A Clássica Paternidade: Venom

Prélude: Um bocado de História

Trata-se dalgo salutar e corriqueiro principiar qualquer estudo a partir das  causas daquilo o qual se falará. Portanto, arranja-se natural começar-se a  série de escritos e apreciações musicais entorno do que, hoje, convencionou-se nomear Black Metal a partir de sua teórica origem.

Contudo, a tarefa  genealógica não se assoma tão fácil quanto um pressado entusiasta ou leviano interessado no gênero imaginam. Fora do Senso Comum histórico e “enciclopédico” do gênero existe uma infinidade de leituras e perspectivas possíveis,cada uma delas pavoneando-se saber a insofismável verdade do primum movens [primeiro motor;causa primeira] do estilo. Cada uma destas posturas  detém suas próprias justificativas, atináveis provas e pungentes argumentos para estipularem aqui ou acolá o ponto primeiro de surgimento do “Metal Negro”. Dessarte,desvela-se cousa natural que, nessa breve e introdutória apresentação histórica, atenha-se a expor as prncipais “linhas-de-pensamento” neste sentido para que a posteriori o leitor seja compelido a extrair suas próprias conclusões e posturas face o exposto.

Abaixo, partir-se-á à exposição da cogitação majoritária nesse campo musical-historiográfico: Aquela que posta a banda inglesa “Venom” como o autêntico e genuíno progenitor do Black Metal.

Aula 1: A Clássica “Paternidade”:“ Venom

No final da década de 1970 uma cousa far-se-ia certa de inferir quando se tratava da, então infante, cena  Heavy Metal: O Diabo  era  um fortíssimo e presente elemento estético, porém como figura ambígua. Vide,por exemplo, os seguintes versos retirados  da canção Black Sabbath lançada em  lp pelos homônimos e incontestáveis criadores do Heavy Metal:

“Big black shape with eyes of fire
Telling people their desire
Satan’s sitting there,he’s smiling
Watch those flames get higher and higher
Oh no,no,please God help me!

“Enorme e negra forma com olhos de fogo
Às pessoas dizendo seus desejos
Acolá Satã se senta,sorrindo
Vede aquelas chamas ardendo mais e mais
Óh!não,não,por favor Deus,me ajude!”
(tradução nossa)

Aqui, claramente, o que está em jogo é uma perspectiva de Satã como um mero e inevitável “Senhor de Todo-Pecado e Malevolência”, sempre corporalmente desviando  à Humanidade de sua “senda natural” a qual no fundo está direcionada a Deus. Decerto, pode-se argumentar que a sombria tessitura musical, vocais desesperados de Ozzy Osbourne (vocalista da banda, então) e aparente inexorabilidade do Mal nas letras levar-nos-iam a conceber que o grupo faz-se pessimista e, larga medida, articulado a uma perspectiva diabólica da imanência. Porém, mesmo que se aceite esta ótica a qual tende a instilar os primeiros álbuns setentistas do “Black Sabbath” com tais tonalidades de pessimismo e “gnosticismo” naquilo que visualizam de assombrado na Existência,de forma indubitável Satã ainda é encarado na disposição mosaica e repugnante que o Cristianismo construiu-lhe ao longo dos séculos, principalmente, durante à Idade Média .

Capturado por este cenário do nascente Heavy Metal e atração estética pelo satanismo imagético, a tríade inglesa composta pelo baixista/vocalista “Cronos” (Conrad Thomas Lant), guitarrista “Mantas”(Jeffrey Dunn) e o baterista “Abaddon” (Anthony Bray) fazem seu primeiro lançamento oficial com o nome de “Venom” (anteriormente, a banda chamava-se “Guillotine”): “Welcome to Hell”.

Apesar de toda filiação  Heavy Metal e seu apreço comum pelos primeiros conjuntos do gênero,o “Venom” radicalizou e inverteu alguns paradigmas na época vigentes dentro do gênero. Uma das principais inversões estéticas, acontece justamente na relação lírica com o satanismo. A própria graça de seu debut, “Welcome to Hell”(1981), já dá o tom desta a citada inversão. O inferno, a dimensão de abrigo de Satã e sua corte pecaminosa, apresenta-se dando às boas-vindas, a saudar o Homem que defronte deste desvela-se. Tal saudação, entretanto, não se constitui algo de jocoso ou apto a carregar um afeto pessimista. O inferno saúda seus orgulhosos  Sons of Satan [Filhos de Satã], aqueles que, como se infere na música homônima a qual abre o álbum,desejam Satã como força positiva e apaziguadora da desesperação espiritual :

“Put away all your virtues,
Stop your climbing the walls,
Just sign your name on the paper,
We’ll have ourselves a ball.

“Livra-te de todas tuas virtudes,
Cessa tua desesperada inquietação,
Apenas assina teu nome no papel,
Uma culminância dar-nos-emos.”
(tradução nossa)

Como mesmo desvelam os versos  excertados,“vender sua alma” [sign your name on the paper] representa o fim da angústia  metafísica[stop your climbing the walls], purgar-se das sufocantes “virtudes” cristãs [put away all your virtues] e celebrar o si-próprio [we’ll have ourselves a ball]. Logo, enredar-se nas ditas forças das trevas,na ótica do “Venom”,traduz-se num festejo e aceitação de si, daquilo que lhe constitui em oposição ao ascetismo e sofrimento espiritual inventado do Cristianismo. Destarte, a aproximação com os impulsos estéticos ditos macabros da Existência, como no caso do “Black Sabbath”, descortina-se igualmente inalienável e tergivesado duma aguda imanência, todavia o modo de manifestação destes arranja-se distinto. O satânico não é mais motivo de uma reação, um sofrimento daquele que é mero paciente, surdina-se em ação secundária, re-age à Vida sinistra. Ora, potencializa-se no Homem a chance de agir,pôr-se agente duma atitude primária e afirmativa numa vivência diabólica. Esta sorte de pendor existencial satânico-afirmativo, o qual se perpetuaria por todos os lançamentos do trio em sua fase clássica (1981-1986), significou um novo fitar sobre Satã e temas correlatos dentro do Heavy Metal. Músicas como a dita “Sons of Satan”, “Leave me in Hell”, “In League with Satan”, “At War with Satan” e tantas outras desta época de maior furor criativo do “Venom” viriam a moldar a postura lírica de grã parte da vindoura cena blackster com sua afetividade de afirmação em Satã e no que lhe é próprio.

Importante elemento outro trazido à baila pelo “Venom”, quiçá pela prima vez  no cenário metálico,arranja-se o uso de pseudônimos infernais e pagãos para os componentes de uma banda.

  • Jeffrey Dunn assume o epíteto de “Mantas” – Grafia incorreta da divindade etrusca “Mantus”,a qual se punha consorte de Mania e regente do Submundo na Eneida do romano poeta Virgílio.
  • Anthony Bray se auto-nomeia “Abaddon” – Segundo o 9:1-11 do Apocalipse  de João,comporta-se o rei dos gafanhotos e o anjo do Poço Sem-Fundo. Portanto,comumente associado na demonologia como um “demônio destrutor”.
  • Por fim, Conrad Thomas Lant é  “Cronos” – Ortografia  equivocada para o titã e tirano heleno “Cronus”, personificação dos efeitos devastadores do Tempo.

Com tais macabros nomes infernais e pagãos, o trio logra toda sua vida artística gerando,desta maneira, uma sensação de apartamento dessa face às suas vidas prosaicas, como se dalgum modo suas produções artísticas representassem um outro nível de experimentação vital, um “duplo-infernal”. Em uma analítica mais perfunctória, os pseudônimos servem também ao modo de apresentação e amostração imediata do que se trata a proposta estética e “ideológica” da horda.

Este “auto-batismo demoníaco” exerce,dentro da historiografia ulterior do Black Metal, um fascínio porventura maior do que Dunn, Bray ou Lant imaginaram ao se declararem demônios e deidades sombrias. Bandas, hoje coletivamente tidas como  blacksters, perpetuaram esta prática do “Venom” tornando-a um lugar-comum e apanágio  do gênero conforme seus componentes passaram a assumir graças sinistras e infernais para si, como, por exemplo, ícones como “Euronymous” do “Mayhem” e “Fenriz” do “Darkthrone”.

A contribuição por certo mais propalada, inquestionável e penetrante do “Venom” à formação do Black Metal, parece ter vindo de modo nominal. Em seu segundo álbum,“Black Metal”(1982),a banda marca de modo irresilível a historiografia do Heavy Metal dando ao nascente gênero mais satânico da música pesada uma graça,classificação que se perpetuaria até os dias de hoje.

Instrumental e liricamente o conjunto manteve neste álbum as mesmas bases e adjetivos do seu primeiro e anterior lp, mas, desta feita, a música crua, afirmativo-demoníaca  e, como diz a letra de  Black Metal, “contra todos os modismos” [against the odds]  musicais ganha, pela prima vez, uma definição  que, com o tempo, torna-se um novo conceito para grupos ainda mais extremos musicalmente falando.

À parte dos citados e fortes pontos de influência na gênese do  Black Metal,verdade seja dita,“Venom” teve pouco mais a ver, principalmente nosquesitos músico-instrumental e vocal, com o nascente gênero. Seu som assemelhava-se mais a um Motörhead mais sujo ou a uma mais violenta abordagem do NWOBHM [New Wave of British Heavy Metal], e, como atesta o apreço de bandas, então jovens, como  “Metallica” e “Slayer” pelo “Venom”, seu tom punha-se mais no  recém-surgido Thrash Metal do que  naquilo depois entendido como  Black Metal. As  decerto espetaculares e vanguardistas inovações executivas de “Cronos” com o baixo-elétrico ao dispor o instrumento mais como uma guitarra do que um mero baixo de quatro cordas propriamente dito,por exemplo, exerceu parco impacto no desvelar primal do  Black Metal. Desconstruções executivo-instrumentais como as causadas por Lant, tiveram muito mais penetração no novo tratamento dispendido ao mesmo instrumento em grupos Thrash, os quais, com mais técnica e racionalidade, souberam lapidar a idéia original de  desterritorializar o baixoelétrico para pô-lo num novo destaque e encerro.

No entanto, não se tratou do vocal pouco distorcido e monstruoso de “Cronos”, o cabelo louro picotado de “Mantas” ou o instrumental mais thrasher do “Venom” que causou sua derrocada. O duro e irrecuperável golpe sofrido pelo conjunto na segunda metade da década de 1980, adveio com uma série de litígios internos durante a composição de seu quarto álbum, “Possessed”(1985), e subseqüente  dissolvição da “satânica trindade original” posposta a turnê de promoção do lp. A partir disto, o “Venom” tornou-se uma banda tão-só contingente e não mais a “infernal máquina” necessária como se postou de 1981 a 1986. Num espaço muito curto de tempo, o  “Venom” pôs-se um grupo insosso e  incapaz de manter uma sólida formação por muito Delta-Tempo. A própria reunião da formação original para uma série de espetáculos, dos quais um deles foi registrado em áudio e vídeo no pack “Second Coming” (1996) e um álbum de estudio, “Cast in Stone”(1997), provou-se um procedimento contrafeito, efêmero e tomado pelo  comercialismo que pairava entre antigas bandas de Metal com seus hipotéticos “regressos” de formações originais ou ditas “clássicas” na segunda metade da década de 1990 e início do século XXI. O “Venom” provou-se uma, espetacularmente valiosa, relíquia no fantástico “Museu do  Heavy Metal”, inalienável participante ativo na confecção daquilo hoje entendido por Black Metal e,acima de tudo,uma triste história de efemeridade estético-criativa.

Lição de Casa

Apreciar a discografia recomendada antes da próxima aula.  Deixe nos comentários desta página suas percepções sobre estas obras:

1981 – “Welcome to Hell.” – O álbum foi relançado em 2002 pela Castle Music/Sanctuary com onze incríveis  bonus tracks da fase áurea da banda.Entre elas,fabulosas versões demo e alternativas de suas músicas,bem como B’sides raros.

 

1982 – “Black Metal.” – O álbum foi relançado em 2009 pela Sanctuary com onze extraordinárias bonus tracks da fase áurea da banda. Entre elas,fabulosas versões alternativas de suas músicas, bem como B’sides raros.Para tornar ainda mais atrativo tal lançamento,um considerável número de cópias vinha com um  dvd como bônus contendo um impressionante  show da banda em 1984 (“The 7th Date of Hell – Live at Hammersmith Odeon” ) e três promo videos de entonces.


1984 – “At War With Satan.”  – O álbum foi relançado em 2002 pela Castle Music/Sanctuary com oito estupendas bonus tracks da fase áurea da banda.Entre elas,fabulosas versões alternativas de suas músicas,bem como B’sides raros.

 

1985 – “Possessed.” – O álbum foi relançado em 2002 pela Castle Music/Sanctuary com seis estupendas  bonus tracks da fase áurea da banda.Entre elas,fabulosas versões ao vivo e alternativas de suas músicas,bem como B’sides raros.

1986 – “Eine Kleine Nachtmusik.” – Gravado ao vivo em dois espetáculos distintos da turnê do “Possessed” (1985-1986) com a formação original.

Autor:R.C.Zarco – Escola de Black Metal

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/a-classica-paternidade-venom/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/a-classica-paternidade-venom/

Hermes Trismegistus

“O que está em cima é como o que está embaixo.

E o que está embaixo é como o que está em cima”

O que é magia? Esta é uma questão que, mesmo em círculos esotéricos, levanta muita discussão. Vários autores e filósofos em todas as épocas teceram variadas interpretações a respeito do assunto. Entretanto, os elementos-chave de todas as definições existentes parecem concordar em apenas um ponto: Magia (ou Magick) envolve o uso da mente humana para causar uma alteração: Mudança no mundo, mudança do próprio indivíduo, mudança para com os outros. Aleister Crowley definiu mágica como “a Arte ou Ciência de causar uma mudança. Para que esta ocorra em conformidade com a Vontade”. Doreen Valiente define magia como “a ciência do controle das forças secretas da natureza”. Scott Cunningham chama a magia de “o movimento de energias naturais para criar uma mudança necessária”. Mas é Margot Adler que tem a definição que considero ser a mais interessante de todas. Ela diz:

“Magia é uma palavra conveniente para toda uma coleção de técnicas, todas as quais envolvem o uso da mente. Neste caso, veremos que todas estas técnicas envolvem a mobilização da confiança, vontade e emoção, direcionadas a partir do reconhecimento da necessidade, do uso das faculdades da imaginação, principalmente através da habilidade de visualizar, a fim de entender como outros seres funcionam na natureza para que possamos usar este conhecimento de forma a atingir os fins necessitados”.

Magia, portanto, é um instrumento da mente e, como tal é mental por natureza. Magia é um meio através do qual a vontade (Thelema), a emoção (Emotionem) e a imaginação (Imaginatio) criam uma mudança verdadeira no mundo físico. Como, porém, pode um instrumento mental e não físico criar uma alteração no mundo físico e corpóreo? A resposta está na Verdade de que o universo em si mesmo é Mental por natureza e que a mente é a chave para abrir os poderes do Cosmo.

“Substância” pode ser definida como aquilo que está por dentro de todas as manifestações exteriores. Atrás de toda aparência exterior neste mundo e em todos os outros mundos, deve existir uma realidade substancial. Um imenso Panteão de deuses e deusas mostra-nos como o homem tentar dar nome a esta realidade substancial.

Como John Barnes afirmou certa vez, “O Todo é a Realidade Substancial que está escondida em todas as manifestações de vida. O Todo é a Grande Avó -Avô que criou a si mesmo, que sempre existiu e que irá existir para sempre”

Uma das chaves para entender como o Universo funciona nos foi dada por Hermes-Toth, também conhecido como Hermes Trismegistus. Algumas pessoas o consideram um deus, outras um grande iniciado, e algumas ainda acreditam que este nome represente uma das primeiras Ordens Iniciáticas do Antigo Egito e Grécia, cujos trabalhos de seus Iniciados perduram até os dias de hoje, através da ciência conhecida como Hermetismo. A seguir, falarei um pouco sobre quem foi esta figura e o que ele nos deixou de legado.

Toth

Toth (ou Thoth) é considerada uma das divindades mais importantes do Egito. Também chamado de “O escriba dos Deuses”, ele é geralmente descrito como tendo a cabeça de um Íbis.

Sua contraparte feminina era Maat, deusa da Justiça, e seu principal templo ficava em Khemennu (que os gregos chamavam de Hermopolis e os árabes de Eshmunen). Mas Toth também tinha templos iniciáticos em Abydos, Hesert, Urit, Per-Ab, Rekhui, Ta-ur, Sep, Hat, Pselket, Tamsis, Antcha-Mutet, Bah, Amen-heri-ab e Ta-kens. Nestes templos, seus discípulos aprendiam as bases do que chamamos de “Livro de Toth”, ou como é conhecido pelos profanos, o Tarot. As 78 lâminas, também chamada “Espelho da Alma”, são capazes de reproduzir simbolicamente todos os fluxos de energia que permeiam uma situação (as pessoas acreditam que o Tarot serve para “prever o futuro” mas isto não é verdade. Seu uso principal é para autoconhecimento). Falarei mais sobre Tarot em posts futuros.

Ele era considerado o coração e a língua de Rá, assim como a vontade de Rá traduzida para a fala (o Verbo). Dentro do Panteão Egípcio, ele possuía diversas funções muito importantes (entre elas, ensinar a escrita, magia, ciência, astrologia e ajudar no julgamento dos mortos).

Toth também é responsável pelo governo dos Planetas e das estações. È chamado de “Senhor das palavras Sagradas” pois foi ele quem inventou os hieroglifos e os números. Por ter sido o primeiro magista, Toth possuía mais poder até mesmo do que Osíris ou Rá.

Em algumas representações, podemos vê-lo com a crescente lunar sobre sua cabeça e sua figura carregando uma palheta e cinzel. Toth possuía duas esposas, Seshat e Nehmauit. Seu festival principal acontecia no décimo nono dia do mês de Toth, alguns poucos dias após a lua cheia do começo do ano.

Toth é considerado deus da Magia, escrita, invenções, profecia, música, tarot, conhecimento, ciências, medidas, matemática, fala, oráculos, julgamento, desenhos, arquitetura, gramática, teologia, hinos, aprendizado, livros, registros Akashicos, paz e orações.

Hermes

Hermes também é tido como uma das mais importantes divindades gregas do Panteão Olímpico. Considerado o mais jovem dos deuses, ele é o protetor de todos os viajantes e ladrões, é o mensageiro dos deuses, responsável por levar a palavra dos deuses até os mortais (qualquer semelhança com Prometeu ou Lúcifer NÃO é mera coincidência); Hermes é o deus da eloqüência, ao lado de Apolo, é o Deus dos diplomatas e da diplomacia (que era chamada de Hermeneus pelos gregos) e é o deus dos mistérios e interpretações (da onde vem a palavra Hermenêutica). Além disto, era um dos únicos deuses que tinha permissão para descer ao Hades e partir quando desejasse. Todos os outros (incluindo Zeus) estavam sujeitos às leis de Hades.

Hermes tinha vários símbolos, mas os mais tradicionais eram as sandálias com asas, o caduceu (que curiosamente representa a Kundalini, duas serpentes enroscadas em um cajado) e a tartaruga (de cujo casco ele criou a primeira Lira).

Como inventor de diversos tipos de corrida e também das lutas, Hermes era considerado o patrono dos atletas. Finalmente, era tido como o inventor do Fogo (em alguns textos anteriores a Prometeu) e considerado um deus pregador de peças, que adorava aprontar com seus irmãos (isto desde seu nascimento, quando a primeira coisa que fez quando aprendeu a andar foi roubar os bois de Apolo e esconde-los). Hermes era patrono dos alquimistas, magos e filósofos.

Mercúrio

Para os romanos, Mercúrio surgiu da fusão do deus Turms (Etrusco) com as características de Hermes grego, em aproximadamente 400 AC. Mercúrio tornou-se assim o deus do comércio (em muitos países o símbolo do Caduceu é usado para indicar administração e não medicina), das estradas e das relações de diplomacia. Mercúrio não era tão popular entre os romanos como Hermes era entre os gregos, sendo considerado um deus menor dentro do Panteão romano.

Mercúrio era patrono do comércio, transportes, sucesso, magia, viagens, apostas, atletas, eloqüência, mercadores e mensageiros.

Hermes Trimegistus

Hermes Trismegistus é a tradução em latim e significa “Hermes, o três vezes grande”.

Trata-se do nome dado pelos neoplatônicos, místicos e alquimistas ao deus egípcio Toth ou Tehuti, identificado com o deus grego Hermes. Ambos eram os deuses da escrita e da magia nas respectivas culturas.

Toth simbolizava a lógica organizada do universo. Era relacionado aos ciclos lunares, cujas fases expressam a harmonia do universo. Referido nos escritos egípcios como “duas vezes grande”, era o deus do verbo e da sabedoria, sendo naturalmente identificado com Hermes. Na atmosfera sincrética do Império Romano, deu-se ao deus grego Hermes o epíteto do deus egípcio Toth.

Como “escriba e mensageiro dos deuses”, no Egito Helenístico, Hermes era tido como o autor de um conjunto de textos sagrados, ditos “herméticos”, contendo ensinamentos sobre artes, ciências e religião e filosofia – o Corpus Hermeticum – cujo propósito seria a deificação da humanidade através do conhecimento de Deus. É pouco provável que todos esses livros tenham sido escritos por uma única pessoa, mas representam o saber acumulada pelos egípcios ao longo do tempo, atribuído ao grande deus da sabedoria.

Segundo Clemente de Alexandria, eram 42 livros subdivididos em seis conjuntos. O primeiro tratava da educação dos sacerdotes; o segundo, dos rituais do templo; o terceiro, de geologia, geografia, botânica e agricultura; o quarto, de astronomia e astrologia, matemática e arquitetura; o quinto continha os hinos em louvor aos deuses e um guia de ação política para os reis; o sexto era um texto médico.

Também é creditado a Hermes Trismegistus, “O Livro dos Mortos” ou “O Livro da Saída da Luz” e o mais famoso texto alquímico – a “Tábua de Esmeralda”.

Os Escritos Herméticos

Os escritos Herméticos são uma coleção de 18 obras Gregas. Estes escritos contêm os aspectos teórico e filosófico do Hermetismo em seu aspecto teosófico. O período bizantino é marcado por uma outra coleção de obras herméticas, que também são relacionadas ao Hermes Trismegistus e contêm uma tradição hermética popular a qual é composta essencialmente por escritos relacionados a astrologia, magia e Alquimia. Esta versão popular encontra sustentação ou base nos diálogos Hermeticos, apesar dele se distanciar da magia.

A prática da magia entretanto não está distante das praticas realizadas no antigo Egito, a qual em uma última análise é a fonte de todos os diálogos herméticos, pois o Hermetismo lá floresceu e, portanto estabelece uma conexão entre as duas tradições Hermeticas: filosófica e magia.

Os ensinos de Hermes-Toth chegaram à atualidade baseados em escassos documentos que constituem o “Kabalion“, “A Tábua da Esmeralda“, “Pistis Sophia“, “Corpus Hermeticum“, e alguns outros papiros. Naturalmente que o acervo de ensinamentos de Toth estão contidos em muitos outros documentos que foram preservados e mantidos sob a guarda de Ordens Iniciáticas. Tratam-se de documentos originais e cópias que foram preservados do incêndio da Biblioteca de Alexandria. Entre os documentos preservados existem aqueles que deram base ao desenvolvimento da Alquimia.

As sete Leis Herméticas

As sete principais leis herméticas se baseiam nos princípios incluídos no livro Kabalion que reúne os ensinamentos básicos da Lei que rege todas as coisas manifestadas. A palavra Kabalion, na língua hebraica significa tradição ou preceito manifestado por um ente de cima. Esta palavra tem a mesma raiz da palavra Kabbalah, que em hebraico, significa recepção. De acordo com Hermes Trismegistus:

Lei do Mentalismo

O universo é mental ou Mente. Isso significa que todo universo fenomenal é simplesmente uma criação mental do TODO… Que o universo tem sua existência na Mente do TODO.

Uma outra maneira de dizer isso é: “tudo existe na mente do Deus e da Deusa que nos ‘pensa’ para que possamos existir. Toda a criação principiou como uma idéia da mente divina que continuaria a viver, a mover-se e a ter seu ser na divina consciência.”

“O Universo e toda a matéria são consciência do processo de evolução.”

Minha opinião é que toda a matéria são como os neurônios de uma grande mente, o universo consciente, que “pensa”.

Todo o conhecimento flui e reflui de nossa mente, já que estamos ligados a uma mente divina que contem todo o conhecimento.

É claro que não estamos conscientes de “todo o conhecimento” em qualquer momento dado, por que seria uma tarefa exorbitante manuseá-lo e processa-lo e ficaríamos loucos no processo.

Os cinco sentidos do cérebro humano atuam tanto como filtros como fontes de informação. Eles bloqueiam uma considerável soma de informação caso contrário seriamos esmagados por informações que nos bombardeiam minuto a minuto como sons, cheiros e até idéias, não seriamos capazes de nos concentrarmos nas tarefas especificas em mãos. Mas sob condições corretas de consciência podemos moderar, ou até desligar o processo de filtração, com a consciência alterada, o conhecimento universal (Registros Akáshicos) torna-se acessível.

Lei da Correspondência

“Aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo.”

Essa lei é importante porque nos lembra que vivemos em mais que um mundo.

Vivemos nas coordenadas do espaço físico, mas também vivemos em um mundo sem espaço e nem tempo.

A perspectiva da Terra normalmente nos impede de enxergar outros domínios acima e abaixo de nós. A nossa atenção está tão concentrada no microcosmo que não nos percebemos o imenso macrocosmo à nossa volta. O principio de correspondência diz-nos que o que é verdadeiro no macrocosmo é também verdadeiro no microcosmo e vice-versa.

Portanto podemos aprender as grandes verdades do cosmo observando como elas se manifestam em nossas próprias vidas.

Por isso estudamos o universo: para aprender mais sobre nós mesmos.

Na menor partícula existe toda a informação do Universo.

A Lei da Correspondência, em conjunto com a Lei da Causa e Efeito, é a explicação para o funcionamento perfeito do Tarot e da Astrologia, bem como de todos os outros oráculos.

Lei da Vibração

“Nada está parado, tudo se move, tudo vibra”

No universo todo movimento é vibratório. O todo se manifesta por esse princípio. Todas as coisas se movimentam e vibram com seu próprio regime de vibração. Nada está em repouso. Das galáxias às partículas sub-atômicas, tudo é movimento.

Todos os objetos materiais são feitos de átomos e a enorme variedade de estruturas moleculares não é rígida ou imóvel, mas oscila de acordo com as temperaturas e com harmonia. A matéria não é passiva ou inerte, como nos pode parecer a nível material, mas cheia de movimento.

A Lei da Vibração rege toda a comunicação entre espíritos e matéria, bem como a conjuração de elementais, devas, exús, orixás, anjos enochianos e qualquer outro tipo de serviçal astral. Também rege os princípios de atração e repulsão entre indivíduos, a harmonia e as egrégoras.

Lei da Polaridade

“Tudo é duplo, tudo tem dois pólos, tudo tem o seu oposto. O igual e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados”

A polaridade revela a dualidade, os opostos representando a chave de poder no sistema hermético. Mais do que isso, os opostos são apenas extremos da mesma coisa. Tudo se torna idêntico em natureza. O pólo positivo + e o negativo – da corrente elétrica são uma mera convenção.

O claro e o escuro também são manifestações da luz. A escala musical do som, o duro versus o flexível, o doce versus o amargo. Amor e o ódio são simplesmente manifestações de uma mesma coisa, diferentes graus de um sentimento.

Lei do Ritmo

“Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o ritmo é a compensação”

Pode se dizer que o princípio é manifestado pela criação e pela destruição. É o ritmo da ascensão e da queda, da conversão da energia cinética para potencial e da potencial para cinética. Os opostos se movem em círculos.

É a expansão até chegar o ponto máximo, e depois que atingir sua maior força, se torna massa inerte, recomeçando novamente um novo ciclo, dessa vez no sentido inverso. A lei do ritmo assegura que cada ciclo busque sua complementação.

Lei do Gênero

“O Gênero está em tudo: tudo tem seus princípios Masculino e Feminino, o gênero se manifesta em todos os planos da criação”

Os princípios de atração e repulsão não existem por si só, mas somente um dependendo do outro. Tudo tem um componente masculino e um feminino independente do gênero físico. É semelhante ao principio com o principio animas animus que Carl Jung e seus seguidores popularizaram, ou seja que cada pessoa contém aspectos masculinos e femininos, independente do seu gênero físico, nenhum ser humano é 100% homem ou mulher, e isso é até astrologicamente explicado, uma vez que todos somos influenciados por todos os signos (uns mais, outros menos), e metade do zodíaco é feminino, enquanto que a outra metade é obviamente masculina (Esse é mais um argumento que suporta a igualdade entre Deus/Hochma e Deusa/Binah dentro das Esferas da Kabbalah).

Em todas as coisas existe uma energia receptiva feminina e uma energia projetiva masculina, a que os chineses chamavam de Yin e Yang.

Lei de Causa e Efeito

“Toda causa tem seu efeito, todo o efeito tem sua causa, existem muitos planos de causalidade mas nenhum escapa à Lei”

Nada acontece por acaso, pois não existe o acaso, já que acaso é simplesmente um termo dado a um fenômeno existente e do qual não conhecemos e a origem, ou seja, não reconhecemos nele a Lei à qual se aplica.

Esse princípio é um dos mais polêmicos, pois também implica no fato de sermos responsáveis por todos os nossos atos e é muito mais cômodo deixar os acontecimentos ao “acaso” ou ao “divino”. Também é conhecido como Lei do Karma.

Hermes/Toth na Kabbalah

A Árvore da Vida representa um mapa dos estados de consciência humanos. Vamos falar mais detalhadamente sobre isso em posts futuros, mas vou fazer a referência agora e vocês podem retornar e ler novamente este texto mais tarde, ok?

Em razão de sua eloqüência e inteligência privilegiada, Mercúrio está associado na Kabbalah à oitava esfera (sephira), chamada Hod (explendor). Hod representa a razão pura, a lógica, a matemática, o ceticismo e os desertos dos códigos rígidos e cartesianos, em contraste com Netzach (Vênus) que representa a Emoção Pura.

Hod está associado ao Planeta Mercúrio, ao metal mercúrio, ao incenso de sândalo, Mastic e Storax, à cânfora, lavanda, lírios, marjoran e mirtila e ao caduceu. Seu elemento é o Ar.

Hod influencia os Caminhos Shin (31), a Inteligência Perpétua, conectando a Razão ao Plano Material, servindo de filtro entre as idéias que permeiam o mundo material e o que pode ser aproveitada delas (este é literalmente o caminho do despertar dos céticos), Resh (30), o Sol, que conecta a Razão ao Plano Astral, perfazendo a segunda trilha que um mago deve percorrer na consciência, usando a razão de maneira questionadora no Plano Astral, Peh (27), a Torre, o caminho turbulento que conecta a esfera da Razão Pura à esfera da Emoção Pura. Imaginar este estado de consciência é como colocar um fanático cético com um fanático religioso para discutir. Mais cedo ou mais tarde, a estrutura vai rachar ao meio. Da conexão entre Hod e Tiferet (Sol) há o Caminho 26, Ayin, o Diabo, o caminho da iluminação através da razão ou através do Caminho da Esquerda, como vocês já devem ter ouvido falar por aí. O famoso “Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei” e finalmente, o caminho 23, Mem, que liga a Razão às planícies de provação de Marte/Geburah, simbolizando a estagnação do Enforcado.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hermes-trismegistus-1

A História de Buda nos Puranas

Buda foi o fundador do Budismo. Alguns o consideram como uma encarnação de Viṣṇu. Em dias de batalha, os devas foram derrotados pelos asuras e os deuses se aproximaram de Viṣṇu com sua queixa. Mahāviṣṇu encarnou como o filho de Śuddhodana com o nome de Gautamabuddha (Siddhārtha). Então ele foi aos asuras e os fez rejeitar os Vedas e as suas leis. Todas os Daityas (Asuras) se tornaram budistas. Há uma história no Agnipurāṇa, Capítulo 16, que assim foi o propósito de Buda converter cada asura ao budismo e mandá-lo para o inferno.

A história dada acima está de acordo com os Purāṇas. A seguir estão os fatos obtidos pelas investigações históricas.

Gautama Buda nasceu em B.C. 560, em Kapilavastu, perto do Himālayas. Seu pai era Śuddhodana. Ele nasceu na família do Śākyas. A palavra ‘Śākya’ é outra forma da palavra Kṣatriya. O verdadeiro nome de Buda era Siddhārtha. Śuddhodana criou seu filho de tal forma que ele não deveria ser submetido a nenhum tipo de dor mental ou preocupação. Assim, ele manteve Buda distante do mundo exterior. Assim, ele passou sua infância em conforto e prazer. Uma vez por acaso, ele viu um homem doente, um homem velho e um cadáver. A visão o fez pensativo. Ele começou a pensar em uma maneira de remover a tristeza e a dor do mundo e de trazer paz e conforto.

A mudança que apareceu no filho preocupou o pai. Assim, aos dezesseis anos de idade, ele fez com que Siddhārtha se casasse com Yaśodharā. Um filho nasceu para eles. Mas a mente de Siddhārtha estava inquieta, angustiada e agitada. Um dia, Siddhārtha descartou tudo e saiu do palácio sozinho.

Siddhārtha vagueou de lugar em lugar aprendendo com vários professores. Mas ele não encontrou a paz. Uma vez, num dia de lua cheia, enquanto estava sentado em meditação sob uma figueira-de-bengala, ele recebeu “Bodha”. (percepção ou convicção). A partir daquele dia, ele começou a ser conhecido pelo nome de ‘Buda’. Depois disso ele veio a Kāśi, e contou a seus discípulos como conseguiu Bodha ou convicção. O número de seus seguidores aumentava a cada dia. Assim surgiu o budismo. Buda disse que a razão da dor e do sofrimento no mundo era o desejo e que o sofrimento só poderia ser exterminado controlando e superando todo desejo. Para alcançar a felicidade eterna, deve-se ser verdadeiro e justo em pensamento, ação e palavra e que “Não Matar” era o fundamento da retidão. O budismo se espalhou por toda parte em Bhārata.

Gautama Buda morreu com a idade de oitenta anos.

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Fonte: https://www.wisdomlib.org/hinduism/compilation/puranic-encyclopaedia/d/doc241488.html

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-historia-de-buda-nos-puranas/

A Ascensão Tifoniana: O Legado Mágico de Kenneth Grant

Matthew Levi Stevens

Onze anos após a morte do autor, ocultista e poeta britânico Kenneth Grant (1924-2011), estamos apenas agora começando a ver as primeiras tentativas de avaliar o impacto e o legado do homem que foi o último estudante e secretário do famoso Aleister Crowley, e que muitos acreditam ser seu sucessor natural.

Grant também foi um amigo próximo do mago artista Austin Osman Spare, apoiando-o em seus últimos anos, teve o padrinho de Wicca, Gerald Gardner, como um colega e às vezes rival, assim como durante seu tempo com Crowley e conheceu a Sacerdotisa da Nova Era, Dion Fortune. Como tal, Grant teve contato direto com quatro das figuras mais influentes do Renascimento Mágico e Místico dos meados do século XX.

Com relação a seu próprio trabalho, os nove volumes das três “Trilogias Tifonianas” de Grant escritos ao longo das três décadas de 1972 a 2003 – assim como vários volumes de ficção com temática oculta, e memórias das personalidades mágicas que ele encontrou – abrangem temas como Alquimia, Cabala, Controle de Sonhos, Egiptologia, Mitos de Cthulhu de H. P. Lovecraft, Caminho da Mão Esquerda, Magia Sexual, Surrealismo, Tantra, Thelema, Budismo Tibetano, Ufologia, Bruxaria e Vodu, que são um retrato único do Renascimento Oculto Moderno, assim como indiscutivelmente uma de suas correntes mais criativas.

Então, quem era exatamente Kenneth Grant?

Nascido em 23 de maio de 1924, muito pouco se sabe sobre os antecedentes de Grant ou sobre a sua biografia real. Ele era um homem intensamente reservado, que apesar – ou talvez até mesmo por causa – da natureza de seu trabalho e a notoriedade de seu mentor, Aleister Crowley, seguia uma rígida política de não divulgação, semelhante ao apagamento da história pessoal defendida nos livros de Carlos Castañeda.

Por sua própria natureza, algo como um jovem livreiro, sonhador, fascinado pela magia e pelo misticismo, o jovem Grant havia experimentado projeção astral e, aos 15 anos de idade, o que ele vivia eram contatos espontâneos de um ser que se chamava Aushik ou Aossic, que mais tarde identificaria como seu Santo Anjo Guardião. Grant tinha encontrado Magick In Theory and Practice (Magia em Teoria e Prática) de ‘Mestre Therion’ (um pseudônimo de Crowley’s) na livraria Charing Cross Road, Zwemmer’s, e, sentindo aqui talvez uma chave para entender – ou mesmo controlar – suas experiências, convenceu Michael Houghton, proprietário da Livraria The Atlantis Bookshop, a colocá-lo em contato com o autor. Houghton declinou, no entanto – as razões para isso não são claras – mas o que é um assunto de registro é que Grant, depois de escrever pela primeira vez, finalmente se encontrou com Crowley. Era dezembro de 1945, e quando eles apertaram as mãos pela primeira vez a música Shine On Harvest Moon estava tocando no rádio em segundo plano.

Foi assim que o jovem Kenneth Grant se tornou, por um tempo, um assistente-secretário do velho Magus ao abandonar Londres devastada pela Blitzkrieg, pela paz, tranquilidade e relativa segurança de uma hospedaria na costa sul. Foi em ‘Netherwood’ em Hastings, onde A Grande Besta terminou seus dias apenas três curtos anos depois, que Grant se tornaria aprendiz da Magia de Crowley a sério, e seria iniciado em sua Ordo Templi Orientis, conheceria pessoas como Dion Fortune, Gerald Gardner e Lady Frieda Harris, a artista talentosa que ilustrou o superlativo Livro do Tarô de Toth de Crowley. Ele também tomou conhecimento da ainda extensa rede de correspondência de Crowley com ocultistas no exterior – tais como Karl Germer e Eugen Grosche na Alemanha, e Jane Wolfe, W. T. Smith e Jack Parsons na América. Por um tempo, parece até que a Besta envelhecida estava preparando o jovem Grant para ser um possível sucessor, referindo-se a ele como um “Presente dos Deuses“, e anotando em seu diário:

“…o valor de Grant. Se eu morrer ou for para os EUA, deve haver um homem treinado para cuidar da OTO inglesa.”

Mas mesmo nesta fase inicial, a propensão de Grant para o devaneio e para o outro mundo desnorteou e frustrou o homem mais velho, que – afinal de contas – procurava assistência prática, no dia-a-dia, em primeiro lugar, e treinar um herdeiro, em segundo. Finalmente tudo se tornou demais – particularmente para Grant, que sentia falta de sua noiva Steffi – e Crowley o deixou ir, mas não antes de iniciar Grant no Grau IXO da O.T.O. e de fornecê-lo com uma Carta para montar um acampamento da Ordem.

Pouco antes da morte de Crowley, Grant também conheceu um homem que mais tarde provaria ser quase tão influente sobre ele quanto A Grande Besta: embora mais na forma de uma eminência parda, que influenciou Grant nos bastidores. Ele forneceu uma iniciação e inspiração que teve um impacto definitivo na reformulação da Thelema de Grant, no propósito e rituais do ramo da O.T.O. que ele fundou, e muito do foco das suas Trilogias Tifonianas. Seu nome era David Curwen.

Um alquimista praticante e aluno do Tantra, que havia dado o passo da devoção a um guru indiano – incomum para um ocidental na época – David Curwen foi mencionado pela primeira vez nas memórias de Grant de 1991, Remembering Aleister Crowley (Relembrando o diário Aleister Crowley):

“David Curwen foi mencionado pela primeira vez nos diários de Crowley, em 2.9.1944. Quando o conheci, pouco antes da morte de Crowley, ele era membro do IX° O.T.O. Sua paixão pela Alquimia era tão grande que ele quase morreu depois de absorver o ouro líquido. Seu conhecimento do Tantra era considerável. Foi através de Curwen que recebi, eventualmente, a iniciação completa em uma fórmula altamente recôndita do Tântrico vama marg.”

Ao discutir a tentativa de Crowley de formular um “elixir” como parte de seu trabalho da magia sexual, Grant menciona um detalhe de relevância fundamental para sua posterior tecelagem de Tantra e Thelema, que seria essencial para sua própria jornada de iniciação:

“Existe um documento relativo a esta fórmula compilado pelo antigo guru de Curwen, um tântrico do sul da Índia. É na forma de um extenso comentário sobre um texto antigo da Escola Kaula. Curwen emprestou a Crowley uma cópia do mesmo.”

O documento em questão era uma cópia do Anandalahari, ou a “Onda de Felicidade“, anotado pelo guru sul-indiano de Curwen e com um Comentário explicando o simbolismo fisiológico – e explicitamente sexual -. Isto forneceu a Grant a chave para desvendar os mistérios ocultos dos Textos Sagrados em Sânscrito, a partir dos quais ele foi capaz de desenvolver – com a ajuda de Curwen – uma visão mais profunda do Tantra do que seu antigo mentor jamais havia conseguido:

Nas instruções que acompanham os graus superiores da O.T.O., não há um relato abrangente do papel crítico dos kalas, ou emanações psicossexuais da mulher escolhida para os ritos mágicos. O comentário foi um abrir de olhos para Crowley, e explicou algumas de suas preocupações durante minha estada no ‘Netherwood’. Estas envolviam uma fórmula de rejuvenescimento. Faltava ao O.T.O. algumas chaves vitais para o verdadeiro segredo da magia que Crowley afirmava ter incorporado nos graus mais altos. Curwen, sem dúvida, sabia mais sobre estes assuntos do que Crowley, e Crowley ficou irritado com isso.

Apesar de suas credenciais externas como ocultista e às vezes transgressor, como um bissexual promíscuo e drogado, Aleister Crowley ainda era, em muitos aspectos, um produto de seu tempo: ele pode não ter sido um misógino, mas sofria de um chauvinismo masculino, todo típico de sua origem vitoriana, privilegiada e branca. Ele também tinha pouco ou nenhum conhecimento do autêntico Tantra de fontes originais, enquanto quando eu troquei cartas e me encontrei brevemente com Kenneth Grant em 1981, ele deixou claro que apesar de sua dedicação de toda sua vida a Crowley e à Lei de Thelema, realmente seu “primeiro amor”, espiritualmente falando, foi o Advaita Vedanta. Esta antiga filosofia hindu da não-dualidade afirma que Atman, ou o Verdadeiro Eu, não é essencialmente diferente do Princípio Universal mais Elevado, ou Brahman. Grant se tornaria por um tempo, nos anos 50, um seguidor do Sábio de Arunachala, Bhagavan Sri Ramana Maharshi, e via sua meditação essencial “Quem sou eu?” como equiparada à busca de Thelema de realizar a Verdadeira Vontade de alguém, escrevendo:

“O espírito natural do Oriente, em sua rotunda mais profunda, está em total concordância com a doutrina de Thelema. Que isto pode ser provado comparando os princípios básicos de Thelema com o Caminho Chinês do Tao, a doutrina Vedântica de Advaita e a filosofia central do Tantricismo Hindu e Budista.”

Vários artigos que Grant escreveu para as revistas anglo-indianas foram posteriormente reunidos e publicados como At the Feet of the Guru (Aos Pés do Guru).

Depois de um período de associação com Gerald Gardner – que também era membro da O.T.O., também com um estatuto para criar um acampamento (embora não haja evidências de que ele alguma vez o tenha utilizado) – Grant criaria um Grupo de Trabalho próprio, “evoluído… para fins de tráfego com os Outer Ones (Exteriores)”, do qual ele escreveu:

“Entre os anos 1955-1962, eu estava envolvido com uma Ordem oculta conhecida como New Ísis Lodge (Nova Loja Ísis). Ela funcionava como uma filial da Ordo Templi Orientis (O.T.O.), com sede em Londres. Fundei a Loja para canalizar transmissões de fontes transplutônicas… O corpo dessas transmissões forma a base das Trilogias Tifonianas.”

Isto causou uma briga com Karl Germer, chefe nominal da O.T.O. quando da morte de Crowley, que sentiu que Grant havia excedido sua autoridade. Houve também conflitos de personalidade porque a New Ísis Lodge havia emitido um manifesto em conjunto com o antigo Grão-Mestre da Fraternitas Saturni alemã, Eugen Grosche, com quem Germer havia se desentendido anteriormente – o resultado foi a expulsão de Grant da Ordem. Este Grant desconsiderou, entretanto, considerando sua autorização de ter vindo do próprio Crowley, e também seus próprios contatos dos “Planos Interiores”. Assim começou a separação dos caminhos entre a Ordem Tifoniana de Grant e o chamado ‘Califado’ O.T.O. reformulado na América por Grady McMurtry.

Uma chave para entender a noção de ‘Gnose Tifoniana é a identificação enfática de Kenneth Grant com Tifón – uma entidade monstruosa da mitologia grega, líder dos Titãs, que fazem guerra contra os deuses do Olimpo, e decididamente feminina – como a Mãe de Set. Grant não hesita em se apropriar deste gigantesco monstro ctônico, de múltiplas asas e membros de cobra, Tifón Primordial, como um avatar da Grande Mãe, ou seja, da própria “Mãe Natureza”, e ousadamente afirma:

“Ela tipificou a primeiro progenitora numa época em que o papel do macho na procriação era insuspeito. Como ela não tinha consorte, ela era considerada uma deusa sem um deus, e seu filho – Set – sendo sem pai, também não tinha deus e era, portanto, o primeiro ‘diabo’, o protótipo do Satã das lendas posteriores.”

Em relação a Set – uma figura sombria e primordial da potência bruta do Egito aborígine, pré-dinástico, mais tarde lançado como o assassino do deus-rei Osíris e depois protótipo do “Deus contra os deuses” – Grant escreveu no prefácio da edição de 1990 do que havia sido originalmente seu primeiro livro, O Renascer da Magia:

“Para nós, que temos o conhecimento interior, herdado ou vencido, resta restaurar os verdadeiros ritos de Átis, Adônis, Osíris, de Set, Serápis, Mitra, e Abel”.

Estas palavras de Aleister Crowley me inspiraram quando jovem e, imaginando-me como um daqueles a quem eram dirigidas, logo descobri que, por alguma razão, não fui capaz de entender que era o deus Set que eu estava sendo chamado a honrar. Assim, tomei a mim mesmo a tarefa de penetrar nos Mistérios deste, o mais antigo dos deuses, e traçar a história de seus ritos desde uma antiguidade indefinida até os dias de hoje.

Os Mistérios Egípcios formam em grande parte o núcleo da Tradição Mágica Ocidental e foram certamente a base para os mitos e rituais da  Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), onde Crowley tinha aprendido a maior parte do que precisava para seu desenvolvimento posterior. O Antigo Egito como fonte de poder sobrenatural sancionou seu papel como Profeta, e construiu sobre o Éon de Horus de Crowley e O Livro da Lei, tanto quanto Grant cuja principal fonte para sua Gnose Tifoniana foi o controverso trabalho do egiptólogo esotérico autodidata, Gerald Massey.

Em obras monumentais como o Natural Genesis and Ancient Egypt: The Light of the World (Gênesis Natural e o Egito Antigo: A Luz do Mundo), Massey expôs em termos inequívocos o que ele afirmava ser a base afrocêntrica e fisiológica da Gnose: “Os mais antigos símbolos e religiões têm origem na África”. Ele concebeu o Tifón como equivalente à Tauret egípcia, ou Ta-Urt, o hipopótamo “Senhora da Casa de Nascimento”. Ela era a Deusa das Sete Estrelas do Norte (A constelação da Ursa Maior), e seu filho era a Estrela da (Constelação) do Cão (Maior), Sothis ou Sírius (igualado a Set), cuja ascensão heliacal aparecia acima do horizonte pouco antes da inundação do Nilo. A palavra “Tifoniano” se referia àqueles que adoravam esta Deusa Primordial, e os membros de Seu Culto Estelar haviam fugido para o Oriente, levando sua sabedoria com eles, quando os adoradores do Culto Solar ganharam a ascendência. Em muitos aspectos, a maior inovação de Kenneth Grant foi ligar esta Tradição Tifoniana ao Ocultismo Moderno.

Enquanto Grant se baseava extensivamente nas obras de outros ocultistas que o precederam – Blavatsky, Crowley, Fortune, Grosche, Spare – e citou acadêmicos e estudiosos, do sexólogo pioneiro Havelock Ellis ao ‘Egiptosofista’ Gerald Massey, ele também tinha o curioso hábito de referenciar obras de ficção com a uma aparente mesma seriedade. Assim, as discussões sobre a Sabedoria Estelar e a sobrevivência do culto pré-dinástico do primeiro Egito podem incluir, assim como referências a fontes arqueológicas, também material especulativo extraído dos Registros Akáshicos. Comparações com escritos sobre Tantra e Vodu são todas misturadas com as histórias de terror de Bram Stoker, as pulp novels (romances de celulose) de Sax Rohmer, a ficção sobrenatural de Arthur Machen e os ‘Contos Estranhos’ de H. P. Lovecraft.

Grant tinha uma afeição especial por Lovecraft, aparentemente acreditando que ele estava “em alguma coisa” – que seu temido grimório, O Necronomicon, de fato existia no plano astral, e que HPL (Lovecraft) tinha apreendido isso através de seus sonhos, mas era incapaz de aceitar a “verdade” do que ele tinha discernido – que ele era, de fato, um mago inconsciente. Para aumentar a aparente confusão, em várias obras Grant deu relatos – alegadamente dos Anais de sua Nova Loja Ísis – que parecer como algo da prosa roxa de escritores de horror sobrenaturais, e falou de personagens fictícios como se fossem “reais” – e então em suas obras supostamente fictícias ele se baseou em elementos presumivelmente biográficos de sua própria vida, também personagens e locais “reais”.

A meu ver, este exame excessivamente literal de certos escritos, tais como Grant – ou mesmo Carlos Castañeda, com quem às vezes foi comparado – pode passar despercebido. Se Don Juan ‘realmente’ transformou Castañeda em um corvo, ou se eles saltaram da montanha juntos – ou se Crowley ‘realmente’ perguntou a Kenneth Grant se eles eram parentes distantes por meio de um primo compartilhado em um clã estendido, que por acaso estava de posse de uma herança de família na forma de um grimório documentando seu tráfego de gerações – com inteligências de outros mundos – não está nem aqui nem lá. O que Grant está tentando enfatizar – do que ele era um indubitável Mestre – é o uso da ficção ou literatura como uma forma de Glamour mágico.

As palavras podem tecer mundos, as palavras podem conjurar fantasmas – as palavras podem transportar, transformar, e alterar a consciência – o único limite sendo a imaginação. É preciso lembrar que a imaginação se preocupa com a criação de imagens, em cujo respeito está diretamente relacionada à Antiga Heka egípcia: uma palavra que significava tanto “Magia” quanto “a criação de imagens”. O rol de escritores que também eram magos – ou, alternativamente, ocultistas que empregam a ficção como meio de expressar conceitos mágicos – é longa e distinta.

O próprio Grant segue as pegadas de Aleister Crowley e Dion Fortune, ambos com um passado na Golden Dawn e seus descendentes, assim como Algernon Blackwood, J. W. Brodie-Innes, Arthur Machen, Sax Rohmer, Bram Stoker e A. E. Waite. Grant viu as implicações ocultas no trabalho de tais escritores como não sendo tão diferentes das suas próprias:

“Machen, Blackwood, Crowley, Lovecraft, Fortune e outros, frequentemente usaram como tema para seus escritos o influxo de poderes extraterrestres que têm moldado a história de nosso planeta desde o início dos tempos…”

Assim como outros poetas e escritores decadentes e simbolistas, como Baudelaire, Huysmans, Lautréamont e Rimbaud, pintores surrealistas como Salvador Dali, Paul Delvaux, Max Ernst e Yves Tanguy tem uma apreciação especial. Dali em particular foi elogiado como “Um dos maiores magos de nosso tempo” – com Grant passando a explicitar a comparação deste com Spare:

“Spare já havia conseguido isolar e concentrar o desejo em um símbolo que se tornou senciente e, portanto, potencialmente criativo através dos relâmpagos da vontade magnetizada. Dali, parece, levou o processo um passo adiante. Sua fórmula de ‘atividade paranóico-crítica’ é um desenvolvimento do conceito primordial (africano) do fetiche, e é instrutivo comparar a teoria de Spare de ‘sensação visualizada’ com a definição de Dali de pintura como ‘fotografia colorida feita à mão de irracionalidade concreta’. A sensação é essencialmente irracional, e sua delineação em forma gráfica (“fotografia a cores feita à mão”) é idêntica ao método de Spare de “sensação visualizada”.”

A ênfase no uso de tal criatividade, carregada de intenção mágica e dirigida pela vontade treinada, é um conceito chave da Gnose Tifoniana:

“Dion Fortune enfatizou a importância do devaneio conscientemente controlado. Baseando suas práticas em aspectos dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, ela demonstrou o valor mágico do “sonho verdadeiro”, uma expressão derivada do romance de George du Maurier, Peter Ibbetson. A teoria é que se alguém tece um sonho diurno com intensidade suficiente induz a uma abstração tão total dos sentidos que o sonhador se funde num sonho acordado, no qual ele é o criador e mestre de suas próprias fantasias. Se poderosamente formuladas, estas concretizam, reificam e assumem uma realidade igual em grau – e muitas vezes maior – àquela que é experimentada na consciência desperta comum. As vantagens de ser capaz de induzir tal estado são evidentes.”

Talvez mais do que qualquer outro escritor ocultista moderno, Grant enfatizou a importância, potencial e poder de tal criatividade, escrevendo em Aleister Crowley & O Deus Oculto que, “A Grande arte é sempre simples… a verdadeira arte expressa a Eternidade”. Desde o início, a arte de Austin Osman Spare e a esposa de Grant, Steffi, é essencial para a função das Trilogias Tifonianas – o texto ilustra as figuras tanto quanto as figuras ilustram o texto. Mais tarde, em Outside the Circles of Time (Fora dos Círculos do Tempo), Grant escreve a respeito de artistas como Dali, Sidney Sime, Spare, e Tanguy:

“Estes artistas deram um salto em outras dimensões e – este é o ponto importante – voltaram para registrar suas experiências extradimensionais… A arte, no sentido verdadeiro e vital, é um instrumento, uma máquina mágica, um meio de exploração oculta que pode projetar o vidente no reino do invisível, e lançar a mente desperta nos mares do subconsciente.”

Por mais que as obras de Kenneth Grant possam ser documentos inestimáveis da evolução do ocultismo contemporâneo – assim como registros da contribuição de muitas das figuras pioneiras com as quais ele teve contato pessoal – é de se esperar que a maior contribuição de seus livros seja como catalisadores mágicos para o leitor que está preparado para abordá-los sob a mesma luz. Como escreveu a antiga protegida de Grant, Sacerdotisa da Magia de Maat, Nema: “Estes não são apenas livros sobre Magia; são livros que são Magia”.

Usados como portais para o Nightside (Lado Noturno), os nove volumes das Trilogias Tifonianas – assim como os vários outros livros de Grant – podem finalmente servir como guias para aquele lugar de exploração e inspiração além de distinções como ‘fato’ e ‘ficção’ que ele gostava de chamar de “a Zona Malva”.

Como tal, eles podem servir como plataformas de lançamento ou mesmo veículos para aquele lugar que cada um de nós precisa encontrar por si mesmo: o lugar onde a Magia acontece.

Finalmente, para concluir, sei que uma imagem de Grant é frequentemente pintada como autocrático, até mesmo autoritário da “Velha Escola”, o que pode muito bem ter sido assim – várias pessoas me levaram a acreditar que ele era realmente mais fácil de lidar se você não fosse um membro da sua Ordem Tifoniana! – mas não há dúvida da sua óbvia dedicação ao Feminino Daemônico (ou Demoníaco). A  Fellowship of Isis (Irmandade de Ísis), que Grant apoiou, afirmou que ele era “totalmente a favor da Deusa”. Sua defesa da obra de Dion Fortune, de Marjorie Cameron – numa época em que a maioria das pessoas, se é que tinham conhecimento dela, apenas a consideravam como a “viúva de Jack Parsons” – seu encorajamento ativo às sucessivas gerações de mulheres fortes ocultistas, como Janice Ayers, Jan Bailey, Linda Falorio, Margaret Ingalls (a supracitada Nema), Mishlen Linden e Caroline Wise – assim como sua devoção vitalícia à sua esposa, a artista Steffi Grant, cujas obras complementam e ilustram vividamente seus livros – todas atestam isso.

Retrato de Steffi e Kenneth Grant, por Austin Osman Spare.

Sendo o último elo vivo* com Aleister Crowley, Gerald Gardner, Eugen Grosche e Austin Osman Spare, o legado de Kenneth Grant ainda está para ser totalmente avaliado e não voltaremos a ver algo semelhante a ele novamente.

* Kenneth Grant faleceu em janeiro de 2011 aos 86 anos.


Fonte: Tifon Rising: The Magical Legacy of Kenneth Grant.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-ascensao-tifoniana-o-legado-magico-de-kenneth-grant/

Pitágoras, o Grande Iniciado

Pitágoras foi um dos vultos mais elevados deste ciclo de civilização. Nasceu na ilha de Samos, na Jônia (Grécia) no ano 585 AC. Quando ainda criança ele foi levado para residir no Líbano, onde um sacerdote disse à sua mãe: “Ó mulher Jônica, teu filho será grande pela sabedoria; os gregos já possuem a ciência dos deuses, mas a ciência de Deus só se encontra no Egito”. Sua mãe, então, resolveu mandar o jovem Pitágoras para o Egito a fim de obter a sua iniciação.

Portador de uma carta de apresentação endereçada ao Faraó Amasis, Pitágoras chegou ao Egito e foi pelo próprio faraó recomendado aos sacerdotes de Menfis que o aceitaram com reservas. Em Menphis o jovem submeteu-se com inquebrantável vontade às provas iniciáticas. Sua iniciação completa durou 22 anos. Foi após esse longo tempo de preparação que ele teve uma visão sintética da essência da vida e das formas, compreendendo a involução do espírito na matéria ( a queda ), mediante a criação universal e a sua evolução ( ascensão ) rumo à unidade pela criação pessoal, que se chama desenvolvimento da consciência.

Ainda estava Pitágoras no Egito por ocasião em que Cambisses invadiu aquele país, levando os dirigentes como escravos. Assim, Pitágoras acompanhou os escravos para a Babilônia onde foi iniciado nos conhecimentos deixados por Zoroastro (Fundador do Mazdeismo, a religião predominante na Pérsia).

Os sacerdotes egípcios tinham altos conhecimentos das ciências sagradas, mas eram os magos persas os que tinham os maiores desenvolvimento nas práticas mágicas, na manipulação das leis ocultas da natureza. Diziam-se capazes de dominar as potências ocultas da natureza, que denominavam de o fogo pantomorfo e de a luz astral. Há registros que dizem que nos templos persas as lâmpadas ascendiam-se por si, deuses brilhavam com luzes desconhecidas, surgiam raios e trovões. Os magos denominavam “leão celeste”, “fogo incorpóreo”, o gerador daqueles raios.

Por certo os sacerdotes tinham conhecimentos e dominavam muitos fenômenos elétricos, gerando de alguma forma eletricidade. Também mantinham controle sobre fenômenos atmosféricos despertando correntes elétricas na atmosfera e manipulações magnéticas desconhecidas das pessoas da época, muita ainda desconhecidas da ciência atual.

Os sacerdotes da Babilônia tinham grandes conhecimentos do poder sugestivo, atrativo e criativo da palavra humana.

Assim, na Babilônia, Pitágoras penetrou nos arcanos da antiga magia persa. A religião da Pérsia, embora já totalmente degenerada naquela época, mesmo assim ainda havia um grupo de iniciados unidos defensor de uma autêntica ciência oculta. Iniciados que defendiam a sua fé e também a Justiça, e secretamente enfrentavam os déspotas, fascinavam, muitas vezes dominavam o poder absoluto dos governantes.

Depois da iniciação egípcia e caldaica Pitágoras, ainda jovem, já sabia mais que todos os seus mestres e do que qualquer grego de seu tempo. Durante todos aqueles anos ele tomou ciência de fartos conhecimentos secretos, tornando-se sabedor da verdadeira natureza da humanidade e de grande parte da sua verdadeira história, de tudo aquilo que a “conjura do silêncio” a todo custo tentava ocultar ou que havia deformado. Sabia sobre religiões, continentes e raças totalmente desaparecidas.

Com o seu enorme conhecimento ele teve condições de fazer estudo comparado de todas as religiões tanto ocidentais quanto orientais. Estava consciente da força negativa e do obscurantismo importo pela “conjura” que havia imposto sua pesada mão e jugo aos egípcios, e depois à própria Babilônia e Pérsia (onde esteve por cerca de 12 anos). Pitágoras prevendo que o passo seguinte seria a Europa se antecedeu e voltou à Grécia, de onde havia passado cerca de 34 anos ausente.

Voltando à Grécia teve a alegria de ainda encontrar com vida o seu Primeiro Grande Mestre, assim com a sua mãe. Sabedor que o próximo passo do domínio da conjura seria a Grécia tomou a decisão de partir para um lugar onde pudesse fundar uma escola iniciática para legar à humanidade muitos conhecimentos, entre eles os matemáticos, dos quais o mais conhecido é o “Teorema de Pitágoras”. Juntamente com a sua mãe foi se fixar em Crotona no golfo de Tarento na Itália Meridional. Ele pretendia fundar um centro, não apenas para ensinar a doutrina esotérica a um grupo de discípulos escolhidos, mas também para aplicar seus princípios à educação, à mocidade e à vida do Estado. Pretendia fundar uma instituição com a intenção de ir transformando aos poucos a organização política das cidades e estados. É compreensível que bastaria isso para acirrar ódios e perseguições.

Grande matemático, Pitágoras legou importantes conhecimentos à humanidade, e por outro lado foi também um místico proeminente. Estabeleceu um sistema político, além do movimento religioso e educativo e que foi considerado aristocrático e ditatorial. Platão, assim como Aristóteles foram discípulos da Escola Pitagórica. O que Platão escreveu na sua obra “A Republica” teve como base os ensinamentos da Escola Pitagórica.

Pitágoras, por defender o principio da autoridade, hoje seria tido como um ditador, como um opressor, mas na realidade nada disso é verdade, o que pode ser comprovado pelos seus atos pessoais, como veremos depois. Na realidade ele defendia acirradamente o principio da autoridade, e não podia ser diferente. Ele fora iniciado em escolas iniciáticas em que havia uma rígida obediência hierárquica e vivido sobre regimes títeres e escravagistas. Como já dissemos em outras palestras o sistema iniciático era muito rígido como uma forma de defesa contra a mão impiedosa da “conjura”. Também se deve ter em conta que as escolas iniciáticas do Egito descendiam da Civilização Atlântida onde o poder era controlado com rigor pela religião e pela ciência e vice-versa.

O sentido de ordem e respeito estabelecido por Pitágoras, propugnador de um estado hierárquico, fez com que muitos o perseguissem. Se, por um lado, ele tinha uma plêiade de seguidores e de admiradores, também ocorria o inverso, como uma decorrência de Crotona ser uma cidade já degenerada por vícios, com forte tendência à vida voluptuosa, como acontecia na vizinha Sibaris, tida como uma das mais devassas cidades daquela época. Suscitou uma verdadeira revolução nos costumes. Procedia mais como um mágico do que como um filósofo. Reunia os rapazes no templo e com sua eloqüência conseguia afastá-los da vida debochada de então, fazia com que abandonassem até mesmo as suas vestes luxuosas. A beleza da sua fisionomia, a nobreza da sua pessoa, o encanto dos seus traços e da sua voz, concorriam para o fascínio que exercia sobre as pessoas, de modo que as mulheres o comparavam a Júpiter, os rapazes a Apolo.

O Senado de Crotona – o Conselho dos Mil – então começou a se preocupar com o prestígio de Pitágoras e por isso ele foi intimado a dar explicações sobre a sua conduta. Nesta fase foi quando ele criou um Instituto para atender aos seus discípulos. Uma confraria de iniciados com vida comunitária, onde havia um sistema iniciático exigente. Dizia Pitágoras: “Não é qualquer madeira que serve para fazer-se mercúrio”.

No Instituto Pitagórico dava-se grande importância também ao lado físico, por isso era cultivada a prática de ginásticas e exercícios diversos. Ali os que tentavam a iniciação antes tinham que passar por provas sérias, muitas vezes sarcásticas; passava até mesmo por humilhações, cujo objetivo era evidenciar o verdadeiro desejo de saber e a sinceridade do iniciando. Isso gerou inimigos entre os noviços fracassados. Um deles, o Cilon, mais tarde amotinou o povo contra os pitagóricos, levando a cabo o incêndio e o saque do Instituto em que os principais dirigentes morreram e dizem que o próprio Pitágoras. (Dizem que ele conseguir escapar com vida juntamente com uns poucos adeptos).

As controvérsias existentes em torno dos ensinamentos pitagóricos, sobre suas idéias e ensinamentos motivaram ódios tanto por parte do povo quanto dos governantes. Incitados por Cilon isto motivou a destruição do Instituto, mas como não se mata facilmente uma idéia os ensinamentos perduraram por mais de dez séculos e ainda existem até o presente.

Com o intuito de serem evitadas perseguições às pessoas, durante séculos os ensinamentos pitagóricos foram sendo transmitidos através de confrarias e sociedades secretas, entre essa a célebre Ordem Pitagórica que subsiste até hoje funcionando de forma oculta, com caráter rígido de seleção e mantendo um sistema iniciático bem rigoroso. É uma dessas ordens secretas em que não se chega à ela diretamente, mas somente por indicação de outras ordens preliminares. Por outro lado existiram e existem ainda muitas organizações que se intitulam de pitagórica por estudarem a doutrina, mas que na realidade não são autênticas. Algumas estudam com sinceridade e honestidade os princípios pitagóricos mesmo que não mantenham vínculos diretos com a ordem original; mas por outro lado também existem aquelas que usurpam o nome apenas, que nada sabem, nada ensinam de autêntico e quando não, apresentam ensinamentos outros com intenções espúrias.

Por José Laércio do Egito – F.R.C.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/pit%C3%A1goras-o-grande-iniciado

14 sabedorias de Joseph Campbell

por André Camargo

Joseph Campbell é o cara que criou aquela história da ‘Jornada do Herói’. É também o cara daquele documentário incrível, ‘O Poder do Mito’. Já ouviu falar?

Eu gosto muito. 🙂

Sabe aquela pilha de livros que você morre de vontade de ler, mas nunca dá tempo? Essa pilha só cresce, né?

Imagina que o cara tava lá, contrariado com as exigências arbitrárias do doutorado, e resolveu largar a coisa toda. Aí, alugou um casebre no meio do mato e passou ali, sozinho, os cinco anos seguintes.

Fazendo o quê?

Lendo.

9 horas por dia, todos os dias.

Segundo ele, o período de estudo e recolhimento foi a base de toda sua vida futura, assim como do conjunto de seu pensamento.

O cara leu todos os livros que ele queria, do jeito que ele queria, no tempo dele.

Uau.

Essa é uma passagem emblemática na biografia do cara. Como você verá, o pensamento de Joseph Campbell é um monumento à coragem de viver a vida nos próprios termos.
[Sugestão de Consumo] Vá com calma. Leia cada citação pelo menos duas vezes, antes de seguir em frente.

__________

(1) “A gente precisa se dispor a abrir mão da vida que planejamos a fim de encontrar a vida que espera por nós.”
Deixar-se guiar pelo próprio coração — e não por planos. Abrir mão do desejo de controle. Destemor e confiança. Abertura. Permitir que o que é vivo em nós se manifeste e nos direcione.

(2) “Qualquer que seja seu destino, o que quer que aconteça, diga: “Isso é o que eu preciso”. Pode parecer devastador, mas olhe para aquilo como uma oportunidade, um desafio. Se você trouxer amor para aquele momento — não desencorajamento — perceberá que existe força naquilo.”
Essa é a filosofia do Amor Fati, de Nietzsche. A Força que vem da aceitação incondicional; render-se incondicionalmente à Vida. Requer uma alta dose de desapego. E, de acordo com a sabedoria oriental, premia com a maior das liberdades.

(3) “Você é o herói (ou heroína) da própria história.”
Na real, acho que a maior parte das pessoas, hoje, vive como coadjuvante da própria história. O que é muito triste e não tem nada de heroico. O desafio é sair da periferia da vida, da posição de vítima das circunstâncias, e tomar a vida nas próprias mãos. O que te faz herói ou heroína é tornar-se a um tempo autor/a e protagonista da própria história.

(4) “A caverna em que você teme penetrar guarda o tesouro que você busca.”
A noite escura da alma, que, dizem, precede o despertar de uma nova consciência. Na linguagem da Jornada do Herói, passamos pela Provação Suprema, o encontro com a Sombra, antes de podermos encontrar o Elixir que cura todas as dores.

(5) “Não acredito que as pessoas estejam buscando pelo sentido da vida, tanto quanto pela experiência de se sentirem vivas.”
O sentido da vida, para ele, não é um tipo de enigma a ser solucionado; o sentido da vida é estar vivo. Estar plenamente vivo dá sentido à existência.

(6) “Siga o que enche seu coração de alegria e o universo abrirá portas onde antes só existiam muros.”
Follow your Bliss. Essa frase é considerada a quintessência do pensamento de Campbell. E bliss é uma palavra danada. Ninguém consegue traduzir direito. Então, eu optei por uma expressão: ‘bliss’ = ‘o que enche seu coração de alegria’. A origem do termo, segundo Campbell, é o sânscrito: ‘ananda’. Que significa êxtase, beatitude ou felicidade suprema.

(7) “O maior privilégio da vida é ser quem você é.”
Sócrates ecoa o Oráculo de Delfos: “Conhece a ti mesmo”. Já ouviu isso? Para os gregos antigos, cumprimos nosso destino humano ao amadurecer as sementes de realização que se manifestam por meio de nossos dons e talentos únicos. Nietzsche reformula: “Torna-te quem tu és”.

(8) “A vida não tem sentido. Cada um de nós tem sentido e nós o atribuímos à vida. É bobagem fazer a pergunta quando você é a resposta.”
Essa é matadora! A vida tem o sentido que a gente dá. Nós mesmos somos a resposta para a questão do sentido da vida… Basta se encarar no espelho.

(9) “A vida é como chegar atrasado ao cinema, ter de sacar o que tava rolando sem perturbar todo mundo com um monte de perguntas, e aí ser inesperadamente chamado de volta antes de descobrir como o filme acaba.”
Adoro essa imagem! Uma metáfora da condição humana simplesmente… cinematográfica.

(10) “O objetivo da vida é sintonizar a batida do seu coração com a batida do universo, sintonizar sua natureza com a Natureza.”
Isso é muito lindo. Como o coração do bebê, que bate no mesmo ritmo que o coração da mãe. Assim é. Assim é.

(11) “Se você de fato segue o que enche seu coração de alegria, você se coloca em um tipo de caminho que sempre esteve lá, à sua espera, e a vida que você deveria estar vivendo é a vida que você está vivendo.”
Como uma semente caída no asfalto. Pode ficar um bom tempo ali, congelada. Se, no entanto, alguma força externa a conduz até um punhado de terra fértil, ela naturalmente se reconecta com a verdade de seu Ser, seu potencial de realização. Ela desabrocha, cresce, floresce, frutifica. Pois aquele solo sempre esteve lá, à sua espera, e a nova vida que ela passa a viver é de fato a vida que ela deveria estar vivendo.

(12) “De repente, você é atirado/a na situação de estar vivo. E a vida é dor, e a vida é sofrimento, e a vida é horror, mas — meu Deus — você está vivo, e isso é espetacular.”
Para Joseph Campbell (assim como na maior parte das filosofias orientais), faz mais sentido substituir a ânsia por saber, essa busca ansiosa por respostas, pela experiência de deslumbramento, de arrebatamento, de assombro e deleite diante do mistério.

(13) “O mundo sem espírito é uma terra devastada. As pessoas têm a ideia de salvar o mundo mudando as coisas de lugar, mudando as regras, e quem está em cima e assim por diante. Não, não! Qualquer mundo é um mundo válido se está vivo. A coisa a fazer é trazer vida a ele, e a única forma de fazer isso é encontrar em si mesmo onde a vida está e tornar-se vivo você mesmo/a.”
A aridez de viver apartado de si! Lembro bem. Sempre me pergunto: como colocar meus dons e talentos, minha pulsação, para fortalecer o que serve à vida —  em qualquer situação?

(14) “Não podemos curar o mundo de seus pesares, mas podemos escolher viver com alegria.”
Um antídoto para a onipotência. Acho que a única maneira de, verdadeiramente, salvar o mundo é salvar a nós mesmos primeiro. Um ser humano plenamente realizado é a mais profunda inspiração para cada um de nós.

#Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/14-sabedorias-de-joseph-campbell

Queima ele, Jesus! – parte I

Postado no Sedentário em 24.09.2008.
Depois destes últimos meses estudando a origem dos demônios inventados pela Igreja Católica e fartamente utilizados pelas evangélicas, vamos retornar no Tempo e passar para dois temas que vocês estavam aguardando: Templários e Rei Arthur. Como veremos a seguir, estas duas histórias estão diretamente associadas aos descendentes de Jesus e Maria Madalena, bem como a guerra política, religiosa e mágica que Roma travou com os ocultistas/cientistas por mais de 1.600 anos.
Para quem chegou agora, eu recomendo ler os posts antigos Bota o Natal na conta do Papa, Yod-He-Shin-Vav-He e Maria Madalena, Pitágoras e Buda, os professores de Jesus e finalmente Seria Yeshua um x-men?
Continuemos, então, com um pouco de história antiga…

Terminamos nossa narrativa histórica no resgate de Yeshua da crucificação, quando os iniciados Essênios conseguem, através de acordos políticos com Pilatos, remover o corpo de Yeshua para o sepulcro (o “Santo Sepulcro”) e curá-lo através de imposição de mãos. Jesus reúne-se com seus apóstolos mais algumas vezes, e isto ficou retratado no Novo Testamento como se fosse uma “ressurreição”.

Mais tarde, ainda temendo a revolução, seus discípulos precisaram separar sua família e enviá-los para locais seguros. Maria Madalena, grávida, foi enviada sob proteção para o Egito, onde permaneceu durante quase um ano, quando se reencontrou com Yeshua no Sul da França. Falaremos sobre a Madonna Negra em posts futuros.
Outro dos filhos de Yeshua foi para Glastonbury, acompanhado de José de Arimatéia, seu tio. O terceiro filho de Yeshua, Barrabás (Barr Abas significa “filho de uma pessoa muito importante”), permaneceu com ele e muitos dizem que acabou se tornando um dos mentores intelectuais da Primeira Grande Revolta dos Judeus, que começa em 66DC. Yeshua termina seus dias na Caxemira.

A revolução começou na Cesárea, quando os judeus atacaram uma guarnição da legião romana em frente a uma sinagoga de Jerusalém, em reação à provocação de alguns gregos. Naquela época, era muito comum a disputa religiosa e filosófica entre Helenistas e Judeus: um grupo de gregos sacrificou pássaros em frente à sinagoga como uma provocação e, como os soldados romanos nada fizeram para impedir, os judeus começaram uma revolta atacando os gregos e os soldados. Esta primeira batalha ficou conhecida como a Batalha de Beth-Horon.
Os romanos estavam em vantagem de 5 homens para cada judeu, mas através de uma guerrilha bem planejada, os soldados treinados de Yeshua conseguiram matar uma legião inteira romana.
Muito puto da vida, o Imperador Nero decidiu acabar com os judeus de uma vez por todas.

Aliás, a vida de Nero não foi fácil: ele teve de lidar com revoltas na Inglaterra (60-61) orquestradas por guerreiros ligados a Boudicea, a rainha das tribos de Iceni e provavelmente pertencente aos clãs que acolheram os descendentes de Yeshua. As tribos daquela região estavam em relativa paz com os romanos, até a morte de Presutagus, marido de Boudicea. Como os romanos não reconheciam mulheres como legítimas herdeiras, o governador das Ilhas não quis reconhecer a autoridade de Boudicea, invadindo seu castelo. Boudicea foi chicoteada e suas filhas estupradas pelos romanos.
Como retaliação, os guerreiros celtas atacaram e destruíram 3 das mais importantes cidades romanas, incluindo Londinun (L0ndres) matando mais de 70.000 invasores no processo. Os rebeldes só retrocederam quando a legião comandada por Gaius Suetonius Paulinus conseguiu derrotá-los na batalha de Watling Street.

Boudicea serviu como uma das bases da heroína celta chamada Gwenhwyfach que muitos séculos depois se tornaria Guinevere, esposa do Rei Arthur. Assim como as outras rainhas celtas, Boudicea possuía concubinos (homens encarregados de lhe dar prazer sexual enquanto o rei estivesse longe em batalhas). Este costume celta irá horrorizar os púdicos católicos muitos séculos depois, e Guinevere terá um “amante” para “consertar” esta narrativa. É uma história interessante que contarei mais para a frente, mas adianto que o termo “carregar chifres” como sinônimo para adultério veio deste costume celta.

No meio destas confusões, Nero fazia o que todo Imperador e Papa romano faz melhor: mandava matar os judeus/cristãos (note que o termo “cristãos” usado aqui se refere aos judeus discípulos e seguidores de Yeshua, não aos católicos apostólicos romanos, como a Igreja mentirosamente quer que você acredite quando chama estes caras de “mártires do catolicismo”). As pessoas que iam para os leões eram judeus, maniqueístas, marcionistas, setianos, essênios, ofitas, bogomilos, valentinos e outras seitas judias.

Em 64, um incêndio de enormes proporções devastou 4 dos 14 bairros de Roma e destruiu severamente outros 7 bairros. Nero acusou os cristãos de cometerem este crime e utilizou todo este processo para dar as desculpas necessárias para inaugurar as festividades de jogar os cristãos na arena com os leões.

Flavio Josefus
Outro personagem importante em nossa história é Mattitiyahu ben Yosef ha-Kohen, fariseu que nasceu em 37 EC (Era Comum ou Depois de Cristo); a data da sua morte não é exata – algo entre 95 e 100 EC. Líder da revolta dos judeus contra o domínio de Roma na década de 60 EC e depois da derrota entregou-se aos romanos, caindo nas graças de Vespasiano – comandante das legiões romanas – ao profetizar que este se tornaria imperador. Como sua profecia se confirmou, ele tornou-se protegido do imperador romano, recebeu o título de cidadão e foi nomeado Flávio, o nome da dinastia romana dominante na época. Flávio Josefo – como é conhecido hoje – passou a residir em Roma e escreveu algumas obras históricas, entre elas “As Guerras Judaicas”, “Antiguidades Judaícas” e “Contra Apião”, fornecendo pormenores da destruição de Jerusalém em 70 EC, da qual foi testemunha ocular, e detalhes sobre outros aspectos da história dos hebreus não registradas na Bíblia.

Sei que esta parte será um pouco chata, mas é necessária para entendermos o que aconteceu com a doutrina de Yeshua após seu exílio. Enquanto o Império romano entrava em guerras cada vez mais violenta contra os judeus, sua expansão em direção às Ilhas Britânicas.

Masada

A única fonte histórica para o episódio é a obra do judeu romanizado Flavius Josephus, “Guerra dos Judeus“. Entretanto, os historiadores modernos concordam que realmente um grupo de Zelotes matou a si e às próprias famílias e incendiou algumas construções em Masada. Vocês lembram quem era um dos líderes dos Zelotes, não? Isso mesmo! Judas, o melhor amigo de Jesus.

Quando os zelotes tomaram a fortaleza em 66, após eliminar uma coorte da Legio III Gallica ali estacionada, encontraram um bem sortido estoque de armas, bem como quantidade de ferro, bronze e chumbo para o fabrico de armas e munição. Os armazéns estavam completos com grãos, óleos, tâmaras e vinho; as hortas forneciam alimentos frescos; os canais, escavados na pedra de calcário, coletavam e conduziam as águas pluviais para grandes cisternas subterrâneas, com capacidade superior a 200 mil galões.
Na Primavera de 73, a fortaleza encontrava-se ocupada por 960 zelotas, incluindo mulheres e crianças, sob o comando de Eleazar ben Yair. Outro comandante zelota, um dos envolvidos na defesa de Jerusalém, era Judas, que havia retirado para Masada após a queda de Jerusalém. A guarnição vinha resistindo por dois anos a um assédio das legiões romanas, constituindo-se no último foco de resistência judaica.
Nesse momento, o governador romano, general Flavius Silva, reassumiu as operações militares no sul da Judéia. Em fim de março, à frente da Legio X Fretensis, marchou de Jerusalém para o Mar Morto.
As tropas tomaram posição diante de Masada, passando a construir oito acampamentos de campanha na planície do lado Oeste da elevação. Foi principada ainda uma muralha de circunvalação ao redor de Masada, com cerca de três metros de altura, que se estendia por mais de duas milhas de comprimento, amparada por fortes e torres.
No lado Oeste, 137 metros abaixo do topo de Massada, e separado por um vale rochoso, havia um promontório chamado de Penhasco Branco. Os engenheiros militares romanos decidiram que, a partir desse promontório, seria construída uma única rampa para o topo do monte, iniciando-se a movimentação de terras.
A rampa assim construída, apresentava um gradiente de 1:3 e uma base de 210 metros. Em pouco tempo alvançou os 100 metros de altura e, em sua extremidade foi montada uma plataforma de 22 metros de altura por 22 de largura. Em seguida, uma torre de cerco de 28 metros de altura foi posicionada contra a muralha. Do seu alto, os artilheiros romanos faziam disparos com os escorpiões e balistas, enquanto que na sua base, um aríete golpeava a base da muralha.

Quando a muralha foi rompida, os legionários que penetraram pela brecha constataram a existência de uma segunda muralha, interna. Ao atacá-la, por sua vez, com o aríete, constatou-se que esta fora construída com vigas de madeira alternadas com pedra, técnica que absorvia os golpes de aríete. Desse modo, a 2 de Maio, promoveu-se o incêndio desta muralha, iniciando-se os preparativos para o assalto final no dia seguinte.
Enquanto isso, na fortaleza, os zelotas acompanhavam os preparativos romanos, constatando a iminência do assalto romano. Durante a noite, decidiram que preferiam morrer a ser escravizados ou mortos pelos romanos. Sacrificaram assim as mulheres e crianças, e depois os próprios defensores, até que restaram apenas dez e o comandante Eleazar ben Yair. Tiraram sortes para ver qual deles sacrificaria os demais. Após cumprir a sua tarefa, o último homem ateou fogo ao palácio, e lançou-se sobre a própria espada, ao lado da família morta.
Na manhã do dia 3 de Maio, os legionários ultrapassaram a brecha aberta na muralha interna, encontrando a fortaleza em silêncio. Chamando os rebeldes à luta, apresentou-se uma anciã seguida por uma mulher jovem, parente de Eleazar, e cinco crianças pequenas, que haviam se escondido em um dos condutos de água subterrâneos.
Masada era conhecida como uma das principais bases de resistência dos judeus. Um dos líderes deste agrupamento não era outro senão Barrabás. De acordo com as lendas templárias, Barrabás foi um dos dez últimos homens a se sacrificar, mas que seus filhos estariam a salvo fora da fortaleza antes do ataque romano. Esta lenda é interessante, porque ela explica a origem de outra lenda que surgiu na Idade Média a respeito dos romanos estarem procurando o “Santo Graal” em Masada, mas que os judeus conseguiram retirá-lo de lá antes do derradeiro ataque. Neste caso, o “Cálice Sagrado” (San Graal, Sangreal, ou simplesmente “sangue real” eram os descendentes de Jesus que estavam em Masada com os zelotes).
Estava encerrada assim a Primeira Revolta dos Judeus.

A Gnose
Gnosticismo designa o movimento histórico e religioso cristão que floresceu durante os séculos II e III, cujas bases filosóficas eram as da antiga Gnose (palavra grega que significa conhecimento), com influências do neoplatonismo e dos pitagóricos. Este movimento revindicava a posse de conhecimentos secretos (a “gnose apócrifa“, em grego) que, segundo eles, os tornava diferentes dos cristãos alheios a este conhecimento. Originou-se provavelmente na Ásia menor, e tem como base as filosofias pagãs, que floresciam na Babilônia, Egito, Síria e Grécia. O gnosticismo combinava alguns elementos da Astrologia e mistérios das religiões gregas, como os mistérios de Elêusis, com as doutrinas do Cristianismo. Em seu sentido mais abrangente, o Gnosticismo significa “a crença na Salvação pelo Conhecimento”.
Entre 100 e 300 DC surgiram muitos grupos cristãos que traziam o conhecimento pregado por Yeshua, derivado tanto da ritualística egípcia quanto dos conhecimentos do oriente.
Entre eles podemos destacar:

Mandeísmo
Mandeísmo é uma religião pré-cristã classificada por estudiosos como gnóstica.
Os mandeístas são assim classificados devido à etimologia da palavra manda em mandeu: conhecimento, que é a mesma palavra gnosis em grego. É considerada uma das religiões gnósticas remanescentes até os dias atuais, junto com o gnosticismo de Samael Aun Weor (que alguns segmentos gnósticos não aceitam).
Os mandeístas veneram João Baptista como o Messias e praticam o ritual do batismo. Possuem cerca de 100.000 adeptos em todo o mundo, principalmente no Iraque.
A religião mandeísta tem uma visão dualística mais estrita que a maioria dos gnósticos. Ao invés de um grande pleroma, existe uma clara divisão entre luz e trevas. O senhor das trevas é chamado de Ptahil (semelhante ao Demiurgo gnóstico) e o gerador da luz (Deus) é conhecido como “a grande primeira Vida dos mundos da luz, o sublime que permanece acima de todos os mundos“. Quando esse ser emanou, outros seres espirituais se corromperam, e eles e seu senhor Ptahil criaram o nosso mundo.
A escritura mandeísta mais importante é o Ginza Rba. A linguagem usada por eles é o mandeu, uma sub-espécie do aramaico.

Basilismo ou Basilíades
Basílides (circa de 117-138) foi um Filósofo gnóstico de Alexandria, possivelmente originário de Antioquia, atual cidade turca na província de Hatay. Admitiu um princípio incriado, o Pai, cinco hipóteses emanadas dele e trezentos e sessenta e cinco céus, um dos quais é o nosso mundo, comandado por YHVH (Yahweh, Jeová ou Javé). Santo Irineu e Santo Hipólito refutaram as suas doutrinas. Basílides foi, com Valentino o mais célebre dos gnósticos.

Carpocratos
Carpócrates de Alexandría foi o fundador de uma seita gnóstica na primeira metade do Século II
Filósofo e teólogo do Século II, suas opiniões são uma mescla de cristianismo e platonismo. Sustentava que o mundo foi criado por anjos caídos. Por isso, esta criação era ruim e somente poderia o homem liberar-se dela através da Gnose, ou ciência divina.
Algumas fontes ligam Carpócrates ao Mandeísmo.

Ceritios (não confundir com Coríntios)
Cerinto (c 100) foi um dos primeiros líderes do antigo gnosticismo que foi reconhecido como herético pelos primeiros Cristãos devido aos seus ensinamentos sobre Jesus Cristo e suas interpretações sobre o cristianismo. Ao contrário dos ensinamentos da Cristandade ortodoxa, a escola gnóstica de Cerinto seguiu a lei Judaica, negando que o deus supremo tinha feito o mundo físico e negando a divindade de Jesus. Na interpretação de Cerinto, o espírito de “Cristo” veio a Jesus no momento do seu batismo, guiando-lhe em todo o seu ministério, mas abandonando-o momentos antes de sua crucificação.
Cerinto, assim como os ebionitas, usava apenas uma versão do evangelho de Mateus como escritura, rejeitando os demais escritos, principalmente os do apóstolo Paulo por o considerarem apóstata da lei. Esforçava-se e se sujeitava aos usos e costumes da lei judaica e à maneira de viver dos judeus. Venerava a cidade de Jerusalém como se fosse a casa de Deus.
Cerinto ensinou numa época em que a relação do Cristianismo com o Judaísmo estava se tornando irreconciliável. Para definir o criador do mundo como Demiurgo, combinou a filosofia grega com os ensinos sincréticos dos gnósticos. Sua descrição de Cristo como um espírito sem corpo que residido temporariamente no homem Jesus combina com o gnosticismo de Valentim.
A tradição Cristã antiga descreve Cerinto como um contemporâneo e oponente de João, o Evangelista, que escreveu o Evangelho segundo João contra ele. Tudo que nós sabemos sobre Cerinto vem da escrita de seus oponentes teológicos.

Maniqueísmo
Filosofia religiosa sincrética e dualística ensinada pelo profeta persa Mani (ou Manes), combinando elementos do Zoroastrismo, Cristianismo e Gnosticismo, condenado pelo governo do Império Romano, filósofos neoplatonistas e cristãos ortodoxos.
Filosofia dualística que divide o mundo entre Bem, ou Deus, e Mal, ou o Diabo. A matéria é intrinsecamente má, e o espírito, intrinsecamente bom. Com a popularização do termo, maniqueísta passou a ser um adjetivo para toda doutrina fundada nos dois princípios opostos do Bem e do Mal.
A igreja cristã de Mani era estruturada a partir dos diversos graus do desenvolvimento interior. Ele mesmo a encabeçava como apóstolo de Jesus Cristo. Junto a ele eram mantidos doze instrutores ou filhos da misericórdia. Seis filhos iluminados pelo sol do conhecimento assistiam cada um deles. Esses “epíscopos” (bispos) eram auxiliados por seis presbíteros ou filhos da inteligência. O quarto círculo compreendia inúmeros eleitos chamados de filhos e filhas da verdade ou dos mistérios. Sua tarefa era pregar, cantar, escrever e traduzir. O quinto círculo era formado pelos auditores ou filhos e filhas da compreensão. Para esse último grupo, as exigências eram menores.
Mais tarde, no Sul da França, os maniqueístas e o druidismo formariam as bases do Catarismo.

Menandritas
Menandro foi um patriarca gnóstico da corrente caldeu-síria, uma das figuras mais importantes do Gnosticismo. Como Simão Mago, era da mesma cidade de seu Mestre e transmitiu os ensinamentos Gnósticos e como também mágicos. A sua doutrina afirmava que a Gnose podia entender e controlar as forças da Natureza. O centro de suas atividades era a cidade de Antioquia. Menandro e seus discípulos afirmavam que havia uma entidade superior ao Demiurgo, o Inefável, na administração do mecanismo Universal. Foi o primeiro Gnóstico a separar as duas entidades.

Marcionismo
Fundado em 144 DC. em Roma por Marcião de Sinope (110-160), um religioso cristão do segundo século, e um dos primeiros a serem denunciados pelos cristãos como um herético.
O Marcionismo rejeita o Antigo Testamento. Alguns cristãos julgam mesmo que os marcionistas sejam Anti-Semitas. A palavra marcionismo é mesmo por vezes usada para referir as tendências anti-judaicas nas igrejas cristãs. Seus textos foram uma das bases que muitos e muitos séculos depois serviram de inspiração para a filosofia da Thulegesselshaft (ordem secreta por trás da filosofia nazista).
Mas Marcião tornou-se famoso em sua época, o que acabou tornando os judeus muito impopulares em Roma (anote isso no seu caderno: naquela época, os judeus eram muito impopulares em Roma! Isto ajudará a entender o porquê de Constantino deturpar tanto a história de Yeshua para se adaptar aos anseios de um povo que desejava um messias mais parecido com Apolo/Mithra do que com um “rei judeu”).

Saturninos
Saturnino de Antioquia: (séc. II DC) foi outro renomado teólogo, foi também um grande Cabalista e profundo conhecedor do Zend Avesta e do Gnosticismo. Seus ensinamentos eram tão conhecidos que até mesmo Papus confessou haver tomado muitas de suas fórmulas como base de estudos. Ele pregava a castidade e abstinência sexual como forma de religação com deus.

Setitas ou Setianitas
O Setianismo foi um grupo de antigos gnósticos, que datam sua existência antes do cristianismo . São assim chamados devido à sua veneração à Sete, que teria sido o escolhido de Deus para a promessa de se organizar uma sociedade humana perfeita . Apesar de ter uma origem judaica ,suas doutrinas tem uma forte influência do platonismo.
Tome cuidado para não confundir: em inglês, este culto é chamado de Sethianism. As vezes muitos confundem com Set, Deus egípcio, a sua veneração em inglês é chamada de Setianism.
Existe um trecho de um texto gnóstico descoberto em 1945 em Nag-Hammadi, no Egito, nomeada “A Revelação de Adão“, onde Adão é referido como pai de Seth e que passou todo o conhecimento secreto a ele: “Estas são as revelações que Adão desvelou ao seu filho Seth; e o seu filho ensinou a seus descendentes. Este é o conhecimento secreto que Adão entregou a Seth; é o santo de batismo daqueles que adquirem o conhecimento eterno…”

Lá pelo século III, havia cerca de 80 a 90 seitas cujos ensinamentos variavam por toda uma gama do Budismo ao Judaísmo ortodoxo, passando pelo Helenismo clássico, com todas as variações possíveis e imaginárias a respeito da divindade de Yeshua, da virgindade de Maria, de Reencarnação e Karma até o Olimpo e Hades (que mais tarde se transformarão no “Céu e Inferno” no catolicismo), sobre a traição ou não de Judas, sobre o culto à Madonna Negra, sobre o Sangue Real, sobre o sexo sagrado e sobre o uso de magia e teurgia, além de debates intermináveis sobre quais textos sagrados cada uma destas facções adotava como verdadeiros.

Na próxima semana: O Imperador Constantino botando ordem no galinheiro.

#ICAR

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A Grandeza do Viṣṇu Purāṇa

Capítulo VIII do Livro VI do Viṣṇu Purāṇa.

Conclusão do diálogo entre Parāśara e Maitreya. Recapitulação do conteúdo do Viṣṇu Purāṇa: mérito de ouvi-lo: como foi transmitido. Louvores a Viṣṇu. Concluindo a oração.

Tenho agora explicado a vós, Maitreya, o terceiro tipo de dissolução do mundo, ou seja, a libertação e a resolução em espírito eterno[1]. Relacionei a vós a criação primária e secundária, as famílias dos patriarcas, os períodos dos Manvantaras e as histórias genealógicas (dos reis). Repeti a vocês, em suma, que estavam desejosos de ouvir, o imperecível Vaiṣṇava Purāṇa, que é destrutivo de todos os pecados, o mais excelente de todos os escritos sagrados, e os meios para alcançar o grande fim do homem. Se há mais alguma coisa que você deseja ouvir, proponha sua pergunta, e eu a responderei.

Maitreya disse:-

Santo mestre, você realmente me contou tudo o que eu desejava saber, e eu o escutei com piedosa atenção. Não tenho mais nada a perguntar. As dúvidas inseparáveis da mente do homem foram todas resolvidas por você, e através de suas instruções conheço a origem, a duração e o fim de todas as coisas; com Viṣṇu em sua quádrupla forma coletiva[2]; suas três energias[3]; e com os três modos de apreender o objeto de contemplação[4]. De tudo isso adquiri um conhecimento através de seu favor, e nada mais é digno de ser conhecido, quando se compreende que o Viṣṇu e este mundo não são mutuamente distintos. Grande Muni, obtive por sua bondade tudo o que desejava, a dissipação de minhas dúvidas, já que o senhor me instruiu nos deveres das diversas tribos, e em outras obrigações; a natureza da vida ativa, e a descontinuidade da ação; e a derivação de tudo o que existe das obras. Não há mais nada, venerável Brahman, que eu tenha que perguntar a você; e me perdoe se suas respostas às minhas perguntas lhe impuseram algum cansaço. Perdoe-me o incômodo que lhe dei, através dessa qualidade amável do virtuoso – que não faz distinção entre um discípulo e uma criança.

Parāśara disse:-

Relacionei a vocês este Purāṇa, que é igual aos Vedas em santidade, e por ouvir que todas as faltas e pecados, quaisquer que sejam, são expiados. Nisto foram descritas a vocês a criação primária e secundária, as famílias dos patriarcas, os Manvantaras, as dinastias reais; os deuses, Daityas, Gandharvas, serpentes, Rākṣasas, Yakṣas, Vidyādharas, Siddhas e ninfas celestiais; Munis dotados de sabedoria espiritual, e praticantes de devoção; as distinções das quatro castas, e as ações das mais eminentes entre os homens; lugares santos na terra, rios e oceanos sagrados, montanhas sagradas, e lendas dos verdadeiramente sábios; os deveres das diferentes tribos, e as observâncias ordenadas pelos Vedas. Ouvindo isto, todos os pecados são imediatamente apagados. Nisso também foi revelado o glorioso Hari, a causa da criação, preservação e destruição do mundo; a alma de todas as coisas, e ele mesmo todas as coisas: pela repetição de cujo nome o homem é sem dúvida liberado de todos os pecados, que voam como lobos assustados por um leão. A repetição de seu nome com fé devota é o melhor removedor de todos os pecados, destruindo-os enquanto o fogo purifica o metal da escória. A mancha da era Kali, que assegura aos homens punições afiadas no inferno, é imediatamente apagada por uma única invocação de Hari. Aquele que é tudo isso, o ovo inteiro de Brahmā, com Hiraṇyagarbha, Indra, Rudra, os Ādityas, os Aswins, os ventos, os Kinnaras, os Vasus, o Sādhyas, Viśvadevas, os deuses celestiais, as serpentes Yakṣas, Rākṣasas, os Siddhas, Daityas, Gandharvas, Dānavas, ninfas, as estrelas, asterismos, planetas, os sete Ṛṣis, os regentes e superintendentes dos bairros, homens, brâmanes e os demais, animais domesticados e selvagens, insetos, aves, fantasmas e duendes, árvores, montanhas, bosques, rios, oceanos, as legiões subterrâneas, as divisões da terra e todos os objetos perceptíveis – aquele que é tudo, que conhece todas as coisas, que é a forma de todas as coisas, estando sem forma a si mesmo, e de quem tudo o que é, desde o monte Meru até um átomo, tudo consiste – ele, o glorioso Viṣṇu, o destruidor de todos os pecados – está descrito neste Purāṇa. Ouvindo este Purāṇa se obtém uma recompensa igual àquela que é derivada da realização de um sacrifício Aśvamedha, ou do jejum nos lugares santos Prayāga, Puṣkara, Kurukṣetra, ou Arbuda. Ouvindo este Purāṇa, mas uma vez é tão eficaz quanto a oferta de oblações em um fogo perpétuo por um ano. O homem que com paixões bem governadas toma banho em Mathurā no décimo segundo dia do mês Jyeṣṭha[5], e contempla (a imagem de) Hari, obtém uma grande recompensa; também aquele que com a mente fixada em Keśava recita atentamente este Purāṇa. O homem que se banha nas águas do Yamunā no décimo segundo almoço da quinzena de luz do mês em que a lua está na mansão Jyeṣṭhā, e que jejua e adora Achyuta na cidade de Mathurā, recebe a recompensa de um ininterrupto Aśvamedha. Contemplando o grau de prosperidade desfrutado por outros de eminência, através dos méritos de seus descendentes, os antepassados paternos de um homem, seus pais e seus pais, exclamamam, “Quem de nossos descendentes, tendo tomado banho no Yamunā e jejuado, adorará Govinda em Mathurā, na quinzena de luz de Jyeṣṭha, garantirá para nós exaltação eminente; pois seremos elevados pelos méritos de nossa posteridade”! Um homem de boa extração apresentará bolos obsequiosos a seus afortunados antepassados no Yamunā, tendo venerado Janārddana, na quinzena luz de Jyeṣṭha. Mas o mesmo grau de mérito que um homem colhe frente adorando Janārddana naquela época com um coração dedicado, e de tomar banho no Yamunā, e efetuando a libertação de seus progenitores oferecendo-lhes em tal ocasião bolos obsequiais, ele deriva também de ouvir com igual devoção uma seção deste Purāṇa. Este Purāṇa é o melhor de todos os conservantes para aqueles que têm medo da existência mundana, um certo alívio do sofrimento dos homens, e a remoção de todas as imperfeições.

Este Purāṇa, originalmente composto pelo Ṛṣi (Nārāyaṇa), foi comunicado por Brahmā a Ribhu; ele o relacionou com Priyavrata, por quem foi transmitido a Bhāguri. Bhāguri o recitou ao Tamasitra[6], e ele ao Dadīca, que o entregou ao Sāraswata. Do último Bhrigu o recebeu, que o transmitiu a Purukutsa, e ele o ensinou a Narmadā. A deusa a entregou a Dhritarāṣṭra, o rei Nāga, e a Purāṇa da mesma raça, por quem ela foi repetida a seu monarca Vāsuki. Vāsuki a comunicou a Vatsa, e ele a Āswatara, de quem ela prosseguiu sucessivamente para Kambala e Elapatra. Quando o Muni Vedaśiras desceu para Pātāla, ele lá recebeu todo o Purāṇa destes Nāgas, e o comunicou ao Pramati. Pramati o consignou ao sábio Jātukarṇa, e ele o ensinou a muitas outras pessoas santas. Através da bênção de Vaśiṣṭha, veio ao meu conhecimento, e eu agora, Maitreya, fielmente o transmiti a você. Você o ensinará, no final da era Kali, a Śamīka[7]. Quem ouvir este grande mistério, que remove a contaminação do Kali, será libertado de todos os seus pecados. Aquele que ouve isto todos os dias se absolve de suas obrigações diárias para com os ancestrais, os deuses e os homens. O grande e raramente alcançável mérito que um homem adquire pelo dom de uma vaca marrom, ele deriva de ouvir dez capítulos deste Purāṇa[8]. Aquele que ouve todo o Purāṇa, contemplando em sua mente Achyuta, que é tudo, e de quem tudo é feito; que é a permanência do mundo inteiro, o receptáculo do espírito; que é o conhecimento, e o que deve ser conhecido; que não tem começo nem fim, e o benfeitor dos deuses – obtém certamente a recompensa que assiste à celebração ininterrupta do rito Aśvamedha. Aquele que lê e mantém com fé este Purāṇa, em cujo início, meio e fim é descrito o glorioso Achyuta, o senhor do universo em cada etapa, o mestre de tudo o que é estacionário ou móvel, composto de conhecimento espiritual, adquire a pureza que não existe em nenhum mundo, o estado eterno de perfeição, que é Hari. O homem que fixa sua mente em Viṣṇu não vai para o inferno: aquele que medita nele considera o gozo celestial apenas como um impedimento: e aquele cuja mente e alma são penetradas por ele pensa pouco no mundo de Brahmā; pois quando presente na mente daqueles cujos intelectos estão livres do solo, ele lhes confere a liberdade eterna. Que maravilha, portanto, é que os pecados de quem repete o nome de Achyuta devam ser apagados? Não deveria ser ouvido falar de Hari, a quem aqueles dedicados a atos adoram com sacrifícios continuamente como o deus do sacrifício; a quem aqueles dedicados à meditação contemplam como primário e secundário, composto de espírito; obtendo a quem o homem não nasce, nem se alimenta, nem está sujeito à morte; quem é tudo o que é, e isso não é (ou ambos causa e efeito); quem, como os progenitores, recebe as libações feitas a eles; quem, como os deuses, aceita as oferendas que lhes são dirigidas; o ser glorioso que não tem princípio nem fim; cujo nome é Svāhā e Swadhā[9]; quem é a morada de todo o poder espiritual; em quem os limites das coisas finitas não podem ser medidos[10]; e quem, quando entra no ouvido, destrói todo o pecado?

Eu o adoro, aquele primeiro dos deuses, Puruṣottama, que é sem fim e sem começo, sem crescimento, sem decadência, sem morte; que é substância que não sabe mudar. Adoro aquele espírito sempre inesgotável; que assumiu qualidades sensatas; que, embora um, tornou-se muitos; que, embora puro, tornou-se como que impuro, ao aparecer em muitas e variadas formas; que é dotado de sabedoria divina, e é o autor da preservação de todas as criaturas. Eu o adoro, que é a única essência e objeto conjunto tanto da sabedoria meditativa quanto da virtude ativa; que é vigilante em proporcionar prazeres humanos; que é um com as três qualidades; que, sem passar por mudanças, é a causa da evolução do mundo; que existe de sua própria essência, sempre isenta de decadência. Eu o adoro constantemente, que tem direito ao céu, ar, fogo, água, terra e éter; que é o doador de todos os objetos que dão gratificação aos sentidos; que beneficia a humanidade com os instrumentos da fruição; que é perceptível, que é subtil, que é imperceptível. Que aquele Hari não nascido, eterno, cuja forma é múltipla, e cuja essência é composta de natureza e espírito, conceda a toda a humanidade aquele estado abençoado que não conhece nem o nascimento nem a decadência!

NOTAS DE RODAPÉ E REFERÊNCIAS:

[1]:

O termo é Brahmāṇi laya, que significa, “um derretimento”, “uma dissolução” ou “fusão”, a partir da raiz, “liquefazer”, “derreter”, “dissolver”.

[2]:

Ou com Viṣṇu, nas quatro modificações descritas na primeira seção, espírito, matéria, forma e tempo: ver p. 9.

[3]:

Ou com Śakti, notado no último capítulo, p. 655.

[4]:

Ou com Bhāvanās, também descrito na seção anterior, p. 654.

[5]:

Este mês também é chamado Jyeṣṭhamūla, que o comentarista explica significar, o mês, cuja raiz ou causa (Mūla) de ser assim chamado é a lua estar cheia na constelação Jyeṣṭhā: mas pode ser assim chamado, talvez, pelo asterismo lunar Mūlā, que está ao lado de Jyeṣṭhā, que também está dentro da passagem da lua pelo mesmo mês.

[6]:

Este nome também é lido Tambamitra. Uma cópia tem Tava-mitrāya, ‘para teu amigo’, como se fosse um epíteto de Dadhīca; mas a construção do verso requer um nome próprio. ‘Bhāguri deu-o a Tambamitra, e ele a Dadhīci’.

[7]:

Uma série diferente de narradores foi especificada no primeiro livro, p. 9.

[8]:

Esta parece ser uma interpolação injudiciosa; não está em todas as cópias.

[9]:

As palavras ou orações empregadas na apresentação de oblações com fogo.

[10]:

O texto tem, ####. Māna comumente significa ‘orgulho’, mas aqui parece mais apropriadamente interpretado por sua importação radical, ‘medir’ as medidas que são para a determinação de coisas mensuráveis não são aplicáveis a Viṣṇu.

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Fonte: https://www.wisdomlib.org/hinduism/book/vishnu-purana-wilson/d/doc116069.html

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-grandeza-do-vi%e1%b9%a3%e1%b9%87u-pura%e1%b9%87a/

O software angélico que roda no eixo do mundo (parte 2)

« continuando da parte 1

E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gênesis 5:23-24).

Seriam os anjos e demônios seres como nós?

Se até agora tendemos a concluir que os deuses e orixás não poderiam ser seres pessoais, conquanto não poderiam haver passado por alguma espécie de evolução, o mesmo não necessariamente se aplica aos anjos e demônios.

É claro que nos mitos monoteístas, diz-se que os anjos foram criados como seres já perfeitos, servos eternos dos desígnios de Deus. Neste caso, seriam algo similar aos deuses, que operam as forças naturais. Mas o problema desta linha de pensamento é que esses mesmos mitos também nos contam que há alguns anjos que se rebelaram contra o Criador, e que desde então foram condenados a habitar o Inferno e, quem sabe, serem sempre maus, por toda a eternidade.

Com isso se quer dizer que o livre-arbítrio foi inventado, precisamente quando um anjo chamado Lúcifer (portador da luz) decidiu se rebelar contra a “programação” do Criador. Afinal, qualquer ser criado “já perfeito, pronto e acabado”, não passou por evolução alguma e, dessa forma, não é “perfeito” pelo seu próprio mérito, mas antes por alguma forma de “programação”. Tais anjos seriam então como robôs, autômatos sem vontade própria. Mas, se não teriam vontade, como diabos Lúcifer teve a vontade de contrariar seu Pai?
Eu penso que este problema tem duas soluções lógicas, e não mais do que duas: (a) Lúcifer na realidade também foi “programado” para contrariar a Deus, e tudo o que têm feito desde então, em realidade, é tão somente o que foi “programado” para fazer [1]; (b) Lúcifer na verdade seria um ser como nós, e sua decisão de contrariar ao Criador denota, metaforicamente dentro deste mito profundo, o estágio em que o ser se torna autoconsciente, que “desperta” para o conhecimento do bem e do mal, da vida e da morte, e para o fato de que possuí uma alma capaz de interpretar o mundo e fazer escolhas [2].

Ora, se ficarmos com a última opção (que, no meu entendimento, faz mais sentido), temos que anjos e demônios nada mais são do que espíritos, como nós mesmos, em maior ou menor grau de evolução cognitiva, moral e espiritual. Certamente pode parecer complicado “classificar” aos seres por sua suposta “evolução moral”; mas, na prática, é isto o que tentamos fazer todos os dias. Sempre que conhecemos algum novo amigo (ou inimigo), uma de nossas primeiras preocupações é tentar situar em que “nível de moralidade” ele opera. Claro que, muitas vezes, temos julgado errado [3], mas isto não significa que não exista uma distinção clara entre seres amorosos, sábios e morais, e seres indiferentes, ignorantes e imorais.

Antes, porém, de habitarem reinos fantásticos, acima ou abaixo do mundo, anjos e demônios talvez devam ser classificados pelo estado em que se encontram suas mentes, sua consciência, sua paz de espírito. Anjos seriam, portanto, aqueles seres com maior consciência da própria liberdade, e maior controle da própria vontade; ao passo que demônios seriam o oposto, ou seja: seres atolados num charco de desejos desenfreados, facilmente manipulados por vontades alheias, perdidos de si mesmos.

O que isto tudo quer dizer é isto aqui: anjos e demônios habitam mesmo este mundo, e não poderia ser diferente.

Os exus e as pambu njilas

Nas mitologias africanas (e, particularmente, na dos iorubás), deuses são chamados orixás, conforme já vimos. Pois bem, ocorre que no caso da umbanda sagrada, religião de origem brasileira [4], anjos e demônios são chamados de exus e pambu njilas. Exus nada mais seriam que espíritos como nós, no período entre vidas, do gênero masculino. Pombagiras seriam exus do gênero feminino (seu nome é uma corruptela do pambu njila, de origem angolana) [5].

Dessa forma, na umbanda, nem todo exu é demônio. De fato, a imensa maioria dos praticantes desta doutrina lida mesmo é com exus de amor e moral elevados – anjos, portanto.

Em todo caso, não devemos confundir os exus anjos e demônios com o Exu orixá (um dos deuses iorubás)…

O axis mundi

Me disseram que o termo Exu é derivado de “Eixo”, mas isto não posso confirmar. Em todo caso, é algo que faz sentido: o orixá Exu é o deus mensageiro, o responsável por fazer a conexão entre um mundo que está no plano com um outro mundo que está acima ou abaixo. No nosso caso, costuma-se dizer que Exu forma o eixo entre a Terra e o Céu, mas também poderia formar um eixo, igualmente, entre a Terra e o Inferno, dependendo de nossa intenção e vontade ao invocá-lo.

Desnecessário dizer que estas ideias de um axis mundi (Eixo do Mundo), e de deuses mensageiros que o percorrem, trazendo e enviando mensagens entre um plano médio e um superior (ou inferior), são abundantes em diversas mitologias. Geralmente, os deuses inventores da escrita (Toth-Hermes; Odin-Wotan) encontraram esta incrível descoberta exatamente enquanto viajavam através do Eixo, indo e retornando de um plano superior. Odin, por exemplo, chegou a se enforcar neste Eixo, que era a própria Yggdrasil (“o eixo do mundo”), e após alguns dias de “transe xamãnico”, trouxe o conhecimento das runas (forma de escrita) aos homens nórdicos.

Entretanto, isto vocês devem lembrar: dizíamos há pouco que os deuses eram forças da natureza, e não seres pessoais, que evoluem, como nós. Ora, e não é exatamente disto que se trata o orixá Exu? Uma força natural, um instrumento pelo qual nossas mentes conseguem entrar em estados alterados e acessar informações que antes nos eram ocultas?

No fundo, não importa muito ao médium ou magista se os deuses existem fora ou dentro de suas mentes… Na prática, o axis mundi poderia ser um pé de feijão mágico cujo caule gigantesco toca o próprio céu, ou o eixo interno da própria alma, que liga o plano médio, consciente, ao plano oculto, inconsciente. Dessa forma, se em nosso inconsciente há um reino celeste, ou infernal, isto depende unicamente de onde sintonizamos nosso pensamento e nossa vontade.

» Em seguida, finalmente, o software angélico…

***
[1] Apesar de eu mesmo não acreditar na hipótese, admito que ela explicaria o fato de Lúcifer ser eternamente mau, sem a possibilidade de se arrepender: é que foi “programado” para assim o ser.
[2] Neste caso, o mito de Lúcifer teria vários outros paralelos na mitologia. Mesmo no próprio Gênese, o mito da Eva que comeu a fruta proibida da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, seria essencialmente uma metáfora muito parecida. Talvez surgido num tempo próximo, mas em outra parte do mundo, temos o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, e depois foi punido. Não obstante, houve tempo de presentear este fogo aos homens, o que os tornou “superiores” aos demais animais: ou seja, eram, conforme Adão e Eva, os primeiros seres humanos conscientes de si mesmos e da própria liberdade (vontade). Também haviam conquistado a ciência do bem e do mal (graças ao sacrifício de um ser “sobre-humano”, mas que foi punido pelos deuses por sua ousadia).
[3] O massacre dos indígenas da América pelos colonizadores vindos da Europa é um belo exemplo. Os colonizadores se julgavam “seres de moral superior”. Mas por tudo o que fizeram, pelo exemplo que foi dado, fica muito claro que os ditos “selvagens” estavam, muitas vezes, num estágio moral muito mais elevado do que os ditos “civilizados”.
[4] Surgida há pouco mais de um século, em Niterói, Rio de Janeiro.
[5] Muitas vezes a umbanda também lida com espíritos que, em sua última encarnação, não eram de origem africana, mas indígena. Normalmente são chamados de caboclos ou cabocladores, e não de exus. Eles são o que restou dos indígenas devastados pelos “homens civilizados”. E eles nos perdoaram: voltam para nos ajudar, sobretudo, por amor.

Crédito das imagens: [topo] Fantasy Flight Games; [ao longo] Tetra Images/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#espiritualismo #exu #Mitologia #Umbanda

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-software-ang%C3%A9lico-que-roda-no-eixo-do-mundo-parte-2

A Gênese Vampírica e o Mito de Caim e Abel

Uma questão que sempre levantou acirrados debates nos círculos estudiosos é a de como a gênese vampírica se vincula ao mito de Caim e Abel. São vários os relatos míticos que tencionam descrever a autêntica origem da linhagem vampírica. Entre muitas culturas, a judaico-cristã também possui algumas versões, mas nenhuma delas está disponível nos textos canônicos. O mesmo processo que filtrou, eliminou e adulterou os documentos produzidos nos meios pré-cristão e cristão primitivo, de tal modo a autorizar os dogmas e doutrinas da ortodoxia católica, também purgou qualquer menção explícita aos vampiros nas narrativas bíblicas. Muito embora a intenção e o empenho da igreja católica fosse o de destruir todos os livros que, de alguma forma, contradissessem a sua compilação diretamente “inspirada” pelo espírito santo, alguns lograram sobreviver e hoje são conhecidos como apócrifos ou escritos proibidos. É num raro e reduzido grupo destes que encontramos os únicos relatos remanescentes sobre vampiros dentro da cultura bíblica. Recentemente a pretensa antiguidade de um livro deste grupo foi negada; estudos históricos e análise de estilo dataram o surgimento do original por volta do século XI. Neste manuscrito, Caim é posto propositalmente como o antepassado mais remoto da linhagem. O intuito disfarçado na elaboração deste livro é compor mais um elemento para a cortina de fumaça que encobre as intenções filosóficas originais das passagens bíblicas. Sendo assim, não merece uma consideração maior.

Meu interesse se volta mais para uma certa versão gnóstica do Livro do Gênese. Esse texto, em sua transcrição copta, foi preservado por uma seita gnóstica cristã minoritária chamada “astanfitas”, pertencente ao mesmo braço herético responsável pelos “ofitas” e “caimitas”. Devido ao número extremamente reduzido de seguidores, esta seita pôde passar incógnita até proximamente o século IX, quanto foi cruel e sigilosamente exterminada nos alvores da inquisição. Antes de assumir suas feições gnósticas, ela fazia parte das dissidências judaicas do período pré-cristão. Surgiu como uma resposta heterodoxa à outra seita cismática que marcou essa época com seu fundamentalismo austero: os essênios. Estes se referiam aos astanfitas como os inimigos da verdade, um título que eles não rejeitavam de todo; já que, revelando notável concordância com os filósofos céticos, pregavam que a certeza é um engano, a dúvida é fundamental; a mente sem ilusão não tem certeza, a inteligência honesta duvida. Mais tarde, resumiriam: “Toda gnose possível é dúvida rigorosa”. A princípio parece um total niilismo e um profundo pessimismo; mas; para eles; uma conduta moral somente poderia ser construída sobre a dúvida alcançada a duras penas. O homem moralmente apto é aquele que pode se responsabilizar por seus atos e um ato é responsável desde que tenha sido executado por livre opção. Contudo, não há o que decidir se a certeza já nos é dada pela verdade. E optar pelo errado não é uma atitude livre, é apenas uma louca inconseqüência. Logo, é legítima somente a decisão que for pautada numa dúvida muito bem estabelecida, pois apenas ela nos provê de opções, a verdade elimina todas. Assim, chegam a um certo humanismo moral, onde desprezam a verdade revelada que tira do homem a responsabilidade por seus atos. A verdade, diziam os astanfitas, produz apenas dois tipos de homens; os imbecis irresponsáveis e os loucos inconseqüentes.

Depois do desaparecimento dos astanfitas, demorou quatro séculos para que surgisse indícios da sobrevivência de algo dos seus manuscritos. Então, na península ibérica, começou a circular, entre os cabalistas, exemplares de textos nitidamente astanfitas vertidos para o árabe. Inafortunamente, nenhuma dessas obras escapou completa do fogo da inquisição, tudo o que nos restou foram poucos fragmentos dispersos, insuficientes para dar idéia geral sobre o que tratava o texto integral do qual provinham. Comentários, inserções e indicações nos tratados de alquimia e cabala do período, quando não são sucintos em demasia, são herméticos em excesso ou propositalmente evasivos.

Após esse breve aparecimento, só no século XX o interesse na gnose astanfita veio a se reacender através de novos e sensacionais achados. Sintomaticamente, duas das mais importantes coletâneas de textos gnósticos vieram à luz em datas quase concomitantes na década de quarenta. Em dezembro de 1945, foram encontrados, num complexo de cavernas no alto Egito, os famosos “manuscritos de Nag Hammadi” que, após superarem mais de trinta anos entraves de todo tipo, puderam contar uma estória diferente do início do cristianismo.

Em março de 1946, foi a vez dos menos conhecidos “manuscritos astanfitas de Hagia Sophia”. Tendo um percurso tão mirabolante e mais antigo que o da primeira descoberta, sua estória começa quando um colecionador, em 1935, doou à igreja de Hagia Sophia, recém transformada em museu, um maço de pergaminhos aos quais não se deu muita importância, pois se tratava na maior parte de homilias e sermões de padres ortodoxos que oficiavam na basílica entre os séculos XIII e XV. Durante mais de dez anos ficaram preteridos no depósito, quando finalmente foi feito um exaustivo trabalho de recuperação, em que as folhas grudadas pelo mofo e umidade foram separadas cuidadosamente uma a uma. Entremeado aos textos eclesiais, encontrou-se um códice em copta com datação mais remota que o restante do material. Era uma legítima compilação astanfita feita provavelmente no quinto ou sexto século.

Quando soube do achado, o colecionador confessou ter adquirido o maço, junto com diversos outros artefatos egípcios, de um ladrão de túmulos no Cairo, pouco antes da primeira guerra. Este lhe contou que os papéis lhe foram passado numa transação arriscada feita com um receptador de Istambul, mas que, antes dele, estiveram em posse de um padre da igreja ortodoxa que, por sua vez, os haviam recebido em confiança de um operário que trabalhou na recuperação de Hagia Sophia após o terremoto de 1894. O vício em ópio, além de outros prazeres mais caros, levou o sacerdote a negociar os documentos com o comerciante desonesto em troca de algum dinheiro que lhe suprisse, pelo menos por uns dias, suas necessidades mais prementes.

Ao que parece, vários dos manuscritos ficaram por muito tempo resguardados da sanha dos inquisidores em recônditos obscuros dentro da sólida construção de Hagia Sophia, sob a custódia de alguns padres simpatizantes ou simplesmente tolerantes da heresia astanfita. Também há rumores de que o faziam em respeito aos projetistas do edifício: o matemático Anthemius de Tralles e o arquiteto Isidorus de Miletus; estes sim – sustentam certas fontes – eram astanfitas praticantes, fato que mantiveram em segredo durante toda vida por razões óbvias. Sobre isso nada podemos afirmar. Seja como for, o encargo foi passado dentro de um círculo restrito de padres, geração a geração. Até que a tomada de Constantinopla pelos turcos no século XV obrigou os padres a esconder, apressadamente, seus livros e documentos em recintos selados, para que não ficassem ao alcance dos pagãos e fossem destruídos. No meio dessas pilhas de papéis ordinários, os manuscritos astanfitas foram inseridos sorrateiramente sem que os outros padres incumbidos da tarefa suspeitassem. A esperança era que logo os invasores seriam expulsos e os documentos novamente recuperados. Tais expectativas não se cumpriram e a basílica não só permaneceu em domínio turco como foi feita mesquita imperial pelo conquistador, o Sultão Mehmet. E assim foram esquecidos por mais de cinco séculos; quando, então, um terremoto abriu uma das câmaras secretas expondo seu conteúdo. A abertura foi descoberta primeiramente por um dos operários que vieram trabalhar na restauração da igreja. Visando obter algum lucro no comércio ilegal de antiguidades, ele extraviou uns poucos pacotes de escritos, enquanto pode manter oculta a passagem para a cela. Quando, no canteiro de obra, começaram a desconfiar de seus estranhos pacotes, supondo que logo seria despedido, lacrou de vez a passagem, pensando poder voltar assim que a situação fosse esquecida. Nesse meio tempo, deixou seu espólio sob guarda de um padre que era seu conhecido para não levantar suspeitas. Seu azar foi que o tal padre não tinha uma vida tão devota e estava sempre desesperado em busca de dinheiro para sustentá-la. Logo, não demorou muito para cair na tentação e vender todos os pacotes no mercado negro de itens antigos. Ele não poderia imaginar o quanto antigos eram os documentos e que valiam bem mais que as garrafas de absinto e a noite de satisfação carnal. Contudo, não tardou para que todos os seus problemas fossem definitivamente resolvidos; o operário, ao saber que mais nada restava, apunhalou o padre e fugiu. A sorte do fugitivo não melhorou, o padre tinha irmãos menos tementes a deus, que o emboscaram e mataram alguns dias depois.

Depois do relato feito pelo colecionador, começou-se as buscas pela cela secreta e ela foi encontrada. Passou-se, então, ao tedioso trabalho de recuperação e, no seu decorrer, outros textos astanfitas foram surgindo paulatinamente. Entre eles, algumas preciosidades como um evangelho desconhecido e que nem mesmo estava presente na biblioteca de Nag Hammadi. Enigmaticamente, em sua primeira linha lê-se: “Estes são os relatos feitos por Lásarus, o primeiro vivo, sobre Jesus, o segundo vivo”. Outros são conhecidos por Nag Hammadi ou outras fontes, mas designam autores diferentes. É o caso de certos livros, cuja autoria sempre foi dada a João, que aparecem atribuídos a Lásarus, o primeiro vivo. Esse Lásarus evangelista, discípulo e depois mestre de Jesus confunde os pesquisadores imensamente. Nos evangelhos canônicos, ele é apenas o rapaz ressuscitado, irmão de Marta e Maria. Talvez “primeiro vivo” derive do fato de ter precedido Jesus na ressurreição do corpo. O seu evangelho astanfita diz explicitamente isso, mas também revela que a ressurreição foi apenas aparente; já que, efetivamente, eles jamais chegaram a morrer. Nos seus termos:

“A ressurreição só é possível enquanto ainda não sobreveio a morte física. O fruto da arvore da vida é para ser comido pela carne e quem assim o saborear ressuscita e passa a ser um ‘vivo’ como Jesus e, antes dele, Lásarus”.

Tudo isso é muito interessante, todavia estamos nos desviando de nosso tema. Haverá outras ocasiões propícias para retomarmos a esse assunto instigante. No momento, devemos nos ater a uma obra magnífica e sem precedentes revelada entre os manuscritos de Hagia Sophia. Nunca houve qualquer citação sobre ela, tudo que lhe dissesse respeito foi sumariamente destruído. Parece que até mesmo os monges de Nag Hammadi a rejeitaram ou a desconheciam. Nem os detratores da heresia gnóstica que existiram dentro da patrística – normalmente os responsáveis por sobreviver alguma memória dos textos que atacavam e, por paradoxal que pareça, sem eles a existência de certas concepções não ortodoxas seriam completamente varridas da História – ousaram mencioná-la uma vez que fosse. Era como jamais tivesse sido escrita até as descobertas de Hagia Sophia. Talvez os padres da igreja tenham pensado que era mais sensato e prudente omitir comentários e não chamar atenção sobre ela, deixá-la obscura e restrita como estava, não deviam salientar qualquer aspecto de seu conteúdo, até tachá-la de apostasia imperdoável seria conceder-lhe uma importância perigosa. Neste caso, julgaram que o melhor era calar e proceder, sem aviso e demora, uma devassa permanente para busca e apreensão de todas as cópias que surgissem, as quais seriam lançadas ao fogo de imediato. Felizmente, os astanfitas eram poucos e astutos, não se revelavam com facilidade e suas condutas não os denunciavam. Além de tudo, eram muito estimados, pois se destacavam em diversas das artes e ciências da época, inclusive assumiam posto de responsabilidade dentro do império e, mais tarde, na própria igreja. Graças a essas providenciais peculiaridades, um pergaminho contendo uma inspirada versão alternativa do gênese bíblico chegou aos nossos tempos.

Os historiadores catalogaram esse códice com o título de “O Livro de Astanfeus”, já que Astanfeus, um dos sete anjos da criação, é o protagonista da trama narrada no manuscrito. A sua epopéia inicia-se precisamente no trecho bíblico encontrado em gênesis 3:22 nas bíblias atuais e relata sua contenda com Iaodabaoth, outro anjo da criação; metáfora para o conflito eterno entre liberdade e tirania. O sentimento filantrópico nutrido por Astanfeus o levará a defender o homem contra os desmandos megalômanos de Iaodabaoth. Sua interferência se faz, a princípio, através de Eva, pois só ela lhe podia ouvir, isto porque a sensibilidade de Adão foi totalmente embotada pelo domínio que Iaodabaoth exerce sobre a aparência. Astanfeus passa, então, a incentivá-la para que compartilhe com seu parceiro o fruto interdito do conhecimento do bem e do mal, assegurando-lhe que não iriam morrer como sentenciou o anjo que lhes dizia ser um deus único. E, além disso, seus olhos se abririam, o que os tornaria iguais aos anjos. Sua investida surtiu efeito e o fruto foi consumido, o que desagradou profundamente Iaodabaoth, fazendo-o exigir a expulsão do casal humano do éden, para evitar que também usufruíssem da árvore da vida. Todavia, sua moção não foi acatada pelos outros seis anjos da criação; os elohim, o próprio Astanfeus sendo um deles. Enfurecido, Iaodabaoth se volta contra os humanos, persuadindo-os de que nada havia mudado; continuavam a ser as mesmas criaturas indefesas de antes, só que agora estavam eternamente marcadas pelo pecado da desobediência e da soberba de desejarem ser deuses, tornando mister que sofressem uma severa punição: o exílio.

Prefigurando uma notável ingenuidade, eles aceitam as manobras ladinas do anjo contrariado em seu amor próprio. É voluntariamente que se submetem e se humilham a um poder que já não possuía controle sobre seus destinos. E por que fizeram isso? Qual a razão de tal disparate? O texto delata uma cumplicidade tácita entre os dois lados dessa relação de poder. Evidencia que os pais da humanidade não foram enganados, nem poderiam ser; o fruto do conhecimento havia lhes concedido clareza de espírito suficiente para flagrar qualquer tentativa de logro. O que choca é concluir com o autor que eles deliberadamente se deixaram enganar. E isso não é a mesma coisa, está muito longe de ser. Inadvertidamente, usa-se um conceito pelo outro sem considerar a inversão que ocorre entre agente e paciente do dolo. O logrado aqui, no fim das contas, é Iaodabaoth que tomou como sincera a crença depositada em suas palavras.

A que leva e qual a motivação desse estranho jogo de interesse? Depois que conheceram o bem e o mal, Adão e Eva se encontram numa situação semelhante a que passaram antes de comer o fruto. Na ocasião, nada havia que lhes desse certeza de qual dos dois anjos estava certo e, sendo honestos consigo mesmos, esse ponto ainda permanecia incerto; já que Iaodabaoth sentenciou que morreriam, mas não disse quando. Mesmo assim, tomaram uma decisão e declinaram em favor de Astanfeus. Comido o pomo da discórdia, descobriram que o esclarecimento não lhes trouxe a verdade, nem resolveu inteiramente o certo do errado; o que fez foi refinar, de modo extraordinário, a dúvida; paradoxalmente tornando-a algo líquido e certo. O bem e o mal se confundem, se mesclam, permutam incessantemente, variam de acordo com as circunstâncias, são recíprocos de uma mesma inteireza, um consubstancia o outro, entre eles há uma mútua afirmação e uma alternância cíclica de feições. Nessa dança interminável, as alternativas estarão sempre sendo geradas, as escolhas irão se sucedendo a cada passo. O primeiro casal humano percebeu, aturdido, que não lhe seria exigido apenas mais uma decisão; encadeadas a esta viriam várias, uma após outra até o fim da vida que pudessem ter. Vislumbraram uma existência repleta de livres opções e responsabilidade por cada ato. Se a primeira decisão não havia sido fácil, imagine enfrentar isso a todo momento e para sempre. Diante de Eva, Adão pondera:

– De que nos adiantou ter os olhos abertos, enxergamos em detalhes e minúcias o que antes era plano e compacto, abandonamos uma imagem simples e imediata de tudo que era exterior a nós por uma complexa compreensão que não delimita fronteira entre o dentro e o fora. Agora, podemos antecipar que nosso futuro não está previsto, são muitas as possibilidades e nenhuma garantia é possível; o dia seguinte se tornou uma bela esperança. Essa liberdade exasperante que devemos exercer cotidianamente nos será cobrada com mais e mais necessidades. Quanto mais se amplia a potência de nossos atos, mais aumenta nossa responsabilidade pelas conseqüências. A partir do fruto, se não assumirmos e suportarmos esse peso, não nos consideraremos dignos, nem razoáveis. Perdemos totalmente a capacidade de acreditar no quer que seja, sempre conseguiremos ver outras alternativas e, então, fazer mais uma escolha será inevitável, como a responsabilidade dela decorrente. Nunca escaparemos desse destino repleto de opções angustiantes, sempre seremos levados a tomar decisões cruciais e dolorosas. E tudo isso, toda essa demanda valerá a pena? Qual recompensa receberemos pelo extremo esforço? Também sobre isso nada é certo. Nosso discernimento recém adquirido não sustenta um só sentimento de segurança.

– Talvez, Eva, fosse melhor para nós devolver esse dom ingrato. Voltar a fechar os olhos como antes e esquecer tudo que vimos. Apaguemos de vez essa clareza de espírito. Se nos recusarmos a usá-la, ela deve desaparecer com o tempo. Com isso, a jogaremos no olvido junto com todo o resto. Façamos, Eva, com que nossa segunda decisão seja a última. Na primeira, eu te segui e demos ouvidos à serpente; eis que este é o momento de tu me seguires e ficarmos ao lado do Senhor Nosso Deus. A dádiva do fruto que nos trouxe infortúnio também nos mostra a alternativa para escaparmos dele. Argúcia e inteligência não nos convêm, nada mais que sofridos dilemas advirão deles. Como criaturas estúpidas, poderemos voltar a crer em Deus e ficaremos despreocupados em Seu regaço, livres de qualquer responsabilidade.

Eva se deixa convencer e capitula diante de Iaodabaoth para acompanhar Adão no desterro. Aceitam de bom grado o injustificado sentimento de culpa que o demiurgo lançou sobre eles. E obedecem cabisbaixos a ordem para que abandonem o éden e se confinem numa distante caverna nas terras ocidentais.

Nesta escura caverna, Eva gesta e dá luz a Caim (aquele que possui a si mesmo) e Luluva, as metades máscula e feminil do primeiro filho do homem, cuja fecundação se deu no meio do éden em pleno efeito do fruto do conhecimento. Já Abel (vaidade) e Aclia foram fecundados na clausura e no alheamento. Assim, no tempo das origens, o humano nascia, na aparência, com suas partes masculina e feminina separadas em irmãos gêmeos, destinados a se religarem no enlace sexual e recompor o hermafrodita primordial. Entretanto, isso jamais esteve nos planos de Iaodabaoth, pois a imagem humana dividida em dois sexos foi propositalmente concebida por ele, um premeditado arranjo para tornar o homem mais vulnerável ao seu aliciamento. Então, para impedir que a reunião se consumasse, convence Adão e Eva de que os casais deveriam ser prometidos trocados.

Caim e luluva crescem inconformados com a situação injusta a que seus pais estavam sujeitos. Chegaram cedo à convicção de que não precisavam, nem deveriam, adorar Iaodabaoth como deus único. Logo perceberam que era uma entidade insidiosa e com um hipertrofiado conceito de si mesmo, apenas preocupada em alimentar uma vaidade insana. Contrariando Adão e Eva, recusaram-se a louvá-lo, repudiaram seus caprichos, não aceitaram a condição de servos tementes, pois sabiam que ele dependia da anuência de suas vítimas para tocá-las. Mesmo com as imprecações ouvidas de seus genitores, viviam fora da caverna em peremptória e intencional ignorância às determinações do deus de seus pais. Mas não só deles, também seus irmãos Abel e Aclia se converteram em fiéis seguidores e condenavam o modo de vida que adotaram, que consistia em explorar as extensões dos campos ao redor, coletando vegetais e frutas, aprendendo os mecanismos da natureza. Despertaram suas mentes para o céu e o passar do tempo. Descobriram padrões e correlações, intuíram leis benéficas no crescimento dos vegetais, aprenderam técnicas de sobrevivência com os animais. E tudo isso os levou às artes e às ciências. Enquanto seus irmãos enveredaram por outros caminhos; confinaram os animais fora de seus habitats, cevando-os para abate, impondo-lhes ritmos de vida artificiais.

Os fragmentos em árabe deste texto que foram preservados apresentam pequenas discordâncias, em relação ao pergaminho astanfita, quanto à descrição de como foi efetuada a oferenda de Caim e Luluva. No códice, nem mesmo há oferenda, eles se recusam terminantemente em prestar qualquer homenagem àquele deus que tanto desprezavam. Nas versões em árabe até encetam a oblação, cedendo às suplicas dos pais, contudo o desfecho dado vai se modificando nitidamente em cada fragmento. Em exemplares mais tardios, a oferta é mínima, suficiente para não ofender um certo senso de desperdício que não conseguiram negligenciar; enquanto nos de datação mais remota, foram mais radicais e, desistindo na última hora, retiram tudo, ignorando peremptoriamente os apelos e admoestações dos pais e dos irmãos.

Não importa o quanto essa atitude foi minimizada nas versões árabes, a ira despertada em Iaodabaoth é irretocável. Não podendo atingi-los diretamente, nutre a vaidade de Abel e fomenta nele uma crescente desconfiança contra o irmão. E conduz a intriga num estilo que em muito antecipa o Iago no Othelo de Shakespeare:

– Abel, tu bem sabes que te amo tanto quanto a teus pais, que tuas oferendas me são agradáveis e as recebo com júbilo. Tu mereces toda minha deferência, mas teu irmão é o oposto de ti, rejeitou a verdade que te dei de bom grado e enfrenta a dúvida e a incerteza a cada dia. Ele não ouve as súplicas de teus pais e me odeia por puro orgulho, nada fiz contra ele para justificar essa má vontade e não retribuo o mesmo sentimento. Nunca neguei a ele o justo poder que permito a ti que exerças sobre a natureza, através dos animais que criei para te servir e aplacar tua fome. Mas não, por birra, ele prefere se sujeitar aos caprichos da natureza para se alimentar de vegetais ao invés de reinar sobre ela. Fiz-te forte e robusto por meio do que comes, enquanto ele ficou fraco e frágil devido ao seu alimento pobre; não é como um homem deveria ser; o vigor sanguíneo de teu rosto não se compara à tez pálida de teu irmão. A jovial beleza que possuis contrasta com a sobriedade pedante desse primogênito arredio. Talvez eu espere demais de quem é fruto do pecado de teus pais, que foi gerado na desobediência de minhas leis. Muito diferente és tu; filho do amor puro e casto, vieste à luz graças ao enlace que perante mim foi consagrado e comprometido. Bem-aventurado, então, foi teu nascimento e eu o abençoei e permaneci ao teu lado todos os dias de tua vida e jamais te abandonarei. Porém, teu irmão sempre se afastou de minha presença, seduzido por palavras evocativas e sibilinas repudiou minha guarda e proteção. Mesmo se impondo por arrogância, não pode esconder que seu desejo mais profundo é, na verdade, usufruir a intimidade que compartilhamos. Todo o desdém é dissimulado; apesar das recusas enfáticas, ambiciona secretamente todas as dádivas que te concedi. E assim, porque me importo com tua segurança, alerto-te para que te acauteles contra teu irmão. Porque me amas, logo Caim passará a te odiar como odeia a mim. Ele, agora, está enfurecido e rebelou-se totalmente contra meus desígnios. Aviso-te para que saibas: ele inveja-te mais do que nunca depois que te favoreci; reluta em aceitar minha decisão de fazer tua prometida a mais bela das irmãs. A obsessão por Luluva o está consumindo e há intenções hostis em seus gestos. És o predileto de teu Deus e não quero que sofras pelos atos de teu irmão, portanto previna-se contra a violência que ele poderá perpetrar. Tu conheces a morte, a tens provocado com tuas próprias mãos. O que ainda não te dei a conhecer é que não só os animais morrem; no exílio, também o homem morre. Ciente disto, tu perceberás que, em certos momentos, devemos nos antecipar ao mal para que ele não prevaleça.

Bem, o que se seguiu a isso é fácil prever. Abel, temendo a morte nas mãos de Caim, se antecipa e tenta matar o irmão usando seu instrumento de trabalho, ao que ele se defende por puro instinto de sobrevivência e ambos vão ao solo. Não conseguindo conter a fúria do irmão e no afã de o fazer parar, Caim reage reflexamente e desfere um golpe na cabeça de Abel com o que, no momento, estava mais ao alcance de sua mão; uma pedra. Abel tomba para o lado, mortalmente ferido, agoniza e morre. Caim se levanta atônito diante de uma visão que não pôde conciliar; olha o corpo inerte e sanguinolento e não reconhece, nele, seu irmão. Ele havia desencadeado um processo que, de um instante para outro, transformou algo vivo numa massa bruta e sem identidade. Sentia que era uma situação muito grave e, talvez, irreparável. Mas, transtornado, não queria pensar que fosse assim, freneticamente buscava em sua imaginação meios que pudesse reverter os fatos. A lembrança mais reconfortante que lhe ocorreu foi das sementes germinando do solo. Coisas inertes postas sob a terra úmida brotavam para a vida. O mesmo poderia suceder se, literalmente, plantasse aquilo que fora seu irmão. Com esse pensamento, cavou desarvoradamente o solo e na cova acomodou o cadáver, cobrindo-o com a terra solta. Contudo, não se tranqüilizou, sabia: algumas sementes não germinam. Apesar da dúvida, decidiu que nada mais poderia fazer senão esperar. Foi quando ouviu a voz que vem em silêncio lhe inquirir:

– Caim, onde está Abel, teu irmão?
– E logo tu, que deverias saber, me perguntas?

Lógico que sabia; Iaodabaoth perguntava apenas por intimidação. E, ainda a pouco, estivera com os Elohim pedindo para que intercedessem por Abel; primeiro, que lhe restituíssem a vida e segundo, que punissem severamente Caim por seu crime inominável. Ao primeiro disseram: “Há limites a todo poder: a vida é como a água que derrama do vaso partido no solo seco; é possível restaurar o vaso, mas a mesma água não poderá ser reposta”. Ao segundo deliberam que qualquer pena seria injusta: “Posto que nem Caim, nem Abel podem ser responsabilizados pelos seus atos; pois ambos foram privados de opção: A Caim, o ímpeto de sobreviver tirou todas e a Abel, tu não deixaste nenhuma”.

Porém, de nada disso tinha conhecimento Caim e prosseguiu afrontando o demiurgo em seu total estado de transtorno:

– Por certo, não és tu o guardião de meu irmão? Não era teu o compromisso de o proteger de todo mal? Pois, não o protegeste contra mim e agora jaz sob o solo que piso. Minha esperança é que a terra que dá vida ao trigo o faça renascer. Então, por que não mostras o quanto és poderoso e lhe devolves a vida que tirei?

Caim só tentava mais uma solução desesperada para seu drama pessoal, todavia Iaodabaoth encarou aquilo como um desafio; fora profundamente atingido em seu orgulho, não poderia deixar que uma criatura tão inferior o desacatasse assim. Movido pela arrogância e o despeito, Iaodabaoth comete a mais hedionda das ofensas à vida; desrespeita a morte e macula a inocência de um cadáver ao tocá-lo para reanimar seus membros. Tal intenção desnaturaliza sua existência e o torna um elemento estranho para a terra que o acolhe. E, então, num espasmo, ela expele o corpo de Abel de volta a superfície. Perplexo, Caim tem novamente o irmão morto diante de si. Intrigado levanta os olhos e interroga seu interlocutor divino:

– O que estás fazendo, queres brincar com a minha inquietação?
– Não, apenas estou respondendo ao teu desafio e pondo a prova tua descrença.
– Mas ele não se move, ainda o sinto morto. Nada fizeste senão desfazer meu trabalho. Oh, deixa-nos em paz e volta para tuas alturas.

Caim voltou a enterrar Abel na mesma cova e, de novo, o solo fértil recusou-se a recebê-lo em seu seio. Por três vezes Caim tentou devolver o irmão ao úmido útero da terra; ela, entretanto, em todas as tentativas o lançou fora. Na terceira, toda a criação é violada; os olhos de Abel se abrem e o irmão vivo fica mortificado. Nada mudou, é a mesma massa bruta despersonalizada, algo tão apavorante quanto uma pedra que abrisse, de repente, olhos que nunca tivera. O coração de Caim gela quando o irmão, que ainda sente morto, lhe pede, numa voz sumida, para levantá-lo dali, afastá-lo da terra calcinante que queima dolorosamente suas costas. Caim atende e ao erguê-lo percebe que a pele dele está cheia de ulcerações. De pé, Abel começa a se recompor, lança um olhar desvairado para o irmão e diz em tom de contrito lamento: “Tenho fome, muita fome, tanta fome que não penso em mais nada senão em satisfazê-la”. Dito isso, sai, sem aviso, correndo a esmo entre os arbustos até avistar uma presa; num rompante, salta sobre ela e a captura. Com uma expressão de extasiado deleite, mostra o desafortunado animal ao irmão, aperta-o sofregamente entre as mãos e crava os dentes em seu pescoço; em vão ele se contorce e guincha, mas seu sangue jorra e é sorvido avidamente pela boca crispada. Terminado, a carcaça totalmente exaurida de seus fluídos é largada ao chão como um bagaço de fruta chupada. Ato contínuo, o corpo revivo de Abel entra num frenesi convulsionado e, quando cessa, vasculha freneticamente ao redor, ansiando por mais. Assim, se põe a cata de novas vítimas e afasta-se rapidamente do irmão. Caim, terrificado, não tem coragem de ir atrás dele e o deixa à sua sorte. Já presenciara vários predadores em caça, porém nada visto era comparável ao que acabara de assistir, algo excessivamente doentio passara a habitar o corpo de Abel.

Sem alternativa, outra vez volta-se para a voz desincorporada e indaga sobre o que era aquilo:

– O que fizeste ao meu irmão? Não foi vida que lhe reenviaste, mas apenas movimento ao corpo. Ele é um morto que aparenta estar vivo. Algo medonho e abominável criado por mero capricho.

– Como ousas julgar minhas ações. Os meus motivos estão muito além do teu entendimento. Antes de eu criar a vida de aparência, tu criaste a morte de fato. Somos cúmplices nesse horror que se espalhará pela terra. A descendência de Abel proliferará entre os homens, enquanto a tua será apartada da humanidade, proscrita do convívio de seus próprios semelhantes, rechaçada onde quer que vá.
– Como tua maldição poderá se cumprir? Como conseguirão distinguir minha descendência das demais?
– Há uma marca indelével em ti que passarás, inapelavelmente, para todos de tua linhagem.
– Eu não tenho marca alguma e não deixarei que me marques como Abel marcava seus animais!
– Não preciso marcar a ti. Será na humanidade que infundirei a minha marca, um selo que não poderás, nem desejarás, simular. Deste modo, tu e tua descendência é que estarão marcados, justo por não possuírem marca alguma.

Iaodabaoth, imprudentemente, havia reconstituído o vaso: mas um vazamento permaneceu e toda a água nele posta não seria contida por muito tempo. O demiurgo deu a luz a um ser desviante, vazio de vida. Partejou um aborto da natureza que sobreviverá absorvendo a vida de outros. O que é bem diferente dos seres naturais que consomem a matéria para alimentar a vida que lhes é própria.

Bem, é isso. Já me estendi demais nesta resenha. É o que basta para apresentar a gênese mística dos vampiros dentro de uma perspectiva de origem judaica, como havia proposto. E se você achar tudo isso surpreendente demais, lembre-se que a história é escrita pelos vencedores. Quanto aos que insistem na prosaica pergunta: “Então, está é a verdade?”; responderei como faziam os astanfitas: “Não, apenas faz mais sentido!”.

X Runner

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