Bibliografia nacional sobre lobisomens

João Ribeiro, em O Folklore, publicação de 1919, no capítulo VI, escreve que “O pan-animismo da natureza não distingue os seres, nem os classifica; nem os compreende senão como inteiramente humanos. A Lua, o Sol, a folha, a montanha ou a pedra, tudo é humano. Se um rochedo acaso afeta qualquer parecença com outro ser, logo surge uma história etiológica que nos explica a metamorfose. Dessas mutações que passaram depois à poesia e à ficção, algumas ficaram como superstições resistentes, tenazes e refratárias à morte. Tal é o caso do Lubisomem, da transformação do homem em lobo, que se funda realmente num estado de loucura melancólica e religiosa, caso patológico bem averiguado desde os médicos antigos. A licantropia ou a cinantropia é freqüentemente confessada pelos próprios doentes como uma possessão pelos demônios. No Brasil, certas vítimas do amarelão, quando esgotadas de anemia, são havidas por Lubisomens. Uivam, ladram, e amam as excursões noturnas fora de horas. Tal é o caso da legenda arcádica de Licaon entre os gregos. Na Índia, desde os Vedas, há a moléstia mental dos homens-tigres, homens-cobras, convictos da própria metamorfose. O licantropo acredita que vira a pele para dentro e a parte interna para fora, ficando ora homem, ora lobo, e por isso entre os latinos lhe chamavam versipellio… por essa inversão do tegumento. O Lubisomem começa a tremer, a ganir e a ladrar, no momento da transformação, com aquele ar estranho e hórrido do Dr. Jekill, o homem duplo, do terrível conto de Stephenson. Também Sachetti, numa das suas Novelle, 122, escreve: “E come io sona per diventare lupo, comincia a sbagliare e a tremare forte”.1… O povo acredita ainda nos que viram Lubisomem, durante a noite.”

Leoncio C. de Oliveira, em Vida Roceira, edição de 1918, SP., descreve o Lobisomem como “caboclo opilado, extremamente descorado, ressequido e de sombrio aspecto, produto de sétimo parto, que às sextas-feiras, à meia noite, procura os galinheiros, onde se espoja nas fezes e alimenta-se das mesmas, metamorfosea-se em um grande cão, de enormes e pendentes orelhas que estralam no calor da carreira na qual sai o desgraçado para percorrer sete cidades antes do nascer do dia, em cumprimento do seu triste fado

…Sendo uma mulher casada com um Lobisomem, só lhe soube a sina quando, certa noite, despertou sobressaltada com enorme cão dentro do quarto. Gritou apavorada pelo marido, que julgava a dormir e o cão, enfurecido, atacou-a, esfacelando-lhe a dentes a saia de baeta vermelha que vestia. Na manhã seguinte, ao surpreender entre os dentes do marido filamentos de lã de sua saia, compreendeu-lhe, horrorizada, o desgraçado destino. Abandonou-o e levou o resto da vida a penitenciar-se do tempo que coabitou com o horrível duende.”

Cornélio Pires, em 1927, apresenta o Lobisomem através da descrição de um caipira. “O Lubisóme é um cachorrão grande, preto, que sai tuda a sexta-fera comê bosta de galinha, ‘daquelas preta, mole, que nem sabão de cinza… Ele sai e garra corrê mundo nu’a toada, cabeça-baxa, esganado e triste… Você arrepare in tuda a casa de sítio; in baxo das jenela tá tudo ranhado de Lubisóme. Ele qué íntrá p’ra cumê as criança que inda num fôro batizado…”

Aluísio de Almeida, em 142 Histórias Brasileiras, relata uma variante paulista da Estória do Labisomem: “Uma moça casou-se com um rapaz que tinha o fadário de ser Lobisome; viviam em harmonia, porém ela, muito simples, nada percebia, porque o marido costumava sair sempre à noite dar uma prosa com amigos que moravam um pouco retirados, e a convidava. Às vezes, ela ia também; e de outras não, e quando não, ia deitar-se e quando o marido voltava a encontrava dormindo, de modo que às sextas-feiras ele saia cumprir o fadário sem que ela desconfiasse. Uma sexta-feira, sem pensar, ele a convidou para saírem, e ela eceitou; mas, quando foram passando por uma tapera, lembrou-se que era noite de cumprir o fadário, mas estava com a mulher. Que fez ele? disse para a mulher que o esperasse ali, porque precisava dar um recado a um amigo que morava ali perto; e seguiu por um trilhozinho que ficava no fundo da tapera. Como estava escuro e a mulher ficasse com medo de cobras ou aranhas, pois era um gramado, achou melhor trepar em um galho arcado de uma árvore, à pequena altura do chão. Já ia alta a noite, o marido não aparecia, ela com muito medo, pois nunca ficara assim sozinha em tapera. De repente, ela ouviu um bater de orelhas que vinha pela estrada para aonde deviam caminhar, e um cachorrão farejando o chão veio onde ela estava e, enxergando-a, começou a dar pulos para mordê-la, e nesses botés só conseguia pegar a barra da saia de baeta e tirava pedaços nos dentes.

Ela começou a gritar pelo marido, mas ele não aparecia; depois de muito tempo ele apareceu e perguntou o que eram aqueles gritos? ela disse: – você vai e não voltava mais; apareceu um bruto cachorrão e queria me morder, mas só alcançou o meu vestido e a saia de baeta. Não querendo descobrir-se, e para disfarçar, disse: – eu fui lá e convidaram-me para cear; eu aceitei e me entretive na prosa, e quando vinha vindo ouvi vossos gritos e vim depressa; como já é tarde, eles aonde nós iamos já estarão dormindo; voltaremos uma outra noite qualquer; é a mesma coisa. No outro dia ele não foi trabalhar; e quando o sol estava um pouco alto, disse: – fulana! ponha uma esteira no terreiro e traga uma tripeça, e você senta-se, e eu ponho a cabeça no vosso colo e me faz um cafuné. A mulher fez o que ele disse; e pondo a cabeça no seu colo e ela fazendo cafuné, começou a roncar com a boca aberta, e então a mulher viu os fiapos de baeta nos vãos dos dentes do marido, e ficou muito assustada, mas nada lhe disse. Chamou depois um seu irmão, e contou o caso todo muito direitinho. O irmão disse: fulana! teu marido é Lobisome; mas não se assuste, eu vou cortar-lhe o fadário; sexta-feira eu vou esperá-lo; levo meu facão folha de espada e quando ele passar, eu o cotuco com a ponta do facão para tirar sangue, e ficará cortado o fadário; não tenha medo, não vou matá-lo. No dia determinado o rapaz foi esperá-lo; levou o facão, uma garrucha de dois canos, vestiu o poncho e pôs um chapéu de abas largas, e ficou na beira da estrada. A horas tantas o rapaz ouviu o paca, paca, das orelhas e quando o Lobisomem ia passando, riscou-Ihe as costelas com a ponta do facão; ele deu um salto e virou homem outra vez; e encarando o cunhado disse: ah! você cortou o meu fadário, espere aí que eu vou em casa buscar um presente para te dar, em agradecimento! O rapaz, que sabia o que era o presente, tirou o poncho e o vestiu em uma arvorezinha, pôs o chapéu em cima e ficou do outro lado, esperando. Dai a pouco volta o homem e diz: – meu amigo! aí vai o presente! e descarrega os dois canos da espingarda, que só atingiu o poncho, e o rapaz respondeu: Amigo! quem dá presente recebe um ‘Deus Ihe pague’ – e descarregau ambém os dois canos da garrucha, mas sem intenção de atingi-lo.

Ele fugiu, de carreira. No outro dia se encontraram, e o cunhado mostrou o poncho furado pelos bagos de chumbo e disse: eu tenho o corpo fechado; chumbo não cala no meu corpo, e nem bala também; vamos fazer as pazes, porque comigo você não pode; o outro acreditou e fizeram as pazes e o casal continuou vivendo em harmonia. Nota: Era crença que os Lobisomens, quando conheciam os seus desencantadores, tratavam de vingar-se, porquanto, desencantados daquela maneira, teriam de cumprir o fadário depois da morte com tempo dobrado. Contada por Eugênio Pilar França.”

Em 50 Contos Populares de São Paulo, o mesmo autor relata que “num certo lugar do qual não é preciso dizer o nome, houve há tempos um homem mau, que judiava muito da mulher, a ponto de causar-lhe a morte, por ruins tratos. O castigo que ele teve foi de virar Lobisomem todas as noites de sextas para sábados. Resolvendo casar-se de novo, tratou de ser melhor para a segunda mnlher, a ver se acabava o seu fadário. Era mesmo uma coisa triste paraele, sair à noite, chovesse ou fizesse frio, pelos caminhos silenciosos, com as grandes orelhas caídas, procurando baeta para mastigar. Depois do casório, continuou a mesma coisa. A mulher percebeu logo que nas noites de sextas-feiras ele saía, e voltava cedo, noutro dia, muito cansado e triste, amarelo, sem ânimo para o trabalho. Uma noite dessas, portanto, ficou acordada, e viu o marido, mastigando a baeta do cobertor, com uma cara tão feia que nem teve coragem para lhe dizer nada. Quando deu meia noite, ele procurou a chave, mas estava tudo bem trancado, por artes da mulher. Então, ele foi ficando fininho, que nem uma linha, e passou pelo buraco da fechadura. A mulher não pôde dormir mais. Chamou gente. O homem apareceu de madrugada com uns fiapos de baeta vermelha nos dentes e muito envergonhado. Era a hora. Mal ele acabava de entrar, a mulher, sem dizer nada, zás! joga-lhe água benta em cima. Depois fizeram sete rezas, sete noites, com sete velas acesas, e ele desecantou e viveu feliz”…

Ruth Guimarães, em Os Filhos do Medo, escreve que “não pode o Lobisomem ver os olhos nem as unhas de alguém, porque isso o irrita.” E conta que “um menino foi mordido por um grande cão negro. Um dia, quando o boi do carro que estava guiando, urinou, ele tirou a roupa e se espojou no chão sobre a urina. Na mesma hora virou Lobisomem.”

No Estado de São Paulo (Mogi das Cruzes e Laranjal Paulista) existe a versão do Lobisomem como homem que vem pedir ou aceita sal, na sexta-feira.

Quem nascer no dia 12 do mês 12, às 24 horas, quando tiver 12 e 24 anos, vira Lobisomem, escreve Geraldo Brandão, em Monografia Folçlórica – Mogi das Cruzes.

Em Minas Gerais, Hermes de Paula apresenta o Lobisomem como Fantasma da Quaresma, em Montes Claros: Sua História, Sua Gente E Seus Costumes.

“O nosso Lobisomem apresenta-se em duas formas: de cachorro; ou lobo e porco. Vagueia nas noites das sextas-feiras da Quaresma; os cachorros latem para ele de longe, mas de perto encolhem-se ganindo baixinho, transidos de medo. Eles não vêm do outro mundo; são homens que viram. Rolam na areia ou chiqueiro três sextas-feiras seguidas para conseguir a transformação; quando se utilizam da areia transformam-se em cachorro; no caso do chiqueiro viram porcos. Vários individuos daqui eram apontados, às escondidas, como viradores de Lobisomens. O cego Ventura mesmo era um deles; vivia amarelo… Em um sábado da Quaresma chegamos a enxergar entre seus dentes os fiapos da baeta vermelha – sinal insofismável de que ele virara Lobisomem. Contam que balas não lhe entram no corpo; o único lugar vulnerável é o dedo mindinho do pé (5° artelho); ferido neste ponto, o encanto se quebra e o Lobisomem vira homem, na mesma hora e fica com muita raiva. Antonio Xavier de Mendonça, passando pela vargem às duas horas da madrugada de uma sexta-feira da Quaresma, foi agredido por um porco enorme e alvejou o ponto fraco do animal. Foi a conta; o bicho desvirou e, para surpresa sua, era um seu compadre e amigo, que muito alegre se mostrou, reconhecido pelo bem a ele sucedido e pediu-lhe que esperasse ali, que ele iria em casa buscar-lhe um presente. O velho Mendonça desconfiou da pressa do compadre em lhe retribuir o favor; com o paletó e o chapéu vestiu um tronco seco de árvore existente ali e escondeu-se para observar melhor. Daí a pouco veio chegando o compadre com uma espingarda e tacou fogo no tronco vestido…”

Saul Martins, em Os Barranqueiros, dá o Lobisomem como “Bicho resultante da metamorfose de pessoa do sexo masculino condenada em razão da sua própria origem; ou em razão de transformação voluntária. Para tanto, despe-se numa encruzilhada ou debaixo de um pé de goiabeira, à meia noite, Sexta-feira da Paixão, espojando-se na roupa às avessas.”

O pé de goiabeira, como local propício à transformação; não apareceu, nesta pesquisa, em outro lugar. O mesmo com referência à transformação voluntária, no Brasil.

Em Folclore da Januária, Joaquim Ribeiro diz que “O Lubisono é o sétimo filho macho de um casal que só tinha fêmeas. Tem de cumprir sina. As sextas-feiras mete-se no chiqueiro, espoja-se e grunhe como porco. Para quebrar o encanto, é necessário tirar sangue. Quem é Lubisono é pálido, magro, sorumbático e tristonho. Quando vira bicho, os dentes aumentam, os pêlos crescem e o corpo toma a forma de um quadrúpede monstruoso. Não há uniformidade na descrição do Lubisono: é um monstro proteico, de várias formas.” Essa descrição é resultante de pesquisa em São João das Missões.

No Boletim Trimestral da Comissão Catarinense de Folclore Ano I n° l, lê-se que, no município de Caçador, “O sétimo filho quando não batizado, vira Lobisomem – ou quando casa será estéril” e em Biguaçu, “criança que nasce com os dedos tortos fica lobis-homem.” Na mesma publicação, Ano III n° 12 e em Aspectos Folclóricos Catarinenses, Walter F. Piazza denomina o Lobisomem Uma Velha Assombração e diz que no município de Tijucas, “se nascerem consecutivamente, numa família, sete filhos varões, o último deverá ser chamado Bento, do contrário ficará Lobisomem.”… ” Já em outros lugares são apontados como inimigos da honra, tal como nos afiançou velho caboclo: é indivíduo de má índole, autor de algum bárbaro crime, especialmente contra a honra ou contra gente fraca: crianças, mulheres grávidas e velhos.” No oeste catarinense, em Caçador, surge como “um horrendo Lobisomem-dragão, com cerca de três metros de comprimento, tem dorso de dragão e formidável boca provida de agudíssimos dentes. Pelas ventas dilatadas lança um bafio nauseabundo.” Esse monstro, conhecido como Lobisomem dos Correias, alimenta-se do sangue dos que morreram sem confissão e quem ouvir seus uivos morrerá dentro de curto prazo. A perversidade é característica desses amaldiçoados e “os cachorros uivam e o perseguem, latindo e mordendo; o gado, quando solto nos pastos, corre que nem louco e quando está preso torna-se inquieto e procura disparar das mangueiras… e toda a pessoa que tiver a infelicidade de ser mordido pelo excomungado do bicho, não tem que ver, na primeira sexta-feira de lua cheia, vira em seguidinha Lobisomem. Isso bem perto da capital catarinense, no município de Biguaçu.” E continua: “mas o nosso pescador de camarões da Ilha de Santa Catarina pede a Deus que o livre do coisa-ruim!” No interior catarinense dizem que ele “suga o sangue das criancinhas, especialmente das que, ainda, se amamentam. Desvirgina as donzelas.” E, para a maior parte do povo, do que ele gosta, mesmo, é de sangue. No município catarinense de Porto Belo, “se tem algum inimigo, homem, andando pela estrada; pega-o na certa para a sangria mais violenta no pé do ouvido. Ou na batata da perna.” Quanto à forma como se apresenta, informa o A., que, “em NovaTrento, parte do território catarinense, é um homem de olhos afogueados, pêlo eriçado, ventre aberto e sangrando, unhas aguçadas e que expele fogo pela boca.”

Em Santa Catarina o encantamento dá-se, de preferência, nos dias de lua cheia, principalmente durante a Quaresma e no dia 13; também em quarto-minguante. O Lobisomem desencanta no final da fase lunar, ou quando o galo canta no terreiro.

Walter Piazza, em Aspectos Folclóricos Catarinenses, apresenta o seguinte documento versificado sobre o Lobisomem:

I

Quando aqui era deserto
Poucos moravam neste sertão.
Existiam brancos e negros cativos
Era tempo de escravidão
Branco era batizado.
E preto morria pagão.

II

O povo já tinha mêdo
Que isto desse confusão
Apareceu logo um gritadô
Já viram que era visão,:
Era o tal do “Lubizóme”
Esprito de negro pagão.

III

Tinha uma negra sete filhos,
Todos os sete bem negrinhos
Se o mais velho não fosse batizado
O mais moço virava lubizomezinho;
O mais velho morreu sem batismo
E deu destino ao pequenininho.

IV

A mãe dos meninos – chorando
Sem êste destino podê cortá.
Viu o mais velho virá lubizôme
E o menorzinho boitatá:
O resto não digo nada
Tenho medo inté de contá!

V

Contando um pouco desta história
Ví êsse monstro aqui no sertão
Não sei se morto ou vivo
Só sei que horrível visão
Estava em um cemitério
Sexta feira da paixão.

VI

Eu fui pagá promessa.
Que há muitos anos devia:
Ir a um cemitério, em horas mortas
Quando todo o povo já dormia
E sem ouvir o cantar do galo
Perguntá ao morto o que queria.

VII

O povo já me prevenira
Uns quantos dias atrás
Que nestas encruzilhadas transitava
O Pé Redondo ou Satanaz;
Que por êstes lados à noite
Ninguém pode caminhar, em paz.

VIII

Eu devia essa promessa
E só tinha que pagar
Por mais que custasse a vida
Prá Deus não me castigar
Ir sozinho ao cemitério
Chamar mortos e ouvi êles falar

IX

Afinal foi chegando o tempo
Até chegou o dia –
Sexta feira da paixão,
Serrando as aves-marias;
Era noite, a noite de falá c’os mortos
De ir pagar o que eu devia
Promessa era de salvar minha vida,
Por outro nêste mundo eu não fazia.

X

A cidade já silenciosa dormia
Escura noite trovejando
Com meu aparelho de fotografia
Fui pouco a pouco caminhando;
Relâmpagos alumiavam; aos poucos
Do cemitério fui me aproximando.

XI

Abrí a porta do cemitério
E sobre cruz ajoelhei no chão,
Acendi umas velas; fechei os olhos
E silencioso pensei no Irmão;
Sepulto moveu-se e um gemido ouvi,
Estou perdido, Deus meu Deus, perdão!

XII

Que assombro, que medo, que horror
Um rosnar, um gemido escutei!
Uma estranha visão acenava
Qué isso, meu Deus, eu não sei.
No correr disparou-me uma chapa,
Corri pelo escuro e afinal escapei.

XIII

Eu contando direito esta história
Representa inté um sonho,
A fótografia é que lhe vai provar
Si é lubizôme ou demonho.
Não caminho mais de noite, e promessa não faço
Nestas embrulhadas nunca mais me ponho!

Caçador, 22 de Maio de 1946.

(ass.) Altino Bueno de Oliveira

Ainda na publicação citada, Ano 8 n ° 23/24, Carlos George du Pasquier em Notas ‘Folclóricas Sobre o Município de Biguaçu diz que “É difícil saber-se ao certo quando se encontra um Lobisomem, pois nem sempre ele toma a forma de um porco preto: dizem que a forma do primeiro animal em cuja cama ainda quente se rebola. Alguns afirmam que para mordida de Lobisomem não há cura, e na primeira sexta-feira de lua cheia, nas proximidades do anoitecer, a pessoa que foi mordida principia a mostrar-se inquieta até sair em desabalada carreira rumo ao mato, onde se embrenha para tomar a forma do maldito.” Conta ainda que há muitos anos existia no Alto Biguaçu uma família vinda da Alemanha, que não era completamente feliz, porque sabia o destino do caçula, sétimo filho: Certa noite; quando jantavam, foram surpreendidos pelos latidos de um cãozinho, que para eles avançou tentando mordê-los. A mãe, agoniada, correu ao berço do menino; mas encontrou-o vazio, como pressentia. Apanhou o cachorrinho nos braços e espetou um alfinete na sua patinha. O sangue brotou em pequenas gotas e então; aos poucos, entre gemidos e contorsões, o animalzinho retornou à forma humana, na figura do nenê da família. Para a mordida do Lobisomem não há cura, segundo dizem, mas para evitá-la, pode-se usar o alho”.

Seguem-se estes versos:

1

“O povo do lugá
por valente conhecido,
tem medo que se pela
do bicho desconhecido

2

É sempre ao meio dia
que falam no danado;
quando anoitecer principia
fica tudo bem calado

3

Pois não é brincadeira
encontrar um lobisome
o bicho que morde gente
e inté criança come

4

O bicho só despenca
do alto da morraria
perseguido pelos cachorros
em terrível gritaria

5

Correndo como doido,
se cortando nos espinho,
ele não respeita nada
que encontra no caminho

6

Na sua triste sina
de correr a noite inteira,
Deus livre quem o encontra
numa escura sexta-feira

7

Mordido vira logo
lobisomem também
e na outra sexta-feira
é um outro que o mundo tem

Em Poranduba Catarinense, Lucas Alexandre Boiteux oferece esta variante da Estória do Lobisomem: “Os praieiros de Canavieira dizem que existia, no distrito de Ratones, uma senhora casada que tinha um filho. Todos os dias, logo que o marido se ausentava, ia ela banhar a criança numa gamela. Na ocasião, aproximava-se um cachorrinho que tentava morder o menino. Enxotava-o, mas ele teimava em voltar. Certo dia, bateu no animal que; enfurecido, avançou e estraçalhou-lhe a saia de baeta. Ao levantar-se, na manhã seguinte, viu com grande assombro os dentes do marido cheios de fiapos do tecido. Foi assim que ele, sendo um Lobisomem, perdeu o encantamento.” Lá, o Lobisomem ou Lambisome pode ser o primeiro ou o sétimo filho.

Em 1913, J. Simões Lopes Netto, em Lendas do Sul, descreve o Lobisomem segundo a voz do povo. “Diziam que eram homens que havendo tido relações impuras com as suas comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de suas casas transformados em cachorro ou em porco, e mordiam as pessoas que a tais desoras encontravam; estas, por sua vez, ficavam sujeitas atransformarem-se em Lobisomens…”

No Guia do Folclore Gaúcho, Augusto Meyer descreve o homem que se transforma em Lobisomem como “magro, alto, macilento e doente do estômago. Metamorfosea-se em animal semelhante ao cachorro ou porco.”

Walter Spalding, em Tradições e Superstições do Brasil Sul, diz que “ser Lobisomem é conseqüência de pragas rogadas ou produto de maldades de homem ou mulher que nunca procuraram fazer o bem. Transforma-se em conseqüência de pragas rogadas ou malefícios feitos pela vítima.” É um grande cão negro que aparece às sextas-feiras, principalmente na primeira de cada mês.

Francisco Augusto Pereira da Costa, em Folk-lore Pernambucano, edição de 1908, escreve que “O Lobisomem, que no maravilhoso da imaginagão popalar é um homem extremamente pálido, magro e de feia catadura, é produto, ou de um incesto, ou nasceu logo depois de uma série de sete filhos. Este infeliz… cumpre o seu fadário em certos dias, saindo de noite e, ao encontrar com um lugar onde um cavalo ou um jumento se espojou, espoja-se também, toma a sua forma, e começa a divagar em vertiginosa carreira. Nesse tristíssimo fadário, que começa à meia-noite e se prolonga até quase o amanhecer do dia, ao ouvir o cantar do galo, percorre o Lobisomem sete cidades e chegando, de volta já ao lugar do seu encantamento, espoja-se de novo, retoma a sua forma humana e recolhe-se a casa, abatido e extenuado de forças…” Oferece ainda estas estrofes, mencionadas por Silvio Romero, de um conto intitulado O Lobisomem e a menina.

– Menina, você aonde vai?
..Eu vou à fonte.
– Que vai fazer?
..Vou levar de comer
..A minha mãezinha.
– O que levas nas costas?
..meu irmãozinho.
– O que levas na boca?
..cachimbo de cachimbar.
…………………………………..

Ai! meu Deus do céu,
O bicho me quer comer!
O galo não quer cantar,
O dia não quer amanhecer,
Ai, meu Deus do céu!

Escreve Câmara Cascudo, em Geografia das Mitos Brasileiros, que “Para o norte já não há razões morais. O Lobisomem uma determinante do amarelão (ancilóstomo), da maleita (paludismo). Todos os anêmicos são dados como candidatos à licantropia salvadora. Transformados em lobos ou porcos, cães ou animais misteriosos e de nome infixável, correm horas da noite atacando homens, mulheres; crianças, todos os animais recém-nascidos ou novos; como cachorros, ovelhas, cabrinhas, leitões etc. Derribada a vítima, o Lobisómem despedaça-lhe a carótida com uma dentada e suga-Ihe o sangue. Essa ração de sangue justifica, na impressão popular, a licantropia sertaneja. Se o hipoêmico não conseguir a dose de sangue necessária ao seu exausto organismo, morrerá infalivelmente.”

Citando, entretanto, Coriolano de Medeiros, o mesmo autor apresenta outro aspecto dessa assombração, na interpretação do povo, mencionando o Lobisomem paraibano, que conserva a característica da punição, pois é amaldiçoado por pais e padrinhos. “O Lobisómem, crê-se, é sempre um indivíduo excomungado pelos pais, ou por algum padrinho. Pelo fato da maldição, tem instinto de tornar-se animal; principia por segregar-se da sociedade, até que um dia de sexta-feira, à noite, vai na encruzilhada dum caminho, semeia o solo de cascas de caranguejo, tira a camisa, dá um nó em cada ponta, estende-a por sobre os restos dos crustâceos, formando um leito e começa a cambalhotar sobre ele murmurando: ‘encoura mas não enchuxa, diabo?’ repete o estribilho muitas vezes e à proporção que o repete, que dá cambalhotas, a voz vai se tornando átona, o corpo cobre-se de pelos compridos, as orelhas crescem, a cara se alonga tomando a forma de um morcego, as unhas se transformam em garras. Uma vez metamorfoseado sai a correr mundo e suga o sangue de todo menino pagão que encontra e na falta deste ataca qualquer indivíduo. Mas tem um medo terrível do chuço; casa que tem instrumento deste, Lobisomem não vai. As três horas da madrugada; quando o galo canta, o Lobisomem volta à primitiva forma.”

O Lobisomem da Paraíba do Norte aparece também na obra citada de Walter F. Piazza, que recolheu informações referentes ao litoral e sertão paraibanos em Ademar Vidal e referentes ao brejo, em José Leal. São apresentadas três versões da forma usada para a metamorfose. A do litoral: é “preciso procurar uma encruzilhada, cheia de mariscos de praia, onde se despe, dando vários nós na camisa e no lenço. Deita-se no chão; espojando-se como quadrúpede. Uns dizem que ele engole os mariscos do mar. Outros contestam essa versão. Depois entra a fazer desarticulações com as pernas e braços, encostando a cabeça nos pés, remexendo-se para a direita e esquerda, dizendo palavras à-toa. ‘- Encoura, desencoura, encoura, desancoura, encoura’. A do sertão. “Sai de casa à procura de algum recanto de estrada onde se deite. Espoja-se, requebra-se, faz trejeitos, até virar um bezerro negro de longas orelhas.” “……é bezerro negro . . . .. ostenta couro cabeludo de fazer cachos, além de cascos pequeninos, olhar fuzilante e; depois, dotado de força e agilidade extraordinárias.” A do brejo: “. . . rebolando-se o aspirante na cama de um animal, ainda quente do corpo deste, cuja forma tomará. É condição imprescindível para a transformação que, no momento, os raios de Lua incidam diretamente sobre o homem que estiver deitado na cama do irracional, manifestando-se, de início, pelo crescimento dos dentes que dão perfeita semelhança com o animal modelo: Adquire desde logo os instintos animalescos.” No brejo paraibano, “descrevem-no como homem normal, que, em certas horas e em dias determinados e sob determinadas condições, toma o aspecta de um animal e sai a correr o fado, cumprindo o castigo imposto pela Divina Providência, pelo pecado de adultério de compadre com comadre, de devota com padre, dos incestuosos e blasfemos.”

O escritor cearense Gustavo Barroso, mencionado por Câmara Cascudo na obra citada, diz que para se transformarem em Lobisomem; os homens “viram a roupa às avessas, espojam-se sobre o estrume de qualquer cavalo ou no lugar em que este se espojou.”

Um cão sem cabeça, é como a assombração aparece em Alagoas. Lá, para se transformar, “tira a camisa e dá-Ihe sete nós. Esconjura pai, mãe, padrinho e madrinha, o nome de Deus e de Nossa Senhora”, segundo informa Cascudo; calcado em Théo Brandão (Mitos Alagoanos).

Em Geografia dos Mitos Brasileiros, autor já mencionado, lê-se que “Na noite de quinta para sexta-feira, despido, o homem dá sete nós em sua roupa e, em algumas partes, urina em cima.” ‘”Se esconderem a roupa que o Lobisomem deixou na encruzilhada ou desfizerem os sete nós, ficará ele todo o resto da sua existência um bicho fantástico.” Quando corre na praia, evita molhar-se na água do mar, que é sagrada. “O Lobisomem é invulnerável a tiro. Só se a bala estiver metida em cera de vela de Altar onde se haja celebrado três Missas da Noite de Natal.” Na mesma obra, encontram-se dois relatos que, em resumo, vão transcritos:

Francisco Teixeira, apelidado seu Nô, declarava publicamente desacreditar de Lobisomem e até caçoava do assunto. Um seu companheiro de trabalho, João Severino, zangava-se com essa atitude e avisou-o de que qualquer dia se arrependeria. Os companheiros alertaram-no: João Severino virava; ele que se prevenisse e andasse armado. Seu Nô tinha a faca na cintura. Uma noite, atravessava uma pequena várzea, quando lhe pulou em cima um bicho preto, do porte de um bezerro: Lutou furiosamente, conseguindo esfaquear e tirar sangue do animal. Ferida no pescoço, a besta correu para o mato. O homem, morto de medo, voltou para casa. No dia seguinte, sentiu falta do companheiro João Severino. Indagando, soube que estava doente. Foi visitá-lo. Encontrou-o de cama, gemendo e tomando remédios, com a nuca ferida.

O outro é um caso contado pelo próprio protagonista, João Francisco de Paula, de Santa Cruz, RGN. Todas as semanas, na noite de quinta para sexta-feira, era aquele barulhão, ladrar e uivos de cão, assim que a Lua subia; lá pelas onze horas da noite: Certa vez abriu a janela para espiar e vislumbrou o vulto de um animal meio baixo, roncando e batendo as orelhas. Dias depois um comboio arranchou-se na fazenda. Era a noite propicia. Contou o que sabia e os companheiros se dispuseram a caçar o bicho. Um deles tinha, justamente, cera benta consigo. Bezuntou as balas da sua arma com elas e ficaram todos de tocaia. Quando a Lua ia alta, ouviram a trovoada dos cães de caça e o barulho do animal pesado, acuado por eles. O vaqueiro escondeu-se perto da barranca do rio, agora seco pelo verão. De repente, o bicho passou. Descarregou a espingarda; conseguindo atingi-lo. Correram todos para ver. O animal, com terrível ronco, caíra barranca abaixo: A luz dos archotes que levavam, viram um Lobisomem – ainda era meio animal – como um porco com garras, da cintura para baixo; da cintura para cima era um homem moreno claro, cabelos encaracolados. Ali mesmo o enterraram, sem cruz, sob um montão de pedras, marcando o lugar daquela tragédia inacreditável.

A bibliografia consultada declara a inexistência de Lobisomem feminino, nas Américas.

Na verdade, a forma mais comum é a do Lobisomem masculino. Mas não a única. Documento encontrado em Os Barranqueiros, autor citado (A onça cabocla) e o doc. n° 41, de Serra Pelada, MT, comprovam a existência da licantropia feminina, no Brasil e, portanto, nas Américas.

“A Onça Cabloca

Há muitos anos morava numa choça de cascas de pau, a alguns metros do barranco do Rio São Francisco, uma velha tapuia, feiticeira e má. Alimentava-se de sangue humano e comia o fígado de suas vítimas, quando não se fartava de sangue.

Lá um ou outro caçador surpreendia-a, ocasionalmente, no meio da catinga, ou à boca de uma furna, ao pé da serra.

Quando tinha fome, primeiro despia-se, estendendo os trapos no chão, às avessas; depois, deitando-se neles, espojava-se.

Virava onça.

Assim transformada marchava contra pobres criaturas indefesas, de preferência mulheres e crianças. Apaziguada a fome, volvia ao ponto de partida, rebolando-se de novo sobre os andrajos.

Virava gente.

Certa vez, porém, chegou-lhe o castigo, tendo então se arrenegado de quem inventou a mandinga. Um pé de vento arrebatou-lhe os molambos e os atirou nas águas do rio e ela não pôde desencantar-se. Ficou onça para sempre e lá existe.”

1- E como estou para me transformar em lobo, começo a me atrapalhar e a tremer fortemente.

Lobisomem: assombração e realidade
Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/bibliografia-nacional-sobre-lobisomens/

Aleksandr Dugin – Eurasianismo, a Ideologia da Nova Rússia e a “Civilização Ocidental”

C. Baptista
No Brasil que alcançou o “sexto PIB do mundo” pouquíssimas pessoas conhecem sua própria história, muito menos a história universal ou a de um país como a Rússia, milenar e decisivo no jogo político internacional. Não falo simplesmente do seu passado remoto, muito menos de sua herança cultural herdada de Bizâncio. Sequer me refiro à URSS e, fazendo justiça ao acervo cultural do brasileiro médio, nem mesmo ao período recente de Yeltsin e Putin. Seria pedir demais, muito pedantismo “pequeno-burguês” de nossa parte. Bobagem conhecer a história ou se informar sobre acontecimentos de outros países.

Um traço “diretor” do caráter do brasileiro é a compulsão em se enxergar como discriminado e diminuído pelo “preconceito” europeu e americano, mas ele mesmo, como apedeuta e preguiçoso que é, esquiva-se de estudar e nem se esforça, – minimamente que seja – para compreender realidades externas ao seu torrão natal. Neste quesito fica atrás dos EUA, onde ao menos existe uma elite intelectual que por trás de uma massa de nulidades se aprofunda criticamente sobre os dilemas mundiais, o que não ocorre no Brasil onde o próprio Itamaraty se transformou em aparelho barato do governo de ocasião.  Mas, este artigo, pouco original e simplório, é direcionado ao restrito clubinho de compatriotas sequiosos de alcançar a verdade, para os quais nunca há limites para a obtenção de novas informações.

Através de um amigo que freqüenta os cursos do filósofo Olavo de Carvalho, tomei conhecimento há algum tempo da obra e ação política do russo Aleksandr Dugin. Para alguém que há mais de 20 anos estuda a história e economia soviética e escreveu há muitos anos atrás um análise sobre o que era a economia russa antes de 1917 (sem contar que minha monografia de graduação em economia em 1994 foi centrada na história recente da URSS e as reformas no início dos anos 90), embora um pouco afastado do tema, foi uma indicação oportuna, sobretudo pelo avanço no neo-comunismo russo de Guenady Zyuganov sobre Putin que se avizinha do ocaso esperado.

Expoente maior na atualidade do “Eurasianismo”, Aleksandr Dugin é alguém bastante próximo da linha dura comunista pós-soviética, de poderosos elementos das agências de (des) informação, membros da Duma (Parlamento) e do Executivo russo. Além disso, é quadro do Partido Político “Eurasia” é autor de “Fundamentos de Geopolítica”, um dos manuais empregados em cursos da Academia Militar Russa sob chancela do Alto Comando das Forças Armadas. Adicionalmente, participou recentemente de um debate com o pensador brasileiro radicado nos EUA, Olavo de Carvalho, que merece ser avaliado por todos que busquem melhor compreensão das implicações do “Eurasianismo”.

Resta um paralelo indelicado com o Brasil. Enquanto nosso país adota um “modelo” de crescimento ancorado no mercado externo e exportações de commodities (o que nos torna uma economia baseada em um tipo de especialização produtiva escravizada pela nova “divisão internacional do trabalho”, para usar termo emprestado de reconhecidos economistas marxólogos) de curto prazo e vulnerável a oscilações da economia internacional (ora, ao acusador cabe o ônus da prova, esta não é a tese cepalina?), a Rússia não só tem crescido como recuperado parte do seu capital humano, sendo capaz de modernizar seu setor militar-industrial. A “sonolenta” Rússia e os países da “ex-URSS”, antigas repúblicas soviéticas, são mais diretamente responsáveis pela queda das potências centrais no “ranking” do PIB que a suposta ascenção de países do “futuro” como o Brasil.

Voltando ao tema principal, não tenho conhecimento de títulos subscritos por Dugin em língua portuguesa. Apenas traduções amadoras na internet e parcas referências biográficas. Em inglês o interessado, entretanto, pode fazer o download de alguns “papers” que abordam com metodologia de qualidade variável o conceito de “eurasianismo” e filigranas de seu pensamento, uma mescla assaz inventiva e inteligente da religiosidade e misticismo russos (a “alma” da Velha Rússia) e leituras de Karl Schmidt,  Karl Haushofer, Guido Von Lizt, René Guénon e uma pequena plêiade de autores que estão longe de pertencer ao “mainstream” de abobalhados e papagaios de pirata que vêm arruinando a academia ocidental.

Bem, nos comentários à biografia e idéias de Aleksandr Dugin do Sr. John Dunlop pudemos encontrar uma apreciação global do que é o “Eurasianismo” e suas implicações como fundamento ideológico do imperialismo pós-soviético. Não podemos crer “in totum” nem no Sr. Dunlop (um defensor aberto da ‘sociedade atlanticista’) nem no que atribui ao Sr. Dugin, assim como não poderíamos, ao que tudo indica, depositar fé irrestrita em um intelectual russo que prega a desinformação sistemática como técnica de enfraquecimento do Ocidente. È pois crucial à política preconizada por Dugin o conceito de “revolução conservadora” que restaure os valores heróicos de uma tradição renovada. Mas, enfim, o que é o “Eurasianismo”? O que faz dele uma doutrina importante na Rússia atual e como sua gradual penetração entre as elites daquele país (onde tem se tornado uma “moda de salão”) impacta de forma preocupante a sociedade ocidental.

Recorrendo à extensa literatura do século XX sobre geopolítica – e especialmente a escola alemã do entre-guerras de Karl Haushofer – Dugin coloca um conflito dualístico entre o “Atlanticismo” (países “do mar” e civilizações com os Estados Unidos e a Grã Bretanha) e “Eurasianismo” (estados baseados na terra e civilizações como a Eurásia-Rússia). Como Wayne Allensworth percebeu, uma vez que se penetra a linguagem aparentemente reacional e acadêmica em “Fundamentos de Geopolítica”, tornamo-nos cientes de que ‘A geopolítica de Dugin é mística e oculta em essência, o formato das civilizações mundiais e os vetores conflitantes do desenvolvimento histórico são retratados como formatados por forças espirituais invisíveis além da compreensão do Homem
A partir de abril de 2001, um Dugin antes anônimo tornou-se uma personalidade política famosa na Rússia com a fundação do Movimento Político e Social Eurásia, que passava a atender inúmeras expectativas políticas voltadas para a primazia do Estado sobre o indíviduo, através de uma fórmula que combinava autocracia, submissão ao regime e xenofobia. Seu foco não é o recurso a meios militares para que a Rússia passe a predominar na “Eurásia”, mas um programa de desestabilização dos potenciais inimigos através da desinformação patrocinada pelos agentes do regime russo e seus aliados. O objetivo final é reestabelecimento de um império pós-soviético, após a capitulação de Gorbachev diante do Oeste, que sucumbiu à estratégia dos “atlanticistas”, particularmente os Estados Unidos da América. Neste sentido, Dugin enxerga a Federação Russa de 1991 não como um Estado em sentido lado, mas como uma “formação transicional no amplo e dinâmico processo geopolítico global”.

 

No enredo escrito pelos teóricos da “Grande Eurásia”, os russos étnicos cumprem o papel de sustentáculos de uma civilização única, um povo messiânico e “portador de significância pan humana”. Este povo deve funcionar como o substrato étnico do novo império (o que não difere muito do que ocorrera na extinta URSS). Ignorar o povo russo como um “fenômenos civilizacional” equivaleria do fim da Rússia enquanto civilização. Os russos, diz Dugin, são em primeiro lugar ortodoxos, russos em segundo e apenas no terceiro lugar, pessoas.

 

O maior inimigo a atacar seria a “Anaconda Americana”, uma metáfora da pressão que os EUA e seus aliados exercem sobre sobre as zonas costeiras da Eurasia, reduzindo o papel da Rússia ao de uma potência regional tão somente. Atacá-la significaria negar em bloco a doutrina do “Atlanticismo”, repudiar o controle estratégico dos Estados Unidos e refutar firmamente a supremacial valores econômicos liberais e favoráveis ao mercado, criando-se uma “base civilizacional comum” que impulsionasse a união dos povos eurasianos.

 

A tática, segundo diz Dugin, consiste em “introduzir a desordem geopolítica na atividade americana interna, encorajando todos os tipos de separatismo e conflitos étnicos, sociais e raciais, apoiando ativamente todos os movimentos dissidentes – extremistas, racistas e grupos sectários, de modo a desestabilizar processos políticos internos aos EUA. Isto só iria fazer sentido caso fosse combinado ao suporte às tendências isolacionistas na política americana”. Um aliado importante do projeto eurasiano seria a América Latina e propõe “a expansão eurasiana nas Américas Central e do Sul com o objetivo de libertá-las do controle do Norte. Como resultado destes esforços de desestabilização, os Estados Únicos e seu aliado mais próximo, a Grã Bretanha, iriam eventualmente ser forçados a deixar as orlas da Eurasia (e África) e ‘o edificio inteiro do Atlanticismo’ iria ao colapso”.

 

Algumas alianças são propostas por Dugin: 1) Um eixo Moscou-Berlim, em que a tarefa de Moscou seria retirar a Europa da OTAN (leia-se EUA), amparar a unificação européia e estreitar laços com a Europa Central sob a égide do “eixo fundamental externo”, gestando uma Europa unida e amigável, sob o princípio do inimigo comum, os Estados Unidos; 2) a formação de um “bloco franco-germânico, com raízes na Itália e Espanha, isolando ainda mais a Inglaterra; 3) o exercío de dominância política da Alemanha sobre Estados católicos e protestantes na Europa Central; 4) A junção da Finlândia e da República Autônoma da Karelia; 5) a inserção da Estônia na esfera de influência alemã; 6) a manutenção da existência da Ucrânia apenas como “mero cordão sanitário”; 7) a criação do Eixo Moscou-Japão e estreitamento de laços com a Índia; 8) a caracterização da China como um “factotum atlanticista” e maior ameaça ao Eurasianismo e as regiões do Tibete, Sinkiang, Mongolia e Manchuria, em seu conjunto, como um “cinto de segurança” para a Rússia e estabelecimento de uma legítima de influência para o país como “compensação geográfica, adstrita às Filipinas, Indonésia e Austrália; 9) a ideia da “aliança continental russo-islâmica” delineada no eixo Moscou-Teerã, fundada em uma estratégia antiatlanticista comum enraizada na “total incompatibilidade espiritual com a América; 10) o emprego estratégico de um tradicional aliado russo contra potencial agressão turca, a Armênia.

 

Misto de receituário político eficaz e desinformação de guerra, o arsenal geopolítico de Dugin precisa ser levado mais a sério. Parte de sua tática vem se concretizando, como o afastamento político e econômico da Grã-Bretanha do Continente capitaneado pela Alemanha e França, como se testemunhou mês passado nos desdobramentos das discussões acerca de um programa de estabilização na zona do Euro. Outras medidas podem ser abertamente diversionistas (ou não, não se pode trabalhar neste terreno mas no do cálculo de probabilidades) como a “ameaça” chinesa. Tudo depende do grau de importância e credibilidade que o analista ocidental, calçando as sandálias da humildade, possa atribuir aquilo que despreza por não compreender, ou estudar.
Last, but not least“, a pergunta que não quer calar é: será que a sociedade ocidental atlanticista do Oeste, moralmente podre e com valores em frangalhos poderá resistir ao assédio e à guerra de fricção movida por povos (não falo do russo, mas em especial os países islâmicos, o budismo e as tradições hinduístas sob a égida do “eurasianismo”) que rejeitam sua programação política desenhada por pequenos grupos de interesses que querem, a todo custo, fazer prevalecer seus próprios “direitos” às custas de toda uma população?

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/aleksandr-dugin-eurasianismo-a-ideologia-da-nova-russia-e-a-civilizacao-ocidental/

A Iniciação ao Primeiro Grau da Bruxaria

Formalmente a iniciação de primeiro grau torna-a uma bruxa(o) comum. Mas é claro que é um pouco mais complicado que isso.

Como todos os bruxos experientes, existem algumas pessoas que são bruxas (ou bruxos) de nascimento muitas vezes podem tê-lo sido desde uma encarnação passada. Uma boa Sumo-Sacerdotisa ou Sumo-Sacerdote costuma detectá-las. Iniciar um destes bruxos não é “fazer uma bruxa”; é muito mais um gesto bi-direccional de identificação e reconhecimento e claro, um Ritual de boas-vindas de uma mais-valia de peso ao Coventículo.

No outro extremo, existem os que são mais lentos ou menos aptos muitas vezes boas pessoas, sinceras e trabalhadoras que o iniciador sabe que têm um longo longo caminho a percorrer, e provavelmente muitos obstáculos e condições adversas a ultrapassar, antes de se poderem chamar verdadeiros bruxos. Mas mesmo para estes, a Iniciação não é um mero formalismo, se o iniciador conhecer a sua Arte. Pode dar-lhes uma sensação de integração, um sentimento que um importante marco foi ultrapassado; e apenas por lhes atribuir a qualidade de candidato, (apesar de não parecer terem qualquer dom), o direito de se auto-denominarem bruxos, encoraja-os a trabalhar arduamente para merecerem esta qualidade. E alguns menos aptos podem tomá-lo de surpresa com uma aceleração súbita no seu desenvolvimento após a iniciação; então saberão que a iniciação resultou.

No meio, encontra-se a maioria; os candidatos de potencial médio e forte capacidade de evolução que, se apercebem de uma forma mais ou menos clara que a Wicca é o caminho que têm procurado e porquê, mas que ainda estão no início da exploração das suas capacidades. Para estes, uma Iniciação bem conduzida pode ser uma experiência poderosa e incentivante, um genuíno salto dialéctico no seu desenvolvimento psíquico e emocional. Um bom iniciador tudo fará para que isso aconteça.

Na verdade, o iniciador não está sozinho na sua tarefa (e não nos estamos apenas a referir ao apoio de algum companheiro ou dos outros membros do Coventículo). Uma Iniciação é um Ritual Mágico, que evoca poderes e deve ser conduzido com a confiança plena que esses poderes invocados se irão manifestar.

Toda a iniciação, em qualquer religião genuína, é uma morte e renascimento simbólicos, suportados de forma consciente. No Ritual Wicca este processo é simbolizado pela venda e amarração, o desafio, a provação aceite, a remoção final da venda e das amarras é a consagração de uma nova vida. O iniciador deve manter este objectivo claro na sua mente e concentrar-se nele, e o Ritual em si deve provocar a mesma sensação na mente do candidato.

Em séculos mais remotos a imagem de morte e ressurreição era sem dúvida ainda mais notória e explícita e provavelmente desenrolava-se ainda com muito menos palavras. A famosa bruxa de Sheffield, Patricia Crowther, refere até que ponto ela teve esta experiência durante a sua Iniciação por Gerald Gardner. O Ritual era Gardneriano normal, basicamente da mesma forma que o descrevemos nesta secção, mas antes do Juramento, Gardner ajoelhou-se ao seu lado e meditou durante um bocado. Patricia enquanto esperava entrou subitamente em transe (que veio a descobrir mais tarde ter durado 40 minutos) ao que parece recordou uma reencarnação passada. Ela viu-se a ser transportada por um grupo de mulheres nuas numa procissão de archotes que se dirigia para uma caverna. Elas saíram, deixando-a aterrorizada no meio da escuridão absoluta. Gradualmente conquistou o seu medo, acalmou e no devido tempo as mulheres voltaram. Ficaram em linha com as pernas abertas e ordenaram-lhe que passasse, amarrada como estava, através de um túnel de pernas que se assemelhavam a uma vagina, enquanto que as mulheres uivavam e gritavam como se tivessem a ter um filho. Enquanto ela passava, foi puxada pelos pés e as amarras foram cortadas. A líder encarando-a “ofereceu-me os seus seios, simbolizando que me iria proteger como ela o faria aos seus próprios filhos. O corte das amarras simbolizava o corte do cordão umbilical”. Ela teve que beijar os seios que lhe foram oferecidos, tendo sido depois salpicada com água ao mesmo tempo que lhe diziam que tinha renascido no sacerdócio dos Mistérios da Lua.

Gardner comentou, quando ela voltou à consciência: “durante muito tempo eu tive a ideia que se costumava fazer algo como aquilo que tinhas descrito e agora sei que não estava longe da verdade. Deve ter acontecido há séculos atrás, muito antes dos rituais verbais terem sido adoptados pela Arte.”

A morte e o renascimento com todos os seus terrores e promessas, dificilmente poderia ser muito dramatizado; e temos a sensação que a recordação de Patricia era genuína. Ela obviamente é uma bruxa nata de há muito tempo atrás.

Mas vamos retornar ao Ritual Gardneriano. Para este efeito não tínhamos apenas três textos mas quatro; somados aos textos A, B e C (ver pág. 3?) existe a obra de Gardner denominada High Magic’s Aid. Esta obra foi publicada em 1941, antes da cessação da lei Witchcraft Acts na Inglaterra e, antes dos seus livros Witchcraft Today (1954) e The Meaning of Witchcraft (1959). Neste, Gardner revelou pela primeira vez em ficção algum do material que tinha aprendido com o seu Coventículo. No Capítulo XVII a bruxa Morven faz o herói Jan atravessar a sua iniciação do 1º Grau e o Ritual é descrito em detalhe. Pensamos que essa descrição foi muito útil para a clarificação de um ou dois pontos obscuros, por exemplo, a ordem de “os pés nem estarem amarrados nem livres”, que conhecíamos da nossa própria Iniciação Alexandrina, mas suspeitávamos estar deslocada. (5).

O Ritual de 1º Grau, provavelmente foi alterado pelo menos à data em que o Livro das Sombras, atingiu a fase do texto C. Isto acontece porque de entre o material incompleto na posse do Coventículo de New Forest teria sido naturalmente a parte que sobreviveu mais completa na sua forma original. Gerald Gardner não teria necessidade de preencher as falhas com material Crowleiano ou outro material não wiccano e desta forma Doreen Valiente não teve que sugerir o tipo de transcrição que era necessário “por exemplo para o da energia exortação”.

Na prática wiccana, um homem é sempre iniciado por uma mulher e uma mulher por um homem. E apenas uma bruxa de 2º ou 3º Grau pode conduzir uma Iniciação. Existe uma excepção especial a cada destas regras.

A primeira excepção, uma mulher pode iniciar a sua filha ou um homem o seu filho, “porque são parte deles”. Alex Sanders ensinou-nos que isto poderia ser feito numa emergência, mas o Livro das Sombras de Gardner não apresenta esta restrição.

A outra excepção, refere-se a única situação em que uma bruxa(o) de 1º Grau (e uma totalmente nova), pode iniciar outra. A Wicca põe grande ênfase na parceria de trabalho homem/mulher e muitos Coventículos ficam deliciados quando um casal avança para a Iniciação juntos. Um método muito agradável de levar a cabo uma dupla Iniciação como esta, é exemplificado pelo caso de Patricia e Arnold Crowther (que na altura ainda eram casados) por Gerald Gardner.

Gardner, começou por Iniciar Patricia enquanto Arnold esperava fora do quarto, então ele pôs o Livro das Sombras nas mãos dela incitando-a enquanto ela própria iniciava Arnold. “Esta é a forma que sempre foi feita”, disse-lhe Gardner mas temos que admitir que esta forma era desconhecida para nós até lermos o livro de Patricia.

Gostamos desta fórmula; cria uma ligação especial, no sentido wiccano da palavra, entre os dois Iniciados desde o princípio no trabalho do Coventículo. Doreen Valiente confirmou-nos que esta era a prática frequente de Gardner, e acrescenta: “De outra forma, no entanto, mantinhamos a regra que apenas um bruxo de 2º ou 3º Grau poderia fazer uma Iniciação”.

Gostavamos de mencionar aqui duas diferenças “para além dos pequenos pontos que se notam no texto”, entre o Ritual de Iniciação Alexandrino e o Gardneriano, este último temos tomado como modelo. Não mencionámos estas diferenças com algum espírito sectário todos os Coventículos vão e devem fazer o que sentem melhor para eles mas apenas para registar qual é qual e expressar as nossas próprias preferências, aquelas que nos servem de modelo.

Primeiro, o método de trazer o Postulante para o Círculo. Na tradição Gardneriana ele é empurrado para o Círculo, por trás; depois da declaração do Iniciador, “Eu dou-te uma terceira para passares através desta Porta do Mistério”, ele apenas acrescenta de forma misteriosa “dá-lhe”.

O livro High Magic’s Aid é mais específico: “Abraçando-o por trás com o seu braço esquerdo à volta da cintura e põe o braço direito dele à volta do seu pescoço e vira-se para ela e diz: “Eu dou-te a terceira senha; “Um beijo”. Ao dizer isso, ela empurra-o com o seu corpo através da porta para dentro do Círculo. Uma vez lá dentro ela liberta-o, segredando: “Esta é a forma que todos são trazidos pela primeira vez para o Círculo” (High Magic’s Aid, pág. 292).

É claro que, o acto de pôr o braço direito do Iniciador à volta do pescoço não é possível se os pulsos destes estiverem amarrados; e rodar a sua cabeça com a sua mão para o beijar sobre o ombro, é quase impossível se ele for muito mais alto que ela. Esta é a razão por que sugerimos que ela o beije antes de passar por detrás dele. É o acto de empurrar por trás que é a tradição essencial; por certo que o Coventículo de Gardner sempre o fez.

“Penso que a intenção original era ser uma espécie de teste”, diz-nos Patricia, “porque alguém podia perguntar, como no High Magic’s Aid, quem te trouxe para um Círculo?” a resposta era “Eles trouxeram-me por trás”.

A prática Alexandrina era segurar os ombros do iniciado à sua frente, beijá-lo e então puxá-lo para dentro do Círculo, rodando-o em sentido deosil. Esta foi a forma como fomos os dois Iniciados e não nos sentimos pior por isso.

Mas não vemos nenhuma razão, agora, para partir da tradição original especialmente porque ela tem um interesse histórico inerente; por isso, viramo-nos para o método Gardneriano.

Quando Stewart visitou o Museu das Bruxas na Ilha de Man em 1972 (à data aos cuidados de Monique Wilson, a quem Gardner deixou a sua colecção insubstituível que ela mais tarde de forma imperdoável vendeu à América), Monique disse-lhe que como não tinha sido empurrado por trás para dentro do Círculo na sua Iniciação, “nenhuma verdadeira bruxa se associaria a ele”. Então ela ofereceu-se para o iniciar “da forma devida”. O Stewart agradeceu-lhe educadamente mas declinou o convite. As precauções e os formalismos poderiam ter um fundamento válido nos tempos das perseguições; insistir no assunto agora é mero sectarismo.

O segundo maior afastamento Alexandrino da Tradição reside no acto de tirar as medidas. Os Coventículos Gardnerianos retém a medida; os Alexandrinos da Tradição devolvem-nas ao Postulante.

No Ritual Alexandrino, a medida é tirada com um fio vermelho de linho, não composto, apenas da coroa aos calcanhares, omitindo as medidas da cabeça, peito e ancas. O Iniciador diz: “Agora vamos tirar-te as medidas e medimos-te da coroa da tua cabeça até às solas dos teus pés. Nos tempos antigos, quando ao tirarem a tua medida também retiravam amostras do cabelo e unhas do teu corpo. O Coventículo guardaria então a medida e as amostras e se tentasses sair do Coventículo trabalhariam com eles para te trazer de volta e nunca mais de lá sairias. Mas como vieste para o nosso Círculo com duas expressões perfeitas, Amor Perfeito e Confiança Perfeita, devolvemos-te a medida, e ordenamos-te que a uses no teu braço esquerdo”.

A medida é atada à volta do braço esquerdo do Postulante até ao fim do Ritual, depois do qual, poderá fazer aquilo que entender com ela. A maior parte dos Iniciados destroem-nos, outros guardam-nos como recordação, outros põe-nos em medalhões e dão-nos de presentes aos seus companheiros de trabalho.

O simbolismo do “Amor e Confiança” no costume Alexandrino é claro, e alguns Coventículos podem preferi-lo. Mas sentimos que há ainda mais a dizer acerca do Coventículo guardar a medida, não como chantagem, mas como uma lembrança simbólica da nova responsabilidade do Iniciado perante o Coventículo. De outra forma não parece fazer sentido algum tirá-la.

Doreen diz-nos: “A ideia de devolver a medida é, na minha opinião, uma inovação de Sanders. Na tradição de Gerald, era sempre retida pelo Iniciador. Nunca, no entanto, existia alguma intenção que a medida fosse utilizada na forma chantagista descrita no Ritual Alexandrino. Ao invés, se alguém quisesse sair do Coventículo, eram livres de o fazer, desde que respeitassem da confiança dos outros membros e mantivessem os Segredos. Afinal de contas, qual é a lógica de manter alguém no Coventículo contra a sua vontade? As suas más vibrações só estragariam tudo. Mas nos tempos antigos a medida era usada contra qualquer pessoa que deliberada e maliciosamente traísse os Segredos. Gerald disse-me que “a medida era então enterrada num local lamacento, com a maldição de que apodrecesse, assim como o traidor”. Lembrem-se, traição naqueles tempos era uma questão de vida ou de morte literalmente!”

Sublinhamos de novo perspectivas das diferenças em detalhe, podem ser fortemente mantidas, mas no final é a decisão do Coventículo que interessa quanto a uma forma particular, ou até em encontrar uma forma própria. A validade de uma Iniciação não depende nunca dos pormenores. Depende apenas, da sinceridade e efectividade psíquica, espiritual do Coventículo, e da sinceridade e potencial psíquico do Iniciado. É como diz a Deusa na Exortação: “E aquele que pensa em procurar-me, saiba que procurar apenas e ter compaixão não o ajudará, a menos que conheça o Segredo: que aquilo que não procure e não encontre dentro dele, então nunca o encontrará sem ele. Para verem, eu tenho estado contigo desde o Início; E Eu sou aquilo que se alcança no fim do desejo”.

Dar importância demasiado aos pormenores tem sido, infelizmente, a doença de muitas doutrinas cristãs, incluindo aquelas que tinham as suas origens na beleza; os bruxos não devem cair na mesma armadilha. Somos tentados a dizer que as doutrinas deviam ser escritas por poetas e não por teólogos.

Uma palavra para os nomes Cernunnos e Aradia, os nomes de Deuses usados no Livro das Sombras de Gardner. Aradia, foi adoptada dos bruxos da Toscânia (ver o livro de Charles G. Leland, Aradia, O Evangelho do Bruxos); sobre as suas possíveis ligações celtas, ver o nosso livro Oito Sabbats para Bruxas, p. 84. Cernunnos (ou como lhe chama Jean Markale no seu Mulheres Celtas, Cerunnos) é o nome dado pelos arqueólogos ao Deus Cornudo celta, porque não obstante terem sido encontradas muitas representações deste, em todo o lado desde o Caldeirão Gundestrop até ao monte Tara (ver fotografia 10), apenas uma destas tem um nome inscrito um baixo relevo encontrado em 1710 na Igreja de Notre Dame em Paris, que se encontra agora no Museu de Cluny na mesma cidade. O sufixo “-os”sugere ter sido uma helenização de um nome celta; os druidas são conhecidos por serem familiares com o grego e terem usado este alfabeto para as suas transacções em assuntos vulgares, apesar neste caso as letras actuais serem romanas. Note-se também que o grego para “corno” é (Keras). Doreen Valiente sugere (e concordamos com ela) era na verdade Herne (como em Herne o Caçador, do Windsor Great Park). “Alguma vez ouviram o choro de um Veado (Fallow deer) no cio?” pergunta ela. “Ouvirão sempre durante o cio outonal do Veado na New Forest, e soa exactamente como “HERR-NN… Herr-rr-nn…” repetido vezes sem conta. É um som emocionante e nunca o esqueceremos. Agora, das pinturas rupestres em grutas e estátuas que encontramos dele, Cernunnos era eminentemente um Deus-Veado. Então como é que os mortais o denominaram melhor? Certamente pelo som que da forma mais intensa lembra um dos grandes Veados da Floresta”.

Para cada um deles podemos acrescentar que o intercâmbio dos sons “h” e “k” é sugerido pelos nomes de lugares como Abbas em Donset, local do famoso Gigante de Hillside. Existe um número razoável de lugares denominados Herne Hill em Inglaterra, bem como duas Herne Villages, uma Herne Bay, uma Herne Drove, uma Hernebridge, uma Herne Armour, uma Herne Pound, e por aí fora. Herne Hill é algumas vezes explicado como significando “Monte da Garça” mas, como Doreen explica, as garças procriam junto aos rios e lagos e não em montes; “parece mais provável para mim que Herne Hill era sagrado para o Velho Deus”.

No Livro Alexandrino das Sombras, o nome é “Karnayna” mas esta forma não surge em mais nenhum local, que quer eu quer a Doreen tenhamos visto. Ela pensa que “é provavelmente não concerteza uma confusão auditiva com Cernunnos. O nome actual pode ter sido omitido no livro de onde Alex copiou, e ele teve que se apoiar numa recordação verbal de alguém”. (conhecendo o Alex, diriamos “quase de certeza”!)

No texto que se segue, o Iniciador pode ser a Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote, dependendo se o Iniciado for homem ou mulher; assim, referimo-nos ao Iniciador como “ela” por uma questão de simplicidade, e ao “Postulante” (mais tarde “Iniciado”) como “ele” apesar de poder ser ao contrário, obviamente. O companheiro de trabalho do Iniciador, quer seja Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote, tem certamente também deveres a desempenhar, e é referido como o “Companheiro”.

A Preparação

Tudo é preparado como para um Círculo normal, com os itens adicionais seguintes também preparados:

  • Uma venda;
  • Uma distância de fio ou corda fina (pelo menos 2,50m);
  • Óleo de unção;
  • Um pequeno sino de mão;
  • Três comprimentos de corda vermelha: uma com 2,75m e duas com 1,45m.

Também é usual, mas não essencial, que o Postulante traga o seu próprio novo Athame, e corda vermelha, branca e azul para serem consagradas imediatamente após a sua Iniciação(1). Devem dizer-lhe, logo que saiba que vai ser Iniciado, que tem de adquirir qualquer faca de cabo preto com que se identifique. A maior parte das pessoas compra um punhal com bainha vulgar (a bainha é útil, para transportá-lo de e para o local de encontro) e pintam o cabo de preto (se já não for, claro). Pode não haver tempo para ele gravar os Símbolos tradicionais no cabo (ver Secção XXIV) antes de ser consagrado; isto pode ser feito mais tarde nos tempos livres. Alguns bruxos nunca chegam a inscrever quaisquer Símbolos, preferindo a Tradição alternativa, que diz que os instrumentos de trabalho não devem ser identificáveis como tal para algum estranho(2); ou porque o padrão do cabo do punhal escolhido não permite gravações. (O Athame do Stewart, agora com 12 anos, tem os Símbolos inscritos; o de Janet, com a mesma idade mas com um cabo com padrão, não tem; e temos outro Athame feito à mão por um artesão amigo que tem um cabo de pé de Veado que obviamente não dá para gravar). Sugerimos que as lâminas dos Athames sejam cegas, uma vez que nunca são usadas para cortar seja o que for mas são usadas para gestos rituais no que pode ser um Círculo apertado e populoso:

As três cordas que o iniciado tem que trazer devem ter 2,75m de comprimento cada. Gostamos de evitar que as pontes das cordas se desfaçam usando fita ou atando-as com fio da mesma cor. No entanto, Doreen diz: “Atamos nós às pontas para evitar que se soltem e a medida essencial calcula-se de nó em nó.”

Também se lhe deve dizer para levar a sua própria garrafa de vinho tinto até para lhe dar a entender logo de princípio que as despesas de comida e bebida para o Coventículo, quer seja vinho para o Círculo ou alguma comida para antes ou depois do Círculo, não devem cair inteiramente para a Sumo-Sacerdotisa ou o Sumo-Sacerdote!

Quanto aos itens adicionais listados em cima qualquer lenço servirá para utilizar como venda, mas deve ser opaco. E a escolha do óleo de unção cabe à Sumo-Sacerdotisa; o Coventículo de Gardner usava sempre Azeite virgem. O costume Alexandrino diz que o óleo deveria incluir um toque do suor da Sumo-Sacerdotisa e do Sumo-Sacerdote.

O Ritual

Antes do Círculo ser fechado, o Postulante é posto fora do Círculo a Nordeste, vendado e amarrado, por bruxos do sexo oposto. O acto de atar é feito com as três cordas vermelhas(3) – uma com 2,75m e as outras duas com 1,45m. A corda maior é dobrada ao meio para os pulsos serem amarrados juntos atrás das costas e as duas pontas são trazidas para a frente por cima dos ombros e atadas em frente ao pescoço, com as pontas caídas a formar uma pega por onde o Postulante pode ser dirigido(4). Uma corda pequena é atada no tornozelo direito e a outra por cima do joelho esquerdo cada uma com as pontas bem escondidas para que o não magoem. Enquanto se estiver a corda no tornozelo, o Iniciador diz:

“Pés nem presos nem livres.”(5)

O Círculo está agora aberto, e o Ritual de Abertura procede como normalmente, exceptuando o “Portão” a Nordeste que não está ainda fechado e o exortação não ter sido dita. Depois do Atrair a Lua(6), o Iniciador dá a Cruz Cabalística(7), como se segue: “Ateh” (tocando na testa), “Malkuth” (tocando no peito), “ve-Geburah” (tocando no ombro direito), “ve-Gedulah” (tocando o ombro esquerdo), “le-olam” (apertando as mãos à altura do peito).

Depois das Runas das Feiticeiras, o Iniciador vai buscar a Espada (ou Athame) ao Altar. Ela e o Companheiro encaram o Postulante.

Então eles declamam o exortação (ver apêndice B, pp. 297-8).

O Iniciador então diz:

“Ó tu que estás na fronteira entre o agradável mundo dos homens e os Domínios Misteriosos do Senhor dos Espaços, tens tu a coragem de fazer o teste?”

O Iniciador coloca a ponta da Espada (ou Athame) contra o coração do Postulante e continua:

“Porque digo verdadeiramente, é melhor que avances na minha lâmina e pereças, que tentes com medo no teu coração.”

O Postulante responde:

“Tenho duas Senhas. Perfeito Amor e Perfeita Confiança”(8).

O Iniciador diz:

“Todos os que assim estão são duplamente bem-vindos. Eu dou-te uma terceira para passares através desta misteriosa Porta”.

O Iniciador entrega a Espada (ou Athame) ao seu Companheiro, beija o Postulante e passa para trás dele. Abraçando-o por detrás, empurra-o para a frente, com o seu próprio corpo, para dentro do Círculo. O seu Companheiro fecha ritualmente a “porta” com a Espada (ou Athame), que depois recoloca no Altar.

O Iniciador leva o Postulante aos pontos cardeais em volta e diz:

“Tomai nota, ó Senhores do Este[Sul/Oeste/Norte] que_________está devidamente preparado(a) para ser iniciado(a) Sacerdote (Sacerdotisa) e Bruxo(a)”(9).

Então o Iniciador guia o Postulante para o centro do Círculo. Ele e o Coventículo circulam à sua volta em sentido deosil, cantando:

“Eko, Eko, Azarak,
Eko, Eko, Zomelak,
Eko, Eko, Cernunnos(10),
Eko, Eko, Aradia(10)”

Repetido sempre, enquanto empurram o Postulante para a frente e para trás entre eles, virando-o às vezes um pouco para o desorientar, até o Iniciador o mandar parar com um “Alto!”. O Companheiro toca o sino três vezes, enquanto o Iniciador vira o Postulante (que ainda está no centro) para o Altar.

O Iniciador então diz:

“Noutras religiões o Postulante ajoelha-se enquanto o Sacerdote o olha de cima. Mas na Arte Mágica somos ensinados a ser humildes, e ajoelhamo-nos para dar as boas-vindas e dizemos…”

O Iniciador ajoelha-se e dá o “Beijo Quíntuplo” ao Postulante, como se segue:

“Abençoados sejam os teus pés, que te trouxeram para estes caminhos” (beijando o pé direito e depois o esquerdo).

“Abençoados sejam os teus joelhos, que devem ajoelhar perante o Altar Sagrado” (beijando o joelho direito e depois o esquerdo).

“Abençoados sejam o teu falo (ventre) sem o qual não existiríamos” (beijando acima do pêlo púbico).

“Abençoado seja o teu peito, formado na força [seios, formados na beleza]” (11) (beijando o seio direito e depois o esquerdo).

“Abençoados sejam os teus lábios, que irão proferir os Nomes Sagrados” (abraçando-o e beijando-o nos lábios).

O Companheiro passa o comprimento de fio ao Iniciador, que diz:

“Agora vamos tirar a tua medida.”

O Iniciador, com ajuda de outro bruxo do mesmo sexo, estica o fio do chão aos pés do Postulante até ao alto da sua cabeça, e corta esta medida com a faca de cabo branco (que o seu Companheiro lhe traz). O Iniciador então mede-o uma vez à volta da cabeça e ata um nó para marcar a medida; outra (da mesma ponta) à volta do peito e ata outro nó a marcar; outra à volta das ancas atravessando os genitais e dá um nó.

Então retira a medida e pousa-a no altar.

O Iniciador pergunta ao Postulante:

“Antes de jurares a Arte, estás preparado para passar a provação e ser purificado?”

O Postulante responde:

“Estou.”

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo ajudam o Postulante a ajoelhar-se, e curvar a sua cabeça e ombros para a frente. Eles soltam as pontas das cordas que atam os tornozelos e os joelhos juntos(12). O Iniciador vai então buscar o chicote ao Altar.

O Companheiro toca o sino três vezes e diz: “Três.”

O Iniciador dá três chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: “Sete.” (Não volta a tocar o sino).

O Iniciador dá sete chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: “Nove.”

O Iniciador dá nove chicotadas leves ao Postulante.

O Companheiro diz: “Vinte e Um.”

O Iniciador dá vinte e uma chicotadas leves ao Postulante (a vigésima primeira chicotada pode ser mais vigorosa, como lembrança que o Iniciador tem sido contido propositadamente.)

O Iniciador diz:

“Passaste o teste com valentia. Estás pronto a jurar que serás sempre verdadeiro com a Arte?”

O Postulante responde: “Estou.”

O Iniciador diz (frase a frase):

“Então repete comigo: “Eu,__________, na presença dos Todo Poderosos, de minha livre vontade e da forma mais solene juro manter sempre secreto e nunca revelar os segredos da Arte, excepto se for a uma pessoa adequada, devidamente preparada num Círculo como aquele em que eu estou agora; e nunca negarei os segredos a uma pessoa como esta se ele ou ela provarem ser um Irmão ou Irmã da Arte. Tudo isto eu juro pelas minhas esperanças numa vida futura, ciente que a minha medida foi tirada; e que as minhas armas se virem contra mim se eu quebrar este juramento solene.”

O Postulante repete cada frase depois do Iniciador.

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo ajudam agora o Postulante a pôr-se de pé.

O Companheiro traz o óleo de unção e o cálice de vinho.

O Iniciador molha a ponta do dedo no óleo e diz:

“Eu por este meio te marco com o Sinal Triplo. Consagro-te com óleo.”

O Iniciador toca o Postulante com óleo logo acima do pêlo púbico, no seu seio direito, no seu seio esquerdo e outra vez acima do pêlo púbico, completando o triângulo invertido do 1.º Grau.

Depois molha a ponta do dedo no vinho, diz “Consagro-te com vinho” e toca-lhe nos mesmos locais com o vinho.

A seguir diz “Consagro-te com os meus lábios”, beija o Postulante nos mesmos locais e continua “Sacerdote (sacerdotisa) e Bruxo(a).”

O Iniciador e outro bruxo do mesmo sexo tiram-lhe a venda e desatam as cordas.

O Postulante é agora um bruxo iniciado, e o ritual é interrompido para cada membro do Coventículo lhe dar as boas-vindas e os parabéns. Quando acabarem, o ritual prossegue com a apresentação dos instrumentos de trabalho. À medida que cada instrumento é apresentado, o Iniciador trá-lo do Altar e dá-o ao Iniciado com um beijo. Outro bruxo do mesmo sexo do Iniciador aguarda, e à medida que se acaba a apresentação de cada instrumento este leva-o de volta ao Altar.

O Iniciador explica as ferramentas como se segue:

“Agora apresento-te os Instrumentos de Trabalho. Primeiro, a Espada Mágica. Com isto, como com o Athame, dás forma aos Círculos Mágicos, dominas, subjugas e punes todos os espíritos rebeldes e demónios, e podes até persuadir anjos e espíritos bons. Com isto na tua mão, lideras o Círculo.”

“A seguir apresento-te o Athame. Esta é a verdadeira arma do bruxo, e tem todos os poderes da Espada Mágica.”

“A seguir apresento-te a Faca de Cabo Branco. É usada para formar todos os instrumentos usados na Arte. Só pode ser usada num Círculo Mágico.”

“A seguir apresento-te a Varinha. A sua utilidade é chamar e controlar certos anjos e génios quando não seja apropriado o uso da Espada Mágica.”

“A seguir apresento-te o Cálice. Este é o receptáculo da Deusa, o Caldeirão de Cerridwen, o Santo Graal da Imortalidade. Neste bebemos em camaradagem, e em honra à Deusa.”(13)

“A seguir apresento-te o Pentáculo. Este tem o objectivo de chamar os espíritos apropriados.”

“A seguir apresento-te o Incensário. É usado para encorajar e dar as boas vindas aos espíritos bons e banir espíritos maus.”

“A seguir apresento-te o Chicote. É o símbolo do poder e do domínio. Também é purificador e iluminador. Por isso está escrito, “Para aprender deves sofrer e ser purificado”. Estás disposto a sofrer para aprender?”

O Iniciado responde: “Estou.”

O Iniciador continua: “A seguir e por fim apresento-te as Cordas. Elas são usadas para prender os Sigilos da Arte; também a base do material; e também são necessárias para o Juramento.”

O Iniciador diz: “Agora saúdo-te em nome de Aradia, novo Sacerdote(Sacerdotisa) e Bruxo(a)”, e beija o Iniciado.

Finalmente, conduz o Iniciado a cada um dos pontos cardeais em volta e diz: “Ouçam ó Todos Poderosos do Este [Sul/Oeste/Norte]; ___________foi consagrado Sacerdote (Sacerdotisa), Bruxo(a) e criança escondida da Deusa.”(14)

Se o Iniciado trouxe o seu novo Athame e/ou as Cordas, ele pode agora, como seu primeiro trabalho mágico, consagrá-los (ver Secção IV) com o Iniciador ou com a pessoa que irá ser o seu Companheiro de Trabalho, se já for conhecido, ou se (como no caso de Patricia e Arnold Crowther) eles foram iniciados na mesma ocasião.

Notas 

(1) Estas cordas são para trabalhar a ‘magia da corda’ e cada bruxa deve ter o seu próprio conjunto pessoal. (Não se deve confundir com a corda longa e duas curtas, mencionados na lista acima, que são usadas para atar o Postulante; sugerimos que coventículo deva manter um jogo destas cordas separadas das outras, para ser usado somente em iniciações). Um modo tradicional de usar uma corda de 2,74 m pode ser, de a atar em laço, pô-la sobre o athame espetado no solo, esticando o laço totalmente (1,36 m) e usa-lo como um compasso para desenhar o círculo mágico. Doreen diz: Este método era realizado antigamente em que os soalhos das casas era, constituídos de terra batida. penso que poderiam ter usado a faca branca ou giz para desenhar o círculo real, dependendo da superfície em que trabalhavam’.

(2) Uma das nossas bruxas, doméstica, que tivesse que realizar as suas práticas de uma forma secreta, tinha como athames, duas facas brancas entre o seu conjunto de cozinha, identificável somente por ela; o seu pentáculo era um determinado prato de prata no seu armário; e assim, por diante. Tal secretismo era necessário, nos dias de perseguição, e naturalmente a vassoura tradicional de bruxa num passe de mágica disfarçada num espanador.

(3) Na prática Alexandrina, utilizam-se somente duas cordas. Uma vermelha para a garganta e os pulsos e uma branca para um dos tornozelos. Ainda segundo Doreen: ‘As nossas cordas eram geralmente vermelhas, a cor da vida, tendo sido também usadas outras cores,como o verde, azul ou preto. Nenhum significado particular foi unido a esta cor, excepto ser uma cor da nossa preferência vermelho apesar de não ser fácil encontrar corda de seda de qualidade apropriada para o efeito.

(4) Isto assemelha-se a uma característica da iniciação Maçónica, apontando ao peito do Postulante.

(5) Dos textos de Gardner, isto aparece somente no Hight Magic’s Aid. O ritual Alexandrino usa-o, mas como uma regra.

(6) Drawing Down The Moon (Atrair a Lua) Se o Iniciador é o Sumo-Sacerdote, pode sentir ser uma altura apropriada para acrescentar o Drawing Down The Sun (ver Secção VI) ao Ritual tradicional.

(7) A Cruz Cabalística é pura prática da Aurora Dourada (ver Israel Regardie, The Golden Dawn, 3ª edição, vol. I, p. 106). Surge nos textos de Gardner, “mas na prática não me lembro de alguma vez termos feito isto” diz-nos Doreen. Incluímo-lo aqui para ficar mais completo, mas também não o usamos nas Iniciações; como muitos bruxos, usamos muitas vezes Magia Cabalística, mas sentimos que está fora do contexto em algo como tradicionalmente wiccano num Ritual de Iniciação. Malkuth, Geburah e Gedulah (de outra forma Chased) são obviamente Sephorith da Árvore da Vida, e a declaração Hebraica significa claramente “porque Teu é o Reino, e o Poder, e a Glória, para sempre” uma pista interessante de que Jesus conhecia a sua Cabala. Alguns cabalistas acreditam que foi este conhecimento, mesmo quando era rapaz, que espantou os doutores do Templo (Lucas II, 46-7).

(8) O High Magic’s Aid dá esta forma; o Texto B descreve “Perfeito Amor para a Deusa, Perfeita Confiança na Deusa”.Preferimos a forma mais curta, porque também significa Amor e Confiança para com o Coventículo, e pode ser citado e guradado como um modelo a manter.

(9) O High Magic’s Aid dá esta forma; o Texto B descreve “Ó Senhores Misteriosos e gentis Deusas”. Uma vez que os Guardiães das Torres de Vigia são os reconhecidos Guardiães dos Pontos Cardeais e foram invocados no ritual de fecho do Círculo, preferimos a forma do High Magic’s Aid. Aqui é utilizado o nome vulgar do Postulante, uma vez que só se toma um nome mágico a partir do Segundo Grau.

(10) Ou qualquer nome de Deus ou Deusa que o Coventículo use (ver os nossos comentárioa aos nomes Cernunnos e Aradia na p.14).

(11) Os textos de Gradner utilizam a mesma expressão para ambos os sexos: “peitos formados na beleza e força.” Doreen explica-nos: “Esta expressão era uma alusão ao corpo humano como uma forma de Árvore da Vida, com Gedulah de uma lado e Geburah do outro.” Preferimos “peitos, formados na beleza” para uma mulher e “peito, formado na força” para um homem; este identifica-se mais com o Beijo Quíntuplo como uma saudação à polaridade homem/mulher, e com o tom essencialmente Wiccano (em vez do Cabalístico) das outras quatro declarações.

(12) Noutro ponto (ver p.54) o Livro das Sombras diz que enquanto se ajoelha a ponta do fio deve estar presa ao Altar.

(13) Esta é a nossa própria contribuição para a lista de apresentações do Livro das Sombras: fazê-mo-lo pelas razões que damos na página 258.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-iniciacao-ao-primeiro-grau-da-bruxaria/

Tudo é um Jogo

— Você está estacionando o carro e… — crassshh — amassa o paralama daquele reluzente BMW ao lado. Ninguém viu. Você, um cara decente, pensa em deixar um bilhete se identificando e assumindo a responsabilidade. Mas, espera aí. É um BMW. O dono certamente tem dinheiro, e não estaria dirigindo um carro desses por aí se não tivesse seguro. Essa batidinha para ele não será nada, mas para você.….

— Já é tarde da noite e você está na estação do metrô. Ninguém por perto. Por que não saltar a roleta e viajar sem pagar? É claro que a companhia do metrô não vai quebrar se você fizer isso. Os trens circulam com ou sem passageiros. Por que não saltar a roleta?

Há uma infinidade de situações em que o interesse individual se choca com o coletivo. No caso do carro em que você bateu, o seguro paga e repassa o custo para os prêmios que cobra. Não assumindo o prejuízo, você acaba penalizando gente que nada tem a ver com isso. O caso do metrô é idêntico: engrossando as estatísticas dos que não pagam, você contribui para o aumento das passagens dos que pagam.

Esse é um dilema freqüente nas organizações — na família, na empresas, entre nações. Ele surge de um impulso com o qual todo mundo lida em inúmeras circunstâncias: a tendência a satisfazer o interesse individual agindo de uma forma que, se todos imitassem, seria catastrófica para todos.

Que jogos são esses?

Esse tema é tão recorrente, que há mais de cinquenta anos vem merecendo a atenção de cientistas. John Nash — o matemático interpretado por Russel Crowe no filme “Uma Mente Brilhante” — ganhou o prêmio Nobel de economia, por ter ajudado a desvendar parte da dinâmica desse tipo de situação, usando um ramo da matemática aplicada chamado teoria dos jogos. O filme, aliás, não dá qualquer dica sobre a originalidade e ousadia de seu trabalho-o cara existiu (existe, está vivo), superou a esquizofrenia e ganhou mesmo o Nobel, mas o resto (como em Titanic e outros) — é puro cinema.

O objetivo da teoria dos jogos é lançar luz sobre conflitos de interesse e ajudar a responder ao seguinte: o que é preciso para haver colaboração? Em quais circunstâncias o mais racional é não colaborar? Que políticas devem ser adotadas para garantir a colaboração?

Pense em alguma polêmica atual — Alca, Protocolo de Kyoto, as cotas americanas para o aço… Todas são situações em que conflitos de interesses têm de ser equacionados. Jogos assim, são profundamente ligados à vida em sociedade. Sempre foram, mas hoje, num mundo hiper-conectado, são mais.

Nem precisamos ir tão longe, os insights que se obtêm da teoria dos jogos podem nos ajudar a entender vários casos brasileiros atuais: o quase-apagão, o que está acontecendo na campanha eleitoral, e até no Big Brother/Casa dos Artistas.

A teoria dos jogos constata que conflitos de interesse acontecem por que a regra geral é maximizar, prioritariamente, o ganho individual. Esse é seu ponto de partida, mas não vá pensar que se trata de falta de solidariedade ou civismo. É mais fundamental que isso. Nem as mais civilizadas sociedades conseguiram resolver esse dilema. É claro que se todos se comportassem de forma altruísta (pelo bem do grupo) não haveria dilema algum, mas a vida real não é assim.

A teoria dos jogos é um arcabouço matemático que trata das estratégias que se usa quando há “alguém” em conflito de interesses com outro “alguém”. Não tem nada a ver com moralidade, com “bem ou mal”, ou com “certo e errado”. Tem a ver só com matemática . Ela trata, simplesmente, de jogadores fazendo de tudo para maximizar as chances de um certo resultado. Voltarei logo a isso.

Jogos de amigos. Amigos?

Empresas, países, organizações, pessoas, envolvem-se o tempo todo em situações potencialmente conflituosas. Jogos.

Se você vai jantar com três amigos, e combinam com antecedência rachar a conta, você vai, muito provavelmente, gastar o mesmo que gastaria se cada um pagasse só o que consumiu. Há um acordo implícito para isso.

Como você sabe que vai arcar com 25% da conta, e como quer manter uma relação de confiança com seus amigos, você escolhe pratos que custem mais ou menos o mesmo que os que seus colegas pediram (se um “amigo” mais malandro resolve pedir lagosta ao forno, depois que todo mundo pediu pizza, ele será considerado não confiável, e perderá a condição de amigo).

Já no almoço de fim de ano do escritório com umas 30 pessoas — a coisa é diferente. Você, que está meio duro, pensa em pedir um cheeseburguer, mas os primeiros a pedir escolhem filé mingnon e camarões gratinados.

Você sabe que vai pagar só 3% da conta, independente do que comer, e muda rapidinho — “Vitela especial para mim, seu garçon”. O custo incremental para seus colegas vai ser mínimo, e você vai ter uma refeição muito melhor. Mas, como todo mundo pensa assim, o grupo acaba por gastar muito mais do que teria gasto se cada um pagasse individualmente pelo que consumisse, ou se o grupo tivesse se dividido por várias mesas menores. Não foi culpa de ninguém. As coisas simplesmente aconteceram assim. O grupo explorou a si mesmo. A decisão racional de cada indivíduo, leva a um resultado irracional (negativo) para o grupo.

Tecnicamente, por razões históricas, chamam esse tipo de jogo de “tragédia dos comuns” .Exploração de recursos coletivos sempre leva a tragédias dos comuns, e elas só podem ser evitadas introduzindo-se regras para que os participantes sejam recompensados por agir de forma altruísta. Quer dizer, o altruísmo é “comprado”, de certa forma.

É isso que a teoria dos jogos mostra, e é isso que a história confirma.

Imagine vários fazendeiros cujas vacas pastam no mesmo pasto. Se não há regras, cada um deles vai tentar colocar o maior número possível de cabeças de gado ali, o que levará à destruição do pasto e à morte dos animais. A atitude predominante é: “deixa eu botar mais uma vaquinha aqui, por que se eu não o fizer, alguém fará”. Perfeitamente racional, claro; mas…

A maneira certa de evitar essa tragédia dos comuns, é dividir o pasto — que é um recurso coletivo — entre os fazendeiros, de modo que cada um deles tenha uma área definida para suas vacas, e não apenas colha os benefícios, mas também arque com os custos de sua preservação. Ou seja: a solução é privatizar o pasto. Essa é a razão pela qual as terras das fazendas são cercadas. Mares, rios, o ar que respiramos, as florestas.. tudo isso é recurso coletivo. Você já sabe o que acontece se não houverem regras que impliquem em incentivo (ou punição , dá no mesmo) à sua preservação.

Jogos de brasileiros

Foi precisamente esse o jogo no episódio do racionamento de energia.

Ameaçando com sobretaxas individuais e cortes de fornecimento idem, o governo transferiu para cada cidadão a responsabilidade por algo que até então era percebido como sendo de todo mundo. “Cercou o pasto” da energia elétrica. Usou a solução clássica para tragédias dos comuns, e deu sorte também: foi muito ajudado não só pelas chuvas, mas por algo de cuja importância até então não se tinha idéia: cada “Zé” individual, percebeu que poderia deixar de gastar uma boa grana — sem tornar a vida especialmente miseráve — se cooperasse. Isto é: descobrimos que era do nosso interesse colaborar. John Nash diria que governo e sociedade atingiram uma “estratégia de equilíbrio”. Nesse caso, os interesses deixam de ser conflitantes, por que é vantajoso cooperar.

Examine os jornais de hoje. Aposto que boa parte do que é notícia, pode ter sua dinâmica esclarecida pela teoria dos jogos. Conflito de interesses, afinal, é o que há, certo? Por exemplo: de meados de fevereiro aos primeiros dias de março, o que foi notícia no Brasil? O fim do racionamento de energia, a aliança PT-PL , a reação do PFL na crise gerada pela invasão do escritório do marido da Roseana, e, claro, quem vai ser eliminado no Big Brother e Casa dos Artistas. Pratos cheios (transbordantes) de conflitos de interesse. No caso do nosso quase-apagão, já vimos, os jogadores acabaram cooperando. O incentivo econômico para isso foi muito forte.

Qual a utilidade do jogo?

Ok, incentivo econômico é um termo vago. John Von Neumann inventou, e John Nash, depois, usou, uma formulação que vai além: utilidade ou função utilidade como dizem os matemáticos. Jogadores sempre buscam certos resultados em detrimento de outros. Essas preferências são chamadas de utilidade. Utilidade é o que os jogadores querem no fundo de suas almas. Aquilo que “tanto mais eu tiver melhor”. A utilidade que você atribui a um certo resultado é que determina sua estratégia no jogo. Agir racionalmente (no contexto da teoria dos jogos), significa agir de modo a maximizar a utilidade.

Pense na utilidade como sendo pontos que você quer acumular. Se você joga pôquer valendo palitos de fósforos, então a utilidade é a quantidade de palitos que você junta. Quando se joga por dinheiro, ele é a utilidade. A utilidade para os políticos é sempre o poder.

Jogos eleitorais

Veja o PT na campanha presidencial – um jogo que até agora (escrevo no início de março de 2002) sinaliza um desfecho desfavorável para o partido. O PT não tem consenso sobre como maximizar a utilidade(votos) do jogo. Sem consenso sobre isso, não há como montar uma estratégia, e sem estratégia só se vence por sorte. Em fevereiro, a direção do PT articulara uma aliança com o PL. Alianças são muito racionais em eleições, e é por isso que são feitas. Boa parte do partido, porém, não admite que ganhar votos seja “só o que conta numa eleição”, e botou a boca no mundo.

O PFL, por seu lado, é o oposto. Seus políticos são chamados de “profissionais” exatamente porque admitem sem escrúpulos o que querem maximizar: votos. Estão nas esferas mais altas do poder há mais tempo do que qualquer outro partido. Quando as primeiras pesquisas sinalizaram que Roseana podia ter chances, o PFL foi logo avisando que seu apoio ao candidato do governo poderia ficar para o segundo turno — iria tentar ganhar liderando a chapa, não fazendo só o vice. Fez beicinho no episódio da invasão do escritório do Jorge (“querida, encolhi suas chances”) Murad, saiu do governo, mas é pragmático demais — deixou a porta aberta para alianças no segundo turno. Não têm dúvida sobre o que quer: o poder.

Tipos de jogos

O inventor da teoria dos jogos foi o húngaro radicado nos EUA — John Von Neumann na década de 1940 Sua grande contribuição foi nos chamados jogos de soma zero. É quando a vitória de um ,significa, necessariamente, a derrota de outro — como no xadrez ou no jogo da velha. Em jogos de soma zero, não há possibilidade de colaboração. Nessas circunstâncias, Von Neumann provou que há sempre um curso racional de ação para cada jogador.

John Nash, por seu lado, tratou de situações em que o mais racional é colaborar. A única menção a isso em “Uma mente brilhante” é uma cena, num bar, em que ele convence seus ultra-competitivos colegas, a não tentarem conquistar todos a mesma moça. O mais racional seria distribuirem seus esforços escolhendo alvos diferentes. Não se tratava de um jogo de soma zero, afinal.

Von Neumnan não estava interessado em xadrez porque “esse tipo de jogo nada tem a ver com a vida real”, segundo ele. Pôquer era algo mais próximo do que ele queria tratar, porque, no pôquer, o blefe é mais fundamental. Ele estava interessado na trapaça, no blefe, nas pequenas táticas de dissimulação, na desconfiança, na traição. Falei em campanha eleitoral? Casa dos Artistas e Big Brother? É isso aí.

Sua genialidade foi perceber que a dissimulação não só é algo racional em jogos de soma-zero, mas também que ela é tratável matematicamente. Sua teoria dos jogos lida com seres racionais e desconfiados querendo “se dar bem” a todo custo. Pense no jogo particular que um goleiro joga contra um batedor de penalty. O batedor tem todo interesse em que o goleiro pense que ele vai chutar num certo canto, e então, chuta no outro. Dissimular é uma estratégia racional para o batedor. O mesmo vale para o goleiro, que tentará fazer com que o batedor acredite que ele se atirará para um certo lado. Dissimulação e fingimento são parte do talento que eles têm que ter. Em jogos de soma zero, jogadores racionais têm que blefar.

Jogos de família

Na verdade, a teoria dos jogos é sobre estratégias, ou seja: sobre o quê fazer para obter certos resultados. Nem sempre é preciso matemática para descobrir, e nem sempre, quando a matemática descobre, a gente consegue fazer o que ela manda. É aí que a coisa fica interessante; vamos ver… Uma viúva tinha duas filhas. Todo dia, ao voltar para casa, trazia um pedaço de bolo, e se esforçava para dividi-lo em duas fatias exatamente iguais. Cada filha, porém, sempre achava que a mãe dera o maior pedaço à outra. A mãe sofria. As duas – com aquele maquiavelismo típico de crianças que percebem que os pais são manipuláveis – atormentavam a pobre mulher. Era um jogo. Um jogo fácil de resolver através da lógica: bastaria pedir a uma das filhas que dividisse o bolo, e que a outra fizesse a escolha primeiro. Pronto. Fim da chantagem sentimental. Ninguém poderia reclamar de ninguém. Realmente há casos em que a fria lógica é melhor, mas será sempre? Infelizmente não. Indiana Jones que o diga.

Jogos do Indiana Jones

Você se lembra do filme “Indiana Jones e a última Cruzada “?

Nosso herói Indiana junto com seu pai, mais um bando de nazistas (como o cinema criaria seus vilões sem nazistas?) chegam ao local onde está escondido o Santo Graal. O velho Indiana tinha levado um tiro e sangrava um bocado. Só o poder de cura do cálice sagrado poderia salvá-lo da morte. Num clima de alta tensão, os dois Jones e os nazistas disputam palmo a palmo a primazia de chegar a ele.

Mas há um desafio final: há vários cálices, e só o cálice certo dá a vida eterna, qualquer escolha errada conduz à morte. O nazistão chega primeiro. Escolhe um lindo cálice de ouro cravejado de brilhantes, bebe a “água santa” e morre “aquela morte cinematográfica que é conseqüência das escolhas erradas” – como dizem os autores do livro de onde tirei esse exemplo. Indiana escolhe um tosco cálice de madeira, mas hesita: “só há um jeito de saber”, diz ele. Mergulha o cálice na fonte, bebe, e …acerta! Indiana leva o cálice ao velho (esses velhos de hoje, demoram muito para morrer, viu leitor?) e cura suas feridas mortais. Cenas excitantes, mas, lamento dizer, Indiana usou a estratégia errada. Ele deveria ter levado primeiro o cálice ao pai, sem prová-lo antes. Se tivesse escolhido o cálice certo, seu pai estaria salvo de qualquer forma; se tivesse escolhido errado, bem… o velho morreria mas ele se salvaria. Do jeito que agiu, se tivesse escolhido o cálice errado, não haveria segunda chance — Indiana morreria por causa do cálice e seu pai por causa de seus ferimentos.

Agora, imagine algo que não está no filme mas poderia estar na vida real. Indiana faz a opção racional. Escolhe, leva o cálice primeiro ao pai ferido, e …esse morre. “Bem” , pensaria ele, “eu tentei. De nada adiantaria ter bebido primeiro por que agora eu e meu pai estaríamos mortos. Tenho certeza de que o velho aprovaria o que fiz. Foi a escolha lógica”. Indiana tenta racionalizar a situação, mas o ser humano que nós conhecemos comportar-se assim? Analisa racionalmente vários cursos de ação e escolher – friamente – o mais adequado? A culpa começa a perseguir nosso herói. Ele sonha toda noite com o velho estrebuchando diante dele. Acorda encharcado de suor. Não consegue convencer-se de que fez realmente a melhor escolha. Entra em depressão. Fica impotente (sem um certo exagero dramático essas histórias não têm graça). Começa a beber. A mulher o abandona (ninguém agüenta heróis deprimidos). Procura terapias alternativas. Lê livros de auto-ajuda…coitado do Indiana. A racionalidade, a escolha lógica, nem sempre resolvem.

A matemática da teoria dos jogos trata rigorosamente de conflitos reais, mas não dá garantia de sucesso, só dá a garantia da lógica. Infelizmente, sucesso e lógica não andam necessariamente juntos. Levar em conta o ser humano como ele realmente é, implica em levar em conta sua emoção. Ela tem que ser parte do jogo, e é. Continue lendo…

O jogo que explica os jogos

Eu disse no início, que a raiz dos conflitos de interesse é a tendência de se maximizar o ganho individual, mas, tem de haver algo além da pura racionalidade auto-interesseira, se não, a vida em sociedade seria impossível. Essa questão é muito bem captada por um jogo que se chama “O dilema do prisioneiro” — formulado e estudado na década de 1950 por matemáticos de Princeton, a mesma universidade de Einstein, Von Neumann e Nash. É assim: dois criminosos praticam um crime juntos. São presos e interrogados separadamente. A polícia não tem provas contra eles, e a única forma de condená-los é um acusar o outro. Cada prisioneiro tem uma escolha: calar ou acusar o companheiro. Se os dois permanecerem calados, ambos serão postos em liberdade. A polícia, querendo uma solução rápida para se livrar da pressão da opinião pública, fornece alguns incentivos: o prisioneiro que denunciar o outro ganha a liberdade, e ainda por cima leva um prêmio em dinheiro. O outro pegará prisão perpétua, e ainda terá de pagar o prêmio ao delator. Se os dois acusarem-se mutuamente, os dois serão condenados. Qual a escolha lógica? Ambos começam a pensar. O melhor a fazer é calar, pois ambos serão soltos. Mas o prisioneiro A sabe que B está pensando a mesma coisa, e sabendo que não pode confiar no colega, percebe que o menos arriscado é denunciar B. Sim, pois se esse calar, A ainda assim estará livre (e com o dinheiro da recompensa). Se o outro igualmente denunciá-lo, bem…. A teria de cumprir pena de qualquer forma- pelo menos não ficará com cara de bobo na prisão.

Acontece que B pensa exatamente da mesma maneira. Resultado: ambos são levados pela fria lógica, para o pior resultado possível: traição mútua e prisão. Lembra daqueles exemplos de pessoas rachando a conta no restaurante? São dilemas do prisioneiro jogados por grupos de mais de duas pessoas. O racional é eu pedir lagosta (trair) depois que os outros pediram pizza (cooperaram). Por quê não agimos (racionalmente) assim? Um cientista chamado Robert Axelrod descobriu. Para investigar o dilema do prisioneiro mais a fundo, ele promoveu um torneio em que os participantes apresentariam programas de computador representando os prisioneiros. Os vários programas seriam confrontados aos pares, e cada um deles escolheria trair (dedurar) ou cooperar (calar )em cada encontro.

Havia um detalhe porém: em vez de jogar uma única vez , cada par de programas jogaria um contra o outro duzentas vezes seguidas. Essa seria uma maneira mais realista de representar o tipo de relacionamento continuado a que estamos acostumados na vida real. Note que num dilema do prisioneiro, o melhor para cada jogador é trair enquanto o oponente coopera (a tentação de trair tem que ser grande). O pior para cada jogador é quando ele coopera enquanto o outro trai. Finalmente, a recompensa pela cooperação mútua tem que ser maior que a punição pela traição mútua.

Axelrod atribuiu pontos a cada situação dessas. Venceria o programa que acumulasse mais pontos depois de enfrentar cada adversário duzentas vezes seguidas. Todos os tipos de estratégia poderiam ser representados: por exemplo, um programa adotando uma estratégia “generosa” que sempre perdoasse as traições do outro. Uma estratégia “cínica”, que perdoasse traições até um certo confronto (até a centésima partida, digamos), dando a impressão de ser boazinha, e, depois, traísse sistematicamente até o fim. Uma que sempre traisse. Uma que traisse e perdoasse alternadamente. Enfim, as possibilidades eram infinitas. Que estratégia acumulou mais pontos?

A regra do jogo

De todos os programas participantes, alguns continham estratégias muito complexas, mas o vencedor, para surpresa geral, foi um que adotava uma estratégia muito simples chamada TIT FOR TAT, que em tradução livre significa “olho por olho”. TIT FOR TAT é um programa de apenas quatro linhas. Sempre começa cooperando, e depois faz exatamente o que o oponente tiver feito no lance anterior : trai, se tiver sido traída, e coopera caso tenha obtido cooperação. TIT FOR TAT tem quatro características (entre parêntesis está a terminologia usada no trabalho original em inglês):

1 — É “bacana” (nice) — nunca trai primeiro;

2 — É ” vingativa” (tough) — nunca deixa passar uma traição sem retaliar na mesma moeda no lance seguinte.

3 — É “generosa” (forgiving). Se após a traição e conseqüente retaliação, o oponente passar a se comportar bem, TITFOR TAT esquece o passado e se engaja num comportamento cooperativo

4 — É “transparente” (clear). É uma estratégia simples o suficiente para permitir ao oponente notar de imediato com que tipo de comportamento está lidando. Não há truque, nem “jogada”.

Depois que apareceu como vencedora, TIT FOR TAT foi desafiada e venceu mesmo em torneios em que os demais competidores apresentaram programas desenhados especificamente para batê-la. Com toda sua simplicidade, TIT FOR TAT pode realmente levar à cooperação em uma grande variedade de situações, algumas muito improváveis. Por exemplo, a estratégia “viva e deixe viver” (live and let live) que apareceu espontaneamente nas tricheiras na primeira guerra mundial: unidades inimigas, frente a frente por meses a fio, evitavam dar o primeiro tiro. Apesar de não haver comunicação formal, e de serem inimigas, o compromisso tácito que surgiu foi: “se você não atirar eu não atiro”. O fato de os mesmos soldados estarem convivendo na mesma situação por vários meses, levou ao acordo para a cooperação.

Jogos de morcegos

Mesmo quando não há comportamento consciente envolvido, TIT FOR TAT (daqui para a frente TFT) pode ser adotada. Certas espécies de morcegos vampiros saem em bandos à noite para sugar sangue de cavalos, ovelhas… Nem todos conseguem. É comum alguns morcegos que conseguiram mais do que necessitavam, regurgitarem o excesso de sangue para algum colega que não conseguiu nada. O colega, dias depois, retribui o favor. Eles se reconhecem na multidão de morcegos. Reputação conta e muito. TFT é isso. Como há um lapso de tempo entre a boa ação e a retribuição a ela, esses morcegos têm que ter boa memória. Há dezenas de exemplos análogos. Colabore comigo hoje, que eu retribuo amanhã.

Jogos de guerra

Os soldados na trincheira e os morcegos cooperativos ilustram algo importantíssimo. Para que TFT possa se instaurar, a relação entre os jogadores tem que ter uma perspectiva concreta de durar muito tempo. Tem que haver uma grande probabilidade de haver novos encontros no futuro. A sombra do futuro tem que ser longa, como dizem os especialistas. Se não for… bem se não for você já sabe-o racional é trair. Lembre-se dos soldados na trincheira. Lembre-se de quando você amassou aquele BMW no início. Claro, você saiu de fininho. Nunca mais iria ver o proprietário mesmo…

Jogos de bactérias

Bactérias são outro exemplo. Bactérias não têm cérebro. De um ponto de vista darwiniano, elas são os seres vivos mais bem sucedidos que há. Existem há bilhões de anos, e têm uma capacidade de replicação incrível. Você, leitor, hospeda em suas entranhas bilhões delas. Há mais bactérias vivendo dentro de você do que há seres humanos na Terra.

Nas palavras do biólogo inglês, Richard Dawkins, elas estão: provavelmente envolvidas em dilemas do prisioneiro com os organismos que as hospedam…..Bactérias que normalmente são inofensivas, e mesmo benéficas, podem tornar-se malignas e até provocar septicemias letais numa pessoa ferida. Um médico diria que a “resistência natural” da pessoa ferida diminuiu por causa do ferimento, mas talvez a causa real tenha a ver com jogos tipo dilema do prisioneiro.

Será que não poderemos ver as bactérias que hospedamos como seres que normalmente têm algo a ganhar, mas preferem se conter? No jogo entre bactérias e seres humanos, a “sombra do futuro” é normalmente longa, pois, tipicamente se espera que uma pessoa viva muito tempo. Porém, alguém seriamente ferido está sinalizando que potencialmente a sombra do futuro para a relação com a bactéria, encolheu. A tentação de trair começa a aparecer (para as bactérias) como uma opção mais atraente que a recompensa pela cooperação mútua. Não é que as bactérias ” imaginem” tudo isso em suas cabeças maldosas! A seleção natural atuando em cima de várias gerações de bactérias embutiu nelas uma regra prática, inconsciente, que opera através de meios puramente bioquímicos

Resumindo: de alguma forma as bactérias ficam sensíveis ao fato de que a “sombra do futuro” diminuiu. A relação pode acabar mais cedo do que o esperado. O ferimento no organismo hospedeiro fez com que ele emitisse alguns sinais (químicos). As bactérias decodificam esses sinais que estão dizendo simplesmente: “estou ferido; posso vir a morrer”. E você sabe, leitor, se a relação tem data para terminar, o “racional é trair”. É isso que as bactérias fazem.

Jogos no fundo do mar

Uma maneira de forçar a colaboração é alongar a “sombra do futuro”. Isso se faz , por exemplo, aumentando aos poucos a freqüência da interação entre os jogadores, fazendo-os levar em conta que “logo vou encontrar esse cara de novo” . Nos bancos de coral do Panamá vive um tipo de peixe em que não há distinção sexual. É uma espécie hermafrodita. Todos os membros são macho/fêmea e alternam periodicamente seus papéis sexuais. Durante a fase inicial do acasalamento, cada peixe do par faz o papel de fêmea, e o outro o de macho. Mas cada “fêmea” põe apenas um pequeno número de ovos de cada vez, até que, através da relação continuada, o “macho” demonstre que não vai cair fora depois de os ter fertilizado. Assim ele está dando garantias de que vai fazer o papel de fêmea quando chegar sua vez. Só à medida em que cresce a confiança entre os membros do par é que ambos os peixes começam a pôr quantidades maiores de ovos, confiando cada vez mais que não serão traídos.

O padrão de comportamento de seqüestradores e vítimas que, após longo tempo em contato, acabam desenvolvendo formas de simpatia (colaboração) mútua — a chamada síndrome de Estocolmo — talvez tenha a ver com essa influência da “sombra do futuro”. Quem sabe algum psicólogo se interessa por investigar esse fenômeno à luz da teoria dos jogos?

Jogos do poder

Depois das bactérias, vejamos os políticos (admito: alguns têm cérebro). Ninguém faz acordo com um político sem chance de se reeleger pois não haveria chance para a retribuição no futuro. A cooperação de TFT só existe com base na perspectiva de retribuição, sem isso nada feito. Depois que o Collor mostrou que tinha condições de ganhar em 1990, choveram empresários interessados em contribuir para a campanha; mas só depois. Quando um executivo cai em desgraça não há acordos possíveis com seus colegas, pois seu poder tem data marcada para acabar. Empresas em má situação não conseguem negociar prazos ou créditos com fornecedores. Casais que já decidiram se separar mergulham freqüentemente num mar de mesquinharias. Escondem migalhas um do outro; brigam até por guardanapos. Quando a relação tem data marcada para acabar — quando a “sombra do futuro” é curta — a traição é o racional. A tentação de trair (não cooperar) fica irresistível.

Jogos de humanos

TFT porém tem um grave problema: se ela tivesse sido a estratégia preferencial da evolução, nós humanos não teríamos aparecido como produto dela. Não do jeito que somos. TFT não é capaz de perceber quando alguém erra involuntariamente – é fria demais. Se calhar de dois jogadores TFT entrarem em sintonia, tudo bem, começa o jogo da reciprocidade; mas, se por acidente ou engano, um deles trai, tem início uma série infinita de traições mútuas da qual não se escapa. Lembre-se que o resultado da traição mútua é o pior possível para os jogadores.

O animal humano em suas interações sociais é complexo e sutil. Não é um traidor inveterado. Pelo contrário, busca a cooperação porque de alguma forma percebe que isso é melhor a longo prazo. Damos gorjetas a garçons que nunca mais veremos. Votamos em eleições. Doamos sangue.

Cumprimentamos estranhos com sorrisos. Todas essas ações são perfeitamente irracionais no sentido da teoria dos jogos. Tentamos ao máximo parecer confiáveis, simpáticos, compreensivos, assim como quem diz: “pode jogar comigo, sou confiável”. Por que fazemos isso? Talvez, porque busquemos reciprocidade fazendo essas coisas. Através delas pode-se tirar o máximo proveito da vida em sociedade colaborando nos dilemas do prisioneiro que surgem a toda hora.

Jogos da emoção

TFT pode ter sido o início, o “pé na porta”, mas depois deve ter evoluído para algo que permita distinguir o erro involuntário da má-fé premeditada, levando-nos a perdoar o erro e só retaliar a malandragem. Como a evolução fez isso? Uma hipótese bacana diz que foi embutindo emoção no equipamento mental dos humanos.

Você se lembra de TFT nas trincheiras da primeira guerra. Ingleses e alemães, frente a frente, mantinham tacitamente um cessar-fogo. Axelrod relata um episódio em que, por engano, a trégua foi rompida por tiros vindos do lado dos alemães. Era uma traição clara, e como bons jogadores TFT os ingleses estavam prontos para retaliar. Mas aí veio um emocionado e imediato pedido de desculpas de um soldado alemão, que, aos gritos dizia: “sentirmos muito, a culpa pelos disparos não é nossa, é de soldados de outra unidade- aqueles miseráveis artilheiros prussianos”. Isso fez com que a trégua fosse mantida. Naquele momento, o que restaurou o equilíbrio na trincheira foi a reafirmação dos alemães do compromisso de continuar jogando o jogo como antes. O que levou os ingleses a acreditarem? Foi a forma pela qual o pedido de desculpas foi feito. A emoção fez com que o compromisso anunciado ficasse crível. Naquele momento os ingleses estavam superando TFT.

Para o economista Robert Frank, da Cornell University, emoção é algo que surgiu no processo evolucionário para nos habilitar a jogar o jogo social, garantindo credibilidade a nossos compromissos. Através das emoções, provamos — para além das palavras — que somos jogadores confiáveis: jogue comigo, eu não trapaceio. Você já notou como juramentos estão presentes em nossas vidas? Eles são indispensáveis em interações sociais em todos os níveis. Um especialista comenta que juramentos existem “em todos os povos e em todas as culturas. São indispensáveis no nível econômico, no jurídico, no privado, no público, no intra-tribal , no internacional… Nenhum tratado, nenhum contrato, nenhuma forma de administração da justiça se dá sem um juramento. Juramentos são fenômenos da linguagem; eles existem exatamente porque a linguagem é insuficiente [para garantir credibilidade]. A fraqueza da linguagem é a possibilidade — a probabilidade — da mentira, da fraude, dos truques sujos nos jogos sociais. Chimpanzés a quem se ensina a linguagem dos símbolos, imediatamente tentam enganar seus treinadores, mentindo. É seguro concluir que nos primórdios da civilização, mentira e linguagem surgiram juntas e andavam juntas…Mas colaboração e troca em sociedade exigem confiança; meios para se evitar a trapaça, para possibilitar que as ações dos companheiros sejam previsíveis, para dar estabilidade a um mundo de valores comuns… O objetivo do juramento sempre foi excluir a mentira…”dizendo a verdade, somente a verdade nada mais que a verdade”.

Legal. Mas jurar resolve? Se resolvesse, testemunhas não mentiriam no tribunal, médicos nunca trairiam o juramento de Hipócrates, padres não desrespeitariam os juramentos de pobreza, castidade e obediência…

Não. Para que os jogos básicos do convívio social pudessem se instaurar, a garantia do compromisso teria de ser dada de outra forma Temos mecanismos instintivos em nossos cérebros-emoções – para demonstrar nossa sinceridade, independentemente do que possamos dizer. Emoções são muito difíceis de camuflar. Acabamos revelando através delas, o que de fato estamos sentindo. As dezenas de músculos em nosso rosto deixam transparecer o que realmente vai lá dentro. O que dizemos é, em si, tão vazio que podemos usar até máquinas — detetores de mentiras — para flagrar mentirosos.

Jogos do sexo

Pense na ereção num macho. Por quê será que a evolução escolheu um mecanismo tão trabalhoso para que um pênis fique em condições de penetrar uma fêmea? Por quê não um osso, em vez do complicado processo hidráulico, com sangue tendo de ser bombeado à alta pressão? Vários mamíferos têm ossos no pênis para ajudar na ereção, incluindo nossos “parentes” primatas. Nosso antecessores diretos- os chimpanzés- idem, apesar de serem ossos pequenos. Por quê somos diferentes? A utilidade para os seres vivos é a propagação de seus genes.

Machos em todos os contextos biológicos têm uma inclinação maior para trapacear no jogo do sexo, por uma questão de economia: óvulos são raros, espermatozóides são abundantes. Machos simplesmente não perdem nada — ou perdem muito pouco — sendo promíscuos: copulando com o maior número possível de fêmeas, eles maximizam as chances de propagar seus genes. Esperma gasto é rapidamente subtituído. Fêmeas, ao contrário, têm muito a perder se entregam seus preciosos óvulos para qualquer um fecundar.

Perdem tempo e energia (se gerarem crias doentes por exemplo), e perdem também a possibilidade de gerar outras crias no período da gestação. O conflito de interesses é evidente no jogo do sexo. Uma história que faz sentido é a seguinte: enquanto os machos iam aprendendo formas mais elaboradas de “propaganda enganosa” — (prometer e não cumprir; aparentar sem ser) — as fêmeas respondiam tornando-se progressivamente melhores na detecção dessas fraudes, e reagiam utilizando sua arma mais letal: negando a cópula. Isso forçava a mudança de comportamento do macho. Para fugir da trapaça, a seleção natural embutiu nas fêmeas um instinto que atua como se ela estivesse dizendo: “não me venha com conversa fiada, você diz isso para todas. Prove, se não, não dou”. Através da ereção o macho está demonstrando: “pode copular comigo, eu sou saudável. Não corro risco de gerar crias doentes. Machos doentes não têm ereção”. Trapacear, fazendo um pênis flácido passar por ereto, é impossível. A ereção hidráulica (hmmm…) pode ter sido a prova decisiva para garantir as fêmeas contra a propaganda enganosa. É essa também, a razão do exibicionismo da cauda do pavão- ele está dando uma prova de saúde `a fêmea. Sem isso, adeus cópula.

Fidelidade, família monogâmica, os atributos psicológicos do macho e fêmea humanos, podem ter se originado como conseqüência desse tipo de jogo, jogado através da imensidão do tempo. A busca da reciprocidade nos jogos macho-fêmea, deve ter implicado muito conflito, muita tentativa e erro, mas, quando ela (reciprocidade) se instaurou, pode ter gerado como sub produto os sentimentos e vínculos que nos são mais caros.

O grande jogo

Poucas são as pessoas que conseguem camuflar suas emoções mais sinceras. Ficamos ruborizados, não dá para fingir. É comum não controlarmos o riso ou o choro. Dizemos “eu te amo” emocionadamente, para não deixar dúvidas sobre o compromisso. Conflito de interesse. Instinto. Tentação da trapaça. Jogo. Emoção… Começamos com as especulações matemáticas de um cientista hiper-racional no início da guerra fria. Quem imaginaria que chegaríamos `a emoção como elemento central dos jogos que os humanos jogam? Se a evolução não tivesse embutido em nossos cérebros essa capacidade de discriminar, escolhendo parceiros confiáveis nos jogos em que nos envolvemos, não estaríamos aqui. As emoções são essenciais para validar nosso comprometimento com a cooperação e buscar reciprocidade. Por meio delas superamos a racionalidade auto-destrutiva dos dilemas do prisioneiro, evitamos jogos de soma zero, inventamos nosso jeito “hidráulico” de fazer sexo e, talvez, tenhamos inventado até o amor. E olha, não é Freud que explica — é a teoria dos jogos .

Para ler mais:

a — William Poudstone. Prisoner’s Dilemma – John Von Neumann, Game Theory and the Puzzle of the Bomb. Anchor Books,1992.
b — Richard Dawkins. God´s Utility Function.Scientific American, November 1995.
c — Richard Dawkins. O rio que saía do Éden-uma visão darwiniana da vida. Rocco, 1994.
d — Richard Dawkins. The Selfish Gene. Oxford University Press,1989.
e — Matt Ridley. As origens da virtude-um estudo biológico da solidariedade. Record, 2000.
f — Avinash K Dixit. e Barry J Nalebuff. Pensando Estrategicamente. Atlas,1994.
g —Robert Axelrod. The Evolution of Cooperation. Basic Books,1984.
h — Martin Nowak; Robert May; Karl Sigmund. The Arithmetics of Mutual Help. Scientific American, June 1995
i — Robert Wright .Non Zero-The logic of human destiny. Pantheon Books,1999.
j — Robert Frank,. Passions Within Reason- The Strategic Role of Emotions.Norton,1988
k — Jared Diamond. Por que o sexo é divertido. Rocco,1999.
l — Clemente Nobrega.O Glorioso Acidente. Objetiva,1998. m-Para jogar o dilema do prisioneiro interativamente via Internet :

da revista superinteresante

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/tudo-e-um-jogo/

Demônios da Carne: O Guia Completo para a Magia Sexual do Caminho da Mão Esquerda

Por Nikolas & Zeena Schreck.

Introdução 

Para a Ordem de Babalon, a Ordem de Sekhmet e seus aliados. Dedicado às memórias do Barão Julius Evola, que começou o trabalho de despertar o caminho da mão esquerda no Ocidente, e Cameron, que serviu como avatar para a força Shakti adormecida do Ocidente. Nossos agradecimentos às muitas pessoas que nos ajudaram durante as fases de pesquisa e preparação deste livro, incluindo DM Saraswati, Janet Saunders, Ananda Parikh, Kevin Rockhill, Brian G. Lopez, Michael A. Putman, Curtis Harrington, Kevin Fordham, Nancy Hayes, Lorand Bruhacs, Forrest J Ackerman, Peter-R. Koenig, Dr. Stephan Hoeller, Walter Robinson, Laurie Lowe, Jeanne Forman, Dr. George Grigorian, The Vienna and Paris WO Dens, a equipe da Biblioteca Estadual de Berlim, Tibet House, Leon Wild e James Williamson.

Isenção de Responsabilidade:

As atividades sexuais e mágicas descritas neste livro destinam-se exclusivamente à aplicação de adultos que atingiram a maioridade, e só devem ser realizadas de forma consensual por indivíduos que possuam boa saúde física e mental. Recomendações sugerindo que o leitor realize treinamento adequado em atividades físicas que possam ser prejudiciais são intencionadas seriamente. Nem os autores nem o editor deste livro podem assumir qualquer responsabilidade por qualquer dano que possa ocorrer ao leitor como consequência dos experimentos descritos aqui.

Os Demônios da Carne: O Guia Completo para a Magia Sexual do Caminho da Mão Esquerda

 

 Vamos falar sobre o assunto mais misterioso de todo sexo. O sexo é um fenômeno eletromagnético.

– William S. Burroughs.

O desejo é a grande força.

– André Breton

Das Ewigweibliche zieht un hinan. (O Eterno Feminino nos atrai.)

– Dr. Fausto, no Fausto II de Goethe.

Preliminares:

O livro diante de você é um guia no sentido de que irá acompanhá-lo em uma jornada.

A rota que faremos passa por paisagens de estranha beleza e por abismos perigosos. É conhecido como o caminho da mão esquerda. Poucos percorreram esta estrada e menos ainda chegaram ao seu destino final e distante.

Infelizmente, a maioria dos mapas disponíveis anteriormente deste terreno misterioso foram elaborados por aqueles que nunca pisaram no caminho. No entanto, eles vão avisá-lo dos terríveis perigos enfrentados ao longo do caminho, sugerindo que sua árdua passagem só leva ao mais sombrio dos becos sem saída. Esses cartógrafos defeituosos irão adverti-lo de que as únicas almas que podem ser encontradas nesta via mal iluminada são tolos, lunáticos, canalhas e ladrões. (De fato, pode haver alguma verdade nessa última advertência, mas o aventureiro nato não será dissuadido tão facilmente.)

Existem outros mapas, oferecidos por almas um pouco menos tímidas, que se assemelham mais à realidade. No entanto, esses guias apontam alegremente apenas as atrações turísticas mais reconfortantes do roteiro turístico. Todos os becos escuros, bairros de má reputação e distritos da luz vermelha são mantidos com segurança fora de vista, considerados impróprios para consumo público. Tal escrúpulo permite ao explorador apenas uma visão cuidadosamente expurgada. Além disso, as especificações encontradas neste tipo de mapa são frequentemente tão complicadas que o viajante não sabe qual é o lado para cima.

Por fim, há o mapa elaborado por aqueles que se declaram não apenas como guias turísticos, mas também reivindicam com orgulho esta via à esquerda em sua totalidade, saudando-a como o melhor lugar para se estar. No entanto, se o viajante incauto consultar esses mapas, mesmo para as direções mais simples, imediatamente se torna aparente que houve alguma confusão. Essa confusão, ao que parece, se deve a uma simples, mas duradoura apropriação indevida de nomenclatura. A área nesses mapas marcada tão claramente como “o caminho da esquerda” acaba, em uma inspeção mais próxima, ser um caminho completamente diferente.

Os Demônios da Carne, projetado em parte como um corretivo para as falsas pistas e desvios descritos acima, traça esse caminho até então mal interpretado de uma perspectiva muito diferente. Em nosso mapa, mostramos claramente o plano rodoviário completo em toda a sua topografia e complexidade tridimensionais, a partir de seu antigo ponto de origem oriental remoto. Também rompemos a superfície visível desta calçada para revelar as camadas arqueológicas ocultas da corrente sinistra à medida que ela percorreu o tempo. Acompanhando você nesta viagem, oferecemos sugestões práticas para navegar na estrada da esquerda em um mundo ocidental contemporâneo que não oferece bússola confiável.

Mas chega de metáforas sobre mapas e caminhos. Vamos encarar, você pegou este livro para ler sobre sexo.

E certamente há muito sexo para ser encontrado nestas páginas, narrando uma infinita diversidade de experiências eróticas. Da alquimia do sangue menstrual e do sêmen ao culto ritual da vagina. Sexo com monges promíscuos e prostitutas sagradas, do Tibete à Babilônia. Sexo necrofílico em locais de cremação. Sexo coprofílico na Sicília. Sexo incestuoso na Índia. Sexo vampírico na China. O orgasmo como sacrifício. O orgasmo prolongado. Sexo com Deusas. Transexualismo psíquico. Sexo com seres desencarnados. Escravidão sexual. Domínio sexual. Transe sexual. Sexo anal egípcio antigo entre Set e seu sobrinho Hórus. Sexo oral. Sexo autoerótico. Sexo em grupo. Sexo telepático. Todos os tipos de seitas sexuais. Sexo tântrico. Sexo gnóstico. Sexo satânico. Sexo com jovens virgens. Sexo com idosos. Sexo com as esposas de outros homens. Até sexo com Jesus.

No entanto, o panorama multicorporal de deleite polimorfo que escorre deste livro não é apresentado apenas para estimular os voluptuários ennuyé (entediados) cansados ou excitados com novos desvios que ainda não experimentaram. É importante estabelecer que há uma diferença significativa entre o prazer profundo da sexualidade desfrutada por si mesma como uma experiência fisiológica e estética, e a sexualidade utilizada para propósitos mágicos ou iniciáticos autênticos – o núcleo do caminho da mão esquerda. Tirados de seu contexto apropriado, os boatos aparentemente lascivos pressionados entre estas páginas podem – e provavelmente serão – ser mal interpretados se essa distinção não for levada em conta.

Ao mesmo tempo, deve-se salientar que todo o tópico da magia sexual foi cercado por uma tremenda hipocrisia, emanando tanto dos magos sexuais praticantes quanto daqueles que meramente observam suas atividades. Por exemplo, muitos curiosos pesquisaram casualmente o nível mais superficial da magia erótica, na esperança de aprender algumas dicas de sexo para apimentar uma vida amorosa sem brilho. Na maioria das vezes, esse jogo equivocado de magia sexual é apenas uma perda de tempo, gerando pouco em termos de excitação física e absolutamente nada em termos de magia. Mas alguns magos sexuais hipócritas assumiram a posição da escola de que esse fenômeno bastante comum é “imoral” ou “espiritualmente prejudicial”, ou mesmo que a magia sexual deve ser realizada sem uma centelha de luxúria ou emoção para ser legítima. Por outro lado, o não-mágico pode zombar de toda a ideia de magia erótica, descartando-a como algum tipo de piada suja, recusando-se a aceitar que os magos do sexo estão fazendo algo mais profundo do que saciar seus apetites carnais comuns sob o pretexto de doutrina esotérica.

Por trás dessas atitudes hipócritas está a horrível banalidade a que Eros foi reduzido no mundo ocidental moderno.

Nesse espírito, alguns de nossos leitores podem imaginar que um guia para a magia sexual do caminho da mão esquerda fornecerá as emoções furtivas e baratas da pornografia velada. Literalmente falando, essa palavra tão difamada pornografia, do grego porno (puta) e graphia (escrita) significa simplesmente “escrever sobre putas”. Então, para aqueles de vocês que esperavam fervorosamente que este livro fosse pornográfico, há de fato textos suficientes sobre prostitutas nestas páginas para se qualificar tecnicamente. Claro, as prostitutas com as quais nos preocuparemos são as transportadoras daquela ars amatoria (arte amadora) há muito perdida da prostituição sagrada. Se a prostituição já serviu uma função nobre e até sagrada, então por que não uma pornografia sagrada? Tal forma seria algo muito mais subversivo e poderoso do que a repetição estereotipada de convenções que costumamos associar ao gênero. A autora britânica Angela Carter, cujos contos cruéis geralmente eram tingidos de uma sexualidade inquietante e surreal, certa vez sugeriu as possibilidades:

“O pornógrafo moral seria um artista que usa material pornográfico como parte da aceitação da lógica de um mundo de absoluta licença sexual para todos os gêneros, e projeta um modelo de como tal mundo poderia funcionar. Seu negócio seria a total desmistificação da carne e a posterior revelação, através das infinitas modulações do ato sexual… essas relações, para restabelecer a sexualidade como um modo primário de ser em vez de uma área especializada de férias do ser e mostrar que os encontros cotidianos no leito conjugal são paródias de suas próprias pretensões.

De muitas maneiras, a descrição de Carter do “guerrilheiro sexual” que derruba tabus e que desmistifica totalmente a carne é uma excelente introdução ao trabalho do magista sexual do caminho da mão esquerda que este livro ilustra. Para os magi (magos) do caminho da mão esquerda, a sexualidade é ainda mais do que “um modo primário de ser” – o estado alterado de êxtase erótico extremo é um modo de ser potencialmente divino, a dança caótica de duas energias opostas magneticamente atraídas que permite a criação de um terceiro poder transcendendo o humano. O casal que liberar esse poder oculto e psiquicamente remanifestante do caminho da mão esquerda dentro de seus organismos sob o jugo do orgasmo em toda a sua intensidade achará difícil retornar à existência pré-programada que eles levaram uma vez. O homem e a mulher que mesmo uma vez experimentam a liberdade do caminho da esquerda, expressa através de seus ritos sexuais autodeificantes, saíram do jogo humano como normalmente é jogado.

Se o caminho da mão esquerda é perigoso – um ponto com o qual tanto seus detratores quanto seus defensores concordam – um de seus principais riscos é o perigo da liberdade em um mundo quase instintivamente comprometido em esmagar a liberdade sob qualquer forma que possa aparecer. Todas as autocracias dominaram restringindo severamente o pleno desenvolvimento do poder sexual em seus súditos. O caminho da mão esquerda, um método de ativação consciente de níveis de energia erótica quase desconhecidos nas relações sexuais convencionais, deve ser visto como uma ameaça a qualquer hierarquia que procure frear o desenvolvimento do homem em deus. A gnose sexual do caminho da mão esquerda tem o potencial de forjar indivíduos heroicos e autodeterminados a partir da carne balida do rebanho humano.

As pesquisas do excêntrico (alguns diriam insano) psicólogo Wilhelm Reich sobre os mistérios inexplorados do orgasmo na consciência humana concordam parcialmente com os antigos ensinamentos do caminho da mão esquerda. Em seu Psicologia de Massas do Fascismo, Reich reconheceu a ameaça que a total liberdade erótica representaria para qualquer mecanismo de controle social. Em consonância inconsciente com a veneração do caminho da mão esquerda de Shakti, o poder sexual divino da mulher, ele escreveu: “Mulheres sexualmente despertas, afirmadas e reconhecidas como tal, significariam o colapso completo da ideologia autoritária”. George Orwell, em seu romance distópico 1984, que continua sendo um diagnóstico agudo para o culto moderno do controle, também entendeu que a limitação do poder sexual era uma das armas mais insidiosas da autocracia. Orwell faz Julia, a heroína de 1984, perceber o segredo de Eros: “Ao contrário de Winston, [ela] entendeu o significado interno do puritanismo sexual do Partido. Não foi apenas que o instinto sexual criou um mundo próprio que estava fora o controle do Partido e que, portanto, deveria ser destruído, se possível. O mais importante era que a privação sexual induzia a histeria, o que era desejável porque podia ser transformado em febre de guerra e adoração de líderes.”

O adepto do caminho da esquerda, radicalmente individuado e separado das ilusões da multidão através da transgressão sistemática do tabu e do “mundo próprio” da sexualidade transcendente, dificilmente será arrastado pelas paixões impensadas das massas. Na primeira manifestação histórica da corrente sinistra que investigaremos, a Vama Marga da Índia, esse elemento de desafio social torna-se evidente. A recusa do iniciado do caminho da esquerda indiana em seguir as restrições religiosas de sua sociedade contra o sexo entre as castas, o consumo de vinho, o consumo de certos alimentos “impuros”, é a base sobre a qual ele eventualmente transgrede o estado humano e torna-se divino. Em seitas mais extremas do caminho da esquerda, como os Aghori, a transcendência de tabus internos profundamente arraigados vai muito além. Embora esse fator crítico de subversão social tenha sido ignorado ou branqueado por intérpretes mais moderados do caminho da esquerda do que nós, você descobrirá que essa recusa em seguir as regras ditadas por outros é um dos fatores universalmente definitivos que separam a esquerda caminho da mão de formas mais brandas e menos antagônicas de magia sexual.

Seria fácil interpretar erroneamente esse desafio ao costume social e religioso como uma declaração puramente política. No entanto, uma vez libertado de um conjunto de antolhos psíquicos, o magista do caminho da mão esquerda não os troca simplesmente por um novo conjunto. Ele ou ela se esforça para alcançar um estado de espírito em que todas as formas de ortodoxia devem ser questionadas e rejeitadas.

Mesmo neste estágio inicial, o leitor perspicaz terá percebido que quando falamos de magia sexual da mão esquerda, não estamos preocupados apenas com o funcionamento da genitália para algum propósito feiticeiro. Sim, sua ferramenta central de iluminação é a sexualidade desperta. Mas a tradição do caminho da mão esquerda na verdade fornece uma abordagem para todos os aspectos da existência, uma filosofia – ou “amor de Sophia” – que posta em ação pode transformar a totalidade da estrutura psicobiológica humana, não apenas seu pênis ou vagina.

Pode-se dizer que a magia sexual do caminho da mão esquerda é uma forma de iniciação conscientemente projetada para um mundo irremediavelmente fodido. A filosofia do caminho da mão esquerda postula que é o método mais adequado para os tempos apocalípticos e fora de ordem em que a humanidade existe atualmente, uma era que a tradicional disciplina indiana do caminho da mão esquerda reconhece como Kali Yuga. São necessárias medidas excepcionais para despertar a plena consciência sob condições tão desfavoráveis. O primeiro passo é rejeitar a tristeza e o desespero que esses tempos podem inspirar e abraçar com alegria o caos do mundo em desintegração, esse espetáculo ilusório e cintilante que emana da vulva da escura Kali. E uma das grandes ferramentas de transformação sobre as quais Kali preside é a carne, especialmente quando submetida à chama do desejo.

Fora da tradição do caminho da mão esquerda propriamente dita, a antiguidade pré-cristã reconhecia claramente que os estados mentais transformadores e misteriosos atingíveis através da sexualidade fazem parte do reino dos Deuses. De fato, muitos termos comuns que denotam sexualidade na linguagem moderna ainda carregam os traços indeléveis daquela antiga apreciação da natureza mágica – até mesmo religiosa – da sexualidade humana. O erótico remete ao deus Eros, o afrodisíaco refere-se à deusa Afrodite, assim como o venéreo é derivado de Vênus. As origens mágicas da palavra “fetiche” também são bastante conhecidas – deriva do português feitico (feitiço), para feitiçaria ou encanto. Quem pode negar que o poder poderoso em que um fetiche sexual escraviza o fetichista não é nada além de um fascínio, um glamour, de natureza inteiramente mágica? O caminho da esquerda, em todas as suas formas, conscientemente devolve Eros ao lugar outrora exaltado que ocupava na vida humana, reconhecendo a divindade adormecida do sexo mesmo em práticas que os profanos rejeitam como sórdidas e vergonhosas.

Sob seu exame às vezes contraditório de símbolos e premissas de magia sexual de várias tradições culturais e religiosas, Os Demônios da Carne postula um fenômeno biológico universal aparentemente conectado à consciência e sexualidade humanas. Como veremos, a expressão tântrica indiana caminho da mão esquerda descreve essa anomalia psicossexual com grande precisão. No entanto, também usamos a frase “corrente sinistra”, que indica sua existência não indígena, onipresente, não apenas em uma tradição cultural específica, mas como uma força localizada no próprio corpo.

Indicamos agora quão central é o papel que o sexo desempenha no caminho da mão esquerda, mas, presumivelmente, você pode estar se perguntando onde entra a “mágica” mencionada no subtítulo deste livro. inerente ao prazer sexual foi reduzido ao seu estado atual de degradação, assim como a outrora real arte da magia sofreu um declínio semelhante no mundo moderno. Se não se associa imediatamente a palavra com truques e prestidigitação do show business, então ela evoca o ocultista consumidor vulgar, vestido com o manto “mágico” obrigatório, recitando credulamente feitiços “mágicos” doutrinários, geralmente esperando em vão invocar o dinheiro que ele ou ela não tem as habilidades para ganhar, ou para atrair um determinado objeto de desejo sem adquirir as graças sociais para sequer iniciar uma conversa. Em outras palavras, a magia, pelo menos no mundo ocidental, tornou-se um brinquedo exótico para perdedores, a atuação de pensamentos ilusórios para alcançar objetivos transitórios mais eficientemente realizados através do desenvolvimento mundano da competência pessoal.

A magia, da perspectiva do caminho da esquerda descrita aqui, está muito distante da mercadoria bruta que se tornou no meio ocultista moderno. Estamos focados aqui na Grande Obra, a transformação sexual-alquímica do humano em semidivindade, não no desenvolvimento de alguns truques de salão. No caminho da mão esquerda indiana, os maiores magos são os divya ou bodhisattva, que não precisam recorrer a nada que se assemelhe a um ritual para criar uma transformação radical de maya, a substância da qual a mente e a matéria são compostas. Os poderes mágicos, como entendidos no Ocidente, às vezes são uma consequência da iniciação erótica, mas são secundários à remanifestação radical do eu para modos superiores de ser, que é a raison d’etre (razão de ser) do caminho da mão esquerda. Nas antigas tradições helênicas e gnósticas também consideraremos como expressões da corrente sinistra, um divya é conhecido como um magus (mago), um ser cujo poder mágico se baseia no cultivo interno do eu a níveis demoníacos de consciência.

Como esse estado de ser é o objetivo de todos os sinistros magos sexuais atuais, não fornecemos ao leitor feitiços, maldições ou rituais pré-programados. Nós também não fornecemos nomes de demônios garantidos para cumprir todos os seus comandos, nem feitiços infalíveis que atrairão os alvos de sua luxúria. Se você for ingênuo o suficiente para procurar por tais panaceias instantâneas, nossa ênfase na importância do trabalho mágico autodirigido como um processo interno de autodeificação provavelmente será extremamente frustrante. Este livro deixará claro os métodos perenes do caminho da mão esquerda que ativam o curso eterno do desenvolvimento tomado pelo divya ou o magus (mago) do caminho da mão esquerda, mas ele deliberadamente se abstém de conduzir o leitor mecanicamente através de uma lista de truques externos. Você não encontrará nada como: 1) Vagina aberta. 2) Insira o pênis. 3) Diga a palavra mágica com convicção.

Esse tipo de coisa é inútil, para não dizer um insulto à inteligência do magista iniciante. Instruções dogmáticas, para nossa experiência, não podem ser feitas para grandes magistas – elas apenas provam que o leitor pode obedecer obedientemente aos comandos. Esses atalhos e simplificações não fornecem nenhum atrito necessário para o estudante do caminho da esquerda, sem o qual nenhum esforço abrasivo necessário para iniciar a si mesmo pode ser desencadeado. Os Demônios da Carne, que somos imodestos o suficiente para classificar como um Tantra para o século XXI, é construído para fornecer esse atrito, em vez de destilar o caminho da mão esquerda em um leite materno fácil de engolir para o lactente. . Por esta razão, embora métodos práticos de procedimento sejam sugeridos, este não é tanto um livro de “como fazer” – seu foco está em “por que fazer”. Em nossa opinião, uma marca do verdadeiro magista do caminho da mão esquerda é a capacidade de integrar sistemas simbólicos complexos, sintetizá-los com a experiência pessoal e criar a partir dessa síntese sua própria direção única no caminho da mão esquerda.

Uma crença comum, mas errônea, sobre magia sexual, caminho da mão esquerda ou não, é que sua prática consiste em nada mais do que fazer um forte desejo focado durante o orgasmo. Se fosse esse o caso, dificilmente seria necessário um livro inteiro sobre o assunto – essa última frase seria suficiente para uma educação sexual-mágica completa. Este é, na verdade, apenas um dos menos sofisticados métodos de feitiçaria sexual, e embora o magista do caminho da mão esquerda possa experimentá-lo como um meio de testar a insubstancialidade de todos os fenômenos mentais, não pode ser comparado ao método da mão esquerda, muito mais essencial. métodos de caminho de iluminação sexual, como Kundalini, que remodelam a consciência para níveis supernos de realização que transcendem inteiramente o modelo pueril do “bem dos desejos” da magia sexual popular.

Talvez a prevalência dessa ideia, mesmo entre aqueles que deveriam saber melhor, se baseie no fato de que muito tem sido escrito sobre a “magia sexual” de Aleister Crowley, que em sua própria prática cotidiana consistia em pouco mais do que coordenar desejos e chegando. Mas Crowley, apesar de sua ascensão póstuma como o “nome de marca” mais reconhecível no campo da magia sexual ocidental, não é a essência da magia sexual. A ideia do orgasmo mágico não explodiu espontaneamente das entranhas de Crowley um dia. De fato, como mostraremos, os agora obscuros precursores pseudorrosacruzes de Crowley, como o magista sexual afro-americano PB Randolph e o espermófago alemão Theodor Reuss originaram muitas das ideias que se acredita que a Grande Besta 666 “descobriu”, assim como vários de seus contemporâneos e antecedentes desenvolveram essas mesmas ideias em direções mais pertinentes do que o próprio Mestre. Também tentaremos resolver a espinhosa questão de saber se Crowley é de fato um magus (mago) do caminho da esquerda.

Neste último aspecto, deve-se dizer que a prática da magia sexual por si só não qualifica um magista para o caminho da mão esquerda. Todo maluco oculto que alguma vez proclamou seu orgasmo como um evento mágico de primeira ordem não é necessariamente um iniciado no caminho da mão esquerda. Da mesma forma, a ausência de sexualidade na prática mágica de alguém é um sinal seguro de que não se está mais lidando com o caminho da esquerda em seu sentido clássico.

Colocamos a magia sexual da mão esquerda em um contexto histórico, analisando algumas das figuras históricas coloridas que praticaram a taumaturgia orgástica no Ocidente moderno. Mas devemos deixar claro que não é nossa intenção inspirar nossos leitores a imitar as vidas e lendas desses indivíduos. O caminho da esquerda está firmemente focado na autodeificação – a idolatria fanática e a adoração de heróis inculcadas por tanta literatura oculta para as “estrelas” do passado estão totalmente fora de lugar com os objetivos do caminho da esquerda. Se há uma atitude apropriada no caminho da mão esquerda a ser tomada com os famosos e infames professores de magia sexual do passado, certamente é a irreverência, não a santificação piedosa. De fato, no processo de transformar-se de consciência humana em divina por meio da iniciação erótica, é obrigatória uma irreverência saudável direcionada às próprias pretensões.

O mundo está cheio de pessoas que devoraram mil livros mágicos e ainda assim nunca realizaram um único ato genuíno de magia. Esse fenômeno é tão prevalente que a síndrome até ganhou um nome: o mágico da poltrona. Certamente não é nossa intenção criar através deste livro algo ainda pior – o mágico do sexo à beira da cama. Assumindo que você está lendo isso como uma visão geral introdutória da magia sexual do caminho da mão esquerda, e não simplesmente como uma diversão perversa, os princípios descritos aqui devem ser promulgados em sua própria carne, através da ação no mundo real, em oposição à abstração cerebral .

Claro, houve outros livros que tentaram comunicar algo dos mistérios da magia sexual. No entanto, do nosso ponto de vista, a maioria desses volumes anteriores errou o alvo. Gostaríamos de pensar que nosso objetivo será mais preciso. Na maioria das vezes, os textos de magia sexual anteriormente disponíveis suavizaram o poder penetrante disponível para o magista erótico em uma espuma pegajosa de romantismo insípido. As ofertas mais recentes foram voltadas para as sensibilidades fracas e chorosas do chamado movimento da Nova Era. Esses guias medrosos têm oferecido uma magia sexual totalmente desfigurada e domesticada a seus leitores. Este volume ficará desconfortável na prateleira com aqueles trabalhos mais suaves e menos diretos. Se sua compreensão da magia sexual foi adquirida apenas a partir desse corpo de trabalho doentio, esperamos que este livro sirva como um antídoto de purga para equívocos anteriores.

Não menos importante dos equívocos que visamos é a compreensão totalmente incoerente e historicamente inválida da natureza exata do caminho da esquerda que prevaleceu no século passado ou mais no mundo ocidental. Um dos desafios ao escrever este livro foi definir adequadamente um assunto que tantos já pensam que entendem, mas na verdade não entendem – pelo menos não por qualquer padrão objetivo que possamos identificar Ao tentar esclarecer o que a esquerda O caminho da mão é que estamos apenas começando a tarefa maior de estabelecer um modelo de trabalho congruente da corrente sinistra no Ocidente. Construído, como deve ser, sobre as ruínas da confusão do passado, esse modelo de trabalho pode levar outros cinquenta a cem anos para realmente se firmar.

Embora nós mesmos estejamos praticando magos sexuais do caminho da mão esquerda, este livro não é de forma alguma concebido como um meio de conversão ou como um dispositivo de recrutamento. Como deixaremos claro, o caminho da esquerda é, apesar de todos os seus elementos antiautoritários, uma forma elitista de iniciação. Com isso, não queremos dizer que os adeptos do caminho da esquerda necessariamente se considerem superiores aos não iniciados – apenas que a corrente sinistra não é para todos, e nunca pode ser um caminho para milhões. Ler este livro pode esclarecer para você que você não seria adequado para esta escola de iniciação.

A sexualidade é a expressão no mundo material do conceito metafísico de polaridade – o yin e yang, Shiva e Shakti, a rosa e a cruz, a união e transcendência dos opostos. Os Demônios da Carne é exatamente o que descreve, na medida em que pode ser entendido como uma magia sexual funcionando por si só. Como uma criança criada pelas energias eróticas polarizadas da sexualidade masculina e feminina gerada por seus autores, este livro ilustra como a força sexual combinada de dois magos pode criar uma terceira entidade demoníaca. Ao moldar as palavras e perspectivas colaborativas de dois magos em um todo coeso, pretendemos criar um elemental mágico que ganha uma certa vida própria, independente de seus criadores. Sempre que dois magos trabalham juntos, o resultado é a criação de tal força elementar; William S. Burroughs e Brion Gysin se referiram a esse fenômeno como “a terceira mente”. Assim como a magia erótica do caminho da esquerda cria um espaço numinoso no qual as energias muito diferentes de masculino e feminino podem se comunicar e ver além dos limites do gênero, a voz dupla deste livro fala de um ponto de vista que transcende masculino e feminino.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/demonios-da-carne-o-guia-completo-para-a-magia-sexual-do-caminho-da-mao-esquerda/

Fantasmas Indígenas da América do Sul

Embora a crença em fantasmas seja comum a culturas de todo o mundo, no Ocidente e, especialmente nas Américas, essa crença foi fortemente influenciada pelas tradições do folclore europeu que chegaram ao novo mundo a bordo dos navios colonizadores de portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. Deste modo, os fantasmas do Velho Mundo emprestaram muito do seu modus operandi, da sua maneira de se manifestar, sincretizando-se aos espectros que já assombravam as populações nativas em terras americanas, mais do que nas colônias orientais, onde as civilizações já estabelecidas e desenvolvidas possuíam tradições firmadas tão antigas e documentadas quanto européias, como na China, Índia, Japão.

Os Condenados Quíchuas

São numerosos grupos étnicos da América do Sul dispersos principalmente nos territórios do Peu, Bolívia, Equador [Kichwa], Colômbia [Ingas] e Argentina. Historicamente, seus ancestrais foram os Incas, os Chanchas, Huancas e Cañaris. Entre suas crenças no sobrenatural, fortemente influenciadas pelo cristianismo-católico dos jesuítas,  figuram os “Condenados”. Quando alguém morre de “boa morte”, antes de deixar este mundo, a alma vagueia por cinco dias nos lugares onde sofreu e foi feliz. Veste uma túnica branca e não põe os pés no solo. Findo aquele período, lava sua roupa, pois precisa estar completamente limpa para subir ao céu. Porém, a situação é diferente se a morte foi trágica, como suicídio, acidente, quando o morto carrega culpas, como o incesto, a avareza, a mentira, ou cometeu crimes. Estes são rejeitados por Deus e condenados a passar um tempo errando entre os vivos. Há os que deixaram dinheiro escondido e voltam para dizer onde está o tesouro porque esconder riquezas e levar o segredo para o túmulo é considerado um ato anti-social.

Conforme o caso, a pena será diferente: os que se matam por amor, somente são recebidos no céu quando chega o momento que estava programado para sua morte. Os ladrões, têm que restituir, de alguma forma, o fruto do roubo. Mas os que morreram de forma violenta são os piores casos, porque reviverão a violência até que consigam a salvação pela misericórdia divina. Estes, são almas penadas que habitam cavernas e cemitérios onde gritam e se lamentam em terrível agonia, atormentados por demônios que os mantêm acorrentados. Tomam a formas de animais ou aparecem vestidos com túnicas negras. Eventualmente libertos por seus algozes demoníacos, assombram cidades em cortejos, procissões, mas também vagueiam sozinhos, escondendo o rosto cadavérico para não serem reconhecidos. São descritos como vultos.

Aqueles condenados mais terríveis, procuram arrastar viventes para seu infortúnio. Querem suas almas que, acreditam, podem servir como moeda de troca em negociação com os demônios e, assim, alcançarem a libertação. O incestuoso, assombra sua vítima e/ou parceira. Há casos em que tentam comer a cabeça porque ali está a sede da alma. Para livrar-se dessas almas penadas pode-se recorrer a orações, segurando um crucifixo, chamando por Jesus ou pedindo a intervenção da Virgem Maria. Alguns objetos também servem como proteção: a lã das lhamas, faixas coloridas, sal, a música do cacho [corneta de chifre, berrante] e, também, a presença de crianças [como na lenda abaixo]. Mas se a intenção é salvar a alma do condenado, então deve-se mandar celebrar missas.

Lenda de Um Condenado Quíchua

 

 

Havia uma mulher que vivia sozinha. ela fiava dia e noite para ganhar seu sustento. Em uma dessas noites de trabalho, era meia-noite quando ouviu baterem à sua porta e, inadvertidamente, ela abriu deparando-se com um homem que lhe disse: “Senhora, por favor, guarda para mim estas velas que amanhã, a esta mesma hora, voltarei para buscá-las”. Apesar da estranheza do pedido, ela concordou. Fechou a porta e, recolhendo-se à casa, à luz do candeeiro, viu que as velas tinham se transformado em ossos humanos. Jogando longe os objetos macabros e cheia de temor, no dia seguinte, correu a procurar o cura da paróquia a quem relatou o sucedido. O religioso disse-lhe que havia feito muito mal em atender a porta em tão adiantada hora da noite e não havia outro remédio senão esperar a volta da assombração, pois era uma assombração, alma do outro mundo, um condenado que, certamente, roubar-lhe-ia a vida ao retornar para buscar os ossos; ossos que ela tinha de recuperar pois necessário seria restituí-los. Porém, para salvar-se, bastava que ao atender a porta não estivesse sozinha, mas acompanhada de seis crianças: três meninos e três meninas. Assim fez a mulher: recorrendo às vizinhas, reuniu as crianças e esperou. Na hora aprazada, bateram à porta. Era o condenado e ela, cercada pelos infantes, entregou os ossos. Contrariado, o espectro disse: “Ah! Então já sabes! Agradece a essas crianças porque sem elas eu teria devorado você!” E desapareceu diante dos olhos de todos. [Velas que viram ossos nas lendas de assombração são um tema recorrente do folclore brasileiro como se verá no tópico “Brasil”].

Lendas Ameríndias


Maauia:
aparentada com o Saci-Pererê, nesta versão, a entidade dos tupi-guarani é “a alma de [índios e índias muito velhos e sábios na feitiçaria, que andam pela noite, saltando numa perna só e gritando como a Matinta-Pereira, uma ave agourenta” [Donato, Hernâni, 1981: Dicionário de Mitologia, São Paulo: Culrix]. O saci, mais conhecido, entre as assombrações, pertence à categoria dos “encantados” e não aos fantasmas.

Iwanch: os índios aguaruna [Peru, do tronco do Jivaros, aqueles que encolhem cabeças] acreditam que todos os seres, homens, animais, plantas, rochas, montanhas, objetos etc., têm uma alma à qual chamam wakán. Quando morre uma criança as mães lançam ao ar sua roupa [da criança] para que o filho [a] possa captar a wakán da vestimenta e, assim, proteger-se do frio no Além. O wakán humano, com a morte do corpo, converte-se em Iwanch e pode ter destino diferente, dependendo da pessoa.

Alguns espíritos tomam uma horrível forma humanóide: perturbado, glutão, covarde e pouco inteligente. É a primeira etapa na existência no post-mortem, a Dekas Iwanch, que dura o mesmo tempo da vida que se acabou [muito semelhante aos cascões, o corpo astral impuro dos ocultistas ocidentais e orientais]. Depois, transforma-se em uma mariposa azul [Iwanch Wampag] que sobe acima das nuvens [Yújagkim], desaparecendo.

As almas dos maus são condenadas a arrastar-se eternamente no fundo dos precipícios pedregosos. Esses espíritos condenados podem assombrar os vivos, raptá-los, golpeá-los até o desfalecimento, deixando-os semi-mortos. A única forma de proteção é recitar uma fórmula mágica, chamada, ánen, que espanta essas assombrações: “Tú, que tomaste a forma de espírito maligno, não leves minha alma, recorda o tempo em que tinhas um corpo e dizias ─ “Irei ver minha esposa”. Já não podes falar assim…. Eu sou como a unha unida à carne. Assim minha alma está unida ao meu corpo… Mas tu já não podes falar assim do teu corpo, pois que na distância perdeste-o para sempre”.

Emesek: é um espírito danoso, vingador, de um inimigo morto que continua, como fantasma, lutando contra o rival que considera devedor. O Emesek quer ajustar contas e neste processo pode perturbar durante anos. Somente através de magia é possível não somente controlar este adversário do Além mas também escravizá-lo, obrigando-o a prestar serviços que favoreçam prosperidade material e familiar pata aquele que conseguiu vencê-lo.

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-indigenas-da-america-do-sul/

Amarração: a magia do amor

A Amarração é um processo místico com o qual é possivel “amarrar” uma pessoa a outra seja amorosamente, emocionalmente ou mesmo de forma puramente sexual. A tradição oculta ensina que por meio de alguns processos pode-se invocar entidades espirituais que vão atuar na vida de uma certa pessoa, de forma a influencia-la à apegar-se completamente a pessoa destinada pelo trabalho.

Uma amarração de verdade nunca conte com o apóio de entidades espiritualmente superiores, mas é sempre realizada com o apóio de entidades espirituais de natureza mundana, vulgarmente conhecidas como exus. Os exus não são perversos como costumam dizer os ignorantes, mas sim seres mais próximos da realidade humana e portanto mais dispostas a ajudar. Assim, qualquer pessoa que alegue realizar amarrações com o contato direto com deuses, orixás ou mesmo anjos ou está mentindo para não assustar o cliente, ou não entende nada do que está falando.

Cotudo, a natureza exata dos seres que atuam nos rituais de amarração não é importante para que o ritual funcione. As vezes são chamados de santos ou mesmo pelo nome de demônios. O importante para termos em mente é que qualquer forma as entidades de luz evoluidas não forçam ninguém a ficar com ninguém, não mudam os rumos de vida das pessoas por causa de nenhuma encomenda qualquer. Um ser evoluido pode até torcer desejar que pessoa fique com outra e pode até fazer algo para que isso aconteça desse jeito, mas nunca agredirá o livre-arbítrio de ninguém. Cabe ás entidades espirituais das “trevas”, especialmente aquelas ligadas á luxúria  realizar tais tarefas por via da sua invocação com rituais e produtos de feitiçaria.

O nome “Amarração” vem do fato de que as receitas mais antigas para se prender uma pessoa é pegar uma corda do tamanho exato da vítima e então realizar uma série de laços enquanto se assobra dentro destes nóz pedindo aos antigos deuses o amor ( ou a perdição ) da pessoa. A tradição iniciada em tempos imemoriais no continente africano sobrevive até hoje em diversas partes do mundo. No Alcorão encontramos um encantamento divino especialmente criado para o combate deste tipo de ataque oculto:

“Em nome de Deus o Clemente, o Misericordioso, dize:
Procuro refúgio junto ao Senhor da Alvorada,
Contra o Mal das criaturas que Ele criou,
Contra o Mal das trevas quando se estendem,
Contra o Mal das feiticeiras quando sopram sobre seus laços,
Contra o Mal do invejoso quando inveja.”
– A Alvorada Surata 113.

Uma amarração faz uma pessoa ficar com outra, ou faz ela voltar, faz ela desejar e não conseguir deixar de pensar nessa outra pessoa. Por isso, como mais abaixo é explicado, o trabalho de amarração acaba abrindo uma porta para que a pessoa que encomendou a amarração entre por essa porta e acabe conquistando vitoriosamente a vida da outra pessoa.

A Teoria Espiritual das Amarrações

Uma amarração produz esse resultado de união porque as entidades espirituais, acionadas de diversas maneiras, segundo a lógica de suas próprias hierarquias espirituais que vão abordar a pessoa amarrada e causar certos efeitos na vida dela. Assim, uma amarração abre aquela porta que estava fechada, para que a pessoa que fez a amarração entre por essa porta e acabe conquistando vitoriosamente a vida da outra pessoa.

Em outras palavras, não é de fato Vênus, ou Iemanja que atuam em favor de uma amarração, mas a força espiritual representada por elas é comovida a cooperar com o desejo do ritual de amarração.  Os espíritos engajados por uma Vontade manifesta via um ritual de amarraçao provocarão fundamentalmente 5 tipos de efeitos na vida da pessoa que estão querendo amarrar a quem encomendou o trabalho de magia. Os 5 efeitos de uma amarração são:

  1. Os espiritos vão murmurar a todo o tempo o nome de quem pediu a amarração, ao espirito da pessoa amarrada, numa tortura invisível. Se a pessoa for teimosa, ela pode até resistir um certo tempo á tentação de estar com a pessoa que mandou fazer a amarração, mas ela vai sentir os efeitos da magia
  2. Os espiritos vão embebedar a pessoa amarrada com forte e ardente luxúria, como terrível desejo sexual, abrindo essa pessoa a uma irresistível sede de ter sexo.
  3. Os espiritos vão amansar a pessoa, quebrando-lhe o espírito de forma a que a vontade da pessoa vá lentamente vergando e ela fique frouxa e mansa. Podem faze-lo com constantes acontecimentos desmoralizadores e que vão aos poucos abatendo a pessoa. Nesse caso, a pessoa vê todas as portas bloqueadas na sua vida e parece que nada dá certo, que a sorte abandonou a vida dessa pessoa amarrada.
  4. Os espiritos vão causar aborrecimentos , infelicidades, perdas, dores, problemas e todo o tipo de contratempos á pessoa amarrada. A pessoa vai sofrer imenso enquanto não estiver com a pessoa que encomendou a amarração, e quando estiver com ela tudo vai acalmar e estar bem. Mas de cada vez que se afastar , essa pessoa amarrada vai sofrer os infernos. E cada vez que se recusar a falar ou voltar, essa pessoa amarrada vai sofrer tormentos. Por isso se costuma dizer numa amarração: “que fulano tal não coma se não estiver ao meu lado; que fulano tal não durma se não estiver ao meu lado; que fulano tal sofra todos os mais cruéis tormentos se não estiver ao meu lado; que fulano tal não tenha nenhuma felicidade se não estiver ao meu lado, etc….”
  5. Os espiritos podem mesmo infiltrar-se nos sonhos da pessoa amarrada, atormentando-a com constantes visões da pessoa que encomendou a amarração, ou com sonhos eróticos com essa pessoa, ou com pesadelos sem fim, gerando grande instabilidade mental e espiritual. Ao faze-lo, estão torturando e quebrado o espírito da pessoa amarrada para que ela fique fraca e ceda aos desejos da pessoa que fez o trabalho.

Ao realizar todos estes 5 tipos de efeitos na vida da pessoa amarrada, o trabalho de amarração acaba abrindo uma porta para que a pessoa que encomendou a amarração entre por essa porta e acabe conquistando vitoriosamente a vida da outra pessoa.

Por isso é igualmente fácil de entender que todos os efeitos que uma amarração produz, ( e que estão acima descritos), não são típicos de magia branca, mas exclusivamente próprios de magia negra mais tem como ser realizada a amarraçao em varias linhas como a magia cigana na linha da umbanda (kimbanda) nas linhas do vudo e na linha da magia branca.

Exemplos Populares de Amarração Simples

Para fazer voltar a pessoa amada:

Ás 24h00 de numa noite de sexta feira, quando a lua estiver em Touro, (sob a magnânime regência de Vénus), ou em Escorpião, (sob a poderosíssima regência de Plutão), consagre  uma vela vermelha com mel e óleo liturgico. Deverá depois gravar na vela o seu nome e o nome da pessoa amada. Faça-o com uma agulha previamente mergulhada numa taça de vinho tinto, ao qual foi misturado uma pequeníssima pitada de valeriana. Enquanto grava na vela os nomes com agulha molhada pelo vinho, diga a seguinte oração: «Poderosa e irresistível Iemanjá, sublime Senhora do amor,  este vinho é sangue e nele reside o meu amor, este vinho é meu desejo e também minha dor. Com sangue gravei nossos nomes, e que assim no sangue de, ( nome da pessoa amada),  corra meu sentimento para que de mim não tires o teu pensamento.» Assim dito, a agulha deve ser espetada na vela, de forma a cruzar ambos os nomes, e a vela deve ser acesa. Com a vela já ardendo, assim orar: «Força de Iemanjá, toda poderosa senhora da luz do amor, como arde esta vela, assim arda o coração de ( nome da pessoa amada), por mim. Pelo Teu poder, força de Iemanjá, regresse ele para mim. Assim seja.» Beba o vinho, ele actuará como forte poção de apelo ás forças espirituais de Vénus.Conserve todos os elementos do ritual em local secreto. Se necessário, repetir nas sextas em que a conjunção lunar for favorável. Aguardar os fortes resultados, não forçando eventos, deixando o caminho livre para que a Deusa abra os seus caminhos.

Para atrair o amor:

Numa sexta feira á noite, ( depois das 21h00), coloque uma pétala de rosa vermelha numa taça de vinho tinto. Tape o cálice com um pano de ceda vermelho. Deixe a taça na sua mesa de cabeceira, e ao deitar pense: «Vênus, senhora do amor, senhora dos meus destinos: aceitai visitar-me, aceitai minha adoração, aceitai meu puro coração. Vinde a mim e partilhai deste divino vinho que Vos oferendo, e trazei para mim quem eu amo, inflamado pela poderosa chama do irresistível amor de que sois imperatriz. Assim seja» Durma tranquilamente. De manha, ao acordar, bebei o vinho e agradecei á Vênus. A pétala de rosa vermelha deve ser colocada num pequeno saquinho, que deverá andar  sempre junto ao seu corpo: será um fortíssimo chamamento ao amor.

Talismã do amor:

O diamante é a pedra sagrada da Deusa do amor,  a eterna representação do inigualável brilho do planeta Vénus. Numa sexta feira, ás 24h00, faça oferendas de mal vinho licoroso e incenso á Iemanjá. Deixe que o diamente permaneça no altar dedicado vénus por toda essa noite. De manha, quando o sol estiver nascendo, colocai o diamante num saquinho. Usai-o sempre junto do corpo e toda a sexta feira repita o ritual. Será poderoso talismã desblqueador de caminhos e protetor do amor.

Amarração para sedução:

Pegue uma maçã bem vermelha e espete diversos cravos-da-índia, em toda extensão da fruta. Em seguida, mergulhe a maçã no mel e deixe de um dia para o outro. Envolva-a numa folha de papel cor-de-rosa nova e entregue num jardim florido, de manhã bem cedo, de preferência um pouco antes do nascer do Sol.

Amarração de reconciliação:

Unte uma vela vermelha com óleo de sândalo (lembre-se de fazer movimentos ascendentes) e acenda-a no meio de um prato branco que nunca tenha sido usado. Ao lado, acenda um incenso de rosas. Com a ponta de um punhal virgem, corte a tampa de uma maçã vermelha e grande e retire parte da polpa. Usando um lápis, escreva sete vezes o nome completo do seu amado numa tira de papel e coloque o seu nome por cima do dele, de modo que as letras fiquem entrelaçadas. Ponha esse papel dentro da maçã, despeje um punhado de canela em pó e acrescente mel, até preencher o interior da fruta. Recoloque a tampinha da maçã, amarre tudo com uma fita vermelha de cetim e passe a fruta sete vezes pela fumaça do incenso, mentalizando que a paz e o amor prevalecerão e você e seu par reencontrarão a felicidade.

Para atrair um novo amor:

Coloque um cristal de quartzo rosa em um copo d’água pela manhã e lave o rosto com esta água no final da tarde, mentalizando as coisas boas e harmoniosas que você deseja atrair para sua vida: paz no relacionamento, maior poder de sedução, paciência, capacidade de compreensão, relações verdadeiras, etc.

Para aquecer o romance:

Depois do pôr-do-sol, coloque três colheres de mel puro numa garrafa de vinho tinto e tampe-a muito bem. Balance-a cuidadosamente, para que o mel se misture ao vinho, e deixe ao ar livre. Antes do amanhecer, recolha a garrafa e guarde-a muito bem. Sirva um cálice desse vinho à pessoa amada na próxima vez em que for encontrá-la. Com toda certeza, o sentimento que existe entre vocês vai se fortalecer ainda mais após essa cerimônia. Essa bebida só pode ser consumida por pessoas que não tenham contra-indicações relacionadas ao álcool!

Para facilitar os flertes:

Pegue uma dúzia de rosas vermelhas, duas velas também vermelhas, algumas conchas do mar ou seixos de rio, um incenso de rosas, um pouco de mel e um punhado de sal grosso. Tome um banho demorado e, ao terminar, despeje sobre o corpo um litro de água misturada com sal grosso. Coloque uma roupa vermelha e espalhe as rosas pelo chão, dispondo-as de tal maneira que elas formem um círculo. Sente-se no meio desse círculo, acenda o incenso e as duas velas à sua frente (lembre-se de colocá-las dentro de um pratinho) e espalhe as conchas ou seixos em volta. Olhando fixamente para as chamas das velas, peça o que você quer: charme, beleza, sensualidade, poder de sedução… Permaneça nessa posição o máximo de tempo que você puder. Os resultados serão surpreendentes e não vão demorar muito para aparecer!

Para ver um futuro amor:

Caso esteja solitário e queira saber como vai ser seu próximo par amoroso, experimente realizar o ritual dos sonhos reveladores. Pegue o arcano número 6 do tarô, chamado Os Enamorados (em alguns baralhos, essa carta também é chamada de Os Amantes) e coloque-o sob o seu travesseiro antes de dormir. Será importante não conversar com ninguém depois de fazer isso. Concentre-se no seu pedido e peça mentalmente para as deusas da natureza revelarem o seu futuro. É provável que a revelação venha por meio de um sonho, na mesma noite do ritual. Porém, é bom que você tenha em mente que nem sempre esse feitiço surte o efeito desejado: às vezes, o momento não é o mais propício para desvendar o futuro

Amarração para aguçar o tesão:

Pegue um vidro de boca larga e coloque dentro dele um punhado de pétalas de jasmim, uma mecha dos seus cabelos, algumas raspas das suas unhas e fragmentos de teia de aranha (prefira pegar uma teia “abandonada”, ou seja, que não esteja com o bichinho. Se por acaso você matar a aranha, o feitiço não surtirá o efeito desejado). Escreva o nome do seu parceiro numa folha de louro e coloque dento do vidro, acrescentando sete gotas do seu perfume favorito. Tampe o vidro com firmeza e deixe-o ao relento durante a noite, retirando-o no dia seguinte antes do Sol nascer. Guarde num lugar seguro, fora do alcance de qualquer outra pessoa. Você vai ver como seu relacionamento vai melhorar!

Para manter o parceiro fiel:

Espalhe um pouco de canela em pó dentro dos sapatos do seu amor. Enquanto estiver fazendo isso, diga em voz alta aquilo que você deseja: que o seu amado se mantenha fiel, que ele nunca minta para você, etc. Repita esse processo semanalmente, para assegurar a continuidade do feitiço.

Para ficar atraente:

Leve ao fogo um caldeirão contendo um litro de água mineral. Pegue sete rosas amarelas (de preferência colhidas por você mesmo) e vá jogando as pétalas dessas flores suavemente dentro do caldeirão, enquanto pede para as deusas da terra lhe trazerem amor, prosperidade, abundância, etc. Em seguida, adicione sete tirinhas de papel com o seu nome escrito a lápis. Assim que entrar em ebulição, retire do fogo, coe num recipiente qualquer e adoce tudo com um punhado generoso de açúcar. Despeje essa poção do pescoço para baixo depois do seu banho habitual.

Para melhorar a relação:

Unte uma vela cor-de-rosa com óleo ou essência de patchuli. Com a ponta de um alfinete que nunca tenha sido usado, grave o nome da pessoa amada. Acenda a vela e olhe fixamente para ela, mentalizando o rosto do seu parceiro. Em seguida, repita o processo com outra vela da mesma cor, escrevendo seu nome completo. Coloque as duas bem juntinhas, de modo que, ao derreterem, suas ceras se juntem. Acenda sete varetas de incenso de rosa ou sândalo, colocando-as em torno das velas acesas, de modo que formem um círculo. Haverá uma sensível melhoria na sua vida pessoal!

Amarração para conquistar alguém:

Num caldeirão de ferro, coloque um litro de água mineral e adicione os seguintes ingredientes: um punhado de folhas de louro, um punhado de pétalas de rosas de várias cores, sete lascas de canela em casca e uma colher de sopa de anis estrelado. Assim que o líquido entrar em ebulição, retire do fogo e coe num outro recipiente. Acrescente três colheres de sopa de açúcar cristal a essa mistura e despeje da cabeça aos pés depois de tomar o seu banho habitual. Faça esse ritual antes de ir ao encontro da pessoa em quem estiver interessado.

Para fazer as pazes:

Se você teve um desentendimento com o seu amor e deseja se reconciliar rapidamente, pegue um saquinho de cetim branco, um quartzo cor-de-rosa de tamanho pequeno e algumas folhas secas de erva-cidreira. Em seguida, escreva seu pedido numa folha de papel cor-de-rosa. Triture a erva-cidreira e coloque-a no saquinho, juntamente com o cristal e o papel, e deixe exposto ao luar durante uma noite inteira. Recolha o saquinho antes de amanhecer. Coloque tudo na sua gaveta de roupas íntimas e espere. Você e seu amor farão as pazes num prazo máximo de oito dias.

Amarração para manter um amor:

Num vidro de boca larga, coloque pétalas de rosas de todas as cores, uma mecha dos seus cabelos, raspas das suas unhas e um objeto de uso pessoal do seu amor (pode ser uma meia, uma roupa fora de uso, etc.). Acrescente algumas gotas do seu perfume predileto e feche o vidro firmemente. Em seguida, acenda uma vela vermelha e lacre a tampa do vidro com gotas da cera da vela derretida. Enterre esse vidro ao pé de uma árvore frondosa durante 21 dias. Passado esse tempo, guarde o vidro num local onde não possa ser visto ou tocado por outras pessoas.

Para manter o relacionamento:

Pegue sete margaridas (de preferência, colhidas por você) e deixe-as sob o travesseiro até o dia seguinte. Ao amanhecer, ferva-as em meio litro de água mineral. Quando a água entrar em ebulição, retire a poção do fogo e deixe esfriar. Mergulhe um sabonete novo nesse líquido e retire-o após uns quinze minutos. Tome banho com esse sabonete na próxima vez em que for encontrar a pessoa amada. O relacionamento de vocês vai ganhar um novo vigor.

 

Simpatias e rituais simples para trazer e manter o seu amor

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/amarracao-a-magia-do-amor/

Mentindo Com Pixels

A imagem que você vê no noticiário da tv pode ser uma falsificação – uma montagem fabricada pelas novas tecnologias de manipulação de vídeo

No ano passado, Steven Livingston, professor de Comunicação Política na George Washington University, deixou atônitos os participantes de uma conferência sobre Geopolítica. Discutia-se o papel dos satélites nas transmissões de imagens. Ele não produziu provas de novas mobilizações militares ou pandemias globais. Em vez disso, mostrou um vídeo da patinadora Katarina Witt durante uma competição de patinação em 1998.

No clipe, Katarina desliza no gelo graciosamente por cerca de 20 segundos. Então vem o que talvez seja uma das mais inusitadas repetições de imagens jamais vistas. O fundo era o mesmo e os movimentos da câmera eram os mesmos. Na realidade, a imagem era idêntica ao original em todas as formas, exceto talvez na mais importante: Katarina tinha desaparecido, junto com todos os sinais dela. Em seu lugar estava exatamente aquilo que você esperaria se Katarina nunca tivesse estado ali – o gelo, as paredes do ringue e a multidão.

Grande coisa, você dirá. Afinal, há mais de meio século a equipe de Stálin, o ditador soviético, já eliminava das fotos personalidades malvistas pelo governo. E, dezessete anos atrás Woody Allen realizou um grande número de deformações da realidade no filme Zelig, onde ele aparece junto a figuras do passado como Adolf Hitler e os presidentes americanos Calvin Coolidge e Herbert Hoover. Também em filmes como Forrest Gump e Mera Coincidência, a distorção da realidade tornou-se lugar-comum.

O que diferencia a demonstração com Katarina Witt – e muito – é que a tecnologia usada para “excluir virtualmente” a patinadora pode agora ser aplicada em tempo real, ao vivo, mesmo enquanto a câmera grava a cena e no mesmo instante em que a transmite aos espectadores. Na fração de segundo entre os quadros de vídeo, qualquer pessoa ou objeto que se mova em primeiro plano pode ser retirado, e objetos que não se encontram ali podem ser inseridos e parecer reais. “Plasticidade de pixel”, eis o nome que Livingston deu a essa técnica. As implicações para as pessoas que compareceram à conferência sobre Geopolítica e imagens de satélite deram o que pensar: as fotos exibidas podem não ser necessariamente aquelas que a câmera eletrônica do satélite efetivamente gravou.
Mas a ramificação dessa nova tecnologia vai além das imagens de satélite. À medida que a manipulação ao vivo se torna mas prática, a credibilidade de todos os vídeos se tornará tão suspeita quanto fotos soviéticas da Guerra Fria. O problema tem sua origem na natureza do vídeo moderno. Ao vivo ou não, ele é composto de pixels e, como diz Liningsotn, pixels podem ser alterados.

Os exemplos mais conhecidos de manipulação de vídeo em tempo real até agora são as “inserções virtuais” em transmissões de esportes profissionais. Em 30 de janeiro deste ano, quase um sexto da humanidade em mais de 180 países assistiu a uma linha laranja repetidamente traçada sobre o campo de futebol americano, durante a transmissão do Super Bowl. A Princeton Video Imaging (PVI), em Lawerenceville, Nova Jersey, criou aquela linha, gravou-a num computador e a inseriu na transmissão ao vivo. Para ajudar a determinar onde inserir os pixels de cor laranja, diversas câmeras do jogo foram equipadas com sensores que rastreavam as posições espaciais das câmaras e os níveis de ampliação. Adicionada à ilusão de realidade estava a capacidade do sistema da PVI garantindo que os jogadores e os juízes ocultassem a linha virtual quando seus corpos a atravessassem.

Mesmo as transmissões de TV ao vivo já podem ser manipuladas com “inserção virtuais”

Nos Estados Unidos, durante a primavera e o verão passados, enquanto a PVI e rivais como a Sport-vision de New York colocavam no ar produtos de inserção virtual, incluindo anúncios simulados em paredes atrás dos batedores da liga principal de beisebol, uma equipe de engenheiros da Sarnoff Corporation, de Princeton, Nova Jersey, voou até o Centro Operacional da Coalizão Aliada, da OTAN, Vicenza, Itália. Sua missão: transformar sua tecnologia experimental de processamento de vídeo numa ferramenta experimental de processamento de vídeo numa ferramenta operacional para localizar rapidamente e converter em alvos os veículos militares sérvios em Kosovo. O projeto foi batizado de Tiger, sigla em inglês que corresponde a “fixação de alvos por georregistro de imagem”. “Nosso objetivo era poder disparar munição guiada com precisão através de veículos militares sérvios – basta marcar as coordenadas e a coisa vai:, explica Michaels Hansen, um jovem e agitado aficionado por equipamentos da Sarnoff que acha difícil acreditar que estava ajudando a fazer uma guerra no ano passado.

Se comparada ao trabalho da PVI, a tarefa técnica dos militares era mais difícil – e o que estava em jogo era muito maior. Em vez de alterar transmissões de futebol, a equipe Tiger manipulou a transmissão de vídeo ao vivo de um Predator, uma aeronave de reconhecimento não-tripulada voando a 450 metros de altura sobre os campos de batalha de Kosovo. Em lugar de sobrepor linhas virtuais ou anúncios em cenários esportivos, a tarefa era colocar em tempo real as imagens “georregistradas” de Kosovo sobre as cenas correspondentes transmitidas ao vivo da câmera de vídeo do Predator. As imagens do terreno tinham sido capturadas antes com fotografia aérea e armazenadas digitalmente. O sistema Tiger, que detectava automaticamente objetos em movimento contra o fundo, podia, quase de forma instantânea, fornecer aos oficiais encarregados da artilharia as coordenadas de qualquer equipamento sérvio no campo de visão do Predator. Esse foi um feito bastante técnico, uma vez que o Predator estava se movendo e seu ângulo de visão apresentava constante mudança. Mesmo assim, aquelas visões tinham que ser eletronicamente alinhadas e registradas com a imagem armazenada em menos de um trinta avos de segundo (para corresponder à taxa de quadros da gravação em vídeo).

Em princípio, a definição de alvos poderia ter sido direcionada diretamente às armas guiadas com precisão. “Não estávamos realmente fazendo aquilo na Força Aliada”, observa Hansen. “Estávamos apenas informando aos oficiais encarregados da pontaria exatamente onde estavam os alvos sérvios e eles, então, dirigiam aviões para atingir os alvos”. Dessa forma, os tomadores de decisão humanos poderiam evitar decisões errôneas tomadas por máquinas com defeitos. De acordo com a Agência de Projetos de Pesquisa Avançada para a Defesa, a tecnologia Tiger foi usada de forma extensa nas últimas três semanas da operação Kosovo, durante as quais “80% a 90% dos alvos móveis foram atingidos”.

Até então, a manipulação de vídeo em tempo real estava ao alcance somente de organizações tecnologicamente sofisticadas como, por exemplo, redes de televisão e os militares. Mas os desenvolvedores da tecnologia dizem que ela está se tornando simples e barata o suficiente para se espalhar para todos os lados. E isto tem levado alguns observadores a pensar se a manipulação de vídeo em tempo real vai corroer a confiança do público nas imagens de televisão, mesmo quando transmitidas em telejornais. “A idéia de ver para crer pode perder a validade”, diz Norman Winarsky, vice-presidente corporativo para tecnologia de informação da Sarnoff. “Você pode não saber em que confiar.”

Uma forma grosseira de manipulação de vídeo já está acontecendo na comunidade de imagens por satélite. A publicação semanal Space News informou no início do ano que o governo da Índia libera imagens de seus satélites de sensoriamento remoto somente após as instalações de defesa terem sido “removidas”. Neste caso, não há manipulação em tempo real e é aberta, como um marcador de tinta de censor. Mas os pixels são flexíveis. É perfeitamente possível agora inserir conjuntos de pixels em imagens de satálite que os interpretadores de dados poderiam identificar como batalhões de tanques, ou aviões de guerra, ou locais de sepultamento, ou linhas de refugiados, ou vacas mortas que ativistas aleguem ser vítimas de um acidente biotécnico.

Uma fita de demonstração fornecida pela PVI reforça esse aspecto no prosaico cenário de um estacionamento num subúrbio. A cena parece comum, exceto por uma característica perturbadora: entre camionetas e minivans estão diversos tanques estacionados e um monstro armado rodando de maneira desconcertante. Imagine uma fita de tanques paquistaneses virtuais rodando pela fronteira da Índia entregue aos telejornais como autêntica, e você pode sentir o tipo de problema que imagens falsificadas podem provocar.
Fornecedores comerciais de serviços de inserção virtual estão concentrados demais em novas oportunidades de marketing para se preocupar muito com geopolítica. Eles têm os olhos voltados para mercados muito mais lucrativos. De repente, esses grandes espaços de programação entre comerciais – ou seja, o verdadeiro show – tornam-se disponíveis para bilhões de dólares de anúncios em horário nobre. A fita de demonstração da PVI, por exemplo, inclui uma cena em que uma caixa do Microsoft Windows aparece – virtualmente, é claro – na estante do estúdio de Frasier Crane. Esse tipo de colocação de produto poderia tornar-se mais e mais importante à medida que novas tecnologias de gravação em vídeo como, por exemplo, TiVo e RePlayTV, oferecerem aos espectadores mais poder para editar comerciais.

Dennis Wilkinson, especialista em marketing que adora esportes e se tornou CEO da PVI há cerca de um ano, não podia estar mais feliz com isso. Os olhos de Wilkinson brilham quando ele descreve o futuro (próximo) em que a tecnologia de inserção virtual levará os anúncios a extremos de personalização. Combinado com serviços de datamining (através dos quais gostos individuais e padrões de consumo dos navegadores podem ser rastreados e analisados), a inserção virtual abre a possibilidade de enviar anúncios personalizados de acordo com o alvo por linhas ou cabos telefônicos a usuários da Web ou espectadores da TV a cabo. Digamos que você gosta de Pepsi, mas seu vizinho ao lado gosta de Coca e seu vizinho do outro lado da rua gosta de Seven Up – o tipo de dados de fácil coleta por meio de registros de caixas de supermercado. Será possível ajustar a imagem de refrigerante no sinal da transmissão para atingir cada um de vocês com sua marca preferida.

A apenas 15 minutos de distância da PVI, Winarsky, da Sarnoff, também está radiante – não tanto com ganhar fatia de mercado, mas quanto ao poder transformador da tecnologia. A Sarnoff tem uma história distinta nesse campo: a empresa descende dos Laboratórios RCA, que iniciaram a inovação em tecnologia de televisão no início da década de 40 e trouxeram à luz grande quantidade de tecnologias de mídia. O tubo de TV em cores, as telas de cristal líquido e a televisão de alta definição vieram todos, pelo menos em parte, da RCA. A Sarnoff exibe cinco prêmios Emmy técnicos em sua recepção.

A capacidade de manipular dados de vídeo em tempo real, diz Winarsky, tem tanto potencial quanto alguns desses predecessores. “Agora que você pode alterar o vídeo em tempo real, você mudou o mundo”, diz. Isso pode soar pomposo, mas, após ver o vídeo de Katarina Witt, a conversa de Winarsky sobre “mudar o mundo” perde um pouco do tom de exagero.

Apagar pessoas ou abjetos no vídeo ao vivo, ou inserir pessoas previamente gravadas ou objetos em cenas ao vivo é somente o início de todos os truques que estão tornando possíveis. Muito de qualquer vídeo que tenha sido gravado está se tornando clipart que os produtores podem esculpir digitalmente na história que quiserem contar, diz Eric Haseltine, vice-presidente sênior de P&D da Walt Disney Imagineering em Glendale, Califórnia. Com tecnologias adicionais de manipulação de vídeo, os atores anteriormente gravados podem dizer e fazer coisas que eles efetivamente nunca fizeram ou disseram. “Você pode fazer com que atores mortos estrelem novos filmes inteiros”, diz Haseltine.

Filmagens contemporâneas, incluindo gravações de atores mortos, têm estado por aí por muitos anos. Mas o ilusionismo de Hollywood – que, por exemplo, inseriu John Wayne num comercial de TV – exigia um trabalho difícil de pós-produção quadro-a-quadro, feito por técnicos especializados. Existe agora uma grande diferença, diz Haseltine. “O que costumava levar 1 hora (por quadro de vídeo) agora pode ser feito em um sessenta avos de segundo”. Essa aceleração dramática significa que a manipulação pode ser feita em tempo real, instantaneamente, à medida que a câmera grava ou transmite. Não somente podem John Wayne, Fred Astaire ou Saddam Hussein ser virtualmente inseridos em anúncios pré-produzidos, como eles poderiam ser inseridos em, digamos, uma transmissão ao vivo de um show de TV.

A combinação de tempo real, inserção virtual com técnicas de pós-produção existentes e emergentes abre um mundo de oportunidades de manipulação. Consideremos a tecnologia Video Rewrite (regravação de vídeo), desenvolvida pela Interval Corporation e pela Universidade de Berkeley, e demonstrada pela primeira vês três anos atrás. Com apenas alguns minutos de vídeo de alguém falando, seu sistema captura e armazena um conjunto de fotos em vídeo, de modo que a área da boca da pessoa parece mover-se ao dizer diferentes conjuntos de sons. A partir da biblioteca resultante de “visemas” é possível retratar a pessoa como se ela dissesse qualquer coisa que os produtores sonhassem – incluindo expressões que o indivíduo nunca usaria, nem morto.

Num teste de aplicação, o cientista de computação Tim Bregler, agora na Universidade Stanford, e colegas digitalizaram 2 minutos de gravação de domínio público do presidente americano John F. Kennedy falando durante a crise dos mísseis cubanos, em 1962. Usando a biblioteca de “visemas”, os pesquisadores criaram “animações” da boca de Kennedy dizendo coisas que ele nunca disse, entre elas, “Eu nunca me encontrei com Forrest Gump”. Com tecnologia desse tipo, em princípios os ativistas poderão em futuro próximo ser capazes de orquestrar via Internet transmissões de seus adversários dizendo coisas que poderiam fazer a pessoa mais íntegra e honrada soar como o mais rematado dos cafajestes.

Haseltine acredita que as técnicas de manipulação de vídeo serão rapidamente levadas a seu extremo lógico: “Posso prever, com absoluta certeza”, diz ele, “que uma pessoa sentada diante de um computador poderá escrever o roteiro de um vídeo, desenhar as personagens, fazer a iluminação, o guarda-roupa, toda a atuação, diálogo e pós-produção, distribuir esse vídeo numa rede de banda larga, tudo isso num laptop – e os espectadores não notarão a diferença”.

Truques que hoje exigem um sistema de 80.000 dólares poderão em breve estar nas lojas, numa câmera de vídeo comercial
Até agora, as aplicações amplamente encontradas de manipulação de vídeo em tempo real ocorreram em áreas benignas como esportes e entretenimento. Já no ano passado, entretanto, a tecnologia começou a se difundir além desses locais, para aplicações que já provocaram uma certa preocupação. No outono passado, por exemplo, a CBS contratou a PVI para inserir virtualmente o logotipo familiar da rede em toda a cidade de New York, em edifícios, outdoors, fontes e outros locais – durante a transmissão do programa The Early Show da rede. O New York Times publicou uma reportagem de primeira página em janeiro questionando a ética jornalística existente em alterar a aparência de algo que está realmente ali.

A combinação de inserção virtual em tempo real, cibermarionetes, regravação de vídeo e outras tecnologias de manipulação de vídeo com uma infra-estrutura de mídia de massa que transmite instantaneamente vídeo de noticiário para o mundo inteiro tem preocupado alguns analistas. “Imagine se você é o governo de um país hipotético que deseja mais assistência financeira internacional”, diz Livingston, da George Washington University. “Você poderia enviar vídeos de uma área remota com pessoas morrendo de fome, e isto poderia nunca ter acontecido”, diz ele.

Haseltine concorda. “Estou surpreso que ainda não tenhamos visto vídeos falsos”, diz ele antes de voltar atrás um pouco: “Talvez tenhamos visto. Quem poderia saber?”

É exatamente o tipo de cenário exibido no filme Mera Coincidência, de 1988, no qual um assessor presidencial de primeiro nível conspira com um produtor de Hollywood para transmitir uma guerra montada virtualmente entre os Estados Unidos e a Albânia para desviar a atenção de um escândalo de corrupção presidencial. Haseltine e outros ficam imaginando quando a realidade imitará a arte imitando a realidade.

A importância da questão somente se intensificará à medida que a tecnologia se tornar mais acessível. O que agora exige uma máquina de 80.000 dólares do tamanho de um pequeno refrigerador logo será encontrado em placas do tamanho da palma da mão (e no limite, num único chip) que caberão num gravador de vídeo comercial, segundo Winarsky. “Isso estará disponível nas lojas de componentes eletrônicos”, diz ele. Um equipamento de consumo para inserção virtual provavelmente exigirá uma câmera de vídeo com uma placa ou chip especial para processamento de imagem. Esse hardware receberá sinais dos sensores de imagem eletrônica da câmera e os converterá numa forma que poderá ser analisada e manipulada num computador com software adequado – algo idêntico ao que se faz com o Adobe Photoshop e outros programas para “limpar” arquivos de imagem digital. Um usuário doméstico poderia, por exemplo, inserir parentes ausentes numa filmagem da última reunião de família, ou remover estranhos que prefiram não aparecer na cena – trazendo as revisões históricas no estilo soviético direto para o ambiente doméstico.

Nos EUA, especialistas já discutem os riscos do uso político das novas técnicas de vídeo

Combine-se a erosão potencial da confiança na autenticidade de reportagens ao vivo com o chamado “efeito CNN” e o cenário está montado para a falsificação mover o mundo de diferentes maneiras. Livingston descreve o efeito CNN como a capacidade da mídia de massa de ir além da mera reportagem sobre o que acontece, para influenciar verdadeiramente os tomadores de decisões quando examinarem questões militares, de assistência internacional e outros assuntos nacionais e internacionais. “O efeito CNN é real”, diz James Currie, professor de Ciência Política na National Defense University, em Fort McNair, Washington. “Todos os escritórios aonde você vai no Pentágono estão com uma TV ligada na CNN”. E isso significa, diz ele, que um governo, um grupo terrorista ou uma ONG poderia colocar eventos geopolíticos em movimento dentro de poucas horas, partindo de uma credibilidade conseguida graças à distribuição de um pedaço de vídeo bem trabalhado.

Com experiência como reservista do Exército, membro de uma equipe com privilégios de alta confidencialidade no Comitê de Inteligência do Senado, e como oficial de ligação legislativa para a Secretaria do Exército, Currie viu de perto as tomadas de decisões governamentais e políticas. Ele está convencido de que a manipulação de vídeo em tempo real estará, ou já está, nas mãos das comunidades militares e de inteligência. E, embora ainda não tenha evidências de que alguma organização tenha empregado técnicas de manipulação de vídeo, em tempo real ou não, para finalidade política ou militar, ele é capaz de divisar cenários de desinformação. Por exemplo, diz ele, pensa só no impacto de um vídeo fabricado que pareça amostrar Saddam Hussein “derramando uísque escocês num copo e bebendo um grande gole. Você poderia transmiti-lo na televisão do Oriente Médio e isso minaria totalmente a credibilidade dele junto a audiências islâmicas”.

Apesar de todas as reações emocionais, entretanto, alguns especialistas ainda não estão convencidos de que a manipulação de vídeo em tempo real representa uma verdadeira ameaça, não importando quão boa a tecnologia venha a se tornar. John Pike, analista da comunidade de inteligência da Federação de Cientistas Americanos, em Washington, D.C., diz que os riscos são simplesmente grandes demais para que governos ou organizações sérias sejam surpreendidas tentando enganar o público. E, para as organizações que estivessem dispostas a correr o risco de faze-lo, diz Pike, o pessoal que trabalha com notícias – sabendo aquilo que a tecnologia pode fazer – vai se tornar cada vez mais vigilante.

“Se alguma organização de direitos humanos aparecesse na CNN com um vídeo, particularmente uma organização com a qual eles não estejam familiarizados, acho que (a CNN) consideraria aquilo radioativo”, diz Pike. O mesmo vale para as organizações não-governamentais (ONGs). “Nenhum diretor responsável de uma organização séria autorizaria esse tipo de coisa. E eles demitiriam, no ato, qualquer pessoa surpreendida fazendo isso. A moeda corrente de ONGs políticas é “nós falamos a verdade”.

Mesmo pessoas mais ponderadas como Pike, entretanto, admitem que a mídia tem um calcanhar-de-aquiles: a Internet. “A questão não é tanto a capacidade de falsificar vídeos na CNN, mas conseguir coloca-los online”, diz ele. Isso ocorre porque a maior parte do conteúdo da Internet não é filtrado. “Isso poderia interferir no processo de produção de notícias, onde você não reproduziria o relatório original, mas relataria o que foi relatado”, diz Pike. Tal procedimento poderia resultar, em cascata, num efeito CNN. “Sem dúvida, esse tipo de experiência acabará acontecendo”, diz Pike.

O problema, afirma Livingston, é que apenas algumas experiências podem ser suficientes para levar as pessoas a questionar para sempre a autenticidade do vídeo. Isso poderia ter repercussões enormes sobre operações militares, de inteligência e de notícias. Uma conseqüência sociológica irônica poderia surgir: o retorno a uma dependência mais pesada de comunicação cara-a-cara, sem intermediários. Neste meio tempo, entretanto, haverá algumas interessantes torções e reviravoltas, à medida que os pixels se tornarem ainda mais flexíveis.

por Ivan Amato – Publicada originalmente na revista Info Exame No. 175 – Outubro/2000

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/mentindo-com-pixels/

Dez Mitos sobre a Verdadeira Vontade

Excelente texto que encontrei no Blog IAO 131, tradução de Elidia Martins.

O conceito de “Verdadeira Vontade”, ou simplesmente “Vontade”, é fundamental para a Lei de Thelema desde que nosso princípio central é “Faça o que tu queres será o todo da Lei” (AL I:40), juntamente com “Tu não tens direitos senão fazer a tua Vontade” (AL I:42) e “Não há lei além de faze o que tu queres” (AL III:60). Thelema, apesar de tudo, significa “Vontade”.

Por ser Vontade um conceito central em Thelema há muitos equívocos sobre isso que limitam nosso entendimento assim como limitam nosso potencial para realizar e manifestar as nossas Vontades. Muitos desses mitos e equívocos estão altamente correlacionados, mas eles também são diferentes em sua ênfase e abordagem. A lista não pretende ser exaustiva ou completa, mas espero que possa levar a uma reflexão e clareza sobre a noção de Vontade. Mais fundamentalmente essa é uma lista curta destinada a desafiar alguns equívocos comuns sobre a Vontade, a fim de que possamos conhecer e realizar nossas Vontades mais livremente e com alegria.

1) A Verdadeira Vontade é encontrada num determinado momento.

O primeiro mito é que a Verdadeira Vontade é descoberta durante um evento distinto, num certo ponto da história. Isso significa que você não sabe qual é a sua Vontade, mas que num futuro você saberá, ao ter algum insight ou experiência, você de repente conhecerá sua Vontade. Em contraste, Crowley nos informou que “A Vontade é apenas o aspecto dinâmico do Eu…” (Liber II). Neste sentido, a Vontade é apenas a expressão de nossa Natureza. Entretanto de uma maneira pobre e incompleta nossa Natureza não pode deixar de se expressar de alguma maneira, o que quer dizer que: nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto, mas poderíamos fazer sempre um pouco “melhor”, no sentido de fazê-la mais completamente e com mais consciência. Mesmo se temos uma visão súbita ou que muda completamente a Natureza de nossas Vontades, isso não significa que esse entendimento não precisará mudar ou ser revisado no futuro.

2) A Verdadeira Vontade é algo para ser encontrado num futuro distante.

Relacionada ao primeiro mito é a noção de que Verdadeira Vontade não pode ser encontrada no presente, mas em algum ponto do futuro. Ou seja, se pensa “Eu não sei qual minha Vontade agora, mas espero que eu saiba no futuro”. Agora, é perfeitamente razoável acreditar que o conhecimento e entendimento da Vontade podem aumentar no futuro, mas, novamente, nós estamos sempre fazendo nossas Vontades até certo ponto. Isto é, a Vontade não é “encontrada”, mas nossa consciência e entendimento dela podem melhorar. Visualizando a Vontade como algo que se encontra no futuro, exclui o nosso potencial para fazermos nosso melhor para fazer nossa Vontade no momento presente. Podemos lamentar as nossas circunstâncias, acreditando que tudo ficaria bem se “conhecêssemos nossas Vontades”, ao invés de trabalhar em nós mesmos no momento presente para nos tornar mais conscientes e alegres com o que já está acontecendo. Isto é, nossos próprios conceitos sobre o que é Vontade nos impedem de ver o que já está aqui: todos nós somos estrelas (AL I:3) e Hadit, a chama de nossas Vontades, está sempre no centro de nosso Ser (AL II:6). É nosso trabalho ou dever descobrir como trabalhar com nós mesmos e nosso ambiente a fim de tornar a Verdade dentro de nós mais manifesta do que inerente.

3) Você está fazendo sua Vontade ou você não está fazendo.

A linguagem usada ao redor da Vontade é frequentemente “digital” no senso em que falamos sobre isso em “on ou off” (ligar ou desligar). Eu acredito que é mais efetivo e adequado pensar em Vontade em termos “análogos”, ou seja, que estamos fazendo nossa Vontade até certo ponto. A linguagem de “Verdadeira Vontade” implica esse tipo de dicotomia digital de verdadeiro ou falso. Por outro lado, a ideia de “Vontade Pura” é uma questão de graus. A totalidade “pura” da Vontade é 100% Vontade com nenhuma mistura ou contaminantes, assim como um suco puro é 100% suco – não há qualquer conotação moral. Podemos (por questão de explicação) dizer que podemos não estar fazendo 100% de nossa Vontade, mas podemos estar fazendo 30% ou 80% de nosso potencial até o momento. Isso coloca a responsabilidade em nós mesmos para tentar aprovar nossa Vontade ao máximo, na forma mais “pura” possível. Isso significa também que nós não precisamos pensar nos outros em termos deles estarem ou não fazendo suas Vontades; ao contrário, todos estão fazendo suas Vontade até certo ponto ou outro, e tudo o que temos de fazer é tentar nos esforçar intencionalmente para chegarmos ao ideal de Vontade 100%.

4) Verdadeira Vontade é uma coisa única e imutável.

A linguagem usada ao redor de Vontade implica que Vontade é algo único, por exemplo, “é minha Vontade ser um médico”. Na verdade, a ideia de Vontade ser certa carreira em particular é um dos mais comuns exemplos de equívocos. Um exemplo é Crowley falando neste sentido quando ele escreve: “virá o conhecimento de sua vontade finita, através da qual um é poeta, outro profeta, outro ferreiro, outro escultor.” (De Lege Libellum). O erro está em pegar a ideia de “Vontade = a carreira certa” literalmente do que metaforicamente. Ou seja, uma carreira é uma metáfora para o que você faz com a sua vida, acreditando ser adequado para as suas tendências, talentos e aspirações. Obviamente a Vontade não está confinada a uma simples carreira – especialmente nos dias de hoje em que a maioria das pessoas tem várias carreiras ao longo da vida – como aparentou ser a vida do próprio Crowley. Não seria correto dizer que era a Vontade de Crowley ser poeta porque iria negligenciar que ele era um mago, não seria correto dizer que foi a Vontade de Crowley ser um alpinista porque iria negligenciar que ele era um jogador de xadrez, etc. Na verdade, a Vontade é – como já mencionado – “o aspecto dinâmico do Self…” (Liber II). E dinâmico, ou seja, em constante movimento. Crowley reforça isso quando ele escreve que a Verdadeira natureza do Eu é mover-se continuamente, deve ser entendido não como algo estático, mas como dinâmico, e não como um substantivo, mas como um verbo” (Dever). Esta natureza dinâmica da Vontade é ainda implícita na linguagem que a descreve como “Movimento” como quando Crowley escreve que a Vontade é “o verdadeiro Movimento do teu ser mais íntimo” (Liber Aleph, capítulo 9).

5) Verdadeira Vontade pode ser encapsulada completamente em uma frase.

Conectada com os equívocos anteriores é a noção que Vontade pode ser completamente encapsulada numa frase. Uma vez que a Vontade é dinâmica, a sua natureza é de “Ir”, nenhuma frase pode sempre encapsulá-la completamente. Existem, certamente, benefícios por se encapsular a vontade numa frase como tendo um padrão conscientemente articulado pelo qual se pode julgar se um determinado curso de ação é expressivo ou impeditivo da Vontade. Por exemplo, pode-se formular a Vontade como “É minha Vontade que meu corpo seja saudável”, que pode atuar como um padrão pelo qual você vai determinar que comer junk food (comida que não é saudável) não faz parte da sua vontade (para todos os efeitos práticos). Dito isto, deve haver um entendimento de que a Vontade está, em ultima instancia, além da articulação verbal. Como se diz: “Também razão é uma mentira, pois há um fator infinito e desconhecido; & todas as suas palavras são meandros” (AL II:32). A Vontade é suprarracional na medida em que não pode ser descrita com precisão ou completamente descrita pela faculdade da razão e do pensamento. Como Crowley disse: “[A mente] deve ser uma máquina perfeita, um aparelho para representar o universo de forma precisa e imparcial ao seu mestre. O Eu, a sua Vontade, e sua apreensão, deve estar totalmente além dela.” (Novo Comentário para AL II:28). A mente com seus pensamentos e razão é simplesmente uma parte do seu ser, a vontade é o Verbo de todo o nosso ser, então, naturalmente, uma pequena parte não pode inteiramente compreender e abranger o Todo.

6) Verdadeira Vontade requer uma experiência mística.

Em conexão com o Mito #2, existe a tendência em acreditar que o conhecimento da Vontade virá apenas com algum tipo de experiência mística, se o acredita (ou concebe) como o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião, iluminação, a travessia do Abismo, ou qualquer outra coisa. Embora possamos dizer que o Conhecimento e Conversação (ou outras experiências místicas) podem ajudar a esclarecer a Vontade ou se livrar de seus obstáculos, tais como o egoísmo excessivo, a Vontade pode ser tanto sempre presente ou trabalhada até certo ponto. A noção de que só pode se conhecer a Vontade através de experiências místicas negligencia o fato de que há muito modos simples, diretos e até mesmo “mundanos” nos quais podemos trabalhar em nós mesmos para fazer melhor e mais completamente a nossa Vontade. Por exemplo, alguém pode perceber que certo relacionamento não está mais funcionando, então ele se agita, sofre, se amargura e ressente. Pode-se então perceber que a fim de realizar a Vontade mais plenamente, é preciso terminar o relacionamento. “Oh amante, se tu queres, partes!” (AL I:41). Há muitas coisas em nossas vidas que sabemos, em algum nível, que podem ser alterados para decretar mais plenamente nossas Vontades, como se livrar de certos hábitos que já são conhecidos por serem problemáticos. Se isto é tão simples como “assistir menos televisão”, ou concreto como “largar os opiáceos”, ou mais sutil como “ser menos ligado às expectativas”, ou mais geral como “tornar-se mais consciente e menos reativo emocionalmente”, existem muitas maneiras de trabalhar em nós mesmos que estão disponíveis para todos, sem a menor experiência ou inclinação para experiências místicas. Ainda mais preocupante é “acreditar que apenas alguma experiência mística no futuro” pode ser usada como uma desculpa ou um “desvio espiritual” para evitar lidar com estas questões mais “mundanas”, como as emoções não processadas ou hábitos indesejáveis.

7) Todos devem alcançar a Vontade.

A crença geral difundida entre Thelemitas é que há certo tipo de “verdadeiro Thelemita” ou “Thelemita ideal”. Outro ensaio explica mais detalhadamente por que isso é um equívoco, mas, em suma ele depende de ter preconceitos sobre o que é “certo” e “errado” para a Vontade dos outros, quando toda a fundação de Thelema repousa sobre a noção de que cada indivíduo é único. Uma manifestação desse preconceito sobre o que é “certo” é a noção de que todos devem estar se esforçando para “atingir”, significando alcançar algum tipo de gnose mística ou iluminação. Na verdade, o Livro da Lei diz na mesma linha que seu lema central: “Quem nos chama Thelemitas não cometerá erro, se ele apenas observar bem de perto a palavra. Pois dentro dela existem Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o homem da Terra. Faze o que tu queres deverá ser o todo da Lei” (AL I:40). Isto é explicado em A Visão e A Voz quando se diz: “O homem da terra é o devoto. O amante dá a sua vida para trabalhar entre os homens. O eremita caminha solitário dando aos homens apenas a sua luz.”. Não é inerentemente a Vontade de todos se tornarem um eremita e alcançar as alturas da iluminação espiritual. – Pode muito bem ser a vontade de alguém viver a sua vida sem se preocupar com essas coisas. Mais claramente o Livro da Lei diz que “a lei é para todos” (AL I:34). Essa insistência de que todos têm que “atingir” pode facilmente se transformar em forma de auto-superioridade espiritual que é contrário ao espírito da liberdade que permeia a lei.

8) Sua Vontade não tem nada a ver com as outras pessoas.

É típico conceber a Vontade como algo inerente ao individuo e que não tem nada a ver com as outras pessoas e suas circunstâncias. Eu acredito que isto é simplesmente uma falha de linguagem usada para descrever Vontade do que uma realidade. Nós todos somos incorporados em uma interconexão complexa de forças – somos todos estrelas na teia do Espaço Infinito – e ambos afetam e são afetados por tudo que nos rodeia: “Suas ações afetam não apenas o que ele chamou a si mesmo, mas também todo o universo.” (Liber Librae). Vendo como a Vontade é o aspecto dinâmico da nossa natureza, deve inerentemente se adaptar à situação ou circunstância em que se encontra. Crowley fala isso quando ele escreve que a vontade é “a nossa verdadeira órbita, como demarcada pela natureza de nossa posição, a lei do nosso crescimento, o impulso de nossas experiências passadas.” (Introdução ao Liber AL). A nossa “posição” muda constantemente e a Vontade é “marcada” em parte pela natureza de nossa posição. A nossa “posição” envolve o meio ambiente e as pessoas ao nosso redor. Praticamente qualquer tipo de articulação da Vontade – por mais que provisória ou experimental – deve incluir o meio ambiente ou outras pessoas de alguma forma. Para dizer “é minha vontade comer menos” envolve a comida em seu ambiente, dizendo “é minha vontade ser gentil” envolve a sua bondade para com outras pessoas, dizer “é minha vontade promulgar a Lei de Thelema” envolve aqueles a quem você irá promulgar etc. Mesmo dizer “é minha Vontade alcançar o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião” necessariamente requer que você crie adequadamente o ambiente propício para atingir esse objetivo. Na verdade algumas das melhores lições vêm de estar em sintonia com o seu ambiente e aqueles ao seu redor ao invés de ignorar a sua importância ou impacto. Se você estiver recebendo mensagens constantes na forma de dificuldades desnecessárias de quaisquer naturezas, talvez seja uma lição para alterar a forma como você está se adaptando ao seu ambiente, em vez de insistir mais fortemente no curso de seu caminho e apenas intimidando aos outros.

9) Verdadeira Vontade significa que você estará livre do sofrimento.

A ideia de Verdadeira Vontade, muitas vezes leva a noções utópicas e irrealistas quanto ao que Vontade vai realmente parecer. A ideia de que fazer a Vontade liberta do sofrimento é irrealista em vários níveis. Em primeiro lugar, o sofrimento é inerente à existência de alguma forma ou de outra, na medida em que todos nós ficamos doentes, sofremos perdas, envelhecemos, sofremos prejuízos e morremos. Nós sempre vamos encontrar algum tipo de resistência ou dificuldade em nossas vidas. Isso não deve ser visto como uma espécie de marca de fracasso em sua tentativa de fazer a tua Vontade, mas sim, essas ocorrências inevitáveis de sofrimento, resistência e dificuldade são os meios pelos quais nós aprendemos e crescemos. Como se diz, “Tu então que tens provas e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles está a Força e por meio deles é aberta uma trilha àquela Luz… pois quando maior for tua prova, maior o teu triunfo” (Liber Librae). Essa ideia de que “fazer a sua Vontade = sem sofrimento” também depende da noção de que a Vontade seja “on” ou “off”, como mencionado no Mito n°3: mesmo que estejamos no modo de “Vontade 100%” por um tempo, todos nós, inevitavelmente, erramos, encontramos dificuldades imprevistas, ou simplesmente “escorregamos” e não fazemos o melhor que podemos. Além disso, o próprio desejo de ser livre do sofrimento é, em certo sentido, uma ideia do Antigo Aeon: Thelemitas não procuram transcender o mundo material, se isentar do Samsara, ou até mesmo evitar o sofrimento. Reconhecemos a realidade como ela é, sem insistir em estar de acordo com os nossos ideais a priori assim como ao “como o mundo deveria ser”. Nós aceitamos o sofrimento e as dificuldades da vida como “molho picante ao prato do Prazer” (Liber Aleph, capítulo 59). Eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria Vontade significa que você vai estar livre de uma grande dose de sofrimento desnecessário. Uma grande parte do nosso sofrimento não é de fato inerente ou necessária, mas nós, através dos nossos vários hábitos e pobres equívocos, nos sujeitamos à dificuldade que pode ser evitada em grande parte ou totalmente, se nos tornarmos mais conscientes e em sintonia com as nossas Vontades.

10) Verdadeira Vontade significa estar livre de conflito.

Conectada ao mito anterior é a noção de que fazer a própria Verdadeira Vontade significa que estará livre de todos os conflitos. Isso geralmente é baseado ao fato de que o Livro da Lei diz: “tu não tens direito senão fazer a tua Vontade. Faça isso e nenhum outro dirá não” (AL I:42 – 43) e Crowley escreveu que “[a lei] parece implicar uma teoria que, se cada homem e cada mulher fizesse a sua Vontade – a Verdadeira Vontade – não haveria conflito” (Liber II). Realisticamente, sempre haverá pessoas que “dizem não”, independentemente do grau em que você está fazendo a sua Vontade, e sempre será “conflitante”. A questão real vem de uma compreensão do “confronto”. Se confronto significa conflito interpessoal na forma de desacordo ou argumento, nunca haverá um fim a este a menos que todos nós nos tornamos autômatos, irrefletidos – o qual certamente não é o objetivo da Lei da Liberdade. Semelhante ao mito anterior, eu acredito que é mais correto dizer que fazer a própria vontade significa que você estará livre de uma grande quantidade de conflitos desnecessários. Grande parte do nosso conflito com os outros dependem da nossa insistência em saber o que é “certo” para os outros, as nossas próprias expectativas e normas impostas aos outros, insistindo em manter uma posição baseada numa autoestima do ego e identidade que está amarrada com a nossa posição e muitos outros erros que se afastam naturalmente na medida em que nos concentramos em nossa Vontade ao invés de discutir. Talvez essa seja a razão para sermos ensinados a “não discutir, não converter; não falar em demasia” (AL III:42). Novamente é um tipo de fantasia do Velho Aeon o mundo ou a vida de alguém ser livre de conflitos. Eu acredito que a aceitação e o envolvimento com o conflito é uma marca distintiva de uma pessoa que tem uma mentalidade do Novo Aeon, ao invés do Velho Aeon. Como Crowley escreveu, “O combate estimula a energia viril ou criativa” (Dever). Mesmo as formas mais triviais e mundanas de conflito, como equipes rivais em esportes ou pontos de vistas opostos em um debate, permitem que a diversão do jogo esteja em primeiro lugar. Ao invés de procurar ser livre de conflitos, podemos fazer melhor examinando os conflitos em nossas vidas e determinando até que ponto eles são o resultado da nossa incapacidade de concretizar plenamente a nossa Vontade, a fim de viver mais plenamente e com alegria.

O que todos esses 10 mitos implicam é uma visão da Vontade como algo sempre presente até certo ponto, sempre dinâmico e mutável, sempre capaz de ser trabalhado, e, trabalhado independentemente de ter experiências místicas ou não, embutido dentro do contexto do nosso ambiente e outros indivíduos, e aceitar o sofrimento e o conflito como coisas inerentes a existência, coisas mais para serem trabalhadas do que evitadas. Esta lista não é exaustiva de qualquer maneira, e há, obviamente, muitas nuances para a ideia de Vontade e muitas outras maneiras de compreendê-la. No entanto, espero que desafiar algumas dessas ideias como mitos ou equívocos possa libertar o nosso pensamento a fim de tornar-se consciente do grande potencial em cada momento de decretar e regozijar em nossas Vontades.

Amor é a lei, amor sob vontade.

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/dez-mitos-sobre-a-verdadeira-vontade

Como Orar À Srimati Radharani

Por Dvija Mani Dasa

Em uma oração exemplar, Srila Rupa Goswami nos mostra como orar à Srimati Radharani e o que pedir.

ye me bhakta -janah partha
na me bhaktas ca te janah
bhaktanam ye bhaktas mad-bhaktanam
te me bhaktatama matah

Ó Arjuna, filho de Prtha, aqueles que dizem ser diretamente meus devotos não são realmente meus devotos. Ao contrário, aqueles que são os devotos de meus devotos, eu considero meus maiores devotos. (Adi Purana (citado em Caitanya-caritamrta, Madhya-lila 11.28 )

A CONSCIÊNCIA DE KRISHNA é um processo social. Como nas relações deste mundo, amar profundamente Krishna implica amar aqueles que Ele ama, seus devotos. E como a declaração de Krishna acima deixa claro, para nos tornarmos Seu devoto, não devemos nos aproximar diretamente dEle, mas através destes devotos. Neste clima, Srila Bhaktivinoda Thakura, no final do século XIX, escreveu uma canção em glorificação de Vaishnavas, os devotos do Senhor Vishnu ou Krishna. Ele cantou, krishna se tamara, krishna dite para, tamara sakati dolhe: “Que Krishna é seu; você pode dar Krishna”. Tal poder é seu”.

De todos os devotos de Krishna, Radharani é extremamente exaltada. Ela não é uma mortal comum como você ou eu, mas é a encarnação de sua potência de prazer pessoal. Embora distinto e capaz de se engajar no serviço devocional amoroso a Krishna, Sri Radha é, de fato, idêntica a Ele. Ele é o Deus Supremo; Ela, a Deusa Suprema. Krishna é o Senhor de Vrndavana, o mundo espiritual, e Radha é Sua rainha. Assim Ela é conhecida como Srimati Radharani, “a ilustre rainha Radha”. Juntas, Radha e Krishna constituem a Verdade Absoluta completa.

A devoção de Radharani a Krishna atinge o ápice da perfeição. Como almas finitas, não podemos sequer aspirar a amar e servir Krishna tão perfeitamente como Ela; nossa perfeição está em ajudá-la em seu serviço amoroso ao Krishna. O poder de Seu amor é de fato tão intenso que subjuga Krishna. Srimad-Bhagavatam (10.32.22) registra a resposta de Krishna ao serviço amoroso de Radha e Suas companheiras: na paraye ‘ham … . sva-sadhu-krtyam … vah: “Eu não sou capaz de Lhe retribuir”.

Krishna é assim submisso aos Seus desejos, e como Srila Prabhupada escreve: “Uma vez que Ela recomenda um devoto ao Senhor Krishna, o Senhor imediatamente aceita a admissão do devoto em Sua associação”. (Srimad-Bhagavatam 2.3.23, Purport) Portanto, não é surpreendente que Rupa Goswami, um grande teólogo e poeta Vaishnava do século XVI, tenha composto uma série de poemas como orações a Srimati Radharani.

UMA ORAÇÃO ÚNICA:

Os títulos dados à maioria dos poemas de Rupa Goswami, como Sriradhasaka (literalmente, Um Poema de Oito Stanzas Sobre a Ilustre Radha) são simples e descritivos. Um título, no entanto, se destaca como digno de nota: Prarthana-paddhati (The Guide for Petitioning, O Guia da Oração) [Ver pg. 11]. Ao compor este poema, ele não só expressou seus próprios sentimentos devocionais pessoais, mas também forneceu um exemplo perfeito de oração peticionária e ritual para que seguíssemos. A oração é exemplar em muitos aspectos: em sua estrutura, sua forma, seu estado de espírito e o objeto pelo qual se rezava.

Prarthana-paddhati é curta e doce, com apenas sete estrofes de comprimento. Embora “curto e doce” seja algo clichê, no contexto de orações peticionárias é de profunda importância, pois quando se pede caridade ou favores, a brevidade é muitas vezes equiparada à brusquidão. Mas no poema de Rupa Goswami, o apelo não é feito até o quinto verso, um pouco mais da metade do poema. Antes disso, Rupa Goswami elogia poeticamente Radha:, untando-a, por assim dizer, antes de apresentar sua petição. Os devotos que rezam ao Senhor ou Seus associados por misericórdia devem seguir o exemplo de Rupa Goswami, começando sua oração com palavras de louvor e glorificação.

As primeiras quatro estrofes de Prarthana-paddhati consistem simplesmente em onze descrições poéticas de Radha: cada uma sintaticamente em posição ao objeto direto da quinta estrofe. O efeito desta estrutura, embora difícil de reconstruir na tradução inglesa, deixa a pessoa que ouve esta oração em suspense quanto à ideia básica a ser transmitida; a atenção do leitor é deixada simplesmente para contemplar estas maravilhosas descrições de Radha:. Por exemplo, as duas primeiras estrofes lidas:

suddha-gangeya-gaurangim
kurangi-langimeksansm
jita-kotindu-bimbasyam
ambudambara-samvrtam

navina-vallavi-vrnda
dhammillottamsa- mallikam
divya-ratnady-alankara
sevyamana- tanu-sriyam

“Com membros mais dourados do que ouro puro, com belos olhos como os de uma corça e com lábios que conquistam milhões de luas; cobertos com roupas que são como nuvens de chuva. Um jasmim ornamental sobre um pão trançado entre as jovens vaqueiras; cuja beleza corporal é realçada por gemas celestiais e outros ornamentos”.

Estes versos também mostram a forma ideal de uma oração, ou seja, um formulário preenchido com enfeites poéticos (alankaras). Os críticos literários sânscritos dividem os alankaras em duas divisões principais: ornamentos de som (sabdalankaras) e ornamentos de significado (arthalankaras). (Ver Caitanya-caritamrta, Adi-lila 16.72-86.) Embora o conteúdo seja mais importante do que a forma, o Senhor e Seus devotos reconhecem a devoção por trás da tentativa de oferecer orações cheias de beleza poética. Quando usados para descrever um objeto mundano, tais dispositivos poéticos simplesmente resultam em linguagem floreada; mas quando a beleza da poesia é usada para retratar a beleza transcendental do Senhor e Seus devotos, seu propósito é verdadeiro.
Aqui vemos em particular o sabdalankara de uma iliteração (anuprasa) com ng repetido na primeira metade do primeiro verso, mb repetido na segunda metade, e ll repetido na primeira metade do segundo verso, com exemplos menos óbvios ao longo do poema. Estas linhas também são preenchidas com arthalankaras na forma de vários tipos de metáforas e similitudes que são poética e teologicamente significativas.

Por exemplo, a primeira linha fala de Radha como tendo membros mais dourados do que ouro puro. Este tipo particular de metáfora, onde no assunto da comparação, aqui Radha: membros, não é equiparado com mas dito para superar o objeto de comparação, aqui ouro, é chamado em sânscrito vyatireka, distinção. Um exemplo padrão poderia dizer que o rosto de uma mulher é mais bonito do que uma flor de lótus. Aqui, porém, parece haver uma incoerência em dizer que os membros de Radha são mais dourados do que o próprio ouro. Afinal, a qualidade do “dourado” não é definida como uma propriedade essencial do ouro? Para resolver isto, devemos lembrar que estamos lidando aqui com a própria Deusa Suprema. Radha: a efulgência dourada é o dourado original. O elemento material que conhecemos como ouro simplesmente toma seu nome emprestado de Radha: devido a manifestar alguma porção minúscula de Sua bela irradiação dourada. Em vez de ser um exagero impossível, as palavras de Rupa Goswami expressam uma profunda verdade espiritual.

Da mesma forma, a descrição de que Radha está “coberta com roupas que são como nuvens de chuva” sugere algo muito mais profundo do que o que parece estar sendo dito na superfície. Em seu sentido primário, esta é simplesmente uma descrição da cor cinza-azul das roupas da Radha. No entanto, a palavra para uma nuvem de chuva, ambuda, literalmente “um doador de água”, aqui sugere um significado oculto. Ao invés de dar água comum, a beleza de Radharani traz a rasa, especificamente a préma-bhakti-rasa. A palavra rasa significa literalmente suco, mas em um contexto poético se refere a uma emoção transcendente, e premabhakti-rasa significa a emoção encontrada no serviço devocional amoroso para o Senhor.

Neste mundo, há uma desconexão entre nós e nossos corpos, o que falar de nossas roupas. O eu é uma alma espiritual eterna, enquanto o corpo é temporário e mortal. A beleza física do corpo tem pouco a ver com a natureza do nosso verdadeiro eu: muitas vezes as pessoas com corações de ouro têm rostos cheios de acne, e os modelos mais belos podem ser egocêntricos e cruéis. Mas para Krishna e seus associados no mundo espiritual, este não é o caso. O corpo de Krishna e os de Seus devotos no mundo espiritual não são corpos materiais temporários, mas corpos espirituais idênticos a seus próprios Eus. Assim, a beleza de Radha não é um feliz acidente da natureza, mas uma expressão direta da pureza de Seu amor por Krishna. Isto se estende até mesmo às roupas dela. A beleza de Suas vestes revela a intensidade de Seu amor e assim evoca esta prema-bhakti-rasa.

Novamente, a descrição de Radha como “o jasmim ornamental sobre um pão trançado entre as jovens vaqueiras”, talvez soando curioso para aqueles não familiarizados com a poesia sânscrita, tem vários níveis de significado. Mais simplesmente, é equivalente à metáfora que descreve alguém como a “joia da crista” dentro de qualquer categoria em particular. Assim como a joia mais excelente que um rei possui será colocada na crista de sua coroa e assim ocupará fisicamente a posição mais alta entre todas as joias do rei, assim uma pessoa descrita como a “joia da crista” dentro de um determinado grupo é entendida como a mais excelente e a mais alta dentro desse grupo. Aqui, por esta metáfora paralela, Radha é descrita como a mais alta de todas as mulheres vaqueiras em Vrndavana, o cenário rural onde Krishna, por sua própria e doce vontade, escolhe Se manifestar suas relações amorosas com seus devotos. Mas ao invés de usar uma metáfora adequada à pompa da realeza, Radharani, a rainha de Vrndavana, é comparada a uma flor de jasmim, destacando através de seu imaginário Sua doçura, beleza e delicadeza feminina.

UMA ORAÇÃO DE LOUVOR:

A quinta estrofe resolve a tensão sintática das quatro primeiras estrofes; finalmente fica claro que a oração se dirige à pessoa descrita, e a petição é feita.

tvam asau yacate natva
viluthan yamuna-estado
kakubhir vyakula-svanto
jano vrndavanesvari

“Curvando-se, esta pessoa suplica-lhe com um grito gago e lamentável, 0 Rainha de Vrndavana, rolando no chão na margem do rio Yamuna com um coração perturbado”.

O verso seguinte identifica a natureza do pedido, e vemos aqui o caráter exemplar desta oração em seu aspecto mais importante. Pois o que Rupa Goswami reza nada mais é do que a oportunidade de serviço devocional a Radha. A petição é de coração puro, não objetivando qualquer gratificação egoísta. A disposição em que esta oração é feita é também para ser emulada. Rupa Goswami demonstra profunda humildade, uma mansidão insinuada na estrofe anterior por sua referência a si mesmo na terceira pessoa. Aqui ele se admite não qualificado para a bênção que ele pede.

krtagaske ‘py ayogye ‘pi
jane ‘smin kumatav api
dasya-dana-pradanasya
lavam apy upapadaya

“Embora ele possa ser um infrator inapto com uma mente torta, por favor, conceda um pequeno fragmento do valioso presente de Seu serviço a esta pessoa”.

Suas humildes palavras tomaram a forma de um arthalankara chamado visesokti, uma declaração de diferença. Ela se refere a uma declaração poética na qual se vê um descompasso entre causa e efeito. Aqui, o efeito esperado de sua humildade e desqualificação autoconhecida seria que ele não fizesse um pedido tão ousado. E ainda assim, ele o faz.

UMA ORAÇÃO MODELO PARA NÓS:

A estrofe final resolve esta aparente incongruência. Ele mostra uma qualidade final exemplar em sua oração: a persistência. Nesta última estrofe, Rupa Goswami faz um argumento para persuadir Srimati Radharani a conceder Sua misericórdia, independentemente. Mas a lógica formal não se encaixa bem na poesia. Assim, Rupa Goswami emprega a arrhalankara chamada kavyalinga, causa poética. Todos os elementos de uma fórmula causal estão presentes em suas palavras, mas estão escondidos em sua poesia.

yuktas tvaya jano naiva
duhkhito ‘yam upeksitum
krpa-dyoti-dravac-citta
navanitasi yat sada

“Uma pessoa tão triste não está apta a ser negligenciada por Você, pois Sua mente, como manteiga fresca, sempre se derrete do calor de Sua compaixão”.

Comentando esta estrofe, Srila Baladeva Vidyabhusana, o grande teólogo e poeta Vaishnava do século XVIII, explica o argumento lógico aqui implícito: “Como a compaixão (krpa) é o desejo de tirar a tristeza dos outros e eu estou cheio de tristeza, não estou apto a ser abandonado”.

Rupa Goswami tem fornecido o modelo perfeito para a oração. Se aprendermos a orar ao Senhor e Seus devotos com a mesma estrutura, começando com palavras de louvor; se exibirmos o mesmo humilde humor e a mesma persistência; e se pedirmos a mesma mais elevada de todas as bênçãos, então nossas preces serão certamente ouvidas e atendidas. E mesmo que não cheguemos nem perto da sofisticação poética da oração de Rupa Goswami, o Senhor olhará com favor até a mais humilde tentativa de compor nossas orações com uma beleza que se adequa ao seu objeto.

Mas Rupa Goswami deixou o mundo mais do que uma simples fórmula; ele também nos deixou uma poesia requintada. Por mais fracas que sejam nossas tentativas de compor tais orações, podemos sempre simplesmente meditar profundamente na beleza das descrições de Rupa Goswami da Deusa Suprema, Radharani, e oferecendo a Ela esta oração de todo o coração, podemos estar confiantes de que Ela nos olhará com compaixão.

Dvija-mani Dasa, discípulo de Ravindra Svarapa Dasa, é Doutor Benjamin Franklin em Sânscrito na Universidade da Pensilvânia (EUA). Ele vive com sua família no templo ISKCON Philadelphia e está trabalhando com seu guru em uma tradução, com comentários, do Manah-siksa de Raghunatha Dasa Goswami.

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Fonte:

DASA, Dvija-mani. How To Pray To Srimati Radharani. Back to Godhead, 2007. Disponível em: <https://www.backtogodhead.in/how-to-pray-to-srimati-radharani-by-dvija-mani-dasa/>. Acesso em 8 de março de 2022.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/como-orar-a-srimati-radharani/