Lúcifer Estrela-da-Manhã

Lúcifer ficou conhecido pelo leitores de quadrinhos em Sandman de Neil Gaiman como senhor do inferno junto de Azazel e Beelzebub, um local de autopunição dos pecadores que já morreram e lar dos seres chamados de demônios , um lugar também conhecido pelos nomes de Hades, Abaddon, Sheol, Avernus, Reflexo Negro do Cêu entre outros nomes.

Nesse capítulo Morpheus foi lá em busca do seu elmo que perdeu durante o período que esteve preso e que agora está em posse do demônio Choronzon.

Depois que Morpheus consegue recuperar o seu elmo, Lúcifer decide não deixar ele ir, ai ocorre o diálogo.

Lúcifer : “Com ou sem o seu elmo , você não tem poder nenhum aqui… que força tem os sonhos no inferno?”

Morfheus : “…que poder teria o inferno se os prisioneiros daqui não fossem capazes de sonhar com o cêu?”

E assim de certo modo Morpheus sai ganhando e vai embora , e Estrela-da-Manhã jura vingança pela humilhação .

Dois anos depois desse acontecido Morpheus precisa voltar ao inferno para resgatar uma antiga amada sua que ele deixou no inferno por milhares de anos , após ela cometer suicídio.

Desta vez o anjo caído está um pouco diferente com asas de demônio , (antes estava com asas de anjo) ao invés da esperada vingança Lúcifer faz algo diferente do esperado , apenas dizendo que esta cansado do inferno depois de 10 bilhões de anos e gostaria de ser livre , e depois de um longo diálogo enquanto fecha as portas do inferno , pede para Morpheus cortar suas asas e dá para ele a chave do inferno.

Algo muito inteligente , quem sabe seria a esperada grande vingança afinal muitos gostariam de serem donos do inferno e poderiam fazer de tudo para serem.

Lúcifer se apresenta como um homem alto , loiro de aparência jovem e é conhecido por vários nomes , Lord Lúcifer , Estrela-da-Manhã , Aquele que traz a luz , O primeiro entre os caídos , Senhor do Inferno, Samael , Anjo das trevas entre outros nomes.

Esse é um diálogo interessante extraído de Sandman :

Porque eles culpam a mim pelos seus defeitos ?

Usam meu nome como se eu passasse o dia inteiro instingando-os a cometerem atos que , de outra forma achariam repulsivos.

“O demônio me forçou a isso.” Nunca forcei ninguém a fazer nada. NUNCA.

Eles falam de mim como se eu andasse comprando almas na feira , sem jamais se perguntassem por quê.

Não preciso de almas.

E como alguém pode comprar uma alma?

Passando alguns anos Lúcifer ganha sua própria revista , assim como ocorreu com Constantine que nasceu coadjuvante em O Monstro do Pântano no inglês Swamp Thing, na época que Alan Moore assumiu a revista.

Em sua revista , depois de tudo ele cria o bar noturno chamada Lux em Los Angeles e fica lá com Mazikeen , uma filha de Lilith fiel a ele desde o inferno.

Lúcifer é considerado um dos seres mais poderosos do universo DC , após Deus e Miguel.

Foi difícil achar um escritor para Lúcifer , quem sabe o nome assustava os escritores , o próprio Neil Gaiman sempre indicou ele para outros escritores mais por anos ninguém pegou o “trampo” e não sei porque Gaiman não fez isso também.

Mas em 2000 Mike Carey resolveu escrever Lúcifer , usando como base Paradise Lost de John Milton e nasceu um grande sucesso.

Em sua revista conhecemos melhor esse anjo , que se mostra extremamente inteligente , informado , cheio de ironia e raramente apelando para força bruta usando sempre perspicácia , neutro e agindo apenas conforme o seu favor, estando além do “bem” e do “mal”.

Entre as centenas de temas que são tratados temos : Deuses , Magia , Runas , Bíblia , Xamanismo , Anjos , Demônios , Mitologia , Lilith , Tarot , Literatura , Filosofia , Mediunidade , Livre Arbítrio entre outros assuntos..

Assim como Sandman , Lúcifer teve 75 edições em 6 anos de 2000 até 2006.

Texto Sobre Neil Gaiman

 Texto Sobre Os Perpétuos de Sandman

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Outros Textos da Coluna de Quadrinhos

#Quadrinhos

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E não pisquem os olhos!

Dizem que os alquimistas queriam transformar chumbo em ouro. Há um certo mistério nesta transformação: segundo Lavoisier, “na Natureza nada se perde ou se cria, apenas se transforma”; então, poderíamos pensar, como diabos uma substância se torna outra?

Do que, afinal, é feita a Natureza? O que forma a realidade (ou o que conseguimos perceber da realidade)?

Segundo Aristóteles, a realidade nada mais é do que uma relação entre substância e estrutura. Para ele, nada existe que não seja uma combinação entre elas. A substância sem estrutura é o caos (o que, no pensamento grego, equivalia ao “nada” de onde surgiu o mundo); já a estrutura sem substância é mero fantasma do ser… Mas será mesmo?

Normalmente se diz que um espiritualista crê em “espíritos e coisas imateriais”, enquanto que um cientista materialista crê “somente na matéria”. Quando analisamos sob este ponto de vista, fica parecendo que os primeiros creem em coisas etéreas, e que os últimos creem em coisas sólidas. Entranho de pensar: foi exatamente a ciência moderna que minou completamente toda e qualquer ideia de “solidez da matéria”.

Hoje se sabe que num simples aperto de mão, se alguma parte de nossos átomos realmente se chocasse com os átomos de quem cumprimentamos educadamente, teríamos um drástico incidente nuclear do qual certamente não escaparíamos com vida. No fim das contas, somos formados por pequenos pedaços flutuantes de matéria que em realidade estão simplesmente “flutuando por aí”. A única coisa que os mantém juntos é a estrutura determinada pelas leis naturais… Mas, e quanto a substância?

Em 1844, Michael Faraday, observando que a matéria só podia ser reconhecida pelas forças que atuam sobre ela, indagou-se: “Que razão teríamos para supor que ela realmente existe?” [1]

No início do século XX a física descobriu que os próprios átomos, até então verdadeiros “arautos da solidez intrínseca da realidade”, eram, em essência, espaço vazio. Não muito tempo depois a mecânica quântica revelou ante a cientistas extremamente espantados que os constituintes subatômicos – elétrons, prótons e nêutrons, que formam os átomos – se comportavam mais como aglomerados de propriedades abstratas do que como usualmente são vislumbrados por nós leigos: pequeníssimas bolas de bilhar.

A cada nova casca da realidade desvelada pela ciência ficava mais claro que a cebola cósmica era formada por pura estrutura, enquanto que a substância em si foi se tornando cada vez mais teórica e cada vez menos empírica e observável. Segundo a teoria das cordas, a matéria poderia ser formada praticamente por pura geometria – mas uma “geometria” que tampouco pode ser detectada atualmente.

Em seu nível mais fundamental, a ciência descreve os elementos da realidade de um ponto de vista puramente relacional e estrutural, ignorando, em realidade, se existe ou não uma substância no final das contas. Ela pode nos dizer, por exemplo, que um elétron tem certa massa e certa carga, mas tudo o que isto nos informa é que o elétron tem a propensão de sofrer a ação de outras partículas e forças naturais de determinadas maneiras. Ela pode nos dizer que a massa equivale a energia, mas não nos informa efetivamente o que diabos é a energia senão uma quantidade numérica que, calculada da forma correta, se conserva igual através de todos os processos físicos do universo.

Conforme observou o filósofo Bertrand Russell em Análise da matéria (1927), “as entidades que constituem o mundo físico são como peças num jogo de xadrez: o importante é o papel de cada peça num sistema de regras que determinam como ela pode se mover, e não do que é feita tal peça”.

Talvez tenha sido John Wheeler, um físico americano, quem melhor descreveu a essência da realidade: uma cadeia estrutural de pura informação. Para se explicar melhor, ele cunhou a expressão “o it que vem do bit”. Em suas palavras: “Cada it – cada partícula, cada campo de força e até mesmo o próprio continuum espaço-tempo – deriva inteiramente sua função, seu significado, sua própria existência – mesmo que em alguns contextos indiretamente – de respostas induzidas por equipamento a perguntas sim ou não, escolhas binárias, bits. O it que vem do bit simboliza a ideia de que cada item do mundo físico tem no fundo – bem no fundo, na maioria dos casos – uma fonte e uma explicação imateriais; que aquilo que chamamos de realidade vem em última análise da colocação de perguntas sim-não, e do registro de respostas evocadas por equipamento; em resumo, que todas as coisas físicas são informacional-teóricas na origem.” [2]

Mas se as mentes mais racionais e científicas de nossa história recente nos dizem que em sua essência a realidade não passa se um fluxo de estruturas em constante mutação, sem qualquer substância subjacente, onde exatamente se encontra a antiga solidez do materialismo clássico? Onde existe, afinal, alguma substância?

Ora, a despeito de toda a metafísica presente na física moderna, há ainda uma parte do universo em que a sua explicação para a realidade ainda não penetra inteiramente: algo que se situa, ao menos em teoria, bem entre as nossas orelhas…

Para que a realidade pudesse ser explicada somente em termos de informação, seria necessário que nossa consciência e nossa subjetividade também o fossem. Dizem que os cientistas da computação estão muito próximos de criar simulações computacionais de processos mentais complexos, como “sentir dor com uma martelada no dedão” ou “sentir prazer com a vermelhidão e o perfume de uma rosa”. O filósofo John Searle, entretanto, se pergunta “porque alguém na plena possa de suas faculdades racionais suporia que uma simulação de processos mentais em computador de fato tivesse processos mentais?”.

Esta é uma longa discussão, mas o que sabemos atualmente é que a consciência e a subjetividade humanas permanecem absolutamente misteriosas, além do alcance da linguagem e de uma descrição puramente informacional… A consciência não se limita ao mero processamento de informações, a mera computação. Há algo mais, algo que utilizamos principalmente na leitura de poesia ou na contemplação de grandes peças de teatro, obras de arte, shows musicais ou, simplesmente, na observação de um jardim: a interpretação da Natureza.

Se o mundo não pode ser descrito somente por este ponto de vista absolutamente abstrato e metafísico da ciência moderna, há que se buscar onde há exatamente uma substância “palpável” por detrás de tanta teoria.

Ora, se em toda a vasta quantidade de informação do universo tudo o que se encontrou foi estrutura, é possível que a substância esteja, afinal, na própria mente que observa toda essa imensidão estrutural. Neste caso, é possível que toda a realidade – subjetiva e objetiva – seja constituída da mesma substância básica. Parece uma hipótese simples e atraente, além de maluca… Foi exatamente a esta hipótese que Bertrand Russell chegou em sua Análise da matéria. O mesmo disse Arthur Eddington (outro “Sir”) em The Nature of the Physical World (1928): “a substância do mundo é uma substância mental”.

É precisamente neste ponto que grandes cientistas e filósofos da modernidade se alinham novamente com o misticismo antigo, muito antigo, ainda que muitos sequer se deem conta disso.

Há milhares de anos houve um homem (ou talvez um mito, ou quem sabe um deus, o que neste caso não faz tanta diferença), chamado Hermes Trimegisto, que disse que “o Todo é mental”. Não foi a única coisa que disse que casa perfeitamente com a ciência moderna. Segundo ele, “o que está em cima é como o que está embaixo” – querendo dizer que as leis que regem o que está no alto do céu eram as mesmas que regem o que está aqui no solo onde pisamos; e “tudo vibra, nada está parado” – querendo dizer que, a despeito do que nossos sentidos nos dizem a todo momento, não há um só pedaço do seu corpo que esteja realmente parado no mesmo lugar. Quantos chutes e quantos acertos para Hermes, não?

A lição que parece restar disto tudo é que não importa, no final das contas, se queremos descrever a realidade através da filosofia de Aristóteles, da física de partículas aliada a mecânica quântica, ou do hermetismo antigo. O que importa é que estamos tentando descrever o que temos contemplado, espantados, há muitas e muitas eras. Que existe aí alguma substância, seja onde for, e ela não é o Nada, pois não existe o Nada.

Dizem os teístas que Deus criou o mundo à partir do Nada. Mas isto não é possível, nem mesmo para Deus – no fim, uma substância jamais se tornou outra, e Deus sempre foi o mesmo. Nunca houve a possibilidade da existência do Nada, nunca houve “0”, apenas “1”. Flutuações quânticas no vácuo não são o Nada; o tecido espaço-temporal ou o campo de Higgs não são o Nada; mesmo um espaço perfeitamente vazio, exatamente por estar “vazio” e “poder ser preenchido” não é o Nada. Não importa se ainda tateamos em meio a névoa metafísica de um universo puramente informacional onde catalogamos e computamos estrutura, sem jamais chegar a capturar qualquer substância: o fato é que existe Algo, e não Nada.

Seremos capazes de, algum dia, com toda nossa filosofia, ciência e espiritualidade, completar este tortuoso caminho de religação a esta tal substância? Seremos capazes de algum dia abrir os olhos e ver não os fótons de luz que refletem a estrutura da realidade, mas ver efetivamente a substância que faz com que ela exista?

Seja como for, neste dia, neste momento dourado, estejam atentos e não pisquem os olhos… Contemplem a substância que sempre aí esteve, que sempre existiu, estruturada de maneiras inefáveis e infinitas, dando forma a toda a vastidão informacional do Cosmos através de todo espaço e todo tempo… Contemplem com os olhos da alma, seja ela o que for…

E não pisquem os olhos!

***
[1] Esta e outras citações deste artigo foram retiradas de Por que o mundo existe?, de Jim Holt (Ed. Intrínseca).
[2] Citado em O universo inteligente, de James Gardner (Ed. Pensamento). O livro de Wheeler, de onde foi extraída a citação, é intitulado At home in the universe.

Um bit de informação equivale a menor unidade computacional que pode ser medida, ela pode assumir somente dois valores, tais como “0” ou “1”, “verdadeiro” ou “falso”, etc. Não confundir com bytes, que são conjuntos de bits (normalmente, 8 bits).

Crédito da foto: ever-look

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#físicaquântica #Filosofia #hermetismo #consciência #Ciência #física

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Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento

O Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP) é a primeira ordem esotérica estabelecida no Brasil, cujo propósito é estudar as forças ocultas da natureza e do homem e promover o despertar das energias criadoras latentes no pensamento humano. Desde sua fundação, a Entidade adotou como lema os princípios de Harmonia, Amor, Verdade e Justiça. Esses potentes ideais constituem as quatro colunas mestras que sustentam a filosofia de nossa Ordem e objetivam constituir a tônica de suas atividades.

Seguindo as normas traçadas desde a sua fundação, o Círculo Esotérico compõe-se de filiados sem qualquer discriminação de raça, credo, cor ou nacionalidade, os quais acham-se espalhados pelos mais diversos rincões de nosso país e do estrangeiro, e em grande parte agrupados em Centros de Irradiação Mental, ou Tattwas, sediados nas principais cidades do pai, todos se propugnando os mesmos ideais. Os seus associados se reúnem em obediência ao Ritual do Círculo, em sessões exotéricas todas as segundas-feiras e em sessões e em sessões esotéricas todo dia 27 de cada mês.

Da mensagem inicial que o patrono-fundador da Ordem dirigiu a todos os sócios e esoteristas cumpre destacar as seguintes palavras salutares:

“ Sendo o homem alguma coisa mais do que um simples animal que traja roupas, ele não é um joguete da causalidade, mas uma potência; é o criador e o destruidor da casualidade. Por meio de sua energia interior, o homem vencerá a indolência e entrará no Reino da Sabedoria. Então ele sentirá amor por tudo quanto vive e se constituirá num poder inexaurível para o bem de seu próximo. Oferecemos a energia que liberta a mente da ignorância, do preconceito e do erro.Queremos incutir valor para que se busque a verdade de todos os modos; amor pelo socorro mútuo; paz que sempre chega à mente iluminada e ao coração aberto, e a consciência de uma vida imortal”

O Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento:

Antonio Olívio Rodrigues, o idealizador e fundador do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento, nasceu em Portugal a 7 de outubro de 1879, de origem humilde veio para o Brasil em 1890, quando tinha apenas 11 anos de idade. Trabalhando em várias profissões humildes com baixos salários, dedicava as poucas horas livres para melhorar seu grau de instrução escolar e também dedicava-se ao estudo do espiritualismo, magnetismo, astronomia, filosofia, etc.

Em 1902, com 23 anos, já havia constituído família. Uma certa noite, descansava após um dia de trabalho quando de súbito aflorou na mente uma luminosa inspirada em seus estudos espirituais. A princípio era apenas uma tímida idéia, mas ela foi crescendo e tornando-se cada vez mais nítida e consciente.

Nesta época as pesquisas psíquicas haviam acendido na França e em meados do século XIX irradiava seus clarões por toda Europa e América. As notáveis conferências pronunciadas pelo grande Vivekananda e por outros luminares no congresso das Religiões realizado em Chicago em 1893, a par das obras ocultistas de H.P.Blavatsky divulgadas desde 1877, foram logo traduzidas para o espanhol, o que as tornou mais acessíveis a A.O.R (Antonio Olívio Rodrigues) e outros estudiosos e pesquisadores.

PATRONOS:

Antonio Olívio Rodrigues, Prentice Mulford, Swami Vivekananda e Eliphas Levi.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/c%C3%ADrculo-esot%C3%A9rico-da-comunh%C3%A3o-do-pensamento

Signos (parte 2)

Por: Colorado Teus

Satisfação,

este texto é a continuação do texto Breve Introdução à Magia (parte 1), no qual foi definido o que é Magia e falado um pouco sobre a capacidade de inovação do ser humano aliada à Coragem. O texto foi reeditado, coloquei as imagens que estavam faltando e fiz alguns ajustes e complementos, vale a pena dar uma conferida. Para continuar a falar sobre magia, é preciso definir um vocabulário específico, especialista, para esta área de conhecimento.

Quando se vai explicar qualquer coisa para outras pessoas, é necessário o uso de ferramentas que funcionem como uma ponte para que as ideias de um cheguem às cabeças dos outros. São exemplos dessas ferramentas: palavras, desenhos, sons etc. Apesar de eu não gostar muito desta definição (uma palavra sendo definida por outra que foi gerada dela mesma), vou utilizá-la aqui: “Em uma língua, signo é todo elemento portador de significado. Assim, toda peça que usamos para nos expressar é um signo: sons, palavras, gestos, símbolos, figuras, cores, notas musicais, desenhos etc.”

No meio magístico, existem signos bem específicos para aquilo que os magos precisam para estabelecer a comunicação entre os diferentes mundos, são como “termos técnicos”. Nesta série de textos irei falar bastante sobre os termos ‘símbolo’, ‘fórmula mágica’, ‘ritual’ e ‘sistema mágico’, mas precisarei utilizar outros signos, que definirei de maneira bem básica neste capítulo do texto, são eles os “Quatro Elementos”.

Para chegar aos Quatro Elementos, partimos da ideia da primeira divisão que foi citada na parte 1, Yin e Yang, Terra e Fogo, Passivo e Ativo, Ausência e Presença, etc., que pode ser aplicada a muita coisa neste universo, há quem diga que a tudo.

Se esta é uma forma elementar de dividir (lembrem-se, a palavra razão vem de divisão, que é a maneira como dividimos nossos pensamentos e os organizamos) vamos utilizá-la para dividir essa primeira divisão. Esta ideia é uma noção que os orientais já tinham há muitos anos, podemos notar na figura acima que existe um Yin dentro do Yang (a pequena bolinha preta, que é chamada de Pequeno Yin) e um Yang dentro do Yin (a bolinha branca, que é chamada de Pequeno Yang) na figura 5.

Tal definição, contudo, fica um pouco complicada de se tirar qualquer conclusão e fazer uso(tentem entender o que é “contração da contração”, “contração da expansão” etc.). Por isso, vamos utilizar a analogia com as propriedades naturais de cada elemento para uma explicação mais esclarecedora.

Os Alquimistas utilizavam os 4 elementos básicos do planeta Terra para a comparação, partindo da primeira divisão que era Fogo e Terra e propunham a seguinte correlação: Grande Yang é o Fogo, Pequeno Yin é a Água (a parte densa do fogo), Pequeno Yang é o Ar (a parte sutil da terra) e Grande Yin é a Terra. Assim, temos as propriedades básicas:

Quente: Energia, vivacidade, voluntariosidade, natureza imediata e impulsiva, decisão, valor, iniciativa, espírito empreendedor.

Frio: Imobilização, contração, retraimento, retenção, reserva e paralisia das substâncias, dos corpos e da psique.

Úmido: Extensão ou alargamento, plasticidade, receptividade, relaxamento, apaziguamento e fluidez.

Seco: Resistência e tensão, enrijecimento, endurecimento e constrangimento.

Sendo assim, temos:

Fogo: Quente e seco

Água: Frio e úmido

Ar: Quente e úmido

Terra: Frio e seco

Fogo: O fogo é quente e seco, representa o estado cinético da matéria, é o querer fazer alguma coisa, o Tesão, aquilo que queremos fazer mesmo que não ganhemos nada em troca. Uma ideia interessante é que o fogo queima até acabar o combustível, então ou ele se expande para outro lugar ou ele se extingue, o que dá a ideia de sua necessidade de movimento. É representado pela vareta, a mesma que citamos na parte 1 desta série, de quando o homem foi dominar o fogo pelas primeiras vezes. É possível encontrá-lo na filosofia representado por um Leão.

São características do fogo: Revelar algo, se mostrar, imprimir Paixão, elevar, manter-se em movimento, aquecer, etc.

Gosto muito destes vídeos que comparam os elementos a estilos de Kung Fu, em referência ao desenho Avatar, a lenda de Aang:

Dobra de Fogo

Água: A água é fria e úmida, representa a versatilidade pois consegue tomar qualquer forma de espaço não preenchido, como as emoções que variam e se adaptam para cada pessoa. Versatilidade humana geralmente remete a sabedoria, que é a capacidade de utilizar seu conhecimento nos mais diferentes tipos de situação, no caos. O instrumento usado para o domínio da água é o cálice, que é um recipiente pelo qual manuseamos os líquidos. Pode ser encontrado na filosofia representado pelo próprio ser humano, aquele que conseguiu se adaptar aos diferentes climas e situações do planeta em que vive.

São características da Água: Hidratar, transportar, purificar, refrescar, diluir, proteger, refletir, etc.

Dobra de Água

Ar: O ar é quente e úmido, representa a liberdade, é a ousadia para fazer alguma coisa. O ar, até mesmo dentro de um recipiente fechado continua se movimentando bastante, é praticamente impossível pará-lo. O símbolo que representa o domínio do Ar é a espada (símbolo de domínio do conflito), pois quando duas coisas livres e ousadas se aproximam, as chances de se ocorrer um conflito (atrito) é alta. Pode ser encontrado na filosofia representado por uma águia, aquela que domina os céus e enxerga longe.

Características do Ar: Transmitir, conectar, oxigenar, energizar, mobilizar, tornear, misturar, etc.

Dobra de Ar

Terra: A Terra é o elemento mais denso, mais duro, mais difícil de se destruir. Densidade é proporcional à massa, que é uma medida de inércia, representando então a inércia quanto a alguma coisa (a resistência para começar ou parar um movimento). O instrumento que representa o domínio da terra é a moeda, que é resultado de um grande trabalho em um material denso como o metal, que para ser feito exige muita paciência. Pode ser encontrado na filosofia representado pelo Touro, que lembra a imagem de um trabalhador incansável que não contesta o que é pedido e faz o que tem que ser feito.

Características da Terra: Firmar, manter, formar, construir, conter, limitar, produzir, nutrir, aperfeiçoar, etc.

Dobra de Terra

Grande parte desta série de textos depende destas definições, se fôssemos compará-la a um DNA de seres humanos, os Quatro Elementos seriam o ACTG de sua construção.

O que é interessante deste sistema de classificação é que estas palavras funcionam como fractais (frações de um todo que podem ser usadas para representar o todo), assim, posso utilizar a palavra Terra para classificar um tipo de comportamento, por exemplo conservador, posso utilizá-la para classificar um tipo de função, como guardião, um tipo de inteligência, como administrativa, e muitas outras coisas. O que seria equivalente a falar que a pessoa tem um comportamento típico de Terra, exerce uma função de Terra ou possui inteligência de Terra.

Em textos posteriores falarei sobre a ‘precisão’ dos sistemas de classificação, que está totalmente atrelada à capacidade do homem de perceber as diferenças entre as coisas. Por enquanto paramos por aqui, fica como lição de casa – para quem quiser fazer – um exercício de Auto-conhecimento, que é utilizar os 4 elementos para classificar os diferentes padrões de comportamento que se pode notar no dia a dia. Qual a ordem de presença que cada elemento exerce na sua vida, no seu comportamento?

Vai dar certo!

#MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/signos-parte-2

Astrologia e Astronomia

Alexey Dodsworth é astrólogo, bacharel em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu e aluno de graduação em Astronomia pelo IAG-USP. Na época que a carta foi escrita ocupava o cargo de diretor técnico da Central Nacional de Astrologia.

A Astrologia não é um conhecimento imune a críticas, isso é um fato. Como todo e qualquer conhecimento desenvolvido pelo ser humano, a prática de buscar correlações entre movimentos celestes e eventos terrestres é passível de legítimo questionamento, e até mesmo os profissionais da área, quando são intelectualmente honestos, observam problemas e questões que merecem um olhar mais apurado. Assim ocorre, conforme observo ao longo de mais de vinte anos de prática profissional de Astrologia. Desconheço astrólogos sérios que não estejam empenhados num constante criticar de seu próprio conhecimento.

A revista Ciência Hoje pretendeu estabelecer uma crítica, confrontando a Astronomia com a Astrologia. Críticas, conforme apontei desde o início, são sempre possíveis. Todavia, falta aos autores do referido artigo o tão importante conhecimento de causa. Os argumentos utilizados contra a Astrologia, contidos no artigo, são bastante conhecidos por nós e perfeitamente refutáveis. Apresento aqui os principais equívocos argumentativos contidos na matéria da revista Ciência Hoje, com a esperança de que, no futuro, uma revista tão séria procure se informar melhor.

Primeiramente, os signos utilizados em Astrologia ocidental não são as constelações celestes. Os signos astrológicos são trópicos, e não sidéreos. Pensar que os astrólogos utilizam as constelações astronômicas constitui total ignorância dos elementos básicos utilizados em Astrologia.

Em segundo lugar, vale notar que nem todos os astrólogos falam em “influência dos astros”. Mesmo na antiguidade, encontramos uma das principais máximas da Astrologia (revelada – esta tábua surgiu no fim da Idade Média, mas revela uma sabedoria antiga) na Tábua Esmeraldina, que anuncia: “aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo, para que se realizem os milagres da coisa única”. Ou seja, o que está em cima (os astros) é análogo ao que está embaixo (a vida na Terra).

O raciocínio analógico não implica em causalidade, nem tampouco na ideia de uma qualidade mecânica, ou de “energias invisíveis e desconhecidas” que desencadeiam comportamentos e fatos. O raciocínio analógico é profusamente explicado por Carl Jung em sua obra Sincronicidade, cujos detalhamentos não cabem aqui, mas valem a leitura. Não obstante afirme isso, não ignoro que alguns astrólogos crêem numa relação de causa e efeito.

O que quero que fique claro com o presente texto é que a ideia de causalidade aplicada à astrologia não é unânime e, até onde posso observar, tal ideia é aceita por uma minoria. Se no passado alguns astrólogos famosos defenderam a causalidade, isso não significa que no presente a classe astrológica concorde com este modelo.

Em terceiro lugar, a Astrologia não se limita a horóscopos de jornal e interpretações de personalidade de acordo com signos solares. Horóscopos de signos solares são o aspecto mais genérico da Astrologia, e continuarão a existir mesmo que todos os astrólogos se recusem a fazê-los.

Vale aqui um relato pessoal: no final dos anos 80, ainda em Salvador, eu me recusava a fazer horóscopos de jornal, mas nem por isso eles deixavam de existir. Como os astrólogos locais se recusavam a escrevê-los, tais horóscopos eram feitos, na época, por jornalistas que inventavam coisas, usando o horóscopo para mandar recados para seus desafetos e belos dizeres para seus amores. Se o jornalista estava irritado com um amigo leonino, aproveitava o horóscopo para dizer “poucas e boas” para a pessoa. Se tinha um amor libriano, previa dias de grande amor. Faziam isso como um chiste, uma brincadeira. Deste modo, tanto melhor que seja um astrólogo a escrevê-los do que um jornalista engraçadinho, pois pelo menos quando é um astrólogo que escreve o horóscopo a interpretação estará consonante com o saber astrológico, ainda que suas interpretações não sejam completas.

Para interpretações astrológicas completas, astrólogos se valem do mapa astral de nascimento, e não apenas de signos solares. Vale salientar que um horóscopo de jornal, ainda que seja apenas um sopé da grande montanha da Astrologia, serve de estímulo para que pessoas se interessem por um aprofundamento do assunto. Ainda que a interpretação possa ser, conforme foi apontado, genérica, é inofensiva e na maioria das vezes constitui um bom conselho, uma dica. Atacar a Astrologia por conta de horóscopos de jornal é um tipo primário de crítica. Ainda que um astrólogo não goste de horóscopos pautados em signos solares, não há como negar que constitui um total desserviço à Astrologia que um jornalista “invente” um horóscopo.

Estou de acordo com a crítica ao fato de que um mau astrólogo pode causar danos a pessoas, através de orientações e dizeres que prejudicam alguns desavisados não apenas no sentido psicológico. Contudo, estes maus astrólogos não são mais abundantes do que os maus profissionais que existem, lamentavelmente, em todas as profissões.

Não posso deixar de dizer que os argumentos utilizados pela Ciência Hoje não são nada diferentes dos mesmos argumentos apontados pela revista Superinteressante, no início dos anos 90. São argumentos repetitivos, superados e, se os autores tivessem se informado melhor, não dariam a este artigo um sabor tão ruim de comida requentada. A Ciência Hoje ficou com ares de “Ciência Ontem”, ao valer-se de argumentos superados e já refutados pela classe astrológica ao longo de incontáveis publicações. Ela sequer se deu ao trabalho de ouvir um astrólogo sério.

Pergunto: é assim que se faz ciência? Creio que não. Mais do que creio: por conta de minha sólida formação filosófica, sei que não. Sugiro, aqui, a leitura da extensa obra do filósofo da ciência Paul Feyerabend, além do excepcional artigo escrito pela também filósofa da ciência Cristina Machado, intitulado “A relação de poder entre a Astrologia e a ciência”, disponível na internet.

Por fim, vale lembrar que este tipo de comparação entre a Astronomia e a Astrologia nada acrescenta à Astronomia, tampouco a dignifica. Quando é mal feita, do jeito que foi, coloca os astrônomos numa posição de ignorantes pretensiosos, que criticam aquilo que não estudaram. Estudo Astronomia na USP, e nenhum dos meus professores, até agora, perdeu tempo em aula criticando um conhecimento que não é o deles. Eles sabem que Astronomia e Astrologia são saberes completamente distintos, pautados em paradigmas diferentes.

Não se eleva um conhecimento atacando outro, principalmente quando o ataque apenas expõe profundo desconhecimento de causa. Quando os autores do texto da Ciência Hoje criticam a Astrologia, incorrem no erro das generalizações graves.

Vale aqui fazer um pequeno recorte da revista Espaço Aberto, edição número 100, que conta com a declaração do professor Roberto Boczko, do Instituto de Astronomia da USP. Diz a revista: Outro assunto delicado é a Astrologia, mas nesse assunto o professor diz ser necessário cuidado para que não sejam feitas análises generalistas. Segundo Boczko, alguns cientistas costumam se arvorar da ideia de que explicam tudo e aquilo que eles não sabem explicar não existe. “Essa é uma atitude um tanto quanto perigosa e anticientista, porque o pesquisador deve estar aberto a novas descobertas, procurar explicar novos fatos”, comenta. Mas ele pondera e opina que tudo para o que não há explicação também não pode ser considerado prontamente sobrenatural.

O discurso do professor Boczko revela seu profundo entendimento dos limites da ciência. O cientista não pode, não deve ser convertido no novo “sumo sacerdote” de nossa sociedade. Do mesmo modo, os astrólogos não deveriam pleitear para si o status de “ciência” apenas como uma forma de reconhecimento social.

Sim, há críticas perfeitamente possíveis contra a Astrologia: a crença no inatismo identitário é atacada por Foucault, assim como Deleuze dedica longa parte de sua obra a criticar a ideia de “identidade”. Em nenhum dos casos as críticas de Foucault e Deleuze se dirigem frontalmente contra a Astrologia, mas poderiam ser aplicadas a ela. Estas, sim, seriam críticas dignas de muita discussão.

É inevitável lembrar também de Carl Sagan, famoso astrônomo que, apesar de também não considerar a Astrologia uma ciência, recusou-se a assinar um manifesto elaborado por cientistas contra “esta tal superstição”, por considerar a declaração autoritária. Mais do que apenas um homem inteligente, Sagan demonstrou sabedoria ao dizer que não assinaria um documento manifestando-se de forma contrária ou censora a um saber que não é da conta dele. Ao denunciar que se tratava de um documento autoritário, Carl Sagan deu exemplo do que é, de fato, ser um homem da ciência. Bulas papais condenaram cientistas no passado com seus manifestos autoritários. É espantoso que, com o passar dos anos, os perseguidos se convertam em perseguidores.

Alexey Dodsworth

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/astrologia-e-astronomia

Casamento Alquímico e Taoísmo: A Síntese Perfeita

“Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separe”
– Mateus 19:6

Na primeira parte deste artigo, entendemos um pouco sobre o simbolismo alquímico e vimos algumas correlações com a psicologia analítica de Jung. Os arquétipos Solar e Lunar, tanto para Jung quanto para os alquimistas, deviam ser integrados para sintetizar uma consciência mais equilibrada, que permitisse um diálogo saudável com o inconsciente. Através do conceito de Anima e Animus apresentados, compreendemos a natureza bipolar da psique. Bipolaridade esta que não deve ser confundida com estigmas de diagnósticos, mas aquela dualidade primordial que nos habita, que é convidada a se harmonizar para acessar uma unidade ainda mais primordial.

No entanto, não é exclusividade de Jung apresentar esse tipo de conceito. No livro “O Caibalion”, um clássico de literatura hermética, são apresentados sete princípios chaves para o funcionamento da realidade e do universo. Vejam só o que dizem os princípios 4 e 7:

Quarto Princípio, da Polaridade: Tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados. Este Princípio encerra a verdade: tudo é Duplo; tudo tem dois polos; tudo tem o seu oposto […] A Tese e a Antítese são idênticas em natureza, mas diferentes em grau; os opostos são a mesma coisa, diferindo somente em grau; os pares de opostos podem ser reconciliados; os extremos se tocam; tudo existe e não existe ao mesmo tempo; todas as verdades são meias-verdades; toda verdade é meio-falsa; há dois lados em tudo, etc., etc. Ele explica que em tudo há dois pólos ou aspectos opostos, e que os opostos são simplesmente os dois extremos da mesma coisa, consistindo a diferença em variação de graus.

Sétimo Princípio, do Gênero: “O Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos. Este princípio encerra a verdade que o gênero é manifestado em tudo; que o princípio masculino e o princípio feminino sempre estão em ação. Isto é certo não só no Plano físico, mas também nos Planos mental e espiritual. Todas as coisas e todas as pessoas contêm em si os dois Elementos deste grande Princípio. Todas as coisas macho têm também o elemento feminino; todas as coisas fêmea têm o elemento masculino.

Percebemos, portanto, que a dualidade nada mais é do que uma questão de perspectiva, e que a integração dos paradoxos se mostra altamente necessária para obtenção de uma perspectiva mais aproximada da natureza real das coisas. Vale a pena frisar que tudo isso é de caráter psicológico e simbólico, de forma alguma a orientação sexual ou a identidade de gênero deve ser interpretada frente estes vieses. A presença desses arquétipos serve para contrapor a consciência e apresentar alternativas visando ampliar a percepção da mesma quanto a sua própria natureza, além de produzir novas ferramentas para lidar com suas próprias contradições.

“A Anima como a contraparte interna da personalidade do homem visa dar um equilíbrio a personalidade, pois compensa o intelectualismo racional do mesmo com um eros compreensivo, assim como o Animus da mulher equilibra sua personalidade com o saber sobre o que se quer realmente do outro clivando seu caos de estados afetivos em uma ideia diretora com um estatuto de subordinação das emoções, no caso a transformação de impulsos afetivos em sentimentos racionais” (JUNG, 2011).

A psique busca de forma tão intensa a união dos opostos e a integração que quando ficamos ‘polarizados’ demais, ou seja, quando manifestamos apenas uma polaridade e negligenciamos outra, ela tende a nos forçar a manifestar o lado reprimido num processo chamado ‘enantiodromia’. Apesar de o nome ser complicado, este termo criado pelo filósofo Heráclito nada mais é do que a ideia de que quando uma grande força é gerada numa direção, uma força de mesmo valor é criada na direção oposta. Ninguém menos do que Jung, reutilizou este termo para definir o fenômeno de forças compensatórias entre o consciente e o inconsciente.

“O velho Heráclito, que era realmente um grande sábio, descobriu a mais fantástica de todas as leis da psicologia: a função reguladora dos contrários. Deu-lhe o nome de enantiodromia (correr em direção contrária), advertindo que um dia tudo reverte em seu contrário” (JUNG, 1987)

Agora que começamos a entender melhor como funciona a psique, e percebemos que nela habitam ambas as energias, masculina e feminina, que necessitam de harmonia, é possível deslocarmos ligeiramente nosso enfoque. Quando pensamos em duas energias a princípio conflitantes, mas cujo fluxo e interação é harmônico, facilmente visualizamos este símbolo:

O Yin e Yang é o símbolo que mais representa toda essa dinâmica de polaridades que estamos discutindo. Veja só o que Jung tem a dizer sobre este símbolo milenar:

“Não há positivo sem sua negação. Apesar da extrema oposição, ou por isso mesmo, um termo não pode existir sem o outro. É exatamente como formula a filosofia chinesa: yang (o princípio luminoso, quente, seco e masculino) contém em si o geme do yin (o princípio escuro, frio, úmido e feminino), e vice-versa” (JUNG, 2007)

Herder Lexicon (1990) assinala que “a mútua dependência de ambos os princípios, às influências de yin-yang nunca se opõe como princípios inimigos, pelo contrário, acham-se em uma contínua relação de influências mútuas”. É mister compreender que os aspectos paradoxais da psique se completam, e não se excluem. A dinâmica, que a priori pode aparecer um conflito, talvez seja melhor entendida como uma dialética.

“Segundo a lei da enantiodromia, dos fluxos contrários, tão bem interpretada pelos chineses, com o final de um ciclo dá-se o início de seu oposto. Assim, Yang em seu limite transforma-se em Yin, e o positivo, em negativo” (JUNG, 1986)

A unilateralidade é, eventualmente, prejudicial a nossa psique, sendo responsável por diversos problemas, tanto enfermidades de natureza psicológica quanto somatizações físicas. Além disso, o problema não se limita a natureza individual, um exemplo do dano causado pela unilateralidade da consciência, expressado na esfera social, é bem elaborado por Robert Johnsson, quando este afirma que:

“O homem tem visto seu lado sombrio como feminino e, ao empurrá-lo cada vez mais para as profundezas do seu ser, acabou por transformá-lo numa bruxa. Grande parte da escuridão do elemento rejeitado durante a idade média era feminino – daí a caça às bruxas e as fogueiras. E isso não se constituiu apenas de incidentes isolados que ganharam muita notoriedade. Estima-se que quase quatro milhões de mulheres foram queimadas nos patíbulos no auge da contra-reforma na Europa” (JOHNSSON, 1993)

Como podemos ver, o exagero da parcialidade é extremamente perigoso e prejudicial, tanto individualmente quanto socialmente. Mas por que a psique apresenta todos estes mecanismos para incentivar o diálogo entre as diferentes polaridades que nos habitam? Pura e simplesmente para nos ajudar a superar a nós mesmos. Para nos possibilitar transcender o maniqueísmo estático que parece tanto nos agradar. A totalidade é o objetivo final dessa luta constante das polaridades, permitir que atinjamos a plenitude, a consciência, que nos aproximamos cada vez mais da onisciência divina, ao menos à onisciência de nós mesmos.

“Após uma vivência de muitos anos no rico mundo da psique, aprendendo suas leis, Jung notou uma enorme força evolutiva atuando no universo psíquico. Ele percebeu que a psique humana desenvolve um esforço constante em busca da totalidade um esforço no sentido de se completar e se tornar mais consciente. O inconsciente procura transferir o seu conteúdo para o nível da consciência, onde pode ganhar existência e ser assimilado, formando uma personalidade consciente mais completa. A psique de cada indivíduo tem um estímulo inerente para evoluir, para integrar os elementos do inconsciente, juntando as partes que ainda faltam ao indivíduo total para formar um self completo, pleno e consciente” (JOHNSSON, 1993)

Como dito no início do texto, Jung deslocou alguns conceitos originais da Alquimia, adaptando-os a um sistema de compreensão psicológica. Os antigos alquimistas já sabiam há tempos dessas leis que governavam a mente, suas polaridades e interações. Não à toa que uma operação alquímica essencial pra a obtenção da pedra filosofal era a Coniunctio, ou Casamento Alquímico. Esta operação era quase sempre representada pela união de uma figura masculina, como um Rei ou o Sol e outra feminina, como uma Rainha ou a Lua, mas também como Hauck aponta “um coração pegando fogo, um terra frutífera, casamentos, hermafroditas, galos e galinhas” entre outros.

Esse casamento é a grande chave para a integração dos opostos complementares, com ele, é possível transcender o maniqueísmo, e através de uma interação de tese e antítese, permitir o nascimento de uma síntese. Novamente, conseguimos perceber o nascimento deste terceiro elemento quando analisamos figuras alquímicas que representam o casamento alquímico. Na imagem seguinte, vemos com exatidão a união simbólica do Rei (Sol) e da Rainha (Lua) obtendo como resultado ao criança, que na alquimia é representada como andrógina e perfeita.

“Jung constatou que a psique é andrógina: ela contém componentes masculinos e femininos. Assim homens e mulheres vêm equipados com uma estrutura psicológica que em sua totalidade inclui a riqueza de ambos os lados, de ambas as naturezas, de ambos os conjuntos de capacidades e forças. A psique espontaneamente se divide em opostos complementares e os representa como uma configuração masculina-feminina. Ela assinala algumas características como sendo “masculinas” e outras, como “femininas”. Como o yin e o yang, na antiga psicologia chinesa, estes opostos complementares se equilibram e se completam mutuamente. Nenhum qualidade ou característica da personalidade humana é completa em si: cada um deve se fazer acompanhar de seu “par” masculino ou feminino, numa combinação consciente, se quisermos alcançar equilíbrio e totalidade” (JOHNSSON, 1995)

E essa ideia da criança andrógina, representando simbolicamente a inocência e a pureza, não é exclusiva do pensamento alquímico, como vemos no Evangelho de Tomé, capítulo 22:

“Jesus viu crianças de peito a mamarem. E ele disse a seus discípulos: Essas crianças de peito se parecem com aqueles que entram no Reino. Perguntaram-lhe eles: Se formos pequenos, entraremos no Reino? Respondeu-lhes Jesus: Se reduzirdes dois a um, se fizerdes o interior como o exterior, e o exterior como o interior, se fizerdes o de cima como o de baixo, se fizerdes um o masculino e o feminino, de maneira que o masculino não seja mais masculino e o feminino não seja mais feminino – então entrareis no Reino”.

Apesar da representação sexual nas pranchas alquímicas, é sabido que tais experiências refletem experimentos interiores, subjetivos e que a relação sexual deve ser encarada com temperança. Além de técnicas antigas como o sexo Tântrico, que visa harmonizar as energias masculinas e femininas através da troca de energias ao longo do ato sexual, existe um conceito na alquimia taoísta chamado “Cultivação Dual”, na qual, em suma, os homens desenvolvem técnicas para interagir e absorver a energia feminina, sem desperdiçar a sua própria, acumulando assim ambas. Evidentemente essas técnicas orientais estão muito distantes da nossa realidade, e acredito que devemos sim estudar e nos aprofundar nas diferentes práticas, afinal, unir oriente e ocidente nada mais é que um reflexo da harmonia dos opostos que tanto discutimos ao longo do texto. Além disso, a meditação e análise psicológica podem ser ferramentas que realmente ajudam no autoconhecimento.

Mas acredito que para nós, ocidentais, existe algo que é uma chave igualmente efetiva, e mais próxima para nosso entendimento: o Amor. Quando abrimos nosso coração e permitimos essa força incrível da natureza se manifestar, podemos atingir patamares inimagináveis. O amor é transformador e é um ingrediente indispensável.

“Assim como na alquimia, a psique, dentro do processo analítico, vai transformando-se, ora dispondo-se num lado e ora de outro, no sentido das suas polaridades, até que lhe seja capaz a absorção de uma terceira figura, gradativa e construída, surgida de dentro da sua própria alma que lhe traduz essa expressão de convivência com o dual. […] O casamento Divino, que somente existirá se ali houver o Amor, sua causa e seu efeito. […] Revela-se no mundo como o altruísmo em seu sentido extrovertido e na psique, como a conexão com o Si-mesmo, gerando a unidade” (MASSAN, 2009)

Na imagem acima vemos o deus Marte (Animus) e a deusa Vênus (Anima) e seu filho Cupido, também conhecido como Eros e Amor. Coincidência?

Na Tábua de Esmeralda encontramos a seguinte inscrição:

“E assim como todas as coisas vieram do Um, assim todas as coisas são únicas”.

Concluímos então que existe uma aproximação muito evidente entre conceitos da alquimia e da psicologia analítica, e que ensinamentos antigos de filosofia grega e da sabedoria taoísta são fontes ricas de informações que podem nos ajudar a fortalecer a reflexão e, literalmente, integrar ideias. No final, nosso objetivo principal é voltar a Unidade, e dissolver todos os conflitos neuróticos e polarizados que nos impedem de ver as coisas como realmente são. Devemos buscar sempre fazer as coisas com o coração e amor, pois só assim podemos ter empatia e perceber os ‘dois lados das coisas’ e unir os paradoxos. Nem cara, nem coroa, somos todos moedas rodopiando.

Referencias Bibliográficas:

CAMAYSAR, Rosabis. O Caibalion. São Paulo Editora Pensamento. 2000

Evengelho de Tomé traduzido por Huberto Rohden

HAUCK, Dennis Willian. The Emerald Tablet: Alchemy for Personal Transformation. Arkana. Ed.Pengun Group. 1999.

JOHNSON, Robert A. HE: A Chave do Entendimento da Psicologia Masculina. São Paulo: Mercúrio, 1993

JOHNSON, Robert A. WE: A Chave da Psicologia do Amor Romântico. São Paulo: Mercúrio, 1995

JUNG, C. G. Fundamentos de Psicologia Analítica. OC XVIII/I. Petrópolis: Vozes, 1987a.

JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. OC IX/1. Petrópolis: Vozes, 2007.

JUNG, C. G. Psicologia do Inconsciente. OC VII/1. Petrópolis: Vozes, 1987b.

JUNG, C. G. Psicologia e Alquimia. OC XII. Petrópolis: Vozes, 1991b.

JUNG, C. G. Psicologia e Religião. OC XI/1. Petrópolis: Vozes, 1987c.

JUNG, Carl Gustav. Civilização em Transição. Petrópolis. Vozes. 2011.

LEXICON, Herder. Dicionário de Símbolos. São Paulo. Cultrix. 1990

MASSAN, Francisco. Opus Alquímica e Psicoterapia. Disponível em: www.clinicapsique.com/doc/opus.doc. 14/05/2013

VON FRANZ, Marie Louise. A Alquimia: Introdução ao Simbolismo e a Psicologia. São Paulo. Ed. Cultrix. 1993.

Tábua de Esmeralda – Tradução de Isaac Newton , 1680 , encontrada em seus textos alquímicos. Folger, Washington 1988

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano, Mestrando em Ciências da Religião e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br ou envie um e-mail para contato@antharez.com.br

Imagens:

‘Philosophical Mercury’. Itália. Século XV.
Perspectivas circulares de Luz e Sombra, imagem encontrada na internet.
Yin-Yang.
“Spirals” de M. C. Escher (1953).
Cena de uma bruxa na fogueira (Série “American Horror Story: The Coven”)
Princípios Alquímicos do Masculino e Feminino.
Gravuras Alquímicas de “Donum Dei”.
“Mars, Venus and Cupid”. 1808, Leopold Kiesling.

#Alquimia

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Ponto de Encontro

Poucos se interessam pela etimologia – o significado e a origem das palavras –, talvez porque nunca tenham pensado mais aprofundadamente sobre o assunto, talvez porque creiam que todas as palavras e todos os idiomas tenham surgido de uma forma meio mágica, como no mito da Torre de Babel.

Eu penso na cor laranja: ela compartilha seu nome com a laranja, a fruta. Eis um belo exemplo de como o nome de uma coisa concreta – a fruta – deu origem ao nome de um conceito abstrato – a cor, nada mais do que um dos espectros da luz quando refletida pela superfície de uma laranja madura. Mas a cor laranja é assim chamada na língua latina, originária da antiga Europa; certamente em outros lugares do mundo, em outros idiomas, não teremos essa curiosa associação entre a fruta e a cor, simplesmente porque as laranjas não cresciam em todas as partes do mundo…

Ainda numa analogia próxima, podemos nos lembrar dos esquimós, ou de todos os povos que se desenvolveram nas zonas gélidas, mas principalmente os da América do Norte. Se perguntarmos quantas cores um esquimó vê no horizonte gelado de suas casas, eles nos darão uma lista de praticamente meia-dúzia delas – no entanto, nós vemos apenas branco. É preciso um longo convívio com os esquimós para compreender a importância das variadas gradações de “cinza-creme” para “cinza-branco” e finalmente o “branco-branco”: é através delas que eles conseguem se orientar em um “deserto de gelo”, inclusive identificando onde temos o gelo mais fino, onde é arriscado trafegar com muito peso (bem, hoje em dia eles estão modernos, caçam com motos de neve e aposentaram os trenós puxados por cachorros – some o peso da pesca e da caça e não é difícil compreender a necessidade de se evitar o gelo fino).

Nas civilizações e crenças humanas, ocorre algo um tanto parecido. Cada povo desenvolveu um sistema próprio de escrita e linguagem, um sistema próprio de arte e cultura e, sobretudo, um sistema próprio de lidar com o sagrado. Todos nós lidamos com os mistérios do nascimento e da morte, com as atribulações da vida em sociedade, com a doença e os vícios, a guerra e a paz, o amor e a indiferença – mas acima de tudo lidamos com a natureza, com esse Cosmos infinito a nossa volta, com esse “Deus-Branco” ao qual cada povo deu um nome, e talvez ao qual, assim como os esquimós, cada povo defina através de inúmeras gradações de branco, muito embora o chamem simplesmente de Deus, de “O Grande Branco”.

Essa talvez seja a origem de tantos conflitos entre os povos: é que um não consegue compreender o outro, pois cada povo traz consigo séculos de cultura e linguagem, séculos de interpretações de conceitos e símbolos, e às vezes é muito complicado fazer com que outros povos o entendam. Não adianta simplesmente dizer: “Olha só, eu creio em Krishna e você crê em Allah, e nosso vizinho crê em Jeová, mas eles são todos nomes para uma mesma coisa, um mesmo conceito.” – Pois falar é fácil, difícil é se fazer entender. Porque o deus de um afirma que somente aqueles que rezam ajoelhados em uma direção são dignos, enquanto outro afirma que somente aqueles que crêem em seu filho serão salvos, e ainda outro afirma que antes da salvação ainda serão necessárias inúmeras vidas de purificação espiritual… E daí que todos criaram nomes para o mesmo conceito? A questão é que nenhum parece ter compreendido o conceito em si, a abrangência do sagrado.

Dessa forma, assim como as gradações de branco das cores dos esquimós no fundo são simplesmente branco (embora seja necessário para eles identificar todas as gradações), no fundo um Criador universal, uma substância primeira que originou todas as demais, só pode ser simplesmente “O Grande Branco”. Mas ninguém parece se preocupar em compreender o porquê de cada povo dar um nome diferente ao Branco – e a todas as suas gradações.

Ao invés de colocarmos um “deus-barreira” entre nós, seria muito mais interessante nos focarmos na compreensão uns dos outros, e do porque cada povo chegou a sua conclusão sobre o sagrado, o Grande Mistério, a substância primeira. Dessa forma não nos isolamos uns dos outros, nem entre espiritualistas nem entre agnósticos e ateus – pois em todo caso todos vivem na mesma realidade, todos caminham pelo deserto do mundo e eventualmente encontram laranjas e horizontes de gelo. Todos têm de lidar com o sagrado, mesmo que sua forma de lidar seja o ignorando.

Levantemos a barreira, criemos um ponto de encontro nas vielas estreitas de nossas metrópoles existenciais. Que seja uma praça, um bar, um lugar onde se toma café, um jardim, um pórtico, uma trilha em torno da cidade… Qualquer lugar onde possamos falar do mundo, do sagrado, de Deus e de nós mesmos, sem que um “deus-barreira” ou um dogma se interponha entre nós. Os pensamentos cristalizados, solidificados, represados, não são nem pássaros a voar nem rios a fluir, mas a mais pura angústia, o mais puro sofrimento de ter de se viver ancorado a crenças impostas, a “mandamentos” que não fazem mais sentido – pois não somos mais fugitivos em um deserto escaldante.

Hoje temos o mundo todo no controle remoto, e principalmente, boa parte do conhecimento do mundo ao alcance de uma máquina acessível à imensa maioria dos que tem o luxo de poder se dedicar a amar tal conhecimento. Mas toda informação e toda tecnologia do mundo de nada nos adiantará se continuarmos a viver isoladamente, sem nos encontrar alguma noite da semana em nosso ponto de encontro, sem procurar compreender como o outro pensa, como o outro sente, como o outro lida com o sagrado.

É preciso aprender a pensar por si próprio, a romper à represa e deixar a água correr livre para o oceano, a abrir à gaiola e deixar o pássaro decidir que rumo tomar no horizonte; Então poderemos acordar num céu de liberdade, onde todos foram convidados, e onde os primeiros a chegar não se preocuparam em adorar o “deus-ausente”, mas se comprometeram a serem eles mesmos as mãos e os olhos de Deus.

No ponto de encontro, os anjos comparecem todos os dias com os convites para esse novo mundo – um mundo onde o laranja e as demais cores, e todas as gradações de branco, se unem em uma só luz, em um branco infinito… Basta-nos achar o jardim onde os anjos pousam, e prosseguir nessa viagem sem fim pela imensidão do Cosmos.

***

Crédito da imagem: jlmccoy

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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Teoria das Janelas Partidas

Em 1969, na Universidade de Stanford (EUA), o Prof. Phillip Zimbardo realizou uma experiência de psicologia social. Deixou duas viaturas abandonadas na via pública, duas viaturas idênticas, da mesma marca, modelo e até cor. Uma deixou em Bronx, na altura uma zona pobre e conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia.

Duas viaturas idênticas abandonadas, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultou que a viatura abandonada em Bronx começou a ser vandalizada em poucas horas. Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc. Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram. Contrariamente, a viatura abandonada em Palo Alto manteve-se intacta.

É comum atribuir à pobreza as causas de delito.

Atribuição em que coincidem as posições ideológicas mais conservadoras, (da direita e da esquerda). Contudo, a experiência em questão não terminou aí. Quando a viatura abandonada em Bronx já estava desfeita e a de Palo Alto estava há uma semana impecável, os investigadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto.

O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o de Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre.

Por quê que o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso?

Não se trata de pobreza. Evidentemente é algo que tem que ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro partido numa viatura abandonada transmite uma ideia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação que vai quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras, como o “vale tudo”. Cada novo ataque que a viatura sofre reafirma e multiplica essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Em experiências posteriores (James Q. Wilson e George Kelling), desenvolveram a ‘Teoria das Janelas Partidas’, a mesma que de um ponto de vista criminalístico conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores.

Se se parte um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão partidos todos os demais. Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.

Se se cometem ‘pequenas faltas’ (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar-se um semáforo vermelho) e as mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e logo delitos cada vez mais graves. Se se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.

Se os parques e outros espaços públicos deteriorados são progressivamente abandonados pela maioria das pessoas (que deixa de sair das suas casas por temor a criminalidade) , estes mesmos espaços abandonados pelas pessoas são progressivamente ocupados pelos delinquentes.

A Teoria das Janelas Partidas foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: graffitis deteriorando o lugar, sujeira das estacões, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens. Os resultados foram evidentes. Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.

Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de ‘Tolerância Zero’.

A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana. O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.

A expressão ‘Tolerância Zero’ soa a uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança. Não se trata de linchar o delinquente, nem da prepotência da polícia, de fato, a respeito dos abusos de autoridade deve também aplicar-se a tolerância zero.

Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito. Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.

Essa é uma teoria interessante e pode ser comprovada em nossa vida diária, seja em nosso bairro, na vila ou condominio onde vivemos, não só em cidades grandes.

A tolerância zero colocou Nova York na lista das cidades seguras.

Esta teoria pode também explicar o que acontece aqui no Brasil com corrupção, impunidade, amoralidade, criminalidade, vandalismo, etc.

Pense nisso!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/teoria-das-janelas-partidas

Quem são os Sufis?

Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual cujas origens nunca foram traçadas nem datadas; nem eles mesmos se interessam muito por esse tipo de pesquisa, contentando-se em mostrar a ocorrência da sua maneira de pensar em diferentes regiões e períodos. Conquanto sejam, de ordinário, erroneamente tomados por uma seita muçulmana, os sufis sentem-se à vontade em todas as religiões: exatamente como os “pedreiros-livres e aceitos”, abrem diante de si, em sua loja, qualquer livro sagrado – seja a Bíblia, seja o Corão, seja a Torá – aceito pelo Estado temporal. Se chamam ao islamismo a “casca” do sufismo, é porque o sufismo, para eles, constitui o ensino secreto dentro de todas as religiões. Não obstante, segundo Ali el-Hujwiri, escritor sufista primitivo e autorizado, o próprio profeta Maomé disse: “Aquele que ouve a voz do povo sufista e não diz aamin (amém) é lembrado na presença de Deus como um dos insensatos”. Numerosas outras tradições o associam aos sufis, e foi em estilo sufista que ele ordenou a seus seguidores que respeitassem todos os “Povos do Livro”, referindo-se dessa maneira aos povos que respeitavam as próprias escrituras sagradas – expressão usada mais tarde para incluir os zoroastrianos.

Tampouco são os sufis uma seita, visto que não acatam nenhum dogma religioso, por mais insignificante que seja, nem se utilizam de nenhum local regular de culto. Não têm nenhuma cidade sagrada, nenhuma organização monástica, nenhum instrumento religioso. Não gostam sequer que lhes atribuam alguma designação genérica que possa constrangê-los à conformidade doutrinária. “Sufi” não passa de um apelido, como “quacre”, que eles aceitam com bom humor. Referem-se a si mesmos como “nós amigos” ou “gente como nós”, e reconhecem-se uns aos outros por certos talentos, hábitos ou qualidades de pensamento naturais. As escolas sufistas reuniram-se, com efeito, à volta de professores particulares, mas não há graduação, e elas existem apenas para a conveniência dos que trabalham com a intenção de aprimorar os estudos pela estreita associação com outros sufis. A assinatura sufista característica encontra-se numa literatura amplamente dispersa desde, pelo menos, o segundo milênio antes de Cristo, e se bem o impacto óbvio dos sufis sobre a civilização tenha ocorrido entre o oitavo e o décimo oitavo séculos, eles continuam ativos como sempre. O seu número chega a uns cinqüenta milhões. O que os torna um objeto tão difícil de discussão é que o seu reconhecimento mútuo não pode ser explicado em termos morais ou psicológicos comuns – quem quer que o compreenda é um sufi. Posto que se possa aguçar a percepção dessa qualidade secreta ou desse instinto pelo íntimo contato com sufis experientes, não existem graus hierárquicos entre eles, mas apenas o reconhecimento geral, tácito, da maior ou menor capacidade de um colega.

O sufismo adquiriu um sabor oriental por ter sido por tanto tempo protegido pelo islamismo, mas o sufi natural pode ser tão comum no Ocidente como no Oriente, e apresentar-se vestido de general, camponês, comerciante, advogado, mestre-escola, dona-de-casa, ou qualquer outra coisa. “Estar no mundo mas não ser dele”, livre da ambição, da cobiça, do orgulho intelectual, da cega obediência ao costume ou do respeitoso temor às pessoas de posição mais elevada – tal é o ideal do sufi.

Os sufis respeitam os rituais da religião na medida em que estes concorrem para a harmonia social, mas ampliam a base doutrinária da religião onde quer que seja possível e definem-lhe os mitos num sentido mais elevado – por exemplo, explicando os anjos como representações das faculdades superiores do homem. Oferecem ao devoto um “jardim secreto” para o cultivo da sua compreensão, mas nunca exigem dele que se torne monge, monja ou eremita, como acontece com os místicos mais convencionais; e mais tarde, afirmam-se iluminados pela experiência real – “quem prova, sabe” – e não pela discussão filosófica. A mais antiga teoria de evolução consciente que se conhece é de origem sufista, mas embora muito citada por darwinianos na grande controvérsia do século XIX, aplica-se mais ao indivíduo do que à raça. O lento progresso da criança até alcançar a virilidade ou a feminilidade figura apenas como fase do desenvolvimento de poderes mais espetaculares, cuja força dinâmica é o amor, e não o ascetismo nem o intelecto.

A iluminação chega com o amor – o amor no sentido poético da perfeita devoção a uma musa que, sejam quais forem as crueldades aparentes que possa cometer, ou por mais aparentemente irracional que seja o seu comportamento, sabe o que está fazendo. Raramente recompensa o poeta com sinais expressos do seu favor, mas confirma-lhe a devoção pelo seu efeito revivificante sobre ele. Assim, Ibn El-Arabi (1165-1240), um árabe espanhol de Múrcia, que os sufis denominam o seu poeta maior, escreveu no Tarju-man el-Ashwaq (o intérprete dos desejos):

“Se me inclino diante dela como é do meu dever E se ela nunca retribui a minha saudação Terei, acaso, um justo motivo de queixa? A mulher formosa a nada é obrigada”

Esse tema de amor foi, posteriormente, usado num culto extático da Virgem Maria, a qual, até o tempo das Cruzadas, ocupara uma posição sem importância na religião cristã. A maior veneração que ela recebe hoje vem precisamente das regiões da Europa que caíram de maneira mais acentuada sob a influência sufista.

Diz de si mesmo, Ibn El-Arabi:

“Sigo a religião do Amor.

Ora, às vezes, me chamam

Pastor de gazelas [divina sabedoria]
Ora monge cristão,

Ora sábio persa.

Minha amada são três –

Três, e no entanto, apenas uma;

Muitas coisas, que parecem três,

Não são mais do que uma.

Não lhe dêem nome algum,

Como se tentassem limitar alguém

A cuja vista

Toda limitação se confunde”

Os poetas foram os principais divulgadores do pensamento sufista, ganharam a mesma reverência concedida aos ollamhs, ou poetas maiores, da primitiva Irlanda medieval, e usavam uma linguagem secreta semelhante, metafórica, constituída de criptogramas verbais. Escreve Nizami, o sufi persa: “Sob a linguagem do poeta jaz a chave do tesouro”. Essa linguagem era ao mesmo tempo uma proteção contra a vulgarização ou a institucionalização de um hábito de pensar apropriado apenas aos que o compreendiam, e contra acusações de heresia ou desobediência civil. Ibn El-Arabi, chamado às barras de um tribunal islâmico de inquisição em Alepo, para defender-se da acusação de não-conformismo, alegou que os seus poemas eram metafóricos, e sua mensagem básica consistia no aprimoramento do homem através do amor a Deus. Como precedente, indicava a incorporação, nas Escrituras judaicas, do Cântico erótico de Salomão, oficialmente interpretado pelos sábios fariseus como metáfora do amor de Deus a Israel, e pelas autoridades católicas como metáfora do amor de Deus à Igreja.

Em sua forma mais avançada, a linguagem secreta emprega raízes consonantais semíticas para ocultar e revelar certos significados; e os estudiosos ocidentais parecem não ter se dado conta de que até o conteúdo do popular “As mil e uma noites” é sufista, e que o seu título árabe, Alf layla wa layla, é uma frase codificada que lhe indica o conteúdo e a intenção principais: “Mãe de Lembranças”. Todavia, o que parece, à primeira vista, o ocultismo oriental é um antigo e familiar hábito de pensamento ocidental. A maioria dos escolares ingleses e franceses começam as lições de história com uma ilustração de seus antepassados druídicos arrancando o visco de um carvalho sagrado. Embora César tenha creditado aos druidas mistérios ancestrais e uma linguagem secreta – o arrancamento do visco parece uma cerimônia tão simples, já que o visco é também usado nas decorações de Natal -, que poucos leitores se detêm para pensar no que significa tudo aquilo. O ponto de vista atual, de que os druidas estavam, virtualmente, emasculando o carvalho, não tem sentido.

Ora, todas as outras árvores, plantas e ervas sagradas têm propriedades peculiares. A madeira do amieiro é impermeável à água, e suas folhas fornecem um corante vermelho; a bétula é o hospedeiro de cogumelos alucinógenos; o carvalho e o freixo atraem o relâmpago para um fogo sagrado; a raiz da mandrágora é antiespasmódica. A dedaleira fornece digitalina, que acelera os batimentos cardíacos; as papoulas são opiatos; a hera tem folhas tóxicas, e suas flores fornecem às abelhas o derradeiro mel do ano. Mas os frutos do visco, amplamente conhecidos pela sabedoria popular como “panacéia”, não têm propriedades medicinais, conquanto sejam vorazmente comidos pelos pombos selvagens e outros pássaros não-migrantes no inverno. As folhas são igualmente destituídas de valor; e a madeira, se bem que resistente, é pouco utilizada. Por que, então, o visco foi escolhido como a mais sagrada e curativa das plantas? A única resposta talvez seja a de que os druidas o usavam como emblema do seu modo peculiar de pensamento. Essa árvore não é uma árvore, mas se agarra igualmente a um carvalho, a uma macieira, a uma faia e até a um pinheiro, enverdece, alimenta-se dos ramos mais altos quando o resto da floresta parece adormecido, e a seu fruto se atribui o poder de curar todos os males espirituais. Amarrados à verga de uma porta, os ramos do visco são um convite a beijos súbitos e surpreendentes. O simbolismo será exato se pudermos equiparar o pensamento druídico ao pensamento sufista, que não é plantado como árvore, como se plantam as religiões, mas se auto-enxerta numa árvore já existente; permanece verde, embora a própria árvore esteja adormecida, tal como as religiões são mortas pelo formalismo; e a principal força motora do seu crescimento é o amor, não a paixão animal comum nem a afeição doméstica, mas um súbito e surpreendente reconhecimento do amor, tão raro e tão alto que do coração parecem brotar asas. Por estranho que pareça, a Sarça Ardente em que Deus apareceu a Moisés no deserto, supõem agora os estudiosos da Bíblia, era uma acácia glorificada pelas folhas vermelhas de um locanthus, o equivalente oriental do visco.

Talvez seja mais importante o fato de que toda a arte e a arquitetura islâmicas mais nobres são sufistas, e que a cura, sobretudo dos distúrbios psicossomáticos, é diariamente praticada pelos sufis hoje em dia como um dever natural de amor, conquanto só o façam depois de haverem estudado, pelo menos, doze anos. Os ollamhs, também curadores, estudavam doze anos em suas escolas das florestas. O médico sufista não pode aceitar nenhum pagamento mais valioso do que um punhado de cevada, nem impor sua própria vontade ao paciente, como faz a maioria dos psiquiatras modernos; mas, tendo-o submetido a uma hipnose profunda, ele o induz a diagnosticar o próprio mal e prescrever o tratamento. Em seguida, recomenda o que se há de fazer para impedir uma recorrência dos sintomas, visto que o pedido de cura há de provir diretamente do paciente e não da família nem dos que lhe querem bem.

Depois de conquistadas pelos sarracenos, a partir do século VIII d.C, a Espanha e a Sicília tornaram-se centros de civilização muçulmana renomados pela austeridade religiosa. Os letrados do norte, que acudiram a eles com a intenção de comprar obras árabes a fim de traduzi-las para o latim, não se interessavam, contudo, pela doutrina islâmica ortodoxa, mas apenas pela literatura sufista e por tratados científicos ocasionais. A origem dos cantos dos trovadores – a palavra não se relaciona com trobar, (encontrar), mas representa a raiz árabe TRB, que significa “tocador de alaúde” – é agora autorizadamente considerada sarracena. Apesar disso, o professor Guillaume assinala em “O legado do Islã” que a poesia, os romances, a música e a dança, todos especialidades sufistas, não eram mais bem recebidas pelas autoridades ortodoxas do Islã do que pelos bispos cristãos. Árabes, na verdade, embora fossem um veículo não só da religião muçulmana mas também do pensamento sufista, permaneceram independentes de ambos.

Em 1229 a ilha de Maiorca foi capturada pelo rei Jaime de Aragão aos sarracenos, que a haviam dominado por cinco séculos. Depois disso, ele escolheu por emblema um morcego, que ainda encima as armas de Palma, a nossa capital. Esse morcego emblemático me deixou perplexo por muito tempo, e a tradição local de que representa “vigilância” não me pareceu uma explicação suficiente, porque o morcego, no uso cristão, é uma criatura aziaga, associada à bruxaria. Lembrei-me, porém, de que Jaime I tomou Palma de assalto com a ajuda dos Templários e de dois ou três nobres mouros dissidentes, que viviam alhures na ilha; de que os Templários haviam educado Jaime em le bon saber, ou sabedoria; e de que, durante as Cruzadas, os Templários foram acusados de colaboração com os sufis sarracenos. Ocorreu-me, portanto, que “morcego” poderia ter outro significado em árabe, e ser um lembrete para os aliados mouros locais de Jaime, presumivelmente sufis, de que o rei lhes estudara as doutrinas.

Escrevi para Idries Shah Sayed, que me respondeu:

“A palavra árabe que designa o morcego é KHuFFaasH, proveniente da raiz KH-F-SH. Uma segunda acepção dessa raiz é derrubar, arruinar, calcar aos pés, provavelmente porque os morcegos freqüentam prédios em ruínas. O emblema de Jaime, desse modo, era um simples rébus que o proclamava “o Conquistador”, pois ele, na Espanha, era conhecido como “El rey Jaime, Rei Conquistador”. Mas essa não é a história toda. Na literatura sufista, sobretudo na poesia de amor de Ibn El-Arabi, de Múrcia, disseminada por toda a Espanha, “ruína” significa a mente arruinada pelo pensamento impenitente, que aguarda reedificação.

O outro único significado dessa raiz é “olhos fracos, que só enxergam à noite”. Isso pode significar muito mais do que ser cego como um morcego. Os sufis referem-se aos impenitentes dizendo-os cegos à verdadeira realidade; mas também a si mesmos dizendo-se cegos às coisas importantes para os impenitentes. Como o morcego, o sufi está cego para as “coisas do dia” – a luta familiar pela vida, que o homem comum considera importantíssima – e vela enquanto os outros dormem. Em outras palavras, ele mantém desperta a atenção espiritual, adormecida em outros. Que “a humanidade dorme num pesadelo de não-realização” é um lugar-comum da literatura sufista. Por conseguinte, a sua tradição de vigilância, corrente em Palma, como significado de morcego, não deve ser desprezada.”

A absorção no tema do amor conduz ao êxtase, sabem-no todos os sufis. Mas enquanto os místicos cristãos consideram o êxtase como a união com Deus e, portanto, o ponto culminante da consecução religiosa, os sufis, só lhe admitem o valor se ao devoto for facultado, depois do êxtase, voltar ao mundo e viver de forma que se harmonize com sua experiência.

Os sufis insistiram sempre na praticabilidade do seu ponto de vista. A metafísica, para eles, é inútil sem as ilustrações práticas do comportamento humano prudente, fornecidas pelas lendas e fábulas populares. Os cristãos se contentame em usar Jesus como o exemplar perfeito e final do comportamento humano. Os sufis, contudo, ao mesmo tempo que o reconhecem como profeta divinamente inspirado, citam o texto do quarto Evangelho: “Eu disse: Não está escrito na vossa Lei que sois deuses?” – o que significa que juizes e profetas estão autorizados a interpretar a lei de Deus – e sustenta que essa quase divindade deveria bastar a qualquer homem ou mulher, pois não há deus senão Deus. Da mesma forma, eles recusaram o lamaísmo do Tibete e as teorias indianas da divina encarnação; e posto que acusados pelos muçulmanos ortodoxos de terem sofrido a influência do cristianismo, aceitam o Natal apenas como parábola dos poderes latentes no homem, capazes de apartá-lo dos seus irmãos não-iluminados. De idêntica maneira, consideram metafóricas as tradições sobrenaturais do Corão, nas quais só acreditam literalmente os não-iluminados. O Paraíso, por exemplo, não foi, dizem eles, experimentado por nenhum homem vivo; suas huris (criaturas de luz) não oferecem analogia com nenhum ser humano e não se deviam imputar-lhes atributos físicos, como acontece na fábula vulgar.

Abundam exemplos, em toda a literatura européia, da dívida para com os sufis. A lenda de Guilherme Tell já se encontrava em “A conferência dos pássaros”, de Attar (séc. XII), muito antes do seu aparecimento na Suíça. E, embora dom Quixote pareça o mais espanhol de todos os espanhóis, o próprio Cervantes reconhece sua dívida para com uma fonte árabe. Essa imputação foi posta de lado, como quixotesca, por eruditos; mas as histórias de Cervantes seguem, não raro, as de Sidi Kishar, lendário mestre sufista às vezes equiparado a Nasrudin, incluindo o famoso incidente dos moinhos (aliás de água, e não de vento) tomados equivocadamente por gigantes. A palavra espanhola Quijada (verdadeiro nome do Quixote, de acordo com Cervantes) deriva da mesma raiz árabe KSHR de Kishar, e conserva o sentido de “caretas ameaçadoras”.

Os sufis muçulmanos tiveram a sorte de proteger-se das acusações de heresia graças aos esforços de El-Ghazali (1051-1111), conhecido na Europa por Algazel, que se tornou a mais alta autoridade doutrinária do islamismo e conciliou o mito religioso corânico com a filosofia racionalista, o que lhe valeu o título de “Prova do Islamismo”. Entretanto, eram freqüentemente vítimas de movimentos populares violentos em regiões menos esclarecidas, e viram-se obrigados a adotar senhas e apertos de mão secretos, além de outros artifícios para se defenderem.

Embora o frade franciscano Roger Bacon tenha sido encarado com respeitoso temor e suspeita por haver estudado as “artes negras”, a palavra “negra” não significa “má”. Trata-se de um jogo de duas raízes árabes, FHM e FHHM, que se pronunciam fecham e facham, uma das quais significa “negro” e a outra “sábio”. O mesmo jogo ocorre nas armas de Hugues de Payns (dos pagãos), nascido em 1070 ,que fundou a Ordem dos Cavaleiros Templários: a saber, três cabeças pretas, blasonadas como se tivessem sido cortadas em combate, mas que, na realidade, denotam cabeças de sabedoria.

“Os sufis são uma antiga maçonaria espiritual…” De fato, a própria maçonaria começou como sociedade sufista. Chegou à Inglaterra durante o reinado do rei Aethelstan (924-939) e foi introduzida na Escócia disfarçada como sendo um grupo de artesãos no princípio do século XIV, sem dúvida pelos Templários. A sua reformação, na Londres do início do século XVIII, por um grupo de sábios protestantes, que tomaram os termos sarracenos por hebraicos, obscureceu-lhes muitas tradições primitivas. Richard Burton, tradutor das “Mil e uma noites”, ao mesmo tempo maçom e sufi, foi o primeiro a indicar a estreita relação entre as duas sociedades, mas não era tão versado que compreendesse que a maçonaria começara como um grupo sufista. Idries Shah Sayed mostra-nos agora que foi uma metáfora para a “reedificação”, ou reconstrução, do homem espiritual a partir do seu estado de decadência; e que os três instrumentos de trabalho exibidos nas lojas maçônicas modernas representam três posturas de oração. “Buizz” ou “Boaz” e “Salomão, filho de Davi”, reverenciados pelos maçons como construtores do Templo de Salomão em Jerusalém, não eram súditos israelitas de Salomão nem aliados fenícios, como se supôs, senão arquitetos sufistas de Abdel-Malik, que construíram o Domo da Rocha sobre as ruínas do Templo de Salomão, e seus sucessores. Seus verdadeiros nomes incluíam Thuban abdel Faiz “Izz”, e seu “bisneto”, Maaruf, filho (discípulo) de Davi de Tay, cujo nome sufista em código era Salomão, por ser o “filho de Davi”. As medidas arquitetônicas escolhidas para esse templo, como também para o edifício da Caaba em Meca, eram equivalentes numéricos de certas raízes árabes transmissoras de mensagens sagradas, sendo que cada parte do edifício está relacionada com todas as outras, em proporções definidas.

De acordo com o princípio acadêmico inglês, o peixe não é o melhor professor de ictiologia, nem o anjo o melhor professor de angelologia. Daí que a maioria dos livros modernos e artigos mais apreciados a respeito do sufismo sejam escritos por professores de universidades européias e americanas com pendores para a história, que nunca mergulharam nas profundezas sufistas, nunca se entregaram às extáticas alturas sufistas e nem sequer compreendem o jogo poético de palavras pérseo-arábicas. Pedi a Idries Shah Sayed que remediasse a falta de informações públicas exatas, ainda que fosse apenas para tranqüilizar os sufis naturais do Ocidente, mostrando-lhes que não estão sós em seus hábitos peculiares de pensamento, e que as suas intuições podem ser depuradas pela experiência alheia. Ele consentiu, embora consciente de que teria pela frente uma tarefa muito difícil. Acontece que Idries Shah Sayed, descendente, pela linha masculina, do profeta Maomé, herdou os mistérios secretos dos califas, seus antecessores. É, de fato, um Grande Xeque da Tariqa (regra) sufista, mas como todos os sufis são iguais, por definição, e somente responsáveis perante si mesmos por suas consecuções espirituais, o título de “xeque” é enganoso. Não significa “chefe”, como também não significa o “chefe de fila”, velho termo do exército para indicar o soldado postado diante da companhia durante uma parada, como exemplo de exercitante militar.

A dificuldade que ele previu é que se deve presumir que os leitores deste livro tenham percepções fora do comum, imaginação poética, um vigoroso sentido de honra, e já ter tropeçado no segredo principal, o que é esperar muito. Tampouco deseja ele que o imaginem um missionário. Os mestres sufistas fazem o que podem para desencorajar os discípulos e não aceitam nenhum que chegue “de mãos vazias”, isto é, que careça do senso inato do mistério central. O discípulo aprende menos com o professor seguindo a tradição literária ou terapêutica do que vendo-o lidar com os problemas da vida cotidiana, e não deve aborrecê-lo com perguntas, mas aceitar, confiante, muita falta de lógica e muitos disparates aparentes que, no fim, acabarão por ter sentido. Boa parte dos principais paradoxos sufistas está em curso em forma de histórias cômicas, especialmente as que têm por objeto o Kboja (mestre-escola) Nasrudin, e ocorrem também nas fábulas de Esopo, que os sufis aceitam como um dos seus antepassados.

O bobo da corte dos reis espanhóis, com sua bengala de bexiga, suas roupas multicoloridas, sua crista de galo, seus guizos tilintantes, sua sabedoria singela e seu desrespeito total pela autoridade, é uma figura sufista. Seus gracejos eram aceitos pelos soberanos como se encerrassem uma sabedoria mais profunda do que os pareceres solenes dos conselheiros mais idosos. Quando Filipe II da Espanha estava intensificando sua perseguição aos judeus, decidiu que todo espanhol que tivesse sangue judeu deveria usar um chapéu de certo formato. Prevendo complicações, o bobo apareceu na mesma noite com três chapéus. “Para quem são eles, bobo?”, perguntou Filipe. “Um é para mim, tio, outro para ti e outro para o inquisidor-mor”. E como fosse verdade que numerosos fidalgos medievais espanhóis haviam contraído matrimônio com ricas herdeiras judias, Filipe, diante disso, desistiu do plano. De maneira muito semelhante, o bobo da corte de Carlos I, Charlie Armstrong (outrora ladrão de carneiros escocês), que o rei herdara do pai, tentou opor-se à política da Igreja arminiana do arcebispo Laud, que parecia destinada a redundar num choque armado com os puritanos. Desdenhoso, Carlos pedia a Charlie seu parecer sobre política religiosa, ao que o bobo lhe respondeu: “Entoe grandes louvores a Deus, tio, e pequenas laudes ao Diabo”. Laud, muito sensível à pequenez do seu tamanho, conseguiu que expulsassem Charlie Armstrong da corte (o que não trouxe sorte alguma ao amo).

#sufismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/quem-s%C3%A3o-os-sufis

O Inconsciente é o divino

A superfície consciente da nossa natureza é o nosso pequeno ego humano – as profundezas inconscientes são o nosso grande Eu divino.

A Realidade Universal é o grande Inconsciente, não o Inconsciente da vacuidade, mas o Inconsciente da plenitude. O Inconsciente da plenitude é o Oniconsciente, mas esse Oniconsciente se apresenta ao nosso ego consciente como sendo o Inconsciente. Os extremos se tocam. Quem olha para dentro da treva nada enxerga; quem olha diretamente dentro da luz solar, nada enxerga. Aquela escuridão é a ausência da luz, esta é a plenipresença da luz. Treva total e luz total são, para nossa percepção finita, a mesma coisa – o Nada, o Vácuo, a Treva, a Ausência. Nós, os finitos, só enxergamos o Todo quando ele é reduzido a Algo, mas não o enxergamos como o Todo, que nos parece o Nada.

A luz Incolor da Realidade Total não é objeto de nossa percepção finita; só a Luz Colorida da Realidade Parcial, isto é, do Algo Finito, é que pode ser percebida por nós. Os nossos sentidos e o nosso Intelecto – o nosso ego humano – funcionam como “válvulas de redução”, diz Aldous Huxley; se assim não fosse, não poderíamos existir como indivíduos. O impacto da Realidade Total nos aniquilaria, desindividualizando-nos, universalizando-nos; deixaríamos de existir finitamente, continuando a ser universalmente. Mas esse “ser universal” não sou eu, não és tu, não é nenhuma creatura finita, isto é a Realidade Infinita do puro Ser. Nós, os finitos, existimos graças à nossa finitude; existimos a mercê das nossas limitações. Se não fôssemos limitados, não existiríamos como indivíduos.

Por isto, o Inconsciente do Todo, do Ser, do Infinito, é percebido por nós como um Inconsciente. O ontologicamente Inconsciente é, para nós, logicamente consciente, uma vez que “o conhecido está no cognoscente segundo o modo do cognoscente”.

Quando nos abismamos em profunda contemplação espiritual, estabelecemos ponto de contato entre o nosso finito consciente e o Infinito Inconsciente. E, quando o Inconsciente do Infinito sobrepuja o nosso consciente finito, então perdemos a percepção dos sentidos e a concepção do intelecto; tudo “desmaia” [1] diante do nosso consciente, nada mais sabemos de tempo e espaço, que são criações do ego consciente, e temos a impressão de submergirmos no eterno e no infinito, que são a negação de tempo e espaço.

Quando entramos profundamente no sagrado “Aum”, e quando espira a derradeira vibração sutil do “m” final, então, dizem os orientais, entramos no grande “nada” [2], que é a derrota do nosso consciente pelo Inconsciente. Estamos no terceiro céu, no samadhi, no ekstasis (êxtase), expressões várias para designar a absorção do consciente pelo Inconsciente.

Fonte:

Huberto Rohden, Roteiro Cósmico: Martin Claret, 2011. pg. 129.

[1] – A palavra “desmaiar” não vem do latim. Provavelmente, os portugueses a trouxeram do Oriente, em séculos pretéritos. Maya é a palavra sânscrita para “natureza”, quem desmaia, perde a noção de Maya; está fora de tempo e espaço, ambiente da natureza perceptivo-conceptiva.

[2] – Como a palavra “desmaiar”, também o vocábulo “nada” não é de origem latina. Na língua sânscrita, o termo “nada” quer dizer silêncio absoluto, o Infinito, o Vácuo. Quando o homem atinge o auge da sua contemplação mística, depois de esgotar todas as vibrações do sacro trigrama “AUM”, abisma-se no grandioso “Nada” do silêncio de Brahman. Esse Nada do existir é o Todo do Ser. O Nada da Imanência de Deus é o Todo da Transcendência da Divindade. Da Divindade nada pode o homem saber, de Deus ele sabe um pouco.

#Filosofia #Inconsciente #Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-inconsciente-%C3%A9-o-divino