A Ciência do Sonho Lúcido: Entrevista com Dr. Keith Hearne

Dr Keith Hearne é um psicólogo britânico conhecido como a primeira pessoa a conseguir provar cientificamente a existência de sonhos lúcidos. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre como fez para conseguir sua prova, bem como as descobertas fisiológicas e psicológicas que o seguiram até a conquista do seu PhD sobre sonhos lúcido

Pergunta: Como foi que você conseguiu captar sinais vindos de uma mente desperta dentro de um corpo que dorme?

Ninguém antes tinha testemunhado o que vi naquele laboratório de pesquisas do sono da Universidade de Hull, Inglaterra. Era por volta de 08:00 da manhã do dia 12 de abril de 1975.

Na noite anterior, eu havia conversado o voluntário, um indivíduo chamado Alan Worsley que relatara ter com muita frequência os chamados sonhos lúcidos (nos quais o sonhador se torna plenamente consciente e tem faculdades cognitivas completas). Esse indivíduo foi instruído para que fizesse sete movimentos com os olhos no sentido esquerda-direita, no momento em que despertasse dentro do sonho.

Entenda, ao dormir nosso sistema nervoso desliga certas funções motoras para que não saiamos andando ou nos mexendo demais. Esse estado é conhecido como atonia do sono, mas não afeta nosso controle do diafragma nem dos olhos. Além disso, tenha em mente que o período do sono em que os sonhos ocorrem é conhecido como REM (Rapid Eye Movement) e se caracteriza justamente pelo movimento errático dos globos oculares.

Disso eu inventei o método de sinalização em uma tentativa de contornar a profunda paralisia corporal e assim criar um meio de comunicação entre o mundo dos sonhos e o mundo real. O indivíduo foi também equipado com registradores encefálicos gráficos sensíveis que garantiram que ele estava dormindo e registradores capazes de captar e registrar o movimentos dos olhos.

Com grande expectativa, eu observei cada um dos  vários períodos REM que ele teve durante a noite. E então pouco antes das 8:00 o indivíduo já tinha entrado em vários REM ‘s e sonhado por cerca de meia hora.

Houve então uma explosão de um longo período de REM, quando, de repente, fora da aleatoriedade esperada deste estado, houve uma seqüência deliberada de sete grandes movimentos de zig zag dos olhos da direita para a esquerda, exatamente como combinado. O movimento foi registrado graficamente por nossos equipamentos:

 

A sequencia dos sinais oculares no sentido direita e esquerda está em exposição na Liverpool University.
EEG – Eletroencefalograma
EOG – Eletroftalmograma (movimento dos olhos)
EMG – Eletromiograma (atividade muscular)

 

Ao acordar, o indivíduo confirmou o fato e descreveu como ele, de repente, percebeu que estava sonhando e então conscientemente fez os sinais esperados. E assim foi que temos hoje a prova, já repetida em laboratório de que é realmente possível tornar-se plenamente consciente enquanto se está sonhando.

Para mim foi como receber sinais do SETI de inteligências de outro sistema solar. Eu estava em êxtase, mas tive que manter a calma para não acordar o sujeito! Foi uma situação incrível. Eu estava testemunhando a primeira comunicação de uma pessoa que estava dormindo em outro quarto, sonhando, em seu próprio mundo mas perfeitamente consciente e capaz de interagir. Ele estava em sua realidade e eu estava em minha realidade. Mas fizemos um canal de comunicação entre estas duas realidades.

O registro gráfico original, assim como minha Máquina dos Sonhos2 estão agora em exposição permanente no Museu de Ciência de Londres. A propósito , toda a tese de PhD e meu livro The Dream Machine pode ser baixado gratuitamente no meu site KeithHearne.com.

 

 

Dr Keith e seu protótipo da Máquina do Sonho

 

A técnica abriu uma porta para toda uma nova área na pesquisa. Um sonhador foi capaz de enviar informações em tempo real e portanto podia agora realizar experimentos conduzidos no estranho ambiente do seu universo particular.

Poucos meses depois, ganhei meu próprio laboratório de pesquisas do sono na Universidade de Liverpool, com o qual três anos depois descobrimos vários fenômenos fisiológicos e psicológicos básicos por trás dos sonhos lúcido que culminou em meu PhD1.

Entre estas descobertas estão:

  • Os sonhos lúcidos são reais.
  • Os sonhos lúcidos ocorrem durante o a fase REM (até então essa era apenas uma hipótese).
  • Os eventos do sonhos lúcidos acontecem em tempo real (descobrimos isso comparando o testemunho dos indivíduos pesquisados com os registros gráficos do maquinário)
  • A lucidez  nos sonhos é geralmente precedido por uma explosão REM.
  • Experimentos podem ser realizados dentro dos sonhos e os resultados enviados para fora do sonho. (Inclusive realizei o primeiro experimento em telepatia no laboratório do sono em minha pesquisa de doutorado).
  • Muitos fenômenos físicos estão correlacionados com o sonho lúcido e foram revelados a partir dos dados fisiológicos coletados e questionários.
  •  A criação da “máquina dos sonhos”, capaz de produzir estímulos artificiais nos sonhos e induzir a lucidez onírica
  • A descoberta do ‘efeito interruptor de luz “(abordado no filme seminal de Richard Link, Waking life3).

Enviei o resumo da minha descoberta a dois bem conceituados pesquisadores do sono: Professor Allan Rechtschaffen da Universidade de Chicago, e Professor William Dement na Universidade de Stanford. Rechtschaffen enviou uma resposta bastante encorajadora. Em 1978 uma outra pesquisa realizada em Standford confirmou minhas conclusões. Estou muito honrado aquele 12 de abril está agora está sendo reconhecido por algumas pessoas como o Dia do Sonho Lúcido como uma forma de marcar esta pesquisa sem precedentes.  Curiosamente assim como Alan Worsley mandou seu sinal em 1975, em outro 12 de abril, em 1961, Yuri Gagarin foi o primeiro ser humano a se comunicar de fora do nosso planeta Terra.

P: Você pode nos contar um pouco sobre o seu trabalho paralelo sobre premonições?

Sou fascinado por premonições. Ao lado de meu trabalho principal com sonhos lúcidos eu já havia realizado alguns experimentos em parapsicologia com equipamentos bem avançados aos quais tive acesso com o laboratório. Estes porém sempre no muito artificial ambiente do laboratório – e mesmo assim já tinha alguns resultados interessantes – até que um dia tive uma experiência na “vida real”.

Eu estava prestes a fazer uma viagem de rotina bastante familiar pela Humber quando eu “soube” com toda a certeza que algo desagradável ia acontecer naquele navio. Eu nunca tinha tido essa sensação antes. Parei e pensei, mas decidiu ir a bordo. Na viagem ficou escuro, e depois houve um grito de ‘Homem ao mar! ” Alguém tinha realmente caído na água. Depois de um longo tempo de busca, o passageiro foi arrastado a bordo. Eu assisti reanimação sendo realizada. O evento me estimulou a investigar premonições da vida real. Mais tarde, eu escrevi um livro sobre minha pesquisa bastante extensa chamado Visions of the Future4.

Na análise dos casos identificamos um sub-grupo de premonições que parecem ser muito preciso, que eu denominei ‘Tipo de Anúncio de Mídia’ – ou seja anúncios feitos pela TV, rádio, jornal que são vistos ou ouvidos antes do evento inesperado. Um desses casos dizia respeito à Flixborough o desastre fábrica de produtos químicos no Reino Unido. Estes tipos são bastante interessantes pois por sua natureza são sempre documentados e registrados.

Essas anomalias devem ser considerados em nossas tentativas de dar sentido a esse incrível mundo em que nos encontramos. Explicações simples não são mais suficientes.

P: O que sua investigação lhe disse sobre a interpretação dos sonhos não-lúcidos?

Eu acho que os sonhos comuns pode ser efetivamente entendidos como “metáforas em movimento” (5,6,7) uma maneira pela qual inconsciente fornecer informações úteis para o sonhador.

Eu recomendaria os leitores o livro The Dream Oracle8 que escrevi com David Melbourne. David veio com essa técnica extraordinária, que é baseado nas letras do alfabeto, e fornece um método completamente novo – facilitando em muito a comunicação.

P: Como um compositor prolífico você encontra inspiração musical em seus sonhos?

Gosto de escrever música – e me diverti muito compondo a música para um ballet de longa-metragem chamado a Princesa do Povo, em conjunto com Dame Gillian Lynne (que coreografou fantasma de Andrew Lloyd Webber de The Opera e Cats). Algumas peças foram gravadas para um CD pela Orquestra Sinfônica de Moscou.

Outras composições incluem um Requiem completo, um musical, uma concerto de guitarra, uma peça Memorial do Holocausto, um hino para a Arménia, e várias músicas (incluindo peças religiosas separadas do Requiem – Ave Maria, Pie Jesu, Nunc Dimittis, Magnificat, Nosso Pai), e um concerto para ‘Cello’. Atualmente estou trabalhando em uma ópera bastante emocionante.

Algumas das minhas músicas originam-se da fonte maravilhosamente criativa que é o mundo dos sonhos. Ao acordar, eu corro para o sintetizador para gravar o fragmento que me veio!

P: O que fez você se interessar pela imaginação e sonhos?

Eu sei exatamente o gatilho que despertou o meu interesse por isso. Quando ainda uma criança de cerca de seis anos, minha professora me disse: “Você sabe quando sonha acordado, Keith e vê imagens …”. Fiquei intrigado com o que ela estava dizendo, porque eu nunca tinha isso e não tinha nenhuma imagem visual (em vigília) Outras crianças, porém, diziam “Sim senhorita!”. Percebi naquele idade precoce que existem grandes diferenças individuais nas pessoas.

A ideia ficou na minha mente. Mais tarde, quando uma irmã mais velha estava na faculdade, ela trouxe livros para casa de Freud, Jung, etc. Eu os li avidamente, de modo isso também cimentou meu interesse em sonhos.

Como estudante de graduação na Universidade de Reading, na Inglaterra, eu desenvolvi uma técnica de “rastreamento” que permita pessoas em hipnose, externalizar o que viam. Chamei o método de Hipno-Onirografia”

A pessoa se senta na frente de uma grande mesa de desenho em hipnose, e é instruída a ter um sonho hipnótico vívido (ou mesmo para explorar uma ‘vida passada’). As imagens dos sonho é interrompida por um comando e então o sujeito abre seus olhos, a imagem fica enquadrada-congelada na mesa e o desenho é feito. As cores são descritas, e depois as pintamos. Sequencias de imagens congeladas podem revelar cenas de toda uma experiência imagética.

A ‘Efeito Mudança de Cena” foi imediatamente descoberto assim. Parece que os ‘pixels’ da imagem anterior é quase sempre re-arranjada na formação de nova cena, como que seguindo uma “lei do mínimo esforço”. Este efeitos ocorrem em sonhos comuns também. Eu gostaria de ver o meu efeito em um filme de Hollywood!

 

Exemplo do Efeito Mudança de cena usando a Hipno-Onirografia

P: Existe alguma coisa que você gostaria de compartilhar com os interessados em sonhos lúcidos?

Quando alguém é pioneiro em um novo campo, alguns indivíduos muito entusiasmados vão tentar “pegar o bonde andando’, e fazer reivindicações de associação e até mesmo prioridade. Então, algumas pessoas (principalmente na América) têm uma ideia completamente errada sobre o início da pesquisa do sono em laboratório em sonhos lúcidos, e ignoram meu trabalho pioneiro. Jornalistas preguiçosos têm perpetuado sem querer esse tipo de desinformação.

As coisas estão mudando agora, tenho o prazer de dizer. A Internet tem sido boa para isso – toda a informação está lá, para que todos poderem ver. Esses novos escritores modernos que exigem mais precisão na história da ciência (como Daniel Amor) estão superando esse passado.

P: Com o que você está trabalhando agora?

Estou escrevendo um livro importante agora, que introduz novos conceitos. Ele vai perturbar algumas pessoas. Além disso, estou compondo uma ópera dramática baseado em uma pessoa real da história. Eu também estou contribuindo para a tradução em Inglês do livro marco Hervey St Denys ‘no sonho lúcido, um projeto chamado Traduzindo Sonhos, que está agora em fase de captação de recursos no Kickstarter. Eu tenho ainda algumas invenções que eu gostaria de trabalhar, também – mas preciso racionar o meu tempo!

Referências

1. Hearne, KMT (1978) Lucid-sonhos: um estudo eletrofisiológico e psicológica. Tese de doutorado da Universidade de Liverpool (Reino Unido). Submetido maio de 1978.
2. Hearne, K. (1990) The Dream Machine. Aquarian Press. Reino Unido
3. Hearne, KMT (1981) Um fenômeno Light-chave em sonhos lúcidos. Journal of Mental Imagery, 5 (2): 97-100.
4. Hearne, K. (1989) Visões do futuro. Aquarian Press. Reino Unido
5. Melbourne, D. & Hearne, K. (1997) Interpretação de Sonhos: The Secret. Blandford Press. Reino Unido
6. Melbourne, D. & Hearne, K. (1999) O significado dos seus sonhos. Blandford Press.
7. Hearne, K. & Melbourne, D. (2001) entendimento dos sonhos. New Holland Press.
8. Melbourne, D. & Hearne, K. (2002) The Dream Oracle. Foulsham Publishers. Reino Unido
9. Hearne, K. (1990) The Dream Machine. Aquarian Press. Reino Unido. Páginas 69-72.

Por Rebecca Turner. Tradução Tamosauskas

[…] aspectos do sonho, e até mesmo mover-se de lugar em lugar dentro dele. Hoje conhecemos isso como sonho lúcido, mas o termo não estava em uso quando Lovecraft sonhou com Cthulhu, Nyarlathotep, Yuggoth e o […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-ciencia-do-sonho-lucido-entrevista-com-dr-keith-hearne/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-ciencia-do-sonho-lucido-entrevista-com-dr-keith-hearne/

Música, Fibonacci e o Diabo

Um dos meios para expandir a consciência e modificar e transformar o indivíduo em seu aspecto psicomental e espiritual é a música. Na prática da Magia e da Filosofia a música tem sido utilizada de diversas maneiras, e na Via Draconiana ela é especialmente importante em seus aspectos mais ocultos.

A música sempre esteve presente em todas as culturas e épocas do mundo e foi se desenvolvendo ao longo do tempo, sendo usada para diversas finalidades. Os antigos povos de quase todos os lugares pensavam que a música fosse um presente dos deuses, e, especialmente para os gregos, um presente das deusas: as musas, e mais especificamente a musa Euterpe.

Agora, se a musa da música é quem estruturou todos os elementos musicais, ninguém sabe ao certo… Mas como se sabe, a música é caracterizada basicamente pelos seguintes elementos: melodia, harmonia e ritmo. Melodia pode ser definida como uma sequência de notas dentro de uma escala, uma após a outra (são os solos instrumentais e as linhas vocais ou instrumentais); harmonia é a combinação de notas que são vibradas simultaneamente; e ritmo é marcação do tempo e o que faz a melodia e a harmonia fluírem. Além desses, a boa música ainda apresenta dinâmica (volume e intensidade dos sons), timbres, etc. Para que uma música possa ser diferente da outra, esses elementos característicos devem ser compostos e arranjados de modos diferentes e com o feeling e a “pegada” pessoal de cada músico/compositor/instrumentista. E essas características e elementos apresentam certa variedade: diversos modos/tonalidades de escalas) que são a base para as harmonias (acordes de diferentes tipos); e diversos modos rítmicos.

E o que Fibonacci tem a ver com isso? Bom, toda essa variedade dentro da música, que existe essencialmente na matemática, está relacionada à sequência numérica de Fibonacci, que também está relacionada a diversas áreas do conhecimento. Fibonacci, ou Leonardo de Pisa, foi um matemático italiano da Idade Média (1170-1240) que descobriu uma sequência numérica em que o número seguinte é sempre a soma dos dois anteriores, assim: 0, 1, 1, 2, 3, 5, 8… Na música, essa sequência está presente nos intervalos musicais, ou seja, na relação entre duas notas, formando as escalas que são a base para as melodias e para os acordes (harmonia). Esses intervalos procedem em graus a partir da primeira nota ou tônica. Por exemplo, a escala básica e simples é formada por intervalos de terça (3º grau), quinta (5º grau) e oitava (8º grau) a partir da tônica (1º grau), ou seja, a sequência Fibonacci: 3, 5, 8. Essa sequência na escala natural, de tonalidade dó maior (ou C, em notação cifrada), apresentará, então, as notas mi (3º grau), sol (5º grau) e dó (8º grau) a partir da tônica dó (1º grau) – em cifras, E, G e C, respectivamente.

Entretanto, há outros números na série Fibonacci, antes e depois dos números 3 e 8. O número zero obviamente “expressa” pausa (ou silêncio), usada na música; o número 1 é a tônica; o outro número 1 é o uníssono, quer dizer, dó e dó, de mesmo grau e altura (ou frequência). Os números depois de 8 apresentam outros intervalos com notas da escala natural (no caso de dó maior) que entram na formação de outros acordes dessa tonalidade, repetindo as notas em oitavas, infinitamente. Quando se tratar de outras tonalidades/escalas, os mesmos intervalos são transpostos para a tonalidade em questão, mantendo-se a série Fibonacci inalterada.

Mas as músicas compostas com a escala natural (dó maior) e suas transposições para outras tonalidades que sempre estarão nos intervalos correspondentes à série Fibonacci em geral são bastante consonantes, “agradáveis”, estáveis em sua vibração, como a grande parte das composições musicais fáceis de digerir pela maioria das pessoas. Músicas ou meros sons consonantes são literalmente harmônicos, segundo o conceito geral e senso comum predominante. Refletem a harmonia comum e “perfeição” do mundo como ele deveria se manifestar para a grande maioria dos seres humanos e segundo o que esses humanos pensam sobre o que é harmonia. Os sons consonantes expressam, de modo geral, a harmonia universal segundo os padrões rígidos de estética, beleza e, até mesmo, alguns tipos de religiosidade. As escalas e intervalos consonantes e a série Fibonacci seguem padrões tradicionais que refletem um mundo/universo organizado segundo regras relativamente restritas. Mas, certamente, existem muitas obras musicais relativamente consonantes excelentes e realmente inspiradas, em diversos gêneros, e que podem levar o ouvinte a um grau de êxtase.

Agora, o que o capeta tem a ver com tudo isso? Simples. Antigamente, quando a religião mandava no mundo ocidental, controlando até mesmo a produção cultural, certos tipos de combinações de notas musicais, ou intervalos, eram proibidos e categorizados como coisas do Diabo. O mais famoso desses intervalos era conhecido como diabolus in musica, que era um intervalo dissonante de quarta aumentada (4º grau mais meio tom, a partir da tônica dó, por exemplo, que resulta na combinação entre as notas dó e fá sustenido) ou de quinta diminuta, ou seja, dó e sol bemol, sendo o sol bemol igual ao fá sustenido. Esse intervalo também era chamado de trítono porque era feito de três tons inteiros. No nosso exemplo, contando-se do dó (C) e indo até o fá sustenido (F#), temos três intervalos inteiros: 1) dó ao ré; 2) ré ao mi; e 3) mi ao fá sustenido. Não seria trítono se a partir da nota dó o intervalo fosse apenas fá natural; do mi ao fá natural há meio tom e não um tom inteiro. Logo, o “maldito” intervalo diabolus in musica é dó com fá sustenido, podendo ainda ser combinado com outros intervalos que podem ou não estar na série Fibonacci. É claro que esse e outros intervalos dissonantes são bastante usados em diversos gêneros musicais, mas apreciado somente por uma minoria se comparada às grandes populações ao redor do globo. Está claro que os intervalos dissonantes “perturbam” a ordem das coisas, se o leitor já estiver entendendo…

Note que o “som do capeta”, o intervalo de quarta aumentada, não faz parte da série Fibonacci! Quando se quebra a consonância com a dissonância, abre-se um outro universo musical (e não somente musical), mais rico e multifacetado; quando essa sequência numérica sofre alteração, a harmonia estável das coisas é quebrada e a “rebelião” é instalada na ordem das coisas, advêm as transformações, as mudanças, o progresso, novas regras (ou ausências de regras), novas experiências, novas percepções, novos mundos… E esses mundos, na Filosofia Oculta, são aqueles que as pessoas comuns, das consonâncias demasiadamente açucaradas e das regras restritas, não se atrevem a explorar. As dissonâncias subvertem as tradições e as regras inúteis e restritivas e provocam a inquietação do espírito, geram inquietudes pelo crescimento, por descobertas, pela evolução psicomental e espiritual. A dissonância na música é equivalente ao surrealismo, nas artes plásticas; à poesia “maldita” e romântica e aos poemas sem métricas exatas, na literatura; aos sabores “estranhamente” condimentados, agridoces e apimentados, na gastronomia; etc.

Se um intervalo trítono subverte as escalas comuns de sete notas – correspondentes aos sete planetas “tradicionais” e às sete cores –, a dissonância, na Via Draco-Luciferiana, subverte os sistemas mágico-ocultistas tradicionais (e os sistemas sociorreligiosos dogmáticos), obviamente, propiciando ao magista experiências sinestésicas, psicomentais e espirituais incomuns e gratificantes. A música dissonante em contextos filosófico-ocultos pode trazer experiências muito além do que se vive cotidianamente. Som, cor e sabor se fundem numa única entidade que “encarna” a essência de determinada vibração, e comunicações podem ser feitas. O som funde-se ao indivíduo, e este pode literalmente sentir o sabor de uma combinação de notas, pode ver o som em cores correspondentes às notas em suas progressões dinâmicas dentro de uma escala. As notas se mostram como entidades vivas e inteligentes e como som musical sem palavras, mas que podem se tornar palavras inteligíveis. O diabolus in musica pode trazer à tona atavismos da subconsciência e resolver problemas psicológicos – ou piorá-los, dependendo da vontade, compreensão e discernimento de cada um –, pois cada tonalidade, cada modo de escala, cada tipo de ritmo e cada tipo e timbre de instrumento tem suas características psicomentais e espirituais.

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Como mencionado, as notas estão relacionadas aos planetas da tradição oculta e alquímica e às cores, como seguem:

 

  • Saturno/nota si/cor preta;
  • Júpiter/nota dó/cor azul;
  • Marte/nota ré/cor vermelha;
  • Sol/nota mi/cor amarela;
  • Vênus/nota fá/cor verde;
  • Mercúrio/nota sol/cor laranja;
  • Lua/nota lá/cor violeta.

Os antigos egípcios sabiam disso e faziam invocações musicais para convocar esses sete planetas (na Filosofia Oculta, o Sol e a Lua são considerados planetas). Assim, uma sinfonia cósmica consonante é a conjunção e o ritmo próprio desses planetas, formando harmonias que alguns consideravam celestes. Uma conjunção entre Júpiter e Vênus faz um intervalo musical entre dó e fá, por exemplo. Quando uma dissonância surge nessa harmonia cósmica plácida e estável (e estabilidade demais provoca monotonia e tédio), os planetas revelam seu lado oculto, sombrio, sinistro, impetuoso e impulsivo, porém necessário para as transformações do universo, assim como conhecer o subconsciente (considerado “demoníaco”) é essencial para o crescimento e evolução espiritual de alguém. A dissonância faz brilhar as cores das notas sobre o fundo negro das trevas, pois sem esse contraste não é possível “extrair” a luz e o conhecimento. Quando o diabolus in musica se manifesta na experiência do indivíduo, com a nota “intrusa” “quebrando” a sequência da escala convencional, a dissonância faz uma ruptura, um buraco negro na sequência Fibonacci, e as notas dó e fá sustenido (em nosso exemplo aqui) abrem um portal para o qual a consciência é “sugada”, entrando assim na dimensão aberta sinistra e rica de Júpiter, conhecida na Via Draconiana como a qlipha jupiteriana (“concha”). De um modo geral, se a combinação de notas for maior, a experiência e expansão da consciência também se ampliarão.

Todos os planetas do sistema setenário planetário da Filosofia Oculta têm seu lado escuro, mais oculto e secreto que pode ser acessado por meio de seus trítonos. A nota tônica de cada planeta com sua quarta aumentada gera o vórtice energético para o lado oculto, para o “lado negro da força” planetária, para a qlipha correspondente ao plano planetário da nota tônica; a quarta aumentada é que cria a fenda para o “Outro Lado” (Sitra Ahra). Além disso, o intervalo de quarta justa (4J), em cada tonalidade, vibra os quatro elementos (Ar, Fogo, Água e Terra) no planeta correspondente a determinada tônica. A quarta aumentada “demoníaca” (4+), portanto, vibra o Espírito oculto e sombrio sobre esses elementos, a Sombra (junguiana) inacessível e secreta do Logos individual.

Assim, temos os trítonos de cada planeta, de cada vibração espiritual e frequência consciencial:

 

Nota tônica (1º grau) Quarta aumentada (#4º ou 4+) Qlipha planetária
Si (B) Mi sustenido = fá (E#=F) Saturno
Dó (C) Fá sustenido (F#) Júpiter
Ré (D) Sol sustenido (G#) Marte
Mi (E) Lá sustenido (A#) Sol
Fá (F) Si (B) Vênus
Sol (G) Dó sustenido (C#) Mercúrio
Lá (A) Ré sustenido (D#) Lua

 

Em termos práticos, e num contexto apropriado e em conjunto com outras “ferramentas”, a vibração sustentada e não resolvida dos trítonos deve ser feita de maneira correta e de acordo com a natureza de cada planeta/plano de consciência, por meio de certos procedimentos, concentração e vontade. Esse som dissonante juntamente com o ritmo sincopado é o buraco negro do universo mágico, aberto na superfície da consciência comum. Basicamente, a síncope é um deslocamento do tempo normal, da nota do acento rítmico para a batida fraca, que pode se prolongar até a batida forte (acento rítmico), abrindo um buraco no andamento rítmico (como um deslocamento de ar, ou o deslocamento da mente para outro “mundo”). A síncope “quebra” o ritmo, causando a sensação de vazio e de queda, e de queda no vazio; nesse “vazio”, o diabo in musica vibra e um portal pode ser aberto para a consciência. Quando a síncope e o trítono são contextualmente aplicados numa prática meditativa ou ritualística (simples ou complexa), pode-se atingir certo grau de êxtase correspondente à vibração planetária em questão. Se o êxtase for demais, o indivíduo pode ele mesmo ter uma síncope, ou seja, “apagar” temporariamente, com a consciência “vazia”.

Pelo que precede, o “diabo intruso” é o guardião do portal para a senda da autoconsciência expandida. O intervalo de quarta aumentada e a síncope vão além do conceito “tradicional”, comum e corrente do que seja divino (o que é muito relativo no próprio nível da vida cotidiana). O trítono sincopado rompe a tal “harmonia divina” para ir mais além da ordem estabelecida e das muitas regras inúteis da existência, para mais além do cosmos como é manifestado, para o “Outro Lado” (Sitra Ahra), para o Universo B, além de nosso universo pretensiosamente conhecido.

Pois é, parece que Fibonacci e o Diabo viviam em desarmonia antigamente, em tempos terríveis de dominação dogmática quando a Inquisição via o mal em tudo e categorizava coisas, animais e pessoas como sendo obras do Diabo, segunda sua visão distorcida, tendenciosa e realmente perversa. Tendo a música autêntica e honesta sido inspirada pela musa ao longo da história, fica evidente sua relação com feminino e sua forte influência. A musa Euterpe era também considerada a doadora dos prazeres, dos deleites e da alegria. Daí o controle da produção musical (e de todos os prazeres do povo) pelas instituições sociorreligiosas repressoras e opressoras, já que a religião/estado também controlava, perseguia e eliminava o feminino por essas e outras infinitas e estupidamente absurdas razões…


Adriano
Camargo Monteiro
é escritor de Filosofia Oculta, Draconismo, Mão Esquerda e é estudioso de simbologia e mitologia comparadas. É membro de diversas Ordens e possui diversos livros publicados. Escreve também para a Revista Universo Maçônico, para o Jornal Madras, para o Projeto Morte Súbita, para o Zine Lucifer Luciferax e para blogs pertinentes.

Contatos:

http://adrianocamargomonteiro.blogspot.com

http://www.geocities.ws/imaginariusarte

Por Adriano C. Monteiro

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/musica-fibonacci-e-o-diabo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/musica-fibonacci-e-o-diabo/

A Cartografia da Consciência de Stanislav Grof

Stanislav Grof é um pesquisador da área da Psiquiatria que tem como objeto de estudo a consciência humana. Não é propriamente filósofo, pedagogo ou educador. Então por que fui buscá-lo? Porque de suas pesquisas empíricas com a consciência humana, inicialmente investigando o ácido lisérgico e depois criando a Respiração Holotrópica, emergiu uma interessante cartografia da consciência que sugere que a condição humana, o sujeito humano, tem muito mais aspectos a serem considerados em sua antropologia do que aquilo que vêm propondo as antropologias fundadas no paradigma newtoniano-cartesiano.

Grof, mediante a instalação de estados ampliados de consciência, registrou e gravou em fitas magnéticas os conteúdos elaborados pelos sujeitos de sua investigação. Coletou tais relatos, catalogou-os, organizou-os e ousou uma nova interpretação que vai além do inconsciente pessoal como proposto por Freud. Assim a cartografia que propõe não é oriunda de estudos teológicos, a partir da Revelação de livros sagrados, e nem de especulação filosófica e metafísica. É fruto de suas investigações com os estados ampliados de consciência e, portanto, tem uma base empírica.

Os detalhes da construção da cartografia sugerida por Grof encontram-se bem descritos em seus livros. Vou apresentar aqui uma breve síntese para que o leitor tenha, posteriormente, condições de compreender a concepção antropológica – concepção de ser humano – que dela emana. Tal cartografia distingue quatro níveis na consciência: a barreira sensorial, o nível biográfico- rememorativo, o nível perinatal e o nível transpessoal.

O primeiro nível, a barreira sensorial

, diz respeito a sensações físicas que sentimos quando entramos em processo de expansão da consciência e não tem muito significado na perspectiva do autoconhecimento. São sensações relativas à visão, à audição e ao olfato, por exemplo.

 

O segundo nível, o biográfico-rememorativo

, diz respeito às nossas memórias biográficas com nossos pais e pessoas próximas a nós; refere-se também à memória de acontecimentos que nos marcaram positiva ou negativamente. Aqui é possível ver toda a dinâmica psíquica como ensinada por Freud.

 

O terceiro nível, o perinatal,

diz respeito à memória e ao aprendizado experimentado por ocasião do processo de nascimento dos seres humanos no momento do parto, processo este que Grof chama de morte-renascimento, por toda dramaticidade e risco que traz. Sua cartografia sugere a existência, no nível perinatal, de quatro matrizes de aprendizado que se constituem neste momento e que, embora permaneçam inconscientes, atuam na vida pós- uterina, participando da definição de nossas características pessoais.

 

São as Matrizes Perinatais Básicas (MPB):

 

Matriz Perinatal Básica I (MPB I): também chamada por Grof de O Universo Amniótico. Esta matriz tem sua base biológica na unidade simbiótica entre o feto e o organismo materno no processo de gestação. A experiência do feto pode ser uma experiência de conforto, segurança, tranqüilidade e paz – o que o autor chama de “berço bom” – ou pode ser uma experiência de distúrbios, desconfortos e inseguranças, especialmente nos períodos finais da gestação, o “berço ruim”. Para Grof a qualidade da experiência na vida intra-uterina é um dos determinantes de comportamento futuro do sujeito humano, obviamente que em combinação com inúmeros outros fatores da vida pós-uterina. As figuras abaixo são pinturas, de autoria do próprio Stanislav Grof, que representam o que chamou de berço bom e berço ruim. Nos processos de respiração holotrópica, em estado ampliado de consciência, as experiências vivenciadas são, muitas vezes, marcadas por imagens deste tipo que Grof representou em suas pinturas. Posteriormente podem ser trabalhadas em processos psicoterápicos que guardam sensibilidade para com uma visão mais ampliada do ser humano.

 

 O Berço Bom

 

 O Berço Ruim

 

MPB II ou Devoração Cósmica Sem Saída:

ocorre no segundo momento biológico do parto e é uma situação de enorme tensão para o feto uma vez que se inicia o processo que prepara o nascimento. A sensação para o feto é tão crítica, principalmente se este experimentou o “berço bom”, que Grof denominou esta matriz de devoração cósmica. Na vida pós-uterina esta matriz associa-se a situações de estar sem saída e sem esperança pela dimensão de opressão. Permanecer preso a esta sensação pode facilitar o sujeito assumir o papel de vítima em sua vida cotidiana. A figura a seguir, também de autoria de Grof, representa a experiência dos primeiros sintomas do parto biológico e da influência da Matriz Perinatal Básica II.

 

Os primeiros momentos do parto biológico

MPB III ou A Luta Morte-Renascimento: esta matriz corresponde ao terceiro momento do parto, quando o feto começa a travessia pelo canal do nascimento. É um momento de luta e esperança. Luta porque a situação é ainda de muita opressão, mas, ao mesmo tempo, é de esperança porque é a possibilidade de fazer a travessia e superar as ameaças deste momento. A figura 7, quadro do pintor suíço Hansruedi Giger selecionada pelo próprio Grof em seu livro Além do Cérebro, sugere a experiência da MPB III ao combinar “a fragilidade anatômica dos fetos com uma maquinaria agressiva e faixas constritivas de aço à volta da cabeça, sugerindo o nascimento”.

 

 Representação da MPB III

MPB IV ou Experiência de Morte e Renascimento: é o ápice do processo de nascimento quando o feto, finalmente, completa a saída do útero materno e ganha o espaço exterior. Biologicamente tal processo apresenta os indícios ainda de luta, mas já dentro de um estágio mais evoluído e menos agressivo. Os episódios da vida pós-natal que se ligam a MPBIV são aqueles relacionados a vitórias, sucessos e triunfos sobre situações perigosas. A figura 8, de autoria de Grof, representa a Fênix que para o autor é um símbolo bastante apropriado de morte- renascimento “uma vez que envolve morte pelo fogo, nascimento de algo novo e movimento em direção da fonte de luz”.

 

A transição da MPB III para MPB IV: nascimento, luz, vitória

Grof sugere que experiências de muita dor e sofrimento numa dessas matrizes podem fazer com que a pessoa em questão guarde com esta matriz uma relação de Matriz Negativa, e afirma que “muitas observações sobre o indivíduo que está sob forte influência de matrizes perinatais negativas sugerem que ele encara a vida e seus problemas de um modo não somente vazio, mas com conseqüências destrutivas para si e para os outros, a longo prazo” (1987, p. 307-308). Entretanto, mostrou também que tais experiências podem ser acessadas e liberadas tornando a vida do sujeito mais adequada ao desenvolvimento pleno e para tanto, juntamente com sua esposa Christina Grof, criou um processo terapêutico conhecido como Respiração Holotrópica. O processo perinatal abre espaço para o quarto nível da consciência.

 

O quarto nível da consciência é o domínio transpessoal. De acordo com Grof as matrizes perinatais anteriormente apresentadas são uma ponte e fazem a comunicação entre a nossa psique individual e aquilo que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. De fato as experiências com as diferentes matrizes perinatais mostram, além das lembranças do parto biológico, seqüências que podem apresentar a história da humanidade, o envolvimento com reinos e seres mitológicos, a identificação com animais, etc… Todos estes elementos fazem parte do domínio transpessoal, que é um “lugar” descoberto pela moderna pesquisa da consciência e que está além dos campos biográfico e perinatal. É bem verdade que muitas culturas e tradições espirituais já conhecem tais domínios há muito tempo. A ciência moderna, porém, somente agora, com as últimas décadas de pesquisa da consciência, chegou a trabalhar com tal domínio que foge aos limites impostos pelo paradigma newtoniano- cartesiano. Este é o nível no qual, através da consciência ampliada, as barreiras de tempo e espaço, rigorosamente estudadas no paradigma newtoniano-cartesiano, desaparecem e dão lugar à percepção da unidade que perpassa o mundo humano, o mundo da natureza e a realidade cósmica. Aqui Grof identificou uma série de experiências, espirituais inclusive, que a humanidade há muito conhece, mas que permaneceram sufocadas, e às vezes consideradas como doentias, por uma concepção paradigmática redutiva e fragmentada. É a partir, sobretudo deste nível, que é possível considerar a espiritualidade do ser humano e também a sua dimensão ecológica, que o liga ao mundo da natureza.

 

Na tentativa de facilitar a compreensão da cartografia grofiana proponho o seguinte esquema didático apresentado na figura abaixo. Neste esquema o ponto central é o sujeito, o indivíduo humano. Tudo o que está dentro do grande “V”, que se abre sobre o sujeito, é a sua interioridade, aberta ao mundo holotrópico (do grego holos, totalidade; holotrópico é aquilo que se move em direção à totalidade). Tudo o que está fora do grande “V” é a sua exterioridade ou plano hilotrópico (do grego hylé, matéria; hilotrópico é tudo aquilo que se move em direção à matéria). Na exterioridade estão o Tempo-Espaço, a História, a(s) Cultura(s) e a(s) Sociedade(s). O mergulho (ou subida) em direção ao transpessoal, as realidades além do ego pessoal como o nome sugere, passam pela barreira sensorial, pelo campo biográfico-rememorativo e pelo campo perinatal com suas quatro matrizes básicas.

 

As pessoas podem viver seu cotidiano com atenção apenas ao mundo exterior e abrirem-se muito pouco às suas realidades internas. A vida, como é comumente vivida nas diretrizes do paradigma newtoniano-cartesiano, facilita que a pessoa chegue, no máximo, a trabalhar sistematicamente com materiais do campo biográfico-rememorativo, de modo especial dentro da dinâmica psíquica sugerida por Freud. Ao viverem assim ficam “desconectadas” de grandes energias psíquicas presentes nos campos perinatal e transpessoal. Eventos esporádicos, ocasionais ou provocados, podem, em certos momentos, “reconectá-las” com tais energias, mas uma vida que se pretenda irrigada pelas energias mais profundas da psique precisará manter esta conexão por um permanente e cuidadoso trabalho de autoconhecimento ou auto-exploração sugere Grof. A Respiração Holotrópica é uma dessas vias de autoconhecimento, mas não é a única. Muitos podem ser os caminhos utilizados para tal processo, do trabalho sistemático com os próprios sonhos às experiências artísticas diversas passando pelas diferentes técnicas de meditação. Conforme a figura 10 sugere, a pessoa que conseguiu um trabalho de auto-atenção permanente, de forma a reconectar seus níveis internos, é a pessoa re-ligada interagindo com o mundo das culturas e das sociedades com a inteireza de ser hilo-holotrópico que é.

 

 

A cartografia que apresentei sugere uma antropologia da inteireza, uma vez que Grof defende que o ser humano, para desenvolver-se plenamente, precisa re-ligar as dimensões internas de sua psique ao mesmo tempo em que necessita reconhecer suas vinculações com a realidade exterior a si mesmo, o mundo da cultura. Entende que o sujeito pode viver fragmentado: como afirmei anteriormente a cultura newtoniano-cartesiana tende a fixá-lo nos dois primeiros níveis da consciência da cartografia proposta. A conseqüência é uma vida angustiada e atormentada pela falta da energia que vem dos demais níveis da consciência e que podem ajudar a introduzir equilíbrio, ânimo, entusiasmo, capacidade de cuidado e sentido à vida. A pessoa quando desligada de suas energias vitais pode facilmente tornar-se o Zé Ninguém, sugerido por Reich.

 

O sujeito re-ligado pode, além de avançar positivamente em seu processo pessoal de individuação e realização, contribuir favoravelmente para a construção de uma cultura de paz e solidariedade. Grof chega mesmo a dizer que as situações de exploração, opressão, miséria, fome, guerras e enfermidades que nossa humanidade vive são sintomas de problemas “não apenas econômicos, políticos e tecnológicos. Eles são reflexos do estado emocional, moral e espiritual da humanidade contemporânea. (…) Esses elementos destruidores e autodestrutivos na atual condição humana são uma conseqüência direta da alienação da humanidade moderna tanto de si mesma como da vida e dos valores espirituais” (1992, p. 249-250).

 

A antropologia sugerida por Grof me faz entender o ser humano como um sujeito complexo e transpessoal, hilotrópico (=direcionado à materialidade) e holotrópico (=direcionado à totalidade), no qual estão presentes: a racionalidade, a corporeidade, a emocionalidade e a espiritualidade perpassadas por polaridades que nos fazem nos construir na história como homo sapiens-demens (Morin, 2000, p. 59-60), em meio ao conjunto dos outros seres humanos, na coletividade, o que exige uma atenção constante à complexidade sujeito individual-sujeito coletivo. Tal construção, sempre inacabada, e, portanto, sempre propiciadora de esperança (Freire, 2000, p. 114), se faz muitas vezes entre conflitos, contradições e sofrimentos, mas comporta também o desenvolvimento com amadurecimento, integração e solidariedade. Ao usar o termo transpessoal não se pretende negar o pessoal. O termo transpessoal expressa uma concepção mais ampliada de ser humano, isto é, ele não se reduz ao seu ego construído nas culturas e nas sociedades. É isto também, mas não só isto. Compreende que a construção do humano exige o pessoal e o transpessoal. Este transpessoal significa “sair de si”, de seu ego racional, e mover-se em direção aos níveis mais profundos de si mesmo; em direção aos outros seres humanos na vida interpessoal, social e cultural; em direção à natureza, aos demais viventes e ao próprio cosmo. No limite significa abrir-se, inclusive, à perspectiva do Mistério que envolve a origem e desenvolvimento da vida. Não se trata, portanto, de negar o pessoal, mas de estar aberto ao transpessoal e assim gerar uma maior capacidade de cuidado para com a vida. Esta maneira de compreender o ser humano exige de todos os humanos, e em especial do educador, um empenho de autoconhecimento, uma vez que é no trabalho consciente de religação de suas características advindas da realidade interior e da realidade exterior que se faz à consciência com a qual se apresenta à ação no mundo e ao trabalho educativo.

 

A partir desta antropologia é possível, pois, pensar uma outra educação. E é importante lembrar que educação, nesta maneira de pensar, não se confunde com ciência; e por mais que necessite desta é necessário que ela, a educação, esteja atenta aos diversos aspectos da condição humana e sua educabilidade. Assim é possível pensar uma educação na/para inteireza. Esta concepção de educação não advoga abandonar a luta política no contexto da história, mas, ao contrário, defende a participação política do educador por inteiro, re-ligado e, portanto, com energia suficiente para enfrentar obstáculos, construir sentido, favorecer a partilha, encarar os conflitos e ajudar a gerar uma cultura de paz.

 

Elydio dos Santos Neto

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-cartografia-da-consciencia-de-stanislav-grof/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-cartografia-da-consciencia-de-stanislav-grof/

[parte 1/7] Alquimia, Individuação e Ourobóros: Introdução

“Os Alquimistas estão chegando…”

– Jorge Ben

Introdução

O homem que volta ao mesmo rio, nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem. Esta suma de Heráclito define bem a constante transformação do indivíduo e denota como a transformação é um aspecto presente, tanto no homem quanto na natureza. As coisas fluem, mudam, se transformam e transmutam.

Assim é a consciência, um sistema em constante transformação, porém, com que finalidade?

A vida humana é calcada por ciclos. A primeira infância, segunda infância, puberdade, adolescência, juventude e vida madura são as etapas comumente conhecidas no desenvolvimento humano. Simbolicamente, cada ciclo pode ser interpretado como uma nova vida, e o fim dos ciclos como uma morte. A vida, morte e ressureição, são então, etapas arquetípicas do desenvolvimento psico-espiritual, no qual, para atingir um novo nível de consciência, é necessário realizar sacrifícios e abdicar dos antigos paradigmas da consciência, se integrar, mudar e melhorar.

Eram estes sacrifícios que permeavam a vida dos antigos (e dos contemporâneos) alquimistas, que buscavam, em seus laboratórios, a obtenção da pedra filosofal, do elixir da vida.

Ao longo de sua prática clínica, o psicólogo suíço Carl Gustav Jung percebeu uma correlação entre sonhos de seus pacientes com figuras alquímicas, e a partir daí, traçou diversos paralelos entre as metáforas alquímicas com o processo que denominou individuação (JUNG, 1999).

Foi averiguado os paralelos entre a opus alquímica e o processo de individuação, investigando o significado desta imagem rica em simbolismos do Ourobóros. Através do método de amplificação e de levantamentos bibliográficos, foram analisadas obras filosóficas e acadêmicas que explicitavam a simbologia desta imagem arquetípica, suas correspondências dentro da simbologia alquímica e as respectivas analogias com o processo de individuação descrito por C. G. Jung.

Para Chaise e Viana (2011), o método de amplificação foi introduzido em 1912 na psicologia por Carl Gustav Jung em seu livro Símbolos da Transformação (JUNG, 1986), denotando a ruptura entre Jung e a psicanálise, cujo objetivo era “libertar a psicologia médica do viés subjetivo e personalístico que caracterizava sua perspectiva (…) e tornar possível à compreensão do inconsciente como uma psique coletiva e objetiva” (CHAISE E VIANA apud JUNG, 2011).

Ressaltam ainda que a amplificação promove associações diretas da consciência frente a uma imagem, conteúdo ou símbolo explorado, cujo nome é circumbulação, ou seja, um movimento circular em torno de um ponto, o próprio método é o uma manifestação ourobórica. “A amplificação consiste simplesmente em estabelecer paralelos” (JUNG, 2008).

Estende-se ao ponto de considerar aspectos coletivos através de experiências individuais, recorrendo a fontes de cunho cultural, histórico, mitos e filosóficos, afim de “ampliar o conteúdo metafórico do simbolismo” (JUNG, 2008).

Os símbolos como manifestações individuais são retirados deste contexto através de imagens arquetípicas, conceito melhor elaborado nos posts seguintes, mas que se resumem como a manifestação do arquétipo na psique, não o representando completamente, mas sugerindo seu potencial.

Portanto, a amplificação é executada em três fases distintas: a primeira seria o contato com o símbolo e as observações experienciais do analisado; a segunda é a etapa de amplificação coletiva, onde se pega um símbolo específico e o associa com outras imagens arquetípicas, e por isso pode ser denominada de objetividade da imagem; a terceira e última é o retorno ao subjetivo com o auxilio das analogias universais, em outras palavras, o símbolo – primordialmente individual – manifestado, passa por uma variedade de possibilidades significativas através da associação com a coletividade, após essa etapa, ele necessita do indivíduo, que utiliza como parâmetro o reconhecimento afetivo dentro dos aspectos coletivos para dar sentido ao símbolo.

Entende-se que “qualquer estudo simbólico leva em conta duas vertentes, a individual e a coletiva” (JUNG, 1999).

Sendo a primeira carregada de impressões pessoais do indivíduo e a segunda o repertório de arquétipos da humanidade.

De acordo com Denise Ramos (1990), no passado, o método utilizado na interpretação dos processos e dinâmicas mente-corpo eram feitos de forma reducionista e causal, derivada de uma visão cartesiana e newtoniana, e que, com o passar do tempo, frente a fenômenos como a globalização, a inter-relação de fatores, surgiu a necessidade do desenvolvimento de uma visão holística e simbólica para compreender os fenômenos da saúde.

Neste sentido, a presente reflexão, fundamenta sua base metodológica como forma de ampliar a percepção dos pesquisadores e o estudo comparativo de sociedades e religiões para uma compreensão mais integral da saúde. É percebido que, a base do adoecimento, para inúmeras religiões, era a saída do indivíduo de seu eixo divino (a etimologia da palavra religião é religar, ou seja, estabelecer uma [re]conexão com o divino), e por isso, a enfermidade, nesse contexto religioso, é encarada como uma oportunidade de desfazer esta desarmonia interna.

A compreensão dos aspectos religiosos e simbólicos na psique se mostram, portanto, de grande importância, uma vez que possibilitam o melhor entendimento da subjetividade humana, permitindo, por exemplo, melhorias na saúde do indivíduos.

Denise Ramos (1990) nos introduz aos cientistas precursores do símbolo como um organizador e centralizador da psique: C. G. Jung e G. Groddeck, sendo este último o defensor da doença como um sinalizador da psique de que alguns aspectos internos precisam ser expressos, ou então, expressados de uma nova forma. É de interesse a percepção junguiana do processo, que percebe a doença como uma manifestação do processo de individuação.

A autora ainda define como um dos principais conceitos que orientam essa afirmação, a intermediação de um terceiro fator na relação psique-corpo: o símbolo.

O equilíbrio dos opostos seria uma finalidade natural da psique, e essa integração ocorre quando se percebe diferentes níveis de corpos, físico, onírico, sutil, e a manifestação dos arquétipos que ocorre através destes. Quanto maior a capacidade do ego em organizar tais estruturas, mais repertório este poderá desenvolver para enriquecer a troca com o self, e por conseguinte, a manifestação do corpo será mais harmoniosa e menos ‘doente’.

O símbolo estaria carregado com os significados arquetípicos de uma forma apresentável para o ego, e seria então o terceiro fator da relação psique-corpo, um intermediador que facilitaria o equilíbrio e manifestação da individualidade, possibilitando uma vida menos sintomática. Uma vez que a psique tem dificuldade de perceber e atuar com diferentes polaridades, a doença de manifesta como uma forma de chamar a atenção para a unilateralidade da psique, e convidá-la a integrar outros aspectos.

A apercepção do universo do simbolismo se torna uma das principais ferramentas da psique, e dos interessados em compreendê-la. As religiões, carregadas de informações simbólicas, ajudam o homem a se religar com sua própria natureza e com uma expressão sadia do Self, permitindo uma forma mais natural e fluída de expressão da personalidade. Toda manifestação de doenças exigiria, também, uma compreensão e investigação simbólica, que facilitaria a dissolução da mesma.

Em síntese, considera-se que o paradigma social de unilateralidade, manifestado entre outras esferas, na psique, produz adoecimentos nos indivíduos, em níveis mentais e físicos.

Através do método de amplificação, que consiste ressaltar as impressões individuais acerca de um símbolo, em seguida associá-lo com outras imagens arquetípicas e por fim resignificá-lo a partir dos vieses individuais e coletivos será analisado o símbolo arquetípico do Ourobóros e suas correlações com os processos alquímicos e a o conceito de individuação de Jung, permitindo uma maior compreensão do processo de individuação e a potencialidade da alquimia como forma de integrar a psique.

Referências Bibliográficas:

CHAISE E VIANA. Validação do Projeto: Mutus Liber. Disponível em: https://translatioanimae.wordpress.com/.14/05/2013

JUNG, Carl Gustav. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Obras Completas. Vol. IX/I. Petrópolis. Ed. Vozes. 2011.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Alquimia. Obras Completas. Vol. XII. Petrópolis. Ed. Vozes. 2009.

JUNG, Carl Gustav. Símbolos da Transformação. Obras Completas. Vol. V. Petrópolis. Ed. Vozes. 2008

RAMOS, Denise Gimenez. A Psique do Coração: Uma Leitura Analítica de seu Simbolismo. São Paulo. Cultrix. 1990.

Imagens:

“Heraclitus” de Johaness Moreelse (1630)

Ourobóros em antigo livro de Alquimia

“Melancolia I” obra de Albrecht Dürer (1514)

Ricardo Assarice é Psicólogo, Reikiano e Escritor. Para mais artigos, informações e eventos sobre psicologia e espiritualidade acesse www.antharez.com.br

#Alquimia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/parte-1-7-alquimia-individua%C3%A7%C3%A3o-e-ourob%C3%B3ros-introdu%C3%A7%C3%A3o

O Plano Astral

Por Adi

Eliphas Lévi descreve a Luz Astral como sendo um agente que é natural e divino, material e espiritual, um mediador plástico universal, um receptáculo comum das vibrações cinéticas e das imagens das formas, um fluído e uma força, que podem de certo modo ser chamados de Imaginação da natureza, e diz que essa força é o grande arcano da magia. Já a definição que muitos esoteristas dão ao Plano Astral, é que se trata de um estágio de substância plástica refinada, menos densa e grosseira que a matéria, de natureza magnética e elétrica, servindo como o fundamento real sobre o qual as formas e o acúmulo de átomos do universo físico se ordenam a si mesmos. É dito também que o Plano Astral é povoado por vários tipos de espíritos, desde os desencarnados, até por espíritos de luz, de anjos e demônios a elementais, que esse plano compreende desde as faixas mais densas vibratórias (infernais) até as mais elevadas e sutis, que há cidades como as daqui do plano material, e que é pra esse plano que os desencarnados vão depois da morte.

Nós já sabemos que a Cabala é um dos sistemas mais completos de estudo e prática de magia, e tenho que concordar, de fato a ÁRVORE DA VIDA é completa em suas correspondências. Pois bem, é a Árvore da Vida que vai esclarecer pra nós sobre o plano Astral.

Antes, vale lembrar que as Sephiroth não são lugares, mas estados de consciência. Resumidamente, na Árvore da Vida, verificamos que os planos de manifestação se dão da seguinte forma: Primeiro temos as três Sephiroth superiores, ou três princípios supremos, Kether, Chochmah e Binah, é o primeiro triângulo de energias que representam o Ser Puro, são os princípios fundamentais, são a base de nossa manifestação, e que estão além de nossa compreensão. Aqui está o macroposopos ou macrocosmo, o rosto maior.

Abaixo do triângulo Supremo, está o mundo formativo, o “plano astral” é compreendido pelas seis Sephiroth seguintes, ou seja duas tríades (triângulos) de energias, em cujo mundo tudo é preparado para a manifestação visível em Malkuth.

O segundo triângulo na Árvore, logo abaixo das Supremas, e que consiste em Chesed, Geburah e Tiphareth, são as potências ainda abstratas que dão “expressão” à manifestação. Podemos dizer que as três Supremas são latentes e que as três inferiores ou rosto Menor são potentes, por isso se diz que essas três inferiores são como o reflexo do grande rosto, é o filho, a alma em Tiphareth.

Já as Sephiroth abaixo de Tiphareth, a tríade que compreende Netzach, Hod e Yesod, representam a personalidade, a unidade de encarnação.

Um ponto importante que Regardie destaca, é que esses dois triângulos de forças abaixo das Supremas, compreendem o “plano Astral”, essa luz Astral contém o planejamento ou modelo do construtor, projetado em sentido descendente pela ideação ou imaginação do Ser Puro, e que a tríade formada por Chesed, Geburah e Tiphareth no meio ocultista representa o Astral Superior, é a mais pura expressão do céu ou do Devachan, por isso é chamado de Divino Astral e de Alma do Mundo, na terminologia de Jung corresponde à “Psiquê objetiva”. Netzach, Hod e Yesod compreendem a esfera da ilusão, de Maya, porque é a partir dessa tríade que as forças edificam a forma, e fazendo também uma analogia com a psicologia, corresponderia ao inconsciente pessoal.

Netzach representa os instintos e as emoções e Hod simboliza a mente concreta ou intelecto, elas simbolizam respectivamente os aspectos da força e da forma da consciência. Na esfera de Thiphareth as forças são percebidas intuitivamente, com percepções de símbolos altamente abstratos. Na esfera de Netzach, nossas percepções atuam diferente, a mente humana que formula imagens começa a operar sobre eles, moldando a luz astral em formas que os representarão à consciência. É muito importante compreendermos que essas Sephiroth inferiores do plano da ilusão são densamente povoadas pelas formas mentais ; que tudo o que a imaginação humana foi capaz de conceber, embora confusamente, tem uma forma revestida de substância astral, e que, quanto mais a imaginação humana idealizar essa forma, mais definida essa forma se tornará. Em Yesod, que é a esfera onde tanto Netzach como Hod se equilibram, e que por isso é concebida como o receptora dessas emanações, também é chamada como ” fundação ou fundamento”, é o depósito das imagens do inconsciente, mas não daquele inconsciente arquetípico e abstrato, e que é conhecido como Astral Divino, mas é o depósito de imagens velhas e esquecidas, reprimidas desde sempre. Yesod é a esfera da ilusão, as imagens astrais refletidas no espelho do inconsciente, são realidades, e não serão interpretadas em termos de um plano superior e sob o aspecto de seu significado ou representação. O indivíduo permanecerá na esfera da ilusão e será iludido pelos fantasmas de sua própria projeção inconsciente.

Cada pensamento que temos, grava uma impressão nessa substância plástica e impressionável do plano astral. Observamos então, que ao tratar do plano astral em suas esferas abaixo de Tiphareth, que é essencialmente o nível de função dos aspectos mais densos da mente humana, que as forças e fatores desse plano se apresentam à consciência como formas etéreas de um tipo distintamente humano; Sempre que o homem entra em contato com o astral, seja como um sensitivo ou um mago, ele cria as formas à sua semelhança, para representá-las como forças sutis, fluídicas, a assim entrar em contato com elas. Os seres dessas esferas não são inteligências propriamente ditas, mas encarnações de idéias. É aqui que a forma antropomórfica é conferida à inspiração espiritual que tanto desorienta os sensitivos.

Vemos, assim, que todo ser celeste ou não, concebido pela mente humana tem como base uma força natural, mas que sobre a base dessa força natural, se ergue uma imagem simbólica que lhe corresponde e que é animada e ativada pela força que representa.

A arte da magia consiste em se desvincular da parte ilusória que as criações mentais exerce sobre o indivíduo, e que esse percebesse as idéias arquetípicas subjacentes, das quais essas imagens mágicas são apenas as sombras e as representações simbólicas, e poderia se tornar então um mestre do tesouro das imagens em vez de ser alucinado por elas, permitindo ao transcendental expressar-se em termos de simbolismo, e que o simbolismo se expresse em termos de metafísica, unindo assim o psiquismo com o espiritual por meio do intelecto.

A imagem, portanto, é apenas um modo de representação adotado pelo espírito humano para a sua própria conveniência, mas a força que a imagem representa e que a anima é uma coisa muito real, e que, sob certas circunstâncias, pode ser extremamente poderosa.

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Fontes e ref.: “A Cabala Mística” – Dion Fortune; “A Árvore da Vida” – Israel Regardie.

#Kabbalah #PlanoAstral

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-plano-astral

Appetite For Destruction – Guns N’ Roses

Axl Rose e sua trupe lançaram este disco justamente em 87, no ápice de uma época em que os EUA viviam a grande histeria dos rituais de abuso, conhecida como o Pânico Satânico. Os filhos das trevas estavam por todos os lados e obviamente os pastores evangélicos reconheceram sabiamente no Guns N’ Roses a chama do Diabo. Na capa do disco está estampado o comportamento anticristão do grupo que promovia a tríade sexo, drogas e rock n’ roll, estes três famosos sacramentos de satanas.

Odes a heroína, a cocaína, as orgias e a tudo o que estivesse oculto ou proibido. Appetite for Destruction é considerado o disco mais perigoso produzido por sua geração. O disco têm em seu título e em cada uma de suas faixas seu verdadeiro propósito: destruir, destruir, destruir, destruir, destruir…  A iconoclastia de Guns N’ Roses é celebrada com Axl Rose usando uma camisa com a imagem de Jesus Cristo e a inscrição: “Mate seus Ídolos” GENIAL.

Welcome To The Jungle – Guns N’ Roses

 

 

Welcome to the jungle
We got fun ‘n’ games
We got everything you want
Honey we know the names
We are the people that can find
Whatever you may need
If you got no money honey
We got your disease

In the jungle
Welcome to the jungle
Watch it bring you to your sha na na na na… knees, knees
I wanna watch you bleed

Welcome to the jungle
We take it day by day
If you want it you’re gonna bleed
But it’s the price you pay
And you’re a very sexy girl
That’s very hard to please
You can taste the bright lights
But you won’t get them for free
In the jungle
Welcome to the jungle
Feel my, my, my, my serpentine
I, I wanna hear you scream
Welcome to the jungle
It gets worse here everyday
Ya learn to live like an animal
In the jungle where we play
If you got a hunger for what you see
You’ll take it eventually
You can have anything you want
But you better not take it from me

In the jungle
Welcome to the jungle
Watch it bring you to your sha na na na na… knees, knees
I wanna watch you bleed

And when you’re high you never
Ever want to come down,so down,so down,so down YEAH!
Down!

You know where you are?
You’re in the jungle baby
You’re gonna die
In the jungle
Welcome to the jungle
Watch it bring you to your sha na na na na… knees, kness
In the jungle
Welcome to the jungle
Feel my, my, my, my serpentine
In the jungle
Welcome to the jungle
Watch it bring you to your sha na na na na… knees, knees
In the jungle
Welcome to the jungle
Watch it bring you to your
It’s gonna bring you down
Huh!

Tradução de  Welcome To The Jungle
(Bem-vindo à selva)

Bem-vinda à selva
Nós temos diversões e jogos
Nós temos tudo o que você quiser
Querida, sabemos os nomes
Nós somos as pessoas que podem encontrar
Qualquer coisa que você precisar
Se você tiver o dinheiro, querida
Nós temos sua doença

Na selva
Bem-vinda à selva
Veja ela derrubar seus joelhos
Venha, eu quero ver você sangrar

Bem-vinda à selva
Nós a enfrentamos dia após dia
Se você quiser, você vai sangrar
Este é o preço que você pagará
E você é uma garota muito sexy
Muito difícil de satisfazer
Você pode provar as luzer brilhantes
Mas você não vai tê-las de graça

Na selva
Bem-vinda à selva
Sinta minha, minha, minha, minha serpentina…
Venha, eu quero ouvir você gritar

Bem-vinda à selva
Fica pior a cada dia
Você aprende a viver como um animal
Na selva em que jogamos
Se você tem fome pelo o que vê
Você vai tê-lo, finalmente
Você pode ter o que quiser
Mas é melhor não tirá-lo de mim

Na selva
Bem-vinda à selva
Veja ela derrubar seus joelhos
Venha, eu quero ver você sangrar

E quando você está no alto, você nunca
Nunca quer voltar pra baixo, pra baixo, pra baixo, SIM!

Você sabe onde você está?
Você está na selva, baby
Você vai morrer

Na selva
Bem-vinda à selva
Veja ela derrubar seus joelhos
Na selva
Bem-vinda à selva
Sinta minha, minha, minha, minha serpentina…
Eu quero ouvir você gritar
Na selva
Bem-vinda à selva
Veja ela derrubar seus joelhos
Na selva
Bem-vinda à selva
Veja ela derrubar seus
Ela vai te derrubar
HA!

 

Nº 64 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

[…] 64 – Appetite For Destruction – Guns N’ Roses […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/appetite-for-destruction-guns-n-roses/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/appetite-for-destruction-guns-n-roses/

A Dura Verdade sobre Projeção Astral

Eis algo que você não vai ler muito em livros de ocultismo: Projeção Astral não existe.

Não me entenda mal, eu mesmo já tive diversas experiências e sei como induzi-las. O que estou tentando dizer aqui é que ‘Projeção Astral’ é um péssimo nome usado para descrever o que realmente acontece. Este é um nome que não apenas não condiz com os fatos experimentados mas que confunde ainda mais os praticantes ao empurrar discretamente goela a baixo uma série de conceitos ultrapassados e até mesmo ingênuos.

Este nome propõe, como muitas escolas esotéricas ensinam, que o ser humano é composto de diferentes corpos, sendo que um deles é o chamado corpo astral. Até ai nenhuma crítica, cada um dá ao próprio rabo o apelido que mais gosta, além disso é uma forma didática de se ver o mundo – como quem separa o sistema circulatório do sistema nervoso em um livro de anatomia, mas sabe que não pode separá-los na anatomia propriamente dita. O ponto amargo é que é justamente isso que a Projeção Astral propõe: a suposição que o corpo astral se projeta para fora do corpo, permanecendo ligado a ele por um fio luminoso infinitamente elástico, que sinceramente nunca vi.

O problema central é tentar explicar uma experiência mental usando vocabulário corporal. Outro nome horrível é EFC (OBE), sigla para “Experiência Fora do Corpo”, pois igualmente sugere que um “espírito”, “fantasma” ou qualquer coisa etérea exista e que sob as condições certas deixe corpo e saia passeando por aí. Eis o velho perigo no ocultismo, aceitar o que é dito sem refletir, estudar e experimentar um determinado assunto por si mesmo. Não se trata apenas de levianidade, mas um tipo de estupidez pois quando o praticante passa pela experiência, e vê que é real, acaba acreditando que a teoria fajuta que veio com o pacote também é verdadeira. Felizmente para a mente sagaz uma gota de bom senso basta para purificar um mar de ilusões.

De fato, não podemos dizer que ‘nada acontece’. Sabemos por algumas pesquisas que durante as projeções algo de diferente se passa. O artigo de Andra M. Smith e Claude Messierwere publicado pela Frontiers of Human Neuroscience monitorou por exemplo, algumas “projeções” via ressonância magnética e pode comprovar uma “forte desativação do córtex visual” acompanhada de  intensa atividade “no lado esquerdo de diversas áreas associadas a imagens cinestésicas”. Em outra palavras é como se a visão fosse desligada e as pessoas se movimentassem dentro de sua prrópria cabeça. Para a pessoa a experiência em si é absolutamente real e ela pode inclusive sentir que esta fora do próprio corpo. Mas quem realmente está em atividade é seu cérebro.

Isso pode ser comprovado de modo simples. Você provavelmente conhece algumas pessoas e “mestres ocultos” que dizem conseguir projetar-se para fora do corpo. Proponha para elas um teste simples. Que feche os olhos e sorteie uma carta de baralho. Sem olhar para ela coloque-a sobre uma mesa em um um recinto próximo. Feche a porta e na próxima oportunidade simplesmente se projete e veja qual foi carta sorteada. Alternativamente tente descobrir a cor de um lápis de cor também sorteado cegamente, peça para verem a a cor e depois voltem para te contar. É importante que você também feche os olhos na hora do sorteio, mesmo se estiver testando outra pessoa. De todas as pessoas a quem propus o teste, posso dizer que nenhuma foi capaz de descobrir o que havia na sala ao lado.

Em minhas experiências nunca vi nada que me convencesse da existência de um corpo astral interagindo com o mundo físico. Em outras palavras, o corpo astral não está “flutuando”, ele não “sai do corpo”, não “enxerga” nem “escuta” as coisas por onde passa. Pense no seguinte: sabemos que quando vemos algo, estamos na verdade estamos experienciando impulsos elétricos enviados a nosso cérebro, causados pela luz que é interceptada por nossa retina; se não temos mais olhos, retina ou sistema nervoso, como nosso espírito astral consegue “enxergar” qualquer coisa? Também ouvimos coisas quando vibrações do ar estimulam nossos tímpanos; como nosso corpo “astral” é estimulado por tais ondas?

Assim defendo que tudo o que experimentamos no desdobramento é uma realidade mental e não corpórea. Não é um salto para fora mas um mergulho para dentro. Se o corpo astral existe, e não é este o ponto da discussão aqui, ele apenas percebe o que podemos chamar, com certa cautela, de “plano astral” da mesma forma que o corpo físico apenas percebe o mundo físico a nossa volta. Na verdade eu me arriscaria chamar este plano de “virtual”, mas sei que muitas pessoas iriam confundir isso com uma internet fantasma e tenho medo dos desdobramentos que isso pode causar, “meu Deus… o cordão de prata é então o fio do mouse astral? Onde ele é enfiado?”

Isso não quer dizer que esta experiência não seja realmente um fenômeno genuíno e não passe de imaginação. Isso seria um contra senso pois a imaginação é também ao seu modo um fenômeno genuíno. Por falta de um nome melhor e por razões que apontarei a seguir, prefiro o nome “Desdobramento da Consciência” ou simplesmente “Desdobramento” pois o eu posso dizer que realmente experimento nestas ocasiões é uma tomada de consciência mais profunda dentro de minha própria mente. Um desdobramento mal feito é algo muito semelhante a uma visualização e um desdobramento bem feito é idêntico a um sonho lúcido. De fato quem sonha está em contato com essa realidade seja consciente ou inconscientemente.

O termo desdobramento é usado por outras pessoas que ao contrário de mim, acreditam na exteriorização de algum tipo de corpo sutil. Mas uso esse termo por uma razão diferente. Eu poderia usar termos herméticos e dizer que “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo”, mas prefiro me arriscar a usar alguns termos cunhados pelo físico David Bohm, um dos pais da física quântica: “Em certo sentido, o homem é um microcosmo do universo, e portanto o ser humano é uma pista do que o universo é. Nós somos o desdobramento do universo.”

Para mim o Desdobramento da Consciência é a mudança de perspectiva entre a “ordem explicita”, com a qual estamos acostumados graças aos nossos sentidos e a “ordem implícita” que é a nossa natureza anterior. O próprio termo ordem implícita me parece um pouco traiçoeiro pois o que temos la é um caos, no sentido de potencialidades infinitas e não de mera bagunça, é óbvio. Nesse sentido me agrada bastante os termos universo causal e acausal usado na Tradição Septenária. Uma ordem limitada não é mais real do que um outra além da compreensão, assim como as imagens de um canal de TV não são mais reais do que as ondas eletromagnéticas de todos os canais juntos. Ambas simplesmente duas formas de encarar a realidade. Em última estância a realidade é experimentada por nós através de nossa mente, todo o universo onde habitamos não passa de um construto mental nosso. Um mesmo fenômeno pode ser visto e experienciado de formas diferentes ou pode ser caracterizado por diferentes princípios em diferentes contextos, como por exemplo, em diferentes escalas. Um exemplo seria o processo pelo qual um aparelho de rádio transforma ondas eletromagnéticas em ondas sonoras. Outra analogia possível é a de fazer um furo em um pedaço de papel dobrado várias vezes. ao desdobrá-lo a ordem explícita de vários buracos se revelará, embora implicitamente sejam o mesmo buraco. Este modelo de como a mente funciona é semelhante ao modelo proposto pelo neurocientísta Karl H. Pribram, que descreve o funcionamento do cérebro como uma espécie de projeção holográfica.

O mundo mental não pode ser tratado da mesma forma que o mundo físico. Seria como usar regras de macro-economia para explicar o comportamento dos ácaros ou micro-biologia para falar das estrelas. Dizer que o corpo astral fica preso no corpo físico por um cordão de prata infinitamente elástico sinceramente é algo que beira o ridículo. Quando você passa por um desdobramento, você muda de tabuleiro. As peças são outras e o jogo mudou. Na realidade mental, espaço e tempo não são fatores dominantes determinando a relação de dependência ou independência dos diferentes elementos. Em seu lugar um conjunto inteiramente diferente de conexões básicas dos elementos é possível, das quais nossas noções de causa e consequência, bem como de partículas existindo separadamente são abstraídas como formas derivadas de uma ordem mais profunda. Nesta condição não é preciso ‘ir’ para ‘chegar’ pois não há distâncias a serem percorridas. Tudo o que pode ser alcançado está presente em toda parte em um único instante.

O plano astral, se quiser continuar usando o termo, possui sua própria (des)ordem e sua própria (i)lógica. Esta (des)ordem não pode ser entendida apenas como meramente o arranjo regular de objetos (como uma fila) ou de eventos (como uma história), é um caos que só ganha forma com a tenção e assim dá origem a cada e toda região do espaço e tempo que você pode visitar. Veja um exemplo mais prático e didático disto, observe a imagem abaixo:

cone

 

Você pode perceber seu universo como um círculo, uma elípse, uma parábola ou uma hipérbole, dependendo apenas de como o observar, mesmo que ele seja “realmente” um cone. Acredite ou não fora de nossa mente, no mundo da astronomia e da física, a cada momento, cientistas percebem o universo “real” – vou chamá-lo de físico para não desgastar a palavra real- de maneiras diferentes. Antes algo infinito para todos os lados, então algo plano e circular, então algo em forma de pêra, então de sino… a cada vez as próprias leis da física mudavam, para corroborar essas novas visões, outras vezes novas descobertas matemáticas é que nos forçavam a mudar a nossa visão sobre o universo. O “universo astral” é apenas uma outra perspectiva.

Um ponto que quero destacar, que é imensamente importante, é que se você mergulhar profundamente em sua própria consciência verá que possui em sua cabeça muito mais informação do que imaginava. Qualquer  estudante de psicologia sabe hoje que a mente consciente é só a ponta do ice-berg de nossa Monte Everest mental. Isso fica evidente quando sonhamos, mas torna-se assustadoramente claro nos sonhos lúcidos e nos desdobramentos. Tudo o que você já viu, ouviu, tocou, cheirou, sentiu, pensou e provou está gravado. A mente como um todo é incapaz de esquecer. Por si só, isso já faria do desdobramento uma ferramenta interessantíssima de se trabalhar. Embora você não possa virar o gasparzinho para espiar a vizinha tomando banho, certamente sua mente possui coisas muito mais interessantes de se ver. Entretanto, existe ainda mais a ser explorado.

Se você mergulhar ainda mais profundamente poderá experimentar o que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. O conteúdo atávico de onde nasceram todos os grandes épicos. A matéria prima da qual foram feitos todos os mitos e todas as religiões. Todos as deusas e todas as feras são acessíveis de forma assustadoramente interativa para quem se dedicar à prática do desdobramento. Descrevi uma forma pela qual você pode chegar a este estado no capítulo “Mergulhando no Abismo” do Lex Satanicus.

Quanto mais fundo você desce na própria mente, mais próximo fica da mente de todos os demais – para que perder tempo vendo sua vizinha pelada, quando pode literalmente transar com qualquer estrela de cinema ou modelo de revista erótica? O fato é que se fizer o teste das cartas com pessoas o suficiente verá que, algumas delas, embora não possam ver de fato a carta podem de alguma forma, que sinceramente desconheço, ver por meio da sua mente aquilo que os seus olhos viram antes. Em algum lugar abaixo do inconsciente coletivo, ou quem sabe através dele, as mentes podem se tocar.

Para uma experiência prática a este respeito existem várias técnicas as quais você pode recorrer.  Agende um dia que possa fazer isso e acorde no mesmo horário que costuma acordar. Se arrume, tome um café rápido troque de roupa como se estivesse se preparando para sair e então… volte para cama e tente dormir novamente. Percebi que, ao menos comigo, isso engana o cérebro que entende que deveria estar acordado e assim realmente torna-se mais fácil acordar dentro do sono. Outra prática benéfica é criar um diário onde todos os dias ao acordar você anote o máximo possível de seus sonhos. Em um primeiro momento tal tarefa será ardua e pouco produtiva mas com constância em breve estará escrevendo páginas e mais páginas e assim tornando-se cada vez mais consciente do universo acausal. Existem muitas outras técnicas que você pode tentar, é tudo uma questão de descobrir qual a mais adequada para você.

A respiração holotrópica, técnica desenvolvida por Stanislav Grof é outra forma de atingir resultados semelhantes e as vezes ainda mais intensos. Em tempo as pesquisas de Grof, assim como Os Campos Morfogenéticos de Rupert Sheldrake não deixam dúvidas quanto a existência de um nível mais essencial de comunicação entre as mentes de todos os seres vivos. Se você realmente se dedicar poderá levar este nível ao seu extremo e cruzar a fronteira da pessoalidade. Esta é a razão para eu ter pedido para você fechar os olhos na hora de tirar uma carta no teste acima. Como as pesquisas de Joseph Banks Rhine demonstraram, sob certas condições a mente humana tem acesso a conhecimentos que não passaram pelos seus sentidos. É razoável supor que tenham vindo de algum outro lugar. O experimento de Jacobo Grinberg-Zylberbaum mostrou que pode sim existir alguma espécie de ligação não-local entre duas mentes, embora isso passe desapercebido no nível consciente.

Podemos dizer que em um nível superficial o chamado plano astral reflete nossa própria realidade mental e em um nível mais profundo, a realidade mental da coletividade. Durante o desdobramento absolutamente tudo é simbólico. O símbolo e o simbolizado são uma coisa só. Uma casa que você visita não é exatamente uma casa de concreto armado, mas antes disso um lar, um constructo com todas as impressões simbólica e emocionais tanto de seus habitantes quando de si mesmo. Muito mais do que no chamado mundo físico, nesta outra realidade o observador e o observado influenciam e modificam um ao outro o tempo todo.

O Desdobramento deve ser a fronteira final a ser cruzada por todo psiconauta corajoso. É um mergulho dentro de si mesmo com destino ao universo. Essa é a razão porque muitas pessoas tem dificuldades com desdobramentos. Não é um problema de escolher esta ou aquela técnica, mas de se estar pronto para o que vai encarar. Quase sempre esta experiência deve ser precedida de um processo de auto-conhecimento e auto-aceitação, quando não de psicoterapia. Antes de mergulhar de cabeça, certifique-se de que a piscina está cheia. A dificuldade em conseguir experiências eficazes quase nunca é por causa do método ou receita usada, mas sim por conta das próprias travas internas de cada um. O famoso guardião do umbral possui uma face assustadoramente familiar; a sua. A dura verdade é que as pessoas têm medo de olhar para si mesmas.

Morbitvs Vividvs é autor de Lex Satanicus: O Manual do Satanista e outros livros sobre satanismo.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-dura-verdade-sobre-projecao-astral/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-dura-verdade-sobre-projecao-astral/

A Espada de Dâmocles dentro das Calças

Curitiba, 26 de Dezembro de 2017

dies Martis, Sol 4º in ♑ Luna 6º in ♈ Lua Crescente

 

Faz o que tu queres há de ser o todo da Lei!

 

“Deu B.O., a casa caiu, a polícia tá chegando
A mulher tá me ligando
Se esconder ela não acha
Fujo do flagrante, mando o check-in lá de casa”

Wesley Safadão, 2017

“Sentir que por detrás de toda e qualquer coisa que possa ser experienciada há algo além, que nossas mentes não conseguem compreender e cuja beleza sublime nos chega somente indiretamente e como uma pálida reflexão.”

Einstein apud Dawkins, God, a Delusion, página 5.

ajustamentoNeste último dia 24, véspera de Natal, após um longo período de trabalho bastante desgastante de quase um mês sem descanso de verdade, estávamos minha namorada e eu vendo Netflix e bebendo um carmenére reserva bem gostosinho. Lá pelas tantas, naquela pausa estratégica para fazer um xixizinho, já meio alegrão com o vinho, recebo uma daquelas perguntas que vêm da curiosidade espiritual legítima, mas que têm tudo para fazer deste Natal o último em que terei minhas bolas, caso responda de maneira menos que ideal. Decifra-me ou te DR, diz a minha esfinge exuberante, deitada em nossa cama.

Antes de desvelar a pergunta, aos prolegômenos dessa sinuca.

O filme que estávamos assistindo – muito bom, aliás! – era ‘Um Método Perigoso’, de David Cronenberg (2011). Nele temos o Lennon e o McCartney do Inconsciente, também conhecidos como Freud e Jung. Embora a visão Junguiana tenha se modificado posteriormente e evoluído para a Psicologia Analítica, naquele ponto da história os dois estão muito BFF e trabalhando juntos no desenvolvimento das idéias que comporão suas teorias posteriormente.

A trama da história concerne o relacionamento extraconjugal que o Jung safadão tem com a sua paciente Sabina Spielrein.

Após esse prólogo, vamos ao cerne do vuco-vuco.

A questão da minha parceira de vida dizia respeito à postura do tralha do Jung sob o ponto de vista de Thelema. Tendo estado ao meu lado tempo suficiente para entender que a visão Thelemita tende a esculhambar o rolê – e exemplos abundam para demonstrar como a Lei da Liberdade pode ser (mal)usada para justificar condutas babacas por aí, sua pergunta tinha um tanto de curiosidade intelectual sobre minhas baboseiras esquisotéricas e um tanto de cagaço quanto à perspectiva futura da manutenção do estado monogâmico de nosso relacionamento. Calma aí, vida… para quê essa pergunta essazora…

Sobrevivi ao polígrafo, com testículos e relacionamento incólumes, e voltei desse encontro com o ceifador para contar minha epifania.

Vi uma frase – em um grupo de Facebook chamado Memes Pagãos – que é engraçada porque é verdade na maior parte dos casos…

“Um adepto do xamanismo fumando maconha e um thelemita dando a bunda viajam em direções opostas a 80 km/h. Qual deles usa mais pretexto?”

A maior parte, não só de nós thelemitas, mas dos ocultistas em geral, não se preocupa com os aspectos cotidianos da sua prática mágicka – yama e niyama, para os patanjalétes de plantão; os caras usam thelema como desculpa para fazerem o que dá na telha e saírem esfregando o pinto em qualquer coisa que não consiga correr para longe rápido o suficiente.

Se o leitor tiver qualquer familiaridade com a visão thelêmica, poderá facilmente lembrar de exemplos do nosso querido Livro da Lei que parecem endossar essa visão libertina do conceito de thelemita.

I.22 “Nada ateis! Que não se faça diferença entre vós e uma coisa e qualquer outra coisa; pois disto resulta dor.”

I.41 “A palavra de Pecado é Restrição. Ó homem! Não recuseis tua esposa, se ela o quiser! Ó amante, se quereis, ide embora! Não há vínculo que possa unir o dividido senão o amor: tudo o mais é uma maldição. Maldito! Maldito seja pelos aeons! Inferno!”

I. 61” Vós devereis reunir bens e fartura de mulheres e especiarias;”

Além desses trechos, a própria biografia dos thelemitas mais conhecidos é notória por apresentar um balaio de putarias e os barracos oriundos delas, ao ponto de Thelema ser quase sinônimo de dedo no cu e gritaria.

Não obstante, preciso vestir agora meu balandrau de apologista da Lei da Liberdade, e gritar que essa não é a casa da mãe Joana, seus viado!

“1. O Homem tem o direito de viver pela sua própria lei;
de viver da maneira como quiser viver;
de trabalhar como quiser;
de brincar como quiser;
de morrer quando e como quiser.”

Liber OZ

A idéia de ‘faze o que tu queres’, imprescindível para o entendimento de Thelema, pretende que a vida seja bem vivida, e que possamos aproveitar do prazer da relação sexual (e todos os outros) sem culpas ou amarras, desde que isto não seja um empecilho para a consecução de nossa verdadeira vontade.

I.12. “Avançai, ó crianças, sob as estrelas, e tomai a vossa plenitude de amor.”

Neste sentido, a Lei de Thelema é a precursora do conceito de Hedonismo Responsável, presente na visão da Igreja de Satã, fundada por Anton La Vey em 1966 nos EUA.

Assim, a Lei de Thelema admite a possibilidade de relações sexuais como, com quem e quantos se quiser, sejam uma, duas, três ou cinquenta pessoas, e não propõe que isso seja necessariamente um impedimento para o desenvolvimento espiritual – desde que todos os envolvidos estejam de comum acordo e aceitem sua responsabilidade pelo ato.

Já nos diz o Liber OZ:

4. O Homem tem direito de amar como quiser;
“tomai vossa fartura e vontade de amor como quiserdes, quando, onde e com quem quiserdes” AL I 51

Até aí, todo mundo que sabe alguma coisa de Thelema meio que já entendeu, e parece que eu estou pregando para convertidos, reiterando a chancela à prática do oba-oba. Só que não.

Este é o momento que separa os meninos dos homens (para a tristeza dos padres católicos…), meus amigos, e que faz um thelemita guardar o pau dentro da cueca: assim como existe, no Liber Al, uma exortação à prática da liberdade e da plena realização da individualidade, existe também outra questão tão importante quanto – e quem sabe seja a mesma questão, inclusive.

II. 27 “Há grande perigo em mim; pois quem não compreende estas runas cometerá um grande erro. Ele cairá dentro da cova chamada Porque, e lá ele perecerá com os cães da Razão.”

Thelema é o entendimento de que a liberdade de ser você mesmo é um chamado a buscar ser somente a sua essência mais verdadeira e nada que não esteja ligado com sua Verdadeira Vontade. Aliás, o termo Ipsissimus, que é o grau mais alto em algumas ordens iniciáticas, é o superlativo latino do pronome demonstrativo ipse, e significa ‘próprio ou mesmo’. Dessa maneira, ipsissimus (enquanto definição semântica, e não necessariamente relacionada à uma ordem iniciática específica) significa tornar-se tão ‘você mesmo’ quanto é possível, e esta deveria ser a ambição de qualquer Thelemita.

II. 57 “Aquele que é correto permanecerá correto; aquele que é sujo permanecerá sujo.”

I. 52 “Se isto não estiver correto; se vós confundires as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma; ou dizendo, Elas são muitas; se o ritual não for sempre para mim: então esperai pelos terríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit!”

A maturidade da aplicação da Lei da Liberdade não é alcançada fazendo o que você quer fazer, pulando de capricho em capricho, de prazer em prazer. A maturidade do entendimento da Lei da Liberdade está em você tomar todas as diferentes partes de você e submetê-las a uma única vontade.

I.29 “Pois Eu estou dividida pela causa do amor, pela chance de união.”

Da mesma forma que em uma orquestra – em que todos os instrumentos tocam em harmonia e uníssono sob a batuta do maestro, assim também temos esta lição sintetizada sob os signos do arcano VII do Tarot de Thoth, a Carruagem, em que somente mediante o domínio das diferentes bestas-esfinges poderá o condutor da carruagem levar o veículo para a direção desejada. Antes disto, todas as bestas estão soltas e exercendo suas próprias tendências e inclinações, cada uma puxando para um lado diferente.

II. 49 “Eu sou único e conquistador.”

I.42 “Que aquele estado de multiplicidade, seja confinado e repugnado. Assim com todos vós; tu não tens direito a não ser fazer a tua vontade.”

Talvez esta questão pareça um tanto desconectada do questionamento da minha namorada, mas é agora que todas as coisas se juntam para uma apoteose orgástica. Espia só!

Como Thelemita, não pode existir postura contra ou à favor de monogamia, poliamor ou suruba à priori. São todas expressões válidas de individualidade.

Contudo, responder algo dessa natureza não teria livrado meu couro da inquisição, não é mesmo? Então o que fez a diferença aos 48 do segundo tempo e me garantiu ver o sol por mais um dia?

O que eu disse para minha namorada – e que realmente é o meu entendimento da visão thelêmica aplicada à questão dos relacionamentos sexuais e de qualquer outra natureza – é que eu não vejo o comportamento de Jung no filme como desejável pelo fato de ele agir com duas posturas completamente antagônicas por temer a consequência de seus atos.

Para os que não viram o filme e não conhecem a história do Dr. Jung, o que se passa é que ele tem um caso com sua paciente, mas diante de sua esposa assume falsamente o papel de marido de moral ilibada. Curiosamente, um dos conceitos Jungianos é a noção de Persona, que vem da palavra latina usada para as máscaras de teatro. Obviamente a conceituação dentro da teoria Jungiana de personalidade é completamente distinta da aproximação que eu realizei, mas é curioso observar como o Dr. Jung acaba por vestir uma máscara nesse exemplo.

Note que o uso de máscaras sociais implica uma incapacidade de manifestação de uma coerência de comportamento, o que é algo muitíssimo comum (e até necessário para a nossa sobrevivência social), mas que deve ser gradualmente abandonada pelo adepto, para que paulatinamente possa executar a grande obra, a construção do templo e a confecção da pedra filosofal, que são alegorias para a construção dessa versão coesa de si mesmo, tão si-mesmo quanto possível: Ipsissimus.

Está escrito em Mateus 5,37: ‘Seja, porém, o teu sim, sim! E o teu não, não! O que passar disso vem do Maligno.’ Longe de mim fazer o pastor, mas essa frase é muito foda e completamente alinhada com a perspectiva thelêmica.

Ainda sobre essa questão de unidade, um dos rituais básicos mais utilizados por praticantes de magia cerimonial é o Ritual Menor do Hexagrama, e lá utiliza-se uma palavra por repetidas vezes. ARARITA. Talvez até saibamos o que as letras representam ipsis verbis, mas a apreensão real do sentido a ser utilizado é algo muito mais sutil, que escapa à maioria dos praticantes.

“Todos em Dois. Dois em Um. Um em Nada.

Assim não são nem Quatro, nem Todos, nem Dois, nem Um e nem Nada.

Gloria ao Pai, à Mãe, ao Filho, à Filha, ao Espírito Santo Externo e ao Espírito Santo Interno

como era, é e há de ser pelos Séculos dos Séculos, Seis em Um pelo Nome Sétuplo,

ARARITA” – Liber XXXVI – Ritual da Safira Estrela

Daí nêgo faz o ritual todo dia (ou deveria) e não pára para considerar o que está fazendo e dizendo. ARARITA é um notaricon (uma sigla) que nos fala sobre a unidade do Todo; só que ao invés de buscar a união do microcosmo com o macrocosmo, o praticante deveria primeiramente buscar uma união consigo mesmo dentro dessa unidade coerente e alinhada com a sua Vontade, e colocar suas esfinges-bestas sob o domínio de sua Vontade, para que a porcaria da carruagem possa ir para algum lado, percebe?

III. 4” Escolhei vós uma ilha!”

III. 5 “Fortificai-a!”

III. 6“Adubai-a ao redor com engenharia de guerra!”

O que ocorre na maioria das vezes é uma cisão entre o sujeito quando está entre seus pares no templo e a sua versão profana, que trabalha e vai no shopping. O praticante de magia cerimonial acaba utilizando seu motto mágicko como um alter ego, no sentido literal do latim, que significa ‘outro eu’, sendo quase uma esquizofrenia esotérica.

O motto mágicko não pode ser usado como uma máscara, uma persona, um alter ego, para que se esconda e se separe o trabalho interno (templo) e o trabalho externo (mundo do cotidiano).

A razão de se utilizar o motto mágicko é justamente o contrário disso. O motto representa uma morte do eu anterior à iniciação, para que essa nova existência seja completamente vivida sob a intenção do motto, que é, portanto, não uma capa que oculta, mas um estandarte a ser alardeado em cada ato, pois, como diz o careca no primeiro teorema de Magick in Theory and Practise, ‘Todo ato intencional é um Ato Mágicko.’

III. 37 “Unidade revelada ao máximo!
Eu adoro o poder do Teu alento,
Deus supremo e terrível,
Que fizestes os deuses e a morte
Estremecerem perante a Ti:–
Eu, Eu te adoro!”

Para que haja a consecução da Grande Obra, a união do microcosmo com o macrocosmo, do 5 com o 6, é necessário o trabalho árduo de depuração do indesejável e junção e transmutação do que permanece. Solve et Coagula. Apenas quando houver esta coesão, ou, nas palavras do Silvio Santos do ocultismo, Samael Aun Weor, ‘um centro de gravidade interna permanente, é que o buscador pode começar a ponderar sobre o trabalho de integração com o macrocosmo.

“11. Também eu fundi unidas a Estrela Flamejante

e a Estrela de Seis Pontas na forja de minha alma, e vede!

Uma Nova Estrela 418 que se coloca acima de todas as demais.”

Liber Ararita, p. 2

“36. Muitos apareceram, sendo sábios. Eles disseram: “Buscai a Imagem resplandecente no lugar sempre dourado e uni-vos a Ela”.
37. Muitos apareceram, sendo tolos. Eles disseram: “Descei ao esplêndido mundo da escuridão, e desposai a Criatura Cega do Lodo”.
38. Eu, que estou além da Sabedoria e da Tolice, ergo-me e vos digo: Realizai ambos os casamentos! Uni-vos com ambos!
39. Cuidado, cuidado, digo Eu, para que vós não cortejeis uma e percais a outra!
40. Meus adeptos mantêm-se erguidos; suas cabeças acima dos céus, seus pés abaixo dos infernos.” – Liber Tzaddi

Amor é a Lei, Amor sob Vontade.

Frater Melquisedeque

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Crowley, Aleister. Liber OZ

______. Liber CCXX Al vel Legis

______.Liber XXXVI Safira Estrela

______.Liber DCCCLXVIII Viarum Viae

______.Liber O vel Manus et Sagittae

______. Liber DCCCXXXI Liber Yod

______. Liber DLXX vel Ararita

Dawking, Richard. God, a Delusion

Weor, Samael Aun – Psicologia Revolucionária

Bíblia Católica Online

Frater Melquisedeque

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-espada-de-damocles-dentro-das-calcas/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-espada-de-damocles-dentro-das-calcas/

A Diversidade da Experiência Alquímica

Thiago Tamosauskas

Três anos depois que escrever o Principia Alchimica me considero hoje uma pessoa muito diferente. Embora isso implique na necessidade de reescrever e melhorar algumas partes do livro em edições futuras, essa transformação por si só indica que o método descrito no livro em sua essência funciona; transformação é o resultado esperado do processo.

Uma das principais diferenças que observo é que na busca por clareza, naquele primeiro momento  me esforçarei para encontrar definições bastante objetivas sobre o que a alquimia realmente ensina. Isso foi ótimo, mas teve um custo e tem um risco. O custo foi ter acreditado ao menos temporariamente ter encontrado uma definição única e definitiva da Grande Obra, o risco foi não enxergar que justamente por ser tão antiga e tão geograficamente espalhada não existe apenas uma abordagem correta do que a alquimia deva ser.

As diferentes definições desta arte já foram abordadas em outro artigo e essa percepção foi fruto de um esforço gradual para que minhas definições não me fizessem apontar as respostas de outras pessoas  com a superioridade. De fato, foi por ouvir outras pessoas, algumas muito mais experientes do que eu que entendi  que próprias experiências, justamente por serem particulares nunca poderão descrever toda realidade.

Alquimia, método ou metodologia?

Essa ideia de diversidade dentro da alquimia ganhou corpo com o tempo, mas foi preciso um empurrãozinho de uma amiga para que essa chave virasse de uma vez. Quando Priscila Praude gentilmente aceitou escrever o prefácio do Psicotropicon, meu próximo livro, ela fez um questionamento sobre a minha definição de alquimia tal como apresentada no Principia Alchimica, ou seja,  “Uma metodologia empírica para a expansão intencional da consciência”. Seu questionamento foi se aquilo que foi apresentado no livro era realmente uma metodologia ou se na verdade não era um método. Confesso que eu não soube o que responder na hora. Mas, geralmente esse silêncio e falta de pressa em dar uma resposta é o que me leva as melhores conclusões.

Para ficar claro, um Método é um roteiro, um processo, para se atingir um determinado fim. Uma Metodologia, por sua vez, o estudo dos métodos para aperfeiçoá-los e encontrar assim os melhores processos para uma determinada área de aplicação. Então, de fato o que eu apresentei na primeira edição do livro foi um método, mas meu objetivo maior sempre foi que ao conhecê-lo cada alquimista pudesse não apenas experimentá-lo mas criticá-lo, adequá-lo à sua própria realidade e então aperfeiçoá-lo à sua maneira.

Dai a importância da palavra “empírica” na definição do livro, pois esse aperfeiçoamento só pode ser feito com base nas práticas, experiências e observações de cada um. Guardada às devidas diferenças, apresentei no Principia Alchimica um bom livro de receitas para quem – mesmo sem experiência na cozinha – quisesse se aventurar e experimentar alguma coisa. Isso com certeza ficará mais claro nas segunda edição da obra. Meu objetivo é que ao final da leitura o alquimista possa não apenas executar estas receitas, mas como um verdadeiro chef seja também capaz de criar seus próprios pratos.

Os Tipos de Alquimia

A alquimia tem documentalmente dois milênios de história é possui raízes ainda mais antigas. De Maria, a judia, a Timothy Leary, essa história foi escrita em todos os continentes, por pessoas de todas as raças, gêneros e origens e é mais antiga que qualquer império, dinastia e que a maioria das religiões.

Para demonstrar o tamanho desta diversidade farei a seguir um resumo das principais abordagens e tradições alquímicas que de uma forma ou de outra nos influenciam hoje em dia. Começarei pela Alquimia Espiritual, pois acredito que nela encontramos a unidade de todas às demais.

Alquimia Espiritual: A Alquimia Espiritual já foi chamada de Iluminação, Santificação, Apotheosis, Deificação e mais recentemente Individuação e Expansão da Consciência

Se magia é “a ciência e a arte de causar mudanças em conformidade com a Vontade.” então a Alquimia Espiritual pode ser entendida como uma forma de magia pois é ela é a mudança de si mesmo conforme a Vontade.

Essa mudança não é arbitrária, mas busca desenvolver a melhor possível de si mesmo.

Esse trabalho não é fácil e não pode ser resolvido pela mera leitura de um livro que massageia seu ego. Se fosse algo simples de se fazer muitos dos problemas atuais da humanidade não existiriam. 

Ainda que a compreensão do que é seja mais perfeito mude com o tempo, a busca pelo aperfeiçoamento é uma constante.

A Alquimia Espiritual é assim a pedra de toque de todas às outras formas de alquimia que veremos, uma vez que é o objetivo por trás de todas elas. 

Alquimia Mineral:

As próximas três formas de alquimia que veremos são instrumentais, ou seja, elas servem à meta de aperfeiçoamento que as justifica e as motiva.

A Alquimia Mineral por exemplo é o trabalho com elementos inorgânicos como metais, sais, minerais bem como suas assinaturas astrológicas para auxiliar a evolução pessoal.

É dividida em Via Úmida, que trata os sólidos por meio de ácidos e solventes e Via Seca que trabalha com transformações promovidas em fornos e altas temperaturas.

A Alquimia Mineral pode envolver a manipulação e consumo de elementos pesados e tóxicos como chumbo e mercúrio, por essa razão Rubellus Petrinus, alquimista português dizia que suas tinturas só deveriam ser ministradas em dose homeopática, sob a orientação de um médico da especialidade.

A verdade é que desde a ascensão da Espagiria por Paracelso a Alquimia Mineral tem perdido espaço mas ainda hoje é possível encontrar praticantes dentro de guildas como a FAR+C , a Gallaecia Arcana Philosophorum e mesmo instruções abertas nos materiais que Jean Dubuis escreveu para a já extinta Les Philosophes de la Nature.

Alquimia Vegetal: Também chamada Espagiria é provavelmente a alquimia instrumental mais comum e imediatamente reconhecida com seus destiladores, fornos e barris de fermentação.

Trata-se do trabalho com plantas e suas assinaturas astrológicas para a extração de óleos essenciais, álcool e sais para a produção de tinturas e outros produtos capazes de auxiliar a Alquimia Espiritual tanto por suas qualidades materiais como pelo processo mental-espiritual envolvido em suas produções.

A Alquimia Vegetal ganhou enorme destaque na alquimia a partir da renascença e especificamente pela obra de Paracelso. Hoje em dia o livro Espagiria de Manfred Junius é um livro básico para explorar esta área da prática alquímica.

Alquimia Animal: Pouco falada em comparação as outras vertentes a Alquimia animal faz os mesmos processos de separação, purificação e reunião com produtos de origem animal como urina, sague e fluídos sexuais para auxiliar nas transformações da Alquimia Espiritual.

A Alquimia Sexual ganhou um certo destaque no século XX como uma chave escondida em qualquer textos sobre metais e plantas, mas é curioso notar que imagem de atos sexuais explícitos eram comuns nas ilustrações e textos alquímicas.

Enquanto na idade média se usavam estes símbolos sexuais para falar de realidades metafísicas os autores modernos usam símbolos metafísicos para falar de realidades sexuais.

Entre os principais nomes abordagem sexual da alquimia estão como Aleister Crowley e o Kenneth Grant. Uma boa obra para conhecer nesta área é o Modern Sex Magick de Donald Michael Kraig.

Note que estes três últimos tipos de Alquimia podem muito facilmente se transformar em outras coisas quando desconectadas do objetivo da Alquimia Espiritual. Isso acontece quando o objetivo de tentar melhorar a si mesmo dá lugar a manipulação do mundo ao redor. Nada errado com isso, mas são objetivos diferentes e nesse caso não se fala mais de alquimia. A Alquimia Mineral se torna Metalurgia, a Alquimia Vegetal se torna fármaco-cosmética e a Alquimia Animal se torna biologia. A própria Alquimia Espiritual pode se desviar, e então em vez de uma transformação da própria consciência caímos em um estilo ou outro de feitiçaria.

As Tradições Alquímicas

Mas esta é ainda apenas uma forma de se entender a alquimia. A medida muda conforme as unidades da régua e outra forma de se  admirar a grandiosidade da alquimia é percorrer a corrente histórica que nos liga até seus primórdios e além. Para isso destaco aqui os principais momentos em que houve uma efervescência entre os praticantes da alquimia:

Alquimia Helenista: A raiz ocidental da alquimia surgiu no Egito Ptolomaico. Aqui vemos um padrão de repetição que aparecerá várias vezes na história da alquimia: sempre que as instituições entram em crise, uma nova geração de alquimistas aparece. Nessa época o território já estava nas mãos do Império Romano e as antigas escolas de mistério ou já mão existiam ou se fecharam completamente. Sem tantas instituições confiáveis os experimentadores surgiram, nesse caso influenciados pelos pré-socráticos, judeus, gnósticos e pelo Egito faraônico. Este é o ponto de partida histórico da alquimia, uma vez que é o primeiro momento em que um grupo de pessoas chamam a si mesmos de alquimistas. Seus principais nomes foram Maria, a judia e Zósimo. Pouco de sua literatura chegou intacta até os dias de hoje mas entre estas podemos citar duas muito famosas: a Tábua Esmeralda e o Corpus Hermeticum.

Alquimia Chinesa: A raiz oriental da alquimia surgiu na China, entre os sábios taoístas. Embora nunca tenham chamado a si mesmos de alquimistas às similaridades com os helenistas é muito grande para não se fazer notar ou mesmo vislumbrar uma possível raiz ainda mais antiga entre ambas. Dessa raiz nada pode ser realmente afirmado, mas conceitos como Elixir da Vida, Mutação de Princípios Universais e Cinco Elementos são encontrados desde o período das Primaveras e dos Outonos. O grande objetivo dos taoistas é a busca da imortalidade por meio da manipulação da matéria densa e sutil que compõem o ser humano. Seus principais nomes foram Lü Dongbin e Jin Ge Hong e o principal livro foi o Baopuzi com grande influência do I-Ching.

Alquimia Indiana: Assim como os chineses, os indianos nunca se chamaram a si mesmos de alquimistas, mas isso não muda o fato de que a manipulação da matéria e de si próprio com fins de auto-aperfeiçoamento pode ser encontrada em todas as seis escolas de Yoga e está presente desde o Bhagavad Gita. Contudo, no período que vai da invasão de Alexandre, o Grande até a expansão do greco-budismo a temática alquimista tornou-se cada vez mais comum. Hoje a Ayurveda pode ser considerada um sistema alquímico-espagírico independente e não por acaso práticas de pranayama, asana e mantras são incorporadas em muitas escolas ocultistas.. Seus principais nomes foram Pantajali e Nagarjuna e suas principais obras são o Rasarathnakara e o Aforismos de Pantajali.

Alquimia Islâmica: Quando o Egito foi invadido pelo califa Omar, não demorou para que a curiosidade e o gênio árabe vissem nas tradições alquímicas locais algo de grande valor. Nesta fase a alquimia se tornou bastante simbólica e poética e com um indelével gosto monoteísta bem ao sabor do misticismo islamico. De fato, todos os grandes alquimistas do período foram também sufis. Além disso, com os árabes ocorreram os primeiros intercâmbios entre as tradições alquímicas geograficamente espalhadas que vimos até agora. Seus principais nomes foram Avicena e Jabir ibne Haiane, que escreveu o principal livro alquímico da época, o Corpus Jabiriano, com forte influência do Alcorão Sagrado.

Alquimia Latina: Às cruzadas expulsaram os governantes islâmicos da Europa, mas não a influência dos alquimistas muçulmanos. Esse conhecimento foi reconhecido como poderoso pela Igreja Cristã que rapidamente articulou para que nos próximos séculos a alquimia continuasse apenas dentro das paredes da Igreja. Todos os grandes alquimistas desta fase foram sacerdotes católicos. Albertus Magnus, Basilio Valentim e Roger Bacon são alguns desses nomes.  Foi apenas a partir de Nicolas Flamel que a alquimia tornou-se novamente uma arte secular, embora a simbologia cristã e religiosa da época tenha permanecido nos vários séculos que se seguiram. Opus Majus é um dos livros mais significativos da época, com forte influência da Bíblia Sagrada.

Alquimia Renascentista: Tal como o rosacrucianismo a quem está intimamente ligada à alquimia renascentista é fruto do esforço protestante de se apoderar de um conhecimento que por muito tempo foi exclusividade da igreja católica. Com o fim do monopólio eclesiástico logo nomes de mulheres voltaram a despontar como foi o caso de Marie Meurdrac e Isabella Cortese. Também foi o retorno das influências judaicas, principalmente na figura de Chayim Vital, que além de transmissor e discípulo de Issac Luria era também alquimista (para o desgosto de seu rabi). Mas o grande nome dessa fase foi certamente Paracelso, que entre outras coisas destacou a importância da Espargiria como uma ferramenta poderosa para o estudo e aperfeiçoamento do mundo. Essa abertura da alquimia para além dos muros igreja rendeu muitos frutos interessantes. Logo surgiram os primeiros tarots, o esquema da Árvore da Vida e as primeiras óperas. Os famosos  Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa são bastante representativos desta fase histórica.

Alquimia Iluminista: A popularização da alquimia secular teve suas contraindicações. Para começar a Igreja não “entregou todo o ouro” facilmente, de modo que para cada conde de Saint Germain e Cristina da Súecia surgiram centenas de enganadores querendo um empréstimo adiantado para fingir trabalhar em seus laboratórios. Não demorou para os vigaristas da época perceberem que esta era uma ótima maneia de tirar proveito da ambição alheia. A reação das autoridades foi devastadora e a alquimia ganhou uma péssima fama como ofício de trapaceiros. Nesse período a prática passou a ser condenada como charlatanismo por papas e reis, mas se lermos bem as bulas e decretos reais veremos que a proibição nunca foi direcionada aos praticantes verdadeiros. Quando esse excesso de vigarice se somou ao cientificismo da Revolução Industrial (divorciado de qualquer preocupação mística) a divisão entre Alquimia para a Química tornou-se definitiva. Apesar de tudo disso, o conhecimento alquímico não foi abandonado. Na mesma época Irineu Filaleto teve uma brilhante carreira e Elias Ashmole criou a ritualística maçônica com forte influência da simbologia alquímica. O livro Aurea Catena Homeri de Hermann Kopp é um prova viva de que mesmo em tempos conturbados a alquimia espiritual permaneceu sendo praticada.

Alquimia Hermética:  Como  reação ao descrédito que a alquimia ganhou no século anterior, no século XIX houve a ascensão de um novo tipo de abordagem alquímica. Encabeçado primeiro pela teosofia de Helena Blavatsky e em seguida pelo hermetismo da Golden Dawn a alquimia tornou-se mais espiritualizada e simbólica e menos operativa e laboratorial. Foi tratada como parte de um currículo maior que buscou sintetizar várias áreas do saber esotérico como a Kabbalah Hermética, a Yoga, Gnosticismo, a Astrologia e a Magia Cerimonial. Também nessa época, graças a nomes como Pascal RandolphMaria Naglowska começou a se falar mais abertamente de alquimia sexual. Desde então símbolos alquimistas são encontradas em todas grandes ordens ocultistas.  Grandes alquimistas desta época incluem ainda Fulcanelli autor de ‘O Mistério das Catedrais’ e A.E. Waite que traduziu toda a obra de Paracelso do alemão para o inglês.

Alquimia Moderna: A próxima grande onda da alquimia veio junto com a primeira grande crise dos estados nações criados e é uma consequência da síntese esotérica que se tentou fazer no século anterior. Enquanto às Guerras Mundiais matavam bilhões, Carl Gustav Jung fazia em sua casa a maior biblioteca alquímica da Europa. Seu objetivo era decifrar os antigos textos e tratados do ponto de vista do que se convencionou chamar hoje de psicanálise junguiana. Mas ele não estava sozinho na leitura psicológica da antiga arte. Nomes como Mary Ann Atwood, Ethan Hitchcock, antes de Jung e Marie Louise Franz logo depois dele também participaram destes esforços de reinterpretação das ideias alquímicas. Em paralelo nadando contra a corrente a psicologização total da Grande Obra ordens rosacruzes, martinistas e maçônicas continuavam o legado da Alquimia Hermética e grupos como o Paracelsus Research Society (atual Paracelsus College ) e a Inner Garden, resgataram a tradição da alquimia laboratorial dos séculos anteriores.

Alquimia Pós-Moderna: O fácil acesso ao legado cultural anterior faz da alquimia de hoje a herdeira de todas as outras tradições que vimos até aqui. Curiosamente todo esse acesso a informação nos coloca novamente em um momento de crise das instituições espirituais, desta vez pelo excesso de oferta de ordens e gurus de todo tipo. A única forma de criar um filtro e nos orientarmos é nos tornando novamente experimentadores. Os avanços em separado das filhas da alquimia como a química, a psicologia e fármaco-botânica podem agora ser usadas novamente para cumprir o antigo e perene objetivo da Alquimia Espiritual. No nosso auxilio temos também todo desenvolvimento da alquimia hermetista no século XX e XXI que resultou nos diferentes grupos ocultistas que temos hoje além de novas “tecnologias espirituais” a serem exploradas como o tecno-xamanismo, a psiconáutica e a quimiognose psicodélica. Um dos primeiros a perceber isso foram Timothy Leary e Terence McKenna que em mais de uma ocasião chamaram a si mesmos de alquimistas. Outro nome que certamente deixará sua influência é o de Stanislav Grof, autor do enciclopédico ‘ Caminho do Psiconauta’ e Robert Anton Wilson que popularizou e desenvolveu as principais ideias de Leary. Em 2007 tivemos finalmente primeira Conferência Internacional de Alquimia com a participação de diversas guildas e alquimistas independentes.

Diante de tudo isso, por mais que eu me esforce para fazer do Principia Alchimica uma porta de entrada fácil e acessível à tradição alquímica, ninguém tem o direito de ser o guardião da única interpretação possível da alquimia, e muito menos tentar adivinhar como a alquimia do futuro deverá ser. Só podemos responder o que é a alquimia para cada um de nós agora. Ainda que usemos nomes e técnicas diferentes, se o objetivo for melhorar a nós mesmos então ainda faremos parte desta antiga tradição.

* Thiago Tamosauskas autor do Principia Alchimica, um manual simples e direto dos principais conceitos e práticas da alquimia.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-diversidade-da-experiencia-alquimica/

Sincronicidade

Por Yubertson Miranda

Você já parou para refletir sobre as coincidências que ocorrem em seu dia a dia? E, mais do que isso, já reparou na sua reação quando elas ocorrem? Costuma dar atenção ao evento e tenta encontrar um significado ou apenas o considera uma obra do acaso?

CONCEITO DE SINCRONICIDADE
Quando existe uma conexão entre um evento externo e um sentimento, pensamento e desejo internos, pode-se dizer que ocorre uma sincronicidade. Conceito criado por Jung, a sincronicidade define acontecimentos que se relacionam não por relação causal, mas por relação de significado.

Essa ligação entre o mundo exterior e o interior, pode ser encontrada, por exemplo, numa livraria. Imagine que desejamos ler sobre determinado tema. Então, começamos a circular pelas estantes e o livro que precisamos ler parece “cair” em nossas mãos. Chega até nós de uma maneira surpreendente, inusitada. Ou seja, o desejo de entender sobre um assunto (realidade interior) se encontra com um evento exterior, tal como achar um livro caído no chão da livraria que trata justamente do que queremos saber.

CONSEQUÊNCIA PARA O AUTOCONHECIMENTO
Quem vivencia esse tipo de experiência recebe uma carga emocional impactante. Ela nos toca, nos sensibiliza, nos comove. Essa repercussão interna nos incita a reconhecer o quanto tal situação é especial para nós. Evidencia um significado que, quando aceito, assimilado e praticado, fará diferença na nossa vida. Parece que uma força poderosa organiza esses acontecimentos para trazer oportunidades úteis ao nosso processo de autoconhecimento e autorrealização.

COMO RECONHECER OS SINAIS
Devemos nos abrir para os sinais que se apresentam por meio das circunstâncias cotidianas. Essa atitude de entrega e de atenção desprendida no dia a dia nos permite enxergar o surgimento das mensagens que poderão trazer respostas às dúvidas e angústias.

Levo esse costume para a minha vida pessoal. Quando preciso tomar uma decisão e estou incerto sobre qual escolha fazer, adoto uma postura de caçador de tesouros. Com esse faro detetivesco, uma simples conversa ouvida no ponto de ônibus entre duas pessoas desconhecidas pode me ofertar a valiosa informação que necessito e me fará tomar uma decisão com sabedoria.

Compartilho um exemplo: almoçava com a minha esposa Cris e meus pais em um restaurante. Eu e ela tínhamos encontrado um apartamento que queríamos alugar. E conversávamos com meus pais se um tio meu, chamado Luiz, aceitaria ser um de nossos fiadores. Quando expus essa dúvida, imediatamente ouvimos uma mãe chamando seu filho: “Luiz, venha aqui!” Olhei para a Cris e sorri. Meu tio, muito provavelmente, toparia ser nosso fiador. E aceitou quando lhe fizemos o pedido.

TIRE PROVEITO DAS SINCRONICIDADES
Para se beneficiar dos sinais condutores presentes nas sincronicidades, adote uma postura mais alerta no seu dia a dia. Não aquele tipo de atenção concentrada, forçada, como esperar ansiosamente uma resposta da vida em cada instante. Pelo contrário, é estar aberto sem esforço, relaxado. É o que eu chamo de atenção desprendida.

Com isso, quando, por exemplo, se encontrar com alguma pessoa, ver uma propaganda na TV, ouvir uma música, naturalmente será tocado pelos detalhes importantes contidos nessas circunstâncias. Pelo fato de estar consciente, no momento presente, saberá encontrar os significados que essas experiências lhe oferecem.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/sincronicidade