Bhagwan Shree Rajneesh (Osho)

“Aposte todas as suas fichas. Seja um apostador!
Arrisque tudo, pois o momento seguinte não é uma certeza. Então, por que se importar com ele? Por que se preocupar?
Viva perigosamente, viva com prazer. Viva sem medo, viva sem culpa.
Viva sem nenhum medo do inferno ou sem ansiar o céu. Simplesmente viva.”
– Faça o Seu Coração Vibrar

Nasceu em 11 de dezembro de 1931, 1o filho de um mercador de tecidos. Passou os sete primeiros anos com os avós, que lhe davam total liberdade. Após a morte do avô foi viver com os pais. Sempre revelou um espírito rebelde e independente. Em 1946 experimentou seu primero satori. Com o tempo aprofundou suas experiências em meditação, sendo que a intensidade de sua busca espiritual chegou a afetar sua saúde física. Em 1953 atingiu o estado de “iluminação”.

Em 1956 graduou-se como 1o aluno da turma de Filosofia na Universidade de Jabalpur. Foi campeão de debates da Índia e ganhou a medalha de ouro no ano de sua graduação. Em 1957 lecionou no Sanskrit College e um ano depois tornou-se professor de Filosofia na Universidade de Jabalpúr.

Em 1966 passou a dedicar-se inteiramente à arte de ensinar a meditação ao homem moderno. Durante os anos 60 viajou toda a Índia como Acharya Rajneesh (professor), provocando a ira do establismment e encontrando-se com pessoas de todas as classes sociais. Ele desmascarava a hipocrisia do sistema e suas tentativas para impedir que o homem alcançasse seu direito mais fundamental: ser ele mesmo. Desafiava os líderes religiosos ortodoxos em debates públicos. Dirigia-se a audiências de milhares de pessoas, sensibilizando os corações de milhões. Lia muito: tudo o que pudesse ampliar sua compreensão sobre os sistemas de crenças e a psicologia do homem contemporâneo.

Em 1968 estabeleceu-se em Bombaim e organizou, regularmente, “campos de meditação”, quase sempre nas montanhas. Aí introduziu sua revolucionária Meditação Dinâmica, técnica que ajuda a parar a mente, ao permitir que ela tenha primeiramente uma catarse. Segundo ele, o homem moderno está tão sobrecarregado das antiquadas tradições do passado e das ansiedades da vida moderna, que precisa passar por um profundo processo de limpeza antes de poder descobrir a ausência de pensamento no relaxamento da meditação. A partir de 1970 começou a iniciar pessoas no Neo-Sannias, caminho de compromisso com a auto-exploração e a meditação, amparado pelo amor e orientação pessoal. Passou a ser chamado de Bhagwan, o abençoado. Sua fama espalhou-se pela Europa, América, Austrália e Japão.

No curso de seu trabalho. Osho falou sobre praticamente todos os aspectos do desenvolvimento da consciência humana. Destilou a essência do que é significativo para a busca espiritual do homem contemporâneo, com base não na compreensão intelectual, mas na sua própria experiência existencial.

A partir de 1974, em Puna, seus ensinamentos foram intensificados. Sua saúde tornava-se mais frágil. Foram criados grupos de terapia combinando o insight oriental da meditação com as técnicas ocidentais de psicoterapia. Em dois anos o ashram já tinha a reputação de melhor centro de crescimento e terapia do globo. Nos últimos anos da década de 70 o ashram transformara-se na meca dos buscadores modernos da verdade. As palestras de Osho abrangiam todas as grandes tradições religiosas do mundo. Sua vasta erudição na ciência e no pensamento ocidentais, a clareza de suas palavras e a profundidade de seus argumentos desfaziam o abismo entre o oriente e o ocidente, para seus ouvintes.

O 1o ministro indiano, Morarji Desai, obstruiu todas as tentativas de transferência do ashram para uma parte remota da Índia, onde seria experimentada a aplicação dos ensinamentos de Osho na construção de uma comunidade autosuficiente, onde viveriam em meditação, amor, criatividade e alegria. Isso não impediu que suas palestras, gravadas e transcritas em mais de 600 livros e traduzidas em mais de 30 idiomas, constituíssem hoje incontáveis volumes e atingissem inúmeros leitores.

Sua Filosofia

O pensamento de Rajneesh está exposto em mais de mil livros que podem elucidar sobre a sua filosofia.No seu trabalho, Osho falou praticamente sobre todos os aspectos do desenvolvimento da consciência humana. Seus discursos para discípulos e buscadores de todo o mundo foram publicados em mais de 650 títulos e traduzidos para mais de trinta línguas.

Segundo referem os seus admiradores, Osho não pretendia impor a sua visão pessoal nem estimular conflitos. Enfatizou, pelo contrário, a importância de se mergulhar no mais profundo silêncio, pois somente através da meditação se poderia atingir a verdade e o amor, guiada pela consciência individual, sem intermediários como sacerdotes, políticos, intelectuais ou ele mesmo. Transmitia, pois, uma mensagem otimista que apontava para um futuro onde a humanidade deixaria o plano da inconsciência e, por consequência, a destruição, o medo e o desamor, já que cada um seria o buda de si próprio, recordando aquilo que a consciência imediata esqueceu. Segundo esta visão, a humanidade parece-se a um conjunto de cegos guiados por outros cegos.

Todo o trabalho de Osho é de desconstrução e silêncio. Segundo Osho, todo o planeta (com raras exceções) está doente. Mas é uma doença autoimposta. Liberdade seria, em sua visão, o fundamento de um homem auto-realizado e digno. O silêncio, por sua vez seria a comunhão da criatura com sua essência divina e pura, sendo reencontrado pela meditação, onde o homem experimenta seu verdadeiro ser. Osho negava a existência de um Deus pessoal dizendo que a lógica do evolucionismo abriria grandes lacunas para tal entendimento. Em sua concepção, a ideia da existência de Deus deve ser rejeitada para o bem da humanidade.

Ao dizer, por exemplo, que “o orgasmo sexual oferece o primeiro vislumbre da meditação porque, nele, a mente para, o tempo para”, a mídia o apelidou de “guru do sexo”. Quando se descobriu a causa da aids, Osho determinou que seus discípulos fizessem o teste de HIV. Pioneiro, recomendou usar camisinha e luvas de látex na hora do sexo, coisas ridicularizadas na época. Para A. Racily, que conviveu com Osho, o guru queria apenas que o sexo não fosse renegado. Ela diz que nunca houve orgias na comunidade e que esses boatos vinham de quem queria se aproveitar da liberdade sexual.

Em 1980, um membro de uma tradicional seita hindu tentou assassinar Osho, durante uma palestra. Enquanto as religiões e igrejas oficiais faziam oposição a seu trabalho, ele já tinha mais de 250 mil discípulos em todo o mundo. Em maio de 1981 Osho parou de falar e iniciou uma fase de “comunhão silenciosa de coração a coração”, para que seu corpo, com graves problemas de coluna, descansasse.

Ida a América

Foi levado aos EUA pela eventual necessidade de uma cirurgia de emergência. Seus discípulos americanos compraram um rancho de 64 mil acres no deserto de Oregon Central, onde ele se recuperou rapidamente. Uma comuna modelo cresceu ao seu redor com uma velocidade alucinante, transformando o deserto num oásis verde, capaz de alimentar 5 mil habitantes. Nos festivais anuais de verão até 20 mil visitantes eram acomodados e alimentados na nova cidade de Rajneshpuram. Surgiram outras grandes comunas em todos os principais países do ocidente e no Japão. Osho solicitou residência permanente nos EUA, mas teve seu pedido recusado pelo governo americano; uma das razões alegadas foi seu voto público de silêncio. Cresciam as investidas do governo de Oregon e da maioria cristã do estado, contra a nova cidade.

Em 1984 Osho começou a falar em pequenos grupos em sua residência e em 1985 voltou a fazer discursos para milhares de buscadores. Sua secretária e diversos membros da direção da comuna partiram repentinamente e atos ilegais cometidos por eles vieram à tona. Osho convidou as autoridades para que procedessem as investigações necessárias. Assim elas aceleraram sua luta contra a comuna. Em outubro Osho foi preso em Carolina do Norte, sem mandato de prisão. Durante a audiência de sua fiança foi acorrentado. Sua viagem de volta a Oregon, onde seria julgado – normalmente um vôo de cinco horas, durou oito dias. Depois ele revelou que na penitenciária de Oklahoma foi registrado como David Washington e colocado numa cela com um prisioneiro que sofria de herpes infecciosa. Uma hora antes de ser libertado, uma bomba foi descoberta na cadeia de Portland, presídio de máxima segurança de Oregon, onde Osho estava detido. Todos saíram menos ele, que foi mantido mais uma hora dentro da cadeia. Em novembro confessou-se “culpado” em duas das 34 violações de imigração das quais era acusado, para evitar que sua vida corresse outros riscos nas garras do sistema judiciário americano. Foi multado em US$ 400 mil e obrigado a deixar os EUA, sem poder voltar por cinco anos.

Voou para a Índia, onde repousou nos Himalaias. Uma semana depois a comuna no Oregon resolveu dispersar-se. O procurador dos EUA, Charles Turner disse que a prioridade do governo era destruir a comuna; que não desejavam transformar Osho num mártir e que não havia evidência que o implicasse em crimes. Em dezembro sua nova secretária, sua assistente, seu médico particular e outros discípulos ocidentais que o acompanhavam foram expulsos da Índia e tiveram seus vistos cancelados. Osho juntou-se a eles no Nepal, onde retomou seus discursos diários.

Em fevereiro de 1986 Osho foi para a Grécia, mas o clero da igreja Ortodoxa ameaçou o governo de que haveria derramamento de sangue se ele não fosse expulso do país. Em março a polícia invadiu a casa de campo onde ele estava hospedado e, sem mandato de prisão, enviou-o a Atenas. Ele foi para a Suíça, onde seu visto de sete dias foi cancelado no momento de sua chegada. Foi então para a Suécia, onde foi acolhido da mesma forma. Na Inglaterra aconteceu o mesmo e na Irlanda conseguiu ficar alguns dias como turista. Antígua, Holanda Alemanha não permitiram sua entrada. Na Itália seu pedido de visto de turista não foi concedido até hoje. Tudo isso até 7 de março. No dia 19 o Uruguai o convidou. Ele foi para lá com seus companheiros, mas o país recebeu “informações” dos EUA de que eles estavam envolvidos em contrabando, tráfico de drogas e prostituição. Em maio, quando ia receber visto permanente, Washington ameaçou cancelar empréstimos no valor de US$ 6 bilhões, se Osho permanecesse no país. Em junho foi embora para a Jamaica, onde conseguiu visto de 10 dias, cancelado no dia seguinte à sua chegada. Foi para Lisboa e permaneceu escondido por duas semanas numa casa de campo. Ao todo 21 países o deportaram ou impediram sua entrada. Assim retornou à Índia em julho.

Ficou seis meses em Bombaim, onde retomou seus discursos diários, na casa de um amigo. Em janeiro de 1987 mudou-se para a casa do ashram em Puna, mas logo teve ordem de partida. Ao mesmo tempo, embaixadas indianas pelo mundo e os funcionários da emigração no aeroporto de Bombaim começaram a recusar a entrada de seus seguidores ocidentais. Em novembro, após uma enfermidade de sete semanas, foi diagnosticada uma deterioração geral de sua condição física, devido a envenenamento por tálio. Num discurso público, Osho declarou acreditar que o governo dos EUA o tenha envenenado durante os 12 dias em que esteve sob sua custódia, em setembro de 1985.

Osho deixou seu corpo em 19.01.1990. Poucas semanas antes, disse: “quero que as pessoas conheçam a si mesmas, que não sigam as expectativas dos outros. E a maneira é ir para dentro.”

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/bhagwan-shree-rajneesh-osho/

A Thelema e a FRA

Por Irmão Raphael

No início do século XX, a Lei da Thelema, sistema de filosofia e magia desenvolvido por Aleister Crowley (1875-1947) – To Mega Therion – teve grande influência filosófica na cultura esotérica, na cultura pop e também foi precursora do pensamento pós-moderno. No meio esotérico, a Lei da Thelema também influenciou outras ordens que não estavam ligadas diretamente a Crowley, ordens ligadas pelo fenômeno da O.T.O. (Ordo Templi Orientis), como a FRA (Fraternitas Rosicruciana Antiqua) do Dr. Krumm-Heller (1876-1949) – Mestre Huiracocha – foco do nosso estudo. Muitos argumentam que os ensinamentos do Dr. Krumm-Heller eram antagônicos com do Aleister Crowley, e que não possuíam nenhuma ligação esotérica, principalmente na questão da magia sexual. Mestre Huiracocha revela em seu livro, Logos Mantram Magia, ele afirma: “declaro que, para mim, a vocalização, o uso dos mantras e a oração, mediante o despertar das secreções sexuais, é o único caminho de chegar a meta, e o resto é, infelizmente, uma perda de tempo”.

Diante disso, Peter Koenig, classifica o ensinamento do Dr. Krumm-Heller como Gnosticismo Homeopático, já que há uma ideia de retenção inclusa; e classifica de Gnosticismo Libertino do Crowley, na qual não há nenhuma restrição quanto ao sexo.

Aparentemente, essas duas ordens não parecem ter muitos pontos em comum. No entanto, Crowley recomenda o estudo da Fórmula da Rosa-Cruz. O que leva muitos a considerar uma alegoria somente à magia sexual. Como ele mesmo escreve: “não precisamos nos sentir surpresos se a Unidade do Sujeito com o Objeto na Consciência é Samadhi, que é a unificação da Noiva e do Carneiro é o Céu (…), a união do Lingam e da Yoni, a da Cruz com a Rosa”. No entanto, James Eshelman escreve, que isso, na verdade, seria o trabalho mágico da união dos opostos em sua Natureza, que muitos místicos cristãos descrevem como no aniquilamento de si mesmo no Amado.

O Dr. Krumm-Heller foi membro da O.T.O., apesar de que recebeu seu grau, em 1908, de Theodor Reuss, antes da reformulação da ordem por Crowley. Mas após 1930, o Dr. Krumm-Heller e Crowley se encontram pessoalmente em Berlim onde Huiracocha foi presenteado com uma edição de Liber Aleph assinada pelo inglês, e trocaram uma extensa correspondência. O Mestre Huiracocha não foi discípulo do Mestre Therion, na verdade, Crowley em uma correspondência, considera o Dr. Krumm-Heller um maçom igual a ele, na qual tinha muito a ver com a realização da “Grande Obra”, e a divulgação da Lei da Thelema. E o Dr. Krumm-Heller escreve:

“Meus mestres foram Eliphas Levi e Papus, e graças a eles eu poderia decifrar os segredos da Magia. Dr. Hartman tem nos ensinado na Alemanha, a parte esotérica da Bíblia e da Igreja Cristã. Outro mestre que teve maior influência sobre mim foi o Mestre Therion, ele me deu a sua obra “Liber Aleph Vel CXI (O Livro da Sabedoria ou da Tolice)”.

E após esse encontro, o Dr. Krumm-Heller aceitou a Lei da Thelema, sendo que nos rituais de congregação da FRA é dito: “A nossa divisa é Thelema”. Apesar das muitas influências, o Dr. Krumm-Heller diz também em seu Logos Matram e Magia ter alçado aos últimos graus da Astrum Argentum (ordem esotérica desenvolvida por Aleister Crowley e George Cecil Jones), mas não ha documentação a respeito e nem há algum estudo aprofundado da doutrina thelêmica no currículo da FRA.

Diante disso, surge uma questão, como a Lei da Thelema se adequou ao ensinamento das ordens, como a FRA – uma ordem de tradição gnóstica rosacruciana.

THELEMA E O CRISTO

Para os seguidores de Crowley, a Lei da Thelema possui o objetivo de descobrir sua Verdadeira Vontade, através da Conversação com o Sagrado Anjo Guardião e, após isso, dedicar sua vida inteira ao seu cumprimento. A necessidade do cumprimento da Vontade se demonstra através daquele que é considerado o único mandamento em Thelema: “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei. O amor é a lei, amor sob vontade”. A Lei da Thelema prega uma ética individual, na qual nenhuma regra externa pode interferir, ou seja, o cultivo e satisfação plena das próprias vontades. Mas qual é a visão do Dr. Krumm-Heller acerca da Lei da Thelema.

Para entender essa visão, peguemos o artigo do Dr. Krumm-Heller: CHRISTO-ABRAXAS-BAPHOMET- THELEMA, na qual é dito que há quatro forças – Cristo, Abraxas, Bafomet e Thelema – são uma só coisa: LUZ. Para o Dr. Krumm-Heller, o cristianismo adotou a ideia gnóstica de que o Cristo simboliza o Sol, conforme a Cristologia Gnóstica. E a Luz Solar atua de diversos modos. Ela é o Cristo, aspecto derivado do Pai, como parte do Sol Central. Para os gnósticos seria Abraxas. Outro aspecto desta Luz seria Baphomet, um aspecto mais grosseiro, porque é a força astral. E por fim, outro aspecto desta Luz é Thelema que significa a Vontade atuante na Luz.

Todas essas diferentes variações da Luz são denominadas pelos Gnósticos como Força Cristônica.

“(…) Outro aspecto desta força é Thelema que significa a vontade atuante na Luz. O discípulo não deve esquecer que todos esses nomes e símbolos representam forças e nos Mistérios usavam-se símbolos para objetivar essas forças. (…) Assim, pois a força de Abraxas manifesta-se de modo distinto da força de Baphomet; porém, todas derivadas da força espiritual da Luz, que os Gnósticos chamam FORÇA CRISTÔNICA. O discípulo precisa aprender o manejo de todas essas forças”.

CRISTOLOGIA GNÓSTICA

A Cristologia Gnóstica diz que o Sol visível é o mediador do Sol Central. E o Crestos Cósmico é o meio astral que liga o homem ao Pai Solar. A força de Cristo pode manifesta-se de diferentes modos, seja como Baphomet, Abraxas ou Thelema, porém, todas derivadas da força espiritual da Luz do Sol Central. Podemos inferir, assim, que Thelema é Cristo. Ou que a Vontade do Crestos é Thelema.

Como símbolo, Cristo se liga aos deuses solares, Mitra, Abraxas e Dionísio. Mas também é um fato histórico, na pessoa de Jesus. O corpo de Jesus de Nazaré foi utilizado para que a entidade divina do Cristo, no momento do batismo, pudesse tomar a forma que lhe era necessária para, daí em diante, estar em comunhão com as almas humanas. Os acontecimentos na Palestina foram necessários para o nascimento da vida terrena do Cristo que aconteceu a partir do Mistério do Gólgota, esse acontecimento é denominado por Rudolf Steiner (1861-1925) de “Impulso do Cristo”.

Para os Gnósticos há uma diferença sensível entre os as personalidades de Buda, Zoroastro, Confúcio, Maomé e a divindade do Cristo. Os primeiros foram certamente grandes filósofos e grandes Iniciados a quem lhes foi dada a incumbência de pregar e instalar uma região em sua época. No entanto, Cristo tem uma personalidade diferente.

Ele é Deus, é o Logos Solar ou a Essência Solar, a força do Espírito que está fundida no Sol.

O Dr. Krumm-Heller diz que a Força Cristônica de Jesus, se propagou pelo mundo (Impulso do Cristo) e transformou seu ambiente, perpetuando-se até nossos dias. Para vida terrestre, o Sol possui grande importância para nosso planeta, por sua vez, o Sol físico depende de outro Sol espiritual. O Sol espiritual é algo prático e real, como também é o Logos. Cristo é a Luz do Sol física e espiritual.

O Dr. Krumm-Heller reúne na figura do Cristo uma força de consciência e uma substância material. Isso pode parecer estranho, mas nas próprias palavras do Dr. Krumm-Heller, a realidade é formada pelo trio de matéria, energia (força) e consciência. Deste modo, o Crestos Cósmico é uma substância, uma força, uma consciência atuante. Os gnósticos aprendem a manejar Crestos e sua força mediadora.

CRISTO EM CONSCIÊNCIA

Seguindo a linha de pensamento, na qual o Dr. Krumm-Heller entendia Cristo e Thelema como forças impessoais, inferimos, então que a Força Consciencial Cristônica também é impessoal. Podemos entender melhor esse conceito Vontade Universal estudando a obra “Uma Aventura entre os Rosacruzes”, de Franz Hartmann. A Vontade apresentada por Hartmann não é a Vontade individual, apesar de atuar no individuo, é um princípio universal, análogo a Divina Providência. Desta forma, podemos entender a Vontade como uma Força Impessoal, como é invocada na Missa

Gnóstica do Mestre Huiracocha: “Vem, Santo Querer, Divina Energia Volitiva. Transforma a minha vontade fazendo-a una com a Tua”. Assim, para o Dr. Krumm-Heller, Thelema é a Vontade Divina Universal, na qual atua sobre toda existência. Como escrito por ele mesmo, Thelema é a Vontade atuante na Luz. E a Luz é o Cristo. A Vontade provém do Crestos Cósmico, a fonte universal que todos podem beber. A diferença entre Crowley e o Dr. Krumm-Heller é a origem dessa Vontade.

Para Crowley, a Thelema brota no próprio homem, mas em sua particular “alma imortal”: “Todo homem e toda mulher é uma estrela” (AL I:3). Frater Achad escreveu o ensaio Passando do Velho ao Novo Aeon, no qual explica que a partir do momento em que o homem passar a se identificar com o Sol, ele passará a ser um Deus, pois será a fonte de luz:

“Você sabe o quão profundamente nós sempre ficamos impressionados com as ideias de Sol nascente e Sol poente, e como os nossos antigos irmãos, vendo o Sol desaparecer à noite e nascendo novamente na manhã seguinte, basearam as suas ideias religiosas neste conceito de um Deus Moribundo e Ressuscitado. Essa á a ideia central da religião do Velho Æon (…). O Sol não morre, como acreditavam os antigos, ele está sempre brilhando, sempre irradiando Luz e Vida. Pare por um momento e tenha uma clara concepção deste Sol, como Ele está brilhando já cedo pela manhã, brilhando ao meio-dia, brilhando à tarde e brilhando à noite. Você percebeu esta ideia claramente em sua mente? Você acabou de sair do Velho Æon e entrar no Novo. Agora consideremos o que aconteceu. O que você fez para obter essa imagem mental do Sol sempre brilhante? Você se identificou com o Sol. Você saiu da consciência deste planeta; e por um momento você teve que se considerar um Ser Solar”.

No novo Aeon de Hórus, a era thelêmica, da criança conquistadora, todo homem e toda mulher passam a serem deuses, co-criadores do Universo. E a Fraternitas Rosicruciana Antiqua é uma mediadora entre o antigo e o novo Aeon.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-thelema-e-a-fra

Iniciação no Novo Aeon: O Verdadeiro Eu contém Bem e Mal, O Certo e Avesso

Faça o que tu queres há de ser Tudo da Lei

Nota: originalmente escrito em 14 de abril de 2009

2) O verdadeiro eu contém o bem e o Mau, certo e Avesso

“Meus adeptos ficam de pé ; suas cabeças acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos”.

– “Liber Tzaddi”, linha 40

A iniciação no Novo Aeon é “a Criança Crescendo até a Maturidade” pelo assassinato do eu-ego (eu-egóico) cuja “morte é vida por vir” para o Verdadeiro Eu. Mas qual é a natureza desse Verdadeiro Eu? Essencialmente, o Verdadeiro Eu transcende as dualidades. Especificamente, o Verdadeiro Eu transcende a dualidade moral do Bem e do Mau.

As pessoas têm uma tendência comum de imaginar seu objetivo como seu “Eu Superior”, que eles imaginam como Bem Absoluto, cuidadoso, benevolente, etc. Em suma, muitas pessoas constroem um ideal ou uma abstração de seus ideais e crenças mais elevados e acreditam ser essa a sua meta. Crowley afirma em “Magick Without Tears”: “Ele não é, deixe-me enfatizar, uma mera abstração de você mesmo; e é por isso que eu tenho insistido bastante que o termo ‘Eu Superior’ implica uma ‘Maldita heresia e uma perigosa ilusão’”. O termo “Eu Superior” é uma ilusão porque o objetivo da Iniciação no Novo Aeon é fazer com que o indivíduo identifique-se com o “Eu Total” ou “Todo-Eu”, não o “Eu Superior” (ou “Eu Inferior”). Devemos explorar e conquistar os lados “bons” e “maus” de nós mesmos: em termos da psicologia [Junguiana] moderna, não podemos negligenciar nossa própria Sombra. Como Crowley aconselha: “todo mago deve estender firmemente seu império até a profundidade do inferno” (“MIT&P”, capítulo 21). [E] como diz Nietzsche: “As grandes épocas da nossa vida são as ocasiões em que ganhamos a coragem de rebatizar nossas qualidades Malignas como nossas melhores qualidades” (Beyond Good & Evil, Aphorism 116).

Muito do imaginário de Thelema pode ser visto como “sinistro”. Exemplos incluem a “Besta” e “Babalon” do Livro das Revelações (onde eles não aparecem numa ótica favorável); a experiência da divindade como “beijos do Mau [corrompendo] o sangue (…) como um ácido come em aço, como um câncer que corrompe completamente o corpo” (“Liber LXV” I: 13, 16) e “veneno” (“Liber LXV” III: 39 IV: 24-25 V: 52-53, 55-56); o “oculto” dentro de si mesmo em que “todas as coisas são teu próprio Eu” (Liber Aleph, “De Libidine Secreta”) é chamado Inferno ou Satanás (que é identificado com o Sol em Liber Samekh”); etc. Estes [exemplos] poderiam todos ser considerados como tentativas de trazer a psique do indivíduo à aceitação de ambos os aspectos retos e avessos da existência. Poder-se-ia até dizer que é o lado “mais sombrio” do eu que surge por causa de sua negligência nos sistemas do Velho Aeon que se concentram no Bem, Virtude, Graça, etc. e excluem seus opostos. No Novo Aeon afirmamos que o Verdadeiro Eu contém (e portanto transcende) tanto o Bem como o Mau. “Menos que Tudo não pode satisfazer o Homem” (William Blake, “não há nenhuma religião natural”).

Esta idéia do Verdadeiro Eu como contendo tanto o Céu como o Inferno, o Bem e o Mau, certo e Avesso, é capturada sucintamente em “Liber Tzaddi”, linhas 33-42:

“Eu vos revelo um grande mistério. Vocês estão entre o abismo da altura e o abismo da profundidade. Em qualquer um deles vos espera um companheiro; e esse companheiro é Você Mesmo. Você não pode ter outro Companheiro. Muitos se levantaram, sendo sábios. Eles disseram: ‘Buscai a imagem brilhante no lugar sempre dourado e uni-vos a Ela’. Muitos se levantaram, sendo tolos. Eles disseram: ‘Abaixem-se ao mundo sombriamente esplêndido, e se casem com aquela Criatura Cega do Limo’. Eu, que estou além da Sabedoria e da Tolice, me levanto e vos digo: alcançai ambos os casamentos! Unam-se com ambos! Cuidado, cuidado, eu te digo, para que não busques o um e perdeis o outro! Meus adeptos ficam de pé; sua cabeça acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos (…) Assim o equilíbrio se torna perfeito”.

Como mencionado na última seção, o Verdadeiro Eu transcende a dualidade da Vida e da Morte. Nesta seção vemos que o Verdadeiro Eu transcende a dualidade de Certo e Avesso, Bem e Mau. O Verdadeiro Eu está mesmo “além da Sabedoria e da Tolice”. Devemos [nos] unir com ambos o Certo, “a imagem cintilante no lugar sempre dourado”, e com o Avesso, “aquela Criatura Cega do Limo.” Somente assim o homem pode vir a conhecer seu verdadeiro Eu: caso contrário, o indivíduo terá uma perspectiva unilateral do eu. Deve-se lembrar que é apenas por causa de suas raízes profundas no chão escuro que uma árvore é capaz de produzir frutos. Como observou o psicólogo Abraham Maslow: “A natureza superior do homem repousa sobre a natureza inferior do homem, precisando dela como fundação e desmoronando sem essa fundação” (Toward a Psychology of Being, 1968).

O método de Iniciação no Novo Aeon é, portanto, um de União de Opostos e Equilíbrio. O equilíbrio não é o da moderação, o Caminho do Meio do Buda (ou a Doutrina da Média de Aristóteles), onde procuramos evitar os extremos e permanecer no centro. O equilíbrio da Iniciação do Novo Aeon é entendido como o equilíbrio alcançado pelo exagero de ambos os extremos de qualquer dualidade. “Vá-te aos lugares mais remotos e subjuga todas as coisas” (“Liber LXV” I: 45). Não tomamos a Certo (“luz branca”) ou avesso (“satânico”) da dualidade Certo/Avesso e miramos apenas para isso; miramos tanto os céus como os infernos. Pode-se dizer, simbolicamente, que o Velho Aeon é como um poste ou uma árvore, onde a seção Certo é reta e estreita, evitando extremos. O Novo Aeon é, então, como um grande edifício ou uma pirâmide onde a base é expandida horizontalmente. Isto mostra simbolicamente que, exagerando os extremos (expandindo a base horizontalmente nessa metáfora), ampliamos nossas fundações, o que nos permite assim suportar melhor os “ventos” da experiência. Como está no Livro da Lei: “A Sabedoria diz: sede forte! Então poderás ter mais alegria. Não seja animal; refina o teu arrebatamento! (…) Mas exceda! Exceda! Esforce-se cada vez mais! “(II: 70-72). William Blake também declarou enigmaticamente: “O caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria.”

Novamente, podemos olhar para Hórus (com o Núcleo Infinitamente Contraído em Chama como Seu Coração e o Espaço Infinitamente Expansível como Seu Corpo) como um símbolo Daquilo que transcende as dualidades do Bem e do Mau, do Certo e do Avesso. Ao nos unir tanto com a “imagem cintilante” como com a “Criatura Cega do Limo”, podemos nos conhecer como o Todo que contém, mas transcende ambos: “Posto que duas coisas são feitas e uma terceira coisa é iniciada (…) Hórus pula três vezes armado do ventre de sua mãe” (“Liber A’ash”, linha 8). Como diz Hórus em Visão e a voz: “Eu sou a luz, e eu sou a noite, e eu sou aquilo que está além deles. Eu sou o discurso, e eu sou o silêncio, e eu sou aquilo que está além deles. Eu sou a vida, e eu sou a morte, e eu sou aquilo que está além deles”. Poderíamos acrescentar: “Eu sou bom, e eu sou o Mau, e eu sou aquilo que está além deles”. Hórus, o Sol, é um símbolo Daquilo que contém e transcende as dualidades, uma imagem dos nossos Verdadeiros Eus, idênticos em essência, porém diversos em expressão para cada indivíduo; outros símbolos cognatos incluem o ponto no círculo (o glifo Solar); a Rosa-Cruz; sêmen e fluido menstrual combinados (dois fluidos vivos e generativos combinados em um terceiro que “é uma substância e não duas, não viva e não morta, nem líquida nem sólida, nem quente nem fria, nem macho nem fêmea”- MIT&P, capítulo 20); o Coração circulado pela Serpente “Este meu coração está circundado com a serpente que devora suas próprias espirais” (ver Liber LXV); a cruz no círculo; o círculo ao quadrado (Liber AL II: 47); o Sol e a Lua unidos (chamados “a Marca da Besta” em “Liber Reguli” e “o sigilo secreto da Besta” no 1º Aethyr de Visão e a Voz); o Leão e a Águia; a palavra ABRAHADABRA; e infinitos outros. Em um determinado ritual onde o indivíduo se identifica com Hórus (“Liber XLIV: A Missa da Fênix”), proclamamos nossa transcendência da dualidade moral: “Não há graça: não há culpa:/Esta é a Lei: FAÇA O QUE TU QUERES!”

“Pois a Perfeição não reside nos Pináculos, nem nos Fundamentos, mas na Harmonia ordenada de um com todos”.

– “Liber Causae”, linha 32

Amor é a lei, amor sob vontade.

Link Original: https://iao131.com/2010/08/09/new-aeon-initiation-the-true-self-contains-good-and-evil-upright-and-averse/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/inicia%C3%A7%C3%A3o-no-novo-aeon-o-verdadeiro-eu-cont%C3%A9m-bem-e-mal-o-certo-e-avesso

Baruch Espinosa

Baruch de Espinosa (ou Spinoza) era de descendência judáica. Sua famlía foi obrigada a buscar refúgio na Holanda, fugindo das perseguições da “Santa” Inquisição Portuguesa. É interessante notar que a perseguição da Igreja Católica à Espinosa durou bastante tempo, pois seus livros, curiosamente, estiveram no infame Index de obras proibidas ou não aconselhadas pelo clero até há bem pouco tempo atrás, em nossos dias (se é que ainda não estão). Se nos lembrarmos que o grande teólogo brasileiro e um dos pais da rica e importantíssima Teologia da Libertação, Leonardo Boff, sofreu praticamente da mesma injução, sendo ele, há época, frade católico, há bem poucos anos, podemos avaliar se a tal Inquisição realmente deixou de existir nos dias atuais… Ou continua de uma forma mais velada mas não menos traiçoeira em uma microfísica de poder com outro nome qualquer…

Nascido em 1632, Espinosa desde cedo chamou a atenção da família e dos professores da escola judáica em que foi formado, em Amsterdã, pelos seus extraordinários dotes intelectuais e intuitivos. Neste escola, o jovem estudante mergulhou fundo no estudo da Bíblia e das tradições judáicas, com especial ênfase no estudo do hebráico e do Talmude.

Aos vinte anos, passou a freqüentar a escola de Franz van de Enden, que apesar de sua formação básica católica, tinha se tornado suficientemente liberal para questionar a hegemonia da Igreja de Roma e a validade de seus dogmas cristalizados. Nesta escola, Espinosa aprendeu o latim, que lhe possibilitou ler os clássicos Cícero e Sêneca no original, e passou a se interessar vividamente por ciências. Lia com interesse as obras de seus conteporâneos, em especial Descartes, Bacon e Hobbes.

À medida que se aprofundava nas leituras e discussões de/e com outros filósofos – não necessariamente ligados ou concordantes com o judaísmo – e ia contruindo sua própria visão de mundo, se intensificava o conflito entre seu pensamento e o dos seus confrades judeus. As discussões entre Espinosa e os Doutores da Sinagoga chegaram a tal ponto extremo que, à semelhança do que ocorreu com Cristo, o jovem filósofo pareceu tornar-se uma incômoda ameaça à comunidade judáica e a seus dogmas mais arraigados, e não faltou até mesmo uma tentativa de assassinato ao brilhante contestador. Sendo assim, não foi de fato surpesa que Espinosa tivesse sido literalmente excomungado, em 1656, com apenas 24 anos. As conseqüências dessa acontecimento não poderiam ser piores, especialmente em seu tempo: todos o abandoram, inclusive os parentes mais próximos.

Depois da infame excomunhão, Espinosa buscou um lugar pra si em uma pequena aldéia holandesa, onde começou a escrever a sua maravilhosa obra. Poteriormente, andou de hotel em hotel, ou pequenas hospedarias, tendo, apenas em 1670, encontrado uma hospedagem mais fixa na casa do seu amigo, o pintor Van der Spyck, em 1670.

Para poder sobreviver, Espinosa aprendeu o ofício de polir e fabricar lentes ópticas. O pouco que ganhava, porém, era quase o suficiente para se manter, em sua modesta forma de vida, bem simples mesmo, vivenciando integral a vida simples e frugal que ele mesmo aconselhava em seus escritos e que lhe permitia se sentir livre de compromissos ou dívidas. Tinha poucas necessidades e o único luxo que julgava ter era o de adquirir livros. Ele sempre recusava a ajuda de amigos ou admiradores mais abastados, e até mesmo quando aceitava algo – devido a alguma urgência imprevista – frequentemente a aceitava bem abaixo do que era oferecido, devolvendo a diferença que achava excessiva para sua forma de vida frugal.

O episódio da excomunhão o baniu dos meios judáicos, mas não o isolou dos cristão, especialmente os da Reforma. Com efeito, ele foi bem recebido por muitos cristãos, mas mesmo assim, não lhe pareceu isso algo que lhe obrigasse a aderir à fé deles. Era amigo de eminentes personalidades holandesas, como o famoso cientista Cristian Huygens. Mantinha notável correspondência com admiradores e amigos, nos quais discutia e clarificava seus escritos. Esta volumosa correspondência é uma dádiva para os que se deruçam sobre a filosofia espinosiana.

Espinosa morreu em 1677, aos 44 anos, vítima da tuberculose, mas sempre fiel ao ideal de vida que cultivou por toda a vida.

2. Sua Obra

Espinosa, em contrates com outros filósofos, escreveu razoavelmente poucas obras. Um de seus primeiro trabalhos escritos foi O Breve Tratado sobre Deus, o Homem e a Sua Felicidade, de cunho eminentemente ético, mas que permaneceu incógnito até sua publicação no século passado. Escreveu posteriormente, O Tratado sobre a Emenda do Intelecto, em 1661, no mesmo ano que inicia a sua obra-prima, a Ethica, que só veio a ser publicada postumamente. Publicou uma exposição dos Princípios de Filosofia de Descartes junto com Pensamentos Metafísicos. O Tratado Teológico-Político, porém, foi publicado anonimante (Espinosa sabia que ele iria causar uma grande reação contrária, como de fato houve).

3. Sua Principal Mensagem

Espinosa, ao contrário de Descartes e outros, estava menos interessado no desenvolvimento ou descoberta de um Método racional para se descobrir ‘verdades’ científicas e intelectuais que o de descobrir uma maneira de viver capaz de dar sentido e alegria à existência humana. Se Espinosa, em muitos pontos, é precursor do Iluminismo francês diante de sua luta pelos direitos do homem, o é mais ainda do existencialismo, em particular o de Soren Kierkegaard. Como nos falam Giovanni Rele e Dario Antiseri (Reale & Antiseri, 1990, p. 410), “O ‘verdadeiro’ que interessa a Spinoza não é o do tipo matemático ou físico, insto é, um verdadeiro que não incide sobre a existência humana, mas é precisamente aquele verdadeiro que interessa mais que qualquer outro à vida humana: aquele verdadeiro que se busca para dele desfrutar e em cujo desfrutamento realiza-se o cumprimento e a perfeição da existênfia e, portanto, a felicidade”.

Espinosa afirma o fato, já dito por Buda e Cristo antes dele, que tudo na vida humana é passivo de tranformação e/ou pleno desgaste, e que todas as coisas que ocorrem ao homem são “bens” ou “males” à medida que este se deixa impressionar ou estimular por elas. Na verdade, coisas e acontecimento são “interpretados” pela alma humana, de acordo com seus valores e desejos. Então, só diante de uma nova maneira de viver, onde se compreendesse esta realidade, poderia ajudur o homem a se livrar de uma tremenda carga de desejos – não de todos, é claro, mas do excesso dos supérfluos – que o prendem à matéria efêmera, e passar a se utilizar dela não como um fim, mas como um meio de se atingir objetivos mais elevados, humanistas e universais. Vejamos alguns pontos:

I) O desfrute do prazer só é benéfico na medida em que não prende a atenção e o espírito humanos em si. Porque se isso ocorre, o espírito fica de tal modo preso ao prazer que não se ocupada mais de outras coisas. Assim, após o desfrute ansioso, ocorre frequentmente que o homem que faz do prazer um fim pleno em si acaba, dianteda fugacidade destes, frequentemente menos valiosos que os esforços e prováveis amarguras empregados para conseguí-los, por cair numa grande tristeza e vazio, se perguntado: e depois? É só isso? E se tornar perturbado pelo seu vício que, em exagero, se mostra superficial.

II) Riquezas e honras só nos são realmente úteis se forem vistas como meios e intrumentos para se atingir uma maior e mais compartilhada felicidade. Do contrário, elas absorvem o espírito e o enclausula num círculo vicioso: o ter riquezas e honras como um fim traz o desejo de se ter mais e mais riquezas e honras, impedido mesmo o usufruto do que já foi conquistado.

Para Espinosa, assim como os para os Taoístas (cuja filosofia Espinosa não conheceu), em especial Lao – Tsé, o bem viver, a forma correta de viver em harmonia e em equilíbrio, nos leva a viver de acordo com a harmonia maior da natureza, que, enfim, é a própria expressão visível de Deus. Deus não é entendido por Espinosa como um Ser à parte e/ou externo ao mundo, que o governa como um engenheiro ou habilidoso artesão, mas como, de forma muito sutil e holística, a Divindade da Ordem Eterna da Natureza, muito superior ao entendimento fragmentado e antropomorfista humano. É, enfim, o Grande Uno que se expressa nos Muitos a que se faz a partir de Si mesmo. Uma visão estranha ao modo ocidental, mas bem de acordo com as mais sofisticadas concepções orientais do Divino. Para Espinosa, o mundo visível que nos cerca nada mais é que a expressão explicada (no sentido de ser exposta) em miríades de formas eternamente mutáveis de uma única causa intrínseca ou implicada – usando os termos da moderna teoria de Odem Implicada do físico David Bohm -, única real substância universal e absoluta, que está além dos modos convencionais de compreensibilidade, e que, para Espinosa, é o próprio Deus, pois que fundamento originário que É e que não pode ser remetido a nada além de Si mesmo… Esta Causa Primária é livre por agir por sua própria natureza divina, e é eterna, já que sua essência é sua própria existência. Sendo assim, Deus é necessariamente a única real Causa existente, sendo tudo o mais efeitos Seus, inclusive o homem, que, tendo um pouco da semelhança da Causa Primária, também é, ele mesmo, co-criador, inclusive de seus próprios problemas, por imperfeito ser que é, mas livre igualmente para escolher fazer de sua vida algo com sentido, especialmente o do próprio aperfeiçoamento humano segundo os limites que lhe é dado pela natureza.

Este é um pequeno e imperfeito resumo da mensagem de um dos maiores filósofos de todos os tempos…

A obra de Espinosa foi durante muitos anos mal compreendida, quando não explicitamente atacada – mesmo por aqueles que não a conheciam. Hoje em dia, porém, a grandeza deste homem, em expressa que está em suas obras, está sendo cada vez mais aceita. Muitos dos filósofos do romantismo e da modernidade devem muito aos caminhos abertos por Baruch Espinosa. Em especial, a conquista da liberdade de pensameto – ainda que hoje volte novamente a ser parcial – e de muitos benefícios devemos ao trabalho de Baruch Espinosa.

 

por Carlos Antonio Fragoso Guimarães

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/baruch-espinosa/

San Mitsu: Os Três Mistérios do Budismo Shingon

O Budismo Shingon é uma escola do budismo esotérico fundada pelo monge Kobo Daishi, também chamado de K?kai, no início do período Heian no Japão. O Shingon segue a linha do Vajrayana e preceitua que a iluminação búdica pode ser alcançada por todos ainda nesta vida através da observação do San Mitsu (os Três Segredos ou Três Mistérios): as atividades simbólicas Corpo, Palavra e Mente.

Os Três Mistérios estão presentes em todas as coisas que compõe o Universo, pois o Universo contém em si todos os ensinamentos de Buda. Assim, quando falamos em praticar os ensinamentos de Buda, nós estamos falando de três coisas: shinmitsu, kumitsu e imitsu.

1. Quando juntamos as mãos em frente ao corpo (gasshou – pronuncia-se gasshô), isso é chamado “o mistério da ação dos corpos” (shinmitsu)

2. Quando recitamos mantras, isso é chamado “o mistério da palavra” (kumitsu)

3. Quando meditamos, isso é chamado “o mistério da mente” (imitsu)

O Segredo do Corpo: Mudra

Os mudras expressam a forma da atividade secreta do corpo, e simbolicamente criam uma conexão entre o praticante e o universo. O Monge K?kai, fundador da escola Shingon, assim escreveu:

“Se os Budas estão no reino do Dharma, eles existem dentro de meu corpo. Se eu também sou do reino do Dharma, então eu existo dentro dos Budas”.

A atividade secreta do Corpo é o uso da energia a partir da matéria; isto é, é a utilização das coisas físicas e materiais presentes no plano denso para utilização da energia dos planos mais sutis. Em outras palavras, para facilitar o entendimento deste ensinamento, podemos dizer que mudra designa qualquer coisa material e física que é empregada para gerar e utilizar energia, proporcionando, assim, a conexão do seu praticante com o Universo.

O Segredo da Palavra: Mantra

A atividade secreta da palavra é expressa através dos mantras e dos dharanis, que são fórmulas de invocação. Assim escreveu o Monge K?kai:

“Ao vocalizar as sílabas de maneira clara e compreensiva, a verdade se manifesta. O que é chamado? A verdade das sílabas vocalizadas? São os três segredos nos quais todas as coisas e Buda são iguais. Essa é a essência original de todos os seres”.

A escola Shingon descreve os mantras em termos de som, do sânscrito escrito, e do significado simbólico.

O mantra é, portanto, o nome primordial, a verdadeira palavra que carrega o seu poder originário de criação; é a atividade secreta da palavra que traz consigo a essência de todos os seres. Ele age a partir da vibração, sendo o som a sua manifestação física. Através da pronunciação repetida, é possível obter controle sobre a forma de energia gerada por ele.

O Segredo da Mente: Visualização

A atividade secreta da mente é expressa na visualização dos Budas e outras deidades, dos símbolos dos mantras (yantras) e de outras formas simbólicas.

Sobre o tema, o Monge K?kai escreveu:

“Os três segredos do Corpo do Dharma não estão limitados às partículas mais finas, e não se dissipam, mesmo preenchendo todo o espaço. Eles penetram rochas, plantas, e árvores sem discriminação. Eles penetram os humanos, os deuses, os demônios, e os animais sem escolher. Eles se estendem a todos os lugares. Não há nada através do qual eles não possam agir”.

Yantras, Mandalas e outras formas pictográficas simbólicas são representações microcósmicas do macrocosmo, e a sua visualização ativa essa energia, colocando seu praticante em contato com ela.

#Budismo #MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/san-mitsu-os-tr%C3%AAs-mist%C3%A9rios-do-budismo-shingon

A Natureza da Consciência (parte-3)

Alan Watts

Na sessão de ontem à noite, eu estava discutindo um mito alternativo aos modelos Cerâmicos e Totalmente Automáticos do universo, que chamarei de Mito Dramático. A ideia de que a vida como a experimentamos é um grande ato, e que por trás desse grande ato está o jogador, e o jogador, ou o eu, como é chamado na filosofia hindu, o atman, é você. Só você está brincando de esconde-esconde, pois esse é o jogo essencial que está acontecendo. O jogo dos jogos. A base de todos os jogos, o esconde-esconde. E como você está brincando de esconde-esconde, você está deliberadamente, embora não possa admitir isso – ou não queira admitir – você está deliberadamente esquecendo quem você realmente é, ou o que você realmente é. E o conhecimento de que seu eu essencial é o fundamento do universo, o ‘fundo do ser’ como Tillich o chama, é algo que você tem que os alemães chamam de hintengedanka. Hintengedanka é o pensamento bem, bem , bem,bem bem no fundo da sua mente. Algo que você conhece no fundo, mas não pode admitir.

Então, de certa forma, para trazer isso para a frente, para saber que é o caso, você tem que ser enganado. E então o que eu quero discutir esta manhã é como isso acontece. Embora antes de fazê-lo, eu deva ir um pouco mais longe em toda a natureza deste problema.

Você vê, o problema é este. Identificamos em nossa experiência uma diferenciação entre o que fazemos e o que nos acontece. Temos um certo número de ações que definimos como voluntárias e nos sentimos no controle delas. E então, contra isso, há todas aquelas coisas que são involuntárias. Mas a linha divisória entre esses dois é muito inarbitrária. Porque, por exemplo, quando você move a mão, sente que decide se abre ou fecha. Mas então pergunte a si mesmo como você decide? Quando você decide abrir sua mão, você primeiro decide decidir? Você não faz isso, não é? Você apenas decide, e como você faz isso? E se você não sabe como fazer, é voluntário ou involuntário? Vamos considerar a respiração. Você pode sentir que respira deliberadamente; você não controla sua respiração. Mas quando você não pensa sobre isso, ela continua. É voluntário ou involuntário?

Assim, chegamos a ter uma definição muito arbitrária do eu. Muito da minha atividade que sinto que faço  não inclui respirar na maior parte do tempo; não inclui os batimentos cardíacos; não inclui a atividade das glândulas; não inclui digestão; não inclui como você molda seus ossos; circula seu sangue. Você faz ou não faz essas coisas? Agora, se você ficar consigo mesmo e descobrir que você é todo você mesmo, uma coisa muito estranha acontece. Você descobre que seu corpo sabe que você é um com o universo. Em outras palavras, a chamada circulação involuntária do seu sangue é um processo contínuo com as estrelas brilhando. Se você descobrir que é VOCÊ quem circula seu sangue, você descobrirá ao mesmo tempo que está brilhando o sol. Porque seu organismo físico é um processo contínuo com tudo o que está acontecendo. Assim como as ondas são contínuas com o oceano. Seu corpo é contínuo com o sistema total de energia do cosmos, e é tudo você. Só você está jogando o jogo que você é apenas um pouco disso. Mas, como tentei explicar, na realidade física não existem eventos separados.

Então. Lembre-se também de quando tentei trabalhar em direção a uma definição de onipotência. Onipotência não é saber como tudo se faz; é só fazer. Você não precisa traduzi-lo para o idioma. Supondo que quando você acordasse de manhã, você tivesse que ligar seu cérebro. E você tivesse que pensar e fazer como um processo deliberado despertando todos os circuitos que você precisa para uma vida ativa durante o dia. Ora, você nunca terminaria! Porque você tem que fazer todas essas coisas ao mesmo tempo. É por isso que os budistas e os hindus representam seus deuses como muitos armados. Como você pode usar tantos braços ao mesmo tempo? Como uma centopéia poderia controlar cem pernas de uma só vez? Porque não pensa nisso. Da mesma forma, você está realizando inconscientemente todas as várias atividades do seu organismo. Só que inconscientemente não é uma boa palavra, porque soa meio morta. Superconscientemente seria melhor. Dê-lhe uma mais em vez de uma a menos.

A consciência é uma forma bastante especializada de percepção. Quando você olha ao redor da sala, você está consciente de tudo o que pode notar e vê um enorme número de coisas que não percebe. Por exemplo, eu olho para uma garota e alguém me pergunta depois ‘O que ela estava vestindo?’ Posso não saber, embora tenha visto, porque não prestei atenção. Mas eu estava ciente.  E talvez se eu pudesse responder esta pergunta sob hipnose, onde eu tiraria minha atenção consciente do caminho por estar em estado hipnótico, eu poderia lembrar que vestido ela estava usando.

Então, da mesma forma que você não sabe – você não foca sua atenção – em como você faz sua glândula tireoide funcionar, da mesma forma, você não tem nenhuma atenção focada em como você faz o sol brilhar. Então, deixe-me conectar isso com o problema do nascimento e da morte, que intriga enormemente as pessoas, é claro. Porque, para entender o que é o eu, você precisa se lembrar de que ele não precisa se lembrar de nada, assim como você não precisa saber como funciona sua glândula tireoide.

Então, quando você morrer, você não terá que tolerar a inexistência eterna, porque isso não é uma experiência. Muitas pessoas têm medo de que, quando morrerem, fiquem trancadas em um quarto escuro para sempre, e meio que passarão por isso. Mas uma das coisas interessantes do mundo é – isso é uma ioga, isso é uma realização – tente imaginar como será dormir e nunca mais acordar. Pense sobre isso. As crianças pensam nisso. É uma das grandes maravilhas da vida. Como será dormir e nunca mais acordar? E se você pensar o suficiente sobre isso, algo vai acontecer com você. Você descobrirá, entre outras coisas, que ele fará a próxima pergunta para você. Como seria acordar depois de nunca ter ido dormir? Foi quando você nasceu. Veja, você não pode ter uma experiência do nada; a natureza abomina o vácuo. Então, depois que você morre, a única coisa que pode acontecer é a mesma experiência, ou o mesmo tipo de experiência de quando você nasceu. Em outras palavras, todos nós sabemos muito bem que depois que outras pessoas morrem, outras pessoas nascem. E todas elas são você, só que você só pode experimentar uma de cada vez. Todo mundo sou eu, todos vocês sabem que são vocês, e onde quer que todos os seres existam em todas as galáxias, não faz a menor diferença. Você é todos eles. E quando eles vêm a ser, é você que vem a ser.

Você sabe muito bem disso, só que não precisa se lembrar do passado da mesma forma que não precisa pensar em como trabalha sua glândula tireoide, ou o que quer que seja em seu organismo. Você não precisa saber como brilhar o sol. Você apenas faz isso, como você respira. Não é realmente surpreendente que você seja essa coisa fantasticamente complexa, e que esteja fazendo tudo isso e nunca tenha tido nenhuma educação sobre como fazê-lo? Nunca aprendeu, mas você é esse milagre. A questão é que, do ponto de vista estritamente físico e científico, este organismo é uma energia contínua com tudo o que está acontecendo. E se sou meu pé, sou o sol. Só que temos essa pequena visão parcial. Temos a ideia de que ‘Não, eu sou algo NESSE corpo’. O ego. Isso é uma piada. O ego nada mais é do que o foco da atenção consciente. É como o radar de um navio. O radar em um navio é um solucionador de problemas. Há algo no caminho? E a atenção consciente é uma função projetada do cérebro para escanear o ambiente, como um radar faz, e observar quaisquer mudanças que causem problemas. Mas se você se identificar com seu solucionador de problemas, naturalmente você se definirá como estando em um estado perpétuo de ansiedade. E no momento em que deixamos de nos identificar com o ego e nos conscientizamos de que somos o organismo inteiro, percebemos de primeira como tudo é harmonioso. Porque seu organismo é um milagre de harmonia. Todas essas coisas funcionando juntas. Mesmo aquelas criaturas que estão lutando entre si na corrente sanguínea e se devorando. Se elas não estivessem fazendo isso, você não seria saudável.

Então, o que é discórdia em um nível do seu ser é harmonia em outro nível. E você começa a perceber isso, e começa a ter consciência também, que as discórdias de sua vida e as discórdias da vida das pessoas, que são uma discórdia em um nível, em um nível superior do universo, são saudáveis ​​e harmoniosas. E de repente você percebe que tudo o que você é e faz está nesse nível tão magnífico e tão livre de qualquer defeito quanto os padrões das ondas. As marcações em mármore. A maneira como um gato se move. E que este mundo está realmente bem. Não pode ser outra coisa, porque senão não poderia existir. E não quero dizer isso no sentido de Pollyanna ou Christian Science. Eu não sei o que é ou sobre o que é a Ciência Cristã, mas é uma coisa certinha. Tem uma sensação engraçada; veio da Nova Inglaterra.

Mas a realidade sob a existência física, ou que realmente é a existência física – porque na minha filosofia não há diferença entre o físico e o espiritual. Estas são categorias absolutamente desatualizadas. É tudo processo; não é ‘coisa’ por um lado e ‘forma’ por outro. É apenas um padrão – a vida é um padrão. É uma dança de energia. E por isso nunca invocarei conhecimento assustador. Ou seja, que eu tive uma revelação particular ou que tenho vibrações sensoriais em um plano que você não tem. Tudo está bem exposto, é apenas uma questão de como você olha para isso. Então você descobre quando percebe isso, a coisa mais extraordinária que eu nunca deixo de ficar boquiaberto sempre que  acontece comigo. Algumas pessoas usarão um simbolismo do relacionamento de Deus com o universo, no qual Deus é uma luz brilhante, apenas de alguma forma velada, ocultando-se sob todas essas formas enquanto você olha ao seu redor. Até agora tudo bem. Mas a verdade é mais engraçada do que isso. É que você está olhando diretamente para a luz brilhante agora que a experiência que você está tendo que você chama de consciência cotidiana comum – fingindo que você não é isso – essa experiência é exatamente a mesma coisa que ‘isso’. Não há diferença nenhuma. E quando você descobre isso, você ri de si mesmo. Essa é a grande descoberta.

Em outras palavras, quando você realmente começa a ver as coisas, e olha para um velho copo de papel, e entra na natureza do que é ver o que é visão, ou o que é cheiro, ou o que é tato, você percebe que essa visão do copo de papel é a luz brilhante do cosmos. Nada poderia ser mais brilhante. Dez mil sóis não poderiam ser mais brilhantes. Só que eles estão escondidos no sentido de que todos os pontos da luz infinita são tão pequenos quando você os vê na xícara que não explodem seus olhos. Veja, a fonte de toda luz está no olho. Se não houvesse olhos neste mundo, o sol não seria luz. Então, se eu bato o mais forte que posso em um tambor que não tem pele, ele não faz barulho. Então, se um sol brilha em um mundo sem olhos, é como uma mão batendo em um tambor sem pele. Sem luz. VOCÊ evoca a luz do universo, da mesma forma que você, por natureza de ter uma pele macia, evoca a dureza da madeira. A madeira só é dura em relação a uma pele macia. É o seu tímpano que evoca o ruído do ar. Você, sendo este organismo, chama à existência todo este universo de luz e cor e dureza e peso e tudo mais.

Mas na mitologia que nos venderam no final do século 19, quando as pessoas descobriram o quão grande era o universo, e que vivemos em um pequeno planeta em um sistema solar na borda da galáxia, que é uma galáxia menor , todo mundo pensou, ‘Uuuuugh, nós somos realmente sem importância, afinal. Deus não está lá e não nos ama, e a natureza não dá a mínima.’ E nós nos colocamos para baixo. Mas, na verdade, é esse pequeno micróbio engraçado, coisinha, rastejando neste pequeno planeta que está em algum lugar, que tem a ingenuidade, por natureza dessa magnífica estrutura orgânica, de evocar todo o universo do que de outra forma seriam meros quantas. Há jazz acontecendo. Este pequeno organismo engenhoso não é apenas um estranho. Este pequeno organismo, neste pequeno planeta, é todo o show que está crescendo, e assim percebendo sua própria presença. Faz isso através de você, e você é isso.

Quando você coloca o bico de uma galinha em uma linha de giz, ela fica presa; está hipnotizada. Então, da mesma forma, quando você aprende a prestar atenção, e quando criança você sabe como todos os professores estravam na aula: ‘Preste atenção!!’ E todas as crianças olham para o professor. E temos que prestar atenção. Isso é colocar o nariz na linha de giz. E você ficou preso com a ideia de atenção, e pensou que atenção era o Eu, o ego. Então, se você começar a prestar atenção na atenção perceberá qual é a farsa. É por isso que no livro ‘Ilha’ de Aldous Huxley, o Roger havia treinado os pássaros myna na ilha para dizer ‘Atenção! Aqui e agora, rapazes!’ Vê? Perceba quem você é. Venha, acorde!

Bem, aqui está o problema: se este é o estado de coisas que é assim, e se o estado consciente em que você está neste momento é a mesma coisa que poderíamos chamar de Estado Divino. Se você fizer qualquer coisa para torná-lo diferente, isso mostra que você não entende que é assim. Portanto, no momento em que você começa a praticar ioga, orar ou meditar, ou se entregar a algum tipo de cultivo espiritual, você está entrando de novo em seu próprio caminho.

Agora este é o truque budista: o buda disse ‘Nós sofremos porque desejamos. Se puder desistir do desejo, não sofrerá. Mas ele não disse isso como última palavra; ele disse isso como o passo inicial de um diálogo. Porque se você disser isso a alguém, eles vão voltar depois de um tempo e dizer ‘Sim, mas agora estou desejando não desejar’. E assim o buda responderá: ‘Bem, finalmente você está começando a entender o ponto.’ Porque você não pode desistir do desejo. Por que você tentaria fazer isso? Já é desejo. Assim, da mesma forma você diz ‘Você deveria ser altruísta’ ou desistir de seu ego. Deixe ir, relaxe. Por que você quer fazer isso? Só porque é outra maneira de vencer o jogo, não é? No momento em que você levanta a hipótese de que você é diferente do universo, você quer colocar um em cima do outro. Mas se você tenta se destacar no universo e está competindo com ele, isso significa que você não entende que você É ele. Você acha que há uma diferença real entre ‘eu’ e ‘outro’. Mas ‘eu’, o que você chama de si mesmo, e o que você chama de ‘outro’ são mutuamente necessários um para o outro, como frente e verso. Eles são realmente um. Mas, assim como um ímã se polariza no norte e no sul, mas é tudo um ímã, a experiência se polariza como eu e outro, mas é tudo um. Se você tentar fazer com que o pólo sul derrote o pólo norte, ou conseguir dominá-lo, você mostra que não sabe o que está acontecendo.

Portanto, existem duas maneiras de jogar o jogo. A primeira maneira, que é a maneira usual, é um guru ou professor que quer passar isso para alguém porque ele mesmo sabe disso, e quando você sabe, gostaria que os outros também vissem. Então, o que ele faz é fazer você ser ridículo com mais força e assiduidade do que o normal. Em outras palavras, se você está em uma disputa com o universo, ele vai provocar essa disputa até que se torne ridícula. E então ele lhe dá tarefas como dizer: Agora, é claro, para ser uma pessoa verdadeira, você deve desistir de si mesmo, ser altruísta. Então o senhor desce do céu e diz: ‘O primeiro e grande mandamento é ‘Amarás o senhor teu deus’. Você deve me amar.’ Bem, isso é uma ligação dupla. Você não pode amar de propósito. Você não pode ser sincero de propósito. É como tentar não pensar em um elefante verde enquanto toma remédio.

Mas se uma pessoa realmente tenta fazer isso – e é assim que o cristianismo é manipulado – você deve se arrepender muito de seus pecados. E embora todos saibam que não são, mas acham que deveriam ser, eles andam por aí tentando ser penetrantes. Ou tentando ser humilde. E eles sabem que quanto mais assiduamente a praticam, mais e mais falsa fica a coisa toda. Assim, no Zen Budismo, acontece exatamente a mesma coisa. O mestre Zen desafia você a ser espontâneo. “Mostre-me o verdadeiro você.” Uma maneira que eles fazem isso é fazer você gritar. Grite a palavra ‘Mu’. E ele diz ‘Eu quero ouvir VOCÊ nesse grito. Quero ouvir todo o seu ser nele. E você grita com seus pulmões e ele diz ‘Pfft. Isso não é bom. Isso é apenas um grito falso. Agora eu quero ouvir absolutamente todo o seu ser, direto do coração do universo, vindo neste grito.’ E esses caras gritam até ficarem roucos. Nada acontece. Até que um dia eles ficam tão desesperados que desistem de tentar e conseguem fazer aquele grito passar, quando não estavam tentando ser genuínos. Porque não havia mais nada a fazer, você só tinha que gritar.

E assim, desta forma – é chamada de técnica de reductio ad absurdum. Se você acha que tem um problema, e é um ego e está em dificuldade, a resposta que o mestre Zen lhe dá é ‘Mostre-me seu ego. Eu quero ver essa coisa que tem um problema.’ Quando Bodidharma, o lendário fundador do Zen, veio para a China, um discípulo veio até ele e disse: ‘Não tenho paz de espírito. Por favor, pacifique minha mente. E Bodhidharma disse ‘Traga sua mente aqui antes de mim e eu a pacificarei.’ “Bem”, disse ele, “quando procuro, não encontro.” Então Bodhidharma disse ‘Pronto, está pacificado.’ Porque quando você procura sua própria mente, isto é, seu próprio centro particularizado de ser que é separado de tudo o mais, você não será capaz de encontrá-lo. Mas a única maneira de você saber que não está lá é se você procurar com afinco, para descobrir que não está lá. E então todo mundo diz ‘Tudo bem, conheça a si mesmo, olhe para dentro, descubra quem você é’. Porque quanto mais você olhar, você não será capaz de encontrá-lo, e então você perceberá que ele não está lá. Não existe um você separado. Sua mente é o que existe. Tudo. Mas a única maneira de descobrir isso é persistir no estado de ilusão o mais forte possível. Essa é uma maneira. Eu não disse o único caminho, mas é um caminho.

Assim, quase todas as disciplinas espirituais, meditações, orações, etc, etc, são maneiras de persistir na loucura. Fazendo resoluta e consistentemente o que você já está fazendo. Então, se uma pessoa acredita que a Terra é plana, você não pode dissuadi-la disso. Ele sabe que é plano. Olhe pela janela e veja; é óbvio, parece plano. Então, a única maneira de convencê-lo de que não é dizer ‘Bem, vamos encontrar o limite’. E para encontrar a borda, você tem que ter muito cuidado para não andar em círculos, você nunca vai encontrar desse jeito. Então, temos que seguir consistentemente em uma linha reta para oeste ao longo da mesma linha de latitude e, eventualmente, quando voltamos para onde começamos, você convenceu o cara de que o mundo é redondo. Essa é a única maneira que vai ensiná-lo. Porque as pessoas não podem ser convencidas.

Há outra possibilidade, no entanto. Mas isso é mais difícil de descrever. Digamos que tomemos como suposição básica – que é a coisa que se vê na experiência do satori ou do despertar, ou como você quiser chamar – que este momento agora em que estou falando e você está ouvindo, é eternidade. Que embora de alguma forma tenhamos nos enganado na noção de que este momento é comum, e que podemos não nos sentir muito bem, estamos meio que vagamente frustrados e preocupados e assim por diante, e que deve ser mudado. É isso. Então você não precisa fazer absolutamente nada. Mas a dificuldade de explicar isso é que você não deve tentar não fazer nada, porque isso é fazer alguma coisa. É do jeito que é. Em outras palavras, o que é necessário é uma espécie de super relaxamento; não é um relaxamento comum. Não é apenas soltar, como quando você se deita no chão e imagina que está pesado para entrar em um estado de relaxamento muscular. Não é desse jeito. É estar consigo mesmo como você é sem alterar nada. E como explicar isso? Não há nada para explicar. É do jeito que está agora. Veja? E se você entender isso, isso o acordará automaticamente.

Então é por isso que os professores Zen usam o tratamento de choque, às vezes batem ou gritam com os discípulos ou criam uma surpresa repentina. Porque é aquele solavanco que de repente te traz aqui. Veja, não há caminho para aqui, porque você já está lá. Se você me perguntar ‘Como vou chegar aqui?’ Será como a famosa história do turista americano na Inglaterra. O turista perguntou a algum caipira o caminho para Upper Tuttenham, uma pequena vila. E o caipira coçou a cabeça e disse: ‘Bem, senhor, não sei onde fica, mas se eu fosse você, não começaria daqui.’

Então você vê, quando você pergunta ‘Como eu obtenho o conhecimento de Deus, como eu obtenho o conhecimento da liberação?’ Tudo o que posso dizer é que é a pergunta está errada. Por que você quer obtê-lo? Porque o próprio fato de você querer obtê-lo é a única coisa que o impede de chegar lá. Você já tem. Mas claro, depende de você. É seu privilégio fingir que não. Esse é o seu jogo; esse é o jogo da sua vida; é isso que te faz pensar que você é um ego. E quando você quiser acordar, você vai, simples assim. Se você não está acordado, isso mostra que você não quer. Você ainda está jogando a parte oculta do jogo. Você ainda é, por assim dizer, o eu fingindo que não é o eu. E é isso que você quer fazer. Então você vê, dessa forma, também, você já está lá.

Então, quando você entende isso, uma coisa engraçada acontece, e algumas pessoas interpretam mal. Você descobrirá enquanto isso acontece que a distinção entre comportamento voluntário e involuntário desaparece. Você perceberá que o que você descreve como coisas sob seu controle parecerá exatamente o mesmo que as coisas que acontecem fora de você. Você observa outras pessoas se movendo e sabe que está fazendo isso, assim como está respirando ou circulando seu sangue. E se você não entende o que está acontecendo, você pode ficar louco neste ponto, e sentir que você é deus no sentido de Jeová. Dizer que você realmente tem poder sobre outras pessoas, para que possa alterar o que está fazendo. E que você é onipotente em um sentido bíblico muito grosseiro e literal.  Muitas pessoas sentem isso e ficam loucas. Eles os colocaram de lado. Eles pensam que são Jesus Cristo e que todos deveriam se prostrar e adorá-los. Isso é só porque eles têm seus fios cruzados. Essa experiência aconteceu com eles, mas eles não sabem como interpretá-la. Então tome cuidado com isso. Jung chama isso de inflação. Pessoas que têm a síndrome do Homem Santo, que de repente descubro que sou o senhor e que estou acima do bem e do mal e assim por diante, e por isso começo a me dar ares e graças. Mas o ponto é que todo mundo também é. Se você descobrir que você é isso, então você deve saber que todo mundo é.

Por exemplo, vamos ver de outras maneiras como você pode perceber isso. A maioria das pessoas pensa quando abre os olhos e olha ao redor, que o que está vendo está do lado de fora. Parece, não é, que você está atrás de seus olhos, e que atrás dos olhos há um vazio que você não consegue ver. Você se vira e há outra coisa na sua frente. Mas por trás dos olhos parece haver algo que não tem cor. Não é escuro, não é claro. Está lá do ponto de vista tátil; você pode senti-lo com os dedos, mas não pode entrar nele. Mas o que é isso atrás de seus olhos? Bem, na verdade, quando você olha lá fora e vê todas essas pessoas e coisas sentadas ao redor, é assim que se sente dentro de sua cabeça. A cor desta sala está aqui no sistema nervoso, onde os nervos ópticos estão na parte de trás da cabeça. Está lá. É o que você está experimentando. O que você vê aqui é uma experiência neurológica. Agora, se isso o atinge, e você sente sensualmente que é assim, você pode sentir, portanto, que o mundo externo está todo dentro do meu crânio. Você tem que corrigir isso, com o pensamento de que seu crânio também está no mundo externo. Então você de repente começa a sentir ‘Uau, que tipo de situação é essa? Está dentro de mim, e eu estou dentro dele, e está dentro de mim, e eu estou dentro dele.’ Mas é assim que é.

Isso é o que você poderia chamar de transação, em vez de interação entre o indivíduo e o mundo. Assim como, por exemplo, na compra e venda. Não pode haver um ato de compra sem que haja simultaneamente um ato de venda e vice-versa. Então a relação entre o ambiente e o organismo é transacional. O ambiente desenvolve o organismo e, por sua vez, o organismo cria o ambiente. O organismo transforma o sol em luz, mas é necessário que haja um ambiente contendo um sol para que haja um organismo. E a resposta é simplesmente que eles são todos um processo. Não é que os organismos por acaso vieram ao mundo. Este mundo é o tipo de ambiente que desenvolve organismos. Foi assim desde o início. Os organismos podem, com o tempo, entrar ou sair de cena, mas a partir do momento em que se deu o BANG! no começo foi assim que começou o processo e organismos como nós estão sentados aqui. Estamos envolvidos nisso.

Perceba, tomamos a propagação de uma corrente elétrica. Eu posso ter uma corrente elétrica passando por um fio que percorre toda a Terra. E aqui temos uma fonte de energia, e aqui temos um interruptor. Um pólo positivo, um pólo negativo. Agora, antes que esse interruptor se feche, a corrente não se comporta exatamente como água em um cano. Não há corrente aqui, esperando, para correr assim que o interruptor for fechado. A corrente nem começa até que a chave seja fechada. Ele nunca começa a menos que o ponto de chegada esteja lá. Agora, levará um intervalo para que a corrente comece a circular em seu circuito se ela estiver percorrendo toda a Terra. É um longo prazo. Mas o ponto de chegada tem que ser fechado antes mesmo de começar do começo. De maneira semelhante, embora no desenvolvimento de qualquer sistema físico possa haver bilhões de anos entre a criação da forma mais primitiva de energia e a chegada da vida inteligente, esses bilhões de anos são exatamente a mesma coisa que a viagem dessa corrente ao redor do fio. Leva um pouco de tempo. Mas já está implícito. Leva tempo para uma bolota se transformar em carvalho, mas o carvalho já está implícito na bolota. E assim em qualquer pedaço de rocha flutuando no espaço, há inteligência humana implícita. Em algum momento, de alguma forma, em algum lugar. Todos eles vão juntos.

Portanto, não se diferencie e diga: ‘Sou um organismo vivo em um mundo feito de um monte de lixo morto, pedras e outras coisas.’ Tudo vai junto. Essas pedras são tanto você quanto suas unhas. Você precisa de pedras. Em que você vai se apoiar?

O que eu acho que um despertar realmente envolve é um reexame do nosso senso comum. Temos todos os tipos de ideias embutidas em nós que parecem inquestionáveis, óbvias. E nosso discurso os reflete em suas frases mais comuns. ‘Encare os fatos.’ Como se estivessem fora de você. Como se a vida fosse algo que eles simplesmente encontrassem como estrangeiros. ‘Encare os fatos.’ Nosso senso comum foi manipulado, entende? Para que nos sintamos estranhos e alienígenas neste mundo, e isso é terrivelmente plausível, simplesmente porque é com isso que estamos acostumados. Essa é a única razão. Mas quando você realmente começar a questionar isso, diz ‘É assim que eu tenho que assumir que a vida é? Eu sei que todo mundo tem feito isso, mas isso o torna verdade?’ Não necessariamente. Não é necessariamente tem que ser assim. Então, ao questionar essa suposição básica subjacente à nossa cultura, você descobre que obtém um novo tipo de bom senso. Torna-se absolutamente óbvio para você que você é contínuo com o universo.

Por exemplo, as pessoas costumavam acreditar que os planetas eram sustentados no céu por estarem embutidos em esferas de cristal, e todos sabiam disso. Ora, você podia ver as esferas de cristal ali porque podia olhar através delas. Era obviamente feito de cristal, e algo tinha que mantê-los lá em cima. E então, quando os astrônomos sugeriram que não havia esferas de cristal, as pessoas ficaram apavoradas, porque pensaram que as estrelas iriam cair. Hoje em dia, não incomoda ninguém. Eles também pensaram que, quando descobrissem que a Terra era esférica, as pessoas que viviam nas antiguidades cairiam, e isso era assustador. Mas então alguém navegou ao redor do mundo, e todos nós nos acostumamos, viajamos em aviões a jato e tudo mais. Não temos nenhum problema em sentir que a Terra é globular. Nenhuma. Nós nos acostumamos com isso.

Assim, da mesma forma que as teorias da relatividade de Einstein – a curvatura da propagação da luz, a ideia de que o tempo envelhece à medida que a luz se afasta de uma fonte, em outras palavras, as pessoas olhando para o mundo agora em Marte, estariam vendo o estado do mundo um pouco mais cedo do que estamos experimentando agora. Isso começou a incomodar as pessoas quando Einstein começou a falar sobre isso. Mas agora estamos todos acostumados a isso, e a relatividade e coisas assim são uma questão de bom senso hoje. Bem, em alguns anos, será uma questão de senso comum para muitas pessoas que eles são um com o universo. Vai ser tão simples. E então talvez se isso acontecer, estaremos em condições de lidar com nossa tecnologia com mais sentido. Com amor em vez de ódio pelo nosso meio ambiente.

parte 2

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-natureza-da-consciencia-parte-3/

Introdução ao Shintoismo

O Shinto ou shintoísmo, a religião nacional do Japão, denominada mais corretamente pelos japoneses “Kami-no Michoi”, que significa “o caminho dos deuses”. Traduzida esta frase para o chinês, temos Shin-tao, cuja abreviação é Shinto, seu nome popular mesmo no Japão.

Muitas pessoas que são religiosas gostam de negar isso. “Eu? Não sou religioso”, dizem, “sigo o Jesus, Nosso Senhor… Mas isso não é religioso, é um fato histórico”. Assim dizem. E os xintoístas também são particularmente improváveis ​​de ver seu comportamento como sendo “religioso”. Eles podem ter seu carro purificado, podem ter pedido boa sorte ao deus local antes de seus exames de admissão na universidade ou fazer investimentos, provavelmente vão a um santuário todos os anos no dia de Ano Novo. Eles podem até pedir ajuda espirituais com empréstimos se precisarem de algum dinheiro. Mas se perguntados se eles são religiosos, eles dirão: “Quem eu? Isso não é religião. Isso é apenas um costume. Apenas, bem, a coisa normal a se fazer”.

Para verificar o fato de que os praticantes xintoístas não veem seu comportamento como religioso, realizei uma pesquisa perguntando aos visitantes de um santuário xintoísta “Você acredita em Deus?”, “Você é religioso?” e ​​”Quanto dinheiro eu daria tenho que pagar para você ir para casa hoje sem ter orado?”. Enquanto aqueles que responderam “sim” às duas primeiras perguntas foram a minoria, à terceira pergunta, todos, exceto um dos 40 entrevistados, responderam “Eu não iria para casa sem orar, não importa quanto dinheiro você me desse”. Era evidente que alguns dos alguns dos entrevistados ficaram levemente ofendidos por serem questionados. O único entrevistado que teria dispensado o dinheiro para ir para casa sem orar se definiu como cristão.

A partir disso, fica claro que: aqueles que praticam o xintoísmo não o consideram uma religião, mas também não consideram seu comportamento totalmente secular e mundano. As razões pelas quais o xintoísmo não é visto como religião são várias. Principalmente, a imagem de uma religião mantida por muitos japoneses é a de uma organização à qual se filia e que estipula várias maneiras de se comportar de acordo com algum tipo de ensinamento ou escritura.

Se o xintoísmo já teve uma organização, hoje não tem mais. Ao xintoísmo sempre faltou uma escritura além dos mitos que explicam a origem do Japão, mas não são proscritivos de forma alguma. As escrituras japonesas compõem-se de duas secções: o Kojiki ou “Registros de Assuntos Antigos”, e o Nihon-gi, as “Crônicas do Japão”, elaborada no oitavo século de nossa era.

Além de mitos e lendas desse tipo, o xintoísmo quase não tem tradição oral. Sem uma organização e qualquer formulação linguística de como se deve se comportar, o xintoísmo é particularmente transparente. Tudo o que o xintoísmo parece possuir é uma tradição corporal – um vê o corpo do outro, imita e a prática é transferida. A oração é uma questão de movimento – diante de Deus a pessoa se curva duas vezes, bate palmas duas vezes e se curva novamente. As festas xintoístas estão predominantemente ligadas ao calendário – a festa do ano novo, a festa da colheita – e, portanto, não parecem exigir qualquer justificação pela escritura ou como evento comemorativo.

Embora o xintoísmo seja muito diferente das religiões judaicas e até mesmo do budismo indiano, na minha opinião ele contém pontos em comum suficientes para permitir que seja comparado a eles e seja chamado de religião. No xintoísmo há oração e adoração a algo transcendente, que não faz parte do mundo físico mundano. E mais do que isso, o xintoísmo como o cristianismo e outras religiões do mundo tem, acredito, uma estrutura que firma a sociedade japonesa e em particular a família, da mesma forma que a “filosofia” do cristianismo estrutura as sociedades do ocidente cristão.

Totemismo Geográfico

A religião popular venera a sagrada montanha, Fuji-Yama. Religião e patriotismo acham-se tão intimamente entrelaçados, que vários governantes têm sido considerados praticamente deuses. Nas casas xintoístas existe em geral um pequeno altar consagrado aos deuses locais, o kamidana. Em cima deste altar encontra-se muitas vezes um amuleto oriundo do santuário local, do Grande Santuário de Ise e em alguns casos. Para encurtar a história, acho que o xintoísmo pode ser melhor entendido como uma forma de totemismo geográfico. Como mencionado acima, o sagrado no xintoísmo está quase invariavelmente ligado a uma determinada localização geográfica. No xintoísmo, Deus é algo que você pode apontar, está “lá”. O santuário ou “jinja” contém ou consagra uma coisa, mas também é um local sagrado. O corpo divino do santuário pode ser uma montanha, uma árvore, uma rocha ou outra característica natural, mas o mais importante será a coisa naquele lugar. E esse lugar cria uma atmosfera particular. O deus ou deuses que residem lá podem ter certas qualidades para conceder certos benefícios. Mas, acima de tudo, a característica fundamental de um santuário é o ponto geograficamente definido no espaço. Todos os aspectos do local sagrado: sua abordagem, seus limites, suas camadas são todos delineados de forma a enfatizar sua localização. Ao entrar na fronteira lava-se as mãos e a boca. A pessoa entra no santuário com o pé esquerdo primeiro e antes de sair se curva. De um modo geral, tradicionalmente se adora apenas o deus ou deuses do santuário localizado na proximidade geográfica de sua casa. E o mais importante, considera-se filho daquele santuário, daquele local.

É uma coisa impressionante acreditar ser filho de um local. Freud e Durkheim consideravam uma forma semelhante de “totemismo geográfico” como a mais “primitiva”, ou seja, a mais antiga forma de religião encontrada na sociedade humana, uma vez que, nas sociedades da Austrália central, os membros das tribos negavam a existência da paternidade. Aqui eu não considerarei as possíveis conexões entre o culto a um lugar e a ausência da crença na paternidade, exceto para notar que a paternidade também foi muitas vezes dita ter sido fraca ao longo da história japonesa (além do período Meiji e pré-guerra) e até mesmo ” ausente” no atual Japão. Em vez disso, concentro-me simplesmente na natureza localizada do xintoísmo e mostro como isso reflete, e pode-se dizer, que teve um efeito profundo na sociedade japonesa.

Sociedade Japonesa e Lugar

O título do livro tremendamente popular de Nakane Chie sobre a sociedade japonesa “Tateshakai no Ningen Kankei” (Relações humanas em uma sociedade verticalmente orientada) parece descrever o Japão como uma hierarquia – um equívoco que Nakane se esforçou para corrigir em suas publicações subsequentes. Ele fez as seguintes duas afirmações. O alicerce fundamental da sociedade japonesa não é o indivíduo no sentido ocidental, mas o pequeno grupo. A característica distintiva dos pequenos grupos japoneses é que eles contêm o elemento essencial de um espaço, um lugar onde são fundados. Alguns exemplos de como uma importância dada aos lugares são os seguintes:

O casamento foi descrito como “Vai ser uma noiva” no sentido de que não era um arranjo entre o marido e a esposa, nem mesmo entre a esposa e a família do marido, mas um movimento físico pelo qual uma pessoa entra e se torna um membro da família de outro espaço doméstico. Pode-se descrever o marido ou a esposa como “uchi no hito” a pessoa da minha casa.

Os casamentos japoneses são entre casas no sentido que só se mantêm na Grã-Bretanha pela aristocracia. A linhagem da família japonesa é por vezes descrita como sendo uma linhagem dupla (com linhas de descendência matrilinear e patrilinear) mas na verdade é mais correcto dizer que a família japonesa é, como um estudioso japonês a descreve, “linear segundo a casa” – ou seja, a linha de descendência é determinada por quem mora na casa.

A família japonesa ainda mantém a antiga tradição japonesa de manter um “honseki” ou registro de onde as pessoas são originárias. Agora que este registro foi assumido pelo sistema legal estadual, é possível mover o registro, mas o casamento ainda significa mover fisicamente a documentação para o registro de outra família. Este não é simplesmente o local de nascimento de um agrupamento social geograficamente definido que se poderia chamar de “lugar de família”.
Não se pergunta a alguém “Em qual empresa você trabalha” mas “Onde (é a) empresa em que você trabalha”

Todos os grupos, sejam eles clubes universitários ou grupos de pesquisa, sentem-se carentes, a menos que tenham um lugar, um ponto de apoio, algum lugar onde possam chamar de lar.

Os japoneses são muito sensíveis ao lugar e ao comportamento apropriado em relação a esse lugar. O comportamento aceitável em um local é inaceitável em outro. No local de trabalho, a pessoa é encorajada a se comportar de maneira altamente respeitosa em relação ao seu chefe. Depois do trabalho, enquanto estiver no local de trabalho, a situação não muda. Mas assim que alguém se muda para o bar, a maneira de comportamento provavelmente mudará radicalmente na medida em que a distinção entre patrão e trabalhador pode se dissolver. As regras são limitadas ao local.

Exemplos mais extremos são a tolerância japonesa de distritos da luz vermelha e sindicatos do crime. Se o bordel é uma certa parte da cidade, então é aceitável. Se o sindicato do crime organizado colocar uma placa dizendo “estamos aqui”, desde que todos saibam onde estão, até eles são aceitáveis.

Por outro lado, aqueles que não são aceitáveis ​​na sociedade japonesa, por exemplo, o burakumin (um nome que quando traduzido literalmente significa as pessoas nômades) são novamente confinados a um lugar. Diz-se que os burakumin são párias por causa de seu envolvimento com o abate de gado e tratamento de couro e outras atividades consideradas impuras pelo budismo japonês. Mas eles também são impuros em virtude de onde eles vêm. Eles vêm do lugar impuro. Eles são delineados do resto da sociedade precisamente por onde eles vêm.

O sumô, esporte nacional do Japão, consiste em uma batalha pela defesa de um espaço, que é sagrado. Este ano, foi recusada ao major de Oosaka permissão para entrar no ringue de sumô, pois, como mulher, ela é considerada impura. Mas isso é outra história.

Em suma, podemos chegar a dizer que no Japão, devido à natureza politeísta geograficamente localizada de sua religião xintoísta, não há deus universal nem regras universais. Em vez disso, existem normas de comportamento definidas localmente.

Xintoísmo e a Família Japonesa

A conexão entre essas características da sociedade japonesa e o xintoísmo deve ser clara. A adoração de locais sagrados estimula os japoneses a terem certos valores e certas formas de ver a organização – principalmente em termos espaciais. As pessoas são vistas como unidas pelo fato de compartilharem o mesmo ambiente, a mesma atmosfera, o mesmo espaço. A manutenção desses espaços e ambientes é considerada importante. A religião xintoísta fomentou essa forma de perceber o mundo. E essa forma de perceber o mundo encorajou o povo japonês a manter a religião xintoísta. No caso específico da família, os membros da família são definidos e vinculados à família por sua atitude compartilhada em relação ao lar. São pessoas que voltam para casa em um determinado lugar e se esforçam para manter e melhorar as condições nele. Ao fazê-lo, eles acreditam que viverão felizes e harmoniosamente de acordo com sua natureza. Isso é simplesmente, do ponto de vista xintoísta, o que os humanos fazem. Ou melhor, isso é simplesmente o que é natural para os humanos japoneses, ou seja, humanos que são da região geográfica Japão. O conceito de “humano” é um conceito não espacialmente limitado e, portanto, sob essa visão de mundo, um tanto falso. Os americanos, que cresceram em um ambiente diferente, são diferentes.

Defini o xintoísmo como uma forma de totemismo geográfico e, por sua vez, como espaço-centrismo ou orientação para o lugar. Mas isso é suficiente? De que estrutura precisa uma sociedade? Os princípios do cristianismo são bastante simples. Os seres humanos são todos filhos de um deus e todos eles têm o mesmo “amor” é são considerados uma unidade até mesmo com o próprio deus). Esta fórmula é simples e, no entanto, suficiente para organizar as sociedades de uma forma muito diferente do Japão. Sob o princípio do amor, homens e mulheres ocidentais podem ser unidos em casamento sob a presunção de ter o mesmo objetivo cristão.

Do ponto de vista japonês, esse suposto objetivo do cristianismo é falso, visto que homens e mulheres são vistos como tendo objetivos diferentes. Assim como do ponto de vista cristão é falso pensar que os humanos têm a propensão natural para criar e delinear lugares sagrados.

Xintoismo Hoje

O decorrer da história impôs ao povo japonês a revisão de seu credo. Nos últimos cinqüenta anos o facilismo que distinguira o shinto por tanto tempo, tem sido suprimido em grande parte. A partir do século sexto, o confucionismo e o taoísmo vieram da China. Na mesma época o budismo chegou ao país via Coréia, quando o rei de Paekche enviou uma estátua do Buda e cópias das suras ao imperador japonês.  Os xintoístas não viam conflito entre suas práticas e estas filosofias e logo todas foram liberalmente mescladas.

Com o tempo o budismo se sobressaiu, mas a religião tradicional não despareceu.

No século dezoito ocorreu uma grande revivificação do xinto, sob os auspícios dum grupo de intelectuais, que logrou restaurar em grande parte a religião nativa.. Nessa reformulação os  budas foram interpretados como kami encarnados, que assim deixavam o seu estado original para descerem à terra em benefícios das pessoas. Durante a era Meiji floresceu uma ideologia profundamente nacionalista e escolha de uma religião oficial recaiu sobre o xintoísmo, já antes aclamado como a religião nacional e desde então considerada pelo regime como superior a todas os outras. Aos poucos o xintoísmo de Estado promoveu uma laicização do xintoísmo, tornando um dever cívico de reverência ao Estado e ao imperador.

O xintoísmo estatal durou várias décadas e ainda reflete na cultura nacional. Em 1946, foi proclamada a nova constituição e o imperador foi destituído de todas as prerrogativas divinas e de todo o poder político, tornando-se apenas símbolo da unidade nacional.   Neste mesmo ano foi fundada em Tóquio a Associação dos Santuários (Jinja honchó) e desde então o xintoísmo tem experimentado um retorno as bases locais.

Contudo esta época assistiu também o retorno de religiões estrangeiras, incluindo agora as religiões ocidentais como o cristianismo. A tendência liberal dos shintonistas para com outras  doutrinas, converteu-se recentemente num movimento ambicioso visado fazer do shinto uma religião universal, compreendendo não só o budismo, confucionismo e taoísmo, como também os credos de Muhamad e Jesus. O Xintoísmo hoje pensa globalmente mas continua agindo localmente. Isso é possível porque existem “oitocentas miríades” de deuses, ou seja tantos quanto existem famílias, comunidades e locais sagrados espalhados pelo planeta. Como disse Madre Teresa: “Se você deseja mudar o mundo, vá para casa e ame a sua família.”

Fonte: http://www.nihonbunka.com/shinto/

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/introducao-ao-shintoismo/

Como Orar À Srimati Radharani

Por Dvija Mani Dasa

Em uma oração exemplar, Srila Rupa Goswami nos mostra como orar à Srimati Radharani e o que pedir.

ye me bhakta -janah partha
na me bhaktas ca te janah
bhaktanam ye bhaktas mad-bhaktanam
te me bhaktatama matah

Ó Arjuna, filho de Prtha, aqueles que dizem ser diretamente meus devotos não são realmente meus devotos. Ao contrário, aqueles que são os devotos de meus devotos, eu considero meus maiores devotos. (Adi Purana (citado em Caitanya-caritamrta, Madhya-lila 11.28 )

A CONSCIÊNCIA DE KRISHNA é um processo social. Como nas relações deste mundo, amar profundamente Krishna implica amar aqueles que Ele ama, seus devotos. E como a declaração de Krishna acima deixa claro, para nos tornarmos Seu devoto, não devemos nos aproximar diretamente dEle, mas através destes devotos. Neste clima, Srila Bhaktivinoda Thakura, no final do século XIX, escreveu uma canção em glorificação de Vaishnavas, os devotos do Senhor Vishnu ou Krishna. Ele cantou, krishna se tamara, krishna dite para, tamara sakati dolhe: “Que Krishna é seu; você pode dar Krishna”. Tal poder é seu”.

De todos os devotos de Krishna, Radharani é extremamente exaltada. Ela não é uma mortal comum como você ou eu, mas é a encarnação de sua potência de prazer pessoal. Embora distinto e capaz de se engajar no serviço devocional amoroso a Krishna, Sri Radha é, de fato, idêntica a Ele. Ele é o Deus Supremo; Ela, a Deusa Suprema. Krishna é o Senhor de Vrndavana, o mundo espiritual, e Radha é Sua rainha. Assim Ela é conhecida como Srimati Radharani, “a ilustre rainha Radha”. Juntas, Radha e Krishna constituem a Verdade Absoluta completa.

A devoção de Radharani a Krishna atinge o ápice da perfeição. Como almas finitas, não podemos sequer aspirar a amar e servir Krishna tão perfeitamente como Ela; nossa perfeição está em ajudá-la em seu serviço amoroso ao Krishna. O poder de Seu amor é de fato tão intenso que subjuga Krishna. Srimad-Bhagavatam (10.32.22) registra a resposta de Krishna ao serviço amoroso de Radha e Suas companheiras: na paraye ‘ham … . sva-sadhu-krtyam … vah: “Eu não sou capaz de Lhe retribuir”.

Krishna é assim submisso aos Seus desejos, e como Srila Prabhupada escreve: “Uma vez que Ela recomenda um devoto ao Senhor Krishna, o Senhor imediatamente aceita a admissão do devoto em Sua associação”. (Srimad-Bhagavatam 2.3.23, Purport) Portanto, não é surpreendente que Rupa Goswami, um grande teólogo e poeta Vaishnava do século XVI, tenha composto uma série de poemas como orações a Srimati Radharani.

UMA ORAÇÃO ÚNICA:

Os títulos dados à maioria dos poemas de Rupa Goswami, como Sriradhasaka (literalmente, Um Poema de Oito Stanzas Sobre a Ilustre Radha) são simples e descritivos. Um título, no entanto, se destaca como digno de nota: Prarthana-paddhati (The Guide for Petitioning, O Guia da Oração) [Ver pg. 11]. Ao compor este poema, ele não só expressou seus próprios sentimentos devocionais pessoais, mas também forneceu um exemplo perfeito de oração peticionária e ritual para que seguíssemos. A oração é exemplar em muitos aspectos: em sua estrutura, sua forma, seu estado de espírito e o objeto pelo qual se rezava.

Prarthana-paddhati é curta e doce, com apenas sete estrofes de comprimento. Embora “curto e doce” seja algo clichê, no contexto de orações peticionárias é de profunda importância, pois quando se pede caridade ou favores, a brevidade é muitas vezes equiparada à brusquidão. Mas no poema de Rupa Goswami, o apelo não é feito até o quinto verso, um pouco mais da metade do poema. Antes disso, Rupa Goswami elogia poeticamente Radha:, untando-a, por assim dizer, antes de apresentar sua petição. Os devotos que rezam ao Senhor ou Seus associados por misericórdia devem seguir o exemplo de Rupa Goswami, começando sua oração com palavras de louvor e glorificação.

As primeiras quatro estrofes de Prarthana-paddhati consistem simplesmente em onze descrições poéticas de Radha: cada uma sintaticamente em posição ao objeto direto da quinta estrofe. O efeito desta estrutura, embora difícil de reconstruir na tradução inglesa, deixa a pessoa que ouve esta oração em suspense quanto à ideia básica a ser transmitida; a atenção do leitor é deixada simplesmente para contemplar estas maravilhosas descrições de Radha:. Por exemplo, as duas primeiras estrofes lidas:

suddha-gangeya-gaurangim
kurangi-langimeksansm
jita-kotindu-bimbasyam
ambudambara-samvrtam

navina-vallavi-vrnda
dhammillottamsa- mallikam
divya-ratnady-alankara
sevyamana- tanu-sriyam

“Com membros mais dourados do que ouro puro, com belos olhos como os de uma corça e com lábios que conquistam milhões de luas; cobertos com roupas que são como nuvens de chuva. Um jasmim ornamental sobre um pão trançado entre as jovens vaqueiras; cuja beleza corporal é realçada por gemas celestiais e outros ornamentos”.

Estes versos também mostram a forma ideal de uma oração, ou seja, um formulário preenchido com enfeites poéticos (alankaras). Os críticos literários sânscritos dividem os alankaras em duas divisões principais: ornamentos de som (sabdalankaras) e ornamentos de significado (arthalankaras). (Ver Caitanya-caritamrta, Adi-lila 16.72-86.) Embora o conteúdo seja mais importante do que a forma, o Senhor e Seus devotos reconhecem a devoção por trás da tentativa de oferecer orações cheias de beleza poética. Quando usados para descrever um objeto mundano, tais dispositivos poéticos simplesmente resultam em linguagem floreada; mas quando a beleza da poesia é usada para retratar a beleza transcendental do Senhor e Seus devotos, seu propósito é verdadeiro.
Aqui vemos em particular o sabdalankara de uma iliteração (anuprasa) com ng repetido na primeira metade do primeiro verso, mb repetido na segunda metade, e ll repetido na primeira metade do segundo verso, com exemplos menos óbvios ao longo do poema. Estas linhas também são preenchidas com arthalankaras na forma de vários tipos de metáforas e similitudes que são poética e teologicamente significativas.

Por exemplo, a primeira linha fala de Radha como tendo membros mais dourados do que ouro puro. Este tipo particular de metáfora, onde no assunto da comparação, aqui Radha: membros, não é equiparado com mas dito para superar o objeto de comparação, aqui ouro, é chamado em sânscrito vyatireka, distinção. Um exemplo padrão poderia dizer que o rosto de uma mulher é mais bonito do que uma flor de lótus. Aqui, porém, parece haver uma incoerência em dizer que os membros de Radha são mais dourados do que o próprio ouro. Afinal, a qualidade do “dourado” não é definida como uma propriedade essencial do ouro? Para resolver isto, devemos lembrar que estamos lidando aqui com a própria Deusa Suprema. Radha: a efulgência dourada é o dourado original. O elemento material que conhecemos como ouro simplesmente toma seu nome emprestado de Radha: devido a manifestar alguma porção minúscula de Sua bela irradiação dourada. Em vez de ser um exagero impossível, as palavras de Rupa Goswami expressam uma profunda verdade espiritual.

Da mesma forma, a descrição de que Radha está “coberta com roupas que são como nuvens de chuva” sugere algo muito mais profundo do que o que parece estar sendo dito na superfície. Em seu sentido primário, esta é simplesmente uma descrição da cor cinza-azul das roupas da Radha. No entanto, a palavra para uma nuvem de chuva, ambuda, literalmente “um doador de água”, aqui sugere um significado oculto. Ao invés de dar água comum, a beleza de Radharani traz a rasa, especificamente a préma-bhakti-rasa. A palavra rasa significa literalmente suco, mas em um contexto poético se refere a uma emoção transcendente, e premabhakti-rasa significa a emoção encontrada no serviço devocional amoroso para o Senhor.

Neste mundo, há uma desconexão entre nós e nossos corpos, o que falar de nossas roupas. O eu é uma alma espiritual eterna, enquanto o corpo é temporário e mortal. A beleza física do corpo tem pouco a ver com a natureza do nosso verdadeiro eu: muitas vezes as pessoas com corações de ouro têm rostos cheios de acne, e os modelos mais belos podem ser egocêntricos e cruéis. Mas para Krishna e seus associados no mundo espiritual, este não é o caso. O corpo de Krishna e os de Seus devotos no mundo espiritual não são corpos materiais temporários, mas corpos espirituais idênticos a seus próprios Eus. Assim, a beleza de Radha não é um feliz acidente da natureza, mas uma expressão direta da pureza de Seu amor por Krishna. Isto se estende até mesmo às roupas dela. A beleza de Suas vestes revela a intensidade de Seu amor e assim evoca esta prema-bhakti-rasa.

Novamente, a descrição de Radha como “o jasmim ornamental sobre um pão trançado entre as jovens vaqueiras”, talvez soando curioso para aqueles não familiarizados com a poesia sânscrita, tem vários níveis de significado. Mais simplesmente, é equivalente à metáfora que descreve alguém como a “joia da crista” dentro de qualquer categoria em particular. Assim como a joia mais excelente que um rei possui será colocada na crista de sua coroa e assim ocupará fisicamente a posição mais alta entre todas as joias do rei, assim uma pessoa descrita como a “joia da crista” dentro de um determinado grupo é entendida como a mais excelente e a mais alta dentro desse grupo. Aqui, por esta metáfora paralela, Radha é descrita como a mais alta de todas as mulheres vaqueiras em Vrndavana, o cenário rural onde Krishna, por sua própria e doce vontade, escolhe Se manifestar suas relações amorosas com seus devotos. Mas ao invés de usar uma metáfora adequada à pompa da realeza, Radharani, a rainha de Vrndavana, é comparada a uma flor de jasmim, destacando através de seu imaginário Sua doçura, beleza e delicadeza feminina.

UMA ORAÇÃO DE LOUVOR:

A quinta estrofe resolve a tensão sintática das quatro primeiras estrofes; finalmente fica claro que a oração se dirige à pessoa descrita, e a petição é feita.

tvam asau yacate natva
viluthan yamuna-estado
kakubhir vyakula-svanto
jano vrndavanesvari

“Curvando-se, esta pessoa suplica-lhe com um grito gago e lamentável, 0 Rainha de Vrndavana, rolando no chão na margem do rio Yamuna com um coração perturbado”.

O verso seguinte identifica a natureza do pedido, e vemos aqui o caráter exemplar desta oração em seu aspecto mais importante. Pois o que Rupa Goswami reza nada mais é do que a oportunidade de serviço devocional a Radha. A petição é de coração puro, não objetivando qualquer gratificação egoísta. A disposição em que esta oração é feita é também para ser emulada. Rupa Goswami demonstra profunda humildade, uma mansidão insinuada na estrofe anterior por sua referência a si mesmo na terceira pessoa. Aqui ele se admite não qualificado para a bênção que ele pede.

krtagaske ‘py ayogye ‘pi
jane ‘smin kumatav api
dasya-dana-pradanasya
lavam apy upapadaya

“Embora ele possa ser um infrator inapto com uma mente torta, por favor, conceda um pequeno fragmento do valioso presente de Seu serviço a esta pessoa”.

Suas humildes palavras tomaram a forma de um arthalankara chamado visesokti, uma declaração de diferença. Ela se refere a uma declaração poética na qual se vê um descompasso entre causa e efeito. Aqui, o efeito esperado de sua humildade e desqualificação autoconhecida seria que ele não fizesse um pedido tão ousado. E ainda assim, ele o faz.

UMA ORAÇÃO MODELO PARA NÓS:

A estrofe final resolve esta aparente incongruência. Ele mostra uma qualidade final exemplar em sua oração: a persistência. Nesta última estrofe, Rupa Goswami faz um argumento para persuadir Srimati Radharani a conceder Sua misericórdia, independentemente. Mas a lógica formal não se encaixa bem na poesia. Assim, Rupa Goswami emprega a arrhalankara chamada kavyalinga, causa poética. Todos os elementos de uma fórmula causal estão presentes em suas palavras, mas estão escondidos em sua poesia.

yuktas tvaya jano naiva
duhkhito ‘yam upeksitum
krpa-dyoti-dravac-citta
navanitasi yat sada

“Uma pessoa tão triste não está apta a ser negligenciada por Você, pois Sua mente, como manteiga fresca, sempre se derrete do calor de Sua compaixão”.

Comentando esta estrofe, Srila Baladeva Vidyabhusana, o grande teólogo e poeta Vaishnava do século XVIII, explica o argumento lógico aqui implícito: “Como a compaixão (krpa) é o desejo de tirar a tristeza dos outros e eu estou cheio de tristeza, não estou apto a ser abandonado”.

Rupa Goswami tem fornecido o modelo perfeito para a oração. Se aprendermos a orar ao Senhor e Seus devotos com a mesma estrutura, começando com palavras de louvor; se exibirmos o mesmo humilde humor e a mesma persistência; e se pedirmos a mesma mais elevada de todas as bênçãos, então nossas preces serão certamente ouvidas e atendidas. E mesmo que não cheguemos nem perto da sofisticação poética da oração de Rupa Goswami, o Senhor olhará com favor até a mais humilde tentativa de compor nossas orações com uma beleza que se adequa ao seu objeto.

Mas Rupa Goswami deixou o mundo mais do que uma simples fórmula; ele também nos deixou uma poesia requintada. Por mais fracas que sejam nossas tentativas de compor tais orações, podemos sempre simplesmente meditar profundamente na beleza das descrições de Rupa Goswami da Deusa Suprema, Radharani, e oferecendo a Ela esta oração de todo o coração, podemos estar confiantes de que Ela nos olhará com compaixão.

Dvija-mani Dasa, discípulo de Ravindra Svarapa Dasa, é Doutor Benjamin Franklin em Sânscrito na Universidade da Pensilvânia (EUA). Ele vive com sua família no templo ISKCON Philadelphia e está trabalhando com seu guru em uma tradução, com comentários, do Manah-siksa de Raghunatha Dasa Goswami.

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Fonte:

DASA, Dvija-mani. How To Pray To Srimati Radharani. Back to Godhead, 2007. Disponível em: <https://www.backtogodhead.in/how-to-pray-to-srimati-radharani-by-dvija-mani-dasa/>. Acesso em 8 de março de 2022.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/como-orar-a-srimati-radharani/

o Poder dos Sons

Para que se possa compreender perfeitamente a razão de ser dos Hinos, Mantras, e Vocalizações (entoações de vogais) é mister que se tenha em mente que os sons são vibrações e como tais são capazes de desenvolver ações físicas. Um som não é apenas um fenômeno acústico, portanto ele é algo capaz de influenciar não apenas o órgão da audição, mas também produzir outras manifestações físicas. A física conhece perfeitamente o efeito da ressonância que pode se fazer presente em tudo, pois a estrutura da natureza é essencialmente vibratória.

Para que possamos sentir o que foi dito antes vamos tentar examinar uma pequena faixa de ondas, aquela em que se situam os fenômenos acústicos. Ninguém põe em duvidas as citações seguintes, por serem elas suficientemente reintegradas nos anais das ciências Clássicas, mesmo que algumas delas pareçam referências absurdas.

Um som ritmado, como o marchar cadenciado de soldados, pode fazer desmoronar pontes, por isto quando tropas atravessam-nas geralmente o fazem em marcha desordenada, pois o marchar ritmado pode determinar uma sobrecarga vibratória por ressonância suficientemente forte para acarretar um rompimento físico da estrutura sólida. Isto foi o que certa vez ocorreu numa ponte em Amienes, na França. Por essa razão é que desde então um pelotão geralmente evita atravessar uma ponte marchando.

Os sons produzidos por aviões a jato acarretam problemas de diferentes naturezas. Sabe-se que a grande maioria dos ovos incubados próximos das rotas de aviões a jato não geram devido às vibrações produzidas pelo ruído das turbinas. Esse mesmo ruído é capaz de rebentar vidros e outros objetos frágeis. As naves aéreas quando ultrapassam a barreira do som originam ondas de choque que rebentam vidros e causam uma infinidade de outros inconvenientes. O grande tenor Caruzo era capaz de rebentar uma taça de cristal unicamente pela emissão vocal de certas notas musicais. Na França um edifício onde funciona um Instituto de Pesquisas Físicas de Ultra-sons, embora ninguém escutasse som algum, mesmo assim durante certas experiências físicas ali realizadas começou a apresentar rachaduras. Depois ficou comprovado que o problema tinha como causa as vibrações sonoras, mesmo em nível de ultra-sons.

Algumas construções históricas, entre elas o Coliseu de Roma, estão ameaçadas de desmoronamento em decorrência de vibrações de trânsito, especialmente as sonoras.

Os sons, além de um certo limite de decibéis, causam lesões no aparelho auditivo de gravidade variável, podendo chegar a um limite máximo de produzir surdez. Quaisquer barulhos podem ser prejudiciais aos ouvidos assim como determinar outras alterações orgânicas. Mesmo o buzinar de um veículo determina quebra acentuada na postura das aves, por isto hoje se evitam os aviários às margens das rodovias.

Por outro lado, as aves quando submetidas a uma música adequada apresentam uma postura mais prolongada. Também as vacas conforme a música e outros sons podem produzir maior quantidade de leite e isto de uma maneira tão evidente que certos produtores americanos e europeus estão utilizando musica ambiental nos estábulos.

Certas bactérias capazes de resistir ao calor ou ao frio intenso morrem rapidamente ao serem submetidas a certos níveis sonoros, por isto atualmente a esterilização de materiais muito sensíveis ao calor está sendo feito por meio de ultra-sons.

A medicina emprega sobejamente os sons como meio curativo. Comumente ela utiliza aparelhos de ultra-sons que geram sons de baixa freqüência, praticamente inaudíveis para o homem, mas que determina uma série imensa de ações sobre o organismo. Várias moléstias são suscetíveis de tratamento com tais aparelhos.

Além da ação física propriamente dita, os sons têm uma enorme capacidade de produzir efeitos mentais das mais diferentes naturezas. Assim é que há sons que irritam as pessoas, como por exemplo, o chiado de um grilo, uma goteira numa lata, o ranger de uma serra sobre um metal, giz em quadro negro, e uma infinidade de outros ruídos. Por outro lado há sons que acalmam e agradam, haja vista a música lenta e melódica. Mas, mesmo em se tratando de música há aquelas que estimulam certas condições psíquicas, como as músicas que despertam os sentimentos patrióticos, a coragem e a combatividade. Há músicas, como as sacras, que levam a alma a um estado místico profundo, como há as que estimulam o repouso, enquanto outras podem despertar tristezas e melancolias. Não restam dúvidas de que os sons têm poder de despertar estados psíquicos especiais. Portanto, vemos com estes exemplos, entre milhares de outros, que uma vibração sonora pode determinar condições as mais diversas sobre o campo onde ela se manifesta, e que os seres vivos são altamente sensíveis aos sons.

Vimos também que os sons podem acarretar alterações no organismo vivo, portanto é de interesse saber quais são as alterações possíveis, em que níveis e em que intensidade elas ocorrem. Certamente ninguém está em condição de afirmar isto com precisão, pois se trata de um campo altamente inexplorado pela ciência atual, mas, se é desconhecido para a ciência oficial, também o será para outras ciências? Será que não existem ciências que tenham conhecimentos do assunto em profundidade? Talvez sim, então não se deve negar que o homem por vias diferentes daquelas preconizadas pela ciência oficial pode haver descoberto uma série de coisas ainda não oficialmente aceitas. Isto tem acontecido a amiúde. Por exemplo, até bem pouco tempo a ciência oficial dizia não existir a “aura” dos seres vivos citada pelos sensitivos, até que isso foi evidenciado por meios técnicos. O campo bioplasmático, portanto, acabou sendo fotografado e a ciência teve que aceitar isso, mesmo que ela haja contradito isso no passado e denominado de fantasiosas aquelas pessoas que afirmavam ver um halo em torno do corpo das pessoas.

As descobertas podem ocorrer por via dedutiva e também por via indutiva. Assim os conhecimentos existentes na terra podem perfeitamente ter surgido por quaisquer dessas vias. Ninguém sabe quantas vezes a terra já foi palco para civilizações que atualmente estão sepultadas na névoa dos tempos e que cultivaram ramos das ciências especializados exatamente em usos incomuns dos sons.

Seja como for que o leitor encare essas informações, uma coisa, porém é certo, o som determinam modificações apreciáveis nos seres vivos, pois quando determinados sons são emitidos, certas células do organismo vibram e isto não é nada de espetacular, é uma lei normal de acústica que se cumpre.

No mundo há muitas coisas curiosas a respeito do poder dos sons. Por exemplo, no Templo de Shivapur da Índia, dizem existir uma pedra em frente à porta de entrada e que tem a peculiaridade de ao ser tocada com um dedo por onze pessoas pronunciando as palavras “QMAR ALI DEVIXE” a pedra se torna sem peso e flutua, embora ela pese 41 Kg. Ao ser pronunciada aquela frase com uma certa tonalidade a pedra é erguida sem qualquer esforço por parte das pessoas até uma altura de dois metros e em seguida ela cai após um segundo.

Infelizmente o homem tem utilizado muito pouco do poder dos sons, especialmente na área da saúde. Em algumas civilizações desaparecidas o poder dos sons foi a base de um sistema completo de cura, mas todos aqueles conhecimentos ficaram perdidos, ou melhor, foram destruídos em muitas ocasiões, especialmente no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Atualmente só um pouco resta da ciência hermética dos sons, apenas um mínimo voltou a ser redescoberta, especialmente pelos pitagóricos. Muitas pessoas podem duvidar de que os sons podem se constituir uma das principais artes de curar, mas queiram ou não queiram eles curam. Quando um médico utiliza um aparelho de ultra-sons para o tratamento de uma inflamação, para deter a formação de um abscesso, ou para a cura de um artritismo, ele simplesmente está emitindo e dirigindo uma onda sonora diretamente para o nível da lesão que pretende curar. Assim, se obtém efeitos especiais tais como o facilitar a circulação local pela dilatação dos vasos sangüíneos e algumas outras alterações que os sons são capazes de provocar e assim forçar o reequilíbrio na região afetada.

Se uma emissão sonora produzida por um aparelho pode curar uma enfermidade, perguntamos então a razão pela qual se deve duvidar de que os sons produzidos por instrumentos musicais, ou mesmo pelas cordas vocais, não possam fazer o mesmo.

O uso dos sons é uma arte perdida, houve povos na Antigüidade que curavam somente com os sons. Não somente as funções somáticas, como também a função psíquica era restabelecida pelas ondas sonoras adequadamente dirigidas.

Para cada função orgânica existem sons capazes de provocar alterações. Assim sendo, há sons que estimulam as funções renais, hepáticas (Hoje a ciência vem redescobrindo as possibilidades de cura oferecidas pelos sons assim é que redescobriu que os cálculos renais podem ser fragmentados com ultra-sons). Por outro lado há sons que provocam lesões e congruentemente, doenças. Há sons adequados para tudo no organismo, infelizmente isto foi esquecido em parte e hoje até mesmo chega-se a duvidar da eficácia do poder dos sons, embora eles realmente funcionem a maior parte dos resultados é decorrente do efeito de ressonância.

No tratamento das doenças, sem sombra de dúvidas, o poder dos sons muitas vezes é mais eficiente do que o próprio poder das drogas químicas. Os medicamentos químicos muito freqüentemente agem destruindo, enquanto os sons quando bem orientados podem com certa facilidade restabelecer a harmonia do organismo sem provocar-lhe danos e assim dispensa a ação tóxica de muitos remédios atuais. Se os sons são pouco utilizados no tratamento das pessoas isto decorre do conhecimento haver sido perdido há muitos séculos. Tudo o que restou foram uns poucos conhecimentos sob a guarda das Fraternidades Secretas. Restaram apenas fragmentos da arte completa, e ninguém tem certeza de que aquilo que algumas doutrinas ensinam atualmente sobre isso seja realmente algo benéfico, pois o poder invisível da “conjura” que tudo corrompe certamente não deixou passar em branco algo tão valioso como o uso dos sons. Por certo a “conjura” também provocou alterações nesse conhecimento sempre tendo em mente os fins maléficos a que sempre se propôs.

O pouco uso que hoje se dá à arte dos sons deve-se também ao fato do ser humano ser comodista demais por natureza, sendo assim ele acha mais fácil deglutir um comprimido, ou tomar uma injeção, do que passar algum tempo sob o efeito de ondas sonoras. O homem atual quer se curar num minuto, por isto ele não aceita coisas como os “mantras e as vocalizações como forma de tratamento. A vida moderna, infelizmente, exige velocidades, e a cura pelos sons muitas vezes é um tanto mais lenta do que aquela levada a efeito por sistemas místicos, mesmo que esta seja uma forma muito mais perfeita e harmônica. A emissão de sons durante vários minutos, várias vezes por dia, é para o homem moderno mais cansativo do que a deglutirão de uma pílula ou a ingestão de uma colherada de xarope, por isto ele muitas vezes dá preferência a esse tipo de tratamento”.

Muitos julgam que a saúde depende de medicamentos químicos, quando na realidade ela depende do EQUILÍBRIO DA ENERGIA VITAL. O grande poder de curar que certas pessoas são dotadas reside no saber conservar a sua energia sutil mantendo-a suficientemente intacta para usá-la, entre outras coisas, no tratamento da saúde.

Os medicamentos químicos levam o organismo a um estado de aparente cura, pois é um sistema violentador, lesivo para o organismo, muitas vezes curando uma coisa na medida exata em que gera uma outra ainda pior, num processo de “cura substituta”, apenas. Há a substituição de uma manifestação mórbida por outra, às vezes menos incômoda, mas suficiente para tornar o paciente dependente perpétuo da medicação química.

Qual os medicamentos ingeridos por Buda, por Jesus e por tantos outros avatares? – Por ventura Jesus ficou doente algum dia? – Não, pois Ele era e é a própria saúde. Qual o segredo de muitos Ioguins que vivem um número de anos muito além da média considerada normal? – Qual a fonte de juventude de alguns místicos, de muitos Rosacruzes, por exemplo? – Qual o segredo de alguns Patriarcas Bíblicos que viveram séculos?…

Autor: José Laércio do Egito – F.R.C.

#Mantras

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-poder-dos-sons

Asas de Morcego: a arte de Koppay

Asas de Morcego: violação da eugenia e empoderamento da marginalidade na arte de Koppay

Shirlei Massapust

Por motivo de antiguidade e pertinência temática decidi realizar um estudo de imagem das xilogravuras (holzstich) da série Kraft und List, produzidas e/ou inspiradas pelo conceito original dum pintor de nome Barão Jószef Arpád Koppay von Drétoma (1859-1927), que assinava simplesmente Koppay.

Kraft und List significa “Poder e Astúcia” em idioma alemão. Nas versões de 1880 e 1982 a personagem List tem asas de morcego. Na última versão, datada de 1891, ela é apenas uma mulher normal. List tem pele branca e cabelos pretos, sem cachos ou frisos. Está sedutoramente recostada sobre o leão Kraft, embora lance um olhar feroz sobre ele. A fera desconhece o perigo, pois olha distraidamente para o nada.

Aparentemente Kraft pensa que é amado por List e se deixa domesticar, tendo uma corrente no pescoço, com função de coleira. Na Bíblia, o leão (Panthera leo) é o símbolo heráldico do rei (Provérbios 19:12 e 20:2), especialmente da classe governante da tribo de Judá (Gênese 49:9, Oséias 5:15; Apocalipse 5:5). Segundo Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, outros povos entendem que Kṛṣṇa é o leão entre os animais (Bhagavad Gītā 10:30). Buda é o leão entre os Shakya. O brasão do rei budista Açoca († 232 a. C.) tinha a efigie de três leões sobre um pedestal de roda. Tais são, ainda hoje, as armas do Hindustão. Ali, genro de Maomé, glorificado pelos xiitas, é o leão de Alé, razão pela qual a bandeira iraniana é estampada com um leão coroado. “Com a libertação feminina de nossa época, o leão soberbo e generoso tornou-se o macho falocrata, que não sabe ou finge não saber que seu poder é bem relativo[1]”.

Em todo os casos, leões iconográficos podem ser interpretados como pessoas. Koppay vivenciou um período conturbado da História. Nascido em Viena, capital da Áustria, sentiu-se subitamente rebaixado à nacionalidade austro-húngara com a dissolução do Império Austríaco, sucedido pelo Império Austro-Húngaro, resultado dum acordo entre as nobrezas austríaca e húngara que durou de 1867 até 1918. Era como se repentinamente os Estados Unidos integrassem o México e declarassem que todo mexicano teria igual direito à cidadania. O húngaro era historicamente valorado pelos austríacos como os colonos brasileiros perante os colonizadores portugueses.

Na primeira versão de Kraft und List (1880), a jovem mulher morcego de biótipo húngaro está pobremente vestida, com pernas expostas e pés descalços. Mesmo sem asas, num quadro subsequente a andrajosa List é facilmente reconhecida com seu traje esfarrapado e pés descalços, prestes a girar a maçaneta da porta dum prédio luxuoso. Esta maçaneta é um símbolo fálico[2]. List está cercada por um semicírculo de víboras. Um ramo de visco[3] sobre a porta revela a intenção oculta da visita.

Rudolf Lothar, na biografia Koppay Gebundene Ausgabe (1919), fornece o título Das Unheil (1982)[4] ou “A Calamidade” para tal xilogravura. Antigos cartões postais com reproduções de estampas colorizadas trazem o título Das Verhängnis ou “A Perdição”.

Seria List uma “perdida” entrando escondida pela entrada de serviço? Ou uma “calamidade” atravessando a porta principal, na qualidade jurídica de nova dona da casa, ostentando status de esposa do arrimo? Uma pessoa assim, ocupando o lugar da mulher de classe alta, olhando com um ódio nascido do ressentimento para a vizinhança que não aceita seu relacionamento com um nobre, nem sua ascensão social, era com um espelho que refletia todo o asco dirigido à sua laia.

Segundo Lothar, 1882 também foi o ano da censura dos pés de List na segunda versão de Kraft und List. Nela existe outra assinatura além da de Koppay, do coautor Mlanges, que assina junto à folha de palma (ou pena gigante) deitada sobre a cauda alongada do vestido que passa a cobrir a vergonha de List. Desde então a personagem não mais exibiria pernas e pés. Mlanges adicionou um cemitério ao fundo do cenário.

O meio artístico pressentia que o futuro reservava algo de terrível para a nação representada por Kraft. Faltavam trinta e dois anos para o início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). A terceira versão de Kraft und List (1891) é tautológica[5]. A última produção de Koppay com pertinência temática foi Ein weiterer Sieg für die Mächte der Dunkelheit (1894) ou “Mais uma Vitória das Forças das Trevas” onde um exemplar masculino com asas de morcego e o mesmo biótipo de List aparece totalmente nu, carregando uma mulher branca caucasiana enrolada num lençol transparente. Ele voa levando-a para o fundo dum penhasco com neblina, onde acaba de pular. Uma estrela isolada, ou o planeta Vênus, brilha num céu carregado de nuvens nimbos estratos.

Apesar da ausência de chifres, rabo e forcado, e embora já houvesse descrições de vampiros que viram morcego em Portugal, é mais provável que List e Dunkelheit sejam sobrenaturais austro-húngaros da eterna espécie diabólica (Teufelin), composta de gênero feminino súcubo (sukkuba) e masculino íncubo (inkubus), e não do eveterno espírito (geist) que cria o vampiro (vampir) ao reentrar em seu próprio cadáver.

O Diabo é nada menos que um dogma, que depende de todos os outros. Modificar o eterno vencido não é o mesmo que modificar o vencedor? Duvidar dos atos do primeiro corresponde a duvidar dos atos do segundo, dos milagres que ele fez precisamente para combater o Diabo. As colunas do céu estão apoiadas no abismo[6].

Os anjos diabólicos existem desde o princípio dos tempos, conforme o folclore do século XIX, e não buscam companheiros humanos porque gostam de dormir com gente. O modus operandi organizacional da súcubo e da íncubo segue uma estratégia padronizada pelo serviço de inteligência da governança do Inferno. O objetivo é hibridar a linhagem adâmica para torná-la imprestável aos propósitos da ideologia monárquica e, consequentemente, promover mudanças sociopolíticas favoráveis à sua causa.

Esse mito, que nada tem de bíblico, atualiza a concepção original dos teólogos Heinrich Kramer e James Sprenger, no Malleus Maleficarum (1484), em contestação à teoria da desumanidade dos filhos de relacionamentos extraconjugais, quando o diabo usa alguém como instrumento, outorgando o poder de causar o mal por vias de fato.

Ademais, anjo agostiniano não tem sexo. Para suprir sua impotência sexual, o mesmo sobrenatural agénero teria o habito de solidificar-se como súcubo de aparência humana feminina para colher esperma de algum homem, sublimar-se e solidificar-se novamente como íncubo de aspecto masculino para ejetar o esperma recém colhido numa mulher. “Pode-se agora perguntar de quem é filha a criança assim gerada. Está claro que não é do diabo, mas do homem cujo sêmen recebeu[7]”. O súcubo-íncubo não faz mais do que manipular o genoma, produzindo “transmutações no sêmen[8]”.

Houve até um magistrado, o assessor criminal de Baiona (França), que deixou fazer o sabbat em sua casa. O senhor de Saint-Pé, Urtubi, foi obrigado a fazer a festa no seu próprio castelo. Com isso lhe ficou a cabeça tão abalada que imaginou que uma feiticeira lhe estava a chupar o sangue. Tendo-lhe o medo dado coragem, foi em companhia de um outro senhor a Bordéus, dirigiu-se ao Parlamento, os senhores d’Espagnet e de Lancre, fossem encarregados a julgar os feiticeiros do país basco.[9]

O filósofo e historiador francês Jules Michelet (1798-1874) verificou que a tradição da feitiçaria era múltipla e muito diversificada. Quanto mais próxima da Alemanha, onde o Diabo era forte, mesclado a restos de mitologia nórdica, afigurava-se mais pesada e sombria, “só gosta de animais pretos[10]”.

Ignoro o que foi produzido e exposto primeiro, se a primeira versão de Kraft und List (1880) de Koppay ou La chauve-souris (1880) do francês Albert Joseph Pénot (1862-1930). Porém o tema é o mesmo. Pénot se especializou em pintar nu artístico. Em muitos de seus quadros as mulheres voam, deitam ou flutuam sobre nuvens. Na cena de nu artístico de “A Morcega”, uma jovem de pele branca e longos cabelos pretos, com asas pretas, voa à frente dum céu tempestuoso. Diferentemente das demais personagens voadoras de outros quadros, a morcega é fisicamente idêntica a bruxa que voa sentada numa vassoura em Départ pour le Sabbat (1910), do mesmo autor.

Quadros La chauve-souris (1880) e Départ pour le Sabbat (1910) de Albert Pénot

Notas:

[1] CHEVALIER, Jean & GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva, Raul de Sá Barbosa, Angela Melim e Lúcia Melim. Rio de Janeiro, José Olympio, 1999, p 539.

[2] Toda fechadura é constituída de algumas partes. As exteriormente visíveis são a maçaneta, o espelho e a chave. Espelho é a placa com buraco onde entra a chave, que também suporta a maçaneta. Nesta xilogravura a fechadura tem espelho circular que compõe uma figura fálica em conjunto com a sombra do braço da personagem.

[3] Uma lenda que sobreviveu à civilização escandinava diz que duas pessoas que se encontram de baixo de visco devem se beijar para celebrar com amor a ressurreição de Balder (Balðr) no Ragnarök. Há uma tradição derivada em alguns países do hemisfério norte (Canadá, EUA, Inglaterra, Irlanda, Escócia) onde se um homem e uma mulher se encontrarem sob um ramo de visco, devem se beijar para trazer boa sorte.

[4] KOPPAY, MALER DER HIGH SOCIETY.  Resenha ilustrada publicada no blog Kunst Kommt Von Können, em 06/03/2009. URL: <http://kunstkommtvonkoennen.blogspot.com.br/2009/03/koppay-maler-der-high-society.html>

[5] A terceira versão de Kraft und List (1891) é uma pintura a óleo colorida. Não é uma xilogravura ou estampa colorizada derivada de impressão xilográfica. A inscrição Koppay – 1891, em letras de fôrma diferentes da assinatura usual, consta numa rocha quadrada com partes rústicas a serem esculpidas. Essa é a pedra angular que indica o conceito autoral duma obra inacabada pelo autor, concluída por outrem. Todavia, há mais perda de elementos iconográficos do que indícios de transcendência na variante. O cemitério de Mlanges foi descartado juntamente com as asas de Koppay. O fundo do novo coautor, cuja assinatura é ilegível, é um escuro túnel circular.

[6] MICHELET, Jules. Sobre as Feiticeiras. Trad. Manuel João Gomes. Lisboa, Edições Afrodite, 1974, p 17.

[7] KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. O Martelo das Feiticeiras. Trad. Paulo Froés. Rio de Janeiro. Editora Rosa dos Tempos, 1991, p 85.

[8] KRAMER, Heinrich & SPRENGER, James. O Martelo das Feiticeiras, p 87.

[9] MICHELET, Jules. Sobre as Feiticeiras. Trad. Manuel João Gomes. Lisboa, Edições Afrodite, 1974, p 190.

[10] MICHELET, Jules. Sobre as Feiticeiras. Trad. Manuel João Gomes. Lisboa, Edições Afrodite, 1974, p 369.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/asas-de-morcego-violacao-da-eugenia-e-empoderamento-da-marginalidade-na-arte-de-koppay/