Binah

A Cabala Mística, Dion Fortune

1. Binah é o terceiro membro do Triângulo Supremo, e a tarefa de explicá-la será, ao mesmo tempo, extensa a simples, porquanto podemos estudá-la à luz de Hochma, que a equilibra no Pilar oposto da Árvore. Jamais poderemos entender uma Sephirah se a considerarmos em separado de sua posição na Árvore, uma vez que essa posição lhe indica as relações cósmicas; vemo-la em perspectiva, por assim dizer, a podemos deduzir donde provém e para onde vai, que influências intervêm em sua criação, a qual a sua contribuição para o esquema das coisas como um todo.

2. Binah representa a potência feminina do universo, assim como Hochma representa a masculina. Como já observamos, são Positiva a Nega`tiva; Força a Forma. Cada uma encabeça o seu Pilar, Hochma no topo do Pilar da Misericórdia a Binah no topo do Pilar da Severidade. Poder-se-is pensar que essa distribuição é antinatural; que a Mãe deveria presidir a misericórdia, e a força masculina do universo, a severidade. Mas não devemos sentimentalizar essas coisas. ,Estamos tratando de princípios cósmicos, não de personalidades; a mesmo os símbolos pelos quaffs eles são apresentados dãonos boas indicaçbes, se temos olhos para ver. Freud não teria discordado da atribuição de Binah ao topo do Pilar da Severidade, pois ele tinha muitas coisas a dizer sobre a imagem da Mãe Terrível.

3. Kether, Eheieh, Eu Sou, é puro ser, onipotente, mas não ativo; quando um fluxo de atividade emana dele, chamamos essa atividade de Hochma; é esse fluxo descendente de atividade pura que constitui a força dinãmica do universo, a toda força dinâmica pertence a essa categoria.

4. Devemos lembrar que as Sephiroth são estados, não lugares. Sempre que existe um estado de ser puro a incondicionado, sem partes ou atividades, esse estado se refere a Kether. Portanto é nesses dez escaninhos de nosso fichário metafísico que podemos classificar as idéias relativas a todo o universo manifesto, sem precisar remover qualquer objeto, tal como surge à nossa compreensâo, do lugar que ocupa. Em outras palavras, sempre que tivermos energia pura em funcionamento, saberemos que a força subjacente pertence a áokmah; podemos ver, desse modo, a identidade intrínseca, quanto ao tipo, de todos esses fenõmenos, os quaffs, à primeira vista, parecem não apresentar nenhum vínculo mútuo, pois aprendemos, graças ao método cabalístico, a referi-los, de acordo com o seu tipo, às diferentes Sephiroth, podendo assim correlacioná-los com todas as classes de idéias cognatas, de acordo com o sistema de correspondências já explicado anteriormente. Esse é o método que a mente subconsciente segue automaticamenie; cabe ao ocultista treinar sua mente consciente na utilizaçáo desse mesmo método. Podemos notar, a propósito, que esse método é sempre empregado quando os indivíduos operam diretamente do subconsciente, como ocorre no gênio artístico, no lunático, a durante os sonhos ou o trance.

5. Pode parecer estranho ao leitor que essa digressão a respeito de Hochma seja incluída sob o cabeçalho de Binah, mas é apenas à luz de sua polaridade com Hochma que podemos compreender Binah; e, igualmente, teríamos muito mais a acrescentar à nossa explicação de Hochma agora que tomamos Binah para compará-la. Os membros dos pares de opostos se esclarecem mutuamente, a são incompreensíveis quando estudados em separado.

6. Mas voltemos a Binah. Os cabalistas afirmam que ela é emanada por Hochma. Traduzamos essa afirmativa em outros termos. Reza uma máxima oculta – que é, como acredito, confirmada pelas pesquisas de Einstein, embora eu não tenha o conhecimento necessário para relacionar suas descobertas com as doutrinas esotéricas – que a força jamais se move numa linha reta, mas sempre numa curva tão vasta quanto o universo, retomando eventualmente, por conseguinte, ao ponto de onde proveio, mas num arco superior, visto que o universo progride continuamente. Segue-se, portanto, que a força que assim procede, dividindo-se a redividindo-se a movendo-se em ângulos tangenciais, chegará eventualmente a um estado de tensões equilibradas e a alguma forma de estabilidade – estabilidade que será outra vez perturbada no curso do tempo quando novas forças frescas emanarem na manifestação a introduzirem novos fatores para propiciar o necessário ajustamento.

7. É esse estado de estabilidade – produzido pelas forças interatuantes quando agem a reagem a chegam a um equilíbrio – que é a base da forma, como é exemplificado no átomo, que é nada mais nada menos do que uma constelação de elétrons, cada um dos quaffs é um vórtice ou um remoinho. É a estabilidade assim obtida – a qual, note-se, é uma condição a não uma coisa em si – que os cabalistas chamam de Binah, a Terceira Sephirah. Sempre que existe um estado de tensões interatuantes que produzem a estabilidade, os cabalistas referem esse estado a Binah. Por exemplo, o átomo, sendo, para todos os propósitos práticos, a unidade estável do plano físico, é uma manifestação do tipo de força Binah. Todas as organizaçôes sociais sobre as quais pesa opresssivamente a mão morta da estagnação, tal como a civilização chinesa antes da revolução, ou nossas velhas universidades, estão sob a influência de Binah. A Binah atribui-se o deus grego Kronos (que não é outro senão o Pai do Tempo) e o deus humano Saturno. Observe-se a importância atribuída ao tempo, em outras palavras, à idade, nas instituiçaes de Binah; só os cabelos grisalhos são dignos de reverência; a capacidade por si só conta muito pouco. Ou seja, apenas aqueles que são congeniais a Kronos podem obter sucesso em tal ambiente.

8. Binah, a Grande Mãe, chamada às vezes de Marah, o Grande Mar, é, naturalmente, a Mãe de Toda Vida. Ela é o útero arquetípico por meio do qual a vida vem à manifestação. Tudo que fornece uma força para servir a vida como um veículo provém dela. Devemos lembrar, contudo, que a vida confmada numa força, embora seja capaz de organizar-se a desenvolver-se, é muito menos livre do que era quando ilimitada (embora também desorganizada) em seu próprio plano. Incorporar-se numa forma é, por conseguinte, o início da morte da vida. É uma limitação a um encarceramento; uma sujeição a uma constrição. A forma limita a vida, aprisiona-a, mas, não obstante, permite-lhe organizar-se. Visto desse ponto de vista da força livre, o encarceramento numa forma é extinção. A forma disciplina a força com uma severidade sem misericórdia.

9. O espírito desencamado é imortal; não há nada nele que possa envelhecer ou morrer. Mas o espírito encarnado vê a morte no horizonte tão logo o dia nasce. Podemos compreender, portanto, quão terrível deve parecer a Grande Mãe quando aprisiona a força livre na disciplina da forma. Ela é morte para a atividade dinâmica de Hochma; a força Hochma morre quando conflui para Binah. A forma é a disciplina da força; por conseguinte, é Binah a cabeça do Pilar da Severidade.

10. Podemos conceber, assim, que a primeira Noite Cósmica tenha ocorrido – primeiro Pralaya, ou submersão da manifestação no repouso quando o Triãngulo Supremo encontrou estabilidade a equilíbrio de força na emanação a organização de Binah. Tudo era dinâmico antes, tudo era desenvolvimento a expansão; mas, com o início da manifestação do aspecto Binah, houve um entravamento a uma estabilização, e o antigo fluxo dinâmico a livre se deteve.

11. Que esse entravamento – e a conseqüente estabilização – era inevitável num universo cujas linhas de força sempre se movem em curvas, eis uma conclusão inevitável. Se compreendermos que o estado Binah era a conseqüência inevitável do estado Hochma num universo curvilíneo, entenderemos por que o tempo deve passar por épocas nas quaffs ou Binah ou Hochma tem o predomínio. Antes de as linhas de forças terem completado seu circuito no universo manifesto a começado a retomar sobre si mesmas a entrelaçar-se, tudo era Hochma, dinamismo irrestrito. Depois que Binah e Hochma, como primeiro par de opostos, encontraram o equilibrio, tudo era Binah, e a estabilidade era imutável. Mas Kether, o Grande Emanador, continua a manifestar o Grande Imanifesto; a força flui no universo, aumentando a soma da força. Este fluxo de força rompe o equilíbrio a que se havia chegado quando Hochma a Binah atuaram, reatuaram a se detiveram. A ação e a reação começam novamente, e a fase Hochma, uma fase na qual predomina a força completa, se sobrepõe à condição estática que é Binah, e o ciclo prossegue novamente quando Kether, o emanador incessante, quebra o equilíbrio em favor do princípio cinético que se opõe ao princípio estático.

12. Vemos, assim, que, se Kether, a força de todos os seres, é concebida como o supremo bem, como de fato deve ser, a que, se a natureza de Kether é cinetica, e a sua influência se inclina inevitavelmente para Hochma, segue-se obrigatoriamente que Binah, o oposto de Hochma, o opositor perpétuo dos impulsos dinâmicos, seja vista como o inirnigo de Deus, o demônio. Saturno-Satã é uma transição fácil; assim como Tempo-Morte-Demônio. Nas religiões ascéticas como o Cristianismo e o Budismo, encontra-se implícita a idéia de que a mulher é a raiz de todo o mal, porque ela é a influência que sujeita o homem, por seus desejos, a uma vida de forma. A matéria constitui, para ambas as fés, a antinomia do espírito, numa dualidade etema não-resolvida. 0 Cristianismo reconhece prontamente a natureza herética dessa crença quando ela lhe é apresentada sob a forma do Antinomianismo; mas não compreende que seus próprios ensinamentos a sua prática são igualmente antinomianistas quando concebe a matéria como o inimigo do espírito, acreditando que, como tal, ela deve ser vencida a ultrapassada. Essa crença infeliz causou tantos sofrimentos humanos nos países cristãos quanto a guerra a as pestes.

13. A Cabala ensina uma doutrina mais sábia. Para ela, todas as Sephiroth são sagradas, tanto Malkuth quanto Kether, tanto Geburah, o destruidor, quanto Chesed, o preservador. Ela reconhece que o ritmo é a base da vida, não um progresso com um único movimento para a frente. Se compreendêssemos melhor esse aspecto, evitaríamos muitos sofrimentos, pois contemplaríamos as fases Hochma a Binah como fases mutuamente sucessivas, tanto em nossas vidas como nas vidas das naçôes, a compreenderíamos o profundo significado das palavras de Shakespeare, quando diz:

“There is a tide in lhe affairs of men which taken at lhe flood leads on lhe fortune. ”
[Existe uma maré nos assuntos dos homens Que, se aproveitada quando sobe, conduz à ventura.]

14. Binah é a raiz primordial da matéria, mas o pleno desenvolvimento da matéria só pode ser obtido depois que alcançamos Malkuth, o universo material. Veremos repetidamente, no curso de nossos estudos, que as Três Supremas têm suas expressôes especializadas num arco inferior em uma ou outra das seis Sephiroth que formam o Microprosopos. Essas Esferas têm suas raízes na Tríade Superior, ou são os reflexos delas, a essas pistas têm um significado profundo. Binah vincula-sea Malkuth como a raiz ao seu fruto. Isso é indicado no Texto Yetzirático de Malkuth, que diz: “Ela sentava-se no trono de Binah.” É impraticável, por essa razão, atribuir firme a seguramente os deuses de outros panteôes às diferentes Sephiroth. Aspectos de Ísis encontram-se em Binah, Netzach, Yesod a Malkuth. Aspectos de Osíris encontram-se em Hochma, Chesed a Tiphareth. Isso é muito claro na mitologia grega, em que se dão diferentes títulos descritivos aos deuses e deusas. Por exemplo, Diana, a divindade lunar, a caçadora virgem, era adorada em Éfeso como a deusa de muitos seios; Vênus, a deusa da beleza feminina a do amor, tinha um templo em que era adorada como a Vênus Barbada. Esses fatos ensinam-nos algumas verdades importantes, instando-nos a buscar o princípio atrás da manifestação multiforme, e a compreender que o mesmo princípio assume formas diferentes em níveis diferentes. A vida não é tão simples como o desinformado gostaria de acreditar.

15. 0 significado dos nomes hebraicos da segunda e da terceira Sephiroth são Sabedoria a Entendimento, a ambas as Esferas, curiosamente, opõem-se uma a outra, como se a distinção entre os termos fosse de importância fundamental. A Sabedoria sugere às nossas mentes a idéia do conhecimento acumulado, das séries infinitas de imagens na memória; mas o Entendimento comunica-nos a idéia da penetração de seu significado, o poder para perceber-lhes a essência e a inter-relação, o que não está necessariamente implícito na Sabedoria, tomada como conhecimento intelectual. Obtemos, assim, um conceito de uma série extensa, uma cadeia de idéias associadas, em relação a Hochma, o que concorda pelo menos com o símbolo de Hochma de uma linha reta. Mas, em relação ao Entendimento, temos a idéia da síntese, da percepção de significados que se produz quando as idéias são relacionadas umas às outras, a superimpostas umas sobre as outras, em séries evolutivas do denso ao sutil. Isso sugere novamente a idéia do princípio unificador de Binah.

16. Estes sâo meios sutis da operação mental, a podem parecer fantásticos àqueles que não estão acostumados com o método de utilização mental do iniciado; mss o psicanalista os compreende a os aprecia em seu verdadeiro significado, assim como faz o poeta quando constrói suss torres nefelibatas de imagens.

17.0 Texto Yetzirático destaca a idéia da fé, a fé que reside no entendimento, o qual, por sua vez, é filho de Binah. Esse é o único local em que a fé pode repousar adequadamente. Um cínico definiu a fé como o poder de acreditar naquilo que sabemos não ser verdade, a essa parece ser uma definiçáo bastante exata das manifestações de fé tal como aparecem em muitas mentes não-instruídas, fruto da disciplina de seitas carentes de consciência mística. Mas à luz dessa consciência, podemos definir a fé como o resultado consciente da experiência superconsciente que não foi traduzida em termos de consciência cerebral, a da qual, por conseguinte, a personalidade normal não está diretamente consciente, embora, não obstante, sinta-lhe, possivelmente com grande intensidade, os efeitos, a suas reaçôes emocionais são, dessa forma, modificadas fundamental a permanentemente.

18. À luz dessa definição, podemos ver como .as raízes da fé podem de fato residir em Binah, Entendimento, o princípio sintético da consciéncia. Pois há um aspecto formal da consciência, assim como da substância, e consideraremos esse aspecto em detalhes quando estudarmos Hod, a Sephirah básica do Pilar da Severidade de Binah. Vemos, assim, mais uma vez, como as Sephiroth se inter-relacionam, propiciando o esclarecimento de suas vinculações mútuas.

19. A afirmação de que as raízes de Binah estão em Amém refere-se a Kether, pois um dos títulos de Kether é Amém. Isso indica claramente que, embora Hochma emane Binah, não devemos nos deter aqui quando buscamos as origens, mss devemos remontar à fonte de tudo que brota do Imanifesto atrás dos Véus da Existência Negativa. Esse conceito é claramente formulado pelo Texto Yetzirático de Chesed, que, falando das forças espirituais, diz: “Elas emanam uma da outra, em virtude da emanação primordial, a coroa superior, Kether.”

20. Não devemos nos confundir ou nos enganar a esse respeito pelo fato de o Texto Yetzirático de Geburah declarar que Binah, o Entendimento, emana das profundezas primordiais de Hochma, Sabedoria. Binah está em Kether, assim como em Hochma, “mss de outra maneira”. No ser puro, informe a indiviso existem as possibilidades da força a da forma; pois, onde há um pólo positivo, há necessariamente o aspecto correlato de um pólo negativo. Kether está para sempre num estado de devir. Aliás, um cabalista judeu me disse que a tradução correta de Eheieh, o Nome divino de Kether, é “Eu serei”, não “Eu sou”. Esse devir constante não pode permanecer estático; ao contrário, precisa pôr-se em atividade; a essa atividade não pode permanecer para sempre sem correlações; ela precisa organizar-se; cumpre chegar a um modo de equilíbrio entre as correntes. Temos, assim, a potencialidade tanto de Hochma quanto de Binah implícita em Kether, pois, é bom repetir, as Sephiroth Sagradas não são coisas, mss estados, e todas as coisas manifestas existem em um ou outro desses estados, a contêm uma mescla desses fatores em sua constituição, de modo que todo o universo manifesto pode ser classificado nos escaninhos apropriados de nossa mente quando o hieróglifo da Árvore é aí estabelecido. Na verdade, uma vez estabelecido a claramente formulado esse hierógtifo, a mente o utiliza automaticamente, a os complexos fenômenos de existência objetiva classificam-se em nosso entendimento. É por essa razão que o estudante de ocultismo que trabalha numa escola iniciática é instado a memorizar as principais correspondências das Dez Sephiroth Sagradas e a não depender das tabelas de referência. Muitas vezes já se objetou que isso é uma intolerável perch de tempo a energia, a que a referéncia às tabelas de correspondências, tais como a dé 777, de Crowley, é muito melhor. Mas a experiência prova que esse não é o caso, a que o esoterista que se dedica a essa disciplina, e a repete diariamente, como o católico reza o seu rosário, é amplamente recompensado pela iluminação posterior que recebe quando sua mente classifiça as inumeráveis mudanças a acasos da vida mundana na Árvore, revelando, assim, o seu significado espiritual. Deve-se ter sempre em mente que a utilização da Árvore da Vida não é apenas um exercício intelectual; é uma arte criativa, no sentido literal das palavras; a que as faculdades devem ser desenvolvidas na mente, assim como o escultor ou o músico adquire a sua habilidade manual.

21.0 Texto Yetzirático refere-se especificamente a Binah como a Inteligência Santificadora. A santificação evoca a idéia do que é sagrado a posto à parte. A Virgem Maria está intimamente associada a Binah, a Grande Mãe, a dessa atribuição passamos à idéia daquilo que dá origem a tudo, mss retém a sua virgindade; em outras palavras, daquilo cuja criatividade, não o envolve na vida de sua criação, mss permanece à parte a atrás, como a base da manifestação, a substãncia-raiz de onde surge a matéria. Pois, embora a matéria tenha suas raízes em Binah, a matéria, não obstante, tal como a conhecemos, é de uma ordem de ser muito diferente da Sephirah Suprema em que reside sua essência. Binah, a influência primordial formativa, criadora de todas as formas, está atrás a além da substãncia manifesta; em outras palavras, é etemamente virgem. É a influência formativa que subjaz a toda edificaçáo da forma, essa tendência de curvar as linhas de força para correlacionar a alcançar a estabilidade, que é Binah.

22. Essas duas Sephiroth básicas da Tríade Suprema são expressamente referidas como Pai a Mãe, Abba a Ama, a suas imagens mágicas são as de um homem barbado a de uma matrona, representando, assim, não a atração sexual de Netzach a Yesod – que são representados como donzela a adolescente -, mas os seres maduros que se uniram a reproduziram. Devemos sempre fazer uma distinção entre a atração sexual magnética e a reprodução, pois ambas são coisas muito diferentes, a não constituem níveis ou aspectos diferentes da mesma coisa. Aqui está uma importante verdade oculta que consideraremos no devido tempo.

23. Hochma a Binah representam, portanto, a virilidade e a feminilidade essenciais em seus aspectos criadores. Como tal, não são imagens fálicas, mas nelas se acha a raiz de toda força vital. Jamais compreenderemos os aspectos mais profundos do esoterismo se não entendermos o verdadeiro signiiicado do falicismo. Este nada tem a ver com as orgias nos templos de Afrodite, que desgraçaram a levaram à decadência a fé pagã dos antigos e causaram a sua queda; significa que tudo reside no princípio da estimulação do inerte, mas potencial pelo princípio dinâmico, que deriva sua energia diretamente da fonte de toda energia. Esse conceito abrange tremendas chaves de conhecimento, a constitui um dos pontos mais importantes dos Mistérios. É óbvio que o sexo representa um aspecto desse fator; é igualmente óbvio que há muitas outras aplicações concementes a ele que não são sexuais. Não devemos de forma alguma permitir que nossos preconceitos sobre o sexo, ou uma atitude convencional para com esse grande a vital assunto, nos façam retroceder diante desse grande princípio da estimulação ou fecundação do inerte potencial pelo princípio ativo. Aquele que assim se inibe não está preparado para os Mistérios, sobre cujo portal estão escritas as seguintes palavras: “Conhece-to a ti mesmo.”

24. Esse conhecimento não conduz à impureza, pois a impureza implica uma perda do controle que permite às forças ultrapassarem os limites que a Natureza lhes impôs. Aquele que não controla seus próprios instintos e paixões não é mais apto para os Mistérios do que aquele que os inibe e dissocia. Fique bem claro, contudo, que os Mistérios não ensinam o ascetismo ou o celibato como um requisito, pois eles não concebem o espírito e a matéria como um par de antinomias irreconciliáveis, mas, antes, como níveis diferentes da mesma coisa. A pureza não consiste na emasculação, mas na manutenção de diferentes forças em seus níveis a lugares adequados, a no impedimento de invadirem a esfera alheia. Ela ensina que a frigidez e a impotência constituem defeitos tão sérios como qualquer outro, devendo ser consideradas como patologias sexuais, da mesma maneira que a luxúria, que destrói seu objeto e o degrada.

25. Todas as relaçóes da existência manifesta implicam a ação dos princípios de Binah a Hochma e, sendo o sexo uma perfeita representação de ambos, foi ele utilizado como tal pelos antigos, que não se perturbavarrm pela nossa timidez sobre o assunto, a tomavam suas metáforas do tema da reprodução da mesma maneira livre pela qual tomamos as nossas da Biôlia. Pois para eles a reprodução era um processo sagrado, a eles se referiam a ela, não com grosseria, a sim com reverência. Se desejamos compreendê-los, devemos nos aproximar de seus ensinamentos sobre a fonte da vida a da força vital com o mesmo espírito com que eles se aproximaram delas, a ninguém cujos olhos não estejam vendados pelo preconceito, ou que não permaneça nas trevas lançadas por seus próprios problemas irresolvidos, pode deixar de compreender que nossa atitude atual em face da vida seria mais saudável a agradável se tivesse como fermento o bom senso e o discernimento do paganismo.

26. Os princípios da masculinidade a da feminilidade manifestos em Hochma a Binah representam mais do que mera polaridade positiva a negativa, atividade a passividade. Hochma, o Pai Universal, é o veículo da força primordial, a manifestação imediata de Kether. É, na verdade, Kether em ação, pois as diferentes Sephiroth não representam diferentes coisas, mas diferentes funções da mesma coisa, isto é, força pura jorrando na manifestação, oriunda do Grande Imanifesto, que está atrás dos Véus Negativos da Existência. Hochma é força pura, assim como a expansão da gasolina, quando esta se inflama na câmara de combustão de um motor, é força pura. Mas, assim como essa força expansiva se expandiria a se perderia se não houvesse um mecanismo para transmitir seu poder, da mesma forma a energia não-direcionada de Hochma se irradiaria pelo espaço a se perderia se nada houvesse para receber seu impulso a utilizá-lo. Hochma explode como a gasolina; Binah é a câmara de combustão; Gedulah a Geburah são os movimentos altemados do pistão.

27. A força expansiva fornecida pelo combustível é energia pura, mas náo poria um carro em movimento. A organização constritiva de Binah é potencialmente capaz de fazê-lo, mas ela não pode fazê-to a não ser pondose em movimento pela expansão da energia acumulada do vapor da gasolina. Binah é potencialmente ilimitada, mas inerte. Hochma é energia pura, ilirrmitada a incansável, mas incapaz de fazer qualquer coisa, exceto irradiar-se pelo espaço se nada houver que a detenha. Mas, quando Hochma age sobre Binah, sua energia é reunida a utilizada. Quando Binah recebe o impulso de Hochma, todas as suas capacidades latentes são vitalizadas. Em suma, Hochma fornece a energia, a Binah fornece o motor.

28. Consideremos, agora, a masculinidade e a feminilidade desse par de opostos supremo, conforme se expressam no ato da geração. Os espermatozóides do macho tém uma vida brevíssima; eles são as unidades de energia mais simples possfvel; assim que essa energia se expande, eles se dissolvem. Mas o mecanismo reprodutor da fêmea, o útero que gera a os seios que alimentam, são capazes de conduzir essa vida transferida à sua própria vida independente; e, no entanto, todo esse complexo mecanismo deve ficar inerte até que o estímulo da força Hochma o ponha em ação. A unidade reprodutora feminina é potenciahnente ilimitada, mas inerte; a unidade reprodutora masculina é onipotente, mas incapaz de produzir um nascimento.

29. Muitas pessoas pensam que, sendo a masculinidade e a feminilidade, tal como as conhecem no plano físico, princípios fixos detemiinados pela estrutura, o potente e o potencial se limitam rigidamente aos seus respectivos mecanismos. Ora, isso é um erro. Existe uma contínua altemação de polaridade sobre todos os planos, exceto o físico. E, de fato, entre os tipos primitivos de vida animal, há também uma alternãncia de polaridade no plano físico. Entre os tipos superiores, especialmente entre os vertebrados, a polaridade é fixada pelo acaso do nascimento, salvo as anomalias hermafroditas, que só podem ser consideradas como patológicas, a em que apenas um sexo é sempre funcionalmente ativo, qualquer que seja o aparente desenvolvimento do outro aspecto. Um dos segredos mais importantes dos Mistérios consiste no conhecimento dessa contínua interação de polaridade. Não se trata, em absoluto, de homossexualidade, que é uma expressão pervertida a patológica desse aspecto, que surge como uma desordem de sentimento sexual quando a lei da polaridade alternante não é corretamente compreendida.

30. Em suma, embora o modo de reprodução no plano físico seja determinado em todos os indivíduos pela configuração de seu corpo, suas reaçôes espirituais não são tão fixas, pois a alma é bissexual; em outras palavras, em toda relação de vida, somos às vezes positivos a às vezes negativos, conforme sejam as circunstâncias mais fortes do que nós, ou sejamos nós mais fortes do que as circunstâncias. lsso ressalta claramente do fato de que Netzach (Vênus-Afrodite) é a Sephirah basal do Pilar de Hochma. Vemos, assim, que a natureza feminina apresenta uma polaridade diferente em níveis diferentes, pois em Netzach ela é tão positiva a dinâmica como em Binah é estática.

31. Tudo isso não é apenas desconcertante do ponto de vista intelectual, mas também muito confuso moralmente; e, mesmo sob risco de ser acusada de encorajar de todas as maneiras as anormalidades, devo tentar esclarecer o assunto, pois suas implicaçôes práticas são de grande alcance.

32. Afirmam os rabinos que toda Sephirah é negativa em relação à que lhe é superior a que a emanou, a positiva em relação à que lhe é inferior e por ela emanada. Aqui está a chave; somos negativos em nossas relações com o que apresenta um potencial superior ao nosso, a somos negativos em nossas relações com o que possui um potencial inferior. Essas relaçôes estão num perpétuo estado de futuação, o qual varia em cada ponto de nossos inúmeros contatos com o meio em que agimos.

33. Na maior parte dos casos, a relação entre um homem a uma mulher não é inteiramente satisfatória para nenhuma parte, a eles devem resignar-se a uma satisfação incompleta em suas relações sob a compulsão da pressão religiosa ou econômica, ou suprir de alguma forma a sua insatisfação, tendo como resultado a recorrência das condições anteriores, quando a novidade perdeu seu interesse. Deve-se observar que, sob tais circunstâncias, a cuhninação da satisfação sexual acha-se apenas na novidade, a esta é uma coisa que precisa ser constantemente renovada, com o conseqüente resultado desastroso para a economia sexual.

34.0 problema reside no fato de que, embora o macho forneça o estímulo físico que leva à reprodução, não é ele capaz de compreender que, nos planos intemos, em virtude da lei da polaridade inversa, é negativo, dependendo, para sua consecução, do est,.mulo concedido pela fémea. Ele depende deia para a fertilidade emocional, como se pode ver claramente no caso de uma mente altamente criativa, como Wagner ou Shelley.

35.0 matrimônio não é uma questâo de duas metades, mas de quatro quartos, que se unem numa harmonia equilibrada de fecundação recíproca. Binah a Hochma são equilibrados por Hod a Netzach. 0 homem tem deuses a deusas para adorar. Boaz a Jakin são Pilares do Templo, a apenas quando unidos produzem a estabilidade. Uma religiáo sem deuses está a meio caminho do ateísmo. Na palavra Elohim encontramos a chave verdadeira. Elohim é traduzido por “Deus” tanto na Versão Autorizada quanto
na Revisada das Sagradas Escrituras. Ela deveria ser traduzida, na verdade, por “Deus a Deusa”, pois é um substantivo feminino acrescido de uma terminação masculina de plural. Esse é um fato incontrovertível, em seu aspecto lingüístico pelo menos, e é de se presumir que os diversos autores dos livros da Bíblia conheciam seu significado, a que não utilizaram essa forma, única a peculiar, sem alguma boa razão. “E o espírito dos princípios masculino a feminino, conjunto, movia-se sobre a superfície do informe, e a manifestação teve lugar.” Se desejamos o equilrôrio, em lugar de nosso presente estado de tensôes desiguais, devemos adorar a Elohim, não a Jehovah.

36. A adoração de Jehovah, a não de Elohim, pode impedir-nos a “elevação aos planos”, isto é, a obtenção da consciência supranormal como parte de nosso equipamento normal, pois devemos estar preparados para mudar de polaridade enquanto mudamos de nível, pois o que é positivo no plano físico torna-se negativo no astral, a vice-versa. Além disso, como o trabalho oculto prático sempre invoca a utilização de mais de um plano, seja simultaneamente, como na invocação, ou sucessivamente, como quando correlacionamos os níveis de consciência segundo o trabalho psíquico, o fator negativo precisa sempre ter seu lugar em nossa obra, tanto subjetiva quanto objetivamente.

37. Isso nos abre novos aspectos do assunto. Quantas pessoas compreendem que suas próprias almas são literalmente bissexuais em si mesmas, e que os diferentes níveis de consciência agem como macho a fêmea em suas relações mútuas?

38. Freud declarou que a vida sexual determina o tipo de toda a vida. É provável, no entanto, que a vida como um todo determine o tipo da vida sexual; mas, para os propósitos práticos, sua maneira de esclarecer o fato é verdadeira, pois, embora não se possa endireitar uma vida sexual confusa operando-se sobre a vida como um todo – por exemplo, nem a riqueza nem a fama são uma compensação adequada para a repressão desse instinto fundamental -, pode-se endireitar todo o padrão vital, desemaranhando-se a vida sexual. Esse é um assunto de experiência prática a não precisa ser discutido a priori. É por essa razão, sem dúvida alguma (aprendida pela experiência prática das operações da consciência humana), que os antigos conferiam ao falicismo uma parte tão importante em seus ritos. Atualmente, ele é um ponto muito importante no aspecto cerimonial dos cultos modernos, mas o reconhecimento do significado dos símbolos empregados tradicionalmente foi reprimido pela consciência.

39. A psicologia freudiana fornece a chave para o falicismo a abre uma porta que conduz ao Adytum dos Mistérios. Não há como escapar a esse fato no ocultismo prático, por mais desagradável que possa parecer a muitos; a isso explica por que tantos empreendimentos mágicos são estéreis.

40. Esses assuntos constituem segredos recônditos dos Mistérios, dos quais os modernos perderam as chaves, mas a experiência da nova psicologia e a arte da psiquiatria provaram abundantemente a solidez da base com a qual os antigos fundamentaram sua adoração do princípio criativo a da fertWdade como parte importante de sua vida religiosa. É uma experiência já bem-estabelecida que a pessoa que dissociou seus sentimentos sexuais da consciência não pode agarrar-se à vida em qualquer nível. Esse fato é a base da moderna psicoterapia. No trabalho oculto, a pessoa inibida a reprimida tende para as formas desequilibradas de psiquismo a mediunidade, e é totalmente inútil para o trabalho mágico, onde o poder deve ser dirigido e manipulado pela vontade. Isso não significa que a total repressão ou a total expressão seja necessária para o trabalho mágico, mas sim que a pessoa que se apartou de seus instintos, que sâo suas raízes na Mãe Terra, a em cuja consciência há, por conseguinte, um vazio, não pode abrir o canal através do qual a força, oriunda dos planos, possa ser trazida à manifestação no plano físico.

41. Não tenho dúvidas de que serei mal-interpretada por minha franqueza nesses assuntos; mas, se alguém não se adiantar a enfrentar o ódio por falar a verdade, como poderiam os verdadeiros investigadores descobrir seu caminho para os Mistérios? Deveríamos manter na loja oculta a mesma atitude vitoriana que foi abandonada por completo fora de seu recinto? Al. guém precisa quebrar esses falsos deuses feitos à imagem de Mrs. Grundy. Estou inclinada a pensar, contudo, que as perdas que poderíamos sofrer nesse assunto serão bem pequenas, pois não seria possível treinar ou cooperar com a espécie de pessoa que se assusta quando lhe falam claramente. Não se pense também que estou convidando quem quer que seja a participar comigo de orgias fálicas, como bem poderá alguém pensar. Assinalo apenas que a pessoa que não pode compreender o significado do culto fálico do ponto de vista psicológico não tem bastante inteligência para participar dos Mistérios.

42. Tendo concedido um espaço considerável à elucidação do princípio de Binah em seu trabalho na polaridade com Hochma, uma vez que não se pode compreendê-la de outra maneira, sendo ela essencialmente um princípio de polaridade, podemos considerar agora o significado do simbolismo atribuído à terceira Sephirah. Esse simbolismo apresenta dois aspectos – o aspecto da Grande Mãe e o aspecto de Saturno, pois ambas as atribuições são conferidas a. Binah. Ela é a poderosa Mãe de Todos os Viventes, e é também o princípio da morte, porquanto a forma precisa morrer quando cumpriu sua missáo. Nos planos da forma, morte a nascimento são duas faces da mesma moeda.

43. 0 aspecto maternal de Binah expressa-se no título de Marah, o Mar, que se lhe atribui. É um fato curioso que se represente Vénus-Afrodite nascendo da espuma do mar a que a Virgem Maria receba dos católicos o nome de Stella Mans, Estrela do Mar. A palavra Marah, que é a raiz de Maria, significa também “amargura”, e a experiência espiritual atribuída a Binah é a Visáo do Sofrimento. Uma visão que evoca a imagem da Virgem chorando aos pés da cruz, com o coração atravessado por sete punhais. Lembremos também o ensinamento de Buda, segundo o qual a vida é sofrimento. A idéia da submissão à dor e à morte está implícita na idéia da descida da vida aos planos da forma.

44.0 Texto Yetzirático de Malkuth, já citado, fala do Trono de Binah. Um dos títulos conferidos à Terceira Sephirah é Khorsia, o Trono; a os anjos atribuídos a essa Sephirah chamam-se Aralim, palavra que significa também Tronos. Ora, um trono sugere essencialmente a idéia de uma base estável, um firme fundamento sobre o qual o exercitador do poder tem o seu assento a do qual não pode ser removido. É, na verdade, um bloco que suporta a ação do retrocesso de. uma força, da mesma maneira que o ombro do atirador suporta o recuo do rifle. Os grandes canhões, utilizados para disparos de longa distância, precisam ser fixados a estruturas de concreto que ofereçam resistência ao contragolpe da explosão da carga que impulsiona o projétil, pois é óbvio que a pressão na culatra do canhão deve ser igual à exercida na base do projétil quando se efetua o disparo. Essa é uma verdade que nossos credos religiosos idealizadores estão inclinados a ignorar, com o conseqüente enfraquecimento a debilitaçâo de seus ensinamentos. Binah, Marah, a matéria, é a estrutura que empresta à força vital dinámica uma base segura.

45. Da resistência à força espiritual, como já observamos, provém a idéia do mal implícito, que é tão injusta para com Binah. Isso se torna muito claro quando consideramos as idéias que surgem em associação com Saturno-Cronos. Saturno implica algo muito sinistro. Ele é o Grande Maléfico dos astrólogos, a todo aquele que encontra uma quadratura de Saturno em seu horóscopo considera-a como uma pesada aflição. Saturno é o resistente, mas, sendo um resistente, é também um estabilizador a um testador que não nos permite confiar nos’so peso àquilo que não o resistiria. É digno de nota que o Trigésimo Segundo Caminho – que conduz de Malkuth a Yesod e é o primeiro Caminho trilhado pela alma que se eleva – seja atribuído a Saturrio. Ele é o deus da forma mais antiga da matéria. 0 mito grego de C~os, que é simplesmente o nome grego para o mesmo princípio, considê’ia-o como um dos deuses mais velhos; ou seja, aqueles deuses que criaram os deuses. Ele é o pai de Júpiter-Zeus, o qual se salvou graças a um estratagema de sua máe, pois Saturno tinha o desagradável hábito de comer suas crianças. Encontramos nesse mito novamente a idéia do dador da vida e dá morte. Como já observamos, Saturno, com sua foice, converte-se facilmente na Morte. É muito interessante notar as reentráncias dessas cadeias de idéias associadas em relação a cada Sephirah, pois não podemos deixar de ver como as mesmas imagens afloram outra a outra vez em todas as cadeias de idéias que possuímos, mesmo quando partimos de idéias aparentemente muito divergentes como mãe, mar a tempo.

46. Cada planeta tem uma virtude a um vício; em outras palavras, cada planeta pode estar, nas palavras dos astrólogos, bem ou mal-aspectado, bem ou mal-exaltado. Não podemos passar pela vida sem notar que cada tipo de caráter tem os vícios de suas virtudes; isto é, suas virtudes, quando levadas ao extremo, tornam-se vícios. Ocorre o mesmo com as sete Sephiroth planetárias; elas têm seus bons a maus aspectos, de acordo com a proporção com que os apresentam; quando falta o equilrbrio, em razão da força desequilibrada de uma Sephirah particular, experimentamos as más influências dessa Sephirah; por exemplo, Saturno devorara seus filhosi A morte começa a destruir a vida antes que ela tenha cumprido suas funçôes. Nenhuma Sephirah, portanto, é totalmente má, nem mesmo Geburah, que é a destruição personificada. Todas são igualmente indispensáveis ao esquema das coisas como um todo, a suas boas a más influências relativas dependem do papel que desempenham, o qual não deve ser nem muito forte, nem muito débil, mas equilibrado. A pouca influência de uma dada Sephirah conduz ao desequilíbrio na Sephirah oposta. A influência em excesso torna-se uma influência positivamente má – uma dose excessiva de veneno.

47. A virtude de Binah é o Silêncio, a seu vício é a avareza. Vemos aqui, novamente, a influência de Saturno tomar-se presente. Keats fala do “Saturno de cabelos grisalhos, silencioso como uma pedra”, a nessas poucas palavras o poeta evoca uma imagem mágica da era a do silêncio primordial da influência satumiana. Saturno é de fato um dos velhos deuses a está relacionado ao aspecto mineral da Terra. Seu trono acha-se nas rochas mais antigas, onde não cresce planta alguma.

48. É costume dizer que o silêncio é uma das virtudes especialmente desejadas nas mulheres. Seja como for, a não há dúvida de que a língua é a sua arma mais perigosa, o silêncio indica receptividade. Se estamos calados, podemos ouvir, a assim aprender; mas, se estamos falando, as portas de entrada da mente estão fechadas. É a resistência e a receptividade de Binah que são seus poderes principais. E dessas virtudes provém o vício, que é constituído por seu excesso, a avareza, que nega em demasia a retém até o que é dispensável. Quando isso acontece, precisamos da generosa influência de Gedulah-Geburah, Júpiter-Marte, para destruir o velho deus, o devorador de seus filhos, a reinar em seu lugar.

49. Os símbolos mágicos de Binah são o Yoni e o Manto Exterior de Ocultamento. Esta é uma expressão gnóstica, a aquele, um termo indiano, que indica os genitals da mulher, a correspondência negativa do falo do homem. 0 termo Kteis, menos conhecido, é o termo europeu equivalente. Nos símbolos religiosos hindus, o yoni e o lingam surgem com muita freqüência, pois a idéia da força vital a da fertilidade são os motivos principais de sua fé.

50. A idéia da fertilidade é o motivo principal nos aspectos de Binah que se manifestam no mundo de Assiah, o nível material. A vida não apenas penetra a matéria para discipliná-la, mas também retira-se dela triunfahnente, aumentada a multiplicada. 0 aspecto da fertilidade, equilibrando o aspecto Tempo-Morte-Limitação, é essencial ao nosso conceito de Binah. 0 Tempo-Morte ceifa com sua foice o trigo de Ceres, a ambos são símbolos de Binah.

51. A idéia do Manto Exterior de Ocultamento sugere claramente a matéria, assim como o esplendor envolvente do Manto Interno de Glória do princípio vital. Ambas as idéias, reunidas, comunicam-nos o conceito do corpo animado pelo espírito; o Manto Interno ou Glória Espiritual oculto de todos os olhos pelo invólucro exterior da matéria densa. Mais a mais vezes, enquanto meditamos sobre esses mistérios, encontramos a iluminação dessa coleção aparentemente fortuita de símbolos atribuídos a cada Sepliirah. Já vimos em nosso estudo que nenhum símbolo está só, a que toda penetração da intuição a da imaginação serve para revelar as grandes linhas de relaçôes entre os símbolos.

52. Os quatro três do baralho do Tarô são as cartas atribuídas a Binah e, de fato, o número três está intimamente associado à idéia da manifestação na matéria. As duas forças opostas encontram expressão numa tercei. ra, o equilíbrio entre elas, que se manifesta num plano inferior ao de seus pais. O triângulo é um dos símbolos atribuídos a Saturno como deus da matéria mais densa, e o triãngulo de arte, como é chamado, é utilizado nas cerimônias mágicas quando o objetivo é evocar um espírito a fazê-to visível no plano da matéria; para outros modos de manifestação, utiliza-se o círculo.

53. 0 três de paus chama-se Senhor da Força Estabilizada. Temos novamente aqui a idéia do poder em equilíbrio, que é tâo característico de Binah. Lembremos que Paus representa a força dinâmica de Yod. Essa força, quando na esfera de Binah, cessa de ser dinâmica, consolidando-se.

54. Copas é, essencialmente, a forma feminina, pois a copa, ou o cálice, é um dos símbolos de Binah a está estreitamente relacionado com o yoni no simbolismo esotérico. 0 Três de Copas está, portanto, em casa em Binah, pois os dois grupos de simbolismo se completam mutuamente. 0 Três de Copas, que é corretamente chamado de Abundância, representa a fertilidade de Binah em seu aspecto de Ceres.

55.0 Três de Espadas, contudo, chama-se Sofrimento, a seu símbolo no baralho de Tarô é um coração transpassado por três punhais. Nossos leitores lembrarão a referência ao coração apunhalado da Virgem Maria no simbolismo católico, a Maria equivale a Marah, a amargura, o Mar. Ave, Maria, stella marls!

56. As Espadas são, naturalmente, cartas de Geburah e, como tal, representam o aspecto destrutivo de Binah como Kali, a consorte de Siva, a deusa hindu da destruição.

57. Ouros são as cartas da Terra e, como tal, correspondem a Binah, a forma. 0 Três de Ouros, por conseguinte, é o Senhor dos Trabalhos Materials, ou atividade no plano da forma.

58. Notemos que, assim como os planetas têm sua influência rèforçada quando estão nos signos do Zodíaco que são suas próprias casas, também as cartas do Tarô, quando o significado da Sephirah coincide com o espírito do naipe, representam o aspecto ativo da influência; e, quando a Sephirah e o naipe representam influências diferentes, a carta é maléfica. Por exemplo, a carta ígnea de espadas é uma carta de mau augúrio quando se acha na Esfera de influência de Binah.

59. Alonguei-me bastante ao comentar Binah, porque com ela se completa a Tríade Suprema e o primeiro dos pares de opostos. Ela representa não apenas a si mesma, mas também aos pares funcionais, pois é impossível compreender qualquer unidade na Árvore, a não ser em referência às outras unidades com que interage a se equilibra. Hochma sem Binah, a Binah sem Hochma, são incompreensíveis, pois o par é a unidade funcional, a não qualquer uma das Sephiroth em separado.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/binah

A Assunção (ou O Testamento) de Moisés

O TESTAMENTO de Moisés acerca das coisas que ele coordenou nos seus cento e vinte anos de vida por volta do ano dois mil e quinhentos desde a criação do mundo: Que de acordo o cálculo oriental dois mil e setecentos e quatro depois da partida da Fenícia, quando o povo tinha feito o Êxodo que foi feito por Moisés para Amã que fica além do Jordão, na profecia que foi feita por Moisés no livro do Deuteronômio: e ele chamou a para junto de si a Josué, o filho de Nun, um homem aprovado por Deus, para que pudesse ser o ministro do povo e do tabernáculo do testemunho com todas as suas coisas santas, e que ele poderia levar o povo à terra dada aos seus pais, para que lhe fosse dada de acordo com o pacto e o juramento que Ele fez no tabernáculo de confiá-lo a Josué: dizendo a Josué estas palavras: (Sê forte) e de boa coragem para que se cumpra através de ti tudo aquilo que lhe foi ordenado para que possas ser imaculado diante de Deus. Assim diz o Senhor do mundo. Porque Ele criou o mundo em favor de seu povo. Mas Ele não se agradou em manifestar este propósito da criação desde a fundação do mundo, para que os Gentios pudessem ser convencidos, sim, para que por sua própria humilhação pudessem por argumentos convencer uns aos outros. Adequadamente Ele projetou e planejou, e me preparou antes da fundação do mundo, para que eu fosse o mediador do seu pacto. E agora eu vos declaro que o tempo dos anos de minha vida se cumpriram e estou falecendo para dormir com meus pais na presença de todo o povo. E receba esta escritura pois tu saberás como preservar os livros que eu te entregarei: e tu fixarás estes em ordem e os ungirá com óleo de cedro e os guardará em recipientes de barro no lugar que Ele fez desde o princípio da criação do mundo para que o seu nome fosse invocado até o dia do arrependimento na visitação na qual Deus os visitará na consumação do fim dos dias.

2    E agora eles entrarão por meio de ti na terra que Ele determinou e prometeu dar aos seus pais, na qual tu abençoarás e darás individualmente a eles e os confirmará a sua herança em mim e estabelecerá para eles o reino, e tu os designará magistrados locais de acordo com a boa vontade do seu Senhor em julgamento e retidão. E cinco anos depois que eles entrarem na terra, depois que forem regidos pelos chefes e reis durante dezoito anos, e durante dezenove anos fugirão as dez tribos. E as doze tribos descerão e transferirão o tabernáculo do testemunho. Então o Deus do céu fará o tribunal do seu tabernáculo e a torre do seu santuário, e as duas tribos santas serão (lá) estabelecidos: mas as dez tribos estabelecerão reinos para eles de acordo com as suas próprias ordenanças. E eles oferecerão sacrifícios ao longo de vinte anos: e sete fortificarão as paredes, e eu protegerei nove, mas quatro transgredirão o pacto do Senhor, e profanarão
o juramento que o Senhor fez com eles. E eles sacrificarão seus filhos a deuses estranhos, e eles montarão ídolos no santuário, para os adorar. E na casa do Senhor eles cometerão impiedade e gravarão toda forma de bestas, até mesmo muitas abominações.

3    E por esses dias um rei do leste virá contra eles e a sua cavalaria cobrirá a terra. E ele queimará a sua colônia com fogo junto com o templo santo de Deus, e ele levará todos os recipientes santos. E expulsará todo o povo, e os levará para a sua terra natal, sim ele levará as duas tribos com ele. Então as duas tribos chamarão as dez tribos, e marcharão como uma leoa nas planícies arenosas, quando faminta e sedenta. E eles chorarão em voz alta: Justo e santo é o Senhor, porque, já que pecastes, nós também, de certa forma, fomos levados convosco, junto com nossos filhos. Então as dez tribos lamentarão ao ouvir as repreensões das duas tribos, e elas dirão: “O que vos fizemos, irmãos? Esta tribulação não veio sobre toda a casa de Israel?” ‘E todas as tribos lamentarão, clamando aos céus e dizendo: Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó, lembre-se do teu pacto o qual fizeste com eles, e do juramento que fizestes por Ti mesmo com eles, de que sua semente jamais fracassaria na terra que Tu a deste. Então eles se lembrarão de mim, naquele dia, tribo a tribo e cada homem ao seu vizinho, dizendo: Não é isto aquilo que Moisés nos declarou em profecias, que sofreram muitas coisas no Egito e no Mar Vermelho e no deserto durante quarenta anos: e seguramente chamou céu e terra para testemunhar contra nós, para que nós não transgredíssemos suas ordens, no que ele foi um mediador para nós? Vejam que estas coisas nos aconteceram depois da sua morte de acordo com a sua declaração, como ele nos declarou naquele tempo, sim, vejam que estas coisas aconteceram até que fossemos levados cativos para fora para o país do leste. E também estaremos em escravidão durante aproximadamente setenta e sete anos.

4    Então entrarão em um que está acima deles, e ele espalhará as suas mãos, e se ajoelhará e orará dizendo acerca de seu comportamento: Senhor de tudo, Rei no alto trono que rege o mundo e fez com que este povo fosse Seu povo eleito, então (realmente) Tu fizeste com que fosses chamado o seu Deus, de acordo com o pacto que fizeste com seus pais. E mesmo assim eles entraram em cativeiro em outra terra com suas esposas e seus filhos, e ao redor dos portões de povos estranhos e onde há grande vaidade. Considere e tenha compaixão deles, O Senhor do céu.’ Então Deus se lembrará deles por causa do pacto que fez com seus pais. E Ele também manifestará sua compaixão naquele tempo. E Ele porá isto na mente de um rei para que tenha compaixão deles, e ele os enviará de volta para a sua terra e país. Então algumas porções das tribos subirão e eles virão para o lugar a eles designado, e eles cercarão novamente o lugar com muros. E as duas tribos continuarão em sua fé prescrita, tristes e lamentando porque eles não poderão oferecer sacrifícios ao Senhor dos seus pais. E as dez tribos aumentarão e multiplicarão entre os Gentios durante o tempo do seu cativeiro.

5    E quando o tempo do castigo estiver perto e a vingança surgir por meio dos reis que compartilham em sua culpa e os castigam, eles mesmos também estarão divididos quanto à verdade. Portanto, isto tem sido dito: Eles deixarão de lado a retidão e se aproximarão da iniquidade, e eles se sujarão com as poluições da casa de sua adoração, e [porque] eles se prostituirão com deuses estranhos. Porque eles não seguirão a verdade de Deus, mas alguns poluirão o altar com os (mesmos) presentes que eles oferecem ao Senhor, os quais não são sacerdotes mas escravos, filhos de escravos. E muitos naquele tempo terão respeito para com pessoas desejáveis e receberão presentes, e o julgamento pervertido [com presentes recebidos]. E nesta ocasião a colônia estará cheia os limites da sua habitação estarão repletos de iniquidades e atos ilegítimos: aqueles que impiamente deixarem o Senhor serão os juízes: eles estarão prontos para julgar mediante corrupção como cada um pode desejar.

6    Então serão levantados aos reis que suportam a regra, e eles se chamarão sacerdotes do Deus Altíssimo: e cometerão iniquidade no santo dos santos. E um rei insolente os sucederá, um que não será da raça dos sacerdotes, um tipo de homem ousado e desavergonhado, e ele os julgará como merecem. E ele cortará seus homens principais com a espada, e os destruirá em lugares secretos, de forma que ninguém pode saber onde seus corpos estão. Ele matará o velho e o jovem, e ele não se poupará. Então o temor de sua presença lhes será amargo em sua própria terra. E ele executará julgamentos sobre eles como os egípcios já havia executado, durante trinta e quatro anos, e ele os castigará. E produzirá filhos, (que) o sucedendo regerão por períodos mais curtos. A suas coortes um rei poderoso do oeste virá, e os conquistará: e ele os levará cativos, e queimará uma parte do seu templo com fogo, (e) crucificará alguns ao redor da sua colônia.

7    E quando isto for feito chegará o fim dos tempos, em um momento o (segundo) curso será (findado), às quatro horas virão. Eles serão forçados… E, no tempo destes, homens destrutivos e incrédulos regerão dizendo que são justos. E estes incitarão o veneno de suas mentes, pois serão homens traiçoeiros, egoístas, dissimuladores em todos os seus negócios e amantes de banquetes a toda hora do dia. Comilões… Devoradores dos bens do (pobre) dizendo que eles fazem assim com base em sua justiça, mas na verdade querem destruí-los, estes são queixosos, enganadores, que se escondem para que não sejam reconhecidos, incrédulos, cheios de impiedade cometendo iniquidade de sol a sol: dizendo: Nós teremos banquetes e luxo, enquanto comemos e bebemos, e nós nos estimaremos como príncipes. E apesar de suas mãos e mentes tocarem coisas imundas, no entanto, suas bocas falarão grandes coisas, e eles dirão também: Não me toque para que não me polua em meu lugar (onde eu estou)…

8    E virá sobre eles uma segunda visitação e ira, como não os aconteceu desde o princípio até aquele tempo, tempo no qual Ele moverá contra eles o rei dos reis da terra e um que rege com grande poder, que crucificará aqueles que confessarem à sua circuncisão: e esses que esconderem (isto) ele torturará e os entregará para que sejam amarrados e lançados na prisão. E as suas esposas serão dadas aos deuses entre os Gentios, e os seus filhos jovens serão operados pelos médicos para apresentar o seu prepúcio. E outros entre eles serão castigados com torturas, fogo e espada, e eles serão forçados a suportar em público aos seus ídolos, sendo poluídos como aqueles que já o são. E eles serão forçados igualmente por aqueles que os torturam a entrar no santuário interno, e eles serão forçados por ferros a blasfemar com insolência contra a palavra, e depois destas coisas as leis e o que eles tiverem sobre o altar.

9    Então naquele dia haverá um homem da tribo de Levi, cujo nome será Taxo que tendo sete filhos falará com eles exortando-os: Observem, meus filhos, vejam um segundo cruel (e) uma visitação impura que veio sobre o povo, e um castigo impiedoso e muito maior que o primeiro. Pelo qual a nação ou a região ou o povo daqueles que são ímpios diante do Senhor, e que cometeram muitas abominações, que sofreram tão grandes calamidades como nos aconteceu? Agora, portanto, meus filhos, ouçam-me: notem e saibam que nem os pais nem os antepassados deles tentaram a Deus, para transgredir as suas ordens. E para que tu saibas que esta é nossa força, e assim nós faremos. Jejuemos por três e no quarto entremos em uma caverna que está no campo, e morramos ao invés de transgredir as ordens do Senhor dos Senhores, o Deus de nossos pais. Porque se nós fizermos isto e morrermos, nosso sangue será vingado diante do Senhor.

10    E então o reino dele aparecerá através de toda Sua criação, e então Satanás não mais existirá, e a tristeza partirá com ele. Então serão enchidas as mãos do anjo que foi designado principal, e ele os vingará dos seus inimigos. Porque o Único Divino surgirá do seu trono real, e Ele sairá de sua santa habitação com indignação e ira por causa dos Seus filhos. E a terra tremerá: até os seus confins será estremecida: E as montanhas altas serão baixadas e as colinas sacudirão e cairão. E serão quebrados os chifres do sol e ele será transformado em escuridão; E a lua não dará a sua luz, e será completamente transformada em sangue. E o círculo das estrelas será perturbado. E o mar descansará no abismo, e as fontes de águas falharão, e os rios secarão. Porque Altíssimo surgirá, o único Deus Eterno, e Ele aparecerá para castigar os Gentios, e destruirá todos seus ídolos. Então tu, Ó Israel, ficará contente, e montará nos pescoços e asas da águia, e eles serão exterminados. E Deus te exaltará, e o fará se aproximar do céu das estrelas, no lugar da sua habitação. E tu olharás do alto e verá seus inimigos na Geenna e os reconhecerá e se alegrará, e dará graças e confessará ao teu Criador. E tu; Josué (filho de) Nun, guarde estas palavras e este livro; Porque de minha morte [assunção] até o Seu advento haverá 250 vezes [= ano-semanas = 1750 anos]. E este é o curso dos tempos que eles procurarão até que eles estejam consumados. E eu irei dormir com meus pais. Portanto, Josué (filho de) Nun, (sê forte e) tenha bom ânimo; (porque) Deus (o) escolheu para ser o ministro deste mesmo pacto.

11 E quando Josué ouviu as palavras de Moisés que foram assim escritas na sua escritura tudo aquilo que ele tinha dito antes, rasgou suas roupas e se lançou aos pés de Moisés. E Moisés o confortou e chorou com ele. E Josué lhe respondeu e disse: Por que tu me confortas, (meu) senhor Moisés? E como eu serei confortado com respeito à palavra amarga que tu falaste a qual foi adiante de tua boca, que está cheia de lágrimas e lamentação, com a qual deixas o teu povo? (Mas agora) que lugar o receberá? Ou qual será o sinal que marcará o (seu) sepulcro? Ou quem ousará mover seu corpo de lá como se fosse um mero homem? Porque todos os homens quando morrem tem de acordo com a idade os seus sepulcros na terra; mas seu sepulcro é da subida ao pôr-do-sol, e do sul aos confins do norte: todo o mundo é seu sepulcro. Meu senhor, estás partindo, e quem alimentará este povo? Ou quem há que tenha compaixão deles e quem será seu guia pelo caminho? Ou quem orará por eles, sem omitir um único dia, para que eu possa os conduzir na terra dos seus antepassados? Como então eu nutrirei este povo como um pai (o dele) sendo apenas filho, ou como uma mão a sua filha, uma virgem que está sendo preparada para ser entregue ao marido que ela venerará, enquanto ela guarda sua pessoa do sol e (toma cuidado) para que seus pés não fiquem descalços por correr no chão. (E como) eu os proverei com comida e bebida de acordo com o prazer da vontade deles? Porque eles devem ser por volta de 600.000 (os homens), porque estes se multiplicaram a este ponto por causa de suas orações, (meu) senhor Moisés. E que sabedoria ou entendimento tenho eu para que eu deva julgar ou responder através da palavra na casa (do Senhor)? E os reis dos Amorreus também quando eles ouvem que nós estamos os atacando, acreditarão que não estará mais entre eles o espírito santo que era digno do Senhor, múltiplo e incompreensível, o senhor da palavra, que era fiel em todas as coisas, o profeta principal de Deus ao longo da terra, o mestre mais perfeito do mundo, [que não está mais entre eles], dirão “Marchemos contra eles. Se o inimigo apenas uma vez agiu impiamente contra o seu Deus, eles não têm nenhum defensor para oferecer suas orações, como Moisés o grande mensageiro que todos os dias de dia e de noite teve os seus joelhos fixados na terra, orando e procurando a ajuda dEle para que regesse todo o mundo com compaixão e justiça, fazendo-o lembrar do pacto dos pais e propiciando o Deus com juramento.” Porque eles dirão: “Ele não está com eles: vamos então e os destruamos e os lancemos para fora da face da terra.” O que restará então deste povo, meu senhor, Moisés?”

12 E quando Josué terminou (estas) palavras, ele se lançou novamente aos pés de Moisés. E Moisés tomou sua mão e o elevou ao assento diante dele, e lhe respondeu e disse: Josué, não menospreze a ti mesmo; mas fixe sua mente, e ouça minhas palavras. Todas as nações que estão na terra Deus as criou assim como a nós, Ele as previu assim como a nós desde o princípio da criação da terra até o fim dos tempos, e nada foi negligenciado por Ele mesmo a coisa mais insignificante, e todas as coisas Ele previu e fez tudo acontecer. (Sim) todas as coisas que estão nesta terra Deus previu e, veja, elas são apresentadas (à luz… O Senhor) as tem usado e me designou para (orar) pelos seus pecados e (fazer intercessão) por eles. Não por qualquer virtude ou força minha, mas de sua boa vontade tem ele compaixão e longanimidade encerrado minha sorte. Porque eu vos digo, Josué: não é por causa da piedade deste povo que tu lançará fora as nações. As luzes do céu, os fundamentos da terra foram feitos e foram aprovados por Deus e estão debaixo do anel de sinete da sua mão direita. Então, esses que fazem e cumprem as ordens de Deus aumentarão e prosperarão: mas esses que pecam e fixam e negligenciam as ordens estarão sem as bênçãos mencionadas, e eles serão castigados com muitos tormentos pelas nações. Mas lançar fora completamente e os destruir não é permitido. Porque Deus irá adiante pois previu todas as coisas para sempre, e o seu pacto foi estabelecido pelo juramento que…

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Fonte: http://livrosapocrifosbis.blogspot.com/2013/02/a-assuncao-de-moises-tambem-conhecido.html

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-assuncao-ou-o-testamento-de-moises/

A Origem Pagã do Carnaval

Texto do frater Matheus Saraiva.

O Carnaval é popularmente um período de festas regidas pelo ano lunar no Cristianismo da Idade Média. Vem da Vulgata latina da palavra Carnivale, que quer dizer “adeus à carne” e deu origem a palavra Carnaval. Foi supostamente implantado no século XI pela igreja católica onde vários festejos populares antecediam os 40 dias de jejum da quaresma. E então cada cidade brincava a seu modo, de acordo com seus costumes.

Não diferente de hoje eram festas de muita alegria, folia e sempre que possível orgias. Na renascencia foi marcado pelos fabulosos bailes de mascaras. Na realidade, por mais que dizem que o Carnaval foi só implantado no século XI da era cristã em seus festivais, ele é muito mais antigo e de origem pagã. Como muitos outros festivais pagãos adaptados pela igreja católica.

Desde tempos imemoriais no Egito antigo, realizava-se a festa do boi Apis – animal sagrado. Escolhia-se o boi mais belo e todo branco o qual era pintado com várias cores, hieróglifos e sinais sagrados. O boi era conduzido pelas ruas e levado até o Rio Nilo, onde era afogado. Em procissão, sacerdotes, magistrados, homens, mulheres e crianças, fantasiados grotescamente, iam atrás dele dançando e cantando, até seu afogamento.

Na Grécia, como a origem mais exata, tinha o nome de ‘Festival Dionisíaco’ em honra ao deus do vinho Dionísio, e em Roma, o nome era bacanal em homenagem ao deus Baco, equivalente ao deus grego, e era noramlamente realizados por volta do dia 4 de Outubro. Nessas comemorações, a principio apenas sacerdotisas e sacertodes de Dionísio realizavam suas ritualisticas religiosas em templos fechados, homenageando o deus. Mas com o tempo o povo tomou conhecimento desses festivais e a aristocracia então misturava-se com os pebleus, e os tribunais e estabelecimentos oficiais se fechavam, e se abriam todos os lugares de divertimentos, onde a bebedeira de vinho, orgia e os prazeres sensuais eram inumeráveis.

Até mesmo a figura no Carnaval atual do rei Momo é uma representação de Dionísio ou Baco, o patrono do vinho e do seu cultivo, e isto faz recuar a origem do Carnaval para a Grécia arcaica, para os festejos que honravam a colheita. Sempre uma forma de comemorar, com muita alegria e desenvoltura, os atos de alimentar-se e beber, elementos indispensáveis à vida.

Nem os imperadores de Roma, nem o Papa, depois da cristianização, conseguiram conter e controlar estes festivais, o que levou a igreja adaptar este festival as comemorações católicas. Por fim as orgias e a confusão diminuíram, ainda mais com a inquisição. E ele então se espalhou pela Europa e depois chegou às Américas. Onde pôde se misturar às influências das culturas indígenas e africanas. Por fim como podem ver o Carnaval não passa de mais um festival pagão cristianizado pela igreja.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-origem-pag%C3%A3-do-carnaval

A História de Gilgamesh

A realização de uma obra de arte, perdurável através dos séculos, é um dos mais notáveis “milagres” feitos pelo homem. É a realização intelectual e artística cuja verdadeira origem permanecerá largamente incompreendida.

Há nove mil anos, um sumério inventava a escrita e inaugurava a Era Histórica. É interessante salientar as notáveis conquistas intelectuais e materiais desse povo, inventor da escrita, fundador da civilização, iniciador da tradição intelectual do Oriente e do Ocidente, e berço das artes, das letras e das ciências.

A Literatura Suméria, a mais antiga conhecida pela humanidade, é paradoxalmente a que mais demorou a ser conhecida pelo homem moderno. Seu estudo foi iniciado após a descoberta da escrita e do povo sumério em meados do século passado. Está documentada em milhares de tabuletas de argila escavadas nas cidades mesopotâmicas. A maior parte desta literatura era formada de poemas de mitos e lendas, cantares épicos, documentos historiográficos, ensaios curtos e longos, dizeres e provérbios, assim como hinos e lamentações provavelmente usados nos cultos religiosos.

Cantar de Gilgamesh

O Cantar de Gilgamesh , considerada a obra-prima da literatura suméria, é um canto épico que narra as façanhas do Rei-herói, Gilgamesh, da antiga cidade de Uruk, na Mesopotâmia. O tema central vai além da narração de viagens, lutas e aventuras, temores e sonhos do protagonista: canta-se à amizade, ao amor, aos sentimentos de vingança, fala-se de opressão, de arrependimento e, acima de tudo, do temor à desaparição final e ao esquecimento após a morte. Este último é que leva Gilgamesh a uma procura insólita, desesperada e falida, mas não inútil, pela sua transcendência, da imortalidade.

Gilgamesh, talvez, o primeiro personagem histórico, viveu em torno do ano 2700 a.C., reinou em Uruk (a Erech bíblica) e construiu suas muralhas. Na lendária relação dos reis sumérios, ele é o sexto rei após o Dilúvio.

A obra em si parece, às vezes, obscura, principalmente por ser conhecida de forma incompleta. A mais antiga versão existente do Cantar foi escrita em sumério, por volta do ano 2000 a.C., sendo cópia de trabalho muito mais antigo. No próprio Cantar consta que, após retornar de suas viagens, o próprio Gilgamesh o escreveu, numa estela de pedra que colocou na base das muralhas de Uruk. Teria, desta forma, sido escrito poucos séculos (quatro a seis?) após a invenção da escrita.

Ponto de partida da literatura universal, a obra surge tão evoluída que, ainda hoje, mesmo separados pela barreira de 47 séculos, pela diferença de sensibilidade e pela nossa cultura moderna, configura-se uma leitura apaixonante, ainda que pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos.

Ela nos toca não apenas pela sua beleza, mas também pela sua criatividade temática e técnica; os efeitos e técnicas poéticas que utiliza são invenções da literatura suméria, que a civilização atual continua usando, aperfeiçoados nos quatro a cinco milênios transcorridos:

O uso da métrica e da rima era desconhecido, mas praticamente todos os demais artifícios e técnicas poéticas foram usados com habilidade, imaginação e efeito: repetição e paralelismo, metáfora e símil, coro e refrão. Na narrativa poética suméria, contos épicos e míticos, por exemplo, abundam os epítetos estáticos, longas repetições, fórmulas recorrentes, longas e demoradas descrições e longos discursos. (Kramer, Os Sumérios, sua História, Cultura e Caráter, The Univ. of Chicago Press, 1963).

Esta e outras obras sumérias foram amplamente disseminadas, conhecidas e copiadas no Oriente Médio durante mais de dois milênios, recontadas e parcialmente incorporadas pelos escribas (e pelos nar ou aedas) em obras maiores. Grandes escritores usaram livremente temas sumérios, como no Gênese e no Livro de Jó, por exemplo, e também em obras muito posteriores do Ocidente, como a “Descida ao Inferno” retomada por Dante na Divina Comédia. Homero possui ampla dívida com os sumérios: temática, nas viagens de Ulisses, na descida aos infernos, e técnica, no uso de epítetos, a invocação e colaboração dos deuses e a convivência, amor e ódio, dos mesmos com os humanos e até a promessa de imortalidade àqueles a quem canta.

A existência desta obra-prima foi revelada pelo arqueólogo inglês George Smith que, em 1872, entre os restos da Biblioteca Real de Nínive, encontrou partes da descrição do Dilúvio Universal, semelhante mas muito anterior ao do Gênese do Antigo Testamento hebraico.

O Poema começa com o Elogio a Gilgamesh:

Ó! Divino Gilgamesh, que todo o viu

Eu te farei conhecer em todas as terras.

Eu ensinarei sobre (aquele) que experimentou todas as coisas.

Anu deu-lhe a totalidade do conhecimento do Todo.

Ele viu o Segredo, penetrou o Mistério.

Ele revelou o que houve antes do Dilúvio.

Ele fez grandes viagens, até o limite de suas forças

e quando voltou em paz…

Ele gravou numa estela de pedra a narração de suas proezas

e construiu as muralhas de Uruk, nosso lar,

e as paredes do Templo de Eanna, o sagrado santuário.

[…]

E, sobre o próprio Gilgamesh, diz:

Ele cruzou o oceano, os vastos mares até o sol nascente,

Ele explorou as regiões do mundo, buscando vida.

[…]
Dois terços dele são divinos, um terço é humano.

A grande deusa Aruru fez o modelo do seu corpo,

ela preparou sua forma…

… belo, o mais bonito dos homens,

… perfeito…

Gilgamesh é o pastor de Uruk, o refúgio,

decidido, eminente, conhecedor e sábio.

[…]

Gilgamesh, o Rei de extraordinária fortaleza e beleza, exerce seu poder às vezes com sabedoria, às vezes despoticamente: oprime os homens jovens e as mulheres de Uruk, sem que ninguém possa se lhe opor. Os deuses resolvem, então, criar um homem que seja o seu similar: Enkidu, o homem primitivo, nascido e criado nos campos entre as bestas selvagens, o mais forte dos homens. A partir desse momento deve-se produzir o encontro de Gilgamesh e Enkidu, isto é, da civilização com a barbárie. Enkidu vai enfrentar Gilgamesh que já o espera prevenido pelos seus sonhos, interpretados por sua mãe, a deusa Rimat-Nimsum. Depois de uma luta de titãs prevalece Gilgamesh, sendo reconhecido por Enkidu como seu superior. Tornam-se então amigos inseparáveis, transformando o mútuo respeito em verdadeira amizade que nunca haviam experimentado antes.

Gilgamesh convence Enkidu a viajar até a Floresta dos Cedros (no Líbano atual), com o intuito de matar o Guardião dos Cedros, Humbaba, o Terrível, cortar o Cedro Sagrado e obter glória e fama eternas. Apesar da oposição dos conselheiros, os amigos partem, confiantes na proteção do Deus-Sol, Shamash. Ao chegar à Floresta dos Cedros, Enkidu lembra o formidável poder de Humbaba e tenta convencer Gilgamesh a abandonar uma luta impossível e retornar. Mas Shamash os protege e, num trecho do Cantar de difícil compreensão, enfrentam Humbaba. Este é finalmente dominado pelos amigos, após uma luta de gigantes. Enkidu, temeroso das conseqüências de um revide, se deixarem Humbaba com vida, insiste que ele deve ser morto. O monstro amaldiçoa Enkidu condenando-o a ter curta vida e Enkidu, com seus braços formidáveis e sua enorme espada, corta a cabeça de Humbaba, despertando a ira do poderoso deus Enlil. Para aplacar o deus, Enkidu corta o maior dos cedros para com ele construir a Grande Porta do Templo de Enlil, em Nippur. Após terem cortado os cedros, iniciam o retorno e, à beira do Eufrates, constroem balsas que os levam de volta a Uruk. Enquanto Enkidu governa a balsa, Gilgamesh carrega triunfalmente a cabeça cortada de Humbaba.

De volta a Uruk, a bela Ishtar, deusa do amor, propõe casamento a Gilgamesh, mas ele recusa, após lembrar os trágicos destinos dos anteriores amantes da deusa. Ishtar, desprezada, é um inimigo temível; na sua ira ela pede ao seu pai, o deus Enlil, para enviar o Touro dos Céus e destruir Gilgamesh, sua gente e sua cidade. Contra toda expectativa, os dois amigos conseguem matar a besta. Ishtar apela à justiça dos deuses que, afrontados pela morte de Humbaba e agora pela do Touro, decidem que um dos amigos deve morrer e esse será Enkidu, já amaldiçoado pelo Guardião dos Cedros.

Enkidu fica sabendo de sua morte iminente por um sonho. Na sua comovente revolta frente à injustiça, apela ao deus Shamash que, em sábia resposta, o faz lembrar que deve agradecer pelas coisas boas que viveu e pelo profundo sentimento de perda que deixará atrás de si. Enkidu adoece e, apesar do cuidado constante e devotado de Gilgamesh, que é o mais sábio, morre após doze dias. Gilgamesh, arrasado pela perda do amigo, rende-lhe honras, constrói uma estátua em sua memória, rebela-se contra o destino e percebe que alcançar a fama entre os homens pouco ou nada significa frente ao horror do decaimento físico e da morte.

Gilgamesh rebela-se contra a Morte e dedica-se a procurar o segredo da vida eterna. Para tanto, decide procurar o único homem que a conseguiu – Utnapishtim, o Longínquo – o Noé sumério, a quem, após sobreviver ao Dilúvio, os deuses concederam vida eterna.

Numa viagem cheia de perigos, Gilgamesh encontra criaturas fabulosas e estranhas que o advertem da impossibilidade de sua procura, mas, com férrea vontade, continua e acha o barqueiro de Utnapishtim, que o levará ao encontro deste através das Águas da Morte. Quando, finalmente, o encontra, após jornadas agonizantes, é surpreendido, pois em vez de encontrar um ser extraordinário, cujo segredo de imortalidade estava disposto a tomar pela força, encontra um homem comum. Perplexo, diz:

Estava decidido a lutar com você,

Mas agora meu braço pende inútil perante você.

Diga-me, como é que você, na Assembléia dos Deuses, achou a vida eterna?

E Utnapishtim responde:

Eu te revelarei, Gilgamesh, o que é secreto,

Dir-te-ei um segredo dos deuses!

Utnapishtim revela então o que aconteceu no Dilúvio e como ele com a sua família, parentes, amigos e animais foram salvos pela sua piedade e obediência ao deus Ea (nome sumério do deus Enki, deus das águas doces e criador do homem e da sabedoria). O deus Ea, após a terminação do Dilúvio, intercede a favor de Utnapishtim perante o poderoso deus Enlil, o guerreiro. Este, que ordenou o Dilúvio, fica irritado pela sobrevivência dos humanos e suspeita da lealdade de Ea que, argumentando eloqüentemente, convence-o de que não revelou o segredo. Enlil perdoa Utnapishtim e ainda o converte, bem como a sua mulher, em seres imortais.

Terminado o relato do Dilúvio e, frente à determinação de Gilgamesh, Utnapishtim lhe diz:

Então, quem convocará agora (a Assembléia) dos deuses para ti,

para que possas achar a vida que procuras?

Mas, já que o desejas, submete-te à prova:

deves resistir ao sono durante seis dias e sete noites.

Gilgamesh, esgotado fisicamente pela penosa viagem, cai no sono logo e dorme sete dias seguidos. Ele falha no teste, sem dúvida devido à terça parte humana de sua natureza, e deve retornar.

Antes de voltar, a esposa de Utnapishtim intercede frente a este para dar a Gilgamesh uma recompensa pelos seus esforços, dizendo:

Gilgamesh chegou aqui cansado e com as forças esgotadas.

O que você lhe dará para que retorne à sua terra com honra?

E Utnapishtim, dirigindo-se a Gilgamesh, já no barco:

Eu te revelarei um segredo dos deuses, uma coisa secreta.

Embaixo da água existe uma planta,

ela tem espinhos como uma sarça,

como uma roseira ela te ferirá as mãos

Se conseguires apanhá-la, terás nas mãos a planta que rejuvenesce.

Gilgamesh mergulha no fundo do mar, colhe a planta e a segura, embora esta lhe ferisse as mãos. A planta lhe permitiria viver de novo a sua vida, com a vantagem da sabedoria adquirida na sua viagem que contém segredos dos deuses. Mas ele duvida e decide primeiro testar a planta com os velhos de Uruk e, depois, comê-la. Há aqui um curioso ponto de interrogação. Por que Gilgamesh não come a planta imediatamente? Teria desconfiado de Utnapishtim? Logo ele, que percorreu o mundo real e o fantástico para encontrá-lo?

Inicia o retorno, cruzando a porta do mundo que antes tinha franqueado. Quando param para descansar, à noite perto de uma fonte de águas frescas, Gilgamesh vai tomar banho e uma serpente, sentindo a fragrância da planta, silenciosamente sai das profundezas, apodera-se dela, muda logo de pele e submerge, para desespero de Gilgamesh que, impotente, a vê desaparecer nas profundezas.

Então Gilgamesh sentou-se e chorou,

Grossas lágrimas correram-lhe pelo rosto.

[…]
Encontrei o sinal da vida e agora o perdi.

A esperança acabou. Gilgamesh retorna ao lar, mais velho e de mãos vazias, tendo agora entendido que não existe a chance de uma segunda vida real e muito menos a de imortalidade.

No fim da viagem, já nas muralhas de Uruk, Gilgamesh, com voz estremecida, mostra a muralha a Ur-shanabi, o barqueiro.

Repete-se o início do Cantar, só que agora as palavras são ditas pelo próprio Gilgamesh. Desta vez trata-se realmente de um solilóquio: perdida a esperança da vida eterna, Gilgamesh relembra e faz uma retrospectiva de sua vida. Ur-shanabi é apenas um símbolo do povo, cuja aprovação final talvez seja seu único consolo:

Ó! Divino Gilgamesh, que todo o viu.

Ele viu o Segredo, penetrou o Mistério.

Ele revelou o que houve antes do Dilúvio.

Ele fez grandes viagens, até o limite de suas forças

e quando voltou em paz…

Ele gravou num estela de pedra a narração de suas proezas.

A seguir, com uma reprise dos elogios feitos no início, termina a XI tabuleta. A maioria dos autores preferem terminar aqui o relato. Contudo, na XII tabuleta encontram-se dois episódios importantes “A descida ao Inferno” e “A Morte de Gilgamesh”, os mais antigos junto com a aventura da “Floresta dos Cedros”. A “Morte de Gilgamesh” parece ser a repetição de fórmulas rituais fúnebres, possuindo então alto valor arqueológico. “A descida ao Inferno” pode ser uma variante do sonho de Enkidu, prevendo a sua morte.

A descida ao Inferno

O episódio começa de forma desconexa, com imagens e visões que pareceriam extraídas de um sonho. Depois de uma sucessão de imagens, quase incompreensíveis para a nossa sensibilidade moderna, temos:

A flauta e a harpa caíram na Grande Mansão (o inferno)

Gilgamesh enfiou nela sua mão, mas não pôde alcançá-las.

Enfiou o pé, mas não pôde alcançá-las.

Então Gilgamesh sentou-se frente ao palácio dos deuses do mundo subterrâneo,

derramou lágrimas e ficou com o rosto pálido.

Ó minha flauta, ó minha harpa!

Minha flauta cujo poder era irresistível!

Minha flauta, minha harpa, quem as trará dos infernos?

Enkidu se prontifica a ir aos infernos procurá-las. Gilgamesh dá-lhe então conselhos para facilitar o seu retorno, como o de não usar ungüentos perfumados, nem vestir roupas limpas, nem deixar o seu arco na terra etc., para que os espíritos não o prendam. Mas, confiando nas suas forças, Enkidu faz tudo errado e a terra “o pega”:

O destino não o possuiu, nenhum espectro o possuiu, a terra o possuiu,

Não caiu sobre o campo de batalha, a terra o possuiu.

Gilgamesh tenta de todas as formas conseguir, através dos deuses, a libertação de Enkidu. Mas Enlil nem o escuta. Finalmente o deus Ea, criador e protetor dos homens, comanda ao deus dos infernos, Nergal:

Abre o fosso que comunica com os infernos,

Que o espírito de Enkidu volte dos infernos

e possa falar com seu irmão!

Aberto o fosso por Nergal:

O espírito de Enkidu, como um sopro, saiu dos infernos

E Gilgamesh e Enkidu falaram:

– Ó meu amigo, meu caro Enkidu,

diga-me a lei do mundo subterrâneo, você a conhece.

– Não, não te direi a lei que conheço.

Não te direi a lei para que não te sentes a chorar!

– Seja assim. Quero sentar-me e chorar!

Então, seguem-se as revelações que Gilgamesh mais teme:

Aqueles que quiseste, os que eram gratos a teu coração,

todos os que acariciaste,

estão agora roídos pelos vermes,

estão cobertos de pó.

Seus espíritos não têm descanso nos infernos.

Os detalhes deveriam ser muito atemorizadores para o espírito sumério da época e nos lembram passagens do “Inferno” da Divina Comédia de Dante.

Não há retorno real de Enkidu, que, vítima de sua fidelidade e por não ter respeitado a sabedoria dos conselhos de Gilgamesh, que representa o Saber e a Ciência, deverá ficar para sempre nos infernos.

Morte de Gilgamesh

O destino de Gilgamesh, decretado pelo pai dos deuses, Enlil, está cumprido:

Na Terra inferior, na casa das trevas, uma luz o iluminará,

Nenhum homem famoso uma lembrança como a dele deixará,

As gerações futuras não terão uma lembrança que se compare à dele.

[…] sem Gilgamesh não haverá luz.

Ó Gilgamesh, foi-te dada a realeza segundo o teu destino.

A vida eterna não era teu destino.

Humildes e poderosos da cidade choram a morte de seu herói e protetor. Esposa e filho, concubinas, músicos, bufos, todos os que comeram de sua mesa, servos, mordomos e os que viveram no seu palácio pesam as suas oferendas para Gilgamesh e para Ereshkigal, a Rainha da Morte e para os deuses dos mortos.

O destino falou. Qual um peixe preso no anzol,

Gilgamesh está deitado em seu leito,

Como gazela presa no laço

[… ]

Gilgamesh, filho de Ninsun, está em seu túmulo

No altar das oferendas ele pesou o pão,

No altar das libações ele verteu o vinho.

Nesses dias partiu Gilgamesh, filho de Ninsun

o rei, nosso senhor, sem igual entre os homens,

Aquele que não faltou a Enlil, seu deus.

Ó Gilgamesh, senhor de Kullab, grande é a tua glória!

Termina assim a Épica mais antiga da humanidade. Não só com a morte física do herói, mas com o seu fracasso na procura pela vida eterna.

Gilgamesh morre junto com os seus sonhos, mostrando assim que é humano. A partir dessa verificação, só lhe resta voltar à sua amada Uruk, para deixar a marca perene de sua existência.

Morta a esperança, Gilgamesh alenta nas suas façanhas, e por isso é que faz sua retrospectiva vital ao barqueiro Ur-shanabi, único a testemunhar sua luta impossível contra o destino efêmero dos humanos.

Por isso é que escreve na pedra o que viveu na vida:

Ó Gilgamesh, foi-te dada a realeza segundo o teu destino.

A vida eterna não era teu destino.

Quando os deuses criaram o homem

deram-lhe como atributo a Morte,

mas a Vida, a Vida Eterna, essa, só ficou para eles.

Este poderia ser o epitáfio na lápide de Gilgamesh, a gigantesca figura que, através dos séculos, marca a despedida definitiva da Humanidade da escuridão impenetrável da Pré-História, que ainda se entrevê nos detalhes do relato do sábio Utnapishtim do mundo antes do Dilúvio Sumério.

Gilgamesh não atinge a imortalidade fútil dos deuses sempiternos que, na sua imobilidade, mais semelham a morte do que a vida. Ele atinge a imortalidade dos arquétipos humanos na memória dos seus iguais, os homens. Obras materiais, como a muralha de Uruk, persistem após 47 séculos de história de uma das regiões mais conturbadas do mundo. Mas ele perdura pela sua constante procura da essência da eternidade, pela consciência insigne de seu conhecimento, pelo que gravou na pedra e impregnou na mente das gerações que o seguiram, cumprindo assim as proféticas linhas finais do poema.

Ele perdura porque a história de sua ciência, de sua força de vontade e de sua coragem nos foram transmitidas – talvez por ele mesmo – e porque elas encarnam o ideal humano de uma vida onde cada obstáculo dá origem a um novo esforço que o leva à contínua superação.

Como Modelo Literário, o Cantar teve as maiores conseqüências imagináveis. Conhecido de toda a antigüidade, ele foi imitado e inspirou obras-primas que conhecemos muito antes, como o Gênese do Velho Testamento hebraico e a Odisséia.

O Cantar, conhecido até poucos séculos depois de Cristo, perde-se com a decadência e desaparecimento da Babilônia. Ele é reencontrado nas escavações feitas por volta de 1860, por arqueólogos ingleses em Nippur e alemães em Uruk (atual Warka) e depois na própria Babilônia. Assistimos, aos poucos, ao renascimento de Gilgamesh… E, talvez, essa seja a chance que a história, reencarnando a “planta do rejuvenescimento” de Utnapishtim, dá a Gilgamesh: viver sua segunda vida na memória e na imaginação do homem moderno.

Ele conquistou a imortalidade da espécie, devido à terça parte humana de sua constituição, a mesma que, paradoxalmente, lhe impediu de atingir o eterno absoluto dos deuses.

Mas, não é isso mesmo o que o poeta lhe promete no início do Cantar?

Mas, eterno é o poeta ou a personagem?

Poeta e personagem identificam-se e, enquanto nos contemplam, com a perspectiva de 47 séculos e a condescendência que dá a longa intimidade com o transcurso milenar do tempo, cada um eterniza-se no outro e na mente e na imaginação dos demais homens.

Por S Caticha Ellis, originalmente no site Kplus.

#Mitologia

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A Igualdade é Flicts

“Em uma autocracia, uma pessoa manda nas coisas; em uma oligarquia, algumas pessoas mandam nas coisas; em uma democracia, ninguém manda em nada”. – Celia Green

Se é possível descobrir matemática avançada a partir de uma brincadeira de Sérgio Mallandro, indo de probabilidades condicionadas à teoria de jogos, adentrando mesmo em questões filosóficas sobre o Apocalipse, um dos mais populares programas da TV brasileira não poderia ficar atrás.

Nesta coluna veremos como o Big Brother Brasil pode ajudar a demonstrar um teorema pouco conhecido, provado matematicamente há algumas décadas. De forma singela, o teorema demonstra que a democracia é a rigor impossível.

Você nunca mais verá televisão da mesma forma. Incluindo o horário eleitoral.

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Preferências circulares
Comecemos pensando pequeno. Imagine uma versão do reality show em que o vencedor é decidido apenas por três diretores do programa – alguns talvez pensem que todos os programas sejam assim, mas qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. Perto do final, sobram apenas três participantes, que podemos chamar de A(lemão), B(ambam) e C(ida).

Os três diretores votam em um papel para escolher o vencedor, dispondo os participantes por ordem de preferência. Muito bem. Ao final, descobrem que têm um grande problema. Os votos são:

Diretor 1: A > B > C
Diretor 2: B > C > A
Diretor 3: C > A > B

Nenhum dos participantes conseguiu ser o preferido de dois diretores. Pior: se você analisar o quanto cada participante é preferido em relação a outro, descobrirá que todos permanecem empatados. A situação de cada um dos três candidatos é exatamente a mesma, e este paradoxo inconveniente para sistemas de votação foi notado inicialmente pelo Marquês de Condorcet, ainda no século 18. Ainda não existia BBB naquela época.

Pode parecer improvável que essa simetria exata de preferências ocorra. Mais adiante veremos isto em mais detalhe, mas antes vale notar algo curioso aqui.

Caso um dos participantes abandone a disputa, ocorre algo inusitado. Ao invés de os dois participantes restantes continuarem empatados, como presumiríamos a princípio, como pareceria “justo”, o que ocorre é que um deles passará a ser o ganhador!

Veja o que ocorre se Bambam abandonar a disputa. Com as preferências dos três diretores inalteradas, teremos agora:

Diretor 1: A > B > C = A > C
Diretor 2: B > C > A = C > A
Diretor 3: C > A > B = C > A

Epa! Cida é claramente a ganhadora, com dois votos. Por outro lado, se Alemão abandonar a disputa, quem será o ganhador?

Diretor 1: A > B > C = B > C
Diretor 2: B > C > A = B > C
Diretor 3: C > A > B = C > B

Bambam, e não Cida, vence mais um BBB! Em nossa situação, puramente hipotética é preciso repetir, Bambam não precisou fazer nada para ganhar. E, o mais importante, a ordem de preferência dos diretores também não mudou. A simetria dos votos foi quebrada, não por um dos participantes conquistar uma maior simpatia, e sim pela mera saída de um concorrente na votação. Como na Corrida Maluca, às vezes a forma mais fácil de ganhar pode ser eliminar o concorrente certo. A menos, claro, que você seja o Dick Vigarista.

Se isso pareceu injusto, é apenas o começo. Possibilidades bizarras rondam os sistemas de votação.

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“Meu nome é Enéas”
Candidatos políticos não são, ou não deveriam ser, defensores de uma única bandeira. Se fossem, contudo, ao menos evitariam o surgimento de ainda mais paradoxos eleitorais. Porque escolher um candidato com base nas diversas posições que defenda pode levar novamente a situações desconfortáveis.

Considere que haja duas questões vitais em uma eleição na sua cidade. A primeira delas é se, para equilibrar a contas, o futuro prefeito permitirá a construção de uma Penitenciária federal ou se, ao invés, irá cortar os investimentos em Saúde. A outra questão essencial para o futuro de seus concidadãos é se o prefeito deve usar Jeans ou Terno durante o exercício de seu mandato.

Um candidato que defenda a construção da Penitenciária e o uso de Jeans bradará a bandeira PJ, e assim por diante. Há apenas quatro combinações possíveis nessas duas questões: PJ, PT, SJ e ST. Ah sim, considere também que a sua cidade tem apenas três eleitores.

Uma pesquisa de opinião descobriu que os eleitores têm as seguintes ordens de preferência:

Eleitor 1: SJ > ST > PJ > PT
Eleitor 2: ST > PT > SJ > PJ
Eleitor 3: PJ > PT > SJ > ST

Quem seria o futuro prefeito? Está claro que cada um dos três eleitores tem uma primeira preferência diferente. Mas olhando para a segunda preferência, um candidato que apóie as posições PT* parece promissor. No entanto, para dois eleitores (1 e 2), ST parece melhor PT, e bastaria defender essas posições para ganhar de um candidato que apóie PT. Ao mesmo tempo, para dois eleitores, a posição SJ é melhor que a ST. E assim por diante.

Há, como vimos no BBB hipotético antes, uma simetria, e nenhuma posição ganha de todas as outras por maioria. Além desse “empate técnico”, contudo, algo mais sinistro acontece aqui.

Para dois eleitores (1 e 2) o corte de gastos em Saúde é preferível à Penitenciária, sendo parte da primeira escolha. E também para a maioria dos eleitores (1 e 3), o Jeans é mais apropriado que o Terno. Se houvesse votos separados em cada uma dessas questões, Saúde e Jeans seriam as escolhas vencedoras, claramente. Seria assim natural esperar que o candidato que apoiar as posições S e J deva ganhar, certo?

Errado. Podemos ver que a posição SJ combinada perde para a posição PT para dois dos eleitores (2 e 3). De fato, se houvesse apenas dois candidatos, um defendendo as posições preferidas, isoladamente, pela maioria – SJ – e outro aquelas da minoria, PT, ganharia o candidato da minoria. Com voto majoritário. Mais um adorável paradoxo eleitoral.

Grosso modo, fenômenos semelhantes ocorrem em eleições bem reais. Confiando cada vez mais em pesquisas de opinião, e moldando suas posições de acordo com elas, políticos acabam freqüentemente fazendo de tudo para agradar grupos minoritários, no que pode parecer irracional frente à desaprovação da maior parte dos outros eleitores.

Mas ainda que a maior parte das pessoas discorde de uma posição política, essa preferência pode estar distribuída de forma heterogênea, fazendo com que candidatos consigam mais votos defendendo idéias impopulares, e no entanto agradáveis a pequenos grupos que lhes garantirão mais votos no saldo final.

A democracia já não deve estar parecendo tão justa assim. Mas o golpe de misericórdia seria dado em pleno século 20.

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O Teorema de Arrow
Em um trabalho com o inocente título de “Uma dificuldade no Conceito de Bem-Estar Social“, publicado em 1950, o economista Kenneth Arrow apresentava um teorema que provaria com rigor em sua tese de doutorado no ano seguinte. De fato, uma pequena “dificuldade no conceito de bem-estar social”, o teorema demonstra que nenhum sistema de votação minimamente razoável irá refletir sempre, de forma acurada e consistente, a preferência de seus eleitores.

A forma como Arrow provou seu teorema matemático de profundas implicações sociais é interessante especialmente em seu raciocínio final. Ele primeiro definiu formalmente que a escolha individual deve atender a dois requisitos: a comparabilidade (entre dois elementos, prefere-se um a outro), e a transitividade (se você prefere x > y, e y > z, então prefere x > z).

Ele então definiu claramente o que seria um “sistema de votação minimamente razoável”. Deveria atender às seguintes características:

– Liberdade de escolha individual:
Todo eleitor pode ter qualquer ordem de preferências que desejar, sem nenhuma limitação;

– Independência de alternativas irrelevantes:
Se você prefere cachorros a gatos, a criação de um macaco com quatro bundas pelo milagre da engenharia genética não deve influenciar seu amor por cachorros ao invés de gatos;

– Eficiência Pareto:
Em nome de um economista italiano que ponderou sobre essas questões sociais algumas décadas antes, diz que se todos eleitores têm uma preferência de cachorros a gatos, então a preferência social, o resultado das eleições, também deve refletir essa preferência;

– Abaixo a ditadura:
O resultado da função social deve refletir as preferências de todos os eleitores. Não pode ser apenas fruto das decisões de um único eleitor, que seria o Grande Ditador.

O economista simplesmente analisou todos os sistemas eleitorais conhecidos e mostrou que sempre levam a contradições. “Não existe método de combinar preferências individuais para produzir uma escolha coletiva que atenda a todas estas condições”, escreveu. Em particular, Arrow mostrou que as condições minimamente razoáveis só são atendidas se houver um eleitor decisivo, em outras palavras, o único sistema eleitoral livre de paradoxos seria a ditadura.

O teorema é assustador devido à sua generalidade. Poderíamos pensar que frente a paradoxos eleitorais como os abordados mais acima, bastaria tomar medidas corretivas especiais, ou que deva existir alguma forma de votação perfeita. Porém, o teorema de Arrow demonstra que o problema é mais fundamental**.

Ainda mais preocupante é que paradoxos eleitorais como o de Condorcet, abordado no BBB hipotético acima, não são tão raros assim. No caso com apenas três diretores e três concorrentes, o paradoxo surge quando a primeira, segunda e terceira escolha de cada eleitor discorda de todos os outros. As chances disto ocorrer são 12/216, ou 5,6%. Pequena, é verdade.

Aumente o número de concorrentes à escolha, contudo, e as chances de que um paradoxo eleitoral surja aumentam rapidamente. Com sete concorrentes e ainda três diretores, a chance de um paradoxo se aproxima já dos 24%. Com sete concorrentes e um número de milhões de eleitores, as chances de um paradoxo surgir aumentam e aproximam-se do limite matemático de 37%. Aumente o número de concorrentes e de eleitores, e as chances de um paradoxo eleitoral podem chegar rapidamente a 100%.

Kenneth Arrow recebeu o prêmio Nobel de economia em 1972 por seu teorema sobre essa “pequena dificuldade”, expandindo toda uma nova área do estudo econômico, a Teoria da Escolha Social.

– –

“E agora, quem poderá nos defender?”
Devemos buscar o Grande Irmão ditador que nos livre da mentira matematicamente comprovada da democracia, através da Verdade Única do IngSoc? Bem, não tão rápido.

Os pressupostos “minimamente razoáveis” do teorema de Arrow para sistemas de votação são sim razoáveis, mas como muitas questões matemáticas, sua aplicação na vida real não é tão simples. Pode-se, por exemplo, apontar que a escolha individual pode não ser necessariamente transitiva. Você pode preferir um cachorro a um gato, e um gato a um macaco com quatro bundas, mas talvez prefira um macaco de quatro bundas a um cachorro. A escolha é toda sua, e muitos concordariam que sua liberdade de escolha deve preceder o que nós julgaríamos como coerente.

Mais relevante, a criação de um macaco de quatro bundas pode afetar a preferência de muitas pessoas entre gatos e cachorros. Talvez este novo animal de estimação dê uma perspectiva toda nova sobre o que há para se gostar em um canino ou felino. A independência de alternativas irrelevantes, desta maneira, também não parece um critério tão rigorosamente aplicável.

E como prova matemática, o teorema de Arrow deixa de ser válido se seus pressupostos são relaxados ou deixam de valer também. Sem o veredito tumular do teorema de Arrow, descobrimos que há sim sistemas de votação que atendem bem a parte dos critérios razoáveis. Não se deve jogar fora a banheira junto com o bebê (ou alguma coisa assim), se a perfeição não é possível, ao menos aproximá-la é um objetivo plausível.

Os sistemas eleitorais a que estamos acostumados, infelizmente, estão muito distantes da perfeição – vulneráveis a todo tipo de situações incoerentes e manipulação. Votar em um único candidato entre uma série de alternativas, por exemplo, extrai o mínimo de informação possível de cada eleitor. É extremamente comum que se vote contra um candidato e não a favor de outro, principalmente quando nos são oferecidas apenas duas escolhas em um segundo turno, no qual o voto majoritário pode paradoxalmente não refletir as vontades da maioria.

Um sistema eleitoral que reflita melhor as preferências dos eleitores poderia levar em conta todas as suas opções, não?

– –

Kiribati Já!
Há um sistema de votação centrado justamente neste aspecto. É a chamada contagem de Borda, utilizada para escolha de candidatos presidenciais em Kiribati, uma ilha do Pacífico, e para eleição de membros do Parlamento de Nauru.

Proposta pelo matemático francês Jean-Charles Borda em 1780, é claramente superior ao sistema “um homem-um voto”, e foi adotado pela Academia de Ciências Francesa até 1800, quando foi proibido por Napoleão, um Grande… Imperador.

Na contagem de Borda, cada eleitor deve ordenar os candidatos por ordem de preferência, e aqui está o detalhe simples, cada candidato ganha pontos de acordo com sua posição em tal ordem. A primeira escolha pode valer 3 pontos, a segunda 2, a terceira apenas um ponto. O candidato com mais pontos é o vencedor. Simples assim.

Como a contagem de Borda se sairia no BBB acima? Vejamos, cada concorrente aparece uma vez em primeiro, segundo e terceiro lugar, computando seis pontos. Ainda há o empate, mas o que ocorre quando um dos concorrentes sai da disputa? Se você computar os pontos de acordo com a preferência original, os dois candidatos restantes continuam com os mesmos pontos. Preservando a “memória” da ordem de preferências, a saída de um concorrente não cria vencedores a partir de um empate. Menos mal.

E quanto à Saúde, Penitenciária, Jeans ou Terno? Computando pontos de acordo com a Contagem de Borda, temos:

PJ: 7
PT: 7
SJ: 8
ST: 8

Ainda há um empate entre duas alternativas, mas aqui a preferência da maioria em questões isoladas (S e J) claramente vence as da minoria (P e T). Bem menos mal.

Ao dar grande relevância a todas as preferências e cada eleitor, a contagem de Borda favorece a eleição de um candidato de consenso, apoiado de uma forma ou de outra pela maior parte dos eleitores, e que pode não ser necessariamente o candidato majoritário. Um candidato que seja a primeira escolha da maioria, mas muito rejeitado pelo resto, pode perder para um que seja a primeira e segunda escolha de quase todos. Vence o consenso ao invés da “tirania da maioria”.

Apesar de superior ao “um homem-um voto”, a contagem de Borda ainda é vulnerável à manipulação, a paradoxos, e o favorecimento do consenso ao invés da maioria pode desagradar a muitos, quem sabe mesmo à maioria. Não é, assim, “perfeita”. Outras alternativas em sistemas eleitorais incluem o método de Condorcet, que procura evitar justamente que surjam empates a partir de preferências circulares que o Marquês identificou há mais de dois séculos. Mas nenhuma delas será “perfeita”.

Todos sistemas eleitorais possuem seus pontos fortes e fracos, e rigorosamente, como provado por Arrow, nenhum deles será perfeitamente justo. Como ficou matematicamente claro nos anos seguintes à sua demonstração, sistemas eleitorais não só não refletem automaticamente o desejo dos eleitores, como são efetivamente jogos, sujeitos a estratégias ótimas e regidos assim pela teoria de jogos (PDF) desenvolvida por matemáticos contemporâneos de Arrow, como uma certa “mente brilhante”, John Nash.

Ter conhecimento da Terrível Verdade sobre a Democracia não deve ser nada agradável. Porém, estas questões fundamentais, encontradas não apenas na aplicação prática de sistemas eleitorais, como justamente em sua formulação matemática elementar, só ressaltam as palavras de um sujeito contemporâneo de Borda, e que nasceu no mesmo ano que o Marquês de Condorcet.

Já dizia ele que o preço da liberdade é a eterna vigilância. Não se sinta livre por simplesmente votar, e se o voto direto a que temos direito é claramente uma grande conquista, não é de forma alguma o ponto final de nosso desejo de liberdade e igualdade. Ainda há muito a conquistar.

E você pode bradar com toda a segurança que isso é provado matematicamente, tão certo quanto 1+1 é igual a 2.

– – –
* Que a sigla usada no exemplo seja PT é mera coincidência. Esta coluna é largamente baseada na apresentação do teorema de Arrow no livro “Impossibility“, de John Barrow, onde a posição PT significa “Private health care” e “lower Taxes”.

** Essa coluna nem ao menos tenta apresentar uma prova formal do teorema de Arrow, mas você não só pode como deve estudar as diversas provas do teorema (PDF) oferecidas abertamente pela rede caso tenha se interessado pelo assunto.

por Kentaro Mori

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-igualdade-e-flicts/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-igualdade-e-flicts/

A Alquimia Como Exemplo (Despertar dos Mágicos)

Excerto de o Despertar dos Mágicos de Louis Pauwels e Jacques Bergier

Foi em Março de 1953 que encontrei pela primeira vez um alquimista. Isso passou-se no café Procope, que teve, na época, um curto período de vida. Foi um grande poeta que, na altura em que eu escrevia o meu livro sobre Gurdjieff, me preparou esse encontro e, depois disso, eu muitas vezes havia de tornar a ver esse homem singular, sem no entanto desvendar os seus segredos.

Eu tinha, a respeito da alquimia e dos alquimistas, ideias primárias, extraídas da imaginação popular, e estava longe de supor que ainda havia alquimistas. O homem que estava sentado na minha frente, na mesa de Voltaire, era jovem e elegante. Fizera profundos estudos clássicos, seguidos de estudos de química. Actualmente ganhava a vida no comércio e dava-se com muitos artistas, assim como com algumas pessoas da alta sociedade.

Não tenho diário, mas acontece-me, em determinadas ocasiões importantes, anotar as minhas impressões ou os meus sentimentos. Nessa noite, ao regressar a casa, escrevi:

“Que idade terá ele? Diz ter trinta e cinco. Isso espanta-me. A cabeleira branca, ondulada, cortada sobre o crânio como uma peruca. Inúmeras e profundas rugas numa carne rosada, num rosto cheio. Poucos gestos, e lentos, medidos, astutos. Um sorriso calmo e subtil. Olhos risonhos, mas que riem com indiferença. Tudo exprime outra idade. Nas suas frases nem a menor fenda, pausa, ou quebra de presença de espírito. Há qualquer coisa de esfinge atrás daquele rosto amável fora do tempo. Incompreensível. E não sou só eu a sentir isto. A.B., que o vê quase todos os dias há várias semanas, diz-me que jamais, nem por um segundo, o apanhou em falta de “objectividade superior”.

“O que o faz condenar Gurdjieff:

“1.o – Quem sente a necessidade de ensinar não vive inteiramente a sua doutrina e não atingiu o ponto culminante da
iniciação.

“2.a – Na escola de Gurdjieff não existe intercessão material entre o aluno a quem se persuadiu da sua inutilidade e a energia que ele deve possuir para passar ao ser real. Essa energia – “essa vontade da vontade”, diz Gurdjieff – deve o aluno encontrá-la em si próprio, apenas em si próprio. Ora tal caminhada é parcialmente falsa e só pode conduzir ao desespero. Essa energia existe fora do homem, e é preciso captá-la. O católico engole a hóstia: captação ritual dessa energia. Mas se não tiverdes fé? Se não tendes fé, arranjai uma fogueira: é o princípio de toda a alquimia. Uma autêntica fogueira. Uma fogueira material. Tudo começa, tudo acontece pelo contacto com a matéria.

“3.o – Gurdjieff não vivia só, mas sempre rodeado, sempre em falanstério. “Há um caminho na solidão, há regatos no
deserto”. Não há caminho nem regatos no homem misturado com os outros.

Faço perguntas a respeito da alquimia que devem parecer-lhe de uma assustadora estupidez. Sem o deixar transparecer
responde:

“Nada além da matéria, apenas o contacto com a matéria, o trabalho sobre a matéria, o trabalho com as mãos. Insiste
muito neste ponto.

“- Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.

“- Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.

“Trabalho de mulher e brincadeira de criança.

“Não é possível ensinar alquimia. Todas as grandes obras literárias que resistiram aos séculos têm qualquer coisa desse ensinamento. São a obra de homens adultos – verdadeiramente adultos – que falaram para as crianças, mas respeitando as leis do conhecimento adulto. Jamais se apanha uma grande obra em falta a respeito dos “princípios” . Mas o conhecimento desses princípios e o caminho que leva a esse conhecimento devem manter-se secretos. No entanto, há um dever de auxilio mútuo para os investigadores do primeiro grau.

“Cerca da meia-noite interrogo-o sobre Fulcanelli[1], e dá-me a entender que Fulcanelli não morreu:

“- Pode viver-se, diz-me, infinitamente mais tempo do que o homem não esclarecido o supõe. E pode mudar-se totalmente de aspecto. Eu sei-o. Os meus olhos sabem-no. mas trata-se de outro estado da matéria, diferente daquele que conhecemos. Esse estado permite, como todos os outros estados, mensurações. Os processos de trabalho e de mensuração são simples e não exigem aparelhos complicados: trabalho de mulher e brincadeira de criança…

Acrescenta:

“- Paciência, esperança, trabalho. E, seja qual for o trabalho, nunca se trabalha o bastante.

“Esperança: em alquimia, a esperança baseia-se na certeza de que há um objectivo. Não teria começado, disse ele, se não me tivessem provado claramente que esse objectivo existe e que é possível atingi-lo nesta vida.”

*

Tal foi o meu primeiro contacto com a alquimia. Se a tivesse abordado por meio da magia, creio que as minhas investigações não teriam ido longe: falta de tempo, falta de gosto pela erudição literária. Falta de vocação também: essa vocação que se apossa do alquimista, quando ele ainda se ignora como tal, no momento em que abre, pela primeira vez, um velho tratado. A minha vocação não é a de executar, mas a de compreender. Não é realizar, mas ver. Creio, como diz o meu velho amigo André Billy, que “compreender é tão belo como cantar,” mesmo se a compreensão for apenas fugitiva 1. Sou um homem apressado, como a maior parte dos meus contemporâneos. Tive o contacto mais moderno possível com a alquimia: uma conversa num botequim de Saint-Germain-des-Prés. Em seguida, quando pretendia dar um sentido mais completo ao que me dissera aquele jovem, encontrei Jacques Bergier, que não saía coberto de pó de um sótão cheio de velhos livros, mas de locais onde a vida do século se concentrou: laboratórios e escritórios de informações. Também Bergier procurava qualquer coisa no caminho da alquimia. Não era para fazer uma peregrinação ao passado. Esse homem extraordinário, completamente ocupado com os segredos da energia atómica, tomara aquele caminho para abreviar. Eu voava, agarrado às abas do seu casaco, por entre os textos veneráveis, concebidos por gente sensata apaixonada

No seu cárcere de Reading, Óscar Wilde descobre que a falta de atenção do espírito é o crime fundamental, que a atenção extrema desvenda o acordo perfeito entre todos os acontecimentos de uma vida, e também, possivelmente, num plano mais vasto, o acordo perfeito entre todos os elementos e todos os movimentos da Criação, a harmonia de todas as coisas. E exclama: “Tudo o que é compreendido está certo”. É a mais bela frase que conheço.

Pela lentidão, inebriada de paciência – eu voava a uma velocidade supersónica. Bergier gozava da confiança de alguns dos homens que, ainda hoje, se dedicam à alquimia, bem como da estima dos sábios modernos. Junto dele, em breve adquiri a certeza de que existem íntimos pontos de contacto entre a alquimia tradicional e a ciência de vanguarda. Vi a ciência lançar uma ponte entre dois mundos. Meti-me por essa ponte e verifiquei que ela se aguentava. Senti uma grande felicidade, uma calma profunda. Há muito refugiado no pensamento antiprogressista hinduísta, gurdjáeffiano, vendo o mundo de hoje como um princípio de Apocalipse, não esperando mais (e com grande desespero) do que um horroroso final dos tempos e não muito seguro no orgulho de estar à parte, eis que me era dado ver o velho passado e o futuro darem-se as mãos. A metafísica da alquimia, várias vezes milenária, escondia uma técnica finalmente compreensível, ou quase, no século xx. As pavorosas técnicas de hoje abriam-se sobre uma metafísica quase semelhante à dos tempos antigos. Que falsa poesia havia no meu refúgio! A imortal alma dos homens luzia com a mesma chama de cada lado da ponte.

Acabei por acreditar que os homens, num passado muito longínquo, tinham descoberto os segredos da energia e da matéria. Não apenas por meio de meditação, mas também de manipulação. Não apenas espiritualmente, mas tecnicamente. O espírito moderno, servindo-se de vias diferentes, pelos caminhos durante muito tempo desagradáveis, a meus olhos, da razão pura, da falta de religião, com processos diferentes e que durante muito tempo me tinham parecido maus, preparava-se por sua vez para descobrir os mesmos segredos. Interrogava-se a esse respeito, entusiasmava-se e inquietava-se simultaneamente. Tropeçava no essencial, exactamente como o espírito de elevada tradição.

Vi então que a oposição entre a “prudência” milenária e a “loucura” contemporânea era uma invenção da inteligência demasiado fraca e demasiado lenta, um produto de compensação para o intelectual incapaz de tanta velocidade quanta a sua época exige.

Há várias maneiras de aceder ao conhecimento essencial. E o nosso tempo tem algumas. As antigas civilizações tiveram as delas. Não falo apenas de conhecimento teórico.

Vi finalmente que, sendo as técnicas actuais mais poderosas, aparentemente, do que as técnicas de outrora, esse conhecimento essencial, que os alquimistas provavelmente já possuíam (e outros sábios antes deles), chegaria até nós com maior força ainda, maior peso, maiores perigos e maior número de exigências. Atingimos o mesmo ponto que os Antigos, mas a uma altura diferente. Em lugar de condenar o espírito moderno em nome da sensatez iniciática dos Antigos, ou em lugar de negar essa sensatez declarando que o conhecimento real começa com a nossa própria civilização, seria conveniente admirar e venerar o poder do espírito que, sob diferentes aspectos, torna a passar pelo mesmo ponto de luz, elevando-se em espiral. Em vez de condenar, repudiar, escolher, seria conveniente amar. O amor é tudo: a um tempo repouso e movimento.

*

Vamos submeter à vossa apreciação os resultados das nossas investigações sobre alquimia. Trata-se apenas, evidentemente, de esboços. Ser-nos-iam necessários dez ou vinte anos, e talvez faculdades que não possuímos, para dar ao assunto uma contribuição realmente positiva. No entanto, aquilo que fizemos, e a maneira como o fizemos, torna o nosso trabalho muito diferente das obras até aqui consagradas à alquimia. Encontrareis poucos esclarecimentos sobre a história e a filosofia desta ciência tradicional, mas algumas explicações sobre as inesperadas relações entre os sonhos dos velhos “filósofos químicos” e as realidades da física actual. É preferível revelarmos imediatamente as ideias que nos guiaram.

A alquimia, segundo a nossa opinião, poderia ser um dos mais importantes resíduos de uma ciência, de uma técnica e de uma filosofia pertencentes a uma civilização desaparecida. Aquilo que descobrimos na alquimia, à luz do saber contemporâneo, não é de molde a fazer-nos acreditar que uma técnica tão subtil, complicada e precisa possa ter sido o resultado de uma “revelação divina” caída do céu. Não quer dizer que desprezemos toda a ideia de revelação. Mas, ao estudarmos os santos e os grandes místicos, jamais podemos chegar à conclusão de que Deus fala aos homens em linguagem técnica: “Coloca o teu crisol sob a luz polarizada, ó meu Filho! Lava as escórias com água ultradestilada!”

Também não acreditamos que a técnica alquimista se possa ter desenvolvido por meio de tentativas, pequenos passatempos de ignorantes, fantasias de maníacos do crisol, até atingir aquilo a que temos de chamar a desintegração atómica. Antes nos sentiríamos dispostos a acreditar que existem na alquimia restos de uma ciência desaparecida, difíceis de compreender e de utilizar, por faltar o contexto. A partir desses restos há inevitavelmente tentativas, mas em direcção determinada. Há também uma superabundância de interpretações técnicas, morais e religiosas. E há por fim, para os detentores desses restos, a imperiosa necessidade de guardar segredo.

Somos levados a crer que a nossa civilização, ao atingir uma sabedoria que talvez tenha pertencido a uma civilização anterior, em condições diferentes, noutro estado de espírito, talvez tivesse o maior interesse em interrogar com seriedade a antiguidade para tornar mais rápida a sua própria progressão.

Finalmente pensamos o seguinte: o alquimista no fim do seu “trabalho” sobre a matéria assiste, segundo a lenda, a uma espécie de transformação na sua própria pessoa. Aquilo que se passa no seu crisol passa-se igualmente na sua consciência ou na sua alma. Há uma mudança de estado. Todos os textos tradicionais insistem nesse ponto, evocam o momento em que a “Grande Obra” se realiza e em que o alquimista se transforma num “homem desperto”. Parece-nos que esses velhos textos descrevem deste modo o termo de todo o conhecimento real das leis da matéria e da energia, incluindo o conhecimento técnico. É para a possessão de tal conhecimento que se precipita a nossa civilização. Não nos parece absurdo supor que os homens serão chamados, num futuro relativamente próximo, a “mudar de estado”, como o alquimista lendário, a sofrer qualquer transformação. A menos que a nossa civilização desapareça por inteiro um momento antes de ter atingido o fim, como é possível que tenham desaparecido outras civilizações. Também se podia dar o caso de que, no nosso último segundo de lucidez, não desesperássemos, pensando que se a aventura do espírito se repete, é sempre, de cada vez, num grau mais alto da espiral. Remeteríamos a outros milenários o cuidado de conduzir essa aventura até ao ponto final, até ao centro imóvel, e afundar-nos-íamos com esperança.

1 O autor de Le Mystère des Cathèdrales e de Les Demeures philosophales.

Um alquimista no café Procope, em 1953. – Conversa a propósito de Gurdjieff – Um homem que pretende saber que a pedra filosofal é uma realidade. – Bergáer arrasta-me a toda a velocidade para um estranho atalho. Aquilo que vejo liberta-me do imbecil desprezo pelo progresso. – O nosso pensamento secreto a respeito da alquimia: nem revelação,
nem tentativa. – Rápida meditação sobre a espiral e a esperança.

Foi em Março de 1953 que encontrei pela primeira vez um alquimista. Isso passou-se no café Procope, que teve, na época, um curto período de vida. Foi um grande poeta que, na altura em que eu escrevia o meu livro sobre Gurdjieff, me preparou esse encontro e, depois disso, eu muitas vezes havia de tornar a ver esse homem singular, sem no entanto desvendar os seus segredos.

Eu tinha, a respeito da alquimia e dos alquimistas, ideias primárias, extraídas da imaginação popular, e estava longe de supor que ainda havia alquimistas. O homem que estava sentado na minha frente, na mesa de Voltaire, era jovem e elegante. Fizera profundos estudos clássicos, seguidos de estudos de química. Actualmente ganhava a vida no comércio e dava-se com muitos artistas, assim como com algumas pessoas da alta sociedade.

Não tenho diário, mas acontece-me, em determinadas ocasiões importantes, anotar as minhas impressões ou os meus sentimentos. Nessa noite, ao regressar a casa, escrevi:

“Que idade terá ele? Diz ter trinta e cinco. Isso espanta-me. A cabeleira branca, ondulada, cortada sobre o crânio como uma peruca. Inúmeras e profundas rugas numa carne rosada, num rosto cheio. Poucos gestos, e lentos, medidos, astutos. Um sorriso calmo e subtil. Olhos risonhos, mas que riem com indiferença. Tudo exprime outra idade. Nas suas frases nem a menor fenda, pausa, ou quebra de presença de espírito. Há qualquer coisa de esfinge atrás daquele rosto amável fora do tempo. Incompreensível. E não sou só eu a sentir isto. A.B., que o vê quase todos os dias há várias semanas, diz-me que jamais, nem por um segundo, o apanhou em falta de “objectividade superior”.

“O que o faz condenar Gurdjieff:

“1.o – Quem sente a necessidade de ensinar não vive inteiramente a sua doutrina e não atingiu o ponto culminante da
iniciação.

“2.a – Na escola de Gurdjieff não existe intercessão material entre o aluno a quem se persuadiu da sua inutilidade e a energia que ele deve possuir para passar ao ser real. Essa energia – “essa vontade da vontade”, diz Gurdjieff – deve o aluno encontrá-la em si próprio, apenas em si próprio. Ora tal caminhada é parcialmente falsa e só pode conduzir ao desespero. Essa energia existe fora do homem, e é preciso captá-la. O católico engole a hóstia: captação ritual dessa energia. Mas se não tiverdes fé? Se não tendes fé, arranjai uma fogueira: é o princípio de toda a alquimia. Uma autêntica fogueira. Uma fogueira material. Tudo começa, tudo acontece pelo contacto com a matéria.

“3.o – Gurdjieff não vivia só, mas sempre rodeado, sempre em falanstério. “Há um caminho na solidão, há regatos no
deserto”. Não há caminho nem regatos no homem misturado com os outros.

Faço perguntas a respeito da alquimia que devem parecer-lhe de uma assustadora estupidez. Sem o deixar transparecer
responde:

“Nada além da matéria, apenas o contacto com a matéria, o trabalho sobre a matéria, o trabalho com as mãos. Insiste
muito neste ponto.

“- Gosta de jardinagem? Eis um belo começo, a alquimia é parecida com a jardinagem.

“- Gosta de pesca? A alquimia tem qualquer coisa de comum com a pesca.

“Trabalho de mulher e brincadeira de criança.

“Não é possível ensinar alquimia. Todas as grandes obras literárias que resistiram aos séculos têm qualquer coisa desse ensinamento. São a obra de homens adultos – verdadeiramente adultos – que falaram para as crianças, mas respeitando as leis do conhecimento adulto. Jamais se apanha uma grande obra em falta a respeito dos “princípios” . Mas o conhecimento desses princípios e o caminho que leva a esse conhecimento devem manter-se secretos. No entanto, há um dever de auxilio mútuo para os investigadores do primeiro grau.

“Cerca da meia-noite interrogo-o sobre Fulcanelli[1], e dá-me a entender que Fulcanelli não morreu:

“- Pode viver-se, diz-me, infinitamente mais tempo do que o homem não esclarecido o supõe. E pode mudar-se totalmente de aspecto. Eu sei-o. Os meus olhos sabem-no. mas trata-se de outro estado da matéria, diferente daquele que conhecemos. Esse estado permite, como todos os outros estados, mensurações. Os processos de trabalho e de mensuração são simples e não exigem aparelhos complicados: trabalho de mulher e brincadeira de criança…

Acrescenta:

“- Paciência, esperança, trabalho. E, seja qual for o trabalho, nunca se trabalha o bastante.

“Esperança: em alquimia, a esperança baseia-se na certeza de que há um objectivo. Não teria começado, disse ele, se não me tivessem provado claramente que esse objectivo existe e que é possível atingi-lo nesta vida.”

*

Tal foi o meu primeiro contacto com a alquimia. Se a tivesse abordado por meio da magia, creio que as minhas investigações não teriam ido longe: falta de tempo, falta de gosto pela erudição literária. Falta de vocação também: essa vocação que se apossa do alquimista, quando ele ainda se ignora como tal, no momento em que abre, pela primeira vez, um velho tratado. A minha vocação não é a de executar, mas a de compreender. Não é realizar, mas ver. Creio, como diz o meu velho amigo André Billy, que “compreender é tão belo como cantar,” mesmo se a compreensão for apenas fugitiva 1. Sou um homem apressado, como a maior parte dos meus contemporâneos. Tive o contacto mais moderno possível com a alquimia: uma conversa num botequim de Saint-Germain-des-Prés. Em seguida, quando pretendia dar um sentido mais completo ao que me dissera aquele jovem, encontrei Jacques Bergier, que não saía coberto de pó de um sótão cheio de velhos livros, mas de locais onde a vida do século se concentrou: laboratórios e escritórios de informações. Também Bergier procurava qualquer coisa no caminho da alquimia. Não era para fazer uma peregrinação ao passado. Esse homem extraordinário, completamente ocupado com os segredos da energia atómica, tomara aquele caminho para abreviar. Eu voava, agarrado às abas do seu casaco, por entre os textos veneráveis, concebidos por gente sensata apaixonada

No seu cárcere de Reading, Óscar Wilde descobre que a falta de atenção do espírito é o crime fundamental, que a atenção extrema desvenda o acordo perfeito entre todos os acontecimentos de uma vida, e também, possivelmente, num plano mais vasto, o acordo perfeito entre todos os elementos e todos os movimentos da Criação, a harmonia de todas as coisas. E exclama: “Tudo o que é compreendido está certo”. É a mais bela frase que conheço.

Pela lentidão, inebriada de paciência – eu voava a uma velocidade supersónica. Bergier gozava da confiança de alguns dos homens que, ainda hoje, se dedicam à alquimia, bem como da estima dos sábios modernos. Junto dele, em breve adquiri a certeza de que existem íntimos pontos de contacto entre a alquimia tradicional e a ciência de vanguarda. Vi a ciência lançar uma ponte entre dois mundos. Meti-me por essa ponte e verifiquei que ela se aguentava. Senti uma grande felicidade, uma calma profunda. Há muito refugiado no pensamento antiprogressista hinduísta, gurdjáeffiano, vendo o mundo de hoje como um princípio de Apocalipse, não esperando mais (e com grande desespero) do que um horroroso final dos tempos e não muito seguro no orgulho de estar à parte, eis que me era dado ver o velho passado e o futuro darem-se as mãos. A metafísica da alquimia, várias vezes milenária, escondia uma técnica finalmente compreensível, ou quase, no século xx. As pavorosas técnicas de hoje abriam-se sobre uma metafísica quase semelhante à dos tempos antigos. Que falsa poesia havia no meu refúgio! A imortal alma dos homens luzia com a mesma chama de cada lado da ponte.

Acabei por acreditar que os homens, num passado muito longínquo, tinham descoberto os segredos da energia e da matéria. Não apenas por meio de meditação, mas também de manipulação. Não apenas espiritualmente, mas tecnicamente. O espírito moderno, servindo-se de vias diferentes, pelos caminhos durante muito tempo desagradáveis, a meus olhos, da razão pura, da falta de religião, com processos diferentes e que durante muito tempo me tinham parecido maus, preparava-se por sua vez para descobrir os mesmos segredos. Interrogava-se a esse respeito, entusiasmava-se e inquietava-se simultaneamente. Tropeçava no essencial, exactamente como o espírito de elevada tradição.

Vi então que a oposição entre a “prudência” milenária e a “loucura” contemporânea era uma invenção da inteligência demasiado fraca e demasiado lenta, um produto de compensação para o intelectual incapaz de tanta velocidade quanta a sua época exige.

Há várias maneiras de aceder ao conhecimento essencial. E o nosso tempo tem algumas. As antigas civilizações tiveram as delas. Não falo apenas de conhecimento teórico.

Vi finalmente que, sendo as técnicas actuais mais poderosas, aparentemente, do que as técnicas de outrora, esse conhecimento essencial, que os alquimistas provavelmente já possuíam (e outros sábios antes deles), chegaria até nós com maior força ainda, maior peso, maiores perigos e maior número de exigências. Atingimos o mesmo ponto que os Antigos, mas a uma altura diferente. Em lugar de condenar o espírito moderno em nome da sensatez iniciática dos Antigos, ou em lugar de negar essa sensatez declarando que o conhecimento real começa com a nossa própria civilização, seria conveniente admirar e venerar o poder do espírito que, sob diferentes aspectos, torna a passar pelo mesmo ponto de luz, elevando-se em espiral. Em vez de condenar, repudiar, escolher, seria conveniente amar. O amor é tudo: a um tempo repouso e movimento.

*

Vamos submeter à vossa apreciação os resultados das nossas investigações sobre alquimia. Trata-se apenas, evidentemente, de esboços. Ser-nos-iam necessários dez ou vinte anos, e talvez faculdades que não possuímos, para dar ao assunto uma contribuição realmente positiva. No entanto, aquilo que fizemos, e a maneira como o fizemos, torna o nosso trabalho muito diferente das obras até aqui consagradas à alquimia. Encontrareis poucos esclarecimentos sobre a história e a filosofia desta ciência tradicional, mas algumas explicações sobre as inesperadas relações entre os sonhos dos velhos “filósofos químicos” e as realidades da física actual. É preferível revelarmos imediatamente as ideias que nos guiaram.

A alquimia, segundo a nossa opinião, poderia ser um dos mais importantes resíduos de uma ciência, de uma técnica e de uma filosofia pertencentes a uma civilização desaparecida. Aquilo que descobrimos na alquimia, à luz do saber contemporâneo, não é de molde a fazer-nos acreditar que uma técnica tão subtil, complicada e precisa possa ter sido o resultado de uma “revelação divina” caída do céu. Não quer dizer que desprezemos toda a ideia de revelação. Mas, ao estudarmos os santos e os grandes místicos, jamais podemos chegar à conclusão de que Deus fala aos homens em linguagem técnica: “Coloca o teu crisol sob a luz polarizada, ó meu Filho! Lava as escórias com água ultradestilada!”

Também não acreditamos que a técnica alquimista se possa ter desenvolvido por meio de tentativas, pequenos passatempos de ignorantes, fantasias de maníacos do crisol, até atingir aquilo a que temos de chamar a desintegração atómica. Antes nos sentiríamos dispostos a acreditar que existem na alquimia restos de uma ciência desaparecida, difíceis de compreender e de utilizar, por faltar o contexto. A partir desses restos há inevitavelmente tentativas, mas em direcção determinada. Há também uma superabundância de interpretações técnicas, morais e religiosas. E há por fim, para os detentores desses restos, a imperiosa necessidade de guardar segredo.

Somos levados a crer que a nossa civilização, ao atingir uma sabedoria que talvez tenha pertencido a uma civilização anterior, em condições diferentes, noutro estado de espírito, talvez tivesse o maior interesse em interrogar com seriedade a antiguidade para tornar mais rápida a sua própria progressão.

Finalmente pensamos o seguinte: o alquimista no fim do seu “trabalho” sobre a matéria assiste, segundo a lenda, a uma espécie de transformação na sua própria pessoa. Aquilo que se passa no seu crisol passa-se igualmente na sua consciência ou na sua alma. Há uma mudança de estado. Todos os textos tradicionais insistem nesse ponto, evocam o momento em que a “Grande Obra” se realiza e em que o alquimista se transforma num “homem desperto”. Parece-nos que esses velhos textos descrevem deste modo o termo de todo o conhecimento real das leis da matéria e da energia, incluindo o conhecimento técnico. É para a possessão de tal conhecimento que se precipita a nossa civilização. Não nos parece absurdo supor que os homens serão chamados, num futuro relativamente próximo, a “mudar de estado”, como o alquimista lendário, a sofrer qualquer transformação. A menos que a nossa civilização desapareça por inteiro um momento antes de ter atingido o fim, como é possível que tenham desaparecido outras civilizações. Também se podia dar o caso de que, no nosso último segundo de lucidez, não desesperássemos, pensando que se a aventura do espírito se repete, é sempre, de cada vez, num grau mais alto da espiral. Remeteríamos a outros milenários o cuidado de conduzir essa aventura até ao ponto final, até ao centro imóvel, e afundar-nos-íamos com esperança.

1 O autor de Le Mystère des Cathèdrales e de Les Demeures philosophales.

Conhecem-se mais de cem mil livros ou manuscritos alquímicos. Essa imensa literatura, à qual se consagraram espíritos de categoria, homens importantes e honestos, essa imensa literatura que afirma solenemente a sua adesão a factos, a realidades experimentais, nunca foi explorada cientificamente. O pensamento reinante, católico no passado, racionalista actualmente, manteve em redor desses textos uma conspiração de ignorância e desprezo. Existem cem mil livros que possivelmente contêm alguns dos segredos da energia e da matéria. Se isso não é verdade, eles pelo menos assim o proclamam. Os príncipes, os reis e as repúblicas encorajaram inúmeras expedições a países longínquos, financiaram investigações científicas de todos os géneros. Nunca uma equipa de criptógrafos, historiadores, linguístas e sábios, físicos, químicos, matemáticos e biologistas se reuniu numa biblioteca alquímica completa com a missão de verificar o que há de verdadeiro e de utilizável nesses velhos tratados. Isso é que é inconcebível. Que tais limitações do espírito sejam possíveis e duradoiras, que sociedades humanas muito civilizadas e, como a nossa, aparentemente sem preconceitos de qualquer espécie, possam manter esquecidos nas suas águas-furtadas cem mil livros e manuscritos com a etiqueta de: “Tesouro,” eis o que convencerá os mais cépticos de que vivemos no fantástico.

As raras investigações sobre alquimia são feitas quer por místicos que procuram nos textos uma confirmação das suas atitudes espirituais, quer por historiadores sem o menor contacto com a ciência e as técnicas.

Os alquimistas falam da necessidade de destilar milhares de vezes a água que servirá para a preparação do Elixir. Ouvimos dizer a um historiador especializado que essa operação era demencial. Ignorava tudo a respeito da água pesada e dos métodos que se empregam para enriquecer a água simples em água pesada. Ouvimos um erudito afirmar que a refinação e a purificação indefinidamente repetidas de um metal ou de um metalóide não alteram absolutamente nada as propriedades deste; seria então necessário ver nas recomendações alquímicas uma mística aprendizagem da paciência, um gesto ritual comparável ao desfiar das contas do rosário. E, no entanto, é com essa refinação por meio de uma técnica descrita pelos alquimistas e a que hoje se chama “a fusão de zona” que se prepara o germânio e o silício puros dos transistores. Actualmente sabemos, graças a esses trabalhos sobre os transistores, que, se se purificar profundamente um metal e introduzir em seguida alguns milionésimos de grama de impurezas cuidadosamente escolhidas, concede-se ao corpo tratado novas e revolucionárias propriedades. Não desejamos multiplicar os exemplos, mas gostaríamos de fazer compreender até que ponto seria conveniente um exame verdadeiramente metódico da literatura alquímica. Seria um trabalho imenso, que exigiria dezenas de anos de trabalho e dezenas de investigadores pertencentes a todas as disciplinas. Nem Bergier nem eu pudemos sequer esboçar semelhante trabalho, mas se o nosso volumoso e desajeitado livro pudesse um dia decidir um mecenas a permitir esse trabalho, não teríamos perdido completamente o nosso tempo.

*

Ao estudarmos um pouco os textos alquímicos, constatámos que estes são geralmente modernos em relação à época em que foram escritos, ao passo que as outras obras de ocultismos estão em atraso. Por outro lado, a alquimia é a única prática pararreligiosa que, de facto, enriqueceu o nosso conhecimento real.

Alberto o Grande (1193-1280) conseguiu preparar a potassa cáustica. Foi o primeiro a descrever a composição química do cinabre, do alvaiade e do mínio.

Raimundo Lull (1235-1315) preparou o bicarbonato de potássio.

Teofrasto Paracelse (1493-1541) foi o primeiro a descrever o zinco, desconhecido até então. Introduziu igualmente na medicina o uso dos compostos químicos.

Giambattista della Porta (1541-1615) preparou o óxido de estanho.

Jean-Baptiste Van Helmont (1577-1644) descobriu a existência dos gases.

Basile Valentin (do qual ninguém jamais soube a verdadeira identidade) descobriu no século xvII o ácido sulfúrico e o ácido clorídrico.

Johann Rudolf Glauber (1604-1668) descobriu o sulfato de sódio.

Brandt (falecido em 1692) descobriu o fósforo.

Johann Friedrich Boetticher (1682-1719) foi o primeiro europeu a fazer a porcelana.

Blaise Vigenère (1523-1596) descobriu o ácido benzóico.

Tais são alguns dos trabalhos alquímicos que enriquecem a humanidade no momento em que a química progride. À medida que se desenvolvem outras ciências, a alquimia parece seguir e muitas vezes preceder o progresso. Le Breton, nas suas Clefs de la Philosophie Spagyrzque, em 1722, fala do magnetismo de maneira mais do que inteligente e frequentemente antecipa a respeito das descobertas modernas. O Padre Castel, em 1728, no momento em que as ideias sobre a gravitação começam a divulgar-se, fala desta e das suas relações com a luz em termos que, dois séculos mais tarde, ecoarão estranhamente ao pensamento de Einstein:

“Eu disse que, se subtraíssemos o peso do Mundo, subtrairíamos simultaneamente a luz. De resto a luz e o som, e todas as outras qualidades sensíveis, são uma consequência e como que um resultado da mecânica, e por consequência do peso dos corpos naturais que são mais ou menos luminosos ou sonoros, conforme têm maior peso e elasticidade.”

Nos tratados alquímicos do nosso século vê-se aparecer frequentemente, mais depressa do que nas produções universitárias, as últimas descobertas da física nuclear, e é provável que os tratados de amanhã mencionem as teorias físicas e matemáticas o mais abstractas possível.

É evidente a distinção entre a alquimia e as falsas ciências como a radiestesia, que introduz ondas ou raios nas suas publicações depois de a ciência oficial as ter descoberto. Tudo nos leva a pensar que a alquimia é susceptível de fornecer uma contribuição importante aos conhecimentos e às técnicas do futuro baseadas na estrutura da matéria.

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Constatámos igualmente, na literatura alquímica, a existência de um número impressionante de textos puramente delirantes.

Pretenderam por vezes explicar esse delírio por meio da psicanálise (Jung: Psicologia e Alquimia, ou Herbert Silberer: Problemas do Misticismo). Como a alquimia contém uma doutrina metafísica e supõe uma atitude mística, a maior parte das vezes os historiadores, os curiosos e sobretudo os ocultistas obstinaram-se em interpretar esses conceitos demenciais no sentido de uma revelação supranatural, de uma profecia inspirada. Observando melhor, pareceu-nos prudente tomar, a par dos textos técnicos e dos textos de sabedoria, os textos demenciais por textos demenciais. Pareceu-nos também que essa demência do adepto experimentador podia ter uma explicação material, simples, satisfatória. O mercúrio era frequentemente utilizado pelos alquimistas. O seu valor é tóxico e o envenenamento crónico provoca o delírio. Teoricamente, os recipientes empregados eram absolutamente herméticos, mas o segredo desse encerramento não é divulgado a todos os adeptos, e a loucura pôde apossar-se de mais de um “filósofo químico”.

Por fim, ficámos impressionados com o aspecto criptogâmico da literatura alquímica. Blaise Vigenère, que citámos mais atrás, inventou códigos aperfeiçoadíssimos e métodos de cifragem dos mais engenhosos. As suas invenções nesta matéria ainda hoje são utilizadas. É provável que Blaise Vigenère tenha tomado contacto com essa ciência da cifra ao tentar interpretar os textos alquímicos. Seria conveniente acrescentar às equipas de investigadores que desejamos ver reunidas especialistas do deciframento.

“A fim de dar um exemplo mais evidente, escreve René Alleau[1], servir-nos-emos do jogo do xadrez, do qual conhecemos a relativa facilidade das regras e dos elementos, assim como a indefinida variedade das combinações. Se supusermos que o conjunto dos tratados acroamáticos da alquimia se nos apresenta como outras tantas partes anotadas numa linguagem convencional, é preciso admitir em primeiro lugar, com a maior honestidade, que ignoramos tanto as regras do jogo como a cifra utilizada. De contrário, afirmamos que a indicação criptográfica é composta por sinais directamente compreensíveis para qualquer indivíduo, o que é precisamente a ilusão imediata que deve provocar um criptograma bem composto. Portanto a prudência aconselha-nos a não nos deixarmos seduzir pela tentação de um sentido claro, e a estudarmos esses textos como se se tratasse de uma linguagem desconhecida.

“Aparentemente, tais mensagens só se dirigem a outros jogadores, a outros alquimistas que somos levados a crer que já possuem, por qualquer processo diferente da tradição escrita, chave necessária para a compreensão exacta dessa linguagem.”

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Por muito longe que remontemos na investigação do passado, encontraremos manuscritos alquímicos. Nicolas de Valois, no século xv, deduzia por isso que as alterações, os segredos e as técnicas da libertação da energia foram descobertas pelos homens antes mesmo da escrita. A arquitectura precedeu a escrita. Por isso vemos a alquimia muito intimamente ligada à arquitectura. Um dos textos mais significativos da alquimia, cujo autor é um tal Esprit Gobineau de Montluisant, intitula-se: “Explicações muito curiosas dos enigmas e figuras hieroglíficas que existem no portal de Notre-Dame de Paris”. As obras de Fulcanelli são consagradas ao “Mistério das Catedrais” e às minuciosas descrições das “Moradas Filosofais”. Algumas construções medievais testemunhariam o hábito imemorial de transmitir por meio da arquitectura a mensagem da alquimia, que data de eras infinitamente longínquas da humanidade.

Newton acreditava na existência de uma cadeia de iniciados alastrando no tempo até uma antiguidade muito remota, e que teriam conhecido os segredos das alterações e da desintegração da matéria. O sábio atomista inglês Da Costa Andrade, num discurso pronunciado diante dos seus pares por ocasião do tricentenário de Newton, em Cambridge, em Julho de 1946, não hesitou em dar a entender que o inventor da gravitação talvez fizesse parte de uma cadeia e apenas revelara ao mundo uma pequena parte do seu saber:

“Não posso esperar, disse[2], convencer os cépticos de que Newton tinha poderes de profecia ou de visão especial que lhe possam ter revelado a energia atómica, mas direi simplesmente que as frases que vou citar ultrapassam em muito, na opinião de Newton ao falar da transmutação alquímica, o receio de um transtorno no comércio mundial depois da síntese do ouro. Eis o que Newton escreveu:

“A forma como o mercúrio pode ser assim impregnado foi mantida em segredo por aqueles que sabiam, e constitui provauelmente um acesso para qualquer coisa de mais nobre do que a fabricação do ouro e que não pode ser comunicada sem que o mundo corra um imenso perigo, caso os escritos de Hermes digam a verdade.”

“E, mais adiante, Newton escreve: “Existem outros grandes mistérios além da transmutação dos metais, se os grandes mestres não se gabam. Só eles conhecem esses segredos”.

“Reflectindo no sentido profundo desta passagem, lembrai-vos de que Newton fala com as mesmas reticências e a mesma prudência anunciadora nas suas próprias descobertas de óptica”.

De que passado viriam esses grandes mestres invocados por Newton, e de que passado teriam eles próprios extraído a sua ciência?

“Se subi tão alto, diz Newton, é porque estava sobre os ombros de gigantes.”

Atterbury, contemporâneo de Newton, escrevia:

“A modéstia ensina-nos a falar com respeito dos Antigos, sobretudo quando não conhecemos profundamente as suas obras. Newton, que quase as sabia de cor, tinha por eles o maior respeito e considerava-os como homens de profundo génio e de um espírito superior, que tinham levado muito mais longe as suas descobertas de todos os géneros do que nos possa parecer actualmente, segundo o que resta dos seus escritos. Há mais obras antigas perdidas do que conservadas e talvez as nossas novas descobertas não valham as perdas antigas.”

Para Fulcanelli, a alquimia seria o elo de ligação com as civilizações desaparecidas desde há milénios e ignoradas pelos arqueólogos. Evidentemente, nenhum arqueólogo considerado honesto e nenhum historiador de igual reputação admitirá a existência no passado de civilizações que tenham possuído uma ciência e técnicas superiores às nossas. Mas uma ciência e técnicas avançadas simplificam ao máximo a aparelhagem, e talvez os vestígios estejam sob os nossos olhos sem que sejamos capazes de os ver como tais. Nenhum arqueólogo e nenhum historiador honesto, que não tenha recebido uma formação científica em alto grau, poderá efectuar pesquisas susceptíveis de nos fornecer a esse respeito qualquer esclarecimento. A separação das disciplinas, que foi uma necessidade do fabuloso progresso contemporâneo, talvez nos dissimule qualquer coisa de fabuloso no passado.

Sabe-se que foi um engenheiro alemão, encarregado da construção dos esgotos de Bagdade, que descobriu na amálgama de objectos do museu local, sob a vaga etiqueta de “objectos de culto”, pilhas eléctricas fabricadas dez séculos antes de Volta, durante a dinastia dos Sassanides.

Enquanto a arqueologia apenas for praticada por arqueólogos, não saberemos se a “noite dos tempos” era obscura ou luminosa.

*

“Jean-Fredérich Schweitzer, dito Helvétius, violento adversário da alquimia, conta que na manhã de 27 de Dezembro de 1666 se apresentou em sua casa um estrangeiro. Era um homem de aparência honesta e séria, e de expressão autoritária, vestido com um simples capote, como um “mennonita”.

Depois de perguntar a Helvétius se acreditava na pedra filosofal (ao que o famoso médico respondeu negativamente), o estrangeiro abriu uma pequena caixa de marfim “que continha três pedaços de uma substância semelhante ao vidro ou à opala”. O seu proprietário declarou tratar-se da famosa pedra, e que com uma tão mínima quantidade podia produzir vinte toneladas de ouro. Helvétius pegou num dos fragmentos e, depois de agradecer ao visitante a sua amabilidade, pediu-lhe que lhe desse um bocado. O alquimista recusou num tom brusco, acrescentando com mais cortesia que, mesmo a troco de toda a fortuna de Helvétius, não se poderia separar da menor parcela desse mineral, por uma razão que não lhe era permitido divulgar. Instado para que desse uma prova das suas palavras, realizando uma transmutação, o estrangeiro respondeu que voltaria três semanas mais tarde e mostraria a Helvétius uma coisa susceptível de o assombrar. Voltou pontualmente no dia marcado, mas recusou executar a operação, afirmando que lhe era proibido revelar o segredo. Condescendeu no entanto em dar a Helvétius um pequeno fragmento da pedra, “não maior do que um grão de mostarda”. E como o médico emitisse a dúvida de que uma tão ínfima quantidade pudesse produzir o menor efeito, o alquimista partiu o corpúsculo em dois, deitou uma metade fora e entregou-lhe a outra dizendo: “Aqui está justamente aquilo de que precisa”.

“O nosso sábio viu-se então obrigado a confessar que durante a primeira visita do estrangeiro conseguira apoderar-se de algumas partículas da pedra, as quais tinham transformado o chumbo, não em ouro, mas-em vidro. – “Devia ter protegido a pedra com cera amarela, respondeu o alquimista, isso ajudá-la-ia a penetrar o chumbo e a transformá-lo em ouro”. O homem prometeu voltar de novo no dia seguinte de manhã, às nove horas, e realizar o milagre – mas não apareceu, e no dia a seguir também não. Posto isto, a mulher de Helvétius persuadiu-o a tentar ele próprio a transmutação:

“Helvétius procedeu de acordo com as instruções do estrangeiro. Derreteu três dracmas de chumbo, envolveu a pedra em cera, e deixou-a cair no metal líquido. E este transformou-se em ouro! “Levámo-lo imediatamente ao ourives, que declarou tratar-se do ouro mais fino que jamais vira, e propôs pagá-lo a cinquenta florins a onça”. Helvétius, ao concluir a sua narrativa, disse-nos que a barra de ouro continuava na sua mão, prova tangível da transmutação. “Possam os Santos Anjos do Senhor velar por ele (o alquimista anónimo) como sobre um manancial de bênçãos para a cristandade. Tal é a nossa prece constante, por ele e por nós”.

“A novidade espalhou-se como um rastilho de pólvora. Spinoza, que não podemos incluir no número dos ingénuos, quis saber a verdade da história. Fez uma visita ao ourives que avaliara o ouro. O relatório foi mais do que favorável: durante a fusão, a prata incorporada à mistura transformara-se igualmente em ouro. O ourives, Brechtel, era moedeiro do duque de Orange. Sabia sem dúvida do seu ofício. Parece difícil acreditar que ele possa ter sido vítima de um subterfúgio, ou que tenha pretendido enganar Spinoza. Spinoza dirigiu-se então a casa de Helvétius, que lhe mostrou o ouro e o crisol que servia para a operação. Aderiam ainda ao interior do recipiente restos do precioso metal; como os outros, Spinoza ficou convencido de que a transmutação se operara realmente.”

*

A transmutação, para o alquimista, é um fenómeno secundário, realizado apenas a título de demonstração. É difícil formar uma opinião sobre a realidade dessas transmutações, embora diversas observações, como a de Helvétius ou a de Van Helmont, por exemplo, pareçam surpreendentes. Pode alegar-se que a arte do prestidigitador não tem limites, mas será possível que tenham sido consagrados a uma aldrabice quatro mil anos de pesquisas e cem mil volumes ou manuscritos? Propomos outra coisa, como mais adiante se verá. Propomo-lo timidamente, pois o peso da opinião científica já formada é de temer. Tentaremos descrever o trabalho do alquimista que consegue a fabricação da “pedra” à “pólvora de projecção”, e veremos que a interpretação de certas operações choca o nosso actual saber sobre a estrutura da matéria. Mas não é evidente que o nosso conhecimento dos fenómenos nucleares seja perfeito, definitivo. Em especial a catálise pode intervir nestes fenómenos de uma forma ainda desconhecida para nós”.

Não é impossível que certas misturas naturais produzam, sob o efeito dos raios cósmicos, reacções nucleo-catalípticas em grande escala, susceptíveis de conduzir a uma transmutação compacta dos elementos. Seria necessário ver nisso uma das chaves da alquimia e a razão pela qual o alquimista repete indefinidamente as suas manipulações, até ao momento em que as condições cósmicas se reúnem.

A objecção é a seguinte: se tais transmutações são possíveis, que virá a ser da energia libertada? Muitos dos alquimistas deveriam então ter feito ir pelos ares a cidade que habitavam e algumas dezenas de milhares de quilómetros quadrados da sua pátria nessa mesma ocasião. Ter-se-iam produzido numerosas e imensas catástrofes.

Os alquimistas respondem: é justamente por se terem dado semelhantes catástrofes num passado longínquo que receamos a terrível energia contida na matéria e que mantemos secreta a nossa ciência. Além disso, a “Grande Obra” é atingida por fases progressivas e aquele que, ao fim de dezenas e dezenas de anos de manipulações e de ascese, aprende a desencadear as forças nucleares, aprende igualmente quais as precauções que convém tomar para evitar o perigo[3].

Argumento válido? Talvez. Os físicos de agora admitem que, em certas condições, a energia de uma transmutação nuclear poderia ser absorvida por partículas especiais a que eles chamam neutrinos e antineutrinos[4]. Parece agora comprovada a existência do neutrino. Talvez haja tipos de transmutação que libertam apenas um pouco de energia, ou nas quais a energia libertada se evola sob a forma de neutrinos. Voltaremos a este assunto.

Eugène Canseliet, discípulo de Fulcanelli e um dos melhores especialistas actuais sobre alquimia, deteve-se sobre uma passagem de um estudo que Jacques Bergier escrevera como prefácio para uma das obras clássicas da Biblioteca Mundial. Tratava-se de uma antologia da poesia do século xvI. Nesse prefácio, Bergier fazia alusão aos alquimistas e ao seu desejo de segredo. Escrevia: “Sobre este ponto especial é difícil não lhes dar razão. Se existe um processo que permite fabricar bombas de hidrogénio num fogão de cozinha, é francamente preferível que esse processo não seja revelado”.

Eugène Canseliet respondeu-nos então: “Acima de tudo seria necessário que não se tomasse isto por um gracejo. Tendes toda a razão, e eu estou em boa posição para afirmar que é possível atingir a desintegração atómica partindo de um mineral relativamente comum e barato, e isto por um processo de operações que apenas exige uma boa chaminé, um forno de fusão de carvão, alguns tubos de combustão Meker e quatro garrafas de gás butano”.

Mesmo na física nuclear, não está excluído que se possam obter resultados importantes por meio de processos simples.
É o futuro de toda a ciência e de toda a técnica.

“Podemos mais do que aquilo que sabemos”, dizia Roger Bacon. Mas acrescentava esta frase que poderia ser um adágio
alquímico: “Embora nem tudo seja permitido, tudo é possível”.

Para o alquimista, é preciso recordá-lo constantemente, poder sobre a matéria e a energia não passa de uma realidade acessória. O verdadeiro objectivo das operações alquímicas, que talvez sejam o resíduo de uma ciência muito antiga pertencente a uma civilização desaparecida, é a transformação do próprio alquimista, o seu acesso a um estado de consciência superior. Os resultados materiais são apenas as promessas do resultado final, que é espiritual. Tudo se dirige para a transmutação do próprio homem, para a sua divinização, a sua fusão com a energia divina fixa, da qual irradiam todas as energias da matéria. A alquimia é a ciência “com consciência” de que Rabelais fala. É uma ciência que hominiza, para repetir uma expressão do P.e Teilhard de Chardin, que dizia: “A verdadeira física é a que conseguir integrar o Homem total numa representação coerente do mundo”.

“Sabei, dizia um mestre alquimista, sabei vós todos, os Investigadores dessa Arte, que o Espírito é tudo, e que se nesse Espírito não está encerrado outro Espírito semelhante, esse todo para nada serve.”

1741
La Tourbe des Philosophes, in “Biblioteca dos Filósofos Químicos”,Paris.

1 Aspects de lÁlchimie Traditionnelle, Éditions de Minuit, Paris

2 Newton Tercentenary Celebrations. Universidade de Cambridge, 1947

3 Estão em curso, em vários países, trabalhos sobre a utilização de
partículas (produzidas por poderosos aceleradores) para catalisar a fusão
do hidrogénio.

4 Não se confunda com o neutrão, elemento do núcleo. (N. da T.)

Era em 1933. O pequeno estudante judeu tinha um nariz pontiagudo, encimado por uns óculos de lentes redondas atrás das quais brilhava um olhar rápido e frio. Sobre o crânio redondo começava a despontar uma cabeleira semelhante a uma penugem de pintainho. Um sotaque pavoroso, agravado por gaguejos, dava às suas frases o tom cómico e a baralhada do grasnar de patos num charco. Depois de o conhecerem um pouco melhor, dava a impressão de que bailava dentro desse homenzinho desgracioso uma inteligência bulímica, atenta, sensível, extraordinariamente rápida, de que estava cheio de malícia e de uma pueril incapacidade para viver, como um enorme balão vermelho preso por um fio ao pulso de uma criança.

“Pretende então tornar-se alquimista?”, perguntou o venerando professor ao estudante Jacques Bergier, que mantinha a cabeça baixa, sentado na beira de um cadeirão, com uma pasta cheia de papelada sobre os joelhos. O venerando era um dos maiores químicos franceses.

“Não o compreendo, senhor”, disse o estudante, vexado.

Tinha uma memória prodigiosa, e recordou-se de ter visto, aos seis anos, uma gravura alemã que representava dois alquimistas a trabalhar, no meio de uma confusão de retortas, de pincas, de crisóis, de foles. Um deles, esfarrapado, vigiava uma fogueira, de boca aberta, e outro, desgrenhado, coçava a cabeça titubeando no meio de toda aquela desordem.

O professor consultou uns documentos:

“Durante os seus dois últimos anos de trabalho interessou-se sobretudo pelo curso livre de física nuclear de Jean Thibaud. Esse curso não conduz a qualquer diploma nem certificado. Exprime o desejo de prosseguir nesse sentido ainda me seria possível compreender essa curiosidade da parte de um físico. Mas o senhor está destinado à química. Tencionará, por acaso. aprender a fabricar ouro?

– Senhor – disse o estudante judeu erguendo as pequenas mãos gordas e mal tratadas -, eu acredito no futuro da química nuclear. Penso que, num futuro próximo, serão realizadas transmutações industriais.

– Isso parece-me delirante.

– Mas, senhor. . . ”

Por vezes detinha-se no início de uma frase e começava a repetir esse início, como um gramofone avariado, não por falta de atenção, mas porque o seu espírito divagava de forma inconfessável pelo reino da poesia. Sabia de cor milhares de versos e todos os poemas de Kipling:

Copiaram tudo o que podiam entender,
Mas não podiam alcançar o meu pensamento;
Por isso deixarei-os para trás, sem fôlego,
E pensando com ano e meio de atraso…

– Mas, mesmo se V. Ex.a não acredita nas transmutações, deveria acreditar na energia nuclear. Os imensos recursos
potenciais do núcleo. . .

– Ta ta ta – exclamou o professor. – Isso é primário e infantil. Aquilo a que os físicos chamam energia nuclear é uma constante de integração nas suas equações. A consciência é o principal motor dos homens. Mas não é a consciência que faz andar as locomotivas, não é verdade? Por isso, sonha-se com uma máquina accionada pela energia nuclear… Não, meu rapaz.”

O rapaz engolia a saliva.

– Desça à Terra e pense no seu futuro. O que o incita, de momento, pois não o julgo saído da infância, é um dos mais velhos sonhos do homem: o sonho alquímico. Leia novamente Berthelot. Ele descreve muito bem essa quimera da transmutação da matéria. As suas notas não são lá muito, muito brilhantes. Dou-lhe um conselho: entre o mais depressa possível para a indústria. Faça um estágio numa refinaria de açúcar. Três meses numa fábrica pô-lo-ão de novo em contacto com a realidade. Precisa disso. Falo-lhe como um pai.”

O filho indigno agradeceu gaguejando, e saiu de nariz no ar, a enorme pasta debaixo do braço curto. Era um obstinado: pensou que era necessário tirar partido daquela conversa, mas que o mel era melhor do que o açúcar. Continuaria a estudar os problemas do núcleo atómico. E documentar-se-ia a respeito de alquimia.

*

Foi assim que o meu amigo Jacques Bergier decidiu prosseguir uns estudos considerados inúteis e completá-los com outros estudos considerados delirantes. As necessidades da vida, a guerra e os campos de concentração afastaram-no um pouco do estudo nuclear. No entanto, enriqueceu-o com algumas contribuições apreciadas pelos especialistas. Durante as suas investigações, os sonhos dos alquimistas e as realidades da física matemática misturaram-se mais de uma vez. Mas no domínio científico operaram-se grandes alterações a partir de 1933, e o meu amigo teve cada vez menos a sensação de navegar contra a corrente.

*

De 1934 a 1940, Jacques Bergier foi o colaborador de André Helbronner, um dos homens notáveis da nossa época. Helbronner, que foi assassinado pelos nazis em Buchenwald, em Março 1944, fora, em França, o primeiro professor universitário a ensinar a químico-física. Essa ciência, que é uma fronteira entre duas disciplinas, deu origem, mais tarde, a muitas outras ciências: a electrónica, a nucleónica, a estereotrónica[1]. Helbronner viria depois a receber a grande medalha de ouro do Instituto Franklin pelas suas descobertas sobre os metais coloidais. Interessou-se igualmente pela liquefação dos gases, pela aeronáutica e pelos raios ultravioletas.

Em 1934 consagrou-se à física nuclear e montou, com o auxílio de grupos industriais, um laboratório de pesquisas nucleares, no qual, até ao ano de 1940, se obtiveram resultados de interesse considerável. Além disso, Helbronner era árbitro dos tribunais em todas as questões relacionadas com a transmutação dos elementos, e por esse motivo é que Jacques Bergier teve ocasião de conhecer um certo número de falsos alquimistas, escroques ou iluminados, e um verdadeiro alquimista, um autêntico mestre.

O meu amigo nunca soube o verdadeiro nome desse alquimista, e mesmo que o soubesse evitaria dar excessivos esclarecimentos. O homem de quem vamos falar há já muito tempo que desapareceu, sem deixar rastos visíveis. Entrou em clandestinidade e cortou voluntariamente todos os contactos com a sua época. Bergier crê que se tratava simplesmente do homem que, sob o pseudónimo de Fulcanelli, escreveu por volta de 1920 dois livros estranhos e admiráveis: Les Demeures Philosophales e Le Mystère des Cathédrales[2]. Estes livros foram editados sob a vigilância de Eugène Canseliet, que nunca revelou a identidade do autor. Figuram, sem dúvida alguma, entre as obras mais importantes sobre alquimia. Exprimem um conhecimento e uma sabedoria superiores, e conhecemos mais de um espírito notável que venera o nome lendário de Fulcanelli.

“Poderia ele, escreve Eugène Canseliet, uma vez atingido o auge do conhecimento recusar obediência às ordens do Destino? Ninguém é profeta na sua terra. talvez este velho adágio dê a razão oculta da alteração que provoca, na vida solitária e estudiosa do filósofo, a chama da revelação. Sob o efeito dessa chama divina, o homem já velho é inteiramente consumido. Nome, família, pátria, todas as ilusões, todos os erros, todas as vaidades caem como pó. E dessas cinzas, como a fénix dos poetas, uma nova personalidade renasce. Pelo menos, a tradição filosófica assim o diz.

“O meu mestre sabia-o. Desapareceu quando soou a hora fatídica, quando o sinal foi dado. Quem ousaria subtrair-se à lei?

“Eu próprio, apesar do sofrimento de uma separação dolorosa mas inevitável, se de mim se apossasse a feliz exaltação que obrigou o meu mestre a fugir das homenagens do mundo, sei que não agiria de outra forma.”

Eugène Canseliet escreveu estas linhas em 1925. O homem que o encarregava de editar as suas obras ia mudar de aspecto e de ambiente. Numa tarde de Junho de 1937, Jacques Bergier julgou ter excelentes motivos para pensar que se encontrava em presença de Fulcanelli.

Foi a pedido de André Helbronner que o meu amigo se encontrou com a misteriosa personagem, no ambiente prosaico de um laboratório de experiências da Sociedade do Gás de Paris. Eis, com exactidão, a conversa que houve:

– André Helbronner, de quem V. Ex.a, segundo creio, é o assistente, anda em busca da energia nuclear. Ele teve a amabilidade de me manter ao corrente de alguns dos resultados obtidos, particularmente da aparição da radioactividade correspondente à do polónio, quando um filamento de bismuto é volatilizado por uma descarga eléctrica no deutério a alta pressão. Estão muito perto do êxito, aliás como outros sábios contemporâneos. Ser-me-á permitido pô-los de sobreaviso? Os trabalhos a que se dedicam, bem como os seus colegas, são terrivelmente perigosos. Não são apenas os senhores que correm perigo. Este é de recear para a humanidade inteira. A libertação da energia nuclear é mais fácil do que pensam. E a radioactividade artificialmente produzida pode envenenar a atmosfera do planeta dentro de poucos anos. Além disso, podem ser fabricádos explosivos atómicos a partir de alguns gramas de metal, e arrasar cidades. Posso dizer-lhe com sinceridade: há muito que os alquimistas o sabem.

Bergier tentou interromper, protestando. Os alquimistas e a física moderna! la lançar-se em sarcasmos, quando o outro o interrompeu:

– Sei o que me vai dizer, mas não interessa. Os alquimistas desconheciam a estrutura do núcleo, desconheciam a electricidade, não possuíam qualquer processo de detecção. Por isso nunca puderam realizar qualquer transmutação, nunca puderam libertar a energia nuclear. Não tentarei provar-lhes o que agora vou declarar, mas peço-lhe que o repita ao Sr. Helbronner: para desencadear as forças atómicas bastam disposições geométricas de materiais extremamente puros, sem que seja necessário utilizar a electricidade ou a técnica do vácuo. Limitar-me-ei em seguida a fazer-lhe uma pequena leitura.

O homem retirou de cima da sua secretária o livro de Frédéric Soddy, L’interprètation du Radium, abriu-o e leu:

“Penso que existiram no passado civilizações que tiveram conhecimento da energia do átomo e que uma má aplicação
dessa energia as destruiu totalmente.”

Depois continuou:

– Peço-lhe que acredite que sobreviveram algumas técnicas parciais. Peço-lhe também que medite no facto de que os alquimistas juntavam às suas pesquisas preocupações morais e religiosas, ao passo que a física moderna surgiu no século xvIII como resultado do divertimento de alguns nobres e de alguns ricos libertinos. Ciência sem consciência… Julguei meu dever avisar alguns investigadores, aqui e além, mas não tenho a menor esperança de ver esse aviso produzir efeitos. Aliás, não tenho necessidade de esperar.

Bergier nunca mais esqueceria o som daquela voz precisa, metálica e digna.

Permitiu-se fazer uma pergunta:

– Se V. Ex.a também é alquimista, não posso acreditar que passe o tempo tentando fabricar ouro, como Dunikovski ou o doutor Miethe. Há um ano que tento documentar-me sobre alquimia, e vejo-me rodeado de charlatães ou de interpretações que me parecem fantasistas. Poderá V. Ex.a dizer-me em que consistem as suas investigações?

– Pede-me para resumir, em quatro minutos, quatro mil anos de filosofia e os esforços de toda a minha vida. Pede-me, além disso, para traduzir em linguagem clara conceitos para os quais a linguagem clara não é feita. Apesar de tudo posso dizer-lhe o seguinte: não ignora que, na ciência oficial em progresso, o papel do observador se torna cada vez mais importante. A relatividade, o princípio da incerteza mostram-nos até que ponto o observador de hoje intervém nos fenómenos. O segredo da alquimia é o seguinte: existe uma forma de manipular a matéria e a energia de maneira a produzir aquilo a que os cientistas contemporâneos chamariam um “campo de força”. Esse campo de força age sobre o observador e coloca-o numa situação de privilégio em face do Universo. Desse ponto privilegiado, ele tem acesso a realidades que o espaço e o tempo, a matéria e a energia habitualmente nos dissimulam. É aquilo a que chamamos a Grande Obra.

– Mas a pedra filosofal? A fabricação do ouro?

– São apenas aplicações, casos particulares. O essencial não é a transmutação dos metais, mas a do próprio investigador. É um segredo antigo, que em cada século vários homens voltam a encontrar.

– E o que é então feito deles?

– Talvez eu um dia o venha a saber.

O meu amigo não tornaria a ver esse homem que deixou um rasto indelével sob o nome de Fulcanelli. Tudo o que dele sabemos é que sobreviveu à guerra e desapareceu completamente após a Libertação. Todas as diligências para o reencontrar foram inúteis[3].

*

Eis-nos agora numa manhã de Julho de 1945. Ainda que esquelético e triste, Jacques Bergier, com um fato de caqui, prepara-se para cortar um cofre-forte com um maçarico. É mais uma metamorfose. Durante esses últimos anos foi sucessivamente agente secreto, terrorista e deportado político. O cofre-forte está numa bela vivenda, sobre o lago de Constança, que pertenceu ao director de um grande trust alemão. Depois de cortado, o cofre-forte expõe o seu segredo: uma garrafa que contém um pó extremamente pesado. Na etiqueta lê-se: “Urânio, para aplicações atómicas”. É a primeira prova formal da existência na Alemanha de um projecto de bomba atómica suficientemente forte para exigir grandes quantidades de urânio puro. Goebbels não deixava de ter razão quando, desde o seu bunker bombardeado, fazia circular pelas ruas arruinadas de Berlim o boato de que a arma secreta estava prestes a explodir na cara dos invasores”.

Bergier participou a descoberta às autoridades aliadas. Os americanos mostraram-se cépticos e declararam que qualquer investigação sobre a energia nuclear era sem interesse. Era um disfarce. Na realidade, a primeira bomba americana explodira em segredo, em Alamogordo, e, nessa mesma ocasião, encontrava-se na Alemanha uma missão americana dirigida pelo físico Goudsmidth, em busca da pilha atómica que o professor Heisenberg elaborara antes do desmoronamento do Reich.

Em França nada se sabia de positivo, mas havia indícios. Especialmente este, para as pessoas atentas: os americanos compravam a peso de ouro todos os manuscritos e documentos alquímicos.

Bergier apresentou um relatório ao governo provisório sobre a realidade provável das investigações a respeito dos explosivos nucleares tanto na Alemanha como nos Estados Unidos. O relatório foi sem dúvida para o cesto dos papéis, e o meu amigo conservou a sua garrafa, que agitava na cara das pessoas, exclamando: “Vêem isto? Bastaria que um neutrão passasse pelo interior para que Paris fosse pelos ares!” Aquele homenzinho de sotaque cómico gostava decididamente de gracejar e era espantoso que um deportado há pouco saído de Mauthausen tivesse conservado tanto humor. Mas, bruscamente, a brincadeira deixou de ter graça, na manhã de Hiroshima. O telefone do quarto de Bergier começou a tocar sem interrupção. Diversas autoridades competentes pediam cópias do relatório. Os serviços de informação americanos pediam ao possuidor da famosa garrafa para procurar urgentemente um certo major que não queria divulgar a sua identidade. Outras autoridades exigiam o rápido afastamento da garrafa do centro de Paris. Foi em vão que Bergier explicou que essa garrafa com certeza não continha urânio 235 puro e que, mesmo se o contivesse, o urânio estava sem dúvida abaixo da massa perigosa. De contrário, há muito que teria explodido. Confiscaram-lhe o brinquedo, do qual nunca mais ouviu falar. Para o consolar, enviaram-lhe um relatório da Direcção-Geral dos Estudos e Investigações. Era tudo o que aquele organismo, pertencente aos serviços secretos franceses, sabia a respeito da energia nuclear. O relatório trazia três menções carimbadas: “Secreto”, “Confidencial,” “Para não ser divulgado”. Continha, simplesmente, recortes da revista Science et Vie.

Restava-lhe apenas, para satisfazer a sua curiosidade, procurar o famoso major anónimo de quem o professor Goudsmith
contou algumas aventuras no seu livro Alsos. Esse misterioso oficial, dotado de humorismo negro, dissimulara os seus serviços atrás de uma organização destinada à busca dos túmulos dos soldados americanos. Estava muito agitado e parecia perseguido por Washington. Em primeiro lugar quis saber tudo o que Bergier conseguira apurar ou adivinhar sobre os projectos nucleares alemães. Mas era principalmente indispensável, para a salvação do mundo, para a causa aliada e para a promoção do maior, que encontrassem com urgência Eric Edward Dutt e o alquimista conhecido sob o nome de Fulcanelli.

Dutt, sobre quem Helbronner fora encarregado de fazer investigações, era um hindu que pretendia ter consultado manuscritos muito antigos. Afirmava que deles extraíra certos processos de transmutação dos metais e que, devido a uma descarga condensada através de um condutor de boreto de tungsténio, obtinha indícios de ouro nos produtos obtidos. Muito mais tarde, os russos viriam a obter resultados análogos, mas utilizando potentes aceleradores de partículas.

Bergier não pôde prestar grandes serviços ao mundo livre, à causa aliada e à promoção do major. Eric Edward Dutt, colaboracionista, fora fuzilado pela contra-espionagem francesa na África do Norte. Quanto a Fulcanelli, desaparecera definitivamente.

No entanto, o major, como agradecimento, mandou entregar a Bergier, antes da publicação, as provas do relatório: Acerca da Utilização Militar da Energia Atómica, pelo professor H. D. Smyth. Era o primeiro documento autêntico sobre o assunto. Ora, nesse texto havia uma estranha confirmação das frases pronunciadas pelo alquimista em Junho de 1937.

A pilha atómica, peça essencial para a fabricação da bomba, era de facto apenas “uma disposição geométrica de substâncias extremamente puras”. Como Fulcanelli o dissera, esse utensílio, no início, não utilizava nem a electricidade, nem a técnica do vácuo. O relatório Smyth fazia igualmente alusão a venenos irradiantes, a gases, a poeiras radioactivas extremamente tóxicas, que era relativamente fácil preparar em grandes quantidades. O alquimista falara de um possível envenenamento de todo o planeta.

De que forma um investigador obscuro, isolado, místico pudera prever, ou ter conhecimento, de tudo aquilo? “De onde
te vem isso, alma humana, de onde te vem isso?”

Ao folhear as provas do relatório, o meu amigo recordou também esta passagem do De Alchymia, de Alberto o Grande:

“Se tens a pouca sorte de te aproximares do príncipes e dos reis, eles não cessarão de te perguntar: “Então, Mestre, como vai a Obra? Quando é que finalmente veremos qualquer coisa de positivo?” E, na sua impaciência, chamar-te-ão aldrabão e velhaco e causar-te-ão toda a espécie de aborrecimentos. E, se não obtiveres êxito, sofrerás todo o efeito da sua cólera. Se, pelo contrário, o obtiveres, conservar-te-ão em suas casas em cativeiro perpétuo, com o propósito de te fazerem trabalhar
em seu benefício.”

Seria esse o motivo por que Fulcanelli desapareceu e os alquimistas de todos os tempos mantiveram ciosamente o
segredo?

O primeiro e o último conselho dado pelo papiro Harris era: “Fechai as bocas! Cerrai as bocas!”

Anos depois de Hiroshima, a 17 de Janeiro de 1955, Oppenheimer viria a declarar: “Num sentido profundo, que nenhum gracejo de mau gosto será susceptível de extinguir, nós, os sábios, tomámos contacto com o pecado”.

E mil anos antes, um alquimista chinês escrevia: “Seria um pecado terrível desvendar aos soldados o segredo da tua arte. Toma cuidado! Que nem um insecto haja na sala em que trabalhas!”

1 A estereotrónica é uma ciência muito recente que estuda a transformação da energia nos sólidos. Uma das suas aplicações é o transistor.

2 Estas duas obras foram reeditadas pela “Omnium Littéraire” 72, Champs-Elysées, Paris. A primeira edição data de 1925. Há muito que estava esgotada e os curiosos compravam os raros exemplares em circulação por dezenas de milhares de francos.

3 A opinião dos mais cultos e dos mais qualificados é que aquele que se escondeu, ou se esconde ainda nos nossos dias, sob o famoso pseudónimo de Fulcanelli, é o mais célebre e, sem dúvida, o único alquimista autêntico (talvez o último) deste século em que o átomo é rei”. Claude d’Ygé, revista Initiation et Science, n.o 44, Paris.

O alquimista moderno é um homem que lê os tratados de física nuclear. Está convencido de que se podem obter transmutações e fenómenos ainda mais extraordinários por meio de manipulações e com um material relativamente simples. É nos alquimistas contemporâneos que se torna a encontrar o espírito do investigador isolado. A conservação de um tal espírito é preciosa para a nossa época. De facto, acabámos por acreditar que o progresso dos conhecimentos já não é possível sem equipas numerosas, sem uma enorme aparelhagem, sem um financiamento considerável. Ora as descobertas fundamentais, como, por exemplo, a radioactividade ou a mecânica ondulatória, foram realizadas por homens isolados. A América, que é o país das grandes equipas e dos grandes processos, espalha actualmente agentes pelo Mundo inteiro em busca de espíritos originais. O director da investigação científica americana, o doutor James Killian, declarou em 1958 que era prejudicial confiar-se apenas no trabalho colectivo e que achava necessário que se fizesse apelo aos homens solitários, portadores de ideias originais.

Rutheford efectuou os seus trabalhos mais importantes sobre a estrutura da matéria com latas de conserva e pedaços de guita. Jean Perrin e Madame Curie, antes da guerra, enviavam os seus colaboradores ao Marché aux Puces, ao domingo, em busca de um pouco de material. Evidentemente, os laboratórios com aparelhagem poderosa são necessários, mas seria importante organizar uma cooperação entre esses laboratórios, essas equipas, e os originais solitários. No entanto, os alquimistas furtam-se ao convite. A sua lei é o segredo. A sua ambição é a ordem espiritual. “Está fora de dúvida, escreve René Alleau, que as manipulações alquímicas servem de suporte a uma ascese interior”. Se a alquimia contém uma ciência, essa ciência é apenas um meio de atingir a consciência. Importa, portanto, que não saia para o exterior, onde se transformaria num fim.

*

Qual é o material do alquimista? O mesmo do investigador de química mineral de altas temperaturas: fornos, crisóis, balanças, instrumentos de medição, aos quais se vieram juntar os aparelhos modernos acessíveis de controlo das radiações nucleares: contador Geiger, cintilómetro, etc.

Esse material pode parecer irrisório. Um físico ortodoxo não poderia admitir que é possível fabricar um cálculo emitindo neutrões por processos simples e económicos. Se as informações que temos são autênticas, os alquimistas conseguem-no. Na altura em que o electrão era considerado o quarto estado da matéria, inventaram-se dispositivos extremamente onerosos e complicados para produzir correntes electrónicas. Após o que, em 1910, Eister e Gaitel demonstraram que bastava aquecer cal ao rubro no vácuo. Não sabemos tudo a respeito das leis da matéria. Se a alquimia é uma ciência em avanço sobre a nossa, usa processos mais simples do que os nossos.

Conhecemos vários alquimistas em França e dois nos Estados Unidos. Há-os em Inglaterra, na Alemanha e em Itália. E.J. Holmyard diz ter encontrado um em Marrocos. De Praga escreveram-nos três. A imprensa científica soviética, actualmente, parece fazer grande caso da alquimia e realiza investigações históricas.

*

E agora vamos tentar, pela primeira vez, segundo cremos, descrever com precisão o que faz um alquimista no seu laboratório. Não pretendemos revelar a totalidade do método alquímico, mas julgamos ter, a respeito desse método, alguns conhecimentos de certo interesse. Não esquecemos que a última finalidade da alquimia é a transmutação do próprio alquimista, e que as manipulações não passam de um lento caminhar em direcção à “libertação do espírito”. É sobre essas manipulações que tentamos apresentar novos esclarecimentos.

Em primeiro lugar, durante vários anos, o alquimista decifrou velhos textos onde “o leitor se deve embrenhar desprovido do fio de Ariana, mergulhado num labirinto no qual tudo foi preparado consciente e sistematicamente a fim de lançar o profano numa inextricável confusão mental”. Paciência, humildade e fé elevaram-no a um certo nível de compreensão desses textos. Nesse nível vai poder iniciar realmente a experiência alquímica. Vamos descrever essa experiência, mas falta-nos um elemento. Sabemos o que se passa no laboratório do alquimista. Mas ignoramos o que se passa no próprio alquimista, na sua alma. Pode dar-se o caso de que tudo esteja ligado. Pode ser que a energia espiritual represente um papel nas manipulações físicas e químicas da alquimia. Pode ser que uma certa forma de adquirir, concentrar e orientar a energia espiritual seja indispensável ao êxito do “trabalho” alquímico. Não é certo, mas, em questão tão delicada, não podemos deixar de reservar um lugar para a frase de Dante: “Vejo que acreditas nestas coisas porque sou eu a dizer-tas, mas não sabes porquê, de forma que por serem acreditadas nem por isso estão menos escondidas”.

O nosso alquimista começa por misturar muito bem, num almofariz de ágata, três constituintes. O primeiro, numa percentagem de 95%, é um minério: uma pirite arseniosa, por exemplo, um minério de ferro que contém especialmente, como impurezas, arsénico e antimónio. O segundo é um metal: ferro, chumbo, prata ou mercúrio. O terceiro é um ácido de origem orgânica: ácido tartárico ou cítrico. Vai moê-los e triturá-los com as mãos, depois conserva a mistura durante cinco ou seis meses. Em seguida aquece tudo num crisol. Aumenta progressivamente a temperatura e faz com que a operação dure cerca de dez dias. Deverá tomar certas precauções. Há gases tóxicos que se evolam: o vapor de mercúrio e sobretudo o hidrogénio arsenioso, que matou mais de um alquimista, logo no início dos trabalhos.

Finalmente dissolve o conteúdo do crisol com um ácido. Foi procurando um dissolvente que os alquimistas de outrora descobriram o ácido acético o ácido nítrico e o ácido sulfúrico. Essa dissolução deve efectuar-se sob uma luz polarizada: quer uma réstia de luz solar, reflectida num espelho, quer a luz da Lua. Sabe-se hoje que a luz polarizada vibra numa única direcção, ao passo que a luz normal vibra em todas as direcções em redor de um eixo. Em seguida evapora o líquido e recalcina o sólido. Recomeça essa operação milhares de vezes, durante vários anos.

Porquê? Ignoramo-lo. Talvez na expectativa do momento em que as melhores condições estejam reunidas: raios cósmicos, magnetismo terrestre, etc. Talvez a fim de obter uma “fadiga” da matéria em estruturas profundas que nós ainda ignoramos.

O alquimista fala de “paciência sagrada”, de lenta condensação do “espírito universal”. Há certamente qualquer outra coisa atrás desta linguagem pararreligiosa.

Esta forma de operar repetindo indefinidamente a mesma manipulação pode parecer demencial a um químico moderno. Ensinaram-lhe que há um único método experimental válido: o de Claude Bernard. É um método que age por meio de variações concomitantes. Repete-se milhares de vezes a mesma experiência, mas fazendo variar, de cada vez, um dos factores: proporções de um dos constituintes, temperatura, pressão, catalisador, etc. Anotam-se os resultados obtidos e deduzem-se algumas das leis que regem o fenómeno. É um método que deu as suas provas, mas não é o único. O alquimista repete a sua manipulação sem a menor alteração, até que qualquer coisa de extraordinário se produza.

No fundo, acredita numa lei natural bastante comparável ao “princípio de exclusão” formulado pelo físico Pauli, amigo de Jung. Para Pauli, num dado sistema (o átomo e as suas moléculas), não podem existir duas partículas (electrões, protões, mesões) no mesmo estado. Tudo é único na natureza: “a vossa alma não tem outra semelhante…” É por isso que se passa bruscamente, sem intermediário, do hidrogénio ao hélio, do hélio ao lítio e assim indefinidamente, como o indica, para o físico nuclear, a Tabela Periódica dos Elementos. Quando se junta uma partícula a um sistema, essa partícula não pode tomar nenhum dos estados existentes no interior desse sistema. Toma um novo estado e a combinação com as partículas já existentes cria um sistema novo e único.

Para o alquimista, da mesma forma que não existem duas almas semelhantes, dois seres semelhantes, duas plantas semelhantes (Pauli diria: dois electrões semelhantes), não há duas experiências semelhantes. Se se repetir milhares de vezes uma experiência, qualquer coisa de extraordinário acabará por se produzir. Não somos bastante competentes para lhe dar ou não
razão. Contentamo-nos em observar que uma ciência moderna, a ciência dos raios cósmicos, adoptou um método comparável ao do alquimista. Essa ciência estuda os fenómenos causados pelo aparecimento, num aparelho de detecção ou sobre uma chapa, de partículas com energia formidável, vindas de estrelas. Estes fenómenos não podem ser obtidos segundo a nossa vontade. É preciso esperar. Por vezes regista-se um fenómeno extraordinário. Foi assim que no Verão de 1957, no decorrer das
investigações feitas nos Estados Unidos pelo professor Bruno Rossi, uma partícula animada de uma energia formidável, jamais registada até ali, e vinda talvez de outra galáxia sem ser a nossa Via Láctea, impressionou 1500 calculadores ao mesmo tempo num raio de oito quilómetros quadrados, provocando, à sua passagem, um feixe enorme de destroços atómicos. Não é possível imaginar qualquer máquina capaz de produzir tal energia. Nenhum sábio tinha conhecimento de que jamais se tivesse produzido semelhante acontecimento e ignora-se se voltará a repetir-se. É também um acontecimento excepcional, de origem terrestre ou cósmica, e capaz de influenciar o seu crisol, que parece aguardar o nosso alquimista. Talvez ele pudesse abreviar a sua expectativa utilizando processos mais activos do que o fogo, aquecendo por exemplo, o crisol num forno de indução pelo método de levitação, ou ainda juntando isótopos radioactivos à sua mistura. Ele poderia então fazer e refazer a sua manipulação, não várias vezes por semana, mas milhares de vezes por segundo multiplicando desta forma as probabilidades de captar “o acontecimento” necessário ao bom êxito da experiência. Mas o alquimista actual, como o de ontem, trabalha em segredo, pobremente, e considera a expectativa uma virtude.

Prossigamos a nossa descrição: ao fim de vários anos de um trabalho sempre igual, de dia e de noite, o nosso alquimista acaba por deduzir que a primeira fase terminou. Junta então um oxidante à sua mistura: o nitrato de potássio, por exemplo. Há enxofre no crisol, proveniente da pirite, e carvão proveniente do ácido orgânico. Enxofre, carvão e nitrato: foi durante essa manipulação que os antigos alquimistas descobriram a pólvora.

Ele vai recomeçar a dissolver, depois a calcinar, sem descanso, durante meses e anos, na expectativa de um sinal. Sobre a natureza desse sinal, as obras alquímicas diferem, mas é talvez porque há vários fenómenos possíveis. Esse fenómeno produz-se no momento de uma dissolução[1]. Para certos alquimistas, trata-se da formação de cristais em forma de estrelas à superfície do banho. Para outros, uma camada de óxido surge à superfície desse banho, depois abre-se, deixando a descoberto o metal luminoso no qual parecem reflectir-se, em imagem reduzida, ora a Via Láctea, ora as constelações.[2]

Depois de receber este sinal, o alquimista retira a sua mistura do crisol e “deixa-a amadurecer”, ao abrigo do ar e da humidade, até ao primeiro dia da próxima Primavera. Quando retomar as operações, estas visarão aquilo a que se chama, nos velhos textos, “a preparação das trevas”. Recentes investigações sobre a história da química demonstraram que o monge alemão Berthold Le Noir (Berthold Schwarz), a quem vulgarmente se atribui a invenção da pólvora no Ocidente, nunca existiu. É uma figura simbólica desta “preparação das trevas”.

A mistura é colocada num recipiente transparente, em cristal de rocha, fechado de forma especial. Há poucas indicações a respeito dessa fechadura, chamada fechadura de Hermes, ou hermética. Dali em diante o trabalho consiste em aquecer o recipiente doseando, com uma infinita delicadeza, as temperaturas. No recipiente fechado, a mistura contém sempre enxofre, carvão e nitrato. Trata-se de elevar essa mistura a um certo grau de incandescência, evitando no entanto a explosão. São numerosos os casos de alquimistas gravemente queimados ou mortos. As explosões que se produzem são de particular violência e exalam temperaturas para as quais não estávamos logicamente preparados.

O fim em vista é a obtenção, no recipiente, de uma “essência”, de um “fluido”, a que os alquimistas por vezes chamam “a asa de corvo”.

Sejamos mais claros. Esta operação não tem equivalente na física e química modernas. No entanto, não deixa de ter analogias. Quando se dissolve no gás amoníaco líquido um metal como o cobre, obtém-se uma coloração azul-escuro que passa ao negro nas grandes concentrações. Produz-se o mesmo fenómeno se se dissolver no gás amoníaco liquidificado hidrogénio sob pressão ou amidas orgânicas, de forma a obter o composto instável NH4, que tem todas as propriedades de um metal alcalino e que, por esse motivo, foi chamado “amónio”. Há razões para crer que essa coloração azul-negro, que faz pensar na “asa de corvo” do fluido obtido pelos alquimistas, é justamente a cor do gás electrónico. O que é o “gás electrónico”? É para os sábios modernos, o conjunto de electrões livres que constituem um metal e lhe asseguram as propriedades mecânicas, eléctricas e térmicas. Ele corresponde, na terminologia actual, ao que o alquimista chama “a alma” ou ainda “a essência” dos metais. É essa alma ou essa “essência” que se liberta no recipiente hermeticamente fechado e pacientemente aquecido do alquimista.

Ele aquece, deixa arrefecer, aquece de novo, e isto durante meses ou anos, observando através do cristal de rocha a formação daquilo a que também se chama “o ovo alquímico”: a mistura transformada em fluido azul-negro. Abre finalmente o seu recipiente na obscuridade, apenas sob a claridade dessa espécie de líquido fluorescente. Em contacto com o ar, esse líquido fluorescente solidifica-se e separa-se.

Obterá desta forma substâncias completamente novas, desconhecidas na natureza e com todas as propriedades dos elementos químicos puros, quer dizer, inseparáveis pelos processos da química.

Os alquimistas modernos pretendem ter obtido desta forma elementos químicos novos, e isto em quantidades consideráveis. Fulcanelli teria extraído de um quilo de ferro vinte gramas de um corpo completamente novo, cujas propriedades químicas e físicas não correspondem a qualquer elemento químico conhecido. Seria aplicável a mesma operação a todos os elementos, cuja maior parte daria dois elementos novos por cada elemento tratado.

Tal afirmação é de molde a chocar o homem de laboratório. Actualmente, a teoria não permite prever outras separações além das seguintes:

– A molécula de um elemento pode alcançar vários estados: Oto-hidrogénio e para-hidrogénio, por exemplo.

– O núcleo de um elemento pode tomar um certo número de estados isotópicos caracterizados por um número de neutrões diferentes. No lítio 6 o núcleo contém três neutrões e no lítio 7 contém quatro.

Os nossos técnicos, para separar os diversos estados alotrópicos da molécula e os diversos estados isotópicos do núcleo,
exigem para isso um enorme material.

Os processos do alquimista são, em comparação, irrisórios, e ele alcançaria, não uma mudança de estado da matéria, mas a criação de uma matéria nova, ou pelo menos uma decomposição e recomposição diferente da matéria. Todo o nosso conhecimento
do átomo e do núcleo se baseia no modelo “saturniano” de Nagasoka e Rutheford: o núcleo e o seu anel de electrões. Não é impossível que, no futuro, outra teoria nos leve a realizar mudanças de estados e separações de elementos químicos por enquanto inconcebíveis.

Portanto, o nosso alquimista abriu o seu recipiente de cristal de rocha e obteve, por meio do arrefecimento do líquido fluorescente em contacto com o ar, um ou vários elementos novos. Restam as escórias. Essas escórias, vai ele lavá-las durante meses em água tridestilada. Depois manterá essa água ao abrigo da luz e das variações de temperatura.

Essa água teria propriedades químicas e medicinais extraordinárias. É o dissolvente universal e o elixir de longa vida tradicional, o elixir de Fausto[3].

Aqui, a tradição alquímica parece de acordo com a ciência de vanguarda. De facto, para a ciência ultramoderna, a água é uma mistura extremamente complexa e reagente. Os investigadores debruçados sobre a questão dos oligoelementos, especialmente o doutor Jacques Ménétrier, constataram que, praticamente, todos os metais eram solúveis na água em presença de certos catalisadores, como a glucose, e sob determinadas variações de temperatura. Além disso, a água formaria verdadeiros compostos químicos, hidratos, com gases inertes tais como o hélio e o árgon. Se se soubesse qual o constituinte da água responsável pela formação dos hidratos em contacto com um gás inerte, seria possível estimular o poder solvente da água e portanto obter um verdadeiro dissolvente universal. A revista russa Saber e Força, incontestavelmente séria escrevia no seu número 11, de 1957, que talvez um dia se obtivesse esse resultado bombardeando a água com radiações nucleares e que o dissolvente universal dos alquimistas seria uma realidade antes do final do século. E essa revista previa um certo número de aplicações, imaginava a abertura de túneis por meio de um jacto de água activada.

O nosso alquimista, portanto, encontra-se agora de posse de um certo número de corpos simples desconhecidos na natureza e de alguns frascos de uma água alquímica susceptível de lhe prolongar consideravelmente a vida, através do rejuvenescimento
dos tecidos.

Agora vai tentar combinar novamente os elementos simples que obteve. Mistura-os no seu almofariz e derrete-os a baixas temperaturas, na presença de catalisadores a respeito dos quais os textos são muito vagos. Quanto mais se avança no estudo das manipulações alquímicas, mais os textos são difíceis de compreender. Aquele trabalho irá ocupá-lo ainda durante alguns anos.

Afirmam que, desta forma, ele obteria substâncias absolutamente semelhantes aos metais conhecidos, e em especial aos metais bons condutores do calor e da electricidade. Seriam estes o cobre alquímico, a prata alquímica, o ouro alquímico. Os testes clássicos e a espectroscopia não permitiriam verificar a novidade dessas substâncias, e no entanto elas possuiriam propriedades novas, diferentes das dos metais conhecidos, e muito surpreendentes.

Se as informações que temos são exactas, o cobre alquímico, aparentemente semelhante ão cobre conhecido e no entanto muito diferente, teria uma resistência eléctrica infinitamente fraca, comparável à dos supercondutores que o físico obtém nas proximidades do zero absoluto. Este cobre, se pudesse ser utilizado, revolucionaria a electroquímica.

Outras substâncias, resultantes da manipulação alquímica, seriam mais surpreendentes ainda. Uma delas seria solúvel no vidro, a baixa temperatura e antes do momento da fusão deste. Essa substância, ao tocar o vidro ligeiramente amolecido, dispersar-se-ia no interior, dando-lhe um colorido vermelho-rubi, com fluorescência lilás na escuridão. É ao pó obtido pela trituração desse vidro, modificado no almofariz de ágata, que os textos alquímicos chamam o “pó de projecção” ou “pedra filosofal”. “Com isso, escreve Bernard, conde da Marche Trévisane, no seu tratado filosófico, se termina a elaboração dessa Pedra superior a todas as pedras preciosas, a qual é um tesouro infinito à glória de Deus que vive e reina eternamente”.

São conhecidas as maravilhosas lendas ligadas a essa pedra “pó de projecção” que seria susceptível de assegurar transmutações de metais em quantidades consideráveis. Transformaria, inclusivamente, certos metais vis em ouro, prata ou platina, mas tratar-se-ia então de um dos aspectos do seu poder. Seria uma espécie de reservatório de energia nuclear em suspensão, facilmente manejável.

Voltaremos em breve aos problemas que as manipulações do alquimista põem ao homem moderno esclarecido, mas detenhamo-nos exactamente onde se detêm os textos alquímicos. Eis a “grande obra” realizada. Produz-se no próprio alquimista uma transformação que esses textos evocam, mas que nós somos incapazes de descrever por não possuirmos a esse respeito mais do que umas poucas noções analógicas. Essa transformação seria como que a promessa, através de um ser privilegiado, daquilo que espera a humanidade inteira no termo do seu contacto inteligente com a Terra e os seus elementos: a sua fusão em Espírito, a sua concentração num ponto espiritual fixo e a sua união com outros centros de consciência através dos espaços cósmicos. Progressivamente, ou num súbito clarão, o alquimista, segundo a tradição, descobre o significado do seu longo trabalho. Os segredos da energia e da matéria são-lhe desvendados, e ao mesmo tempo tornam-se-lhe visíveis as infinitas perspectivas da vida. Ele possui a chave da mecânica do Universo. Ele próprio estabelece novas relações entre o seu espírito, dali em diante animado, e o espírito universal em eterno progresso de concentração. Serão certas radiações do pó de projecção responsáveis de uma transmutação do ser físico?

A manipulação do fogo e de certas substâncias permite, portanto, não só transmutar os elementos, como ainda transformar o próprio investigador. Este, sob a influência das forças emitidas pelo crisol (quer dizer, das radiações emitidas por núcleos a sofrerem modificações de estrutura), entra noutro estado. Nele se operam mutações. A sua vida prolonga-se, a sua inteligência e as suas percepções atingem um nível superior. A existência de tais seres, biológica e psiquicamente novos, é um dos alicerces da tradição Rosa-Cruz. O alquimista passa a outro estado do ser. É elevado a outro grau da consciência. Tem a sensação de que só ele se encontra desperto e que todos os outros homens ainda dormem. Escapa ao vulgar humano e desaparece, como Mallory sobre o Everest, depois de ter tido o seu minuto de verdade.

“A Pedra filosofal representa desta forma o primeiro degrau susceptível de auxiliar o homem a elevar-se em direcção ao Absoluto. Para além começa o mistério. Aquém não há mistério, nem esoterismo, nem outras sombras excepto as que projectam os nossos desejos e sobretudo o nosso orgulho. Mas, como é mais fácil satisfazermo-nos de ideias e de palavras do que fazer qualquer coisa com as próprias mãos, com a nossa dor e a nossa fadiga, no silêncio e na solidão, é mais cómodo procurar um refúgio no pensamento chamado “puro”, do que batermo-nos corpo a corpo contra o peso e as trevas da matéria. A alquimia proíbe qualquer evasão deste género aos seus discípulos. Deixa-os frente a frente com o grande enigma. . . Apenas nos assegura que se lutarmos até ao fim para nos libertarmos da ignorância, a própria verdade lutará por nós e vencerá finalmente todas as coisas. Talvez comece então a VERDADEIRA metafísica.”

1 Este método consiste em suspender a mistura a derreter no vácuo, fora todo o contacto com uma superfície material, por meio de um campo magnético.

2 Funde-se então por meio de uma corrente de alta frequência. O semanário americano Life, em Janeiro de 1958, publicou lindíssimas fotografias de um forno deste género em acção. Jacques Bergier declara ter assistido a esse fenómeno.

3 O professor Ralph Milne Farley, senador dos Estados Unidos e professor de física moderna na Escola Militar de West Point, chamou a atenção para o facto de certos biologistas pensarem que o envelhecimento é devido à acumulação de água pesada no organismo. O elixir de longa vida dos alquimistas seria uma substância eliminando selectivamente a água pesada. Tais substâncias existem no vapor de água. Porque não existirão na água líquida tratada de certa maneira? Mas poderia uma descoberta desta natureza ser divulgada sem perigo? O professor Farley imagina uma sociedade secreta de imortais, ou quase-imortais, existindo desde há séculos e reproduzindo-se por cooptação. Uma sociedade destas, que não se meteria em política e não se imiscuiria de forma alguma nas questões dos homens, teria todas as probabilidades de passar despercebida. . .


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[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-alquimia-como-exemplo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-alquimia-como-exemplo/

A Deusa das Neves

Para os alpinistas ambiciosos , os altos picos da cordilheira dos Andes sempre se constituíram num desafio à coragem e perícia dos escaladores e um convite à aventura. Foram estes os motivos que levaram os japoneses Joshifuma Takeda e Iukishuga Hariuchi a virem para o Ocidente em busca das emoções da conquista de montanhas invioláveis até mesmo para o condor , a ave da cordilheira que mais alto voa.

Eles conheciam os relatos por outros andinistas sobre as dificuldades. Obstáculos que exigiriam uma técnica apurada para escalar montes que atingem 6 e 7 mil metros de altitude como os que existem na cordilheira Real que avança desde a Bolívia e estende-se por todo o oeste peruano . Aí estão os grandes monarcas do Peru, desafiadores e temíveis , como os vulcões Misti , Chacani, Pichu-Pichu e Coropuna, este tão alto quanto o Aconcágua — o Teto das Américas — que alcança 7.040 metros sobre o nível do mar . todos coroados por imensos mantos de neve eterna e geleiras que descem pelos seus flancos em direção aos estreitos vales e que tornam sua escalada ainda mais exigente e emocionante.

Antes de movimentar e seus acampamentos , os japoneses fizeram um vôo de reconhecimento. Enquanto sobrevoavam as cordilheiras , levantando em mapas os caminhos mais acessíveis para a escalada , iam fotografando os abismos , penedos , cornijas e encostas. Mais tarde , escolheram um dos dificeis picos ao lado do Coropuna para conquista-lo e registrar a façanha no livro de ouro dos alpinistas, pois essa culminância andina ainda não tinha sido palmilhada por pés humanos. Os japoneses conseguiram sucesso e regressaram para suas casas. Revelaram os filmes feitos e descobriram , surpresos, que sobre um dos cumes , a mais de 6 mil metros de altitude , haviam documentado a existência de uma cidadela de muralhas inexpugnáveis. As construções pareciam suspensas na beira do abismo , igual a cidadela de Machu Pichu, no vale do Urubambo , descoberta por Hiram Birgham no começo do século.

Levadas para o jornal Asahi , do Japão , este publicou as fotos dos dois alpinistas , junto com um texto que falava de uma nova cidade perdida dos incas encontrada por acaso. O periódico citava o inexplorado cume do Pichu-Pichu como o local da descoberta segundo descrição feita pelos fotografos. A noticia espalhou-se pelo mundo , fazendo com que uma onda de excitação percorresse arqueólogos , escaladores , aventureiros e, sobretudo, despertasse a cobiça dos huaqueiros como são conhecidos no Peru os que se dedicam à pilhagem de tesouros quase sempre existentes nestes achados espetaculares.

Os cientistas mostravam-se surpresos e incrédulos: Machu Pichu foi construída, depois de um trabalho que desafia toda a técnica arquitetônica conhecida , numa altura de 2.600 metros. As muralhas fotografadas pelos japoneses, no entanto , ao se aceitar sua localização no Pico Pichu-Pichu, deveria estar a mais de 5 mil metros de altitude . Simone Waisnbard, autora do livro Tiahuanaco, 10.000 anos de Enigmas Incas, que relata em sua obra como se processou esta descoberta , encontrava-se em Lima quando as fotos foram divulgadas . Como aconteceu com os cientistas do Peru, Waibard correu para verificar a documentação que havia chegado a uma instituição arqueológica peruana , mandada pelos dois alpinistas . Nuvens que cobriam o monte dificultavam a vegetação . Ao serem examinadas mais cuidadosamente , foi possível distinguir com clareza uma pirâmide megalítica comdegraus escalonados e voltados para os declives vertiginosos da cratera do vulcão em repouso.

Para constatar o achado , organizou-se uma expedição para tomar de assalto o Pichu-Pichu , apesar dos esforços sobre-humanos que essa tarefa exigia . Nada foi encontrado, porém , Simone Waisbard conta que o diretor do museu da cidade de Arequipa , próxima ao local indicado da descoberta , voou com o fotografo Carlos Zarate Sandoval , num velho Stinson Fawcett , por sobre a cratera e os flancos do vulcão adormecido , num dia de muito sol e pouca névoa em torno dos altos picos , retornando desconsolados : também nada tinham visto.

Soube-se depois que os japoneses enganaram-se de cume ; não era no Pichu-Pichu mas sim no Coropuna , local onde as tradições incaicas situam um magnifico templo do Sol que as fotos tinham sido feitas . Esta nova localização , contudo , também seria desmentida a seguir pelo acaso .

Em 1963 — Simone Waisbard quem relata o caso em seu livro — alguns andinistas subiram ao Coronado Grande , nas redondezas daqueles outros montes , para colocarem a efígie de San Martin de porras , santo peruano , no ponto mais alto da montanha . Durante a subida , os peregrinos começaram a avistar sinalizações estranhas , gravadas nas rochas que emergiam das duras capas de gelo. Cinco dos andinistas , ao cabo de algumas horas , deixaram num ponto abrigado das montanhas os companheiros de peregrinação que demonstravam não ter mais forças para completar a escalada e incumbiram-se de prosseguir a piedosa missão de conduzir a efígie do santo ao seu destino.

Enfrentando dificuldades sem conta e mal podendo respirar devio a extrema rarefação do ar nessa grande altitude , ao procurar o melhor caminho para conquistar o cume , eles observaram que haviam outras figuras geométricas , igualmente gravadas m pontas de rochas que se salientavam de uma compacta lamina de gelo e que pareciam ser indicações para se seguir adiante, pois este era , realmente, o melhor caminho. Intrigados , constataram que a vereda mais segura em direção ao alto era a que os sinais pareciam indicar.

Estes desenhos repetiram-se em outras pontas de rochas , na medida em que subiam , nas cotas de 4.790 metros e de vinte em vinte metros. Ao atingir os 5.350 metros , eles não puderam prosseguir pelo caminho assinalado e bem mais suave para a escalada: houve um desmoronamento que bloqueou a senda, evidentemente provocado pelos frequentes terremotos que abalam a região e sacodem estes gigantes da cordilheira.

Dando uma grande volta para transpor o obstáculo, os escaladores retomaram o mesmo caminho , um pouco acima . Repentinamente , encontraram-se defronte a uma escada de lajes trabalhadas na rocha viva, com largura de 2 metros . Compreenderam que estavam no limiar de uma grande descoberta, ou então , que uma surpresa os aguardava mais acima. Movidos por um súbito entusiasmo, prosseguiram e deram com uma pascana , denominação indígena dada a um lugar para repouso e abrigo nas montanhas . Havia , no mesmo lugar, uma pirka ou circulo de pedras empilhadas , erguidas pelos índios em louvor aos espíritos das montanhas . Carlos Zarate , o fotografo que voou com o diretor do museu de Arequipa e que participava desta outra expedição , teve a intuição de enfiar uma sonda no centro da pirka para ver qual a sua profundidade, pois suspeitava que ela emergia de uma cova muito profunda e subia acima da superfície . Poderia ser um túmulo. A sonda penetrou como ele esperava, mostrando não ter atingido o fundo . Os andinistas começaram a escavar o lugar , iniciando pela demolição da pirka e removendo suas pedras da superfície. Em pouco tempo encontraram um túmulo inca , repleto de cerâmicas , objetos de cobre e ouro , tecidos , fragmentos de conchas e madeira trabalhada com entalhes de baixo relevo.

Os jornais , mais tarde, encarregaram-se de divulgar os outros achados feitos pelos escaladores. Estes não tinham ainda se refeito da surpresa causada pela descoberta do túnel pré-colombiano naquelas alturas — o que fez com que se esquecessem das canseiras — quando , olhando para o alto , viram um mirante de sentinelas . Indo até ele , verificaram que o posto permitia controlar todas as passagens ou veredas que levavam ao lugar. Presumiram que se encontravam no umbral de uma nova descoberta ainda mais importante.

Um posto de sentinelas só podia significar que deveria existir uma cidade ou uma construção importante. Subindo , a expedição deu com um passadiço largo , com 7 metros de comprimento e cruzado por grandes portadas de pedra trabalhada . Estupefatos , olharam em redor e sentiram desolação. A cidadela em que penetravam estava recoberta de cinzas vulcânicas. Era uma pequena Pompéia dos Andes e eles compreenderam que sob suas botas seguramente estariam enterrados homens , mulheres e crianças que deviam estar naquelas alturas quando foram surpreendidos pelo súbito despertar do vulcão. Lembram-se que a região, ao longo dos anos , sempre foi sacudida por violentas erupções.

Os andinistas resolveram erguer acampamento no lugar para continuar fazendo escavações. Trabalhando com suas picaretas de escaladores , abriram grossas chapas de gelo e romperam as crostas de lava para para encontrar uma entrada. Foi assim que deram com o mausoléu da cidadela . Em seu interior, os compartimentos construídos com pedras alinhadas, segundo a tradicional engenharia incaica e que formavam as habitações para guardar múmias, tinham resistido à catástrofe. Eles avistaram em seu interior não só as múmias como uma infinidade de objetos preciosos que estavam com elas e que os focos de suas lanternas iam revelando. Durante um período relativamente longo eles se dedicaram a inventariar o achado.

A bagagem funerária das múmias era das mais variadas e em grande quantidade. Encontraram oferendas feitas aos mortos para satisfazer sua alma na vida além-túmulo, como folhas de coca e preparados de lipta — uma mistura de cal virgem e cinzas da raiz da quinoa que permitem separar a cocaína das folhas — vasos com alimentos secos e outros destinados a conter fumo e bebidas. A descoberta mais surpreendente ainda estava para ser feita.

Examinando as múmias , seguiram pelos vários compartimentos da necrópole até sair num local onde encontraram quarenta crânios humanos que se alinhavam em circulo ao redor de um ídolo de ouro puro da Deusa das Neves, para a qual tinham sido exigidos sacrifícios humanos , como vieram a saber mais tarde.

Os arqueólogos do museu de Arequipa estimam que a Deusa das Neves tenha mais de 3 mil anos de existência. Segundo eles, seu culto parece ter se originado nos rituais dos antigos povos kollas e puquinas, os quais antecederam aos incas no altiplano.

O encontro feito pelos expedicionários do Coronado Grande , porém, reavivou o interesse sobre a tradição da deusa e novas pesquisas começaram a ser feitas, principalmente devido ao fato de ter sido encontrada uma de suas mais antigas imagens, Essas pesquisas concentraram-se na coleta de informações através da tradição oral transmitida de geração em geração entre os yatiris ou chefes feiticeiros de clãs dos índios. Soube-se que naquele tempos remotos, todos os anos , em datas fixadas pelos sábios amautas que detinham vastos conhecimentos e sabiam ler os astros , organizavam-se sacrifícios humanos.

Nessas ocasiões , o povo ataviava-se com suas melhores vestes e jías e integrava uma longa procissão que partia do sopé daquela montanha dirigindo-se lentamente ao seu cume, a mais de 5 mil metros de altura. Como é de se supor , eles faziam a subida mascando a coca para aliviar a fadiga da ascensão e criar um clima de euforia que os hinos religiosos entoados pela multidão tornavam ainda mais estimulantes . Eles carregavam as suas oferendas para serem entregues ao vulcão e a Deusa das Neves , rogando aos grandes espíritos da montanha e a divindade branca para aceitarem os presentes e retribuir com os favores de melhores colheitas , proteção contra ataques de invasores e, sobretudo , dando-lhe felicidade.

Vasos de cerâmica foram examinados e neles os pesquisadores encontraram pinturas revelando detalhes dessa procissão. Nessa fila dos crentes, logo após os sacerdotes e outros altos dignitários que iam na frente , seguia a liteira carregada nos ombros pelo povo e que conduzia adolescentes que seriam sacrificados à deusa. Outro exame no local da descoberta do altar do espirito das neves e ainda por desenhos em cerâmica , encontrados em vasos religiosos, verificou-se que os adolescentes que eram sacrificados com freqüência eram colocados numa espécie de arca cavada numa pedra ou, então, encontrados numa das paredes do rochedo. Esses jovens, ao que tuo indicava , eram previamente drogados com infusões de folhas de coca e de outras ervas alucinógenas que os índios conhecem tão bem desde a mais remota antigüidade , com o propósito evidente de nada sofrerem durante o ato do sacrifício . Aos és dos que seriam sacrificados , os seguidores do culto da deusa colocavam suas mais preciosas oferendas , bem como os alimentos e as bebidas necessárias para a derradeira viagem que seria empreendida pelos jovens escolhidos para agradar a divindade.

Ao redor deles eram colocados , também , os incensórios e as pequenas vasilhas com defumadores. A vitima, dopada e adormecida, encostada num penedo ou sentada na urna megalítica , após as cerimonias religiosas das oferendas , das preces e dos rituais propiciatórios, era aí deixada sob o frio da altitude, para que a deusa a congelasse e recolhesse seu espirito para servi-la em seus domínios , como os adolescentes e as virgens eram empregados nos templos dos homens.

Em outros vulcões onde ocorreram atos de sacrifício semelhantes , encontraram-se cadáveres congelados e conservados sob duras placas de gelo. Eles foram desenterrados de suas sepulturas congeladas e levados para museus , para exames. Não demonstravam na face quaisquer rictos ou sinais de sofrimento causados pela morte pelo frio. Ao contrário; esses rostos mantém ainda com perfeição uma fisionomia serena , às vezes parecendo sorrir. Evidentemente por efeito das drogas ingeridas que os dopavam e tornavam insensíveis a qualquer dor.

De qualquer maneira, isso não descarta a possibilidade de algumas outras vitimas humanas sacrificadas à Deusa das Neves não terem sido mortas por congelamento e depois atiradas para dentro do vulcão ou até — quem sabe? — ainda vivas mas adormecidas, terem sido lançadas para a eternidade no fundo das crateras.

O culto da Deusa das Neves e os sacrifícios extremos que exigia difundiram-se entre todos os povos do altiplano andino. Na maioria dessas cerimonias , contudo , são poucos os casos de morte violenta ou de que as pequenas vitimas tenham acordado subitamente, despertadas pelo instinto de conservação e tentado escapar do terrível sacrifício, debatendo-se ou morrendo com a face crispada pelo terror . Algumas múmias das regiões de Cuzco e de Arequipa, contudo, foram achadas com sinais de violência no alto de cumes nevados.

Entre estas, relaciona-se a que foi encontrada pela missão arqueológica do alemão Dietrich Disselhof ao Pichu-Pichu. Este monte fica próximo do Coronado Grande, portanto , perto do local onde foi encontrado o primitivo ídolo da Deusa das Neves. Além de um cadáver , o arqueólogo encontrou um crânio e duas vértebras cervicais pertencentes a uma jovem de quinze anos presumíveis . Havia uma ampla perfuração no lado direito do osso parietal e, também , vestígios de glóbulos vermelhos intactos , evidencias bastante seguras de que houve um sacrifício por morte súbita e violenta.

Quando as antigas culturas do altiplano foram subjugadas pelo Império inca, no inicio deste nosso milênio, seus novos senhores impuseram sua civilização e o tipo de sociedade comunitária que utilizavam em todos os seus domínios , bem como a religião incaica que venerava o Deus Sol. Eles não conseguiram , porém, fazer com que o culto da Deusa das Neves e de outros espíritos que se encarnam nos montes, lagos , rios , arvores ou pedras e que eram seguidos por aqueles povos cessasse.

O culto, por sinal, não só sobreviveu ao Império Inca quando ele foi desmantelado por Francisco Pizarro como teria influenciado aos próprios povos incaicos , os quais viviam nos sopés de vulcões que também esculpiram ídolos da divindade, oferecendo-lhes as mesmas honrarias dos sacrificios exigidos pelos amautas. A verdade é que a tradição ainda vive entre os índios aimarás e quíchuas de hoje, embora não se tenha noticia de nenhuma oferenda humana.

O sacrifício de animais caseiros como o lhama , alpaca , vicunha ou cordeiro tomaram o lugar do homem nas aras erguidas nas altitudes nevadas. Igualmente hoje segue-se a tradição das cerimonias religiosas em honra da deusa , como a procissão que sobe aos elevados vulcões entoando cânticos sagrados acompanhados por músicos que sopram as zamponhas ou a flauta quena , dedilham as cordas de suas arpas indígenas e tocam seus tambores.

No século 20 , não há índio boliviano ou peruano que não tema e não renda homenagem ritualisticas a Pachama-ma , a deusa das alturas , que parece ser uma derivação , nos tempos atuais da Deusa das Neves.

Extraído de um texto de Durval Ferreira – 1976

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-deusa-das-neves/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-deusa-das-neves/

12 livros que moldaram o Cristianismo Contemporâneo

Verdade seja dita, na cultura popular hoje a imagem do cristão é a de um ser bem intencionado e ignorante sem qualquer senso crítico. Um “Mr. Flanders” supersticioso, cabeça-fechada, alienado, e parado no tempo que nada tem a acrescentar. Contudo devemos lembrar que a figura do ‘cristão’ é uma figura que muda e se transforma no decorrer da história. De maltrapilhos e pedintes à reis abastados dos sacro-impérios; de escravos jogados aos leões de Roma aos severos mestres da Inquisição.

No século XX a subcultura cristã cresceu ainda mais como um movimento de massas, especialmente com a ascensão do tele-evangelismo e o surgimentos dos templos relâmpagos. Isso causou duas coisas com a imagem do cristianismo contemporâneo:

I. Fez com que a imagem dos cristãos se tornasse a de ignorantes que fazem tudo por um pouco de consolo espiritual e conforto material

II. Deu as igrejas a imagem de máquinas de fazer dinheiro.

Mas de certa forma isso foi bom também, pois mostrou deu a oportunidade para muitas pessoas de provarem que a metafísica Cristã continua única e que sua ética continua tão revolucionária quando nos seus primeiros dias. Este novo surgimento do Cristianismo de massas deu margem para o surgimento de uma contra-cultura Cristã, digna dos primeiros portadores da Palavra, aqueles que independente dos costumes criados ou pregados traziam não apenas aquilo que foi dito por Cristo, mas também a criatividade e a sabedoria que emanavam dele. Isso se transformou em uma explosão testemunhada por todos na segunda metade do século XX.

Bandas como o U2, Pod, Cranberries e Creed, entre outras, emergiram de um background cristão e são amplamente celebrados, inclusive por muitos dos que criticam o cristianismo.  Teólogos como Paul Tillich tiveram a coragem de rever alguns conceitos importantes e apontar o dedo de volta para a cara dos filósofos existencialistas e hoje muitos crentes falam abertamente sobre sexo, arte e filosofia, tornando o Cristianismo uma das religiões mais inclusivas e atuante do mainstream cultural do ocidente.

Por estes motivos, celebramos abaixo os 12 Livros mais importantes na história recente do cristianismo. Eles são testemunhas solitárias que se erguem contra o estereótipo do crente tapado, mostrando que o Cristianismo não se resume a ternos, bíblia debaixo do braço e cabelos e saias longas. A lista é parcialmente baseada numa classificação feita pela revista Christianity Today em 2004. Sempre que possível será indicado a Editora que trouxe o livro em questão para a língua portuguesa, e um link para entrar em contato direto com ela caso deseje adquirir algum deles:

 

12 – Cristianismo Criativo

F. F. Bruce
W4 Editora

O livro que abre a lista é um tapa na cara da imensa maioria dos “artistas cristãos’. Ele demonstra como a produção artística e cultural entre os cristãos se tornou uma enorme prisão criativa e conclama pela necessidade de tornar a arte produzida pelos discipulos de Jesus algo realmente relevante para a sociedade.

11 –  Em Seus Passos Que Faria Jesus?

Charles M. Sheldon
Editora: HAGNOS

O que aconteceria se os cristãos de uma igreja em uma certa cidade se comprometessem durante um ano inteiro a não fazer nada sem antes perguntar? Que faria Jesus em meu lugar? É esta a situação apresentada por este livro. Seguir os passos de Jesus que trouxe muita alegria a inúmeros cristãos, mas também causou incompreensão, conflito e sofrimento para alguns. Afinal, tal decisão significava uma total dedicação de bens materiais, talentos e carreiras pelo amor a Cristo.

10 – Uma vida com propósitos

Rick Warren
Ed. Vida

Muitas vezes o dia a dia no trabalho, o culto pessoal e a comunhão na igreja parecem três coisas separadas. Este livro se propõe a ser uma ferramenta útil em tornar uma a vida do cristão na criação de um relacionamento mais intimo com Deus, seu próximo e com a Igreja que freqüenta.

9 – Cordeiros que Rugem

Robert Briner
W4 Editora

De volta ao início dos anos 90, quando ser “engajado” não estava na moda, “Cordeiros que Rugem” promoveu uma explosão criativa sem precedentes que livrou de vez incontáveis cantores evangélicos dos guetos mentais das suas próprias igrejas.

8 – O Ato Conjugal

Ed. Betânia 

Tim and Beverly LaHaye

Um manual explícito de como os casais podem se satisfazer sexualmente. Na lista por mostrar que o cristão não precisa se envergonhar para falar de seu amor sexual e que ele também pode (e deve) se divertir.

7 – Maravilhosa Graça

Philip Yancey
Ed. Vida

Deus ama o criminoso condenado a pena de morte tanto quanto o cobrador de impostos do tempo de Jesus. Deus perdoa o cônjuge infiel? O racista? O corruptor de crianças? Este livro abriu as portas de muitas igrejas. “A Graça vem sem custo nenhum e para pessoas que não a merecem. Eu sou uma dessas pessoas.”

6 – Cristianismo Básico

John Stott
Ed. Vida Nova

Nas palavras de John Stott: Eles se opõem a qualquer coisa que aparente institucionalismo. Eles detestam o status quo e seus benefícios estabelecidos. E rejeitam a igreja – não sem certa razão – porque a consideram como irremediavelmente corrupta por esses males. Porém o que eles rejeitaram é a igreja contemporânea, não Jesus Cristo.

5 – Evangelismo explosivo

D. James Kennedy
Ed. JUERP

Mais do que qualquer outro livro, considerando que as “Quatro Leis Espirituais” é apenas um folheto, esta obra deu aos crentes uma maneira sistemática de compartilhar sua fé. Ele fez a pergunta que criou a abordagem mais conhecida na pregação contemporânea: “Se você fosse morrer hoje, você teria a certeza de ir para o céu?

4 – Cristãos Ricos em um Mundo com fome

Ronald J. Sider

Este é o único livro desta lista que não tem edição em português ainda. Talvez porque aqui a histórica “opção pelos pobres” encabeçada pela esquerda cristã, já tenha dito o mesmo de maneira mais prática e direta. Jesus sempre esteve do lado dos miseráveis, tanto na pregação quanto na assistência. Sider lembra sem papas nas línguas que negligenciar isso é negligenciar o evangelho em si.

3 – O Deus que intervém

Francis A. Schaeffer
Ed. Cultura Cristã

Este livro e seus volumes seguintes começaram algo extremamente necessário: tornou a história intelectual da humanidade uma parte vital da visão de mundo evangélico. O livro abriu o mundo da arte de vanguarda e da filosofia moderna para uma subcultura (a cristandade) até então ignorante de ambos.

2 – A Bíblia Viva

Kenneth N. Taylor
Ed. Mundo Cristão
Uma das primeiras bíblias na linguagem de hoje. Após anos de escuridão milhares de pessoas entenderam o que quer dizer por exemplo: “A criança de peito brincará sobre a toca da áspide e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco.” Mais do que qualquer coisa este trabalho começou uma verdadeira mania leiga pelo sentido primeiro por trás das palavras das escrituras .

1 – Cristianismo Puro e Simples

C. S. Lewis
Martins Fontes

Talvez o livro mais influênte entre os evangêlicos nos últimos 100 anos. Qualquer um que tenha lido este livro, não precisa de qualquer explicação do porque C.S Lewis, (Sim, é o autor de Crônicas de Narnia) é considerado um dos maiores apologistas cristãos de nossa era.

[…] Este livro é a adaptação de uma série de entrevistas feitas pela BBC entre 1941 e 1944 com C.S.Lewis. O escritor das Crônicas de Narnia foi também um dos maiores e mais divertidos apologistas do cristianismo no século XX.  Sua escrita é leve e cheia de humor e lembra bastante o estilo de G. K. Chesterton. O livro tornou-se um clássico instantâneo e considerado pela revista Christianity Today um dos  12 Livros mais importantes na história recente do cristianismo. […]

[…] O livro tornou-se um clássico instantâneo e considerado pela revista Christianity Today um dos 12 Livros  mais importantes na história recente do cristianismo. Sua escrita é leve e cheia de humor e […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/12-livros-que-moldaram-o-cristianismo-contemporaneo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/12-livros-que-moldaram-o-cristianismo-contemporaneo/

A Alma é a Alma do Negócio

“Um corpo vivo e um corpo morto contém o mesmo número de partículas. Estruturalmente não há diferença discernível. Vida e morte são abstrações não quantificáveis, por que deveria me importar?”

– Dr. Manhatan, Watchmen

Basta olharmos para um corpo “morto” e percebemos de cara duas coisas: ele é exatamente igual a um corpo vivo, não há uma diferença entre alguém que acabou de falecer e alguém vivo; ao mesmo tempo ele é completamente diferente de um corpo vivo, algo estava lá, agora não está mais.

Essa diferença é percebida inclusive por animais, quem já conviveu com bichos sabe como eles lidam com a morte, podem não fazer funerais, ou passar a vida em preces ou homenageando o “colega que se foi”, mas eles sabem dizer quando o companheiro não está mais lá. Existem até mesmo relatos de que os elefantes africanos possuem uma espécie de rito fúnebre no qual se alinham e guardam silêncio frente a um companheiro morto.

Esse tipo de metáforas, inclusive, é curioso. “Não está mais lá”, “Foi desta para uma melhor”, etc. O que não está mais lá? Obviamente um corpo morto não está realmente morto, cabelos e unhas crescem. Ele pode ter convulsões, arrotar, peidar. Você pode massageá-lo e fazer com que ele se mova sozinho, assuma novas posições. O chamado Sinal de Lázaro pode fazer um paciente com morte encefálica mover os braços e o tronco via estímulo medular.

Segundo a polêmica pesquisadora Mary Roach, o mesmo princípio poderia, ao menos teoricamente, ser usado para dar um orgasmo ao cadáver, embora até hoje nenhum cientesta tenha passado pelo comitê de ética em pesquisa para provar isso experimentalmente. O fato é que o corpo não é como uma fotografia do corpo vivo, ele é dinâmico, continua mudando. Dê tempo e nova vida brota dele, vermes, fungos, etc. Talvez isso tenha sido o que primeiro fez com que as pessoas, muito tempo atrás, pensassem em algo que havia abandonado aquele corpo. Nada tão complexo quanto uma personalidade, ou um conjunto de conhecimento, mas a vida que habitava aquele invólucro de carne e o fazia se mover.

Esse algo foi identificado pela primeira vez pelos egípcios que lhe deram o nome de “Ka”. Mais tarde os hebreus o chamara de “nephesh”, ambos os termos podem ser traduzidos aproximadamente como sopro de vida. Quando perdemos esse sopro, nos tornamos apenas adubo. Esse termo, apesar do que possa parecer, não chegava a ser religioso, já que haviam outras palavras para espírito, como por exemplo “ruah”. Nephesh era algo muito mais etéreo, mais sutil, muito mais fundamental. Os gregos usavam a palavra “psyche”, derivada do verbo soprar, para nomear este princípio que animava os humanos e outros animais. A versão latina da palavra era “anima”. Nos povos de língua barbara a palavra usada era “sáwol”, derivada do gótico “saiwala”, do alemão antigo “sêula”, do antigo saxão “sêola”; os nórdicos diziam “sála” enquanto os lituanos a chamavam “siela”, dando origem ao “soul” moderno em inglês. Os gregos antigos usavam a mesma palavra para indicar algo vivo e algo que possuia uma “alma”, isso já nos mostra que a origem da vida estava ligada de forma inseparável a este “sopro”.

Com a evolução do pensamento a alma não era apenas mais a origem da vida, mas um princípio maior que nos ligava a um mundo do qual estávamos conscientemente separados. O antigo poeta grego Pindarus (522-443 a.C.),  afirmou que a alma não tem vida alguma enquanto nossos membros estão ativos, mas quando dormimos, e a alma desperta, nos revela em sonhos, “uma recompensa de alegrias ou tristezas que se aproximam”. Logo que a alma se tornou uma constante na filosofia muitos acreditavam que ela não possuia vida por si própria, era apenas um princípio, assim que abandonava o corpo ia para o sub-mundo, o Hades, onde ficava presa sem chance de retornar ao corpo. Com Sácrates e Platão, ou o que Platão nos diz que Sócrates dizia, a alma se tornou a essência da pessoa, sendo a responsável pela maneira como a a pessoa se comportava, ela era considerada incorpórea e eterna, ocupando nosso ser, quando um corpo morria a alma pulava para outro.

Ainda na Grécia antiga a alma passou a ser, de acordo com Aristóteles, a primeira atualidade de um corpo organizado, o primeiro momento da formação de um corpo e não acreditava que ela tivesse uma existência independente do corpo.

Então a alma fugiu do controle. Passando por mulçumanos, cristãos, filósofos iluministas e psicólogos a alma foi se metamorfoseando, passando de algo real para um mero conceito. Mas será que essa metamorfose tem fundamento?

Basicamente a crença de cada geração é julgar que a geração passada pecava em sua inocência, ignorância e crença. Em qualquer momento presente a regra é acreditar que por sermos mais evoluidos, tecnologicamente ou socialmente, aquilo que sabemos no momento está muito mais próximo dos fatos, da verdadeira Verdade, do que as superstições que nossos antepassados criavam para explicar o que desconheciam. Esse é um comportamente até certo ponto sadio, o próprio Freud afirmava que o assassinato do pai fazia parte do desenvolvimento do filho, algo claramente, ou nem tão claramente assim, mostrado no mito de Édipo. Mas esse “assassinato” é uma fase, não um fim em si mesmo. Devemos avoluir, não enterrar qualquer coisa que não tenha sido defendida em nossa época, temos que ter em mente que seres humanos adora re-inventar a roda.

Com a atual moda de ateismo/agnosticismo/ceticismo mesmo as pessoas de mente mais aberta costuma ficar reticentes quando o assunto passa para o etéreo. Dificilmente alguém colocaria o próprio nome na reta ao se defender algo que não pode ser engarrafado ou não tem nem cheiro. Um peido é o resultado da formação de gases que sai pelo único caminho que tem acesso. E uma alma? De onde vem, onde fica? Para onde vai? Por onde sai?

Na era do animismo a alma era parte real e fundamental do mundo, um ingrediente que permeava não apenas seres vivos, mas tudo o que era real, quando foi substituído pela religião a alma passou a ser um elo com a força criadora do universo, o sopro da vida que nos distinguia de pedras e dos elementos. Quando surgiu a psicologia, a alma passou a ser parte de nossa mente, um aspecto do cérebro. No mundo moderno científico a alma assumiu o posto de mera superstição, mas podemos dizer que isso acontece simplesmente porque, em tese, ela não pode ser detectada. Isso mostra, talvez, mais a incapacidade de nossa tecnologia do que a comprovação da existência ou inexistência de algo, afinal ondas de rádio sempre existiram, mas nós só pudemos comprová-las quando inventamos aparelhos que as captassem e as traduzissem para uma “linguagem” que pudéssemos compreender, quando passamos a vê-las e ouvi-las. Assim talvez o que precisemos para comprovar a existência da alma são engenhocas que a percebam e a mostrem para nós de uma forma que possamos vê-la e ouví-la.

Diga “X”

Hipólito Baraduc, o médico francês do século XIX, afirmava que os campos magnéticos do corpo humano poderiam ser impressos em uma placa fotográfica sem a ajuda de uma câmera. Influenciado pelo Barão Dr. Karl Ludwig von Reichnbach, o típico gênio de época – era químico, geólogo, metalúrgico, naturalista, industrial e filósofo, membro conhecido da Academia Prussiana de Ciências – Baraduc acreditava ter descoberto evidências de uma força vital misteriosa dentro do corpo humano que ele descreveu como um tipo de névoa fluida. Reichnbach, nos seus últimos anos de vida, estava pesquisando um campo de energia que combinava eletricidade, magnetismo e calor, que emanava de todos os seres vivos que ele batizou de força Ódica. Inspirado pelo trabalho de Reichnbach e pelo próprio, Baraduc afirmou ser capaz de detectar cientificamente essa “força sutil” que ele afirmou emanar da alma humana.

Baraduc então criou um biômetro, um aparelho que poderia medir essa radiação causada pela alma. Seu aparelho foi confeccionado de materiais não magnéticos isotérmicos e isolantes, para descartar qualquer influência magnética, elétrica e térmica. Uma linha, dentro de um containar isolado, era ligada a uma agulha, feita de material que não seria afetoda por essas forças, e colocadas sobre uma tábua com graduações. Quando determinada pessoa colocava a mão sobre o container a agulha se movia e ele podia medir a intensidade do campo da alma da pessoa. Mas apenas medir a radiação e vibrações da alma não era o suficiente, por isso ele foi além. Em 1907 sua esposa, Nadine, adoeceu. Ele então passou a colocar chapas fotográficas e câmeras junto ao leito de sua esposa e a registrar o que quer que houvesse para ser registrado. Logo após a morte da esposa ele tirou fotos e conseguiu registrar três aglomerados nevoentos flutuando acima de Nadine. Quinze minutos após, Baraduc tirou outra foto e viu que as três formas de névoa haviam se aglomerado em uma grande bola branca luminosa – que não era visível aos nossos olhos. Logo em seguida a bola não estava mais presente.

Baraduc afirmou então que “não existe razão, a priori, para a alma não ser um corpo que ocupa um lugar no espaço, a não ser na tradição teológica. Até onde sabemos, a alma pode ser um ponto de força, que existe dentro e anima algum tipo de corpo etéreo, que corresponde, em tamanho e forma, a nosso corpo material”. Se Baraduc estivesse certo, ao ocupar um corpo etéreo nossa alma teria ao menos uma certa massa, algo que pudesse ser medida e quantificada,  ela poderia, livre do corpo, não ter exatamente nossa forma, seria como um gás que assume o tamanho e a forma do container que o contêm, mas teria um peso. Veremos na próxima seção, que ele estava certo.

Outro médico, desta vez um russo, Dr. Konstantin Korotkov sentiu-se obrigado a desenvolver sua própria tecnologia para estudar a alma, na mesma medida em que Galileu inventou o telescópio para estudar os planetas. As fotos Kirliam já eram amplamente conhecidas, mas ele decidiu que iria examinar suas manifestações em uma linha do tempo. Para isso ele e sua equipe desenvolveram uma câmera e um software que não apenas consegue fotografar campos de energia em plantas e animais, mas faz isso de maneira serial de modo que, segundo ele, pode ser usada como uma ferramenta de e feedback quanto à eficiência de remédios e tratamentos em condições específicas. O Chamado GDV faz as antigas fotos Kirlian parecer uma carroça comparada a uma bicicleta, e realmente foi criado a partir de vinte anos de pesquisa em cima desta tecnologia.

Em suas pesquisas para evitar cair em discussões religiosas, Dr. Karatkov chama o que suas câmeras registram de “Campo Biológico”. Ele os define nos seguintes termos: “Uma estrutura energética e informacional complexa composta por diferentes campos de diferentes naturezas e possivelmente diferentes origens. Incluindo os  campos eletro-magnéticos e gravitacionais, assim como campos para os quais não temos nenhum parâmetro conhecido. Assim, o Campo Biológico pode ser definido como uma campo ou aura que  envolve as coisas vivas, ele é invisível em sua estrutura e sua atividade é correlata ao comportamento de um sistema vivo único.”

A maior vantagem do sistema GDV sobre os sistemas anteriores, é a possibilidade de fazer registros e medições em tempo real. isso permitiu que o software desenvolvido pelo Dr. Korotkov registra-se em 2010 a primeira evidência em tempo real de uma “alma” ou “campo biológico” sumindo de um corpo no exato momento de sua morte.

Os instantes registrados na foto acima, foram retirados do monitoramento feito pelo sistema DGV e revelam dois momentos distintos: o primeiro imediatamente após a morte clínica do paciente e o segundo cerca de um minuto depois. Em um corpo vivo e saudável a área azul é dominante. No entanto no momento da morte há uma grande perda na região do abdômen. Essa perda súbita é seguida de uma gradual diminuição energética na região cerebral. por fim, o coração e a virilha são as ultimas partes a se apagarem.

 

Eu Fico Gorda Neste Corpo?

Em 1901 o Dr. Duncan “Om” MacDougall, médico na cidade de Haverhill, Massachusetts EUA, fez uma experiência interessante. Ele pegou uma balança industrial capaz de pesar até os gramas de objetos e sobre ela colocou uma cama. Nesta cama ele colocou pacientes que estavam no estágio final de tuberculose e esperou. Assim que o paciente morreu, a balança registrou uma perda no peso, muito pequena, mas perceptível. MacDougall repetiu o experimento com outro paciente, e novamente, no momento da morte, uma perda ocorreu. Ele repetiu a experiência mais quatro vezes e em todas elas a balança acusava a perda de peso.

O doutor então anotou os resultados, a variação de peso nos seis casos, e desenvolveu a hipótese de que a alma humana de fato tinha uma massa, e essa massa tinha um peso médio de 21 gramas. Ele partiu então para experimentos com animais, ratos e ovelhas, todos mostrando essa perda após a morte. É preciso destacar que está é uma perda súbida, onde o peso cai rapidamente, não podendo portando ser comfundida com a perda lenta e gradual causada pela evaporação que ocorre tanto nos vivos como nos mortos. MacDougall publicou o resultado de seus experimentos no Jornal da Sociedade Americana de Pesquisas Médicas em 1907, seguido por uma publicação no jornal Medicina Americana; não demorou muito até que ele se tornasse notícia no New York Times.

Curiosamente quando repetiu a experiência com cães, incluindo um pesado São Bernardo, a perda de peso não se mafestou, o que o levou a concluir que animais não tem alma. Contudo, pouco depois o professor La V. Twining, chefe do Departamento Científico da Escola Politécnica de Los Angeles, fez experimentos semelhantes com ratos e gatos, que encerrou em frascos de vidro hermeticamente fechados. Suas balanças eram as mais sensíveis de sua época, e comparativamente muito mais precisas que a usada por MacDougall, além disso foram colocadas dentro de uma grande câmara de onde foi extraída toda umidade. Observou-se então que todos os animais perdia peso quando morriam, embora numa escala bem menor que os humanos. Um rato pesando 12,886 gramas perdeu subitamente 3,1 gramas. Um gatinho perdeu 100 miligramas ao agonizar e mais 60 miligramas em seu momento final. Estes experimentos indicariam que a Alma, ou “Corpo Vital” dos animais é proporcionalmente mais leve do que a do ser humano.

Agora, se de fato a alma é um corpo com certa massa e ela “deixa” nosso corpo quando morremos, onde exatamente ela está localizada? Durante eras essa pergunta permaneceu sem resposta. Acreditava-se que a alma ocupava todo o espaço do corpo, ou que existia no coração. Mas com o tempo começaram a se questionar. Se uma pessoa perde um braço, ela perde parte da alma? O coração deixou de ser o receptáculo dos sentimentos e foi rebaixado a mero músculo que bombeia o sangue. E a mente ganhou um súbito destaque dentro do corpo. Logo o cérebro se tornou o lar de tudo o que nos torna únicos, nossa identidade, nossa personalidade, nosso conhecimento… nossa psiquê. Assim como o umbigo é o que nos liga a nossas mães através do cordão umbilical, nossa alma se tornou o umbilical que nos liga, através do cérebro, à vida.

 

É um Pássaro? Um Avião? Não! É o Último Filho de…

Cripton, ou criptônio é um dos elementos químicos presentes em nossa tabela periódica desde 1898, quando foi descoberto por William Ramsay e Morris Travers em resíduos da evaporação do ar líquido. Seu símbolo químico é Kr, possui 36 prótons, 36 elétrons e tem massa atômica igual a 83,8u. Como todo gás nobre ele possui uma baixa reatividade e não combinam com outros elementos. Também é usado principalmente na fabricação de lâmpadas incandescentes e fluorescentes. Outra característica do criptônio é que foi encontrado dentro do cérebro humano.

No córtex do terceiro ventrículo de nosso cérebro, na região exatamente sob nosso tálamo, forma detectados praticamente por acaso, átomos de criptônio, ao todo foram mapeados 86 conjuntos biatômicos – cada um formado por dois átomos – que giravam em órbitas comuns. Seus planos orbitais dispunham de um eixo comum que descrevia um movimento vibratório harmônico. Em uma temperatura ambiente de 35C graus centígrados, apresentava uma frequência e amplitude de 0,2 megaciclos. Encontrar tal gás no cérebro não é algo absurdo, já que desde que começaram a realizar experimentos de fecundação in vitro, muitos laboratórios encontraram o gás no interior de óvulos, na desoxirribose, nos extremos da cadeia helicoidal do ácido desoxirribonucleico. Assim a presença do gás não foi exatamente surpreendente, mas quando decidiram analisar a distribuição dos elétrons nos átomos as surpresas surgiram.

Para prosseguir vamos a uma brevíssima aula para relembrarmos como átomos funcionam. Elétrons são pequenas partículas atômicas que orbitam ao redor do núcleo do átomo, eles tem massa extremamente menores do que a dos prótons e tem carga elétrica negativa. Não é possível se saber onde os elétrons se encontram com precisão, eles ocupam posições instantâneas cuja função probabilística se rege pelo acaso. Esse é o princípio da incerteza da física quântica, o indeterminismo.

Agora, os átomos de criptônio apresentaram um sincronismo desconcertante.

Até então, tais séries ordenadas de átomos só tinham sido detectadas nas células germinais de homens e animais pluricelulares, embora, com o passar do tempo, a descoberta se alargasse ao resto das células. Os átomos homólogos nas cadeias do criptônio dos vários espermatozóides investigados apresentavam uma distribuição semelhante e sincrônica, como se fossem relógios que funcionassem sincronizados, ligados, aparentemente, por algum tipo de emissão até então não detectadas que estimulassem esse comportamento. Era como se um misterioso fenômeno de ressonância obrigasse todos os elétrons a regerem-se seguindo o mesmo padrão. A princípio pensaram-se que era a proximidade das células em estudo que estavam provocando tal efeito de ressonância. Mas então descobriram, com idêntica surpresa, que todos os seres vivos se comportavam nas suas cadeias de átomos de criptônio de maneira idêntica.

Chega a parecer que este fenômeno é universal e que o código genético encerrado no DNA não é mais que um dos elos dessa cadeia de fatores que explicam o comportamento da matéria animada pela vida. Em um experimento buscando observar possíveis alterações quânticas por prováveis transferências energéticas outra descoberta foi feita. Um dos voluntários estudados jazia numa câmara especialmente preparada da qual tinham sido eliminados todos os resíduos do gás nobre.

Ele tinha uma série de sondas fixadas na zona parietal direita de seu crânio e embora tivesse sido submetido a anestesia local, os seus mecanismos reflexos e conscientes não se encontravam inibidos. Em um computador colunas com cifras e parâmetros com as leituras era mostrada em um monitor. Cada um desses dígitos refletia a situação probabilística de cada elétron. Quando uma cifra saltava de uma coluna para outra registrava-se um salto quântico para outro nível energético. De repente notaram que os dígitos mantinham uma relação sequencial, ou seja, apresentavam-se distribuídos harmonicamente, segundo uma função periódica. Os elétrons que deveriam se localizar nos seus níveis energéticos de um modo anárquico pareciam ultrapassar o teórico e obrigatório caos, regulando a sua função probabilística e rompendo assim com a suposta lei imutável do referido indeterminismo quântico. Repetiram a experiência em inúmeros outros voluntários, o resultado foi sempre o mesmo: os movimentos harmônicos dos elétrons corticais coincidiam com os impulsos nervosos emitidos pelo córtex cerebral dos voluntários, ou seja com os movimentos conscientes dos seus braços, pés, mãos, fala, etc. Por outro lado, o mesmo não acontecia com os movimentos chamados reflexivos ou com os impulsos emitidos pelo sistema neurovegetativo. Um ano mais tarde verificaram uma nova descoberta: aqueles movimentos harmônicos PRECEDIAM a conduta voluntária dos homens e mulheres sujeitos à experiência, o avanço, em questão oscilava à volta de um milionésimo de segundo sobre as reações neurofisiológicas do organismo.

Era como se aqueles elétrons ditassem as ordens e nosso corpo as obedeciam.

Os experimentos foram repetidos então em outros seres orgânicos unicelulares e pluricelulares, incluindo-se vírus e compostos orgânicos auto-reproduzíveis, mas os resultados foram negativos. Detectaram-se átomos isolados de néon e xenonônio em muitos seres vivos e milhões de átomos de gás hélio nos sinais dotados de estruturas nervosas superiores. Mas as suas nuvens, de criptônio moviam-se segundo a função probabilística habitual no resto dos átomos na Natureza.

 

Quem Enxerga Aquilo que Seus Olhos Vêem?

Os experimentos de Baraduc, Twining e MacDougall – assim como toda a filosofia metafísica sobre a alma – apontam para algo que apesar de estar, de certa forma, preso ao corpo físico, também pode se desprender dele. Se a evidência coletada a partir da observação dos átomos de criptônio do cérebro aponta para o seu cérebro “saber” que você vai fazer algo mesmo antes que você faça não pode indicar que na verdade a alma é apenas algum efeito colateral neurológico? Apenas uma ilusão causada graças ao próprio comportamento do cérebro?

Bem, existem inúmeros relatos de indivíduos em determinadas situações que falam de uma percepção de consciência existindo àparte do cérebro e do corpo físico. Geralmente este tipo de relato está associado com duas experiências distintas as Experiências de Quase-Morte (EQM) e Experiências Fora do Corpo (EFC). A ciência moderna não tem como explicar este tipo de fenômeno e acaba o classificando como delírios, alucinações ou simplesmente como mentiras, o problema é que a ciência moderna também não sabe como explicar a consciência “normal” “dentro” do cérebro. Hoje temos uma compreensão detalhada de como funcionam nossos neurônios e nossas transmições sinápticas relativas a funções cognitivas não relacionadas à conciência, mas nada que diga respeito a uma consciência de nossa consciência ou livre arbítrio ou seja lá como você queira chamar. Não sabemos nada sobre a neurologia das percepções experienciadas, como a vermelhidão, a textura e a fragrância de uma rosa. E é essa incapacidade de encontrar o foco de nossa consciência que faz com que a ciência moderna simplesmente ignore qualquer tipo de experiência que não envolva o corpo, inclusive rejeitando a possibilidade de sua realidade.

Mas a ciência possui algumas ferramentas para medir atividades de nosso cérebro que se correlacionam com a consciência, um exemplo é a eletroencefalografia sincronizada de alta frequência (EEG) do padrão gama (sincronia gama). Um uso desse processo é garantir que um paciente anestesiado não esteja apenas paralisado mas consciente da operação, ou seja, consciente do que estão fazendo com seu corpo. São utilizados monitores “BIS” que registram e processam a eletroencefalografia (EEG) frontal e produzem um “index bi-espectral”, também chamado de número BIS, em uma escala entre 0 e 100. Um BIS 0 significa silêncio no EEG e um BIS 100 é o valor esperado de um adulto completamente alerta e consciente. Os valores recomendados que indicam um bom nível de anestesia geral está entre 40 e 60. Como era de se esperar, recentemente, esses monitores passaram a ser usados para outras coisas além de auxiliar anestesistas. Começaram a ligá-los a pacientes que estavam para morrer ou naqueles que já se encontravam em um processo irreversível de morte. Os resultados foram surpreendentes, para dizer o mínimo.

Em um estudo publicado no Jornal de Medicina Paliativa foram descritos 5 experimentos onde 7 pacientes em estado crítico tiveram seus sistemas de prolongamento artificial de vida desligados, permitindo que morressem em paz. Por causa do protocolo todos eles foram monitorados com um monitor cerebral BIS. Antes do suporte ser desligado os pacientes estavam neurologicamente intactos, mas sob sedação pesada, seus números BIS próximos de 40. Assim que foram desconectados os números BIS dos pacientes caiam, indo para menos de 20 e se mantinham nesse nível por vários minutos, até o momento que a morte cardíaca ocorria – marcada pela completa ausência de pressão sanguínea ou inexistência de batimentos cardíacos. Então após a confirmação da morte cardíaca nos sete pacientes houve uma explosão de atividade no cérebro, fazendo o número BIS pular para 60, 80 e em alguns casos mais. Os períodos desta atividade duravam entre um e vinte minutos e então os números caiam para quase 0.

Em um dos pacientes a análise dos dados coletados revelou que a explosão de atividade cerebral pós morte cardíaca, apresentava sincronia gama, o que indica o surgimento de uma consciência. Isso fez com que os médicos levantassem a possibilidade de que a atividade mental pós morte cardíaca possam se relacionar com as experiências de EQM e EFC. Infelizmente como os pacientes morreram não há como confirmar se eles tiveram consciencia de algo.

Outro estudo, publicado no Jornal de Anestesia e Analgesia, descreve três pacientes que sofreram lesão cerebral que também tiveram o apoio médico removido e suportes artificiais de vida desligados, suas famílias autorizaram a doação de seus órgãos e nesses casos o suporte é removido para que os pacientes morram de morte natural e então tenham os órgãos removidos. Seus cérebros estavam irremediavelmente danificados, mas não estavam mortos. Antes de desligarem os aparelhos, os números BIS dos pacientes estavam abaixo dos 40, um deles próximo de 0. Após a retirada dos equipamentos, quando estavam próximos do momento da morte cardíaca o número BIS disparou para aproximadamente 80, nos três casos, e permaneceram lá por um tempo que variou de 30 a 90 segundos e então abruptamente retornaram para quase 0, quando foram levados para a remoção dos órgãos.

Que conclusões podemos tirar dessas experiências? Não há como afirmar que esse pico de consciência dentro do cérebro tem algo a ver com as EQM e EFC, nem que isso indique que a alma deixou o corpo. Nem mesmo podemos afirmar com que frequência isso ocorre, apesar de ter ocorrido em dez dos dez casos estudados. Mas podemos tentar entender o que dispara essa atividade no cérebro. Como essa atividade de fim-de-vida pode ocorrer em um tecido cerebral que está metabolicamente morto, um tecido que já não recebe mais sangue ou oxigênio. Os números BIS, que indicam o nível de consciência estão próximod do 0 e então uma explosão de atividade bi-frontal cerebral coerente e sincronizada acontece, aparentemente com sincronia gama – um indicador de auto-consciência (perceber conscientemente algo, não apenas estar “desperto”). Os números chegam próximos do 80 ou mais e então, abruptamente, caem para quase 0.

Foi proposto que a atividade de fim da vida cerebral é não funcional, generalizada e despolarizada. O primeiro estudo sugere que o excesso de potássio extra-celular causam o último pico de espasmos dos neurônios através do cérebro. Mas isso não explica a coerência global, a sincronia e a organização. Também foi sugerido que a indução com cálcio de morte dos neurônios poderia causar a disrupção dos micro-túbulos cistoesqueletais dentro dos neurônios e isso seria um dos fatores que causariam o fenômeno. Mas novamente, como explicar a coerência da sincronia bifrontal?

Talvez essa atividade de morte cerebral tenha relação com as EQM e EFC conscientes, uma consciência que habita o nosso corpo mas não está presa a ele, mas nos casos documentados a parte “quase”, de quase morte, foi removida, os pacientes não foram ressuscitados. Assim as descrições de flutuar para longe do corpo, de observar tudo ao redor, túneis de luz, paz interior, presença de entes queridos mortos seriam experiências reais da consciência, que neste caso não puderam ser recontadas. Existem os céticos – sempre existirão – que sugeram que essas experiências são alucinações ou ilusões, manifestação de um cérebro sofrendo isquemia ou hipoxia, o problema é que pacientes isquêmicos ou hipóxicos, se conscientes, se encontram em um estado de confusão, de agito e não conseguem criar memórias.

Algo que deve ser considerado é porque esse tipo de atividade ocorre quando o corpo está morto e o cérebro pára de funcionar. Uma possibilidade é que a consciência humana seja um processo de baixa energia quântica e neste caso uma dinâmica molecular muito baixa pode limitar uma descoerência térmica criando assim uma janela para um aumento de estados quânticos coerentes e uma explosão de consciência aprimorada. E uma base quântica para a nossa consciência cria a possibilidade científica de um pós vida, de uma alma real abandonando o corpo e persistindo como emaranhados de flutuações na geometria do espaço-tempo quântico.

Suzan McPussy

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/a-alma-e-a-alma-do-negocio/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/a-alma-e-a-alma-do-negocio/

As Fadas e o Amor

Por Cassandra Eason

(Nota do Tradutor: O nome “Fadas” (em inglês: Faeries, Faery, Faes, etc.) neste e em outros textos designa os seres feéricos de modo geral, tanto masculinos quanto femininos).

A tradição do reino das fadas tem, como o mundo dos humanos, tradicionalmente focado no amor – tanto contos de amantes de fadas quanto de seres feéricos que se apaixonaram por mortais e às vezes tentaram mantê-los para sempre em seus reinos de fadas. Essas histórias, sejam percebidas como pura sabedoria ou usadas como uma maneira de explicar ocorrências mortais passadas, contam histórias de amor verdadeiro, de fadas sedutoras, de brigas de amantes e muito mais.

Talvez a história de amor feérica mais trágica seja a da história celta de Cliodna do Cabelo Dourado. A filha de Manannan mac Lir, que governava o mar, Cliodna tinha a fama de ser a mulher mais bonita do mundo em forma mortal. Ela amava tanto o jovem mortal Ciabhan que deixou o reino das fadas para viver com ele. No entanto, enquanto Ciabhan estava caçando, o pai de Cliodna enviou um menestrel feérico para encantá-la; ela foi levada de volta à terra das fadas em um sono mágico. Ela ainda é vista à beira-mar, seja como uma enorme onda ou uma ave marinha, em busca de seu amor perdido; diz-se que ela ajuda os amantes mortais separados a se reunirem.

Abaixo estão dois métodos de invocar Cliodna se você deseja se reunir com um amor separado.

•       Dê um nome ao seu amor perdido enquanto segura conchas iguais, encontradas na praia ou em um lago, amarradas com algas marinhas ou ervas secas. Lance suas conchas na nona onda enquanto ela se move para a costa. Chame o nome do seu amor perdido nove vezes.

•       Se você estiver sem litoral, improvise com cristais de água-marinha correspondentes lançados em qualquer corpo de água corrente. Conte nove antes de jogar os cristais juntos na água. Chame o nome do seu amor perdido nove vezes.

Os Casamentos das Fadas:

Alguns contos de noivas fadas que se casaram com mortais parecem ter comprovação terrena.

As Gwragedd Annwn são lindas, galesas, mulheres fadas de cabelos louros, do mesmo tamanho que os humanos, vivendo em palácios subaquáticos em lagos próximos às Montanhas Negras. Essas donzelas do lago, de vez em quando – de acordo com o folclore da região – tomaram maridos humanos, embora raramente ficassem com eles. Algumas famílias locais ainda reivindicam herança feérica.

Uma Dama do Lago em Llyn y Fan Fach é, no entanto, considerada a fada ancestral de uma linha ininterrupta de curandeiros e médicos galeses. Ainda mais incomum, essa lenda das fadas pode ser datada. Por volta de 1230, os registros contam que um jovem fazendeiro viu três belas mulheres dançando na praia. A mais bela concordou em ser sua esposa e seu pai, o rei das fadas do lago, veio de debaixo do lago para conceder um dote de gado de fadas. No entanto, o rei das fadas impôs uma série de condições para que sua filha ficasse com seu marido mortal. Uma condição era que ela nunca deveria ser tocada com ferro, outra que ela não deveria ir à igreja, e uma terceira que se seu marido a batesse três vezes ela e seu dote retornariam ao lago.

O casal teve três filhos, mas o fazendeiro quebrou sua barganha batendo em sua esposa fada três vezes (embora de acordo com contadores de folclore menos esclarecidos, o pobre marido apenas bateu levemente na fada e por boas razões). Uma barganha feérica sendo uma barganha feérica, lá se foram o gado e a donzela feérica, embora ela tenha retornado para ensinar a seus filhos o conhecimento de ervas e cura. Eles se tornaram os médicos de Myddfai, curandeiros dos reis galeses. Quando morreram, deixaram um tratado médico, cujas cópias existem até hoje. Acredito que haja um no Museu do Castelo de Cardiff.

As Noivas em Faeryland (A Terra das Fadas):

Mulheres mortais que se casaram ou foram abduzidas por fadas parecem ter tido um destino ainda menos feliz.

Uma mulher no dia ou na noite de seu casamento era, segundo o mito celta, considerada um grande prêmio pelas fadas, pois ainda era virgem, mas no auge da fertilidade. Por esta razão, até os tempos medievais, uma mulher era acompanhada à igreja por damas de honra vestidas de forma idêntica, de modo que as fadas que observavam não poderiam identificar a verdadeira noiva.

Algumas dessas abduções de fadas podem ter uma explicação menos etérea. Em partes da Europa durante a Idade Média, o senhor local da mansão foi oficialmente autorizado a usar as noivas de seus servos na noite de núpcias. O estupro cometido por ricos proprietários de terras e seus filhos era uma ameaça real para as mulheres do campo, mesmo na época vitoriana, especialmente entre os servos das grandes casas. Pode ser que a história de um retorno tradicional da noiva sequestrada das fadas depois de um ano e um dia dando à luz um bebê de vários meses fosse uma maneira aceitável para um marido camponês não parecer traído pelo escudeiro, se a infeliz noiva se tornasse grávida durante este rapto. Uma noiva despojada pode ter sido colocada em um asilo distante durante a gravidez, com o conluio do marido ou do pai no caso de uma moça solteira.

Uma típica história de abdução de noivas transformada em balada era a de Colin, um escocês, cuja esposa foi levada pelas fadas. Sua esposa, dizia-se, voltava invisível todos os dias para ordenhar as vacas e fazer as tarefas; apenas seu canto podia ser ouvido. Em outras versões ela retorna depois de um ano e um dia com um bebê. Colin estava mantendo sua noiva trancada porque descobriu na noite de núpcias que ela estava grávida de outra pessoa, embora por estupro? Ou ela era realmente uma noiva das fadas?

Algumas abduções de fadas tiveram consequências mais sérias. Uma esposa que consistentemente produziu meninos doentes que não sobreviveram ou filhos femininos para um homem que precisava desesperadamente de um herdeiro, pode desaparecer de repente; a explicação oficial e muitas vezes inquestionável de seu desaparecimento era que ela foi levada para sempre pelas fadas. Ainda há partes do mundo onde o valor de uma mulher, exceto como portadora de filhos, é baixo; este é um lembrete de que não tem sido de outra forma na sociedade ocidentalizada também.

Bridget Cleary:

Registros de séculos passados ​​são obviamente escassos, e o rapto de fadas como desculpa para assassinato ou espancamento de esposas pode parecer pura especulação. Dito isso, sabemos que em Tipperary, na Irlanda, em 1895, uma mulher chamada Bridget Cleary foi torturada e queimada até a morte por seu marido Michael. Ele alegou que sua esposa havia sido roubada pelas fadas e fora substituída por uma changeling (uma pessoa-réplica encantada da sua esposa). Michael insistiu que, destruindo a forma encantada de sua esposa, a verdadeira Bridget retornaria em um cavalo branco à meia-noite. Sete de seus vizinhos e parentes, incluindo o pai e a tia de Bridget, estavam envolvidos e mais tarde condenados pelo crime. Cem anos depois, Angela Bourke, professora do University College de Dublin e autora de The Burning of Bridget Cleary (A Queima de Bridget Cleary), afirmou que o caso demonstrava o choque entre duas visões de mundo diferentes, duas formas de lidar com pessoas problemáticas, duas formas de explicar o irracional, em um momento de profunda mudança social, econômica e cultural.

O crime de Bridget Cleary foi que ela era econômica e socialmente independente por seus próprios esforços, e não por nascimento. Presumivelmente, se o caso ficasse impune, sua morte teria sido muito lucrativa para o marido e a família, que herdariam seu dinheiro.

As Tentadoras Rainhas das Fadas:

À medida que as deusas foram rebaixadas a fadas, algumas adquiriram o papel de sedutoras e sequestradoras de machos inocentes. Na Escócia, os mitos falam do Bean chaol a chot uaine’s na gruaige buidhe, “A mulher esbelta com túnica verde e cabelos amarelos” – uma rainha das fadas que tinha a habilidade de transformar água em vinho tinto e tecer os fios das aranhas em tartan. A fada tentadora, tocando sua flauta mágica de junco, atrairia os jovens para sua colina de fadas. A menos que eles deixassem um pedaço de ferro sobre o lintel da entrada, eles seriam forçados a dançar e servir o prazer da rainha das fadas até que ela se cansasse deles e os mandasse para casa. Diz-se que esses jovens descobririam que, embora parecesse que apenas uma noite havia se passado no reino das fadas, décadas poderiam ter se passado no mundo mortal e a namorada leiteira de rosto fresco a quem ele jurou sua fidelidade eterna era agora uma avó envelhecida.

O mais famoso abduzido do sexo masculino que parece ter realmente ganho com sua visita ao reino das fadas foi Thomas the Rhymer, cuja balada ainda é tocada em clubes folclóricos com conexões celtas. O verdadeiro Thomas era Thomas de Earlston (Erceldoune), um poeta do século XIII que alegou ter conhecido a Rainha de Elfland (Terra dos Elfos) sob uma árvore mágica de sabugueiro. Em troca de um beijo, ele conta como foi forçado a ir para a terra das fadas com ela, embora outras versões sugiram que Thomas estava mais do que disposto a ser seduzido. Em alguns relatos, a rainha se torna uma bruxa feia e o ritual de acasalamento da juventude com a antiga deusa anciã ocorreu para manter o ciclo das estações e garantir a fertilidade da terra. Thomas permaneceu na terra das fadas por sete anos, embora fossem apenas três dias no tempo das fadas. Ele foi recompensado com os dons da poesia, profecia e uma harpa mágica.

Argumentou-se nos últimos anos que Thomas foi de fato iniciado em um culto de bruxas local e que suas visões da terra das fadas eram xamânicas.

Uma Fuga das Fadas:

Nem todos os cativos estavam tão dispostos quanto Thomas, nem a rainha das fadas tão disposta a se separar de seu amante mortal. Um dos contos mais famosos, registrado pelo poeta escocês Robert Burns, bem como vários outros poetas, é o de Tam Lin, um cavaleiro escocês que caiu de seu cavalo e foi capturado pela Rainha das Fadas. Ela o amarrou com magia e o colocou para guardar uma das entradas para o mundo dos humanos no poço de Carteraugh, perto das fronteiras da Escócia.

As jovens donzelas foram avisadas para não beber no poço, pois cada vez que o fizessem e colhiam uma das rosas que o penduravam, Tam Lin aparecia e exigia que a garota lhe desse um manto verde ou oferecesse sua virgindade.

Uma jovem ousada, Janet, decidiu ver se o mito era verdade e arrancou uma rosa do poço. Ela e Tam Lin se apaixonaram, e ele queria escapar do Reino das Fadas para se casar com Janet.

A noite seguinte era o Halloween, e Tam Lin explicou que havia uma oportunidade que só ocorria a cada sete anos para ele escapar. O Passeio das Fadas aconteceria, quando então as fadas se mudassem para seus aposentos de inverno (em algumas versões vistas como o inferno). A tropa de fadas teve que cavalgar ao longo da estrada. Tam Lin disse a Janet para esperá-lo na encruzilhada à meia-noite e segurá-lo, qualquer que fosse a forma que tomasse.

Enquanto Tam Lin cavalgava na procissão das fadas, Janet o puxou de seu cavalo e o segurou firme. Assim como ele havia avisado Janet, a Rainha das Fadas transformou Tam Lin primeiro em uma salamandra, depois em uma cobra, um tigre, um urso e, finalmente, em metal em brasa. Janet segurou firme e, quando ele se tornou metal derretido, ela o mergulhou no poço mágico.

O feitiço foi quebrado. Tam Lin emergiu da água em forma humana, e ele e Janet logo se casaram.

As Brigas Conjugais das Fadas:

Os casamentos das fadas eram frequentemente tão turbulentos quanto os terrestres.

Titânia é mais famosa na literatura como a esposa de Oberon, rei das fadas, em Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare. Nesta peça, ela é retratada como petulante, disposta a deixar as estações irem à ruína enquanto persegue sua vingança contra Oberon, que retaliou fazendo-a se apaixonar por um camponês com cabeça de burro.

Titânia era, antes de ser cristianizada e rebaixada (como muitas deusas pagãs) ao status de fada, conhecida como Themis, a antiga deusa titã grega da justiça e da ordem, e a mãe dos destinos e das estações.

Finvarra ou Fin Bheara, que governava as fadas do oeste da Irlanda, era o marido aparentemente dedicado da rainha Oonagh. Oonagh foi descrito no verdadeiro estilo vitoriano por Lady Wilde, que coletou relatos do folclore das fadas na Irlanda, como tendo cabelos dourados caindo no chão, vestidos com teias de prata brilhando como se fossem diamantes, que na verdade eram gotas de orvalho.

Apesar da beleza etérea de sua esposa, Finvarra era obcecado por mulheres mortais que, dominadas pela música do reino das fadas, foram levadas para viver lá com ele para sempre. Ele também foi dito ter uma segunda rainha, Nuala. Oonagh, sem surpresa, não estava dando boas-vindas às donzelas mortais da corte das fadas.

Outras donzelas seduzidas pela música de Finvarra dançaram a noite toda com ele e pela manhã, encontraram-se em uma colina de fadas, possuindo conhecimento de poções de amor e de magia – e às vezes uma gravidez de fadas.

Feitiço dos Desejos do Amor das Fadas:

1.      Encontre uma árvore das fadas: um espinheiro, ancião, freixo, salgueiro ou carvalho, ou no hemisfério sul, um eucalipto, árvore do chá, acácia dourada ou a manuka espessa.

2.      Sente-se embaixo ou perto de seus galhos em uma noite de lua cheia durante a semana da lua cheia.

3.      O melhor de tudo é a noite de lua cheia. Olhe para cima para a lua e sinta as energias positivas do cosmos e da mãe lua, associadas ao amor fiel e à fertilidade, fluindo para você.

4.      Observe o filtro da luz da lua através das folhas e faça padrões, e você pode estar ciente das energias vivas e em movimento dentro dos galhos e folhas.

5.      Toque o tronco da árvore com as mãos e deixe a força vital do espírito da árvore fluir para dentro de você, para que você possa sentir as energias pulsantes de sua essência como uma leve eletricidade.

6.      De pé e ainda tocando a árvore, pressione os pés em direção às raízes, permitindo que a mãe Terra lhe ofereça sua fertilidade e o poder para que você encontre ou viva com o companheiro certo para sempre.

7.      Agora estenda os braços para cima e atraia para dentro a força e a cura das folhas manchadas de lua.

8.      Afaste-se da árvore e, mantendo a lua à vista, gire a árvore nove vezes no sentido horário (em sentido horário) em círculos cada vez menores, deixando seus pés guiá-lo. Os nove círculos de poder são um antigo dispositivo mágico, e se você estiver agora dentro do anel mais interno, alcançando apenas o tronco com as pontas dos dedos, poderá momentaneamente fazer contato com o espírito da árvore.

9.      Peça à essência dentro da árvore, da terra e da mãe da lua para abençoar seu amor ou para trazer a você a pessoa que o fará feliz. Você também pode pedir fertilidade se estiver tentando conceber uma criança.

10.     Passe um pouco mais observando o filtro do luar através das folhas e amplificando as energias das árvores.

11.     Enterre um brinco de prata ou nove moedas prateadas, o metal da mãe lua, sob as raízes como sinal de agradecimento; sussurre o nome do seu amor ou chame no ar aquele que vai te fazer feliz por te encontrar.

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Fonte:

Faeries and Love, by Cassandra Eason.

https://www.llewellyn.com/journal/article/2353

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/as-fadas-e-o-amor/