Como Identificar uma Seita

Segundo o autor Robert I. Simon seita é um grupo religioso diferente em sua estrutura e isolado das comunidades religiosas principais que estão ativas.Temos a imagem errada de que apenas pessoas simplórias, de baixa escolaridade ou pobres fazem parte delas, mas pensar assim é um grande erro, a seita que Hitler criou (com base mística/ocultista e ação política) teve entre seus apoiadores várias pessoas cultas e ricas e ganhou uma musculatura tal que quase dominou por completo o mundo ocidental.

Também não necessariamente uma seita é ruim, apenas seu formato e características principais podem ser manipuladas, distorcidas e usadas para fins egoístas, desequilibrados e muitas vezes até suicidas.

Por muitos anos em minha jornada espiritual conheci e analisei vários grupos que se enquadrariam no formato de seita, alguns “inofensivos” outros nem tanto… admito que em certos casos fui bastante seduzido, mas felizmente nessas horas meu “alarme” tocava e rapidamente eu saia dessas estruturas para nunca mais voltar.

Meu objetivo aqui não é apontar grupo A, B ou C como uma seita perigosa, não quero levantar uma cruzada, quero sim te fornecer elementos para identificar uma e entender como sua “teia” é tecida para envolver novos membros e de posse disso você decidir se ela realmente te ajuda de alguma forma ou está apenas te usando para se manter e crescer. Alguns itens inclusive são utilizados pelo próprio Vaticano para determinar se um movimento tem esse caráter ou não.

10 itens que identificam uma seita:

01 – Um líder carismático e centralizador – enquanto líderes como Jesus ou Buda enfocam na mensagem do caminho espiritual buscando libertação esses líderes usam seu carisma buscando submissão e egolatria, colocando-se como exemplos de perfeição.

02 – Caminho único e exclusivo para a salvação/perfeição/ iluminação/ascensão – Assumem e incutem em seus membros através de uma mentalidade de nós contra eles que ali e somente ali está a verdade e o caminho para o objetivo proposto, todo o resto que não está ali dentro está condenado, foi corrompido ou iludido e deve ser evitado e/ou combatido, em termos mais modernos, quem faz parte despertou e quem está fora ainda vive em uma matrix.

03 – Isolamento com lavagem cerebral e controle das informações – os membros são estimulados a se afastar da família e de outras pessoas que não fazem parte da seita e sofrem continua lavagem cerebral, devendo apenas assistir, ouvir e ler as palestras, pregações, vídeos, áudios, livros e revistas indicados ou produzidos pela seita e gradativamente vão perdendo contato com o “mundo exterior”. Se não se afastam totalmente são instruídos a seguir uma moral dupla dissimular, esconder e mentir a respeito das atividades e crenças da seita para os não-membros e ser totalmente honesto e sincero com os membros.

04 – Intenso amor fraternal entre os membros – a pessoa é recebida com atenção, carinho e cuidado intensos e quando já está envolvida este sentimento se torna condicional e manipulador, servindo como punição ou recompensa para os atos do membro.

05 – Estrutura interna de delação e controle – após a pessoa se tornar membro percebe que é vigiada pelos mais antigos e depois de um tempo é estimulada também a observar e denunciar em segredo aos líderes o comportamento fora dos padrões de outros membros, gerando desconfiança mútua e um sentimento de perseguição.

06 – Um mundo a parte – roupas, atitudes, brincadeiras e jargões utilizados apenas pelos membros fazem com que se sintam num mundo a parte e exclusivo e dependendo do interesse dos líderes a manipulação de certas palavras ou frases podem gerar a chamada “analysis paralysis” ou “paralisia de análise” referente aquilo que se refere originalmente a palavra ou frase.

07 – Controle do tempo do membro – como parte do controle mental a pessoa é sobrecarregada com atividades e obrigações ligadas a seita, não tendo mais tempo para família, amigos ou outras atividades e ficando cansado e ocupado demais para refletir a respeito do que está vivenciando.

08 – Controle dos relacionamentos – o membro será também estimulado a passar mais tempo com os outros membros, inclusive será plantada a idéia de dar preferencia a relacionamentos afetivos dentro da seita em vez de fora. Esse controle se torna cada vez mais efetivo, fazendo até com que a pessoa se mude para mais perto da seita ou até resida nela.

09 – Graduação, secretização e dissimulação – jamais um novato saberá o que quem está no topo da seita pensa ou faz, muito menos as atividades ou objetivos verdadeiros dela, tudo é cercado de mistério, historinhas e dissimulação, fazendo com o novato se envolva cada vez mais e mais e não perceba aonde está se metendo.

10 – Ilusão e Auto-engano – fazer acreditar que somente loucos, fracassados ou fracos sejam envolvidos pelas seitas faz parte de seu arsenal de controle mental e propaganda. Apoiado em matérias da mídia mostrando casos de seitas extremas e estereotipadas que cometem suicídio em massa ou seguem um líder com roupas ou cabelos estranhos, a falsa idéia de que “isso jamais aconteceria comigo, sou mais inteligente que esses idiotas” explora a brecha criada por esse mecanismo defensivo e abre caminho para a manipulação e envolvimento sutil das seitas.

Você se viu em algo assim?

Acha que algum amigo possa estar dentro de uma?

Essa seita é boa ou ruim?

Reflita, comente e compartilhe com quem precisa saber.

Isto é muito sério e pode ajudar alguém.

#Blogosfera

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/como-identificar-uma-seita

[parte 4/7] Alquimia, Individuação e Ourobóros: A arte Alquímica

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“Tudo vai, tudo volta; eternamente gira a roda do ser. Tudo morre, tudo refloresce, eternamente transcorre o ano do ser. Tudo se desfaz, tudo é refeito; eternamente constrói-se a mesma casa do ser. Tudo se repara, tudo volta a se encontrar; eternamente fiel a si mesmo permanece o anel do ser. Em cada instante começa o ser; em torno de todo o “aqui” rola a bola “acolá”. O meio está em toda parte. Curvo é o caminho da eternidade.”

– Nietzsche

Alquimia

Esta é a quarta parte da série de sete artigos “Alquimia, Individuação e Ourobóros”, que é melhor compreendida se lida na ordem. Caso queira acompanhar desde o começo, leia as parte 1, 2 e 3.

No post anterior, vimos que, o arquétipo de Hermes, juntamente com o simbolismo do caduceu, serve como organizador e centralizador da psique, atuando no “caos primordial”, estruturando-o e elevando seu potencial. Este caos primordial é análogo ao conceito de prima matéria dos alquimistas. Ambos os conceitos se apresentam como uma fonte de energia desordenada, cuja harmonização permite a obtenção de um potencial incalculável.

“Nasce como uma ciência natural que busca a compreensão da própria natureza a partir de uma especulação filosófica, como se pode ver já na filosofia pré-socrática no século VI a C. É dela que nasce o conceito de prima matéria a partir da crença de que o mundo tinha origem em uma única substância que era subdividida nos quatro elementos terra, ar, fogo e água, os quais, segundo diferentes recomposições faziam surgir todos os objetos físicos existentes no universo. Esta idéia, a prima matéria, teve sua evolução chegando com Aristóteles a ser considerada como pura potencialidade, que em seguida adquire forma, quando é atualizada na realidade.” (SANTOS, 2013)

Para Jung (2008), a manipulação da prima matéria, correspondente aos aspectos inconscientes dissociados. O alquimista tem que realizar a Opus Alquimica, que corresponde ao processo de individuação, transformando seus conteúdos internos e os trazendo a luz da consciência. Esse processo acontece através de três (podem ser quatro) momentos alquímicos e psíquicos: nigredo, albedo, rubedo. Vale a pena frisar que as metáfora alquímicas compreendem um vasto simbolismo, que varia entre os alquimistas e pesquisadores, porém todos resultam no mesmo objetivo: a obtenção da pedra filosofal.

Dentro destes momentos, pode-se dividir a Opus em diferentes estágios, que variam dentro do arcabouço alquímico, mas que neste trabalho, será utilizado as definições de Hauck (1999), podendo ser resumidas em sete estágios de transformação: calcinação, dissolução, separação, conjunção, fermentação, destilação e coagulação.

Esta imagem mandálica é um clássico da alquimia medieval, ela foi primeiramente publicada em 1959 pelo alquimista alemão Basil Valentine, e representa o conceito de Azoth:

“Azoth era considerado como um remédio universal, ou solvente universal utilizado na alquimia. Seu símbolo era o caduceu; o termo, que foi originalmente um nome para uma fórmula oculta necessária para os alquimistas parecida com a pedra filosofal, se tornou uma palavra poética para o elemento mercúrio, o nome é proveniente do Latim Medieval, uma alteração de “azoc”, sendo originalmente derivado do árabe “al-zā’būq”, que significa “o mercúrio”.” [tradução livre] http://en.wikipedia.org/wiki/Azoth

Esta imagem irá nos guiar frente ao simbolismo utilizado na metáfora alquímica. No centro da imagem temos o homem, alquimista. A sua direita, um rei, princípio masculino, solar, a sua esquerda uma rainha, princípio feminino, lunar. A dicotomia já nos é evidente, sugerindo que a integração destes aspectos seriam necessários para atingir a Opus.

Podemos notar a presença dos quatro elementos, como manifestação quaternária do todo, associados à tipologia junguiana. Vemos na imagem, o pé direito do homem na terra, seu pé esquerdo na água, sua mão direta segurando uma tocha, associada ao fogo, e sua mão esquerda segurando uma pena, associada ao elemento ar. Há também os triângulos adjacentes a roda, representando a manifestação trina do corpo, alma e espírito.

Na parte superior da figura, é possível ver uma estranha figura alada, que pode ser associada com o disco solar egípcio ou o topo do caduceu de Hermes (Mercúrio), analisado anteriormente. Exstem uma série de simbolismos na imagem, como por exemplo o leão sob o rei, a salamandra em chamas e os pássaros da roda, porém seria necessário um outro post apenas para interpretá-los.

Por fim, temos a circular dos raios, associados com diferentes cores, que representam os estágios alquímicos. Estes estágios serão nosso foco daqui pra frente.

As etapas Alquímicas

O primeiro raio está associado à calcinação, ou calcinato, intrínseca ao elemento fogo. Para Hauck, esta etapa está psicologicamente associada a morte do ego e destruição dos mecanismos de defesa, a extinção do interesse no mundo material, e as respectivas ilusões associadas a este. Inicia-se o processo de enegrecimento, podemos citar como ilustração desta etapa, “escuro e nebuloso é o início de todas as coisas, mas não o seu fim”, frase de autor desconhecido.

Para Masan (2009), esta operação é realizada na Sombra, onde permanecem os desejos instintivos e não integrados. O fogo é está ligado com a frustração dos desejos, aspecto natural do processo de desenvolvimento associado ao Si-mesmo.

“Os aspectos do ego identificados com as energias transpessoais da psique (Self ou mesmo, o fogo Divino) e utilizados para fins pessoais, sejam de poder ou de prazer, serão calcinados. Quanto maior a dicotomia entre bem e mal, certo e errado, ou seja, quanto maior a polarização desses aspectos neuróticos, mais longa será a calcinação desses elementos, até que o fogo da própria culpa esvazia a balança do julgamento por essa imagem punitiva e compensatória, representada pela ira divina, enquanto imagem arquetípica constelada no psiquismo”(MASSAN, 2009, 26).

O segundo raio está associado com a etapa de dissolução, ou solutio, representada pelo elemento água. Psicologicamente dizendo, está atrelada com a quebra das estruturas artificiais da psique, através da imersão no inconsciente, ou das partes irracionais e rejeitadas. O elemento água como uma abertura das comportas, e inundação de energias pessoais antes cristalizadas, dissolução de aspectos fixos da personalidade.

“A operação apresenta, no aspecto negativo e sombrio, um sentido de dissolução da matéria diferenciada ou conteúdo do ego […]. Por outro lado, em seus aspectos superiores, onde ocorre à transposição de opostos, consolida-se o espírito, ou seja, os aspectos transpessoais da pisque objetiva, o Si-mesmo. É o encontro com o Numinoso, que reestabelece a saúde da relação ego-Self, salvando apenas o que vale ser salvo, os conteúdos realmente alinhados com o Si-mesmo, e redimindo os conteúdos comprometidos, derretendo-os ou reordenando-os em novas estruturas”.(MASAN, 2009, 14)

O terceiro raio diz respeito à separação, ou separatio. É o momento de captar tudo aquilo que sobrou das etapas anteriores e selecionar. É recuperar a energia congelada dos hábitos e pensamentos cristalizados (pré-conceitos, crenças, fobias). Refere-se à essência e energia separada das amarras da matéria. Esta psicologicamente associada à escolha dos aspectos dissolvidos anteriormente, desapegando daquilo que não mais apresenta valor psíquico, explicitando a essência e valores espirituais, portanto, associado ao elemento ar.

“Surge aí à necessidade de dissecar esses conteúdos do inconsciente pessoal e coletivo e realizar a escolha, a separatio, trazendo a consciência, através do ato de julgar, uma vinculação com o Self. Isso requer um poder para arcar com o ônus dessa escolha, uma desvinculação da necessidade de atender aos critérios do outro, mas sim de ser fiel àquilo para o que aponta o Si-mesmo, da mesma forma como não se pode servir a dois senhores, só que sem o domínio neurótico da unilateridade” (MASAN, 2009, 25).

A conjunção, ou coniunctio, é análoga ao quarto raio da figura. Conjunção é a grande guinada do opus alquímico. Notemos que na figura, através do movimento circular, existe o deslocamento das forças da alma (na direita), para o espírito (na esquerda). Em nível pessoal, a conjunção é o fortalecimento do nosso verdadeiro Self, a união dos aspectos masculinos e femininos de nossa personalidade em um novo sistema psíquico. Esta etapa corresponde à ‘pequena pedra’, ou o primeiro esboço do que seria a pedra filosofal atingida no final da operação.

“Conjunção pode ser vista com a criação de um self superior e a conquista do que Carl Jung nomeou de individuação, no qual o self fragmentado é reunido à um todo original. A criação desta pessoa completa e harmoniosa significa que atingimos nosso máximo no plano terrestre”. (HACUK, 1999, 162)

Associada então com o elemento terra, a conjunção pode ser divida em duas sub-etapas, segundo Masan: coniunctio inferior e superior. Na primeira, a união dos opostos separados de forma imperfeita, resulta em algo que deverá ser submetido a novos procedimentos.

Masan define que a coniunctio inferior acontecerá sempre que o ego identificar aspectos inconscientes, como a sombra, anima, ou mesmo o Si-mesmo (Self), através de uma perspectiva introvertida ou coletiva. Essa identificação deve ser ‘purificada’, ou seja, eliminada, redimida, para dar continuidade ao processo de individuação. A coniunctio superior representa a conjunção mor dos aspectos previamente impossíveis de serem integrados. Após passar pelos estágios anteriores da Opus, a prima matéria pode finalmente ter seus opostos complementados.

“Assim como na alquimia, a psique, dentro do processo analítico, vai transformando-se, ora dispondo-se num lado e ora de outro, no sentido das suas polaridades, até que lhe seja capaz a absorção de uma terceira figura, gradativa e construída, surgida de dentro da sua própria alma que lhe traduz essa expressão de convivência com o dual. A dissolução do conflito, gerado pelas dicotomias neuróticas, concebe o cenário onde essa pedra, em cujo seio se fixa o espírito, se manifesta. […] O casamento Divino, que somente existirá se ali houver o Amor, sua causa e seu efeito.

Enquanto na coniunctio inferior o amor é concupiscente, aqui, na coniunctio superior, esse amor é transpessoal. Revela-se no mundo como o altruísmo em seu sentido extrovertido e na psique, como a conexão com o Si-mesmo, gerando a unidade” (MASSAN, 2009, 34).

Masan apresenta o Amor como uma das chaves para a integração psicológica dos opostos. Seria insensato pensar em amor se associá-lo com o coração. A simbologia do coração é estudada no livro “A Psique do Coração”, de Denise Ramos. A autora apresenta mitos e imagens de culturas americanas que tinham como centro o coração, sendo ele, em quase todas as histórias um ícone do sagrado ou oferecido ao sagrado.

No capítulo “Elegias Para Acalmar o Coração”, é somado às ideias de rezas para ‘abrir’ o coração e permitir o esvaziamento do sofrimento com o preenchimento de Deus. No capítulo “O Coração em Julgamento” é recapitulado toda a simbologia do coração no antigo Egito, como este sendo um exemplar da alma do indivíduo.

Ainda nesse mito egípcio, ao morrer, o coração era pesado numa balança, onde na contraparte ficava a pena de Maat. Neste julgamento especial, se o coração fosse mais pesado que a pena, ou seja, estivesse carregado das impurezas do ego, não era permitido ao falecido integrar-se a completude.

No sub-capítulo “O Lugar Secreto” é destacado o valor simbólico do coração na tradição hindu, e como o coração está associado nestas culturas como o ‘lugar da consciência”, sendo o Self em si, o lugar que o homem emana a si mesmo, um guia de luz.

Ainda segundo a autora, Anãhata é a representação do chakra cardíaco no Tantra Yoga, que une os chakras superiores com os inferiores, o Tantra Yoga tem como objetivo alinhar e equilibrar as polaridades masculinas e femininas. Tal equilíbrio acontece no coração, e quando acontece, o praticante da técnica consegue ouvir o som ‘hum’ (ॐ), do vazio, que emana por todo o tempo e espaço.

Essas informações aparecem no sub-capítulo “O Lugar do Som Universal”. Uma frase que pode exemplificar o amor como via de integração das polaridades é a de Nietzsche: “Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal”.

Hauck (1999) sincretiza o processo alquímico da conjunção da seguinte forma: “Psicologicamente, Conjunção é usar a energia sexual dos corpos para transformação pessoal. Conjunção se ocupa no corpo no nível do coração”

A próxima figura, é uma foto tirada no dia 06/06/2013 no Elevado Presidente Costa e Silva, São Paulo, conhecido também como “Minhocão”:

É possível perceber inúmeras analogias com os temas tratados neste trabalho. A expressão artística urbana expressando a angústia de uma sociedade doente, cindida. Amor e Ourobóros como resoluções arquetípicas coletivas. Apesar de toda a fertilidade do tema social em questão, voltemos a descrição das etapas alquímicas.

Podemos perceber, portanto, que apesar de todo o processo alquímico estar intimamente ligado ao processo de individuação, a etapa de Conjunção é a que representa o ápice do processo, que é a integração dos aspectos complementares.

A quinta etapa do processo alquímico descrito por Hauck, observado na imagem é a fermentação. É a introdução de uma nova perspectiva de vida, resultado da etapa anterior – Conjunção – que é a ascensão para um novo estado de consciência, a transição para um estado mental elevado. Nesta etapa, existe a transição da nigredo para a leukosis, resultando no aparecimento da cauda pavonis, metáfora para imaginação ativa e ‘coloração da vida’, alguns autores definem esse amarelamento (leukosis) e o aparecimento da “cauda pavonis” como uma quarta etapa, entre o nigredo e albedo, enquanto outros, definem apenas como um aspecto transitório entre estas duas etapas. Representa psicologicamente a transição da psique para um estado mais conectado com o espírito, ou na nomenclatura junguiana, Si-mesmo (Self).

O penúltimo raio é análogo à etapa de destilação, ou destilatio. Neste estágio a metáfora que se apresenta é o aumento da pureza, associado com a cor branca, ou albedo. Psicologicamente, representa o esforço para que as impurezas do ego e do id não sejam incorporadas no último estágio. Representa a eliminação dos sentimentalismos e emoções, ou ainda melhor, das paixões egoístas e infantis, aspectos que na manifestação do verdadeiro Self, não são pertinentes, uma vez que se procura um estado pleno de espiritualidade.

“Seus pensamentos e sentimentos são os sentimentos e pensamentos do Universo inteiro”, Esta declaração descreve o processo de destilação, onde [o alquimista] se tornou muito mais interessado no bem maior do que apenas em seu próprio. É a fase de transformação onde estamos espiritualmente e emocionalmente maduros o suficiente para fundir-nos com o inconsciente coletivo sem sermos devastados pelo o que encontramos lá. A razão pela qual nós podemos manter o nosso equilíbrio, depois de ter chegado à fase de destilação é que o ego não nos controla e, portanto, podemos apreciar os mistérios do coletivo – e pessoal – material da sombra, sem a intromissão do ego.

Destilação traz o criativo fora de nós. Ela incentiva tudo o que somos se manifestar em formas equilibradas e serenamente poderosas. Ele anuncia a entrada da influência das forças superiores e do equilíbrio dessas forças com os inferiores, que fornecem firmeza, tão crucial para a totalidade” (SHANDERÁ, 2002).

O sétimo e último estágio é chamado de coagulação, ou coagulatio. Representa a ressurreição do espírito, materializado no corpo.

“A Coagulatio é uma operação que expressa, pelas suas imagens, o processo de formação do ego e sua ligação com os aspectos da vida, as forças ctônicas, através da vivência da carnalidade no seu sentido mais amplo, construindo, pelas experiências, a terra onde se lastreia o ego em seu caminhar e, logicamente, configurando, por essas mesmas vivências, a relação do eixo Ego-Self” (MASSAN, 2009, 34)

É a representação da pedra filosofal, ou Grande Pedra, antes anunciada pela coniunctio. O alquimista adentra o estágio de rubedo, e pode “curar-se de todas as feridas e enfermidades” (HAUCK, 1999, 140). Esta etapa é utilização da libido dentro de sua forma plena, integrada com a impulsão da consciência para os estados mais elevados do vir-a-ser.

“Vale ressaltar que o desejo é o agente da coagulatio. Esta operação é necessária não para aqueles que já se movimentam adequadamente dentro de sua libido, mas para aqueles outros com uma inconsistência em seu querer e o temor de colocar os pés na vida, com dificuldade, inclusive de sorver os cálices que ela dispõe. O desenvolvimento do ego nestes casos passa pelo lugar dessa consciência e realização do desejo, a fim de que haja a movimentação da energia psíquica” (MASSAM, 2009, 22).

Neste estágio, para Hamilton (1985), é manifestada, no alquimista a vontade de encarnar na terra o estado de consciência iluminado na mente e no corpo. É como se uma alma desejasse ser ‘encorpada’ sem o senso de separação do seu estado puro original. Só quando a alma está encarnada na psique que pode ser vivenciado o estado espiritual de completude. A psique pode agora expressar as qualidades da alma e da natureza. A frase “assim na terra como no céu” ilustra com perfeição este estado.

“Esta união do espírito / alma com o corpo / mente representa o final e mais importante casamento alquímico. Agora a anima torna-se a Mãe de Deus, ou a Consorte de Deus, o objeto do amor místico. As figuras de animus correspondentes são Os Iluminados – Cristo, Buda, Santos, etc. Isto significa que a consciência de Deus, ao nascer no mundo da terra, percebe sua natureza divina conscientemente – como um indivíduo transcendental e iluminado, num estado de unidade com o todo cósmico. Isso, então, é a pedra filosofal que o alquimista procurava. É o grande ponto culminante da Grande Obra” (HAMILTON, 1985, 8).

Ainda para o autor, o equivalente terapêutico é fácil de ser percebido, uma vez que o paciente transcendeu a natureza de seus dilemas e conflitos, e isso envolve uma mudança de personalidade que vai acomodar e manter essa realização. O paciente percebe que sua vida tem sido uma imposição que resultou numa série de problemas, e agora inicia um processo de mudança para uma sustentação mais pertinente a sua verdadeira natureza.

Hauck (1999) define que, ao atingir este estágio, o raio de transformação se volta a terra, e é iniciado novamente o ciclo previamente proposto, indicando que os estágios e transformações são processos eternos e constantes, assim como a lapidação do Self, ou o processo de individuação proposto por Jung, fazendo com que o alquimista volte à etapa de nigredo, e continue seu processo.

“Tudo o que coagula está sujeito a transformar-se. Dai decorre que após a coagulatio, os processos de putrefactio e mortificatio se realizam também, até porque, o fim da encarnação é o desencarne, visto que está sujeito às injunções do tempo e do espaço” (MASSAN, 2009, 27).

Percebemos que o processo alquímico é cíclico, e, assim como o processo de individuação, exige um constante processo de atuação do indivíduo para com seus conteúdos, processo este que Jung define acontecer por toda a vida.

A mesma metáfora pode ser utilizada para definir o Ourobóros, um processo cíclico e constante, que representa a integração de opostos e a volta para a unidade. No capítulo seguinte iremos analisar a figura arquetípica do Ourobóros e avaliar suas correspondências com o processo alquímico e o de individuação.

Referências Bibliográficas:

HAMILTON, Nigel. The Alchemical Process of Transformation. Disponível em: http://www.sufismus.ch/assets/files/omega_dream/alchemy_e.pdf. 14/05/2013

HAUCK, Dennis Willian. The Emerald Tablet: Alchemy for Personal Transformation. Arkana. Ed.Pengun Group. 1999.

MASSAN, Francisco. Opus Alquímica e Psicoterapia. Disponível em: www.clinicapsique.com/doc/opus.doc. 14/05/2013

RAMOS, Denise Gimenez. A Psique do Coração: Uma Leitura Analítica de seu Simbolismo. São Paulo. Cultrix. 1990.

SANTOS, Vitor P. Calixto. Jung e a Metáfora Alquímica. Disponível em http://www.symbolon.com.br/artigos/jungeameta.htm. 14/05/2013

SHANDERÁ, Nanci. The Alchemy in Spiritual Progress – Part 7: Distillation. Disponível em: http://alchemylab.com/AJ3-1.htm. 14/05/2013

Imagens:

“Nigredo, Albedo e Rubedo” de Thomas Norton em ‘Ordinal of Alchemy’, 1477

“Azoth” de Basil Valentine

“Calcinato Angelus” de Suanne Iles

Trecho do filme “Elena” de Petra Costa, 2013

“Artodyssey” de Tomasz Alen Kopera

A interação das polaridades (sol e lua). “Rosarium Philosophorum”, Séc XVI

Andrógino, representando a natureza dual. “Rosarium Philosophorum”, Séc XVI

“Heart Chakra” de Ormus Oils

Coração e pena na balança em hieróglifo egípcio

“Mais amor por favor” (ygormarotta.com/mais-amor-por-favor)

Pavão em tecido

Gravura representando a destilação, capa do livro “O Museu Hermético” de Alexander Robb

“Aquamarine Muse” de Philip Rubinov Jacobson

A natureza de Buddha

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/parte-4-7-alquimia-individua%C3%A7%C3%A3o-e-ourob%C3%B3ros-a-arte-alqu%C3%ADmica

Buda e o Tapa

Buda estava sentado embaixo de uma árvore falando aos seus discípulos. Um homem se aproximou e deu-lhe um tapa no rosto.
Buda esfregou o local e perguntou ao homem:
– E agora? O que vai querer dizer?
O homem ficou um tanto confuso, porque ele próprio não esperava que, depois de dar um tapa no rosto de alguém, essa pessoa perguntasse: “E agora?” Ele não passara por essa experiência antes. Ele insultava as pessoas e elas ficavam com raiva e reagiam. Ou, se fossem covardes, sorriam, tentando suborná-lo. Mas Buda não era num uma coisa nem outra; ele não ficara com raiva nem ofendido, nem tampouco fora covarde. Apenas fora sincero e perguntara: “E agora?” Não houve reação da sua parte.

Os discípulos de Buda ficaram com raiva, reagiram. O discípulo mais próximo, Ananda, disse:
– Isso foi demais: não podemos tolerar. Buda, guarde os seus ensinamentos para o senhor e nós vamos mostrar a este homem que ele não pode fazer o que fez. Ele tem de ser punido por isso. Ou então todo mundo vai começar a fazer dessas coisas.
– Fique quieto – interveio Buda – Ele não me ofendeu, mas você está me ofendendo. Ele é novo, um estranho. E pode ter ouvido alguma coisa sobre mim de alguém, pode ter formado uma idéia, uma noção a meu respeito. Ele não bateu em mim; ele bateu nessa noção, nessa idéia a meu respeito; porque ele não me conhece, como ele pode me ofender? As pessoas devem ter falado alguma coisa a meu respeito, que “aquele homem é um ateu, um homem perigoso, que tira as pessoas do bom caminho, um revolucionário, um corruptor”. Ele deve ter ouvido algo sobre mim e formou um conceito, uma idéia. Ele bateu nessa idéia.
Se vocês refletirem profundamente, continuou Buda, ele bateu na própria mente. Eu não faço parte dela, e vejo que este pobre homem tem alguma coisa a dizer, porque essa é uma maneira de dizer alguma coisa: ofender é uma maneira de dizer alguma coisa. Há momentos em que você sente que a linguagem é insuficiente: no amor profundo, na raiva extrema, no ódio, na oração.

Há momentos de grande intensidade em que a linguagem é impotente; então você precisa fazer alguma coisa. Quando vocês estão apaixonados e beijam ou abraçam a pessoa amada, o que estão fazendo? Estão dizendo algo. Quando vocês estão com raiva, uma raiva intensa, vocês batem na pessoa, cospem nela, estão dizendo algo. Eu entendo esse homem. Ele deve ter mais alguma coisa a dizer; por isso pergunto: “E agora?”

O homem ficou ainda mais confuso! E buda disse aos seus discípulos:
– Estou mais ofendido com vocês porque vocês me conhecem, viveram anos comigo e ainda reagem.
Atordoado, confuso, o homem voltou para casa. Naquela noite não conseguiu dormir.

Na manhã seguinte, o homem voltou lá e atirou-se aos pés de Buda. De novo, Buda lhe perguntou:
– E agora? Esse seu gesto também é uma maneira de dizer alguma coisa que não pode ser dita com a linguagem. Voltando-se para os discípulos, Buda falou:
– Olhe, Ananda, este homem aqui de novo. Ele está dizendo alguma coisa. Este homem é uma pessoa de emoções profundas.
O homem olhou para Buda e disse:
– Perdoe-me pelo que fiz ontem.
– Perdoar? – exclamou Buda. – Mas eu não sou o mesmo homem a quem você fez aquilo. O Ganges continua correndo, nunca é o mesmo Ganges de novo. Todo homem é um rio. O homem em quem você bateu não está mais aqui: eu apenas me pareço com ele, mas não sou mais o mesmo; aconteceu muita coisa nestas vinte e quatro horas! O rio correu bastante. Portanto, não posso perdoar você porque não tenho rancor contra você.
E você também é outro, continuou Buda. Posso ver que você não é o mesmo homem que veio aqui ontem, porque aquele homem estava com raiva; ele estava indignado. Ele me bateu e você está inclinado aos meus pés, tocando os meus pés; como pode ser o mesmo homem? Você não é o mesmo homem; portanto, vamos esquecer tudo. Essas duas pessoas: o homem que bateu e o homem em quem ele bateu não estão mais aqui. Venha cá. Vamos conversar.

Osho; Intimidade Como Confiar em Si Mesmo e nos Outros

#Budismo #espiritualismo #Osho

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/buda-e-o-tapa

666, the Number of the Beast

Publicado no S&H dia 23/5/2008,

Let him who hath understanding
reckon the number of the beast
for it is a human number
its number is six hundred threescore six.
Apocalipse 13:18

Hexakosioihexekontahexaphobia. A lavagem cerebral das Igrejas é tão grande que a ciência precisou inventar um termo para descrever “o medo irracional relacionado ao número 666”.
Mas o que este número possui de tão especial?
Este conjunto de textos a respeito das distorções dos deuses, cerimônias religiosas e símbolos sagrados de outras religiões pela Igreja Católica (e, por conseguinte, de suas seitas evangélicas) não poderia ficar completo sem uma explicação detalhada sobre o número 666. Para quem começou a ler este texto agora, recomendo que leiam primeiro estes textos AQUI, AQUI e AQUI.

Talvez um dos números mais belos e mais injustiçados pela Igreja, o 666 possui profundos significados esotéricos, que remontam desde os tempos egípcios. Ao contrário da crença popular, incentivada por todo tipo de malucos religiosos e “satânicos”, a história do número 666 começa junto com a Kabbalah, nos primórdios da história judaica.

Antes de explicar o que vem a ser o 666, precisarei explicar o que é um Kamea dentro da tradição da Kabbalah. Um Kamea é um “quadrado mágico” contendo os números e nomes (da conversão numérica para o alfabeto hebraico) divinos que servem como janelas para entender a natureza do ser humano e como ela interage com o macrocosmos.

Um kamea é representado como um quadrado contendo divisões internas, de acordo com a sefira da Kabbalah que aquele planeta representa: Então o Kamea de Saturno/Binah é um quadrado dividido em 3×3, o de Júpiter/Chesed 4×4, o de Marte/Geburah 5×5, o do Sol/Tiferet 6×6, o de Vênus/Netzach 7×7, o de Mercúrio/Hod 8×8 e o da Lua/Yesod 9×9.
Cada Kamea possui em seu interior os números de 1 até o quadrado da Sefira, dispostos de maneira que a SOMA de todas as linhas e colunas seja sempre o mesmo número.

Assim sendo, o Kamea de Saturno possui números de 1 a 9 (e cada linha/coluna soma 15 – ver na imagem ao lado), o de Júpiter de 1 a 16 (e cada linha/coluna soma 34), o de Marte de 1 a 25 (e cada linha/coluna soma 65), o do Sol de 1 a 36 (e cada linha/coluna soma 111), o de Vênus de 1 a 49 (e cada linha/coluna soma 175), o de Mercúrio de 1 a 64 (e cada linha/coluna soma 260) e o da Lua de 1 a 81 (e cada linha/coluna soma 369).

Além disto, cada Planeta está associado diretamente a um número sagrado, que é a somatória de todos os valores dentro do Kamea. Assim sendo, o número associado de Saturno/Binah é 45 (1+2+3+4+5+6+7+8+9), Júpiter/Chesed é 136, Marte/Geburah é 325, Vênus/Netzach é 1225, Mercúrio/Hod é 2080 e a Lua/Yesod é 3321.

E o Sol?
Se somarmos os números do Kamea do SOL, teremos 1+2+3+4…+34+35+36… adivinhem que número resulta desta soma? Isso mesmo… pode fazer as contas na sua calculadora, eu espero.
Calculou?
Exato. 666.

Assim sendo, na Kabbalah, o número 666 sempre representou Tiferet, o SOL. Desde muito e muitos milhares de anos atrás… Simples assim. Nada de tinhosos, capetas, apocalipses nem dragões de sete cabeças ainda.

Tiferet representa o ser Crístico que habita dentro de todos nós. Dentro da Kabbala, representa todos os deuses iluminados e solares:Apolo, Hórus, Bram, Lugh, Yeshua, Krishna, Buda, todos os Boddisatwas, todos os Mestres Ascencionados, todos os Serenões, todos os Mentores, todos os Pretos-velhos e assim por diante. Escolha uma religião ou filosofia e temos um exemplo máximo a ser atingido.
Tiferet representa a união do macrocosmos com o microcosmos, o momento onde o homem derrota o dragão simbólico (que representa os quatro elementos) e se torna um iluminado e, como tal, senhor de seu próprio destino. Tiferet é o mais alto grau de consciência que um encarnado pode atingir.
Desta maneira, quando se tornar um iluminado e senhor de seu próprio destino, o homem não vai mais se submeter aos mandos e desmandos de nenhuma religião dogmática… estão começando a entender da onde vem a associação da Igreja entre o 666 e o “anticristo”?
Mas ainda estamos muitos mil anos antes do Apocalipse (Livro das revelações)… o 666 ainda aparecerá na Bíblia antes disso.

O 666 e a Bíblia
Quase todas as pessoas acreditam que o número 666 aparece apenas no tal do “Apocalipse”, ou Book of Revelations (Livro das revelações), mas a verdade é que este número já aparece bem antes na própria bíblia, em um contexto muito mais significativo e esotérico, como veremos logo a seguir:
Vamos observar 1Reis 10:1-18, que fala sobre o encontro de Salomão com a Rainha do Sabá, o momento onde o conhecimento da Kabbalah é mesclado com as grandes tradições africanas (e isto será muito importante em posts futuros quando eu for falar de Umbanda e Candomblé e suas raízes dentro da Kabbalah). Salomão encontra-se com a rainha do Sabbat, que lhe faz inúmeras perguntas e ele consegue responder a todas, deixando-a impressionada com seu conhecimento. Há muitas histórias interessantes que se desdobram deste acontecimento, mas uma coisa de cada vez: hoje é o 666.
Eu gosto de usar a versão do King James, de 1611, mas quem não souber ler em inglês pode ler a versão traduzida AQUI.

10: 1 And when the queen of Sheba heard of the fame of Solomon concerning the name of the LORD, she came to prove him with hard questions.
10: 2 And she came to Jerusalem with a very great train, with camels that bare spices, and very much gold, and precious stones: and when she was come to Solomon, she communed with him of all that was in her heart.
10:3 And Solomon told her all her questions: there was not [any] thing hid from the king, which he told her not.
10: 4 And when the queen of Sheba had seen all Solomon´s wisdom, and the house that he had built,
10: 5 And the meat of his table, and the sitting of his servants, and the attendance of his ministers, and their apparel, and his cupbearers, and his ascent by which he went up unto the house of the LORD; there was no more spirit in her.
10: 6 And she said to the king, It was a true report that I heard in mine own land of thy acts and of thy wisdom.
10: 7 Howbeit I believed not the words, until I came, and mine eyes had seen [it]: and, behold, the half was not told me: thy wisdom and prosperity exceedeth the fame which I heard.
10: 8 Happy [are] thy men, happy [are] these thy servants, which stand continually before thee, [and] that hear thy wisdom.
10: 9 Blessed be the LORD thy God, which delighted in thee, to set thee on the throne of Israel: because the LORD loved Israel for ever, therefore made he thee king, to do judgment and justice.
10:10 And she gave the king an hundred and twenty talents of gold, and of spices very great store, and precious stones: there came no more such abundance of spices as these which the queen of Sheba gave to king Solomon.
10: 11 And the navy also of Hiram, that brought gold from Ophir, brought in from Ophir great plenty of almug trees, and precious stones.
10: 12 And the king made of the almug trees pillars for the house of the LORD, and for the king´s house, harps also and psalteries for singers: there came no such almug trees, nor were seen unto this day.
10: 13 And king Solomon gave unto the queen of Sheba all her desire, whatsoever she asked, beside [that] which Solomon gave her of his royal bounty. So she turned and went to her own country, she and her servants.
10: 14 Now the weight of gold that came to Solomon in one year was six hundred threescore and six talents of gold,

Ou seja, em 1Reis 10:14 (e também em Crônicas 9:13) temos o número 666 mencionado pela primeira vez na Bíblia, quase MIL anos antes do “Apocalipse”. E aparecendo “coincidentemente” associado à figura do maior ocultista do Velho Testamento, Shlomo HaMelech, o rei Salomão!

HaShem (Deus) oferece a ele tudo o que quisesse, mas ele pede apenas por Sabedoria e Conhecimento. O peso em ouro que Salomão recebia anualmente era de 666 talentos. Este número representa a emanação solar e está relacionada diretamente com os Mistérios Iniciáticos da Construção do Templo (Beith haMikdash) como um canal para escoar o fluxo de energia direto da fonte para o mundo.
O Templo Simbólico também conecta a Rainha (mãe Terra, Malkuth) com o Rei (o Sol, a fonte divina) e envolve os mecanismos mais profundos da simbologia da criação.
Desta forma, vemos que o número 666 não é maligno, embora o poder que representa, quando usado fora do equilíbrio, pode causar graves destruições ou danos. Com um conhecimento básico de Kabbalah, ao examinarmos a primeira frase do Livro das revelações, temos:

“Here is wisdom. Let him that hath understanding count the number of the beast: for it is the number of a man; and his number [is] Six hundred threescore [and] six.”

“Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis”

Wisdom (Sabedoria) e Undestanding (Entendimento) são as duas esferas mais altas da Kabbalah, Hochma e Binah. A Besta é Chayah (Chorozon, para quem estuda Thelema), o Abismo que separa o mundo divino do mundo das ilusões em que vivemos. Aquela separação entre as esferas 1, 2 e 3 e o Mundo das Ilusões (Matrix).
O Chayah é um nível especial de iniciação dentro do Chayoth HaKodesh, que vai representar a escolha final de um Magister Templi quando ele chega a iluminação. Portanto é um número humano e ao mesmo tempo divino. O número do Sol.
As conexões entre Tiferet e Binah/Hochma representam os dois vértices do “continuum”, ou seja, o começo e o fim, o alfa e o ômega. 666 representa a pessoa capaz de manipular as emanações divinas e ainda assim permanecer humano encarnado. Nas tradições indianas, este estado é chamado e Vajra (o trovão… isso lembra algum deus grego ou nórdico?)

O Livro de Toth… ops, das Revelações…
O livro do Apocalipse de São João (para católicos e ortodoxos) ou Apocalipse de João (para protestantes) ou (Revelação a João) é um livro da Bíblia de constantino — o livro sagrado do cristianismo — e o último da seleção do Cânon bíblico.

Antes de começar a explicar o que significa, temos de nos deter na palavra “apocalipse”. A palavra apocalipse (termo que foi usado por F. Lücke APENAS em 1832, ou seja, quase 18 séculos DEPOIS que o livro foi escrito) significa, em grego, “Revelação”. Um “apocalipse”, na terminologia do judaísmo e do cristianismo, é a revelação divina de coisas que até então permaneciam secretas a um iniciado escolhido por Deus. Por extensão, passou-se a designar de “apocalipse” aos relatos escritos dessas revelações. Apocalipse nunca quis dizer “fim do mundo” ou outras loucuras semelhantes.

O Livro das Revelações foi escrito por João, um dos mais esotéricos apóstolos, a quem Jesus chamava de “Discípulo amado” e “Filho do trovão” (filho do trovão…). Ele é composto de 22 capítulos, cada um deles dedicado a um dos Arcanos Maiores do Tarot e repleto de simbologias.
O apocalipse contém descrição de cada um dos Arcanos Maiores do Tarot, além de diversas alusões ao trabalho de esculpir a pedra bruta dentro de cada um de nós, princípios da alquimia e da Grande Arte. Posso citar rapidamente o famoso “dragão de sete cabeças” que representa ao mesmo tempo os sete chakras e os sete defeitos capitais que precisam ser trabalhados no ser humano. Também nos remonta à Hidra de Lerna e os 12 trabalhos iniciáticos de Hércules, que também derrota um “lagarto de inúmeras cabeças”, e da história de São Jorge, entre diversos heróis de outras mitologias que derrotam dragões e salvam princesas.

Obviamente, a Igreja nunca vai admitir isso, afinal de contas, tarot, alquimia e afins são “feitiçaria” e “feitiçaria leva você diretamente para o Inferno”, então… como admitir que existem instruções para um iniciado montar seu próprio deck de tarot dentro da bíblia?

O 666 que não existiu na Idade Média
É muito importante notar que a associação entre o número 666 e qualquer coisa demoníaca, satânica ou anti-cristo NUNCA existiu durante a Antiguidade, Idade Média, Renascimento ou Idade Moderna. Não há NENHUM registro deste número como sendo adorado ou utilizado pelos pagões, hereges, bruxas ou feiticeiros queimados pela Inquisição. Nem mesmo as mentiras forjadas pela Igreja contra os Templários continham qualquer alusão a este número. Não havia qualquer ligação que fosse entre 666 e “diabo” ou “fim do mundo” ou “anticristo”.
Sei que a lavagem cerebral da mídia faz com que vocês acreditem que o número 666 foi associado ao diabo e ao fim do mundo desde sempre, mas é muito importante lembrar que, antes de Gutemberg, em 1456, simplesmente não existiam exemplares da bíblia que não fossem copiados à mão por monges e mantidos trancados à sete chaves dentro das Ordens Iniciáticas e da Igreja (assistam ao filme “O Nome da Rosa”), ou seja, NADA de conhecimento deste número por parte da população.
MESMO depois de Gutemberg, a bíblia ainda era um item extremamente raro e caro de se obter. Só para vocês terem uma noção da raridade e do quão caro era uma bíblia, o primeiro registro de uma bíblia usada dentro de uma loja maçônica (e olha que os maçons de antigamente eram REALMENTE poderosos) data do meio do século XVIII. Ao contrário do imaginário popular, o povão só tomou realmente conhecimento do conteúdo da bíblia depois da metade do século XIX. Bíblias dentro de casa só se tornam uma realidade depois da metade do século XX.
Mas então, da onde veio todo este medo?

O número 666 chama-se Aleister Crowley
Nascido na Inglaterra em 1875, Aleister Crowley foi uma das maiores autoridades esotéricas de nosso tempo. Menino prodígio, Crowley lia a Bíblia em voz alta aos quatro anos. Incansável estudioso das denominadas ciências ocultas, deixou uma vasta obra teórica, onde tenta mostrar como desenvolver e entrar em contato com a energia interior, e usá-la produtivamente para modificar por completo a vida. Crowley afirmava que essa energia que durante muito tempo procurou desenvolver através de ritos sexuais seria totalmente liberada com a chegada da Nova Era, período em que as leis sociais seriam definitivamente rompidas para que todos pudessem finalmente viver em plenitude. Crowley, que se auto-intitulava a Grande Besta 666, para desvincular-se totalmente de preconceitos religiosos, esforçou-se durante toda a sua vida para popularizar o esoterismo, e mais de uma vez revelou segredos de seitas fechadas, afirmando que o conhecimento é livre, e assim deve permanecer.
Somente por volta de 1904, quando Aleister Crowley assume o título de “To Mega Therion” (A Grande Besta), cuja soma numérica é 666 (Tiferet), e começa a ficar realmente famoso nos jornais europeus é que a associação entre o número e o Livro do Apocalipse passa a ser convenientemente explorada pela Igreja e pelos alucinados de plantão.
Crowley chamou tanta atenção para a magia que a Igreja não mediu esforços para demonizá-lo. A partir de Crowley, a associação entre 666 e magia e consequentemente magia e bruxaria e diabo que é o caldeirão de medos que a Igreja sempre gosta de agitar.
Em 1904-1910 surgem os primeiros panfletos e matérias alertando para o número 666 e a distorção sobre o “anticristo” (quando já percebemos que, na verdade, não existe um anti-cristo pois ninguém será contra o ser crístico que habita dentro de todos nós, mas sim contra as bases ditatoriais e dogmáticas da Igreja Católica/evangélica).

A partir de então, foi uma enxurrada de sensacionalismo barato associando bruxas, diabos, satãs, anti-cristos e tudo mais que você puder imaginar relacionado ao “Número da Besta”. Da mesma forma, a partir da metade do século XX, quando Anton la Vey funda a Church of Satan (Igreja de Satã) e adota o 666 como “número da sorte” (e, na minha opinião, laVey não fazia a menor idéia do que realmente representa o 666), ele passa definitivamente para o imaginário popular como associado ao final dos tempos, ao capeta, ao tinhoso e toda a ladainha de livros, filmes e textos que vocês estão cansados de saber…

Onde está Crowley?

Darei detalhes sobre Crowley, LaVey, MLO, ONA, ToS, CoS, LHP, o satanismo moderno, satanistas de orkut (também conhecido como “mamãe, olha como eu sou malvado!”), músicas, jogos e outras modas “satânicas” nas próximas colunas.

Resumindo, o que é necessário ser compreendido (para que possa ser ultrapassado), é que o número 666 jamais pôde (pode e poderá) estar associado a um ser humano específico, a uma organização particular, ou ainda, a quaisquer regiões, cidades ou países. Então as maluquices de associá-lo a Nero, a Júlio César, aos templários, ao Bill Gates, ao George Bush, ao Osama Bin Laden ou a qualquer outra pessoa não passam de invencionices sem nenhum fundamento ocultista.

65!

#ICAR

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/666-the-number-of-the-beast

Santo Daime e Ayahuasca

Por Acid Zero.

Antes de mais nada, “Santo Daime” é o nome de uma doutrina da linha do Mestre Irineu que, segundo eles, faz “uso ritual das plantas expansoras de consciências dentro de um contexto apropriado”. Foi a doutrina que se tornou mais popular no Brasil, e por isso a bebida que eles fazem uso (Ayahuasca), rebatizada por eles de Santo Daime, acabou se tornando sinônimo de Ayahuasca para a maioria leiga (eu incluso), assim como Gillette se tornou sinônimo de lâmina de barbear. Mas chamar a bebida de “Santo Daime” dentro de outras doutrinas que fazem uso da Ayahuasca é como visitar a fábrica da Assolan e chamar de Bombril as esponjas de aço deles… Entretanto, o título do post continua, por uma questão de melhor identificação pra quem busca informações.

INTRODUÇÃO

Certa vez fui convidado a assistir a uma palestra da União do Vegetal (UDV), para escolher se tomaria ou não a Ayahuasca. Foi uma explanação interessante, onde era dito que o chá não criava dependência, não era droga, buscava a evolução espiritual, e tal… Saí de lá confuso, afinal, qualquer coisa que eu tome para deliberadamente alterar minha consciência pra mim é droga. Seja um sonífero, aspirina ou cocaína, estarei brincando perigosamente com meu cérebro.

Resolvi decidir só após consultar Oráculo. Ela não disse pra eu ir ou não ir, mas foi taxativa: aquilo é droga, assim como maconha. Falou pra eu estudar sobre os princípios ativos, e que a maioria das experiências que as pessoas têm lá são alucinações.

Acabei não indo, afinal não tenho a MENOR curiosidade em experimentar drogas alucinógenas. Alguns parentes foram, tiveram experiências boas, outras ruins, e logo deixaram de freqüentar. Pra mim não é através de experiências alucinógenas que uma pessoa alcança a iluminação. Jesus, pelo que se sabe, não usou drogas (e muito menos recomendou-as). Buda também não. Gandhi e Sócrates também não… Ao contrário, participaram ativamente de sua REALIDADE, procurando modificá-la através do Amor, do bom-senso, da responsabilidade para com o mundo e com as pessoas, e principalmente das AÇÕES.

A BEBIDA

A Ayahuasca (Vegetal, Uasca ou Santo Daime) é uma mistura de duas plantas (Cipó Mariri e Chacrona) que, após cozidas, resultam num chá de gosto amargo e alucinógeno, que normalmente evoca visões e imagens religiosas (a chamada “miração”), costumando por vezes provocar vômitos ou diarréia em quem toma (por isso os locais onde a beberagem é consumida são equipados de algum tipo de “vomitório”, e recomenda-se comer pouco nos 3 dias anteriores).

O RITUAL

O Santo Daime preserva o caráter sagrado da festa e da dança, oriundo do catolicismo popular. Convivem no seu panteão mítico Deus, Jesus, a Virgem Maria, os santos católicos, entidades originárias do universo afro-brasileiro e seres da natureza. Também são louvadas as figuras do Mestre Irineu, identificado com Jesus Cristo, e do Padrinho Sebastião, “encarnação de São João Batista” — de onde são derivadas algumas concepções messiânicas e apocalípticas. Do espiritismo kardecista são reelaboradas noções como as de karma e reencarnação. Os indivíduos possuem dentro de si elementos de uma “memória divina”; ao mesmo tempo, podem, através do próprio comportamento, alterar seu karma, “evoluindo espiritualmente” em direção a sua “salvação”. Em consonância com os sistemas xamânicos, verifica-se a existência de uma “guerra mística” entre os homens e os seres espirituais. Os daimistas são concebidos como os “soldados do Exército de Juramidam”, empenhados numa “batalha astral para doutrinar os espíritos sem luz”. Todo o ritual está permeado por um espírito militar com ênfase na ordem, na disciplina.

Na união do Vegetal (UDV) a cerimônia costuma ter a duração de quatro horas e são dirigidas ou pelo Mestre ou por quem tenha ele designado. A presença do Mestre ou do seu delegado é imprescindível para garantir a necessária concentração e o alto nível do ritual. Após terem bebido a Oaska, os participantes da sessão permanecem sentados até o fim da cerimônia. O Mestre faz então as “chamadas” (cantos iniciáticos) de abertura e inicia a doutrinação espiritual, na qual se pode intercalar alguma peça musical, para criar um clima propício a ter boas “mirações”. Nessa ocasião os discípulos têm a oportunidade de ouvir aquilo que eles mais precisam de ouvir, pois o Mestre atua como canal de ligação com a “Força Superior”, da qual provêm todos os ensinamentos espirituais. Encerrada a doutrinação, os participantes têm a oportunidade de se expressar e fazer perguntas ao Mestre. Chegada a hora de encerramento, o Mestre entoa as “chamadas” finais e dá por finda a sessão.

Já no Daime eles acrescentam a isso trabalhos espirituais de concentração (com períodos de meditação) ou bailado (execução de uma coreografia simples), podendo chegar a produzir um verdadeiro êxtase coletivo. Há também trabalhos de missa (para os mortos) e rituais de fardamento (momento em que o indivíduo adere oficialmente ao grupo, passando a usar suas vestimentas). Recentemente, vem ganhando força alguns ritos onde ocorre incorporação de espíritos, produto das influências crescentes da umbanda nesta instituição.

OS EFEITOS

O efeito alucinógeno do chá, embalado pelo ritual e egrégora do local, produzem as “mirações”, imagens contempladas durante a “burracheira” (efeito da bebida) que podem se manifestar de formas variadas: ora são duradouras, ora fugazes; ora nítidas, ora dotadas de tênues contornos; ora de aparência assustadora, ora de grande beleza. Muitas vezes as mirações revelam fatos do passado, às vezes de um passado anterior à atual encarnação. E, segundo eles, até mesmo o futuro pode ser revelado. Na verdade, as mirações constituem recursos de ilustração utilizados pela burracheira para revelar ensinamentos e o estado de espírito de cada um. Em todas é possível encontrar um significado; todas pedem uma decifração. Mas a forma pela qual elas revelam seus conteúdos é também extremamente variável: às vezes são bastante claras e diretas; outras vezes são enigmáticas e oraculares. Por este motivo, os discípulos podem precisar do auxílio do Mestre para conseguir compreender o seu significado.

Algumas vezes pode ocorrer, associada a limpeza (vômitos), uma experiência de intenso sofrimento, que os daimistas chamam de “peia”, ou “surra do Daime”. A peia está associada também a outros processos fisiológicos incômodos ou aparece, ainda, sob forma de pensamentos ou sensações. Apesar de extremamente desagradável — incluindo visões aterradoras de monstros, vermes, trevas, sensação de morte ou medo intenso, enfim, toda classe de tormentos conhecidos ou não — a peia produziria efeitos benéficos, didáticos e transformadores.

Os defensores da planta dizem que ela provoca uma limpeza física ou energética do canal ou instrumento que a usa, “pois luz não habita em templo sujo”. Então, se você estiver com problemas, numa baixa vibração, ou tiver ingerido carne ou comida pesada, vai vomitar copiosamente, ter diarréia de se acabar, ficar enjoado, etc. Só que qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de biologia sabe porque o organismo expulsa e rejeita certas substâncias estranhas, quando ingeridas…

Existem denúncias de que o uso deste chá faz mal, a longo prazo, tendo como um dos efeitos adversos o eventual retorno da “miração” nas horas mais inadequadas, e os mais puristas até alegam que o chá apresenta riscos para a tela búdica dos usuários, ou seja, poderia fazer mal até nas próximas encarnações. Nada disso, entretanto, está confirmado, assim como não se dispõe de estudos científicos sobre os efeitos à longo prazo da ingestão do Daime.

O chá contém dois alcalóides potentes: a harmalina, no cipó, e a dimetiltriptamina (DMT), que vem da chacrona. O DMT é uma substância controlada e foi proscrita para uso humano pelo Escritório Internacional de Controle de Narcóticos, órgão da ONU encarregado de estudar substâncias químicas e aconselhar os países membros quanto à sua regulamentação. O governo dos EUA afirma que seu uso é perigoso mesmo sob supervisão médica, e seu uso é proibido em países que possuem legislação anti-drogas, mas recentemente os EUA liberaram o uso APENAS para uma pequena seita brasileira em território americano, enquanto no Brasil ele é liberado para uso religioso. Advogados da União do Vegetal (UDV) dizem que especialistas atestaram que o chá é inofensivo, mas o CONAD (Conselho Nacional Antidrogas) em seu parecer não fala nada sobre ser inofensivo, e libera apenas seu uso terapêutico, em caráter experimental, e que o “controle administrativo e social do uso religioso da ayahuasca somente poderá se estruturar, adequadamente, com o concurso do saber detido pelos grupos de usuários”. Lembrando que o LSD também já foi permitido legalmente, e que no Canadá a maconha é liberada para uso terapêutico também… o problema não são as drogas, mas o uso que se faz delas…

No site do IPPB, vemos no artigo do Dr. Luiz Otávio Zahar que explica que “a DMT (dimetiltriptamina) é naturalmente excretada pela glândula pineal, e que desempenha um papel no processo de sonhar e possivelmente nas experiências próximas à morte e em outros estados místicos. A mistura das duas plantas potencializa a ação das substâncias ativas, pois o DMT é oxidado pela enzima Monoaminoxidase (MAO), a qual está inibida pela harmina, acarretando um aumento nos níveis de serotonina, o que causa impulsão motora para o sistema límbico no sentido de aumentar a sensação de bem-estar do indivíduo, criando condições de felicidade, contentamento, bom apetite, impulso sexual, equilíbrio psicomotor e alucinações.”

Ou seja, você está ingerindo uma dose cavalar de uma substância que deveria ser naturalmente produzida pelo corpo, afetando uma parte importantíssima como o cérebro.

Lázaro Freire, da lista exotérica Voadores, explica o processo:
Há uma aceleração vibracional desordenada, onde cada chakra entra num estado vibracional de freqüência diferente. Não sei se isso é bom ou mal, se vale a pena ou não (essa resposta depende de cada um, e do que conseguirá com o processo), mas me parece um método estranho que, alterando as freqüências vibracionais / conscienciais das (áreas) corpóreas e cerebrais, só pode mesmo levar a uma saída (expulsão) do corpo físico. Além do mais, encontrei exatamente o que imaginava encontrar, do lado de lá; com detalhes de controle, e influências tanto projetivas reais quanto oníricas aceleradas pelo uso do FORTÍSSIMO alucinógeno.

A ORIGEM

A ingestão ritual de Ayahuasca por parcelas da população urbana inicia-se no Brasil, na década de 30, em Rio Branco, Acre, com o culto ao Santo Daime, sistematizado por Raimundo Irineu Serra, que atribuiu à Ayahuasca a denominação “Santo Daime” e fundou o “Centro de Iluminação Cristã Luz Universal – CICLU Alto Santo”. No final da década de 60, em Porto Velho, Rondônia, José Gabriel da Costa organizou outro grupo ayahuasquero, denominando-o “União do Vegetal” (UDV), visto que nele a Ayahuasca é chamada de “Vegetal”. O processo de divergências e de desdobramentos dos núcleos originais propiciaram a expansão das religiões ayahuasqueras por grande parte do território nacional e mesmo pelo exterior.

As religiões ayahuasqueras estão atualmente divididas em três “linhas”:
Uma, a do Mestre Irineu, fundador da seita. Não admitem incorporação, praticando estritamente o xamanismo, e não aderem e nem mesmo toleram o uso de outros psicoativos que não a Ayahuasca.
Outra, do Mestre Gabriel (União do Vegetal).
Outra ainda, a do Padrinho Sebastião Mota, do CEFLURIS (dissidência do CICLU). Esse grupo atraiu acadêmicos, jornalistas, artistas, estudantes e diferentes categorias de profissionais liberais empenhados em torná-lo objeto de estudo, notícia ou modo de vida. Algumas conseqüências decorreram dessa aliança, entre elas a adoção (não endossada pelo CEFLURIS) de muitos dos costumes e crenças dos jovens urbanos, a exemplo do controvertido uso “ritual” da Cannabis sativa (Maconha, que é chamada por esses usuários de “Santa Maria”) e Cocaína (conhecida por “Santa Clara”). Emiliano Dias Linhares, conhecido como “Gideon Lakota” (do CICLU), fez denúncias graves contra o CEFLURIS neste vídeo, em que acusa a seita de ser ponto de distribuição de drogas ilícitas.

Entretanto, é enorme o número de depoimentos de pessoas que faziam uso de álcool e drogas pesadas, foram atraídas a um desses grupos e ficaram curadas. Mas não sabemos o número de pessoas que continuam dependentes, por isso fica aqui o alerta aos pais: se seu filho(a) enveredar em qualquer um desses grupos, procure ir com ele, mesmo que não beba o chá. Procure conhecer as práticas, e principalmente os freqüentadores destes locais. Um grupo que se reúne regularmente pra tomar alucinógenos, mesmo que em uso ritual e por motivos nobres, por melhor que seja a orientação espiritual da casa, pode acabar atraindo pessoas interessadas APENAS na bebida e seus efeitos, sem nenhum comprometimento espiritual nem interesse em desenvolver-se no autoconhecimento. Pra ilustrar o que estou falando, entre no Orkut e digite “Ayahuasca”. A primeira comunidade que aparece, com o maior número de pessoas, é “Ayahuasca sem dogmas” que, pelas opiniões expostas, procura deslocar a bebida de seu contexto religioso (o que agride frontalmente a liberação do CONAD, baseada no relatório final do GMT), com pessoas oferecendo o chá a quem quiser. O problema não é a doutrina, são as pessoas que se acercam da doutrina com interesses outros, SEM PREPARO, SEM SUPERVISÃO, verdadeiros irresponsáveis que podem acabar influenciando pessoas para o uso de drogas mais pesadas. Tanto isso é verdade que, mesmo na linha de Irineu, que é rígida e não permite quaisquer outras drogas, soube-se que já teve membros presos no exterior por tráfico de drogas.

Lázaro explica os perigos:

No contexto xamânico de vários povos as ervas são usadas em eventos com conotação espiritual, visando uma determinada iniciação dentro daquele nível. Já no contexto urbano, pode ser usado como fuga da realidade. Conheço vários casos assim: as pessoas usavam porque não aguentavam conviver com um nível de realidade duro como a vida física na Terra. A substância acelera o acesso ao inconsciente, com tudo de bom ou de doentio que estiver ali. Pode ser interessante para alguns, sagrado para outros. Mas como tudo que tira a consciência do normal, e/ou altera abruptamente os estados cerebrais, tem seus preços. Neurológicos e, principalmente, psicológicos.
A mente tende sempre à compensação. O uso excessivo de Prozac, por exemplo, leva a pessoa à depressão. Café demais excita, e quando passa o efeito você se sente cansado. Cocaína deixa a pessoa entusiasmada, mas a compensação disso a faz insegura quando não usa a substância. TUDO na mente humana é assim, e o preço do acesso “espiritual” do daime é CARÍSSIMO, em termos psicológicos posteriores. A não ser, claro, que a pessoa tome mais, para ter de novo o acesso e miração, e assim sucessivamente. Dependência psicológica. E depois, sem o “espiritual” miraculoso, a vida “comum” passa a ser mais e mais vulgar. E começa tudo outra vez. Com o agravante de que até mesmo as formas de contato espiritual parecerão fúteis, afinal, como comparar com o barato do Daime? Então, essa é uma droga que rouba do dependente até mesmo o seu direito à conexão espiritual…

#ayahuasca #santodaime

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/santo-daime-e-ayahuasca

As Correntes do Budismo

Enquanto viveu Siddhartha Gautama (o Buda Sakyamuni), sua doutrina era oralmente transmitida. Com a sua morte, foi preciso reunir na cidade de Rajagriha o primeiro concílio budista. Este teve o fim de fixar em língua Pali os fundamentos da sabedoria do Senhor Buda. Assim, foram compostos os Tripitaka (Coleção de Três Livros). No primeiro ficaram reunidos os sermões de Sakyamuni. No segundo, as regras disciplinares da comunidade de monges. E no último, uma coletânea de comentários adicionais.

Cem anos mais tarde, idéias reformistas reuniram em Vesali o segundo concílio budista. A partir daí ficou o Budismo dividido em duas grandes correntes:

A corrente ortodoxa Theravada (Escola dos Antigos) caracteriza-se por seguir literalmente aos Tripitaka e por acreditar que a Iluminação Budista é somente alcançada mediante a observância dos preceitos monásticos. Daí vir ser conhecida como a corrente Hinayana (Pequeno Veículo) do Budismo.

A segunda corrente, a reformadora, diz que todos os seres originalmente possuem a Semente da Iluminação Budista, estando esta ao alcance de todos, mesmo os sem compromisso monástico. Portanto, é a corrente Mahayana (Grande Veículo) do Budismo.

No Mahayana, o esforço individualista na conquista no Nirvana (Iluminação Búdica) cede lugar à compaixão do Bodhisattva (aquele que renuncia à sua iluminação para que possa orientar os seres à compreensão do Caminho de Buda).

A corrente Theravada difundiu-se para o Ceilão, Birmânia, Camboja, Vietnã, Indonésia e Tailândia. O Mahayana multiplicou-se em inúmeras escolas surgidas da miscigenação com diversas seitas da Índia. Ramificou-se para o Tibet, China, Coréia e Japão.

Adaptado de Shingon Shu – Budismo Esotérico

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Aoi Kuwan é autora do blog Magia Oriental, dedicado à divulgação das tradições e sistemas de magias orientais, especialmente aqueles ligados ao Japão.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-correntes-do-budismo

A Maturidade, a Religião e os Iniciados

Há ocultistas e iogues entoando mantras demais e vivendo de menos. Tentam o despertar da Kundalini, mas não se preocupam tanto com o despertar do coração.

Elaboram rituais variados e seguem “cartilhas iniciáticas”. Contudo, enrolam-se no mais simples: Viver!

Trajam indumentárias iniciáticas ou mantos de renúncia, mas não se vestem com a luz da modéstia.

Mortificam o corpo físico, através da repressão sexual, jejuns forçados ou perfurando-o com objetos exóticos. No entanto, o corpo mental (morada da consciência, o eu real) e o corpo espiritual (o verdadeiro corpo de luz), continuam obscurecidos pela falta de discernimento e compaixão.

Praticam um misticismo exacerbado e costumam apresentar credenciais e títulos iniciáticos, que, na verdade, não provam grau de espiritualidade alguma, mas sim grande grau de vaidade.

Gostam de usar senhas esotéricas (herméticas), mas não notam que a própria vida é amplamente exotérica (aberta, clara, explícita).

Almejam o samadhi, mas o seu corpo físico lhes reclama a justa atenção: são obrigados a ir ao banheiro todos os dias.

Falam muito em união espiritual e consciência cósmica. No entanto, muitos são nacionalistas ferrenhos. Alguns, inclusive, são racistas. Apesar desse absurdo, dizem que estão trilhando a senda da luz.

É por essas e outras que o meu amigo espiritual, Rama, disse certa vez: “A grande iniciação não é realizada dentro de nenhum obscuro templo esotérico, mas sim dentro do templo luminoso do coração, onde mora o maior mestre de todos: o amor!”

Geralmente o fanático religioso quer impor a sua doutrina a ferro e fogo aos outros. Perante o seu olhar turvo de radicalismo, ele só vê infiéis a serem convertidos. Não admite a liberdade de expressão do pensamento alheio e, se precisar, é capaz até de brigar para impor o seu ponto de vista.

O fanatismo leva geralmente à intolerância, e esta, fatalmente ao combate.

O fanatismo nada tem a ver com Jesus, Krishna e Buda, pois esses mestres ensinaram o “amai-vos uns aos outros” (Jesus), a alegria de viver (Krishna) e o respeito pelos outros (Buda).

O fanático demonstra pela sua própria postura agressiva que a compreensão não é o seu forte. Aliás, é curioso o estranho paradoxo em que vive o fanático religioso: se por um lado ele prega a compaixão, a união, o respeito e a religiosidade, por outro lado ele ameaça, ataca, excomunga e até briga com aqueles que não partilham seu ponto de vista.

É de se perguntar então:

– Há algo em comum entre amor e excomunhão? Entre respeito e intolerância? Entre liberdade de expressão e doutrinação repressiva?

“Ide e pregai“, como ensinava o apóstolo, não significa “ide e ameaçai”, como faz o fanático.

“Amai-vos uns aos outros” não significa amai uns e não a outros.

Na etimologia do termo “religião“, vemos que a sua origem vem de “religar-se“, que significa “religar” o homem ao seu Criador. Em outras palavras, “Unir“!

Infelizmente, parece que o fanático não entende assim. O seu radicalismo o torna ácido, antipático e chato ao extremo. Já não lhe importa tanto religar, ele quer mesmo é converter o infiel, não importa o quanto isso custe.

É por essas e outras que se diz por aí que o fanático não tem discernimento, pois se tivesse, não seria fanático, mas sim um livre pensador. Ou seja, uma pessoa interessante e criativa no mundo.

Ainda agora, dando uma olhadinha no material desse curso, fiquei pensando se esses escritos guardados há sete anos seriam interessantes para reflexões ponderadas de outros estudantes espiritualistas. De todo modo, serve como exercício de discernimento no estudo espiritual e também de alerta consciencial sadio.

Inclusive, há um texto excelente da pesquisadora italiana Angela Maria La Sala Batä que foi entregue aos alunos do curso citado como correspondência do tema “Maturidade consciencial”. Reproduzo-o logo abaixo como excelente complemento dos temas aqui escritos.

“Ouvi dizer que maturidade é o conhecimento, cada vez maior, de não sermos nem tão extraordinários nem tão incapazes como antes acreditávamos”.
“Maturidade significa saber conciliar aquilo que é com aquilo que poderá ser”.
“A maturidade não é uma meta, mas sim uma estrada”.
“O nível da maturidade de cada criatura é avaliado pelos limites das possibilidades que ela apresenta no momento”.
“O melhor método para se alcançar a maturidade ainda é a espiritualização do homem”.
“Um dos sinais fundamentais que distinguem o homem maduro é que ele não é fixo, não é estático, mas continua a crescer, a caminhar para frente, qualquer que seja a sua idade”.
“Não se pode definir a maturidade porque ela não é um ponto fixo, não é um ponto estático, mas é, antes de tudo, uma atitude interior”.
“Não se pode falar de homem maduro se ele é unilateral, fechado num único setor da vida e falho sob alguns aspectos”.
“Uma das maiores imaturidades do ser humano é a presunção (ou senso crítico de superioridade) que nasce do fato, quase inevitável, de que com o desenvolvimento do intelecto vem acentuar-se o senso do eu pessoal e da auto-afirmação. O senso de superioridade também gera o criticismo e a separatividade”.
“Dar não significa ‘privar-se’ de qualquer coisa, mas significa expandir-se, irradiar a própria energia, expressar a si mesmo, romper o muro da separação e da solidão que circunda os outros seres, vivificando-os com a força do próprio amor”.
“Que coisa alguém dá quando ama? Dá a si mesmo, aquilo que possui de mais precioso, dá uma parte de sua vida… Dá a própria alegria, o seu próprio bom humor, a própria tristeza, todas as expressões e manifestações daquilo que possui de mais vital”.

Texto de Wagner Borges

Veja também, no blog O Alvorecer:

– Diferenças entre Ricos e Pobres

– A História de uma Folha

– A Força da Vida

– Pesquisa revela energia liberada pelas mãos

– Acarajé não é de Jesus, é de Iansã

#Espiritualidade #oalvorecer

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-maturidade-a-religi%C3%A3o-e-os-iniciados

O Caminho do Darma, como nos ditou o Buda

As Edições Textos para Reflexão desta vez trazem a você o livro mais lido e traduzido do budismo, Dhammapada: O Caminho do Darma.

Segundo a tradição, ele teria sido composto pelas anotações dos discípulos que chegaram a conviver com o Buda. Ou seja, se trata do que nos foi ditado pelo próprio Buda. Monges budistas da vertente teravada registraram o Cânone Páli algumas centenas de anos após a morte do Buda. O Dhammapada é uma parte do Sutta Pitaka, que por sua vez é uma parte do Cânone Páli. Trata-se de uma coleção de 423 versos que nos demonstram como viver uma vida que conduza à iluminação. Quem consegue viver uma vida neste caminho, segue o seu Darma.

Disponível em e-book e versão impressa :

» Comprar eBook (Kindle)

» Comprar versão impressa (Clube de Autores)

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À seguir, trazemos um trecho do Prefácio (por Rafael Arrais, tradutor da obra):

Uma criança é um Buda que não sabe que é um Buda. E um Buda é uma criança que sabe que é um Buda. (Satyaprem)

Enquanto vivia sua juventude em meio ao luxo do palácio de sua família, o príncipe Sidarta era mesmo puro, puro como a criança que tem a sorte de viver uma infância de belezas. Diz-se que seu pai, o governante de Kapilavastu (um reinado que se situava ao sul de onde hoje existe o Nepal), tentou proteger o filho de qualquer tipo de sofrimento humano, e o criou dentro dos limites do próprio palácio, sem que tivesse contato com o que havia fora dele.

Quando fez 16 anos, Sidarta Gautama se casou com uma prima da mesma idade e com ela teve um filho. Até os 29 anos, o príncipe viveu uma vida sem grandes incidentes, tendo a sua mão todo o conforto material de que poderia necessitar, embora se diga que nada disto jamais o seduziu. Talvez faltasse algo naquela vida de contos de fada, afinal…

Inquieto em meio a uma vida de perfeições palacianas, aos 29 anos Sidarta resolve sair de seu palácio (sem o conhecimento do pai), acompanhado somente por um cocheiro, que pilotava a sua luxuosa carruagem. Diz-se que ele fez quatro viagens curtas para além das muradas palacianas, finalmente tendo contato direto com o mundo lá fora:

Na primeira viagem, avistou um homem velho e decrépito, apoiado num cajado. Seu cocheiro prontamente lhe explicou que envelhecer era o destino de todas as pessoas.

Na segunda viagem, avistou um homem doente e cambaleante, ardendo em febre. Seu cocheiro complementou que muitas doenças eram inevitáveis na vida.

Na terceira viagem, avistou um corpo já em decomposição, sendo conduzido a um cemitério local. Seu cocheiro explicou que ninguém poderia escapar para sempre da morte.

Desolado e deprimido, em sua quarta viagem o príncipe finalmente avista um monge mendicante calmo e sereno, mesmo conhecendo a velhice, a doença e a morte, como todos os demais que viviam fora dos palácios. Essa visão o consola e, ao mesmo tempo, estabelece um novo sentido para a sua vida: chega de palácios artificiais, chega de infância, Sidarta desejava ser adulto em meio ao sofrimento do mundo.

Numa noite, enquanto todos no palácio dormiam, saiu novamente acompanhado de seu amigo cocheiro, cada um montando um cavalo. Desta vez, a viagem seria bem mais longa…

A alguns quilômetros de distância de Kapilavastu, Sidarta parou, cortou os próprios cabelos com sua espada, trocou as roupas luxuosas pelos trajes simples de um caçador, e se despediu do amigo, que retornou ao reino com ambos os cavalos.

Transformado em monge andarilho sob a alcunha de Gautama (o nome da sua família), dirigiu-se para Vaisali, onde um mestre bramânico indiano, Arada Kalama, ensinava um sistema filosófico que ficou conhecido como sanquia. Aprendendo-o rapidamente, mas julgando-o insuficiente, ele deixa o mestre e se dirige a Rajagarra, capital do reino Mágada, ao sul do rio Ganges. Lá conhece o rei Bimbisara, que, seduzido pelo seu já vasto conhecimento, lhe oferece a metade do próprio reinado, mas o monge Gautama gentilmente recusa a oferta, e logo se torna discípulo de outro mestre, chamado Udraka.

Após apenas um ano, domina com facilidade as técnicas e a filosofia do yoga ensinado por Udraka, e parte rumo à cidade de Gaya acompanhado por cinco discípulos, que já o tinham como mestre. Gautama se estabelece num local aprazível nas proximidades de Gaya, e lá se submete, durante alguns anos, à ascese mais severa. Chegou a se alimentar com um único grão de milho por dia.

Meditando imóvel, magro como um esqueleto coberto de parcas camadas de pele, eventualmente recebeu o título de sakyamuni (“asceta entre os Sakya”, o clã dos Gautama). Ao atingir o extremo limite da mortificação, finalmente compreendeu a inutilidade da ascese total como meio de libertação do sofrimento do mundo, e decidiu encerrar aquela prática.

Diz-se que uma mulher piedosa, ao ver o seu estado deplorável, lhe ofereceu um pote de arroz cozido. Para a imensa surpresa de seus discípulos, que naquela altura o veneravam, o monge Gautama aceita a oferta e devora o alimento. Consternados, seus cinco discípulos o abandonam a própria sorte…

Milagrosamente restaurado pelo arroz, Sidarta dirige-se a um bosque próximo, escolhe uma árvore (que eventualmente foi chamada de bodhi-druma, sânscrito para “a árvore do despertar”) e se senta ao pé de suas raízes, decidido a se levantar somente após haver obtido o “despertar”, ou seja, uma forma de se livrar definitivamente do sofrimento da existência.

Diz-se que, durante as sete semanas em que permaneceu aos pés da árvore, Sidarta foi tentado e atormentado inúmeras vezes pela entidade conhecida como Mara, que reinava sobre a morte. Ora, Sidarta ameaçava ensinar aos homens e mulheres a se libertarem definitivamente do ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos, portanto era natural que Mara quisesse impedi-lo.

Em suas reflexões internas, Sidarta avançava rapidamente, estava a um passo de se tornar Buda, “o desperto”. O último recurso de Mara foi lhe oferecer a passagem imediata para o Nirvana, o estado além da vida onde o príncipe se encontraria livre, para sempre, dos ciclos de mortes e renascimentos. Sidarta lhe respondeu que só aceitaria entrar no Nirvana após ter estabelecido naquele mundo uma comunidade instruída e bem organizada, que soubesse ensinar o caminho da libertação…

Assim, após sete semanas aos pés da árvore do despertar, o príncipe Sidarta Gautama venceu definitivamente a tentação de Mara, e se ergueu como o Buda, o primeiro desperto, o primeiro ser que conheceu o caminho para a libertação do sofrimento.

Aos 35 anos, o Buda iniciou sua peregrinação pelos vilarejos, pequenas cidades e grandes reinados dos arredores da região onde atingiu a iluminação. A pé, carregando pouco mais que a roupa do corpo, acompanhado por dezenas de discípulos (dentre os quais, aqueles cinco que lhe haviam abandonado), o Buda passou 45 anos ensinando as chamadas quatro nobres verdades que conduziam ao Darma, o caminho para a iluminação: a existência do sofrimento; a origem do sofrimento; a interrupção do sofrimento; e o caminho que nos leva à cessação do sofrimento.

A criança havia perdido sua pureza, e conhecido as dores da vida adulta. Mas, ao contrário de tantos outros, o adulto havia encontrado um meio para se libertar definitivamente de todo o sofrimento, e alcançar novamente a pureza infantil, mesmo tendo conhecido a dor. Sidarta era novamente como uma criança, mas era também um Buda que sabia que era um Buda.

Aos 80 anos, depois de padecer de uma forte diarreia em decorrência, provavelmente, de haver ingerido carne de porco estragada, o Buda se despediu deste mundo e pôde finalmente alcançar o Nirvana. Diz-se que isto se deu no nordeste da Índia, na cidade de Kushinagar. A data provável é o ano de 483 a.C.

Assim viveu e morreu, quiçá pela última vez, Sidarta Gautama, o Buda, o homem que trouxe o budismo a este mundo.

#Budismo #Darma #eBooks #espiritualismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-caminho-do-darma-como-nos-ditou-o-buda

Jesus no Pé de Goiaba e o Tao

Por Gilberto Antônio Silva

Há pouco tempo vimos com assombro a repercussão negativa de um desabafo da então futura Ministra de Mulheres, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, contando sua infância sofrida e a salvação pro meio de uma experiência mística. Aos seis anos de idade ela foi estuprada por um pastor, que prosseguiu no ato repetidamente por dois anos. Outro abusou sexualmente dela, mais tarde. Aos 10 anos ela resolveu se matar e subiu em uma goiabeira onde costumava ir chorar para ninguém ver. Estava com “chumbinho”, veneno de ratos. Nesse momento ela viu Jesus e o saquinho de veneno caiu de suas mãos.

Um relato trágico que, no entanto, foi motivo de chacota pelas redes sociais por conta de sua visão de Jesus. Algumas pessoas, quando souberam a história inteira, se calaram e passaram a respeitar a dor dessa corajosa mulher nordestina, que apesar dessa dor que ainda sente, não cala seu relato de modo a trabalhar em prol das crianças que sofreram o mesmo tipo de abuso e a evitar futuros casos.

Outras preferiram ignorar a história dessa mulher e focar apenas na visão de Jesus, considerada por ela como um “amigo imaginário” de sua infância, como prova de problemas mentais e fanatismo religioso. Sim, ela é cristã e evangélica, logo deve ter um “parafuso solto” e estar pronta para “oprimir o povo”. Sim, eu tive que ler essas coisas. Além de ter tido a visão e ser cristã/evangélica, ela será ministra do Presidente Bolsonaro, um pecado superior a todos os demais.

Notei, especialmente no meio acadêmico, especial rejeição à experiência da futura ministra. Um de meus colegas de universidade postou o seguinte comentário, ao saber dos abusos:

Agora faz sentido o relato histérico dela sobre Jesus. Deve ser estresse pós traumático devido ao abuso. Ela precisa de ajuda.

Outros compartilharam da ideia de que uma experiência religiosa é apenas “alucinação” ou “viagem”. Nada de novo, por certo. A visão acadêmica materialista que domina o meio intelectual se choca terminantemente com qualquer tipo de ação ou conhecimento que não se origine do mundo físico, palpável, facilmente escrutinado com os cinco sentidos ordinários. Mas possuir essa percepção materialista e cética, no sentido coloquial, do mundo é a atitude mais fácil e confortável. Ora, é muito simples que se admita apenas o que podemos perceber diretamente e que se ignore (ou se negue) a possibilidade de existência de alguma coisa fora disso. Um peixe pode enxergar o mundo dessa forma.

Essa percepção parte de outra ideia fixa, a de que a ciência é a única maneira real de se conhecer o mundo, o que é inteiramente falso. É apenas uma delas. O interessante é que um dos argumentos mais utilizados para demonstrar a superioridade da ciência é que ela pode ser provada por ser precisa. Ora, a ciência é precisa justamente porque é limitada, opera dentro de uma caixa de leis e regulamentos. Dentro dessa caixa ela é soberana e procura explicar tanto qualitativamente quanto quantitativamente o que nos cerca. Mas não explica tudo.

Outro modo de se conhecer o mundo são as religiões, incluindo e destacando as de cunho oriental que são alicerçadas em uma filosofia própria com sustentação na experiência e na percepção pessoal. E aí se afigura um dos grandes problemas com esse conhecimento: as experiências são PESSOAIS. Uma pessoa precisa estudar e praticar determinados exercícios e meditações, muitas vezes por décadas, até que se comece a adquirir essa faculdade de contato com o que eu chamo de “invisível” (escrevi alguns artigos sobre isso anteriormente).

Se um desses céticos chegar a um Yogue que teve uma experiência com o divino e exigir “prove!”, ele será direcionado a estudar e executar as mesmas práticas que o Yogue fez para tentar obter a mesma experiência. Mas poucos estão propensos a fazer isso e mais: de mente aberta. Essa é uma condição inegociável. Mesmo assim, podem não chegar à mesma experiência que o Yogue ou ter uma outra inteiramente diferente. Porque essa relação com o invisível é PESSOAL.

Então a Ministra Damares teve uma mera alucinação? É possível. Ela teve uma experiência transcendente verdadeira? É possível também. O problema é que a ciência não consegue separar os dois casos, pois tanto a alucinação quanto as visões verdadeiras estão situadas em uma mesma região do córtex cerebral, responsável pela capacidade visual. Daí as pessoas “verem” Buda, Jesus, Laozi, Nossa Senhora, etc. O mecanismo visual é o mesmo que usamos na vida cotidiana.

Esse tipo de experiência transcendente é bastante comum em religiosos, profetas e grandes líderes espiritualistas.

O Cristianismo está repleto de relatos deste tipo, como as famosas visões em Fátima. Mesmo na China, uma visão de Nossa Senhora aterrorizou grupos armados que queriam destruir uma igreja católica em 1900, preservando a construção e seus fiéis. No Islamismo, Muhammad recebeu revelações de Deus (Allah) através da visão do Arcanjo Gabriel, que foram depois transcritas por seus discípulos no texto conhecido como Quran, que é o texto central do Islã.

Zhang Daoling, estudioso do Taoismo, teve uma visão divina no ano de 142. Laozi apareceu para ele como a divindade Taishang Laojun, que lhe passou o Zhengyi Meng Wei (“Doutrina da Poderosa Comunidade da Unidade Ortodoxa”). Zhang assumiu o título de Mestre Celestial e fundou o ramo Zhengyi do Taoismo religioso, a primeira vez em que o Taoismo assumia caráter de religião. Esse ramo taoista ainda existe hoje e é um dos principais, tendo o atual Mestre Celestial radicado em Taiwan.

Embora esse tipo de experiência possa ser de grande valor, nem sempre é indicativo de elevação espiritual, como atestam mestres indianos, chineses e japoneses. Conta-se que um discípulo Zen obteve uma visão de Buda durante uma meditação. Correu a contar ao seu Mestre, acreditando tratar-se de grande avanço no caminho. O Mestre olhou com condescendência para o discípulo e comentou: “Continue meditando, isso passa”. A perspectiva de que algumas dessas experiências sejam consideradas como uma distração do Caminho e não um conhecimento real mostra a seriedade e o domínio desse tipo de conhecimento nas escolas orientais. Mas é necessário ter passado pela mesma experiência ou outra similar para poder orientar outros a respeito de sua validade.

Esse tipo de experiência muitas vezes envolve a fé, que nada mais é do que uma forma de conhecimento. Fé não é mera crença, como entendem os céticos e materialistas. Você pode acreditar ou não em Papai Noel, em Disco Voador ou no Saci Pererê. Mas fé é CERTEZA. Essa é a força da fé: ela não parte de mero conhecimento superficial, mas começa quando se apreende uma Verdade completamente, com o corpo e o espírito. Falamos, obviamente, de fé verdadeira e não do mero autoengano que não passa de conhecimento superficial. A fé parte de dentro, do coração, de algo maior e inunda todo o seu ser.

Paramahansa Yogananda afirmou certa vez: “a fé significa ampliar a sua percepção intuitiva da presença de Deus dentro de você e não contar com a razão como a sua principal via de conhecimento”. Vemos que fé é conhecimento além da razão, o que não significa que não faça sentido, mas que não pode ser compreendida apenas com o intelecto. Por conta disso, não pode ser explicada racionalmente, assim como as visões e contatos com o Divino. É um conhecimento que compreendemos perfeitamente, mas que não podemos explicar apenas através do intelecto.

Laozi solta essa bomba logo nas primeiras linhas do primeiro capítulo do Daodejing:

“O Tao que pode ser expresso não é o Tao constante

O nome que pode ser enunciado não é o Nome constante”

O Tao é o nome do inominável, é algo muito além do plano intelectual, que possui as limitações do mundo físico. Não significa que não pode ser compreendido, mas que não pode ser explicado de modo racional-analítico. Mais ainda: se você puder explicar, não é o Tao! É necessário que se apreenda esse conhecimento diretamente, a partir de fontes não materiais.

Diante disso tudo, percebemos que não podemos efetuar um julgamento intelectual ou moral da visão de Damares, mas apenas analisar o resultado disso – sua sobrevivência para lutar por outras crianças nas mesmas condições. Acredito que toda experiência transcendente deve ser analisada pelo seu resultado, e não se prender apenas na discussão de sua autenticidade visto que é uma experiência pessoal não acessível ou reproduzível por outros. Sabemos o que aconteceu com as visões de Fátima, de Muhammed e de Zhang Daoling. O conhecimento transmitido ainda hoje impacta nosso mundo de maneira profunda. Não é algo que pode ser menosprezado.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, é um dos mais importantes pesquisadores e divulgadores no Brasil dessa fantástica cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

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Nietzsche e Zaratustra

Conhecia Nietzsche das aulas de filosofia. Mas tudo o que aprendemos na escola são rótulos e classificações de pensamento (como se os filósofos pudessem ser etiquetados). Graças à minha falta de memória, felizmente esqueci por completo que Nietzsche foi classificado de niilista; assim, pude ler Assim falou Zarathustra livre de qualquer preconceito. Redescobri Nietzsche graças a um texto de Osho, que o citava para explicar justamente uma coisa que Oráculo me exortou a fazer de agora em diante: viver aqui na Terra, PARA a Terra. Procurei o livro na net e só encontrei uma versão em inglês. Quase tive um Samadhi ao ler o capítulo “Virtude Dadivosa!” O cara é praticamente um dos “patrocinadores” deste blog! Um gênio ácido com um profundo sentimento espiritualista à frente de seu tempo. Ou, como comentei certa vez, um budista enrustido.

Quis compartilhar com os leitores deste blog e procurei uma versão em português, mas qual a minha decepção quando vejo que a tradução desvirtua o texto (e olha que o original é em alemão e deve ter perdido coisas na tradução pro inglês). Já que eu tive de rever todo o texto, aproveitei pra eliminar a linguagem rebuscada que atrapalhava o fluxo da leitura e impede o livre acesso ao fumus bono, o âmago do pensamento filosófico do autor.

Da Virtude Dadivosa (trechos da parte 2):

“Permaneçam fiéis à Terra, meus irmãos, com todo o poder da sua virtude. Devotem seu amor incondicional e seu conhecimento para que tenham um significado aqui na Terra. Assim vos rogo, e a isso vos conjuro. Não deixem vossa virtude bater asas, fugindo das coisas terrestres para ir se chocar contra paredes eternas. Ah, e tem havido sempre tanta virtude extraviada!

Conduzam, assim como eu, a virtude extraviada de volta pra Terra; Sim, restituam-na ao corpo e à vida, para que dê à Terra o seu sentido, um sentido humano. Deixem seu espírito e sua virtude serem devotados a um sentido terrestre, meus irmãos: deixem o valor de tudo ser determinado novamente por vocês! Para isso devem ser lutadores! Para isso devem ser criadores!

Há mil caminhos que nunca foram trilhados; mil fontes de saúde e mil ilhas de vida ainda escondidas. Inesgotável e desconhecido ainda é o ser humano e o mundo do ser humano.

Agora, meus discípulos, vou-me embora sozinho! Partam sozinhos, também! Assim o quero.

Com toda a sinceridade vos dou este conselho: Afastem-se de mim e precavei-vos contra Zaratustra! Melhor ainda: tenham vergonha dele! Talvez ele os tenha ludibriado.

O homem de conhecimento não só deve amar os seus inimigos, mas também odiar os seus amigos. Mal corresponde ao mestre aquele que nunca passa de discípulo. E por que não quereis tomar minha Coroa?

Venerais-me! Mas que aconteceria se sua veneração um dia acabasse? Tome muito cuidado para que uma estátua não te esmague!

Vocês dizem crer em Zaratustra? Mas que importância tem Zaratustra? Sois crentes em mim; mas que importam todos os crentes?! Vocês ainda não procuraram em vocês mesmos: por isso me encontraram. Assim fazem todos os crentes: por isso que toda a crença é de tão pouca importância.

Agora vos ordeno que me percam e encontrem a vocês mesmos; e só quando todos vocês tiverem me negado, retornarei para vós.

Em verdade, meus irmãos, buscarei então as minhas ovelhas desgarradas com outros olhos; vos amarei então com outro amor. E novamente sereis meus amigos e filhos de uma só esperança; então quero estar a vosso lado, pela terceira vez, para festejar com vocês o grande meio-dia.”

O que Nietzsche nos exorta a fazer é caminhar com nossas próprias pernas! Sem líderes, sem dogmas, mas com virtude. Sim, esse não é o caminho do egoísmo, é o caminho não só da ação – onde nós somos os senhores do nosso destino – , mas da ação correta, como o budismo, o cristianismo e o judaísmo nos propõem a fazer.

Nietzsche cria um líder religioso que se destrói no final, e isso é o que o budismo deveria ter sido. Afinal, se a doutrina prega o desapego a todas as coisas, é natural que o aluno não se apegue nem mesmo à doutrina. E Buda falava “Não te deves ligar a nenhuma dessas coisas. Esse é o motivo pelo qual comparo minha doutrina a uma jangada. Mesmo essa doutrina precisa ser deixada para trás – e que dizer das falsas doutrinas?”

Isso também me lembra uma das mais fascinantes passagens atribuídas a Jesus, no Evangelho de Tomé, logon 13:

Jesus disse a seus alunos: “Comparai-me com alguém e dizei-me com quem me assemelho”.

Simão Pedro disse-lhe: “Tu és semelhante a um anjo justo”. Mateus lhe disse: “Tu te assemelhas a um pensador sábio”. Tomas lhe disse: “Mestre, minha boca é inteiramente incapaz de dizer com quem te assemelhas”.

Jesus disse: “Não sou teu Mestre. Pois bebeste na fonte borbulhante que fiz brotar, tornaste-te ébrio. E, pegando-o, retirou-se e disse-lhe três coisas. Quando Tomas retornou a seus companheiros, eles lhe perguntaram: “O que te disse Jesus”? Tomas respondeu: “Se eu vos disser uma só das coisas que ele me disse, apanhareis pedras e as atirareis em mim, e um fogo brotará das pedras e vos queimará”.

Não vos tornem bêbados, viciados em Buda, Jesus, Nietzsche ou quem quer que seja. Entendam agora a música God de John Lennon, em que ele sai negando todas as influências que compunham sua própria personalidade, quando diz “Não acredito em Elvis, não acredito em Jesus, não acredito em Hitler, não acredito em Beatles, só acredito em mim!”. É uma belíssima desconstrução de personalidade, o esvaziamento do barco das paixões e dos ódios, como bem disse Buda. Só não esqueçam da virtude (que é justamente… Deus em nós).

#Nietzsche

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