Mapa Astral de Friedrich Nietzsche

Crítico da cultura ocidental e suas religiões e, consequentemente, da moral judaico-cristã. Nietzsche é, juntamente com Marx e Freud, um dos autores mais controversos na história da filosofia moderna, isto porque, primariamente, há certa complexidade na forma de apresentação das figuras e/ou categorias ao leitor ou estudioso, causando confusões devido principalmente aos paradoxos e desconstruções dos conceitos de realidade ou verdade como nós ainda hoje os entendemos.

Nietzsche, sem dúvida considera o Cristianismo e o Budismo como “as duas religiões da decadência”, embora ele afirme haver uma grande diferença nessas duas concepções. O budismo para Nietzsche “é cem vezes mais realista que o cristianismo” (O anticristo). Religiões que aspiram ao Nada, cujos valores dissolveram a mesquinhez histórica. Não obstante, também se auto-intitula ateu.

Para Nietzsche o homem é individualidade irredutível, à qual os limites e imposições de uma razão que tolhe a vida permanecem estranhos a ela mesma, à semelhança de máscaras de que pode e deve libertar-se. Em Nietzsche, diferentemente de Kant, o mundo não tem ordem, estrutura, forma e inteligência. Nele as coisas “dançam nos pés do acaso” e somente a arte pode transfigurar a desordem do mundo em beleza e fazer aceitável tudo aquilo que há de problemático e terrível na vida.

Nietzsche passou os últimos 11 anos da sua vida sob observação psiquiátrica, inicialmente num manicômio em Jena, depois em casa de sua mãe em Naumburg e finalmente na casa chamada Villa Silberblick em Weimar, onde, após a morte de sua mãe, foi cuidado por sua irmã. Como diria o Datena, “Falta de Deus no coração”.

O Mapa de Nietzche possui

Sol em Libra; Lua, Ascendente e Caput Draconis em Sagitário (por “enorme coincidência” justamente as energias mais voltadas para a filosofia e academia). Uma pessoa com facilidade para se comunicar e entender os outros e cujo mapa é voltado para Filosofia. A inclinação para observar o mundo ao redor e tirar conclusões é extremamente marcante no Mapa de Nietzche (Stellium de Lua, Ascendente e Caput Draconis com menos de 2 graus entre eles). Some a isso Marte e Mercúrio em Virgem-Libra (Rainha de Espadas, a energia mais fria e cínica do zodíaco, manifestada nele na forma de pensar e de lutar/gastar energia) e Saturno em Capricórnio-Aquário (Cavaleiro de Espadas, a pessoa que consegue enxergar as regras do mundo ao redor e quebrá-las influenciano o planeta ranzinza).

Uma Aspectação importante a ser destacada neste Mapa é a Oposição de Urano (seu Planeta mais forte com nada menos do que 9 Aspectações) em Peixe-Áries (Rainha de Bastões, que indica energia relacionada com conselheiros filosóficos) com Marte (em Virgem-Libra, a energia cínica que falei acima).

Resumindo o Mapa: o tio Bigodudo era mesmo um filósofo osso duro de roer mas, no final da vida seu ceticismo e ateísmo exagerados entraram em conflito com seu Júpiter em Peixes (facilidade para entrar em contato com o Astral). Os biografos de sua vida dizem que ele se tornou esquizofrênico por conta da Sífilis, embora esta avaliação seja controversa… é possível que um ateu de pedra como ele tenha simplesmente ficado louco com as coisas que via e ouvia como médium, já que não acreditava em nada espiritual…

#Astrologia #Biografias

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24/06 – São João Batista

Hoje, 24 de Junho, é dia de São João Batista.

Descendente de Abraão, patriarca hebreu que deu início à historia do povo de Israel, e primo da Virgem Maria, São João Batista teve como pai o sacerdote Zacarias, para quem o Arcanjo Gabriel apareceu anunciando-lhe que sua esposa Isabel, já idosa, teria um filho, e que o menino seria precursor de Jesus Cristo. Segundo Lucas, isso aconteceu no ano 5 a.C., no território onde habitava a tribo de Judá.

João preparou-se para a missão que lhe havia sido confiada passando sua juventude no deserto, e lá se dedicando ao jejum e às orações. Até que por volta do ano 25 ele finalmente iniciou sua vida de pregador às margens do rio Jordão, proclamando a chegada de Jesus como o Cordeiro de Deus que daria o batismo à humanidade. João também pregou na corte de Herodes Antipas, tetrarca da Galiléia, condenando a vida escandalosa do homem que tomara para mulher a esposa de seu irmão, chamada Herodíades. Por isso foi preso e encarcerado, só não sendo condenado à morte porque o governador conhecia a popularidade do pregador e temia a reação do povo diante dessa medida extrema. Porém, durante as comemorações pelo aniversário de Herodes, a filha de Herodíades, chamada Salomé, dançou entre os convidados, agradando tanto ao aniversariante que este prometeu atender a qualquer pedido feito pela moça. E esta, instigada pela mãe, exigiu a cabeça de João Batista, que lhe foi trazida numa bandeja (ilustração abaixo).

O historiador judeu Flávio Josefo (37-95), autor de obras como A Guerra Judaica e Antiguidades Judaicas, entre outras, explica nesta última, que narra a história dos judeus desde a criação do mundo até a guerra com Roma, que a morte de João Batista aconteceu porque Herodes temia sua grande popularidade, acrescentando que o povo israelita passou a considerar a destruição do exército do governador pelos nababeus, em 36, como uma manifestação da cólera divina diante do sacrifício do pregador.

São João é chamado Batista pela importância que dava ao batismo, um ritual de purificação corporal onde a imersão na água simbolizava a mudança interior de vida. E de Precursor porque iniciou sua pregação antes de Jesus, mas anunciando sua chegada. Sua festa é comemorada em 24 de junho, data considerada pela Igreja Católica como sendo a do seu nascimento.

Sabe-se que foi a partir das sílabas iniciais dos versos da primeira estrofe do hino litúrgico em honra de São João Baptista. que se formaram os nomes das notas musicais. Veja-se como:

Ut queant laxis

Ressonare fibris

Mira gestorum

Famuli tuorum,

Solve polluti

Labii reatum,

Sancte Johannes.

O ut foi depois substituído por dó. O si é constituído pelas letras iniciais latinas de Sancte Johanes (São João: o j lia-se como i).

Herodes, o Grande, governador da Galiléia, morreu em 4 a.C. e era vivo na época do nascimento de Jesus e de João Baptista, tal como informam os registros. Quando Marco António morreu, Herodes colocou-se ao lado de Otaviano, que decretou o recenseamento de todo o império romano no 3º mês do ano 8 a.C., visando melhorar o processo de arrecadação de impostos e tributos. Os judeus sempre ofereceram resistência a este tipo de contagem do povo, e por este motivo, no reino de Herodes, ela foi protelada até ao 7 a.C..

Jesus nasceu no ano do recenseamento. José foi a Belém para recensear a sua família, e foi em Belém que Jesus nasceu. Em Belém, o registro da ocorrência do recenseamento do povo ocorre no oitavo mês do ano 31, do reinado de Herodes, tendo este morrido 2 anos depois, em 4 a.C.. Isto coloca o nascimento de Jesus em agosto de 7 a.C.. De acordo com o “Evangelho Segundo São Lucas”, Isabel, mãe de João Batista, estaria com seis meses de gestação quando foi visitada por Maria, e esta já sabia estar grávida, o que carecia de pelo menos um mês para se tornar conhecido por ela. Considerando estes dados, pode-se dizer que os meninos teriam cinco meses de diferença, o que remeteria o nascimento de João Batista para o segundo mês do mesmo ano, ou seja, fevereiro de 7 a.C..

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[parte 5/7] Alquimia, Individuação e Ourobóros: Símbolos e Imagens Arquetípicas

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Vivo minha vida em círculos cada vez maiores que se estendem sobre as coisas. Talvez não possa acabar o último, mas quero tentar.”

– Reiner Rilke

Símbolo

Esta é a quinta parte da série de sete artigos “Alquimia, Individuação e Ourobóros”, que é melhor compreendida se lida na ordem. Caso queira acompanhar desde o começo, leia as parte 1, 2, 3 e 4

A palavra símbolo remete ao do grego symbolon, derivado do verbo sym-ballein, que significa “lançar com, pôr junto com juntar”. A etimologia da palavra remete que símbolo é, a priori, uma dualidade, que se forma uma. A própria definição da palavra já remete a integração dos opostos e pode ser associada com a imagem do Ourobóros.

Os conceitos simbólicos foram desenvolvidos em diversas religiões como reflexo de diferentes concepções do mundo e de novas linguagens.

“No seio da multiplicidade de crenças desenvolvidas pelo ser humano, a primeira distinção efetuada pelo homem foi entre o Bem e o Mal. Nas culturas pagãs, este conceito de dualidade moral poderia ser identificado nos símbolos positivos com o lado masculino, o Sol ou o céu, e nos símbolos negativos como o preto, o lado feminino, a Lua, a água ou o inferno. Da mesma forma, nas religiões, como por exemplo o cristianismo, o poder do Bem encontra-se simbolizado em Deus e em Cristo, e a força do Mal em Satanás. No que respeita a mitologia, tal como acontece no hinduísmo, a luta travada entre as forças superiores e as força inferiores é representada através do conflito entre a ave solar Garuda e as serpentes Nagas, hindus e, na tradição ocidental, entre a águia e o dragão. Na maioria das culturas a verdadeira perfeição apenas poderá ser alcançada através da conciliação e da união das forças opostas do universo. Nesta sequência, o símbolo taoista de Yin-Yang e, na alquimia, a figura do Andrógino representam ambos estes ideais, à semelhança do que acontece na psicologia.” (CHEVALIER, 2008, 10)

Jung (1964) introduz a noção de símbolo como um conjunto de significados que transcendem sua própria imagem concreta. Um símbolo remete a algo maior que o próprio símbolo; um conjunto de ideias orientadas através de um sutil emaranhado de padrões. Como possível gênesis de símbolos, Jung compreende que os sonhos revelam através de suas férteis imagens arquetípicas, grande parte do mistério do símbolo, e que, ao sonhar, o homem bebe da fonte do desconhecido e inicia sua jornada pelo conhecimento.

Compreendendo os sonhos como manifestados também por conteúdos inconscientes, logo se percebe que a busca de conhecimento através dos sonhos, nada mais é do que buscar conhecer a si mesmo. Através de sua consciência, o homem aprendeu a viver através da parcial previsibilidade das coisas, mas seu inconsciente demonstra ao menos metade de um grande escopo de possibilidades antes fora do seu campo de compreensão.

Jung rompe com a escola psicanalítica quando define que o valor do conceito de “libido não está em sua definição sexual, mas no seu ponto de vista energético” (JUNG, 1989, p. 127-8), ou seja, define como energia psíquica todas as pulsões provenientes da psique e do inconsciente, estabelecendo que a libido freudiana é só mais um dos canais de expressão desta energia. O que difere empiricamente na interpretação do fenômeno é que na teoria freudiana parte-se da causa para o efeito, engessando a percepção interpretativa num molde teórico, a teoria da sexualidade. Ao partir dos efeitos para depois compreender as causas, Jung consegue analisar a psique de forma dinâmica, e superar a teoria sexual. A energia psíquica é a fonte de toda a movimentação humana em busca de crescimento.

Ourobóros

Mas o que é um Ourobóros? Quem nunca ouviu a expressão ‘morder a própria cauda’? É normalmente utilizada para descrever o momento em que alguém, inconsciente de si, repete ações sem atingir os objetivos estabelecidos, e por isso, exige um olhar para si, reavaliando seus métodos de ação.

O Ourobóros é a resolução do conflito dialético atingido na busca da individuação à unidade da separação, ou solve et coagula (dissolve e solidifica), representando metaforicamente todo o processo alquímico descrito no capítulo anterior. É uma imagem alquímica presente em diversas esferas sociais e religiosas, na qual uma cobra, ou dragão, morde a sua própria cauda num movimento circular. A imagem revela o paradoxo do infinito, onde tudo se inicia em seu próprio fim, e acaba em seu próprio começo.

Se reduzirmos o símbolo em imagens ainda mais primordiais, como o círculo, o dragão e a serpente começamos a desvelar o significado deste símbolo. Seguem transcrições do “Dicionário de Símbolos”, de Nadia Julien:

Círculo

– Representa “o desenvolvimento contínuo da criação”. E mais, ele representa o ciclo do tempo, o movimento perpétuo de tudo que se move, os planetas em torno do sol (círculo do zodíaco) que se projeta nos tempos circulares, a arena, o circo, a dança circular.

– Símbolo da perfeição para o Islamismo, da divindade (disco solar) e da luz no Egito, expressão do que não tem começo nem fim, simbolizando a eternidade representada pela serpente que morde a cauda, cuja divisa é um, o todo, a substância universal rarefeita até a imperceptibilidade para constituir a essência íntima das coisas, o fundamento imaterial de toda a materialidade, ou a prima matéria dos alquimistas.

– O círculo é também o zero de nossa numeração e representa as potencialidades, o embrião. Comportando um ponto central, o círculo é a representação do ser manifestado, evocando o conceito de ordem, de cosmo e de harmonia. Nos sonhos o círculo é um símbolo do Eu, e indica o fim do processo de individuação, da evolução da personalidade para a sua unidade.

Dragão

– Para os alquimistas, as atitudes do dragão simbolizam as etapas da grande obra.

– Imagem arcaica das energias mais primitivas, o dragão representa o inconsciente durante tanto tempo enquanto não possuirmos acesso a ele, onde as paixões os complexos inconscientes, os desejos ocultos conduzem a uma vida arcaica. Isto que se explica a fundo com os poderes do psiquismo, que luta com o dragão, pode recuperar uma parte das energias inconscientes que pode utilizar para dominar sua vida.

– A luta com o dragão é um símbolo do amadurecimento… então, ele terá ganho o tesouro que os dragões guardam em quase todas as mitologias. Libertará sua alma, esta virgem que o dragão mantinha prisioneira.

Serpente

– A serpente representa o conjunto dos ciclos da manifestação universal. No processo de criação, rodeando o ovo cósmico (o caos), simboliza a fecundação pela incubação do espírito vital divino, semente de todas as coisas, assim liberadas dos elos da matéria inerte pelo poder divino.

– Símbolo da imortalidade, enrolada em torno da árvore de maçãs de ouro do jardim das Hespérides; rodeia o Ônfalo, ou a montanha cósmica (eixos do mundo), simbolizando o conjunto de ciclos da manifestação universal, o Samsara, a cadeia do ser no ciclo indefinido de renascimentos, o percurso indefinido e renovado das existências.

– A serpente do paraíso é o símbolo do conhecimento perigoso (descoberta da sexualidade). Daí transformar-se num símbolo fálico e sexual (a serpente tentadora, portadora de forças perigosas e maléficas cuja a arma é a sedução empregada por Eva, a Anima).

– Em suas relações com o inconsciente coletivo, o ofídio representa num nível inferior a agressividade, e num nível superior o poder e a sabedoria. É a representação do inconsciente, onde se acumulam todos os fatores rejeitados, recalcados, desconhecidos ou ignorados e as possibilidades desmedidas em nós.

– São estas forças muito primitivas, aglomeradas em constelação, que colocam em jogo a serpente no sonho. É a manifestação de uma energia psíquica dormente pronta a se tornar concreta, em positivo ou negativo, em razão da ambivalência do simbolismo deste animal de sangue frio (pavor, angústia), como do melhor (propriedades curativas e salvadoras).

Segundo Erik Hournung (1999), a primeira aparição conhecida do símbolo Ourobóros está no Netherworld, um texto funerário egípcio encontrado na tumba de Tutancâmon, no século 14 AC. Referindo-se a união do deus Ra e Osíris no submundo. Em uma ilustração deste texto, duas serpentes, mordendo as caudas. Ambas as serpentes são manifestações da divindade integrada que representa o início e o fim do tempo.

O texto alquímico “Chrysopoeia de Cleópatra”, datado do século está grafado com o os dizeres ‘hen to pan’, em tradução livre: “o um é o todo” além de uma imagem de uma cobra, metade branca, metade preta, mordendo a própria cauda. Novamente a figura circular ofídia como uma dinâmica polarizada, cíclica que se integra tornando-se Um. O Ourobóros de Chrysopoeia poderia ser interpretado como o equivalente ocidental do símbolo taoista Yin-Yang.

“El signo del Yin-Yang, según la filosofía oriental, simboliza un concepto fundamentado en la dualidad de todo lo existente en el universo. Describe las dos fuerzas fundamentales, aparentemente opuestas y complementarias que se encuentran en todas las cosas” (BADANO, 2010).

Outra alegoria religiosa que podemos associar com a simbologia da serpente e seus movimentos circulares estão na cultura Hindu, através da serpente Kundalini, que em sânscrito significa “serpente enrolada”. Nesta cultura yogue, o corpo humano é divido em sete centros básicos de manifestação de energia, ou Chakras, e Kundalini, a origem desta manifestação energética, estaria ‘adormecida’ no primeiro centro, abaixo da coluna vertebral.

Conforme o indivíduo se purifica e pratica as técnicas que envolvem controle da respiração, postura e meditação, ele ‘desperta’ a ‘serpente’ que sobe pelos centros de energia, fazendo com que o praticante atinja a iluminação, ou individuação. A figura da esquerda representa este processo enquanto a figura da direita ilustra os centros de energia:

Esse mesmo simbolismo pode ser encontrado no Caduceu de Hermes, símbolo da medicina, visto no capítulo anterior. Curioso a correspondência entre as cores dos sete centros de energia com as sete etapas alquímicas que vimos aqui.

Limitemos nossa análise a simbologia religiosa Alquímica, apesar de todos os sincretismo encontrados em diversas culturas religiosas acerca da imagem do Ourobóros. Quem sabe os posts futuros não possam tratar desses assuntos.

“O Ourobóros é um símbolo dinâmico para a integração e assimilação de opostos, i.e., da sombra… Simboliza o Um, que resulta no conflito do opostos, e portanto constitui o segredo da prima matéria…” (JUNG, 2008, 365)

Esta é uma imagem arquetípica bastante rica, contextualizado sob o paradigma de integração, ou conjunção, de aspectos opostos. Fica evidente que a figura representa não só a união dos opostos complementares da psique como todo o potencial do processo alquímico.

“Os alquimistas, de sua própria maneira sabiam mais sobre a natureza do processo de individuação que nós modernos, expressavam este paradoxo através do símbolo do Ourobóros, a cobra que morde a própria cauda. Do Ourobóros é dito ter o significado do infinito ou completude. Na antiga imagem do Ourobóros está o pensamento de se devorar e se transformar em um processo cíclico, pois era claro para os alquimistas mais astutos que a arte da matéria prima era o próprio homem. O Ourobóros é um símbolo dramático para a integração e assimilação dos opostos, ou seja, da sombra. Este processo de “feed-back” é ao mesmo tempo um símbolo da imortalidade, uma vez que é dito dos Ourobóros que ele mata a si mesmo e se traz à vida, fertiliza a si mesmo e dá a luz a si mesmo. Ele simboliza o Um, que procede do choque de opostos, e, portanto, constitui o segredo da prima matéria que […] decorre, sem dúvida, do inconsciente do homem.”(JUNG, 2008, 513)

No livro “A tábua de esmeralda: Alquimia para transformação pessoal”, Dennis Hauck explícita sobre o símbolo ourobórico e o associa com etapas alquímicas:

“Descrições mais alegóricas abundam na literatura medieval e representações, entre as quais estão aqueles que compreendem tanto aspectos “esotéricos”, quanto “exotéricos” da Alquimia. Tal símbolo, cujas origens podem ser traçadas de volta para o Egito Antigo é a dos Ourobóros, a serpente mordendo a cauda, simbolizando a imortalidade, e os ciclos eternos de mudança do mundo. Isso também pode ter significado para refletir a integração e reversibilidade de certas transformações alquímicas como a “destilação” e “condensação”. (HAUCK, 1999, 156)

Ou ainda nas palavras de Von Franz, no livro Introdução a Alquimia:

“O que tem luz se cria na escuridão da luz. Mas quando alcança sua perfeição, recupera-se de suas enfermidades e debilidades e então aparecerá esta grande corrente da cabeça e da cauda. […] É uma luz nova que nasce na escuridão, e então se vão todos os sintomas neuróticos e a enfermidade e a debilidade […]. Aqui é mister recordar ao Ouroboros, que come a cauda, onde os opostos são um: a cabeça está em um extremo e a cauda no outro. São um, mas têm um aspecto oposto e quando a cabeça e a cauda, os opostos, encontram-se, nasce uma corrente, que é ao que os alquimistas se referem […] como uma manifestação do Si mesmo. Tal é o resultado da coniunctio neste caso. Em muitos outros o descreve como a pedra filosofal, mas, como dizem também muitos textos, a água da vida e a pedra são uma mesma coisa” (VON FRANZ, 1985, 134).

A partir deste levantamento bibliográfico e imagético da simbologia do Ourobóros, é possível perceber correspondências encontradas entre a imagem e o processo de individuação, porém, tais associações serão melhor elaboradas no capítulo seguinte, assim como os paralelos dos temas individuação e Ourobóros com os processos alquímicos.

Referências Bibliográficas:

BADANO, Federico. Signo del Yin-Yang. Rev. argent. Radiol., 2010, vol.74, no.4, p.403-405. ISSN 1852-9992

CHEVALIER, Jean e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro. Ed. José Olympo. 2008

HAUCK, Dennis Willian. The Emerald Tablet: Alchemy for Personal Transformation. Arkana. Ed.Pengun Group. 1999.

Hornung, Erik. Conceptions of God in Egypt: The One and the Many. Cornell University Press, 1982.

JULIEN, Nadia. Dicionário dos Símbolos. São Paulo. Ed. Rideel. 1989

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião Oriental. Petrópolis: Vozes. 1989.

JUNG, Carl Gustav. Mysterium Coniunctionis. Obras Completas. Vol. XIV/I. Petrópolis. Ed. Vozes. 2008.

JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. São Paulo. Ed. Nova Fronteira. 9 edição. 1964.

VON FRANZ, Marie Louise. A Alquimia: Introdução ao Simbolismo e a Psicologia. São Paulo. Ed. Cultrix. 1993.

Imagens:

Primeira gravura do “Uraltes chymisches Werck” de Abraham Eleazar

Cosmic, arte de Geometria Sagrada de Daniel Martin Diaz

Exemplo de um Dragão Ourobóros

Diagrama em círculos dos planetas alquímicos

O Dragão Smaug protegendo seu tesouro na gravura “There He Lay” de Justin Gerard

“De Zondeval” de Cornelis van Harleen

Ourobóros de Chrysopoeia comparado ao símbolo oriental do Yin e Yang

Ilustração da subida de Kundalini e a referência do trajeto pelo “Chakras”

Gravura de “Uma Coleção de Emblemas Antigos e Modernos” de George Whiters (1635)

Gravura encontrada no Castelo de Ptuj, Slovênia (Séc XII)

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano e Escritor. 

#Alquimia

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Tragédia e Fortuna

Por Livio Nakano e Igor Teo

Existe um viés permanente de entendimento ao se imaginar que a realidade do filósofo ou das ideias estudadas equivaleria à sua própria, cidadão do século XX ou XXI. Na verdade, quando lemos um autor medieval, persa, romano ou helenístico, a ideia de historicidade não é apenas útil – é indispensável! Se não, caímos em lugares comuns, confundimos alhos com bugalhos e perdemos o fio da meada que estaríamos procurando encontrar. Foi tendo isto em mente que nós iniciamos uma interessante conversa que rendeu algumas reflexões.

Há uma linha de estudos acadêmicos conhecida como história da psicologia. Ao contrário do que o nome possa sugerir, ela não trata apenas do estudo da história da psicologia em si (como, por exemplo, em qual ano Freud escreveu seu último texto ou quando se abriu um cérebro pela primeira vez). Estudar história da psicologia é, sobretudo, estudar a história das ideias psicológicas, como estas surgiram, sobreviveram e cambiaram com o passar do tempo. Ideias psicológicas são, por sua vez, todas as concepções que o homem cria sobre si próprio, isto é, ideias que o homem construiu ao longo da história sobre emoção, razão, alma, e todas estas demais questões pertinentes que hoje são temas da recente psicologia científica. Pensar em termos da história da psicologia é entender a história e as motivações de nosso pensamento. Entender que ideias diferentes têm origens diferentes e razões diferentes, e essas diferenças refletem, sobretudo, o contexto socio-histórico das mesmas.

 Ao pensarmos nos rumos da história, o seu desenrolar óbvio e ao mesmo tempo incerto,  questionamentos nos podem vir à mente. Até que ponto somos produtos de um passado se projetando ao futuro? Até que ponto somos livres para reinventar o porvir? Que peso damos a própria noção de Livre-Arbítrio enquanto valor necessário e capaz de libertar qualquer mortal das tramas sórdidas do destino ou de criar crescimento e evolução a partir de dificuldades, dor e desgraças, ignorando até rumos mais fortes como circunstâncias ambientais e geográficas, ciclos celestes e até a providência divina?

 Na Grécia Antiga, por exemplo, salvo raras exceções, acreditava-se que o destino dos homens pertencia aos deuses e não cabia aos mortais o poder de mudá-lo A história de Édipo é um exemplo de que por mais que se tente fugir do seu destino, você ainda estará o executando. E mesmo os primeiros filósofos cristãos não eram partidários do livre-arbítrio. Agostinho de Hipona, uma das figuras mais importantes no desenvolvimento do cristianismo no Ocidente, já falava em predestinação divina muito antes de Calvino e da Reforma Protestante. No mundo moderno, por sua vez, é comum a crença de que somos capazes de tudo e só não obtemos por mera e talvez momentânea falha nossa. Estão aí os livros de autoajuda para todo mundo que quer abrir uma empresa e ser o próximo Eike Batista.

 Para quem se ergue é fácil compor todas as dificuldades da vida em uma sequência narrativa inevitável. Assim como para quem desaba.  Até onde nosso presente foi só fruto de nossas decisões e acordos, até que ponto foi fruto de um destino, e até que ponto, isto foi ou seria negociável? Isto lembra muito ao excelente filme “De Volta para o Futuro”, onde todo o futuro do protagonista dependia de um simples baile de formatura de ginásio nas mais variadas e diferentes direções – o presente original, o futuro alterado do primeiro filme, do segundo, e etc. E se tais momentos cruciais existem, seriam a todo o momento e a toda hora, e talvez, tão lábeis assim, como no filme? Afinal, para cada baile de formatura, existem centenas de tardes e noites que passamos no sofá de nossa casa (e talvez, nosso “livre arbítrio”, muitas vezes, se limite a escolher o passivo momento da inércia, em detrimento de uma trabalhosa e incerta oportunidade, que pode tanto oferecer tragédia como fortuna).

Indo na contracorrente de uma ciência determinista, que procura a medição e o controle absoluto de variáveis para determinar exatamente os possíveis resultados, Jean-Paul Sartre vai construir uma filosofia da liberdade. O filósofo não vai negar as determinações que condicionam uma realidade, mas ao mesmo tempo vai defender veemente a liberdade pessoal, ainda que condicionada aos determinantes. Dizia ele que a todo o momento nós estamos fazendo escolhas, e dizer que as determinações nos coagem a optar por algo, ignorando o nosso próprio poder de decisão sobre as mesmas, é o tipo de atitude que ele vai chamar de má-fé. A frase sintetizadora de sua filosofia é “o importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós“. Para Sartre, não posso evitar que alguém escolha me dar um tapa, mas eu posso escolher revidar ou me abster. Mas foi essa uma escolha verdadeira ou ela existiu apenas por causa de uma pré-disposição que eu já tinha em mim, produto de minha própria história pessoal, para revidar ou abster? Pois e se realmente não houver liberdade, dizer que alguém é responsável por seu sofrimento não seria culpar a vitima?

 Sartre resume bem o dilema: um mesmo fato, dividido em pessoas diferentes, pode resultar em traumas de infância, em perversões sexuais, em obras artísticas plásticas ou musicais, em anos e anos de análise ou em religiosidade e transcendência. Só que talvez não dependa unicamente de uma crucial decisão, mas sim, da estrutura e das ferramentas que o mesmo possuiria.

 Um limite da ciência, é que ela não tem como avaliar uma hipótese onde se observe múltiplas variáveis oscilando durante o período de estudo. Outra é que deve haver um limite para o período de observação. Mas uma coisa possível é reconhecer que pessoas são e serão diferentes. Há pessoas que toleram o treinamento do BOPE e outras que trincam e nunca mais se levantam na primeira decepção romântica. Não é todo o mundo que nasceu para ser caveira. E aquela criatura que carrega eternamente uma mágoa do bullying de infância pode não ser necessariamente apenas um “bunda mole”.

 Este tipo de questionamento pode estar presente na paternidade ou maternidade. Quando nossos filhos nascem, podemos querer que sejam doutores, meritíssimo e excelências, mas não dá para saber se eles serão revolucionários ou conservadores, homossexuais ou heterossexuais, hereges ou fanáticos, mesmo com todo nosso esforço, exemplo e educação doméstica. Ou seja, nossos amados filhos terão um destino próprio a cumprir, que podemos e iremos ajudar, mas jamais determinar. Que podemos oferecer valores, limites, disciplina, mas não temos como interferir na sua soberana escolha de exercício de sua afetividade (seja em gênero, classe social, raça, religião).

 E pensar seletivamente, em critérios de exclusão, pode ser legal em vestibular, em concursos, em atletas olímpicos, especialmente se você é um dos ungidos, um dos vencedores – mas não quando procuramos inclusão e abraçar ao todo, à humanidade em si, a valores como fraternidade, e quando queremos dividir tudo o que conquistamos com pessoas que “não se encaixariam” em extremos de meritocracia, mas que você tanto ama.

#Reflexão #história #Filosofia #liberdade #reflexões

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O Não-Deus

Pergunta: Com Gautama Buda a religião deu um salto. Deus tornou-se sem sentido e somente a meditação era importante. Agora, vinte e cinco séculos após Buda, novamente a religião está dando o salto em sua presença e tornando-se religiosidade. Por favor, fale sobre este fenômeno.

O crédito de trazer um salto na religião regride vinte e cinco séculos antes de Gautama Buda para Adinatha, que foi quem pela primeira vez, pregou religião sem Deus. Isso foi uma tremenda revolução porque em nenhum lugar do mundo nunca havia sido concebido que a religião pudesse existir sem Deus. Deus era uma parte essencial – o centro – de todas as religiões: Cristianismo, Judaísmo, Maometismo. Mas para fazer de Deus o centro da religião torna o homem apenas uma periferia. Conceber Deus como criador do mundo torna o homem apenas um boneco. Eis porque em Hebreu, que é a língua do Judaísmo, o homem é chamado de Adão. “Adão” significa lama. Em Árabe o homem é chamado de “admi”; que vem da palavra Adão, novamente significa lama. Em inglês, que se tornou a língua do cristianismo, a palavra humano vem de “humus”, que significa lama. Se Deus é o criador, naturalmente, ele tem que criar a partir de alguma coisa. Ele teve que fazer o homem como uma estátua, assim, primeiro ele fez o homem da lama e depois soprou a vida nele. Mas se foi assim o homem perde toda sua dignidade e se Deus é o criador do homem e de tudo mais, a idéia toda é cômica porque o que ele esteve fazendo por toda a eternidade antes de criar o homem e o universo? De acordo com o Cristianismo, Deus criou o homem apenas quatro mil e quatro anos antes de Jesus Cristo. Assim, o que ele esteve fazendo por toda a eternidade? Isso parece cômico. Não pode haver nenhuma causa, porque para ter uma causa pela qual Deus tivesse que criar a existência significa que existem poderes acima de Deus, existem causas que podem fazê-lo criar. Ou existe a possibilidade de que subitamente brotou um desejo nele. Isso também não soa bem filosoficamente, porque por toda a eternidade ele sempre foi sem desejos. E ser sem desejos é tão glorioso que é impossível conceber que de uma experiência de eterna bem-aventurança um desejo de criar o mundo brote nele. Desejo é desejo, seja para querer fazer uma casa ou tornar-se primeiro ministro ou criar o mundo. E Deus não pode ser concebido como tendo desejos. Assim a única coisa que resta é que ele é cômico, excêntrico. Então não há necessidade de causa e nenhuma necessidade de desejo – apenas um capricho. Mas, se toda essa existência vem apenas de um capricho ela perde todo sentido, todo significado. E amanhã outro capricho pode surgir nele para destruir, para dissolver todo o universo. Assim somos simplesmente bonecos nas mãos de um Deus ditatorial que tem todos os poderes, mas que não tem uma mente sã, que é caprichoso.

Para conceber isso cinco mil anos atrás, Adinatha deve ter sido um profundo meditador, contemplativo e ele deve ter chegado à conclusão que com Deus, não há sentido no mundo. Se quisermos que o mundo tenha sentido então Deus tem que ser eliminado. Ele deve ter sido um homem de tremenda coragem. As pessoas ainda estão adorando Deus nas igrejas, nas sinagogas, nos templos; mesmo assim este homem Adinatha cinco mil anos atrás chegou a uma conclusão científica precisa de que não existe nada superior ao homem e qualquer evolução que venha a acontecer será no próprio homem e em sua consciência.

Este foi o primeiro salto – Deus foi eliminado. Adinatha é o primeiro mestre do Jainísmo. O crédito não vai para Buda porque Buda vem vinte e cinco séculos depois de Adinatha. Mas outro crédito vai para Buda. Adinatha eliminou Deus, mas não conseguiu pôr a meditação em seu lugar. Pelo contrário, ele criou asceticismo, austeridades, torturando o corpo, jejuando, despindo-se, comendo apenas uma vez por dia, não bebendo à noite, comendo apenas certos alimentos. Ele chegou a uma bela conclusão filosófica, mas parece que a conclusão era somente filosófica, não era meditativa. Quando você depõe Deus você não pode ter nenhum ritual, você não pode ter adoração, você não pode ter oração, algo tem que ser substituído. Ele substituiu por austeridades, porque o homem tornou-se o centro de sua religião e o homem tem que se purificar. Pureza em seu conceito era de que o homem tinha que se separar do mundo, tinha que se separar de seu próprio corpo. Isso distorceu a coisa toda. Ele chegou a uma conclusão muito significativa, mas isso permaneceu apenas um conceito filosófico.

Adinatha depôs Deus mas deixou um vácuo e Buda o preencheu com a meditação. Adinatha criou uma religião sem Deus; Buda criou uma religião meditativa. Meditação é a contribuição de Buda. A questão não é torturar o corpo; a questão é tornar-se mais silencioso, tornar-se mais relaxado, tornar-se mais pacífico. É uma jornada interior até alcançar nosso próprio centro da consciência e o centro de nossa própria consciência é o centro de todo o universo.

Vinte e cinco séculos se passaram novamente. Assim como o conceito revolucionário de Adinatha de uma religião sem Deus perdeu-se no deserto de austeridades e auto-torturas, a idéia de meditação de Buda – algo interior, que ninguém mais pode ver; só você sabe onde você está, só você sabe se você está progredindo ou não – perdeu-se noutro deserto e esse foi no da religião organizada. A religião diz que não pode confiar em simples indivíduos, estejam eles meditando ou não. Eles precisam de comunidades, mestres, monastérios, onde eles possam viver juntos. Aqueles que se encontram num nível mais elevado de consciência podem observar os outros e ajudá-los. Tornou-se essencial que a religião não deve ser deixada nas mãos de indivíduos, elas deveriam ser organizadas e deveriam estar nas mãos daqueles que atingiram o ponto mais elevado da meditação. No começo era bom; quando Buda estava vivo, muitas pessoas atingiram a auto-realização, a iluminação. Mas quando Buda morreu e estas pessoas também morreram, a própria organização que deveria ajudar as pessoas a medita, caiu nas mãos dos sacerdotes e em lugar de ajudar você a meditar eles começaram a criar rituais ao redor da imagem de Buda. Buda tornou-se outro Deus. Adinatha depôs Deus, Buda nunca aceitou a existência de Deus, mas esses sacerdotes não podem existir sem Deus. Assim pode não haver um Deus que seja um criador, mas Buda alcançou a divindade. Para os outros a única coisa é adorar o Buda, ter fé no Buda, seguir os princípios do Buda, viver a vida de acordo com sua doutrina; e Buda se perdeu na organização, na imitação. Mas todos eles esqueceram o básico, que era a meditação.

Todo meu esforço é criar uma religião sem religião. Temos visto o que aconteceu com as religiões que tinham Deus como centro. Temos visto o que aconteceu com o conceito revolucionário de Adinatha, religião sem Deus. Temos visto o que aconteceu com Buda – religião organizada sem Deus. Agora meus esforços são – assim como eles dissolveram Deus – dissolvam também a religião. Deixem apenas a meditação, então ela não poderá ser esquecida de maneira nenhuma. Não há nada que possa substituí-la. Não há nenhum Deus e não há nenhuma religião.

Por religião quero dizer uma doutrina organizada, credo, ritual, sacerdócio. E pela primeira vez, quero que a religião seja absolutamente individual, pois toda a religião organizada, seja com Deus ou sem Deus, tem iludido a humanidade. E a única causa tem sido organização, porque a organização tem seus próprios meios que vão de encontro à meditação. A organização é realmente um fenômeno político, não é religioso. É outro caminho para o poder e de desejo pelo poder. Agora todo padre cristão espera algum dia tornar-se ao menos um bispo, depois tornar-se cardeal, depois tornar-se papa. Essa é a nova hierarquia, uma nova burocracia e porque é espiritual ninguém objeta. Você pode ser um bispo, você pode ser um papa, você pode ser qualquer coisa. Isso não é objetável porque você não vai obstruir a vida de ninguém. É apenas uma idéia abstrata. Meu esforço é para destruir completamente o sacerdócio. Isso permaneceu com Deus, isso permaneceu com a religião sem Deus, o único jeito é que deveríamos depor Deus e a religião juntos para que não haja possibilidade de nenhum sacerdócio.

O homem é absolutamente livre, totalmente responsável por seu próprio crescimento. Meu sentimento é que quanto mais o homem for responsável pelo seu próprio crescimento, mais difícil é para ele adiar o crescimento por mais tempo. Pois isso quer dizer que se você for miserável, você é o responsável. Se você for tenso, você é o responsável. Se você não está relaxado, você é o responsável. Se você está sofrendo, você é a causa disso. Não há nenhum Deus, não há nenhum sacerdócio que você possa ir e pedir algum ritual. Você é deixado sozinho com sua miséria e ninguém deseja ser miserável. Os padres continuam lhes dando ópio, eles vão lhes dando esperança. “Não se preocupem, é apenas um teste da sua fé, de sua confiança e se você pode passar por esta miséria e sofrimento silenciosa e pacientemente, no outro mundo além da morte, você será imensamente recompensado”. Se não existir nenhum sacerdócio você terá que compreender que o que quer que você seja, você é responsável por isso, ninguém mais. E o sentimento de que “Eu sou responsável pela minha miséria” abre a porta.

Depois você começa a procurar por métodos e meios de sair fora desse estado miserável e isso é o que a meditação é. É simplesmente o oposto do estado de miséria, sofrimento, angústia, ansiedade. É um estado de florescimento de um ser pacífico, feliz, tão silencioso e tão intemporal que você não pode conceber que algo melhor seja possível. E não há nada melhor que o estado de uma mente meditativa. Assim você pode dizer que esses são os três saltos: Adinatha depõe Deus porque ele descobre que Deus está ficando pesado demais para o homem; em lugar de ajudá-lo em seu crescimento, ele tornou-se um peso – mas ele esquece de substituí-lo com algo. O homem precisará de algo em seus momentos miseráveis, em seu sofrimento. Ele costumava orar para Deus. Você eliminou Deus, você eliminou a oração deles e agora quando ele se sentir miserável, o que ele fará? No Jainismo não há lugar para a meditação.

Foi um insight de Buda perceber que Deus foi deposto; agora o vazio deve ser preenchido, senão o vazio irá destruir o homem. Ele colocou a meditação – algo realmente autêntico, que pode transformar todo o ser. Mas ele não estava ciente – talvez ele não pudesse estar ciente porque existem coisas que você não pode estar ciente delas a menos que elas aconteçam – de que não houvesse nenhuma organização, de que não houvesse nenhum sacerdócio, de que assim como Deus se foi, a religião também teria que desaparecer. Mas ele pode ser perdoado porque ele não pensou sobre isso e não havia um passado para ajudá-lo a enxergar isso, aconteceu depois dele. O problema real é o sacerdote, e Deus é uma invenção do sacerdote. Se você eliminar o sacerdote, você pode eliminar Deus, mas os padres sempre encontrarão novos rituais, eles criarão novos deuses.

Meu esforço é deixá-lo só com a meditação sem nenhum mediador entre você e a existência. Quando você não está em meditação você está separado da existência e este é o seu sofrimento. É o mesmo que quando você fisga um peixe do oceano e o joga numa caixa – a miséria, o sofrimento e a tortura pela qual ele passa, o desejo e o esforço para voltar ao oceano porque ele é de lá. Ele é parte do oceano e não pode permanecer separado.

Qualquer sofrimento está simplesmente indicando que você não está em comunhão com a existência; que o peixe não está no oceano. A meditação não é nada senão a retirada de todas as barreiras, pensamentos, emoções, sentimentos, que criam um muro entre você e a existência. No momento em que estes são abandonados subitamente você descobre a si mesmo em sintonia com o todo; não somente em sintonia, você realmente descobre que você é o todo. Quando uma gota de orvalho escorrega de uma folha de lótus no oceano, ela não acha que é parte do oceano, ela acha que ela É o oceano. E achar isso é a meta suprema , a suprema realização, não há nada além disso. Portanto, Adinatha depôs Deus, mas não depôs a organização. E porque não havia nenhum Deus, a organização criou o ritual. Buda, vendo o que aconteceu ao Jainísmo, que tinha se tornado um ritualismo, abandonou Deus. Abandonou todos os rituais e simplesmente insistiu na meditação, mas ele esqueceu que os sacerdotes que criaram o ritual no Jainísmo iram fazer o mesmo com a meditação. E eles o fizeram, transformaram o próprio Buda em um Deus. Eles falam sobre meditação mas os Budistas são basicamente adoradores de Buda – Eles vão ao templo e ao invés de Krishna ou Cristo há uma estátua de Buda. Não havia nenhuma estátua de Buda por quinhentos anos depois de Buda. Nos templos budistas eles têm somente a árvore sob a qual Buda tornou-se iluminado, gravada no mármore, apenas um símbolo. Buda não estava lá, somente a árvore.

Você ficará surpreso de saber que a estátua de Buda que vemos hoje não possui nenhuma semelhança com a personalidade de Buda, se assemelha com a personalidade de Alexandre, o Grande. Alexandre, o Grande veio para a Índia trezentos anos depois de Buda. Até então não havia nenhuma estátua de Buda. Os sacerdotes estavam buscando pois não havia nenhuma fotografia, não havia nenhuma pintura, então como fazer uma estátua de Buda? E a face de Alexandre parecia realmente um super-homem, ele tinha uma bela personalidade, a face e a psicologia Grega; eles pegaram a idéia da face de Buda e o corpo de Alexandre. Assim todas as estátuas que estão sendo adoradas nos templos Budistas são estátuas de Alexandre, o Grande, elas não tem nada a ver com Buda. Mas os sacerdotes tinham que criar uma estátua – Deus não estava lá. Rituais eram difíceis. Em torno da meditação os rituais eram difíceis. Eles criaram a estátua e começaram a dizer – do mesmo jeito que todas as religiões estiveram fazendo – tenham fé em Buda, confiem em Buda, e vocês serão salvos. Ambas revoluções ficaram perdidas.

Eu gostaria que o que estou fazendo não se perca. Assim, estou tentando de todas as maneiras possíveis abandonar todas essas coisas que no passado foram barreiras para a revolução continuar e crescer. Não quero que ninguém fique entre o indivíduo e a existência. Nenhuma oração, nenhum sacerdote, você sozinho é suficiente para encarar o nascer do sol, você não precisa de alguém interpretar para você como o nascer do sol é belo.

Dizem que toda manhã Lao Tzu costumava passear nos montes. Um amigo lhe perguntou, Posso ir um dia com você? Eu particularmente gostaria de vir amanhã, porque tenho um hóspede que está muito interessado em você e ele será imensamente grato de ter a oportunidade de estar com você por duas horas nas montanhas. Lao Tzu disse: Não tenho objeções, apenas uma coisa simples deve ser lembrada. Não quero que coisa alguma seja dito porque tenho meus olhos, você tem seus olhos, ele tem os olhos dele, podemos ver. Não há necessidade de falar nada. O amigo concordou, mas no caminho, quando o sol começou a nascer, o hóspede esqueceu. Estava tão bonito ao lado do lago, o reflexo de todas as cores, os pássaros cantando e os lótus florescendo, brotando, ele não pode resistir, ele esqueceu. Ele disse, Que belo nascer do sol. Seu anfitrião ficou chocado porque ele havia quebrado a condição. Lao Tzu não disse nada, nada foi dito então. De volta em casa ele chamou seu amigo e lhe disse, “não traga mais seu hóspede. Ele é muito tagarela”.

O nascer do sol estava lá, eu estava lá, ele estava lá, você estava lá – qual a necessidade de dizer algo, qualquer comentário, qualquer interpretação? E esta é a minha atitude: você está aqui, todo indivíduo está aqui, toda existência está disponível. Tudo que você precisa é apenas ficar em silêncio e escutar a existência. Não há nenhuma necessidade de qualquer religião, não há necessidade de qualquer Deus, não há necessidade de qualquer sacerdócio, não há necessidade de qualquer organização. Eu confio categoricamente no indivíduo. Ninguém até agora tinha confiado no indivíduo dessa maneira. Depois todas as coisas podem ser removidas. Agora tudo que restou para você é um estado de meditação, que simplesmente significa um estado de silêncio absoluto. A palavra meditação a faz parecer mais pesada. É melhor chamá-la apenas de um simples, inocente silêncio, e a existência abre toda sua beleza para você. E à medida que isso vai crescendo, você vai crescendo, e chega o momento quando você alcançou o pico da sua potencialidade – você pode chamar isso de estado Búdico, iluminação, bhagwatta, divindade, qualquer que seja, isso não tem nome, então qualquer nome servirá.

Osho; The Last Testament, Vol. 5, Cap. 16

#Osho

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-n%C3%A3o-deus

Hipátia e Sinésio (parte final)

« continuando da parte 1

A Herculiano,

[…] Nós vimos com nossos próprios olhos e ouvimos com nossos próprios ouvidos a Senhora [Hipátia] que presidia, com legitimidade, sobre os mistérios da filosofia. E se acaso aqueles que compartilham tal laço de união são chamados a se relacionar, daí uma lei divina nos incita, a nós que estamos unidos pela mente, a nossa melhor parte, a honrar as qualidades uns dos outros.

[…] Viver de acordo com a razão é o alvo de todos os homens. Busquemos, portanto, tal alvo em vida; supliquemos que Deus transforme nossos pensamentos em coisas divinas, e nos dediquemos, tanto quanto for possível, a colher a sabedoria de todos os lados.

Esta outra carta de Sinésio, da qual trago somente alguns trechos [1], foi endereçada a Herculiano em 395 d.C. Nesta época ambos eram alunos de Hipátia em Alexandria, porém Herculiano (de quem sabemos muito pouco além do nome e do fato de provavelmente se tratar de um membro de alguma família rica da região) foi obrigado a retornar a sua terra natal. Logo Sinésio seguiria o mesmo caminho, e após alguns anos inesquecíveis aprendendo com sua mestra, também retornaria para onde nasceu, Cirene.

Ele ainda teria viajado algumas vezes para visitar Hipátia nos anos seguintes, porém as visitas vinham se tornando cada vez mais raras e complicadas, primeiro porque Sinésio já havia e se casado e tido seu primeiro filho, e segundo porque sua capacidade intelectual o levou, ainda que provavelmente a contragosto, a atuar na esfera política.

Em 399 Sinésio chefiou uma comitiva até Constantinopla, para negociar uma redução de impostos para sua cidade junto ao imperador Arcádio. Foi obrigado a residir por cerca de 3 anos na cidade, mas finalmente retornou com sua missão cumprida. Talvez tenha conseguido visitar prolongadamente Alexandria durante os anos seguintes, mas logo foi obrigado a retornar a Cirene novamente, desta vez para uma tarefa ingrata: comandar a defesa de suas fronteiras contra invasores vindos do deserto.

Novamente foi vitorioso, tendo inclusive elaborado um novo modelo de catapulta para as defesas da cidade. Desta feita, seus concidadãos ficaram tão entusiasmados com seus serviços prestados que decidiram lhe conceder um presente que ele, na verdade, aceitou com muita relutância: o cargo de Bispo em Cirene.

Naquele século ainda não fazia muito tempo que o cristianismo tinha sido conclamado a “religião oficial” do Império Romano. Nesta aurora da igreja cristã, os cargos de liderança eclesiástica muitas vezes tinham mais a ver com os afazeres governamentais e políticos do que propriamente com a condução das práticas religiosas.

Noutra de suas cartas que sobreviveram aos séculos, Sinésio conversa com outro companheiro das aulas de Hipátia, Olímpio, sobre a necessidade de evitar a luta por cargos, honras e carreiras políticas que satisfaçam somente ambições superficiais, e não valores humanos autênticos. Nessa correspondência, Sinésio parece consciente de que não conseguirá mais se afastar das suas obrigações na vida pública, e fala acerca do prazer de ainda poder desfrutar de alguns períodos de tranquilidade nas paisagens rurais em torno de Cirene, inteiramente dedicados à reflexão: “Temos tempo para a filosofia, mas não para fazer o mal”.

Mas ah!, quem dera todos os bispos da igreja fossem homens como Sinésio, fosse assim não somente sua mestra poderia haver escapado de seu triste destino, como todo o mundo ocidental seria outro, melhor, mais justo e mais iluminado pelo sol… A história, infelizmente, não transcorreu dessa forma.

Os eventos que terminaram no brutal assassinato de Hipátia tiveram muito mais a ver com uma disputa política pelo poder em Alexandria do que propriamente com uma disputa religiosa, tanto mais com uma disputa entre o cristianismo e o helenismo. Não, a disputa mais incendiária, desde aquele tempo, já era entre cristãos e judeus…

Os dois atores principais que ansiavam estabelecer um poder hegemônico sobre o governo de Alexandria eram Orestes, o prefeito augustal e governador secular da cidade, e Cirilo, o Patriarca (espécie de arcebispo) alexandrino. Ora, muito embora um representasse diretamente a igreja cristã, e outro exercesse um cargo público, fato é que ambos eram batizados e professavam publicamente o cristianismo. Onde estava, portanto, a disputa entre cristãos, judeus e pagãos?

Ocorre que no início daquele século, Alexandria era uma das maiores cidades do mundo, e uma potência comercial onde residiam muitas comunidades de relativa riqueza. Dentre elas, a mais rica era certamente o grupo pagão, cuja ancestralidade helênica havia garantido nobres heranças. Logo após tínhamos a comunidade judaica e enfim a comunidade cristã, que exatamente por ser a mais pobre (em média), era também a mais numerosa.

Orestes, como governador astuto, tentava sustentar suas chances de ascensão à hegemonia praticando relações amistosas com todos os três grupos. Cirilo, por outro lado, sabia que a sua única chance de agaranhar o poder total sobre a cidade seria com a vitória do cristianismo sobre as demais crenças, assim eliminando de vez quaisquer chances que Orestes poderia ter de vencer aquele embate político. Vejam bem, “embate político”, pois naquele contexto a religião era usada como mera desculpa para manobrar o povo em direção a este ou aquele projeto de poder (como vemos, até hoje não mudou tanta coisa, não é mesmo?).

Pelos seus desentendimentos constantes com a comunidade judaica alexandrina, é presumível que Cirilo tivesse um ódio pessoal para com os judeus em geral. Após várias trocas de ameaças que evoluíram com os anos, os judeus organizaram um ataque que terminou por matar muitos monges armados (chamados parabolani, que eram uma espécie de “guarda armada do Patriarca”), assim como diversos cristãos desarmados, num incêndio criminoso numa igreja.

Cirilo respondeu duramente ao ataque, destruindo sinagogas, saqueando as casas dos judeus mais abastados, e enfim expulsando toda a comunidade judaica da cidade. Este foi um resultado catastrófico para as pretensões de Orestes, pois ao mesmo tempo perdera o apoio tanto de toda a comunidade judaica (que fora banida) como de muitos cristãos, que não perdoaram o ataque dos judeus e passaram a apoiar Cirilo.

Ao governador restava somente o apoio dos helênicos; e dentre eles, todos sabiam, a maior autoridade moral se centrava em Hipátia, que além de tudo era amiga pessoal de Orestes e muitas vezes lhe aconselhava diretamente… Ora, a luz de Hipátia era ofuscante demais para que Cirilo arriscasse um debate direto, era preciso se livrar da filósofa com uma artimanha mais suja e sorrateira, uma arma usada somente pelos homens mais mesquinhos e ignorantes, mas mesmo assim extremamente eficaz: a boataria.

Numa comunidade composta majoritariamente de iletrados e propensos as mais diversas crenças mágicas, não foi muito difícil “convencer” as pessoas de que aquela mulher pagã, de família nobre e antiga, que se atrevia não somente a ensinar aos homens assuntos “não religiosos”, como também a aconselhar diretamente o governador, decerto seria uma diabólica praticante de magia negra, uma bruxa que seduzia a todos que escutavam suas palavras!

Assim chegamos aos tenebrosos eventos do dia 8 de março de 415 d.C., que prefiro não descrever, então os deixo com as palavras de Sócrates Escolástico [2]:

Foi então que a inveja se irrompeu contra esta mulher. Sucedia que ela passava muito tempo com Orestes, o que deu procedência as calúnias que a condenavam entre o povo ligado à Igreja, como se ela fosse a culpada de Orestes haver se distanciado do Patriarca. Com efeito, alguns homens que lhe faziam iradamente a mesma acusação a seguiram quando voltava para casa. Então, a arrancaram de sua carruagem e a arrastaram para o interior da igreja chamada Cesarion. Rasgaram suas roupas e depois a mataram usando cacos de cerâmica [ostraka]. Quando terminaram seu esquartejamento, tendo dilacerado cada um de seus membros, levaram o corpo para um lugar chamado Cinaron e lá o queimaram.

***

Assim deixou este mundo a maior das filósofas, cuja vida foi ainda mais grandiosa por haver sido a vida de uma mulher em meio a um mundo de homens, um brutal mundo de homens…

Se nos serve de algum consolo, tal notícia nunca chegou aos ouvidos de Sinésio, que havia morrido pelo menos um ano antes, em meio à amargura de não receber mais nenhuma correspondência de sua mestra.

Não nos cabe dizer o motivo exato pelo qual Hipátia deixou de responder ao seu querido e fiel aluno. Na sua condição de bispo, o envolvimento de Sinésio na disputa em Alexandria provavelmente não teria a auxiliado em muita coisa, embora certamente colocasse o seu cargo e a sua própria vida em risco. A filósofa, em sua sabedoria, provavelmente estaria a par do fato, e preferiu deixar que Sinésio pensasse que ela o havia esquecido.

Mas se há uma coisa essencial nesta triste e grandiosa história, é que ela não pode e não deve, jamais, ser esquecida…

***
[1] Fonte original (em inglês): Livius.org. A tradução é de Rafael Arrais.
[2] Trecho de Historia ecclesiastica. Retirado do livro de Maria Dzielska.

Bibliografia
Hipátia de Alexandria, Maria Dzielska (Relógio D’Água); Wikipedia; Livius.org

Crédito da imagem: Ágora/Alexandria/Divulgação (apesar de se valer de diversas “licenças poéticas e românticas”, este filme estrelado por Rachel Weisz no papel de Hipátia é, no geral, bem intencionado, e certamente merece ser visto)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum
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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hip%C3%A1tia-e-sin%C3%A9sio-parte-final

Curve-se Diante do Messias da Lepra

Quando olha ao redor, você pode pensar: “Uau! eu sou o máximo!”. Claro que não me refiro a ser o máximo enquanto ser humano, dificilmente uma pessoa é, a não ser que seja Charles Bronson ou o Homem do Trolóló ou Nikolai Tesla; o problema é que todos eles estão mortos já, o que indica que o número de seres humanos que são o máximo está muito próximo do zero. Quando digo que você pode pensar que é o máximo me refiro enquanto espécie.

É quase certeza que neste instante você está diante de um computador. E é muito provável que esse computador se alimente de eletricidade que sai da sua parede. Você mora em um lugar feito de concreto, tem acesso a água, não precisa conviver com suas fezes e urina e se tem fome pode colocar seus crocks e ir até um supermercado comprar uma alcatra para fazer bifes, que serão fritos no seu fogão – alimentado por gás que sai de uma parede ou de um botijão – enquanto você navega em seu tablet, um objeto com mais tecnologia do que o foguete que levou o homem à lua, ou joga algo no seu PS3/X-Box/CUBE/Super Nintendo (se você for dessa raça de moderninhos retrô). De fato, nenhuma outra espécie chegou tão longe quanto nós, não existem saunas turcas de cupins ou montanhas russas de salmões, e não se sabe de um urso panda que fique puto quando a operadora de celular top da China perde o sinal.

Somos evoluídos, Apex Predators, a boca dentada no alto da pirâmide alimentar, e tudo isso graças a nosso cérebro e a nossa inteligência, que nos coloca em vantagem sobre as garras do leão, a força do urso e os espinhos do porco-espinho, certo?

Não, não tão certo assim.

Desde o dia que seus antepassados resolver descer das árvores, não havia muita coisa para se fazer. Com certeza andar ereto deixou de ser uma novidade divertida em alguns meses e durante alguns milhões de anos a vida foi bem tediosa, até que algo aconteceu mais ou menos 5000 anos atrás. Até então, o equivalente de um iPhone 5 era um pedaço de pedra lascada que podia cortar carne e vegetais, inclusive é por causa disso que chamamos essa época de Idade da Pedra. Aquelas pessoas não tinham muito o que fazer, além de ficarem lascando pedaços de rochas para criar ferramentas – ao menos é o que os Steve Jobs da época faziam. Aquilo era o que havia de mais avançado em termos tecnológicos, e provavelmente permaneceríamos assim se não fosse pelo fogo.

O fogo pode ser descrito como a rápida oxidação de um material combustível liberando calor, luz e produtos de reação, tais como o dióxido de carbono e a água. O fogo também pode ser descrito como uma forma de vida inorgânica ou como uma mistura de gases a altas temperaturas, formada em reação exotérmica de oxidação, que emite radiação eletromagnética nas faixas do infravermelho à faixa visível. É por isso que podemos afirmar que o fogo é uma entidade gasosa emissora de radiação e decorrente da combustão, e, se ele for bastante quente, os gases podem se tornar ionizados para produzir plasma.

Tecnicamente o fogo esquenta coisas. Isso implica que agora aquele bando de humanos que estavam começando a usar roupas podiam esquentar sua comida, acender cigarros e torturar uns aos outros em nome de Deus. Isso também implica em outra coisa que normalmente passa desapercebida por um monte de gente.

Veja, com a exceção de alguns metais como o ouro, a prata, o cobre, a platina e o mercúrio, todos os metais que existem na natureza existem na forma de minérios. Quando o universo era uma massa gasosa de átomos, resultante da explosão de estrelas, os átomos de metais se combinavam e esfriavam, aqui em nosso planeta especialmente eles se oxidaram após se combinar e, livre as exceções citadas acima, não sabíamos o que eram metais. Agora com o fogo uma mágica sinistra começava a acontecer. Você podia fazer uma fogueira, colocar pedras nela e as pedras começavam a suar e a derreter. Uma simples fogueira pode não parecer muito, mas com um calor de 200ºC, que pode ser produzido com carvão, você consegue derreter chumbo e quando ele se esfria assume a forma que você quiser.

O problema com o chumbo, e esses outros metais, é que eles são moles! O mercúrio é líquido pelo amor de Mendeleiev! Então não tinham muita utilidade além de enfeites. Mesmo com as fundições caseiras e fabricação de pulseiras e estátuas esses metais não eram muito práticos, para que construir uma faca que se dobrava quando você tentava atacar um boi, ou flechas que não perfuravam nem uma pomba?

Mesmo com o fogo e a fundição, permaneceríamos um bando de macacos, cheios de anéis e brincos brilhantes, adorando estátuas brilhantes de deuses, se não fosse por um elemento.

O Cobre e o Estanho

O cobre é um metal que surge naturalmente em pepitas, é maleável e pode ser derretido e moldado. Existem pingentes de cobre datados de 10.000 anos a.C., e ele se tornou extremamente popular a partir de 6.500 a.C. Com o controle do fogo começaram a surgir fornos que atingiam temperaturas de 1000ªC para a fundição de cobre, que já podia ser extraído de outros minerais como a malaquita ou a calcopirita. Começaram a surgir ferramentas de cobre, capacetes de cobre… e viram que o cobre era uma porcaria.

Mas por sorte, graças aos métodos primitivos de purificação de metais da época, o cobre conseguido vinha com muitas impurezas e uma dessas impurezas era o estanho, o elemento 50 da tabela periódica. Foi graças ao estanho que pulamos diretamente da Idade da Pedra para a idade mais tecnologicamente doida da história.

Apesar do cobre ser considerado o primeiro metal a ser de fato trabalhado pelo homem, foi o estanho que deu status de avanço tecnológico para todo aquele negócio de fundição. O cobre, quando fundido com estanho, dá origem a uma liga metálica muito mais resistente. Com uma resistência mecânica muito maior sem contar muito mais dura. Uma liga que, se transformada em facas, espadas e escudos, teriam uma utilidade prática muito boa. Essa liga é o bronze. É por isso que muita gente nem situa uma idade do cobre – ou calcolítica como preferem chamar – entre a pedra e o bronze, já que o bronze chegou roubando a cena. É por causa do estanho que agora descem a cortinas e acaba a pré-história.

O bronze logo se tornou tão importante que na datação clássica dos gregos, a raça humana passou por 5 idades: a do ouro, a da prata, a do bronze, a dos heróis – os semi-deuses – e a do ferro. E durante a era dos heróis, todas as suas armas e indumentárias eram feitas de bronze. Milhares de anos depois a DC Comics usaria a mesma classificação para mostrar como seus quadrinhos foram perdendo a criatividade.

O bronze ergueu impérios e destruiu reinos. Nos ensinou a fundir ligas cada vez mais resistentes e a criar armas cada vez melhores. Criou uma reviravolta na economia e nos ensinou a matar melhor. E isso tudo graças ao estanho, se infiltrando no cobre derretido. Foi graças a este elemento que perdemos o tatus de macacos vaidosos e nos lançamos para o espaço e para o Facebook. Não seria exagero afirmar que o Estanho fez mais pela raça humana do que qualquer outro messias, inclusive Cristo, enviado para nos libertar de nosso estado de cegueira primitiva. Caralho o estanho mudou tudo.

Mas claro que nem tudo que é bom dura, e tantos séculos de exploração e abuso chegariam a um fim. Por milênios o estanho planejou. No recôndito mais profundo do seu núcleo atômico ele planejou e esperou, até que chegasse o momento.

 

Gott ist Tot

A Idade do Bronze foi substituída pela Idade do Ferro, Osiris foi destronado e uma série de Deuses assumiu seu posto para depois serem abandonados. A família imperial chinesa se trancou na cidade proibida. O cristianismo virou a última moda da Europa. A fome, a guerra e a pestilência eram as baladas mais concorridas. Mesmo que hoje olhemos para trás e chamemos a época de Idade das Trevas, esse termo não é exato. Ok, os padres eram os pop stars. Ok, não havia muita higiene. Ok, o conhecimento não estava ao alcance de todos, mas isso não era culpa da igreja. Era bem o oposto, ela se tornou o centro do desenvolvimento tecnológico da época, e não apenas em tópicos como genética, astronomia, literatura e química, mas também de engenharia.

O equivalente medieval dos super-computadores eram os órgãos das igrejas. Eram peças de engenharia extremamente complexas e trabalhosas de se construir. Quanto maior o órgão, mais caro. Isso significava que não eram todas as igrejas que podiam ter um aparelho desses, só as maiores e mais saudáveis – financeiramente se falando. Eram as igrejas populares, famosas e temidas. Centenas de pessoas se acotovelavam nos fins de semana para assistir a missas e para temer a Deus, e como já disse, existiam motivos de sobra para isso. Os antibióticos não haviam sido descobertos, nem os fertilizantes, quando tentavam se aquecer em suas pequenas casas as pessoas sufocavam, ninguém lavava as mãos antes de comer, era uma desgraça. E igrejas grandes e equipadas davam a impressão de que, no meio daquilo tudo, algo estava ok. Era uma época de privações, mas o rebanho crescia, Deus estava feliz com algo.

E no inverno era ainda pior, mas a igreja estava lá, para confortá-los. E naquela época, em que Deus era a única certeza das pessoas, foi justamente onde o estanho decidiu atacar.

Era domingo, igreja cheia, o padre preparado para mais uma missa, todos dentro, se espremendo por causa do frio e da falta de espaço, a missa estava para começar. O organista erguia as mãos, já tento estalado discretamente os dedos, e assim que pressionou as primeiras teclas, o órgão gritou e se despedaçou! Silêncio na nave. O que aquilo significaria? Teria Deus ficado insatisfeito ou bravo com a congregação? Ou pior… teria o diabo se infiltrado na igreja e estaria escarnecendo de Deus?

Seja o que fosse, o pânico e a desconfiança estavam instalados. Quando relatos de outras igrejas chegavam de muitos outros órgãos se despedaçando, tivemos a certeza de que o pior estava por vir. Agora, o que eles não sabiam era que o estanho, assim como o simpático e aflito Dr. Jeckyll, possui um lado sinistro, escuro e maléfico. Um lado que começa a surgir quando ele é resfriado a temperaturas inferiores a 13.2 ºC, e acredite, o inverno medieval europeu era bem mais frio do que isso.

O estanho sólido tem dois alótropos nas condições normais de temperatura e pressão. Normalmente dizemos que o Estanho se encontra em sua forma “branca”, também conhecida como estanho beta – ou estanho-β. Sua estrutura atômica assume uma estrutura cristalina tetragonal. Agora, quando a temperatura cai, ele começa a se tornar cinzento, sua estrutura assume uma forma diferente, cúbica, semelhante ao silício ou ao germânio – seus vizinhos do andar de cima da coluna periódica – e ele se transforma no estanho-α. Esta transformação, lenta no início, começa a se acelerar, ela se torna uma catalizadora de si mesma, uma vez que tem início ela não pára. Como parte desta mudança o volume do estanho aumenta em até 27%. Eventualmente o estanho-α se esfarela. Este processo é conhecido como lepra do estanho, ou praga do estanho.

Desta forma, assim que os canos dos órgãos, feitos com estanho, começavam a se decompor, tudo o que precisavam para desabar e causar a impressão que desejavam era que uma boa quantidade de ar passasse por eles. Claro que o Estanho não estava satisfeito ainda. A religião do homem era apenas um de seus alvos. O estanho também quis se envolver em nossa política, e mostrar como nossas ambições são toscas e nossa capacidade de planejar não nos difere de meros cupins sem cérebro.

 

France, armée, Joséphine…

Em 1812, Napoleão juntamente com um exército de quase meio milhão de homens entraram na Russia com o objetivo de obrigar  o imperador da Rússia Alexandre I a permanecer no Bloqueio Continental do Reino Unido e de quebra  por um fim à ameaça de uma invasão russa à Polônia. Napoleão batizou sua empreitada de Segunda Guerra Polaca, o governo russo designou a campanha de Napoleão como um pedido por chineladas e proclamou uma Guerra Patriótica. Napoleão era tido como um gênio militar invencível, a França possuía alianças com o Reino da Prússia e com o Império Austríaco, diabos, Napoleão tinha se proclamado imperador. Mas isso tudo mudou naquele ano.

A campanha começou em 24 de junho de 1812, quando as forças de Napoleão atravessaram o rio Neman. Em 6 meses o resultado não poderia ser outro: a tropa napoleônica consistia de apenas 27 mil soldados, 380.000 homens haviam morrido e mais de 100.000 eram prisioneiros. Napoleão abandonou os seus homens e voltou para Paris para proteger a sua posição como Imperador e preparar-se para resistir aos avanços dos russos. E o resto é história.

Claro que os russos tinham estratégias. Claro que os russos eram russos. Mas havia mais um detalhe nesta história. Os botões dos uniformes dos soldados franceses eram de estanho. Não importa o quão difícil seja uma batalha, ela sempre pode piorar se você tem que lutar segurando uma espada em uma mão e as calças na outra enquanto seus botões se esfarelavam no frio e gelado inverno russo.

Mas como se isso não bastasse, 100 anos depois, o nosso elemento 50 riu novamente de nossas vãs tentativas de nos mostrarmos superiores ao mundo que nos cerca.

 

O Sol da Meia Noite

O início do século XX parecia promissor para os aventureiros. A ciência havia evoluído muito com o iluminismo do século XVII, a revolução industrial havia sido responsável por inovações tecnológicas jamais pensadas. O homem voava em máquinas, decifrava o mistério dos átomos, mas havia lugares onde ainda não era capaz de chegar. O pólo sul era um deles. Era como um farol brilhando no escuro, atraindo exploradores e homens de coragem, daqueles que andam descalços em salas cobertas de peças de lego sem nem piscar. Robert Falcon Scott era um desses homens. Durante sua vida liderou duas expedições rumo ao polo sul, a Expedição Discovery – nos anos 1901 e 1904 – e a expedição Terra Nova – nos anos 1910 e 1913.

Em sua mais ousada e famosa expedição, Scott liderou um grupo de 5 homens com o objetivo de atingir o ponto mais extremo da terra antes de qualquer outro homem. Foram feitos arranjos e planos. Bases ao longo do caminho foram estabelecidas. Cachorros e assistentes contratados. A idéia era simples, seguir rumo ao sul. Em pontos chave mantimentos e combustível eram enterrados na neve para serem utilizados no trajeto de volta. Homens ficariam aguardando no navio e em algumas bases para dar assistência. E eles iriam a pé e em trenós até o polo sul para cravar lá sua bandeira.

Quando chegou lá, depois de semanas sendo judiado pelo terreno e pelo clima, Scott teve sua primeira surpresa. Ao invés de um montinho de neve para colocar sua bandeira ele encontrou… uma bandeira. Ela havia sido cravada lá apenas algumas semanas antes por uma expedição norueguesa, liderada por Roald Amundsen. A sua segundo surpresa foi ainda mais aterrorizante!

Quando começaram a voltar, com a moral lá em baixo, Scott e seus homens descobriram que algo muito sinistro tinha acontecido com as provisões. Os containers pareciam ter se desintegrado, deixando a querosene vazar. A querosene era importante porque ela faria seus geradores funcionarem. Os geradores fariam os trenós funcionarem, e o aquecimento e as luzes funcionarem. Sem querosene eles estavam basicamente sem condução, sem luz e sem calor. Claro que isso por si só já seria uma merda, mas imagine que a querosene que vazou dos containers acabou ensopando os mantimentos. Então eles também não tinham comida. Acredita-se que ele tenha morrido no dia 29 ou 30 de Março de 1912, sua última entrada no diária da expedição dizia o seguinte:

“Nós assumimos riscos, nós sabíamos que os tínhamos assumido; as coisas se voltaram contra nós e, portanto, não temos nenhum motivo de queixa, devemos apenas nos curvar perante a vontade da Providência, determinados a fazer o melhor para resistirmos… Tivéssemos sobrevivido, eu teria histórias sobre coragem, resistência e determinação de meus companheiros que teriam tocado o coração de cada inglês que as ouvisse. Estas notas canhestras e nossos corpos mortos devem contar estas histórias, mas certamente, certamente, um grande país próspero como o nosso irá se certificar de que aqueles que dependem de nós tenham seu sustento.”

Claro que não foi exatamente a vontade da Providência a responsável por seu maior fracasso. Aquela expedição era muito importante, por isso muitos cuidados foram tomados em seu planejamento, inclusive os novos containers que tinham soldas de estanho e eram muito mais resistentes – a não ser nas temperaturas do ártico. Scott se tornou um herói nacional, mas não o símbolo mundial que desejava – além do fato de morrer sozinho, de fome, sede, gangrena e frio.

Até hoje existem aqueles que tentam abafar este vexame afirmando que o estanho por si só não teria sido o responsável por órgãos se esfarelando dentro de igrejas, que os botões franceses eram feitos de madeira, ou que Scott era experiente o suficiente para não usar containers que vazassem. Curiosamente assim como as investigações dos anos 1980, que buscavam evidências de abusos satânicos em crianças, nunca conseguiram uma prova concreta, apenas afirmam hoje que muito provavelmente o estanho é inocente. Provavelmente…

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/curve-se-diante-do-messias-da-lepra/

Osho: O Não Deus

Pergunta: Com Gautama Buda a religião deu um salto. Deus tornou-se sem sentido e somente a meditação era importante. Agora, vinte e cinco séculos após Buda, novamente a religião está dando o salto em sua presença e tornando-se religiosidade. Por favor, fale sobre este fenômeno.

O crédito de trazer um salto na religião regride vinte e cinco séculos antes de Gautama Buda para Adinatha, que foi quem pela primeira vez, pregou religião sem Deus. Isso foi uma tremenda revolução porque em nenhum lugar do mundo nunca havia sido concebido que a religião pudesse existir sem Deus. Deus era uma parte essencial – o centro – de todas as religiões: Cristianismo, Judaísmo, Maometismo. Mas para fazer de Deus o centro da religião torna o homem apenas uma periferia. Conceber Deus como criador do mundo torna o homem apenas um boneco. Eis porque em Hebreu, que é a língua do Judaísmo, o homem é chamado de Adão. “Adão” significa lama. Em Árabe o homem é chamado de “admi”; que vem da palavra Adão, novamente significa lama. Em inglês, que se tornou a língua do cristianismo, a palavra humano vem de “humus”, que significa lama. Se Deus é o criador, naturalmente, ele tem que criar a partir de alguma coisa. Ele teve que fazer o homem como uma estátua, assim, primeiro ele fez o homem da lama e depois soprou a vida nele. Mas se foi assim o homem perde toda sua dignidade e se Deus é o criador do homem e de tudo mais, a idéia toda é cômica porque o que ele esteve fazendo por toda a eternidade antes de criar o homem e o universo? De acordo com o Cristianismo, Deus criou o homem apenas quatro mil e quatro anos antes de Jesus Cristo. Assim, o que ele esteve fazendo por toda a eternidade? Isso parece cômico. Não pode haver nenhuma causa, porque para ter uma causa pela qual Deus tivesse que criar a existência significa que existem poderes acima de Deus, existem causas que podem fazê-lo criar. Ou existe a possibilidade de que subitamente brotou um desejo nele. Isso também não soa bem filosoficamente, porque por toda a eternidade ele sempre foi sem desejos. E ser sem desejos é tão glorioso que é impossível conceber que de uma experiência de eterna bem-aventurança um desejo de criar o mundo brote nele. Desejo é desejo, seja para querer fazer uma casa ou tornar-se primeiro ministro ou criar o mundo. E Deus não pode ser concebido como tendo desejos. Assim a única coisa que resta é que ele é cômico, excêntrico. Então não há necessidade de causa e nenhuma necessidade de desejo – apenas um capricho. Mas, se toda essa existência vem apenas de um capricho ela perde todo sentido, todo significado. E amanhã outro capricho pode surgir nele para destruir, para dissolver todo o universo. Assim somos simplesmente bonecos nas mãos de um Deus ditatorial que tem todos os poderes, mas que não tem uma mente sã, que é caprichoso.

Para conceber isso cinco mil anos atrás, Adinatha deve ter sido um profundo meditador, contemplativo e ele deve ter chegado à conclusão que com Deus, não há sentido no mundo. Se quisermos que o mundo tenha sentido então Deus tem que ser eliminado. Ele deve ter sido um homem de tremenda coragem. As pessoas ainda estão adorando Deus nas igrejas, nas sinagogas, nos templos; mesmo assim este homem Adinatha cinco mil anos atrás chegou a uma conclusão científica precisa de que não existe nada superior ao homem e qualquer evolução que venha a acontecer será no próprio homem e em sua consciência.

Este foi o primeiro salto – Deus foi eliminado. Adinatha é o primeiro mestre do Jainísmo. O crédito não vai para Buda porque Buda vem vinte e cinco séculos depois de Adinatha. Mas outro crédito vai para Buda. Adinatha eliminou Deus, mas não conseguiu pôr a meditação em seu lugar. Pelo contrário, ele criou asceticismo, austeridades, torturando o corpo, jejuando, despindo-se, comendo apenas uma vez por dia, não bebendo à noite, comendo apenas certos alimentos. Ele chegou a uma bela conclusão filosófica, mas parece que a conclusão era somente filosófica, não era meditativa. Quando você depõe Deus você não pode ter nenhum ritual, você não pode ter adoração, você não pode ter oração, algo tem que ser substituído. Ele substituiu por austeridades, porque o homem tornou-se o centro de sua religião e o homem tem que se purificar. Pureza em seu conceito era de que o homem tinha que se separar do mundo, tinha que se separar de seu próprio corpo. Isso distorceu a coisa toda. Ele chegou a uma conclusão muito significativa, mas isso permaneceu apenas um conceito filosófico.

Adinatha depôs Deus mas deixou um vácuo e Buda o preencheu com a meditação. Adinatha criou uma religião sem Deus; Buda criou uma religião meditativa. Meditação é a contribuição de Buda. A questão não é torturar o corpo; a questão é tornar-se mais silencioso, tornar-se mais relaxado, tornar-se mais pacífico. É uma jornada interior até alcançar nosso próprio centro da consciência e o centro de nossa própria consciência é o centro de todo o universo.

Vinte e cinco séculos se passaram novamente. Assim como o conceito revolucionário de Adinatha de uma religião sem Deus perdeu-se no deserto de austeridades e auto-torturas, a idéia de meditação de Buda – algo interior, que ninguém mais pode ver; só você sabe onde você está, só você sabe se você está progredindo ou não – perdeu-se noutro deserto e esse foi no da religião organizada. A religião diz que não pode confiar em simples indivíduos, estejam eles meditando ou não. Eles precisam de comunidades, mestres, monastérios, onde eles possam viver juntos. Aqueles que se encontram num nível mais elevado de consciência podem observar os outros e ajudá-los. Tornou-se essencial que a religião não deve ser deixada nas mãos de indivíduos, elas deveriam ser organizadas e deveriam estar nas mãos daqueles que atingiram o ponto mais elevado da meditação. No começo era bom; quando Buda estava vivo, muitas pessoas atingiram a auto-realização, a iluminação. Mas quando Buda morreu e estas pessoas também morreram, a própria organização que deveria ajudar as pessoas a medita, caiu nas mãos dos sacerdotes e em lugar de ajudar você a meditar eles começaram a criar rituais ao redor da imagem de Buda. Buda tornou-se outro Deus. Adinatha depôs Deus, Buda nunca aceitou a existência de Deus, mas esses sacerdotes não podem existir sem Deus. Assim pode não haver um Deus que seja um criador, mas Buda alcançou a divindade. Para os outros a única coisa é adorar o Buda, ter fé no Buda, seguir os princípios do Buda, viver a vida de acordo com sua doutrina; e Buda se perdeu na organização, na imitação. Mas todos eles esqueceram o básico, que era a meditação.

Todo meu esforço é criar uma religião sem religião. Temos visto o que aconteceu com as religiões que tinham Deus como centro. Temos visto o que aconteceu com o conceito revolucionário de Adinatha, religião sem Deus. Temos visto o que aconteceu com Buda – religião organizada sem Deus. Agora meus esforços são – assim como eles dissolveram Deus – dissolvam também a religião. Deixem apenas a meditação, então ela não poderá ser esquecida de maneira nenhuma. Não há nada que possa substituí-la. Não há nenhum Deus e não há nenhuma religião.

Por religião quero dizer uma doutrina organizada, credo, ritual, sacerdócio. E pela primeira vez, quero que a religião seja absolutamente individual, pois toda a religião organizada, seja com Deus ou sem Deus, tem iludido a humanidade. E a única causa tem sido organização, porque a organização tem seus próprios meios que vão de encontro à meditação. A organização é realmente um fenômeno político, não é religioso. É outro caminho para o poder e de desejo pelo poder. Agora todo padre cristão espera algum dia tornar-se ao menos um bispo, depois tornar-se cardeal, depois tornar-se papa. Essa é a nova hierarquia, uma nova burocracia e porque é espiritual ninguém objeta. Você pode ser um bispo, você pode ser um papa, você pode ser qualquer coisa. Isso não é objetável porque você não vai obstruir a vida de ninguém. É apenas uma idéia abstrata. Meu esforço é para destruir completamente o sacerdócio. Isso permaneceu com Deus, isso permaneceu com a religião sem Deus, o único jeito é que deveríamos depor Deus e a religião juntos para que não haja possibilidade de nenhum sacerdócio.

O homem é absolutamente livre, totalmente responsável por seu próprio crescimento. Meu sentimento é que quanto mais o homem for responsável pelo seu próprio crescimento, mais difícil é para ele adiar o crescimento por mais tempo. Pois isso quer dizer que se você for miserável, você é o responsável. Se você for tenso, você é o responsável. Se você não está relaxado, você é o responsável. Se você está sofrendo, você é a causa disso. Não há nenhum Deus, não há nenhum sacerdócio que você possa ir e pedir algum ritual. Você é deixado sozinho com sua miséria e ninguém deseja ser miserável. Os padres continuam lhes dando ópio, eles vão lhes dando esperança. “Não se preocupem, é apenas um teste da sua fé, de sua confiança e se você pode passar por esta miséria e sofrimento silenciosa e pacientemente, no outro mundo além da morte, você será imensamente recompensado”. Se não existir nenhum sacerdócio você terá que compreender que o que quer que você seja, você é responsável por isso, ninguém mais. E o sentimento de que “Eu sou responsável pela minha miséria” abre a porta.

Depois você começa a procurar por métodos e meios de sair fora desse estado miserável e isso é o que a meditação é. É simplesmente o oposto do estado de miséria, sofrimento, angústia, ansiedade. É um estado de florescimento de um ser pacífico, feliz, tão silencioso e tão intemporal que você não pode conceber que algo melhor seja possível. E não há nada melhor que o estado de uma mente meditativa. Assim você pode dizer que esses são os três saltos: Adinatha depõe Deus porque ele descobre que Deus está ficando pesado demais para o homem; em lugar de ajudá-lo em seu crescimento, ele tornou-se um peso – mas ele esquece de substituí-lo com algo. O homem precisará de algo em seus momentos miseráveis, em seu sofrimento. Ele costumava orar para Deus. Você eliminou Deus, você eliminou a oração deles e agora quando ele se sentir miserável, o que ele fará? No Jainismo não há lugar para a meditação.

Foi um insight de Buda perceber que Deus foi deposto; agora o vazio deve ser preenchido, senão o vazio irá destruir o homem. Ele colocou a meditação – algo realmente autêntico, que pode transformar todo o ser. Mas ele não estava ciente – talvez ele não pudesse estar ciente porque existem coisas que você não pode estar ciente delas a menos que elas aconteçam – de que não houvesse nenhuma organização, de que não houvesse nenhum sacerdócio, de que assim como Deus se foi, a religião também teria que desaparecer. Mas ele pode ser perdoado porque ele não pensou sobre isso e não havia um passado para ajudá-lo a enxergar isso, aconteceu depois dele. O problema real é o sacerdote, e Deus é uma invenção do sacerdote. Se você eliminar o sacerdote, você pode eliminar Deus, mas os padres sempre encontrarão novos rituais, eles criarão novos deuses.

Meu esforço é deixá-lo só com a meditação sem nenhum mediador entre você e a existência. Quando você não está em meditação você está separado da existência e este é o seu sofrimento. É o mesmo que quando você fisga um peixe do oceano e o joga numa caixa – a miséria, o sofrimento e a tortura pela qual ele passa, o desejo e o esforço para voltar ao oceano porque ele é de lá. Ele é parte do oceano e não pode permanecer separado.

Qualquer sofrimento está simplesmente indicando que você não está em comunhão com a existência; que o peixe não está no oceano. A meditação não é nada senão a retirada de todas as barreiras, pensamentos, emoções, sentimentos, que criam um muro entre você e a existência. No momento em que estes são abandonados subitamente você descobre a si mesmo em sintonia com o todo; não somente em sintonia, você realmente descobre que você é o todo. Quando uma gota de orvalho escorrega de uma folha de lótus no oceano, ela não acha que é parte do oceano, ela acha que ela É o oceano. E achar isso é a meta suprema , a suprema realização, não há nada além disso. Portanto, Adinatha depôs Deus, mas não depôs a organização. E porque não havia nenhum Deus, a organização criou o ritual. Buda, vendo o que aconteceu ao Jainísmo, que tinha se tornado um ritualismo, abandonou Deus. Abandonou todos os rituais e simplesmente insistiu na meditação, mas ele esqueceu que os sacerdotes que criaram o ritual no Jainísmo iram fazer o mesmo com a meditação. E eles o fizeram, transformaram o próprio Buda em um Deus. Eles falam sobre meditação mas os Budistas são basicamente adoradores de Buda – Eles vão ao templo e ao invés de Krishna ou Cristo há uma estátua de Buda. Não havia nenhuma estátua de Buda por quinhentos anos depois de Buda. Nos templos budistas eles têm somente a árvore sob a qual Buda tornou-se iluminado, gravada no mármore, apenas um símbolo. Buda não estava lá, somente a árvore.

Você ficará surpreso de saber que a estátua de Buda que vemos hoje não possui nenhuma semelhança com a personalidade de Buda, se assemelha com a personalidade de Alexandre, o Grande. Alexandre, o Grande veio para a Índia trezentos anos depois de Buda. Até então não havia nenhuma estátua de Buda. Os sacerdotes estavam buscando pois não havia nenhuma fotografia, não havia nenhuma pintura, então como fazer uma estátua de Buda? E a face de Alexandre parecia realmente um super-homem, ele tinha uma bela personalidade, a face e a psicologia Grega; eles pegaram a idéia da face de Buda e o corpo de Alexandre. Assim todas as estátuas que estão sendo adoradas nos templos Budistas são estátuas de Alexandre, o Grande, elas não tem nada a ver com Buda. Mas os sacerdotes tinham que criar uma estátua – Deus não estava lá. Rituais eram difíceis. Em torno da meditação os rituais eram difíceis. Eles criaram a estátua e começaram a dizer – do mesmo jeito que todas as religiões estiveram fazendo – tenham fé em Buda, confiem em Buda, e vocês serão salvos. Ambas revoluções ficaram perdidas.

Eu gostaria que o que estou fazendo não se perca. Assim, estou tentando de todas as maneiras possíveis abandonar todas essas coisas que no passado foram barreiras para a revolução continuar e crescer. Não quero que ninguém fique entre o indivíduo e a existência. Nenhuma oração, nenhum sacerdote, você sozinho é suficiente para encarar o nascer do sol, você não precisa de alguém interpretar para você como o nascer do sol é belo.

Dizem que toda manhã Lao Tzu costumava passear nos montes. Um amigo lhe perguntou, Posso ir um dia com você? Eu particularmente gostaria de vir amanhã, porque tenho um hóspede que está muito interessado em você e ele será imensamente grato de ter a oportunidade de estar com você por duas horas nas montanhas. Lao Tzu disse: Não tenho objeções, apenas uma coisa simples deve ser lembrada. Não quero que coisa alguma seja dito porque tenho meus olhos, você tem seus olhos, ele tem os olhos dele, podemos ver. Não há necessidade de falar nada. O amigo concordou, mas no caminho, quando o sol começou a nascer, o hóspede esqueceu. Estava tão bonito ao lado do lago, o reflexo de todas as cores, os pássaros cantando e os lótus florescendo, brotando, ele não pode resistir, ele esqueceu. Ele disse, Que belo nascer do sol. Seu anfitrião ficou chocado porque ele havia quebrado a condição. Lao Tzu não disse nada, nada foi dito então. De volta em casa ele chamou seu amigo e lhe disse, “não traga mais seu hóspede. Ele é muito tagarela”.

O nascer do sol estava lá, eu estava lá, ele estava lá, você estava lá – qual a necessidade de dizer algo, qualquer comentário, qualquer interpretação? E esta é a minha atitude: você está aqui, todo indivíduo está aqui, toda existência está disponível. Tudo que você precisa é apenas ficar em silêncio e escutar a existência. Não há nenhuma necessidade de qualquer religião, não há necessidade de qualquer Deus, não há necessidade de qualquer sacerdócio, não há necessidade de qualquer organização. Eu confio categoricamente no indivíduo. Ninguém até agora tinha confiado no indivíduo dessa maneira. Depois todas as coisas podem ser removidas. Agora tudo que restou para você é um estado de meditação, que simplesmente significa um estado de silêncio absoluto. A palavra meditação a faz parecer mais pesada. É melhor chamá-la apenas de um simples, inocente silêncio, e a existência abre toda sua beleza para você. E à medida que isso vai crescendo, você vai crescendo, e chega o momento quando você alcançou o pico da sua potencialidade – você pode chamar isso de estado Búdico, iluminação, bhagwatta, divindade, qualquer que seja, isso não tem nome, então qualquer nome servirá.

Osho; The Last Testament, Vol. 5, Cap. 16

#espiritualismo #Osho

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/osho-o-n%C3%A3o-deus

Quem são os Sufis?

Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual cujas origens nunca foram traçadas nem datadas; nem eles mesmos se interessam muito por esse tipo de pesquisa, contentando-se em mostrar a ocorrência da sua maneira de pensar em diferentes regiões e períodos. Conquanto sejam, de ordinário, erroneamente tomados por uma seita muçulmana, os sufis sentem-se à vontade em todas as religiões: exatamente como os “pedreiros-livres e aceitos”, abrem diante de si, em sua loja, qualquer livro sagrado – seja a Bíblia, seja o Corão, seja a Torá – aceito pelo Estado temporal. Se chamam ao islamismo a “casca” do sufismo, é porque o sufismo, para eles, constitui o ensino secreto dentro de todas as religiões. Não obstante, segundo Ali el-Hujwiri, escritor sufista primitivo e autorizado, o próprio profeta Maomé disse: “Aquele que ouve a voz do povo sufista e não diz aamin (amém) é lembrado na presença de Deus como um dos insensatos”. Numerosas outras tradições o associam aos sufis, e foi em estilo sufista que ele ordenou a seus seguidores que respeitassem todos os “Povos do Livro”, referindo-se dessa maneira aos povos que respeitavam as próprias escrituras sagradas – expressão usada mais tarde para incluir os zoroastrianos.

Tampouco são os sufis uma seita, visto que não acatam nenhum dogma religioso, por mais insignificante que seja, nem se utilizam de nenhum local regular de culto. Não têm nenhuma cidade sagrada, nenhuma organização monástica, nenhum instrumento religioso. Não gostam sequer que lhes atribuam alguma designação genérica que possa constrangê-los à conformidade doutrinária. “Sufi” não passa de um apelido, como “quacre”, que eles aceitam com bom humor. Referem-se a si mesmos como “nós amigos” ou “gente como nós”, e reconhecem-se uns aos outros por certos talentos, hábitos ou qualidades de pensamento naturais. As escolas sufistas reuniram-se, com efeito, à volta de professores particulares, mas não há graduação, e elas existem apenas para a conveniência dos que trabalham com a intenção de aprimorar os estudos pela estreita associação com outros sufis. A assinatura sufista característica encontra-se numa literatura amplamente dispersa desde, pelo menos, o segundo milênio antes de Cristo, e se bem o impacto óbvio dos sufis sobre a civilização tenha ocorrido entre o oitavo e o décimo oitavo séculos, eles continuam ativos como sempre. O seu número chega a uns cinqüenta milhões. O que os torna um objeto tão difícil de discussão é que o seu reconhecimento mútuo não pode ser explicado em termos morais ou psicológicos comuns – quem quer que o compreenda é um sufi. Posto que se possa aguçar a percepção dessa qualidade secreta ou desse instinto pelo íntimo contato com sufis experientes, não existem graus hierárquicos entre eles, mas apenas o reconhecimento geral, tácito, da maior ou menor capacidade de um colega.

O sufismo adquiriu um sabor oriental por ter sido por tanto tempo protegido pelo islamismo, mas o sufi natural pode ser tão comum no Ocidente como no Oriente, e apresentar-se vestido de general, camponês, comerciante, advogado, mestre-escola, dona-de-casa, ou qualquer outra coisa. “Estar no mundo mas não ser dele”, livre da ambição, da cobiça, do orgulho intelectual, da cega obediência ao costume ou do respeitoso temor às pessoas de posição mais elevada – tal é o ideal do sufi.

Os sufis respeitam os rituais da religião na medida em que estes concorrem para a harmonia social, mas ampliam a base doutrinária da religião onde quer que seja possível e definem-lhe os mitos num sentido mais elevado – por exemplo, explicando os anjos como representações das faculdades superiores do homem. Oferecem ao devoto um “jardim secreto” para o cultivo da sua compreensão, mas nunca exigem dele que se torne monge, monja ou eremita, como acontece com os místicos mais convencionais; e mais tarde, afirmam-se iluminados pela experiência real – “quem prova, sabe” – e não pela discussão filosófica. A mais antiga teoria de evolução consciente que se conhece é de origem sufista, mas embora muito citada por darwinianos na grande controvérsia do século XIX, aplica-se mais ao indivíduo do que à raça. O lento progresso da criança até alcançar a virilidade ou a feminilidade figura apenas como fase do desenvolvimento de poderes mais espetaculares, cuja força dinâmica é o amor, e não o ascetismo nem o intelecto.

A iluminação chega com o amor – o amor no sentido poético da perfeita devoção a uma musa que, sejam quais forem as crueldades aparentes que possa cometer, ou por mais aparentemente irracional que seja o seu comportamento, sabe o que está fazendo. Raramente recompensa o poeta com sinais expressos do seu favor, mas confirma-lhe a devoção pelo seu efeito revivificante sobre ele. Assim, Ibn El-Arabi (1165-1240), um árabe espanhol de Múrcia, que os sufis denominam o seu poeta maior, escreveu no Tarju-man el-Ashwaq (o intérprete dos desejos):

“Se me inclino diante dela como é do meu dever E se ela nunca retribui a minha saudação Terei, acaso, um justo motivo de queixa? A mulher formosa a nada é obrigada”

Esse tema de amor foi, posteriormente, usado num culto extático da Virgem Maria, a qual, até o tempo das Cruzadas, ocupara uma posição sem importância na religião cristã. A maior veneração que ela recebe hoje vem precisamente das regiões da Europa que caíram de maneira mais acentuada sob a influência sufista.

Diz de si mesmo, Ibn El-Arabi:

“Sigo a religião do Amor.

Ora, às vezes, me chamam

Pastor de gazelas [divina sabedoria]
Ora monge cristão,

Ora sábio persa.

Minha amada são três –

Três, e no entanto, apenas uma;

Muitas coisas, que parecem três,

Não são mais do que uma.

Não lhe dêem nome algum,

Como se tentassem limitar alguém

A cuja vista

Toda limitação se confunde”

Os poetas foram os principais divulgadores do pensamento sufista, ganharam a mesma reverência concedida aos ollamhs, ou poetas maiores, da primitiva Irlanda medieval, e usavam uma linguagem secreta semelhante, metafórica, constituída de criptogramas verbais. Escreve Nizami, o sufi persa: “Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro”. Essa linguagem era ao mesmo tempo uma proteção contra a vulgarização ou a institucionalização de um hábito de pensar apropriado apenas aos que o compreendiam, e contra acusações de heresia ou desobediência civil. Ibn El-Arabi, chamado às barras de um tribunal islâmico de inquisição em Alepo, para defender-se da acusação de não-conformismo, alegou que os seus poemas eram metafóricos, e sua mensagem básica consistia no aprimoramento do homem através do amor a Deus. Como precedente, indicava a incorporação, nas Escrituras judaicas, do Cântico erótico de Salomão, oficialmente interpretado pelos sábios fariseus como metáfora do amor de Deus a Israel, e pelas autoridades católicas como metáfora do amor de Deus à Igreja.

Em sua forma mais avançada, a linguagem secreta emprega raízes consonantais semíticas para ocultar e revelar certos significados; e os estudiosos ocidentais parecem não ter se dado conta de que até o conteúdo do popular “As mil e uma noites” é sufista, e que o seu título árabe, Alf layla wa layla, é uma frase codificada que lhe indica o conteúdo e a intenção principais: “Mãe de Lembranças”. Todavia, o que parece, à primeira vista, o ocultismo oriental é um antigo e familiar hábito de pensamento ocidental. A maioria dos escolares ingleses e franceses começam as lições de história com uma ilustração de seus antepassados druídicos arrancando o visco de um carvalho sagrado. Embora César tenha creditado aos druidas mistérios ancestrais e uma linguagem secreta – o arrancamento do visco parece uma cerimônia tão simples, já que o visco é também usado nas decorações de Natal -, que poucos leitores se detêm para pensar no que significa tudo aquilo. O ponto de vista atual, de que os druidas estavam, virtualmente, emasculando o carvalho, não tem sentido.

Ora, todas as outras árvores, plantas e ervas sagradas têm propriedades peculiares. A madeira do amieiro é impermeável à água, e suas folhas fornecem um corante vermelho; a bétula é o hospedeiro de cogumelos alucinógenos; o carvalho e o freixo atraem o relâmpago para um fogo sagrado; a raiz da mandrágora é antiespasmódica. A dedaleira fornece digitalina, que acelera os batimentos cardíacos; as papoulas são opiatos; a hera tem folhas tóxicas, e suas flores fornecem às abelhas o derradeiro mel do ano. Mas os frutos do visco, amplamente conhecidos pela sabedoria popular como “panacéia”, não têm propriedades medicinais, conquanto sejam vorazmente comidos pelos pombos selvagens e outros pássaros não-migrantes no inverno. As folhas são igualmente destituídas de valor; e a madeira, se bem que resistente, é pouco utilizada. Por que, então, o visco foi escolhido como a mais sagrada e curativa das plantas? A única resposta talvez seja a de que os druidas o usavam como emblema do seu modo peculiar de pensamento. Essa árvore não é uma árvore, mas se agarra igualmente a um carvalho, a uma macieira, a uma faia e até a um pinheiro, enverdece, alimenta-se dos ramos mais altos quando o resto da floresta parece adormecido, e a seu fruto se atribui o poder de curar todos os males espirituais. Amarrados à verga de uma porta, os ramos do visco são um convite a beijos súbitos e surpreendentes. O simbolismo será exato se pudermos equiparar o pensamento druídico ao pensamento sufista, que não é plantado como árvore, como se plantam as religiões, mas se auto-enxerta numa árvore já existente; permanece verde, embora a própria árvore esteja adormecida, tal como as religiões são mortas pelo formalismo; e a principal força motora do seu crescimento é o amor, não a paixão animal comum nem a afeição doméstica, mas um súbito e surpreendente reconhecimento do amor, tão raro e tão alto que do coração parecem brotar asas. Por estranho que pareça, a Sarça Ardente em que Deus apareceu a Moisés no deserto, supõem agora os estudiosos da Bíblia, era uma acácia glorificada pelas folhas vermelhas de um locanthus, o equivalente oriental do visco.

Talvez seja mais importante o fato de que toda a arte e a arquitetura islâmicas mais nobres são sufistas, e que a cura, sobretudo dos distúrbios psicossomáticos, é diariamente praticada pelos sufis hoje em dia como um dever natural de amor, conquanto só o façam depois de haverem estudado, pelo menos, doze anos. Os ollamhs, também curadores, estudavam doze anos em suas escolas das florestas. O médico sufista não pode aceitar nenhum pagamento mais valioso do que um punhado de cevada, nem impor sua própria vontade ao paciente, como faz a maioria dos psiquiatras modernos; mas, tendo-o submetido a uma hipnose profunda, ele o induz a diagnosticar o próprio mal e prescrever o tratamento. Em seguida, recomenda o que se há de fazer para impedir uma recorrência dos sintomas, visto que o pedido de cura há de provir diretamente do paciente e não da família nem dos que lhe querem bem.

Depois de conquistadas pelos sarracenos, a partir do século VIII d.C, a Espanha e a Sicília tornaram-se centros de civilização muçulmana renomados pela austeridade religiosa. Os letrados do norte, que acudiram a eles com a intenção de comprar obras árabes a fim de traduzi-las para o latim, não se interessavam, contudo, pela doutrina islâmica ortodoxa, mas apenas pela literatura sufista e por tratados científicos ocasionais. A origem dos cantos dos trovadores – a palavra não se relaciona com trobar, (encontrar), mas representa a raiz árabe TRB, que significa “tocador de alaúde” – é agora autorizadamente considerada sarracena. Apesar disso, o professor Guillaume assinala em “O legado do Islã” que a poesia, os romances, a música e a dança, todos especialidades sufistas, não eram mais bem recebidas pelas autoridades ortodoxas do Islã do que pelos bispos cristãos. Árabes, na verdade, embora fossem um veículo não só da religião muçulmana mas também do pensamento sufista, permaneceram independentes de ambos.

Em 1229 a ilha de Maiorca foi capturada pelo rei Jaime de Aragão aos sarracenos, que a haviam dominado por cinco séculos. Depois disso, ele escolheu por emblema um morcego, que ainda encima as armas de Palma, a nossa capital. Esse morcego emblemático me deixou perplexo por muito tempo, e a tradição local de que representa “vigilância” não me pareceu uma explicação suficiente, porque o morcego, no uso cristão, é uma criatura aziaga, associada à bruxaria. Lembrei-me, porém, de que Jaime I tomou Palma de assalto com a ajuda dos Templários e de dois ou três nobres mouros dissidentes, que viviam alhures na ilha; de que os Templários haviam educado Jaime em le bon saber, ou sabedoria; e de que, durante as Cruzadas, os Templários foram acusados de colaboração com os sufis sarracenos. Ocorreu-me, portanto, que “morcego” poderia ter outro significado em árabe, e ser um lembrete para os aliados mouros locais de Jaime, presumivelmente sufis, de que o rei lhes estudara as doutrinas.

Escrevi para Idries Shah Sayed, que me respondeu:

“A palavra árabe que designa o morcego é KHuFFaasH, proveniente da raiz KH-F-SH. Uma segunda acepção dessa raiz é derrubar, arruinar, calcar aos pés, provavelmente porque os morcegos freqüentam prédios em ruínas. O emblema de Jaime, desse modo, era um simples rébus que o proclamava “o Conquistador”, pois ele, na Espanha, era conhecido como “El rey Jaime, Rei Conquistador”. Mas essa não é a história toda. Na literatura sufista, sobretudo na poesia de amor de Ibn El-Arabi, de Múrcia, disseminada por toda a Espanha, “ruína” significa a mente arruinada pelo pensamento impenitente, que aguarda reedificação.

O outro único significado dessa raiz é “olhos fracos, que só enxergam à noite”. Isso pode significar muito mais do que ser cego como um morcego. Os sufis referem-se aos impenitentes dizendo-os cegos à verdadeira realidade; mas também a si mesmos dizendo-se cegos às coisas importantes para os impenitentes. Como o morcego, o sufi está cego para as “coisas do dia” – a luta familiar pela vida, que o homem comum considera importantíssima – e vela enquanto os outros dormem. Em outras palavras, ele mantém desperta a atenção espiritual, adormecida em outros. Que “a humanidade dorme num pesadelo de não-realização” é um lugar-comum da literatura sufista. Por conseguinte, a sua tradição de vigilância, corrente em Palma, como significado de morcego, não deve ser desprezada.”

A absorção no tema do amor conduz ao êxtase, sabem-no todos os sufis. Mas enquanto os místicos cristãos consideram o êxtase como a união com Deus e, portanto, o ponto culminante da consecução religiosa, os sufis, só lhe admitem o valor se ao devoto for facultado, depois do êxtase, voltar ao mundo e viver de forma que se harmonize com sua experiência.

Os sufis insistiram sempre na praticabilidade do seu ponto de vista. A metafísica, para eles, é inútil sem as ilustrações práticas do comportamento humano prudente, fornecidas pelas lendas e fábulas populares. Os cristãos se contentame em usar Jesus como o exemplar perfeito e final do comportamento humano. Os sufis, contudo, ao mesmo tempo que o reconhecem como profeta divinamente inspirado, citam o texto do quarto Evangelho: “Eu disse: Não está escrito na vossa Lei que sois deuses?” – o que significa que juizes e profetas estão autorizados a interpretar a lei de Deus – e sustenta que essa quase divindade deveria bastar a qualquer homem ou mulher, pois não há deus senão Deus. Da mesma forma, eles recusaram o lamaísmo do Tibete e as teorias indianas da divina encarnação; e posto que acusados pelos muçulmanos ortodoxos de terem sofrido a influência do cristianismo, aceitam o Natal apenas como parábola dos poderes latentes no homem, capazes de apartá-lo dos seus irmãos não-iluminados. De idêntica maneira, consideram metafóricas as tradições sobrenaturais do Corão, nas quais só acreditam literalmente os não-iluminados. O Paraíso, por exemplo, não foi, dizem eles, experimentado por nenhum homem vivo; suas huris (criaturas de luz) não oferecem analogia com nenhum ser humano e não se deviam imputar-lhes atributos físicos, como acontece na fábula vulgar.

Abundam exemplos, em toda a literatura européia, da dívida para com os sufis. A lenda de Guilherme Tell já se encontrava em “A conferência dos pássaros”, de Attar (séc. XII), muito antes do seu aparecimento na Suíça. E, embora dom Quixote pareça o mais espanhol de todos os espanhóis, o próprio Cervantes reconhece sua dívida para com uma fonte árabe. Essa imputação foi posta de lado, como quixotesca, por eruditos; mas as histórias de Cervantes seguem, não raro, as de Sidi Kishar, lendário mestre sufista às vezes equiparado a Nasrudin, incluindo o famoso incidente dos moinhos (aliás de água, e não de vento) tomados equivocadamente por gigantes. A palavra espanhola Quijada (verdadeiro nome do Quixote, de acordo com Cervantes) deriva da mesma raiz árabe KSHR de Kishar, e conserva o sentido de “caretas ameaçadoras”.

Os sufis muçulmanos tiveram a sorte de proteger-se das acusações de heresia graças aos esforços de El-Ghazali (1051-1111), conhecido na Europa por Algazel, que se tornou a mais alta autoridade doutrinária do islamismo e conciliou o mito religioso corânico com a filosofia racionalista, o que lhe valeu o título de “Prova do Islamismo”. Entretanto, eram freqüentemente vítimas de movimentos populares violentos em regiões menos esclarecidas, e viram-se obrigados a adotar senhas e apertos de mão secretos, além de outros artifícios para se defenderem.

Embora o frade franciscano Roger Bacon tenha sido encarado com respeitoso temor e suspeita por haver estudado as “artes negras”, a palavra “negra” não significa “má”. Trata-se de um jogo de duas raízes árabes, FHM e FHHM, que se pronunciam fecham e facham, uma das quais significa “negro” e a outra “sábio”. O mesmo jogo ocorre nas armas de Hugues de Payns (dos pagãos), nascido em 1070 ,que fundou a Ordem dos Cavaleiros Templários: a saber, três cabeças pretas, blasonadas como se tivessem sido cortadas em combate, mas que, na realidade, denotam cabeças de sabedoria.

“Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual…” De fato, a própria maçonaria começou como sociedade sufista. Chegou à Inglaterra durante o reinado do rei Aethelstan (924-939) e foi introduzida na Escócia disfarçada como sendo um grupo de artesãos no princípio do século XIV, sem dúvida pelos Templários. A sua reformação, na Londres do início do século XVIII, por um grupo de sábios protestantes, que tomaram os termos sarracenos por hebraicos, obscureceu-lhes muitas tradições primitivas. Richard Burton, tradutor das “Mil e uma noites”, ao mesmo tempo maçom e sufi, foi o primeiro a indicar a estreita relação entre as duas sociedades, mas não era tão versado que compreendesse que a maçonaria começara como um grupo sufista. Idries Shah Sayed mostra-nos agora que foi uma metáfora para a “reedificação”, ou reconstrução, do homem espiritual a partir do seu estado de decadência; e que os três instrumentos de trabalho exibidos nas lojas maçônicas modernas representam três posturas de oração. “Buizz” ou “Boaz” e “Salomão, filho de Davi”, reverenciados pelos maçons como construtores do Templo de Salomão em Jerusalém, não eram súditos israelitas de Salomão nem aliados fenícios, como se supôs, senão arquitetos sufistas de Abdel-Malik, que construíram o Domo da Rocha sobre as ruínas do Templo de Salomão, e seus sucessores. Seus verdadeiros nomes incluíam Thuban abdel Faiz “Izz”, e seu “bisneto”, Maaruf, filho (discípulo) de Davi de Tay, cujo nome sufista em código era Salomão, por ser o “filho de Davi”. As medidas arquitetônicas escolhidas para esse templo, como também para o edifício da Caaba em Meca, eram equivalentes numéricos de certas raízes árabes transmissoras de mensagens sagradas, sendo que cada parte do edifício está relacionada com todas as outras, em proporções definidas.

De acordo com o princípio acadêmico inglês, o peixe não é o melhor professor de ictiologia, nem o anjo o melhor professor de angelologia. Daí que a maioria dos livros modernos e artigos mais apreciados a respeito do sufismo sejam escritos por professores de universidades européias e americanas com pendores para a história, que nunca mergulharam nas profundezas sufistas, nunca se entregaram às extáticas alturas sufistas e nem sequer compreendem o jogo poético de palavras pérseo-arábicas. Pedi a Idries Shah Sayed que remediasse a falta de informações públicas exatas, ainda que fosse apenas para tranqüilizar os sufis naturais do Ocidente, mostrando-lhes que não estão sós em seus hábitos peculiares de pensamento, e que as suas intuições podem ser depuradas pela experiência alheia. Ele consentiu, embora consciente de que teria pela frente uma tarefa muito difícil. Acontece que Idries Shah Sayed, descendente, pela linha masculina, do profeta Maomé, herdou os mistérios secretos dos califas, seus antecessores. É, de fato, um Grande Xeque da Tariqa (regra) sufista, mas como todos os sufis são iguais, por definição, e somente responsáveis perante si mesmos por suas consecuções espirituais, o título de “xeque” é enganoso. Não significa “chefe”, como também não significa o “chefe de fila”, velho termo do exército para indicar o soldado postado diante da companhia durante uma parada, como exemplo de exercitante militar.

A dificuldade que ele previu é que se deve presumir que os leitores deste livro tenham percepções fora do comum, imaginação poética, um vigoroso sentido de honra, e já ter tropeçado no segredo principal, o que é esperar muito. Tampouco deseja ele que o imaginem um missionário. Os mestres sufistas fazem o que podem para desencorajar os discípulos e não aceitam nenhum que chegue “de mãos vazias”, isto é, que careça do senso inato do mistério central. O discípulo aprende menos com o professor seguindo a tradição literária ou terapêutica do que vendo-o lidar com os problemas da vida cotidiana, e não deve aborrecê-lo com perguntas, mas aceitar, confiante, muita falta de lógica e muitos disparates aparentes que, no fim, acabarão por ter sentido. Boa parte dos principais paradoxos sufistas está em curso em forma de histórias cômicas, especialmente as que têm por objeto o Kboja (mestre-escola) Nasrudin, e ocorrem também nas fábulas de Esopo, que os sufis aceitam como um dos seus antepassados.

O bobo da corte dos reis espanhóis, com sua bengala de bexiga, suas roupas multicoloridas, sua crista de galo, seus guizos tilintantes, sua sabedoria singela e seu desrespeito total pela autoridade, é uma figura sufista. Seus gracejos eram aceitos pelos soberanos como se encerrassem uma sabedoria mais profunda do que os pareceres solenes dos conselheiros mais idosos. Quando Filipe II da Espanha estava intensificando sua perseguição aos judeus, decidiu que todo espanhol que tivesse sangue judeu deveria usar um chapéu de certo formato. Prevendo complicações, o bobo apareceu na mesma noite com três chapéus. “Para quem são eles, bobo?”, perguntou Filipe. “Um é para mim, tio, outro para ti e outro para o inquisidor-mor”. E como fosse verdade que numerosos fidalgos medievais espanhóis haviam contraído matrimônio com ricas herdeiras judias, Filipe, diante disso, desistiu do plano. De maneira muito semelhante, o bobo da corte de Carlos I, Charlie Armstrong (outrora ladrão de carneiros escocês), que o rei herdara do pai, tentou opor-se à política da Igreja arminiana do arcebispo Laud, que parecia destinada a redundar num choque armado com os puritanos. Desdenhoso, Carlos pedia a Charlie seu parecer sobre política religiosa, ao que o bobo lhe respondeu: “Entoe grandes louvores a Deus, tio, e pequenas laudes ao Diabo”. Laud, muito sensível à pequenez do seu tamanho, conseguiu que expulsassem Charlie Armstrong da corte (o que não trouxe sorte alguma ao amo).

#sufismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/quem-s%C3%A3o-os-sufis

O Além e o Desconhecido

Patrick Harpur

Excerto de Daimonic Reality: A Field Guide to the Otherworld

O Além é sempre imaginado como começando na borda de nosso mundo conhecido. Pode ser o deserto fora dos muros da cidade ou as regiões inexploradas na borda dos mapas rotulados ‘Aqui estão os dragões’. Pode começar à beira do oceano — ou no portão do jardim. À medida que os limites do Desconhecido foi empurrados para trás, o mundo amplamente mapeado, o Outro Mundo foi localizado no espaço sideral. Os primeiros alienígenas afirmavam vir de Vênus, Marte ou da Lua; mais tarde, quando esses planetas pareciam mais locais, menos remotos, eles alegaram vir de sistemas estelares distantes, como Zeta Reticuli ou as Plêiades.

A religião estabelece a fronteira do Desconhecido nos limites da vida humana. Nas culturas tradicionais, o outro mundo além da vida, após a morte, é imanente – outra realidade contida neste. No cristianismo, é transcendente, uma realidade separada removida da Terra. O cientificismo não reconhece nenhum Outro Mundo, mas… a realidade demoníaca tem um jeito de subvertê-la. Assim, o cientificismo constrói suas próprias versões literais de um Outro Mundo transcendente e imanente. A primeira aparece nos estranhos modelos do universo articulados por astrônomos e cosmólogos; este último aparece nas especulações dos físicos nucleares.

Vale a pena demorar um pouco sobre o Outro Mundo dos físicos nucleares, mesmo porque sua disciplina é amplamente considerada o decano das ciências. Eles, acima de tudo, procuram estabelecer os “fatos” da questão. Eu manteria, no entanto, que seu reino subatômico é apenas outra variante da realidade daimônica. Tudo o que dela se predica poderia, por exemplo, ser aplicado com igual justiça à terra das Fadas. Ambos os mundos invertem o aconchegante mundo newtoniano que habitamos: as leis do tempo, do espaço, da causalidade e, claro, da matéria são ignoradas. (Uma vez passado o “horizonte de eventos” de um buraco negro, dizem os astrofísicos, o tempo desacelera até parar; ou, uma vez dentro do buraco negro, ele “corre para trás”.) A física subatômica introduz dimensões extras – a “teoria das cordas” permite dez dimensões: nossas quatro, mais seis, compactados com muita força. A multidimensionalidade é um elemento básico da ficção científica e da ufologia.

Os daimons do “espaço interno” subatômico são chamados de partículas, embora estritamente falando não sejam — os elétrons, por exemplo, são partículas e ondas ao mesmo tempo. Eles são paridóxicos, tanto lá como não-lá, como fadas. Como os OVNIs, eles não podem ser medidos exatamente: podemos calcular sua velocidade ou sua posição, mas não ambas. Isso, grosso modo, é o que Werner Heisenberg chamou de Princípio da Incerteza, e se aplica a todos os fenômenos daimônicos. Não podemos conhecer as partículas subatômicas em si mesmas; só podemos identificá-los por meio de seus traços daimônicos. Como yetis minúsculos, costumavam deixar rastros em tonéis de detergente colocados no fundo das minas; hoje em dia é mais provável que deixem seus rastros nas telas dos computadores ligados a aceleradores de partículas.

Eles provocam seus investigadores sem piedade. Cada partícula recém-descoberta promete ser o bloco de construção fundamental da matéria. Primeiro foram os átomos; então elétrons, prótons, nêutrons; depois os quarks, sua natureza brincalhona como o Chapeleiro Louco de Lewis Carroll. Lembro-me de quando havia apenas quatro quarks, chamados daimonicamente Upness, Downness, Strangeness e Charm (bons nomes para tipos de OVNIs). A última vez que olhei haviam mais de quarenta, e contando. Cada vez menores, cada vez mais travessos e menos substanciais – as partículas sem massa – eles se afastam de nós como quasares, aqueles enormes daimons que dizem estar se movendo em direção à borda do universo conhecido a velocidades próximas à da luz.

Como acontece com todas as entidades anômalas, o próprio ato de observar as partículas as perturba. Observador e observado, sujeito e objeto, não podem ser distinguidos. Partículas cuja existência é predita obrigatoriamente aparecem. Se não soubéssemos melhor, poderíamos quase dizer que eles foram imaginados à existência. Os chamados Novos Físicos farejaram um problema. Eles começaram a comparar todo o empreendimento à religião oriental ou a suspeitar que sua realidade é principalmente metafórica, não literal e factual. Isso não quer dizer que os daimons não possam se manifestar concretamente, como vimos. Na verdade, quanto menores eles são, mais poderosos eles podem ser, veja a bomba atômica.

Estudantes do daimônico – espiritualistas, ufólogos e assim por diante – invocam com entusiasmo a física subatômica como evidência de que outras dimensões, outros mundos são possíveis e reais. Eles são encorajados a acreditar que um dia seus daimons favoritos serão aceitos pela Ciência. Mas o reino subatômico não é um mundo literal de fatos do qual eles possam derivar apoio para sua própria realidade literal. É simplesmente outra metáfora para a Alma do Mundo. Nem sequer é especialmente boa: os daimons preferem aparecer como pessoas, não como pequenas partículas impessoais e peculiares. O Além subatômico tem sua própria elegância e uma certa beleza gritante, como os físicos fazem questão de enfatizar; mas é cinza e sem sentido comparado ao mundo.

William Blake viu em um grão de areia. De fato, enquanto instrumentos especiais, como o microscópio e o telescópio, estendem os limites sensoriais, eles não aumentam sua profundidade qualitativa. Eles produzem uma visão breve, uma sombra daquela verdadeira visão imaginativa que por si só revela significado.

O modelo einsteiniano do universo – mais como um grande pensamento do que uma grande máquina, disse Sir James Jeans – inverte o modelo newtoniano. São variantes umas das outras, imagens de um universo cuja realidade final jamais poderá ser conhecida. O Outro Mundo espelha o nosso. Pode ser benigno, como paraísos que revertem o sofrimento deste mundo; ou pode ser estranho, como o reino que algumas tribos atribuem às bruxas que andam ou falam para trás, usam a cabeça de cabeça para baixo, as pernas de trás para a frente. Estas características são por vezes atribuídas aos habitantes das aldeias vizinhas, lembrando-nos que, para as pessoas de imaginação, o Outro Mundo sempre esteve aqui. Para essas pessoas, adormecer e acordar é, num sentido mais profundo, morrer e viver. Pode muito bem haver um fim para este nosso mundo literal, mas não pode haver um fim literal para ele porque é contínuo com aquele outro mundo, sem fim.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/o-alem-e-o-desconhecido/