem sobre sobre as zonas costeiras da Eurasia, reduzindo o papel da Rússia ao de uma potência regional tão somente. Atacá-la significaria negar em bloco a doutrina do “Atlanticismo”, repudiar o controle estratégico dos Estados Unidos e refutar firmamente a supremacial valores econômicos liberais e favoráveis ao mercado, criando-se uma “base civilizacional comum” que impulsionasse a união dos povos eurasianos.

 

A tática, segundo diz Dugin, consiste em “introduzir a desordem geopolítica na atividade americana interna, encorajando todos os tipos de separatismo e conflitos étnicos, sociais e raciais, apoiando ativamente todos os movimentos dissidentes – extremistas, racistas e grupos sectários, de modo a desestabilizar processos políticos internos aos EUA. Isto só iria fazer sentido caso fosse combinado ao suporte às tendências isolacionistas na política americana”. Um aliado importante do projeto eurasiano seria a América Latina e propõe “a expansão eurasiana nas Américas Central e do Sul com o objetivo de libertá-las do controle do Norte. Como resultado destes esforços de desestabilização, os Estados Únicos e seu aliado mais próximo, a Grã Bretanha, iriam eventualmente ser forçados a deixar as orlas da Eurasia (e África) e ‘o edificio inteiro do Atlanticismo’ iria ao colapso”.

 

Algumas alianças são propostas por Dugin: 1) Um eixo Moscou-Berlim, em que a tarefa de Moscou seria retirar a Europa da OTAN (leia-se EUA), amparar a unificação européia e estreitar laços com a Europa Central sob a égide do “eixo fundamental externo”, gestando uma Europa unida e amigável, sob o princípio do inimigo comum, os Estados Unidos; 2) a formação de um “bloco franco-germânico, com raízes na Itália e Espanha, isolando ainda mais a Inglaterra; 3) o exercío de dominância política da Alemanha sobre Estados católicos e protestantes na Europa Central; 4) A junção da Finlândia e da República Autônoma da Karelia; 5) a inserção da Estônia na esfera de influência alemã; 6) a manutenção da existência da Ucrânia apenas como “mero cordão sanitário”; 7) a criação do Eixo Moscou-Japão e estreitamento de laços com a Índia; 8) a caracterização da China como um “factotum atlanticista” e maior ameaça ao Eurasianismo e as regiões do Tibete, Sinkiang, Mongolia e Manchuria, em seu conjunto, como um “cinto de segurança” para a Rússia e estabelecimento de uma legítima de influência para o país como “compensação geográfica, adstrita às Filipinas, Indonésia e Austrália; 9) a ideia da “aliança continental russo-islâmica” delineada no eixo Moscou-Teerã, fundada em uma estratégia antiatlanticista comum enraizada na “total incompatibilidade espiritual com a América; 10) o emprego estratégico de um tradicional aliado russo contra potencial agressão turca, a Armênia.

 

Misto de receituário político eficaz e desinformação de guerra, o arsenal geopolítico de Dugin precisa ser levado mais a sério. Parte de sua tática vem se concretizando, como o afastamento político e econômico da Grã-Bretanha do Continente capitaneado pela Alemanha e França, como se testemunhou mês passado nos desdobramentos das discussões acerca de um programa de estabilização na zona do Euro. Outras medidas podem ser abertamente diversionistas (ou não, não se pode trabalhar neste terreno mas no do cálculo de probabilidades) como a “ameaça” chinesa. Tudo depende do grau de importância e credibilidade que o analista ocidental, calçando as sandálias da humildade, possa atribuir aquilo que despreza por não compreender, ou estudar.
Last, but not least“, a pergunta que não quer calar é: será que a sociedade ocidental atlanticista do Oeste, moralmente podre e com valores em frangalhos poderá resistir ao assédio e à guerra de fricção movida por povos (não falo do russo, mas em especial os países islâmicos, o budismo e as tradições hinduístas sob a égida do “eurasianismo”) que rejeitam sua programação política desenhada por pequenos grupos de interesses que querem, a todo custo, fazer prevalecer seus próprios “direitos” às custas de toda uma população?

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/aleksandr-dugin-eurasianismo-a-ideologia-da-nova-russia-e-a-civilizacao-ocidental/

Mapa Astral de Bento Gonçalves

Bento Gonçalves da Silva (Triunfo, 23 de setembro de 1788 — Pedras Brancas, 18 de julho de 1847) foi um militar, maçom e revolucionário brasileiro, e um dos líderes da Revolução Farroupilha, que buscava a independência da província do Rio Grande do Sul do Império do Brasil.

Incorporado na Companhia de Ordenanças de D. Diogo de Sousa, Bento cedo demonstrou sua vocação, ao engajar-se nas guerrilhas da primeira campanha cisplatina (1811-1812). Na segunda campanha cisplatina (1816-1821), seu prestígio como militar se confirmou. Em 1817 foi nomeado capitão, participou das batalhas em Curales, Las Cañas (1818), Cordovez, Carumbé (1819) e Arroio Olimar (1820).[2] Em 1824 foi promovido a tenente-coronel.

Na Guerra da Cisplatina ou Guerra del Brasil contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, foi comandante de cavalaria na batalha de Sarandi, em 12 de outubro de 1825, logo depois foi promovido a coronel de 1a linha. Participou também da Batalha do Ituizangó, também chamada de batalha do Passo do Rosário (20 de Fevereiro de 1827), cobrindo a retirada das tropas brasileiras.

Em 1829, pelos serviços prestados na campanha de 1825-1828 e que terminou com a independência do Uruguai, D. Pedro I nomeou Bento Gonçalves coronel de estado-maior, confiando-lhe o comando do 4° Regimento de Cavalaria de Linha e, no ano seguinte da fronteira meridional. Em 1830 recebeu o diploma da maçonaria.

O Mapa Astral de Bento Gonçalves, com sua combinação maior de forças entre Libra e Leão, mostra um Diplomata e Líder por Coragem e Bravura. Com Sol em Libra-Virgem (Rainha de Espadas); Lua em Câncer; Ascendente em Escorpião; Mercúrio, Netuno e Marte em Libra (sendo Netuno seu Planeta mais forte); Júpiter em Câncer e Saturno em Peixes.

Esta combinação de Netuno e Marte no mesmo signo faz com que a pessoa gaste enorme quantidade de energia e determinação para lutar pelas coisas em que acredita; no caso dele, na liberdade e independência. Este texto dele exprime bem esta idéia:

“Toma na extensa escala dos estados soberanos o lugar que lhe compete pela suficiência de seus recursos, civilização e naturais riquezas que lhe asseguram o exercício pleno e inteiro de sua independência, eminente soberania e domínio, sem sujeição ou sacrifício da mais pequena parte desta mesma independência ou soberania a outra nação, governo ou potência estranha qualquer.Faz neste momento o que fizeram tantos outros povos por iguais motivos, em circunstâncias idênticas.” (29/8/1838).

Sua Lua em Câncer foi trabalhada no aspecto familiar. Energias cancerianas dizem muito respeito à família e Bento Gonçalves teve ao todo oito filhos com a mesma mulher. Combinado com Saturno em peixes (responsabilidade na espiritualidade), sua energia de companheirismo era tão intensa que é dito que em 15 de março de 1837, quando estava preso, em uma tentativa de fuga da prisão, seu colega Pedro Boticário não conseguiu passar por uma janela, por ser muito gordo. Em solidariedade Bento Gonçalves também desistiu da fuga, na qual escaparam Onofre Pires e o Coronel Corte Real.

E completando esta mistura energética, Júpiter em Câncer, que intensifica todas as suas ações com um viés emocional. Pode-se afirmar que ele agia sempre com o coração (esta combinação, apesar de complicada para um juiz, porque tenderia a levar suas decisões para suas crenças pessoais, é melhor utilizada em um líder revolucionário…)

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-bento-gon%C3%A7alves

A História da Astrum Argentum no Brasil – Frater Keron-E

Bate-Papo Mayhem #067 – gravado dia 29/08/2020 (Sabado) 21h Marcelo Del Debbio bate papo com Frater Keron-E – A História da Astrum Argentum no Brasil

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as e 5as com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados.

Saiba mais sobre o Projeto Mayhem aqui:

#Batepapo #Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-hist%C3%B3ria-da-astrum-argentum-no-brasil-frater-keron-e

Tudo é um Jogo

— Você está estacionando o carro e… — crassshh — amassa o paralama daquele reluzente BMW ao lado. Ninguém viu. Você, um cara decente, pensa em deixar um bilhete se identificando e assumindo a responsabilidade. Mas, espera aí. É um BMW. O dono certamente tem dinheiro, e não estaria dirigindo um carro desses por aí se não tivesse seguro. Essa batidinha para ele não será nada, mas para você.….

— Já é tarde da noite e você está na estação do metrô. Ninguém por perto. Por que não saltar a roleta e viajar sem pagar? É claro que a companhia do metrô não vai quebrar se você fizer isso. Os trens circulam com ou sem passageiros. Por que não saltar a roleta?

Há uma infinidade de situações em que o interesse individual se choca com o coletivo. No caso do carro em que você bateu, o seguro paga e repassa o custo para os prêmios que cobra. Não assumindo o prejuízo, você acaba penalizando gente que nada tem a ver com isso. O caso do metrô é idêntico: engrossando as estatísticas dos que não pagam, você contribui para o aumento das passagens dos que pagam.

Esse é um dilema freqüente nas organizações — na família, na empresas, entre nações. Ele surge de um impulso com o qual todo mundo lida em inúmeras circunstâncias: a tendência a satisfazer o interesse individual agindo de uma forma que, se todos imitassem, seria catastrófica para todos.

Que jogos são esses?

Esse tema é tão recorrente, que há mais de cinquenta anos vem merecendo a atenção de cientistas. John Nash — o matemático interpretado por Russel Crowe no filme “Uma Mente Brilhante” — ganhou o prêmio Nobel de economia, por ter ajudado a desvendar parte da dinâmica desse tipo de situação, usando um ramo da matemática aplicada chamado teoria dos jogos. O filme, aliás, não dá qualquer dica sobre a originalidade e ousadia de seu trabalho-o cara existiu (existe, está vivo), superou a esquizofrenia e ganhou mesmo o Nobel, mas o resto (como em Titanic e outros) — é puro cinema.

O objetivo da teoria dos jogos é lançar luz sobre conflitos de interesse e ajudar a responder ao seguinte: o que é preciso para haver colaboração? Em quais circunstâncias o mais racional é não colaborar? Que políticas devem ser adotadas para garantir a colaboração?

Pense em alguma polêmica atual — Alca, Protocolo de Kyoto, as cotas americanas para o aço… Todas são situações em que conflitos de interesses têm de ser equacionados. Jogos assim, são profundamente ligados à vida em sociedade. Sempre foram, mas hoje, num mundo hiper-conectado, são mais.

Nem precisamos ir tão longe, os insights que se obtêm da teoria dos jogos podem nos ajudar a entender vários casos brasileiros atuais: o quase-apagão, o que está acontecendo na campanha eleitoral, e até no Big Brother/Casa dos Artistas.

A teoria dos jogos constata que conflitos de interesse acontecem por que a regra geral é maximizar, prioritariamente, o ganho individual. Esse é seu ponto de partida, mas não vá pensar que se trata de falta de solidariedade ou civismo. É mais fundamental que isso. Nem as mais civilizadas sociedades conseguiram resolver esse dilema. É claro que se todos se comportassem de forma altruísta (pelo bem do grupo) não haveria dilema algum, mas a vida real não é assim.

A teoria dos jogos é um arcabouço matemático que trata das estratégias que se usa quando há “alguém” em conflito de interesses com outro “alguém”. Não tem nada a ver com moralidade, com “bem ou mal”, ou com “certo e errado”. Tem a ver só com matemática . Ela trata, simplesmente, de jogadores fazendo de tudo para maximizar as chances de um certo resultado. Voltarei logo a isso.

Jogos de amigos. Amigos?

Empresas, países, organizações, pessoas, envolvem-se o tempo todo em situações potencialmente conflituosas. Jogos.

Se você vai jantar com três amigos, e combinam com antecedência rachar a conta, você vai, muito provavelmente, gastar o mesmo que gastaria se cada um pagasse só o que consumiu. Há um acordo implícito para isso.

Como você sabe que vai arcar com 25% da conta, e como quer manter uma relação de confiança com seus amigos, você escolhe pratos que custem mais ou menos o mesmo que os que seus colegas pediram (se um “amigo” mais malandro resolve pedir lagosta ao forno, depois que todo mundo pediu pizza, ele será considerado não confiável, e perderá a condição de amigo).

Já no almoço de fim de ano do escritório com umas 30 pessoas — a coisa é diferente. Você, que está meio duro, pensa em pedir um cheeseburguer, mas os primeiros a pedir escolhem filé mingnon e camarões gratinados.

Você sabe que vai pagar só 3% da conta, independente do que comer, e muda rapidinho — “Vitela especial para mim, seu garçon”. O custo incremental para seus colegas vai ser mínimo, e você vai ter uma refeição muito melhor. Mas, como todo mundo pensa assim, o grupo acaba por gastar muito mais do que teria gasto se cada um pagasse individualmente pelo que consumisse, ou se o grupo tivesse se dividido por várias mesas menores. Não foi culpa de ninguém. As coisas simplesmente aconteceram assim. O grupo explorou a si mesmo. A decisão racional de cada indivíduo, leva a um resultado irracional (negativo) para o grupo.

Tecnicamente, por razões históricas, chamam esse tipo de jogo de “tragédia dos comuns” .Exploração de recursos coletivos sempre leva a tragédias dos comuns, e elas só podem ser evitadas introduzindo-se regras para que os participantes sejam recompensados por agir de forma altruísta. Quer dizer, o altruísmo é “comprado”, de certa forma.

É isso que a teoria dos jogos mostra, e é isso que a história confirma.

Imagine vários fazendeiros cujas vacas pastam no mesmo pasto. Se não há regras, cada um deles vai tentar colocar o maior número possível de cabeças de gado ali, o que levará à destruição do pasto e à morte dos animais. A atitude predominante é: “deixa eu botar mais uma vaquinha aqui, por que se eu não o fizer, alguém fará”. Perfeitamente racional, claro; mas…

A maneira certa de evitar essa tragédia dos comuns, é dividir o pasto — que é um recurso coletivo — entre os fazendeiros, de modo que cada um deles tenha uma área definida para suas vacas, e não apenas colha os benefícios, mas também arque com os custos de sua preservação. Ou seja: a solução é privatizar o pasto. Essa é a razão pela qual as terras das fazendas são cercadas. Mares, rios, o ar que respiramos, as florestas.. tudo isso é recurso coletivo. Você já sabe o que acontece se não houverem regras que impliquem em incentivo (ou punição , dá no mesmo) à sua preservação.

Jogos de brasileiros

Foi precisamente esse o jogo no episódio do racionamento de energia.

Ameaçando com sobretaxas individuais e cortes de fornecimento idem, o governo transferiu para cada cidadão a responsabilidade por algo que até então era percebido como sendo de todo mundo. “Cercou o pasto” da energia elétrica. Usou a solução clássica para tragédias dos comuns, e deu sorte também: foi muito ajudado não só pelas chuvas, mas por algo de cuja importância até então não se tinha idéia: cada “Zé” individual, percebeu que poderia deixar de gastar uma boa grana — sem tornar a vida especialmente miseráve — se cooperasse. Isto é: descobrimos que era do nosso interesse colaborar. John Nash diria que governo e sociedade atingiram uma “estratégia de equilíbrio”. Nesse caso, os interesses deixam de ser conflitantes, por que é vantajoso cooperar.

Examine os jornais de hoje. Aposto que boa parte do que é notícia, pode ter sua dinâmica esclarecida pela teoria dos jogos. Conflito de interesses, afinal, é o que há, certo? Por exemplo: de meados de fevereiro aos primeiros dias de março, o que foi notícia no Brasil? O fim do racionamento de energia, a aliança PT-PL , a reação do PFL na crise gerada pela invasão do escritório do marido da Roseana, e, claro, quem vai ser eliminado no Big Brother e Casa dos Artistas. Pratos cheios (transbordantes) de conflitos de interesse. No caso do nosso quase-apagão, já vimos, os jogadores acabaram cooperando. O incentivo econômico para isso foi muito forte.

Qual a utilidade do jogo?

Ok, incentivo econômico é um termo vago. John Von Neumann inventou, e John Nash, depois, usou, uma formulação que vai além: utilidade ou função utilidade como dizem os matemáticos. Jogadores sempre buscam certos resultados em detrimento de outros. Essas preferências são chamadas de utilidade. Utilidade é o que os jogadores querem no fundo de suas almas. Aquilo que “tanto mais eu tiver melhor”. A utilidade que você atribui a um certo resultado é que determina sua estratégia no jogo. Agir racionalmente (no contexto da teoria dos jogos), significa agir de modo a maximizar a utilidade.

Pense na utilidade como sendo pontos que você quer acumular. Se você joga pôquer valendo palitos de fósforos, então a utilidade é a quantidade de palitos que você junta. Quando se joga por dinheiro, ele é a utilidade. A utilidade para os políticos é sempre o poder.

Jogos eleitorais

Veja o PT na campanha presidencial – um jogo que até agora (escrevo no início de março de 2002) sinaliza um desfecho desfavorável para o partido. O PT não tem consenso sobre como maximizar a utilidade(votos) do jogo. Sem consenso sobre isso, não há como montar uma estratégia, e sem estratégia só se vence por sorte. Em fevereiro, a direção do PT articulara uma aliança com o PL. Alianças são muito racionais em eleições, e é por isso que são feitas. Boa parte do partido, porém, não admite que ganhar votos seja “só o que conta numa eleição”, e botou a boca no mundo.

O PFL, por seu lado, é o oposto. Seus políticos são chamados de “profissionais” exatamente porque admitem sem escrúpulos o que querem maximizar: votos. Estão nas esferas mais altas do poder há mais tempo do que qualquer outro partido. Quando as primeiras pesquisas sinalizaram que Roseana podia ter chances, o PFL foi logo avisando que seu apoio ao candidato do governo poderia ficar para o segundo turno — iria tentar ganhar liderando a chapa, não fazendo só o vice. Fez beicinho no episódio da invasão do escritório do Jorge (“querida, encolhi suas chances”) Murad, saiu do governo, mas é pragmático demais — deixou a porta aberta para alianças no segundo turno. Não têm dúvida sobre o que quer: o poder.

Tipos de jogos

O inventor da teoria dos jogos foi o húngaro radicado nos EUA — John Von Neumann na década de 1940 Sua grande contribuição foi nos chamados jogos de soma zero. É quando a vitória de um ,significa, necessariamente, a derrota de outro — como no xadrez ou no jogo da velha. Em jogos de soma zero, não há possibilidade de colaboração. Nessas circunstâncias, Von Neumann provou que há sempre um curso racional de ação para cada jogador.

John Nash, por seu lado, tratou de situações em que o mais racional é colaborar. A única menção a isso em “Uma mente brilhante” é uma cena, num bar, em que ele convence seus ultra-competitivos colegas, a não tentarem conquistar todos a mesma moça. O mais racional seria distribuirem seus esforços escolhendo alvos diferentes. Não se tratava de um jogo de soma zero, afinal.

Von Neumnan não estava interessado em xadrez porque “esse tipo de jogo nada tem a ver com a vida real”, segundo ele. Pôquer era algo mais próximo do que ele queria tratar, porque, no pôquer, o blefe é mais fundamental. Ele estava interessado na trapaça, no blefe, nas pequenas táticas de dissimulação, na desconfiança, na traição. Falei em campanha eleitoral? Casa dos Artistas e Big Brother? É isso aí.

Sua genialidade foi perceber que a dissimulação não só é algo racional em jogos de soma-zero, mas também que ela é tratável matematicamente. Sua teoria dos jogos lida com seres racionais e desconfiados querendo “se dar bem” a todo custo. Pense no jogo particular que um goleiro joga contra um batedor de penalty. O batedor tem todo interesse em que o goleiro pense que ele vai chutar num certo canto, e então, chuta no outro. Dissimular é uma estratégia racional para o batedor. O mesmo vale para o goleiro, que tentará fazer com que o batedor acredite que ele se atirará para um certo lado. Dissimulação e fingimento são parte do talento que eles têm que ter. Em jogos de soma zero, jogadores racionais têm que blefar.

Jogos de família

Na verdade, a teoria dos jogos é sobre estratégias, ou seja: sobre o quê fazer para obter certos resultados. Nem sempre é preciso matemática para descobrir, e nem sempre, quando a matemática descobre, a gente consegue fazer o que ela manda. É aí que a coisa fica interessante; vamos ver… Uma viúva tinha duas filhas. Todo dia, ao voltar para casa, trazia um pedaço de bolo, e se esforçava para dividi-lo em duas fatias exatamente iguais. Cada filha, porém, sempre achava que a mãe dera o maior pedaço à outra. A mãe sofria. As duas – com aquele maquiavelismo típico de crianças que percebem que os pais são manipuláveis – atormentavam a pobre mulher. Era um jogo. Um jogo fácil de resolver através da lógica: bastaria pedir a uma das filhas que dividisse o bolo, e que a outra fizesse a escolha primeiro. Pronto. Fim da chantagem sentimental. Ninguém poderia reclamar de ninguém. Realmente há casos em que a fria lógica é melhor, mas será sempre? Infelizmente não. Indiana Jones que o diga.

Jogos do Indiana Jones

Você se lembra do filme “Indiana Jones e a última Cruzada “?

Nosso herói Indiana junto com seu pai, mais um bando de nazistas (como o cinema criaria seus vilões sem nazistas?) chegam ao local onde está escondido o Santo Graal. O velho Indiana tinha levado um tiro e sangrava um bocado. Só o poder de cura do cálice sagrado poderia salvá-lo da morte. Num clima de alta tensão, os dois Jones e os nazistas disputam palmo a palmo a primazia de chegar a ele.

Mas há um desafio final: há vários cálices, e só o cálice certo dá a vida eterna, qualquer escolha errada conduz à morte. O nazistão chega primeiro. Escolhe um lindo cálice de ouro cravejado de brilhantes, bebe a “água santa” e morre “aquela morte cinematográfica que é conseqüência das escolhas erradas” – como dizem os autores do livro de onde tirei esse exemplo. Indiana escolhe um tosco cálice de madeira, mas hesita: “só há um jeito de saber”, diz ele. Mergulha o cálice na fonte, bebe, e …acerta! Indiana leva o cálice ao velho (esses velhos de hoje, demoram muito para morrer, viu leitor?) e cura suas feridas mortais. Cenas excitantes, mas, lamento dizer, Indiana usou a estratégia errada. Ele deveria ter levado primeiro o cálice ao pai, sem prová-lo antes. Se tivesse escolhido o cálice certo, seu pai estaria salvo de qualquer forma; se tivesse escolhido errado, bem… o velho morreria mas ele se salvaria. Do jeito que agiu, se tivesse escolhido o cálice errado, não haveria segunda chance — Indiana morreria por causa do cálice e seu pai por causa de seus ferimentos.

Agora, imagine algo que não está no filme mas poderia estar na vida real. Indiana faz a opção racional. Escolhe, leva o cálice primeiro ao pai ferido, e …esse morre. “Bem” , pensaria ele, “eu tentei. De nada adiantaria ter bebido primeiro por que agora eu e meu pai estaríamos mortos. Tenho certeza de que o velho aprovaria o que fiz. Foi a escolha lógica”. Indiana tenta racionalizar a situação, mas o ser humano que nós conhecemos comportar-se assim? Analisa racionalmente vários cursos de ação e escolher – friamente – o mais adequado? A culpa começa a perseguir nosso herói. Ele sonha toda noite com o velho estrebuchando diante dele. Acorda encharcado de suor. Não consegue convencer-se de que fez realmente a melhor escolha. Entra em depressão. Fica impotente (sem um certo exagero dramático essas histórias não têm graça). Começa a beber. A mulher o abandona (ninguém agüenta heróis deprimidos). Procura terapias alternativas. Lê livros de auto-ajuda…coitado do Indiana. A racionalidade, a escolha lógica, nem sempre resolvem.

A matemática da teoria dos jogos trata rigorosamente de conflitos reais, mas não dá garantia de sucesso, só dá a garantia da lógica. Infelizmente, sucesso e lógica não andam necessariamente juntos. Levar em conta o ser humano como ele realmente é, implica em levar em conta sua emoção. Ela tem que ser parte do jogo, e é. Continue lendo…

O jogo que explica os jogos

Eu disse no início, que a raiz dos conflitos de interesse é a tendência de se maximizar o ganho individual, mas, tem de haver algo além da pura racionalidade auto-interesseira, se não, a vida em sociedade seria impossível. Essa questão é muito bem captada por um jogo que se chama “O dilema do prisioneiro” — formulado e estudado na década de 1950 por matemáticos de Princeton, a mesma universidade de Einstein, Von Neumann e Nash. É assim: dois criminosos praticam um crime juntos. São presos e interrogados separadamente. A polícia não tem provas contra eles, e a única forma de condená-los é um acusar o outro. Cada prisioneiro tem uma escolha: calar ou acusar o companheiro. Se os dois permanecerem calados, ambos serão postos em liberdade. A polícia, querendo uma solução rápida para se livrar da pressão da opinião pública, fornece alguns incentivos: o prisioneiro que denunciar o outro ganha a liberdade, e ainda por cima leva um prêmio em dinheiro. O outro pegará prisão perpétua, e ainda terá de pagar o prêmio ao delator. Se os dois acusarem-se mutuamente, os dois serão condenados. Qual a escolha lógica? Ambos começam a pensar. O melhor a fazer é calar, pois ambos serão soltos. Mas o prisioneiro A sabe que B está pensando a mesma coisa, e sabendo que não pode confiar no colega, percebe que o menos arriscado é denunciar B. Sim, pois se esse calar, A ainda assim estará livre (e com o dinheiro da recompensa). Se o outro igualmente denunciá-lo, bem…. A teria de cumprir pena de qualquer forma- pelo menos não ficará com cara de bobo na prisão.

Acontece que B pensa exatamente da mesma maneira. Resultado: ambos são levados pela fria lógica, para o pior resultado possível: traição mútua e prisão. Lembra daqueles exemplos de pessoas rachando a conta no restaurante? São dilemas do prisioneiro jogados por grupos de mais de duas pessoas. O racional é eu pedir lagosta (trair) depois que os outros pediram pizza (cooperaram). Por quê não agimos (racionalmente) assim? Um cientista chamado Robert Axelrod descobriu. Para investigar o dilema do prisioneiro mais a fundo, ele promoveu um torneio em que os participantes apresentariam programas de computador representando os prisioneiros. Os vários programas seriam confrontados aos pares, e cada um deles escolheria trair (dedurar) ou cooperar (calar )em cada encontro.

Havia um detalhe porém: em vez de jogar uma única vez , cada par de programas jogaria um contra o outro duzentas vezes seguidas. Essa seria uma maneira mais realista de representar o tipo de relacionamento continuado a que estamos acostumados na vida real. Note que num dilema do prisioneiro, o melhor para cada jogador é trair enquanto o oponente coopera (a tentação de trair tem que ser grande). O pior para cada jogador é quando ele coopera enquanto o outro trai. Finalmente, a recompensa pela cooperação mútua tem que ser maior que a punição pela traição mútua.

Axelrod atribuiu pontos a cada situação dessas. Venceria o programa que acumulasse mais pontos depois de enfrentar cada adversário duzentas vezes seguidas. Todos os tipos de estratégia poderiam ser representados: por exemplo, um programa adotando uma estratégia “generosa” que sempre perdoasse as traições do outro. Uma estratégia “cínica”, que perdoasse traições até um certo confronto (até a centésima partida, digamos), dando a impressão de ser boazinha, e, depois, traísse sistematicamente até o fim. Uma que sempre traisse. Uma que traisse e perdoasse alternadamente. Enfim, as possibilidades eram infinitas. Que estratégia acumulou mais pontos?

A regra do jogo

De todos os programas participantes, alguns continham estratégias muito complexas, mas o vencedor, para surpresa geral, foi um que adotava uma estratégia muito simples chamada TIT FOR TAT, que em tradução livre significa “olho por olho”. TIT FOR TAT é um programa de apenas quatro linhas. Sempre começa cooperando, e depois faz exatamente o que o oponente tiver feito no lance anterior : trai, se tiver sido traída, e coopera caso tenha obtido cooperação. TIT FOR TAT tem quatro características (entre parêntesis está a terminologia usada no trabalho original em inglês):

1 — É “bacana” (nice) — nunca trai primeiro;

2 — É ” vingativa” (tough) — nunca deixa passar uma traição sem retaliar na mesma moeda no lance seguinte.

3 — É “generosa” (forgiving). Se após a traição e conseqüente retaliação, o oponente passar a se comportar bem, TITFOR TAT esquece o passado e se engaja num comportamento cooperativo

4 — É “transparente” (clear). É uma estratégia simples o suficiente para permitir ao oponente notar de imediato com que tipo de comportamento está lidando. Não há truque, nem “jogada”.

Depois que apareceu como vencedora, TIT FOR TAT foi desafiada e venceu mesmo em torneios em que os demais competidores apresentaram programas desenhados especificamente para batê-la. Com toda sua simplicidade, TIT FOR TAT pode realmente levar à cooperação em uma grande variedade de situações, algumas muito improváveis. Por exemplo, a estratégia “viva e deixe viver” (live and let live) que apareceu espontaneamente nas tricheiras na primeira guerra mundial: unidades inimigas, frente a frente por meses a fio, evitavam dar o primeiro tiro. Apesar de não haver comunicação formal, e de serem inimigas, o compromisso tácito que surgiu foi: “se você não atirar eu não atiro”. O fato de os mesmos soldados estarem convivendo na mesma situação por vários meses, levou ao acordo para a cooperação.

Jogos de morcegos

Mesmo quando não há comportamento consciente envolvido, TIT FOR TAT (daqui para a frente TFT) pode ser adotada. Certas espécies de morcegos vampiros saem em bandos à noite para sugar sangue de cavalos, ovelhas… Nem todos conseguem. É comum alguns morcegos que conseguiram mais do que necessitavam, regurgitarem o excesso de sangue para algum colega que não conseguiu nada. O colega, dias depois, retribui o favor. Eles se reconhecem na multidão de morcegos. Reputação conta e muito. TFT é isso. Como há um lapso de tempo entre a boa ação e a retribuição a ela, esses morcegos têm que ter boa memória. Há dezenas de exemplos análogos. Colabore comigo hoje, que eu retribuo amanhã.

Jogos de guerra

Os soldados na trincheira e os morcegos cooperativos ilustram algo importantíssimo. Para que TFT possa se instaurar, a relação entre os jogadores tem que ter uma perspectiva concreta de durar muito tempo. Tem que haver uma grande probabilidade de haver novos encontros no futuro. A sombra do futuro tem que ser longa, como dizem os especialistas. Se não for… bem se não for você já sabe-o racional é trair. Lembre-se dos soldados na trincheira. Lembre-se de quando você amassou aquele BMW no início. Claro, você saiu de fininho. Nunca mais iria ver o proprietário mesmo…

Jogos de bactérias

Bactérias são outro exemplo. Bactérias não têm cérebro. De um ponto de vista darwiniano, elas são os seres vivos mais bem sucedidos que há. Existem há bilhões de anos, e têm uma capacidade de replicação incrível. Você, leitor, hospeda em suas entranhas bilhões delas. Há mais bactérias vivendo dentro de você do que há seres humanos na Terra.

Nas palavras do biólogo inglês, Richard Dawkins, elas estão: provavelmente envolvidas em dilemas do prisioneiro com os organismos que as hospedam…..Bactérias que normalmente são inofensivas, e mesmo benéficas, podem tornar-se malignas e até provocar septicemias letais numa pessoa ferida. Um médico diria que a “resistência natural” da pessoa ferida diminuiu por causa do ferimento, mas talvez a causa real tenha a ver com jogos tipo dilema do prisioneiro.

Será que não poderemos ver as bactérias que hospedamos como seres que normalmente têm algo a ganhar, mas preferem se conter? No jogo entre bactérias e seres humanos, a “sombra do futuro” é normalmente longa, pois, tipicamente se espera que uma pessoa viva muito tempo. Porém, alguém seriamente ferido está sinalizando que potencialmente a sombra do futuro para a relação com a bactéria, encolheu. A tentação de trair começa a aparecer (para as bactérias) como uma opção mais atraente que a recompensa pela cooperação mútua. Não é que as bactérias ” imaginem” tudo isso em suas cabeças maldosas! A seleção natural atuando em cima de várias gerações de bactérias embutiu nelas uma regra prática, inconsciente, que opera através de meios puramente bioquímicos

Resumindo: de alguma forma as bactérias ficam sensíveis ao fato de que a “sombra do futuro” diminuiu. A relação pode acabar mais cedo do que o esperado. O ferimento no organismo hospedeiro fez com que ele emitisse alguns sinais (químicos). As bactérias decodificam esses sinais que estão dizendo simplesmente: “estou ferido; posso vir a morrer”. E você sabe, leitor, se a relação tem data para terminar, o “racional é trair”. É isso que as bactérias fazem.

Jogos no fundo do mar

Uma maneira de forçar a colaboração é alongar a “sombra do futuro”. Isso se faz , por exemplo, aumentando aos poucos a freqüência da interação entre os jogadores, fazendo-os levar em conta que “logo vou encontrar esse cara de novo” . Nos bancos de coral do Panamá vive um tipo de peixe em que não há distinção sexual. É uma espécie hermafrodita. Todos os membros são macho/fêmea e alternam periodicamente seus papéis sexuais. Durante a fase inicial do acasalamento, cada peixe do par faz o papel de fêmea, e o outro o de macho. Mas cada “fêmea” põe apenas um pequeno número de ovos de cada vez, até que, através da relação continuada, o “macho” demonstre que não vai cair fora depois de os ter fertilizado. Assim ele está dando garantias de que vai fazer o papel de fêmea quando chegar sua vez. Só à medida em que cresce a confiança entre os membros do par é que ambos os peixes começam a pôr quantidades maiores de ovos, confiando cada vez mais que não serão traídos.

O padrão de comportamento de seqüestradores e vítimas que, após longo tempo em contato, acabam desenvolvendo formas de simpatia (colaboração) mútua — a chamada síndrome de Estocolmo — talvez tenha a ver com essa influência da “sombra do futuro”. Quem sabe algum psicólogo se interessa por investigar esse fenômeno à luz da teoria dos jogos?

Jogos do poder

Depois das bactérias, vejamos os políticos (admito: alguns têm cérebro). Ninguém faz acordo com um político sem chance de se reeleger pois não haveria chance para a retribuição no futuro. A cooperação de TFT só existe com base na perspectiva de retribuição, sem isso nada feito. Depois que o Collor mostrou que tinha condições de ganhar em 1990, choveram empresários interessados em contribuir para a campanha; mas só depois. Quando um executivo cai em desgraça não há acordos possíveis com seus colegas, pois seu poder tem data marcada para acabar. Empresas em má situação não conseguem negociar prazos ou créditos com fornecedores. Casais que já decidiram se separar mergulham freqüentemente num mar de mesquinharias. Escondem migalhas um do outro; brigam até por guardanapos. Quando a relação tem data marcada para acabar — quando a “sombra do futuro” é curta — a traição é o racional. A tentação de trair (não cooperar) fica irresistível.

Jogos de humanos

TFT porém tem um grave problema: se ela tivesse sido a estratégia preferencial da evolução, nós humanos não teríamos aparecido como produto dela. Não do jeito que somos. TFT não é capaz de perceber quando alguém erra involuntariamente – é fria demais. Se calhar de dois jogadores TFT entrarem em sintonia, tudo bem, começa o jogo da reciprocidade; mas, se por acidente ou engano, um deles trai, tem início uma série infinita de traições mútuas da qual não se escapa. Lembre-se que o resultado da traição mútua é o pior possível para os jogadores.

O animal humano em suas interações sociais é complexo e sutil. Não é um traidor inveterado. Pelo contrário, busca a cooperação porque de alguma forma percebe que isso é melhor a longo prazo. Damos gorjetas a garçons que nunca mais veremos. Votamos em eleições. Doamos sangue.

Cumprimentamos estranhos com sorrisos. Todas essas ações são perfeitamente irracionais no sentido da teoria dos jogos. Tentamos ao máximo parecer confiáveis, simpáticos, compreensivos, assim como quem diz: “pode jogar comigo, sou confiável”. Por que fazemos isso? Talvez, porque busquemos reciprocidade fazendo essas coisas. Através delas pode-se tirar o máximo proveito da vida em sociedade colaborando nos dilemas do prisioneiro que surgem a toda hora.

Jogos da emoção

TFT pode ter sido o início, o “pé na porta”, mas depois deve ter evoluído para algo que permita distinguir o erro involuntário da má-fé premeditada, levando-nos a perdoar o erro e só retaliar a malandragem. Como a evolução fez isso? Uma hipótese bacana diz que foi embutindo emoção no equipamento mental dos humanos.

Você se lembra de TFT nas trincheiras da primeira guerra. Ingleses e alemães, frente a frente, mantinham tacitamente um cessar-fogo. Axelrod relata um episódio em que, por engano, a trégua foi rompida por tiros vindos do lado dos alemães. Era uma traição clara, e como bons jogadores TFT os ingleses estavam prontos para retaliar. Mas aí veio um emocionado e imediato pedido de desculpas de um soldado alemão, que, aos gritos dizia: “sentirmos muito, a culpa pelos disparos não é nossa, é de soldados de outra unidade- aqueles miseráveis artilheiros prussianos”. Isso fez com que a trégua fosse mantida. Naquele momento, o que restaurou o equilíbrio na trincheira foi a reafirmação dos alemães do compromisso de continuar jogando o jogo como antes. O que levou os ingleses a acreditarem? Foi a forma pela qual o pedido de desculpas foi feito. A emoção fez com que o compromisso anunciado ficasse crível. Naquele momento os ingleses estavam superando TFT.

Para o economista Robert Frank, da Cornell University, emoção é algo que surgiu no processo evolucionário para nos habilitar a jogar o jogo social, garantindo credibilidade a nossos compromissos. Através das emoções, provamos — para além das palavras — que somos jogadores confiáveis: jogue comigo, eu não trapaceio. Você já notou como juramentos estão presentes em nossas vidas? Eles são indispensáveis em interações sociais em todos os níveis. Um especialista comenta que juramentos existem “em todos os povos e em todas as culturas. São indispensáveis no nível econômico, no jurídico, no privado, no público, no intra-tribal , no internacional… Nenhum tratado, nenhum contrato, nenhuma forma de administração da justiça se dá sem um juramento. Juramentos são fenômenos da linguagem; eles existem exatamente porque a linguagem é insuficiente [para garantir credibilidade]. A fraqueza da linguagem é a possibilidade — a probabilidade — da mentira, da fraude, dos truques sujos nos jogos sociais. Chimpanzés a quem se ensina a linguagem dos símbolos, imediatamente tentam enganar seus treinadores, mentindo. É seguro concluir que nos primórdios da civilização, mentira e linguagem surgiram juntas e andavam juntas…Mas colaboração e troca em sociedade exigem confiança; meios para se evitar a trapaça, para possibilitar que as ações dos companheiros sejam previsíveis, para dar estabilidade a um mundo de valores comuns… O objetivo do juramento sempre foi excluir a mentira…”dizendo a verdade, somente a verdade nada mais que a verdade”.

Legal. Mas jurar resolve? Se resolvesse, testemunhas não mentiriam no tribunal, médicos nunca trairiam o juramento de Hipócrates, padres não desrespeitariam os juramentos de pobreza, castidade e obediência…

Não. Para que os jogos básicos do convívio social pudessem se instaurar, a garantia do compromisso teria de ser dada de outra forma Temos mecanismos instintivos em nossos cérebros-emoções – para demonstrar nossa sinceridade, independentemente do que possamos dizer. Emoções são muito difíceis de camuflar. Acabamos revelando através delas, o que de fato estamos sentindo. As dezenas de músculos em nosso rosto deixam transparecer o que realmente vai lá dentro. O que dizemos é, em si, tão vazio que podemos usar até máquinas — detetores de mentiras — para flagrar mentirosos.

Jogos do sexo

Pense na ereção num macho. Por quê será que a evolução escolheu um mecanismo tão trabalhoso para que um pênis fique em condições de penetrar uma fêmea? Por quê não um osso, em vez do complicado processo hidráulico, com sangue tendo de ser bombeado à alta pressão? Vários mamíferos têm ossos no pênis para ajudar na ereção, incluindo nossos “parentes” primatas. Nosso antecessores diretos- os chimpanzés- idem, apesar de serem ossos pequenos. Por quê somos diferentes? A utilidade para os seres vivos é a propagação de seus genes.

Machos em todos os contextos biológicos têm uma inclinação maior para trapacear no jogo do sexo, por uma questão de economia: óvulos são raros, espermatozóides são abundantes. Machos simplesmente não perdem nada — ou perdem muito pouco — sendo promíscuos: copulando com o maior número possível de fêmeas, eles maximizam as chances de propagar seus genes. Esperma gasto é rapidamente subtituído. Fêmeas, ao contrário, têm muito a perder se entregam seus preciosos óvulos para qualquer um fecundar.

Perdem tempo e energia (se gerarem crias doentes por exemplo), e perdem também a possibilidade de gerar outras crias no período da gestação. O conflito de interesses é evidente no jogo do sexo. Uma história que faz sentido é a seguinte: enquanto os machos iam aprendendo formas mais elaboradas de “propaganda enganosa” — (prometer e não cumprir; aparentar sem ser) — as fêmeas respondiam tornando-se progressivamente melhores na detecção dessas fraudes, e reagiam utilizando sua arma mais letal: negando a cópula. Isso forçava a mudança de comportamento do macho. Para fugir da trapaça, a seleção natural embutiu nas fêmeas um instinto que atua como se ela estivesse dizendo: “não me venha com conversa fiada, você diz isso para todas. Prove, se não, não dou”. Através da ereção o macho está demonstrando: “pode copular comigo, eu sou saudável. Não corro risco de gerar crias doentes. Machos doentes não têm ereção”. Trapacear, fazendo um pênis flácido passar por ereto, é impossível. A ereção hidráulica (hmmm…) pode ter sido a prova decisiva para garantir as fêmeas contra a propaganda enganosa. É essa também, a razão do exibicionismo da cauda do pavão- ele está dando uma prova de saúde `a fêmea. Sem isso, adeus cópula.

Fidelidade, família monogâmica, os atributos psicológicos do macho e fêmea humanos, podem ter se originado como conseqüência desse tipo de jogo, jogado através da imensidão do tempo. A busca da reciprocidade nos jogos macho-fêmea, deve ter implicado muito conflito, muita tentativa e erro, mas, quando ela (reciprocidade) se instaurou, pode ter gerado como sub produto os sentimentos e vínculos que nos são mais caros.

O grande jogo

Poucas são as pessoas que conseguem camuflar suas emoções mais sinceras. Ficamos ruborizados, não dá para fingir. É comum não controlarmos o riso ou o choro. Dizemos “eu te amo” emocionadamente, para não deixar dúvidas sobre o compromisso. Conflito de interesse. Instinto. Tentação da trapaça. Jogo. Emoção… Começamos com as especulações matemáticas de um cientista hiper-racional no início da guerra fria. Quem imaginaria que chegaríamos `a emoção como elemento central dos jogos que os humanos jogam? Se a evolução não tivesse embutido em nossos cérebros essa capacidade de discriminar, escolhendo parceiros confiáveis nos jogos em que nos envolvemos, não estaríamos aqui. As emoções são essenciais para validar nosso comprometimento com a cooperação e buscar reciprocidade. Por meio delas superamos a racionalidade auto-destrutiva dos dilemas do prisioneiro, evitamos jogos de soma zero, inventamos nosso jeito “hidráulico” de fazer sexo e, talvez, tenhamos inventado até o amor. E olha, não é Freud que explica — é a teoria dos jogos .

Para ler mais:

a — William Poudstone. Prisoner’s Dilemma – John Von Neumann, Game Theory and the Puzzle of the Bomb. Anchor Books,1992.
b — Richard Dawkins. God´s Utility Function.Scientific American, November 1995.
c — Richard Dawkins. O rio que saía do Éden-uma visão darwiniana da vida. Rocco, 1994.
d — Richard Dawkins. The Selfish Gene. Oxford University Press,1989.
e — Matt Ridley. As origens da virtude-um estudo biológico da solidariedade. Record, 2000.
f — Avinash K Dixit. e Barry J Nalebuff. Pensando Estrategicamente. Atlas,1994.
g —Robert Axelrod. The Evolution of Cooperation. Basic Books,1984.
h — Martin Nowak; Robert May; Karl Sigmund. The Arithmetics of Mutual Help. Scientific American, June 1995
i — Robert Wright .Non Zero-The logic of human destiny. Pantheon Books,1999.
j — Robert Frank,. Passions Within Reason- The Strategic Role of Emotions.Norton,1988
k — Jared Diamond. Por que o sexo é divertido. Rocco,1999.
l — Clemente Nobrega.O Glorioso Acidente. Objetiva,1998. m-Para jogar o dilema do prisioneiro interativamente via Internet :

da revista superinteresante

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/tudo-e-um-jogo/

Luiz Gonzaga, Acácia Amarela e a Maçonaria

Pelo ir.’. Abílio Neto, Recife PE.

Algumas pessoas já me perguntaram se era verdade que “Seu Luiz Gonzaga” fosse maçon. Sim, não há por que ocultar isso. Desde 1971 que ele ingressou nessa organização. Nada melhor do que um maçon para descrever o histórico do membro Luiz Gonzaga do Nascimento na entidade e outro maçon para mostrar em vídeo a música que ele fez para a maçonaria, em parceria com outro músico maçon: o maestro Orlando Silveira. Leiam o texto abaixo e depois vejam o vídeo contendo a música “Acácia Amarela”.

“Luiz Gonzaga é Iniciado, na Maçonaria, na ARLS.’. “Paranapuan” Nº: 1477, do Grande Oriente do Brasil, Or.’. da Ilha do Governador/RJ, do Rito Moderno” ou “Francês”. Aprendiz Maçom: em 03 de abril de 1971

Tendo como seu “padrinho” o Irmão Florentino Guimarães, membro do quadro da Loja Paranapuan.

Grau de Companheiro Maçom: Elevado em 14 de dezembro de 1972

Grau de Mestre Maçom: Exaltado em 05 de dezembro de 1973.

Na Maçonaria dos Altos Graus ou Filosóficas, foi iniciado no Grau 4, em 29 de agosto de 1984. No Subli .’. Cap.’. “Paranapuan”, jurisdicionado ao Supremo Conselho do Brasil para o RFAA.

O G.’. A.’. D.’. U.’., nos seus desígnios, requisitou o irmão Luiz Gonzaga para uma outra missão.

Sofrendo de câncer na próstata e osteoporose, passou 42 dias internado no “Hospital Santa Joana”, na cidade de Recife. Agravados seus males físicos, viajou para o Oriente Eterno na madrugada de 02 de agosto de 1989, com 76 anos de idade, em conseqüência de parada cardíaca por pneumonia.

Sob comovente manifestação popular, seu corpo foi velado na cidade do Recife, e transportado inicialmente para a cidade de Juazeiro do Norte, CE, onde recebeu as bênçãos do Padre Cícero de quem era muito devoto, e daí para sua cidade natal, em Exu, onde foi sepultado.

Acácia Amarela é uma composição maçônica. A música “Acácia Amarela” nasceu em 1981. Além de cantar o Nordeste, Luiz Gonzaga homenageia com esta música a grande família justa e perfeita na qual admiro muito! Para os leigos, Luiz Gonzaga era maçom, e fez essa melodia para a Maçonaria!

O Irmão Luiz Gonzaga, achando oportuna uma homenagem musical à Maçonaria, elaborou a letra e o tema musical. O Irmão Orlando Silveira deu algumas sugestões e harmonizou a melodia. Concluído o trabalho, a gravação foi feita em 1982, e incluída no elenco do CD (na verdade, LP) “Eterno Cantador”, da etiqueta RCA-Victor. E regravado em CD em 1998, com arranjo de Orlando Silveira e execução vocal de Luiz Gonzaga.

Em 1997 o Grande Oriente do Brasil através do Projeto Classes Musicais, por ocasião do encontro Compasso para o Futuro, gravou a mesma com a Orquestra Sinfônica e Coral Baccarelli e a regência e arranjos do Maestro Sérgio Kuhlmann.

ACÁCIA AMARELA

“Ela é tão linda é tão bela

Aquela acácia amarela

Que a minha casa tem

Aquela casa direita

Que é tão justa e perfeita

Onde eu me sinto tão bem

Sou um feliz operário

Onde aumento de salário

Não tem luta nem discórdia

Ali o mal é submerso

E o Grande Arquiteto do Universo

É harmonia, é concórdia

É harmonia, é concórdia”.

De acordo com o Irmão José Castellani em seu livro Dicionário Etimológico Maçônico, no Egito, as acácias eram árvores sagradas e tinham o nome hieroglífico de shen; na Fraternidade Rosa-Cruz, ensina-se que a acácia foi a madeira usada na confecção da cruz em que Jesus foi executado; segundo o Tabernáculo hebraico, eram feitos de madeira de acácia: A Arca da Aliança (Êxodos, 25 – 10), a mesa dos pães propiciais (Êxodo, 25 – 23) e o altar dos holocaustos (Êxodo, 27 – 1).

Na maçonaria, além de ser o símbolo da Grande Iniciação, representa, também, a pureza e a imortalidade, além de ser o símbolo da ressurreição, por influência da tradição mística dos árabes e dos hebreus.

#Maçonaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/luiz-gonzaga-ac%C3%A1cia-amarela-e-a-ma%C3%A7onaria

Fantasmas Indígenas da América do Sul

Embora a crença em fantasmas seja comum a culturas de todo o mundo, no Ocidente e, especialmente nas Américas, essa crença foi fortemente influenciada pelas tradições do folclore europeu que chegaram ao novo mundo a bordo dos navios colonizadores de portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. Deste modo, os fantasmas do Velho Mundo emprestaram muito do seu modus operandi, da sua maneira de se manifestar, sincretizando-se aos espectros que já assombravam as populações nativas em terras americanas, mais do que nas colônias orientais, onde as civilizações já estabelecidas e desenvolvidas possuíam tradições firmadas tão antigas e documentadas quanto européias, como na China, Índia, Japão.

Os Condenados Quíchuas

São numerosos grupos étnicos da América do Sul dispersos principalmente nos territórios do Peu, Bolívia, Equador [Kichwa], Colômbia [Ingas] e Argentina. Historicamente, seus ancestrais foram os Incas, os Chanchas, Huancas e Cañaris. Entre suas crenças no sobrenatural, fortemente influenciadas pelo cristianismo-católico dos jesuítas,  figuram os “Condenados”. Quando alguém morre de “boa morte”, antes de deixar este mundo, a alma vagueia por cinco dias nos lugares onde sofreu e foi feliz. Veste uma túnica branca e não põe os pés no solo. Findo aquele período, lava sua roupa, pois precisa estar completamente limpa para subir ao céu. Porém, a situação é diferente se a morte foi trágica, como suicídio, acidente, quando o morto carrega culpas, como o incesto, a avareza, a mentira, ou cometeu crimes. Estes são rejeitados por Deus e condenados a passar um tempo errando entre os vivos. Há os que deixaram dinheiro escondido e voltam para dizer onde está o tesouro porque esconder riquezas e levar o segredo para o túmulo é considerado um ato anti-social.

Conforme o caso, a pena será diferente: os que se matam por amor, somente são recebidos no céu quando chega o momento que estava programado para sua morte. Os ladrões, têm que restituir, de alguma forma, o fruto do roubo. Mas os que morreram de forma violenta são os piores casos, porque reviverão a violência até que consigam a salvação pela misericórdia divina. Estes, são almas penadas que habitam cavernas e cemitérios onde gritam e se lamentam em terrível agonia, atormentados por demônios que os mantêm acorrentados. Tomam a formas de animais ou aparecem vestidos com túnicas negras. Eventualmente libertos por seus algozes demoníacos, assombram cidades em cortejos, procissões, mas também vagueiam sozinhos, escondendo o rosto cadavérico para não serem reconhecidos. São descritos como vultos.

Aqueles condenados mais terríveis, procuram arrastar viventes para seu infortúnio. Querem suas almas que, acreditam, podem servir como moeda de troca em negociação com os demônios e, assim, alcançarem a libertação. O incestuoso, assombra sua vítima e/ou parceira. Há casos em que tentam comer a cabeça porque ali está a sede da alma. Para livrar-se dessas almas penadas pode-se recorrer a orações, segurando um crucifixo, chamando por Jesus ou pedindo a intervenção da Virgem Maria. Alguns objetos também servem como proteção: a lã das lhamas, faixas coloridas, sal, a música do cacho [corneta de chifre, berrante] e, também, a presença de crianças [como na lenda abaixo]. Mas se a intenção é salvar a alma do condenado, então deve-se mandar celebrar missas.

Lenda de Um Condenado Quíchua

 

 

Havia uma mulher que vivia sozinha. ela fiava dia e noite para ganhar seu sustento. Em uma dessas noites de trabalho, era meia-noite quando ouviu baterem à sua porta e, inadvertidamente, ela abriu deparando-se com um homem que lhe disse: “Senhora, por favor, guarda para mim estas velas que amanhã, a esta mesma hora, voltarei para buscá-las”. Apesar da estranheza do pedido, ela concordou. Fechou a porta e, recolhendo-se à casa, à luz do candeeiro, viu que as velas tinham se transformado em ossos humanos. Jogando longe os objetos macabros e cheia de temor, no dia seguinte, correu a procurar o cura da paróquia a quem relatou o sucedido. O religioso disse-lhe que havia feito muito mal em atender a porta em tão adiantada hora da noite e não havia outro remédio senão esperar a volta da assombração, pois era uma assombração, alma do outro mundo, um condenado que, certamente, roubar-lhe-ia a vida ao retornar para buscar os ossos; ossos que ela tinha de recuperar pois necessário seria restituí-los. Porém, para salvar-se, bastava que ao atender a porta não estivesse sozinha, mas acompanhada de seis crianças: três meninos e três meninas. Assim fez a mulher: recorrendo às vizinhas, reuniu as crianças e esperou. Na hora aprazada, bateram à porta. Era o condenado e ela, cercada pelos infantes, entregou os ossos. Contrariado, o espectro disse: “Ah! Então já sabes! Agradece a essas crianças porque sem elas eu teria devorado você!” E desapareceu diante dos olhos de todos. [Velas que viram ossos nas lendas de assombração são um tema recorrente do folclore brasileiro como se verá no tópico “Brasil”].

Lendas Ameríndias


Maauia:
aparentada com o Saci-Pererê, nesta versão, a entidade dos tupi-guarani é “a alma de [índios e índias muito velhos e sábios na feitiçaria, que andam pela noite, saltando numa perna só e gritando como a Matinta-Pereira, uma ave agourenta” [Donato, Hernâni, 1981: Dicionário de Mitologia, São Paulo: Culrix]. O saci, mais conhecido, entre as assombrações, pertence à categoria dos “encantados” e não aos fantasmas.

Iwanch: os índios aguaruna [Peru, do tronco do Jivaros, aqueles que encolhem cabeças] acreditam que todos os seres, homens, animais, plantas, rochas, montanhas, objetos etc., têm uma alma à qual chamam wakán. Quando morre uma criança as mães lançam ao ar sua roupa [da criança] para que o filho [a] possa captar a wakán da vestimenta e, assim, proteger-se do frio no Além. O wakán humano, com a morte do corpo, converte-se em Iwanch e pode ter destino diferente, dependendo da pessoa.

Alguns espíritos tomam uma horrível forma humanóide: perturbado, glutão, covarde e pouco inteligente. É a primeira etapa na existência no post-mortem, a Dekas Iwanch, que dura o mesmo tempo da vida que se acabou [muito semelhante aos cascões, o corpo astral impuro dos ocultistas ocidentais e orientais]. Depois, transforma-se em uma mariposa azul [Iwanch Wampag] que sobe acima das nuvens [Yújagkim], desaparecendo.

As almas dos maus são condenadas a arrastar-se eternamente no fundo dos precipícios pedregosos. Esses espíritos condenados podem assombrar os vivos, raptá-los, golpeá-los até o desfalecimento, deixando-os semi-mortos. A única forma de proteção é recitar uma fórmula mágica, chamada, ánen, que espanta essas assombrações: “Tú, que tomaste a forma de espírito maligno, não leves minha alma, recorda o tempo em que tinhas um corpo e dizias ─ “Irei ver minha esposa”. Já não podes falar assim…. Eu sou como a unha unida à carne. Assim minha alma está unida ao meu corpo… Mas tu já não podes falar assim do teu corpo, pois que na distância perdeste-o para sempre”.

Emesek: é um espírito danoso, vingador, de um inimigo morto que continua, como fantasma, lutando contra o rival que considera devedor. O Emesek quer ajustar contas e neste processo pode perturbar durante anos. Somente através de magia é possível não somente controlar este adversário do Além mas também escravizá-lo, obrigando-o a prestar serviços que favoreçam prosperidade material e familiar pata aquele que conseguiu vencê-lo.

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-indigenas-da-america-do-sul/

Entrevistas e Palestras de Setembro/2020

Bate-Papo Mayhem #061 – Com Vegsvin Cinta Larga – A Religião Asatru no Brasil
https://youtu.be/BDqecklT7XI

Bate-Papo Mayhem #062 – Com Karagan Griffith – A História da Wicca Alexandrina
https://youtu.be/pEvi4JZ_KeI

Bate-Papo Mayhem #063 – Com Constantino K. Riemma – A Diversidade de Sistemas e Pensamentos no Tarot
https://youtu.be/C2Rd_ukaDMs

Bate-Papo Mayhem #064 – Com Tommie Kelly – Arte, Magia e os 40 Servidores
https://youtu.be/bu5n2EpnTqg

Bate-Papo Mayhem #065 – Com Philippe Bandeira de Mello – Enteógenos e Hermetismo
https://youtu.be/1wxDHbFefvY

Bate-Papo Mayhem #066 – Com Pedro Pietroluongo – A História da Geomancia
https://youtu.be/q7C3rnAYMKc

Bate-Papo Mayhem #067 – Com Frater Keron-E – Thelema e a História da Astrum Argentum
https://youtu.be/7eJ_1ZoTMtM

Bate-Papo Mayhem #068 – Com Raph Arrais – Rumi e os Poetas da Alma
https://youtu.be/4PxD2En3N6k

Bate-Papo Mayhem #069 – Com Marcelo Del Debbio – Signos Intermediários, os 72 Nomes de Deus
https://youtu.be/_eXszr2rKZ0

Bate-Papo Mayhem #070 – Com Maria Luiza Christovão Ramos – Verdadeira Vontade, Espiritualidade e Vocação
https://youtu.be/2RsX22w-tKo

Bate-Papo Mayhem #071 – Com Bruno Oliveira – Umbanda e Desenvolvimento Mediúnico
https://youtu.be/ee6-CsOkkKU

Bate-Papo Mayhem #072 – Com Tarsis Valentim Pinchemel – Os Graus de Cavalaria na Ordem Demolay
https://youtu.be/Yw8FxoaA0r0

#Batepapo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/entrevistas-e-palestras-de-setembro-2020

Os Caminhos do Taoismo

capa-taoismo-web

É o mais abrangente panorama do Taoismo já publicado no Brasil, escrito em linguagem simples e acessível. Um material para principiantes que desejam saber mais sobre o Taoismo e referência para praticantes experientes de suas várias artes. São 330 páginas ilustradas sobre o Taoísmo em toda a sua abrangência.

Conheça a história, os Mestres, os livros e as técnicas e práticas desta cultura milenar. Desvende 3.000 anos de desenvolvimento, dos conceitos filosóficos às práticas religiosas. Esta obra abrange todo o universo da cultura Taoista, a mais influente dentro da cultura chinesa e que moldou o pensamento oriental por milênios. Uma visão de conjunto inédita no Brasil que irá ampliar seus horizontes e enriquecer seus conhecimentos.

“Os Caminhos do Taoismo” faz uma viagem pela história da China e do Taoismo, mostrando as principais tradições taoistas, seus livros e mestres. Em seguida expõe seus conceitos e fundamentos básicos, partindo para as práticas e técnicas baseadas nestes conceitos e culminando com uma exploração do mundo espiritual, da religião e da mediunidade.

Este livro aborda, entre outros temas:

– História da China e do Taoismo

– Principais livros e Mestres

– A filosofia e a religião no contexto chinês

– As principais tradições Taoistas

– Conceitos fundamentais como Tao, Te, Qi, Wuwei, Trigramas e Hexagramas

– Práticas taoistas como Medicina Chinesa, Qigong, Artes Marciais, Meditação, Alimentação e Feng Shui

– O Taoismo como religião e suas práticas

– A espiritualidade taoista, reencarnação e o mundo invisível

– Fantasmas, demônios e exorcismo

– Mediunidade taoista

Tenho certeza de que gostarão muito. E para ampliar a difusão desse conhecimento, coloquei a versão digital para DOWNLOAD GRATUITO. Basta visitar meu site (www.taoismo.org) e fazer o download.

#Tao

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-caminhos-do-taoismo

Ritual Menor do Pentagrama Umbandista

O RMP é o mais eficaz método de “desinfetar” um ambiente astral e é recomendado antes de qualquer consagração ou operação mágica.

É importante que você não “imagine” toda a estrutura do RMP, mas VISUALIZE toda a estrutura. Há uma grande (e vital) diferença entre estes dois verbos… quando eu falo em visualizar, significa ter a CERTEZA de que tudo aquilo que você traçou está realmente ali; que a luz emanada pelas chamas está iluminando e dando um tom azulado ao local, só ofuscado pela luminescência da cruz sobre o altar; que o seu sigilo pessoal está flamejante no centro de cada um dos quatro pentagramas e que os Orixás estão dispostos ao lado de fora do local, com armas em punho.

VISUALIZAR significa que estas construções estarão firmes e cristalizadas no Astral. Com o tempo e a repetição, você tornará aquele recinto impenetrável a qualquer entidade com Força de Vontade menor que a sua (e eis o por quê os magos devem dominar TODAS as esferas da Árvore… Yesod para a visualização, Hod para a Vontade e Netzach para a cristalização). Pode-se utilizar uma vela no altar (que será acesa logo na finalização do ritual) para ajudar o inconsciente nestas visualizações (enquanto a vela estiver acesa, estará atrelada ao ritual).

O Ritual

Parte 1 – A Cruz Umbandista

Deve ser feita diante do altar, o Coração do Templo, voltado para o Leste (Oriente). Traçado com os dedos indicador e médio estendidos e os outros dedos fechados.

1 – Toque a testa e diga “IBEJI” (dedo indicador e médio estendidos, os outros fechados)
Visualize a luz divina descendo do alto de Keter até o magista e o altar. Visualize uma abertura nos céus por onde as crianças sagradas estarão olhando toda a operação.

2 – Toque o sexo e diga “OMULU” (com a mão na posição de “figa” – Imagine a energia vinda do cósmico fecundando a mãe-terra a seus pés e fincando as bases da cruz luminosa que protegerá o ambiente). Neste momento, deverá estar visualizado um pilar de luz no centro do templo. Visualize Omulu sentado aos seus pés, trabalhando em seu alguidar

3 – Toque o ombro direito e diga “PAI OGUN” (dedo indicador e médio estendidos, os outros fechados). Visualize Ogun portando sua espada colocado ao seu lado, como um guarda-costas.

4 – Toque o ombro esquerdo e diga “PAI OXÓSSI” (dedo indicador e médio estendidos, os outros fechados). Visualize Oxóssi, com seu arco, à sua esquerda.

5 – Trace o seu Sigilo Pessoal (se tiver) no centro da cruz.
Imagine o traço em dourado brilhante (Tiferet).

6 – Junte as mãos no peito e diga “PAI OXALÁ”

Visualize a energia divina projetando-se para dentro do Templo, iluminando toda a Sala Capitular/Templo e afastando qualquer interferência ruim do mundo profano. Nesse momento, visualize o manto de Oxalá vestindo-o por cima de suas vestes.

Parte 2 – Os Pentagramas

OBS: No RMP, as posições tradicionais seguem as posições energéticas usadas na Inglaterra, que são: Leste=Ar, Sul=Fogo, Oeste=Água e Norte=Terra. Aqui no Brasil, por nossa geografia diferente, os fluxos energéticos são diferentes e as associações são feitas da seguinte maneira: Leste=Água (Oceano Atlântico), Sul=Ar (Antártida), Oeste=Terra (Andes) e Norte=Fogo (Caatinga). Estas energias do Macrocosmos serão ancoradas no Círculo (quando estiver voltado para cada Ponto Cardeal, visualize as energias primordiais dos locais que eu citei sendo evocadas para a proteção daquele ponto).

1 – De frente para o Leste (o Oriente), com as mãos na forma do Kubera-Mudra (dedos polegar, indicador e médio unidos, como se estivesse segurando um giz invisível) desenhe um pentagrama visualizando-o em chamas azuladas muito fortes.
Vibre “OXUM”, visualizando a Mãe Oxum e a energia das Águas e Emoções naquele ponto. Trace com os dedos o Círculo de Proteção, no sentido horário, do Leste para o Sul, circundando o meridiano do Templo.

2 – De frente para o Sul, repita o processo anterior trocando o nome por “IANSÔ. Visualize a Senhora dos Raios com seu chicote, pronta para proteger o seu Templo do lado de fora. Continue o Círculo para o Oeste

3 – De frente para o Oeste, repita o processo anterior trocando o nome por “XANGÔ”. Visualize Xangô portando seu machado em posição de defesa do lado de fora do Templo. Continue o Círculo para o Norte

4 – De frente para o Norte, repita o processo anterior trocando o nome por “EXÚ”, Senhor do Fogo. Imagine o Exú de sua preferência guardando aquela entrada. Continue o Círculo para o Leste, fechando todo o conjunto.

Parte 3 – Invocação dos Arcanjos

Na posição de Cruz (os braços abertos e os pés juntos), o estudante repetirá:

1 – “A minha frente OXUM” (vibre todos os nomes)

2 – “Atrás de mim XANGO”

3 – “A minha direita IANSÔ

4 – “A minha esquerda EXÚ”

5 – “Pois ao meu redor flamejam os Pentagramas”

Sempre visualizando os Orixás nas suas respectivas posições, fora do Templo, guardando-o e protegendo-o, e os pentagramas em chamas. Cada um está relacionado a um elemento: Oxum(Água), Iansã (Ar), Xangô (Terra) e Exú (Fogo), na seqüência. Como os elementos são 4, o magista, ao centro, será a 5ª parte do pentagrama e deverá se visualizar coberto por um manto azul, protegido por Yemanjá.

6 – “E na coluna do meio, brilha a estrela de seis raios”.

Que o estudante visualize dois Hexagramas, Símbolos da Proteção de Xangô, um em cima e o outro projetado embaixo, com uma faixa de luz estendendo-se na vertical, envolvendo-o e formando uma espécie de “grade” ao redor do local.

Parte 4 – Repita a Cruz Umbandista

Quando terminar, os Pentagramas e a proteção ficarão por ali tanto tempo quanto sua vontade for capaz de manter a Visualização. A vela ajuda o subconsciente a lembrar.

AVISO: quem tem mediunidade, se prepara porque todas as suas entidades vão encostar. Quem tem mediunidade e não sabe, talvez experimente sensações “diferentes” em determinados pontos do RMPU. Testamos esta versão do Ritual e ela tem se mostrado MAIS FORTE do que o RMP tradicional, se você for umbandista. Como esta versão do RMP ainda está “em testes”, gostaria que vocês substituíssem o RMP em seus exercícios por esta versão e me mandassem os resultados obtidos ou quaisquer dúvidas nos comentários.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ritual-menor-do-pentagrama-umbandista

Bibliografia Estrangeira sobre lobisomens

Em La Genèse des Mythes, Alexandre Krapper (Paris, 1915) escreve:

“Diz uma lenda búlgara que o Diabo faz o corpo do lobo, mas não consegue animá-lo. É preciso que Deus o faça:

Na Escandinávia, o deus Tir tem sua mão direita arrancada pelo lobo Fenrir.

O lobo é comumente obra do espírito das trevas.”

Não obstante, cultos endeusaram o animal desde tempos muito antigos. A figura do lobo, como se sabe, esteve sempre presente tanto na mitologia clássica como na folclórica. Nesta, emprestou seu nome e seu aspecto ao Lobisomem.

Ele chegou até aqui vindo da Europa, na época da colonização. Tem-se notícia de sua existência já em era muito remota e o mundo todo o conhece, com variações.

O Lobisomem apresenta-se – no contexto da cultura erudita – na tradição clássica da Grécia, de onde se transportou para Roma.

Na Grécia, o rei Licaon tentou matar Zeus. Em outra lenda, Licaon fez um sacrifício humano e a ira divina recaiu sobre ele. Ou Licaon serviu a Zeus carne humana. Ou ainda Licaon sacrificou ao deus o seu próprio filho. Em todas essas lendas, o final é o mesmo. O rei foi transformado para sempre em lobo, como castigo.. Mas se não se alimentasse de carne humana por dez anos, recuperaria o aspecto de homem.

É curioso notar, entretanto, que mesmo antes de tornar-se lobo, o rei já lhe portava o nome: Licus, Luko.

Na mitologia pré-helênica, para alguns, já teria havido um ZeusLicaeus; a mais antiga crença local. Outros indicam a evocação desse deus como sendo posterior à pena sofrida por Licaon. O ZeusLicaeus era o deus da luz (luke) e pode, também, ter havido confusão entre esse vocábulo e luko, lobo.

Também não seria despropositado supor-se a existência de um rito com oferendas ao deus-lobo, a fim de que ele poupasse os rebanhos e que esse culto se realizasse com os sacerdotes vestidos com a pele do animal-deus.

Em Roma, sempre houve veneração pelo lobo. Rômulo, o fundador da cidade e seu irmão gêmeo, Remo, abandonados ao nascer, foram amamentados por uma loba antes de serem recolhidos por Fáustolo e sua mulher Acca Laurentia. A loba de Roma, a deusa Luperca, era homenageada com festas denominadas Lupercais (festas do lobo), que, no ano 494 depois de Cristo, tiveram o nome mudado para Festa da Purificação.

No século I, na Roma de Nero, Tito Petrônio Arbiter escreve o Satíricon. No capítulo LXII, Niceros, no banquete de Trimalcion, relata a estória do soldado que se transforma em lobo.

Este é o mais antigo registro existente, em literatura erudita, da Estória do Lobisomem. Nessa estória, traduzida para o francês por M. Héguin de Guerle, Niceros narra a sua saída com um soldado, seu companheiro; em certa noite de Lua, tão clara como se fosse o meio-dia. Puseram-se a caminho ao primeiro canto do galo. Ao fim de uma estrada encontraram-se entre sepulturas. Subitaments, começou o soldado a conjurar os astros. Depois, despiu-se e colocou as roupas junto à estrada. Em seguida, urinou à volta delas e, nesse instante, transformou-se em lobo. Pôs-se então a uivar e embrenhou-se na mata. As suas vestes tornaram-se em pedras. Niceros, apavorado, saiu correndo e chegou à casa de Melisse. Esta, espantada por vê-lo ali a desoras, disse-lhe que, se tivesse chegado um pouco mais cedo, teria sido de grande valia; pois um lobo penetrara no curral e degolara todos os carneiros. Uma verdadeira carnificina! Mas, embora tivesse escapado, fora gravemente ferido no pescoço, por um criado. Intrigado e horrorizado, e como o dia já vinha clareando, voltou rapidamente pelo mesmo caminho. Ao passar pelo lugar onde as roupas haviam-se transformado em pedra, verificou que ali só restava sangue. Entrando no alojamento, encontrou o soldado estendido na cama; sangrava abundantemente e um médico o atendia, tentando estancar a hemorragia do pescoço. Foi então que percebeu tratar-se de um Lobisomem.

Nos primórdios da era cristã, tanto Ovídio como Petrônio registraram que o Lobisomem era fruto de penitência, de castigo, ou era uma transformação voluntária e temporária, como acontecera ao soldado da estória. Também em transformação voluntária fala o poeta clássico da antigüidade, Virgílio, nas Bucólicas, em tradução de Manuel Odorico Mendes.

“Meris estes venenos e estas ervas
Com eles Meris vi, tornado em lobo.”

…………………………………………………….

E ainda nas Éclogas, em versão de José Pedro Soares – Lisboa, 1800./
Meris me deu as ervas que sahia Os venenos de que Ponto abundava; Com eles ele lobo se fazia,
Nos matos, invisível se ocultava”.

…………………………………………………….

Os romanos, povo conquistador, divulgaram largamente o mito do Lobisomem pelas terras conquistadas. Para eles, o homem transformado em animal era Versipélio. Para os gregos, Liçantropo. É o Valkodlák dos eslavos, o Werewolf dos saxões, o Wahrwolf dos germanos, o Óbaroten dos soviéticos, o Hamrammr dos nórdicos, o Loupgarou dos franceses, o Lupo-mannaro dos italianos; o Luisán ou Lobisón dos Paraguaios, o Lobisome ou Lobizón dos argentinos, o Lobisomem da Península Ibérica e da América Central e do Sul com suas modificações para Lubizon, Lubisome, Lobisomi, Labisomi, Lambisome, Lubisono, Lobo-homem, Lobisa, Porcalhão.

Licantropia é o “estado de alienação em que o doente se imagina transformado em lobo. Licomania.’ (Dicionário de Termos Médicos – Dr. Pedro Alves Pinto). Por extensão, esse vocábulo designa, também, a mutação do homem em animal por meio de ritos, invocações ou poderes mágìcos, ou, ainda, como conseqüência de maldição.

O historiador Heródoto acreditava que povos do leste da Europa, onde se situa a Romênia, possuíam a faculdade de se transformar em lobo, durante alguns dias do ano. Retornavam depois à forma humana. Esses povos, denominados Neuros, durante o culto ao deus-lobo, atacavam traiçoeiramente pessoas desprevenidas, com fins de antropofagia e também bebiam sangue humano.

Nos bosques da Itália Central primitiva, sacerdotes do Sorano (um dos nomes de Plutão, rei dos infernos) do povo Sabino, que habitava essa regíão, entregavam-se ao seu culto envolvidos em peles de lobo, o animal do deus.

Lupo-mannara, o Lobisomem da Itália, ataca e devora pessoas,especialmente crianças.

No folclore lapão, se um homem comete um crime de morte e não se confessa culpado, pode ver-se transformado em lobo, por artes do Diabo. Lá se acredita também que é impossível matar um lobo com uma bala comum, a menos que houvesse permanecido no bolso de alguém que tivesse assistido à missa por dois domingos seguidos.

Certas tribos africanas são tidas como praticantes da mutação com complicadas iniciações secretas, e seus membros reproduzem o comportamento do tigre e do leopardo, mascarados com peles desses animais.

Na ilha Sumatra (Indonésia) os homens de uma tribo afirmam possuir a faculdade de se transformar em tigre. Por toda a Ásia, membros de determinadas Associações confessam abertamente que retêm o poder de metamorfose, com regressão ao estado anterior.

No folclore soviético, as alcatéias de lobos famintos que uivam, nas noites de inverno rigoroso, são Lobisomens cumprindo o seu fadário, após o que, um dia, voltarão ao convívio dos homens.

Na China, os Lobisomens, depois de mortos, conservam a forma do animal. Lá existe ainda o Lobisomem fêmea. A mãe de um general, acredita-se, transformou-se em loba aos setenta anos de idade.

No folclore chinês aparece também a estória de um camponês que se viu atacado ferozmente por um lobo. Para livrar-se, subiu em uma árvore. O animal, no entanto, dava-lhe botes e com isso rasgava-Ihe a calça. O homem, para se defender, deu-lhe uma machadada na cabeça. No dia seguinte, verificou que um seu conhecido estava ferido na cabeça, e tinha, nos dentes, fiapos do tecido de sua roupa.

O Lobisomem feminino é encontrado na África, na forma de hiena ou pantera e é uma penitência que a mulher que cometeu pecado mortal deve cumprir por sete anos. Na Armênia, uma pele de lobo cai sobre ela, que à noite devora os próprios filhos, os filhos de seus parentes mais chegados e outras crianças, retomando, ao amanhecer, a forma humana.

No folclore irlandês, “o fato do homem e da mulher transformarem-se em lobos a cada sete anos é por demais conhecido…” Lá, a fêmea do Lobisomem é chamada Conoel.

Encontra-se o Lobisomem fêmea também na Bretanha. Uma mulher saiu à noite e logo após, uma grande gata entrou em sua casa. O marido machucou-a, ao tentar espantá-la com um pedaço de lenha. Passados três dias a esposa retornou, com um corte em uma das mãos.

Segundo Sébillot, acreditava-se, na Bretanha de 1832, que os Lobisomens fossem homens transformados em lobo por estarem há dez anos afastados do confessionário. Outras vezes o castigo era atribuido ao fato da pessoa não ter mergulhado os dedos numa pia de água-benta pelo espaço de sete anos. Em 1870, dizia-se, na Baixa-Bretanha, que os Lobisomens vestiam-se com uma pele de lobo e então absorviam sua personalidade, correndo pelos campos e bosques, atacando pessoas e animais. Ao clarear o dia, escondiam sigilosamente essa pele e voltavam para casa. Havia uma grande afinidade entre a pele e o seu próprio corpo, de tal forma que, certa vez, um homem, que a escondera dentro do forno de sua casa, pôs-se a gritar que estava sendo queimado, quando a esposa acendeu o forno. Ainda em região da Bretanha, crê-se que para os homens se transformarem em animal basta que se untem com uma pomada fornecida pelo Diabo. Dessa forma transformam-se não só em lobos, mas ainda em vacas ou gatos.

Em sua Histoire de la Magique en France (História da Mágica na França), Garinet narra acontecimentos de 1573; quando Gilles Garnier foi a julgamento – acusado de ter devorado várias crianças ao se transformar em Lobisomem. Condenado, foi arrastado ao local da execução e queimado vivo.

Esse homem viu-se, um dia, a braços com problemas e, com o intuito de se acalmar, embrenhou-se na floresta. La encontrou um fantasma com forma humana que lhe propôs fazê-lo transformar-se em lobo ou qualquer outro animal. Escolheu a forma de lobo e conseguiu a metamorfose esfregando-se com um ungüento especial, como confessou durante o julgamento.

Outro caso deu-se com um menino de treze ou catorze anos, que confessou só não ter devorado sua amiga pastorinha Margarida, porque esta conseguira defender-se valenternente com um pau. Mas declarou já ter devorado algumas crianças, quando transformada em lobo. Ao lhe perguntarem por que artes conseguia essa transformação, relatou que um seu vizinho o apresentara ao Senhor da Floresta, que Ihe dera um ungüento para se esfregar e que esse ungüento ficava sob a guarda do Senhor, mas que ele podia usá-lo quantas vezes o desejasse, Este menino, Jean Grenier, foi declarado pelos juízes portador de licantropia e, por esse motivo, escapou à morte, sendo condenado à prisão perpétua.

Crê-se também que a metamorfose possa acontecer ao ingerir-se uma beberagem oferecida pelo Diabo. E se os Lobisomens não se recordarem do lugar ande deixaram a garrafa com a bebida, serão lobos para sempre.

Existe ainda a crença de que é preciso possuir duas garrafas: a primeira com a bebida para a metamorfose e a segunda para o retorno à forma humana.

Uma outra maneira de se obter a transformação na França, Inglaterra, URSS e certas regiões da Europa, é bater a parte baixa das costas repetidamente em porta de igreja, recitando uma fórmula mágica. Ou então utilizar um cinto confeccionado com a pele do animal.

no qual o indivíduo deseja transformar-se; ou cobrir-se com essa pele; beber água acumulada no seu rastro; comer alimentos abandonados pelo animal; comer carne na sexta-feira santa; partilhar o covil ou a ração de um lobo; untar-se com ungüento feito com um dos seguintes ingredientes: gordura de lobo, folhas de meimendro, de beladona, de papoula, de eleboro, de cânhamo ou de datura.

Para cessar o encantamento, retirar o cinto mágico; ficar cem anos de joelhos no local; ser publicamente acusado de Lobisomem; ser saudado com o sinal da cruz; ser chamado pelo nome de batismo; ser ferido, de forma a perder sangue; ao percorrer sete cidades, entre um local e outro mergulhar na água, ou espojar-se no orvalho.

Proteção contra o Lobisomem é participar-se, anualmente, de fogueira em festa de S. João. Há ainda um sem número de fórmulas mágicas a serem recitadas; com a mesma finalidade.

Em 1598, uma criança foi devorada, nos arredores de Angers. Caçadores depararam-se com uma criatura selvagem, não muito distante do cadáver. Esse selvagem confessou-lhes haver devorado a criança, juntamente com seu pai e seu primo, ambos Lobisomens, como ele. Condenado à morte, apelou, sendo declarado, então, mais louco do que criminoso e mandado para o hospital Saint-Germain-des-Pres.

Van Gennep, citado por Daniel Bernard, escreve que em Auvergne, o Lobisomem é um mortal que se levanta à noite e, coberto com uma pele de animal selvagem, corre loucamente, sobre pés e mãos, atravessando os campos. É invulnerável a balas. Se consegue devorar o primeiro animal que encontra no seu caminho, tornase inofensivo; do contrário, devasta tudo por onde passa e mata até crianças. Sua esposa, que esta a par dessa possessão, prepara-lhe uma pasta semelhante à dos parcos, que engole na volta, ao clarear o dia. Na manhã seguinte retoma suas ocupações habituais e nada trái sua infelicidade, a não ser a extraodrinária rugosidade das mãos. Se for ferido e sangrar durante a corrida da noite, cura-se; mas infeliz do amigo que lhe prsetar tal serviço: o Lobisomem será obrigado a fazê-lo em pedaços.

Os párocos possuíam o poder de transformar um criminoso, que não confessasse o seu crime, em Lobisomem. No primeiro domingo, advertiam o culpado; no segundo, se ele não se acusasse, era avisado do que lhe aconteceria no domingo seguinte; e neste, ficava ciente de que, após o terceiro aviso, a sentença seria pronunciada; sentença horripilante. Mulheres nervosas deveriam abster-se de assistir a tal cerimônia. Do alta do púlpito, o sacerdote lia a fórmula aterradora. Apagava então a chama do círio e gritava: Que a alma do culpado se apague como esta luz!

O criminoso transformava-se imediatamente em animal e começava sua corrida, que se prolongaria por sete anos, através de sete paróquias. Não podia, também, desvendar seu terrível segredo, sob pena de ser amaldiçoado por mais sete anos.

Em 1521, Pierre Burgot e Michel Verdung enfrentaram o juiz Bodin; demonólogo e inquisitor de feiticeiros. Confessaram haverem-se acasalado com fêmeas de lobo. Burgot teria assassinado um jovem, com patadas e dentadas de lobo; Michel teria matado uma jovem e, ambos, finalmente, declararam havèr devorado quatro moças. Foram condenados à fogueira, sem produção de outras provas.

Na Bretanha existem também os amestradores de lobos. Eles, quando assim o desejam, tomam uma bebida oferecida pelo Diabo e transformam-se em lobo. Têm grande domínio sobre esses animais. Quando metamorfoseados e feridos, assim que o sangue corre, voltam à forma humana. Sobre eles existe este relato:

Um homem perdido na floresta chegou a uma encruzilhada, onde encontrou um amestrador de lobos, com alguns à sua volta. Recebeu dois dos animais como guias e guardas e eles o conduzram fielmente até a casa, são e salvo. Mas teve que observar uma recomendação: não cair durante a caminhada è dar aos lobos, assim que chegasse, pão e galette de blé noir (bolo folheado, escuro, feito de grãos de centeio ).

A autora1 encontrou, em transcrição, uma narrativa de Alain Decaux intitulada La Bête de Gévaudan, a qual traduz livremente de forma abreviada.

A Fera de Gévaudan

O Gévaudan é a atual província de Lozère, abrangendo, também, uma parte do Alto-Loire. É uma região áspera, dura, de beleza selvagem. Situa-se entre gargantas de montanhas e montes calcários, pedregosos.

Sua principal riqueza é a pecuária e seus rebanhos de vacas, carneiros, cabras, cavalos e burros precisam pastar nos flancos dessas montanhas, pastoreados por crianças de seis a quinze anos, e por velhos.

Tudo começou na primavera de 1764, há mais de dois séculos, portanto. Mas o fato ainda é lembrado e comentado, nos nossos dias.

Através de documentos da época, Alain Decaux rememora os acontecimentos.

“Uma Fera monstruosa semeia o pavor e o desespero na região, atacando e matando sem cessar, especialmente crianças, adolescentes e mulheres.

A primeira vítima foi uma menina de catorze anos, Jeanne Foulet. Dentro de pouco tempo, mais adolescentes. Em seguida, uma mulher de trinta e seis anos, que cuidava do seu jardim, em frente a casa. Enfrentando o povo, calma, ousada, sem pressa, a Fera abocanhou-Ihe o pescoço, bebeu-lhe o sangue e, em seguida, devorou-a.

A Igreja declarou-a fruto da cólera divina, por pecados cometidos pelo povo: O pavor tomou conta de todos.

Os registros da época referem-se a animal desconhecido. De fato, os que o viram afirmaram categoricamente que não era um lobo. Lobos, eles os conheciam bem. As descrições apresentaram-no com esta aparência:

Tem o porte de um vitelo de um ano os olhos grandes como ele; é baixo na parte da frente e as patas são providas de garras; a cabeça é grande, terminando em focinho alongado; as orelhas são menores do que as de um lobo e espetadas, como chifres; o peitoral é largo e recoberto de pêlos acinzentados; os flancos são avermelhados; acompanhando a espinha, uma listra negra. Mas o que mais impressionava a todos era a sua goela, uma bocarra imensa e provida de afiadíssimas presas, capazes de decepar as cabeças das vítimas como uma navalha. Goela horrenda.

Descreviam-no ainda como tendo andar lento e correndo aos pulos, em velocidade inacreditável. Era visto ora num lugar e ora noutro, a distância que nenhum animal poderia percorrer dentro daquele espaço de tempo. Alguns concordavam que ele pudesse ser semelhante ao lobo; mas eram todos categóricos ao afirmar que não era, em absoluto, um lobo, mas uma fera jamais vista antes.

O número de vítimas aumentava assustadoramente. A população entrou em pânico.

Vieram para o local os Dragões – força armada, comandada pelo capitão Dúhamel: 57 homens, sendo 17 à cavalo. O capitão defrontou-se com a Fera. Atirou, feriu-a. Ela fugiu, mas ele teve tempo de vê-la bem. Declarou que deveria tratar-se de um produto híbrido, cujo pai seria um leão. Mas quem seria a mãe? Um mês se passou e ela não foi abatida. Retiraram-se os Dragões.

O Rei ofereceu alta recompensa a quem a capturasse ou matasse.

Na região, corriam notícias de que se tratava de um Lobisomem, pois uma mulher chegara à cidade, espavorida, relatando que, na estrada, ao ser ajudada a montar, por um desconhecido, observara-lhe as mãos e estas eram inteiramente recobertas de grossos pêlos.

Empreenderam marchas e emboscadas e seguiram os rastros da Fera. O resultado foi nulo. Parece que ela adivinhava a presença deles e desaparecia. Mas continuava fazendo vítimas, sem cessar, simultaneamente em lugares os mais distantes, parecendo ter o dom da ubiqüidade.

Um jovem fidalgo, avistando-a da janela do seu castelo, armou-se e, acompanhado de dois irmãos, partiu ao seu encalço. Defrontaram-se. A Fera não aparentava medo; pelo contrário, parecia atrevida, ousada. Foi, desta vez, ferida no pescoço e no peito. O sangue jorrou em abundância. Os três irmãos declararam que, embora tivesse fugido, não sobreviveria. Dois dias depois, entretanto, continuava a atacar e matar.

O lugar-tenente dos caçadores do Rei, senhor François-Antoine, veio para o local. A área onde a Fera corria era extensa e de matas fechadas. Mas um dia, afinal, Antoine, como ficou conhecido, encontrou as pegadas de uma loba e seus filhotes, que lhe pareceram enormes, e profundas, devido ao peso dos animais. E de repente, avistou o animal que, não tinha dúvidas, era a Fera!

Monstruosa, patas curtas, corpo muito comprido, goela assustadora, avançou para ele. Antoine estava sentado. Mirou, atirou. A bala atingiu o olho direito da Fera, atravessou a cabeça e fraturou-lhe a base do crânio. Que animal resistiria a isso? Ela caiu. Morta? Não. Levantou-se e avançou novamente. Mais um tiro e ela tombou. Desta vez, sim, morta.

Aproximou-se. Parecia um lobo. Mas um lobo como jamais alguém havia visto. Medonho, gigantesco, com flancos avermelhados e aquela listra negra no lombo. Foi, por centenas de testemunhas, reconhecido como a Fera.

Alívio geral. Empalharam-na e remeteram-na para a Corte, como prova da façanha. Pesou 65 quilos e mediu 1,43 m. do focinho às patas traseiras e 1,90 m. até a ponta da cauda.

Antoine foi condecorado e agraciado com uma pensão. Alguns dias mais tarde seguiu os rastros da fêmea. e matou-a, assim como aos filhotes. Parecia o fim do pesadelo, afinal.

Passados, entretanto, menos de dois meses, o horror recomeçou. A Fera lá estava de novo, atacando e matando.

Desesperado, o povo organizou uma romaria a Nossa Senhora D’Estours. Entre os peregrinos encontrava-se um cidadão maduro, porém sadio, vigoroso. Era Jean Chastel. Na chegada, entregou seu fuzil para benzer, juntamente com três balas.

O extraordinário é que exatamente nesse momento Jean Chastel terminara de ler as Litanias. Calmamente, sem pressa, retirou os óculos e guardou-os no bolso. Empunhou o fuzil. Mais extraordinário ainda é que a Fera, imóvel, o observava, como que obedecendo a um comando. Mirou. Atirou. Acertou o animal no quarto dianteiro. Ele não se mexeu. Mas quando os cães acorreram e saltaram sobre ele, caíu. A Fera, finalmente, estava morta.

Jean Chastel aproximou-se dela e murmurou:

– Fera, não mais devorarás.

E então, enfim, todos puderam dormir em paz.

Voltando ao passado: Informam os documentos da época que em 1762, dois anos antes, portanto, do aparecimento da Fera, havia, naquela região, uma família de amestradores de lobos. Usaram-nos certa ocasião para um assalto a viajantes, ordenando-lhes que os devorassem. Pelo crime foram condenados à forca. Seria Jean Chastel um dos filhos que escapou a tal morte?”

Bernard Alliot, em artigo no jornal francês Le Monde n.° 1738 – ano 1982 – tece comentários sobre a terrível Fera de Gévaudan, ainda viva na memória do povo, partindo dos mesmos documentos da época, que serviram de subsídio ao relato acima. Essa colaboração, intitulada Loup, y est-tu?2 (Lobo, estás aí?) informa que “não há mais lobo. Exterminado, desapareceu o sinistro canis lupus que semeou o terror durante séculos, nos campos . . . Ele é o símbolo do grande devorador; ao lado do Ogre. O terrível lobo de Sarlat3 tinha 42 dentes trinchantes e afilados dos quais 4 em forma de gancho. No século XVIII, Buffon, conhecido por sua serenidade, ressaltou que não há nada de bom nesse animal a não ser a sua pele. Mas Gengis Khan – e isso se compreende – gabava-se de ter um ancestral lobo. Hitler gostava de ser chamado oncle Wolf (tio Lobo).

Na mitologia judaica, o lobo é considerado um animal impuro, uma figura do Maligno. Portanto, não é de surpreender que na imaginação dos povos cristãos surja o Diabo com olhos de brasa…

Os testemunhos de pessoas atacadas, os massacres causados pelas feras, a esperteza e a resistência desses animais, a atitude da Igreja, associando o assalto dos lobos a uma punição divina, além da voz do povo, criaram em torno do animal uma atmosfera de terror e de feitiçaria. O homem introduziu-o em contos e estórias, apossando-se dos seus poderes maléficos. O amestrador de lobos, em troca de um pacto com Satã, detém o poder sobrenatural de comandá-los.

Lobisomens cobrem-se com a pele do animal maldito e perambulam à noite por árduos caminhos. Segundo a crença do povo, essas pessoas, vítimas de feitiçaria, são condenadas a vagar sob a Lua uivando como lobos.

Visando ao equilíbrio natural, ecologistas desejam reintroduzir na França alguns exemplares deste animal desaparecido. Deverão primeiramente, conseguir extrair do conceito popular o terror do lobo, ali fixado por toda uma marcante mitologia.”

A autora recebeu, da França, as duas publicações anteriores, a obra L’homme et Le Loup, (O homem e o Lobo), de Daniel Bernard e Daniel Dubois, e o Guide de L’Auvergne Mystérieux (Guia do Auvergne Misterioso), da coleção Guides Noirs (Guias Negros).

Esse volume, de Annette Lauras-Pourrat, apresenta interessante material sobre o Lobisomem, o Loup-garou dos franceses. Isso vem comprovar o interesse que o mito desperta, ainda hoje, pois trata-se de coleção destinada a turistas, sendo cada volume referente às principais curiosidades (de horror) de detèrminada região.

Auvergne é antiquíssima e situa-se no maciço central da França. Relata a História que no ano 52 a.C. foi anexada a Roma. É procurada pelos turistas especialmente pela beleza e imponência de suas vetustas construções acasteladas.

Eis alguns trechos dessa publicação; em tradução informal.

“Há séculos crê-se em Auvergne na existência de homens-lobos,os Lobisomens, com são chamados, ou ainda galipotes. Esses seres não tinham, na verdade, nada de humano e nem mesmo grande coisa de animal. Eram uma espécie de vulto negro quase sem mem bros, vislumbrados à noite, ao longo das sebes e dos muros. Atacavam retardatários, saltavam-lhes às costas e exigiam que se os carregasse.

Segundo se pensava, tratava-se de párias, cuja desgraça os teria levado a fazer um pacto com o Maligno. Na lua cheia viam-se transformados em lobos, e por tal eram tomados, pois revestiam-se da pele do animal, fornecida pelo Diabo. Corriam como quadrúpedes a uma velocidade que homem algum alcançaria. Assim que escurecia, eram acometidos de febre. Saltavam da cama e escapavam pela janela. Seu amo e senhor (o Diabo) estipulava que deviam correr, durante a noite, sete povoados. Soltavam-se pelos campos, em desabalada carreira, prontos para saltar sobre o primeiro caminhante. Nada os atemorizava, nem armas de fogo, a menos que as balas fossem bentas.

Se encontrássemos um Lobisomem, teríamos que feri-lo com faca, ou com pedrada, para tirar-lhe sangue, único meio de fazê-lo retornar à forma humana. Deve-se colocar sempre sob os berços um ramo de avenca; essa elegante folhagem que medra nos velhos muros tem o poder de afastar o Lobisomem.

No seu Discurso sobre as Feiticeiros, Boguet relata que, nos fins do século XVI, numa pequena aldeia de Auvergne, um nobre estava à janela, quando avistou um caçador seu conhecido. Pediu- lhe que, na volta, passasse por ali e lhe mostrasse o que caçara.

Assim foi prometido. Chegando à floresta viu um grande lobo caminhar ao seu encontro. Entraram em luta. O caçador decepou-lhe a pata direita, mas o animal conseguiu escapar. Depois, para honrar a palavra, levou o troféu .ao amigo. Mas, para sua surpresa, ao abrir o alforje, o que apareceu foi mão feminina, com um anel que o nobre reconheceu imediatamente, pois era de sua esposa.

Apressou-se a procurá-la. Encontrou-a junto à lareira, com o braço direito escondido sob um chale. Quando lhe mostrou a mão decepada, a infeliz não teve como negar que havia perseguido o caçador sob a forma de um lobo. O marido entregou-a à justiça e a dama feiticeira foi queimada em Riom.”

Ainda no mesmo volume encontra-se trecho, sob o título Dos Lobisomens aos Flammaçons (Franco-maçons).

“A História pouco se ocupou desses homens que não saíam da sombra dos bosques, onde toda a riqueza consistia em uma dúzia de porcos e três vacas, e cujo entretenimento era sangrar um javali ou desalojar uma ninhada de lobos.

Eles corriam, nas noites de lua cheia, ridiculamente mascarados com uma pele de lobo. Ao longo dos séculos, existiram sempre esses homens envolvidos em peles. Dão, sobretudo, o que pensar, os textos que se referem aos Tuchins, durante a Guerra dos Cem Anos. Mataram todos os comerciantes, nobres e padres que puderam apanhar. Ninguém mais ousava sair, a menos que estivesse coberto com uma pele de animal. Essa pele era mais do que uma vestimenta: era algo como um emblema e, acima de tudo, um estado, uma condição. Mas os Tuchins perceberam o estratagema e mataram todos os que não tinham as mãos calosas.

Cogitaria o bando dos homens-lobos restabelecer nas montanhas seu antigo primitivismo? O certo é que foram cometidos muitos horrores antes que essa horda fosse dizimada.

Falava-se de cidades inteiras de feiticeiros, e de amestradores de lobos morando nas montanhas.

Sob a Restauração, como quase toda a burguesia dessas pequenas cidades fazia parte das lojas maçônicas, a imagem da horda misturou-se à da maçonaria.

Haveria ainda, nessa época, banquetes nas florestas? Talvez.

Em todo caso, os velhos assim acreditavam firmemente e indicavam os locais onde fulano e fulano, que eles haviam conhecido bem, tinham perecido, nesses festins à luz dos archotes.

Os Franco-maçons (Franc-maçons) eram homens que andavam pelos bósques carregando archotes. Como a letra R transforma-se muitas vezes em L no linguajar do povo, a pronúncia passou a ser Flammaçans, nome que lembrava chama (flame); archotes e reuniões à volta de uma fogueira, o que estaria vinculado aos Lobisomens, segundo Henri Pourrat em Le Loup-Garou et sa bancle (O Lobisomem e sua horda) Edit. Attinger, 1949.”

A mesma narrativa da esposa do nobre que tem a mão decepada, aparece em L’homem et Le Loup (O homem e o Lobo), de Daniel Bernard, e em Estranhas Superstições e Práticas de Magia, de Willian J Fielding – tradução de Silvia Mendes Cajado, com o comentário de que em setembro de 1573, o Parlamento, com assento em Dôle, teria autorizado os camponeses a se armarem e percorrer os bosques, com a finalidade de matar os Lobisomens.

Estes já haviam levado muitas criancinhas, que nunca mais foram encontradas, e atacado atguns cavaleiros, que só conseguiram salvar-se enfrentando grande perigo.

A Bête Bigarne (Fera Bigorne), bode horrendo e gigantesco, com garras, faz parte do folclore da França. Escreve Câmara Casudo que, em Auvergne, existe, no Castelo de Villeneuve, um afresco representando a sua figura.

Daniel Bernard, em L’hamme et le Loup (O homem e o Lobo), dedica um capítulo ao Lobisomem. Escreve que, na França, dependendo da região, sua denominação varia. Em Picardie é Leu-wareu; em Normandie, Varau; em Languedoc, Libérou; em Périgord,.Gâloup; em Bordelais, Galipaude. Reproduz trecho da obra Le Gâloup, de Claude Seignolle – que se poderia denominar lamentarão do Lobisomem -, aqui traduzido livremente:

Sete anos minhas patas me levarão às matas e aos apriscos; aos bosques gelados, aos tépidos currais.

Sete anos Lua Zarolha virá me vigiar com seu único olho pálido, que toma formas diversas, para me fazer acreditar que cada vez é uma curiosa diferente… E, sempre, me forçará a uivar contra sua impassível provocação.

Sete anos dolorosos como o frio dos ventos incolores; penetrantes como a água das nuvens impalpáveis.

Sete anos meu ventre doerá.

Sete anos os homens suplicarão e implorarão a outro Senhor que não o verdadeiro, coma se a seu Deus de doçura pudesse contra o meu, crivado de escamas e a revolver brasas.

Sete anos cortantes como sete espadas de aço, permanecerei amaldiçoado, sem nunca saber quem sou realmente; homem ou árvore; pássaro ou seixo.

Meus suspiros serão uivos; minha bebida, sangue; meu alimento, montanhas de animais tenros e mornos… E quando estes faltarem, alimentar-me-ei de homens…

Sete anos meu Mestre me reterá.

Sete anos permanecerei voraz, antes de estar quites com ele.É o meu castigo.

Sete anos somente.

Sete anos, ai de mim!

O próprio Demônio transforma-se em lobo. Assim parecia a São Maudet, pois todas as noites, as paredes do convento que ele estava construindo, eram derrubadas por mãos invisíveis. Certo dia, encontrou um lobo, que outro não era senão o Diabo. Conseguiu agarrá-lo pela cauda e jogá-lo ao mar. Daí por diante a construção prosseguiu normalmente.

No folclore da França, crê-se que o Lobisomem é obrigado, pelo Demônio, a devorar, em cada noite de maldição, sete cães.

Le marteau des sorciers (O martelo dos feiticeiros), espécie de manual-guia do caçador de Lobisomens, divulgado em 1486, continha duas indagações principais: Podem os feiticeiras transformar homens em animais? e Como os feiticeiros dão aos homens a forma da animais? Apoiando-se em Santo Tomás e Santo Agostinho, os autores declaram que os lobos, de tempos a tempos, partem de suas casas e devoram homens e crianças. E distanciam-se, vagando com tal astúcia, que nenhum ardil, nenhum poder é capaz de feri-los ou capturá-los. Tais coisas são causadas por um sortilégio diabólico. Deus, punindo uma nação por seus pecados, segundo o Levítico4 : lançarei sobre vós bestas ferozes que arrebatarão vossos filhos e matarão vosso gado. Quanto à questão: são lobos verdadeiros ou diabos sob essa forma? Respondemos que são lobos verdadeiros, mas possuídos pelo Diabo.”

Uma estória de Lobisomem, com grande repercussão, difundiu-se na Bavária, por volta de 1685. Um lobo que assolava a região, devorando pessoas e animais, foi identificado ao burgomestre, já falecido, que se teria encarnado no animal. Quando a fera foi capturada e morta, verificaram que sua carcassa estava revestida com um encerado cor de carne. Ao lhe cortarem o focinho, constataram a existência de uma cabeleira castanha e longas barbas brancas; ao mesmo tempo, um rosto semelhante ao do burgomestre apareceu no lugar da cabeça do lobo. Esse corpo foi enforcado na presença de grande público, e sua pele, empalhada, permaneceu exposta num museu, como prova concreta da existência do Lobisomem.

Na Dinamarca, acreditava-se que uma mulher que apanhasse uma placenta ao nascer um potro e a esticasse entre quatro paus e se arrastasse pela sua membrana, poderia dar à luz sem nenhuma dor e livrar-se de doenças. Mas, em tal caso, todos os meninos dela nascidos seriam Lobisomens.

Na Inglaterra, sob o reinado de Jaime I, quem fosse apontado como Lobisomem era condenado a morte artoz, único meio de extingui-lo. Esse monarca equiparava o werewolf aos feiticeiros e explicava o fenômeno como superabundância de melancolia.

Na Idade Média, foram incontáveis os julgamentos de pessoas acusadas de ser Lobisomem, para as quais a pena era a morte na fogueira.

A associação da Lua com o Lobisomem é um fato verificado não poucas vezes na literatura folclórica, na popularesca e na erudita. Arnold L. Lieber em The Lunar Effect (A Influência da Lua) diz que sociedades antigas reconheciam uma conexão entre a Lua e a violência, como no caso do Lobisomem. Para neutralizar essa violência, os pastores da antiga Arcádia costumavam enviar um homem aos lobos, como emissário. Este se transformava em Lobisomem por oito anos e durante esse período as alcatéias não atacavam os rebanhos. Na Alemanha antiga, os guerreiros selvagens eram denominados ûlfhêdhnar (homens com pele de lobo). Esses guerreiros existiam, também, nas sociedades secretas norte americanas e praticavam antropofagia ritual. Encontram-se Lobisomens na Alemanha de Hitler. Lá, onde o mito era bastante difundido, os nazistas fundaram a Organização do Lobisomem, na década de 20. Chama a atenção a coincidência do apelido do Führer ser exatamente, tio Lobo. “No final da Segunda Guerra Mundial, a Organização do Lobisomem deveria continuar, na forma de guerrilha, a luta contra os Aliados que estavam ocupando a Alemanha. Contudo, seus membros já tinham bastante dificuldade em, simplesmente, permanecer vivos. A regressão histórica foi um dos grandes temas da ideologia nazista, e o Lobisomem, com sua regressão a um modo de vida arcaico e violento, era uma escolha adequada para simbolizar a monstruosidade do regime.”

Como já se sabe, o Lobisomem chegou até o Brasil trazido da Europa, através de Portugal.

Oliveira Martins, em Sistema dos Mitos Religiosas, mostra o Lobisomem como sendo “aquele que por um fado se transforma de noite em lobo, jumento, bode ou cabrito montês.” E ainda: “Os traços com que a imaginação do nosso povo retratou o Lobisomem são duplos, porque também essa criatura infeliz, conforme o nome o mostra, é dual. Como homem, é extremamente pálido, magro, macilento, de orelhas compridas e nariz levantado. A sua sorte é um fado, talvez a remissão de um pecado . . . . Por via de regra, o fado é a moral – é uma sorte apenas. Nasce-se Lobisomem; em lugares são os filhos do incesto, mas, em geral, a predestinação não vem senão de um caso fortuito, e liga-se com o número que a astrologia acádia5 ou caldaica tornou fatídico – o número 7. O Lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhas. Aos treze anos, numa terça ou quinta-feira, sai de noite e topando com um lugar onde um jumento se espojou, começa o fado. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, da meia-noite às duas horas, o Lobisomem tem de fazer a sua corrida visitando sete adros (cemitérios) de igreja, sete vilas acasteladas, até regressar ao mesmo espojadouro onde readquire a forma humana. Sai também ao escurecer, atravessando na carreira as aldeias onde os lavradores recolhidos não adormeceram ainda. Apaga todas as luzes, passa como uma frecha; e as matilhas dos cães ladrando perseguem-no até longe das casas. Diga-se três vezes Ave-Maria que ele dará um grande estoiro, rebentando e sumindo-se. O Sino Saimão6 (Signo de Salomão) é um fetiche contra o malefício. Quem ferir o Lobisomem quebra-Ihe o fado; mas que não se suje no sangue, de outro modo herdará a triste sorte.”

No Minho, é charnado Corredor e as fêmeas são denominadas Peeiras ou Lobeiras. Em Paços de Ferreira, é Tardo.

Jaime Lopes Dias, em Etnografia da Beira, registra a maldição tal como uma das versões na Brasil – “Se num casal nascem sete rapazes, o último será Lobisomem.” E ainda: “Se alguém muda, em proveito próprio, marcos ou divisórias de propriedades, jamais deixará de ser Lobisomem. Mesmo depois de morto, não deixará de aparecer no terreno que roubou, transformado em bezerro, em cão, sombra negra etc.”

Na mesma obra encontra-se uma narrativa sobre o Lobisomem. “Já lá vão muitos anos . .

Sabe-se lá. . . talvez séculos! . . .

Pelas ruas de Segura, a desoras, nas intermináveis noites de Inverno, surgia estranho ser em desordenado tropel que trazia amedrontada a população.

À sua aproximação, mesmo os mais animosos, sentiam levantar-se-lhes os cabelos! . . .

Sol posto, já ninguém saía à rua.

E o alegre povo raiano sofria e passava um verdadeiro castigo.

Um dia, um mocetão, valente e destemido, tomou a resolução de averiguar a causa de tão extraordinário fenômeno.

E colocou-se entre o postigo e a porta da casa de seus pais.

Chovia a potes.

O vento com seus estridentes assobios era medonho. Parecia impelido pelo demo!

E o mocetão, valente, firme em seu posto, esperou uns momentos; o bastante para se enregelar.

O tropel não se fez esperar, e uma sombra negra surgiu.

As pedras da calçada chispavam lume.

A sombra horrenda resvalava pelas valetas e escouceava para um e outro lado, fazendo com que as próprias ombreiras dos portados deitassem faíscas.

E o rapaz, agora um tanto assustado, colou-se bem à porta.

Parecia petrificado.

O estranho fenômeno avançava cada vez mais em correria vertiginosa, e o moço, embora, como se disse, um tanto amedrontado pôde verificar que se tratava de um monstro informe, metade cavalo, metade homem, ferrado de pés e mãos! Estava quase a arrepender-se da sua temeridade! . . .

Mas, o monstro, seguindo o seu caminho, desapareceu…

Que fazer depois do que vira? Calar-se?

E se contasse tudo a pessoas experimentadas; sabedoras e consideradas pela sua idade?

Procurou de facto um dos homens mais velhos da sua terra.

E expôs-lhe minuciosamente o que vira.

E o bom vizinho respondeu-lhe:

– O que tu viste, meu amigo, é um entcanto que só se desfará se alguém tiver coragem de, escandido atrás de uma das cruzes das ruas da nossa aldeia e munido de uma vara com aguilhão, picar o monstro por forma que o faça lançar de si muito sangue.

– Pois deixe o caso comigo. Se aí está o remédio . . . picalo-ei eu mesmo, respondeu o rapaz.

– Pois então, toma cuidado, que, se o não picares bem, grande perigo corres!…

O moço, forte e destemido, como se disse, disposto a dar mais uma prova do seu valor, e a livrar a povoação de tão grande desassossego, logo que anoiteceu, recolhidos todos os moradores e fechadas todas as portas, foi colocar-se, por entre vendaval formidável, atrás de uma das cruzes, tendo bem apertada na mão direita forte vara com grande aguilhão.

Começou a ouvir-se o tropel, pondo-se em breve à vista a infernal figura.

O rapaz tremia!

Perdera quase a noção de si mesmo!

Fugir?…

Bem se lembrava ele do conselho do velho: – Toma cuidado, que se a não picares bem; grande perigo corres! . . .

Recobrou ânimo: Estava ali para vencer ou morrer! Já agora levaria ao fim a sua empresa.

Esperou! O monstro avançava a todo o galope.

E passou; e, na passagem, o heróico mocetão cravou-lhe bem a grande aguilhada!

E o monstro, como por encanto, desapareceu.

O valente moço respirava; mas tremia ainda. O seu coração batia desordenadamente.

Foi deitar-se, mas não podia conciliar o sono! Que iria suceder?

Passaram algumas noites e o tropel não mais se ouviu.

– Que estranho facto se terá passado? inquiria a povoação. O rapaz (ninguém sabe até onde vai o poder de encantos e bruxarias) contara o seu feito, muito em segredo, só aos mais íntimos.

Volveram dias e noites, e o povo, de segredo em segredo, veio a saber o que se passara.

E perguntava: – Mas que figura seria essa, horrenda e disforme?

– Seria um Lobisomem?

– E quem seria o infeliz?

Passaram ainda mais alguns dias, até que um dos mais considerados moradores de Segura que havia desaparecido do convívio da população, apareceu sem um dos olhos.

Se ele era são e escorreito, se não constara na povoação qualquer desastre, como e onde teria ele perdido a vista? – perguntavam todos os moradores de Segura. Tirara-lha, evidentemente, o rapaz da aguilhada!

E o povo passou a afirmar, desde logo, como verdade incontestável, que o monstro, semi-homem e semi-cavalo que tanto o incomodara, era, por artes do demo ou mercê do encanto, o bom homem que aparecera, sem saber como, sem um dos olhos.”

No Paraguai há o Luisón como um cachorro preto, de cabeça grande, olhos brilhantes, muito peludo, que se alimenta de cadáveres dos cemitérios. Exala mau cheiro. Aparece à meia-noìte e percorre as vizinhanças, provocando latidos e uivos de todos os cachorros, que o temem. Para conjurá-lo, deve-se colocar sob a língua um pouco de terra de seus rastros e chamá-lo três vezes. Diz-se que Luisón é o último filho entre sete homens, a quem a mãe amaldiçoou ao morrer.

Ainda no Paraguai pode aparecer como um cão negro sem cabega. Felix Coluccio, no Diccionaria Folklorico Argentino apresenta o verbete “Lobisome – En Brasil y otros paises de América, corre este mito de origen europeo, según el cual el séptimo hijo varón seguido, se transforma en Lobisome, mientras que la séptima hija mujer seguida se convierte em bruja. Representan los paisanos al Lobisome como um animal mezcla de perro y de cerdo. A las 12 de la noche de los dias viernes se opera esta transformación, dirigiéndose para alimentarse a los estercoleros y gallineros, donde devora los excrementos. Igualmente se alimenta de ninos no bautizados. El Lobisome recobra su fisionomia humana se alguien sin conocerlo lo hiere, pero se expone también a ser muérto por el mismo debido a que este monstruo tratará de exterminar por todos los medios al que lo libra de su malefício. Libra-se de la fatalidad de ser Lobizón si se lo bautiza com el nombre de Benito – dice D. Granada – y si el padriznago lo realiza el mayor de los siete hermanos.

1- Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

2- Denominação, na França, do jogo de crianças “Seu Lobo está pronto?”

3- Região da França.

4- Um dos livros do Antigo Testamento

5- Dos acadianus, povos da Babilônia, antes do domínio assírio.

6- Estrela de seis pontas, formada por dois triângulos de metal, superpostos.

Lobisomem: assombração e realidade
Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/bibliografia-estrangeira-sobre-lobisomens/