BIG NUMBERS: Uma conversa com Alan Moore e Bill Sienkiewicz

Há um ano atrás eu conversei com Bill Sienkiewicz sobre o  que, então, era entitulado de The Mandelbrot Set. Era no que ele estava envolvido, em mais uma parceria com Alan Moore, e tratava de Matemática Fractal e a Teoria do Caos. Desde então, o trabalho teve seu título alterado para Big Numbers, levemente mais acessível que o primeiro, evitando perguntas como “mandelbrot o quê ? ”

Bem, mas que diabos é Matemática Fractal? Não é uma pergunta de resposta fácil, não é um assunto de fácil explanação. Basicamente trata-se de uma nova ciência que transcende limitações filosóficas, científicas, religiosas, econômicas…tudo. E que quer nos prover de uma nova forma de enxergar o mundo a nossa volta. Soa claro? Não? Então deixemos o próprio Bill tentar nos explicar:

“Fractais é um jeito de compreendermos que existe um ritmo e uma fórmula para o Caos; que há uma ordem nele. Se voce tem um padrão de onda cerebral que é rítmica e outra desconexa, qual voce prefereria?  Presumo que a primeira, à primeira vista. Mas se pensármos direito, a outra, a caótica, seria a correta. Porque a mente e a memória são fractais por excelência, elas não seguem uma linha reta, uma aparente ordem, uma sequência… Por exemplo, quando voce pensa na primeira vez que teve um cigarro aceso em seus dedos, que foi num jogo de futebol que assistiu, aí voce se lembra de um dia chuvoso, depois num acidente que voce presenciou quando tinha 13 anos…e por aí vai, de associação em associacão, de forma lógica ou ao acaso. A coisa não funciona digamos, sob controle, cronlogicamente, ordenadamente. É aos saltos e, para isto, para a nossa mente trabalhar assim, é preciso que exista o Caos e , simultaneamente, alguma espécie de ordem. O coração e os pulmões são rítmicos mas a mente é caótica. E quando voce toma alguma coisa, como cocaína, ela faz a mente ficar ritmica e o cárdio-respiratório virar um caos…Tudo se espalha em volta. E é disto que estamos tentando tratar em Big Numbers.”

“É baseado num narrativa dentro da história, que mostra que,por mais que as coisas se modifiquem, elas permanecem as mesmas. Temos 45 personagens, cada um com sua história pessoal e quero que as pessoas realmente se importe com elas, mas que, ao mesmo tempo, a estória seja o foco maior de suas atenções. Depois de ter feito minha própria graphic-novel Stray Toasters, agora eu quero que os leitores abracem a vida como algo afirmativo e não como uma coisa que está se esgarçando irremediavelmente. Que se inteirem que tudo é uma questão de conexão, de ligação entre todos nós…Eu realmente amo as pessoas. ”

Mas e sobre trabalhar com Alan Moore, quando todos sabemos que ele é minucioso e até mesmo ditador ao extremo com seus roteiros – embora também saibamos que voces juntos já nos brindaram maravilhosamente com o docudrama Brought To Light?
“Bem, minha definição de Alan é que ele é um autor altamente controlador. Mas não é uma coisa negativa e o que percebo é que os artistas que trabalham com ele, confiam no seu taco e o seguem fielmente. É mais como se eles estivessem trabalhando para ele e não com ele. Já de minha parte, é um pouco diferente. Gosto de jogar coisas novas para ele, coisas que ele não tinha lidado antes. Sou um artista mais abstrato, até no campo das idéias, enquanto que ele é mais concreto, se podemos descrever assim.  Deste modo eu tento soltá-lo mais…E também  não posso negar que, com ele, também aprendi a me controlar um pouco. Ou seja, ele também se dobrou um pouco a mim e aí temos uma simbiose profíqua, quando os opostos se complementam.”

Recentemente eu tive a chance de conhecer ainda mais desta intrigante e instigante obra, ao conseguir contatar o próprio Alan Moore que deixou claro pretender causar um impacto profundo nos leitores de Quadrinhos ao ponto de extrapolar ao gênero, muito mais do que alcançou antes, com Watchmen.

Seu entusiasmo era visível e ele está convencido que será o melhor trabalho que já fez. Entende os fractais como uma chave para se lidar com o estado em que o mundo se encontra.

Mas , primeiro, a mudança de nome. Porque isto ocorreu?

“Depois que decidimos chamar a obra de The Mandelbrot Set, lembramo-nos que deveríamos, até por respeito, informar ao Dr. Mandelbrot – o autor francês da Teoria – sobre nosso propósito. Assim, escrevemos a ele e recebemos uma resposta muito amável. Basicamente ele nos informava que desejava muito ver a Matemática Fractal ser divulgada maciçamente, tanto pelo seu valor educacional quanto de entretenimento. Mas que, naquele momento, devido ao idiossincrático e críptico conservadorismo reinante no meio  matemático – que chegou a lhe considerar um egomaníaco e auto-promotor e atacaram  veementemente os Fractais – ele preferia não ter o seu nome envolvido. Infelizmente, para toda comunidade científica, a popularização da ciência é confundida com banalização, com o decréscimo de sua importância.”
De todo modo, Big Numbers soa melhor e é mais abrangente.”

Quando consideramos o que Alan pretende, ou seja, tornar acessível uma nova teoria científica, mostrar que todos podem aplicá-la para entender melhor o mundo em que vive e mais, apresentando-a num veículo ainda muito discriminado – como infelizmente ainda são as HQs – um título mais fácil faz grande diferença.

Mas vamos às próprias explicações de Alan Moore sobre os Fractais, bem mais complexas e profundas que as de Bill. Está sentado confortavelmente?   É melhor que esteja.

“A melhor maneira de descreve-los é através de exemplos palpáveis. Se voce tem uma folha de papel e risca uma linha nela, em termos matemáticos esta linha tem só uma dimensão, é unidimensional. Ignora-se a sua largura e consideramos somente seu comprimento. Agora, se voce começa a ziguezaguear esta linha pela folha de papel, voce cobrirá mais superfície do papel, podendo chegar até mesmo a cobri-la inteiramente. Chegaremos então ao ponto em que a linha continua unidimensional, mas não totalmente. E se ao mesmo tempo não é bidimensional, ou seja, continua não tendo uma  largura, podemos dizer que ela é de uma dimensão-e- meia. O mesmo se aplica a uma folha de papel, esta sim, bidimensional – tem largura e comprimento . Se a embolamos na mão até formar uma bola – e bolas são sólidos tridimensionais, com largura, comprimento –  teremos na verdade um objeto de duas dimensões que foi forçado a quase ser tridimensional. Portanto podemos
dizer que aquela bola de papel é de duas-dimensões-e-meia.  Assim que voce consegue entender este conceito de meias dimensões, de frações de dimensões, isto nos abre toda uma nova área de Geometria possível. As pessoas que começaram a explora-la, estão concluindo que as equações que abordam essas dimensões fracionadas, geram estas novas formas peculiares chamadas Fractais. E daí a perceberem que muitas das formas encontradas na natureza, ao acaso, são  perfeitamente idênticas àquelas geradas em seus computadores, foi um pulo. E tudo isto nos indicando que aquilo que considerávamos até então casual, caótico e turbulento, é de fato expressão perfeita de uma forma mais elevada de Geometria que não tínhamos condição de perceber antes.’

“Veja as nuvens, por exemplo. Suas formas parecem ser completamente caóticas, imprevisíveis, mas quando observadas sob a ótica da Matemática Fractal, o Caos assume um diferente significado, mostrando que há diferentes caminhos para se observar matéria e acontecimentos. E isto está contribuindo até mesmo para reverter a nefasta tendência contemporânea à especialização màxima. Cada vez mais e mais gente sabe mais e mais sobre menos e menos. Até que todos saberão tudo sobre nada…”
“Com os Fractais todos percebem que tudo está conectado, Meteorologia, Economia, Biologia…tudo tem muito  em comum. Cessa o desejo da especialização. O melhor a fazer é estudar quanto mais campos for possível.”
“Foi o que o próprio Maldelbrot fez. E é  o que pretendemos fazer com Big Numbers, mostrar um novo jeito de perdceber o nosso derredor”.
Alan Moore acredita que fomos apanhados num estágio tal de caos e trubulência que não acontecia desde que a Era Industrial suplantou à Agricultural. E afirma que Big Numbers não é uma obra nihilista mas sim até mesmo otimista, “pois ela tornará claro que é possível lidar com tudo isto se temos os métodos corretos”.

E continua: “A sociedade se encontra meio aflita porque as coisas estão acontecendo cada vez mais rápido, levando o Caos aos nossos sistemas políticos, econômicos, vidas emocionais e nas nossas relações interpessoais. Estamos agora no olho  do turbilhão entre a Era Industrial e o “Por Vir”. Na Matemática fractal é um conceito bem aplicável aí, o chamado Período de  Fase de Transição. Por exemplo: se voce fosse um alienígena, olhando para um lago,  nunca conseguiria prever as propriedades do vapor. Isto se dá porque o que acontece entre a água e o vapor é um ponto de Fase de Transição.Um ponto de intensa e incrível turbulência, quando uma coisa deixa de ser ela própria mas ainda não é a outra. Com a água obviamente isto acontece quando ela começa a ferver. Com Big Numbers o que pretendo é captar uma fração de todo este vapor, calor e água em ebulição, uma fração da sociedade quando ela atinge este ponto de fervura,  e
tentar fazer um juizo disto”.

O ROTEIRO DE BIG NUMBERS

Como sempre faz em seus minuciosos roteiros, para Big Numbers Alan Moore criou uma espécie de mapa de cada personagem, uma grande folha de papel dividida em 40 linhas e 12 colunas, totalizando 480 células na qual está destrinchada a vida de cada uma delas no decorrer do 12 números que comporão a série. E tome rabiscos de letra miúda quase imperceptível, garatujas incompreensíveis, quase criptografia,  até mesmo pequenos desenhos, numa espécie de story-board, formando o que o próprio Alan apelidou de Tapeçaria, retratos de cada personagem.
Uma é um professor de História, para termos o ponto de vista histórico; outra, um cara que acha que veio de Netuno, nos oferecendo o angulo social; emfim, está tudo alí , e tudo é revelante.

Alan se concentrou em segmentos sociais que raramente são representados – a terceira idade e a infância quase sempre são relegados em pró dos “mais jovens”, seja na TV, cinema ou mesmo em livros. Big Numbers, no entanto, é sobre gente real.

“Eu estou bem confortável com o fato de não ser uma obra centrada em homens jovens e lindas garotas fazendo e acontecendo “, revela Moore. “Não me pauto pela tendência de juventude exclusiva. Isto é um conceito inventado pela mídia publicitária desde os anos 50. Há um monte de gente de meia-idade, crianças e idosos nesta série, pois eles formam o espectro da nossa sociedade que raramente é representado, servindo até mesmo de motivo de piada. É legal escrever sobre garotas sensuais em roupas sumárias, e até chamar isto de feminista. Mas e as pessoas comuns não particularmente atraentes, indo para o trabalho, cuidando das crianças, cozinhando para os maridos? Elas não têm valor?”

Big Numbers não tem uma estória usual, não é um “suspense”, mas sim uma colcha de retalhos das estórias de cada personagem, de uma comunidade tipicamente interiorana da Inglaterra (sob a ditadura da dama-de-ferro, Margareth Tatcher) afetada em seu dia a dia pela construção de um leviatanesco Shopping , ícone maior do capitalismo turbinado, justo em seu cerne. Se isto não é acessibilidade, me diga entáo o que é.

E Alan continua: “O Shopping nos permite tratar de uma comunidade em crise. Nada impactante e dramático somente pelo dramático, mas paulatino e sutil. Se voce ver uma comunidade sendo erodida, isto te conscientiza de como ela está mudando e nós precisamos de um agente de mudança na história. E com a atual predominância da chamada “geração-Shopping”, acho que fizemos uma boa escolha. Tanto que, naquela enigmática forma com que a vida imita a arte, justamente a área de Northampton que escolhemos como cenário para a nossa estória, já está toda tomada por cadeias de lojas a la Toys R Us.

“O Shopping é o verdadeiro emblema do pico da era industrial. É a representação do que uma sociedade comercial soi poderia terminar:  um bando de zumbis andando para lá e para cá, hipnotizados pelos anúncios luminosos, visual clean de inox-polido- neon-e-vidro, consumindo compulsivamente.”

“”Mas não penso que este será o fim da Civilização. Certas correntes,  seja na Tecnologia, Ciência, Arte,  e mesmo na vida, corações e mentes das pessoas, reverterão esta tendência. Como eu disse antes, o mundo está mudando de forma incrivelmente acelerada e ninguém é capaz de prever ao certo no que isto irá dar. Mas em Big Numbers eu tento ao menos mostrar esta fase de transição, o momento da fervura”.
E eu acredito piamente que Alan conseguirá o seu intento, ainda mais com a parceria de Bill Sienkiewicz  que, segundo Alan, está na sua melhor fase como artista, voltando a uma arte mais naturalista, mais próxima, numa simbiose que tornará Big Numbers tão leível quanto assistir a vida de nossa vizinhança. Por isto, a obra também é permeada de humor…

“É muito engraçada, rizível até”- enfatiza Moore – ” uma verdadeira comédia, que não deixa de ser trágica em certos pontos, como a vida. A nossa inspiração provem de autores como Alan Bleasdale e Alan Bennett, que podem dizer coisas de partir o coração de um forma realmente açambarcadora e engraçada. Eles conseguem expor inconmensuráveis e pungentes dramas humanos de forma simples e direta. E é neste território que eu pretendo que Big Numbers se desenvolva, no qual voce tem simultaneamente toda a riqueza da comédia e da tragédia da nossa mundana existência”.

“Por uma certa ótica também, Big Numbers tentará fazer com que os leitores de Quadrinhos se conscientizem de que não é preciso ser mordido por uma aranha radiativa ou nascer com um gene mutante, para ser interessante. De que cada pessoa a sua volta é tão ou muito mais instigante do que qualquer super-humano de collant. Super Heróis são personagens planos, unidimensionais, tigres de papel. Vigilantes psicóticos demandam quase nenhuma motivação, não têm a riqueza e a complexidade de uma pessoa que voce encontra num ponto de ônibus.”

“Mesmo a idéia de escapismo per si  – motivação maior dos Quadrinhos, Cinema, etç – eu já abominava quando escrevia O Monstro do Pântano. E agora, mais do que nunca, é tempo de ser perguntar: Por que Super  Heróis em primeiro plano? Por que não ir direto ao ponto? Estou completamente fora dos gêneros Fantasia & Ficção Científica, pois atingi aquele estágio no qual o Mundo real parece ser tão fabuloso, fascinante, intrincado e maravilhoso que é até um insulto à realidade tentármos inventar qualquer coisa…”
Esse cara realmente escreveu Watchmen???

(Obs; tradução livre da excelente cobertura de Big Numbers escrita por Liz Evans para a já extinta revista DEADLINE, em seu nº 17, de abril de 1990/ This is a free translation of the excellent article by Liz Evans from the magazine Deadline # 17 – april/1990).

Trad. José Carlos Neves

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/big-numbers-uma-conversa-com-alan-moore-e-bill-sienkiewicz/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/big-numbers-uma-conversa-com-alan-moore-e-bill-sienkiewicz/

Hércules e o Javali de Erimanto

Foram necessários dois anos para Hércules capturar um javali feroz que devastava tudo por onde passava. Esse trabalho está relacionado ao aprendizado da vida em sociedade.

“O javali é um monstro sem fronteiras, que não respeita limites. Cada um de nós tem dentro de si essa fera, que é preciso dominar, aprendendo a reconhecer nosso espaço e o das outras pessoas. É um teste para vencer o egoísmo e a equilibrar os impulsos”.

Mitologia

Hércules é incumbido de capturar o Javali de Erimanto, sem contudo saber que este trabalho era na verdade uma dupla prova: a prova da amizade rara e da coragem destemida. Foi-lhe recomendado que procurasse pelo javali e Apolo que lhe deu um arco novo para usar, porém Hércules disse que não o levaria consigo, porque temia matar. Ele disse:

“Eu não o levarei comigo neste trabalho, pois temo matar. Deixo aqui o arco.”

E assim desarmado, a não ser por sua clava, ele escalou a montanha, procurando pelo javali e encontrando um espetáculo de medo e terror por toda a parte. Mais e mais ele subia e em determinada altura encontrou um amigo, Pholos, que fazia parte de um grupo de centauros, conhecidos dos deuses.

Eles pararam e conversaram e por algum tempo Hércules esqueceu-se do objetivo da sua busca. E Pholos convidou Hércules para furar um barril de vinho, que não era dele mas do grupo de centauros e que viera dos deuses, juntamente com a ordem de que eles jamais deveriam furar o barril, a não ser quando todos os centauros estivessem presentes, já que ele pertencia ao grupo. Mas Hércules e Pholos abriram-no na ausência dos seus irmãos, convidando Cherion, um outro sábio centauro, para se juntar a eles. Assim ele fez, e os três beberam e festejaram e se embebedaram-se e fizeram muito ruído que foi ouvido pelos outros centauros.

Enraivecidos eles vieram e seguiu-se uma feroz batalha e uma vez mais Hércules fez-se mensageiro da morte e matou os seus amigos, a dupla de centauros com quem ele antes tinha bebido.

E, enquanto os demais centauros com altos lamentos choravam as suas perdas, Hércules escapou novamente para as altas montanhas e reiniciou a sua busca pelo javali. Até aos limites das neves ele avançou, seguindo a pista do animal, mas não o encontrava. Depois de muito pensar, Hércules colocou uma armadilha habilidosamente oculta e esperou nas sombras pela chegada do javali.

Quando a aurora surgiu, o javali saiu da sua toca levado por uma fome atroz e caiu na armadilha de Hércules que, no tempo devido, libertou a fera selvagem, tornando-a prisioneira da sua habilidade. Ele lutou com o javali e domesticou-o, e fê-lo fazer o que lhe determinava e seguir para onde Hércules desejava.

Do pico nevado da alta montanha Hércules desceu, regozijando-se no caminho, levando adiante de si, montanha abaixo, o feroz, contudo domesticado javali. Pelas duas pernas traseiras ele conduziu o javali, e todos na montanha se riam ao ver o espectáculo. E todos os que encontrava Hércules, cantando e dançando pelo caminho, também riam ao ver a sua caminhada. E todos na cidade riram ao ver o espectáculo: o exausto javali e o homem cantando e rindo.

Quando reencontrou seu Mestre, este lhe disse: “O Trabalho foi completado. Medita sobre as lições do passado, reflecte sobre as provas. Por duas vezes mataste a quem amavas. Aprende porquê.”

Simbologia

Este trabalho está associado ao signo de Libra e Áries, onde a aprendizagem consiste na capacidade de manter o equilíbrio perante as adversidades (Libra), sendo capaz de manter as necessidades básicas atendidas (Áries).

Libra é o primeiro signo que não tem um símbolo humano ou animal, mas sustentando a balança, está a figura da Justiça – uma mulher com os olhos vendados. Ele apresenta-se com muitos paradoxos e extremos, dependendo de se o discípulo que se voltou conscientemente para o caminho de volta ao Criador segue o zodíaco segundo os ponteiros do relógio, ou no caminho inverso. Diz-se que é um interlúdio, comparável com a silenciosa escuta na meditação; um tempo de cobranças do passado.

Neste ponto percebemos como o equilíbrio dos pares de opostos deve ser atingido. A balança pode oscilar do preconceito até à injustiça ou julgamento; da dura estupidez à sabedoria entusiástica. Neste majestoso signo de equilíbrio e justiça nós verificamos que a prova termina numa explosão de riso, o único trabalho em que isso acontece.

Hércules conviveu, riu e cantou com os amigos, sendo que socializar é uma característica de Libra, e em vez de seguir a recomendação, de abrir o barril para o grupo, abriu-o para celebrar com um único centauro, procurando aqui um espelho, uma identificação com o outro. E embora estivesse determinado a não matar, o seu impulso, primeiro, de Áries, foi mais forte.

No entanto, Hércules conseguiu também entregar o javali ainda com vida e já domesticado, demonstrando que era possível domesticar o animal, devido à sua dedicação e delicadeza no trato, atributo natural de Libra.

Caminho de Iniciação

O Caminho de Iniciação considera o 3º Trabalho – A Captura da Corça Cerínia e o 4º Trabalho – O Javali de Erimanto como um só.

O céu de Vênus é a morada dos Principados. Esses vivem no Mundo Causal. O Iniciado que anela entrar nessa oculta morada interior, antes dve descer aos infernos de Vênus, e ali, como Hércules, capturar a Corça de Cerínia e o Negro Javali de Erimanto. Nesses dois símbolos vemos claramente a delicadeza e a brutalidade, o refinado e o tosco, a bela e a fera.

O Javali, perverso como poucos, é o símbolo vivo de todas as baixas paixões animais, a luxúria mais grosseira e devassa. Portanto, temos aí o contraste entre o denso e o sutil.

Mesmo após haver eliminado os defeitos do Mundo Astral Inferior e do Mundo Mental Inferior (as duas primeiras façanhas de Hércules), as “causas” desses defeitos continuam existindo. Essas causas são eliminadas durante os processos do terceiro e quarto Trabalhos de Hércules: a captura da Corça Cerínia e do Javali de Erimanto.

Se todos os defeitos têm origem sexual (não importa se os defeitos são refinados ou toscos), as maiores provas do Terceiro e Quarto Trabalhos consistem em resistir às tentações da carne, cujo drama foi ricamente descrito pelo patriarca gnóstico Santo Agostinho: Imenso é o número de delitos cujos gérmens causais devem ser eliminados nos infernos de Vênus.

Findo o Trabalho nos infernos do Mundo Causal, o Mundo de Tipheret, o Cristo Cósmico penetra no coração do Iniciado e este, cheio de êxtase, exclama: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino dos Céus…”

Biblioteca de Antroposofia.

#Hércules #Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/h%C3%A9rcules-e-o-javali-de-erimanto

“I have a Dream inside a Dream”

O filme “A Origem” (Inception – 2010) é muito interessante, bem planejado e nos dá uma dimensão nova, um novo paradigma, uma nova forma de pensar. Mas devemos ponderar qual seria a aplicação disso nos estudos do magista. “I have a dream inside a dream I’m more awake the more I sleep, you’ll understand when you’re dead” (Marilyn Manson). O que resultaria de uma projeção dentro de uma projeção astral?

Primeiro analisemos o contexto de Inception. Num futuro próximo, a ciência criaria uma máquina capaz de colocar uma consciência em contato com outra em estado de sono (inconsciente). Bem, o magista já sabe como fazer isso sem precisar de aparato nenhum. É comum mandarmos mensagens quando em meditação (estado alpha) para outra pessoa, e esta possivelmente recebe-la de forma intuitiva ou em seus sonhos. Essa é uma forma básica de telepatia bem fácil de dominar e inclusive amplamente ensinada pela conscienciologia (www.iipc.org). Então vamos pular essa parte.

The Inception, a inserção, consistiria de uma difícil técnica de inserir uma idéia na mente de outra pessoa, objetivando uma mudança de comportamento baseada na influência dessa idéia na vida da pessoa, e um ponto de grande importância seria que a pessoa acreditaria que essa idéia seria sua, originalmente, nascida de seu próprio livre-arbítrio e meditação sobre sua vida. Pois bem, uma vez que se pode entrar em contato com o inconsciente de uma pessoa enquanto ela dorme – isso seria uma projeção astral consciente indo de encontro com a consciência adormecida de uma outra pessoa – é possível influenciar o inconsciente da mesma, plantando idéias, que podem ser aceitas ou rejeitadas dependendo da personalidade do indivíduo (quanto mais oposta à personalidade da “vítima”, mais difícil seria plantar a idéia). Nada ético e tenho a dizer que possivelmente nunca será visto um magista sério a praticar esse tipo de comportamento, principalmente porque fere a mais alta idéia de se ser um magista, que é a preservação do livre-arbítrio. Mas é possível.

Se várias das idéias do filme são possíveis de serem executadas através da aplicação de nossas disciplinas e técnicas, seriam outras idéias trazidas a tona pelo filme possíveis de serem executadas? No filme vemos que além do mundo real, dentro do sonho, são mostradas quatro camadas, e além destas está o Limbo, onde a noção de realidade daquele que está projetando-se, perde-se dentro de si mesma, ou de outras, pois é algo que não fica muito claro, pois todos que caem no Limbo acabam nos mesmos locais e Cobb mostra a Ariadne o que ele construiu enquanto dentro do Limbo, e o local onde Saito está é o mesmo criado para ele por Arthur. Logo o Limbo seria uma “área coletiva” de todos os sonhos, onde o sonhador se perde, onde a consciência se dilui no todo, não desejando retornar.

Quanto mais fundo o indivíduo vai no sonho, mais tempo ele tem, algumas horas no físico simbolizam dias ou semanas dentro dos níveis do sonho. Isso pode ser explicado e até comprovado através dos experimentos de projeção, sendo que muitos dos que o praticam, acabam relatando ter perdido a noção de tempo a uma certa altura. Certa vez quando questionado sobre como era o reino dos Céus, Jesus teria afirmado que no Reino do Pai não há tempo. Até algumas décadas atrás o tempo era considerado uma constante, porém com a Teoria da Relatividade de Einstein esse pensamente foi totalmente descartado, tendo ele provado que o tempo, assim como o espaço, são relativos e não constantes, podendo variar imensamente dependendo da situação e onde estamos aplicando é muito possível, sendo que não há massa física no astral, o tempo corre de forma diferente, sendo mais rápido lá, e demorando a passar no físico.

A Organização Mundial de Saúde (OMS – www.who.int ) define o ser humano como um ser multidimensional, sendo ao mesmo tempo um ser bio-psico-socio-espiritual, sendo assim englobando quatro aspectos, físico, mental, social e espiritual. Essa história de quatro formas é um tanto conhecida pelos místicos antigos, sendo cada parte, cada ser ou corpo dentro do ser humano relacionado a um dos elementos – terra, ar, água e fogo, respectivamente. Ao realizar a projeção astral o magista tira seu foco do plano material, libertando-se dele temporariamente e vagando pelo astral, onde pode ter certa liberdade e podendo realizar grandes feitos. Ele muda seu foco do elemento Terra, associado ao material e concentra-se no próximo nível de nosso ser, num corpo mais sutil. Uma vez no plano astral, aqueles que já praticaram a projeção e todos os que realizam exercícios de mentalização e visualização sabem que no astral para que algo “se torne real” é importante um bom bocado de força de vontade e o mais importante, sentir como se fosse real, estimular os sentidos, visualizando, sentindo seu peso, sua textura, seu cheiro e seu gosto (quando aplicável), sendo que o tempo de vida de uma mentalização é determinado pela quantidade de energia que foi despendida em sua criação e a quantidade de sentimentos associada a ela. E essa é a palavra chave do astral, sentimento, sendo este associado ao elemento Água.

Agora entramos no tema de nosso post, e quanto a ter “um sonho dentro de um sonho”, uma projeção dentro de outra, seria possível? Sim, é possível, porém muito difícil. Existem poucas pessoas que conseguiram libertar-se, alterando o foco para o próximo nível, assumindo um corpo mais sutil que o anterior, sendo esse o plano mental, associado ao Ar. Os poucos que alcançaram esse nível conseguiram mantê-lo por curtos períodos de tempo, relatando grande dificuldade para alcançá-lo novamente, alguns só conseguindo uma vez em sua existência. Porém as impressões relatadas são maravilhosas e de grande valia para nossos estudos. Sensações de paz, tranqüilidade, a ausência de tempo, espaço ou forma, sendo que as consciências passaram a sentir tudo, saber tudo, como se fossem o tudo, um toque na onisciência de Deus. A maior parte não consegue lembrar de tudo que viu ou absorveu neste plano – como das primeiras vezes que se pratica projeção astral – porém quando retornam (sempre com um baque, como o “coice” usado para acordar em Inception) demonstram habilidades e conhecimentos que não tinham antes desse contato. E já que estamos associando com filmes, porque não associar essa experiência com o atravessar do Portão da Verdade do desenho Fullmetal Alchemist? Sim, seria como no desenho, quando se faz a transmutação humana e se têm acesso ao Portão da Verdade, onde o indivíduo tem acesso a todo conhecimento, porém não consegue retê-lo ao retornar ao corpo, mas vemos que depois de atravessá-lo e voltar os alquimistas conseguem realizar seus feitos sem necessidade de traçar seus diagramas místicos. Não se sabe exatamente o que há no Plano Mental ou como é, os relatos são deveras vagos, mas repletos de significados e sensações.

Mas espere! Inception mostra mais um sonho, e além deste o Limbo! Claro que mostra, pois só passamos por três dos elementos! Porém é aí que a base experimental acaba. Além do plano mental teoricamente está o plano representado pelo elemento Fogo. Mas como seria ou o que ele traria, nunca conheci nenhum magista que tenha estado por lá, nenhum relato. Se teorizarmos que o Plano Mental é um toque na onisciência de Deus, talvez o que esteja além seja a onipresença ou onipotência, vai saber… Não estou escrevendo este texto com o objetivo de ser um guia para a projeção dentro da projeção, muito pelo contrário, sou um pesquisador, um alquimista, um cientista como todos os buscadores, o que estou propondo é uma nova forma de ver a multidimensionalidade humana, estou propondo um novo paradigma, uma nova forma de ver essa questão e recolocando em pauta o Inception, e o Fullmetal Alchemist. E talvez essa nova possibilidade abra uma porta a todos os buscadores que tentam um contato com a Divindade e a descoberta de sua própria espiritualidade.

Só um adendo, quanto ao Limbo, o que vemos em todas as características deste, seria como uma experiência da Morte, algo libertador, acolhedor, de onde o indivíduo não quer retornar. Não a morte do corpo, mas a Morte Final, o diluir da consciência no todo que é Deus, sendo que a consciência do Ser deixa de existir e passa a ser apenas parte do todo que é Deus. Além disso não esqueçamos que falamos dos Quatro Elementos da alquimia, porém os magistas mais experientes sabem que traçamos o Pentagrama pois cada ponta representa um elemento, todas elas abaixo do Espírito que está em tudo, forma tudo é tudo e o princípio ao qual tudo está subjugado, em suma Deus.

PS: Se alguém tiver algum relato sobre os planos mais sutis como o Plano Mental ou o que esteja além dele, estou sempre aberto a novas possibilidades, e aguardo novas experiências para descobrirmos as maravilhas da Criação de Deus.

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O Paradigma Divino é um blog de autoria de Saulo Henrique Alves (Ketalel) e orgulhosamente faz parte do Project Mayhem, com artigos sobre ciência e espiritualidade. Agradeço o espaço no Teoria da Conspiração para difundirmos a cultura e espiritualidade no mundo atual.

#Filmes #PlanoAstral

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/i-have-a-dream-inside-a-dream

As Palavras, Símbolos e o Poder

Muitos anos atrás quando ainda podíamos sair de nossas casas, fui com a Pri Martinelli assistir à peça “Troilo e Créssida” no teatro SESI, pois um grande amigo nosso, Eduardo Semerjian, está fazendo o papel de Ulisses, um dos generais gregos no texto. A peça, escrita por William Shakespeare em 1602, é uma de suas peças menos conhecidas no grande público mas, por lidar diretamente com a Guerra de Tróia e conter diversas referências herméticas, é uma das favoritas dos apreciadores de História da Arte.
No caminho, estava aguardando a Priscilla recarregar o cartão dela e, quando retornou, explicou que havia demorado pois a moça à sua frente na fila era analfabeta e não conseguia de jeito nenhum fazer a recarga na máquina sozinha e tiveram de ajudá-la na tarefa.

“Analfabetismo” talvez seja uma das coisas que, como escritor, creio ser das mais cruéis possíveis quando se diz respeito à alma humana e a Pri me pediu para escrever alguma coisa sobre isso… analfabetismo não apenas no sentido mais tradicional, mas também voltado ao espiritual. É uma verdadeira prisão em todos os sentidos possíveis e imaginários, que limita e encolhe o ser humano à condição quase de um animal. E é algo muito difícil de se compreender, pois se você está lendo este texto, significa que nunca conseguirá imaginar o que é não ter a capacidade de interpretar os símbolos ao seu redor, pois é impossível fingir ser analfabeto mesmo que para um teste de se colocar no lugar do outro.

Esta prisão é estudada na Kabbalah dentro das Qlipoth. Thantifaxath é o nome pela qual conhecemos o 32o túnel de Set, a Sombra de TAV. Enquanto TAV representa os portais do Templo do conhecimento que nos permitem adentrar a Árvore da Vida, Thantifaxath são as portas fechadas aos que querem aprender. Neste texto não falarei sobre responsabilidades governamentais, políticas nem nada assim, EMBORA como os túneis estão conectados, Thagirion, a Corrupção (a Sombra de Tiferet) demanda que os servos estejam aprisionados e Thantifaxath cumpre este papel de carcereiro, da mesma maneira que um povo ignorante e analfabeto político serve aos interesses dos ditadores e populistas de plantão…

Magia e Imagem

Não é à toa que a palavra MAGIA está ligada diretamente à palavra IMAGEM, e GRIMÓRIO vem do francês Grimoire, que relata à Gramática. “spell” em inglês tem a mesma relação com soletrar uma palavra e conjurar um feitiço ou sortilégio. Os primeiros magos da humanidade foram as primeiras pessoas que aprenderam a ler e escrever. Com estes hieróglifos, eles eram capazes de passar o conhecimento para um papiro ou parede no templo e outros com o mesmo conhecimento eram capazes de resgatar estes ensinamentos mesmo longe da presença dos Mestres. O “Conhecimento invisível” (e daí o termo “Colégio Invisível” usado na Rosacruz) vem da capacidade de aprender algo novo simplesmente olhando para um desenho na parede (ou, no seu caso, olhando símbolos na tela de um computador)! o quão mágico pode ser isso? E ai o Elemento AR estar ligado diretamente ao Conhecimento, aos Símbolos e às letras. E, em última instância, ao AUTO-CONHECIMENTO.

Pois é… você não tem como saber. Você não possui as CHAVES. Porém, você sabe ler em Português, e consegue ler o que EU escrevo. Se eu soubesse ler Akkadio, eu poderia traduzir os textos para você entender… e se eu não soubesse, eu poderia inventar e você não teria como saber se eu estou dizendo a verdade. O que, nas duas alternativas, coloca você, analfabeto acadiano, nas mãos da pessoa que DIZ que sabe interpretar os textos… o princípio vale para os textos acadianos e também para a BÍBLIA… ou você também fala aramaico, grego ou latim?

Em 1998, no interior da Grécia, tive por algumas horas a sensação de não conseguir interpretar as palavras e letras que estão dispostas nos letreiros de ônibus, lojas, restaurantes, mercados e jornais… um mundo alienígena onde só conseguia compreender as fotos, logomarcas e imagens nas embalagens do produto, onde mal se conseguiria diferenciar um shampoo de uma embalagem de ketchup. As notícias de todos os jornais pareciam todas iguais! Letras incompreensíveis e algumas fotos de pessoas de terno apertando as mãos em alguma reunião. O que estariam discutindo?Apenas quando perdemos algo que nos é tido como garantido que percebemos como nos faz falta!

Todos nós somos ignorantes em algum aspecto. Não há vergonha alguma em admitir isso. O problema começa quando algumas pessoas DIZEM ter todas as chaves e respostas que, de fato, não possuem. E isso vale para um jornal em grego ou para a BÍBLIA. E pior ainda, para as interpretações do que é “certo” e do que é “errado” de acordo com qualquer texto “sagrado”. Fica mais simples de entender porque justamente o túnel de Thantifaxath controla as chaves para os portões do Templo, certo? Sem o triângulo TAV-SHIN-RESH, não temos competência para interpretar os símbolos que são apresentados diante dos nossos olhos e nos tornamos vulneráveis às mentiras e informações falsas (SAMAEL, a Qlipoth de HOD, trata justamente da Mentira e é a emanação do túnel de Shalicu, o Preconceito).

Samael também cuida da MÍDIA como grande manipuladora da informação. Um povo analfabeto acredita em qualquer coisa que a mídia disser. Não é à toa que todas as Igrejas compram emissoras de rádio, jornais e televisões e que por trás de todo grande partido político corrupto está uma ligação com emissoras de televisão, jornais e rádios (e agora blogs e “jornalistas” de internet?).

Como escapar de Thantifaxath?
Não há uma maneira fácil, a evolução demanda sacrifício. A Espada Excalibur está permanentemente enterrada na pedra bruta, aguardando todo aquele que será o Rei de seu Reino retirá-la da pedra. Se a Espada e o elemento Ar representam o Conhecimento e a Pedra Bruta o Mundo Profano, o que deve fazer um Mago, ou Rei? Estudar sempre. Aprender, questionar, procurar obter as chaves do conhecimento em todos os sentidos. Alfabetizar-se em todos os sentidos (não apenas saber juntar as letras e formar palavras, isso minha filha de sete anos consegue fazer…). O grande problema de Thantifaxath é quando as pessoas ACHAM que são alfabetizadas, mas são o que chamamos de “Analfabetos funcionais”, o segundo degrau da escada, ainda mais perigoso que o primeiro, como demonstrei acima. Em 2001 quando fazia especialização em Semiótica, um professor disse que “A população brasileira não tem capacidade nem para discernir entre um merchandising e um conselho… Quando o povão vê uma apresentadora de TV dizer que usa um shampoo X no cabelo, eles não acreditam que aquilo seja uma propaganda; 78% das pessoas acreditam que a apresentadora está REALMENTE recomendando e usa aquele produto”. Bem, isso explica muita coisa em relação à nossa TV aberta e os programas de auditório, certo?

Alfabetizar-se no Elemento AR significa ter a capacidade crítica e racional de questionar o mundo ao seu redor e conseguir separar o joio do trigo. No Brasil, apenas 8% das pessoas podem ser consideradas realmente alfabetizadas, de acordo com as pesquisas mais recentes, o que significa que a situação ficou PIOR nestes últimos 15 anos.

Hermetismo e Metalinguagem
O Hermetismo no Renascimento assume o papel de uma Metalinguagem capaz de implementar mais força e impacto na apreciação de qualquer obra de Arte. Um artista talentoso consegue fazer um retrato ou um desenho, mas somente um Mestre é capaz de colocar os símbolos certos nos locais certos e invocar em nosso subconsciente as sensações que tornarão aquela obra de arte inesquecível. Da mesma maneira, qualquer um consegue escrever um texto, uma peça de teatro ou uma história em quadrinhos, mas somente os verdadeiros Mestres conseguirão mexer com o público em sua forma mais íntima e impactante, como camadas (ver o texto anterior sobre O Hermetismo ser como Camadas de uma Cebola). É a diferença entre aquela HQ mensal meia-boca que será esquecida daqui alguns meses e um Sandman, Promethea, Invisibles, Liga Extraordinária ou Watchmen que serão clássicos para sempre.

Cada camada desta cebola exige um vocabulário específico, uma maneira de conversar com o público e uma linguagem que atinja o público que você deseja. E os Símbolos conversam com todas as pessoas ao mesmo tempo. É possível escrever um texto em camadas, desde que você tenha o fio de Ariadne para conduzir a narrativa (se duvida, releia os primeiros textos do TdC após alguns anos e veja se continuam iguais aos que você lembra de ter lido…). Desta maneira, seu texto conversará com todo mundo, não importa o grau de conhecimento que a pessoa possua. E quanto mais culta a pessoa for e mais chaves ela tiver, mais ela gostará do seu texto, pois será capaz de se aprofundar cada vez mais no labirinto.

Troilo e Créssida
Para finalizar, queria dar os parabéns a toda a equipe da peça, tanto o diretor Jô Soares em suas escolhas de adaptar o roteiro junto com Maurício Guilherme para uma versão mais popular e simplificada, sem perder o simbolismo da história. A escolha de redefinir os figurinos dos Gregos e Troianos com base na dicotomia do Xadrez, para facilitar a compreensão do público em relação a qual lado da disputa cada personagem estava, entre outros detalhes muito bem acabados. O balanço entre a comédia e a tragédia ficou bem marcado (embora a peça tenha pendido muito mais para o lado da comédia nesta versão… uma “comédia sinistra, como diz o cartaz) e as caracterizações dos atores estão sensacionais (eu não assisto TV aberta, mas alguns dos atores da peça são conhecidos por seus trejeitos em programas como Zorra Total e outros e os aspectos mais caricatos foram bem explorados para conseguir a empatia do público junto a personagens complicados como Aquiles, Pátroclo, Menelau, Ajax, Pândoro e o estrupício Térsito.

Os gregos

Shakespeare conseguia conversar com todos os tipos de público em sua linguagem simples e suas obras podem ser adaptadas para praticamente qualquer contexto, por serem profundamente hermetistas e dançarem na Árvore da Vida. Suas obras podem ser apreciadas tanto pelas camadas mais populares quanto pelos mais eruditos e cultos. E quanto mais chaves você tiver, mais gostará desta peça.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-palavras-s%C3%ADmbolos-e-o-poder

A Espiritualidade Queer no Vodu, na Santería e no Candomblé

A HISTÓRIA CULTURAL QUEER DA DIÁSPORA AFRICANA:

Durante o tráfico atlântico de escravos, os europeus transportaram mais do que os africanos de suas terras nativas para as plantações das Américas. Eles transportaram culturas, visões de mundo e crenças religiosas milenares. Por autopreservação e pressão de seus mestres cristãos anticristãos, os filhos da diáspora africana disfarçaram suas tradições espirituais nativas sob o disfarce do catolicismo místico. Ao longo dos séculos, as religiões se misturaram para criar novas fés únicas que espelhavam as crenças tradicionais de escravos e senhores, embora com uma corrente dominante de práticas da África Ocidental. Três em particular ganharam grande destaque e podem contar entre eles legiões de adoradores abertamente LGBT+: o Vodu, a Santería e o Candomblé.

O VODU:

Entre bonecos com alfinetes nos olhos, zumbis e associações com o macabro, o Vodu (alternadamente escrito Vodou, Vodum, Voodoo ou Vodoun) é uma das religiões mais sensacionalistas ao redor. A maioria de seus tons mórbidos vem do fato de ser uma religião ancestral, porque reverenciar os ancestrais envolve reverenciar os mortos. Existem diferentes tipos de Vodu, como o Vodu haitiano, o Vodu da Louisiana e o Vodu ainda praticado na África, mas em geral as versões do Novo Mundo são descendentes crioulos das religiões tribais da África Ocidental e do catolicismo francês.

Por si só, o Vodu é muito acolhedor para a comunidade queer, e em algumas culturas caribenhas onde o sentimento anti-LGBT+ é socialmente forte, a prática do Vodu funciona como um espaço seguro e acolhedor para as pessoas queer serem elas mesmas. Não há proteções legais para pessoas LGBT+ na capital Vodu do Haiti, e na outra Meca Vodu da Louisiana, as proteções são mínimas e muitas vezes não são aplicadas fora de Nova Orleans. Nessas geografias onde o Vodu é mais praticado, ser aparentemente queer muitas vezes corre o risco de repercussões que vão desde ser demitido de seu emprego até ser vítima de vários graus de crimes de ódio. A comunidade Vodu, no entanto, é um oásis tolerante e tolerante em um mar de discriminação, e muitas vezes é o único lugar onde haitianos gays e louisianos podem ser eles mesmos.

Por causa disso, muitas pessoas LGBT+ são atraídas pela natureza inclusiva do Vodu; consequentemente, o Vodu tem um número desproporcionalmente alto de praticantes abertamente queer em comparação com outras religiões. [73]  A sexualidade e a expressão de gênero de uma pessoa nunca são julgadas por padrões morais, pois há um entendimento inerente de que você é como o Divino o fez, e a perfeição inerente do Divino significa que o Divino não comete erros. Portanto, você — como quer que seja — não é um erro. Além disso, a procriação não é um ponto focal da religião como é no catolicismo puro, o que significa que todas as formas de sexo não procriativo não são tabu nem vistas como não naturais. Pelo contrário, até as próprias divindades Vodu têm prazer em atos homoeróticos de sexualidade, mas falaremos mais sobre isso daqui a pouco. [74]

Uma das partes mais conhecidas do Vodu envolve a invocação de um espírito (conhecido como lwa) no próprio corpo. Isso geralmente é feito durante um tipo fortemente rítmico de ritual de dança de forma livre, e às vezes um lwa de um gênero habitará o corpo de um humano do gênero oposto. Nesse ponto, o dançarino possuído começa a pensar, se comportar e agir como o lwa dentro dele. Um homem masculino habitado por um loa efeminado começará a agir de forma efeminada, uma mulher afeminada habitada por um loa masculino passará a agir de forma masculina, e nunca a sexualidade pessoal e a identidade de gênero do homem ou da mulher são questionadas porque naquele momento, através da êxtase da dança, o lwa está no controle; o corpo humano é apenas um vaso. Como nota lateral, é importante saber que o Vodu não rotula seu lwa com rótulos LGBT+, embora os humanos geralmente reconheçam traços LGBT+ em seu caráter.

Nem todos, mas vários praticantes de Vodu também acreditam em uma forma de reencarnação em que o corpo é efêmero, mas a alma é eterna. Para eles, a alma é uma coisa sem gênero, e cada pessoa, independentemente de sua sexualidade e gênero atual, tem sido muitas coisas de muitas vidas passadas. Um homem homossexual branco flamejante hoje pode ter sido uma mulher asiática heterossexual Kinsey 1 em um ponto ou talvez uma mulher negra bissexual ou mesmo uma tribo pansexual de gênero fluido nas selvas de Papua Nova Guiné. Assim, a aparência externa, rótulos e desejos pessoais não definem a verdadeira alma de uma pessoa, tornando-os nulos e vazios nas conversas sobre o certo e o errado. São apenas fatos da vida, todos sujeitos a mudanças durante a próxima transmigração da alma.

A LIÇÃO DO VODU:

 

A INVOCAÇÃO DE DIVINDADES DE GÊNEROS OPOSTOS:

A prática Vodu de possessão espiritual é uma óbvia atividade mágica de lição ou conclusão. Agora, até que você aprenda mais sobre as tradições do Vodu ou já tenha um relacionamento com elas, não vá invocar lwa Vodu de maneira Vodu. Comece com sua própria tradição mágica. Especificamente, se sua fé envolve um panteão de divindades de gêneros diferentes, invoque uma divindade do gênero oposto ao qual você se identifica pessoalmente. Mas faça isso, é claro, à maneira de sua própria tradição com a qual você está familiarizado.

Uma coisa é falar, agir e simpatizar com outros gêneros, mas perder totalmente o controle e permitir que outro gênero tome as rédeas e faça você pensar, sentir e agir como eles é outra coisa. Então, para sua próxima atividade mágica, faça um ritual de invocação de uma divindade que seja o epítome estereotipado do gênero oposto ao seu. Experimente, veja como é e, em vez de apenas entrar em contato com outro gênero, permita que esse outro gênero entre em você.

A SANTERÍA:

A Santería é semelhante, mas muito diferente do Vodu de várias maneiras. Eles são semelhantes no sentido de que ambos são de origem caribenha, criados a partir da mistura de catolicismo colonial e religiões tradicionais da África Ocidental, e acreditam em um panteão de seres espirituais que muitas vezes são chamados a possuir um devoto durante a dança ritual. Suas diferenças predominantes, no entanto, vêm de ramos específicos de suas raízes religiosas, das quais suas outras diferenças evoluíram naturalmente. Especificamente, enquanto o Vodu é mais uma mistura de catolicismo francês e espiritualidade africana da tradição do Daomé, a Santeria é mais uma mistura de catolicismo espanhol e espiritualidade africana da tradição iorubá.

Em vez do lwa do Vodu, os espíritos de Santería são conhecidos como orishas. Os escravos iorubás que antes viviam sob o domínio colonial espanhol no Caribe disfarçavam seus orishas de santos católicos, fazendo com que cada orisha correspondesse a um santo específico. Ao longo dos anos, os traços, mitologias e esfera de domínio espiritual que cada orisha e santo possuíam se misturaram para formar a tradição espiritual única conhecida hoje como Santería, que ainda é popular em seus países caribenhos de língua espanhola, bem como nos EUA. e cidades latino-americanas com grandes populações de imigrantes hispano-caribenhos.

Do lado de fora, Santería tem todas as armadilhas do sensacionalismo: adivinhação com ancestrais falecidos, possessão, uso pesado de rituais de dança de tambores, transes e, mais notoriamente, sacrifício de animais. Soma-se a tudo isso o fato de que a Santería também possui uma porcentagem estatisticamente grande de praticantes LGBT+ em comparação com outras tradições religiosas. O raciocínio para isso é muito semelhante ao raciocínio para o mesmo fenômeno social encontrado no Vodu: a Santería coloca uma ênfase maior na alma sem gênero de uma pessoa, em vez de seu corpo físico ou apetites corporais. Isso permite uma atitude não julgadora e acolhedora para permear a fé. Além disso, a comunidade queer dentro da maior sociedade cultural machista caribenha/católica das ilhas encontra refúgio em sua comunidade religiosa da Santería porque eles podem ser eles mesmos com segurança e abertamente, encontrar outros como eles e conhecer outras pessoas de mente aberta. A identidade queer também é encontrada nos mitos e tradições de seus orishas.

Um exemplo disso é a história de origem da própria homossexualidade da Santería. Segundo a lenda, ela se desenvolveu naturalmente entre dois orishas masculinos em resposta à tentativa de sua mãe de esconder sua própria vergonha. Conforme a história, Yemaya (a orisha da lua, do oceano, dos mistérios femininos e a divindade mãe de todos os orishas) foi enganada para fazer sexo com seu filho Shango (orisha do trovão, raio, fogo e guerra) na frente de seus dois irmãos Abbatá e Inlé (os orishas da cura e da profissão médica). Envergonhada e horrorizada por alguém descobrir isso, ela baniu Abbatá e Inlé para viver no fundo do mar, longe do resto do mundo, e só para garantir ela fez Abbatá ficar surdo e cortou a língua de Inlé. Apesar de sua incapacidade de se comunicar um com o outro, eles ainda eram capazes de se entender com empatia. E juntos, em sua mútua solidão e sofrimento, os dois desenvolveram um vínculo profundo que se transformou em paixão romântica e sexual, dando origem à homossexualidade no mundo. [76]

Além da óbvia história de origem, esse mito também contém reflexões muito mais profundas da sociedade gay. Os laços de ser pária, rejeitado por sua família, sua incapacidade de se expressar plenamente e punição por ações além de seu controle são temas comuns na vida da comunidade queer como um todo. Além disso, também sugere a empatia natural das pessoas LGBT+ por outras pessoas que sofrem. A outra conexão está no símbolo de Abbatá de serpentes entrelaçadas, que, embora tenha associações com o caduceu médico, também tem fortes tons homoeróticos. O papel espiritual de Abbatá como enfermeiro de Inlé também tem uma tendência gay, devido aos estereótipos de enfermeiros do sexo masculino serem gays. No entanto, as especificidades desses dois amantes variam dependendo da preferência do praticante individual. As preferências variam de pessoas que veem Inlé como um ser andrógino a pessoas hetero-normalizando seu relacionamento ao ver Abbatá como uma mulher completa. [77]

Segundo alguns praticantes da Santería, não se pode ser um praticante solitário. Para eles, e para muitos, a Santería é uma religião comunal. Devido à grande porcentagem de praticantes queer na Santería, a exposição a eles permite que a maioria não-LGBT+ interaja com eles e passe a ver a comunidade queer como pessoas boas e comuns como eles. Isso cria um efeito de bola de neve social em que mais e mais pessoas se tornam cada vez mais receptivas e, por sua vez, criam seus filhos para serem mais socialmente liberais, levando a uma aceitação ainda maior dentro da Santería. Além disso, muitos líderes dentro da Santería são abertamente queer; como líderes, eles direcionam o curso da religião para se tornar ainda mais receptivo e de mente aberta. [78]

No entanto, como a maioria das religiões, a Santería está longe de ser um ideal utópico de aceitação perfeita. Apesar de cerca de 30-50 por cento dos praticantes serem indivíduos LGBT+ e a maioria de todos os praticantes serem mulheres, a estrutura hierárquica da Santería impede que pessoas e mulheres queer (na maioria das linhas) alcancem os mais altos cargos de liderança como o Babalawo (o mais alto- nível de classificação no sacerdócio). Além disso, os homens gays são proibidos de tocar os tambores sagrados conhecidos como batá. Por fim, a religião mantém uma estrita divisão de trabalho entre os sexos, e quando a orientação sexual, expressão e identidade de uma pessoa não se alinham com os papéis convencionais de gênero, seu lugar hierárquico dentro da religião pode se tornar complicado e sujeito ao arbítrio de autoridades regionais. Liderança. Mas apesar dessas limitações, a comunidade LGBT+ é geralmente muito aceita dentro de Santería e experimenta muito mais liberdade do que em muitas outras religiões em nosso mundo moderno.

A LIÇÃO DA SANTERÍA:

 

A SACRALIDADE DA COMUNIDADE:

A Santería é uma fé muito comunal, e o aspecto de união é altamente reverenciado. Mais do que apenas ajudar uns aos outros e estar sempre lá um para o outro, a comunidade da Santería considera sagradas suas interações comuns uns com os outros. Então, para sua próxima atividade mágica, vá lá e ajude sua comunidade. Intenções mágicas, palavras e correspondências são ótimas, mas o que elas significam se não agirmos de acordo com elas? Seja voluntário, envolva-se no ativismo, ajude um vizinho literal. Quanto mais interagimos com a sociedade de forma positiva e benéfica, mais a sociedade nos vê como positivos e benéficos. Afinal, uma mão amiga é muitas vezes o trabalho de feitiço mais poderoso que se pode fazer para um bem maior.

O CANDOMBLÉ:

Para completar nosso tour pelas religiões da diáspora africana, vamos velejar para fora do Caribe e atracar na nação sul-americana do Brasil, que tem a dupla desonra dúbia de não ser apenas o destino número um para a maioria dos escravos africanos levados para no Novo Mundo (cerca de 40% do total do comércio de escravos), mas também foi a última nação do Hemisfério Ocidental a abolir completamente a escravidão. O grande número de escravos combinado com a extensa linha do tempo da escravidão legalizada criou uma fusão espiritual e cultural única e duradoura entre o povo brasileiro. Atualmente, o Brasil é um país com uma das maiores populações de afrodescendentes, perdendo apenas para a Nigéria. [80]

De todas as tradições espirituais ecléticas que emergem dessa história única, o Candomblé é uma das maiores e mais conhecidas. Ele compartilha características semelhantes com seus primos do norte, o Vodu e a Santería, mas o Candomblé é mais o resultado das tradições da África Ocidental misturadas com o Catolicismo Português e as várias religiões nativas encontradas no Brasil Aborígene. Como o Vodu e a Santería, no entanto, o Candomblé também coloca grande ênfase em um panteão espiritual de orixás (sua grafia de orishas), bem como tambores ritualísticos, dança de forma livre e possessão de espíritos. Ele também tem um seguimento queer muito forte.

É importante notar que o Candomblé nem sempre aceitou a comunidade queer. Originalmente, suas regras e hierarquias rígidas impunham limitações severas e preconceituosas a qualquer pessoa LGBT+. Mas no início de 1900, um ramo separado da religião conhecido como caboclo se desenvolveu e rapidamente ganhou popularidade devido à sua preferência por orixás mais obscenos e irreverentes e falta de restrições para seus membros LGBT +. Consequentemente, o aumento da popularidade do caboclo forçou o Candomblé mais popular a se tornar menos rígido e mais aberto aos seus adeptos queer. Ainda assim, porém, o ramo caboclo da religião, devido à sua história, é conhecido como a versão “queer” do Candomblé e o próprio título carrega consigo uma nuance compreendida da natureza/ser queer (queerness). [81]

A popularidade moderna do Candomblé entre a comunidade queer é muito semelhante à afinidade da comunidade pelo Vodu e pela Santería. É um lugar acolhedor e tolerante para expressar seu verdadeiro eu em uma sociedade cultural intolerante e discriminatória, sua identidade sexual e expressão de gênero são refletidas tanto na mitologia quanto nas divindades espirituais, e não há moralidade percebida sobre orientação ou identidade sexual.

No Candomblé não existe a dualidade comum do bem e do mal. Em vez disso, cada pessoa está inserida em seu próprio destino pessoal a cumprir, e o destino de uma pessoa pode exigir um código moral diferente do destino de outra. Claro, isso é temperado pela crença adicional de reciprocidade cósmica de que o que você faz aos outros acabará por voltar para você, então isso não é de forma alguma uma tradição espiritual que tolera um tipo de mentalidade do tipo “para o inferno com as consequências”. Mas, em suma, há uma atmosfera de não julgamento entre os fiéis, enfatizando a importância de deixar as pessoas se expressarem da maneira mais correta para elas, que incluem sexualidade e identidade de gênero. É verdade que nem todos os membros são tolerantes, mas como um todo o Candomblé é muito menos intolerante do que muitas das principais religiões do mundo moderno. [82]

Os praticantes do Candomblé Queer costumam ser membros de uma “casa”. Essas casas são semelhantes às casas de drag queen, onde todos se reúnem e formam um vínculo familiar próximo, muitas vezes sob a liderança de uma “mãe” ou “pai” mais experiente. Na sociedade brasileira, essas casas de candomblé têm estado na vanguarda dos movimentos pelos direitos LGBT+ tanto na advocacia quanto na mobilização. Eles são conhecidos até mesmo por se esforçarem para implementar campanhas de prevenção ao HIV/AIDS e ajudar os já infectados, fornecendo referências e informações sobre o tratamento. Por causa de seus esforços, o Brasil hoje tem algumas das proteções legais mais progressistas para a comunidade queer no mundo, embora culturalmente ainda exista uma tremenda discriminação e intolerância.[83]

Além das casas, o Candomblé se destaca em outro pilar gay altamente evoluído: a leitura, como na leitura de uma companheira rainha para a sujeira (chamar a atenção de forma abrangente para as falhas de alguém, isto é, arrastar o nome de alguém com falhas para a lama). De fato, na década de 1980, o antropólogo gay Jim Wafer estudou a cultura gay dos adeptos do candomblé, e ficou particularmente fascinado com sua própria forma de abuso verbal estilizado e lúdico entre si que eles chamam de baixa. Os praticantes do candomblé têm duas formas distintas de baixa; uma forma é usada em ambientes públicos seculares e a outra é usada apenas em rituais privados durante os festivais. A principal diferença está no vocabulário e nos tipos de leitura que se faz. A versão secular é semelhante à leitura comum como a conhecemos na cultura gay contemporânea, mas a versão religiosa faz uso proposital de orixás, piadas internas de rituais e menções à política doméstica. Embora semelhantes, cada tipo de baixa desenvolveu seu próprio fluxo rítmico e forma de arte falada que são distintas umas das outras. Wafer faz uma nota final sobre a baixa, afirmando que é uma coisa muito gaycêntrica, uma vez que é mutuamente compreendida entre gays brasileiros e aqueles que conhecem a comunidade. [84]

A LIÇÃO DO CANDOMBLÉ:

 

A SACRALIDADE DA COMUNIDADE QUEER:

Agora, eu sei o que você está dizendo: “Mas Tomás, essa foi a atividade de algumas páginas atrás.” E sim, é, mas com um foco diferente: essa é a sacralidade de nossa própria comunidade queer. Você vê, a Santería fez grandes avanços na sociedade hispano-caribenha ao reunir as comunidades queer e não-queer, derrubando barreiras e mostrando como todos podemos nos dar bem. Mas o que nossos irmãos e irmãs do Candomblé fazem muito bem é agir para apoiar sua própria comunidade queer sagrada. Através de seu estabelecimento de acolhimento de fugitivos para formar casas, ativismo de HIV/AIDS e desenvolvendo suas próprias formas de comunicação verbal, eles estão aproximando a comunidade queer brasileira e cuidando uns dos outros.

Como pessoas LGBT+, muitas vezes lançamos a palavra “comunidade” como se quiséssemos, mas dando uma olhada ao redor, fragmentação e luta interna estão em toda parte. É bom dizer que somos uma comunidade e, em seguida, todos aparecem juntos em um evento do Orgulho, mas como estamos prestando homenagem à nossa sagrada comunidade queer nas outras cinquenta e uma semanas do ano? Não apenas diga, mostre.

Então, para sua próxima atividade mágica, ajude sua tribo queer. Seja voluntário em seu centro LGBT+ local, inicie um grupo de apoio queer no Facebook, escreva em um blog sobre sua experiência como feiticeiro queer; as opções são infinitas. Independentemente de como você faz isso, mostre sua devoção mágica à comunidade através da ação, porque se tudo o que você está fazendo é acender uma vela e enviar boas intenções para sua tribo queer, em que você é diferente daqueles que, em resposta a um pedido de ajuda, dizer coisas como “meus pensamentos e orações estão com você”? Lembre-se, a ação direta obtém satisfação; como um grupo minoritário global, precisamos ajudar uns aos outros com ações, não apenas palavras. Mãos que ajudam são mais sagradas do que lábios que oram.

AS DIVINDADES E AS LENDAS QUEER:

 

BABALÚ-AYÉ:

Conhecido como Babalú-Ayé na Santería e como Obaluaiê no Candomblé, ele é o orixá da doença e da cura. Além de ser muito temido e muito respeitado, é um dos orixás mais populares devido aos inúmeros relatos de suas milagrosas intercessões de cura. Embora não necessariamente considerado uma entidade queer em si mesmo, desde o nascimento da epidemia de HIV/AIDS ele foi adotado pela comunidade LGBT+. Para muitos na comunidade, Babalú-Ayé é visto como o orixá proeminente para pessoas que sofrem de HIV/AIDS, e as petições específicas para ele por seus poderes de cura são numerosas. E embora ele seja um orixá, ele também sofre de claudicação física e um corpo doente. Esse sofrimento concede uma compreensão de solidariedade entre ele e os mortais, pois, diferentemente de outras divindades, ele pode simpatizar diretamente com sua doença e dor.

Além da conexão com HIV/AIDS, a comunidade LGBT+ o considera especialmente sagrado por sua bondade para com os marginalizados do mundo. As lendas contam como ele é o orixá que vai ajudar os isolados por doenças contagiosas e transmissíveis quando ninguém mais o faria por medo de se infectar. Sua cor sagrada também é roxa, que tem conexões internacionalmente compreendidas dentro da comunidade queer. [85]

A oferta mais comum para ele são grãos, e ele tem fortes correspondências com o elemento terra. Ao usar um recipiente para apresentar ou guardar oferendas, porém, é tradicional que a tampa do recipiente tenha furos, simbolizando a impossibilidade de se proteger para sempre da doença. Além disso, seus navios nunca são deixados parados. Eles são tradicionalmente mantidos em movimento para vários locais de acordo com as histórias mitológicas de Babalú-Ayé, onde o movimento e a atividade são ensinados como as melhores formas de cura porque evitam a estagnação e mantêm o corpo saudável, evitando que o corpo fique doente em primeiro lugar. No trabalho de feitiços, os devotos oram a ele para curar os entes queridos de doenças e punir seus inimigos com doenças. [86]

BARON SAMEDI:

Baron Samedi é indiscutivelmente um dos mais conhecidos lwa do Vodu na cultura pop graças à sua personalidade excêntrica e representação caricaturizada em filmes populares como o Dr. Facilier no filme A Princesa e o Sapo, da Disney, e como o apropriadamente chamado Barão Samedi no clássico de James Bond: Com 007 Viva e Deixe Morrer. Como patrono da morte, sepulturas, cemitérios, cura, fumo, bebida e obscenidades, ele é uma das divindades mais transgressoras de qualquer religião.

Em termos de aparência, ele é frequentemente descrito como tendo uma estrutura magra como um esqueleto, com um copo de rum ou um charuto na mão enluvada e vestindo uma elegante sobrecasaca roxa e cartola. Ele às vezes complementa isso adicionando à mistura alguns itens essenciais femininos, como saia e sapatos de salto alto. Particularmente, ele é conhecido por seu desrespeito ao tato e decoro, bem como por sua devassidão lasciva, mas ele faz tudo com um ar urbano de suavidade.

Às vezes ele é visto como um lwa transgênero, mas sempre com uma preferência descarada pelo sexo anal. Sua capacidade fluida de ir além do binário homem/mulher, hétero/gay, masculino/feminino, terra/submundo, vivo/morto o torna um lwa popular para a comunidade queer e para aqueles que sentem a necessidade de transgredir fronteiras sem vergonha ou que sentem que não se encaixam em uma categoria singular de rótulos. [87]

Na devoção, os cemitérios são lugares sagrados para ele, e muitas vezes ele pede que seus devotos usem as cores preta, branca ou roxa. Para oferendas, ele tem preferência por coisas esfumaçadas pesadas, como café preto, nozes grelhadas, charutos e rum escuro. Ele é solicitado principalmente por feitiços e magia prejudicial, mas também é solicitado para a prevenção da morte durante doenças com risco de vida, durante momentos perigosos e em resposta a ser fatalmente enfeitiçado. Segundo a tradição, diz-se que só se pode morrer se o Barão Samedi cavar a sua cova. Porque ele é um tipo de personalidade caprichosa e impulsiva, ele pode optar por não cavar sua cova, deixando você viver o que está acontecendo com você, se solicitado a fazê-lo, ou se ele simplesmente não o fizer. Não tenho vontade de cavar sua cova por qualquer motivo. [88]

ERZULIE FRÉDA & ERZULIE DANTOR:

Erzulie é uma família de lwa do Vodu, da qual dois membros às vezes estão diretamente associados à comunidade queer: Erzulie Freda e Erzulie Dantor. Erzulie Fréda pode ser mais comparada à deusa grega Afrodite e é a lwa do amor, beleza, joias, dança, luxo, flores e homossexuais masculinos. Diz-se que os gays estão sob sua proteção divina, e não é incomum que os homens afirmem que sua orientação sexual foi diretamente o resultado de ter invocado Erzulie Fréda para possuí-los durante a dança ritualística. Ela também é conhecida por ser muito paqueradora com todos os gêneros, e alguém de quem ela possui muitas vezes será visto flertando com outras pessoas, independentemente de sua orientação sexual regular. Condizente com uma divindade do amor, seu símbolo sagrado é o de um coração, sua cor sagrada é rosa e ela prefere oferendas românticas, como perfumes, sobremesas, joias e destilados com sabor doce. [89]

Erzulie Dantor, em comparação, é a lwa das mulheres, crianças e lésbicas. Ela é frequentemente retratada como uma Virgem Maria de pele negra com cicatrizes no rosto e um seio bem dotado, segurando uma criança de pele negra semelhante a Jesus. Suas cores sagradas geralmente são azul e dourado, enquanto suas ofertas preferidas são água da Flórida, carne de porco, rum e, especialmente, licor de chocolate. [90]

REFERÊNCIAS:

[73]. International Gay and Lesbian Human Rights Commission and SEROvie, The Impact of the Earthquake, and Relief and Recovery Programs on Haitian LGBT People, 2011, https://www.outrightinternational.org/content/impactearthquake-and-relief-and-recoveryprograms-haitian-lgbt-people (accessed Oct. 28, 2016).

[74]. Elizabeth A. McAlister, Rara! Vodou, Power, and Performance in Haiti and Its Diaspora (Berkeley: University of California Press, 2002).

[75]. Rev. Severina K. M. Singh, “Haitian Vodou and Sexual Orientation,” in The Esoteric Codex: Haitian Vodou, ed. Garland Ferguson (Morrisville: Lulu Press, Inc., 2002), 50-53.

[76]. Randy P. Conner, “Gender and Sexuality in Spiritual Traditions,” in Fragments of Bone: Neo-African Religions in a New World, ed. Patrick Bellegarde-Smith (Champaign: University of Illinois Press, 2005).

[77]. From https://www.viejolazaro.com/en/ (accessed Nov. 1, 2016) and http://agolaroye.com/Inle.php (accessed Nov. 1, 2016).

[78]. Scott Thumma and Edward R. Gray, Gay Religion (Walnut Creek: Altamira Press, 2004).

[79]. Salvador Vidal-Ortiz, “Sexual Discussions in Santería: A Case Study of Religion and Sexuality Negotiation,” Journal of Sexuality Research & Social Policy 3:3 (2006), http://www.academia.edu/1953070/Sexuality_discussionsJn_Santer%C3%ADa_A_case_study_o (accessed Nov. 1, 2016).

[80]. Nicolas Bourcier, “Brazil Comes to Terms with Its Slave Trading Past,” The Guardian, Oct. 23, 2012, https://www.theguardian.com/world/2012/oct/23/brazil-struggle-ethnic-racial-identity (accessed Nov. 2, 2016).

[81]. Roscoe, Queer Spirits.

[82]. “Candomble at a Glance,” British Broadcasting Corporation, Sept. 15, 2009, http://www.bbc.co.uk/religion/religions/candomble/ataglance/glance.shtml (accessed Nov. 2, 2016).

[83]. Andrea Stevenson Allen, Violence and Desire in Brazilian Lesbian Relationships (New York: Palgrave Macmillan, 2015).

[84]. Jim Wafer, The Taste of Blood: Spirit Possession in Brazilian Candomble (Philadephia: University of Pennsylvania Press, 1991).

[85]. “Babalu Aye,” Association of Independent Readers & Rootworkers, June 20, 2017, http://readersandrootworkers.org/wiki/Babalu_Aye (accessed Aug. 18, 2017).

[86]. David H. Brown, Santería Enthroned: Art, Ritual, and Innovation in an Afro-Cuban Religion (Chicago: University of Chicago Press, 2003).

[87]. Tomas Prower, La Santa Muerte: Unearthing the Magic & Mysticism of Death (Woodbury: Llewellyn, 2015).

[88]. “Baron Samedi—A Loa of the Dead,” Kreol Magazine, http://www.kreolmagazine.com/arts-culture/historyand-culture/baron-samedi-a-loa-the-dead/dead/(accessed June 12, 2017).

[89]. Des hommes et des dieux, directed by Anne Lescot and Laurence Magloire (2002, Port-au-Prince: Digital LM, 2003), DVD.

[90]. From http://ezilidantor.tripod.com (accessed Oct. 28, 2016).

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Fonte:

Queer Magic: LGBT+ Spirituality and Culture from Around the World © 2018 by Tomás Prower.

COPYRIGHT (2018) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/queer/a-espiritualidade-queer-no-vodu-na-santeria-e-no-candomble/

A Lei do Proibido

Anton Szandor LaVey

O motivo pelo qual sempre houve um fascínio pela bruxaria e feitiçaria é porque sempre foram considerados tabus. Seu primeiro dever como bruxa é com a sua aparência. Os homens são todos voyeurs, e muito do que os atrai é baseado no que eles vêem. O que eles vêem em você, como uma bruxa, deve ser fascinante, e nada é tão fascinante como aquela bruxa que não é para ser vista.

Você já reparou como as pessoas pulam para fora de seus carros quando há um grave acidente de carro e ficam ao redor olhando as vítimas? Por quê? Não é só porque elas são sádicas ou estão satisfazendo seu desejo por sangue, nem mesmo porque querem ficar chocadas. Normalmente é só curiosidade, e por que essa curiosidade por algo que pode lhes dar pesadelos (ou fazer deles motoristas mais cuidadosos)? Simplesmente porque alguma coisa está acontecendo fora do contexto de suas vidas cotidianas, algo que é pra valer, mas não algo que eles podem pagar alguns trocados para ver quando quer que queiram. Em resumo, alguma coisa está acontecendo que não deveria estar. Um evento que é estranho ao modo direto e próprio de uma cena de auto-estrada está ocorrendo.

Você não gostaria de estar ali deitado no asfalto com dor e todo mundo olhando para você. Você está, portanto, subconscientemente constrangido por causa das pessoas machucadas, mas não pensa nelas desta forma nem analisa porque você observa. Vamos passar a outra cena, pois não há nada eroticamente estimulante para a maioria das pessoas naquilo que acabamos de discutir, mesmo apesar de ser uma manifestação direta da Lei do Proibido.

A cena é num lugar noturno onde se presentam dançarinas de topless. As mesas à frente do palco baixo estão cheias de pessoas sozinhas e de casais observando as dançarinas de busto despido contorcendo-se espasmodicamente ao som da música, que é alta demais para poder-se conversar. A decoração é vistosa, as luzes são particularmente fracas e o bar cheic de pessoas que não conseguem-se aproximar mais ou que não querem. Entre as pessoas do bar, está sentado um homem com sua bela e jovem esposa, que está empoleirada no seu banco de um modo que revela mais das suas pernas do que parece que ela está consciente. Ela não está vestindo uma minissaia, mas um vestido normal que cobre até três polegadas acima dos seus joelhos, de fato bem conservadora para os padrões de hoje. Muitas outras mulheres estão presentes e
vestem mini emicrossaias, mas ninguém as nota. A garota no bar está vestindo uma fita de casamento, portanto, é óbvio que ela é casada. Suas belas pernas estão encapsuladas em meias de náilon comuns, de cor bege, com a parte de cima comum, presa por ligas simples e brancas. Ela está usando salto alto clássico de três polegadas, num ambiente cheio de sapatos de salto quadrado que estão na moda. Até mesmo as dançarinàs de topless estão usando os sapatos com jeito dos de Frankenstein, enquanto balançam seus pêndulos e impelem suas vulvas, cobertas apenas por uma pequena tira de fita Scotch. Mas a jovem senhora no bar tem sua própria platéia, pois muitos homens entediados estão cuidadosamente acariciando seus drinques enquanto olham furtivamente em sua direção.

O que eles vêem de tão chocante? Que tipo de obscenidade tira suas atenções das dançarinas que se contorcem no palco? O que os faz olhar sorrateiramente sobre seus ombros na direção do bar, enquanto suas esposas e namoradas, que os arrastaram até lá, estão atentamente aprendendo algumas dicas (ao menos elas acham que sim!) sobre titilação com as garotas do palco?

Vou lhes dizer o que esses garotinhos sacanas vêem. Eles vêem um belo vestido de mulher! Eles vêem uma mulher de verdade. Seu rosto é belo e apropriado, porém provocativo, e seu cabelo está arrumado com esmero. Seu vestido subiu debaixo dela, então a parte posterior das suas coxas nuas acima da meia de náilon está em contato direto com o banco do bar. Ela está com sua bolsa no colo, que também está coberto pelo vestido, então parece que ela acha que sua perna está devidamente coberta. De fato, pode-se seguir (se os olhos forem bons) uma das tiras da liga longe o bastante para vê-la desaparecer debaixo do que com certeza deve ser sua calcinha! “Olha só!”, suas mentes de garotinhos ficam conscientes, e eles voltam para os seus quartos quando tinham treze anos de idade: “você consegue ver tudo até sua calcinha!” De repente, a voz da prova oitenta e seis das MCs os trazem de volta à realidade. Suas evocações acabaram.

Candy Bumpstead está para apresentar seus dois magnums quarenta e quatro,então preste bastante atenção naqueles mamilos!

Agora vamos analisar a fórmula, os resultados do que acabamos de testemunhar. Primeiro de tudo, a garota do bar estava fora do contexto com relação ao resto da “diversão” -não era parte do show. Era uma mulher casada, ou pelo menos estava com alguém, portanto ela estava disponível pelo menos ao homem que estava com ela e não parecia ser casta, e todo ; mundo que a ficou encarando sentiu-se como se estivesse conseguindo ;, algo, mesmo que fosse apenas uma boa olhada no que pertencia a outro! , Isto é o Fruto Proibido n.9 1. Ela não estava vestindo uma saia que era destinada a mostrar tanta perna (Fruto Proibido n.92). Estava vestindo meia : com ligas, que eram para ser cobertas pelo vestido (Fruto Proibido n.!1 3). Ela estava revelando sua roupa de baixo (Fruto Proibido .n .9 4) que era de cor branca e não alguma coisa exibicionista que qualquer garota pode jul- gar bonito de se mostrar (Fruto Proibido n.!1 5), convencendo, portanto, os espectadores que a exposição era acidental, em vez de intencional (Fruto Proibido n.96). Os homens que olhavam furtivamente deveriam estar ob- servando a ação no palco, não olhando o outro lado do salão, já que é considerado rude e falta de educação virar-se em qualquer teatro para olhar os outros enquanto a apresentação está em progresso (Fruto Proibido n.!1 7).

Combine todos esses fatores com o poder compulsivo de do(ICE). Inércia de Cristalização Erótica de cada homem, que em termos de fetiche fizeram com que a mulher no bar roubasse o show das dançarinas no palco. Adicione a liberação emocional que a bebida proporciona, mesmo que o efeito seja pequeno ou os drinques estejam diluídos em água, e você tem nove bons motivos porque a garota sentada no bar com seu marido era a bruxa mais poderosa do lugar! Por meio do seu emprego, conscientmeEte ou não, da Lei do Proibido, ela roubou o show. Lembre-se: NADA E TÃO FASCINANTE COMO AQUILO QUE NÃO É PARA SER VISTO!

Quando se trata de enfeitiçá-los, todos os homens são garotinhos sacanas em seus corações. Quando o primeiro sentimento sexual e subsequente experimentação ocorrem na vida de um homem, ele estava agindo com a capacidade de um menininho sacana em 99% dos casos, e não me importo com quem possa discordar. Podemos falar até ficarmos roucos sobre as belezas do amor e a majestade da realização sexual e eu concordo que estas coisas podem vir a passar na vida de um homem. Mas quando um garoto se torna um homem, ele está acompanhado de pensamentos lúbricos! Isso é tão certo e verdadeiro como o romance idílico que sempre sopra como uma brisa suave e delicada quando uma garota se toma mulher.

O despertar sexual de um menino é lúbrico, lascivo e cheio de desejo, e sua emergência romântica é um amanhecer doce e ao mesmo tempo amargo e ele se sente cheio de desejo sexual com um e angustiado com o outro; uma bruxa completa saberá como a diferença existente entre um e outro é grande. É por isso que você deve atrair o desejo dentro do homem sem recursos ímpios. Ele pode mentir e dizer que não tem pensamentos de vícios secretos ou prazeres furtivos e pode retirar-se e adotar métodos de monges para aplacar seus desejos, mas eles estarão lá eles sempre estarão lá, e enjaulá-los fará apenas com que rujam ainda mais alto.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-lei-do-proibido/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-lei-do-proibido/

As Constelações (Estrelas Fixas)

Blog do frater Matheus, que trata das constelações por aquilo que elas realmente são: Pontos de referência simbólicos no céu. Os profanos e esquisotéricos acabaram associando-as à Astrologia, embora as constelações não tenham papel algum na confecção de Mapas Astrais.

As chamadas “estrelas fixas” (o que é também apenas um referencial, já que nada está “fixo” no universo) – em contraposição às “estrelas errantes” (os planetas) – constituem um dos mais antigos focos de interesse da humanidade. Registros históricos atestam que os primeiros assentamentos humanos do Neolítico já se maravilhavam com a observação delas. Ocupavam o plano mais alto e estável de tudo o que se movia aparentemente no céu.

Agrupadas nas constelações, as “estrelas fixas” ajudavam a orientação dos viajantes, marcavam início de colheitas, épocas de plantio, festas anuais e muitas outras atividades.

Constelação é o nome dado a certos grupos de estrelas do Céu onde é projetado o imaginário coletivo de um grupo social. As formas, desenhos e atributos variados as distinguem no firmamento. A palavra constelação vem do latim com-stelattus, marcado com estrelas. Em 1945, a União Internacional Astronômica marcou oficialmente os limites das constelações e quais estrelas pertencem a qual constelação. Por volta de 1970, 88 constelações eram aceitas universalmente, além de grupos estelares menores, chamados asterismos.

Catálogos do Céu para ajudar o trabalho na Terra

Os gregos povoaram a esfera celestial com suas lendas e mitos acrescidos das que herdaram da Mesopotâmia e da Fenícia. Tales, o mais antigo astrônomo grego conhecido, era de origem fenícia. Em Hesíodo (Teogonia e Os trabalhos e os dias) e em Homero há referências a certas estrelas e constelações que têm relação com mitos sumérios. N’ O Trabalho e Os Dias – um calendário/tratado para uso dos pastores gregos – Hesíodo faz referência às Plêiades, Híades, Orion, Sirius e Arcturus. Assim ocorre também nos Hinos Homéricos, em que há citações sobre as anteriores, além da constelação do Boieiro – e outras que são elencadas em Jó (do Antigo Testamento). A partir do sec VI a C, as constelações começam a aparecer nos registros de historiadores e poetas gregos: Aglaóstenes registra a Ursa Menor (Cinosura) e a translação de Aquila; Epimenides de Creta observa a translação de Capricórnio e da estrela Capella; Ferécides de Siros escreve sobre Orion, observando que, quando esta constelação se põe, o signo de Escorpião ascende; Ésquilo e Helano de Mitilene narram a lenda das 7 irmãs Pleiades, filhas do gigante Atlas, e Hécato de Mileto relaciona o mito da Hidra à constelação de mesmo nome.

Euctêmon, um astrônomo grego (séc. V a C), compila um calendário de estações no qual Aquário, Aquila, Cão Maior, Coroa Boreal, Cisne, Golfinho (Delphinus em latim), Lira, Orion, Pegasus, Sagitário e os asterismos Hiades e Plêiades estão ali mencionados, em relação ao tempo, às mudanças de estação. Neste calendário, solstícios e equinócios estavam associados aos signos.

O mais antigo trabalho grego com relação às constelações foi escrito por Eudoxo de Cnido (Phaenomena). Embora perdido, o original emprestou a base e o nome para que Arato, um poeta da corte macedônia, escrevesse seu longo poema. No Phaenomena, são descritas 44 constelações, sendo 19 ao norte, 13 zodiacais e 12 ao sul.

Cláudio Ptolomeu, astrônomo alexandrino, cerca de 300 anos mais tarde, no livro 6o de seu Almagesto, adota o sistema de Hiparco e cataloga 48 constelações por nome e localização, atribuindo a cada estrela próxima da eclíptica características de um ou mais planetas. O Almagesto foi a base para todos os catálogos de estrelas posteriores.

Outros catálogos estelares importantes, bem posteriores, foram feitos por J Bayer (1603), J Flamsteed (1725), J Hevelius (1690), N de Lacaille (1751), entre outros. Cada um destes astrônomos, além da catalogação, criou métodos de classificação estelar e, ainda, outras constelações, como por exemplo a de Lacerta (Lagarto) ou de Camelopardalis (Camelo). A constelação do Cruzeiro do Sul (Crux Australis) foi incluída por Augustine Royer em catálogo de 1679. Essa constelação, próxima do Escorpião, tem estrelas como Gacrux, Acrux e Mimosa, que, além de serem consideradas, em astrologia política, relativas ao Brasil, têm um simbolismo que está associado à astrologia, astronomia, botânica e a poderes psíquicos.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-constela%C3%A7%C3%B5es-estrelas-fixas

A importância do ocultismo em ‘Frankenstein’ de Mary Shelley

Irving H. Buchen

As civilizações não podem evoluir mais até que o “oculto” seja dado como certo no mesmo nível da energia atômica.
(Colin Wilson, O Oculto [1971])

Há períodos na história em que os extremos se tornam normas. O interesse pelo passado se converte em uma preocupação apaixonada com o antigo. A especulação sobre o que está por vir se transforma na descontinuidade do futurista. Quando tais contrários coexistem com igual força e defesa, o presente parece alternadamente pronto para uma regressão intensa ou um salto quântico adiante. A cultura, por sua vez, se esforça para dar sentido às suas contracorrentes históricas. Uma investigação sobre como tudo começou está inextricavelmente entrelaçada com como tudo pode terminar; e perfeição e catástrofe aparecem como versões igualmente viáveis ​​uma da outra. Tais preocupações com gênese e término muitas vezes convergem utopia e distopia, uma imagem não imprecisa de Frankenstein que simboliza um modo híbrido que sacrifica a cura catártica da tragédia pelos insights cósmicos da blasfêmia. Não é por acaso que no processo o oculto vem à tona para registrar o alcance e a profundidade da fissura, pois o oculto é sintomático da ausência de unidade ou da quebra do círculo. Certamente, o ocultismo muitas vezes é revivido em parte por um desejo desesperado de substituir a liberdade da confusão pela clareza do determinismo externo; mas também é chamado genuinamente a redescobrir as forças essenciais do universo e a trazer harmonia à infinita multiplicidade. No processo, defensores e detratores da manobra oculta se posicionam historicamente.

Os devotos do ocultismo sustentam que ele foi co-presente com a criação original e ocupa uma linha histórica ininterrupta de períodos pré-registrados no passado até uma extensão inacabada no futuro distante. Em outras palavras, os mistérios sagrados são eternos e o ocultismo expressa o inconsciente coletivo do cosmos. Além disso, sua longevidade e sua preocupação com o segredo dos segredos ao longo dos tempos defendem sua universalidade e justificam sua pretensão de obter um status igual ao da ciência teórica. Acima de tudo, o ocultismo traz à ciência o que lhe falta – a estrutura do ritual – e assim fornece a religião e a arte da ciência. Oponentes ou céticos reconhecem livremente as origens antigas do ocultismo e ainda admitem que então – mas só então – ele de fato gozava do status de ciência. Mas as artes obscuras passaram a ser cada vez mais contestadas por praticamente todas as grandes religiões como espúrias ou heréticas e, como resultado, o ocultismo foi forçado a se tornar basicamente um movimento subterrâneo ou periférico cuja longa história de fracassos sensacionais e enganos escandalosos exigia o obscurecimento de uma série de gerações antes que pudesse ser ressuscitado com alguma credibilidade.

Como uma declaração geral das alegações e contra-alegações, o que foi dito acima talvez seja um resumo tão preciso das atitudes predominantes em relação ao ocultismo no tempo de Mary Shelley quanto hoje.[1] Mas o que é instrutivo é que tal formulação é totalmente rejeitada por Mary. Shelley em pelo menos três maneiras principais. Primeiro, nem o ocultismo nem a ciência são favorecidos por Mary Shelley. Através de uma elaborada série de polarizações ela aplica tanto a carícia quanto o porrete para ambos os lados, e através da educação de Victor Frankenstein toma a medida de ambos para indicar os elementos essenciais que faltam a cada um. Em outras palavras, o que fica eminentemente claro mesmo em uma pesquisa superficial é que o romance não aceita, mas procura ir além da oposição como uma posição final. Em segundo lugar, Mary Shelley introduz o mito de Prometeu por uma série de razões,[2] uma das quais é transmitir ao sonho alquímico de animar o inanimado as dimensões míticas de uma história da criação. De fato, sem mito, que goza da facilidade especial de síntese ou transcendência, é questionável se Mary Shelley poderia de fato ir além de uma mera afirmação de polarização. Terceiro, Victor Frankenstein, como seu colega mais jovem, Robert Walton, o explorador polar, anseia rapsodicamente por uma relação metafísica e religiosa com o cosmos em um momento em que a religião e a ciência parecem desprovidas de qualquer alcance ou fogo metafísico. Assim, pelo menos para Victor Frankenstein, a alquimia preenche um vazio da alma; e qualquer outra coisa que ele acrescente ou subtraia, o que Mary Shelley parece estar sugerindo é que o ocultismo é ressuscitado periodicamente ao longo da história sempre que as ideologias reinantes se tornam excessivamente voltadas para dentro ou presas à terra.[3]

A atitude de Mary Shelley em relação ao oculto, portanto, não parece ser nem de endosso nem de condenação, mas de profunda hesitação. Para ela, a questão não é que os alquimistas estejam certos e os cientistas errados ou vice-versa. De fato, perceber a situação nesses termos é perder o pivô diagnóstico-chave inerente a todas as condições de contracorrentes históricos. Em vez disso, o conflito – se é que pode ser chamado assim – assemelha-se ao de uma conquista trágica: um conflito de direitos. Por seu lado, o ocultismo é sempre presunçosamente total e mítico em seu escopo. A obsessão por essências unificadoras está no auge de suas três atividades favoritas: a pedra filosofal, o elixir vitae e a animação da natureza inanimada.

Necromantes consistentemente imitaram o exagero de Prometheus, entregando sua própria versão do fogo à humanidade. Em suma, há regularmente sobre o oculto uma insistência fanática de que nada menos que a essência será suficiente – um absolutismo ideológico que inevitavelmente é desafiador e potencialmente sempre blasfemo. Por seu lado, a ciência é gradual e cumulativa. O objetivo de suas metodologias precisas é produzir resultados verificáveis. A ciência assume que o mundo é ordenado e compreensível; se não fosse, não poderia haver ciência, e o mundo teria permanecido nas mãos de primitivos que celebram mistérios. Assim, a ciência cresce por acréscimo – peça por peça é meticulosamente colocada em prática, mas, de acordo com Frankenstein e pelo menos um de seus professores, com tamanha miopia que poucos percebem que o limiar para um salto quântico pode ter sido alcançado. Em suma, o fogo que a ciência oferece foi domado em etapas para ser manejável e utilizável, mas no processo nunca é oferecido como dom de Deus. Dito de outra forma, se Victor Frankenstein tivesse percebido o conflito entre o ocultismo e a ciência como um conflito entre o certo e o errado, ele nunca teria percebido a possibilidade de que cada um possuísse o que faltava ao outro, e tentou casar as visões da alquimia com o metodologia da ciência. Certamente, ao longo do romance, muitas vezes é levantada a questão de saber se essa aliança é profana e os resultados imorais. Mas a resposta a essa pergunta envolve a distinção se os resultados terríveis são culpa da convergência inicial da alquimia e da ciência ou, mais precisamente, da divergência subsequente de outros contrários. E essa resposta depende do reconhecimento de que o romance é realmente dois romances.

O que é razoavelmente claro, então, é que o que Shelley procurou explorar não é a oposição, mas a relação entre alquimia e ciência. Isso, por sua vez, seria seguido por um exame das consequências dessa relação na e na sociedade humana. O romance, portanto, tem como questão maior a relação entre mito e história – entre a natureza de uma força criativa cósmica e uma força evolutiva humana. Como resultado, há duas histórias principais no romance e não uma. A primeira gira em torno de Victor Frankenstein e constitui uma história de criação em que a ênfase está na fusão mítica da alquimia e da ciência e sua marca na natureza humana. A segunda gira em torno do ser criado e constitui uma história evolutiva em que a ênfase está nos arquétipos do desenvolvimento humano. Os gênios que presidem a história da criação são os alquimistas, Cornelius Agrippa, Paracelsus e Albertus Magnus, e os cientistas, Newton, Davy, Galvani e Erasmus Darwin; o da história evolucionária, Locke, Rousseau, Mary Wollstonecraft e Godwin.[4]

Estruturalmente, Frankenstein é sustentado pela simetria. Ele se divide em dois contos principais; o primeiro sobre Victor Frankenstein, o segundo sobre sua criação. O último terço do romance, que como um todo estruturalmente está em desacordo com as partições ditadas pelo comercial de três andares,[5] une os dois personagens principais, mas em uma atuação sombria e mecanizada por vingança, retaliação e perseguição. Cada conto principal, por sua vez, está ligado a um subconto apropriado. A história de Victor é misturada e estendida com a de Robert Walton, que em virtude de estar envolvido em um empreendimento de intensa auto-absorção, é o alter ego mais jovem de Victor e preserva por todo o romance a virtude redentora de uma advertência moral. A história da criatura envolve significativamente as fortunas da família DeLacey que, como uma imagem da família humana, fornece à criatura um modelo crucial para imitar.

O denominador comum em que todos os contos maiores e menores giram variações é a fome de conclusão. No caso de Victor e da criatura, a busca paralela toma um rumo destrutivo e vingativo: cada um mata o companheiro do outro. Espera-se que Robert Walton seja poupado de tal destino ao encontrar um amigo como Henry Clerval ou ao se casar; e apesar da pobreza, o jovem Felix DeLacey finalmente se reencontra com sua amada noiva árabe. De qualquer forma, o tema do casamento liga o romance ao Ancient Mariner de Coleridge, especialmente a ênfase no convidado do casamento e os terrores do isolamento polar; assim como o Paraíso Perdido de Milton e a preocupação de Adão em ter uma Eva. Mas o rendimento crucial da estrutura é a extensão em que as numerosas dualidades dramatizam abismos em vez de vínculos. Mais dramaticamente, há a lacuna estrutural entre as duas histórias principais, que assume uma penúltima forma no abismo permanente entre criatura e criação, à medida que estão trancadas no que parece, por causa da paisagem, ser uma busca eterna.

A incessante estrutura dualista da separação repousa em uma suposição filosófica crucial que Victor Frankenstein torna explícito em uma conversa inicial com Robert Walton. Walton acaba de confessar seu isolamento e sua apaixonada necessidade de um amigo. Victor reconhece o desejo e explica: “‘somos todos criaturas fora de moda, mas meio feitas…’”6 [Carta 4.7]. Como seu marido, especialmente em Epipschychidion, Mary Shelley sustenta que os seres humanos, ao contrário dos deuses, nascem incompletos. A necessidade do outro é de fato a expressão de nossa humanidade e nos impele a buscar nossa alteridade, nosso gêmeo, nossa alma gêmea. Isso, claro, é a doutrina platônica básica e, como tal, poderia ter sido adquirida diretamente ou sob a influência de Percy, como parece mais provável. Mas a distinção de Mary Shelley e de seu romance aparece nas permutações metafísicas e históricas dessa noção de incompletude humana, especialmente no que diz respeito à personalidade e à educação de Victor Frankenstein.

A primeira observação a fazer sobre Victor Frankenstein é que ele já tem o que todos os outros personagens anseiam. Ele já possui um amigo querido e próximo, Henry Clerval; e está noivo de uma mulher que ama. O que assim fica rapidamente claro é que a condição de inacabado pode ser satisfeita de diferentes maneiras e em diferentes níveis. Em outras palavras, parece haver uma hierarquia de conclusões possíveis. Robert Walton, Henry Clerval, Felix DeLacey e até mesmo a criatura têm fontes mais básicas de conclusão. Tampouco são apenas egocêntricos, pois Walton e Clerval têm fortes compromissos em beneficiar a humanidade. Ironicamente, nesse contexto, as esperanças da criatura são as mais modestas e rústicas. Mas Victor sozinho também busca uma realização metafísica – um fechamento mítico de proporções prometéicas que tem precedência sobre o humano e o histórico. Em outras palavras, o que é crucial ressaltar é que para Victor a alquimia é ciência metafísica – ela, mais do que ciência, liga a terra ao cosmos. Além disso, em sua obsessão por causas e princípios primários, somente a alquimia fornece a Victor o mesmo acesso puro aos primórdios e mistérios das coisas que estão no centro de suas sondagens nas origens de sua própria alma. Em suma, a alquimia é a outra metade de Victor; é o meio pelo qual ele busca alcançar a completude individual e cósmica. Apesar de todas as suas devoções a Henry Clerval, seu pai, noiva e família, uma vez que Victor se compromete com a criação de uma pessoa artificial, ele fica tão absorto que parece não precisar de ninguém. Não é que eles não sejam importantes, mas sim em sua própria hierarquia de completude eles não ocupam o ápice. Nesse sentido, é extremamente significativo que, dos três objetivos alquímicos clássicos, ele escolha a animação em vez de transformar metais comuns em ouro ou descobrir o elixir da imortalidade. A pedra filosofal participa de um certo tipo de utilidade manipuladora; e a imortalidade é mais extensão quantitativa. Somente a criação, não a produção ou a extensão, evidentemente pode fornecer a Victor o tipo adequado de alteridade para simular a auto-suficiência ou servir como substituto para realizações mais obviamente humanas ou históricas. Em outras palavras, na percepção de Victor, a criação sozinha, quaisquer que sejam seus resultados e recepção, é essencialmente focada no criador, não na criatura – no que ela oferece a Victor, não em sua criação.

Para Mary Shelley, então, o apelo do oculto não é necessariamente peculiar ou exótico. Certamente, sua linguagem e seus modos podem ser estranhos, mas ele fala da condição humana básica de incompletude, e fornece, reconhecidamente, a alguns indivíduos especiais em épocas históricas especiais a possibilidade de alcançar a totalidade cósmica – um estado de misticismo científico. Tais estados de consciência inebriantes e prometeicos não impedem a realização de versões humanas de perfeição na Terra, embora claramente compitam com elas e as coloquem em perigo. De fato, a perspectiva de substituição é intensificada quando a ânsia pelo estado mais alto de completude é amparada por uma situação histórica que fornece a correspondência e o alcance dessa presunção. É a convergência da educação de Victor com o Zeitgeist que ocupa o foco de Shelley.

Em nenhum momento da educação de Victor Frankenstein ele endossa totalmente a alquimia. De fato, o que Mary Shelley estabelece é que em relação ao oculto, a ciência assumiu o papel de ceticismo anteriormente desempenhado pela religião. Assim, embora a primeira introdução de Victor ao ocultismo evoque rapidamente a forte desaprovação de seu pai, o que já levou ao seu descontentamento foi sua medida cientificamente aplicada de que os meios necessários para alcançar visões nobres eram mesquinhos e beiravam o hocus-pocus da magia. Especificamente, o que o levou a essas conclusões foi ironicamente o que o levaria de volta à alquimia – sua compreensão básica dos princípios do galvanismo e da eletricidade. Essa primeira exposição assumiu a forma de um conflito de certo e errado; e a ciência emergiu como correta. O segundo encontro se assemelhava ao primeiro, mas aqui o confronto foi tão ultrajante que dramatizou a necessidade de síntese.

Na Universidade de Ingolstadt, Victor encontra duas posições extremas: a do professor Krempe que exalta as virtudes da ciência, mas ridiculariza as pretensões dos alquimistas; e a do professor Waldman que exalta as virtudes da ciência, mas elogia as visões dos alquimistas. A situação é, portanto, diferente. Primeiro, tanto Krempe quanto Waldman são cientistas, não alquimistas. Em segundo lugar, Waldman elogia as visões alquímicas, mas não seus meios. Terceiro, Victor está aprendendo as metodologias básicas da ciência, os meios. Em outras palavras, o que Victor gradualmente percebe é um conflito de direitos que é acompanhado pelo reconhecimento de que, enquanto a ciência era analítica e básica, não era holística e cósmica. A necessidade de curar a divisão, bem como a forma que ela pode tomar, surge na decisão que Victor tomou para seu projeto.

Victor elege das três opções a animação da matéria inanimada. Ele então debate sobre que tipo de criação, e decide criar um “ser humano”. A decisão de não criar nem uma criatura inferior nem uma criatura superior (seu tamanho maior foi apenas uma concessão à manipulação de partes microscópicas e intrincadas) é crucial para a compreensão da natureza do casamento de alquimia e ciência de Victor e da condição histórica particular do dia dele. Victor procura não substituir, mas contornar Deus. O objetivo não é montar um experimento humilhante para criar um robô nem um experimento arrogante para criar um super-homem. Em vez disso, ao contornar o natural para o alquímico-científico e eliminar o papel de uma mulher (ou do outro) na criação de um novo ser, Victor Frankenstein está presidindo aquela transição crucial do século XIX de induzida pela natureza para induzida pelo homem. criação e evolução. Erasmus Darwin havia esboçado o que Charles Darwin mais tarde conquistaria: a saber, que, exceto por alguns pequenos detalhes, a evolução física humana estava essencialmente completa; apenas uma mutação importante e abrupta poderia alterar isso e, mesmo assim, seriam necessárias várias gerações para determinar se a mutação ocorreu. De qualquer forma, o que foi enfatizado foi o domínio da evolução cultural e social como a direção futura da história humana. Mary Shelley valorizou esse último foco futuro, mas o abordou, por assim dizer, de frente e não de trás – antes e não depois do fato. Sua perspectiva sobre a evolução não era retroativa ou reativa, mas criativa. Especificamente, através de Victor Frankenstein, ela buscou identificar um ponto seminal para explorar uma intervenção no processo criativo que por sua vez reiniciaria e tornaria mais disponível para exame o processo evolutivo subsequente. Mas o ponto central de seu foco não era mera repetição; não há evidências que indiquem que seu trabalho serviria como uma versão literária daquele dos Darwins. Em vez disso, no cerne de seu esforço estava o reconhecimento de que um ponto de virada havia sido alcançado no início do século XIX, e que o Prometeísmo moderno tinha como razão e novo ponto de partida a consciência de que o homem não deveria mais ser percebido única ou principalmente como um objeto de evolução. A ciência gradualmente forneceu os meios para uma mudança de objeto para sujeito, mas não tinha a vontade nem a visão de tornar possível o sonho alquímico da intervenção criativa. Assim, a fusão de alquimia e ciência de Victor Frankenstein produziu um todo cósmico que, por um lado, forneceu um análogo metafísico à condição básica da incompletude humana; e isso, por outro, sinalizava a independência do homem em relação à Natureza, um exagero que encontrou sua contrapartida apenas no desafio de Prometeu aos deuses. No momento em que a criatura ganhou vida, a história humana atravessou uma divisão histórica de proporções míticas.

No processo, esse ato ousado de autonomia ignorou não apenas Deus, mas também um parceiro humano, uma mulher. Em termos de busca de alteridade, essa substituição, por sua vez, conferiu a toda a aventura as dimensões potencialmente diabólicas da autocriação em que Frankenstein aparece como o pai de si mesmo. Certamente, é este último exagero que leva à ruína de Victor e à criação da segunda história do romance. Significativamente, ali os alquimistas e cientistas estão dramaticamente ausentes, uma desapropriação que ironicamente significa sua miopia. Igualmente impressionante é a quase total ausência de figuras maternas ao longo de todo o romance. A mãe de Victor Frankenstein morre cedo; Elizabeth é órfã; Clerval fala apenas de seu pai; apenas o pai está vivo na família DeLacey; e Robert Walton escreve apenas para sua irmã. Mas talvez a versão mais sensacional desse mundo sem mãe apareça logo após o recuo de Victor da primeira visão do olho lacrimejante amarelo da criatura. Victor tem um pesadelo em que ele beija sua noiva apenas para que suas feições de repente mudem com o tom da morte. E então, para seu horror, ele se vê segurando, quase à maneira de Poe, o cadáver em decomposição de sua mãe morta em seus braços. Quaisquer que sejam os elementos sexuais ou edipianos que possam ou não estar em ação aqui, o que está claro é que Victor está reagindo ao seu próprio ato de criação como aquele que desapropria a mulher-mãe de todo o processo. O sonho é, portanto, potencialmente profético e constitui um aviso que Victor ignora.

O eclipse da figura mulher-mãe constitui um pecado histórico de omissão e estigmatiza a fusão de alquimia e ciência de Frankenstein como tendo ocorrido em um vácuo histórico. O mito original da criação foi seguido pela expulsão de Adão e Eva, mas eles foram expulsos para a história e, assim, receberam um futuro de duração. Não tão a criatura de Frankenstein. Em outras palavras, embora Mary Shelley nunca questione Victor Frankenstein como criador, ela enfatiza severamente suas falhas pós-criação. Basicamente, são dois. A primeira é o desgosto de Frankenstein por sua criação. Ele imaginou algo glorioso ou obediente ou transcendente. Em vez disso, ele criou uma criatura com necessidades; isto é, ele criou uma criatura que era como todos os seres humanos – inacabada. Ironicamente, seu sucesso foi maior do que ele imaginava. Com certeza, o tamanho enorme da criatura o impedia de reconhecer que havia criado uma criança, dependente dele para o desenvolvimento humano e até mesmo competindo com ele por atenção. Em outras palavras, a limitação de Victor deriva da concepção de que sua criação inicial foi um ato final. A criatura era percebida como uma criação terminal – um ser autônomo – e, portanto, absolvida de uma versão recorrente da doutrina da incompletude: as crianças não nascem, mas são educadas para serem humanas.

O segundo fracasso se origina do primeiro, mas é ironicamente voltado para a ênfase prometéica na premeditação. Ao não antecipar as consequências de seu ato, Victor Frankenstein, sem saber, deu origem ao mito da criação de um Frankenstein e assim resumiu o que é agora o dilema clássico da ciência: as consequências imprevistas e não examinadas de certos tipos de investigação científica. Muitos exemplos poderiam ser citados, mas o que mais se assemelha ao problema com o qual Mary Shelley se preocupa e que ultimamente tem despertado considerável controvérsia e até proibição é a experimentação genética, especialmente com DNA. Isso, como o experimento de Frankenstein, representa a mesma preocupação com um ponto de acesso para intervir e direcionar a evolução humana. Além disso, para que a falha de antecipação não seja perdida por meio de avisos vagos, Mary Shelley documenta em grande detalhe até que ponto os modernos Prometheans falham em ministrar às suas criações. No processo de criação de uma segunda história da criação – a evolução da criatura em ser humano – Mary Shelley fornece o compromisso maternal e feminista que falta na história da primeira criação.

Apesar da reação de Frankenstein, o monstro no momento do nascimento não é um monstro. Esta não é uma distinção pequena, pois nela repousa todo o impulso da segunda história do romance. Como muitos antes e depois dela, Mary Shelley ficou claramente fascinada pela questão de qual era a natureza essencial da natureza humana. O que era inato e o que era adquirido? O que era original com o Adão original? O homem era basicamente bom ou mau, altruísta ou egoísta? A diferença dramática da investigação de Mary Shelley é sua estrutura científica. Seu ponto de partida não é um nobre selvagem em um país distante, mas uma pessoa artificial colocada em um laboratório fictício para explorar sob condições controladas e observáveis ​​o desenvolvimento de uma criatura como uma versão individual da raça humana. A documentação do processo passo a passo pelo qual o mobiliário da mente é construído e a tabula rasa é escrita é apresentada, por um lado, com todo o cuidado de um experimento clínico e, por outro, com toda a abrangência de um modelo arquetípico. No processo, Mary Shelley indica que a criatura – na verdade, todos os seres humanos e civilizações – passam por três estágios principais.

O primeiro estágio, embora primariamente instintivo e primitivista, surpreendentemente envolve uma resposta inata à beleza (p. 99). Mas essa sensibilidade estética não é acompanhada por um desejo igualmente inato de companhia humana. De fato, Mary Shelley ressalta escrupulosamente a ausência da faculdade do tato neste primeiro estágio. O que emerge então é a evolução limitada de um animal humano que existe apenas no selo hermético de sua individualidade dentro de um ambiente natural, não humano, e cujas emoções, exceto por respostas ocasionais a belas “formas radiantes” [2.3.3], são natimortos. O segundo estágio apresenta a família DeLacey, cujas relações emocionalmente carregadas desbloqueiam as da criatura. O que Mary Shelley deixa claro então é que o desenvolvimento humano depende do exemplo humano. O processo de humanização, diferentemente do processo de sobrevivência da primeira etapa, é bilateral, não unilateral. A descoberta da fala humana e da palavra escrita são percebidas pela criatura como o meio estético e até mesmo divino pelo qual as emoções são compartilhadas e os relacionamentos são estabelecidos. A etapa final que eleva o processo humanizador ao processo civilizatório começa com o aparecimento de Safie. O que a criatura descobre é que o único antídoto para a mortalidade é o amor, e a única salvação é o conhecimento de “todas as várias relações que unem um ser humano a outro em laços mútuos” (p. 115). Agindo pateticamente nessa esperança, a criatura procura efetuar precisamente essa relação com a família DeLacey. Quando esse esforço falha, a criatura fica perigosamente equilibrada entre o ser humano e o monstro.

Frankenstein não criou um ser humano; ele criou um ser que tinha o potencial de ser humano. Mary Shelley documenta a realização desse potencial nas mãos da Natureza e dos DeLaceys e, no processo, estabelece que o próprio processo de humanização é uma ponte de dois mundos – o da Natureza e do instinto e o da sociedade e relacionamentos humanos. Somente a fusão de ambos resulta na criação de um indivíduo que depende de outros para se completar. Se a família DeLacey tivesse aceitado a criatura, a história teria tomado a direção diferente e não mítica de criar um estranho homem-criança. Ou se a família DeLacey não estivesse disponível como exemplo, a criatura teria aguçado seus instintos e vivido exclusivamente na selva ocasionalmente atacando aldeias. Mas, em ambos os casos, ele não teria chegado ao ponto de ser capaz não apenas de ler o Paraíso Perdido, mas também de reconhecer até que ponto sua criação divergia da de Adão. Adão, embora sozinho, pelo menos foi criado perfeito e teve a atenção do ser superior que o criou (p. 124). Mas a criatura está tão desprovida de um senso de paternidade, família e humanidade que sente pela primeira vez no romance um parentesco maior com Satanás do que com Adão. Em última análise, então, a criatura sozinha apresenta a acusação mais mordaz de seu criador. Além disso, neste ponto a criatura passou do ponto sem retorno. Apenas dois caminhos estão abertos para ele: aceitar a identificação de Satanás e tornar-se mau ou persuadir Frankenstein a criar uma companheira para ele. As alternativas são sugestivas: a ausência de um companheiro cria a condição para o demoníaco.

Nesta conjuntura, o que deve ser observado é o que geralmente é negligenciado: ou seja, o próprio Victor Frankenstein não é estático, mas também evolui. Além disso, a direção e o estágio dessa evolução contrapõem a da criatura ao ponto em que os dois se tornam cada vez mais imagens espelhadas um do outro. De fato, traçar o desenvolvimento de Frankenstein, às vezes paralelamente ao da criatura, fornece a pedra de toque mais abrangente e perspicaz para compreender a última parte do romance.

O desenvolvimento de Victor Frankenstein até e incluindo a criação da criatura foi singularmente obsessivo ao ponto, como observado, onde ele parecia ser uma lei e um mundo para si mesmo. Mas seu desenvolvimento depois de deixar Inglostadt e retornar a Genebra é caracterizado por uma série múltipla de compromissos e uma mistura de estados de degradação e nobreza. A primeira delas ocorre após a morte de William e Justine. Uma distinção deve ser feita aqui. Enquanto ele é indiretamente responsável pela morte de William, ele é diretamente responsável pela morte de Justine, que é injustamente considerada culpada e morta pelo assassinato de William. Seus gritos de piedade são, portanto, suspeitos, pois, ao não falar e confessar o que suas mãos fizeram, ele é culpado de cumplicidade na morte de Justine. Como resultado, há uma terrível simetria: a criatura é responsável pela morte de William, Frankenstein é responsável pela morte de Justine.

Quando a criatura subitamente confronta Frankenstein e lhe implora para ouvir sua história, Frankenstein evidencia uma atitude paterna totalmente ausente antes: “Pela primeira vez, também, senti quais eram os deveres de um criador para com sua criatura, e que eu deveria para torná-lo feliz antes que eu reclamasse de sua maldade” (p. 97). Depois que Frankenstein ouve a história da criatura, ele conclui “que a justiça devida tanto a ele quanto a meus semelhantes exigia de mim que eu cumprisse seu pedido” (p. 141). Pela primeira vez, Frankenstein confessa que a justiça existe do lado de sua criação; e pela primeira vez reconhece que também tem uma dívida com o bem-estar e a segurança da sociedade. Além disso, ele adia o casamento com Elizabeth até que possa completar a tarefa de criar uma companheira para acompanhar a criatura no exílio, um reconhecimento das necessidades comuns que cada um compartilha.

Se alguém concorda ou discorda com a decisão posterior de Frankenstein de não criar o companheiro, o que é crucial notar é que todas as razões que ele fornece são evidências de um tipo de premeditação que ele deixou de exercer antes. Ele contempla a perspectiva de que a fêmea não esteja vinculada ao juramento que a criatura jurou; ela pode vir a odiar a criatura e abandoná-lo e causar estragos nos outros; eles podem ter filhos que, por sua vez, podem se recusar a permanecer no exílio; etc. Em suma, a capacidade prometéica o faz tremer pelo futuro da humanidade, e ele destrói sua segunda criação. Nesse momento, Frankenstein e sua criação estão presos em destruição comum. A criatura agora chama Frankenstein de seu escravo e afirma que, embora ele tenha sido seu criador, o monstro agora é seu mestre (p. 160). Tendo destruído a companheira do monstro, o monstro põe em movimento a destruição de Clerval e, finalmente, de Elizabeth. A imagem final do romance é, portanto, ironicamente substitutiva, pois, presos na busca eterna, os dois agora servem como companheiros um do outro, as duas metades de um todo que nunca será unido, exceto em aniquilação mútua.

Um pós-escrito — principalmente para Mary Shelley. A criação de Victor Frankenstein é uma realização incrivelmente brilhante e em nenhum momento da primeira parte do romance Mary Shelley questiona a substância e o significado dessa conquista singular. Sua acusação final – se é que pode ser chamada assim – não é que Frankenstein presumiu ser mais do que deveria ser, mas que ele não presumiu o suficiente – ele prematuramente deixou de ser homem e mulher, cientista e humanista , divino e humano. Ele curou uma brecha, mas abriu outra. Ele uniu eternidade e tempo com o mito da criação, mas falhou em vincular eternidade à história com o arquétipo do desenvolvimento humano. Indiretamente, Mary Shelley forneceu o modelo para aqueles que no futuro aspirariam a ser deuses inexperientes. Visto de outra maneira, no entanto, as limitações de Victor Frankenstein acentuam a abrangência de Mary Shelley, pois através de sua criação romanesca ela sozinha abrangeu e ministrou as duas esferas. No processo, ela aceitou a inevitável persistência das aspirações alquímicas e científicas, mas também reconheceu que até que mito e história se unam, até que o ato de criação seja acompanhado pelo processo de humanização, o resultado final será a expropriação de um ser humano e centro holístico por extremos polares, quer o drama se desenrole na Terra ou no espaço sideral.

Notas
1. Na edição de 29 de maio de 1976 da Science News, apareceu um artigo sobre pseudociência, paraciência e o estabelecimento de um grupo científico para analisar criticamente as alegações paranormais de ocultistas de várias convicções. O próprio artigo, juntamente com a forte e extensa resposta do leitor, geralmente seguiu as linhas de conflito descritas aqui (ver Science News, 109 [19 de junho de 1976], 397-98).
2. A diferença mítica é enfatizada particularmente por Harold Bloom “Frankenstein, or the Modern Prometheus” PR, 32 (1965), 611-18; e por Irving Massey The Gaping Pig: Literature and Metamorphosis (1976).

3. De acordo com Robert Philmus, as aspirações de Victor Frankenstein fazem parte da síndrome faustiana geral (Into the Unknown: The Evolution of Science Fiction from Francis Godwin to H. G. Wells [1970]).

4. A esta última lista deve ser acrescentado Thomas Paine, de acordo com M. A. Goldberg “Moral and Myth in Mrs. Shelley’s Frankenstein”, K-SJ, 8 (1959), 27-38.

5. O volume I termina com o capítulo 7 e a morte de Justine, um ponto prematuro, pois não inclui os restantes elementos cruciais da história de Victor; O Volume II termina com a promessa de fazer uma companheira para a criatura; e o Volume III conclui o conto.

6. Todas as referências de página são para a edição de 1831 produzida por Henry Colburn e Richard Bentley em formato de um volume, e agora facilmente disponível na edição da New American Library (1965) com um “posfácio” de Harold Bloom. James Rieger reproduziu recentemente o texto original de 1818, que geralmente não está disponível, juntamente com várias leituras variantes. O excelente esforço de Reiger presta atenção especial à extensão e substância das contribuições de Percy Shelley e conclui que seu papel foi mais importante na preparação e produção final do trabalho do que até agora foi reconhecido. Escolhi seguir a edição de 1831 por dois motivos: primeiro, é aquela que incorpora as revisões posteriores de Mary Shelley, não Percy Shelley; e segundo, todas as citações diretas que usei e todas as passagens que considerei centrais, quando comparadas com a edição de Rieger, mostram pouca ou nenhuma dívida para com Percy Shelley. Em suma, é minha opinião que o romance é essencialmente o trabalho de Mary, não Percy, uma noção que é confirmada quando colocada no contexto de suas outras obras (ver especialmente Charles E. Robinson, ed., Mary Shelley: Collected Contos e Histórias [1976]). Finalmente, sem ceder à psicanálise, acredito que uma compreensão da biografia de Mary Shelley e uma análise de suas cartas sugerem que suas acusações dos fracassos de Victor como figura paterna não são uma referência muito disfarçada a Percy, embora indiretamente também possa se aplicar a Godwin.

7. Um caso sensacional de desenvolvimento humano interrompido ocorreu em 1800, quando Mary Shelley era jovem; e embora não seja possível reivindicar conhecimento direto, é tentador pensar que Mary Shelley pode ter lido algo sobre o assunto e que, por sua vez, influenciou a segunda parte do romance. Em 1800, Jean-Marc, um médico francês de 26 anos, foi convidado a tratar de um menino de 13 anos que foi encontrado vagando nu nas florestas de Aveyron. O menino não podia falar, às vezes parecia surdo, comia apenas nozes e batatas, era indiferente à atenção solidária e era dado a acessos de raiva violentos. A história inteira recentemente foi compilada por Harlan Lane, The Wild Boy of Aveyron (1976).

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/maryshelley/

Matrix – o Deserto do Real

Para começarmos a entender Matrix, é fundamental que façamos a pergunta essencial do filme: O que é a Matrix? Nas telas do cinema, Matrix é um mundo de sonhos gerado por computador, o qual, por meio de uma realidade virtual, simula o nosso mundo como é hoje.

O fenômeno Matrix pode ser compreendido, se considerarmos as influências dos temas que aparecem, direta ou indiretamente, no roteiro do filme. Citarei alguns exemplos: distopia, esperança, filosofia, 1984 de George Orwell, artes marciais, cybercultura, agentes secretos, conspirações, romance, Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, messianismo, mitologia grega e céltica, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ficção científica e assim por diante.

Poderia começar pelo messianismo — crença na vinda do Salvador, Jesus, Messias, Buda, Krishna, Noé, rei Artur… Mas começarei pela Filosofia, que, segundo o Aurélio: Filosofia 1. é o estudo que visa a compreensão da realidade, no sentido de aprendê-la na sua totalidade; 2. Razão; Sabedoria.

Vamos a Matrix! Morpheus tem aspectos diferentes; algumas vezes o relaciono com o “Mestre” da Grande Fraternidade Branca, que tem de ensinar o seu discípulo, Neo, a vencer a ilusão (Maya) para, desta forma, enfrentar a Matrix. Para que isso aconteça, Neo tem de transformar-se em Mestre. E é por meio dos softwares (programas) que começa seu aprendizado.

Por outro lado, Morpheus é um deus da mitologia grega, filho da noite e do sono, deus dos sonhos, filho de Hypnos. Deus que proporciona o repouso necessário ao homem fatigado para que este possa, por meio dos sonhos, libertar o adormecido de seus pesares.

Em sua missão, Morpheus leva Neo para conhecer o “Oráculo”, que logo lhe mostra a frase “Conhece-te a ti mesmo”, que no Templo de Delfos assim aparece inscrito: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o Universo e os deuses.”.

Pítia (ou pitonisa) era um “título” muito antigo e designava a sacerdotisa de Apolo que, no Oráculo de Delfos, entrava em transe para receber as profecias e as respostas do deus. O nome, talvez relacionado ao antigo nome de Delfos, Pitô, remonta, provavelmente, à época em que o oráculo era consagrado à Gaia e guardado pela serpente Píton, morta por Apolo.

No interior do santuário, a pergunta do consulente era então transmitida à Pítia que, sentada sobre a trípode sagrada e com um ramo de loureiro (um dos atributos de Apolo) nas mãos, inalava os vapores de uma fenda, entrava em êxtase e transmitia a resposta de Apolo. A profecia, sempre enigmática e ambígua, era registrada pelos demais sacerdotes, interpretada por eles entre versos hexâmetros.

A cidade de Delfos fora consagrada a princípio à Terra, em seguida a Têmis (justiça), depois a Febe (a Lua mediadora), por fim a Apolo, o deus solar, o verbo solar, a palavra universal, o grande mediador, o Vishnu dos hindus, o Mithras dos persas, o Hórus dos egípcios, o Logos da Teosofia.

Aliás, Logos significa “espírito”, “razão” ou “linguagem”. Na Bíblia, o Logos aparece no Evangelho de João, no qual é traduzido como “Verbo”, e é um dos atributos de Deus: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”. Os gnósticos interpretavam o Logos como uma denominação do verdadeiro Deus. Durante uma visão, o líder gnóstico Valentino viu o Logos sob a forma de um menino não muito diferente do órfão que fala a Neo a respeito da colher em Matrix. No Gnosticismo, o Arquiteto assemelha-se ao Demiurgo, um deus falso. Os gnósticos acreditavam que todos viviam em um mundo material e que despertaríamos para a realidade verdadeira.

Matrix também nos faz lembrar de Sócrates, esse sábio que mudou o panorama da Filosofia e da humanidade, fundador da ética ou filosofia moral. Por sua causa, as pessoas passaram a se interessar e a estudar, não apenas a realidade exterior, mas a interior.

Sócrates, em sua época, também procurou o “Oráculo”, e este vaticinou ser ele o homem mais sábio dos homens. Todas as pessoas achavam isso, menos Sócrates. No filme, todos acham que Neo é o “Escolhido”, menos ele.

Para Sócrates, a sabedoria consiste no reconhecimento da própria ignorância, o que envolve o abandono de idéias preconcebidas. Isso tem uma profundidade imensa. As pessoas não questionam, são ignorantes (não conhecem). Elas buscam um caminho um tanto controverso, sem nenhum fundamento, baseiam-se em livros sem começo e sem fim, de autoria desconhecida e com traduções duvidosas.

Em Matrix, algumas coincidências com as religiões são fáceis de serem percebidas. A ligação de Neo com o Messias é óbvia, tanto em sua ressureição como nas profecias da vinda do Salvador, que é preparada por Morpheus (na Bíblia, por João Batista); Nabucodonosor é a nave com o mesmo nome do rei babilônico responsável pela destruição do Templo de Jerusalém; na nave de Matrix existe a inscrição Mark III nº 11, em referência ao Evangelho de Marcos 3:11, que diz: “E quando os espíritos impuros o viam, se jogavam gritando: ‘Tu és o Filho de Deus’”.

Já que mencionei o número 11, voltemos ao início do filme, quando deixa gravado na tela por alguns instantes o número 506, que em sua soma tem como resultado o número 11. Este é considerado um número “mestre”.

O 11 é o despertador para a consciência Divina, um portal dimensional, o fogo sagrado presente em nosso ser. Este número está associado à carta “força” do Tarô, que representa a vitalidade, a força e o brilho de todos os seres. Indica energia transbordante. O 11 é o número de Nuit (Deusa da Noite).

Os maçons representam esse número com o Hexagrama Pentáfico, o pentagrama inscrito no Hexagrama. Para a tradição chinesa, o 11 é o número pelo qual se constitui, na sua totalidade, o caminho do Céu e da Terra, Tcheng. É o número do Tao. No hebraico, está relacionado à letra Teth, que significa serpente. É o asilo do homem, seu escudo e proteção. No caminho cabalístico, a letra Teth une e equilibra Chesed (a misericórdia) com Gueburah (a severidade). É a ponte que integra a polaridade da construção e da destruição. Diz Robert Wang: “É o caminho em que o fogo se torna Luz”. Sua atribuição astrológica é leão, signo do fogo e regido pelo sol.

No Sepher Yetzirah está escrito: “O décimo-primeiro é o número da consciência desejada e procurada (Sephel Hachafutz VeHaMevukash), e é assim chamado porque recebe o influxo Divino para outorgar sua bênção a tudo o que existe”.

Podemos ainda relacionar o número 11 a Lúcifer, o portador da Luz, phosphóros (= do grego), Vênus, a estrela matutina e vespertina, a luz mais brilhante.

No Hinduísmo, a figura da mulher é supervalorizada e há a união entre o masculino e o feminino, o yin e o yang. Na Antiguidade, a figura feminina era ligada à Deusa. Era à mulher que os deuses faziam as revelações (como à Pítia, por exemplo). Em Matrix, temos a figura de Trinity, que representa o número 3 e que, em português, significa Trindade — Pai, Filho e Espírito Santo — Brahma, Vishnu e Shiva, e assim por diante. Existe aqui, portanto, um outro ponto, um tanto menos masculino. Trinity é uma mulher e representa a Grande Mãe-Filha e o Espírito Santo. Outra vez o filme faz menção à Grande Fraternidade Branca, na qual a mulher é representada pela Mãe-natureza.

Segundo o pitagorismo, a essência de todas as coisas é o número, ou seja, as relações matemáticas, que afirmam poder explicar a variedade do mundo mediante o concurso dos opostos, que são: o limitado e o ilimitado, o par e o ímpar, o perfeito e o imperfeito.

Como a filosofia da natureza, assim a astronomia pitagórica representa um progresso sobre a jônica; afirmam a esfericidade da Terra e dos demais corpos celestes, denominando o conceito de harmonia, logicamente conexo com a filosofia pitagórica, e as práticas ascéticas e abstinenciais com relação à metempsicose e à reencarnação das almas.

“Simbolismo dos Números Pitagóricos: um é a razão, dois a opinião, quatro a justiça, cinco o casamento, dez a perfeição, etc. Um é o ponto, dois é a linha, três é a superfície, quatro é o volume. Cosmogonia. O Universo e os Planetas esféricos. A Harmonia das Esferas.”

Existem muitas divergências a respeito da verdadeira nacionalidade de Pitágoras, pois uns afirmam ter sido ele de origem egípcia; outros, síria ou, ainda, que ele seja natural de Tiro. Porém, o mais aceito por todos que estudam sua vida é que Pitágoras nasceu em Samos, entre 520 e 570 antes de nossa era. Na mesma época de Gautama — Buda, Zoroastro (Zaratustra), Confúcio e Lao Tse.

Seus Mestres foram Hermodamas de Samos, até os 18 anos; depois, Ferécides de Siros; foi aluno de Tales, em Mileto, e ouvinte das conferências de Anaximando. Foi discípulo de Sanchi, sacerdote egípcio, tendo também conhecido o assírio Zaratustra, na Babilônia, quando de sua estada na Metrópole da Antiguidade.

O hierofante Adonai aconselhou-o a ir ao Egito, recomendado ao faraó Amon, onde foi iniciado nos Mistérios Egípcios, no Santuário de Mênfis, Dióspolis e Heliópolis.

Eis o significado do nome Pitágoras (Píton = serpente; Ágora = espaço aberto onde os gregos se reuniam para conversar e mercadejar). A Serpente representa sabedoria e Ágora a “boca”. Em resumo, seu nome significa a “Voz da Sabedoria”.

Pitágoras ostentava em sua coxa esquerda uma grande marca dourada que os céticos julgavam ter sido um sinal de nascença, mas os iniciados sabem que se trata do sinal de Apolo.

“A ciência dos números e a arte da vontade são as duas chaves da magia, diziam os sacerdotes de Mênfis; elas abrem todas as portas do Universo.”

“O sono, o sonho e o êxtase são as três portas abertas do além, de onde nos vêm a ciência da alma e da arte da adivinhação. A evolução é a lei da vida. O número é a lei do Universo. A unidade é a lei de Deus.”

Não poderíamos falar em Matrix sem mencionarmos a figura de Icarus, um havercrafts que, como Nabucodonosor, de Morpheus, percorre os túneis subterrâneos em busca de um local para transmitir um sinal pirata para dentro da Matrix. Na mitologia grega, Ícaro era filho de Dédalo, o artesão que construiu o Labirinto do Minotauro em Creta, aquele com corpo de homem e cabeça de touro, que devorava os prisioneiros do rei. Dédalo e seu filho foram vítimas dessa prisão e sabiam que só conseguiriam sair dali se fosse pelo alto. Dédalo, então, confeccionou asas para ambos, coladas com cera de abelha, e conseguiram fugir. Mas Ícaro se embriagou pela sensação de voar e aproximou-se demais do Sol, que derreteu a cera de suas asas fazendo com que ele se despedaçasse de encontro ao solo. Os gregos passaram a ter Ícaro como símbolo do pior pecado que um humano possa cometer, Hybris, a tentação de igualar-se aos deuses.

A magnífica obra 1984, de George Orwell, escrita em 1948, fala de um mundo dominado pelo socialismo stalinista em 1984 (o inverso dos números do ano em que foi escrita). Em um mundo onde o Estado domina e nada é de ninguém, mas tudo é de todos, tudo o que resta de privado são os poucos centímetros quadrados do cérebro. E é aí que a batalha se desenvolve, entre o indivíduo e o Estado, lutando na tentativa de controlar a mente.

“Obediência não é o suficiente. A não ser que uma pessoa esteja sofrendo, como você pode ter certeza de que ela está obedecendo à sua vontade e não à dela? O poder está em infringir dor e humilhação. O poder está em rasgar mentes humanas em pedaços e colocá-las juntas de volta em novas formas escolhidas por você mesmo. Você começa a enxergar agora o tipo de mundo que estamos criando? (…) Não haverá lealdade, a não ser lealdade ao partido. Não haverá amor, a não ser amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, apenas o riso de triunfo sobre um inimigo derrotado. Não haverá arte, literatura ou ciência. Quando formos onipotentes, já não haverá mais necessidade de ciência. Não haverá distinção entre a beleza e a falta dela. Não haverá mais curiosidade nem alegria no processo da vida. Todos os prazeres competitivos serão destruídos. Mas sempre – não se esqueça disso, Winston – sempre haverá a intoxicação do poder, sempre aumentando e sempre crescendo sutilmente. Sempre, a cada momento, haverá o tremor da vitória, a sensação de pisar num inimigo que já está sem esperança. Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando num rosto humano – para sempre.”

Lembro-me, também, de Aldous Huxley e sua obra-prima, Brave New World (Admirável Mundo Novo), escrita durante quatro meses, no ano de 1931. Os temas nela abordados remontam grande parte de suas preocupações ideológicas como a liberdade individual em detrimento ao autoritarismo do Estado.

“A sobrevivência da democracia depende da capacidade de grandes maiorias de fazer escolhas de um modo realista, à luz de uma informação suficiente.”

É uma forma diferente de criticar a substituição das pessoas por máquinas: substituindo o lado humano, os sentimentos e emoções por sensações pré-programadas. Os seres humanos são produzidos em linhas de montagem (criadas por Henry Ford, no início deste século), como os produtos genéricos, e condicionados a aceitar uma série de dogmas sociais; são padronizados e, no entanto, continuam presos a dogmas, embora estes mudem de uma sociedade para outra, sendo atribuídos de formas diferentes: por um lado, por meio da educação infantil e, por outro, pelo condicionamento hipnopédico (em outras palavras, adestramento).

Quando Trinity beija Neo, ele revive (ressurreição) e, pelo amor, é feita a penetração do fluído sutil. Vemos que não há nada mais poderoso que o Amor. Sua ressonância dissolve toda ilusão, bem como o véu da separação; sua pureza cura todas as experiências passadas e mágoas profundas, formando um invencível campo de Luz.

Na grande maioria, nas iniciações das Ordens Secretas (entenda-se como secreta aquilo que não é público, não tem registro físico, jurídico, etc.), o neófito morre para o mundo profano e renasce “Iniciado”. Antigamente era normal batizá-lo com nome iniciático.

Na Maçonaria, isso era comum também, mas os céticos, intitulados historiadores, tentam todos os dias diminuir o universo oculto e místico que estão presentes na Ordem Maçônica. Que me desculpem os Irmãos que pensam diferente, mas contra fatos não há argumentos. Nossos Templos estão lotados de alegorias e símbolos, nossos rituais não são a respeito de política, nosso livro da Lei não está ali apenas para os nossos juramentos, enfim, faço questão de lembrá-los dos Mistérios Persas e Hindus; Mistérios Egípcios; Mistérios Gregos, de Ceres ou Deméter; Mistérios Judaicos de Salomão; Mistérios Gregos de Orfeu; de Pitágoras; dos Essênios e dos Mistérios Romanos. E ainda querem argumentar…

Assim como os Mistérios de Ísis, os Mistérios de Elêusis, na Grécia Antiga, também exerceram uma enorme influência no surgimento do Gnosticismo. Dedicados à deusa grega Deméter, os rituais de Elêusis rememoravam a peregrinação dessa divindade pelo mundo em busca da filha Perséfone, seqüestrada por Hades, o Senhor das Almas, que a levou para o mundo subterrâneo e tomou-a por esposa. Foi da filha de Deméter que a mulher de Merovíngio emprestou seu nome, o que faz do próprio Merovíngio um equivalente do Hades grego. O mundo subterrâneo, onde se localizava o Hades, por sua vez, remete ao mundo subterrâneo onde se localiza a cidade de Zion, em Matrix. Outra coisa que nos chama a atenção no filme é Zion — Sião em português. Poderíamos ir pelo caminho do Santo Graal, pois a cidade de Zion está situada no centro da Terra, ou até mesmo citar Júlio Verne em sua obra Viagem ao Centro da Terra.

Há aqui outra referência a respeito do mundo subterrâneo. O mundo de Jina ou de Duat, Agartha e Shamballah, que são reflexos do seio da terra dos três mundos superiores, esquematizado no Hexágono, o seis, o vau (arcano deste número).

Hermes Trismegisto diz: “O que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como o que está acima, para a realização dos mistérios da causa única”.

O significado do nome de Hermes Trismegisto é: Hermes = o intérprete – Trismegisto = 3 megas = 3 vezes grande, ou o que possui os 3 reinos de sabedoria: mineral, vegetal e animal. Sua existência é atribuída no ano de 1900 a.C.; Hermes é o mesmo Thoth dos egípcios, e sua existência acompanha a vida religiosa do Egito.

Voltando à Agartha, foi para lá que Noé conduziu seu povo, a fim de salvá-lo do dilúvio. E podemos dizer ainda que seria a cidade submergida de Atlântida, a mesma de Platão.

Segundo Saint-Yves d’Alveydre, que viveu entre 1842 e 1909 e teve contato com seres desse lugar, é um verdadeiro mundo a quatro dimensões. Chamado de Venerável Mestre do G.O. (Governo Oculto) por seus discípulos, Saint-Yves, dentre suas obras, Mission dês Souverains, Mission dês Juifs e Mission de l’Inde, deixou uma de maravilhosa magnitude, O Arqueômetro, lançamento da Madras Editora.

O nome “sinarquia”, pela sua etimologia grega, pressupõe a realização de uma ordem sagrada num equilíbrio perfeito, de uma harmonia completa, que seria o reflexo das leis cósmicas. Está associado a uma das mais misteriosas sociedades secretas modernas de governantes invisíveis, tendo sido introduzido pelo grande esotérico Alexandre Saint-Yves. Ele recebeu do papa o título de Marquês de Alveydre e, por isso, tornou-se conhecido como Saint-Yves d’Alveydre. Viu-se, então, escolhido pelos governantes invisíveis do mundo para executar seus planos. Saint-Yves apregoava o ideal de uma sinarquia universal, a Sinarquia do Império, e não restam dúvidas de que manteve contato direto com os mais altos governantes secretos.

Na obra Animais, Homens e Deuses, Ferdinando Ossendowsky nos fala do Rei do Mundo, chefe supremo de todas as Ordens Secretas, conhecido na Índia como Jagrat-Dwipa. Na bíblia hebraica, o rei Melkitsedek é um ser mais enigmático que o próprio Apolônio de Tiana; no Tibete, é chamado de Rigden-Jyepo.

Os iniciados chineses da Ordem do Dragão de Ouro faziam referências a Agartha com Salem — A cidade Luz das tradições hebraicas e de vários povos.

René Guénon cita em sua obra, O Rei do Mundo, que Agartha é o centro oculto durante a Kali-Yuga (Idade Negra) de todos os movimentos filosóficos e espiritualistas na Terra. Na mitologia hindu, Kali, também conhecida como Durga, é a deusa-mãe, representada sob o duplo aspecto de nutridora (como aquela que dá a vida) e devoradora (a morte, destruidora de todas as coisas). Seu nome principal, Durga, em sânscrito significa “a que é difícil de abordar, a inacessível”, e na cosmogonia brahmânica, especialmente na filosofia de Sri Ramakrishna, ela é considerada uma personificação do real que se oculta por detrás do mundo das aparências. A palavra Kali, por sua vez, deriva do sânscrito kala, que quer dizer “tempo”. Sob seu aspecto negativo, Kali é a padroeira da Kali Yuga, a quarta e última etapa pela qual o mundo deve passar antes que, de acordo com o Hinduísmo, ele seja reabsorvido em sua origem Divina. Durante a Kali Yuga, o mundo ¬ mergulha quase que completamente nas trevas da ilusão (Maya), uma descrição bastante apropriada ao universo de Matrix. Cabe também ressaltar que Kali é tida como o lado feminino de Shiva, o Senhor da destruição e da renovação; pai de Ganesh, Senhor que remove os obstáculos de nossos caminhos.

Já nos antigos manuscritos indianos, a verdade das revelações globais estava contornada, como se vê da promessa do Espírito da Verdade quando, pela boca de KRISHNA, este diz a seu discípulo Arjuna, no Bhagavad-Gita, profecia que mais uma vez somos obrigados a repetir:

“Todas as vezes, ó filho de Bharata! que Dharma (a lei justa) declina, e Adharma (a lei injusta) se levanta, Eu me manifesto para a salvação dos bons e destruição dos maus. Para restabelecimento da lei, Eu nasço em cada Yuga (idade).”

Blavatsky confirmou que estamos passando por mudanças cíclicas, com as seguintes palavras:

“Em breve, chegaremos ao fim do ciclo. Os cataclismos se sucedem. Grandes forças estão sendo acumuladas, para esse fim, em diversos lugares.”

Com Jeoshua Ben Pandira, o Cristo, retificou-se a antiga tradição: “Eu não vim destruir a Lei, mas dar-lhe cumprimento”, reestabelecendo o Sanctum Santorum, a Grande Assembléia Universal, como a mansão do amanhecer, Cidade de Cristal, Agartha-Shamaballah.

Para conhecer mais a respeito de sociedades ocultas, sugiro a leitura da obra As Forças Secretas da Civilização, de Vitor M. Adrião, Madras Editora.

Sempre houve um elo profundo que unia, na Antiguidade, a adivinhação aos solares. O culto ao Sol é a chave de ouro de todos os mistérios ditos mágicos. Lembre-se de que, no filme, os Mamíferos (seres humanos) destruíam o Sol. Na verdade, o Sol é a fonte de Luz, de calor e de vida. Os sábios hindus viam-no como forma de Agni, o fogo universal que penetra em todas as coisas. Mitras é o fogo masculino e Mitra, a luz feminina. Para o iniciado de Mitras, o Sol é apenas um reflexo grosseiro da luz inteligível. Os egípcios iniciados procuravam o mesmo Sol sob o nome de Osíris. Hermes também reconhece, nas ondas etéreas, uma luz deliciosa. No Livro dos Mortos do Antigo Egito (Madras Editora), as almas vagam a duras penas para essa luz na barca de Ísis. Moisés também adotou essa doutrina na Gênese. “Elohim disse: ‘Que se faça a Luz, e a Luz se fez’”. Zoroastro está de acordo com Heráclito, Pitágoras, São Paulo, os cabalistas e Paracelso, que definem a luz que reina em toda a parte.

Quando Smith e seus agentes capturam Neo, colocam nele um chip. Acerca desse assunto, daria para escrever um livro, mas vou simplesmente pincelar, assim como os demais temas, para não deixar de comentá-lo.

Percebam que o chip se transforma numa espécie de crustáceo (que lembra um camarão) que faz a sua penetração pelo umbigo, que, por sua vez, está relacionado ao chacra abdominal (umbigo, plexo solar, o dom da razão). Sua cor é o amarelo, que no nível físico é uma cor quente, muito boa para entrar em contato com o seu próprio Poder. Mas o mais importante é que, segundo os espíritas, o cordão espiritual está ligado diretamente ao umbigo, ou seja, quando seu espírito sai de seu corpo (viagem astral), fica ligado ao umbigo físico por um cordão invisível.

Em Matrix Reloaded, conhecemos o Arquiteto como o criador da Matrix (Deus dos humanos). Vestido todo de branco, menciona que os seres humanos são anomalias e que estamos numa mistura entre Matrix e Zion. Primeiro fomos colocados na Matrix, e a maioria vive nela, representando um papel a cada encarnação, trocando de “nick” para esquecer-se do que são. Outros poucos encontram-se em Zion, onde todos acreditam que tudo é uma ilusão, onde não existe bem ou mal — uma sociedade alternativa…

Dá para perceber que houve um grande arrependimento desse deus ter criado os seres humanos.

Vários aspectos aqui nos chamam a atenção. Nosso Arquiteto de branco, como o chefe dos anjos, não é aquele ser barbudo nem seu coração está transbordando de amor pelas suas criaturas e muito menos perdoando-as de seus “pecados”. Que horror!

Buda, ao atingir seu estado de iluminação, Nirvana, libertou-se das ilusões do sansara, e falou: “Apanhei-te, Arquiteto. Nunca mais tornarás a construir”. De acordo com a filosofia budista, ele estava referindo-se ao ego, criador da pseudo-realidade em que vivemos.

Não comentei nada sobre Cypher, o traidor, o Judas. Mesmo sabendo que tudo era uma ilusão, ele quer retornar à Matrix e afirma: “A ignorância é maravilhosa”. Mas em Matrix Reloaded existe Haman, que foi um traidor do povo judeu. Na Bíblia, Haman é o grande vilão do Livro de Ester; ele odiava os judeu e tramava secretamente contra o povo, a fim de exterminá-lo. Mas seu plano foi descoberto por Ester, que o denunciou ao rei. Na festa judaica do Purim, é comemorada a derrota de Haman. Também confeccionam bonecos, como fazem os cristãos na malhação de Judas.

Um dos maiores heróis da religião hindu é o Senhor Rama, protagonista do poema épico Ramayana. Rama-Chandra é o sétimo avatar do deus Vishnu, um dos integrantes da Trindade Suprema (Brahma, Vishnu e Shiva), que periodicamente descia encarnado sob forma humana à Terra para libertar os humanos da ilusão.

Gostaria de poder escrever muito mais a respeito desta obra, na qual William Irwin compilou com maestria as diversas visões referentes a Matrix, elaboradas pelos respeitáveis acadêmicos: Barry Smith, Carolyn Korsmeyer, Charles I. Griswold, Cynthia Freeland, Daniel Barwick, David Mitsuo Nixon, David Rieder, David Weberman, Deborah Knight, George McKnight, Gerald J. Erion, Gregory Brassham, James Lawler, Jason Holt, Jennifer L. McMahon, Jonathan J. Sanford, Jorge J. E. Gracia, Martin A. Danahay, Michael Brannigan, Sarah E. Worth, Slavoj Zizek, Theodore Schick Jr. e Thomas S. Hibbis. Espero, entretanto, que com essas poucas palavras, tenha contribuído para que muitas pessoas não apenas vejam os filmes novamente, mas também “acordem” e procurem saber mais a respeito da fonte na qual os irmãos Wachowski foram saciar sua sede. Ou teria a fonte vindo até eles?

Por Wagner Veneziani Costa.

Introdução do livro “Matrix – Benvindo ao Deserto do Real”, da Editora madras.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/matrix-o-deserto-do-real

‘Magick com Vaselina

Anarco-thelemita

O Sistema mágicko proposto por Aleister Crowley está espalhado em uma série de livros e obras. Dentre elas ‘Magick without Tears’ destacasse como uma das mais didáticas e interessantes. O livro é essencialmente composto por cartas trocadas por Crowley e seus discipulos, mas possui um capítulo introdutório que contêm os principais postulados e diretrizes para o sucesso em Magick, e portanto o successo em qualque routro campo de atividade. É este capítulo que iremos nos basear para servir de esqueleto para uma introdução essencial que diferencia Magick das artes de salão por um lado e do folclore medieval de por outro.

Magick é a Ciência e Arte de provocar Mudanças de acordo com a Vontade.

A definição de Crowley para Magick é uma das mais práticas que existe. Eliphas Levi por exemplo escreveu antes disso que Magia é “a ciência tradicional dos segredos da natureza, que nos vem dos magos.” enquanto que outros autores ainda mais antigos definiam Magia como a “sabedoria da tradição hermética”, etc.. Para se diferenciar destes termos vagos Crowley passou a escrever Magic com um K a mais.

Desta forma Magick deixa de ser um abstrata arte de mitologia aplicada para se tornar algo que pode ser medido. O sucesso é sua prova. O fracasso é sinal de que algo foi feito errado como veremos mais para frente. Essa definição tira a magia do campo puramente mistico e a apresenta ao nosso dia a dia. Se queremos acordar e ficar alertas para ir trabalhar podemos por um ato de Vontade, levantar da cama e nos valer de um “encantamento” lavando o rosto com água fria para então consumir “uma poção” com bastante cafeina. Curiosamente estas são coisas que muitas pessoas fazem por natureza de maneira ritualizada. Por esse motivo Crowley escreveu como o primeiro de seus teoremas que “Todo ato intencional é um Ato Mágico.”

Dito isso pode parecer que Magick é o que as pessoas vulgares chamam de Ciência. Mas existe uma diferença crucial que precisa ser destacada. A ‘Ciência’ está preocupada com observar e explicar, enquanto que Magick está comprometida com a realização. Seria mais correto dizer que Magick é semelhante a Ciência Aplicada, entretando isso ignora o fato comum de que quando necessário usamos outros métodos além daqueles fornecidos pela ciência atual e pela tecnologia como as que são acessíveis apenas a aqueles que se dedicam a explorar a chamada “iniciação” e por-se em contato com forças sutis que as forças físicas ordinárias.

Os Postulados de Magicka

Assim, segundo Aleister Crowley QUALQUER COISA É POSSIVEL se todos os itens abaixo forem adequadamente satisfeitos:

1 – A Força do Tipo Certo
2 – O Grau Apropriado da Força
3 – De Maneira Apropriada
4 – Pelo Meio de transmissão adequado
5 –  Ao Objeto Adequado

Crowley não era um tolo. Ele sabe que algumas mudanças não são possíveis na prática, não podemos criar estrelas do nada, respirar no vácuo ou transformar crianças em brocoles. Mas isso acontece justamente porque um dos pontos acima não foram satisfeitos e não por uma impossibilidade real.

É nesta certeza que se baseia Magick. Todo conjunto de crenças possui alguns valores arbitrários conhecidos como dogmas. A Religião tem Deus como um deles, Deus é possível ao passo em que a Ciência têm a Verdade como uma delas, a Verdade é possível. O dogma da magia é o sucesso.

Qualquer inexatidão no resultado final (incluindo o fracasso completo) é um sinal de que um dos 5 postulados não foram satisfeitos. Dada esta importância vamos agora revê-los com alguns exemplos claros.

Postulado 1 – Força do Tipo Certo

Este postulado é tão importante que seu fracasso tira até mesmo a chance dos outros postulados fracassarem. Imagine alguém com um objetivo venério e um tipo marciano de força, ele tentaria conquistar o amor da sua vida pela batalha. Ele poderia até mesmo ganhar a guerra, mas o amor exige um tipo específico de força para ser aplicado. Sabe como se pode ganhar em um mesmo dia uma disputa de xadrez com um campeã de xadrez e uma luta de boz com um peso pesado? Dá-se um nocaute no enxadrista e um cheque-mate no boxeador.

Postulado 2 -O Grau Apropriado de Força

Paracelso descobriu que a dose faz o veneno. Uma mesma substância pode matar ou curar dependendo da intensidade com que é usada. Força muscular de menos pode fazer você perder uma disputa de braço de ferro. Força emocional demais pode transformar uma crise numa tragédia. É o Grau apropriado que separa o tapa do toque.

Postulado 3 – A Maneira Apropriada

Enquanto o primeiro e o segundo postulados lidam respectivamente com as questões qualitativas e quantidativas da força, o terceiro lida com as questões externas, mais particularmente de tempo e espaço. Fazer uma neuro-cirurgia na praia ou dormir ao Sol do meio dia são maneiras de flertar com o fracasso. Para não parecermos idealistas, isso não quer dizer que existe uma hora e lugar certo para tudo, mas existem momentos e situações mais ou menos adequadas. Não existe um único momento ideal para se dizer “Eu te amo”, mas existem muitas maneiras erradas de dizer isso.

Postulado 4 – O Meio de Transmissão Apropriado

Uma pessoa que quer ser imortal certamente falhará se depender basear sua imortalidade em um filho que também esta destinado  a morrer. Um escritor pode usar a força certa da sua criativade, no grau certo de planejou e da maneira certa que deseja e ainda assim fracassar porque sua caneta esta sem ponta. Em termos de magia cerimonial isto tem especial foco nas chamadas “armas mágickas”.

Postulado 5 – Ao Objeto Adequado

Por fim podemos aplicar a força em um objeto errado. Você pode ser o melhor empresário do mundo e falhar ao se dedicar ao trabalho errado. Como ilustração imagine o fracassado que bate no filho porque é oprimido fora de casa ou o insano que usa todo o ar do seu pulmão para apagar uma lâmapa dlorecente assobrando-a.

A Iniciação

 

Dos postulados fica destacado que o primeiro requisito para o sucesso em Magick depende de uma compreensão exata da qualidade e quantidade da força utilizada, bem como da situação externa (meios, cenário e objeto) em que esta força será aplicada. De forma resumida podemos dizer que Magick é entender a si mesmo e suas condições e então aplicar este entendimento à ação desejada.

O segundo requisito é ter poder para colocar esta força em movimento. Caso falte esta habilidade então deve-se quebrar a mudança desejada em etapas menores, sendo que a primeira etapa é adquirir a força adequada até que todos os postulados estejam satisfeitos. A essa maestria chamamos iniciação. Isso pode significar dedicar-se a aulas de pranayama antes de entrar nas rígidas posturas exigidas pelas asanas da hatha yoga, mas pode significar também frequentar a academia de kung fu antes de entrar numa briga. O ponto importante aqui é que uma pessoa só pode atrair e aplicar forças para as quais de fato está apto a controlar. O conhecimento de suas próprias limitações é uma das armas mais importantes que um mago pode ter.

Mas note que o sucesso não é descartado nunca. É por isso que na Thelema não existem ‘pessoas fracassadas’ não há o conceito de pecado original, ou karma irremovível onde o erro faz parte da existência íntima do ser humano. Pelo contrário, o sucesso é uma questão de esforço e Magick é possivel para todos. Èsse é um dos sentidos de “Todo homem e toda mulher é uma estrela.” Outro sentido desta frase é que o ser humano é um fim em si mesmo, “Faze o que tu queres” e nisso ele antecipa em alguns anos e supera em concisão e abragência a primitiva Declaração dos Direitos Humanos.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/magick-com-vaselina/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/magick-com-vaselina/