Os Signos na Astrologia Judaica

Sepher Yetzira, um dos primeiros livros judaicos jamais escritos, revela os segredos da Astrologia Judaica. Por toda a Torá, Talmud e Código da Lei Judaica existem descrições fascinantes de como D-us canaliza Sua força de vida em nosso mundo, através de corpos celestiais. Ao mesmo tempo, quando alguém está conectado à Torá e cumpre seus mandamentos, ele ou ela está diretamente plugado com o Sobrenatural, suplantando as influências das forças astrológicas.

Os filhos de Yaacov, que se tornaram as Doze Tribos de Israel, são na verdade 12 raízes de alma diferentes, das quais descende o povo judeu. Estas raízes correspondem aos 12 signos do Zodíaco, os doze meses judaicos e às 12 letras do alfabeto hebraico.

Temos a capacidade de nos aperfeiçoar a qualquer tempo, mas a Cabalá delineia algumas épocas mais auspiciosas para se trabalhar em determinados atributos. Por exemplo, os dias festivos judaicos não apenas comemoram eventos históricos, como são o resultado de forças e energias celestiais. No mês de Nissan, quando celebramos Pêssach, o atributo da fala está em evidência — concedendo-nos a força adicional para refinar nosso atributo da comunicação.

Segundo o mapa astrológico, o mês em que você nasceu indica uma força oculta que você deve desenvolver, ou uma fraqueza que pode superar; entretanto, você não está trancado na “personalidade” do seu mês. Cada um de nós recebe estas forças e fraquezas. Podemos refiná-las, uma a uma, durante o ciclo do ano judaico, assim como nos esforçamos por uma vida onde o físico, o mental e o emocional estejam integrados com o espiritual.

Áries (Nissan)

Este primeiro mês do Zodíaco Judaico é governado pela letra hê (h), o sopro da fala, a partir da qual evoluem todos os outros sons. Os seres humanos distinguem-se das outras criaturas pelo poder da fala, sua capacidade de comunicar seus pensamentos aos outros. Assim, “falar corretamente” é o início do crescimento espiritual. A celebração deste mês é Pêssach. Durante a refeição de Pêssach, empregamos nosso poder da fala para seu propósito mais elevado: comunicarmos a nossos filhos (e à criança que existe dentro de nós) a experiência da miraculosa presença de D-us em nossa vida e nossa história. A tribo deste mês é Yehudá, o líder real, do qual descendem os monarcas judeus. O sacrifício de Pêssach no Templo foi um cordeiro, o que reflete o signo de Áries.

Touro (Iyar)

Iyar é o mês entre nosso renascimento espiritual em Nissan e nossa nova maturidade — que atingimos ao receber a Torá — em Sivan. Da mesma forma, a letra deste mês, vav (v), representa a linha reta da verdade. O signo de Touro, representado pelo animal do mesmo nome, significa a individualidade e a teimosa devoção a esta verdade, o pré-requisito para a maturidade. Iyar é, portanto o mês do “pensamento correto”, o atributo no qual nos concentramos em preparação para receber a Torá. A tribo deste mês, Yissachar, destacava-se pela sua amorosa devoção ao estudo de Torá.

Gêmeos (Sivan)

Este é o mês do “movimento correto”, de aprender como caminhar nas trilhas da Torá que recebemos novamente em Shavuot. A Torá é nossa arma contra o mal; este mês é governado pela letra zayin (z), que significa “arma”. Andar nos caminhos da Torá é sintetizado pela tribo deste mês, Zevulum, a tribo de navegadores que apoiou a tribo Yissachar em seu estudo de Torá. Estes dois irmãos tinham carreiras diferentes, mas trabalhavam juntos, simbolizados pelo signo astrológico de Gêmeos. O conceito de gêmeos também evoca a imagem das duas tábuas no Monte Sinai, e a associação de D-us e o povo judeu na Torá.

Câncer (Tamuz)

O mês é governado pela letra chet (ch), que significa “temor”. Câncer, o caranguejo, é uma criatura passiva que tende a correr e esconder-se. O desafio dos meses do verão é usar nossas faculdades de pensamento, fala e ação de forma temente a D-us, e afastarmo-nos de situações que obstruam nossa consciência Divina. A conseqüência por negar nossa consciência Divina é a triste recordação da destruição do Templo neste mês e no próximo. A tribo deste mês é Reuven, cujo nome origina-se da palavra para “visão”, a faculdade que aperfeiçoamos neste mês. “Enxergar erradamente” leva à destruição e ao luto; através da “visão correta” aumentamos a santidade do mundo, concentrando-nos naquilo que é positivo.

Leão (Av)

Neste mês, cultivamos a “audição correta”, mencionada no nome da tribo deste mês, Shimeon, que vem da palavra para “audição”. Em Nove de Av, pranteamos o Templo Sagrado, destruído por nações, Babilônia e Roma, que se assemelhavam a leões — daí a associação com o signo de leão. A letra que governa este mês, tet (t) tem o significado negativo de “areia movediça”, mas é também a primeira letra da palavra “bom” (tov), pois podemos atingir os níveis mais elevados transformando os níveis mais baixos no bem.

Virgem (Elul)

Corrigir os atributos dos meses anteriores nos leva ao mês do retorno, Elul, quando nos concentramos na “ação correta”. Fazemos um inventário e nos preparamos espiritualmente para as Grandes Festas. O desejo de atingir uma nova inocência em nosso relacionamento com D-us é expresso pelo signo deste mês, Virgem. A letra regente deste mês, yud (y), significa “mão”, lembrando-nos que nosso sincero arrependimento por nossas falhas e resoluções para o futuro devem se refletir em nossas ações. A tribo deste mês, Gad, era formada de arqueiros que aperfeiçoaram a faculdade da ação, desafiando as forças do mal e conquistando a Terra de Israel.

Libra (Tishrei)

Neste mês do “sentimento correto”, D-us pesa e avalia nossas ações passadas, determinando como Ele distribuirá as bênçãos da vida no ano vindouro. Isto está refletido pelo signo Libra, as balanças. A nova inocência, que introduzimos em nosso relacionamento com D-us durante o mês precedente de Elul, é agora realizada através de uma sucessão de dias festivos, começando com Rosh Hashaná. Tishrei é, portanto, o mês da união conjugal entre D-us e Israel. Este mês do “sentimento correto” é governado pela letra hebraica lamed (l), a primeira letra da palavra “coração” (lev). O nome da tribo deste mês, Efraim, significa “frutífero”, expressando que nossa união com D-us tem repercussões positivas por todo o ano vindouro.

Escorpião (Cheshvan)

Em Cheshvan, integramos a inspiração de Tishrei à vida real. Não há dias festivos somente a vida do dia-a-dia. O valor numérico da letra hebraica deste mês – nun (n) – é 50, indicando os 50 níveis de consciência Divina que podemos atingir quando estamos espiritualmente ativos, e os 50 níveis de impureza nos quais podemos afundar se deixarmos que a vida “simplesmente passe”. O veneno do escorpião é frio, simbolizando o perigo de abordar a vida sem paixão. O nome da tribo deste mês, Menashe, também soletra “sopro” (neshimá), conectando-o ao sentido que refinamos neste mês, o olfato. O olfato é considerado o mais espiritual dos sentidos, indicando o potencial deste mês para um elevado senso de espiritualidade.

Sagitário (Kislev)

Durante este mês, trabalhamos em “correto relaxamento” ou sono, que resulta de nossa dedicação à “ação correta” durante nossas horas de atividade. O nome da letra deste mês, samech (s), significa “confiança”. Nossa confiança verdadeira em D-us nos dá a certeza de afirmar nossa santidade e resistir àqueles que a desafiam. Isso está refletido na celebração de Chanucá, e o signo astrológico de Sagitário, o arqueiro. “Relaxamento correto”, usando o descanso como um meio para a ação adequada, nos ajuda a canalizar nossos esforços (“mirando” nosso arco) na direção correta. Da mesma forma, a tribo deste mês, Binyamin. possuía valentes guerreiros. Seu território continha o local do Templo Sagrado, aonde nossas preces e sonhos são dirigidos.

Capricórnio (Tevet)

Este mês cultivamos “a ira correta”. O Talmud nos diz para sempre considerarmos os outros favoravelmente, e que a ira é algo que quase sempre deve ser evitada. Mas existe também uma ira positiva, o senso de o que rejeitar. O nome da tribo deste mês, Dan, significa “julgar”. A letra deste mês, ayin, significa “olho”. Temos dois olhos para discernir constantemente o que aceitar na vida, e o que rejeitar. A capacidade de constantemente rejeitar o negativo é simbolizada por Capricórnio, a cabra, conhecida por sua tenacidade.

Aquário (Shevat)

A festa deste mês, Tu Bishvat, é celebrada comendo-se frutos da árvore, refletindo o atributo deste mês, “alimentar-se corretamente”. A letra deste mês, tsadic (ts), significa “justo”, lembrando-nos do versículo “os justos alimentam-se para nutrir a alma”. O verdadeiro teste de nossa espiritualidade é se tornamos a alimentação (e todas as nossas outras atividades mundanas) uma experiência espiritual, ou se nos rendemos à gratificação sensorial. Purificando nossas atitudes quanto à materialidade, tornamo-nos conduítes para distribuir a benevolência de D-us ao mundo. Isso está refletido no signo de Aquário, o distribuidor de água. O território de Asher, a tribo deste mês, produzia alimentos em abundância.

Peixes (Adar)

Os peixes vivem nos recessos ocultos do mar. A Festa principal deste mês é Purim, que celebra a mão oculta de D-us na história. A letra deste mês, cuf (c), significa “macaco”. Reconhecemos que D-us está oculto ao fazermos máscaras em Purim, imitando (macaqueando) qualquer pessoa que quisermos. A celebração de Purim derruba as inibições que ocultam nossa essência interior. Normalmente, transformar o mal em santidade é um processo metódico. Entretanto, nossos Sábios ensinam que “o júbilo derruba todas as fronteiras”. Através do “riso correto”, atributo deste mês, transformamos obstáculos em oportunidades, um decreto para a destruição em um dia de celebração. Efetuamos esta transformação com a velocidade da tribo deste mês, Naftali, o mais rápido dos filhos de Yaacov.

* Moshe Wisnefsky escreveu este artigo que foi originalmente publicado em português no website do Movimento Chabad – www.chabad.org.br

#Astrologia #Kabbalah

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-signos-na-astrologia-judaica

[parte 2/7] Alquimia, Individuação e Ourobóros: Psicologia Analítica

“Só o que está separado pode ser devidamente unido.”

– Alquimista desconhecido

Esta é a segunda parte da série de sete artigos “Alquimia, Individuação e Ourobóros”, que é melhor compreendida se lida na ordem. Caso queira acompanhar desde o começo, leia a introdução.

Individuação

Na escola analítica, compreende-se que a psique seja maior que a consciência em si, ou seja, a existência de todo um campo inconsciente que interfere e interage com a mente consciente. Além do inconsciente pessoal, Jung (2011) defende a existência de um inconsciente coletivo, um plano de consciência no qual ficariam armazenados toda a herança cultural da sociedade, acessível ao nível consciente, cujo encontro, através de arquétipos, acrescentam e expandem a consciência.

Arquétipos podem ser definidos como temas típicos que aparecem em toda forma de sociedade e cultura, que abriga um significado primordial de estruturas psíquicas, os quais os indivíduos experienciam em níveis pessoais. Em Os arquétipos e o Inconsciente Coletivo (JUNG, 2011), o autor define que “O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matrizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta” (JUNG, 2011).

De acordo com Jung (1998), apesar da expressão social e coletiva de imagens e energias ligadas à ideia de divino, em nível individual, é necessário que o ser humano permita-se atravessar por tais ideias, pois isso ajuda sua natureza no processo de transcendência e auto-conhecimento – processo chamado de individuação. Em “O Poder do Mito” (CAMPBELL, 1999), o autor cita Nietzsche e toda sua teoria do eterno retorno, para demostrar a existência humana como cíclica. Nesta teoria, há a defesa de que as vivências humanas se dão através da polarização complementar dos aspectos pessoais que se repetem interminavelmente ao longo da existência, demarcando também a noção de infinito, porém ligada a psique humana e não em alguma entidade fora dela.

“Podemos dizer que a personalidade humana é constituída de duas partes: a primeira é a consciência e tudo o que ela abrange; a segunda é o interior de amplidão indeterminada da psique inconsciente. A personalidade consciente é mais ou menos definível e determinável. Mas, em relação à personalidade humana, como um todo, temos de admitir a impossibilidade de uma descrição completa dela. Em toda personalidade existe inevitavelmente algo de indelineável e de indefinível, uma vez que ela apresenta um lado consciente e observável, que não contém determinados fatores, cuja existência, no entanto é forçoso admitir, se quisermos explicar a existência de certos fatos. Estes fatores desconhecidos constituem aquilo que designamos como o lado inconsciente da personalidade” (JUNG, 1989, 47).

Realizar a síntese destes opostos no Si-mesmo é a meta do processo de individuação. Isso ocorre com a discriminação e a consequente integração de conteúdos inicialmente inconscientes e que fazem parte de um processo de transição da consciência comum (vigília) para um estado psíquico mais amplo, na busca do homem consciente, o homem total.

Evidentemente, esta é uma experiência incomum e vivida por poucas pessoas geralmente não antes da segunda metade da vida. A Individuação é um processo que ocorre durante toda a vida, mas, às vezes, há uma intensificação antes da maturidade da idade adulta e, quando isso acontece, há uma mudança na forma da pessoa encarar sua vida, fazendo-a manifestar, às vezes, alguns “comportamentos místicos”, num sentimento de comunhão e harmonia com a vida.

É de suma importância que as pessoas consigam refletir e entrar em contato com tais aspectos de suas personalidades, uma vez que, compreendendo-as, é possível integrá-las, tendo como consequência uma existência mais saudável e prazerosa, transcendendo a patologia e permitindo que suas verdadeiras essências venham à tona e se transformem.

Os Arquétipos Complementares

Jung descreve alguns arquétipos, universais e necessários para a compreensão da vida psíquica do homem. Alguns básicos discutidos pelo autor são os arquétipos da anima, animus, persona e sombra. A integração destes são de suma importância para o processo de individuação.

Ele consegue perceber a natureza polarizada na psique humana, e admite no homem uma natureza feminina, dando ao nome de anima, e seu complementar, a natureza masculina na mulher, de animus. “[…] Desde tempos imemoriais, o homem nos mitos, sempre exprimiu a ideia da coexistência do masculino e do feminino num só corpo” (JUNG, 1989, 38).

“O homem é composto biológica, e psicologicamente, de aspectos masculinos e femininos, para se desenvolver plenamente deve passar por fases: infância, adolescência, idade madura e velhice. Neste processo precisa integrar partes essenciais de sua personalidade como seu lado guerreiro, seu lado sensível, seu lado legislador e líder. A este processo de ir à busca da totalidade, Jung denominou individuação, e implica num grau de diferenciação de seus aspectos masculinos e femininos” (ULSON, 1997, 76).

A ideia andrógina de Deus faz com que, na busca pelo divino (individuação), a psique humana precise vivenciar, mesmo que em planos oníricos, personalidades complementares, cujas orientações muitas vezes sejam contrárias àquelas conscientes, trazendo ao sonhador, novos e diferentes pontos de vista que facilitam uma compreensão mais panorâmica de si mesmo.

Anima e animus seriam então os aspectos complementares de gênero na psique, personalidades inferiores que habitam a mente e são necessários para a dialética das polaridades consciente e inconsciente.

Persona pode ser definido como o arquétipo social. Aquele que abrange o tato das relações interpessoais e coletivas, e relação com o outro. É um conjunto de normas e condutas culturais que o indivíduo assimila e constrói uma identidade complementar.

“A partir de Jung, o conceito de ‘persona’ significa mais precisamente o eu social resultante dos esforços de adaptação realizados para observar as normas social, morais e educacionais de seu meio. A persona lança fora de seu campo de consciência todos os elementos – emoções, traços de caráter, talentos, atitudes – julgados inaceitáveis para as pessoas significativas do seu meio. Esse mecanismo produz no inconsciente uma contrapartida de si mesmo que Jung chamou de ‘sombra”. (OCANÃ, 2008, 04)

A sombra pode ser caracteriazada como o arquétipo da negação. Na sombra é personificado tudo aquilo que se tem resistência ou dificuldade para assimilar como próprio. A sombra é o amargurado ou reprimido que clama por expressão. Não só se opõe a persona, no constructo social, mas também em nível individual do sujeito e seus instintos e potenciais negligenciados pela sociedade.

“Diversas pessoas que trilham o caminho do aperfeiçoamento individual acreditam que completaram o processo, mas são incapazes de enxergar a verdade sobre si mesmas. Muitos de nós almejam ver a luz e viver na beleza do seu eu mais elevado, mas tentamos fazer isso sem integrar nosso ser. Não podemos ter a experiência completa da luz sem conhecer a escuridão. O lado sombrio é o porteiro que abre as portas para a verdadeira liberdade. Todos devem estar atentos para explorar e expor continuamente esse aspecto do ser. Quer você goste ou não, sendo humano, você tem uma sombra.” (FORD, 1998, 23).

A integração desses aspectos psicológicos inicialmente opostos seria, portanto a chave da chamada individuação. Através destes, seria possível atingir um estado psicológico centrado, no qual o maniqueísmo neurótico não mais afetaria negativamente a vida dos indivíduos.

“É de suma importancia que um indivíduo se relacione com esses aspectos nebulosos de sua psique e possa, no encontro com esses arquétipos, canalizar sua energia psíquica a fim de construir uma identidade plena, consciente de si-mesmo. Essa construção de identidade é um processo chamado por Jung (1986) de individuação. É um fenômeno que ocorre em todo o decorrer da vida, quando um sujeito ascende a níveis menos infantis de funcionamento em busca da integração de sua personalidade. A matriz dessa personalidade individual provém do conceito junguiano de self ou si-mesmo que pode ser definido como o arquétipo da totalidade e centro regulador da psique, oculto por trás da personalidade total e encarregado de levar à prática o projeto de vida e de guiar o processo de individuação. Por isso, Jung dizia que sua vivência poderia sentir-se psicologicamente como o “Deus dentro de nós” (SHARP apud JUNG, 1994,181).

O processo de individuação tem como finalidade paradoxal aproximar o homem da ideia de divino através da aproximação do homem com sua própria natureza.

A individuação, portanto, diz respeito ao processo cíclico de integração dos opostos psíquicos para transcender e atingir um contato mais significativo com suas essências e se aproximar do arquétipo divino, o Si-mesmo (Self), e está intimamente ligada com os processos e etapas alquímicas.

“A serenidade no velho e o estar consciente dos problemas à sua volta é a melhor maneira de se aferir seu processo de amadurecimento se completou. A total entrega e submissão aos designíos da natureza, do Self, ou de Deus, é objetivo e fim de todos aqueles que conseguem harmonizar os pares de opostos internos. É o coniunctio oppostorium dos alquimistas, ou a pedra filosofal, o lápís, ou tantos outros nomes que eles criaram para expressar o estado de totalidade e plenitude que apenas os sábios, santos e heróis conseguem atingir de uma forma mais intensa e duradoura” (ULSON, 1997, 79).

A alquimia, como veremos posteriormente, é um antigo método para a obtenção desse re-ligare com o Self e permitir o amadurecimento da psique através de metáforas que permitam a integração de opostos complementares.

Referências Bibliográficas:

BOECHAT, Walter. O Masculino em Questão. Petrópolis. Ed. Vozes. 1997.

CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo. Ed. Palas Athena, 1990.

FORD, Debbie. O Lado Sombrio dos Buscadores da Luz. Disponível em: http://dharmalog.com/2013/02/19/7-trechos-de-o-lado-sombrio-dos-buscadores-da-luz-de-debbie-ford-1955-2013-sobre-a-aceitacao-plena-de-nos-mesmos/. 14/05/2013

JUNG, C.G Psicologia e Religião Oriental. Petrópolis: Vozes. 1989.

JUNG, Carl Gustav. A Vida Simbólica. Obras Completas. Vol. XVIII/I. Petrópolis. Ed. Vozes. 2 Edição 1998.

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obras Completas. Vol. IX/I. Petrópolis. Ed. Vozes. 2011.

OCAÑA, Emma Martinez. A sabedoria de integrar a sombra. Disponível em: http://www.fundacao-betania.org/biblioteca/cadernos/pdf/Caderno_13_A_Sabedoria_de_Integrar_a_Sombra_Emma_Ocana.pdf. 14/05/2014

SHARP, Daryl. Léxico Junguiano. São Paulo: Cultrix, 1997.

Imagens:

Gravura de Camille Flammarion, da obra “L’atmosphère, météorologie populaire” de 1888

Aquarela do manuscrito “Aurora Consurgens” de autor desconhecido, representando a dialética entre as polaridades masculina (sol) e feminina (lua)

“Union” arte de Android Jones

“DreamCatcher” arte de Android Jones

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/parte-2-7-alquimia-individua%C3%A7%C3%A3o-e-ourob%C3%B3ros-psicologia-anal%C3%ADtica

Camelot, Guinevere e Lancelot

Eu era rainha e perdi a minha coroa,

Mulher e quebrei os meus votos;

Amante e arruinei quem amava:

Não há maior massacre.

Há poucos meses atrás eu era rainha,

E as mães mostravam-me os seus bebês

Quando eu chegava de Camelot a cavalo.

*Guinevere de Sara Teasdale

Como a quarta parte deste pequeno estudo sobre as lendas esotéricas do Rei Arthur, comentaremos sobre o elemento TERRA, representado nas lendas arthurianas por Camelot e pela Távola Redonda.

Para quem chegou agora no blog, recomendo que leiam antes os textos a respeito dos outros elementos:

FOGO (Merlin, José de Arimatéia e o Bardo Taliesin), ÁGUA (O Santo Graal e a Linhagem Sagrada e AR (Rei Arthur e Sabres de Luz).

Desde os mais remotos períodos, o Elemento Terra está associado aos rituais de fertilidade e prosperidade. No Egito e na Babilônia, era a partir da uva e do trigo que se realizavam os rituais de plantação, chegando até a consagração final do ritual de prosperidade do pão e do vinho, que eram repartidos entre os companheiros (esta palavra vem de “Companionem”, ou aqueles que dividem o pão). Jesus, como sacerdote essênio, realizou este mesmo ritual no Pessach, que ficou conhecido pela posteridade como a “Santa Ceia”.

Apesar de hoje ele ser sempre lembrado como cristão, a origem deste ritual é babilônica. Dos ritos Osirianos até os essênios, a tradição do pão e do vinho dividido entre os sacerdotes pode ser encontrada ao final das grandes celebrações. E com Yeshua e seus apóstolos não seria diferente.

Páscoa, Pão, Vinho e Hieros Gamos

Na cultura Celta, antes da Igreja destruir este culto e transformá-lo no que se conhece hoje em dia como “bruxaria”, este período entre Abril e Maio era marcado pelas celebrações da Primavera, ou comemorações em homenagem à deusa Eoste (de onde vem a palavra “Easter”). Os camponeses iam para os bosques de carvalhos à noite e acendiam enormes fogueiras para a Deusa, o que tornou esta festividade conhecida como “As Fogueiras de Beltane”.

Nesta época e local, os princípios morais vigentes eram outros, a mulher era um ser livre e não havia o machismo como hoje se conhece. As sociedades possuíam um equilíbrio entre os sexos, cada um desempenhando uma função dentro do todo. Sendo assim, nesta noite de Beltane, as moças virgens (e mesmo as casadas, que poderiam ir para as florestas com seus maridos ou não), iam para os bosques na celebração do que se chamava “Hieros Gamos” onde os rapazes copulavam com as moças sob a lua cheia guiados pelo instinto num ritual de fecundidade e vida. Eu já falei sobre o Hieros Gamos em colunas antigas.

As crianças que fossem geradas nesta noite eram consideradas sagradas e, normalmente, as meninas viravam sacerdotisas vestais e os meninos magos/druidas. Além disso, o ritual era consagrado à Deusa para que esta trouxesse sempre boas colheitas através da fertilidade da Terra. Embora o culto fosse predominantemente feminino, não se excluía, de forma alguma, o papel do Deus, pois, a essência de Beltane, sendo a fecundação, impunha sempre, a presença do feminino e masculino.

Sendo assim, no Beltane, os meninos tinham a sua cerimônia de passagem da adolescência para a maturidade. O rapaz personifica o Deus Cornífero e a virgem, a Deusa. Na escolha de um rei, o rapaz veste a pele de um Gamo (um veado real) e desafia um gamo de verdade, o líder da manada, e luta com ele até a morte de um deles.

Se o rapaz for o vencedor, terá sido escolhido Rei representando o Deus, o Gamo Rei e terá uma noite com a Virgem que representa a Deusa onde um herdeiro será concebido. O novo herdeiro, um dia deverá disputar com o pai pelo trono. O Gamo Novo e o Gamo Velho… A capa vermelha tradicional do rei e a coroa nada mais são do que resquícios deste antigo ritual de sobrevivência.

Se eu não me engano, no livro das “Brumas de Avalon” a escritora descreve este ritual realizado por Arthur (me corrijam se eu estiver errado, eu não li o “Brumas”, uma amiga me contou isso).

Mas o que isto tem a ver com a lenda do Rei Arthur?

Calma Padawan… tudo a seu tempo… Esta característica cultural dos celtas e principalmente das Rainhas Guerreiras/sacerdotisas (cuja linhagem das Damas do Lago vai até os primórdios das ilhas britânicas e através das bacantes gregas e prostitutas sagradas da babilônia) era extremamente chocante para os religiosos puritanos de Roma.

Imagine saber que a rainha, enquanto o rei estava fora em campanha, possuía um ou mais “concubinos” responsáveis por satisfazê-la sexualmente na ausência de seu esposo? Esta é uma das prováveis origens do termo “levar os chifres”. Os romanos diziam que os guerreiros celtas, enquanto estavam na floresta “levando os chifres para casa”, suas esposas estavam aquecidas na cama com outros homens.

E chegamos finalmente à relação entre Guinevere, Arthur, a Távola Redonda e Lancelot.

As bases históricas e lendárias de Guinevere

O nome Guinevere vem de Gwenhwyfar (cujo nome significa “Fantasma Branco”) e aparece pela primeira vez nas histórias chamadas “Triad of the Island of Britain”, do século VIII, onde Arthur se casa não com uma, mas com três Gwenhwyfars (Uma delas era filha do rei Cywryd, outra Gwenhwyfar era filha do rei Gwythyr Ap Greidiol e finalmente Gwenhwyfar filha de Ogrfan Gawn). Malditos celtas que fugiram da fila onde estavam sendo distribuídas as vogais…

Estes três casamentos, com três fases distintas da “fantasma branca” estão relacionadas diretamente com o casamento do Hieros Gamos do rei Sol com a rainha Lua, em suas três fases (a chamada “Tríplice lunar”), em diversas recorrências na mitologia celta.

Ela também aparece no Mabinogion, nos contos de Culhwch and Olwen mencionada algumas vezes como Gwenhwy-fawn. Em latim, é chamada de Gwanhumara ou Genebra (nome que deu origem à capital da Suíça).

Em alguns dos textos mais antigos, a rainha, antes de se tornar esposa de Arthur, é retratada como tendo um concubino chamado Medrawd, em textos do século VI (que mais tarde, nos primeiros textos que serviram de protótipo para a lenda de Arthur, especialmente os textos de Geoffrey de Monmouth “Historia Regum Britanniae”, o chamam de Mordred e o colocam como “amante” de Guinevere que, graças a esta desgraça, causou a destruição de Camelot.

E nunca mais as rainhas tiveram direito a concubinos!

O casamento de Arthur com Guinevere firmou a sua corte. Como dote Guinevere recebeu a lendária Tavola Redonda e o casal real tornou-se o centro do brilhante circulo dos cavaleiros de Arthur.

A herança de Guinevere varia conforme as diferentes lendas. De acordo com Malory, Guinevere (em galês Gwenhyvar) era filha do Rei Leodegrance de Cameliarde. Na tradição galesa, o seu pai chamava-se Gogrvan ou Ocvran. Na peça de Thelwall “The Fairy of the Lake” (1801) é posta a hipótese de ela ser filha de Vortigen. Em algumas histórias, ela tinha uma irmã chamada Gwenhwyvach e uma lenda francesa fala de uma irmã gêmea chamada Guinevere the False. Em outro conto, ela tinha um irmão que se chamava Gotegrin.

Como vocês podem ver, a falta de “copyrights” durante o período antigo/medieval fez com que o que chamamos de “Histórias do Rei Arthur” seja, na verdade, um samba do crioulo doido de autores que escreviam seus poemas de acordo com suas visões e interesses.

Assim que Arthur subiu ao trono e apesar dos avisos de Merlin que ela um dia o haveria de traír, Arthur escolheu Guinevere para sua mulher. Como dote, ela recebeu do pai de Arthur a grandiosa Tavola Redonda, feita por Merlin, a qual tinha capacidade para sentar 150 cavaleiros (em outras lendas, esta távola já estava pronta e seria um presente de casamento do pai de Guinevere).

Guinevere e Perséfone

Em “Gawain and the Green Knight” é afirmado que Morgan le Fay enviou o Cavaleiro Verde para Camelot para assustar Guinevere. Uma das razões foi a velha rivalidade entre elas, ocorrida no início do reinado de Arthur, em que Guinevere expulsou da corte um dos amantes de Morgana. Outra razão invocada foi o fato de Guinevere e Morgana serem duas deusas de aspectos muito diferentes. Morgana, originalmente como personagem de Morrighan (ou Morrigu), é uma deusa negra que representa as poderosas qualidades do Inverno e da guerra. Por outro lado, Guinevere é chamada “the Flower Bride” (a noiva das flores), representando a Primavera e o desdobramento da vida. Como tal, estas duas mulheres são o oposto uma da outra. Lancelot, o defensor de Guinevere, tornou-se o amargo adversário de Gawain que é o Cavaleiro da Deusa – defensor de Morgana.

Simbolicamente, esta versão trata da permanente disputa entre o Inverno e o Verão.

Quando as lendas Arthurianas foram rescritas por escritores cristãos, após o período da Vulgata, tanto Guinevere, a deusa das flores e da luz, como Morgan, a Deusa Negra, permaneceram, durante algum tempo, num convento de freiras (?!?!).

Como “Noiva das Flores”, o mito diz que Guinevere é raptada por um dos seus pretendentes, sendo depois salva por outros opositores astuciosos, com a mudança das estações. Um exemplo disso é descrito em “Life of Gildas” de Caradoc de Llancarfan. Nesse texto, Melwas of the Summer Country raptou Guinevere, sendo, mais tarde salva por Arthur. A cena do rapto volta a repetir-se em diversos contos em que o raptor é Meliagraunce, o cavaleiro que desejava Guinevere. Neste conto, o salvador é LANCELOT, em vez de Arthur.

Neste segundo ciclo, mais voltado para a simbologia Greco-romana, temos uma releitura do rapto de Perséfone por Hades e seu retorno posterior para o mundo dos vivos, e Lancelot passa a fazer o papel do Sol, trazendo novamente a primavera para o ciclo do ano.

Guinevere e Sir Lancelot apaixonam-se. A Falsa Guinevere ocupou o lugar de Guinevere enquanto ela procurava amparo em Lancelot em Sorelois. A Falsa Guinevere e o seu cavaleiro Bertholai admitiram por fim a sua fraude e, depois da morte desta, a verdadeira Guineve é entregue a Arthur. Nessa altura, Guinevere e Lancelot já estavam irremediavelmente apaixonados e a luta de Lancelot com a sua consciência mantinha-o longe de Camelot.

Quando Guinevere e Lancelot decidiram terminar o seu romance, para o bem do reino, Mordred, filho ilegítimo de Arthur, encontrou-os no quarto dela. Lancelot fugiu e Mordred forçou Arthur a condenar Guinevere à morte.

Lancelot acaba salvando-a da execução, matando acidentalmente Gareth e Gaheris, irmãos de Gawain, tendo começado assim a guerra entre os exércitos da França e da Inglaterra. Enquanto Arthur estava longe lutando com Lancelot, Mordred declarou o seu pai morto, proclamando-se rei e anuncia o seu casamento com Guinevere. Ela recusa o casamento e se auto-aprisionou-se a si própria na Torre de Londres. Arthur regressou para lutar, uma vez mais, com Mordred, tendo sido atingido mortalmente por uma lança. Neste ponto, já misturam ao ciclo passagens do “Rei Pescador” e do ciclo de contos do Graal (eu falei que as lendas do Rei Arthur eram uma salada de frutas, não falei?).

Depois da morte de Arthur, Guinevere foi para um convento de freiras em Amesbury, permanecendo lá até à sua morte. Um outro conto, de Perlesvaus, diz que ela morreu como prisioneira dos Pictos (habitantes celtas da antiga Escócia), tendo sido sepultada ao lado de Arthur.

Círculos de Pedra e a Távola Redonda

As descrições da Távola Redonda mais antigas diziam que ela acomodava sem maiores problemas 150 cavaleiros com suas respectivas armaduras ao seu redor. O curioso é que o texto não menciona que os cavaleiros estejam “sentados”, mas chegaremos a isto em breve…

Fazendo uma conta simples, temos que uma pessoa de armadura ocupe um espaço de 1m em uma mesa. Teríamos, então, uma mesa com o comprimento de 150m. Usando a fórmula mágica 2*PI*R = 150, temos que R = aprox. 23,87m, ou o Diâmetro de 47m.

Nos parece óbvio que a “Távola” que teria pertencido a Gwenhyvar não era exatamente um “mesa” nas lendas mais antigas celtas e britânicas. Mas o que exatamente poderia ser, que estivesse sob os domínios da Deusa-tríplice-lunar, que fosse utilizada para celebrações e que conseguisse reunir ao mesmo tempo os 150 cavaleiros?

Agora tudo faz mais sentido. As lendas celtas não falavam em castelos, mas sim em rituais de solstícios e equinócios envolvendo os círculos de pedra. Porém, à medida em que as lendas vão sendo atualizadas para os princípios cavaleirescos, o círculo de pedra se torna uma fortificação que se torna um castelo; a Távola se torna um “Castelo com o teto estrelado” e mais tarde ainda, apenas Camelot. Na próxima vez que você estiver em um Templo Maçônico, descendentes distantes dos Templários e dos Cavaleiros do Graal, olhe para cima.

Já desvendamos todos os principais mistérios do ciclo Arthuriano. O Santo Graal, Excalibur, Merlin e agora Camelot.

#ReiArthur

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/camelot-guinevere-e-lancelot

Liber 1 – O Livro da Hora Zero

Liber I – O Livro da Hora Zero é um verdadeiro mapa, um guia que auxilia o leitor a percorrer os meandros do Novo Æon. Por meio dessa estrondosa mensagem, o artista e ocultista germânico Albin Grau (1884-1971) – produtor de “Nosferatu: o Vampiro da Noite” – rompe as barreiras que limitam o entendimento e a ação do Neófito no processo mágico de definição e realização da Verdadeira Vontade, também chamada de Vontade Divina.

Sob a influência de uma linguagem criativa – que, por vezes, parece abrir canais alternativos de compreensão do Livro da Lei – o leitor é levado a uma reflexão sobre os valores, agora aparentemente estéreis, do Æon de Osíris, ao passo que lhe é revelada, com urgência, a austeridade necessária ao desenvolvimento espiritual sob os auspícios do Senhor do Novo Æon.

O texto apresenta, ainda, práticas meditativas capazes de proporcionar o alinhamento do Neófito com a corrente espiritual da Era de Aquário.

Sem sombra de dúvidas, estas características fizeram do prestigiado Liber I uma peça essencial para germinar o solo germânico com as sementes da Era de Hórus, assim abrindo espaço para que a corrente thelêmica pudesse ilustrar os aspirantes à iniciação na Terra-Mãe dos primeiros rosacruzes.

A propósito, não é demais assinalar que O Livro da Hora Zero foi originalmente destinado à instrução da Loja Pansófica dos Irmãos Buscadores da Luz (Pansophischen Loge der lichtsuchenden Brüder) – agrupamento declaradamente rosacruciano. Isto é uma indicação de que estamos diante de um feliz amálgama da sabedoria da Rosa+Cruz – “a Flor da Era de Peixes” – com a Lei de Thelema, que rege a Nova Era.

A laboriosa tomada de consciência de Malkuth – ainda que a mais baixa esfera da Árvore da Vida – como chave do portão que mantém exilada a Mãe Achamoth ¬– a Sophia decaída dos Gnósticos, cuja queda prenunciou a criação da matéria e cuja ascensão significará a possibilidade de reintegração da Chama Divina – Hadit – ao Pleroma – Nuit! A superação do Crestos, identificado com Osíris, o iniciador da Era passada, que depõe a Santa Flor diante do Senhor da Nova Era – Hórus –, em alusão à caducidade da fórmula da R.C., que sucumbe diante de Thelema, a Lei da Nova Era! A realidade nascida da travessia do Abismo, em que o mago, agora habitante da Cidade das Pirâmides, se identifica com Pan! Dificilmente se pode pensar em outro livro que sintetize tão bem os eixos da sabedoria dos Æons que, então, começavam a se despedir.

Três outros interessantes escritos de Albin Grau podem ser encontrados nesta obra: Primeira Lição sobre Deveres, que norteia os passos do Neófito; O Homem Estelar, uma elaborada descrição da composição cósmica do ser humano e de sua relação com as forças planetárias; e Vampiro, um instigante relato da gênese de Nosferatu.

O leitor encontrará, também, a narrativa histórica da fundação da antiga Fraternitas Saturni como consequência dos fatos que circundaram a visita de Aleister Crowley (Mestre Therion) à Alemanha em 1925. Ali, é desvelada a decisiva participação de Albin Grau – ou Frater Pacitius – na instauração da corrente mágica hoje representada pela ORDO SATURNI.

Esta publicação vem acompanhada das “Visionen des Cheops” – gravuras que originalmente estamparam os únicos cinco volumes do anuário Saturn Gnosis – editado por Eugen Grosche a partir de 1928, com a colaboração de Albin Grau na função de diretor de arte. Por meio dessas gravuras, Frater Pacitius expressava, a um só tempo, a sua profunda paixão pelos mistérios egípcios e os seus amplos conhecimentos de geometria esotérica. É sabido que destacados ocultistas valeram-se das Visionen como portais em suas práticas de viagem astral.

Indubitavelmente, estamos diante de verdadeiros tesouros do ocultismo germânico, pela primeira vez publicados em Português. É mais do que certo que aspirantes e iniciados de qualquer ramo das Ciências Ocultas encontrarão aqui elementos ímpares, que em muito contribuirão para o seu aperfeiçoamento espiritual.

O Liber 1 foi uma das metas alcançadas no Projeto “Livros Sagrados de Thelema”, que está nas últimas 48hs de Financiamento Coletivo.

Não teria sido possível sem o grande apoio de todos vocês!

E esta revista me inspirou a pensar algo, sobre o Projeto Mayhem. Se os magos de 1929 conseguiram se reunir e lançar uma revista fantástica; hoje, através de Financiamento Coletivo recorrente, nós também podemos atingir algo com a mesma qualidade. Temos gente capacitada para escrever, temos um público de alta qualidade e disposto a estudar o Hermetismo sério e temos a ferramenta do Financiamento Coletivo. Sucesso é a única possibilidade!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/liber-1-o-livro-da-hora-zero

Häxan – Uma Especulação Cult

O terceiro fator reside no impacto romântico dos escritos de Jules Michelet, Charles Godfrey Leland e K. J. Huysmans, o que em última instância criou uma adoção respeitosa de títulos que antes eram passivos como movimento de contra-cultura, numa espécie de rebelião à opressão e miséria impostas pelo cristianismo.O quarto fator é o padrão de repetição histórica: o estereótipo do Sabbath das Bruxas foi definido como uma congregação (por vezes chamada de “Sinagoga de Satã”, já que concomitantemente judeus eram tão condenáveis quanto bruxas) de homens e mulheres antropófagos. Alegadamente eles se reuniam em luxuriosos banquetes noturnos nos quais crianças eram servidas como prato, onde adoravam o Diabo e se lançavam a qualquer tipo de promiscuidade ou de atos criminosos. Mas acusações semelhantes já haviam sido feitas no passado, contra os bogomilos (cujos aderentes sobreviventes compõem a ancestralidade do que hoje conhecemos como Bruxaria Tradicional Basca), cátaros e valdenses. Aparentemente, a sociedade sempre temeu e odiou aqueles que estavam às margens do caos ordenado do homem comum.Na época da concepção do filme, ainda se acreditava que a histeria era a causa do sonambulismo e da cleptomania, o que hoje sabemos não ser verdadeiro. Até mesmo a idéia do que é a histeria mudou. No capítulo 7 do filme fica claro que todas as terminologias e exemplos que o filme utiliza são fundamentados na psicanálise. Como em 1:41h do filme, quando uma personagem diz ser atentada por forças desconhecidas, que tanto nos remetem ao imaginário da Idade Média de demônios, como a perspectiva psicanalista das forças ocultas doinconsciente. E quem eram as histéricas da psicanálise?

As histéricas eram a grande atração médica do final do século XIX. Mulheres que apresentavam convulsões, delírios, paralisias e falas desconexas. Nos séculos da Idade Média poderiam até serem consideradas possessas, mas não numa época demarcada pela franca ascensão do Positivismo enquanto doutrina, quando o ceticismo e a Ciência estavam dispostos a provar que tudo não passava de doenças nervosas e que não havia nada de sobrenatural. O problema é que o buraco era mais embaixo: Na histeria não há nenhuma alteração fisiológica no campo da neuroanatomia (pelo menos era o que se acreditava e havia se constatado na época).

Como lidar então com isso? Como poderia a Ciência materialista explicar esses fenômenos que afetavam um número grande de mulheres (e eventualmente homens) das mais diferentes classes sociais? Pois bem, é importante sinalizar que estamos no século XIX, muito antes de movimentos feministas, uma época em que as mulheres tinham um papel subserviente aos homens. Muitos médicos da época, diante da incapacidade do tratamento orgânico, alegaram que a histeria era uma doença de fingimento, chegando a fazer piadas como que o remédio para a histeria era “penis normalis dosim repetatur”, ou seja, pênis normais em doses constantes. Mas veja como é interessante: essa frase dita por um eminente médico da época em tom jocoso estará sendo mais tarde postulação central para a obra de Freud.

E já que Freud entrou em nossa história, o fundador da psicanálise também estava muito intrigado por essa doença quando foi para a França estudar com Martin Charcot sobre o fenômeno da histeria. Charcot utilizava o método da hipnose para o tratamento das histéricas, pois uma vez em transe hipnótico, ele ordenava para que elas tivessem os seus sintomas curados, e enquanto elas permaneciam em transe, seus sintomas desapareciam. Eram braços paralisados que voltavam a se movimentar, pessoas com falas desconexas que conseguiam construir uma história… Mas uma vez que o transe terminava, os sintomas retornavam.

Freud vai relacionar a doença nervosa com a sexualidade. A repressão da atividade sexual é vista como desencadeadora de fatores patogênicos, algo que até faz sentido para a realidade do século XIX, e imagine então para uma Idade Média onde a sexualidade é vista como pecado! Para o fundador da psicanálise, a civilização se repousa sobre a supressão das pulsões, pois para podermos viver em sociedade, cada indivíduo renuncia a uma parte de seus atributos, que pode ser uma parte de seu sentimento de onipotência, suas inclinações vingativas ou agressivas de sua personalidade. É, entretanto, indispensável certa quantidade de satisfação sexual direta e qualquer restrição dessa quantidade poderia estar se relacionando com a neurose. É preciso ressaltar aqui que não apenas nisso reside a neurose para Freud, pois há toda uma relação das vivências infantis de um indivíduo com a sua constelação familiar, a história do ser humano como espécie, as estratégias que inconsciente desenvolve para manter seu funcionamento, mas pelo que o filme vem a tratar no capítulo 7, não é necessário continuarmos nesta linha.

No tratamento da histeria, Freud vai então abandonar a hipnose e adotar o método de associação livre (esse mesmo conhecido da pessoa que deita-se no divã, fica falando coisas aleatórias e eventualmente é questionada pelo psicanalista). Para a “cura”, ele irá se aproveitar do fenômeno da transferência, um fenômeno caracterizado pelo investimento da autoridade em uma figura, dando um poder inconsciente a este significante. O fenômeno da transferência também seria comum às curas xamãnicas, passes espíritas e supostos pastores evangélicos que fazem curas milagrosas.

A histeria não é nenhum grande mal ou uma doença extraordinária. Na verdade, grande parte da população seria histérica, pois para Freud, todos os ditos “normais” são na realidade neuróticos, não havendo alguém totalmente saudável. Entretanto, segundo os psicanalistas, possivelmente com o movimento de liberação sexual dos anos 60, sintomas mais extremos não são tão freqüentes. Mas os comportamentos característicos de histeria ainda hoje seriam observáveis, segundo os mesmos. De qualquer modo, cabe questionar ainda se histeria seria realmente uma doença, ou algo que os existencialistas chamam de “uma forma de estar no mundo”. Cairíamos em uma simplificação grotesca e num discurso normativo se pensarmos apenas em patologias. É válido também destacar que ao invés de pensarmos em possibilidades que vêm para se excluir, podemos imaginar que são fatores que aparecem para somar. Ao invés de pensarmos que se é uma coisa ou outra, pode ser uma coisa e outra.

Desde que toda a natureza e qualquer forma de prazer carnal pertenciam ao domínio de Satanás, e assim não é difícil entender o apelo dos licenciosos Sabbaths das Bruxas, e que muitas das tais “histerias coletivas” nos conventos tenham sido gerados a partir da repressão sexual, em especial nas vidas monásticas impostas às mulheres daquela época. Também não é difícil entender o apelo do Sabbath quando se está lidando com toda a opressão, doença e miséria que marcaram todo o período medieval. As próprias crenças que o ser humano cria para se relacionar com o Divino são importantes fatores que marcam um determinado contexto. Reduzir o fenômeno que chamamos de ‘bruxaria” apenas a uma doença é um erro do filme, um esforço cético baseado em conceitos psicanalíticos para a explicar os fenômenos sobrenaturais aos nossos olhos não acostumados para compreender essas situações.

Apesar das falhas contextuais no filme, existem ali elementos interessantes, como feitiços escatológicos, as danças circulares e a referência clara aos ungüentos de vôo. Não só isso, o filme firmemente aponta o dedo para o modo em que as mulheres velhas e feias eram (e em muitos casos ainda são) tratadas, bem como os maltratos que os pacientes psiquiátricos são sujeitos ainda hoje nas instituições que deveriam estar tratando deles. Só por isso, já vale a pena assistir este filme.

Por Katy de Mattos Frisvold – Espelho de Circe e Igor Teo – Artigo Dezenove

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» Veja o filme Häxan no YouTube (legendado)

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Sobre a origem do Tarot

A origem do Tarot continua em questão e são muitas as teorias propostas. Na verdade, porém, nada existe de idêntico em outras culturas, pintado ou impresso em cartões, que pudesse ter estabelecido um modelo direto para o jogo de 78 cartas que vem à luz, na Europa, no final do séc. 14. E os desenhos mais antigos de cartas que chegaram até nós são coerentes com a iconografia cristã dessa época. Se essa afirmação vale particularmente para os 22 arcanos maiores, não cabe inteiramente para o conjunto das 56 ou 52 cartas do baralho sarraceno, já mencionado no séc. 14.

Apesar desses dois indícios mais próximos cabe investigar a possível influência de outras culturas desse período histórico e, igualmente, o material resgatado de civilizações anteriores.

Alguns estudiosos mostram as analogias entre o Tarot e o antigo jogo indiano do Chaturanga, ou jogo dos Quatro Reis, que correspondem aos quatro naipes das cartas de jogar. A quadruplicidade, no entanto, é a representação de uma realidade universal que transcende os dois jogos em questão.

O Chaturanga, que data do séc. V ou VI, antecessor do moderno jogo de xadrez, originalmente tinha o Rei, o General (a Rainha moderna), seu Cavaleiro e os peões ou soldados comuns. Não há, porém, indicações consistentes de como poderia ter ocorrido um caminho entre esse jogo e o Tarot.

Cruzados ou árabes?

Há quem acredite que as cartas de jogar foram levadas para a Europa pelos cruzados. Contudo, a última Cruzada terminou mais ou menos em 1291 e não existem referências que comprovem a presença de cartas de jogar na Europa até pelo menos cem anos mais tarde.

Uma justificativa para a origem sarracena das cartas é o nome espanhol e português naipe, que derivaria do árabe naibi. Também a palavra hebraica naibes se assemelha a naibi, o antigo nome italiano dado às cartas e, em ambas as línguas, a palavra indica bruxaria, leitura da sorte e predição. No entanto, não se encontram na história dos árabes e judeus referências ao jogo de cartas, anteriores aos século 15.

Esse tipo de restrição histórica, no entanto, não invalida a hipótese de uma criação ou re-criação “multi-tradicional” do Tarot. Sabemos que, em especial na Penísula Ibérica, sábios cristãos, árabes e judeus, mantiveram uma criativa convivência durante o período em que o Tarot dá sinal de vida.

Do ponto de vista das provas históricas, o que se pode afirmar com segurança é que os árabes utilizavam, já em meados do séc. 14, um baralho de 52 cartas, com estrutura idêntica aos que hoje conhecemos como “arcanos menores” ou “baralho”.

Origem cigana?

Igualmente discutível é a hipótese que associa as cartas de ler a sorte com os ciganos originários do Hindustão. Apenas no começo do século XV começaram a entrar na Europa. Em 1417, um bando de ciganos chegou às proximidades de Hamburgo, na Alemanha; outros relatos situam os ciganos em Roma, no ano de 1422 , e em Barcelona e Paris, em 1427. Há, porém, claras evidências de que a raça cigana só estendeu suas peregrinações para o interior da Europa depois que as cartas já eram conhecidas ali há algum tempo.

Povo nômade, recorria aos mais variados expedientes para sobreviver. As mulheres particularmente utilizavam diversos recursos para “ler a sorte” dos habitantes das comunidades que visitavam, em especial a quiromancia (predição do futuro segundo as linhas e sinais das mãos) e, bem mais tarde, a cartomancia (utilização dos baralhos impressos na Europa). É esse um dos motivos pelos quais os ciganos ficam intimamente associados às cartas, ao baralho, no imaginário popular. Tiveram um grande papel na circulação e na difusão da cartomancia popular, mas estavam longe da tradição escrita e do conhecimento técnico de impressão das cartas.

Origem egípcia?

A hipótese da origem egípcia do Tarot foi aventada por Court de Gebelin em sua obra, Le Monde Primitif analysé et comparé avec le monde moderne, publicada a partir de 1775.

Gebelin foi um apaixonado estudioso da mitologia antiga e estabeleceu inúmeras correlações entre os ensinamentos tradicionais e as cartas do Tarot que, segundo ele, seriam alegorias representadas em antigos hieróglifos egípcios.

Um ponto, no entanto, não pode ser esquecido: embora existam necessariamente similaridades entre as linguagens simbólicas mais consistentes, isso não quer dizer que tenha existido influência direta de uma sobre a outra.

O significado das correspondências entre linguagens simbólicas constitui um tema delicado. Nem sempre é possível chegar a uma conclusão, pois similaridades e correspondências não querem dizer, necessariamente, que tenha havido cópia ou simples adaptação de uma cultura nacional para outra.

A favor da correção intelectual de Court de Gebelin, é importante lembrar que as cartas utilizadas por ele continuaram a ser as do Tarot clássico. Ele não falsificou nem inventou um “baralho egípcio” para justificar suas hipóteses. Sómente após a publicação de seus estudos é que começaram a aparecer baralhos desenhados com os motivos egípcios, descompromissados com a história comprovável desse desafiador jogo de cartas.

Seja como for, é com Gebelin que se inicia a divulgação de textos e de estudos que assinalam um sentido mais alto para o Tarot, como uma linguagem simbólica, como um meio de transmissão dos conhecimentos esotéricos, espirituais, que vai muito além de sua utilização como jogo de baralho.

Múltiplas influências

A maior parte dos estudiosos reconhece uma origem iniciática do Tarot, ou seja, ele traduziria o significado e as propriedades do Cosmo, bem como o do papel do homem na Criação. Seria produto de uma Escola (escola dos criadores de imagens da Idade Média, como sugere Oswaldo Wirth). Nessa direção de pensamento, o Tarot seria uma criação de Escolas francesas e/ou italianas, no final do séc. XII, sem qualquer relação com indianos ou chineses. A favor desse ponto de vista pesa o fato de que não se encontram, em particular, jogos iguais aos arcanos maiores em qualquer outra civilização.

Há muitos estudos que apontam as relações entre o Tarot e Cabala. De fato, as 22 lâminas dos “trunfos”, ou “Arcanos Maiores”, são em igual número ao das letras do alfabeto hebraico e ao dos 22 “caminhos” ou conexões entre os sefirot do desenho simbólico denominado “Árvore da Vida”. As 40 cartas numeradas, dos Arcanos Menores, representam o mesmo número de sefiroth da “Escada de Jacó”, esquema resultante da superposição de quatro “Árvores da Vida”.

Tal constatação, porém, não exclui a hipótese de contribuições árabes, que tiveram um forte e prolongado impacto, através do sufismo, sobre a mística cristã, em particular na Península Ibérica.

Um período de ouro

Não é implausível, para alguns autores, imaginar o nascimento do Tarot por volta de 1180, período de grande força criativa na Europa, embora as primeiras menções registradas ocorram apenas duzentos anos após, em 1391. A razão para isso, segundo eles, seria simples: na origem, o Tarot não tinha a função lúdica de jogo de paciência ou de apostas em dinheiro, mas desempenhava o papel de estimular a reflexão pessoal sobre o caminho espiritual. Desse modo, ele não poderia ser mencionado como jogo de lazer nas crônicas da época.

“A essência do Tarot – escreve Kris Hadar – se funde maravilhosamente à mística que fez do séc. XII um século de luz, de liberdade e de profundidade da qual não temos mais lembrança. Nessa época, a mulher era mais liberada que hoje.”

É no correr desse período que são erigidas as catedrais góticas, em memória da elevação do espírito, e que aparece igualmente a busca de um ideal cavalheiresco que alcançará sua perfeição graças aos trovadores e o Fin’Amor, que colocará em evidência a arte de crescer no amor.

Para corroborar tal ponto de vista, pode ser lembrado que nesse mesmo período se desenvolvem os primeiros romances iniciáticos sobre os cavaleiros da Távola Redonda, a lenda do Rei Artur e a Demanda do Santo Graal.

Contemporâneo dos primeiros romances, o Tarot poderia ser considerado como um dos livros sem palavras (comuns na alquimia) para a reflexão e a meditação sobre a salvação eterna e a busca de Si, mesmo para quem não soubesse ler. Era uma porta aberta à verdade, tal como as catedrais, que permitiam aos pobres e aos ricos crescerem na comunhão com Deus.

“O Tarot” – afirma Kris Hadar – “é uma catedral na qual cada um pode orar para descobrir, no labirinto de sua existência, o caminho da Salvação”.

Paralelos do Tarot com outros jogos

Quando deixamos de lado as tentativas – algumas delas forçadas – de encontrar para o Tarot uma origem necessariamente fora da Europa, em outras culturas e povos, abre-se um outro campo muito atraente para os estudos simbólicos.

Tal como foi mencionado mais acima, a propósito da similaridades entre o Tarot e o jogo indiano do Chaturanga, os estudos comparativos permitem reconhecer princípios básicos e universais que estão presentes em diferentes jogos criados em culturas diversas sem que houvesse um contato próximo entre elas, sem que uma expressão em dado contexto cultural tenha sido necessariamente copiado de outro. Podemos encontrar provas de que o conhecimento das leis primordias se revela por caminhos criativos e renovados.

Por Constantino K. Riemma

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sobre-a-origem-do-tarot

O Plano Astral e o Hermetismo – Parte I

As entidades diretoras presidindo tudo o que acontece no astral. Essas entidades psíquicas são constituídas pelos homens superiores das humanidades antigas evoluídos por iniciativa própria.

Fluidos particulares formados por uma substância análoga à eletricidade, mas dotada de propriedades psíquicas: a luz astral.

Nestes fluidos circulam seres diversos capazes de sentir a influência da vontade humana: os elementais, muitas vezes constituídos pelas ideias vitalizadas dos homens.

Além desses princípios, podemos encontrar as formas futuras prestes a se manifestar no plano físico, formas constituídas pelo reflexo em negativo das ideias criadoras do mundo divino.

As imagens astrais dos seres e das coisa, reflexo em negativo do plano físico.

Fluidos emanados da vontade humana ou do mundo divino acionando o astral.

Corpos astrais de seres sobrecarregados de materialidade (suicidas), de seres em evolução (elementares) e de entidades humanas atravessando o astral para se encarnar (nascimento) ou depois da desencarnação (morte). Também podem ser encontrados os corpos astrais de adeptos ou feiticeiros em fase de experiência.

A título de desenvolvimento e aplicação dos dados precedentes, terminaremos esta primeira parte do artigo O Plano Astral e o Hermetismo citando F. Ch. Barlet.

“Se é e em seu próprio organismo que a alma, depois de formulado algum desejo, procura o éter necessário para o incorporar, ela o encontra agindo sobre o fantasma ou parte inferior de seu corpo astral (Linga, Sarira, Than Nefeque) por intermédio de seu princípio magnético central (Kama, Khi ou Ruá). Ela pode então, conforme descrevemos, agir, traduzindo seu desejo em ato ou gesto do corpo material com a ajuda da força vital que a impregna ao mesmo tempo que o corpo astral.

Mas se ela não o consegue, pode exteriorizar o esboço astral e por ele aspirar o éter-ambiente com um ardor proporcional à sua sede, informá-lo por seu verbo num turbilhão astral, sem núcleo, impregnar esta forma com o seu próprio magnetismo e o lançar, por seu centro intermediário, como dissemos (pela alma do corpo espiritual Kama, Khi, Ruá) em busca de um organismo mais capaz do que o seu de realizar a coisa sonhada.

Eis aí um ser a mais na atmosfera astral; esta espécie de elemental é conhecida pela filosofia hindu com o expressivo nome de Kama-monasique. Ou melhor, nascido de Mana (a alma humana, sede do desejo) com o concurso de Kama (a força magnética).

Para ser completo falta-lhe o corpo de átomos protílicos de que a sua forma precisa e, como por sua própria origem, ele o deseja com maior ou menor intensidade, constituindo-se no astral em uma força potencial móvel que se transforma em força viva logo que encontrar as condições especiais para esta transformação de energia.

Isto é o que se traduz ao representar os elementais desta classe como seres inocentes, ávidos de existência, em busca de individualidades encarnadas que possam lhes dar uma realidade corporal; agarram-se a ela com o escarniçamento da posse: são verdadeiros vampiros da alma.

Estes seres etéreos podem receber do seu criador, mediante certas condições, um fim preciso. É isto, por exemplo, que explica os efeitos das bençãos, maldições e encantamentos de todas as espécies. Mas na maioria das vezes esta direção precisa lhes falta. Têm apenas um impulso indefinido que os deixa, por assim dizer, errantes na multidão astral, no meio dos vivos que eles desejam, capazes somente, por causa de sua origem, de serem atraídos pelos desejos, forças e elementais do mesmo gênero.

Assim é que os pensamentos são de seres dotados de uma existência própria a partir do momento em que eles são exprimidos, ou melhor, exteriorizados pelo autor.

Unidos por simpatias análogas, segundo a lei mecânica da força da mesma direção, eles se multiplicam e se concentram em uma resultante comum. É então que todo mundo sente, com uma consciência mais ou menos obscura, que uma ideia está no ar, ou que pelo menos os sensitivos percebem e anunciam às vezes como uma realidade segura, mas que para o presente é ainda invisível. Recebemos deles sob as formas de pressentimento, previsão do futuro ou oráculos.

Os desejos humanos não são os únicos a formar elementais deste tipo; a maioria dos animais exprime adaptações à natureza de seus desejos, talvez inspirados pela visão de órgãos mais perfeitos, que eles vêem funcionar nos outros seres terrestres. Assim é possível explicar a abundância desses órgãos isolados e desses monstruosos acoplamentos de órgãos que se manifestam boiando no astral em quase todos os novatos de clarividência. Eles são os desejos, ainda não realizados pelo universal, do ser inferior que aspira a ideais de perfeição; os esforços da natureza para se elevar até o poder e a unidade do ser: esforços que revelaram pelas modificações diferenciais que Darwin nos mostrou.

Finalmente, o mar astral que abriga esta população se agita ao mesmo tempo, ele mesmo, em todas as direções, por movimentos ondulatórios de uma outra fonte. Os atos, as emoções dos seres encarnados e até mesmo os desejos e os movimentos consecutivos dos seres etéreos produzem vibrações luminosas, caloríficas, elétricas, principalmente magnéticas, que se propagam neste meio e se cruzam sem se destruir, e aí se conservam, em partes refletidas pela envoltura do turbilhão superior e aí persistem durante um tempo medido sobre sua intensidade e sutileza.

Assim a forma etérea, ou o ato que a realiza em matéria tem uma duração finita com eles: a força que os criou se esgota ao se movimentar na massa onde está mergulhada; eles perecem consumidos pelas ondas do mar imenso onde nasceram, reabsorvidos pelo fogo astral; mas a influência que eles geraram permanece no astral sob o estado de vibrações de caráter pessoal; elas modificam o regime deste meio comum criando aí linhas de força, hábitos novos, e com elas, novos desejos. Assim, não existe ser, gesto, ato, pensamento individual que não contribua para transformar o corpo astral do planeta, e através dele, as aspirações de seus habitantes.

É assim que o astral registra todas as nossas manifestações vitais, fazendo o papel de memória na biologia do nosso astro para um melhor aproveitamento da evolução que estamos vendo acontecer”.

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Na próxima parte:

– Contatos da alma humana com a alma terrestre

– As possibilidades humanas

– Médiuns, magnetizadores, iniciados e adeptos

Referências:

– Tratado de Ciências Ocultas, Papus (texto adaptado deste livro)

– ABC do Ocultismo, Papus

– O Plano Astral, C. W. Leadbeater

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-plano-astral-e-o-hermetismo-parte-i

Seis Teoremas de Aleister Crowley

1- Todo ato intencional é um ato de Magia.

2- O primeiro requisito para causar qualquer mudança é a habilidade prática para colocar em movimento as forças necessárias.

3- O homem que faz sua verdadeira vontade tem a inércia do universo para ajuda-lo.

4- Um homem pode aprender a usar qualquer força do universo , tornando-se um receptáculo adequado para tal, estabelecendo a conexão adequada e as condições necessárias para que a natureza dessa força possa fluir através dele.

5- A magia é a ciência de entender a si mesmo e suas condições. É a arte de aplicar esse entendimento á ação.

6- Todo homem tem o direito da autoaprovação, para satisfazer-se ao extremo.

#Thelema

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O Aprendiz de Feiticeiro

Em 1897, um compositor francês chamado Paul Dukas resgatou o poema de Goethe em um poema sinfônico intitulado “L’Apprenti Sorcier“. Quatro décadas depois, sob influência tanto do poema de Goethe como na obra de Dukas, Walt Disney elaborou a conhecida sequência do filme Fantasia, onde Mickey é representado como um aluno de magia.  Nem o escritor brasileiro Mário Quintana escapou dos “feitiços” desta obra.

Goethe, o aprendiz

A idéia para a balada “Der Zauberlehrling” foi tirada do texto Philopseudes do escritor grego Luciano de Samósata, onde o personagem Eucrates narra a história de um feiticeiro, que  na verdade é um sacerdote de Isis chamado Pancrates.

É possível que “O Aprendiz de Feiticeiro” descreva o próprio Goethe, pois ele mesmo dedicou-se a experiências com ciências naturais, alquimia e astrologia. Além disso, teve contato com Cagliostro, um famoso alquimista da época, e foi membro da sociedade secreta os Illuminati, a qual, posteriormente tornou-se “Maçonaria Iluminada”.
“Hat der alte Hexenmeister  /  O velho feiticeiro 
Sich doch einmal wegbegeben!  /  finalmente desapareceu! 
Und nun sollen seine Geister  /  E agora seu espírito deve 
Auch nach meinem Willen leben. /  Viver de acordo com a minha Vontade”.

Cansado das atividades domésticas, o aprendiz utiliza-se da magia, que ele ainda não domina por completo, para encantar sua vassoura. Esta trabalha ininterruptamente trazendo cada vez mais água para casa até causar uma inundação.

 “Und sie laufen! Nass und nässer / E elas correm! Molhadas e cada vez mais molhadas 
wirds im Saal und auf den Stufen: / transformam-se nos aposentos e nas escadas: 
welch entsetzliches Gewässer! / que terrível enxurrada!”

Desesperado, o aprendiz resolve destruir a vassoura com um machado, e parte-a ao meio. Logo, cada metade se transforma em uma nova vassoura, trazendo o dobro de água para casa.

“Herr und Meister, hör mich rufen! – / Senhor e Mestre! Ouve-me chamando por ti! 
Ach, da kommt der Meister! / Ah, ai vem meu mestre! 
Herr, die Not ist groß! / Senhor, o perigo é grande! 
Die ich rief, die Geister, / Os espíritos que invoquei 
werd ich nun nicht los. / Agora não consigo me livrar deles”.

Ao fim o mestre reaparece e resolve o caos provocado pelo aprendiz. Mas do que seria o aprendiz sem a intervenção do mestre? O mago de Nazaré já alertava “(…) de todo aquele a quem muito é dado, muito será requerido; e daquele a quem muito é confiado, mais ainda lhe será exigido.” (Lucas 12:48) Daí sai o lema do tio Ben para o “aprendiz” Peter Parker, “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades“.

A Música

Paul Abraham Dukas (1865 – 1935), foi um compositor, professor e crítico musical. Atuou como professor catedrático de composição e foi eleito membro da Academia de Belas-Artes da França.

Em 1897, finaliza seu Poema Sinfônico, intitulado “L’Apprenti Sorcier”. Obviamente inspirado no poema de Goethe, trata-se de uma obra nitidamente descritiva,  muito brilhante tanto do ponto de vista melódico como da orquestração.

Mas o que vem a ser um Poema Sinfônico? Trata-se de uma obra musical inteiramente baseada em uma história, um romance, um poema, um conto, um tratado filosófico ou até mesmo uma pintura. Não há um esquema formal para isso, em geral são obras orquestrais imprevisíveis quanto a forma.

No entanto, mesmo sem assistirmos a versão animada da obra, é possível visualizarmos apenas com a música, o “passo a passo” das vivências do aprendiz. A fórmula mágica, a invocação, a marcha das vassouras, o pedido de ajuda e etc. Tudo isso graças a utilização de uma técnica criada por Richard Wagner chamada Leitmotiv. Esta técnica consiste em associar um tema musical a um personagem ou situação que vem a ser recorrente em toda a peça.

Dukas faz um verdadeiro trabalho de magia com todos os naipes da orquestra. Desde o tema cômico da marcha das vassouras introduzido pelo fagote (naipe das madeiras), até a brilhante participação do glockenspiel, dos címbalos e do triângulo, coincidentemente todos representantes do elemento água.

Quarenta e três anos depois do lançamento da obra, um mago da animação nascido em Chicago resolve ilustrar a obra em um de seus filmes.

Fantasia

Em 13 de novembro de 1940, o tio Walt Disney (Demolay e Rosacruz) lança seu clássico “Fantasia“. O filme  é um misto de animação com música erudita, algo que ele já havia trabalhado em uma série de animações chamada Silly Symphonies.

No decorrer das suas oito sequências observamos lições de magia, hermetismo, ciências, cosmologia, mitologia e espiritualidade. Tudo isso sem nenhuma palavra e ao som das composições mais populares escritas pelos grandes magos da música.

A fusão das palavras de Goethe com a música de Dukas, resultaram em uma das sequências mais famosas do filme. Altamente simbólico e repleto de elementos magísticos, o que assistimos é praticamente um ritual de iniciação protagonizado pelo personagem Mickey.

O famoso chapéu azul, ilustrado com a lua e as estrelas, além de ser uma referência ao próprio universo e a astrologia, representa o primeiro princípio hermético: “O Todo é Mente; o Universo é mental”.

Ao transferir suas tarefas domésticas para a vassoura encantada, Mickey realiza uma projeção astral. Desta forma, ele governa os céus e os mares, demonstrando literalmente o princípio hermético da correspondência: “O que está em cima é como o que está embaixo. E o que está embaixo é como o que está em cima”.

O sobe e desse das marés nos remete ao princípio do ritmo: “Tudo tem fluxo e refluxo; tudo, em suas marés; tudo sobe e desce;” Ao final desta cena Mickey provoca uma tempestade unindo nuvens opostas, eis aí o princípio hermético de polaridade.

Ao retornar de sua viagem astral, Mickey percebe que o seu “sonho”, de certa forma, afeta a sua realidade. Com isto aprende de maneira dramática o princípio hermético da causa e efeito bem como o princípio do gênero: “(…)o gênero se manifesta em todos os planos” físico, mental e espiritual.”

O fim de sua iniciação se dá aos 10’30” do vídeo. Sob uma “pirâmide” de três degraus e com o Sol ao fundo, Mickey é congratulado pelo mestre (maestro) por sua iniciação ao grau de aprendiz.

Curiosidades

O escritor brasileiro Mario Quintana, publicou um livro com o mesmo título do poema. Segundo o autor, o livro se deve do fato que ele se identificou com a aventura: a magia da palavra poética, assume vida própria e multiplica os poemas no laboratório do livro.

Um dos livros infantis mais bem sucedidos do artista gráfico e ilustrador Tomi Ungerer conta a história do Feiticeiro (1971).

Em uma das cenas do filme O Aprendiz de Feiticeiro (2010), há uma pequena homenagem  à animação de 1940.

O Aprendiz de Feiticeiro é utilizado muitas vezes como material didático nas escolas. (Se teve professor por aí com problemas ao utilizar o livro Lendas de Exu imagina com este…)

No Brasil, a escritora Mônica Rodrigues da Costa é a responsável pela atual tradução da obra.
Links

Poema: “Der Zauberlehrling” de Goethe

Música: “L’Apprenti Sorcier” de Paul Dukas

Filme: Sequência “The Sorcerer’s Apprentice” (Fantasia) de Walt Disney

Biografia de Johann Wolfgang von Goethe

Mapa Astral de  Johann Wolfgang von Goethe

Mapa Astral de Walt Disney

#Biografias #Poemas #Arte #Música #hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-aprendiz-de-feiticeiro

Após a Caçada

» Parte 2 da série “A ciência da inspiração” ver parte 1

Mente: 1. Conjunto das idéias e convicções de uma pessoa, concepção, imaginação, intelecto; 2. Capacidade de raciocinar ou aprender, inteligência.

Retornemos aproximadamente 200 mil anos no tempo, e observemos uma pequena comunidade de caçadores-coletores nas planícies africanas, berço de todos nós, os humanos. São ainda hominídios, humanos arcaicos, mas já possuem seus módulos mentais relativamente desenvolvidos: a inteligência geral foi herdada das outras espécies das quais evoluíram, e é responsável pelos processos básicos de instinto e sobrevivência; A inteligência naturalista desenvolveu-se ao longo da persistente guerra da fome – o conhecimento do terreno em sua volta, a análise dos rastros de presas livres deixados no solo, o cuidado para evitar plantas venenosas, etc; A inteligência técnica permitiu o manuseio de objetos e até mesmo a elaboração de ferramentas, como pedras pontiagudas que facilitam o corte da carne das presas abatidas; E, finalmente, a inteligência social evoluiu desde que reconheceram que caminhar pelo mundo em bandos era mais seguro do que enfrentar as caçadas sozinho.

Tais hominídios acabaram de retornar de uma boa caçada, e estão aproveitando o pouco tempo que resta de luz do sol no final da tarde… Alguns estão retalhando as carcaças para que a comida possa ser compartilhada; As mulheres e anciãos estão descansando, conversando, ou ensinando as crianças algumas regras básicas da vida em sociedade tribal; Já aqueles mais hábeis com os cinzéis estão afiando as pontas das lanças utilizadas na última caçada, ou ainda criando novas… Todas mais ou menos no mesmo formato, projeto de algum gênio primordial que se espalhou e manteve-se inalterado por dezenas de milhares de anos. Não havia muita criatividade, não havia muita inspiração, praticamente não existia a arte, nem a religião…

Avancemos então para cerca de apenas 50 mil anos atrás. No tempo da evolução das espécies terrestres apenas um piscar de olhos de meros 150 mil anos… Ainda estamos nas mesmas planícies do continente mãe, só que agora observando o retorno da caçada – igualmente bem sucedida – de uma comunidade de homo sapiens, humanos como nós, nossos avôs e avós ancestrais. Percebemos que eles continuam cortando as carcaças recém-abatidas (embora com instrumentos mais anatômicos e afiados, ainda de pedra), continuam fabricando novos instrumentos e afiando os desgastados, e as mulheres e anciãos continuam dando instruções básicas de vida social para os infantes. O que mudou, afinal?

Para os arqueólogos, os registros do solo dizem que mudou muita coisa, embora para os leigos talvez essa mudança passasse desapercebida. Ocorre que, na tribo de hominídios, cada grupo realizava sua tarefa em uma área em separado da aldeia; Já nos homo sapiens, todos faziam as atividades uns próximos aos outros, geralmente em torno da fogueira… Nessas longas noites de conversas e atividades após a caçada, muito do que somos hoje tornou-se possível.

Segundo o arqueólogo (sim, arqueólogo mesmo) Steven Mithen em “A pré-história da mente”, foi essa intercessão entre os módulos da mente primitiva que catapultou nossa inteligência a patamares inimagináveis para os humanos ancestrais. Subitamente, os dentes de animais caçados, que antes eram descartados, se tornaram decoração de colares; Colares estes que também serviam para demonstrar para outros membros (e mulheres, quem sabe) da mesma tribo quão bons eram os caçadores que os ostentavam; Da mesma forma, as pegadas deixadas na terra pelas presas tornaram-se também símbolos que demonstravam o tamanho e a direção em que o animal se deslocou; E logo tanto símbolos naturais quanto animais quanto os próprios homens se fundiram em pictogramas pintados em cavernas profundas – registros da história de um povo que se reconheceu como povo; Talvez ao mesmo tempo, surgiram os mitos, as forças naturais tornadas meio-homem, meio-animal, meio-espírito, meio-deus – a religião ancestral surgia em meio ao animismo e ao xamanismo, juntamente com a consciência de nossa vida e nossa mortalidade.

Esta é apenas uma teoria de Mithen, mas acredito que seja muito bem fundamentada. Essa união de módulos mentais, essa divina fluidez cognitiva, faz-se representar até os dias de hoje… Já se parou para perguntar por que a maioria das pessoas passa cerca de 2/3 de seu tempo de convívio com qualquer outra pessoa falando sobre relacionamentos com outras pessoas, ou os relacionamentos de famosos, ou quem morreu e quem nasceu? Ou porque revistas com fotos imensas de modelos de beleza que não possuem muito espaço para texto vendem que nem água? Ou simplesmente porque apreciamos tanto uma boa fofoca? Ora, Mithen sabe: porque nossa fluidez cognitiva nasceu de nosso convívio social ancestral – nada mais justo que dediquemos tanto tempo a ela ainda nos dias atuais. Ou pelo menos, se ainda nos identificamos com nosso lado animal…

Nós trocamos idéias, trocamos palavras, trocamos símbolos uns com os outros constantemente. Nosso maior dom não é a visão ou a audição ou nem mesmo a racionalidade, mas antes de tudo, a capacidade de interpretar símbolos. Um dom sim, mas que muitas vezes pode se tornar também uma maldição – principalmente quando mal fazemos idéia da extensão de tal capacidade.

A criatividade é a capacidade de reformular o que conhecemos, em geral sob a luz de uma informação nova, e de desenvolver um conceito ou uma idéia original. A fim de ser criativa, uma pessoa precisa ser crítica, seletiva e inteligente.

O processo criativo transcorre, segundo a ciência, da seguinte forma: nossos cérebros são bombardeados de forma contínua com estímulos, sendo que a maior parte é ignorada. Essa “exclusão” garante que usemos as informações mais relevantes para direcionar nossos pensamentos. A abertura de nossas mentes para informações novas promove o arranque do processo criativo. Para isso, o cérebro desativa a atenção aguda, identificada por eletrencefalograma como ondas beta (estado de alerta) e permite o aparecimento de ondas alfa, amplas e lentas (estado de relaxamento mental e ociosidade). Desse modo, os estímulos, que de outra forma poderiam ser ignorados, tornam-se conscientes e ressoam com as memórias, gerando novos pensamentos e idéias que podem ser tanto originais quanto úteis. Pois é, deve ser por isso que as pessoas têm a maioria das boas idéias no cafezinho, e não durante um dia estressante de trânsito e trabalho nas grandes cidades…

Os artistas que dominaram suas disciplinas têm uma base de conhecimento que sustenta melhorias e mudanças a partir da repetição e/ou reorganização dos padrões simbólicos que eles já dominam. Tal habilidade permite que esses processos rodem na inconsciência, liberando a consciência para a absorção e reconhecimento de estímulos inteiramente novos. Pessoas assim possuem uma alta capacidade de retornar a um estado de alerta mental quando reconhecem uma nova idéia, pois de forma recorrente as submetem a uma avaliação crítica rigorosa – “será que isto combina ou acrescenta algo a minha arte?”. Os estímulos, os símbolos que sobrevivem a esse segundo processo de pensamento criativo tendem a ser valiosos e, portanto, julgados como genuinamente originais.

Sejamos então todos artistas de nossa própria vida, pois que ela sempre será nossa obra mais importante. Após a longa caçada, após tantas noites de conversas em fogueiras amedontrados e extasiados com a imensidão da noite a volta, de alguma forma fomos guiados por essa vasta natureza a uma certa fluidez de pensamento. Em todos esses dias de homens, aprendemos passo a passo a compartilhar símbolos, idéias, pensamentos, e emoções… Nem sempre temos sido bem sucedidos em reconhecer tudo isso que há de sagrado em torno e mesmo dentro de nós – seja no mecanismo, seja no sentido. Mas o que importa é que podemos aprender com nossos erros, e melhorar um pouco, um pensamento de cada vez.

Idéias, idéias são tudo o que há além da natureza que aqui já estava quando chegamos. Idéias são tudo o que iremos deixar em retribuição. Reconheçamos então quais são as idéias que nos levarão a frente, e quais são âncoras disfarçadas de pipas, prontas a nos deixar fixados no mesmo lugar por mais uma vida inteira.

Sejamos caçadores então, e façamos de nossa caça uma verdadeira arte: cacemos não para sobreviver simplesmente, mas para viver, viver plenamente, viver em harmonia, conectados com a infinita teia da vida a nossa volta. Cacemos idéias que se escondem além da galáxia mais distante e no menor pedaço de átomo que fomos capazes de enxergar. Cacemos o horizonte à frente, cacemos os mecanismos e o sentido desse turbilhão universal, cacemos a nós mesmos, cacemos ao amor. Enfim, cacemos pela enorme felicidade e a enorme paz que essa caçada nos proporciona.

» Na continuação, metáforas, poesia e o grande programador cósmico…

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Crédito das imagens: [topo] Becoming Human; [ao longo] Werner Backhaus/dpa/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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