Texto de Fernando Pessoa sobre a Maçonaria

A Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época reage, quanto à atitude social, diferentemente.

Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçônico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria – como aliás qualquer instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de Maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa.

Neste terceiro ponto de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só idéia – a “tolerância”; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama “doutrina maçônica” são opiniões individuais de Maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São divertidíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao misticismo cristão de Arthur Edward Waite, ambos tentando converter em doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos Antimaçons consiste em tentar definir o espírito maçônico em geral pelas afirmações de Maçons particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé.

O segundo erro dos Antimaçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua ação social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afetam a Maçonaria como afetam toda a gente. A sua ação social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias – as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue daqui que nenhum ato político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a Maçonaria não criou.

Resulta de tudo isto que todas as campanhas antimaçônicas – baseadas nesta dupla confusão do particular com o geral e do ocasional com o permanente – estão absolutamente erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse critério – o de avaliar uma instituição pelos seus atos ocasionais porventura infelizes, ou um homem por seus lapsos ou erros ocasionais – que haveria neste mundo senão abominação? Quer o Sr. José Cabral que se avaliem os papas por Rodrigo Bórgia, assassino e incestuoso? Quer que se considere a Igreja de Roma perfeitamente definida em seu íntimo espírito pelas torturas dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo) ou pelos massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira.

Sejamos, ao menos, justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares, ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século dezoito – quando expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio Papa – pelo Maçom Frederico II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellinton e Blucher eram ambos Maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados – a “Entente Cordiale”, obra do Maçom Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna – o “Fausto” do Maçom Goeth.

Acabei de vez. Deixe o Sr. José Cabral a Maçonaria aos Maçons e aos que, embora o não sejam, viram, ainda que noutro Templo, a mesma Luz. Deixe a Antimaçonaria àqueles Antimaçons que são os legítimos descendentes intelectuais do célebre pregador que descobriu que Herodes e Pilatos eram Vigilantes de uma Loja de Jerusalém.

(*) Fernando Pessoa – Este é um trecho do artigo que Fernando Pessoa publicou no Diário de Lisboa, no 4.388 de 4 de fevereiro de 1935, contra o projeto de lei, do deputado José Cabral, proibindo o funcionamento das associações secretas, sejam quais forem os seus fins e organização.

#FernandoPessoa #Maçonaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/texto-de-fernando-pessoa-sobre-a-ma%C3%A7onaria

A Unidade da Criação

Jean Dubuis

A percepção da Unidade de Criação está se tornando mais ou menos rápida e sob diferentes aspectos. Com efeito, cada pessoa percebe a Unidade, por um lado, através do filtro que ela mesma é e por outro lado, dependendo da natureza do sentimento esotérico que segue, seja cabalista, martinista, alquimista ou originário. de outras filosofias.

Em nosso próprio curso, notamos que a Cabala – ou os caminhos semelhantes – dão o aspecto unitário principalmente nas estruturas da criação, enquanto a Alquimia, o mesmo é o dado nas funções do criado. Com efeito, a Cabala mostra a semelhança das estruturas energéticas nas três regiões (mineral, vegetal, animal) enquanto a Alquimia mostra através das três regiões, a semelhança do processo de geração de éteres.

No entanto, o campeão dos Anais do Quaternário, é que a fonte de tudo tenha um aspecto quádruplo. Esta fonte de todas as coisas é refletida no Tétragrama, o Nome Imprimível, o Yod He Vav He, ou יהוה (da esquerda para adireita).

Cada uma das letras deste nome representa um dos princípios presentes no Sentido Original de cada ser, e este, sempre está nas três linhas. É por isso que os quatro princípios da Semence constituem em cada ser sua única realidade. A diferença de regras são os quatro elementos do Tétragramme, também representados pelo Fogo, o Ar, a Água e a Terra.

Esses quatro elementos, redisona-o, estão todos presentes nas três regras, mas:

  • na regra mineral, apenas o segundo He (He final) é revelado;
  • na regra vegetariana, Vav e He são eliminados
  • no reino animal, He Vav Ele são dados
  • no Homem, que se distingue da regra animal, todos os elementos são dados: Yod He Vav He, o que lhe dá a consciência.

O resultado disso é um ponto extremamente importante: há, entre todas as coisas, a possibilidade do harmônico já que o Sentido Original é o mesmo em todas as coisas. A comunicação é, portanto, praticável, melhor ainda, a comunhão.

Reflexões que vieram de um pouco de Guematria:

Yod He Vav He a para valor: 10 + 5 + 6 + 5 = 26.

26 dá 2 + 6 = 8, ambas as vezes o quaternário (2 x 4) que se manifesta na dualidade de evolução e evolução.

26 mulheres também 2 x 13 que por sua vez se manifesta na dualidade.

Ou, em hebraico, Unidade diz Achad (Ahad) e escreve Aleph (1), Chet (8), Daleth (4), o que dá um total de 13.

A propósito, o Amor se diz Ahebah (amor) e escreve: Aleph (1) Ele (5) Beth (2) Ele (5) que dá um total de 13.

A Unidade é Amor, ou a Unidade Rayon O amor e a dualidade são necessários para sua recepção.

Todo caminho esotérico conduz pouco a pouco ao Conhecimento unitário e, por ele, ao Amor Universal.

Juntamos a esta carta de estudo, como exercício de reflexão e meditação, a trajetória do hexagrama (ver imagem acima) que simboliza a intersecção dos mundos espiritual e material. Esta estrela, tecnicamente viável onde passa as suas férias, e que pode ser traçada na praia ou no caminho dos castelos, foi proposta por André Renoult, membro da associação.

Todas as linhas da imagem têm o mesmo valor numérico que o Tétragramme (26)

Boas meditações e boas festas!

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-unidade-da-criacao/

Cagliostro

1743 – 1795

O mistério envolve os homens que passam suas vidas a serviço da humanidade e mantêm-se extremamente dedicados somente aos seus superiores. Os padrões de julgamento social e a moralidade convencional não podem ser separados de seus caracteres. O mistério que envolve Alessandro, Count di Cagliostro, foi montado por boatos e calúnias sem fundamento a uma tal extensão que, “Sua história aceita é muito bem conhecida para precisar ser repetida, e sua verdadeira história nunca foi contada”. A pesquisa conscienciosa tem dissipado as nuvens dos boatos e da difamação o suficiente para revelar à análise imparcial uma vida nobre permeada com sabedoria e envolvida pela compaixão.

“Não posso”, testemunhou Cagliostro, “falar positivamente com relação ao lugar onde nasci, nem dos pais de quem nasci”. Seus inimigos diziam que ele era José Balsamo, um famoso aventureiro e criminoso da Sicília, mas suas palavras e atos negam essa identificação. Ninguém que reconhecesse Balsamo veio a público para estabelecer a relação. De acordo com o próprio Cagliostro, ele viveu como uma criança chamada Acharat no palácio do Mufti Salahayyam em Medina. Seu governador, um Adepto Oriental chamado Althotas, disse-lhe que ele nascera de nobres pais cristãos, porém se recusou a falar mais. Referências casuais, contudo, levaram Cagliostro a acreditar que ele nascera em Malta. Althotas tratava-o como um filho e cultivava sua aptidão para as ciências, especialmente botânica e química. Cagliostro aprendeu a respeitar a religião e a lei em cada cultura e região. “Ambos nos vestimos como Maometanos e estamos externamente de acordo com a devoção do Islam, mas a verdadeira religião foi impressa em nossos corações”. Quando criança, aprendeu os idiomas árabe e orientais e também muito sobre o Egito antigo.

Aos doze anos, Althotas levou-o a Mecca, onde permaneceram por três anos. Quando Acharat encontrou o Sharif, ambos imediatamente sentiram uma forte ligação e choraram na presença um do outro. Embora passassem muito tempo juntos, o Sharif recusou-se a discutir a origem de Acharat, embora uma vez o tivesse avisado de que “se algum dia eu deixasse Mecca, estaria ameaçado com as maiores infelicidades, e acima de tudo ordenou-me cautela com a cidade de Trebizond”. A uniformidade da vida no palácio falhou em saciar a sede por conhecimento e experiência de Acharat e a tempo ele decidiu ir para o Egito com Althotas. Na hora da partida, o Sharif despediu-se dele chorando, com as palavras, “Filho infeliz da natureza, adeus”.

No Egito, ele aprendeu que as pirâmides continham segredos desconhecidos pelo turista. Foi admitido pelos sacerdotes do templo “a lugares tais, que nenhum outro viajante comum jamais havia entrado antes”. Após três anos de viagem “pelos principais reinos da África e da Ásia”, ele chegou a Rhodes em 1766, onde pegou um navio francês para Malta. Enquanto estava hospedado no palácio de Pinto, Grão Mestre de Malta, o Cavalheiro d’Aquino de Caramanica apresentou-o à ilha. “Foi aqui que eu pela primeira vez assumi o modo de vestir Europeu e com ele o nome de Conde Cagliostro”. Althotas apareceu com a roupa e a insígnia da Ordem de Malta.

“Tenho todas as razões para acreditar que o Grão Mestre Pinto estava familiarizado com minha verdadeira origem. Freqüentemente me falava do Sharif e mencionava a cidade de Trebizond, porém jamais consentiria em entrar em outros detalhes particulares sobre o assunto.” Com base nesta referência, alguém especulou que Cagliostro era o filho do Grão Mestre Pinto e uma nobre senhora de Trebizond, mas Cagliostro, ele mesmo, jamais expressou esta opinião. Enquanto ainda em Malta, Althotas faleceu. Minutos antes de sua passagem, ele declarou a Cagliostro: “Meu filho, conserve para sempre diante de seus olhos o temor a Deus e o amor de suas pequenas criaturas; logo você estará convencido, pela experiência, de tudo aquilo que tenho lhe ensinado”.

Com a permissão relutante do Grão Mestre, Cagliostro deixou Malta na companhia do Cavalheiro d’Aquino para a Sicília, as Ilhas Gregas, e finalmente, Nápoles, o lugar natal do Cavalheiro. Enquanto o Cavalheiro se ocupava com assuntos pessoais, Cagliostro prosseguiu para Roma. Retirou-se para um apartamento para melhorar seu italiano, mas logo o cardeal Orsini solicitou sua presença e, através dele, conheceu vários cardeais e príncipes romanos.

Em 1770, com a idade de vinte e dois anos, ele conheceu e se apaixonou por Seraphina Feliciani. Embora ela fosse a dona do seu amor e devoção pelo resto de suas vidas, ela nunca foi capaz de totalmente romper com a Igreja e seria usada como “a ferramenta dos Jesuítas”. Aconteceu que a natureza de Cagliostro, boa ao extremo, e a total confiança que colocava em seus amigos foram a causa de seus desapontamentos. A generosidade de Cagliostro logo esgotou suas fontes e o casal foi desfeito quando viajavam para visitar amigos em Piemonte e Genova. Mas em julho de 1776, quando chegaram a Londres, estavam outra vez em boas situação, porém a causa de seu progresso fica, como sempre, perdida em mistério.

Eles se hospedaram e logo atraíram admiradores, ainda que ninguém tivesse certeza de onde se originavam, ou qual era seu itinerário recente. Um laboratório foi montado num aposento para estudos de Física e Química. A grande generosidade de Cagliostro levou um grupo de impostores gananciosos a tentar trapaceá-lo através de processos legais que exigiam dinheiro, acusando-o de praticar bruxaria. Esta última acusação foi retirada imediatamente, mas uma coalizão de advogados e juízes desonestos arrancaram-lhe cada centavo que puderam antes que o Conde ficasse livre de suas intrigas. Suas intenções ficaram evidentes pelo fato de que, finalmente, todos eles, de alguma forma, morreram na prisão ou foram executados por fraude, perjúrio e outros crimes. Cagliostro recusou a oportunidade de propor recursos reparatórios, mas decidiu deixar a Inglaterra.

Antes da partida, contudo, tanto ele como a condessa foram admitidos na Loja Esperança da ordem da Estrita Observância. Seu lema era “União, Silêncio, Virtude”, seu trabalho filantropia e seu estudo, ocultismo. Através desta Ordem, Cagliostro espalharia a Maçonaria Egípcia por toda a Europa. Deixando Londres em Novembro de 1777 com apenas cinqüenta guinéus, viajou para Bruxelas “onde encontrei a Providência esperando que enchesse meu bolso outra vez”. Esta é sempre a história de Cagliostro. Quando ele aparece na história, ele tem tudo, não pede nada e deixa tudo generosamente.

Veio para Hague, onde foi recebido como um Franco-maçom pela loja local da Ordem da Estrita Observância. Seu discurso sobre Maçonaria Egípcia, a mãe do puro impulso Maçônico, motivou a Loja a adotar o Rito Egípcio tanto para homens como para mulheres. A Condessa Cagliostro foi instalada como Grã-Mestra. Aqui emergiu a missão de Cagliostro de purificar, restaurar e elevar a Maçonaria ao nível de verdadeiro ocultismo. Esta tarefa comanda o centro das atenções pelo do resto de sua vida. Como suas numerosas profecias sobre grandes e pequenos assuntos indicavam, ele tinha uma visão clara da iminente arrancada da ordem social, política e religiosa da Europa. Ele antevia que somente nas Lojas unificadas os servidores dos homens sábios do Oriente poderiam, poderiam atuar junto tanto os nobres e os homens comuns em mútua lealdade aos mais altos ideais e guiar a Europa através da transição em direção a uma era iluminada.

Ao passar por Nuremberg, ele trocou sinais secretos com um Franco-Maçom, hospedando-se no mesmo hotel. Quando indagado quem era, Cagliostro desenhou num papel a serpente mordendo sua cauda. O hóspede, imediatamente, reconheceu um grande ser numa missão importante e, tirando um rico anel de diamante de sua mão, investiu-o em Cagliostro. Quando ele chegou a Leipzig, a Ordem estava preparada para homenageá-lo com um lauto banquete preparado para um dignitário visitante, mas havia chegado a época de ser colocada a Maçonaria Egípcia em sua verdadeira perspectiva. Após o jantar, Cagliostro fez um discurso sobre o sistema e seu significado. Ele convocou os Maçons reunidos para adotarem o Rito, porém a direção da Loja hesitou. Cagliostro avisou que o momento da escolha para Maçonaria havia chegado e profetizou que a vida do chefe – Herr Scieffort – estava na balança: se a Maçonaria Egípcia não fosse abraçada, Scieffort não sobreviveria durante aquele mês. Scieffort recusou a aceitar modificações em sua Loja, e cometeu suicídio poucos dias depois. Abalados e intrigados, os membros da Loja aclamaram Cagliostro, e seu nome foi ouvido pela cidade. Enquanto ele continuava a viagem, as Lojas da Ordem da Estrita Observância calorosamente lhe davam boas vindas.

Seguiu para Mittau, capital de Duchy de Courland e centro de estudos ocultos, ali chegando em março de 1791. Cagliostro explicou o significado da Maçonaria Egípcia em termos de regeneração moral da humanidade. Embora o homem tenha conhecido a natureza da deidade e o mundo, os profetas, apóstolos e padres da Igreja apropriaram-se deste conhecimento para seus próprios fins. A Maçonaria Egípcia continha as verdades que poderiam restaurar este conhecimento numa humanidade renovada. O Marechal Von Medem e sua família convidaram Cagliostro para ficar em Courland e apresentaram-no às pessoas de influência. O longo interesse de Von Medem pela alquimia logo se voltou para outros fenômenos, e ele pediu insistentemente a Cagliostro que demonstrasse os poderes que, segundo boatos, ele possuía. A princípio relutante, ele finalmente produziu uma quantidade de fenômenos, além suas curas medicinais universalmente aclamadas.

Cagliostro agora deixou que soubessem que ele era o Grande Cophta da Loja, um sucessor na linhagem de Enoch, e que ele, obedientemente, recebia ordens de “seus chefes”. Infelizmente, a vontade de apoiar a Maçonaria Egípcia alimentava-se da insaciável fome por mais fenômenos. Cagliostro mostrou seus poderes em numerosas ocasiões, mas recusava-se a ser empurrado para um mercado atacadista de milagres. E pela primeira vez ele se viu chamado de impostor, quando não atendia aos pedidos. “O espiritismo nas mãos de um Adepto se torna magia”, H.P.Blavatsky escreveu, “pois ele é versado na arte de entremesclar as leis do Universo, sem quebrar nenhuma delas e sem por isso violar a natureza”. Ela disse que homens tais como Mesmer e Cagliostro “controlam os Espíritos, em vez de permitir que seus assuntos sejam controlados por eles; e o Espiritismo está a salvo nas suas mãos”. Mas, Cagliostro explicou, tais poderes eram para serem usados para o bem do mundo e não para a gratificação da curiosidade ociosa.

Ele decidiu ir para São Petersburg, onde foi aceito na Loja e inúmeras curas foram testemunhadas, mas não receberam com calor a idéia da Maçonaria Egípcia. Recusando-se a produzir os fenômenos, pensaram que era um curador, não um mago. Varsóvia respondeu melhor, contudo. Lá ele encontrou o Conde Moczinski e o Príncipe Adam Poninski, que insistiu com Cagliostro para ficar em sua casa. Ele aceitou a Maçonaria Egípcia e uma grande parte da sociedade polonesa o seguiu. Dentro de um mês, uma Loja para o Rito Egípcio foi fundada. Em 1780 ele foi recebido em várias ocasiões pelo Rei Stanislaw Augustus. Descreveu o passado e predisse o futuro de uma senhora da Corte que duvidou de seus poderes. Ela, imediatamente, atestou o passado, enquanto a história provou a verdade no futuro.

Cagliostro deixou Varsóvia em 26 de junho e não foi visto até 19 de setembro, quando chegou a Strasburgo. Multidões aguardavam na Ponte de Keehl para ver sua carruagem e ele foi aclamado quando entrou na cidade. Imediatamente, começou a atender aos pobres, libertando devedores da prisão, curando os doentes e fornecendo remédios gratuitamente. Tanto os amigos quanto os inimigos concordavam que Cagliostro se recusava a receber qualquer remuneração ou benefício por seus incansáveis trabalhos. Embora a nobreza se tornasse interessada, ele se recusava a produzir fenômenos, salvo em seus próprios e estritos termos. Logo ficou íntimo do Cardeal de Rohan, para quem ele previu a hora exata da morte da Imperatriz Maria Theresa. O cardeal convidou-o a se hospedar em seu palácio e mais tarde declarou que ele havia testemunhado em várias ocasiões Cagliostro produzir ouro num vaso alquímico. “Posso dizer-lhe com certeza”, ele insistiu com uma senhora que duvidava da habilidade de Cagliostro, “que ele nunca pediu ou recebeu qualquer coisa de mim”.

O General Laborde escreveu que nos três anos que Cagliostro viveu em Strasburgo ele atendeu quinze mil pessoas doentes, das quais apenas três morreram. Sua reputação foi confirmada quando ele salvou o Marquês de Lasalle, Comandante de Strasburgo, de um caso desesperador de gangrena. Durante este período, o primo do Cardeal, Príncipe de Soubise, adoeceu em Paris. Os médicos não lhe deram nenhuma esperança de cura e o Cardeal, alarmado, suplicou a ajuda de Cagliostro. Este viajou incógnito a Paris com o Cardeal, e o Príncipe recuperou a saúde em uma semana. Somente após a cura foi sua identidade anunciada, para espanto da faculdade de medicina parisiense.

Quando estava em Strasburgo, Cagliostro recebeu a visita de Lavater, o fisiognomonista de Zurique, que indagou acerca da fonte do grande conhecimento de Cagliostro. “In verbis, in herbis, in lapidibus”, ele respondeu, sugerindo três grandes tratados de Paracelso. Foi naquela época que Cagliostro foi tocado pela condição de pobreza de um homem chamado Sacchi e empregou-o em seu hospital. No espaço de uma semana, Cagliostro descobriu que o homem era um espião de alguns médicos invejosos e havia extorquido dinheiro de seus pacientes a fim de torná-lo desacreditado. Posto para fora do hospital, Sacchi ameaçou a vida de Cagliostro e foi imediatamente expulso de Strasburgo pelo Marquês de Lasalle. Sacchi inventou e publicou uma história difamatória na qual afirmava que Cagliostro era um filho criminoso de um cocheiro napolitano. Esse absurdo estava destinado a ser usado contra Cagliostro pelo resto de sua vida.

O Cardeal de Rohan, que havia instalado um busto de Cagliostro talhado pelo escultor Houdon em seu estúdio em Saverne, surgiu em sua defesa. Três cartas chegaram em março de 1783 da Corte de Versalhes, para o Real Baylor de Strasburgo. A primeira, do Conde de Vergennes, Ministro dos Negócios Estrangeiros, dizia: “O Sr. Di Cagliostro pede apenas por paz e segurança. A hospitalidade lhe assegura ambas. Conhecendo as inclinações naturais de V.S., estou convencido de que se apressará a cuidar para que desfrute de todos os benefícios e amenidades que ele pessoalmente merece”. A segunda veio do Marquês de Miromesnil, Guardador do Selo: “O Conde di Cagliostro tem estado comprometido ativamente no auxílio dos pobres e infelizes, e sou conhecedor de um fato notavelmente humanitário desempenhado por esse estrangeiro, que merece lhe seja garantida proteção especial”. A terceira, do Marechal de Segur, Ministro da Guerra, dizia: “O Rei encarrega V.S. que cuide não somente de que ele não seja atormentado em Strasburgo, como também que deva receber nessa cidade toda consideração totalmente merecida pelos serviços que tem prestado aos doentes e aos pobres”.

Em junho chegou uma carta de Nápoles, informando-lhe de que o Cavalheiro d’Aquino, seu companheiro em Malta, estava seriamente doente. Apressou-se a ir para Nápoles, apenas para encontrar o Cavalheiro morto. A Loja União Perfeita saudou-o com homenagens e ali ficou por vários meses, já que o governo napolitano tinha acabado de remover o banimento da Franco-Maçonaria. Bordeaux convidou-o a ir para lá, e ele decidiu assim fazer, viajando em lentas etapas.

O Conde de Saint-Martin já havia preparado terreno em Bordeaux e Lyons para instituir o Rito Retificado de Saint-Martin, que havia purificado e enobrecido a idéia da Maçonaria. O Duque de Crillon e Marechal de Mouchy pessoalmente lhe deram as boas vindas, mostrando-lhe a cidade e homenageando-o em banquetes. Os pobres afluíam até ele e eram curados. Em Bordeaux, Cagliostro teve um sonho no qual era levado a uma brilhante câmara, na qual sacerdotes egípcios e nobres Maçons estavam sentados. “Esta é a recompensa que você terá no futuro”, uma grande voz anunciou, “mas por enquanto você deve trabalhar ainda com mais diligência” Havia chegado o tempo de enraizar firmemente a Maçonaria Egípcia.

Alquier, Grão Mestre em Lyons, chefiou um grupo de delegações solicitando que ele se estabelecesse ali permanentemente. Aceito com toda a cerimônia dentro da Loja Lyons, foi convidado a fundar uma Loja para a Maçonaria Egípcia. Uma captação feita entre Maçons forneceu fundos para construírem um belo prédio, de acordo com as instruções de Cagliostro. Logo teve início a construção da Loja da Sabedoria Triunfante, a qual foi a Loja Mãe de todos os Maçons Egípcios, e a Cagliostro foi dado completo gerenciamento da Loja de Alquier.

Cagliostro instruiu seus novos discípulos a se retirarem em meditação por três horas diariamente, pois o conhecimento é adquirido pelo “preenchimento de nossos corações e mentes com a grandeza, a sabedoria e o poder da divindade, aproximando-nos dela através de nosso fervor”. Cada um deve cultivar a tolerância por todas as religiões, uma vez que existe a verdade universal em seus âmagos; segredo, porque é o poder da meditação e a chave da iniciação; e o respeito pela natureza, pois ela contém o mistério do divino. Com estas três diretrizes como base, o discípulo poderia esperar pela imortalidade espiritual e moral. A motivação que deverá estar sempre em mente é “Qui agnoscit mortem, cognoscit artem” – aquele que tem conhecimento sobre a morte, conhece a arte de dominá-la.

Tendo estabelecido a Maçonaria Egípcia sobre as firmes fundações erigidas por Saint-Martin, Cagliostro não estava destinado a testemunhar seu florescimento no grande templo para ela construído. O Cardeal de Rohan insistiu com veemência que ele viesse a Paris. A Ordem dos Philaléthes tinha organizado a Convenção Geral da Maçonaria Universal. Maçons proeminentes de todas as Lojas da Europa tinham vindo para a primeira assembléia realizada em novembro de 1784. Mesmer e Saint-Martin foram convidados. Agora era a chance para a bênção final do Rito Egípcio – “onde A Sabedoria triunfará” – fosse confirmada. Cagliostro decidiu ir em janeiro de 1785. Deixando os negócios da Loja em ordem, ele escolheu os oficiais permanentes e lembrou-lhes de seus compromissos.

“Nós, os Grandes Cophtas, fundadores e Grão Mestres da Suprema Maçonaria Egípcia em todas as quadrantes orientais e ocidentais do globo, damos ciência a todos aqueles que verão o que está aqui presente,que em nossa estada em Lyons muitos membros deste Oriente que seguem o rito ordinário, e que carregam o título de “Sabedoria”, tendo manifestado a nós seu ardente desejo de se submeterem ao nosso governo e de receberem de nós a iluminação e os poderes necessários para conhecerem e propagarem a Maçonaria em sua verdadeira forma e pureza original, atendemos aos seus pedidos, persuadidos de que, aos lhes fornecermos sinais de nossa boa vontade, conheceremos a grata satisfação de termos trabalhado para a glória do Eterno e para o bem da humanidade. Em aditamento, instruímos cada um dos irmãos que andem constantemente no estreito caminho da virtude e que mostre, pela propriedade desta conduta, que conhecem e amam os preceitos e o propósito de nossa Ordem.”

Quando Cagliostro chegou a Paris, tentou viver uma vida retirada, de modo a trabalhar pela união das Ordens Maçônicas. Mas os doentes irromperam em sua casa e ele outra vez passou longas horas curando-os. Panfletos surgiram por toda Europa com um retrato do divino Cagliostro, desenhado por Bartolozzi, sob o qual se escreveram as seguintes palavras: “Reconheçam as marcas do amigo da humanidade. Cada dia é marcado por novo benefício. Ele prolonga a vida e socorre o indigente, o prazer de ser útil é sua única recompensa.”

Cagliostro veio para auxiliar o progresso da Maçonaria Egípcia. Rapidamente fundou duas Lojas. Savalette de Langes convidou-o a se unir à Philaléthes, junto com Saint-Martin. Este último recusou, com base em que a Ordem seguia práticas espíritas, porém Cagliostro aceitou provisoriamente, e declarou sua missão:

“O desconhecido Grão Mestre da verdadeira Maçonaria lançou seus olhos sobre os Philalétheanos… Tocado pelo sincero reconhecimento de seus desejos, ele se digna estender sua mão sobre eles, e consente em conceder-lhes um raio de luz dentro da escuridão de seu templo. É o desejo do Desconhecido Grão Mestre provar a eles a existência de um Deus – a base de sua fé; a dignidade original do homem, seus poderes e destino… É por atos e fatos, pelo testemunho dos sentidos, que eles conhecerão DEUS, O HOMEM e as coisas espirituais intermediárias (princípios) existentes entre eles: dos quais a verdadeira Maçonaria dá os símbolos e indica o verdadeiro caminho. Que eles, os Philaléthes abracem as doutrinas desta verdadeira Maçonaria, submetam-se às normas de seu chefes, e adotem sua constituição. Mas, acima de tudo, que o Santuário seja purificado; saibam os Philaléthes que a luz pode apenas descer dentro do Templo da Fé (baseada no conhecimento), não dentro daquele do Ceticismo. Que se dediquem às chamas as vaidades acumuladas em seus arquivos; pois é apenas sobre as ruínas da Torre da Confusão que o Templo da Verdade pode ser erigido.”

Após infrutíferas negociações, ele enviou a seguinte mensagem: “Saibam que não estamos trabalhando para um homem, porém para toda a humanidade. Saibam que desejamos destruir o erro – não somente um simples erro, porém todos os erros. Saibam que esta política é dirigida não contra exemplos isolados de perfídia, porém contra todo um arsenal de mentiras.”

Finalmente, após ter ficado claro que a grande Convenção não chegaria a nenhum acordo, ele enviou a última e triste carta: “Já que vocês não têm fé nas promessas do Deus Eterno ou de Seu ministro na terra, eu os abandono a vocês mesmos, e lhes digo esta verdade: não é mais minha missão ensinar-lhes. Infelizes Philaléthes, vocês semearam em vão; vocês colherão apenas ervas daninhas”. Assim, foi perdida a maior possibilidade de lançar as fundações da Fraternidade Universal à época de Cagliostro.

O restante da vida de Cagliostro é trágico. O cardeal de Rohan desejou obter um lugar na corte, porém Maria Antonieta não gostava dele. Madame de Lamotte, desconhecida da Rainha, viu uma chance para um grande ganho pessoal na frustração do Cardeal. Fazendo-se de confidente da Rainha, ela forjou cartas de Maria Antonieta para de Rohan e fingiu que levava respostas de volta a Versalhes. Finalmente ela induziu o Cardeal a comprar um ostentoso colar no valor de um milhão e seiscentos mil livres para a Rainha, colocando o valor em sua conta. Quando a primeira prestação venceu, a Rainha, que não sabia nada do negócio, não pagou e de Rohan foi forçado a honrá-lo. A batalha que se seguiu na Corte viu Madame de Lamotte defendendo-se e acusando a Rainha de trapaça e Cagliostro de roubar o colar que ela mesma havia quebrado e vendido.

A Rainha ficou furiosa, e todas as partes envolvidas no caso foram encarceradas na Bastilha. Embora Cagliostro fosse completamente inocente, tanto ele como Seraphina passaram seis meses na prisão. O caso alcançou tão horríveis proporções que a velha e abusiva denúncia de Sacchi veio a público e lida contra Cagliostro, mas o Parlamento de Paris ordenou sua supressão por ser “injuriosa e caluniadora”. Finalmente Cagliostro foi declarado inocente e libertado diante de dez mil parisienses que esperavam por ele. O “Caso do Colar de Diamantes” é em geral admitido como sendo o prólogo da Revolução [francesa]. Maria Antonieta considerou a libertação de Cagliostro e do Cardeal como um ataque à sua reputação. O Rei ordenou que Cagliostro deixasse a França e afastou o Cardeal de suas atribuições.

Cagliostro viajou para a Inglaterra, porém seus inimigos, agora completamente cientes da total natureza de sua missão, viram a chance de destruí-lo. Mal havia chegado à Inglaterra quando o famoso editor do vicioso Correio da Europa o atacou. Cagliostro alojou Seraphina com o artista de Loutherbourg e viajou para a Suíça em 1787. Seraphina juntou-se a ele na companhia de Loutherbourg imediatamente depois. A Maçonaria Egípcia era praticada por pequenos grupos em Bale e Bienne, mas não puderam apoiar o casal Cagliostro. Já que seus próprios poderes somente poderiam ser usados para os outros e não para si mesmo, e agora que os outros o rechaçavam, ele era forçado a viajar sem repouso.

Por volta de 1789 ele chegou a Roma para encontrar-se em segredo com Franco-Maçons da Loja Verdadeiros Amigos. A Igreja, porém, totalmente ciente da ameaça espiritual que Cagliostro apresentava para ela, enviou dois Jesuítas fazendo-se de convertidos para a Maçonaria Egípcia. Na ocasião em que eram admitidos à Ordem, eles convocaram a policia papal, e o casal os Cagliostro foi levado para a prisão no Castelo Santo Ângelo em 17 de dezembro. Se Seraphina se voltou contra Cagliostro ou sucumbiu por medo diante da Inquisição, não está claro. Mas seus depoimentos foram prejudiciais. Após dúzias de interrogatórios, nos quais a trama foi ameaçadoramente disposta, a Inquisição soube apenas o que todo mundo sabia: que Cagliostro era um Maçom, um herege pela sua crença de que todas as religiões são iguais, e que desprezava a intolerância religiosa. A farsa terminou em 21 de março de 1791, quando a Inquisição condenou Cagliostro à morte. Entretanto, antes de o Papa assinar a sentença, um estrangeiro apareceu no Vaticano. Dando uma palavra ao Secretário do Cardeal, foi imediatamente admitido em audiência. Após sua saída, o Papa comutou a sentença para prisão perpétua.

Seraphina foi libertada apenas para ser presa por novas acusações e internada no convento de Santa Apolônia de Trastevere. Nada mais se soube sobre ela e seu corpo nunca foi encontrado. Cagliostro foi enviado ao Castelo São Leo e colocado no topo inacessível de um rochedo. Lá ele pereceu até 1795. Uma inscrição que fez na parede de sua cela tem a data de 15 de março. Roma reportou que ele morreu em 26 de agosto. Aqui acaba a história, mas a tradição maçônica sussurra que Cagliostro escapou da morte. Endreinek Agardi de Koloswar relatou que o Conde d’Ourches, que quando criança havia conhecido Cagliostro, jurou que o Senhor e a Senhora de Lasa, saudados em Paris em 1861, não eram ninguém menos que o Conde e a Condessa Cagliostro. Com o nascimento envolto em mistério, Cagliostro saiu desta vida também em mistério, conquanto sua existência tenha sido dedicada ao serviço da humanidade e à esperança da imortalidade espiritual.

Autor: Elton Hall
Tradução: Maurilena Ohana Pinto

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/cagliostro/

Dia de Oxumaré

O exótico e o mistério são os seus domínios. Tudo nele é repetitivo, variando apenas as formas, como no ciclo da chuva: a água que evapora, retorna como chuva. Ou como no universo dos corpos celestes, onde a lua, o sol, a terra e os demais astros e planetas executam os seus movimentos com metodicidade harmoniosa. No ciclo “vida e morte”, ele também está presente; e seu símbolo mais forte é o da cobra mordendo a própria cauda, numa atitude que representa o ciclo vital: vida, morte e renascimento. Enrola-se também em torno da terra para impedi-la de se desagregar. Acredita-se que se perdesse as forças seria o fim do mundo.

A marca mais evidente de oxumaré é o arco-íris, de quem é senhor.

Sendo ao mesmo tempo macho e fêmea, esta natureza aparece nas cores vermelha e azul que cercam o arco-íris. Ele representa também o bem, a riqueza e os benefícios mais apreciados no mundo dos iorubás.

Ele se paramenta de búzios como o bradjá (longos colares enfiados de maneira a aparecer escamas de serpentes) e com colar de lagdbá (relação com a terra e os ancestrais). Representa a sabedoria, o equilíbrio ecológico e a evolução. Patrono do arco-íris e outros fenômenos da atmosfera, está relacionado com o conceito de terra e infinito. Símbolo da fecundidade e da eternidade.

Ele é a morbilidade e a atividade, pois uma de suas obrigações é a de dirigir as forças que produzem o movimento. Ele é o Senhor de tudo que é alongado: como o cordão umbilical. Este está sob seu controle e é enterrado sob uma palmeira, que se torna propriedade do recém-nascido, cuja saúde dependerá da boa conservação dessa árvore.

Os Eleguns de Òsùmàré trazem na mão um Eberi (espécie de vassoura feita com nervuras das folhas das palmeiras), outras vezes seguram também uma serpente de ferro forjado.

O lugar de origem deste Orixá seria Mahi, no ex-Daomé. Òsùmàré é Orixá da riqueza e é chamado de Ajé Sàlugá na religião de Ifé, onde dizem que chegaram os 16 companheiros de Odùdùwa.

Ele é simbolizado por uma grande concha. Registram-se 4 qualidades sendo a de Abessem – a Cobra Sagrada – a mais conhecida.

#Candomblé #Umbanda

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/dia-de-oxumar%C3%A9

Conhecimento do Absoluto

Bhagavad-gita, Capítulo Sete.

01 Agora ouça, ó filho de Prtha (Arjuna), como através da prática de yoga com completa consciência de Mim, com a mente apegada a Mim, você poderá conhecer-Me por completo, sem dúvida alguma.

02 Agora declararei por completo a você este conhecimento tanto fenomenal como numenal, conhecendo o qual não restará mais nada para se conhecer.

03 Dentre muitos milhares de homens, talvez um se esforce pela perfeição, e daqueles que alcançaram a perfeição, dificilmente um Me conhece de verdade.

04 Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego – todos estes oito em conjunto compreendem Minhas energias materiais separadas.

05 Além desta natureza inferior, ó Arjuna de braços poderosos, há uma energia superior Minha, que são as entidades vivas que lutam com a natureza material e sustêm o universo.

06 De tudo que é material e tudo que é espiritual neste mundo, saiba por certo que Eu sou a origem e a dissolução.

07 Ó conquistador de riquezas (Arjuna), não há verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, assim como as pérolas estão ensartadas em um cordão.

08 Ó filho de Kunti (Arjuna), Eu sou o sabor da água, a luz do sol e da lua, a silaba om nos mantras védicos; Eu sou o som no éter e a habilidade no homem.

09 Eu sou a fragrância original da terra, e Eu sou o calor no fogo. Eu sou a vida de tudo o que vive, e Eu sou as penitências de todos os ascetas.

10 Ó filho de Prtha, saiba que Eu sou a semente original de todas as exis­ tências, a inteligência dos inteligentes, e o poder de todos os homens poderosos.

11 Eu sou a força dos fortes, desprovida de paixão e desejo. Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos, ó Senhor dos Bharatas (Arjuna).

12 Todos os estados de existência – sejam eles de bondade, paixão ou ig­norância – manifestam-se através de Minha energia. Em um sentido, Eu sou tudo – mas Eu sou independente. Eu não estou sob os modos desta natureza material.

13 Iludido pelos três modos (bondade, paixão e ignorância), o mundo in­teiro não conhece a Mim que estou além dos modos e sou inesgotável.

14 Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de superar. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente atravessá-la.

15 Os canalhas que são grosseiramente tolos; os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão e que participam da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.

16 Ó melhor entre os Bharatas (Arjuna), quatro tipos de homens piedosos prestam serviço devocional a Mim: o aflito, o que deseja riquezas, o curioso e aquele que busca conhecimento do Absoluto.

17 Destes, o sábio que está em conhecimento pleno, unido a Mim através do serviço devocional puro, é o melhor. Pois Eu sou muito querido para ele, e ele é querido para Mim.

18 Todos estes devotos são sem dúvida almas magnânimas, mas aquele que está situado em conhecimento de Mim Eu considero que em verdade mora em Mim. Ocupado em Meu serviço transcendental, ele Me alcança.

19 Depois de muitos nascimentos e mortes, aquele que está realmente em conhecimento se rende a Mim, sabendo que Eu sou a causa de todas as causas e de tudo que existe. Tal grande alma é muito rara.

20 Aqueles cujas mentes estão distorcidas por desejos materiais, rendem­ se aos semideuses e seguem as regras e regulações particulares de adoração de acordo com suas próprias naturezas.

21 Eu estou no coração de todo mundo como a Superalma. Quando uma pessoa deseja adorar aos semideuses, Eu torno firme sua fé para que ela possa consagrar-se a alguma deidade particular.

22 Dotada com tal fé, a pessoa procura favores de um semideus particular e obtém seus desejos. Mas na realidade estes benefícios são outorgados unicamente por Mim.

23 Homens de pouca inteligência adoram aos semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram aos semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos por fim alcançam Meu planeta supremo.

24 Os homens sem inteligência, que não Me conhecem, pensam que Eu assumi esta forma e personalidade. Devido a Seu pouco conhecimento, eles não conhecem Minha natureza superior, que é imutável e suprema.

25 Eu nunca Me manifesto para os tolos e não inteligentes. Para eles Eu estou coberto por Minha potência criativa eterna (yoga-maya); e assim o mundo iludido não Me conhece, a Mim que sou não nascido e inesgotável.

26 Ó Arjuna, como a Suprema Personalidade de Deus, Eu sei de tudo que aconteceu no passado, de tudo que acontece no presente, e de todas as coisas que estão ainda por vir. Eu também conheço todas as entidades vivas; mas a Mim ninguém conhece.

27 Ó descendente de Bharata (Arjuna), ó conquistador do inimigo, todas as entidades vivas nascem na ilusão, dominadas pelas dualidades de desejo e ódio.

28 Pessoas que agiram piedosamente em vidas anteriores e nesta vida, cujas ações pecaminosas estão completamente erradicadas e que estão livres da dualidade da ilusão, ocupam-se em Meu serviço com deter­minação.

29 As pessoas inteligentes que se esforçam por liberar-se da velhice e da morte, refugiam-se em Mim em serviço devocional. Elas são realmente Brahman porque sabem tudo inteiramente sobre as atividades transcen­dentais e fruitivas.

30 Aqueles que Me conhecem como o Senhor Supremo, como o principio governante da manifestação material, que Me conhecem como o que sus­ tenta todos os semideuses e como o que sustém todos os sacrifícios, podem, com mente firme, compreender-Me e conhecer-Me mesmo no momento da morte.

Fonte: Srila Prabhupada, Bhagavad-gita Como Ele É, 1978, Primeira Edição.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/conhecimento-do-absoluto/

Caim e Abel

Shirlei Massapust

Gênesis 4:8 informa:

“Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou”. Antes ambos estavam no campo (בַּשּׂדֶה) onde Caim cultivava sua horta. Eles conversaram (אמֶר) a respeito do problema, mas não houve acordo. Seguindo a lógica da estória este lavrador certamente possuía um machado para abrir terreno, uma enxada e um arado para trabalhar o solo, uma foice para ceifar a colheita, etc. Tudo notoriamente útil para matar seu desafeto. Mas, considerando que não está escrito que Caim usou armas brancas, fica presumido que ele lutou com unhas e dentes.

Numa época em que havia várias teorias a respeito da motivação e da forma de execução do assassinato, R. ʿAzariah e outros rabinos defenderam a hipótese de que Caim observou atentamente enquanto Adão sacrificava um bezerro e, por isso, deduziu que um sacrifício humano deveria agradar mais a YHWH do que o sacrifício animal. Então perfurou a garganta de Abel. (Midrash Genesi Rabbah 22:8).[1] O Talmude ressalta que Caim não conseguiu tirar a vida até perfurar o esôfago e a traqueia (Sanhedrin 37 b).

Caim segurando um machado de lenhador. Desenhado em 1511 pelo ex-lenhador Dürer.

Num livro apócrifo grego Eva tem um sonho profético e vê o sangue de Abel escorrer na boca de Caim, que o bebia com sofreguidão, embora o irmão suplicasse para não sorvê-lo todo[2]. Lendo diretamente no grego encontramos enunciados exóticos, tipo o trecho onde Caim se transformou (γεγονὸς αὐτοῖς) enquanto brigava. Portanto optou-se por uma tradução aproximada:

2 1 Eva falou ao esposo Adão: 2 “Meu marido, esta noite sonhei ver o sangue de meu bom filho, Abel, escorrer da boca de Caim, seu irmão, que o bebia sem piedade. Ele pediu para deixar um pouco, 3 mas, ao invés de o escutar, continuou bebendo até o fim. Nem tudo ficou no estômago, pois acabou vomitando”.4 Adão respondeu a Eva: “Vamos sair e ver o que está acontecendo com eles, caso estejam brigando furiosamente”. 3 1 Ambos saíram e encontraram Abel morto pelas mãos de Caim.

John Levison consultou nove manuscritos e descobriu quatro formas textuais diferentes desta estória, sendo que a fonte material mais antiga teria sido escrita em Milão durante o século XVII:

A forma textual posterior, aqui chamada de “redação II”, apagou aquilo que não convinha aos interesses do escriba doutrinador: “The other text forms read infelicitously that the blood Cain drank he drank completely and let sit in his stomach. Text form II blunts the impact of this graphic detail. Manuscript R does so by omitting it entirely, while manuscript M abbreviates the wording”.[3]

Robert Henry Charles publicou uma versão crítica, informando que o Manuscrito D (Ambrosiana gr. C 237 Inf.) está corrompido a ponto de substituir o nome de Caim (Κάϊν) por Adiàphotos (‘Αδιάφωτον).[4] Contudo, outra fonte do século XVII confirma a tradição oral sobre mordidas: Na página 1431 do Quæstiones celeberrimæ in Genesim (1623), Mersenne menciona que “Abelem fuisse morsibus dilaceratum ad Cain”. Recentemente o teólogo Daniel Lifschitz opinou que “Caim matou seu irmão mordendo-o como uma serpente[5]”.

 Vampiro Caim em frenesi. The Book of Nod (1993).[6]

Armas com dentes ou informação oculta?

A mais enigmática entre as versões que dão uma arma branca a Caim é aquela conhecida por José Saramago onde o personagem mata Abel “a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado”[7]. A cena foi esculpida em 1432, por Jan van Eyck, no altar da Catedral de Saint-Bavo, Ghent, Bélgica; encomendado pelo bispo local na intenção de educar os católicos em matéria de teologia por meio de imagens. Paralelamente, uma tímida iluminura colorida e anônima foi produzida na mesma época.

1) Detalhe da arte sacra no altar da Catedral de Saint-Bavo, Ghent, Bélgica, esculpido por Jan van Eyck (1432). 2) Iluminura anônima (séc. XV).

No quadro a óleo A Tentação de Santo Antônio (c. 1512-15), de autoria de Matthias Grünewald (1480-1528), integrante do acervo permanente do Musée d’Unterlinden, em Colmar, encontramos vários diabos espancando o idoso santo. A figura central, diabo que lhe puxa os poucos cabelos que a calvície ainda não derrubou, se prepara para acertá-lo com um maxilar de burro.[8]

A Tentação de Santo Antônio (c. 1512-15), de Matthias Grünewald.

O inconfundível objeto reaparece nas mãos de Caim em três gravuras assinadas por Lucas Van Leyden em 1520, 1524 e 1529[9]. O fato de um artista haver passado nove anos aperfeiçoando a cena da morte de Abel atingido pela estranha mandíbula, mirada na direção de seu pescoço, ao lado do altar de sacrifícios, demonstra que este tema específico era procurado e apreciado pelo público consumidor.

Conjunto de xilogravuras de Lucas Van Leyden datadas de 1520, 1524 e 1529. Todas trazem o mesmo tema: Caim matando Abel com uma mandíbula de equino.

Gravação de Mabuse (c 1527), impressos de Johann Sadeler (1576) e Jan Lievens (1640).

Lucas Van Leyden viajou pela Europa, vendendo panfletos. Em 1527 ele conheceu o pintor flamenco Mabuse (Jan Gossaert), em Middelbur, e parece tê-lo convencido a divulgar a nova versão da morte de Abel. Foi Mabuse quem teve a ideia de tampar o sexo de cada personagem com um chute de seu rival.

Na última versão de Van Leyden, aparentemente influenciada por Mabuse, só Abel chuta o sexo de Caim enquanto este tenta lhe acertar o pé no coração. Outros pintores adotaram a arma iconográfica, mas mantiveram os personagens com os pés no chão. Encontramos impressos assinados por Johann Sadeler em 1576 e Jan Lievens em 1640. É também este o tema dum rascunho de Rembrandt van Rijn (1606-1669).

Isto não parece com armas medievais tais como a Morgenstern e outras clavas com espetos que passam a impressão de serem porretes com dentes. Logo, é um padrão iconográfico onde Caim utiliza o recurso encontrado por Sansão na ocasião em que o herói foi possuído por Ruach YHWH (יהוה רוח), o espírito de deus, e matou mil homens (Juízes 15:15). Sansão e Caim ganharam טְרִיָּה לְחִי־חֲמוֺר יִּמְצָא — “uma novíssima mandíbula de equino[10]”. Mas, considerando que a melhor tradução de טְרִיָּה é “carne fresca”, por que YHWH teria a ideia estapafúrdia de usar um bife como porrete? Seria isto algum tipo de oferenda ritual?

Obviamente a mandíbula não era um porrete comum. Isto foi usado para fazer magia, pois antes de emprestar poderes para Sansão vencer sozinho uma guerra (Juízes 15:15) e fazer fluir água potável das rochas (Juízes 15:18-19), YHWH encantou o cajado de Aarão com poderes para vencer sozinho uma guerra transformando água em sangue (Êxodo 7:19), etc., e fazer fluir água potável das rochas (Êxodo 17:5). Na época do cerco de Ben-Hadade à capital de Israel a população foi obrigada a passar fome e uma cabeça de jumento chegou a valer oitenta peças de prata (II Reis 6:25).

Sobre a antiguidade do uso, possivelmente religioso, de mandíbulas de equinos, sabemos que uma delas foi encontrada junto aos restos mortais dum homem adulto, falecido na faixa etária dos 50 anos, hoje conhecido como Šamani Brno. Um fragmento de sua costela foi submetido ao teste de radiocarbono, o qual indicou a datação de 23.680 ± 200 anos RCYBP, ou uma idade provável entre 23.280 e 24.080 anos RCYBP.[11] Por isso Jill Cook estimou a idade do esqueleto e suas pertenças em 26.000 anos.[12] O túmulo Brno II estava localizado a quatro metros de profundidade na estrada Francouská, no cruzamento com a rua Předlácká, em Brno, na República Tcheca.

Nomes de poder

O nome de Caim (קין) vem de uma raiz que significa a criação dum produto artesanal. Por exemplo, a atividade do oleiro ao fazer um vaso de argila. Moisés Maimônides observou que os verbos criar (ברא) e fazer (עשו) são sinônimos (Gênese 2:4) em estreita relação com o verbo adquirir (קנה) – radical de Caim (קין) – porque YHWH se tornou adquirente do céu e da terra (Gênese 14:19 e 22). Então Caim ganhou um nome que significa “Criador” no sentido de artesão inventor, em homenagem a YHWH. Eva explicou a paródia quando o pariu: את־יהוה איש קניתי — “Eu gerei um homem de YHWH” (Gênese 4:1).

Uma das coisas a respeito das quais tu deverias conhecer e prestar atenção é o conhecimento manifesto pelo fato dos dois filhos de Adão serem chamados Caim e Abel; porque foi Caim quem matou Abel no campo. Ambos morreram apesar da trégua concedida ao agressor (Guia dos Perplexos II:30, folio 71b).[13]

YHWH nunca falou diretamente com Eva exceto na ocasião em que explicou a ela como nascem os bebês. Eva estava tão feliz que agradeceu pela punição da fecundidade sem a qual ela nunca sentiria as dores do parto, mas também nunca seria mãe (Gênese 3:16). O nome do segundo filho, Abel (הבל), significa luto. Não qualquer luto, mas as dramáticas demonstrações de pesar próprias dos orientais. Luto cheio de gritos e lagrimas, com pessoas rasgando as roupas e arrancando os cabelos.

Segundo o exemplo da narrativa bíblica, José fez luto por Jacó durante setenta dias, chorando com todo o Egito. Foi tão impressionante que deram ao lugar o nome de Abel Mesraim, ou seja, “Luto dos Egípcios” (Gênese 50:11).

Sacrifício dos primogênitos

Até hoje muitos tentaram e não conseguiram traduzir Gênese 4:7 de forma bela e elegante. O teólogo Domingos Zamagna chegou a sugerir que o problema está na corrupção do livro e não no leitor interessado em encontrar o espelho da sua ideologia. Daí a necessidade de oferecer ao leigo nada mais que a “tradução aproximada de um texto corrompido[14]”. Mesmo assim às vezes aparecem pessoas excêntricas afirmando não ter dificuldade em entender o que está escrito. Certa vez o ex seminarista Alphonse Louis Constant (1810-1875) pretendeu desvelar o segredo:

Caim foi o primeiro sacerdote do mundo. Todavia Abel exercera, antes de Caim, uma espécie de sacerdócio e fora o primeiro a derramar sangue. (…) Ele oferecia ao Senhor, diz a Bíblia, os primeiros animais de seu rebanho; Caim, pelo contrário, só oferecia frutas. Deus rejeitou as frutas e preferiu o sangue; mas ele não tornou Abel inviolável, porque o sangue dos animais é antes a expressão do que a realização do verdadeiro sacrifício. Foi então que o ambicioso Caim consagrou suas mãos no sangue de Abel; em seguida, construiu cidades e fez reis, pois se tomara sumo pontífice[15].

O contexto problematiza a exigência de YHWH de que todo filho primogênito, de sexo masculino, animal ou humano, fosse sacrificado em sua honra (Êxodo 34:19-20) ou substituído por um sacrifício expiatório (Gênese 22:13). Caim, que era lavrador, colheu frutos da terra e ofertou a YHWH, mas a comida vegetariana não despertou o interesse da divindade carnívora.

Logo depois Abel, que era pastor de ovelhas, sacrificou os filhos primogênitos do seu rebanho (Gênese 4:4). YHWH olhou para Abel e sua oferenda. Não olhou Caim e sua oferenda. Então a verdade se tornou óbvia. O irmão menor, Abel, possuía os requisitos necessários ao culto, mas Caim não tinha animais.

Caim começou a demonstrar sintomas de desespero porque ele próprio era um filho primogênito predestinado ao sacrifício. Ele tinha a obrigação de morrer ou comprar sua própria vida, mas a tentativa de resgatar a si mesmo falhou e ele já não sabia o que fazer. Na literatura paralela o agricultor recusa veementemente o suicídio e não economiza palavras para ofender YHWH, dizendo: “Eu pensava que o mundo havia sido criado para a bondade, mas vejo que as boas obras não produzem fruto algum. Deus governa o mundo usando arbitrariamente o seu poder[16]”.

Não existe justiça e nem há juízo. Não existe futuro nem vida eterna. Os bons não recebem nenhuma recompensa e para os maus não existe nenhuma punição (Midrash Aggadah 4,8)[17].

Ao contrário do personagem medieval que parece servir de válvula de escape para os incrédulos reprimidos dizerem tudo que pensam, culpando o vilão da estória, o herói bíblico nada fala e nada faz além de ficar nervoso e cabisbaixo. É neste momento que YHWH, olhando para Abel, fala pela primeira vez com Caim:

ךינפ ולפנ המלו ךל הרח המל ןיק לא הוהי רמאיו

Gênese 4:6

וב לשמת התאו ותקושת ךילאו ץבר תאטח חתפל ביטית אל םאו תאש ביטית םא אולה

Gênese 4:7

Primeiro a divindade questiona porque Caim está deprimido. Presumimos que, ao ouvir isso, o humano compreendeu outra premissa básica da antiga religião: Deus não olha nos olhos de quem vai viver porque ninguém pode continuar vivendo após ver sua face (Êxodo 33:20). YHWH não estava olhando somente para o altar repleto de carneiros assados. Deus olhava para “Abel e sua oferenda” (Gênese 4:4).

Pela antiga lei bíblica o primogênito era herdeiro universal do patriarca e os irmãos mais novos lhe deviam obediência. Caim “falou” com Abel, provavelmente tentando negociar a compra de um carneiro, mas este nada fez, notoriamente sabendo que ele herdaria tudo se o irmão morresse. Então, sem nenhum animal para sacrificar no seu lugar, Caim matou a única criatura disponível que, em tese, lhe era subordinada.

No fim de tudo Caim perdeu a memória e acordou dum estado de transe semelhante àquele que acometia Sansão quando este guerreava, possuído por YHWH, e depois não conseguia lembrar o fato de ter matado pessoas. Na versão apócrifa ele tem um acesso de vampirismo e acorda vomitando sangue.

Um texto corrompido?

Com certeza não há nada mais importante em Gênese 4 do que o conselho que YHWH deu a Caim. Seria uma lástima se Domingos Zamagna estivesse certo e o texto corrompido. Rabinos problematizaram a diferença de gêneros entre a palavra feminina chatath (תאטח) e o verbo masculino rovetz (ץבר) que a segue à semelhança de erro ortográfico[18]. Seria isto um indício de que ali termina uma frase e outra começa?

É fato que podemos traduzir tudo. Só não é possível forçar um significado politicamente correto perante as normas de conduta da nossa época. A redação presume um padrão estético onde as feridas são belas e o sangue é uma tinta sagrada.

Considere o costume de decorar a porta da tenda onde vive um primogênito com sangue pincelado com um ramo de manjerona (Origarum maru) para que YHWH não o matasse (Êxodo 12:22-23). Como Caim não tinha animais, e este era seu problema, ele teria a obrigação de usar seu próprio sangue. YHWH disse:

וב לשמת התאו ותקושת ךילאו ץבר תאטח חתפל ביטית אל םאו תאש ביטית םא אולה — Porque se [Caim] não fez uma bela ferida em si mesmo e se não embelezou a porta [pintando-a com sangue, então fará] matança expiatória. Curve-se para satisfazer tua paixão e então reine sobre si mesmo.

Talvez não seja inútil mencionar que o verbo reinar diz respeito à atividade do rei, melek (מלך), título homônimo homógrafo do interventor ou mōlek (מלך) que, de acordo com alguns historiadores, era um ser humano sacrificado no altar de YHWH.[19] Philo de Alexandria (20 a.C-50-d.C.) conheceu uma versão onde efetivamente “Caim se levantou e cometeu suicídio” (Philo. Quod det. Pol. § 14). Só que não é assim que acaba a estória que nós possuímos, baseado na compilação de Mōšeh bem’Āšēr.

A última frase dita a Caim, em Gênese 4:7, parafraseia palavras ditas a Eva, em Gênese 3:16, quando YHWH explica como acontece o coito, a gravidez, o parto e como se mantém a hierarquia duma estrutura familiar: “Ele [Adão] reinará sobre você [Eva]” (בך ימשל והוא). “Você [Caim] reinará sobre si mesmo” (וב לשמת התאו). Se Abel morresse Caim reinaria apenas sobre seus próprios filhos e descendentes. Não reinaria sobre Abel e seus descendentes, mas pelo menos continuaria vivo.

Nos discursos paralelos de YHWH, em Gênese 3:16 e 4:7, a palavra תְּשׁוּקָה com certeza descreve o sentimento de atração irresistível que resultou no doloroso parto de Eva, apaixonada pelo esposo (אישך), e, depois, na tremenda angústia do filho ansioso pela realização dum sacrifício expiatório (חַטַּאת).

A condenação de Caim ao ostracismo

Sansão era o tipo de médium que acordava desmemoriado no meio duma pilha de gente morta. Caim se fez de desmemoriado ou desentendido quando questionado por YHWH a respeito do que aconteceu com Abel.

4 9 E disse o Eterno a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” E disse: Não sei; acaso o guarda do meu irmão sou eu? 10 E disse: “Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a Mim desde a terra. 11 E agora maldito és tu da terra, que abriu sua boca para receber o sangue do teu irmão, da tua mão. 12 Quando lavrares, o solo não dará mais a sua força para ti; fugitivo e vagabundo serás na terra”. 13 E disse Caim ao Eterno: “É tão grande o meu delito de não se poder suportar? 14 Eis que me expulsas hoje de sobre a face da terra, e da Tua presença não poderei me ocultar. E serei fugitivo e vagabundo na terra, e acontecerá que todo o que me encontrar matar-me-á”. 15 E disse o Eterno: “Por isso, quem matar a Caim, sete vezes será vingado”. E o Eterno pôs em Caim um sinal para que não o ferisse quem quer que o encontrasse. 16 E saiu Caim da presença do Eterno e habitou na terra de Nod, ao oriente do Édem[20].

Sangue está no plural, damēy āchiykhā (אָחִיךָ רְּמֵי). Se o texto não se referir a manchas espalhadas por várias partes do chão, então este sangue é dos animais sacrificados por Abel ou de Abel e seus sacrifícios. Isto era um problema para Caim. O corpo delito provava a morte que deveria ser punida por Adão ou por qualquer outro parente colateral de sexo masculino. Abel estava longe de ser um adversário tolo e fraco. A julgar pelo poder dos nomes sobre as personalidades míticas, não seria exagero dizer que ele era uma espécie de mestre das mentiras e dissimulações[21].

Nesta cosmogonia existem fantasmas e Abel se defende intercedendo por si mesmo junto aos seus sacrifícios, certamente clamando por um vingador de sangue para matar Caim[22]. Mas YHWH percebe que precisa ajudar afastando-o da família vingativa e abençoando-o com uma marca protetora. No final Caim foi condenado ao ostracismo (ארור  אתה מן־האדמה ) na terra (אדמה) de seu pai, Adão (אדם), para expiar a culpa coletiva. Depois que a terra, isto é, a humanidade, abriu a boca para beber sangue (אשר פצתה את־פיה לקחת את־דמי)alguém devia pagar por isso[23].

“O Sacrifício de Caim”, pintado por Amico Aspertini (c.1474-1552). Adão e Eva estão exaustos e famintos, junto a prato e jarro vazios, lembrando da expulsão dos campos do Éden. Caim segura um espelho, possivelmente imaginando a si mesmo sendo sacrificado nas chamas da churrasqueira do altar.

Pelo menos uma das numerosas versões judaicas deste mito termina com final feliz. Rabinos descreveram o dia em que Adão encontrou Caim no exílio e perguntou a respeito da conversa que este teve com YHWH: “Como você foi castigado?” Caim respondeu: “Prometi arrepender-me e foi-me dada anistia”. Adão se flagelou batendo no próprio rosto e disse: “Eu não sabia que o arrependimento tem tanto poder!” (Pĕsiḳta dĕ-Raḇ Kahăna 11:18)[24]. Porém era tarde para assumir a culpa pelo furto dos frutos proibidos. A sentença de Adão já havia transitado em julgado, condenando-o a viver duma dieta de cactos comestíveis (דרדר)[25], moyashi (תצמיח), centeio (לחם) e verdura (עשב) cultivada por ele mesmo com sofreguidão (Gn. 3:18-19).

A fábula do corvo

Uma das fábulas de Rumi (1207-1273) descreve Caim em dúvida sobre o que fazer para ocultar o cadáver de Abel. Neste momento ele viu um corvo vivo carregando um corvo morto pousar no solo e abrir uma cova para lhe ensinar, pois a ave carniceira estava inspirada por deus. Depois que o corvo vivo terminou de enterrar o corvo morto, Caim imitou-o e assim aprendeu a cavar sepulturas (Mathnawí IV:1300-1310)[26].

No Corão a história continua após um dos filhos de Adão matar o outro como sacrifício expiatório:

Deus enviou um corvo que se pôs a escavar a terra para ensinar-lhe como ocultar o cadáver do irmão. Disse: “Ai de mim! Sou, acaso, incapaz de ocultar o cadáver de meu irmão, se até este corvo é capaz de fazê-lo?” Contou-se depois entre os arrependidos. (Corão 5:31).[27]

Rabbi Louis Ginzberg (1873-1953) explicou que a variante judaica desta fábula é um comentário ao Salmo 147:9 onde YHWH alimenta os filhos do corvo (עֹרֵב בְנֵי) quando os pais lhes abandonam[28]. Fora de contexto, vale lembrar que na natureza os corvos não enterram os mortos. Eles eliminam cadáveres comendo a carniça.

Na Bíblia o profeta Balaão faz um trocadilho entre Caim (קין = qyn) e ninho (קנך = qen) comparando o rei em sua cidade fortificada a um pássaro no ninho. Provavelmente isto diz respeito a uma cidade redonda e côncava, sobre uma montanha, semelhante à Tel Dan. A cidade está segura, mas Caim tem um problema. O seu reino foi reivindicado como colônia pela Assíria e ele se rendeu sem organizar nenhuma campanha militar defensiva. Então Balaão, em nome de deus, mandou uma mensagem para Caim mandando-o parar de pagar impostos e atacar sem medo: “A tua morada está segura, Caim, e o teu ninho firme sobre o rochedo. Contudo, o ninho pertence a Beor. Até quando serás cativo de Assur?” (Números 24:21-24).

Espírito de Caim. Desenho de Collin de Plancy no Dictionnaire Infernal (1863).

O medo do Rei Caim era fundamentado, pois quando Ben-Hadade declarou guerra contra Israel, a situação na capital sitiada era tão calamitosa que a população precisou recorrer ao canibalismo dos primogênitos para sobreviver (II Reis 6:27-29).

A marca de Caim

Está escrito que YHWH pôs em Caim um sinal para impedir que ele fosse ferido por qualquer pessoa que o encontrasse e prometeu que se algum vingador de sangue vingasse a morte de Abel, matando-o, então outros sete vingadores seriam enviados para vingar a morte de Caim (Gênese 4:15). Noutras palavras, deu carta branca para Enoch, Irad, Mehuyael, Methushael, Lamech e Yaval chacinarem os culpados caso Caim sofresse retaliação.

Se eu fosse YHWH jamais escreveria “assassino” na testa de alguém que, em tese, deveria ser auxiliado e escondido. Eu faria em Caim a mesma tatuagem (קעקע) ou corte (תתגדו) tradicional que servia para fazer demonstrações públicas de luto e proteger contra atividade paranormal (Deuteronômio 14:1 e Levítico 19:28). Isto calaria o clamor do sangue de Abel e confundiria seus perseguidores porque a primeira coisa que alguém pensaria ao vê-lo seria: “Caim está de luto pela morte do irmão”.

Muitas tentativas de explicar a aparência da marca de Caim resultaram em conclusões diversas. O Targum Jonathan descreve o sinal na fronte com a forma de uma das letras do nome de deus.[29] Considerando que uma superstição dos tempos bíblicos incentiva os pais a iniciar nomes de bebês com Yod (י) ou Yod e He (יה) para proteger contra o mau-olhado e atividade paranormal, notadamente o Yod (י) seria a melhor opção[30]. Caim não fez uma bela ferida em si mesmo (תאש ביטית) conforme aconselhado desde o início (Gênese 4:7), mas acabou marcado (אות) igual a certos hindus que pintam o terceiro olho com sangue ao invés de usar pó. (Gênese 4:15)

 1) Imagem duma fábula onde Lamech, cego, prepara o arco para flechar Caim, apontado por Tubal Caim. (Ilustração de Lucas Van Leyden, de 1524). 2) Caim com chifres. (Arte digital © 2009, Kuroi Tsuki e DeviantArt)

Existem outras variantes da lenda. Certa vez compararam o versículo onde YHWH pôs a marca na fronte de Caim (Gênese 4:15) com aquele onde YHWH pôs uma figura de Lichtenberg ou chifres (קרן) na fronte de Moiséis (Êxodo 34:35) e deduziram que sempre que deus perambula por aí e se agrada de alguém, ele dá esse lindo par de chifres de presente para a pessoa. Resultado: Quando Caim clamou por proteção “cresceram-lhe chifres, para amedrontar os animais[31] que pudessem atacá-lo[32]”.

Claro que nem todo mundo entendeu a analogia ou encarou a coroa de chifres como um presente benéfico. Num livro apócrifo é dito que YHWH inflige sete punições “piores que a morte” sobre Caim: 1) Crescimento de chifres constrangedores. 2) Um decreto proibindo que qualquer outra pessoa o mate ou faça amizade com ele. 3) Capacidade de escutar o uivo do vento ecoando nos vales e montanhas como um pranto fúnebre pela morte de Abel. 4)  Insônia eterna. 5) Fome voraz e insaciável. 6) Ereção persistente ou priapismo[33]. 7) Insatisfação. (Adamschriften 35:43)[34].

A informação que a cultura moderna tem sobre a associação de Caim com o mito do vampiro vem principalmente dos livros de ficção The Book of Nod (1993) de autoria de Sam Chupp e Andrew Greenbery, e da sequência autorizada Revelations of the Dark Mother (1998), escrita por Phil Brucato e Rachelle Udell.[35]

Já vi brasileiros compartilhando cópias não autorizadas disto como se fossem livros de doutrina esotérica; mas na verdade ambos foram publicados pela editora White Wolf, distribuídos no Brasil pela livraria-editora Devir, como meros suplementos do jogo de interpretação Vampire Masquerade (1991) onde Mark Rein·Hagen define o personagem bíblico como sendo o primeiro vampiro amaldiçoado com a imortalidade.

Era das hipóteses ad hoc

Alguns religiosos incapazes de se conformar com a literalidade da redação duma estória que protege um assassino mitológico sugeriram que os sete protetores de Caim na verdade seriam sete gerações a serem contadas até o nascimento daquele que executaria a pena de morte porque na sua lei divina revista e anotada não deveria existir esse negócio de prescrição, perdão judicial, anistia, etc. Caim só precisava viver mais um pouco para ter um monte de filhinhos, netinhos, etc., todos ruinzinhos, necessários para servir de exemplo de maldição hereditária e morrer no dilúvio.

Na versão de Flávio Josefo, deus bizarramente decidiu despersonalizar o crime de Caim e aplicar em Lamech a pena pela morte de Abel. O sétimo herdeiro, Lamech, descobriu que estava condenado à pena de morte ao estudar religião e profecias. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:65). Noutras versões Lamech mata o tataravô porque “Caim se arrependeu e confessou seu pecado”. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:3). Shlomo Yitzhaki (1040-1105) opinou que Caim seria castigado “somente após sete gerações”. Meir Matzliah Melamed resumiu a revisão do mito:

Conta o Midrash que sendo Lamech cego, saía a caçar com seu filho Tubal Caim, que o guiava e indicava a presença de caça. O menino confundiu Caim com algum animal e foi assim que Lamech o matou com uma flechada. Ao perceber o seu erro, feriu a si próprio e um dos golpes atingiu a cabeça de filho, matando-o também. Por isso, suas mulheres o acusavam pelo duplo assassinato e Lamech se desculpou.[36]

De acordo com o folclorista Alan Unterman, o tataraneto de Caim disparou uma flecha “após ter sido erroneamente informado de que o chifrudo Caim era um animal selvagem”.[37] Essa lenda é interessante embora tenha sido mal formulada. Gênese 5:23-24 não cita os nomes das pessoas que Lamech matou. Seria relevante nomear caso fossem o tataravô e o filho do assassino. Sobretudo, se Tubal Caim fosse o menino morto em Gênese 5:23, ele não teria crescido para exercer uma profissão de adulto em Gênese 4:22. Também não está escrito na bíblia hebraica que Lamech era cego.

Interpretações cristãs

O Novo Testamento afirma que Abel e Zacarías morreram no altar (εκζητηθησεται). Isto era um problema grave e específico. (Lucas 11:50) Jesus fala de Abel como vivendo na “fundação do mundo” (Lucas 11:50). A palavra grega para “mundo” é Kósmos (κοσμου). O termo “fundação” verte a palavra grega ka•ta•bo•lé (καταβολης) e significa literalmente “lançamento (de semente) para baixo”. Noutra parte lemos que a semente (σπερμα) plantada na terra é literalmente o DNA próprio ou impróprio perante um rígido controle de qualidade eugênica. Todos os filhos de deus (τεκνα του θεου) são incapazes de errar (αμαρτανειν). Por outro lado, Caim nasceu incapaz de praticar a justiça (δικαιοσυνην) por pertencer à linhagem opressora (εκ του πονηρου ην) e ser “filho do diabo” (τεκνα του διαβολου). (1 João 3:9-12).

Abel (Αβελ) conhecia a verdade (πιστει) e ofereceu um sacrifício (θυσιαν) melhor que o de Caim (Καιν), sendo por isso rotulado pelo adjetivo dikaious (δικαιος) o qual define a “observância de um costume” e é comumente traduzido como “piedoso” e “justo”. Desta forma ele comprou um super poder: Mesmo depois de morto ainda fala. (Hebreus 11:4) Abel sofreu uma espécie de ressurreição espiritual temporária semelhante à de Jesus, diferente da de Lázaro e do filho da viúva de Naim.

Apócrifos gnósticos cristãos

Os apócrifos gnósticos trazem variantes onde Caim já nasce com o “coração duro” – cheio de ódio por tudo e todos – enquanto Abel é um religioso compulsivo de “coração manso”. Nestas fontes Caim e Abel decidiram casar com a mesma mulher ao mesmo tempo, quando tinham respectivamente quinze e doze anos.

Caim achava que Luluva era a mulher mais bela do mundo. Abel só queria casar com a irmã mais velha porque o pai mandou. Luluva nasceu com Caim e ele acreditava que, por isso, esta era sua esposa predestinada. Quando chegou aos seus ouvidos a fofoca de que os pais prendiam casá-lo com uma garota feia e dar Luluva em casamento para Abel, ele lembrou o antigo costume israelita de dar a viúva do irmão morto como esposa ao irmão vivo e formulou a dúvida: “Por que pretendeis tomar minha irmã e uni-la em matrimônio com meu irmão? Acaso estarei morto?” (Primeiro Livro de Adão e Eva 78:12)[38]. Então aconteceu o episódio da seleção dos sacrifícios e ele teve a certeza de que havia algo errado. Tudo termina com o afável Abel esperando pacientemente enquanto Caim procura paus e pedras para espancá-lo até a morte.

Uma vez enterrado, o corpo é cuspido pela terra falante que, zombando de Caim, se recusa a receber Abel. Deus demonstra misericórdia para com Caim e amaldiçoa “o solo que bebeu o sangue de teu irmão” (Primeiro Livro de Adão e Eva 79:22)[39]. Não muito longe dali, escondido na floresta, satanás bate palmas rindo muito de tudo isso.

Os perpétuos

O Livro da Gênese menciona a data da morte de todos os personagens exceto a de Caim e seus descendentes. Para complicar mais o caso, um regente chamado Caim aparece em vários pontos da bíblia hebraica, a exemplo de Números 24:22, sempre em datas impossíveis nas quais qualquer ser humano normal já teria morrido. Outras referências são tão ambíguas quanto o discurso do azarado Jó reclamando da vida: “Por que eu não fui abortado? Por que Caim não me ajudou?” (Jó 3:12).

Será que Caim fez jus ao efeito literal da antiga bênção “ó rei, viva para sempre” (Daniel 6:6)? Se a genealogia de Seth for levada a sério, ali qualquer um vivia oitocentos anos… Certa vez o jornalista Hyam Maccoby achou algo muito estranho:

There can be little doubt that the Cain of the Bible is derived from the Cain whom the Kenites regarded as their ancestor and the founder of their tribe. (…) The truth is that the line of Seth has no real existence at all, but is a shadow or reflection of the line of Cain. For it requires little enquiry to see that the two lines of Seth and Cain are really one line, and that the line of Seth was derived from the line of Cain and not vice versa. If we examine the names in both lists, we see that there is only one list with slight variations, for the names are basically the same in both lists[40].

Comparando as listas genealógicas, Hyam percebeu que tanto Caim quanto Seth tiveram um filho chamado Enoch (חנוך)[41] que, por sua vez, teve um descendente chamado Lamech (למך). Quatro nomes foram corrompidos de forma que Irad (עירד) virou Jared (ירד), Mehuyael (מחויאל) virou Mahalalel (מהללאל), Methushael (מתושאל) virou Mathuselaḥ (מתושלח), e o próprio Caim (קין) virou Cainã (קינן) que viveu novecentos e dez anos (Gênese 5:14).

É como se alguém tivesse tentado memorizar sem sucesso todos esses nomes corrompidos e embaralhados. Dois intrusos foram importados e adaptados. Seth é o deus egípcio que matou seu irmão Osíris. Uma duplicata de Caim. Noé foi o apelido que o autor da revisão deu ao herói babilônio Utnapishtim. (Se ele não conseguia memorizar nomes nacionais, imagine se tentasse transliterar o cuneiforme Utnapishtim! Isso parece Arnold Schwarzenegger. Ninguém lembra como se escreve).

“Outra semelhança é que cada lista termina com um trio de nomes, ainda que tais nomes não sejam idênticos[42]”. A bigamia de Lamech, a repartição igualitária de bens entre o par de filhos primogênitos com os irmãos mais novos e o reconhecimento do direito de herança de uma filha foi demais para a cabeça do revisor.

O orientalista escocês Willian Robertson Smith (1846-1894) propôs uma hipótese onde a marca de Caim seria uma espécie de distintivo que levavam sobre sua pessoa os membros da tribo e que lhes servia de proteção, ao indicar que seu portador pertencia a uma comunidade que não deixaria de vingar sua morte. J.G. Frazer refutou tal hipótese argumentando que “uma marca semelhante protegia igualmente a todos os membros da tribo, fossem ou não homicidas”.[43] Entretanto, Caim ensinou algo que seu tataraneto aprendeu muito bem: Pela lei da selva, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Regras só atingem a quem não é capaz de contra-atacar represálias. Quando até os vingadores de sangue perdem não há vingança contra os sentenciados.

Lamech disse às suas mulheres:
“Ada e Sela, ouvi minha voz,
mulheres de Lamech, escutai minha palavra:
Eu matei um homem por uma ferida,
Uma criança por uma contusão.
É que Caim é vingado sete vezes,
mas Lamech, setenta e sete vezes!”[44]

Se alguém vingasse o sangue de Abel matando Caim sofreria vingança por parte do próprio deus ou dos descendentes de Caim. Devemos concluir que se alguém vingasse o sangue do homem ou do garoto morto por Lamech sofreria vingança de setenta e sete defensores do patriarca? Tudo isso parece um círculo vicioso.

Não sabemos se Lamech matou de forma dolosa, culposa ou em legítima defesa. Só porque tem um menino envolvido não significa que Lamech não corria perigo. Quem nunca viu um menor de idade assaltar um adulto ou idoso? Não é impossível que Lamech tenha matado duas pessoas porque teve filhos primogênitos com duas esposas diferentes e preferiu realizar sacrifícios expiatórios com humanos substitutos ao invés de oferecer animais ou dinheiro ao templo. Mas ele estava com tanto medo da represália que contratou setenta e sete guarda costas! É óbvio que os mortos pertenciam a clãs ou quadrilhas perigosas. É igualmente óbvio que Lamech tinha recursos para dispor de tantos protetores. Riqueza atrai cobiça.

O filho primogênito de Caim foi Enoch (חנוך). Caim edificou uma cidade que recebeu o nome deste filho (Gênese 4:17). Mais tarde, em Judá, outra cidade foi chamada Caim em honra ao mitológico herói nacional (Jos 15:1,48,57). M. Gaster traduziu isto dum manuscrito judaico do século XIV, do acervo da Bodleian Library:

Caim fecundou Qalmana, sua esposa, e Enosh nasceu. Ele construiu uma cidade e a chamou de Enoch, em homenagem ao seu filho. Ele costumava raptar e alojar pessoas ali. Ele construiu aquela cidade cercando-a com muralhas e trincheiras. Foi o primeiro a fortificar uma cidade deste jeito por medo de seus inimigos. Enoch foi a primeira entre todas as cidades. (…) Quando Caim terminou de construir a cidade de Enoch ela foi habitada por seus descendentes, que existiam no dobro do número daqueles que saíram do Egito. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:1-3)[45].

O filho primogênito de Enoch foi Irad (עירד), o de Irad foi Mehuyael (מחויאל), o de Mehuyael foi Methushael (מתושאל) e o de Methushael foi o polêmico Lamech (למך). Lamech tomou para si duas mulheres: ‘Adah (עדה) e Ṣillah (צלה). Ada teve dois filhos chamados Yaval (יבל) e Yuval (יובל). O primogênito foi pai dos que viviam em tendas e tinham propriedades rurais naquela região, como era costume entre os criadores de rebanhos. O outro foi pai de todos os habitantes da cidade que tocavam musica usando um antigo instrumento de corda chamado Kinor (כנור) juntamente com os complexos instrumentos de sopro (עוגב) que antecederam o órgão hidráulico.

Zilah teve uma filha, Naamah (נעמה), que os comentários bíblicos afirmam ter sido uma excelente cantora. Ela devia cantar na banda da família da mesma forma que Michael Jackson iniciou a carreira cantando na banda Jackson Five. Mesmo assim sua ocupação principal era a tecelagem. Naamah inventou vários instrumentos usados para tecer e costurar seda, lã e outros tecidos. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).[46]

O filho de Zilah foi Tubal Caim (תובל־קין), que trabalhava amolando as lâminas de cobre e ferro fabricadas por seus conterrâneos. (Gênese 4:17-22) Segundo Rashi, “Lotêsh Col Chorêsh” refere-se ao artesão que afia e lustra artefatos de cobre e ferro, um tipo de serralheiro e polidor dos nossos dias. O açacalador realiza ambas as atividades[47].

Desde então Caim passou a ser uma espécie de prenome ou sobrenome de alguns descendentes do pai hipônimo. O sogro de Moisés, Héber Caim, filho de Hobabe Caim, pertencia a esta família (Juízes 4:11). Hervé Masson compilou uma lenda de influência islâmica de data incerta que inclui Hiram Abi, o construtor do templo de Jerusalém, entre os descendentes de Tubal Caim[48]. Collin de Plancy afirma que ainda existiam cainitas no século II, mas estes procuravam fazer tudo que era errado, eram falsos, mal interpretados ou mal compreendidos[49].

Evolução dos trabalhos

Após o imenso trabalho de construir a primeira cidade, Caim se tornou rei. A julgar pelo cargo ostentado expressamente por Héber Caim, o título da nobreza cainita não era o dum Faraó ou Cezar qualquer, mas um impressionante kohen (כהן)[50] que reúne os poderes legislativo, executivo, judiciário e eclesiástico.

Em toda a Bíblia só mais um personagem foi kohen, além dos cainitas, e este era Melchizedek (Gênese 14:18) cujo conhecimento e poderio teria sido invejado por Jesus (Hebreus 7:17). A versão de Flávio Josefo sobre como Caim teria iniciado a vida urbana é diferente da que lemos no Gênese 4:16. Sendo o autor um apologista romano, a sua revisão do personagem segue o exemplo dos saques de Roma a outros povos:

(60) Após viajar por muitas terras, Caim, com sua esposa, construiu uma cidade chamada Nod. Lá ele fez sua morada e teve filhos. Consequentemente ele abandonou a penitência e aumentou sua maldade, porque só pensava em buscar tudo que fosse útil aos prazeres da carne – mesmo que implicasse no prejuízo de seus vizinhos. – (61) Ele aumentou os bens de família do seu clã adquirindo muitas riquezas por meio de rapina e violência. Tornou-se um grande líder de homens que seguiam rumos impiedosos ao exercer sua habilidade de obter prazeres e espólio por meio de assaltos. Também introduziu uma mudança na vida simples dos homens que viveram antes dele, pois inventou o cálculo de pesos e medidas. Considerando que todos viviam na inocência e generosidade enquanto desconheciam tais artes, ele mudou o mundo introduzindo os valores econômicos. (62) Primeiramente ele demarcou terras e fixou fronteiras. Então construiu uma cidade e fortificou com muralhas, compelindo sua família a ir junto com ele para lá. Chamou aquela cidade de Enoch em honra ao filho mais velho. (Antigudade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:60-62)[51].

Enquanto a bíblia hebraica informa apenas que Tubal Caim trabalhava polindo e amolando lâminas de ferro e cobre, produzidas na cidade, Flávio Josefo sugeriu que este personagem inventou a arte de produzir bronze. (Antiguidade Judaica. I, 2, 2:64)

Outros continuaram aumentando as habilidades de Tubal, alegando que ele descobriu a arte de juntar chumbo e ferro para temperar o ferro e fazer lâminas mais afiadas. Ele também inventou a pinça, o martelo, o machado e outros instrumentos de ferro. No fim Tubal já sabia trabalhar com estanho, prata e ouro. Ele forjava utensílios de guerra e foi artífice em todos os ramos da indústria siderúrgica. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).

Tal como os gregos, romanos e outros povos do mundo antigo, os descendentes de Caim costumariam guerrear em busca de espólio, escravos e belas mulheres:

Ainda no tempo de vida de Adão, os descendentes de Caim se tornaram cada vez mais impiedosos. Morriam continuamente, um após o outro, mas o sucessor era sempre mais impiedoso que o antecessor. Eram insuportáveis na guerra e destemidos nos assaltos. Se algum deles era lento para matar pessoas, ainda era ousado em seu comportamento libertino, agindo injustamente e causando lesões corporais por lucro. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:66)[52].

Tubal Caim usava produtos feitos por ele mesmo. “Sua força superava a de todos os homens. Ele era famoso pelo domínio das técnicas de artes bélicas, usadas na busca de tudo que favorecia os prazeres corporais”. (Antiguidade Judaica. I, 2, 2:64). Foi graças à descoberta da metalurgia ensinada por Tubal que os homens começaram a fazer estátuas para o culto religioso (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).[53]

Juntamente com seu poderoso clã, ao longo do tempo, o rei Caim construiu ou reformou mais seis cidades: Mauli, Leeth, Teze, Iesca, Celeth e Tebbath. Nesta época Caim e sua esposa Themech tiveram mais três filhos, Olad, Lizaph e Fosal, e duas filhas, Citha e Maac.[54] Diz-se que ele “foi progenitor de muitos povos”.[55]

Nos dias de Enoch os homens começaram a ser designados por títulos de juízes e príncipes, foram deificados e erigiram templos em sua homenagem. A prosperidade do reino de Caim durou até a conquista da capital cainita pelo Rei Reu, quando toda a classe governante foi deposta. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:9).[56]

Em tempos de paz os cainitas continuavam trabalhando em busca de ascensão social. Yaval inventou trancas de porta em forma de χ para evitar a entrada de ladrões nas casas, fez cercas e estábulos para separar o rebanho bovino do ovino, e também dos bois castrados. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:5). Depois de descobrir a ciência da música, Yuval escreveu-a sobre duas estelas[57], uma de mármore branco e outra de barro cozido, porque se a erosão destruísse a mais frágil ainda restaria uma cópia para transmitir seu conhecimento à posteridade (Crônicas de Jeraḥmeel 24:6-7).[58]

Caim rumando para construir a primeira cidade. Gravura de F. Cormon.

Conclusão

Caim é um personagem mitológico e literário que, tal como inúmeros outros, existe no mundo das ideias desde épocas imemoriais. A condenação de Caim ao ostracismo se assemelha parcialmente ao rito grego de purificação do ágos.

Explica-se: Todo homicida é amaldiçoado (enagés) por uma condição peculiar (ágos) capaz de contaminar outras pessoas ao seu redor. A comunidade da época arcaica sabia-se obrigada a “expulsar” o ágos e com ele o homicida que buscaria no exterior um local, um senhor protetor que aceitasse executar a sua purificação.

Até aí, o homicida não poderia ser recebido em casa, nem partilhar as refeições. O exemplo mítico é o matricida Orestes que fugiu para o estrangeiro. Locais diferentes com os seus rituais locais são associados à sua purificação: Em Tréizen, defronte do santuário de Apolo, havia uma “cabana de Orestes” que se dizia ter sido construída para não aceitar o homicida numa casa normal (Pausânias, 2, 31,8).

Um grupo de sacerdotes encontrava-se ali regularmente para uma refeição sacra[59]. Mas nem todos estavam felizes com isso. Por exemplo, Heráclito de Éfeso criticou a falta de lógica ou paradoxo do ritual:

Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando em lama, em lama se lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindo assim. E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falasse a casas, de nada sabendo o que são deuses e heróis (Heráclito, B 5).[60]

Quem pisa em lama não fica limpo tomando banho com mais lama. Por que a primeira morte haveria de ser expirada por outra(s) morte(s)? Talvez o objetivo não fosse purificar o amaldiçoado, mas fazê-lo passar por um rito de passagem. O homicida coloca a si próprio fora da comunidade. Sua reintegração a um nível diferente é, portanto, uma iniciação. Assim, a purificação de Hércules, antes da consagração em Elêusis, e a purificação de Orestes parecem ter paralelos estruturais.

De acordo com Walter Burket, “oferecer às potências da vingança que perseguem o homicida um sacrifício sucedâneo, parece ser uma ideia natural”. O essencial, porém, parece ser o fato de o indivíduo maculado pelo sangue entrar de novo em contacto com o sangue: Trata-se de uma repetição demonstrativa do derramamento de sangue durante a qual a sua consequência, a mácula visível, é eliminada de modo igualmente demonstrativo. Assim, o acontecimento não é recalcado, mas sim superado.

Comparável a este é o costume primitivo de o homicida beber o sangue da sua vítima e o expelir logo de seguida: Ele tem de aceitar o fato pelo contacto íntimo com o mesmo e simultaneamente livrar-se dele de modo efetivo.[61]

Noutras ocasiões o sangue é derramado com objetivo de purificação. Isto é comprovado, de modo mais detalhado, na purificação do local da assembleia popular e do teatro em Atenas: No início da reunião, funcionários especiais, peristíarchoi, transportam leitões ao redor do local, lhes cortam a garganta, polvilham os assentos com sangue, lhes cortam os testículos e deitam-nos fora.

Os mantineus purificam todo o seu território transportando animais sacrificados (sfágia) ao longo das fronteiras e aí os executando. Walter Burket sugeriu a existência de ritos paralelos na tradição do Velho Testamento e dos Persas.

A crueldade deliberada faz parte do “robustecimento” para a peleja. Contava-se então que quem recusasse o serviço militar era levado como vítima de sacrifício; uma forma particular da preparação da batalha pela sfágia. Isto também é um rito de passagem. Por isso, tanto a expiação do homicídio como a iniciação à guerra podem ser igualmente denominadas “purificações”.[62]

(57) God convicted Cain, as having been the murderer of his brother; and said, “I wonder at thee, that thou knowest not what is become of a man whom thou thyself has destroyed”. (58) God therefore did not inflict the punishment [of death] upon him, on account of his offering sacrifice, and thereby making supplication to him not to be extreme in his wrath to him; but he made him accursed, and thereatened his posterity in the seventh generation. He also cast him, together with his wife, out of that land. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 1:57-58)[63].

Com o passar dos séculos o mito de Caim foi mudando e ganhando variantes. A influência helênica logrou transformar herói em vilão (Sabedoria 10:1-4). Existem várias versões da morte de Caim. A mais surreal é aquela em que acontece um abalo sísmico no momento em que ele tenta enterrar Abel num terreno lamacento, escorrega e afunda na cova como alguém que pisa em areia movediça, enquanto o cadáver de Abel torna a subir e fica boiando até ser descoberto.

Dizem que o corpo de Abel permaneceu incorrupto, em perfeito estado de conservação, durante setecentos e oitenta e oito anos. Um cão ficou do seu lado todo este tempo, espantando os corvos. Depois Abel foi enterrado[64]. O Testamento dos Vinte Patriarcas diz que Caim morreu no dilúvio (Benjamin 7:4) junto com todos os cainitas, a despeito do fato de Balaão haver falado a seu clã em data posterior (Números 24:22).

Até hoje o personagem continua a morrer e ser ressuscitado pela arte. Não existe folclore certo ou errado. Algumas estórias vieram antes das outras e isto é tudo. Caim tem múltiplas personalidades. Viverá para sempre no mundo das ideias desde que nós, os vivos, lembremos dele por toda a eternidade.

Na condição de personagem fictício, o mítico Caim pode virar vampiro, sem dúvida: “A tradição sustenta que Caim, o assassino bíblico de seu irmão Abel, é o senhor de toda a Família. Há muita controvérsia a este respeito dentro da comunidade dos vampiros, posto que não há nenhum membro que possa garantir com absoluta certeza já haver encontrado Caim. Certamente, aqueles de Segunda Geração saberiam, mas estes já não dizem nada”. (Mark Rein-Hagen. Vampiro: A Máscara)[65].

Notas:

[1] MIDRASH RABBAH: GENESIS. Trad. Rabbi Freedman & Maurice Simon. London, Soncino Press, 1961, Vol I, p 187-188.

[2] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trd. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 29.

[3] LEVISON, john R. Texts in Transition: The Greek Life of Adam and Eve. Georgia, Society of Biblical LKiterature, 2000, p 26.

[4] 2. 1 Εὔα τῷ κυρίῳ αὐτῆς Ἀδάμ· 2 κύριέ μου, ἴδον ἐγὼ κατ᾽ ὄναρ τῇ νυκτὶ ταύτῃ τὸ αἷμα τοῦ υἱοῦ μου Ἀμιλαβὲς τοῦ ἐπιλεγομένου Ἄβελ βαλλόμενον εἰς τὸ στόμα Κάϊν τοῦ ἀδελφοῦ αὐτοῦ, καὶ ἔπιεν αὐτὸ ἀνελεημόνως. παρεκάλει δὲ αὐτὸν συγχωρῆσαι αὐτῷ ὀλίγον ἐξ αὐτοῦ, 3 αὐτὸς δὲ οὐκ ἤκουσεν αὐτοῦ, ἀλλὰ ὅλον κατέπιεν αὐτό· καὶ οὐκ ἔμεινεν ἐπὶ τὴν κοιλίαν αὐτοῦ, ἀλλ᾽ ἐξῆλθεν ἐκ τοῦ στόματος αὐτοῦ. 4 εἶπεν δὲ Ἀδὰμ τῇ Εὔᾳ· ἀναστάντες πορευθῶμεν καὶ ἴδωμεν τί ἐστιν τὸ γεγονὸς αὐτοῖς,  μή ποτε πολεμεῖ ὁ ἐχθρός τι πρὸς αὐτούς. 3 1 Πορευθέντες δὲ ἀμφότεροι εὗρον πεφονευμένον τὸν Ἄβελ ἀπὸ χειρὸς Κάϊν τοῦ ἀδελφοῦ αὐτοῦ. (CHARLES, Robert Henry. The apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament in English. Oxford, 1913, Vol.II, σελ. 138).

[5] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trad. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 43.

[6] CHUPP, San & GREENBERG, Andrew. The Book of Nod. Georgia, White Wolf, 1993, p 37.

[7] SARAMAGO, José. Caim. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p 34.

[8] The Temptation of Saint Anthony, ca. 1512-15. Em: Artsy. Acessado em 25/02/2017 as 19h13. URL: <https://www.artsy.net/artwork/matthias-grunewald-the-temptation-of-saint-anthony>

[9] Tais gravuras se encontram respectivamente nos acervos do Rijksmuseum, em Amsterdam, do Metropolitan Museum of Art, de New York, e na National Gallery of art, em Washington D.C. Lucas Van Leyden também recorreu à tradição oral a respeito da morte de Caim antes de pintá-lo, em 1524, sob a mira imprecisa do arco de Lamech (Referência M28417 do catálogo do Museum of Fine Arts, Boston). Em 1529 ele completou a primeira seqüência onde Adão e Eva encontram o cadáver de Abel.

[10] No hebraico bíblico não existia termo específico para diferenciar o cavalo (Equus caballus) ou jumento (Equus asinus) de seus filhos híbridos. Então חֲמוֺר tanto pode ser um jumento como um hibrido destas ou doutras espécies. Certa vez se tentou proibir a criação de eqüinos (Dt 17.16) e o sacrifício ritual de eqüinos (2 Rs 23:11), mas a população continuou usando estes animais para montaria e trabalhos no campo (Isaías 28:28, Jó 39:19-25).

[11] PETTITT, Paul B & TRINKAUS, Erik. Direct Radiocarbon Dating of the Brno 2 Gravettian Human Remains. Em:  Anthropologie XXXVIII/2. Brno, Anthropos institute (Moravian museum), 2000, p 149-150. URL: <http://puvodni.mzm.cz/Anthropologie/article.php?ID=1603>.

[12] COOK, Jill. Ice Age Art: The arrival of the modern mind. London, The British Museum Press, 2013, p 99-102.

[13] MAIMÔNIDES, Moisés. The Guide of The Perplexed: Vol II. Trd. Shlomo Pines. London, University of Chicago, 1963, p 357.

[14] ZAMAGNA, Domingos. Gênesis. Em: BÍBLIA DE JERUSALÉMA. São Paulo, Paulus, 1995, p 36, nota t.

[15] LEVI, Éliphas. A Ciência dos Espíritos. Trd. Setsuko Ono. SP, Pensamento, 1997, p 109.

[16] GINZBERG. The Tem Generations, notas 15 e 16. Em: LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. São Paulo, Paulinas, 1998, p 35.

[17] LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. SP, Paulinas, 1998, p 35.

[18] Midrash Genesi Rabbah 22,6 e Tifereth Tzion a Midrash Genesi Rabbah 22,6. Em: LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. SP, Paulinas, 1998, p 35.

[19] STAVRAKOPOULOU, Francesca. King Manasseh and Child Sacrifice: Biblical distortions of historical realities. New York, Walter de Gruyter, 2004, p 310-311.

[20] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 10-11.

[21] A palavra que originou o nome de Abel aparece noutras partes da bíblia hebraica agregada à ruína (Isaías 49:4), falsidade (Salmo 31:7), frustração (Eclesiastes 4:4), aflição (Eclesiastes 4:8), decepção (Eclesiastes 4:16) e sofisma (Eclesiastes 6, 11). Hebēl (הבל) está sempre em “má companhia”. Jeremias, os Salmos e principalmente o Eclesiastes, como também Jó e Isaías, dão-nos o pior dos retratos de seu significado.

[22] A palavra hebraica go∙’él, que tem sido aplicada ao vingador de sangue, é um particípio de ga∙’ál, que significa, “reivindicar” ou “recuperar”. O termo aplicava-se ao parente masculino mais próximo, que tinha a obrigação de vingar o sangue daquele que fora morto. (Números 35:19,  Gênese 9:5 e Números 35:19-21, 31).

[23] Gênese 4:11 diz, para Caim, que “a terra abriu a boca para receber os sangues do irmão, das suas mãos” (מידך אחיך את־דמי לקחת את־פיה פצתה אשר אדמה). Isto é uma óbvia metáfora, pois אדמה é a forma feminina de אדם. A terra representa os outros familiares de Abel.

[24] BRAUDE, Willian G. Pĕsiḳta dĕ-Raḇ Kahăna. Philadelphia, The Jewish Publication Societh, 1975, p 499.

[25] Hoje chamado de sabra (צבר), o cacto Opuntia fícus-indica é um símbolo de Israel.

[26] NICHOLSON, Reynold A. The Mathnawí of Jalálu’ddin Rúmí: Translation of Books III and IV. Great Britain, Gibb Memorial Trust, 1990, p 344.

[27] ALCORÃO SAGRADO. Trd. Samir El Hayek. São Paulo, Cetro de Divulgação do Islam para América Latina, 1989, p 83.

[28] Na variante judaica compilada no Pirké do Rabbi Eliezer 21:5 (séc. XIII), foi Adão quem aprendeu com os corvos a sepultar Abel. (LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trd. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 44). Collin de Plancy parece ter interpretado mal essas lendas ao afirmar que rabinos ensinam que Caim viu um corvo matar outro corvo esmagando entre duas pedras: “Les rabbins disent que, ne sachant comment s’y prende pour tuer son frère Abel, Caïn vit venir à lui le diable, qui lui donna une leçon de meurire em mettant un oiseau sur une pierre et en lui écrasant la tête avec une autre pierre”. (PLANCY, J. Collin. Dictionnaire Infernal. Paris, Société de Saint-Victor & Sagnier et Bray, 1853, p 109).

[29] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trad. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 55.

[30] Outra variante de influência cristã carece de lógica: “Um velho midrash descreve a marca de Caim como uma letra tatuada no seu braço. A proposta de identificação com a letra hebraica ṭēth, em textos medievais, talvez seja inspirada por Ezequiel 9:4-6 onde deus raspa uma marca nas sobrancelhas de alguns justos, em Jerusalém, que serão salvos. Caim não foi julgado digno deste emblema. Contudo o hieróglifo do tav, última letra do alfabeto fenício e do proto-hebraico, era uma cruz (U); e disto derivou a letra grega tau (Θ) que, de acordo com o Lis Consonantium, de Lucian de Samosata, inspirou a ideia da crucificação. Desde que o tav fora reservado para identificar os justos, o midrash substituiu a marca de Caim pela letra mais parecida com o tav tanto no som quanto na forma escrita; chamada ṭēth”. (GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 96-97).

[31] Este comentário é relacionado à versão de Flávio Josefo que, apesar do contexto similar, não menciona que a marca de Caim eram chifres: “Ele estava com medo de ser atacado por animais selvagens enquanto perambulava pela floresta. Deus o tranquilizou para que não tivesse preocupações tão funestas e conseguisse andar pelo mundo sem temer emboscadas de animais selvagens”. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 1:59. Em: WHISTON, Willian. The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31).

[32] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trad. Paulo Geiger. RJ, Jorge Zahar, 1992, p 54-55.

[33] Literalmente “que o endurece feito folhas de álamo”, planta afrodisíaca que, segundo a superstição, assegurava a reprodução dos animais (Gênese 30:37-38).

[34] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 93.

[35]Este material afasta a ideia de deus, pondo na boca de Adão a ordem de ostracismo. Na crônica suplementar Caim não se transforma no momento pré-estabelecido pelo editor. Ele é desperto pela magia de Lilith que oferece sangue numa tigela. Neste ponto existe um erro aparente na grafia da palavra “magick” com “k”, que muito provavelmente é uma mensagem subliminar relativa aos ritos de fertilidade de Aleister Crowley. (CHUPP, San & GREENBERG, Andrew. The Book of Nod. Georgia, White Wolf, 1993, p 28).

[36] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 10, nota 15 e p 12, nota 23.

[37] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trd. Paulo Geiger. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992, p 54-55.

[38] TRICCA, Maria Helena de Oliveira. Apócrifos II: Os proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 126-127.

[39] TRICCA, Maria Helena de Oliveira. Apócrifos II: Os proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 131.

[40] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 17-18.

[41] A segunda coluna teria sido truncada quando o nome de Enoch (חנוך), filho de Cain, foi corrompido para Enosh (אנוש), filho de Seth, e depois corrigido de volta para Enoch (חנוך), tataraneto de Seth, donde vem o defeito inicial do processo de interpolação. A seguir praticamente todo o resto foi truncado.

[42] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 18.

[43] FRAZER, Sir James George. El Folklore em el Antiguo Testamento. Trad. Geraldo Novás. Madrid, Fondo de Cultura Económica, 1993, p 50.

[44] ZAMAGNA, Domingos. Gênesis. Em: A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, Paulus, 1995, p 36.

[45] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Traslation Fund, 1899, p 50.

[46] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[47] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 11-12, nota 22.

[48] MASSON, Hervé. Dictionnaire Initiatique (1970). Em: COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1997, p 161.

[49] Ele escreveu: “Il y a eu, dans le deuxième siècle, une secte d’hommes effroyables qui glorifiaient le crime et qu’on a appelés caïnites. Ces misérables avaient une grande vénération pour Caïn”. (PLANCY, J. Collin. Dictionnaire Infernal. Paris, Société de Saint-Victor & Sagnier et Bray, 1853, p 109).

[50] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 14 e 16.

[51] WHISTON, Willian (trad. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[52] WHISTON, Willian (trad. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[53] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[54] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 94.

[55] ROTH, Cecil. Enciclopédia Judaica A-D. Rio de Janeiro, Tradição, 1959, p 268, verbete CAIM.

[56] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[57] Na versão de Flávio Josefo foi Seth e seus descendentes quem escreveu sobre ciências variadas nestas estelas a fim de evitar que o conhecimento fosse perdido (Antiguidade Judaica, Livro I, capítulo 2, 2:70-71).

[58] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[59] Desde Ésquilo se imaginava que o próprio Apolo purificou Orestes em Delfos com o sacrifício de um porco. Pinturas sobre vasos fornecem uma ideia do procedimento, análogo à purificação das Preitides: O porco é segurado sobre a cabeça de quem vai ser purificado, o sangue tem de escorrer diretamente sobre a cabeça e pelas mãos. Naturalmente, o sangue é depois lavado e a pureza de novo adquirida torna-se então visível. (BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 173-174).

[60] ARISTÓCRITO, Teosofia, 68; Orígenes, Contra Celso, VII, 62. Em: OS PRÉ-SOCRÁTICOS. São Paulo, Abril Cultural, 1978, p 79-80.

[61] BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 174.

[62] BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 174-175.

[63] WHISTON, Willian (trd. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[64] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 93.

[65] REIN●HAGEN, Mark. Vampiro: A Máscara. Trad. Sylvio Gonçalves. São Paulo, Devir, 1994, p 52.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/caim-e-abel/

Conversas com Extraterrestres: Nove Estudos de Caso

Por Preston Dennett.

Um dos tipos mais raros de encontro de OVNIs é uma experiência a bordo ou um encontro cara a cara com um extraterrestre de verdade. Em meus vinte anos de investigação de OVNIs, descobri apenas alguns desses tipos de encontros muito próximos. Surpreendentemente, na grande maioria desses encontros, há pouca ou nenhuma conversa entre os humanos e os alienígenas.

Nos casos em que há conversa, ela é muitas vezes unilateral e limitada aos extraterrestres, dando banalidades às testemunhas assustadas. É a mesma frase repetidas vezes. Já a ouvi milhares de vezes. É quase como um disco quebrado. A primeira palavra que sai da boca dos extraterrestres (ou mentes) é invariavelmente: “NÃO FIQUE COM MEDO. NÓS NÃO LHE FAREMOS MAL”.

Enquanto os alienígenas são geralmente muito falantes, ocasionalmente eles envolvem as pessoas em breves conversas ou transmitem breves mensagens.

CASO UM: “Você não vai se lembrar disto”.

Meu primeiro caso envolvendo conversas entre humanos e ETs ocorreu com a família Robinson de Reseda, Califórnia. Em 1989, a família experimentou uma série de avistamentos e raptos por alienígenas do tipo grey (cinzento), culminando no que os investigadores de OVNIs chamam de “uma apresentação de bebê”.

A testemunha principal, Kelly Robinson, experimentou quatro visitas consecutivas durante um período de poucos meses. Durante cada encontro, ela foi capaz de conversar com os alienígenas.

No primeiro encontro, Kelly acordou para encontrar quatro ETs do tipo grey (cinzento) em pé ao redor de sua cama. Um falou telepaticamente, dizendo-lhe: “Não tenha medo. Venha conosco. Você não vai se lembrar disso”.

Kelly, no entanto, era uma garota de vinte anos, muito animada e independente, e como vinte por cento dos sequestrados, ela se lembrava. Ela se lembrou de ter sido levada para uma pequena sala redonda e colocada sobre uma mesa. Eles lhe disseram: “Nós vamos tirar sua memória. Você não se lembrará disto… Não tenha medo”. Nós não vamos machucá-la. Você não pode se lembrar disto”.

Kelly gritou para eles: “Sim, eu vou!”.

Esta discussão foi para frente e para trás, com os alienígenas dizendo a ela que ela não podia e não se lembraria, e Kelly gritando de volta que ela se lembraria.

Eles então cortaram o braço dela. Ela acordou na manhã seguinte e imediatamente olhou para seu braço. Uma bela cicatriz de duas polegadas estava exatamente onde ela se lembrava dos alienígenas que a cortavam.

Duas semanas depois, os alienígenas voltaram, dizendo a ela: “Vamos tirar sua memória”.

Kelly gritou para eles: “Não, você não vai. Eu vou contar”.

Eles disseram a ela: “Não, você não é…. Seus pais não iriam entender. É melhor não contar a eles, você sabe”.

Kelly gritou que contaria a seu pai.

Eles disseram: “Não, não, não! Você não pode”.

Algumas semanas depois, eles vieram novamente. Como sempre, eles tentaram apagar sua memória do incidente. Eles disseram a ela: “Você vai esquecer tudo”.

Entretanto, como de costume, Kelly teve alguma lembrança dos acontecimentos. Kelly disse: “Eu não sei especificamente o que eles me perguntaram. Eles estavam me perguntando coisas sobre o que fazemos, mas você sabe, não posso dizer especificamente. Eles [disseram] “isto vai acontecer e aquilo vai acontecer”. Acho que se trata do meu trabalho ou algo assim”.

Diz Kelly: “É difícil para mim lembrar. Eles dizem: ‘Você vai esquecer tudo’… É totalmente estressante: ‘Não vamos deixar você se lembrar disso’. Vamos tirar sua memória disto”.

Em seu encontro final, os alienígenas apareceram e disseram: “Precisamos falar com você. Venha conosco”.

Kelly resistiu e ameaçou contar a seu pai. Eles disseram: “Não, você não pode contar ao seu pai”.

Kelly disse: “Eu acho que eles são religiosos. Eles não estão querendo nos machucar. Eles estão querendo aprender. Mas eles têm medo que nos lembremos porque têm medo que nós contemos às pessoas sobre eles”.

CASO DOIS: “Eles têm tudo menos amor”.

A mãe de Kelly Robinson, Diane, teve uma experiência que ela chama de “sonho”, mas está claramente conectada com os encontros de OVNIs de sua família. Diane se lembra de ter sido levada para uma sala onde lhe foi mostrado bebês que foram geneticamente alterados. Revelados pela primeira vez pelo pesquisador Budd Hopkins, estes casos raros envolvem raptados que são instruídos a segurar e cuidar de bebês que parecem ser meio-alienígenas e meio-humanos. Na maioria dos casos, há pouca informação trocada. Diane, no entanto, recebeu uma breve explicação.

Ela se lembrou de ter sido levada a uma sala onde viu uma grande engenhoca em forma de árvore de Natal, mas ao invés de galhos, havia incubadoras cheias de bebês.

Diane foi aconselhada a escolher um bebê e segurá-lo. Ela recusou porque os bebês pareciam estar deformados. Diane diz: “Cada um deles tinha algo errado com eles”. E ela disse que era triste, porque não foi planejado dessa maneira, que eles tinham todas essas coisas erradas com eles…. Ela disse que eles tinham tudo menos amor. Ela disse: “É por isso que eu gostaria que você pegasse um e o adorasse…. Eles têm problemas. Eles são diferentes. Mas eles ainda precisam de amor”.

Diane foi incapaz de superar sua repulsa e se recusou a segurar os bebês. Após esta experiência, todos os encontros de OVNIs da família Robinson terminaram.

CASO TRÊS: “Vai haver uma Rebelião”.

Durante minha pesquisa sobre a onda de OVNIs sobre Topanga Canyon, Califórnia (ver OVNIs sobre Topanga Canyon, Llewellyn, 1999), eu descobri vários casos envolvendo encontros face a face com extraterrestres. Novamente, na maioria dos casos, os alienígenas ou não falavam ou diziam apenas: “Não tenha medo, nós não lhe faremos mal”. No entanto, em alguns casos, foram dadas mensagens. Um caso é o da família Martin. Foi Sarah Martin, a mãe, quem realmente falou com os extraterrestres.

Os encontros de Sarah Martin ocorreram durante o pico da onda de OVNIs e envolveram vários avistamentos de perto e pelo menos um encontro a bordo. Sarah se lembra de estar dentro de uma pequena sala circular, rodeada de pequenas figuras vestidas. Diz Sarah: “Para ser honesta com você, não consigo me lembrar de seus rostos”. Só me lembro de falar com eles… e eles estavam falando comigo”. E foi isto que eles disseram: “Por que você está tão envolvido nesta campanha [de Ross Perot]? Por que você está perdendo seu tempo? Vai desmoronar, um a um, e quem quer que ganhe, não importa porque todo o sistema vai cair ao redor de todos. Vai haver uma rebelião. E você não faz parte disto, então não se envolva”.

Na época, Sarah estava fortemente envolvida na campanha presidencial de Ross Perot. Após a experiência, ela abandonou todas as suas atividades políticas. Diz Sarah: “Isto foi tão incrível”. Em minha mente, eu continuo repetindo o que eles disseram: “Você não faz parte disto, então não faça parte disto”. Afaste-se de tudo isso’…A outra coisa também é algo sobre um terremoto, um grande terremoto. Algo assim…mas a coisa que mais se destacou foi: “Por que você está tão envolvido? Por que você está deixando isso consumir seu tempo? Não vale a pena, e tudo isso vai desmoronar”.

Alguns anos depois, o devastador terremoto de Northridge atingiu, destruindo várias casas no Topanga Canyon.

CASO QUATRO: “Precisamos de bebês”.

Curiosamente, outra testemunha de Topanga recebeu avisos proféticos sobre o terremoto de Northridge na noite anterior, salvando-a assim de ferimentos graves ou até mesmo da morte. Marcellina X teve encontros durante toda sua vida, mas foi só quando se mudou para Topanga Canyon que ela começou a experimentar visitas cara-a-cara. Após o terremoto, ela teve um encontro com um extraterrestre de tipo grey (cinzento) em sua casa.

Durante o encontro, o ET falou com ela telepaticamente. Diz Marcellina: “Estava me dizendo que eles estavam tentando inventar maneiras de ter relações sexuais. Eles precisavam de bebês. Estava apenas me dizendo um monte de coisas telepaticamente. Haveria mais terremotos. E então você sabe, tivemos todos aqueles terremotos em todo o mundo…. Eu tinha mudado minha sala de estar após o terremoto com um monte de quadros que eu tinha pintado de planetas. E eles me disseram que não era exatamente assim…[eles disseram] que eu seria capaz de curar a mim mesmo e que seria capaz de curá-los. Se eles quisessem que eu os curasse, eu seria capaz de curá-los”.

Seguindo esta experiência, Marcellina experimentou a síndrome do feto perdido. Bem conhecida entre os investigadores de OVNIs, esta síndrome envolve mulheres que engravidam após um encontro com OVNIs e depois perdem misteriosamente o feto. Marcellina também experimentou subsequentes eventos paranormais de cura.

CASO CINCO: “Nossas Emoções são Diferentes das Suas”.

Pat Brown é fisioterapeuta da cidade de Panorama, Califórnia. Ela nunca havia pensado em OVNIs até 1992, quando uma viagem ao Arizona desencadeou uma série de encontros com extraterrestres do tipo grey (cinzento). Por um período de vários meses, Pat relatou terríveis visitas noturnas de ETs em seu condomínio. Então, uma noite, ela foi levada a bordo.

Para sua surpresa, ela achou a experiência agradável. Ela recebeu uma visita ao ofício e foi levada para conhecer “o mestre”. Foi então que ela recebeu várias mensagens de natureza espiritual. Pat diz: “Eu não sei tudo o que eles me disseram, mas me lembro deles me dizendo que havia algo que eu tinha a ver com minha aura”.

Ela ficou surpresa ao descobrir que a aparência do alienígena havia mudado para um homem humano de cabelo loiro. Ela perguntou: “Por que você tem esse aspecto?”.

O ET respondeu: “Porque é assim que você quer que eu me pareça”.

Pat foi retirada de seu corpo e lhe foi mostrado como era seu corpo astral. O ET lhe disse: “Essa é a sua alma”. Essa é a parte de você que passa por todas as vidas”.

Pat recebeu mais lições espirituais sobre vibrações e cura e foi então devolvida ao seu quarto.

Ela logo teve mais experiências e sofreu vários efeitos médicos como resultado de seus encontros. Seu caso também é apoiado por outras testemunhas. Sua obsessão com o assunto cresceu e Pat iniciou uma busca por informações e foi conduzida a um canalizador, alguém que alegava falar pelos ETs.

Pat perguntou ao canalizador se as pessoas que são sequestradas fazem um acordo em algum nível. O canalizador, falando em nome dos ETs, disse que sim, os sequestrados concordam, de fato, em ser sequestrados.

Pat disse: “Você pode fazê-los parar?”.

Os ETs responderam: “Não, você não pode fazê-los parar, mas se você se conscientizar conscientemente, você será tratado de uma maneira diferente… Você precisa entender porque você criou isto. Nós percebemos que estamos apoiando você em seu drama. Por que vocês criaram isto”?

Outro membro do público perguntou: “Você vem aqui e recebe espécimes. O que nós recebemos de você”?

“Você tem um começo de crescimento. Isso é o que nós lhe damos”.

Outro membro perguntou sobre as emoções e os ETs responderam: “Nossas emoções são diferentes das suas, mas temos emoções porque as aceitamos como importantes para nós”.

A conversa continuou até que Pat ficou brava e gritou com eles que não deveriam levá-la contra a sua vontade.

Os ETs responderam: “As experiências que você está recebendo desta distância superam as outras coisas que você está passando, e não há uma pessoa nesta sala que não troque de lugar com você”.

Pat continua a ter experiências, tanto positivas quanto negativas. Ela também continua sua busca para compreender as razões de seus encontros.

CASO SEIS: “Somos de um lugar que você ainda não conhece”.

Em 1995, um casal de meia-idade, William e Rose Shelhart, estavam dirigindo fora de Sedona, Arizona, tarde da noite, quando avistaram uma luz brilhante no céu, seguindo-os. Logo se tornou evidente que a luz estava jogando um jogo de gato e rato com eles enquanto os perseguia pela estrada e eventualmente pousou em um campo próximo a eles. Essa foi a última coisa de que eles se lembraram conscientemente.

A memória seguinte deles estava chegando a um hotel em Sedona, várias horas tarde demais. Percebendo que tinham perdido tempo, mais tarde procuraram um hipnotizador e se lembraram de uma incrível experiência a bordo de OVNIs. Eles se lembraram de terem sido levados a bordo da nave e examinados por extraterrestres quase humanos e uniformizados. Embora a lembrança de William tenha sido insignificante, Rose foi capaz de lembrar a maior parte do que aconteceu, incluindo uma conversa real que ela teve com os ETs.

De acordo com Rose, eles foram “convidados” a bordo e tratados com gentileza e respeito. Rose disse: “Eles [os extraterrestres] estavam apenas dizendo que nós estamos ajudando você. Eles me disseram que [William] estava em outra sala recebendo mensagens diferentes”.

Rose perguntou de onde eles vinham. Os extraterrestres deram uma resposta tipicamente enigmática e evasiva, respondendo: “Somos de um lugar que você ainda não conhece”.

Quando perguntados sobre seu propósito de vir aqui, sua resposta foi decididamente positiva. Rose disse: “Eles disseram que estão ajudando certas pessoas aqui porque ajudarão a humanidade. E algo do tipo, quanto mais nós ajudamos, mais eles nos ajudam”. Mas eles não podem interferir e simplesmente tomar o controle e consertar tudo”.

Rose não foi capaz de obter mais informações úteis. Ela e seu marido continuam a ter avistamentos e encontros, e William relata que ele foi curado da síndrome do túnel do carpelo como resultado de sua interação com os Ets.

CASO SETE: “Não se preocupe, nós não lhe faremos mal”.

Jack Stevens (pseudônimo), de Everett, Washington, tinha apenas doze anos quando foi sequestrado de um carro e levado para uma grande nave. A maior parte do evento foi envolta em amnésia até 1997, quando ele espontaneamente recordou o que aconteceu vinte e cinco anos antes. Sua memória revelou um terrível evento de sequestro de seis horas.

Jack lembrou-se de ser levitado dentro de um feixe de luz e colocado sobre uma mesa rodeado de figuras curtas. Quando ele estava sendo levado a bordo, os ETs lhe disseram: “Não se preocupe, nós não vamos machucá-lo”.

Enquanto o examinavam, Jack relata que os ETs conversavam entre si. “Lembro-me de dois deles indo e vindo, e foi como uma coisa de “polícia bom, polícia mau”. Um deles, por tudo que ele se importava, simplesmente me expulsou. Foi essa a impressão, apenas, de “tirá-lo daqui”. E o outro dizia: “Não, não vamos fazer isso”.

“Eu me lembro deles me dizendo para abrir minha boca”.

Jack ficou nervoso com sua mãe e seu irmão, que ainda estavam de volta ao carro. Os seres responderam: “Não se preocupem com isso, não os queremos… Não os queremos, não precisamos deles…. Nós não nos importamos com eles”.

A certa altura, um dos seres tentou relacionar uma mensagem complexa. Diz Jack: “Ele estava me dizendo todo tipo de coisas, mas não estava se afundando”. Eu não entendia o que ele estava me dizendo. Havia coisas de fórmula matemática e algo sobre muitos triângulos e círculos. Havia muita geometria jogada em mim. E eu estava ali sentado pensando, isto é muito legal, mas eu meio que quero ir para casa”.

Depois de vários outros procedimentos, a provação finalmente terminou. Quando Jack estava sendo colocado de volta em seu carro, uma troca final se seguiu. Jack disse: “Você não fez nada com minha mãe e meu irmão, certo?”.

Os seres responderam: “Certo, não se preocupe”.

O caso de Jack envolve provas físicas consideráveis e numerosas outras testemunhas. O caso ainda está em andamento.

OITAVO CASO: “Estamos aqui há muito, muito, muito tempo”.

Um caso muito incomum de contato extraterrestre ocorreu com uma garçonete chamada Maryann X, de Carpinteria, Califórnia. Uma noite, em 1992, após uma série de avistamentos de OVNIs, Maryann estava em sua casa assistindo TV quando se deu conta de uma presença. Embora ela não pudesse ver nada, no olhar de sua mente ela sentiu um ser estranho. A figura era fina, careca, com uma cabeça grande, pele cinza e olhos escuros em forma de amêndoa. Em outras palavras, o típico alienígena do tipo grey (cinzento).

Naquele momento, Maryann começou a experimentar o fenômeno da escrita automática. As mensagens que ela acreditava serem do extraterrestre começaram a ser transmitidas através dela.

Diz Maryann: “Ele está muito interessado em nosso interesse por ele e por sua raça. [Ele diz] que eles estão aqui há muito, muito tempo, mais tempo do que nós pelo que eu entendo…. Eles estão muito interessados em nós. Eles estão quase mais fascinados em nós do que nós estamos neles. Nós não pensamos da mesma forma que eles. Ele disse: “Vivemos nos oceanos”. Eles vivem no oceano, debaixo d’água. Seus navios estão debaixo d’água. Eles são muito benignos. Eles não têm ogivas nucleares [ou] este tipo de coisas”.

Como muitos contatos, Maryann recebeu informações sobre os próximos desastres naturais. “Ele estava me contando algo sobre terremotos. Ele não previu mais nada. Ele apenas disse que estamos diante de um grande tipo de desastre natural. Tenho a impressão, pensando no que ele me fala, é que eles estão quase aqui para nos avisar. Não de um tipo de desastre iminente, como se o mundo fosse explodir, mas eles não estão aqui para nos ferir. Eles estão aqui para observar”.

O alienígena disse a Maryann que sua raça é muito mais numerosa do que toda a humanidade. “Lotes e lotes e lotes. Isto não são apenas cinco ou dez ou vinte navios vagando por aí. Estamos falando – do que eu recebo dele – milhões e milhões destas pessoas. E eles já existiam antes de registrarmos o tempo e a história”.

O alienígena lhe disse que eles estavam conduzindo um programa para contatar pequenos grupos de pessoas em todo o planeta. “Esse é o entendimento que tenho”. Eles têm empregos como todos têm empregos aqui embaixo. Seu trabalho é encontrar pessoas que sejam receptivas o suficiente para conversar com ele. E ele estava realmente preocupado se eu estava ou não realmente assustado….I tenho a impressão de que não sou o único com quem ele fala. Na verdade, eu acho que é como um trabalho para eles. Essa é a impressão que eu tenho, é que eles meio que sondam pessoas diferentes. É como se seu trabalho fosse encontrar pessoas que sejam receptivas”.

Marianne fez contato com o estrangeiro em várias ocasiões, e recebeu muito mais informações.

CASO NONO: “É muito importante que façamos isto”.

Melinda Leslie de Los Angeles, Califórnia, é uma gerente de escritório e secretária que tem tido contato com ET durante toda sua vida. Ainda mais surpreendente é que Melinda tem sido capaz de recordar conscientemente muitas de suas experiências, sem a ajuda da hipnose. Ela é o que os pesquisadores de OVNIs chamam de um sequestrado consciente.

Embora ela tenha tido praticamente toda a gama de experiências com OVNIs, uma de suas mais dramáticas ocorreu em julho de 1991 enquanto conduzia com dois amigos pela floresta de Los Angeles. Todos os três experimentaram um sequestro de duas horas em uma nave metálica pilotada por ETs do tipo grey (cinzento).

Uma vez a bordo, eles foram despidos, examinados, separados e receberam mensagens separadas. Melinda Leslie foi capaz de relembrar todo o evento conscientemente. Ao ser colocada e examinada, ela martelou os alienígenas com perguntas, nenhuma das quais eles responderam.

Ela viu seu amigo sentado em uma cadeira com um fone de ouvido de aparência bizarra e gritou: “O que você está fazendo com ele?

Um dos alienígenas respondeu: “Tudo bem, estamos dando informações a ele”. Está tudo bem. Estamos educando ele”.

“Não o machuque”, disse Melinda.

“Não estamos fazendo mal a ele”. Ele está bem. Está tudo bem”.

Melinda continuou a deixar sair um fluxo de perguntas, no entanto, ela raramente foi respondida, e então, apenas de forma evasiva. Diz Melinda: “Eles não lhe dão respostas diretas”. Eles dizem: ‘Tudo bem’. Temos que fazer isto. Você entende”.”

A certa altura, os três amigos foram separados e colocados em salas diferentes. Melinda se viu em uma sala com uma dúzia de greys (cinzentos). Um se aproximou dela e disse: “Agora, vamos fazer alguma coisa”. Não tenha medo, mas isto é muito importante que façamos isto. Vamos colocar isto sobre sua cabeça”.

O que se seguiu foi um procedimento bizarro. Melinda foi imobilizada por um dispositivo colocado sobre sua cabeça. Os alienígenas ficaram em um círculo ao redor de Melinda e a empurraram para frente e para trás como um palhaço socador. Melinda sentiu que ia cair, mas cada vez que era apanhada e empurrada novamente. Finalmente, ela relaxou. Naquele momento, eles pararam e removeram o dispositivo. Um dos alienígenas disse: “Você precisava aprender que…. Você precisava aprender a confiar em nós”.

Enquanto isso, o amigo de Melinda, James, estava recebendo uma mensagem diferente. Diz Melinda: “James disse que quando eu estava fora da sala, eles vieram até ele e lhe mostraram um dispositivo, um monte de coisas”. Eles lhe disseram como fazer um detector de OVNIs e lhe deram a informação”. Ele disse, eles disseram porque queriam que ele as documentasse e gravasse em vídeo. Quando os avistamentos acontecem, eles lhe disseram que ele tem a missão de documentar estas coisas”.

Segundo James, “Eles me mostraram como fazer isso. E eles me explicaram tudo tecnicamente, e me deram a informação de como construí-las. Eles foram feitos e fizeram com que eu entendesse. E eu disse: ‘Sim, eu entendi’”.

O outro amigo de Melinda não conseguiu se lembrar de muitos detalhes além de ter sido levado a bordo e examinado. Melinda continua a ter experiências e tem dado amplas palestras sobre seus encontros.

CONCLUSÕES:

Há muitos outros casos em que alienígenas já conversaram com seres humanos. No entanto, os padrões são geralmente os mesmos. Na maioria das vezes, os extraterrestres não são apenas extremamente taciturnos; quando eles falam, são muitas vezes evasivos. Quando o raptado Travis Walton foi levado a bordo de um OVNI, ele fez inúmeras perguntas aos alienígenas, nenhuma das quais foi respondida. Quando a raptada Betty Hill perguntou a seus raptores de onde eles vieram, eles lhe disseram: “Você não entenderia”.

Mas como os casos acima mostram, os alienígenas às vezes revelam informações sobre si mesmos, seus sentimentos, suas intenções, seus desejos, seus medos e crenças. Juntando estes relatos, estamos começando a obter uma imagem mais clara de quem são os alienígenas e o que eles estão fazendo neste planeta. A principal mensagem revelada pelas conversas dos alienígenas é que eles têm um forte interesse na humanidade. Quer estejam removendo material genético, transmitindo conhecimento espiritual, prevendo desastres naturais ou estudando nossas emoções, os alienígenas estão obviamente fascinados pela humanidade. A conclusão é clara. Por qualquer razão, eles estão profundamente interessados em nós. E se os padrões revelarem algo, os alienígenas permanecerão aqui por um longo, longo tempo.

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Fonte:

Conversations with Extraterrestrials: Nine Case Studies, by Preston Dennett.

https://www.llewellyn.com/journal/article/474

COPYRIGHT (2003) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/conversas-com-extraterrestres-nove-estudos-de-caso/

Aquisitores: A Breve História Secreta do Brasil

ATENÇÃO: O texto a seguir foi escrito com base em diversas pesquisas que por sua vez não possuem relação ente si nem em nenhum momento algum citam o nome Aquisitores. Para todos os efeitos este artigo deve ser entendido como devaneio literário ou  uma mera obra de ficção.

 

Varre Varre VassourinhaAlguma coisa está fora da ordem. Fora da Nova Ordem Mundial.”
– Caetano Veloso, Fora de Ordem

Cada país tem o Illuminati que merece. Se isso for verdade então o Brasil é um dos país mais desgraçados que existe.

Aquisitores é o nome dado ao braço brasileiro do Governo Oculto Global. O nome Aquisitores é uma referência ao único e principal interesse deste braço que é sua própria prosperidade financeira que só pode ser obtida através da atuação de seus membros na economia e na política do país. A grande diferença entre este grupo e as sociedades secretas internacionais é que aqui eles se desfizeram de qualquer traço ideológico, seja ele bem ou mal intencionado. Como mostrarei a seguir, o único interesse dos “Illuminati brasileiros” é o lucro. Maquinações políticas, culturais e religiosas são abandonadas em prol da fria lógica dos números. Os dois únicos objetivos dos Aquisitores é proteger a própria riqueza e ficar ainda mais ricos.

Embora seja verdade que os membros Aquisitores sejam formados pelas famílias mais ricas do Brasil, o inverso não é verdadeiro, nem todas as famílias ricas fazem parte do grupo; não basta ter dinheiro para adentrar na ordem. Uma pessoa ser rica não quer dizer que ela é Aquisitora. Já uma família que, apesar dos altos e baixos da economia consegue não apenas se manter rica, mas prosperar cada vez mais é outra história. Como as fortunas do país passam na forma de herança, na prática os mesmos sobrenomes compõem a cúpula da organização com o passar dos anos. Qualquer leitor que acompanha minimamente as notícias conhece alguns destes sobrenomes.

Teóricos conspiracionistas afirmam que o grupo, através de métodos diversos, controla as principais instituições de poder do país, como estabelecimentos de ensino, grupos religiosos, partidos políticos e associações de classe. Estas instituições contudo são um meio e não um fim para que consolidem cada vez mais fortemente seu poder económico no Brasil. Através de suas táticas eficientes, silenciam qualquer oposição, mesmo porque o conhecimento, por parte da população, da existência de tal grupo é quase nenhuma e se resume a pessoas que, por interesse ou curiosidade, pesquisam sobre conspirações e técnicas de dominação de massa. Sua esfera de influencia portanto, se adaptaria e mudaria conforme o tempo avança. Em uma época estariam diretamente vinculados à Maçonaria e o Alto Clero da Igreja Católica, tempos depois estariam puxando as cordinhas em Brasília e orquestrando o impacto cultural da Tropicália. Hoje sua força se extenderia principalmente as grandes redes de comunicação, grandes igrejas neo-pentecostais e, é claro, ao governo federal.

Mascaram-se como defensores da liberdade de pensamento, mas, na realidade, a única liberdade que defendem é a de sua própria ideologia de dominação. Na cultura popular brasileira, podemos interpretar certa músicas e filmes como referências aos Aquisitores como na música “Forças Ocultas” escrita por Marcelo Nova do grupo Camisa de Vênus e veladas em algumas músicas de cunho político de Cazuza, Chico Buarque e Marcelo D2. Existem ainda breves citações nos filmes de Lima Barreto gravados em companhia Vera Cruz, além de referências claras na série Os Seis do autor Hélio do Soveral.

Desfazendo alguns enganos

Como toda teoria da conspiração não é difícil existirem várias versões para um mesmo fato. Portanto, antes de explorarmos os indícios, vamos apresentar algumas coisas que ficaram claras em nossa investigação e desmistificar alguns boatos que nos parecem sem fundamento. Isso acontece parcialmente devido aos resultados obtidos por fontes e pesquisadores diferentes mas parcialmente também como uma maneira de encobrir o que realmente esta acontecendo em um plano mais elevado.

Aquisitores são maçons

Em primeiro lugar,  ao contrário do que alguns escritores colocam, (geralmente escritores do meio evangelico), não existe qualquer indício de que os Aquisitores sejam uma organização ao estílo maçonico. Embora, realmente possamos afirmar que alguns deles possam ser ou ter sido maçons, eles não são nem de perto uma organização iniciática. Em um momento histórico anterior houve uma forte influência maçônica, especialmente a partir do processo de Independência do pais, mas isso parece ter sido superado. Pessoalmente, não acho que este tipo de especulação mereça qualquer crédito.

Aquisitores são satanistas

Da mesma forma, algumas pessoas alegam que os Aquisitores nasceram dentro do corpo de jesuítas do Brasil Colonial, que seriam os responsáveis pela divulgação da obra conhecida como Monita Secreta. Essa teoria, sem qualquer fundamento, alega que por alguma razão, certos padres se desviaram e adotaram uma espécie de culto diabólico, sugerindo ainda que nos anos 1960 foi realizado um pacto demoníaco coletivo com algumas famílias importantes do país, especialmente na região nordeste. Se isso for verdade, e provavelmente NÃO É, este seria o maior pacto coletivo já realizado na América do Sul.


Os Grandes Partidos Políticos estão por trás dos Aquisitores

Dificilmente poderiamos aceitar tal afirmação. Os Aquisitores como veremos possuem uma natureza apolítica, sem ideologia e apartidária. É possível que utilizem ou mesmo criem alguns partidos políticos para seus próprios fins, entretanto sua esfera de poder é bem mais ampla. Os Grandes Partidos Políticos não estão por trás dos Aquisitores, mas os Aquisitores podem estar atrás de qualquer lugar.

Os Aquisitores nasceram em 1985

Outra grande bobagem que se diz é que os Aquisitores nasceram no final da Ditadura Militar, tendo inclusive dado fim a ela. A verdade mais provável parece ser que o grupo é bem mais antigo do que isso. Além disso não existe um único grupo Aquisitor, mas pelo menos dois grupos atuantes que podem receber esta nomenclatura. Estes dois grupos são em geral antagônicos, mas podem se unir caso vejam seu balanço de poder ameaçado. Exporei de forma clara a seguir evidências de que este grupo é muito mais antigo do que esta data.

 

O presidente que se matou

O suicídio do então presidente Getúlio Vargas é uma prova de que a grande conspiração de nosso país é bem anterior a 1985. Sua carta-testamento, endereçada ao povo brasileiro possui algumas pistas do que estava acontecendo na balança de poder do Brasil naquele momento. Este documento é forte e curto o bastante para podermos mencionar alguns excertos a seguir, os destaques em negrito são por conta do autor. Ao lado ilustra-se um fragmento do documento original, hoje em posse do Memorial Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.

“Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.

Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.

Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.”

“E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte.

Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

Assina Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954″

O documento na íntegra pode ser lido no site do Memorial em http://www0.rio.rj.gov.br/memorialgetuliovargas/conteudo/expo8.html . Ele possui uma carga emocional forte que não pode ser ignorada, mas não devemos deixar de pensar que tipo de poder poderia fazer o homem mais poderoso de um país tirar sua própria vida. Com seu suicídio iniciou-se um novo capitulo na história secreta no Brasil e aquilo que as escolas ensinam ser a Ditadura Militar é na verdade a gestação e parto da atual elite dominante de nosso país. Se você acha tudo isso estranho, considere a entrevista dada a Roberto Canázio, da Rádio Globo em 2007 onde a vedete Virginia Lane, com quem Getúlio se relacionava intimamente declara que ele não se suicidou. Foi sim, executado.

Confira aqui a entrevista: http://www.mortesubita.org/sociedades-secretas-e-conspiracoes/textos-conspiracionais/virginia_lane_getulio_vargas.wma

A entrevista foi ao vivo e pegou até o jornalista de surpresa. Questionada em outras ocasiões sobre o assunto tão bombástico ela declarou que foi proibida judicialmente de tocar nesse assunto outra vez. Segundo ela, Getúlio sabia que iria morrer por mãos alheias e deixou sua carta testamento preparada. Contudo é possível que até sua esta carta tenha sido forjada ou por seus assassinos ou por alguém com desejoso de vingança. Caso tudo isso seja verdade, provavelmente Getúlio não foi o primeiro presidente a ser morto pelas mãos dos Aquisitores.

Operação Condor

É importantíssimo lembrar que os Aquisitores não são reconhecidos como grupo por nenhum historiador sério, e não existe sequer um trabalho acadêmico que confirme sua existência. Um exemplo típico deste tipo de elocubração está nas suspeitas levantadas na estranhíssima renuncia de Jânio Quadros, o presidente que renunciou por não aguentar o peso das “Forças terríveis” como ele mesmo declarou em sua carta de renúncia e na instauração do Regime Militar em 1964. O mesmo ocorre com as suspeitas levantadas no inicio dos anos 90 sobre a morte de Juscelino Kubitschek ou a investigação iniciada em 2007 no Rio Grande do Sul sobre a morte de João Goulart, que oficialmente morreu de doença cardíaca.

Sobre a Morte dos Presidentes leia:

Todos estes eventos se relacionam com a chamada “Operação Condor”, uma série de ações arquitetada pelos Aquisitores para tomar o poder político. Esta operação seria controlada remotamente por sociedades estrangeiras e encabeçadas pela elite financeira nacional. O objetivo da Operação Condor seria então dar poder político a quem já tinha poder economico e criar assim um governo facilmente controlado pelas “forças terríveis” internacionais. Até o momento nenhuma dessas investigações apresentou qualquer prova palpável, mas a coincidência alimenta a curiosidade dos teóricos da conspiração: Jango, JK e Lacerda, os três grandes nomes da oposição ao regime militar morreram todos em espaço de meses entre o fim de 1976 e início de 1977. Um sozinho em sua fazenda, outro num acidente mal explicado de carro e o outro de uma doença aguda que o matou de um dia para o outro.

Numa carta dirigida, em agosto de 1975, ao Gen. João Batista Figueiredo – e divulgada pelo jornalista norte-americano Jack Anderson – o chefe da polícia secreta de Pinochet, Manuel Contreras, comunicou o “decisivo apoio” da ditadura chilena a um “Plano” de Figueiredo para “coordenar a ação contra certas autoridades eclesiásticas e políticas da América Latina”. Na carta a seu homólogo brasileiro, chefe do SNI de Geisel, Contreras citou o chileno Orlando Letelier (morto por uma bomba que mandou pelos ares o seu carro em Washington, em 21 de setembro de 1976, 30 dias depois de Juscelino) e JK como a indicá-los como candidatos à “vendetta” dos regimes militares do cone sul, ou seja, a “Operação Condor”.

Embora não cite os Aquisitores em nenhum momento o jornalista Élio Gaspari revelou em publicação recente declarações gravadas de Ernesto Geisel – considerado integrante da área castelista, “moderada”, do golpe – admitindo o assassinato como método de ação política. Gaspari revelou a gravação de conversas de Geisel com o general Dale Coutinho, seu futuro ministro do Exército, a um mês de sua posse na Presidência. ‘Esse negócio de matar é uma barbaridade, mas tem que ser’, afirma Geisel, em uma de várias demonstrações de que sabia da morte de opositores sob custódia do regime.

O Grupo de Roma x O Ramo de Ouro

Durante a ditadura militar o grupo se manteve relativamente coeso, principalmente porque ainda eram bastante submissos aos poderes internacionais, em especial o braço Estadunidense do governo oculto global, os Bilderburgers. Mas a partir de 1985, os membros brasileiros do Governo Oculto se organizaram em dois grupos inimigos e teoricamente independentes dos Illuminati. A partir de então, não faz mais sentido chamá-los de Illuminati, mas devemos dar uma palavra sobre esta “independência.”

A matemática é simples, um país desenvolvido economicamente não pode ser controlado, um pais onde a política é mais forte do que a economia pode ser facilmente manipulado, através de leis e impostos que não permitam o desenvolvimento e acúmulo de riquezas por qualquer um. Poder e dinheiro não conhecem fronteiras. Dizer que os Aquisitores são independentes dos Illuminati é algo bastante ingênuo. Dizer que eles nasceram do nada em 1985 é mais ingênuo ainda. Na verdade o que ocorreu é que depois da Ditadura Militar o cenário político mudou. Houve então uma espécie de troca. De um lado os “Aquisitores” teriam liberdade regional para explorar o povo financeiramente e em contra partida apoiariam o governo oculto global e sustentariam a construção da chamada Nova Ordem Mundial. Não existem conspirações locais, apenas consequências locais da Conspiração.

Na ausência de um poder superior que controlasse cada um de seus passos os grupos nacionais passaram a reinvidicar sua legitimidade e esta disputa se polarizou em dois grupos principais, cada um deles  considerando-se os únicos “Aquisitores” legítimos. Um desses grupos, e talvez o mais poderoso conhecido como “Ramo de Ouro” se estabeleceu inicialmente na  região de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, região que havia experimentado uma próspera fase na década de 70 e que conheceu, por conta disso, o  movimento metalúrgico e culminou na posterior eleição do insuspeito Presidente Lula. O segundo grupo fez base no Rio de Janeiro e é chamado de “Grupo de Roma” supostamente relacionado com o famoso Clube de Roma. Essa polarização explica, entre outras coisas, porque o foco midiático e econômico dificilmente sai do eixo São Paulo/Rio de Janeiro e também como grandes centros econômicos e políticos do passado, como Minas Gerais, sairam de cena tão rapidamente.

O Ramo de Ouro e o Grupo de Roma recebem cada um deles apoio de forças internacionais próprias. Estas forças por sua vez não são, nenhuma delas, o Governo Oculto Global, mas também são movimentados por este como tem sido desde o fim da Segunda Guerra Mundial.  Num primeiro momento parece difícil entender como grupos antagônicos dentro e fora do Brasil e que vivem brigando possam possuir uma mesma raiz de poder. Antes de prosseguirmos, permita-me leitor fazer uma breve citação do Dr. Walter K. Buhler sobre a questão: “Talvez alguns ainda se lembrem de que foi a elite de banqueiros, no fim da Primeira Guerra Mundial, que facilitou e depois mandou financiar a Revolução Comunista. A começar por Lenin que foi enviado da Suíça, em vagão lacrado da estrada de ferro, através da Alemanha para a Rússia”. O ápice de uma conspiração é fazer o povo apoiá-la como se fosse algo revolucionário. O objetivo do poder não é o controle, pessoas que pensam que são livres e que podem se rebelar são as mais produtivas, as mais facilmente exploradas.

Desde esta formação bipolar podemos ligar cada um dos os escândalos políticos que ocorreram no pais desde a ditadura militar a estes dois grupos de Roma e de Ouro e a seus jogos de poder. A briga entre os dois grupos de Aquisitores durou cerca de dez anos e quem pagou a conta foi a economia nacional. A rivalidade só foi amenizada  (mas não extinta) com a criação do chamado “Comando Delta”. Ao contrário do que muitos teóricos suspeitam, o Comando Delta não é uma sociedade secreta em si, mas uma espécie de “acordo de cavalheiros” onde os dois grupos de Aquisitores definem de tempos em tempos quem será o próximo presidente da nação, uma nova versão da antiga política do café com leite que já dominou o país.

O Comando Delta

O Comando Delta só veio oficialmente a tona quatro anos depois com a publicação em março de 2000 na Revista Caros Amigos de uma entrevista com o Presidente da Associação Brasileira dos Agentes da Polícia Federal, O Sr Francisco Carlos Garisto. Não é preciso dizer que em menos de uma semana a revista simplesmente desapareceu das bancas e dos estoques da editora. Sr. Garisto reforça que se trata de um acordo informal entre os grupos de poder que dominam o nosso país.

Nas palavras do próprio:

“O Comando Delta é a fábrica de presidentes, é o que comanda o sistema brasileiro, que fez a reunião para escolher o Fernando Henrique, que já deve estar fazendo reunião para convidar outro.””Uma vez dei uma entrevista na televisão e falei: “O Comando Delta acaba escolhendo um presidente aí”. Só falei isso, e a entrevistadora, na hora: “Quem é o Comando Delta?” Eu: “As pessoas ‘de bem’ do país, pessoas que comandam a economia, o mercado”. Rapaz, deu um bode desgraçado! Ela me ligou depois de dois dias e disse: “Garisto, o que tem de gente ligando querendo saber do Comando Delta”. Falei: “Isso é coisa do Chuck Norris, Comando Delta 2, 3, pára com isso! Tô fora, porque eles são muito fortes”.

“São unidos, ricos e inteligentes. Aquela operação toda feita no seqüestro do Diniz, organizado, bonitinho, vocês da mídia são os donos dela através do representante maior de vocês — daqui a pouco estou falando o nome, que já ganhou a segunda tartaruga agora. Ele ganhou a segunda tartaruga porque a outra morreu. (risos)”

Para direcionar melhor seus esforços e recursos desde a formação do Comando Delta, os dois grupos de Aquisitores negociam entre si, com antecedência quem serão os próximos Presidentes da república, bem como quem ficará em cargos decisivos como o Presidente do Congresso Nacional  e o Chefe da Casa Civil. Foi assim que em 1995 Fernando Henrique Cardoso foi eleito, segundo alguns teóricos da conspiração com verba da CIA. Não é coincidência que na mesma época iniciou-se a implantação das Urnas Eletrônicas.


Conclusão

Os Aquisitores hoje em dia não são uma sociedade secreta nos moldes tradicionais. Para começo de conversa eles mesmos estão dividos em dois grupos de poder e portanto são também vítimas do jogo sujo um do outro. Além disso, não se trata de um grupo preocupado em direcionar o futuro do nosso país para este ou aquele destino. Isso, eles deixam por conta de seus “Superiores” em troca de uma relativa liberdade para sugar nossas riquezas e recursos para seus próprios fins. Os Aquisitores são uma entidade cuja única razão de existir é garantir que os ricos continuem ricos. Se  considerarmos que o povo em geral vive na miséria, com um salário que é imoral, temos que dar a mão a palmatória. Eles estão fazendo um ótimo trabalho.

Alberto Grosheniark

Texto fascinante! Muito bem escrito e demonstra que o autor pesquisou bem e de fontes fidedignas! Gostaria de ler outros textos do autor na mesma linha!

Enquanto pobres não buscarem a educação libertadora a materia prima da morte serão sempre nós.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/aquisitores-a-breve-historia-secreta-do-brasil/

Do Universo e Tudo Mais

Apareceu pela primeira vez no mar há quase quatro bilhões de anos na forma de vida de uma célula única. Em uma explosão de vida ao longo de milhões de anos, os primeiros organismos multicelulares da natureza começaram a se multiplicar.

E então pararam.

440 milhões de anos atrás uma grande extinção em massa matou quase todas as espécies no planeta, deixando os vastos oceanos mortos e vazios.

Vagarosamente as plantas começaram a evoluir. Então os insetos. Apenas para desaparecerem na segunda extinção em massa da Terra. O ciclo repetiu-se inúmeras vezes. Répteis emergindo do oceano, apenas para serem extintos.

Então os dinossauros lutando pela vida, juntamente com os primeiros pássaros, peixes e plantas desabrochando. Sua dizimação: a quarta e quinta grande extinção da Terra.

Há apenas 100.000 anos atrás o homo sapiens apareceu. O homem. Das pinturas nas cavernas à Bíblia, de Colombo a Apollo 11, temos sido uma força incansável sobre a Terra e além, catalogando o mundo natural a medida que ele se revela para nós. Crescendo para uma população mundial de mais de cinco bilhões de pessoas, todos decendentes daquela célula única original. Aquela primeira centelha de vida.

Mas apesar de todo nosso conhecimento, o que ninguém pode dizer ao certo é o que ou quem acendeu aquela centelha original. Existe um plano, um propósito, ou uma razão para a nossa existência?

Nós cairemos, como aquele antes de nós, no esquecimento? Na sexta extinção que os cientistas já nos alertam que já está em andamento? Ou o mistério será revelado através de um sinal? Um símbolo? Uma revelação?

Começou com um ato de extrema violência. Um big-bang expandindo-se constantemente. Um cosmo nasceu de matéria e gás. Matéria e gás. Dez bilhões de anos atrás.

De quem foi a idéia? Quem teve a audácia para tal invenção? E a razão? Fazíamos parte daquele plano, dez bilhões de anos atrás? Nascemos apenas para morrer?

Para crescer, multiplicar e encher a Terra para abrir caminho para as nossas gerações? Se há um início, deve haver um fim? Queimamos como fogueiras em nossa época, somente para sermos extintos. Para render-nos à eterna regeneração dos elementos.

Tudo isso acabará um dia? A vida não se transformará em vida? A Terra se tornará árida como as estrelas no céu? Como o cosmo? Será que a mão que acendeu a chama deixará que se apague? Nós também nos tornaremos extintos? Ou se o fogo que vive dentro de nós deve continuar, quem decide? Quem cuida das chamas? Ele pode reanimar a centelha até mesmo quando ela estiver fria e enfraquecida”?

Hoje temos recursos nunca sonhados pelas civilizações antigas. Podemos ver desde grandes estrelas e galáxias distantes até células e átomos. Nossa visão se ampliou de maneira exponencial em poucas décadas do século passado e nosso tempo corre cada vez mais rápido, com novas tecnologias surgindo a cada hora. Mas onde ficou a fé?

A fé não é apenas ir à missa ou no culto sempre num certo dia, isso é um ritual, a fé é acreditar, mesmo sem provas. O que grandes místicos do passado podiam apenas teorizar, acreditar, ter fé, hoje podemos comprovar, ter certeza que o comportamento de planetas e galáxias se assemelha ao comportamento de células e átomos, “assim como é em cima, também é embaixo”. Hoje vivemos na era da ciência, da razão, podemos ver muito além do que nossos olhos poderiam, captar sons e outras vibrações que nosso corpo não teria capacidade de assimilar, hoje sabemos. Mas ao mesmo tempo perdemos parte da capacidade de imaginar e de acreditar.

Nessa Era da Razão, a maior parte das “descobertas” já haviam sido previstas por místicos do passado, muito já se sabia, apenas não se podia provar. Hoje provamos muito, mas como em outros tempos, muito é lançado ao descrédito por não conseguir provar com a tecnologia que temos. Para nós não há dúvida que daqui há anos, décadas ou séculos todas nossas crenças serão efetivamente provadas, conforme a humanidade evoluir. Pseudo-cientistas pseudo-céticos se multiplicam defendendo o empirismo puro, desacreditando teses bem embasadas, apenas por sua moralidade torta, pela sua própria incapacidade de acreditar. Capacidade esta que não é estimulada nas escolas, o pensamento próprio é subestimado em função de fórmulas prontas, oferecidas de pronto para desestimular a iniciativa, o Sonho.

As fórmulas e rituais, como bem sabemos, são importantes e fazem sua função, porém não devem estar acima do próprio indivíduo, são ferramentas, não objetivos.

E todo esse empirismo cai por terra quando confrontados com os escritos dos nossos precursores no estudo místico. Esses místicos souberam de assuntos além de seu tempo por sua capacidade de intuir, de sonhar e de se harmonizar com o princípio criador, o Cósmico, Deus, ou qual quer que seja o nome que tenha dado à nossa Origem. O que é dito hoje é que apenas vivemos e que nossa essência estaria limitada a apenas essa curta vida. Porém é difícil acreditar que somos fruto de um resultado aleatório e caótico, que depois de bilhões de anos a vida originou-se em nosso planeta e neste milhões de anos de história até a vida humana surgir tenha sido fruto de mero acaso químico.

E se não somos um mero acaso, se há um plano para nós, qual seria ele? Estaremos vivendo para apenas sermos vitimados por uma extinção em massa? Possivelmente não. Pelas ações humanas o planeta está doente, mas ele em si continuará existindo, o que pode ocorrer é do planeta não poder mais comportar a vida humana, mas para o planeta está tudo bem. Devemos nos desenvolver e evoluir para que possamos manter a vida no planeta, como a conhecemos. Hoje nossa chama está enfraquecida e corremos o risco que ela se acabe como resultado da ação humana no planeta, a quem cabe a decisão de manter essa chama queimando? Ora, não pode ser de outrem que não o próprio responsável, nós mesmos, nossa raça, cabe a nós tomar a decisão de preservar nosso lar para nós mesmos e nossos descendentes, nossas outras vidas. Somos dotados do livre-arbítrio para podermos escolher entre o bem e o mal, cabe a nós a decisão de acreditar e ter fé, de preservar e esse lindo presente que é nosso planeta.

#Filosofia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/do-universo-e-tudo-mais

Feitiços de Envultamento

Shirlei Massapust

Tomei a liberdade de compilar alguns rituais bizarros somente para estudo folclórico-antropológico. Além de antiéticos, os crimes de perturbação de cerimônia funerária, violação de sepulturas, destruição e vilipêndio a cadáver estão todos tipificados do artigo 209 ao 212 do Código Penal Brasileiro.

Agulha Encantada

Fonte: Livro Vermelho e Negro de São Cipriano (versão de Murzin G Gemwy).

São Cipriano, propositalmente, tornava suas mágicas bem difíceis de preparar, a fim de evitar que caísse na mão de pessoas ignorantes ou mal intencionadas. Hoje, que o povo está mais evoluído, há mais instrução, pode-se publicar as fórmulas mágicas sem aqueles obstáculos propositais.

A mágica da agulha falava em passar uma agulha com um fio de linho galego por três vezes, pela pele da barriga de um defunto. No original grego São Cipriano fala “epiderme” (επιδερμίδα) significando “em cima da pele”. (…) Referia-se pois, São Cipriano à mortalha do defunto e não ao seu corpo. (…) Para fazer esta mágica deve-se oferecer para ajudar a costurar a mortalha ou a roupa de um defunto. Leve uma agulha virgem e use-a para isso. Enquanto costura a peça concentre-se nas seguintes palavras: “Fulano (o nome do morto) esta agulha na tua pele vou passar, para que fique com força de encantar”. Terminado leve a agulha para casa e guarde-a muito bem, pois servirá para muitas mágicas.[1]

Para que um morto nos livre de uma doença

Fonte: Livro do Touro Negro.

Aproximai-vos de um defunto que esteja para ser enterrado, e dizei: “Fulano (dizei o nome do morto), já que estás indo embora, leva contigo esta minha doença (dizei o nome da doença), para que eu dela fique livre, e nunca mais volte a sofrer dela nem de coisa parecida[2].

Trabalho aos pés de um morto para matar alguém

Fonte: O Livro de São Cipriano.

Deve-se dirigir a um cemitério em que esteja acontecendo um velório (…) sendo que de preferência o defunto seja amigo ou conhecido, mas se não o for que saiba-se o nome do mesmo. (…) Aproximando-se do defunto, o que deverá ser feito pelos pés do defunto, finge-se que se está arrumando as flores que por certo estarão cobrindo o cadáver, e com muito cuidado e concentração, mentaliza-se o nome da pessoa que se quer despachar para o “outro mundo” e, com um pedaço de papel branco em que já deverá ter sido escrito o nome completo dessa pessoa, enterra-se no meio das flores. Ao fazê-lo, como se falasse a si próprio, pede-se ao defunto que, ao partir para a eternidade leve com ele a tal pessoa. A seguir dever-se-á dirigir para o lado em que se encontra a cabeça do defunto e, curvando-se como se ao seu ouvido algo fosse dizer, pronuncia-se novamente o nome da pessoa que se quer despachar e pedir, mais uma vez, ao morto, que a leve desta para outra vida. (…) Ao sair dirigi-se imediatamente ao Cruzeiro das Almas e acende-se uma vela preta em homenagem a seu Omulu e pede-se ao mesmo que tome conta da pessoa que se quer despachar.[3]

Circunstância Despenalizadora (Consentimento do Ofendido)

Em 13/10/2012, o Programa do Pedro Augusto, na Rádio Tupi, noticiou uma ocorrência policial inusitada. Logo depois que a mãe de uma mulher chamada Jussara faleceu, a filha escreveu dezessete nomes de desafetos num papel, abriu a boca do cadáver e colocou a lista dentro. As pessoas cujos nomes estavam escritos no feitiço ficaram sabendo e tentaram roubar o cadáver durante o velório para retirar o papel. A polícia impediu e a falecida foi enterrada enquanto as pessoas medrosas tentavam inutilmente explicar para a polícia que colocar o nome de alguém na boca de um cadáver faz com que o inimigo morra… Isso é interessante porque se a mãe, sabendo que ia morrer, deu permissão para a filha fazer isso, não existe crime de vilipêndio a cadáver. É o mesmo caso da pessoa que doa o corpo para autópsia educativa em faculdades de medicina ou para finalidade artística (ao exemplo de certo amante das artes cênicas que só conseguiu realizar o sonho de ser artista de teatro depois da morte, doando o próprio crânio em testamento para fazer o papel do pai de Hamlet).

Diferentemente dos maus tratos a animais, inclusive sapos, que ganharam penalidades severas com o artigo 32 da Lei Federal nº. 9.605/98, o consentimento do moribundo por codicilo ou testamento pode fazer com que não haja crimes de perturbação de cerimônia funerária, violação de sepultura, destruição e vilipêndio a cadáver, todos tipificados do artigo 209 ao 212 do Código Penal Brasileiro. E como o crime de “tentativa de homicídio” não prevê pena para feitiço, logo não existe ato ilícito quando se enterra pessoa que deixa testamento ou codicilo autorizando rituais exóticos.

Outro trabalho ao pé de um morto

Fonte: Mandinga ensinada por Márcia Cristina Neves.

Pegue um boneco de pano ou de cera e o batize em uma cachoeira com o nome da pessoa a ser atingida. Vá ao cemitério, segure o boneco com a mão esquerda e vá espetando alfinetes e agulhas virgens no boneco. A cada parte do boneco que for espetada, deve-se dizer: Com este alfinete estou atingindo fulano na perna, na cabeça e assim por diante. Depois de espetar todas as partes do corpo, enfie uma agulha no coração do boneco e diga as mesmas palavras. A seguir, enterre o boneco aos pés de um defunto fresco e peça a este que o leve com ele.[4]

Trabalho para que todos os mortos persigam alguém

Fonte: Mandinga ensinada por Márcia Cristina Neves.

Obtenha uma amostra do cabelo da vítima, e coloque-a num pequeno caixão. Enterre-o num cemitério. Em três dias a pessoa morrerá.[5]

Exemplos de Casos Concretos

Fonte: Pesquisa de campo de Clarival do Prado Valladares.

O achado mais estranho nessas pesquisas ocorreu no velho cemitério, de cripta, no antigo Convento de São Francisco, de Vila Velha de Alagoas, hoje Deodoro. O cemitério em desuso, com entrada de alçapão pela Capela do Sacramento, consta de uma cripta de cerca de 4 X 6 m em correspondência às dimensões da capela, com carneiros construídos nas paredes laterais e lajes de campas. Sua coberta tem a altura máxima de 2,5 m. Fizemos a documentação fotográfica com um refletor que providencialmente nos serviu para o exame detalhado das inumeráveis inscrições de nomes de pessoas e datas recentes, até de 1965, em letras de imprensa e de uma mesma caligrafia, enchendo totalmente o forro abobadal da cripta. De maneira alguma aquelas inscrições, feitas a fumo de velas, contra o reboco, poderiam corresponder aos nomes dos sepultados. Praticamente todas as datas já estavam fora do seu uso, e nem há sinais nem notícias de sepultamento nestes últimos decênios. Encontramos urnas de restos mortais trasladados, violadas, com os ossos, cabelos e fragmentos de vestes, espalhados sobre um batente.

As freiras que dirigem o educandário instalado no antigo convento franciscano de Deodoro nada sabem informar porque é uma ocorrência antes da presença delas. Em nossa interpretação trata-se de prática de feitiçaria, com uma caligrafia idêntica para várias inscrições, cujos nomes não parecem ser de mortos, mas de indiciados do fetichismo. Nada mais podemos indicar sobre esses achados, ignorados pelas pessoas locais, senão a evidência das fotografias.

No velho Cemitério de N. S. do Rosário (1875), das ruínas de Iguaçu Velha, além da prática de macumba em torno do Cruzeiro, que tem ação votiva e de apelo nas viscitudes dos crentes, há os restos de um luxuoso e impotente jazigo de cerca de cinco metros de altura construído em base de alvenaria revestida de laje de mármore, pedestal e nicho em colunatas de mármore. Próximo deste jazigo encontram-se os restos da base de uma capela-jazigo cuja entrada foi fechada por parede de alvenaria e na qual, posteriormente, se fez uma abertura de 40 X 50 cm. Examinando o interior desta capela-jazigo, com o foco de uma lanterna, encontramos uma quantidade espantosa de objetos de uso pessoal (roupas, cartas, retratos, vidros, terços, etc.) e todas as paredes preenchidas com nomes e datas de pessoas riscadas a carvão, grafite, tinta, e também a fumo de vela. Há uma certa semelhança entre esta observação e aquela outra de Deodoro, de Alagoas. Nossa cautela está em diferenciar a prática ingênua da macumba, em termos de ação votiva e de apelo, com esta outra de caráter de feitiçaria demonológica capaz de atingir a criminalidade do vandalismo, do sacrifício e do infanticídio que não é tão desconhecido do próprio noticiário dos jornais brasileiros.[6]

Trabalho para matar alguém

Fonte: Mandinga compilada pela revista Homem Mito e Magia.

Em 1939, teria chegado mais uma receita, procedente de Illinois, Estados Unidos: “Uma maneira segura de matar um homem é colocar sua imagem sob uma cantoneira do telhado da casa de quem executa o feitiço, durante tempo chuvoso, e deixar que a água pingue sobre ela”.[7]

O Maléfico da Figura de Cera

Fonte: Mandinga ensinada por N. A. Monina.

Pegue um pedaço de cera virgem, amolece-o em água quente, modela então com ele uma figurinha, pensando intensamente nas pessoas que queres enfeitiçar: “Fulano de Tal, à tua semelhança faço esta efígie para que tu fiques amarrado a ela de tal maneira que teu corpo seja seu corpo e o seu seja lugar de todas as sensações”.

Se tens cabelos, algum dente ou aparas de unhas provenientes da pessoa que estás enfeitiçando, põe na figura e, se possuis roupas ou peças interiores usadas pela vítima, faze com elas um vestuário que o relembre quanto seja possível.

Disposta assim a figura, uma noite à hora de Saturno atravessa-a em todos os sentidos, com agulhas ou espinhos envenenados, cobre-a de injúrias e maldições em nome de Guland, imaginando firmemente que tens à tua frente a mesma pessoa de corpo e alma; joga por fim o boneco no fogo.

Se tudo isto fizeres como digo, pondo toda tua fé e força de vontade, não duvides de que, como a cera se derreterá e consumirá, assim se consumirá a pessoa sofrendo dores agudas em todas as partes correspondentes às feridas feitas na figura.

Eis a descrição do enfeitiçamento clássico, que se encontra com ligeiras variações na maioria dos antigos grimórios. Em alguns, à descrição copiada, acrescenta-se: “A figurinha de cera pode ser substituída por um sapo vivo” mas as imprecações são as mesmas. Outra prática requer que o sapo seja amarrado com cabelos da vítima e, depois de ter cuspido sobre ele, enterra-se sob a entrada da casa da pessoa enfeitiçada ou em outro sítio sobre o qual a pessoa tenha que passar com freqüência.[8]

Castigo de Amor

Fonte: Livro Vermelho e Negro de São Cipriano (versão de Murzin G Gemwy).

Para se castigar alguém que não cede às nossas solicitações amorosas, se for mulher, consiga um sapo e, segurando-o com a mão direita, estando inteiramente nua, passe-o pela barriga, até o sexo, por sete vezes, dizendo: “Sapo, sapinho, assim como eu te passo na minha vagina, assim também (fulano) não tenha sossego nem descanso, enquanto não me procurar para praticar aquilo que desejo, ficando sob meu poder, de corpo e alma”.

Pega-se linha de retroz verde, com uma agulha bem fina, e costura-se as pálpebras do sapo, com o máximo cuidado para não cegá-lo (se isso acontecer poderá cegar a pessoa a quem se destina a magia) dizendo: “Assim como este sapo deixará de ver, (fulano) também deixará de ver outras mulheres, tendo olhos só para mim”.

Guarda-se o sapo em uma gaiola onde se deverá alimentá-lo até ter conseguido tudo. Depois disso, com uma tesourinha de unha, corta-se a linha e solta-se o sapo em alguma lagoa.[9]

Como fazer uma mulher apaixonar-se por um homem

Fonte: Picatrix.

Faz-se a imagem de cada um deles com pó de pedra, misturado com goma e, depois, colocam-se as imagens, frente a frente, em um vaso com sete brotos; queima-se o vaso no forno, a seguir acende-se o fogo na lareira e põe-se um pedaço de gelo no fogo; quando o gelo derrete, tira-se o vaso e a feitiçaria está completa. O fogo derretendo o gelo representaria o amor aquecendo os corações do homem e da mulher.[10]

 Magia negra ou feitiçaria que se faz com dois bonecos para fazer mal a qualquer criatura

Fonte: Antigo Livro de São Cipriano (versão de N. A. Molina).

Fazei dois bonecos. Um deles significa a criatura a quem se vai fazer o feitiço, e o outro significa o que vai enfeitiçar. Depois que os ditos bonecos estejam prontos, deveis uni-los um ao outro, de maneira que fiquem muito abraçados. Depois de tudo isto pronto, atrai-lhes a ambos uma linha em volta do pescoço, como quem os Está a esganar, e depois de feita esta operação pregai-lhe cinco pregos, nas partes indicadas:

1° Na cabeça, que vare um e outro.

2º No peito, da mesma maneira.

3° No ventre, que vare de um lado ao outro.

4° Nas pernas, que vare de um ao outro lado.

5° Nos pés, de modo que lhes fure de um lado ao outro.

Há ainda uma condição é que os ditos pregos devem ser empregados com acompanhamento das seguintes invocações nos diferentes sítios em que se espetam:

1° prego — Fulano ou fulana, eu, fulano, te prego e te amarro e espeto o corpo, tal e qual como espeto, amarro e prego a tua figura.

2º prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te juro debaixo do poder de Lúcifer e Satanás que, de hoje para o futuro, não hás de ter nem uma hora de saúde.

3° prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te juro debaixo do poder da mágica malquerença, que não hás de hoje para o futuro, ter uma só hora de sossego.

4° prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te juro debaixo do poder de Maria Padilha, que de hoje para o futuro ficarás possesso de todo o feitiço.

5° prego — Fulano ou fulana, eu fulano, te prego e amarro dos pés à cabeça, pelo poder da mágica feiticeira.

Desta forma a criatura enfeitiçada nunca mais pode ter uma hora de saúde.[11]

Exemplo de caso concreto

Fonte: Pesquisa de campo de Letícia Matheus e testemunho de Glória Perez.

 

Os ossos da atriz Daniella Peres, assassinada em 28 de dezembro de 1992, foram transferidos pela família para um lugar não revelado, depois que foi constatada a violação do túmulo da atriz, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. De acordo com a novelista Glória Perez, mãe da vítima, o túmulo foi aberto na semana do Natal, e, dentro dele, havia flores do cruzeiro. Ao lado, foram encontrados dois bonecos amarrados e espetados com alfinetes. Na lápide, uma inscrição indicava a data do assassinado. — “Havia um detalhe impressionante, que nos remete à noite do crime: bem junto ao corpo dela, havia ossos de um animal grande serrados. As pontas da sapatilha que enfeita o túmulo também foram cuidadosamente serradas” — contou Glória, revoltada com o vandalismo. (…) Na época do assassinato da atriz Daniella Perez, a escritora Glória Perez acreditava que ela teria sido morta num ritual de magia negra. Próximo ao seu corpo foram achados ossos e na casa onde Guilherme e Paula moravam, em Copacabana, a polícia encontrou uma imagem de um preto velho. Uma ex-empregada confirmou que o casal praticava rituais. (…) A tese de que a atriz teria sido morta num ritual ganhou as páginas dos jornais, mas a polícia não levou a sério a hipótese de a jovem ter sido assassinada em meio a um espetáculo macabro. Ao ser encontrada, Daniella tinha 18 perfurações no corpo.[12]

Para livrar alguém da perseguição dos fantasmas

Fonte: Livro do Touro Negro.

Aquele que souber pintar ou desenhar poderá ver-se livre, muito facilmente, de algum fantasma que o perseguir. E é que, ao desenhar o fantasma, estará fazendo com que ele fique preso na tela ou no papel. E o que se desenhar ou pintar há de ser o mais possível semelhante ao fantasma que se vê, porque só assim ficará ele preso. E de outra maneira não ficará.[13]

Para livrar alguém da perseguição de vampiros

Fonte: Manual Prático do Vampirismo.

Os que se crêem perseguidos por vampiros devem pintar numa tela esses vampiros, ou desenhá-los num papel. Uma vez pintados ou desenhados, os vampiros ficam presos, e deixam de importunar os seres humanos. Quem tiver habilidade para pintar ou desenhar deve aproveitar essa habilidade para livrar-se dos vampiros que sugam o nosso sangue durante à noite.[14]

O Alfabeto Simpático

Fonte: Magia ensinada por Gérard Encause (1865-1916).

Este gênero de operação consiste em traçar algumas letras sobre o braço, por meio de uma agulha e em introduzir sangue de um amigo na incisão feita.

Esta operação deve ser praticada igualmente sobre o indivíduo com o qual se deve entrar em correspondência e, então, por muito afastado que esteja um do outro, podem ambos se comunicarem certos acontecimentos, dando o que avisa uma ligeira picada em certas letras de seu braço, e que será sentida imediatamente por aquele com quem se comunica.[15]

Feitiço contra distúrbio na produção de Oxitocina

Fonte: Wier, V. IX.

Para um homem que quer curar-se do amor infeliz que apaixonadamente devota a uma mulher, que ponha excremento mole dessa mulher no sapato, porque o seu cheiro fará diminuir nele progressivamente a chama![16]

Notas

[1] GEMWY, Murzim G. O Grande e Legítimo Livro Vermelho e Negro de São Cipriano. São Paulo, Edrel, p 77.

[2] BAKKATUYU, Sirih. Livro do Touro Negro. Rio de Janeiro, Ediouro, p 87.

[3] STAMM, Samuel. O Livro de São Cipriano. Rio de Janeiro, Rede Carioca, 2002, p 103.

[4] NEVES, Márcia Cristina A. Do Vodu à Macumba. São Paulo, Tríade, 1991, p 85.

[5] NEVES, Márcia Cristina A. Do Vodu à Macumba. São Paulo, Tríade, 1991, 72.

[6] VALLADARES, Clarival do Prado. Arte e Sociedade nos Cemitérios Brasileiros: Um estudo da arte cemiterial ocorrida no Brasil desde as sepulturas de igrejas e as catacumbas de ordens e confrarias até as necrópoles secularizadas. Vol I. Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1972, p 439-1440.

[7] A MAGIA DA IMITAÇÃO. Em: Homem, Mito & Magia. São Paulo, Três, 1973, p 44.

[8] LE DRAGON ROUGE. Em: N. A.MOLINA. Nostradamus, a Magia Branca e a Magia Negra. (2a edição). Rio de Janeiro, Espiritualista, p 122-124.

[9] GEMWY, Murzim G. O Grande e Legítimo Livro Vermelho e Negro de São Cipriano. São Paulo, Edrel, p 67.

[10] PICATRIX. Em: Homem, Mito & Magia. São Paulo, Três, 1973, p 45.

[11] N. A.MOLINA. Antigo Livro de São Cipriano: O gigante e verdadeiro Capa de Aço. (29a edição). Rio de Janeiro, Espiritualista, p 240-241.

[12] MATHEUS, Letícia. Túmulo de atriz é violado. Em: EXTRA, 2ª edição, 30/12/1999, p 12.

[13] BAKKATUYU, Sirih. Livro do Touro Negro. Rio de Janeiro, Ediouro, p 76.

[14] LIANO JR, Nelson e COELHO, Paulo. Manual Prático do Vampirismo. 1ª ed. Rio de Janeiro, ECO, 1986.

[15] PAPUS. Tratado Elementar de Magia Prática. Trd. E. P. São Paulo, Pensamento, 1978, p 401.

[16] DUMAS, François Ribadeau. Arquivos Secretos da Feitiçaria e da Magia Negra. Trd. M. Rodrigues Martins. Lisboa, Edições 70, 1971, p 126.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/feiticos-de-envultamento/