Goécia

goecia

Uma das etapas mais importantes do desenvolvimento mágico na Tradição Esotérica Ocidental, mas também uma das mais incompreendidas, é o trabalho goético, ou invocação dos demônios. Foi sobretudo graças à Goécia que a magia adquiriu uma reputação tão sinistra no ocidente, especialmente em uma sociedade como a medieval, em que a palavra demônio evocava a noção de criaturas infernais, dotadas de chifres e rabo pontiagudo, sempre com um tridente na mão e envoltas em exalações sulfurosas. Essa idéia era compartilhada tanto pelo pio cristão quanto pelos pseudomagos que se aproximavam do trabalho goético ávidos por fama e poder, o que deu origem à lenda popular do pacto com o Diabo, que acabou se cristalizando na lenda de Fausto.

Foi só a partir das pesquisas de McGregor Mathers, um dos fundadores da Golden Dawn, que a Goécia começou a recuperar seu sentido original. Rato incansável de biblioteca, Mathers descobriu, traduziu e publicou a obra mais importante da tradição goética, a Clavícula de Salomão, cujas instruções serviram de base para a composição do Livro da Serpente Negra, o qual registra a versão Golden Dawn da Goécia. Na interpretação moderna adotada por Mathers e seus colegas, os demônios com os quais a Goécia trabalha são vistos como uma personificação das forças sombrias que agem nas profundezas da psique do próprio mago. Elas tornam-se demoníacas na medida em que são apartadas da consciência e, conseqüentemente, se voltam contra esta, o que não deixa de antecipar as teorias freudianas sobre o recalque e o retorno do recalcado. O objetivo do trabalho goético é recuperar essas forças e integrá-las à totalidade da psique, transformando-as em energias positivas que contribuem para a evolução interior do mago.

Com o costumeiro tom pragmático e pé-no-chão que adotava sempre que não estava preocupado demais em impressionar os basbaques com sua persona de Grande Mago, Crowley foi direto ao ponto, na célebre introdução que escreveu para a tradução de Mathers da Clavícula de Salomão: “Os espíritos da Goécia são parcelas do cérebro humano.”

Mais prudente que Crowley, Israel Regardie evita atribuir uma base cerebral para os demônios goéticos, mas não deixa de insistir sobre o paralelo entre eles e os complexos inconscientes estudados pela psicanálise:

complexo, enquanto for um impulso subconsciente oculto, à espreita e destituído de configuração ou forma no inconsciente do paciente, ainda com força para romper a unidade do consciente, não pode ser adequadamente confrontado. A mesma base racional subjetiva estende-se ao aspecto goético da magia, a evocação dos espíritos. Enquanto na constituição do mago permanecem ocultos, descontrolados e desconhecidos esses poderes subconscientes, ou espíritos (…), ele é incapaz de enfrentá-los adequadamente, examiná-los ou desenvolvê-los visando modificar um e banir outro do campo total da consciência. Eles precisam assumir forma antes que possam ser usados. Mediante um programa de evocação, porém, os espíritos ou poderes subconscientes são convocados das profundezas, e sendo atribuída a eles forma visível no triângulo de manifestação, podem ser controlados por meio do sistema mnemônico de símbolos transcendentais e conduzidos ao terreno da vontade espiritualizada do teurgo.

Mesmo que Regardie use palavras com as quais os psicólogos contemporâneos não se sentem muito à vontade – como subconsciente, por exemplo -, sua descrição da Goécia é clara o suficiente para reconhecermos que o trabalho goético não é outra coisa senão o que os junguianos denominam de confronto com a sombra.

Sombra

Classicamente, a psicologia junguiana define a sombra como os aspectos da personalidade que o ego se recusa a reconhecer e que, dessa forma, são banidos para o inconsciente. Os motivos dessa recusa são vários mas, de um modo geral, têm uma base sociocultural: o indivíduo reprime aqueles traços que não são valorizados pela sociedade ou que, durante a infância, os pais o ensinaram a encarar como feios, maus ou indesejáveis. Alguns desses elementos foram simplesmente expulsos do campo da consciência. Outros nunca chegaram a fazer parte dele e foram barrados antes mesmo que tivessem condições de se desenvolver. Formam a base do que Jung descreveu como o inconsciente pessoal e que coincide mais ou menos com o conceito de inconsciente que Freud desenvolveu no início da psicanálise, antes que formulasse a célebre distinção entre ego, superego e id.

Nos sonhos e fantasias das pessoas, os componentes da sombra costumam aparecer sob a forma de figuras perturbadoras, más ou demoníacas. De fato, a interpretação junguiana tradicional identifica os demônios da religião aos complexos que constituem a sombra, e é esse o fundamento da explicação que Regardie dá para os demônios goéticos. No entanto, é importante frisar que esses complexos não são bons ou maus em si mesmos. São forças psíquicas, moralmente neutras, e é apenas à luz dos valores do ego que eles adquirem uma conotação maléfica.

Para dar um exemplo, durante boa parte da história, a sociedade patriarcal classificou os sentimentos como um atributo feminino e inferior. A expressão dos sentimentos pelos homens era vista como sinal de fraqueza, o que ainda persiste em ditados como o de que “homem não chora”. Para onde vão os sentimentos que os homens são proibidos de exprimir? Para a sombra, claro. Uma vez lá, tornam-se complexos inconscientes, em constante pé-de-guerra com o ego, e que exercem uma influência perturbadora sobre a consciência, apossando-se dela em determinadas circunstâncias – por exemplo, quando o homem explode em um ataque de raiva incontrolável. Essa raiva é um demônio porque possui a consciência, escapa ao seu controle e causa efeitos destrutivos para o próprio indivíduo e para os que o rodeiam. Mas ela não é essencialmente má. É uma força positiva, o sentimento, que só se tornou destrutiva devido à repressão que a impede de ser canalizada de uma forma mais construtiva. A mesma coisa vale para todos os elementos que constituem a sombra.

Os junguianos freqüentemente se referem à sombra no singular, como se fosse uma entidade única, mas não devemos nos iludir com isso. A sombra é uma instância múltipla, composta por diferentes forças que só têm em comum o fato de terem sido reprimidas pelo ego, e que muitas vezes, além de estarem em conflito com a consciência, também se opõem entre si. Imagine uma multidão de demônios, pequenos e grandes, em constante luta uns com os outros, uivando, berrando, e você vai ter uma boa idéia do que se passa no território da sombra. É esse quadro que está na origem do termo goécia, palavra que em grego significa um uivo feroz e inarticulado.

O desenrolar do processo de individuação – que, como foi dito em outra parte, é nada mais, nada menos do que a iniciação de que falam os esoteristas – leva a consciência a se identificar cada vez menos com o ego, alargando seu campo para integrar os conteúdos do inconsciente, tanto do inconsciente pessoal quanto do coletivo. É inevitável, portanto, que em determinada altura do caminho, ela se defronte com o problema de recuperar a sombra, trazendo seus demônios para a superfície, exorcizando o caráter destrutivo dessas forças e integrando-as a seu próprio campo.

No âmbito da psicologia junguiana, esse trabalho é feito com a ajuda do terapeuta. Antes que a psicologia fosse inventada, contudo, as religiões e escolas esotéricas desenvolveram uma bateria de rituais com o propósito de alcançar esse objetivo. A magia goética, tal como descrita pela Clavícula de Salomão, é um desses procedimentos.

A Sombra e a Sístase

Antes de continuar, consideremos a questão da sombra à luz do conceito gnóstico de sístase.

Quem vem acompanhando o Franco-Atirador há algum tempo deve se lembrar de que a sístase é o nome que os gnósticos davam para o sistema de dominação que aprisiona o ser humano, limitando seu potencial. Esse sistema tem ramificações que se estendem por todos os níveis, do cósmico ao psicológico, mas suas principais manifestações são:

1. Giger_bNo campo social, um conjunto de valores que determina o que é ou não aceitável, e inclusive o que deve ser considerado como real ou irreal. É o que o marxismo descreve sob a rubrica de ideologia.

2. No campo psicológico, padrões estereotipados de cognição e comportamento, que filtram as percepções das pessoas e moldam suas ações e interações. A psicanálise se refere a esses padrões como o superego.

3. No campo fisiológico, um sistema de tensões físicas – sobretudo musculares, mas não só – que impedem a energia de circular livremente pelo organismo. Reich batizou esse sistema de tensões de couraça caracteriológica ou couraça muscular.

Esses três níveis estão, obviamente, inter-relacionados. É a internalização da ideologia que está na origem do superego, e é o superego que se ancora no corpo sob a forma de um encouraçamento do organismo. Uma vez constituídos, superego, couraça e ideologia reforçam-se mutuamente em um circuito de retroalimentação (feedback). O circuito age como um filtro, que deixa passar algumas percepções, emoções e atitudes, com os quais a nossa realidade consensual (a visão que temos de nós mesmos e do mundo) é construída, enquanto outros, que não são considerados compatíveis com a realidade consensual, são sumariamente excluídos. O que mantém esse circuito funcionando é a energia dos próprios impulsos reprimidos, desviada e canalizada para alimentar o sistema.

Como o leitor deve ter percebido, a descrição gnóstica e a teoria junguiana da sombra descrevem a mesma coisa sob dois pontos-de-vista ligeiramente diferentes. A partir dessas duas visões, não é difícil perceber também que as relações entre o ego e a sombra são mais complexas, mais dialéticas, do que uma leitura superficial permitira supor. O mundo do ego rejeita a sombra mas, ao mesmo tempo, precisa da energia dela para existir. Nossa realidade consensual só se mantém à custa da força que extrai daquilo mesmo que ela exclui. Os impulsos reprimidos são transformados em demônios, mas são esses demônios que sustentam a estrutura que os reprime.

Conseqüentemente, é impossível superar a sístase enquanto ela for constantemente energizada pelo reprimido em nós. Daí que a integração da sombra, trazer os demônios do inconsciente à luz da consciência e, numa palavra, redimi-los, é uma condição sine qua non para a dissolução do estado de sístase. O que dá toda uma nova perspectiva ao trabalho goético.

A Clavícula de Salomão

Apesar de ser atribuído ao rei Salomão – que, segundo o folclore judaico, tinha o poder de controlar os demônios do céu, da terra e do inferno -, o texto da Clavícula não tem nada a ver com o legendário soberano judeu. De acordo com os filólogos que estudaram a composição do texto, ele deve ter sido escrito por volta do sec. XII d.C., provavelmente na região do Império Bizantino, que herdou boa parte do conhecimento clássico e helenístico, inclusive no que se refere ao esoterismo.

Como todos os tratados de magia medieval, a Clavícula descreve um procedimento ritualístico bastante complexo, com a utilização de toda uma parafernália cerimonial de robes, pantáculos, amuletos e talismãs, que devem ser confeccionados seguindo à risca as precisas instruções contidas em cada capítulo. Um leitor moderno que vá ler o texto à procura de um manual prático ficará inevitavelmente decepcionado – pode-se dizer o que for dos rituais seguidos pelos magos medievais, menos que eles são práticos. Mesmo problema, aliás, do Livro de Abramelin. E não ajudam nada as constantes advertências de que o menor erro pode fazer com que a alma do mago seja arrastada para o inferno pelas entidades que ele imprudentemente evocar.

Mas não há motivo para susto. A razão pela qual a magia cerimonial antiga é tão abstrusa é a necessidade de mobilizar e canalizar as forças da imaginação, que são, afinal de contas, o único instrumento realmente necessário para a prática da magia. Todo o aparato que o mago é instruído a fabricar tem um significado acima de tudo simbólico, e espera-se que as dificuldades que ele vai encontrar ao fazê-los sejam suficientes para direcionar sua vontade em direção ao objetivo. Já no Renascimento, os criadores do que se tornou conhecido como magia hermética – Marsilio Ficino, Giordano Bruno e Pico della Mirandola, entre outros – compreenderam que uma capacidade de visualização bem-desenvolvida pode substituir com proveito essa tralha toda. A Golden Dawn aprofundou ainda mais essa trilha do uso mágico da imaginação, que consiste na visualização de símbolos e interação com eles em uma esfera puramente psíquica (o astral, como se costuma dizer). E AOSpare e a magia do caos levaram a tendência a seu limite extremo, substituindo até o simbolismo tradicional por símbolos e imagens que fossem eficientes e adequados à psicologia individual de cada mago.

(Por outro lado, para os que gostam da pompa e circunstância da magia cerimonial, Carroll “Poke” Runyon desenvolveu uma versão contemporânea da magia de Salomão que, embora eu não tenha testado na prática, me pareceu bem interessante e vale pelo menos uma olhada, apesar das horrendas ilustrações kitsch com que ele recheou seu livro…)

O Círculo Mágico e o Triângulo da Manifestação

Alegorias de escola de samba à parte, a magia goética se apóia sobre dois instrumentos: o círculo mágico e o triângulo da manifestação. Circle_goetiaO círculo mágico é um velho conhecido de todos os que estudam magia. É no interior dele que fica o mago e sua função tradicional é protegê-lo das forças que o ritual se destina a evocar. Autores contemporâneos, embora não neguem esse papel de proteção, tendem a ver o círculo mágico muito mais como a constituição de um espaço sagrado, separado da realidade quotidiana, no interior do qual a consciência se desloca para um estado alterado no qual a magia é possível. (Um exemplo dessa nova abordagem do círculo mágico pode ser encontrada aqui.) De qualquer forma, embora o mago medieval laboriosamente traçasse o círculo fisicamente no chão, não existe motivo pelo qual ele não possa ser simplesmente visualizado, que é a alternativa adotada por um bom número de adeptos nos dias de hoje.

A mesma coisa se aplica ao triângulo da manifestação, no interior do qual muitas vezes colocava-se um espelho mágico. De acordo com a Clavícula, ele deve ser feito de madeira, com as dimensões exatadas dadas pelo texto, mas pode-se perfeitamente visualizá-lo apenas na imaginação. Como o próprio nome diz, é no interior do triângulo que as entidades evocadas se manifestam. E as explicações dadas por Regardie e outros deixam bem claro que seu valor é antes de mais nada simbólico.

Identificando os demônios pessoais

Levando-se em conta o caráter simbólico de seus elementos, o ritual goético pode ser simplificado ao extremo, tornando-se uma forma de meditação voltada para a integração dos conteúdos que compõem a sombra.

O primeiro passo é identificar esses conteúdos. Você pode preferir trabalhar com os próprios demônios goéticos que, afinal, em última análise, são uma personificação das tendências sombrias da psique. Se optar por essa alternativa, vai encontrar uma descrição pormenorizada dessas entidades em qualquer edição da Clavícula de Salomão (no início do post, dei o link de uma). Eu, porém, não recomendo essa abordagem. Embora sejam uma representação arquetípica, os demônios da Goécia são também clichês elaborados em um contexto – o do cristianismo medieval – que tem pouca ou nenhuma relevância para a psique contemporânea. E apesar do núcleo da sombra ser constituído de partes arquetípicas, ela é também uma montagem altamente individualizada de impulsos reprimidos e traços negativos da sua personalidade. Ou seja, todo mundo tem uma sombra, mas a sombra não é igual para todo mundo. Por esse motivo, é preferível dar espaço para que seus demônios pessoais se revelem sob uma forma igualmente pessoal, em vez de tentar encaixá-los na marra em uma representação coletiva.

Normalmente, as partes da sombra podem ser identificadas através de suas manifestações emocionais. São emoções que se apoderam subitamente da consciência sem causa aparente ou com uma intensidade desproporcional a sua pretensa causa. Por exemplo, ataques de raiva cega ou destrutiva, sentimentos de opressão ou depressão não motivados (pelo menos, não inteiramente) pelas circunstâncias externas, inveja ou ciúme patológicos, etc.

Antes de proceder ao trabalho goético propriamente dito, é preciso mapear esses sentimentos. Uma forma simples de fazer isso é manter um registro escrito no qual se anota escrupulosamente todos os sentimentos que se quer trabalhar. Se preferir, você pode dar um nome a esses sentimentos (por exemplo, o Demônio da Raiva ou o Espírito da Depressão). Personalizar os conteúdos da sombra facilita a etapa seguinte, que é evocar sistematicamente seus demônios, com o objetivo de exorcizá-los.

Exorcismo da sombra

Exorcizar os demônios, ao contrário do que o filme de William Friedkin e séculos de tradição católica dão a entender, não significa expulsá-lo. Isso seria o equivalente teológico da repressão e eles já estão mais do que reprimidos, obrigado. É por isso, aliás, que se tornaram destrutivos.

A palavra exorcismo vem do grego exos, exterior, e significa simplesmente trazer para fora o que estava oculto. Exorcizar um demônio significa apenas expor à luz da consciência um conteúdo que se encontrava reprimido no inconsciente.

Para isso, primeiro visualize a si mesmo no interior de um círculo de proteção ou visualize um círculo de proteção ao seu redor. Se achar necessário, pode traçar o círculo fisicamente, com giz ou que o valha, mas mentalizar um círculo de luz branca ao seu redor é o suficiente. Procure ver o círculo com a máxima nitidez possível. Sinta a proteção que ele oferece, isolando-o de todas as influências negativas, inclusive e sobretudo das forças que você vai evocar.

Em seguida, imagine um triângulo em frente a você, mas fora do perímetro do círculo. Ele corresponde ao triângulo da manifestação da Goécia clássica. Eu o vejo como um triângulo de luz vermelha, provavelmente porque a emoção característica da minha sombra é a raiva, mas a cor não é de fato importante. O essencial é imaginá-lo com nitidez e, de novo, se quiser, pode desenhar um triangulo concreto diante de seu círculo.

O passo seguinte é vivenciar a emoção que vai ser trabalhada. O momento ideal para isso seria quando ela surge espontaneamente, mas na maior parte das vezes isso é muito difícil, beirando o impossível. Um dos traços mais marcantes das emoções da sombra é seu caráter compulsivo e, no calor da emoção, não se pode censurá-lo por não conseguir parar para visualizar o círculo e o triângulo.

Evocando os Demônios Pessoais

Em vez disso, depois de confortavelmente instalado em seu círculo, defronte o triângulo da manifestação, procure se lembrar das ocasiões em que você experimentou a emoção da sombra. Escolha apenas uma emoção de cada vez, ou será impossível lidar com a horda de demônios que vai irromper pelas janelas da mente.

Tente se lembrar não das circunstâncias externas, que são irrelevantes, mas das sensações que você teve quando a sombra irrompeu. Trate de evocar nos mínimos detalhes como você se sentiu nessas ocasiões.

Quando perceber que conseguiu estabelecer contato com a emoção, visualize-a fluindo de você para o triângulo da manifestação, onde ela se acumula como uma massa luminosa de intensidade crescente. Depois de algum tempo, essa massa vai se coagular e assumir uma forma concreta. Pode ser uma pessoa, um animal ou um objeto. Não tente antecipar ou impor uma forma, deixe que o processo seja espontâneo.

No entanto, caso ela surja sob o aspecto de uma pessoa real, de carne e osso, peça-lhe para adotar outra forma. Isso significa que você tende a projetar a emoção em questão sobre a pessoa que apareceu, e confundir as duas só vai trazer dor-de-cabeça para você e para a pessoa. Jung dizia que praticar qualquer espécie de imaginação ativa sobre a imagem de uma pessoa real é magia negra, e ele tinha toda a razão quanto a isso.

Pode ser que a imagem demore um pouco para se estabilizar, adotando várias formas seguidas, como se o conteúdo estivesse decidindo qual é a mais adequada. Mas, uma vez estabilizada, ela é o seu demônio. E está pronto para ser confrontado.

Agora eu tenho sua Atenção

Uma questão importante antes de sair evocando os espíritos goéticos é: o que fazer quando eles aparecem? Você está escancarando os porões do inconsciente para dar passagem a seus piores demônios. Agora que eles estão plantados diante de você, como lidar com esses visitantes infernais?

Os magos medievais e renascentistas que usavam a Goécia não tinham grandes problemas com isso. Como eles trabalhavam com um sistema de crenças objetivo, a integração dessas forças à consciência não se colocava. Suas finalidades eram práticas até o talo: queriam conhecimento, poder ou diversão, e ponto final. Quando os espíritos goéticos surgiam, eles os botavam pra trabalhar. Depois, se tivessem cumprido sua tarefa a contento, recebiam uma licença para partir e tornavam a mergulhar nos porões sulfúreos do inconsciente, autônomos e não-integrados. Ou, se o mago não tivesse cumprido sua tarefa a contento, invadiam o círculo de proteção e se apossavam de sua alma (um fenômeno que a psicologia analítica conhece como inflação do ego e ao qual os psicólogos junguianos se referem como possessão do ego por um conteúdo do inconsciente).

Não admira que a Goécia tenha adquirido uma reputação tão ruim, não só entre os leigos, mas entre os próprios adeptos. Sempre que questionados sobre as operações goéticas, os membros da Golden Dawn saíam pela tangente, e davam a mesma resposta do Jesus de South Park: “Meu filho, eu não tocaria nisso nem com uma vara de dois metros.” E isso a despeito de ter sido McGregor Mathers quem traduziu a Clavícula de Salomão para o inglês.

No entanto, é preciso tocar nisso, com ou sem uma vara de dois metros.

Psicologia do Ego

A resposta do necromante clássico é obviamente insatisfatória. Usar nossos demônios para atender desejos pessoais é colocar essas forças a serviço do ego. Seu equivalente contemporâneo poderia ser a ego psychology, que pretende drenar o inconsciente para criar um ego forte, plenamente adaptado ao princípio da realidade e capaz de submeter os “caprichos” do inconsciente ao domínio imperioso de sua vontade (que não deve ser confundida com a Verdadeira Vontade de Crowley e da Thelema).

Isso é o oposto da integração.

Os espíritos goéticos devem ser integrados à consciência, e não ao ego, e enquanto essa distinção não for compreendida, não importa o rótulo que se empregue, estaremos praticando magia negra da pior espécie.

O que fazer?, perguntaria o camarada Lênin, confiando seu cavanhaque com o olhar perdido no vazio.

O que fazer?

Diálogo com a Sombra

Os espíritas diriam que é preciso doutrinar os espíritos, isto é, esclarecê-los quanto à verdadeira doutrina de Kardec, tirá-los das trevas da inconsciência e permitir que eles se aperfeiçoem pela prática de obras de caridade.

Contenha o sorriso, meu caro leitor cínico. Eles estão certos.

Não da maneira que eles pensam, evidentemente. Os espíritas pecam por uma certa ingenuidade e uma compreensão literal das coisas – daí acreditarem piamente que existem linhas de ônibus em Nosso Lar – mas, talvez até por causa de sua inocência, descobriram um princípio importante.

Os espíritos são tirados do inconsciente através do diálogo.

Os espíritos são integrados à consciência estabelecendo-se uma conexão entre eles e alguma coisa maior que o ego.

Além do Ego

Esse eixo de referência maior que o ego é, evidentemente, o Self – ou o SAG, se você preferir o vocabulário mágico.

É isso que significa o círculo mágico de proteção. O círculo é o emblema geométrico do Self, e você vai notar que, na descrição da Clavícula, não é o nome do mago que está escrito em sua periferia, mas os nomes de Deus. Você notará também que mesmo a invocação goética tradicional conclama os espíritos a obedecerem em nome de Deus. É claro que invocar o poder divino para obrigar o espírito a encher seus cofres de ouro é uma traição do ego, mas o ponto não é esse. O ponto é que a força que submete os espíritos se origina de além do ego.

Desnecessário dizer, se o mago não tiver estabelecido ele próprio essa conexão entre a consciência e o Self, a evocação goética não passa de palavrório vazio. Pior que isso, é um blefe, porque o mago estará se apoiando em um poder que ele não possui. E um blefe que, com toda a probabilidade, não vai demorar a ser desmascarado, uma vez que, se a consciência não estiver solidamente ancorada no Self, não terá como fazer frente ao fascinium tremendum que emana dos complexos do inconsciente e que é descrito nos tratados tradicionais como a irresistível capacidade de sedução dos espíritos infernais.

O resultado disso, numa palavra?

Loucura.

Foi só porque teve o bom-senso de se amarrar ao mastro do navio que Ulisses pôde resistir ao canto das sereias.

É por esse motivo que, segundo Abramelin, o trato com os espíritos infernais vem depois da conversação com o Santo Anjo Guardião. Abramelin vai ainda mais longe e diz que é o próprio SAG quem ensina o mago a melhor maneira de evocar e controlar os espíritos. E adverte enfaticamente sobre o risco mortal que é a evocação dos espíritos infernais sem a imprescindível retaguarda fornecida pelo SAG. Esqueçam estes charlatões prometendo contato com kiumbas e eguns; eles não têm poder para nada, se tivessem, estariam ricos e não precisariam vender pactos para viver. Os verdadeiros demônios que podem ser negociados estão dentro de cada um de nós.

Por Lucio Manfredi.

#Goécia #MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/go%C3%A9cia

Genesis Reload

Em alguns níveis, um sonho privado se insere em temas verdadeiramente míticos e não pode ser interpretado senão em analogia com o mito. Jung fala de duas ordens de sonho, o sonho pessoal e o sonho arquetípico, ou o sonho com dimensão mítica. Você pode interpretar um sonho pessoal por associação, deduzindo o que ele diz sobre sua própria vida, ou em relação a seus problemas pessoais. Mas a qualquer momento surge um sonho que é puro mito, que contém um tema mítico, ou, como se diz, que provém do Cristo interior.

Agora, existe um outro sentido, mais profundo, do tempo do sonho, o de um tempo que é não tempo, apenas um estado de ser que se prolonga. Existe um importante mito, da Indonésia, que fala dessa era mitológica e seu término. No início, de acordo com essa história, os ancestrais não se distinguiam, em termos de sexo. Não havia nascimentos, não havia mortes. Então uma imensa dança coletiva foi celebrada e no seu curso um dos participantes foi pisoteado até a morte, cortado em pedaços, e os pedaços foram enterrados. No momento daquela morte, os sexos se separaram, para que a morte pudesse ser, a partir de então, equilibrada pela procriação, procriação pela morte, pois das partes enterradas do corpo desmembrado nasceram plantas comestíveis. Tinha chegado o tempo de ser, morrer, nascer, e de matar e comer outros seres vivos, para a preservação da vida. O tempo sem tempo, do início, tinha terminado, por meio de um crime comunitário, um assassinato ou sacrifício deliberado.

Pois bem, um dos grandes problemas da mitologia é conciliar a mente com essa pré-condição brutal de toda vida, que sobrevive matando e comendo vidas. Você não consegue se ludibriar comendo apenas vegetais, tampouco, pois eles também são seres vivos. A essência da vida, pois, é esse comer a si mesma! A vida vive de vidas, e a conciliação da mente e da sensibilidade humanas com esse fato fundamental é uma das funções de alguns daqueles ritos brutais, cujo ritual consiste basicamente em matar por imitação daquele primeiro crime primordial, a partir do qual se gestou este mundo temporal, do qual todos participamos. A conciliação entre a mente humana e as condições da vida é fundamental em todas as histórias da criação. Quanto a isso, todas se parecem muito.

Considerando a história da Criação no Gênesis, por exemplo, vemos que ela é semelhante a outras histórias de Criação.

Gênesis: “No início Deus criou os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia, e a escuridão vagava sobre a face do abismo”.

Canção do mundo: “No início havia apenas escuridão por toda parte escuridão e água. E a escuridão se reuniu e se tornou espessa em alguns lugares, acumulando se e então separando se, acumulando e separando…”

Gênesis: “E o espírito de Deus se moveu sobre a face das águas. E Deus disse: Faça se a luz, e a luz se fez”.

Upanixades: “No início, havia apenas o grande Uno refletido na forma de uma pessoa. Ao refletir, não encontrou nada além de si mesmo. Então, sua primeira palavra foi: Este sou eu”.

Gênesis: “Então Deus criou o homem à sua própria imagem, à imagem de Deus o criou; macho e fêmea os criou. E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Sede férteis e multiplicai vos”.

Lenda dos Bassari: “Unumbotte fez um ser humano. Seu nome era Homem. Em seguida, Unumbotte fez um antílope, chamado Antílope. Unumbotte fez uma serpente, chamada Serpente… E Unumbotte lhes disse: A terra ainda não foi preparada. Vocês precisam tornar macia a terra em que estão sentados. Unumbotte deu lhes sementes de todas as espécies e disse: Plantem-nas.”

Gênesis: “Então os céus e a terra ficaram prontos, e todos os seus hóspedes. E no sétimo dia Deus terminou o trabalho que tinha realizado…”

Índios Pima: “Eu faço o mundo e eis que o mundo está terminado. Então eu faço o mundo, e eis! O mundo está terminado”.

Gênesis: “E Deus viu tudo o que tinha feito e eis que tudo era bom”.

Upanixades: “Então ele se deu conta, Eu verdadeiramente, Eu sou esta criação, pois Eu a retirei de mim mesmo. Desse modo, ele se tornou a sua criação. Em verdade, aquele que conhece isso se torna, nessa criação, um criador”.

Aí está a chave. Quando você sabe isso se identifica com o princípio criativo, que é o poder de Deus no mundo, quer dizer, dentro de você. Isso é belo.

Mas o Gênesis continua: “Vós comestes da árvore da qual ordenei que não comêsseis? O homem disse: A mulher que me destes para estar comigo, essa mulher me deu o fruto da árvore e eu comi. Então o Senhor Deus disse à mulher: Que fizestes vós? E a mulher disse: A serpente me enganou e eu comi”.

Isso de transferir responsabilidades começou muito cedo.

A lenda Bassari continua no mesmo caminho: “Um dia a Serpente disse: Nós também devíamos comer desses frutos. Por que devemos ficar com fome? O Antílope disse: Mas não sabemos nada desse fruto. Então o Homem e sua mulher colheram alguns frutos e o comeram. Unumbotte desceu do céu e perguntou: Quem comeu o fruto? Eles responderam: Nós comemos. Unumbotte perguntou: Quem lhes disse que podiam comer desse fruto? Eles responderam: A Serpente disse.”

É praticamente a mesma história. Os protagonistas apontam um terceiro como o iniciador da Queda, e em ambas as histórias, a serpente é o símbolo da vida desfazendo-se do passado e continuando a viver. O poder da vida leva a serpente a se desfazer de sua pele, exatamente como a lua se desfaz da própria sombra, para renascer. São símbolos equivalentes. Às vezes a serpente é representada como um círculo, comendo a própria cauda. É uma imagem da vida. A vida se desfaz de uma geração após outra, para renascer. A serpente representa a energia e a consciência imortais, engajadas na esfera do tempo, constantemente atirando fora a morte e renascendo. Existe algo extremamente horrível na vida, quando você a encara desse modo. Com isso, a serpente carrega em si o sentido da fascinação e do terror da vida, simultaneamente.

Além disso, a serpente representa a função primária da vida, sobretudo comer. A vida consiste em comer outras criaturas. Você não pensa muito a respeito quando faz uma boa refeição, mas o que está fazendo é comer algo que há pouco estava vivo. E quando você olha para a bela natureza e vê os passarinhos saltitando daqui para ali… eles estão comendo coisas. Você vê as vacas pastando, elas estão comendo coisas. A serpente é um canal alimentar que se move, isso é tudo. Ela lhe dá aquela sensação primária de espanto, da vida em sua condição mais primitiva. Este é um dos mistérios que aquelas formas simbólicas, paradoxais, tentam representar. Agora, em muitas culturas é dada uma interpretação positiva à serpente. Na Índia, mesmo a mais venenosa das serpentes, a naja, é um animal sagrado, e a mitológica Serpente Rei é quem está ao lado do Buda. A serpente representa o poder da vida, engajado na esfera do tempo, e o da morte, não obstante eternamente viva. O mundo não é senão a sua sombra – a pele rejeitada.

A serpente também era reverenciada nas tradições dos índios americanos. Era concebida como um meio muito importante de se fazer amigos. Vá aos pueblos, por exemplo, e observe a dança da serpente, dos hopi, em que eles tomam as serpentes na boca, usam-nas para fazer amigos e depois as mandam de volta para as colinas. Elas são mandadas de volta para levar a mensagem humana às colinas, assim como tinham trazido a mensagem das colinas aos homens. A interação do homem com a natureza está representada nessa relação com a serpente. A serpente flui como a água e por isso é aquática, mas sua língua continuamente dispara fogo. Assim você tem aí o par de opostos, reunidos na serpente.

Já na história cristã a serpente é o sedutor. Isso representa a recusa em afirmar a vida. Na tradição bíblica que herdamos, a vida é corrupta e todo impulso natural é pecaminoso, a menos que tenha havido circuncisão ou batismo. A serpente é aquele ser que trouxe o pecado ao mundo. E a mulher é quem ofereceu a maçã ao homem. Essa identificação da mulher com o pecado, da serpente com o pecado, e portanto da vida com o pecado, é um desvio imposto à história da criação, no mito e na doutrina da Queda, segundo a Bíblia. A idéia é que a natureza, como a conhecemos, é corrupta, o sexo em si é corrupto, e a fêmea, como epítome do sexo, é um ser corruptor.

Por que o conhecimento do bem e do mal foi proibido a Adão e Eva? Sem esse conhecimento, seríamos todos um bando de bebês, ainda no Éden, sem nenhuma participação na vida. A mulher traz a vida ao mundo. Eva é a mãe deste mundo temporal. Anteriormente, você tinha um paraíso de sonho, ali no jardim do Éden – sem tempo, sem nascimento, sem morte, sem vida. A serpente, que morre e ressuscita, largando a pele para renovar a vida, é o senhor da árvore primordial, onde tempo e eternidade se reúnem. A serpente, na verdade, é o primeiro deus do jardim do Éden. Jeová, o que caminha por ali no frescor da tarde, é apenas um visitante. O Jardim é o lugar da serpente. Esta é uma velha, velha história. Existem sinetes sumerianos, que remontam a 3500 a.C., mostrando a serpente, a árvore e a deusa, e esta oferecendo o fruto da vida ao visitante masculino. A velha mitologia da deusa está toda aí.

Existe, na realidade, uma explicação histórica para essa imagem negativa da serpente na Bíblia, baseada na chegada dos hebreus a Canaã e na subjugação do povo de Canaã. A principal divindade desse povo era a Deusa, e, associada à Deusa, estava a serpente. Este é o símbolo do mistério da vida. Os hebreus, orientados na direção do deus masculino, rejeitaram isso. Em outras palavras, existe uma rejeição histórica da Deusa Mãe, implícita na história do jardim do Éden.

MOYERS: Que é que o mito de Adão e Eva nos diz sobre os pares de opostos? Que é que significa?

CAMPBELL: A coisa começou com o pecado – em outras palavras, com o abandono do mundo mitológico de sonhos do jardim do Paraíso, onde não há tempo e onde o homem e a mulher sequer sabem que são diferentes um do outro. Ambos são apenas criaturas. Deus e homem são praticamente o mesmo. Deus caminha no frescor da tarde no jardim onde eles estão. Aí eles comem a maçã, o conhecimento dos opostos. E quando descobrem que são diferentes, homem e mulher cobrem suas vergonhas. Como você vê, eles não pensaram em si mesmos como opostos. Macho e fêmea constituem uma oposição. Outra oposição é entre o homem e Deus. Deus e o mal é uma terceira oposição. As oposições primárias são a sexual e aquela entre seres humanos e Deus. Então surge a idéia de bem e mal no mundo. Assim, Adão e Eva se expulsaram a si mesmos do jardim da Unidade Atemporal, você pode dizer assim, pelo simples fato de haverem reconhecido a dualidade. Saindo para o mundo, você tem de agir em termos de pares de opostos. Existe uma imagem hindu (Yantra) que mostra um triângulo, que é a Deusa Mãe, e um ponto no centro do triângulo, que é a energia do transcendente ingressando na esfera do tempo. Então, a partir desse triângulo, formam se pares de triângulos em todas as direções. Do um provêm dois. Todas as coisas, na esfera do tempo, são pares de opostos. Assim, essa é a mudança de consciência, da consciência da identidade para a consciência de participação na dualidade. E então você se encontra na esfera do tempo.

MOYERS: Estará a história tentando dizer que, antes do que aconteceu nesse Jardim para nos destruir, havia a unidade da vida?

CAMPBELL: É uma questão de planos de consciência. Não tem nada a ver com o que tenha acontecido. Existe o plano de consciência em que você pode se identificar com o que transcende os pares de opostos.

MOYERS: Que vem a ser…?

CAMPBELL: Inominável. Inominável. Transcende todos os nomes.

MOYERS: Deus?

CAMPBELL: “Deus” é uma palavra ambígua, em nossa língua, pois parece referir alguma coisa conhecida. Mas o transcendente é desconhecido e incognoscível. Deus, em suma, transcende qualquer coisa, mesmo o nome “Deus”. Deus está além de nomes e formas. Mestre Eckhart disse que a suprema e mais alta renúncia é abandonar Deus por Deus, abandonar a noção de Deus por uma experiência daquilo que transcende a todas as noções. O mistério da vida está além de toda concepção humana. Tudo o que conhecemos é limitado pela terminologia dos conceitos de ser e não ser, plural e singular, verdadeiro e falso. Sempre pensamos em termos de opostos. Mas Deus, o supremo, está além dos pares de opostos, já contém em si tudo.

MOYERS: Por que pensamos em termos de opostos?

CAMPBELL: Porque não podemos pensar de outro modo. Essa é a natureza de nossa experiência da realidade. Homem/mulher, vida/morte, bem/mal, eu/você, verdadeiro/falso – tudo tem o seu oposto. Mas a mitologia sugere que sob essa dualidade existe uma singularidade em relação à qual a dualidade desempenha um papel de jogo de sombras. “A eternidade está apaixonada pela produção do tempo”, diz o poeta Blake. A fonte da vida temporal é a eternidade. A eternidade se derrama a si mesma no mundo. É a idéia mítica, básica, do deus que se torna múltiplo em nós. Na Índia, o deus que repousa em mim é chamado o “habitante” do corpo. Identificar se com esse aspecto divino, imortal, de você mesmo é identificar se com a divindade.

A suprema palavra, em nossa língua, para o transcendente é Deus. Mas aí você tem um conceito, percebe? Você pensa em Deus como o pai. Agora, nas religiões em que o deus ou o criador é a mãe, o mundo inteiro é o corpo dela. Fora daí não há nada. O deus masculino geralmente está em alguma outra parte. Mas masculino e feminino são dois aspectos de um só princípio. A divisão da vida em sexos foi uma divisão tardia. Biologicamente, a ameba não é macho nem fêmea. As células primitivas são apenas células. Elas se dividem e se tornam duas por reprodução assexual. Não sei em que estágio a sexualidade aparece, mas é um estágio tardio. Eis por que é absurdo falar em Deus como deste ou daquele sexo. O poder divino é anterior à separação sexual.

A polaridade (O “ele”, ou “ela”) é um trampolim para lançar você na direção do transcendente, e transcender é ir além da dualidade. Tudo na esfera de tempo e espaço é dual. A encarnação aparece ou como macho ou como fêmea, e cada um de nós é a encarnação de Deus. Você nasce com apenas um aspecto da sua verdadeira dualidade metafísica, pode se dizer.

MOYERS: O que diz o mito a respeito de termos tantas coisas em comum, muitas dessas histórias contendo elementos semelhantes – o fruto proibido, a mulher? Por exemplo, esses mitos, essas histórias da criação, contêm um “não farás”.

CAMPBELL: Há um motivo padrão do conto folclórico chamado “A coisa proibida”. Lembra se do Barba Azul, que diz à mulher: “Não abra aquele armário”? E aí sempre há alguém que desobedece. Na história do Velho Testamento, Deus aponta para a coisa proibida. Ora, Deus com certeza sabia muito bem que o homem ia comer o fruto proibido. Mas só procedendo assim é que o homem poderia se tornar o iniciador de sua própria vida. A vida, na realidade, começou com aquele ato de desobediência.

MOYERS: Como você explica essas similaridades?

CAMPBELL: Há duas explicações. Uma é que a psique humana é essencialmente a mesma, em todo o mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos. A partir desse solo comum, constitui se o que Jung chama de arquétipos, que são as idéias em comum dos mitos.

Agora, existe também a contrateoria da difusão, que pretende dar conta da similaridade dos mitos. Por exemplo, a arte de lavrar o solo avança a partir da área em que se desenvolve primeiro, levando consigo uma mitologia que tem a ver com a fertilização da terra, com plantar e cultivar plantas alimentícias – mitos como aquele antes descrito, de matar uma divindade, cortá-la em pedaços, enterrar as partes, e daí o crescimento das plantas alimentícias. Um mito desse tipo acompanhará uma tradição agrária ou lavradora. Mas você não o encontrará numa cultura voltada para a caça. Assim, há aspectos tanto históricos como psicológicos nessa questão da similaridade dos mitos.

Quando você se dá conta de que Deus é a criação, e que você é uma criatura, percebe que Deus está dentro de você, assim como dentro do homem ou mulher com quem você conversa. Assim se dá a conscientização de dois aspectos de uma divindade. Existe o motivo mitológico básico de que, na origem, tudo era um, e então houve a separação – céu e terra, macho e fêmea, e assim por diante. Como foi que perdemos contato com a unidade? Você pode dizer que a separação foi culpa de alguém – eles comeram o fruto errado ou dirigiram a Deus as palavras erradas, que o deixaram furioso e ele se afastou. Por isso, agora, o eterno de algum modo está longe de nós e temos de encontrar um meio de restabelecer contato com ele.

Há duas ordens de mitos. Os grandes mitos, como o da Bíblia, por exemplo, são os mitos do templo ou dos grandes rituais sagrados. São explicativos dos ritos por meio dos quais as pessoas vivem em harmonia entre si e com o universo. É normal o entendimento dessas histórias como alegóricas.

Em quase todas as culturas, há duas ou três histórias da criação, e não apenas uma. Há duas na Bíblia, embora as pessoas as considerem somente uma. Você se lembra, no jardim do Éden, da história do capítulo 2: Deus pensa numa forma de entreter Adão, que ele tinha criado para ser seu jardineiro, para tomar conta do seu jardim. Esta é uma velha, velha história, tomada de empréstimo aos antigos Sumérios. Mas o jardineiro de Jeová está entediado. Então Deus tenta inventar brinquedos para ele. Cria os animais, mas tudo o que o homem pode fazer é nomeá-los. Aí Deus concebe essa magnífica idéia de extrair do próprio corpo do homem a alma da mulher – que é uma história de criação muito diferente daquela do capítulo 1 do Gênesis, em que Deus criou Adão e Eva, juntos, à sua imagem, como macho e fêmea. Ali, Deus, ele próprio, é o andrógino primordial. A história do capítulo 2 é, de longe, mais antiga, tendo se originado, talvez, por volta do século VIII a.C., enquanto a do capítulo 1 provém de um assim chamado texto sacerdotal, de cerca do século IV a.C., ou mais tarde.

Na história hindu da Identidade que sentiu medo, depois desejo e então dividiu se em dois, temos a contraparte do Gênesis 2. No Gênesis, é o homem, e não Deus, que se divide em dois.

A lenda grega, contada por Aristófanes no Banquete de Platão, é outra história dessa espécie. Aristófanes diz que, no início, havia criaturas compostas de partes que correspondem, agora, a dois seres humanos. Essas criaturas eram de três tipos: macho/fêmea, macho/macho e fêmea/fêmea. Os deuses, então, dividiram a todos em dois. Uma vez separados, tudo o que pensaram fazer foi abraçar se uns aos outros, de novo, a fim de reconstituir as unidades originais. Por isso passamos nossas vidas tentando encontrar, para tornar a abraçar, nossas metades.

MOYERS: Você está sugerindo que a mitologia é o estudo de uma única grande história da espécie humana? Qual é essa grande história única?

CAMPBELL: Que nós procedemos de um só fundamento de ser, como manifestações na esfera do tempo. A esfera do tempo é uma espécie de jogo de sombras sobre um fundamento atemporal. Jogando o jogo na esfera da sombra, você empenha o seu lado da polaridade, com todo o vigor. Mas você sabe que o seu inimigo, por exemplo, é apenas o outro lado do que você poderia ver, enquanto você mesmo, caso pudesse situar se numa posição medial.

MOYERS: Então a grande história única é nosso esforço para encontrar nosso lugar em cena?

CAMPBELL: Para entrar em acordo com a grande sinfonia que é o mundo, para colocar a harmonia do nosso corpo em acordo com essa harmonia.

#espiritualismo #Mitologia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/genesis-reload

O Uso Oracular do RPGQuest

O RPGQuest foi o maior Financiamento Coletivo de RPG no Brasil e, até agora, o terceiro maior entre os Jogos de Tabuleiro, mas o que pouca gente sabe é que ele traz dentro de si um conjunto oracular dos mais completos e complexos já criados, envolvendo Tarot, Runas e a própria Árvore da Vida.

Antes de começarmos, vamos explicar o que a Sincronicidade. Termo cunhado por Carl Gustav Jung para sua teoria de que tudo no universo estava interligado por um tipo de vibração, e que duas dimensões (física e não física) estavam em algum tipo de sincronia, que fazia certos eventos isolados parecerem repetidos, em perspectivas diferentes. Tal idéia desenvolveu-se primeiramente em conversas com Albert Einstein, quando ele estava começando a desenvolver a Teoria da Relatividade. Einstein levou a idéia adiante no campo físico, e Jung, no psíquico.

A sincronicidade é definida como uma coincidência significativa entre eventos psíquicos e físicos. Um sonho de um avião despencando das alturas reflete-se na manhã seguinte numa notícia dada pelo rádio. Não existe qualquer conexão causal conhecida entre o sonho e a queda do avião. Jung postula que tais coincidências apóiam-se em organizadores que geram, por um lado, imagens psíquicas e, por outro lado, eventos físicos. As duas coisas ocorrem aproximadamente ao mesmo tempo, e a ligação entre elas não é causal.

Desta maneira, quando se utiliza um Oráculo, o leitor está trabalhando o contato com o Sagrado Anjo Guardião e as cartas escolhidas, embora pareçam ter sido sorteadas ou escolhidas aleatoriamente, formarão uma história através do significado simbólico daquelas cartas e, ao ser interpretada, trará uma luz aos fatos que estão sendo perguntados.

O RPGQuest, além de sua utilidade como Boardgame para passar uma tarde de diversão, pode ser usado para o autoconhecimento através da Jornada do Herói em sincronicidade com sua própria Jornada naquele momento. Vou detalhar melhor isso com um exemplo de uma partida:

– Os territórios são formados por Esferas da Árvore da Vida, cada qual trazendo na forma de símbolos as características próprias daquela esfera, e são embaralhados formando uma Grande Ilha que se chama “Arcádia”. Nela serão sorteados três grandes Monstros que, por sua vez, são baseados nos Elementos da Alquimia e possuem uma Escala de dificuldade. Existem Combinações pareadas de todos os 4 Elementos, e graduações que variam de 12 a 18 em Dificuldade. Em uma Partida ritualística em Modo Oracular, o Leitor jogará sozinho ou cada um dos Jogadores terá seu próprio Desafio, que será sorteado entre os Desafios e representará o Problema a ser derrotado.

Os Monstros são representações simbólicas dos 4 elementos: Terra (Concretização, dificuldades no Reino Material); Ar (Razão, problemas no campo de trabalho/intelectual); Água (Emoção, problemas no campo emocional) e Fogo (Vontade, problemas em realizações de Projetos pessoais). A Combinação de 2 ou mais elementos deverá ser interpretada em sincronicidade ao que está acontecendo na vida do Jogador naquele momento.

Os símbolos podem aparecer na forma de um Observador Qliphotico (água/Fogo – um problema emocional que afeta um projeto importante), um Gigante Bestial (Ar/Terra – A dificuldade de se colocar um texto no papel), um Dragão (fogo/Terra – a dificuldade de concretização de um projeto importante), Cérberus (Agua/Ar/Terra – A dificuldade de entendimento em uma relação e trazer isto para algo mais concreto), uma Hidra (uma dificuldade no trabalho, onde cada problema resolvido parece criar mais problemas) e assim por diante… a intensidade dos Problemas em correlação aos Elementos sorteados indicam que tipo de problemas seu Herói (ou seja, você mesmo) terá de lidar em sua Jornada (o Ritual de enfrentamento deste Problema).

Os Heróis que farão esta jornada também são cartas e possuem poderes relativos aos Quatro Elementos da Alquimia. Podem representar a Terra (Guerreiros), o Ar (Ladinos, Espiões e Diplomatas), a Água (os Clérigos e Curadores emocionais) e o Fogo (os Magos e Intelectuais), e eles serão as forças que serão trabalhadas durante o ritual.

O Sorteio do Herói inicial também ocorre por Sincronicidade e você pegará UM Herói, que representará suas virtudes naquele momento. Pode ser um Personagem mais focado em resolver problemas concretos, em ajudar emocionalmente, em realizar tarefas intelectuais ou em tocar projetos de Verdadeira Vontade. As imagens e desenhos deles, em suas classes de heróis medievais, facilitarão todo o processo da Jornada.

E realiza-se o ritual jogando a partida solitária (ou, no caso de um grupo, cada um estará focado em resolver seu próprio Nêmesis). Ao longo do jogo, os Heróis vão resolvendo enigmas, solucionando missões e cumprindo tarefas dadas pelos Arcanos do Tarot, Runas e pelas Esferas da Árvore da Vida. Para quem já tem um conhecimento em Oráculos, pode interpretar os próprios Arcanos enquanto a Jornada vai se desenrolando. Os Heróis encontrarão com outros Aventureiros e poderão recrutá-los (escolher amigos e aliados representando as classes de energias que se deseja trabalhar e resolver, como Magos e Clérigos se o Desafio envolver estas dificuldades).

Se o Monstro apresentado possui desafios emocionais, busque cartas de curandeiros e clérigos para remediar a situação. Pesquise no interior das Cavernas: “Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta”. Muitos Artefatos estão disponíveis para serem encontrados pelos buscadores, e nesta partida oracular, cada um deles (são todos relacionados a Artefatos da História e do Hermetismo) trará uma parte da energia que falta ao Herói para derrotar sua sombra.

O Herói encontrará Ordens Iniciáticas, Artefatos (alguns amaldiçoados), Cavernas a serem exploradas e quem sabe até a Pedra Filosofal?

O Jogo é o Ritual. Cada Jogador se torna mais próximo de compreender o problema real ao mesmo passo em que o Aventureiro se torna mais próximo de conquistar o poder que precisa para derrotar o Grande Desafio da partida. Os Arcanos do tarot vão guiá-lo através das Esferas da Árvore da Vida. Algumas Esferas mais difíceis de serem trilhadas, outras mais fáceis.

As Esferas da Árvore da Vida, as Runas e os Arcanos do Tarot guiarão o Herói até a solução do Grande Problema.

O Financiamento Coletivo oficial já terminou, mas fizemos cerca de 200 unidades a mais do que as que foram vendidas no Projeto e abrimos pré-venda por mais 30 dias enquanto o Jogo está sendo produzido na gráfica (e já vendemos umas 30 até agora, então restam 170 jogos e o RPGQuest não será reimpresso). É a sua última chance de poder apoiar este projeto único que trabalha Jogos, Alquimia e Hermetismo! Uma maneira bacana de ensinar hermetismo para seus filhos e também para utilizá-lo em suas meditações.

Você pode comprar o RPGQuest aqui:

https://daemoneditora.com.br/categoria-produto/boardgames/

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Angel Tech: Guia de um xamã moderno para seleção de realidades

Perder-me na seção de religiões da minha livraria favorita costumava ser puro prazer cerebral… um prazer incomparável. Isso foi antes da invasão dos livros da Nova Era e de auto-aperfeiçoamento que, nos últimos anos, inundaram as estantes e empurraram para fora as gemas clássicas e mais obscuras da tecnologia psíquica. Você não pode mais encontrar os paradigmas cristalinos do Ensino Superior sem esbarrar em mais bobagens de palavras da moda. Ironicamente, devido à popularidade vertiginosa da Metafísica em geral, uma diluição generalizada de informações espirituais genuínas passou para a seção de história e filosofia. Talvez seja um sinal dos tempos, quem sabe? Não sei e, francamente, não quero saber. Metafísica para os Milhões não é minha praia.

Balançando em meio ao rio lamacento da literatura oculta está Angel Tech: A Modern Shaman’s Guide to Reality Selection (Angel Tech: Guia de um xamã moderno para seleção de realidade), de Antero Alli ,um residente de Boulder, Colorado, com um prefácio de Robert Anton Wilson, famoso por Cosmic Trigger. “Seleção de realidade”, hmmm… isso me chamou a atenção. Não é exatamente um livro de auto-ajuda ou um tratado metafísico, Angel Tech é (em suas próprias palavras), “um manual de sobrevivência para anjos caídos que acabaram com suas respostas congeladas aos pesadelos ao nosso redor”. Várias frases depois, ele nos instrui a: “voar mais alto, plantar os dois pés firmemente no chão… chão”. O título também é um pouco enganador, porque Angel Tech não é sobre anjos em si; pelo menos não do tipo pintado por artistas e descrito na Bíblia. Para citar mais uma vez o texto, “Um anjo é um ser de Luz. Tech vem de techne, significando arte ou habilidade. Angel Tech é a Arte de Ser Luz… Somos, em essência, seres de luz.”

Alli assumiu a responsabilidade de redefinir a terminologia comum, bem como criar palavras próprias para descrever sua jornada psíquica. Esta jornada atravessa a Lei das Oitavas e Harmônicos traduzidos na visão evolutiva das funções da Inteligência Única. Seu destino é a incrível tarefa de Aumento de Inteligência. O formato da lei dos oitos é tão antigo quanto as Escolas de Mistério Sufi e vigoroso o suficiente para atrair o próprio Gurdjieff. Mais recentemente, o guru patife Timothy Leary pegou e escreveu sua obra, Exo Psychology (também esgotada), um dos livros de origem da Angel Tech. O que diferencia a Angel Tech de outras interpretações desse sistema óctuplo é seu brilho cômico e algumas ilustrações histericamente perversas. Também visivelmente ausente é o tipo de dogma que quase sempre acompanha assuntos como este. (O autor nos lembra constantemente que o livro é um mapa e não o território em si, e que nós, leitores, devemos fazer nossos próprios mapas tão rápido quanto absorvemos informações para minimizar a constipação psíquica.)

Este livro não é para todos. Considere a seção intitulada Mecânica do Karma, que é “um curso de estudo mais adequado para robôs auto-realizados”. Quem vai admitir a seu papel de robô? Gurdjieff e sua espécie certamente o fizeram, mas não sem muito trabalho. Mais adiante nesta seção há outro chamado Problemas Mecânicos que, com detalhes meticulosos, explora os sintomas, causas e ajustes necessários para “robôs enlouquecidos”… em termos leigos, o processo de consertar pessoas quebradas. Apesar da leitura bastante densa nesta seção, Alli conseguiu me atrair com seu humor, que às vezes é implacável. Para o neófito não iniciado, Fred Mertz (lembra-se, do programa I love Lucy?) ressuscitou ao status espiritual de Bodhisattva com o propósito de transmitir sua compaixão através do “meio neuroeletrônico da televisão nas reprises…” Se Fred Mertz é um Avatar da Nova Era, então eu sou o papa. E em algum universo paralelo, provavelmente sou mesmo.

Angel Tech não é uma leitura fácil. Suas 380 páginas descrevem uma abordagem abrangente para reprogramar sua mente. O único outro autor que conheço que apresentou uma visão tão lúcida desta digna tarefa é o Dr. John Lilly (Simulations of God, Center of the Cyclone, etc.). Mais uma coisa surpreendentemente perdida da Angel Tech são os endossos pró-drogas que proliferam em livros de predecessores como Leary, Wilson e Lilly. A fórmula de Alli para Brain Change vem diretamente do próprio biocomputador humano. Técnicas para flexionar os músculos psíquicos são abundantes na Angel Tech. Os tópicos de pesquisa incluem Arrebatamento, Carisma, Ritual, Desenhando um Tarô, Alquimia, Sincronicidade, Astrologia, Rituais do Sonho e Fator X… se ao menos eles tivessem nos ensinado essas coisas quando fomos para a escola. E ao longo de tudo isso, uma corrente sublinhada chamada “aterramento” conecta o que é psíquico à terra. Só isso, na minha opinião, já vale o preço do ingresso.

Às vezes, este livro fica no limite entre a redundância e a repetição instrutiva com a esperança de levar seu ponto para casa. Esse ponto parece ser a autorresponsabilidade e a necessidade de se definir ou ser definido pelos outros. Alli dá como certo que os leitores já entendem que eles criam sua própria realidade, então não há muita escolaridade sobre isso.  É, talvez, por esta razão que o público da Angel Tech permanecerá limitado àqueles que atualmente projetam seu próprio programa. Desta forma, a Angel Tech é até elitista. Ele se recusa a tentar alcançar todo mundo. No entanto, as pessoas que tocarão serão mais ricas devido à falta de compromisso de Alli. Não é um livro totalmente inacessível, mas é baseado em uma suposição bastante radical. Ele falha em reconhecer a divisão entre os Eus Inferiores e Superiores que a maioria dos livros metafísicos quase divinizam. Meu palpite é que Alli é uma espécie de anarquista que encontrou seu caminho no sistema. Sua paixão por aniquilar a hierarquia com o propósito de desmistificar as comunicações é difícil de ignorar.

O que eu achei a parte mais atraente de Angel Tech foi que a seção chamada Capela Perigosa, que poderia ter sido expandida e reescrita como outro livro. Para aqueles familiarizados com o Cosmic Trigger de Robert Anton Wilson, a menção da Capela Perigosa deve tocar os sinos do inferno. De acordo com Alli, a Capela é um “lugar para onde as almas vão depois de serem catapultadas para fora de seus corpos, tateando sem rumo pela outra metade… enquanto seus corpos permanecem vivos, no automático, andando pelo planeta” (parafraseado). Esta seção do livro explora o processo de “Iniciação como resposta criativa ao choque do desconhecido”. É apresentado dramaticamente como Oito Sermões contados a uma congregação de almas perdidas por um padre que lembra vagamente os Sermões dos Mortos no final do livro de Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões. Os títulos dos sermões incluem: Paixões Fatais, Suicídio e Livre Arbítrio, Céu e Inferno, A Crucificação… entre outros. A Capela Perigosa não é um lugar bonito para se estar e Alli olha através de seus vitrais, sombriamente.

Angel Tech é o livro um de uma trilogia chamada Manual de Referência de Operadores de Campo. Os outros dois livros, All Rites Reversed e The Akashic Record Player, serão lançados. Até lá, recomendo esta viagem irreverente e alucinante de um livro, Angel Tech, e espero mais de Alli.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/angel-tech-guia-de-um-xama-moderno-para-selecao-de-realidades/

Lon Milo DuQuette fala sobre Goétia

Lon Milo DuQuette, célebre ocultista, emérito escritor é um dos principais membros da Ordo Templi Orientis e da Igreja Gnóstica Católica nos Estados Unidos. Recentemente teve uma de suas obras publicada em português pela Editora Madras, trata-se do “A Magia de Aleister Crowley, Um Manual dos Rituais de Thelema”. Lon escreveu muitos livros importantes e reconhecidos, entre eles estão: “Angels, Demons & Gods of the New Millennium”, “Enochian Vision Magick” e “The Key to Solomon’s Key: Secrets of Magic and Masonry”. Junto com Christopher Hyatt publicou os excelentes “Aleister Crowley’s Illustrated Goetia: Sexual Evocation” e “Enochian World of Aleister Crowley: Enochian Sex Magick”.

Aos sessenta anos de idade, Lon está em plena atividade: além de suas inclinações literárias, DuQuette dá palestras, cursos, seminários e workshops por todo o mundo e produz séries de DVD’s como o box “The Great Work – Iniciation Into the Mysteries”.

Mesmo com uma agenda bastante atarefada e com mais de mil e-mails para responder, Lon nos concedeu uma breve entrevista para falar sobre Goetia. Com a Palavra, Lon Milo DuQuette…

1. Cada Magista possui motivações próprias para praticar a Goetia. Em sua opinião, em quais ocasiões o Magista deveria utilizar a Goetia?

DuQuette – Em minha opinião, a natureza do trabalho Goético é tal que o Magista deve ter uma estaca emocional muito forte no sucesso da evocação.

Para mim, a evocação Goética funciona melhor quando já exauri todos os outros meios para resolver um problema, ou seja, quando não tenho outra escolha.

O problema deve ser de caráter pessoal. Eu aprendi que é desastroso tentar fazer uma evocação Goética para outra pessoa ou junto com outra pessoa.

2. É possível estabelecer uma relação entre a Goetia e o conceito de Sombra de Jung? Como?

DuQuette – Eu não conheço muito sobre Jung, então prefiro não dizer.

3. Goetia é significado de baixa magia para você? Porque há tantos escritores e ocultistas que a condenam?

DuQuette – Quando você evoca um Espírito Goético, você evoca uma espécie de aventura, uma experiência incomum. Essas “aventuras” raramente são agradáveis, na maioria das vezes a experiência é completamente desagradável.

Em todo caso, a evocação terá idealmente o caráter de construir a experiência que o fortalecerá e o transformará no tipo de pessoa que fará com que a sua vontade aconteça. Frequentemente essas experiências podem ser consideradas “baixas e sujas”.

Algumas pessoas consideram Goetia como baixa magia porque na maioria das vezes esse caminho é muito áspero, árduo.

Em minha mente isso poderia ser considerado “baixo” somente porque você está lidando com forças cegas sobre as quais você jamais teve controle antes da evocação.

Isso pode parecer “baixa magia” para pessoas que pensam que Magick é só com anjinhos fofinhos.

4. Em sua opinião, qual é a importância da Goetia para a espiritualidade do Magista?

DuQuette – Pode ser vitalmente importante. Isso depende somente do Magista. Ignorar “o que está abaixo” não é uma boa idéia.

5. O que podemos aprender com essas práticas?

DuQuette – Você pode aprender muito sobre você mesmo nas operações Goéticas.

As pessoas costumam dizer que a Goetia traz o pior daquilo que está no Mago.

Eu lhes falo: Sim! É exatamente isso que deve acontecer!

Trazer o pior de você para que você possa se confrontar com isso… Conquistar isso…

Redirecionar esse poder aterrador para que ele trabalhe por você e não contra você.

6. Qual é a origem dos Espíritos da Goetia? Astaroth, por exemplo, ele possui alguma relação com a Deusa Astarte dos fenícios ou o espírito da Goetia chamado Astaroth é um ser absolutamente independente? Poderia explicar?

DuQuette – É óbvio que muitos dos 72 Espíritos listados na Goetia são corrupções de deidades pagãs. Mas de fato eu não vejo estes como sendo muito mais do que nomes ligados a arquétipos mais genéricos.

7. Conheço praticantes que não executam banimentos após as operações de Goetia. Essa prática é nociva? Os banimentos são recomendados?

DuQuette – Eu faço banimentos antes e após evocações Goéticas. Isso faz parte de minha rotina operacional. Outros Magistas podem se sentir mais confortáveis sem os banimentos. É uma questão que deve ser resolvida por eles.

8. Um espírito da Goetia pode se manifestar através da voz de um ser humano numa operação mágicka? Algo semelhante a uma “possessão” ou estado de transe? Em quais circunstâncias isso seria possível?

DuQuette – Eu acredito que sim, é claro. Eu não me preocupo como isso pode ser possível. Acima de tudo, isso é Magick…

9. Muito se fala sobre os modos de operação da goetia. Quais técnicas poderiam ser recomendadas?

DuQuette – Eu só posso falar sobre o melhor método para mim. Minha técnica é “bem baixa”. Uso uma corda fina de seda negra para fazer o círculo e um triângulo. Não uso as conjurações clássicas, prefiro fazer minhas próprias invocações e conjurações.

10. Tendo evocado o espírito o que garante que ele irá cumprir a vontade do Magista?

DuQuette – O Espírito faz aquilo que é falado ou não faz. Se ele não faz então deve-se evoca-lo novamente e ter uma conversa mais forte com ele. Se após várias tentativas o espírito não resolver cooperar, deve-se considerar a hipótese de conjurá-lo novamente para sua total aniquilação. Eu só tive que fazer isso uma vez.

11. Quais conselhos você daria aos estudantes e Magistas sobre Goetia?

DuQuette – Não mudem de idéia sobre aquilo que querem no meio de uma conjuração.

A tentação para que isso ocorra vem do Espírito que está sendo evocado. Isso foi feito contra você sua vida inteira.

fonte: http://www.mortesubita.org

#Goécia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/lon-milo-duquette-fala-sobre-go%C3%A9tia

Alquimia no Ritual de Iniciação Demolay

Texto do meu irmão Hamal,

O Ritual de Iniciação é de fato um dos momentos mais marcantes em toda Ordem DeMolay. É como se algo fosse implantado, ou despertado, dentro de nós.

A Sala Capitular contêm em si um simbolismo em tudo que há lá, esse simbolismo é herança do que Frank Marshall chamou de “nossos antepassados”. Não há nada que não exista uma ligação ou um motivo de estarem inseridos nos Rituais da Ordem DeMolay. Isso fica bem claro a todo estudante do simbolismo ritualístico, e foi exatamente o que Frank S. Land disse aos primeiros DeMolays antes de suas Iniciações.

A Iniciação tem por objetivo apresentar uma nova realidade ao Neófito. É uma experiência que propõe uma mudança em sua personalidade, para que este tome um novo rumo em sua vida diária com o juramento que lhe é proposto e as virtudes que lhes são apresentadas.

Nossos antepassados são os Hermetistas, são aqueles que criaram a ciência iniciática mais antiga na terra: a Alquimia. Vamos recorrer a seus legados para decifrar esse mistério dentro da Iniciação.

Será mesmo que existe isso na Ordem DeMolay? Vejamos…

ALQUIMIA

Já fizemos uma pequena descrição sobre a Iniciação e a Alquimia no texto Iniciação – Hermetismo e Alquimia, e recomendamos fortemente a releitura desse importante texto para a ideal compreensão do que é Alquimia e qual sua relação com as Ordens. Esse é talvez o assunto de maior importância do blog.

Ao procurarmos sobre “Alquimia” na internet nos deparamos com informações de quais seriam seus objetivos, sua história, alquimistas famosos, etc. Vamos tentar ser claros e rápidos, pois teremos textos específicos sobre o assunto.

Alquimia tem duas possibilidades de origens históricas, o antigo Egito dos Faraós e as primeiras eras da China, apesar de sabemos que foi praticada por todo o globo de maneira semelhante. O objetivo dos alquimistas eram diversos e se destacavam na construção da Pedra Filosofal, que daria sabedoria, saúde e vida eterna ao alquimista, e na transmutação dos metais em ouro.

Os alquimistas foram os primeiros cientistas. Estudavam e analisavam em seus laboratórios como o mundo funcionava, penetravam por trás das aparências procurando as Leis que regem a Terra e os Céus, procurando o porquê disso tudo existir da maneira que existe. E atribuíam um símbolo sagrado por trás de cada descoberta.

Da Alquimia surgiu a medicina como ciência de curar os enfermos com a manipulação dos produtos da natureza, a Astrologia como ciência de prever as mudanças na natureza pelos astros, a Geometria como ciência dos estudos matemático da Terra e seus componentes, o Hermetismo como síntese simbólica e linguagem da Alquimia, a Química como estudo dos elementos e suas interações, a Engenharia e Arquitetura como arte de construir com as mesmas proporções da natureza, entre outras.

Mas isso tudo era antigamente. Hoje, num mundo completamente diferente, devemos nos perguntar “qual o valor que teria a alquimia em nossas vidas além de um conhecimento histórico”?

O grande Carl Gustav Jung desvendou esse véu e percebeu que a Alquimia é fonte de estudo para a psique humana, mostrando que dentro das ciências Herméticas encontram-se as chaves para decifrar o Inconsciente. Destaquemos aqui suas próprias palavras do livro “Psicologia e Alquimia”:

“A alquimia movia-se de fato sempre no limite da heresia e era proibida pela Igreja. Ela desfrutou entretanto da proteção eficaz da obscuridade de seu simbolismo, que a qualquer momento podia ser explicado por uma alegoria inofensiva. Para muitos alquimistas, o aspecto alegórico se achava de tal modo em primeiro plano, que estavam totalmente convencidos de tratar-se apenas de corpos químicos. Outros, entretanto, consideravam o trabalho de laboratório relacionado com o símbolo e seu efeito psíquico. Tal como demonstram os textos, esses alquimistas tinham a consciência do efeito psíquico, a ponto de condenarem os ingênuos fazedores de ouro como mentirosos, trapaceiros ou extraviados. Proclamavam seu ponto de vista através de frases como esta: “aurum nostrum non est aurum vulgi” (nosso o ouro não é o ouro vulgar).

Seu trabalho com a matéria constituía um sério esforço de penetrar na natureza das transformações químicas. No entanto, ao mesmo tempo era – e às vezes de modo predominante – a reprodução de um processo psíquico paralelo; este podia ser mais facilmente projetado na química desconhecida da matéria, uma vez que ele constituía um fenômeno inconsciente da natureza, tal como a transformação misteriosa da matéria. A problemática acima referida do processo do desenvolvimento da personalidade, isto é, do processo de individuação, é expressa no simbolismo alquímico.”

O estudo de Jung sobre Alquimia destaca uma coisa importantíssima que deve ser atentada a todo estudante de Hermetismo. Demonstra a validade das ciências ocultas para com o entendimento do ser humano e sua evolução para o que Jung chamou de Individuação, que é a pessoa tornar-se Si Mesma, alguém inteiro e completo. Para Jung, “processo do desenvolvimento da personalidade, isto é, do processo de Individuação, é expressa no simbolismo alquímico”. Isso é a transmutação do Chumbo em Ouro dos alquimistas, é o processo psicológico de Individuação, é a maturação que devemos ser em vida.

Nossos antepassados bem sabiam o que faziam e estudavam, e temos em nossas mãos seus legados.

As etapas da Alquimia, sua relação com a psique, a transmutação dos metais, Pedra Filosofal, e toda essa “obscuridade do simbolismo” como referido por Jung, voltaremos a estudar e entender melhor, já que os Templários também são alvo de nosso estudo e estes refugiaram e patrocinaram muitas Guildas de Pedreiros-Alquimistas na Idade Média.

Vamos entender agora a relação da Alquimia com o processo da Iniciação DeMolay.

PRINCÍPIO DO GÊNERO

O Sétimo Princípio descrito no Caibalion é este: “O Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e seu princípio feminino o gênero se manifesta em todos os planos”.

Esse ensinamento se baseia na seguinte observação do Universo: tudo existem a partir de dois gêneros, para todo positivo existe seu negativo, em todos os planos de existência há sua contra parte, no físico, emocional, racional, energético, etc. Temos o dia e a noite, o veneno e o antídoto, o bem o mal, o macho e a fêmea, o macro e microcosmo, o quente e o frio, o animo e anima na psique, a vida e a morte, até mesmo a gravidade tem sua oposição na energia escura e os átomos tem suas cargas opostas para poderem existir.

Segundo a Tradição é dito que Deus criou tudo em dualidade para que pudesse existir e evoluir, e isso só é possível através do Princípio do Gênero que tem como meta a união dos opostos para haver a criação. Sem oposição não há criação nem evolução!

O Sol e a Lua foram tomados pelos Alquimistas como símbolos opostos que representam o “Grande Pai” e a “Grande Mãe” criadores de tudo. Enfatizemos que isso são símbolos e não uma crença cega. Quando os antigos adoravam o Sol estes estavam adorando a energia da Criação em seu princípio Masculino, e a Lua como princípio feminino. E para quem acha que esses cultos Solares e Lunares acabaram, revejam a origem de festas como Natal, Páscoa, Festa Junina e da Missa. São as mesmas energias que invocamos em nossa Ritualística.

Esses dois astros são opostos em suas energias e finalidades, mas a atuação de ambos é o que mantêm a vida na terra possível de existir e evoluir (isso é estudar Astrologia!). Reveja seus simbolismos nos textos: O Símbolo do Sol e O Símbolo da Lua.

A união do Sol com a Lua, na Alquimia, recebe uma denominação especial: Casamento Alquímico. Assim é denominado a união entre macho e a fêmea de maneira sagrada. E a Iniciação é uma nova vida sendo criada: a vida como Iniciados. A Iniciação da Ordem DeMolay, em especial, explora muito esse simbolismo alquímico.

Vejamos como…

Sabemos que o Altar é o ponto simbólico onde o plano espiritual é invocado e se espalha por toda Sala Capitular, é onde colocamos os utensílios para a Invocação. O Altar é a representação do Sol na arquitetura sagrada. É no Altar onde o Iniciado recebe a Luz. Durante a Iniciação os 23 Oficiais formam um certo símbolo ao redor do altar, e esse símbolo contem em seu centro a Lua.

No momento em que somos consagrados como DeMolays há o Casamento Alquímico entre o Sol e Lua e uma nova vida é criada, recebemos a Luz como DeMolays. E há muito mais. Que essa pequena revelação possa servir de inspiração aos irmão a buscarem ainda mais do que não pode aqui ser dito.

Revejam a imagem do inicio da postagem. Esta imagem simboliza o exato momento da nova vida sendo criada, a união alquímica entre o Sol e a Lua e o Pombo, símbolo do Espirito Santo, descendo para implantar a vida ao produto dessa união. É o próprio momento da Iniciação. Lembrem-se do Oficial que conduz os Iniciados em suas 9 voltas que representam a Vida e o Dia de Trabalho…

Nossos antepassados bem sabiam. Isso é Magia Cerimonial da Ordem DeMolay, e isso é Alquimia.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/alquimia-no-ritual-de-inicia%C3%A7%C3%A3o-demolay

Dion Fortune

Batizada com o nome de Violet Mary Firth Evans, Dion Fortune nasceu em Wales no dia 6 de dezembro de 1890, na cidade de Bryn-y-Biam Liandudno em North Wales. Desde cedo Violet já demonstrava habilidades foras do comum; relatando visões de Atlântida com a idade de quatro anos, se lembrando de vidas passadas. Quando contava com 12 anos sua familia se muda para Somerset e dois anos depois sua família se converte para a Ciência Cristã. Esta conversão fez com que a família entrasse em uma período de muitas mudanças, indo viver em diferentes partes de Londres onde Sarah Jane, mãe de Violet, exercia a prática de curandeira. Ainda criança Violet se mostrava possuidora de uma imaginação muito criativa e dona de talentos literários, seu primeiro livro, ‘Violets’, foi publicado em 1904, quanto contava com 13 anos, e teve um poema publicado em 1906 em uma revista de circulação nacional, a ‘The Girl’s Realm’.

Cedo em sua vida se viu envolvida por estranhos acontecimentos. Um evento chave ocorreu quando ela tinha 20 anos que definiria o rumo que daria a sua vida. No verão de 1911 os pais de Violet decidiram enviá-la a uma faculdade, e escolheram o Studley Horticultural College. A diretora da Universidade era a Dra. Lillias Hamilton que por si só tinha um currículo interessante: graduada como doutora em 1890 (um grande feito para uma mulher naquela época), ela viajou para a Índia, onde foi trabalhar em Calcutá. Em 1984 foi apontada como médica da corte do Amir do Afeganistão, aquele era um período conturbado na região e por causa de insurreições de tribos afegãs a Dra. Hamilton teve que abandonar o pais e retornar à Inglaterra, viajando depois para a Africa do sul, onde criou e administrou uma fazenda, retornando a Londres posteriormente enquanto seu irmão dirigia a fazenda. Violet estudou por dois anos na universidade, sem maiores complicações, inclusive escrevendo peças para serem encenadas. Isso durou até que ela percebeu que algumas de suas colegas sofriam de alguns males físicos aparentemente sem causas naturais. Após algumas investigações ela descobriu que a Dra. Hamilton, a diretora, poderia ser a responsável, e decidiu deixar a universidade. Quando foi falar com a diretora para anunciar seu afastamento, a Dra. Hamilton, apesar de seriamente incomodada com a situação deixou que Violet abandonasse o curso dizendo: “Muito bem, deixe a faculdade se tiver que ser assim, mas primeiro você deve admitir que é uma incompetente”. Ela então começou a encarar a garota dizendo repetidamente que Violet não possuia qualquer auto-confiança e era incompetente. Isto se prolongou por horas, sempre repetindo a mesma frase: “Você é incompetente e sabe disso. Você não tem nenhuma auto-confiança e tem que admitir”. Com o passar dos minutos Violet foi sendo minada e finalmente admitiu as coisas que a Dra. falava, apenas para se livrar daquela situação anormal. Esse ocorrido resultou em um colapso nervoso que devastou tanto a mente quanto a saúde da garota por mais de três anos.

Ela conseguiu abandonar a instituição logo após este episódio e durante os meses que se seguiram começou a estudar psicologia como forma de reconquistar o controle pleno de sua mente e sua vida, assim ela começou a frequentar os cursos de Psicologia da Universidade de
Londres (não existia ainda uma faculdade própria para o assunto) e, em 1912. Talvez pelos dotes do cozinheiro, talvez pelo ambiente, nesta época, ao invés de frequentar o refeitório da universidade, Violet almoçava em uma cantina no centro da cidade, cantina esta administrada pela Sociedade Teosófica. Foi então que teve uma segunda experiência fora do comum. Certo dia, levada pela curiosidade, atendeu a uma das palestras da Sociedade Teosófica, o assunto era telepatia mental. Para seu completo assombro, durante a palestra foram propostos alguns exercícios simples e ela descobriu que era capaz de ler imagens que estavam sendo projetadas pela mente do palestrante. Após anos de estudo sobre os trabalhos e obras desenvolvidas por Freud e Jung, ela concluiu que nenhum dos dois havia se aprofundado adequadamente nos mistérios da mente humana, apesar de seus esforços e avanços, muitos dos nuances daquilo que chamamos consciência permaneciam inescrutáveis pelas técnicas psicológicas e psiquiátricas da época.

Violet se graduou e tornou-se terapeuta na East London Clinic e na Medico-Psychological Clinica em Brunswick Square. Durante este período começou a se ver envolvida com fenômenos que não podiam ser inteiramente explicados pela ciência, um estudante de um de seus pacientes estava sendo alvo de fenômenos físicos anormais: na sua presença portas se escancaravam sozinhas e cachorros entravam em frenesi, latindo e uivando. Colocando todo seu conhecimento em prática, ela se viu incapaz de prestar qualquer auxílio ao rapaz e acabou pedindo ajuda a um irlandês misterioso e cheio de carisma que acabava de retornar à Inglaterra de uma estadia na África do Sul. Seu nome era Theodore Moriarty. Juntos foram visitar o estudante e viram, no local onde ele morava, todos os fenômenos ocorrendo, Moriarty, um ocultista e maçom experiente, percebeu uma entidade presente no cômodo e depois de uma perseguição pela casa conseguiu prendê-la no banheiro e então destruí-la, o confronto foi tão violento que Moriarty terminou caído inconsciente no chão.

O episódio com Moriarty, que se tornou seu primeiro mentor, assim como suas experiências passadas, fez com que Violet mergulhasse de cabeça no ocultismo, estudando e desenvolvendo suas próprias habilidades psíquicas. A ela interessava especialmente como certos rituais místicos e orientais podiam provocar certos estados psicossomáticos, e foi nesta época que se tornou visitante constante da Sociedade Teosófica e durante seus estudos esotéricos, tomou conhecimento da Grande Loja Da Fraternidade Branca, e dos grandes mestres secretos que não possuem mais um corpo físico mas que auxiliavam a humanidade a evoluir. Entrar em contato com os Mestres Secretos se tornou sua obsessão. Foi essa busca que fez com que fosse iniciada, em 1919, no Templo Alpha et Omega, sendo depois transferida para a Ordem Stella Matutina, a ordem que mais tarde se tornaria a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn). É neste ponto que Violet Mary Firth adota o nome de Dion Fortune, inspirado pelo lema de sua familia “Deo, non fortuna”, frase em latim que significava “por Deus, não pelo destino”.

O desenvolvimento esotérico e oculto de Dion Fortune amadurecia a cada dia que se passava. Ela começa a escrever uma série de novelas e histórias que abordavam vários aspectos da magia e do esoterismo, alguns deles de cunho auto biográfico como The Secrets of Dr. Taverner, uma coleção de histórias curtas baseadas em experiências que teve com Moriarty, na qual podemos ler alguns estudos de casos fictícios nos quais processos mágicos e psicológicos estavam mesclados. Talvez por nunca ter buscado a fama ela não fosse muito conhecida no meio mágico em sua época, mas sua influência era inegável, duas de suas obras, por exemplo, The Sea Priestess e Moon Magic, tiveram uma influência enorme no desenvolvimento da religião Wicca, que estava se formando na época, até hoje a dívida do paganismo com Dion é enorme, seja em seus ritos e costumes, seja no desenvolvimento da sua mitologia[1].

E veio então a década de 1920. Quando o mundo viu a Grande Guerra se encerrar, Dion encontrou seu próprio campo de batalha. Por causa de alguns de seus escritos, como o The Secret of Dr. Taverner e uma série de artigos para o periódico The Occult Review, Dion ganhou a inimizade de Moina Mathers, esposa de MacGregor-Mathers, o fundador da Golden Dawn, e por causa disso se tornou alvo de uma série de brutais ataques. Moina acreditava que os segredos da Ordem deveriam permanecer dentro da Ordem, e Dion simplesmente publicava material fechado par amembros para quem quisesse ler, e assim Dion foi expulsa da Ordem sob a alegação de que os símbolos de um real iniciado não estarem presentes em sua aura, na mesma época ela começou a se sentir inundada por um grande “sentimento geral de um vago mal-estar” que “gradualmente amadureceu em um nítido sentimento de ameaça e antagonismo”, neste mesmo período começou a ter visões de rostos demoníacos. Foi então que fenômenos físicos começaram a se manifestar, sua vizinhança foi invadida por gatos negros em tal quantidade que o caseiro do vizinho “retirava montes de gatos da soleira da porta e do parapeito da janela com uma vassoura, e declarou que nunca na vida vira tantos gatos juntos”. Quando Fortune se deparou com um “gigantesco gato listado, duas vezes maior que um tigre” na escada de sua própria casa, decidiu reagir e assim teve início um duelo mágico entre as duas mulheres. Dion, pedindo a ajuda dos Mestres Secretos, obteve sua vitória, mas como lembrança da batalha suas costas ficaram “marcadas por arranhões como se houvessem sido unhadas por um gato gigantesco”.

Seu amigo e mentor Theodore Moriarty morre em 1923, e nesta época ela se une ao Christian Mystic Lodge (Místico Templo Cristão) da Sociedade Teosófica, por causa de uma visão poderosa que teve que mostrava a necessidade que ela tinha de começar abraçar o cristianismo em seus estudos, se tornando Presidente da ordem em pouco tempo. Mesmo assim ela não estava satisfeita com o rumo que a Sociedade Teosófica estava tomando e no Solstício de Inverno de 1928 ela criou os “Mistérios Menores da Luz Interior, uma fraternidade que não demorou a se tornar uma poderosa escola iniciática, tendo como alguns de seus membros célebres, Coronel C.R.F. Seymour e Christine Hartley. Nesta época conheceu o médico Thomas Perry Evans, que também possuía interesses no ocultismo e acabou se tornando seu marido em 1927. Juntos eles trabalharam como Sacerdote e Sacerdotiza da ordem. Doze anos depois os dois se divorciam e Dion aluga uma propriedade em Londres e a dedica aos Mistérios de Isis.

Enquanto isso o mundo via com apreensão sombras negras se formarem no cenário político da Europa, e aquilo que se tornaria a Segunda Guerra Mundial começava a tomar forma. Dion Fortune então se engajou em uma segunda guerra pessoal: a Batalha Mágica da Grã Bretanha. Esta foi uma guerra travada por ocultistas que desejavam terminar com a Segunda Guerra Mundial, oferecendo auxílio mágico para os exércitos ingleses e ataques mágicos contra os Nazistas. Esta batalha ficou registrada pelas cartas que ela enviava a estudantes e posteriormente reunidas no livro Magical Battle of Britain.

Durante sua vida Dion Fortune começou a escrever obras não mais dedicadas à ficção, mas a registros de tudo o que viveu e descobriu. Apesar de seus contos e novelas terem um grande embasamento ocultista, já que ela acreditava que as histórias eram a melhor forma de mostrar como colocar em prática a sabedoria adquirida com seus estudos, ela se decidiu que muito do conhecimento da época seria perdido ou corrompido caso não fosse registrado de maneira mais adequada, e assim escreveu obras que se tornaram marcos até os dias de hoje para qualquer estudante de magia e ocultismo e mesmo para praticantes experientes. Livros como A Cabala Mística e Auto-Defesa Psíquica se tornaram obrigatórios nas bibliotecas de muitos estudiosos, outras obras, embora menos conhecidas, como Through the Gates of Death e vários de seus livretos também trazem o reflexo de alguém que passou a vida se dedicando ao conhecimento da mente e da alma humana.

Em janeiro de 1946, Dion Fortune se viu envolta em uma onda de cansaço e mal-estar, e foi internada no Hospital Middlesex de Londres, onde foi diagnosticada com Leucemia, morrendo alguns dias depois. Muitos afirmam que a doença se desenvolveu por causa das batalhas travadas durante o período da Batalha Mágica, que acabaram exigindo muito esforço e foi a causa de muitas baixas no mundo ocultista.

A Sociedade da Luz Interior está em atividades até os dias de hoje em Londres e de lá já surgiram alguns ocultistas de renome como Walter Ernest Butler  e Gareth Knight, ambos com a sorte de serem discipulos de Dion Fortune

Obras de Dion Fortune

– Aspectos do Ocultismo
– Através dos Portais da Morte
– Autodefesa Psíquica
– A Cabala Mística
– A Doutrina Cósmica
–  A Filosofia Oculta do Amor e do Matrimônio
– Glastonbury
– Magia Aplicada
– Magia Ritual
– Ocultismo Prático na Vida Diária
– As Ordens Esotéricas e Seu Trabalho
– Paixão Diabólica
– Preparação e Trabalho do Iniciado
– Sacerdotisa da Lua
– Sacerdotisa do Mar
– Os Segredos do Dr. Taverner
– Ocultismo São
– O Deus com Pés de Bode

[1] Para se ter uma idéia, os aspectos místicos da série Brumas de Avalon foram tirados das obras de Dion Fortune.

1890-1946

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/dion-fortune/

Aceitação da Sombra e Felicidade Pessoal

O caráter antagônico da Natureza é descrito pela literatura, pela psicologia e pela filosofia.

 

Foi Heráclito quem primeiro descreveu a função reguladora dos contrários, mostrando que, em algum momento, as coisas correm em direção ao seu contrário.

 

Foi seguindo os caminhos da Natureza que Jung descreveu este mesmo jogo antagônico na psique humana.

 

Demonstrou a inclinação natural da psique de convergir na direção a um Centro – para o Si-mesmo.

 

Jung chama a atenção para o perigo de haver identificação com um dos pólos, o que resultaria em doença psíquica. A unilateralidade romperia a tensão necessária para manter o equilíbrio e a saúde psíquica.

 

O oposto da atitude consciente é a sombra, que, ao ser reprimida, faz pressão para se manifestar. Daí a necessidade de se procurar conectar a força oposta da

consciência.

 

Como acredita Jung, “é no oposto que se acende a chama da vida”.

 

Jung alerta que o confronto com os opostos, e a sua integração, é fundamental para o processo de individuação, para se alcançar a Totalidade, para que o homem

se torne um ser, não perfeito, mas mais feliz.

 

Totalidade inclui reconhecer e aceitar em si, as qualidades que estão em oposição “ao ideal do ego”, as qualidades opostas aos valores culturais e

morais.

 

A integração dos opostos é um processo que começa pelo reconhecimento da sombra, ou seja, da parte da personalidade que contém os aspectos primitivos,

reprimidos, inadequados aos padrões estéticos e morais de uma cultura.

 

Tomar consciência da sua sombra é condição “sine qua non” para o indivíduo começar o caminho rumo ao auto-conhecimento, rumo à consciência.

 

O homem que não conhece sua face sombria, é um homem que só conhece uma face de “sua moeda”, é um ser unilateral, falsamente iludido sobre sua natureza humana,

e, por isso, presa fácil do mal, adepto do recurso de projetar no outro, no mundo, as qualidades que não reconhece em si.

 

Do ponto de vista conceitual, é Freud quem faz a análise mais profunda da divisão entre o lado luz e o lado sombra da psique humana. Mas é Jung quem dá à

sombra uma abordagem mais ampliada.

 

A cisão entre o lado luz – o Bem – e o lado sombra – o Mal – é evidente e absoluta na tradição judaico cristã.

 

Originalmente, a tradição cristã reconhecia os opostos que o homem traz em si, conforme as palavras de São Paulo: “Não faço o bem que quero, mas o mal que não

quero”.

 

Essas palavras, revestidas de conhecimento de psicologia humana, revelam que São Paulo sabia que possuía a sombra, e o fato de ter esse conhecimento é que o

mantinha íntegro.

 

Segundo Jung, Criador e criatura deveriam ser uma toalidade, mas devido à cisão perpetuada pelo Cristianismo, surgiu o mundo de luz e o mundo de trevas.

 

O Taoísmo afirma que tudo é criado pela integração dos opostos ( yin-yang ) que representam a luz e a sombra, o positivo e o negativo, o bem e o mal.

 

Estes pares de opostos são pares complementares da Natureza que nunca podem ser separados. São princípios do Universo e toda a Criação está sujeita a este

contraponto.

 

A sombra não é basicamente má. Há grande energia e potencial na porção reprimida. Esta energia precisa ser conectada e amalgamada à personalidade, e

não unilateralizada. Porque, tanto para o bem como para o mal, não se deve sucumbir a nenhum dos opostos.

 

A noção de bem e mal é relativa e fruto de julgamento de valor, portanto subjetiva e passível de contaminação da sombra pessoal.

 

Sendo assim, o ponto de referência não está nos polos, mas sim, no meio, no equilíbrio.

 

Se um dia a paz for alcançada, seus promotores não estarão entre as pessoas “que se fizeram santas”, mas entre as pessoas que aceitaram sua natureza pecadora com humildade.

 

A busca da santidade é nefasta também, porque, ao se identificar unilateralmente com sua parte boa, o indivíduo joga-a contra a sua parte oposta.

 

Sendo um arquétipo, a sombra tem conteúdos afetivos poderosos, com capacidade de autonomia, obsessão e possessividade que lhe dão capacidade de ascendência sobre a estrutura do ego.

 

A sombra representa o arquétipo do bode expiatório, do ‘outro”, sobre o qual é lançada toda a culpa, toda a maldade do indivíduo que ele não reconhece como

sua.

 

Através do recurso do bode expiatório, o homem nega sua sombra. O bode expiatório presta um serviço ao seu acusador, na medida em que ele carrega para

esse, o fardo de sua sombra feia, inadequada ao “padrão de beleza” que o ego idealiza.

 

A sombra reprimida e relegada ao inconsciente, torna-se um potencial de energia, energia essa que vem a tona sob a forma de projeção.

 

Na projeção a relação com o mundo externo é uma relação revestida de ilusão.

 

O meio ambiente ganha a configuração que a sombra lhe dá: a maldade, a feiúra que o homem não admite como sua, é lançada no ambiente, no outro.

 

A metade bonita, perfeita, ele abraça como sua, o que resulta num ser dividido, de ego inflado, pretensamente bom.

 

Um dos prejuízos que a projeção traz é que a pessoa reage ao ódio e violência “que-lhe mandam” com mais ódio e violência e o círculo vicioso se forma. A

projeção faz surgir, literalmente, no outro e no ambiente, as situações que o indivíduo projeta.

 

O perdão aos outros é um modo de dizer que já nos aceitamos integralmente, com nossa sombra. O perdão é a própria aceitação da vida como ela é.

 

Auto perdão, a indulgencia é o sacudir da poeira, é a renovação da auto estima e da alegria de viver, é o caminho da integridade e da felicidade.

Angela M. Monnerat

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/aceitacao-da-sombra-e-felicidade-pessoal/

A invencao da Psicologia Freudiana

Freud era um “poeta que produzia metáforas ao invés de verdades literais”. Ele, como as feministas, reconhecia que a sexualidade e um problema da vida moderna, mas ignorava o contexto social e falhava ao questionar a própria sociedade. A sexualidade e sim causada pela repressão moral sistêmica ao longo de dezenas de seculos, unicamente com o intuito de manter o rebanho sob controle, não uma verdade universal. Se não, sua própria existência ilusória, já não seria mas uma fuga ou projeção, não seria mais uma tentativa de equilíbrio de forças da psique, não seria mais uma obra do inconsciente, e sim a conscientização de outra realidade apenas.

O sistema analítico de Freud e sem duvidas estritamente limitado, por mais que seus defensores tentem dizer o contrario, ele apenas abarca um arquétipo caricatural do patético homem ocidental-burgues-vienense, e uma cornucópia de outro arquétipo tao asqueroso quanto, o judaico-cristão-ocidental-capitalista-merovíngio… Mas os estudantes de Psicologia estão mais ocupados fumando uma erva do que fazendo com que o artigo sobre “arquétipo” na Wikipedia seja algo mais do que um esboço.

E um sistema que nem de perto, nem de longe, pode ser considerado ciência, no termo estrito do “rigor cientifico” e na “universalidade de suas leis”. A Física só é útil quando traduz em equação uma lei natural universal, neste sentido a psicologia Freudiana carece total e absolutamente deste rigor. O argumento mais rasteiro, é que esse sistema não abrange a humanidade como um todo, ao contrário, delimita o homem ao ser vivente em viena, de determinada classe social.

A diferença entre bom senso e senso comum deveria ser clara, não são termos intercambiáveis e podem ser considerados com rigor diametralmente opostos dentro das sendas ocultistas. O senso comum leva a crer que sua contribuição freudiana foi de extrema valia para o entendimento da nossa sociedade e cultura, em contrapartida, o bom senso leva a crer que foi uma simplificação absurda do arquétipo e dos valores humanos, de suas relações e de seus símbolos.

Um sistema hermético seria a solução, se ele existisse, um sistema críptico que servisse – como as chaves enoquianas –  para despertar uma topologia e organização “supra -humana”. E ele existe, porém como o homem medíocre ocidental na maior parte da história, simplesmente ignorou completamente outros sistemas sociais, sistemas de crenças, Jung foi largado as traças, pelo mesmo motivo que o crédito todo foi para Edson ao invés de Tesla. Marketing puro. É uma ferida vitoriana, não poderia a burguesia ser dotada dos mesmos significantes e significados que primitivos aborígenes ou tribos africanas.

O próprio discurso de Freud possui falhas retóricas, como se falasse em parábolas verdades muito profundas, mas acaba por nada dizer:

“Seria muito simpático que Deus existisse, que houvesse criado o mundo e fosse uma verdadeira providência; que existisse uma ordem moral no universo e na vida futura; mas é muito mais surpreendente que tudo isso seja apenas aquilo que nós nos sentimos obrigados a desejar que exista.”

Ora, se o desejo latente e interno, como podemos ser obrigados a desejar algo? E uma afirmação extremamente paradoxal, pois a natureza do desejo não reside em sua realização, o desejo reside em um lugar onde ele possa existir independentemente da realidade, e simplesmente tratar um desejo como ilusão – pois por acaso sabe um sonho que está sendo sonhado? Se assim o fosse, qualquer ilusão ficaria destituída de outro significado.

Jay-z foi muito mais profundo e contundente em afirmar “I’ve got 99 problems but a bitch ain’t one”, até porque uma pessoa que não procura manter o equilíbrio de Nash em um jogo de soma não-nula, não pode ser erroneamente chamada de “descolada”.

Existem fortes evidências de que grande parte do principio da teoria psico-analitica freudiana foi um sub-produto de uso de cocaina (On Coca – 1884), e ele acreditava que a droga seria o caminho para uma série de distúrbios físicos e psíquicos, Freud como médico foi aclamado por fazer elogios abertos e entusiasmados sobre a cocaína, mas Crowley foi apenas um viciado. Crowley foi um entusiasta que, explorava as drogas falsificando sua curiosidade por sistemas míticos, apenas para encobrir seus vícios. “Não veleis seus vícios com palavras virtuosas” foi o que disse o livro da Lei. Mas Crowley fez o contrario. Thelemitas podem argumentar que admiram o motto, mas como exemplo de pessoa, Crowley não era “confiável”, mas sua ruptura foi suficiente para a tarefa qual foi designado. A Cocaína portanto, poderia sera real Criadora tanto da psicologia freudiana como tambem das perversões magicko-sexuais de Crowley. Ela, elevada ao patamar de Deusa, criava em ambos, diversas divagações profundas – e nubladas – dando a entender ao vulgo alguma verdade sagrada, quando verdadeiramente estava mais desviando o caminho que, levando para algum lugar. Nenhum dos dois era gênio no fim das contas,  eram apenas súditos da Lady Cocaine.

Contudo, o auto-conhecimento é em si um ato piegas – o dilema do simulacro existe, se não for essa simbologia freudiana, qual outra? Não bastando para si uma comparação, um mero juízo de valores; algo entre o santo e o profano que permita a distinção, que reduza o objeto de comparação ao ideal, assim toda e qualquer ideologia, transgressiva ou não, seria, portanto, apenas um maniqueísmo barato entre o conceito em si e um simulacro, uma tentativa de desvencilhar a sombra de sua imagem; uma dualidade natimorta entre forma e conteúdo, enfim, destituiria qualquer poder transformador inerente à ideologia, renegada de qualquer juízo de valor. Tentando Lúcifer se comparar e se rebaixar á Deus, ele caí dos céus. Que não cometamos o mesmo erro de negar qualquer parte nossa, por causa de um reflexo externo. Todo sistema de símbolos, é falho. Sombra/luz, dentro/fora – todas as classificações entre eu/ele, na verdade são tentativas cerebrais de classificar e manter uma paz interna, dando a si própria um nível, nos rebaixando a simplesmente um catalogo de arquétipos. Como a teoria da incompletude de Gödel diz, não da para provar o gosto da própria língua.

A partir do momento que Lúcifer cria uma fantasia sobre si, ele perde a majestade.

Por VVVVV

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-invencao-da-psicologia-freudiana/

Apoteose Humana

(clique para ampliar)

Langdon se virou de costas para Katherine, encarou a parede curva e sussurrou bem baixinho:

– Katherine, aqui é sua consciência falando. Por que você abandonou Robert?

Katherine parecia já conhecer as espantosas propriedades acústicas da cúpula… pois a parede sussurrou de volta.

– Porque Robert está sendo um medroso. Ele deveria vir até aqui comigo. Ainda temos muito tempo (…)

Langdon sabia que ela estava certa e, com relutância, foi contornando a galeria, mantendo-se grudado à parede o tempo todo.

– Este teto é absolutamente incrível – comentou Katherine maravilhada, com o pescoço esticado para abarcar o imenso esplendor da Apoteose acima dela. – Deuses míticos misturados com inventores e suas criações? E pensar que esta é a imagem no centro do nosso Capitólio.

Langdon voltou os olhos para cima na direção das gigantescas formas de Franklin, Fulton e Morse ao lado de seus inventos tecnológicos.

Um arco-íris brilhante se projetava a partir desses personagens, guiando o olhar de Langdon para George Washington, que subia aos céus em cima de uma nuvem. A grande promessa do homem que se torna Deus.

– É como se toda a essência dos Antigos Mistérios estivesse pairando sobre a Rotunda – disse Katherine.

Langdon tinha de admitir que não havia muitos afrescos no mundo que fundiam invenções científicas com deuses míticos e apoteose humana. A espetacular coleção de imagens do teto era de fato uma mensagem dos Antigos Mistérios e estava ali por um motivo. Os pais fundadores tinham imaginado os Estados Unidos como uma tela em branco, um campo fértil sobre o qual poderiam lançar as sementes dos mistérios. Hoje, aquele ícone sublime – o pai da nação subindo as céus – pairava silenciosamente sobre os legisladores, líderes e presidentes do país… um lembrete arrojado, um mapa para o futuro, a promessa de um tempo em que o homem iria evoluir rumo à maturidade espiritual completa.

– Robert – sussurrou Katherine com os olhos ainda fixos nas enormes figuras dos grandes inventores norte-americanos acompanhados por Minerva -, esse afresco é profético. Hoje em dia, as invenções mais avançadas estão sendo usadas para estudar as idéias mais antigas. A noética pode ser uma disciplina nova, mas é a ciência mais antiga do mundo: o estudo da mente humana. – Ela se virou para Langdon, maravilhada. – E estamos aprendendo que os antigos compreendiam o pensamento de modo mais profundo do que compreendemos hoje.

– Faz sentido – retrucou o professor. – A mente humana era a única tecnologia à disposição dos antigos. Os primeiros filósofos a estudaram de forma incansável.

– Isso mesmo! Os textos antigos são obcecados pelo poder da mente humana. Os Vedas descrevem o fluxo da energia mental. A Pistis Sophia fala sobre a consciência universal. O Zohar explora a natureza da mente-espírito. Os textos xamanísticos predizem a “influência remota” de Einstein em termos de cura a distância. Está tudo lá! E olhe que eu nem comecei a falar da Bíblia.

– Você também? – brincou Langdon. – Seu irmão tentou me convencer de que a Bíblia está cheia de informações científicas cifradas.

– Mas está mesmo – disse ela. – E, se você não acredita em Peter, leia alguns dos textos esotéricos de Newton sobre as Escrituras. Quando começar a entender as parábolas crípticas, Robert, você vai perceber que a Bíblia é um estudo da mente humana.

Langdon encolheu os ombros.

– Acho que vou ter que ler tudo de novo.

– Deixe-me fazer uma pergunta – disse ela, obviamente sem apreciar seu ceticismo. – Quando a Bíblia nos diz que devemos “construir nosso templo” e fazer isso “sem ferramentas e sem ruído”, de que templo você acha que ela está falando?

– Bem, o texto diz que o nosso corpo é um templo.

– Sim, em Coríntios 3:16. Vós sois o templo de Deus. – Ela sorriu. – E o Evangelho segundo João diz exatamente a mesma coisa. Robert, as Escrituras sabem muito bem o poder que existe latente em nós, e nos incentivam a dominar esse poder… a construir os templos de nossas mentes.

– Infelizmente, acho que grande parte do mundo religioso está esperando que um templo de verdade seja reconstruído. Isso faz parte da Profecia Messiânica.

– Sim, mas deixa de lado um ponto importante. O Segundo Advento é o do homem, o instante em que a humanidade finalmente constrói o templo de sua mente.

– Não sei – disse Langdon, esfregando o queixo. – Não sou nenhum estudioso da Bíblia, mas tenho quase certeza de que as Escrituras descrevem em detalhes um templo físico que precisa ser construído. Segundo a descrição, a estrutura seria dividida em duas partes: um templo externo chamado Santo e um santuário interno chamado Santo dos Santos. As duas partes estão separadas uma da outra por um fino véu.

Katherine sorriu novamente.

– Bela memória bíblica para um cético. Aliás, você já viu um cérebro humano de verdade? Ele é constituído por duas partes: uma externa, chamada dura-máter, e outra interna, chamada pia-máter. Essas duas partes são separadas pela membrana aracnóide, um véu de tecido que parece uma teia de aranha.

Langdon inclinou a cabeça, surpreso.

Com delicadeza, ela ergueu a mão e tocou a têmpora de Langdon.

– Existe um motivo para temple, em inglês, significar tanto “têmpora” quanto “templo”, Robert.

Enquanto Langdon tentava processar o que Katherine acabara de dizer, lembrou-se inesperadamente do Evangelho gnóstico segundo Maria: Onde a mente está, lá está o tesouro.

– Talvez você tenha ouvido falar – disse Katherine, baixando o tom de voz – nos exames de ressonância magnética feitos em iogues meditando. Quando em estado avançado de concentração, o cérebro humano produz, por meio da glândula pineal, uma substância parecida com cera. Essa secreção cerebral não se parece com nenhuma outra substância do corpo. Ela tem um efeito incrivelmente curativo, é capaz de regenerar células e talvez seja um dos motivos por trás da longevidade dos iogues. Isso é ciência, Robert. Essa substância tem propriedades inconcebíveis e só pode ser criada por uma mente em estado de profunda concentração.

– Eu me lembro de ter lido sobre isso alguns anos atrás.

– E, falando nisso, você conhece o relato da Bíblia sobre o “maná dos céus”? Langdon não via ligação alguma entre os dois assuntos.

– Está se referindo à substância mágica que caiu do céu para alimentar os famintos?

– Exatamente. Dizia-se que essa substância curava os doentes, dava a vida eterna e, estranhamente, não produzia dejetos depois de consumida. – Katherine fez uma pausa, como se estivesse esperando que ele entendesse. – Robert – insistiu ela -, um alimento que caiu do céu? – Ela cutucou a própria têmpora. – Que cura o corpo por magia? Que não gera dejetos? Ainda não entendeu? São palavras em código, Robert! Templo é um código para “corpo”. Céu é um código para “mente”. A Escada de Jacó é a sua coluna vertebral. E o maná é essa rara secreção produzida pelo cérebro. Quando você vir essas palavras cifradas nas Escrituras, preste atenção. Elas muitas vezes são sinais de um significado mais profundo escondido sob a superfície.

Katherine passou a falar rápido, explicando como a mesma substância mágica aparecia em todos os Antigos Mistérios: néctar dos deuses, elixir da vida, fonte da juventude, pedra filosofal, ambrosia, orvalho, ojas, soma. Depois começou a dar uma longa explicação sobre como a glândula pineal representava o olho de Deus que tudo vê.

– Segundo Mateus 6:22 – disse ela com animação -, “Quando o teu olho for bom, todo o teu corpo terá luz”. Esse conceito também é representado pelo chacra ajna e pelo pontinho na testa dos hindus que…

Katherine se deteve abruptamente, parecendo encabulada.

– Desculpe… sei que estou falando sem parar. Mas é que acho tudo isso tão emocionante! Passei anos estudando as afirmações dos antigos sobre o incrível poder mental do homem, e agora a ciência está nos mostrando que o acesso a esse poder se dá, na verdade, por meio de um processo físico. Se usado corretamente, nosso cérebro pode invocar poderes literalmente sobre-humanos. A Bíblia, como muitos textos antigos, é uma exposição detalhada da máquina mais sofisticada de todos os tempos… a mente humana. – Ela deu um suspiro. – Por incrível que pareça, a ciência ainda não alcançou todo o potencial da mente.

– Parece que seu trabalho com a noética vai representar um salto à frente nessa área.

– Talvez seja um salto para trás – disse ela. – Os antigos já conheciam muitas das verdades científicas que estamos redescobrindo atualmente. Em questão de anos, o homem moderno será forçado a aceitar algo hoje impensável: nossas mentes podem gerar energia capaz de transformar a matéria física. – Ela fez uma pausa. – As partículas reagem aos pensamentos… o que significa que nossos pensamentos têm o poder de mudar o mundo.

Langdon abriu um leve sorriso.

– Minha pesquisa me fez acreditar nisto: Deus é muito real… uma energia mental que permeia tudo – disse Katherine. – E nós, seres humanos, fomos criados a essa imagem…

– Como assim? – interrompeu Langdon. – Criados à imagem de… uma energia mental?

– Exatamente. Nossos corpos físicos evoluíram com o tempo, mas nossas mentes é que foram criadas à semelhança de Deus. Nós estamos levando a Bíblia muito ao pé da letra. Aprendemos que Deus nos criou à sua imagem, mas não são nossos corpos físicos que se assemelham a Deus, são nossas mentes.

Langdon se calara, totalmente fascinado.

– É esse o verdadeiro presente, Robert, e Deus está esperando que entendamos isso. Pelo mundo todo ficamos olhando para o céu à procura de Deus… sem nunca perceber que Ele está esperando por nós. – Katherine fez uma pausa, dando tempo para aquelas palavras serem absorvidas. – Nós somos criadores, mas ainda assim ficamos ingenuamente fazendo o papel de criaturas. Vemos a nós mesmos como ovelhas indefesas, manipuladas pelo Deus que nos criou. Mas, quando percebermos que somos realmente feitos à imagem do Criador, vamos começar a entender que nós também devemos ser criadores. Assim que entendermos esse fato, as portas do potencial humano irão se escancarar.

Langdon se lembrou de um trecho da obra do filósofo Manly P. Hall: Se o infinito não quisesse que o homem fosse sábio, não teria lhe dado a faculdade de saber. Langdon tornou a erguer os olhos para A Apoteose de Washington – a ascensão simbólica do homem à divindade. A criatura… se transformando em Criador.

– O mais incrível de tudo – disse Katherine – é que, assim que nós, humanos, começarmos a dominar nosso verdadeiro poder, teremos enorme controle sobre o mundo. Seremos capazes de projetar a realidade em vez de simplesmente reagir a ela.

Langdon baixou os olhos.

– Parece… perigoso.

Katherine ficou surpresa… e impressionada.

– Isso, exatamente! Se os pensamentos afetam o mundo, então precisamos tomar muito cuidado com a maneira como pensamos. Pensamentos destruitivos também têm influência, e todos sabemos que é muito mais fácil destruir do que criar.

Langdon pensou em todas as histórias sobre a necessidade de proteger o antigo saber dos não merecedores e de compartilhá-lo apenas com os iluminados. Pensou no Colégio Invisível e no pedido do grande cientista Isaac Newton a Robert Boyle para que guardasse “total silêncio” sobre seu estudo secreto. Ele não pode ser divulgado, escreveu Newton em 1676, sem imensos danos para o mundo.

– Houve, no entanto, uma reviravolta interessante – disse Katherine. – A grande ironia é que, durante séculos, todas as religiões do mundo incentivaram seus seguidores a abraçar os conceitos de fé e crença. Agora a ciência, que passou muitos séculos desprezando a religião ao considerá-la mera superstição, está sendo obrigada a admitir que sua próxima grande fronteira é literalmente a ciência da fé e da crença… o poder da convicção e da intenção. A mesma ciência que erodiu nossa fé nos milagres está agora construindo uma ponte para atravessar o abismo que criou.

Langdon passou um bom tempo pensando nas palavras dela. Bem devagar, tornou a erguer os olhos para a Apoteose.

– Quero fazer uma pergunta – falou, olhando de volta para Katherine. – Mesmo que eu conseguisse aceitar, apenas por um instante, que tenho o poder de modificar matéria física com a mente e de criar tudo aquilo que desejo… como poderia acreditar nisso se, infelizmente, não vejo nenhum indício desse poder na minha vida?

Ela deu de ombros.

– Então você não está procurando direito.

– Calma lá, quero uma resposta de verdade. Isso está parecendo uma resposta de padre. Quero uma de cientista.

– Você quer uma resposta de verdade? Aqui está. Se eu lhe der um violino e disser que você tem a capacidade de usá-lo para tocar músicas lindas, não estarei mentindo. Você tem essa capacidade, mas vai precisar treinar muito para que ela se manifeste. Aprender a usar a mente é a mesma coisa, Robert. O pensamento bem direcionado é uma habilidade que se adquire. Manifestar uma intenção requer um foco digno de um raio laser, uma visualização sensorial completa e uma crença profunda. Nós demonstramos isso no laboratório. E, como no caso do violino, existem pessoas que demonstram uma aptidão natural maior que outras. Olhe para a história. Veja os relatos de mentes iluminadas que realizaram feitos milagrosos.

– Katherine, por favor, não me diga que você realmente acredita nesses milagres. Quer dizer, francamente… transformar água em vinho, curar os doentes com um toque da mão?

Katherine inspirou fundo e soltou o ar lentamente.

– Eu já vi pessoas transformarem células cancerosas em células saudáveis apenas pensando nelas. Vi mentes humanas afetando o mundo físico de inúmeras formas. E quando você testemunha isso, Robert, quando essas coisas se tornam parte da sua realidade, a única diferença entre elas e alguns dos milagres sobre os quais já lemos passa a ser a intensidade.

Langdon estava pensativo.

– É um jeito inspirador de ver o mundo, Katherine, mas fico com a sensação de que isso é um salto de fé impossível. E, como você sabe, a fé nunca foi uma coisa fácil para mim.

– Então não pense nisso como fé. Pense que é apenas uma mudança de perspectiva: aceitar que o mundo não é exatamente como você imagina. Historicamente, todos os grande avanços científicos começaram com uma idéia simples que ameaçou virar todas as crenças de cabeça para baixo. A simples afirmação “A Terra é redonda” foi desprezada e taxada de impossível porque a maioria das pessoas acreditava que, se fosse assim, os oceanos se derramariam do planeta. O heliocentrismo foi chamado de heresia. As mentes medíocres sempre atacaram aquilo que não entendem. Há aqueles que criam… e aqueles que destroem. Essa dinâmica existe desde que o mundo é mundo. Mas os criadores sempre acabam encontrando quem acredite neles. Então a quantidade de seguidores cresce até que alcança um número crítico e, de repente, o mundo se torna redondo, ou o sistema solar passa a ser heliocêntrico. A percepção se transforma e uma nova realidade nasce.

Langdon aquiesceu, agora com o pensamento longe.

– Você está com uma cara engraçada – disse ela.

– É, sei lá. Por algum motivo, estava me lembrando de como eu costumava pegar um pequeno barco e ir até o meio do lago à noite, só para ficar deitado debaixo das estrelas pensando nesse tipo de coisa.

Ela assentiu, compreendendo.

– Acho que todos nós temos uma lembrança parecida. Ficar deitado olhando para o céu… isso de alguma forma abre a mente. – Ela ergueu os olhos para o teto e então falou: – Me dê seu paletó.

– O quê? – Ele tirou o paletó e o entregou a ela.

Katherine o dobrou duas vezes, estendendo-o no chão da galeria como um travesseiro comprido.

– Deite-se.

Langdon se deitou de costas e Katherine ajeitou a cabeça dele sobre metade do paletó dobrado. Então ela se deitou ao lado dele – duas crianças, com os ombros colados sobre aquela passarela estreita, olhando para o enorme afresco de Brumidi.

– Muito bem – sussurou Katherine. – Procure entrar naquele mesmo estado de espírito… uma criança deitada em um barco… observando as estrelas… com a mente aberta e cheia de assombro.

Langdon tentou obedecer, embora, naquele instante, deitado e à vontade, uma súbita onda de exaustão tomasse conta de seu corpo. À medida que sua visão se embaçava, ele percebeu uma forma difusa lá em cima que o despertou na mesma hora. Será possível? Não conseguia acreditar que não tivesse percebido isso antes, mas os personagens de A Apoteose de Washington estavam obviamente posicionados em dois círculos concêntricos – um círculo dentro de um círculo. Será que a Apoteose também é um circumponto? Langdon se perguntou que outro detalhe deixara passar naquela noite.

– Tenho uma coisa importante para dizer a você, Robert. Existe outra peça que considero o aspecto mais espantoso da minha pesquisa.
Ainda tem mais?

Katherine se apoiou no cotovelo.

– E juro… se nós, seres humanos, formos capazes de apreender de forma honesta essa única verdade simples… o mundo vai mudar da noite para o dia.

Ela passou a ter toda a sua atenção.

– Para começar – disse ela – , eu deveria lembrá-lo dos mantras maçônicos que nos incitam a “reunir o que está disperso”, “criar ordem a partir do caos” e encontrar a “união”.

– Continue. – Langdon estava intrigado.

Katherine sorriu para ele.

– Nós provamos cientificamente que o poder do pensamento humano cresce exponencialmente em proporção à quantidade de mentes que compartilham um mesmo pensamento.

Langdon continuou em silêncio, perguntando-se aonde ela queria chegar com essa idéia.

– O que estou dizendo é o seguinte: duas cabeças pensam melhor do que uma, mas não são duas vezes melhor, e sim muitas vezes melhor. Várias mentes trabalhando em uníssono ampliam o efeito de um pensamento… de forma exponencial. É esse o poder inerente aos grupos de oração, aos círculos de cura, aos cantos coletivos e às devoções em massa. A idéia de uma consciência universal não é um conceito etéreo da Nova Era. É uma realidade científica palpável… e dominar essa consciência tem o potencial de transformar o mundo. Essa é a descoberta fundamental da ciência noética. E o que é mais importante: isso está acontecendo agora. É possível sentir essa mudança à nossa volta. A tecnologia está nos conectando de formas que jamais imaginamos: veja o Twitter, o Google, a Wikipédia e tantas outras coisas… tudo isso se une para criar uma rede de mentes interconectadas. – Ela riu. – E garanto a você: assim que eu publicar meu livro, todo mundo vai começar a postar no Twitter coisas do tipo “aprendendo sobre ciência noética”, e o interesse por essa disciplina vai explodir de forma exponencial.

As pálpebras de Langdon estavam incrivelmente pesadas.

– Sabe que até hoje eu não aprendi a mandar um twitter?

– Um tweet – corrigiu ela, rindo.

– Como?

– Deixe para lá. Feche os olhos. Eu acordo você quando chegar a hora.

(…)Engolido por uma nova onda de exaustão, fechou os olhos. Na escuridão de sua mente, se surpreendeu pensando na consciência universal… nos escritos de Platão sobre “a mente do mundo” e o “deus da união”… no “inconsciente coletivo” de Jung. O conceito era ao mesmo tempo simples e espantoso.
Deus está na união de Muitos… e não em Um só.

– Elohim – falou Langdon de repente, reabrindo os olhos ao perceber um vínculo inesperado.

– Como? – Katherine ainda o olhava de cima.

– Elohim – repetiu ele. – A palavra hebraica usada no Antigo Testamento para se referir a Deus! Ela sempre me intrigou.

Katherine abriu um sorriso de cumplicidade.

– Sim. A palavra está no plural.
Exatamente! Langdon nunca tinha entendido por que os primeiros trechos da Bíblia se referiam a Deus como um ser plural. Elohim. O Deus Todo-Poderoso do Gênesis era descrito não como Um… mas como Muitos.

– Deus é plural – sussurrou Katherine – porque as mentes dos homens são plurais.

Os pensamentos de Langdon estavam a mil… sonhos, lembranças, esperanças, medos, revelações… tudo rodopiava acima dele no domo da Rotunda. À medida que seus olhos começavam a se fechar novamente, ele se viu encarando três palavras em latim que faziam parte da Apoteose.

E PLURIBUS UNUM.
De muitos, um só, pensou, pegando no sono.

***

Trecho retirado do livro “O Símbolo Perdido”, de Dan Brown (Rio de Janeiro: Sextante, 2009).

#Maçonaria #mente #pensamento

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/apoteose-humana