Iniciação no Novo Aeon: O Não Aperfeiçoamento da Alma

Tradução: Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

Faça o que tu queres há de ser tudo da Lei

Nota: originalmente escrito em 20 de abril de 2009

5) Não Aperfeiçoamento da Alma

“A alma é, em sua própria natureza, pureza perfeita, calma perfeita, silêncio perfeito (…) Esta alma nunca pode ser ferida, desfigurada, corrompida”

– “A Alma do Deserto”

Esta idéia está fortemente relacionada com as ideias na última seção do Self como Redentor. Afirmamos neste texto que não é em Deus, em gurus, sacerdotes ou quaisquer autoridades externas que devemos confiar e que é equivocado dizer que “redimimos” a nós mesmos porque não há nada a redimir. Crowley escreve: “A redenção é uma palavra ruim; ela implica uma dívida. Uma vez que cada estrela possui riqueza ilimitada; a única maneira adequada de lidar com os ignorantes é levá-los ao conhecimento de sua herança estrelada” (The Book of Thoth). A “alma” não precisa ser redimida porque é perfeita e pura em si mesma; é apenas devido à ignorância do nosso próprio direito divino inato que nos julgamos imperfeitos e passageiros. Esta “alma” não é a personalidade do indivíduo – o ego-eu que se identifica com a mente e com o corpo -, mas sim o Eu que coexiste com Todas as Coisas.

O Verdadeiro Eu nunca morre, pois está além de toda limitação, contendo todas as coisas e relações dentro de Si. O corpo, assim como a mente, com certeza expirará, mas é somente através dos misteriosos mecanismos dessa mente e corpo que o Eu, além de todos os limites e opostos, pode tornar-se autoconsciente e conscientemente experimentar o arrebatamento da existência. Este Eu não precisa ser redimido ou aperfeiçoado: não há Queda do Homem a ser rectificada (religiões Abraâmicas) nem uma Roda do Sofrimento da qual ser liberada (religiões Dhármicas). Não há nem mesmo qualquer sentido [na ideia] da alma encarnar para alcançar “estados espirituais” cada vez mais elevados ou para [chegar à] “iluminação”. No Novo Aeon, o “ponto de partida” não é um estado caído, sofredor e pecaminoso, mas sim [um estado em que] nós somos todos Reais e Divinos, a Divindade-manifestada e “a existência é pura alegria” (Liber AL II: 9), se ela é vista com olhos que “Vinculam nada!” (Liber AL I: 22), ou seja, olhos que vêem a unidade oculta em dualidades aparentes. Como é dito: “Visto que todas as coisas são Deus, em todas as coisas tu vês tão somente de Deus quanto a tua capacidade te dá” (A Visão e a Voz, 17 Aethyr). O símbolo-metáfora essencial é que a Estrela da Unidade está sempre brilhando, potencialmente consciente, mas nós nos identificamos com o ego-eu e, portanto, estamos atolados em dualidade e limitação (uma vez que você se identifica com o ego, você não é imediatamente o não-ego ou o mundo e, portanto, o mundo se torna Dois em vez de Um). Crowley escreve nesta descrição em The Law is for All:

“Não devemos considerar-nos como seres básicos, sendo apenas esfera de Luz ou ‘Deus’. Nossas mentes e corpos são véus da Luz interior. O não-iniciado é uma ‘Estrela Negra’, e a Grande Obra para ele é tornar transparentes os seus véus, ‘purificando-os’. Esta ‘purificação’ é, na verdade, ‘simplificação’; não é que o véu esteja sujo, mas sim que a complexidade de suas dobras o torna opaco. O Grande Trabalho, portanto, consiste principalmente na solução de complexos. Tudo em si mesmo é perfeito, mas quando as coisas se confundem, tornam-se ‘más’”.

O ponto importante é que “tudo em si mesmo é perfeito”, mas nossas mentes inevitavelmente “confundem” a situação, o que culmina na identificação com o ego em vez do Verdadeiro Eu. Porque todas as coisas são perfeitas em si mesmas, obviamente não precisamos de nenhum tipo de Deus ou guru para conceder redenção, libertação ou iniciação a nós: o aspirante precisa apenas limpar os véus da ignorância em torno da sua Estrela, e o Verdadeiro Eu Vai saltar de dentro de sua consciência e queimar toda a divisão e limitação. Como Crowley explica em The Law is For All,

“Esta ‘estrela’ ou ‘Luz Interior’ é a essência original, individual, eterna (…) Nós somos advertidos contra a idéia de um Pleroma, uma chama da qual somos Faísca, e a qual retornamos quando ‘nos iluminamos’. Isso seria, de fato, tornar toda a maldição da existência separada [uma coisa] ridícula, uma insensata e inescusável insensatez. Isso nos levaria de volta ao dilema do maniqueísmo. A idéia de encarnações ‘aperfeiçoando’ uma coisa originalmente perfeita é, por definição, algo imbecil. A única solução sensata é a dada anteriormente, de supor que o Perfeito desfruta da experiência da (aparente) Imperfeição”.

No Novo Aeon vamos ainda mais longe do que se poderia esperar: a “ignorância” da dualidade também não é inerentemente má ou ruim. Em suma, a dualidade é [considerada] “ignorância” para alguém que ainda se identifica com o ego; mas, uma vez que se tenha dissolvido o ego, e se identificado com o Verdadeiro Eu, é possível reconhecer a dualidade como os meios necessários para a autoconsciência. Para o indivíduo atolado em dualidade e identificação com o ego, “união-dissolução” é sua fórmula, mas quem dissolveu o ego e se identificou com o Verdadeiro Eu tem a fórmula de “criação-parto” (…) e “O Todo, assim sendo entrelaçado com Estes, é a Felicidade” (The book of lies). O corpo e a mente, com suas concepções inerentemente dualistas, são uma prisão de ignorância para os não-iniciados e um templo para realizar o Sacramento da Vida para o iniciado.

É preciso ter a experiência da dissolução do ego para superar o medo mórbido da morte e para aceitar a dualidade não como a condição de nosso sofrimento, mas como a oportunidade para nos regozijarmos na união de diversos elementos (eu e mundo em cada experiência, junto com a União Suprema de ego e não-ego/sujeito e objeto). O mundo é ambos “Nenhum (…) e dois” (Liber AL I: 28). Nenhum, o contínuo, é “dividido pelo amor, pela chance de união. Esta é a criação do mundo, [em] que a dor da divisão é como nada, e a alegria da dissolução [é como]tudo” (Liber AL I: 29-30). Nessa concepção, a dualidade e a “criação do mundo” como a conhecemos (isto é, o mundo dualista normal que comumente habitamos) é na realidade a condição de “chance de união”. Somente se duas coisas estão separadas elas podem se unir e ter a possibilidade da “alegria da dissolução” em que o eu se torna “tudo”. Crowley explica: “Nuit manisfesta o objeto para criar a Ilusão da Dualidade. Ela disse: o mundo existe como dois, pois só assim se pode conhecer a Alegria do Amor, em que Dois é feito em Um. Nada que é Um está sozinho, e sente pouca dor em fazer-se dois, para que possa conhecer a si mesmo, e amar a si mesmo, e se regojizar nela” (“Djeridensis Working”). Desse modo, abraça-se tanto a unidade como a multiplicidade (dualidade) numa Unidade mais elevada.

Esta percepção da “consciência da continuidade da existência” (Liber AL I: 22) não é algo dado por um deus ou um guru, mas um direito inato natural de cada indivíduo. É, como descrito na primeira parte, um passo natural do Crescimento em direção à Maturidade espiritual-psicológica. E isso também nos leva ao ponto final: mesmo este é um passo ao longo do Caminho. Pode ser o “Fim” em certo sentido (o fim do domínio do ego, por exemplo), mas também é o começo, pois “a morte é a vida por vir” (Book of Lies). Ainda temos que viver a vida. Poderíamos dizer: “Antes da iniciação: trabalhar, viver e brincar; depois da iniciação: trabalhar, viver e brincar”, pois a identificação com o Verdadeiro Eu não significa o fim da mente e do corpo, juntamente com suas necessidades normais. De fato, a mente e o corpo – o ego-eu – não são destruídos permanentemente, mas renascem com energia renovada; os véus da ignorância (tanto da dualidade como da falsidade das doutrinas da Queda do Homem e do Sofrimento inerente do mundo) tendo sido arrancados. Não se obtém repentinamente o poder terreno de um rei ou o poder intelectual de Einstein, mas a mudança é algo em grande medida “interno” ou psicológico, pois na iniciação “nada é mudado ou pode ser mudado; mas tudo é entendido mais verdadeiramente a cada passo” (Little Essays Toward Truth, “Mastery”). É essa compreensão de nossos Verdadeiros Eus, além dos véus da mente e do corpo, que cada um de nós se esforça para alcançar para que possamos manifestar nossas vontades no mundo mais efetiva e alegremente. A tarefa é, então, simples, mas difícil: cada indivíduo deve dissolver o ego e sua identificação com ele para se identificar com o Verdadeiro Eu, sempre brilhando, embora não percebamos, e que está além das dualidades e de todas as limitações. No fim, “[t]udo que você tem a fazer é ser você mesmo, fazer a sua vontade e se regojizar” (“A Lei da Liberdade”).

“Nenhuma estrela pode desviar-se de seu curso escolhido: pois na alma infinita do espaço todos os caminhos são infinitos, abrangentes: perfeitos”.

-The Heart of the Master

Amor é a lei, amor sob vontade.

LINK ORIGINAL: https://iao131.com/2010/11/14/new-aeon-initiation-no-perfection-of-the-soul/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/inicia%C3%A7%C3%A3o-no-novo-aeon-o-n%C3%A3o-aperfei%C3%A7oamento-da-alma

Bakemono, Mononoke e Tsukumogami

Aoi Kuwan

Bakemono, composto pelos kanji “ba(ke)” e “mono”. O kanji “ba(ke)” significa “mudança”, “algo que muda de forma”, e “encantar” (com o sentido de enfeitiçar). Já “mono” significa “coisa”, “objeto”, “matéria”.

Traduzido como “monstro, “espectro”, “fantasma”, e “aparição” nos dicionários, um bakemono é, literalmente, uma coisa – geralmente espíritos de animais, mas não somente eles – que muda de forma, tornando-se uma criatura sobrenatural.

Como mencionado, são na maioria das vezes espíritos de animais que adquirem um certo grau de consciência e possuem a capacidade de mudar a sua forma para pregar peças nos seres humanos, comumente transformando-se em belas mulheres para seduzir os seres humanos. Os bakemonos também possuem a capacidade de evoluir, mudando a sua própria forma, o que ocorre quando eles ganham uma cauda extra.

Os bakemonos criados a partir de espíritos de animais são denominados mononoke. Mononoke também traduzido por “fantasma”, “espectro”, e outros termos genéricos, e se refere especificamente aos bakemono que são animais.

São exemplos de bakemono do tipo mononoke a kitsune (raposa), que pode chegar a ter até nove caudas (kyuubi no kitsune), o tanuki (guaxinim), o mujina (texugo), o bakeneko (gato), que quando ganha sua segunda cauda é chamado de nekomata.

Há também bakemonos que podem ser criados a partir de objetos inanimados. A eles é dada a denominação de Tsukumogami. Os tsukumogamis são tipos de bakemono que se transformam em criaturas sobrenaturais após um longo período de tempo, geralmente após 100 anos de existência do objeto. No entanto, esse período pode ser menor, dependendo da espécie do tsukumogami.

Atualmente, a expressão bakemono, assim como youkai, é usada para designar monstros em geral, mas apenas as criaturas que se enquadram na descrição explicada acima é que são realmente bakemonos.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/bakemono-mononoke-e-tsukumogami/

A Magia Maior e a Magia Menor no Satanismo

Magia Maior e Magia Menor (conhecida também como Alta e Baixa Magia ou coletivamente Magia Satânica), dentro do Satanismo LaVeyano, designa tipos de crenças com o termo maior magia aplicada à prática ritual significada como catarse psicodramática para focar as emoções para um propósito específico e magia menor aplicado à prática de manipulação por meio de psicologia aplicada e glamour (ou “astúcia e malícia”) para dobrar um indivíduo ou situação à sua vontade.

TEORIA E DEFINIÇÃO:

 “A magia branca é supostamente utilizada apenas para propósitos bons ou altruístas, e a magia negra, nos dizem, é usada apenas por razões egoístas ou “más”. O satanismo não traça tal linha divisória. Magia é magia, seja usada para ajudar ou atrapalhar. O satanista, sendo o mago, deve ter a habilidade de decidir o que é justo, e então aplicar os poderes da magia para atingir seus objetivos.” – Anton LaVey.

Delineado na Bíblia Satânica, LaVey definiu a magia como “a mudança em situações ou eventos de acordo com a vontade de alguém, que, usando métodos normalmente aceitos, seria imutável”. Esta definição incorpora dois tipos amplamente distintos de magia: maior e menor. De acordo com LaVey, um dos objetivos da magia ritual é “isolar a suprarrenal dissipada e outras energias emocionalmente induzidas, e convertê-la em uma força dinamicamente transmissível”. LaVey definiu magia menor como “astúcia e astúcia obtidas através de vários dispositivos e situações inventadas, que quando utilizadas, podem criar mudanças de acordo com a vontade de alguém”. Dentro deste sistema de magia, os termos feiticeiro e bruxa são mais comumente usados ​​e para se referir a praticantes masculinos e femininos, respectivamente.

LaVey defendia a visão de que havia uma realidade objetiva para a magia, e que ela dependia de forças naturais que ainda não haviam sido descobertas pela ciência. Em vez de caracterizá-los como sobrenaturais, LaVey expressou a visão de que eles faziam parte do mundo natural. Ele acreditava que o uso bem-sucedido da magia envolvia o mago manipular essas forças naturais usando a força de sua própria força de vontade. LaVey também escreveu sobre “o fator de equilíbrio”, insistindo que quaisquer objetivos mágicos deveriam ser realistas. LaVey recusou qualquer divisão entre magia negra e magia branca, atribuindo essa dicotomia puramente à “hipocrisia presunçosa e autoengano” daqueles que se autodenominavam “magos brancos”. Tal neutralidade se correlaciona com a visão filosófica de LaVey de um universo impessoal e, portanto, amoral.

LaVey explica suas razões para escrever A Bíblia Satânica em um pequeno prefácio. Ele fala com ceticismo sobre os volumes escritos por outros autores sobre o assunto da magia, descartando-os como “nada mais do que fraude hipócrita” e “volumes de desinformação e falsas profecias”. Ele reclama que outros autores não fazem mais do que confundir o assunto. Ele zomba daqueles que gastam grandes quantias de dinheiro em tentativas de seguir rituais e aprender sobre a magia compartilhada em outros livros de ocultismo. Ele também observa que muitos dos escritos existentes sobre magia e ideologia satânicas foram criados por autores do “caminho da mão direita”. Ele diz que a Bíblia Satânica contém verdade e fantasia, e declara: “O que você vê pode nem sempre agradar a você, mas você verá!” Muitas das ideias de LaVey sobre magia e ritual são descritas na Bíblia Satânica. LaVey explica que alguns dos rituais são simplesmente psicologia aplicada ou ciência, mas que alguns contêm partes sem base científica. Os Rituais Satânicos, publicado por LaVey em 1972, descreve os rituais com mais precisão. O terceiro livro da Bíblia Satânica descreve rituais e magia. De acordo com Joshua Gunn, estes são adaptados de livros de magia ritual, como Magick de Crowley: Teoria Elementar, mais conhecido como o Liber ABA.

A MAGIA MENOR

 “O significado antiquado de ‘glamour’ é bruxaria. O trunfo mais importante para a bruxa moderna é sua capacidade de ser sedutora, de utilizar o glamour. A palavra ‘fascinação’ tem uma origem similarmente oculta. Fascinação era o termo aplicado ao mau-olhado. Fixar o olhar de uma pessoa, em outras palavras, fascinar, era amaldiçoá-la com o mau-olhado. Portanto, se uma mulher tinha a capacidade de fascinar os homens, ela era considerada uma bruxa.” – Anton LaVey.

A Magia Menor, também conhecida como magia “cotidiana” ou “situacional”, é a prática de manipulação por meio da psicologia aplicada. LaVey escreveu que um conceito-chave na magia menor é o “comando para olhar”, que pode ser realizado utilizando elementos de “sexo, sentimento e admiração”, além da utilização de aparência, linguagem corporal, aromas, cores, padrões , e odor. LaVey escreveu que os termos “fascínio” e “glamour” têm origens no mundo da magia “coercitiva”. A palavra “fascinação” vem da palavra latina “fascinare”, que significa “lançar um feitiço sobre”. Este sistema encoraja uma forma de dramatização manipulativa, em que o praticante pode alterar vários elementos de sua aparência física para ajudá-lo a seduzir ou “enfeitiçar” um objeto de desejo.

LaVey desenvolveu “O Relógio Sintetizador”, cujo objetivo é dividir os humanos em grupos distintos de pessoas com base principalmente na forma do corpo e nos traços de personalidade. O sintetizador é modelado como um relógio, e baseado em conceitos de somatótipos. O relógio destina-se a ajudar uma bruxa a se identificar, posteriormente auxiliando na utilização da “atração de opostos” para “encantar” o objeto de desejo da bruxa, assumindo o papel oposto. Diz-se que a aplicação bem-sucedida da magia menor é construída sobre a compreensão de seu lugar no relógio. Ao encontrar sua posição no relógio, você é encorajado a adaptá-la como achar melhor e aperfeiçoar seu tipo harmonizando seu elemento para melhor sucesso. LaVey explica que, para controlar uma pessoa, é preciso primeiro atrair sua atenção. Ele dá três qualidades que podem ser empregadas para esse propósito: apelo sexual, sentimento (fofura ou inocência) e admiração. Ele também defende o uso de odor.

Dyrendal se referiu às técnicas de LaVey como “Erving Goffman conhece William Mortensen”. Extraindo insights da psicologia, biologia e sociologia, Petersen observou que a magia menor combina ocultismo e “ciências rejeitadas de análise corporal e temperamentos”.

  • No MorteSubita.net há uma seção dedicada a Baixa Magia com diversas informações a respeito.

A MAGIA MAIOR:

Da esquerda para a direita: Karla LaVey, Diane Hegarty e Anton LaVey ritualizando na Casa Negra, a sede original da Igreja de Satã.

A Magia Maior é um ritual realizado para concentrar a energia emocional de uma pessoa para um propósito específico. Esses ritos são baseados em três grandes temas psicoemotivos, incluindo compaixão (amor), destruição (ódio) e sexo (luxúria). Esses rituais são frequentemente considerados atos mágicos, com o satanismo de LaVey incentivando a prática da magia para ajudar os fins egoístas. Muito do ritual satânico é projetado para um indivíduo realizar sozinho; isso ocorre porque a concentração é vista como a chave para a realização de atos mágicos. O ritual é referido como uma “câmara de descompressão intelectual”, onde o ceticismo e a descrença são voluntariamente suspensos, permitindo assim que os magos expressem plenamente suas necessidades mentais e emocionais, não retendo nada em relação aos seus sentimentos e desejos mais profundos. LaVey listou os componentes-chave para um ritual bem-sucedido como: desejo, tempo, imaginação, direção e “O Fator de Equilíbrio” (consciência das próprias limitações). Os rituais LaVeyanos às vezes incluem blasfêmias anticristãs, que se destinam a ter um efeito libertador sobre os participantes. Em alguns dos rituais, uma mulher nua serve de altar; nestes casos, fica explícito que o próprio corpo da mulher se torna o altar, em vez de tê-la simplesmente deitada sobre um altar existente. Não há lugar para orgias sexuais no ritual LaVeyano. Nem animais nem sacrifícios humanos acontecem. As crianças são proibidas de participar desses rituais, com a única exceção sendo o Batismo Satânico, que é especificamente projetado para envolver bebês.

Detalhes para os vários rituais satânicos são explicados no Livro de Belial, e listas de objetos necessários (como roupas, altares e o símbolo de Baphomet) são fornecidas. LaVey descreveu uma série de rituais em seu livro, Os Rituais Satânicos; estas são “performances dramáticas” com instruções específicas sobre a roupa a ser usada, a música a ser usada e as ações a serem tomadas. Esta atenção aos detalhes na concepção dos rituais foi intencional, com sua pompa e teatralidade pretendendo envolver os sentidos e os sentidos estéticos dos participantes em vários níveis e aumentar a força de vontade dos participantes para fins mágicos. LaVey prescreveu que os participantes do sexo masculino devem usar túnicas pretas, enquanto as mulheres mais velhas devem usar preto, e outras mulheres devem se vestir de forma atraente para estimular os sentimentos sexuais entre muitos dos homens. Todos os participantes são instruídos a usar amuletos do pentagrama virado para cima ou da imagem de Baphomet. De acordo com as instruções de LaVey, no altar deve ser colocada uma imagem de Baphomet. Isso deve ser acompanhado por várias velas, todas, exceto uma, devem ser pretas. A única exceção é uma vela branca, usada em magia destrutiva, que é mantida à direita do altar. Também deve ser incluído um sino que é tocado nove vezes no início e no final da cerimônia, um cálice feito de tudo menos ouro, e que contém uma bebida alcoólica simbolizando o “Elixir da Vida”, uma espada que representa a agressão, uma falo modelo usado como aspersório, gongo e pergaminho no qual os pedidos a Satã devem ser escritos antes de serem queimados. Embora o álcool fosse consumido nos ritos da Igreja, a embriaguez era desaprovada e o consumo de drogas ilícitas era proibido.

O livro final da Bíblia Satânica enfatiza a importância da palavra falada e emoção para a magia eficaz. Uma “Invocação a Satã” bem como três invocações para os três tipos de ritual são dadas. A “Invocação a Satã” ordena que as forças das trevas concedam poder ao invocador e lista os nomes Infernais para uso na invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da luxúria” é usada para atrair a atenção de outro. As versões masculina e feminina da invocação são fornecidas. A “Invocação empregada para a conjuração da destruição” comanda as forças das trevas para destruir o sujeito da invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da compaixão” solicita proteção, saúde, força e a destruição de qualquer coisa que aflija o sujeito da invocação. O resto do Livro de Leviatã é composto pelas Chaves Enoquianas, que LaVey adaptou do trabalho original de Dee. Elas são dados em enoquiano e também traduzidas para o inglês. LaVey fornece uma breve introdução que credita Dee e explica um pouco da história por trás das Chaves Enoquianas e da linguagem. Ele sustenta que as traduções fornecidas são um “desenvernizamento” das traduções realizadas pela Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada) em 1800, mas outros acusam LaVey de simplesmente mudar as referências ao cristianismo com as de Satã.

Ao projetar esses rituais, LaVey baseou-se em uma variedade de fontes mais antigas, com o estudioso do satanismo Per Faxneld observando que LaVey “montou rituais de uma miscelânea de fontes históricas, literárias e esotéricas”. LaVey brincou abertamente com o uso da literatura e da cultura popular em outros rituais e cerimônias, apelando assim ao artifício, pompa e carisma. Por exemplo, ele publicou um esboço de um ritual que ele chamou de “Chamado a Cthulhu”, que se baseava nas histórias do deus alienígena Cthulhu, de autoria do escritor de terror americano H. P. Lovecraft. Neste rito, programado para acontecer à noite em um local isolado perto de um turbulento corpo de água, um celebrante assume o papel de Cthulhu e aparece diante dos satanistas reunidos, assinando um pacto entre eles na linguagem da ficção de Lovecraft “Old Ones (Os Antigos)”.

  • O Morte Súbita inc tem uma seção inteiramente dedicada a Baixa Magia

RITUAIS E RITOS CERIMONIAIS:

No Livro de Belial, ele discute três tipos de rituais: rituais de luxúria que trabalham para atrair outra pessoa, rituais de destruição para destruir outra pessoa e rituais de compaixão para melhorar a saúde, inteligência e sucesso. Rituais de luxúria são projetados para atrair o parceiro romântico ou sexual desejado e podem envolver a masturbação, com o orgasmo como objetivo. Rituais de destruição são projetados para prejudicar os outros e envolvem a aniquilação simbólica de um inimigo através do uso de sacrifício humano “vicário”, muitas vezes envolvendo uma efígie personalizada representando a vítima pretendida que é então submetida a fogo ritual, esmagamento ou outra representação de obliteração . Os rituais de compaixão são projetados com a intenção de ajudar as pessoas (incluindo a si mesmo), para evocar um sentimento de tristeza ou tristeza, e o choro é fortemente encorajado.

Nos Rituais Satânicos, LaVey faz uma distinção entre o ritual e a cerimônia, afirmando que os rituais “… são direcionados para um fim específico que o performer deseja”, e que as cerimônias são “… evento, aspecto da vida, personagem admirado, ou declaração de fé (…) um ritual serve para atingir, enquanto uma cerimônia serve para sustentar”. LaVey enfatizou que em sua tradição, os ritos satânicos vinham em duas formas, nenhuma das quais eram atos de adoração; em sua terminologia, os “rituais” tinham a intenção de provocar mudanças, enquanto as “cerimônias” celebravam uma ocasião particular.

Um batismo satânico é uma cerimônia para uma criança que se destina a ser um reconhecimento simbólico da criança como tendo nascido satanista e só deve ser realizada para menores de quatro anos, pois LaVey afirmou que além dessa idade, a criança já começou a ser influenciado por ideias “alienígenas”. Os batismos de adultos servem como uma declaração de “fé”, onde “falsidades, hipocrisia e vergonha do passado” são simbolicamente rejeitadas. Em 1967, LaVey realizou o primeiro batismo satânico registrado publicamente na história para sua filha mais nova, Zeena, que ganhou publicidade mundial e foi originalmente gravado no LP, The Satanic Mass (A Missa Satânica). Os Batismos Satânicos foram escritos por LaVey e publicados em Os Rituais Satânicos.

Em fevereiro de 1967, LaVey oficiou o primeiro casamento satânico, o casamento muito divulgado de Judith Case e o jornalista John Raymond. O primeiro funeral satânico foi para o mecânico-reparador naval dos EUA, de terceira classe e membro da Igreja de Satã, Edward Olsen. Foi realizado por LaVey a pedido da esposa de Olsen, completo com uma guarda de honra com capacete cromado. Ambas as cerimônias foram escritas por LaVey, mas nunca foram publicadas oficialmente até 2007, quando As Escrituras Satânicas lançou ao público uma versão adaptada delas pelo atual Sumo Sacerdote da Igreja, Peter H. Gilmore.

Junto com as cerimônias de casamento e funeral, As Escrituras Satânicas de Gilmore também publicou um rito menor de dedicação de objetos cerimoniais, que satiriza os rituais de ‘limpeza’ de outras religiões, e o Ragnarök Rite (Rito do Ragnarök), um ritual escrito por Gilmore na década de 1980 inspirado no o antigo mito nórdico do Ragnarök pretendia expurgar seus participantes da angústia e do ódio despertados após serem vítimas do fanatismo religioso.

A MISSA NEGRA:

LaVey também desenvolveu sua própria Missa Negra, que foi concebida como uma forma de descondicionamento para libertar o participante de quaisquer inibições que desenvolvessem ao viver na sociedade cristã. Ele observou que ao compor o rito da Missa Negra, ele se baseou no trabalho de Charles Baudelaire e Joris-Karl Huysmans.

SIMBOLISMO:

Os Quatro Príncipes Coroados do Inferno:

LaVey utilizou o simbolismo dos Quatro Príncipes Herdeiros do Inferno na Bíblia Satânica, com cada capítulo do livro sendo nomeado após cada Príncipe. O Livro de Satã: A Diatribe Infernal, O Livro de Lúcifer: A Iluminação, O Livro de Belial: Domínio da Terra, e O Livro do Leviatã: O Mar Furioso. Esta associação foi inspirada na hierarquia demoníaca do Livro da Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago.

  • Satã (hebraico) “O Senhor do Inferno”:

O adversário, representando a oposição, o elemento fogo, a direção do sul e o Sigilo de Baphomet durante o ritual.

  • Lúcifer (romano) “A Estrela da Manhã”:

O portador da luz, representando orgulho e iluminação, o elemento ar, a direção do leste e velas durante o ritual.

  • Belial (hebraico) “O Sem Mestre”:

A baixeza da terra, independência e autossuficiência, o elemento terra, a direção do norte e a espada durante o ritual.

  • Leviatã (hebraico) “A Serpente do Abismo”:

O grande dragão, representando o segredo primordial, o elemento água, a direção do oeste e o cálice durante o ritual.

Frases:

Hail Satan (Salve Satã)” uma saudação comum e termo ritual na Igreja de Satã, tanto em sua forma inglesa, Hail Satan, bem como na versão original em latim, Ave Satanas. Quando Ave Satanas é usado, muitas vezes é precedido pelo termo Rege Satanas (“Satã Reina”). (Rege Satanas pode ser ouvido no vídeo de um casamento amplamente divulgado da Igreja de Satã realizado por LaVey em 1º de fevereiro de 1967.) A combinação “Rege Satanas, Ave Satanas, Hail Satan!” é encontrado como uma saudação na correspondência inicial da Igreja de Satã, bem como em sua gravação de 1968, The Satanic Mass (A Missa Satânica) e, finalmente, em seu livro de 1969, A Bíblia Satânica. A frase é usada em algumas versões da Missa Negra, onde muitas vezes acompanha a frase Shemhamforash e é dita no final de cada oração. Este rito foi realizado pela Igreja de Satã aparecendo no documentário Satanis em 1969.

***

Principais fontes:

Aquino, Michael (2002). The Church of Satan.

Barton, Blanche (1992). The Secret Life of a Satanist: The Authorized Biography of Anton Lavey. Feral House. p. 86. ISBN 978-0-922915-12-5.

Gilmore, Peter H. (2007). The Satanic Scriptures. Baltimore (MD): Scapegoat Publishing. pp. 131–182.

Gunn, Joshua (2005). “Prime-time Satanism: rumor-panic and the work of iconic topoi”. Visual Communication. 4 (1): 93–120. doi:10.1177/1470357205048939. S2CID 144737058.

LaVey, Anton (1969). The Satanic Bible. Avon.

LaVey, Anton, The Satanic Mass, LP (Murgenstrumm Records, 1968)

Melech, Aubrey (1985). La Messe Noire (PDF). London: Sui Anubis. p. 52. ISBN 0-947762-03-5.

Mortensen, William; Dunham, George (2014). The Command to Look: A Master Photographer’s Method for Controlling the Human Gaze. p. 203.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-magia-maior-e-a-magia-menor-no-satanismo/

A Alta Magia e o Santuário do Silêncio

Por Lyam Thomas Christopher

“O propósito do silêncio”, diz o famoso Cabalista Z’ev ben Shimon Halevi, “é harmonizar todos os aspectos díspares da psique” (Halevi 94). Mas como isto é assim? Por que o adepto é notado tanto por sua calma quanto por sua magia? De fato, um dos símbolos mais marcantes e enigmáticos dos mistérios ocidentais é o gesto de trazer o dedo indicador para os lábios. Na superfície, esta postura comunica a necessidade do sigilo. E, num nível mais profundo e oculto, demonstra um segredo de verdadeiro poder.

A Nova Era é conhecida pelo poder mágico: cura energética, projeção astral, adivinhação, proteção psíquica, afirmações que mudam a vida. Estes temas surgem das lendas dos místicos e magos famosos pelos estranhos fenômenos que os rodeavam. O exame da vida destes homens e mulheres, no entanto, revelará que eles não desenvolveram intencionalmente tais poderes externos. Em vez disso, eles praticaram a disciplina de mergulhar em um lugar secreto dentro de si, na verdadeira natureza do Eu. Foi apenas por acaso que, ao penetrarem neste santuário oculto, várias habilidades se manifestaram. Eles começaram a se lembrar de vidas passadas. Eles podiam projetar seus corpos astrais. Seus ambientes começaram a cooperar com eles, cumprindo suas intenções sem nenhum esforço de sua parte. Eles podiam ver outros lugares nos olhos da mente e alegadamente faziam todo tipo de façanhas estranhas, como caminhar sobre a água, aparecer em dois lugares ao mesmo tempo, e viver por centenas de anos.

Muitos desses mestres alertaram seus alunos para não valorizar o trabalho espiritual por seus efeitos especiais, mas as pessoas ainda hoje perseguem poderes mágicos como tantos cachorros enamorados com suas próprias caudas. A ânsia por resultados de todos os seres humanos, infelizmente para eles, é contrária à disciplina espiritual que produz tais resultados. A preocupação com as manifestações de poder “ruidosas” para fora serve apenas para afastar o estudante de magia do próprio poder que ele procura, cuja fonte está escondida na quietude.

Quando o estudante começa a estudar magia na tradição Golden Dawn (Aurora Dourada), a primeira série em que entra ensina-lhe o mais poderoso de todos os gestos rituais: o Sinal do Silêncio. Para realizá-lo, o aluno se levanta de pé, leva seu dedo indicador esquerdo aos lábios e carimba seu pé esquerdo com suavidade e firmeza. Este ato ritual tem a tendência, mesmo em um estudante não acostumado a trabalhar com a aura, de recolher e assentar qualquer energia psíquica que possa estar vagando por aí.

A tendência natural da mente média movida pelo corpo é a de projetar sua preciosa energia para fora em direção a objetos em seu campo perceptual. Obedecendo aos instintos de sobrevivência do corpo, a mente típica é mantida cativa por uma obsessão em mostrar a si mesma um filme de seu próprio conteúdo. Este tipo de projeção é uma faculdade útil para os animais, pois condiciona a mente a ser atraída pela comida e a fugir dos predadores. No entanto, manter um mundo de fantasia povoado de qualidades atraentes e repulsivas desperdiça uma grande quantidade de energia mental que poderia ser usada para fins mais elevados. Ele mantém a pessoa comum fechada em um mundo de sonhos enervante, no qual objetos externos parecem possuir disposições boas e más. Por exemplo, ele pode guardar rancor para um colega de trabalho na medida em que, não importa o que o colega faça, as expressões faciais parecem demoníacas e maneirismos ameaçadores. Seu inimigo percebido pode até mesmo sorrir para ele, mas ele acaba percebendo o ato como lascivo ou sarcástico. Ou, um homem pode ter uma esposa cruel que o faz lembrar de sua mãe. Não importa o quanto ela o trate mal, ele projeta sobre ela imagens de segurança e de segurança. Ele fica preso em uma ilusão, apaixonado por alguém que ele não suporta. Neste cativeiro onírico, ele não reconhece mais o medo e o desejo como autogerados. Ele permite que eles emanem de objetos externos. Quando uma pessoa deixa de assumir a responsabilidade por suas próprias percepções, quando não se reconhece mais como sua fonte, ela se torna subserviente às circunstâncias e presa por seu ambiente.

O humano moderno, no entanto, evoluiu e está se libertando da necessidade do mecanismo de sobrevivência da projeção – isto apesar do fato de que o mecanismo ainda está ligado ao seu sistema nervoso. Projeções de medo e desejo ainda paira sobre ele, governando suas ações, mesmo quando ele se torna vagamente consciente da possibilidade de crescer além da necessidade desses fantasmas parentais desgastados. Diante do potencial para uma vida livre de ilusões externas, ele deve ter a coragem de seguir em frente. Tendo vislumbrado a irrealidade dos demônios que o impulsionam, ele não pode mais, em boa consciência, submeter-se a eles. É tarefa do estudante de alta magia, portanto, tornar-se consciente desta faculdade de projeção – aproveitá-la, chamá-la de lar, e eventualmente dedicá-la a um propósito superior. O silêncio é uma ferramenta que ajuda a este despertar.

A prática ritual do Sinal do Silêncio ajuda a retirar quaisquer correntes de projeção que você esteja jogando fora no momento. Ao executá-lo, imagine-se voltando ao seu lugar ou “fervilhando”. Pat Zalewski acrescenta uma visualização do Sinal do Silêncio em seu livro Z-5: Ensinamento Secreto da Golden Dawn: “Imagine um vapor aquoso que o rodeia. Este é o refluxo da corrente” (Zalewski 176).

Os estudantes que se tornam gradualmente mais hábeis em conter suas projeções notarão que seus ambientes deixam de ser intimidadores. O medo começa a dissolver-se. Eles crescem mais e mais seguros dentro de si mesmos e menos reativos. Estas experiências são bons sinais de progresso.

O oficial do templo conhecido como Kerux dá uma lição chave sobre o silêncio no ritual Neófito da Golden Dawn. Ele conduz o neófito a uma mesa e lhe mostra dois pratos de líquido transparente. Ele entrega um ao neófito e despeja o conteúdo do outro dentro dele. Os dois produtos químicos reagem e ficam vermelhos no sangue:

“Que isto te lembre, ó Neófito, quão facilmente por uma palavra descuidada ou impensada, você pode trair aquilo que jurou guardar em segredo e pode revelar o conhecimento oculto que te foi transmitido, e implantado em seu cérebro e em sua mente. E que o matiz do sangue te lembre que se falhares neste juramento de segredo, teu sangue poderá ser derramado e teu corpo quebrado…(Regardie 130)”

Anos mais tarde, quando o Neófito tiver alcançado uma nota mais alta, esta lição passará de um aviso sobre o sigilo para um bom conselho sobre a verdadeira natureza do poder mágico. A capacidade de manter um juramento de sigilo é simbólica de uma magia mais profunda que o estudante ainda não descobriu. Em algum momento, o estudante se tornará mais sensível às dimensões superiores e à energia bruta que anima seu corpo físico. Em algum momento, ele se tornará capaz de sentir o mal-estar energético da traição – a sensação de quebrar, romper ou derramar que surge em seu instinto quando ele acidentalmente revela algum detalhe íntimo de seu trabalho mágico a um estranho. Em algum momento, então, ele conhecerá a sensação de integridade danificada, o desequilíbrio e o vazamento de energia, como o sangue de uma ferida.

Por que este tipo de autocontenção é importante? O trabalho ritual diário de um estudante do Golden Dawn estabelece um recipiente selado, no qual pode ocorrer o Grande Trabalho de autotransformação. Este recipiente invisível deve ser cuidadosamente alimentado com silêncio e privacidade. Misturar os detalhes de suas duas vidas diferentes, sua persona pública e sua persona mágica, colocará em risco este ponto focal interno de poder potencial. As palavras faladas a outra pessoa devem ser cuidadosamente monitoradas, pois compreendem um ato ritual que pode sugar a energia de uma área da vida para outra. É melhor então empregar o silêncio como uma barreira, que mantém as delicadas energias formativas de seu trabalho mágico diário isoladas e nutridas das multidões ciumentas. Não seja como o sonhador brincalhão que perde tempo e energia falando de seus sonhos e deixando de agir sobre eles. Seja antes como o artista que não expõe seu trabalho enquanto ele está em meio à criação.

A ideia por trás disto é que a energia bruta generativa, cuidadosamente contida e concentrada, incubará e cultivará energia quintessencial para produzir esclarecimento. A centelha divina que caiu na matéria na criação do universo primordial só germinará quando ela for bem cuidada. E quando o trabalho diário do estudante tiver sucesso, essa centelha florescerá no mundo, expressando a divindade nas circunstâncias de sua vida.

Esta ideia não é realmente nada de novo para a disciplina espiritual. Outras tradições também a ensinam. Na yoga taoísta, o estudante usa a respiração, a visualização, várias posturas de equilíbrio e concentração para aproveitar a energia volátil generativa e acumulá-la para produzir um “embrião espiritual”. Cuidado adequadamente através do silêncio, autocontenção e reclusão, este embrião amadurece e se torna um corpo imortal de luz, capaz de explorar a natureza interior do universo e reencarnar em quaisquer circunstâncias que ele requeira para novas aventuras. O Mestre Zen Kuoan do século XII descreve um processo semelhante em uma série de poemas sobre a criação de bois (Loori xv). O boi que ele gosta da tendência volátil, errante e neurótica da mente. A tarefa do monge zen é domar o boi e montá-lo em casa – sendo “casa” a iluminação. Para realizar este processo ele pratica Zazen, uma espécie de meditação sentada na qual se requer total quietude e centralidade. Nas tradições ocidentais, a Alquimia propõe mais uma versão deste processo, afirmando que o Mercúrio volátil (mente inquieta), às vezes representado por uma serpente, deve ser crucificado (contido e domesticado), para que uma transmutação possa ocorrer. A aplicação de enxofre (concentração) a este Mercúrio fixo faz com que a pedra filosofal mágica se cristalize. Estas diferentes abordagens sugerem uma fórmula universal: Para que o poder mágico se manifeste, a mente deve ser contida, domada e concentrada, de modo que algum tipo de transformação possa ocorrer.

A pedra filosofal é vista simbolicamente como um diamante prismático ou esmeralda. Ela refrata e focaliza a luz. Isto sugere que a energia bruta do corpo pode ser contida e concentrada, criando algo análogo a uma lente. Há muitos magos por aí que se orgulham muito de sua capacidade de controlar essa energia generativa. Eles a empregam para “curar” outros, ou para manipulá-los hipnoticamente. Alguns até mostram sua capacidade de gerar uma carga estática quando entregam um aperto de mão. Mal sabem eles como desperdiçam este precioso recurso quando poderiam estar temperando-o e concentrando-o em silêncio para agir como uma lente para outro tipo de energia, a ilimitada luz espiritual dos Mundos superiores.

A disciplina humilde e alternativa da alta magia requer claramente autocontenção e foco, e isso significa que as filosofias estereotipadas da Nova Era não servirão. A Nova Era muitas vezes confunde moralidade com magia. Ela mistura a tolerância politicamente correta da diversidade com a disciplina espiritual. Consequentemente, isto produz um caldo caótico de técnicas conflitantes, misturando e combinando panteões incompatíveis de deuses e aplicando erroneamente símbolos divergentes de modelos mutuamente exclusivos do universo. Estudantes que vão do yoga ao espiritualismo e à Magia Enochiana acabam não chegando a lugar nenhum rapidamente. Alguns acabam desenvolvendo obsessões e neuroses que beiravam a esquizofrenia. Quando você está tentando alcançar a iluminação, você deve se concentrar em um sistema e uma prática particular, de preferência sob a orientação de um adepto. Para romper a crosta de ilusão do ego, é melhor cavar um todo profundo em vez de muitos outros superficiais.

Quando o estudante é capaz de se conter e centralizar de maneira consistente, o que ele descobre? Tem havido muitas tentativas para descrevê-lo. Alguns o chamam de porta de entrada. No budismo é chamado de “gateless gate” (porta sem porta). No cristianismo, Jesus se refere a ela como o “olho da agulha” pelo qual um homem rico não pode passar. A Golden Dawn representa este portão através dos dois pilares do templo.

Os pilares preto e branco, Jachin e Boaz, representam os opostos em manifestação, as forças contendas entre as quais o espectro de sensação do arco-íris é possível. A maioria das pessoas que olham para o mundo veem apenas a dualidade preto e branco dos dois pilares e o jogo do cabo de guerra entre eles. Elas acreditam que as coisas acontecem no mundo por causa de causa e efeito, porque um pilar inicia uma ação e o outro reage a ela. E assim por diante, para frente e para trás, preto e branco, o bem e o mal. Tais pessoas ludibriadas em seu carma, tipicamente gostam de declarações da Nova Era como “O que acontece, acontece” ou “O que você envia, você recebe três vezes para trás”. Embora haja uma certa realidade nestas declarações em um nível, o mago da alta magia alcança um estado além da causa e do efeito, além da roda da morte e do renascimento, e além das paredes do tempo e da morte.

O que a maioria das pessoas não vê é que, entre os pilares preto e branco, em meio a este espectro de ação e reação, o poder imerge de uma dimensão superior. Ela se manifesta dentro do drama das forças em confronto. Os pilares preto e branco não operam em um vácuo. Eles são dois atores em um drama presidido por uma força que é invisível, além e acima da arena de ação limitada pelo tempo. Há um poder que surge no mundo material que não vem de nada iniciado no próprio mundo material. Ele flui através deste portal invisível. O oficial do templo chamado de Hierofante representa este poder oculto. Ele vem simbolicamente em auxílio do Neófito vendado, passando entre os pilares preto e branco de ação e reação. Ele representa o Eu Superior do neófito e uma alternativa à vida que está enredada no refluxo e fluxo da natureza.

Este é um ponto muito importante, pois demonstra que a mudança é possível através de outros meios que não o esforço físico. Ele aponta a possibilidade do verdadeiro poder mágico que surge através do silêncio de nenhum esforço. Na alquimia, a simples presença da pedra filosofal é suficiente para transformar metais de base em ouro. A mera presença do adepto, da mesma forma, sem esforço, faz com que a mudança se manifeste independentemente das leis de causa e efeito.

O mago não manipula necessariamente o mundo. Ele meramente se transforma no meio da mudança, tornando-se uma fonte de transformação. Alguém observou cinicamente que, mais cedo ou mais tarde, todos os magos desistem da magia e se voltam para o misticismo. Mas, se esses estudantes de magia tivessem sido místicos devotados desde o início, eles se teriam encontrado, sem tentar, no papel de mago.

Obras Citadas:

Halevi, Z’ev ben Shimon. The Work of the Kabbalist. York Beach, ME: Samuel Weiser, 1985.

Zalewski, Pat. Z-5 Secret Teachings of the Golden Dawn/Book I: The Neophyte Ritual 0=0. St. Paul, MN: Llewellyn, 1991.

Regardie, Israel. The Golden Dawn. 6th ed. St. Paul, MN: Llewellyn, 1992.

Loori, John Daido. Riding the Ox Home. Boston: Shambhala, 1999.

***

Fonte:

High Magic and the Sanctuary of Silence, by Lyam Thomas Christopher.

https://www.llewellyn.com/journal/article/1266

COPYRIGHT (2006) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/a-alta-magia-e-o-santuario-do-silencio/

A Sabedoria Espiritual de Harry Potter?

Por Christopher Penczak.

Com o sétimo e último livro de Harry Potter, Harry Potter e as Relíquias da Morte de J.K. Rowling, sendo lançada em breve, está crescendo muito interesse na mídia e no público sobre magia, bruxaria e feitiçaria. Sendo um bruxo publicamente e um autor, muitas vezes me perguntam quão “real” é o mundo de Harry Potter. As crianças vão para um internato mágico, voam pelo ar e enfrentam todos os tipos de criaturas sobrenaturais. Quão real você acha que é? Mas o que eles realmente querem dizer é: quão real, quão precisa, é a magia apresentada na série Harry Potter?

Embora eu esteja feliz em saber que a popularidade da série Harry Potter está fazendo as pessoas lerem e fazendo as pessoas se interessarem por magia, lamento informar que a magia de Harry Potter não é muito real. Sim, eu sei que é um filme, e a magia do cinema, mesmo a mais respeitosa magia do cinema, tem que ter um pouco de força extra. As pessoas querem ver relâmpagos e bolas de fogo voando das pontas dos dedos, mesmo que eu não conheça nenhuma bruxa ou bruxo vivo que possa fisicamente realizar tais atos. É parte da emoção do filme, e nossos épicos de espada e bruxaria devem ser capazes de competir com lasers, sabres de luz e outros efeitos especiais espetaculares.

Também sei que parte da tradição está correta (até certo ponto), pelo menos no sentido histórico. Em Harry Potter e a Câmara Secreta, quando a turma de Hogwarts estava transplantando a mandrágora, eles ensinaram corretamente que o grito da mandrágora é perigoso, grita quando é desenraizado, e que precauções especiais são necessárias. No livro, eles usavam protetores de ouvido para abafar o som. Na Europa Medieval, eles supostamente amarravam um cachorro na raiz e colocavam a carne fora do alcance do cachorro, para que quando ele puxasse para pegar a carne, ele arrancasse a mandrágora, recebesse seu grito mortal e fosse morto. A mandrágora então se tornaria inofensiva e estaria disponível para ser usada como um poderoso amuleto. Embora, que eu saiba, nenhuma variedade de mandrágoras literalmente grite quando é desenraizada, tais rituais são um conhecimento remanescente de como apaziguar o espírito da planta, com quem você deve fazer parceria para fazer sua magia.

Trabalhar com os espíritos e a espiritualidade da magia é o que realmente falta no trabalho de J.K. Rowling. Em um esforço para tornar a magia excitante e mais palatável para o leitor moderno (que assume que a magia não tem nada a ver com religião ou espiritualidade), as ricas tradições espirituais históricas da magia são esquecidas e todo um corpo de conhecimento que poderia ser extraído para aprofundar o mundo de Harry Potter é deixado de lado.

Ironicamente, grupos cristãos conservadores nos Estados Unidos acusaram os livros de Harry Potter e J.K Rowling de promover bruxaria em crianças. Como uma bruxa, eu teria que discordar. Enquanto os filmes podem estimular o interesse em bruxaria e magia, a magia retratada neste mundo não é nada parecida com a minha. Se você entrar na Wicca, Magia Cerimonial, ou qualquer forma de magia moderna pensando que você será o Diretor Dumbledore ou a Professora McGonagall (com seus usos explícitos de magia), você ficará realmente desapontado. Para alguns, eles verão o que está faltando em Harry Potter e presente em nossas tradições, e olharão para o espírito da magia.

Embora a magia seja uma ciência para muitos de nós, porque existem padrões e teorias repetidos, também é uma tradição espiritual. Uma das primeiras definições que aprendi de bruxaria é que é “ciência, arte e religião”. Muitas tradições de magia, incluindo as tradições de magia cerimonial mais intelectuais e educadas, enfatizam o lado espiritual da magia, se não o lado abertamente religioso. Para muitos de nós, os talentos mágicos são considerados presentes dos deuses, e talentos específicos indicam aqueles abençoados por deuses específicos. Ao falar com um leigo sobre magia e feitiços, os feitiços são frequentemente descritos como uma forma de oração, petição ou súplica às forças divinas que governam uma área específica da vida. Se o feitiço for bem sucedido, a oração foi respondida. Outros vêem isso como uma parceria espiritual com essas forças, não necessariamente uma súplica. Em ambos os casos, trata de forças divinas sobrenaturais e imanentes com as quais o mago se comunica para criar mudanças.

O mundo de Harry Potter perpetua o que chamo de abordagem química da magia. Se você simplesmente fizer a coisa certa – as palavras e a pronúncia certas, o gesto certo, os ingredientes e o tempo exatos, obterá o mesmo resultado. Os magos sabem que você pode pronunciar palavras incorretamente e ainda ter ótimos resultados se tiver energia e vontade suficientes por trás de sua magia, e você pode pronunciá-las tecnicamente corretamente e ainda assim falhar. Magia é uma arte assim como uma ciência e algo que desafia a reprodução.

Muitas tradições de magia também colocam um código moral na magia. Na Wicca, temos a Rede Wicca: “E não prejudique ninguém, faça o que quiser”. Acreditamos que o que você faz, bom, mau ou não, retorna a você três vezes. Não é um julgamento ou código moral do universo, mas um mecanismo do universo, como a gravidade. Mas os resultados disso nos ajudam a criar uma experiência mágica mais agradável. Outras tradições têm tradições semelhantes de carma e colhendo o que você planta. Muitos magos seguem uma das numerosas variações da Regra de Ouro, popularizada pelo Cristianismo, para “[fazer] aos outros o que você teria feito a você”. Embora a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts tenha muitas regras, o mesmo conceito de ética e moralidade mágica não é mantido fortemente. Os personagens estão sempre se esforçando para fazer o que é bom e certo pela virtude de serem heróis, mas a moralidade não é realmente ensinada como parte de uma tradição espiritual mágica, levando alguns dos alunos (como Draco Malfoy e seus companheiros) a serem menos moral do que os personagens principais. Nem todo mundo pode ser um herói, e esses personagens fornecem um contraponto interessante aos heróis da história.

Enquanto, no livro, Hogwarts é uma escola de magia, bruxaria (witchcraft) e feitiçaria (wizardry), os nomes geralmente são usados ​​para denotar praticantes femininos e masculinos de magia. As meninas são bruxas (witches) e os meninos são bruxos (wizards). No mundo moderno, os homens adotarão o nome de bruxa tão prontamente quanto as mulheres, não de bruxo (wizard) e certamente não de bruxo warlock (já que bruxo warlock é geralmente considerado um termo depreciativo pelos bruxos modernos). As mulheres geralmente não usam o termo maga, mas podem ser magas cerimoniais. Elas podem ser magas, feiticeiras e encantadoras se esses termos os atraírem. A bruxaria moderna tem um forte traço feminista, enfatizando a igualdade (se não a superioridade) das mulheres, e um lugar de destaque para o feminino divino como Deusa e mãe de Deus, bem como posições de liderança para as mulheres. Embora existam professoras e personagens femininas, particularmente a muito inteligente e capaz Hermione Granger, o mundo de Harry Potter não tem a mesma sabedoria feminina divina que o mundo da bruxaria moderna aspira.

Alguns dos aspectos do mundo de Harry que estão de acordo com a magia moderna incluem a ideia dos trouxas. Um trouxa é uma pessoa não-mágica, e na verdade se refere a alguém como sendo de um sangue diferente, enquanto muitas das famílias mágicas tentam permanecer puro-sangue. Tais idéias também são encontradas nas tradições de bruxaria do velho mundo, com o conceito de “sangue bruxo”. Algumas bruxas acreditam que são descendentes das raças mais antigas de seres, incluindo os deuses celtas, o povo das fadas/elfos, ou a raça dos anjos caídos conhecidos como os Vigilantes. A magia foi transmitida nas tradições familiares porque também estava no sangue. As bruxas modernas chamaram não bruxas de cowans, inicialmente um termo que se refere a um pedreiro sem licença, aquele que não foi iniciado na guilda. As bruxas tradicionais britânicas, particularmente aquelas que seguem uma tradição estrita de bruxaria gardneriana ou alexandrina, considerarão todos aqueles não iniciados em uma tradição adequada como cowans. Eu pessoalmente odeio ambos os termos, trouxa e cowan, pois eles implicam que algumas pessoas não são mágicas. Penso que somos todos magos, e que aqueles que chamamos de cowans ou trouxas simplesmente ainda não aprenderam ou não são chamados a reconhecê-lo. Eles ainda são seres divinos e mágicos do jeito que são. Os termos vêm da nossa necessidade de nos sentirmos especiais e superiores aos outros. Essa ideia está em Harry Potter e na magia moderna, infelizmente.

Nos livros, Hogwarts enfatiza o estudo e a disciplina como uma parte importante do treinamento mágico, e devo concordar. Eu acredito que enquanto certas pessoas são talentosas em magia, talvez sendo do sangue de bruxa, qualquer um pode aprender a fazer magia se eles se dedicarem a isso. É preciso educação, treinamento e prática, mas a magia é uma habilidade como qualquer outra, e pode ser desenvolvida com o tempo. Você pode não ser um bruxo ou bruxa de classe mundial, mas pode usar feitiços simples e meditação para melhorar sua vida consideravelmente.

Por fim, o mundo de J.K. Rowling não tem nenhuma ideia tola de que a magia só pode ser usada por pessoas boas, ou para bons propósitos. Magia é uma energia, ou talvez uma maneira de manipular a energia, as forças invisíveis do universo. As pessoas usam para o bem. As pessoas usam para o mal. As pessoas usam para conseguir o que querem. As pessoas usam para ajudar os outros. Existe um espectro de usos para a magia e todos eles, independentemente de suas intenções, têm consequências. Magia nos ensina a assumir responsabilidade, a enfrentar as consequências de todas as nossas ações.

Quando as pessoas me perguntam sobre a realidade da série Harry Potter, depois de falar sobre alguns desses pontos, sugiro que tomem Harry Potter pelo que é: uma história. Apreciá-lo. Toda a série é divertida e provavelmente se tornará um clássico. Cada livro fica um pouco mais profundo e sério, crescendo à medida que a criança cresce lendo-os. E eles são muito divertidos para os adultos também, incluindo bruxas, feiticeiros, magos e pagãos. Mas não confunda um livro ou filme com as profundas tradições espirituais de bruxaria e magia.

Enquanto O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, ambos clássicos recentemente transformados em filmes, têm associações cristãs devido à fé de seus autores, ninguém os confunde com manuais de como praticar o cristianismo. Enquanto J. K. Rowling está escrevendo sobre bruxaria, ela não está escrevendo da perspectiva de uma bruxa moderna, então não espere que seja um livro de prática preciso. Se você está procurando por ficção que ensine magia, sugiro a leitura da obra de Dion Fortune, como seu livro A Sacerdotisa do Mar, quando terminar a série Harry Potter. Ela é divertida e esclarecedora, e abre um verdadeiro caminho para os mistérios da magia.

***

Sobre o autor:

Christopher Penczak é um bruxo, professor, escritor e praticante de cura. Ele é o fundador do mundialmente famoso Temple of Witchcraft (Templo da Bruxaria) e do Temple Mystery School (Escola de Mistério do Templo), e é o criador dos livros e CDs de áudio mais vendidos do Temple of Witchcraft. Christopher é um ministro ordenado, servindo as comunidades pagãs e metafísicas de New Hampshire e Massachusetts por meio de rituais públicos, conselhos particulares e ensino. Ele também viaja extensivamente e ensina em todos os Estados Unidos. Christopher mora em New Hampshire.

http://www.christopherpenczak.com

***

Fonte:

The Spiritual Wisdom of Harry Potter?, by Christopher Penczak.

COPYRIGHT (2007) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/a-sabedoria-espiritual-de-harry-potter/

A Grandeza do Viṣṇu Purāṇa

Capítulo VIII do Livro VI do Viṣṇu Purāṇa.

Conclusão do diálogo entre Parāśara e Maitreya. Recapitulação do conteúdo do Viṣṇu Purāṇa: mérito de ouvi-lo: como foi transmitido. Louvores a Viṣṇu. Concluindo a oração.

Tenho agora explicado a vós, Maitreya, o terceiro tipo de dissolução do mundo, ou seja, a libertação e a resolução em espírito eterno[1]. Relacionei a vós a criação primária e secundária, as famílias dos patriarcas, os períodos dos Manvantaras e as histórias genealógicas (dos reis). Repeti a vocês, em suma, que estavam desejosos de ouvir, o imperecível Vaiṣṇava Purāṇa, que é destrutivo de todos os pecados, o mais excelente de todos os escritos sagrados, e os meios para alcançar o grande fim do homem. Se há mais alguma coisa que você deseja ouvir, proponha sua pergunta, e eu a responderei.

Maitreya disse:-

Santo mestre, você realmente me contou tudo o que eu desejava saber, e eu o escutei com piedosa atenção. Não tenho mais nada a perguntar. As dúvidas inseparáveis da mente do homem foram todas resolvidas por você, e através de suas instruções conheço a origem, a duração e o fim de todas as coisas; com Viṣṇu em sua quádrupla forma coletiva[2]; suas três energias[3]; e com os três modos de apreender o objeto de contemplação[4]. De tudo isso adquiri um conhecimento através de seu favor, e nada mais é digno de ser conhecido, quando se compreende que o Viṣṇu e este mundo não são mutuamente distintos. Grande Muni, obtive por sua bondade tudo o que desejava, a dissipação de minhas dúvidas, já que o senhor me instruiu nos deveres das diversas tribos, e em outras obrigações; a natureza da vida ativa, e a descontinuidade da ação; e a derivação de tudo o que existe das obras. Não há mais nada, venerável Brahman, que eu tenha que perguntar a você; e me perdoe se suas respostas às minhas perguntas lhe impuseram algum cansaço. Perdoe-me o incômodo que lhe dei, através dessa qualidade amável do virtuoso – que não faz distinção entre um discípulo e uma criança.

Parāśara disse:-

Relacionei a vocês este Purāṇa, que é igual aos Vedas em santidade, e por ouvir que todas as faltas e pecados, quaisquer que sejam, são expiados. Nisto foram descritas a vocês a criação primária e secundária, as famílias dos patriarcas, os Manvantaras, as dinastias reais; os deuses, Daityas, Gandharvas, serpentes, Rākṣasas, Yakṣas, Vidyādharas, Siddhas e ninfas celestiais; Munis dotados de sabedoria espiritual, e praticantes de devoção; as distinções das quatro castas, e as ações das mais eminentes entre os homens; lugares santos na terra, rios e oceanos sagrados, montanhas sagradas, e lendas dos verdadeiramente sábios; os deveres das diferentes tribos, e as observâncias ordenadas pelos Vedas. Ouvindo isto, todos os pecados são imediatamente apagados. Nisso também foi revelado o glorioso Hari, a causa da criação, preservação e destruição do mundo; a alma de todas as coisas, e ele mesmo todas as coisas: pela repetição de cujo nome o homem é sem dúvida liberado de todos os pecados, que voam como lobos assustados por um leão. A repetição de seu nome com fé devota é o melhor removedor de todos os pecados, destruindo-os enquanto o fogo purifica o metal da escória. A mancha da era Kali, que assegura aos homens punições afiadas no inferno, é imediatamente apagada por uma única invocação de Hari. Aquele que é tudo isso, o ovo inteiro de Brahmā, com Hiraṇyagarbha, Indra, Rudra, os Ādityas, os Aswins, os ventos, os Kinnaras, os Vasus, o Sādhyas, Viśvadevas, os deuses celestiais, as serpentes Yakṣas, Rākṣasas, os Siddhas, Daityas, Gandharvas, Dānavas, ninfas, as estrelas, asterismos, planetas, os sete Ṛṣis, os regentes e superintendentes dos bairros, homens, brâmanes e os demais, animais domesticados e selvagens, insetos, aves, fantasmas e duendes, árvores, montanhas, bosques, rios, oceanos, as legiões subterrâneas, as divisões da terra e todos os objetos perceptíveis – aquele que é tudo, que conhece todas as coisas, que é a forma de todas as coisas, estando sem forma a si mesmo, e de quem tudo o que é, desde o monte Meru até um átomo, tudo consiste – ele, o glorioso Viṣṇu, o destruidor de todos os pecados – está descrito neste Purāṇa. Ouvindo este Purāṇa se obtém uma recompensa igual àquela que é derivada da realização de um sacrifício Aśvamedha, ou do jejum nos lugares santos Prayāga, Puṣkara, Kurukṣetra, ou Arbuda. Ouvindo este Purāṇa, mas uma vez é tão eficaz quanto a oferta de oblações em um fogo perpétuo por um ano. O homem que com paixões bem governadas toma banho em Mathurā no décimo segundo dia do mês Jyeṣṭha[5], e contempla (a imagem de) Hari, obtém uma grande recompensa; também aquele que com a mente fixada em Keśava recita atentamente este Purāṇa. O homem que se banha nas águas do Yamunā no décimo segundo almoço da quinzena de luz do mês em que a lua está na mansão Jyeṣṭhā, e que jejua e adora Achyuta na cidade de Mathurā, recebe a recompensa de um ininterrupto Aśvamedha. Contemplando o grau de prosperidade desfrutado por outros de eminência, através dos méritos de seus descendentes, os antepassados paternos de um homem, seus pais e seus pais, exclamamam, “Quem de nossos descendentes, tendo tomado banho no Yamunā e jejuado, adorará Govinda em Mathurā, na quinzena de luz de Jyeṣṭha, garantirá para nós exaltação eminente; pois seremos elevados pelos méritos de nossa posteridade”! Um homem de boa extração apresentará bolos obsequiosos a seus afortunados antepassados no Yamunā, tendo venerado Janārddana, na quinzena luz de Jyeṣṭha. Mas o mesmo grau de mérito que um homem colhe frente adorando Janārddana naquela época com um coração dedicado, e de tomar banho no Yamunā, e efetuando a libertação de seus progenitores oferecendo-lhes em tal ocasião bolos obsequiais, ele deriva também de ouvir com igual devoção uma seção deste Purāṇa. Este Purāṇa é o melhor de todos os conservantes para aqueles que têm medo da existência mundana, um certo alívio do sofrimento dos homens, e a remoção de todas as imperfeições.

Este Purāṇa, originalmente composto pelo Ṛṣi (Nārāyaṇa), foi comunicado por Brahmā a Ribhu; ele o relacionou com Priyavrata, por quem foi transmitido a Bhāguri. Bhāguri o recitou ao Tamasitra[6], e ele ao Dadīca, que o entregou ao Sāraswata. Do último Bhrigu o recebeu, que o transmitiu a Purukutsa, e ele o ensinou a Narmadā. A deusa a entregou a Dhritarāṣṭra, o rei Nāga, e a Purāṇa da mesma raça, por quem ela foi repetida a seu monarca Vāsuki. Vāsuki a comunicou a Vatsa, e ele a Āswatara, de quem ela prosseguiu sucessivamente para Kambala e Elapatra. Quando o Muni Vedaśiras desceu para Pātāla, ele lá recebeu todo o Purāṇa destes Nāgas, e o comunicou ao Pramati. Pramati o consignou ao sábio Jātukarṇa, e ele o ensinou a muitas outras pessoas santas. Através da bênção de Vaśiṣṭha, veio ao meu conhecimento, e eu agora, Maitreya, fielmente o transmiti a você. Você o ensinará, no final da era Kali, a Śamīka[7]. Quem ouvir este grande mistério, que remove a contaminação do Kali, será libertado de todos os seus pecados. Aquele que ouve isto todos os dias se absolve de suas obrigações diárias para com os ancestrais, os deuses e os homens. O grande e raramente alcançável mérito que um homem adquire pelo dom de uma vaca marrom, ele deriva de ouvir dez capítulos deste Purāṇa[8]. Aquele que ouve todo o Purāṇa, contemplando em sua mente Achyuta, que é tudo, e de quem tudo é feito; que é a permanência do mundo inteiro, o receptáculo do espírito; que é o conhecimento, e o que deve ser conhecido; que não tem começo nem fim, e o benfeitor dos deuses – obtém certamente a recompensa que assiste à celebração ininterrupta do rito Aśvamedha. Aquele que lê e mantém com fé este Purāṇa, em cujo início, meio e fim é descrito o glorioso Achyuta, o senhor do universo em cada etapa, o mestre de tudo o que é estacionário ou móvel, composto de conhecimento espiritual, adquire a pureza que não existe em nenhum mundo, o estado eterno de perfeição, que é Hari. O homem que fixa sua mente em Viṣṇu não vai para o inferno: aquele que medita nele considera o gozo celestial apenas como um impedimento: e aquele cuja mente e alma são penetradas por ele pensa pouco no mundo de Brahmā; pois quando presente na mente daqueles cujos intelectos estão livres do solo, ele lhes confere a liberdade eterna. Que maravilha, portanto, é que os pecados de quem repete o nome de Achyuta devam ser apagados? Não deveria ser ouvido falar de Hari, a quem aqueles dedicados a atos adoram com sacrifícios continuamente como o deus do sacrifício; a quem aqueles dedicados à meditação contemplam como primário e secundário, composto de espírito; obtendo a quem o homem não nasce, nem se alimenta, nem está sujeito à morte; quem é tudo o que é, e isso não é (ou ambos causa e efeito); quem, como os progenitores, recebe as libações feitas a eles; quem, como os deuses, aceita as oferendas que lhes são dirigidas; o ser glorioso que não tem princípio nem fim; cujo nome é Svāhā e Swadhā[9]; quem é a morada de todo o poder espiritual; em quem os limites das coisas finitas não podem ser medidos[10]; e quem, quando entra no ouvido, destrói todo o pecado?

Eu o adoro, aquele primeiro dos deuses, Puruṣottama, que é sem fim e sem começo, sem crescimento, sem decadência, sem morte; que é substância que não sabe mudar. Adoro aquele espírito sempre inesgotável; que assumiu qualidades sensatas; que, embora um, tornou-se muitos; que, embora puro, tornou-se como que impuro, ao aparecer em muitas e variadas formas; que é dotado de sabedoria divina, e é o autor da preservação de todas as criaturas. Eu o adoro, que é a única essência e objeto conjunto tanto da sabedoria meditativa quanto da virtude ativa; que é vigilante em proporcionar prazeres humanos; que é um com as três qualidades; que, sem passar por mudanças, é a causa da evolução do mundo; que existe de sua própria essência, sempre isenta de decadência. Eu o adoro constantemente, que tem direito ao céu, ar, fogo, água, terra e éter; que é o doador de todos os objetos que dão gratificação aos sentidos; que beneficia a humanidade com os instrumentos da fruição; que é perceptível, que é subtil, que é imperceptível. Que aquele Hari não nascido, eterno, cuja forma é múltipla, e cuja essência é composta de natureza e espírito, conceda a toda a humanidade aquele estado abençoado que não conhece nem o nascimento nem a decadência!

NOTAS DE RODAPÉ E REFERÊNCIAS:

[1]:

O termo é Brahmāṇi laya, que significa, “um derretimento”, “uma dissolução” ou “fusão”, a partir da raiz, “liquefazer”, “derreter”, “dissolver”.

[2]:

Ou com Viṣṇu, nas quatro modificações descritas na primeira seção, espírito, matéria, forma e tempo: ver p. 9.

[3]:

Ou com Śakti, notado no último capítulo, p. 655.

[4]:

Ou com Bhāvanās, também descrito na seção anterior, p. 654.

[5]:

Este mês também é chamado Jyeṣṭhamūla, que o comentarista explica significar, o mês, cuja raiz ou causa (Mūla) de ser assim chamado é a lua estar cheia na constelação Jyeṣṭhā: mas pode ser assim chamado, talvez, pelo asterismo lunar Mūlā, que está ao lado de Jyeṣṭhā, que também está dentro da passagem da lua pelo mesmo mês.

[6]:

Este nome também é lido Tambamitra. Uma cópia tem Tava-mitrāya, ‘para teu amigo’, como se fosse um epíteto de Dadhīca; mas a construção do verso requer um nome próprio. ‘Bhāguri deu-o a Tambamitra, e ele a Dadhīci’.

[7]:

Uma série diferente de narradores foi especificada no primeiro livro, p. 9.

[8]:

Esta parece ser uma interpolação injudiciosa; não está em todas as cópias.

[9]:

As palavras ou orações empregadas na apresentação de oblações com fogo.

[10]:

O texto tem, ####. Māna comumente significa ‘orgulho’, mas aqui parece mais apropriadamente interpretado por sua importação radical, ‘medir’ as medidas que são para a determinação de coisas mensuráveis não são aplicáveis a Viṣṇu.

***

Fonte: https://www.wisdomlib.org/hinduism/book/vishnu-purana-wilson/d/doc116069.html

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-grandeza-do-vi%e1%b9%a3%e1%b9%87u-pura%e1%b9%87a/

A Gênese Vampírica e o Mito de Caim e Abel

Uma questão que sempre levantou acirrados debates nos círculos estudiosos é a de como a gênese vampírica se vincula ao mito de Caim e Abel. São vários os relatos míticos que tencionam descrever a autêntica origem da linhagem vampírica. Entre muitas culturas, a judaico-cristã também possui algumas versões, mas nenhuma delas está disponível nos textos canônicos. O mesmo processo que filtrou, eliminou e adulterou os documentos produzidos nos meios pré-cristão e cristão primitivo, de tal modo a autorizar os dogmas e doutrinas da ortodoxia católica, também purgou qualquer menção explícita aos vampiros nas narrativas bíblicas. Muito embora a intenção e o empenho da igreja católica fosse o de destruir todos os livros que, de alguma forma, contradissessem a sua compilação diretamente “inspirada” pelo espírito santo, alguns lograram sobreviver e hoje são conhecidos como apócrifos ou escritos proibidos. É num raro e reduzido grupo destes que encontramos os únicos relatos remanescentes sobre vampiros dentro da cultura bíblica. Recentemente a pretensa antiguidade de um livro deste grupo foi negada; estudos históricos e análise de estilo dataram o surgimento do original por volta do século XI. Neste manuscrito, Caim é posto propositalmente como o antepassado mais remoto da linhagem. O intuito disfarçado na elaboração deste livro é compor mais um elemento para a cortina de fumaça que encobre as intenções filosóficas originais das passagens bíblicas. Sendo assim, não merece uma consideração maior.

Meu interesse se volta mais para uma certa versão gnóstica do Livro do Gênese. Esse texto, em sua transcrição copta, foi preservado por uma seita gnóstica cristã minoritária chamada “astanfitas”, pertencente ao mesmo braço herético responsável pelos “ofitas” e “caimitas”. Devido ao número extremamente reduzido de seguidores, esta seita pôde passar incógnita até proximamente o século IX, quanto foi cruel e sigilosamente exterminada nos alvores da inquisição. Antes de assumir suas feições gnósticas, ela fazia parte das dissidências judaicas do período pré-cristão. Surgiu como uma resposta heterodoxa à outra seita cismática que marcou essa época com seu fundamentalismo austero: os essênios. Estes se referiam aos astanfitas como os inimigos da verdade, um título que eles não rejeitavam de todo; já que, revelando notável concordância com os filósofos céticos, pregavam que a certeza é um engano, a dúvida é fundamental; a mente sem ilusão não tem certeza, a inteligência honesta duvida. Mais tarde, resumiriam: “Toda gnose possível é dúvida rigorosa”. A princípio parece um total niilismo e um profundo pessimismo; mas; para eles; uma conduta moral somente poderia ser construída sobre a dúvida alcançada a duras penas. O homem moralmente apto é aquele que pode se responsabilizar por seus atos e um ato é responsável desde que tenha sido executado por livre opção. Contudo, não há o que decidir se a certeza já nos é dada pela verdade. E optar pelo errado não é uma atitude livre, é apenas uma louca inconseqüência. Logo, é legítima somente a decisão que for pautada numa dúvida muito bem estabelecida, pois apenas ela nos provê de opções, a verdade elimina todas. Assim, chegam a um certo humanismo moral, onde desprezam a verdade revelada que tira do homem a responsabilidade por seus atos. A verdade, diziam os astanfitas, produz apenas dois tipos de homens; os imbecis irresponsáveis e os loucos inconseqüentes.

Depois do desaparecimento dos astanfitas, demorou quatro séculos para que surgisse indícios da sobrevivência de algo dos seus manuscritos. Então, na península ibérica, começou a circular, entre os cabalistas, exemplares de textos nitidamente astanfitas vertidos para o árabe. Inafortunamente, nenhuma dessas obras escapou completa do fogo da inquisição, tudo o que nos restou foram poucos fragmentos dispersos, insuficientes para dar idéia geral sobre o que tratava o texto integral do qual provinham. Comentários, inserções e indicações nos tratados de alquimia e cabala do período, quando não são sucintos em demasia, são herméticos em excesso ou propositalmente evasivos.

Após esse breve aparecimento, só no século XX o interesse na gnose astanfita veio a se reacender através de novos e sensacionais achados. Sintomaticamente, duas das mais importantes coletâneas de textos gnósticos vieram à luz em datas quase concomitantes na década de quarenta. Em dezembro de 1945, foram encontrados, num complexo de cavernas no alto Egito, os famosos “manuscritos de Nag Hammadi” que, após superarem mais de trinta anos entraves de todo tipo, puderam contar uma estória diferente do início do cristianismo.

Em março de 1946, foi a vez dos menos conhecidos “manuscritos astanfitas de Hagia Sophia”. Tendo um percurso tão mirabolante e mais antigo que o da primeira descoberta, sua estória começa quando um colecionador, em 1935, doou à igreja de Hagia Sophia, recém transformada em museu, um maço de pergaminhos aos quais não se deu muita importância, pois se tratava na maior parte de homilias e sermões de padres ortodoxos que oficiavam na basílica entre os séculos XIII e XV. Durante mais de dez anos ficaram preteridos no depósito, quando finalmente foi feito um exaustivo trabalho de recuperação, em que as folhas grudadas pelo mofo e umidade foram separadas cuidadosamente uma a uma. Entremeado aos textos eclesiais, encontrou-se um códice em copta com datação mais remota que o restante do material. Era uma legítima compilação astanfita feita provavelmente no quinto ou sexto século.

Quando soube do achado, o colecionador confessou ter adquirido o maço, junto com diversos outros artefatos egípcios, de um ladrão de túmulos no Cairo, pouco antes da primeira guerra. Este lhe contou que os papéis lhe foram passado numa transação arriscada feita com um receptador de Istambul, mas que, antes dele, estiveram em posse de um padre da igreja ortodoxa que, por sua vez, os haviam recebido em confiança de um operário que trabalhou na recuperação de Hagia Sophia após o terremoto de 1894. O vício em ópio, além de outros prazeres mais caros, levou o sacerdote a negociar os documentos com o comerciante desonesto em troca de algum dinheiro que lhe suprisse, pelo menos por uns dias, suas necessidades mais prementes.

Ao que parece, vários dos manuscritos ficaram por muito tempo resguardados da sanha dos inquisidores em recônditos obscuros dentro da sólida construção de Hagia Sophia, sob a custódia de alguns padres simpatizantes ou simplesmente tolerantes da heresia astanfita. Também há rumores de que o faziam em respeito aos projetistas do edifício: o matemático Anthemius de Tralles e o arquiteto Isidorus de Miletus; estes sim – sustentam certas fontes – eram astanfitas praticantes, fato que mantiveram em segredo durante toda vida por razões óbvias. Sobre isso nada podemos afirmar. Seja como for, o encargo foi passado dentro de um círculo restrito de padres, geração a geração. Até que a tomada de Constantinopla pelos turcos no século XV obrigou os padres a esconder, apressadamente, seus livros e documentos em recintos selados, para que não ficassem ao alcance dos pagãos e fossem destruídos. No meio dessas pilhas de papéis ordinários, os manuscritos astanfitas foram inseridos sorrateiramente sem que os outros padres incumbidos da tarefa suspeitassem. A esperança era que logo os invasores seriam expulsos e os documentos novamente recuperados. Tais expectativas não se cumpriram e a basílica não só permaneceu em domínio turco como foi feita mesquita imperial pelo conquistador, o Sultão Mehmet. E assim foram esquecidos por mais de cinco séculos; quando, então, um terremoto abriu uma das câmaras secretas expondo seu conteúdo. A abertura foi descoberta primeiramente por um dos operários que vieram trabalhar na restauração da igreja. Visando obter algum lucro no comércio ilegal de antiguidades, ele extraviou uns poucos pacotes de escritos, enquanto pode manter oculta a passagem para a cela. Quando, no canteiro de obra, começaram a desconfiar de seus estranhos pacotes, supondo que logo seria despedido, lacrou de vez a passagem, pensando poder voltar assim que a situação fosse esquecida. Nesse meio tempo, deixou seu espólio sob guarda de um padre que era seu conhecido para não levantar suspeitas. Seu azar foi que o tal padre não tinha uma vida tão devota e estava sempre desesperado em busca de dinheiro para sustentá-la. Logo, não demorou muito para cair na tentação e vender todos os pacotes no mercado negro de itens antigos. Ele não poderia imaginar o quanto antigos eram os documentos e que valiam bem mais que as garrafas de absinto e a noite de satisfação carnal. Contudo, não tardou para que todos os seus problemas fossem definitivamente resolvidos; o operário, ao saber que mais nada restava, apunhalou o padre e fugiu. A sorte do fugitivo não melhorou, o padre tinha irmãos menos tementes a deus, que o emboscaram e mataram alguns dias depois.

Depois do relato feito pelo colecionador, começou-se as buscas pela cela secreta e ela foi encontrada. Passou-se, então, ao tedioso trabalho de recuperação e, no seu decorrer, outros textos astanfitas foram surgindo paulatinamente. Entre eles, algumas preciosidades como um evangelho desconhecido e que nem mesmo estava presente na biblioteca de Nag Hammadi. Enigmaticamente, em sua primeira linha lê-se: “Estes são os relatos feitos por Lásarus, o primeiro vivo, sobre Jesus, o segundo vivo”. Outros são conhecidos por Nag Hammadi ou outras fontes, mas designam autores diferentes. É o caso de certos livros, cuja autoria sempre foi dada a João, que aparecem atribuídos a Lásarus, o primeiro vivo. Esse Lásarus evangelista, discípulo e depois mestre de Jesus confunde os pesquisadores imensamente. Nos evangelhos canônicos, ele é apenas o rapaz ressuscitado, irmão de Marta e Maria. Talvez “primeiro vivo” derive do fato de ter precedido Jesus na ressurreição do corpo. O seu evangelho astanfita diz explicitamente isso, mas também revela que a ressurreição foi apenas aparente; já que, efetivamente, eles jamais chegaram a morrer. Nos seus termos:

“A ressurreição só é possível enquanto ainda não sobreveio a morte física. O fruto da arvore da vida é para ser comido pela carne e quem assim o saborear ressuscita e passa a ser um ‘vivo’ como Jesus e, antes dele, Lásarus”.

Tudo isso é muito interessante, todavia estamos nos desviando de nosso tema. Haverá outras ocasiões propícias para retomarmos a esse assunto instigante. No momento, devemos nos ater a uma obra magnífica e sem precedentes revelada entre os manuscritos de Hagia Sophia. Nunca houve qualquer citação sobre ela, tudo que lhe dissesse respeito foi sumariamente destruído. Parece que até mesmo os monges de Nag Hammadi a rejeitaram ou a desconheciam. Nem os detratores da heresia gnóstica que existiram dentro da patrística – normalmente os responsáveis por sobreviver alguma memória dos textos que atacavam e, por paradoxal que pareça, sem eles a existência de certas concepções não ortodoxas seriam completamente varridas da História – ousaram mencioná-la uma vez que fosse. Era como jamais tivesse sido escrita até as descobertas de Hagia Sophia. Talvez os padres da igreja tenham pensado que era mais sensato e prudente omitir comentários e não chamar atenção sobre ela, deixá-la obscura e restrita como estava, não deviam salientar qualquer aspecto de seu conteúdo, até tachá-la de apostasia imperdoável seria conceder-lhe uma importância perigosa. Neste caso, julgaram que o melhor era calar e proceder, sem aviso e demora, uma devassa permanente para busca e apreensão de todas as cópias que surgissem, as quais seriam lançadas ao fogo de imediato. Felizmente, os astanfitas eram poucos e astutos, não se revelavam com facilidade e suas condutas não os denunciavam. Além de tudo, eram muito estimados, pois se destacavam em diversas das artes e ciências da época, inclusive assumiam posto de responsabilidade dentro do império e, mais tarde, na própria igreja. Graças a essas providenciais peculiaridades, um pergaminho contendo uma inspirada versão alternativa do gênese bíblico chegou aos nossos tempos.

Os historiadores catalogaram esse códice com o título de “O Livro de Astanfeus”, já que Astanfeus, um dos sete anjos da criação, é o protagonista da trama narrada no manuscrito. A sua epopéia inicia-se precisamente no trecho bíblico encontrado em gênesis 3:22 nas bíblias atuais e relata sua contenda com Iaodabaoth, outro anjo da criação; metáfora para o conflito eterno entre liberdade e tirania. O sentimento filantrópico nutrido por Astanfeus o levará a defender o homem contra os desmandos megalômanos de Iaodabaoth. Sua interferência se faz, a princípio, através de Eva, pois só ela lhe podia ouvir, isto porque a sensibilidade de Adão foi totalmente embotada pelo domínio que Iaodabaoth exerce sobre a aparência. Astanfeus passa, então, a incentivá-la para que compartilhe com seu parceiro o fruto interdito do conhecimento do bem e do mal, assegurando-lhe que não iriam morrer como sentenciou o anjo que lhes dizia ser um deus único. E, além disso, seus olhos se abririam, o que os tornaria iguais aos anjos. Sua investida surtiu efeito e o fruto foi consumido, o que desagradou profundamente Iaodabaoth, fazendo-o exigir a expulsão do casal humano do éden, para evitar que também usufruíssem da árvore da vida. Todavia, sua moção não foi acatada pelos outros seis anjos da criação; os elohim, o próprio Astanfeus sendo um deles. Enfurecido, Iaodabaoth se volta contra os humanos, persuadindo-os de que nada havia mudado; continuavam a ser as mesmas criaturas indefesas de antes, só que agora estavam eternamente marcadas pelo pecado da desobediência e da soberba de desejarem ser deuses, tornando mister que sofressem uma severa punição: o exílio.

Prefigurando uma notável ingenuidade, eles aceitam as manobras ladinas do anjo contrariado em seu amor próprio. É voluntariamente que se submetem e se humilham a um poder que já não possuía controle sobre seus destinos. E por que fizeram isso? Qual a razão de tal disparate? O texto delata uma cumplicidade tácita entre os dois lados dessa relação de poder. Evidencia que os pais da humanidade não foram enganados, nem poderiam ser; o fruto do conhecimento havia lhes concedido clareza de espírito suficiente para flagrar qualquer tentativa de logro. O que choca é concluir com o autor que eles deliberadamente se deixaram enganar. E isso não é a mesma coisa, está muito longe de ser. Inadvertidamente, usa-se um conceito pelo outro sem considerar a inversão que ocorre entre agente e paciente do dolo. O logrado aqui, no fim das contas, é Iaodabaoth que tomou como sincera a crença depositada em suas palavras.

A que leva e qual a motivação desse estranho jogo de interesse? Depois que conheceram o bem e o mal, Adão e Eva se encontram numa situação semelhante a que passaram antes de comer o fruto. Na ocasião, nada havia que lhes desse certeza de qual dos dois anjos estava certo e, sendo honestos consigo mesmos, esse ponto ainda permanecia incerto; já que Iaodabaoth sentenciou que morreriam, mas não disse quando. Mesmo assim, tomaram uma decisão e declinaram em favor de Astanfeus. Comido o pomo da discórdia, descobriram que o esclarecimento não lhes trouxe a verdade, nem resolveu inteiramente o certo do errado; o que fez foi refinar, de modo extraordinário, a dúvida; paradoxalmente tornando-a algo líquido e certo. O bem e o mal se confundem, se mesclam, permutam incessantemente, variam de acordo com as circunstâncias, são recíprocos de uma mesma inteireza, um consubstancia o outro, entre eles há uma mútua afirmação e uma alternância cíclica de feições. Nessa dança interminável, as alternativas estarão sempre sendo geradas, as escolhas irão se sucedendo a cada passo. O primeiro casal humano percebeu, aturdido, que não lhe seria exigido apenas mais uma decisão; encadeadas a esta viriam várias, uma após outra até o fim da vida que pudessem ter. Vislumbraram uma existência repleta de livres opções e responsabilidade por cada ato. Se a primeira decisão não havia sido fácil, imagine enfrentar isso a todo momento e para sempre. Diante de Eva, Adão pondera:

– De que nos adiantou ter os olhos abertos, enxergamos em detalhes e minúcias o que antes era plano e compacto, abandonamos uma imagem simples e imediata de tudo que era exterior a nós por uma complexa compreensão que não delimita fronteira entre o dentro e o fora. Agora, podemos antecipar que nosso futuro não está previsto, são muitas as possibilidades e nenhuma garantia é possível; o dia seguinte se tornou uma bela esperança. Essa liberdade exasperante que devemos exercer cotidianamente nos será cobrada com mais e mais necessidades. Quanto mais se amplia a potência de nossos atos, mais aumenta nossa responsabilidade pelas conseqüências. A partir do fruto, se não assumirmos e suportarmos esse peso, não nos consideraremos dignos, nem razoáveis. Perdemos totalmente a capacidade de acreditar no quer que seja, sempre conseguiremos ver outras alternativas e, então, fazer mais uma escolha será inevitável, como a responsabilidade dela decorrente. Nunca escaparemos desse destino repleto de opções angustiantes, sempre seremos levados a tomar decisões cruciais e dolorosas. E tudo isso, toda essa demanda valerá a pena? Qual recompensa receberemos pelo extremo esforço? Também sobre isso nada é certo. Nosso discernimento recém adquirido não sustenta um só sentimento de segurança.

– Talvez, Eva, fosse melhor para nós devolver esse dom ingrato. Voltar a fechar os olhos como antes e esquecer tudo que vimos. Apaguemos de vez essa clareza de espírito. Se nos recusarmos a usá-la, ela deve desaparecer com o tempo. Com isso, a jogaremos no olvido junto com todo o resto. Façamos, Eva, com que nossa segunda decisão seja a última. Na primeira, eu te segui e demos ouvidos à serpente; eis que este é o momento de tu me seguires e ficarmos ao lado do Senhor Nosso Deus. A dádiva do fruto que nos trouxe infortúnio também nos mostra a alternativa para escaparmos dele. Argúcia e inteligência não nos convêm, nada mais que sofridos dilemas advirão deles. Como criaturas estúpidas, poderemos voltar a crer em Deus e ficaremos despreocupados em Seu regaço, livres de qualquer responsabilidade.

Eva se deixa convencer e capitula diante de Iaodabaoth para acompanhar Adão no desterro. Aceitam de bom grado o injustificado sentimento de culpa que o demiurgo lançou sobre eles. E obedecem cabisbaixos a ordem para que abandonem o éden e se confinem numa distante caverna nas terras ocidentais.

Nesta escura caverna, Eva gesta e dá luz a Caim (aquele que possui a si mesmo) e Luluva, as metades máscula e feminil do primeiro filho do homem, cuja fecundação se deu no meio do éden em pleno efeito do fruto do conhecimento. Já Abel (vaidade) e Aclia foram fecundados na clausura e no alheamento. Assim, no tempo das origens, o humano nascia, na aparência, com suas partes masculina e feminina separadas em irmãos gêmeos, destinados a se religarem no enlace sexual e recompor o hermafrodita primordial. Entretanto, isso jamais esteve nos planos de Iaodabaoth, pois a imagem humana dividida em dois sexos foi propositalmente concebida por ele, um premeditado arranjo para tornar o homem mais vulnerável ao seu aliciamento. Então, para impedir que a reunião se consumasse, convence Adão e Eva de que os casais deveriam ser prometidos trocados.

Caim e luluva crescem inconformados com a situação injusta a que seus pais estavam sujeitos. Chegaram cedo à convicção de que não precisavam, nem deveriam, adorar Iaodabaoth como deus único. Logo perceberam que era uma entidade insidiosa e com um hipertrofiado conceito de si mesmo, apenas preocupada em alimentar uma vaidade insana. Contrariando Adão e Eva, recusaram-se a louvá-lo, repudiaram seus caprichos, não aceitaram a condição de servos tementes, pois sabiam que ele dependia da anuência de suas vítimas para tocá-las. Mesmo com as imprecações ouvidas de seus genitores, viviam fora da caverna em peremptória e intencional ignorância às determinações do deus de seus pais. Mas não só deles, também seus irmãos Abel e Aclia se converteram em fiéis seguidores e condenavam o modo de vida que adotaram, que consistia em explorar as extensões dos campos ao redor, coletando vegetais e frutas, aprendendo os mecanismos da natureza. Despertaram suas mentes para o céu e o passar do tempo. Descobriram padrões e correlações, intuíram leis benéficas no crescimento dos vegetais, aprenderam técnicas de sobrevivência com os animais. E tudo isso os levou às artes e às ciências. Enquanto seus irmãos enveredaram por outros caminhos; confinaram os animais fora de seus habitats, cevando-os para abate, impondo-lhes ritmos de vida artificiais.

Os fragmentos em árabe deste texto que foram preservados apresentam pequenas discordâncias, em relação ao pergaminho astanfita, quanto à descrição de como foi efetuada a oferenda de Caim e Luluva. No códice, nem mesmo há oferenda, eles se recusam terminantemente em prestar qualquer homenagem àquele deus que tanto desprezavam. Nas versões em árabe até encetam a oblação, cedendo às suplicas dos pais, contudo o desfecho dado vai se modificando nitidamente em cada fragmento. Em exemplares mais tardios, a oferta é mínima, suficiente para não ofender um certo senso de desperdício que não conseguiram negligenciar; enquanto nos de datação mais remota, foram mais radicais e, desistindo na última hora, retiram tudo, ignorando peremptoriamente os apelos e admoestações dos pais e dos irmãos.

Não importa o quanto essa atitude foi minimizada nas versões árabes, a ira despertada em Iaodabaoth é irretocável. Não podendo atingi-los diretamente, nutre a vaidade de Abel e fomenta nele uma crescente desconfiança contra o irmão. E conduz a intriga num estilo que em muito antecipa o Iago no Othelo de Shakespeare:

– Abel, tu bem sabes que te amo tanto quanto a teus pais, que tuas oferendas me são agradáveis e as recebo com júbilo. Tu mereces toda minha deferência, mas teu irmão é o oposto de ti, rejeitou a verdade que te dei de bom grado e enfrenta a dúvida e a incerteza a cada dia. Ele não ouve as súplicas de teus pais e me odeia por puro orgulho, nada fiz contra ele para justificar essa má vontade e não retribuo o mesmo sentimento. Nunca neguei a ele o justo poder que permito a ti que exerças sobre a natureza, através dos animais que criei para te servir e aplacar tua fome. Mas não, por birra, ele prefere se sujeitar aos caprichos da natureza para se alimentar de vegetais ao invés de reinar sobre ela. Fiz-te forte e robusto por meio do que comes, enquanto ele ficou fraco e frágil devido ao seu alimento pobre; não é como um homem deveria ser; o vigor sanguíneo de teu rosto não se compara à tez pálida de teu irmão. A jovial beleza que possuis contrasta com a sobriedade pedante desse primogênito arredio. Talvez eu espere demais de quem é fruto do pecado de teus pais, que foi gerado na desobediência de minhas leis. Muito diferente és tu; filho do amor puro e casto, vieste à luz graças ao enlace que perante mim foi consagrado e comprometido. Bem-aventurado, então, foi teu nascimento e eu o abençoei e permaneci ao teu lado todos os dias de tua vida e jamais te abandonarei. Porém, teu irmão sempre se afastou de minha presença, seduzido por palavras evocativas e sibilinas repudiou minha guarda e proteção. Mesmo se impondo por arrogância, não pode esconder que seu desejo mais profundo é, na verdade, usufruir a intimidade que compartilhamos. Todo o desdém é dissimulado; apesar das recusas enfáticas, ambiciona secretamente todas as dádivas que te concedi. E assim, porque me importo com tua segurança, alerto-te para que te acauteles contra teu irmão. Porque me amas, logo Caim passará a te odiar como odeia a mim. Ele, agora, está enfurecido e rebelou-se totalmente contra meus desígnios. Aviso-te para que saibas: ele inveja-te mais do que nunca depois que te favoreci; reluta em aceitar minha decisão de fazer tua prometida a mais bela das irmãs. A obsessão por Luluva o está consumindo e há intenções hostis em seus gestos. És o predileto de teu Deus e não quero que sofras pelos atos de teu irmão, portanto previna-se contra a violência que ele poderá perpetrar. Tu conheces a morte, a tens provocado com tuas próprias mãos. O que ainda não te dei a conhecer é que não só os animais morrem; no exílio, também o homem morre. Ciente disto, tu perceberás que, em certos momentos, devemos nos antecipar ao mal para que ele não prevaleça.

Bem, o que se seguiu a isso é fácil prever. Abel, temendo a morte nas mãos de Caim, se antecipa e tenta matar o irmão usando seu instrumento de trabalho, ao que ele se defende por puro instinto de sobrevivência e ambos vão ao solo. Não conseguindo conter a fúria do irmão e no afã de o fazer parar, Caim reage reflexamente e desfere um golpe na cabeça de Abel com o que, no momento, estava mais ao alcance de sua mão; uma pedra. Abel tomba para o lado, mortalmente ferido, agoniza e morre. Caim se levanta atônito diante de uma visão que não pôde conciliar; olha o corpo inerte e sanguinolento e não reconhece, nele, seu irmão. Ele havia desencadeado um processo que, de um instante para outro, transformou algo vivo numa massa bruta e sem identidade. Sentia que era uma situação muito grave e, talvez, irreparável. Mas, transtornado, não queria pensar que fosse assim, freneticamente buscava em sua imaginação meios que pudesse reverter os fatos. A lembrança mais reconfortante que lhe ocorreu foi das sementes germinando do solo. Coisas inertes postas sob a terra úmida brotavam para a vida. O mesmo poderia suceder se, literalmente, plantasse aquilo que fora seu irmão. Com esse pensamento, cavou desarvoradamente o solo e na cova acomodou o cadáver, cobrindo-o com a terra solta. Contudo, não se tranqüilizou, sabia: algumas sementes não germinam. Apesar da dúvida, decidiu que nada mais poderia fazer senão esperar. Foi quando ouviu a voz que vem em silêncio lhe inquirir:

– Caim, onde está Abel, teu irmão?
– E logo tu, que deverias saber, me perguntas?

Lógico que sabia; Iaodabaoth perguntava apenas por intimidação. E, ainda a pouco, estivera com os Elohim pedindo para que intercedessem por Abel; primeiro, que lhe restituíssem a vida e segundo, que punissem severamente Caim por seu crime inominável. Ao primeiro disseram: “Há limites a todo poder: a vida é como a água que derrama do vaso partido no solo seco; é possível restaurar o vaso, mas a mesma água não poderá ser reposta”. Ao segundo deliberam que qualquer pena seria injusta: “Posto que nem Caim, nem Abel podem ser responsabilizados pelos seus atos; pois ambos foram privados de opção: A Caim, o ímpeto de sobreviver tirou todas e a Abel, tu não deixaste nenhuma”.

Porém, de nada disso tinha conhecimento Caim e prosseguiu afrontando o demiurgo em seu total estado de transtorno:

– Por certo, não és tu o guardião de meu irmão? Não era teu o compromisso de o proteger de todo mal? Pois, não o protegeste contra mim e agora jaz sob o solo que piso. Minha esperança é que a terra que dá vida ao trigo o faça renascer. Então, por que não mostras o quanto és poderoso e lhe devolves a vida que tirei?

Caim só tentava mais uma solução desesperada para seu drama pessoal, todavia Iaodabaoth encarou aquilo como um desafio; fora profundamente atingido em seu orgulho, não poderia deixar que uma criatura tão inferior o desacatasse assim. Movido pela arrogância e o despeito, Iaodabaoth comete a mais hedionda das ofensas à vida; desrespeita a morte e macula a inocência de um cadáver ao tocá-lo para reanimar seus membros. Tal intenção desnaturaliza sua existência e o torna um elemento estranho para a terra que o acolhe. E, então, num espasmo, ela expele o corpo de Abel de volta a superfície. Perplexo, Caim tem novamente o irmão morto diante de si. Intrigado levanta os olhos e interroga seu interlocutor divino:

– O que estás fazendo, queres brincar com a minha inquietação?
– Não, apenas estou respondendo ao teu desafio e pondo a prova tua descrença.
– Mas ele não se move, ainda o sinto morto. Nada fizeste senão desfazer meu trabalho. Oh, deixa-nos em paz e volta para tuas alturas.

Caim voltou a enterrar Abel na mesma cova e, de novo, o solo fértil recusou-se a recebê-lo em seu seio. Por três vezes Caim tentou devolver o irmão ao úmido útero da terra; ela, entretanto, em todas as tentativas o lançou fora. Na terceira, toda a criação é violada; os olhos de Abel se abrem e o irmão vivo fica mortificado. Nada mudou, é a mesma massa bruta despersonalizada, algo tão apavorante quanto uma pedra que abrisse, de repente, olhos que nunca tivera. O coração de Caim gela quando o irmão, que ainda sente morto, lhe pede, numa voz sumida, para levantá-lo dali, afastá-lo da terra calcinante que queima dolorosamente suas costas. Caim atende e ao erguê-lo percebe que a pele dele está cheia de ulcerações. De pé, Abel começa a se recompor, lança um olhar desvairado para o irmão e diz em tom de contrito lamento: “Tenho fome, muita fome, tanta fome que não penso em mais nada senão em satisfazê-la”. Dito isso, sai, sem aviso, correndo a esmo entre os arbustos até avistar uma presa; num rompante, salta sobre ela e a captura. Com uma expressão de extasiado deleite, mostra o desafortunado animal ao irmão, aperta-o sofregamente entre as mãos e crava os dentes em seu pescoço; em vão ele se contorce e guincha, mas seu sangue jorra e é sorvido avidamente pela boca crispada. Terminado, a carcaça totalmente exaurida de seus fluídos é largada ao chão como um bagaço de fruta chupada. Ato contínuo, o corpo revivo de Abel entra num frenesi convulsionado e, quando cessa, vasculha freneticamente ao redor, ansiando por mais. Assim, se põe a cata de novas vítimas e afasta-se rapidamente do irmão. Caim, terrificado, não tem coragem de ir atrás dele e o deixa à sua sorte. Já presenciara vários predadores em caça, porém nada visto era comparável ao que acabara de assistir, algo excessivamente doentio passara a habitar o corpo de Abel.

Sem alternativa, outra vez volta-se para a voz desincorporada e indaga sobre o que era aquilo:

– O que fizeste ao meu irmão? Não foi vida que lhe reenviaste, mas apenas movimento ao corpo. Ele é um morto que aparenta estar vivo. Algo medonho e abominável criado por mero capricho.

– Como ousas julgar minhas ações. Os meus motivos estão muito além do teu entendimento. Antes de eu criar a vida de aparência, tu criaste a morte de fato. Somos cúmplices nesse horror que se espalhará pela terra. A descendência de Abel proliferará entre os homens, enquanto a tua será apartada da humanidade, proscrita do convívio de seus próprios semelhantes, rechaçada onde quer que vá.
– Como tua maldição poderá se cumprir? Como conseguirão distinguir minha descendência das demais?
– Há uma marca indelével em ti que passarás, inapelavelmente, para todos de tua linhagem.
– Eu não tenho marca alguma e não deixarei que me marques como Abel marcava seus animais!
– Não preciso marcar a ti. Será na humanidade que infundirei a minha marca, um selo que não poderás, nem desejarás, simular. Deste modo, tu e tua descendência é que estarão marcados, justo por não possuírem marca alguma.

Iaodabaoth, imprudentemente, havia reconstituído o vaso: mas um vazamento permaneceu e toda a água nele posta não seria contida por muito tempo. O demiurgo deu a luz a um ser desviante, vazio de vida. Partejou um aborto da natureza que sobreviverá absorvendo a vida de outros. O que é bem diferente dos seres naturais que consomem a matéria para alimentar a vida que lhes é própria.

Bem, é isso. Já me estendi demais nesta resenha. É o que basta para apresentar a gênese mística dos vampiros dentro de uma perspectiva de origem judaica, como havia proposto. E se você achar tudo isso surpreendente demais, lembre-se que a história é escrita pelos vencedores. Quanto aos que insistem na prosaica pergunta: “Então, está é a verdade?”; responderei como faziam os astanfitas: “Não, apenas faz mais sentido!”.

X Runner

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/a-genese-vampirica-e-o-mito-de-caim-e-abel/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/a-genese-vampirica-e-o-mito-de-caim-e-abel/

O Julgamento de Sócrates

Sócrates foi, provavelmente, o maior filósofo de todos os tempos. Ele viveu em Atenas, na Grécia, por volta de 500 anos antes do nascimento de Jesus. Foi a mente mais iluminada do ocidente em sua época, enquanto no oriente, por volta da mesma época aparecia um tal de Buda, que causou uma revolução no modo de pensar e se relacionar com a vida. Durante os seus 70 anos de vida, Sócrates procurou ensinar, através da dialética (diálogos), as verdades espirituais eternas, questionando sempre as falsas tradições da cultura helenística. Acabou despertando ódio e inimizades entre os detentores do poder e da cultura, que o acusavam de estar corrompendo a juventude ateniense. Foi levado a julgamento e condenado à morte pela ingestão de cicuta, um poderoso veneno.

O texto a seguir foi condensado do livro Apologia de Sócrates, escrita por Platão (seu principal discípulo). Ele descreve o julgamento de Sócrates, apresentando a sua defesa e suas considerações finais, após a sentença de condenação.

A DEFESA

A acusação diz: “Sócrates comete crime, investigando indiscretamente as coisas terrenas e as celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando aos outros”. Mas nada disso tem fundamento, pois não instruo e nem ganho dinheiro com isso. Talvez pudessem dizer de mim: “Enfim, Sócrates, o que é que você faz? De onde nasceram essas calúnias? Se suas ocupações não fossem tão diferentes das dos outros, não teria ganho tal fama e não teriam nascido acusações”.

Sócrates responde: Acontece que Xenofonte, uma vez indo a Delfos, ousou interrogar o oráculo e perguntou-lhe se havia alguém mais sábio do que eu. Ora, a pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio. Ao ouvir isso, pensei: “O que queria dizer o deus e qual é o sentido das suas palavras? Sei bem que não sou sábio, nem muito nem pouco.” E fiquei por muito tempo sem saber o verdadeiro sentido de suas palavras. Então resolvi investigar a significação do seguinte modo: Fui a um daqueles detentores da sabedoria, com a intenção de refutar, por meio deles, o oráculo e, com tais provas, opor-lhe a minha resposta: “Este é mais sábio que eu, enquanto você disse que sou eu o mais sábio”. Examinando esse homem – não importa o nome, mas era um dos políticos – e falando com ele, parecia ser um verdadeiro sábio para muitos e, principalmente, para si mesmo. Procurei demonstrar-lhe que ele parecia sábio sem o ser. Daí veio o ódio dele e de muitos dos presentes aqui contra mim.

Então, pus-me a considerar comigo mesmo, que eu sou mais sábio do que esse homem, pois que, nenhum de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, também estou certo de não saber. Parece, pois, que eu seja mais sábio do que ele nisso: não acredito saber aquilo que não sei.

Fui a muitos outros daqueles que possuem ainda mais sabedoria que esse, e me pareceu que todos são a mesma coisa. Daí veio o ódio deste e de muitos outros. E então me aconteceu o seguinte: procurando segundo o critério do deus, pareceu-me que os que tinham mais reputação eram os mais desprovidos, e que os considerados ineptos eram homens mais capazes quanto à sabedoria.

Também procurei os artífices e devo dizer que os achei instruídos em muitas e belas coisas. Eles, realmente, eram dotados de conhecimentos que eu não tinha e eram muito mais sábios do que eu. Contudo, eles tinham o mesmo defeito dos poetas: pelo fato de exercitar bem a própria arte, cada um pretendia ser sapientíssimo, também, nas outras coisas de maior importância e esse erro obscurecia o seu saber.

Dessa investigação, cidadãos atenienses, tanto me originaram calúnias como também me foi atribuída a qualidade de sábio. E totalmente empenhado em tal investigação, não tenho tido tempo de fazer nada de apreciável, nem nos negócios públicos, nem nos privados, mas encontro-me em extrema pobreza, por causa do serviço do deus. Além disso, os jovens, seguindo-me espontaneamente, gostam de ouvir-me examinar os homens. Eles, muitas vezes, me imitam por sua própria conta e decidem também examinar os outros, encontrando grande quantidade daqueles que acreditam saber alguma coisa mas pouco ou nada sabem. Daí, aqueles que são examinados encolerizam-se e, por essa razão, dizem que há um tal Sócrates que corrompe os jovens.

Saibam, quantos o queiram, que por esse motivo sou odiado; e que digo a verdade, e que tal é a calúnia contra mim e tais são as causas.

Cidadãos de Atenas, creio que vocês não têm nenhum bem maior do que este meu serviço do deus. Por toda a parte eu vou persuadindo a todos, jovens e velhos, a não se preocuparem exclusivamente com o corpo e com as riquezas, como devem se preocupar com a alma, para que ela seja o melhor possível. Absolvendo-me ou não, não farei outra coisa, nem que tenha de morrer muitas vezes. Dessa forma, parece que o deus me designou à cidade com a tarefa de despertar, persuadir e repreender cada um de vocês, por toda a parte, durante todo o dia. É possível que vocês, irritados como aqueles que são despertados quando no melhor do sono, levianamente me condenem à morte, para dormirem o resto da vida.

A CONDENAÇÃO

A minha impassibilidade, cidadãos de Atenas, diante da minha condenação deriva, entre muitas razões, que eu contava com isso, e até me espanto do número de votos dos dois partidos. Por mim, não acreditava que a diferença fosse assim pequena.

Os meus acusadores pedem, para mim, a pena de morte. Que pena ou multa mereço eu? O que convém a um pobre benemérito que tem necessidade de estar em paz para lhes poder exortar ao caminho reto? Para um homem assim conviria que fosse nutrido e mantido pelo Estado. Por não terem esperado um pouco mais, vocês irão obter a fama e a acusação de haverem sido os assassinos de um sábio, de Sócrates. Pois bem, se tivessem esperado um pouco de tempo, a coisa seria resolvida por si mesma: vejam vocês a minha idade.

Talvez, senhores, o difícil não seja fugir da morte. Bem mais difícil é fugir da maldade, que corre mais veloz que a morte. Eu, preguiçoso e velho, fui apanhado pela mais lenta: a morte. Já os meus acusadores, válidos e leves, foram apanhados pela mais veloz: a maldade.

Assim, eu me vejo condenado à morte por vocês; vocês, condenados de verdade, criminosos de improbidade e de injustiça. Eu estou dentro da minha pena, vocês dentro da sua.

E estamos longe de julgar retamente, quando pensamos que a morte é um mal. Porque morrer é uma destas duas coisas: ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja; ou, como se costuma dizer, a morte é uma mudança de existência e uma migração deste lugar para outro.

Se, de fato, não há sensação alguma, mas é como um sono, a morte é como um presente, porquanto todo o tempo se resume em uma única noite.

Se a morte, porém, é como uma passagem deste para outro lugar e se lá se encontram todos os mortos, qual o bem que poderia existir maior do que este? Quero morrer muitas vezes, se isso é verdade, pois para mim a conversação acolá seria maravilhosa. Isso constituiria indescritível felicidade.

Vocês devem considerar esta única verdade: que não é possível haver algum mal para um homem de bem, nem durante sua vida, nem depois de morto. Por isso mesmo, o que aconteceu hoje a mim não é devido ao acaso, mas é a prova de que para mim era melhor morrer agora e ser liberto das coisas deste mundo. Por essa razão não estou zangado com aqueles que votaram contra mim, nem contra meus acusadores.

Mas já é hora de irmos: eu para a morte, e vocês para viverem. Mas quem vai para melhor sorte é segredo, exceto para Deus.

#Filosofia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-julgamento-de-s%C3%B3crates

A Conexão Reptiliana

Se você é novo ao meu trabalho, a informação mais bizarra que você vai encontrar neste site é a relativa à conexão reptiliana.

Eu compreendo isso. É algo totalmente diferente da nossa versão condicionada da realidade. Mas, esse é exatamente o ponto principal. Se você quer manter algo secreto das pessoas, dê a elas uma versão de realidade e possibilidade que seja tão distante do que realmente está acontecendo, que, até mesmo se a verdade vier à luz, ela parecerá absurda e extrema demais para a maioria das pessoas acreditar.

De fato, se você fizer o seu trabalho bem o bastante, as pessoas irão rir da verdade, chamá-la de insanidade, e ridicularizar qualquer um que a promova.

Para verdadeiramente entender como toda a informação neste site ajusta-se em um todo coerente, você realmente precisa ler meu livro, O Maior Segredo. Mas, para aqueles que ainda não leram, aqui está algum pano de fundo básico. Contudo, por favor lembre-se de que no livro há uma enorme quantidade de informação para apoiar o que eu estou a ponto de dizer.

Quando eu alcancei o ponto, alguns anos atrás, onde eu tinha reunido e entendido a estrutura pela qual poucas pessoas controlam a direção do mundo (veja E a Verdade o Libertará), estava claro que esta rede de sociedades e grupos secretos que manipulam a política global, os negócios, os bancos, as forças armadas, mídia, e assim por diante, não poderia ter sido criada dentro de poucos anos ou décadas. Ela tinha que voltar um tempo muito longo.

Assim eu comecei a rastrear suas origens no que nós chamamos de história. Eu fiz isto com o conhecimento de que, por alguma razão, descendência e genética eram vitalmente importantes a esses manipuladores, os Illuminati ou Iluminados – iluminados no conhecimento que o público nunca vê.

Eu segui confortavelmente a pista ao tempo das Cruzadas no Oriente Médio, aos 12º e 13º séculos, aquele “amável” período, e, a partir daí, voltei ainda mais longe: ao mundo antigo e pré-história.

Lá, por todo o planeta, você encontra as lendas e contos antigos de “deuses” de outro mundo que cruzaram com a humanidade para criar uma rede de descendentes híbridos. O Velho Testamento, por exemplo, fala sobre os “Filhos de Deus” que cruzaram com as filhas dos homens para criar a raça híbrida, chamada de Nefilim. Antes que fosse traduzido para o inglês, aquela passagem, dizia “os filhos dos deuses”, plural. Mas os contos da Bíblia são apenas alguns dos muitos que descrevem o mesmo tema.

As Tábuas de barro sumérias, achadas no local que nós chamamos agora de Iraque, na metade do século 19, conta uma história semelhante. É estimado que elas foram enterradas ao redor de 2,000 AC, mas as histórias que elas contam voltam muito antes disso. As Tábuas falam de uma raça de “deuses” de outro mundo que trouxe conhecimento avançado para o planeta e cruzou com humanos para criar uma descendência de híbridos. Esses “deuses” são chamados nas Tábuas, os “Anunnaki” que aparentemente traduz como “aqueles que do céu para a Terra vieram.”

Os contos antigos nos falam que estes descendentes híbridos, resultantes da fusão dos genes de humanos selecionados com os dos “deuses”, foram postos nas posições de comandar o poder real, especialmente no antigo Oriente Médio e Próximo Oriente, em culturas avançadas como a Suméria, Babilônia e Egito. Mas isto também aconteceu em outros lugares, como você descobrirá se pesquisar, por exemplo, nas informações surpreendentes fornecidas neste site pelo shaman zulu africano, Credo Mutwa, e nos incríveis Credo vídeos, Agenda Reptiliana, partes um e dois. Ele conta a mesma história vinda da tradição negra africana que eu tenho descoberto em outros lugares do mundo.

Os contos sobre a “raça serpente” em culturas antigas são simplesmente intermináveis para onde quer que você olhe, e o simbolismo serpente-reptiliano em relação aos Anunnaki e outras versões destes “deuses” são igualmente difundidos. Nós vemos isto na Bíblia, por exemplo, com a serpente no “Jardim do Éden” – uma história que claramente vem dos contos Sumérios, assim como a história de Moisés nos juncos, uma história contada sobre um rei Sumério muito antes da Bíblia. É por isso que eu achei tão surpreendente quando Zecharia Sitchin, o melhor e mais conhecido tradutor das Tábuas Sumérias, me disse que não havia nenhuma evidência de uma raça serpente no mundo antigo. Claro que há. Ele também me aconselhou fortemente em relação à raça serpente… “não vá lá”. Porque? Quando a evidência, antiga e moderna, é tão enorme?

Destes descendentes híbridos veio “o direito divino dos reis”, a crença de que somente aqueles de “sangue azul” têm o direito de governar dado por Deus. Na verdade esse direito não é “divino”. É o direito de governar dado pelos “deuses” reptilianos por via de sua genética híbrida.

Estes híbridos se tornaram depois as famílias reais e aristocráticas da Europa e, graças ao “Grande” Império britânico e aos outros impérios europeus, eles foram exportados para as Américas, África, Austrália, Nova Zelândia, e diretamente para o Distante Oriente onde eles conectaram-se com outros híbridos reptilianos, como aqueles, mais obviamente, na China onde o simbolismo do dragão é a base da cultura deles.

Estas linhagens híbridas reptilianas-humanas se tornaram os governantes políticos e econômicos daquelas terras ocupadas pelos impérios europeus e elas continuam governando esses países ainda hoje. Os Estados Unidos da América tem sido o lar de centenas de milhões de pessoas desde 1776. E o que é mais surpreendente é que essas pessoas vieram de uma incrivelmente diversa mistura genética. E contudo, espere por isto, os 42 homens que se tornaram Presidentes dos Estados Unidos são todos relacionados!!! Trinta e três deles sozinhos estão relacionados à Carlos Magno, um dos monarcas mais famosos do que nós chamamos agora de França. Acontece que ele é uma figura principal na história e na expansão dessas linhagens híbridas para a Inglaterra, a França, a Alemanha, e para outros lugares.

Os Rothschilds, os Rockefellers, a família real britânica, e as famílias que controlam a política e a economia do EUA e do resto do mundo vêm desta MESMA linhagem. É por isso que as assim chamadas famílias do Estabelecimento Oriental dos Estados Unidos cruzam entre si tão obsessivamente quanto as Famílias reais e “nobres” européias sempre fizeram. Assim como outras famílias similares ao redor do mundo. Elas não fazem isso por serem snobes, mas para manterem, da melhor forma que puderem, uma estrutura genética: a combinação do DNA réptil-mamífero, a qual permite que eles mudem de forma.

Você também verá referências neste site para “mudança de forma”, o fenômeno no qual testemunhas informam terem visto pessoas (freqüentemente aquelas em posições de poder), transformar-se diante dos seus olhos, de uma forma humana para uma réptil e então retornar à forma humana. Você achará muito sobre isto em O Maior Segredo. E Credo Mutwa confirma exatamente a mesma experiência na África negra. Uma vez mais, antigos e modernos contos apóiam uns aos outros. Os deuses antigos dos Vales Indus, os Nagas, eram ditos terem sido capazes de assumir ou a forma humana ou a réptil.

O presidente anterior dos EUA, George Bush, incidentemente, é mencionado mais do que qualquer outra pessoa em minhas experiências em relação à mudança de forma. é por isso que o filho dele está sendo conduzido para a eleição presidencial de 2000. Na America presidentes não são eleitos por votos,  eles são selecionados por seu sangue.

Al Gore, o seu oponente “Democrático” no Estado de um único partido, também é desta linhagem genética. Olhe quase em qualquer lugar no mundo para uma posição significativa de poder e você achará o mesmo.

O simbolismo reptiliano que você vê ao seu redor em gárgulas, em brasões, em propaganda, e assim por diante, é tudo parte disto.

Estes “deuses” não poderiam assumir o controle do planeta abertamente porque não há bastante deles, assim eles estão fazendo isto secretamente, disfarçando-se de humanos. Filmes como Eles Vivem, A Chegada (o primeiro, não a seqüência), e a série de televisão americana, V, conta a história do que REALMENTE está acontecendo. Se você é novo a tudo isto, eu sugiro que você pense em assistir estes filmes para acordar pra realidade o mais depressa possível.

Os pesquisadores de conspirações e da Nova Ordem Mundial também têm seus próprios sistemas de crença políticos e religiosos para defender e enquanto eles descobrem um nível da conspiração, a maioria rejeita e até mesmo ridiculariza o que eu estou dizendo sobre a conexão reptiliana. Tudo bem, mas a menos que eles entendam este quadro maior eles nunca irão, em minha visão, entender o que está verdadeiramente acontecendo ao nosso redor.

Como disse Ghandi: “Mesmo se você está em uma minoria de um, a verdade ainda é a verdade.”

E como resultado das ondas que O Maior Segredo têm causado, e as novas informações, experiências, e contos que o livro e este website têm atraído do mundo inteiro, há uma compreensão crescente de que esta aparentemente bizarra e louca história é de fato verdade. Que o mundo realmente pode ser controlado por linhagens genéticas reptilianas que se escondem por atrás de uma forma aparentemente humana. E é este entendimento que reúne todas as informações aparentemente desconexas neste site em um grande e conectado todo.

Aqui estão alguns exemplos:

RELIGIÃO

Se você deseja controlar uma grande quantidade de pessoas, você tem que desconectá-las do verdadeiro conhecimento de quem elas são e do próprio potencial infinito delas para manifestar o seu próprio destino e controlar suas próprias vidas. Você tem que convencê-las de que elas são insignificantes e impotentes assim elas viverão as suas vidas de acordo com isso.

É por isso que a religião tem sido uma das armas mais efetivas da Illuminati e das linhagens genéticas reptilianas. Ela enche as pessoas de medo de um Deus vingativo e diz que a menos que eles acreditem que a “verdade” de tudo pode ser achado dentro um livro ou sistema de crença, eles irão para inferno ou então experimentarão outras conseqüências extremamente desagradáveis.

Religiões diferentes também têm sido veículos maravilhosos para dividir e conquistar as pessoas através de conflitos inter-religiosos arrogantes. Os reptilianos criaram as religiões por isso e os jogadores-chave dentro delas nem mesmo acreditam na tolice que eles papagueiam para os seus seguidores. Eles apenas querem que a população acredite nisto, assim ela será fácil de controlar. É por isso que você descobre que tantos famosos evangelistas “Cristãos”, por exemplo, são de fato Satanistas. O “Cristianismo” deles é só uma cortina de fumaça.

MEDICINA E MÍDIA

A supressão do verdadeiro conhecimento de curar e a dominação de drogas e cirurgias na “medicina” assegura que o corpo físico humano opere muito longe do seu potencial máximo. Esta é a razão para a descarada falta de representação e supressão das chamadas formas “alternativas” de curar que surgiram milhares de anos antes da moderna “medicina”.

Suplementos alimentares, fast food (comida rápida), flúor nos suprimentos de água, os venenos que nós colocamos na terra e conseqüentemente comemos em nossa comida e bebemos em nossa água, estão suprimindo não só nossa saúde física e vibração, mas, crucialmente, nossas funções cerebrais e intelecto. Uma população completamente acordada e mentalmente afiada é a última coisa de que você precisa se você quer controlá-la. Assim as linhagens genéticas reptilianas também dão muita ênfase em controlar a “educação” e a mídia. Isso permite que eles nos alimentem com uma dieta constante de lixo desmiolado, como game shows, enquanto a mídia de “notícias” nos conta o que os controladores querem que nós pensemos. A maioria dos jornalistas são tão desmiolados, e com uma enorme falta de compreensão do que eles fazem parte, que eles, como a maioria da população, ajudam a avançar uma agenda que eles nem mesmo sabem que existe.

CONTROLE DA MENTE

O controle mental está obviamente muito relacionado a religião, que é, para mim, a melhor forma de controle mental em massa já inventado. Assim como propaganda e televisão. Mas o controle de mente vai muito mais fundo do que isso. Os projetos de controle da mente dos Illuminati-reptilianos têm produzido literalmente milhões de robôs mente-controlados que são programados para levar a cabo a Agenda da Illuminati.

Há muitas formas eletrônicas através das quais isto é feito hoje, mas um dos métodos-chave é o controle da mente baseado no trauma. Onde pessoas são traumatizadas por abuso sexual, violência, são forçadas a testemunhar e tomar parte em rituais de sacrifício humano e outros incontáveis horrores. Tais experiências ativam o mecanismo da mente que bloqueia recordações de trauma extremo.

Um exemplo disto, o qual muitas pessoas experimentaram, é quando elas não podem recordar de um grave acidente de carro. Elas podem se lembrar de antes e depois do acidente, mas não do impacto. A mente põe uma barreira amnésica ao redor da memória assim nós não temos que continuar revivendo o acidente. Isso é uma boa coisa, mas a Illuminati tem desenvolvido métodos de usar esta técnica para traumatizar uma mente seguidamente até que ela se fragmente em várias barreiras amnésicas desconectadas. Eles então programam esses diferentes fragmentos da mente (altares como eles os chamam) com tarefas diferentes. As tarefas são pré-programadas para serem ativadas com um “gatilho”, que pode ser uma palavra, uma cor, um som, ou o que quer que seja. Uma vez que o gatilho é determinado, o programa se fecha e a pessoa fará tudo o que ela foi programada pra fazer.

Essa tarefa pode ser ter sexo com um político famoso, a qual elas não se lembrarão; assassinar alguém como John Lennon; enlouquecer com uma arma em uma escola, o que conduz para políticas de controle de armas, etc. Os campos de concentração da Alemanha Nazista sobre a supervisão do “Anjo da Morte”, Josef Mengele, foram uns dos principais centros para tais experimentos. Mengele foi levado para os Estados Unidos e América do Sul depois da guerra pela Illuminati com o nome de Doutor Green ou Greenbaum para continuar o seu horroroso “trabalho”. Isso resultou no notório projeto de controle mental, MK Ultra. O Centro de armas navais China Lake no deserto da Califórnia foi uma das suas primeiras bases de operação.

O tempo mais efetivo para começar este processo de criação de robôs humanos é antes da idade de cinco ou seis anos. Conseqüentemente você tem as colossais redes de abuso de crianças e o ritual Satânico de abuso de crianças expostos neste site e em meus livros.

O ABUSO E O RITUAL SATÂNICO DE ABUSO DE CRIANÇAS, E CERIMÔNIAS DE SACRIFÍCIO HUMANO EM GERAL

Estarrecedor como isso pode parecer, tudo isso acima é maciçamente difundido no mundo inteiro. Está acontecendo dentro de sua comunidade agora, não importa onde você esteja. Eu, e outros, temos revelado isto durante anos e agora, como você verá neste site, a escala disto, e as pessoas famosas envolvidas, estão finalmente vindo à luz.

Em parte, estes rituais e redes de abuso são para traumatizar pessoas, especialmente as crianças, mas é muito mais do que apenas isso. Siga as linhagens genéticas Illuminati-reptilianas do mundo antigo até agora e você verá que elas SEMPRE tomaram parte em cerimônias de sacrifício humano e SEMPRE beberam sangue. Os sacrifícios para os “deuses” nos contos antigos, eram literalmente sacrifícios para os reptilianos e suas linhagens genéticas híbridas. A história do Drácula, o bebedor de sangue, é simbólica desses “vampiros” reptilianos. Um dos locais deste grupo reptiliano parece ser o sistema estelar conhecido como Draco (dragão), e “draconiano” certamente resume a Illuminati.

Para sustentar a sua forma humana, essas entidades precisam beber sangue humano (mamífero), e acessar a energia que ele contém para manterem seus códigos genéticos em sua expressão “humana”. Se eles não fazem isso, eles manifestam os códigos reptilianos deles e, dessa forma, todos nós veríamos o que eles realmente se parecem. “Oh meu Deus, Sr. Presidente, você sempre toma seu café da manhã dentro do quarto?”

Do que eu entendi através de informações de pessoas que já trabalharam pra essa “gente” (ex-insiders), o sangue (energia) de bebês e de crianças pequenas é o mais efetivo para isso, como também é o sangue de pessoas loiras e de olhos azuis. Conseqüentemente essas são as pessoas predominantemente usadas em sacrifício e, ao que parece, também as pessoas de cabelo vermelho.

É por isso que pessoas como George Bush, Henry Kissinger, e uma corrente de outros “grandes nomes” da Illuminati estão expostos em meus livros e neste site como reptilianos que mudam de forma e que tomam parte em sacrifícios humanos e bebem sangue. Os dois acontecem juntos. Parece haver também uma ênfase muito significativa entre os Illuminati-reptilianos e os seus aliados com pedofilia, que é excessiva neste planeta.

Eu também gostaria de enfatizar antes de eu terminar aqui, que eu estou expondo certos GRUPOS reptilianos por trás da Illuminati, não a corrente genética reptiliana em geral. Há muitos de origem reptiliana que estão aqui para ajudar a humanidade a se livrar desta escravidão mental e emocional. De fato, todos nós temos um corpo com muitos genes répteis, inclusive parte do cérebro chamado de complexo-R, o cérebro réptil.

Eu confio que este breve resumo o ajudará a ver a relevância de todos os artigos e informações que você achará neste site. No fim, todas essas aparentemente desconexas “conspirações” são parte de UMA conspiração projetada para introduzir UMA agenda: O controle reptiliano do Planeta Terra e de toda a sua população.

Exposição do plano de controle reptiliano do Planeta Terra por David Icke

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-conexao-reptiliana/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-conexao-reptiliana/

A estrutura oculta da Opus Dei

Às 5.30 horas da manhã de cada dia, Tomás Gutiérrez de La Calzada abotoa uma impecavelmente limpa batina. É Tomás um homem muito preocupado pela limpeza, desgosta-lhe encontrar uma bolinha de pó em seu caminho matutino para o salão onde se faz servir o café da manhã, sempre frugal e interrompido pelas badaladas das seis, quando chega a primeira missa.
Entra em seu escritório às sete em ponto da manhã e não sairá dali até entrada a noite, uma rotina que só se interrompe quando seus secretários organizam alguma viagem para visitar uma casa da Obra, algo que em seu foro interno desgosta Tomás Gutiérrez de La Calzada, embora entenda a imperiosa necessidade de manter freqüentes contatos com ‘os filhos’, sobretudo nos últimos anos quando se prodigalizam os ataques dos inimigos da Santa instituição.

A vida de Tomás Gutiérrez de La Calzada, transcorre com poucos sobressaltos desde que em uma fria manhã outonal de 1982 chegasse a ordem de Roma: designado ‘Concílio’ do Opus Dei na Espanha. Esse dia, Tomás Gutiérrez de La Calzada, sucessor no cargo de Florencio Sánchez Bella, irmão daquele famoso ministro franquista que impôs o fechamento do jornal ‘Madrid’, passou a reger na Espanha os destinos do Opus Dei.

É Tomás Gutiérrez um homem afável, grande conversador e convencido de que está à frente do grupo de homens mais seletos e disciplinados da Espanha. Esse homem, que em 10 de março de 1989 fez 60 anos, realizou uma longa carreira para abrir caminho na vida.

Nascido em Valladolid, filho de um modesto agricultor perdeu a sua mãe, Visitação, a muito temprana idade. Internado em um colégio religioso, Tomás Gutiérrez de La Calzada sempre desenvolveu sua vida entre batinas, com a exceção do breve período de tempo que passou em Fuentelarreina (Zamora), para cumprir o serviço militar e de onde saiu com a estrela de alferes.
Licenciado em Direito, nunca exerceu a advocacia e só utilizou os conhecimentos adquiridos na Universidade de Valladolid para avançar pelo campo do Direito Canônico, o que lhe acabou convertendo em diretor do Colégio Romano do Opus. Ali, em contato direto com as altas hierarquias da Obra, ficou conhecido como bom organizador, um eficaz burocrata que despreza a publicidade e admira o trabalho calado. ‘Sempre o espetáculo! Pede-me fotografias, gráficos, estatísticas’, escreveu Josemaría Escrivá do Balaguer em Caminho, em uma sentença gravada no mais fundo da alma de Tomás Gutiérrez de La Calzada. Este homem que desde muito jovem oficiou de coroinha no colégio do Valladolid, dirigiu na década de 80 um exército invisível, formado pelos 12.000 membros da Obra na Espanha.

O quartel general deste exército, o lugar onde vive Tomás Gutiérrez de La Calzada, está convocado na madrilenha Rua de Diego di Lion, número 14. Ali, situado em um solar com forma de triângulo de 972,58 metros, levanta-se um edifício com dez andar e 7.967 metros quadrados construídos, de onde se dirige toda a estrutura da Obra. O projeto foi realizado em 1964 pelos arquitetos Jesus Alberto Cajigal e Javier Cotelo, com um custo declarado de 20.651.648 pesetas.

Depois dos compactos muros de concreto, o quartel general tem dois pontos nevrálgicos, o mais importante está no segundo porão, a quinze ou vinte metros sob o nível da rua. Trata-se da cripta onde estão guardados os restos mortais dos pais de Josemaría Escrivá do Balaguer, José e Dolores, uma mulher incorporada à história da Obra como a inventora dos ‘crispillos’, uns doces a base de açúcar e espinafres que os membros da instituição tomam em ocasiões especiais.

Nas cercanias da cripta, encontra-se a capela na qual toda manhã do ano, às seis em ponto, Tomás Gutiérrez de La Calzada, reza missa para os varões que com ele compartilham o privilégio de viver no quartel general da Obra.

O segundo ponto importante do edifício está no quarto andar, onde Tomás Gutiérrez di La Calzada, tem seu escritório do Concílio’ e está a sala de reuniões, em que três vezes por semana, às oito da manhã, celebra seus encontros com o governo na sombra da Obra, a Comissão Regional para a Espanha.

Está acostumado chegar ao Concílio, a sala de reuniões detrás, ler a correspondência importante, sobretudo a que de Roma lhe traz em mão o enlace –‘misus’ na linguagem oficial– Ramón Herrando. Gosta do Concílio de concentrar-se na leitura das missivas, especialmente quando a valise contém a revista ‘Romana’, uma publicação de 200 páginas, impressas em um papel amarelado e redigida em latim. É ‘Romana’ uma espécie de ‘Quem é quem’ na Obra, com detalhada explicação das altas e baixas e um minucioso detalhe dos quais subiram a responsabilidades importantes, ou em quais nações vão se desenvolver campanhas especiais para rebater a sempre presente difamação do inimigo.

Tem a sala de reuniões um escasso mobiliário e entre as cadeiras, sempre perfeitamente alinhadas em torno de uma grande mesa, destaca a ciclópea presencia de uma caixa forte embutida na parede, onde se guardam as atas das reuniões de Comissão Regional e uma cópia de todas as comunicações intercentros.

O máximo organismo de direção do Opus na Espanha sofreu muito poucas mudanças durante a década dos 80. Em torno da mesa circular, com um rosário e um copo de água ao alcance da mão, sentam-se os destacados membros da Comissão Regional, do lado esquerdo, a direita de Tomás Gutiérrez di La Calzada por ordem de importância.

À direita de Tomás Gutiérrez de La Calzada, ocupa assento o segundo homem em importância: José Luis Añón, formalmente o ‘sacerdote secretário’. Em realidade, trata-se de uma espécie de vice-presidente da Obra, um termo que, possivelmente, não se usa para ressaltar o caráter fortemente caudilho da organização, pois no Opus só há um responsável, Alvaro do Postigo, em Roma, que delega autoridade nos ‘conciliários ‘ regionais.

A principal função de José Luis Añón é servir de enlace com a hierarquia da Igreja Católica, para informar das atividades da Obra. Não é esta uma tarefa fácil, pois, com freqüência, os bispos querem saber mais do que o Opus considera conveniente contar, originando atritos.

Paralelamente, José Luis Añón é o único membro da direção da Obra autorizado a ter um contato permanente com o outro sexo, em sua qualidade de responsável pela seção feminina da instituição. Na Espanha está composta por 1.500 damas, com funções auxiliares em relação aos varões, pois, na prática, dedicam-se a limpar e cozinhar nas residências. Como quer, no Opus, a convivência entre os sexos está estritamente diferenciada, até o ponto de que o quartel general de Diego di Lion conta com uma entrada para varões e outra para mulheres, José Luis Añón tem às vezes ingrata tarefa de velar pela separação e fortalecer a militância religiosa das senhoras.

Em atenção a sua importância, o seguinte cargo é o Diretor Espiritual, também desempenhado por um sacerdote, Juan Vera Campos. Sua tarefa é a de velar pela pureza da doutrina e nesta função é assistido pelo valioso Departamento de Estudos Bibliográficos, a frente está o ex-magistrado e professor da Universidade da Navarra Carmelo do Diego.

Função múltipla a deste organismo, porque por um lado escreve, constantemente, a história da Obra e por outro guia o espírito intelectual dos membros. Em sua primeira faceta tem que revisar os textos da Obra para evitar que apareçam referências a um grande número de ex-diretores, que abandonaram a instituição e não regulam suas críticas. Miguel Fisac, Antonio Pérez Tenesa, Alberto Moncada ou Raimundo Pániker, só por citar a um reduzido grupo dos que entregaram seus entusiasmos e saíram exaustos.
Também deste departamento sai semana após outra uma nota, encabeçada com a frase ‘de leitura obrigatória em todos os centros’ indica os filmes, livros, revistas e espetáculos teatrais aos quais podem ou não ter acesso os membros. Como é sabido, os filiados à Obra têm uma margem de entretenimento intelectual um tanto estreito, não só porque os censores aplicam critérios morais restritos, mas, porque estes revistam procedendo uma famosa máxima de Josemaría Escrivá do Balaguer, que deixou bem clara a necessidade de ‘cuidar a vista, a revista e a entrevista’. O que é interpretado como necessária proibição de tudo aquilo que faça duvidar da fé.

Neste sentido, os listrados emitidos pela censura partem do princípio de que nem todos os sócios têm a mesma fortaleza espiritual, por isso, adverte que a leitura de alguns textos pode ser autorizada aos diretores da Obra, nesse caso junto ao título aparecem dois círculos; três significa que em nenhum caso pode ler-se.

Em torno da mesa na sala de reuniões sentam-se outras três pessoas com curiosos títulos, os vocais de San Miguel, São Gabriel e São Rafael. Estes postos ocupados pelo Miguel Angel Montijano, Alejandro Cantero e Rafael Solís, respectivamente.
O primeiro deles é um cordato de cinqüenta anos, licenciado em Ciências Físicas, que se ocupa do cuidado espiritual da nata da organização: os ‘numerários’. O segundo, Alijandro Candero, um galego nascido em Lugo e licenciado em medicina, encarrega-se da direção dos ‘super numerários’. Enquanto que o último, o também cordato Rafael Solís, ocupa-se de organizar a captação, de atrair sangue novo para que a organização não morra.

E não só é necessário atrair mais membros, também a fé necessita de enormes recursos. Nessa mesa circular a pessoa sentada a maior distância de Tomás Gutiérrez de La Calzada é, possivelmente, a que mais poder material tem de todas ali reunidas, trata-se de Francisco Montuenga Aguayo, o administrador geral do patrimônio da Obra.

Nascido em Barcelona em 1924, filho de uns humildes emigrantes, Francisco Montuenga se incorporou à Obra nos anos sessenta. Economista de profissão, incorporou-se ao projeto da Universidade de Navarra –o centro modelo da Obra– como assessor financeiro, logo se converteu em administrador geral da universidade e dali saltou a gerente de todos os bens da Obra na Espanha.

Alegam os mais fiéis seguidores da Obra que a Instituição é pobre, carente de bens. O primeiro é incorreto enquanto que o segundo é absolutamente certo.

Isso não quer dizer que Montuenga careça de trabalho, justamente o contrário. Sua principal tarefa é, precisamente, dissimular os bens da Obra.

O Opus Dei, com seu próprio nome, não possui nada, nem um telefone em todo o planeta. Aparentemente, nem a sede central do Diego de Lion, nem o centro de peregrinação Torreciudad (Huesca), pertencem ao Opus Dei, a não ser uma confusa trama de sociedades anônimas.

O esquema o inventou o próprio Escrivá do Balaguer, quando pouco depois de criar o Opus Dei em 1928 pôs em pé a ‘Academia D e A’, siglas que aparentemente significavam ‘Direito e Arquitetura’, as carreiras favoritas do ‘fundador’, mas, que na linguagem secreta da Obra significavam ‘Deus e Audácia’.

No final dos anos 80, a trama financeira da Obra alcançava 1.500 empresas e sociedades, a maior parte delas ignorantes de que seus benefícios servem para fortalecer o Opus Dei.

O desenho perfilado por Francisco Montuenga ao longo dos anos poderia ser representado como um conjunto de pirâmides, cujos vértices não se tocam e irradiam poder para a base. Assim, boa parte do patrimônio imobiliário da Obra em Madrid, avaliado por peritos em 1989 em 30 milhões de pesetas, é dirigido pela ‘Companhia Mercantil Imobiliária Moncloa, S. A.’, proprietária, por exemplo, do quartel general de Diego de Lion, e cujos acionistas são pessoas desconhecidas e sem cargos na direção da Instituição. Além disso, seria errôneo ligar os dirigentes da Obra à propriedade do edifício em Diego de Lion, porque podem alegar com razão, que o imóvel está arrendado por outra sociedade ‘Colégio Maior da Moncloa, S. A.’, e que, afinal eles são fiéis empregados desta instituição acadêmica, encarregados só de orientar jovens estudantes.

Na prática, as coisas são diferentes: a imobiliária e o colégio universitário são o mesmo, Opus Dei. trata-se de uma ficção jurídica que lhes permite efetuar discursos sobre o ascetismo da Instituição. Finalmente, argumentam que sua pobreza é tal que só são inquilinos temporários de um grupo de edifícios.

Foi necessário esperar a década de 80 para conhecer os mecanismos financeiros da Obra, postos de manifesto pela constante saída de membros importantes que abandonaram a Instituição. Entre eles, estava, com a categoria de ‘super numerário’, o banqueiro José Maria Ruiz Mateos, quem assegura que o Opus Dei move ao ano, só na Espanha, 30  milhões de pesetas. Uma parte considerável deste dinheiro procede das contribuições efetuadas pelos sócios e o resto são benefícios de operações mercantis ou financeiras. Além disso, a Obra realiza coletas especiais para campanhas concretas, recebe de forma indireta subvenção do Estado e obriga seus sócios ‘numerários’ a que assinem um testamento deixando seus bens à Instituição.

‘Entreguei à obra 3.000 milhões de pesetas’, assegura José Maria Ruiz Mateos, que avalia sua afirmação com as fotocópias das transferências. Através desses documentos se pode descobrir o procedimento utilizado pela Obra, que consiste em girar o dinheiro fora da Espanha, geralmente a Suíça, onde recebe uma sociedade fantasma denominada ‘River–Invest’. O dinheiro fica depositado na União de Bancos Suíços, até que o administrador geral decide utilizá-lo com o melhor fim.

Se os recursos estão destinados a investimentos na Espanha, ‘River–Invest’ desvia o dinheiro na forma de créditos concedidos a alguma das sociedades de fachada, como seriam ‘Fomento de Centros de Ensino, S. A.’, ‘Estudo Geral de Navarra, S. A.’ (proprietária do campus universitário na Pamplona), ou ‘Imobiliária Urbana da Moncloa, S. A.’. dali os recursos passariam a outras sociedades, dedicadas a satisfazer necessidades da Obra ou puros investimentos para obter benefícios.

Na cripta linguagem do Opus Dei, as primeiras são chamadas ‘Obras Corporativas’ e Montuenga as tem subdivididas em três áreas de atividades: imobiliárias, editoriais, centros educativos.

Caracterizam-se porque a totalidade das ações está em mãos de sócios ‘numerários’, escolhidos entre o grupo dos mais fiéis seguidores da Instituição. Assim, por exemplo, os terrenos sobre os quais se assenta Torreciudad pertencem a um conjunto de imobiliárias (‘Companhia Imobiliária A Escora, S. A.’, ‘Artesona, S. A.’, ‘Imobiliária O Povoado do Grau, S. A.’ e ‘Companhia Imobiliária O Tozal do Grau’), todas elas coordenadas durante bastante tempo por Luis Montuenga Aguayo, irmão do administrador geral da Obra.

O ensino sempre foi um terreno natural de trabalho para o Opus Dei. Durante as décadas de 50 e 60, nutria-se, principalmente, de estudantes universitários, mas a resposta que seguiu nos 70 aconselhou variar a estratégia. A Obra concentrou-se em colégios para meninos, nos quais os trabalhos de captação são mais fáceis. Em 1989, controlava um total de 29 centros, convocados nos maiores núcleos urbanos do país. O mais famoso de todos eles, o colégio Retamar em Madrid, reproduz à perfeição o esquema de trabalho empresarial do Opus: o edifício pertence a uma imobiliária –’Retamar, S. A.’– mas supostamente está alugado a uma sociedade –’Fomento do Ensino, S. A.’– que reparte a docência.

Por último, no terreno das ‘Obras Corporativas’ estão editoriais como ‘Scriptor, S. A.’ controlam as edições de Caminho, publicam seminários como Telva, Palavra ou Mundo Cristão e editam milhões de folhetos relatando os milagres do Escrivá do Balaguer, elemento muito importante na hora de obter a santificação do fundador.

Junto destas ‘Obras Corporativas’ estão as chamadas ‘Obras Auxiliares’, sociedades onde o Opus coloca seus recursos para obter benefícios, a difusão de seus princípios ou a captação de novos militantes.

As ‘Obras Auxiliares’ foram as quais deram mais trabalho, produzidas por Francisco Montuenga, quem anos atrás tomou a decisão de centralizar os investimentos especulativos na sociedade ‘Urdefondo, S. A.’, uma desconhecida companhia mercantil presidida por Abelardo Alonso do Porres, ex-diretor geral do ‘Banco Latino’ quando a entidade estava dentro do grupo ‘Rumasa’, e conselheiro de ‘Rialp’, editorial mais conhecido do Opus.

Evitar os investimentos errôneos, como ocorreu recentemente na Itália, onde a Obra estava financiando a companhia química produtora do popular anticoncepcional ‘Lutolo’, é uma das ordens fielmente seguidas pelo ‘Urdefondo’. A outra é rodear-se dos investidores mais seguros, o que inclui aproximá-lo menos possível das instituições bancárias ligadas à Obra, como o ‘Banco Popular’. Não em vão esta instituição, cujo conselho de administração está em mãos de sócios ‘numerários’, é generosa com a esquerda: cobre o possível as dívidas do Partido Comunista, inclusive administra os descobertos de ‘Mundo Operário’, e é muito receptiva às petições de crédito do PSOE.

Apesar da indubitável crise sofrida nos 80, a Obra foi capaz de preservar uma extraordinária rede de contatos nas instituições financeiras, que vão desde sua presença em dois importantes meios de comunicação relacionados com as finanças, como o diário ‘Expansão’ e o seminário ‘Atualidade Econômica’; até manter conselheiros afins nos Bancos ‘ Bilbao–Vizcaya’, ‘Hispano–Americano’, ‘ Confederação Espanhola das Caixas de Economias’ e 200 sociedades mais. Homens chave da Obra, como José Maria Aristraín Noam, Emilio Ibarra e Churruca, Alberto Ullastres, Luis María Rodríguez da Fonte, Aristóbulo de Juan e José Joaquín Sancho Dronda, entre outros ilustres sobrenomes, foram capazes de defender os interesses terrestres da Instituição durante a década dos 80.
Controlar um conjunto industrial com tantas ramificações é difícil e com freqüência salta o escândalo. Anos atrás Gregorio Ortega Pardo, ‘numerário’ de toda confiança, recebeu de mãos do Rafael Valls o encargo de abrir um Banco e estender os ensinos do Escrivá do Balaguer em Lisboa. Durante uns anos dedicou a ambas as tarefas com esmero, até que um bom dia subiu a um avião e desapareceu na Venezuela com 50 milhões de pesetas que não eram deles. Recentemente, outros diretores do Opus foram assinalados como generosos no gasto de recursos que não lhes pertenciam, embora muitos deles, como ocorre no caso do financista José Víctor do Francisco Graça, negaram tudo de forma terminante e explicado que são objeto de uma campanha de calúnias.

Estes incidentes e o mais grave de Ruiz Mateos aconselharam reforçar os sistemas de controle interno. Desde 1970, todos os sócios do Opus em cujo poder obram ações compradas com recursos que não são seus estão obrigados a assinar uma carta de compra-e venda sem data, que entregam ao próprio Francisco Montuenga. Desta forma ninguém apropria-se de propriedade que não lhe pertence. Claro que este sistema também tem seus problemas, não serve para fiscalizar o correto uso dos lucros nem evita investimentos arriscados. Para obter este último, o Opus Dei espanhol procura cada vez mais o conselho de peritos financeiros, gestores independentes a quem expõe a simples questão de ‘como podemos investir para ganhar mais’.

Encobre muito a Obra seu poder financeiro não só para esconder-se de possíveis represálias. ‘Os jesuítas perderam muitas coisas porque era fácil localizar, não cometamos esse engano’, assinalou Escrivá do Balaguer. Em realidade não se trata só de encobrir-se do poder civil, mas, também, resulta fácil cortejar como demonstra o ‘Banco Popular’. O principal inimigo dos recursos da Obra é a estrutura da Igreja Católica e suas gigantescas necessidades financeiras. Já o assinalou Escrivá ao dizer: ‘As forças que se opõem a nosso caminho estão dentro da igreja.’

É muito difícil que em seu foro interno os dirigentes do Opus Dei esqueçam a dramática decisão da Conferência Episcopal, perguntado pelo Vaticano sobre a conveniência de transformar à Obra em uma prelatura respondeu negativamente, possivelmente, um pouco assustados com as práticas de fração organizada dentro da Igreja Católica adotada pelo Opus Dei.
Com João Paulo II as coisas mudaram no Vaticano e os clérigos espanhóis modificaram sua atitude. Dois espanhóis opus–deístas se movem livremente pelos corredores do poder vaticano, Joaquín Navarro Valls, responsável pelo departamento de Informação, e Eduardo Martínez Somalo, substituto do Secretário de estado. Na Conferência Episcopal espanhola aprenderam a lição, é necessário levar-se bem com a Obra, algo que Monsenhor Suquía impôs na Igreja espanhola desde 1985.

E tranqüilizada a comunidade religiosa, o Opus se derrubou sobre os uniformizados. Como não podia ser menos em uma Instituição que alcançou seu máximo esplendor na Espanha do general Franco, o Opus Dei se apaixona pelos uniformes. Inclusive há um grupo de ‘numerários’ dedicados a cortejar aos militares em ativo. Na década dos 80, a Obra teve uma fecunda relação com o almirante Liberal Lucini, chefe do Estado Maior da Defesa. Algo que não resulta estranho dado que a Marinha é o setor das Forças Armadas mais suscetível de sucumbir ante os encantos da Instituição.

Carrero Blanco abriu as portas da Marinha à Obra e um ministro da Marinha, Manuel Baturone Colombo, consolidou o trabalho de penetração, não em vão dois de seus filhos, Adolfo e Luis, abandonaram a carreira militar para consagrar-se às teias da Obra.
No Exército também contaram com uma considerável presença; dois chefes de Estado Maior, Alvaro Lacalle Leloup e José María Sáenz de Tejada, eram ‘super numerários’ da Instituição. No amplo círculo de simpatizantes, destacaram Emilio Alonso Manglano, ‘Juanito’ no jargão dos espiões que dirige desde seu posto de coordenador geral o Centro Superior de Investigação da Defesa (CESID).

Entre quem controla a informação reservada, policiais e espiões, o Opus teve uma forte presença no início dos anos 80 que depois perdeu. Inclusive contou com um colaborador na pessoa de um dos diretores gerais da Polícia na presente década, Rafael do Rio Sendino, o que lhes permitiu colocar a sua gente. Em poucos meses monopolizaram a Direção da luta anti terrorista, com o delegado Jesus Martínez Torre, e a muito importante brigada de Interior, uma espécie de Polícia política cuja frente situou-se Alberto Elias.

A presença do Opus Dei na Polícia se revelou vital durante a investigação do ‘assunto ‘Rumasa’, quando um policial, o inspetor Medina, deparou-se com documentos comprometedores, concretamente, a doação por parte de José Maria Ruiz Mateos de 2.000 milhões de pesetas ao Instituto de Educação e Investigação, uma das sociedades de fachada da Obra; seus superiores ordenaram-lhe parar a investigação.

Sem dúvida, onde mais terreno perdeu a Obra é no da política. Quando Franco morreu, perderam o governo e logo soltaram quase todas as fibras que tinham conseguido conservar. Depois das eleições de outubro de 1989, a voz do Opus Dei permanecia representada na Câmara Baixa mediante três vozes, as dos deputados Isabel Tocino (Cantabria), Andrés Ollero (Granada), e Juan Luis de la Vallina (Asturias). Atrás ficaram os tempos de esplendor, sua infiltração no UCD, sua presença no Partido Democrático Cristão de Oscar Alzaga, seu assédio ao Partido Liberal, onde contaram com o apoio do vice-presidente Andrés de la Oliva Santos. Inclusive durante um breve período foram capazes de atrair pessoas que hoje se deslocaram ao campo socialista, como Manuel da Rocha, Ludolfo Paramio e Alfonso Lazo, este último deputado por Sevilha e secretário pessoal do vice-presidente Alfonso Guerra.
Concentrada em preservar seu poderio financeiro, a Obra recusou os enfrentamentos com o poder socialista na década de 80. Esperar que mudem as circunstâncias para pressionar de novo, é a ordem que Tomás Gutiérrez de la Calzada impôs entre seus seguidores. Enquanto, aguardam esse momento, Tomás Gutiérrez, o ‘Concílio’, acordam todas as manhãs convencidos de que tem atrás de si o melhor exército da Espanha. Sem dúvida, quando se instala em seu escritório, para dar uma olhada em Livros Contábeis, também, adverte que é o mais rico e isso lhe tranqüiliza muito. Finalmente, todos recordamos ao Bom Samaritano não só porque tinha boa vontade, mas também porque contava com muito dinheiro. Os pobres não podem fazer obras de caridade.

por Santiago Aroca

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-estrutura-oculta-da-opus-dei/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-estrutura-oculta-da-opus-dei/