Ayn Rand

1905 – 1982

“O egoísta não é uma pessoa incapaz de amar; mas sim o único capaz disso. Para dizer “Eu amo você, é preciso primeiro saber dizer  “Eu”.” – Ayn Rand

Logo no início de sua vida Alissa Rosenbaum (este é seu verdadeiro nome de Ayn Rand)  mostrou-se ser audaciosa demais quando comparada a homens e mulheres de sua época. Any Rand era independente demais para os comunistas da época e inteligente demais para um ser humano de qualquer período histórico.  Ayn concebia o egoísmo como a única forma não hipócrita de comportamento e portanto o valor final no qual deveria estar baseada toda a moral:

“Se uma vida pode ter uma “Canção tema” – e eu acredito que todas aquelas que valeram algo tenham –  então a minha seria melhor expressa e uma única palavra: individualismo.

Ayn Rand nasceu no dia 2 de Fevereiro de 1905 em São Petersburgo, Rússia. Aos doze anos a pequena Alissa, já havia escrito várias histórias (em geral durante as aulas maçantes de história) e decidido que seria uma escritora. Ayn tinha a ânsia criadora típica de um demiurgo e desejava criar histórias, pessoas e acontecimentos infinitamente mais interessantes do que aqueles que ela confrontava em sua vida diária.

Este pequeno detalhe de sua infância já mostrava o desejo inerente em sua personalidade de superar a realidade por meio da criação humana. E de fato, passados os anos, todos os quatro romances da autora despontam entre as 10 melhores ficções escritas no século XX

Sua visão individualista da história e da humanidade era aritmeticamente oposta aos ideais que motivavam a Revolução Russa que explodiu em 1917 quando ela tinha apenas doze anos. Em sua opinião a ideologia comunista, especialmente quanto a centralização diretiva do Estado, roubava-lhe direito de definir sua própria vida e de viver para si. Ela acreditava que essa ideologia era voltada para destruir o indivíduo inteligente, transformando indivíduos pensantes em abelhas operárias.  A formação da União Soviética e diversos regimes autoritários posteriores comprovaram as teses de Rand.

Em plena revolução Russa As vésperas de todo o poderio que foi a União Soviética, Rand não tinha medo de se arriscar em a defender ideais de livre iniciativa e propriedade privada. No entanto, a luta de Rand nunca foi pelo sistema capitalista em si, mas sim pelo modo racional de se pensar:

“Não sou primariamente uma advogada do capitalismo, mas do egoísmo; e não sou primariamente uma advogada do egoísmo, mas da razão.“

É graças a seu racionalismo irretocável que Any Rand, chegará a todas as suas conclusões e é também graças a sua forma clara de pensar que ela ganhou tantos inimigos e é por isso que desponta entre as personalidades mais evitadas pelos pensadores do início do século XX.

Suas idéias deram origem a uma linha de pensamento conhecida como Objetivismo e como o satanismo este movimento é baseado no Individualismo, no egoísmo e no uso da razão em prol da vitalidade humana.  Sendo assim seu primeiro trabalho foi desconstruir as bases dos valores morais vigentes da irracionalidade do altruísmo e do auto-sacrifício:

“Observe o que a ética altruísta faz à vida de um homem. A primeira coisa que ele aprende é que a moralidade é sua inimiga: não ganha nada com ela, apenas perde; tudo o que pode esperar se for moral são perdas auto-impostas, dores auto-impostas e o manto cinzento e deprimente de uma obrigação incompreensível. Ele pode esperar que os outros possam, ocasionalmente, sacrificar-se em seu benefício, assim como ele se sacrifica de má vontade, em benefício deles, mas ele sabe que tal relacionamento só produzirá ressentimentos mútuos, não prazer – e que, moralmente, essa troca de valores será como uma troca de presentes de Natal não desejados e não escolhidos que nenhum deles se permite, moralmente, comprar para si mesmos.”

Ayn Rand entende que é o indivíduo e não a sociedade que deve ser a base de qualquer consideração moral, porque a razão é uma característica do indivíduo, e não da sociedade, e é através da razão que pode-se definir um código de valores útil e coerente para guiar o comportamento:

“Vocês alardeiam que a moralidade é social, e que o homem não precisaria da moralidade em uma ilha deserta. É numa ilha deserta que ele mais precisaria dela! Deixe que ele pretenda, em um tal lugar, quando não há nenhuma vítima que ele possa espoliar, que rocha é casa, que areia é vestimenta, que alimento vai cair em sua boca sem causa e esforço, que ele vai ter uma colheita amanhã devorando seu estoque de sementes hoje — e a realidade o varrerá da face da terra, como ele merece. A realidade lhe mostrará que a vida é um valor a ser comprado, e que o pensamento é a única moeda suficientemente nobre para adquiri-lo”

Rand é, portanto uma das pioneiras em minar as bases de uma antiga moralidade judaica/cristã de modo tão claro e racional. Sua preocupação, no entanto não é simplesmente destruir conceitos estabelecidos, mas substitui-los por modelos mais racionais e proveitosos para a natureza humana.  Em suas obras, Rand defende brilhantemente que o egoísmo é o mais racional e proveitoso de todos os sistemas morais e que deve portanto ser a base de toda a virtude:

“Dado que a natureza não provê o homem com uma forma automática de sobrevivência  ele tem de sustentar sua vida através do seu próprio esforço. O homem precisa agir para manter sua vida. Se não o fizer, morre, deixa de existir. A vida só é mantida através de um processo de ação que a gera e sustenta. O homem é, portanto, diariamente confrontado com a mais genuína de todas as decisões: a de continuar vivendo ou perecer, a da existência e da não-existência. É por isso que precisa de um código de valores para orientar suas decisões e ações.”

O valor supremo do homem é, portanto, sua própria vida. Sem ela não há nenhum outro valor. Tudo o mais que tem valor para o homem tem valor intermediário, derivativo. O valor supremo, o fim em si mesmo, é a manutenção da vida, porque sem ela nada mais existe para o ele, nada mais pode lhe ter valor. “

Assim Rand nos confronta com a mais básica decisão de todo o organismo vivo e criatura humana: “Quero viver?”.  Se sim, então a razão humana deverá o guiar uma ética racional e conseqüentemente egoísta que lhe dirá que princípios de ação são necessários para implementar sua escolha.  A liberdade é claro prevalece, mas se o individuo não escolher agir egoisticamente, então o fará em próprio prejuízo, como mostra a citação que fecha e conclui o nosso ensaio:

A vida do homem, como a de qualquer outro organismo, depende, do ponto de vista material, de haver suficiente combustível (alimentação) para que ele sobreviva, mas depende, também, do ponto de vista do organismo, de ele tomar as ações necessárias para se apropriar desse combustível e fazer dele uso apropriado. Se ele não escolher viver, a natureza se encarrega dele” .

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/ayn-rand/

Os Caminhos do Taoismo

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É o mais abrangente panorama do Taoismo já publicado no Brasil, escrito em linguagem simples e acessível. Um material para principiantes que desejam saber mais sobre o Taoismo e referência para praticantes experientes de suas várias artes. São 330 páginas ilustradas sobre o Taoísmo em toda a sua abrangência.

Conheça a história, os Mestres, os livros e as técnicas e práticas desta cultura milenar. Desvende 3.000 anos de desenvolvimento, dos conceitos filosóficos às práticas religiosas. Esta obra abrange todo o universo da cultura Taoista, a mais influente dentro da cultura chinesa e que moldou o pensamento oriental por milênios. Uma visão de conjunto inédita no Brasil que irá ampliar seus horizontes e enriquecer seus conhecimentos.

“Os Caminhos do Taoismo” faz uma viagem pela história da China e do Taoismo, mostrando as principais tradições taoistas, seus livros e mestres. Em seguida expõe seus conceitos e fundamentos básicos, partindo para as práticas e técnicas baseadas nestes conceitos e culminando com uma exploração do mundo espiritual, da religião e da mediunidade.

Este livro aborda, entre outros temas:

– História da China e do Taoismo

– Principais livros e Mestres

– A filosofia e a religião no contexto chinês

– As principais tradições Taoistas

– Conceitos fundamentais como Tao, Te, Qi, Wuwei, Trigramas e Hexagramas

– Práticas taoistas como Medicina Chinesa, Qigong, Artes Marciais, Meditação, Alimentação e Feng Shui

– O Taoismo como religião e suas práticas

– A espiritualidade taoista, reencarnação e o mundo invisível

– Fantasmas, demônios e exorcismo

– Mediunidade taoista

Tenho certeza de que gostarão muito. E para ampliar a difusão desse conhecimento, coloquei a versão digital para DOWNLOAD GRATUITO. Basta visitar meu site (www.taoismo.org) e fazer o download.

#Tao

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-caminhos-do-taoismo

Mentindo Com Pixels

A imagem que você vê no noticiário da tv pode ser uma falsificação – uma montagem fabricada pelas novas tecnologias de manipulação de vídeo

No ano passado, Steven Livingston, professor de Comunicação Política na George Washington University, deixou atônitos os participantes de uma conferência sobre Geopolítica. Discutia-se o papel dos satélites nas transmissões de imagens. Ele não produziu provas de novas mobilizações militares ou pandemias globais. Em vez disso, mostrou um vídeo da patinadora Katarina Witt durante uma competição de patinação em 1998.

No clipe, Katarina desliza no gelo graciosamente por cerca de 20 segundos. Então vem o que talvez seja uma das mais inusitadas repetições de imagens jamais vistas. O fundo era o mesmo e os movimentos da câmera eram os mesmos. Na realidade, a imagem era idêntica ao original em todas as formas, exceto talvez na mais importante: Katarina tinha desaparecido, junto com todos os sinais dela. Em seu lugar estava exatamente aquilo que você esperaria se Katarina nunca tivesse estado ali – o gelo, as paredes do ringue e a multidão.

Grande coisa, você dirá. Afinal, há mais de meio século a equipe de Stálin, o ditador soviético, já eliminava das fotos personalidades malvistas pelo governo. E, dezessete anos atrás Woody Allen realizou um grande número de deformações da realidade no filme Zelig, onde ele aparece junto a figuras do passado como Adolf Hitler e os presidentes americanos Calvin Coolidge e Herbert Hoover. Também em filmes como Forrest Gump e Mera Coincidência, a distorção da realidade tornou-se lugar-comum.

O que diferencia a demonstração com Katarina Witt – e muito – é que a tecnologia usada para “excluir virtualmente” a patinadora pode agora ser aplicada em tempo real, ao vivo, mesmo enquanto a câmera grava a cena e no mesmo instante em que a transmite aos espectadores. Na fração de segundo entre os quadros de vídeo, qualquer pessoa ou objeto que se mova em primeiro plano pode ser retirado, e objetos que não se encontram ali podem ser inseridos e parecer reais. “Plasticidade de pixel”, eis o nome que Livingston deu a essa técnica. As implicações para as pessoas que compareceram à conferência sobre Geopolítica e imagens de satélite deram o que pensar: as fotos exibidas podem não ser necessariamente aquelas que a câmera eletrônica do satélite efetivamente gravou.
Mas a ramificação dessa nova tecnologia vai além das imagens de satélite. À medida que a manipulação ao vivo se torna mas prática, a credibilidade de todos os vídeos se tornará tão suspeita quanto fotos soviéticas da Guerra Fria. O problema tem sua origem na natureza do vídeo moderno. Ao vivo ou não, ele é composto de pixels e, como diz Liningsotn, pixels podem ser alterados.

Os exemplos mais conhecidos de manipulação de vídeo em tempo real até agora são as “inserções virtuais” em transmissões de esportes profissionais. Em 30 de janeiro deste ano, quase um sexto da humanidade em mais de 180 países assistiu a uma linha laranja repetidamente traçada sobre o campo de futebol americano, durante a transmissão do Super Bowl. A Princeton Video Imaging (PVI), em Lawerenceville, Nova Jersey, criou aquela linha, gravou-a num computador e a inseriu na transmissão ao vivo. Para ajudar a determinar onde inserir os pixels de cor laranja, diversas câmeras do jogo foram equipadas com sensores que rastreavam as posições espaciais das câmaras e os níveis de ampliação. Adicionada à ilusão de realidade estava a capacidade do sistema da PVI garantindo que os jogadores e os juízes ocultassem a linha virtual quando seus corpos a atravessassem.

Mesmo as transmissões de TV ao vivo já podem ser manipuladas com “inserção virtuais”

Nos Estados Unidos, durante a primavera e o verão passados, enquanto a PVI e rivais como a Sport-vision de New York colocavam no ar produtos de inserção virtual, incluindo anúncios simulados em paredes atrás dos batedores da liga principal de beisebol, uma equipe de engenheiros da Sarnoff Corporation, de Princeton, Nova Jersey, voou até o Centro Operacional da Coalizão Aliada, da OTAN, Vicenza, Itália. Sua missão: transformar sua tecnologia experimental de processamento de vídeo numa ferramenta experimental de processamento de vídeo numa ferramenta operacional para localizar rapidamente e converter em alvos os veículos militares sérvios em Kosovo. O projeto foi batizado de Tiger, sigla em inglês que corresponde a “fixação de alvos por georregistro de imagem”. “Nosso objetivo era poder disparar munição guiada com precisão através de veículos militares sérvios – basta marcar as coordenadas e a coisa vai:, explica Michaels Hansen, um jovem e agitado aficionado por equipamentos da Sarnoff que acha difícil acreditar que estava ajudando a fazer uma guerra no ano passado.

Se comparada ao trabalho da PVI, a tarefa técnica dos militares era mais difícil – e o que estava em jogo era muito maior. Em vez de alterar transmissões de futebol, a equipe Tiger manipulou a transmissão de vídeo ao vivo de um Predator, uma aeronave de reconhecimento não-tripulada voando a 450 metros de altura sobre os campos de batalha de Kosovo. Em lugar de sobrepor linhas virtuais ou anúncios em cenários esportivos, a tarefa era colocar em tempo real as imagens “georregistradas” de Kosovo sobre as cenas correspondentes transmitidas ao vivo da câmera de vídeo do Predator. As imagens do terreno tinham sido capturadas antes com fotografia aérea e armazenadas digitalmente. O sistema Tiger, que detectava automaticamente objetos em movimento contra o fundo, podia, quase de forma instantânea, fornecer aos oficiais encarregados da artilharia as coordenadas de qualquer equipamento sérvio no campo de visão do Predator. Esse foi um feito bastante técnico, uma vez que o Predator estava se movendo e seu ângulo de visão apresentava constante mudança. Mesmo assim, aquelas visões tinham que ser eletronicamente alinhadas e registradas com a imagem armazenada em menos de um trinta avos de segundo (para corresponder à taxa de quadros da gravação em vídeo).

Em princípio, a definição de alvos poderia ter sido direcionada diretamente às armas guiadas com precisão. “Não estávamos realmente fazendo aquilo na Força Aliada”, observa Hansen. “Estávamos apenas informando aos oficiais encarregados da pontaria exatamente onde estavam os alvos sérvios e eles, então, dirigiam aviões para atingir os alvos”. Dessa forma, os tomadores de decisão humanos poderiam evitar decisões errôneas tomadas por máquinas com defeitos. De acordo com a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada para a Defesa, a tecnologia Tiger foi usada de forma extensa nas últimas três semanas da operação Kosovo, durante as quais “80% a 90% dos alvos móveis foram atingidos”.

Até então, a manipulação de vídeo em tempo real estava ao alcance somente de organizações tecnologicamente sofisticadas como, por exemplo, redes de televisão e os militares. Mas os desenvolvedores da tecnologia dizem que ela está se tornando simples e barata o suficiente para se espalhar para todos os lados. E isto tem levado alguns observadores a pensar se a manipulação de vídeo em tempo real vai corroer a confiança do público nas imagens de televisão, mesmo quando transmitidas em telejornais. “A idéia de ver para crer pode perder a validade”, diz Norman Winarsky, vice-presidente corporativo para tecnologia de informação da Sarnoff. “Você pode não saber em que confiar.”

Uma forma grosseira de manipulação de vídeo já está acontecendo na comunidade de imagens por satélite. A publicação semanal Space News informou no início do ano que o governo da Índia libera imagens de seus satélites de sensoriamento remoto somente após as instalações de defesa terem sido “removidas”. Neste caso, não há manipulação em tempo real e é aberta, como um marcador de tinta de censor. Mas os pixels são flexíveis. É perfeitamente possível agora inserir conjuntos de pixels em imagens de satálite que os interpretadores de dados poderiam identificar como batalhões de tanques, ou aviões de guerra, ou locais de sepultamento, ou linhas de refugiados, ou vacas mortas que ativistas aleguem ser vítimas de um acidente biotécnico.

Uma fita de demonstração fornecida pela PVI reforça esse aspecto no prosaico cenário de um estacionamento num subúrbio. A cena parece comum, exceto por uma característica perturbadora: entre camionetas e minivans estão diversos tanques estacionados e um monstro armado rodando de maneira desconcertante. Imagine uma fita de tanques paquistaneses virtuais rodando pela fronteira da Índia entregue aos telejornais como autêntica, e você pode sentir o tipo de problema que imagens falsificadas podem provocar.
Fornecedores comerciais de serviços de inserção virtual estão concentrados demais em novas oportunidades de marketing para se preocupar muito com geopolítica. Eles têm os olhos voltados para mercados muito mais lucrativos. De repente, esses grandes espaços de programação entre comerciais – ou seja, o verdadeiro show – tornam-se disponíveis para bilhões de dólares de anúncios em horário nobre. A fita de demonstração da PVI, por exemplo, inclui uma cena em que uma caixa do Microsoft Windows aparece – virtualmente, é claro – na estante do estúdio de Frasier Crane. Esse tipo de colocação de produto poderia tornar-se mais e mais importante à medida que novas tecnologias de gravação em vídeo como, por exemplo, TiVo e RePlayTV, oferecerem aos espectadores mais poder para editar comerciais.

Dennis Wilkinson, especialista em marketing que adora esportes e se tornou CEO da PVI há cerca de um ano, não podia estar mais feliz com isso. Os olhos de Wilkinson brilham quando ele descreve o futuro (próximo) em que a tecnologia de inserção virtual levará os anúncios a extremos de personalização. Combinado com serviços de datamining (através dos quais gostos individuais e padrões de consumo dos navegadores podem ser rastreados e analisados), a inserção virtual abre a possibilidade de enviar anúncios personalizados de acordo com o alvo por linhas ou cabos telefônicos a usuários da Web ou espectadores da TV a cabo. Digamos que você gosta de Pepsi, mas seu vizinho ao lado gosta de Coca e seu vizinho do outro lado da rua gosta de Seven Up – o tipo de dados de fácil coleta por meio de registros de caixas de supermercado. Será possível ajustar a imagem de refrigerante no sinal da transmissão para atingir cada um de vocês com sua marca preferida.

A apenas 15 minutos de distância da PVI, Winarsky, da Sarnoff, também está radiante – não tanto com ganhar fatia de mercado, mas quanto ao poder transformador da tecnologia. A Sarnoff tem uma história distinta nesse campo: a empresa descende dos Laboratórios RCA, que iniciaram a inovação em tecnologia de televisão no início da década de 40 e trouxeram à luz grande quantidade de tecnologias de mídia. O tubo de TV em cores, as telas de cristal líquido e a televisão de alta definição vieram todos, pelo menos em parte, da RCA. A Sarnoff exibe cinco prêmios Emmy técnicos em sua recepção.

A capacidade de manipular dados de vídeo em tempo real, diz Winarsky, tem tanto potencial quanto alguns desses predecessores. “Agora que você pode alterar o vídeo em tempo real, você mudou o mundo”, diz. Isso pode soar pomposo, mas, após ver o vídeo de Katarina Witt, a conversa de Winarsky sobre “mudar o mundo” perde um pouco do tom de exagero.

Apagar pessoas ou abjetos no vídeo ao vivo, ou inserir pessoas previamente gravadas ou objetos em cenas ao vivo é somente o início de todos os truques que estão tornando possíveis. Muito de qualquer vídeo que tenha sido gravado está se tornando clipart que os produtores podem esculpir digitalmente na história que quiserem contar, diz Eric Haseltine, vice-presidente sênior de P&D da Walt Disney Imagineering em Glendale, Califórnia. Com tecnologias adicionais de manipulação de vídeo, os atores anteriormente gravados podem dizer e fazer coisas que eles efetivamente nunca fizeram ou disseram. “Você pode fazer com que atores mortos estrelem novos filmes inteiros”, diz Haseltine.

Filmagens contemporâneas, incluindo gravações de atores mortos, têm estado por aí por muitos anos. Mas o ilusionismo de Hollywood – que, por exemplo, inseriu John Wayne num comercial de TV – exigia um trabalho difícil de pós-produção quadro-a-quadro, feito por técnicos especializados. Existe agora uma grande diferença, diz Haseltine. “O que costumava levar 1 hora (por quadro de vídeo) agora pode ser feito em um sessenta avos de segundo”. Essa aceleração dramática significa que a manipulação pode ser feita em tempo real, instantaneamente, à medida que a câmera grava ou transmite. Não somente podem John Wayne, Fred Astaire ou Saddam Hussein ser virtualmente inseridos em anúncios pré-produzidos, como eles poderiam ser inseridos em, digamos, uma transmissão ao vivo de um show de TV.

A combinação de tempo real, inserção virtual com técnicas de pós-produção existentes e emergentes abre um mundo de oportunidades de manipulação. Consideremos a tecnologia Video Rewrite (regravação de vídeo), desenvolvida pela Interval Corporation e pela Universidade de Berkeley, e demonstrada pela primeira vês três anos atrás. Com apenas alguns minutos de vídeo de alguém falando, seu sistema captura e armazena um conjunto de fotos em vídeo, de modo que a área da boca da pessoa parece mover-se ao dizer diferentes conjuntos de sons. A partir da biblioteca resultante de “visemas” é possível retratar a pessoa como se ela dissesse qualquer coisa que os produtores sonhassem – incluindo expressões que o indivíduo nunca usaria, nem morto.

Num teste de aplicação, o cientista de computação Tim Bregler, agora na Universidade Stanford, e colegas digitalizaram 2 minutos de gravação de domínio público do presidente americano John F. Kennedy falando durante a crise dos mísseis cubanos, em 1962. Usando a biblioteca de “visemas”, os pesquisadores criaram “animações” da boca de Kennedy dizendo coisas que ele nunca disse, entre elas, “Eu nunca me encontrei com Forrest Gump”. Com tecnologia desse tipo, em princípios os ativistas poderão em futuro próximo ser capazes de orquestrar via Internet transmissões de seus adversários dizendo coisas que poderiam fazer a pessoa mais íntegra e honrada soar como o mais rematado dos cafajestes.

Haseltine acredita que as técnicas de manipulação de vídeo serão rapidamente levadas a seu extremo lógico: “Posso prever, com absoluta certeza”, diz ele, “que uma pessoa sentada diante de um computador poderá escrever o roteiro de um vídeo, desenhar as personagens, fazer a iluminação, o guarda-roupa, toda a atuação, diálogo e pós-produção, distribuir esse vídeo numa rede de banda larga, tudo isso num laptop – e os espectadores não notarão a diferença”.

Truques que hoje exigem um sistema de 80.000 dólares poderão em breve estar nas lojas, numa câmera de vídeo comercial
Até agora, as aplicações amplamente encontradas de manipulação de vídeo em tempo real ocorreram em áreas benignas como esportes e entretenimento. Já no ano passado, entretanto, a tecnologia começou a se difundir além desses locais, para aplicações que já provocaram uma certa preocupação. No outono passado, por exemplo, a CBS contratou a PVI para inserir virtualmente o logotipo familiar da rede em toda a cidade de New York, em edifícios, outdoors, fontes e outros locais – durante a transmissão do programa The Early Show da rede. O New York Times publicou uma reportagem de primeira página em janeiro questionando a ética jornalística existente em alterar a aparência de algo que está realmente ali.

A combinação de inserção virtual em tempo real, cibermarionetes, regravação de vídeo e outras tecnologias de manipulação de vídeo com uma infra-estrutura de mídia de massa que transmite instantaneamente vídeo de noticiário para o mundo inteiro tem preocupado alguns analistas. “Imagine se você é o governo de um país hipotético que deseja mais assistência financeira internacional”, diz Livingston, da George Washington University. “Você poderia enviar vídeos de uma área remota com pessoas morrendo de fome, e isto poderia nunca ter acontecido”, diz ele.

Haseltine concorda. “Estou surpreso que ainda não tenhamos visto vídeos falsos”, diz ele antes de voltar atrás um pouco: “Talvez tenhamos visto. Quem poderia saber?”

É exatamente o tipo de cenário exibido no filme Mera Coincidência, de 1988, no qual um assessor presidencial de primeiro nível conspira com um produtor de Hollywood para transmitir uma guerra montada virtualmente entre os Estados Unidos e a Albânia para desviar a atenção de um escândalo de corrupção presidencial. Haseltine e outros ficam imaginando quando a realidade imitará a arte imitando a realidade.

A importância da questão somente se intensificará à medida que a tecnologia se tornar mais acessível. O que agora exige uma máquina de 80.000 dólares do tamanho de um pequeno refrigerador logo será encontrado em placas do tamanho da palma da mão (e no limite, num único chip) que caberão num gravador de vídeo comercial, segundo Winarsky. “Isso estará disponível nas lojas de componentes eletrônicos”, diz ele. Um equipamento de consumo para inserção virtual provavelmente exigirá uma câmera de vídeo com uma placa ou chip especial para processamento de imagem. Esse hardware receberá sinais dos sensores de imagem eletrônica da câmera e os converterá numa forma que poderá ser analisada e manipulada num computador com software adequado – algo idêntico ao que se faz com o Adobe Photoshop e outros programas para “limpar” arquivos de imagem digital. Um usuário doméstico poderia, por exemplo, inserir parentes ausentes numa filmagem da última reunião de família, ou remover estranhos que prefiram não aparecer na cena – trazendo as revisões históricas no estilo soviético direto para o ambiente doméstico.

Nos EUA, especialistas já discutem os riscos do uso político das novas técnicas de vídeo

Combine-se a erosão potencial da confiança na autenticidade de reportagens ao vivo com o chamado “efeito CNN” e o cenário está montado para a falsificação mover o mundo de diferentes maneiras. Livingston descreve o efeito CNN como a capacidade da mídia de massa de ir além da mera reportagem sobre o que acontece, para influenciar verdadeiramente os tomadores de decisões quando examinarem questões militares, de assistência internacional e outros assuntos nacionais e internacionais. “O efeito CNN é real”, diz James Currie, professor de Ciência Política na National Defense University, em Fort McNair, Washington. “Todos os escritórios aonde você vai no Pentágono estão com uma TV ligada na CNN”. E isso significa, diz ele, que um governo, um grupo terrorista ou uma ONG poderia colocar eventos geopolíticos em movimento dentro de poucas horas, partindo de uma credibilidade conseguida graças à distribuição de um pedaço de vídeo bem trabalhado.

Com experiência como reservista do Exército, membro de uma equipe com privilégios de alta confidencialidade no Comitê de Inteligência do Senado, e como oficial de ligação legislativa para a Secretaria do Exército, Currie viu de perto as tomadas de decisões governamentais e políticas. Ele está convencido de que a manipulação de vídeo em tempo real estará, ou já está, nas mãos das comunidades militares e de inteligência. E, embora ainda não tenha evidências de que alguma organização tenha empregado técnicas de manipulação de vídeo, em tempo real ou não, para finalidade política ou militar, ele é capaz de divisar cenários de desinformação. Por exemplo, diz ele, pensa só no impacto de um vídeo fabricado que pareça amostrar Saddam Hussein “derramando uísque escocês num copo e bebendo um grande gole. Você poderia transmiti-lo na televisão do Oriente Médio e isso minaria totalmente a credibilidade dele junto a audiências islâmicas”.

Apesar de todas as reações emocionais, entretanto, alguns especialistas ainda não estão convencidos de que a manipulação de vídeo em tempo real representa uma verdadeira ameaça, não importando quão boa a tecnologia venha a se tornar. John Pike, analista da comunidade de inteligência da Federação de Cientistas Americanos, em Washington, D.C., diz que os riscos são simplesmente grandes demais para que governos ou organizações sérias sejam surpreendidas tentando enganar o público. E, para as organizações que estivessem dispostas a correr o risco de faze-lo, diz Pike, o pessoal que trabalha com notícias – sabendo aquilo que a tecnologia pode fazer – vai se tornar cada vez mais vigilante.

“Se alguma organização de direitos humanos aparecesse na CNN com um vídeo, particularmente uma organização com a qual eles não estejam familiarizados, acho que (a CNN) consideraria aquilo radioativo”, diz Pike. O mesmo vale para as organizações não-governamentais (ONGs). “Nenhum diretor responsável de uma organização séria autorizaria esse tipo de coisa. E eles demitiriam, no ato, qualquer pessoa surpreendida fazendo isso. A moeda corrente de ONGs políticas é “nós falamos a verdade”.

Mesmo pessoas mais ponderadas como Pike, entretanto, admitem que a mídia tem um calcanhar-de-aquiles: a Internet. “A questão não é tanto a capacidade de falsificar vídeos na CNN, mas conseguir coloca-los online”, diz ele. Isso ocorre porque a maior parte do conteúdo da Internet não é filtrado. “Isso poderia interferir no processo de produção de notícias, onde você não reproduziria o relatório original, mas relataria o que foi relatado”, diz Pike. Tal procedimento poderia resultar, em cascata, num efeito CNN. “Sem dúvida, esse tipo de experiência acabará acontecendo”, diz Pike.

O problema, afirma Livingston, é que apenas algumas experiências podem ser suficientes para levar as pessoas a questionar para sempre a autenticidade do vídeo. Isso poderia ter repercussões enormes sobre operações militares, de inteligência e de notícias. Uma conseqüência sociológica irônica poderia surgir: o retorno a uma dependência mais pesada de comunicação cara-a-cara, sem intermediários. Neste meio tempo, entretanto, haverá algumas interessantes torções e reviravoltas, à medida que os pixels se tornarem ainda mais flexíveis.

por Ivan Amato – Publicada originalmente na revista Info Exame No. 175 – Outubro/2000

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/mentindo-com-pixels/

Introdução ao Shintoismo

O Shinto ou shintoísmo, a religião nacional do Japão, denominada mais corretamente pelos japoneses “Kami-no Michoi”, que significa “o caminho dos deuses”. Traduzida esta frase para o chinês, temos Shin-tao, cuja abreviação é Shinto, seu nome popular mesmo no Japão.

Muitas pessoas que são religiosas gostam de negar isso. “Eu? Não sou religioso”, dizem, “sigo o Jesus, Nosso Senhor… Mas isso não é religioso, é um fato histórico”. Assim dizem. E os xintoístas também são particularmente improváveis ​​de ver seu comportamento como sendo “religioso”. Eles podem ter seu carro purificado, podem ter pedido boa sorte ao deus local antes de seus exames de admissão na universidade ou fazer investimentos, provavelmente vão a um santuário todos os anos no dia de Ano Novo. Eles podem até pedir ajuda espirituais com empréstimos se precisarem de algum dinheiro. Mas se perguntados se eles são religiosos, eles dirão: “Quem eu? Isso não é religião. Isso é apenas um costume. Apenas, bem, a coisa normal a se fazer”.

Para verificar o fato de que os praticantes xintoístas não veem seu comportamento como religioso, realizei uma pesquisa perguntando aos visitantes de um santuário xintoísta “Você acredita em Deus?”, “Você é religioso?” e ​​”Quanto dinheiro eu daria tenho que pagar para você ir para casa hoje sem ter orado?”. Enquanto aqueles que responderam “sim” às duas primeiras perguntas foram a minoria, à terceira pergunta, todos, exceto um dos 40 entrevistados, responderam “Eu não iria para casa sem orar, não importa quanto dinheiro você me desse”. Era evidente que alguns dos alguns dos entrevistados ficaram levemente ofendidos por serem questionados. O único entrevistado que teria dispensado o dinheiro para ir para casa sem orar se definiu como cristão.

A partir disso, fica claro que: aqueles que praticam o xintoísmo não o consideram uma religião, mas também não consideram seu comportamento totalmente secular e mundano. As razões pelas quais o xintoísmo não é visto como religião são várias. Principalmente, a imagem de uma religião mantida por muitos japoneses é a de uma organização à qual se filia e que estipula várias maneiras de se comportar de acordo com algum tipo de ensinamento ou escritura.

Se o xintoísmo já teve uma organização, hoje não tem mais. Ao xintoísmo sempre faltou uma escritura além dos mitos que explicam a origem do Japão, mas não são proscritivos de forma alguma. As escrituras japonesas compõem-se de duas secções: o Kojiki ou “Registros de Assuntos Antigos”, e o Nihon-gi, as “Crônicas do Japão”, elaborada no oitavo século de nossa era.

Além de mitos e lendas desse tipo, o xintoísmo quase não tem tradição oral. Sem uma organização e qualquer formulação linguística de como se deve se comportar, o xintoísmo é particularmente transparente. Tudo o que o xintoísmo parece possuir é uma tradição corporal – um vê o corpo do outro, imita e a prática é transferida. A oração é uma questão de movimento – diante de Deus a pessoa se curva duas vezes, bate palmas duas vezes e se curva novamente. As festas xintoístas estão predominantemente ligadas ao calendário – a festa do ano novo, a festa da colheita – e, portanto, não parecem exigir qualquer justificação pela escritura ou como evento comemorativo.

Embora o xintoísmo seja muito diferente das religiões judaicas e até mesmo do budismo indiano, na minha opinião ele contém pontos em comum suficientes para permitir que seja comparado a eles e seja chamado de religião. No xintoísmo há oração e adoração a algo transcendente, que não faz parte do mundo físico mundano. E mais do que isso, o xintoísmo como o cristianismo e outras religiões do mundo tem, acredito, uma estrutura que firma a sociedade japonesa e em particular a família, da mesma forma que a “filosofia” do cristianismo estrutura as sociedades do ocidente cristão.

Totemismo Geográfico

A religião popular venera a sagrada montanha, Fuji-Yama. Religião e patriotismo acham-se tão intimamente entrelaçados, que vários governantes têm sido considerados praticamente deuses. Nas casas xintoístas existe em geral um pequeno altar consagrado aos deuses locais, o kamidana. Em cima deste altar encontra-se muitas vezes um amuleto oriundo do santuário local, do Grande Santuário de Ise e em alguns casos. Para encurtar a história, acho que o xintoísmo pode ser melhor entendido como uma forma de totemismo geográfico. Como mencionado acima, o sagrado no xintoísmo está quase invariavelmente ligado a uma determinada localização geográfica. No xintoísmo, Deus é algo que você pode apontar, está “lá”. O santuário ou “jinja” contém ou consagra uma coisa, mas também é um local sagrado. O corpo divino do santuário pode ser uma montanha, uma árvore, uma rocha ou outra característica natural, mas o mais importante será a coisa naquele lugar. E esse lugar cria uma atmosfera particular. O deus ou deuses que residem lá podem ter certas qualidades para conceder certos benefícios. Mas, acima de tudo, a característica fundamental de um santuário é o ponto geograficamente definido no espaço. Todos os aspectos do local sagrado: sua abordagem, seus limites, suas camadas são todos delineados de forma a enfatizar sua localização. Ao entrar na fronteira lava-se as mãos e a boca. A pessoa entra no santuário com o pé esquerdo primeiro e antes de sair se curva. De um modo geral, tradicionalmente se adora apenas o deus ou deuses do santuário localizado na proximidade geográfica de sua casa. E o mais importante, considera-se filho daquele santuário, daquele local.

É uma coisa impressionante acreditar ser filho de um local. Freud e Durkheim consideravam uma forma semelhante de “totemismo geográfico” como a mais “primitiva”, ou seja, a mais antiga forma de religião encontrada na sociedade humana, uma vez que, nas sociedades da Austrália central, os membros das tribos negavam a existência da paternidade. Aqui eu não considerarei as possíveis conexões entre o culto a um lugar e a ausência da crença na paternidade, exceto para notar que a paternidade também foi muitas vezes dita ter sido fraca ao longo da história japonesa (além do período Meiji e pré-guerra) e até mesmo ” ausente” no atual Japão. Em vez disso, concentro-me simplesmente na natureza localizada do xintoísmo e mostro como isso reflete, e pode-se dizer, que teve um efeito profundo na sociedade japonesa.

Sociedade Japonesa e Lugar

O título do livro tremendamente popular de Nakane Chie sobre a sociedade japonesa “Tateshakai no Ningen Kankei” (Relações humanas em uma sociedade verticalmente orientada) parece descrever o Japão como uma hierarquia – um equívoco que Nakane se esforçou para corrigir em suas publicações subsequentes. Ele fez as seguintes duas afirmações. O alicerce fundamental da sociedade japonesa não é o indivíduo no sentido ocidental, mas o pequeno grupo. A característica distintiva dos pequenos grupos japoneses é que eles contêm o elemento essencial de um espaço, um lugar onde são fundados. Alguns exemplos de como uma importância dada aos lugares são os seguintes:

O casamento foi descrito como “Vai ser uma noiva” no sentido de que não era um arranjo entre o marido e a esposa, nem mesmo entre a esposa e a família do marido, mas um movimento físico pelo qual uma pessoa entra e se torna um membro da família de outro espaço doméstico. Pode-se descrever o marido ou a esposa como “uchi no hito” a pessoa da minha casa.

Os casamentos japoneses são entre casas no sentido que só se mantêm na Grã-Bretanha pela aristocracia. A linhagem da família japonesa é por vezes descrita como sendo uma linhagem dupla (com linhas de descendência matrilinear e patrilinear) mas na verdade é mais correcto dizer que a família japonesa é, como um estudioso japonês a descreve, “linear segundo a casa” – ou seja, a linha de descendência é determinada por quem mora na casa.

A família japonesa ainda mantém a antiga tradição japonesa de manter um “honseki” ou registro de onde as pessoas são originárias. Agora que este registro foi assumido pelo sistema legal estadual, é possível mover o registro, mas o casamento ainda significa mover fisicamente a documentação para o registro de outra família. Este não é simplesmente o local de nascimento de um agrupamento social geograficamente definido que se poderia chamar de “lugar de família”.
Não se pergunta a alguém “Em qual empresa você trabalha” mas “Onde (é a) empresa em que você trabalha”

Todos os grupos, sejam eles clubes universitários ou grupos de pesquisa, sentem-se carentes, a menos que tenham um lugar, um ponto de apoio, algum lugar onde possam chamar de lar.

Os japoneses são muito sensíveis ao lugar e ao comportamento apropriado em relação a esse lugar. O comportamento aceitável em um local é inaceitável em outro. No local de trabalho, a pessoa é encorajada a se comportar de maneira altamente respeitosa em relação ao seu chefe. Depois do trabalho, enquanto estiver no local de trabalho, a situação não muda. Mas assim que alguém se muda para o bar, a maneira de comportamento provavelmente mudará radicalmente na medida em que a distinção entre patrão e trabalhador pode se dissolver. As regras são limitadas ao local.

Exemplos mais extremos são a tolerância japonesa de distritos da luz vermelha e sindicatos do crime. Se o bordel é uma certa parte da cidade, então é aceitável. Se o sindicato do crime organizado colocar uma placa dizendo “estamos aqui”, desde que todos saibam onde estão, até eles são aceitáveis.

Por outro lado, aqueles que não são aceitáveis ​​na sociedade japonesa, por exemplo, o burakumin (um nome que quando traduzido literalmente significa as pessoas nômades) são novamente confinados a um lugar. Diz-se que os burakumin são párias por causa de seu envolvimento com o abate de gado e tratamento de couro e outras atividades consideradas impuras pelo budismo japonês. Mas eles também são impuros em virtude de onde eles vêm. Eles vêm do lugar impuro. Eles são delineados do resto da sociedade precisamente por onde eles vêm.

O sumô, esporte nacional do Japão, consiste em uma batalha pela defesa de um espaço, que é sagrado. Este ano, foi recusada ao major de Oosaka permissão para entrar no ringue de sumô, pois, como mulher, ela é considerada impura. Mas isso é outra história.

Em suma, podemos chegar a dizer que no Japão, devido à natureza politeísta geograficamente localizada de sua religião xintoísta, não há deus universal nem regras universais. Em vez disso, existem normas de comportamento definidas localmente.

Xintoísmo e a Família Japonesa

A conexão entre essas características da sociedade japonesa e o xintoísmo deve ser clara. A adoração de locais sagrados estimula os japoneses a terem certos valores e certas formas de ver a organização – principalmente em termos espaciais. As pessoas são vistas como unidas pelo fato de compartilharem o mesmo ambiente, a mesma atmosfera, o mesmo espaço. A manutenção desses espaços e ambientes é considerada importante. A religião xintoísta fomentou essa forma de perceber o mundo. E essa forma de perceber o mundo encorajou o povo japonês a manter a religião xintoísta. No caso específico da família, os membros da família são definidos e vinculados à família por sua atitude compartilhada em relação ao lar. São pessoas que voltam para casa em um determinado lugar e se esforçam para manter e melhorar as condições nele. Ao fazê-lo, eles acreditam que viverão felizes e harmoniosamente de acordo com sua natureza. Isso é simplesmente, do ponto de vista xintoísta, o que os humanos fazem. Ou melhor, isso é simplesmente o que é natural para os humanos japoneses, ou seja, humanos que são da região geográfica Japão. O conceito de “humano” é um conceito não espacialmente limitado e, portanto, sob essa visão de mundo, um tanto falso. Os americanos, que cresceram em um ambiente diferente, são diferentes.

Defini o xintoísmo como uma forma de totemismo geográfico e, por sua vez, como espaço-centrismo ou orientação para o lugar. Mas isso é suficiente? De que estrutura precisa uma sociedade? Os princípios do cristianismo são bastante simples. Os seres humanos são todos filhos de um deus e todos eles têm o mesmo “amor” é são considerados uma unidade até mesmo com o próprio deus). Esta fórmula é simples e, no entanto, suficiente para organizar as sociedades de uma forma muito diferente do Japão. Sob o princípio do amor, homens e mulheres ocidentais podem ser unidos em casamento sob a presunção de ter o mesmo objetivo cristão.

Do ponto de vista japonês, esse suposto objetivo do cristianismo é falso, visto que homens e mulheres são vistos como tendo objetivos diferentes. Assim como do ponto de vista cristão é falso pensar que os humanos têm a propensão natural para criar e delinear lugares sagrados.

Xintoismo Hoje

O decorrer da história impôs ao povo japonês a revisão de seu credo. Nos últimos cinqüenta anos o facilismo que distinguira o shinto por tanto tempo, tem sido suprimido em grande parte. A partir do século sexto, o confucionismo e o taoísmo vieram da China. Na mesma época o budismo chegou ao país via Coréia, quando o rei de Paekche enviou uma estátua do Buda e cópias das suras ao imperador japonês.  Os xintoístas não viam conflito entre suas práticas e estas filosofias e logo todas foram liberalmente mescladas.

Com o tempo o budismo se sobressaiu, mas a religião tradicional não despareceu.

No século dezoito ocorreu uma grande revivificação do xinto, sob os auspícios dum grupo de intelectuais, que logrou restaurar em grande parte a religião nativa.. Nessa reformulação os  budas foram interpretados como kami encarnados, que assim deixavam o seu estado original para descerem à terra em benefícios das pessoas. Durante a era Meiji floresceu uma ideologia profundamente nacionalista e escolha de uma religião oficial recaiu sobre o xintoísmo, já antes aclamado como a religião nacional e desde então considerada pelo regime como superior a todas os outras. Aos poucos o xintoísmo de Estado promoveu uma laicização do xintoísmo, tornando um dever cívico de reverência ao Estado e ao imperador.

O xintoísmo estatal durou várias décadas e ainda reflete na cultura nacional. Em 1946, foi proclamada a nova constituição e o imperador foi destituído de todas as prerrogativas divinas e de todo o poder político, tornando-se apenas símbolo da unidade nacional.   Neste mesmo ano foi fundada em Tóquio a Associação dos Santuários (Jinja honchó) e desde então o xintoísmo tem experimentado um retorno as bases locais.

Contudo esta época assistiu também o retorno de religiões estrangeiras, incluindo agora as religiões ocidentais como o cristianismo. A tendência liberal dos shintonistas para com outras  doutrinas, converteu-se recentemente num movimento ambicioso visado fazer do shinto uma religião universal, compreendendo não só o budismo, confucionismo e taoísmo, como também os credos de Muhamad e Jesus. O Xintoísmo hoje pensa globalmente mas continua agindo localmente. Isso é possível porque existem “oitocentas miríades” de deuses, ou seja tantos quanto existem famílias, comunidades e locais sagrados espalhados pelo planeta. Como disse Madre Teresa: “Se você deseja mudar o mundo, vá para casa e ame a sua família.”

Fonte: http://www.nihonbunka.com/shinto/

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/introducao-ao-shintoismo/

Dez Mitos sobre a Verdadeira Vontade

Excelente texto que encontrei no Blog IAO 131, tradução de Elidia Martins.

O conceito de “Verdadeira Vontade”, ou simplesmente “Vontade”, é fundamental para a Lei de Thelema desde que nosso princípio central é “Faça o que tu queres será o todo da Lei” (AL I:40), juntamente com “Tu não tens direitos senão fazer a tua Vontade” (AL I:42) e “Não há lei além de faze o que tu queres” (AL III:60). Thelema, apesar de tudo, significa “Vontade”.

Por ser Vontade um conceito central em Thelema há muitos equívocos sobre isso que limitam nosso entendimento assim como limitam nosso potencial para realizar e manifestar as nossas Vontades. Muitos desses mitos e equívocos estão altamente correlacionados, mas eles também são diferentes em sua ênfase e abordagem. A lista não pretende ser exaustiva ou completa, mas espero que possa levar a uma reflexão e clareza sobre a noção de Vontade. Mais fundamentalmente essa é uma lista curta destinada a desafiar alguns equívocos comuns sobre a Vontade, a fim de que possamos conhecer e realizar nossas Vontades mais livremente e com alegria.

1) A Verdadeira Vontade é encontrada num determinado momento.

O primeiro mito é que a Verdadeira Vontade é descoberta durante um evento distinto, num certo ponto da história. Isso significa que você não sabe qual é a sua Vontade, mas que num futuro você saberá, ao ter algum insight ou experiência, você de repente conhecerá sua Vontade. Em contraste, Crowley nos informou que “A Vontade é apenas o aspecto dinâmico do Eu…” (Liber II). Neste sentido, a Vontade é apenas a expressão de nossa Natureza. Entretanto de uma maneira pobre e incompleta nossa Natureza não pode deixar de se expressar de alguma maneira, o que quer dizer que: nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto, mas poderíamos fazer sempre um pouco “melhor”, no sentido de fazê-la mais completamente e com mais consciência. Mesmo se temos uma visão súbita ou que muda completamente a Natureza de nossas Vontades, isso não significa que esse entendimento não precisará mudar ou ser revisado no futuro.

2) A Verdadeira Vontade é algo para ser encontrado num futuro distante.

Relacionada ao primeiro mito é a noção de que Verdadeira Vontade não pode ser encontrada no presente, mas em algum ponto do futuro. Ou seja, se pensa “Eu não sei qual minha Vontade agora, mas espero que eu saiba no futuro”. Agora, é perfeitamente razoável acreditar que o conhecimento e entendimento da Vontade podem aumentar no futuro, mas, novamente, nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto. Isto é, a Vontade não é “encontrada”, mas nossa consciência e entendimento dela podem melhorar. Visualizando a Vontade como algo que se encontra no futuro, exclui o nosso potencial para fazermos nosso melhor para fazer nossa Vontade no momento presente. Podemos lamentar as nossas circunstâncias, acreditando que tudo ficaria bem se “conhecêssemos nossas Vontades”, ao invés de trabalhar em nós mesmos no momento presente para nos tornar mais conscientes e alegres com o que já está acontecendo. Isto é, nossos próprios conceitos sobre o que é Vontade nos impedem de ver o que já está aqui: todos nós somos estrelas (AL I:3) e Hadit, a chama de nossas Vontades, está sempre no centro de nosso Ser (AL II:6). É nosso trabalho ou dever descobrir como trabalhar com nós mesmos e nosso ambiente a fim de tornar a Verdade dentro de nós mais manifesta do que inerente.

3) Você está fazendo sua Vontade ou você não está fazendo.

A linguagem usada ao redor da Vontade é frequentemente “digital” no senso em que falamos sobre isso em “on ou off” (ligar ou desligar). Eu acredito que é mais efetivo e adequado pensar em Vontade em termos “análogos”, ou seja, que estamos fazendo nossa Vontade até certo ponto. A linguagem de “Verdadeira Vontade” implica esse tipo de dicotomia digital de verdadeiro ou falso. Por outro lado, a ideia de “Vontade Pura” é uma questão de graus. A totalidade “pura” da Vontade é 100% Vontade com nenhuma mistura ou contaminantes, assim como um suco puro é 100% suco – não há qualquer conotação moral. Podemos (por questão de explicação) dizer que podemos não estar fazendo 100% de nossa Vontade, mas podemos estar fazendo 30% ou 80% de nosso potencial até o momento. Isso coloca a responsabilidade em nós mesmos para tentar aprovar nossa Vontade ao máximo, na forma mais “pura” possível. Isso significa também que nós não precisamos pensar nos outros em termos deles estarem ou não fazendo suas Vontades; ao contrário, todos estão fazendo suas Vontade até certo ponto ou outro, e tudo o que temos de fazer é tentar nos esforçar intencionalmente para chegarmos ao ideal de Vontade 100%.

4) Verdadeira Vontade é uma coisa única e imutável.

A linguagem usada ao redor de Vontade implica que Vontade é algo único, por exemplo, “é minha Vontade ser um médico”. Na verdade, a ideia de Vontade ser certa carreira em particular é um dos mais comuns exemplos de equívocos. Um exemplo é Crowley falando neste sentido quando ele escreve: “virá o conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta, outro ferreiro, outro escultor.” (De Lege Libellum). O erro está em pegar a ideia de “Vontade = a carreira certa” literalmente do que metaforicamente. Ou seja, uma carreira é uma metáfora para o que você faz com a sua vida, acreditando ser adequado para as suas tendências, talentos e aspirações. Obviamente a Vontade não está confinada a uma simples carreira – especialmente nos dias de hoje em que a maioria das pessoas tem várias carreiras ao longo da vida – como aparentou ser a vida do próprio Crowley. Não seria correto dizer que era a Vontade de Crowley ser poeta porque iria negligenciar que ele era um mago, não seria correto dizer que foi a Vontade de Crowley ser um alpinista porque iria negligenciar que ele era um jogador de xadrez, etc. Na verdade, a Vontade é – como já mencionado – “o aspecto dinâmico do Self…” (Liber II). E dinâmico, ou seja, em constante movimento. Crowley reforça isso quando ele escreve que a Verdadeira natureza do Eu é mover-se continuamente, deve ser entendido não como algo estático, mas como dinâmico, e não como um substantivo, mas como um verbo” (Dever). Esta natureza dinâmica da Vontade é ainda implícita na linguagem que a descreve como “Movimento” como quando Crowley escreve que a Vontade é “o verdadeiro Movimento do teu ser mais íntimo” (Liber Aleph, capítulo 9).

5) Verdadeira Vontade pode ser encapsulada completamente em uma frase.

Conectada com os equívocos anteriores é a noção que Vontade pode ser completamente encapsulada numa frase. Uma vez que a Vontade é dinâmica, a sua natureza é de “Ir”, nenhuma frase pode sempre encapsulá-la completamente. Existem, certamente, benefícios por se encapsular a vontade numa frase como tendo um padrão conscientemente articulado pelo qual se pode julgar se um determinado curso de ação é expressivo ou impeditivo da Vontade. Por exemplo, pode-se formular a Vontade como “É minha Vontade que meu corpo seja saudável”, que pode atuar como um padrão pelo qual você vai determinar que comer junk food (comida que não é saudável) não faz parte da sua vontade (para todos os efeitos práticos). Dito isto, deve haver um entendimento de que a Vontade está, em ultima instancia, além da articulação verbal. Como se diz: “Também razão é uma mentira, pois há um fator infinito e desconhecido; & todas as suas palavras são meandros” (AL II:32). A Vontade é suprarracional na medida em que não pode ser descrita com precisão ou completamente descrita pela faculdade da razão e do pensamento. Como Crowley disse: “[A mente] deve ser uma máquina perfeita, um aparelho para representar o universo de forma precisa e imparcial ao seu mestre. O Eu, a sua Vontade, e sua apreensão, deve estar totalmente além dela.” (Novo Comentário para AL II:28). A mente com seus pensamentos e razão é simplesmente uma parte do seu ser, a vontade é o Verbo de todo o nosso ser, então, naturalmente, uma pequena parte não pode inteiramente compreender e abranger o Todo.

6) Verdadeira Vontade requer uma experiência mística.

Em conexão com o Mito #2, existe a tendência em acreditar que o conhecimento da Vontade virá apenas com algum tipo de experiência mística, se o acredita (ou concebe) como o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, iluminação, a travessia do Abismo, ou qualquer outra coisa. Embora possamos dizer que o Conhecimento e Conversação (ou outras experiências místicas) podem ajudar a esclarecer a Vontade ou se livrar de seus obstáculos, tais como o egoísmo excessivo, a Vontade pode ser tanto sempre presente ou trabalhada até certo ponto. A noção de que só pode se conhecer a Vontade através de experiências místicas negligencia o fato de que há muito modos simples, diretos e até mesmo “mundanos” nos quais podemos trabalhar em nós mesmos para fazer melhor e mais completamente a nossa Vontade. Por exemplo, alguém pode perceber que certo relacionamento não está mais funcionando, então ele se agita, sofre, se amargura e ressente. Pode-se então perceber que a fim de realizar a Vontade mais plenamente, é preciso terminar o relacionamento. “Oh amante, se tu queres, partes!” (AL I:41). Há muitas coisas em nossas vidas que sabemos, em algum nível, que podem ser alterados para decretar mais plenamente nossas Vontades, como se livrar de certos hábitos que já são conhecidos por serem problemáticos. Se isto é tão simples como “assistir menos televisão”, ou concreto como “largar os opiáceos”, ou mais sutil como “ser menos ligado às expectativas”, ou mais geral como “tornar-se mais consciente e menos reativo emocionalmente”, existem muitas maneiras de trabalhar em nós mesmos que estão disponíveis para todos, sem a menor experiência ou inclinação para experiências místicas. Ainda mais preocupante é “acreditar que apenas alguma experiência mística no futuro” pode ser usada como uma desculpa ou um “desvio espiritual” para evitar lidar com estas questões mais “mundanas”, como as emoções não processadas ou hábitos indesejáveis.

7) Todos devem alcançar a Vontade.

A crença geral difundida entre Thelemitas é que há certo tipo de “verdadeiro Thelemita” ou “Thelemita ideal”. Outro ensaio explica mais detalhadamente por que isso é um equívoco, mas, em suma ele depende de ter preconceitos sobre o que é “certo” e “errado” para a Vontade dos outros, quando toda a fundação de Thelema repousa sobre a noção de que cada indivíduo é único. Uma manifestação desse preconceito sobre o que é “certo” é a noção de que todos devem estar se esforçando para “atingir”, significando alcançar algum tipo de gnose mística ou iluminação. Na verdade, o Livro da Lei diz na mesma linha que seu lema central: “Quem nos chama Thelemitas não cometerá erro, se ele apenas observar bem de perto a palavra. Pois dentro dela existem Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o homem da Terra. Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” (AL I:40). Isto é explicado em A Visão e A Voz quando se diz: “O homem da terra é o devoto. O amante dá a sua vida para trabalhar entre os homens. O eremita caminha solitário dando aos homens apenas a sua luz.”. Não é inerentemente a Vontade de todos se tornarem um eremita e alcançar as alturas da iluminação espiritual. – Pode muito bem ser a vontade de alguém viver a sua vida sem se preocupar com essas coisas. Mais claramente o Livro da Lei diz que “a lei é para todos” (AL I:34). Essa insistência de que todos têm que “atingir” pode facilmente se transformar em forma de auto-superioridade espiritual que é contrário ao espírito da liberdade que permeia a lei.

8) Sua Vontade não tem nada a ver com as outras pessoas.

É típico conceber a Vontade como algo inerente ao individuo e que não tem nada a ver com as outras pessoas e suas circunstâncias. Eu acredito que isto é simplesmente uma falha de linguagem usada para descrever Vontade do que uma realidade. Nós todos somos incorporados em uma interconexão complexa de forças – somos todos estrelas na teia do Espaço Infinito – e ambos afetam e são afetados por tudo que nos rodeia: “Suas ações afetam não apenas o que ele chamou a si mesmo, mas também todo o universo.” (Liber Librae). Vendo como a Vontade é o aspecto dinâmico da nossa natureza, deve inerentemente se adaptar à situação ou circunstância em que se encontra. Crowley fala isso quando ele escreve que a vontade é “a nossa verdadeira órbita, como demarcada pela natureza de nossa posição, a lei do nosso crescimento, o impulso de nossas experiências passadas.” (Introdução ao Liber AL). A nossa “posição” muda constantemente e a Vontade é “marcada” em parte pela natureza de nossa posição. A nossa “posição” envolve o meio ambiente e as pessoas ao nosso redor. Praticamente qualquer tipo de articulação da Vontade – por mais que provisória ou experimental – deve incluir o meio ambiente ou outras pessoas de alguma forma. Para dizer “é minha vontade comer menos” envolve a comida em seu ambiente, dizendo “é minha vontade ser gentil” envolve a sua bondade para com outras pessoas, dizer “é minha vontade promulgar a Lei de Thelema” envolve aqueles a quem você irá promulgar etc. Mesmo dizer “é minha Vontade alcançar o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião” necessariamente requer que você crie adequadamente o ambiente propício para atingir esse objetivo. Na verdade algumas das melhores lições vêm de estar em sintonia com o seu ambiente e aqueles ao seu redor ao invés de ignorar a sua importância ou impacto. Se você estiver recebendo mensagens constantes na forma de dificuldades desnecessárias de quaisquer naturezas, talvez seja uma lição para alterar a forma como você está se adaptando ao seu ambiente, em vez de insistir mais fortemente no curso de seu caminho e apenas intimidando aos outros.

9) Verdadeira Vontade significa que você estará livre do sofrimento.

A ideia de Verdadeira Vontade, muitas vezes leva a noções utópicas e irrealistas quanto ao que Vontade vai realmente parecer. A ideia de que fazer a Vontade liberta do sofrimento é irrealista em vários níveis. Em primeiro lugar, o sofrimento é inerente à existência de alguma forma ou de outra, na medida em que todos nós ficamos doentes, sofremos perdas, envelhecemos, sofremos prejuízos e morremos. Nós sempre vamos encontrar algum tipo de resistência ou dificuldade em nossas vidas. Isso não deve ser visto como uma espécie de marca de fracasso em sua tentativa de fazer a tua Vontade, mas sim, essas ocorrências inevitáveis de sofrimento, resistência e dificuldade são os meios pelos quais nós aprendemos e crescemos. Como se diz, “Tu então que tens provas e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles está a Força e por meio deles é aberta uma trilha àquela Luz… pois quando maior for tua prova, maior o teu triunfo” (Liber Librae). Essa ideia de que “fazer a sua Vontade = sem sofrimento” também depende da noção de que a Vontade seja “on” ou “off”, como mencionado no Mito n°3: mesmo que estejamos no modo de “Vontade 100%” por um tempo, todos nós, inevitavelmente, erramos, encontramos dificuldades imprevistas, ou simplesmente “escorregamos” e não fazemos o melhor que podemos. Além disso, o próprio desejo de ser livre do sofrimento é, em certo sentido, uma ideia do Antigo Aeon: Thelemitas não procuram transcender o mundo material, se isentar do Samsara, ou até mesmo evitar o sofrimento. Reconhecemos a realidade como ela é, sem insistir em estar de acordo com os nossos ideais a priori assim como ao “como o mundo deveria ser”. Nós aceitamos o sofrimento e as dificuldades da vida como “molho picante ao prato do Prazer” (Liber Aleph, capítulo 59). Eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria Vontade significa que você vai estar livre de uma grande dose de sofrimento desnecessário. Uma grande parte do nosso sofrimento não é de fato inerente ou necessária, mas nós, através dos nossos vários hábitos e pobres equívocos, nos sujeitamos à dificuldade que pode ser evitada em grande parte ou totalmente, se nos tornarmos mais conscientes e em sintonia com as nossas Vontades.

10) Verdadeira Vontade significa estar livre de conflito.

Conectada ao mito anterior é a noção de que fazer a própria Verdadeira Vontade significa que estará livre de todos os conflitos. Isso geralmente é baseado ao fato de que o Livro da Lei diz: “tu não tens direito senão fazer a tua Vontade. Faça isso e nenhum outro dirá não” (AL I:42 – 43) e Crowley escreveu que “[a lei] parece implicar uma teoria que, se cada homem e cada mulher fizesse a sua Vontade – a Verdadeira Vontade – não haveria conflito” (Liber II). Realisticamente, sempre haverá pessoas que “dizem não”, independentemente do grau em que você está fazendo a sua Vontade, e sempre será “conflitante”. A questão real vem de uma compreensão do “confronto”. Se confronto significa conflito interpessoal na forma de desacordo ou argumento, nunca haverá um fim a este a menos que todos nós nos tornamos autômatos, irrefletidos – o qual certamente não é o objetivo da Lei da Liberdade. Semelhante ao mito anterior, eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria vontade significa que você estará livre de uma grande quantidade de conflitos desnecessários. Grande parte do nosso conflito com os outros dependem da nossa insistência em saber o que é “certo” para os outros, as nossas próprias expectativas e normas impostas aos outros, insistindo em manter uma posição baseada numa autoestima do ego e identidade que está amarrada com a nossa posição e muitos outros erros que se afastam naturalmente na medida em que nos concentramos em nossa Vontade ao invés de discutir. Talvez essa seja a razão para sermos ensinados a “não discutir, não converter; não falar em demasia” (AL III:42). Novamente é um tipo de fantasia do Velho Aeon o mundo ou a vida de alguém ser livre de conflitos. Eu acredito que a aceitação e o envolvimento com o conflito é uma marca distintiva de uma pessoa que tem uma mentalidade do Novo Aeon, ao invés do Velho Aeon. Como Crowley escreveu, “O combate estimula a energia viril ou criativa” (Dever). Mesmo as formas mais triviais e mundanas de conflito, como equipes rivais em esportes ou pontos de vistas opostos em um debate, permitem que a diversão do jogo esteja em primeiro lugar. Ao invés de procurar ser livre de conflitos, podemos fazer melhor examinando os conflitos em nossas vidas e determinando até que ponto eles são o resultado da nossa incapacidade de concretizar plenamente a nossa Vontade, a fim de viver mais plenamente e com alegria.

O que todos esses 10 mitos implicam é uma visão da Vontade como algo sempre presente até certo ponto, sempre dinâmico e mutável, sempre capaz de ser trabalhado, e, trabalhado independentemente de ter experiências místicas ou não, embutido dentro do contexto do nosso ambiente e outros indivíduos, e aceitar o sofrimento e o conflito como coisas inerentes a existência, coisas mais para serem trabalhadas do que evitadas. Esta lista não é exaustiva de qualquer maneira, e há, obviamente, muitas nuances para a ideia de Vontade e muitas outras maneiras de compreendê-la. No entanto, espero que desafiar algumas dessas ideias como mitos ou equívocos possa libertar o nosso pensamento a fim de tornar-se consciente do grande potencial em cada momento de decretar e regozijar em nossas Vontades.

Amor é a lei, amor sob vontade.

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/dez-mitos-sobre-a-verdadeira-vontade

Mapa Astral de Michael Jackson

Michael Joseph Jackson (Gary, 29 de agosto de 1958 — Los Angeles, 25 de junho de 2009) foi um famoso cantor, compositor, ator, multiinstrumentista, coreógrafo, diretor, dançarino, produtor, empresário, filantropo e humanitário norte-americano.

Começou a cantar e a dançar aos cinco anos de idade, iniciando-se na carreira profissional aos onze anos como vocalista dos Jackson 5; começou logo depois uma carreira solo em 1971, permanecendo como membro do grupo. Apelidado nos anos seguintes de King of Pop (“Rei do Pop”), cinco de seus álbuns de estúdio se tornaram os mais vendidos mundialmente de todos os tempos: Off the Wall (1979), Thriller (1982), Bad (1987), Dangerous (1991) e HIStory (1995). Lançou-se em carreira solo no início da década de 1970, ainda pela Motown, gravadora responsável pelo sucesso do grupo formado por ele e os irmãos. Em idade adulta, gravou o álbum mais vendido e popular da história, Thriller. Jackson é frequentemente citado como “O maior ícone negro de todos os tempos”, e com grande importância para a quebra de barreiras raciais, abrindo portas para a dominação da música negra na música popular, e pessoas como Oprah Winfrey e Barack Obama conseguirem o status que tem hoje em dia.

Sol e Plutão em Virgem, Lua em Peixes, Ascendente em Escorpião e Caput Draconis em Libra. Mercúrio, Vênus e Urano em Leão (com Mercúrio em conjunção com o Meio do Céu); marte em touro.

Michael Jackson não é exatamente um exemplo de pessoa sã, mas ninguém pode dizer que ele não seguiu aquilo que o seu coração ditava. O Mapa de Michael mostra o que acontece quando se pega as energias de um mapa e as desloca para os extremos da escala.

Mostra uma pessoa extremamente organizada e metódica ao mesmo tempo em que possui uma alma pura e sensível. A combinação entre virgem-peixes (racional/emocional) não costuma ser fácil de se lidar. No Caso do Michael Jackson, ele extrapolou (e exagerou) estas energias tanto no campo da sensibilidade, com suas belas criações musicais, quanto na área metódica/paranóica/TOC virginiana.

Seu Planeta mais forte é Mercúrio (em Leão cravado no MC), com 7 Aspectações. Indica um potencial criativo muito acima da média, além de uma desinibição e capacidade de se colocar em público ou diante dos holofotes maior do que a média das pessoas (no caso dele, também extrapolada nos limites da escala). Esta combinação é encontrada em muitos artistas performáticos (vale comparar que James Randi, the Amazing Randi, também possui Vênus e Mercúrio em Leão, por exemplo). Ao contrário de Randi, que possui natureza briguenta (Lua em Áries), a criatividade de Michael era voltada para o lado sensível (Lua em Peixes) e introspectivo, resultando em uma fuga da realidade mais do que um confronto com ela.

Por fim, a combinação das energias de Leão-Libra definem um aspecto de harmonia/beleza com exposição/exibição e é muito encontrado em bailarinas, dançarinas e coreógrafos (e nenhuma surpresa encontrar esta combinação no Mapa do Michael Jackson).

Sempre achei que o MC fosse mesmo apenas um peter-pan distanciado da realidade, e não um doente malvado pedófilo, como quiseram retratá-lo. O Mapa Astral dele confirma esta impressão.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-michael-jackson

Bibliografia Estrangeira sobre lobisomens

Em La Genèse des Mythes, Alexandre Krapper (Paris, 1915) escreve:

“Diz uma lenda búlgara que o Diabo faz o corpo do lobo, mas não consegue animá-lo. É preciso que Deus o faça:

Na Escandinávia, o deus Tir tem sua mão direita arrancada pelo lobo Fenrir.

O lobo é comumente obra do espírito das trevas.”

Não obstante, cultos endeusaram o animal desde tempos muito antigos. A figura do lobo, como se sabe, esteve sempre presente tanto na mitologia clássica como na folclórica. Nesta, emprestou seu nome e seu aspecto ao Lobisomem.

Ele chegou até aqui vindo da Europa, na época da colonização. Tem-se notícia de sua existência já em era muito remota e o mundo todo o conhece, com variações.

O Lobisomem apresenta-se – no contexto da cultura erudita – na tradição clássica da Grécia, de onde se transportou para Roma.

Na Grécia, o rei Licaon tentou matar Zeus. Em outra lenda, Licaon fez um sacrifício humano e a ira divina recaiu sobre ele. Ou Licaon serviu a Zeus carne humana. Ou ainda Licaon sacrificou ao deus o seu próprio filho. Em todas essas lendas, o final é o mesmo. O rei foi transformado para sempre em lobo, como castigo.. Mas se não se alimentasse de carne humana por dez anos, recuperaria o aspecto de homem.

É curioso notar, entretanto, que mesmo antes de tornar-se lobo, o rei já lhe portava o nome: Licus, Luko.

Na mitologia pré-helênica, para alguns, já teria havido um ZeusLicaeus; a mais antiga crença local. Outros indicam a evocação desse deus como sendo posterior à pena sofrida por Licaon. O ZeusLicaeus era o deus da luz (luke) e pode, também, ter havido confusão entre esse vocábulo e luko, lobo.

Também não seria despropositado supor-se a existência de um rito com oferendas ao deus-lobo, a fim de que ele poupasse os rebanhos e que esse culto se realizasse com os sacerdotes vestidos com a pele do animal-deus.

Em Roma, sempre houve veneração pelo lobo. Rômulo, o fundador da cidade e seu irmão gêmeo, Remo, abandonados ao nascer, foram amamentados por uma loba antes de serem recolhidos por Fáustolo e sua mulher Acca Laurentia. A loba de Roma, a deusa Luperca, era homenageada com festas denominadas Lupercais (festas do lobo), que, no ano 494 depois de Cristo, tiveram o nome mudado para Festa da Purificação.

No século I, na Roma de Nero, Tito Petrônio Arbiter escreve o Satíricon. No capítulo LXII, Niceros, no banquete de Trimalcion, relata a estória do soldado que se transforma em lobo.

Este é o mais antigo registro existente, em literatura erudita, da Estória do Lobisomem. Nessa estória, traduzida para o francês por M. Héguin de Guerle, Niceros narra a sua saída com um soldado, seu companheiro; em certa noite de Lua, tão clara como se fosse o meio-dia. Puseram-se a caminho ao primeiro canto do galo. Ao fim de uma estrada encontraram-se entre sepulturas. Subitaments, começou o soldado a conjurar os astros. Depois, despiu-se e colocou as roupas junto à estrada. Em seguida, urinou à volta delas e, nesse instante, transformou-se em lobo. Pôs-se então a uivar e embrenhou-se na mata. As suas vestes tornaram-se em pedras. Niceros, apavorado, saiu correndo e chegou à casa de Melisse. Esta, espantada por vê-lo ali a desoras, disse-lhe que, se tivesse chegado um pouco mais cedo, teria sido de grande valia; pois um lobo penetrara no curral e degolara todos os carneiros. Uma verdadeira carnificina! Mas, embora tivesse escapado, fora gravemente ferido no pescoço, por um criado. Intrigado e horrorizado, e como o dia já vinha clareando, voltou rapidamente pelo mesmo caminho. Ao passar pelo lugar onde as roupas haviam-se transformado em pedra, verificou que ali só restava sangue. Entrando no alojamento, encontrou o soldado estendido na cama; sangrava abundantemente e um médico o atendia, tentando estancar a hemorragia do pescoço. Foi então que percebeu tratar-se de um Lobisomem.

Nos primórdios da era cristã, tanto Ovídio como Petrônio registraram que o Lobisomem era fruto de penitência, de castigo, ou era uma transformação voluntária e temporária, como acontecera ao soldado da estória. Também em transformação voluntária fala o poeta clássico da antigüidade, Virgílio, nas Bucólicas, em tradução de Manuel Odorico Mendes.

“Meris estes venenos e estas ervas
Com eles Meris vi, tornado em lobo.”

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E ainda nas Éclogas, em versão de José Pedro Soares – Lisboa, 1800./
Meris me deu as ervas que sahia Os venenos de que Ponto abundava; Com eles ele lobo se fazia,
Nos matos, invisível se ocultava”.

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Os romanos, povo conquistador, divulgaram largamente o mito do Lobisomem pelas terras conquistadas. Para eles, o homem transformado em animal era Versipélio. Para os gregos, Liçantropo. É o Valkodlák dos eslavos, o Werewolf dos saxões, o Wahrwolf dos germanos, o Óbaroten dos soviéticos, o Hamrammr dos nórdicos, o Loupgarou dos franceses, o Lupo-mannaro dos italianos; o Luisán ou Lobisón dos Paraguaios, o Lobisome ou Lobizón dos argentinos, o Lobisomem da Península Ibérica e da América Central e do Sul com suas modificações para Lubizon, Lubisome, Lobisomi, Labisomi, Lambisome, Lubisono, Lobo-homem, Lobisa, Porcalhão.

Licantropia é o “estado de alienação em que o doente se imagina transformado em lobo. Licomania.’ (Dicionário de Termos Médicos – Dr. Pedro Alves Pinto). Por extensão, esse vocábulo designa, também, a mutação do homem em animal por meio de ritos, invocações ou poderes mágìcos, ou, ainda, como conseqüência de maldição.

O historiador Heródoto acreditava que povos do leste da Europa, onde se situa a Romênia, possuíam a faculdade de se transformar em lobo, durante alguns dias do ano. Retornavam depois à forma humana. Esses povos, denominados Neuros, durante o culto ao deus-lobo, atacavam traiçoeiramente pessoas desprevenidas, com fins de antropofagia e também bebiam sangue humano.

Nos bosques da Itália Central primitiva, sacerdotes do Sorano (um dos nomes de Plutão, rei dos infernos) do povo Sabino, que habitava essa regíão, entregavam-se ao seu culto envolvidos em peles de lobo, o animal do deus.

Lupo-mannara, o Lobisomem da Itália, ataca e devora pessoas,especialmente crianças.

No folclore lapão, se um homem comete um crime de morte e não se confessa culpado, pode ver-se transformado em lobo, por artes do Diabo. Lá se acredita também que é impossível matar um lobo com uma bala comum, a menos que houvesse permanecido no bolso de alguém que tivesse assistido à missa por dois domingos seguidos.

Certas tribos africanas são tidas como praticantes da mutação com complicadas iniciações secretas, e seus membros reproduzem o comportamento do tigre e do leopardo, mascarados com peles desses animais.

Na ilha Sumatra (Indonésia) os homens de uma tribo afirmam possuir a faculdade de se transformar em tigre. Por toda a Ásia, membros de determinadas Associações confessam abertamente que retêm o poder de metamorfose, com regressão ao estado anterior.

No folclore soviético, as alcatéias de lobos famintos que uivam, nas noites de inverno rigoroso, são Lobisomens cumprindo o seu fadário, após o que, um dia, voltarão ao convívio dos homens.

Na China, os Lobisomens, depois de mortos, conservam a forma do animal. Lá existe ainda o Lobisomem fêmea. A mãe de um general, acredita-se, transformou-se em loba aos setenta anos de idade.

No folclore chinês aparece também a estória de um camponês que se viu atacado ferozmente por um lobo. Para livrar-se, subiu em uma árvore. O animal, no entanto, dava-lhe botes e com isso rasgava-Ihe a calça. O homem, para se defender, deu-lhe uma machadada na cabeça. No dia seguinte, verificou que um seu conhecido estava ferido na cabeça, e tinha, nos dentes, fiapos do tecido de sua roupa.

O Lobisomem feminino é encontrado na África, na forma de hiena ou pantera e é uma penitência que a mulher que cometeu pecado mortal deve cumprir por sete anos. Na Armênia, uma pele de lobo cai sobre ela, que à noite devora os próprios filhos, os filhos de seus parentes mais chegados e outras crianças, retomando, ao amanhecer, a forma humana.

No folclore irlandês, “o fato do homem e da mulher transformarem-se em lobos a cada sete anos é por demais conhecido…” Lá, a fêmea do Lobisomem é chamada Conoel.

Encontra-se o Lobisomem fêmea também na Bretanha. Uma mulher saiu à noite e logo após, uma grande gata entrou em sua casa. O marido machucou-a, ao tentar espantá-la com um pedaço de lenha. Passados três dias a esposa retornou, com um corte em uma das mãos.

Segundo Sébillot, acreditava-se, na Bretanha de 1832, que os Lobisomens fossem homens transformados em lobo por estarem há dez anos afastados do confessionário. Outras vezes o castigo era atribuido ao fato da pessoa não ter mergulhado os dedos numa pia de água-benta pelo espaço de sete anos. Em 1870, dizia-se, na Baixa-Bretanha, que os Lobisomens vestiam-se com uma pele de lobo e então absorviam sua personalidade, correndo pelos campos e bosques, atacando pessoas e animais. Ao clarear o dia, escondiam sigilosamente essa pele e voltavam para casa. Havia uma grande afinidade entre a pele e o seu próprio corpo, de tal forma que, certa vez, um homem, que a escondera dentro do forno de sua casa, pôs-se a gritar que estava sendo queimado, quando a esposa acendeu o forno. Ainda em região da Bretanha, crê-se que para os homens se transformarem em animal basta que se untem com uma pomada fornecida pelo Diabo. Dessa forma transformam-se não só em lobos, mas ainda em vacas ou gatos.

Em sua Histoire de la Magique en France (História da Mágica na França), Garinet narra acontecimentos de 1573; quando Gilles Garnier foi a julgamento – acusado de ter devorado várias crianças ao se transformar em Lobisomem. Condenado, foi arrastado ao local da execução e queimado vivo.

Esse homem viu-se, um dia, a braços com problemas e, com o intuito de se acalmar, embrenhou-se na floresta. La encontrou um fantasma com forma humana que lhe propôs fazê-lo transformar-se em lobo ou qualquer outro animal. Escolheu a forma de lobo e conseguiu a metamorfose esfregando-se com um ungüento especial, como confessou durante o julgamento.

Outro caso deu-se com um menino de treze ou catorze anos, que confessou só não ter devorado sua amiga pastorinha Margarida, porque esta conseguira defender-se valenternente com um pau. Mas declarou já ter devorado algumas crianças, quando transformada em lobo. Ao lhe perguntarem por que artes conseguia essa transformação, relatou que um seu vizinho o apresentara ao Senhor da Floresta, que Ihe dera um ungüento para se esfregar e que esse ungüento ficava sob a guarda do Senhor, mas que ele podia usá-lo quantas vezes o desejasse, Este menino, Jean Grenier, foi declarado pelos juízes portador de licantropia e, por esse motivo, escapou à morte, sendo condenado à prisão perpétua.

Crê-se também que a metamorfose possa acontecer ao ingerir-se uma beberagem oferecida pelo Diabo. E se os Lobisomens não se recordarem do lugar ande deixaram a garrafa com a bebida, serão lobos para sempre.

Existe ainda a crença de que é preciso possuir duas garrafas: a primeira com a bebida para a metamorfose e a segunda para o retorno à forma humana.

Uma outra maneira de se obter a transformação na França, Inglaterra, URSS e certas regiões da Europa, é bater a parte baixa das costas repetidamente em porta de igreja, recitando uma fórmula mágica. Ou então utilizar um cinto confeccionado com a pele do animal.

no qual o indivíduo deseja transformar-se; ou cobrir-se com essa pele; beber água acumulada no seu rastro; comer alimentos abandonados pelo animal; comer carne na sexta-feira santa; partilhar o covil ou a ração de um lobo; untar-se com ungüento feito com um dos seguintes ingredientes: gordura de lobo, folhas de meimendro, de beladona, de papoula, de eleboro, de cânhamo ou de datura.

Para cessar o encantamento, retirar o cinto mágico; ficar cem anos de joelhos no local; ser publicamente acusado de Lobisomem; ser saudado com o sinal da cruz; ser chamado pelo nome de batismo; ser ferido, de forma a perder sangue; ao percorrer sete cidades, entre um local e outro mergulhar na água, ou espojar-se no orvalho.

Proteção contra o Lobisomem é participar-se, anualmente, de fogueira em festa de S. João. Há ainda um sem número de fórmulas mágicas a serem recitadas; com a mesma finalidade.

Em 1598, uma criança foi devorada, nos arredores de Angers. Caçadores depararam-se com uma criatura selvagem, não muito distante do cadáver. Esse selvagem confessou-lhes haver devorado a criança, juntamente com seu pai e seu primo, ambos Lobisomens, como ele. Condenado à morte, apelou, sendo declarado, então, mais louco do que criminoso e mandado para o hospital Saint-Germain-des-Pres.

Van Gennep, citado por Daniel Bernard, escreve que em Auvergne, o Lobisomem é um mortal que se levanta à noite e, coberto com uma pele de animal selvagem, corre loucamente, sobre pés e mãos, atravessando os campos. É invulnerável a balas. Se consegue devorar o primeiro animal que encontra no seu caminho, tornase inofensivo; do contrário, devasta tudo por onde passa e mata até crianças. Sua esposa, que esta a par dessa possessão, prepara-lhe uma pasta semelhante à dos parcos, que engole na volta, ao clarear o dia. Na manhã seguinte retoma suas ocupações habituais e nada trái sua infelicidade, a não ser a extraodrinária rugosidade das mãos. Se for ferido e sangrar durante a corrida da noite, cura-se; mas infeliz do amigo que lhe prsetar tal serviço: o Lobisomem será obrigado a fazê-lo em pedaços.

Os párocos possuíam o poder de transformar um criminoso, que não confessasse o seu crime, em Lobisomem. No primeiro domingo, advertiam o culpado; no segundo, se ele não se acusasse, era avisado do que lhe aconteceria no domingo seguinte; e neste, ficava ciente de que, após o terceiro aviso, a sentença seria pronunciada; sentença horripilante. Mulheres nervosas deveriam abster-se de assistir a tal cerimônia. Do alta do púlpito, o sacerdote lia a fórmula aterradora. Apagava então a chama do círio e gritava: Que a alma do culpado se apague como esta luz!

O criminoso transformava-se imediatamente em animal e começava sua corrida, que se prolongaria por sete anos, através de sete paróquias. Não podia, também, desvendar seu terrível segredo, sob pena de ser amaldiçoado por mais sete anos.

Em 1521, Pierre Burgot e Michel Verdung enfrentaram o juiz Bodin; demonólogo e inquisitor de feiticeiros. Confessaram haverem-se acasalado com fêmeas de lobo. Burgot teria assassinado um jovem, com patadas e dentadas de lobo; Michel teria matado uma jovem e, ambos, finalmente, declararam havèr devorado quatro moças. Foram condenados à fogueira, sem produção de outras provas.

Na Bretanha existem também os amestradores de lobos. Eles, quando assim o desejam, tomam uma bebida oferecida pelo Diabo e transformam-se em lobo. Têm grande domínio sobre esses animais. Quando metamorfoseados e feridos, assim que o sangue corre, voltam à forma humana. Sobre eles existe este relato:

Um homem perdido na floresta chegou a uma encruzilhada, onde encontrou um amestrador de lobos, com alguns à sua volta. Recebeu dois dos animais como guias e guardas e eles o conduzram fielmente até a casa, são e salvo. Mas teve que observar uma recomendação: não cair durante a caminhada è dar aos lobos, assim que chegasse, pão e galette de blé noir (bolo folheado, escuro, feito de grãos de centeio ).

A autora1 encontrou, em transcrição, uma narrativa de Alain Decaux intitulada La Bête de Gévaudan, a qual traduz livremente de forma abreviada.

A Fera de Gévaudan

O Gévaudan é a atual província de Lozère, abrangendo, também, uma parte do Alto-Loire. É uma região áspera, dura, de beleza selvagem. Situa-se entre gargantas de montanhas e montes calcários, pedregosos.

Sua principal riqueza é a pecuária e seus rebanhos de vacas, carneiros, cabras, cavalos e burros precisam pastar nos flancos dessas montanhas, pastoreados por crianças de seis a quinze anos, e por velhos.

Tudo começou na primavera de 1764, há mais de dois séculos, portanto. Mas o fato ainda é lembrado e comentado, nos nossos dias.

Através de documentos da época, Alain Decaux rememora os acontecimentos.

“Uma Fera monstruosa semeia o pavor e o desespero na região, atacando e matando sem cessar, especialmente crianças, adolescentes e mulheres.

A primeira vítima foi uma menina de catorze anos, Jeanne Foulet. Dentro de pouco tempo, mais adolescentes. Em seguida, uma mulher de trinta e seis anos, que cuidava do seu jardim, em frente a casa. Enfrentando o povo, calma, ousada, sem pressa, a Fera abocanhou-Ihe o pescoço, bebeu-lhe o sangue e, em seguida, devorou-a.

A Igreja declarou-a fruto da cólera divina, por pecados cometidos pelo povo: O pavor tomou conta de todos.

Os registros da época referem-se a animal desconhecido. De fato, os que o viram afirmaram categoricamente que não era um lobo. Lobos, eles os conheciam bem. As descrições apresentaram-no com esta aparência:

Tem o porte de um vitelo de um ano os olhos grandes como ele; é baixo na parte da frente e as patas são providas de garras; a cabeça é grande, terminando em focinho alongado; as orelhas são menores do que as de um lobo e espetadas, como chifres; o peitoral é largo e recoberto de pêlos acinzentados; os flancos são avermelhados; acompanhando a espinha, uma listra negra. Mas o que mais impressionava a todos era a sua goela, uma bocarra imensa e provida de afiadíssimas presas, capazes de decepar as cabeças das vítimas como uma navalha. Goela horrenda.

Descreviam-no ainda como tendo andar lento e correndo aos pulos, em velocidade inacreditável. Era visto ora num lugar e ora noutro, a distância que nenhum animal poderia percorrer dentro daquele espaço de tempo. Alguns concordavam que ele pudesse ser semelhante ao lobo; mas eram todos categóricos ao afirmar que não era, em absoluto, um lobo, mas uma fera jamais vista antes.

O número de vítimas aumentava assustadoramente. A população entrou em pânico.

Vieram para o local os Dragões – força armada, comandada pelo capitão Dúhamel: 57 homens, sendo 17 à cavalo. O capitão defrontou-se com a Fera. Atirou, feriu-a. Ela fugiu, mas ele teve tempo de vê-la bem. Declarou que deveria tratar-se de um produto híbrido, cujo pai seria um leão. Mas quem seria a mãe? Um mês se passou e ela não foi abatida. Retiraram-se os Dragões.

O Rei ofereceu alta recompensa a quem a capturasse ou matasse.

Na região, corriam notícias de que se tratava de um Lobisomem, pois uma mulher chegara à cidade, espavorida, relatando que, na estrada, ao ser ajudada a montar, por um desconhecido, observara-lhe as mãos e estas eram inteiramente recobertas de grossos pêlos.

Empreenderam marchas e emboscadas e seguiram os rastros da Fera. O resultado foi nulo. Parece que ela adivinhava a presença deles e desaparecia. Mas continuava fazendo vítimas, sem cessar, simultaneamente em lugares os mais distantes, parecendo ter o dom da ubiqüidade.

Um jovem fidalgo, avistando-a da janela do seu castelo, armou-se e, acompanhado de dois irmãos, partiu ao seu encalço. Defrontaram-se. A Fera não aparentava medo; pelo contrário, parecia atrevida, ousada. Foi, desta vez, ferida no pescoço e no peito. O sangue jorrou em abundância. Os três irmãos declararam que, embora tivesse fugido, não sobreviveria. Dois dias depois, entretanto, continuava a atacar e matar.

O lugar-tenente dos caçadores do Rei, senhor François-Antoine, veio para o local. A área onde a Fera corria era extensa e de matas fechadas. Mas um dia, afinal, Antoine, como ficou conhecido, encontrou as pegadas de uma loba e seus filhotes, que lhe pareceram enormes, e profundas, devido ao peso dos animais. E de repente, avistou o animal que, não tinha dúvidas, era a Fera!

Monstruosa, patas curtas, corpo muito comprido, goela assustadora, avançou para ele. Antoine estava sentado. Mirou, atirou. A bala atingiu o olho direito da Fera, atravessou a cabeça e fraturou-lhe a base do crânio. Que animal resistiria a isso? Ela caiu. Morta? Não. Levantou-se e avançou novamente. Mais um tiro e ela tombou. Desta vez, sim, morta.

Aproximou-se. Parecia um lobo. Mas um lobo como jamais alguém havia visto. Medonho, gigantesco, com flancos avermelhados e aquela listra negra no lombo. Foi, por centenas de testemunhas, reconhecido como a Fera.

Alívio geral. Empalharam-na e remeteram-na para a Corte, como prova da façanha. Pesou 65 quilos e mediu 1,43 m. do focinho às patas traseiras e 1,90 m. até a ponta da cauda.

Antoine foi condecorado e agraciado com uma pensão. Alguns dias mais tarde seguiu os rastros da fêmea. e matou-a, assim como aos filhotes. Parecia o fim do pesadelo, afinal.

Passados, entretanto, menos de dois meses, o horror recomeçou. A Fera lá estava de novo, atacando e matando.

Desesperado, o povo organizou uma romaria a Nossa Senhora D’Estours. Entre os peregrinos encontrava-se um cidadão maduro, porém sadio, vigoroso. Era Jean Chastel. Na chegada, entregou seu fuzil para benzer, juntamente com três balas.

O extraordinário é que exatamente nesse momento Jean Chastel terminara de ler as Litanias. Calmamente, sem pressa, retirou os óculos e guardou-os no bolso. Empunhou o fuzil. Mais extraordinário ainda é que a Fera, imóvel, o observava, como que obedecendo a um comando. Mirou. Atirou. Acertou o animal no quarto dianteiro. Ele não se mexeu. Mas quando os cães acorreram e saltaram sobre ele, caíu. A Fera, finalmente, estava morta.

Jean Chastel aproximou-se dela e murmurou:

– Fera, não mais devorarás.

E então, enfim, todos puderam dormir em paz.

Voltando ao passado: Informam os documentos da época que em 1762, dois anos antes, portanto, do aparecimento da Fera, havia, naquela região, uma família de amestradores de lobos. Usaram-nos certa ocasião para um assalto a viajantes, ordenando-lhes que os devorassem. Pelo crime foram condenados à forca. Seria Jean Chastel um dos filhos que escapou a tal morte?”

Bernard Alliot, em artigo no jornal francês Le Monde n.° 1738 – ano 1982 – tece comentários sobre a terrível Fera de Gévaudan, ainda viva na memória do povo, partindo dos mesmos documentos da época, que serviram de subsídio ao relato acima. Essa colaboração, intitulada Loup, y est-tu?2 (Lobo, estás aí?) informa que “não há mais lobo. Exterminado, desapareceu o sinistro canis lupus que semeou o terror durante séculos, nos campos . . . Ele é o símbolo do grande devorador; ao lado do Ogre. O terrível lobo de Sarlat3 tinha 42 dentes trinchantes e afilados dos quais 4 em forma de gancho. No século XVIII, Buffon, conhecido por sua serenidade, ressaltou que não há nada de bom nesse animal a não ser a sua pele. Mas Gengis Khan – e isso se compreende – gabava-se de ter um ancestral lobo. Hitler gostava de ser chamado oncle Wolf (tio Lobo).

Na mitologia judaica, o lobo é considerado um animal impuro, uma figura do Maligno. Portanto, não é de surpreender que na imaginação dos povos cristãos surja o Diabo com olhos de brasa…

Os testemunhos de pessoas atacadas, os massacres causados pelas feras, a esperteza e a resistência desses animais, a atitude da Igreja, associando o assalto dos lobos a uma punição divina, além da voz do povo, criaram em torno do animal uma atmosfera de terror e de feitiçaria. O homem introduziu-o em contos e estórias, apossando-se dos seus poderes maléficos. O amestrador de lobos, em troca de um pacto com Satã, detém o poder sobrenatural de comandá-los.

Lobisomens cobrem-se com a pele do animal maldito e perambulam à noite por árduos caminhos. Segundo a crença do povo, essas pessoas, vítimas de feitiçaria, são condenadas a vagar sob a Lua uivando como lobos.

Visando ao equilíbrio natural, ecologistas desejam reintroduzir na França alguns exemplares deste animal desaparecido. Deverão primeiramente, conseguir extrair do conceito popular o terror do lobo, ali fixado por toda uma marcante mitologia.”

A autora recebeu, da França, as duas publicações anteriores, a obra L’homme et Le Loup, (O homem e o Lobo), de Daniel Bernard e Daniel Dubois, e o Guide de L’Auvergne Mystérieux (Guia do Auvergne Misterioso), da coleção Guides Noirs (Guias Negros).

Esse volume, de Annette Lauras-Pourrat, apresenta interessante material sobre o Lobisomem, o Loup-garou dos franceses. Isso vem comprovar o interesse que o mito desperta, ainda hoje, pois trata-se de coleção destinada a turistas, sendo cada volume referente às principais curiosidades (de horror) de detèrminada região.

Auvergne é antiquíssima e situa-se no maciço central da França. Relata a História que no ano 52 a.C. foi anexada a Roma. É procurada pelos turistas especialmente pela beleza e imponência de suas vetustas construções acasteladas.

Eis alguns trechos dessa publicação; em tradução informal.

“Há séculos crê-se em Auvergne na existência de homens-lobos,os Lobisomens, com são chamados, ou ainda galipotes. Esses seres não tinham, na verdade, nada de humano e nem mesmo grande coisa de animal. Eram uma espécie de vulto negro quase sem mem bros, vislumbrados à noite, ao longo das sebes e dos muros. Atacavam retardatários, saltavam-lhes às costas e exigiam que se os carregasse.

Segundo se pensava, tratava-se de párias, cuja desgraça os teria levado a fazer um pacto com o Maligno. Na lua cheia viam-se transformados em lobos, e por tal eram tomados, pois revestiam-se da pele do animal, fornecida pelo Diabo. Corriam como quadrúpedes a uma velocidade que homem algum alcançaria. Assim que escurecia, eram acometidos de febre. Saltavam da cama e escapavam pela janela. Seu amo e senhor (o Diabo) estipulava que deviam correr, durante a noite, sete povoados. Soltavam-se pelos campos, em desabalada carreira, prontos para saltar sobre o primeiro caminhante. Nada os atemorizava, nem armas de fogo, a menos que as balas fossem bentas.

Se encontrássemos um Lobisomem, teríamos que feri-lo com faca, ou com pedrada, para tirar-lhe sangue, único meio de fazê-lo retornar à forma humana. Deve-se colocar sempre sob os berços um ramo de avenca; essa elegante folhagem que medra nos velhos muros tem o poder de afastar o Lobisomem.

No seu Discurso sobre as Feiticeiros, Boguet relata que, nos fins do século XVI, numa pequena aldeia de Auvergne, um nobre estava à janela, quando avistou um caçador seu conhecido. Pediu- lhe que, na volta, passasse por ali e lhe mostrasse o que caçara.

Assim foi prometido. Chegando à floresta viu um grande lobo caminhar ao seu encontro. Entraram em luta. O caçador decepou-lhe a pata direita, mas o animal conseguiu escapar. Depois, para honrar a palavra, levou o troféu .ao amigo. Mas, para sua surpresa, ao abrir o alforje, o que apareceu foi mão feminina, com um anel que o nobre reconheceu imediatamente, pois era de sua esposa.

Apressou-se a procurá-la. Encontrou-a junto à lareira, com o braço direito escondido sob um chale. Quando lhe mostrou a mão decepada, a infeliz não teve como negar que havia perseguido o caçador sob a forma de um lobo. O marido entregou-a à justiça e a dama feiticeira foi queimada em Riom.”

Ainda no mesmo volume encontra-se trecho, sob o título Dos Lobisomens aos Flammaçons (Franco-maçons).

“A História pouco se ocupou desses homens que não saíam da sombra dos bosques, onde toda a riqueza consistia em uma dúzia de porcos e três vacas, e cujo entretenimento era sangrar um javali ou desalojar uma ninhada de lobos.

Eles corriam, nas noites de lua cheia, ridiculamente mascarados com uma pele de lobo. Ao longo dos séculos, existiram sempre esses homens envolvidos em peles. Dão, sobretudo, o que pensar, os textos que se referem aos Tuchins, durante a Guerra dos Cem Anos. Mataram todos os comerciantes, nobres e padres que puderam apanhar. Ninguém mais ousava sair, a menos que estivesse coberto com uma pele de animal. Essa pele era mais do que uma vestimenta: era algo como um emblema e, acima de tudo, um estado, uma condição. Mas os Tuchins perceberam o estratagema e mataram todos os que não tinham as mãos calosas.

Cogitaria o bando dos homens-lobos restabelecer nas montanhas seu antigo primitivismo? O certo é que foram cometidos muitos horrores antes que essa horda fosse dizimada.

Falava-se de cidades inteiras de feiticeiros, e de amestradores de lobos morando nas montanhas.

Sob a Restauração, como quase toda a burguesia dessas pequenas cidades fazia parte das lojas maçônicas, a imagem da horda misturou-se à da maçonaria.

Haveria ainda, nessa época, banquetes nas florestas? Talvez.

Em todo caso, os velhos assim acreditavam firmemente e indicavam os locais onde fulano e fulano, que eles haviam conhecido bem, tinham perecido, nesses festins à luz dos archotes.

Os Franco-maçons (Franc-maçons) eram homens que andavam pelos bósques carregando archotes. Como a letra R transforma-se muitas vezes em L no linguajar do povo, a pronúncia passou a ser Flammaçans, nome que lembrava chama (flame); archotes e reuniões à volta de uma fogueira, o que estaria vinculado aos Lobisomens, segundo Henri Pourrat em Le Loup-Garou et sa bancle (O Lobisomem e sua horda) Edit. Attinger, 1949.”

A mesma narrativa da esposa do nobre que tem a mão decepada, aparece em L’homem et Le Loup (O homem e o Lobo), de Daniel Bernard, e em Estranhas Superstições e Práticas de Magia, de Willian J Fielding – tradução de Silvia Mendes Cajado, com o comentário de que em setembro de 1573, o Parlamento, com assento em Dôle, teria autorizado os camponeses a se armarem e percorrer os bosques, com a finalidade de matar os Lobisomens.

Estes já haviam levado muitas criancinhas, que nunca mais foram encontradas, e atacado atguns cavaleiros, que só conseguiram salvar-se enfrentando grande perigo.

A Bête Bigarne (Fera Bigorne), bode horrendo e gigantesco, com garras, faz parte do folclore da França. Escreve Câmara Casudo que, em Auvergne, existe, no Castelo de Villeneuve, um afresco representando a sua figura.

Daniel Bernard, em L’hamme et le Loup (O homem e o Lobo), dedica um capítulo ao Lobisomem. Escreve que, na França, dependendo da região, sua denominação varia. Em Picardie é Leu-wareu; em Normandie, Varau; em Languedoc, Libérou; em Périgord,.Gâloup; em Bordelais, Galipaude. Reproduz trecho da obra Le Gâloup, de Claude Seignolle – que se poderia denominar lamentarão do Lobisomem -, aqui traduzido livremente:

Sete anos minhas patas me levarão às matas e aos apriscos; aos bosques gelados, aos tépidos currais.

Sete anos Lua Zarolha virá me vigiar com seu único olho pálido, que toma formas diversas, para me fazer acreditar que cada vez é uma curiosa diferente… E, sempre, me forçará a uivar contra sua impassível provocação.

Sete anos dolorosos como o frio dos ventos incolores; penetrantes como a água das nuvens impalpáveis.

Sete anos meu ventre doerá.

Sete anos os homens suplicarão e implorarão a outro Senhor que não o verdadeiro, coma se a seu Deus de doçura pudesse contra o meu, crivado de escamas e a revolver brasas.

Sete anos cortantes como sete espadas de aço, permanecerei amaldiçoado, sem nunca saber quem sou realmente; homem ou árvore; pássaro ou seixo.

Meus suspiros serão uivos; minha bebida, sangue; meu alimento, montanhas de animais tenros e mornos… E quando estes faltarem, alimentar-me-ei de homens…

Sete anos meu Mestre me reterá.

Sete anos permanecerei voraz, antes de estar quites com ele.É o meu castigo.

Sete anos somente.

Sete anos, ai de mim!

O próprio Demônio transforma-se em lobo. Assim parecia a São Maudet, pois todas as noites, as paredes do convento que ele estava construindo, eram derrubadas por mãos invisíveis. Certo dia, encontrou um lobo, que outro não era senão o Diabo. Conseguiu agarrá-lo pela cauda e jogá-lo ao mar. Daí por diante a construção prosseguiu normalmente.

No folclore da França, crê-se que o Lobisomem é obrigado, pelo Demônio, a devorar, em cada noite de maldição, sete cães.

Le marteau des sorciers (O martelo dos feiticeiros), espécie de manual-guia do caçador de Lobisomens, divulgado em 1486, continha duas indagações principais: Podem os feiticeiras transformar homens em animais? e Como os feiticeiros dão aos homens a forma da animais? Apoiando-se em Santo Tomás e Santo Agostinho, os autores declaram que os lobos, de tempos a tempos, partem de suas casas e devoram homens e crianças. E distanciam-se, vagando com tal astúcia, que nenhum ardil, nenhum poder é capaz de feri-los ou capturá-los. Tais coisas são causadas por um sortilégio diabólico. Deus, punindo uma nação por seus pecados, segundo o Levítico4 : lançarei sobre vós bestas ferozes que arrebatarão vossos filhos e matarão vosso gado. Quanto à questão: são lobos verdadeiros ou diabos sob essa forma? Respondemos que são lobos verdadeiros, mas possuídos pelo Diabo.”

Uma estória de Lobisomem, com grande repercussão, difundiu-se na Bavária, por volta de 1685. Um lobo que assolava a região, devorando pessoas e animais, foi identificado ao burgomestre, já falecido, que se teria encarnado no animal. Quando a fera foi capturada e morta, verificaram que sua carcassa estava revestida com um encerado cor de carne. Ao lhe cortarem o focinho, constataram a existência de uma cabeleira castanha e longas barbas brancas; ao mesmo tempo, um rosto semelhante ao do burgomestre apareceu no lugar da cabeça do lobo. Esse corpo foi enforcado na presença de grande público, e sua pele, empalhada, permaneceu exposta num museu, como prova concreta da existência do Lobisomem.

Na Dinamarca, acreditava-se que uma mulher que apanhasse uma placenta ao nascer um potro e a esticasse entre quatro paus e se arrastasse pela sua membrana, poderia dar à luz sem nenhuma dor e livrar-se de doenças. Mas, em tal caso, todos os meninos dela nascidos seriam Lobisomens.

Na Inglaterra, sob o reinado de Jaime I, quem fosse apontado como Lobisomem era condenado a morte artoz, único meio de extingui-lo. Esse monarca equiparava o werewolf aos feiticeiros e explicava o fenômeno como superabundância de melancolia.

Na Idade Média, foram incontáveis os julgamentos de pessoas acusadas de ser Lobisomem, para as quais a pena era a morte na fogueira.

A associação da Lua com o Lobisomem é um fato verificado não poucas vezes na literatura folclórica, na popularesca e na erudita. Arnold L. Lieber em The Lunar Effect (A Influência da Lua) diz que sociedades antigas reconheciam uma conexão entre a Lua e a violência, como no caso do Lobisomem. Para neutralizar essa violência, os pastores da antiga Arcádia costumavam enviar um homem aos lobos, como emissário. Este se transformava em Lobisomem por oito anos e durante esse período as alcatéias não atacavam os rebanhos. Na Alemanha antiga, os guerreiros selvagens eram denominados ûlfhêdhnar (homens com pele de lobo). Esses guerreiros existiam, também, nas sociedades secretas norte americanas e praticavam antropofagia ritual. Encontram-se Lobisomens na Alemanha de Hitler. Lá, onde o mito era bastante difundido, os nazistas fundaram a Organização do Lobisomem, na década de 20. Chama a atenção a coincidência do apelido do Führer ser exatamente, tio Lobo. “No final da Segunda Guerra Mundial, a Organização do Lobisomem deveria continuar, na forma de guerrilha, a luta contra os Aliados que estavam ocupando a Alemanha. Contudo, seus membros já tinham bastante dificuldade em, simplesmente, permanecer vivos. A regressão histórica foi um dos grandes temas da ideologia nazista, e o Lobisomem, com sua regressão a um modo de vida arcaico e violento, era uma escolha adequada para simbolizar a monstruosidade do regime.”

Como já se sabe, o Lobisomem chegou até o Brasil trazido da Europa, através de Portugal.

Oliveira Martins, em Sistema dos Mitos Religiosas, mostra o Lobisomem como sendo “aquele que por um fado se transforma de noite em lobo, jumento, bode ou cabrito montês.” E ainda: “Os traços com que a imaginação do nosso povo retratou o Lobisomem são duplos, porque também essa criatura infeliz, conforme o nome o mostra, é dual. Como homem, é extremamente pálido, magro, macilento, de orelhas compridas e nariz levantado. A sua sorte é um fado, talvez a remissão de um pecado . . . . Por via de regra, o fado é a moral – é uma sorte apenas. Nasce-se Lobisomem; em lugares são os filhos do incesto, mas, em geral, a predestinação não vem senão de um caso fortuito, e liga-se com o número que a astrologia acádia5 ou caldaica tornou fatídico – o número 7. O Lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhas. Aos treze anos, numa terça ou quinta-feira, sai de noite e topando com um lugar onde um jumento se espojou, começa o fado. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, da meia-noite às duas horas, o Lobisomem tem de fazer a sua corrida visitando sete adros (cemitérios) de igreja, sete vilas acasteladas, até regressar ao mesmo espojadouro onde readquire a forma humana. Sai também ao escurecer, atravessando na carreira as aldeias onde os lavradores recolhidos não adormeceram ainda. Apaga todas as luzes, passa como uma frecha; e as matilhas dos cães ladrando perseguem-no até longe das casas. Diga-se três vezes Ave-Maria que ele dará um grande estoiro, rebentando e sumindo-se. O Sino Saimão6 (Signo de Salomão) é um fetiche contra o malefício. Quem ferir o Lobisomem quebra-Ihe o fado; mas que não se suje no sangue, de outro modo herdará a triste sorte.”

No Minho, é charnado Corredor e as fêmeas são denominadas Peeiras ou Lobeiras. Em Paços de Ferreira, é Tardo.

Jaime Lopes Dias, em Etnografia da Beira, registra a maldição tal como uma das versões na Brasil – “Se num casal nascem sete rapazes, o último será Lobisomem.” E ainda: “Se alguém muda, em proveito próprio, marcos ou divisórias de propriedades, jamais deixará de ser Lobisomem. Mesmo depois de morto, não deixará de aparecer no terreno que roubou, transformado em bezerro, em cão, sombra negra etc.”

Na mesma obra encontra-se uma narrativa sobre o Lobisomem. “Já lá vão muitos anos . .

Sabe-se lá. . . talvez séculos! . . .

Pelas ruas de Segura, a desoras, nas intermináveis noites de Inverno, surgia estranho ser em desordenado tropel que trazia amedrontada a população.

À sua aproximação, mesmo os mais animosos, sentiam levantar-se-lhes os cabelos! . . .

Sol posto, já ninguém saía à rua.

E o alegre povo raiano sofria e passava um verdadeiro castigo.

Um dia, um mocetão, valente e destemido, tomou a resolução de averiguar a causa de tão extraordinário fenômeno.

E colocou-se entre o postigo e a porta da casa de seus pais.

Chovia a potes.

O vento com seus estridentes assobios era medonho. Parecia impelido pelo demo!

E o mocetão, valente, firme em seu posto, esperou uns momentos; o bastante para se enregelar.

O tropel não se fez esperar, e uma sombra negra surgiu.

As pedras da calçada chispavam lume.

A sombra horrenda resvalava pelas valetas e escouceava para um e outro lado, fazendo com que as próprias ombreiras dos portados deitassem faíscas.

E o rapaz, agora um tanto assustado, colou-se bem à porta.

Parecia petrificado.

O estranho fenômeno avançava cada vez mais em correria vertiginosa, e o moço, embora, como se disse, um tanto amedrontado pôde verificar que se tratava de um monstro informe, metade cavalo, metade homem, ferrado de pés e mãos! Estava quase a arrepender-se da sua temeridade! . . .

Mas, o monstro, seguindo o seu caminho, desapareceu…

Que fazer depois do que vira? Calar-se?

E se contasse tudo a pessoas experimentadas; sabedoras e consideradas pela sua idade?

Procurou de facto um dos homens mais velhos da sua terra.

E expôs-lhe minuciosamente o que vira.

E o bom vizinho respondeu-lhe:

– O que tu viste, meu amigo, é um entcanto que só se desfará se alguém tiver coragem de, escandido atrás de uma das cruzes das ruas da nossa aldeia e munido de uma vara com aguilhão, picar o monstro por forma que o faça lançar de si muito sangue.

– Pois deixe o caso comigo. Se aí está o remédio . . . picalo-ei eu mesmo, respondeu o rapaz.

– Pois então, toma cuidado, que, se o não picares bem, grande perigo corres!…

O moço, forte e destemido, como se disse, disposto a dar mais uma prova do seu valor, e a livrar a povoação de tão grande desassossego, logo que anoiteceu, recolhidos todos os moradores e fechadas todas as portas, foi colocar-se, por entre vendaval formidável, atrás de uma das cruzes, tendo bem apertada na mão direita forte vara com grande aguilhão.

Começou a ouvir-se o tropel, pondo-se em breve à vista a infernal figura.

O rapaz tremia!

Perdera quase a noção de si mesmo!

Fugir?…

Bem se lembrava ele do conselho do velho: – Toma cuidado, que se a não picares bem; grande perigo corres! . . .

Recobrou ânimo: Estava ali para vencer ou morrer! Já agora levaria ao fim a sua empresa.

Esperou! O monstro avançava a todo o galope.

E passou; e, na passagem, o heróico mocetão cravou-lhe bem a grande aguilhada!

E o monstro, como por encanto, desapareceu.

O valente moço respirava; mas tremia ainda. O seu coração batia desordenadamente.

Foi deitar-se, mas não podia conciliar o sono! Que iria suceder?

Passaram algumas noites e o tropel não mais se ouviu.

– Que estranho facto se terá passado? inquiria a povoação. O rapaz (ninguém sabe até onde vai o poder de encantos e bruxarias) contara o seu feito, muito em segredo, só aos mais íntimos.

Volveram dias e noites, e o povo, de segredo em segredo, veio a saber o que se passara.

E perguntava: – Mas que figura seria essa, horrenda e disforme?

– Seria um Lobisomem?

– E quem seria o infeliz?

Passaram ainda mais alguns dias, até que um dos mais considerados moradores de Segura que havia desaparecido do convívio da população, apareceu sem um dos olhos.

Se ele era são e escorreito, se não constara na povoação qualquer desastre, como e onde teria ele perdido a vista? – perguntavam todos os moradores de Segura. Tirara-lha, evidentemente, o rapaz da aguilhada!

E o povo passou a afirmar, desde logo, como verdade incontestável, que o monstro, semi-homem e semi-cavalo que tanto o incomodara, era, por artes do demo ou mercê do encanto, o bom homem que aparecera, sem saber como, sem um dos olhos.”

No Paraguai há o Luisón como um cachorro preto, de cabeça grande, olhos brilhantes, muito peludo, que se alimenta de cadáveres dos cemitérios. Exala mau cheiro. Aparece à meia-noìte e percorre as vizinhanças, provocando latidos e uivos de todos os cachorros, que o temem. Para conjurá-lo, deve-se colocar sob a língua um pouco de terra de seus rastros e chamá-lo três vezes. Diz-se que Luisón é o último filho entre sete homens, a quem a mãe amaldiçoou ao morrer.

Ainda no Paraguai pode aparecer como um cão negro sem cabega. Felix Coluccio, no Diccionaria Folklorico Argentino apresenta o verbete “Lobisome – En Brasil y otros paises de América, corre este mito de origen europeo, según el cual el séptimo hijo varón seguido, se transforma en Lobisome, mientras que la séptima hija mujer seguida se convierte em bruja. Representan los paisanos al Lobisome como um animal mezcla de perro y de cerdo. A las 12 de la noche de los dias viernes se opera esta transformación, dirigiéndose para alimentarse a los estercoleros y gallineros, donde devora los excrementos. Igualmente se alimenta de ninos no bautizados. El Lobisome recobra su fisionomia humana se alguien sin conocerlo lo hiere, pero se expone también a ser muérto por el mismo debido a que este monstruo tratará de exterminar por todos los medios al que lo libra de su malefício. Libra-se de la fatalidad de ser Lobizón si se lo bautiza com el nombre de Benito – dice D. Granada – y si el padriznago lo realiza el mayor de los siete hermanos.

1- Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

2- Denominação, na França, do jogo de crianças “Seu Lobo está pronto?”

3- Região da França.

4- Um dos livros do Antigo Testamento

5- Dos acadianus, povos da Babilônia, antes do domínio assírio.

6- Estrela de seis pontas, formada por dois triângulos de metal, superpostos.

Lobisomem: assombração e realidade
Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/bibliografia-estrangeira-sobre-lobisomens/

Adam Weishaupt e os Illuminati

Robert Anton Wilson

Lição #1 do Maybe Logic Academy

A CORPO

“Raramente se faz a pergunta: Nossos filhos estão aprendendo?”
-George W. Bush

“O único livro que você tem que ler é O Poderoso Chefão. Essa é a única obra que conta como o mundo é realmente governado”.
– Roberto Calvi, Presidente, Banco Ambrosiano; esticada, Londres, 18/06/1982

Adam Weishaupt fundou — ou reviveu — a secreta Ordem dos Illuminati em 1º de maio de 1776; isso parece um fato histórico. Todo o resto permanece disputado e acaloradamente controverso.

A maioria dos historiadores acredita que os Illuminati originalmente recrutavam apenas maçons de alto grau, e desde então em todas as gerações desde 1785 – quando o governo da Baviera descobriu e proibiu os Illuminati – os maçons enfrentam a acusação de que permanecem “sob controle dos Illuminati”.

Todos negam, é claro.

Bem, nem todos. Um maçom escocês, John Robison, em suas Proofs of a Conspiracy [1801], afirmou que os malditos Illuminati haviam conquistado a Maçonaria da Europa Continental; ele escreveu principalmente para alertar as lojas da Inglaterra, Escócia e Irlanda contra um golpe semelhante.

Desde Robison, o debate Maçônico/Illuminati inclui aqueles que pensam que os Weishauptianos tomaram conta de todas as Lojas Maçonicas, aqueles  que como Robison pensam que só se infiltraram em algumas, e aqueles, incluindo a Enciclopédia Britânica, que vêem o Iluminatti como um “grupo de curta duração que viveu o movimento do livre pensamento republicano” e que nunca teve uma grande influência na Maçonaria – ou em qualquer outra coisa.

Mas o debate Illuminati cobre um terreno muito maior do que isso.

Por exemplo: Kris Millegan em seu Fleshing Out Skull & Bones apresenta a sociedade de Yale como um ramo dos Illuminati. Caso você não saiba, alguns Bonesmen proeminentes incluíram Bush I, Bush II, Henry Luce of Time, Justice Potter Stewart e um elenco de estrelas dos chefões dos bancos, imprensa e política norte-americanas, e a maioria dos diretores de a CIA… ah sim, e John Kerry.

Tem certeza que você realmente quer saber mais sobre isso?

De outro ângulo, Akron Daraul, em sua History of Secret Societies, argumenta que Weishaupt não inventou, mas apenas renovou os Illuminati, que ele relaciona a movimentos anteriores conhecidos como Der Begriff Feme (Alemanha), Allubrados (Espanha), Roshinaya (Pérsia). etc.; enquanto o mais exuberante John Steinbacher em Novus Ordo Seclorum os rastreia até o Jardim do Éden! Eles foram fundados, diz ele, por Caim, não são do casamento sagrado de Adão e Eva, mas de um acoplamento ilícito e satânico entre Eva e a Serpente. Que tal isso para os tabloides? Bestialidade, satanismo e todos os temas para um novo filme de Arquivo X.

Enquanto isso, a História da Magia de Eliphas Levi traça os Illuminati de volta a Zaratustra e afirma que sua doutrina secreta chegou a Weishaupt via maniqueísmo, os Cavaleiros Templários e a Maçonaria. Isso os coloca como parte da mesma tradição oculta que Giordano Bruno, Dr. John Dee, Aleister Crowley e dos Sufis do Islã.

Mas na quarta ou quinta versão, uma pesquisadora britânica chamada Nesta Webster vê os Illuminati como os cérebros por trás do socialismo, comunismo, anarquismo e do governo prussiano de 1776 a 1918. [Ela escreveu logo após a primeira guerra da Inglaterra com o Prússia.]

Na sexta versão, J.F.,C. Moore argumenta que os Illuminati, uma fonte secreta do ocultismo fascista, inspiraram personagens tão estranhos como Aaron Burr, Adolf Hitler e J. Edgar Hoover; mas os moluscos Philip Campbell Argyle-Smith são invasores extraterrestres do planeta Vulcano. Eles se autodenominam “judeus” neste planeta, acrescenta. Se isso significa que todos os judeus “são” vulcanos ou apenas alguns deles, parece incerto para mim, mas o vulcano mais famoso, Sr. Spock, “é” judeu na medida em que ser interpretado por um ator judeu o torna pelo menos parcialmente “judeu”. o que quer que isso signifique. Talvez Argyle-Smith tenha visto muitos filmes de Star Trek.

Ele também credita aos Vulcanos Iluminados a gestão dos bandidos da Índia, os sionistas em Israel, os bancos Rothschild, a Internacional Comunista, a Sociedade Teosófica, a Maçonaria e os Assassinos do Afeganistão medieval. Não sei por que deixou de fora George Bush e a Al Qaeda; provavelmente ele só escreveu cedo demais.

Outra teoria dos Illuminati cósmicos apareceu no East Village em junho de 1969; incluía Skull & Bones, os Rothschilds, a Nação do Islã [“Muçulmanos Negros”], Richard Nixon, os Panteras Negras, o Bank of America, os Rosacruzes, o Der Begriff Feme, o Federal Reserve e o Combine’s Fog Machine. Esse deve conter algumas piadas escondidas [espero].

De acordo com o RogerSpark, um jornal radical de Chicago [julho de 1969] Weishaupt realmente assassinou George Washington e serviu em seu lugar por seus dois mandatos como presidente. [Então, quem escreveu os livros de Weishaupt? Hegel talvez; eles soam como dele às vezes……]

A John Birch Society, é claro, tem uma visão diferente sobre tudo isso. De acordo com Gary Allen, editor de sua revista de notícias, American Opinion, Adam Weishaupt “era” um “monstro”, mas os Illuminati só ficaram realmente monstruosos após sua captura pelo aventureiro/bilionário inglês Cecil Rhodes, que o usou para estabelecer o domínio britânico no mundo. O Conselho de Relações Exteriores atua como sua “frente” mais importante nos EUA. hoje, de acordo com Allen.

Sandra Glass, no entanto, pensa nos Illuminati como um grupo de maconheiros clandestinos que incluíam os Assassinos medievais, Weishaupt, Goethe, Washington, o primeiro grande Richard Daly de Chicago e Ludvig van Beethoven. “Beethoven?” você pode bufar. Bem, curiosamente, uma biografia recente, acadêmica e não conspiratória do grande Ludwig van, de Maynard Solmon, diz que o Sr. B escreveu algumas de suas músicas sob encomenda dos Illuminati e tinha muitos amigos na própria Ordem. Solomon não menciona a maconha, no entanto; talvez Ludvig, como um presidente recente com uma ereção perpétua, não tenha tragado.

Então, novamente, Adam Gorightly em The Prankster and the Conspiracy afirma que todas as pesquisas recentes dos Illuminati [pós-1960] se tornaram confusas e caóticas por causa de uma conspiração falsa, também chamada de Illuminati, fundada por Kerry Thornley, um homem acusado de envolvimento em o assassinato de JFK por Nova Orleans D.A. Jim Garrison. De acordo com Gorightly, esse neo-Illuminati visa apenas atormentar e zombar dos esforços de pesquisadores de conspiração sinceros, e ele até acusa o autor deste ensaio [eu, R.A.W.] de envolvimento nessa conspiração diabólica!

Eu, é claro, me recuso a dignificar essa acusação absurda com uma negação, na qual ninguém acreditaria de qualquer maneira. Além disso, como o Rev. Ivan Stang da Igreja do Subgenius diz em Maybe Logic: “Bem, se eu fosse um membro dos Illuminati, não confessaria isso, certo?”

O ANTICORPO

“Não somos vítimas do mundo que vemos, somos vítimas da forma como vemos o mundo.”
— Dennis Kucinich

“Acho que Deus está nos mandando um recado: “Se você não aguenta uma piada, vá se foder”.
-Woody Allen

O que podemos revelar sobre o “real” Adam Weishaupt e os “reais” Illuminati?

Um livro funciona como um espelho, alguém disse uma vez: quando um macaco olha para dentro, nenhum filósofo olha para fora. Posso apenas dizer-lhe o que essa teoria me parece; outros, tenho certeza, encontrarão outras coisas nele – incluindo referências codificadas a Vulcanos, Skull and Bones, Zaratustra, a Der Begriff Feme, comunismo, Maria Madalena, o Federal Reserve, a Combine’s Fog Machine e outros.

Para mim, parece apoiar a mais cautelosa e conservadora de minhas fontes, a Enciclopédia Britânica, e o velho Adam se parece muito com um cansado defensor do “livre pensamento republicano”, estilo do século XVIII. Em outras palavras, ele parece um parente distante, filosoficamente falando, de Adam Smith, Hume, Voltaire, Jefferson, Franklin, Tom Paine – ou seja, de todas essas ideias libertárias atualmente tão fora de moda neste país quanto na Baviera na época de Weishaupt. Eu sei por que ele parece cansado para mim: tentar ensinar a libertação a pessoas que se sentem reconciliadas com sua escravidão pode realmente esmagar você, seja em 1804 ou em 2004.

Também acho que vejo uma influência de Kant, e talvez um prenúncio de Hegel, na estrutura semântica continuamente usada por Weishaupt – “X parece verdadeiro; não-X também parece verdadeiro; teremos que pensar mais sobre isso.” Tomás de Aquino fez o mesmo truque, mas sempre fica do lado da ortodoxia segura om sabor papista. Weishaupt joga a bola de volta para o leitor, embora você nem sempre o pegue fazendo isso.

Não vejo nenhuma prova conclusiva de que os Illuminati planejaram algo nefasto ou mesmo ilegal, exceto na medida em que o próprio pensamento livre permaneceu ilegal no sul da Europa. Mas também não vejo nenhuma prova conclusiva de que eles não fariam e não poderiam e não fizeram coisas desagradáveis. Como uma sociedade secreta escondida dentro da sociedade secreta da Maçonaria, os Illuminati sempre permanecerão um tanto misteriosos, e pedantes e paranóicos discutirão sobre isso até que o último bando desembarque.

Talvez Tom Jefferson tenha acertado quando disse que as sociedades secretas pareciam necessárias na Europa, assombradas pela monarquia e pelo papismo, mas não nos Estados Unidos. Certamente, enquanto a Constituição Americana permaneceu a lei nesta terra nenhuma pessoa sã sentiria a necessidade de sociedades secretas aqui. Atrevo-me a acrescentar “Mas e  agora com a Constituição em suspensão criogênica“? Não: é melhor eu não ir por ai… melhor prevenir do que remediar…

Por outro lado, não apenas as sociedades secretas, mas o próprio sigilo ou mesmo a privacidade parecem cada vez mais impossíveis sob o reinado de George III.

Eles têm câmeras escondidas em todos os lugares.

Eles grampeiam nossos telefones.

Se eles quiserem, eles podem “ler” cada pressionamento de tecla no meu computador, incluindo este:

Eles podem até bisbilhotar o conteúdo de nossas bexigas, em testes aleatórios explicitamente proibidos por aquela Constituição maravilhosa e moribunda. Doce Jesus de luto, não há lugar para onde possamos escapar ou nos esconder ou nos sentirmos sozinhos, não é?

Às vezes, me revirando e tentando dormir de madrugada, exploro as ideias rejeitadas pela minha cética mente desperta. Talvez as fantasias mais paranóicas sobre os Illuminati contenham alguma verdade… pode ser…

Talvez o Olho Que Tudo Vê na nota de dólar represente o estado totalmente fascista que esses bastardos querem.

Talvez todos aqueles discursos na Internet sobre Skull and Bones servindo como recrutador para os Illuminati tenha alguma base de fato, afinal.

Talvez devêssemos realmente nos preocupar quando a escolha na próxima eleição permanecer limitada a dois homens ricos de Bonesmen… O que Weishaupt escreveu? – “Quem é rico – muito rico – pode fazer qualquer coisa…”.

Talvez devêssemos considerar “Illuminati” como um termo genérico ou uma metáfora?

Talvez toda estrutura de poder aja muito como as fantasias mais paranóicas sobre os Illuminati, especialmente quando se sente ameaçada.

Talvez você devesse ver o mundo como uma conspiração dirigida por um grupo muito unido de pessoas quase onipotentes.

Talvez você deveria pensar que esse grupo de pessoas sejam você e seus amigos.

Não, não – é assim que é a loucura, a esquizofrenia. Depois de um sono profundo, acordo, as sombras fogem e lembro que “tudo está bem neste melhor dos mundos possíveis”.

Voltaire não pretendia que isso fosse sarcasmo, pretendia?

Robert Anton Wilson
subterrâneo profundo
Em algum lugar nos EUA ocupados
23 de fevereiro de 2004

Leitura e visualização recomendadas:

  • Argyle-Smith, Philip Campbell — High IQ Bulletin, Colorado Springs 1970, IV, 1
  • Bauscher, Lance — MaybeLogic, http://www.maybelogic.com
  • Daraul, Akron — History of Secret Societies, Citadel Press NY, 1961.
  • Ellul, Jacques — Violence, Seabury Press, NY,1969.
  • Glass, Sandra — “The Conspiracy,” Teenset, March 1969.
  • Gorightly, Adam — The Prankster and the Conspiracy, ParaView Press, NY, 2003.
  • Gurwin, Larry — The Calvi Affair, Pan Books, London, 1984.
  • Knight, Stephen — The Brotherhood, Grenada, London, 1984.
  • Levi, Eliphas — History of Magic, Borden Publishing, Los Angeles, 1963.
  • Millegan, Kris — Fleshing Out Skull & Bones,Trineday, Walterville, OR, 2003.
  • Moore, J.f.C. — “The Nazi Religion,” Libertarian American, August 1969.
  • Morals, Vamberto — Short History of Anti-Semitism, Norton, NY, 1976.
  • Robison, John — Proofs of a Conspiracy, Christian Book Club, Hawthorn, CA, 1961.
  • Solomon, Maynard — Beethoven, Schirmer Books, NY, 1977.
  • Vankin, Jonathan — Conspiracies, Cover-Ups and Crimes, IllumiNet Press, Lillburn,GA, 1996.
  • Webster, Nesta — World Revolution, Constable, London, 1921.
  • Wilgus, Neal — The Illuminoids, Sun Press, Albuquerque NM, 1977.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/adam-weishaupt-e-os-illuminati/

Entrevista com Del Debbio no site Animus Libertus

Por Daniel Moricz

Era um fim de semana relativamente tranquilo e durante minhas pesquisas na internet me deparei com a Coluna Teoria de Conspiração no site Sedentários e Hiperátivos. Achei os posts interessantes e no fim das contas acabei devorando o material escrito, e passando para o site do autor, Marcelo Del Debbio, onde encontrei mais uma quantidade sem fim de posts. Marcelo Del Debbio é um cara polêmico, faz suas declarações e indagações com a coragem de poucos.Mas uma coisa é certa… quem lê material de Del Debbio, acaba tendo sua sede por mais conhecimento desperta. O Animus não podia perder a oportunidade de saber o ponto de vista de Marcelo sobre alguns dos assuntos que abordamos aqui. E sendo assim… segue abaixo uma esclarecedora entrevista. Um abraço a todos!

Nascido em 1974, é hoje considerado um dos maiores escritores de Role Playing Games do Brasil.

– Formado Arquiteto pela FAU-USP e com especializações em Semiótica, História da Arte e Urbanismo, Mestre de RPG com ênfase no uso do RPG na Educação e técnicas teatrais aplicadas ao RPG, escritor com mais de 45 títulos publicados e mais de duas centenas de artigos publicados em revistas.

– Autor do site www.deldebbio.com.br e colunista do site “Sedentário e Hiperativo” www.sedentario.org, onde escreve semanalmente sobre ocultismo e filosofia. Autor da Enciclopédia de Mitologia, e Editor chefe da Daemon Editora, a segunda maior editora de livros de RPG no Brasil.

– Membro Maçon, Frater Rosacruz e iniciado em diversas ordens, é conhecedor de Tarô, Runas, Kabbalah e Numerologia formado pelas escolas herméticas mais tradicionais do ocidente.

– Faixa-Preta (10º grau) de Kung Fu, praticante do estilo Louva-Deus Sete Estrelas e professor e praticante de Chi-Kung, modalidade de técnicas de kung fu que lidam com energia interna.

Animus – Com frequência, você indica em seus textos as obras básicas de Alan Kardec como importante estudo para aqueles que buscam o conhecimento. Chico Xavier também é citado algumas vezes de forma positiva. Gostaria de saber como você vê o material psicografado por Chico Xavier, principalmente no que se refere aos “Romances de Emmanuel”, série composta por obras como “Há 2000 anos” e “Paulo e Estevão” onde Jesus é descrito de forma muito mais parecida com o Jesus “Católico” do que com o Jesus “Histórico” ou Yeshua.

MDD – Acredito que tenha tido interferência da egrégora na qual ele estava ligado, ou que seja o ponto de vista daquela entidade/espírito, pois não é porque alguém está no astral que vai ter acesso a todas as informações que tinha no Físico. Muitas informações são passadas de acordo com o que a egrégora deseja e, naquele momento, o espiritismo precisava do apoio dos católicos, que formariam a grande massa dos espíritas de hoje em dia, e uma visão que fosse mais aceitável aos seus olhos seria a melhor forma de ampliar aquela egrégora.

Animus – Jogo rápido… Estaria o espiritismo de hoje muito influenciado pelo catolicismo? Sim ou não? Chico Xavier tem parte nisso? Sim ou não?

MDD – Sim. Muito. O Brasil é um país com mais de 88% de católicos. É natural que a imensa maioria dos espíritas tenha vindo deste movimento, e boa parte deles trazendo os dogmas e preconceitos inerentes de passar a vida toda sem pensar e aceitando o que lhes era imposto. Vejo muitos espíritas venerando Chico Xavier como se ele fosse um Santo Católico (não é “privilégio” dos kardecistas isso… vejo muita gente tendo a mesma atitude na Grande Fraternidade Branca, no Pró-Vida, na Gnosis e em outros lugares). Muito da visão católica se manifestou na tradução dos textos do francês para o português dos livros de Kardec, nas atitudes contra a Astrologia Hermética e contra a Umbanda. Até na visão dos livros do Kardec como se fossem “bíblias” espíritas…

Animus– Ainda no que se refere à obra “Paulo e Estevão”, que conta a história de Saulo de Tarso (São Paulo), durante o texto, Paulo se encontra com o espírito de Jesus e este momento se torna um divisor de águas em sua vida, levando-o a se transformar em Paulo, o apóstolo.
Como seria isso possível se Jesus não havia morrido na cruz, estaria Jesus se apresentando a ele através de projeção astral? E mais, há quem diga que foi Paulo quem criou a imagem de Jesus que vemos hoje. Outros, o tem como um espírito de altíssima elevação. Qual a sua visão de São Paulo Apóstolo?

MDD – É a visão daquela egrégora, que ficaria mais palatável ao público brasileiro e causaria menos problemas. Na verdade, Paulo teve uma visão que seria mais agradável aos romanos, que depois foi abraçada por Constantino, então, por tabela, ele é indiretamente responsável pela visão deste Cristo-Apolo que temos hoje na ICAR e nas evangélicas.

Animus – Fica claro em seus depoimentos o seu descontentamento com a igreja Católica. O passado da igreja Católica realmente a condena, tendo em vista que até mesmo o último Papa, João Paulo, pediu perdão pelas atrocidades cometidas. As igrejas evangélicas, principalmente as caça-níqueis, também não lhe agradam (e a mim também não). No entanto, tenho o prazer de conhecer alguns padres e pastores destas igrejas que são pessoas boníssimas e que trabalham incessantemente em prol do próximo e no bem. Muitas vezes indo fazer caridade onde poucos espiritas, por exemplo, arriscariam ir. Será que estas instituições não tem também seu lado bom? Será que estes padres e pastores não acreditam mesmo no trabalho que está sendo feito como a obra de Deus? Ou será que todos eles tem conhecimento de todo o processo por trás destas instituições, de todas as histórias, que como foi citado no www.sedentario.org, foram inventadas para manter o controle e o poder sobre as pessoas através do medo e ainda assim continuam seguindo em frente? Resumindo, seriam eles controlados ou controladores?

MDD – Existem pastores e padres de boa-fé, que realmente acreditam estar fazendo o trabalho do velhinho barbudo e que conquistarão o seu “espaço no céu” quando morrerem. E fazem o que fazem de coração. Não são muitos, mas existem. Essas pessoas estão se enganando e enganando os fiéis, porque ficam mergulhados em dogmas e serão conflitados com eles quando morrerem. Já vi muitos cardeais e padres fazendo ataques astrais em centros espíritas, ou então revoltados em Igrejas da IURD após sua morte (sendo tratados como falsários de satanás quando conseguiam incorporar em algum médium inconsciente no público, claro!). Alguns são espíritos mais evoluídos que escolheram vir à Terra com pouca instrução para atender justamente a este publico sem estudos ou instrução. Seguem o que chamamos de “Via Úmida” da Árvore da Vida e, após suas mortes no Plano Físico, entenderão sua missão e continuarão o progresso.

Animus– Agora falando sobre os frequentadores das igrejas católicas e evangélicas. É comum ouvirmos nos centros espíritas frases do tipo: “Todos estão exatamente onde devem estar, afinal, não há coincidência”. Segundo alguns espíritas principalmente, se uma pessoa frequenta a igreja evangélica e se submete ao controle através do medo do demônio e ao pagamento de dízimos descabidos, isso é porque se trata de um espírito ainda muito rebelde, que tem dificuldade em se manter no caminho do bem por si só, e que estas religiões serviriam como um controle necessário a estes indivíduos, para que eventualmente, em outras reencarnações possam buscar a iluminação sozinhos e fazer o bem porque sabem que é o certo. Você concorda com estas afirmações? Até que ponto?

MDD – Concordo sim. É muita pretensão achar que um iletrado ignorante teria capacidade para seguir os Exercícios de Franz Bardon, por exemplo. Para aquela classe de espíritos, é melhor e mais condizente com o estado de consciência dele ouvir um “faça o bem ou vá para o inferno!” que estará mais em sintonia com o que aquelas pessoas entendem. Mais cedo ou mais tarde, migrarão para sendas mais adaptadas ao seu nível intelectual e espiritual.

Animus – O Santo Daime é uma religião tipicamente brasileira, mas conta com influências diversas. O Sacramento utilizado é a Ayahuasca, cuja história remete aos Incas, Maias e quiçá até aos Atlantes. O conteúdo doutrinário sofre clara influência da igreja católica, sendo que os trabalhos principais são realizados em dias de santos, como Santo Antônio e São José. Além disso, diversos hinos, inclusive no principal hinário, do Mestre Irineu, se referem a seguir a linha espirita, a seres espirituais e a reencarnação. Como você enxerga a doutrina do Santo Daime?

MDD – Infelizmente, em muitos lugares acabou virando uma mistureba. A Ayahuasca é uma erva que serve para despertar o Caminho 32, conectando a matéria ao astral. Infelizmente, o ser humano só consegue profanar tudo o que coloca as mãos e conseguiu deturpar até mesmo o uso destes chás como conexão com o divino.

Os piores exemplos são a mistura do chá com cocaína (Santa Clara), Maconha (Santa Maria) e crack (São Pedro) com essa desculpa esfarrapada de entrar em estados alterados de consciência que existem em alguns lugares por ai. Os daimistas não são pessoas más, como as igrejas e até mesmo os espíritas ficam falando, mas em geral são muito pouco estudados e informados sobre o que estão fazendo. Acabam se tornando “crentes de Daime” quando deveriam estudar e pesquisar mais e entender aquilo que estão fazendo ali: suas consequências e implicações.

Se a pessoa estuda e pesquisa; não só vai tomar chá, esse sim acaba conseguindo respostas.

Foi em uma das meditações com ayahuasca que eu consegui enxergar a Arvore da Vida completa, com todos os deuses e todos os encaixes que faltavam no final da pesquisa da enciclopédia. Sem aquela visão, eu não me animaria tanto a começar a escrever o Blog…

Animus – Falando ainda do Santo Daime, mirações (visões recebidas dentro dos trabalhos) recorrentes entre os participantes são de pirâmides, do Egito antigo e de templos. Como isso pode estar associado ao ocultismo e ao conhecimento milenar da busca por iluminação?

MDD – Pode… ou pode estar dentro da cabeça do sujeito, influenciado pela mistureba que se faz ali. Poucas pessoas têm tantas encarnações assim na Terra para se lembrarem de “pirâmides do Egito” e menos ainda tem autorização para se lembrar destas encarnações tão antigas. A maioria dos que tem essas visões são apenas frutos de fantasia, construções mentais e desejos da própria pessoa.

Animus – Finalmente, gostaria que você falasse um pouco sobre suas obras publicadas, como a Enciclopédia de Mitologia, onde podemos encontrar seus livros e que você deixasse uma dica para aqueles que buscam o conhecimento e a verdade.

MDD – A Enciclopédia de Mitologia é um dos trabalhos mais importantes no meio acadêmico com relação à pesquisa de múltiplas mitologias em uma linguagem fácil e acessível ao buscador. Embora atualmente eu esteja gostando mais de escrever para o Blog (www.deldebbio.com.br) e some mais de 900 textos sobre alquimia, maçonaria, Rosacruz, hermetismo, astrologia hermética e muitos outros assuntos de interesse do buscador que esteja em qualquer senda.

A dica é: nunca pare de estudar… nunca esteja satisfeito com aquilo que falaram para você. Procure conhecer todas as vertentes e todas as posições, mesmo se forem de Ateuzinhos de Dawkins ou Crentes Criacionistas.

Nota do Animus Libertus: Atenção, o uso concomitante de Daime (Ayahuasca) e qualquer outra substância, principalmente ilegal é TOTALMENTE PROIBIDO dentro da doutrina em todas suas vertentes. O verdadeiro Daimista sabe que para alcançar a iluminação e seguir a lei de Deus, primeiramente é necessário estar puro em estado de consciência e seguir a lei dos homens. O uso de qualquer droga juntamente com o Daime não é aprovado pela dotrina e definitivamente não faz parte da mesma.

#Entrevista

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/entrevista-com-del-debbio-no-site-animus-libertus

A Natureza da Consciência (parte-2)

Alan Watts

Bem, agora, na primeira sessão desta tarde, eu estava discutindo dois dos grandes mitos ou modelos do universo, que estão na base intelectual e psicológica de todos nós. O mito do mundo como um estado político monárquico no qual estamos todos aqui sofrendo como sujeitos a Deus. Em que somos artefatos FEITOS, que não existem por direito próprio. Somente Deus, no primeiro mito, existe por direito próprio, e você existe como um favor, e você deve ser grato. Como seus pais vêm e dizem para você: ‘Olhe para todas as coisas que fizemos por você, todo o dinheiro que gastamos para mandá-lo para a faculdade, e você se torna um beatnik. Você é uma criança miserável e ingrata. E você deveria dizer, ‘Desculpe, sou mesmo’ Você está definitivamente na posição de liberdade condicional. Isso surge de toda a nossa atitude em relação às crianças, pela qual não reconhecemos realmente que elas são humanas. Em vez disso, quando uma criança vem ao mundo, e assim que ela pode se comunicar de alguma forma, falar a linguagem, você deve dizer a uma criança: ‘Como você está? Bem-vindo a raça humana. Agora minha querida, estamos jogando um jogo muito complicado, e vamos explicar as regras para você. E quando você aprender essas regras e entender o que elas são, poderá inventar outras melhores. Mas, enquanto isso, é isso que estamos fazendo.

Em vez disso, ou tratamos uma criança com uma espécie de atitude ‘blá-blá-blá’, ou ‘coochy-coochie’, sabe? e não tratamos como um ser humano – mas como uma espécie de boneca. Ou então como um incômodo. E assim todos nós, tendo sido tratados dessa forma, levamos para a vida adulta a sensação de estarmos em liberdade condicional aqui também. Ou o deus é alguém que nos diz ‘coochy-coochie’, ou ‘blah-blah-blah’. E esse é o sentimento que carregamos. Então essa ideia do deus real, o rei dos reis e o senhor dos senhores que herdamos das estruturas políticas das culturas do Tigres-Eufrates e do Egito. O faraó, Amenhotep IV é provavelmente, como sugeriu Freud, o autor original do monoteísmo de Moisés, e certamente o código da lei judaica vem de Hammarabi na Caldéia. E esses homens viviam em uma cultura onde a pirâmide e o zigurate – o zigurate é a versão caldéia da pirâmide, indicando de alguma forma uma hierarquia de poder, do chefe para baixo. E Deus, neste primeiro mito que estamos discutindo, o mito da cerâmica é o chefe, e a ideia de Deus é que o universo é governado de cima.

Mas você vê, este paralelo – anda de mãos dadas com a idéia de que você governa seu próprio corpo. Que o ego, que fica em algum lugar entre as orelhas e atrás dos olhos no cérebro, é o governante do corpo. E assim não podemos entender um sistema de ordem, um sistema de vida, no qual não haja um governante. ‘Ó Senhor, nosso governador, quão excelente é o teu nome em todo o mundo.’

Mas supondo, ao contrário, que possa haver um sistema que não tenha um governador. É isso que devemos ter nesta sociedade. Devemos ser uma democracia e uma república. E devemos governar a nós mesmos. Como eu disse, é tão engraçado que os americanos possam ser politicamente republicanos – não quero dizer republicanos no sentido partidário – e ainda religiosamente monárquicos. É uma contradição muito estranha.

Então, o que é esse universo? É uma monarquia? É uma república? É um mecanismo? Ou um organismo? Porque você vê, se é um mecanismo, ou é um mero mecanismo, como no modelo totalmente automático, ou então é um mecanismo sob o controle de um motorista. Um mecânico. Se não for isso, é um organismo, e um organismo é uma coisa que se governa. Em seu corpo não há chefe. Você poderia argumentar, por exemplo, que o cérebro é um dispositivo desenvolvido pelo estômago, a fim de servir ao estômago para obter comida. Ou você pode argumentar que o estômago é um dispositivo desenvolvido pelo cérebro para alimentá-lo e mantê-lo vivo. De quem é esse jogo? É o jogo do cérebro ou o jogo do estômago? Eles são mútuos. O cérebro implica o estômago e o estômago implica o cérebro, e nenhum deles é o chefe.

Você conhece aquela história sobre todos os membros do corpo. A mão disse ‘nós fazemos todo o nosso trabalho’, os pés diziam ‘nós fazemos o nosso trabalho’, a boca dizia ‘nós mastigamos tudo, e aqui está este estômago preguiçoso que só consegue tudo e não faz nada’. Ele não fez nenhum trabalho, então vamos fazer greve. E as mãos se recusavam a carregar, os pés se recusavam a andar, os dentes se recusavam a mastigar, e diziam ‘Agora estamos em greve contra o estômago’. Mas depois de um tempo, todos eles se viram cada vez mais fracos e mais fracos, porque não perceberam que o estômago os alimentava.

Portanto, existe a possibilidade de não estarmos no tipo de sistema que esses dois mitos delineiam. Que não estamos vivendo em um mundo onde nós mesmos, no sentido mais profundo do eu, estão fora da realidade, e de alguma forma em uma posição que temos que nos curvar a ela e dizer ‘Como um grande favor, por favor, preserve-nos na existência.’ Tampouco estamos em um sistema que é meramente mecânico, e que não somos nada além de acasos, presos na fiação elétrica de um sistema nervoso que é fundamentalmente organizado de maneira bastante ineficiente. Qual é a alternativa? Bem, poderíamos colocar a alternativa em outra imagem, e chamarei isso não de imagem cerâmica, nem de imagem totalmente automática, mas de imagem dramática. Considere o mundo como um drama. Qual é a base de todo drama? A base de todas as histórias, de todos os enredos, de todos os acontecimentos – é o jogo de esconde-esconde. Você ganha um bebê, qual é o primeiro jogo fundamental que você joga com um bebê? Você coloca um livro na frente do seu rosto e espia o bebê. O bebê começa a rir. Porque o bebê está próximo das origens da vida; vem do útero realmente sabendo do que se trata, mas não consegue colocar em palavras. Veja, o que todo psicólogo infantil realmente quer saber é fazer um bebê falar jargão psicológico e explicar como se sente. Mas o bebê sabe; você faz isso, isso, isso e isso, e o bebê começa a rir, porque o bebê é uma encarnação recente de Deus. E o bebê sabe, portanto, que esconde-esconde é o jogo básico.

Veja, quando éramos crianças, nos ensinaram ‘1, 2, 3’ e ‘A, B, C’, mas não fomos colocados nos joelhos de nossas mães e ensinado o jogo de preto e branco. Essa é a coisa que foi deixada de fora de todas as nossas educações, o jogo que eu estava tentando explicar com esses diagramas de ondas. Que a vida não é um conflito entre opostos, mas uma polaridade. A diferença entre um conflito e uma polaridade é simplesmente – quando você pensa em coisas opostas, às vezes usamos a expressão, ‘Essas duas coisas são os pólos separados.’ Você diz, por exemplo, sobre alguém de quem discorda totalmente: ‘Eu sou o pólo oposto dessa pessoa’. Mas é seu próprio dizer que dá o show. Pólos. Os pólos são as extremidades opostas de um ímã. E se você pegar um ímã, digamos que você tenha uma barra magnetizada, há um pólo norte e um pólo sul. Certo, corte o pólo sul, afaste-o. A peça que sobrou cria um novo pólo sul. Você nunca se livra do pólo sul. Então, o ponto sobre um ímã é que as coisas podem estar nos pólos, mas elas andam juntas. Você não pode ter um sem o outro. Estamos imaginando um diagrama do universo em que a ideia de polaridade são as extremidades opostas do diâmetro, norte e sul, entende? Essa é a ideia básica da polaridade, mas o que estamos tentando imaginar é o encontro de forças que vêm de reinos absolutamente opostos, que não têm nada em comum. Quando dizemos que dois tipos de personalidade são pólos opostos. Estamos tentando pensar excentricamente, em vez de concentricamente. E assim, não percebemos que a vida e a morte, preto e branco, bem e mal, ser e não ser, vêm do mesmo centro. Eles implicam um ao outro, de modo que você não conheceria um sem o outro.

Agora eu não estou dizendo que isso é ruim, isso é divertido. Você está jogando o jogo que você não sabe que preto e branco implicam um ao outro. Portanto, você pensa que o preto pode vencer, que a luz pode se apagar, que o som pode nunca mais ser ouvido. Que poderia haver a possibilidade de um universo de pura tragédia, de escuridão sem fim. Não seria horrível? Só que você não saberia que foi horrível, se foi isso que aconteceu. O ponto que todos esquecemos é que o preto e o branco andam juntos, e não existe um sem o outro. Ao mesmo tempo nós esquecemos, da mesma forma que esquecemos que esses dois andam juntos.

A outra coisa que esquecemos é que o eu e o outro andam juntos, exatamente da mesma maneira que os dois pólos de um ímã. Você diz ‘Eu, eu mesmo; Eu sou eu; Eu sou este indivíduo; Eu sou esta instância particular e única.’ O que é outro é todo o resto. Todos vocês, todas as estrelas, todas as galáxias, caminho, caminho para o espaço infinito, isso é outro. Mas da mesma forma que preto implica branco, eu implica outro. E você não existe sem tudo isso, então onde você obtém essas polaridades, você obtém esse tipo de diferença, que o que chamamos explicitamente, ou exotericamente, elas são diferentes. Mas implicitamente, esotericamente, eles são um. Como você não pode ter um sem o outro, isso mostra que há uma espécie de conspiração interna entre todos os pares de opostos, que não está aberta, mas é tácita. É como se você dissesse ‘Bem, há todo tipo de coisa que entendemos uns dos outros tacitamente, que não queremos admitir, mas reconhecemos que há uma espécie de segredo entre nós, meninos e meninas’, ou seja lá o que for. E nós reconhecemos isso. Então, tacitamente, todos vocês realmente sabem interiormente – embora não admitam isso porque sua cultura os treinou em uma direção contrária – todos vocês realmente sabem interiormente que vocês como um eu individual são inseparáveis ​​de tudo o mais que existe. , que você é um caso particular no universo. Mas todo o jogo, especialmente da cultura ocidental, é esconder isso de nós mesmos, de modo que quando alguém em nossa cultura caia no estado de consciência em que de repente descobre que isso é verdade, e eles vêm e dizem ‘Eu sou Deus ‘, dizemos ‘Você é louco’.

Agora, é muito difícil – você pode facilmente escorregar para o estado de consciência onde você sente que é Deus; Isso pode acontecer a qualquer um. Da mesma forma que você pode pegar uma gripe, ou sarampo, ou algo assim, você pode escorregar para este estado de consciência. E quando você consegue isso, depende de sua formação e de seu treinamento sobre como você vai interpretá-lo. Se você tem a ideia de deus que vem do cristianismo popular, Deus como o governador, o chefe político do mundo, e você pensa que é Deus, então você diz a todos: ‘Você deveria se curvar e me adorar. ‘ Mas se você é um membro da cultura hindu e de repente diz a todos os seus amigos ‘Eu sou Deus’, em vez de dizer ‘Você é louco’, eles dizem ‘Parabéns! Finalmente, você descobriu. Porque sua idéia de deus não é o governador autocrático. Quando fazem imagens de Shiva, ele tem dez braços. Como você usaria dez braços? Já é difícil o suficiente para nós usar dois. Como naquela brincadeira que você tem que usar seus dois pés e suas duas mãos, e você toca ritmos diferentes com cada membro. É meio complicado. Mas, na verdade, somos todos mestres nisso, porque como você faz crescer cada cabelo sem ter que pensar nisso? Cada nervo? Como você bate seu coração e digere com seu estômago ao mesmo tempo? Você não precisa pensar sobre isso. Em seu próprio corpo, você é onipotente no verdadeiro sentido de onipotência, ou seja, você é capaz de ser onipotente; você é capaz de fazer todas essas coisas sem ter que pensar nisso.

Quando eu era criança, costumava fazer à minha mãe todo tipo de perguntas ridículas, que é claro que toda criança faz, e quando ela se cansou das minhas perguntas, ela disse: ‘Querido, existem algumas coisas que não devemos conhecer.’ Eu disse ‘Será que algum dia saberemos?’ Ela disse: ‘Sim, claro, quando morrermos e formos para o céu, Deus tornará tudo claro.’ Então eu costumava imaginar em tardes molhadas no céu, todos nós nos sentávamos ao redor do trono da graça e dizíamos a Deus, ‘Bem, por que você fez isso, e por que você fez aquilo?’ e ele nos explicava. ‘Pai Celestial, por que as folhas estão verdes?’ e ele dizia ‘Por causa da clorofila’, e nós dizíamos ‘Oh’. Mas no universo hindu, você diria a Deus: ‘Como você fez as montanhas?’ e ele dizia ‘Bem, eu acabei de fazer isso. Porque quando você está me perguntando como eu fiz as montanhas, você está me pedindo para descrever em palavras como eu fiz as montanhas, e não há palavras que possam fazer isso. Palavras não podem dizer como eu fiz as montanhas mais do que eu posso beber o oceano com um garfo. Um garfo pode ser útil para enfiar um pedaço de alguma coisa e comê-lo, mas não serve para absorver o oceano. Levaria milhões de anos. Em outras palavras, levaria milhões de anos, e você ficaria entediado com a minha descrição, muito antes de eu terminar, se eu colocasse em palavras, porque eu não criei as montanhas com palavras, eu apenas criei isto. Como você abre e fecha sua mão. Você sabe como você faz isso, mas você pode descrever em palavras como você faz isso? Mesmo um fisiologista muito bom não pode descrevê-lo em palavras. Mas você faz isso. Você está consciente, não está. Você não sabe como consegue ser consciente? Você sabe como você bate seu coração? Você pode dizer em palavras, explicar corretamente como isso é feito? Você faz isso, mas não pode colocar em palavras, porque as palavras são muito desajeitadas, mas você administra isso com habilidade enquanto for capaz de fazê-lo.

Mas você vê, nós estamos jogando um jogo. O jogo funciona assim: a única coisa que você realmente sabe é o que pode colocar em palavras. Vamos supor que eu ame uma garota, arrebatada, e alguém me diga: ‘Você realmente a ama?’ Bem, como vou provar isso? Eles dirão: ‘Escreva poesia. Diga-nos a todos o quanto você a ama. Então vamos acreditar em você. Então se eu sou um artista, e posso colocar isso em palavras, e posso convencer todo mundo que eu escrevi a carta de amor mais extasiada já escrita, eles dizem ‘Tudo bem, ok, nós admitimos, você realmente a ama.’ Mas supondo que você não seja muito articulado,  significa que você NÃO a ama? Certamente não. Você não precisa ser Heloísa e Abyla para se apaixonar. Mas todo o jogo que nossa cultura está jogando é que nada realmente acontece a menos que esteja no jornal. Então, quando estamos em uma festa, e é uma grande festa, alguém diz ‘Pena que não trouxemos uma câmera. Pena que não havia um gravador. E assim nossos filhos começam a sentir que não existem autenticamente a menos que coloquem seus nomes nos jornais, e a maneira mais rápida de colocar seu nome nos jornais é cometer um crime. Então você será fotografado, e você aparecerá no tribunal, e todos irão notá-lo. E você está LÁ. Então você não está lá a menos que esteja gravado. Isso só realmente aconteceu se foi gravado.

Em outras palavras, se você gritar e não voltar e ecoar, não aconteceu. Bem, isso é um problema real. É verdade, a diversão com ecos; todos nós gostamos de cantar na banheira, porque há mais ressonância lá. E quando tocamos um instrumento musical, como violino ou violoncelo, ele tem uma caixa de ressonância, porque isso dá ressonância ao som. E da mesma forma, o córtex do cérebro humano nos permite quando estamos felizes saber que estamos felizes, e isso dá uma certa ressonância a ele. Se você está feliz e não sabe que está feliz, não há ninguém em casa.

Mas este é todo o problema para nós. Vários milhares de anos atrás, os seres humanos involuíram o sistema de autoconsciência, e eles sabiam:

Houve um jovem que disse ’embora
Pareça que eu saiba que eu sei,
O que eu gostaria de ver
É o Eu que me vê
Quando eu sei que eu sei que eu sei.’

E Agora, então, você entende que isso é simultaneamente uma vantagem e uma terrível desvantagem? O que aconteceu aqui é que tendo um certo tipo de consciência, um certo tipo de consciência reflexiva – estar ciente de estar ciente. Ser capaz de representar o que acontece fundamentalmente em termos de um sistema de símbolos, como palavras, como números. Você coloca, por assim dizer, duas vidas juntas ao mesmo tempo, uma representando a outra. Os símbolos representando a realidade, o dinheiro representando a riqueza, e se você não perceber que o símbolo é realmente secundário, ele não tem o mesmo valor. As pessoas vão ao supermercado, e pegam um carrinho cheio de guloseimas e, então o balconista arruma o balcão e sai uma fita longa, e ele diz ‘US$ 30, por favor’ e todo mundo se sente deprimido, porque eles dão US$ 30 em papel, mas eles têm um carrinho cheio de guloseimas. Eles não pensam nisso, eles acham que acabaram de perder $30. Mas você tem a verdadeira riqueza no carrinho, tudo o que você separou é do papel. Porque o papel em nosso sistema se torna mais valioso que a riqueza. Ele representa poder, potencialidade, enquanto a riqueza, você pensa, tudo bem, isso é apenas necessário; você tem que comer. Isso é para ser realmente misturado. Então. Se você despertar dessa ilusão e entender que preto implica branco, eu implica outro, vida implica morte – ou devo dizer, morte implica vida – você pode conceber a si mesmo. Não conceba, mas SINTA-SE, não como um estranho no mundo, não como alguém aqui em sofrimento, em provação, não como algo que chegou aqui por acaso, mas você pode começar a sentir sua própria existência como absolutamente fundamental. O que você é basicamente, no fundo, no fundo, no fundo, é simplesmente o tecido e a estrutura da própria existência. Então, digamos na mitologia hindu, eles dizem que o mundo é o drama de Deus. Deus não é algo na mitologia hindu com uma barba branca que se senta em um trono, que tem prerrogativas reais. Deus na mitologia indiana é o eu, ‘Satchitananda’. O que significa ‘sat’, o que é, ‘chit’, o que é consciência; o que é ‘ananda’ é bem-aventurança. Em outras palavras, o que existe, a própria realidade é linda, é a plenitude da alegria total. Uau! E todas aquelas estrelas, se você olhar para o céu, é uma queima de fogos como você vê no dia 4 de julho, que é uma grande ocasião para celebração; o universo é uma festa, é um fogo de artifício para celebrar que a existência. Uau.

E então eles dizem: ‘Mas, no entanto, não faz sentido apenas sustentar a bem-aventurança.’ Vamos supor que você fosse capaz, todas as noites, de sonhar qualquer sonho que quisesse, e que você pudesse, por exemplo, ter o poder de sonhar em uma noite 75 anos. Ou qualquer período de tempo que você queria ter. E você, naturalmente, ao iniciar esta aventura dos sonhos, realizaria todos os seus desejos. Você teria todo tipo de prazer que pudesse conceber. E depois de várias noites de 75 anos de prazer total cada uma, você diria ‘Bem, isso foi ótimo. Mas agora vamos ter uma surpresa. Vamos ter um sonho que não está sob controle, onde algo vai acontecer comigo que eu não sei o que vai ser.’ E você iria entrar nisso, e sair e dizer ‘Isso foi um barbear rente, agora não foi?’ Então você se tornaria cada vez mais aventureiro, e faria mais e mais apostas sobre o que sonharia e, finalmente, sonharia onde está agora. Você sonharia o sonho da vida que você está realmente vivendo hoje. Isso estaria dentro da infinita multiplicidade das escolhas que você teria. De jogar que você não era Deus. Porque toda a natureza da divindade, de acordo com essa ideia, é fingir que ele não é. A primeira coisa que ele diz a si mesmo é ‘Cara, se perde’, porque ele se entrega. A natureza do amor é o auto-abandono, não o apego a si mesmo. Jogando-se para fora, por exemplo, como no basquete; você está sempre se livrando da bola. Você diz ao outro companheiro ‘Divirta-se’. E isso mantém as coisas em movimento. Essa é a natureza da vida.

Então, nessa ideia, todo mundo é fundamentalmente a realidade última. Não Deus no sentido politicamente monárquico, mas Deus no sentido de ser o eu, o básico profundo de tudo o que existe. E você é tudo isso, só que está fingindo que não é. E é perfeitamente normal fingir que não é, estar perfeitamente convencido, porque essa é toda a noção de drama. Quando você entra no teatro, há um arco e um palco, e lá embaixo está o público. Todo mundo assume seus lugares no teatro, vai ver uma comédia, uma tragédia, um thriller, seja lá o que for, e todos sabem quando entram e pagam suas admissões, que o que vai acontecer no palco não é real . Mas os atores fazem uma conspiração contra isso, porque eles vão tentar convencer o público de que o que está acontecendo no palco é real. Eles querem fazer todo mundo sentar na beirada de suas cadeiras, eles querem você aterrorizado, ou chorando, ou rindo. Absolutamente cativado pelo drama. E se um ator humano habilidoso pode atrair uma platéia e fazer as pessoas chorarem, pense no que o ator cósmico pode fazer. Por que ele pode se envolver completamente. Ele pode atuar tão bem que ele pensa que realmente é. Como você sentado nesta sala, você pensa que está realmente aqui. Bem, você se convenceu dessa forma. Você agiu tão bem que SABE que este é o mundo real. Mas você está atuando. O público e o ator como um só. Porque atrás do palco está a sala verde, dos bastidores, onde os atores tiram suas máscaras. Você sabia que a palavra ‘pessoa’ significa ‘máscara’? A ‘persona’ que é a máscara usada pelos atores do drama greco-romano, porque tem uma boca tipo megafone que emite o som em um teatro ao ar livre. Então, o ‘per’ – através – ‘sona’ – de onde o som vem – essa é a máscara. Como ser uma pessoa real. Como ser uma farsa genuína. Assim, a ‘dramatis persona’ no início de uma peça é a lista de máscaras que os atores usarão. E assim, ao esquecer que este mundo é um drama, a palavra para o papel, a palavra para a máscara passou a significar quem você é genuinamente. A pessoa. A pessoa certa. Aliás, a palavra ‘pároco’ é derivada da palavra ‘pessoa’. A ‘pessoa’ da aldeia. A ‘pessoa’ da cidade, o pároco.

Então, de qualquer forma, isso é um drama, e o que eu quero que você faça é — eu não estou tentando vender essa ideia no sentido de convertê-lo a ela; Eu quero que você brinque com ela. Eu quero que você pense em suas possibilidades. Não estou tentando provar, estou apenas apresentando como uma possibilidade de vida para se pensar. Então, isso significa que você não é vítima de um esquema de coisas, de um mundo mecânico ou de um deus autocrático. A vida que você está vivendo é o que VOCÊ fez. Só que você não admite, porque quer jogar o jogo que aconteceu com você. Em outras palavras, me envolvi neste mundo; Eu tive um pai que se apaixonou por uma garota, e ela era minha mãe, e porque ele era apenas um velho com tesão, e como resultado disso, eu nasci, e o culpo por isso e digo ‘Bem, isso é sua culpa; você tem que cuidar de mim agora’, e ele diz ‘não vejo por que eu deveria cuidar de você; você é apenas um resultado. Mas vamos supor que admitimos que eu realmente queria nascer e que eu era o brilho feio nos olhos de meu pai quando ele se aproximou de minha mãe. Aquilo foi Eu. Eu era desejo. E eu deliberadamente me envolvi nessa coisa. Olhe para ele dessa maneira em vez disso. E isso realmente, mesmo que eu me envolvesse em uma confusão terrível, e nascesse com sífilis, e a grande coceira siberiana, e tuberculose em um campo de concentração nazista, mesmo assim, isso era uma peça, que era um peça muito distante. Pode ser uma espécie de masoquismo cósmico. Mas eu fiz isso.

Não é essa uma regra de jogo ideal para a vida? Porque se você joga a vida na suposição de que você é um fantoche indefeso que se envolveu. Ou você jogou na suposição de que é um risco assustador e sério, e que realmente deveríamos fazer algo sobre isso, e assim por diante, é uma chatice. Não adianta continuar vivendo a menos que assumamos que a situação da vida é ótima. Que realmente e verdadeiramente estamos todos em um estado de total felicidade e deleite, mas vamos fingir que não somos apenas por diversão. Em outras palavras, você joga não-bem-aventurança para poder experimentar a bem-aventurança. E você pode ir tão longe na não-felicidade o quanto quiser. E quando você acordar, será ótimo. Você sabe, você pode bater na cabeça com um martelo porque é tão bom quando você para. E faz você perceber como as coisas são ótimas quando você esquece que é assim que é. E é exatamente como preto e branco: você não conhece o preto a menos que conheça o branco; você não conhece o branco a menos que conheça o preto. Isso é simplesmente fundamental.

Então, aqui está o drama. Minha metafísica, deixe-me ser perfeitamente franco com você, é que existe o eu central, você pode chamá-lo de Deus, você pode chamá-lo do que quiser, e somos todos nós. Está desempenhando todas as partes de todo o ser, em qualquer lugar e em qualquer lugar. E está jogando o jogo de esconde-esconde consigo mesmo. Ele se perde, se envolve nas aventuras mais longínquas, mas no final sempre acorda e volta a si mesmo. E quando você estiver pronto para acordar, você vai acordar, e se você não estiver pronto você vai ficar fingindo que você é apenas um ‘coitadinho de mim’. E já que todos vocês estão aqui e engajados nesse tipo de investigação e ouvindo esse tipo de palestra, suponho que todos estejam no processo de despertar. Ou então você está se satisfazendo com algum tipo de flerte com o despertar, o qual você não está levando a sério. Mas suponho que você talvez não seja sério, seja sincero, que esteja pronto para acordar.

Então, quando você está prestes a acordar e descobrir quem você é, você encontra um personagem chamado guru, como os hindus dizem ‘o professor’, ‘o despertador’. E qual é a função de um guru? Ele é o homem que te olha nos olhos e diz ‘Ah, deixa isso. Eu sei quem você é.’ Você vem ao guru e diz: ‘Senhor, eu tenho um problema. Estou infeliz, e quero ter uma no universo. Eu quero me tornar iluminado. Eu quero sabedoria espiritual.’ O guru olha para você e diz ‘Quem é você?’ Você conhece Sri-Ramana-Maharshi, aquele grande sábio hindu dos tempos modernos? As pessoas costumavam vir até ele e dizer ‘Mestre, quem eu era na minha última encarnação?’ Como se isso importasse. E ele dizia ‘Quem está fazendo a pergunta?’ E ele olhava para você e dizia, vá direto ao assunto: ‘Você está olhando para mim, está olhando para fora e não tem consciência do que está por trás de seus olhos. Volte e descubra quem você é, de onde vem a pergunta, por que pergunta. E se você viu uma fotografia daquele homem – eu tenho uma linda fotografia dele; Eu olho para ele toda vez que saio pela porta da frente. E eu olho para aqueles olhos, e o humor neles; a risada cadenciada que diz ‘Oh, deixa isso. Shiva, eu reconheço você. Quando você vem à minha porta e diz ‘Eu sou fulano de tal’, eu digo ‘Ha-ha, que maneira engraçada Deus veio hoje.”

Então, eventualmente – há todos os tipos de truques, é claro, que os gurus jogam. Eles dizem ‘Bem, nós vamos colocá-lo no moinho’. E a razão pela qual eles fazem isso é simplesmente porque você não vai acordar até sentir que pagou um preço por isso. Em outras palavras, o sentimento de culpa que se tem. Ou a sensação de ansiedade. É simplesmente a maneira como se experimenta manter o jogo do disfarce em andamento. Você vê isso? Supondo que você diga ‘Eu me sinto culpado’. O cristianismo faz você se sentir culpado por existir. Que de alguma forma o próprio fato de você existir é uma afronta. Você é um ser humano caído. Lembro-me quando criança quando íamos aos cultos da igreja na Sexta-feira Santa. Eles deram a cada um de nós um cartão postal colorido com Jesus crucificado nele, e dizia embaixo ‘Isso eu fiz por você. O que você faz por mim?’ Você se sente horrível. VOCÊ pregou aquele homem na cruz. Porque você come bife no dia errado, você crucificou a Cristo. Mitra. É o mesmo mistério. E o que você vai fazer sobre isso? ‘Isso eu fiz por você, o que você faz por mim?’ Você se sente horrível por existir. Mas esse sentimento de culpa é o véu sobre o santuário. ‘Não ouse entrar!’ Em todos os mistérios, quando você vai ser iniciado, há alguém dizendo ‘Ah-ah-ah, não entre. Você tem que cumprir este requisito e aquele requisito, ENTÃO nós o deixaremos entrar’. E assim você passa pelo moinho. Por quê?

Porque você está dizendo para si mesmo ‘Eu não vou acordar até que eu mereça. Eu não vou acordar até que eu tenha tornado difícil para mim acordar. Assim, invento para mim um sistema sofisticado de retardar o meu despertar. Eu me submeto a este e aquele teste, e quando me convenço de que é suficientemente árduo, ENTÃO eu finalmente admito para mim mesmo quem realmente sou, e afasto o véu e percebo que afinal, quando tudo estiver dito e feito, eu sou o que sou, que é o nome de deus.’

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-natureza-da-consciencia-parte-2/