Os Três Amores: Agape, Philos e Eros

O ser humano não precisa de amor, mas de amores. Precisa sim de três: Agape, Eros e Philos, para que seja um ser (quase) completo. Completo como um ente único manifestando três aspectos do amor humano e divino que se complementam e são transferidos para os objetos desses amores, interagindo com outros entes também únicos.

Sem as influências estéreis da maioria dos filósofos acadêmicos, vamos abordar algo sobre esses três amores do ser humano, de maneira inteligível, sintética e prática para que possamos assimilá-los em nossa existência.

Agape, Philos e Eros são fundamentais na vida de qualquer indivíduo e devem ser desenvolvidos por todo aquele que tem consciência desse fato. São também aspectos considerados muito importantes e trabalhados na Via Draconiana. Nessa Via, pouco explorada pela grande maioria, os três amores podem ser tipificados pelos arquétipos de Lucifer (Agape), Sophiae (Philos) e Venus (Eros), entre outras associações e correlações. O leitor verá, pelo que segue, o porquê dessas associações. Contudo, por hora, não abordaremos as extensas implicações desse Caminho. O interessado pode se aprofundar nessa matéria, sem medos infundados, estudando as obras A Cabala Draconiana e A Revolução Luciferiana.

Mas, vamos aos amores da humanidade, amores “doados” por Lúcifer e Vênus para que façamos bom proveito, com discernimento.

As três formas de amor – Agape, Philos e Eros – manifestam-se em três níveis que interagem entre si: Agape é o amor em nível espiritual e universal (coração de Lúcifer); Philos, em nível psicomental (cabeça de Lúcifer); e Eros, em nível etérico-material e sexual (genitália de Lúcifer). É um sistema ternário que funciona no ser humano, sendo cada forma de amor em maior ou menor grau. No humano superior, mais evoluído, em seu estado lux-venusiano, iluminado pela consciência e pela sabedoria, os três amores estão em equilíbrio.

“Agape” em grego significa “amor”. Esse é o amor fraternal e espiritual entre camaradas, irmãos e irmãs, entre a família, entre casais e seus filhos (quando de fato existe o sentimento fraterno, e não uma mera convenção social de fachada). Agape é o amor afetivo isento de conotações sexuais, isento de segundas intenções, isento de malícia e de interesses pessoais. Sendo Agape o amor de afeição, é também amor de satisfação, pois uma fraternidade, quer seja entre irmãos de sangue ou não, quer seja entre esposo e esposa, quer seja entre um núcleo familiar, etc., esse amor satisfaz porque é compartilhado e tem resposta entre todos aqueles que se reúnem para formar uma fraternidade de homens, mulheres e crianças.

A satisfação de Agape também se refere ao prazer por boas comidas e bebidas, por banquetes geralmente alegres e harmoniosos partilhados entre pessoas fraternas e espiritualizadas que se respeitam. Em antigos textos clássicos gregos como o poema épico A Odisséia, de Homero, Agape expressa essa satisfação, esse prazer de compartilhar refeições entre determinada fraternidade, determinado grupo, seja de homens, mulheres, crianças, etc. Ao longo da obra de Homero, Agape pode ser evidentemente percebido nas ações de seus personagens, especialmente entre Odisseus e seus companheiros, bem como entre Odisseus e sua esposa Penélope, entre Odisseus e seu filho Thelêmaco, entre Odisseus e seus empregados, o que é manifestado com notável respeito e admiração. Podemos ver também a satisfação entre esses atos fraternos associados às refeições em diversas circunstâncias descritas ao longo da obra homérica.

Ainda na mitologia grega, Prometheus (uma forma de Lúcifer) é um dos principais exemplos da manifestação de Agape, vindo dos céus, do divino, com sua vontade e amor titânicos, para a humanidade na Terra. A propósito, as palavras gregas Thelema (vontade) e Agape (amor) têm ambas valor numérico 93 (9+3=12; 1+2=3, os três amores fundamentais, Agape, Philos e Eros).

Assim, devido ao seu significado e importância, Agape também existe no interior de ordens maçônicas, ordens ocultistas, ordens esotéricas, ordens draconianas, etc.

Philos (ou phileo, philia), em certo sentido, é também o amor fraternal, manifestado por lealdade, igualdade e mútuo benefício, um amor de dedicação ao objeto amado. Contudo, Philos vai além dessas definições, e a “dedicação” desse amor pode chegar a ser mental, que é um nível abaixo do espiritual e acima do emocional. É o caso do amor pela sabedoria (o objeto amado), ou seja, a filosofia. Esta pode ser um meio de engrandecimento mental, intelectual e cultural, de busca pela verdade das coisas, bem como todo um modo de vida que se adota e que se ama profunda e conscientemente. Philos como amor, dedicação e apreciação, manifesta-se como inquietudes interiores que impulsionam o ser humano à busca da sabedoria que irá torná-lo maior, mais nobre, mais digno de ser amado e mais capaz de amar conscientemente. Manifesta-se também como prazer mental, intelectual e cultural, como prazer e sede por conhecimento e cultura útil, estimulante e construtiva. O benefício mútuo que existe em Philos é o benefício que se tem quando se vai adquirindo sabedoria ao longo da vida, pois quando se ama a sabedoria (Sophia, a Deusa Mãe provedora de virtudes), ela própria nos devolve mais sabedoria em troca de dedicação e adoração.

Nosso terceiro amor, Eros, expressa o amor sexual, sensual, carnal, de atração física com a consumação do prazer, e manifesta o instinto de união e reprodução. Sendo filho de Afrodite (ou Vênus, a deusa da beleza, do amor, do sexo e dos prazeres, um aspecto de Sophia), Eros (Cupido) manifesta o amor em seu nível físico-etérico, no mundo material, com o estímulo dos cinco sentidos físicos e sua gratificação. Eros é o amor que evoca a beleza, o prazer pela beleza e a perigosa obsessão pelo objeto amado e pelo prazer que ele traz. Mas é também o amor essencial da Natureza, a força primitiva da procriação de tudo o que vive, o amor theriônico, bestial, de instinto sexual e de preservação da espécie. Eros deve unir-se com Agape para gerar a beleza do amor romântico e sensual, a princípio, que evolui para o amor de reciprocidade e de desejo mútuo um pelo outro, fluindo em trocas de energias polarizadas entre o homem e a mulher. Tal troca de energias ocorre por meio do sexo, em determinado nível, e por meio das afinidades mentais e espirituais quando desenvolvido em amor completo (Agape-Philos-Eros). Entretanto, Eros representa o amor mais perigoso dos três, pois traz prazer, e (muita) dor se não for devidamente administrado, assimilado e combinado com Agape e também com Philos.

Mas devemos sim buscar o prazer, com o discernimento de epicuristas espiritualizados, pois é um direito da raça humana, um bem de todos aqueles que o merecem. Devemos buscar os prazeres sadios que nos enriquecem, que nos confortam, e que não degradam o espírito, a mente e o corpo, de maneira que nosso esforço para obtê-los não seja maior do que o seu desfrute. A obsessão e o vício doentios não são um prazer, mas dor que leva à própria destruição do ser como um todo, o que não contribui em nada para a evolução. Lúcifer não é debilidade, não é submissão aos vícios, não é escravidão, não é decadência, não é degradação. Quando combinado com Agape e Philos, o prazer erótico luciferiano é essencial para a saúde do corpo e para a saúde do amor romântico (sem vulgarização), entre o homem (Lúcifer) e a mulher (Vênus).

Nesse caso, para nascer uma união ideal ou (quase) perfeita, é preciso de:

-Eros (atração física e desejo);

-Philos (afinidade mental e cultural);

-Agape (afinidade de ideais espirituais e de grau evolutivo).

Assim, se forma a unidade ternária do amor criativo e criador, a inspiração e o estímulo para a Senda da evolução.

Para concluir, fazendo uma outra analogia, no ser humano temos a cabeça (Philos), o coração (Agape) e os genitais (Eros) unidos em um sistema cérebro-cardio-genital que deve funcionar em harmonia. O ser humano deveria se esforçar para unir em si esses três amores para que haja satisfação sadia em suas inter-relações, cada qual no lugar certo e na medida certa, evitando a degeneração em seus vícios opostos (paixonite grosseira, obsessão egoísta e depravação sexual). Tal corrupção dos três amores pode causar uma “perda da alma” e seu conseqüente sofrimento, como podemos facilmente observar ao redor do mundo com sua lastimável “civilização”.

Amar nessas três formas não é sofrer mas sim atingir a paz ataráxica, quer dizer, a paz interior impertubável do espírito auto-consciente, do espírito sábio, desfrutando o prazer sadio e natural da alma, da mente e do corpo, traqüilamente.

Por Fr.’. Adriano Camargo Monteiro

#LHP #Luciferianismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-tr%C3%AAs-amores-agape-philos-e-eros

Tornar-se o que se é

tornar-se o que se é

…vivemos em um mundo onde uma multiplicidade de forças muito poderosas tem atuado sobre nós. Do nascimento, passando pela escola, até o trabalho, tentam suprimir nossa individualidade, nossa criatividade e, acima de tudo, nossa curiosidade – em suma, destruir tudo que nos encoraja a pensar por nós mesmos. Nossos pais queriam que nós agíssemos como as outras crianças da vizinhança; eles enfaticamente não queriam um menino ou uma menina que parecessem “estranhos” ou “diferentes”, tampouco “condenavelmente espertos demais.”

Então entramos na escola, um destino pior que a morte e o inferno combinados. Ao aterrissarmos em uma escola, aprendemos duas lições básicas: 1) Existe uma resposta correta para qualquer questão; 2) A educação consiste em memorizar essa única resposta correta e regurgitá-la nas “provas”. As mesmas táticas continuam pelo ensino médio e, salvo em algumas ciências, até a universidade.

Através desta “educação” encontramo-nos bombardeados pela religião organizada. A maioria das religiões, no ocidente, também nos ensina a “única resposta correta”, a qual devemos aceitar com uma fé cega; pior ainda, tentam nos aterrorizar com ameaças de sermos queimados após a morte, tostando e fervendo no inferno se alguma vez ousarmos pensar por nós mesmos, de fato.

Depois de 18 a 30 anos de tudo isso, entramos no mercado de trabalho, e aprendemos a nos tornar, ou a tentar nos tornar, quase surdos, mudos e cegos. Devemos sempre dizer aos nossos “superiores” o que eles querem ouvir, o que veste seus preconceitos e/ou seus desejos fantasiosos. Se notamos algo que eles não querem saber, aprendemos a manter nossas bocas fechadas. Se não –

“Mais uma palavra, Bumstead, e você está despedido!”

Este rebanho humano começou com gênios em potencial, antes que a conspiração tácita da conformidade social enferrujasse seus cérebros. Todos eles podem se redimir dessa liberdade perdida, se trabalharem duro pra isso.

Eu trabalhei por isso por 50 ou mais anos até agora, e ainda acho partes de mim agindo como um robô ou um zumbi em algumas ocasiões. Aprender a “tornar-se o que se é” (como na frase de Nietzsche) leva o tempo de uma vida, mas ainda parece ser o melhor a se fazer.

Texto de Robert Anton Wilson, autor da Madras Editora

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/tornar-se-o-que-se-%C3%A9

Tecendo Sentidos

O neurologista Oliver Sacks costuma referir-se a si mesmo como um “cientista romântico”, ele acredita que a mente não pode ser descrita de maneira mecanicista, e que a neurologia moderna só será completa quando considerar a forma icônica e sentimental com que experienciamos a consciência e armazenamos nossas memórias.

Seus livros são verdadeiros dramas, descrevendo casos neurológicos sempre no contexto da vida e experiência pessoal de cada paciente. Muitos desses casos são devastadores, e somente a habilidade com a escrita (ele tem vários best-sellers no mundo todo) do autor faz com que a leitura seja pouco menos impactante do que um soco no estômago…

Sacks faz questão de destacar que cada doença é uma história, principalmente em se tratando de doenças da mente, algo ainda tão desconhecido, tão distante da visão mecanicista da ciência moderna. Em muitos casos as habilidades perdidas são compensadas por novas habilidades ganhas, o que fica muito bem explicado nos diversos casos de autistas savants descritos em seus livros – e principalmente no caso de Temple Grandin (tema principal do “Um antropólogo em Marte”).

Em seu livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, ele faz uma curiosa classificação dos diversos tipos de doenças mentais: (1) Perdas – quando a mente perde habilidades de interpretação da realidade que nos chega pelos sentidos; (2) Excessos – quando a mente se torna incapaz de filtrar a informação que nos chega a cada segundo, e fica em uma espécie de “curto-circuito mental”; (3) Transportes – quando a mente perde a capacidade de diferenciar o sonho da realidade, no que muitas vezes pode ser considerado um misto de doença com experiência mística; e (4) O mundo dos simples – que descreve os retardos mentais, sempre considerando que a mente de um retardado é “muito mais do que se pode ver a primeira vista”.

Nota-se em seus livros, sobretudo, a busca incansável pela essência de nós mesmos, pelo mistério que se esconde entre a consciência e a inconsciência, pelo verdadeiro eu que interpreta a realidade, e não poderá nunca ser reduzido a mero computador, a computar – e não computar e interpretar e elaborar respostas morais – a informação sensorial.

Em muitos casos, mesmo os mais extremos, Sacks consegue identificar esse eu profundo, lutando para se impor sobre as dificuldades da doença e produzir um novo sentido para sua própria existência. Mesmo que oculto em meio à escuridão de certas doenças, o eu sempre é capaz de voltar à tona, seja ouvindo música, seja produzindo arte, seja exercendo a espiritualidade. Em nenhum momento Sacks fala em assuntos metafísicos – toda sua ciência é perfeitamente compatível com a matéria –, mas ele sempre leva em consideração que a ciência atual não tem uma resposta bem elaborada para o que diabos possa ser este eu profundo a tomar as rédeas da própria consciência, essa essência do ser que não é perdida nem nos casos mais extremos…

Particularmente nos casos de amnésia extrema, quando os pacientes perdem por completo a capacidade de reter novas memórias por mais do que alguns momentos – alguns, menos de um minuto –, percebemos o quanto essa busca pelo eu profundo pode ser complexa. Porém, mesmo nesses casos, onde o ser vive em um eterno e confuso presente, a essência não é perdida. Fica ela lá, armazenada em algum lugar entre o cérebro e a mente, em alguma gaveta etérea da consciência, sempre esperando pelo próximo sinal capaz de fazê-la emergir da escuridão do não-ser.

Uma melodia, o tocar das teclas de um piano, uma oração, seja o que for: se é que somos computadores, fomos “programados” para tecer sentidos. Se tudo o que somos é um tilintar aleatório de partículas no cérebro, se somos pouco mais do que “coisas biológicas”, que pelo menos não se afirme que muitos de nós se recusaram a se deliciar com a “doce ilusão” do ser. Que não se diga que muitos de nós se acomodaram em serem máquinas, e não espíritos!

Afinal, o que seriam nossas memórias, nossos registros atemporais da existência? Sabemos que ficam em nosso hipocampo, mas e daí? O que isso significa? Sacks passou boa parte da vida tentando resolver tal mistério (citando o pós-escrito do caso intitulado “Reminiscência” em “O homem que confundiu…”):

“Estimule-se um ponto no córtex de um paciente assim [descrevendo casos de “alucinações musicais”] e desenvolve-se, convulsivamente, uma evocação ou reminiscência proustiana. O que serviria de intermediário para isso? Que tipo de organização cerebral poderia permitir que isso acontecesse? Nossas concepções atuais sobre o processamento e representação cerebral são todas essencialmente computistas. E, como tal, são expressas em termos de “esquemas”, “programas”, “algoritmos” etc.

Mas será que esquemas, programas e algoritmos nos fornecem, por si sós, a qualidade ricamente visionária, dramática e musical da experiência – a vívida qualidade pessoal que faz dela uma “experiência”?

A resposta é, claramente, e até mesmo com veemência, “Não!”. Representações computistas jamais poderiam, por si sós, constituir representações “icônicas”, as representações que são o encadeamento e a essência da vida.

Assim, surge um hiato, na verdade um abismo, entre o que ficamos sabendo por nossos pacientes e o que os fisiologistas nos dizem. Existe algum modo de transpor esse abismo? […] Existem conceitos além dos da cibernética com os quais possamos compreender melhor a natureza essencialmente pessoal […] da mente?”

Sacks prossegue citando Sherrington em seu livro “Man on his nature”, onde este imagina a mente como um “tear encantado” a tecer padrões mutáveis porém sempre significativos – tecendo padrões de sentido:

“Esses padrões de sentido transcenderiam programas ou padrões puramente formais ou computistas e dariam margem à qualidade essencialmente pessoal que é inerente a reminiscência, inerente a toda mnesis, gnosis e práxis. […] Padrões pessoais, padrões para o indivíduo, teriam de possuir a forma de scripts ou partituras – assim como padrões abstratos, padrões para computador, têm de estar na forma de esquemas ou programas. Portanto, acima do nível de programas cerebrais, precisamos conceber um nível de scripts e partituras cerebrais.
[…] A experiência não é possível antes de ser organizada iconicamente; a ação não é possível se não for organizada iconicamente. “O registro cerebral” de tudo – tudo o que é vivo – tem de ser icônico. Essa é a forma final do registro cerebral, muito embora o feitio preliminar possa ser moldado como cômputo ou programa. A forma final de representação cerebral tem de ser, ou admitir, a “arte” – o cenário e a melodia artística da experiência e da ação.”

Tal qual tecedores de tapetes mágicos, somos os eternos artistas de nós mesmos. Ainda que perdidos em poucos instantes de retenção da memória, ainda que tecendo desesperadamente um fio que logo depois se perde na escuridão do não-ser, estamos aqui lutando bravamente. Somos os grandes artistas da vida, resta-nos apenas reconhecer o quão belo e sagrado é todo esse mecanismo que nos permite existir – e existindo, tecer nossa própria história, nosso próprio sentido do existir.

***

Crédito da foto: Dinorah

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

#materialismo #consciência #Medicina #Ciência #mente

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/tecendo-sentidos

um instante

Arbustos cheios de pequenos seres aperreados, batendo asas, pulando entre galhos. Vários deles girando no ar entre as folhas. Do que adianta pensar sobre isso?

“That’s makes me feel sad”

-Se não fosse o censor que nos arranca o direito de escolha.

Ou
seria o direito de escolha uma mera ilusão diante de escolhas já em
andamento?

Meus
passos são sons ou somente meu movimento diante de uma estrada já
esculpida?

Onde
fica o direito de escolher antes dela ocorrer nas sombras da mente?
Tenho me vacinado contra o tédio me empanturrando de conflitos
ensaiados na tela. Ainda assim tais conflitos continuam em nossas
mentes. O pensamento só é, não precisa de explicação prévia;
uma aglutinação imbuída em seu próprio significado, sabe o que é
por ser somente.

Isso me faz pensar no Tao… E passo a ser só pensamento.

Muitos
temem a morte alucinógena de certas experiências acusando o que
veem de serem monstros distorcidos em busca de nosso fim. E
sentimos ela chegar.

O censor morre e antes de seu último suspiro faz crer que quem morre é quem está sempre diante da tela. E não só nos choca com o assalto da nossa razão no delírio do fim, liberta os monstros por debaixo dos monstros. Todos eles fazendo fila para arrancar mais um pedaço de confiança. Isso é doentio, tortura psicológica; você não somente morrerá, mas enfrentará tudo antes disso. Deseja realmente aceitar isso pacificamente? E nos contorcemos em pânico, tremendo normalmente num frio mórbido. Faz-nos recitar ‘mantricamente’ que não se está bem. E no primeiro movimento dos lábios o sensor sabe que fez um bom trabalho. Ainda que não possa vencer o avanço daquilo que lhe entorpece. O sensor cai morto sempre que dorme. Ele nunca dorme, só morre. Quando volta acha e faz parecer que nunca partiu. Mas as cadeias químicas percorrem o corpo envolvendo a mente, domando os pensamentos. E quando doma você é domado. O terror passa, ninguém morreu de fato. Você continua e isso parece renovador. Tudo livre, ao balanço do vento psicotrópico. Uns bailam até o renascimento da ordem. O que o sensor não saberá é o quanto você mudou.

Sentimos
prazer com nossa nova condição e um misto de liberdade e sincronia.
Isso por si só já alimenta alegrias ou fechamentos. Tudo sendo o
que precisa ser. Mas o ponto é que no fundo você sempre saberá:
não foi feito nada de fato.

Você simplesmente viu e sentiu, nada demais. Perdeu a chance de travar um novo processo ainda maior. Talvez certas coisas possam ter sido implantadas lá sem perceber. Coisas que possam vir a surgir no caminho, mas perceber é sempre um desafio durante ou depois disso. E esse momento único acaba sendo um processo muito cansativo e pouco válido, por que no fim acaba, dias após, junto com o esquecimento que o censor inevitavelmente ocasionará. Até o prazer pode ser perigoso para permanência do censor. Estamos acorrentados a este processo. Acreditamos ser melhor assim. Quem melhor do que um cuidador dedicado a uma causa nobre: segurar os demônios nos seus cantos.

Mas isso não é o mais estranho. Voltamos a temer a morte, achando ainda que é nossa. E mesmo que enfrentemos o rito novamente o medo estará lá, reforçado por declarações de medo, reverberando de cabeça em cabeça. Você não vê, mas todos os censores trabalham em uníssono. Um grupo de pessoas com medo aceitarão mais fácil o terror. E assim sendo alguém sempre usa uma desculpa para justificar. E mãos vão as cabeças. E de fato morremos. Por que o censor toma posse de toda nossa emoção e nos mata lentamente. E quando morre estamos vivos. E voltamos a nos felicitar além da conta. E as imagens simplesmente passam. Quantos de vocês dignos de uma espiritualidade trabalhada em lógicas e formas lindas, protegidos pelos seus pares aqui e lá acabam não vendo o privilégio de estar nu diante do espelho da mente? O escrutínio do censor não existe mais. É uma dádiva que parece passar desapercebida até por quem se dedica à linha de pensamento. O censor é tão esperto que não perderia a chance de deixar uma precaução. Ele sabe, sempre soube, que aquele que aprende precisa experimentar durante um tempo pra que o dado vire informação e posteriormente em sentido ou significado. Isso cria um vago espaço de tempo onde estamos diante de um poder imensurável e nada fazemos. Andamos em prados verdes e férteis e no fim acaba estéril e insignificante.

Por trás de toda interface existe um código-fonte muito bem moldado para cada tipo de experiência, por que assim esperamos ser melhor. Entender de imediato aquilo que experimentamos é advinda da confiança no processo de aprendizagem. E por isso as pessoas levam anos e mesmo assim patinam no limbo. O medo é essencial, mas aqui ele mata a possibilidade de olhar dentro do véu. E ficamos birutas curtindo cores e formas aleatórias. Feito criança que passa anos para lidar com o fato que entende e produz entendimento.

Esta é uma grande falha dos praticantes domesticados. Eles não voam, eles caem pasmos. E acordam com um censor novo em folha pra domesticá-los infinitamente.

“Enjoy”

Tudo o que fazemos que modela nossa realidade é em partes uma força bruta que a todos pertence. Ciência e Magia são um. Com formas diferentes de obter meios de reproduzir seus resultados. Mas no fim é sempre uma alteração de realidade. Esse conflito é desnecessário. O caminho está aberto? Abra você mesmo! Mate o Cérbero e invada o inferno chutando o portão sem piedade. Está preparado para lutar sem parar ao longo do infinito? Não há jornada maior e mais terrível. Não há recompensa maior e mais bela.

Conhece-te a ti mesmo… e mata o Cérbero sem pena. Ele voltará. Uma coisa com três cabeças, com certeza, volta. Mas após a primeira morte por suas próprias mãos não haverá mais uma porta depois do Cérbero. Invada seu lugar de direito. Tome o que é seu em suas mãos. Mas saiba que nada será esquecido.

Certo momento, invariavelmente, todos nós somos tomados pelo terror do discurso de morte do censor: cuidado! Há demônios do outro lado! Já que o trabalho dele é impedir que você passe a porta. Qualquer um com essa responsabilidade pintaria a porta de vermelho sangue e diria qualquer tolice que amedronte. Em grande parte isso é o terror de se reconhecer nas deformidades que encontrará. Com o tempo a visão acaba por se ajustar, percebemos que nós é que somos deformados e isso assusta. Nós somos limitados e não percebemos as reais formas. E cedo ou tarde o castelo ruirá. O passeio por sua casa é tudo o que tem. Construa o que desejar sem duvidar, perceba o que já tem por lá. Perceba.

E não há retorno; quando olhamos para o precipício ele olha de volta. Este momento requer paciência e pequenos passos. Domine os elementos internos abraçando a porta por onde tudo flui. Sabendo que seus instrumentos são uma extensão de seu corpo perceba a unidade. E se de fato for usar o caldeirão, terá de apreciar da sopa. Moradores e convidados sentem à mesa. O barco parte logo mais. A direção é para todos os lugares.

-Qual o objetivo disso além de experimentar?

É preciso coletar dados. Enfrentar o novo terreno e contemplar sua ciência. Domar a fera de todo modo.

Entretanto chegará um momento que reconhecer-se não será o problema. Tudo o que formos, será claro como água. O resto passará a ser uma vastidão infinita para desbravar. Achou que o monstro de três cabeças seria o único?

Ainda que reconheças que tais formas não são demônios, nada supera a experiência de olhar de frente para si. Ame cada pedaço, seja uma unidade. Assim poderá passear por aí, além da sua casa. Tal casa surge logo após a porta. Um lugar cheio de você por todos os lados, onde é preciso percorrer todos os vãos, iluminar todos os pedaços, reconhecer todas as fibras, anotar pra nunca mais esquecer, abrir janelas, trocar panos, mudar o que se precisa de lugar, reler livros guardados e reciclar as formas. Você é a chave para a próxima porta. A que não vemos antes desse momento. Afunde-se nela sem medo.

Há muita coisa por ai que precisa ser trazida e o momento é agora.

Não percamos nem mais um segundo.

S.O.Q.C.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-instante

A Divulgação da Thelema na Internet

aleister-crowley-thelema

Algumas pessoas têm ojeriza à promulgação de Thelema na Internet, especialmente em mídias sociais como o Facebook. O argumento básico é que a esse tipo de promulgação “emburrece” a Lei por usar citações simples ou imagens.

Eu entendo a preocupação e concordo até certo ponto. Seria melhor se as pessoas lessem os textos de Crowley ao invés de simplesmente clicar no botão “Curtir” numa imagem do Facebook. Este é um argumento válido, entretanto – dentro do contexto da Internet – há muitas razões pelas quais ele acaba se perdendo.

Primeiramente, algumas citações relevantes do próprio Crowley sobre a promulgação:

• Crowley escreveu para frater Achad em junho de 1916: “Observe: a questão antes dos encontros é essa: Como iremos colocar em prática a Lei de Thelema. Nós já temos a Lei; eu não acho que precisemos de mais conhecimento, mas precisamos desesperadamente do poder de administrá-lo. Eu acho que estou fazendo papel de bobo, pensando, falando e escrevendo. O que eu preciso é eficiência na promulgação”

• Crowley também escreveu em 28 de agosto de 1936: “uma coisa eu digo: que eu não espero que algo venha das especulações qabalísticas. Eu acho que elas podem até mesmo ser extremamente maliciosas em tempos como o presente. Nosso único foco deveria ser usar a Lei para reconstruir o mundo a partir do caos no qual já estamos parcialmente imersos. Aquela fórmula é simples e não requer treinamento especializado. O trabalho requer a cooperação de dezenas de milhares de pessoas que nunca ouviram falar da Qabalah; e elas têm de ser abordadas numa linguagem que elas possam entender.”

• Crowley também escreveu para Grady McMurty (Hymanaeus Alpha) em agosto de 1945: “É necessário expandir o escopo da apresentação da Lei de Thelema para que pessoas de todos os tipos sejam capazes de apreciar a parte específica que elas conseguem entender. Desta maneira, os processos de pensamento da maioria [das pessoas] será de tal forma direto que, a todos aqueles que entendem a Lei, será dada a oportunidade de fazê-lo enquanto fornecem guia para aqueles cuja compreensão está incompleta”.

Sabazius X° também escreveu em Ágape X:4, “Se, por um lado, não temos o dever de “converter” [pessoas], por outro, temos, sim, o dever de disseminar a Lei o mais amplamente possível em toda a sociedade humana, e não apenas dentro de específicas sub-culturas, classes e grupos sociais.”

A partir dessas citações, é possível perceber que Crowley estava interessado em diversas coisas concernentes à promulgação da Lei:

• Crowley queria mais poder e eficiência na divulgação da Lei.

• Crowley queria a cooperação de dezenas de milhares de pessoas que não necessariamente conhecessem coisas específicas como a Qabalah.

• Crowley queria que a Lei fosse apresentada de forma que qualquer tipo de pessoa pudesse apreciar as partes da Lei que conseguisse entender.

Portanto, uma boa promulgação requer (1) um meio poderoso (ou mídia diversificada) de divulgação da Lei, (2) a capacidade de atingir milhares de pessoas, e (3) uma apresentação simples e direta.

Eu pessoalmente acredito que a Internet seja um meio perfeito que preenche os 3 requisitos para uma boa promulgação. O Facebook, em particular, é a mídia que, atualmente, permite que muitas pessoas não só vejam pedaços e partes da Lei por meio de citações e imagens, como também permite que indivíduos compartilhem estes posts facilmente, gerando mais promulgação. Por exemplo, a imagem que está no cabeçalho deste artigo foi visto por mais de 10,000 pessoas numa simples postagem. Exemplo, esta postagem (1) usou uma mídia poderosa como o Facebook que (2) alcançou mais de 10,000 pessoas e (3) foi uma citação que a maioria das pessoas, mesmo sem nenhum conhecimento prévio de Thelema e ou de assuntos mais técnicos como Magick ou Qabalah, puderam apreciar.

O alcance potencial do Facebook é realmente impressionante. Para dar um exemplo, a página “Aleister Crowley” tem um alcance semanal médio de 45,000 pessoas. Isso significa que, em qualquer semana, um post (seja texto, link, vídeo ou imagem) é visto no Feed de Notícias de 45,000 usuários. Qual outra forma de promulgação consegue alcançar 45,000 pessoas toda semana? Continuando com este exemplo, toda vez que alguém curte, comenta ou compartilha o post da página Aleister Crowley, ele poderá ser visto por qualquer um que esteja na lista de amigos de quem realizou qualquer uma destas ações. Quantos são os amigos de pessoas “fãs” desta página do Facebook? Mais de 24 milhões. Estes amigos podem curtir, comentar ou compartilhar, de forma que o número de possíveis visualizadores é, na verdade, maior que 24 milhões. Esta é apenas uma página (fora tantas outras e perfis pessoais) e os números deveriam, na minha opinião, falar por si mesmos. Não está escrito no Livro da Lei que “Sucesso é sua prova”? É possível que este seja, de fato, o maior e mais difundido esforço de promulgação que a Thelema já viu em toda a sua história.

O que estes esforços fazem que é um benefício para a finalidade de promulgar a Lei?

• Milhares de pessoas verão o conteúdo, seja um link para um texto completo, uma citação ou qualquer outra possibilidade, que de outra forma não teriam acesso ou possibilidade de reflexão.

• Milhares de pessoas que nunca ouviram falar sobre Thelema ou Aleister Crowley têm a oportunidade de ver uma pequena parcela do que é a Lei.

• A milhares de pessoas (que não o fariam de outra forma) é dada a oportunidade de promulgar a Lei por si próprio ao difundir o conteúdo.

• Todos podem escolher seguir essas páginas do Facebook, e eles podem decidir comentar e compartilhar. Isto é, de certa forma, o pináculo da promulgação, em oposição ao proselitismo. Ninguém está sendo forçado a fazer, ler ou escutar coisa alguma.

Serviria isto como substituto para as leituras basilares, engajamento na comunidade local, prática de Yoga e Magick, e integração geral da Lei em suas vidas? Claro que não. Mas também não o é qualquer outra forma de alcance, incluindo os melhores e mais bem articulados livros. Tão provável quanto alguém ler um livro inteiro sobre Magick e nunca realizar um ritual é alguém compartilhar uma citação no Facebook e realmente não integrá-la em sua vida.

Nós não temos o poder de forçar a Thelema a alguém; é o Trabalho de cada um estudar, entender, e integrar [isso] em suas vidas e nenhuma carga de trabalho feita por outrém jamais substituirá isso. Nunca substituiu e nunca irá. Estes esforços de promulgação na Internet simplesmente dão mais e mais oportunidades para as pessoas espalharem a Lei para “pessoas de todos os tipos” como Crowley desejava. E é, de certa forma, até mais poderoso do que um livro pois é gratuito, eficiente, permite às pessoas perpetuar ideias com o mínimo de esforço e pode atingir muitos indivíduos que de outra forma jamais teriam escutado sobre Crowley ou sobre a Lei de Liberdade. E também, – ainda que possa chocar ou insultar alguns Thelemitas – nem todo mundo é um intelectual que tem tempo para ler livros e artigos longos e obtusos. Seja por falta de instrução, interesse ou tendência, existem diversas pessoas – na verdade, eu diria que a maioria das pessoas – que não são bibliófilos cabeçudos como eu (e muitos outros Thelemitas contemporâneos). “A lei é para todos” e isso não significa só para bibliófilos cabeçudos.

Algumas pessoas se preocupam com a possibilidade de esses esforços de promulgação terem gerado mais iniciados na OTO local ou mesmo mais Thelemitas. No núcleo disto reside uma preocupação a respeito de quantas pessoas estão realmente integrando essas ideias e colocando-as em prática. Como eu disse há pouco: é a Grande Obra de cada um estudar, entender e integrar [a Lei¿] em sua vida e nenhuma carga de trabalho de outrem substituirá isso. Mais importante, não há qualquer forma de saberemos com certeza absoluta. À parte de não perguntarmos sistematicamente a cada novo rosto que aparece em um evento o que especificamente o fez aparecer lá, há também o fato de que muitas pessoas não têm certeza, não lembram ou não querem dizer (talvez parcialmente pela possibilidade de ser defrontado com beatice!). Não há maneira de saber como esses esforços de promulgação afetam os membros já existentes de organizações como a OTO. Eu, pessoalmente, acho que se alguma postagem do Facebook fez alguém pensar um pouco sobre Thelema naquele dia, mesmo que seja apenas por alguns momentos, já é um avanço se comparado ao não pensar sobre isso de forma alguma. Talvez eles nunca tenham encontrado essa ligação ou uma citação específica antes. E mais: além de organizações como a OTO, não há maneira alguma de determinar como isso afeta Thelemitas (e não-Thelemitas) que não estão associados a qualquer organização em particular.

Em suma, como já mencionei, não há maneira alguma de saber com certeza absoluta. O que sabemos de fato é a incrível extensão em que esses esforços de promulgação pela Internet atingem as pessoas de alguma forma ou de outra, tanto Thelemitas quanto não-Thelemitas. É um fato concreto que “dezenas de milhares de pessoas” (assim como Crowley queria) estão vendo este conteúdo quando, de outra forma, não o fariam. O Livro da Lei diz “e para cada homem e mulher a quem tu conheceres, mesmo que seja apenas para comer e beber com eles, esta é a Lei a ser dada. Então eles terão a chance de permanecer neste êxtase ou não; isso não é problema”. De verdade, deveríamos nos preocupar com a possibilidade de outras pessoas estarem ou não verdadeiramente engajando-se com o material de alguma forma? Não estaríamos possibilitando às pessoas uma “chance de permanecer neste êxtase ou não” e, independentemente de eles fazerem algo a respeito disso ou não, “não é problema”? Não seria a insistência que determina aos indivíduos que façam uma coisa específica ou que ajam de uma maneira específica uma violação fundamental do “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei”?

O Livro da Lei diz: “O sucesso é tua prova; não argumentes, não convertas; não fale demasiado!”. Vamos fazer um pequeno exercício de pensamento: considere a diferença entre (a) um indivíduo que, por exemplo, cria uma imagem com uma citação sobre a Lei e a espalha no Facebook versus (b) um indivíduo que critica esse esforço. A pessoa A está criando uma oportunidade ou chance de alguém ouvir sobre a Lei, pensar sobre a Lei, e compartilhar a Lei, sem qualquer tentativa de converter ninguém (“Sucesso é tua prova”). A Pessoa B é, antes de tudo, reativa – eles estão definindo o princípio causal de suas ações fora de si ao re-agir ao invés de agir. A Pessoa B está argumentando no lugar de espalhar a Lei (“não argumentes”), está tentando obrigar e impor seu estilo de vida como “um verdadeiro Thelemita” sobre os outros (“não convertas”), e estão gastando tempo e energia punindo o outro (“não fale demasiado”) ao invés de criar seu próprio material que seria, obviamente, tão melhor. Se 10.000 pessoas veem algo sobre Thelema por que uma imagem foi postada, quantas pessoas estão realmente sendo alcançadas através da crítica desta mesma imagem?

Enquanto a crítica construtiva é sempre benéfica para aperfeiçoar a eficiência de uma abordagem, há uma série de críticas que são simplesmente emocionais e reativas (isto é, não construtivas). Parece haver algumas pessoas que, conscientemente ou não, querem manter a Thelema como uma camarilha de clausura, elitista e restrita a uma minúscula “panelinha”. Essa é a prerrogativa deles – Faça o que tu queres, é claro – mas acredito que eu, juntamente com dezenas de milhares de outras pessoas, estamos, juntos, fazendo muito trabalho substancial para espalhar a Lei de Thelema para o resto do mundo, de acordo com a atitude do Profeta (como visto nas citações acima). “A Lei é para todos” afinal, e eu digo: se realmente acreditamos que Thelema é a Lei da Liberdade – a Chave para a nossa evolução como indivíduos e como uma espécie – nós devemos dar a tantas pessoas quanto for possível a “chance de permanecer neste êxtase ou não “.

Amor é a lei

Amor sob vontade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-divulga%C3%A7%C3%A3o-da-thelema-na-internet

Há somente uma Substância

» Parte final da série “Reflexões sobre o materialismo” ver parte 1 | ver parte 2 | ver parte 3

Substância – Princípio do ser, que é permanente, em oposição aos acidentes que mudam; A essência de algo; Qualquer espécie de matéria.

Um dos dogmas principais do cristianismo afirma que Jesus Cristo ressuscitou após três dias. O Novo Testamento nos conta que Maria Madalena foi o primeiro discípulo a ver Jesus ressuscitado. Conta também que tanto ela quanto outros discípulos a princípio se assustaram com sua aparição e somente após alguns momentos o reconheceram. Após algum tempo a notícia já se espalhava, mas um dos seguidores de Jesus, Tomé, não parecia crer nela – ele afirmou “que precisava ver para crer”.

A Bíblia diz que Jesus apareceu para Tomé e ainda permitiu que ele tocasse suas chagas… Carl Sagan admirava o ceticismo de Tomé, segundo ele este tipo de experiência – de ver, e tocar, para crer – deveria ser incentivada entre todos os religiosos. Já para os cristãos, Tomé sofria de falta de fé, e não havia nenhum mérito em seu ceticismo. Jesus chega a afirmar que “felizes são aqueles que creram sem ver” – de acordo com o Novo Testamento, é claro.

Ao contrário do que muitos céticos imaginam, há muitos religiosos que são extremamente materialistas. E não estou falando do materialismo no sentido do apego a bens materiais ou consumismo (este é um assunto para outro artigo), mas da necessidade básica que muitos deles têm de reafirmar a ressurreição da carne de Jesus, e jamais apenas de seu espírito.

Há muitos deles que tem verdadeiro asco de coisas fluidas e “imateriais”. Para eles, espíritos nada mais são que assombrações e/ou alucinações causadas por loucuras ou pela influência do próprio Diabo (e eles costumeiramente confundem as duas coisas). Poderíamos questionar o porque de apenas o Diabo ter tantos “poderes” de afetar diretamente nossa realidade, enquanto Deus “gastou” todos os seus milagres nos milênios anteriores – mas isso também seria assunto para outro artigo.

O que eu acho irônico é essa crença dogmática em corpos incorruptíveis, em seres que só podem retornar a vida ou se comunicar com aqueles ainda vivos na posse de um novo corpo, como num grande passe de mágica… Não pela crença em si, mas pelo fato de a grande maioria dos que creem nisso ignoram o fato de que a matéria é em todo caso intangível e invisível. Ora, Tomé não tocou nas chagas de Jesus e nem o viu a sua frente, ele apenas – supondo que o relato é real – sentiu a pressão dos elétrons se repelindo mutuamente (de sua mão e do corpo de Jesus) e percebeu os quantas de luz refletidos por seu corpo.

Tivessem eles conhecimento dos avanços da ciência moderna, se questionariam se existe assim tanta diferença entre um corpo e um espírito, ou por assim dizer entre um espírito encarnado em um corpo, e outro desencarnado. Sim, pois se eles já creem em tantas coisas jamais detectadas, o que custaria crer em seres não imateriais, mas compostos por matéria ainda desconhecida, conforme postulou Bahram Elahi?

Os espíritas, por exemplo, também são materialistas, apenas não compartilham dos mesmos dogmas de alguns cristãos. Vejamos a pergunta #82 do Livro dos Espíritos de Allan Kardec: “É certo dizer que os espíritos são imateriais?” – Para surpresa de muitos, os próprios espíritos que ditavam as respostas para as jovens médiuns que auxiliavam o cientista francês trouxeram a seguinte resposta: “Imaterial não é o termo apropriado; incorpóreo, seria mais exato; pois deves compreender que, sendo uma criação, o espírito deve ser alguma coisa. É uma matéria quintessenciada, para a qual não dispondes de analogias, e tão eterizada que não pode ser percebida pelos vossos sentidos.” Ora, hoje em dia talvez fosse possível fazer analogias mais próximas – “Matéria Escura” seria uma delas.

Entretanto, sé é muito custoso para os céticos e materialistas anti-subjetivos acreditarem que consciências possam existir longe de cérebros feitos da matéria que já conhecemos, que isso não seja uma barreira intransponível entre nós, espiritualistas, e eles…

Carl Sagan resume muito bem a questão em seu livro “O mundo assombrado pelos demônios” – para alguns “a bíblia do ceticismo”:

“Espírito” vem da palavra latina que significa “respirar”. O que respiramos é o ar, que é certamente matéria, por mais fina que seja. Apesar do uso em contrário, não há na palavra “espiritual” nenhuma inferência necessária de que estamos falando de algo que não seja matéria (inclusive aquela de que é feito o cérebro), ou de algo que esteja fora do domínio da ciência. De vez em quando, sinto-me livre para empregar a palavra. A ciência não é só compatível com a espiritualidade; é uma profunda fonte de espiritualidade. Quando reconhecemos nosso lugar na imensidão de anos-luz e no transcorrer das eras, quando compreendemos a complexidade, a beleza e a sutileza da vida, então o sentimento sublime, misto de júbilo e humildade, é certamente espiritual. Como também são espirituais as nossas emoções diante da grande arte, música ou literatura, ou de atos de coragem altruísta exemplar como os de Mahatma Gandhi ou Martin Luther King. A noção de que a ciência e a espiritualidade são de alguma maneira mutuamente exclusivas presta um desserviço a ambas.

Existam espíritos ou não, o primeiro espírito que precisamos conhecer é o nosso próprio, ainda que não passe de um efeito de nosso processo de consciência. Os primeiros cientistas na Grécia antiga, na Sicília e na ilha de Samos, já buscavam a Substância que dava origem e todas as outras – o fogo, a terra, o ar, a água? Tanto faz se estavam equivocados; Assim como Demócrito equivocou-se em sua abordagem dos átomos mas estava fundamentalmente correto em suas analogias, eles da mesma forma estavam… Todos chegaram a resultados errôneos, mas acertaram profundamente em sua busca.

Inspirado por tais sábios de outrora, o grande Benedito Espinosa chegou à conclusão definitiva em sua “Ética”: “uma substância não pode criar a si mesma” – Sim, tudo, tudo o que há, há de advir de uma única Substância, incriada, eterna, a que se opõe ao nada…

E ainda que tudo o que exista sejam “átomos e vazio” e que nossas vidas não passem de um breve lampejar de vela em noite de ventania, há espiritualidade suficiente na ideia de que estamos sim todos conectados, todos feitos das mesmas substâncias, filhos de fusões nucleares em sóis catapultados em uma imensidão que nem mesmo a luz pode dizer onde acaba.

Nós somos os filhos do horizonte, e nosso único e derradeiro pecado é ignorar tal necessidade de vislumbrar nossa essência uma vez mais – não como Tomé a apalpar as chagas do messias, mas como aqueles que perceberam tanto o mundo material quanto o espiritual, e não souberam dizer ao certo qual é o mais bonito.

Disse Jesus: se vocês disserem qual a vossa origem, dizei-lhes: viemos da Luz, de onde a Luz se originou dela mesma. Ela permaneceu e revelou-se a si mesma em sua imagem. Se vos disserem quem sois vós, dizei-lhes: somos seus filhos e somos eleitos do Pai Vivo. Se vos perguntarem qual é o sinal do vosso Pai em vós, respondei-lhes: é o movimento e o repouso. (O Evangelho de Tomé [o Dídimo] – v.50)

***

Crédito das imagens: [topo] Aidan McHae Thomson; [ao longo] Holger Spiering/Westend61/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

#CarlSagan #Filosofia #materialismo #Espiritismo #Espinosa

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/h%C3%A1-somente-uma-subst%C3%A2ncia

Caos Cognitivo

Tese:

1. A atividade cerebral pode ser modelada como uma topologia fractal interligando forças aleatórias e determinadas.
2. A consciência pode ser apresentada como um conjunto de atratores estranhos (padrões de caos) em torno dos quais se organiza uma atividade neuronal específica. Esses atratores n-dimensionais são produzidos com teoremas derivados de uma síntese do trabalho de Mandelbrot e Cantor.
3. Ao obter uma compreensão intuitiva e técnica completa das formas reais dos atratores (embora sejam, em última análise, indeterminadas), pode-se enfrentar o caos como um sonhador lúcido aprende a conter e dirigir o processo do sono REM.
4. Os benefícios de vincular os processos cibernéticos com a conscientização dessa maneira incluem:

  • Exploração das capacidades não utilizadas do cérebro
  • Controle consciente de processos autônomos
  • Reparo de tecido dirigido pela mente em nível celular/genético
  • Controle sobre a maioria das doenças e o processo de envelhecimento
  • Conhecimento do campo morfogenético
  • Percepção direta das propriedades heisenbergianas da matéria

Primeira etapa

  • Compreensão intelectual dos teoremas.
  • Trabalho espiritual destinado a refinar a faculdade da atenção.
  • Construção de uma âncora de aterramento firme da consciência corporal.

Segundo estágio

Estudos nas áreas relevantes de várias ciências:

  • Biologia evolutiva e genética
  • Fisiologia do cérebro
  • Mecânica quântica
  • Programação de computadores

Terceiro Estágio

Neste ponto, nos preparamos para trabalhar com o dispositivo

  • Uma câmara de privação sensorial modificada na qual a atenção pode ser focada em um terminal de computador e tela.
  • Eletrodos colados em várias partes do corpo para fornecer dados fisiológicos que são inseridos no computador.
  • Um capacete peculiar com uma máquina cerebral de quarta geração altamente sofisticada, que pode estimular células cerebrais globalmente ou localmente e em várias combinações, direcionando assim não apenas “ondas cerebrais”, mas também funções mentais-físicas altamente específicas.
  • O capacete também é conectado ao computador e fornece feedback de várias maneiras programadas.
  • Uma série de exercícios em que os teoremas são usados ​​para gerar animações gráficas dos “atratores estranhos” que mapeiam vários estados de consciência, estabelecendo ciclos de feedback entre essa “iconografia” e os próprios estados reais, que por sua vez são gerados através do capacete simultaneamente com sua representação na tela.
  • O uso “alquímico” de drogas ativas da mente, incluindo novos derivados de vasopressina, beta-endorfinas e alucinógenos (geralmente em dosagens “limiares”). Algumas dessas tinturas são simplesmente para fornecer estados de relaxamento ativo e atenção focada, outras estão especificamente ligadas aos requisitos da pesquisa do “Caos Cognitivo”.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/caos-cognitivo/

Um Médium Notável (parte 2)

« continuando da parte 1 (artigo sobre Chico Xavier)

Que nos sobra então após tantas suposições? Nada mais do que suposições. Se é verdade que alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias, se é verdade que “não é possível experimentar com espíritos conforme se faz com uma pilha voltaica” – conforme disse Kardec –, e finalmente, se é verdade que a existência do espírito ainda requer comprovação experimental, então da mesma forma os céticos tem de correr atrás de comprovações para suas alegações. Recorrer à opinião de sobrinhos alcoólatras (que depois se ratificou das acusações ao tio), de supostos ex-coordenadores das reuniões de Chico em Uberaba, de “pesquisadores” que tem a idéia fixa de provar que Chico era uma fraude – nada disso será suficiente. De nada adianta encarar um fenômeno com um pré-julgamento em mente (“Todo médium é um fraude!”; “Espiritismo é coisa do demônio!”; “Espíritos existem e Chico é um santo!”), não sobrará espaço algum para qualquer análise objetiva – apenas para sua opinião subjetiva, que em todo caso já estava definida a priori.

Felizmente temos pesquisas sérias e aprofundadas sobre o fenômeno (leia-se: fato, e não mera teoria ou opinião) da produção literária de Chico:

O site Obras Psicografadas possui vasta análise cética de inúmeras obras espíritas, neste site existe uma análise de que certas obras de Chico podem ter plagiado textos pré-existentes. Na verdade, esse tipo de análise cai dentro do âmbito da hipótese da criptomnésia, já que dificilmente Chico iria se dar ao trabalho de inserir conscientemente certos trechos de outras obras, quando em realidade a vasta quantidade de sua produção literária fala por si só… De onde haveria “plagiado” todas as descrições minuciosas dos livros ditados por Emmanuel e André Luis? Que houvesse, sem querer, “plagiado” alguns trechos, é até verossímil… Que essa explicação se estendesse para toda sua obra, absolutamente não.

Já a própria FEB (Federação Espírita Brasileira) pesquisou citações históricas presentes em livros de Chico. Gilberto Trivelato, coordenador do estudo, parece estar se certificando da autenticidade da obra de Chico: “Alguns relatos são tão detalhados que Chico não os faria nem com a ajuda das melhores bibliotecas… Um deles diz que a Catedral de Notre-Dame, em Paris, tinha escadas. Hoje ela não tem. Mas se você pesquisar a fundo, descobre que no século 19 tinha, por causa de enchentes”.

Pesquisa a fundo: isso dá trabalho… Muitos preferem as generalizações e julgamentos apressados. Muitos se indignam com a possibilidade de um médium do interior de Minas ser, talvez, o maior brasileiro que já existiu. Um homem cuja obra obviamente ainda não pôde ser totalmente compreendida, mas cujo carisma arrastou multidões.

Merece a obra de Chico receber aprovação e credibilidade imediata pelos espíritas e simpatizantes? Obviamente que não, senão não seríamos muito diferentes dos pseudo-céticos… Uma coisa são as obras ditadas por Emmanuel e André Luis, outra são obras ditadas supostamente pela mãe de Chico (com todo respeito) com supostas descrições dos “seres alados de Marte” ou versões ufanistas da história do Brasil, considerado o “coração do mundo” por Humberto de Campos. E mesmo entre os espíritas de longa data há calorosas discussões acerca do relato das migrações entre planetas de “A Caminho da Luz” (embora o Gênesis de Kardec também afirme isso) – será que houve mesmo a migração de Capela?

Mas acima de tudo, há que se considerar que espíritos não são infalíveis, e falam somente sobre o que sabem: nada mais, nada menos. Considerar que Chico tenha sido ludibriado por espíritos zombeteiros, que afirmavam serem pessoas que em realidade não eram, talvez seja mais difícil de crer considerando a proteção quase permanente de Emmanuel. Mas e quanto ao próprio Emmanuel? Apesar de iluminado pela convivência no plano espiritual, não deixava de ser um ex-padre católico, no mínimo um espírito com enormes tendências ao lado religioso da doutrina – ao contrário de André Luis, que era um entusiasta da ciência.

Quanta coisa a ser levada em consideração… Quantos debates passados e vindouros… Quantas histórias contadas, e por contar, nos deixou esse médium notável! E quanto a Chico, será que o “capim de Deus” estaria hoje preocupado com seu legado?

“A doutrina é de paz… Emmanuel tem me ensinado a não perder tempo discutindo. Tudo passa… As pessoas pensam o que querem a meu respeito – pensam e falam. Estou apenas tentando cumprir com o meu dever de médium.” – respondeu-nos o médium ainda vivo [1].

Todo esse frenesi em torno de Chico, uns atacando-o como um demônio, outros o idolatrando como um santo, tudo isso também passa. Chico não é nem nunca foi o mito que as pessoas fizeram dele. “Não pretendo ser líder de nada” – afirmava. Chico foi a pessoa humilde do interior de Minas, o doce caipira com uma eterna doçura no olhar – mesmo por detrás dos óculos, todos que o conheceram sentiram-na –, aquele que agia naturalmente no amor, e continuará agindo.

Não se exponham a discussões inúteis com “céticos” e/ou “evangélicos” de opinião cristalizada… Deixem que julguem conforme acharem melhor, que enquanto não comprovarem nada, a obra de Chico e o seu exemplo moral continuarão falando por si próprios. Deixem os caminhos da doutrina em movimento, que o espiritismo não foi feito para se dogmatizar em um “kardecismo” ou uma “idolatria a Chico”. Deixem Chico em paz em suas planícies mineiras do outro lado do véu. Ou não, tanto faz – ele cumpriu sua missão.

***

[1] Trecho de depoimento ao Jornal O Ideal – Nº 56 – Janeiro de 2000.

***

Artigo relacionado: Chico Xavier: charlatão?

Crédito da imagem: um dos cartazes de Chico Xavier, O Filme.

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

#ChicoXavier #Espiritismo #Mediunidade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-m%C3%A9dium-not%C3%A1vel-parte-2

A vida secreta das plantas

Desde os tempos mais remotos que, em todas as culturas os homens adquiriram profundos conhecimentos sobre a vida das plantas, sempre em relação com uma concepção universal de vida, conhecimento que se integrava nas grandes ciências da Alquimia, Astrologia, Medicina, etc.

As fontes principais deste saber foram as Escolas de Mistérios e a comunicação directa dos Médico-Magos com os elfos, silfos, fadas, duendes e demais espíritos elementais que convivem com as plantas, os quais intruiram o homem. Tão grandes conhecimentos foram-se perdendo gradualmente com o correr dos milénios, com brilhantes renascimentos na Grécia, Roma e entre os celtas, até às últimas luzes impulsionadas pelos povos incas e aztecas.

Passado o desastre da queda do Império Romano, e após séculos de obscurantismo, um novo hálito da Tradição desperta a Europa e a partir de Itália surge o Renascimento; génios da talha de Da Vinci, Paracelso ou Giordano Bruno, entre outros, permitiram que o Ocidente redescobrisse aquelas antigas Ciências, ainda que isso só fosse possível de maneira muito fragmentária.

O materialismo desenvolvido a partir do século XVII foi obstruindo cada vez mais esses contactos e, enquanto se edificava uma pseudociência mecanicista e dogmática, perdeu-se lentamente a capacidade de percepcionar o lado subtil da Natureza e os seus habitantes; alcançaram-se concepções muito precisas do mundo material em contraste com uma ignorância quase absoluta do invisível, verdadeiro agente dos fenómenos físicos e químicos.

No século XX, em que o materialismo entronizou a sua miopia, foram definitivamente cortados esses já tão frágeis vínculos. Chegou-se a considerar a vida como uma mera dinâmica de fenómenos ordenados, mas sem nenhuma transcendência. Os seres foram vistos como coisas que possuiam um mecanismo vital, e em consequência disso afirmou-se que nas plantas existia um tal fenómeno e que, por isso estavam vivas.

No meio desta obscuridade surgiu a figura singular de Helena Blavatsky que, apesar da incompreensão e da intolerância reinantes, manteve vigente num selecto grupo de mentes lúcidas a concepção da Vida-Una. Assim chegámos ao século XX, onde uma série de descobertas dera à Ciência oficial a possibilidade de considerar fenómenos que se afastavam de sua própria óptica materialista; e sem por isso abandonar as suas alienações, começa a estudar com maior humildade e menos preconceitos determinados fenómenos considerados noutros tempos pouco sérios. O cientista do século XIX foi intransigente, manifestando orgulhosamente o seu pretenso saber; o do século XX, pelo contrário, menciona os seus achados com muita cautela. E o facto é que na segunda metade do nosso século experiências inquestionáveis obrigaram-no à mais extrema prudência, face à probabilidade da vida ser uma realidade para além do estritamente material.

Estamos quiçá, assistindo à aceitação de algo que os esoteristas de todos os tempos afirmaram: que as plantas e tudo quanto existe têm tanta vida como nós e o Universo na sua totalidade.

Paracelso

Não podemos, nesta breve resenha dedicada à vida oculta das plantas, deixar de mencionar a grande figura de Paracelso.

Nos inícios do Renascimento, ao lado de outras grandes personagens, surge o génio maravilhoso de um grande alquimista e médico ilustre chamado Aureolus Philipo Teofrastos Bombast de Hohenheim.

Nasceu em Einsiedeln, Suiça, em 10 de Novembro de 1943; desde muito jovem o seu pais ensinou-lhe que a Medicina se encontra na Natureza, e só aí é que os homens deviam buscá-la. Dado que tinha um físico muito frágil, o seu pai levava-o a viajar constantemente, convencido de que a mudança de ares o fortificaria. Nessas viagens aprendeu a conhecer as plantas que tinham propriedades curativas ou tóxicas, seu pai também o iniciou nos conhecimentos de Medicina, Cirurgia, Alquimia, Teologia e Latim. Ainda muito jovem conheceu em Levanthal o bispo beneditino Eberhard Baungartner, tido como um dos mais notáveis alquimistas do seu tempo, recebendo os seus ensinamentos com grande avidez. No entanto, o seu maior anseio era poder curar os enfermos, orientando sempre a sua formação para esse fim.

Mais tarde viajou para Basileia, onde aprendeu ainda mais sobre Astrologia e outras Ciências afins. Porém os ensinamentos da Universidade conservavam o espírito medieval pleno de conhecimentos anquilosados; assim, decide procurar um verdadeiro Mestre embarcando para Wurzburg ao encontro do abade beneditino Tritemius, autêntico Adepto, que o instruiu na verdadeira Ciência. Dada a sua vocação, orientou tudo o que aprendeu para a cura das doenças, valendo-se principalmente das propriedades das plantas, assim como de comunicações com os espíritos elementais da Natureza, como ele próprio refere. Deu a conhecer, mais tarde, através de publicações, alguns ensinamentos de carácter ocultista, aplicados sempre à Medicina que tanto amou. Destaca entre os seus ensinamentos o que se refere à inter-relação das plantas com as múltiplas manifestações dos seres vivos no Cosmos, e que definiu como “Signatura”.

O seu amplo espírito levou-o a utilizar diversas vertentes no campo das terapêuticas, tais como a Fitoterapia, a Homeopatia e medicamentos de origem mineral. Chegou a desenvolver uma verdadeira Medicina mágica, aproximando-se de uma certa forma dos Mestres-Magos da Antiguidade.

É a ele, pois, que devemos a pequena chave deste conhecimento oculto, que oferecemos ao leitor através do presente artigo.

As plantas, o Homem e o Cosmos

Em 1966, Backster, famoso técnico na detecção de mentiras através de um galvanómetro, teve o impulso de conectar os seus eléctrodos às folhas duma dracena, acompanhando a reacção desta face à água vertida sobre as suas raízes. Qual não foi o seu espanto ao ver que o galvanómetro produzia um gráfico com linhas extremamente acidentadas: seria possível que a planta fosse capaz de exteriorizar emoções?

A maneira mais eficiente de provocar num ser humano uma reacção suficientemente forte para que o galvanómetro salte é ameaçar pôr em perigo o seu bem-estar. Foi precisamente isto que Backster decidiu fazer à planta: introduzir uma folha de dracena na sua chávena de café quente; o galvanómetro não registou nada. Reflectiu um momento e ocorreu-lhe uma ameaça maior: queimar a folha a que tinha aplicado os eléctrodos. No próprio momento em que pensou nisso o gráfico descreveu uma prolongada linha ascendente. Backster não se tinha movido na direcção da planta nem do gravador. Seria possível que a dracena estivesse lendo o seu pensamento?

Saiu da sala e voltou em seguida com alguns fósforos, observando então que o gráfico registava outro traço brusco para cima, sem dúvida causado pela sua determinação em levar à prática a ameaça que tinha pensado. Dispôs-se a queimar a folha. Desta vez o gráfico assinalou uma reacção mais baixa. Quando, efectivamente, começou a fazer os movimentos de tentar queimar as folhas, não houve reacção alguma. A planta parecia capaz de saber distinguir entre uma tentativa verdadeira e outra simulada.

Backster também comprovou que quando as plantas se viam irremediavelmente ameaçadas, recorriam ao “desmaio”. Assim, a sua planta não reagia a nenhum estímulo sempre que se encontrava na presença de um fisiólogo, cujo trabalho requeria destruir plantas a fim de obter o seu extrato seco.

Para averiguar se as plantas possuiam uma certa forma de memória deu-se início a um plano segundo o qual Backster iria tentar identificar o assassino secreto de uma planta. Seis estudantes, com os olhos vendados, tiraram à sorte um papelinho dobrado de um saco, havendo num deles instruções para arrancar e destruir completamente uma das suas plantas existentes numa sala contígua. O “assassino” tinha que cometer o crime em segredo, com a outra planta por única testemunha. Conectando a planta sobrevivente com um polígrafo e fazendo com que os alunos desfilassem um a um diante dela, Backster conseguiu identificar o culpado, pois só na presença de um deles é que a planta descreveu no polígrafo uma curva frenética de movimentos; a seguir, o estudante confirmou ter sido ele o “assassino”.

Numa outra série de observações, Backster notou que parecia criar-se uma espécie de vínculo de afinidade entre uma planta e o seu tratador, qualquer que fosse a distância que os separasse. Chegou a esta apreciação mediante cronómetros e anotando todas as suas actividades durante o dia, comprovando logo que a curva descrita pelo polígrafo coincidia com as diferentes emoções vividas pela planta ao longo da jornada.

Vogel, cientista inspirado nas experiências de Backster, dispôs três folhas na cabeceira da sua cama e todas as manhãs durante um minuto, exortava amorosamente duas delas a viver, ignorando deliberadamente a outra. Passado uma semana, esta última estava murcha, enquanto que as outras mostravam-se viçosas. Um dia convidou um psicólogo a ir a sua casa; a planta da sala, que tinha um polígrafo conectado, teve uma reacção instantânea e intensa, ficando de repente como morta. Quando Vogel perguntou ao psicólogo em que é que tinha pensado, este respondeu-lhe que tinha comparado mentalmente o filolendro de Vogel com um que tinha em casa, e pensou quão inferior era o de Vogel ao seu. De uma forma evidente, a planta de Vogel mostrou-se tão cruelmente ferida “nos seus sentimentos” que se recusou a reagir durante o resto do dia; com efeito, esteve quase duas semanas sombria e mal-humorada. A partir daí Vogel não teve dúvidas de que as plantas podiam ter aversão aos pensamentos dos seres humanos.

Isto não foi apenas comprovado com seres humanos; Backster pôde demonstrar a um grupo de estudantes da Universidade de Yale que os movimentos de uma aranha na sala em que uma planta estava conectada com o seu equipamento podiam originar importantes alterações no gráfico produzido por esta como, por exemplo, imediatamente antes da aranha escapar a uma tentativa humana de limitar os seus movimentos.

“Parecia – comentava Backster – que a planta captava cada uma das decisões da aranha em fugir, causando uma reacção na folha”.

Numa outra ocasião Backster cortou-se num dedo e untou-o com iodo; a planta que estava a ser observada por meio do polígrafo reagiu imediatamente à morte, segundo parece, de algumas células do dedo.

“A faculdade de sentir – assegura Backster – não parece acabar no nível celular. Pode-se estender ao molecular, ao atómico e até ao subatómico. Concluindo, todas as classes de seres que foram consideradas, convencionalmente, inanimadas, necessitam de uma nova avaliação”.

As plantas e a música

Dorothy Retallack, organista e soprano profissional que tinha dado concertos no Beacon Club de Denver, começou a realizar uma experiência biológica de laboratório com plantas. Juntamente com a amiga formaram dois grupos diferentes de plantas, entre as quais havia filolendros, milho, rabanetes, gerânios, etc. Em seguida, frente a um dos grupos, fizeram soar segundo a segundo as notas musicais “Si” e “Ré”, tocadas a piano e gravadas numa fita magnética; aqueles sons aborrecidos e monótonos, após três semanas de experimentação, fizeram com que todas as plantas começassem a murchar, e algumas delas, inclusivé, afastaram-se da fonte do som, como se fossem desviadas por uma forte ventania. O grupo de plantas que se tinha desenvolvido em paz floresceu.

Também realizou uma experiência de oito semanas com cabaças de Verão, transmitindo para o seu interior música de duas estações de rádio de Denver: uma delas “rock”, e a outra, música clássica. As cucurbitáceas não foram de modo algum indiferentes a estes dois estilos musicais: as expostas às peças de Haydn, Beethoven, Brahms, Schubert e de outros autores europeus dos séculos XVIII e XIX, orientaram-se na direcção do aparelho de rádio, e uma delas enroscou-se amorosamente em torno do transistor. As outras cabaças desenvolveram-se de forma a evitar a música “rock”, e até tentaram trepar pelas paredes resvaladiças da sua caixa de cristal. Em princípios de 1969, a senhora Retallack organizou uma série de ensaios semelhantes com milho, cabaças, petúnias, calêndulas, etc., tendo obtido o mesmo resultado. A música “rock” fazia que, de início, algumas plantas crescessem anormalmente altas e com folhas excessivamente pequenas, ou que ficassem paralisadas; ao cabo de quinze dias, todas as calêndulas tinham morrido, enquanto que outras idênticas, às quais chegavam os compassos de música clássica, floresciam a dois metros dali. Ocorreu algo ainda mais interessante: durante a primeira semana, as plantas expostas à música “rock”consumiam muito mais água do que as expostas à música clássica, embora tirassem menor proveito, já que ao examinar as suas raízes estas estavam esquálidas e só tinham uma polegada de longitude, ao passo que as do outro grupo eram grossas, espessas e quatro vezes mais compridas. Vemos, pois, que um determinado tipo de música exerce influências benéficas no crescimento e desenvolvimento das plantas, graças à sensibilidade que estas possuem, enquanto que outros ritmos produzem efeitos negativos, impedindo o seu desenvolvimento ou provocando enfermidades e, inclusivé, a morte.

Uma vez mais corroboramos a íntima vinculação das plantas com o meio ambiente.

Os Chamanes

O Médico-Mago da Antiguidade, que acumulava uma enorme Sabedoria ao longo dos tempos e dos ciclos históricos, tem na actualidade um modesto mas não menos enigmático herdeiro, o “chamane”.

Os chamanes, os “medicine man” dos povos marginais de todo o mundo, não são supersticiosos ignorantes que pretendem conjurar forças estranhas que desconhecem ou temem; bem pelo contrário; são, no seu meio, personagens de uma reputada capacidade e inteligência, e que reúnem condições de liderança face aos seus semelhantes.

Para alguém se tornar chamane de um povo é fundamental ter uma particular disposição ou abertura para com o mundo natural, o que lhe permite comunicar activamente com a Natureza, com o Espírito das montanhas, dos vales, dos bosques, dos animais e das plantas.

Um aspecto essencial destes singelos médico-magos é, pois, a possibilidade de entrarem em comunicação com os elementais das plantas, estabelecendo com eles uma espécie de diálogo que lhes permite encontrar o tipo de substâncias vegetais que podem utilizar para tratar determinadas maleitas dos seus povos; segundo as suas próprias referências, este diálogo é levado a cabo através das técnicas do êxtase. Segundo os investigadores, há milhares de anos atrás os estados místicos alcançavam-se por vontade própria, ao passo que actualmente os chamanes perderam muito do seu poder e necessitam de utilizar plantas alucinogéneas para realizarem o seu labor; não obstante, é preciso reconhecer neles um passado de alguma forma vigente, um conhecimento intuitivo da vida secreta das plantas, e hoje a Ciência actual voltou o seu olhar para eles em busca de tratamentos mais naturais. No entanto, esta Ciência não chega a compreender que o que necessita de aplicar não é uma maior acumulação de conhecimentos e de técnicas, mas uma concepção radicalmente diferente do Universo. Entretanto, próximo de nós estão estes seres singelos que preservam da soberba e ignorância do nosso século conhecimentos fabulosos.

Peter Tompkins e Christopher Bird

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-vida-secreta-das-plantas/

A arte de sentir

» Parte 3 da série “Para ser um médium” ver a introdução | ver parte 1 | ver parte 2

Magia é a arte – a arte original –, a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência. (Alan Moore)

Muitos podem achar um tanto estranho que um roteirista de quadrinhos tenha nos dado uma das mais simples e elaboradas definições do que é, afinal, a magia. Logo ele, que criou tantas histórias fantásticas, com super-heróis e seres mitológicos, vem nos dar uma definição “sem graça” como essa? Na realidade, não é surpreendente que artistas, sobretudo escritores de fantasia, sejam os que mais têm contato com a magia. A definição de Alan Moore, longe de diminuir a magia, apenas a expande e a devolve ao seu lugar de origem: o fundamento de todas as práticas mediúnicas de outrora, desde animais desenhados em cavernas na pré-história, até os primeiros rituais elaborados pelos grandes xamãs da antiguidade.

A magia é a arte, a mãe de todas as artes, a arte de sentir o mundo, sentir a natureza e, invariavelmente, captar tais pensamentos a pairar pelo ar [1]… Os médiuns ancestrais prontamente os associaram a espíritos, mas hoje há muitos artistas que acham que sua inspiração vem do inconsciente, ou de “algum lugar por aí”… Na verdade, é claro que a inspiração artística passa pelo crivo do inconsciente, e que muitas das criações humanas podem ser explicadas pelo encadeamento de informações das mais variadas fontes dentro de nosso grandioso e complexo cérebro. Porém, se nenhuma informação nova jamais tivesse surgido na mente humana, até hoje estaríamos a fabricar machadinhas de pedra lascada, e não computadores e tablets.

Desde uma cadeira entalhada em madeira até o mais alto arranha-céu de Dubai, desde uma pictografia pré-histórica a um quadro de Picasso, desde um preceito moral escrito em algum papiro chinês antigo até a última graphic novel de Neil Gaiman, toda criação humana partiu inicialmente de alguma mente, e é exatamente por isso que os espíritos estão mais interessados em influenciar nossos pensamentos – para o bem ou para o mal – do que em provocar fenômenos inúteis, se é que são possíveis, como se “materializarem” no meio de uma assembleia geral da ONU e darem um susto em alguns políticos…

Na verdade, segundo O Livro dos Médiuns, compilado por Allan Kardec, supostamente existem e existiram alguns raros médiuns de efeitos físicos que eram capazes de fazer algo parecido com “truques de mágica”, só que de forma real, como levitar objetos pesados (incluindo a si mesmos) e até mesmo efetivamente “materializar” espíritos, emprestando fluidos eletromagnéticos de si próprios para que estes consigam formar partículas que reflitam luz (ectoplasma). Será que isso realmente existe? Eu sou agnóstico quanto a isso – não afirmo que existe nem que não existe –, principalmente pelo fato de que tais fenômenos não acrescentam muito (mesmo que existam) ao objetivo primordial do contato dos espíritos: melhorar a vizinhança.

Na dúvida, portanto, se tais fenômenos ocorrem ou não, o importante é ter em mente que toda a prática da mediunidade tem (ou deveria ter) por objetivo a elevação moral e intelectual, passo a passo, não só dos espíritos enfermos atendidos pelos médiuns, como dos próprios médiuns. Principalmente dos médiuns, se poderia até dizer, pois que são esses que vem sendo lentamente preparados para assumir a responsabilidade de conduzir a humanidade a novos estágios de moralidade, compaixão, conhecimento e arte – mas não qualquer arte: a arte de sentir, a arte de amar.

É claro que a mediunidade, como uma machadinha pré-histórica, pode ser usada para a edificação ou para a destruição da vida. Podemos usar uma machadinha para cortar tiras de couro das carcaças de animais caçados e fazermos roupas para proteger os membros da tribo do inverno gélido, assim como podemos usá-la para matar um inimigo da tribo rival… Porém, na medida em que o espírito humano avançou pelo tempo, muitos de nós passaram à perceber e a compreender o que os “seres de cima” já sabiam há muitas eras: somos tolos por trazer a guerra aos nossos irmãos de armas. Todos viemos do mesmo Deus, filhos do mesmo Cosmos: somos irmãos desde sempre (neste caso, inclusive dos animais, embora ainda estejamos um tanto distantes da era em que os direitos animais serão plenamente reconhecidos).

Esclarecido isso, passemos a uma descrição bastante resumida das manifestações mediúnicas mais comuns, agrupadas de acordo com os tipos de médiuns que as costumam perceber [2]:

Médiuns sensitivos
Por definição todo o médium é sensitivo, apesar de esse grau de sensibilidade variar bastante. Algumas pessoas sentem calafrios ou o arrepio de pelos do corpo ao adentrarem certos ambientes, assim como se sentem inexplicavelmente confortáveis e seguras em alguns locais. O mesmo pode ocorrer ao encontrarem certos tipos de pessoas, principalmente as desconhecidas, das quais têm uma “primeira impressão”. É mesmo óbvio para todos que passaram por tais experiências que estas sensações não se dão através de nenhum dos sentidos físicos já conhecidos e descritos pela biologia; mas, ainda assim, a grande maioria dessas pessoas, mesmo tendo a sensibilidade elevada, continuam sendo médiuns passivos, pois não fazem vaga ideia do que se passa com elas nesses momentos, ou pior: criam as mais variadas mistificações e superstições para explicá-los.

Na verdade todo espírito tende a sentir a presença de um espírito na mesma sintonia de pensamento. Pense em coisas “positivas”, como o desenvolvimento da educação ou num belo concerto sinfônico que lhe tocou a alma de forma peculiar, e atrairá seres afins. Pense em coisas “negativas”, como na violência das grandes cidades ou na raiva que ainda sente da sua sogra, e, da mesma forma, atrairá espíritos que pensam mais ou menos as mesmas coisas – sejam os que habitam um corpo físico, os vivos, sejam os que não os habitam mais, os “mortos”.

No desenvolvimento mediúnico, você poderá por vezes começar a “sentir a presença” de alguém do seu lado, sem de fato haver ninguém ali (nenhum corpo físico, pelo menos)… Não se assuste: este é o início do afloramento da mediunidade.

Médiuns audientes

Estes são os médiuns que recebem informações dos espíritos de forma auditiva. Claro que, embora possa lhes parecer que seja assim, não é través de ondas sonoras captadas em seu ouvido (físico) que eles ouvem, mas através de sugestão mental. Às vezes pode parecer até mesmo uma “voz interna”, como se fosse um “pensamento falante”, e noutras vezes será como ouvir alguém falando ou sussurrando ao seu lado.

Este tipo de mediunidade, quando fruto de um desequilíbrio da alma, pode facilmente conduzir um médium ignorante de suas próprias faculdades a loucura… Mas, sob a proteção de uma boa casa espiritualista, a tendência é que os espíritos sombrios se afastem, e que ele passe, pelo contrário, a se regogizar em poder ouvir constantemente aos conselhos de espíritos amorosos.

Uma variedade interessante deste tipo de médium são os médiuns falantes, que em realidade não ouvem nada e tampouco têm controle algum sobre o que estão falando. São fisicamente influenciados pelos espíritos, diretamente nas áreas cerebrais responsáveis pela fala, e atuam apenas como “ferramentas de voz”. Ironicamente, muitos dos evangélicos que “falam línguas”, e que às vezes condenam a prática mediúnica, são eles mesmos médiuns falantes.

Médiuns videntes

A visualização de espíritos, de forma análoga a audição, não ocorre através da visão (física), mas através da visão espiritual, ou da percepção de ondas de matéria fluida através de alguma parte do cérebro (talvez a glândula pineal), da mesma forma que captamos fótons com os olhos. Este tipo de fenômeno é muito comum em estados alterados de consciência, ou em sonolência – por isso muitas pessoas dizem ter visto pessoas “de relance” quando estavam quase dormindo, ou logo após acordar. Isso é particularmente comum nos casos de “morte” de entes queridos, que costumam vir se despedir das pessoas amadas.

Porém, também existem médiuns videntes ostensivos, ou seja: que veem espíritos à todo momento! Esta é uma forma de mediunidade particularmente nociva se não for bem administrada, particularmente nos casos em que ocorre desde a infância (imagino que não precise explicar o porque). No entanto, quando tais médiuns sobrevivem aos infortúnios da infância e adolescência e conseguem manter a sanidade mental intacta, se tornam médiuns muito, muito úteis, na maioria dos trabalhos das casas espiritualistas. Além disso, se conseguem se alinhar aos padrões de pensamento de espíritos amorosos, há a tendência de verem cada vez menos cenas sombrias, e cada vez mais a verdadeiros espetáculos da existência.

Recentemente falamos no blog sobre o caso de um católico “estranho”, e se tratava de um caso clássico de médium vidente ostensivo – e, no seu caso, aparentemente muito bem sucedido no caminho espiritual [3].

Médiuns pneumatógrafos

Foi assim que Kardec classificou os médiuns capazes de escrever direta ou indiretamente informações passadas pelos espíritos. É interessante notar como este tipo de mediunidade era raro na época de Kardec (cerca de 150 anos atrás), e como hoje se tornou relativamente mais comum dentre os médiuns, ao menos no Brasil.

Claro que um médium sensitivo poderá simplesmente guardar as “inspirações súbitas” e posteriormente transpô-las a um papel ou documento do Word [4], e de fato é assim que muitos grandes poetas elaboram sua poesia – não quando querem escrever, mas quando podem escrever… A psicografia é um pouco diferente, pois se dá no ato da experiência espiritual, e às vezes pode ser sugestionada durante os encontros em casas espiritualistas – de tal forma que, embora o médium não saiba exatamente sobre o que irá escrever, é quase certo que algumas páginas ao menos serão escritas. Alguns médiuns conseguem manter consciência plena enquanto as informações “passeiam de sua mente para o papel”, enquanto outros operam de forma semiconsciente ou inconsciente, de modo que as vezes nem sabem ler ou compreender plenamente o que acabaram de escrever.

A psicografia ou “escrita automática” sem dúvida pode ser “treinada” com o desenvolvimento mediúnico. Isso levanta muitas dúvidas entre os céticos acerca da origem exata desse tipo de informação – que pode ser paranormal, mas também fruto do inconsciente (animismo do próprio médium) ou até mesmo resultado de criptomnésia (quando o médium não se lembra de ter lido anteriormente alguma informação que, não obstante, agora passa para o papel como se fosse de um outro espírito). Todas essas dúvidas são válidas, e cabe ao próprio médium analisar constantemente o fruto de suas psicografias, afim de avaliar se não poderiam ser, afinal, apenas algo que estava guardado em alguma gaveta do seu próprio arquivo mental.

Muitas informações que nos chagam através de psicografias, no entanto, podem ser objetivamente verificáveis quanto a sua validade – como, por exemplo, quando descrevem algo que o médium não poderia saber de forma alguma, um evento da vida de um desconhecido, às vezes até mesmo o número da identidade de um “morto”, etc. Claro que, nem é preciso dizer: Chico Xavier nos trouxe inúmeras “provas” do tipo [5].

Na psicopictografia, temos um fenômeno bastante similar, só que voltado para a concepção de obras de arte, geralmente pinturas realizadas em extrema velocidade, a despeito da usual inabilidade do médium em si na produção artística.

» A seguir, alguns conselhos aos jovens médiuns…

***
[1] A mediunidade pode ser considerada uma filha da magia, mas de forma alguma a abrange em todo o seu espectro. Muitas vezes usamos técnicas magísticas para autoconhecimento e realização de fenômenos que independem de outros espíritos além do nosso próprio; Neste e em inúmeros outros casos, a magia vai além da mediunidade.
[2] Para um estudo minucioso de todas ou quase todas essas manifestações, os livros compilados por Kardec (mediante consulta as respostas dos espíritos através de algumas jovens médiuns) ainda são a melhor fonte de referência – sobretudo, neste caso, O Livro dos Médiuns.
[3] Eu também cito meu encontro com uma médium vidente ostensiva no conto pessoal Dançando com ciganos.
[4] Há alguns médiuns da atualidade, como Róbson Pinheiro, que afirmam por vezes psicografar diretamente no teclado do computador. Seria muito interessante vermos um estudo científico deste tipo de fenômeno, particularmente com o monitor desligado.
[5] Para saber mais, ler As vidas de Chico Xavier (Leya), do jornalista (cético) Marcel Souto Maior, que também deu origem ao filme Chico Xavier.

***

Crédito das imagens: [topo] Vice.com (Alan Moore); [ao longo] Anônimo

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

» Comprar livro impresso, PDF, ou versão para Amazon Kindle

***

» Ver todos os posts da coluna Textos para Reflexão no TdC

» Veja também nossa página no Facebook

#Mediunidade #Ceticismo #Espiritismo #Magia #AlanMoore

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-arte-de-sentir