Como fazer o Pacto com Lúcifer

“Nasce um otário a cada minuto”

– P.T. Barnum, 1890; Lúcifer, 2012.

Toda semana eu recebo pelo menos uns dois emails de completos idiotas que pagaram uma grana preta por um “pacto pactorum da felicidade e prosperidade” ou fizeram pactos com lucifer, diabo, lucifugo rocambole, maioral, belial, astaroth, sergulath, ONA, marmaduke, Hecate Regina, bafomet, andy panda, OFS, sacerdote edison, halelucifer, dissipulo eder, ze pilintra e o que mais a imaginação dos charlatões inventar. Em matéria de arrancar dinheiro de trouxas, só perdem para os pastores evangélicos. De R$30,00 a R$3.200,00… o inferno é o limite! e cada um se diz o “único e verdadeiro escolhido” e avisam para tomar cuidado com os outros “falsos sacerdotes”. Em quem confiar a sua alma? quem poderá nos defender?

Eu já havia comentado sobre Pactos com Lucifer e sobre Pactos com o Diabo, Perfumes mágicos de Templo, mas o povo das internets é muito retardado. Então explicarei mais uma vez como funciona o Pacto com Lúcifer.

Na menos pior da hipóteses, será apenas um charlatão roubando seu dinheiro sem dar nada em troca, como o “pai Bruno”, que prometia a pessoa amada em 3 horas e, depois que o idiota pagava, dizia que o novo namorado/namorada da fulana havia feito uma amarração poderosa e que seria necessário mais grana pra resolver e, quando a vítima pagava, ele dizia que o novo namorado lá havia se irritado e feito um trabalho de destruição contra o mané, e dá-lhe dinheiro…

Em uma hipótese mais pior, o charlatão faz parte de algum grupo de kiumbanda ou satanismo que serve de x-burguer de algum egun fora-da-lei, que precisa de energia para se manter invisível das forças dos Exús e com algum poder na egrégora. Estes oferecem algum tipo de “poder” para seus “sacerdotes” em troca de sacrifícios, sangue, novos adeptos na pirâmide, etc, em uma espécie de Amway ou Herbalife do Capiroto.

E, obviamente, o otário que está fazendo o pacto é a base da pirâmide e não vai receber nada em troca do seu dinheiro… que vai para a sacerdotisa/sacerdote como pagamento; este sim merecido, por ter trazido mais um x-burguer para o egun. E, uma vez que o zé ruela entra nessa roubada, dando sangue, nome, data de nascimento, etc, já era…

Vejam o email que recebi:
Vou ser direta ,fui para XXXXXX paguei r$3.000 fiz o pacto com XXXXXXXX XXXXXXXX com direito a dedo espetado. baqueta e invocacao com umas 9 pessoas em janeiro o pacto dura vinte anos e todo ano preciso dar 9.000 ou levar tres pessoas que equivalem a esse valor.Nao posso fazer nehum outro ritual de prosperidade porque quebro o pacto nao posso falar para ninguem porque quebro o pacto. Nao posso ir contra meus (mestres)porque quebro o pacto. quer dizer me ferrei?desde janeiro minha vida financeira virou uma bagunca ate protestada eu ja fui, meu negocio esta quase falindo.

Ai você que está lendo isso e que já fez um pacto, me pergunta “e ai? como eu saio dessa?” e faremos a seguinte analogia: Suponha que você tenha pego R$20.000,00 com um agiota e, depois que pegou o dinheiro, é assaltado por pessoas que você poderia jurar que trabalham para ele e fica sem nada, ou seja, não usufrui do que pegou emprestado. E ainda tem a dívida com o agiota. Vai reclamar com ele e ele diz que você é que não se protegeu direito, que ele não tem nada com isso e quer ser pago… Como é que você sai dessa?

A resposta é: se fudeu. Não adianta me mandar email que eu não vou te ajudar com a SUA dívida. E não adianta ficar bravinho comigo porque eu não vou ajudar… fique bravo com o 171 que levou seu dinheiro. Se o Pica-Pau tivesse ido à polícia, nada disso teria acontecido.

Ir a outro charlatão só vai deixar as coisas “mais pior ainda” (como diria o Pai Jacob). A solução é: procure um terreiro decente ou casa kardecista (em último caso) e passe a frequentar, cortando todo tipo de laço com os agiotas. A imensa maioria dos eguns que trabalham com os picaretas são espíritos fora-a-lei e os Exús dos terreiros acabarão dando cabo deles, se você tiver merecimento. NEM PENSE em ir a uma Igreja Evangélica da vida… é trocar um bandido pelo outro, e ainda ter de pagar dízimo em cima. Ai você terá de me perdoar pela sinceridade, mas você merece ser feito de trouxa.

Você pode aprender também o seguinte e repassar para seus amigos satanistas criados pela avó, vindo de alguém que já deu bastante porrada em maiorais, demônios, eguns e shaitanins de todos os tipos:

1) Demônios não tem discipulos, eles têm ESCRAVOS;

2) Demônios não precisam da sua alma, a não ser como x-burguer, e não vão te dar nenhum poder em troca de nada.

3) Qualquer tipo de Evocação Goetica ou Qlipothica é um duelo de VONTADES e ganha quem tiver mais. E se você não é um mago treinado em LVX, as chances são que você será a putinha do demônio e não vice-versa.

#Fraudes #LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/como-fazer-o-pacto-com-l%C3%BAcifer

As Origens da Maçonaria

I – INTRODUÇÃO

A História da Maçonaria penetra nos mais ínfimos recônditos da História da Humanidade e, as vezes, confunde-se com acontecimentos que nada tem a ver com ela, principalmente quando se trata de buscar suas origens.

O estudo é de tamanha complexidade que não só maçons, estudiosos da Arte Real, mas também duros adversários têm manifestado a dificuldade de encontrar o intransponível caminho que leva ao seu início, à sua origem.

II – DESENVOLVIMENTO

Escrever uma história da Maçonaria é uma obra tremenda, por ser o estudo de sua história confuso, difícil e fastidioso, tudo ajudando para o seu obscurecimento: a ausência de documentos, a discórdia quanto às suas origens e a paixão dos seus fiéis como a de seus detratores.

Eis um depoimento do ferrenho, incansável inimigo da MaçonariaMarques Riviere – Transcrito da obra História da Maçonaria, de Nicola Aslan – que demonstra a dificuldade de se entendê-la. São muitas as fábulas e lendas que trazem esta enorme confusão.

Infelizmente, foram muitos os historiadores maçônicos que, baseados nessas narrativas lendárias, criaram maior confusão entre os maçons. As antigas constituições e os rituais serviram para os falsos-historiadores desfigurarem a história da Maçonaria, eivando-a de inverdades.

Há de se notar que uma das causas indutoras dos desacertos históricos foi a má interpretação da Constituição de Anderson, pois nela, não obstante se encontre a base dos “Landmarks”, foi que se criou a maior confusão.

Anderson e Dasaguiliers, ao serem encarregados de redigir uma constituição, tendo em vista sua formação religiosa e oficio, de imediato buscaram nas Antigas Obrigações (Old Charges) e, principalmente, na Bíblia os principais elementos para redigi-la. Dando asas a sua imaginação, consideram maçons todos os homens importantes que a Bíblia menciona.

Esta confusão pode ser atribuída, também, a Oliver, que, como Anderson, era Pastor e estudioso da Arte Real. Em sua obra The Antiquities of Freemasonry, citada no livro História da Maçonaria, de Nicola Aslan, (pag, 2) diz

As antigas tradições maçônicas dizem, e penso que elas têm razão, quenossa ciência existia já antes da criação de nosso globo, e estava espalhada entre os sistemas mais variados do espaço.

Instituição Maçônica era Coeva da criação do mundo, tal a semelhança de seus princípios com os da primitiva constituição que vigorava no Paraíso.

Sobre essas trapalhadas, respeitada a época em que foi escrita a obra, os confiáveis historiadores maçônicos atuais têm “frouxos de risos”, pois a fertilidade da mente de tão digno homem compromete a seriedade da análise.

Nicola Aslan e Adelino de Figueredo Lima sobre tamanha façanha, dizem que é deliciosa a opinião de Oliver, com tão disparatada patranha e fantasia e leva-os ao desprezo por sua obra.

Em outro livro publicado em Liege, em 1773, sob o nome de Enoch e com o título de “Le vrai Franc-Maçon” afirma-se candidamente que Deus e o Arcanjo São Miguel foram os primeiros Grão-Mestres da Primeira Loja de Maçons estabelecida pelos filhos de Seth, depois do fratricídio de Cairo.
A afirmação seria por demais forte e atrevida, não há dúvida nenhuma, se não fosse o-Ir: Valguime, na introdução que fez na obra de Ragon ‘De La Maçonnerie Occulte et de L’Initiation Hermetique’, dizer-nos que devemos compreender essa declaração de maneira simbólica, porque astrologicamente Deus e São Miguel são ambos os símbolos do sol – Trecho extraído da História da Maçonaria, do já citado Ir: Aslan.

São afirmações dessa natureza que levaram os maçons da época a crer em histórias tão fantásticas. Deviam prever os mencionados autores que muitos maçons, pelo seu pequeno conhecimento da história e pouca cultura, acolheriam ao “pé da letra” esses erros históricos como a verdadeira origem da Maçonaria.

Repetindo J. Marques – Riviere, jámencionado anteriormente, nas suas teorias sobre as origens da Maçonaria no livro publicado em 1941, Histoire de La Franc-Maçonniere Francaise:

Os autores do século XVIII tem contribuído a tomar obscuras, longínquas e inacessíveis a origem da Maçonaria isto compreende-sepertencendo a uma ordem desacreditada e exposta às zombarias dos “profanos”, esses autores maçons procuravam obter as cartas de nobreza que impusessem aos incrédulos, e a antigüidade, mãe do respeito, com que aureolavam a Maçonaria ainda bem nova historicamente, refletia-se sobre eles .

É lamentável que tanta confusão tenha se criado em torno de tão importante acontecimento. A liberdade, um dos preceitos básicos da Maçonaria, é que possibilitou o surgimento de tantas divagações sobre a origem, em cuja busca, de acordo com sua formação cultural ou profissional, os historiadores e pseudo-historiadores deram vazão a sua criatividade. Disso resultou que até hoje ainda se pergunta: Qual a origem verdadeira da Maçonaria?

O Padre Maurice Colinom sintetiza as diversas teorias formuladas sobre a origem da Maçonaria, assim escrevendo:

Os maçons, desde séculos, esforçam-se por descobrirem seus antepassados dos quais pudessem ter orgulho. Encheríamos uma vasta biblioteca se reuníssemos somente as obras que pretendem demonstrar a filiação legítima da Maçonaria com os Rosacruzes, o Hermeticismo, o Cabalismo, Alquimia, as Sociedades Iniciáticas Egípcias, Gregas, Judias, a Triade Secreta da Antiga China, os Colegia Fabrorum Romanos, a Cavalaria das Cruzadas ou a Ordem destruída dos Templários (…)

Uma tal abundância de antepassados dá vertigem… É justo reconhecer que estas imaginações delirantes fazem sorrir os maçons de hoje.

Tantas são as controvérsias, que surgiram variadas correntes dentro da Maçonaria. Há as que buscam nas primeiras civilizações a origem iniciática. Outras buscam no ocultismo, na magia e nas crendices primitivas a origem do sistema filosófico e doutrinário.

Estas correntes chamadas de Corrente-mística e Corrente autêntica, segundo o Ir.·.Theobaldo Varoli, são apenas tendências e não escolas. Este mesmo autor, no livro “Curso de Maçonaria Simbólica”, escreve: A verdade final é que a Maçonaria é o resultado de civilização mais avançada e não um credo que nasceu entre antropólogos ou do bolor dos sarcófagos e suas respectivas múmias. A corrente mística não se confunde com a dos mistificadores, que não faltam nas lojas maçônicas mesmo neste século de energia atômica e viagens espaciais. Os mistificadores, entre os quais estavam os próprios fundadores da Grande Loja, em Londres, inclusive o próprio Anderson, podiam encontrar adeptos em maior quantidade, até o século XIX época de menor divulgação da cultura e da investigação histórica.

Os maçons místicos de hoje, como idealistas ou espiritualistas, aceitam as lendas do passado como inspiração filosófica e simbólica e como manifestações pretéritas da humanidade em evolução. Assim é, por exemplo, o Rito Escocês Antigo e Aceito que revela, em cada grau, uma ou várias reminiscências, chamando-as expressamente de lendas.

Do outro lado, os autênticos não se curvam aos dogmas e combatem incessantemente os místicos pelas diversas derivações introduzidas na Maçonaria. Condenam todas as versões de que a Instituição Maçônica é originária do antigo Egito, da Mesopotâmia, dos Essênios, cujas lendas são atribuídas a antigos escritos maçônicos contidos na Constituição de Anderson.

Nos dias atuais, ambas as correntes convivem sem maiores atropelos, pois a busca da verdadeira Fraternidade Universal é comum. Os místicos baseiam-se nos antigos rituais, por julgá-los íntegros e seguidores da postura dogmática preconizada. Adotam velhos usos e costumes, como a contagem do tempo. Os autênticos vêm ocupando maior espaço no âmbito maçônico, em particular os maçons estudiosos que surgiram no século passado e que hoje tem em seus adeptos uma grande quantidade de intelectuais que se esforçam para desmistificar os charlatões e mistificadores. Da dialética entre os defensores da Instituição e os escritores antimaçônicos surgiu uma terceira corrente, a dos conciliadores, a qual definiu a Maçonaria como tendo muito em comum com as antigas organizações, em especial com as ligadas à Arquitetura.

Dentre os maçons mais autênticos, há que destacar Jorge Frederico FindeI, que procurou demonstrar a falsidade das derivações que pretendiam afirmar que a Ordem é antiqüíssima, vinda do mais remoto dos tempos. Contudo, antes deste, Inácio Aurélio Fessler, por volta 1802, fundou, com outros maçons intelectuais, uma academia voltada aos estudos sistematizados e aprofundados sobre a verdadeira origem da Maçonaria. No Brasil, o mais dinâmico e incansável pesquisador, entre os “autênticos” é José Castellani (*1937 +2004), cujas obras têm servido de arrimo aos novos estudiosos e defensores da doutrina e da ação maçônica mais compatível com a atualidade.

Repetimos, novamente, T. Varoli Filho em seu livro Curso de Maçonaria Simbólica (fl.44):

“Seja observado, à luz da psicologia moderna, que um dos maiores males da Maçonaria foi a admissão de pessoas complexadas de inferioridade e necessitadas de agrupamentos onde pudessem encontrar a afirmação pessoal. Tais pessoas comprometem a Ordem, a qual enaltecem para apenas enaltecerem a si mesmos.”

Queiram ou não os saudosistas inoperantes e os renitentes, a Maçonaria tem alcançado o prestígio que possui graças ao concurso de intelectuais do quilate dos mestres Nicola Aslan, Theobaldo Varoli Filho, JoséCastellani e outros maçons de igual importância. A esse tipo de homens é que se deve creditar a participação da Instituição nos processos de sua transformação e nos processos de transformação política, de independência das nações, da democracia e de justiça social.

A carência de homens de ação e autênticos tem ensejado a dispersão dos maçons, ficando os quadros das lojas mais vazios e devendo à Sociedade profana maior participação na luta contra os tiranos, os corruptos, os déspotas que hoje dominam nossa Pátria.

A origem mais aceita, segundo a maioria dos historiadores, é que a Maçonaria Moderna descende dos antigos construtores de igrejas e catedrais, corporações formadas sob a influência da Igreja na Idade Média, não invalidando, contudo, a tese de que outras agremiações também ajudaram a compor a sua estrutura filosófica e simbólica, tais como: Corporação dos Franc-Maçons; as Guildas; os Carbonários; Corporação dos Steinmetzen, Rosa-cruzes, etc…

CONCLUSÃO

Sabemos que a origem da Maçonaria é um tema que suscita uma série de controvérsias e de posicionamentos discordantes.

Admitimos, contudo, que a Maçonaria, em certo sentido, é preexistente a todos os tempos.

É evidente que tal afirmação exige um esclarecimento.

Ao fazê-la, não estamos admitindo a existência de uma Loja Maçônica nos Jardins do Éden e sendo freqüentada por Adão e alguns Querubins de bons costumes. Tampouco vislumbramos práticas maçônicas nos antigos cultos egípcios, mitríacos, órficos e salomônicos. Tais cultos eram certamente iniciáticos e, em alguns aspectos, lembram a doutrina maçônica. Mas seria incorreto ver neles uma espécie de Maçonaria preexistente, atéporque nenhum deles se orientava por aquilo que é a marca registrada da Maçonaria moderna: O Livre Pensamento.

Tais suposições partem de profanos mal informados ou até de maçons imaginosos, pois é fato historicamente comprovado, que a Maçonaria, como instituição organizada, surgiu m 1717 com a criação da Grande Loja de Londres.

Entretanto, concordamos com o Ir.·.Sérgio Luiz Alagemovits quando ele se refere à Maçonaria-Idéia, aquela que extrapola a riqueza dos Rituais, o dourado dos aventais e a pomposidade dos títulos.

Falamos do espírito que move a grande engrenagem da Ordem, falamos da Maçonaria corrente de influxos energéticos que objetiva o aperfeiçoamento da matéria e o desenvolvimento espiritual do Homem.

Falamos da Maçonaria doutrina interna, que não está escrita em parte alguma e é imperceptível aos olhos dos que não sabem ver.

Esta Maçonaria, transcendente e imanente, esta Maçonaria de que falamos, esta, sempre existiu.

Dentro deste enfoque, falar que a Maçonaria não existia antes de 1717, é o mesmo que dizer que os astros orbitavam desordenadamente antes de Laplace, que os fenômenos físicos e químicos não se processavam antes dos estudos de laboratórios e que as maçãs não caiam das macieiras, antes de Newton.

Referências Bibliográficas:

01- A Bíblia de Jerusalém. Ed. Paulinas 1981;
02 – Jornal Egrégora – Órgão Oficial de Divulgação da Loja Maçônica Miguel Archanjo Tolosa n° 2.131 – Número 01 (Jun-Ago 1993) – Artigo do Ir.·.Sérgio Luiz Alegemovits Enfoque Maçônico do Universo pág. 04;
03 – Apostila do Seminário de Mestres Maçons 1971 – Palestra do Ir.·. Nicola Aslan Grande Oriente do Brasil;
04 – Apostila do Seminário de Mestres Maçons – Título II – História – 3 Conferências proferidas pelo Ir.·.Álvaro Palmeira – 1978 Grande Oriente do Brasil;
05 – Repensando Ir.·. Vady Nozar de Mello – Florianópolis – Ed. Papa-1993, págs. 21 a 31;
06 – Cartilha do Aprendiz – Ir: José Castellani – Ed. Maçônica A Trolha Ltda- 1ª Edição -1992, ágs. 19 a 25;
07 – Curso de Maçonaria Simbólica – Aprendiz – Ir: Theobaldo Varoli – Ed. Gazeta Maçônica – 1974;
08 – Apostila de História Maçônica do Seminário Geral de Mestres Maçons Grande Oriente do Brasil;

 

Ven.Irmão Lucas Francisco GALDEANO
Venerável Mestre da Loja Universitária-Verdade e Evolução nº.3492 do Rito Moderno (2005-2007)ex-Venerável da Loja Miguel Archanjo Tolosa nº.2131 do R.E.A.A.(1991-1993)ex-Grande Secretário Geral de Educação e Cultura do Grande Oriente do Brasil (1993-2001)Presidente do Conselho Editorial do Jornal Egrégora – Órgão Oficial de Divulgação do Grande Oriente do Distrito Federal.

por Ven.Irmão Lucas Francisco GALDEANO

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/as-origens-da-maconaria/

Lovecraft Country: racismo, spoilers e papel higiênico

Critica e resenha do livro Lovecraft Country de Matt Ruff que está sendo adaptado pela HBO e ainda em sua primeira temporada.

29 de janeiro de 1839, Darwin propõe casamento a sua prima Emma que aceita o pedido. Pouco mais de dois meses antes ele fez uma lista em seu diário pessoal contabilizando os prós e contras de se assumir tal compromisso. Na lista dos motivos pró casamento ele deixou registrado pérolas tais como “uma companhia constante (& uma amiga na velhice) que se interessará por mim – alguém para amar e brincar – melhor do que um cachorro, de qualquer forma”. Na lista dos contra ele expôs “ter que trabalhar por dinheiro – adeus aos livros – perda de tempo – menos dinheiro para comprar livros – não poderei ler durante as tardes”. O homem que, querendo ou não, matou Deus, de uma forma mais brutal do que Nietzsche, chorando por causa de livros. Pense a respeito sobre isso por um instante.

Comecei o ano de 2020 com a publicação de “O Caso de Charles Dexter Ward” da editora Hedra, lançado em 2014. Acredito que, em parte, a culpa disso tenha se originado no fato de a última leitura do ano de 2019 tenha sido a coletânea “À Procura de Kadath” da editora Iluminuras, publicada em 2002. Termine um ano com Lovecraft e inicie o próximo com Lovecraft. Acho que foi por isso que minha escolha de primeira leitura oficial do ano tenha sido “Lovecraft Country (Território Lovecraft)“, escrito por Matt Ruff em 2016.

Foi no fim em 1982, quando eu contava com meus 12 anos, que meu nariz foi quebrado pela primeira vez. Era um jantar de ano novo, me ofereceram uma taça de Champagne para comemorar e eu, no auge da maturidade que apenas uma criança de 12 anos recém completados, respondi algo como “Ta maluco? Vovô diz que vinho é coisa de viado!” Minha mãe, sentada ao meu lado, apenas esticou o braço com um golpe certeiro, resultado de anos praticando boxe. “Querido, se não vai falar algo inteligente, cale a boca. E coloque o guardanapo no nariz, você vai pingar sangue em toda a mesa.” A ceia prosseguiu, eu não consegui comer mais nada, estava assustado, estava sentindo dor, humilhação, raiva… mas não deixei meu sangue pingar na toalha.

Desde pequeno me agradava a companhia de livros. Às vezes nem os lia, apenas gostava de sentir o peso na mão, mas em grande parte do tempo os devorava. De Monteiro Lobato às aventuras americanas dos detetives juvenis d’Os Hardy Boys – escritas por uma miríade de escritores fantasmas que assinavam Franklin W. Dixon. Guardava debaixo da cama um bloco maciço formado por mais de quinhentos livros, todos trazendo meu ex-libris carimbado na contra capa. Ainda não possuía nenhum método ou organização. Conheci Frank Belknap Long e Robert Bloch antes de ser apresentado a Lovecraft. Anos separaram Dejah Thoris, Princesa de helium, de John Clayton II, Visconde de Greystoke – apesar de terem nascido na mente do mesmo homem. Lia sobre homens sendo cimentados vivos atrás de paredes e sobre corcéis indomados em ilhas desertas. Esta época eu chamo, com certa nostalgia, de a época de minha inocência literária. A inocência que terminou naquela noite em que permaneci sentado na mesa, segurando o choro, enquanto todos comiam animados e eu segurava um guardanapo molhado de encontro ao nariz.

Eu sentia o peso do livro nas mãos. A arte das capas e o papel usado na impressão remetendo à época em que escrevia e às revistas que publicavam suas histórias. Revistas Pulp, baratas – ao contrário do livro que no Brasil está sendo vendido a mais de R$70,00, com sorte você encontra uma edição nova por R$55,00 ou R$60,00. E, em janeiro de 2020, comecei a ler sobre Atticus Turner e sua busca para encontrar o pai desaparecido em 1954. Atticus era, assim com seu tio e tia e aparentemente a maior parte de sua família, um fã ferrenho de ficção científica e de literatura fantástica. Ele, assim como sua família, era negro – ou afro descendente como o pudor nos faz dizer hoje. Uma semana depois e eu fechava o livro. Em minha melhor época, ler essas 400 páginas me custaria 3 dias, 4 no máximo, mas a responsabilidade de hoje faz com que as leituras acabem me tomando mais tempo, o que não acho nem um pouco desagradável, para ser sincero. O que achei desagradável foi a história escrita pelo senhor Ruff. Não sabia se ficava mais nervoso em ter gastado o dinheiro com o livro – ao invés de comprar dois ou três obras diferentes – ou de ter perdido uma semana lendo aquilo. Se existe algo que eu levo muito a sério, mais do que na época da inocência, é o que alguém deixa impresso em uma brochura.

Naquela noite de fim de ano minha mãe se sentou ao meu lado na cama e disse “aguente firme”. Com um movimento rápido ela fez meu nariz estalar, um jorro de dor quente brotar atrás de meus olhos e então eu comecei a sangrar de verdade. “Pronto, está de volta no lugar”, ele disse como alguém que apenas constata um serviço que sabe estar bem feito.

Eu estava encarando o vazio, tentando não chorar de novo – desta vez por causa da dor – quando, com um dedo dobrado segurando meu queixo, ela m e fez encarar seus olhos.

“Seu avô nunca disse aquilo que você falou na mesa. Dizer aquilo daquela forma é uma falta de respeito com ele, com o que ele diz e o pior: com as ideias dele. Para alguém que passa tanto tempo lendo você deveria ser o primeiro a respeitar as ideias de alguém. Mas você só aprende a respeitar as ideias de alguém quando aprende a ouvir realmente o que dizem.”

Ela jogou com delicadeza meu queixo para um lado e depois para o outro, examinando meu nariz.

“Às vezes fico pensando se você está lendo mesmo esses livros ou se só fica repetindo as palavras dentro de uma cabeça oca. Quando você lê, ouve um eco entre as orelhas?”

Eu pretendia ficar quieto, achei que era parte das perguntas retóricas que normalmente compõe um sermão, mas vi os olhos dela. Balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu rosto latejando enquanto fazia isso.

“Ótimo. Então eu proponho que você aprenda a ler de verdade antes de continuar perdendo seu tempo com esses livros, porque pelo que disse hoje parece mesmo que só fez perder seu tempo.”

Ela colocou uma cópia de Alice no País das Maravilhas no meu colo. Não sei de onde havia saído o livro, não a vi carregando ele.

“Pegue este livro e o leia. Depois releia e leia mais três, quatro, dez vezes. Só pare de ler quando tiver aprendido a ler o que está aqui. Eu não pegaria mais nenhum outro livro até ter certeza que está aprendo a ler mesmo. Entendeu?”

Fiz que sim com a cabeça.

Ela ia se levantar da minha cama quando olhou para mim e me fez encarar novamente seus olhos.

“Querido, você sempre será amado por todos nós. Somos uma família, certo? Esse amor é incondicional. Mas para ser respeitado você precisa crescer. Não seja burro, não seja alguém que diz coisas só por dizer. O mundo está cheio de idiotas assim, que não sabem ouvir algo, que não sabem interpretar algo, que não querem pensar e que dizem qualquer coisa que lhes vem ao que chamam de mente e eu não quero meu filho seguindo esse caminho. Se seguir, continuará sendo meu filho, entende? Mas não é o que quero para você e com certeza não é o que você irá querer para você também. Boa noite.”

Obviamente o nome Lovecraft está na capa como isca. Ele ou qualquer referência à sua obra são citadas de forma casual apenas um punhado de vezes. Se a ideia era criar um clima Lovecraftiano para a história Ruff falhou lamentavelmente, a história curta de Borges ‘There Are More Things…’ publicada na coletânea Livro de Areia consegue em sua dezena de páginas criar uma ambientação que literalmente explode no clímax. Obviamente não estou comparando Ruff com Borges, seria o mesmo que colocar um cadeirante no ringue para lutar 15 rounds com Muhamed Ali ou Rocky Marciano. Minha sugestão seria apenas que o primeiro lesse o conto do segundo e, quando percebesse que não teria a capacidade de criar algo próximo, desistisse de associar seu livro com o testamento literário do escritor da Nova Inglaterra. O texto em si é insosso e as histórias – sim, existe mais de uma – vão ficando cada vez mais previsíveis e parecem todas carecer de um clímax, mesmo que todas estejam conectadas pela trama principal acabam sendo versões fracas de diferentes estilos de contos de ficção científica, de terror ou de fantasia. Não existe um vilão que você queira ver vencido, não existe uma personagem cujo carisma se mantenha quando você não está lendo sobre ela – e algumas nem enquanto lê apresentam o carisma. Se minha ideia era ter em mão uma releitura contemporânea do gênero que Lovecraft criou, moldou e apadrinhou, ler o livro foi como receber um novo murro no nariz. A leitura superficialmente é insossa tal qual uma tigela de caldo de pedra. Mas poderia haver alguma complexidade mais profunda?

Durante aquela semana li e reli o livro que contava as aventuras de Alice, ficando cada vez mais frustrado. No segundo dia perguntaram se eu não pretendia sair do quarto para comer, disse que não tinha fome.

“Claro que tem fome, está com o orgulho ferido e por isso não quer sair do quarto, desça agora”, e assim minha mãe pôs fim a minha greve de fome.

O que aquele livro tinha demais? Chegou o momento em que eu conseguia recitar algumas passagens de cor, mas não era o que eu queria. Resolvi começar a escrever uma resenha do livro, logo havia escrito cinco. Era uma metáfora que mostra que quando crescemos perdemos também a inocência? Que somos obrigados a viver em um mundo louco e sem sentido? Confrontamos adultos com regras que aparentemente são loucas para uma criança, mas temos que obedecê-las? Tudo fazia sentido, tudo era óbvio, nada me agradava. Não levei um murro na cara por causa disso. Quem

Escreveu o livro era um padre inglês, isso eu sabia, e ele inventava a história para entreter uma garotinha, a Alice do livro. Pedofilia? Uma versão real de Lolita? Ou seria simplesmente uma história sem sentido com o único objetivo de entreter uma criança de 10 anos? A cada dia meu humor azedava mais e mais.

Casualmente numa tarde particularmente irritante, fechei o livro. Meu irmão mais novo estava sentado no chão, rabiscando algo em folhas de papel – provavelmente tentando resolver algum problema ou charada. Antes de perceber o que estava fazendo o chamei:

“Leroy, me diz se isso faz sentido.”

E li para ele um trecho do livro:

“Vou experimentar para ver se sei tudo que sabia antes. Deixe-me ver: quatro vezes cinco é doze, e quatro vezes seis é treze, e quatro vezes sete é… ai, ai! deste jeito nunca vou chegar a vinte!”

“Claro que não, esse livro está deixando você com miolo mole!”

Naquele momento eu senti toda a angústia dos últimos dias subir pela minha garganta e se destilar em ódio. Fiquei de pé, joguei o livro longe e marchei com passos duros em direção ao caçula. Os punhos doíam pela força com que os estava fechando. Parei na frente dele e…

Não sabia se o que ele tinha falado era besteira ou não. De fato sentia como se o livro estivesse amolecendo meus miolos. Estava com raiva de ler e sentia que aquilo seria a desculpa para não pegar em mais nenhuma porcaria de livro pelo resto da vida e foi então que reparei nos olhos de Leroy. Ele não havia saído correndo – imaginou que ia apanhar, deve ter pensado que merecia e apenas ficou lá para levar o castigo pela piada impensada – mas então vi algo que até então apenas havia lido a respeito.

Os olhos de Sherlock Holmes, em algumas das histórias escritas por Sir Arthur Conan Doyle, são descritos como particularmente afiados e penetrantes, imbuídos de um olhar distante e introspectivo quando sua mente passava a funcionar a pleno poderes e como ele tinha a capacidade de desconectar em grau extraordinário sua mente sempre que precisava.

Naquele dia fui testemunha de algo semelhante. A mente de Leroy não se desconectou por vontade própria, foi como se ela percebesse algo e o deixasse catatônico, enquanto a consciência de seus olhos era tragada para o fundo de sua psiquê. Num momento ele me encarava com medo e apreensão quando, de repente, não havia mais nada ali, primeiro seus olhos se apagaram e depois de instantes passaram a brilhar.

“Pera…” Ele disse, começando devagar e ficando agitado “repete, como é? Quatro vezes cinco é doze? Quatro vezes seis é treze?”

Enquanto eu corria para pegar o livro para abrir na página ele continuou.

“Isso… e ele falou quanto era quatro vezes sete?”

“Não.” Eu respondi, olhando para ele e sabendo que não ouvia o que eu dizia.

“Bom… quatro vezes sete então seria catorze, seguindo a lógica. E quatro vezes oito igual a 15. Isso faz sentido!” E começou a rabiscar no papel. “Nossa, isso é brilhante e muito engraçado! Que livro é esse?”

Eu mostrei a capa.

“Quem escreveu isso gosta de matemática, tem mais contas? Ou charadas?”

Eu disse que assim que acabasse de ler lhe emprestaria o livro e pedi para explicar o que era brilhante.

Ele olhou para mim irradiando de felicidade. Leroy gostava de números, muito. Isso significa que ele nunca teve muito com quem conversar – além de um tio nosso. Quando alguém precisava resolver um problema falava com ele, mas raramente pedia explicação. Alguém se interessar pelos números dele e querer entendê-los era algo que o deixava extático.

“Olha, é assim. A gente escreve e pensa em uma base decimal, certo? A gente usa 10 números: 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 para escrever qualquer número, e dividimos os números em casas decimais, a casa das unidades, das dezenas, centenas…” Ele ergueu os olhos do papel onde desenhava pequenos quadrados e me encarou “Muito chato?”

“Não… nem um pouco… continua, finge que eu sou burro, pode explicar bem devagar.”

Ele riu e se animou mais.

“Então, quando a gente conta até nove chegamos no limite das unidades, por isso que quando vamos para dez colocamos um zero no lugar das unidades e um número um no lugar das dezenas. Ai cabem mais nove unidades e mais do que isso são duas dezenas. Mais do que nove dezenas vira uma centena e assim vai. Certo? Então. Quando fazemos quatro vezes cinco, terminamos com vinte unidades, ou duas dezenas. Marcamos dois e zero, assim: 20. Agora, e em outro sistema diferente? Tipo num sistema de base onze cabem dez unidades na casa das unidades e só uma na casa dos onze aqui. Então em um sistema onze teríamos um número assim: 1-10 como resultado para 4 vezes 5. Agora não podemos colocar um 10 aqui, porque são dois números, mas a ideia é que do lado direito é o número mais alto, como o nosso 9, então em base onze quatro vezes cinco seria igual a 19. Se vamos subindo a base, base doze, base treze, base quinze… o resultado vai diminuindo. Em base 18 quatro vezes cinco é igual a doze.”

“E quatro vezes seis é treze?” Perguntei entusiasmado.

“Não. E ai é que fica genial. Quatro vezes seis só é 13 se usarmos base 21. Quatro vezes sete é 14 em um sistema de base 24. Legal né?”

Eu começava a enxergar algo por trás da história. “Sim” Eu concordei boquiaberto.

“Agora fica genial. Se aumentarmos as bases de 3 em 3, como ele parece estar fazendo, olha só. Em base 27 quatro vezes oito é igual a 15. Em base 30, quatro vezes nove é igual a 16. A gente vai subindo a base em três, multiplicamos quatro por um número mais alto e o resultado sobe de um em um, rumo a vinte, viu? Só que ele disse que assim nunca vai chegar a vinte, olha. Na base 39, quatro vezes doze é igual a 19. A próxima base seria 42. Mas o produto não dá igual a vinte, porque cabe muito mais unidades antes da base 42 se encher duas vezes. Então ele nunca vai chegar a vinte mesmo seguindo essa tabela. Insano né?”

Fiquei olhando para Leroy pensando que genial era alguém conseguir enxergar isso de forma tão rápida e achar graça ainda. Agradeci e peguei o livro e resolvi pesquisar a vida de Lewis Carrol antes de continuar lendo.

Duas semanas depois estava no sofá da sala, lendo da forma mais casualmente escancarada que era fisicamente possível para mim um livro de William Blatty. Escolhi aquele livro não pelo assunto, mas porque a capa vermelha chamava a atenção a quadras de distância – ou assim esperava. Se passaram algumas horas até ouvir a voz da minha mãe do outro lado da capa.

“Livro novo?”

“Não. Foi escrito há mais de dez anos.”

“Leitura nova?” A voz dela curiosa, intrigada pela piada.

“Sim.”

Silêncio. O tique-taque do relógio da parede ficando mais alto, os taques parecendo ficar mais distantes dos tiques.

“Acabou de ler Alice?”

“O livro protesto que o Reverendo Dodgson escreveu porque a matemática estava virando uma coisa extremamente abstrata e perdendo qualquer laço com o mundo real? Terminei. Leroy está lendo ele lá no quarto.”

Meus dedos estavam gelados e fazia força para evitar que meus braços tremessem. Meu nariz começou a latejar sem motivo algum aparente.

“Matemática?” Veio a questão do outro lado da capa do livro, eu ainda não tinha tido coragem de encará-la, sentias as bochechas pegando fogo.

“Parece que sim” minha voz saia casual como minha postura, ou assim eu esperava “Alice não passa de uma euclidiana sensível, tentando desesperadamente manter a calma e a sanidade enquanto o mundo das Maravilhas era a faculdade em Oxford, onde Dodgson vivia e os habitantes eram provavelmente seus colegas, discutindo a nova matemática abstrata da época. Antes ele fazia contas com maçãs, agora ele nano sabia como calcular a raiz quadrada de menos uma maçã. Dai o livro.”

Acho que não estava mais respirando, tomei coragem e abaixei a capa do livro. Lá estava o sorriso dela olhando de volta para mim. Tive vontade de chorar, mas me mantive firme.

“Entendeu agora?” Ela perguntou?

“Eu não sei” respondi com voz trêmula.

“Se você vai viver com a cabeça entre as capas de um livro, faça isso direito. Se vai viver consertando carros, faça isso direito, se vai viver fazendo algo, faça como se sua vida dependesse disso, ou então ela vai ser uma vida fútil e você vai estar estragando a única coisa que tem algum valor, o que tem aqui dentro.”

Ela se aproximou e beijou minha testa.

“Veja seu irmão mais novo e como ele vive com os números dele. Faça a mesma coisa com seus livros, com suas histórias. O mundo está cheio de imbecis, não vire um deles. Vou continuar te amando se você for um imbecil, mas você não. Nunca se contente só com o que existe na superfície, mergulhe, veja se exista algo no fundo e brigue com esse algo. A vida é muito curta para você se contentar em só amar algo ou alguém. Entende? Tudo o que vale a pena é profundo, tem complexo, misterioso. São essas coisas abismais que te fazem mudar e crescer. Não pare de crescer nunca. E a maior lição é que você e seus irmãos juntos podem se tornar algo inquebrantável. Nunca se satisfaça com a mediocridade do mundo e nunca se contente com o que boia, vá atrás do que se esconde no fundo.”

A assim mergulhei no livro de Ruff para, primeiro, saber se possuía alguma profundidade e então ver se havia algo de valor ali.

Daqui em diante o livro será exposto como a fotógrafa O do romance de Anne Desclos, se não quiser surpresas reveladas pare de ler aqui e continue no final caso se interesse pela avaliação do material.

NOTAS SENSORIAIS

  • VISÃO

– A apresentação do livro é sensacional. Arte da capa e material remetem a Lovecraft e às revistas Pulp que publicavam seus contos. Até o papel impresso cria uma ambientação fenomenal, o cheiro de jornal velho, você sente o material áspero se esfarelar minimamente em contato com os dedos. Parece algo saído do passado. A arte gasta, a impressão reticulada e o destaque ao nome de Lovecraft maior do que o nome do próprio autor, talvez uma indicação do que viria.

  • AROMA

– Primeira decepção. O autor não consegue manter uma linguagem lovecraftiana em seus textos. O livro, inclusive, não conta apenas uma história, mas várias, cada capítulo uma pseudo homenagem a um estilo de história diferente do universo terror e ficção científica – atenção aqui:

a) “pseudo homenagem” porque não homenageia na verdade, apenas faz uso da ambientação o que torna cada capítulo um mero clichê

b) “a um estilo de história” porque o autor não tem o talento ou a capacidade de incorporar no que narra o estilo dos textos originais, os vícios de linguagem, os maneirismos, os adjetivos. A história de fantasmas não tem a alma gótica, a história de ficção científica não tem o espírito fantástico do inimaginável. É sempre o mesmo tom, o mesmo ritmo a mesma linguagem insossa e sem graça.

Também decepcionante quando se percebe que o nome de Lovecraft não é um título, é apenas mais uma isca para atrair leitores desavisados, se você é fã do escritor de Providência não se deixe levar pelo nome com que esta obra foi batizada, dele ela não tem nada além de algumas menções e de nomes de títulos emprestados para alguns dos capítulos.

Fraco, muito fraco. Fraco e chato.

  • PALADAR

Como o livro é composto por diferentes histórias com uma espinha dorsal que as une, vou dar minha breve opinião sobre cada “capítulo”.

– Lovecraft Country (País de Lovecraft)

A primeira história é de longe a “melhor do pacote”. Talvez o clima que vá se criando, e o fato de você ainda não saber que o livro seria ruim, ajude muito com isso. Ela é que dá nome ao livro. 1954, Atticus é um militar negro que recebeu dispensa e está decidindo o que fazer com a vida quando recebe uma carta misteriosa de seu pai. A partir dai parte em uma jornada que mudará sua vida.

– Dreams of the witch house (sonhos na casa da bruxa)

Uma das melhores histórias de Lovecraft vira título de um capítulo com a única intenção de… de nada além de se usar um título do autor. Típica história da casa mal assombrada, claro que o fantasma é branco e racista e a nova proprietária da casa uma mulher negra. Um conto fraca cujo ápice é a piada que surge quando o fantasma tenta matar a protagonista e acreditem que se esta descrição pareceu interessante, ela não é.

– Abdullah’s book (o livro de Abdula)

Uma sugestão de semelhança com o Necronomicon de Lovecraft, dai atribuírem o livro a um nome árabe. Desta vez um ramo negro da maçonaria se envolve com o ramo branco da Ordem que tem como membros figuras poderosas da sociedade – chefes de polícia irlandeses, prefeitos, ricaços. O conto não gira em torno da criação do livro, ou de sua história, apenas como os maçons conseguirão driblar uma armadilha sobrenatural que tem em seu interior o livro mágico – que não foi escrito, nunca pertenceu e nem foi lido por Abdullah.

– Hippolyta disturbs the universe (Hipólita perturba o universo)

Típico conto de ficção científica e o segundo conto com personagem feminina. Hippolyta acaba com uma chave nas mãos que a leva para um observatório que serve como portal para infinitos mundos. Desde criança ela idolatra astronomia e o conto tem o sabor de destino pré fabricado – como uma personagem batizada de Magnus se tornar um vilão chamado Magneto que controla o magnetismo, ou alguém batizado Otto Octavius terminar com tentáculos no corpo com o nome de Dr. Octopus. A criança que nunca pôde ingressar na astronomia por ser mulher, negra e pobre, acaba vivendo a maior aventura galática de todas. Mas ao ler você não sente o gosto do fantástico, do absurdo, daquilo que é alienígena, nem a surpresa e o maravilhamento de alguém realizando os sonhos de criança.

Hyppolita com certeza viveria uma aventura uito mais memorável se fosse parar em uma dimensão paralela onde os brancos fossem alvo do racismo e o mundo oriental fosse dominado pelos negros. Mas ela apenas vai para uma casa pré fabricada que tem um forno que produz comidas misteriosas de forma aleatória.

– Jekyll in Hyde Park (Jeckyll no parque Hyde)

Contos que trazem por título trocadilhos de obra de Stevenson por si só mereceriam ser ignoradas, mas tais trocadilhos parecem ser populares não apenas em literatura ruim, mas em música, curtas animados, etc…

Na obra de Stevenson o médico manso e gentil dr. Jekyll, faz pesquisas para entender os impulsos e os sentimentos humanos mais profundos, a acaba por criar uma droga que libera seus aspectos mais primitivos, é a deixa para surgir Sr. Hyde (do verbo hide, esconder, ocultar). Então o aceito socialmente se torna um monstro.

Ruff inverte aqui os papéis sociais e uma poção mágica transforma Ruby – mulher negra para quem nada dá certo – em uma mulher branca e ruiva que pode fazer o que quiser. Aqui o “monstro” se torna o que é aceito e desejado socialmente. O único objetivo deste conto é nos mostrar o que é a Ordem e quais os planos de Caleb para ela.

– The narrow house (A Casa Estreita)

Outro trocadilho sutil, já que “casa estreita” em inglês tem o significado poético de cova, sepultura – pense a respeito você entenderá. O título seria interessante se o conto fosse bom. Desta vez ao invés de trazer fantasmas para nosso mundo o pai de Atticus acaba indo parar em uma casa fantasma, agora são os vivos que assombram os mortos. Não sei como mas o autor conseguiu criar uma história monótona e chata. Já que fantasmas não sentem mais nada se alimentam de emoções. “Conte uma história e você pode ir”.

Não há momentos de perigo, não há reviravoltas, não há nada fantástico. Apenas usam um fantasma para contar como pode ser horrível para um branco viver um casamento interracial e ainda por cima ser burro. Um conto linear sem surpresas que tem como único objetivo mostrar que um vivo pode negociar com um morto.

– Horace and the devil doll (Horácio e o boneco satânico)

A promessa de um conto na linha do clássico Além da Imaginação. Será que o que está acontecendo é real? É ilusão? É loucura? Poderia ser Contos Fantásticos em seu ápice. Com certeza melhor do que os contos anteriores, mas o autor falha em personificar a criança protagonista da história, nos parece apenas um adulto que não sabe agir. Tudo o que caracterizaria uma criança, a inocência, o medo do desconhecido, o pânico que o terror causa, a suave ignorância dos primeiros anos são tratados de forma artificial, a visão de um adulto que não sabe escrever através de mãos infantis.

– The mark of Cain (A marca de Caim)

O climax une um pouco do que foi exposto em cada conto anterior. Quando um personagem não adquire uma experiência que o motive ou que lhe dê sabedoria ele ganha uma bugiganga mágica como uma varinha mágica com um desenho de libélula que tem o mesmo efeito do beliscão nevrálgico vulcano em seus inimigos.

Tudo, obviamente termina bem para os protagonistas, qualquer associação ou lealdade que uma personagem de cor tenha com uma branca é desfeita e termina a história principal.

  • FINALIZAÇÃO

É um livro que deixa um gosto ruim na boca.

Termino de ler o livro e a impressão clara é a da tentativa de se criar um texto onde o sobrenatural é ofuscado pelo racismo – o ódio irracional humano é pior do que qualquer monstro que nossa mente possa conjurar.

Ao mesmo tempo fechei o livro pensando que ele não passava de um pré roteiro para alguma nova série infanto juvenil de suspense e sobrenatural.

O mais engraçado é um homem branco de nossa época escrever sobre o racismo da década de 1950 e isso parece ser uma tendência da literatura. Victor Lavalle, outro escritor branco, escreveu “Tha Ballad of Black Tom: uma revisão do conto O Horror de Redhook de Lovecraft onde o protagonista é negro. Esse tipo de literatura Mea Culpa deveria ser vendida junto com livros de auto ajuda para quem se identifica com esse tipo de material.

Tudo isso somado a um escritor que não conseguiu adicionar brilho ou profundidade ao que escreveu, muito pelo contrário, na última história a personagem que se transforma na personagem ruiva acaba sendo subjulgada pela tia de Aticus, um dos homens que ambas haviam amarrado pisca para ela e diz “é isso o que ganha tentando ajudar os negros” apenas para receber um cala boca de ambas as mulheres, a negra e a negra no corpo branco.

Geralmente, escritores que se enveredam pela senda do sobrenatural, do fantástico e do horror possuem uma receita que visa, durante o desenrolar da história, criar uma dualidade moral tremenda. Uma criatura que representa o mal, a amoralidade, tudo o que é errado, e ela tem poderes e força muito maior do que a daquele (ou daquela) que a vai enfrentar. Cria-se assim a eterna síndrome bíblica de um David enfrentado um Golias armado de um simples pedregulho e vencendo o gigante no final.

Este tipo de roteiro geralmente é fraco, mas as pessoas se afeiçoam dele – acredito eu – porque o mal é sempre exposto como algo tão repulsivo que não tem outro destino cabível a não a aniquilação total, e ficamos aliviados quando ela finalmente chega.

No livro de Ruff a personagem Caleb Braithwhite deveria ser esse antagonista supremo, mesmo que velado durante a obra, alguém cuja presença devesse ser aturada, mas não suportada por muito tempo. O problema é que durante o desenrolar do livro ele não atinge esse status.

Ele salva Aticus e seu pai, seu tio e sua amiga Letitia – todos os quatro seriam mortos. No processo Atticus coloca uma “amiga” de Caleb em coma – com o tempo vemos que eles eram mais do que amigos. Caleb ainda paga para a família o salário que calculam ser devido a sua antepassada que trabalhou como escrava. Dá à irmã de Letitia, Ruby, uma chance de fazer o que desejar com a vida e num golpe final acaba com todos que tinham motivo para acabar com a familia e os amigos de Atticus. E como pagamento disso e mais é traído, tem seus poderes apagados, é expulso da cidade, fica sem dinheiro, sem influência e termina com todos os outros protagonistas rindo dele e das advertências que ele faz – não ameaças. Não sei qual a intenção de Ruff, mas terminei de ler o livro com as palavras do capanga amarrado ecoando em minha mente:

“é isso o que ganha tentando ajudar os negros”

Um erro grotesco do escritor, a não ser que ele suponha que como todas as outras personagens são intrinsecamente boas, o que fazem é intrinsecamente correto. Mas não é porque o racismo é a base moral de uma novela que tudo o que aqueles que sofrem do racismo fazem é justificável. Se Caleb era de fato alguém que merecia ser neutralizado e humilhado o autor falha em mostrar isso e criar um clima indigesto por lidar de um assunto tão delicado e fundamental: a ignorância humana e o desprezo que ela gera a tudo que nos parece diferente, a nossa tendência estúpida de diminuir e tirar valor de tudo aquilo que aparentemente é diferente de nós.

Além disso a forma como o autor coloca o universo da ficção científica preenchendo alguns vazios deixa a impressão de ter tentado pintar como seria alguém de cor gostar de ficção científica em mundo onde até hoje, para a maioria, Jesus Cristo é loiro de olhos claros.

Se o objetivo era mostrar a uma pessoa branca como era ser negro na época, ele faz isso da maneira mais tosca e despreocupada. Isso seria uma visão tão linda para ser trabalhada, mas lhe falta talento para desenvolvê-la, acaba deixando um fim suspenso no ar sem significado nenhum além do gosto tonto da traição.

Eu sinto dor em meu coração por todas as árvores que morreram para serem transformadas em papel e ter impressa em seus cadáveres as palavras que formam este volume.

MINHA AVALIAÇÃO

Papel higiênico usado

(está cheio de merda, o lugar dele é no lixo mas teve uma utilidade prática)

Mas… apesar de todo o desgosto… o prazer que as personagens tem por obras clássicas da fantasia e da ficção científica despertaram algo em mim e servirão de norte para as leituras que pretendo realizar este ano. Ray Bradbury, Edgar Rice Burroughs, planetas distantes, futuros improváveis… mutantes… 2020 ficará marcado como o ano do fantástico e esses serão os livros que surgirão aqui nas próximas postagens.

Bônus

Uma dica para quem gostaria de ver a proposta de racismo extremamente bem desenvolvida em uma história de ficção científica:

Kindred: Laços de Sangue de Octavia E. Butler

Publicado pele aditora Morro Branco, e com o título “Kindred – laços de sangue”, esta é a primeira obra de Octavia lançada no Brasil. O livro foi escrito por uma mulher negra que nasceu na década de 40. Ela sabe sobre o que está escrevendo. O livro narra a história de uma mulher negra que viaja de volta no tempo e tem que salvar a vida do escravagista que irá se tornar seu antepassado.

Octavia era uma mestra das palavras. Sua narrativa única, suas histórias um murro na carra do leitor. Este livro é uma obra prima que merece ser lida.

Bônus 2: Trailler da Série

Excelente review, ‘bem vidos de volta, Mortesubitos’!

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/lovecraft-country-racismo-spoilers-e-papel-higienico/

A Alquimia

Por Rubellus Petrinus

A alquimia é das ciências ocultas que, atualmente, mais interesse tem despertado, não só pelos inúmeros livros que ao longo dos tempos foram escritos sobre a Arte Hermética, mas também, pela curiosidade de saber algo sobre a veracidade da misteriosa Pedra Filosofal, também conhecida por Medicina Universal.

Durante muito tempo a alquimia foi sinônimo de charlatanismo ou de ignara credibilidade. Muito do descrédito da alquimia era devido à falta de publicações sérias, pois muitas delas são imitações grosseiras, feitas por sopradores, (falsos alquimistas) dos verdadeiros e antigos textos, nas quais se une o absurdo com a ignorância. Atualmente, devido ao grande número de traduções das obras clássicas mais importantes dos grandes Mestres, a opinião de muitas pessoas mudou completamente.

A palavra alquimia, do árabe, al-khimia, tem o mesmo significado de química, só que, esta química, antigamente designada por espagíria, não é a que atualmente conhecemos, mas sim, uma química transcendental e espiritualista. Sabe-se, que al, em árabe, designa Ser supremo o Todo-Poderoso, como Al-lah. O termo alquimia, designa desde os tempos mais recuados, a ciência de Deus, ou seja a química de Al.

A alquimia é a arte de trabalhar e aperfeiçoar os corpos com a ajuda da natureza. No sentido restrito do termo, a alquimia sendo uma técnica é, por isso, uma arte prática. Como tal, ela assenta sobre um conjunto de teorias relativas à constituição da matéria, à formação de substâncias inanimadas e vivas, etc.

Para um alquimista, a matéria é composta por três princípios fundamentais, Enxofre, Mercúrio e Sal, os quais poderão ser combinados em diversas proporções, para formar novos corpos.

No dizer de Roger Bacon, no Espelho da Alquimia, «…A alquimia é a ciência que ensina a preparar uma certa medicina ou elixir, o qual, sendo projetado sobre os metais imperfeitos, lhe comunica a perfeição…»

A alquimia operativa, aplicação direta da alquimia teórica, é a procura da pedra filosofal. Ela reveste-se de dois aspectos principais: a medicina universal e a transmutação dos metais, sendo uma, a prova real da outra.

Um alquimista, normalmente, era também um médico, filósofo e astrólogo, tal como Paracelso, Alberto Magno, Santo Agostinho, Frei Basílio Valentim e tantos outros grandes Mestres hoje conhecidos pelas suas obras reputadas de verdadeiras.

Cada Mestre tinha os seus discípulos a quem iniciava na Arte, transmitindo-lhe os seus conhecimentos. Além disso, para que esse conhecimento perdurasse pelos tempos, transmitiram-no também por escrito, nos livros que atualmente conhecemos, quase sempre escritos sob pseudônimo, de forma velada, por meio de alegorias, símbolos ou figuras.

É isto que dificulta o estudo da alquimia, porque esses símbolos e figuras não têm um sentido uniforme. Tudo era, e atualmente ainda é, deixado à obra e imaginação dos seus autores.

O alquimista não é um fazedor de ouro como muita gente pensa. A transmutação só terá lugar, como já dissemos, como prova provada da veracidade da medicina universal ou pedra filosofal.

Hoje, como no passado, existem também alquimistas. Encontram-se em todos os extractos sociais, tal como diz Cyliani em Hermes Revelado: «…Reis da Terra, se conhecêsseis o grande número de pessoas que se entregam, em segredo, nos nossos dias, à procura da pedra filosofal, ficaríeis admirados…»

Foram escritos milhares de livros sobre a Arte, pois ao que parece, desde fins da Idade Média até ao século XIX, a alquimia esteve na moda, e não só os gentis homens, nobres e cavaleiros, religiosos, clérigos e até alguns reis e papas, não só escreveram tratados sobre a Arte de Hermes, como também frequentemente a praticaram. Como é óbvio, isso deu origem a que fossem escritos muitos livros que nada têm a ver com a verdadeira alquimia.

Atualmente, os livros sobre a Arte Hermética são muito procurados. Infelizmente, existem no mercado muitos livros que aparentam ser obras sérias, mas não passam de pura especulação. Mesmo assim, são adquiridos não só por curiosidade, mas também pelo desejo de deles se poderem extrair alguns conhecimentos que permitam descobrir algo novo.

Não queremos com isto dizer que não foram escritos livros sérios sobre a Arte Hermética. Esses livros existem e são hoje bem conhecidos pelos estudiosos e investigadores da alquimia.

Muitos deles estão compilados no Theatrum Chemicum, na Bibliotheca chemica curiosa de Mangeti e na Bibliothéque des Philosophes Chimiques de Salmon.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-alquimia

Mapa Astral de John Dee

Dee perscrutou os mundos da ciência e da magia.Um dos homens mais instruídos de seu tempo, já lecionava na Universidade de Paris antes de completar trinta anos. Era um divulgador entusiasmado da matemática, um astrônomo respeitado e um perito em navegação, treinando muitos daqueles que conduziriam as viagens exploratórias da Inglaterra.Ao mesmo tempo, estava profundamente imerso na filosofia hermética e na chamada magia angélica e devotou a última terça parte de sua vida quase que exclusivamente a este tipo de estudo. Para Dee e para muitos de seus contemporâneos, estas atividades não eram contraditórias, mas aspectos de uma visão consistente do mundo.

Com Sol e Júpiter em Câncer; Lua em Virgem; Marte e Ascendente em Escorpião, Urano em Gêmeos (seu planeta mais forte, com 6 Aspectações) e Netuno em Peixes, o Mapa Astral de John Dee indica alguém com criatividade e imaginação acima da média, dedicado, estremamente metódico e com muita facilidade para trabalhar com poder.

A imaginação sempre foi uma das maiores, senão a maior, ferramenta para um mago. Sem a capacidade de visualização e construção mental de objetos, todas as chaves para se trabalhar com os símbolos magísticos ficam comprometidas; John Dee possuía Mercúrio cravado na divisa entre Gêmeos-Câncer, facilitando a sua mente o acesso tanto aos símbolos quanto às emoções. Marte em Escorpião indica facilidade para se lidar com magia e poder; na Casa 1 facilita esta energia para ser focada no autoconhecimento.

Some-se a esta mente criativa a organização e metodologia de alguém com Lua em Virgem e temos uma base sólida para um sistema completo de Magia, o Enochiano (ou a linguagem dos anjos). Com esta facilidade para se trabalhar com símbolos, Dee poderia ter sido também matemático, astrônomo, físico ou ter qualquer profissão que lidasse com criatividade e precisão (e, de fato, Dee é reconhecido na ciência ortodoxa apenas pelos seus feitos como matemático e cartógrafo na Corte da Rainha Elizabeth. Sua biblioteca era a maior de toda a Europa no período em que viveu).

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-john-dee

Amprodias (Os Túneis de Set)

Por Kenneth Grant, O Lado Noturno do Éden.

 

O DÉCIMO-PRIMEIRO caminho ou kala é atribuído ao elemento Ar e seu aspecto negativo é o demônio ou sombra conhecido como Amprodias cujo sigilo é dado aqui e cujo número é 401. Esta sombra pode ser evocada vibrando-se o nome Amprodias na clave de ‘E’479. O sigilo deve ser pintado em amarelo pálido luminoso em um quadrado baseado em esmeralda(?) manchado com dourado.

 

401 é o número do Azoto que significa a ‘soma e essência de tudo, concebido como Um’. Em sua fase negativa esta essência é concebida como Nenhuma e é o Vazio do qual procede a manifestação 480. A natureza deste vazio é também 401 como ATh, a palavra hebraica significando ‘fora de’; sua raiz é o Ut egípcio, portanto útero, o portal da saída. É fora do útero do Ain, via Kether, que a manifestação é emitida.

 

O sigilo de Amprodias exibe uma boca aberta típica do útero que pronuncia a Palavra. Esta Palavra é a Luz Oculta, cujo símbolo é a cruz rodopiante ou suástica. Ele é idêntico à letra A ou aleph, a letra atribuída ao décimo-primeiro caminho. No grimório mágico CCXXXI, o seguinte verso pertence a este kala:

 

A, o coração de IAO, reside em êxtase no local secreto dos trovões. Entre Asar e Asi ele habita em júbilo.

 

Os Túneis de Seth.

 

O raio, ou dorje, é a arma do suporte do relâmpago da Luz Oculta que risca para baixo a partir do vazio, reificando tal como este faz a terra ou matéria. O número 401 é também aquele da palavra ARR que significa ‘amaldiçoar’. Ele é a maldição primal do Fogo do Espírito aprisionado na forma corporal, descrito nos Livros Sagrados ‘a Injustiça do Começo’481, o começo sendo considerado como Kether, através da qual cintilam os raios do Ain ou Olho do Vazio.

 

Os animais atribuídos a este kala são a Águia e o Homem. O Homem representa a mais elevada forma incorporada da divindade; a Águia é aquele querubim do Ar que penetra os mais altos éteres na forma de inteligência: i.e., consciência dirigida por vontade extra-terrestre ou ‘divina’. Contudo o significado íntimo deste caminho está resumido no poder mágico do décimo-primeiro kala que é aquele da divinação. Isto depende do aspecto divino ou supra-mundano do espírito que cintila para dentro do útero e fecunda a terra virgem com Luz (inteligência) desde além do último Pylon (Kether). Poder divinatório é o aspecto intuitivo da inteligência e como tal seu curso é tão imprevisível quanto o relâmpago bifurcado que penetra o útero do espaço e se manifesta como o trovão. – o A entre o I e o O482. O mistério do trovão é explicado no CCXXXI. Aqui, a suástica do décimo-primeiro caminho é comparado com o fulgor do caminho 28 (q.v.) que contém o mistério da transformação da santa virgem. Ela aparece ‘como um fogo fluídico, transformando sua beleza em um raio’ (i.e., uma suástica). Isto simboliza a “Força que restaura o mundo arruinado pelo mal’, i.e. pela maldição primal ou Injustiça do Começo.

 

No plano mágico, o poder divinatório se manifesta no irracional, dessa forma os maiores mestres da Magia(k) traficam constantemente com as energias do décimo-primeiro kalas. O elemento irracional aparece tão fortemente nos magistas que utilizam este kala que seu trabalho não tem sido frequentemente levado a sério ou tem sido completamente negligenciado. Um exemplo recente é H.P.Blavatsky, cujas excentricidades lançaram tal dúvida sobre a autenticidade de sua obra que poucos na sua época foram capazes à estimá-la em seu verdadeiro valor. Similarmente, as palhaçadas de Crowley o colocaram em uma categoria ainda mais duvidosa. Poucos deveras compreendem que o décimo-primeiro caminho é aquele do Louco que dança à beira do abismo, como retratado no trunfo de taro atribuído à este caminho. Salvador Dali, cujas brincadeiras práticas são notórias, também às vezes trouxe descrédito sobre sua arte, embora muitas pessoas fiquem impressionadas pela riqueza que sua arte acumulou. O ocultista Gurdjieff também cai nesta categoria483. Seu livro Cartas a Belzebu tem sido descrito como uma piada prática complicada, então, novamente, obscurecendo deliberadamente a importância vital de um ensinamento que é compreendido apenas pelos poucos. Cristo também não falou em parábolas de forma que ele não fosse compreendido?484

 

A nota principal da escala musical atribuída a Amprodias – ‘E’ – é, como Hé, a letra do útero da virgem impregnado pelo Louco485. De acordo com isto, o Rio do Submundo atribuído ao décimo-primeiro kala é o Acheron, que recebe espíritos como o útero recebe o relâmpago criativo. O arqui-demônio deste caminho é o próprio Satan, Senhor dos Poderes do Ar (aleph) através do que o raio traceja.

 

Onze é o número atribuído à zona de poder (Daäth) dentro do abismo. A cor atribuída a Daäth é o Lavanda, ou Violeta Pura, que tipifica a cor além do espaço que vibra em uníssono com o kala ativado pela evocação de Amprodias. Ela é a cor do Louco; aquele que está fora do alcance da inteligência normal. A negação da razão que tipifica seu estado de consciência é consoante com o lado positivo deste caminho que é atribuído àquela parte da alma conhecida como a Ruach, ou Razão. Mais corretamente, a ruach é a respiração do espírito, a semente rodopiante que impregna a virgem do espaço e faz nascer inúmeros mundos.

 

O órgão corporal correspondente a este simbolismo é o nariz, o órgão da respiração e o veículo do sentido olfativo. Esta atribuição ajuda a explicar os fenômenos olfativos conectados às operações ‘satânicas’. O fedor do incenso empregado em ritos medievais era o véu grosseiro e externo de um fato espiritual interior. Portanto, uma das armas mágicas associadas a este kala é o abanador, que dispersa os vapores fétidos que envolvem o mago assim que ele evoca o demônio deste kala. Porém o instrumento principal é a adaga do ar, isso quer dizer a arma que rompe o hímen do éter virgem (representado pelo Ovo Negro do Espírito) e exibe a deidade terrível além da margem do ‘universo’; aquele que está sentado no Centro de Tudo, o deus louco celerado por Lovecraft sob o nome de Nyarlathotep486, o deus rodeado por ‘tocadores de flauta idiotas’.

 

A flauta é a Flauta de Pan, e aquele que ergue este véu e perscruta além é desprovido de razão e senso. Em outras palavras, ele vê a verdade das coisas em seu brilho nu e ele percebe que aquilo novamente é nada mais que um véu do sacramento primitivo alcançável apenas através da suprema fórmula da aniquilação, pois este é o caminho final, que conduz – via Kether – ao Grande Inane (Ain).

 

Onze, sendo o ‘número geral da Magia(k), ou Energia tendendo à mudança’487, o décimo-primeiro caminho representa particularmente o caminho da reversão e o ponto da volta do mais próximo para o outro lado da Árvore.

 

A enfermidade típica do décimo-primeiro caminho é o ‘fluxo’, que em termos mágicos é expressado como descargas desequilibradas ou ‘intempestivas’ da energia lunar. Este é portanto o kala do Sangue da Lua Negra. Ele adverte sobre um vazamento de fluido vital que, ao transbordar, forma um resíduo de energia mágica desequilibrada. Isto cria fantasmas que aparecem na forma de Silfos; elementais associados ao ar ou éter. Como as fadas e os duendes dos contos infantis eles são, mais frequentemente que não, retratados como criaturas diáfanas e enganadoras. Mas no aspecto no qual eles se manifestam no lado negativo da Árvore, eles assombram as terríveis brechas do espaço interior onde eles aparecem em feições de extremo horror que obsedam o mago e muitas vezes o deixam literalmente fora de si. Então eles invadem o espaço desocupado e, como sanguessugas, drenam o sangue de sua mente488 para dentro de seus próprios organismos. Esta é a origem dos mitos relacionados a magos aprisionados no espaço exterior489, suas mentes segregadas em celas transparentes que flutuam através dos golfos do vazio como imensas bolhas, aumentando em tamanho e luminosidade enquanto os silfos invasores extraem mais e mais energia vital dos fluxos que atacaram o imprudente invasor neste caminho.

 

Estas criaturas foram vagamente sentidas por Lovecraft490. Ele as descreve como ‘entidades sem forma compostas de uma geleia viscosa que pareciam como uma aglutinação de bolhas’491. Uma descrição similar é aplicada à semi-entidade Yog-Sothoth. A passagem é citada em O Renascer da Magia (p.116) onde a atenção é dirigida à grande similaridade entre o fenômeno descrito e a esfera de globos iridescentes incorporados por Crowley no desenho de seu pantáculo mágico pessoal onde elas aparecem por trás do Pentagrama de Set invertido.492

 

As maiores iniciações sozinhas podem conferir imunidade contra estes vampiros que navegam com asas cintilantes. O conhecimento das fadas tem ocultado estas criaturas com véus de encantamento que ocultam o horror de suas perseguições e contata com os habitantes dos sistemas alienígenas de consciência nas regiões mais inferiores do cosmo. Arthur Machen, o escritor galês que sabia mais sobre estes assuntos do que ele se preocupava em admitir, nota esta propensão do estudioso das fadas em caiar estes seres aéreos e retratá-los como entidades justas.493

 

O título do trunfo de taro atribuído ao décimo-primeiro kala é o ‘Espírito do Éter’. No lado mais próximo da Árvore este espírito é mais resplandecentemente belo e luminoso do que as palavras podem descrever, mas seu reverso ou reflexo é tal como acima descrito; assim também são as bolhas sopradas pelo Louco do Taro em sua louca carreira à margem do abismo.

 

O número de Amprodias se concentra em 5, o mais misterioso e místico dos números no cosmos, e além deste. Lovecraft494 indica a respeito das influências que ele denota quando ele alude à ‘quíntupla tradição matemática dos Antigos’ e suas estruturas de ciclope e moradas baseadas na forma da estrela de cinco pontas. No AL, I,60, Nuit descreve seu símbolo como “A Estrela de Cinco Pontas, com um Círculo no Meio, & o círculo é Vermelho. Minha cor é o negro para o cego… ‘ Todas estas ideias pertencem ao décimo-primeiro caminho495. O círculo vermelho é a lua ‘negra’ ou lua de sangue, os cinco pontos ou raios da estrela são as vibrações vaginais da mulher durante o derramamento de cinco dias. A estrela de cinco pontas é também o glifo dos Antigos transcósmicos; e o ‘Ovo do Espírito’496 é ‘negro para o cego’, ou aqueles cujos olhos espirituais não estão abertos e que são, portanto, como a virgem que mais tarde assume a forma de ‘fogo fluido’ como o relâmpago.

 

O conceito africano de Afefe tem sido atribuído ao décimo-primeiro kala 497. Afefe é ‘o vento’, e é precisamente aqui no mais primitivo simbolismo conhecido que nós descobrimos a identidade da serpente como um símbolo de potência criativa, a ruach ou espírito. Afefe tornou- se o Apep ou serpente Apap dos Mistérios Draconianos no Egito. O Afefe-Apophis é também a origem do Verme Fafnir da mitologia Nórdica e, como Massey mostrou, um derivativo moderno é nossa palavra ‘puff’, ‘estourar’ no sentido de tornar-se grande, inchado, entumecido ou grávido. O Afefe africano revela portanto a força ‘protuberante’ ou ondulante do vento que é a rajada ou espírito que se tornou – em um retrocesso posterior dos Mistérios – o Espírito Santo que impregna a virgem na forma da Pomba, o pássaro típico do ar. Isso é mais adiante confirmado pelo fato de que o gênio do vento, do qual Afefe é o ‘mensageiro’, reside no grande templo de Legba, a divindade fálica africana que nos cultos posteriores foi equacionado com o mal devido à sua conexão com os mistérios do sexo.

 

A letra ‘A’ na fórmula IAO é idêntica com Apophis e é o campo de operação no qual as energias mágicas do I e do O (o phallus e a kteis) se polarizam e realizam sua função criativa.

 

479 Este som deve se elevar a partir de um sussurro escassamente audível até um silvo penetrante como o ar sendo forçado ao longo de um tubo estreito.

 

480 A manifestação pode proceder apenas da não-manifestação. Esta declaração de uma verdade óbvia deve ser percebida, ela é a verdade mais profunda do caminho místico e a plena compreensão desta confere a chave da Iniciação definitiva. (ao lado, ilustração dos 22 Caminhos na Árvore)

 

481 Vide Liber VII, v.42; Liber LXV, iv.56, e em outras partes.

 

482 A fórmula de IAO foi analisada em Aleister Crowley & o Deus Oculto (capítulo 7).

 

483 Vide o excelente estudo de David Hall sobre Crowley e Gurdjieff.

 

484 Lucas, 8, 10.

 

485 Vide O Livro de Thoth, de Aleister Crowley.

 

486 O deus ‘sem face’. Cf. o ‘sem cabeça’ do texto Greco-Egípcio usado por Mathers em sua tradução da Goetia.

 

487 777 Revisado (Crowley).

 

488 Matéria mental ou chittam.

 

489 Vide página 255.

 

490 Lovecraft chamava estas bolhas de shoggoths. Existe uma palavra similar na língua caldaica, viz.: shaggathai. O Beth Shaggathai era a Casa de Fornicação, e isto sugere os semitons sexuais contidos no nome da ‘geleia viscosa’, ou lodo, que é o veículo primitivo da semente criativa.

 

491 Nas Montanhas da Loucura, Lovecraft, p.63.

 

492 Este pantáculo é reproduzido em O Renascer da Magia na pág.52.

 

493 Vide O Povo Branco (Machen), Introdução.

 

494 Nas Montanhas da Loucura (Lovecraft), p.86.

 

495 ‘Meu número é 11, como todos os seus números que são de nós.’

 

496 O símbolo de Akash ou Espaço é um Ovo Negro; isto também tipifica o Espírito.

 

497 Vide Cultos da Sombra, p.30.

 

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/amprodias-os-tuneis-de-set/

A Moderna Feitiçaria

Os paroquianos da respeitável igreja da rua Arlington, em Boston, viram e ouviram muita coisa ao longo dos anos. Afinal, é em seu altar que o evangelho unitário de um deus único, e não tríplice, tem sido transmitido de geração em geração. Foi ali também, numa crise agora remota, que o abolicionista William Ellery Channing protestou contra os malefícios da escravatura. E, um século depois , seria nessa mesma igreja que vários manifestantes externariam seu protesto contra a intervenção americana no Vietnã.

Contudo, é possível pensar que nem mesmo paroquianos com tanta tradi­ção e audácia teriam sido capazes de prever a incrível cena que ocorreu nessa igreja numa sexta-feira de abril, no ano de 1976. Naquela noite, quando as luzes da igreja diminuíram e o som cristalino de uma flauta se espalhou por entre mais de mil mulheres ali reunidas, quatro feiticeiras, cada uma delas empunhando uma vela, colocaram-se ao redor do altar. Com elas encontrava-se uma alta sacerdotisa da magia, Morgan McFarland, filha de um ministro protestante. Numa voz clara e firme, McFarland proferiu um longo encantamento cujos místicos ecos pareciam realmente muito distintos da doutrina que os paroquianos unitaristas estavam habituados a ouvir: “No momento infinito antes do início do Tempo, a Deusa se levantou em meio ao caos e deu a luz a Si Mesma (…) antes de qualquer nascimento (…) antes de seu próprio nascer. E quando separou os Céus das Águas e neles dançou, a Deusa, em Seu êxtase, criou tudo que há. Seus movimentos geraram o vento, o elemento Ar nasceu e respirou.”

Enquanto a alta sacerdotisa prosseguia em seu cântico, descrevendo sua própria versão da criação do mundo, suas companheiras de altar começaram a acender as velas, uma após a outra — a primeira para o leste, depois para o sul, o oeste e, por fim, para o norte. As palavras de MacFarland repercutiam, ressoando diante de todos como se fossem ditas pela voz de uma antiga pitonisa, uma voz que invocava a grande divindade feminina que, segundo afir­mavam as sacerdotisas, havia criado os céus e a terra. No ápice de seu canto, MacFarland rememorava o dia em que a deusa criara a primeira mulher e lhe ensinara os nomes que deveriam ser eternamente pronunciados em forma de oração: “Sou Ártemis, a Donzela dos Animais, a Virgem dos Caçadores. Sou ísis, a Grande Mãe. Sou Ngame, a Deusa ancestral que sopra a mortalha. E serei chamada por milhares de nomes. Invoquem a mim, minhas filhas,  e saibam que sou Nêmesis.”

Tudo isso ocorreu durante uma convenção de três dias, cujo tema era a espiritualidade feminina. Apesar de recorrer a elementos familiares tais como velas, túnicas e música, essa foi a prece menos ortodoxa que já ecoara pelas paredes de arenito da igreja da rua Arlington. A cerimônia deve ter sido contagian-te, pois no final a nave da igreja estava repleta de pessoas dan­çando e quase mil vozes preenchiam aquele local majestoso e antigo unidas em uma só cantilena que dizia: “A Deusa vive, há magia no ar. A Deusa vive, há magia no ar.”

Para muitos especialistas que pesquisam a história da feiti­çaria, aquela deusa invocada durante a cerimônia, uma deusa cuja dança arrebatada teria urdido o vento, o ar e o fogo e cujo riso, afirmava-se, instilara a vida em todas as mulheres, não poderia, de modo algum, ter existido no momento da criação, porque nasceu e re­cebeu sua aparência, tanto quanto sua personalidade, de uma imaginação absoluta­mente moderna. Sua origem histórica, afirmam os céticos, limita-se a poucos traços co­lhidos de concepções um tanto nebulosas relacionadas com divindades da Europa pré-cristã, concepções estas que teriam sido intencional­mente rebuscadas com deta­lhes teatrais para adequar-se aos ritos e cerimônias.

Porém, para muitos praticantes da feitiçaria, sua Grande Deusa é realmente um ancestral espírito criador, cultuado na Europa e no Oriente Próximo muito antes da intro­dução do Deus cristão. Acreditam que a deusa tenha sobrevivi­do aos séculos de perseguição ocultando-se nos corações de seus adoradores secretos, filhos e filhas espirituais que foram condenados ao ecúleo e à fogueira da Inquisição devido a suas crenças. E agora, dizem, a deusa emerge mais uma vez, aberta­mente, inspirando celebrações nos redutos daquela mesma reli­gião organizada que anteriormente tentara expurgar tudo que estivesse relacionado com ela e seus seguidores.

Seus modernos adeptos não têm a menor dúvida quanto à antigüidade de sua fé. Ser um feiticeiro, afirma um deles, é “en­trar em profunda sintonia com coisas que são mais antigas do que a própria espécie humana”. E, realmente, até certos não-iniciados declaram perceber nesse movimento dos praticantes de feitiçaria uma força invisível que anima o universo. Uma mulher que classificou os ensinamentos e ritos da feitiçaria como “meras palavras, sem qualquer significado”, disse no en­tanto que, quando compareceu ao local no qual as feiticeiras se reuniam, sentiu uma força que parecia pairar além dos limites da razão. “Sinto uma corrente”, confessou em carta a uma ami­ga, “uma força que nos cerca. Uma força viva, que pulsa, flui e reflui, cresce e desaparece como a lua (…) não sei o que é, e não sei como usá-la. É como quando se está bem perto de uma corrente elétrica, tão perto que se pode até ouvir seu zumbido, seu estalo, mas sem conseguir conectá-la.”

Hoje, contudo, milhares de homens e mulheres que levam uma vida comum, afora essa busca, acreditam estar conectando essa corrente e extraindo energia daquilo que Theo-dore Roszak define como “a fonte da consciência espiritu­al do homem”. No decorrer desse processo, estes que se proclamam neopagãos des­cobrem — ou, como dizem alguns deles, redescobrem — o que afirmam ser uma reli­gião ancestral, uma religião cuja linguagem é a do mito e do ritual, cuja fé professa a realidade do êxtase e é difícil de ser definida, uma religião de muitas divindades e não de apenas um só Deus.

Esses modernos adora­dores da natureza, tal como os pagãos de eras passadas, não separam o natural do so­brenatural, o ordinário do extraordinário, o mundano do espiri­tual. Para um neopagão, tudo pertence a um mesmo todo. Cal­cula-se que o número de neopagãos alcance um número aproximado de 100 mil ou mais adeptos nos Estados unidos, formando uma irmandade que se reflete na verdadeira explo­são de festivais pagãos iniciada na década de 70. Mo final da década de 80, havia mais de cinqüenta desses festivais nos Estados Unidos, atraindo uma platéia que reunia desde os adeptos mais radicais até meros curiosos. Segundo Margot Adler, autora de Atraindo a Lua, um livro que documenta a ascensão do neopaganismo, tais festivais “mudaram comple­tamente a face do movimento pagão” e estão gerando uma comunidade paga nacional. Adler afirma que esse grupo abrange pessoas cujo perfil social inclui desde tatuadores e estivadores até banqueiros, advogados e muitos profissionais da área de informática.

Nem todos os neopagãos da atualidade podem ser chama­dos de bruxos ou feiticeiros, pois nem sempre associam o culto neopagão à natureza e a antigas divindades com a prática da magia ritualística, como fazem os feiticeiros. Mas um número desconhecido de neopagãos adota os princípios de uma fé popularmente chamada de feitiçaria e conhecida entre os iniciados como “a prática”. Essa religião também é conhecida pelo nome de Wicca, uma palavra do inglês antigo que designa “feiticeiro”; esse termo pode estar relacionado com as raízes indo-européias das palavras wic e weik, que significam “dobrar” ou “virar”. Portanto, aos olhos dos modernos adeptos da Wicca, as bruxas nunca foram as megeras ou mulheres fatais descritas pelo populacho, mas sim homens e mulheres capazes de “dobrar” a realidade através da prática da magia. Eles acreditam que os feiticeiros da história se­riam os curandeiros das aldeias, senhores do folclore e da sabedo­ria tradicional e, portanto, os pilares da sociedade local.

Apesar da moderna popularidade da feitiçaria como religião, a crença medieval no poder das bruxas para convocar malefícios nunca desapareceu completamente. E era ainda bem forte em 1928, no condado de York, na Pensilvânia, a ponto de provocar mortes. Dois homens e um menino confes­saram o assassinato de Nelson Rehmeyer, um fazendeiro soli­tário que se dizia feiticeiro, para apanhar um cacho de seus cabelos. Precisavam do cacho, afirmaram, para quebrar o fei­tiço que ele lhes jogara. John Blymyer, o mais velho, decla­rou que ele também era bruxo e que durante quinze anos buscara o responsável por seus infortúnios. Logo após sua detenção, declarou: “Rehmeyer está morto. Não me sinto mais enfeitiçado. Agora consigo comer e beber.”

Blymyer e seus amigos não estavam sozinhos em suas crenças. Os jornais mencionavam outras pessoas preocupa­das com feitiços; um barbeiro contava que alguns fregueses levavam consigo o cabelo cortado, para evitar “dores de ca­beça”. Depois do médico-legista do condado de York ter se lamentado de que metade do condado acreditava em magia negra, as sociedades locais de médicos anunciaram uma “cruzada contra a prática de feitiçaria e suas crendices maléficas”.

Mas o estereótipo persiste, e as bruxas continuam a ser objeto de calunia, lutando para desfazer a imagem de companhei­ras do diabo. Para muitos, a bruxa era, e ainda é, a adoradora do demônio. Bem recentemente, em 1952, o autor britânico Pennethorne Hughes classificou algumas feiticeiras da história como “lascivas e pervertidas”, atribuindo-lhes uma longa lista de peca­dos reais ou imaginários. “Elas faziam feitiços”, escreveu, “cau­savam prejuízos, envenenavam, provocavam abortos no gado e inibiam o nascimento de seres humanos, serviam ao diabo, parodiavam os rituais cristãos, aliavam-se aos inimigos do rei, copulavam com outros bruxos ou bruxas que chamavam de íncubos ou súcubos e cometiam abusos com animais domésticos.”

Diante de tantas acusações, não chega a ser surpreendente o fato de que as palavras “mago”, “feiticeiro” ou “bruxo” e “ma­gia”, “feitiçaria”, ou “bruxaria” continuem a despertar profundas reações. “A feitiçaria é uma palavra que assusta a uns e confun­de a outros”, observa uma escritora radicada na Califórnia, tam­bém praticante de feitiçaria, conhecida pelo nome de Starhawk. “Na mente do povo”, ela observa, as bruxas do passado são “me­geras horrendas montadas em vassouras, ou maléficas satanistas que participavam de rituais obscenos.” E a opinião contem­porânea não tem demonstrado bondade maior para com as feiti­ceiras atuais, considerando-as, como aponta Starhawk, “mem­bros de um culto esquisito, que não tem a profundidade, dignida­de ou seriedade de propósitos de uma verdadeira religião”.

Mas trata-se de fato de uma religião, tanto para quem a re­ligião é “uma necessidade humana de beleza”, como no sentido que figura no dicionário: “sistema institucionalizado de atitudes, crenças e praticas religiosas”. Até mesmo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos cedeu às reivindicações dos praticantes da Wicca para que esta fosse considerada como religião váli­da e, em meados da década de 70, o Pentágono recrutou uma feiticeira, Lady Theos, para revisar o capítulo referente a bruxaria no Manual dos Capelães do exército. As contribuições de Lady Theos foram atualizadas em 1985, por uma erudita neopagã chamada Selena Fox. Outro sinal dos tempos pode ser visto nos cartões de identidade dos membros das forças armadas, nos quais as palavras “pagão” e “wiccan” agora aparecem com fre­qüência, embora certamente em menor número, do que os no­mes de outras afiliações religiosas.

Apesar desse reconhecimento e embora a Constituição americana — tal como a brasileira — garanta o direito à liberda­de de crença, a prática de feitiçaria ainda enfrenta duras críticas e até mesmo uma perseguição premeditada. Esses ataques natu­ralmente não se comparam, em escala e em violência, com o prolongado reinado de horror que predominou do século XIV ao XVII, período descrito pelas feiticeiras contemporâneas como “a época das fogueiras”, ou “a grande caçada às bruxas”. De fato, a perseguição atual é comparativamente até benigna — demissões de empregos, perda da custódia dos filhos, prisão por infrações aos bons costumes —, mas causa prejuízos que levaram a alta sacerdotisa da ordem Wicca, Morgan McFarland, a rotular estes tempos como ua era das fogueiras brandas”.

Pelo menos em parte, a fonte da relativa tolerância atual, bem como as raízes desse renascimento da Wicca, podem ser encontradas nos trabalhos elaborados no início do século XX pela antropóloga inglesa Margaret Murray. As pesquisas de Murray sobre as origens e a história da feitiçaria começaram, como ela posteriormente registrou em sua autobiografia, com “a idéia comum de que todas as feiticeiras eram velhas pade­cendo de alucinações por causa do diabo”. Mas ao examinar os registros dos julgamentos que restaram da Inquisição, Murray logo desmascarou o diabo, segundo suas próprias palavras, e descobriu em seu lugar algo que identificou como o Deus Chi-frudo de um culto à fertilidade, uma divindade paga que os inquisidores, em busca de heresias religiosas, transformaram em uma incorporação do diabo. À medida que aprofundou o es­tudo daqueles registros ela se convenceu de que esse deus pos-

suía um equivalente feminino, uma versão medieval da divina caçadora das épocas clássicas, que os gregos chamavam de Ártemis e os romanos de Diana. Ela supunha que as feiticeiras condenadas reverenciavam Diana como líder espiritual.

Na visão de Murray, a feitiçaria seria o mesmo culto a ferti­lidade anterior ao cristianismo, que ela denominou culto a Diana, e seria “a antiga religião da Europa ocidental”. Vestígios dessa fé, segundo ela, poderiam ser rastreados no passado a ate cerca de 25 mil anos, época em que viveu uma raça aborígine com­posta de anões, cuja existência permaneceu registrada pelos conquistadores que invadiram aquelas terras apenas nas lendas e superstições sobre elfos e fadas. Seria uma “religião alegre”, como a descreve Murray, repleta de festejos, danças e abandono sexual e incompreensível para os sombrios inquisidores, cujo único recurso foi destruí-la até as mais tenras raízes.

Em 1921, Murray divulgou suas conclusões em O Culto a Feiticeira na Europa Ocidental, o primeiro dos três livros que ela publicaria sobre o assunto, em um trabalho que outorgaria cer­ta legitimidade à religião Wicca. Outros estudiosos, contudo, imediatamente atacaram tanto os métodos utilizados por Murray como suas conclusões. Um crítico simplesmente classi­ficou seu livro como “um palavrório enfadonho”. Embora o tra­balho de Margareth Murray nunca tenha desfrutado de muito prestígio nos círculos acadêmicos, recentes estudos arqueológi­cos induziram alguns historiadores a fazer ao menos uma releitura mais criteriosa de algumas de suas teorias mais polê­micas. Mesmo que a seu modo, Murray realmente conseguiu, através de uma reavaliação favorável da feitiçaria, abrir uma porta para um fluxo de interesse pelo culto a Diana.

queles que acataram a liderança de Murray e se aventuraram a penetrar por aquela porta logo descobriram que estavam também na trilha de um escritor e folclorista americano chamado Charles Leland. Em 1899, mais de duas décadas antes de Murray apresentar suas teorias, Leland havia publicado Aradia, obra que ele descreveu como o evan­gelho de La Vecchia Religione, uma expressão que desde então passou a fazer parte do saber “Wicca”. Ao apresentar a tradu­ção do manual secreto de mitos e encantamentos de um feiti­ceiro italiano, o livro relata a lenda de Diana, Rainha das Feiti­ceiras, cujo encontro com o deus-sol Lúcifer resultara numa fi­lha chamada Aradia. Esta seria Ia prima strega, “a primeira bru­xa”, a que revelara os segredos da feitiçaria para a humanidade.

Aradia é no mínimo uma fonte duvidosa e provavelmente uma fraude cabal; contudo, terminou servindo de inspiração para inúmeros ritos praticados por feiticeiros contemporâneos, inclusive para a Exortação à Deusa, que convoca seus ouvintes a “reunir-se em lugares secretos para adorar Meu Espírito, a Mim que sou a Rainha de todas as Feitiçarias”. Embora a obra conte com poucos, ou raros, defensores no círculo acadêmico, em oposição aos que lhe lançam duras críticas, Aradia de certo modo reacendeu as chamas desse renascimento da feitiçaria, e sua ênfase no culto à deusa tornou o livro muito popular nas assembléias feministas.

Um trabalho mais recente com enfoque similar, porém de reputação mais sólida, é o livro de Robert Graves, A Deusa Branca, publicado pela primeira vez em 1948. Em estilo lírico, Graves apresenta argumentos que revelam a existência de um culto ancestral centrado na figura de uma matriarcal deusa lu­nar. Segundo o autor, essa deusa seria a única salvação para a civilização ocidental, substituta da musa inspiradora de toda criação poética. Mas, se por um lado muitos entre os primeiros leitores encontraram nesse livro fundamentos para a prática de feitiçaria e se mais tarde ele continuou a inspirar os seguidores da Wicca, o próprio Graves expressou profundas reservas com relação à bruxaria. Sua ambivalência torna-se aparente num ensaio de 1964, no qual o autor sublinha a longevidade e a for­ça da religião Wicca, mas também faz críticas ao que ele consi­dera como uma ênfase em jogos e brincadeiras. Na verdade, o ideal para a feitiçaria, escreve Graves, seria que “surgisse um místico de grande força para revestir de seriedade essa prática, recuperando sua busca original de sabedoria”.

A referência de Graves era uma irônica alfinetada em Gerald Brosseau Gardner, um senhor inglês peculiar e caris­mático, que exerceria profunda — embora frívola, do ponto de vista de Graves — influência no ressurgimento do interesse pela feitiçaria. Gardner, que nascera em 1884 nas proximidades de Liverpool, tivera diversas carreiras e ocupações: funcionário de alfândega, plantador de seringueiras, antropólogo e, finalmente, místico declarado. Pouco afeito às convenções, era um nudista convicto, professando um perpétuo interesse pela “magia e as­suntos do gênero”, campo que para ele incluía tudo: desde os pequenos seres das lendas inglesas até as vítimas da Inquisição e os cultos secretos da antiga Grécia, Roma e Egito. Pertenceu, durante certo tempo, à famosa sociedade dos aprendizes de magos chamada Ordem Hermética da Aurora Dourada.

Gerald Gardner enfureceu os círculos acadêmicos quando anunciou que as teorias de Margaret Murray eram verdadeiras. A feitiçaria, declarou, havia sido uma religião e continuava a ser. Ele dizia saber isso simplesmente porque ele próprio era um bruxo. Seu surpreendente depoimento veio à luz em 1954, com o lançamento de A Feitiçaria Moderna, o livro mais impor­tante para o renascimento da feitiçaria. Sua publicação teria sido impossível antes de 1951, ano no qual os frágeis decretos de 1753 contra a feitiçaria foram finalmente revogados pelo Parlamento britânico. Curiosamente, o Parlamento rescindiu es­ses decretos cedendo às pressões das igrejas espíritas, cujas tentativas de contato com as almas dos que já se foram tam­bém haviam sido reprimidas pela lei. A revogação contou com pouquíssimos oponentes, porque os legisladores imaginavam que certamente após mais de três séculos de perseguição e 200 anos de silêncio, a feitiçaria era assunto morto e enterrado.

Se a prática não havia desaparecido, como A Feitiçaria Moderna tentava provar, o próprio Gardner admitiu ao menos que a feitiçaria estava morrendo quando ele a encontrou pela primeira vez, em 1939. Gardner gerou muita polêmica ao afirmar que, após a catastrófica perseguição medieval, a bru­xaria tinha sobrevivido através dos séculos, secretamente, à medida que seu saber canônico e seus rituais eram transmiti­dos de uma geração para outra de feiticeiros. Segundo Gardner, sua atração pelo ocultismo havia feito com que se encontrasse com uma herdeira da antiga tradição, “a Velha Dorothy” Clutterbuck, que supostamente seria alta sacerdoti­sa de uma seita sobrevivente. Logo após esse encon­tro, Gardner foi iniciado na prática, embora mais tarde tenha afirmado, no trecho mais improvável de uma história inconsistente, que desconhecia as intenções da velha Dorothy até chegar ao meio da cerimônia iniciática, ouvir a palavra “Wicca” e perceber “que a bruxa que eu pensei que morrera queimada há centenas de anos ainda vivia”.

Considerando-se devidamente preparado para tal função, Gardner gradualmente assumiu o papel de porta-voz informal da prática. Assim, lançou uma nova luz nas atividades até então secretas da bruxaria ao descrever em seu livro, por exemplo, a suposta atuação desses adeptos para impedir a invasão de Hitler na Inglaterra. De acordo com Gardner, os feiticeiros da Grã-Bretanha reuniram-se na costa inglesa em 1941 e juntos produziram “a marca das chamas” — uma intensa concentração de energia espiritual, também conhecida como “cone do poder”, para supostamente enviar uma mensagem mental ao Führer: “Você não pode vir. Você não pode cruzar o mar”. Não se pode afirmar se o encantamento produziu ou não o efeito desejado mas, como Gardner salientou prontamente, a história realmente registra o fato de Hitler ter reconsiderado seu plano de invadir a Inglaterra na última hora, voltando-se abruptamente para a Rússia. Gardner declara que esse mesmo encantamento teria, aparentemente, causado o desmoronamento da Armada Espa­nhola em 1588, quando muitos feiticeiros conjuraram uma tempestade que tragou a maior frota marítima daquela época.

O poeta inglês Robert Graves inadvertidamente incentivou o ressurgimento da feitiçaria ao divulgar em seu livro de 1948, “A Deusa Branca”, sua visão da divindade feminina primordial. Ele acreditava que, apesar da repressão dos primeiros imperadores cristãos, esse culto havia sido preservado.

Quando não reescrevia a história, Gerald Gardner assumia a tarefa de fazer uma revisão da feitiçaria. Partindo de suas próprias extensas pesquisas sobre magia ritual, ele criou uma “sopa” literária sobre feitiçaria feita com ingredientes que incluíam fragmentos de antigos rituais supostamente preserva­dos por seus companheiros, adeptos da prática, além de ele­mentos de ritos maçônicos e citações de seu colega Aleister Crowley, renomado ocultista que se declarava a Grande Besta da magia ritual. Gardner decidiu então acrescentar uma pitada de Aradia e da Deusa Branca e, para ficar no ponto, temperou seu trabalho incorporando-lhe um pouquinho de Ovídio e de Rudyard Kipling. O resultado final, escrito numa imitação de inglês elisabetano, engrossado ainda com pretensas 162 leis de feitiçaria, foi uma espécie de catecismo da Wicca, ressusci­tado por Gardner. Assim que completou o trabalho, seu com­pilador tentou fazê-lo passar por um manual de uma bruxa do século XVI, ou um Livro das Sombras.

Apesar dessa origem duvidosa, o volume transformou-se em evangelho e liturgia da tradição gardneriana da Wicca, como veio a ser chamada essa última encarnação da feitiça­ria. Era uma “pacífica e feliz religião da natureza”, nas pala­vras de Margot Adler em Atraindo a Lua. “As bruxas reuniam-se em assembléias, conduzidas por sacerdotisas. Adoravam duas divindades, em especial, o deus das florestas e de tudo que elas encerram, e a grande deusa tríplice da fertilidade e do renascimento. Nuas, as feiticeiras formavam um círculo e pro­duziam energia com seus corpos através da dança, do canto e de técnicas de meditação. Concentravam-se basicamente na Deusa; celebravam os oito festivais pagãos da Europa, bus­cando entrar em sintonia com a natureza.”

Como indaga o próprio Gardner em seu livro, “Há algo de errado ou pernicioso nisso tudo? Se praticassem esses ritos dentro de uma igreja, omitindo o nome da deusa ou substituin­do-o pelo de uma santa, será que alguém se oporia?”

Talvez não, embora a nudez ritualística recomendada por Gardner causasse, e ainda cause, um certo espanto. Mas para Gardner as roupas simplesmente impedem a liberação da for­ça psíquica que ele acreditava existir no corpo humano. Ao se desnudarem para adorar a deusa, as feiticeiras não só se des­piam de seus trajes habituais, como também de sua vida coti­diana. Além disso, sua nudez representaria um regresso sim­bólico a uma era anterior à perda da inocência.

Gardner justifica a nudez ritualística em sua adaptação da Exortação à Deusa, de Aradia, na qual a prima strega reco­menda a suas seguidoras: “Como sinal de que sois verdadeira­mente livres, deveis estar nuas em seus ritos; cantai, celebrai, fazendo música e amor, tudo em meu louvor.” A recomendação da nudez, acrescentada à defesa feita por Gardner do sexo ritualístico — o Grande Rito, como ele o chamava —, virtual­mente pedia críticas. Rapidamente o pai da tradição gardneriana ganharia reputação de velho obsceno.

as, sendo um nudista e ocultista vitalício, Gardner  estava habituado aos olhares reprovadores da socie­dade e em seu livro A Feitiçaria Moderna, parecia  antever as críticas que posteriormente recebe­ria. Contudo, angariou pouquíssima simpatia entre seus detratores ao optar por caracterizar a nudez ritua­lística como “um grupo familiar tentando fazer uma experiência científica de acordo com o texto do livro”. Pior ainda, alguns de seus críticos pensaram ter sentido um cheiro de fraude após o exame minucioso de seus trabalhos, começando então a ques­tionar a validade do supostamente antiquíssimo Livro das Som­bras, bem como de sua crença numa tradição ininterrupta de prática da feitiçaria.

Entre seus críticos mais ferrenhos encontrava-se o historia­dor Elliot Rose, que em 1962 desacreditou a feitiçaria de Gardner, afirmando que era um sincretismo, e aconselhando ironicamente àqueles que buscassem alguma profundidade mística na prática da bruxaria que escolhessem uns dez “amigos alucinados” e formassem sua própria assembléia de bruxos. “Será um grupo tão tradicional, bem-instruído e autêntico quanto qualquer outro desses últimos milênios”, observava Rose acidamente.

Os críticos mais contumazes mantiveram fogo cerrado ate mesmo após 1964, quando Gerald Gardner foi confinado em segurança dentro de seu túmulo. Francis King, um destacado cronista britânico do ocultismo, acusou Gardner de fundar “um culto às bruxas elaborado e escrito em estilo romântico, um culto redigido de seu próprio punho”, um pouco para escapar do tédio. King chegou até a declarar que Gardner contratara seu amigo, o mágico Aleister Crowley, para que este lhe redigisse uma nova liturgia.

Aidan Kelly é outro crítico, o fundador da Nova Ordem Orto­doxa Reformada da Aurora Dourada, uma ramificação da prática da magia. Kelly declarou trivialmente que Gardner inventara a fei­tiçaria moderna e que ele, em sua tentativa desorientada de reformar a velha religião, formara outra, inteiramente nova. Segundo Kelly, a primazia da deusa, a elevação da mulher ao status de alta

sacerdotisa, o uso do círculo para concentração de energia e até mesmo o ritual para atrair a lua, no qual uma alta sacerdotisa se transforma temporariamente em deusa, eram contribuições de Gardner à prática. Além disso, em 1984, Kelly assegurou em um jornal pagão que não há base alguma para a declaração de Gardner segundo a qual sua tradição de feitiçaria teria raízes no antigo paganismo europeu. No mesmo ar­tigo, Kelly forneceu detalhes acerca das origens do polêmico Livro das Sombras, de Gardner. O trabalho não teria sido ini­ciado, desconfiava Kelly, no século XVI, como Gardner afirmava, mas sim nos primórdios da Segunda Guerra Mundial.

Gardner teria começado a registrar em um livro de anotações vários rituais que havia pilhado de outras tradições ocultistas, bem como passagens favoritas dos textos que lia. Quando encheu seu primeiro livro de anotações, segundo Kelly, Gardner considerou que tinha em mãos a receita do primeiro Livro das Som­bras. Kelly também chamou atenção para uma profunda revisão daquilo que se tornara a “tradição” de Gardner, demonstrando que não se tratava da continuidade de uma religião cujas raízes remontavam a milênios, mas sim de uma invenção recente e, como tal, um tanto inconsistente. Em seus primeiros anos, a Wicca de Gardner estivera centralizada no culto ao equivalente masculino do deus principal, registrava Kelly. Por volta da década de 50, contudo, o Deus Chifrudo fora eclipsado pela Grande Deusa. Uma mudança equivalente havia ocorrido na própria prática das assembléias, durante as quais o alto sacerdote fora subitamente relegado a segundo plano, substituído por uma alta sacerdotisa. Como Kelly demonstrou, essas mudanças só aconteceram depois que Doreen Valiente, a primeira alta sacerdotisa da linha de Gardner, começou a adotar o mito da Deusa Branca de Robert Graves como sistema oficial de crenças. Na verdade, Valiente é, na vi­são de Kelly, a verdadeira mentora da grande maioria dos ri­tuais gardnerianos.

Um sumo sacerdote veste um adereço de pele com chifres para representar o lado masculino da divindade Wicca, durante um ritual. Os adeptos da Wicca dizem que seu Deus Chifrudo, vinculado ao grego Pã e ao celta Cernuno, corporifica o princípio masculino e é simbolizado pelo sol.

Kelly no entanto contrabalançou suas virulentas críticas a Gardner ao creditar-lhe não só uma criatividade genial, mas também a responsabilidade pela vitalidade da feitiçaria contem­porânea. O mesmo fez J. Gordon Melton, um ministro meto­dista e fundador do Instituto para o Estudo da Religião Ameri­cana. Numa entrevista recente, comentou que todo o movimen­to neopagão deve seu surgimento, bem como seu ímpeto, a Gerald Gardner. “Tudo aquilo que chamamos hoje de movimen­to da feitiçaria moderna”, declarou Melton, “pode ser datado a partir de Gardner”.

Dúvidas e polêmicas sobre suas fontes à parte, a influên­cia de Gerald Gardner no moderno processo de renascimento da Wicca é indiscutível, assim como seu papel de pai espiritual dessa tradição específica de feitiçaria que hoje carrega seu nome. Embora os métodos de Gardner revelassem um certo to­que de charlatania e seus motivos talvez parecessem um tanto confusos, sua mensagem era apropriada para sua época e foi recebida com entusiasmo dos dois lados do Atlântico. Quer ele tenha ou não redescoberto e resgatado um antigo caminho de sabedoria, aparentemente seus seguidores foram capazes de captar em seu trabalho uma fonte para uma prática espiritual que lhes traz satisfação.

Além do mais, na condição de alto sacerdote de seu gru­po, Gerald Gardner foi pessoalmente responsável pela iniciação de dúzias de novos feiticeiros e pela criação de muitas novas assembléias de bruxos. Estas, por sua vez, geraram outros gru­pos, num processo que se tornou conhecido como “a colméia” e que, de fato, resultou numa espécie de sucessão apostólica cujas origens remontam ao grupo original criado por Gardner. Outras assembléias gardnerianas nasceram a partir de feiticei­ras autodidatas, que formaram seus próprios grupos após ler as obras de Gardner, adotando sua filosofia.

Contudo, nem todas as feiticeiras estão vinculadas ao gardnerianismo. Muitas professam uma herança anterior a Gardner e desempenham seus rituais de acordo com diversos modelos colhidos das tradições celta, escandinava e alemã. Além disso, alguns desses pretensos tradicionalistas declaram-se feiticeiros hereditários, nascidos em famílias de bruxos e destinados a transmitir seus segredos aos próprios filhos.

Zsuzsanna — ou Z — Budapest é uma famosa feiticeira feminista e alta sacerdotisa da Assembléia Número Um de Fei­ticeiros de Susan B. Anthony, nome atribuído em homenagem à famosa advogada americana, defensora dos direitos da mulher. Z Budapest afirma que a origem de seu conhecimento remonta a sua pátria, a Hungria, e ao ano de 1270. Mas diz ter sido educada acreditando que a prática da feitiçaria era apenas uma prática, e não uma religião, cujos fundamentos lhe foram trans­mitidos pela própria mãe, uma artista que previa o futuro e su­postamente usava seus poderes mágicos para acalmar os ven­tos. Somente muitos anos depois, quando migrou para os Esta­dos Unidos, Z teria descoberto os trabalhos de escritores como Robert Graves e Esther Harding, e passou a reconhecer-se como a praticante de Wicca que era na realidade.

utras feiticeiras que também se declaram herdeiras de uma tradição descrevem experiências semelhan­tes às de Z. Budapest. Contam que, para elas, a prá­tica era um assunto de família até lerem, acidental­mente, a literatura sobre a Wicca — geralmente li­vros escritos por Gerald Gardner, ou Margaret Murray, ou por autores contemporâneos como Starhawk, Janet e Stewart Farrar, ou Margot Adler. Só então teriam compreendido que pertenciam a um universo mais amplo. Lady Cibele, por exem­plo, uma bruxa de Wisconsin, afirma que cresceu acreditando que a prática se limitava ao círculo de seus familiares. “Foi só na universidade que descobri que havia mais pessoas envolvi­das com a prática”, confessou a Margot Adler, “e eu não sabia que éramos muitos até 1964, quando meu marido veio corren­do para casa, da biblioteca onde trabalhava, murmurando mui­to animado que Tem mais gente como nós no mundo!’.” O ma­rido de Lady Cibele havia encontrado A Feitiçaria Moderna e, quando leram o livro juntos, emocionaram-se com a sensação de familiaridade que sentiram pelas idéias e práticas descritas por Gerald Gardner.

Mesmo que todos esses depoimentos sejam verdadeiros, o nascimento no seio de uma família de feiticeiros não repre­sentaria uma garantia de que uma criança em especial se tor­naria posteriormente especialista nos segredos da prática. Em alguns casos o dom pula uma geração, na maioria das vezes porque um feiticeiro decide que nenhum de seus próprios filhos possui o temperamento adequado para iniciar-se na prática. O resultado é que a Wicca geralmente se vincula às tais “historias da vovó”, nas quais, como aponta J. Gordon Melton, “aparece alguém que diz: fui iniciado por minha avó que era bruxa, des­cendente de uma linhagem ancestral”. Pouquíssimas histórias dessa natureza sobrevivem a um exame minucioso e muitas parecem até ridículas. Os próprios praticantes da Wicca sen­tem-se um tanto constrangidos com a proliferação de histórias da vovó. “Depois de algum tempo”, comentou um sacerdote Wicca, “você percebe que, se ouviu uma história de avó, já ou­viu todas. Você percebe que o além deve estar lotado de vovozinhas assim.”

Entre as “histórias da vovó” mais interessantes está a que foi contada pelo suposto Rei das Feiticeiras, Alexander Sanders, que declarou ter sido iniciado na prática por sua avó, em mea­dos de 1933, com apenas 7 anos de idade. Mas os céticos rapi­damente salientam o fato de que a linha de feitiçaria de Sanders, conhecida como Tradição Alexandrina, guarda profun­da semelhança com a de Gardner. De fato, muitos dos rituais de Sanders são virtualmente idênticos aos de Gardner e isto le­vou alguns observadores a desprezar essa tradição, consideran­do-a como uma simples variante, e não um legado deixado por uma avó misteriosa e convenientemente falecida.

Muitos desses mesmos céticos encararam com igual des­confiança a história da famosa feiticeira inglesa Sybil Leek, que também afirmava ter se iniciado na prática ainda no colo da avó. Na opinião de Melton, Leek, como Sanders, simplesmente exage­rou alguns acontecimentos de sua infância. No entanto, os ata­ques dos incrédulos pouco fizeram para diminuir a enorme popu­laridade da feiticeira-escritora e na época de sua morte, em 1983, Sybill Leek era uma das bruxas mais famosas dos dois lados do Atlântico. Leek era uma autora prolífica, e durante sua vida produ­ziu mais de sessenta livros que espalharam pelo mundo o evange­lho da fé Wicca — e, não por acaso, sua própria fama.

Porém, ainda mais do que os livros de Leek, o que levou a Wicca da Inglaterra para os Estados Unidos foi a própria tra­dição de Gardner, que cruzou o Atlântico em 1964 como parte da bagagem espiritual de dois expatriados britânicos. Raymond e Rosemary Buckland já estavam prontos para pas­sar dois anos em Long Island, Nova York, quando, movidos pelo interesse por ocultismo, decidiram escrever a Gardner em sua casa em Isle of Man. Tal correspondência resultaria poste­riormente em um encontro e um curso rápido de feitiçaria na casa de Gardner. Nesse breve período o casal Buckland foi sa­grado respectivamente sacerdote e sacerdotisa gardnerianos. Foram uns dos últimos feiticeiros iniciados e ungidos pessoal­mente por Gardner antes de sua morte.

Assim que regressaram ao lar nova-iorquino, os Bucklands rapidamente puseram em prática tudo que haviam apren­dido. Formaram a primeira assembléia gardneriana nos Estados Unidos e esta por sua vez, com o passar do tempo, gerou mui­tos outros grupos. Esses grupos propagaram o evangelho gardneriano de uma costa a outra, tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá. Durante certo tempo, Rosemary Buckland, ou Lady Rowen, como era conhecida entre os praticantes da Wicca, foi coroada a rainha das feiticeiras pelos grupos aos quais dera origem. Enquanto isso, Ray Buckland, ou Robat, nome que havia adotado, seguindo o exemplo de Gerald Gard­ner, seu mentor, publicou o primeiro de uma série de livros que produziria sobre feitiçaria. Seus trabalhos fizeram com que a prática se tornasse acessível para muitos aspirantes a iniciados, especialmente em seu novo lar, onde o interesse pela Wicca floresceu na atmosfera tolerante do final da década de 60 e iní­cio dos anos 70.

No mesmo período em que Ray e Rosemary Buckland se dedicaram a propagar esse renascimento da feitiçaria na Ame­rica do Norte, o ocultismo começou a se transformar em algo que a antropóloga cultural Tanya M. Luhrmann descreveu como “uma contracultura sofisticada”. Em seu livro Atrativos da Feiti­çaria publicado em 1989, Luhrmann apresenta uma teoria se-qundò a qual “a contracultura da década de 60 voltou-se para o ocultismo – astrologia, tarô, medicina e alimentação alternati­va – porque eram alternativas para a cultura estabelecida; muitos descobriram as cartas do tarô ao mesmo tempo que descobriram o broto de feijão”.

Ray Buckland recorda esse período como uma época ex­citante durante a qual veio a luz um número crescente de as­sembléias de bruxos, bem como as mais diversas expressões da crença Wicca. Feiticeiras detentoras de estilos altamente personalizados eram estimuladas pela permissividade daqueles dias  sentindo-se finalmente livres para expor-se. Ao mesmo tempo, a tradição gardneriana frutificava, espalhando as se­mentes de novas assembléias e gerando dissidências em todas as direções.

Certos grupos, tais como os que professavam a tradi­ção de Alexandria e ainda um híbrido mais recente chamado de tradição de Algard, eram crias perfeitas do grupo anterior, isto é, assemelhavam-se aos progenitores gardnerianos em tudo, menos no nome. Outros eram parentes mais afastados, baseando-se nos ensinamentos de Gerald Gardner, mas acrescentando idéias novas. Entre estes figuram a Nova Wicca de Illinois, a Wicca Georgiana sediada na Califórnia e a Wicca de Maidenhill, da Filadélfia. Outras, tais como a igre­ja de Y Tylwyth Teg, a Pecti-Wita, e o Caminho do Norte, ins­piram-se no passado mágico das lendas celtas, escocesas e nórdicas.

As variações da Wicca não terminam por aqui: na verda­de, elas apresentam uma diversidade que reflete a natureza in­dividualista da prática da feitiçaria. A Wicca é tão aberta quanto eclética. “Todos nós conectamos com o Divino de maneiras di­ferentes”, afirma Selena Fox, fundadora de uma tradição pró­pria. “Muitos caminhos levam à verdade.” De fato, o próprio grupo de Fox, o Santuário do Círculo, reconhecido como uma igreja Wicca pelo governo fede­ral, estadual e local, tenta for­necer um substrato comum a todos esses caminhos. O San­tuário do Círculo define-se co­mo um serviço de troca e inter­câmbio internacional para prati­cantes de diferentes estirpes de Wicca. Muitas feministas, no entanto, envolveram-se em al­gum dos inúmeros cultos a Diana que proliferaram na dé­cada de 70. Essas assembléias assumiram seu nome a partir do culto a Diana, com base na concepção de Margaret Murray, e enfatizam em suas práticas a veneração à deusa. Há até mes­mo um curso por correspon­dência para aspirantes à Wicca que já conseguiu atrair aproximadamente 40 mil alunos.

Mas essa onda de bruxos autodidatas passou a preocupar alguns dos antigos adeptos da Wicca, inclusive Ray Buckland, que certa vez lamentou o advento dessa religião “feita em casa”. Em 1973, contrariado com algo que ele considerava como a corrupção da feitiçaria, Buckland rompeu seus vínculos com o gardnerianismo e criou um novo conjunto de práticas, retomando a tradição da Seax-Wicca, ou Wicca saxã. Ao fazer isso, produziu também sua própria versão de uma feitiçaria au­todidata e em sua obra A Árvore, seu primeiro produto na linha Seax-Wicca, incluía instruções detalhadas que permitiam a qualquer leitor “iniciar-se como feiticeiro e gerar sua própria Assembléia”.

Com o anúncio aparentemente contraditório de uma “nova tradição” espalhando-se aos quatro ventos, a Wicca in­gressava numa fase de contendas entre os novos e os antigos. Ao romper com a tradição gardneriana, Ray Buckland tentava distanciar-se das querelas. “Enquanto os outros brigam para definir qual seria a mais antiga das tradições”, anunciou orgulhosamente, “declaro pertencer à mais jovem de todas elas!”.

Isso ocorreu em 1973. Depois, surgiu uma grande profu­são de assembléias e correntes da Wicca nas quais a honra de ser a novidade do dia às vezes confere uma importância passa­geira. Além disso, essa abundância de ritos e nomes transfor­mou a própria Wicca numa fé um tanto difícil de ser definida. Até agora foram inúteis as tentativas de formular um credo aceitável por todos que se proclamam seguidores da Wicca, apesar da necessidade profunda de seus seguidores no sentido de tornar público um conjunto de crenças que os distinga ofi­cialmente dos satanistas. Em 1974, o Conselho dos Feiticeiros Americanos, um grupo de representantes de diversas seitas Wicca, formulou um documento que se intitulava corajosamen­te “Princípios da Crença Wicca”. Porém, assim que se ratificou o documento, o conselho que o produzira se desfez devido a desavenças entre seus membros, pondo fim a esse breve con­senso. No ano seguinte, uma nova associação, que hoje englo­ba cerca de setenta grupos de seguidores da Wicca, ratificou o Pacto da Deusa, um decreto mais duradouro propositalmente redigido nos moldes do documento da igreja Congregacional. Embora o pacto incluísse um código de ética e garantisse a au­tonomia das assembléias signatárias, está longe de definir o que seria a Wicca. “Não poderíamos definir com palavras o que é Wicca”, admite o pacto, “porque existem muitas diferenças.”

Muitos bruxos alegam que essas diferenças apenas fazem aumentar os atrativos da Wicca. De fato, mesmo no seio de uma tradição específica, distintos grupos podem ater-se a cren­ças contrastantes e praticar rituais dessemelhantes. Essa situa­ção é satisfatória para a maioria dos feiticeiros, que não vêem por que a Wicca deveria ser menos diversificada do que as inú­meras denominações cristãs.

Porém, até mesmo na ausência de um credo oficial, um grande número de feiticeiros acata um pretenso conselho, ou lei da Wicca: “Não prejudicarás a terceiros.” Não se sabe ao certo, mas aparentemente essa adaptação livre da regra de ouro do cristianismo tem vigorado pelo menos desde a época de Gerald Gardner. Nas palavras do Manual dos Capelães do Exército dos Estados Unidos, a lei da Wicca geralmente é interpretada como se dissesse que o praticante pode fazer o que bem desejar com suas capacidades psíquicas desenvolvidas na prática da feitiçaria, contanto que ja­mais prejudique alguém com seus poderes. Como mais uma medida de precaução contra o mau uso desses po­deres mágicos, a maioria das assembléias também apela para uma lei chamada “lei do triplo”, que consiste em uma outra máxima antiga. O provérbio adverte os bruxos, prevenindo: “Todo bem que fizerdes, a vós retornará três vezes maior; todo mal que fizerdes, também a vós re­gressará três vezes maior.”

Dada a dificuldade em clas­sificar a feitiçaria, ou estabe­lecer uma lista concisa com as crenças comuns a todos os adeptos da Wicca, uma descrição completa das ca­racterísticas de um bruxo moderno necessariamente é apenas aproximativa. Toda­via, pode-se afirmar com segurança que a maioria dos feiticeiros acredita na reencarnação, reverencia a natu­reza, venera uma divindade  onipresente e multifacetada e incorpora a magia  ritualística em seu culto a  essa divindade. Além disso, poucos feiticeiros questiona­riam os preceitos básicos re­sumidos por Margot Adler em Atraindo a Lua. “A pala­vra é sagrada”, ela escreveu. “A natureza é sagrada. O corpo é sagrado. A sexuali­dade é sagrada. A mente é sagrada. A imaginação é sa­grada. Você é sagrado. Um caminho espiritual que nãoestiver estagnado termina conduzindo à compreensão da pró­pria natureza divina. Você é Deusa. Você é Deus. A divindade está (…) tanto dentro como fora de você.”

Três pressuspostos filosóficos fundamentam essas cren­ças e estes, mais do que qualquer outra característica, vincu­lam a feitiçaria moderna e o neopaganismo às práticas corres­pondentes do mundo antigo. O primeiro pressuposto é o animismo, ou a idéia de que objetos supostamente inanimados, tais como rochas ou árvores, estão imbuídos de uma espiri­tualidade própria. Um segundo traço comum é o panteísmo, se­gundo o qual a divindade é parte essencial da natureza. E a ter­ceira característica é o politeísmo, ou a convicção de que a di­vindade é ao mesmo tempo múltipla e diversificada.

Juntas, essas crenças compreendem uma concepção ge­ral do divino que permeou o mundo pré-cristão. Nas palavras do historiador Arnold Toynbee, “a divindade era inerente a to­dos os fenômenos naturais, inclusive àqueles que o homem do­mara e domesticara. A divindade estava presente nas fontes, nos rios e nos mares; nas árvores, tanto no carvalho de uma mata silvestre como na oliveira cultivada em uma plantação; no milho e nos vinhedos; nas montanhas; nos terremotos, no tro­vão e nos raios.” A presença de Deus ou da divindade era senti­da em todos os lugares, em todas as coisas; ela seria “plural, não singular; um panteon, e não um único ser sobre-humano e todo-poderoso”.

A escritora e bruxa Starhawk reproduz em grande parte o mesmo tema ao observar que a bruxaria “não se baseia em um dogma ou conjunto de crenças, nem em escrituras, ou em al­gum livro sagrado revelado por um grande homem. A feitiçaria retira seus ensinamentos da própria natureza e inspira-se nos movimentos do sol, da lua e das estrelas, no vôo dos pássaros, no lento crescimento das árvores e no ciclo das estações”.

Mas Starhawk também reconhece que o aspecto politeísta da Wicca — o culto à “Deusa Tríplice do nascimento, do amor e da morte e a seu consorte, o Caçador, que é o senhor da Dança da Vida”— constitui a grande diferença entre a feitiçaria moder­na e as principais religiões ocidentais. Mesmo assim, muitos adeptos da Wicca discordam quanto ao fato de seu deus ou deusa serem meros símbolos, entidades verdadeiras ou poderosas imagens primárias — aquilo que Carl Jung alcunhou de ar­quétipo —, profundamente arraigadas no subconsciente huma­no. Os feiticeiros também divergem quanto aos nomes de suas divindades. Como se expressa no cântico da alta sacerdotisa Morgan McFarland na igreja da rua Arlington, são inúmeros os nomes para o deus e a deusa. Abrangem desde Cernuno, Pã e Herne no lado masculino da divindade, a Cerridwen, Arianrhod e Diana, no aspecto feminino. Na verdade, há tantos nomes di­ferentes provenientes de tantas culturas e tradições que McFarland não se afastava da verdade quando dizia a sua pla­téia que a deusa “será chamada por milhares de nomes”.

Seja qual for seu nome, a deusa, na maioria das seitas da Wicca, tem precedência sobre o deus. Seu alto status reflete-se em títulos tais como a Grande Deusa e a Grande Mãe. De fato, para Starhawk e para muitas outras feiticeiras, o culto a uma suprema divindade feminina constituiu, desde tempos re­motos, a própria essência da feitiçaria, uma força que “per­meia as origens de todas as civilizações”.

Starhawk comenta que “A Deusa-Mãe foi gravada nas pa­redes das cavernas paleolíticas e esculpida em pedra desde 25 mil anos antes de Cristo.” Ela argumenta ain­da que as mulheres com freqüência tinham papel de chefia em culturas centradas na deusa, há milhares de anos. “Para a Mãe”, escreve, “foram erguidos grandes círculos de pedra nas Ilhas Britânicas. Para Ela foi escavada a grande passagem dos túmulos na Irlanda. Em Sua honra as dançarinas sagradas saltaram sobre os touros em Creta. A Avó Terra sus­tentou o solo das pradarias norte-americanas e a Grande Mãe do Oceano lavou as costas da África.”

Na visão de Starhawk, a deusa não é um Deus Pai distan­te e dominador, principal arquiteto da terra e remoto gover­nante no além. Ao contrário, a deusa é uma amiga sábia e pro­fundamente valiosa, que está no mundo e a ele pertence. Starhawk gosta de pensar na deusa como o sopro do universo e, ao mesmo tempo, um ser extremamente real. “As pessoas me perguntam se eu creio na deusa”, escreve Starhawk. “Res­pondo: ‘Você acredita nas rochas?’.”

Certamente, a força e a permanência são as analogias mais óbvias da imagem da deu­sa enquanto rocha. Contudo, é essa deusa de aspectos eterna­mente mutantes e multifaceta-dos, a misteriosa divindade fe­minina que aos poucos se revela.

Dicionário do Feiticeiro

Antigos, ou Poderosos: aspectos das divindades, invocados como guardiães durante os rituais.

Assembléia, ou “Coven”: reunião de iniciados na Wicca.

Balefire: fogueira ritualística.

Charme: objeto energizado; amuleto usado para afastar certas energias ou talismã para atraí-las.

Círculo mágico: limites de uma esfera de poder pessoal den­tro da qual os iniciados realizam rituais.

Deasil: movimentos no sentido horário, que é o do sol, reali­zados durante o ritual, para que passem energias positivas.

Divinação: a arte de decifrar o desconhecido através do uso de cartas de tarô, cristais ou similares.

Elementos: constituintes do universo: terra, ar, fogo e água; para algumas tradições, o espírito é o quinto elemento.

Encantamento: ritual que invoca magia benéfica.

Energizar: transmitir energia pessoal para um objeto.

Esbat: celebração da lua cheia, doze ou treze vezes por ano.

Familiares: animais pelos quais um feiticeiro sente profundo apego; uma espécie de parentesco.

Força da Terra: energia das coisas naturais; manifestações visíveis da força divina.

Força divina: energia espiritual, o poder do deus e da deusa.

Instrumentos: objetos de rituais .

Invocação: prece feita durante uma reunião de feiticeiros pedindo para que os altos poderes se manifestem.

Livro das Sombras: livro no qual o feiticeiro registra encantamentos, rituais e histórias mágicas; grimoire.

Magia: a arte de modificar a percepção ou a realidade por outros meios que não os físicos.

Neopagão: praticante de religião atual, como a Wicca.

Pagão: palavra latina que designa “morador do campo”, membro de uma religião pré-cristã, mágica e politeísta.

Poder pessoal: o poder que mora dentro de cada um, que nasce da mesma fonte que o poder divino.

Prática, A: feitiçaria; a Antiga Religião; ver Wicca.

Sabá: um dos oito festivais sazonais.

Tradição Wicca: denominação ou caminho da prática Wicca.

Wicca: religião natural neopagã.

Widdershins: movimento contrário ao do sol, ou anti-horá­rio. Pode ser negativo, ou adotado para dispersar energias negativas ou desfazer o círculo mágico após um ritual.

Implementos Ritualísticos

Tradicionalmente, os bruxos preferem encontrar ou fabricar seus próprios instru­mentos, que sempre consagram antes de utilizar em trabalhos mágicos. A maioria dos iniciados reserva seus instrumentos estritamente para uso ritual; alguns dizem que os instrumentos não são essenciais, mas ajudam a aumentar a concentração.

Embora pouco usados para manipular coi sas físicas, estes implementos primários mostrados nestas páginas são chamados de instrumentos de feitiçaria. Jamais são utilizados para ferir seres vivos, declaram os iniciados, e muito menos para matar. Os bruxos dizem que eles estão presentes em rituais inofensivos e até benéficos, ce­rimônias desempenhadas para efetuar mu danças psíquicas ou espirituais.

Recipientes como a taça e o caldeirão simbolizam a deusa e servem para captar e transformar a energia. Os instrumentos longos e fálicos — o athame, a espada, o cajado e a varinha — naturalmente repre­sentam o deus; são brandidos para dirigir e cortar energias. Para cortar alimentos durante os rituais, os feiticeiros utilizam uma faca simples e afiada com um cabo branco que a diferencia do athame.

O athame, uma faca escura com dois fios e cabo negro, transfere o poder pessoal, ou energia psíquica, do corpo do feiticeiro para o mundo.

A espada, como o athame, desempenha o corte simbólico ou psíquico, especialmente quando é usada para desenhar um círculo mágico, isolando o espaço dentro dele.

A taça é o símbolo da deusa, do princípio feminino e de sua energia. Ela contém água (outro símbolo da deusa) ou vinho, para uso ritual.

O cajado pode substituir a espada ou varinha para marcar grandes círculos mágicos.

Uma tiara com a lua crescente, símbolo da deusa, é usada pela suma sacerdotisa para retratar ou corporificar a divindade no ritual.

Um par de chifres pode ser usado na cabeça do sumo sacerdote em rituais ao Deus Chifrudo.

Com a varinha mágica, feita de madeira sagrada, invoca-se as divindades e outros espíritos.

Símbolo do lar, da deusa e do deus, a vassoura é um dos instrumentos favoritos dos iniciados, usada para a limpeza psíquica do espaço do ritual antes, durante e após os trabalhos mágicos.

O caldeirão é pote no qual, supostamente, ocorre a transformação mágica, geralmente com  a ajuda do fogo. Cheio de água, é usado para prever o futuro.

O tambor tocado em alguns encontros contribui para concentrar energia.

A Roda do Ano Wicca

Os seguidores da Wicca falam do ano como se ele fosse uma roda; seu calendário é um círculo, significando que o ciclo das estações gira infinitamente. Espaçadas harmonicamente pela roda do ano Wicca estão as oito datas de festas, ou sabás. Es­tas diferem dos “esbás”, as doze ou treze ocasiões durante o ano em que se realizam assembléias para celebrar a lua cheia. Os quatro sabás menores, na verdade, são feriados solares, marcos da jornada anual do sol pelos céus. Os quatro sabás maiores celebram o ciclo agrícola da terra: a semeadura, o crescimento, a colheita e o repouso.

O ciclo do sabá é uma recontagem e celebração da ancestral história da Grande Deusa e de seu filho e companheiro, o Deus Chifrudo. Há entre as seitas Wicca uma grande diversidade em tomo desse mito. Segue-se uma dessas versões, que in­corpora várias crenças sobre a morte, o renascimento e o fiel retorno dos ciclos, acompanhando o ciclo do ano no hemisfério norte.

Yule, um sabá menor, é a festa do solstício de inverno (por volta de 22 de dezembro), marcando não apenas a noite mais longa do ano, mas também o início do retorno do sol. Nessa época, narra a história, a deusa dá à luz a deus, representado pelo sol; depois, ela descansa durantes os meses frios que pertencem ao deus-menino. Em Yule, os iniciados acen­dem fogueiras ou velas para dar boas-vindas ao sol e confeccionam enfeites com azevinho e visco — vermelho para o sol, verde pela vida eterna, branco pela pureza.

Imbolc (1º de fevereiro), um sabá importante também chamado de festa das velas, celebra os primeiros sinais da primavera, o brotar invisível das sementes sob o solo. Os dias mais longos mostram o poder do deus-menino. Os iniciados encerram o confinamento do inverno com ritos de puri­ficação e acendem todo tipo de fogo, desde velas brancas até enormes fogueiras. Durante o sabá menor do equinócio da primavera (por volta de 21 de março), a exuberante deusa está desperta, abençoando a terra com sua fertilidade. Os iniciados da Wicca pintam cascas de ovos, plantam sementes e planejam novos empreendimentos.

Em Beltane, 1º de maio, outro grande sabá, o deus atinge a maturidade, enquanto o poder da deusa faz crescerem os frutos. Excitados pelas energias da natureza, eles se amam e ela concebe. Os adeptos desfrutam um festival de flores, o que geralmente inclui a dança em volta do mastro, um símbolo de fertilidade.

O solstício de verão (por volta de 21 de junho) é o dia mais longo e requer fogueiras em homenagem à deusa e ao deus. Tam­bém é uma ocasião para pactos e casamentos, nos quais os recém-casados pulam uma vassoura. O sabá mais importante da estação é Lugnasadh (pronuncia-se “lun-sar”), em 1º de agosto, que marca a primeira colheita e a promessa de amadurecimento dos frutos e ce­reais. Os primeiros cereais são usados para fazer pãezinhos em forma de sol. À medida que os dias encurtam o deus se enfraquece e a deusa sente o filho de ambos crescer no útero. No equinócio do outono (por volta de 22 de setembro), o deus prepara-se para morrer e a deusa está no auge de sua fartura. Os iniciados agradecem pela colheita, simbolizada pela cornucópia.

Na roda do ano, opondo-se às profusas flores de Beltane, surge o grande sabá de Samhain (pronuncia-se “sou-en”), em 31 de outubro, quando tudo que já floresceu está perecendo ou adormecendo. O sol se debilita e o deus está à morte. Oportuna­mente, chega o Ano Novo da Wicca, corporificando a fé de que toda mor­te traz o renascimento através da deusa. Na verdade, a próxima festa, Yule, novamente celebra o nascimento do deus.

A coincidência desses festivais com os feriados cristãos, bem como as semelhanças entre os símbolos da Wicca e os do cristianismo, segundo muitos antropólogos, não seria apenas acidental, mas sim uma prova da pré-existência das crenças pagãs. Para as autoridades cristãs que reprimiam as religiões mais antigas durante a Idade das Trevas, converter os feriados já estabelecidos, atri­buindo-lhes um novo significado cristão, facilitava a aceitação de uma nova fé.


Cerimonias e Celebrações

A cena está se tornando cada vez mais comum: um grupo se reúne, geralmente em noites de luar, em meio a uma floresta ou em uma colina isolada. Às vezes trajando túnicas e máscaras, outras inteiramente nus, os participantes iniciam uma cerimônia com cantos e danças, um ritual que certamente pareceria esquisito e misterioso para um observador casual, embora seja um comportamento indiscutivelmente religioso.

Assim os bruxos praticam sua fé. Como os adeptos de religiões mais convencionais, os iniciados em feitiçaria, ou Wicca, usam rituais para vincular-se espiritualmente entre si e a suas divindades. Os ritos da Wicca diferem de uma seita para outra. Vários rituais da Comunidade do Espírito da Terra, uma vasta rede de feiticeiros e pagãos da região de Boston, nos Estados unidos, estão representados nas próximas páginas.

Algumas cerimônias são periódicas, marcando as fases da lua ou a mudança de estações. Outras, tais como a Iniciação, casamentos ou pactos, só ocorrem quando há necessidade. E há também aquelas cerimônias que, como a consagra­ção do vinho com um athame, a faca ritualística (acima), fazem parte de todos os encontros. Seja qual for seu propósito, a maioria dos rituais Wicca — especial­mente quando celebrados nos locais eleitos eternamente pelos bruxos — evoca um estado de espírito onírico que atravessa os tempos, remontando a uma era mais romântica.


Iniciação: “Confiança total”

Para um novo feiticeiro, a iniciação é a mais significativa de todas as cerimônias. Alguns bruxos solitários fazem a própria iniciação, mas é mais comum o ritual em grupo, que confere a integração em uma assembléia, bem como o ingresso na fé Wicca. Trata-se de um rito de morte e renascimento simbólicos. A iniciação mostrada aqui é a praticada pela Fraternidade de Athanor, um dos diversos grupos da Comunidade do Espírito da Terra. Lide­rando o ritual — e a maioria das cerimônias apresentadas nestas páginas — está o sumo sacerdote de Athanor, Andras Corban Arthen, trajando uma pele de lobo, que ele crê confe­rir-lhe os poderes desse animal. A iniciação em uma de suas assembléias ocorre ao cabo de dois ou três anos de estudo, durante os quais o aprendiz passa a conhecer a história da Wicca, produz seus próprios implementos ritualísticos, pratica a leitura do tarô e outros supostos métodos divinatórios e se torna versado naquilo que eles chamam de técnicas de cura psíquica.

Como a maioria dos ritos da Wicca, a iniciação começa com a delimitação de um círculo mágico para definir o espaço sagrado da cerimônia. Aqui, há um largo círculo, cheio de inscrições, depositado na grama, mas o bruxo pode traçá-lo na terra com o athame, ou apenas riscá-lo no ar com o indicador.

A candidata é banhada ritualisticamente, e então conduzida para o círculo mágico, nua, de olhos vendados e com as mãos amarradas nas costas. Tais condições devem fazê-la sentir-se vulnerável,’ testando sua confiança em seus companheiros. Cima interpeladora dá um passo em sua direção, pressiona o athame contra seu peito e lhe pergunta o nome e sua intenção. Em meio a um renascimento simbólico, ela responde com seu novo nome de feiticeira, afirmando que abraça sua nova vida espiritual e vem “em perfeito amor e em total confiança”.

Ao término da cerimônia, o sacerdote segura seus pulsos e a faz girar nas quatro direções (à direita), apresentando-a para os quatro pontos cardeais. Então ela é acolhida pelo grupo e todos celebram sua vinda bebendo e comendo. Como diz Arthen, “os pagãos gostam muito de festejos”.


Para Captar a Energia da Lua

Os praticantes da Wicca identificam a lua, eternamente mutante — crescente, cheia e minguante —, com sua grande deusa em suas diversas facetas: donzela, mãe e velha. É por isso que a cerimônia destinada a canalizar para a terra os poderes mágicos da lua está na essência do culto à deusa, sendo um rito chave na liturgia da Wicca.

Quando se encontram para um dos doze ou treze esbás do ano, que são as celebrações da lua cheia, os membros da Frater­nidade de Athanor reúnem-se em um círculo mágico para direcionar suas energias psíquicas através de seu sumo sacerdote — que aqui aparece ajoelhado np centro do círculo — e para sua suma sacerdotisa, que está de pé com os braços erguidos em direção aos céus. Acreditam que a concentração de energia ajudará a sacerdotisa a “atrair a lua para dentro de si” e transformar-se em uma; corporificação da deusa.

“Geralmente, a época da lua cheia é sempre; repleta de muita tensão psíquica”, explica Arthen, o sumo sacerdote. Esse ritual tenta utilizar essa tensão. “Ele ajuda a sacerdote a entrar em um transe profundo, no qual terá visões ou dirá palavras que geralmente são relevantes para as pessoas da assembléia”.

As taças nas mãos da sacerdotisa contêm água, o elemento que simboliza a lua e é governado por ela. Os membros dizem que essa água se torna “psiquicamente energizada” com o poder que a trespassa. Cada feiticeiro deve beber um pouco dela ao término do ritual, na cerimônia que o sumo sacerdote Arthen chama de sacramento.

Muitos grupos realizam essa cerimônia de atrair a lua em outras fases, além da lua cheia. Tentam conectar o poder da lua crescente para promover o crescimento pessoal e começo de novas empreitadas e conectam com a minguante, ou lua negra, para selar os finais de coisas que devem ter um fim.

A maioria dos grupos considera a cerimônia como uma maneira de honrar a Grande Deusa, mas muitos abdicam dos rituais, resumindo-se simplesmente a deter-se por um mo­mento quando a lua está cheia, para meditar sobre a divindade Wicca.


Para Elevar o Cone do Poder

“A magia”, diz o sumo sacerdote Arthen, “está se unindo às forças psíquicas para pro­mover mudanças.” Parte do treinamento de um feiticeiro, ele observa, é aprender a usar a energia psíquica e uma técnica primária com esse objetivo, um ritual praticado em quase todos os encontros e o de elevação do cone do poder. Como a maioria das atividades, isso acontece no centro de um círculo mágico. “Especialmente no caso deste ritual”, diz Arthen, “o círculo mágico é visualizado não apenas como um círculo, mas como um domo, uma bolha de energia psíquica — uma maneira de conter o poder antes de começar a usá-lo.”

Ao tentar gerar energia para formar o cone do poder, os bruxos recorrem à dança, à meditação e aos cânticos. Para “moldar” o poder que afirmam produzir, reúnem-se em torno do círculo mágico, estiram os braços em direção à terra e gradualmente os levantam, como se vê aqui, em direção a um ponto focal acima do centro do círculo. Quando o líder da assembléia sente que a energia atingiu seu ápice, ordena aos membros: “Enviem-na agora!” Então, todos visualizam aquela energia assumindo a forma de um cone que deixa o círculo e viaja até um destino previamente determinado.

O alvo do cone pode ser alguém doente ou outro membro do grupo que necessite de assistência em seu trabalho mágico. Mas seu destino também pode estar menos delimitado. Como a prática da feitiçaria está profunda­mente vinculada à natureza, o cone do poder pode ser enviado, diz Arthen, “para ajudar a superar as crises ambientais que atravessamos.


Festas do Ano Wicca

Nem todos os rituais da Wicca são solenes e taciturnos. “Misturamos a alegria e a reverência”, diz Arthen. Os oito sabás que se destacam no ano dos bruxos — homenageando a primeira jornada do sol e o ciclo agrícola rítmico da terra — são ocasiões para muitas festas animadas. O mais festivo de to­dos os sabás é Beltane, alegre acolhida à primavera que acontece no dia 19 de maio. Em Beltane, os pagãos do Espírito da Terra reú­nem-se para divertir-se com a brincadeira do mastro, como se vê aqui.

A dança do mastro, antigo rito da fertilidade, começa como um jogo ritualístico carregado do forte simbolismo sexual que caracteriza a maioria das cerimônias da Wicca. As mulheres do grupo cavam um buraco dentro do qual um mastro, obviamente fálico, deverá ser planta­do. Mas quando os homens se aproximam, carregando o mastro, são confrontados por um círculo formado por mulheres, que cercam o poste como se o estivessem defendendo.

Num ato de sedução simbólico, as mulheres brincam de abrir e fechar o círculo em lugares diferentes, enquanto os homens correm carregando o mastro e tentando penetrar naquele círculo.

“Finalmente”, conta o sumo sacerdote Arthen, “os homens têm a permissão de entrar com o mastro e plantá-lo na terra.” Em seguida, as feiticeiras começam a dança da fita, ao redor do mastro, cruzando e atravessando os carrinhos umas das outras até que as fitas brilhantes estejam todas entrelaçadas no mastro. “O ritual une as energias dos homens e das mulheres”, explica Arthen, “para que haja  muita fertilidade.”

Acreditando que cada sabá conduz a um ápice de energias psíquicas e terrenas, os feiticeiros praticam os rituais do sabá mesmo que estejam sós. Contudo, nos últimos anos, os adeptos da Wicca têm se reunido em número cada vez maior para celebrar os sabás; o comparecimento aos festivais do Espírito da Terra aumentou cerca de sete vezes, no período de quase uma década.


A Celebração das Passagens da Vida

Como outros grupos religiosos, as comunida­des Wicca celebram os momentos mais significativos na vida individual e familiar, inclusive nascimento, morte, casamento — que chamam de “unir as mãos” — e a escolha do nome das crianças. O Espírito da Terra é reconhecido como igreja pelo estado de Massachusetts, diz Arthen, e portanto seu ritual de “unir as mãos” pode configurar um matrimônio legal.

Muitas vezes o ritual não é usado para estabelecer um casamento legal, mas sim um vínculo reconhecido apenas pelos praticantes da Wicca. Se um casal que se uniu dessa forma decidir se separar, seu vínculo será desfeito através de outra cerimônia Wicca, conhecida como “desunião das mãos”.

Fundamental para essa cerimônia é a bênção dada à união do casal e o ritual de atar suas mãos — o passo que corresponde ao nome do ritual e que há muito tempo produziu a famosa metáfora que se tornou sinônimo de casamento, “amarrar-se”. A fita colorida que une o par é feita por eles, com três fios de fibra ou couro representando a noiva, o noivo e seu relacionamento. Durante as semanas ou até meses que antecedem o casamento, o casal deve sentar-se regularmente — talvez a cada lua nova — para trançar um pedaço dessa corda é conversar sobre o enlace de suas vidas através de amor, trabalho, amizade, sexo e filhos.

Os filhos de feiticeiros são apresentados ao grupo durante um ritual de escolha de nome chamado “a bênção da criança”, ou batismo. Essa cerimônia inclui com freqüência o plantio de uma árvore, que pode ser fertilizada com a  placenta ou com o cordão umbilical. Em uma cerimônia semelhante conhecida como batismo mágico, que geralmente ocorre antes da iniciação, o aprendiz de feiticeiro declara os nomes pelos quais deseja ser conhecido dentro de seu grupo de magia.

PAX DEORUM

Por Witch Crow

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-moderna-feiticaria/

O Legado Mágico de John Dee

por Julie Stern.

Na época da ascensão dos fundamentalismos e outros versos satânicos não é inútil viajar ao século XVI para descobrir um ponto central de respostas e questões relacionadas com a ética da felicidade e a tecnologia ocidental. Nove séculos após a revelação islâmica, 200 ocidentais de toda a Europa se viram carregando o espírito do Renascimento com a tocha de suas certezas. Eram místicos, engenheiros, matemáticos, técnicos, corteses, evangelistas do céu na terra. Eles criaram o humanismo de que todos falam em nossos tempos de reflexões morais, mas que poucos conhecem. A democracia tira disso uma dimensão transcendental e bíblica. John Dee é quem recebeu a revelação mais imponente – várias centenas de páginas, incluindo um monólogo de Deus tão amargo e profundo quanto o Livro de Jó, onde ele até se arrepende de ter criado o ser humano…  famoso livro dos Diálogos com o Anjo – uma revelação espiritual de alcance universal oculto que se inscreve implicitamente no coração da relação atual do homem com sua identidade, da sociedade e da natureza, da mulher e do homem, dos povos e suas histórias, das religiões e política, liberdade e amor. E da Arte. A grande aventura da evolução do espírito humano.

Os Mistérios de John Dee

Até recentemente, John Dee era considerado um maníaco isolado e marginal da história britânica da dinastia Tudor, não tendo se beneficiado de nenhum estudo aprofundado, acadêmico e sério, um homem digno de interesse apenas aos olhos de uma pequena minoria de antiquários e ocultistas . Ainda hoje, a Enciclopédia Britânica nos oferece apenas um pequeno e acanhado parágrafo sem informações exaustivas – um destino nada invejável para um homem que foi reverenciado em seu tempo – o grande Renascimento – como o homem mais erudito de toda a história.

Inspiração para o personagem Próspero na Tempestade de Shakespeare, John Dee está na raiz da revolução técnica anglo-saxônica moderna e das contradições éticas do sistema herdado e transformado pelo exercício do poder. Escrever uma biografia significa trabalhar na história da ciência e da tecnologia (astronomia, astrologia, matemática, mecânica), das sociedades (da antiguidade ao século XVI) e das espiritualidades (em todo o mundo).

John Dee deu à Inglaterra o conceito político de “Império Britânico” e abriu os fluxos marítimos da Grã-Bretanha com a Rússia e a América. Ele alegou ter se comunicado com os anjos como se reis, imperadores e os grandes não fossem suficientes para ele. Uma vida que se desenrola como um filme de aventura místico-política, um épico ao ritmo de um thriller mítico porque Shakespeare não está muito longe e a Tempestade realmente aconteceria….

Biografia

John Dee nasceu em Londres em 13 de julho de 1527. Ele era filho de Rowland Dee, um cortesão a serviço privado do rei Henrique VIII. As duas famílias de origem galesa se uniram durante a guerra das duas rosas, onde a púrpura dos Tudors derrotou a brancura da rosa de York. De 1542 a 1545, John Dee estudou no St John’s College em Cambridge, do qual ele conta; “Eu estava tão profundamente imerso no estudo que durante esses anos aderi inviolavelmente ao meu horário; apenas quatro horas de sono por noite; duas horas por dia para comida e bebida (e alguns refrescos depois); e o resto das dezoito horas (exceto o tempo para ir e realizar o serviço divino) foi gasto em meus estudos e aprendizado).” Em seguida, Trinity College. Recebeu o título de Bacharel em Artes em 1546, tornou-se membro da Sociedade dos Amigos do Trinity College, ainda em Cambridge.

Nesse mesmo ano, construiu uma máquina voadora para a representação teatral de Zeus em Paz, peça de Aristófanes. Infelizmente, essa proeza técnica para a época forjou a base para uma acusação de prática de artes mágicas malignas (pense em Zeus voando em uma carruagem dentro do Olimpo no final da Idade Média religiosa!) e um evocador de espíritos malignos. Ordinário. A dura vida do século XVI. Como Bertrand Gilles indicou em seu famoso livro Les Ingénieurs de la Renaissance, apenas os místicos estudavam matemática, o que levou ao projeto de máquinas que permitiram fazer desaparecer trabalhos difíceis para a humanidade. Mas a Igreja havia proibido essa prática de “artes mecânicas” consideradas diabólicas. Só os reis e a alta nobreza militar protegiam parte do saber técnico herdado da antiguidade para fabricar armas, pontes, veículos, fatos de mergulho, moinhos, protomáquinas voadoras ou de mergulho… E os 200 do renascimento europeu…

Mas Dee foge com isso. Corremos por toda a Europa e as cidades estão cheias de vegetação florida. E fugiu. Bélgica. Flandres. De 1548 a 1551, John Dee estudou em Louvain, uma universidade financiada pelo papado e pelo imperador Carlos V, renomada em toda a Europa pelo estudo de leis civis e matemática. John Dee também visita Antuérpia antes de chegar a Paris e realizar ali a notável performance para um jovem de 33 leituras sucessivas sobre Euclides. “Uma coisa que nunca havia sido feita publicamente em nenhuma universidade da cristandade”, como ele mesmo observou antes de prefaciar a primeira obra britânica de Euclides que ainda seria usada para o ensino de matemática nas faculdades inglesas de 1914. Mas, acima de tudo, a obra de John Dee a visita a Louvain, que não foi para completar o doutorado, foi a do encontro e da longa amizade com Gérard Mercator, o primeiro geógrafo do globo terrestre real, fundador da geografia moderna. John Dee retorna à Inglaterra de posse do segredo da bússola orientada no pólo magnético, cujo lugar e papel são descobertos por Gérard Mercator, os países da América e as supostas passagens para o Mar Báltico e a Rússia. Foi a amizade de John Dee que abriu a dimensão do “império marítimo” ao mundo anglo-saxão. Rússia. E Virgínia…

Na Inglaterra, ele passou os anos de 1551 a 1553 como tutor de Robert Dudley, filho do Lord Protector Northumberland, e mais tarde Conde de Leicester. Em 1553, Eduardo VI concedeu-lhe duas igrejas em funcionamento, com suas pensões, as reitorias de Upton-on-Seven, Worcestershire e Long Leadenham, Lincolnshire. No entanto, a ascensão da rainha Maria Tudor (casada com o ultracatólico rei da Espanha Filipe II que reprime o protestantismo puritano) causou uma desagradável reversão da sorte, especialmente como estudantes de magia e artes matemáticas (na época ele é a mesma disciplina, proibidos ao mesmo tempo que o estudo de qualquer arte “mecânica”) são perseguidos pelas apostas. John Dee foi preso em 1555 sob a acusação de ser “suspeito de lançar feitiços contra a rainha”. Ele é libertado, mas seu mordomo, Barthlet Grene, é queimado vivo.

Para recuperar seu crédito, John Dee dirige uma petição à rainha Maria para a pesquisa e preservação de escritos antigos (queimados pelos tribunais) e monumentos. 1556. É contratado como assistente de um inquisidor. Ele recupera todos os manuscritos de alquimia (que estuda) apreendidos nas casas dos réus da justiça eclesiástica e acumula um enorme fundo de manuscritos que serão usados ​​para o desenvolvimento científico posterior da Grã-Bretanha. “Se o fator essencial de uma universidade é uma excelente biblioteca, FR Johnson apontou que a casa de Dee pode realmente ser considerada a academia científica da Inglaterra durante a primeira metade do reinado de Elizabeth 1ª da Inglaterra.” como apontam os biógrafos modernos de John Dee, Frances Yates e Peter French. Sua biblioteca inclui as obras completas de Platão e Aristóteles, os dramas de Ésquilo, Eurípides, Sófocles, as sentenças de Sêneca, Terêncio e Plauto, os escritos de Tucídides, Heródoto, Homero, Ovídio, Lívio, Plutarco.

Mas a rainha Maria Tudor acaba de morrer.

Ele teve muitas obras sobre religião e teologia: a Bíblia, o Alcorão, São Tomás de Aquino, Lutero, Calvino. Todas as principais obras para antiquários britânicos contemporâneos estavam presentes, incluindo todas as obras de ciência e matemática. Geografia. Obviamente, para um homem renascentista, o misticismo e a magia eram importantes no esquema de arranjo, junto com Plotino, Roger Bacon, Raimundo Lúllio, Alberto Magno, Marsílio Ficino, Pico de la Mirandola, Paracelso, Tritemius e Agripa, e outros. Todo o Renascimento em um único estudioso. Escrever sua biografia é dar conhecimento científico e técnico desde a antiguidade até o século XVI. Uma aula de arte da memória (a base da educação tradicional) como bônus.

O Mago da Rainha Elizabeth I da Inglaterra

O astrólogo da data escolhida para a coroação solene da rainha Elizabeth 1ª da Inglaterra chama-se John Dee. Ele a servirá com devoção incomum durante todos os anos de seu reinado. Dee era conhecido na corte com seu ar de bardo merlinesco e se reuniu com o conde de Leicester, seu primeiro aluno, bem como o círculo de Sir Philip Sydney, a profunda amizade de Sir William Cecil e muitos outros parentes da Coroa, incluindo o chefe do serviço secreto, Sir Gresham, incluindo – especialmente – a própria rainha. O número de agente secreto de Dee com a Rainha era o número 7. É uma época muito boa. Anos “estudiosos, produtivos e cheios de sucesso”. Ele via a rainha várias vezes por semana em conversas privadas. Ela muitas vezes vinha à sua casa sem avisar. Ele parece ter cumprido o papel de conselheiro político, espiritual, militar, cultural e técnico ao mesmo tempo. Segredos de estado britânicos. John Dee vê a Inglaterra salva se ela decidir adquirir o domínio das águas. A criação da frota inglesa com madeira russa. Ivan, o Terrível, logo se tornou conhecido pelos cortesãos como o “czar inglês”. Ele ficou tão impressionado com a fama de John Dee que o convidou para Moscou, oferecendo-lhe comida e uma grande casa, além de £ 2.000 por ano. John Dee se recusa como um bom patriota. Em 1580, John Dee presenteou a rainha Elizabeth com um mapa do hemisfério norte, permitindo que ela estabelecesse sua legitimidade dos direitos ingleses na América do Norte. E promover três anos depois as viagens de seu amigo Sir Walter Raleigh com o batismo de “Virginia” e a expedição ao Orinoco, inspirando também as de Francis Drake. O Império Britânico nasceu enquanto a França lutava em suas Guerras Religiosas, distanciadas à vontade pelas obras do francês Rabelais…

Para ler as obras criptografadas e avaliar o papel de seu país no nível físico e metafísico, John Dee está especialmente interessado nas criptografias da alquimia, da cabala e das possibilidades de comunicação direta com as forças divinas da vida que emanam dos textos. Ele tem todas as obras de Roger Bacon, este monge franciscano do século XIII que descreve as etapas da revolução científica que não se completará até o século XVII, e fará a ponte com Francis Bacon, que encontra duas vezes, revelando-lhe o essencial papel do método experimental para o desenvolvimento de ciências e técnicas úteis à humanidade, bem como sua responsabilidade perante Roger Bacon, que leva o mesmo nome que ele. Francisco não foi tão profundo, mas apresentará ao mundo científico uma visão do método experimental que, embora carente de sal, não permanece menos real.

Como todos os grandes renascentistas, John Dee descobre na Árvore da Vida um diagrama de síntese ecumênica de todas as religiões e mitologias, um diagrama funcional onde cores, minerais, plantas, árvores, letras, números, partes do corpo, porções do céu e nomes divinos correspondem. A alquimia o obriga a fazer uma viagem à Hungria para comprar um famoso antimônio, mas os experimentos que ele realiza há muitos anos não são conclusivos. São sobretudo os manuscritos mágicos que abrirão as portas para experiências estranhas, as da filosofia oculta.

O ano é 1582. Ele conhece o homem com quem seu nome será tantas vezes associado, Sir Edward Kelley. Muitas pessoas meditaram em vão para entender como era possível que um homem inteligente como Dee, formado em estudos clássicos, aficionado em navegação, matemática, lógica, literatura e filosofia, tivesse cuidado de alquimia, magia e conjuração de espíritos com a habilidade de Kelley. ajuda. Vamos examinar esta questão.

A filosofia oculta teve uma influência muito grande no Renascimento. Descreveu o universo em três dimensões: o mundo elementar da Natureza Terrestre que era a província das ciências físicas, o Mundo Celestial das estrelas que poderia ser entendido e apreendido pelo estudo e prática da Alquimia e Astrologia, incluindo astronomia e matemática, e o Mundo Supercelestial que poderia ser estudado por operações numéricas e pela evocação dos próprios anjos. Dee tenta explorar o Mundo Supercelestial em busca de respostas vivas que não encontrou mais nos livros que leu. Sua tentativa de obter esse contato angélico é do ponto de vista de seu tempo e do método experimental puramente lógico. As motivações profundas de Dee são científicas e religiosas. Religioso nisso o próprio Dee acreditava sinceramente que estava conversando com os emissários de Deus e mostrava uma atitude constante marcada pela sabedoria cristã. Científico em que Dee colocou a questão: existe vida inteligente em outras dimensões? Ele acreditava que assim era e que o Homem poderia conseguir estabelecer uma comunicação permanente com os anjos. Ele tentou. Encontrando-se pobre vidente, John Dee procura um médium para ver e ouvir os anjos convocados. Saul Barnabé foi substituído por Edward Kelley, de quem pouco se sabe.

Nascido em Worcester em 1º de agosto de 1555, ele entrou em Oxford sob o nome de Edward Talbot e depois desapareceu da universidade. Alguns historiadores acreditam que ele abriu a tumba de São Dunstão na esperança de encontrar ali um pó de projeção alquímica mencionado nas lendas. Seja como for, ele se tornou por um tempo o secretário do matemático e estudante hermético Thomas Allen, antes de apresentar seus próprios serviços na casa de Dee em Mortlake.

A Língua Enoquiana

10 de março de 1582. De acordo com o doutor Thomas Head: “O retrato do relato das sessões com Dee é o de uma personalidade ambígua no mais alto grau, má e mentirosa, instável e ácida, rápida de um lado a terríveis explosões de raiva acompanhada de violência física e, por outro, a súbitas explosões espirituais das quais ele se separa rapidamente”. A maioria dos biógrafos concorda que o contraste entre a vida e o caráter de Dee e os de Kelley é a fonte do fascínio dos dois homens. O santo e o debochado. Nossa própria tradução das atas das sessões nos fornece outras pistas. Dee foi atraído por Kelley quando ele se apresentou como um “alquimista operativo”. Dee não teria conseguido experimentar sua “magia angelical” sem o excepcional apoio mediúnico de Kelley e levando, após resultados iniciais extraordinários em relação ao objetivo pretendido, a emergência de um enigma ainda não resolvido: a língua enoquiana . Dee ainda não sabia o que pensar disso na noite de sua vida, trinta anos depois…

Os preparativos iniciais foram simples. Como observa o Dr. Head: “Simplesmente colocando uma pedra de visão ou cristal de rocha na mesa de prática e uma breve oração dita pelo Dr. Dee”. O resultado foi que Kelley recebeu uma visão do Anjo Uriel no primeiro dia que revelou sua assinatura secreta e deu instruções preliminares para a construção de “dois talismãs mágicos”:

1 – O “Sigillum Dei Aemeth (O “Selo da Verdade Divina”), um pantáculo de cera purificada de 9 polegadas de diâmetro, atualmente guardado no Museu Britânico.

2 – A “Tabula Sancta” (A “Mesa Sagrada”), uma mesa feita de madeira preciosa, com 1,60 metros de altura por 0,8 de largura, sobre a qual um grande selo retangular contendo 12 letras de um alfabeto desconhecido (o Enoquiano…) 7 selos circulares atribuídos aos poderes planetários.

Os dois talismãs que eram de fato os dois primeiros documentos enoquianos deveriam ser usados ​​juntos, o pantáculo sendo colocado sobre a Mesa Sagrada durante seu uso. Dee e Kelley estavam convencidos de que essa língua era a dos próprios anjos e correspondia a uma espécie de língua de origem, da qual viriam as línguas mais antigas. A complexidade dos eventos aumenta. Em 14 de março, um espírito posando como o anjo Miguel dá instruções para fazer um anel mágico de ouro, com um selo que ele disse ser o mesmo que “possibilitou todos os milagres e obras divinas e maravilhas realizadas por Salomão”. Em 20 de março o Anjo Uriel dita um quadrado de 49 caracteres, contendo 7 nomes angélicos identificados por Dee e Kelley. Um dia depois, um segundo quadrado é ditado. Kelley estava prestes a começar a ditar a Dee as visões na linguagem angelical ou “enoquiana”. Como escreve Head: “O alfabeto enoquiano apareceu primeiro: 21 caracteres semelhantes ao etíope em forma de letras, embora não em estrutura semelhante à grega, escritos da direita para a esquerda, como todas as línguas semíticas. Isso continuou com um livro também contendo cem quadrados, a maioria preenchido com 2401 quadrados (49 vezes 49), cujo ditado se tornou o principal trabalho de todas as sessões diárias por 14 meses. E o material continuou a se acumular página após página, livro após livro, até a separação final entre Dee e Kelley em 1589.”

Dee e Kelley vão para a Polônia a convite de um aristocrata, ficam em Cracóvia onde os Anjos conversam com eles sobre alquimia, antes de serem recebidos em Praga pelo imperador Rudolf II de Habsburgo, imperador dos alquimistas, protetor de Dürer, Arcimboldo, Tycho Brahe , Kepler e muitos outros. O anti-Philip II da Espanha. Ele leva Dee (que lhe dá um manuscrito original de Roger Bacon contando sobre seus contatos angelicais) e Kelley sob sua proteção. Pura sincronicidade da presença da palavra “Aemeth” colocada no selo de cera de Dee e o “Aemeth” colocado no Golem do famoso rabino Loew que viveu em Praga na mesma época? O diário de Dee não menciona um encontro com o rabino, mas ele conhece o médico alquimista do imperador, Michael Maïer, o primeiro que escreverá para atestar a existência de uma fraternidade com o emblema da Rosa e da Cruz, presente curar a humanidade de seus males. Irmandade invisível. Mas qualquer que seja o encontro fictício ou real narrado pelo romancista Gustav Meyrink em seu famoso “Anjo na Janela Ocidental”, qualquer que seja a desgraça social que recai sobre os dois homens (Dee retornou à Inglaterra com sua esposa em 1589, Edward Kelley foi preso por Rudolf II de Habsburgo e morreu em 1595), a verdadeira questão colocada por Dee é a da Rosa. Etno-história. Crônicas da transmissão xamânica européia.

John Dee na Origem da Rosa-Cruz?

A lenda Rosacruz – a história da fundação de uma irmandade mística por um certo Christian Rosenkreuz, sua morte em 1484 e a abertura de seu túmulo 120 anos depois – foi contada pela primeira vez em vários panfletos publicados nos anos de 1614 e 1615. Dee morreu em 1608. O mais influente dos textos foi o Fama Fraternitatis rapidamente traduzido para todas as línguas dos estudiosos do século XVII. René Descartes procurou febrilmente os Rosacruzes na Europa e manteve sua marca em sua filosofia pessoal. Este livreto influenciou não apenas os cabalistas e mágicos da época, aqueles humanos que tendiam a pensar mais em símbolos do que em palavras, mas também as irmandades maçônicas do século XVIII e os ocultistas do período posterior a 1850. em todos os tempos e em todos os lugares o emblema da beleza da vida e do amor expressa o pensamento secreto de todos os protestos manifestados durante o Renascimento. É como escreveu Eliphas Lévi: “A carne se revoltou contra a opressão do espírito; era a natureza se declarando Filha de Deus, como a Graça; era a Vida que não queria mais ser estéril; era a humanidade aspirando a uma religião natural, toda de razão e amor, fundada na revelação da harmonia do ser, da qual a rosa era para os iniciados o símbolo vivo e florido.”

A rosa é uma arma mágica. Um pantáculo natural universal. A rosa vinda da gnose de Alexandria, das tradições monásticas e das ordens religiosas de cavalaria, é o Amor invencível que une a carne ao espírito, é o Amor do Rosto feminino da Divindade. É claro que se pensa em Guillaume de Lorris, que iniciou o Roman de la Rose (O Romance da Rosa), sem esquecer o Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento. A Rosa de Saron e o Lírio do Vale. A Rosa é a Natureza, a Mulher. E o cabalista cristão Agripa publica seu livro Sobre a Superioridade das Mulheres. A Inquisição e as Guerras Religiosas atingiram duramente as mulheres sob a cobertura de julgamentos de feitiçaria, como muitos estudiosos anglo-saxões apontam. Pensa-se na Ordem do Templo e na construção de catedrais na Europa. As cidades. Jehan de Meung retoma o Roman de la Rose (O Romance da Rosa) depois de ter lido, é o mínimo, os textos taoístas transmitidos a Felipe VI, o Belo pelos mongóis em 1265. Esta é a data de nascimento de Dante que será um dos líderes da Fede Santa, terceira ordem de filiação templária. Ele descreverá em seu oitavo céu do paraíso o Céu Estrelado, o da Rosa-Cruz, perfeito vestido de branco que ali professa o universalismo da doutrina evangélica, oposta à doutrina católica romana, evitando a ruptura. Dee era pela reconciliação do cristianismo de todos os matizes. Mas os abusos do papado os acharam impiedosos. Ali se juntaram às correntes ocultas do Hermetismo, do Catarismo, das teses abertamente gnósticas defendidas por Alberto Magno, São Tomás de Aquino, Pedro Lombardo, Ricardo de São Vitor, São Francisco de Assis, Santa Clara e toda a Ordem Terceira. A Ordem Terceira que derrotará o feudalismo deixando o Terceiro Estado brotar dele. Porque para John Dee a coisa fica clara na carta de 1563 que ele dirige a Sir William Cecil:

  1. Tudo é Uma Unidade, criada e sustentada pelo Uno através de suas Leis.
  2. Essas leis são ensinadas pelos Números-Filhos.
  3. Há uma arte combinatória das letras hebraicas que as torna válidas com o Número, de tal forma que se revelam verdades profundas sobre a natureza do Único e sua relação com o Ser humano.
  4. O ser humano é de origem divina. Longe de ter sido criado do pó como narrado no Gênesis, ele é, em essência, um gênio estelar.” Ou como dirá O Livro da Lei, transmitido a Aleister Crowley que estudou Dee no início do século XX: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”.
  5. É essencial regenerar a essência divina dentro do ser humano, e isso pode ser alcançado pelos poderes do intelecto divino.
  6. Segundo a sagrada Cabala, Deus se manifesta através das intenções de 10 emanações progressivamente densas: e o ser humano, dedicando sua mente ao estudo da sabedoria divina e refinando todo o seu ser, e pela possível comunhão dos próprios anjos, acabará por poder entrar na presença de Deus.
  7. Uma compreensão cuidadosa dos processos naturais, visíveis e invisíveis, permite ao ser humano jogar com esses processos através dos poderes de sua vontade, sua inteligência e sua imaginação.
  8. O Universo é um padrão ordenado de correspondências. Qualquer coisa no Universo tem ordem, simpatia e força estelar com muitas outras coisas.

Para John Dee, isso não é uma metáfora. Todo ser humano é verdadeiramente uma reprodução terrena de uma das estrelas visíveis no céu, conforme Paracelso. A astrologia astronômica esboça uma síntese das ciências que leva a uma astrosofia e uma geosofia. As revelações angélicas lhe fornecerão importante material relacionando os diferentes povos conhecidos, com suas qualidades específicas e suas singularidades, segundo um esquema relativamente próximo da história real das civilizações. O primeiro raio é formado pelo Egito, França no dia 8, Alemanha no dia 10… Diplomacia psicológica, histórica e metafísica para relaxar.

O Romance da Rosa do século XVI:

História de amor. 1578. John Dee tem 51 anos. Seu cabelo e barba ficam brancos e ele parece cada vez mais um Merlin sóbrio. Sua reputação como mágico discreto não é discutida na corte da rainha. Mas a verdadeira magia da vida vem quando a jovem mais bonita da comitiva de Elizabeth I, a atendente de Lady Howard, então Jane Fromont, então com 25 anos, se apaixona perdidamente por ele. Eles se casaram. Ela lhe dará 5 filhos e a ideia certa da verdadeira dimensão do amor de uma mulher em um tempo muito patriarcal e muito puritano/debochado. Jane e John Dee casaram com rosas brancas, rosas e vermelhas, sem esquecer as rosas negras da arte ocidental do amor, tantrismo natural onde o espírito revisita toda a história das divindades femininas, a Rosa da Suméria, do Egito, Babilônia, Grécia, Roma, Gália, País de Gales, Celta, Idade Média e século XVI com a descoberta da Face Feminina da Vida reivindicando seus direitos ao longo da história humana, paridade em um mundo dominado pelo poder masculino.

Pétalas de Rosas. O Romance Escarlate.

Mas ninguém é profeta em seu país e o retorno de Praga a Londres, em 1589, é difícil. Certamente, Jane está com John e a Invencível Armada das frotas espanholas lançadas para conquistar a Inglaterra pereceu em 1588 na Grande Tempestade cuja lenda atribui o milagre ainda no povo à fabricação por John Dee de um pentagrama consagrado aos elementos das águas para proteger a Grã-Bretanha da dominação marítima. Mas, ao mesmo tempo, a mesma fama de mago destruiu pelas chamas a casa de Dee em Mortlake, tendo a vizinhança percebido a presença de espíritos e espectros ao redor antes de queimá-la.

Não houve recepção suntuosa para recebê-los. Seus pedidos de assistência e proteção falharam sucessivamente, e Dee foi intensamente atormentada por problemas financeiros e escândalos. Finalmente, foi a rainha Elizabeth quem o nomeou para o College of Christ, em Manchester, em 1596. Mas os estudantes deram as costas às reformas de John Dee, que lhes deram mais trabalho. Em 1605, eles o forçaram a desistir de seu posto. Ele voltou para Mortlake, viúvo, Jane tendo morrido pouco antes. Seus últimos anos foram filosóficos. Ele morreu em 1608.

A história da descoberta do trabalho “mágico” de John Dee é bastante surpreendente. Sua propriedade foi vendida e passada como herança. Um século depois, um amigo de Elias Ashmole o apresenta à jovem que os possuía. Sir Elias Ashmole já estava fundando o que viria a se tornar a Maçonaria Inglesa quando recebeu os escritos completos e o Sigillum Dei Aemeth de John Dee.

Não conhecemos nenhum comentário particular sobre a chance objetiva que permitiu que ele se tornasse seu possuidor, sem que ninguém interferisse em uma transmissão que faria o “depósito ou o legado enoquiano” passar ao médico legista do século XIX, Dr. Wynn Westcott, que as oferece para leitura a um jovem e brilhante estudante maçônico, que se tornará cunhado do filósofo francês Henri Bergson: Samuel Liddell MacGregor Mathers. Um dos homens por trás da Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada).

***

Fontes: Sobre John Dee, Lucie Stern, fevereiro de 1995 e.v.

Ilustração: Retrato de John Dee. Século XVI, artista desconhecido. Museu Ashmolean, Oxford, Inglaterra.Consulte a página do autor/domínio público.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.


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Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-legado-magico-de-john-dee/

O Mito do Vampiro e a Rosacruz

Por Shirley Massapust

Na obra O Vampirismo, Robert Amberlain alega que os membros da Rosa-Cruz do Grande Rosário iniciaram-se na pneumatologia que “não é senão a ciência dos Espíritos, aquilo a que chamamos agora metafísica, ciência que engloba o conhecimento da Alma”.[1] Ele descreve a ação e conversão dos vampiros alegando que “é muito possível que seja a isto que o marquês de Chefdebien faz alusão na sua carta publicada na página 52 da obra de B. Fabre, Um Initié des Sociétés Secrètes Supérieures (Paris, 1913), quando ele evoca a existência dos ‘irmãos do Grande Rosário’, cujo berço era em Praga ainda nesta época, ou seja, nos finais do século XVIII”.[2]

De fato, a metafísica rosa-cruz fundia recursos da metafísica tradicional, teologia, alquimia e cabala. Por exemplo, num manuscrito escrito entre 1700 e 1750, Phisica, Metaphisica et Hyperphisica. D.O.M.A., estas matérias correspondem às “três partes do homem” (espírito, alma e corpo) e representam os três elementos da pedra filosofal (sal, enxofre e mercúrio).[3] Contudo, o simples fato de estudarem variantes da metafísica tradicional não basta para provar que praticavam o vampirismo. A única justificativa para tal associação, seria a descoberta de uma interpretação especial da matéria e uso objetivo a fim de atingir tais ideais; fato que nos leva a um novo problema: Onde procurar? Existe uma quantidade infindável de escritos ‘metafísicos’ inspirados no movimento, de forma que até mesmo Descartes dedicou uma obra de juventude “aos eruditos do mundo inteiro e, especialmente, aos Irmãos Rosa-Cruzes, tão célebres na Germânia” (Preâmbulos), além de haver escrito trabalhos onde “transparecem suas preocupações científicas aliadas à influência dos temas da sociedade Rosa-Cruz”.[4] Comecemos, pois, pelo começo. Não irei discutir sobre a antiguidade da ordem. Cabe a cada um optar pela posição de certos historiadores que afirmam sua invenção no século XVI ou pela doutrina da atual Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (A.M.O.R.C.), que se proclama receptora da tradição de uma ordem hermética egípcia fundada por Thutmose numa ‘Reunião do Conselho’ ocorrida de 28 de março a 4 de abril de 1489 a.C. Para nosso tópico basta dizer que o interesse do público leigo pela ordem formou-se após a publicação da Fama Fraternitatis, 1614, e Confessio Fraternitatis R. C., 1615, dois escritos anônimos que ganharam importância em associação ao Chymische Hochzeit Christian Rosencreutz, Anno 1459 (1616). Este último trazia a alegoria de um casamento no qual alguns convidados são assassinados e trazidos novamente à vida através da alquimia; sua autoria acabou sendo reivindicada por um certo Johann Valentin Andrea (1586-1654), respeitado e ortodoxo membro do clero luterano, conhecido como opositor dos rosa-cruzes. Andréa esforçou-se ao máximo para distanciar-se da obra, chamando-a de sátira ideada em sua juventude tresloucada.[5] Contudo, independente da intenção do(s) autor(es), tais obras exerceram grande influência na concepção do rosacrucianismo. A descrição da exumação do corpo de Christian Rosencreutz – herói protagonista da Fama Fraternitatis – foi especialmente discutida devido a sua condição imputrescível:

Como até o momento não tivéssemos visto o corpo do nosso falecido pai, prudente e sábio, afastamos o olhar para um lado e ao erguermos a chapa de bronze, encontramos um corpo formoso e digno, em perfeito estado de conservação, tal qual uma contrafação viva do que aqui se encontra com todas as suas vestimentas e atavios.[6] Dentre outros livros e objetos, os descobridores do túmulo encontraram o Vocabular de Teophrastus Paracelsus ab Hohenheim (1493-1541).[7] Isso prova que os dois panfletos não se sincronizavam ou simplesmente pretendiam narrar uma ficção, pois de acordo com a Confessio o Irmão C. R. nasceu em 1378 e morreu aos 106 anos, em 1484, sendo o túmulo fechado e selado nove anos antes do nascimento de Paracelso. Em todo caso, o autor da Fama Fraternitatis devia ter em alta estima as teorias deste médico; cuja comparação dos “corpos embalsamados” com um filtro grego “preparado com sangue” levou a conclusão de que “o que cura verdadeiramente as feridas é a múmia: a própria essência do homem”.[8] Tal é a função do cadáver de R. C. na narrativa.

Seguindo raciocínio semelhante, W. Wynn Westcott apresentou como fato verídico à história de que Rosenkreutz “foi sepultado, conforme ele e os membros de seu círculo mais íntimo planejaram, numa cripta especial dentro do domus ou moradia secreta”.[9] Então, o teriam embalsamado com “esmero no cuidado carinhoso e no trabalho hábil de preservar os restos mortais do Mestre” do que resultou o ‘belo e notável corpo, integro e intacto’ descrito na tradução de Eugenius Philalethes (Londres, 1652).[10] Noutro extremo, no livro Perguntas e Respostas Rosacruzes, H. Spenser Lewis anuncia de forma pitoresca que “o verdadeiro autor dos panfletos que trouxeram o renascimento na Alemanha foi, nada mais, nada menos, que Sir Francis Bacon,[11] então Imperator da Ordem para a Inglaterra e várias partes da Europa”.[12] Ele teria velado a autoria da Fama Fraternitatis sob um nome simbólico, “como é natural em toda a literatura Rosacruz antiga”, cujo significado seria meramente “Cristãos da Rosa-Cruz”. Por isso “é muito duvidoso” que em seu tempo “qualquer indivíduo culto… que lesse esses panfletos, acreditasse que Christian Rosenkreutz fosse o nome verdadeiro de alguma pessoa”.[13] De qualquer forma, independente do autor ou da pretensão de ser ficcional, doutrinário ou verídico, o manifesto contém a descrição de um cadáver bem conservado semelhante aos de certos santos católicos ou dos relatos de vampiros primordiais que também são interpretados ora como ficção alegórica, ora como fruto de embalsamamento natural (ou milagre, ou produto de magia, etc.).

Interações culturais entre o pensamento maçônico e rosa-cruz:

A antiguidade histórica da afinidade entre a Rosa-Cruz e a Maçonaria inglesa é tal que ultrapassa a existência institucionalizada de ambas as ordens. Por exemplo, o poema A Trinódia das Musas, de Henry Adamson de Perth, 1638, contém a passagem ‘For we are the brethren of the Roise Cross. We have the mason word and second sight’. Ou seja, para que os irmãos da Rosa Cruz pudessem possuir a ‘palavra Maçônica’ seria necessário que já naquela época houvesse um intercâmbio entre as duas correntes de pensamento. Talvez por isso a fraternidade Rosa-Cruz “foi confundida muitas vezes com a maçonaria e, de certo modo, a maçonaria moderna assimilou muitos princípios esotéricos do grande movimento”, conforme atesta Rizzardo da Camino, autor de O Príncipe Rosa-Cruz e Seus Mistérios.[14] Em Orthodoxie maçonique, Ragon alega que Elias Ashmole “e os demais Irmãos da Rosa-Cruz” se reuniram em 1646 na sala de sessões dos franco-maçons, em Londres, onde livremente “decidiram substituir as tradições orais adotadas nas recepções de adeptos nas lojas por um processo escrito de Iniciação”. Após a aprovação do grau de Aprendiz pelos membros da loja, “o grau de Companheiro foi redigido em 1648, e o de Mestre, pouco tempo depois. Mas a decapitação de Carlos I em 1649 e o partido tomado por Ashmole a favor dos Stuarts, trouxeram grandes modificações a este terceiro e último grau, tornado bíblico, tomando-se totalmente por base esse hieróglifo da natureza simbolizado pelo fim de dezembro”.[15] Dessa forma, Papus aponta Ashmole como “autor principal” da lenda de Hiram, cujo assassinato simbólico revela que “é necessário saber morrer para reviver imortal”,[16] ou, conforme a versão vigente do Ritual do Grau de Mestre-Maçon (GR .’. 3), “ensina a lei terrível que faz com que aquele que auxiliastes e instruístes se revolte contra vós e procure matar-vos, segundo a fórmula da BESTA HUMANA: ‘O INICIADO MATARÁ O INIADOR’”.[17] O aumento da preocupação com os estudos teóricos em detrimento das práticas da construção levou ao nascimento da Maçonaria Moderna em 1717, quando quatro lojas londrinas se reuniram para a formação da Grande Loja de Londres. É sobre esta que recai a crítica do Daily Journal de 5 de setembro de 1730:

Tem-se de reconhecer que há uma associação estrangeira, da qual os maçons ingleses, envergonhados de sua verdadeira origem, copiaram certas cerimônias, tendo bastante dificuldade de persuadir a todos de que eles são os descendentes, embora só tenham uns poucos signos de prova ou de iniciação. Os membros dessa sociedade levavam o nome de Rosa-Cruzes e seus membros, chamados de grandes mestres, vigilantes etc., seguravam durante suas cerimônias uma cruz vermelha como signo de reconhecimento.[18] Se isto for verdade, ironicamente o ‘iniciado’ terminou mesmo matando por acidente seu ‘iniciador’ de forma simbólica, abolindo-o da memória.

Posteriormente, o grau 12º do rito Adoniramita foi chamado de ‘Rosa Cruz’,[19] assim como o grau 18.º do rito escocês antigo e aceito, surgido na França em 1754, recebeu o título de Soberano Príncipe da Rosa-Cruz de Heredom (ou simplesmente Cavalheiro Rosa Cruz). Segundo Leadbeater, neste grau revela-se o nome do Grande Arquiteto do Universo, que descobri tratar-se do epíteto INRI.[20] Sobre isto, o autor maçom informa que “em Sua encarnação como Christian Rosenkreutz, o C.D.T.O.V.M. traduziu a Palavra para o latim, conservando muitíssimo engenhosamente seu notável caráter mnemônico, todas as suas complicadas acepções e ainda uma íntima aproximação com o seu som original”.[21] O capítulo Rosa-Cruz possui dois estandartes quase idênticos; vermelhos, com franjas douradas, levam o titulo do Supremo Conselho acima e o do capítulo, local de funcionamento e data de fundação abaixo. Como figura central o primeiro mostra a cruz latina “com a rosa na interseção de seus braços” e o segundo traz o pelicano rasgando o peito com o bico para alimentar sete filhotes com seu sangue.[22] Autores maçons dão diversas interpretações para seus símbolos. O pelicano representa a “disposição ao sacrifício”.[23] Ragon diz que a rosa seguida pela cruz seria o modo mais simples de escrever “o segredo da imortalidade”.[24] Já para José Ebram, o homem de pé com os braços abertos pode dizer: “Eu sou a representação da cruz, e a alma que se encontra dentro de mim é a rosa mística”.[25] Fanatismo, ataques psíquicos e ‘guerra dos magos’:

Numa manhã de agosto de 1623 diversos cartazes apareceram nas ruas de Paris informando que a fraternidade Rosa-Cruz acabava de fixar-se na cidade. Prontamente, a igreja francesa emitiu vários manifestos acusando os recém chegados de haverem emigrado da província de Lyons, onde teriam feito “pactos horríveis” com Satã. Outro comentário, intitulado o Mercure de France, tentava liquidar o problema pelo ridículo ao observar que a chegada dos rosa-cruzes à cidade criara pânico generalizado.

Alguns hoteleiros locais diziam ter registrado hóspedes estranhos que desapareciam em uma nuvem de fumaça quando chegava a hora de acertar as contas… Vários cidadãos inocentes acordaram no meio da noite e depararam com aparições pairando sobre eles; quando gritavam para pedir socorro, as figuras de sombras desapareciam.[26] O Mercure concluía, jocosamente, que não era surpreendente encontrar parisienses prudentes dormindo com mosquetes carregados ao lado da cama e apedrejando os estranhos que se aventurassem em seus bairros. Por isso, não é de se admirar que o movimento rosa-cruz tenha esperado até o século XIX para se instituir de forma ordenada naquele país. Antes, o embrião desenvolveu-se na Inglaterra.

Na época em que exercia a função de Grande Secretário do Edifício da Maçonaria, sede nacional da Fraternidade Maçônica Inglesa, Robert Wentworth Little encontrou documentos na biblioteca da Grande Loja com informações sobre ritos rosa-cruz que não faziam parte das atividades maçônicas. A partir daí idealizou a Societas Rosicrocian in Anglia, também chamada pelas iniciais S. R. I. A. ou Soc. Ross., cujo ingresso era estrito a maçons. Esta organização fora fundada em 1867 e teve como Magus Supremo o Dr. W. Wynn Westcott, que posteriormente integrou a Ordem Hermética da Aurora Dourada.

Também Alphonse Louis Constand (vulgo Eliphas Levi) esteve na S. R. I. A. por alguns anos, mas “os registros da S. R. I. A. declaram que Levi caiu em seu desagrado devido à publicação de seus vários livros sobre magia e ritual”.[27] De fato ele escreveu coisas como, por exemplo, que a mais antiga sociedade secreta do iluminismo a tomar consistência na Alemanha fora os “Rosa-Cruzes cujos símbolos remontam aos tempos dos Guelfos e dos Gibelinos, como o vemos pelas alegorias do poema de Dante e pelas figuras do Romance da rosa” e que “a conquista da rosa era o problema dado para a iniciação à ciência enquanto a religião trabalhava em preparar e em estabelecer o triunfo universal, exclusivo e definitivo da cruz”.[28] No mesmo livro, História da Magia, o ator trata de uma miríade de temas, incluindo uma longa explanação sobre os casos, causas e técnicas do vampirismo; assunto tratado de forma mais abreviada em A Ciência dos Espíritos e outras obras.

Durante a década posterior à morte do ocultista Eliphas Lévi, existiram poucas pessoas que estudaram os seus escritos, porém uma delas foi o novelista e poeta Catulle Mendès, que tinha conhecido Lévi e lhe havia apresentado a Victor Hugo. Em meados da década de oitenta, Mendès fez amizade com o marquês Stanislas de Guaita (1861-1897), jovem poeta e esteta a quem recomendou que lesse as obras deste autor. O marquês seguiu o conselho e encontrou nos escritos de Lévi uma revelação espiritual que descreveu como “o raio oculto”. Desde 1885 até o seu prematuro falecimento em 1897, dedicou sua vida ao ocultismo, chegando a ingerir cocaína, narcóticos e morfina para “afrouxar as ataduras da alma” e conseguir que seu espírito abandonasse seu corpo.

Em 1888, Guaita fundou a Ordre Kabbalistique de la Rosae Croix, na França, juntamente com Gérard Encause (1865-1916) e Joséphin Peladam (1858-1918), que abandonou a fraternidade em 1890 para fundar sua própria Ordem Católica Rosa-Cruz do Templo e do Graal.[29] Depois, Guaita entrou numa disputa contra a Igreja do Carmo[30], dirigida por Boullam (1824-1893), e – com a colaboração do ex-membro Oswald Wirth – escreveu o ensaio, Le Temple du Satan, no qual denunciavam Boullam como “pontífice da infâmia, desprezível ídolo da Sodoma mística, mago da pior espécie, retorcido criminoso, maligno feiticeiro”.[31] A novidade é que este livro inclui um estudo sobre as causas dos casos de vampirismo bastante concordante as teorias do Satanismo & Magia de Jules Bois, que se inspirou no ‘testemunho’ de J. K. Huysmans; ou seja, há uma possível acusação mútua implícita, mas expressa, de vampirismo.

Sabemos que após a denúncia, os dirigentes da Rosa-Cruz enviaram a Boullam uma carta solene na qual lhe comunicavam que era “um homem condenado”, frase que entendeu como uma ameaça de morte por meios mágicos. Assim, iniciou-se uma guerra entre magos. Cada bando amaldiçoou o outro e estava convencido de que os seus inimigos se propunham a destruí-lo. No meio de tudo, o novelista J. K. Huysmans tomou o partido da igreja do Carmo, apresentou Boullam como sendo o santo “Dr. Johannes” de Là-bas e chegou a acreditar que, devido à sua amizade com Boullam, Guaita e os seus se propunham a lhe matar. Passou a queixar-se de que à noite ele e o seu gato sofriam “agressões fluídicas”, golpes propiciados por demônios invisíveis. Estes ataques não tiveram conseqüências mais graves, conforme Huysmans, graças às medidas protetoras idealizadas por Boullam, que incluíam o emprego da hóstia consagrada e a queima de um incenso composto por cravo, cânfora e mirra. No entanto, em 3 de janeiro de 1893, Boullam escreveu a Huysmans para lhe comunicar um novo ataque da Rosa-Cruz: “Durante a noite sucedeu algo terrível. Às três da manhã acordei sufocado… caí inconsciente. Das três às três e meia, estive entre a vida e a morte… Madame Thibault sonhou com Guaita e de manhã ouvimos o canto de um pássaro da morte”. Na noite daquele mesmo dia Boullam morreu, dando fim à contenda.[32] Este caso, impulsionado pelo fanatismo, guarda semelhanças fundamentais com outro mais recente. No livro Lightbearers of Darkness, Miss Stoddart introduz o conceito de ‘Black Rosicrucians’. Segundo a Encyclopedia of Black Magic, antes de 1914, Miss Stoddart foi iniciada numa sociedade secreta britânica, The Red Rose and the Golden Cross, que dizia derivar do corpo germânico da ordem. “Miss Stoddart ocupava uma posição proeminente nesta alegada sociedade rosa-cruz, mas eles começaram a ter séries de experiências extraordinárias subjetivas que sugerem que ela também sofria séries de desilusões esquizofrênicas ou, como ela e alguns de seus associados próximos acreditavam, estava sofrendo ataque psíquico”. Os surtos começaram a partir de 17 de abril de 1919, dentro de templos da Igreja Anglicana, apresentando sintomas que incluíam a percepção de odores desagradáveis, alucinações visuais e experiência de ‘black-out’ ou ‘transes espontâneos’. No cume desses ataques ela via 12 figuras vestindo mantos negros, sentia dor no coração e tinha desmaios. Estava convicta de que seus sintomas provinham de “trabalhos de magia negra feitos contra ela por membros da sociedade rosa-cruz” e gastou boa parte do resto de sua vida denunciando a ordem.[33] Menções e acusações de vampirismo na Ordem Hermética da Aurora Dourada:

Criada como um subproduto da S. R. I. A., a Ordem Hermética da Aurora Dourada (G.D.) foi fundada em 1 de março de 1888 por William Wynn Westcott, William Robert Woodman e Samuel Liddell MacGregor Mathers. Mina Bérgson (Moina Mathers), uma talentosa artista da Escola de Slade, foi a primeira iniciada; tornando-se também esposa de Mathers após um breve compromisso. Em 1891 o casal mudou-se para Paris onde, dois anos depois, estabeleceu um Templo operativo chamado Ahathor.

A GD foi muitas vezes envolta em histórias fantásticas. Por exemplo, o primeiro documento produzido pela ordem, conhecido como Cipher Manuscript, teve caráter anônimo. Ele contém uma alegoria hermética trabalhada sobre um pingente rosa-cruz chamado Adept’s Jewel (jóia do adepto), mas pelo fato de estar codificado numa adaptação do alfabeto alquímico de Johannes Tritheminus (The Polygraphiae; Paris, 1561) decifra-lo é no mínimo aborrecido… Se tal artifício fosse mantido em todo material produzido teria livrado a ordem de muitos problemas, visto que, por volta de 1891, Mathers baseou-se na Fama Fraternitatis para criar o rito 5=6, Adeptus Minor, que incluía o momento dramático da descoberta do “corpo” de Christian Rosenkreuz, no caixão, representado por Mathers ou Westcott.[34] Imagino que tenha sido um documento com a descrição deste rito para iniciação na Segunda Ordem[35] que o Dr. Winn Westcott teve a infelicidade de esquecer dentro de um táxi em 1897. Seus papéis acabaram na polícia que não achou recomendável um coroner[36] se ocupar de tais atividades, pois poderia “ficar tentado a utilizar os cadáveres que são postos à sua disposição, para operações de necromancia”.[37] Westcott demitiu-se da Aurora Dourada.

Resta-nos, contudo, a dúvida sobre a impressão dos iniciados a respeito da natureza do prodígio. Sabemos que em Oil and Blood (1929) o poeta William Butler Yeats denuncia o paradoxo da afirmação do ‘milagre’ da incorruptibilidade dos corpos de certos santos, exaltado pela mesma igreja católica que escarnecia de fenômeno idêntico atribuído a vampiros pelos ortodoxos gregos:

Em tumbas de ouro e lapis lazuli

Corpos de homens e mulheres santos se aparecem.

Óleo milagroso, odor de violeta.

Mas debaixo de cargas pesadas de barro pisoteado

Corpos de mentira dos vampiros cheios de sangue;

Suas mortalhas são sangrentas e seus lábios estão molhados.

A influência de Yeats na G.D. era tal que quando lhe pareceu conveniente pode expulsar Mathers da ordem e substituí-lo como Imperator do templo Isis-Urania em Londres. Se quisesse, ele poderia muito bem impor sua visão de que a incorruptibilidade dos santos e vampiros deriva do mesmo princípio (podendo-se deduzir que seria plausível que a sentença se aplicasse igualmente bem ao corpo de Christian Rosencreutz).

Em 1956, um individuo publicou o artigo L’orde hermétique de la Golden Dawn, sob o nome de Pierre Victor, nos números 2 e 3 da revista La Tour Saint-Jacques, contendo “uma série de revelações sobre a existência, na Inglaterra, no final do século XIX e princípio do XX, de uma sociedade iniciática inspirada na Rosa-Cruz”.[38] Antes, contudo, ele havia colaborado como informante no best-seller O Despertar dos Magos, onde tornou conhecida a teoria de que “Stoker, o autor de Drácula” encontrava-se entre os escritores filiados a G.D. (informação que deve ter sido colhida da tortuosa tradição oral).[39] Tal filiação não consta em obras especializadas confiáveis, como o The Magicians of the GD de Ellic Howe, e o máximo que Sotker registrou foram menções vagas de seus encontros em Londres com “sugadores de sangue” ou “vampires personalites” (o que descreve tão bem seus contemporâneos da G.D. quanto qualquer outro alvo do adjetivo depreciativo).[40] Creio que o primeiro impresso que usou o termo vampirism para nomear técnicas utilizadas por membros da G.D. foi o De Arte Magica (1914), de Aleister Crowley. Segundo ele, havia “um método de vampirismo comumente praticado” pelo fundador McGregor Mathers, sua esposa Moina, pelo adepto E.W. Berridge, por Mr. e Mrs Horos – que tiveram contato com os ritos egípcios de Mathers – e por Oscar Wilde “em seus anos finais”, que apesar de não ter nenhuma relação com a ordem, pelo menos na ficção de O Retrato de Doriam Grey, sintetizou a fórmula da juventude eterna numa filosofia a seu gosto: “Para se voltar à mocidade, basta repetir as suas loucuras”.[41] Sabemos que o próprio Crowley filiou-se a G.D., sendo expulso junto a Mathers em 1900. Insatisfeito, usou os ritos da ordem para fundar uma dissidência chamada Argentium Astrum (AA) em 1907 e aderiu a Ordo Templi Orientes (O.T.O.) em 1911. Dentre as inúmeras curiosidades escabrosas que envolveram sua vida de Crowley, podemos destacar que chegou a limar os dentes caninos, deixando-os bem pontiagudos, e quando encontrava mulheres costumava dar-lhes o “beijo da serpente”, mordendo-lhe o pulso ou às vezes a garganta com suas presas.[42] Para perpetuar a tradição, Crowley criou uma elaborada ritualística. Segundo seu sucessor, Kenneth Grant, dois de seus ritos escritos para a O.T.O. envolvem o uso de sangue: “Eles são a Missa da Fênix e um certo rito secreto da Gnose, ensinado no Soberano Santuário da O.T.O.” Neste último o magista “consome a hóstia embebida em sangue”, enquanto na Missa da Fênix – publicada como Liber XLIV, tanto no Livro das Mentiras quanto no Magick – ele “corta seu peito e absorve seu sangue oralmente”. Por isso “a Missa da Fênix é, com efeito, a Missa do Vampiro”.[43] A Primeira Guerra Mundial chegou e Mathers viveu o suficiente para ver a vitória dos aliados no outono de 1918. Desde então, as coisas se voltaram obscuras. Dizem que Mathers morreu em seu apartamento na Rue Rivera em 20 de novembro de 1918, sucumbindo às poderosas correntes mágicas que emanavam de Crowley, segundo a primeira edição da autobiografia de Yeats.[44] Por sua vez, Dion Fortune relata que Moina lhe informou que seu marido falecera de uma epidemia de gripe nesse ano, mas não se encontrou nenhuma Certidão de Óbito de Mathers, nem sua tumba – e ainda que Moina possuísse uma Certidão de Óbito, não há registros cartorários.

No livro Ritual Magic in England (1970), Francis King relata a história subseqüente da Ordem da Aurora Dourada. A Sra. Mathers assumiu a liderança de uma das ramificações, mas não conseguiu mantê-la unida. A ocultista Dion Fortune, psicóloga freudiana cujo nome verdadeiro era Violet Firth, provocou uma divisão e formou seu próprio Templo; posteriormente, afirmou que a Sra. Mathers lhe dirigia “ataques espirituais” criminosos, tendo mesmo conseguido matar um membro itinerante.[45] Em 1920, Crowley instalou-se em uma quinta decadente de Calefu, na Sicília, e batizou esse santuário da AA como Abadia de Thelema. Um incidente deplorável aconteceu na abadia de Crowley. Um poeta oxfordiano chamado Raoul Loveday bebeu o sangue de um gato durante uma cerimônia e morreu instantaneamente, o que não estava previsto.[46] Sua viúva, Betty May, fez um escândalo e, entre boatos de que além de gatos também bebês haviam sido mortos, o governo italiano tomou medidas para expulsar Crowley da Sicília. Da mesma forma, a morte de Raoul Loveday na abadia causou furor na Inglaterra depois que Betty May forneceu a um jornal popular de Londres detalhes de “drogas, magias e práticas vis”.[47] A partir daí prosseguiria meio que morto em vida.

O dr. R. W. Felkin, chefe de outra facção da G.D. chamada Stella Matutina, dizia aos membros que “nosso pai Christian Rosenkreuz parece ter chegado a um estado quase divino”.[48] Ele acreditava na existência da tumba-cofre descrita na Fama Fraternitatis, em alguma parte do Sul da Alemanha, e estava a caminho pra procura-la quando estourou a guerra 1914-18. Os ritos herdados da G.D. foram publicados numa obra de quatro volumes por Frances Israel Regardie, um discípulo de Crowley que ingressou na ordem em 1934.

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[1] AMBERLAIN, Robert. O Vampirismo. Trd. Ana Silva e Brito. Lisboa, Livraria Bertrand, 1978, p. 163.

[2] AMBERLAIN, Robert. Op. Cit, p. 213.

[3] HALL, Manly P. (introduction and commentary). Codex Rosæ Crucis D.O.M.A. A Rare & Curious Manuscript of Rosicrucian Interest. Los Angeles, Philosophical Reserarch Societh, 1938, p 5 (do manuscrito).

[4] PESSANHA, José Américo Motta. Descartes – Vida e Obra. Os Pensadores: Descartes. São Paulo, Nova Cultural, 1996, p 12.

[5] TIME-LIFE BOOKS. Seitas Secretas. Rio de Janeiro, Abril Livros, 1992, p 54-55.

[6] YATES, Francês A. O Iluminismo Rosa-Crux. Trd. Syomara Cajado. São Paulo, Pensamento, 1983, p 306.

[7] YATES, Francês A. Op Cit., p 305-306.

[8] PARACELSO. A Chave da Alquimia. Trd. Antonio Carlos Braga. São Paulo, Três, 1973, p 220-222.

[9] GILBERT, R. A. (org). Maçonaria e Magia, Antologia de Escritos Rosa-cruzes, Cabalísticos e Maçônicos de W. Wynn Westcott, Fundador da Ordem Hermética “Golden Dawn”. São Paulo, Pensamento, 1996, p. 15.

[10] GILBERT, R. A. (org). Op. Cit, p. 23.

[11] É preciso ter cuidado ao fazer tal identificação. Encontrar fraudes de trabalhos de Francis Bacon é tão fácil quanto desmascarar as mesmas. Por exemplo, a página do Calvin College, Christian Classics Ethereal Library, disponibilizou por longo período a cópia de uma pretensa obra póstuma; The Fearful Estate of Francis Spira by Nathaniel Bacon (Londres, 06/01/1638). Nesta ficção curiosa Spira – o protagonista melancólico – nega crer que os pecados são redimidos com o sangue de Cristo e pede aos religiosos que lhe assediam: “Left miserable mortals should be swallowed up with the greatness of their willfully with my hands pulled down this vampire”… Ora, o que o termo ‘vampire’ esta fazendo numa publicação de 1638 se o vernáculo vampyr só tomou esta forma em inglês e francês no ano de 1732?

[12] LEWIS, H. Spenser. Perguntas e Respostas Rosacruzes. Curituba, Ordem Rosacruz AMORC – Grande loja do Brasil, Maio de 1983, p 85.

[13] LEWIS, H. Spenser. Op. Cit., p 78-79.

[14] CAMINO, Rizzardo da. Breviário Maçônico. São Paulo. Madras, 1995, p. 345.

[15] PAPUS (Dr. Gerard Encause). O Que Deve Saber um Mestre Maçom. Trd. J. Gervásio de Figueiredo 33º. São Paulo, Pensamento, p 85-86.

[16] PAPUS (Dr. Gerard Encause). Op. Cit, p 90.

[17] GRANDE LOJA DE MINAS GERAIS. Ritual do Grau de Mestre-Maçon (GR .’. 3). Belo Horizonte, Littera Maciel, 1976, p. 9.

[18] CARLES, Jacques e GRANGER, Michael. Alquimia: Superciência Extraterrestre? Trd. Hélio Pinheiro Carneiro. Rio de Janeiro, Eldorado, 1973, p 166.

[19] Marques, A. H. de Oliveira. Dicionário de Maçonaria Portuguesa. Vol. II. J-Z. Lisboa, Editorial Delta, 1986, coluna 1263.

[20] GODOY, A. C. & DELLAMONICA, J. A Cruz e a Rosa. São Paulo, Madras, 1994, p 43.

[21] LEADBEATER, C. W. A Vida Oculta na Maçonaria. Trd. Gervásio de Figueiredo 30º. São Paulo, Pensamento, 1964, p 229.

[22] CASTELLANI, José e FERREIRA, Cláudio R. Buono. Manual Heráldico do Rito Escocês Antigo e Aceito do 19º a 33º. São Paulo, Madras, 1997, p 13.

[23] LURKER, Manfred. Dicionário de Simbologia. Trd. Mario Krauss e Vera Barkow. São Paulo, Martins Fontes, 1997, p 534.

[24] GODOY, A. C. & DELLAMONICA, J. Op. Cit, p 41.

[25] EBRAM, José. A Águia Bicéfala Sobre o Altar. São Paulo, Madras, 1996, p 58.

[26] TIME-LIFE BOOKS. Seitas Secretas. Rio de Janeiro, Abril Livros, 1992, p 47.

[27] LEWIS, H. Spenser. Perguntas e Respostas Rosacruzes. Curituba, Ordem Rosacruz AMORC – Grande loja do Brasil, Maio de 1983, p 92.

[28] LEVI, Eliphas. História da Magia. Trd. Rosabis Camaysar. São Paulo, Pensamento, 1995, p 277.

[29] A Rosa-Cruz cabalística sobreviveu às mortes, não só do seu fundador, mas da de muitos dos seus dirigentes, como por exemplo o poeta Edouard Dubus, viciado em morfina que morreu em um urinário público enquanto estava se drogando. Durante muitos anos a ordem esteve dirigida por Papus, que estabeleceu um ramo na Rússia e foi um dos ocultistas que influiriam no último czar. Papus faleceu em 1916 e com sua morte a ordem se separou em várias facções rivais, algumas das quais ainda mantém uma existência precária.

[30] Esta igreja teve sua origem na Obra da Misericórdia, fundada em 1840 por Vintras, que tinha instituído em Tilly um oratório onde celebrava a Missa Provitimal de Maria; rito de sua própria invenção onde ocorriam numerosos prodígios. Os discípulos de Vintras viam, ou pelo menos pensavam ver, cálices vazios que se enchiam de sangue até transbordar e símbolos sangrentos que apareciam na Hóstia. A Obra de Misericórdia, que começava já a ser conhecida como igreja do Carmo, foi condenada oficialmente pelo papa em 1848.

[31] KING, Francis. Magia. Trd. Traduções e Serviços, S.L. Madrid, Ediciones Del Prado, agosto 1996, p 22.

[32] KING, Francis. Op. Cit, p 22.

[33] ‘CASSIEL’. Encyclopedia of Black Magic. New York, Mailland Press, 1990, p 39.

[34] VÁRIOS. Os Rosa-Cruzes. Homem Mito e Magia, fascículo 16. Vol 2. São Paulo, Editora Três, 1973, p 315-320.

[35] Espécie de degrau evolutivo interno da G.D. também chamado Order of the Rose of Ruby and the Cross of Gold (R.R. et A.C.).

[36] Coroner: Posto jurídico que acumula as funções de médico legista e juiz de instrução. Em caso de morte suspeita, reunia um júri que pronunciava um veredicto, podendo eventualmente haver intervenção da justiça e da polícia. (Um desses veredictos foi célebre no século XIX; o júri concluíra que um desconhecido encontrado morto num parque londrino havia sido assassinado “por pessoas ou coisas desconhecidas”).

[37] BERGIER, Jacques. Os Livros Malditos. Trd. Rachel de Andrade. São Paulo, Hemus, p 91-92.

[38] PAUWELS, Louis e BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos. Trd. Gina de Freitas. São Paulo, Difel, 1974, p. 241-242.

[39] PAUWELS, Louis e BERGIER, Jacques. Op Cit., p. 241.

[40] STOKER, Bram. O Monstro Branco. Trd. João Evangelista Franco. São Paulo, Global, p 7-12.

[41] WIDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Trd. Ed. Nova Aguiar. São Paulo, Abril, 1980, p 54.

[42] WILSON, Colin. O Oculto. Vol 2. Trd. Aldo Bocchini Netto. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p 44.

[43] GRANT, Kenneth. Renascer da Magia. São Paulo, 1999. Madras, pp 153-166.

[44] WILSON, Colin. O Oculto. Vol 2. Trd. Aldo Bocchini Netto. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p 30.

[45] WILSON, Colin. O Oculto. Vol 2. Trd. Aldo Bocchini Netto. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p 30.

[46] BERGIER, Jacques. Os Livros Malditos. Trd. Rachel de Andrade. São Paulo, Hemus, p 96-97.

[47] TIME-LIFE BOOKS. Seitas Secretas. Rio de Janeiro, Abril Livros, 1992, p 117.

[48] Os Rosa-Cruzes. Homem Mito e Magia, fascículo 16. São Paulo, Três, 1973, p. 320.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-mito-do-vampiro-e-a-rosacruz

Cristina da Suécia

Thiago Tamosauskas

No final do século XVII, Cristina I da Suécia era filha única do rei Gustavo II Adolfo e de rainha Maria Eleonora de Brandemburgo-Hohenzollern. Nascida em 8 de dezembro de 1626, após a morte do pai tornou-se monarca legítima com apenas 6 anos. O Conselho Nacional sugeriu que Cristina participasse do governo a partir dos 16, mas ela pediu para esperar até os 18 anos para seguir o exemplo de seu pai. Neste período de preparação ela recebeu mesma educação militar, de governança e de artes liberais que um príncipe receberia.

Cristina possuía uma natureza andrógina inegável, suas cartas e diários demonstram sua bissexualidade em seus inúmeros casos amorosos incluindo a Duquesa Ebba Sparre e o embaixador português Antonio Pimentel. Ela dizia ter “uma mente inteiramente masculina” e gostava de ser  vestir segundo a moda dos homens de seu tempo. Em documentos mantidos pelo Vaticano em Roma, ela foi chamada de “hermafrodita”. O poder da coroa lhe deu uma liberdade que poucas pessoas tinham na época, mas seu estilo de vida ofuscam as realizações daquela que a Internet Encylopedia of Philosophy chamou de

uma das mercuriais monarcas da Europa … Em seus escritos, ela faz sua própria contribuição distinta para a filosofia moral e política. Seus textos éticos exploram a natureza da virtude, defendem a equidade de gênero e postulam critérios para a verdade religiosa. Seus trabalhos políticos defendem a tolerância cívica das minorias religiosas. Como muitos salões da época, Cristina analisa a natureza e as variações do amor, mas seus interesses teológicos e políticos lhe proporcionam um horizonte filosófico mais amplo do que o predominantemente romântico da maioria dos salões franceses. Seu trabalho filosófico frequentemente explora a questão que atormentou sua carreira política: a natureza e o exercício adequado da autoridade.

Desde a juventude sentiu-se atraída pelo ocultismo. Sem dúvida este interesse se deve a tutoria que recebeu do antiquário real de Estocolmo, Johannes Bureus que dedicou a Cristina uma cópia manuscrita de suas especulações sobre a origem mística das Runas, sua Adulruna Rediviva, em 1643, e mais tarde uma cópia de sua obra apocalíptica, O Rugido do Leão do Norte.

Cristina I, a rainha

Os estudos esotéricos tiveram que ser deixados parcialmente de lados em 1644, quando Cristina assumiu finalmente o trono do Império Sueco. Seu primeiro desafio como monarca foi conclusão dos tratados de Paz com a Dinamarca e seu sucesso foi tão grande que nas negociações a Suécia ainda ganhou as ilhas de Gotland e Ösel (hoje Saaremaa em Estónia) e o domínio sobre os distritos de Jämtland e Härjedalen que anteriormente pertenciam a Noruega.

A paz e prosperidade que conquistou permitiram que ela estabelecesse diversas academias e universidades e pode dar novamente vazão aos seus interesses intelectuais. Cristina I é lembrada como uma das mulheres mais cultas do século XVII, ela gostava de livros, manuscritos, pinturas e esculturas. Com seu interesse em religião, filosofia, matemática e alquimia, ela atraiu muitos cientistas para Estocolmo e desejava que a cidade se tornasse uma nova “Atenas do Norte”.

Em 1646 demonstrou interesse em instituir uma Ordem de Emanuel, uma fraternidade cavalheiresca de tons iniciáticos. As obrigações do reinado e o desencorajamento do seu conselheiro Johann Adler Salvius a fizeram abandonar os planos temporariamente.

Apesar do sucesso de seu reinado Cristina sabia que a maior expectativa sobre ela era a de proporcionar um herdeiro para o trono sueco. Ela teve um caso rápido e se tornou secretamente noiva de seu primo Carlos, filho da Princesa Catarina e neto do Rei Carlos IX embora tenha registrado mais tarde em sua autobiografia que sentia “uma aversão intransponível para o casamento”.

Em 1649, Cristina tornou pública sua decisão de não se casar e seu desejo de tornar Carlos herdeiro ao trono. Apesar da oposição da nobreza, seu desejo foi aclamada pelo povo e aceita pela burguesia e pelo clero. A coroação de Carlos ocorreu em 1650 no castelo de Jacobsdal, (atual Ulriksdal), na ocasião Cristina adentrou no salão em uma carruagem bordada em veludo e ouro, puxado por seis cavalos brancos.

Cristina I, a alquimista

Com a coroação de Carlos, Cristina podia agora deixar de lado as questões do reinado e e da política, que sempre considerou um fardo para se dedicar aos assuntos que realmente lhe despertavam interesse, a alquimia e o ocultismo.

Nessa época ela se aproximou do botânico Johannes Franck, que a convenceu de que ela cumpriria uma profecia atribuída a Paracelso sobre o retorno da figura messiânica de Helias Artista e da visão de Sendivogius sobre a ascensão de uma monarquia alquímica do Norte. Em 1651 ofereceu a rainha seu livro Colloquium philosophcum cum diis montanis (Upsala 1651) no qual a exortava a iniciar sua busca pelo pó vermelho-rubi dos filósofos.

Christina decidiu ouvir Franck e montou seu próprio laboratório alquímico. Ela também coletou tantos textos raros de alquimia,  cabala, teurgia e hermetismo quanto pôde. Por volta dessa época, ela induziu o especialista grego Johannes Schefferus a escrever uma história dos pitagóricos, que foi publicada na Suécia uma década depois como De natura et constitutione philosophiae Italicae seu pythagoricae (Upsala, 1664). Ela foi criticada por seus interesses por Descartes quando este visitou Estocolmo em 1650. Cristina disse em resposta que achava que as ideias do Discurso sobre o Método já haviam sido formuladas séculos antes por Sexto Empírico e Santo Agostinho.

Amaranthorden

Lady

retrato de 1661 por Abraham Wuchters

Em 1653 retomou sua ambição de criar uma fraternidade iniciática e instituiu a Amaranthorden (Ordem de Amaranto) que teve como emblema uma guirlanda verde de Amaranto significando a vida imortal

A Ordem foi criada em homenagem e memória de seus encontros com o embaixador espanhol Antonio Pimentel de Prado, originário de Amarante, Portugal. Ele também foi o primeiro a ser nomeado cavaleiro da ordem.

A ordem era limitada a 15 cavaleiros, que tinham que permanecer solteiros e “que participavam dos prazeres mais íntimos da rainha”. Entre os membros originais estavam (além do embaixador espanhol) o regente nacional da Dinamarca Corfitz Ulfeldt, o chanceler da Polônia Hieronim Radziejowski, entre outros.

Os membros da Ordem eram convidados a participar de uma ceia no sábado à noite no Castelo de Jacobsdal, chamada de “Festa dos Deuses”. Durante o evento o local era chamado de Arcadia a antiga utopia pastorial grega e cada convidado além de levar uma acompanhante e cada um interpretava um papel. Ulfeldt era o deus Júpiter, Pimentel era o deus da guerra Marte e Radziejowski era Baco enquanto a própria Cristina fazia o papel de uma bela, virtuosa e talentosa Dama da Corte chamada Lady Amarantha. Na primeira noite quatorze casais foram convidados e Cristina não levou nenhum acompanhante. Não há registros do que acontecia depois que as portas do Castelo eram fechadas para a festa.

A ida para Roma

Em 1654 Christina anunciou que conseguiu descobrir o segredo dos alquimistas e era agora capaz de transforma chumbo em ouro. Tal anuncio foi visto como um gracejo pelos intelectuais, afinal ela já era rica.  O incidente, entretanto coincidiu com uma profunda conversão religiosa da rainha protestante para o catolicismo romano. A Ordem de Amaranto foi deixada a cargo dos seus auxiliares espanhóis e a rainha passou os próximos anos de sua vida em peregrinação em Roma.

A conversão de Cristina foi forte o bastante par fazê-la abdicar de qualquer ligação  de poder com o trono sueco, uma vez que todo os monarcas de seu país deveriam ser forçosamente protestantes. Mas apesar da renovação de sua religiosidade Christina permaneceu muito tolerante com as crenças dos outros durante toda a sua vida. Na verdade sua conversão ao catolicismo a aproximou do movimento rosacruz italiano e da alquimia da península.

Cristina passou a morar no Palazzo Farnese, que pertencia ao duque de Parma e todas as quartas-feiras ela abria o palácio aberto a visitantes das classes mais altas para sarais de poesia e discussões intelectuais. A partir de 24 de janeiro de 1656 estes encontros se tornaram a Accademia Dell’arcadia, (Academia de Arcadia) um nome que automaticamente nos remete aos seus eventos da Ordem de Amaranto, oficialmente entretanto a Academia de Arcadia era oficialmente dedicada as artes em geral e a exploração da philosophia perennis como uma oposição ao racionalismo moderno.

O interesse de Cristina pela alquimia não diminuiu em nenhum momento de sua vida. No verão de 1667 em Hamburgo, Cristina fez experiências com o profeta messiânico e alquimista Giuseppe Francesco Borri, mas foi aconselhada pelo cardeal Azzolino a se distanciar dele que já havia sido procurado pela inquisição.  Ela também se correspondeu com outros alquimistas como Johan Rudolf Glauber e Hennig Brandt.

A Porta Mágica

Em 1680 ergueu a Porta Mágica no jardim romano de Palombara e atualmente ainda pode ser vista na Piazza Vittorio Emanuele, em Roma. Diz a lenda que a porta foi levantada como uma comemoração de uma transmutação bem sucedida que culminou na produção da Pedra Filosofal nos aposentos de Cristina.

A Porta Magica consiste em um portal de pedra com um emblema da alegoria alquímica de Henricus Madathanus Aureum Seculum Redivivum. No alto uma cruz sobre um círculo no qual está inscrito um hexagrama com o texto “Centrum in trigono centri” e com o entorno ladeado por insígnias alquímicas e termos alquímicos em latim.

Os sete signos foram retirados do Commentatio de Pharmaco Catholico de Johannes de Monte-Snyder e estão na sequência: Saturno-Chumbo, Júpiter-Estanho, Marte-Ferro, Vênus-Bronze, Mercúrio, Antinomia e Vitríolo.

A Porta Mágica é encimada com a inscrição hebraica Ruach Elohim ou o Espírito do Senhor e ao redor do emblema está o texto:

TRIA SUNT MIRABILIA DEUS ET HOMO MATER ET VIRGO TRINUS ET UNUS.

(HÁ TRÊS MARAVILHAS DEUS E HOMEM, MÃE E VIRGEM TRÊS E UM.)

Também na Porta há uma inscrição alusiva às viagens dos Argonautas:

HORTI MAGICI INGRESSUM HESPERIUS CUSTODIT DRACO ET/ SINE ALCIDE COLCHIAS DELICIAS NON GUSTASSET IASON

(O dragão hesperiano guarda a abertura do jardim mágico e sem Hércules Jasão não teria provado as iguarias da Cólquida).

Da esquerda para a direita as inscrições são:

QUANDO IN TUA DOMO NIGRI CORVI PARTURIENT ALBAS COLUMBAS TUNC VOCABERIS SAPIENS

(Quando em sua casa os corvos negros derem à luz pombas brancas, então você será chamado de sábio).

DIAMETER SPHAERAE THAU CIRCULI CRUX ORBIS NON ORBIS PROSUNT

(O diâmetro da esfera, o tau do círculo, a cruz do globo, não têm utilidade para o mundo).

QUI SCIT COMBURERE AQUA ET LAVARE IGNE FACIT DE TERRA CAELUM ET DE CAELO TERRAM PRETIOSAM

(Aquele que sabe queimar com água e lavar com fogo faz da terra o céu e do céu a terra preciosa).

SI FECERIS VOLARE TERRAM SUPER CAPUT TUUM EIUS PENNIS AQUAS TORRENTUM CONVERTE EM PETRAM

(Se ​​você jogar a terra sobre sua cabeça com seus cabelos, você converterá em pedra as torrentes de água).

AZOTH ET IGNIS DEALBANDO LATONAM VENIET SINE VESTE DIANA

(Quando o Azoth e o Fogo embranquecer Latona, Diana virá sem roupa).

FILIUS NOSTER MORTUS VIVIT REX AB IGNE REDIT ET CONIUGO GAUDET OCCULTO

(Nosso filho morto vive, o rei se afasta do fogo e tem prazer na conjunção oculta).

EST OPUS OCCULTUM VERI SOPHI APERIRE TERRAM UT GERMINET SALUTEM PRO POPULO

(É obra oculta dos verdadeiros sapientes abrir a terra para gerar salvação para o povo).

No limiar há a linha curta que pode ser lida nos dois sentidos:

SI SEDES NON IS

(Se você sentar, não pode ir, se não sentar, vá).

Os últimos anos

Kristian Zahrtmann, Rainha Cristina no Palazzo Corsini (1908). Imagem da Galeria Nacional da Dinamarca.

No final de sua vida os manuscritos magico, espirituais que possuía superavam a casa dos milhares, incluíndo toda obra de Paracelso, os livros de Joachim di Fiore e Campanella, Corpus Hermeticum, Steganographia de Trithemius, Monas Hieroglyphica de John Dee, o Picatrix, uma versão latina do  Sefer-ha-Raziel e as obras alquímicas de Johannes Theurneisser e Andreas Libavius. Os livros de Christina estão listados em um documento agora na biblioteca Bodleian, Oxford.

Sua fome de saber sobre estes assuntos parecia não ter fim e em um dado momento trouxe uma mulher mais jovem chamada Sibylla para realizar com elas alguns experimentos. Ela também contratou um alquimista trabalhador, Pietro Antonio Bandiera, para administrar seu laboratório a quem deixou todos os equipamentos em seu testamento. De fato, ela levou esse interesse até o último momento de sua vida. Quando faleceu foi encontrada com ela em sua cama uma carta sobre a medicina universal, o alkahest, de Samuel Forberg.

Cristina faleceu em Roma aos 63 anos em fevereiro de 1689, vítima da diabetes. Ela adoeceu gravemente após uma visita aos templos da Campânia. Contrariando seu desejo, o Papa Inocêncio XII mandou realizar uma elaboradíssima cerimônia, com cortejo de cardeais, clérigos e noviços até a Basílica de São Pedro, onde está sua sepultura até hoje.

Fontes:

 

* Thiago Tamosauskas autor do Principia Alchimica, um manual simples e direto dos principais conceitos e práticas da alquimia.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/cristina-da-suecia/