Fundamentos da Iniciação em Thelema

Tradução Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

Introdução

Em Thelema, o termo “iniciação” é usado frequentemente e de maneiras diferentes. Este artigo destina-se a elucidar o significado básico e os fundamentos da iniciação, especialmente no contexto do sistema espiritual de Thelema.

Definição básica: “Iniciação” refere-se, essencialmente, ao caminho da progressão espiritual de cada indivíduo. O “caminho da iniciação” é sinônimo de outros termos, tais como “o caminho da realização” ou “a busca pela iluminação”. Às vezes é chamada de Grande Obra, “subida da Árvore da Vida” ou simplesmente “o Caminho”.

Ao longo do Caminho, chega-se a vários “graus” de iniciação que podem ser entendidos como certos níveis de insight de entendimento ou simplesmente como certas mudanças de consciência, que se move progressivamente da ignorância da visão rasa de si e do mundo para o ser “iniciado” ou para a visão iluminada. Estes “graus” de iniciação referem-se estritamente a um processo interno, e as cerimônias e “graus” de organizações temporais são somente um reflexo simbólico de iniciações interiores. Como Crowley escreveu: “[o] Mestre Therion adverte todos os Aspirantes à Sabedoria Sagrada e à Magia da Luz que a Iniciação não pode ser comprada ou mesmo outorgada; ela deve ser ganha por esforço pessoal” (carta a W. T. Smith de 1934 e.v.).

Isto leva a alguns princípios gerais da iniciação, que são verdadeiros em todas as formas de espiritualidade:

1) Iniciação só poderá vir do esforço e do trabalho do indivíduo.

2) A verdadeira Iniciação sempre se dá na forma da experiência direta do indivíduo.

3) Iniciação não pode ser outorgada por outrem, por meio de palavras, símbolos, rituais ou qualquer outra forma. O máximo que o outro pode fazer é ajudar a apontar o caminho e a evitar armadilhas comuns.

Iniciação de modo geral

A base da iniciação é explicada de maneira razoavelmente sucinta em um texto chamado Liber LXI vel Causae ou Liber Causae. Nele se lê:

“Em todos os sistemas de religião é encontrado um sistema de Iniciação, que pode ser definido como o processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida”.

Isto estabelece que todos os sistemas religiosos têm alguma forma ou outra de se aproximar da mesma Verdade. Todos eles contêm alguma forma de “ processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida”, que aqui é chamado de “Iniciação”. A “Coroa desconhecida” é uma referência Qabalística à primeira Sephirah da Árvore da Vida, Kether, que literalmente significa “Coroa” e representa a Unidade da Cabeça Deus que o homem pode alcançar. Alguns chamaram esta “Coroa desconhecida” com o termo “Deus”, alguns a chamam “libertação”, “unidade”, “Verdade” e incontáveis outros nomes. Em última análise, é “desconhecida” e sem nome porque está além das dualidades de conhecedor e conhecido, além das dualidades do sujeito e objeto da linguagem e, portanto, não pode ser nomeado com precisão. É, para usar a linguagem da Missa Gnóstica, sempre “além da fala e além da visão”. Iniciação é definida como o processo pelo qual alguém poderá aprender Isto. O Liber Causae continua:

“Embora ninguém possa comunicar o conhecimento ou o poder para realizar isto – que nós podemos chamar a Grande Obra – ainda é possível que os iniciados guiem outros’”.

Aqui nos é dito algo que foi citado anteriormente como um princípio geral de iniciação: Iniciação não pode ser outorgada por outrem, por meio de palavras, símbolos, rituais ou qualquer outra forma. O máximo que o outro pode fazer é ajudar a apontar o caminho e a evitar armadilhas comuns.”Ninguém pode comunicar” não significa que não há ninguém inteligente ou esclarecido o suficiente para comunicar esta Verdade, mas sim que é uma Verdade cuja natureza é simplesmente incomunicável em virtude de ser para além de todos os nomes, formas, sinais e símbolos.

Aqui também vemos o processo de “Iniciação” ser equiparado ao termo “Grande Obra”, como também foi mencionado anteriormente. Aprendemos também que os iniciados não podem transmitir “aquela Coroa desconhecida”, mas que eles podem guiar os outros em direção a ela. Liber Causae continua sobre o tema:

“Todo homem deve superar seus próprios obstáculos, expor suas próprias ilusões. Porém, outros podem ajudá-lo a fazer ambos, e capacitá-lo de forma a evitar muitos dos falsos caminhos, [que levam] a lugar algum, que tentam os pés cansados do peregrino não iniciado. Eles podem, além disso, assegurar que ele seja devidamente provado e testado, pois há muitos que pensam ser Mestres, sem sequer ter começado a trilhar o Caminho do Serviço que para lá conduz.”.

Aqui temos a afirmação de outro princípio geral de iniciação mencionado anteriormente: Iniciação só poderá vir do esforço e do trabalho do indivíduo. Aprendemos também que o caminho da iniciação deve envolver a superação de obstáculos e exposição de ilusões sobre a realidade. Como outro importante texto fundamental afirma, “Tu então que tens provas e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles está a Força, e por meio deles é aberta uma trilha àquela Luz (…) Alegrai-vos, ó Iniciado, pois quão maior for a tua prova tão maior será o Triunfo”(Liber Librae).

Há uma reafirmação do fato de que iniciados podem ajudar a guiar os outros, a fim de capacitá-los a não cair em armadilhas comuns. Há também uma afirmação de que “há muitos que pensam ser Mestres” que não estão nem perto [disto], sendo “Mestres” um nome para aqueles que obtiveram sucesso em trilhar o Caminho. Aqueles que “pensam ser Mestres” inclui aqueles que podem pensar candidamente ter se realizado, mas apenas tiveram pequenos vislumbres da verdade, bem como aqueles que podem ser chamados de “charlatães” na medida em que, conscientemente, vampirizam candidatos genuínos, utilizando-se de mentiras e manipulação.

Uma coisa que é particularmente impressionante é a menção de que “o Caminho do Serviço” é o que “conduz a isso”, ou seja, É assim que ocorre o processo de tornar-se um Mestre. Existem várias maneiras de compreender o que quer dizer “o Caminho do Serviço”, e estas estão todas conectadas. Em primeiro lugar, existe o fato que já foi mencionado repetidamente: uma das funções do iniciado é servir de guia para os outros no Caminho. Em muitos sistemas, uma vez que seja confirmado que o iniciado está suficientemente avançado no entendimento (ou na “realização” ou qualquer outro termo similar), ele se torna um professor ou um guia para outros – há muitas tradições que envolvem a “transmissão” da sabedoria do guru ou Mestre para o discípulo, até o início na cadeia; o não iniciado.

Relacionado com este modo de entender “o Caminho do Serviço” é o fato de que, especialmente dentro de Thelema, há uma ênfase em “retornar ao mundo” uma vez que se tenha atingido este grau de entendimento. Isto é virtualmente idêntico ao voto bodhisattva no Budismo Mahayana quando alguém jura retornar do nirvana (libertação, realização, etc) ao samsara (o mundo mundano da ignorância), a fim de que todos os seres possam ser libertados. Há exemplos abundantes desta mesma ideia na tradição ocidental, geralmente envolvendo o simbolismo de alguém que atingiu a iluminação retornando de um lugar distante e/isolado; exemplos proeminentes incluem o retorno de uma montanha (por exemplo, Moisés, Maomé e Zaratustra de Nietzsche) bem como o retorno do deserto (por exemplo, Jesus). Isto é, tornar-se um Mestre está intimamente ligado com o Caminho do Serviço, pois não se torna um Mestre exclusivamente para iluminar a si mesmo, mas também para ajudar os outros a alcançar a Luz.

Finalmente, ligado a estes dois modos de compreender “o Caminho do Serviço” pode-se entender esse Serviço num sentido mais geral: ele requer uma redução do apego [que se tem] ao ego, à identidade pessoal ou ao senso de si, e não é possível se tornar um Mestre se há apego ao ego e aos seus objetivos ego-direcionados. Em todos os sistemas de realização, procura-se a “Coroa desconhecida” que está sempre além do sentido pessoal do eu e do “ego”; [ela] é, para usar a linguagem da Missa Gnóstica, “Tu que és eu para além de tudo o que eu sou.” Deve-se notar que em nenhuma dessas formas de compreender o Caminho do Serviço existe qualquer aparência de “servidão”, de humilhação diante dos outros ou autoimolação: é um Serviço de força, de alguém que transborda de Luz e assim outorga aos outros para que eles possam participar.

“Agora a Grande Obra é uma, a Iniciação é uma, e a Recompensa é uma, embora diversos sejam os símbolos com os quais o Inexprimível é revestido. “

Este é um ponto especialmente importante: essencialmente, a iniciação sempre leva ao Uno, a “aquela Coroa Desconhecida”, ao “Inexprimível”. Os místicos e iniciados sempre falaram da mesma “Grande Obra”, mas todos têm usado diferentes símbolos e linguagens para explicá-la. Num Livro Sagrado da Thelema está escrito: “sempre deverá existir a divisão na palavra. Pois as cores são muitas, mas a luz é uma só” (Liber LXV). Esta é uma bela imagem onde a Luz, o “Inexprimível” é sempre Um, mas ela entra através do prisma do mundo e cada indivíduo que fala sobre isso representa uma cor entre muitas. Deve haver sempre diversidade de expressão, mas são todas [as expressões] facetas que apontam para uma Luz. Uma ideia idêntica é expressa em outro Livro Sagrado de Thelema onde está escrito:

“Para você que ainda vagueia na Corte do Profano ainda não podemos revelar tudo; mas você vai entender facilmente que as religiões do mundo são apenas símbolos e véus da Verdade Absoluta. Assim também são as filosofias. Para o adepto, vendo todas estas coisas de cima, parece haver nada a escolher entre Buda e Maomé, entre o ateísmo e teísmo” (Liber X).

Os Mistérios no Novo Aeon

Entende-se que há uma única Luz, a “Verdade Absoluta”, “o Indizível” etcetera, e que a diversidade de expressões [representa] apenas diferentes modos para simbolizar e velar o Uno. Em Thelema, há um entendimento mais profundo de que há diferentes “fórmulas” de iniciação ou realização que são eficazes ao mesmo tempo, mas que precisam ser atualizadas para uma nova era ou “aeon”. Uma noção virtualmente idêntica é mantida na doutrina hindu dos “yugas” ou eras (por exemplo, o Kali Yuga), onde os requisitos para alcançar a libertação mudam a cada “yuga”. Este é o significado essencial por trás da ideia de que estamos em um “Novo Aeon”. Vamos olhar para esta ideia com mais profundidade:

No mundo do esoterismo ocidental ou “ocultismo”, há uma certa forma simbólica pela qual são explicados os “mistérios” do caminho da iniciação. Em geral, há uma série de rituais cerimoniais pelos quais cada candidato é submetido, simbolizando os estágios de iluminação e oferecendo orientação no Caminho. Mais importante, há um “Hierofante” (que significa literalmente “aquele que revela coisas sagradas”), cujo propósito é servir como o propagador dos Mistérios. Em última análise, este Hierofante representa ou reflete o Deus dentro de cada indivíduo, que é o verdadeiro Hierofante de todo iniciado.

Em uma tradição esotérica, a da Ordem Hermética da Golden Dawn, o Caminho foi simbolizado em vários psicodramas de variados “graus” de iniciação. O Hierofante sentava a Leste, o lugar do Sol nascente, enquanto outros oficiais sentavam em outros quadrantes. Este Hierofante não só revelava os mistérios como um “iniciador”, mas também representava a “fórmula” dos próprios mistérios. Neste sistema, o Hierofante era representado como Osíris, um deus que morto e ressuscitado em uma forma mais “divina”. Isto significa essencialmente que a realização foi conseguida via um processo de vida-morte-ressurreição, a “fórmula” de Osíris. Isto, é claro, inclui a fórmula representada pela morte e ressurreição de Cristo, que é vista como uma expressão da fórmula “Osíris” (juntamente com Attis, Adônis, Dionísio, etcetera).

Em algo chamado “Cerimônia do Equinócio”, os vários oficiais rotacionam ao redor da sala, assumindo novos postos e com um novo indivíduo se tornando o Hierofante. Da mesma forma, havia um “Equinócio dos Deuses”, em que os próprios deuses mudam de posições: Osíris já não mais representava a fórmula de iniciação. É por isso que a era ou Aeon onde sua fórmula estava ativa é chamada de “Aeon de Osíris” ou “Aeon do Deus Morto”. Agora, Hórus sentava no Leste como o Hierofante e uma nova fórmula foi posta em prática: “A palavra da lei é Thelema” (AL I:39). Este é o simbolismo trabalhado n’O Livro da Lei, onde está escrito: “Abolidos estão todos os rituais, todas as provações, todas as palavras e sinais. Ra-Hoor-Khuit tomou o seu assento ao Leste no Equinócio dos Deuses (…) Hoor em seu secreto nome e esplendor é o Senhor iniciado”(AL I:49). Em Thelema, é dito que este Equinócio dos Deuses tenha ocorrido no Equinócio da Primavera de 1904, com o novo Livro da Lei – uma nova Lei para um novo Aeon – tendo sido recebido alguns dias depois. Crowley comenta sobre este verso de O Livro da Lei:

“Este verso [Al 1:49] declara que a velha fórmula mágicka – a fórmula do Deus Morto Osíris-Adônis-Jesus-Marsyas-Dionisius-Attis-etcetera não é mais eficaz. Ela repousava na crença ignorante de que o Sol morria todos os dias, e todos os anos e que sua ressuscitação era um milagre. A fórmula do Novo Aeon reconhece Hórus, a Criança coroada e conquistadora, como Deus. Todos nós somos membros do Corpo Divino, o Sol; e o nosso Sistema é o Oceano do Espaço. Esta fórmula deve ser baseada nestes fatos. Nosso “Mal”, “Engano”, “Escuridão”, “Ilusão”, como queira chamar, é simplesmente um fenômeno de separação acidental e temporária. Se você está “andando no escuro”, não tente fazer o Sol nascer por auto sacrifício [isto é, a fórmula de Osíris], mas espere confiante no alvorecer, e enquanto isso desfrute dos prazeres noturnos. A alusão geral é ao Ritual de Equinócio da Golden Dawn”.

Muitos aspectos do caminho iniciático mudaram – ou ao invés disso, estão melhor compreendidas – no Novo Aeon. Um olhar mais profundo nos principais aspectos que mudaram é dado na série de artigos “Iniciação do Novo Aeon”. O que é notável em Thelema é o entendimento de que a Lei deste Aeon irá mudar novamente no futuro: Thelema é para este Aeon e uma nova Lei surgirá quando houver a próxima mudança, um outro “Equinócio dos Deuses”. É isto que é dito em outra parte do Livro da Lei:

Mas o vosso local santo ficará intocado através dos séculos: embora com fogo e espada ele seja queimado e destruído, ainda assim uma casa invisível lá permanecerá, e continuará até a queda do Grande Equinócio; quando Hrumachis se erguerá e aquele da dupla baqueta assumirá meu trono e lugar. Outro profeta se erguerá, e trará febre fresca dos céus; outra mulher despertará a lascívia e adoração da Cobra; outra alma de Deus e besta se mesclará no sacerdote englobado; outro sacrifício manchará a tumba; outro rei governará; e não mais serão derramadas bênçãos Ao Senhor místico com cabeça de Falcão!” (Al III:34).

Ocorrerá “a queda do Grande Equinócio” e, ao invés de Hórus, o deus “Hrumachis”se erguerá, e o novo deus – “aquele da dupla baqueta” – será instalado a Leste como o Hierofante com uma “fórmula” diferente para o novo Aeon. Crowley comenta: “Hrumachis é o Sol Nascente; ele, portanto, simboliza qualquer novo curso de eventos”. Portanto “Hrumachis se erguerá” é outro jeito de dizer que a luz de um novo Aeon surgirá. Crowley continua: “‘Aquele da dupla baqueta’ é ‘Thmaist em sua forma dual como Thmais e Thamait’, de quem os gregos derivaram sua Themis, deusa da Justiça”. Crowley se refere a Thmaist como um oficial das cerimônias da Golden Dawn; Thmaist é idêntica à deusa grega “Themis” e à egípcia “Maat”, ou simplesmente “Ma” ou todos os deuses da Justiça e do equilíbrio. Crowley continua: “Seguindo Hórus surgirá o Equinócio de Ma, a Deusa da Justiça, pode ser daqui cem anos ou dezenas de milhares de anos; pois a Computação do Tempo não está aqui como Lá (…) A Força irá preparar o Reino da Justiça. Nós deveremos começar já, julgo eu, a considerar essa Justiça como o Ideal cujo caminho devemos preparar, pela virtude de nossa Força e Fogo”

Sumário

A iniciação é o processo pelo qual chegamos à Luz Una, à “Coroa desconhecida” dentro de cada um de nós. Ela só pode ser alcançada através de nossos próprios esforços, embora outros iniciados e adeptos possam guiar-nos[,] apontar o caminho e ajudar a evitar armadilhas mais comuns. Há uma Luz única, ainda que ela seja expressa de diferentes formas; é a mesma Luz, independentemente de crença ou tradição. A antiga fórmula iniciatória de Osíris se tornou não mais eficaz com o despertar do Novo Aeon de Hórus, cuja palavra da Lei é Thelema. Mais detalhes sobre iniciação neste Novo Aeon pode ser explorado na série de artigos “Iniciação do Novo Aeon”. No futuro distante, o Aeon de Hórus também vai terminar e um novo deus, o da Justiça, se erguerá com a nova Lei.

Amor é a Lei; Lei sob Vontade

Publicado originalmente em https://iao131.com/2014/04/26/fundamentals-of-initiation-in-thelema/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/fundamentos-da-inicia%C3%A7%C3%A3o-em-thelema

A Heresia da Separatividade

Paulo Jacobina*

Excerto de A Senda Infinita

Tudo o que existe e o que não existe é uma forma manifesta do Absoluto, sendo uno com Ele e integrado de forma indissociável aos demais aspectos da manifestação.

Contudo, em decorrência do apego às formas ilusórias com as quais a manifestação se apresenta, tem-se origem a Heresia da Separatividade, a ilusória ideia de que a manifestação é separada de maneira autônoma do restante da manifestação, e, assim, tem origem todos os conflitos e sofrimentos ilusoriamente experimentados.

No Homem, é a Heresia da Separatividade que o faz utilizar, como fonte de conflitos, ilusões como raça, nacionalidade, regionalismo, posição social, estética física, origem étnica, ter ou não um determinado objeto etc. É ela a responsável por fazer com que alguns Homens se vejam como o ápice e que toda a manifestação tem de ter uma funcionalidade que lhes seja útil e não como parte integrante do Todo, ao invés de buscarem servir ao Todo.

Essa funcionalidade se manifesta das mais diversas formas possíveis, por exemplo, ao observar uma árvore se indaga para que ela serve. Alguns dirão que é para dar sombra; outrem, para dar oxigênio; aqueles, para servir de material para a fabricação de móveis; o próximo, para dar frutos, mas todos fazem uma análise baseada na serventia para a qual veem a árvore, e não para o que ela realmente serve, que é para ser árvore.

É o mesmo pensamento que faz com que alguns estabeleçam relacionamentos sociais, pois veem as demais Personas não como Personas em essência, mas como algo que lhes pode ocupar um espaço vazio na sua “coleção de itens”. Ao deixarem de cumprir determinada função, são descartados, fazendo com que se estabeleça uma relação pautada em aspectos menos sutis, como os manifestados exteriormente, a exemplo de possuir dinheiro e da atratividade física; ou aqueles relacionados ao que o outro pode lhe proporcionar na esfera psíquica, como lhe fazer bem[1]; ou o status de se estar em um relacionamento. É pensar “o que posso retirar disso?”, e não “o que posso contribuir para isso?”[2]. É não ter sentimento verdadeiro e sim um falso sentimento, que tem origem em autoindulgência, autoaprimoramento ou autoproteção.

É a Heresia da Separatividade que dá origem ao Ego, isto é, a vinculação do Eu com aspectos da manifestação menos sutis de forma a se confundir o Eu com esses aspectos, fazendo com que o Eu acredite que é o Corpo Físico e, por isso, busque por coisas relacionadas a este Corpo. Há, ainda, os que acreditem que são emoções e procurem por experiências relacionadas a elas; outros, o intelecto, e visem situações relacionadas ao conhecimento e à racionalidade. Contudo, ao compreender que é parte integrante do Todo, assume o comportamento de apenas ter experiências relacionadas ao Todo e, por isso, está no seu Dharma.

Ao analisar a manifestação de forma separada e não como parte integrante de um processo, dá-se origem às dores e aos sofrimentos. A dor e o sofrimento têm origem na ilusória tentativa de se tornar imutável aquilo que é mutável.

A encarnação é um processo mutável e quando se tenta ilusoriamente torná-la imutável, nasce o sofrimento causado pela ideia da morte. A encarnação é composta por fases mutáveis, e quando se tenta ilusoriamente tornar uma dessas fases imutável, nasce o sofrimento causado pelo envelhecimento.

A posse de bens materiais é transitória pelas características físicas desses bens e por se tratar de uma posse e não da propriedade, e quando se tenta ilusoriamente transformar essa posse em propriedade, nasce o sofrimento decorrente da perda desses bens materiais ou da possibilidade dela.

A presença física é mutável, pois os Corpos Físicos se desfazem, bem como há a ilusão da distância física, e quando se tenta tornar a presença física imutável nasce o sofrimento causado pela saudade[3]. O descendente, que também se encontra encarnado, percorre as fases mutáveis da encarnação, e quando se tenta ilusoriamente tornar a sua infância perpétua, nasce o sofrimento provocado pela “síndrome do ninho vazio”, além dos sofrimentos sentidos pelo descendente, cuja essência não é vista pelos genitores.

A dor ou o sofrimento, quando finalizados, em regra, geram a sensação de Alívio e não o Prazer.

O Alívio é a sensação obtida com o término da causa da dor ou com o habituar-se àquela causa e não com a compreensão daquela realidade. Quando o objeto da saudade regressa fisicamente para perto do Eu, tem-se o alívio; quando se sente fome, comer gera alívio; quando se usa algo apertado, a sua retirada gera alívio; quando se perde alguma coisa, encontrá-la gera alívio; quando se sente sono, dormir traz o alívio; quando se deseja possuir algo, adquirir aquele bem causa alívio.

Enquanto o Prazer[4] só é experimentado quando há a evocação da essência da manifestação, se percebe o Absoluto e se desfaz o ilusório véu que oculta o brilho essencial de toda manifestação, galgando os degraus da Escada de Jacó e se tornando o Eu Superior, que compreende a Verdade.

A dor, o sofrimento, o conflito, bem como tudo aquilo que se rotula de prejudicial, têm origem no desconhecimento da Verdade, de que tudo o que existe e o que não existe é a forma manifesta do Absoluto. Ao se compreender que a separatividade é uma ilusão e que a unidade é a Verdade, o Eu se encontra no Samadhi, a Suprema Felicidade, na qual compreende que não é uma gota d’água no oceano, mas o próprio oceano.

Notas

[1] Em um Relacionamento, o outro irá fazer bem ao um. Contudo, esse receber o bem não é a finalidade do Relacionamento, mas algo que o compõe.

[2] A diferença entre as duas perguntas é o que separa um parasita, que vê o mundo como algo a lhe servir, de um simbionte, que se vê como algo que deve contribuir para o mundo. Sendo que este mundo pode se manifestar de infinitas formas, como o planeta em si, um país, um estado, uma cidade, um bairro, uma família, um grupo de amigos, um condomínio, uma sala de aula, um relacionamento etc.

[3] Ao se compreender que o estado de Consciência no qual se encontra é decorrente de todas as experiências pretéritas, situações vivenciadas junto a outros Eus, compreende-se que a saudade é uma ilusão, pois todos os Eus que já cruzaram a Senda Infinita percorrida pelo Eu, o marcaram de maneira indelével, contribuindo para ele se tornar Aquele que É. Assim, todos compõem o Eu e este, não importa o que aconteça, os terá eternamente em si.

[4] O Prazer ou Felicidade é a plenitude experimentada quando o Eu está no seu Dharma e, por isso, não é algo a ser alcançado, mas vivenciado. A Felicidade ou o Prazer não é um prêmio que se recebe, não é um fim a ser almejado, mas uma forma de se percorrer a Senda Infinita.


Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalis

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/a-heresia-da-separatividade/

Memes para reflexão (parte final)

« ler desde o início

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De que adianta ser um mestre?

Há uma ideia recorrente de uma visão superficial do misticismo que vê o mestre espiritual como um grande ser iluminado, digno de toda reverência, cujos ensinamentos praticamente não podem ser questionados… Mas em quê exatamente isso auxilia o cominho dos discípulos do mestre, e do próprio mestre?

Nenhum mestre chamaria a si mesmo de mestre, pois sabe que, se chegou aonde chegou, foi não somente pelo auxílio dos caminhantes de outrora, como pela lenta lapidação de si mesmo, da própria alma, um pensamento de cada vez, um passo de cada vez.

E, se aceita que outros lhe chamem assim, “mestre”, é porque sabe muito bem que houve época em sua andança espiritual em que ele mesmo também teve a necessidade de crer que existia algum guru espiritual que o pegaria pela mão e caminharia junto dele, sem que houvesse necessidade de ir a fundo de si mesmo, e encarar a própria sombra, os próprios medos, as próprias culpas, inteiramente só…

Mas então, depois que descobriu que não existem mestres, e que cada um só pode mesmo ser o mestre de si, também passou, quase que na mesma passada, a compreender que o único mestre é o amor:

Pois o amor é paciente, o amor é gentil. Ele não é ciumento, nem invejoso, nem soberbo, nem rancoroso. Ele sempre aguarda; ele sempre confia; ele sempre persiste; e ele jamais acaba. (Paulo de Tarso, Carta aos Coríntios)

É assim que podemos conhecer a fundo toda exegese bíblica, uma centena de mantras hindus, todas as nobres verdades de Buda e tudo o que se comentou sobre elas ao longo dos séculos, toda a filosofia grega, toda a simbologia do tarô, toda a história da ciência moderna, e muito mais, mas, sem a vivência de tais conhecimentos, sem a conexão com a essência da realidade, sem o mergulho íntimo nesse amor eterno, o que seríamos? Seríamos realmente mestres de alguma coisa?

É assim que chegamos a este meme de Yoda, um mestre jedi que também não chama a si mesmo de mestre, e que é a própria imagem da força espiritual: ela vem de dentro, não de fora. Ela é oculta, não aparente. E ela jamais acaba…

Pertencer a uma Ordem Iniciática não faz de você uma pessoa melhor;
ter muitos conhecimentos magísticos não faz de você uma pessoa melhor;
estar em uma religião não faz de você uma pessoa melhor;
ser uma pessoa melhor faz de você uma pessoa melhor.
(Frater Alef)

O que pode ser mudado

Recentemente surgiu nas redes sociais uma espécie de movimento filosófico que prega o “ficar de boas”, ou seja, o “estar em paz com a vida”. Ele foi chamado, como muitos devem saber, deboísmo.

O que nem todos devem saber, no entanto, é que o sucesso do deboísmo se deve em grande parte a sua similaridade com outra corrente filosófica muito mais antiga, o estoicismo:

Este mundo é uma única cidade, a substância da qual ele é feito é una e, necessariamente, existe uma revolução periódica, os seres cedem lugar uns aos outros, uns se dissolvem enquanto outros aparecem, uns estão fixos e outros em movimento. Tudo está repleto de amigos, antes de tudo os deuses, em seguida os homens que a natureza uniu intimamente uns aos outros. Uns são dados a viver juntos, outros a se separar; é preciso regozijar-se por estar juntos, e não se afligir por dever se separar. O homem, além de sua grandeza natural e de sua faculdade de desprezar o que não depende da sua escolha, possui ainda esta propriedade de não criar raízes e de não estar amarrado à terra, mas de ir de um lugar a outro, seja pressionado pelas necessidades, seja simplesmente para poder contemplar. (Discursos de Epicteto, III, 24)

A condição principal para a pacificação da alma, tanto no estoicismo como em diversas outras correntes filosóficas e/ou religiosas, é justamente a compreensão de que somos apenas pequenos atores em uma peça teatral cujo roteiro supera em muito a nossa atual compreensão. Não nos cabe querer dirigir o que não compreendemos, e ademais seria inútil tentar: há sim muitas coisas que escapam ao nosso controle, a nossa decisão, ao nosso poder.

Mas é justamente nesse “deixar levar” das coisas que não temos realmente controle que nós passamos a voltar nosso foco mental, nossa atenção, para aquilo que é realmente importante, aquilo que podemos mudar: a nossa reação interna, a forma como interpretamos o mundo; em suma, cada um de nossos pensamentos que surge, genuinamente, de nossa mente, de nossa alma, e que “não veio de fora para nos importunar”.

E é precisamente nesse entendimento, nessa compreensão do que pode e do que não pode ser mudado, que iniciamos finalmente na via da sabedoria; e então, se a total pacificação da alma pode ainda se encontrar distante, fato é que a cada passo neste caminho nos tornamos mais confiantes, mais tranquilos, mais “deboas”…

As coisas se dividem em duas: as que dependem de nós e as que não dependem de nós. Dependem de nós o que se pensa de alguma coisa, a inclinação, o desejo, a aversão e, em uma palavra, tudo o que é obra nossa. Não dependem de nós o corpo, a posse, a opinião dos outros, as funções públicas, e, numa palavra, tudo o que não é obra nossa. O que depende de nós é, por natureza, livre, sem impedimento, sem contrariedade, enquanto o que não depende de nós é fraco, escravo, sujeito a impedimento, estranho. (Manual de Epicteto, I)

Deuses dançarinos

Uma vez Friedrich Nietzsche, o grandioso bigodudo da filosofia alemã, disse que “só poderia crer num Deus que soubesse dançar”.

O que o alemão criticava não era a religiosidade, tampouco a espiritualidade poética de deuses dançarinos, mas antes a sisudez e a ortodoxia do cristianismo de sua época, em que os fiéis se abstinham quase que totalmente de suas experiências místicas, de suas danças sagradas, para reler os relatos antigos das experiências dos outros, de muitos séculos atrás.

Fato é que o cristianismo, de lá para cá, acabou realmente se tornando menos sisudo, menos ortodoxo, e mais carismático, em muitos sentidos, e talvez isso agradasse Nietzsche… Ele certamente preferiria dançar ao lado de Jesus do que ouvir a uma missa, se levantando, sentando e gesticulando junto com os demais, em momentos pré-estabelecidos.

No fundo, o que este e os demais memes quiseram lhes trazer é tão somente uma reflexão bem humorada acerca de tais assuntos transcendentes. Levar a vida muito a sério, sem dançar de vez em quando, não parece ser o caminho mais eficiente para a espiritualidade…

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Crédito das imagens: Raph/Google Image Search

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Cristianismo #memes #Nietzsche

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/memes-para-reflex%C3%A3o-parte-final

Iniciação no Novo Aeon: O Não Aperfeiçoamento da Alma

Tradução: Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

Faça o que tu queres há de ser tudo da Lei

Nota: originalmente escrito em 20 de abril de 2009

5) Não Aperfeiçoamento da Alma

“A alma é, em sua própria natureza, pureza perfeita, calma perfeita, silêncio perfeito (…) Esta alma nunca pode ser ferida, desfigurada, corrompida”

– “A Alma do Deserto”

Esta idéia está fortemente relacionada com as ideias na última seção do Self como Redentor. Afirmamos neste texto que não é em Deus, em gurus, sacerdotes ou quaisquer autoridades externas que devemos confiar e que é equivocado dizer que “redimimos” a nós mesmos porque não há nada a redimir. Crowley escreve: “A redenção é uma palavra ruim; ela implica uma dívida. Uma vez que cada estrela possui riqueza ilimitada; a única maneira adequada de lidar com os ignorantes é levá-los ao conhecimento de sua herança estrelada” (The Book of Thoth). A “alma” não precisa ser redimida porque é perfeita e pura em si mesma; é apenas devido à ignorância do nosso próprio direito divino inato que nos julgamos imperfeitos e passageiros. Esta “alma” não é a personalidade do indivíduo – o ego-eu que se identifica com a mente e com o corpo -, mas sim o Eu que coexiste com Todas as Coisas.

O Verdadeiro Eu nunca morre, pois está além de toda limitação, contendo todas as coisas e relações dentro de Si. O corpo, assim como a mente, com certeza expirará, mas é somente através dos misteriosos mecanismos dessa mente e corpo que o Eu, além de todos os limites e opostos, pode tornar-se autoconsciente e conscientemente experimentar o arrebatamento da existência. Este Eu não precisa ser redimido ou aperfeiçoado: não há Queda do Homem a ser rectificada (religiões Abraâmicas) nem uma Roda do Sofrimento da qual ser liberada (religiões Dhármicas). Não há nem mesmo qualquer sentido [na ideia] da alma encarnar para alcançar “estados espirituais” cada vez mais elevados ou para [chegar à] “iluminação”. No Novo Aeon, o “ponto de partida” não é um estado caído, sofredor e pecaminoso, mas sim [um estado em que] nós somos todos Reais e Divinos, a Divindade-manifestada e “a existência é pura alegria” (Liber AL II: 9), se ela é vista com olhos que “Vinculam nada!” (Liber AL I: 22), ou seja, olhos que vêem a unidade oculta em dualidades aparentes. Como é dito: “Visto que todas as coisas são Deus, em todas as coisas tu vês tão somente de Deus quanto a tua capacidade te dá” (A Visão e a Voz, 17 Aethyr). O símbolo-metáfora essencial é que a Estrela da Unidade está sempre brilhando, potencialmente consciente, mas nós nos identificamos com o ego-eu e, portanto, estamos atolados em dualidade e limitação (uma vez que você se identifica com o ego, você não é imediatamente o não-ego ou o mundo e, portanto, o mundo se torna Dois em vez de Um). Crowley escreve nesta descrição em The Law is for All:

“Não devemos considerar-nos como seres básicos, sendo apenas esfera de Luz ou ‘Deus’. Nossas mentes e corpos são véus da Luz interior. O não-iniciado é uma ‘Estrela Negra’, e a Grande Obra para ele é tornar transparentes os seus véus, ‘purificando-os’. Esta ‘purificação’ é, na verdade, ‘simplificação’; não é que o véu esteja sujo, mas sim que a complexidade de suas dobras o torna opaco. O Grande Trabalho, portanto, consiste principalmente na solução de complexos. Tudo em si mesmo é perfeito, mas quando as coisas se confundem, tornam-se ‘más’”.

O ponto importante é que “tudo em si mesmo é perfeito”, mas nossas mentes inevitavelmente “confundem” a situação, o que culmina na identificação com o ego em vez do Verdadeiro Eu. Porque todas as coisas são perfeitas em si mesmas, obviamente não precisamos de nenhum tipo de Deus ou guru para conceder redenção, libertação ou iniciação a nós: o aspirante precisa apenas limpar os véus da ignorância em torno da sua Estrela, e o Verdadeiro Eu Vai saltar de dentro de sua consciência e queimar toda a divisão e limitação. Como Crowley explica em The Law is For All,

“Esta ‘estrela’ ou ‘Luz Interior’ é a essência original, individual, eterna (…) Nós somos advertidos contra a idéia de um Pleroma, uma chama da qual somos Faísca, e a qual retornamos quando ‘nos iluminamos’. Isso seria, de fato, tornar toda a maldição da existência separada [uma coisa] ridícula, uma insensata e inescusável insensatez. Isso nos levaria de volta ao dilema do maniqueísmo. A idéia de encarnações ‘aperfeiçoando’ uma coisa originalmente perfeita é, por definição, algo imbecil. A única solução sensata é a dada anteriormente, de supor que o Perfeito desfruta da experiência da (aparente) Imperfeição”.

No Novo Aeon vamos ainda mais longe do que se poderia esperar: a “ignorância” da dualidade também não é inerentemente má ou ruim. Em suma, a dualidade é [considerada] “ignorância” para alguém que ainda se identifica com o ego; mas, uma vez que se tenha dissolvido o ego, e se identificado com o Verdadeiro Eu, é possível reconhecer a dualidade como os meios necessários para a autoconsciência. Para o indivíduo atolado em dualidade e identificação com o ego, “união-dissolução” é sua fórmula, mas quem dissolveu o ego e se identificou com o Verdadeiro Eu tem a fórmula de “criação-parto” (…) e “O Todo, assim sendo entrelaçado com Estes, é a Felicidade” (The book of lies). O corpo e a mente, com suas concepções inerentemente dualistas, são uma prisão de ignorância para os não-iniciados e um templo para realizar o Sacramento da Vida para o iniciado.

É preciso ter a experiência da dissolução do ego para superar o medo mórbido da morte e para aceitar a dualidade não como a condição de nosso sofrimento, mas como a oportunidade para nos regozijarmos na união de diversos elementos (eu e mundo em cada experiência, junto com a União Suprema de ego e não-ego/sujeito e objeto). O mundo é ambos “Nenhum (…) e dois” (Liber AL I: 28). Nenhum, o contínuo, é “dividido pelo amor, pela chance de união. Esta é a criação do mundo, [em] que a dor da divisão é como nada, e a alegria da dissolução [é como]tudo” (Liber AL I: 29-30). Nessa concepção, a dualidade e a “criação do mundo” como a conhecemos (isto é, o mundo dualista normal que comumente habitamos) é na realidade a condição de “chance de união”. Somente se duas coisas estão separadas elas podem se unir e ter a possibilidade da “alegria da dissolução” em que o eu se torna “tudo”. Crowley explica: “Nuit manisfesta o objeto para criar a Ilusão da Dualidade. Ela disse: o mundo existe como dois, pois só assim se pode conhecer a Alegria do Amor, em que Dois é feito em Um. Nada que é Um está sozinho, e sente pouca dor em fazer-se dois, para que possa conhecer a si mesmo, e amar a si mesmo, e se regojizar nela” (“Djeridensis Working”). Desse modo, abraça-se tanto a unidade como a multiplicidade (dualidade) numa Unidade mais elevada.

Esta percepção da “consciência da continuidade da existência” (Liber AL I: 22) não é algo dado por um deus ou um guru, mas um direito inato natural de cada indivíduo. É, como descrito na primeira parte, um passo natural do Crescimento em direção à Maturidade espiritual-psicológica. E isso também nos leva ao ponto final: mesmo este é um passo ao longo do Caminho. Pode ser o “Fim” em certo sentido (o fim do domínio do ego, por exemplo), mas também é o começo, pois “a morte é a vida por vir” (Book of Lies). Ainda temos que viver a vida. Poderíamos dizer: “Antes da iniciação: trabalhar, viver e brincar; depois da iniciação: trabalhar, viver e brincar”, pois a identificação com o Verdadeiro Eu não significa o fim da mente e do corpo, juntamente com suas necessidades normais. De fato, a mente e o corpo – o ego-eu – não são destruídos permanentemente, mas renascem com energia renovada; os véus da ignorância (tanto da dualidade como da falsidade das doutrinas da Queda do Homem e do Sofrimento inerente do mundo) tendo sido arrancados. Não se obtém repentinamente o poder terreno de um rei ou o poder intelectual de Einstein, mas a mudança é algo em grande medida “interno” ou psicológico, pois na iniciação “nada é mudado ou pode ser mudado; mas tudo é entendido mais verdadeiramente a cada passo” (Little Essays Toward Truth, “Mastery”). É essa compreensão de nossos Verdadeiros Eus, além dos véus da mente e do corpo, que cada um de nós se esforça para alcançar para que possamos manifestar nossas vontades no mundo mais efetiva e alegremente. A tarefa é, então, simples, mas difícil: cada indivíduo deve dissolver o ego e sua identificação com ele para se identificar com o Verdadeiro Eu, sempre brilhando, embora não percebamos, e que está além das dualidades e de todas as limitações. No fim, “[t]udo que você tem a fazer é ser você mesmo, fazer a sua vontade e se regojizar” (“A Lei da Liberdade”).

“Nenhuma estrela pode desviar-se de seu curso escolhido: pois na alma infinita do espaço todos os caminhos são infinitos, abrangentes: perfeitos”.

-The Heart of the Master

Amor é a lei, amor sob vontade.

LINK ORIGINAL: https://iao131.com/2010/11/14/new-aeon-initiation-no-perfection-of-the-soul/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/inicia%C3%A7%C3%A3o-no-novo-aeon-o-n%C3%A3o-aperfei%C3%A7oamento-da-alma

Yeshua no deserto…

Texto de Huberto Rohden

Antes de iniciar sua vida messiânica, retirou-se Jesus durante quarenta dias ao deserto da Judéia. Depois desse período de solidão e meditação enfrenta ele o “adversário”, que em grego se chama diabolus, e em hebraico shai’tan.

As teologias entendem por esse adversário uma entidade objetiva, externa, que teria tentado Jesus. Entretanto, é bem possível que esse adversário tenha sido a personalidade humana de Jesus, que se opôs ao seu Cristo divino, tentando dissuadi-lo dos seus planos de redenção e abrindo gloriosas perspectivas, em que o ego humano vê redenção.

Durante quarenta dias, havia a personalidade humana de Jesus sido suspensa das suas funções normais; nem a sua natureza física, nem as suas faculdades mentais haviam funcionado durante esse tempo, enquanto o Eu divino do seu Cristo se achava no “terceiro céu” do êxtase ou samadhi.

Era natural que, terminando esse período de ego-banimento, a personalidade humana reclamasse os seus direitos suspensos, tentando e testando a individualidade crística com três invectivas tipicamente humanas: satisfazer a sua fome material, exibir a sua magia mental e apoderar-se do domínio político do mundo inteiro.

O cristo divino derrota o seu adversário humano e dá-lhe ordem de se pôr na “retaguarda” (vade retro) como servidor, e não na vanguarda como senhor, porquanto “a deus adorarás e só a ele prestarás culto”.

A sabedoria milenar do Bhagavad Gita harmoniza-se com essa atitude, quando diz: “O ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor da nossa vida”.

O texto sacro não manda o adversário (ego humano) ir-se embora, mas, sim, pôr-se na retaguarda, como dócil servidor do Eu divino do Cristo.

E após esses dias de meditação no deserto, a primeira mensagem que, logo no princípio, dirigiu ao povo é o chamado “Sermão da Montanha”, um grande tratado de paz, que representa o programa da mística divina e da ética humana, visando a total auto-realização do homem…

(Huberto Rohden)

#Espiritualidade #Filosofia #meditação #Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/yeshua-no-deserto

A Sabedoria Espiritual de Harry Potter?

Por Christopher Penczak.

Com o sétimo e último livro de Harry Potter, Harry Potter e as Relíquias da Morte de J.K. Rowling, sendo lançada em breve, está crescendo muito interesse na mídia e no público sobre magia, bruxaria e feitiçaria. Sendo um bruxo publicamente e um autor, muitas vezes me perguntam quão “real” é o mundo de Harry Potter. As crianças vão para um internato mágico, voam pelo ar e enfrentam todos os tipos de criaturas sobrenaturais. Quão real você acha que é? Mas o que eles realmente querem dizer é: quão real, quão precisa, é a magia apresentada na série Harry Potter?

Embora eu esteja feliz em saber que a popularidade da série Harry Potter está fazendo as pessoas lerem e fazendo as pessoas se interessarem por magia, lamento informar que a magia de Harry Potter não é muito real. Sim, eu sei que é um filme, e a magia do cinema, mesmo a mais respeitosa magia do cinema, tem que ter um pouco de força extra. As pessoas querem ver relâmpagos e bolas de fogo voando das pontas dos dedos, mesmo que eu não conheça nenhuma bruxa ou bruxo vivo que possa fisicamente realizar tais atos. É parte da emoção do filme, e nossos épicos de espada e bruxaria devem ser capazes de competir com lasers, sabres de luz e outros efeitos especiais espetaculares.

Também sei que parte da tradição está correta (até certo ponto), pelo menos no sentido histórico. Em Harry Potter e a Câmara Secreta, quando a turma de Hogwarts estava transplantando a mandrágora, eles ensinaram corretamente que o grito da mandrágora é perigoso, grita quando é desenraizado, e que precauções especiais são necessárias. No livro, eles usavam protetores de ouvido para abafar o som. Na Europa Medieval, eles supostamente amarravam um cachorro na raiz e colocavam a carne fora do alcance do cachorro, para que quando ele puxasse para pegar a carne, ele arrancasse a mandrágora, recebesse seu grito mortal e fosse morto. A mandrágora então se tornaria inofensiva e estaria disponível para ser usada como um poderoso amuleto. Embora, que eu saiba, nenhuma variedade de mandrágoras literalmente grite quando é desenraizada, tais rituais são um conhecimento remanescente de como apaziguar o espírito da planta, com quem você deve fazer parceria para fazer sua magia.

Trabalhar com os espíritos e a espiritualidade da magia é o que realmente falta no trabalho de J.K. Rowling. Em um esforço para tornar a magia excitante e mais palatável para o leitor moderno (que assume que a magia não tem nada a ver com religião ou espiritualidade), as ricas tradições espirituais históricas da magia são esquecidas e todo um corpo de conhecimento que poderia ser extraído para aprofundar o mundo de Harry Potter é deixado de lado.

Ironicamente, grupos cristãos conservadores nos Estados Unidos acusaram os livros de Harry Potter e J.K Rowling de promover bruxaria em crianças. Como uma bruxa, eu teria que discordar. Enquanto os filmes podem estimular o interesse em bruxaria e magia, a magia retratada neste mundo não é nada parecida com a minha. Se você entrar na Wicca, Magia Cerimonial, ou qualquer forma de magia moderna pensando que você será o Diretor Dumbledore ou a Professora McGonagall (com seus usos explícitos de magia), você ficará realmente desapontado. Para alguns, eles verão o que está faltando em Harry Potter e presente em nossas tradições, e olharão para o espírito da magia.

Embora a magia seja uma ciência para muitos de nós, porque existem padrões e teorias repetidos, também é uma tradição espiritual. Uma das primeiras definições que aprendi de bruxaria é que é “ciência, arte e religião”. Muitas tradições de magia, incluindo as tradições de magia cerimonial mais intelectuais e educadas, enfatizam o lado espiritual da magia, se não o lado abertamente religioso. Para muitos de nós, os talentos mágicos são considerados presentes dos deuses, e talentos específicos indicam aqueles abençoados por deuses específicos. Ao falar com um leigo sobre magia e feitiços, os feitiços são frequentemente descritos como uma forma de oração, petição ou súplica às forças divinas que governam uma área específica da vida. Se o feitiço for bem sucedido, a oração foi respondida. Outros vêem isso como uma parceria espiritual com essas forças, não necessariamente uma súplica. Em ambos os casos, trata de forças divinas sobrenaturais e imanentes com as quais o mago se comunica para criar mudanças.

O mundo de Harry Potter perpetua o que chamo de abordagem química da magia. Se você simplesmente fizer a coisa certa – as palavras e a pronúncia certas, o gesto certo, os ingredientes e o tempo exatos, obterá o mesmo resultado. Os magos sabem que você pode pronunciar palavras incorretamente e ainda ter ótimos resultados se tiver energia e vontade suficientes por trás de sua magia, e você pode pronunciá-las tecnicamente corretamente e ainda assim falhar. Magia é uma arte assim como uma ciência e algo que desafia a reprodução.

Muitas tradições de magia também colocam um código moral na magia. Na Wicca, temos a Rede Wicca: “E não prejudique ninguém, faça o que quiser”. Acreditamos que o que você faz, bom, mau ou não, retorna a você três vezes. Não é um julgamento ou código moral do universo, mas um mecanismo do universo, como a gravidade. Mas os resultados disso nos ajudam a criar uma experiência mágica mais agradável. Outras tradições têm tradições semelhantes de carma e colhendo o que você planta. Muitos magos seguem uma das numerosas variações da Regra de Ouro, popularizada pelo Cristianismo, para “[fazer] aos outros o que você teria feito a você”. Embora a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts tenha muitas regras, o mesmo conceito de ética e moralidade mágica não é mantido fortemente. Os personagens estão sempre se esforçando para fazer o que é bom e certo pela virtude de serem heróis, mas a moralidade não é realmente ensinada como parte de uma tradição espiritual mágica, levando alguns dos alunos (como Draco Malfoy e seus companheiros) a serem menos moral do que os personagens principais. Nem todo mundo pode ser um herói, e esses personagens fornecem um contraponto interessante aos heróis da história.

Enquanto, no livro, Hogwarts é uma escola de magia, bruxaria (witchcraft) e feitiçaria (wizardry), os nomes geralmente são usados ​​para denotar praticantes femininos e masculinos de magia. As meninas são bruxas (witches) e os meninos são bruxos (wizards). No mundo moderno, os homens adotarão o nome de bruxa tão prontamente quanto as mulheres, não de bruxo (wizard) e certamente não de bruxo warlock (já que bruxo warlock é geralmente considerado um termo depreciativo pelos bruxos modernos). As mulheres geralmente não usam o termo maga, mas podem ser magas cerimoniais. Elas podem ser magas, feiticeiras e encantadoras se esses termos os atraírem. A bruxaria moderna tem um forte traço feminista, enfatizando a igualdade (se não a superioridade) das mulheres, e um lugar de destaque para o feminino divino como Deusa e mãe de Deus, bem como posições de liderança para as mulheres. Embora existam professoras e personagens femininas, particularmente a muito inteligente e capaz Hermione Granger, o mundo de Harry Potter não tem a mesma sabedoria feminina divina que o mundo da bruxaria moderna aspira.

Alguns dos aspectos do mundo de Harry que estão de acordo com a magia moderna incluem a ideia dos trouxas. Um trouxa é uma pessoa não-mágica, e na verdade se refere a alguém como sendo de um sangue diferente, enquanto muitas das famílias mágicas tentam permanecer puro-sangue. Tais idéias também são encontradas nas tradições de bruxaria do velho mundo, com o conceito de “sangue bruxo”. Algumas bruxas acreditam que são descendentes das raças mais antigas de seres, incluindo os deuses celtas, o povo das fadas/elfos, ou a raça dos anjos caídos conhecidos como os Vigilantes. A magia foi transmitida nas tradições familiares porque também estava no sangue. As bruxas modernas chamaram não bruxas de cowans, inicialmente um termo que se refere a um pedreiro sem licença, aquele que não foi iniciado na guilda. As bruxas tradicionais britânicas, particularmente aquelas que seguem uma tradição estrita de bruxaria gardneriana ou alexandrina, considerarão todos aqueles não iniciados em uma tradição adequada como cowans. Eu pessoalmente odeio ambos os termos, trouxa e cowan, pois eles implicam que algumas pessoas não são mágicas. Penso que somos todos magos, e que aqueles que chamamos de cowans ou trouxas simplesmente ainda não aprenderam ou não são chamados a reconhecê-lo. Eles ainda são seres divinos e mágicos do jeito que são. Os termos vêm da nossa necessidade de nos sentirmos especiais e superiores aos outros. Essa ideia está em Harry Potter e na magia moderna, infelizmente.

Nos livros, Hogwarts enfatiza o estudo e a disciplina como uma parte importante do treinamento mágico, e devo concordar. Eu acredito que enquanto certas pessoas são talentosas em magia, talvez sendo do sangue de bruxa, qualquer um pode aprender a fazer magia se eles se dedicarem a isso. É preciso educação, treinamento e prática, mas a magia é uma habilidade como qualquer outra, e pode ser desenvolvida com o tempo. Você pode não ser um bruxo ou bruxa de classe mundial, mas pode usar feitiços simples e meditação para melhorar sua vida consideravelmente.

Por fim, o mundo de J.K. Rowling não tem nenhuma ideia tola de que a magia só pode ser usada por pessoas boas, ou para bons propósitos. Magia é uma energia, ou talvez uma maneira de manipular a energia, as forças invisíveis do universo. As pessoas usam para o bem. As pessoas usam para o mal. As pessoas usam para conseguir o que querem. As pessoas usam para ajudar os outros. Existe um espectro de usos para a magia e todos eles, independentemente de suas intenções, têm consequências. Magia nos ensina a assumir responsabilidade, a enfrentar as consequências de todas as nossas ações.

Quando as pessoas me perguntam sobre a realidade da série Harry Potter, depois de falar sobre alguns desses pontos, sugiro que tomem Harry Potter pelo que é: uma história. Apreciá-lo. Toda a série é divertida e provavelmente se tornará um clássico. Cada livro fica um pouco mais profundo e sério, crescendo à medida que a criança cresce lendo-os. E eles são muito divertidos para os adultos também, incluindo bruxas, feiticeiros, magos e pagãos. Mas não confunda um livro ou filme com as profundas tradições espirituais de bruxaria e magia.

Enquanto O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, ambos clássicos recentemente transformados em filmes, têm associações cristãs devido à fé de seus autores, ninguém os confunde com manuais de como praticar o cristianismo. Enquanto J. K. Rowling está escrevendo sobre bruxaria, ela não está escrevendo da perspectiva de uma bruxa moderna, então não espere que seja um livro de prática preciso. Se você está procurando por ficção que ensine magia, sugiro a leitura da obra de Dion Fortune, como seu livro A Sacerdotisa do Mar, quando terminar a série Harry Potter. Ela é divertida e esclarecedora, e abre um verdadeiro caminho para os mistérios da magia.

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Sobre o autor:

Christopher Penczak é um bruxo, professor, escritor e praticante de cura. Ele é o fundador do mundialmente famoso Temple of Witchcraft (Templo da Bruxaria) e do Temple Mystery School (Escola de Mistério do Templo), e é o criador dos livros e CDs de áudio mais vendidos do Temple of Witchcraft. Christopher é um ministro ordenado, servindo as comunidades pagãs e metafísicas de New Hampshire e Massachusetts por meio de rituais públicos, conselhos particulares e ensino. Ele também viaja extensivamente e ensina em todos os Estados Unidos. Christopher mora em New Hampshire.

http://www.christopherpenczak.com

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Fonte:

The Spiritual Wisdom of Harry Potter?, by Christopher Penczak.

COPYRIGHT (2007) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/a-sabedoria-espiritual-de-harry-potter/

O software angélico que roda no eixo do mundo (parte 2)

« continuando da parte 1

E foram todos os dias de Enoque trezentos e sessenta e cinco anos. E andou Enoque com Deus; e não apareceu mais, porquanto Deus para si o tomou. (Gênesis 5:23-24).

Seriam os anjos e demônios seres como nós?

Se até agora tendemos a concluir que os deuses e orixás não poderiam ser seres pessoais, conquanto não poderiam haver passado por alguma espécie de evolução, o mesmo não necessariamente se aplica aos anjos e demônios.

É claro que nos mitos monoteístas, diz-se que os anjos foram criados como seres já perfeitos, servos eternos dos desígnios de Deus. Neste caso, seriam algo similar aos deuses, que operam as forças naturais. Mas o problema desta linha de pensamento é que esses mesmos mitos também nos contam que há alguns anjos que se rebelaram contra o Criador, e que desde então foram condenados a habitar o Inferno e, quem sabe, serem sempre maus, por toda a eternidade.

Com isso se quer dizer que o livre-arbítrio foi inventado, precisamente quando um anjo chamado Lúcifer (portador da luz) decidiu se rebelar contra a “programação” do Criador. Afinal, qualquer ser criado “já perfeito, pronto e acabado”, não passou por evolução alguma e, dessa forma, não é “perfeito” pelo seu próprio mérito, mas antes por alguma forma de “programação”. Tais anjos seriam então como robôs, autômatos sem vontade própria. Mas, se não teriam vontade, como diabos Lúcifer teve a vontade de contrariar seu Pai?
Eu penso que este problema tem duas soluções lógicas, e não mais do que duas: (a) Lúcifer na realidade também foi “programado” para contrariar a Deus, e tudo o que têm feito desde então, em realidade, é tão somente o que foi “programado” para fazer [1]; (b) Lúcifer na verdade seria um ser como nós, e sua decisão de contrariar ao Criador denota, metaforicamente dentro deste mito profundo, o estágio em que o ser se torna autoconsciente, que “desperta” para o conhecimento do bem e do mal, da vida e da morte, e para o fato de que possuí uma alma capaz de interpretar o mundo e fazer escolhas [2].

Ora, se ficarmos com a última opção (que, no meu entendimento, faz mais sentido), temos que anjos e demônios nada mais são do que espíritos, como nós mesmos, em maior ou menor grau de evolução cognitiva, moral e espiritual. Certamente pode parecer complicado “classificar” aos seres por sua suposta “evolução moral”; mas, na prática, é isto o que tentamos fazer todos os dias. Sempre que conhecemos algum novo amigo (ou inimigo), uma de nossas primeiras preocupações é tentar situar em que “nível de moralidade” ele opera. Claro que, muitas vezes, temos julgado errado [3], mas isto não significa que não exista uma distinção clara entre seres amorosos, sábios e morais, e seres indiferentes, ignorantes e imorais.

Antes, porém, de habitarem reinos fantásticos, acima ou abaixo do mundo, anjos e demônios talvez devam ser classificados pelo estado em que se encontram suas mentes, sua consciência, sua paz de espírito. Anjos seriam, portanto, aqueles seres com maior consciência da própria liberdade, e maior controle da própria vontade; ao passo que demônios seriam o oposto, ou seja: seres atolados num charco de desejos desenfreados, facilmente manipulados por vontades alheias, perdidos de si mesmos.

O que isto tudo quer dizer é isto aqui: anjos e demônios habitam mesmo este mundo, e não poderia ser diferente.

Os exus e as pambu njilas

Nas mitologias africanas (e, particularmente, na dos iorubás), deuses são chamados orixás, conforme já vimos. Pois bem, ocorre que no caso da umbanda sagrada, religião de origem brasileira [4], anjos e demônios são chamados de exus e pambu njilas. Exus nada mais seriam que espíritos como nós, no período entre vidas, do gênero masculino. Pombagiras seriam exus do gênero feminino (seu nome é uma corruptela do pambu njila, de origem angolana) [5].

Dessa forma, na umbanda, nem todo exu é demônio. De fato, a imensa maioria dos praticantes desta doutrina lida mesmo é com exus de amor e moral elevados – anjos, portanto.

Em todo caso, não devemos confundir os exus anjos e demônios com o Exu orixá (um dos deuses iorubás)…

O axis mundi

Me disseram que o termo Exu é derivado de “Eixo”, mas isto não posso confirmar. Em todo caso, é algo que faz sentido: o orixá Exu é o deus mensageiro, o responsável por fazer a conexão entre um mundo que está no plano com um outro mundo que está acima ou abaixo. No nosso caso, costuma-se dizer que Exu forma o eixo entre a Terra e o Céu, mas também poderia formar um eixo, igualmente, entre a Terra e o Inferno, dependendo de nossa intenção e vontade ao invocá-lo.

Desnecessário dizer que estas ideias de um axis mundi (Eixo do Mundo), e de deuses mensageiros que o percorrem, trazendo e enviando mensagens entre um plano médio e um superior (ou inferior), são abundantes em diversas mitologias. Geralmente, os deuses inventores da escrita (Toth-Hermes; Odin-Wotan) encontraram esta incrível descoberta exatamente enquanto viajavam através do Eixo, indo e retornando de um plano superior. Odin, por exemplo, chegou a se enforcar neste Eixo, que era a própria Yggdrasil (“o eixo do mundo”), e após alguns dias de “transe xamãnico”, trouxe o conhecimento das runas (forma de escrita) aos homens nórdicos.

Entretanto, isto vocês devem lembrar: dizíamos há pouco que os deuses eram forças da natureza, e não seres pessoais, que evoluem, como nós. Ora, e não é exatamente disto que se trata o orixá Exu? Uma força natural, um instrumento pelo qual nossas mentes conseguem entrar em estados alterados e acessar informações que antes nos eram ocultas?

No fundo, não importa muito ao médium ou magista se os deuses existem fora ou dentro de suas mentes… Na prática, o axis mundi poderia ser um pé de feijão mágico cujo caule gigantesco toca o próprio céu, ou o eixo interno da própria alma, que liga o plano médio, consciente, ao plano oculto, inconsciente. Dessa forma, se em nosso inconsciente há um reino celeste, ou infernal, isto depende unicamente de onde sintonizamos nosso pensamento e nossa vontade.

» Em seguida, finalmente, o software angélico…

***
[1] Apesar de eu mesmo não acreditar na hipótese, admito que ela explicaria o fato de Lúcifer ser eternamente mau, sem a possibilidade de se arrepender: é que foi “programado” para assim o ser.
[2] Neste caso, o mito de Lúcifer teria vários outros paralelos na mitologia. Mesmo no próprio Gênese, o mito da Eva que comeu a fruta proibida da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, seria essencialmente uma metáfora muito parecida. Talvez surgido num tempo próximo, mas em outra parte do mundo, temos o mito de Prometeu, o titã que roubou o fogo dos deuses, e depois foi punido. Não obstante, houve tempo de presentear este fogo aos homens, o que os tornou “superiores” aos demais animais: ou seja, eram, conforme Adão e Eva, os primeiros seres humanos conscientes de si mesmos e da própria liberdade (vontade). Também haviam conquistado a ciência do bem e do mal (graças ao sacrifício de um ser “sobre-humano”, mas que foi punido pelos deuses por sua ousadia).
[3] O massacre dos indígenas da América pelos colonizadores vindos da Europa é um belo exemplo. Os colonizadores se julgavam “seres de moral superior”. Mas por tudo o que fizeram, pelo exemplo que foi dado, fica muito claro que os ditos “selvagens” estavam, muitas vezes, num estágio moral muito mais elevado do que os ditos “civilizados”.
[4] Surgida há pouco mais de um século, em Niterói, Rio de Janeiro.
[5] Muitas vezes a umbanda também lida com espíritos que, em sua última encarnação, não eram de origem africana, mas indígena. Normalmente são chamados de caboclos ou cabocladores, e não de exus. Eles são o que restou dos indígenas devastados pelos “homens civilizados”. E eles nos perdoaram: voltam para nos ajudar, sobretudo, por amor.

Crédito das imagens: [topo] Fantasy Flight Games; [ao longo] Tetra Images/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#espiritualismo #exu #Mitologia #Umbanda

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-software-ang%C3%A9lico-que-roda-no-eixo-do-mundo-parte-2

Repartir a Chama

Vi no documentário National Geographic “A Estória de Deus” que na Igreja do Santo Sepulcro, em Jesusalém, na Páscoa, as 4 principais seitas de cristãos ortodoxos se reúnem para testemunhar um “milagre”: O acendimento espontâneo de uma vela (supostamente por um anjo) colocada na (suposta) tumba onde Jesus ficou sepultado. As pessoas se aglomeram naquele espaço apertado, se empurrado e brigando, pois os sentimentos nacionalistas se misturam com os religiosos, e aguardam o “milagre”, que ocorre há mais de 1.000 anos.

Para os mais céticos é um “milagre” de gosto duvidoso, já que em momento algum as velas ficam expostas para o público (e sim dentro de uma cripta), mas fui levado às lágrimas ao ver toda a simbologia, onde 3 a 5 velas acendidas pelo “anjo” se transformam rapidamente em milhares de pontos de luz, provindos do mesmo fogo. Na penumbra da capela, a luz se espalha entre gregos, armênios, coptas, sem fazer juízo de valor, e o último a recebê-la terá sua chama tão quente, tão vívida quanto a que incandesceu a primeira vela.

Me emocionei ao pensar: Por que as pessoas não fazem isso no dia-a-dia? Por que brigam minutos antes e só confraternizam diante de um milagre?! O ser humano pauta sua conduta em função da religiosidade, quando a religiosidade é que deveria ser para o ajuste da conduta!!! Não deveria ser preciso Deus “descer do Céu” e dizer “Não matarás” para que saibamos que matar não é correto, e ainda assim vemos no mesmo livro dessa religião relatos de chacinas diversas em nome do mesmo Deus… vimos as cruzadas justificadas (não sei como) em Jesus, e enquanto escrevo outros tantos matam e morrem em nome de Allah…

Pensamos cada vez menos no semelhante, vivemos em um mundo que faz por onde reproduzir exatamente as características do “fim dos tempos” predito por Jesus. Quem pensa no outro é fraco, babaca. Até mesmo na espiritualidade há concorrência de grupos, seitas, integrantes. O conhecimento não é compartilhado, mas sim usado como moeda de troca, ou explicitamente vendido. Coleciona-se títulos como quem coleciona selos, ou moedas. Não percebem que, ao buscarem gradualmente a ILUMINAÇÃO, não perderão o “brilho da chama” ao compartilhá-la com o outro! Ao contrário, duas chamas trazem mais luz ao ambiente, e ambos poderão ver mais longe e melhor!

#Espiritualidade #Religiões

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/repartir-a-chama

A Bíblia Proíbe A Magia?

Por Aaron Leitch

A Tradição de Mistério Ocidental está bastante impregnada de literatura e imagens bíblicas. Gnosticismo , Hermetismo, Rosacrucianismo , Maçonaria , Aurora Dourada e Thelema têm laços extremamente estreitos com a tradição espiritual cristã. (Isso não deve ser confundido com a cooptação política do cristianismo a partir do segundo século EC.) Sem mencionar meus amados grimórios salomônicos , que certamente são uma expressão do misticismo cristão medieval. Mesmo as formas indígenas de feitiçaria e magia popular em todo o mundo agora carregam a marca da influência cristã (embora estes sejam casos em que o cristianismo foi meramente adotado em uma visão de mundo existente, em vez de sobrepujá-la e substituí-la). Podemos ver isso especialmente em lugares como África e América do Sul, onde as formas católicas de feitiçaria são bastante comuns.

A questão da magia entre essas tradições surge de vez em quando. Normalmente, é solicitado por recém-chegados que sentem um chamado para praticar as artes da magia, mas foram criados com a crença de que é diretamente proscrito por sua religião. Seu medo é muito real – eles se preocupam se mergulhar nas artes resultará na perda de sua alma imortal. Lembro-me de me preocupar com isso, de vez em quando, há muito tempo. Não importa o que eu pensasse intelectualmente, ainda havia uma criança dentro de mim perguntando: “Mas e se estivermos errados? E se tudo o que me ensinaram for verdade e eu tiver que explicar a Deus algum dia por que me tornei uma bruxa antes que Ele me envie para sofrer no inferno?” Afinal, eu só poderia ser uma bruxa por algumas décadas na melhor das hipóteses, mas eu poderia queimar no inferno por toda a eternidade!

Sim, superei isso – e sim , o aprendizado intelectual ajudou muito. (Quando você conhece a história de como o cristianismo realmente obteve suas ideias estranhas, é mais fácil colocá-las em perspectiva.) No entanto, essa não é uma questão que afeta apenas novatos inseguros que ainda precisam abalar a programação de sua criação. Na verdade, há um componente literário nesse problema que é um pouco mais difícil de ignorar. Você vê, aquela Bíblia que muitos de nós gostamos de usar como um livro mágico por si só (e, nunca duvide por um segundo que ele *é* um livro mágico) na verdade nos diz que a magia é má e nunca deve ser praticada . Como vocês provavelmente são predominantemente pagãos , você provavelmente já teve algumas dessas passagens citadas antes:

Levítico 19:31 : Não se volte para médiuns ou necromantes ; não os procureis, para vos tornardes impuros por eles: eu sou o Senhor vosso Deus.

Êxodo 22:18 : Não permitirás que uma feiticeira viva.

Deuteronômio 18:9-12: Quando entrares na terra que o Senhor teu Deus te dá, não aprenderás a seguir as práticas abomináveis daquelas nações. Não se achará entre ti quem queime seu filho ou sua filha em oferenda, quem pratique adivinhação , ou adivinhe, ou interprete augúrios, nem feiticeiro, nem encantador, nem médium, nem necromante, nem quem consulte os mortos, pois quem faz essas coisas é abominação ao Senhor. E por causa dessas abominações o Senhor teu Deus os expulsa de diante de ti.

Levítico 20:27 : Um homem ou uma mulher que for médium ou necromante certamente será morto. Eles serão apedrejados com pedras ; o seu sangue cairá sobre eles.

Levítico 20:6: Se uma pessoa se volta para médiuns e necromantes, prostituindo-se após eles, eu me voltarei contra essa pessoa e a eliminarei do meio de seu povo.

Miqueias 5:12 : E cortarei as feitiçarias da tua mão, e não terás mais adivinhos;

2 Reis 17:17: E queimaram seus filhos e suas filhas como oferendas e usaram adivinhações e augúrios e se venderam para fazer o mal aos olhos do Senhor, provocando-o à ira.

Levítico 19:26 : Você não deve interpretar presságios ou contar fortunas.

Apocalipse 21:8: Mas quanto aos covardes, aos infiéis, aos detestáveis, aos homicidas, aos imorais, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a sua porção será no lago que arde com fogo e enxofre, que é o segunda morte.

Parece que a Bíblia é extremamente clara neste ponto, e acredite em mim, o que foi dito acima é apenas um arranhão na superfície das advertências bíblicas contra bruxaria, feitiçaria, adivinhação, etc. Talvez aqueles de nós com mais experiência tenham deixado de temer ser lançado no “lago que arde com fogo e enxofre” pela ofensa de fazer um talismã e manter uma conversa com um espírito desencarnado. No entanto, ainda nos deixa com um grande problema: usamos um livro que claramente proíbe o uso de magia para fins mágicos. Elevamos o livro a uma posição de autoridade oculta – baseando-nos em suas passagens (como os Salmos) em nosso próprio trabalho. Não estou sugerindo que os ocultistas que se baseiam na Bíblia sejam “batedores da Bíblia” que tomam o livro como fato absoluto, mas aceitamos sua autoridade mitológica dentro de nossas tradições.

Por exemplo: a Bíblia mostra dois anjos sentados com Abraão para partir o pão . Por causa dessas passagens, sabemos que os anjos aceitarão pão como oferendas. Nós a aceitamos como uma verdade espiritual porque está no Livro. Da mesma forma, ao invocar anjos para nos ajudar em nossas vidas diárias, muitas vezes fazemos referência a atos que eles realizaram na Bíblia (ou nos apócrifos) – como se esses eventos realmente tivessem acontecido e, portanto, esperamos que os anjos façam o mesmo por nós.

Portanto, podemos simplesmente ignorar o fato de que o mesmo livro enfatiza, repetidamente, que a magia é uma abominação à mesma Divindade que invocamos nos Salmos? Não é muito provável que a Divindade se ofenda por estarmos chamando-a para algo em que ela declarou claramente que não quer fazer parte?

Para responder a essa pergunta, vamos dar outra olhada na própria Bíblia. Certamente não podemos descartar o fato de que os escribas e profetas que escreveram a literatura bíblica estavam profundamente preocupados com as pessoas usando magia, e estavam fazendo tudo ao seu alcance para afastar as pessoas da prática. No entanto, quando os profetas não estavam escrevendo sobre quão maus eram seus vizinhos pagãos, o que exatamente eles estavam fazendo?

Êxodo 7 :10-12: E Moisés e Arão foram ter com Faraó, e fizeram como o Senhor ordenara; e Arão lançou a sua vara diante de Faraó, e diante de seus servos, e ela se tornou uma serpente. Então Faraó também chamou os sábios e os feiticeiros: agora os magos do Egito, eles também fizeram o mesmo com seus encantamentos. Porque lançaram cada um a sua vara , e tornaram-se serpentes; mas a vara de Arão tragou as suas varas.

Êxodo 7:20 : E Moisés e Arão fizeram assim, como o Senhor ordenara; e levantou a vara, e feriu as águas que estavam no rio, diante de Faraó, e diante de seus servos; e todas as águas que estavam no rio se tornaram em sangue.

Êxodo 8:6: E Arão estendeu a mão sobre as águas do Egito; e as rãs subiram e cobriram a terra do Egito.

Êxodo 8:17 : E assim fizeram; porque Arão estendeu a mão com a sua vara e feriu o pó da terra, e ele se tornou em piolhos nos homens e nos animais; todo o pó da terra se tornou em piolhos em toda a terra do Egito.

Êxodo 9:10 : E eles tomaram as cinzas da fornalha e se apresentaram diante de Faraó; e Moisés aspergiu para o céu; e tornou-se um furúnculo que irrompeu em feridas nos homens e nos animais.

Êxodo 9:23 : E Moisés estendeu a sua vara para o céu; e o Senhor enviou trovões e saraiva, e o fogo correu sobre a terra; e o Senhor fez chover saraiva sobre a terra do Egito.

Êxodo 10:13 : E estendeu Moisés a sua vara sobre a terra do Egito, e o Senhor trouxe sobre a terra um vento oriental todo aquele dia e toda aquela noite; e quando amanheceu, o vento leste trouxe os gafanhotos.

Êxodo 10:22 : E Moisés estendeu a mão para o céu; e houve uma espessa escuridão em toda a terra do Egito por três dias.

Êxodo 14:21 : E Moisés estendeu a mão sobre o mar; e o Senhor fez recuar o mar com um forte vento oriental durante toda aquela noite, e fez do mar uma terra seca, e as águas foram divididas.

Êxodo 17:5-6 ″ E o Senhor disse a Moisés: Vai adiante do povo, e leva contigo … a tua vara com que feriste o rio, toma na tua mão e vai. Eis que estarei diante de ti ali sobre a rocha em Horebe; e ferirás a rocha, e dela sairá água, para que o povo beba. E Moisés o fez aos olhos dos anciãos de Israel.

Êxodo 17:9-11: E Moisés disse a Josué: Escolhe-nos homens, e sai, peleja com Amaleque; amanhã estarei no cume do monte com a vara de Deus na mão. Então Josué fez como Moisés lhe dissera , e pelejou com Amaleque; e Moisés, Arão e Hur subiram ao cume do monte. E aconteceu que, levantando Moisés a mão, prevalecia Israel; e , baixando a mão, prevalecia Amaleque.

Números 17:6-8: E falou Moisés aos filhos de Israel, e cada um dos seus príncipes lhe deu uma vara cada um, para cada príncipe, segundo as casas de seus pais, doze varas; e a vara de Arão foi entre suas varas. E Moisés pôs as varas diante do Senhor no tabernáculo do testemunho. E aconteceu que no dia seguinte Moisés entrou no tabernáculo do testemunho; e eis que a vara de Arão para a casa de Levi brotou, e deu brotos, e desabrochou flores, e deu amêndoas.

Números 21:9: E Moisés fez uma serpente de bronze, e colocou-a sobre um poste, e aconteceu que, se uma serpente mordesse alguém, quando ele via a serpente de bronze, vivia.

Josué 6:20 : Então o povo gritou quando os sacerdotes tocaram as trombetas; e aconteceu que, quando o povo ouviu o som da trombeta, e o povo gritou com grande brado, que o muro caiu ao chão, de modo que que o povo subiu à cidade, todo homem diante dele, e eles tomaram a cidade.

1 Reis 17:21-22: E [Elias] estendeu-se três vezes sobre o menino, e clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, peço-te, deixa a alma deste menino tornar a entrar nele. E o Senhor ouviu a voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e ele reviveu.

2 Reis 6:5-6: Mas, quando alguém estava derrubando uma viga, a cabeça do machado caiu na água; e ele clamou e disse: Ai, mestre! pois foi emprestado. E o homem de Deus disse : Onde caiu? E ele mostrou-lhe o lugar. E ele cortou uma vara, e a lançou ali; e o ferro nadou.

Juízes 6: 36-38 : E disse Gideão a Deus: Se por minha mão salvares a Israel, como disseste: Eis que porei na eira um velo de lã; e se o orvalho estiver somente sobre o velo, e estiver seco sobre toda a terra, então saberei que salvarás a Israel pela minha mão, como disseste. E foi assim: porque ele se levantou de manhã cedo, e juntou o velo, e torceu o orvalho do velo, uma tigela cheia de água.

Então, o que vemos nessas passagens? Ora, vemos os profetas usando magia — muito . Eles comandam os elementos da natureza; quebrar as leis da física; e realizar curas, adivinhações e muito mais. Se eu disse que a lista anterior de proscrições bíblicas contra a magia estava “apenas arranhando a superfície”, então a lista acima de milagres bíblicos é a ponta de um enorme iceberg de exemplos de magia bíblica. E essa lista cobre apenas uma parte do Antigo Testamento , então eu nem toquei nos assuntos de Jesus, os Apócrifos, nem os volumes e mais volumes de lendas bíblicas (hebraico: midrashim ) em que todo patriarca bíblico é retratado engajado nisso. tipo de magia profética. (Veja , por exemplo, Legends of the Bible de Louis Ginzberg.)

O que podemos colher de tudo isso não é realmente surpreendente. Ao longo da história, os tipos políticos foram fanaticamente e orgulhosamente hipócritas. Assim como vemos hoje: quando alguém quer que um direito ou liberdade seja retirado, ele só quer que ele seja retirado de você , não de si mesmo. Ativistas anti-aborto raramente veem qualquer problema em conseguir um para um jovem membro da família que cometeu um erro. Ativistas anti-gays estão – quase universalmente – praticando homossexuais em particular. Aqueles que gritam que o bem-estar está destruindo nosso país são os primeiros a se inscrever para assistência pública quando precisam – enquanto ainda proclamam que é errado alguém aceitá-la. Não é certo para você , mas tire minhas liberdades pessoais!

Os profetas que escreveram a Bíblia não foram diferentes. Eles eram tipos políticos, e seus escritos eram politicamente motivados. Na época, realmente não havia separação entre “Igreja e Estado” – e os escritos que vemos na Bíblia eram mais sobre poder político do que sobre espiritualidade. Grande parte de seu poder político residia em sua capacidade de desempenhar o papel de xamã para o rei e seu povo.

E eles não gostavam de competição.

Portanto, muito espaço na Bíblia é desperdiçado em discursos contra os males da feitiçaria, necromancia e adivinhação – mesmo que os mesmos autores estivessem realizando tudo isso eles mesmos. Estava tudo bem para eles fazerem isso, entende, mas não estava tudo bem para você – pelo menos a menos que você se juntasse ao grupo deles e recebesse seu selo de aprovação política. Então sua magia se tornou “milagre” – o que todos nós sabemos que é totalmente diferente de feitiçaria.

Certo?

***

Fonte: Does the Bible Outlaw Magick?

COPYRIGHT (2015) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-biblia-proibe-a-magia/

A Escada de Jacó

Paulo Jacobina

A alegoria da escada, na qual cada degrau corresponde a um nível de consciência, embora não represente realmente os diferentes estágios nos quais cada Eu se encontra, serve para ilustrar o conceito macro dessa ilusória divisão de estágios de consciência.

Assim, no primeiro nível da escada se encontram todos os Eus Inferiores; no último nível, os Eus Superiores; ao passo que nos infinitos degraus estão todos os estágios de consciência intermediários que o Eu pode experimentar, fazendo com que todos os Eus estejam alocados em seus respectivos degraus e que todos os infinitos degraus estejam ocupados pelo grupo de Eus que lhe corresponde.

Porém, diferentemente do que muitos acreditam, todos esses Eus espalhados por esses infinitos degraus encontram-se interligados, pois são parte integrante do Absoluto e, quer tenham consciência disso ou não, fazem parte de um intricado sistema de auxílio mútuo.

Aqueles que se encontram no mesmo degrau compartilham os mesmos tipos de situações, visando adquirir a experiência necessária para, por ressonância, alcançarem o degrau superior. Contudo, as situações nas quais se encontram não estão isoladas, fazendo parte de um sistema no qual recebem o auxílio daqueles que se encontram no degrau imediatamente superior, que, por intermédio, principalmente do exemplo, os orientam[1].

Conforme vão sendo orientados por aqueles que se encontram no degrau superior, também orientam aqueles que se encontram no degrau imediatamente inferior, criando um infinito fluxo de vitalidade e transmutação, com cada um desempenhando a sua função[2] e aprendendo com aqueles que se encontram no degrau superior, no inferior e no mesmo degrau.

Entretanto, como nenhum Eu se apresenta de forma monodimensional, uma vez que manifesta uma ampla gama de características decorrentes dos infinitos graus das polaridades dos atributos que nele atuam, ele não se encontra em apenas um degrau nessa escada alegórica, mas em tantos degraus quanto os números de características que manifesta, fazendo com que cada Eu seja único, de acordo com o Dharma que lhe é próprio.

Desta forma, o Eu se encontra em infindáveis escadas. Em cada uma delas, em um degrau diferente, interagindo com aqueles que se encontram nos mesmos degraus, sendo auxiliado por aqueles que se encontram nos degraus imediatamente superiores e auxiliando aqueles que se encontram nos degraus imediatamente inferiores.

A média desses infinitos degraus e a diferença entre os graus das polaridades dos atributos são o que estabelecem o Mundo de Existência no qual o Eu necessita estar para experimentar as situações indispensáveis para, por ressonância, se deslocar na Consciência.

[1] Muitos acreditam equivocadamente que auxiliar o próximo significa resolver a situação na qual o outro se encontra, como um pai que, ao invés de auxiliar um filho em seu dever de casa, simplesmente o resolve, sem deixar que o filho possa experimentar, pela tentativa e erro, alcançar a sua resolução. “Resolver” uma situação para o próximo lhe é extremamente prejudicial, pois, além de não aprender a resolver aquela situação, acaba por criar o conceito de que as situações, vistas como problemáticas de onde se encontra, podem ser solucionadas por outros e não por ele mesmo. Isso faz com que o “ajudado” permaneça estagnado naquele degrau, fadado a vivenciar aquela situação com roupagens diferentes, até encontrar a compreensão dentro de si e superá-la.

A jornada existencial não é cíclica, como muitos acreditam. Os ditos “problemas”, que nada mais são do que as situações vivenciadas em cada degrau, apenas se repetem enquanto o Eu ainda se encontra naquele degrau e, por isso, no mesmo nível daquela ilusória situação e pode vivenciá-la. Ao passo que se muda de degrau, aquela situação deixa de ser vivenciada e, consequentemente, deixa de existir para o Eu, mostrando-se como realmente é, uma ilusão com a capacidade de criar a experiência necessária para, por ressonância, se deslocar na Consciência.

[2] O desempenho da função que lhe corresponde para cada situação é o que faz com que tudo flua naturalmente, como, por exemplo, numa sala de aula, na qual o professor tem a função de conduzir a aula, e não de ensinar como muitos acreditam; enquanto os alunos têm a função de auxiliarem na condução da aula. Quando o professor conduz e os alunos auxiliam, a aula flui de forma com que todas as partes integrantes consigam absorver o conhecimento de que, naquele momento, necessitam.

~ Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalista.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/a-escada-de-jaco/