De onde vêm as 72 virgens?

Supondo que a religião islâmica realmente assegure 72 virgens aos que morrem em nome de Alah, será que esta graça está reservada aos mártires ou é estendida a todos os fiéis que adentram o paraíso? E de onde vêm 72 mulheres virgens para cada homem do reino dos céus? São as almas das mulheres que morreram imaculadas que vão ao céu servir os mártires? Se não, o que reserva o céu às mulheres mártires? maridos perfeitos que nunca se esquecem de abaixar a tampa da privada? Pensando em todas estas questões decidi pesquisar um pouco mais sobre o paraíso islâmico.

Comecei pelo Alcorão. O livro máximo da religião islâmica não deixa dúvidas de que o paraíso islâmico é um lugar bastante sensual, mas nada é dito sobre a quantidade de virgens que aguarda os eleitos.

“E se deitarão sobre leitos incrustados com pedras preciosas, frente a frente, onde lhes servirão jovens de frescores imortais com taças e jarras cheias de vinho que não lhes provocará dores de cabeça nem intoxicação, e frutas de sua predileção, e carne das aves que desejarem. E deles serão as huris [virgens] de olhos escuros, castas como pérolas bem guardadas, em recompensa por tudo quanto houverem feito. (…) Sabei que criamos as huris para eles, e as fizemos virgens, companheiras amorosas para os justos.”

Alcorão, surata 56, versículos 12-40.

(todas as traduções deste texto foram feitas a partir do inglês)

São inúmeras as passagens como esta que mencionam a existência no paraíso de jóias, criados jovens e cheirosos, vinho (uma extravagância, já que o islã proíbe consumir bebidas alcoólicas em vida), rios de leite, rios de mel, rios de água (que costuma ser coisa preciosa nos países muçulmanos), frutas abundantes e moçoilas virgens para fazer “companhia” aos justos… Comparado ao paraíso cristão, com seus anjos assexuados de aparência andrógina tocando harpa e entoando cânticos (quando não estão em missão para destruir alguma cidade ou coisa assim), o céu islâmico parece o Club Med dos paraísos.

Só que diferentemente da Bíblia, que é a única fonte autenticada pela Igreja das palavras de Deus, na religião islâmica o Alcorão é complementado pelos hadiths, uma coletânea de histórias sobre tudo o que supostamente disse ou fez o profeta Maomé durante sua vida, que circularam no boca a boca por mais de um século até serem redigidas em sua forma atual. É aí, nessa barafunda de textos, às vezes antagônicos, que vamos encontrar mais detalhes sobre o paraíso islâmico, incluindo o número de virgens com que os eleitos são agraciados:

“A menor recompensa para aqueles que se encontram no paraíso é um átrio com 80.000 servos e 72 esposas, sobre o qual repousa um domo decorado com pérolas, aquamarinas e rubis, tão largo quanto a distância entre Al-Jabiyyah (hoje na cidade de Damasco) e Sana’a (hoje o Iemem)”

Hadith 2687 (Livro de Sunan, volume IV).

Se esta é a menor recompensa que aguarda os felizardos no paraíso, então é certo que os servos e as virgens não foram parar lá por mérito. Quem sabe fossem candidatos ao inferno (não dizem que “é melhor reinar no inferno que servir no paraíso”?). No caso das virgens isto faria todo o sentido, já que a rotina delas no céu não é moleza; sobre isso escreveu Al-Suyuti, um renomado comentador do Alcorão e estudioso dos hadith, no século XV:

“Cada vez que se dorme com uma huri descobre-se que ela continua virgem. Além disso o pênis dos eleitos nunca amolece. A ereção é eterna. A sensação que se sente cada vez que se faz amor é mais do que deliciosa e se você a experimentasse neste mundo você desmaiaria. Cada escolhido se casa com setenta huris, além das mulheres com que se casou na terra, e todas têm sexos apetitosos.”

Para as virgens o paraíso islâmico é mais ou menos como uma versão pornô do mito de Prometheus (aquele do titã que tinha seu fígado devorado todos os dias por uma águia), só que é o hímen das jovens donzelas, e não o fígado do titã, que se regenera perpetuamente.

Se você tem uma ereção permanente e o resto da eternidade nas mãos algumas dezenas de virgens não devem bastar, por isso o paraíso islâmico conta ainda com um local que, cá embaixo seria chamado de “bordel”, mas que no paraíso islâmico chamam de “mercado”. Segundo os hadith, Maomé teria dito:

“Existe no paraíso um mercado onde não há compra ou venda, mas homens e mulheres. Quando um homem deseja uma mulher ele vai até lá e tem relações sexuais com ela.”

Al Hadis, Vol. 4, p. 172, No. 34

Os cristãos, a quem devemos a noção agostiniana de que o mundo físico é impuro, gostam muito de apontar o dedo na cara dos muçulmanos e dizer que o paraíso deles é “liberal” demais. Aí, é a vez dos muçulmanos dizerem aos cristãos que se eles querem mesmo falar sobre sacanagem em livros sagrados é bom que se lembrem que têm teto de vidro. É impressionante quanta energia é gasta na internet nesta troca de citações porno-sacras entre cristãos e muçulmanos; eu imagino que jovens beatos de ambas as religiões aprendam bastante sobre estupro, pedofilia e prostituição nestes sites.

Bem, na defesa dos muçulmanos é justo dizer que como os hadith foram escritos muito tempo depois da morte de Maomé, nem todos eles são considerados genuínos pelos estudiosos islâmicos (segundo eles, por exemplo, o trecho acima é falso). Só que mesmo as passagens consideradas verdadeiras podem ser bastante embaraçosas; em algumas delas o constrangimento dos tradutores fez com que a formosura das virgens fosse minguando até que seus detalhes anatômicos desaparecessem por completo. Eis um bom exemplo:

Versão 1 – por Arberry

Para os tementes aguardam um lugar seguro, jardins, vinhedos, donzelas de seios arredondados (maduros) e um copo transbordante de vinho.

Versão 2 – por Yusuf Ali

Para os justos haverá a satisfação dos desejos em seu coração, jardins e vinhedos, companheiras da mesma idade e um copo cheio de vinho.

Versão 3 – por Rashad Khalifa

Os justos merecerão uma recompensa. Jardins e uvas. Esposas magníficas. Drinques deliciosos.

Surah an-Naba’ (78:31-34)

Mas existe uma boa chance de que os tradutores islâmicos nunca mais precisem dissimular a exuberância das virgens. Um livro publicado recentemente na Alemanha e muito bem recebido pela comunidade científica, “Die Syro-Aramaische Lesart des Koran” (“Uma Leitura Sírio-Aramaica do Alcorão”), do professor de línguas antigas Christoph Luxenberg, defende a tese de que muita coisa faria mais sentido nos textos sagrados se os tradutores levassem em conta que o Alcorão não foi escrito apenas em árabe, mas num mix de antigos dialetos aramaicos. Por exemplo, a palavra “hur”, que em árabe quer dizer “virgem”, em sírio significa “branca”. Assim, segundo Luxenberg, as “castas huris de olhos castanhos” descritas no Alcorão seriam na verdade “uvas brancas secas” de “clareza cristalina”, uma iguaria bastante apreciada naquela época. Dá para imaginar a decepção dos mártires? Deve ser como comprar uma passagem para um cruzeiro de solteiros e ao embarcar descobrir que não vai ter mulher…

No final o problema das virgens vai ser resolvido com a troca de uma única palavrinha. Nenhum candidato a homem-bomba vai ficar mesmo muito entusiasmado em abandonar esta vida quando souber que sua recompensa por morrer abraçado em dinamite será um suprimento vitalício de passas.

Mas é claro que esta não deveria ser a solução. A continuidade da civilização como a conhecemos não deveria depender da tradução de uma palavra num livro sagrado, ou de distinguir o que de fato disse um homem denominado profeta das fantasias eróticas de um bando de velhos babões. Melhor seria se não houvesse pessoas no mundo dispostas a acreditar literalmente em histórias escritas há milhares de anos, numa época em que a maioria das pessoas sabia tanto sobre o mundo natural quanto provavelmente sabe hoje uma criança da sétima série, e tinha os mesmos temores e superstições infantis de uma criança da quinta série.

Retirado de: http://dragaodagaragem.blogspot.com/

#Islamismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/de-onde-v%C3%AAm-as-72-virgens

A Mulher, o Divino e a Criação

Desde tempos imemoriais que os nossos antepassados nos deixaram imagens (sagradas?) das formas femininas. Na arte e nos artefactos do Paleolítico e Neolítico que representam os mais primitivos impulsos da génese do mito humano, estas imagens indicam uma profunda tomada de consciência do elemento criador do ser feminino. Aquando do aparecimento dos mitos de criação em inúmeras civilizações, o princípio feminino aparece como criador do mundo e do homem.

Até meados do século XX o interesse pelo papel desempenhado pelas deusas nas mitologias era ligeiro já que o interesse de pesquisa estava orientado para os deuses. Mas, nos meados dos anos 70 há uma mudança de atitude parcialmente inspirada pelo desabrochar dos movimentos feministas. A tomada de consciência do papel desempenhado pela mulher na sociedade expande-se durante esta época e começa a integrar tradições espirituais do Ocidente e do Oriente. A luta pela igualdade do homem e da mulher expandiu-se para além do social, político e económico para entrar na esfera do sagrado. Inúmeros livros e artigos vão revolucionar o modo como as pessoas viam as raízes da sua herança espiritual. Não podemos, no entanto, deixar de mencionar um autor que já no século passado tinha chamado a atenção para a existência de um período da história da humanidade em que os valores morais, jurídicos e políticos eram estruturados em torno da Mulher e da Mãe. Trata-se de J. J. Bachofen. A sua obra intitulada o Matriarcado não foi bem acolhida na época. María del Mar Llinares García [1] diz-nos que “ só quando F. Engels lhe presta atenção ao considerar que confirmava a sua teoria do carácter histórico da família é que a obra se revaloriza e consolida com o desenvolvimento da antropologia e da arqueologia pré-histórica desde os fins do século XIX “. Hoje é uma das obras fundamentais para o estudo do tema; no entanto, alguns especialistas do mito, como J.- P. Vernant e M. Detienne, não o consideram como um dos estudiosos do mito durante o século XIX. É mencionado, no entanto, por J. de Vries mas sem que este valorize a sua obra. Actualmente as obras que mais impacto causaram no grande público na defesa da existência de um princípio de matriarcado, são The Goddesses and Gods of Old Europe, Myths and Cult Images, 6500- 3500 B C de Marija Gimbutas [2] e as publicações de James Mellaart sobre as suas escavações na Anatólia, nomeadamente em Çatal Hüyük e Hacilar. As justificações científicas destes arqueólogos sobre a existência de um culto à Deusa-Mãe na Anatólia e que se teria estendido até à Europa Antiga são bastante convincentes. Quando o livro de Riane Eisler, O Cálice e a Espada [3] surgiu, a sua obra fundamental sobre o tema do matriarcado, para além de outras que já tinha escrito, foi saudada por todos os defensores da existência de um matriarcado na Velha Europa . Os testemunhos da arqueologia, linguística e mitologia indicavam que em muitas culturas da Europa antiga o primeiro impulso das sociedades na esfera do religioso, para além dos sepultamentos, era uma profunda veneração pela Terra, que era Mãe, pois tal como da mulher nasciam os filhos, assim dela Terra brotava vida. Será talvez essa a explicação para o aparecimento no período do Paleolítico e Neolítico de numerosas estatuetas femininas formadas inicialmente a partir de argila e cinza e depois já cozidas no forno, e, estatuetas esculpidas a partir do osso, chifre e marfim ou mesmo na própria rocha. Existe uma grande polémica sobre a intenção original que esteve por detrás destas imagens. Desde serem consideradas como mulheres reais, cânones de beleza ou objectos pornográficos ou eróticos até terem sido usadas para ilustrar o processo do nascimento às mães da época. No entanto, a opinião mais generalizada identifica-as como símbolos da fertilidade. De notar que são representadas sem acompanhante masculino o que pode indicar que os seres humanos da época estavam convencidos de que os homens não tomavam parte na reprodução. Assim, qualquer nascimento seria um exemplo de partenogénese, o que vai dar origem ao culto da Deusa-Mãe. Culto esse que teria englobado a zona circundante do mar Egeu, os Balcãs, a região oriental da Europa Central, o Mediterrâneo Central e a Europa do Ocidente.

Na generalidade da comunidade científica considera-se que as Vénus do paleolítico foram feitas por homens num acto de veneração pelas mulheres enquanto fonte da vida. No entanto, é de assinalar uma opinião diferente: Le Roy Mc Dermott, professor de Arte na Universidade Estadual do Missouri nos Estados Unidos, sugeriu que as distorções características desta figuras (ventres inchados, seios e nádegas volumosas, pernas curtas e pés pequenos) eram devidas ao facto de terem sido esculpidas por mulheres grávidas que representavam o seu próprio corpo. A visão que uma mulher grávida tem do seu corpo, num mundo sem espelhos, assemelha-se porventura a estas estatuetas. Talvez que um dos melhores exemplos seja a Vénus de Lespugne. Se assim tiver acontecido podemos deduzir que a maior parte das esculturas femininas do Paleolítico, e não só, foi feita por mulheres. A aceitação desta teoria vem introduzir um dado novo nas capacidades da mulher da época: também foi artífice.

Estas estatuetas mostram uma consistência de forma e de tema: descrevem a capacidade corpórea da mulher para dar à luz, amamentar, perder sangue e curar-se a ela própria todas as luas. Das muitas estatuetas desta época queremos destacar pela sua carga iconográfica a Vénus de Laussel. Esta estatueta, como muitas outras, apresenta-se com seios pendentes, barriga e triângulo púbico bem marcados. A particularidade que queremos destacar é que esta estatueta segura numa mão um crescente lunar com a forma de um chifre de bisão manchado com ocre vermelho. No chifre foram esculpidos treze entalhes, o que poderá significar que a concepção tem lugar no 14º dia após o período da lua da mulher. Um atributo lunar onde quer que apareça tem sempre o mesmo significado, qualquer que seja o número de sínteses religiosas que tenham colaborado na constituição dessas formas: é o prestígio da fertilidade, da criação periódica, da vida inesgotável. Os chifres de bovídeo que caracterizam as grandes divindades da fecundidade são um emblema da Deusa-Mãe. Onde quer que apareçam nas culturas neolíticas, quer na iconografia quer nos ídolos de forma bovina, eles marcam a presença da deusa da fertilidade. O chifre não é mais do que a imagem da Lua Nova. A lua é fonte de toda a fertilidade e dirige ao mesmo tempo o ciclo menstrual. Através da observação dos seus próprios ciclos e do crescimento sazonal das plantas é natural que as mulheres tivessem sido as primeiras a observar as periodicidades da natureza, e o registo destes ritmos internos e externos poderiam ter servido para formar as mais primitivas raízes da ciência e da religião. Com este conhecimento crescente da vida veio uma relação igualmente intensa com a morte. O homem de Neanderthal e o de Cro-Magnon enterravam os seus mortos cerimonialmente e usavam ocre vermelho para adornar os mortos. O ocre vermelho é representativo das qualidades de afirmação de vida do sangue. As pessoas perdem sangue só enquanto são vivas. Mas as mulheres perdem sangue menstrual e durante o parto. Não há talvez outro período no qual a mulher mostre estar mais ligada ao feminino sagrado do que no acto do parto. É apesar de tudo o processo do nascimento e da morte que sustenta a crença na Deusa-Mãe, já que o nascimento sempre contém a semente da morte. O vermelho do sangue do nascimento é a primeira cor que cada um de nós vê quando presenciamos um parto. O sangue é sagrado e o ocre vermelho simula a energia vital da vida e da renovação. É possível que os primitivos humanos ao cobrir o defunto com ocre vermelho pensassem que o morto pudesse ressurgir numa outra vida.

Para além do simbolismo do sangue a mulher é como vimos intensamente influenciada pela Lua. Enquanto o Sol permanece igual a si próprio, a Lua em contrapartida é um astro que cresce, decresce e desaparece, um astro cuja vida está submetida à lei universal do devir, do nascimento e da morte. Mas esta “morte” é seguida de um renascimento: a Lua Nova. O desaparecimento da Lua na obscuridade nunca é definitivo. Este eterno retorno às suas formas iniciais faz com que a Lua seja por excelência o astro dos ritmos da vida. Tal como a Lua a mulher segue o mesmo ritmo.

Um outro símbolo ligado à mulher e à fertilidade é a serpente. A serpente tem significados múltiplos; de entre eles o mais importante é o da sua regeneração. Como atributo da Grande Deusa a serpente conserva o seu carácter lunar – o da regeneração cíclica. Animal telúrico e ctónico, feminino por excelência, é uma hierofania do sagrado. Sob a forma de Ouroboros, a serpente que morde a cauda, simboliza um ciclo de evolução fechado sobre si próprio. Este símbolo abrange as ideias de continuidade, de autofecundação e em consequência, de eterno retorno. Mas a forma circular da imagem dá lugar a outra interpretação: a união do mundo ctónico figurado pela serpente e do mundo celeste figurado pelo círculo, significa a união de dois princípios opostos – a terra e o céu, a noite e o dia. Todas as grandes deusas da natureza que se revêem no Cristianismo sob a forma de Maria têm, como dissemos, a serpente como atributo. Mas se há figura da Deusa-Mãe que mais se possa aproximar a Maria é Ísis, que embora sendo “ Senhora do Ocidente “ ( o que significa Senhora no mundo dos mortos, onde assiste a Osíris ) é também uma deusa solar que ilumina as Duas Terras com os seus raios, enviando a luz a todos os homens. Ísis sustenta sobre a fronte a cobra real, uraeus de ouro puro, símbolo de soberania, de conhecimento, de vida e de Juventude Divina.

A árvore é outro dos símbolos que está ligado à mulher na iconografia e mitologias arcaicas porque a árvore é fonte inesgotável de fertilidade, dá frutos e regenera-se periodicamente. A epifania de uma divindade numa árvore é corrente e podemos assinalá-la nas civilizações hindu, mesopotâmica, egípcia e egeia. Na iconografia egípcia, por exemplo, encontrámos o motivo da Árvore da Vida de onde saem os braços divinos carregados de dons e despejando com um vaso a água da vida. Na parede do túmulo de Tutmósis III em Tebas vemos o faraó a receber a seiva da árvore directamente de um ramo. Inúmeros exemplos poderiam ser dados, comprovativos de que as árvores foram desde há muito sagradas para a Deusa e são uma epifania dela própria.

A água é um outro símbolo da vida, um dos mais importantes. Segundo Mircea Eliade “ Na cosmogonia , no mito, no ritual, na iconografia, as águas desempenham a mesma função, qualquer que seja a estrutura dos conjuntos culturais nos quais se encontram: elas precedem qualquer forma e suportam qualquer criação “ [4]. Justifica-se plenamente a ideia do autor se nos debruçarmos sobre a cosmogonia egípcia. A criação do mundo, por quem e como foi criado era matéria de constante interesse para os Egípcios. Os mais antigos textos religiosos conhecidos reflectem uma amálgama de cosmogonias locais elaboradas provavelmente nos tempos pré-históricos mas que se vão diferenciar nos tempos históricos. Todas, no entanto, estão de acordo ao afirmar que o mundo não é obra de um demiurgo atemporal. Segundo os Egípcios no princípio era o Caos e o Demiurgo encontrava-se diluído no Caos onde jazia inerte, como que privado de existência.Todos os sistemas religiosos concebem o Caos como um Oceano primordial que contém todos os gérmens e todas as possibilidades da Criação. Esta água é o Nun o “ pai dos deuses “. O Demiurgo aparece mais tarde na superfície das águas e adopta aspectos diferentes em cada sistema cosmogónico. A importância das águas primordiais era tão grande para os Egípcios que todos os templos possuíam lagos sagrados que simbolizavam as águas primordiais, origem de toda a Criação (…).

O desaparecimento do culto da Deusa na Europa foi ocasionado segundo os defensores do princípio do matriarcado pela vaga de indo-europeus,os Kurgan, que se estenderam por vagas sucessivas desde as estepes asiáticas e destruíram as pacíficas civilizações da Europa Antiga e as assimilaram. Portadores de armas, domesticadores do cavalo, exaltavam os deuses guerreiros e heróicos. Os seus deuses principais eram uranianos: o deus da tempestade ( cujos emblemas eram o raio e o trovão,o machado, a maça e o arco ) e o deus solar, o deus do sol que empunhava a adaga e a espada e em algumas ocasiões apresentava-se com um carro. Gerda Lerner [5] relaciona a subordinação das mulheres e a degradação da Deusa com as mudanças políticas ocorridas no III milénio quando uma sociedade baseada nos vínculos do parentesco deu lugar ao estado arcaico. Como resultado desta transformação sociopolítica, a figura da Deusa foi suplantada por um panteão de deuses e deusas. Lerner chama também a atenção para uma alteração do simbolismo. A simbologia para aludir às potências da criação passou da “ vulva da Deusa à semente do Varão “ [6]. Por outro lado, a árvore da vida símbolo da capacidade criativa da natureza foi suplantada pela árvore do conhecimento.

Sem pretender fazer uma análise sóciopsicológica das populações do Paleolítico e do Mesolítico, idades que precedem a organização da vida sedentária, podem graças à arqueologia e ao estudo dos mitos fundamentais retirar-se hipóteses a propósito desta mudança de tendência. É praticamente tido como certo que os primeiros humanos ignoravam o papel exacto do homem na procriação. Os homens mantinham uma atitude ambígua face às mulheres, aparentemente mais fracas do que eles mas capazes de dar misteriosamente a vida. Daí um profundo respeito para não dizer veneração e ao mesmo tempo uma espécie de terror perante os poderes incompreensíveis, senão mágicos ou divinos. É infinitamente provável que a humanidade primitiva tenha considerado a divindade, qualquer que ela fosse, como de natureza feminina. Tudo mudou quando o homem compreendeu a sua participação no acto sexual como condição necessária à procriação. Isto deve ter-se passado nas épocas da sedentarização quando as técnicas rudimentares da agricultura se sucederam à recolecção e à caça de animais selvagens. É preciso ter em conta no entanto, que esta alteração não se efectuou rapidamente porque os costumes ancestrais são tenazes e não se modificam senão lentamente na mentalidade colectiva. Com a domesticação dos animais e o desenvolvimento dos rebanhos, a função do homem no processo de criação tornou-se mais evidente e compreendeu-se melhor. Em consequência desta situação encontramos a Deusa-Mãe acompanhada de um ser masculino, um filho ou um irmão que a acompanha nos ritos da fertilidade e com os quais se une. Nos mitos e ritos trata-se de um deus jovem que há-de morrer para logo renascer. No entanto, é a Grande Deusa quem cria a vida e governa a morte, mas agora reconhece-se muito melhor a participação masculina na procriação. As núpcias sagradas ( hierogamias ) e outros ritos similares festejados durante o quarto e terceiro milénios expressavam estas crenças. Até que a deusa se tivesse unido ao jovem deus e houvesse tido lugar a morte e o renascimento deste, não podia recomeçar o ciclo anual das estações. A sexualidade da Deusa é sagrada.

A grande mudança seguinte aparece simultaneamente com o nascimento dos estados arcaicos sob reis poderosos. Nos começos do terceiro milénio a figura da Deusa-Mãe é deposta da sua liderança no panteão divino. Cede lugar a um deus masculino. No panteão Sumério a deusa da terra Ki e o deus do céu An presidem aos outros deuses. Da sua união nascerá o deus do ar Enlil. Por volta de 2400 os principais deuses sumérios aparecem enumerados da seguinte forma: An (ceú), Enlil (ar), Ninhursag ( rainha das montanhas ), Enki ( senhor da terra ). A deusa da terra Ki está agora afastada e em textos mais tardios aparece mencionada em último lugar depois de Enki. Nammu, a Deusa-Mãe dos Sumérios que deu nascimento ao céu e à terra e foi criadora da humanidade desaparece do panteão. Na Mesopotâmia assistimos à mesma situação. O Enuma Elis conta-nos que a deusa primordial é Tiamat, o mar. Às vezes tranquila às vezes caprichosa. É a natureza primordial indiferenciada que possui nela toda a força e o poder do que é selvagem. Tem por esposo Apsu, o deus das águas doces sobre as quais repousa o mundo. De ambos nascerão os deuses que compõem o panteão mesopotâmico. O Enuma Elis narra toda a história da luta entre os deuses da primeira geração com os da geração seguinte que culmina com a destruição de Tiamat por Marduk ( filho de Damkina, senhora da terra e de Enki/ Ea ) um deus de uma nova geração que representa a vida, a civilização e o progresso, enquanto que os deuses primitivos são conotados com o caos, a natureza desorganizada, a força bruta sem inteligência. É acompanhando talvez a par e passo a evolução da importância dos deuses sumérios, acádicos e a formação final do panteão mesopotâmico que verificámos como a deusa primordial foi perdendo lentamente a sua importância até desaparecer do panteão. É o caso da Nammu suméria de que se perdeu a memória, da Tiamat mesopotâmica que foi transformada num monstro, numa serpente que é necessário abater porque representa as forças do caos, tal como é preciso que seja abatido o Yam ugarítco que será derrotado por Baal, outro deus das novas gerações que se transformou em deus principal, deus da tempestade e do trovão, deus fertilizador dador de vida. Não esqueçamos também Leviatã, a serpente, que Javé tenta destruir como lemos em Isaías 27,1 “ Naquele dia o Senhor ferirá com a sua espada pesada temperada e forte a Leviatã, a serpente tortuosa e matará o monstro do mar “

A Deusa é, já no período histórico, personificada com o mal que é preciso destruir. O episódio do pecado original no Génesis pode, como sabemos, revestir-se de vários significados. A serpente do Génesis é a representação da tentação, do mal. Eva cometeu a falta sob a influência da serpente. Mas a serpente é um símbolo da Deusa assim como a arvore se identifica com a deusa. André Smet [7] diz-nos que Eva transgride a proibição patriarcal que é representada por Javé: “ O pecado original da Bíblia pode ser considerado como o primeiro acto desta longa luta de Deus Pai contra a Deusa-Mãe. Esta primeira queda, que será seguida de muitas outras, será como todas as outras severamente punida pelo Deus Pai. A inimizade é lançada entre a serpente e a mulher o que significa que a mulher não terá mais o direito de honrar a deusa e de lhe obedecer mas antes deverá lutar contra ela “. Javé pune também a mulher precisamente naquilo que fazia a sua glória: a gravidez e a maternidade, quando lhe diz “ Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores “ . E em seguida “ procurarás com paixão a quem serás sujeita, o teu marido “. Em vez de suscitar o desejo dos homens, símbolo do culto sexual rendido à Deusa, a mulher é a eles subjugada. E por fim Javé ordena “ maldita seja a terra por tua causa “ [8].

Há quem veja nesta atitude uma mudança radical na história das mentalidades. É uma outra civilização que começa onde a predominância será do homem, enquanto que até aqui pertenceu primeiro à mulher, em seguida foi partilhada por ambos e agora o poder cabe exclusivamente ao homem. Mas a atitude de Adão não deixa de ser curiosa ao pôr o nome de Eva à sua mulher porque ela iria ser a Mãe de todos os homens. Significará esta uma maneira oculta de homenagear a Deusa -Mãe através de Eva?

Não temos documentos relativos à passagem da religião da Deusa da Europa antiga para a religião grega. No entanto, alguns investigadores vêem na trilogia de Ésquilo, Oresteia uma recordação da época em que a sexualidade feminina era objecto de veneração: Orestes é julgado pela acusação de matricídio. Defendiam-no Apolo e os outros deuses celestes gregos. Contra eles pronunciavam-se as Fúrias ou Erínias, antigas deusas relacionadas com a terra. Orestes tinha matado a mãe por esta ter assassinado o seu pai, Agamémnon, pelo facto de este ter sacrificado a filha com o objectivo de assegurar a vitória na batalha. As fúrias discutem com Apolo, mas este baseia-se em considerações nas quais a mãe não é a verdadeira progenitora do filho, porque é a semente do pai a portadora da energia geradora de vida, a que produz nova vida ao ser colocado no seio da mãe. A força geradora está na sexualidade masculina, não na feminina, segundo Apolo.

A teoria dos filósofos pré-socráticos Empédocles, Anaxágoras e Demócrito afirmava a existência das sementes masculina e feminina, mas as suas ideias foram repelidas por Aristóteles. Aristóteles tentou dar uma base científica acerca da potencialidade da sexualidade masculina e da possibilidade das funções sexuais femininas em dois tratados: Espécie dos animais e As partes dos animais. Em síntese diz-nos que “ Masculino é o que possui a capacidade de condensar, tornar mais denso, fazer que tome forma e descarregar o sémen, que possui o princípio da forma. Feminino é o que recebe o sémen, mas é incapaz de fazer que tome forma ou de descarregá-lo (…) . O sémen contém em si mesmo o princípio da actividade e da organização efectiva para a organização do embrião. Posto que o sémen masculino era portador da capacidade de gerar, procriar, o ovo feminino não podia ter esse mesmo poder “. A ideologia grega acerca da sexualidade em termos de princípio activo e passivo terminou por impor-se até ao século XVIII.

Mas Hesíodo na Teogonia dizia: “ Primeiro de tudo foi o Caos, depois a Terra, de amplo seio, sólida e eterna morada de todos os seres, e Eros o mais formoso dos deuses imortais ( …). Do Caos nascem as Trevas e a Noite negra, e da Noite nascem a Luz e o Dia , filhos seus concebidos depois da sua união amorosa com as Trevas. A Terra criou primeiro o Céu estrelado, tão grande como ela, para a envolver por todos os lados. Depois criou as altas montanhas, moradas agradáveis dos deuses, e deu também o ser às águas estéreis, o mar com as suas altas ondas, tudo isto sem paixão amorosa “ . Já no mito platónico da criação, a passividade feminina é um facto: “ A mãe e receptáculo de todas as coisas criadas e visíveis e de algum modo sensíveis não há-de ser chamada terra ou ar ou fogo ou água ou qualquer dos seus compostos, senão que é um ser invisível e informe que recebe todas as coisas e de algum modo misterioso participa do inteligível e é absolutamente incompreensível.” Podemos referir que quanto mais se caminha à frente no tempo mais se desvanece a importância da mulher.

Ao atravessarmos toda a história da Europa e do Próximo Oriente Antigo desde a Idade do Bronze até aos nossos dias verificámos que a mulher perdeu muito da dignidade que possuiu. O Cristianismo tentou suavizar a imagem da mulher com o culto de Maria. No entanto, o inconsciente colectivo da comunidade cristã via em Maria, Mãe de Deus, a Mãe Universal, a Mãe de todos nós. Não podemos deixar de referir que foi devido à grande pressão popular desde os primeiros séculos do Cristianismo que a Igreja proclamou Maria, no Concílio de Éfeso em 431, Theotokos. Mas só em 1854 foi proclamado o Dogma da Imaculada Conceição, após séculos de divergências no seio da Igreja principalmente entre franciscanos e dominicanos. Finalmente Pio XII, em 1950, proclamou o Dogma da Assunção.

O modelo mítico de Maria, Mãe de um deus encarnado que morreu pela salvação da humanidade e ressuscitou ao terceiro dia perpassa por inúmeras Deusas-Mãe da Antiguidade. Mas, Maria não é a Grande Deusa das religiões que precederam o Cristianismo, a Grande Deusa dadora da vida e da morte, a deusa da terra, a deusa das forças telúricas. A Virgem Maria é a Deusa dos Céus que sendo Virgem deu à luz o filho de Deus. Tiepolo entre 1767-69 pintou a Imaculada Conceição. Inspirando-se em Apocalipse 12,1 representou-a rodeada de querubins, de pé sobre o Quarto Crescente da Lua, pisando uma serpente dragão que tem na boca um fruto. A serpente é trespassada na cauda por um lírio símbolo da pureza de Maria. Por cima da sua cabeça paira uma pomba, símbolo do Espírito Santo que lhe concedeu o dom da concepção. Esta iconografia é totalmente reveladora da distinção entre a Deusa- Mãe da Terra e da Deusa -Mãe dos Céus.

De tudo o que foi dito concluímos que a Criação seja do mundo ou do homem está intrínseca e profundamente ligada ao princípio feminino e à mulher. A investigação científica diz-nos que a origem da vida na terra surgiu nas águas primordiais. A Ciência hoje, com todo o seu avanço científico e tecnológico quer na fertilização in uitro quer no processo de clonagem não conseguiu substituto do suporte feminino. Nós continuamos a nascer de uma mulher. E, até Deus, para se tornar humano precisou de um corpo de Mulher.

[1] Introdução à publicação em língua castelhana por María del Mar Llinares García, da obra de J.J. Bachofen, El Matriarcado , Ediciones Akal, 2ª edición, Madrid, 1992, p. 6.

[2] GIMBUTAS, M. The Goddesses and Gods of Old Europe, Myths and Cult Images , 6500- 3500 B. C. Thames and Hudson Ltd, London, 1996.

[3] EISLER, R. O Cálice e a Espada, Colecção Diversos Universos, Via Optima, Porto, 1998.

[4] ELIADE, M. Tratado da História das Religiões, Edições ASA, Porto, 1992, p.244.

[5] LERNER, G. The Creation of Patriarchy, Oxford University Press, Inc., New York, 1986.

[6] Idem, p. 146.

[7] SEMET, A. La grande Deésse n´est pas mort, Paris 1983, p.81.

[8] Gn 3, 14-18.

Ana Maria Mendes Moreira

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-mulher-o-divino-e-a-criacao/

Lovecraft Country: racismo, spoilers e papel higiênico

Critica e resenha do livro Lovecraft Country de Matt Ruff que está sendo adaptado pela HBO e ainda em sua primeira temporada.

29 de janeiro de 1839, Darwin propõe casamento a sua prima Emma que aceita o pedido. Pouco mais de dois meses antes ele fez uma lista em seu diário pessoal contabilizando os prós e contras de se assumir tal compromisso. Na lista dos motivos pró casamento ele deixou registrado pérolas tais como “uma companhia constante (& uma amiga na velhice) que se interessará por mim – alguém para amar e brincar – melhor do que um cachorro, de qualquer forma”. Na lista dos contra ele expôs “ter que trabalhar por dinheiro – adeus aos livros – perda de tempo – menos dinheiro para comprar livros – não poderei ler durante as tardes”. O homem que, querendo ou não, matou Deus, de uma forma mais brutal do que Nietzsche, chorando por causa de livros. Pense a respeito sobre isso por um instante.

Comecei o ano de 2020 com a publicação de “O Caso de Charles Dexter Ward” da editora Hedra, lançado em 2014. Acredito que, em parte, a culpa disso tenha se originado no fato de a última leitura do ano de 2019 tenha sido a coletânea “À Procura de Kadath” da editora Iluminuras, publicada em 2002. Termine um ano com Lovecraft e inicie o próximo com Lovecraft. Acho que foi por isso que minha escolha de primeira leitura oficial do ano tenha sido “Lovecraft Country (Território Lovecraft)“, escrito por Matt Ruff em 2016.

Foi no fim em 1982, quando eu contava com meus 12 anos, que meu nariz foi quebrado pela primeira vez. Era um jantar de ano novo, me ofereceram uma taça de Champagne para comemorar e eu, no auge da maturidade que apenas uma criança de 12 anos recém completados, respondi algo como “Ta maluco? Vovô diz que vinho é coisa de viado!” Minha mãe, sentada ao meu lado, apenas esticou o braço com um golpe certeiro, resultado de anos praticando boxe. “Querido, se não vai falar algo inteligente, cale a boca. E coloque o guardanapo no nariz, você vai pingar sangue em toda a mesa.” A ceia prosseguiu, eu não consegui comer mais nada, estava assustado, estava sentindo dor, humilhação, raiva… mas não deixei meu sangue pingar na toalha.

Desde pequeno me agradava a companhia de livros. Às vezes nem os lia, apenas gostava de sentir o peso na mão, mas em grande parte do tempo os devorava. De Monteiro Lobato às aventuras americanas dos detetives juvenis d’Os Hardy Boys – escritas por uma miríade de escritores fantasmas que assinavam Franklin W. Dixon. Guardava debaixo da cama um bloco maciço formado por mais de quinhentos livros, todos trazendo meu ex-libris carimbado na contra capa. Ainda não possuía nenhum método ou organização. Conheci Frank Belknap Long e Robert Bloch antes de ser apresentado a Lovecraft. Anos separaram Dejah Thoris, Princesa de helium, de John Clayton II, Visconde de Greystoke – apesar de terem nascido na mente do mesmo homem. Lia sobre homens sendo cimentados vivos atrás de paredes e sobre corcéis indomados em ilhas desertas. Esta época eu chamo, com certa nostalgia, de a época de minha inocência literária. A inocência que terminou naquela noite em que permaneci sentado na mesa, segurando o choro, enquanto todos comiam animados e eu segurava um guardanapo molhado de encontro ao nariz.

Eu sentia o peso do livro nas mãos. A arte das capas e o papel usado na impressão remetendo à época em que escrevia e às revistas que publicavam suas histórias. Revistas Pulp, baratas – ao contrário do livro que no Brasil está sendo vendido a mais de R$70,00, com sorte você encontra uma edição nova por R$55,00 ou R$60,00. E, em janeiro de 2020, comecei a ler sobre Atticus Turner e sua busca para encontrar o pai desaparecido em 1954. Atticus era, assim com seu tio e tia e aparentemente a maior parte de sua família, um fã ferrenho de ficção científica e de literatura fantástica. Ele, assim como sua família, era negro – ou afro descendente como o pudor nos faz dizer hoje. Uma semana depois e eu fechava o livro. Em minha melhor época, ler essas 400 páginas me custaria 3 dias, 4 no máximo, mas a responsabilidade de hoje faz com que as leituras acabem me tomando mais tempo, o que não acho nem um pouco desagradável, para ser sincero. O que achei desagradável foi a história escrita pelo senhor Ruff. Não sabia se ficava mais nervoso em ter gastado o dinheiro com o livro – ao invés de comprar dois ou três obras diferentes – ou de ter perdido uma semana lendo aquilo. Se existe algo que eu levo muito a sério, mais do que na época da inocência, é o que alguém deixa impresso em uma brochura.

Naquela noite de fim de ano minha mãe se sentou ao meu lado na cama e disse “aguente firme”. Com um movimento rápido ela fez meu nariz estalar, um jorro de dor quente brotar atrás de meus olhos e então eu comecei a sangrar de verdade. “Pronto, está de volta no lugar”, ele disse como alguém que apenas constata um serviço que sabe estar bem feito.

Eu estava encarando o vazio, tentando não chorar de novo – desta vez por causa da dor – quando, com um dedo dobrado segurando meu queixo, ela m e fez encarar seus olhos.

“Seu avô nunca disse aquilo que você falou na mesa. Dizer aquilo daquela forma é uma falta de respeito com ele, com o que ele diz e o pior: com as ideias dele. Para alguém que passa tanto tempo lendo você deveria ser o primeiro a respeitar as ideias de alguém. Mas você só aprende a respeitar as ideias de alguém quando aprende a ouvir realmente o que dizem.”

Ela jogou com delicadeza meu queixo para um lado e depois para o outro, examinando meu nariz.

“Às vezes fico pensando se você está lendo mesmo esses livros ou se só fica repetindo as palavras dentro de uma cabeça oca. Quando você lê, ouve um eco entre as orelhas?”

Eu pretendia ficar quieto, achei que era parte das perguntas retóricas que normalmente compõe um sermão, mas vi os olhos dela. Balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu rosto latejando enquanto fazia isso.

“Ótimo. Então eu proponho que você aprenda a ler de verdade antes de continuar perdendo seu tempo com esses livros, porque pelo que disse hoje parece mesmo que só fez perder seu tempo.”

Ela colocou uma cópia de Alice no País das Maravilhas no meu colo. Não sei de onde havia saído o livro, não a vi carregando ele.

“Pegue este livro e o leia. Depois releia e leia mais três, quatro, dez vezes. Só pare de ler quando tiver aprendido a ler o que está aqui. Eu não pegaria mais nenhum outro livro até ter certeza que está aprendo a ler mesmo. Entendeu?”

Fiz que sim com a cabeça.

Ela ia se levantar da minha cama quando olhou para mim e me fez encarar novamente seus olhos.

“Querido, você sempre será amado por todos nós. Somos uma família, certo? Esse amor é incondicional. Mas para ser respeitado você precisa crescer. Não seja burro, não seja alguém que diz coisas só por dizer. O mundo está cheio de idiotas assim, que não sabem ouvir algo, que não sabem interpretar algo, que não querem pensar e que dizem qualquer coisa que lhes vem ao que chamam de mente e eu não quero meu filho seguindo esse caminho. Se seguir, continuará sendo meu filho, entende? Mas não é o que quero para você e com certeza não é o que você irá querer para você também. Boa noite.”

Obviamente o nome Lovecraft está na capa como isca. Ele ou qualquer referência à sua obra são citadas de forma casual apenas um punhado de vezes. Se a ideia era criar um clima Lovecraftiano para a história Ruff falhou lamentavelmente, a história curta de Borges ‘There Are More Things…’ publicada na coletânea Livro de Areia consegue em sua dezena de páginas criar uma ambientação que literalmente explode no clímax. Obviamente não estou comparando Ruff com Borges, seria o mesmo que colocar um cadeirante no ringue para lutar 15 rounds com Muhamed Ali ou Rocky Marciano. Minha sugestão seria apenas que o primeiro lesse o conto do segundo e, quando percebesse que não teria a capacidade de criar algo próximo, desistisse de associar seu livro com o testamento literário do escritor da Nova Inglaterra. O texto em si é insosso e as histórias – sim, existe mais de uma – vão ficando cada vez mais previsíveis e parecem todas carecer de um clímax, mesmo que todas estejam conectadas pela trama principal acabam sendo versões fracas de diferentes estilos de contos de ficção científica, de terror ou de fantasia. Não existe um vilão que você queira ver vencido, não existe uma personagem cujo carisma se mantenha quando você não está lendo sobre ela – e algumas nem enquanto lê apresentam o carisma. Se minha ideia era ter em mão uma releitura contemporânea do gênero que Lovecraft criou, moldou e apadrinhou, ler o livro foi como receber um novo murro no nariz. A leitura superficialmente é insossa tal qual uma tigela de caldo de pedra. Mas poderia haver alguma complexidade mais profunda?

Durante aquela semana li e reli o livro que contava as aventuras de Alice, ficando cada vez mais frustrado. No segundo dia perguntaram se eu não pretendia sair do quarto para comer, disse que não tinha fome.

“Claro que tem fome, está com o orgulho ferido e por isso não quer sair do quarto, desça agora”, e assim minha mãe pôs fim a minha greve de fome.

O que aquele livro tinha demais? Chegou o momento em que eu conseguia recitar algumas passagens de cor, mas não era o que eu queria. Resolvi começar a escrever uma resenha do livro, logo havia escrito cinco. Era uma metáfora que mostra que quando crescemos perdemos também a inocência? Que somos obrigados a viver em um mundo louco e sem sentido? Confrontamos adultos com regras que aparentemente são loucas para uma criança, mas temos que obedecê-las? Tudo fazia sentido, tudo era óbvio, nada me agradava. Não levei um murro na cara por causa disso. Quem

Escreveu o livro era um padre inglês, isso eu sabia, e ele inventava a história para entreter uma garotinha, a Alice do livro. Pedofilia? Uma versão real de Lolita? Ou seria simplesmente uma história sem sentido com o único objetivo de entreter uma criança de 10 anos? A cada dia meu humor azedava mais e mais.

Casualmente numa tarde particularmente irritante, fechei o livro. Meu irmão mais novo estava sentado no chão, rabiscando algo em folhas de papel – provavelmente tentando resolver algum problema ou charada. Antes de perceber o que estava fazendo o chamei:

“Leroy, me diz se isso faz sentido.”

E li para ele um trecho do livro:

“Vou experimentar para ver se sei tudo que sabia antes. Deixe-me ver: quatro vezes cinco é doze, e quatro vezes seis é treze, e quatro vezes sete é… ai, ai! deste jeito nunca vou chegar a vinte!”

“Claro que não, esse livro está deixando você com miolo mole!”

Naquele momento eu senti toda a angústia dos últimos dias subir pela minha garganta e se destilar em ódio. Fiquei de pé, joguei o livro longe e marchei com passos duros em direção ao caçula. Os punhos doíam pela força com que os estava fechando. Parei na frente dele e…

Não sabia se o que ele tinha falado era besteira ou não. De fato sentia como se o livro estivesse amolecendo meus miolos. Estava com raiva de ler e sentia que aquilo seria a desculpa para não pegar em mais nenhuma porcaria de livro pelo resto da vida e foi então que reparei nos olhos de Leroy. Ele não havia saído correndo – imaginou que ia apanhar, deve ter pensado que merecia e apenas ficou lá para levar o castigo pela piada impensada – mas então vi algo que até então apenas havia lido a respeito.

Os olhos de Sherlock Holmes, em algumas das histórias escritas por Sir Arthur Conan Doyle, são descritos como particularmente afiados e penetrantes, imbuídos de um olhar distante e introspectivo quando sua mente passava a funcionar a pleno poderes e como ele tinha a capacidade de desconectar em grau extraordinário sua mente sempre que precisava.

Naquele dia fui testemunha de algo semelhante. A mente de Leroy não se desconectou por vontade própria, foi como se ela percebesse algo e o deixasse catatônico, enquanto a consciência de seus olhos era tragada para o fundo de sua psiquê. Num momento ele me encarava com medo e apreensão quando, de repente, não havia mais nada ali, primeiro seus olhos se apagaram e depois de instantes passaram a brilhar.

“Pera…” Ele disse, começando devagar e ficando agitado “repete, como é? Quatro vezes cinco é doze? Quatro vezes seis é treze?”

Enquanto eu corria para pegar o livro para abrir na página ele continuou.

“Isso… e ele falou quanto era quatro vezes sete?”

“Não.” Eu respondi, olhando para ele e sabendo que não ouvia o que eu dizia.

“Bom… quatro vezes sete então seria catorze, seguindo a lógica. E quatro vezes oito igual a 15. Isso faz sentido!” E começou a rabiscar no papel. “Nossa, isso é brilhante e muito engraçado! Que livro é esse?”

Eu mostrei a capa.

“Quem escreveu isso gosta de matemática, tem mais contas? Ou charadas?”

Eu disse que assim que acabasse de ler lhe emprestaria o livro e pedi para explicar o que era brilhante.

Ele olhou para mim irradiando de felicidade. Leroy gostava de números, muito. Isso significa que ele nunca teve muito com quem conversar – além de um tio nosso. Quando alguém precisava resolver um problema falava com ele, mas raramente pedia explicação. Alguém se interessar pelos números dele e querer entendê-los era algo que o deixava extático.

“Olha, é assim. A gente escreve e pensa em uma base decimal, certo? A gente usa 10 números: 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 para escrever qualquer número, e dividimos os números em casas decimais, a casa das unidades, das dezenas, centenas…” Ele ergueu os olhos do papel onde desenhava pequenos quadrados e me encarou “Muito chato?”

“Não… nem um pouco… continua, finge que eu sou burro, pode explicar bem devagar.”

Ele riu e se animou mais.

“Então, quando a gente conta até nove chegamos no limite das unidades, por isso que quando vamos para dez colocamos um zero no lugar das unidades e um número um no lugar das dezenas. Ai cabem mais nove unidades e mais do que isso são duas dezenas. Mais do que nove dezenas vira uma centena e assim vai. Certo? Então. Quando fazemos quatro vezes cinco, terminamos com vinte unidades, ou duas dezenas. Marcamos dois e zero, assim: 20. Agora, e em outro sistema diferente? Tipo num sistema de base onze cabem dez unidades na casa das unidades e só uma na casa dos onze aqui. Então em um sistema onze teríamos um número assim: 1-10 como resultado para 4 vezes 5. Agora não podemos colocar um 10 aqui, porque são dois números, mas a ideia é que do lado direito é o número mais alto, como o nosso 9, então em base onze quatro vezes cinco seria igual a 19. Se vamos subindo a base, base doze, base treze, base quinze… o resultado vai diminuindo. Em base 18 quatro vezes cinco é igual a doze.”

“E quatro vezes seis é treze?” Perguntei entusiasmado.

“Não. E ai é que fica genial. Quatro vezes seis só é 13 se usarmos base 21. Quatro vezes sete é 14 em um sistema de base 24. Legal né?”

Eu começava a enxergar algo por trás da história. “Sim” Eu concordei boquiaberto.

“Agora fica genial. Se aumentarmos as bases de 3 em 3, como ele parece estar fazendo, olha só. Em base 27 quatro vezes oito é igual a 15. Em base 30, quatro vezes nove é igual a 16. A gente vai subindo a base em três, multiplicamos quatro por um número mais alto e o resultado sobe de um em um, rumo a vinte, viu? Só que ele disse que assim nunca vai chegar a vinte, olha. Na base 39, quatro vezes doze é igual a 19. A próxima base seria 42. Mas o produto não dá igual a vinte, porque cabe muito mais unidades antes da base 42 se encher duas vezes. Então ele nunca vai chegar a vinte mesmo seguindo essa tabela. Insano né?”

Fiquei olhando para Leroy pensando que genial era alguém conseguir enxergar isso de forma tão rápida e achar graça ainda. Agradeci e peguei o livro e resolvi pesquisar a vida de Lewis Carrol antes de continuar lendo.

Duas semanas depois estava no sofá da sala, lendo da forma mais casualmente escancarada que era fisicamente possível para mim um livro de William Blatty. Escolhi aquele livro não pelo assunto, mas porque a capa vermelha chamava a atenção a quadras de distância – ou assim esperava. Se passaram algumas horas até ouvir a voz da minha mãe do outro lado da capa.

“Livro novo?”

“Não. Foi escrito há mais de dez anos.”

“Leitura nova?” A voz dela curiosa, intrigada pela piada.

“Sim.”

Silêncio. O tique-taque do relógio da parede ficando mais alto, os taques parecendo ficar mais distantes dos tiques.

“Acabou de ler Alice?”

“O livro protesto que o Reverendo Dodgson escreveu porque a matemática estava virando uma coisa extremamente abstrata e perdendo qualquer laço com o mundo real? Terminei. Leroy está lendo ele lá no quarto.”

Meus dedos estavam gelados e fazia força para evitar que meus braços tremessem. Meu nariz começou a latejar sem motivo algum aparente.

“Matemática?” Veio a questão do outro lado da capa do livro, eu ainda não tinha tido coragem de encará-la, sentias as bochechas pegando fogo.

“Parece que sim” minha voz saia casual como minha postura, ou assim eu esperava “Alice não passa de uma euclidiana sensível, tentando desesperadamente manter a calma e a sanidade enquanto o mundo das Maravilhas era a faculdade em Oxford, onde Dodgson vivia e os habitantes eram provavelmente seus colegas, discutindo a nova matemática abstrata da época. Antes ele fazia contas com maçãs, agora ele nano sabia como calcular a raiz quadrada de menos uma maçã. Dai o livro.”

Acho que não estava mais respirando, tomei coragem e abaixei a capa do livro. Lá estava o sorriso dela olhando de volta para mim. Tive vontade de chorar, mas me mantive firme.

“Entendeu agora?” Ela perguntou?

“Eu não sei” respondi com voz trêmula.

“Se você vai viver com a cabeça entre as capas de um livro, faça isso direito. Se vai viver consertando carros, faça isso direito, se vai viver fazendo algo, faça como se sua vida dependesse disso, ou então ela vai ser uma vida fútil e você vai estar estragando a única coisa que tem algum valor, o que tem aqui dentro.”

Ela se aproximou e beijou minha testa.

“Veja seu irmão mais novo e como ele vive com os números dele. Faça a mesma coisa com seus livros, com suas histórias. O mundo está cheio de imbecis, não vire um deles. Vou continuar te amando se você for um imbecil, mas você não. Nunca se contente só com o que existe na superfície, mergulhe, veja se exista algo no fundo e brigue com esse algo. A vida é muito curta para você se contentar em só amar algo ou alguém. Entende? Tudo o que vale a pena é profundo, tem complexo, misterioso. São essas coisas abismais que te fazem mudar e crescer. Não pare de crescer nunca. E a maior lição é que você e seus irmãos juntos podem se tornar algo inquebrantável. Nunca se satisfaça com a mediocridade do mundo e nunca se contente com o que boia, vá atrás do que se esconde no fundo.”

A assim mergulhei no livro de Ruff para, primeiro, saber se possuía alguma profundidade e então ver se havia algo de valor ali.

Daqui em diante o livro será exposto como a fotógrafa O do romance de Anne Desclos, se não quiser surpresas reveladas pare de ler aqui e continue no final caso se interesse pela avaliação do material.

NOTAS SENSORIAIS

  • VISÃO

– A apresentação do livro é sensacional. Arte da capa e material remetem a Lovecraft e às revistas Pulp que publicavam seus contos. Até o papel impresso cria uma ambientação fenomenal, o cheiro de jornal velho, você sente o material áspero se esfarelar minimamente em contato com os dedos. Parece algo saído do passado. A arte gasta, a impressão reticulada e o destaque ao nome de Lovecraft maior do que o nome do próprio autor, talvez uma indicação do que viria.

  • AROMA

– Primeira decepção. O autor não consegue manter uma linguagem lovecraftiana em seus textos. O livro, inclusive, não conta apenas uma história, mas várias, cada capítulo uma pseudo homenagem a um estilo de história diferente do universo terror e ficção científica – atenção aqui:

a) “pseudo homenagem” porque não homenageia na verdade, apenas faz uso da ambientação o que torna cada capítulo um mero clichê

b) “a um estilo de história” porque o autor não tem o talento ou a capacidade de incorporar no que narra o estilo dos textos originais, os vícios de linguagem, os maneirismos, os adjetivos. A história de fantasmas não tem a alma gótica, a história de ficção científica não tem o espírito fantástico do inimaginável. É sempre o mesmo tom, o mesmo ritmo a mesma linguagem insossa e sem graça.

Também decepcionante quando se percebe que o nome de Lovecraft não é um título, é apenas mais uma isca para atrair leitores desavisados, se você é fã do escritor de Providência não se deixe levar pelo nome com que esta obra foi batizada, dele ela não tem nada além de algumas menções e de nomes de títulos emprestados para alguns dos capítulos.

Fraco, muito fraco. Fraco e chato.

  • PALADAR

Como o livro é composto por diferentes histórias com uma espinha dorsal que as une, vou dar minha breve opinião sobre cada “capítulo”.

– Lovecraft Country (País de Lovecraft)

A primeira história é de longe a “melhor do pacote”. Talvez o clima que vá se criando, e o fato de você ainda não saber que o livro seria ruim, ajude muito com isso. Ela é que dá nome ao livro. 1954, Atticus é um militar negro que recebeu dispensa e está decidindo o que fazer com a vida quando recebe uma carta misteriosa de seu pai. A partir dai parte em uma jornada que mudará sua vida.

– Dreams of the witch house (sonhos na casa da bruxa)

Uma das melhores histórias de Lovecraft vira título de um capítulo com a única intenção de… de nada além de se usar um título do autor. Típica história da casa mal assombrada, claro que o fantasma é branco e racista e a nova proprietária da casa uma mulher negra. Um conto fraca cujo ápice é a piada que surge quando o fantasma tenta matar a protagonista e acreditem que se esta descrição pareceu interessante, ela não é.

– Abdullah’s book (o livro de Abdula)

Uma sugestão de semelhança com o Necronomicon de Lovecraft, dai atribuírem o livro a um nome árabe. Desta vez um ramo negro da maçonaria se envolve com o ramo branco da Ordem que tem como membros figuras poderosas da sociedade – chefes de polícia irlandeses, prefeitos, ricaços. O conto não gira em torno da criação do livro, ou de sua história, apenas como os maçons conseguirão driblar uma armadilha sobrenatural que tem em seu interior o livro mágico – que não foi escrito, nunca pertenceu e nem foi lido por Abdullah.

– Hippolyta disturbs the universe (Hipólita perturba o universo)

Típico conto de ficção científica e o segundo conto com personagem feminina. Hippolyta acaba com uma chave nas mãos que a leva para um observatório que serve como portal para infinitos mundos. Desde criança ela idolatra astronomia e o conto tem o sabor de destino pré fabricado – como uma personagem batizada de Magnus se tornar um vilão chamado Magneto que controla o magnetismo, ou alguém batizado Otto Octavius terminar com tentáculos no corpo com o nome de Dr. Octopus. A criança que nunca pôde ingressar na astronomia por ser mulher, negra e pobre, acaba vivendo a maior aventura galática de todas. Mas ao ler você não sente o gosto do fantástico, do absurdo, daquilo que é alienígena, nem a surpresa e o maravilhamento de alguém realizando os sonhos de criança.

Hyppolita com certeza viveria uma aventura uito mais memorável se fosse parar em uma dimensão paralela onde os brancos fossem alvo do racismo e o mundo oriental fosse dominado pelos negros. Mas ela apenas vai para uma casa pré fabricada que tem um forno que produz comidas misteriosas de forma aleatória.

– Jekyll in Hyde Park (Jeckyll no parque Hyde)

Contos que trazem por título trocadilhos de obra de Stevenson por si só mereceriam ser ignoradas, mas tais trocadilhos parecem ser populares não apenas em literatura ruim, mas em música, curtas animados, etc…

Na obra de Stevenson o médico manso e gentil dr. Jekyll, faz pesquisas para entender os impulsos e os sentimentos humanos mais profundos, a acaba por criar uma droga que libera seus aspectos mais primitivos, é a deixa para surgir Sr. Hyde (do verbo hide, esconder, ocultar). Então o aceito socialmente se torna um monstro.

Ruff inverte aqui os papéis sociais e uma poção mágica transforma Ruby – mulher negra para quem nada dá certo – em uma mulher branca e ruiva que pode fazer o que quiser. Aqui o “monstro” se torna o que é aceito e desejado socialmente. O único objetivo deste conto é nos mostrar o que é a Ordem e quais os planos de Caleb para ela.

– The narrow house (A Casa Estreita)

Outro trocadilho sutil, já que “casa estreita” em inglês tem o significado poético de cova, sepultura – pense a respeito você entenderá. O título seria interessante se o conto fosse bom. Desta vez ao invés de trazer fantasmas para nosso mundo o pai de Atticus acaba indo parar em uma casa fantasma, agora são os vivos que assombram os mortos. Não sei como mas o autor conseguiu criar uma história monótona e chata. Já que fantasmas não sentem mais nada se alimentam de emoções. “Conte uma história e você pode ir”.

Não há momentos de perigo, não há reviravoltas, não há nada fantástico. Apenas usam um fantasma para contar como pode ser horrível para um branco viver um casamento interracial e ainda por cima ser burro. Um conto linear sem surpresas que tem como único objetivo mostrar que um vivo pode negociar com um morto.

– Horace and the devil doll (Horácio e o boneco satânico)

A promessa de um conto na linha do clássico Além da Imaginação. Será que o que está acontecendo é real? É ilusão? É loucura? Poderia ser Contos Fantásticos em seu ápice. Com certeza melhor do que os contos anteriores, mas o autor falha em personificar a criança protagonista da história, nos parece apenas um adulto que não sabe agir. Tudo o que caracterizaria uma criança, a inocência, o medo do desconhecido, o pânico que o terror causa, a suave ignorância dos primeiros anos são tratados de forma artificial, a visão de um adulto que não sabe escrever através de mãos infantis.

– The mark of Cain (A marca de Caim)

O climax une um pouco do que foi exposto em cada conto anterior. Quando um personagem não adquire uma experiência que o motive ou que lhe dê sabedoria ele ganha uma bugiganga mágica como uma varinha mágica com um desenho de libélula que tem o mesmo efeito do beliscão nevrálgico vulcano em seus inimigos.

Tudo, obviamente termina bem para os protagonistas, qualquer associação ou lealdade que uma personagem de cor tenha com uma branca é desfeita e termina a história principal.

  • FINALIZAÇÃO

É um livro que deixa um gosto ruim na boca.

Termino de ler o livro e a impressão clara é a da tentativa de se criar um texto onde o sobrenatural é ofuscado pelo racismo – o ódio irracional humano é pior do que qualquer monstro que nossa mente possa conjurar.

Ao mesmo tempo fechei o livro pensando que ele não passava de um pré roteiro para alguma nova série infanto juvenil de suspense e sobrenatural.

O mais engraçado é um homem branco de nossa época escrever sobre o racismo da década de 1950 e isso parece ser uma tendência da literatura. Victor Lavalle, outro escritor branco, escreveu “Tha Ballad of Black Tom: uma revisão do conto O Horror de Redhook de Lovecraft onde o protagonista é negro. Esse tipo de literatura Mea Culpa deveria ser vendida junto com livros de auto ajuda para quem se identifica com esse tipo de material.

Tudo isso somado a um escritor que não conseguiu adicionar brilho ou profundidade ao que escreveu, muito pelo contrário, na última história a personagem que se transforma na personagem ruiva acaba sendo subjulgada pela tia de Aticus, um dos homens que ambas haviam amarrado pisca para ela e diz “é isso o que ganha tentando ajudar os negros” apenas para receber um cala boca de ambas as mulheres, a negra e a negra no corpo branco.

Geralmente, escritores que se enveredam pela senda do sobrenatural, do fantástico e do horror possuem uma receita que visa, durante o desenrolar da história, criar uma dualidade moral tremenda. Uma criatura que representa o mal, a amoralidade, tudo o que é errado, e ela tem poderes e força muito maior do que a daquele (ou daquela) que a vai enfrentar. Cria-se assim a eterna síndrome bíblica de um David enfrentado um Golias armado de um simples pedregulho e vencendo o gigante no final.

Este tipo de roteiro geralmente é fraco, mas as pessoas se afeiçoam dele – acredito eu – porque o mal é sempre exposto como algo tão repulsivo que não tem outro destino cabível a não a aniquilação total, e ficamos aliviados quando ela finalmente chega.

No livro de Ruff a personagem Caleb Braithwhite deveria ser esse antagonista supremo, mesmo que velado durante a obra, alguém cuja presença devesse ser aturada, mas não suportada por muito tempo. O problema é que durante o desenrolar do livro ele não atinge esse status.

Ele salva Aticus e seu pai, seu tio e sua amiga Letitia – todos os quatro seriam mortos. No processo Atticus coloca uma “amiga” de Caleb em coma – com o tempo vemos que eles eram mais do que amigos. Caleb ainda paga para a família o salário que calculam ser devido a sua antepassada que trabalhou como escrava. Dá à irmã de Letitia, Ruby, uma chance de fazer o que desejar com a vida e num golpe final acaba com todos que tinham motivo para acabar com a familia e os amigos de Atticus. E como pagamento disso e mais é traído, tem seus poderes apagados, é expulso da cidade, fica sem dinheiro, sem influência e termina com todos os outros protagonistas rindo dele e das advertências que ele faz – não ameaças. Não sei qual a intenção de Ruff, mas terminei de ler o livro com as palavras do capanga amarrado ecoando em minha mente:

“é isso o que ganha tentando ajudar os negros”

Um erro grotesco do escritor, a não ser que ele suponha que como todas as outras personagens são intrinsecamente boas, o que fazem é intrinsecamente correto. Mas não é porque o racismo é a base moral de uma novela que tudo o que aqueles que sofrem do racismo fazem é justificável. Se Caleb era de fato alguém que merecia ser neutralizado e humilhado o autor falha em mostrar isso e criar um clima indigesto por lidar de um assunto tão delicado e fundamental: a ignorância humana e o desprezo que ela gera a tudo que nos parece diferente, a nossa tendência estúpida de diminuir e tirar valor de tudo aquilo que aparentemente é diferente de nós.

Além disso a forma como o autor coloca o universo da ficção científica preenchendo alguns vazios deixa a impressão de ter tentado pintar como seria alguém de cor gostar de ficção científica em mundo onde até hoje, para a maioria, Jesus Cristo é loiro de olhos claros.

Se o objetivo era mostrar a uma pessoa branca como era ser negro na época, ele faz isso da maneira mais tosca e despreocupada. Isso seria uma visão tão linda para ser trabalhada, mas lhe falta talento para desenvolvê-la, acaba deixando um fim suspenso no ar sem significado nenhum além do gosto tonto da traição.

Eu sinto dor em meu coração por todas as árvores que morreram para serem transformadas em papel e ter impressa em seus cadáveres as palavras que formam este volume.

MINHA AVALIAÇÃO

Papel higiênico usado

(está cheio de merda, o lugar dele é no lixo mas teve uma utilidade prática)

Mas… apesar de todo o desgosto… o prazer que as personagens tem por obras clássicas da fantasia e da ficção científica despertaram algo em mim e servirão de norte para as leituras que pretendo realizar este ano. Ray Bradbury, Edgar Rice Burroughs, planetas distantes, futuros improváveis… mutantes… 2020 ficará marcado como o ano do fantástico e esses serão os livros que surgirão aqui nas próximas postagens.

Bônus

Uma dica para quem gostaria de ver a proposta de racismo extremamente bem desenvolvida em uma história de ficção científica:

Kindred: Laços de Sangue de Octavia E. Butler

Publicado pele aditora Morro Branco, e com o título “Kindred – laços de sangue”, esta é a primeira obra de Octavia lançada no Brasil. O livro foi escrito por uma mulher negra que nasceu na década de 40. Ela sabe sobre o que está escrevendo. O livro narra a história de uma mulher negra que viaja de volta no tempo e tem que salvar a vida do escravagista que irá se tornar seu antepassado.

Octavia era uma mestra das palavras. Sua narrativa única, suas histórias um murro na carra do leitor. Este livro é uma obra prima que merece ser lida.

Bônus 2: Trailler da Série

Excelente review, ‘bem vidos de volta, Mortesubitos’!

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/lovecraft-country-racismo-spoilers-e-papel-higienico/

O Livro das Entidades Enochianas

Por Robson Bélli do site enochiano.com.br

O guia abaixo foi criado por Robson para o grupo enochiano do site enochiano.com.br como uma Introdução a função das entidades enochianas. Munidos dessas informações torna-se mais fácil identificar quais entidades são as mais apropriadas para serem chamadas em cada ocasião, como por exemplo no passo 10, “Conjuração do Espírito” que ocorre dentro da Estrutura de um Ritual Enochiano

OS NOMES SECRETOS DE DEUS – NOMES DE 12 LETRAS

  DIREÇÃO ELEMENTO NOME DE DEUS CHAMADAS
1 LESTE AR ORO IBAH AOZPI 3
2 SUL AGUA MPH ARSL GAIOL 4
3 OESTE FOGO OIP TEAA PDOCE 6
4 NORTE TERRA MOR DIAL HCTGA 5

 

OS REIS – NOMES DE 7 LETRAS

(PODERES GERAIS E EXTENSOS)

 

  DIREÇÃO ELEMENTO REI DA MISERICRODIA REI DA SEVERIDADE CHAMADAS
1 LESTE AR BATAIVA BATAIVH 3
2 SUL AGUA RAAGIOS RAAGIOL 4
3 OESTE FOGO EDLPRNA EDLPRNA 6
4 NORTE TERRA ICZHHCA ICZHHCL 5

 

OBSERVAÇÃO:

No sistema Neo enochiano da Golden Dawn se encontra apenas um nome de rei em vez de dois, contudo as chamadas não se alteram seguindo o mesmo padrão da tabela acima, segue abaixo os nomes dos reis usados no sistema neo enochiano.

  1. LESTE (AR)               –             BATAIVAH
  2. SUL (AGUA)               –             RAAGIOSL
  3. OESTE (FOGO) –             EDLPRNAA
  4. NORTE (TERRA) –             ICZHIHAL

OS SENIORES – NOMES DE 7 LETRAS

(TRANSMIÇÃO DE CONHECIMENTO E JULGAMENTOS HUMANOS)

  DIREÇÃO ELEMENTO A B I II III IV CHAMADAS
1 LESTE AR HABIORO AHAOZPI AAOZAIF HTMORDA HIPOTEGA AVTOTAR 3, 7, 8 e 9
3 3 3 7 9 8
2 SUL AGUA LSRAHPM SLGAIOL SAIINOU LAOAXRP LIGDISA SONIZNT 4, 10, 11 e 12
4 4 10 4 12 11
3 OESTE FOGO AAETPIO AAPDOCE ADAEOET ALNDOOD ARINNAP ANODOIN 6, 16, 17 e 18
6 6 16 17 6 18
4 NORTE TERRA LAIDROM ALHCTGA ACZINOR LZINOPO LIIANSA AHMLICV 5, 13, 14 e 15
5 5 13 14 15 5

A: SENIORES DO PILAR DA SEVERIDADE

B: SENIORES DO PILAR DA MISERICORDIA

I: SENIORES DOS SUBANGULOS DO AR

II: SENIORES DOS SUBANGULOS DA AGUA

III: SENIORES DOS SUBANGULOS DO FOGO

IV: SENIORES DOS SUBANGULOS DA TERRA

OBSERVAÇÃO

No sistema tradicional não se leva em consideração os sub ângulos, vindo assim a não ser importante para o tradicional estas minucias.

 

ARCANJOS – NOMES DE 5 LETRAS

(CONSAGRAÇÕES, COMBINAÇÕES E ALTERAÇÕES DE MATERIAIS, OPERAÇÕES ALQUIMICAS)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS
1 LESTE AR ERZLA EUTPA HXGZD HTNBR 3, 7, 8 e 9
3 7 9 8
2 SUL AGUA ETAAD ETDIM HNLRX HMAGL 4, 10, 11 e 12
10 4 12 11
3 OESTE FOGO ADOPA AANAA PZIZA PPSAC 6, 16, 17 e 18
16 17 6 18
4 NORTE TERRA ABOZA APHRA PASMT POCNC 5, 13, 14 e 15
13 14 15 5

I: ARCANJOS DOS SUBANGULOS DO AR

II: ARCANJOS DOS SUBANGULOS DA AGUA

III: ARCANJOS DOS SUBANGULOS DO FOGO

IV: ARCANJOS DOS SUBANGULOS DA TERRA

OBSERVAÇÃO

No sistema tradicional não se leva em consideração os sub ângulos, vindo assim a não ser importante para o tradicional estas minucias.

ANJOS KERUBICOS – DAS SUBSTANCIAS NATURAIS – NOMES DE 4 LETRAS

(CONSAGRAÇÕES, COMBINAÇÕES E ALTERAÇÕES DE MATERIAIS, OPERAÇÕES ALQUIMICAS)

 

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS OBEDIENCIA
1 LESTE AR/AR RZLA ZLAR LARZ ARZL 3 ERZLA
2 SUL AR/AGUA TAAD AADT ADTA DTAA 4, 10 ETAAD
3 OESTE AR/FOGO DOPA OPAD PADO ADOP 6, 16 ADOPA
4 NORTE AR/TERRA BOZA OZAB ZABO ABOZ 5, 13 ABOZA

 

I: Anjo Kerubico
II: Companheiro mais próximo (mais elevado / menos denso)

III: Segundo companheiro (elevação intermediaria / densidade intermediária)

IV: Terceiro companheiro (menos elevado / densidade alta)

 

OBSERVAÇÃO

Entenda a questão de densidade aqui mais relacionado ao plano espiritual e ao plano físico (denso) logo os anjos mais densos estão mais próximos de nós a fim de realizar nossos pedidos de maneira mais física, os de densidade intermediaria, trarão sua realização no campo mais mental ou astral, e os mais elevados no campo espiritual.

 

ANJOS KERUBICOS – ANJOS DO TRANSPORTE – NOMES DE 4 LETRAS

(PROTEÇÃO NOS CAMINHOS, VIAGENS, IR E VIR, TRAZER E LEVAR)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS OBEDIENCIA
1 LESTE AGUA/AR UTPA TPAU PAUT AUTP 3, 7 EUTPA
2 SUL AGUA/AGUA TDIM DIMT IMTD MTDI 4 ETDIM
3 OESTE AGUA/FOGO ANAA NAAA AAAN AANA 6, 17 AANAA
4 NORTE AGUA/TERRA PHRA HRAP RAPH APHR 5, 14 APHRA

 

I: Anjo Kerubico
II: Companheiro mais próximo (mais elevado / menos denso)

III: Segundo companheiro (elevação intermediaria / densidade intermediária)

IV: Terceiro companheiro (menos elevado / densidade alta)

OBSERVAÇÃO

Entenda a questão de densidade aqui mais relacionado ao plano espiritual e ao plano físico (denso) logo os anjos mais densos estão mais próximos de nós a fim de realizar nossos pedidos de maneira mais física, os de densidade intermediaria, trarão sua realização no campo mais mental ou astral, e os mais elevados no campo espiritual.

 

ANJOS KERUBICOS – ANJOS DAS ARTES MECANICAS – NOMES DE 4 LETRAS

(INFORMAÇÕES, CONHECIMENTOS E INFLUENCIAR TECNOLOGIAS, MAQUINAS E AFINS)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS OBEDIENCIA
1 LESTE FOGO/AR XGZD GZDX ZDXG DXGZ 3, 9 HXGZD
2 SUL FOGO/AGUA NLRX LRXN RXNL XNLR 4, 12 HNLRX
3 OESTE FOGO/FOGO ZIZA IZAZ ZAZI AZIZ 6 PZIZA
4 NORTE FOGO/TERRA ASMT SMTA MTAS TASM 5, 15 PASMT

I: Anjo Kerubico
II: Companheiro mais próximo (mais elevado / menos denso)

III: Segundo companheiro (elevação intermediaria / densidade intermediária)

IV: Terceiro companheiro (menos elevado / densidade alta)

OBSERVAÇÃO

Entenda a questão de densidade aqui mais relacionado ao plano espiritual e ao plano físico (denso) logo os anjos mais densos estão mais próximos de nós a fim de realizar nossos pedidos de maneira mais física, os de densidade intermediaria, trarão sua realização no campo mais mental ou astral, e os mais elevados no campo espiritual.

 

 

 

ANJOS KERUBICOS – OS ANJOS DAS DESCOBERTAS DOS SEGREDOS – NOMES DE 4 LETRAS

(PARA DESCOBRIR SEGREDOS E INFORMAÇÕES OCULTAS)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS OBEDIENCIA
1 LESTE TERRA/AR TNBR NBRT BRTN RTNB 3, 8 HTNBR
2 SUL TERRA/AGUA MAGL AGLM GLMA LMAG 4, 11 HMAGL
3 OESTE TERRA/FOGO PSAC SACP ACPS CPSA 6, 18 PPSAC
4 NORTE TERRA/TERRA OCNC CNCO NCOC COCN 5 POCNC

I: Anjo Kerubico
II: Companheiro mais próximo (mais elevado / menos denso)

III: Segundo companheiro (elevação intermediaria / densidade intermediária)

IV: Terceiro companheiro (menos elevado / densidade alta)

OBSERVAÇÃO

Entenda a questão de densidade aqui mais relacionado ao plano espiritual e ao plano físico (denso) logo os anjos mais densos estão mais próximos de nós a fim de realizar nossos pedidos de maneira mais física, os de densidade intermediaria, trarão sua realização no campo mais mental ou astral, e os mais elevados no campo espiritual.

 

ANJOS MENORES – OS ANJOS DA MEDICINA – NOMES DE 4 LETRAS

(PARA REALIZAR CURAS E CURAR DOENÇAS)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE AR/AR CZNS TOTT SIAS FMND 3 ODOIGO ARDZA
2 SUL AR/AGUA TOCO NHDD PAAX SAIX 4, 10 OBGOTA AABCO
3 OESTE AR/FOGO OPMN APST SCIO VASG 6, 16 NOALMR OLOAG
4 NORTE AR/TERRA AIRA ORMN RSNI IZNR 5, 13 ANGPOI UNNAX

 

I:  Anjos extremamente sutis e elevados, demoram a manifestar no mundo físico sua influencia, contudo ela é duradoura.
II: Anjos “espirituais” sutis atuando no campo espiritual, realizando curas espirituais.

III: Anjos “astrais” sutis atuando e manifestando curas na mente e no campo astral/energetico.

IV: Anjos pouco sutis que manifestam os pedidos rapidamente, normalmente coisas pequenas, de pouca duração.

ANJOS MENORES – ANJOS DO OURO E DAS PEDRAS PRECISOSAS – NOMES DE 4 LETRAS

(PARA DESCOBRIR TESOUROS, ENCONTRAR OURO, TRABALHO E OBTER DINHEIRO)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE AGUA/AR OYUB PAOC RBNH DIRI 3, 7 ILACZA PALAM
2 SUL AGUA/AGUA MAGM IEOC VSSN RVOI 4 NELAPR OMEBB
3 OESTE AGUA/FOGO GMNM ECOP AMOX BRAP 6, 17 VADALI OBAUA
4 NORTE AGUA/TERRA OMGG GBAL RLMU IAHL 5, 14 ANAEEM SONDN

I:  Anjos extremamente sutis e elevados, demoram a manifestar no mundo físico sua influencia, contudo ela é duradoura.
II: Anjos “espirituais” sutis atuando no campo espiritual, realizando aberturas de caminhos, afastando karmas negativos.

III: Anjos “astrais” sutis atuando e manifestando ideias/vibrações de prosperidade na mente e no campo astral/energetico.

IV: Anjos pouco sutis que manifestam os pedidos rapidamente, normalmente coisas pequenas, de pouca duração.

 

ANJOS MENORES – ANJOS DA TRANSFORMAÇÃO – NOMES DE 4 LETRAS

(CHAMADOS COM O PROPOSITO DE TRANSFORMAR UMA COISA NA OUTRA, MAGIAS EM GERAL)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE FOGO/AR ACCA NPAT OTOI PMOX 3, 9 AOURRZ ALOAI
2 SUL FOGO/AGUA XPCN VASA DAPI RNIL 4, 12 IAAASD ATAPA
3 OESTE FOGO/FOGO ADRE SISP PALI ACAR 6 PZIONR NRZFM
4 NORTE FOGO/TERRA MSAP IABA IZXP STIM 5, 15 OPMNIR ILPIZ

 

I:  Anjos extremamente sutis e elevados, demoram a manifestar no mundo físico sua influencia, contudo ela é duradoura.
II: Anjos “espirituais” sutis atuando no campo espiritual, realizando transformações profundas de caráter e conciencia.

III: Anjos “astrais” sutis atuando e manifestando ideias de como transformar/mudar (ótimos para quebra de magias) as coisas do mundo físico e material ou ainda como sair vitorioso de uma situação.

IV: Anjos pouco sutis que manifestam os pedidos rapidamente, normalmente coisas pequenas, de pouca duração.

 

ANJOS MENORES – ANJOS DAS CRIATURAS VIVAS – NOMES DE 4 LETRAS

(CONHECIMENTOS, E INFLUENCIA SOBRE TODOS OS SERES VIVOS, INCLUSIVE OS SOBRENATURAIS)

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV CHAMADAS INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE TERRA/AR ABMO NACO OCNM SHAL 3, 8 AIAOAI OIIIT
2 SUL TERRA/AGUA PACO NDZN IIPO XRNH 4, 11 MALADI OLAAD
3 OESTE TERRA/FOGO DATT DIOM OOPZ RGAN 6, 18 UOBXDO SIODA
4 NORTE TERRA/TERRA OPNA DOOP RXAO AXIR 5 ABALPT ARBIZ

I:  Anjos extremamente sutis e elevados, demoram a manifestar no mundo físico sua influencia, contudo ela é duradoura.
II: Anjos “espirituais” sutis atuando no campo espiritual, realizando transformações profundas das formas de vida.

III: Anjos “astrais” sutis atuando e manifestando ideias a respeito de seres vivos e sobrenaturais.

IV: Anjos pouco sutis que manifestam os pedidos rapidamente, normalmente coisas pequenas, de pouca duração.

 

 

 

CACODAEMONS – DA MEDICINA

(CAUSADORES DE DOENÇAS, MAZELAS, LOUCURAS, SENHORES DE TODOS OS PESADELOS)

 

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV A B C D CHAMADA INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE AR/AR XCZ ATO RSI PFM XNS ATT RAS PND 3 OGIODI AZDRA
2 SUL AR/AGUA XTO ANH RPA PSA XCO ADD RAX PIX 4, 10 ATOGBO OCBAA
3 OESTE AR/FOGO MOP OAP CSC HVA MMN OST CIO HSG 6, 16 RMLAON GAOLO
4 NORTE AR/TERRA MAI OOR CRS HIZ MRA OMN CNI HNR 5, 13 IOPGNA XANNU

 

CACODAEMONS – DO OURO E DAS PEDRAS PRECIOSAS

(CAUSADORES DA MISERIA, POBREZA, ESCACEZ E FOME)

 

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV A B C D CHAMADA INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE AGUA/AR XOY APA RRB PDI XVB AOC RNH PRI 3, 7 AZCALI MALAP
2 SUL AGUA/AGUA XMA ALE RVS PRV XGM AOC RSN POI 4 RPALEN BBEMO
3 OESTE AGUA/FOGO MGM OEC CAM HBR MNM OOP COX HAP 6, 17 ILADAV AUABO
4 NORTE AGUA/TERRA MOM OGB CRL HIA MGG OAL CMV HHL 5, 14 MEEANA NDNOS

 

CACODAEMONS – DA TRANSFORMAÇÃO (CHAMADOS PARA DETERIORAR TODAS AS COISAS, TRANSFORMAR ALGO BOM EM RUIM, CAUSADORES DA DESORDEM E DO CAOS)

 

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV A B C D CHAMADA INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE FOGO/AR CAC ONP MOT APM CCA ONT MOI AOX 3, 9 ZRRUOA IAOLA
2 SUL FOGO/AGUA CXP OVA MDA ARN CCN OSA MPI AIL 4, 12 DSAAAI APATA
3 OESTE FOGO/FOGO RAD ASI XPA EAC RRE ASP XLI EAR 6 RNOIZR MFZRN
4 NORTE FOGO/TERRA RMS AIA XIZ EST RAP ABA XXP EIM 5, 15 RINMPO ZIPLI

 

CACODAEMONS – DAS CRIATURAS VIVAS E DOS ELEMENTOS

(MATAR, FERIR, GANGRENAR, INFLUENCIAR OS MORTOS E SERES MAIS OBSCUROS)

 

  DIREÇÃO ELEMENTO I II III IV A B C D CHAMADA INVOCAÇÃO COMANDO
1 LESTE TERRA/AR CAB ONA MOC ASH CMO OCO MNM ALL 3, 8 IAOAIA TIIIO
2 SUL TERRA/AGUA CPA OND MII AXR CCO OZN MPO ANH 4, 11 IDALAM DAALO
3 OESTE TERRA/FOGO RDA ADI XOO RSG RTT AOM XPZ EAN 6, 18 ODXBOU ADOIS
4 NORTE TERRA/TERRA ROP ADO XRX EAX RNA AOP XAO EIR 5 TPLABA ZIBRA

Robson Belli, é tarólogo, praticante das artes ocultas com larga experiência em magia enochiana e salomônica, colaborador fixo do projeto Morte Súbita, cohost do Bate-Papo Mayhem e autor de diversos livros sobre ocultismo prático.

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-livro-das-entidades-enochianas/

A Alquimia

Por Rubellus Petrinus

A alquimia é das ciências ocultas que, atualmente, mais interesse tem despertado, não só pelos inúmeros livros que ao longo dos tempos foram escritos sobre a Arte Hermética, mas também, pela curiosidade de saber algo sobre a veracidade da misteriosa Pedra Filosofal, também conhecida por Medicina Universal.

Durante muito tempo a alquimia foi sinônimo de charlatanismo ou de ignara credibilidade. Muito do descrédito da alquimia era devido à falta de publicações sérias, pois muitas delas são imitações grosseiras, feitas por sopradores, (falsos alquimistas) dos verdadeiros e antigos textos, nas quais se une o absurdo com a ignorância. Atualmente, devido ao grande número de traduções das obras clássicas mais importantes dos grandes Mestres, a opinião de muitas pessoas mudou completamente.

A palavra alquimia, do árabe, al-khimia, tem o mesmo significado de química, só que, esta química, antigamente designada por espagíria, não é a que atualmente conhecemos, mas sim, uma química transcendental e espiritualista. Sabe-se, que al, em árabe, designa Ser supremo o Todo-Poderoso, como Al-lah. O termo alquimia, designa desde os tempos mais recuados, a ciência de Deus, ou seja a química de Al.

A alquimia é a arte de trabalhar e aperfeiçoar os corpos com a ajuda da natureza. No sentido restrito do termo, a alquimia sendo uma técnica é, por isso, uma arte prática. Como tal, ela assenta sobre um conjunto de teorias relativas à constituição da matéria, à formação de substâncias inanimadas e vivas, etc.

Para um alquimista, a matéria é composta por três princípios fundamentais, Enxofre, Mercúrio e Sal, os quais poderão ser combinados em diversas proporções, para formar novos corpos.

No dizer de Roger Bacon, no Espelho da Alquimia, «…A alquimia é a ciência que ensina a preparar uma certa medicina ou elixir, o qual, sendo projetado sobre os metais imperfeitos, lhe comunica a perfeição…»

A alquimia operativa, aplicação direta da alquimia teórica, é a procura da pedra filosofal. Ela reveste-se de dois aspectos principais: a medicina universal e a transmutação dos metais, sendo uma, a prova real da outra.

Um alquimista, normalmente, era também um médico, filósofo e astrólogo, tal como Paracelso, Alberto Magno, Santo Agostinho, Frei Basílio Valentim e tantos outros grandes Mestres hoje conhecidos pelas suas obras reputadas de verdadeiras.

Cada Mestre tinha os seus discípulos a quem iniciava na Arte, transmitindo-lhe os seus conhecimentos. Além disso, para que esse conhecimento perdurasse pelos tempos, transmitiram-no também por escrito, nos livros que atualmente conhecemos, quase sempre escritos sob pseudônimo, de forma velada, por meio de alegorias, símbolos ou figuras.

É isto que dificulta o estudo da alquimia, porque esses símbolos e figuras não têm um sentido uniforme. Tudo era, e atualmente ainda é, deixado à obra e imaginação dos seus autores.

O alquimista não é um fazedor de ouro como muita gente pensa. A transmutação só terá lugar, como já dissemos, como prova provada da veracidade da medicina universal ou pedra filosofal.

Hoje, como no passado, existem também alquimistas. Encontram-se em todos os extractos sociais, tal como diz Cyliani em Hermes Revelado: «…Reis da Terra, se conhecêsseis o grande número de pessoas que se entregam, em segredo, nos nossos dias, à procura da pedra filosofal, ficaríeis admirados…»

Foram escritos milhares de livros sobre a Arte, pois ao que parece, desde fins da Idade Média até ao século XIX, a alquimia esteve na moda, e não só os gentis homens, nobres e cavaleiros, religiosos, clérigos e até alguns reis e papas, não só escreveram tratados sobre a Arte de Hermes, como também frequentemente a praticaram. Como é óbvio, isso deu origem a que fossem escritos muitos livros que nada têm a ver com a verdadeira alquimia.

Atualmente, os livros sobre a Arte Hermética são muito procurados. Infelizmente, existem no mercado muitos livros que aparentam ser obras sérias, mas não passam de pura especulação. Mesmo assim, são adquiridos não só por curiosidade, mas também pelo desejo de deles se poderem extrair alguns conhecimentos que permitam descobrir algo novo.

Não queremos com isto dizer que não foram escritos livros sérios sobre a Arte Hermética. Esses livros existem e são hoje bem conhecidos pelos estudiosos e investigadores da alquimia.

Muitos deles estão compilados no Theatrum Chemicum, na Bibliotheca chemica curiosa de Mangeti e na Bibliothéque des Philosophes Chimiques de Salmon.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-alquimia

David Beth

David Beth, escritor e explorador esotérico, nasceu em Luanda, Angola, de pais alemães, em maio de 1974. Durante sua vida ele passou dezesseis anos na África, vivendo na Nigéria e no Quênia.

O clima único, metafísico e espiritualmente rico, especialmente na África Ocidental, teve uma grande influência sobre David desde cedo. Durante esses dezesseis anos, ele teve a sorte de encontrar pessoalmente muitos poderosos representantes das tradições espirituais e metafísicas locais, como Susanne Wenger, suma sacerdotisa de Osun e guardiã das florestas sagradas de Oshogbo. Durante seus anos na África, ele recebeu transmissões e palestras de vários tipos que ele infundiu em seu trabalho mágico e espiritual.

Um profundo interesse pela tradição esotérica ocidental levou-o a estudar vários sistemas de magia e realização espiritual e a receber iniciação neles.

Sua pesquisa esotérica eventualmente o levou à Gnose Voudon de Michael Bertiaux – com quem ele formou uma importante amizade pessoal e relacionamento esotérico – tanto na Ordem Voudon Gnostic quanto na Ordem La Couleuvre Noire (L.C.N.) da qual ele se tornou mestre e agora os serve como Soberano Grão-Mestre (SGM).

Ele também é um dedicado Bispo Gnóstico não dualista da Ecclesia Gnostica Aeterna (E.G.A) e Grande Comandante da Fraternitas Borealis (F.B.), duas organizações que operam de forma única com a Gnose Cósmica.

Sendo de certa forma uma personalidade nômade, David Beth já viveu em muitos lugares e países desde Hamburgo, na Alemanha até Los Angeles, nos Estados Unidos e Londres, na Grã-Bretanha. Ele tem viajado pelo mundo por prazer, aprendizagem, inspiração e um desejo geral de exploração.

Formado, ele usa seu aprendizado acadêmico e sua prática espiritual para pesquisar e desenvolver continuamente sistemas espirituais de realização,  além de escrever artigos e livros. David frequentemente dá conferências, palestras e realiza seminários e workshops ao redor do mundo.

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Fonte: https://www.labirintostellare.org/autori/david-beth/

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/david-beth/

O espirito da criança do quarto – 座敷童子

por Robson Bélli

Zashiki Warashi algumas vezes também chamado Zashiki Bokko (座敷ぼっこ, “cesta do quarto de hóspedes”), são seres espirituais presentes na crença japonesa, principalmente na Prefeitura de Iwate, cidade próxima de onde resido atualmente. Zashiki em japonês significa quarto e Warashi, no dialeto da região de Aomori, significa “criança”, portanto Zashiki Warashi quer dizer “criança do quarto”.

Lenda

Há muito tempo, havia uma grande hospedaria na pequena vila de Hachinohe (atual prefeitura de Aomori), localizada no norte do Japão. Naquela hospedaria, havia vários quartos e um, na parte dos fundos, especialmente bonito, junto ao jardim interno.

Certa ocasião, na hora do boi, um hóspede deitado, quase pegando no sono, viu a porta se abrir deslizando e um menino entrando no quarto. Aproximando-se do hóspede, a criança disse:

– Tio, vamos medir forças jogando braço-de-ferro? O hóspede imaginou que o menino fosse filho do dono da hospedaria e havia vindo ao quarto para lhe dar as boas-vindas. Assim, brincaram algumas vezes jogando queda-de-braço. O incrível de tudo isso era que a criança tinha se mostrado muito forte, vencendo todas as partidas.

Na manhã seguinte, o homem comentou com o dono da hospedaria:

– Seu filho é muito forte, ontem à noite jogamos braço-de-ferro e eu não consegui ganhar nenhuma, por mais força que fizesse.

O hospedeiro olhou-o surpreso e disse:

– Mas, senhor, eu não tenho filho! De onde será que apareceu essa criança?!

Depois daquele dia, outros visitantes que também dormiram naquele quarto contaram que, à noite, uma criança aparecia pedindo para jogar braço-de-ferro. Interessante que nem o hospedeiro nem os empregados daquela casa haviam visto essa criança. Somente as pessoas que se hospedavam e dormiam naquele quarto podiam vê-la. Esse fato se espalhou pela redondeza, e todos passaram a comentar que naquela hospedaria morava um Zashiki Warashi.

A fama da hospedaria foi crescendo, e muitas pessoas que se julgavam fortes queriam pernoitar naquele quarto para jogar braço-de-ferro com o Zashiki Warashi. Outros que se julgavam corajosos queriam simplesmente ver a criança. Assim, a hospedaria ficou muito disputada e os negócios foram de vento em popa, entrando muito dinheiro no cofre do hospedeiro, que se tornou um homem muito rico.

Com tanto dinheiro acumulado, o hospedeiro parou de trabalhar e deixou tudo por conta dos empregados. Assim, passou a levar uma vida folgada, com muitas festas e bebidas. Certo dia, quatro ou cinco anos depois, o dono da hospedaria estava sentado na varanda de seu estabelecimento e viu um menino andando no corredor.

– Quem é ele? – quis saber o hospedeiro. E a criança saiu correndo para fora da hospedaria.

– Um menino que veio do quarto lá do fundo e foi embora – disse a mulher da limpeza.

Depois desse dia, a criança nunca mais apareceu para ninguém. Por isso, os hóspedes daquela casa foram diminuindo dia após dia e finalmente, alguns anos mais tarde, a hospedaria faliu. Ninguém soube dizer porque a criança foi embora.

Outra lenda

Há uma velha lenda que fala de “Zashiki-warashi”, uma fada da sorte infantil, que vive na área de Iwate, no Japão. Acredita-se que se o zashiki-warashi vier ficar em uma casa, então a família que vive lá terá boa sorte em tudo. Me contaram a seguinte história maravilhosa.
Muitos anos atrás, durante um tempo no Japão, quando estilos de sapatos estrangeiros estavam se tornando populares, o Sr. Kunitaro estava receoso com o futuro do sapato tradicional japonês, o geta. Ele fez muitos estilos diferentes de geta a partir de suas próprias ideias e seu próprio trabalho.

Um dia no inverno, ele estava fazendo geta em sua sala de trabalho como de costume, quando ouviu o som que Geta faz “karan-koron” vindo da direção de sua loja. No começo, ele pensou, “um cliente entrou na minha loja”. Ele foi à sua loja e olhou, mas não encontrou ninguém lá. Ele pensou, “as crianças devem ter brincado com a minha geta”, mas quando ele olhou todas as geta estavam em ordem. Então, ele finalmente pensou que era apenas sua imaginação e voltou para sua sala de trabalho. Logo ele ouviu o mesmo som da geta, “karan-koron” na loja novamente. Desta vez, ele pensou imediatamente que, “deve ser “zashiki-warashi” fazendo isso”. Ele logo fez uma geta muito bonita para zashiki-warashi e ofereceu-os para o altar Shinto da oficina. E então, muito em breve, sua geta começou a vender muito. Sua loja estava prosperando. Tenho certeza que Zashiki Warashi queria usá-los porque eles são muito bonitos.

Desde então, este estilo geta é chamado de “zashiki-warashi geta” e trará boa sorte com o som que a geta faz, “karan-koron”. Eles foram exibidos nas vitrines do Jojo como um talismã. Coloque-os na porta da frente de sua casa e eles trarão boa sorte.

Dias Atuais

Boatos e adeptos de teorias da conspiração afirmam que ainda ocorrem, principalmente no norte do Japão e em Iwate, Zashiki Warashi tem aparecido, não só em hospedarias como em grandes hotéis e até em residências particulares. Há quem acredite que ele seja um deus que traz prosperidade e não faz mal a ninguém.


Robson Belli, é tarólogo, praticante das artes ocultas com larga experiência em magia enochiana e salomônica, colaborador fixo do projeto Morte Súbita, cohost do Bate-Papo Mayhem e autor de diversos livros sobre ocultismo prático.

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/o-espirito-da-crianca-do-quarto/

Talismãs Taoistas

Os talismãs são recursos adotados pelos taoistas desde seus primórdios, chamados de Fu (符) ou Shenfu (神符). Consistem basicamente em uma composição de ideogramas convencionais, escrita arcaica, selos e carimbos, e desenhos diversos. A origem documentada dentro da tradição se encontra em algumas escrituras taoistas, como representações de sinais do Céu para trazer sua energia para a Terra ou relacionado às divindades taoistas. Seu uso é fundamental em rituais taoistas e em diversas artes mágicas. Um dos mitos chineses sobre suas origens afirma que uma gigantesca tartaruga negra saiu das águas do Rio Amarelo carregando um talismã em sua boca e o deixou em um altar diante do Imperador Amarelo (Huangdi), retornando ao rio.

Existem muitas formas de se fazer um talismã e muitas maneiras de empregá-lo. Em geral se utilizam tintas preta e vermelha sobre um papel amarelo. O talismã pode ser utilizado em uma cerimônia e queimado em seguida, pregado na parede para proteger o local ou expulsar espíritos nefastos, carregado pela pessoa para garantir proteção ou usado por um doente para recuperar a saúde. Também podem ser queimados e suas cinzas misturadas com água e bebido, especialmente para fins terapêuticos.

Fazer um talismã é complicado e demanda muito conhecimento por parte do praticante, chamado de Fulu (符籙). Cada utilização requer elementos específicos e cada tradição possui uma forma de fazê-lo. Existem inclusive linhagens especializadas nesse tipo de construção. A Tradição Lingbao (Tesouro Luminoso), por exemplo, foi formada ao redor da ciência dos talismãs. Vários de seus textos principais se referem a essa ferramenta: Lingbao wufu xu (Introdução aos Cinco Talismãs do Tesouro Luminoso), Wupian zhenwen (Escrita Perfeita em Cinco Tabuletas) e Wucheng fu (Cinco Talismãs de Correspondência).

Sua confecção está envolta em rituais especiais para garantir e reforçar a energia necessária e impregná-lo com a intenção adequada para cumprir seus objetivos e pode levar até 30 dias para ser executado devidamente. O Alquimista e médico taoista Ge Hong (283-343) [já mencionado anteriormente nesta coluna] compilou uma bibliografia taoista em uma de suas obras que lista 55 tipos de talismãs empregados em sua época.

Seus desenhos e formas geométricas e mesmo palavras escritas não se destinam a serem lidos pelos mortais, mas pelas divindades. Para isso se utilizam muito da “escrita de selo”, uma forma arcaica de escrita chinesa com caracteres curvilíneos e bastante artísticos.

Para fechar esse tema gostaria de comentar que a energia emitida por determinados desenhos e formas geométricas é bem estudada pela radiestesia há mais de cem anos. Descobriu-se que desenhos e formas geométricas emitem uma “onda de forma” específica e que possui características e atuações muito particulares. Esse tipo de pesquisa é a base dos chamados “gráficos radiestésicos”. Um dos mais poderosos emissores conhecidos pela radiestesia é o Bagua do Céu anterior.

É interessante notar também que esses desenhos dos talismãs chineses se parecem muito e tem função muito semelhante, quando feitos pelos médiuns taoistas, aos pontos riscados da Umbanda.

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo, Terapeuta e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica filosofia e cultura chinesa através de cursos, palestras e artigos. É autor de 14 livros, a maioria sobre cultura oriental e Taoismo. Sites: www.taoismo.org e www.laoshan.com.br

#Tao #taoísmo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/talism%C3%A3s-taoistas

Revista Hermetismo e Projeto Mayhem

E para fechar este Projeto com chave de ouro, como ultrapassamos 25k na pré-venda dos Livros Sagrados de Thelema, anuncio nosso próximo passo: a volta do Projeto Mayhem e a criação de uma revista trimestral nos mesmos moldes do Liber 1… através de um Financiamento Coletivo recorrente. Se os magos de 1929 conseguiam se reunir e separar as matérias mais interessantes para publicar, nós em 2018 também somos capazes de fazer isso.

Para mostrar a qualidade gráfica que podemos alcançar, todos que apoiaram o Projeto Livros Sagrados de Thelema receberão um exemplar do Volume zero, uma revista com 32pgs e matérias escritas por uma galera muito boa sobre diversos assuntos ligados às ciências ocultas… thelema, alquimia, hermetismo, magia prática, umbanda, espiritualismo, etc.

Ao longo deste mês passo os detalhes.

Essa vitória é de todos nós!

Sucesso é a única possibilidade!

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/revista-hermetismo-e-projeto-mayhem

Bruxarias de Zos

A concepção popular de feitiçaria, formada pela manifestação anti-cristã que ocorreu na Idade Média é tão distorcida e tão inadequada, que para procurar e interpretar os símbolos de seus mistérios, pervertidos e adulterados como eles estão, sem referência aos numerosos sistemas antigos dos quais eles derivam, é como tomar a ponta de um iceberg por sua massa total.

Tem sido sugerido por algumas autoridades que as feiticeiras originais vieram de uma raça de origem Mongol da qual os Lapps são os únicos sobreviventes restantes. Isto pode ou não ter sido assim, mas aqueles “mongóis” não eram humanos. Eles eram sobreviventes degenerados de uma fase pré-humana de nosso planeta, geralmente – embora erroneamente – classificada como Atlante. A característica que distinguia-os dos outros de sua espécie, era a habilidade que eles possuíam de projetar a consciência em formas de animais, e o poder de revificar formas-pensamento. O bestiário de todas as raças da terra foram criados como resultados de suas bruxarias.

Eles eram entidades não-humanas; isto quer dizer que eles são de épocas anteriores à raça começar a vagar sobre este planeta, e seus poderes – os quais devem hoje parecer extraterrenos – derivados de dimensões extra-espaciais. Eles impregnaram a aura da terra com a semente mágica da qual o foetus humano foi finalmente gerado.

Arthur Machen, talvez aproximou-se da verdade quando sugeriu que as fadas e os duendes do folclore eram invenções próprias que escondem os processos de feitiçaria não-humana repelentes ao gênero humano.

Machen, Blackwood, Crowley, Lovecraft, Fortune e outros, freqüentemente utilizaram como tema para seus escritos, o influxo dos poderes extraterrenos que tem moldado a história de nosso planeta desde o início dos tempos; isto é, desde o início dos tempos para nós, por sermos muitíssimo inclinados à supor que estávamos aqui primeiro e que estamos aqui sozinhos agora, ao passo que as tradições ocultas mais antigas afirmam que nós não estávamos aqui primeiro, nem somos as únicas pessoas na terra; o Grande Antigo e o Senhor dos Deuses encontram ressonância nos mitos e lendas de todos os povos.

Austin O. Spare alegou ter tido experiência direta à existência de inteligências extraterrenas, e Crowley – como sua autobiografia faz abundantes esclarecimentos – devotou parte de sua vida à comprovar que a consciência extraterrena e supra-humana podem e existem independentemente do organismo humano.

Como explanado nas Imagens & Oráculos de Austin O. Spare, ele foi iniciado na corrente vital da antiga e criativa bruxaria por uma mulher idosa de nome Paterson, que alegou descender de uma linhagem de bruxas de Salem. A formação do Culto de Spare do Zos e do Kia adquiriu muito do seu contato com a Bruxa Paterson, quem serviu de modelo para muitos de seus desenhos e pinturas “sabáticos”. Muito do conhecimento oculto que ela transmitiu para ele, está contido em dois de seus livros – O Livro do Prazer e o Foco da Vida. Nos últimos anos de sua vida ele incorporou em um grimoire pesquisas esotéricas ulteriores, o qual ele intentava publicar como uma seqüência de seus dois outros livros. Embora sua morte tenha impedido a publicação, o manuscrito sobreviveu, e a essência do grimoire forma a base deste capítulo.

Spare concentrou o tema de sua doutrina no seguinte “Credo de Afirmação de Zos vel Thanatos”.

“Eu creio na carne “agora” e sempre…
visto que sou a Luz, a Verdade, a Lei, o Caminho,
e nada deverá vir de algo exceto através de sua carne.

Eu não lhe mostrei o caminho eclético entre êxtases;
aquele caminho funâmbulatório precário.

Porém você teve coragem, estava cansado e amedrontado.

ENTÃO ACORDE!

Des-hipnotizem-se da realidade desprezível que vocês vivem e enganam-se.

Pois a grande Corrente Meridiana está aqui, o grande sino bateu.

Deixe os outros aguardarem a imolação involuntária,
a inevitável redenção forçada para muitos apóstatas para com a Vida.

Agora, neste dia, peço-lhe para buscar suas recordações,
pois a grande unificação está próxima.

O Cerne de todas as suas memórias é a sua alma.

Vida é desejo, Morte é reformação…

Eu sou a ressurreição…

Eu, que transcendeu o êxtase pelo êxtase e medita na Necessidade do Não Ser

no Auto-Amor…”

Este credo, criado pela vontade dinâmica de Spare e sua grande habilidade como um artista, criou um Culto sobre o plano astral que atraiu para si todos os elementos naturalmente orientados para ele. Ele (Spare) refere-se à ele (Culto) como Zos Kia Cultus, e seus adeptos alegam afinidade sobre os seguintes termos:

Nosso Livro Sagrado:

O Livro do Prazer.

Nosso Caminho:

– O Caminho eclético entre êxtase; o caminho funâmbulatório precário.

Nossa Divindade:

– A Mulher-Triunfante (“E eu perco-me com ela, no caminho reto.”)

Nosso Credo:

– A Carne Vivente. (Zos) (“Novamente eu digo: Este é seu maior momento de realidade – a carne vivente.”)

Nosso Sacramento:

– Os Sagrados Conceitos de Neutralidade.

Nossa Palavra:

– Nada Importa – apenas Não Ser.

Nossa Eterna Morada:

– O estado místico de “Nem isto – Nem aquilo”. O “Eu Atmosférico” (Kia).

Nossa Lei:

– A Violação de todas as Leis.

O Zos e o Kia são representados pela Mão e o Olho, os instrumentos do tao e da visão. Eles formam a base da Nova Sexualidade, a qual Spare desenvolveu pela combinação deles para formar uma arte mágica – a arte da sensação visualizada, de “tornar-se um com todas as sensações”, e de transcender as duplas polaridades da existência pela aniquilação de identidades separadas através da mecânica da Postura da Morte. Há muito tempo atrás, um poeta persa descreveu com poucas palavras o objetivo da Nova Sexualidade de Spare:

“O reino do abandono do Eu e do Nós, tem sua morada na aniquilação.”

A Nova Sexualidade, no sentido que Spare a concebeu, é a sexualidade não das dualidades positivas, mas do Grande Vazio, o Negativo, o Nada: O Olho do Potencial Infinito. A Nova Sexualidade é, simplesmente, a manifestação do não-manifesto, ou do Universo “B” como Bertiaux pensava, o qual é equivalente ao conceito de “Nem isto – Nem aquilo” de Spare. O Universo “B” representa a diferença absoluta daquele mundo de “todo indiferente” de tudo relativo ao mundo conhecido, ou Universo “A”. Sua entrada é Daath, guardada pelo demônio Choronzon. Spare descreve este conceito como “a entrada de toda neutralidade essencial”. Em termos de Vodu, esta idéia está implícita nos ritos de Petro com sua ênfase sobre os espaços entre os pontos cardeais do compasso: a cadeia rítmica dos tambores que convocam o “loa” de além do Véu e formula as leis de sua manifestação. O sistema de bruxaria de Spare, como expressado no Zos Kia Cultus, Continua em uma linha reta não apenas na tradição Petro de Vodu, mas também no Vama Marg Tantra, com suas oito direções de espaço agrupadas pelo Yantra da Deusa Negra, Kali: a Cruz de Quatro Quartos mais o conceito de neutralidade essencial que juntas compõem a Cruz de oito-braços, o Lótus de oito-pétalas, um símbolo da Deusa da Hepta-Estrela mais o filho dela, Set ou Sírius.

Os mecanismos da Nova Sexualidade são baseados na dinâmica da Postura da Morte, uma fórmula desenvolvida por Spare para o propósito de revificar o potencial negativo em termos de poder positivo. No antigo Egito a múmia era uma variação desta fórmula, e a simulação pelo Adepto do estado de morte – em práticas tântricas – envolve também a paralisação total das funções psicossomáticas. A fórmula tem sido utilizada por Adeptos não necessariamente em trabalhos especificamente tântricos ou de cunho mágico, notavelmente pelo celebrado Advaitin Rishi, Bhagavan Shri Ramana Maharshi de Tiruvannamalai, que alcançou a Iluminação Suprema pelo processo simulado de morte; e também por Bengal Vashinavite, Thakur Haranath, que foi tomado como morto e realmente preparado para um sepultamento após um “transe mortal” que durou muitas horas e do qual ele emergiu com uma consciência totalmente nova que transformou até mesmo sua constituição corporal e aparência. É possível que Shri Meher Baba, de Poona, durante o período de amnésia que o afligiu em época precoce, também tenha experimentado um tipo de morte da qual ele emergiu com poder de iluminar outros e de liderar um grande movimento em seu nome.

A teoria da Postura da Morte, primeiramente descrita em O Livro do Prazer, foi desenvolvida independente das experiências dos Mestres acima mencionados sobre os quais nada havia de escrito ou publicado em qualquer língua européia naquela época.

O mito Rosacruz do ataúde que continha o corpo de Christian Rosenkreutz – dramatizado por S. L. MacGregor Mathers na Cerimônia de 5*=6º da Golden Dawn – resume o mistério desta fórmula essencialmente Egípcia de Osíris mumificado. Spare estava familiarizado com esta visão do Mistério. Ele tornou-se um membro da A A de Crowley, por um curto período, em 1910, e os rituais da Golden Dawn – publicados concisamente mais tarde em O Equinócio – podem ter sido aproveitados por ele.

Os conceitos de morte e sexualidade estão inextricavelmente conectados. Saturno, morte e Vênus, vida, são aspectos duplos da Deusa. Que eles são, em um sentido místico, uma idéia é evidenciado pela natureza do ato sexual. A atividade dinâmica conectada com a direção para conhecer, penetrar, iluminar, culminando em uma quietude, um silêncio, uma cessação de todo esforço, que dissolve-se na tranqüilidade da negação total. A identidade destes conceitos está explícita na antiga equação Chinesa 0=2, onde o zero simboliza o negativo, potencial não-manifesto da criação, e o dois a polaridade dupla envolvida em sua realização. A Deusa representa a fase negativa: o “Eu Atmosférico” simbolizado por aquele “Olho que tudo vê” com todo o seu simbolismo inerente; e a dupla – Set-Hórus – representa a fase do 2, ou dualidade. A alternação repentina destes últimos, ativo-passivo, são emanações positivas do vazio, por ex. a manifestação do Imanifesto, e a Mão é o símbolo desta dualidade criativa auto-manifestante.

O símbolo supremo do Zos Kia Cultus resume-se inteiramente naquele da Mulher Escarlate, e é reminescente do Culto de Crowley do Amor sob Vontade. A Mulher Escarlate corporifica a Serpente Ígnea, que quando controlada causa “mudança ocorrida em conformidade com a vontade”. O entusiasmo energizado da Vontade é a chave do Culto de Crowley, e é análogo à técnica de obsessão induzida magicamente que Spare utiliza para tornar real o “sonho inerente”.

Um dos primeiros magistas de nossa época – Salvador Dalí – desenvolveu um sistema de revificação mágica na mesma época que Crowley e Spare elaboravam suas doutrinas. O sistema de Dalí de “atividade crítica-paranóica” evocava ressonâncias de atavismos ressurgentes que eram refletidos no mundo concreto das imagens por um processo de obsessão similar àquele induzido pela Postura da Morte.

Dalí nasceu em 1904 – o ano em que Crowley recebeu O Livro da Lei – fazendo-o, literalmente, uma criança do Novo Aeon; uma das primeiras. Seu gênio criativo auxiliou-o em cada estágio de seus vôos, a ornamentação do germe essencial que o fez uma viva corporificação da consciência do Novo Aeon, e o “Homem Real” descrito no L.A.L..

Os objetos de Dalí eram refletidos no fluído e luminosidade sempre mutável da Luz Astral. Elas revolvem-se e encontram-se continuamente no “próximo passo”, a próxima fase da expansão da consciência na imagem distante de “Tornar-se”.

Spare já havia conseguido isolar e concentrar um desejo em um símbolo que tornava-se consciente e logo potencialmente criativo através dos raios da vontade magnetizada. Dalí, parece-o, incorporou ao processo um passo além. Sua fórmula de “atividade crítica-paranóica” é um desenvolvimento de um conceito primal (Africano) de fetiche, e é instrutivo comparar a teoria de Spare de “sensação visualizada” com a definição de Dalí de pintura como “mão vestida de cores fotográficas de completa irracionalidade”. Sensação é essencialmente irracional, e sua delineação em forma gráfica (“mão vestida de cores fotográficas”) é idêntica ao método de “sensação visualizada” de Spare.

Estes magistas utilizaram corporificações humanas de poder (shakti) que mostravam-se – usualmente – na forma feminina. Cada um dos livros que Crowley produziu tinha sua shakti correspondente. “Os Ritos de Elêusis” (1910) foi energizado, amplamente, por Leila Waddell. “O Livro Quatro, Partes I & II” (1913) veio através de Sóror Virakam (Mary d’Este). “Liber Aleph – O Livro da Sabedoria ou Loucura (1918)” – foi inspirado por Sóror Hilarion (Jane Foster). Seu grande trabalho, “Magick em Teoria e Prática”, foi escrito no ano de 1920 em Cefalu, onde Alostrael (Leah Hirsig) proveu o ímpetus mágico; e assim por diante, seguindo a interpretação do Tarot do Novo Aeon (O Livro de Thoth), o qual ele produziu em colaboração com Frieda Harries em 1944. A shakti de Dalí – Gala – foi o canal através do qual a inspiração do fluxo criativo foi fixada ou visualizada em algumas das grandes pinturas que o mundo já viu. E no caso de A.O.Spare, a Serpente Ígnea assumiu a forma da Senhora Paterson, uma bruxa auto-confessa que incorporou as feiticeiras de um culto tão antigo que já era velho no começo do Egito.

O grimoire de Spare é uma concentração de todo o corpo de seu trabalho. Ele abrange, de certo modo, todas as coisas de valor mágico ou criativo que ele constantemente pensava ou imaginava. Assim, se você possuir uma pintura de Zos, e estas pinturas contêm alguns de seus feitiços sigilizados, você possui o grimoire, e você está diante de uma grande chance de alcançar e harmonizar-se com as vibrações do Zos Kia Cultus.

Um aspecto pouco conhecido de Spare, um aspecto que está ligado à sua antiga amizade com Thomas Burke, revela o fato de que uma curiosa sociedade oculta chinesa – conhecida como o Culto de Kû – floresceu em Londres nos anos vinte. Seu “quartel-general” pode ter sido em Pequim, Spare não fez menção à isso, talvez nem soubesse; mas sua ramificação londrina não era em Limehouse como alguns poderiam esperar, mas em Stockwell, não muito distante do apartamento-estúdio que Spare compartilhava com um amigo. Uma sessão secreta do Culto de Kû foi presenciada por Spare, que parece ter sido o único europeu à ter ganho admissão. Ele parece, de fato, ter sido o único europeu além de Burke que havia sido Tão mais que um ouvinte do Culto. A experiência de Spare é de excepcional interesse por razão de sua estreita aproximação de uma forma de controle-onírico no qual ele foi iniciado muitos anos antes pela Bruxa Paterson.

A palavra Kû tinha muitos significados em chinês, mas neste caso particular ela denota uma forma peculiar de feitiçaria envolvendo elementos dos quais Spare já havia incorporado em sua concepção da Nova Sexualidade. Os adeptos de Kû adoravam uma deusa-serpente na forma de uma mulher dedicada ao Culto. Durante um elaborado ritual ela seria possuída, com o resultado de que ela lançava, ou emanava, múltiplas formas da deusa como sombras conscientes dotadas com todas as seduções possuídas por sua representante humana. Estas mulheres-sombra, impelidas por alguma lei sutil de atração, atraiam-se por um ou outro dos devotos que sentavam em uma condição de entorpecimento ao redor da extasiada sacerdotisa. O congresso sexual com estas sombras então ocorria e ele era o começo de uma forma sinistra de controle onírico envolvendo jornadas e encontros nas regiões infernais.

O Kû parecia ser uma forma da Serpente Ígnea exteriorizada astralmente como uma mulher-sombra ou súcubus, e o congresso com a qual tornava possível ao devoto revificar seus “sonhos inerentes”. Ela era conhecida como “prostituta infernal” e sua função era análoga àquela da Mulher Escarlate do Culto de Crowley, à Suvasini do Círculo Tântrico de Kaula e à “Demoníaca” do Culto da Serpente Negra. O Kû chinês, ou prostituta infernal, é uma corporificação ilusória de desejos subconscientes concentrados em uma forma tentadoramente sensual da Serpente da Deusa das Sombras.

O mecanismo de controle onírico é de muitas formas similar àqueles que realizam a projeção astral consciente. Meu próprio sistema de controle onírico deriva de duas raízes: a fórmula da Lucidez Eroto-Comatosa descoberta por Ida Nellidof e adaptada por Crowley às suas técnicas de magia sexual, e o sistema de Spare dos Sigilos Conscientes explicado abaixo.

O sono deve ser precedido por alguma forma de Karezza, durante o qual um sigilo escolhido especificamente, simbolizando o objeto de desejo é vividamente visualizado. Desta maneira a libido é impedida de suas fantasias naturais e procura satisfação no mundo onírico. Quando a habilidade necessária é adquirida, o sonho torna-se extremamente intenso e dominado por uma súcubus, ou mulher-sombra, com quem o intercurso sexual ocorrerá espontaneamente. Se o sonhador tiver adquirido um grau até mesmo moderado de proficiência nesta técnica, ele estará consciente da contínua presença do sigilo. O sigilo deve ficar restringido sobre a forma da súcubus, em um local que esteja dentro dos limites de sua visão durante a cópula; por exemplo, como um pingente pendente no pescoço dela; como um brinco; ou como um diadema ao redor de sua testa (da súcubus). Seu ponto focal deve ser determinado pelo magista, respeitando a posição assumida durante o coito. O ato assumirá então, todas as características de uma Operação do Nono Grau, porque a presença da Mulher-Sombra será experimentada com uma sensação intensamente vívida e realista. O sigilo assim, torna-se consciente e no devido curso, o objeto da Operação materializa-se sobre o plano físico. Este objeto é, obviamente, determinado pelo desejo corporificado e representado pelo sigilo.

A importante inovação neste sistema de controle onírico, encontra-se na transferência do Sigilo da consciência desperta ao estado de consciência onírica, e à evocação, na parte final, da Mulher-Sombra. Este processo transforma um Rito de Oitavo Grau na semelhança do ato sexual utilizado na Operação do Nono Grau.

Resumidamente, a fórmula tem três estágios:

Karezza, ou atividade sexual sem culminação, com visualização do sigilo até o sono superficial.

Congresso sexual no estado onírico com a Mulher-Sombra evocada pelo estágio I. O sigilo deve aparecer automaticamente neste segundo estágio; se isso não acontecer, a prática deverá ser repetida em outra hora. Se o sigilo aparecer, então o resultado desejado revificará no estágio III.

Após despertar (por ex., no mundo dos fenômenos mundanos do dia-a-dia).

Uma palavra de explicação é, talvez, necessária concernente ao termo karezza como utilizado no presente contexto. A retenção do sêmen é um conceito de importância central em certas práticas Tântricas, a idéia é que a bindu (semente) cresce, então, astralmente, e não fisicamente. Em outras palavras, uma entidade de alguma espécie é levada à nascer no nível astral de consciência. Esta, e técnicas análogas, tem dado origem à impressões – completamente errôneas – de que o celibato é um sine qua non para o sucesso mágico; mas tal celibato é de uma característica puramente local e confinado ao plano físico, ou estado desperto, somente. O celibato, como normalmente entendido, é portanto uma paródia inexpressiva ou caricatura da verdadeira fórmula. Tal é o sensato celibato do iniciado tântrico, e alguma semelhante interpretação indubitável aplicada também à outras formas de ascetismo religioso. As “tentações” dos santos, ocorrem precisamente sobre o plano astral porque os canais físicos encontram-se deliberadamente bloqueados. O estado de entorpecimento notado nos seguidores de Kû, sugere que a sombra-sedutora decorrente, foi evocada após um padrão similar ao obtido por uma espécie de controle onírico.

Gerald Massey, Aleister Crowley, A.O.Spare, Dion Fortune e etc., tem – cada um à seu modo – demonstrado a base bioquímica dos Mistérios. Eles realizaram na esfera do “oculto” aquilo que Wilhelm Reich realizou na psicologia, e estabeleceram-no sobre uma segura base bioquímica.

Os “símbolos conscientes” e o “alfabeto do desejo” de Spare, correlacionando, como eles fazem a energia nervosa do corpo com os princípios-sexuais específicos, antecipou em diversas formas o trabalho de Reich que descobriu – entre 1936 e 1939 – o veículo de energia psico-sexual, o qual ele nomeou de orgônio. A contribuição singular de Reich para a psicologia e, incidentalmente, para o ocultismo Ocidental, situa-se no fato de que ele isolou com sucesso a libido e demonstrou sua existência como uma energia biológica tangível. Esta energia, a atual substância do conceito puramente hipotético de Freud – libido e id – foi medida por Reich, elevada da categoria de hipótese, e reativada. Ele estava, contudo, errado em supor que o orgônio fosse a energia definitiva. Ela é um dos mais importantes kalas, mas não o Supremo Kala (Mahakala), embora ele possa transformar-se em tal, por virtude de um processo não conhecido dos Tantrikas do Vama Marg. Até épocas comparavelmente recentes, ele era conhecido – no Ocidente – dos alquimistas Árabes, e completava o corpo da literatura alquímica com sua terminologia tortuosa e estilo hieroglífico, revelando – se ela revelava algo – um plano deliberado da parte dos Iniciados para velar o verdadeiro processo de refinar o Mahakala.

A descoberta de Reich é significante porque ele foi provavelmente o primeiro cientista a colocar a psicologia em sólida base biológica, e o primeiro à demonstrar sob condições laboratoriais a existência de uma energia mágica tangível e por último dimensionável e, portanto, estritamente científica. Se essa energia é a chamada luz astral (Éliphas Lévi), força vital (Bergson), energia ódica (Reichenbach), libido (Freud), Reich foi o primeiro – com possível exceção de Reichenbach- atualmente a isolá-la e demonstrar suas propriedades.

Austin O. Spare suspeitava, tanto antes quanto em 1913, que algum tipo de energia era o fator básico na reativação de atavismos primais, e ele tratou-a de acordo como energia cósmica (o “Eu Atmosférico”) suscetível à sugestão subconsciente através dos Símbolos Conscientes, e através da aplicação do corpo (Zos) de tal forma que ele poderia revificar atavismos remotos e todas as formas futuras possíveis.

Durante a época em que ele estava preocupado com estes temas, Spare sonhou repetidamente com construções fantásticas cujos alinhamentos ele achou inteiramente impossível de passar para o papel ou tela quando desperto. Ele supunha-os ser ecos de uma geometria do futuro do aspecto espaço-tempo sem relação conhecida com as formas da arquitetura dos presentes dias. Éliphas Lévi alegou um poder similar de revificação da “Luz Astral”, mas ele falhou ao mostrar a forma precisa de sua manipulação. Foi para este fim que Spare desenvolveu seu Alfabeto dos Desejos, “cada letra das quais, relaciona-se com um princípio sexual”. Isto quer dizer que ele registrou algumas correspondências entre o movimento interior do impulso sexual e a forma externa de sua manifestação em símbolos, sigilos ou letras tornadas conscientes por estarem carregadas com sua energia. Dalí refere-se à tal forma-fetiche carregada magicamente como “acomodações de desejo” que são visualizadas como vácuo irreal, negridão vazia, cada uma tendo a forma de objetos fantasmagóricos que ocupam sua latência, e que É somente pela virtude do fato de que ela Não É. Isto indica que a origem da manifestação é o não-manifesto, e é evidente à compreensão intuitiva que o orgônio de Reich, o Eu Atmosférico de Spare e a delineação de Dalí da “Acomodação do desejo” refere-se em cada um dos casos à uma Energia manifesta através do mecanismo do desejo. Desejo, Vontade Energizada e Obsessão, são as chaves para a manifestação ilimitada, por toda forma e todo poder estarem latentes no vazio, e sua forma divina é a Postura da Morte.

Estas teorias tem suas raízes em práticas muito antigas, algumas das quais – em forma distorcida – proveram as bases do Culto da Bruxaria medieval, covens que floresceram em Nova Inglaterra na época dos Julgamentos das Bruxas de Salém no final do século XVII. As perseguições subseqüentes, eliminaram aparentemente todas as manifestações externas de ambos cultos: o genuíno e sua simulação alterada.

Os principais símbolos do culto original tem sobrevivido à passagem dos aeons – longos ciclos de tempo. Todos eles lembram o Caminho Retrógrado: o Sabbath sagrado de Sevekh ou Sebt, o número Sete, a Lua, o Gato, o Chacal, a Hiena, o Porco, a Serpente Negra, e outros animais considerados impuros por tradições posteriores; o giro sobre os pés e a dança de Costas-com-Costas, o Beijo Anal, o número Treze, a Bruxa montada sobre um cabo de vassoura, o Morcego, e outras formas de palmípedes ou criaturas noturnas voadoras; os Batráquios em geral, dos quais o Sapo, a Rã, ou Hekt eram proeminentes. Estes e símbolos similares, tipificavam originalmente a Tradição do Dragão que foi adulterada pelos pseudos cultos de bruxaria durante os séculos de perseguição Cristã. Os Mistérios foram profanados e os sagrados ritos foram condenados como anti-cristãos. O Culto tornou-se, assim, o repositório de ritos religiosos invertidos e pervertidos, e símbolos sem nenhum significado inerente; meras afirmações das bruxas adicionaram perpetração à doutrina anti-cristã ao passo que – originalmente – eles eram emblemas vivos conscientes da fé pré-cristã.

Quando a importância dos símbolos ocultos estiverem aprofundados ao nível Draconiano, o sistema de bruxaria que Spare desenvolveu através do contato com a Bruxa Paterson, torna-se explicável e todos os círculos mágicos, bruxarias e cultos, serão vistos como manifestações das Sombras.  

Kenneth Grant, Excerto de Cultos das Sombras

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/bruxarias-de-zos/