O Julgamento de Sócrates

Sócrates foi, provavelmente, o maior filósofo de todos os tempos. Ele viveu em Atenas, na Grécia, por volta de 500 anos antes do nascimento de Jesus. Foi a mente mais iluminada do ocidente em sua época, enquanto no oriente, por volta da mesma época aparecia um tal de Buda, que causou uma revolução no modo de pensar e se relacionar com a vida. Durante os seus 70 anos de vida, Sócrates procurou ensinar, através da dialética (diálogos), as verdades espirituais eternas, questionando sempre as falsas tradições da cultura helenística. Acabou despertando ódio e inimizades entre os detentores do poder e da cultura, que o acusavam de estar corrompendo a juventude ateniense. Foi levado a julgamento e condenado à morte pela ingestão de cicuta, um poderoso veneno.

O texto a seguir foi condensado do livro Apologia de Sócrates, escrita por Platão (seu principal discípulo). Ele descreve o julgamento de Sócrates, apresentando a sua defesa e suas considerações finais, após a sentença de condenação.

A DEFESA

A acusação diz: “Sócrates comete crime, investigando indiscretamente as coisas terrenas e as celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando aos outros”. Mas nada disso tem fundamento, pois não instruo e nem ganho dinheiro com isso. Talvez pudessem dizer de mim: “Enfim, Sócrates, o que é que você faz? De onde nasceram essas calúnias? Se suas ocupações não fossem tão diferentes das dos outros, não teria ganho tal fama e não teriam nascido acusações”.

Sócrates responde: Acontece que Xenofonte, uma vez indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo e perguntou-lhe se havia alguém mais sábio do que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio. Ao ouvir isso, pensei: “O que queria dizer o deus e qual é o sentido das suas palavras? Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco.” E fiquei por muito tempo sem saber o verdadeiro sentido de suas palavras. Então resolvi investigar a significação do seguinte modo: Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio deles, o oráculo e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta: “Este é mais sábio que eu, enquanto você disse que sou eu o mais sábio”. Examinando esse homem – não importa o nome, mas era um dos políticos – e falando com ele, parecia ser um verdadeiro sábio para muitos e, principalmente, para si mesmo. Procurei demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí veio o ódio dele e de muitos dos presentes aqui contra mim.

Então, pus-me a considerar comigo mesmo, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele nisso: não acredito saber aquilo que não sei.

Fui a muitos outros daqueles que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu que todos são a mesma coisa. Daí veio o ódio deste e de muitos outros. E então me aconteceu o seguinte: procurando segundo o critério do deus, pareceu-me que os que tinham mais reputação eram os mais desprovidos, e que os considerados ineptos eram homens mais capazes quanto à sabedoria.

Também procurei os artífices e devo dizer que os achei instruídos em muitas e belas coisas. Eles, realmente, eram dotados de conhecimentos que eu não tinha e eram muito mais sábios do que eu. Contudo, eles tinham o mesmo defeito dos poetas: pelo fato de exercitar bem a própria arte, cada um pretendia ser sapientíssimo, também, nas outras coisas de maior importância e esse erro obscurecia o seu saber.

Dessa investigação, cidadãos atenienses, tanto me originaram calúnias como também me foi atribuída a qualidade de sábio. E totalmente empenhado em tal investigação, não tenho tido tempo de fazer nada de apreciável, nem nos negócios públicos, nem nos privados, mas encontro-me em extrema pobreza, por causa do serviço do deus. Além disso, os jovens, seguindo-me espontaneamente, gostam de ouvir-me examinar os homens. Eles, muitas vezes, me imitam por sua própria conta e decidem também examinar os outros, encontrando grande quantidade daqueles que acreditam saber alguma coisa mas pouco ou nada sabem. Daí, aqueles que são examinados encolerizam-se e, por essa razão, dizem que há um tal Sócrates que corrompe os jovens.

Saibam, quantos o queiram, que por esse motivo sou odiado; e que digo a verdade, e que tal é a calúnia contra mim e tais são as causas.

Cidadãos de Atenas, creio que vocês não têm nenhum bem maior do que este meu serviço do deus. Por toda a parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente com o corpo e com as riquezas, como devem se preocupar com a alma, para que ela seja o melhor possível. Absolvendo-me ou não, não farei outra coisa, nem que tenha de morrer muitas vezes. Dessa forma, parece que o deus me designou à cidade com a tarefa de despertar, persuadir e repreender cada um de vocês, por toda a parte, durante todo o dia. É possível que vocês, irritados como aqueles que são despertados quando no melhor do sono, levianamente me condenem à morte, para dormirem o resto da vida.

A CONDENAÇÃO

A minha impassibilidade, cidadãos de Atenas, diante da minha condenação deriva, entre muitas razões, que eu contava com isso, e até me espanto do número de votos dos dois partidos. Por mim, não acreditava que a diferença fosse assim pequena.

Os meus acusadores pedem, para mim, a pena de morte. Que pena ou multa mereço eu? O que convém a um pobre benemérito que tem necessidade de estar em paz para lhes poder exortar ao caminho reto? Para um homem assim conviria que fosse nutrido e mantido pelo Estado. Por não terem esperado um pouco mais, vocês irão obter a fama e a acusação de haverem sido os assassinos de um sábio, de Sócrates. Pois bem, se tivessem esperado um pouco de tempo, a coisa seria resolvida por si mesma: vejam vocês a minha idade.

Talvez, senhores, o difícil não seja fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da maldade, que corre mais veloz que a morte. Eu, preguiçoso e velho, fui apanhado pela mais lenta: a morte. Já os meus acusadores, válidos e leves, foram apanhados pela mais veloz: a maldade.

Assim, eu me vejo condenado à morte por vocês; vocês, condenados de verdade, criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentro da minha pena, vocês dentro da sua.

E estamos longe de julgar retamente, quando pensamos que a morte é um mal. Porque morrer é uma destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja; ou, como se costuma dizer, a morte é uma mudança de existência e uma migração deste lugar para outro.

Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte é como um presente, porquanto todo o tempo se resume em uma única noite.

Se a morte, porém, é como uma passagem deste para outro lugar e se lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir maior do que este? Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim a conversação acolá seria maravilhosa. Isso constituiria indescritível felicidade.

Vocês devem considerar esta única verdade: que não é possível haver algum mal para um homem de bem, nem durante sua vida, nem depois de morto. Por isso mesmo, o que aconteceu hoje a mim não é devido ao acaso, mas é a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser liberto das coisas deste mundo. Por essa razão não estou zangado com aqueles que votaram contra mim, nem contra meus acusadores.

Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vocês para viverem. Mas quem vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus.

#Filosofia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-julgamento-de-s%C3%B3crates

A estrutura oculta da Opus Dei

Às 5.30 horas da manhã de cada dia, Tomás Gutiérrez de La Calzada abotoa uma impecavelmente limpa batina. É Tomás um homem muito preocupado pela limpeza, desgosta-lhe encontrar uma bolinha de pó em seu caminho matutino para o salão onde se faz servir o café da manhã, sempre frugal e interrompido pelas badaladas das seis, quando chega a primeira missa.
Entra em seu escritório às sete em ponto da manhã e não sairá dali até entrada a noite, uma rotina que só se interrompe quando seus secretários organizam alguma viagem para visitar uma casa da Obra, algo que em seu foro interno desgosta Tomás Gutiérrez de La Calzada, embora entenda a imperiosa necessidade de manter freqüentes contatos com ‘os filhos’, sobretudo nos últimos anos quando se prodigalizam os ataques dos inimigos da Santa instituição.

A vida de Tomás Gutiérrez de La Calzada, transcorre com poucos sobressaltos desde que em uma fria manhã outonal de 1982 chegasse a ordem de Roma: designado ‘Concílio’ do Opus Dei na Espanha. Esse dia, Tomás Gutiérrez de La Calzada, sucessor no cargo de Florencio Sánchez Bella, irmão daquele famoso ministro franquista que impôs o fechamento do jornal ‘Madrid’, passou a reger na Espanha os destinos do Opus Dei.

É Tomás Gutiérrez um homem afável, grande conversador e convencido de que está à frente do grupo de homens mais seletos e disciplinados da Espanha. Esse homem, que em 10 de março de 1989 fez 60 anos, realizou uma longa carreira para abrir caminho na vida.

Nascido em Valladolid, filho de um modesto agricultor perdeu a sua mãe, Visitação, a muito temprana idade. Internado em um colégio religioso, Tomás Gutiérrez de La Calzada sempre desenvolveu sua vida entre batinas, com a exceção do breve período de tempo que passou em Fuentelarreina (Zamora), para cumprir o serviço militar e de onde saiu com a estrela de alferes.
Licenciado em Direito, nunca exerceu a advocacia e só utilizou os conhecimentos adquiridos na Universidade de Valladolid para avançar pelo campo do Direito Canônico, o que lhe acabou convertendo em diretor do Colégio Romano do Opus. Ali, em contato direto com as altas hierarquias da Obra, ficou conhecido como bom organizador, um eficaz burocrata que despreza a publicidade e admira o trabalho calado. ‘Sempre o espetáculo! Pede-me fotografias, gráficos, estatísticas’, escreveu Josemaría Escrivá do Balaguer em Caminho, em uma sentença gravada no mais fundo da alma de Tomás Gutiérrez de La Calzada. Este homem que desde muito jovem oficiou de coroinha no colégio do Valladolid, dirigiu na década de 80 um exército invisível, formado pelos 12.000 membros da Obra na Espanha.

O quartel general deste exército, o lugar onde vive Tomás Gutiérrez de La Calzada, está convocado na madrilenha Rua de Diego di Lion, número 14. Ali, situado em um solar com forma de triângulo de 972,58 metros, levanta-se um edifício com dez andar e 7.967 metros quadrados construídos, de onde se dirige toda a estrutura da Obra. O projeto foi realizado em 1964 pelos arquitetos Jesus Alberto Cajigal e Javier Cotelo, com um custo declarado de 20.651.648 pesetas.

Depois dos compactos muros de concreto, o quartel general tem dois pontos nevrálgicos, o mais importante está no segundo porão, a quinze ou vinte metros sob o nível da rua. Trata-se da cripta onde estão guardados os restos mortais dos pais de Josemaría Escrivá do Balaguer, José e Dolores, uma mulher incorporada à história da Obra como a inventora dos ‘crispillos’, uns doces a base de açúcar e espinafres que os membros da instituição tomam em ocasiões especiais.

Nas cercanias da cripta, encontra-se a capela na qual toda manhã do ano, às seis em ponto, Tomás Gutiérrez de La Calzada, reza missa para os varões que com ele compartilham o privilégio de viver no quartel general da Obra.

O segundo ponto importante do edifício está no quarto andar, onde Tomás Gutiérrez di La Calzada, tem seu escritório do Concílio’ e está a sala de reuniões, em que três vezes por semana, às oito da manhã, celebra seus encontros com o governo na sombra da Obra, a Comissão Regional para a Espanha.

Está acostumado chegar ao Concílio, a sala de reuniões detrás, ler a correspondência importante, sobretudo a que de Roma lhe traz em mão o enlace –‘misus’ na linguagem oficial– Ramón Herrando. Gosta do Concílio de concentrar-se na leitura das missivas, especialmente quando a valise contém a revista ‘Romana’, uma publicação de 200 páginas, impressas em um papel amarelado e redigida em latim. É ‘Romana’ uma espécie de ‘Quem é quem’ na Obra, com detalhada explicação das altas e baixas e um minucioso detalhe dos quais subiram a responsabilidades importantes, ou em quais nações vão se desenvolver campanhas especiais para rebater a sempre presente difamação do inimigo.

Tem a sala de reuniões um escasso mobiliário e entre as cadeiras, sempre perfeitamente alinhadas em torno de uma grande mesa, destaca a ciclópea presencia de uma caixa forte embutida na parede, onde se guardam as atas das reuniões de Comissão Regional e uma cópia de todas as comunicações intercentros.

O máximo organismo de direção do Opus na Espanha sofreu muito poucas mudanças durante a década dos 80. Em torno da mesa circular, com um rosário e um copo de água ao alcance da mão, sentam-se os destacados membros da Comissão Regional, do lado esquerdo, a direita de Tomás Gutiérrez di La Calzada por ordem de importância.

À direita de Tomás Gutiérrez de La Calzada, ocupa assento o segundo homem em importância: José Luis Añón, formalmente o ‘sacerdote secretário’. Em realidade, trata-se de uma espécie de vice-presidente da Obra, um termo que, possivelmente, não se usa para ressaltar o caráter fortemente caudilho da organização, pois no Opus só há um responsável, Alvaro do Postigo, em Roma, que delega autoridade nos ‘conciliários ‘ regionais.

A principal função de José Luis Añón é servir de enlace com a hierarquia da Igreja Católica, para informar das atividades da Obra. Não é esta uma tarefa fácil, pois, com freqüência, os bispos querem saber mais do que o Opus considera conveniente contar, originando atritos.

Paralelamente, José Luis Añón é o único membro da direção da Obra autorizado a ter um contato permanente com o outro sexo, em sua qualidade de responsável pela seção feminina da instituição. Na Espanha está composta por 1.500 damas, com funções auxiliares em relação aos varões, pois, na prática, dedicam-se a limpar e cozinhar nas residências. Como quer, no Opus, a convivência entre os sexos está estritamente diferenciada, até o ponto de que o quartel general de Diego di Lion conta com uma entrada para varões e outra para mulheres, José Luis Añón tem às vezes ingrata tarefa de velar pela separação e fortalecer a militância religiosa das senhoras.

Em atenção a sua importância, o seguinte cargo é o Diretor Espiritual, também desempenhado por um sacerdote, Juan Vera Campos. Sua tarefa é a de velar pela pureza da doutrina e nesta função é assistido pelo valioso Departamento de Estudos Bibliográficos, a frente está o ex-magistrado e professor da Universidade da Navarra Carmelo do Diego.

Função múltipla a deste organismo, porque por um lado escreve, constantemente, a história da Obra e por outro guia o espírito intelectual dos membros. Em sua primeira faceta tem que revisar os textos da Obra para evitar que apareçam referências a um grande número de ex-diretores, que abandonaram a instituição e não regulam suas críticas. Miguel Fisac, Antonio Pérez Tenesa, Alberto Moncada ou Raimundo Pániker, só por citar a um reduzido grupo dos que entregaram seus entusiasmos e saíram exaustos.
Também deste departamento sai semana após outra uma nota, encabeçada com a frase ‘de leitura obrigatória em todos os centros’ indica os filmes, livros, revistas e espetáculos teatrais aos quais podem ou não ter acesso os membros. Como é sabido, os filiados à Obra têm uma margem de entretenimento intelectual um tanto estreito, não só porque os censores aplicam critérios morais restritos, mas, porque estes revistam procedendo uma famosa máxima de Josemaría Escrivá do Balaguer, que deixou bem clara a necessidade de ‘cuidar a vista, a revista e a entrevista’. O que é interpretado como necessária proibição de tudo aquilo que faça duvidar da fé.

Neste sentido, os listrados emitidos pela censura partem do princípio de que nem todos os sócios têm a mesma fortaleza espiritual, por isso, adverte que a leitura de alguns textos pode ser autorizada aos diretores da Obra, nesse caso junto ao título aparecem dois círculos; três significa que em nenhum caso pode ler-se.

Em torno da mesa na sala de reuniões sentam-se outras três pessoas com curiosos títulos, os vocais de San Miguel, São Gabriel e São Rafael. Estes postos ocupados pelo Miguel Angel Montijano, Alejandro Cantero e Rafael Solís, respectivamente.
O primeiro deles é um cordato de cinqüenta anos, licenciado em Ciências Físicas, que se ocupa do cuidado espiritual da nata da organização: os ‘numerários’. O segundo, Alijandro Candero, um galego nascido em Lugo e licenciado em medicina, encarrega-se da direção dos ‘super numerários’. Enquanto que o último, o também cordato Rafael Solís, ocupa-se de organizar a captação, de atrair sangue novo para que a organização não morra.

E não só é necessário atrair mais membros, também a fé necessita de enormes recursos. Nessa mesa circular a pessoa sentada a maior distância de Tomás Gutiérrez de La Calzada é, possivelmente, a que mais poder material tem de todas ali reunidas, trata-se de Francisco Montuenga Aguayo, o administrador geral do patrimônio da Obra.

Nascido em Barcelona em 1924, filho de uns humildes emigrantes, Francisco Montuenga se incorporou à Obra nos anos sessenta. Economista de profissão, incorporou-se ao projeto da Universidade de Navarra –o centro modelo da Obra– como assessor financeiro, logo se converteu em administrador geral da universidade e dali saltou a gerente de todos os bens da Obra na Espanha.

Alegam os mais fiéis seguidores da Obra que a Instituição é pobre, carente de bens. O primeiro é incorreto enquanto que o segundo é absolutamente certo.

Isso não quer dizer que Montuenga careça de trabalho, justamente o contrário. Sua principal tarefa é, precisamente, dissimular os bens da Obra.

O Opus Dei, com seu próprio nome, não possui nada, nem um telefone em todo o planeta. Aparentemente, nem a sede central do Diego de Lion, nem o centro de peregrinação Torreciudad (Huesca), pertencem ao Opus Dei, a não ser uma confusa trama de sociedades anônimas.

O esquema o inventou o próprio Escrivá do Balaguer, quando pouco depois de criar o Opus Dei em 1928 pôs em pé a ‘Academia D e A’, siglas que aparentemente significavam ‘Direito e Arquitetura’, as carreiras favoritas do ‘fundador’, mas, que na linguagem secreta da Obra significavam ‘Deus e Audácia’.

No final dos anos 80, a trama financeira da Obra alcançava 1.500 empresas e sociedades, a maior parte delas ignorantes de que seus benefícios servem para fortalecer o Opus Dei.

O desenho perfilado por Francisco Montuenga ao longo dos anos poderia ser representado como um conjunto de pirâmides, cujos vértices não se tocam e irradiam poder para a base. Assim, boa parte do patrimônio imobiliário da Obra em Madrid, avaliado por peritos em 1989 em 30 milhões de pesetas, é dirigido pela ‘Companhia Mercantil Imobiliária Moncloa, S. A.’, proprietária, por exemplo, do quartel general de Diego de Lion, e cujos acionistas são pessoas desconhecidas e sem cargos na direção da Instituição. Além disso, seria errôneo ligar os dirigentes da Obra à propriedade do edifício em Diego de Lion, porque podem alegar com razão, que o imóvel está arrendado por outra sociedade ‘Colégio Maior da Moncloa, S. A.’, e que, afinal eles são fiéis empregados desta instituição acadêmica, encarregados só de orientar jovens estudantes.

Na prática, as coisas são diferentes: a imobiliária e o colégio universitário são o mesmo, Opus Dei. trata-se de uma ficção jurídica que lhes permite efetuar discursos sobre o ascetismo da Instituição. Finalmente, argumentam que sua pobreza é tal que só são inquilinos temporários de um grupo de edifícios.

Foi necessário esperar a década de 80 para conhecer os mecanismos financeiros da Obra, postos de manifesto pela constante saída de membros importantes que abandonaram a Instituição. Entre eles, estava, com a categoria de ‘super numerário’, o banqueiro José Maria Ruiz Mateos, quem assegura que o Opus Dei move ao ano, só na Espanha, 30  milhões de pesetas. Uma parte considerável deste dinheiro procede das contribuições efetuadas pelos sócios e o resto são benefícios de operações mercantis ou financeiras. Além disso, a Obra realiza coletas especiais para campanhas concretas, recebe de forma indireta subvenção do Estado e obriga seus sócios ‘numerários’ a que assinem um testamento deixando seus bens à Instituição.

‘Entreguei à obra 3.000 milhões de pesetas’, assegura José Maria Ruiz Mateos, que avalia sua afirmação com as fotocópias das transferências. Através desses documentos se pode descobrir o procedimento utilizado pela Obra, que consiste em girar o dinheiro fora da Espanha, geralmente a Suíça, onde recebe uma sociedade fantasma denominada ‘River–Invest’. O dinheiro fica depositado na União de Bancos Suíços, até que o administrador geral decide utilizá-lo com o melhor fim.

Se os recursos estão destinados a investimentos na Espanha, ‘River–Invest’ desvia o dinheiro na forma de créditos concedidos a alguma das sociedades de fachada, como seriam ‘Fomento de Centros de Ensino, S. A.’, ‘Estudo Geral de Navarra, S. A.’ (proprietária do campus universitário na Pamplona), ou ‘Imobiliária Urbana da Moncloa, S. A.’. dali os recursos passariam a outras sociedades, dedicadas a satisfazer necessidades da Obra ou puros investimentos para obter benefícios.

Na cripta linguagem do Opus Dei, as primeiras são chamadas ‘Obras Corporativas’ e Montuenga as tem subdivididas em três áreas de atividades: imobiliárias, editoriais, centros educativos.

Caracterizam-se porque a totalidade das ações está em mãos de sócios ‘numerários’, escolhidos entre o grupo dos mais fiéis seguidores da Instituição. Assim, por exemplo, os terrenos sobre os quais se assenta Torreciudad pertencem a um conjunto de imobiliárias (‘Companhia Imobiliária A Escora, S. A.’, ‘Artesona, S. A.’, ‘Imobiliária O Povoado do Grau, S. A.’ e ‘Companhia Imobiliária O Tozal do Grau’), todas elas coordenadas durante bastante tempo por Luis Montuenga Aguayo, irmão do administrador geral da Obra.

O ensino sempre foi um terreno natural de trabalho para o Opus Dei. Durante as décadas de 50 e 60, nutria-se, principalmente, de estudantes universitários, mas a resposta que seguiu nos 70 aconselhou variar a estratégia. A Obra concentrou-se em colégios para meninos, nos quais os trabalhos de captação são mais fáceis. Em 1989, controlava um total de 29 centros, convocados nos maiores núcleos urbanos do país. O mais famoso de todos eles, o colégio Retamar em Madrid, reproduz à perfeição o esquema de trabalho empresarial do Opus: o edifício pertence a uma imobiliária –’Retamar, S. A.’– mas supostamente está alugado a uma sociedade –’Fomento do Ensino, S. A.’– que reparte a docência.

Por último, no terreno das ‘Obras Corporativas’ estão editoriais como ‘Scriptor, S. A.’ controlam as edições de Caminho, publicam seminários como Telva, Palavra ou Mundo Cristão e editam milhões de folhetos relatando os milagres do Escrivá do Balaguer, elemento muito importante na hora de obter a santificação do fundador.

Junto destas ‘Obras Corporativas’ estão as chamadas ‘Obras Auxiliares’, sociedades onde o Opus coloca seus recursos para obter benefícios, a difusão de seus princípios ou a captação de novos militantes.

As ‘Obras Auxiliares’ foram as quais deram mais trabalho, produzidas por Francisco Montuenga, quem anos atrás tomou a decisão de centralizar os investimentos especulativos na sociedade ‘Urdefondo, S. A.’, uma desconhecida companhia mercantil presidida por Abelardo Alonso do Porres, ex-diretor geral do ‘Banco Latino’ quando a entidade estava dentro do grupo ‘Rumasa’, e conselheiro de ‘Rialp’, editorial mais conhecido do Opus.

Evitar os investimentos errôneos, como ocorreu recentemente na Itália, onde a Obra estava financiando a companhia química produtora do popular anticoncepcional ‘Lutolo’, é uma das ordens fielmente seguidas pelo ‘Urdefondo’. A outra é rodear-se dos investidores mais seguros, o que inclui aproximá-lo menos possível das instituições bancárias ligadas à Obra, como o ‘Banco Popular’. Não em vão esta instituição, cujo conselho de administração está em mãos de sócios ‘numerários’, é generosa com a esquerda: cobre o possível as dívidas do Partido Comunista, inclusive administra os descobertos de ‘Mundo Operário’, e é muito receptiva às petições de crédito do PSOE.

Apesar da indubitável crise sofrida nos 80, a Obra foi capaz de preservar uma extraordinária rede de contatos nas instituições financeiras, que vão desde sua presença em dois importantes meios de comunicação relacionados com as finanças, como o diário ‘Expansão’ e o seminário ‘Atualidade Econômica’; até manter conselheiros afins nos Bancos ‘ Bilbao–Vizcaya’, ‘Hispano–Americano’, ‘ Confederação Espanhola das Caixas de Economias’ e 200 sociedades mais. Homens chave da Obra, como José Maria Aristraín Noam, Emilio Ibarra e Churruca, Alberto Ullastres, Luis María Rodríguez da Fonte, Aristóbulo de Juan e José Joaquín Sancho Dronda, entre outros ilustres sobrenomes, foram capazes de defender os interesses terrestres da Instituição durante a década dos 80.
Controlar um conjunto industrial com tantas ramificações é difícil e com freqüência salta o escândalo. Anos atrás Gregorio Ortega Pardo, ‘numerário’ de toda confiança, recebeu de mãos do Rafael Valls o encargo de abrir um Banco e estender os ensinos do Escrivá do Balaguer em Lisboa. Durante uns anos dedicou a ambas as tarefas com esmero, até que um bom dia subiu a um avião e desapareceu na Venezuela com 50 milhões de pesetas que não eram deles. Recentemente, outros diretores do Opus foram assinalados como generosos no gasto de recursos que não lhes pertenciam, embora muitos deles, como ocorre no caso do financista José Víctor do Francisco Graça, negaram tudo de forma terminante e explicado que são objeto de uma campanha de calúnias.

Estes incidentes e o mais grave de Ruiz Mateos aconselharam reforçar os sistemas de controle interno. Desde 1970, todos os sócios do Opus em cujo poder obram ações compradas com recursos que não são seus estão obrigados a assinar uma carta de compra-e venda sem data, que entregam ao próprio Francisco Montuenga. Desta forma ninguém apropria-se de propriedade que não lhe pertence. Claro que este sistema também tem seus problemas, não serve para fiscalizar o correto uso dos lucros nem evita investimentos arriscados. Para obter este último, o Opus Dei espanhol procura cada vez mais o conselho de peritos financeiros, gestores independentes a quem expõe a simples questão de ‘como podemos investir para ganhar mais’.

Encobre muito a Obra seu poder financeiro não só para esconder-se de possíveis represálias. ‘Os jesuítas perderam muitas coisas porque era fácil localizar, não cometamos esse engano’, assinalou Escrivá do Balaguer. Em realidade não se trata só de encobrir-se do poder civil, mas, também, resulta fácil cortejar como demonstra o ‘Banco Popular’. O principal inimigo dos recursos da Obra é a estrutura da Igreja Católica e suas gigantescas necessidades financeiras. Já o assinalou Escrivá ao dizer: ‘As forças que se opõem a nosso caminho estão dentro da igreja.’

É muito difícil que em seu foro interno os dirigentes do Opus Dei esqueçam a dramática decisão da Conferência Episcopal, perguntado pelo Vaticano sobre a conveniência de transformar à Obra em uma prelatura respondeu negativamente, possivelmente, um pouco assustados com as práticas de fração organizada dentro da Igreja Católica adotada pelo Opus Dei.
Com João Paulo II as coisas mudaram no Vaticano e os clérigos espanhóis modificaram sua atitude. Dois espanhóis opus–deístas se movem livremente pelos corredores do poder vaticano, Joaquín Navarro Valls, responsável pelo departamento de Informação, e Eduardo Martínez Somalo, substituto do Secretário de estado. Na Conferência Episcopal espanhola aprenderam a lição, é necessário levar-se bem com a Obra, algo que Monsenhor Suquía impôs na Igreja espanhola desde 1985.

E tranqüilizada a comunidade religiosa, o Opus se derrubou sobre os uniformizados. Como não podia ser menos em uma Instituição que alcançou seu máximo esplendor na Espanha do general Franco, o Opus Dei se apaixona pelos uniformes. Inclusive há um grupo de ‘numerários’ dedicados a cortejar aos militares em ativo. Na década dos 80, a Obra teve uma fecunda relação com o almirante Liberal Lucini, chefe do Estado Maior da Defesa. Algo que não resulta estranho dado que a Marinha é o setor das Forças Armadas mais suscetível de sucumbir ante os encantos da Instituição.

Carrero Blanco abriu as portas da Marinha à Obra e um ministro da Marinha, Manuel Baturone Colombo, consolidou o trabalho de penetração, não em vão dois de seus filhos, Adolfo e Luis, abandonaram a carreira militar para consagrar-se às teias da Obra.
No Exército também contaram com uma considerável presença; dois chefes de Estado Maior, Alvaro Lacalle Leloup e José María Sáenz de Tejada, eram ‘super numerários’ da Instituição. No amplo círculo de simpatizantes, destacaram Emilio Alonso Manglano, ‘Juanito’ no jargão dos espiões que dirige desde seu posto de coordenador geral o Centro Superior de Investigação da Defesa (CESID).

Entre quem controla a informação reservada, policiais e espiões, o Opus teve uma forte presença no início dos anos 80 que depois perdeu. Inclusive contou com um colaborador na pessoa de um dos diretores gerais da Polícia na presente década, Rafael do Rio Sendino, o que lhes permitiu colocar a sua gente. Em poucos meses monopolizaram a Direção da luta anti terrorista, com o delegado Jesus Martínez Torre, e a muito importante brigada de Interior, uma espécie de Polícia política cuja frente situou-se Alberto Elias.

A presença do Opus Dei na Polícia se revelou vital durante a investigação do ‘assunto ‘Rumasa’, quando um policial, o inspetor Medina, deparou-se com documentos comprometedores, concretamente, a doação por parte de José Maria Ruiz Mateos de 2.000 milhões de pesetas ao Instituto de Educação e Investigação, uma das sociedades de fachada da Obra; seus superiores ordenaram-lhe parar a investigação.

Sem dúvida, onde mais terreno perdeu a Obra é no da política. Quando Franco morreu, perderam o governo e logo soltaram quase todas as fibras que tinham conseguido conservar. Depois das eleições de outubro de 1989, a voz do Opus Dei permanecia representada na Câmara Baixa mediante três vozes, as dos deputados Isabel Tocino (Cantabria), Andrés Ollero (Granada), e Juan Luis de la Vallina (Asturias). Atrás ficaram os tempos de esplendor, sua infiltração no UCD, sua presença no Partido Democrático Cristão de Oscar Alzaga, seu assédio ao Partido Liberal, onde contaram com o apoio do vice-presidente Andrés de la Oliva Santos. Inclusive durante um breve período foram capazes de atrair pessoas que hoje se deslocaram ao campo socialista, como Manuel da Rocha, Ludolfo Paramio e Alfonso Lazo, este último deputado por Sevilha e secretário pessoal do vice-presidente Alfonso Guerra.
Concentrada em preservar seu poderio financeiro, a Obra recusou os enfrentamentos com o poder socialista na década de 80. Esperar que mudem as circunstâncias para pressionar de novo, é a ordem que Tomás Gutiérrez de la Calzada impôs entre seus seguidores. Enquanto, aguardam esse momento, Tomás Gutiérrez, o ‘Concílio’, acordam todas as manhãs convencidos de que tem atrás de si o melhor exército da Espanha. Sem dúvida, quando se instala em seu escritório, para dar uma olhada em Livros Contábeis, também, adverte que é o mais rico e isso lhe tranqüiliza muito. Finalmente, todos recordamos ao Bom Samaritano não só porque tinha boa vontade, mas também porque contava com muito dinheiro. Os pobres não podem fazer obras de caridade.

por Santiago Aroca

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-estrutura-oculta-da-opus-dei/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-estrutura-oculta-da-opus-dei/

‘O Breve Colóquio Satânico

Morbitvs Vividvs

Todos os dias, sem exceção, recebo mensagens de buscadores que bem ou mal intencionados desejam conhecer mais sobre Satanismo. Certamente louvável a busca pelo conhecimento, mas a maioria dessas pessoas poderiam “saber mais” se ao menos soubessem alguma coisa primeiro.

Esta obra é tanto um elogio aos verdadeiramente interessados quanto um atestado de minha falta de paciência para retomar o tempo todo aos conceitos básicos. Perguntas sobre pactos de sangue, inversões cristãs, sacrifícios e adoração do diabo tomam demasiadamente tempo e energia que poderiam ser dedicados a questionamentos mais profundos.

Peço pessoalmente a todos os satanistas experientes que indiquem este Breve Colóquio Satânico à aqueles que estão começando seus estudos e descobrindo pela primeira vez o caminho que leva a mais alta manifestação de vida humana. Aqui poderão ser encontradas em um só livro as respostas as perguntas mais comuns sobre o Satanismo.

Não é intenção do autor instituir qualquer dogma absoluto, mas sim expor uma que ele mesmo considera coerente com sua vivência em grupos e indivíduos genuinamente satânicos. Assim esta pequena obra foi desenvolvida após muita discussão e consulta com diversos o membros interessados do Templo de Satã, entre eles Bruna Dafnek, Érika, Lady Evil, Mystica Eritran, Satyrus Nocturnal Evil, Set-Hen e em especial aos sacerdotes Lord Ahriman e Obito.

Um conhecimento das perguntas e respostas aqui presentes será exigido como leitura obrigatória para todos os candidatos a membro do Templo de Satã daqui em diante, mas todos devem igualmente sentir-se livres para questionar e discutir as idéias aqui defendidas.

Novamente, o uso deste documento para o esclarecimento satânico é permitido e encorajado. É meu profundo desejo que não desperdicemos mais tempo do que o necessário explicando o óbvio e respondendo as mesmas perguntas. Que as dúvidas de sempre sejam substituídas por dúvidas mais atrozes.

Por fim, o texto é propositalmente sucinto. Mais do que um ensaio filosófico, meu objetivo e esclarecer de vez as questões de sempre. Faço minhas as palavras de Pascal, desculpando-me por esse texto tão longo. Tivesse eu mais tempo, ele teria sido muito menor.

Morbitvs Vividvs, Anno Satanas XLI

Morbitvs Vividvs é autor de Lex Satanicus: O Manual do Satanista e outros livros sobre satanismo.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/101-o-breve-coloquio-satanico/

A Fantasia do Vento Solar

Era uma vez , há vinte mil anos passados, uma adiantada civilização apaixonadamente interessada pelo Sol. Quando ela
desapareceu, da maneira que veremos , os homens , por vaga memória, continuaram a adorar o Sol, ofereceram-lhe sacrifícios sem conta; porém , o conteúdo racional do interesse dos ancestrais pelo astro se havia , com eles , desvanecido.

Um olhar lançado sobre nós mesmos nos poderá aproximar dos titanicos trabalhos por eles empreendidos. Com exceção de quantidades relativamente pequenas de energia produzida a partir do átomo , nossa energia é extraida do Sol, quer sob forma fóssil ( carvão, petróleo) , quer sob forma direta: energia hidrelétrica, produto de evaporação. Também fabricamos pilhas solares, que transformam os raios em corrente. Poderíamos conceber uma captação mais extensa. Poderíamos, por exemplo, estudar a possibilidade de utilizar a energia termonuclear por fusão dos núcleos leves e dos núcleos pesados , o que redundaria numa reprodução do Sol sôbre a Terra, Poderíamos, finalmente , procurar captar o vento solar. Trata-se de uma torrente de partículas descoberta em 1960 pelos satélites. São átomos de matéria solar, desprendidos , que vem atingir o nosso globo. Segundo se julga, seria este vento o responsável pela produção das auroras boreais e provocaria a formação da camada elétrica na atmosfera. Estabelecendo-se um curto-circuito entre as camadas eletrizadas da alta atmosfera e o solo, poderíamos captar uma prodigiosa e inesgotável fonte. Como se deve proceder? Fazer com que a atmosfera se torne condutora? É o que ocorre com o raio. Um raio lazer suficientemente intenso produziria o fenômeno.

Uma civilização científica e técnica , há vinte mil anos atrás, concebeu o projeto de domesticar o vento solar . Em vários pontos da Terra foram construídos monumentais isoladores, em forma de pirâmide . Em seu cume encontrava-se algo semelhante a um superlazer. Muito tempo depois, iriam esses instrumentos obsedar  a deteriorada memória das gerações sobreviventes. Sem compreender o que estavam fazendo, os homens construíriam piramides e, por vezes, colocavam pedras reluzentes em seu ponto mais alto , encaixadas em metal.

Tentou-se a experiência. Porém a força arrebatada ao Sol varreu a ambiciosa civilização e fulminou aquele mundo que viu “o céu dobrar-se sobre si mesmo como um pergaminho e a Lua tornar-se como sangue”.

Volatilizaram-se os grandes isoladores. Em lugar deles e espalhados por toda a parte, na África, na Austrália, no Egito, seriam descobertos muito tempo depois, no século XX de nossa era projeções constituídas de vidros submetido a uma elevadíssima temperatura e bombardeado por partículas em intensa energia: os tectitas.

Terão sobrevivido alguns dos detentores do saber? Alguns talvez tenham sido colocados ao abrigo em profundas cavernas. Outros talvez estivessem, na ocasião , viajando pelo espaço? Depois da grande catástrofe, a situação não era desastrosa apenas  do ponto de vista geológico ( continentes desmoronados ou submersos) ; era-o também, do ponto de vista biológico. O bombardeio da atmosfera havia criado uma apreciável quantidade de carbono radioativo. Ao ser absorvido pelos animais e pelo homem, devia produzir mutações e provocar o aparecimento de híbridos fantásticos. Esses híbridos, centauros, sátiros, homens-passaros, irão atuar durante muito tempo  na memória humana, até os tempos históricos da Grécia e do Egito. Os sobreviventes, alertados , tiveram de enfrentar um problema técnicopremente: eliminar o carbono 14. Foram levados a organizar uma gigantesca lavagem da atmosfera, por meio de chuvas artificiais, ao mesmo tempo em que se preservava um número suficiente de humanos e de espécies animais  não atingidas pelas mutações. A circuncisão, particularmente, foi um dos métodos de proteção adotados . É seletiva, no caso de hemofilia, produto de uma mutação desfavorável, transmitida pela mulher e afetando sobretudo ao homem. Esta prática, instituida por questões genéticas, iria ser prosseguida, porém sem conhecimento de causa, durante milênios, e por inúmeros povos espalhados pelo mundo. . .

Eis aí , portanto, uma pequena tentativa no sentido de decifrar as tradições e explicar as coisas, sem recorrer ao ocultismo. Será uma pista produtiva ? Não temos certezas de nada. Mas um homem há de vir, dotado da fé de um Schliemann e do gênio sintético de um Darwin , para juntar os elementos esparso da verdade e escrever a história de antes da história.

Poderíeis retrucar: E aí está uma hipótese colossal e infantil. Acreditais nela? E nós vos responderemos que não acreditamos na fábula mas sim em sua moral.

Ao situarmos a grande catástrofe por volta de vinte mil anos de nossa era, estamos levando em conta as anomalias ocorridas na datação pelo carbono 14 . Quando surgiu o método do carbono 14 , julgou-se que a arqueologia se tornaria uma ciência exata. Os sucessivos aperfeiçoamento permitiram o estabelecimento de pontos de referencia até cinquenta mil anos a.C. Todavia não se encontrou nenhum objeto que se pudesse situar no período decorrido entre os vinte mil e os vinte e cinco mil anos a.C. , enquanto outros podem ser encontrados tanto antes quanto depois daquela fase . Não há, até o momento  nenhuma explicação para esta anomalia. Pode-se admitir que se tenha produzido , então , um acontecimento capaz de modificar a concentração de carbono 14 na atmosfera.

Nossa fábula indica a possibilidade de  haver um conteúdo real nas inúmeras lendas referentes  a seres semi-homens e
semi-animais.

Objeção: não se encontraram ossaturas desta ordem.

Resposta: encontraram-se sim; porém os arqueólogos julgam haver descoberto , em túmulos consagrados  a alguma religião totêmica, um homem enterrado com um animal.

Nossa fábula tem sido o mérito de propor o emprego de métodos usualmente utilizados pela física a fim de procurar determinar  a data de uma eventual catástrofe de grandes proporções . Se esta houver sido provocada por algum curto-circuito  na atmosfera terrestre , este curto-circuito deve ter, forçosamente , perturbado  o campo magnético e talvez até deslocado os polos magnéticos . Os especialistas poderiam efetuar pesquisas neste sentido.

Os campos de tectitas  talvez auxiliassem a identificar os pontos de desencadeamento da catástrofe. O exame da composição nuclear dos tectitas revela que êstes não viajaram durante muito tempo pelo espaço. Por conseguinte, devem ter-se formado quer na superfice da Terra , quer na Lua . Sua formação parece ter despreendido uma energia tão prodigiosa que se pode , evidentemente, recusar a hipótese de uma origem técnologica .

Todavia , a catástrofe de que  fala nossa tão hipotética narrativa pode ter criado os tectitas e , simultaneamente os haver projetado ao redor do ponto de impacto da descarga que lhes teria dado origem . Foi possível demonstrar que os tectitas se deslocaram na atmosfera com velocidade considerável. Isto veria provar ou que eles vieram da Lua ou, que foram criados na Terra por algum acontecimento catastrófico. É igualmente possível encontrar vestígios desta catástrofe sob forma de trajetórias  formadas em determinados minérios pela passagem de partículas submetidas a uma alta energia. Para que se empreendam pesquisas de ordem física, basta tão-somente que a hipótese de uma grande catástrofe seja admitida  em meios científicos. Talvez cheguemos , então , a obter informações capazes de transtornar nossas concepções sobre a história da humanidade.

Nossa fábula dá, finalmente , a entender que a mitologia tomada como ponto de partida para pesquisas sôbre o real, como tão genialmente compreendeu Schliemann , está apenas ensaiando seus primeiros passos. Deveriam ser sistematicamente examinados todos os mitos  catastróficos , particularmente os que mostram o fogo dos  céus a descer sobre os homens e todas as lendas que descrevem sêres não humanos derivados do homem.

Esta fábula carece de uma espécie qualquer de tentativa de descrição dos contemporâneos da grande catástrofe. Dar-se-ia o caso de que algum racismo, consciente ou inconsciente, houvesse até agora desviado as pesquisas sobre a origem do homem? Paira esta duvida desde a publicação da célebre tese de Cheikh Anta Diop sôbre Nations nègres et culture , onde é demonstrada a origem negra do antigo Egito. Em Antériorité des civilisations nègres, escreveu Diop:

Os resultados das escavações arqueológicas , particularmente as efetuadas pelo Dr. Leakey na África Oriental, quase a cada
semestre nos permitem fazer recuar na noite dos tempos os primeiros vagidos da humanidade. Continuamos , entretanto , a situar o aparecimento do homo sapiens no paleolítico superior, há cerca de quarenta mil anos. Esta primeira humanidade , a que pertence às camadas inferiores do aurignaciano, estaria morfológicamente ligada ao tipo negro da humanidade atual (. . . ) . Com tôda objetividade, somos levados a reconhecer que o primeiro homo sapiens  era um “negróide” e que as demais raças, a branca e a amarela , surgiram mais tarde , em consequência de diferenciações cujas causas físicas a ciência ainda não descobriu (. . .) Ao que tudo indica , os negros predominaram de inicio , na pré-história , no paleolítico superior. Esta predominancia persisitiu nos tempos históricos , e durante milênios , no plano da civilização , e na supremacia técnica e militar.”

Assim sendo, eram negros os grandes Antigos de nossa fantasia-do-vento-solar. Viveriam eles num clima de harmoniosa síntese da religião e da ciência? Teriam atribuído algum elevado sentido a seu destino? Que coragem , que fé terão sustentado os melhores dentre eles quando o Sol se abateu sobre suas cabeças encarapinhadas e inteligentes? No longínquo eco despertado na Bíblia por sua tragédia , foram esses ladrões do Sol que pronunciaram , pela primeira vez a sublime palavra: “O Senhor o deu, o Senhor o tomou , bendito seja o nome do Senhor.”
Extraido do livro O Homem Eterno de Louis Pauwels e Jacques Bergier – Difusão Européia do Livro

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-fantasia-do-vento-solar/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-fantasia-do-vento-solar/

Hermes na Alquimia

Referir-nos-emos agora a Hermes, deidade chave na tradição egípcia, grega e romana. Thot, o Hermes egípcio, que na Alexandria é conhecido como Hermes Trismegisto, ou seja, o possuidor das três quartas partes da sabedoria universal, é identificado igualmente com o Hermes grego e com o Mercúrio romano. Sempre se considerou este deus como uma imagem da transmissão, e a isso se deve que os atributos com os quais é identificado, capacetes e sandálias aladas, estejam relacionados com o vento. Uma de suas características é a rapidez de seu deslocamento, o que na Alquimia pode ser observado, de forma análoga, quanto ao metal do mesmo nome, que conhecemos como Mercúrio em sua versão latina.

Bem se diz que Hermes é eterno, seja este ou aquele o nome que lhe dispensaram os distintos povos. Unanimemente é transmissor de ensinos e segredos, chame-se Thot, Enoch, Elias ou Mercúrio, como já dissemos. Sua revelação pelo batismo da inteligência se produz naqueles que encararam sem preconceitos nem muletas o Conhecimento e se filiam intelectualmente a seu patrocínio; sua invocação, a concentração e a aplicação dos distintos métodos de sua ciência estabelecem uma comunicação direta com esta altíssima entidade, que se manifesta internamente em qualquer grau nas individualidades dispostas a isso. Como se sabe, esta deidade se manifestou –e o segue fazendo– na história do Ocidente por meio da Tradição Hermética e das disciplinas que a conformam.

Espírito protetor dos viajantes, dos comerciantes e peregrinos, sua influência se faz sentir como a própria energia que nos transmite as mensagens mais rápidas e ligeiras no caminho iniciático. Seu poder é tal que sem ele nada seria, já que, como iniciador nos mistérios da vida e do Cosmo, suas vibrações protetoras –e também dissolventes– atuam como um catalisador dos efeitos da viagem do Conhecimento. Mercúrio é sutil e ligeiro, mas ao mesmo tempo leva em sua mão a vara do caduceu, símbolo do eixo e das duas correntes que se enroscam simultaneamente nele. Sua missão é específica e nos aguarda em todas as encruzilhadas de nossos caminhos. Seu pensamento é sábio e revelador, como bem o atesta o Corpus Hermeticum, um dos documentos mais excelsos da Antigüidade, emanado da Alexandria nos primeiros tempos do cristianismo, e do qual queremos extrair este texto:

“Já que o Demiurgo criou o mundo inteiro, não com as mãos, senão pela palavra, concebe-lhe, pois, como sempre presente e existente, e tendo feito tudo e sendo Um Só, e como tendo formado, por sua própria vontade, os seres, porque, verdadeiramente, é este seu corpo, que não se pode tocar, nem ver, nem medir, que não possui dimensão alguma, que não se parece a nenhum outro corpo. Já que não é nem fogo, nem água, nem ar, nem alento, mas todas as coisas provêm dele. Agora bem, como é bom, não quis dedicar-se esta oferenda só a si mesmo nem enfeitar a terra só para ele, senão que enviou aqui para baixo, como ornamento deste corpo divino, o homem, vivente mortal, ornamento do vivente imortal.”

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hermes-na-alquimia

BIG NUMBERS: Uma conversa com Alan Moore e Bill Sienkiewicz

Há um ano atrás eu conversei com Bill Sienkiewicz sobre o  que, então, era entitulado de The Mandelbrot Set. Era no que ele estava envolvido, em mais uma parceria com Alan Moore, e tratava de Matemática Fractal e a Teoria do Caos. Desde então, o trabalho teve seu título alterado para Big Numbers, levemente mais acessível que o primeiro, evitando perguntas como “mandelbrot o quê ? ”

Bem, mas que diabos é Matemática Fractal? Não é uma pergunta de resposta fácil, não é um assunto de fácil explanação. Basicamente trata-se de uma nova ciência que transcende limitações filosóficas, científicas, religiosas, econômicas…tudo. E que quer nos prover de uma nova forma de enxergar o mundo a nossa volta. Soa claro? Não? Então deixemos o próprio Bill tentar nos explicar:

“Fractais é um jeito de compreendermos que existe um ritmo e uma fórmula para o Caos; que há uma ordem nele. Se voce tem um padrão de onda cerebral que é rítmica e outra desconexa, qual voce prefereria?  Presumo que a primeira, à primeira vista. Mas se pensármos direito, a outra, a caótica, seria a correta. Porque a mente e a memória são fractais por excelência, elas não seguem uma linha reta, uma aparente ordem, uma sequência… Por exemplo, quando voce pensa na primeira vez que teve um cigarro aceso em seus dedos, que foi num jogo de futebol que assistiu, aí voce se lembra de um dia chuvoso, depois num acidente que voce presenciou quando tinha 13 anos…e por aí vai, de associação em associacão, de forma lógica ou ao acaso. A coisa não funciona digamos, sob controle, cronlogicamente, ordenadamente. É aos saltos e, para isto, para a nossa mente trabalhar assim, é preciso que exista o Caos e , simultaneamente, alguma espécie de ordem. O coração e os pulmões são rítmicos mas a mente é caótica. E quando voce toma alguma coisa, como cocaína, ela faz a mente ficar ritmica e o cárdio-respiratório virar um caos…Tudo se espalha em volta. E é disto que estamos tentando tratar em Big Numbers.”

“É baseado num narrativa dentro da história, que mostra que,por mais que as coisas se modifiquem, elas permanecem as mesmas. Temos 45 personagens, cada um com sua história pessoal e quero que as pessoas realmente se importe com elas, mas que, ao mesmo tempo, a estória seja o foco maior de suas atenções. Depois de ter feito minha própria graphic-novel Stray Toasters, agora eu quero que os leitores abracem a vida como algo afirmativo e não como uma coisa que está se esgarçando irremediavelmente. Que se inteirem que tudo é uma questão de conexão, de ligação entre todos nós…Eu realmente amo as pessoas. ”

Mas e sobre trabalhar com Alan Moore, quando todos sabemos que ele é minucioso e até mesmo ditador ao extremo com seus roteiros – embora também saibamos que voces juntos já nos brindaram maravilhosamente com o docudrama Brought To Light?
“Bem, minha definição de Alan é que ele é um autor altamente controlador. Mas não é uma coisa negativa e o que percebo é que os artistas que trabalham com ele, confiam no seu taco e o seguem fielmente. É mais como se eles estivessem trabalhando para ele e não com ele. Já de minha parte, é um pouco diferente. Gosto de jogar coisas novas para ele, coisas que ele não tinha lidado antes. Sou um artista mais abstrato, até no campo das idéias, enquanto que ele é mais concreto, se podemos descrever assim.  Deste modo eu tento soltá-lo mais…E também  não posso negar que, com ele, também aprendi a me controlar um pouco. Ou seja, ele também se dobrou um pouco a mim e aí temos uma simbiose profíqua, quando os opostos se complementam.”

Recentemente eu tive a chance de conhecer ainda mais desta intrigante e instigante obra, ao conseguir contatar o próprio Alan Moore que deixou claro pretender causar um impacto profundo nos leitores de Quadrinhos ao ponto de extrapolar ao gênero, muito mais do que alcançou antes, com Watchmen.

Seu entusiasmo era visível e ele está convencido que será o melhor trabalho que já fez. Entende os fractais como uma chave para se lidar com o estado em que o mundo se encontra.

Mas , primeiro, a mudança de nome. Porque isto ocorreu?

“Depois que decidimos chamar a obra de The Mandelbrot Set, lembramo-nos que deveríamos, até por respeito, informar ao Dr. Mandelbrot – o autor francês da Teoria – sobre nosso propósito. Assim, escrevemos a ele e recebemos uma resposta muito amável. Basicamente ele nos informava que desejava muito ver a Matemática Fractal ser divulgada maciçamente, tanto pelo seu valor educacional quanto de entretenimento. Mas que, naquele momento, devido ao idiossincrático e críptico conservadorismo reinante no meio  matemático – que chegou a lhe considerar um egomaníaco e auto-promotor e atacaram  veementemente os Fractais – ele preferia não ter o seu nome envolvido. Infelizmente, para toda comunidade científica, a popularização da ciência é confundida com banalização, com o decréscimo de sua importância.”
De todo modo, Big Numbers soa melhor e é mais abrangente.”

Quando consideramos o que Alan pretende, ou seja, tornar acessível uma nova teoria científica, mostrar que todos podem aplicá-la para entender melhor o mundo em que vive e mais, apresentando-a num veículo ainda muito discriminado – como infelizmente ainda são as HQs – um título mais fácil faz grande diferença.

Mas vamos às próprias explicações de Alan Moore sobre os Fractais, bem mais complexas e profundas que as de Bill. Está sentado confortavelmente?   É melhor que esteja.

“A melhor maneira de descreve-los é através de exemplos palpáveis. Se voce tem uma folha de papel e risca uma linha nela, em termos matemáticos esta linha tem só uma dimensão, é unidimensional. Ignora-se a sua largura e consideramos somente seu comprimento. Agora, se voce começa a ziguezaguear esta linha pela folha de papel, voce cobrirá mais superfície do papel, podendo chegar até mesmo a cobri-la inteiramente. Chegaremos então ao ponto em que a linha continua unidimensional, mas não totalmente. E se ao mesmo tempo não é bidimensional, ou seja, continua não tendo uma  largura, podemos dizer que ela é de uma dimensão-e- meia. O mesmo se aplica a uma folha de papel, esta sim, bidimensional – tem largura e comprimento . Se a embolamos na mão até formar uma bola – e bolas são sólidos tridimensionais, com largura, comprimento –  teremos na verdade um objeto de duas dimensões que foi forçado a quase ser tridimensional. Portanto podemos
dizer que aquela bola de papel é de duas-dimensões-e-meia.  Assim que voce consegue entender este conceito de meias dimensões, de frações de dimensões, isto nos abre toda uma nova área de Geometria possível. As pessoas que começaram a explora-la, estão concluindo que as equações que abordam essas dimensões fracionadas, geram estas novas formas peculiares chamadas Fractais. E daí a perceberem que muitas das formas encontradas na natureza, ao acaso, são  perfeitamente idênticas àquelas geradas em seus computadores, foi um pulo. E tudo isto nos indicando que aquilo que considerávamos até então casual, caótico e turbulento, é de fato expressão perfeita de uma forma mais elevada de Geometria que não tínhamos condição de perceber antes.’

“Veja as nuvens, por exemplo. Suas formas parecem ser completamente caóticas, imprevisíveis, mas quando observadas sob a ótica da Matemática Fractal, o Caos assume um diferente significado, mostrando que há diferentes caminhos para se observar matéria e acontecimentos. E isto está contribuindo até mesmo para reverter a nefasta tendência contemporânea à especialização màxima. Cada vez mais e mais gente sabe mais e mais sobre menos e menos. Até que todos saberão tudo sobre nada…”
“Com os Fractais todos percebem que tudo está conectado, Meteorologia, Economia, Biologia…tudo tem muito  em comum. Cessa o desejo da especialização. O melhor a fazer é estudar quanto mais campos for possível.”
“Foi o que o próprio Maldelbrot fez. E é  o que pretendemos fazer com Big Numbers, mostrar um novo jeito de perdceber o nosso derredor”.
Alan Moore acredita que fomos apanhados num estágio tal de caos e trubulência que não acontecia desde que a Era Industrial suplantou à Agricultural. E afirma que Big Numbers não é uma obra nihilista mas sim até mesmo otimista, “pois ela tornará claro que é possível lidar com tudo isto se temos os métodos corretos”.

E continua: “A sociedade se encontra meio aflita porque as coisas estão acontecendo cada vez mais rápido, levando o Caos aos nossos sistemas políticos, econômicos, vidas emocionais e nas nossas relações interpessoais. Estamos agora no olho  do turbilhão entre a Era Industrial e o “Por Vir”. Na Matemática fractal é um conceito bem aplicável aí, o chamado Período de  Fase de Transição. Por exemplo: se voce fosse um alienígena, olhando para um lago,  nunca conseguiria prever as propriedades do vapor. Isto se dá porque o que acontece entre a água e o vapor é um ponto de Fase de Transição.Um ponto de intensa e incrível turbulência, quando uma coisa deixa de ser ela própria mas ainda não é a outra. Com a água obviamente isto acontece quando ela começa a ferver. Com Big Numbers o que pretendo é captar uma fração de todo este vapor, calor e água em ebulição, uma fração da sociedade quando ela atinge este ponto de fervura,  e
tentar fazer um juizo disto”.

O ROTEIRO DE BIG NUMBERS

Como sempre faz em seus minuciosos roteiros, para Big Numbers Alan Moore criou uma espécie de mapa de cada personagem, uma grande folha de papel dividida em 40 linhas e 12 colunas, totalizando 480 células na qual está destrinchada a vida de cada uma delas no decorrer do 12 números que comporão a série. E tome rabiscos de letra miúda quase imperceptível, garatujas incompreensíveis, quase criptografia,  até mesmo pequenos desenhos, numa espécie de story-board, formando o que o próprio Alan apelidou de Tapeçaria, retratos de cada personagem.
Uma é um professor de História, para termos o ponto de vista histórico; outra, um cara que acha que veio de Netuno, nos oferecendo o angulo social; emfim, está tudo alí , e tudo é revelante.

Alan se concentrou em segmentos sociais que raramente são representados – a terceira idade e a infância quase sempre são relegados em pró dos “mais jovens”, seja na TV, cinema ou mesmo em livros. Big Numbers, no entanto, é sobre gente real.

“Eu estou bem confortável com o fato de não ser uma obra centrada em homens jovens e lindas garotas fazendo e acontecendo “, revela Moore. “Não me pauto pela tendência de juventude exclusiva. Isto é um conceito inventado pela mídia publicitária desde os anos 50. Há um monte de gente de meia-idade, crianças e idosos nesta série, pois eles formam o espectro da nossa sociedade que raramente é representado, servindo até mesmo de motivo de piada. É legal escrever sobre garotas sensuais em roupas sumárias, e até chamar isto de feminista. Mas e as pessoas comuns não particularmente atraentes, indo para o trabalho, cuidando das crianças, cozinhando para os maridos? Elas não têm valor?”

Big Numbers não tem uma estória usual, não é um “suspense”, mas sim uma colcha de retalhos das estórias de cada personagem, de uma comunidade tipicamente interiorana da Inglaterra (sob a ditadura da dama-de-ferro, Margareth Tatcher) afetada em seu dia a dia pela construção de um leviatanesco Shopping , ícone maior do capitalismo turbinado, justo em seu cerne. Se isto não é acessibilidade, me diga entáo o que é.

E Alan continua: “O Shopping nos permite tratar de uma comunidade em crise. Nada impactante e dramático somente pelo dramático, mas paulatino e sutil. Se voce ver uma comunidade sendo erodida, isto te conscientiza de como ela está mudando e nós precisamos de um agente de mudança na história. E com a atual predominância da chamada “geração-Shopping”, acho que fizemos uma boa escolha. Tanto que, naquela enigmática forma com que a vida imita a arte, justamente a área de Northampton que escolhemos como cenário para a nossa estória, já está toda tomada por cadeias de lojas a la Toys R Us.

“O Shopping é o verdadeiro emblema do pico da era industrial. É a representação do que uma sociedade comercial soi poderia terminar:  um bando de zumbis andando para lá e para cá, hipnotizados pelos anúncios luminosos, visual clean de inox-polido- neon-e-vidro, consumindo compulsivamente.”

“”Mas não penso que este será o fim da Civilização. Certas correntes,  seja na Tecnologia, Ciência, Arte,  e mesmo na vida, corações e mentes das pessoas, reverterão esta tendência. Como eu disse antes, o mundo está mudando de forma incrivelmente acelerada e ninguém é capaz de prever ao certo no que isto irá dar. Mas em Big Numbers eu tento ao menos mostrar esta fase de transição, o momento da fervura”.
E eu acredito piamente que Alan conseguirá o seu intento, ainda mais com a parceria de Bill Sienkiewicz  que, segundo Alan, está na sua melhor fase como artista, voltando a uma arte mais naturalista, mais próxima, numa simbiose que tornará Big Numbers tão leível quanto assistir a vida de nossa vizinhança. Por isto, a obra também é permeada de humor…

“É muito engraçada, rizível até”- enfatiza Moore – ” uma verdadeira comédia, que não deixa de ser trágica em certos pontos, como a vida. A nossa inspiração provem de autores como Alan Bleasdale e Alan Bennett, que podem dizer coisas de partir o coração de um forma realmente açambarcadora e engraçada. Eles conseguem expor inconmensuráveis e pungentes dramas humanos de forma simples e direta. E é neste território que eu pretendo que Big Numbers se desenvolva, no qual voce tem simultaneamente toda a riqueza da comédia e da tragédia da nossa mundana existência”.

“Por uma certa ótica também, Big Numbers tentará fazer com que os leitores de Quadrinhos se conscientizem de que não é preciso ser mordido por uma aranha radiativa ou nascer com um gene mutante, para ser interessante. De que cada pessoa a sua volta é tão ou muito mais instigante do que qualquer super-humano de collant. Super Heróis são personagens planos, unidimensionais, tigres de papel. Vigilantes psicóticos demandam quase nenhuma motivação, não têm a riqueza e a complexidade de uma pessoa que voce encontra num ponto de ônibus.”

“Mesmo a idéia de escapismo per si  – motivação maior dos Quadrinhos, Cinema, etç – eu já abominava quando escrevia O Monstro do Pântano. E agora, mais do que nunca, é tempo de ser perguntar: Por que Super  Heróis em primeiro plano? Por que não ir direto ao ponto? Estou completamente fora dos gêneros Fantasia & Ficção Científica, pois atingi aquele estágio no qual o Mundo real parece ser tão fabuloso, fascinante, intrincado e maravilhoso que é até um insulto à realidade tentármos inventar qualquer coisa…”
Esse cara realmente escreveu Watchmen???

(Obs; tradução livre da excelente cobertura de Big Numbers escrita por Liz Evans para a já extinta revista DEADLINE, em seu nº 17, de abril de 1990/ This is a free translation of the excellent article by Liz Evans from the magazine Deadline # 17 – april/1990).

Trad. José Carlos Neves

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/big-numbers-uma-conversa-com-alan-moore-e-bill-sienkiewicz/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/big-numbers-uma-conversa-com-alan-moore-e-bill-sienkiewicz/

Hércules e o Leão da Neméia

O desafio de Hércules foi vencer um leão de pele invulnerável, que devastava rebanhos e devorava todos os que tentavam matá-lo. Aconselhado por Atena, deusa da sabedoria, a não usar a força, o herói estrangula a fera em sua caverna. “Nesse teste, Hércules ensina que a luta pelo aperfeiçoamento começa dentro de nós. Os leões de hoje são a violência e a agressividade e o desafio é buscar a harmonia, procurando antes de mais nada nossos recursos internos”

Mitologia

Na cidade de Neméia vivia no fundo de uma caverna um leão terrível, concebido por Selene uma temida feiticeira. Querendo vingar-se dos habitantes da cidade que a haviam expulsado, fêz surgir esta terrível criatura. Cobrindo a pele do leão com uma poção mágica, a criatura se tornou indestrutível, sendo incapaz de ser transpassada por qualquer arma criada pelos homens. Quando saía da caverna, devorava os habitantes de Neméia. Assim padecia a cidade com a fúria de Selena.

No Olimpo vários heróis eram instruídos pelo centauro Quíron e dentre eles se destacava Hércules, um dos filhos de Zeus. Percebendo sua bravura, lealdade e dignidade apesar de seu orgulho, Zeus resolveu iniciar Hércules nos mistérios do Olimpo, escrevendo com letras de fogo em uma folha de ouro, as 12 tarefas.

O primeiro trabalho iniciático seria matar o Leão de Neméia. Indo em direção a Neméia, Hércules tentou entender o motivo desta tarefa tão simples. Ao encontrar a caverna, Hércules entrou decidido a matar a criatura com inúmeras armas. Ao se aproximar do fundo da caverna, ele percebeu o leão vindo lentamente em sua direção. O Leão era enorme e fixando o olhar em Hércules, com seus olhos brilhantes e enigmáticos, Hércules foi surpreendido pelo ataque do leão travando com ele uma batalha terrível.

Hércules fugiu da caverna assustado mas resolveu retornar com suas armas, porém percebeu que elas não serviam para matar o leão. Mais uma vez ele foi surpreendido pelo ataque feroz do monstro e fugiu. Fora da caverna Hércules refletiu sobre a tarefa e decidiu enfrentar o leão sem armas, talvez fosse essa a tarefa: usar sua razão em lugar de sua força.

Aproximando-se do fundo da caverna viu novamente o leão se aproximando e fixando seu olhar em Hércules. Surpreso, Hércules viu que o brilho nos olhos do leão era um espelho que refletia sua imagem. Ferozmente o leão avançava contra Hércules. Depois de uma longa luta, Hércules estrangulou o leão que caiu morto.

Levando seu corpo para fora da caverna, Hércules viu o tamanho real do animal, que não lhe parecia tão grande assim. Resolveu olhar mais uma vez em seus olhos e viu que nada havia lá dentro. Ele havia conseguido vencer a si mesmo e ao seu orgulho. Arrancou o pelo do animal e dela fez uma túnica, que o tornou indestrutível. E com a cabeça fez um capacete, que passou a usar em todas as outras tarefas, para sempre se lembrar que a força nunca deveria superar a razão.

Simbologia

A luta de Héracles ou Hércules com as feras representa a constante luta que temos para conter a fera que mora dentro de nós, ao mesmo tempo que preservamos nosso instinto vital e criativo. O leão está sempre associado à realeza e, mesmo em sua forma destrutiva, é o rei dos animais, egocêntrico e selvagem, o princípio infantil. Dessa forma, sempre que derrotamos e vestimos a pele do leão, as opiniões dos outros que antes nos intimidavam, já não tem mais valor pois estamos vestidos com uma poderosa couraça, nossa própria identidade.

No entanto, por mais heróica que seja, a pele do leão sempre representa o egocentrismo, a dificuldade de lidar com a frustração e com a raiva contida. Não sabemos lidar com a frustração por não conseguirmos o que queremos, pela auto-importância inflamada e o orgulho desmedido. Entretanto quando dominamos essa fera que mora em nós, podemos utilizá-la de forma construtiva. As conquistas e vitórias exigem que deixemos para trás as couraças, que carregam uma alma sem paixão.

Caminho de Iniciação

O Leão de Neméia é a viva alegoria das variadas e incontáveis forças instintivas e passionais existentes nos infernos da Lua (o Astral Inferior). Morto o Leão de Neméia, deve o adepto desintegrar sucessivamente o Demônio do Desejos (Judas), o Demônio da Mente (Pilatos) e, por fim, o Adepto prossegue seus trabalhos nesses infernos libertando partes de sua Consciência aprisionadas nos átomos do Demônio de Má Vontade (Caifás), que é o mais detestável dos três.

Esses três demônios são as três Fúrias dos Mistérios Buddhistas; em seu conjunto formam o Dragão das Trevas do Apocalipse de São João. No Apocalipse, o Dragão das Trevas é representado como um monstro de sete cabeças. Essas sete cabeças são os sete pecados capitais, portanto, o Leão de Neméia é o símbolo de todas essas forças diabólicas que vivem nos infernos da Lua psicológica.

Todo o trabalho de desintegração dos demônios que vivem nesses infernos planetários é executado pela Mãe Divina Individual. “Que teria sido de mim sem o auxílio de minha Divina Mãe Kundalini”, exclama Samael Aun Weor. “Desde o fundo do abismo chamava por minha mãe, e ela surgia empunhando a Lança de Eros…”. “Afortunadamente soube aproveitar ao máximo o coitus reservatus, para fazer minhas súplicas a Devi Kundalini”, diz Samael falando de seu próprio processo na Segunda Montanha (Caminho de Iniciação).

Terminado o Primeiro Trabalho de Hércules, o Iniciado ganha direito de ingressar no Céu da Lua, a morada dos Anjos, o Astral Superior. Ao término dos trabalhos nos infernos da Lua, o iniciado une-se com sua Buddhi. Esclarecemos: na Sexta Iniciação Maior, Buddhi nasce dentro do Iniciado. Mas ainda não ocorrem as núpcias, a união entre Manas e Buddhi, o que só ocorre ao fim do Primeiro Trabalho de Hércules interno, viva alegoria de Manas.

“Descer ao Inferno é fácil: difícil é retornar depois”, adverte a Sabedoria Oculta. A última etapa do trabalho nessas regiões inferiores é acabar com as bestas secundárias, expulsar as malignas inteligências de suas moradas nucleares. Quando esses átomos ficam livres dessas inteligências diabólicas, convertem-se em veículo de inteligências luminosas. Por isso dizemos que:

“O Cristo não desce aos infernos para destruir, se não para redimir.”

Resumindo, para subir ao Céu Lunar, Morada dos Anjos, e celebrar as núpcias com nossa Noiva Imortal (Buddhi), antes é preciso descer ao correspondente inferno lunar com o intuito de dominar e eliminar todas as paixões animais, instintos bestiais, desejos, medos, processos passionais, a má vontade, a Besta de Sete Cabeças, enfim, transformar as águas pestilentas e negras em águas claras, limpas e transparentes. Trata-se de uma tarefa multifacetada porque incontáveis são os defeitos de natureza emocional, sentimental e instintiva que vivem nessa esfera inferior, especialmente nossos defeitos mais antigos; por isso, são de difícil eliminação; sempre surgem como monstros gigantescos e milenares diante da visão interna. Na Segunda Montanha (Caminho de Iniciação), a paciência e a serenidade precisam ser elevadas a infinitos graus porque o trabalho se torna extremamente delicado e sutil.

Biblioteca de Antroposofia.

#Hércules #Mitologia

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A História da Sexualidade

A sociedade vive desde o século XVIII, com a ascensão da burguesia, uma fase de repressão sexual. Nessa fase, o sexo se reduz a sua função reprodutora e o casal procriador passa a ser o modelo. O que sobra vira anormal – é expulso, negado e reduzido ao silêncio. Mas a sociedade burguesa – hipócrita – vê-se forçada a algumas concessões. Ela restringe as sexualidades ilegítimas a lugares onde possam dar lucros, como nas casas de prostituição e hospitais psiquiátricos. A justificativa para isso seria que, em uma época em que a força de trabalho é muito explorada, as energias não podem ser dissipadas nos prazeres. Certo?

Segundo Michel Foucault, filósofo francês, está quase tudo errado. A hipótese descrita acima é chamada por ele de hipótese repressiva e vem sendo aceita quase como uma verdade absoluta. Mas Foucault descontrói esse pensamento e formula uma nova e desconcertante hipótese, mostrando a seus leitores que ainda que certas explicações funcionem, elas não podem ser encaradas como as únicas verdadeiras, pois, segundo ele, a verdade nada mais é do que uma mentira que não pode contestada em um determinado momento.

De certa forma, a hipótese repressiva não pode ser contestada, já que serve bem à sociedade atual. Foucault afirma que, para nós, é gratificante formular em termos de repressão as relações de sexo e poder por uma série de motivos. Primeiramente, porque, se o sexo é reprimido, o simples fato de falar dele e de sua repressão ganham um ar de transgressão. Segundo, porque, aceitando-se a hipótese repressiva, pode-se vincular revolução e prazer, pode-se falar num período em que tudo vai ser bom: o da liberação sexual. Sexo, revelação da verdade, inversão da lei do mundo são, hoje, coisas ligadas entre si. Finalmente, insiste-se na hipótese repressiva porque aí tudo que se diz sobre o sexo ganha valor mercantil. Por exemplo, certas pessoas (psicólogos) são pagas para ouvirem falar da vida sexual dos outros.

Esse enunciado da hipótese repressiva vem acompanhado de uma forma de pregação: a afirmação de uma sexualidade reprimida é acompanhada de um discurso destinado a dizer a verdade sobre o sexo. Foucault, no livro História da Sexualidade I, interroga o caso de uma sociedade que há mais de um século se “fustiga ruidosamente por sua hipocrisia, fala prolixamente de seu próprio silêncio, obstina-se em detalhar o que não se diz e promete-se liberar das leis que a fazem funcionar”. A questão básica não é “por que somos reprimidos, mas por que dizemos, com tanta paixão, com tanto rancor contra nosso passado mais próximo, contra nosso presente e contra nós mesmos que somos reprimidos?”.

A partir daí, o autor nos propõe uma série de questionamentos: a repressão sexual é mesmo uma evidência histórica, como tanto se afirma por aí? Serão os meios de que se utiliza o poder mesmo repressivos? Será que não se utilizam de formas mais ardilosas e discretas de poder? A crítica feita à repressão quer mesmo acabar com esta ou faz parte da mesma rede histórica que denuncia? Existe mesmo uma ruptura histórica entre Idade da repressão e a análise crítica da repressão? Não seria para incitar a falar sobre ele que o sexo é exibido como segredo que é indispensável desencavar?

Não é que Foucault diga que o sexo não vem sendo reprimido; afirma, sim, que essa interdição não é o elemento fundamental e constituinte a partir do qual se pode escrever a história do sexo a partir da Idade Moderna. Ele coloca a hipótese repressiva numa economia geral dos discursos sobre sexo a partir do século XVII. Mostra que todos esses elementos negativos ligados ao sexo (proibição, repressão etc.) têm uma função local e tática numa colocação discursiva, numa técnica de poder, numa vontade de saber.

A hipótese de Foucault é que há, a partir do século XVIII, uma proliferação de discursos sobre sexo. Diz ele que foi o próprio poder que incitou essa proliferação de discursos, através de instituições como a Igreja, a escola, a família, o consultório médico. Essas instituições não visavam proibir ou reduzir a prática sexual. Visavam, sim, o controle do indivíduo e da população.

A explosão discursiva sobre sexo de que trata Foucault veio acompanhada de uma depuração do vocabulário sobre sexo autorizado, assim como de uma definição de onde e de quando podia se falar dele. Regiões de silêncio – ou, pelo menos, de discrição – foram estabelecidas entre pais e filhos, educadores e alunos, patrões e serviçais etc.

A Igreja Católica, com a Contra-Reforma, deu início ao processo de incitação dos discursos sobre sexo ao estimular o aumento das confissões ao padre e também a si mesmo. As “insinuações da carne” têm de ser ditas em detalhes, incluindo os pensamentos sobre sexo. O bom cristão deve procurar fazer de todo o seu desejo um discurso. Ainda que tenha havido uma interdição de certas palavras, esta é apenas um dispositivo secundário em relação a essa grande sujeição, é apenas uma maneira de tornar o discurso sobre sexo moralmente aceitável e tecnicamente útil.

Ainda no século XVIII e principalmente no século XIX, houve uma dispersão dos focos de discurso sobre o sexo, que antes eram restritos à Igreja. Houve uma explosão de discursos sobre sexo, que tomaram forma nas diversas disciplinas, além de se diversificarem na forma também. A medicina, a psiquiatria, a justiça penal, a demografia, a crítica política também passam a se preocupar com o sexo. Analisa-se, contabiliza-se, classifica-se, especifica-se a prática sexual, através de pesquisas quantitativas ou causais.

Esses discurso são, realmente, moralistas, mas isso não é o essencial. O essencial é que eles revelam a necessidade reconhecida de superar esse moralismo. Supõe-se que se deve falar de sexo, mas não apenas como uma coisa que se deve simplesmente coordenar ou tolerar, mas gerir, inserir em sistemas de utilidade, regular para o bem de todos, fazer funcionar segundo um padrão ótimo. O sexo não se julga apenas, mas administra-se . Portanto, regula-se o sexo não pela proibição, mas por meio de discursos úteis e públicos, visando fortalecer e aumentar a potência do Estado (que não significa aqui estritamente República, mas também cada um dos membros que o compõe).

Um dos exemplos práticos dos motivos para se regular o sexo foi o surgimento da população como problema econômico e político, sendo necessário analisar a taxa de natalidade, a idade do casamento, a precocidade e a freqüência das relações sexuais, a maneira de torná-las fecundas ou estéreis e assim por diante. Pela primeira vez, a fortuna e o futuro da sociedade eram ligados à maneira como cada pessoa usava o seu sexo. O aumento dos discursos sobre sexo pode, então, ter visado produzir uma sexualidade economicamente útil.

Da mesma forma em que o sexo passou a ser um problema para a demografia, também passou a despertar as atenções de pedagogos e psiquiatras. Na pedagogia, há a elaboração de um discurso acerca do sexo das crianças, enquanto, na psiquiatria, estabelece-se o conjunto das perversões sexuais. Ao se assinalar os perigos, despertam-se as atenções em torno do sexo. Irradiam-se discursos, intensificando a consciência de um perigo incessante – o que incita cada vez mais o falar sobre sexo.

O exame médico, a investigação psiquiátrica, o relatório pedagógico, o controle familiar, que aparentemente visam apenas vigiar e reprimir essas sexualidades periféricas, funcionam, na verdade, como mecanismos de dupla incitação: prazer e poder. “Prazer em exercer um poder que questiona, fiscaliza, espreita, espia, investiga, apalpa, revela; prazer de escapar a esse poder. Poder que se deixa invadir pelo prazer que persegue – poder que se afirma no prazer de mostrar-se, de escandalizar, de resistir.” Prazer e poder se reforçam.

Pode-se afirmar, então, que um novo prazer surgiu: o de contar e o de ouvir. É a obrigação da confissão, que se difundiu tão amplamente, que já está tão profundamente incorporada a nós, que não a percebemos mais como efeito de um poder que nos coage. A confissão se diversificou e tomou novas formas: interrogatórios, consultas, narrativas autobiográficas. O dever de dizer tudo e o poder de interrogar sobre tudo se justificam no princípio de que a conduta sexual é capaz de provocar as conseqüências mais variadas, ao longo de toda a existência. O sexo aparece como uma superfície de repercussão para outras doenças. Mas pressupõe-se que a verdade cura quando dita a tempo e quando dita a quem é devido.

Michel Foucault constrói, portanto, uma nova hipótese acerca da sexualidade humana, segundo a qual esta não deve ser concebida como um dado da natureza que o poder tenta reprimir. Deve, sim, ser encarada como produto do encadeamento da estimulação dos corpos, da intensificação dos prazeres, da incitação ao discurso, da formação dos conhecimentos, do reforço dos controles e das resistências. As sexualidades são, assim, socialmente construídas. Assim como a hipótese repressiva, é uma explicação que funciona. Cada um que aceite a verdade que mais lhe convém. Ou invente novas verdades.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/a-historia-da-sexualidade/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/a-historia-da-sexualidade/

A Mitologia do Necronomicon de acordo com H.P Lovecraft

O Necronomicon talvez seja o mais infame livro relacionado à magia (seja real ou ficcional). Por favor, note que não estou afirmando que a informação apresentada em parte seja fato histórico. Mais propriamente estou apenas resumindo o que HPL tinha a dizer em sua ficção e outras fontes sobre o Necronomicon. Depois de ler TODAS as partes deste texto e FAZER sua própria pesquisa, você será o juiz sobre se pode ser fato histórico ou não. Talvez a melhor maneira de começar é citando HPL do “The History and Chronology of the Necronomicon”: “O título original ‘Al Azif’ – ‘Azif’ sendo a palavra usada pelos árabes para designar aquele barulho noturno (feito por insetos) atribuído à uivos de demônios. Redigido por Abdul Alhazred, um poeta louco de Sana’a, em Iêmen, que dizem ter vivido no tempo dos Califas Omíadas, aproximadamente 700 A.C. Ele visitou as ruínas da Babilônia e os segredos subterrâneos de Mênfis e passou dez anos sozinho no grande deserto do sul da Arábia – o Roba el Khaliye ou ‘Espaço Vazio’ dos antigos e ‘Dahna’ ou ‘Deserto Carmesim” para os árabes modernos, onde se afirma ser habitado por espíritos malignos e monstros da morte. Deste deserto, muitas estranhas e inacreditáveis maravilhas são contadas por aqueles pretendem ter penetrado nele. Em seus últimos anos Alhazred morou em Damasco, onde o Necronomicon (Al Azif) foi escrito… Sobre sua loucura, muito é falado. Ele declarou ter visto a fabulosa Irem ou cidade dos Pilares, e ter achado por debaixo das ruínas de uma certa cidade deserta sem nome os chocantes anais e segredos de uma raça mais antiga que a humanidade”.

Posteriormente o Al Azif foi traduzido para o grego sob o título de Necronomicon (o título definitivamente não é latino como é muitas vezes declarado). Este título é traduzido como “o Livro (ou imagem) das Práticas dos Mortos”; Necro sendo grego para “Morto” e Nomos significando “práticas”, “costumes” ou “regras” (como em “astronomia”). O título Necronomicon absolutamente não se traduz para Livros dos Nomes Mortos (como Colin Wilson erroneamente e repetitivamente falou). Para que significasse Nomes Mortos teria que ser um híbrido latim/grego (apesar de HPL ter superficialmente indicado que a primeira tradução é a correta). Mais tarde (possivelmente na década de 1200) foi traduzido para o Latim mas manteve seu titulo grego. O texto latino veio a ser possuído por Dr. John Dee no século dezesseis. Dr. Dee fez a única tradução inglesa conhecida do Necronomicon.

O Necronomicon contêm segredos sombrios sobre a verdadeira natureza da Terra e do Universo. De acordo com o Necronomicon, a Terra foi uma vez reinada pelos Antigos, seres poderosos de outros mundos ou dimensões. HPL em “O Horror de Dunwich” atribui esta citação ao Necronomicon: “Também não é para se pensar que o homem é o mais velho ou último dos mestres da Terra, nem que a massa comum de vida e substância caminha sozinha. Os Antigos , os Antigos são e os Antigos serão. Não nos espaços que conhecemos, mas entre eles. Caminham serenos e primitivos, sem dimensões e invisíveis para nós. Yog-Sothoth conhece o portal. Yog-Sothoth é o portal. Yog-Sothoth é a chave e o guardião do portal. Passado, presente e futuro, todos são um em Yog-Sothoth. Ele sabe por onde os Antigos entraram outrora e por onde Eles entrarão de novo. Ele sabe por quais campos da Terra Eles pisaram, onde Eles ainda pisam e por que ninguém pode vê-los quando pisam. Por seu cheiro, os homens podem saber que estão próximos, mas ninguém conhece seu aspecto exterior, a não ser pelos traços daqueles que Eles geraram na humanidade; daqueles há muitos tipos, diferindo em aparência do mais verdadeiro modelo de homem para aquela forma que não se vê ou que não tem substância que são les.Caminham invisíveis e fétidos em locais solitários onde as Palavras foram proferidas e os

Ritos ressoaram em seus Períodos. O vento algaravia com Suas vozes, e a Terra murmura com Sua consciência. Eles dobram a floresta e esmagam a cidade, entretanto nenhuma floresta ou cidade pode ver a mão que castiga. Kadath, no deserto frio, conheceu-Os, mas qual homem conhece Kadath? O deserto gelado do Sul e as ilhas submersas do Oceano contêm pedras onde Sua marca está gravada, mas quem já viu a profunda cidade congelada ou a torre lacrada e toda coroada com algas e crustáceos? O Grande Cthulhu é Seu primo, entretanto só pode espiá-Los obscuramente. Iäl Shub-Niggurath! Como uma vileza vocês Os conhecerão. A mão deles está em suas gargantas, entretanto vocês não os vêem, e Sua morada é mesmo única com a entrada guardada. Yog-Sothoth é a chave para o portal, pnde as esferas se encontram. O homem reina agora onde Eles reinaram um dia; em breve, Eles reinarão onde o homem reina agora. Depois do verão vem o inverno, e depois do inverno, o verão. Eles esperam pacientes e fortes, porque aqui reinarão de novo”.

O Necronomicon FORTEMENTE sugere que existe um culto ou grupo de cultos que idolatra os Antigos e procura auxílio deles para ganhar controle sobre este planeta. Uma das táticas empreendidas por este culto é criar prole de humanos com Antigos que irão se multiplicar e ingressar para vida terrestre até os Antigos retornarem para sua pré- determinada posição. Algumas ramificações do culto veneram uma divindade chamada Cthulhu. Cthulhu é um deus semelhante à um dragão com uma face que é uma massa de tentáculos. Cthulhu está morto (adormecido), mas sonhando nas profundezas (o Oceano Pácifico). Não está certo se Cthulhu é ou não é um Antigo. Em certo ponto, Cthulhu é referido como primo dos Antigos. Em outro, a divindade é chamada de grande sacerdote dos Antigos; ambos os rótulos podem sugerir que Cthulhu talvez não seja exatamente como os Antigos. O culto procurar ressuscitar Cthulhu para então antecipar o dia quando os Antigos controlarão o mundo. Quando Cthulhu renascer, os homens serão selvagens e livres além do bem e do mal. Se Cthulhu levantar parcialmente do oceano, mas sem ser o tempo correto ocorrerão terríveis surtos de loucura. O centro do culto a Cthulhu “situa- se entre os ínvios desertos da Arábia, aonde Irem, Cidade dos Pilares, sonha escondida e intocada”.O culto põe ênfase especial nos sonhos, que, dizem eles, podem às vezes conter os pensamentos da “divindade”.

Existem muitos outros deuses importantes mencionados no Necronomicon. Um grupo dessas divindades, os Outros Deuses parecem ser verdadeiros Deuses (não como os Antigos e Cthulhu que parecem ser simplesmente entidades muito poderosas). Os mais importantes entre os Outros Deuses são Yog-Sothoth e Azathoth. Yog-Sothoth é contérmino com TODO espaço e tempo. Em “Through the Gates of the Silver Key” Lovecraft (que, apesar do fato de E. Hoffman Pric aparecer como co-autor,escreveu aproximadamente cada palavra deste conto) descreve Yog-Sothoth da seguinte maneira: “Um em Todos, Todos em Um de ser e caráter ilimitados – a última, absoluta extensão que não tem confins e que ultrapassa tanto imaginação como a matemática.” Passado, presente, futuro, todos são um em Yog-Sothoth. De igual ou superior importância é Azathoth. Evidência de que Azathoth é pelo menos equivalente à Yog-Sothoth é que Azathoth é “Senhor de Tudo” enquanto Yog-Sothoth é “Tudo em Um, Um em Tudo” Azathoth é o “ultimo caos nuclear” no “centro do infinito”. É do Trono de Azathoth que ondas sem direção “cuja possibilidade combinada dá a cada frágil cosmos suas leis eternas”, se originam. É extremamente digno de nota que Azathoth é bem próximo dos últimos modelos em Física Quântica. Também existem alguns paralelos notáveis entre as ideias de Lovecraft sobre Caos e a nova Matemática do Caos. Azathoth, o último caos nuclear que emite ondas aleatórias que governam o universo, parece ser o principio oposto de Yog-Sothoth, que abrange as expansões do infinito. Enquanto que Yog-Sothoth é infinitamente extenso, Azathoth parece ser infinitamente compacto (e.g., o centro quântico). Pesquisador de Lovecraft, Philip A. Shreffer afirma em “The H.P. Lovecraft
Companion” que os princípios atuantes de Yog-Sothoth e Azathoth são “expansão infinita e contração infinita” respectivamente.

O coração e alma dos Outros Deuses é Nyarlathotep, o poderoso mensageiro. É como seu mensageiro que Nyarlathotep faz a vontade dos Outros Deuses ser conhecida na Terra. É através d’Ele que todo tráfego vindo de Azathoth precisa passar. Nyarlathotep tem mil formas. Ele é chamado de Caos Rastejante. Shub-Niggurath, a Cabra Negra dos Bosques, é um tipo de “divindade perversa da fertilidade”. Shub-Niggurath também é chamada de Cabra Com Mil Jovens. Ela é aparentemente uma divindade muito importante na mitologia do Necronomicon, julgando pela freqüência que Ela é mencionada. Existe obviamente uma conexão entre o culto à Shub-Niggurath e os muitos cultos a bodes da antiguidade.

Além de Cthulhu, os Antigos e os Outros Deuses, existem numerosas raças menores de criaturas no Necronomicon como os shoggoths. Um shoggoth é uma congérie amorfa de “bolhas protoplasmáticas”. Os shoggoths foram criados pelos Antigos como servidores. Eles podem assumir qualquer forma que eles precisarem para executar tarefa designada. Eles são serventes teimosos, se tornando mais inteligentes com o tempo eventualmente ganhando uma força de vontade própria. Shoggoths são as vezes, de acordo com HPL, vistos em visões induzidas por drogas.

Outra raça são os Profundos, que são um tipo de criatura anfíbia semelhante a uma mistura de peixe, sapo e homem. Os Profundos veneram um deus chamado Dagon. Dagon é uma divindade parecida com um Profundo gigante. Dagon e os Profundos parecem estar aliados em alguma forma com Cthulhu. Outra raça menor é o Ghoul. Ghouls são monstros comedores de cadáveres que parecem muito com os humanos, exceto por seus traços caninos ou monstruosos. É possível para um homem ser transformado em um ghoul sob certas circunstancias.

Isso conclui meu curto resumo das principais idéias de H.P. Lovecraft sobre o Necronomicon e seus mitos associados. Este resumo não é de forma alguma exaustivo, mas deve proporcionar à você informações gerais suficientes para dedicar-se ao resto do texto com um bom ponto de referências.

Texto Parker Ryan, Tradução A. Valente

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-mitologia-do-necronomicon-de-acordo-com-h-p-lovecraft/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-mitologia-do-necronomicon-de-acordo-com-h-p-lovecraft/

A Escada de Jacó

Paulo Jacobina

A alegoria da escada, na qual cada degrau corresponde a um nível de consciência, embora não represente realmente os diferentes estágios nos quais cada Eu se encontra, serve para ilustrar o conceito macro dessa ilusória divisão de estágios de consciência.

Assim, no primeiro nível da escada se encontram todos os Eus Inferiores; no último nível, os Eus Superiores; ao passo que nos infinitos degraus estão todos os estágios de consciência intermediários que o Eu pode experimentar, fazendo com que todos os Eus estejam alocados em seus respectivos degraus e que todos os infinitos degraus estejam ocupados pelo grupo de Eus que lhe corresponde.

Porém, diferentemente do que muitos acreditam, todos esses Eus espalhados por esses infinitos degraus encontram-se interligados, pois são parte integrante do Absoluto e, quer tenham consciência disso ou não, fazem parte de um intricado sistema de auxílio mútuo.

Aqueles que se encontram no mesmo degrau compartilham os mesmos tipos de situações, visando adquirir a experiência necessária para, por ressonância, alcançarem o degrau superior. Contudo, as situações nas quais se encontram não estão isoladas, fazendo parte de um sistema no qual recebem o auxílio daqueles que se encontram no degrau imediatamente superior, que, por intermédio, principalmente do exemplo, os orientam[1].

Conforme vão sendo orientados por aqueles que se encontram no degrau superior, também orientam aqueles que se encontram no degrau imediatamente inferior, criando um infinito fluxo de vitalidade e transmutação, com cada um desempenhando a sua função[2] e aprendendo com aqueles que se encontram no degrau superior, no inferior e no mesmo degrau.

Entretanto, como nenhum Eu se apresenta de forma monodimensional, uma vez que manifesta uma ampla gama de características decorrentes dos infinitos graus das polaridades dos atributos que nele atuam, ele não se encontra em apenas um degrau nessa escada alegórica, mas em tantos degraus quanto os números de características que manifesta, fazendo com que cada Eu seja único, de acordo com o Dharma que lhe é próprio.

Desta forma, o Eu se encontra em infindáveis escadas. Em cada uma delas, em um degrau diferente, interagindo com aqueles que se encontram nos mesmos degraus, sendo auxiliado por aqueles que se encontram nos degraus imediatamente superiores e auxiliando aqueles que se encontram nos degraus imediatamente inferiores.

A média desses infinitos degraus e a diferença entre os graus das polaridades dos atributos são o que estabelecem o Mundo de Existência no qual o Eu necessita estar para experimentar as situações indispensáveis para, por ressonância, se deslocar na Consciência.

[1] Muitos acreditam equivocadamente que auxiliar o próximo significa resolver a situação na qual o outro se encontra, como um pai que, ao invés de auxiliar um filho em seu dever de casa, simplesmente o resolve, sem deixar que o filho possa experimentar, pela tentativa e erro, alcançar a sua resolução. “Resolver” uma situação para o próximo lhe é extremamente prejudicial, pois, além de não aprender a resolver aquela situação, acaba por criar o conceito de que as situações, vistas como problemáticas de onde se encontra, podem ser solucionadas por outros e não por ele mesmo. Isso faz com que o “ajudado” permaneça estagnado naquele degrau, fadado a vivenciar aquela situação com roupagens diferentes, até encontrar a compreensão dentro de si e superá-la.

A jornada existencial não é cíclica, como muitos acreditam. Os ditos “problemas”, que nada mais são do que as situações vivenciadas em cada degrau, apenas se repetem enquanto o Eu ainda se encontra naquele degrau e, por isso, no mesmo nível daquela ilusória situação e pode vivenciá-la. Ao passo que se muda de degrau, aquela situação deixa de ser vivenciada e, consequentemente, deixa de existir para o Eu, mostrando-se como realmente é, uma ilusão com a capacidade de criar a experiência necessária para, por ressonância, se deslocar na Consciência.

[2] O desempenho da função que lhe corresponde para cada situação é o que faz com que tudo flua naturalmente, como, por exemplo, numa sala de aula, na qual o professor tem a função de conduzir a aula, e não de ensinar como muitos acreditam; enquanto os alunos têm a função de auxiliarem na condução da aula. Quando o professor conduz e os alunos auxiliam, a aula flui de forma com que todas as partes integrantes consigam absorver o conhecimento de que, naquele momento, necessitam.

~ Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalista.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/a-escada-de-jaco/