‘O Livro dos Espíritos

Allan Kardec, em 1860

Anunciamos, na primeira edição desta obra, a publicação futura de uma parte suplementar. Seria composta de todas as questões que não encontraram lugar naquela edição, ou que circunstâncias ulteriores e novos estudos tivessem originado. Como, porém, são todas relativas a uma ou outra das partes nela já tratadas, das quais são o desenvolvimento, sua publicação isolada não teria feito nenhuma sequência. Preferimos, assim, esperar a reimpressão do livro, para fundir tudo num mesmo conjunto. É o que agora fazemos. Aproveitamos para conferir à distribuição das matérias uma ordem bem mais metódica, ao mesmo tempo em que suprimimos tudo o que estava repetido. Esta reimpressão pode, pois, ser considerada uma obra nova, embora os princípios não tenham sofrido nenhuma alteração, com um pequeno número de exceções, que são antes complementos e esclarecimentos do que verdadeiras modificações. A coerência dos princípios expostos, não obstante a diversidade das fontes em que os buscamos, representa fato importante para o estabelecimento da ciência espírita. Nossa correspondência mostra que comunicações idênticas em todos os pontos, ao menos quanto ao fundo, foram obtidas em diferentes localidades, e isso mesmo antes da publicação de nosso livro. Ele veio confirmá-las e dar-lhes corpo regular. A história, por sua vez, prova que a maioria desses princípios foram proferidos pelos mais eminentes homens dos tempos antigos e modernos, trazendo-lhes, assim, a sua sanção.

O ensino relativo às manifestações dos Espíritos, propriamente ditas, bem como aos médiuns, forma uma parte distinta da filosofia espírita, podendo constituir objeto de um estudo especial. Havendo recebido desenvolvimentos bastante expressivos em consequência da experiência adquirida, acreditamos ser nosso dever fazer dele um volume separado, contendo as respostas dadas a todas as questões concernentes às manifestações e aos médiuns, além de numerosos comentários sobre o Espiritismo prático. Essa obra será a continuação ou complemento do Livro dos Espíritos.

PARTE I – DAS CAUSAS PRIMÁRIAS

PARTE II – DO MUNDO DOS ESPÍRITOS

PARTE III – DAS LEIS MORAIS

PARTE IV – DAS ESPERANÇAS E CONSOLAÇÕES

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/o-livro-dos-espiritos/

O Festival Opet, no Egito

Festival Opet, no Egito, celebrando o casamento sagrado de Ísis e Osíris. Ísis foi a mais completa deusa conhecida na história da humanidade, venerada durante milênios. Foi durante o reinado de Ísis e Osíris no Egito que as bases e a estrutura da verdadeira civilização foram criadas. Seu culto se difundiu em outros países, dentre eles, principalmente, o Império Romano. O festival Opet marca o ciclo anual das enchentes do Rio Nilo; por Ísis ser uma deusa da vida e da fertilidade, suas benções eram invocadas com celebrações grandiosas e cerimônias sagradas.

Dia consagrado à estrela Sirius ou Sothis, da constelação de Canis Major, chamada também de Canopis ou Olho do Cão. Acreditava-se que Sirius aparecia no leste, na época das inundações do Rio Nilo, para anunciar o renascimento de Osíris. Anúbis, o deus com cara de chacal, guardava a alma de Osíris na estrela Sothis até seu renascimento anual.

Em Roma, celebrava-se a união de Vênus, a deusa da beleza feminina e do amor, a Apollo, o belo deus da luz solar e da poesia.

Comemore sua união criando um ritual pessoal, reverenciando o Deus e a Deusa Interior, reforçando e selando, assim, os laços de amor, compreensão, apoio e colaboração recíproca. Se você estiver passando por uma fase de frieza em sua relação, peça à estrela Sirius que ajude seu amor a renascer e renovar-se.

#Egito #Festividade #Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-festival-opet-no-egito

Abraão

A contribuição de Abraão na história da cabala
Quando: cerca de 4000 anos atrás
 
Onde: Babilônia
 
Livro: Sefer Yetzirá
 
Importância: Primeira péssoa a perceber a existência de uma unidade divina

Conta a tradição que entre Adão e Noé e o mundo acabou em um dilúvio mostrando a estupenda capacidade humana de esquecer. Se não fosse assim bastaria um grande cabalista na história. Mas o caso foi que entre Noé e Abraão o conhecimento foi sendo passado de forma tímida, tanto porque a humanidade como um todo não estava interessada como pelas próprias formas de comunicação primitivas que pudessem existir. Nenhum fim do mundo.

Nascido e criado em uma sociedade onde era normal culturar muitos deuses. Abraão é tido como a primeira pessoa a defender o monoteísmo. Não no sentido simplório da maioria das pessoas de hoje, mas com a percepção de que a divindade é una e que todo o universo está intimamente interconectado e unificado com este nível superior da realidade.

Por sua boa intenção Abraão recebeu revelações que recuperaram  a sabedoria recebida por Adão e as levaram a um novo patamar.  Abraão é tido também na cabala como um símbolo do amor intenso e universal em contrapartida a Isaque, símbolo da justiça e da severidade e a Jacó representando o equilíbrio entre estas duas forças.

A Abraão também é atribuído o famoso Sefer Yetzirá, o Livro da Formação que trata da formação do mundo por meio dos números, das letras e das palavras.  Dificilmente chamaríamos de livro hoje em dia posto que se trata de poucas páginas com menos de cem palavras no total. E isso levanta uma questão intrigante: Como todos os mistérios do universo podem estar contidos em um texto tão pequeno? A resposta dos cabalistas é que trata-se de uma fórmula. Considera a famosa equação de  Einstein E=mc². Páginas e páginas de equações matemáticas foram usadas para chegar a esta fórmula simples. Só assim os segredos do espaço-tempo podem ser incluídos dentro de apenas cinco caracteres. É por esta razão que, apesar do livro ser diminuto muitas volumes já foram preenchidos por comentaristas e estudiosos explicando suas minuncias.

Outro ponto interessante do papel destacado de Abraão é que sua vida e obra surgiram muito antes das principais religiões que tem ele como patriarca. Abraão viveu na Babilônia e não podia ser muçulmano, cristão e particularmente não era judeu. O judaismo só nasceu tal como o conhecemos hoje após a destruição do segundo templo no Israel e a disperssão da nação da Judeia pelo mundo e a elevação da lei rabinica ao status de mandamentos religiosos.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/abraao/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/abraao/

Os deuses esquecidos

Trechos do artigo original de Lupa Greenwolf (The Forgotten Gods of Nature) publicado em patheos.com. Tradução de Rafael Arrais.

Quando você pensa nos deuses da natureza, quem você imagina? Você imagina o Lorde Wicca ou a Dama (também amada por muitos pagãos não-wicanos), ela uma mulher de cabelos longos entrecruzados com videiras, frutas e grãos, ele um homem peludo e corpulento, acompanhado por grandes mamíferos selvagens? Você imagina Artémis ou Diana, caçadoras e donzelas e portadoras da lua? Ou talvez Gaia, grávida da própria Terra? Eu aposto que em nove de cada dez tentativas, a primeira divindade que pensou tomou uma forma humana, feminina ou masculina ou andrógina, mas quase certamente refletindo a sua própria imagem.

Mas eu quero lhe contar sobre os deuses esquecidos da natureza, aqueles cujas histórias nunca foram postas em papel porque os seus seguidores jamais escreveram sequer uma palavra ao longo da vida. Eu quero lhe contar sobre os deuses que se recusaram a abandonar suas formas naturais e juraram nunca se curvar ao macaco humano arrogante. Eu quero lhe contar sobre os deuses abaixo de seus pés, escondidos nas árvores, aninhados nas pedras dentre córregos ligeiros, assim como daqueles que cavalgam as brisas acima das nuvens e nunca se enraizaram na terra. Deixe-me lhe cantar algumas canções sobre divindades sem nome, todas apagadas pela ascensão das mulheres e dos homens e dos deuses humanos que eles nos trouxeram.

[…] Eu canto para você sobre o deus ventania da família do Pinheiro, cujas gerações dependem da sua brisa calma e agradável, mas que também podem ser arrancados do solo e tombados pela sua terrível tempestade. Eu canto para você sobre as orações sussurradas através das agulhas entrelaçadas e soltas em gentis redemoinhos de ar, clamando para que o deus dos ventos possa ser clemente nas tempestades primaveris e nas nevascas do inverno, nas noites frias do outono e nas chuvas repentinas do verão. Pois é ele o deus quem decide quais linhagens de árvores seguirão para o futuro, e é o seu vento caprichoso que transporta o pólen em segurança até a pinha – ou até o solo estéril, para que morra. E é também ele o deus quem carrega os troncos para longe em terrível cólera, deixando um de pé, e arrancando o seu companheiro de floresta num instante.

Eu canto para você sobre os panteões dos micetozoários e das amebas, estranhos e sem sexo, ao mesmo tempo mil vozes e somente um eco unificado. Eu canto para você sobre os tempos difíceis quando a madeira do mundo-tronco já apodreceu e o sol cozinha o solo, e enquanto morrem individualmente, conjuntamente perduram. As divindades requerem sacrifícios, as mil vozes em coro bradam por morte. Alguns morrem para dar luz aos demais, que fomentam a próxima geração para que possam se espalhar cada vez mais longe – estes se tornam uma parte de sua lista de santos, com vozes imortalizadas não em células, mas em espírito.
[…] Eu canto para você sobre o Criador dos peixes-palhaço, que pela manhã é um deus, e ao meio-dia brilha incandescente do mundo do alto, e que pela tardinha é uma deusa, que lança suas ovas ao aproximar da noite, e morre, apenas para renascer novamente como um deus na manhã vindoura. Eu canto para você sobre os seres submarinos que guardam vigília a cada noite, ansiosamente aguardando o retorno de seu Criador junto a luz, e acalmando os aflitos que se amontoam nas cavernas coraladas, em sua pouca fé.
[…] Eu canto para você sobre as incontáveis hostes divinas das formigas. Eu canto para você da grande deusa guerreira, e dos vigaristas que ambicionam tomar o seu poder. Todas as formigas conhecem a história da Grande Deusa Rainha, que arrancou as asas de seu rei quando ele ameaçou usurpar seu trono, e o arremessou a terra para morrer, para que ela pudesse reinar solitária em meio a sua hoste de devotos.

Eu canto para você sobre o Um e Muitos da família dos bambus, que é ao mesmo tempo todos os bambus e cada bambu. Eu canto para você sobre a dança do Um e Muitos, que cresce e cresce e cresce, e sempre se torna cada vez mais, e nunca se torna mais. Apenas uma vez a cada século, quando as estrelas se alinham nos lugares certos, é que o Um e Muitos se torna a Flor que Mata, e é dito que todos deverão morrer quando ela florescer, pois quem está vivo ainda hoje que se lembra disso de alguma outra forma? Mas dos restos mortais nos bambuzais, Um e Muitos crescerá novamente, e ressuscitará os mortos, que serão livres da memória de suas vidas passadas, para que possam crescer novos e sadios.
[…] Eu canto para você os cânticos de vitória dos deuses que reinam ainda hoje, os deuses dos lobos e dos cogumelos, dos carvalhos e das abelhas, e da corajosa e solitária deusa dos celacantos. Eu deixo para os que virão após mim a tarefa de cantar as canções dos deuses que ainda estão para nascer neste mundo – longo seja o seu reinado e o seu cuidado sobre o seu séquito.

Mas eu ainda canto para você sobre muitos outros deuses, deuses dos ventos e da água, deuses de cada mineral e dos eventos que os criaram. Eu canto para você sobre os deuses dos prótons, dos quarks, das forças atômicas que mantém os elétrons em suas órbitas. Eu canto para você sobre o deus da poeira cujas mensagens podem ser vistas nos cometas gelados a cruzar o espaço – e o próprio espaço é ainda um outro deus. Eu canto para você sobre o deus que serpenteia ao centro de cada sol, e que é visto novamente fundido em cada átomo. Eu canto para você acerca do vasto deus que coleciona asteroides para zombar dos sistemas solares de sua irmã mais velha, invejoso do seu poder. Eu canto para você de todos estes deuses, e de muitos, muitos mais…

São estes, portanto, os deuses sem nome, os deuses esquecidos, estes que se assentam na sombra dos panteões dos deuses humanos. Quando falar acerca dos deuses da natureza, não se esqueça deles. Quando falar acerca dos deuses da natureza, lembre-se de que a natureza não existe apenas em formas humanas – tampouco o Divino. Pois estes são deuses que residem muito além da imaginação daqueles que tingiram as paredes das cavernas ou escreveram em pergaminhos, deuses cujos nomes jamais foram pronunciados por vozes humanas, e cujas canções jamais alcançaram o ouvido de nenhuma mulher e de nenhum homem.

***

Crédito da foto: Tula Ben Ari

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). 

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#Espiritualidade #natureza #Paganismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-deuses-esquecidos

A roda dos deuses (parte 1)

Há uma lenda bastante difundida entre as religiões ocidentais que afirma, basicamente, que o monoteísmo, a “descoberta” do Deus Único, foi uma concepção originária do judaísmo. Segundo esta lenda, existem no mundo algumas poucas religiões monoteístas, derivadas da crença hebraica, e outras tantas que creem na existência de vários deuses de origem paralela – o chamado politeísmo.

A verdade, no entanto, pode ser mais profunda… Joseph Campbell foi um estudioso de mitos e religiões em todo o globo, e em O poder do mito ele deixa muito claro o que acredita ser a principal diferença entre as grandes religiões ocidentais, e as orientais: Enquanto a oeste do canal de Suez, a maioria das pessoas identifica Deus com a fonte da Alma do Mundo, a leste de Suez, a associação que se faz é a da divindade como o veículo desta energia transcendente.

Por isso as religiões ocidentais tendem a identificar a Deus como um Grande Senhor que, sabe-se lá de onde, mantém a fonte da vida em constante afluência, enquanto que as religiões orientais tendem a ver esta divindade por toda a volta – ela seria o próprio fluido em movimento, a habitar a essência de todos os seres e de todas as coisas.

O curioso é que ambas as visões são complementares, e parecem ser apenas formas diferentes de se observar este grande mistério: “porque existe algo, e não nada?” Para resolver tal questão ancestral, a mente humana tem se aventurado a observar os recônditos mais distantes do Cosmos, e a mergulhar cada vez mais profundamente dentro de si mesma… Este grande conjunto de dualidades, de opostos, emanados de uma única fonte, mas que preenchem a tudo o que há, é precisamente isto a roda dos deuses. Reflitamos:

O Uno

Conta-nos o estudioso de mitologia e religiões, Mircea Eliade [1], que os poetas criadores do Rig Veda hindu já se questionavam, provavelmente muito tempo antes dos hebreus, acerca do problema do ser, ou do incrível fato de, afinal, algo existir: “O Uno respirava por impulso próprio, sem que houvesse inspiração ou expiração (…) Afora isso, nada mais existia”. Depois, segundo eles, através de um ato de desejo e vontade, a “semente primeira” dividiu-se em “alto” e em “baixo”, num princípio masculino e noutro feminino, e depois irradiou ou emanou de si mesma, como um pensamento, tudo o que há.

Desta forma, os milhares de deuses hindus são, eles mesmos, uma “criação secundária”. Daí nasce o grande questionamento de um desses poetas hindus anônimos e ancestrais: “Será que aquele que zela por este (mundo) no lugar mais alto do firmamento é o único a saber (da origem da “criação secundária”) – ou nem mesmo ele sabe?”.

Se é verdade que nem todas as interpretações dos Vedas chegaram a tal profundidade, não é verdade que nenhum sábio hindu tenha chegado a conclusões muito próximas dos hebreus – tudo o que há haveria de ter sido criado ou irradiado de uma só fonte, de um só Deus. Dessa forma, a ideia básica do monoteísmo está longe de ser uma criação do judaísmo, ou pelo menos, apenas do judaísmo.

Esta mesma conclusão está presente no Antigo Egito (particularmente no hermetismo), na filosofia de Parmênides (e alguns filósofos pré-socráticos que não a desenvolveram com a mesma profundidade), no estoicismo, no pensamento de Plotino e, mais recentemente, na monumental obra de Espinosa, a Ética.

Mas, e seria este Uno um ser pessoal, ou alguma espécie de energia inefável, de força ou lei oculta da Natureza? Disto não podemos saber, apenas apostar… Mas, ainda que apostemos na hipótese da energia inefável, ainda aqui teremos sido precedidos por Lao Tsé em muitos séculos: “O Caminho é vazio e inesgotável, profundo como um abismo. Não sei de quem possa ser filho, pois parece ser anterior ao Soberano do Céu” (Tao Te Ching, verso 4).

A Deusa Mãe

A adoração do aspecto feminino, fértil e vivificador da divindade data da pré-história (o que pode ser comprovado pelas inúmeras estatuetas de uma “grande mãe” encontradas pelos arqueólogos em vários pontos do mundo).

Quase 3 mil anos antes de Cristo, na grandiosa cidade de Uruk, na Suméria, o templo de Ishtar dominava a civilização da primeira grande cidade. Ishtar, entretanto, era apenas mais um nome dado a Grande Deusa, que era adorada então por muitas outras culturas na Terra. Nada se comparava ao poder da mulher. Toda a vida provinha dela e sem seu alimento nenhuma vida sobreviveria. A Mãe era a vida. A Terra era a Mãe. Deus era Mulher. O matriarcado dominou grande parte do período em que se cultuou a Deusa Mãe.

Certamente o advento da agricultura contribuiu ainda mais para que o mistério do nascimento ocupasse um ponto central das religiões antigas. A Terra era associada ao ventre e, como os vegetais, os homens nasciam do solo, e voltavam ao solo durante a morte. Provavelmente tais mitos tenham sido a fonte primária dos mitos de criação do homem a partir do solo, presentes não somente na mitologia hebraica como em alguns mitos africanos bastante similares.

Mas com o tempo, e o advento das primeiras cidades (com estoques de grãos), dos saqueadores de cidades, e dos exércitos que guardavam as cidades dos saqueadores, o mundo tornou-se mais bruto e violento, e o matriarcado foi sendo suprimido pelo patriarcado. A Deusa Mãe saía de cena…

O “deus do pai”

Ainda nos conta Mircea Eliade que a religião dos patriarcas hebreus, já desde Abraão, era muito próxima ao culto dos antepassados, prática comum tanto do paganismo como de doutrinas orientais, como o budismo e o xintoísmo. O “deus do pai” é primitivamente o deus do antepassado imediato, que os filhos reconhecem. É um deus dos nômades e pastores, que não está ligado a santuários fixos, mas acompanha e protege um grupo de homens. Ele “se compromete diante de seus fiéis por meio de promessas” – o que fica muito claro nas barganhas relatadas no Antigo Testamento (“faça isto por mim, que farei isto por você”) [2].

Mas ao penetrarem em Canaã, os patriarcas são confrontados com o culto do deus El (o Deus Criador nas culturas suméria e babilônica), e o “deus do pai” acaba por lhe ser identificado [3]. Dessa forma, obtém a dimensão cósmica que não podia ter como uma divindade de famílias e clãs.

O “deus do pai”, o deus dos patriarcas hebreus, torna-se o Deus Criador e, dessa forma, é também associado ao Uno, ao “único Deus”. Mas isto não foi “a origem do monoteísmo”, como dizem as lendas, mas tão somente um dentre muitos sincretismos religiosos similares, que ocorreram não somente em Canaã, como em diversas outras partes do mundo…

» Em seguida, a roda continua a girar com as entidades divinas e os avatares…

***

[1] Alguns dos trechos de livros sagrados nesta série de artigos foram retirados de seu livro, História das crenças e das ideias religiosas, vol I (Zahar).

[2] As barganhas religiosas, onde “se cobra a Deus por sua parte do trato”, existem até os dias de hoje. É surpreendente que certas igrejas, que teoricamente são protestantes, ainda hoje colaborem para esta prática de uma espiritualidade tão superficial.

[3] É por isso que o Deus hebreu ora é chamado de Javé, ora de Elohim. Javé seria o “deus do pai”, e Elohim seria sua associação a El.

Crédito da foto: Frederic Soltan/Corbis (O Templo do Sol de Konark, Orissa/Índia)

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#Hinduismo #Religiões #Mitologia #Judaismo #MirceaEliade #Paganismo

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A roda dos deuses (parte final)

« continuando da parte 1

Nós vinhamos falando do Uno, da Deusa Mãe e do “deus do pai”, e agora prosseguimos nesta roda ancestral…

Entidades divinas

Schiller talvez tenha nos presenteado com a melhor síntese do que seriam, afinal, os deuses de outrora, citando a mitologia grega:

“Naqueles dias do belo acordar das forças espirituais, os sentidos e o espírito não tinham, com rigor, domínios separados. […] Por mais alto que a razão subisse, arrastava sempre consigo, amorosa, a matéria, e por finas e nítidas que fossem as suas distinções, nada ela mutilava. Embora decompusesse a natureza humana para projetá-la, aumentada em suas partes, no maravilhoso círculo dos deuses, não o fazia rasgando-a em pedaços, mas sim compondo-a de maneiras diversas, já que em deus algum faltava a humanidade inteira. Quão outra é a situação entre nós mais novos. […] Eternamente acorrentado a uma pequena partícula do todo, o homem só pode formar-se enquanto partícula.” [1]

Todas as entidades divinas, como os deuses gregos, são mitos associados a aspectos da Natureza; o que certamente incluí a nossa natureza – a natureza humana. É óbvio que não existe, na natureza terrestre pelo menos, um homem que mora acima das nuvens e de vez em quando desce a Grécia para seduzir e copular com belas mulheres desavisadas; mas, por outro lado, a iconografia de Zeus é toda ela um imenso conjunto de símbolos, símbolos estes que existem e sempre existirão, ao menos enquanto existirem mentes com vontade de pensar sobre eles.

Os símbolos nada mais são do que imensas quantidades de informação reduzidas a uma única imagem ou história fantástica ou ícone que funcionam como uma chave mental para o acesso dessas informações e sensações, desde que a pessoa saiba, em seu pensamento, como usar esta chave de uma forma consciente. Você pode perfeitamente substituir a imagem (o símbolo) de Zeus por uma série de palavras (formadas por conjuntos de símbolos – as letras do alfabeto) a formar uma extensa lista: nobreza, inteligência, sabedoria, espiritualidade, sedução, magia, fúria, excitação, ciúmes, vingança, etc. É claro que, dependendo da interpretação de cada pessoa, e de cada tradição folclórica, essa lista pode variar imensamente, mas não absolutamente. Zeus é um conjunto de símbolos, ele serve para que acessemos tais ideias em nosso pensamento, sentimento e intuição, de forma simplificada e cada vez mais potente (o hábito faz o monge).

O grande problema do “uso dos mitos” é quando os entendemos como seres literais (e não metáforas), dispostos a barganhar conosco em troca de “favores espirituais”, “boa sorte”, “boa saúde”, etc. Isso é um problema porque, exatamente, a grande vantagem dos mitos é poder ativar a nossa vontade para que nós mesmos busquemos tais objetivos, que nós mesmos nos tornemos heróis a vivenciar a grande aventura da vida, que nós mesmos nos tornemos, enfim, deuses (“sois deuses, farão tudo o que faço e ainda muito mais” – disse o grande rabi da Galileia [2]).

Ainda em O poder do mito, Joseph Campbell nos ajuda a entender melhor a questão: “Todos os símbolos da mitologia se referem a você. Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Na sua mais profunda identidade, você é Deus. Você é um com o ser transcendental”…

Dizem os Upanixades hindus que “aquele que sabe que também é parte de Deus se torna, em sua Criação, um criador”. É claro que ninguém imagina que possa criar outros universos por aí, apenas pensando sobre eles, nem muito menos que é onipotente neste universo (ou ao menos, ninguém que manteve certa sanidade em sua crença); por outro lado, todo aquele que reconhece a fagulha divina dentro de si, pode potencialmente, como Cristo, tornar-se “um com o Uno”. Neste sentido, todos os mitos, todos os deuses, são apenas “atalhos no caminho”, símbolos que podem nos auxiliar em nossa religação ao Uno.

Para finalizar o assunto, é sempre proveitoso consultarmos a sabedoria de Alan Moore: “Na Cabala há uma grande variedade de deuses, mas acima da escala, da Árvore da Vida, há uma esfera que é o Deus Absoluto, a Mônada. Algo que é indivisível, você sabe. E todos os outros deuses, e, de fato, tudo mais no universo é um tipo de emanação daquele Deus. E isto está bem. Mas, quando você sugere que lá está somente esse único Deus, a uma altura inalcançável acima da humanidade, e que não há nada no meio, você está limitando e simplificando o assunto. Eu tendo a pensar o paganismo como um tipo de alfabeto, de linguagem. É como se todos os deuses fossem letras dessa linguagem. Elas expressam nuances, sombras de uma espécie de significado ou certa sutileza de ideias, enquanto o monoteísmo é só uma vogal, onde tudo está reduzido a uma simples nota, e que quem a emite nem sequer a entende.” [3]

Avatares e heróis

Um avatar (do sânscrito, aval) é “aquele que descende de Deus”. Ora, se formos considerar o que falamos até aqui, isto não será nenhuma novidade – todos nós descendemos de Deus, assim como todas as coisas descendem de Deus. Um avatar, entretanto, geralmente é também um ser mitológico, um herói ancestral dos antigos contos falados nas fogueiras das primeiras tribos, uma prática que se estendeu por todas as civilizações humanas.

Joseph Campbell também nos falou algo interessante sobre essas jornadas heroicas da mitologia antiga: “O reino de Deus está dentro de nós e, não obstante, também está fora de nós; Deus, todavia, não é senão um meio conveniente de despertar a bela adormecida, a alma. A vida é o seu sono; a morte, o despertar [4]. O herói, aquele que desperta a própria alma, não é mais do que o meio conveniente de sua própria dissolução. Deus, aquele que desperta a alma, é, nesse sentido, sua própria morte imediata.

Provavelmente o símbolo mais eloquente possível deste mistério seja o do deus crucificado, o deus oferecido “ele mesmo a si mesmo”. Entendido numa das direções, o sentido é a passagem do herói fenomênico para a supraconsciência: o corpo, com os cinco sentidos, fica pendendo da cruz do conhecimento da vida e da morte. […] Mas é igualmente verdadeiro que Deus desceu voluntariamente e colocou sobre si mesmo a carga de sua agonia fenomênica. Deus assume a vida do homem, que liberta o Deus que se acha em seu interior no ponto médio do cruzamento das hastes da mesma “coincidência de opostos”, a mesma porta do sol pela qual Deus desce e o homem sobe – Deus e o homem se alimentam mutuamente [5].”

Ora, se os xamãs da pré-história dedicaram-se com tanto sacrifício a realizar pinturas nas cavernas mais inacessíveis, eles de fato tinham uma boa razão: as experiências espirituais eram parte central de sua vida, de nossas primeiras tentativas de tatear a Natureza inefável. Seja caçando bisões ou imensos dragões, as jornadas dos heróis de outrora também diziam respeito a nossa própria jornada, a conquista de uma vontade devidamente conectada ao Cosmos, e não mais aos desejos desenfreados dos monstros subconscientes. Sim, pois aqui a mitologia e a psicologia se confundem, e fica muito claro, ao menos para quem tem olhos para ver, que a roda dos deuses tem girado, sobretudo, dentro da mente humana – esta grande desconhecida!

Conforme o Buda meditando ao lado de uma árvore, ou Jesus sendo tentado em pleno deserto, buscando despertar o Cristo que jazia em seu interior: todas essas histórias são símbolos transmitidos pelos sábios ancestrais, e ainda que não tenham transcorrido exatamente da forma como foram contadas, elas vem sendo incansavelmente reencenadas em seu palco mais primordial – a consciência humana. A questão, portanto, não é se os deuses e os avatares existem ou não, mas a experiência que provocam em nós. A experiência mística, religiosa, a reconexão ao sagrado, a vivência do amor: disto, todo verdadeiro religioso sempre teve convicção, e não precisou de experimentos comprovando aquilo tudo de que sabem lá dentro de suas almas.

O sagrado

Conforme o disco de Newton a girar, todos os pensamentos, mitos e histórias sagradas se revelam, em sua essência mais profunda, não como uma gama de deuses separados e rivais, mas como pontos de vista e reflexões de um só Deus, Uno.

Então chegamos ao primeiro paradoxo a ser reconciliado: o Uno não tem, nem nalgum dia teve, nem poderá um dia ter um oposto – pois o nada não existe. Da posse desta reconciliação, desta compreensão que em realidade não pode ser descrita por palavras ou linguagem, alcançaremos à experiência de reconhecer ao sagrado derramado sobre tudo o que há…

E poderemos, quem sabe, compreender que todos os outros opostos também vieram da mesma fonte, e todos os monstros e dragões em realidade nada mais eram do que atores deste teatro da alma. Uma vez compreendidos, reconciliados, também poderão ser nossos amigos – o lobo terá sido adestrado pelo amor.

Há essa ponte entre duas terras:
A terra onde tudo está separado em pequenas caixas, como segredos hermeticamente fechados;
E a terra onde tudo jaz junto, unido, conectado…

O amor é a ponte
O amor é uma fonte
Deus está a aguardar na outra margem
Deus não está a aguardar na outra margem
Deus é uma experiência

(Onde vivem os deuses, raph)

***

[1] Trecho de Cartas sobre a educação estética da humanidade (carta VI).

[2] João 10:34; João 14:12 (Novo Testamento). Compare-se com as frases gravadas nas pequenas tábuas de ouro utilizadas pelos antigos praticantes do orfismo: “Também eu sou da raça dos deuses”.

[3] Trecho de sua entrevista para o documentário The mindscape of Alan Moore.

[4] Este tipo de “morte espiritual” é antes um símbolo do renascimento, do despertar da alma, ainda nesta vida.

[5] Trecho de seu livro, O herói de mil faces.

Crédito das imagens: [topo] Google Image Search (busto de Zeus); [ao longo] Agni Comics (quadrinhos com deuses do hinduísmo)

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A Primeira Geração de Deuses gregos

A Teogonia de Hesíodo, também conhecida por Genealogia dos Deuses, é um poema mitológico de Hesíodo (séc. 8 a.C.). Trata da gênese dos deuses, descreve a origem do mundo, os reinados de Urano, Cronos e Zeus, e a união dos mortais aos deuses, desta forma nascendo os heróis mitológicos. Os personagens representam aspectos básicos da natureza e do homem, expressando assim as idéias dos primeiros gregos sobre a constituição do universo. Segundo a Mitologia Grega, contada por Hesíodo:

CAOS

No princípio existia apenas o Caos, a primeira divindade a surgir no universo, um ser solitário, o mais velho dos deus. Caos gerou de forma assexuada os filhos

* Nix (noite) e

* Érebus (Escuridão).

Érebus desposou sua irmã Nix, e deles nasceram

* Éther (luz celestial) e

* Hemera (o dia).

TÁRTARO

Tártaro era outro ser divino primordial, que aprisionava os condenados no mundo subterrâneo.

GAIA, GÊ

Gaia, deusa da terra, era a segunda divindade, com a missão de povoar o Caos. Com sua potencialidade criadora, gerou Urano (o céu), Pontos (rios) e as montanhas. Na solidão fria do Caos, surgiu Eros – o amor e a partir dele, nada mais poderia procriar sozinho. Movida pelo impulso determinador de Eros, Gaia se uniu ao seu filho primôgenito Urano dando origem aos:

* Cíclopes, seres de um olho só, divindades dos relâmpagos, dos trovões e dos raios;

* Hecatônquiros, também chamados de Centimanos, gigantes violentos de cem braços e cinquenta cabeças, divindades dos terremotos; e

* Titãs Oceanus, Céos, Crio, Hipérion, Jápeto, Cronos e às Titânides Febe, Réia, Téia, Têmis, Mnemosine, Tétis, deuses primitivos que tinham a forma humana.

URANO

Urano tinha o dom da profecia e descobriu que seria destronado por um de seus filhos, e vendo a natureza violenta dos filhos, encerrou-os no Tártaro. Revoltada, Gaia pede aos filhos para ajudá-la mas somente seu filho Cronos aceita castrar Urano e assim libertar os seus irmãos Titãs, os Cíclopes e os Gigantes. Cronos castra seu pai e joga seus genitais no mar, de onde surge:

a deusa Afrodite

as Ninfas Melíades ou Melissas, divindades femininas da fertilidade, protetoras das árvores, benfeitoras dos homens e da natureza. Nunca envelheciam e tinham o dom de profetizar, curar e nutrir.

as Erínias, que surgem do esperma de Urano: Tisífone (castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Interminável) que viviam no Tártaro torturando as almas pecadoras.

Sem a interferência do pai, Cronos torna-se o rei dos deuses.

TITÃS E TITÂNIDES

* O Titã Oceanus, deus dos mares, desposa sua irmã Tétis, gerando as Ninfas dos mares, as Nereidas e os Seres marinhos.

* O Titã Céos, deus da inteligência, desposa sua irmã, a Titânide Febe, deusa da lua, gerando Astéria, deusa estelar e Leto, deusa do anoitecer.

* O Titã Crio, desposa Euríbia gerando Palas, Astreu e Perses. Seu poder destrutivo envolvia as criaturas do mar Abissal.

* O Titã Hipérion, deus solar primitivo, desposa sua irmã, a Titânide Téia, gerando Selene (a lua), Hélios (o sol) e Eos (a aurora).

* O Titã Jápeto, deus do tempo da vida humana e da mortalidade, desposa sua sobrinha Climene gerando: Prometeu – o que pensa antes; Epimeteu – o que pensa depois; Atlas – o que suporta; Menecéio – o va nglorioso.

* A Titânide Têmis, deusa guardiã dos juramentos dos homens, da lei, deusa da justiça, se une a Zeus e tem três filhas: Eunômia – a disciplina; Diké – a justiça; Eiriné – a paz.

* A Titânide Mnemosine, deusa da memória, une-se a Zeus gerando nove filhas: Calíope (poesia épica) – Clio (História) -Érato (poesia romântica) – Euterpe (música) – Melpômene (tragédia) – Polúmia (hinos) -Tália (comédia) – Terpsícore (dança) -Urânia (Astronomia)

* O Titã Cronos desposa sua irmã Réia, gerando os filhos: Deméter, Héstia, Poseidon, Hades, Hera e Zeus. Mas Cronos se torna perverso, engolindo os filhos quando nascem, devido à profecia feita por seu pai: que um deles também o destronaria.

Por Lúcia de Belo Horizonte.

#Mitologia #MitologiaGrega

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‘Manual dos Caça Fantasma

As pessoas têm o péssimo hábito de morrer.

Este é um costume tão enraizado na humanidade que antes de inventarmos as igrejas, a ciência e a arte, as pessoas já faleciam aos montes, um hábito que permanece até os dias de hoje. Não demorou muito para aqueles que ainda estavam vivos começassem a questionar o que acontecia com quem deixava este mundo. E assim que começaram a surgir formas de entretenimento sociais como a religião, o teatro, livros e as megaproduções de Hollywood, este assunto foi explorado ao extremo; não é de se espantar que pessoas tenham se especializado nele e o transformado não apenas em uma área de estudo, mas também em uma profissão. Talvez uma das profissões mais antigas da história, já que raramente o xamã local tinha que caçar a própria comida.

A morte e seu principal subproduto, os fantasmas, inflamam a imaginação do ser humano desde que este se entende como tal, e não demorou muito para que ele voltasse seus meios de estudo e sua compreensão para tentar entender aquelas coisas translúcidas que eram capazes de atravessar as paredes. A religião, a filosofia, o ocultismo e finalmente a ciência foram usadas para tentar se compreender e analisar esses eventos que nem os mais cínicos conseguem ignorar por muito tempo. O fenômeno é tão comum que dificilmente alguém não tem uma história pessoal para contar.

Mas como classificar essas atividades chamadas de paranormais, que envolvem a aparição e interação de fantasmas com os vivos? Existem milhares, talvez mesmo milhões, de registros mecânicos e digitais de espíritos dignos de confiança. Alguns deles vêm sendo estudados há décadas sem que tenha surgido uma evidência sequer de fraude. Mas mesmo assim aqueles que se utilizam do método científico e jornalístico não estão mais próximos de explicarem o fenômeno do que o velho xamã preguiçoso.

O filme Os Caça-Fantamas, de 1984, e depois uma série de outros filmes e seriados televisivos, acabaram excitando a curiosidade de muitas pessoas e as incentivou a sair também coletando seus dados e evidências em busca de uma prova de que a existência do ser persiste além da morte física e com o tempo se criou um processo mais ou menos aceito por muitos como a forma correta, ou mais eficaz, de se buscar não apenas espíritos mas também atividades fantasmagóricas e muitos outros tipos de eventos desconhecidos. Mais recentemente, na era do Reality Show seriados como Ghost Hunters tem registrado o procedimentos de profissionais do ramo, levando os casos do fundo do porão para a sala de estar das pessoas.

O que você tem em mãos agora é o resultado do trabalho da Morte Súbita Inc. de se criar um manual prático, baseado na experiência de alguns de seus membros, para que os interessados possam se equipar e sair buscando suas próprias experiências. Este manual contém itens didáticos que tornam possível que a pessoa, mesmo sem nenhuma experiência prévia, possa identificar aquilo com que está lidando, até dicas de como encontrar locais assombrados para pesquisar, como criar um arquivo de casos, equipamentos necessários e um guia prático de como se conduzir uma pesquisa de campo.

Este é um campo de pesquisa e estudos que não possui ainda um currículo necessário, ou seja, qualquer um com uma base boa pode fazer parte dele, a única coisa que servirá para dizer se você é um bom caçador de fantasmas ou não são suas próprias experiências. Por isso se prepare, tome notas e boa sorte.

Agradecimentos

Agradecimentos

Este trabalho é uma homenagem a memória de Octávio Castelani, (Frater Abel 93) falecido em agosto de 2009 e Jaime Garcias, (Frater EctoZ) falecido em abril de 2010, pioneiros do projeto Morte Súbita Inc. no ramo de caçadas fantasmas. Estamos atrás de vocês, camaradas 🙂

Índice

PARTE I – Fantasmagoria teórica:

PARTE II – A Fauna Espectral

PARTE III – Arsenal

PARTE IV – A Rotina da Caça

PARTE V – Administração e Orientações Gerais:

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/101-manual-dos-caca-fantasma/

O Evangelho do Agnóstico

» Parte final da série “Reflexões sobre a evangelização” ver parte 1 | ver parte 2

As bases filosóficas do agnosticismo foram assentadas no séc. XVIII por Kant e Hume. O termo, porém, foi cunhado pelo biólogo britânico Thomas Huxley em 1876 – ele definiu o agnóstico como aquele que acredita que a questão da existência de Deus não pode e talvez jamais possa ser resolvida.

“O Cosmos é tudo que existe, que existiu ou existirá” – Assim, com essa frase inesquecível, Carl Sagan inaugura o primeiro episódio da série de 13 documentários intitulada “Cosmos”, veiculados na TV americana em 1980, e depois no restante do mundo. Ao pretender explicar ciência e cosmologia para o público leigo, Sagan acabou criando um épico que abrange também muitas questões existenciais, história, mitologia, religião e espiritualidade em geral.

Em alguma costa rochosa, em alguma praia do globo, Sagan observa as ondas, os pássaros, o vento, e algum tempo depois nos traz outra pérola em sua narrativa: “Recentemente, aventuramo-nos um pouco pelo raso (do Cosmos), talvez com água a cobrir-nos o tornozelo, e essa água nos pareceu convidativa. Alguma parte de nosso ser nos diz que essa é a nossa origem. Desejamos muito retornar, e podemos fazê-lo, pois o Cosmos também está dentro de nós. Somos feitos de matéria estelar, somos uma forma do próprio Cosmos conhecer a si mesmo.”

Sagan era profundo conhecedor de religiões e mitologia, além de cientista e cético, mas não era nem ateu nem teísta ou deísta, era puramente agnóstico. Seu evangelho era constituído de uma obra de divulgação científica totalmente voltada para tal espanto, tal deslumbramento, tal amor pela natureza e todo o Cosmos a sua volta. Essa era a boa notícia de Carl…

Para muitos teístas, o fato de existirem pessoas que não creem em um Deus pessoal, ou que pelo menos não tem certeza de sua existência, parece causar um certo desconforto. Não é raro perceber, em qualquer pessoa ligada a doutrinas eclesiásticas, uma tendência a classificar ateus, agnósticos, céticos, e às vezes simplesmente todo e qualquer cientista, como “gente sem fé”, perdida, afastada de Deus, e até mesmo imoral.

Mas a verdade é que, a despeito do aparente consenso dos eclesiásticos, a moralidade, o amor, não são exclusividade daqueles que oram todos os dias a Deus, que frequentam missas, que consultam algum manual da Verdade Absoluta frequentemente. Para o religioso superficial, isto que digo não levanta muitas questões – “Ora, mas é exatamente assim: uns são bons, outros maus, crer em Deus não faz de ninguém um santo”. Sim, isso faz sentido, mas a questão é mais profunda…

Se Deus existe – e para teístas e deístas ele certamente existe –, porque ele “permite” que algumas de suas criaturas vivam sem sequer crer nele?

Em outro produto da obra de Sagan, o livro de ficção “Contato”, que também deu origem a um excelente filme homônimo, é descrito um contato com inteligências extra-terrestres de uma forma verossímel e científica. Existe também um conflito entre as crenças de cientistas e religiosos – em dado momento, a protagonista do primeiro contato (no livro são vários contatos ao longo das décadas, no filme há apenas um), uma cientista agnóstica, nos traz uma importante indagação:

“Se Deus quisesse nos mandar uma mensagem e escrituras antigas fossem a única forma que pudesse imaginar, ele poderia ter feito um trabalho melhor. E ele dificilmente teria que se confinar a escrituras. Por que não há um monstruoso crucifixo orbitando a Terra? Por que a superfície da Lua não é coberta com os Dez Mandamentos? Por que Deus deveria ser tão claro na Bíblia e tão obscuro no mundo?”

Ao contrário do que muitos eclesiásticos possam imaginar, esta mensagem não denota um pensamento que diminua de alguma forma a importância da Bíblia, mas antes um pensamento que aumenta enormemente a amplitude do que há de sagrado no mundo – o reino é todo o Cosmos. E não poderia ser de outra forma…

Podemos encontrar neste mundo ateus, agnósticos, teístas e deístas, sim isso tudo é verdade. Mas será muito difícil encontrar algum ser que negue a existência de um sistema que rege todo o universo. Seja a crença nas leis fundamentais da natureza, seja a crença nos desígnios divinos, seja um misto de ambos, todos creem em algum sistema, cuja função pode ainda ser um mistério – mas que há de ser buscado, há de ser resolvido passo a passo, por todos nós, juntos!

Sim, nós realmente somos a forma do Cosmos conhecer a si mesmo. E pouco importa, na prática, se tal Cosmos é um ser pessoal, uma força cósmica ou até mesmo um acaso miraculoso – pois no fim, conforme postularam Kant e Hume, não compreendemos ainda muito bem nenhum deles, não podemos ainda resolver tal questão. Será que poderemos um dia?

Para resolvê-la, talvez não bastem apenas orações e experiências místicas, apenas meditação e autoconhecimento, mas também o estudo meticuloso, prático, objetivo, material, profundamente mundano, da natureza a nossa volta. Há muitos gigantes da história da ciência que, buscando talvez um deus barbudo senhor dos exércitos, acabou esbarrando em verdades muito mais profundas. Talvez buscando um reino confinado a um pequeno pedaço de rocha na periferia da uma de bilhões de galáxias, acabou esbarrando no infinito.

E, se mesmo hoje existem seres que buscam aos mistérios de Deus sem sequer crer nele, que se aventuram pelas entranhas dos átomos e quarks, pelo reino bizarro da mecânica quântica, pelos códigos ocultos do DNA, pelos quasares e sóis distantes, pelas singularidades de seções inimagináveis do espaço-tempo, deixem que busquem, pois de uma coisa teremos sempre a certeza: é impossível estar “fora” de Deus.

Talvez o trabalho deles seja tão importante para o mundo quanto os mandamentos dos evangelhos. O importante é encarar as boas novas não como enigmas solucionados, mas como o início de um caminho, subjetivo e objetivo, interior e exterior, que preenche toda nossa existência.

Amai sim, o próximo, e toda a vida, como a ti mesmo. Mas amai a coletividade da vida, amai os átomos que nos conectam a tudo e a todos em uma teia sem fim, amai ao Cosmos acima de todas as coisas.

***

Crédito das imagens: Divulgação (Cosmos de Carl Sagan).

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Espiritualidade #Deus #CarlSagan #universo #Ciência #Bíblia

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Pequeno manual para a conversão do infiel

» Parte 2 da série “Reflexões sobre a evangelização” ver parte 1

Conversão religiosa é a adoção de uma nova identidade religiosa, ou uma mudança de uma identidade religiosa para outra. Isto envolve tipicamente o devotamento sincero a um novo sistema de crença, mas também pode ser concebido de outras maneiras, como a adoção em uma identidade de grupo ou linha espiritual.

Todos os sistemas de crença ou doutrina religiosa se baseiam em espécies de guias, manuais passo a passo para uma vida de religiosidade mais profunda e verdadeira, em suma, uma religação mais eficiente e efetiva. Porém, me parece que podemos dividi-los em dois grandes grupos: aqueles em que o campo de aprendizado se dá única e exclusivamente por vontade e esforço próprios de cada um, sem a possibilidade de atalhos ou barganhas; e aqueles em que existe uma possibilidade de se avançar por meio de bênçãos e milagres, por barganhas diretas com Deus, em troca deste ou daquele benefício divino – um arrebatamento ao Céu, algum milagre ou salvação de última hora, ou simplesmente uma iluminação espiritual.

No segundo grupo se encontram a maior parte das igrejas ou sistemas eclesiásticos. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Ocidente do que no Oriente. Por exemplo, quando determinada doutrina afirma que “só seremos salvos se aceitarmos Nosso Senhor Jesus Cristo em nosso coração”, ela opera por forma de barganha: aparentemente, o único caminho será esse, e o mérito da salvação não será exclusivamente nosso, mas muito mais uma forma de “retribuição divina” por nossa fidelidade. Ainda assim, aceitar o Senhor ainda é algo que tem mais lógica do que simplesmente doar quantias enormes de dinheiro a alguma igreja em troca da benção direta desse mesmo Senhor. Afinal, o que diabos Deus fará com seu dinheiro? Afinal, porque somente este ou aquele eclesiástico é responsável pela contabilidade divina?

No primeiro grupo, se encontram a maior parte dos religiosos que não necessariamente tem igreja. Também pode-se dizer que este tipo de religiosidade é muito mais comum no Oriente. Tais fiéis são antes fiéis a Deus, e mesmo que tenham alguma igreja ou grupo de estudos, e um dia os venha a abandonar, não necessariamente abandonará a própria doutrina em si. Estes fazem de suas casas, seus corações, suas mentes, sua única e inabalável catedral – onde sempre poderão orar, onde confessam antes de tudo a si mesmos.

Por exemplo, os dois primeiros versos do Livro do Caminho Perfeito, a obra principal do taoismo, dizem que “o caminho que pode ser seguido não é o Caminho Perfeito”. Superficialmente isto é um tanto paradoxal, é como se fosse apresentado um manual passo a passo para algum Céu em que, logo de início, já fosse afirmado que este manual não poderia ser seguido… No entanto, o que Lao Tsé queria dizer é análogo ao que muitos grandes sábios sempre afirmaram: que o caminho espiritual é próprio de cada um. Ou seja, o discípulo jamais poderá seguir o mesmo caminho do mestre, ele poderá no máximo utilizar seu exemplo de vida como base para construir o seu próprio caminho. Pois assim como não existem seres idênticos na criação, da mesma forma não existem caminhos idênticos para a religação ao Cosmos.

A mim me parece que a abordagem do primeiro grupo tem muito a ensinar ao segundo. Em realidade, existe uma disparidade tão grande e evidente à nível de profundeza espiritual entre tais grupos, que há de se perguntar se o segundo não é, em sua maioria, um grande agrupamento de visões equivocadas da religião mais aprofundada, universal, cósmica…

Há muitas igrejas, por exemplo, que foram edificadas inteiramente sobre textos sagrados aos quais se atribuí uma espécie de “ditado” direto de Deus. Não são como o Livro do Caminho Perfeito, uma mera tentativa de um sábio aconselhar aos outros sobre sua própria experiência de tentar compreender a Deus, mas antes a própria palavra de Nosso Senhor, verdadeiros Guias da Verdade Absoluta [1].

Se é que tais textos sejam mesmo o que os eclesiásticos pretendem que sejam, se é que não tenham sido enormemente adulterados com o passar do tempo, a evolução das sociedades, ou simplesmente por inúmeras traduções e compilações, ainda assim há que se pensar: se temos um nossa frente a Verdade codificada em palavras, em símbolos de escrita, será que isso nos bastará? Será que teremos plenas condições de interpretar corretamente tal Verdade? Acredito que a história das guerras religiosas nos traga uma boa resposta a essas perguntas – afinal, nenhuma guerra, nenhuma matança poderia, jamais, ser santa!

Obviamente que mesmo no Ocidente, que mesmo em tais igrejas com seus Guias Infalíveis, encontram-se os moderados, os da “ala mística”, ou que compreendem a religião, o religare, de forma mais aprofundada. Tenho certeza que esses jamais ergueriam uma espada, obrigando algum pobre coitado a se “converter” a sua doutrina…

Pois como poderia alguém, nalgum dia insano, converter outro alguém ao seu próprio pensamento, a sua própria doutrina, pela força? Pela sedução das palavras? Pelo terror anunciado de um lago de enxofre eterno aguardando todos aqueles que não se salvarem, que não aceitarem Nosso Senhor?

Ora, perguntem aos índios da América, perguntem aos negros da África, se eles nalgum dia se converteram ao Deus desses homens que os trataram como mercadoria, como escravos, como selvagens “sem alma”, mas nunca como irmãos, como seres na mesma caminhada para o Cosmos de onde todos foram catapultados na imensidão infinita. Dizer, da boca para fora, “eu aceito Nosso Senhor”, não significa que tenham aceitado. A liberdade jaz na mente e, assim como o caminho espiritual, é exclusiva de cada um, graças a Deus.

William James, um dos fundadores da psicologia, em seu grandioso tratado “Variedades da experiência religiosa”, postula que a conversão religiosa verdadeira pode aparentemente ocorrer de uma hora para outra, do dia para noite, em algum insight momentâneo, mas que quase que certamente já vinha sendo edificada, lentamente, nos calabouços ocultos do inconsciente. Que nossa questão com Deus é universal, todos temos de seguir este caminho, ainda que alguns o sigam inconscientemente ou o chamem de estudo da natureza – o importante é que, a nossa maneira, estamos todos caminhando à frente, aprimorando nossas potencialidades.

Lao Tsé e outros sábios sempre souberam que jamais poderiam converter alguém – o máximo que poderiam fazer era dar o exemplo, falar sobre sua própria experiência espiritual, sobre os percalços e as consolações do caminho, e esperar pacientemente que cada um, por si só, a seu próprio momento, convertesse a si mesmo.

Que não existe manual para o caminho alheio, apenas para o nosso próprio. O único infiel que tem de ser convertido é aquele que se encontra em nossa própria alma. Somos o juiz e o escravo, o apóstolo e o seguidor, o mestre e o discípulo, de nossa própria causa. Temos de ser fiéis ao nosso próprio ser, ao nosso tanto de fagulha divina que, ainda assim, é e sempre foi a única maneira com que Deus falou conosco – como o vento que sempre nos envolveu, embora não saibamos ao certo por onde ele tem passado.

» A seguir, o evangelho do agnóstico…

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[1] Muito embora, mesmo no taoismo existam lendas que colocam Lao Tsé como uma espécie de deus na Terra. Da mesma forma que existem religiosos superficiais no Ocidente, existem também no Oriente. Este texto não pretende ser, portanto, uma exaltação da religiosidade oriental como “superior”. Apenas procura atestar que a religiosidade pura, não eclesiástica, é muito mais comum na cultura oriental – independente de seus seguidores as terem compreendido ou não.

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#Bíblia #Cristianismo #Deus #Tao

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