Mapa Astral de Goethe

Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, 28 de Agosto de 1749 — Weimar, 22 de Março de 1832) foi um escritor alemão e pensador que também incursionou pelo campo da ciência. Como escritor, Goethe foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX. Juntamente com Friedrich Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão Sturm und Drang. De sua vasta produção fazem parte: romances, peças de teatro, poemas, escritos autobiográficos, reflexões teóricas nas áreas de arte, literatura e ciências naturais. Além disso, sua correspondência epistolar com pensadores e personalidades da época é grande fonte de pesquisa e análise de seu pensamento. Foi membro da Maçonaria e dos Illuminati.

O Mapa de Goethe mostra uma pessoa extremamente organizada, metódica e prática, característica comum entre os virginianos solares. seu Mapa possui Sol em Virgem na Casa 9 (academia e filosofia), Lua em Peixes na casa 3 (comunicação), Ascendente em Escorpião e Caput draconis em Capricórnio.

A maneira de pensar de Goethe refletia seu Mercúrio em Leão-Virgem (Rei de Moedas). Suas oposições Virgem (vênus, Sol) / Peixes (lua, júpiter) foram trabalhadas de maneira magnífica. Júpiter em Peixes (o Planeta mais forte no mapa de Goethe, com 5 aspectações fortes) indica uma capacidade criativa fora do comum, imaginação e facilidade enorme para visualizações. O quincúncio a zero graus cravado com Mercúrio é descrito nas seguintes palavras: “Um de seus grandes talentos profissionais é a sua curiosidade intelectual e seu interesse por comunicação e informação. Você pode ser um eterno estudante e acumular conhecimento e perspicácia por toda a vida. Estes talentos intelectuais lhe trazem sucesso em campos que exigirem uma boa formação, boa redação, contato com as pessoas, viagens e troca de idéias. Você tem excelentes talentos pedagógicos, porque tem a capacidade de se concentrar em detalhes e ao mesmo tempo de tirar conclusões abrangentes.“.

Muita gente que faz os Mapas na hospitalaria se pergunta sobre os aspectos de Oposição; alguns céticos, como o Cafetron, consideraram “erro” no mapa porque um Planeta diz que a pessoa tem facilidade para uma coisa, e outro planeta diz que a facilidade é para algo oposto ou uma dificuldade na mesma característica quando, na verdade, o resultado é uma soma vetorial das duas forças, que quando bem trabalhadas, produzem resultados fantásticos (como o próprio Goethe, por exemplo).

Goethe trabalhou seus aspectos mais fortes: Lua e Júpiter em Peixes seriam interpretados isoladamente como uma pessoa “no mundo da lua”, extremamente imaginativa, romântica, cuja facilidade seria o campo espiritual; Por outro lado, uma pessoa com Vênus e Sol em virgem seria interpretado isoladamente como extremamente metódica, organizada, cética e prática… e ai? comofas?

Pela obra de Goethe, vemos que ele conseguiu trazer esta espiritualidade e criatividade para o campo organizado e metódico, expressado em seus textos (ao contrários dos piscianos “puros” que escolheriam outra forma de manifestação artística como pintura ou música).

No decorrer de sua vida, esta energia se torna mais próxima da busca pelo conhecimento e poder (escorpião), chegando até a fazer parte de ordens secretas. Saturno em escorpião diz “Na sua carreira, poderá envolver-se com instituições que necessitem de sigilo, ou poderá exercer ação psicológica em camadas profundas.” e realmente é muito comum encontrarmos membros dedicados da maçonaria com esta característica (Goethe possuia sextil entre Saturno/escorpião e Caput draconis/Capricórnio de 1 grau, o que intensificaria ainda mais esta necessidade).

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-goethe

Feitiçaria Sexual Freestyle: Misturando Poder e Putaria

Anarco Thelemita

As pessoas adoram formulas prontas, receitas de bolo e guias definitivos que digam o que devem fazer.  Isso é verdade até mesmo para o Sexo  como para a Feitiçaria. Sexo e Magia, justamente dois campos onde a liberdade e experimentação são tão importantes. Se reconhecemos que buscar nosso próprio caminho é tão relevante nestas duas práticas, porque em geral os praticantes de magia sexual se prendem sempre as mesmas técnicas e abrodagens? uando comecei a estudar magia sexual, esta foi minha principal dificuldade: pessoas me dizendo que seria dificil focar no orgasmo, galera alertando sobre riscos, incubus e succubus e diversas coisas, que, em primeira mão, até fazem uma pessoa perder o tesão pela coisa. Eu decidi dar o foda-se as tradições e começar a praticar.  Ninguém vira um bom amante apenas lendo sobre sexo.

Das tecnicas consagradas de magia, uma delas é o uso exaustivo de sigilos, mas eu só comecei a dar valor á minha magicka sexual quando aprendi uma técnica ensinada por Anton LaVey, no The Satanic Witch, onde ele descreve que a bruxa deve se masturbar cantando ritmicamente algo, para aumentar seu poder sobre os homens. Eu decidi fazer isso, focando em atrair garotos para mim – o resultado foi fantastico. A partir daí, comecei a usar a magia sexual de uma forma simples – eu me enchia de energia com vampirismo, e começava o coito sexual mentalizando o que queria, gozando com isso firme na minha mente.

A primeira coisa que percebi é que se mentalizar “eu quero que isso aconteça” você vai conseguir exatamente isso, ou seja vai apenas continuar querendo e até aumentando seu desejo, e não aquilo que desejaria que acontecesse. Percebi que para algo se concretizar eu devia mentalizar o que queria de forma presente, clara, algo como “Bruna É obcecada por mim.” ou “Estou sempre atraindo dinheiro.” para que isso se manifesta-se. A expressão eu quero, perdia a força, e um novo método de magicka começou a fluir, era quase igual aos populares livros de mentalização ‘O Segredo’ ou a ‘Lei da atração’. Acho até que toda magia é isso em essência, usar o poder da mente e a feitiçaria sexual seria uma forma de amplificar o poder mental da coisa. Fui pesquisar sobre, e acabei encontrando coisas interessantes todas focavam nesse ponto da magia – a forma que você formula teu intento. E todas davam a mesma receita para o sucesso – mentalize-o no presente, como se tivesse acontecendo OU como se tivesse já acontecido. Mas esse texto não é sobre mentalização, então deixemos isso de lado.

Com o acúmulo da minha experiência, comecei a relembrar alguns fatos passados, e adotei essa fórmula – e a base da magia sexual então  seria mentalizar no presente aquilo que deseja enquanto tem um ato sexual, seja ele de qualquer forma. As formulas tradicionais de magia sexual dão ‘pólos’ para magia homossexual, heterossexual ou solitario, como se cada um tivesse um tipo de energia usada para apenas uma intenção. Descarto totalmente essa idéia, energia é energia, sexual ou não. O que vai torna-la negativa, é o intento que você dá, não a energia por si só. Sexo entre dois homens, é igual entre uma mulher e um homem e igual entre duas mulheres. Descartando essas putarias do ocultismo moderno, eu continuei pesquisando, e encontrei uma tecnica que, era interessante demais para ficar guardada: Karezza.

Karezza ou Coitus reservatus envolve o estímulo sexual mas sempre evitando o orgasmo e ejaculação, e ao invés disso manter o plateau do tesão o máximo possível. Samael Aun Weor e toda sua chatice já falava para você nunca gozar, toda vez que estiver quase lá, você para e mentaliza o teu desejo. Este é um dos caminhos ensinados na Magia Sexual,  o outro é o do Crowley. A Grande besta ensinava um outro método, quase oposto ao primeiro. Ou seja, você deve sim gozar, e ao fazer isso passar teus fluidos sexuais sobre um objeto que representaria teu desejo, enquanto mentaliza. Os praticantes de feitiçaria sexual escolhem um método ou outro. Mas e se eu unisse os dois?

Fiz isso trabalhando vários desejos ao mesmo tempo. Fazer isso não apenas diminui a ansiedade por resultados mas têm outros benefícios também. Eu comecei a transar, ou me masturbar, mentalizando o que desejava, UM desejo e quando estava perto do apice, eu parava. Quando decidia que, eu iria gozar, eu começava mentalizando OUTRO desejo, diferente do primeiro, e gozava pensando nele. Depois recolhia os fluidos, e passava em algo simbolico ao que queria, ou oferecia para algum demonio, pedindo OUTRA coisa.  Ou seja, em uma transa, eu carregava três formas de pensamento diferentes. Quando fui atras da minha antiga instrutora da OTO Mundi,  perguntei sobre a energia sexual, ela me falou para procurar por ‘Ojas’. Essa energia Ojas, era a energia que fluia pelo corpo, enquanto se fazia sexo. Ou seja, com essa formula, o proprio ato, sem consumação, poderia ser feito para um propósito. Depois refazer o ato com a consumação para outro, e os fluidos da consumação para um terceiro. Taí, a aprovação que ‘precisava’.

Magia se tornou para mim direcionar minha energia. Magia sexual, seria direcionar a energia sexual. Com praticas de vampirismo, eu carregava meu corpo, inicialmente, sugando a energia de alguém ou do meu parceiro. Mais adiante, quando li o livro do Paschal Beverly Randolph , eu vi que o ‘orgasmo de um’ puxaria a energia de outro. Ou seja, não seria nescessario que os dois participantes mentalizassem o mesmo objetivo, já que quando o outro gozar, e mesmo em atividade, ele estaria contribuindo para o parceiro mais forte, que o arrasta, consigo, conforme diz a lei da selva. Lógico que isso seria valido, se eu transasse com pessoas mais fracas psiquicamente que eu, e elas foram meus primeiros alvos. Algumas de minhas mulheres escarlates eram belos rapazes.

Finalizando, eu comecei a usar a magia de forma repetitiva, a cada 2, 3 dias por exemplo, eu repetia a magia da mesma forma, com a mesma intenção, até que ela se manifesta-se. Eu obtive outra visão sobre magia sexual, tudo graças á eu não me conformar com o que me disseram sobre e tentar com minhas próprias mãos. Talvez daqui a alguns anos eu saiba de outras coisas, e tnha feitos outros testes e descobertos  outros métodos completamente diferentes. Na verdade eu espero que seja assim. Posso me parabenizar e agradecer a natureza por ser assim e pedir para que eu continue  inconformado e buscando inovar.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/feiticaria-sexual-freestyle-misturando-poder-e-putaria/

Howard Phillips Lovecraf e os Mitos de Cthulhu

Resumo

O texto começa por dar algumas informações biográficas sobre Lovecraft, como alguns aspectos mais importantes da sua vida e da sua personalidade. Lovecraft foi um escritor de histórias de temática fantástica que viveu entre 1890 e 1937. É dado algum destaque a Lovecraft enquanto criança, porque se considera importante para a compreensão do seu carácter. Discutem-se diversas influências à sua obra assim como outros factores que o poderão ter marcado. Tenta-se seguidamente dar uma imagem geral dos Mitos de Cthulhu, que é a designação que se adopta para o conjunto de histórias desenvolvidas por este e outros autores que o seguiram. Fala-se sobre o “Círculo de Lovecraft”, conjunto de escritores que seguiram o seu estilo e trocavam grandes volumes de correspondência entre si. For fim aborda-se a questão dos Mitos de Cthulhu depois de Lovecraft e na actualidade.

Introdução

“As a foulness shall ye know Them. Their hand is at your throats, yet ye see Them not; and Their habitation is even one with your guarded thresold.”

– Necronomicon

 

O texto que se segue pretende dar uma ideia geral do trabalho literário de Howard Phillips Lovecraft e do contexto que envolveu esse mesmo trabalho. Criador de um estilo único de literatura, que mistura de uma forma inconfundível ficção científica e terror cósmico, Lovecraft deixou uma obra que ainda hoje em dia inspira muitos autores. Sem pretender deixar de fora os outros escritores que integravam o Círculo de Lovecraft nem tirar mérito ao seu trabalho, utilizo o nome do seu mentor em representação de todo o estilo que ele desenvolveu e que vários seguiram.

Utilizando palavras do próprio Lovecraft, as efabulações sobre temas mundanos e o lugar-comum não satisfazem as mentes mais criativas e sequiosas de novos estímulos. O trabalho de Lovecraft não serve para agradar às massas nem ao cidadão comum, mas apenas a um grupo mais restrito de admiradores que não se contentam com os enredos banais do dia-a-dia. Abdicando do lucro fácil que certamente teria atingido se utilizasse o seu génio na produção de romances comerciais, Lovecraft deixou-nos um legado espantoso de visões fantásticas e universos assombrosos.

Informação Biográfica

“A mais antiga e poderosa emoção da raça humana é o medo, e o mais antigo e poderoso medo é o medo do desconhecido.”

H. P. Lovecraft

Howard Phillips Lovecraft é conhecido na actualidade pelo trabalho que produziu no campo dos contos de ficção e terror. Escreveu durante o seu não muito longo tempo de vida cerca de 65 contos pequenos, 3 romances (um deles incompleto), dezenas de artigos e ensaios para revistas científicas e outras de ficção como Weird Tales, algumas centenas de poemas e sonetos e mais de 100 mil cartas. A sua vasta correspondência será discutida mais adiante na secção que trata do “Círculo de Lovecraft”.

Nasceu no ano de 1890 em Providence, Rhode Island, no seio de uma família abastada mas em clara decadência financeira. Desde cedo mostrou o seu interesse por ciência e pela ficção. Escreveu “The Little Glass Bottle”, o seu primeiro conto, com apenas 6 anos. Cerca de 5 anos mais tarde publicava e distribuia de porta em porta jornais científicos como “The Scientific Gazette” e “The Rhode Island Journal of Astronomy”. Atormentado desde muito cedo por sonhos estranhos e delirantes, tinha uma saúde frágil e problemas nervosos que o impediam de frequentar a escola regularmente. Continuou a escrever ficção ao longo de toda a sua infância e publicou o seu primeiro conto aos 15 anos. No fim da adolescência foi-lhe dito que não tinha talento, deixando de escrever por uns anos. Voltou à actividade com a publicação de “The Transition of Juan Romero” na revista Weird Tales.

Com a morte do seu pai e mais tarde da sua mãe em 1921 num sanatório, a família de Lovecraft atingiu a ruína financeira e viu-se obrigada a vender a maior parte dos seus bens, o que foi para ele um grande choque. Necessitando de ganhar dinheiro para a sua subsistência, Lovecraft viu-se confrontado com um dilema comum a muitos artistas: manter-se fiel à estética artística que persegue ou optar pela vulgaridade e lucro fácil. Tendo sido o seu trabalho sistematicamente rejeitado pelos principais editores, vê-se obrigado a escrever contos de má qualidade para escritores consagrados, segundo ideias por eles fornecidas. Este tipo de actividade era conhecida por ghost-writing. Um dos seus clientes foi Harry Houdini.

A sua ficção, demasiado avançada para a época, atraiu um grupo restrito mas fiel de admiradores, alguns deles escritores consagrados que o impeliam a continuar a escrever. Formou-se aquilo que viria a ser conhecido como Lovecraft Circle, um grupo de escritores de ficção que trocavam correspondência e escreviam dentro de um estilo definido à partida pelo próprio Lovecraft. Foi um dos elementos deste grupo, August Derleth, que mais se empenhou na publicação do trabalho de Lovecraft depois da sua morte, sendo um dos principais responsáveis pela divulgação que tem hoje em dia.

Lovecraft casou-se e foi viver com a sua esposa para Nova Iorque em 1924, mas terminou o casamento dois anos mais tarde, regressando a Providence. Aí viveu o resto da sua vida na companhia de duas tias. Terá, segundo a opinião de alguns críticos produzido os seus melhores trabalhos durante esta época. Tinha como hobbie viajar em busca de vestígios do mundo antigo, fazendo-o na medida em que a sua fraca condição financeira o permitia. Dizia quem o conheceu que era um indivíduo bastante estranho mas muito marcante. Possuidor de um espírito científico e filosófico, era extremamente hipocondríaco e comportava-se como sendo mais velho do que era na realidade. Morreu com 46 anos em 1937 vítima de um cancro súbito e violento, sem nunca conhecer o sucesso.

Sendo desde cedo um leitor ávido, Lovecraft sofreu a influência de muitos outros escritores na sua obra. O seu autor favorito era Edgar Allen Poe, que claramente imitou em “The Outsider”. Além dos escritores que constituíam o Lovecraft Circle, também Robert N. Chambers, Arthur Machen e o jornalista e autor de histórias fantásticas Ambrose Bierce o inspiraram no seu trabalho. Lord Dunsany foi claramente o autor que o influenciou a escrever histórias oníricas e a criar as suas “Dreamlands”, e Algenon Blackwood a recorrer às lendas do índios norte-americanos. Além das influências humanas, e talvez de forma ainda mais marcante, Lovecraft inspirava-se nos seu conhecimentos científicos, astronómicos e filosóficos, assim como nos seu sonhos. Algumas das suas criações mais fantásticas surgiram pela primeira vez na sua mente enquanto dormia.

Os Mitos de Cthulhu

“Todos os meus contos partem da fundamental premissa de que as leis, interesses e emoções humanas não possuem nenhuma validade ou significância na grande imensidão do universo.”

H. P. Lovecraft

August Derleth viria a designar o conjunto do trabalho produzido por Lovecraft e pelos escritores que seguiram o seu estilo como ele próprio por “Mitos de Cthulhu”. Cthulhu é uma criação do próprio Lovecraft de que falarei mais adiante, e que aparece naquele que é provavelmente o seu conto mais conhecido, “Call of Cthulhu”. Cada conto escrito por Lovecraft e seus seguidores constitui mais uma peça para enriquecer a imagem geral do que são os Mitos. A melhor forma de os conhecer é obviamente pela leitura desses mesmo contos, mas tentarei dar uma ideia geral.

É constante ao longo de todas as histórias a ideia de que a humanidade e o nosso planeta são uma “concha” de sanidade mental, imersa num universo completamente alienado, povoado por criaturas e raças poderosas, deuses estranhos e regido por leis completamente insondáveis e divergentes das leis naturais que conhecemos. Um homem exposto a esta realidade tem tendência a enlouquecer. A sanidade mental é vista como uma cortina que nos protege da realidade, permitindo que as sociedades humanas subsistam coma as conhecemos, alheias à estranheza do universo que as rodeia. A personagem principal nas histórias de Lovecraft é tipicamente um cientista, investigador ou professor universitário que se vê confrontado das mais diversas formas com esta terrível realidade.

Outra ideia de base importante é a de que a maioria dos cultos e religiões humanas das mais diversas épocas e regiões do globo, sendo aparentemente dispersas, representem imagens distorcidas e por vezes complementares da verdadeira natureza do cosmos. Segundo a Mitologia de Cthulhu, diversas raças e entidades superiores terão habitado a terra antes do Homem, e diversas o farão depois da Humanidade desaparecer. Algumas destas entidades superiores (como o próprio Cthulhu), dado o seu ciclo de vida inimaginavelmente longo, e a sua supremacia física e intelectual sobre o Homem, são facilmente confundíveis com Deuses. Cultos primitivos terão aparecido para adorar estes pseudo-Deuses. Muitas das histórias dos Mitos especulam sobre a subsistência desses cultos na actualidade, as suas actividades obscuras e as suas motivações incompreensíveis, criando um ambiente extremamente tenso e paranóico.

As histórias originais de Lovecraft têm na sua maioria como cenário os Estados Unidos dos anos 20 e início dos anos 30. Trata-se de uma época de grandes injustiças sociais, em que a classe baixa vivia na miséria e oprimida pela burguesia, enquanto que a classe alta usufruía de um estilo de vida luxuoso. A segregação racial era intensa e a lei seca encontrava-se em vigor, motivando o aparecimento de crime organizado em volta do tráfico de bebidas espirituosas. A terrível realidade dos Mitos de Cthulhu contrasta de uma forma bastante brutal e sugestiva com a futilidade dos interesses da classe alta.

Seguidamente irão ser descritos alguns elementos-chave dos Mitos. Não sendo uma lista de forma alguma exaustiva, pretende apenas dar uma ideia geral do ambiente. Nas descrições que se seguem, e por comodidade, factos completamente fictícios irão ser descritos como reais.

Deuses Exteriores

No panteão dos Mitos, os Deuses Exteriores ocupam o topo da hierarquia. De natureza claramente sobrenatural, governam o universo segundo princípios, desígnios e motivações incompreensíveis para a Humanidade. Tão pouco eles se parecem interessar por ela, sendo-lhes o seu destino indiferente. Não estão limitados pelo espaço ou pelo tempo, conseguindo visitar qualquer local e qualquer era. Percorrem também os diversos planos de existência, sem excluir as Dreamlands.

Azathoth

Origem do Nome: do árabe Izzu Tahuti, que significa “poder de Tahuti”, provavelmente uma alusão à divindade egípcia Thoth.

Azathoth é o “Sultão Demoníaco”, o mais importante dos Deuses Exteriores. Fisicamente é uma massa gigantesca e amorfa de caos nuclear, sendo incrivelmente poderoso mas completamente desprovido de inteligência. A sua “alma” é Nyarlathotep, o mensageiro dos Deuses. Azathoth passa a maior parte do tempo no centro do universo, dançando ao som de Deuses Menores flautistas. A maior parte das suas aparições em locais diferentes deste estão relacionadas com catástrofes gigantescas, como é o caso da destruição do quinto planeta do Sistema Solar, que é hoje a cintura de asteróides.

Nyarlathotep

Origem do Nome: do egípcio Ny Har Rut Hotep, que significa “não existe paz na passagem”.

Nyarlathothep é a alma e o mensageiro dos Deuses Exteriores. É o único deles que tem vindo a travar contactos com a Humanidade, mas os seus objectivos são imperscrutáveis. Possui um inteligência inimaginável e um sentido de humor mórbido. Consegue adoptar centenas de formas físicas distintas, podendo parecer um homem vulgar ou uma monstruosidade gigantesca. Especula-se que um faraó obscuro da IV Dinastia do Egipto Dinástico fosse Nyarlathotep “em pessoa”. A própria Esfinge será uma representação em tamanho natural de uma outra forma de Nyarlathotep.

Great Old Ones – Os Gandes Antigos

Muitas vezes confundidos com Deuses Menores, os Great Old Ones são provavelmente seres vivos incrivelmente poderosos, com ciclos de vida espantosamente longos. Especula-se sobre se pertencerão todos a uma ou várias raças cujos elementos se encontram dispersos pelo universo. A variedade do seu aspecto parece excluir a possibilidade de pertencerem todos à mesma raça. Os seus propósitos são mais compreensíveis do que os dos Deuses Exteriores, estando interessados em colonizar planetas. É frequente um Great Old One liderar um povo de uma raça menos poderosa. Na terra existem cultos dispersos a vários destes seres, principalmente Cthulhu.

Cthulhu

Origem do Nome: Deterioração pelos gregos da palavra árabe Khadhulu, que significa “aquele que abandona”. No Corão existe a seguinte passagem: 25:29 – “Para a Humanidade Satan é Khadulu”.

O mais conhecido dos Great Old Ones e das criações de Lovecraft, Cthulhu é um ser gigantesco e vagamente humanóide, com asas e tentáculos de polvo na boca. Chegou à terra milhões de anos antes do aparecimento do Homem e povoou-a com a sua raça de Deep Ones, seres humanóides anfíbios. Construiu a gigantesca cidade de R’lyeh algures onde é hoje o Oceano Pacífico. Daí comandou o seu império, até ao dia em que as estrelas atingiram um alinhamento que o obriga a entrar em letargia. Cthulhu dorme na sua cidade entretanto submersa por água, aguardando o dia em que a posição das estrelas lhe permita voltar à vida e de novo reinar sobre a Terra. Cthulhu é capaz de comunicar por sonhos enquanto dorme, influenciando alguns seres humanos mais sensíveis durante o sono. Diversos cultos tentam apressar o seu regresso, mas ele próprio não parece ter muita pressa. Especula-se que esta longa hibernação seja uma característica normal do seu estranho ciclo biológico.

Necronomicon

Constituindo uma verdadeira “Bíblia” dos Mitos, o Necronomicon foi originalmente escrito por Abd Al-Azrad, um árabe louco e visionário de cuja vida pouco se sabe, excepto que terá visitado alguns dos lugares mais desolados do globo terrestre. Escrito originalmente em árabe, o Necronomicon foi mais tarde traduzido para grego (onde ganhou o seu nome actual), latim e inglês. Na actualidade não existirão mais do que duas ou três cópias deste livro, supondo-se que uma delas se encontra no Museu Britânico. Revelando alguns dos mais terríveis segredos dos Mitos, a sua leitura provoca graves perdas de sanidade mental a quem o lê.

Arkham

“…The changeless, legend-haunted city of Arkham, with its clustering gambrel roofs that sway and sag over attics where witches hid from the King’s men in the dark olden days of province.”
H. P. Lovecraft

Trata-se de uma pequena cidade universitária perto de Boston, na Nova Inglaterra. Atravessada pelo rio Miskatonic, é nela que vivem muitos dos heróis das histórias de Lovecraft. Fundada por pioneiros ingleses da colonização do contiente americano, Arkham é assombrada pelas memórias do tempo das bruxas e dos ritos sombrios. Alguns dos sotãos desta cidade ocultam ainda hoje segredos terríveis.

Yuggoth

Ainda antes da descoberta oficial de Plutão, o último planeta do Sistema Solar, já Lovecraft escrevia sobre Yuggoth, um pequeno planeta sólido com a sua órbita exterior à de Neptuno. Yuggoth é a terra natal de uma raça de criaturas terríveis, os Fungos de Yuggoth, que são seres insectóides da dimensão de um homem com a capacidade de voar através do vácuo inter-planetário, e donos de uma tecnologia incrivelmente avançada. Os Fungos de Yuggoth vagueiam por todo o Sistema Solar, incluindo a Terra, com propósitos desconhecidos.

Existe bastante polémica sobre se os Mitos de Cthulhu podem ser considerados uma verdadeira mitologia, ou mesmo uma pseudo-mitologia. Tendo todas as características de uma qualquer outra mitologia, desde um panteão de Deuses a um conjunto de lendas (os contos de Lovecraft e outros), foram criados de uma forma perfeitamente artificial e intencional por um conjunto restrito de escritores. Não tiveram a sua génese nas tradições e crenças de uma civilização, como seria normal numa mitologia.

August Derleth, autêntico embaixador da obra de Lovecraft e defensor da ideia de considerar os Mitos de Cthulhu uma mitologia, tentou de certa forma a sua sistematização. Procurou determinar que contos de Lovecraft e outros pertenciam aos Mitos, e esclarecer aspectos focados de uma forma vaga e imprecisa nessas histórias. Chegou a pretender associar algumas entidades dos Mitos com os quatro elementos naturais: ar, água, terra e fogo.

Lin Carter, no seu ensaio “Deamon-Dreaded Lore”, considera que este tipo de sistematização é negativa na medida em que faz desaparecer o factor que considera mais importante nas histórias de Lovecraft: o medo do desconhecido e do incompreensível. Na sua opinião Lovecraft descreve de forma vaga muitos aspectos dos Mitos propositadamente, para criar uma aura de mistério e tensão. Os contos de Lovecraft abordam frequentemente o confronto de seres humanos com realidades e desígnios totalmente alienígenas, e que não para eles compreensíveis.

De forma um pouco marginal ao núcleo central do seu trabalho, e sob a influência de Lord Dunsany, Lovecraft escreveu algumas histórias oníricas, passadas numa dimensão de sonhos, as Dreamlands. A história central deste ciclo é “The Dream-Quest of the Unknown Kadath” e narra as aventuras de Randolph Carter, um homem que quando sonha se vê transportado para um outro plano de existência, semelhante a uma terra medieval povoada de criaturas fantásticas. As Dreamlands são aparentemente um lugar de paz e tranquilidade, habitado por criaturas próprias do imaginário infantil. Este sonho pode por vezes transformar-se em pesadelo, dando lugar aos mais horríveis monstros e criaturas. Embora de uma forma algo dispersa, Lovecraft estabelece algumas relações entre estas Dreamlands e o corpo central dos Mitos.

Existem alguns paralelismos que podem ser traçados entre a vida de Lovecraft e alguns aspectos dos Mitos. Desde muito pequeno que Lovecraft gostava de ler as “Mil e Uma Noites”, fascinando-o especialmente um personagem árabe misterioso. A analogia com o Necronomicon e Abd Al-Azrad é inevitável. A sua repulsa por peixe e comida marinha faz lembrar “The Shadow Over Innsmouth”, onde a decadente população da cidade pesqueira de Innsmouth tem estranhas relações com os Deep Ones, anfíbios humanóides que imitem um repugnante odor a peixe. Lovecraft é atormentado por sonhos desde pequeno, e a sua mais famosa criação, Cthulhu, tem a capacidade de influenciar os sonhos dos humanos. Além disto temos ainda um ciclo inteiro de histórias dedicadas às suas terras de sonhos, as Dreamlands. Os pais de Lovecraft morreram ambos internados no mesmo sanatório, e também as suas personagens sofrem vulgarmente de perturbações mentais, muitas vezes resultante dos seus contactos com os Mitos. Por fim, alguns atribuem a sua obsessão por raças alienígenas terríveis a uma acentuada xenofobia, defeito comum na época e local em que vivia. Tudo isto obviamente é discutível, e não passa de especulação…

O Círculo de Lovecraft

“Slumber, watcher, till the spheres,
Six and twenty thousand years
Have revolv’d, and I return
To the spot where now I burn.
Other stars anon shall rise
To the axis of the skies;
Stars that soothe and stars that bless
With a sweet forgetfulness:
Only when my round is o’er
Shall the past disturb thy door.”
-Polaris

H. P. Lovecraft

O trabalho de Lovecraft atraiu um grupo considerável de escritores, que se começaram a corresponder com ele e entre si. Nascia o Lovecraft Circle, “fundado” pelo próprio Lovecraft e dois escritores consagrados: Clark Ashton Smith e Robert E. Howard (criador de Conan – o Bárbaro). Jovens e talentosos escritores como August Derleth, Frank Belknap e Robert Bloch (que viria a escrever mais tarde o conto que inspirou o filme “Psycho”) juntam-se também ao círculo, e todos contribuem com o seu trabalho para enriquecer os Mitos de Cthulhu.

Os vários autores dos Mitos seguiam um acordo tácito de criar nas suas histórias um ou dois Deuses Exteriores, um Great Old One, um tomo arcano e uma cidade assombrada por cultos obscuros e lendas sombrias. Com pequenas variações, os diversos elementos do Círculo cumpriam as “regras do jogo” ao escrever para os Mitos de Cthulhu. A título de exemplo segue-se uma tabela com informação de alguns livros dos Mitos e o seu criador (assim como o seu autor imaginário).

Era muito frequente os membros do Circulo “brincarem” uns com os outros colocando referências a outros autores dos mitos de uma forma mais ou menos explícita nas suas histórias. Em 1935 Robert Bloch pediu autorização a Lovecraft para o utilizar como personagem principal num conto. Lovecraft concorda e Bloch torna-o o herói em “The Shambler >From the Stars”, matando-o no fim da história às mãos de um monstro alienígena. Lovecraft obtém a sua vingança “matando” Robert Blake, um alter-ego de Bloch em “The Haunter of The Dark”. O autor do tomo “Cultes des Goules” imaginado por Bloch, Comte D’Erlette, é uma alusão clara a August Derleth. O nome Klarkash-Ton, de alto-sacerdote da Atlântida num conto de Lovecraft, constitui uma paródia a Clark Ashton Smith. Vários outros exemplos poderiam ser citados…

Edmund Wilson criticou e ridicularizou mesmo Lovecraft por este usar muita adjectivação na sua escrita. Era considerado que um bom conto de ficção não deveria socorrer-se de muita adjectivação, mas que os próprios acontecimentos e descrições é que deviam sugestionar o leitor. Se uma visão é horrível, o próprio leitor deveria aperceber-se disso, nunca deveria explicitamente ser dito: “a visão é horrível”. O que é facto é que tanto Lovecraft como diversos dos seus seguidores mantiveram sempre o uso de adjectivação muito rica, o que se tornou uma característica distintiva dos contos dos Mitos. Em sua defesa Robert Price considera que estes adjectivos podem ter um efeito quase hipnótico no leitor, despertando a sua própria noção dos conceitos que encerram e inflamando a sua imaginação.

A morte de Lovecraft constituiu um choque para os elementos do Círculo, assim como uma surpresa, visto que este não lhes tinha dado qualquer indicação na sua correspondência de que estivesse doente. Este acontecimento causou uma quebra temporária no trabalho relacionado com os Mitos. Citando Robert Block, “o jogo tinha perdido toda a piada”. Nos anos 40 e 50, Robert Block, James Wade e August Derleth continuaram a escrever histórias dos Mitos. Em 1964 Ramsey Campbell, um jovem escritor britânico, dá a sua contribuição com o apoio de Derleth.Em 1971 ainda outro britânico, Brian Lumley, junta-se ao grupo. O Círculo de Lovecraft não morrera verdadeiramente com Lovecraft, subsistindo de uma forma dispersa até aos dias de hoje.

Lovecraft na Actualidade

“That is not dead which can eternal lie,
And with strange aeons death may die.”

-Necronomicon

Muitos escritores de ficção e terror da actualidade sofrem a influência de Lovecraft, como assume o conhecido autor Stephen King. Sendo hoje considerado um marco da literatura norte-americana, Lovecraft não conheceu qualquer sucesso no seu tempo de vida, e muito pouco nos anos seguintes. August Derleth esforçou-se até muito tempo depois da sua morte por divulgar a sua obra, com algum êxito. Não foi no entanto pela via literária que alcançou a notoriedade de que goza hoje em dia.

No início dos anos 80 apareceu um jogo de personagem (no estilo de Dungeons&Dragons), criado por Sandy Peterson e intitulado “Call of Cthulhu”. Indo buscar o nome a um dos contos mais famosos de Lovecraft, Call of Cthulhu obteve grande popularidade nos Estados Unidos, e mais tarde na França, na Inglaterra e em outros países da Europa. Este estilo de jogo, que é praticamente desconhecido em Portugal, goza de grande popularidade nos Estados Unidos.

Nas décadas de 50 e 60 foram feitas algumas versões cinematográficas de contos de Lovecraft, como “The Strange Case of Charles Dexter Ward” e “Herbert West – The Reanimator”. Não existe, no entanto, nenhuma adaptação mais recente, exceptuando eventualmente o filme “At the Mouth of Madness”. Este filme inspira-se claramente no trabalho de Lovecraft, sendo até a semelhança do seu título com “At the Mountains of Madness” disto indicadora, mas não assume essa influência.

Mais recentemente surgiram alguns jogos de computadores baseados nos Mitos de Cthulhu, como “Alone In The Dark”, “Shadow of the Comet” e “Prisioner of Ice”. Apareceu até um jogo de cartas intitulado “Mythos”. A empresa de entretenimento “Chaosium” está envolvida em quase todas estas iniciativas, incluindo o já mencionado Call of Cthulhu.

Existem três traduções de trabalhos de Lovecraft para português: “O Caso de Charles Dexter Ward” – “The Strange Case of Charles Dexter Ward”, “Nas Montanhas da Loucura” – “At the Mountains of Madness” e “Os Demónios de Randolph Carter”. Esta última é uma compilação de várias histórias do ciclo das Dreamlands, nomeadamente “The Quest for the Unknown Kadath”. Aconselha-se no entanto a leitura das versões em inglês, uma vez que como é normal, as traduções limitam bastante a riqueza inicial dos textos.

Bibliografia

Lovecraft, H. P., “At the Mountains of Madness”, Harper Collins, 1994

Lovecraft, H. P., “Dagon and Other Macabre Tales”, Harper Collins, 1994

Lovecraft, H. P., “The Haunter of the Dark and Other Tales”, Harper Collins, 1994

Petersen, S. e Willis, L., “Call of Cthulhu – horror roleplaying in the worlds of H. P. Lovecraft”, Chaosium, 1995

Bloch, R., “Mysteris of the Worm”, Chaosium, 1995

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/howard-phillips-lovecraf-e-os-mitos-de-cthulhu/

Referências Ocultistas em Promethea

O Alan Moore é um gênio. E Promethea é uma de suas obras primas, com referências muito mais complexas do que Watchmen ou mesmo a Liga Extraordinária.

Recentemente, comentei sobre uma sequencia de páginas de Promethea referentes a Daath e o pessoal me pediu para escrever sobre toda a série. Nesta série de posts, que começará no Sedentário e continuará no Teoria da Conspiração, tentarei comentar sobre as referências ocultistas que ele utilizou enquanto escrevia Promethea.

Não será um trabalho simples. Ao longo de 32 edições (que por si só já foi uma escolha pensada, visto que a Árvore da Vida possui 32 Paths (entre 10 Esferas e 22 Caminhos) que relacionam praticamente todos os Sistemas magísticos e filosóficos que existem.
A primeira HQ, “The Radiant Heavenly City”, traz na capa Promethea desenhada por ninguém menos do que Alex Ross, em um estilo egipcio, mas a própria capa já traz dentro de si algumas surpresas e referências:

O Nome “The Radiant Heavenly City” é uma referência bíblica; Apocalipse 22,14 “Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos, para que tenham direito à árvore da vida, e possam entrar na Cidade Celestial pelas portas.”. A Cidade Celestial mencionada é o Paraíso que os crentes pensam que é de verdade e os ateus pensam que é de mentira mas, na realidade, é apenas simbólica para representar Kether, o Universo e a origem de todas as idéias. A Árvore da Vida é uma estrutura simbólica que representa todos os níveis de consciência humanos, de Malkuth (a pedra bruta) a Kether (o todo).

“Se Ela não existisse, nós teríamos de inventá-la” é uma referência ao maçon Voltaire, que disse “Se deus não existisse, nós teríamos de inventá-lo“.

E finalmente, o conjunto de imagens à direita de Promethea não são apenas desenhos aleatórios: são hieróglifos egipcios e símbolos esotéricos que contam uma história: O Sol (que acompanha Promethea durante sua jornada – o iniciado, iluminado); Ibis (que representa o Pai); O Por do Sol (que representa o fim de um período ou era); o Labirinto (que representa a jornada); O capacete (representando as muralhas de tróia, o conflito e a guerra); As águas e o olho (o despertar da consciência e a pesquisa – a protagonista entra na Jornada do Herói fazendo uma pesquisa a respeito de Promethea); os dois ankhs (herança – promethea é filha do sábio que morre no início da HQ), o escaravelho (renascimento de Promethea) e o Alef (o Começo)… em resumo para quem não leu: Alan Moore conta a história da primeira HQ em hieroglifos!

No Lado esquerdo, os hieroglifos representam as águas (consciência, emoções), a serpente e os dois lados da árvore da Vida (A via úmida e a via Seca dos alquimistas), a pena de Maat queimada (a incompletude), o abismo (a separação entre o reino material e o das idéias) a Lira e louros (representando a poesia e poetas), o Ankh (o domínio da árvore, a própria Promethea) e finalmente Hórus, filho do Sol. Novamente, para quem não leu, spoilers: Alan Moore explica que a idéia de Promethea e a escalada até a iluminação não pode ser destruída, permanecendo dormente até cruzar novamente o abismo através da poesia (ou textos).

O caduceu e as duas vias de subida na Árvore da Vida são representadas no bastão que Promethea segura. A palavra “Promethea” vem de Prometeus, o titã que roubou o fogo dos deuses para trazer aos mortais e, por causa, disso foi punido e condenado a permanecer acorrentado a uma rocha pela eternidade, com uma águia comendo seu fígado, que renascia a cada novo dia. Tal qual os símbolos, cujos significados atravessam o tempo e as culturas.

e acabamos a CAPA… faltam 32 paginas. Agora vocês têm uma idéia do porquê o Alan Moore é foda!

Alexandria 411 DC – Ano em que Santo Agostinho faz o discurso sobre “A imutabilidade de Deus é percebida através da mutabilidade de suas criações”. O mesmo tema de Promethea, já que estamos falando de idéias e formas mutáveis. Voce pode conferir este discurso no site do Vaticano. Obviamente a escolha da data não é uma coincidência.

O pai de Promethea está terminando traduções do egipcio para o grego (note as estátuas de Hermes e Toth sobre a mesa, representando o mesmo deus na cultura grega e egípcia) quando é abordado pelos fanáticos cristãos malucos. Ele possui o dom da profecia, não apenas avisando Promethea sobre seu reencontro (que só vai acontecer lá pela edição 19) mas também falando as frases dos cristãos antes deles próprios, demonstrando que já sabia seu destino e o aceitava (se ele previa o futuro, poderia ter fugido, mas não o fez, e estava sorrindo quando o mataram). Note as imagens do Sol nos cantos dos quadrinhos, desenhados como se estivesse pondo. A partir do começo da história, o Sol é retratado de uma forma moderna, mas DE OLHOS FECHADOS no presente, até o final do capítulo, quando o sol moderno abre os olhos ao renascimento de Promethea.

Na página 20-21, Promethea conversa pela primeira vez com Toth-Hermes. Ambos conversam com ela como se fossem uma única pessoa e explicam o que Moore chamou de Immateria, ou o que os cabalistas conhecem como Ruach, o Mundo das Idéias e Emoções. Ali, todas as histórias possuem vida e podem acessar nosso mundo de tempos em tempos. Carl Jung chamou este estado de consciência de Inconsciente Coletivo e Richard Dawkins chamou estas “idéias vivas” de Memeplexes.

Na página 22 é mostrado um Centauro como sendo o tutor de Promethea. Centauros são construções imagéticas que representam o signo de Sagitário. Sagitário, ou Fogo Mutável, é a essência espiritual/filosófica manifestada no estado mental; é o processo de síntese: de reunir várias teorias e configurá-las em uma tese, como uma espiral.
No arquétipo grego, este período de tempo no qual estas energias estavam mais manifestas coincidia com a fase próxima ao inverno, quando eram valorizados os caçadores e os cavalos (a caça era necessária para obter carne e peles para o inverno e o cavalo para percorrer estas distâncias), daí a fusão de cavalo + cavaleiro em uma única figura, que absorvia o arquétipo de acadêmico e se tornava Quíron, o professor de Herakles (o Sol, filho de Deus com uma humana, Jesus, o Iniciado).

Na última página, uma referência o Arcano do Mundo, do tarot. Moore coloca como símbolos dos quatro elementos o Escaravelho (Terra), os Louros (Fogo), o pássaro/Toth (Água) e o Homem/Hermes (Ar).
Esta representação iconográfica acaba confundindo um pouco os iniciantes, porque aparentemente o pássaro deveria representar o Ar, mas a razão para isso é astronômica. Quando os primeiros zodíacos foram criados na Babilônia, o posicionamento das constelações no céu era diferente do que está ai hoje e a que ocupava o correspondente às emoções era a Constelação de Aquila (daí a imagem da Águia Dourada estar associada à Coragem) e o Ar é a constelação de Aquadeiro (era representado por um homem carregando uma jarra de água, o que causa confusão nos esquisotéricos com o nome Aquário e a correlação com o elemento AR). Constelações e os Signos nunca tiveram nada a ver um com o outro, ao contrário do que a Veja e os leigos astrônomos afirmaram recentemente.

#AlanMoore

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/refer%C3%AAncias-ocultistas-em-promethea

Magia na corte da Rainha Elizabeth

O presente estudo é destinado a estudantes aos adeptos do chamado Sistema Enoquiano de Magia e aos pesquisadores da história do ocultismo em geral. Faz-se aqui um apanhado da corte Elizabetâna e sobre como o ocultismo floresceu durante o reinado da Rainha Virgem. O mérito da biografia aprofundade de John Dee e Edward Kelley será deixado para uma outra oportunidade visto que a compreensão do background histórico onde atuaram trata-se de um conhecimento mais básico e necessário num primeiro momento.

A Dinastia Tudor

O Rei Henrique VIII, como todo rei, desejava um filho homem para se tornar o herdeiro do trono da Inglaterra. A então Rainha Catherine de Aragão, que havia lhe dado uma filha, Mary, foi substituída por Anne Boleyn na esperança de com ela conseguir o filho que Catherine não lhe deu, mas em setembro de 1533, no Palácio Greenwich suas esperanças vão por água a baixo: nasce sua segunda filha, Elizabeth. Anne chegou a ter um filho homem, mas natimorto. Henrique, cansado já da rainha, começou a planejar sua queda e em 1536, antes de Elizabeth completar três anos de idade, a rainha, acusada de incesto, é decapitada.

Por ser uma lembrança constante da mãe, Elizabeth é afastada da corte. Henrique se casa novamente com Jane Seymour que dá a luz ao tão esperado filho, Edward (que viria a se tornar Edward VI), morrendo logo depois.

A última madrasta de Elizabeth foi Katherine Parr, a sexta esposa de Henrique VIII, foi a responsável por trazer de volta à corte inglesa Elizabeth e sua meio-irmã Mary. Henrique morre em 1547 mas seu filho Edward ainda era muito jovem para assumir a coroa, então Edward Seymor (irmão da Rainha e tio do jovem herdeiro) se torna Senhor Protetor da Inglaterra. A Rainha Katherine estava grávida de seu novo marido, Lorde Almirante Thomas Seymor, e morreu um tempo depois de dar a luz a uma filha.

O jovem Edward nunca foi uma criança saudável e caiu vítima de uma doença desconhecida na época, que hoje se supõe ter sido tuberculose. Quando se tornou aparente que Edward estava prestes a morrer sem deixar um herdeiro, a luta pela coroa teve início.

Quando Edward morreu em 1553 Jane foi proclamada Rainha por seu pai e por seu sogro que a apoiaram com a ajuda do exércio; entretanto haviam muitos outros que apoiavam Mary, a filha de henrique VIII e Katherine de Aragão sua primeira esposa, e desejavam que ela subisse ao trono. Nove dias após a posse da Rainha Jane, Mary foi para Londres levando Elizabeth com ela. Jane Grey e seu marido foram aprisionados na Torre.

Logo após se tornar Rainha, Mary se casou com o príncipe Felipe da Espanha, o que a tornou muito impopular. Mary era católica e todos os Protestantes que começaram a ser perseguidos começaram a enxergar em Elizabeth sua salvadora. Ela era um ícone da “Nova Fé”, já que foi para se casar com sua mãe que Henrique enfrentou Roma e transformou o Protestantismo na religião oficial do reino. Por causa disso inúmeras rebeliões e levantes foram realizados em nome de Elizabeth.

A Rainha Mary morreu em novembro de 1558, acredita-se hoje, por causa de um enorme cisto no ovário. Elizabeth finalmente se tornou rainha da Inglaterra.

Elizabeth nunca se casou. Os últimos anos de seu reinado ficaram conhecidos como a Era de Ouro da Inglaterra. Após sua morte em março de 1603 foi sucedida por James I (James VI da Escócia), o filho de sua prima Mary, Rainha da Escócia.

A Igreja da Inglaterra Elisabetana

Antes de Henrique VIII se desentender com o Papa e estabelecer a Igreja da Inglaterra, o seu país foi durante séculos um país Católico. O próprio Henrique VIII, antes de enfrentar Roma para anular seu primeiro casamento, era um fiel Católico e ganhou o título de “Defensor da Fé” após escrever um tratado contra a nova religião protestante.

Quando ficou claro para o Rei que ele não teria um filho com Catherine de Aragão ele decidiu que anularia seu casamento com ela e arranjaria outra esposa. Catherine não concordou com a anulação dizendo que era esposa legítima do Rei, na época existiam poucos recursos para terminar um casamento, a anulação era o reconhecimento de que nem o Rei nem a Rainha haviam sido realmente casados, as únicas circunstâncias que permitiam a anulação eram: se um ou ambos os cônjuges tivessem sido muito jovens para se casar ou que a cerimonia não houvesse sido conduzida corretamente ou ainda se o casal tivesse laços sanguineos.

Henrique usou o fato de Catherine ter sido esposa de seu irmão para fazer uma apelação para o Papa com base na relação sanguínea de ambos mas não obteve a resposta que desejava. Catherine era a sobrinha do grande Imperador Charles V, o homem mais influente da Europa, e sabendo das convicções dela o Papa não ousou ofendê-la. Durante anos Henrique tentou conseguir a anulação, mas o Papa foi irredutível, o Rei decidiu então que para se casar novamente com outra mulher ele teria que buscar outra maneira de anular o casamento, e essa maneira foi o estabelecimento da Igreja da Inglaterra, totalmente independente do poder Papal. Como Protestantes não reconheciam o poder do Papa, Henrique, como Rei, poderia moldar a igreja de acordo com sua vontade. Ele se tornou “Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra” e assim conseguiu anular seu casamento.

Como chefe da Igreja ele se tornou responsável pelos Arquebispos, Bispos e todo clérigo que a Igreja da Inglaterra ainda possuía. Por um lado a nova Igreja Inglesa era muito similar à velha Igreja Católica, por ter sido criado como Católico realizou muito poucas mudanças nas crenças religiosas; mas por outro lado a mudança da religião na Inglaterra causou enormes repercussões através do país.

O filho tão esperado de Henrique VIII morreu com 16 anos deixando o trono para sua filha mais velha, Mary. Mary era uma Católica devota e estava determinada a reestabelecer a sua fé na Inglaterra.

Muitas pessoas estavam desconfortáveis com os planos da nova Rainha, tendo ganho riquezas e terras com as dissoluções de conventos e monastérios temiam perder tudo o que tinham. Também a fé Protestante havia secularizado certos aspectos da política local e os oficiais não tinham nenhum interesse em perder sua influência e prestígio para a Igreja Romana. Entretanto a maior parte da população inglesa ainda era Católica e havia muito entusiasmo na restauração de sua antiga fé.

Teve então início a perseguição aos Protestantes. Mary substituiu o clero Protestante por um Católico, prendendo vários Protestantes proeminentes como Cranmer, Latimer e Ridley. O Parlamento de 1553 repugnou a maior parte das legislações Protestantes, o Ato de Supremacia de 1554 devolveu o país à obediência Papal. Em 1555 aqueles que se recusavam a aderir ao Catolicismo eram queimados como hereges, mais de 300 pessoas foram queimadas entre 1555 e 1558. Nesta época Mary de tornou uma figura extremamente impopular, muitas pessoas se horrorizavam com a violência da perseguição, ninguém era poupado, mulheres grávidas eram queimadas até a morte, enquanto Elizabeth foi se tornando cada vez mais admirada, como mostra um poema dedicado a ela:

“When these with violence were burnt to death,
We prayed to God for our Elizabeth””Quando violentamente eram queimados até a morte,
Nós rezávamos para Deus por nossa elizabeth”

Quando Elizabeth se tornou Rainha em novembro de 1558 todos achavam que ela fosse restaurar a fé Protestante na Inglaterra, a perseguição feita por Mary havia maculado o Catolicismo existente no país e a população Protestante crescia a cada dia. Mesmo tendo aderido à fé Católica durante o reinado de sua irmã, Elizabeth teve uma criação Protestante e se mostrou incrivelmente tolerante dizendo que acreditava que tanto os Católicos quanto os Protestantes faziam parte da mesma fé: “Existe apenas um Cristo, Jesus, uma fé.” Durante seu reinado sua principal preocupação foi a de manter a paz e a estabilidade do reino e perseguição só era usada quando certos grupos religiosos ameaçavam essa paz. Elizabeth desejava uma igreja que tivesse apelo para ambos os grupos e não tinha planos de tornar a igreja mais ou menos Protestante desfavorecendo um grupo ou outro, ela queria uma igreja popular e se o Catolicismo fosse se extinguir na Inglaterra que fosse de forma natural conforme o povo fosse se convertendo.

Elizabeth tinha capelas particulares em quase todos os seus palácios e rezava nelas todos os dias, em sua visão ela era o veículo de Deus na terra e rezava para que a Vontade Divina se revelasse para que pudesse levá-la a diante.

Não existem evidências concretas de suas crenças pessoais mas podemos observar alguns detalhes em suas atitudes e gestos: suas capelas eram conservadoras, todas possuíam crucifixos, ela também gostava de velas e música. Ela não gostava dos longos sermões Protestantes assim como não gostava de vários rituais Católicos como a comunhão, o que mostrava que ela rejeitava a crença Católica da transubstanciação. Ela também não aprovava o casamento dentro do clero, um aspecto integral do protestantismo. Uma indicação mais pessoal de suas crenças podem ser encontradas nas orações que escrevia para o povo e nas cartas que escrevia para amigos e conhecidos, nessas cartas era comum se referir a Deus e à necessidade de aceitar Sua Vontade.

Após sua morte em 1603 a Inglaterra era um pais de maioria dominante Protestante, os Católicos se tonaram a grande minoria.

A Ciência e a Magia Elizabetâna

A Rainha Elizabeth herdou um reino despedaçado: discordância entre Católicos e Protestantes abalavam as bases da sociedade, o tesouro real, graças à Rainha Mary e a seus conselheiros, havia sido gasto completamente, Mary ainda contribuiu para a falência da Inglaterra com a perda de Calais, o último território Inglês no continente. Além do descontentamento por parte do povo (principalmente os Católicos) havia problemas envolvendo a Europa. A França possuia um controle forte na Escócia e a Espanha, a mais forte nação da época, era uma ameaça para a segurança inglesa. Mas a nova Rainha provou ser mestre nas ciências políticas, empregando homens capazes e distintos para levar adiante as prerrogativas reais.

O Reinado Elizabetano foi um dos períodos mais construtivos na história da Inglaterra. A literatura florescia através dos trabalhos de Spenser, Marlowe e Shakespeare. A influência inglesa se espalhou pelo Novo Mundo através de Francis Drake e Walter Raleigh.

Antes do século XVII, que estabeleceu a visão científica moderna do mundo, a relação entre magia e ciência era muito diferente da que temos hoje, elas se complementavam e nem sempre era possível dizer onde uma terminava e a outra começava. Astrologia e Alquimia eram disciplinas muito respeitadas, e a Rainha Elizabeth possuia ocultistas iniciados entre seus conselheiros, ela havia sido avisada da data de sua coroação por astrólogos e seu respeito pela arte era tamanho que chegava a impedir que navios partissem dos portos até que as influências astrológicas fossem favoráveis.

Mantendo em mente que a palavra ciência, que significa literalmente conhecimento só começou a ser usada popularmente como nós a conhecemos após o século XIX. Na época existia a divisão entre magia e a filosofia natural, a magia ainda era dividida em natural e sobrenatural.

A magia natural não precisava de nenhum auxílio sobrenatural para acontecer, ela era compreendida como uma sabedoria natural porém oculta, enquanto a Filosofia Natural (a ciência) lidava com aquilo que era evidente para os sentidos a Magia Natural lidava com aquilo que estava distante da vista do homem comum, com aquilo que era “escondido”.

O magnetismo era considerado um fenômeno oculto, forças magnéticas eram consideradas como “laços simpáticos” existentes entre objetos magnéticos, uma harmonia que não podia ser vista, e a crença era a de que existiam muito mais dessas forças ocultas, o trabalho do mago era descobri-las. Existia uma ênfase na idéia de que Deus havia criado o mundo usando essas forças e harmonias naturais, o homem era um micro cosmo vivendo em um macro cosmo e haviam inúmeras relações interessantes entre o micro e o macro cosmo. Era através da Vontade Divina e da interpretação dos desígnios divinos que era possível encontrar esses laços harmônicos.

E claro havia a magia sobrenatural, onde o mago lidava com eventos que não faziam parte da natureza. Praticantes usavam feitiços para evocar espíritos, demônios e anjos. O mago John Dee se tornou famoso por suas conversações com anjos. Hoje se acredita que na época existiu uma “rede” de comunicação entre magos, cientistas e ocultistas que se correspondiam como Nostradamus, Agrippa von Nettesheim, o próprio Dee, Giordano Bruno e Paracelso entre outros, trocando experiências e “segredos científicos” adquiridos em peregrinações.

Rev. Obito, Templo de Satã

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/magia-na-corte-da-rainha-elizabeth/

As lições da ciência

Quando eu debatia em comunidades online onde haviam embates homéricos entre céticos e espiritualistas, acabava por confundir a ambos quando tocava em assuntos científicos. Para os últimos, a ciência geralmente não despertava muito interesse, pois raramente a analisavam sob o ponto de vista espiritual; Para os primeiros, era tão estranho que um espiritualista estivesse citando Carl Sagan e Richard Feynman, que alguns pensavam se tratar de um cientista “brincando” de ser espiritualista – um “místico fake”. Obviamente, eles estavam mesmo confusos…

Podem nunca haver lhe contado na escola, mas nem sempre a espiritualidade esteve dissociada da ciência. Porém, nesta ciência de hoje, interpretada apenas como um conhecimento estritamente objetivo da realidade detectável, apenas um método sem nenhuma relação com qualquer espécie de ideologia ou filosofia, restou muito pouco da ciência antiga, a filosofia da Natureza, o conhecimento da physis.

Os sábios antigos chamavam Natureza à realidade primeira e fundamental de todas as coisas, a essência em torno da qual gira tudo o que é transitório: “A noite segue o dia. As estações do ano sucedem-se uma à outra. As plantas e os animais nascem, crescem e morrem. Diante desse espetáculo cotidiano da natureza, o homem manifesta sentimentos variados – medo, resignação, incompreensão, admiração e perplexidade. E são precisamente esses sentimentos que acabam por levá-lo à filosofia. O espanto inicial traduz-se em perguntas intrigantes: O que é essa physis, que apresenta tantas variações? Ela possui uma ordem ou é um caos sem nexo?”.

Eis que os cientistas nem sempre foram chamados de doutores. Também já atenderam por naturalistas, filósofos, sábios, alquimistas, astrólogos, druidas, ocultistas, etc. Portanto, imaginar que a vivência da ciência moderna deveria estar totalmente desconexa da espiritualidade é, antes de tudo, uma ignorância da história do pensamento humano. Uma ignorância de tantos e tantos que vieram antes de nós, e fizeram as mesmas perguntas ao céu noturno salpicado de estrelas. E, como o Cosmos não respondeu de volta tal qual um deus lendário, foram obrigados a arregaçar suas mangas e buscar pelas respostas eles mesmos. É precisamente da atitude desses cientistas – os de outrora e os de hoje – que podemos tirar preciosas lições:

A Natureza fala por si

Talvez a qualidade mais notável de todo verdadeiro cientista seja esse tal contentamento, esta real aceitação, este estoicismo perante o que a physis realmente é, e não o que gostaríamos que fosse. Feynman dizia que a imaginação da Natureza é muito, muito maior do que a nossa: ela jamais nos deixará relaxar. Sempre haverá, para o real buscador, mais uma galáxia oculta atrás de um grande conglomerado, mais uma partícula oculta nalgum nível de energia ainda indetectável pelo nosso mais avançado instrumento, mais uma lei natural oculta de nossa mais simples e elegante equação, mais um tanto do Cosmos que jamais alcançamos com nossa luz: não fomos capazes de ver sua escuridão antes que a luz fosse acesa.

Nós podemos estar errados

Outra lição é esta, tão simples, e tão essencial: podemos, sim, estar errados, e geralmente estamos. Os atomistas acreditavam que a matéria era feita de pequenas partes dos elementos que sustentavam todo o Cosmos – Hoje sabemos que átomos e quarks não são formados pelo fogo, ou a água, ou a terra, ou o ar [1]… Mas foram dos erros passados que vieram novos acertos; acertos esses que podem também se comprovar como erros no futuro. O que importa, portanto, é que hoje conhecemos um pouco mais da physis do que ontem, e amanhã conheceremos ainda um pouco mais do que hoje. Mas, decerto não existe um conhecimento infalível, uma verdade derradeira, ou pelo menos ainda estamos num nível de consciência muito distante dela. Admitir que podemos estar errados é o melhor caminho para que prossigamos adiante no fluxo deste rio sagrado, sem jamais ficarmos uma vez mais aprisionados, represados pelo dogma.

O conhecimento é uma conquista

Ainda que a Verdade pudesse realmente nos ser revelada em antigos livros escritos sob inspiração divina, não significa que tivemos a capacidade de interpretá-la. Ainda que a inspiração tenha sido uma ponte direta para os segredos mais ocultos do Cosmos, e ainda que a informação escrita tenha passada ilesa por séculos de guerras de interesses e traduções de cada época, ainda assim tudo o que temos são palavras, linguagem, símbolos de gramática que já provaram serem incapazes de traduzir tudo o que é sentido e experimentado em uma verdadeira experiência mística – por isso muitos grandes sábios jamais escreveram coisa alguma, pois eles sabiam que cascas de sentimento não fariam jus à sacralidade da experiência.

O conhecimento, portanto, é e sempre foi uma conquista. E muitos cientistas têm nos auxiliado em conhecer a physis de fora, mas nenhum, absolutamente nenhum deles, poderá realizar por nós uma conquista que foi profetizada e ofertada pelo próprio Deus: mergulhar em si mesma, isto apenas a própria alma poderá realizar.

De pé sobre o ombro de gigantes

Foi o próprio Isaac Newton quem confessou que se havia visto mais longe do que os demais, foi por ter estado em pé sobre o ombro dos gigantes de outrora. A beleza da ciência é que, desde que não tenha sido queimado por bárbaros ou eclesiásticos coléricos, seu conhecimento armazenado, em livros e outros artefatos, por toda a história da humanidade, está ainda situado nos alicerces da torre pela qual podemos observar o Cosmos cada vez mais de perto… Ao contrário do que disseram os supersticiosos, nenhum deus raivoso desceu dos céus para nos punir por nossa ousadia: continuaremos a construir torres de Babel e abrir tantas quantas foram às caixas de Pandora encontradas. Foi graças a Prometeu, que roubou o fogo dos deuses, que chegamos onde chegamos: ele foi apenas o primeiro gigante, o primeiro titã.

Mas, ao contrário do que o mito possa te levar a pensar, os deuses não se chatearam conosco – aquilo foi pura encenação. Puro teatro, para que pudéssemos assim, uns auxiliando aos outros, numa colaboração digna dos maiores exércitos do Céu, marchar para cada vez mais perto da montanha sagrada… E, quando lá chegarmos, quem sabe não possamos acender a pira do salão de Zeus, e realizarmos por lá uma grande festa – na qual mesmo os gigantes estarão convidados.

Não há elite

Na ciência genuína, todos tem a oportunidade de colaborar: não importa onde nasceram, sua cor de pele, seu sexo – desde que possam pensar, podem auxiliar nossa ciência.

Apesar de ainda haverem os “donos da verdade”, aqueles ignorantes que pensam poder determinar quem pode ou não pode falar em nome da ciência, a verdade é que não há elite na physis: assim como somente os peixes podem nos falar do mar profundo, somente os pássaros podem nos falar do céu, e os morcegos da escuridão das cavernas. Apenas assim, juntos, podemos ter alguma esperança de conhecer a Natureza sob todos os pontos de vista.

Até onde a luz pode chegar

Muitas das ideias mais místicas que fomos capazes de um dia conceber hoje estão sendo melhor desenvolvidas, e comprovadas, na cosmologia, e não mais na religião. Sabemos hoje que tudo o que há neste universo surgiu de uma singularidade, um ponto, um grão de milho que, nos primeiros momentos, englobava todo o espaço-tempo – e não havia nada “do lado de fora”, pois o tecido do espaço-tempo é tudo o que há. Sabemos também que a velocidade da luz tem um limite, e que provavelmente nada no universo o possa ultrapassar… Há não ser o próprio tecido espaço-temporal, em seu berço de crescimento inflacionário, quando venceu a própria luz. Eis que, dessa forma, existem espaços deste universo que jamais poderão ser conhecidos, espaços onde nenhuma luz poderá um dia sair, ou chegar. Essa ideia de Infinito é suficientemente mística para você?

Poeira de estrelas

Ao observar o pequenino e pálido ponto azul, flutuando numa nuvem de gás sideral, parte de uma das fotos da sonda espacial Voyager I, Carl Sagan prontamente identificou: aquele ponto era a Terra, toda a Terra! Mas, a despeito da beleza de suas reflexões acerca desta imagem, há ainda algo mais belo e profundo sobre o que pensar: não apenas nosso planeta é apenas um grão de poeira na Via Láctea, nós mesmos somos formados por elementos pesados que só podem ser gerados nas fornalhas estelares. Nós somos, realmente, não somente os filhos das estrelas – nós somos formados por partes delas.

Atomicamente, somos formados pela mesma divina poeira que forma todas as outras substâncias cósmicas. Mergulhada no oceano, toda poeira é também uma parte do mar…

Conhecer a si mesmo

E foi exatamente aqui, este pequeno ponto azul em meio a escuridão infindável do oceano da noite, que despertamos pela primeira vez e dissemos: “nós aqui também existimos, também somos da raça dos deuses!”.

Não se sabe se existem outros como nós, mas provavelmente existem, e aos montes… Seja neste pequeno planeta, ou na infinidade de moradas da casa cósmica, nós parecemos ser um espécie de imagem espelhada, de semelhança, uma forma do Cosmos conhecer a si mesmo.

E, nesta tal aventura do conhecimento, nesta tal jornada para sondarmos a inconcebível natureza da Natureza, podemos navegar tanto acima quanto abaixo – tanto faz, uma parte é apenas o espelho da outra.

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[1] Pelo menos não da forma literal como tais elementos são compreendidos. Como símbolos, no entanto, foram, e ainda são, poderosos aliados para nossa compreensão da physis.

Crédito das imagens: [topo] APOD (telescópios em Atacama/Chile); [ao longo] APOD (lua cheia em Paris/França)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Ciência #Espiritualidade #natureza

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Adam Kadmon – O Mundo Primordial

Por Moshe Miller

Caos e o Primordial – Um nível tão sublime que é quase imperceptível.

O mais alto, ou mais exaltado, dos cinco mundos é chamado Adam Kadmon. Adam significa “à semelhança de” ou “à imagem de”, da palavra hebraica domeh. Kadmon significa “primordial”, ou “primário”, da raiz hebraica kadam. Assim, Adam Kadmon é o mundo primordial que é “à semelhança” da Luz Infinita que o precedeu e que foi ocultada no processo de criação. Isso significa que, embora Adam Kadmon seja um mundo, o que significa que ele surge através da ocultação da Luz Infinita, é um plano de realidade tão elevado que é “à semelhança” da Luz Infinita (que, por natureza, , “precede” o mundo de Adam Kadmon).

Assim, embora o mundo de Adam Kadmon seja um mundo, é um nível tão sublime, puro e transcendente que é quase imperceptível. Ele se apega e espelha a Luz Infinita original.

Na Cabalá, o mundo de Adam Kadmon representa a vontade transcendente de D’us. O desejo de D’us pela Criação e como ele se manifesta são planejados em uma visão ampla e abrangente, sem separação em detalhes específicos. Isso é chamado de machshava kedumah, ou “pensamento primordial” de Adam Kadmon. O pensamento primordial funciona como o modelo para toda a Criação.

No mundo de Adam Kadmon tudo é visto em uma ampla visão geral, mas os detalhes exatos ainda não estão separados e ordenados nas categorias da realidade. Todos os detalhes da Criação, do início do espaço ao fim do espaço e do início do tempo ao fim do tempo, estão todos sobrepostos neste único pensamento, pois, em Adam Kadmon, não há conceito de espaço e tempo. de jeito nenhum. Ainda não há dentro nem fora, nem sobe nem desce, nem antes nem depois. Há apenas um potencial para essas limitações. Tudo é indefinido, unificado e simultâneo. Aqui reside a raiz e a fonte de todos os outros planos de realidade, que descendem de Adam Kadmon.

É claro que os níveis sucessivos da Criação, ou seja, a série de mundos que descendem de Adam Kadmon, particularmente o mundo inferior, não podem existir dentro dos parâmetros da existência de Adam Kadmon. Tudo em Adam Kadmon é indefinido, unificado e simultâneo, superposto em um único pensamento primordial, que contraria a própria ideia de mundos no sentido que os entendemos, como ser limitado que pressupõe separação e divisão. Subjetivamente, em termos de nossa consciência de D’us, o mundo de Adam Kadmon é paralelo à mais alta fonte de consciência no homem. É a consciência da unidade total com a Luz Infinita.

O primeiro passo para trazer a separação e divisão necessária para criar os mundos inferiores é “quebrar” a unidade da luz como é em Adam Kadmon. À medida que a luz desce de Adam Kadmon, ela se divide em dez qualidades ou atributos individuais (sefirot, sefira no singular), que atuam como pontos de luz independentes e separados. Cada um desses pontos é uma concentração de luz extremamente poderosa que desce de Adam Kadmon. Estas são chamadas de sefirot de Tohu, que significa “caos” ou “desordem”. O mundo de Tohu não está incluído no esquema dos cinco mundos mencionados anteriormente, em virtude do fato de que se despedaçou e não existe como um plano estável de realidade.

As Sefirot de Tohu:

Será explicado mais tarde que as sefirot geralmente constituem a estrutura interna de cada um dos mundos, um pouco como os ossos dão forma e forma ao corpo; no entanto, em Tohu (“caos” em hebraico) isso é precisamente o que está ausente. As sefirot de Tohu são absolutamente independentes umas das outras e não formam inter-relações entre si. Assim, não há ordem nem estrutura. Além disso, cada sefirá em Tohu é a manifestação de apenas um aspecto absoluto e quintessencial da luz de Adam Kadmon e, portanto, não interage com as outras sefirot, pois não têm nada em comum.

Uma consequência dessa falta de interação é que nenhuma das sefirot de Tohu é capaz de limitar a atividade e expansão de qualquer uma das outras sefirot a um nível em que todas as sefirot possam funcionar juntas. Portanto, nenhuma das sefirot pode suportar a atividade de qualquer uma das outras sefirot. Isso resulta na desintegração, ou “quebra” das sefirot de Tohu.

As Escrituras sugerem esse processo ao descrever os reis sucessivos de Edom:

“Estes são os reis que governaram na terra de Edom antes de qualquer rei governar os israelitas [representando a retificação de Tohu como será explicado em breve]. Bela filho de Beor tornou-se rei … morreu e foi sucedido como rei por Yoav … Yoav morreu , e ele foi sucedido como rei por Chusham….Chusham morreu, e ele foi sucedido…” (Gn 36:31-39)

O rabino Yitzchak Luria explica que isso se refere às sefirot de Tohu, cada uma das quais governa exclusivamente, e depois se despedaça e “morre”.

No entanto, a quebra das sefirot de Tohu não é coincidência, nem significa uma falha no processo criativo. Pelo contrário, serve a um propósito muito específico e importante: provocar um estado de separação ou divisão da luz em qualidades e atributos distintos e, assim, introduzir diversidade na criação. No entanto, porque o propósito final da criação não é permanecer em um estado de separação e diversidade, mas sim alcançar unidade e harmonia, a separação provocada pela quebra de Tohu é retificada em Tikun, significando “retificação”, “restituição”, ou “reforma”. Tikun significa a síntese e reunificação da diversidade e fragmentação introduzidas pela quebra dos vasos de Tohu. A natureza e as especificidades da retificação que ocorre em Tikun serão discutidas mais detalhadamente em outros textos.

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Fonte:

Chaos and the Primordial – A level so sublime that it is almost imperceptible, by Moshe Miller.

https://www.chabad.org/kabbalah/article_cdo/aid/431123/jewish/Chaos-and-the-Primordial.htm

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/adam-kadmon-o-mundo-primordial/

Charles Webster Leadbeater

Assim como Madame H. P. Blavatsky é tida como uma das maiores ocultistas do século XIX, Charles Webster Leadbeater é considerado um dos grandes ocultistas do século XX. Não apenas isso, mas para muitas pessoas ele é o autor responsável por tornar a obra de Blavatsky mais clara e compreensível. Quem quer que tenha tentado ler a Doutrina Secreta ou Ísis sem Véu sabe que as referências usadas e a cultura erudita de Blavatsky tornam sua leitura bastante dificil. Leadbeater por outro lado fornece um rosto simpático à teosofia com sua forma clara e didática de escrever. Mas esta é apenas uma de suas características.

Leadbeater nasceu em Stockport, Cheshire, Inglaterra em 1854, filho único de Charles e Emma. Aos sete anos sua família se mudou para Londres, onde seu pai trabalho como balconista ferroviário, vindo a falecer dois anos depois. O começo da vida de Leadbeter foi difícil não apenas por ser orfão, mas também porque o banco onde estavam as economias da família faliu deixando-os na pobreza completa. Sem dinheiro para os estudos Leadbeter começou a trabalhar bem cedo para prover o próprio sustento e o de sua mãe. De manhã prestava serviços clericais a Igreja Anglicana, e de tarde estudava por conta própria. Assim aprendeu Francês, Latim, Grego e em determinada altura da juventude comprou um telescópio para estudar astronomia. Seu tio  William Wolfe Capes, sacerdote da Igreja Anglicana influenciou Leadbeater a ser ordenado como padre em 1879 na cidade de Winchester. Em 1881 morava com sua mãe em Bramshott em uma choupana construída por seu tio e vivia como professor e ministro da Igreja.

Em meados da década de 1880 começou a ler e se interessar por espiritualismo e mediunidade, inicialmente por meio da obra de Daniel Dunglas Home. Ele entrou na Sociedade teosófica dia 21 de novembro de 1883 onde conquistou o afeto de  H. P. Blavatsky. Em uma cópia autografada pata Leadbeater de Voz e Silêncio, H.P.B. se refere a ele como “Meu sinceramente apreciado e amado irmão e amigo.” e em uma dedicatória de “A chave da Teosofia” ela escreve: “Ao meu velho e bem amado amigo.”. Estas pequenas notas servem para indicar a afeição de Blavatsky por Leadbeater e talvez seu conhecimento futuro sobre seu importante papel na socieadade que ela fundou seguindo a orientação dos Mestres. De fato em 1884 ambos viajaram juntos para a Índia.

Acesso aos Arquivos Akáshicos

A parte mais importante desta viagem é que nela Leadbeater foi treinado pelos Mestres por trás da Sociedade Teosófica para desenvolver suas habilidades em clarividência.  Por meio de um treinamento árduo que prosseguiu para o resto de sua vida ele passou a ter acesso aos arquivos akashicos, uma espécie de registro no próprio tecido da realidade descrito pela teosofia e tradições orientais como contendo toda experiência humana independente de tempo ou espaço. Os registros akashicos as vezes são descritos como “A Mente de Deus” outras como um supercomputador universal.  Interpretações a parte, o fato é que Leadbeater demonstrava um conhecimento do mundo de uma forma que poucos seres humanos poderiam igualar.

Este Conhecimento Direto mostrou-se tão espetacular que alguns de  seus discipulos o confundiam com Onisciência. Não era este o caso, Leadbeater em pessoa foi quem disse: “Não é porque eu digo que as coisas são assim que vocês devem acreditar; mas se vocês aceitá-las é porque as consideram razoáveis.” Mary Lutyens descreveu este tipo de conhecimento como “uma investigação oculta direta do cosmos, da aurora da humanidade e da constituição dos elementos assim como visitas frequêntes aos mestres por meio de seu corpo astral.” O resultado disso foram cerca de 50 livros escritos e diversos artigos publicados regularmente na revista “Theosophist”.

Conhecimentos a frente de sua época

Desde muito cedo os teosofistas perceberam que ficariam em grande débito com ele, pois se destacou como autor de livros inegavelmente lúcidos e compreensíveis do que os escritos sobre tais assuntos até então. Ele expôs a sabedoria antiga com uma linguagem clara, tornando-a menos misteriosa. Sua clareza foi inclusive responsável por torná-lo um alvo fácil dos detratores durante toda sua vida. Em seu livro “O Homem, de Onde e Como Veio e Para Onde Vai” ele previa por exemplo que, entre outras coisas, no futuro os jornais acabariam desparecendo e que seriam substituídos por “caixas” através das quais as notícias seriam lidas nas residências.

Outro exemplo ainda mais impactante pode ser lido em seu livro momunental “Química Oculta” com co-autoria de Annie Besant que foi amplamente criticado por cerca de 100 anos. Apenas hoje em, dia com a física de particulas começando a descobrir a validade de suas afirmações sobre a estrutura subatômica que ele começou a receber a devida atenção. Segundo alguns autores “Química Oculta” não apenas começou a ser respeitado, mas é , ele mesmo a origem ou “inspiração” de boa parte do conhecimento da química atual que a Ciência ordinária toma para sí. Sobre isso  o físico de particulas Stephen M. Phillips, Ph. D. declarou:

“Ter demonstrar conhecimento de alguns aspectos supra-sensorial do mundo que só agora são confirmados pelos avanços da ciência, muitos anos depois é, sem dúvida, o tipo mais convincente de percepção extra-sensorial. Isso porque esta circunstância não dá ao cético espaço para dúvida ou racionalização quanto as correlações entre os fatos científicos e as observações psíquicas tão numerosas e precisas ou para que considere a possibilidade como um mero golpe de sorte. O trabalho de Leadbeater é um exemplo raro deste tipo de percepção, como mostra as ostensivas, descrições paranormais de átomos e partículas subatômicas publicado há mais de um século e que acabaram por ser confirmada pelos fatos da física nuclear.”

Um de seus alunos, Geoffrey Hodson, comentou os ataques contra a “Química Oculta” de C. W. Leadbeater nos seguintes termos:

“Depois de H.P Blavatsky, dois grandes líderes A. Besant e C. W. Leadbeater, tem desempenhado um importante e nobre papel no processo de desvelar o oculto. O desprezo do mundo era inevitável. Nós os honramos como entre os maiores servidores da Irmandade. Seu azar não foi tanto os erros que cometeram quando as pessoas com quem eles estavam associados, e sobre quem parte do seus planos dependiam. Várias vezes  as canetas humanos – com a qual, em nome da Irmandade, eles tentaram escrever – quebrou como gravetos secos em suas mãos. Mas eles trabalharam incansavelmente, formando Centros ocultos nos modelos ancestrais e deram o melhor de si treinando quem podiam sentarem-se aos seus pés. O mundo ignorante, cego e cruel não reconhece a estatura daqueles que sobrepujava por tanto os grandes homens e mulheres de seu tempo…A dificuldade que os grande ocultistas do mundo devem enfrentar é que seus poderes reais não podem ser revelados. Suas faculdades iniciáticas só pode mostradas em seu trabalho e não em si mesmos. H.P.B. foi concedida a permissão, ou melhor a ordem, para usar suas habilidades para atrair as mentes humanas para a Teosofia e Sociedade Teosófica. Mas a variação na regra só foi um sucesso parcial e assim os seus sucessores escondem seus poderes e deixam o mundo interpretá-los mal quando muitas vezes por um simples ato de vontade eles poderiam alarmar seus críticos mais cruéis…. ”

Pederastia ou Educação Sexual?

Em 1906 Leadbeater enfrentou o momento mais problemático de sua vida ao ser acusado de pederastia, uma palavra que na época trazia a tona os mesmos sentimentos de revolta social que o que chamamos de pedofilia. A verdade é que o conhecimento claro do mundo que o rodeava colocou-o em conflito direto com uma sociedade sexualmente reprimida. Em seu livro sobre Krishnamurti,  Mary Lutyens se refere a este episódio:

Quando voltou para a Inglaterra em 1906, o filho de 14 anos do secretário da seção esotérica de Chicago confessou aos seus pais que Leadbeater o encorajava ao hábito da masturbação. Na mesma época o filho de outro oficial teosófico de Chicago fez a mesma acusação sem nunca ter tido contato com o primeiro garoto.  Foi criada uma comissão na seção Americana para avaliar o assunto, mas Leadbeater desvinculou-se da Sociedade Teosófica para, segundo “salva-la do embaraço.”

A verdade é que Leadbeater vivia na era Vitoriana, mas ainda assim mostrava uma lucidez que só hoje em dia pode ser apreciada. Sobre o assunto ele escreveu em carta a Annie Besant:

“… Então quando os rapazes ficaram sobre meus cuidados, Eu mencionei o assunto [da masturbação], entre outras coisas, sempre tentando evitar todo tipo de falsa vergonha, e fazer parecer algo tão natural e simples quanto possível.”

Leadbeater argumentou posteriormente que a pressão natural e vontades sexuais dos rapazes poderiam levá-los a buscar alívio com prostitutas ou entre si. Demonstrando um conhecimento avançado para a época em termos de educação sexual ele apontou que ao descarregar esta pressão em intervalos regulares por meio da masturbação os rapazes poderiam evitar consequências kármicas e morais muito mais sérias. “Se eles sentirem este tipo de acúmulo, deveriam se aliviar.” e ainda “Esta função natural existe, e por si só não é mais errada do que a vontade de comer e beber.”

Quando Annie Besant se tornou presidente da Sociedade teosófica em 1908 foi novamente admitido como membro.

 

A Igreja Católica Liberal

Em 1906 durante uma missa em que participava Leadbeater, por meio de sua clarevidência testemunhou as energias escondidas por trás dos sacramentos Cristãos. Por outro lado, esta mesma clarividência tornava para ele muito clara toda história de deturpação e controle social dentro da cristandade.  Mas a solução era igualmente clara para ele: revisar toda Liturgia Católica de modo a melhorar o desempenho destas energias.

Esta tarefa ele desempenhou em conjunto com seu amigo e Bispo Wedgwood que foi também quem o consagrou ao Episcopado. Nasceu assim a Igreja católica Liberal, uma igreja que administra todos os sete sacramentos tradicionais instituídos por Cristo, mas que defende também a liberdade intelectual e individual buscando cultivar assim um equilíbrio entre os aspectos cerimoniais, devocionais, científicos e místicos. Para Leadbeater abandonar o poder dos sacramentos por causa da atual situação da Igreja Católica é como jogar o bebê fora junto com a água suja do banho.

Após vários meses de trabalho intenso, a primeira versão da Liturgia foi publicada, mas a primeira celebraçaão pública só aconteceu em 6 de abril de 1917 em Sydney, Austrália. Um Oratório foi instalado no Edifício Penzance, local que desde então serviu de moradia a Leadbeater. A partir deste momento o trabalho com a Igreja Católica Liberal se tornou a principal atividade de sua vida, embora seu trabalho com a Sociedade Teosófica tenha continuada até o fim de sua vida. Além disso continuou sempre organizando palestras informais na casa de seus alunos.

Um ponto importante é que Bispo Leadbeater nunca reinvindicou infalibilidade para si ou a Igreja Católica Liberal.  Nunca impôs seu ponto de vista e sempre deixou seus discípulos todos completamente livres. De fato, muitos de seus ensinamentos (como o vegetarianismo) eram controversos dentro da igreja, mesmo os sacerdotes sentiam-se a vontade para discordar de alguns ensinamentos. Para Leadbeater as forças invisíveis por trás dos sacramentos eram muito mais importantes.

E quanto a nós?

É fácil criticarmos a química do século XIX, a sexualidade vitoriana, ou os dogmas da Igreja Católica hoje em dia. Mas quanto de nossa própria cultura e educação não são também à sua maneira primitivas. É facil aceitar as visões de Charles Webster Leadbeater quando o que ele diz confirma as coisas que sabemos ou acreditamos saber. Mas e quando isso não é verdade, somos diferentes de um católico conservador ou de um moralista vitoriano? Leadbeater disse por exemplo que não só há vida fora da Terra, mas que há vida em absolutamente todos os corpos celestes. Não há planeta inabitado. Ele descreveu civilizações na Lua e em Marte que hoje simplesmente não aceitamos porque o governo e as instituições nos garantem que elas não estão lá.

Esta provocação serve, por si só, de convite à leitura da imensa obra deixada por Leadbeater. Seja em termos de saúde, religião ou física Leadbeater se mostrou a frente de seu tempo. Seu talento em ver as coisas como elas realmente são e sua vontade em transformá-las como realmente deveriam nos deixa em dúvida sobre quanto do mundo moderno na verdade não é também uma quimera.

Charles Webster Leadbeater morreu em 1934 em Perth aos exatos oitenta anos de idade.

1847 – 1934

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/charles-webster-leadbeater/

Fatos e Mitos sobre a Verdadeira Vontade

Por IAO131, traduzido por Psilax

O conceito de “Verdadeira Vontade”, ou simplesmente “Vontade”, é fundamental para a Lei de Thelema desde que nosso princípio central é “Faça o que tu queres será o todo da Lei” (AL I:40), juntamente com “Tu não tens direitos senão fazer a tua Vontade” (AL I:42) e “Não há lei além de faze o que tu queres” (AL III:60). Thelema, apesar de tudo, significa “Vontade”.

Por ser Vontade um conceito central em Thelema há muitos equívocos sobre isso que limitam nosso entendimento assim como limitam nosso potencial para realizar e manifestar as nossas Vontades. Muitos desses mitos e equívocos estão altamente correlacionados, mas eles também são diferentes em sua ênfase e abordagem. A lista não pretende ser exaustiva ou completa, mas espero que possa levar a uma reflexão e clareza sobre a noção de Vontade. Mais fundamentalmente essa é uma lista curta destinada a desafiar alguns equívocos comuns sobre a Vontade, a fim de que possamos conhecer e realizar nossas Vontades mais livremente e com alegria.

1) A Verdadeira Vontade é encontrada num determinado momento.

O primeiro mito é que a Verdadeira Vontade é descoberta durante um evento distinto, num certo ponto da história. Isso significa que você não sabe qual é a sua Vontade, mas que num futuro você saberá, ao ter algum insight ou experiência, você de repente conhecerá sua Vontade. Em contraste, Crowley nos informou que “A Vontade é apenas o aspecto dinâmico do Eu…” (Liber II). Neste sentido, a Vontade é apenas a expressão de nossa Natureza. Entretanto de uma maneira pobre e incompleta nossa Natureza não pode deixar de se expressar de alguma maneira, o que quer dizer que: nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto, mas poderíamos fazer sempre um pouco “melhor”, no sentido de fazê-la mais completamente e com mais consciência. Mesmo se temos uma visão súbita ou que muda completamente a Natureza de nossas Vontades, isso não significa que esse entendimento não precisará mudar ou ser revisado no futuro.

2) A Verdadeira Vontade é algo para ser encontrado num futuro distante.

Relacionada ao primeiro mito é a noção de que Verdadeira Vontade não pode ser encontrada no presente, mas em algum ponto do futuro. Ou seja, se pensa “Eu não sei qual minha Vontade agora, mas espero que eu saiba no futuro”. Agora, é perfeitamente razoável acreditar que o conhecimento e entendimento da Vontade podem aumentar no futuro, mas, novamente, nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto. Isto é, a Vontade não é “encontrada”, mas nossa consciência e entendimento dela podem melhorar. Visualizando a Vontade como algo que se encontra no futuro, exclui o nosso potencial para fazermos nosso melhor para fazer nossa Vontade no momento presente. Podemos lamentar as nossas circunstâncias, acreditando que tudo ficaria bem se “conhecêssemos nossas Vontades”, ao invés de trabalhar em nós mesmos no momento presente para nos tornar mais conscientes e alegres com o que já está acontecendo. Isto é, nossos próprios conceitos sobre o que é Vontade nos impedem de ver o que já está aqui: todos nós somos estrelas (AL I:3) e Hadit, a chama de nossas Vontades, está sempre no centro de nosso Ser (AL II:6). É nosso trabalho ou dever descobrir como trabalhar com nós mesmos e nosso ambiente a fim de tornar a Verdade dentro de nós mais manifesta do que inerente.

3) Você está fazendo sua Vontade ou você não está fazendo.

A linguagem usada ao redor da Vontade é frequentemente “digital” no senso em que falamos sobre isso em “on ou off” (ligar ou desligar). Eu acredito que é mais efetivo e adequado pensar em Vontade em termos “análogos”, ou seja, que estamos fazendo nossa Vontade até certo ponto. A linguagem de “Verdadeira Vontade” implica esse tipo de dicotomia digital de verdadeiro ou falso. Por outro lado, a ideia de “Vontade Pura” é uma questão de graus. A totalidade “pura” da Vontade é 100% Vontade com nenhuma mistura ou contaminantes, assim como um suco puro é 100% suco – não há qualquer conotação moral. Podemos (por questão de explicação) dizer que podemos não estar fazendo 100% de nossa Vontade, mas podemos estar fazendo 30% ou 80% de nosso potencial até o momento. Isso coloca a responsabilidade em nós mesmos para tentar aprovar nossa Vontade ao máximo, na forma mais “pura” possível. Isso significa também que nós não precisamos pensar nos outros em termos deles estarem ou não fazendo suas Vontades; ao contrário, todos estão fazendo suas Vontade até certo ponto ou outro, e tudo o que temos de fazer é tentar nos esforçar intencionalmente para chegarmos ao ideal de Vontade 100%.

4) Verdadeira Vontade é uma coisa única e imutável.

A linguagem usada ao redor de Vontade implica que Vontade é algo único, por exemplo, “é minha Vontade ser um médico”. Na verdade, a ideia de Vontade ser certa carreira em particular é um dos mais comuns exemplos de equívocos. Um exemplo é Crowley falando neste sentido quando ele escreve: “virá o conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta, outro ferreiro, outro escultor.” (De Lege Libellum). O erro está em pegar a ideia de “Vontade = a carreira certa” literalmente do que metaforicamente. Ou seja, uma carreira é uma metáfora para o que você faz com a sua vida, acreditando ser adequado para as suas tendências, talentos e aspirações. Obviamente a Vontade não está confinada a uma simples carreira – especialmente nos dias de hoje em que a maioria das pessoas tem várias carreiras ao longo da vida – como aparentou ser a vida do próprio Crowley. Não seria correto dizer que era a Vontade de Crowley ser poeta porque iria negligenciar que ele era um mago, não seria correto dizer que foi a Vontade de Crowley ser um alpinista porque iria negligenciar que ele era um jogador de xadrez, etc. Na verdade, a Vontade é – como já mencionado – “o aspecto dinâmico do Self…” (Liber II). E dinâmico, ou seja, em constante movimento. Crowley reforça isso quando ele escreve que a Verdadeira natureza do Eu é mover-se continuamente, deve ser entendido não como algo estático, mas como dinâmico, e não como um substantivo, mas como um verbo” (Dever). Esta natureza dinâmica da Vontade é ainda implícita na linguagem que a descreve como “Movimento” como quando Crowley escreve que a Vontade é “o verdadeiro Movimento do teu ser mais íntimo” (Liber Aleph, capítulo 9).

5) Verdadeira Vontade pode ser encapsulada completamente em uma frase.

Conectada com os equívocos anteriores é a noção que Vontade pode ser completamente encapsulada numa frase. Uma vez que a Vontade é dinâmica, a sua natureza é de “Ir”, nenhuma frase pode sempre encapsulá-la completamente. Existem, certamente, benefícios por se encapsular a vontade numa frase como tendo um padrão conscientemente articulado pelo qual se pode julgar se um determinado curso de ação é expressivo ou impeditivo da Vontade. Por exemplo, pode-se formular a Vontade como “É minha Vontade que meu corpo seja saudável”, que pode atuar como um padrão pelo qual você vai determinar que comer junk food (comida que não é saudável) não faz parte da sua vontade (para todos os efeitos práticos). Dito isto, deve haver um entendimento de que a Vontade está, em ultima instancia, além da articulação verbal. Como se diz: “Também razão é uma mentira, pois há um fator infinito e desconhecido; & todas as suas palavras são meandros” (AL II:32). A Vontade é suprarracional na medida em que não pode ser descrita com precisão ou completamente descrita pela faculdade da razão e do pensamento. Como Crowley disse: “[A mente] deve ser uma máquina perfeita, um aparelho para representar o universo de forma precisa e imparcial ao seu mestre. O Eu, a sua Vontade, e sua apreensão, deve estar totalmente além dela.” (Novo Comentário para AL II:28). A mente com seus pensamentos e razão é simplesmente uma parte do seu ser, a vontade é o Verbo de todo o nosso ser, então, naturalmente, uma pequena parte não pode inteiramente compreender e abranger o Todo.

6) Verdadeira Vontade requer uma experiência mística.

Em conexão com o Mito #2, existe a tendência em acreditar que o conhecimento da Vontade virá apenas com algum tipo de experiência mística, se o acredita (ou concebe) como o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, iluminação, a travessia do Abismo, ou qualquer outra coisa. Embora possamos dizer que o Conhecimento e Conversação (ou outras experiências místicas) podem ajudar a esclarecer a Vontade ou se livrar de seus obstáculos, tais como o egoísmo excessivo, a Vontade pode ser tanto sempre presente ou trabalhada até certo ponto. A noção de que só pode se conhecer a Vontade através de experiências místicas negligencia o fato de que há muito modos simples, diretos e até mesmo “mundanos” nos quais podemos trabalhar em nós mesmos para fazer melhor e mais completamente a nossa Vontade. Por exemplo, alguém pode perceber que certo relacionamento não está mais funcionando, então ele se agita, sofre, se amargura e ressente. Pode-se então perceber que a fim de realizar a Vontade mais plenamente, é preciso terminar o relacionamento. “Oh amante, se tu queres, partes!” (AL I:41). Há muitas coisas em nossas vidas que sabemos, em algum nível, que podem ser alterados para decretar mais plenamente nossas Vontades, como se livrar de certos hábitos que já são conhecidos por serem problemáticos. Se isto é tão simples como “assistir menos televisão”, ou concreto como “largar os opiáceos”, ou mais sutil como “ser menos ligado às expectativas”, ou mais geral como “tornar-se mais consciente e menos reativo emocionalmente”, existem muitas maneiras de trabalhar em nós mesmos que estão disponíveis para todos, sem a menor experiência ou inclinação para experiências místicas. Ainda mais preocupante é “acreditar que apenas alguma experiência mística no futuro” pode ser usada como uma desculpa ou um “desvio espiritual” para evitar lidar com estas questões mais “mundanas”, como as emoções não processadas ou hábitos indesejáveis.

7) Todos devem alcançar a Vontade.

A crença geral difundida entre Thelemitas é que há certo tipo de “verdadeiro Thelemita” ou “Thelemita ideal”. Outro ensaio explica mais detalhadamente por que isso é um equívoco, mas, em suma ele depende de ter preconceitos sobre o que é “certo” e “errado” para a Vontade dos outros, quando toda a fundação de Thelema repousa sobre a noção de que cada indivíduo é único. Uma manifestação desse preconceito sobre o que é “certo” é a noção de que todos devem estar se esforçando para “atingir”, significando alcançar algum tipo de gnose mística ou iluminação. Na verdade, o Livro da Lei diz na mesma linha que seu lema central: “Quem nos chama Thelemitas não cometerá erro, se ele apenas observar bem de perto a palavra. Pois dentro dela existem Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o homem da Terra. Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” (AL I:40). Isto é explicado em A Visão e A Voz quando se diz: “O homem da terra é o devoto. O amante dá a sua vida para trabalhar entre os homens. O eremita caminha solitário dando aos homens apenas a sua luz.”. Não é inerentemente a Vontade de todos se tornarem um eremita e alcançar as alturas da iluminação espiritual. – Pode muito bem ser a vontade de alguém viver a sua vida sem se preocupar com essas coisas. Mais claramente o Livro da Lei diz que “a lei é para todos” (AL I:34). Essa insistência de que todos têm que “atingir” pode facilmente se transformar em forma de auto-superioridade espiritual que é contrário ao espírito da liberdade que permeia a lei.

8) Sua Vontade não tem nada a ver com as outras pessoas.

É típico conceber a Vontade como algo inerente ao individuo e que não tem nada a ver com as outras pessoas e suas circunstâncias. Eu acredito que isto é simplesmente uma falha de linguagem usada para descrever Vontade do que uma realidade. Nós todos somos incorporados em uma interconexão complexa de forças – somos todos estrelas na teia do Espaço Infinito – e ambos afetam e são afetados por tudo que nos rodeia: “Suas ações afetam não apenas o que ele chamou a si mesmo, mas também todo o universo.” (Liber Librae). Vendo como a Vontade é o aspecto dinâmico da nossa natureza, deve inerentemente se adaptar à situação ou circunstância em que se encontra. Crowley fala isso quando ele escreve que a vontade é “a nossa verdadeira órbita, como demarcada pela natureza de nossa posição, a lei do nosso crescimento, o impulso de nossas experiências passadas.” (Introdução ao Liber AL). A nossa “posição” muda constantemente e a Vontade é “marcada” em parte pela natureza de nossa posição. A nossa “posição” envolve o meio ambiente e as pessoas ao nosso redor. Praticamente qualquer tipo de articulação da Vontade – por mais que provisória ou experimental – deve incluir o meio ambiente ou outras pessoas de alguma forma. Para dizer “é minha vontade comer menos” envolve a comida em seu ambiente, dizendo “é minha vontade ser gentil” envolve a sua bondade para com outras pessoas, dizer “é minha vontade promulgar a Lei de Thelema” envolve aqueles a quem você irá promulgar etc. Mesmo dizer “é minha Vontade alcançar o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião” necessariamente requer que você crie adequadamente o ambiente propício para atingir esse objetivo. Na verdade algumas das melhores lições vêm de estar em sintonia com o seu ambiente e aqueles ao seu redor ao invés de ignorar a sua importância ou impacto. Se você estiver recebendo mensagens constantes na forma de dificuldades desnecessárias de quaisquer naturezas, talvez seja uma lição para alterar a forma como você está se adaptando ao seu ambiente, em vez de insistir mais fortemente no curso de seu caminho e apenas intimidando aos outros.

9) Verdadeira Vontade significa que você estará livre do sofrimento.

A ideia de Verdadeira Vontade, muitas vezes leva a noções utópicas e irrealistas quanto ao que Vontade vai realmente parecer. A ideia de que fazer a Vontade liberta do sofrimento é irrealista em vários níveis. Em primeiro lugar, o sofrimento é inerente à existência de alguma forma ou de outra, na medida em que todos nós ficamos doentes, sofremos perdas, envelhecemos, sofremos prejuízos e morremos. Nós sempre vamos encontrar algum tipo de resistência ou dificuldade em nossas vidas. Isso não deve ser visto como uma espécie de marca de fracasso em sua tentativa de fazer a tua Vontade, mas sim, essas ocorrências inevitáveis de sofrimento, resistência e dificuldade são os meios pelos quais nós aprendemos e crescemos. Como se diz, “Tu então que tens provas e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles está a Força e por meio deles é aberta uma trilha àquela Luz… pois quando maior for tua prova, maior o teu triunfo” (Liber Librae). Essa ideia de que “fazer a sua Vontade = sem sofrimento” também depende da noção de que a Vontade seja “on” ou “off”, como mencionado no Mito n°3: mesmo que estejamos no modo de “Vontade 100%” por um tempo, todos nós, inevitavelmente, erramos, encontramos dificuldades imprevistas, ou simplesmente “escorregamos” e não fazemos o melhor que podemos. Além disso, o próprio desejo de ser livre do sofrimento é, em certo sentido, uma ideia do Antigo Aeon: Thelemitas não procuram transcender o mundo material, se isentar do Samsara, ou até mesmo evitar o sofrimento. Reconhecemos a realidade como ela é, sem insistir em estar de acordo com os nossos ideais a priori assim como ao “como o mundo deveria ser”. Nós aceitamos o sofrimento e as dificuldades da vida como “molho picante ao prato do Prazer” (Liber Aleph, capítulo 59). Eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria Vontade significa que você vai estar livre de uma grande dose de sofrimento desnecessário. Uma grande parte do nosso sofrimento não é de fato inerente ou necessária, mas nós, através dos nossos vários hábitos e pobres equívocos, nos sujeitamos à dificuldade que pode ser evitada em grande parte ou totalmente, se nos tornarmos mais conscientes e em sintonia com as nossas Vontades.

10) Verdadeira Vontade significa estar livre de conflito.

Conectada ao mito anterior é a noção de que fazer a própria Verdadeira Vontade significa que estará livre de todos os conflitos. Isso geralmente é baseado ao fato de que o Livro da Lei diz: “tu não tens direito senão fazer a tua Vontade. Faça isso e nenhum outro dirá não” (AL I:42 – 43) e Crowley escreveu que “[a lei] parece implicar uma teoria que, se cada homem e cada mulher fizesse a sua Vontade – a Verdadeira Vontade – não haveria conflito” (Liber II). Realisticamente, sempre haverá pessoas que “dizem não”, independentemente do grau em que você está fazendo a sua Vontade, e sempre será “conflitante”. A questão real vem de uma compreensão do “confronto”. Se confronto significa conflito interpessoal na forma de desacordo ou argumento, nunca haverá um fim a este a menos que todos nós nos tornamos autômatos, irrefletidos – o qual certamente não é o objetivo da Lei da Liberdade. Semelhante ao mito anterior, eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria vontade significa que você estará livre de uma grande quantidade de conflitos desnecessários. Grande parte do nosso conflito com os outros dependem da nossa insistência em saber o que é “certo” para os outros, as nossas próprias expectativas e normas impostas aos outros, insistindo em manter uma posição baseada numa autoestima do ego e identidade que está amarrada com a nossa posição e muitos outros erros que se afastam naturalmente na medida em que nos concentramos em nossa Vontade ao invés de discutir. Talvez essa seja a razão para sermos ensinados a “não discutir, não converter; não falar em demasia” (AL III:42).

Novamente é um tipo de fantasia do Velho Aeon o mundo ou a vida de alguém ser livre de conflitos. Eu acredito que a aceitação e o envolvimento com o conflito é uma marca distintiva de uma pessoa que tem uma mentalidade do Novo Aeon, ao invés do Velho Aeon. Como Crowley escreveu, “O combate estimula a energia viril ou criativa” (Dever). Mesmo as formas mais triviais e mundanas de conflito, como equipes rivais em esportes ou pontos de vistas opostos em um debate, permitem que a diversão do jogo esteja em primeiro lugar. Ao invés de procurar ser livre de conflitos, podemos fazer melhor examinando os conflitos em nossas vidas e determinando até que ponto eles são o resultado da nossa incapacidade de concretizar plenamente a nossa Vontade, a fim de viver mais plenamente e com alegria.

O que todos esses 10 mitos implicam é uma visão da Vontade como algo sempre presente até certo ponto, sempre dinâmico e mutável, sempre capaz de ser trabalhado, e, trabalhado independentemente de ter experiências místicas ou não, embutido dentro do contexto do nosso ambiente e outros indivíduos, e aceitar o sofrimento e o conflito como coisas inerentes a existência, coisas mais para serem trabalhadas do que evitadas. Esta lista não é exaustiva de qualquer maneira, e há, obviamente, muitas nuances para a ideia de Vontade e muitas outras maneiras de compreendê-la. No entanto, espero que desafiar algumas dessas ideias como mitos ou equívocos possa libertar o nosso pensamento a fim de tornar-se consciente do grande potencial em cada momento de decretar e regozijar em nossas Vontades.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/fatos-e-mitos-sobre-a-verdadeira-vontade

Restauração Maçônica

A formalidade e restrições do traje maçônico: quase todas as Lojas tem funcionamento na noite dos dias úteis, o que obriga o maçom a, muitas vezes, ir direto do seu trabalho para a Loja. A obrigatoriedade do terno preto com camisa branca e gravata preta ou outra cor conforme rito acaba por atrapalhar a rotina de muitos membros, principalmente aqueles que não adotam traje social em seus locais de trabalho ou utilizam uniformes em suas profissões. Muitas vezes, um maçom deixa de realizar visitas espontâneas a outras Lojas por conta da vestimenta não adequada.

As reuniões semanais e exigência de presença: para eles, reuniões semanais são um excesso na sociedade em que vivemos, em que um maçom geralmente tem várias outras atividades e compromissos sociais, profissionais, educacionais, intelectuais, religiosos, políticos, filantrópicos e familiares a atender. Por isso, defendem uma periodicidade quinzenal ou mensal. Além disso, a obrigatoriedade de presença mínima com punição prevista por descumprimento acaba por afastar muitos maçons voluntaria ou involuntariamente. Às vezes se perde valorosos membros que, por serem muitos atuantes na sociedade, não conseguem se fazer presentes em Loja o quanto se exige.

Os poucos membros iniciados: enquanto que muitos membros abandonam a Maçonaria por conta dos mais diversos fatores, as Lojas têm feito cada vez menos iniciações e de menos candidatos, o que tem esvaziado os templos e desmotivado ainda mais os maçons remanescentes. Vê-se então um verdadeiro “déficit maçônico”. Isso enfraquece a Maçonaria e a torna mais velha e, muitas vezes, retrógrada.

A cultura de Lojas pequenas: quando uma Loja no Brasil consegue romper a barreira da inércia e crescer, muitos Irmãos começam a defender a criação de uma Loja nova com parte de seus membros, até com a desculpa de evitar disputas eleitorais e de fazer a Maçonaria crescer (pelo menos em número de Lojas). Já os críticos acreditam que quanto maior uma Loja for, melhor. Uma Loja com muitos membros tem mais condições financeiras para filantropia, pode exercer maior “barganha social” junto às autoridades locais e enfrenta menos dificuldades de funcionamento.

Com tais argumentos, esses maçons defendem uma mudança na Maçonaria Brasileira de forma a torná-la mais flexível com os critérios de vestimenta, periodicidade, presença e seleção de membros. Uma Maçonaria maior e menos rigorosa, mais “adequada” aos dias atuais.

Em contrapartida, um grupo de maçons norte-americanos pensa exatamente o contrário. Vivendo uma Maçonaria nos moldes da desejada pelos seus antagônicos brasileiros, sem rigidez na vestimenta e com reuniões quinzenais ou mensais em Lojas que possuem centenas de membros, mas que contam com presença de apenas uma dúzia por sessão, eles desejam mudanças.

Em 2001 eles criaram nos EUA a “Fundação da Restauração Maçônica”, com o objetivo de promover o que eles chamam de “Observância Tradicional”, que é exatamente a implementação em Lojas Regulares de características encontradas na Maçonaria Latino-Americana, como: vestimenta social uniforme; Câmara das Reflexões; mais reuniões; exigência de presença; iniciação de um candidato por vez; Lojas pequenas e com foco na instrução de seus membros. As Lojas continuam filiadas à Grande Loja Estadual e trabalhando no Rito de York (Monitor de Webb), apenas adotando algumas dessas mudanças em seu “modus operandi”.

Apesar de 10 anos de existência, o movimento americano tem apresentado pouco desenvolvimento: até agora, apenas umas 30 Lojas em todo os EUA adotaram o modelo sugerido.  Para se ter uma ideia, o Real Arco, um ilustre representante do modelo maçônico norte-americano em terras brasileiras, cresceu no Brasil quase 3 vezes mais nesse mesmo período, e nossa Maçonaria corresponde a apenas 1/7 do tamanho da Maçonaria dos EUA.

De qualquer forma, é importante destacar que os pontos em questão são em geral de cunho administrativo, e independente se rígidos ou flexíveis, nada impactam no Rito praticado, na qualidade ritualística, no respeito aos Landmarks, ou mesmo na filiação à Obediência. Como prova disso, pode-se observar que nos EUA, onde há uma maior flexibilidade administrativa e menor quantidade de reuniões, os Oficiais das Lojas exercem suas funções ritualísticas de memória e as regras de conduta são muito mais rígidas. Enfim, não há modelo melhor ou pior. A questão é na verdade sociocultural, e sendo sociocultural, é sim mutável.

Nesse contexto, cada Loja deveria ter a liberdade e soberania para funcionar como acreditar ser melhor, e mudar quando achar conveniente. Porque, na verdade, não importa se é uma Loja de 10 ou de 100 membros, se tem reuniões toda semana ou uma vez por mês, se inicia 1 ou 100 candidatos por ano, se os membros usam jeans ou smoking. O que importa é se é uma Loja Justa e Perfeita, onde se ensina o homem livre e de bons costumes a ser um maçom, um construtor de uma sociedade melhor e mais feliz. O conhecimento, a excelência ritualística e a preservação das tradições maçônicas não dependem da roupa que se veste, da quantidade de irmãos e de reuniões ou do tamanho da Loja. Depende, apenas, do trabalho sobre a pedra bruta que somos.

De tudo isso, tira-se uma importante lição para a Maçonaria Brasileira: as Obediências deveriam se preocupar menos com a regulamentação do funcionamento das Lojas e mais com a produção de material de estudo de qualidade para as mesmas, enquanto que os maçons deveriam se preocupar menos com a cor da camisa do outro e mais com o conteúdo das reuniões.

Antes de procurar mudar “como” a Maçonaria funciona, deve-se procurar compreender “o que é” a Maçonaria e “porque” ela existe. Então talvez optemos pela “restauração”, mas não da forma, e sim dos valores.

#Maçonaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/restaura%C3%A7%C3%A3o-ma%C3%A7%C3%B4nica