As Chaves Maiores e as Clavículas de Salomão

por Eliphas Levi Zahed

EDIÇÃO, ORGANIZAÇÃO, COMENTARIOS E TRADUÇÃO por Robson Belli

Creio ser de fundamental importância a tradução comentada deste material, por trazer uma visão magística diferenciada de um de seus grandes autores contemporâneos, Eliphas Levi um dos mais importantes autores da alta magia, e a sua visão de um dos principais grimórios medievais, as “Clavículas de Salomão”.

O fato desta obra ainda não ter uma tradução para o português em pleno ano de 2022, nos mostra o pouco ou nenhum interesse do nosso mercado editorial de nos servir com obras ótimas, e com as diferentes visões do mesmo tomo, estamos exaustos de ver traduções das clavículas traduzidas por Samuel Lidel “McGregor” Mathers, que apesar de ser um ótimo trabalho, expõe apenas uma visão embasada em algumas poucas fontes dos manuscritos das conhecidas Clavículas de Salomão que juntos somam mais do que 144 tomos manuscritos diferentes, só considerando os tomos das chaves maiores, tendo uma miríade muito maior quando consideramos as chaves menores.

Portanto não espere encontrar aqui os tradicionais pantáculos, este livro não é mais do mesmo, e justamente por isso vem a ser a minha primeira clavícula traduzida e publicada, a fim de quebrar os paradigmas impostos a esse tomo.

Muitos talismãs para invocação das forças celestiais estão descritos aqui, contudo é importante mencionar, que além de invocar estes poderes, nos sagrados e poderosos 72 nomes de Deus, esta clavícula nos ensina trabalhar também repelindo as forças malignas de nossas vidas, sendo, portanto, uma das mais puras clavículas no sentido de chamar para si a atenção do divino e do sagrado, afastando de si as forças negativas.

Este não é em definitivo, um tomo para membros do caminho da mão esquerda, este livro é para aqueles que entendendo que devem se ligar aos poderes elevados e aos nomes divinos, o fazem para expurgar de si os poderes das trevas, que apenas atrasam seu desenvolvimento enquanto ser humano e magista.

Este livro não pede sua aceitação ou concordância, ele apenas o é como deveria ser, peço apenas ao leitor a compreensão de obras como “Dogma e ritual da alta magia” e o livro “O grande arcano”, ambos de Levi, para entender melhor que este aqui é o livro referenciado na obra citada e não, as obras que Eliphas Levi considerava espúrias e impuras que visam chamar demônios para si, profanando assim o ideal Cabalístico de evolução do ser.

Esta é na opinião de Levi, a clavícula de Salomão retificada a sua gloria original, dentro de uma proposta muito mais próxima a ideia da cabala, e mesmo que tenha símbolos nos amuletos, a força deles provem na realidade dos nomes divinos e dos números gravados nos mesmos, sendo não um livro de evocação e dialogo com estas forças, este é um livro de magia talismanica, tal qual as Chaves Maiores de Salomão mais conhecidos do grande público, contudo faz uso dos 72 anjos ou 72 nomes divinos para atrair para si estes poderes benignos e afastar de si os 72 demônios, uma clara contra posição ao “Ars Goétia” do “Lemegeton” que Eliphas provavelmente considerou impuro e pagão, um livro corrompido.

Visão que pode ser bem compreendida por aqueles que adentram ao estudo da Cabala judaica, mesmo em seus níveis mais superficiais, creio ter bem referenciado o porquê desta obra ser o que é, e por que Eliphas Levi tentou retificar a tradição Salomônica escrevendo este livro.

Infelizmente este livro não se popularizou tanto quanto suas outras obras, mas finalmente chega agora ao leitor brasileiro que, espero sinceramente faça um maravilhoso uso desta obra a tanto tempo deixada de lado.

~Robson Bélli

23 de maio de 2022.

ADVERTENCIA

Este livro é uma reprodução fiel do manuscrito escrito e desenhado por Eliphas Levi para seu discípulo e amigo, Barão Spedalieri, que, de acordo com o desejo do Mestre, foi posteriormente entregue a J. Charrot, que o entregou a L. Chamuel para ser editado. A primeira edição apareceu em 1895; que está esgotado e raro.

Hoje, o número crescente de discípulos póstumos de Eliphas Levi nos obriga a reimprimi-lo.

As Clavículas de Salomão são um retorno da Doutrina Cabalística em sua pureza primitiva; baseado no Grande Nome Incomunicável, descrevendo com precisão e simplicidade setenta e dois ramos. Eles incluem as figuras de trinta e seis talismãs e os trinta e dois Caminhos da Sabedoria (os dez números e vinte e duas letras hebraicas); finalmente, o ritual é completado com instruções teúrgicas, profecias e um cânone para o uso das Clavículas.

Estas Clavículas são explicadas e discutidas através da correspondência do Mestre com o Barão Spedalieri.

Esta edição foi revisada e atualizada de acordo com o manuscrito original.

~P. Chacornac.

A COMPOSIÇÃO E O USO DESSAS CLAVÍCULAS

Estas clavículas, reestabelecidas em sua pureza original, e desenhadas pela primeira vez por mim, Eliphas Lévi, em 1860, se realizam em sua pureza e sem mescla de símbolos samaritanos ou egípcios, só com ajuda das cifras, dos símbolos hieroglíficos e dos números.

Os hebreus tinham horror ao uso de figuras em imagens sagradas, e é por este motivo que as imagens do Zohar são em sua maioria, quase todas traçadas apenas com letras.

O complemento perfeito deste livro é o jogo de Tarô italiano, cujos talismãs de Salomão explicam e resumem os símbolos.

Os talismãs podem, cada um em particular, servir de instrumento (magico) magnético e representar uma vontade análoga ao nome divino cuja explicação se encontra sob cada talismã.

É preciso observar que as dezenas que se encontram no tarô não são desenhadas nos talismãs porque, sendo a dezena a síntese da unidade, está contida virtualmente na unidade de cada número.

As imagens dos talismãs podem ser gravadas em sete metais ou desenhadas em pergaminho virgem, depois consagradas e magnetizadas segundo uma intenção muito precisa.

Desta forma, serão criados focos de luz astral, perfumados com os perfumes do ritual e mantidos em seda ou em recipientes de vidro para que não percam sua força.

Eles não devem ser emprestados ou dados, a menos que tenham sido feitos em nome de outra pessoa e de acordo com ela.

Servem para afastar ilusões e miragens de luz. Os espíritos errantes estremecem diante deles porque são símbolos fixos, personagens do verbo que é por si mesmo e que comanda vitoriosamente todos os espíritos.

Mas, para usar essas chaves corretamente, é necessário manter uma grande lucidez de espírito e uma grande pureza de coração. Caso contrário, eles se tornariam os instrumentos de uma maldição da qual o operador imprudente ou culpado seria a primeira vítima.

AS CHAVES MAIORES E CLAVÍCULAS

A TAU SAGRADA OU CHAVE UNIVERSAL.

COMENTARIO A RESPEITO DA CHAVE UNIVERSAL

Este símbolo de Levi vem aqui expor algumas questões importantes que podem ajudar ao leitor elucidar algumas ideias que Levi tinha a respeito das clavículas, em seu nível simbólico direto vemos as letras Yod, He, Vav, He, do tetragrama divino expostas cada uma em uma direção, com elementos mágicos bem conhecidos do público atual tanto pelo taro quando pela magia cerimonial.

Yod acima e ao lado da Baqueta representação do fogo e da autoridade divina do comando, o mundo de Aziluth ou ainda o mundo dos arquétipos, e graças a Taça que representa o elemento agua, sabemos que a ponta direita é a sequência e representa o mundo de Briah do mundo formativo ou da criação,  a próxima letra na sequência é Vav ao lado da espada que é um naipe e ferramenta mágica do ar, que também representa o mundo de Yetzirah, o mundo formativo e por fim nos temos ultimo He ao lado da moeda ou Pantáculo que são relacionados ao elemento terra, a realização material, ou ainda o muito material.

A cruz tau para Eliphas Levi estava associada ao Universo, sendo o seu criador (através do seu nome impronunciável) e principio e o universo o fim ou a sua manifestação material, Alfa e Ômega, sendo o magista então uma representação do próprio Deus que o criou sua imagem e semelhança, para dominar todas as coisas, por conta da representação dos quatro elementos que são todas estas coisas.

A seguir e a esquerda vemos um símbolo que parece uma cruz com um P e do seu lado na parte inferior a letra Alfa e Ômega, este símbolo chama-se Tau Rho que é um dos dois monogramas de cristo, sendo o Tau Rho a imagem de Moises com seus braços estendidos e o alfa e o ômega a representação do cristo ajudando o homem, vemos ao mesmo tempo um X pontilhado dando a ideia da transformação do estaurograma (sacrifício) no  cristograma (redenção) também conhecido por Chi Rho, que é o símbolo mais conhecido como monograma do Cristo.

Do lado direito da cruz Tau vemos o símbolo geomantico de conjunctio e dentro dele escrito Bara-Taish ( ) que é uma expressão cabalística que alude a baphometh ou o iniciado, o desperto e conhecedor dos mistérios ou ainda Bereshit ( ) que alude as primeira palavras do início do livro de gênesis “No princípio”, mas essa expressão aos judeus, que por sua vez alude ao bode que foi levado para ser sacrificado pelo patriarca Abraão e está ligada a uma ideia de lascívia (luxuria) divina em sua criação.

O SHEM HA MEPHORASH[1]

Toda a ciência está numa palavra e toda a força num nome.

A inteligência deste nome é a ciência de Salomão e a luz de Abraão.

Ninguém conhece Deus em sua essência, a não ser ele mesmo.

Mas a Ciência absoluta está no conhecimento dos nomes divinos que são todos formados a partir de um único nome.

Esta ciência é o que ela chama, o Shem Há Mephorasch ou nome explicado.

O Esquema ou nome incomunicável é composto de quatro letras.

  • Todo o poder (força) está em um, Yod.
  • Seu reflexo está em outro, He.
  • É explicado pelo terceiro. Vav.
  • É fertilizado pelo quarto. He

É formado com vinte e quatro pontos que são as vinte e quatro alegorias antigas de São João.

  • Cada ponto tem três linhas.
  • Há então sessenta e dois traços.

Sessenta e dois nomes são formados, que são escritos dois a dois em trinta e seis talismãs.

OS TRINTA E SEIS TALISMÃS

Estude cuidadosamente os hieróglifos e as letras sagradas dos trinta e seis talismãs e escreva ao redor de cada um deles um versículo bíblico de sua escolha, aquele que melhor expressa para você[2] a virtude das letras e dos nomes (números).

Esses talismãs fixam o espírito, fortalecem o pensamento e servem de sacramento à (verdadeira) vontade.

Os espíritos de todas as hierarquias estão em comunhão com aquele que entende e usa corretamente esses sinais.

TALISMÃ 01 – O PRIMEIRO PRINCIPIO

01 VEHUIAH/ 04 ELEMIAH [3]

[4]

TALISMÃ 02 – AJUDA DO SALVADOR

02 JELIEL / 05 MAHASIAH

TALISMÃ 03 – ESPERANÇA DIVINA

03 SITAEL / 06 LELAHEL

TALISMÃ 04 – QUATRO VEZES PAI

07 ACHAIAH / 10 ALADIAH

TALISMÃ 05 – RAZÃO DE CULTO

08 CAHETEL / 11 LAOVIAH[5]

TALISMÃ 06 – CONSOLO DIVINO

09 HAZIEL / 12 HAHAIAH

TALISMÃ 07 – BASE DE TODA A GRANDEZA

13 YESALEL[6] / 16 HEKAMIAH[7]

TALISMÃ 08 – PROVIDENCIA

14 MEBAHEL/ 17 LAUVIAH[8]

TALISMÃ 09 – CONSOLADOR

15 HARIEL / 18 CALIEL

TALISMÃ 10 – O AMOR

19 LEUVIAH[9]/ 22 IEIAIEL[10]

TALISMÃ 11 – A SALVAÇÃO

20 PAHALIAH / 23 MELAHEL

TALISMÃ 12 – A BONDADE

21 NELCHAEL / 24 HAHEUIAH[11]

TALISMÃ 13 – A FORÇA DO BEM

25 NITH-HAIAH[12] / 28 SEHEIAH

TALISMÃ 14 – O ARCANO DO AMOR

26 HAAIAH / 29 REYEL[13]

TALISMÃ 15 – PACIENCIA

27 IERATHEL[14] / 30 OMAEL

TALISMÃ 16 – CIENCIA DO AMOR

31 LECABEL / 34 LEHAHIAH

TALISMÃ 17 – AMOR DO JUSTO

32 VASAHIAH[15] / 35 CHAVAKIAH

TALISMÃ 18 – HIERARQUIA DO AMOR

33 IEHUIAH[16] / 36 MENADEL

TALISMÃ 19 – FORÇA QUE FECUNDA

37 ANIEL / 40 IEIAZEL[17]

TALISMÃ 20 – EQUILIBRIO POLITICO

38 HAAMIAH / 41 HAHAHEL[18]

TALISMÃ 21 – PAZ UNIVERSAL

39 REHAEL / 42 MIKAEL[19]

TALISMÃ 22 – IMPERIO DO VERBO

43 VEULIAH[20] / 46 ARIEL[21]

TALISMÃ 23 – A NOVA JERUSALEM

44 YELAIAH[22] / 47 ASALIAH[23]

TALISMÃ 24 – HARMONIA

45 SEALIAH[24] / 48 MIHAEL[25]

TALISMÃ 25 – VITORIA

49 VEHUEL / 52 IMAMAIAH[26]

A PARTIR DESTE PONTO O LIVRO PÁSSA A SER UMA RECONSTRUÇÃO, POIS ESTA PARTE É AUSENTE NO ORIGINAL OS SIGILOS SÃO OS MESMOS USADOS NO LIVRO “the kabbalistic and occult tarot of eliphas levi” E EM “The Science of the Kabbalah” de Lazare Lenain

TALISMÃ 26 – O SEGREDO DO VEICULO

50 DANIEL / 53 NANAEL

TALISMÃ 27 – O SEGEDO DA CRIAÇÃO

51 HAHASIAH / 54 NITHAEL

TALISMÃ 28 – O MAIS SAGRADO

55 MEBAHIAH / 58 IEIALEL

TALISMÃ 29 – OS ANEIS DA ALIANÇA

56 POIEL / 59 HAHAEL

TALISMÃ 30 – OS TRES ANEIS LUMINOSOS

57 NEMAMIAH / 60 MITZRAEL

TALISMÃ 31 – VONTADE

61 UMABEL / 64 MEHIEL

TALISMÃ 32 – SABER

62 IAH-HEL / 65 DAMABIAH

TALISMÃ 33 – OCULTISMO

63 ANAUEL / 66 MANAKEL

TALISMÃ 34 – REALIZAÇÃO

67 AYEL / 70 YABAMIAH

 

TALISMÃ 35 – EQUILIBRIO

68 HABUHIAH / 71 HAIAIEL

TALISMÃ 36 – FORÇA CONTRA OS TERRORES DA MORTE

69 ROCHEL / 72 MUMIAH

A partir deste ponto o este livro volta a ser uma tradução fiel ao original.

AS LETRAS SAGRADAS

Correspondem as figuras simples do Tarô

(O rei de paus, o Pai)

(O rei de copas, o esposo da mãe)

(O rei de espadas, O principe do amor)

(O rei de ouros, o pai de criação)

(A rainha de paus, a esposa de seu pai)

(A rainha de copas, a mulher que é dona de si mesma)

(A rainha de espadas, A princesa do amor)

(A Rainha de ouros, a mãe dos seus filhos)

(O cavaleiro de paus, Conquistador de poder)

(O cavaleiro de Copas, o conquistador da felicidade)

(O cavaleiro de espadas, o conquistador do amor)

(O cavaleiro de ouros,  o conquistador de obras)

(O valete de paus, escravo do homem)

(O valete de copas, o escravo da mulher)

(O valete de espadas, escravo do amor)

(O valete de ouros, o escravo das crianças)

OS NÚMEROS SAGRADOS

Comentário: Eliphas Levi coloca algumas atribuições que para nós estudantes atuais de cabala são completamente estranhas, tal como o Sol e Kether, Chockmah a esquerda sendo a Lua, e Binah a direita sendo Vênus, e isso pode nos causar tamanha estranheza, contudo é exatamente o que está descrito aqui.

AS LETRAS SAGRADAS OU AS CHAVES MAIORES

Os dez nomes e as vinte e duas letras formam trinta e dois caminhos da ciência universal.

A LETRA ALEPH

(Hieróglifo- o menestrel)

(O PENTACULO DO EDEN, PROTOTIPO DAS LETRAS SAGRADAS)

A LETRA BEITH
(A alta sacerdotisa)

(o binário é o primeiro número, é a unidade somada a ela mesma[27])

A LETRA GUIMEL
(O Terciário —  a mãe (gravida) — a geração)

(O primeiro grande número sagrado.

O triangulo de Jeová.
O mercúrio dos sábios.)

A LETRA DALETH

(O quaternario – a quadratura)

(O número do ciclo perfeito.
A cruz filosófica.
O fogo Elemental dos sábios.)

A LETRA HE
(Número cinco das letras e quinze dos caminhos)

(O número da ciência do bem e do mal.
A letra da mulher da religião.
O pentagrama angelico ou diabolico.)

A LETRA VAV
LINGHAM
(A flecha do amor — O lingham[28])

(O número do antagonismo e da liberdade. A união. O trabalho. Semana da criação)

A LETRA ZAÏN
(O septenio sagrado)

(O número completo da cabala. O espirito e a Forma. As três potencias do Ternário e suas quatro relações)

A LETRA HETH
(O equilíbrio universal)

(O tetragrama com seu reflexo. A estaca dupla. O quaternário multiplicado pelo binário)

A LETRA TETH
(O número da hierarquia)

(Nove

O número do iniciado.
o grande número magico.)

A LETRA JOD

(O número da criação do reino)

(Malkuth. O reino de Deus. O universo visível. O princípio natural das coisas sobrenaturais)

A LETRA KAPH
(O número da força)

(A unidade sintética
o homem feito.
A virilidade.
A idade da razão.)

A LETRA LAMED
(O número do ciclo perfeito)

(A realização.
O sacrifício
A consumação.
A crucificação.
O espirito que se desprende da matéria.)

A LETRA MEM
(O número treze, a morte)

(O renascimento
A imortalidade pela mudança.
A transmutação.)

A LETRA NUN
(Os afetos — As misturas)

Fig112

(Formas temperadas pelo equilíbrio.
A harmonia das misturas.)

A LETRA SAMEKH

(O número quinze — a serpente astral)

(A vida física e mortal.
O movimento continuo. O grande agente magico.)

A LETRA GNAYN
(O número dezesseis, o grande equilíbrio)

(Destruição pelo antagonismo.
Equilíbrio dos grandes poderes.)

A LETRA PHE
(O número dezessete)

(A natureza imortal e uma em sua diversidade.
A fecundidade eterna.)

A LETRA TSADE
(O número dezoito)

(Distribuição hierárquica da luz.
O ocultismo.
O dogma.
Os misterios.
O esoterismo.)

A LETRA COPH

(O numero dezenove)

(A verdadeira luz.
A verdade.
A cidade santa.
O ouro filosófico.)

A LETRA RESCH
(O número vinte)

(O reconhecimento de todo o grande arcano da vida eterna.)

A LETRA SCHIN
(nenhum número)

(A fatalidade. A cegueira o louco. A matéria abandonada a si mesma)

A LETRA TAV
(O número vinte um)

(tres vezes o sete, o absoluto, o resumo de toda a ciencia universal.)

OS ESPIRITOS E AS CONJURAÇÕES

OS ESPÍRITOS

Os espíritos são as inteligências secundarias, ou seja, criadas. Eles são de três tipos, fixos, errantes e mistos. Os fixos são puros espíritos libertos das leis que regem a matéria. Os andarilhos são os que flutuam na luz astral. Os mistos são os andarilhos que trabalham e conseguem se fixar em parte. Entre os fixos, pode-se distinguir os muito puros, os mais puros e os mais puros.

Entre os mistos: os dominantes, os militantes e os dominados. Entre os andarilhos: os motoristas, os inconstantes e os animados.

Os fixos são os anjos.

Os mistos” são os homens inteligentes.

Os andarilhos são os homens brutos.

Os espíritos se atraem e se governam hierarquicamente.

Eles estão ligados por correntes e círculos. Entrar em um círculo é jurar com os espíritos do círculo. Ao conjurar espíritos superiores, você não os atrai para você, você se eleva até eles. A conjuração por evocações só pode ser exercida em relação a espíritos inferiores. Para conjurar os espíritos superiores é preciso dar-se a eles, para conjurar os espíritos inferiores por evocação, é preciso constrangê-lo. Para nos dar.

Os Espíritos superiores são evocados fazendo-lhes sacrifícios, ou melhor, comprometendo-se assim a nos evocar. Os espíritos inferiores são evocados ao lisonjear suas avidezes ou suas atrações. As palavras nada mais são do que fórmulas que servem para fixar à vontade.

Os espíritos inferiores ao homem são os elementais e os andarilhos de última ordem. Os antigos teurgistas os chamavam de demônios. Esses demônios são mortais e tentam viver às nossas custas, procuram o esperma e as efusões de sangue, o vapor da carne e temem a ponta e o fio das espadas.

A hierarquia dos espíritos é infinita. Rila começa em Deus que não tem começo em nada – ou seja, ela não começa. As estrelas têm almas astrais, os sóis têm almas solares, e os universos são governados pelos Elohim vivos, os deuses que estão em Deus. A vida dos espíritos é uma contínua ascensão e mutação, sobem e descem na grande escala simbólica de Jacó.

Os anjos, governantes espirituais das estrelas, ascendem ao governo dos sóis e são substituídos pelo chefe das almas.

As cabeças das almas são os sucessivos reis da humanidade. O chefe das almas da terra leva o nome de Métatron Sarpanim, que significa príncipe das luzes. O chefe das almas não morre, ele sobe vivo para o rio. Enoque foi, em tempos após a criação de Moisés, o primeiro elevado ao posto de Metatron Sarpanim.

Depois de Enoque, reinou Moisés.

Depois de Moisés, Elias.

Depois de Elias, Jesus.

Todos os Metatrons devem ter dois reinados, eles retornam à terra depois de passar por todas as esferas do nosso sistema solar. É por isso que o retorno de Enoque e Elias precederá a segunda vinda de Jesus.

Em seu primeiro advento, Jesus se revelou como sumo sacerdote. Em seu segundo advento, ele se revelará como Rei.

Ele era o Cristo.

Ele deve ser o Messias que os judeus têm razão para esperar. Foi Enoque quem, no Sinai, deu a lei divina a Moisés. Moisés e Elias, no Tabor, ensinaram a Jesus os grandes mistérios da revelação cristã. Jesus transmitiu a iniciação a São João Evangelista e é por isso que este apóstolo deve permanecer até o segundo advento de seu mestre. Em tempos de decomposição, os espíritos inferiores se manifestam como vermes em cadáveres.

Eles são evocados pela corrupção e sendo devorados por eles. Estes são os vampiros de almas insalubres. Essas decomposições sempre precedem e anunciam a chegada à terra de um espírito regenerador na pessoa do Metatron Solar. As mesas falantes e os espíritos se debatendo anunciaram o retorno de Enoque. Ele virá quando o papado perder sua autoridade no mundo e os cabalistas brilharem. O advento de Elias seguirá de perto o de Enoque e então Jesus, o Salvador do mundo, virá à terra pela segunda vez.

Ele será precedido pelo Anticristo, cuja missão será preparar o grande império temporal do revelador do Evangelho.

A luz astral formiga nos espíritos elementais, pois uma nova criação está sendo preparada. As chaves de Salomão são encontradas e os mistérios da alta Maçonaria são explicados.

Uma escola, cujos primórdios são ainda mais obscuros e quase invisíveis, será formada no império eslavo, na Alemanha e na França. Em um século, esta escola terá sete mil seguidores e seu último Grão-Mestre será Enoque.

Enoque aparecerá no ano dois mil do mundo cristão. Depois e! O messianismo fiel que ele será o precursor, florescerá na terra por mil anos. Essas previsões são o resumo de todas as profecias e de todos os cálculos cabalísticos… elas devem ser mantidas em segredo para não expor as mais respeitáveis ​​obras do gênio humano e da ciência divina às profanações da ignorância.

Terminou no dia quinze de novembro, o décimo sétimo das calendas de dezembro, o último mês do ano sagrado.

ELIPHAS LEVI

Paris, 1860.

 Notas

Copiado para uso exclusivo e pessoal do Sr. Barão de Spedalieri, em outubro e novembro de 1861.

[1] Eliphas Levi aqui comente um erro estranho a alguém tão letrado em cabala e diz que o shem do inicio do shem há mephorash significa esquema (schem).

[2] Foram usados os versículos originais dos salmos que compõe os nomes dos 72 nomes divinos em cada um dos talismãs, o significado e uso de cada um dos 36 talismas esta no apêndice no final do livro.

[3] Eliphas levi escreve este nome como Chalamiah

[4] Todos os amuletos devem ser feitos dupla face, e são para serem usados no pescoço, são talismãs e não sigilos evocatórios.

[5] Eliphas levi grafa este nome de maneira errada como:

[6] EZALEL segundo Levi

[7] HACKAMIAH segundo Levi

[8] LOVIAH segundo levi

[9] LEVIVIAH segundo Levi

[10] JEJAHEL segundo Levi

[11] HAHUIAH segundo Levi

[12] NITHAIAH segundo Levi

[13] REJAJEL segundo Levi

[14] JERATHEL segundo Levi

[15] VASARIAH segundo Levi

[16] JEHUJAH segundo Levi

[17] JEJAZEL segundo Levi

[18] HAHAEL segundo Levi

[19] MICHAEL segundo Levi

[20] VAVALIAH segundo Levi

[21] NGARIEL segundo Levi

[22] JELAIAH segundo Levi

[23] AZALIAH segundo Levi

[24] SEATHIAH segundo Levi

[25] MEHIEL segundo Levi

[26] IMAMIAH segundo Levi

[27] Em francês falava-se sobre multiplicação, mas no desenho vemos uma adição.

[28] Não encontrei o significado dessa palavra


Robson Belli, é tarólogo, praticante das artes ocultas com larga experiência em magia enochiana e salomônica, colaborador fixo do projeto Morte Súbita, cohost do Bate-Papo Mayhem e autor de diversos livros sobre ocultismo prático.

As Chaves Maiores e as Claviculas de Salomão (pdf)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-chaves-maiores-e-as-claviculas-de-salomao/

Damnation and a Day, Cradle of Filth

O mundo metálico tremeu quando soube que o Cradle of Filth estava assinando contrato com uma grande gravadora. Mas os temores se dissiparam quando puderam ouvir Damnation and a Day: From Genesis To Nemesis. Este é o quinto álbum do Cradle Filth, e é parcialmente baseado no poema épico de John Milton Paraíso Perdido.

O Paraíso Perdido conta a rebelião e queda dos anjos comandada por Lúcifer é certamente leitura obrigatória para qualquer um que reivindique conhece o arquétipo do anjo portador da luz. È uma fina obra destas que nos convence de que os satanistas existiram antes mesmo do satanismo. A importância desta mitologia para qualquer estudante sério não pode ser enfatizada, mas é sintetizada nas imortais palavras de Milton: “É melhor reinar no inferno do que servir no paraíso.”

Citando Morbitvs Vividvs, em Lex Satanis, o Manual do Satanista: “Quando Lúcifer recusou-se a prestar servidão a Jeová ele não estava simplesmente arrumando uma briga infantil, antes de qualquer coisa ele estava apostando. Por um novo reino só seu ele arriscou tudo o que tinha sido lhe dado como vassalo celestial. Seu mito reflete uma diferença essencial que divide a postura do lobo doa postura  do cordeiro. Ao dizer não a Jeová ele arriscou o Paraíso, ele estava pondo em jogo tudo aquilo que já era seu. O risco é definitivamente a raiz de toda a rebelião e o começo da escalada rumo a divindade pessoal. Este é o maior ensinamento que a história de Lúcifer tem para nos ensinar.

Neste mesmo espírito Damnation and a Day faz uma narração irônica do Velho Testamento na voz de Dani Filth e torna-se assim um verdadeiro hino satânico de louvor para os lucíferes e devassos de plantão.

Babalon A.D. (So Glad For the Madness),Cradle Of Filth

 

I bled on a pivotal stretch
Like a clockwork Christ
Bears sore stigmata, bored

And as I threw Job, I drove
Myself to a martyred wretch
To see if I drew pity
Or pretty litanies from the Lord

So the plot sickened
With the coming of days
Ill millennia thickened
With the claret I sprayed
And though they saw red
I left a dirty white stain
A splintered knot in the grain
On Edens marital aid

So glad for the madness

I walked the walls naked to the moon
In Sodom and Babylon
And through rich whores and corridors
Of the Vatican
I led a sordid Borgia on

I read the Urilia text
So that mortals wormed
As livebait for the dead

And as I broke hope, I choked
Another Pope with manna peel
Dictating to DeSade
In the dark entrails of the Bastille
And as He wrote, I smote
A royal blow to the heads of France
And in the sheen of guillotines
I saw others, fallen, dance

I was an incurable
Necromantic old fool
A phagadaena that crawled
Drooling over the past
A rabid wolf in a shawl
A razors edge to the rule
That the stars overall
Were never destined to last

So glad for the madness

I furnaced dreams, a poet, foe of sleep
Turning sermons with the smell
On Witchfinder fingers
Where bad memories lingered
Burning, as when Dante
Was freed to map Hell

I sired schemes and the means
To catch sight of the seams
And the vagaries inbetween…

And midst the lips and the curls
Of this cunt of a world
In glimpses I would see
A nymph with eyes for me

Eyes of fire that set all life aflame
Lights that surpassed art
In sight , that no intense device of pain
Could prise their secrets from my heart

I knew not Her name
Though her kiss was the same
Without a whisper of shame
As either Virtue or Sins
And pressed to Her Curve
I felt my destiny swerve
From damnation reserved
To a permanent grin…

So glad for the madness

Tradução de Babalon A.D. So glad for the Madness
(Tão contente pela loucura)

Eu sangrei num movimento circundante
Como um Cristo que funciona como o trabalho de um relógio
Ursos expeliram stigmata, aborrecidos

E quando eu atirei Job, eu me guiei
A mim mesmo para um caminho de martir
Para ver se eu deito pena
Ou belas litanias do Senhor

Então o plano se tornou doentio
Com a vinda dos dias
O milénio doente surgiu
Com o clarete eu espalhei
E apesar de terem visto vermelho
Eu deixei uma suja mancha branca
Um conhecimento espalhado no grão
Do altar casamenteiro do Édano

Tão contente pela loucura

Eu andei as paredes nu até à lua
Em Sodoma e Babilónia
E através de ricas prostitutas e corredores
Do Vaticano
Eu guiei um sórdido Borgia para a frente

Eu li o texto de Urilia
Para que os mortais se aquececem
Com uma batida viva para os mortos

E como eu quebrei a esperança, eu arranjei
Outro papa como pele de energia
Ditando para a desordem
Nos escuros interiores da Bastilha
E quando escrevia, acrescentava
Uma explosão real para as cabeças de França
E no alvoroço das guilhotinas
Eu vi outros, caídos, dançar

Eu era um velho tonto
Necromântico incurável
Um phagadaena que se baixa

Se babando sobre o passado
Um lobo raivoso no matagal
O limite de uma lâmina para a regra
Que as estrelas sobre todos
Nunca estiveram destinada a durar

Tão contente pela loucura

Eu destribuí sonhos, um poeta, para dormir
Tornando sermões com o cheiro
Em dedos Caçadores de Bruxas
Onde as más memórias se guardam
Queimando, como quando Dante
Foi condenado a mapear o Inferno

Eu fiz esquemas e os objetivos
Para apanhar visões dos perdidos
E as baixarias dos entretantos

E entre os lábios e os caracóis
Desta vagina de mundo
Em vacilos eu veria
Uma ninfa com olhos para mim

Olhos de fogo que colocam toda a vida a arder
Luzes que substituíram a arte
Em visão, de que nenhuma intensa máquina de dor
Poderá separar os seus segredos do meu coração

Eu não sabia o seu nome
Apesar do o seu beijo ser o mesmo
Sem um susurro de vergonha
Ou mesmo Virtude ou Pecado
E pressionado contra a sua curva
Eu senti o meu destino a recuperar
Da condenação reservada
A um sorriso permanente…

Tão contente pela loucura

 

Nº 74 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/damnation-and-a-day-cradle-of-filth/

Análise Simbólica e Histórica do Frontispício do Manual do Aprendiz

Na noite da sua Iniciação, nas Grandes Lojas do Brasil, o Aprendiz recebe um Ritual que ele deve ler gradativamente e onde encontrará informações básicas do grau, do Templo, do ritual de apertura dos trabalhos, encerramento dos mesmos, da iniciação pela qual ele acaba de passar, as instruções que ele deverá aprender, etc.

E o primeiro enigma para ele é a capa do Ritual que tem iniciais tripontuadas, palavras novas para ele, um brasão da Grande Loja com símbolos para ele além de outros elementos, se não desconhecidos, não consegue de inicio, descobrir seu significado.

Para dar início á instrução de um Ap.’. entendemos que todas as Lojas deveriam logo na primeira sessão seguinte da sua iniciação, explicar ao Aprendiz o significado de todos os dizeres da capa de seu Ritual, facilitando o entendimento posterior das outras instruções que ele deverá receber. E é exatamente o que pretendemos fazer nas seguintes linhas.

Começamos vendo que na parte superior da capa, encontram-se quatro pares de letras maiúsculas, cada par seguido de três pontos formando um triângulo eqüilátero, quer dizer de três lados iguais. Elas são:

MM.’. LL.’. AA.’. AA.’.

Isto é a escritura tripontuada adotada pela Maçonaria já desde um tempo. Devemos aclarar que a escritura tripontuada não foi criada pela Maçonaria e que seu uso é relativamente recente.

O primeiro documento maçônico conhecido que utiliza a escritura com três pontos é uma circular do Grande Oriente da França, datado 12 de Agosto de 1774, comunicando novo valor da anuidade e mudança de local. Lennhoff, no Dicionário Maçônico Internacional, diz que os três pontos aparecem já em antigos escritos monacais, conservados na Biblioteca Coraini, Roma. Na Corte Pontifícia de Roma existia um tribunal denominado “Tribunal da A.’. C.’.” que para uns era Augusta Consulta e para outros Auditor Camarae.

O significado simbólico dos três pontos está, evidentemente, relacionado com o Ternário e como todos nos sabemos, o significado é variado e abrange todos os símbolos relacionados com o número três. O primeiro ponto é o origem criador de todo o que existe, o Uno, a Monada, o Princípio Fundamental, a Unidade, é Deus. Os dois pontos inferiores são a Dualidade, eles são gerados pelo primeiro ponto e, se se juntaram, voltam a ser a Unidade, da qual tiveram nascimento. O ponto superior corresponde ao Oriente em Loja, que é o mundo Absoluto da Realidade, é o Delta Sagrado, e os dois pontos inferiores correspondem ao Ocidente, ou seja o Mundo relativo, o domínio da Aparência, são as duas colunas, como mais um emblema da dualidade. Como podemos ver, a interpretação dos três pontos, são muitas e nelas não poderemos ficar restritos, para não pecar de dogmáticos.

Indo agora para as letras, que por estarem repetidas, indicam que a palavra está no plural, tomaremos primeiro o primeiro par de MM, que significa, neste caso, Maçons, e que identifica aquelas pessoas que já merecem serem chamadas de Maçons, porque, cumpridas exigências regulamentares, foram iniciadas em uma Loja regular, passando a ser integrantes dela.

O segundo par de letras é LL, e significa Livres, indicando que a consciência do Maçom não está sujeita a compromissos de tipo religioso, moral, político, etc, que poderiam comprometer a conduta que a Maçonaria espera dele e que está com sua mente livre para poder receber novos ensinamentos.

Logo vemos dois pares de letras AA, sendo que o primeiro significa Antigos e o segundo Aceitos. E para explicar seu significado aos Aprendizes, temos que entrar na história conhecida da Maçonaria. Falamos “conhecida” porque existe, lamentavelmente, muita invenção e imaginação por parte de pseudo historiadores que não apresentam nenhuma evidência de suas exageradas teorias. Todos nos sabemos que, na antigüidade existiram sociedades de diversos ofícios, sendo as mais numerosas e conhecidas as associações de construtores. Na Caldeia, existiam confrarias de construtores em 4500 ac, e existem monumentos acádicos com triângulo como símbolo da letra Rou que significa fazer, construir. No Egito, a arquitetura foi ciência sacerdotal, iniciática, hermética, com segredos, isolada da sociedade. Na China, livros sagrados conheciam o simbolismo do esquadro e compasso, que eram a insígnia do sábio diretor dos trabalhos. Na Grécia, aparecem os artífices dionisíacos, favorecidos nas leis de Sólon; eram iniciados, se reconheciam por palavras e sinais, divididos em colégios, dirigidos por um mestre eleito anualmente; os mais ricos ajudavam os mais pobres, não aceitavam imposições de reis; guardavam os mistérios da construção. Na Roma imperial aparecem os Collegia de artesãos, das mesmas características das associações mencionadas anteriormente; banidos, por ter-se transformados em clubes políticos, desaparecem e autores pensam que haveriam constituído confrarias na ilha de Como, no lago do mesmo nome, norte da Itália, nos anos 600 dc.; outros autores argumentam que eles se repartiram por toda Europa, especialmente as Ilhas Britânicas, sendo o início dos grêmios de pedreiros da Idade Média.

Todo o anterior, ainda que ofereça semelhanças com Lojas de pedreiros, não tem evidências que eles formam parte da história ou das origens da Maçonaria. O único documento antigo conhecido, que da base para falar em Maçonaria é o Manuscrito de Halliwell ou Manuscrito Regius, escrito aproximadamente em 1390, na Inglaterra, e que é um Manual completo para Lojas de autênticos pedreiros existentes na Inglaterra nos anos 926 dc, e que da a conhecer um Congresso, dirigido pelo rei Athelstan. Resumindo, com toda seriedade podemos afirmar que em 926 dc, já existiam Lojas maçônicas na Inglaterra. E quando essas Lojas ou a Maçonaria começaram? Não sabemos.

Estas Lojas de ANTIGOS pedreiros continuam através de toda a Idade Média, mas, com o Renascimento, o aumento dos médios de cultura, o interesse de ingressar nas Lojas para aprender a arte de construir, começa a diminuir sensivelmente e já a partir de 1600 ou anterior, estas Lojas começam a iniciar candidatos não pedreiros, porque pessoas cultas, da nobreza, sabendo que estas Lojas eram possuidoras de conhecimentos das ciências antigas, solicitam seu ingresso e são ACEITOS. Posteriormente em 1717 começa o período da Maçonaria Especulativa a diferença da Maçonaria Operativa e praticamente os componentes destas Lojas são exclusivamente aceitos ou especulativos. Então estes dois pares de AA lembram estes dois tipos de membros.

Logo na capa do Ritual aparece: RITUAL DO SIMBOLISMO.

O que é um Ritual? Um manual que ordena os passos de uma cerimônia, não exclusivamente religiosa. Toda cerimônia maçônica obedece a um ritual que preserve a pureza dela, conforme os Antigos Usos e Costumes, que existem desde tempos que não podemos determinar.

Simbolismo é a prática do emprego de símbolos. Nossa Instituição usa como elemento fundamental de seus ensinamentos, os símbolos, constituindo eles uma linguajem própria dentro da Ordem. Símbolo é um objeto material que serve para representar uma idéia; por exemplo, a cadeia é símbolo de união, o pavimento mosaico simboliza a igualdade entre as raças, etc. Analisamos um símbolo primeiramente de uma forma simples e logo depois procuramos seu significado filosófico; podemos dizer que o símbolo sintetiza um acúmulo de conhecimentos, resume objetivos, idéias e normas que procuram dirigir a mente humana por caminhos mais esclarecidos.

Em letras de tamanho bem maior, justamente para dar destaque, temos o nome do grau do Ritual sendo analisado: APRENDIZ MAÇOM. Corresponde ao primeiro grau, de três, da Maçonaria Simbólica e que é conferido ao recém iniciado. Na Maçonaria Operativa somente existiam dois graus (Ap.’. e Comp.’.) sendo que o grau de Mest.’. teria sido instituído em 1727, porque num documento da Loja Swam and Rummer, em Finch Lane, Londres, é convocada uma Loja de Mestres para Abril 29 de 1727; esta seria a mais antiga referência conhecida do grau de Mestre. Antigamente, o V.’. M.’. era escolhido entre os Companheiros e durante o período que o eleito exercia o cargo recebia o tratamento de Mestre.

A continuação vemos a reprodução do brasão da GLESP, encabeçado, em letras maiúsculas, pelo seu nome completo.

A nossa Grande Loja é a Potência maçônica regular a qual nossas Lojas devem obediência.

Uma Loja para ser considerada regular, tem que ter obtido sua carta patente ou carta constitutiva de uma Grande Loja igualmente regular. Uma Grande Loja não tem Carta Constitutiva outorgada por outra Potência; ela é constituída por 3 ou mais Lojas legalmente organizadas e em goze de seus direitos e que proclamam seu desejo de estabelecer uma Grande Loja em um território que está livre (significa que não existe nenhuma outra Potência nele). Posteriormente as outras Grandes Lojas estudarão o processo de sua geração e decidiram se ela merece ser admitida no seio da maçonaria regular universal conforme suas normas de reconhecimento, que são princípios adotados livremente por elas.

Como não poderia ser de outro modo, a base destas normas tem sido ditadas pela Grande Loja Unida da Inglaterra e que as atualizou em 4 de setembro de 1929 ficando como segue:

1. Regularidade de origem. Cada Grande Loja deverá ser estabelecida legalmente por três ou mais Lojas regularmente constituídas.
2. A crença no Grande Arquiteto do Universo (fórmula adotada pela maçonaria para designar a Deus incluindo as diferentes denominações dadas pela religiões) e na sua Vontade revelada será um requisito essencial para a admissão de novos membros.
3. Todos os iniciados prestarão seu juramento sobre ou na presença completa do Livro da Lei Sagrada aberto pelo qual significa-se a revelação do alto que liga a consciência do indivíduo particular que se inicia.
4. Os afiliados da Grande Loja e das Lojas individuais serão exclusivamente homens. Cada Grande Loja não terá relações maçônicas de nenhum tipo com Lojas mistas ou com Corpos que admitem mulheres como membros.
5. A Grande Loja terá jurisdição soberana sobre todas as Lojas de seu território podendo realizar inspeções periódicas. Será independente e governada por si mesma com autoridade sobre seus obreiros que serão dos três graus simbólicos (aprendiz, companheiro e mestre). Tal autoridade jamais poderá ser dividida com qualquer outro Corpo ou Potência ou sofrer inspeções e interferências de qualquer espécie.
6. As três Grandes Luzes da Francmaçonaria (Livro da Lei Sagrada, Esquadro e Compasso) estarão sempre expostas quando a Grande Loja ou suas Lojas subordinadas estivessem trabalhando, sendo a principal delas o Livro da Lei.
7. A discussão de religião ou política dentro da Loja será estritamente proibida.
8. Os princípios dos Antigos Limites (Old Land-marks), usos e costumes da Ordem serão estritamente conservados.

O prazo de duração de uma Potência maçônica é indeterminado e ilimitada a quantidade de Lojas e maçons que a compõem; ela somente se dissolverá se houver menos de três Lojas sob a sua Jurisdição. Uma Loja tem um mínimo de sete membros.

O conceito de territorialidade nunca tem sido definido nem praticado na íntegra no mundo maçônica, por motivos que seria demorado explicar e que acaba escapando ao tema deste trabalho. De fato acontece no Brasil e, especificamente no Estado de São Paulo, a GLESP mantém relacionamento amistoso tanto com o GOB como com o Grande Oriente Paulista, ambas potências com Lojas dentro de território do Estado de São Paulo.

Continuando com o brasão vemos desenhados o Sol, a Lua e uma estrela de 5 pontas, e no lado superior esquerdo, um conjunto de 7 estrelas. Como sabemos, no teto do Templo maçônico esta desenhada uma abóbada celeste, semeada de estrelas e nuvens, na qual aparecem o Sol, a Lua e outros astros (um total de 36 corpos celestes, sendo que Marte fica fora do Templo), que se conservam em equilíbrio pela atração de uns sobre os outros; o Templo representa o Universo, sendo o pavimento a Terra e o teto, o Céu.

O Sol é uma estrela anã amarela, com 4,5 bilhões de anos (está na metade da sua vida); ela emite luz e calor como produto de reações termonucleares no seu interior. Sendo a luz maior do céu, ele foi escolhido para ser o astro regente do V.’. M.’. e a sua luz é o símbolo da Sabedoria do V.’. M.’..

A Lua é o satélite natural da Terra e ela reflete a luz do Sol; portanto foi escolhida para ser o astro regente do Prim.’. V.’.; simboliza a luz que é recebida do V.’. M.’.e que é retransmitida pelo Prim.’. V.’.para as colunas.

A estrela de 5 pontas que vemos a continuação é uma estrela virtual, imaginária. Conforme Pitágoras, quando são discutidas coisas divinas, o que realmente acontece dentro de uma Loja maçônica, deve existir um facho que ilumine o Templo. Como o Sol era a luz mais intensa do Universo conhecido na época foi reservada para o V.’. M.’., simbolizando a sabedoria de Deus vinda desde o Oriente, não sendo conhecido outra estrela que emitisse tanta luz. Hoje se sabe que existem muitas outras estrelas mais brilhantes e maiores que o nosso Sol, por exemplo Arcturus, Antares e Formauhalt. Por isso foi criada uma estrela virtual, imaginária, e que recebeu o nome de Stella Pitagoris, e que foi reservada para o Seg.’. Vig.’..

As 7 estrelas que vemos no outro lado do brasão são conhecidas como as Plêiades que são um aglomerado aberto na Constelação de Touro, com milhares de estrelas, das quais na época da criação da Abóbada Celeste somente eram visíveis 7 delas. Elas regem os Mestres, que formam uma plêiade de homens justos.

No brasão vemos também elementos que correspondem a heráldica que não é do caso analisar.

Passamos agora ao centro do brasão onde estão o Esquadro, o Compasso e a letra “G”. O Esquadro simbolizando a retidão e também a matéria; o Compasso é a imagem do pensamento nos diversos círculos por ele formados; a abertura de suas hastes e seu fechamento representa os diferentes modos de raciocínio que, de acordo com as circunstâncias, devem ser amplos e abundantes, ou precisos e concisos, mas sempre claros e objetivos; a abertura do compasso indica as possibilidades de conhecimento.

A letra “G “ lembra Deus, do inglês God, já que a simbologia maçônica nasce na Inglaterra. Outras palavras importantes para o maçom também começam com a letra G conforme será visto nos graus após o 1o.

No pé do brasão estão escrita três palavras, que são: AUDI, VIDE e TACE. Sua tradução significa OUVI, VI e CALEI. Lembra ao Irmão como deve ser seu comportamento após receber os secretos do grau e outros conhecimentos que se dados a profanos que não passaram pela iniciação não poderão entender ou entenderão eles de uma forma errada.

Logo temos novamente o nome de nossa Grande Loja e finalmente as palavras RITO ESCOCÊS ANTIGO E ACEITO.

São numerosos os Ritos nos quais trabalha a Maçonaria no mundo todo. Passa de 70 (alguém fala que são centenas) os Ritos que tem sido criados, muitos de curta duração, outros totalmente desconhecidos e alguns espúrios ou irregulares porque omitem qualquer alusão ao G.’.A.’.D.’..’.U.’.e a imortalidade da alma, não utilizam o Livro da Lei ou são mistos (aceitando homens e mulheres), etc. A imensa maioria dos Ritos foram criados a partir de 1717. Entre os praticados hoje em dia temos o R.’.E.’.A.’.A.’., Schröeder, Emulation (o modo mais antigo e difundido de fazer o Rito de York), Adonhiramita e São João. Os ritos mais praticados no mundo são o de York, praticado na Inglaterra, Escócia, Irlanda, Canadá e EEUU, que congregam praticamente 66% dos maçons regulares no mundo todo, e o R.’.E.’.A.’.A.’. praticado especialmente na América latina.

O R.’.E.’.A.’.A.’.tem como data de fundação oficial, 31 de Maio de 1801, quando na cidade de Charleston, EEUU, foi fundado o primeiro Supremo Conselho para o R.’.E.’.A.’.A.’. (conhecido como o Supremo Conselho Mãe). Mas o Escocesismo nasceu antes, quando eliminada a dinastia dos Stuart (católicos), toda a nobreza escocesa foge para a França, principalmente Paris, sendo que muitos deles eram maçons. Eles são recebidos como membros honorários nas Lojas existentes na França, e nelas começam a trabalhar pela restauração da dinastia Stuart, e acabam criando uma nova linha de maçonaria que é o Escocesismo, aplicado nas Lojas livres que eles começam a fundar. Relatamos estes fatos históricos unicamente para explicar que o R.’.E.’.A.’.A.’.não foi, como poderia parecer criado na Escócia, e sim tem seu nome porque deriva do denominado Escocesismo.

Palestra proferida pelo autor na VII Jornada Maçônica de São Paulo de 2002

Pelo Ven.Irmão Ethiel Omar Cartes González Loja Guatimozín 66 Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo (Brazil)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/analise-simbolica-e-historica-do-frontispicio-do-manual-do-aprendiz/

Os Templários e o Baphomet

Baphomet (do grego), o andrógeno bode-cabra de Mendes. Segundo os cabalistas ocidentais, especialmente os franceses, os Templários foram acusados por adorar Baphomet. Jacques de Molay, Grão-Mestre da Ordem do Templo, com todos os seus irmãos, morreram por causa disso. Porém, esotérica e filosoficamente falando, tal palavra nunca significou “bode” nem qualquer outra coisa tão objetiva como um ídolo. O termo em questão quer dizer, segundo Von Hammer, “batismo” ou iniciação na sabedoria, das palavras gregas Baph e Metis, significando “Batismo de Sabedoria”, e da relação de Baphometus com Pã.

Von Hammer deve estar certo, Baphomet era um símbolo hermético-cabalístico, mas a história, tal como foi inventada pelo clero, é falsa. Pã é o deus grego da Natureza, do qual deriva a palavra Panteísmo; o deus dos pastores, caçadores, lavradores e habitantes das campinas.

Segundo Homero, é filho de Hermes e Dríope; seu nome significa “Todo”. Foi inventor da chamada flauta do deus Pã, e uma ninfa que ouvisse o som desse instrumento não resistia ao fascínio do grande Pã, apesar de sua figura grotesca. Pã tem certa relação com o bode de Mendes, no que este representa, como um talismã de grande potência oculta, a força criadora da Natureza.

Toda a filosofia hermética se baseia nos segredos ocultos da Natureza e, assim como Baphomet, era inegavelmente um talismã cabalístico. O nome de Pã era de grande virtude mágica naquilo que Eliphas Levi chamava de “Conjuração dos Elementais”. Outra teoria nos leva a uma composição do nome de três deuses: “Baph”, que seria ligado ao deus Baal; “Pho”, que derivaria do deus Moloc; e “Met”, advindo de um deus dos egípcios, Set. Para conhecê-los, sugiro a leitura do livro Maçonaria – Escola de Mistérios – Seus Símbolos e Tradições, de Wagner Veneziani Costa, lançamento da Madras Editora.

A palavra “Baphomet” em hebraico é como segue: Beth-Pe-Vav-Mem-Taf. Aplicando-se a cifra Atbash (método de codificação usado pelos cabalistas judeus), obtem-se Shin-Vav-Pe-Yod-Aleph, que se soletra Sophia, palavra grega para Sabedoria.

O símbolo do Baphomet é fálico, haja vista que em uma de suas representações há a presença literal do falo, devidamente inserido em um vaso (símbolo claro da vulva). O Baphomet de Levi possui mamas de mulher, e o pênis é metaforicamente representado por um caduceu (símbolo de Mercúrio, usado hoje na Medicina). Esse tipo de simbologia sexual aparece com freqüência na alquimia (o coito do rei e da rainha), com a qual o ocultismo tem relação. O Sol e a Lua ou, até mesmo, o Sol e Vênus, a Estrela matutina e vespertina, Phosforus, Lúcifer, o Portador da Luz…

Pode ser interpretado em seu aspecto metafísico, no qual pode representar o espírito divino que “ligou o céu e a terra”, tema recorrente na literatura esotérica. Isso pode ser visto no Baphomet de Eliphas Levi, que aponta com um braço para cima e com o outro para baixo (em uma posição muito semelhante a representações de Shiva na Índia). No ocultismo, isso representaria o conceito que diz: “Assim é em cima, como é embaixo”.

Antes, porém, quero apresentar um personagem muito importante: Eliphas Levi Zahed é tradução hebraica de Alphonse Louis Constant, abade francês, nascido no dia 8 de fevereiro de 1810 em Paris. O maior ocultista do século XIX, como muitos o consideram, era filho do modesto sapateiro Jean Joseph Constant e da dona de casa Jeanne-Agnès Beaupurt. Tinha uma irmã, Paulina-Louise, quatro anos mais velha que ele. Apesar de mostrar desde menino aptidão para o desenho, seus pais o encaminharam para o ensino religioso.

Foi assim que, aos 10 anos de idade, ingressou na comunidade do presbitério da Igreja de Saint-Louis em L´lle, onde aprendeu o catecismo sob a direção do abade Hubault, que selecionava os garotos mais inteligentes que demonstravam alguma inclinação para a carreira eclesiástica. Desse modo, Eliphas foi encaminhado por ele ao seminário de Saint-Nicolas du Chardonnet, para concluir seus estudos preparatórios. A vida familiar cessou para ele a partir desse momento. No seminário, teve a oportunidade de se aprofundar nos estudos lingüísticos e, aos 18 anos, já era capaz de ler a bíblia em seu texto original.

Após 15 anos de estudos, Eliphas Levi deixou o grande seminário para ingressar no mundo; tinha então 26 anos de idade. Sua mãe, ao saber disso, suicidou-se. Abalado e sem nenhuma experiência do mundo, teve muitas dificuldades para encontrar um emprego. Essa barreira aumentava ainda mais pelo boato que correu, segundo o qual ele teria sido expulso do seminário. Após ter percorrido o interior da França, trabalhando em um circo, Eliphas encontrou em Paris alguns trabalhos como pintor e jornalista. Fundou, com seu amigo Henri-Alphonse Esquirros, uma revista intitulada As Belas Mulheres de Paris, na qual se aplicava como desenhista e pintor, e Esquirros atuava como redator.

Eliphas Levi passou por vários empregos, sempre perseguido pelo clero que via nele um apóstata. Foi então que escreveu sua Bíblia da liberdade, desejando dividir com seus irmãos as alegrias de suas descobertas (1841). Essa publicação lhe custou oito meses de prisão e 300 francos de multa! Foi acusado de profanar o santuário da religião, de atentar contra as bases da sociedade, de propagar o ódio e a insubordinação.

Ao sair da prisão, realizou pequenos trabalhos, principalmente pintura de quadros e murais de igrejas, e fez colaborações jornalísticas. Apesar dos contratempos materiais, não deixou jamais de aperfeiçoar seus conhecimentos e enriquecer sua erudição. Foi após Emanuel Swedenborg que encontrou os grandes magos da Idade Média, os quais o lançaram definitivamente no Adeptado: Guillaume Postel, Raymond Lulle, Henry Corneille Agrippa. Assim, em 1845, aos 35 anos de idade, escreveu sua primeira obra ocultista, intitulada O Livro das Lágrimas ou o Cristo Consolador.

Em 1855, fundou a Revista Filosófica e Religiosa (cujos artigos principais se encontram em seu livro A Chave dos Grandes Mistérios. Nesse mesmo ano, publicou seu Dogma e Ritual da Alta Magia e o poema Calígula, identificando no personagem o imperador Napoleão III. Por causa disso, foi preso imediatamente. No fundo da prisão escreveu uma réplica, o Anti-Calígula, retratando-se. Foi então posto em liberdade.

No dia 31 de maio de 1875, faleceu Eliphas Levi. Aqueles que o acompanharam até o último momento testemunharam sua grande coragem e resignação. No momento de expirar, estava bastante calmo. Sua vida tinha sido plena de realizações espirituais. Havia cumprido a missão de iniciado e de iniciador.

“Toda intenção que não se manifesta por atos é uma intenção vã,

e a palavra que a exprime é uma palavra ociosa. É a ação que prova a vida, e é também a ação que prova e demonstra a vontade.

Por isso está escrito nos livros simbólicos e sagrados que os homens serão julgados, não conforme seus pensamentos e suas idéias, mas segundo suas obras.

Para ser é preciso fazer…”

A ilustração mais famosa de Eliphas Levi sobre Baphomet, que muitos conhecem, seja de cartas de Tarot, como o demônio, seja como símbolo ocultista, é esta: “Figura panteística e mágica do absoluto. O facho colocado entre os dois chifres representa a inteligência equilibrante do ternário; a cabeça de bode, cabeça sintética, que reúne alguns caracteres do cão, do touro e do burro, representa a responsabilidade só da matéria e a expiação, nos corpos, dos pecados corporais. As mãos são humanas, para mostrar a santidade do trabalho; fazem o sinal do esoterismo em cima e em baixo, para recomendar o mistério aos iniciados e mostram dois crescentes lunares, um branco que está em cima, o outro preto que está em baixo, para explicar as relações do bem e do mal, da misericórdia e da justiça. A parte baixa do corpo está coberta, imagem dos mistérios da geração universal, expressa somente pelo símbolo do caduceu. O ventre do bode é escamado e deve ser colorido em verde; o semicírculo que está em cima deve ser azul; as pernas, que sobem até o peito, devem ser de diversas cores. O bode tem peito de mulher e, assim, só traz da humanidade os sinais da maternidade e do trabalho, isto é, os sinais redentores. Na sua fronte e em baixo do facho, vemos o signo do microcosmo ou pentagrama de ponta para cima, símbolo da inteligência humana que, colocado assim, embaixo do facho, faz da chama deste uma imagem da revelação divina”.

Esse panteu deve ter por assento um cubo e, para estrado, uma bola e um escabelo triangular. É uma boa representação; no entanto, peca historicamente e não deve ser tomado como “verdadeiro” Baphomet, pois essa figura é muito parecida com a curiosa representação do Diabo, esculpida alguns anos antes da sua “tese”, em 1842, no pórtico da igreja de Saint-Merri, em Paris.

Em relação aos Templários, encontramos uma gárgula que poderia ter servido de inspiração a Levi na comendoria de Saint Bris le Vineux que pertencia à Ordem.

Spectrum nos dá alguns esclarecimentos: “…Em meio às diversas polêmicas que compõem o tema do satanismo, alguns pontos não ficam totalmente esclarecidos. Por exemplo, a representação de uma cabra com corpo humano encontrada nos cultos do satanismo religioso é denominada Baphomet, que já era conhecida desde os tempos pré-cristãos. Portanto, não possui nenhuma relação com o demônio conhecido no cristianismo. Para os satanistas, Baphomet é uma energia da natureza que os motiva a conseguir nossos objetivos. Nesse caso, a cabra com corpo humano e asas simboliza força, fertilidade e liberdade, características muito valorizadas pelos povos pagãos.

O pentagrama é um símbolo encontrado originalmente nas culturas pré-cristãs com diversos significados. No caso do satanismo religioso, é utilizado com duas pontas voltadas para cima, representando a face de Baphomet.

A origem da cruz invertida nos remete a São Pedro, que não se julgava digno de morrer como Jesus e pediu para ser crucificado de cabeça para baixo. Esse símbolo é encontrado na Basílica do Vaticano, no trono ocupado pelo Papa. Porém, a cruz invertida também foi adotada por grupos que se intitulam satanistas ou anticristãos”.

Na época dos celtas, o homem reconhecia o espírito animador dos seres vivos. Ele era geralmente descrito como o Deus Cornudo, um homem com chifres. Era uma força sem moralidade, que não podia ser aplacada e com ela não se podia barganhar. Era simbolizada como o Deus Cornudo porque conferia certos poderes sobre os animais, e um homem com chifres porque representava algo extra que o homem poderia conquistar. Os chifres duplos simbolizavam a natureza bipolar da força que era tanto boa quanto má, luz e escuridão, beleza e terror, positivo e negativo. Ainda mais, a imagem do Deus Cornudo dava uma impressão da espantosa e temível natureza desse tipo de poder.

Blavatsky relaciona Baphomet a Azazel, o bode expiatório do deserto, de acordo com a Bíblia Cristã, cujo sentido original – segundo a célebre ocultista russa – foi deploravelmente deturpado pelos tradutores das Sagradas Escrituras. Ela ainda explica que Azazel vem da união das palavras Azaz e El, cujo significado assume a forma de um interessante “Deus da Vitória”. Não obstante a essa definição, Blavatsky vai além em seus preceitos, quando equipara Baphomet – O Bode Andrógino de Mendes – ao puro Akasha, a Primeira Matéria da Obra Magna.

O Akasha é o princípio original, o espaço cósmico, o éter dos antigos, o quinto elemento cósmico. Ele é o substrato espiritual do Prakriti diferenciado. Segundo a Teosofia, ele está relacionado a uma força chamada Kundalini. Eliphas Levi o chamou de Luz Astral. Na Filosofia Hindu é um lugar, o elemento éter. Também significa ar, atmosfera, luz. Designa o espaço sutil onde estão armazenados todos os conhecimentos e feitos humanos, desde os primórdios. É a memória da humanidade. Corresponde ao Inconsciente Coletivo de Carl Jung.

O deus Pã, antiqüíssima divindade pelágica especial para Arcádia, é o guarda dos rebanhos que ele tem por missão fazer multiplicar. Deus dos bosques e dos pastos, protetor dos pastores, veio ao mundo com chifres e pernas de bode. Pã é filho de Mercúrio. Era muito natural que o mensageiro dos deuses, sempre considerado intermediário, estabelecesse a transição entre os deuses de forma humana e os de forma animal. Parece, contudo, que o nascimento de Pã provocou certa emoção em sua mãe, ela ficou assustadíssima com tão esquisita formação. As más línguas diziam que, quando Mercúrio apresentou o filho aos demais deuses, todo o Olimpo desatou a rir. Mas como é provável que haja nisso um pouco de exagero, convém restabelecer os fatos na sua verdade, e eis o que diz o hino homérico sobre a estranha aventura: “Mercúrio chegou a Arcádia, que era fecunda em rebanhos; ali se estende o campo sagrado de Cilene. Nesses páramos, ele, deus poderoso, guardou as alvas orelhas de um simples mortal, pois concebera o mais vivo desejo de se unir a uma bela ninfa, filha de Dríops. Realizou-se então o doce enlace matrimonial. Por fim, a jovem ninfa deu à luz o filho de Mercúrio, menino esquisito, de pés de bode e testa armada de dois chifres. Ao vê-lo, a nutriz abandona-o e foge. Espantam-na aquele olhar terrível e aquela barba tão espessa. Mas o benévolo Mercúrio, recebendo-o imediatamente, colocou-o no colo, cheio de júbilos. Chega assim à morada dos imortais ocultando o filho, cuidadosamente, na pele aveludada de uma lebre. Depois, apresenta-lhes o menino. Todos os imortais se alegram, sobretudo Baco, e dão-lhe o nome de Pã, visto que para todos foi considerado um objeto de diversão”.

Conta-se que as ninfas zombavam incessantemente do pobre Pã em virtude do seu rosto repulsivo, e o infeliz deus, ao que se diz, tomou a resolução de nunca amar. Mas Cupido é cruel, e afirma uma tradição que Pã, desejando um dia lutar corpo a corpo com ele, foi vencido e abatido diante das ninfas que se riam.

O deus Pã, entidade silvestre extremamente lúbrica (por isso é metade homem, metade bode), assedia a deusa Afrodite, personificação do amor carnal, com um sorriso maroto; Eros, que personifica o impulso amoroso, empurra com ar brincalhão e malicioso os chifres de Pã, ocultando-os. Eros era considerado filho de Afrodite e de Ares, deus da guerra. Sua forma também me faz lembrar de outro deus, um deus Egípcio, AMON, que muitas vezes é representado também como um bode, com chifres grandes. Amon era o deus do oculto, do escuro… da noite… do invisível…

No século XX, o controvertido ocultista inglês Aleister Crowley desenvolveu um culto e uma religião que têm como um de seus principais fundamentos exatamente o referido ídolo templário, segundo sua própria e peculiar concepção de Baphomet. O entendimento de Crowley por certo lançará mais matérias à reflexão sobre este discutível tema, bem como ajudará a avaliar o modo polêmico de abordagem desse mistério, modo este que é típico de uma crescente vertente de ocultistas contemporâneos.

Ao longo das obras de Crowley, são fartas as referências a Baphomet, chamado por ele de “Mistério dos Mistérios”, no cânone central de sua religião, composto na forma de um missal denominado Liber XV – A Missa Gnóstica. Tal era sua identificação com Baphomet, que esse nome foi adotado como um de seus mais importantes pseudônimos, ou motes mágicos.

O assunto é tão relevante que nos Rituais de Iniciação da Ordo Templi Orientis, uma das Ordens lideradas por Crowley, praticamente todas as consagrações são feitas em nome de Baphomet, não importando se os consagrados estejam conscientes ou não a respeito do sentido de tal ato e muito menos de suas implicações futuras. Tamanha é a proeminência do conceito implícito ao termo que no VI Grau da referida Ordem, a título de ilustração, numa clara referência a suas supostas raízes orientais, a palavra Baphomet é declarada como aquela que comporta os Oito Pilares (as oito letras que formam a palavra) que sustentam o Céu dos Céus, a Abóbada do Templo Sagrado dos Mistérios, no qual está o Trono do Rei Salomão.

Ainda em sua Missa Gnóstica, Crowley identifica Baphomet com um símbolo chamado “Leão-Serpente”, que, assim como Baphomet, é a representação do andrógino ou hermafrodita. Mais especificamente, ele é um composto que possui em si mesmo o equilíbrio das forças masculinas e femininas transmu-tadas num só elemento.

O Leão-Serpente, na verdade, é uma forma cifrada de mencionar a concepção humana, a união dos princípios masculinos (Leão) com os femininos (Serpente), ou do espermatozóide com o óvulo, formando o zigoto. Há, seguindo com os preceitos de Crowley, diversos modos de mencionar essa dualidade: Sol e Lua, Fogo e Água, Ponto e Círculo, Baqueta e Taça, Sacerdote e Sacerdotisa, Pênis e Vagina, além de várias outras duplas de eternos polares. E eu tomo a liberdade de acrescentar A Espada e o Graal.

Originalmente, o símbolo representado pelo Leão-Serpente consta em alguns dos mais antigos documentos gnósticos, os quais remontam ao começo do século II d.C. Apresentado sob a forma de uma figura arcôntica com cabeça de leão e corpo de serpente, o Leontocéfalo era a própria imagem do Demiurgo do Mundo, sendo a versão gnóstica para o Jeová mosaico. Crowley, ao se utilizar desse mesmo simbolismo, pretendia resgatar os cultos de um cristianismo hoje considerado primitivo.

Crowley e seus adeptos, entretanto, não se detêm apenas em demonstrar o Mistério de uma forma puramente alegórica. A “Luz da Gnose”, como é chamada, é celebrada de modo literal. Assim, o ponto máximo da encenação de seu missal consiste na celebração do Supremo Mistério, ou seja, durante a realização das Missas Gnósticas ocorre a comunhão, por parte de todos os partícipes da cerimônia, das hóstias, também chamadas de hóstias dos céus, ou bolos de luz, preparadas com sêmen e fluido menstrual. De acordo com Crowley, Baphomet, sob o nome Leão-Serpente, surge desse composto, da matéria primeva, oriunda da grande obra, ou seja, do ato sexual entre Sacerdote e Sacerdotisa.

Por meio dos poderes mágicos dos operantes do rito da grande obra, a matéria primeva é transmutada em “Elixir”, ou “Amrita”. A grande obra, contudo, por meio das propriedades mágicas da fórmula de Baphomet, ainda teria a capacidade de transmutar os operantes do rito e não apenas as substâncias que o compõem. Baphomet, assim como concebido por Crowley, é então o Elixir ou tintura da sabedoria, o veículo da Luz da Gnose, a qual compõe o Mistério Místico Maior, também chamado segredo central de sua Ordo Templi Orientis.

Crowley considerava Baphomet como o supremo Mistério Mágico dos Templários, segredo este que estaria concentrado nos graus superiores de sua Ordem. Da mesma forma, ele clamava que esse era o mesmo mistério oculto nos graus superiores da Maçonaria. Será que ele se enganou? Ou conhecia um outro rito na Maçonaria?

Por Frater WLUX 11

Bibliografia:

BANZHAF, Hajo e THELER, Brigitte. O Tarô de Crowley – Palavras-Chave. São Paulo: Madras Editora, 2006.

BORGES, Jorge Luis. O Livro dos Seres Imaginários. Rio de Janeiro: Editora Globo, sd.

CARROLL, Peter James, texto traduzido por Pássaro da Noite.

CROWLEY, Aleister. O Livro de Thelema. São Paulo: Madras Editora, 2000.

KING, Francis. Sexuality, Magic & Pervesion, p. 98. Los Angeles: Feral House, 2002.

–. The Secrets Rituals of the O.T.O., p. 164. Nova York: Samuel Weiser, 1973.

LEVI, Eliphas. Dogma e Ritual de Alta Magia. São Paulo: Madras Editora, 2004.

–. A Chave dos Grandes Mistérios. São Paulo: Madras Editora, 2005.

RAPOSO, Carlos. In: “Baphomet”, Revista Sexto Sentido.

STANLEY, Michael (coordenação). Emanuel Swedenborg. São Paulo: Madras Editora, 2006.

#Maçonaria #Ocultismo #Templários

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-templ%C3%A1rios-e-o-baphomet

John Dee e o despontar de “Christian Rosencreutz”

FRANCES A. YATES

excerto do livro O Iluminismo Rosa-Cruz

A palavra “rosa-cruciano” é derivada do nome “Christian Rosencreutz” ou “Rosa-Cruz”. Os chamados “manifestos rosa-crucianos” são dois pequenos panfletos ou folhetos, publicados primeiramente em Cassel, nos anos de 1614 e 1615, cujos títulos extensos podem ser abreviados para Fama e Conjessio. O herói desses manifestos é um certo “Padre C.R.C.” ou “Christian Rosencreutz”, que consta como tendo sido o fundador de uma Ordem ou Irmandade, atualmente restaurada, e para a qual os manifestos convidam a ingressar. Eles provocaram um imenso alvoroço, e uma terceira publicação em 1616 aumentou o mistério. Tratava-se de um singular romance alquímico, cujo título em alemão traduzido para o inglês é The Chemical Wedding of Cbristian Rosencreutz. O herói dessa obra também parece estar associado a alguma Ordem que usa como símbolos uma cruz vermelha e rosas dessa mesma cor.

O autor de The Chemical Wedding foi certamente Johann Valentin Andreae. Os manifestos estão indubitavelmente relacionados com esse livro, embora provavelmente não tenham sido da autoria de Andreae, mas de alguma outra pessoa ou pessoas desconhecidas.

Quem era esse “Christian Rosa-Cruz” que aparece inicialmente nessas publicações? Infinitas são as mistificações e lendas tecidas em redor desse personagem e de sua Ordem. Vamos tentar cortar caminho através’ dele, por uma trilha completamente nova. Mas, permitam-nos começar este capítulo com esta pergunta mais fácil: “Quem foi Johann Valentin Andreae?”

Johann Valentin Andreae, nasceu em 1586, original de Württemberg, o Estado Luterano que se ligou intimamente ao Palatinado. Seu avô foi um  eminente teólogo luterano, algumas vezes chamado “o Lutero de Wurttemberg . O Intenso Interesse pela situação religiosa contemporânea foi a principal inspiração de seu neto johann Valentin, que também tornou-se um pastor luterano, porém com um interesse liberal pelo Calvinismo. Apesar dos infindáveis malogros, Johann Valentin foi encorajado durante toda sua vida, pelas esperanças de alguma solução a longo prazo, relativa ao desenlace religioso. Todas as suas atividades – seja como pastor luterano devoto com interesses socialistas, seja como propagador das fantasias “rosa-crucianas” – estavam orientadas para tais esperanças. Andreae era um escritor de futuro, cuja imaginação foi influenciada pelos atores itinerantes ingleses. No que concerne ao início de sua vida e às influências por ele sofridas, temos informações autênticas em sua autobiografia.

Por ela ficamos sabendo que em 1601, com a idade de 15 anos, sua mãe viúva levou-o para Tübingen, para que continuasse seus estudos naquela famosa universidade de Württemberg. Enquanto estudante em Tübingen – assim nos conta ele – desenvolveu seus primeiros trabalhos juvenis como autor, aproximadamente durante os anos de 1602 e 1603. Esses trabalhos incluíram duas comédias sobre os temas de “Esther” e “Jacinta” – que ele afirma ter escrito “por rivalidade com os atores ingleses” – e um trabalho chamado Chemical Wedding) o qual define depreciativamente como um ludibrium ou uma ficção, ou ainda uma pilhéria de pouco mérito.

A julgar pelo Chemical Wedding, de Andreae, que ainda existe, a publicação de 1616, tendo Christian Rosencreutz como herói – versão prematura do assunto – teria sido um trabalho de simbolismo alquímico, empregando o tema do casamento como um símbolo dos processos da alquimia. Não pode ter sido igual ao Chemical Wedding de 1616, que contém referências aos manifestos rosa-crucianos de 1614 e 1615, ‘ao Eleitor Palatino e sua corte em Heidelberg, e ao seu casamento com a filha de Jaime 1. A primeira versão do Chemical Wedding) que não é conservada, deve ter sido atualizada para a publicação de 1616. Não obstante, a versão inicial perdida deve ter proporcionado a parte essencial desse trabalho.

Podemos fazer uma boa conjetura sobre quais foram as influências e acontecimentos em Tübingen, que inspiraram esses primeiros trabalhos de Andreae.

O Duque de Württemberg então reinante, era Frederico I, alquimista, ocultista e anglófilo entusiasta, cuja paixão predominante fora estabelecer uma aliança com a Rainha Elisabete e obter a Ordem da Jarreteira. Visitara várias vezes a Inglaterra com esses desígnios e parece ter sido uma figura conspícua. A Rainha chamava-o “primo Mumpellgart” , que era seu nome de família, e muitas discussões foram travadas em torno do problema para saber se as referências crípticas em Merry Wives o/ Windsor , de Shakespeare, aos “velhacos (garmombles)”, e aos cavalos alugados no “Garter Inn” (Estalagem da Jarreteira) pelos servidores do duque alemão, poderiam ter alguma relação com Frederico de Württemberg . A Rainha autorizou a sua eleição para a Ordem da Jarreteira em 1597 , mas a verdadeira cerimônia de sua investidura não teve lugar senão em novembro de 1603, quando lhe foi conferida a Jarreteira em sua própria capital, a cidade de Stuttgart, por uma embaixada especial de Jaime L

Por conseguinte, mediante esse ato logo no primeiro ano de seu reinado, Jaime fez um gesto para continuar a aliança elisabetana com os poderes protestantes alemães, embora após alguns anos devesse rejeitar as esperanças assim originadas . Mas no ano de 1603, em Württemberg, o reinado de um novo soberano da Inglaterra parecia abrir-se mais auspiciosamente para as esperanças alemãs, e verificou-se uma efusão de entusiasmo à volta da embaixada que viera conceder a jarreteira ao Duque, e dos atores ingleses que a tinham acompanhado.

A cerimônia da Jarreteira em Stuttgart e as festividades a ela associadas são descritas por E . CeIlius numa narrativa em latim, publicada em Stuttgart em 1605, parte da qual é citada numa tradução inglesa por Elias Ashmole em sua história da Ordem da Jarreteira

As procissões nas quais tomaram parte solene os oficiais da Jar· reteira Inglesa, carregando a insígnia da Ordem, com os dignitários alemães, causaram uma esplêndida impressão. A aparência do Duque era a mais suntuosa, estando coberto de jóias que lançavam de um lado para outro “uma mistura radiante de diversas cores”. Um dos oficiais da Jarreteira Inglesa era Robert Spenser, que segundo afirmou Cellius era parente do poeta. 8 A parte interessante desse comentário é a que ouviram de Spenser, e talvez de seu Faerie Queene, em Stuttgart

Assim, suntuosamente vestido, o Duque entrou na igreja, na qual ao som de uma música solene, foi investido na Ordem. Após um sermão, a música recomeçou, consistindo nas “Vozes de dois Adolescentes, vestidos de branco com asas iguais às dos Anjos, e postados frente a frente”

Quando os convidados voltaram ao ball, participaram do Banquete da Jarreteira, que se prolongou até as primeiras horas do dia seguinte. Cellius tem alguns detalhes sobre o banquete que não estão citados por Ashmole, incluindo referências à parte do entretenimento proporcionado por “músicos, comediantes, artistas trágicos e outros atores ingleses talentosos”. Os músicos ingleses deram um concerto em conjunto com seus colegas de Württemberg, e os atores da Inglaterra aumentaram a hilaridade do banquete apresentando dramas. Um deles foi a ‘História de Susana’, “que representaram com tal arte e desempenho histriônico e tal engenhosidade, que foram profusamente aplaudidos e recompensados”.

Nos últimos dias, os ingleses foram convidados a visitar alguns dos principais lugares do Ducado, incluindo a Universidade de Tübingen, “na qual se distraíram assistindo comédias, música e outros passatempos”

Certamente a visita da embaixada da Jarreteira e os atores, que dela participavam, devem ter representado um acontecimento incrivelmente estimulante e emocionante para o jovem e imaginativo estudante de Tübingen, Johann VaIentin Andreae. O seu Chemical Wedding, de 1616, está repleto de impressões brilhantes relativas ao suntuoso cerimonial e às festas de alguma Ordem ou Ordens, contendo comentários sobre as representações dramáticas. Ele se torna mais compreensível enquanto uma obra artística, quando observado como o resultado das primeiras influências em Andreae, tanto do drama como do cerimonial, associando-se para inspirar um trabalho de arte novo, original e imaginativo.

Em 1604 , um ano após a cerimônia da Jarreteira, um trabalho muito singular foi dedicado ao Duque de Württemberg. Tratava-se de Naometria, por Simon Studion, um manuscrito inédito constante da “Landesbibliothek” , em Stuttgart. 11 É um trabalho apecalíptico-profético de grande extensão, usando de uma numerologia complexa sobre as descrições bíblicas das medidas do Templo de Salomão, e argumentos complicados relativos a datas expressivas na história bíblica e européia, preparando o caminho para as profecias sobre datas de acontecimentos futuros. O escritor interessa-se particularmente pelas datas relacionadas à vida de Henrique de Navarra, e o trabalho todo parece refletir uma aliança secreta entre Henrique, no momento Rei da França, Jaime I da Grã-Bretanha e Frederico, Duque de Württemberg. Esta suposta aliança (da qual não encontrei provas em nenhum lugar) está descrita muito pormenorizadamente, e o manuscrito até contém várias páginas de músicas que devem ser cantadas em versos, sobre a eterna amizade da Flor-de-lis (o Rei da França), o Leão (Jaime da Grã-Bretanha) e da Ninfa (o Duque de Württemberg) .

De acordo com a evidência apresentada por Simon Studion poderia parecer, portanto, que em 1604 existia uma aliança secreta entre Jaime, Württemberg, e o Rei da França, talvez uma continuação do rapprocbement com Jaime através da cerimônia da Jarreteira no ano anterior. Encontramo-nos ainda na parte inicial ,do reinado de Jaime, durante o qual ele ainda estava persistindo nas alianças do reino precedente e trabalhando de acordo com Henrique de Navarra, na época rei da França.

A Naometria é um curioso espécime daquela obstinação por profecias, baseado na cronologia, que era uma obsessão característica cUt época. Entretanto, essa obra contém um relato interessante e aparentemente real sobre algo que, segundo dizem, ocorreu em 1586. De acordo com o autor da Naometria, houve uma reunião em Luneburg no dia 17 de julho de 1586, entre “alguns Príncipes e Eleitores evangélicos”, e representantes do Rei de Navarra, o Rei da Dinamarca e a Rainha da Inglaterra. Consta que o objetivo dessa reunião foi formar uma “Liga Evangélica” de defesa contra a “Liga Católica” (que estava progredindo na França, a fim de evitar a ascensão de Henrique de Navarra ao trono da França). Essa Liga foi chamada “Confederatio Militiae Evangelicae”

Ora, de acordo com alguns primitivos estudantes do mistério rosa-cruciano, a Naometria de Simon Studion e a “Milícia Evangélica”, aí descrita, representam uma origem básica para o movimento rosacrucíano. A. E. Waite, que examinara o manuscrito, acreditara que o desenho de uma rosa toscamente delineado com uma cruz no centro, contido na Naometria, é o primeiro exemplo do simbolismo rosa-cruciano da rosa e da cruz. Não posso afirmar que esteja totalmente convencida da importância dessa pseudo-rosa, mas a idéia de que o movimento rosa-crucíano foi implantado à maneira de aliança dos simpatizantes protestantes, formada para anular a Liga Católica, poderia harmonizar-se bem com as interpretações a serem desenvolvidas neste livro. A data de 1586 para a formação dessa “Milícia Evangélica” far-nos-ia retroceder ao reinado da Rainha Elisabete, ao ano de intervenção de Leicester junto aos neerlandeses, ao ano da morte de Philip Sidney, à idéia da formação de uma Liga Protestante, que era tão cara a Sidney e a John Casimir do Palatinado.

Os problemas suscitados por Simon Studion, em sua Naometria, são demasiadamente complexos para aqui serem introduzidos com detalhes, mas eu estaria inclinada a concordar em que esse manuscrito de Stuttgart é certamente de importância para os estudantes do mistério rosa-cruciano. O que nos incentiva quanto a essa opinião, é o fato de que Johann Valentin Andreae, evidentemente conhecia a Naomeiria, pois a menciona em sua obra Turris Babel, publicada em 1619. Nela está interessado não em quaisquer datas anteriores mencionadas na Naometria, mas sim em suas datas para os futuros acontecimentos, suas profecias. Simon Studion mostra-se muito enfático em insistir que o ano de 1620 (lembrem-se de que ele está escrevendo em 1604) será grandemente significativo, pois ele verá o fim do reinado do Anticristo na derrocada do Papa e de Maomé. Este colapso prosseguirá nos anos subseqüentes e aproximadamente em 1623 começará o milênio. Andreae mostra-se muito obscuro no que diz a respeito das profecias da Naometria, que ele associa com as .do Abade Joaquim, S. Brígida, Lichtenberg, Paracelso, Postel e outros illuminati. Contudo, é possível que as profecias desse tipo possam realmente ter influenciado nos acontecimentos históricos, bem como ajudado o Eleitor Palatino a tomar aquela decisão precipitada de aceitar a coroa da Boêmia, ao acreditar que o milênio estava próximo.

Os movimentos obscuros, vislumbrados através do estudo do Duque de Württemberg e da Jarreteira, e os mistérios da Naometria pertencem aos primeiros anos do século, quando a União Protestante estava sendo formada na Alemanha, e os defensores dos Reis da França e da Inglaterra neles depositavam sua confiança. Naqueles anos mais distantes, Jaime I pareceu simpático a esses movimentos. O assassinato do Rei da França em 1610, às vésperas de fazerem uma intervenção importante na Alemanha, destroçou as esperanças dos ativistas durante algum tempo, e alterou o equilíbrio dos negócios europeus. Todavia, Jaime parecia continuar ainda a política antiga. Em 1612, ingressou para a União dos Príncipes Protestantes, cujo chefe no momento era o jovem Eleitor Palatino; no mesmo ano autorizou o noivado de sua filha Elisabete com Frederico, e em 1613 foi realizado o famoso casamento, com a promessa evidente de apoio pela Grã-Bretanha ao chefe da União Protestante Alemã, o Eleitor Palatino

Na época em que essa aliança estava em seu apogeu, antes que Jaime I tivesse iniciado sua tomada de posição, objetivando retirar seu apoio, o enérgico Christian de Anhalt começou a trabalhar com o fito de fortalecer o Eleitor Palatino, como sendo o chefe ideal das forças anti-habsburgas na Europa. Os líderes mais antigos depositários das esperanças tinham desaparecido; Henrique de França fora assassinado; Henrique, Príncipe de Gales, morrera. A escolha caiu sobre o jovem Eleitor Palatino.

Anhalt, por via de regra, foi considerado responsável pela malograda aventura de Frederico da Boêmia, e foi contra ele que a propaganda virou-se após seu desastroso fracasso. Possuía muitos contatos na Boêmia; e, segundo poderia parecer, talvez tivesse sido através de seus esforços persuasivos que os rebeldes da Boêmia foram influenciados para oferecerem a coroa a Frederico. A figura de Anhalt representava uma influência importante e dominadora durante os anos em que a aventura do povo da Boêmia estava evoluindo para seu clímax, e portanto é indispensável levar em consideração a natureza dos interesses desse homem, e a natureza de suas ligações na Boêmia.

Teologicamente falando, Christian de Anhalt era um calvinista entusiasta, mas como muitos outros príncipes protestantes alemães da época viu-se profundamente envolvido nos movimentos paracelsistas e místicos. Ele era o patrono de Oswald Croll, cabalista, paracelsista e alquimista, e suas relações na Boêmia eram de caráter semelhante. Era amigo íntimo de Peter Wok de Rosenberg ou Roãmberk, um opulento nobre da Boêmia com imensas propriedades nas imediações de Trebona ao sul daquele país, um liberal da antiga escola rodolfiana, e um patrono da alquimia e do ocultismo.

Os contatos de Anhalt com pessoas da Boêmia eram de um gênero que poderiam levá-lo a ingressar na esfera de uma extraordinária corrente de influências oriundas da Inglaterra, e que tinham surgido com a visita à Boêmia de John Dee e de seu companheiro Edward Kelley. Como é sabido, Dee e Kel1ey encontravam-se em Praga em 1583, quando o primeiro tentou despertar o interesse do Imperador Rodolfo II para seu misticismo imperialista de grande alcance e seu vasto círculo de estudos. A natureza do trabalho de Dee, atualmente, é melhor conhecida através do recente livro da autoria de Peter French. Dee, cuja influência na Inglaterra fora tão intensamente importante, e que tinha sido o professor de Philip Sidney e seus amigos, tivera a oportunidade de formar um grupo de adeptos na Boêmia, embora, por enquanto, tenhamos poucos meios para estudar o assunto. O centro principal das influências de Dee, na Boêmia, teria sido Trebona, na qual ele e KelIey haviam estabelecido sua sede após a primeira visita a Praga . Dee residiu em Trebona como hóspede de Villem Roãmberk, até 1589, quando regressou à Inglaterra. Villem Rozrnberk era o irmão mais velho de Peter, que foi amigo de Anhalt e que herdara as propriedades em Trebona após a morte de seu irmão.  Dada a tendência da mente de Anhalt e a natureza de seus interesses, é evidente que teria sido atingido pelas influências de Dee. De mais a mais, é provável que as idéias e perspectivas emanadas originalmente de Dee – o filósofo inglês e elisabetano – tenham sido empregadas por Anhalt ao fortalecer a imagem do Eleitor Palatino na Boêmia, como uma pessoa que dispunha de recursos maravilhosos, devido à influência inglesa em sua retaguarda.

A ascendência de Dee estivera difundindo-se, muito anteriormente, da Boêmia para a Alemanha. Segundo os comentários sobre Dee, feitos por Elias Ashmole em seu Theatrum Chemicum Britannicum (1652). a viagem de Dee pela Alemanha em 1589, ao regressar da Boêmia para a Inglaterra, foi um tanto sensacional. Ele passou perto daqueles territórios que, vinte e cinco anos mais tarde, deveriam ser o cenário da explosão do movimento rosa-cruciano. O Landgrave de Hesse apresentou seus cumprimentos a Dee, que por sua vez “presenteou-o com doze cavalos húngaros que comprara em Praga para sua viagem”. 26 Por ocasião dessa etapa em sua viagem para a Inglaterra, Dee também entrou em contato com seu discípulo Edward Dyer (um dos amigos mais íntimos de Philip Sidney) que estava seguindo para a Dinamarca como embaixador, e que “no ano anterior estivera em Trebona e levara cartas do Doutor (Dee ) para a Rainha Elisabete”. 21 Dee deve ter causado uma forte impressão nessas duas pessoas acima meneio- ‘nadas, como sendo um homem muitíssimo erudito e alguém representando o centro de grandes negócios.

Ashmole afirma isso em 27 de junho de 1589 quando, em Bremen, Dee recebeu a visita do “famoso filósofo hermético ou alquímico, Dr. Henricus Khunrath, de Hamburgo”. 22 A influência de Dee é um fato evidente na extraordinária obra de Khunrath (co Anfiteatro da Sabedoria Eterna, publicada em Hanover, em 1609. 23 “Monas” – o símbolo de Dee, um emblema complexo por ele explicado em seu livro Monas Hieroglyphica (publicado em 1564 com uma dedicatória ao Imperador Maximiliano II), tão significativo pela sua forma peculiar da filosofia alquímica – pode ser observada numa das ilustrações do “Amphiteatre”, e tanto a Monas de sua autoria, quanto seus Aphorisms estão mencionados no texto de Khunrath. O “Anfiteatro” forma um elo entre a filosofia influenciada pôr Dee e a filosofia dos manifestos rosa-crucianos. Na obra de Khunrath deparamo-nos com a fraseologia característica dos manifestos, a ênfase permanente sobre o macrocosmo e o microcosmo, a insistência sobre a Magia, a Cabala e a Alquimia, como que combinando-se para criar uma filosofia religiosa que promete um novo alvorecer para a humanidade.

As gravuras simbólicas no “O Anfiteatro da Sabedoria Eterna” são dignas de um estudo, como uma introdução visual à linguagem figurada e à filosofia que encontraremos nos manifestos rosa-crucianos. Exceto no título, a palavra “Anfiteatro” não aparece nesse trabalho, e podemos apenas supor que Khunrath com esse título deve ter tido em mente algum pensamento de um sistema oculto de memória, através do qual ele estava apresentando suas idéias visualmente. Uma das gravuras mostra uma grande caverna com inscrições nas paredes, através das quais os adeptos de alguma experiência espiritual estão se dirigindo para uma luz. Isso também pode ter sugerido uma linguagem figurada na Fama rosa-cruciana. E a gravura de um alquimista religioso é sugestiva tanto do ponto de vista de John Dee como dos manifestos rosa-crucianos. À esquerda, um homem numa atitude de profunda adoração está ajoelhado na frente de um altar, no qual constam símbolos cabalísticos e geométricos. À direita, vê-se um grande forno com todo o aparelhamento para o trabalho de um alquimista. No centro, instrumentos musicais estão empilhados sobre uma mesa. E a composição no conjunto está num ball, desenhada com toda a perícia de um perspectivista moderno, demonstrando o conhecimento daquelas artes matemáticas, que se harmonizavam com a arquitetura da Renascença. Essa gravura é uma demonstração visual do tipo de concepções que john Dee sintetizou em sua Monas hieroglyphica, uma combinação de disciplinas cabalística, alquímica e matemática, por meio das quais o adepto acreditava que poderia alcançar um profundo discernimento da natureza e a visão de um mundo divino para além da natureza.

Ela também poderia servir como manifestação visual dos temas principais dos manifestos rosa-crucianos, Magia, Cabala e Alquimia, unidos numa concepção profundamente religiosa, que abrangia um enfoque religioso de todas as ciências dos números.

Portanto, deveríamos procurar uma influência de John Dee nos manifestos rosa-crucianos? Sim, deveríamos, e sua influência deve ser neles encontrada sem sombra de dúvida. Farei agora uma breve exposição relativa às descobertas que serão desenvolvidas mais detalhadamente nos capítulos subseqüentes.

O segundo manifesto rosa-cruciano, a Confessio de 1615, foi publicado com um opúsculo em latim, chamado “Uma Breve Consideração da Mais Secreta Filosofia”.  Esta “Breve Consideração” é baseada na Monas hieroglypbica, de John Dee, e grande parte dela consta, palavra por palavra, de citações da Monas. Essa dissertação está associada indissoluvelmente ao manifesto rosa-cruciano que o sucedeu, a Conjessio. E a Conjessio está indissoluvelmente vinculada ao primeiro manifesto, a Fama, de 1614, cujos tópicos nela se repetem. Assim, a “mais secreta filosofia” por trás dos manifestos era a filosofia de John Dee, conforme sintetizada em sua Monas hieroglyphica.

Além disso, a obra Cbemical Wedding, de 1616, da autoria de johann Valentin Andreae – na qual ele ofereceu a manifestação alegórica e romântica dos assuntos dos manifestos – tem, na página do título, a “monas”, o símbolo de Dee, que é repetido no texto ao lado do poema com o qual inicia a alegoria.

Conseqüentemente, não pode haver dúvidas de que deveríamos considerar o movimento ‘oculto sob as três publicações rosa-crucianas, como sendo definitivamente proveniente de John Dee. Sua influência poderia ter entrado na Alemanha vinda da Inglaterra com os amigos ingleses do Eleitor Palatino, e poderia ter-se expandido da Boêmia. onde Dee propagara a sua missão inspiradora nos anos anteriores.

Por que deveriam essas influências ter sido anunciadas desse modo estranho, através de sua difusão nas publicações rosa-crucianas? Como uma tentativa para responder a essa pergunta – sobre a qual os capítulos subseqüentes fornecerão mais evidência – deve ser lembrado que as publicações rosa-crucianas pertencem aos movimentos em torno do Eleitor Palatino, movimentos esses que o estavam fortalecendo para a aventura da Boêmia. O principal espírito estimulante, por trás desses movimentos, foi Christian de Anhalt, cujas ligações na Boêmia pertenciam diretamente aos oráculos nos quais a influência Dee teria sido exercida e fomentada.

A sugestão estranhamente excitante é que o movimento rosa-cruciano, na Alemanha, representou o resultado retardado da missão de Dee na Boêmia vinte anos antes, cujas influências vieram a ser associadas com o Eleitor Palatino. Sendo Cavaleiro da Jarreteira, Frederico herdara o culto da cavalaria inglesa inerente ao movimento, e como chefe da União Protestante ele representava as alianças que Anhalt estava tentando fortalecer na Alemanha. Do ponto de vista político-religioso, o Eleitor Palatino atingira uma situação preparada nos anos anteriores, e surgira como o líder político-religioso destinado a resolver os problemas do século. Durante os anos de 1614 a 1619 – aqueles do entusiasmo veemente originado pelos manifestos – o Eleitor Palatino e sua esposa reinavam em Heidelberg, e Christian de Anhalt estava elaborando a aventura do povo da Boêmia.

E essa aventura não era simplesmente um esforço político anti- -habsburgo, Era a manifestação de um movimento religioso que durante muitos anos estivera concentrando energias, alimentado por influências secretas verificadas na Europa, um movimento para solucionar os problemas religiosos, paralelamente com as normas místicas sugeridas pelas influências hermética e cabalística.

A estranha atmosfera mística, na qual Frederico e sua esposa foram envolvidos pelos entusiastas, pode ser verificada numa gravura alemã, publicada em 1613. Frederico e Elisabete estão cobertos por raios provenientes do Nome Divino acima de suas cabeças. Essa gravura deve ter sido a primeira das que circularam na Alemanha, relacionadas com o assunto Frederico-Elisabete; muitas outras deveriam seguir-se. A história de Frederico nessas estampas proporciona maior diretriz de evidência no que se refere à sua ligação com os movimentos contemporâneos.

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/john-dee-e-o-despontar-de-christian-rosencreutz/

Bibliografia nacional sobre lobisomens

João Ribeiro, em O Folklore, publicação de 1919, no capítulo VI, escreve que “O pan-animismo da natureza não distingue os seres, nem os classifica; nem os compreende senão como inteiramente humanos. A Lua, o Sol, a folha, a montanha ou a pedra, tudo é humano. Se um rochedo acaso afeta qualquer parecença com outro ser, logo surge uma história etiológica que nos explica a metamorfose. Dessas mutações que passaram depois à poesia e à ficção, algumas ficaram como superstições resistentes, tenazes e refratárias à morte. Tal é o caso do Lubisomem, da transformação do homem em lobo, que se funda realmente num estado de loucura melancólica e religiosa, caso patológico bem averiguado desde os médicos antigos. A licantropia ou a cinantropia é freqüentemente confessada pelos próprios doentes como uma possessão pelos demônios. No Brasil, certas vítimas do amarelão, quando esgotadas de anemia, são havidas por Lubisomens. Uivam, ladram, e amam as excursões noturnas fora de horas. Tal é o caso da legenda arcádica de Licaon entre os gregos. Na Índia, desde os Vedas, há a moléstia mental dos homens-tigres, homens-cobras, convictos da própria metamorfose. O licantropo acredita que vira a pele para dentro e a parte interna para fora, ficando ora homem, ora lobo, e por isso entre os latinos lhe chamavam versipellio… por essa inversão do tegumento. O Lubisomem começa a tremer, a ganir e a ladrar, no momento da transformação, com aquele ar estranho e hórrido do Dr. Jekill, o homem duplo, do terrível conto de Stephenson. Também Sachetti, numa das suas Novelle, 122, escreve: “E come io sona per diventare lupo, comincia a sbagliare e a tremare forte”.1… O povo acredita ainda nos que viram Lubisomem, durante a noite.”

Leoncio C. de Oliveira, em Vida Roceira, edição de 1918, SP., descreve o Lobisomem como “caboclo opilado, extremamente descorado, ressequido e de sombrio aspecto, produto de sétimo parto, que às sextas-feiras, à meia noite, procura os galinheiros, onde se espoja nas fezes e alimenta-se das mesmas, metamorfosea-se em um grande cão, de enormes e pendentes orelhas que estralam no calor da carreira na qual sai o desgraçado para percorrer sete cidades antes do nascer do dia, em cumprimento do seu triste fado

…Sendo uma mulher casada com um Lobisomem, só lhe soube a sina quando, certa noite, despertou sobressaltada com enorme cão dentro do quarto. Gritou apavorada pelo marido, que julgava a dormir e o cão, enfurecido, atacou-a, esfacelando-lhe a dentes a saia de baeta vermelha que vestia. Na manhã seguinte, ao surpreender entre os dentes do marido filamentos de lã de sua saia, compreendeu-lhe, horrorizada, o desgraçado destino. Abandonou-o e levou o resto da vida a penitenciar-se do tempo que coabitou com o horrível duende.”

Cornélio Pires, em 1927, apresenta o Lobisomem através da descrição de um caipira. “O Lubisóme é um cachorrão grande, preto, que sai tuda a sexta-fera comê bosta de galinha, ‘daquelas preta, mole, que nem sabão de cinza… Ele sai e garra corrê mundo nu’a toada, cabeça-baxa, esganado e triste… Você arrepare in tuda a casa de sítio; in baxo das jenela tá tudo ranhado de Lubisóme. Ele qué íntrá p’ra cumê as criança que inda num fôro batizado…”

Aluísio de Almeida, em 142 Histórias Brasileiras, relata uma variante paulista da Estória do Labisomem: “Uma moça casou-se com um rapaz que tinha o fadário de ser Lobisome; viviam em harmonia, porém ela, muito simples, nada percebia, porque o marido costumava sair sempre à noite dar uma prosa com amigos que moravam um pouco retirados, e a convidava. Às vezes, ela ia também; e de outras não, e quando não, ia deitar-se e quando o marido voltava a encontrava dormindo, de modo que às sextas-feiras ele saia cumprir o fadário sem que ela desconfiasse. Uma sexta-feira, sem pensar, ele a convidou para saírem, e ela eceitou; mas, quando foram passando por uma tapera, lembrou-se que era noite de cumprir o fadário, mas estava com a mulher. Que fez ele? disse para a mulher que o esperasse ali, porque precisava dar um recado a um amigo que morava ali perto; e seguiu por um trilhozinho que ficava no fundo da tapera. Como estava escuro e a mulher ficasse com medo de cobras ou aranhas, pois era um gramado, achou melhor trepar em um galho arcado de uma árvore, à pequena altura do chão. Já ia alta a noite, o marido não aparecia, ela com muito medo, pois nunca ficara assim sozinha em tapera. De repente, ela ouviu um bater de orelhas que vinha pela estrada para aonde deviam caminhar, e um cachorrão farejando o chão veio onde ela estava e, enxergando-a, começou a dar pulos para mordê-la, e nesses botés só conseguia pegar a barra da saia de baeta e tirava pedaços nos dentes.

Ela começou a gritar pelo marido, mas ele não aparecia; depois de muito tempo ele apareceu e perguntou o que eram aqueles gritos? ela disse: – você vai e não voltava mais; apareceu um bruto cachorrão e queria me morder, mas só alcançou o meu vestido e a saia de baeta. Não querendo descobrir-se, e para disfarçar, disse: – eu fui lá e convidaram-me para cear; eu aceitei e me entretive na prosa, e quando vinha vindo ouvi vossos gritos e vim depressa; como já é tarde, eles aonde nós iamos já estarão dormindo; voltaremos uma outra noite qualquer; é a mesma coisa. No outro dia ele não foi trabalhar; e quando o sol estava um pouco alto, disse: – fulana! ponha uma esteira no terreiro e traga uma tripeça, e você senta-se, e eu ponho a cabeça no vosso colo e me faz um cafuné. A mulher fez o que ele disse; e pondo a cabeça no seu colo e ela fazendo cafuné, começou a roncar com a boca aberta, e então a mulher viu os fiapos de baeta nos vãos dos dentes do marido, e ficou muito assustada, mas nada lhe disse. Chamou depois um seu irmão, e contou o caso todo muito direitinho. O irmão disse: fulana! teu marido é Lobisome; mas não se assuste, eu vou cortar-lhe o fadário; sexta-feira eu vou esperá-lo; levo meu facão folha de espada e quando ele passar, eu o cotuco com a ponta do facão para tirar sangue, e ficará cortado o fadário; não tenha medo, não vou matá-lo. No dia determinado o rapaz foi esperá-lo; levou o facão, uma garrucha de dois canos, vestiu o poncho e pôs um chapéu de abas largas, e ficou na beira da estrada. A horas tantas o rapaz ouviu o paca, paca, das orelhas e quando o Lobisomem ia passando, riscou-Ihe as costelas com a ponta do facão; ele deu um salto e virou homem outra vez; e encarando o cunhado disse: ah! você cortou o meu fadário, espere aí que eu vou em casa buscar um presente para te dar, em agradecimento! O rapaz, que sabia o que era o presente, tirou o poncho e o vestiu em uma arvorezinha, pôs o chapéu em cima e ficou do outro lado, esperando. Dai a pouco volta o homem e diz: – meu amigo! aí vai o presente! e descarrega os dois canos da espingarda, que só atingiu o poncho, e o rapaz respondeu: Amigo! quem dá presente recebe um ‘Deus Ihe pague’ – e descarregau ambém os dois canos da garrucha, mas sem intenção de atingi-lo.

Ele fugiu, de carreira. No outro dia se encontraram, e o cunhado mostrou o poncho furado pelos bagos de chumbo e disse: eu tenho o corpo fechado; chumbo não cala no meu corpo, e nem bala também; vamos fazer as pazes, porque comigo você não pode; o outro acreditou e fizeram as pazes e o casal continuou vivendo em harmonia. Nota: Era crença que os Lobisomens, quando conheciam os seus desencantadores, tratavam de vingar-se, porquanto, desencantados daquela maneira, teriam de cumprir o fadário depois da morte com tempo dobrado. Contada por Eugênio Pilar França.”

Em 50 Contos Populares de São Paulo, o mesmo autor relata que “num certo lugar do qual não é preciso dizer o nome, houve há tempos um homem mau, que judiava muito da mulher, a ponto de causar-lhe a morte, por ruins tratos. O castigo que ele teve foi de virar Lobisomem todas as noites de sextas para sábados. Resolvendo casar-se de novo, tratou de ser melhor para a segunda mnlher, a ver se acabava o seu fadário. Era mesmo uma coisa triste paraele, sair à noite, chovesse ou fizesse frio, pelos caminhos silenciosos, com as grandes orelhas caídas, procurando baeta para mastigar. Depois do casório, continuou a mesma coisa. A mulher percebeu logo que nas noites de sextas-feiras ele saía, e voltava cedo, noutro dia, muito cansado e triste, amarelo, sem ânimo para o trabalho. Uma noite dessas, portanto, ficou acordada, e viu o marido, mastigando a baeta do cobertor, com uma cara tão feia que nem teve coragem para lhe dizer nada. Quando deu meia noite, ele procurou a chave, mas estava tudo bem trancado, por artes da mulher. Então, ele foi ficando fininho, que nem uma linha, e passou pelo buraco da fechadura. A mulher não pôde dormir mais. Chamou gente. O homem apareceu de madrugada com uns fiapos de baeta vermelha nos dentes e muito envergonhado. Era a hora. Mal ele acabava de entrar, a mulher, sem dizer nada, zás! joga-lhe água benta em cima. Depois fizeram sete rezas, sete noites, com sete velas acesas, e ele desecantou e viveu feliz”…

Ruth Guimarães, em Os Filhos do Medo, escreve que “não pode o Lobisomem ver os olhos nem as unhas de alguém, porque isso o irrita.” E conta que “um menino foi mordido por um grande cão negro. Um dia, quando o boi do carro que estava guiando, urinou, ele tirou a roupa e se espojou no chão sobre a urina. Na mesma hora virou Lobisomem.”

No Estado de São Paulo (Mogi das Cruzes e Laranjal Paulista) existe a versão do Lobisomem como homem que vem pedir ou aceita sal, na sexta-feira.

Quem nascer no dia 12 do mês 12, às 24 horas, quando tiver 12 e 24 anos, vira Lobisomem, escreve Geraldo Brandão, em Monografia Folçlórica – Mogi das Cruzes.

Em Minas Gerais, Hermes de Paula apresenta o Lobisomem como Fantasma da Quaresma, em Montes Claros: Sua História, Sua Gente E Seus Costumes.

“O nosso Lobisomem apresenta-se em duas formas: de cachorro; ou lobo e porco. Vagueia nas noites das sextas-feiras da Quaresma; os cachorros latem para ele de longe, mas de perto encolhem-se ganindo baixinho, transidos de medo. Eles não vêm do outro mundo; são homens que viram. Rolam na areia ou chiqueiro três sextas-feiras seguidas para conseguir a transformação; quando se utilizam da areia transformam-se em cachorro; no caso do chiqueiro viram porcos. Vários individuos daqui eram apontados, às escondidas, como viradores de Lobisomens. O cego Ventura mesmo era um deles; vivia amarelo… Em um sábado da Quaresma chegamos a enxergar entre seus dentes os fiapos da baeta vermelha – sinal insofismável de que ele virara Lobisomem. Contam que balas não lhe entram no corpo; o único lugar vulnerável é o dedo mindinho do pé (5° artelho); ferido neste ponto, o encanto se quebra e o Lobisomem vira homem, na mesma hora e fica com muita raiva. Antonio Xavier de Mendonça, passando pela vargem às duas horas da madrugada de uma sexta-feira da Quaresma, foi agredido por um porco enorme e alvejou o ponto fraco do animal. Foi a conta; o bicho desvirou e, para surpresa sua, era um seu compadre e amigo, que muito alegre se mostrou, reconhecido pelo bem a ele sucedido e pediu-lhe que esperasse ali, que ele iria em casa buscar-lhe um presente. O velho Mendonça desconfiou da pressa do compadre em lhe retribuir o favor; com o paletó e o chapéu vestiu um tronco seco de árvore existente ali e escondeu-se para observar melhor. Daí a pouco veio chegando o compadre com uma espingarda e tacou fogo no tronco vestido…”

Saul Martins, em Os Barranqueiros, dá o Lobisomem como “Bicho resultante da metamorfose de pessoa do sexo masculino condenada em razão da sua própria origem; ou em razão de transformação voluntária. Para tanto, despe-se numa encruzilhada ou debaixo de um pé de goiabeira, à meia noite, Sexta-feira da Paixão, espojando-se na roupa às avessas.”

O pé de goiabeira, como local propício à transformação; não apareceu, nesta pesquisa, em outro lugar. O mesmo com referência à transformação voluntária, no Brasil.

Em Folclore da Januária, Joaquim Ribeiro diz que “O Lubisono é o sétimo filho macho de um casal que só tinha fêmeas. Tem de cumprir sina. As sextas-feiras mete-se no chiqueiro, espoja-se e grunhe como porco. Para quebrar o encanto, é necessário tirar sangue. Quem é Lubisono é pálido, magro, sorumbático e tristonho. Quando vira bicho, os dentes aumentam, os pêlos crescem e o corpo toma a forma de um quadrúpede monstruoso. Não há uniformidade na descrição do Lubisono: é um monstro proteico, de várias formas.” Essa descrição é resultante de pesquisa em São João das Missões.

No Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore Ano I n° l, lê-se que, no município de Caçador, “O sétimo filho quando não batizado, vira Lobisomem – ou quando casa será estéril” e em Biguaçu, “criança que nasce com os dedos tortos fica lobis-homem.” Na mesma publicação, Ano III n° 12 e em Aspectos Folclóricos Catarinenses, Walter F. Piazza denomina o Lobisomem Uma Velha Assombração e diz que no município de Tijucas, “se nascerem consecutivamente, numa família, sete filhos varões, o último deverá ser chamado Bento, do contrário ficará Lobisomem.”… ” Já em outros lugares são apontados como inimigos da honra, tal como nos afiançou velho caboclo: é indivíduo de má índole, autor de algum bárbaro crime, especialmente contra a honra ou contra gente fraca: crianças, mulheres grávidas e velhos.” No oeste catarinense, em Caçador, surge como “um horrendo Lobisomem-dragão, com cerca de três metros de comprimento, tem dorso de dragão e formidável boca provida de agudíssimos dentes. Pelas ventas dilatadas lança um bafio nauseabundo.” Esse monstro, conhecido como Lobisomem dos Correias, alimenta-se do sangue dos que morreram sem confissão e quem ouvir seus uivos morrerá dentro de curto prazo. A perversidade é característica desses amaldiçoados e “os cachorros uivam e o perseguem, latindo e mordendo; o gado, quando solto nos pastos, corre que nem louco e quando está preso torna-se inquieto e procura disparar das mangueiras… e toda a pessoa que tiver a infelicidade de ser mordido pelo excomungado do bicho, não tem que ver, na primeira sexta-feira de lua cheia, vira em seguidinha Lobisomem. Isso bem perto da capital catarinense, no município de Biguaçu.” E continua: “mas o nosso pescador de camarões da Ilha de Santa Catarina pede a Deus que o livre do coisa-ruim!” No interior catarinense dizem que ele “suga o sangue das criancinhas, especialmente das que, ainda, se amamentam. Desvirgina as donzelas.” E, para a maior parte do povo, do que ele gosta, mesmo, é de sangue. No município catarinense de Porto Belo, “se tem algum inimigo, homem, andando pela estrada; pega-o na certa para a sangria mais violenta no pé do ouvido. Ou na batata da perna.” Quanto à forma como se apresenta, informa o A., que, “em NovaTrento, parte do território catarinense, é um homem de olhos afogueados, pêlo eriçado, ventre aberto e sangrando, unhas aguçadas e que expele fogo pela boca.”

Em Santa Catarina o encantamento dá-se, de preferência, nos dias de lua cheia, principalmente durante a Quaresma e no dia 13; também em quarto-minguante. O Lobisomem desencanta no final da fase lunar, ou quando o galo canta no terreiro.

Walter Piazza, em Aspectos Folclóricos Catarinenses, apresenta o seguinte documento versificado sobre o Lobisomem:

I

Quando aqui era deserto
Poucos moravam neste sertão.
Existiam brancos e negros cativos
Era tempo de escravidão
Branco era batizado.
E preto morria pagão.

II

O povo já tinha mêdo
Que isto desse confusão
Apareceu logo um gritadô
Já viram que era visão,:
Era o tal do “Lubizóme”
Esprito de negro pagão.

III

Tinha uma negra sete filhos,
Todos os sete bem negrinhos
Se o mais velho não fosse batizado
O mais moço virava lubizomezinho;
O mais velho morreu sem batismo
E deu destino ao pequenininho.

IV

A mãe dos meninos – chorando
Sem êste destino podê cortá.
Viu o mais velho virá lubizôme
E o menorzinho boitatá:
O resto não digo nada
Tenho medo inté de contá!

V

Contando um pouco desta história
Ví êsse monstro aqui no sertão
Não sei se morto ou vivo
Só sei que horrível visão
Estava em um cemitério
Sexta feira da paixão.

VI

Eu fui pagá promessa.
Que há muitos anos devia:
Ir a um cemitério, em horas mortas
Quando todo o povo já dormia
E sem ouvir o cantar do galo
Perguntá ao morto o que queria.

VII

O povo já me prevenira
Uns quantos dias atrás
Que nestas encruzilhadas transitava
O Pé Redondo ou Satanaz;
Que por êstes lados à noite
Ninguém pode caminhar, em paz.

VIII

Eu devia essa promessa
E só tinha que pagar
Por mais que custasse a vida
Prá Deus não me castigar
Ir sozinho ao cemitério
Chamar mortos e ouvi êles falar

IX

Afinal foi chegando o tempo
Até chegou o dia –
Sexta feira da paixão,
Serrando as aves-marias;
Era noite, a noite de falá c’os mortos
De ir pagar o que eu devia
Promessa era de salvar minha vida,
Por outro nêste mundo eu não fazia.

X

A cidade já silenciosa dormia
Escura noite trovejando
Com meu aparelho de fotografia
Fui pouco a pouco caminhando;
Relâmpagos alumiavam; aos poucos
Do cemitério fui me aproximando.

XI

Abrí a porta do cemitério
E sobre cruz ajoelhei no chão,
Acendi umas velas; fechei os olhos
E silencioso pensei no Irmão;
Sepulto moveu-se e um gemido ouvi,
Estou perdido, Deus meu Deus, perdão!

XII

Que assombro, que medo, que horror
Um rosnar, um gemido escutei!
Uma estranha visão acenava
Qué isso, meu Deus, eu não sei.
No correr disparou-me uma chapa,
Corri pelo escuro e afinal escapei.

XIII

Eu contando direito esta história
Representa inté um sonho,
A fótografia é que lhe vai provar
Si é lubizôme ou demonho.
Não caminho mais de noite, e promessa não faço
Nestas embrulhadas nunca mais me ponho!

Caçador, 22 de Maio de 1946.

(ass.) Altino Bueno de Oliveira

Ainda na publicação citada, Ano 8 n ° 23/24, Carlos George du Pasquier em Notas ‘Folclóricas Sobre o Município de Biguaçu diz que “É difícil saber-se ao certo quando se encontra um Lobisomem, pois nem sempre ele toma a forma de um porco preto: dizem que a forma do primeiro animal em cuja cama ainda quente se rebola. Alguns afirmam que para mordida de Lobisomem não há cura, e na primeira sexta-feira de lua cheia, nas proximidades do anoitecer, a pessoa que foi mordida principia a mostrar-se inquieta até sair em desabalada carreira rumo ao mato, onde se embrenha para tomar a forma do maldito.” Conta ainda que há muitos anos existia no Alto Biguaçu uma família vinda da Alemanha, que não era completamente feliz, porque sabia o destino do caçula, sétimo filho: Certa noite; quando jantavam, foram surpreendidos pelos latidos de um cãozinho, que para eles avançou tentando mordê-los. A mãe, agoniada, correu ao berço do menino; mas encontrou-o vazio, como pressentia. Apanhou o cachorrinho nos braços e espetou um alfinete na sua patinha. O sangue brotou em pequenas gotas e então; aos poucos, entre gemidos e contorsões, o animalzinho retornou à forma humana, na figura do nenê da família. Para a mordida do Lobisomem não há cura, segundo dizem, mas para evitá-la, pode-se usar o alho”.

Seguem-se estes versos:

1

“O povo do lugá
por valente conhecido,
tem medo que se pela
do bicho desconhecido

2

É sempre ao meio dia
que falam no danado;
quando anoitecer principia
fica tudo bem calado

3

Pois não é brincadeira
encontrar um lobisome
o bicho que morde gente
e inté criança come

4

O bicho só despenca
do alto da morraria
perseguido pelos cachorros
em terrível gritaria

5

Correndo como doido,
se cortando nos espinho,
ele não respeita nada
que encontra no caminho

6

Na sua triste sina
de correr a noite inteira,
Deus livre quem o encontra
numa escura sexta-feira

7

Mordido vira logo
lobisomem também
e na outra sexta-feira
é um outro que o mundo tem

Em Poranduba Catarinense, Lucas Alexandre Boiteux oferece esta variante da Estória do Lobisomem: “Os praieiros de Canavieira dizem que existia, no distrito de Ratones, uma senhora casada que tinha um filho. Todos os dias, logo que o marido se ausentava, ia ela banhar a criança numa gamela. Na ocasião, aproximava-se um cachorrinho que tentava morder o menino. Enxotava-o, mas ele teimava em voltar. Certo dia, bateu no animal que; enfurecido, avançou e estraçalhou-lhe a saia de baeta. Ao levantar-se, na manhã seguinte, viu com grande assombro os dentes do marido cheios de fiapos do tecido. Foi assim que ele, sendo um Lobisomem, perdeu o encantamento.” Lá, o Lobisomem ou Lambisome pode ser o primeiro ou o sétimo filho.

Em 1913, J. Simões Lopes Netto, em Lendas do Sul, descreve o Lobisomem segundo a voz do povo. “Diziam que eram homens que havendo tido relações impuras com as suas comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de suas casas transformados em cachorro ou em porco, e mordiam as pessoas que a tais desoras encontravam; estas, por sua vez, ficavam sujeitas atransformarem-se em Lobisomens…”

No Guia do Folclore Gaúcho, Augusto Meyer descreve o homem que se transforma em Lobisomem como “magro, alto, macilento e doente do estômago. Metamorfosea-se em animal semelhante ao cachorro ou porco.”

Walter Spalding, em Tradições e Superstições do Brasil Sul, diz que “ser Lobisomem é conseqüência de pragas rogadas ou produto de maldades de homem ou mulher que nunca procuraram fazer o bem. Transforma-se em conseqüência de pragas rogadas ou malefícios feitos pela vítima.” É um grande cão negro que aparece às sextas-feiras, principalmente na primeira de cada mês.

Francisco Augusto Pereira da Costa, em Folk-lore Pernambucano, edição de 1908, escreve que “O Lobisomem, que no maravilhoso da imaginagão popalar é um homem extremamente pálido, magro e de feia catadura, é produto, ou de um incesto, ou nasceu logo depois de uma série de sete filhos. Este infeliz… cumpre o seu fadário em certos dias, saindo de noite e, ao encontrar com um lugar onde um cavalo ou um jumento se espojou, espoja-se também, toma a sua forma, e começa a divagar em vertiginosa carreira. Nesse tristíssimo fadário, que começa à meia-noite e se prolonga até quase o amanhecer do dia, ao ouvir o cantar do galo, percorre o Lobisomem sete cidades e chegando, de volta já ao lugar do seu encantamento, espoja-se de novo, retoma a sua forma humana e recolhe-se a casa, abatido e extenuado de forças…” Oferece ainda estas estrofes, mencionadas por Silvio Romero, de um conto intitulado O Lobisomem e a menina.

– Menina, você aonde vai?
..Eu vou à fonte.
– Que vai fazer?
..Vou levar de comer
..A minha mãezinha.
– O que levas nas costas?
..meu irmãozinho.
– O que levas na boca?
..cachimbo de cachimbar.
…………………………………..

Ai! meu Deus do céu,
O bicho me quer comer!
O galo não quer cantar,
O dia não quer amanhecer,
Ai, meu Deus do céu!

Escreve Câmara Cascudo, em Geografia das Mitos Brasileiros, que “Para o norte já não há razões morais. O Lobisomem uma determinante do amarelão (ancilóstomo), da maleita (paludismo). Todos os anêmicos são dados como candidatos à licantropia salvadora. Transformados em lobos ou porcos, cães ou animais misteriosos e de nome infixável, correm horas da noite atacando homens, mulheres; crianças, todos os animais recém-nascidos ou novos; como cachorros, ovelhas, cabrinhas, leitões etc. Derribada a vítima, o Lobisómem despedaça-lhe a carótida com uma dentada e suga-Ihe o sangue. Essa ração de sangue justifica, na impressão popular, a licantropia sertaneja. Se o hipoêmico não conseguir a dose de sangue necessária ao seu exausto organismo, morrerá infalivelmente.”

Citando, entretanto, Coriolano de Medeiros, o mesmo autor apresenta outro aspecto dessa assombração, na interpretação do povo, mencionando o Lobisomem paraibano, que conserva a característica da punição, pois é amaldiçoado por pais e padrinhos. “O Lobisómem, crê-se, é sempre um indivíduo excomungado pelos pais, ou por algum padrinho. Pelo fato da maldição, tem instinto de tornar-se animal; principia por segregar-se da sociedade, até que um dia de sexta-feira, à noite, vai na encruzilhada dum caminho, semeia o solo de cascas de caranguejo, tira a camisa, dá um nó em cada ponta, estende-a por sobre os restos dos crustâceos, formando um leito e começa a cambalhotar sobre ele murmurando: ‘encoura mas não enchuxa, diabo?’ repete o estribilho muitas vezes e à proporção que o repete, que dá cambalhotas, a voz vai se tornando átona, o corpo cobre-se de pelos compridos, as orelhas crescem, a cara se alonga tomando a forma de um morcego, as unhas se transformam em garras. Uma vez metamorfoseado sai a correr mundo e suga o sangue de todo menino pagão que encontra e na falta deste ataca qualquer indivíduo. Mas tem um medo terrível do chuço; casa que tem instrumento deste, Lobisomem não vai. As três horas da madrugada; quando o galo canta, o Lobisomem volta à primitiva forma.”

O Lobisomem da Paraíba do Norte aparece também na obra citada de Walter F. Piazza, que recolheu informações referentes ao litoral e sertão paraibanos em Ademar Vidal e referentes ao brejo, em José Leal. São apresentadas três versões da forma usada para a metamorfose. A do litoral: é “preciso procurar uma encruzilhada, cheia de mariscos de praia, onde se despe, dando vários nós na camisa e no lenço. Deita-se no chão; espojando-se como quadrúpede. Uns dizem que ele engole os mariscos do mar. Outros contestam essa versão. Depois entra a fazer desarticulações com as pernas e braços, encostando a cabeça nos pés, remexendo-se para a direita e esquerda, dizendo palavras à-toa. ‘- Encoura, desencoura, encoura, desancoura, encoura’. A do sertão. “Sai de casa à procura de algum recanto de estrada onde se deite. Espoja-se, requebra-se, faz trejeitos, até virar um bezerro negro de longas orelhas.” “……é bezerro negro . . . .. ostenta couro cabeludo de fazer cachos, além de cascos pequeninos, olhar fuzilante e; depois, dotado de força e agilidade extraordinárias.” A do brejo: “. . . rebolando-se o aspirante na cama de um animal, ainda quente do corpo deste, cuja forma tomará. É condição imprescindível para a transformação que, no momento, os raios de Lua incidam diretamente sobre o homem que estiver deitado na cama do irracional, manifestando-se, de início, pelo crescimento dos dentes que dão perfeita semelhança com o animal modelo: Adquire desde logo os instintos animalescos.” No brejo paraibano, “descrevem-no como homem normal, que, em certas horas e em dias determinados e sob determinadas condições, toma o aspecta de um animal e sai a correr o fado, cumprindo o castigo imposto pela Divina Providência, pelo pecado de adultério de compadre com comadre, de devota com padre, dos incestuosos e blasfemos.”

O escritor cearense Gustavo Barroso, mencionado por Câmara Cascudo na obra citada, diz que para se transformarem em Lobisomem; os homens “viram a roupa às avessas, espojam-se sobre o estrume de qualquer cavalo ou no lugar em que este se espojou.”

Um cão sem cabeça, é como a assombração aparece em Alagoas. Lá, para se transformar, “tira a camisa e dá-Ihe sete nós. Esconjura pai, mãe, padrinho e madrinha, o nome de Deus e de Nossa Senhora”, segundo informa Cascudo; calcado em Théo Brandão (Mitos Alagoanos).

Em Geografia dos Mitos Brasileiros, autor já mencionado, lê-se que “Na noite de quinta para sexta-feira, despido, o homem dá sete nós em sua roupa e, em algumas partes, urina em cima.” ‘”Se esconderem a roupa que o Lobisomem deixou na encruzilhada ou desfizerem os sete nós, ficará ele todo o resto da sua existência um bicho fantástico.” Quando corre na praia, evita molhar-se na água do mar, que é sagrada. “O Lobisomem é invulnerável a tiro. Só se a bala estiver metida em cera de vela de Altar onde se haja celebrado três Missas da Noite de Natal.” Na mesma obra, encontram-se dois relatos que, em resumo, vão transcritos:

Francisco Teixeira, apelidado seu Nô, declarava publicamente desacreditar de Lobisomem e até caçoava do assunto. Um seu companheiro de trabalho, João Severino, zangava-se com essa atitude e avisou-o de que qualquer dia se arrependeria. Os companheiros alertaram-no: João Severino virava; ele que se prevenisse e andasse armado. Seu Nô tinha a faca na cintura. Uma noite, atravessava uma pequena várzea, quando lhe pulou em cima um bicho preto, do porte de um bezerro: Lutou furiosamente, conseguindo esfaquear e tirar sangue do animal. Ferida no pescoço, a besta correu para o mato. O homem, morto de medo, voltou para casa. No dia seguinte, sentiu falta do companheiro João Severino. Indagando, soube que estava doente. Foi visitá-lo. Encontrou-o de cama, gemendo e tomando remédios, com a nuca ferida.

O outro é um caso contado pelo próprio protagonista, João Francisco de Paula, de Santa Cruz, RGN. Todas as semanas, na noite de quinta para sexta-feira, era aquele barulhão, ladrar e uivos de cão, assim que a Lua subia; lá pelas onze horas da noite: Certa vez abriu a janela para espiar e vislumbrou o vulto de um animal meio baixo, roncando e batendo as orelhas. Dias depois um comboio arranchou-se na fazenda. Era a noite propicia. Contou o que sabia e os companheiros se dispuseram a caçar o bicho. Um deles tinha, justamente, cera benta consigo. Bezuntou as balas da sua arma com elas e ficaram todos de tocaia. Quando a Lua ia alta, ouviram a trovoada dos cães de caça e o barulho do animal pesado, acuado por eles. O vaqueiro escondeu-se perto da barranca do rio, agora seco pelo verão. De repente, o bicho passou. Descarregou a espingarda; conseguindo atingi-lo. Correram todos para ver. O animal, com terrível ronco, caíra barranca abaixo: A luz dos archotes que levavam, viram um Lobisomem – ainda era meio animal – como um porco com garras, da cintura para baixo; da cintura para cima era um homem moreno claro, cabelos encaracolados. Ali mesmo o enterraram, sem cruz, sob um montão de pedras, marcando o lugar daquela tragédia inacreditável.

A bibliografia consultada declara a inexistência de Lobisomem feminino, nas Américas.

Na verdade, a forma mais comum é a do Lobisomem masculino. Mas não a única. Documento encontrado em Os Barranqueiros, autor citado (A onça cabocla) e o doc. n° 41, de Serra Pelada, MT, comprovam a existência da licantropia feminina, no Brasil e, portanto, nas Américas.

“A Onça Cabloca

Há muitos anos morava numa choça de cascas de pau, a alguns metros do barranco do Rio São Francisco, uma velha tapuia, feiticeira e má. Alimentava-se de sangue humano e comia o fígado de suas vítimas, quando não se fartava de sangue.

Lá um ou outro caçador surpreendia-a, ocasionalmente, no meio da catinga, ou à boca de uma furna, ao pé da serra.

Quando tinha fome, primeiro despia-se, estendendo os trapos no chão, às avessas; depois, deitando-se neles, espojava-se.

Virava onça.

Assim transformada marchava contra pobres criaturas indefesas, de preferência mulheres e crianças. Apaziguada a fome, volvia ao ponto de partida, rebolando-se de novo sobre os andrajos.

Virava gente.

Certa vez, porém, chegou-lhe o castigo, tendo então se arrenegado de quem inventou a mandinga. Um pé de vento arrebatou-lhe os molambos e os atirou nas águas do rio e ela não pôde desencantar-se. Ficou onça para sempre e lá existe.”

1- E como estou para me transformar em lobo, começo a me atrapalhar e a tremer fortemente.

Lobisomem: assombração e realidade
Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/bibliografia-nacional-sobre-lobisomens/

Conspiração por trás das guerras mundiais

Um ex-agente dos Serviços Secretos Britânicos, Willian Guy Carr, publicou em seu livro Paws in The Game (Peões no Jogo) parte da correspondência mantida entre 1870 e 1871 entre Giuseppe Mazzini e Albert S. Pike, que hoje se conserva nos arquivos da Biblioteca do British Museum, em Londres. Em uma das cartas, datada de 15 de agosto de 1871, Pike comunica a Mazzini o plano a ser seguido pelos Illuminati durante os séculos 20 e 21: “Fomentaremos 3 guerras que envolverão o Mundo inteiro: a primeira delas (1ª Guerra Mundial) permitiria derrotar o poder dos czares na Rússia e transformar esse país na Fortaleza do Socialismo ateu de Karl Marx, necessária como antitese na Teoria Dialética Hegeliana” (ver capítulo sobre Guerra Fria). Um Mundo esgotado pelo conflito não interferirá no processo de constituição da “Nova Rússia”, que futuramente será utilizada para “destruir outros governos e debilitar as religiões”.

O segundo conflito (2ª Guerra Mundial) seria desencadeado aproveitando as diferenças entre o nazi-fascismo e o movimento sionista judeu. Em primeiro lugar, seria dado apoio financeiro e político aos regimes europeus para que se transformassem em ditaduras férreas, opondo-se à Democracia e provocando uma nova convulsão mundial, cujo fruto mais importante será o estabelecimento do Estado de Israel na Palestina, como foi determinado pela ONU no pós-guerra, representando um evento que tem repercussões graves até hoje. As comunidades judaicas reivindicam este território desde há tempos imemoriais.

A terceira e definitiva guerra mundial (3ª Guerra Mundial), prognosticada por Pike, se desencadearia a partir dos enfrentamentos entre sionistas judeus e dirigentes muçulmanos (Judaismo X Islamismo). Este conflito deve orientar-se de tal forma que o Islã e o sionismo político destruir-se-ão mutuamente, obrigando outras nações a entrar junto na luta, até o ponto de haver esgotamento físico, mental, espiritual, financeiro e político absoluto no planeta. Ao final da terceira guerra, os Illuminati terão desencadeado o maior cataclisma social jamais visto no Mundo, lançando uma onda revolucionária que, comparativamente, reduzirá a Época do Terror na França a uma ingênua brincadeira de criança.

As massas, então, decepcionadas diante da ausência de reação das autoridades políticas e religiosas, serão levadas a um nível tal de desespero que destruirão o cristianismo e o ateísmo simultaneamente, destruirão o capitalismo e o socialismo, vagando sem direção em busca de um novo ideal. Somente ai então, segundo Pike, ” a verdadeira luz com a manifestação universal da doutrina pura de Lúcifer virá à tona. Os Illuminati apresentarão ao Mundo um novo líder capaz de devolver a paz e a normalidade ao planeta e todo o processo desembocará finalmente no Governo Síntese.

Nos últimos anos de sua vida, Mazzini se correspondeu com Albert S. Pike, advogado e general sulista durante a Guerra de Secessão. Mas sabemos que, além disso, foi um dos dirigentes máximos da maçonaria do rito escocês no novo continente e um membro ativo, com o cargo de chefe de justiça do Ku Klux Klan, ou Clã do Círculo. O KKK foi fundado por outro maçom, chamado Nathan Bedford Forrest. A importância de Pike entre as sociedades secretas do século XIX nos EUA é bem comprovada por alguns de seus títulos, como o de Soberano Pontífice da Maçonaria Universal ou Profeta da Franco-Maçonaria. Especialmente fascinado pela possibilidade de ver em vida um governo mundial, sua intensa atividade e sua eficácia o levaram, em 1859, a alcançar o cargo de responsabilidade máxima dos Illuminati.

Um documento de junho de 1889 e intitulado Associação do Demônio e dos Iluminados, em que Pike dirigia algumas instruções secretas aos 23 conselhos supremos da maçonaria mundial, traz alguns detalhes desse novo rito, partindo da primeira advertência a seus membros: “A vós, Instrutores Soberanos do Grau 33, os décimos: Tens que repetir aos irmãos de graus inferiores que veneramos um só Deus, a quem oramos sem superstição. Só nós, os iniciados do Grau Supremo, devemos conservar a verdadeira religião maçônica, preservando pura a doutrina de Lúcifer”.

No mesmo documento, Pike fala: Ele sim, Lúcifer, é Deus! Desgraçadamente, Adonai (referindo-se ao Deus judaico-cristão) também é Deus, porque segundo a lei eterna, não há luz sem escuridão, beleza sem feiura, branco sem preto. O absoluto só pode existir na forma de duas divindades diferentes, assim como a escuridão funciona como fundo para a luz, a estátua requer uma base e a locomotiva necessita de um freio”. E acrescentou: ” A verdadeira e pura religião é a fé em Lúcifer”. Essa é a fé Illuminati.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/conspiracao-por-tras-das-guerras-mundiais/

Aleksandr Dugin – Eurasianismo, a Ideologia da Nova Rússia e a “Civilização Ocidental”

C. Baptista
No Brasil que alcançou o “sexto PIB do mundo” pouquíssimas pessoas conhecem sua própria história, muito menos a história universal ou a de um país como a Rússia, milenar e decisivo no jogo político internacional. Não falo simplesmente do seu passado remoto, muito menos de sua herança cultural herdada de Bizâncio. Sequer me refiro à URSS e, fazendo justiça ao acervo cultural do brasileiro médio, nem mesmo ao período recente de Yeltsin e Putin. Seria pedir demais, muito pedantismo “pequeno-burguês” de nossa parte. Bobagem conhecer a história ou se informar sobre acontecimentos de outros países.

Um traço “diretor” do caráter do brasileiro é a compulsão em se enxergar como discriminado e diminuído pelo “preconceito” europeu e americano, mas ele mesmo, como apedeuta e preguiçoso que é, esquiva-se de estudar e nem se esforça, – minimamente que seja – para compreender realidades externas ao seu torrão natal. Neste quesito fica atrás dos EUA, onde ao menos existe uma elite intelectual que por trás de uma massa de nulidades se aprofunda criticamente sobre os dilemas mundiais, o que não ocorre no Brasil onde o próprio Itamaraty se transformou em aparelho barato do governo de ocasião.  Mas, este artigo, pouco original e simplório, é direcionado ao restrito clubinho de compatriotas sequiosos de alcançar a verdade, para os quais nunca há limites para a obtenção de novas informações.

Através de um amigo que freqüenta os cursos do filósofo Olavo de Carvalho, tomei conhecimento há algum tempo da obra e ação política do russo Aleksandr Dugin. Para alguém que há mais de 20 anos estuda a história e economia soviética e escreveu há muitos anos atrás um análise sobre o que era a economia russa antes de 1917 (sem contar que minha monografia de graduação em economia em 1994 foi centrada na história recente da URSS e as reformas no início dos anos 90), embora um pouco afastado do tema, foi uma indicação oportuna, sobretudo pelo avanço no neo-comunismo russo de Guenady Zyuganov sobre Putin que se avizinha do ocaso esperado.

Expoente maior na atualidade do “Eurasianismo”, Aleksandr Dugin é alguém bastante próximo da linha dura comunista pós-soviética, de poderosos elementos das agências de (des) informação, membros da Duma (Parlamento) e do Executivo russo. Além disso, é quadro do Partido Político “Eurasia” é autor de “Fundamentos de Geopolítica”, um dos manuais empregados em cursos da Academia Militar Russa sob chancela do Alto Comando das Forças Armadas. Adicionalmente, participou recentemente de um debate com o pensador brasileiro radicado nos EUA, Olavo de Carvalho, que merece ser avaliado por todos que busquem melhor compreensão das implicações do “Eurasianismo”.

Resta um paralelo indelicado com o Brasil. Enquanto nosso país adota um “modelo” de crescimento ancorado no mercado externo e exportações de commodities (o que nos torna uma economia baseada em um tipo de especialização produtiva escravizada pela nova “divisão internacional do trabalho”, para usar termo emprestado de reconhecidos economistas marxólogos) de curto prazo e vulnerável a oscilações da economia internacional (ora, ao acusador cabe o ônus da prova, esta não é a tese cepalina?), a Rússia não só tem crescido como recuperado parte do seu capital humano, sendo capaz de modernizar seu setor militar-industrial. A “sonolenta” Rússia e os países da “ex-URSS”, antigas repúblicas soviéticas, são mais diretamente responsáveis pela queda das potências centrais no “ranking” do PIB que a suposta ascenção de países do “futuro” como o Brasil.

Voltando ao tema principal, não tenho conhecimento de títulos subscritos por Dugin em língua portuguesa. Apenas traduções amadoras na internet e parcas referências biográficas. Em inglês o interessado, entretanto, pode fazer o download de alguns “papers” que abordam com metodologia de qualidade variável o conceito de “eurasianismo” e filigranas de seu pensamento, uma mescla assaz inventiva e inteligente da religiosidade e misticismo russos (a “alma” da Velha Rússia) e leituras de Karl Schmidt,  Karl Haushofer, Guido Von Lizt, René Guénon e uma pequena plêiade de autores que estão longe de pertencer ao “mainstream” de abobalhados e papagaios de pirata que vêm arruinando a academia ocidental.

Bem, nos comentários à biografia e idéias de Aleksandr Dugin do Sr. John Dunlop pudemos encontrar uma apreciação global do que é o “Eurasianismo” e suas implicações como fundamento ideológico do imperialismo pós-soviético. Não podemos crer “in totum” nem no Sr. Dunlop (um defensor aberto da ‘sociedade atlanticista’) nem no que atribui ao Sr. Dugin, assim como não poderíamos, ao que tudo indica, depositar fé irrestrita em um intelectual russo que prega a desinformação sistemática como técnica de enfraquecimento do Ocidente. È pois crucial à política preconizada por Dugin o conceito de “revolução conservadora” que restaure os valores heróicos de uma tradição renovada. Mas, enfim, o que é o “Eurasianismo”? O que faz dele uma doutrina importante na Rússia atual e como sua gradual penetração entre as elites daquele país (onde tem se tornado uma “moda de salão”) impacta de forma preocupante a sociedade ocidental.

Recorrendo à extensa literatura do século XX sobre geopolítica – e especialmente a escola alemã do entre-guerras de Karl Haushofer – Dugin coloca um conflito dualístico entre o “Atlanticismo” (países “do mar” e civilizações com os Estados Unidos e a Grã Bretanha) e “Eurasianismo” (estados baseados na terra e civilizações como a Eurásia-Rússia). Como Wayne Allensworth percebeu, uma vez que se penetra a linguagem aparentemente reacional e acadêmica em “Fundamentos de Geopolítica”, tornamo-nos cientes de que ‘A geopolítica de Dugin é mística e oculta em essência, o formato das civilizações mundiais e os vetores conflitantes do desenvolvimento histórico são retratados como formatados por forças espirituais invisíveis além da compreensão do Homem
A partir de abril de 2001, um Dugin antes anônimo tornou-se uma personalidade política famosa na Rússia com a fundação do Movimento Político e Social Eurásia, que passava a atender inúmeras expectativas políticas voltadas para a primazia do Estado sobre o indíviduo, através de uma fórmula que combinava autocracia, submissão ao regime e xenofobia. Seu foco não é o recurso a meios militares para que a Rússia passe a predominar na “Eurásia”, mas um programa de desestabilização dos potenciais inimigos através da desinformação patrocinada pelos agentes do regime russo e seus aliados. O objetivo final é reestabelecimento de um império pós-soviético, após a capitulação de Gorbachev diante do Oeste, que sucumbiu à estratégia dos “atlanticistas”, particularmente os Estados Unidos da América. Neste sentido, Dugin enxerga a Federação Russa de 1991 não como um Estado em sentido lado, mas como uma “formação transicional no amplo e dinâmico processo geopolítico global”.

 

No enredo escrito pelos teóricos da “Grande Eurásia”, os russos étnicos cumprem o papel de sustentáculos de uma civilização única, um povo messiânico e “portador de significância pan humana”. Este povo deve funcionar como o substrato étnico do novo império (o que não difere muito do que ocorrera na extinta URSS). Ignorar o povo russo como um “fenômenos civilizacional” equivaleria do fim da Rússia enquanto civilização. Os russos, diz Dugin, são em primeiro lugar ortodoxos, russos em segundo e apenas no terceiro lugar, pessoas.

 

O maior inimigo a atacar seria a “Anaconda Americana”, uma metáfora da pressão que os EUA e seus aliados exercem sobre sobre as zonas costeiras da Eurasia, reduzindo o papel da Rússia ao de uma potência regional tão somente. Atacá-la significaria negar em bloco a doutrina do “Atlanticismo”, repudiar o controle estratégico dos Estados Unidos e refutar firmamente a supremacial valores econômicos liberais e favoráveis ao mercado, criando-se uma “base civilizacional comum” que impulsionasse a união dos povos eurasianos.

 

A tática, segundo diz Dugin, consiste em “introduzir a desordem geopolítica na atividade americana interna, encorajando todos os tipos de separatismo e conflitos étnicos, sociais e raciais, apoiando ativamente todos os movimentos dissidentes – extremistas, racistas e grupos sectários, de modo a desestabilizar processos políticos internos aos EUA. Isto só iria fazer sentido caso fosse combinado ao suporte às tendências isolacionistas na política americana”. Um aliado importante do projeto eurasiano seria a América Latina e propõe “a expansão eurasiana nas Américas Central e do Sul com o objetivo de libertá-las do controle do Norte. Como resultado destes esforços de desestabilização, os Estados Únicos e seu aliado mais próximo, a Grã Bretanha, iriam eventualmente ser forçados a deixar as orlas da Eurasia (e África) e ‘o edificio inteiro do Atlanticismo’ iria ao colapso”.

 

Algumas alianças são propostas por Dugin: 1) Um eixo Moscou-Berlim, em que a tarefa de Moscou seria retirar a Europa da OTAN (leia-se EUA), amparar a unificação européia e estreitar laços com a Europa Central sob a égide do “eixo fundamental externo”, gestando uma Europa unida e amigável, sob o princípio do inimigo comum, os Estados Unidos; 2) a formação de um “bloco franco-germânico, com raízes na Itália e Espanha, isolando ainda mais a Inglaterra; 3) o exercío de dominância política da Alemanha sobre Estados católicos e protestantes na Europa Central; 4) A junção da Finlândia e da República Autônoma da Karelia; 5) a inserção da Estônia na esfera de influência alemã; 6) a manutenção da existência da Ucrânia apenas como “mero cordão sanitário”; 7) a criação do Eixo Moscou-Japão e estreitamento de laços com a Índia; 8) a caracterização da China como um “factotum atlanticista” e maior ameaça ao Eurasianismo e as regiões do Tibete, Sinkiang, Mongolia e Manchuria, em seu conjunto, como um “cinto de segurança” para a Rússia e estabelecimento de uma legítima de influência para o país como “compensação geográfica, adstrita às Filipinas, Indonésia e Austrália; 9) a ideia da “aliança continental russo-islâmica” delineada no eixo Moscou-Teerã, fundada em uma estratégia antiatlanticista comum enraizada na “total incompatibilidade espiritual com a América; 10) o emprego estratégico de um tradicional aliado russo contra potencial agressão turca, a Armênia.

 

Misto de receituário político eficaz e desinformação de guerra, o arsenal geopolítico de Dugin precisa ser levado mais a sério. Parte de sua tática vem se concretizando, como o afastamento político e econômico da Grã-Bretanha do Continente capitaneado pela Alemanha e França, como se testemunhou mês passado nos desdobramentos das discussões acerca de um programa de estabilização na zona do Euro. Outras medidas podem ser abertamente diversionistas (ou não, não se pode trabalhar neste terreno mas no do cálculo de probabilidades) como a “ameaça” chinesa. Tudo depende do grau de importância e credibilidade que o analista ocidental, calçando as sandálias da humildade, possa atribuir aquilo que despreza por não compreender, ou estudar.
Last, but not least“, a pergunta que não quer calar é: será que a sociedade ocidental atlanticista do Oeste, moralmente podre e com valores em frangalhos poderá resistir ao assédio e à guerra de fricção movida por povos (não falo do russo, mas em especial os países islâmicos, o budismo e as tradições hinduístas sob a égida do “eurasianismo”) que rejeitam sua programação política desenhada por pequenos grupos de interesses que querem, a todo custo, fazer prevalecer seus próprios “direitos” às custas de toda uma população?

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/aleksandr-dugin-eurasianismo-a-ideologia-da-nova-russia-e-a-civilizacao-ocidental/

Bibliografia Estrangeira sobre lobisomens

Em La Genèse des Mythes, Alexandre Krapper (Paris, 1915) escreve:

“Diz uma lenda búlgara que o Diabo faz o corpo do lobo, mas não consegue animá-lo. É preciso que Deus o faça:

Na Escandinávia, o deus Tir tem sua mão direita arrancada pelo lobo Fenrir.

O lobo é comumente obra do espírito das trevas.”

Não obstante, cultos endeusaram o animal desde tempos muito antigos. A figura do lobo, como se sabe, esteve sempre presente tanto na mitologia clássica como na folclórica. Nesta, emprestou seu nome e seu aspecto ao Lobisomem.

Ele chegou até aqui vindo da Europa, na época da colonização. Tem-se notícia de sua existência já em era muito remota e o mundo todo o conhece, com variações.

O Lobisomem apresenta-se – no contexto da cultura erudita – na tradição clássica da Grécia, de onde se transportou para Roma.

Na Grécia, o rei Licaon tentou matar Zeus. Em outra lenda, Licaon fez um sacrifício humano e a ira divina recaiu sobre ele. Ou Licaon serviu a Zeus carne humana. Ou ainda Licaon sacrificou ao deus o seu próprio filho. Em todas essas lendas, o final é o mesmo. O rei foi transformado para sempre em lobo, como castigo.. Mas se não se alimentasse de carne humana por dez anos, recuperaria o aspecto de homem.

É curioso notar, entretanto, que mesmo antes de tornar-se lobo, o rei já lhe portava o nome: Licus, Luko.

Na mitologia pré-helênica, para alguns, já teria havido um ZeusLicaeus; a mais antiga crença local. Outros indicam a evocação desse deus como sendo posterior à pena sofrida por Licaon. O ZeusLicaeus era o deus da luz (luke) e pode, também, ter havido confusão entre esse vocábulo e luko, lobo.

Também não seria despropositado supor-se a existência de um rito com oferendas ao deus-lobo, a fim de que ele poupasse os rebanhos e que esse culto se realizasse com os sacerdotes vestidos com a pele do animal-deus.

Em Roma, sempre houve veneração pelo lobo. Rômulo, o fundador da cidade e seu irmão gêmeo, Remo, abandonados ao nascer, foram amamentados por uma loba antes de serem recolhidos por Fáustolo e sua mulher Acca Laurentia. A loba de Roma, a deusa Luperca, era homenageada com festas denominadas Lupercais (festas do lobo), que, no ano 494 depois de Cristo, tiveram o nome mudado para Festa da Purificação.

No século I, na Roma de Nero, Tito Petrônio Arbiter escreve o Satíricon. No capítulo LXII, Niceros, no banquete de Trimalcion, relata a estória do soldado que se transforma em lobo.

Este é o mais antigo registro existente, em literatura erudita, da Estória do Lobisomem. Nessa estória, traduzida para o francês por M. Héguin de Guerle, Niceros narra a sua saída com um soldado, seu companheiro; em certa noite de Lua, tão clara como se fosse o meio-dia. Puseram-se a caminho ao primeiro canto do galo. Ao fim de uma estrada encontraram-se entre sepulturas. Subitaments, começou o soldado a conjurar os astros. Depois, despiu-se e colocou as roupas junto à estrada. Em seguida, urinou à volta delas e, nesse instante, transformou-se em lobo. Pôs-se então a uivar e embrenhou-se na mata. As suas vestes tornaram-se em pedras. Niceros, apavorado, saiu correndo e chegou à casa de Melisse. Esta, espantada por vê-lo ali a desoras, disse-lhe que, se tivesse chegado um pouco mais cedo, teria sido de grande valia; pois um lobo penetrara no curral e degolara todos os carneiros. Uma verdadeira carnificina! Mas, embora tivesse escapado, fora gravemente ferido no pescoço, por um criado. Intrigado e horrorizado, e como o dia já vinha clareando, voltou rapidamente pelo mesmo caminho. Ao passar pelo lugar onde as roupas haviam-se transformado em pedra, verificou que ali só restava sangue. Entrando no alojamento, encontrou o soldado estendido na cama; sangrava abundantemente e um médico o atendia, tentando estancar a hemorragia do pescoço. Foi então que percebeu tratar-se de um Lobisomem.

Nos primórdios da era cristã, tanto Ovídio como Petrônio registraram que o Lobisomem era fruto de penitência, de castigo, ou era uma transformação voluntária e temporária, como acontecera ao soldado da estória. Também em transformação voluntária fala o poeta clássico da antigüidade, Virgílio, nas Bucólicas, em tradução de Manuel Odorico Mendes.

“Meris estes venenos e estas ervas
Com eles Meris vi, tornado em lobo.”

…………………………………………………….

E ainda nas Éclogas, em versão de José Pedro Soares – Lisboa, 1800./
Meris me deu as ervas que sahia Os venenos de que Ponto abundava; Com eles ele lobo se fazia,
Nos matos, invisível se ocultava”.

…………………………………………………….

Os romanos, povo conquistador, divulgaram largamente o mito do Lobisomem pelas terras conquistadas. Para eles, o homem transformado em animal era Versipélio. Para os gregos, Liçantropo. É o Valkodlák dos eslavos, o Werewolf dos saxões, o Wahrwolf dos germanos, o Óbaroten dos soviéticos, o Hamrammr dos nórdicos, o Loupgarou dos franceses, o Lupo-mannaro dos italianos; o Luisán ou Lobisón dos Paraguaios, o Lobisome ou Lobizón dos argentinos, o Lobisomem da Península Ibérica e da América Central e do Sul com suas modificações para Lubizon, Lubisome, Lobisomi, Labisomi, Lambisome, Lubisono, Lobo-homem, Lobisa, Porcalhão.

Licantropia é o “estado de alienação em que o doente se imagina transformado em lobo. Licomania.’ (Dicionário de Termos Médicos – Dr. Pedro Alves Pinto). Por extensão, esse vocábulo designa, também, a mutação do homem em animal por meio de ritos, invocações ou poderes mágìcos, ou, ainda, como conseqüência de maldição.

O historiador Heródoto acreditava que povos do leste da Europa, onde se situa a Romênia, possuíam a faculdade de se transformar em lobo, durante alguns dias do ano. Retornavam depois à forma humana. Esses povos, denominados Neuros, durante o culto ao deus-lobo, atacavam traiçoeiramente pessoas desprevenidas, com fins de antropofagia e também bebiam sangue humano.

Nos bosques da Itália Central primitiva, sacerdotes do Sorano (um dos nomes de Plutão, rei dos infernos) do povo Sabino, que habitava essa regíão, entregavam-se ao seu culto envolvidos em peles de lobo, o animal do deus.

Lupo-mannara, o Lobisomem da Itália, ataca e devora pessoas,especialmente crianças.

No folclore lapão, se um homem comete um crime de morte e não se confessa culpado, pode ver-se transformado em lobo, por artes do Diabo. Lá se acredita também que é impossível matar um lobo com uma bala comum, a menos que houvesse permanecido no bolso de alguém que tivesse assistido à missa por dois domingos seguidos.

Certas tribos africanas são tidas como praticantes da mutação com complicadas iniciações secretas, e seus membros reproduzem o comportamento do tigre e do leopardo, mascarados com peles desses animais.

Na ilha Sumatra (Indonésia) os homens de uma tribo afirmam possuir a faculdade de se transformar em tigre. Por toda a Ásia, membros de determinadas Associações confessam abertamente que retêm o poder de metamorfose, com regressão ao estado anterior.

No folclore soviético, as alcatéias de lobos famintos que uivam, nas noites de inverno rigoroso, são Lobisomens cumprindo o seu fadário, após o que, um dia, voltarão ao convívio dos homens.

Na China, os Lobisomens, depois de mortos, conservam a forma do animal. Lá existe ainda o Lobisomem fêmea. A mãe de um general, acredita-se, transformou-se em loba aos setenta anos de idade.

No folclore chinês aparece também a estória de um camponês que se viu atacado ferozmente por um lobo. Para livrar-se, subiu em uma árvore. O animal, no entanto, dava-lhe botes e com isso rasgava-Ihe a calça. O homem, para se defender, deu-lhe uma machadada na cabeça. No dia seguinte, verificou que um seu conhecido estava ferido na cabeça, e tinha, nos dentes, fiapos do tecido de sua roupa.

O Lobisomem feminino é encontrado na África, na forma de hiena ou pantera e é uma penitência que a mulher que cometeu pecado mortal deve cumprir por sete anos. Na Armênia, uma pele de lobo cai sobre ela, que à noite devora os próprios filhos, os filhos de seus parentes mais chegados e outras crianças, retomando, ao amanhecer, a forma humana.

No folclore irlandês, “o fato do homem e da mulher transformarem-se em lobos a cada sete anos é por demais conhecido…” Lá, a fêmea do Lobisomem é chamada Conoel.

Encontra-se o Lobisomem fêmea também na Bretanha. Uma mulher saiu à noite e logo após, uma grande gata entrou em sua casa. O marido machucou-a, ao tentar espantá-la com um pedaço de lenha. Passados três dias a esposa retornou, com um corte em uma das mãos.

Segundo Sébillot, acreditava-se, na Bretanha de 1832, que os Lobisomens fossem homens transformados em lobo por estarem há dez anos afastados do confessionário. Outras vezes o castigo era atribuido ao fato da pessoa não ter mergulhado os dedos numa pia de água-benta pelo espaço de sete anos. Em 1870, dizia-se, na Baixa-Bretanha, que os Lobisomens vestiam-se com uma pele de lobo e então absorviam sua personalidade, correndo pelos campos e bosques, atacando pessoas e animais. Ao clarear o dia, escondiam sigilosamente essa pele e voltavam para casa. Havia uma grande afinidade entre a pele e o seu próprio corpo, de tal forma que, certa vez, um homem, que a escondera dentro do forno de sua casa, pôs-se a gritar que estava sendo queimado, quando a esposa acendeu o forno. Ainda em região da Bretanha, crê-se que para os homens se transformarem em animal basta que se untem com uma pomada fornecida pelo Diabo. Dessa forma transformam-se não só em lobos, mas ainda em vacas ou gatos.

Em sua Histoire de la Magique en France (História da Mágica na França), Garinet narra acontecimentos de 1573; quando Gilles Garnier foi a julgamento – acusado de ter devorado várias crianças ao se transformar em Lobisomem. Condenado, foi arrastado ao local da execução e queimado vivo.

Esse homem viu-se, um dia, a braços com problemas e, com o intuito de se acalmar, embrenhou-se na floresta. La encontrou um fantasma com forma humana que lhe propôs fazê-lo transformar-se em lobo ou qualquer outro animal. Escolheu a forma de lobo e conseguiu a metamorfose esfregando-se com um ungüento especial, como confessou durante o julgamento.

Outro caso deu-se com um menino de treze ou catorze anos, que confessou só não ter devorado sua amiga pastorinha Margarida, porque esta conseguira defender-se valenternente com um pau. Mas declarou já ter devorado algumas crianças, quando transformada em lobo. Ao lhe perguntarem por que artes conseguia essa transformação, relatou que um seu vizinho o apresentara ao Senhor da Floresta, que Ihe dera um ungüento para se esfregar e que esse ungüento ficava sob a guarda do Senhor, mas que ele podia usá-lo quantas vezes o desejasse, Este menino, Jean Grenier, foi declarado pelos juízes portador de licantropia e, por esse motivo, escapou à morte, sendo condenado à prisão perpétua.

Crê-se também que a metamorfose possa acontecer ao ingerir-se uma beberagem oferecida pelo Diabo. E se os Lobisomens não se recordarem do lugar ande deixaram a garrafa com a bebida, serão lobos para sempre.

Existe ainda a crença de que é preciso possuir duas garrafas: a primeira com a bebida para a metamorfose e a segunda para o retorno à forma humana.

Uma outra maneira de se obter a transformação na França, Inglaterra, URSS e certas regiões da Europa, é bater a parte baixa das costas repetidamente em porta de igreja, recitando uma fórmula mágica. Ou então utilizar um cinto confeccionado com a pele do animal.

no qual o indivíduo deseja transformar-se; ou cobrir-se com essa pele; beber água acumulada no seu rastro; comer alimentos abandonados pelo animal; comer carne na sexta-feira santa; partilhar o covil ou a ração de um lobo; untar-se com ungüento feito com um dos seguintes ingredientes: gordura de lobo, folhas de meimendro, de beladona, de papoula, de eleboro, de cânhamo ou de datura.

Para cessar o encantamento, retirar o cinto mágico; ficar cem anos de joelhos no local; ser publicamente acusado de Lobisomem; ser saudado com o sinal da cruz; ser chamado pelo nome de batismo; ser ferido, de forma a perder sangue; ao percorrer sete cidades, entre um local e outro mergulhar na água, ou espojar-se no orvalho.

Proteção contra o Lobisomem é participar-se, anualmente, de fogueira em festa de S. João. Há ainda um sem número de fórmulas mágicas a serem recitadas; com a mesma finalidade.

Em 1598, uma criança foi devorada, nos arredores de Angers. Caçadores depararam-se com uma criatura selvagem, não muito distante do cadáver. Esse selvagem confessou-lhes haver devorado a criança, juntamente com seu pai e seu primo, ambos Lobisomens, como ele. Condenado à morte, apelou, sendo declarado, então, mais louco do que criminoso e mandado para o hospital Saint-Germain-des-Pres.

Van Gennep, citado por Daniel Bernard, escreve que em Auvergne, o Lobisomem é um mortal que se levanta à noite e, coberto com uma pele de animal selvagem, corre loucamente, sobre pés e mãos, atravessando os campos. É invulnerável a balas. Se consegue devorar o primeiro animal que encontra no seu caminho, tornase inofensivo; do contrário, devasta tudo por onde passa e mata até crianças. Sua esposa, que esta a par dessa possessão, prepara-lhe uma pasta semelhante à dos parcos, que engole na volta, ao clarear o dia. Na manhã seguinte retoma suas ocupações habituais e nada trái sua infelicidade, a não ser a extraodrinária rugosidade das mãos. Se for ferido e sangrar durante a corrida da noite, cura-se; mas infeliz do amigo que lhe prsetar tal serviço: o Lobisomem será obrigado a fazê-lo em pedaços.

Os párocos possuíam o poder de transformar um criminoso, que não confessasse o seu crime, em Lobisomem. No primeiro domingo, advertiam o culpado; no segundo, se ele não se acusasse, era avisado do que lhe aconteceria no domingo seguinte; e neste, ficava ciente de que, após o terceiro aviso, a sentença seria pronunciada; sentença horripilante. Mulheres nervosas deveriam abster-se de assistir a tal cerimônia. Do alta do púlpito, o sacerdote lia a fórmula aterradora. Apagava então a chama do círio e gritava: Que a alma do culpado se apague como esta luz!

O criminoso transformava-se imediatamente em animal e começava sua corrida, que se prolongaria por sete anos, através de sete paróquias. Não podia, também, desvendar seu terrível segredo, sob pena de ser amaldiçoado por mais sete anos.

Em 1521, Pierre Burgot e Michel Verdung enfrentaram o juiz Bodin; demonólogo e inquisitor de feiticeiros. Confessaram haverem-se acasalado com fêmeas de lobo. Burgot teria assassinado um jovem, com patadas e dentadas de lobo; Michel teria matado uma jovem e, ambos, finalmente, declararam havèr devorado quatro moças. Foram condenados à fogueira, sem produção de outras provas.

Na Bretanha existem também os amestradores de lobos. Eles, quando assim o desejam, tomam uma bebida oferecida pelo Diabo e transformam-se em lobo. Têm grande domínio sobre esses animais. Quando metamorfoseados e feridos, assim que o sangue corre, voltam à forma humana. Sobre eles existe este relato:

Um homem perdido na floresta chegou a uma encruzilhada, onde encontrou um amestrador de lobos, com alguns à sua volta. Recebeu dois dos animais como guias e guardas e eles o conduzram fielmente até a casa, são e salvo. Mas teve que observar uma recomendação: não cair durante a caminhada è dar aos lobos, assim que chegasse, pão e galette de blé noir (bolo folheado, escuro, feito de grãos de centeio ).

A autora1 encontrou, em transcrição, uma narrativa de Alain Decaux intitulada La Bête de Gévaudan, a qual traduz livremente de forma abreviada.

A Fera de Gévaudan

O Gévaudan é a atual província de Lozère, abrangendo, também, uma parte do Alto-Loire. É uma região áspera, dura, de beleza selvagem. Situa-se entre gargantas de montanhas e montes calcários, pedregosos.

Sua principal riqueza é a pecuária e seus rebanhos de vacas, carneiros, cabras, cavalos e burros precisam pastar nos flancos dessas montanhas, pastoreados por crianças de seis a quinze anos, e por velhos.

Tudo começou na primavera de 1764, há mais de dois séculos, portanto. Mas o fato ainda é lembrado e comentado, nos nossos dias.

Através de documentos da época, Alain Decaux rememora os acontecimentos.

“Uma Fera monstruosa semeia o pavor e o desespero na região, atacando e matando sem cessar, especialmente crianças, adolescentes e mulheres.

A primeira vítima foi uma menina de catorze anos, Jeanne Foulet. Dentro de pouco tempo, mais adolescentes. Em seguida, uma mulher de trinta e seis anos, que cuidava do seu jardim, em frente a casa. Enfrentando o povo, calma, ousada, sem pressa, a Fera abocanhou-Ihe o pescoço, bebeu-lhe o sangue e, em seguida, devorou-a.

A Igreja declarou-a fruto da cólera divina, por pecados cometidos pelo povo: O pavor tomou conta de todos.

Os registros da época referem-se a animal desconhecido. De fato, os que o viram afirmaram categoricamente que não era um lobo. Lobos, eles os conheciam bem. As descrições apresentaram-no com esta aparência:

Tem o porte de um vitelo de um ano os olhos grandes como ele; é baixo na parte da frente e as patas são providas de garras; a cabeça é grande, terminando em focinho alongado; as orelhas são menores do que as de um lobo e espetadas, como chifres; o peitoral é largo e recoberto de pêlos acinzentados; os flancos são avermelhados; acompanhando a espinha, uma listra negra. Mas o que mais impressionava a todos era a sua goela, uma bocarra imensa e provida de afiadíssimas presas, capazes de decepar as cabeças das vítimas como uma navalha. Goela horrenda.

Descreviam-no ainda como tendo andar lento e correndo aos pulos, em velocidade inacreditável. Era visto ora num lugar e ora noutro, a distância que nenhum animal poderia percorrer dentro daquele espaço de tempo. Alguns concordavam que ele pudesse ser semelhante ao lobo; mas eram todos categóricos ao afirmar que não era, em absoluto, um lobo, mas uma fera jamais vista antes.

O número de vítimas aumentava assustadoramente. A população entrou em pânico.

Vieram para o local os Dragões – força armada, comandada pelo capitão Dúhamel: 57 homens, sendo 17 à cavalo. O capitão defrontou-se com a Fera. Atirou, feriu-a. Ela fugiu, mas ele teve tempo de vê-la bem. Declarou que deveria tratar-se de um produto híbrido, cujo pai seria um leão. Mas quem seria a mãe? Um mês se passou e ela não foi abatida. Retiraram-se os Dragões.

O Rei ofereceu alta recompensa a quem a capturasse ou matasse.

Na região, corriam notícias de que se tratava de um Lobisomem, pois uma mulher chegara à cidade, espavorida, relatando que, na estrada, ao ser ajudada a montar, por um desconhecido, observara-lhe as mãos e estas eram inteiramente recobertas de grossos pêlos.

Empreenderam marchas e emboscadas e seguiram os rastros da Fera. O resultado foi nulo. Parece que ela adivinhava a presença deles e desaparecia. Mas continuava fazendo vítimas, sem cessar, simultaneamente em lugares os mais distantes, parecendo ter o dom da ubiqüidade.

Um jovem fidalgo, avistando-a da janela do seu castelo, armou-se e, acompanhado de dois irmãos, partiu ao seu encalço. Defrontaram-se. A Fera não aparentava medo; pelo contrário, parecia atrevida, ousada. Foi, desta vez, ferida no pescoço e no peito. O sangue jorrou em abundância. Os três irmãos declararam que, embora tivesse fugido, não sobreviveria. Dois dias depois, entretanto, continuava a atacar e matar.

O lugar-tenente dos caçadores do Rei, senhor François-Antoine, veio para o local. A área onde a Fera corria era extensa e de matas fechadas. Mas um dia, afinal, Antoine, como ficou conhecido, encontrou as pegadas de uma loba e seus filhotes, que lhe pareceram enormes, e profundas, devido ao peso dos animais. E de repente, avistou o animal que, não tinha dúvidas, era a Fera!

Monstruosa, patas curtas, corpo muito comprido, goela assustadora, avançou para ele. Antoine estava sentado. Mirou, atirou. A bala atingiu o olho direito da Fera, atravessou a cabeça e fraturou-lhe a base do crânio. Que animal resistiria a isso? Ela caiu. Morta? Não. Levantou-se e avançou novamente. Mais um tiro e ela tombou. Desta vez, sim, morta.

Aproximou-se. Parecia um lobo. Mas um lobo como jamais alguém havia visto. Medonho, gigantesco, com flancos avermelhados e aquela listra negra no lombo. Foi, por centenas de testemunhas, reconhecido como a Fera.

Alívio geral. Empalharam-na e remeteram-na para a Corte, como prova da façanha. Pesou 65 quilos e mediu 1,43 m. do focinho às patas traseiras e 1,90 m. até a ponta da cauda.

Antoine foi condecorado e agraciado com uma pensão. Alguns dias mais tarde seguiu os rastros da fêmea. e matou-a, assim como aos filhotes. Parecia o fim do pesadelo, afinal.

Passados, entretanto, menos de dois meses, o horror recomeçou. A Fera lá estava de novo, atacando e matando.

Desesperado, o povo organizou uma romaria a Nossa Senhora D’Estours. Entre os peregrinos encontrava-se um cidadão maduro, porém sadio, vigoroso. Era Jean Chastel. Na chegada, entregou seu fuzil para benzer, juntamente com três balas.

O extraordinário é que exatamente nesse momento Jean Chastel terminara de ler as Litanias. Calmamente, sem pressa, retirou os óculos e guardou-os no bolso. Empunhou o fuzil. Mais extraordinário ainda é que a Fera, imóvel, o observava, como que obedecendo a um comando. Mirou. Atirou. Acertou o animal no quarto dianteiro. Ele não se mexeu. Mas quando os cães acorreram e saltaram sobre ele, caíu. A Fera, finalmente, estava morta.

Jean Chastel aproximou-se dela e murmurou:

– Fera, não mais devorarás.

E então, enfim, todos puderam dormir em paz.

Voltando ao passado: Informam os documentos da época que em 1762, dois anos antes, portanto, do aparecimento da Fera, havia, naquela região, uma família de amestradores de lobos. Usaram-nos certa ocasião para um assalto a viajantes, ordenando-lhes que os devorassem. Pelo crime foram condenados à forca. Seria Jean Chastel um dos filhos que escapou a tal morte?”

Bernard Alliot, em artigo no jornal francês Le Monde n.° 1738 – ano 1982 – tece comentários sobre a terrível Fera de Gévaudan, ainda viva na memória do povo, partindo dos mesmos documentos da época, que serviram de subsídio ao relato acima. Essa colaboração, intitulada Loup, y est-tu?2 (Lobo, estás aí?) informa que “não há mais lobo. Exterminado, desapareceu o sinistro canis lupus que semeou o terror durante séculos, nos campos . . . Ele é o símbolo do grande devorador; ao lado do Ogre. O terrível lobo de Sarlat3 tinha 42 dentes trinchantes e afilados dos quais 4 em forma de gancho. No século XVIII, Buffon, conhecido por sua serenidade, ressaltou que não há nada de bom nesse animal a não ser a sua pele. Mas Gengis Khan – e isso se compreende – gabava-se de ter um ancestral lobo. Hitler gostava de ser chamado oncle Wolf (tio Lobo).

Na mitologia judaica, o lobo é considerado um animal impuro, uma figura do Maligno. Portanto, não é de surpreender que na imaginação dos povos cristãos surja o Diabo com olhos de brasa…

Os testemunhos de pessoas atacadas, os massacres causados pelas feras, a esperteza e a resistência desses animais, a atitude da Igreja, associando o assalto dos lobos a uma punição divina, além da voz do povo, criaram em torno do animal uma atmosfera de terror e de feitiçaria. O homem introduziu-o em contos e estórias, apossando-se dos seus poderes maléficos. O amestrador de lobos, em troca de um pacto com Satã, detém o poder sobrenatural de comandá-los.

Lobisomens cobrem-se com a pele do animal maldito e perambulam à noite por árduos caminhos. Segundo a crença do povo, essas pessoas, vítimas de feitiçaria, são condenadas a vagar sob a Lua uivando como lobos.

Visando ao equilíbrio natural, ecologistas desejam reintroduzir na França alguns exemplares deste animal desaparecido. Deverão primeiramente, conseguir extrair do conceito popular o terror do lobo, ali fixado por toda uma marcante mitologia.”

A autora recebeu, da França, as duas publicações anteriores, a obra L’homme et Le Loup, (O homem e o Lobo), de Daniel Bernard e Daniel Dubois, e o Guide de L’Auvergne Mystérieux (Guia do Auvergne Misterioso), da coleção Guides Noirs (Guias Negros).

Esse volume, de Annette Lauras-Pourrat, apresenta interessante material sobre o Lobisomem, o Loup-garou dos franceses. Isso vem comprovar o interesse que o mito desperta, ainda hoje, pois trata-se de coleção destinada a turistas, sendo cada volume referente às principais curiosidades (de horror) de detèrminada região.

Auvergne é antiquíssima e situa-se no maciço central da França. Relata a História que no ano 52 a.C. foi anexada a Roma. É procurada pelos turistas especialmente pela beleza e imponência de suas vetustas construções acasteladas.

Eis alguns trechos dessa publicação; em tradução informal.

“Há séculos crê-se em Auvergne na existência de homens-lobos,os Lobisomens, com são chamados, ou ainda galipotes. Esses seres não tinham, na verdade, nada de humano e nem mesmo grande coisa de animal. Eram uma espécie de vulto negro quase sem mem bros, vislumbrados à noite, ao longo das sebes e dos muros. Atacavam retardatários, saltavam-lhes às costas e exigiam que se os carregasse.

Segundo se pensava, tratava-se de párias, cuja desgraça os teria levado a fazer um pacto com o Maligno. Na lua cheia viam-se transformados em lobos, e por tal eram tomados, pois revestiam-se da pele do animal, fornecida pelo Diabo. Corriam como quadrúpedes a uma velocidade que homem algum alcançaria. Assim que escurecia, eram acometidos de febre. Saltavam da cama e escapavam pela janela. Seu amo e senhor (o Diabo) estipulava que deviam correr, durante a noite, sete povoados. Soltavam-se pelos campos, em desabalada carreira, prontos para saltar sobre o primeiro caminhante. Nada os atemorizava, nem armas de fogo, a menos que as balas fossem bentas.

Se encontrássemos um Lobisomem, teríamos que feri-lo com faca, ou com pedrada, para tirar-lhe sangue, único meio de fazê-lo retornar à forma humana. Deve-se colocar sempre sob os berços um ramo de avenca; essa elegante folhagem que medra nos velhos muros tem o poder de afastar o Lobisomem.

No seu Discurso sobre as Feiticeiros, Boguet relata que, nos fins do século XVI, numa pequena aldeia de Auvergne, um nobre estava à janela, quando avistou um caçador seu conhecido. Pediu- lhe que, na volta, passasse por ali e lhe mostrasse o que caçara.

Assim foi prometido. Chegando à floresta viu um grande lobo caminhar ao seu encontro. Entraram em luta. O caçador decepou-lhe a pata direita, mas o animal conseguiu escapar. Depois, para honrar a palavra, levou o troféu .ao amigo. Mas, para sua surpresa, ao abrir o alforje, o que apareceu foi mão feminina, com um anel que o nobre reconheceu imediatamente, pois era de sua esposa.

Apressou-se a procurá-la. Encontrou-a junto à lareira, com o braço direito escondido sob um chale. Quando lhe mostrou a mão decepada, a infeliz não teve como negar que havia perseguido o caçador sob a forma de um lobo. O marido entregou-a à justiça e a dama feiticeira foi queimada em Riom.”

Ainda no mesmo volume encontra-se trecho, sob o título Dos Lobisomens aos Flammaçons (Franco-maçons).

“A História pouco se ocupou desses homens que não saíam da sombra dos bosques, onde toda a riqueza consistia em uma dúzia de porcos e três vacas, e cujo entretenimento era sangrar um javali ou desalojar uma ninhada de lobos.

Eles corriam, nas noites de lua cheia, ridiculamente mascarados com uma pele de lobo. Ao longo dos séculos, existiram sempre esses homens envolvidos em peles. Dão, sobretudo, o que pensar, os textos que se referem aos Tuchins, durante a Guerra dos Cem Anos. Mataram todos os comerciantes, nobres e padres que puderam apanhar. Ninguém mais ousava sair, a menos que estivesse coberto com uma pele de animal. Essa pele era mais do que uma vestimenta: era algo como um emblema e, acima de tudo, um estado, uma condição. Mas os Tuchins perceberam o estratagema e mataram todos os que não tinham as mãos calosas.

Cogitaria o bando dos homens-lobos restabelecer nas montanhas seu antigo primitivismo? O certo é que foram cometidos muitos horrores antes que essa horda fosse dizimada.

Falava-se de cidades inteiras de feiticeiros, e de amestradores de lobos morando nas montanhas.

Sob a Restauração, como quase toda a burguesia dessas pequenas cidades fazia parte das lojas maçônicas, a imagem da horda misturou-se à da maçonaria.

Haveria ainda, nessa época, banquetes nas florestas? Talvez.

Em todo caso, os velhos assim acreditavam firmemente e indicavam os locais onde fulano e fulano, que eles haviam conhecido bem, tinham perecido, nesses festins à luz dos archotes.

Os Franco-maçons (Franc-maçons) eram homens que andavam pelos bósques carregando archotes. Como a letra R transforma-se muitas vezes em L no linguajar do povo, a pronúncia passou a ser Flammaçans, nome que lembrava chama (flame); archotes e reuniões à volta de uma fogueira, o que estaria vinculado aos Lobisomens, segundo Henri Pourrat em Le Loup-Garou et sa bancle (O Lobisomem e sua horda) Edit. Attinger, 1949.”

A mesma narrativa da esposa do nobre que tem a mão decepada, aparece em L’homem et Le Loup (O homem e o Lobo), de Daniel Bernard, e em Estranhas Superstições e Práticas de Magia, de Willian J Fielding – tradução de Silvia Mendes Cajado, com o comentário de que em setembro de 1573, o Parlamento, com assento em Dôle, teria autorizado os camponeses a se armarem e percorrer os bosques, com a finalidade de matar os Lobisomens.

Estes já haviam levado muitas criancinhas, que nunca mais foram encontradas, e atacado atguns cavaleiros, que só conseguiram salvar-se enfrentando grande perigo.

A Bête Bigarne (Fera Bigorne), bode horrendo e gigantesco, com garras, faz parte do folclore da França. Escreve Câmara Casudo que, em Auvergne, existe, no Castelo de Villeneuve, um afresco representando a sua figura.

Daniel Bernard, em L’hamme et le Loup (O homem e o Lobo), dedica um capítulo ao Lobisomem. Escreve que, na França, dependendo da região, sua denominação varia. Em Picardie é Leu-wareu; em Normandie, Varau; em Languedoc, Libérou; em Périgord,.Gâloup; em Bordelais, Galipaude. Reproduz trecho da obra Le Gâloup, de Claude Seignolle – que se poderia denominar lamentarão do Lobisomem -, aqui traduzido livremente:

Sete anos minhas patas me levarão às matas e aos apriscos; aos bosques gelados, aos tépidos currais.

Sete anos Lua Zarolha virá me vigiar com seu único olho pálido, que toma formas diversas, para me fazer acreditar que cada vez é uma curiosa diferente… E, sempre, me forçará a uivar contra sua impassível provocação.

Sete anos dolorosos como o frio dos ventos incolores; penetrantes como a água das nuvens impalpáveis.

Sete anos meu ventre doerá.

Sete anos os homens suplicarão e implorarão a outro Senhor que não o verdadeiro, coma se a seu Deus de doçura pudesse contra o meu, crivado de escamas e a revolver brasas.

Sete anos cortantes como sete espadas de aço, permanecerei amaldiçoado, sem nunca saber quem sou realmente; homem ou árvore; pássaro ou seixo.

Meus suspiros serão uivos; minha bebida, sangue; meu alimento, montanhas de animais tenros e mornos… E quando estes faltarem, alimentar-me-ei de homens…

Sete anos meu Mestre me reterá.

Sete anos permanecerei voraz, antes de estar quites com ele.É o meu castigo.

Sete anos somente.

Sete anos, ai de mim!

O próprio Demônio transforma-se em lobo. Assim parecia a São Maudet, pois todas as noites, as paredes do convento que ele estava construindo, eram derrubadas por mãos invisíveis. Certo dia, encontrou um lobo, que outro não era senão o Diabo. Conseguiu agarrá-lo pela cauda e jogá-lo ao mar. Daí por diante a construção prosseguiu normalmente.

No folclore da França, crê-se que o Lobisomem é obrigado, pelo Demônio, a devorar, em cada noite de maldição, sete cães.

Le marteau des sorciers (O martelo dos feiticeiros), espécie de manual-guia do caçador de Lobisomens, divulgado em 1486, continha duas indagações principais: Podem os feiticeiras transformar homens em animais? e Como os feiticeiros dão aos homens a forma da animais? Apoiando-se em Santo Tomás e Santo Agostinho, os autores declaram que os lobos, de tempos a tempos, partem de suas casas e devoram homens e crianças. E distanciam-se, vagando com tal astúcia, que nenhum ardil, nenhum poder é capaz de feri-los ou capturá-los. Tais coisas são causadas por um sortilégio diabólico. Deus, punindo uma nação por seus pecados, segundo o Levítico4 : lançarei sobre vós bestas ferozes que arrebatarão vossos filhos e matarão vosso gado. Quanto à questão: são lobos verdadeiros ou diabos sob essa forma? Respondemos que são lobos verdadeiros, mas possuídos pelo Diabo.”

Uma estória de Lobisomem, com grande repercussão, difundiu-se na Bavária, por volta de 1685. Um lobo que assolava a região, devorando pessoas e animais, foi identificado ao burgomestre, já falecido, que se teria encarnado no animal. Quando a fera foi capturada e morta, verificaram que sua carcassa estava revestida com um encerado cor de carne. Ao lhe cortarem o focinho, constataram a existência de uma cabeleira castanha e longas barbas brancas; ao mesmo tempo, um rosto semelhante ao do burgomestre apareceu no lugar da cabeça do lobo. Esse corpo foi enforcado na presença de grande público, e sua pele, empalhada, permaneceu exposta num museu, como prova concreta da existência do Lobisomem.

Na Dinamarca, acreditava-se que uma mulher que apanhasse uma placenta ao nascer um potro e a esticasse entre quatro paus e se arrastasse pela sua membrana, poderia dar à luz sem nenhuma dor e livrar-se de doenças. Mas, em tal caso, todos os meninos dela nascidos seriam Lobisomens.

Na Inglaterra, sob o reinado de Jaime I, quem fosse apontado como Lobisomem era condenado a morte artoz, único meio de extingui-lo. Esse monarca equiparava o werewolf aos feiticeiros e explicava o fenômeno como superabundância de melancolia.

Na Idade Média, foram incontáveis os julgamentos de pessoas acusadas de ser Lobisomem, para as quais a pena era a morte na fogueira.

A associação da Lua com o Lobisomem é um fato verificado não poucas vezes na literatura folclórica, na popularesca e na erudita. Arnold L. Lieber em The Lunar Effect (A Influência da Lua) diz que sociedades antigas reconheciam uma conexão entre a Lua e a violência, como no caso do Lobisomem. Para neutralizar essa violência, os pastores da antiga Arcádia costumavam enviar um homem aos lobos, como emissário. Este se transformava em Lobisomem por oito anos e durante esse período as alcatéias não atacavam os rebanhos. Na Alemanha antiga, os guerreiros selvagens eram denominados ûlfhêdhnar (homens com pele de lobo). Esses guerreiros existiam, também, nas sociedades secretas norte americanas e praticavam antropofagia ritual. Encontram-se Lobisomens na Alemanha de Hitler. Lá, onde o mito era bastante difundido, os nazistas fundaram a Organização do Lobisomem, na década de 20. Chama a atenção a coincidência do apelido do Führer ser exatamente, tio Lobo. “No final da Segunda Guerra Mundial, a Organização do Lobisomem deveria continuar, na forma de guerrilha, a luta contra os Aliados que estavam ocupando a Alemanha. Contudo, seus membros já tinham bastante dificuldade em, simplesmente, permanecer vivos. A regressão histórica foi um dos grandes temas da ideologia nazista, e o Lobisomem, com sua regressão a um modo de vida arcaico e violento, era uma escolha adequada para simbolizar a monstruosidade do regime.”

Como já se sabe, o Lobisomem chegou até o Brasil trazido da Europa, através de Portugal.

Oliveira Martins, em Sistema dos Mitos Religiosas, mostra o Lobisomem como sendo “aquele que por um fado se transforma de noite em lobo, jumento, bode ou cabrito montês.” E ainda: “Os traços com que a imaginação do nosso povo retratou o Lobisomem são duplos, porque também essa criatura infeliz, conforme o nome o mostra, é dual. Como homem, é extremamente pálido, magro, macilento, de orelhas compridas e nariz levantado. A sua sorte é um fado, talvez a remissão de um pecado . . . . Por via de regra, o fado é a moral – é uma sorte apenas. Nasce-se Lobisomem; em lugares são os filhos do incesto, mas, em geral, a predestinação não vem senão de um caso fortuito, e liga-se com o número que a astrologia acádia5 ou caldaica tornou fatídico – o número 7. O Lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhas. Aos treze anos, numa terça ou quinta-feira, sai de noite e topando com um lugar onde um jumento se espojou, começa o fado. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, da meia-noite às duas horas, o Lobisomem tem de fazer a sua corrida visitando sete adros (cemitérios) de igreja, sete vilas acasteladas, até regressar ao mesmo espojadouro onde readquire a forma humana. Sai também ao escurecer, atravessando na carreira as aldeias onde os lavradores recolhidos não adormeceram ainda. Apaga todas as luzes, passa como uma frecha; e as matilhas dos cães ladrando perseguem-no até longe das casas. Diga-se três vezes Ave-Maria que ele dará um grande estoiro, rebentando e sumindo-se. O Sino Saimão6 (Signo de Salomão) é um fetiche contra o malefício. Quem ferir o Lobisomem quebra-Ihe o fado; mas que não se suje no sangue, de outro modo herdará a triste sorte.”

No Minho, é charnado Corredor e as fêmeas são denominadas Peeiras ou Lobeiras. Em Paços de Ferreira, é Tardo.

Jaime Lopes Dias, em Etnografia da Beira, registra a maldição tal como uma das versões na Brasil – “Se num casal nascem sete rapazes, o último será Lobisomem.” E ainda: “Se alguém muda, em proveito próprio, marcos ou divisórias de propriedades, jamais deixará de ser Lobisomem. Mesmo depois de morto, não deixará de aparecer no terreno que roubou, transformado em bezerro, em cão, sombra negra etc.”

Na mesma obra encontra-se uma narrativa sobre o Lobisomem. “Já lá vão muitos anos . .

Sabe-se lá. . . talvez séculos! . . .

Pelas ruas de Segura, a desoras, nas intermináveis noites de Inverno, surgia estranho ser em desordenado tropel que trazia amedrontada a população.

À sua aproximação, mesmo os mais animosos, sentiam levantar-se-lhes os cabelos! . . .

Sol posto, já ninguém saía à rua.

E o alegre povo raiano sofria e passava um verdadeiro castigo.

Um dia, um mocetão, valente e destemido, tomou a resolução de averiguar a causa de tão extraordinário fenômeno.

E colocou-se entre o postigo e a porta da casa de seus pais.

Chovia a potes.

O vento com seus estridentes assobios era medonho. Parecia impelido pelo demo!

E o mocetão, valente, firme em seu posto, esperou uns momentos; o bastante para se enregelar.

O tropel não se fez esperar, e uma sombra negra surgiu.

As pedras da calçada chispavam lume.

A sombra horrenda resvalava pelas valetas e escouceava para um e outro lado, fazendo com que as próprias ombreiras dos portados deitassem faíscas.

E o rapaz, agora um tanto assustado, colou-se bem à porta.

Parecia petrificado.

O estranho fenômeno avançava cada vez mais em correria vertiginosa, e o moço, embora, como se disse, um tanto amedrontado pôde verificar que se tratava de um monstro informe, metade cavalo, metade homem, ferrado de pés e mãos! Estava quase a arrepender-se da sua temeridade! . . .

Mas, o monstro, seguindo o seu caminho, desapareceu…

Que fazer depois do que vira? Calar-se?

E se contasse tudo a pessoas experimentadas; sabedoras e consideradas pela sua idade?

Procurou de facto um dos homens mais velhos da sua terra.

E expôs-lhe minuciosamente o que vira.

E o bom vizinho respondeu-lhe:

– O que tu viste, meu amigo, é um entcanto que só se desfará se alguém tiver coragem de, escandido atrás de uma das cruzes das ruas da nossa aldeia e munido de uma vara com aguilhão, picar o monstro por forma que o faça lançar de si muito sangue.

– Pois deixe o caso comigo. Se aí está o remédio . . . picalo-ei eu mesmo, respondeu o rapaz.

– Pois então, toma cuidado, que, se o não picares bem, grande perigo corres!…

O moço, forte e destemido, como se disse, disposto a dar mais uma prova do seu valor, e a livrar a povoação de tão grande desassossego, logo que anoiteceu, recolhidos todos os moradores e fechadas todas as portas, foi colocar-se, por entre vendaval formidável, atrás de uma das cruzes, tendo bem apertada na mão direita forte vara com grande aguilhão.

Começou a ouvir-se o tropel, pondo-se em breve à vista a infernal figura.

O rapaz tremia!

Perdera quase a noção de si mesmo!

Fugir?…

Bem se lembrava ele do conselho do velho: – Toma cuidado, que se a não picares bem; grande perigo corres! . . .

Recobrou ânimo: Estava ali para vencer ou morrer! Já agora levaria ao fim a sua empresa.

Esperou! O monstro avançava a todo o galope.

E passou; e, na passagem, o heróico mocetão cravou-lhe bem a grande aguilhada!

E o monstro, como por encanto, desapareceu.

O valente moço respirava; mas tremia ainda. O seu coração batia desordenadamente.

Foi deitar-se, mas não podia conciliar o sono! Que iria suceder?

Passaram algumas noites e o tropel não mais se ouviu.

– Que estranho facto se terá passado? inquiria a povoação. O rapaz (ninguém sabe até onde vai o poder de encantos e bruxarias) contara o seu feito, muito em segredo, só aos mais íntimos.

Volveram dias e noites, e o povo, de segredo em segredo, veio a saber o que se passara.

E perguntava: – Mas que figura seria essa, horrenda e disforme?

– Seria um Lobisomem?

– E quem seria o infeliz?

Passaram ainda mais alguns dias, até que um dos mais considerados moradores de Segura que havia desaparecido do convívio da população, apareceu sem um dos olhos.

Se ele era são e escorreito, se não constara na povoação qualquer desastre, como e onde teria ele perdido a vista? – perguntavam todos os moradores de Segura. Tirara-lha, evidentemente, o rapaz da aguilhada!

E o povo passou a afirmar, desde logo, como verdade incontestável, que o monstro, semi-homem e semi-cavalo que tanto o incomodara, era, por artes do demo ou mercê do encanto, o bom homem que aparecera, sem saber como, sem um dos olhos.”

No Paraguai há o Luisón como um cachorro preto, de cabeça grande, olhos brilhantes, muito peludo, que se alimenta de cadáveres dos cemitérios. Exala mau cheiro. Aparece à meia-noìte e percorre as vizinhanças, provocando latidos e uivos de todos os cachorros, que o temem. Para conjurá-lo, deve-se colocar sob a língua um pouco de terra de seus rastros e chamá-lo três vezes. Diz-se que Luisón é o último filho entre sete homens, a quem a mãe amaldiçoou ao morrer.

Ainda no Paraguai pode aparecer como um cão negro sem cabega. Felix Coluccio, no Diccionaria Folklorico Argentino apresenta o verbete “Lobisome – En Brasil y otros paises de América, corre este mito de origen europeo, según el cual el séptimo hijo varón seguido, se transforma en Lobisome, mientras que la séptima hija mujer seguida se convierte em bruja. Representan los paisanos al Lobisome como um animal mezcla de perro y de cerdo. A las 12 de la noche de los dias viernes se opera esta transformación, dirigiéndose para alimentarse a los estercoleros y gallineros, donde devora los excrementos. Igualmente se alimenta de ninos no bautizados. El Lobisome recobra su fisionomia humana se alguien sin conocerlo lo hiere, pero se expone también a ser muérto por el mismo debido a que este monstruo tratará de exterminar por todos los medios al que lo libra de su malefício. Libra-se de la fatalidad de ser Lobizón si se lo bautiza com el nombre de Benito – dice D. Granada – y si el padriznago lo realiza el mayor de los siete hermanos.

1- Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

2- Denominação, na França, do jogo de crianças “Seu Lobo está pronto?”

3- Região da França.

4- Um dos livros do Antigo Testamento

5- Dos acadianus, povos da Babilônia, antes do domínio assírio.

6- Estrela de seis pontas, formada por dois triângulos de metal, superpostos.

Lobisomem: assombração e realidade
Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/bibliografia-estrangeira-sobre-lobisomens/

o Poder dos Sons

Para que se possa compreender perfeitamente a razão de ser dos Hinos, Mantras, e Vocalizações (entoações de vogais) é mister que se tenha em mente que os sons são vibrações e como tais são capazes de desenvolver ações físicas. Um som não é apenas um fenômeno acústico, portanto ele é algo capaz de influenciar não apenas o órgão da audição, mas também produzir outras manifestações físicas. A física conhece perfeitamente o efeito da ressonância que pode se fazer presente em tudo, pois a estrutura da natureza é essencialmente vibratória.

Para que possamos sentir o que foi dito antes vamos tentar examinar uma pequena faixa de ondas, aquela em que se situam os fenômenos acústicos. Ninguém põe em duvidas as citações seguintes, por serem elas suficientemente reintegradas nos anais das ciências Clássicas, mesmo que algumas delas pareçam referências absurdas.

Um som ritmado, como o marchar cadenciado de soldados, pode fazer desmoronar pontes, por isto quando tropas atravessam-nas geralmente o fazem em marcha desordenada, pois o marchar ritmado pode determinar uma sobrecarga vibratória por ressonância suficientemente forte para acarretar um rompimento físico da estrutura sólida. Isto foi o que certa vez ocorreu numa ponte em Amienes, na França. Por essa razão é que desde então um pelotão geralmente evita atravessar uma ponte marchando.

Os sons produzidos por aviões a jato acarretam problemas de diferentes naturezas. Sabe-se que a grande maioria dos ovos incubados próximos das rotas de aviões a jato não geram devido às vibrações produzidas pelo ruído das turbinas. Esse mesmo ruído é capaz de rebentar vidros e outros objetos frágeis. As naves aéreas quando ultrapassam a barreira do som originam ondas de choque que rebentam vidros e causam uma infinidade de outros inconvenientes. O grande tenor Caruzo era capaz de rebentar uma taça de cristal unicamente pela emissão vocal de certas notas musicais. Na França um edifício onde funciona um Instituto de Pesquisas Físicas de Ultra-sons, embora ninguém escutasse som algum, mesmo assim durante certas experiências físicas ali realizadas começou a apresentar rachaduras. Depois ficou comprovado que o problema tinha como causa as vibrações sonoras, mesmo em nível de ultra-sons.

Algumas construções históricas, entre elas o Coliseu de Roma, estão ameaçadas de desmoronamento em decorrência de vibrações de trânsito, especialmente as sonoras.

Os sons, além de um certo limite de decibéis, causam lesões no aparelho auditivo de gravidade variável, podendo chegar a um limite máximo de produzir surdez. Quaisquer barulhos podem ser prejudiciais aos ouvidos assim como determinar outras alterações orgânicas. Mesmo o buzinar de um veículo determina quebra acentuada na postura das aves, por isto hoje se evitam os aviários às margens das rodovias.

Por outro lado, as aves quando submetidas a uma música adequada apresentam uma postura mais prolongada. Também as vacas conforme a música e outros sons podem produzir maior quantidade de leite e isto de uma maneira tão evidente que certos produtores americanos e europeus estão utilizando musica ambiental nos estábulos.

Certas bactérias capazes de resistir ao calor ou ao frio intenso morrem rapidamente ao serem submetidas a certos níveis sonoros, por isto atualmente a esterilização de materiais muito sensíveis ao calor está sendo feito por meio de ultra-sons.

A medicina emprega sobejamente os sons como meio curativo. Comumente ela utiliza aparelhos de ultra-sons que geram sons de baixa freqüência, praticamente inaudíveis para o homem, mas que determina uma série imensa de ações sobre o organismo. Várias moléstias são suscetíveis de tratamento com tais aparelhos.

Além da ação física propriamente dita, os sons têm uma enorme capacidade de produzir efeitos mentais das mais diferentes naturezas. Assim é que há sons que irritam as pessoas, como por exemplo, o chiado de um grilo, uma goteira numa lata, o ranger de uma serra sobre um metal, giz em quadro negro, e uma infinidade de outros ruídos. Por outro lado há sons que acalmam e agradam, haja vista a música lenta e melódica. Mas, mesmo em se tratando de música há aquelas que estimulam certas condições psíquicas, como as músicas que despertam os sentimentos patrióticos, a coragem e a combatividade. Há músicas, como as sacras, que levam a alma a um estado místico profundo, como há as que estimulam o repouso, enquanto outras podem despertar tristezas e melancolias. Não restam dúvidas de que os sons têm poder de despertar estados psíquicos especiais. Portanto, vemos com estes exemplos, entre milhares de outros, que uma vibração sonora pode determinar condições as mais diversas sobre o campo onde ela se manifesta, e que os seres vivos são altamente sensíveis aos sons.

Vimos também que os sons podem acarretar alterações no organismo vivo, portanto é de interesse saber quais são as alterações possíveis, em que níveis e em que intensidade elas ocorrem. Certamente ninguém está em condição de afirmar isto com precisão, pois se trata de um campo altamente inexplorado pela ciência atual, mas, se é desconhecido para a ciência oficial, também o será para outras ciências? Será que não existem ciências que tenham conhecimentos do assunto em profundidade? Talvez sim, então não se deve negar que o homem por vias diferentes daquelas preconizadas pela ciência oficial pode haver descoberto uma série de coisas ainda não oficialmente aceitas. Isto tem acontecido a amiúde. Por exemplo, até bem pouco tempo a ciência oficial dizia não existir a “aura” dos seres vivos citada pelos sensitivos, até que isso foi evidenciado por meios técnicos. O campo bioplasmático, portanto, acabou sendo fotografado e a ciência teve que aceitar isso, mesmo que ela haja contradito isso no passado e denominado de fantasiosas aquelas pessoas que afirmavam ver um halo em torno do corpo das pessoas.

As descobertas podem ocorrer por via dedutiva e também por via indutiva. Assim os conhecimentos existentes na terra podem perfeitamente ter surgido por quaisquer dessas vias. Ninguém sabe quantas vezes a terra já foi palco para civilizações que atualmente estão sepultadas na névoa dos tempos e que cultivaram ramos das ciências especializados exatamente em usos incomuns dos sons.

Seja como for que o leitor encare essas informações, uma coisa, porém é certo, o som determinam modificações apreciáveis nos seres vivos, pois quando determinados sons são emitidos, certas células do organismo vibram e isto não é nada de espetacular, é uma lei normal de acústica que se cumpre.

No mundo há muitas coisas curiosas a respeito do poder dos sons. Por exemplo, no Templo de Shivapur da Índia, dizem existir uma pedra em frente à porta de entrada e que tem a peculiaridade de ao ser tocada com um dedo por onze pessoas pronunciando as palavras “QMAR ALI DEVIXE” a pedra se torna sem peso e flutua, embora ela pese 41 Kg. Ao ser pronunciada aquela frase com uma certa tonalidade a pedra é erguida sem qualquer esforço por parte das pessoas até uma altura de dois metros e em seguida ela cai após um segundo.

Infelizmente o homem tem utilizado muito pouco do poder dos sons, especialmente na área da saúde. Em algumas civilizações desaparecidas o poder dos sons foi a base de um sistema completo de cura, mas todos aqueles conhecimentos ficaram perdidos, ou melhor, foram destruídos em muitas ocasiões, especialmente no incêndio da Biblioteca de Alexandria.

Atualmente só um pouco resta da ciência hermética dos sons, apenas um mínimo voltou a ser redescoberta, especialmente pelos pitagóricos. Muitas pessoas podem duvidar de que os sons podem se constituir uma das principais artes de curar, mas queiram ou não queiram eles curam. Quando um médico utiliza um aparelho de ultra-sons para o tratamento de uma inflamação, para deter a formação de um abscesso, ou para a cura de um artritismo, ele simplesmente está emitindo e dirigindo uma onda sonora diretamente para o nível da lesão que pretende curar. Assim, se obtém efeitos especiais tais como o facilitar a circulação local pela dilatação dos vasos sangüíneos e algumas outras alterações que os sons são capazes de provocar e assim forçar o reequilíbrio na região afetada.

Se uma emissão sonora produzida por um aparelho pode curar uma enfermidade, perguntamos então a razão pela qual se deve duvidar de que os sons produzidos por instrumentos musicais, ou mesmo pelas cordas vocais, não possam fazer o mesmo.

O uso dos sons é uma arte perdida, houve povos na Antigüidade que curavam somente com os sons. Não somente as funções somáticas, como também a função psíquica era restabelecida pelas ondas sonoras adequadamente dirigidas.

Para cada função orgânica existem sons capazes de provocar alterações. Assim sendo, há sons que estimulam as funções renais, hepáticas (Hoje a ciência vem redescobrindo as possibilidades de cura oferecidas pelos sons assim é que redescobriu que os cálculos renais podem ser fragmentados com ultra-sons). Por outro lado há sons que provocam lesões e congruentemente, doenças. Há sons adequados para tudo no organismo, infelizmente isto foi esquecido em parte e hoje até mesmo chega-se a duvidar da eficácia do poder dos sons, embora eles realmente funcionem a maior parte dos resultados é decorrente do efeito de ressonância.

No tratamento das doenças, sem sombra de dúvidas, o poder dos sons muitas vezes é mais eficiente do que o próprio poder das drogas químicas. Os medicamentos químicos muito freqüentemente agem destruindo, enquanto os sons quando bem orientados podem com certa facilidade restabelecer a harmonia do organismo sem provocar-lhe danos e assim dispensa a ação tóxica de muitos remédios atuais. Se os sons são pouco utilizados no tratamento das pessoas isto decorre do conhecimento haver sido perdido há muitos séculos. Tudo o que restou foram uns poucos conhecimentos sob a guarda das Fraternidades Secretas. Restaram apenas fragmentos da arte completa, e ninguém tem certeza de que aquilo que algumas doutrinas ensinam atualmente sobre isso seja realmente algo benéfico, pois o poder invisível da “conjura” que tudo corrompe certamente não deixou passar em branco algo tão valioso como o uso dos sons. Por certo a “conjura” também provocou alterações nesse conhecimento sempre tendo em mente os fins maléficos a que sempre se propôs.

O pouco uso que hoje se dá à arte dos sons deve-se também ao fato do ser humano ser comodista demais por natureza, sendo assim ele acha mais fácil deglutir um comprimido, ou tomar uma injeção, do que passar algum tempo sob o efeito de ondas sonoras. O homem atual quer se curar num minuto, por isto ele não aceita coisas como os “mantras e as vocalizações como forma de tratamento. A vida moderna, infelizmente, exige velocidades, e a cura pelos sons muitas vezes é um tanto mais lenta do que aquela levada a efeito por sistemas místicos, mesmo que esta seja uma forma muito mais perfeita e harmônica. A emissão de sons durante vários minutos, várias vezes por dia, é para o homem moderno mais cansativo do que a deglutirão de uma pílula ou a ingestão de uma colherada de xarope, por isto ele muitas vezes dá preferência a esse tipo de tratamento”.

Muitos julgam que a saúde depende de medicamentos químicos, quando na realidade ela depende do EQUILÍBRIO DA ENERGIA VITAL. O grande poder de curar que certas pessoas são dotadas reside no saber conservar a sua energia sutil mantendo-a suficientemente intacta para usá-la, entre outras coisas, no tratamento da saúde.

Os medicamentos químicos levam o organismo a um estado de aparente cura, pois é um sistema violentador, lesivo para o organismo, muitas vezes curando uma coisa na medida exata em que gera uma outra ainda pior, num processo de “cura substituta”, apenas. Há a substituição de uma manifestação mórbida por outra, às vezes menos incômoda, mas suficiente para tornar o paciente dependente perpétuo da medicação química.

Qual os medicamentos ingeridos por Buda, por Jesus e por tantos outros avatares? – Por ventura Jesus ficou doente algum dia? – Não, pois Ele era e é a própria saúde. Qual o segredo de muitos Ioguins que vivem um número de anos muito além da média considerada normal? – Qual a fonte de juventude de alguns místicos, de muitos Rosacruzes, por exemplo? – Qual o segredo de alguns Patriarcas Bíblicos que viveram séculos?…

Autor: José Laércio do Egito – F.R.C.

#Mantras

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-poder-dos-sons