A Missa do Caos H

Este curto rito pode ser usado como uma ferramenta de aterramento para encerrar algum trabalho mágico pesado. O seu objetivo é promover o riso expondo os perigos de se achar o ban-ban-ban.

Os discordianos há muito tempo identificaram Harpo Marx como um avatar contemporâneo de Harpócrates, o Deus do Silêncio. Harpo é o Senhor do Silêncio, Trikster (N. do t.: Malandro, Bufão), e Palhaço Sagrado. (N. do T.: HARPO não fala)

Harpo MarxPreparação:

O Sacerdote (MT) que manifestará HARPO poderá ser adornado com uma peruca colorida (de carnaval), cartola e uma buzina. Quaisquer outros adereços para uso do Deus poderão ser colocados no altar, tais como um espanador de pó ou uma vareta para cutucar os outros. (& bombinhas :D)

Declaração de Intento:

“É nossa Vontade invocar HARPO, o Louco Sagrado e Lorde do Escárnio Silencioso, para que todo o glamour da magia seja disperso, e que a Anarquia Gargalhante preencha nossos corações”

Rito:

Sacerdote: “Que a pomposidade comece!”

Os participantes começam a se pavonear pela sala, fazendo declarações importantes sobre si próprios e acerca dos caminhos “sérios” e “sagrados” da magia, e afirmar em alto e bom tom que como magos, devem ser adorados e respeitados por todos.

Enquanto isso, o Sacerdote (MT), no centro da sala, começa a se admirar e girar em volta de si enquanto faz gestos e caretas apropriadas (se visualizando como Harpo, um bufão sagrado) até que o avatar, atraído até esse espaço de tamanha pomposidade e prestígio, escolha se manifestar.

Quando o Sacerdote (MT) sentir o avatar incorporando, ele eleva a buzina e começa a litania:

Honk, Honk, Honk, Honk (ad infinitum)

Quando os participantes escutarem a buzina, devem congelar em estátuas de pompa e vaidade. HARPO então tem o domínio da cena para realizar quaisquer brincadeiras e sacanagens que quiser, com o objetivo de provocar a gargalhada em geral. Uma forma de fazer isso é assim que uma pessoa começar a rir, se juntar ao Palhaço e tentar puxar os outros para a gargalhada.

O Rito pode terminar aqui, ou Harpo pode escolher dar um sacramento (Torta na cara?) aos participantes de algum jeito. Se um banimento for necessário, o Sacerdote (MT) deverá tirar os adereços e passar do silêncio à fala.

Phil Hine. Tradução e Adaptação: Laurent Gabriel

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-missa-do-caos-h/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-missa-do-caos-h/

Bruce Dickinson e Aleister Crowley

Por Adriano Camargo.

Todos sabem que o mago inglês Aleister Crowley (1875-1947) tem influenciado o mundo do rock (e as artes em geral). E todos sabem também que o cantor inglês Bruce Dickinson é um cara multitalentoso e uma das personalidades mais inteligentes do heavy metal. Mas é possível que nem todos saibam que Bruce Dickinson sempre teve um grande interesse por história da magia, ocultismo e… Aleister Crowley!

E, ao contrário do que a maioria pensa, Crowley não era satanista, mas sim um filósofo e ocultista praticante assíduo envolvido em diversos ramos da magia (magick) e da filosofia oculta, desde a bruxaria europeia e o paganismo até a cabala, alquimia, magia sexual, hinduísmo, budismo, etc. Contudo, Crowley ficou muito conhecido e mal-afamado devido ao seu comportamento “inadequado” e “chocante” para a época (a Era Vitoriana) e às difamações de fundamentalistas religiosos; nos dias de hoje provavelmente ele não chamaria tanta atenção…

Por outro lado, nos dias de hoje, certamente que Bruce Dickinson chama muita atenção devido ao seu trabalho artístico e suas outras habilidades, interesses e inteligência. Como músico e letrista, o trabalho de Bruce é repleto de referências ao mago inglês e a diversas áreas da filosofia oculta, desde as letras de sua carreira solo e do Iron Maiden até o seu filme Chemical Wedding (2008).

Do álbum solo de Bruce Dickinson Accident of Birth, a música Man of Sorrows fala do próprio Crowley quando menino, profetizando o seu futuro quando iria então estabelecer a vinda de um Novo Mundo, de uma Nova Era. Em Man of Sorrows, podemos encontrar também a frase “do what thou wilt”, que significa “faze o que tu queres”, uma referência mais direta e explícita a Crowley e à sua Lei de Thelema. Entretanto, tal lema thelêmico tem uma origem anterior a Crowley, remontando à obra Gargântua e Pantagruel, do escritor francês François Rabelais (1494-1553), na qual uma abadia fictícia chamada Abadia de Thelema apresenta esse lema como uma de suas “leis”. Esse famoso lema posteriormente também foi adotado por um dos clubes ingleses pseudo-satanistas do século XVIII chamados de Hellfire Club (“Clube do Fogo do Inferno”), no qual se reuniam os aristocratas para praticar orgias, bebedeiras, comilanças, jogatinas e discutir arte e literatura. Porém, na filosofia de Crowley, e de acordo com a letra de Man of Sorrows, “faze o que tu queres” se refere à Vontade do Eu Superior de cada indivíduo e não a meros desejos descontrolados. Esse Eu (ou a Individualidade, o Logos individual, o SAG, o Daimon socrático, etc.), de acordo com a letra da música, supostamente sofre por estar preso em um corpo carnal e por não se fazer conhecido pelo indivíduo que também sofre perdido, desorientado na vida, sem conhecer a Si mesmo e seu verdadeiro destino.

The Chemical Wedding, seguinte álbum de Bruce, é em parte baseado na obra literária e artística do poeta inglês William Blake (1757- 1827), que por sua vez também influenciou a filosofia de Crowley a ponto deste acreditar ser uma reencarnação daquele. Contudo, o título do álbum se refere à outra obra, um manifesto rosacruz intitulado The Chemical Wedding of Christian Rosenkreutz (“O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz”) publicado em 1616 e que narra o casamento alquímico de um rei e uma rainha. Esse “casamento” é basicamente uma alegoria para a união sexual do masculino com o feminino (Sol e Lua; Fogo e Água; Espada e Cálice) por meio da magia sexual devidamente ritualizada a fim de expandir a consciência, assim como a união das duas partes da alma (psique) conhecidas na psicologia junguiana como animus (masculino) e anima (feminino); a magia sexual era uma prática central na filosofia thelêmica de Aleister Crowley.

Na letra de The Chemical Wedding encontramos no refrão:

“We lay in the same grave/ Our chemical wedding day”

(Nós nos deitamos no mesmo túmulo/Nosso dia do casamento alquímico”).

O túmulo é uma representação para o caldeirão na alquimia, no qual a matéria-prima densa é putrefata, desintegrada, ou seja, transformada, para em seguida dar surgimento a algo novo; ou seja, o casamento do homem e da mulher (os alquimistas) que “morrem” no êxtase alquímico-sexual para dar surgimento a uma nova consciência, expandida, cheia de alegria e livre no infinito.

The Tower, também do álbum The Chemical Wedding, é uma das letras do álbum mais ricas em referências alquímico-sexuais e relativamente crowleyanas. Sendo assim, vamos analisar alguns pontos. A música fala especialmente sobre as imagens alquímicas do tarô e do zodíaco (ambos de suma importância no sistema de Crowley). O próprio título da música se refere a uma das cartas mais “sinistras” do tarô: A Torre, que é referida no Livro da Lei (Liber AL), de Crowley. Na letra da música os versos “There are twelve commandments/ There are twelve divisions” (“Há doze mandamentos/ Há doze divisões”) aludem aos doze signos astrológicos dispostos divididos em casas de 30º no cinturão (imaginário) do zodíaco com seus “mandamentos”. A frase “The pilgrim is searching for blood” (“O peregrino está à procura de sangue”) diz que o alquimista buscador, em sua senda solitária está buscando sua iluminação; o sangue é uma referência à fase “vermelha” da alquimia chamada rubedo. Nessa última fase alquímica a Pedra Filosofal é “encontrada” e o alquimista (ou qualquer iniciado) se torna um sábio “imortal” autoconsciente, realizando sua própria Vontade livre, uma referência direta à Lei de Thelema e que está presente no seguinte verso da letra: “To look for his own free Will” (“Buscar por sua própria Vontade livre”).

E no refrão temos os versos:

“Lovers in the tower/ The moon and sun divided/ the hanged man smiles/ Let the fool decide/the priestess kneels/ the magician laughs”

(“Amantes na Torre/ A Lua e o Sol divididos/ o Enforcado sorri/ Deixe o Louco decidir/ a Sacerdotisa se ajoelha/ o Mago dá risada”),

nos quais podemos encontrar referências diretas a várias cartas do tarô: The Lovers (Os Amantes), The Tower (A Torre), The Moon (A Lua), The Sun (O Sol), The Hanged Man (O Enforcado), The Fool (O Louco), The Priestess (A Sacerdotisa) e The Magician (O Mago). Para não nos alongarmos demais na letra de The Tower, podemos dizer que ela contém alguns segredos alquímico-ritualísticos de magia sexual.

Há outras músicas interessantes em The Chemical Wedding, incluindo aquelas inspiradas diretamente por William Blake: Book of Thel, Gates of Urizen e Jerusalem. Do álbum Tyranny of Souls, podemos destacar alguns versos. O título da música Navigate the Seas of the Sun significa a libertação de restrições e a expansão da consciência, já que o Sol é um símbolo da cabeça humana, da inteligência e da consciência. Nessa letra, encontramos “Our children will GO on and on to navigate the seas of the sun” (“Nossas crianças continuarão a navegar os mares do sol”), que na filosofia thelêmica diz respeito ao arcano d’O Sol no qual duas crianças gêmeas, inocentes e livres “navegam” os raios solares, representando a humanidade em mais uma fase evolutiva, com seus aspectos masculinos e femininos assimilados e harmonizados pelo Eu.

Na música-título A Tyranny of Souls, encontramos os versos

“Who rips the child out from the womb?/ Who raise the dagger, who plays the tune?/At the crack of doom on judgment day”

(Quem arranca a criança do útero?/ Quem ergue a adaga, quem toca a música?/ À beira da condenação no dia do julgamento”).

É uma descrição do Aeon (Era, Idade, Tempo) de Crowley, retratado no arcano O Aeon (no tarô comum é conhecido como O Julgamento). Esse Aeon é marcado pela destruição do velho Aeon de Osíris e pelo nascimento do novo Aeon de Hórus. A criança arrancada do útero, conforme a letra da música, é Hórus, filho de Osíris e Ísis; a adaga erguida significa a morte do Aeon passado, o Aeon de Osíris ou Era de Peixes, considerado tirano, repressor, restritivo e opressor; a música referida nos versos é tocada por meio de uma trombeta tradicionalmente por um ser angélico que anuncia a Nova Era, o Novo Aeon, com o julgamento e condenação do velho. Mas no Novo Aeon, Hórus mantém silêncio para representar a “perfeição” do Novo Tempo. Com relação ao Iron Maiden, Bruce Dickinson tem colaborado razoavelmente nos processos de composição. Do álbum Piece of Mind, a letra de Revelations apresenta alguns “mistérios”. O verso “Just a babe in a Black abyss” (“Apenas um bebê em um abismo negro”) é um referência ao conceito crowleyano de “bebê do abismo”, um termo para designar aquele que mergulha e atravessa o Vazio. Trata-se de um abismo metafísico e psíquico entre o universo real e o universo ilusório, entre a “insana” dimensão do espírito e a igualmente insana (e aparentemente segura) dimensão da matéria; o magista ou iniciado que fracassa em cruzar o Abismo (e em assimilar o conhecimento nele contido) geralmente enlouquece. O verso

“No reason for a place like this”

(“Nenhuma razão para um lugar como este”)

mostra que, uma vez no Abismo, a razão humana como se conhece é completamente abolida.

Do álbum Powerslave a música-título fala sobre um faraó, tido como um deus, que não quer morrer, mas continuar governando no mundo material. Na filosofia thelêmica de Crowley, Osíris representa a Era decadente que insiste em continuar, mas que deve ser destruída para dar lugar ao Aeon de Hórus (filho de Osíris). Por outro lado, o faraó é uma representação de todo mago que fracassa em cruzar o Abismo, tornando-se assim um “escravo do poder da morte” (como diz a letra), psicoespiritualmente. Isso pode ser visto especialmente nos versos

“Into the abyss I’ll fall – the eye of Horus/ Into the eyes of the night – watching me go”

(“no abismo eu cairei – o olho de Hórus/ Nos olhos da noite – olhando-me ir”).

E no verso

“Shell of a man god preserved”

(“A casca de um homem-deus preservado”)

o faraó/deus/magoestá morto fisicamente, com seu cadáver mumificado ou não, ao mesmo tempo em que ele se torna um ser vazio e insano, sem conexão com o seu Eu, ou seja, uma “casca” no mundo qliphótico (do hebraico “qlipha”, que significa “casca”, “concha”) cujos portais estão no próprio Abismo, segundo outro verso: “But open the gates of my hell” (“Mas abra os portais de meu inferno”).

Moonchild, do álbum Seventh Son of a Seventh Son, é uma referência direta a uma das obras de Crowley de mesmo nome. A letra da música fala sobre a união de dois magistas (homem e mulher) e o nascimento de um ser supra-humano (entendido também como uma supraconsciência). Na letra, o homem é representado por Lúcifer, o Portador da Luz, o não-nascido, e a mulher é a Prostituta Escarlate, Babalon (nome derivado de Babylon), como aparece nos versos “The fallen angel watching you/ Babylon, the Scarlet whore” (“O anjo caído observando você/ Babilônia, a prostituta escarlate”).

Os nomes Babalon e Mulher Escarlate, apesar de derivados da Bíblia, são próprios do sistema mágico thelêmico de Crowley e equivalentes à deusa Lilith (mesopotâmica), Hécate (grega), Kali (hindu), entre outras, representando ainda os aspectos femininos da Natureza e a Grande Mãe do universo, livre dos dogmáticos conceitos morais sobre bem e mal. O álbum Seventh Son of a Seventh Son é todo “profético”, com colaborações de outros membros da banda em torno de temas como magia, alquimia, ocultismo, bem e mal, etc.

Por fim, vamos falar sobre alguns trechos do último álbum do Iron Maiden, The Final Frontier, que novamente traz alguns temas sobre alquimia, magia crowleyana e expansão da consciência. Na música Starblind, podemos ler o verso “Let the elders to their parley meant to satisfy our lust” (“deixar os anciãos às suas barganhas significa satisfazer nosso desejo”). Lust é o título de uma das cartas do tarô de Crowley, que se refere, entre outras coisas, a tudo o que é dos sentidos e que provoca êxtase, pois, nas palavras de Crowley, “não tema que deus algum lhe negue isso.” Os anciãos representam a religião dogmática e repressora do Aeon passado, que oferecem “liberdades de carcereiros” e que “parlamentam” aquilo que lhes traz vantagens ilícitas.

Enquanto eles falam e negociam e ficam no passado, os desejos (lust) do novo Aeon, ou seja, a Vontade livre e o desejo pela vida são satisfeitos naqueles que se libertaram do dogmatismo e que estão sem “o dispositivo cruel da religião”, conforme o verso “Religion’s cruel device is gone”. A frase “You are free to choose a life to live” (“Você é livre para escolher uma vida para viver”) é outra referência à Lei de Thelema, ao cumprimento da Vontade. Ainda do álbum The Final Frontier, a letra da música The Alchemist pode parecer óbvia, mas ela fala sobre algo mais do que um mero alquimista. O trecho “My dreams of empire from my frozen queen will come to pass” (“Os sonhos de império da minha rainha congelada irão passar”) refere-se à rainha inglesa Elizabeth, que protegia o também multitalentoso, suposto espião e mago John Dee (1527-1608), citado no verso “Know me, the Magus I am Dr. Dee” (“Conheça-me, o Mago Dr. Dee sou eu”). John Dee é conhecido especialmente por seu trabalho sobre magia enochiana e por sua associação com o alquimista e clarividente Edward Kelley (1555-1597), com quem “criou” esse poderoso sistema de magia, posteriormente praticado por Crowley (que acreditava ser também a reencarnação de Edward Kelley).

A letra da música de modo geral descreve as práticas de John Dee e Edward Kelley com a magia enochiana, considerada um sistema angélico, descrevendo também os contatos com os anjos, isto é, os “demônios”. Enquanto Edward Kelley se comunicava com os seres enochianos, conforme o verso da letra “Know you speak with demons” (“Sei que você fala com demônios”), John Dee ia anotando todo o sistema. O termo “angélico” aqui, entretanto, não diz respeito às imagens populares de anjinhos rechonchudos ou anjos esbeltos e delicados, mas a seres considerados alienígenas terríveis e demoníacos (no sentido original da palavra grega “daimonos”, quer dizer, “espírito”, “gênio”), conhecidos popularmente como “anjos caídos”, os supostos instrutores e doadores do conhecimento nos primórdios da espécie humana. Tais anjos enochianos foram contactados por Crowley, que fez as invocações pelas chaves enochianas, resultando em sua obra chamada Liber 418 – A Visão e a Voz. As invocações enochianas de Dee/Kelley e Crowley são referidas no seguinte verso de Bruce: “Hear the master summon up the spirits by their names” (“Ouça o mestre chamar os espíritos por seus nomes”)…

O Iron Maiden sempre carregou uma forte aura de intelectualismo, profetismo e mistério, contando muitas vezes com as inteligentes e valiosas contribuições de Bruce Dickinson. Por afinidades intelectuais e de interesses, independentemente do tempo cronológico, Crowley sempre esteve presente, ou apenas “pairando”, no trabalho de Bruce. E diferentemente do trabalho de Ozzy Osbourne, cuja letra da música Mr.Crowley é um tanto sarcástica e superficial, Bruce Dickinson tem se interessado muito mais seriamente pelas questões que envolvem a magia de Aleister Crowley. Ambos, Bruce e Crowley, sempre buscaram ir mais além, demonstrando que é possível chegar à “última fronteira” entre a consciência e a supraconsciência…

#LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/bruce-dickinson-e-aleister-crowley

A Geometria Sagrada

Peter J. Carroll

A medida que a fé dava lugar a razão durante o Iluminismo os humanos começaram a deduzir as relações entre certos padrões matemáticos e a natureza. É claro que um certo gosto estético por simetria e proporção já existisse a milênios como testemunha a extraordinária precisão das Pirâmides, do Stonehenge e de toda a Arquitetura Clássica por exemplo. A escola platônica de filosofia teve uma forte compreensão intuitiva da ideia de que a geometria permeia a estrutura da natureza, embora confiasse muito na sua teoria e não o suficiente nas medições propriamente ditas.

Os sábios e arautos do Iluminismo escolheram seus símbolos com sutileza. Não fosse assim os conceitos do Arianismo (que via Cristo como não-divino, mas apenas como um ser humano iluminado) ou simplesmente Ateismo, teria tido muito mais problemas do que teve. Assim, eles adotaram uma posição que substituiu o louco e caprichoso Deus bíblico pelo Arquiteto do Universo, uma espécie bem mais razoável de criatura cujos trabalhos eram mais favoráveis a compreensão racional. Desta idéia se desenvolveu a Maçonaria para promover os ideais iluministas sob vários graus de sigilo e ofuscamento dependendo das circunstâncias. Originalmente havia nela fortes correntes anti-monárquicas e anti-clericais (particularmente Anti-católicas) , mas esta tendência mudou com o tempo. Tornou-se um tanto supérflua a partir da ascensão da Ciência no mundo ocidentalizado, desde então tornou-se um mero clube social, as vezes um um pouco corrupto.

Curiosamente, assim que o Iluminismo começou a Geometria foi substituída pela Álgebra. Mas Álgebra pode ser entendida como Geometria sem os diagramas o que lhe dá liberdade de fazer geometria para quantas dimensões você quiser. Os antigos Egípcios parecem terem conhecido o teorema de Pitágoras na medida em que eles podiam construir um ângulo reto estendendo uma corda com nós para fazer um triângulo na proporção de 5x4x3. No entanto foram necessários os Gregos para descobrir que o quadrado da hipotenusa é igual ao quadrado dos outros dois lados de qualquer triângulo retângulo. Surpreendentemente Issac Newton, uma das maiores figuras do iluminismo descobriu que o movimento planetário funciona completamente segundo a geometria, usando medidas cuidadosamente recolhidas e estudando seus terrivelmente complicados diagramas ele destilou todas estas informações e uma elegante forma algébrica F = Gm1m2/r^2. Apesar da notação algébrica esta continua a ser, como todas as equações algébricas, uma relação essencialmente geométrica.

Hoje quando a mente moderna olha paras as maravilhas da arquitetura e dos simbolos do mundo antigo, ela discerne dentro de pelo menos alguns deles uma codificação geométrica para muitos dos fenômenos do mundo natural. Alguns possuem alinhamentos precisos com eventos celestes, outros porporções curiosas como a Medida Áurea que reflete as relações geométricas que ocorrem naturalmente nas formas biológicas e em símbolos como o pentagrama e a espiral.

Talvez nós não devessemos ficar muito animados com estas relações sagradas ou secretas e deixar a nossa apofenia correr solta. Afinal, parece que, assim como somos macacos fazedores de ferramentas e macacos sociais que falam, nós também temos uma carreira evolutiva como macacos reconhecedores de padrões.

Entretanto vamos continuar com nossos conceitos de geometria sagrada por enquanto para ver até onde chegamos, pois tantas vezes no passado o ocultismo abriu as portas por onde a ciência passou.

Uma geometria realmente sagrada deveria nos mostrar as proporções e relações inerentes a todo macrocosmo e microcosmo, a verdadeira substancia do universo.

Pode tal coisa existir?

Eu suspeito fortemente que sim, e nós já temos uma boa parte dela pronta, embora não a reconheçamos como tal. Boa parte dela aparece hoje como álgebra em vez de geometria; entretanto a álgebra reflete basicamente a estrutura geométrica da realidade.

Tentativas anteriores de extrair do microcosmo e do macrocosmo uma geometria sagrada, tal como foi a Árvore da Vida cabalistica ou o pensamento de Ramon Lull (autor do Liber Chaos original!) sofrem pela falta de bons dados de observacionais e de contaminação com panacéias teológicas.

Dados macrocosmicos começam com Newton e se expandem magnificamente com Einstein.

Einstein desenvolveu as bases das relações geométricas entre tempo e espaço, e entre massa e energia, e apresentado como a resultado o que ele chamou de Teoria Especial da Relatividade. Estes fundamentos existem basicamente como relações geométricas entre um fenômeno e outro.

Em seguida, ele foi além e desenvolveu a relatividade geral para incluir os efeitos da aceleração e da gravidade. A Relatividade Geral descreve o macrocosmo em termos exclusivamente geométricos:

Espaço / Curvatura do tempo = Massa / densidade da energia

Assim o que percebemos como matéria na verdade consiste em uma curvatura do tempo e do espaço e o que percebemos como gravidade na verdade consiste em um efeito da curvatura da matéria.

Embora se possa extrair os diagramas para representar a álgebra da Relatividade Especial como geometria no papel, nós precisaríamos de papel multidimensional para fazer isso com a Relatividade Geral, de modo que geralmente temos que deixá-la como álgebra.

Agora, em contraste com muitos outros físicos rebeldes de hoje eu não acho que Einstein tenha errado, ele acertou em cheio. Entretanto eu acho que muito mais vai surgir para expandir seus insights, em particular eu suspeito que:

6D Espaço/Curvatura dos tempo = 6D Carga/Densidade dos Spins

Quando Einstein intuiu e calculou a geometria do espaço/tempo e da gravitação nós tinhamos apenas um entendimento embrionário da física de particulas, o microcosmo, e ele não pode incluir seu pensamento em uma grande teoria unificada, embora tenha tentado fortemente fazer isso.

A teoria da física de partículas do microcosmo decolou desde então em direções completamente diferentes do modelo geométrico do macrocosmo. Ela depende da idéia do “Quanta” (bits de tamanho mínimo e indivisível realidade). Na física quântica blocos fundamentais de construção da realidade ocorrem como pontos sem dimensões com distribuição probabilística ondulatória no espaço/tempo, assim não podem ter uma descrição geométrica apropriada. Embora a teoria quântica forneça previsões que batem com os dados observados, Einstein considerava que ela continha uma profunda falha metafísica.

Eu suspeito que um modelo geométrico da física quântica requer 6 dimensões, três de espaço e três de tempo, ao invés do modelo de três dimensões espaciais e uma dimensão temporal com as quais tanto a relatividade quando a física quântica atualmente trabalham.

No momento em que escrevo, a Relatividade Geral ainda provê nosso melhor entendimento sobre a gravidade, o que define a estrutura em larga escala do universo, mas a Física Quântica fornece a descrição oficial das outras 3 forças elementares da natureza: a eletromagnética, a força nuclear fraca e a força nuclear forte. No entanto a descrição quântica parece sugerir idéias muito estranhas e idéias metafísicas paradoxais enquanto que o Modelo Padrão da física de partículas permanece fenomenológica e falha em prover uma descrição mecanicista que contêm ainda muitas constantes aparentemente arbitrárias. A descrição da força nuclear forte continua particularmente enevoada. O modelo padrão claramente não consegue explicar a existência de 3 gerações de partículas de férmion, quarks, elétrons e neutrinos.

Após ter descrito três das quatro forças fundamentais, ainda que de modo imperfeito, com a física quântica, os físicos tem tentado trazer a gravidade para o mesmo terreno para criar uma Grande Teoria Unificada de todas as quatro, e a busca por uma teoria quântica da gravidade tem dominado a agenda de toda uma geração de físicos.

Uma teoria quântica da gravidade implicaria que Einsteins estava errado ao descrever a gravidade como uma curvatura do espaço/tempo e descreveria os campos gravitacionais como sendo mediados pela troca de particulas de gravidade. Ondas gravitacionais surgiriam da troca entre estas particulas virtuais. Ninguém até hoje conseguiu capturar uma destas particulas virtuais, teóricos meramente lançam a hipótese da sua existência para explicar os efeitos de campo.

A busca por uma teoria quantica da gravidade tem falhado em dar frutos, e todas as partículas necessárias para as suas várias versões, os gravitons, as particulas supersimétricas e os Bósons de Higgs tem falhado em aparecer nos experimentos.

No lugar de tentar tornar a gravidade quântica eu sugiro que devamos geometrisar o quanta. Em uma Geometria Quântica, particulas virtuais não existiriam, todos os campos surgiriam de várias curvaturas do espaço tempo. Vários artigos meus recentes são uma tentativa de mostrar que uma geometria quantica pode existir em um espaço de seus dimensões, três espaciais e três temporais. Eu suspeito que precisamos investigar a geometria do tempo mais profundamente para alcançarmos uma grande teoria unificada do todo.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-geometria-sagrada/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-geometria-sagrada/

Sagrado mesmo…

Não há como negar que há uma crise por todos os lugares. E são os lugares que estão sendo repensados. A ética está sendo colocada em xeque. A moral a muito já desencarnou dos lugares aonde estamos. A crise financeira vista como a razão de todos os nossos problemas atuais é de longe o real motivo disso tudo.  O grande problema mesmo é acreditar.

Os seres humanos parecem necessitar de algo além de si mesmos para permanecerem de pé. Parece que todos precisam continuamente relembra-se de que há algo, por mais improvável que seja, além deles mesmos. Uns se prendem à moral, outros à ética, outros à sua fé.  Claro que não só isso é parte da função, mas são fatores essenciais do contexto de ser.

Independente dessas análises a crise continuará adiante. Ela é paradigmática. Não mudará facilmente enquanto não mudarmos todos ao mesmo tempo. Saber como isso ocorrerá é uma problemática maior do que podemos abarcar. Contudo o sopro apocalíptico é uma realidade, queiramos ou não. Não aquele hollywoodiano com o qual o resultado é a morte da vida na terra e do universo, não! Este é um sonho louco das pessoas sem esperança. O fator apocalíptico é bem diferente. Os quatro cavaleiros estão mais do que já materializados desde que fora “permitido” a todos envergonhar-se, matar, para obter lucros. Essa vergonha é mais velha que o cristo. Acredito que a verdadeira fala de Jesus na cruz fora esta: Pai, perdoai-os! Eles até sabem o que fazem. Mas o brilho do ouro lhes tirará suas parcas visões.

O fim já começou com um novo e longo começo. Este fim é a 17ª carta e é feita de ilusões. Enquanto for permitido enganar para crescer, usurpar para poder obter, decidir entre vida e morte para controlar nada será diferente. Esse paradigma é quase que um destino imutável. Foi aninhado na mente e alma de todos os seres humanos desde que ele se permitiu acreditar em si mesmo por intermédio do medo. A religião algum dia pode ter sido ética e verdadeira. Hoje isso não passa de um mero mito. A religião está com as pernas fracas. Ela cairá de joelhos pedindo perdão, mas será exterminada com a mesma voracidade que ela ensinou a todos ter. Ela será massacrada por seus fieis esfomeados. E a guerra, encarnação do demônio, que ela mesma gerou, publicará nos autos milhares de baixas.

Já não somos inocentes. O mudo já conhece o cheiro pútrido dos campos de batalha. Esse é o bafo do demônio que tanto a religião invocou. Deus nunca teve razão para ter inimigos, mesmo assim ela fez todos acreditarem nisso. Acreditarem que a única maneira de controlar é emburrecer seus fieis e amedronta-los diariamente com a promessa do inferno. Chegamos a um ponto de afirmar desejar mais o inferno do que o céu plácido feito de mentira. A religião há muito perdeu a chance de limpar suas mãos… O que escolheu todos sabem.

E não é por acaso que me prendo à religião para desenvolver este texto. Bem sei que ética e moral, como a própria religião, em si mesmas não são as devidas culpadas. A culpa é somente do ato de crer. Crer sem comprovação: fé. A fé deveria ser extinta. Ela institucionalizou a estupidez e a fraqueza. No momento que implico que para acreditar em Deus é preciso fé (crer sem comprovação) eu cometo dois enganos: primeiro que esse Deus de fato não existe e que tudo dito em seu nome não o fora. Se existisse, para que temer comprová-lo? Esse Deus ai é bem diferente da realidade. A realidade é que Deus não precisa ser provado por que este já se prova por suas criaturas. E esse livro que empunham dizendo ser d’Ele, nada mais é do que um manual da Grande Besta; segundo em acreditar no comércio das almas feitas pelas grandes multinacionais chamadas igrejas!

Isso em si é muito simples e com pouco esforço pode ser compreendido, mas então por que não ocorre? Por isso me prendi à religião. O ser humano teme, achando que Deus se importa com o que pensamos. Nós fomos feitos para isso mesmo, para errar e acertar e Deus em momento algum perde seu tempo medindo nossos passos. Pois se assim o fosse não teríamos pernas nem braços, seríamos ainda puras e simples amebas se engolindo e se regurgitando diariamente.

E os videntes compreenderam isso antes do tempo. Avisaram os líderes das nações e das religiões. Mas estes só pensaram no brilho do outro, do ouro da coroa do demônio que eles mesmos pariram. A religião, até tirar a beleza do parto e do sangue que escorre na dor deste ato das mulheres, ela assim o fez. Transformou todos os homens em frouxos e as mulheres em pessoas envergonhadas de sua natureza quando criaram uma Maria que gera filhos sem sexo, um filho sem sangue. Um filho que quando diz que todos nós somos filhos de Deus, não conseguimos chama-lo de irmão. Visto que nossas mães choraram e sangraram e se felicitaram no coito.

Ela, a religião, criou um panteão de aliens! Ela gerou uma nação de sem pais. Ela criou mulheres sem ventre e homens sem espírito. Ela corroeu nossa santidade ao dizer para nós: não se preocupe! Nós intervimos por você, vá dormir tranquilo; e já não mais acordamos cedo e nem mais Deus nos ajuda. E assim vemos lideres religiosos brigando por posições na política em lugares, cadeiras que estes nem de longe pertencem. O peso desse ato é muito maior do que uma revolta na internet. Esse ato pesa na consciência de toda a humanidade. As cadeiras foram feitas para serem usadas por pessoas dignas de sua magnitude. E quando quem as usa não possui alma, as pernas não tardarão em partirem-se, categoricamente, uma a uma. E assim veremos que quando os falsos profetas chegarem ao poder, a única forma de salvar a plantação será envenenando a todos.

Quando vejo que o preconceito é quem coordena um cargo que é feito para curar essa nossa mazela, vejo que não tardará para que de fato esse mundo que conhecemos seja encarado como morto. E cairão as paredes da estupidez. E quem as destruirá serão os demônios filhos desses partos alienígenas do qual todos nós fomos forçados a presenciar.

Sagrado mesmo é a vida humana. Que não precisa provar nada a ninguém.

Djaysel Pessôa

#fé #Religião

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Eros Vendado

Dizem que foi sua prometida quem desesperou-se ao ver-se privada de sua beleza, mas os mitos não contaram esta outra história acerca de Eros:

O deus estava arrependido da brutalidade com que tratou Psiquê quando esta, pensando que o amado fosse um monstro, retirou suas vendas enquanto dormia, e pôde enfim admirar toda a sua beleza… Assim, desde então, Eros andava enlouquecido em meio ao Elísio, coberto de vergonha…

Como estava vendado, e se recusava a ver toda a beleza a sua volta, tornou-se amargo, temeroso do contato íntimo com qualquer um que lhe cruzasse o caminho: “vão retirar minha venda, vão ver minha beleza, mas somente Psiquê é digna de me ver!” – pensava consigo mesmo, angustiado.

Zeus, que tudo via e sabia, encarregou seu mensageiro, Hermes, de tentar convencer Eros a retornar a razão…

Então, cortando os céus feito um corcel alado, o mensageiro seguia o rastro de sangue que Eros deixara pelos caminhos do Elísio… Pobres animais, homens e semideuses, todos alvejados pelas flechas venenosas do Eros Vendado. As mesmas que antes traziam o amor, agora traziam a agonia.

Retirando a flecha negra do peito de um velho mercador de frutas que agonizava na estrada, Hermes lhe indagou acerca de seu encontro com Eros:

“Tudo o que fiz foi lhe oferecer uma de minhas maças, eu juro! Mais parecia um mendigo andarilho, pobre e esfomeado… Não sabia se tratar de um deus, por isso achei que fosse apreciar uma de minhas maças… Ofereci-lhe o alimento de coração, não pretendia ganhar nada em troca. Mas o deus estava louco, e zombou de minha caridade, alvejando-me em seguida… Nossa, como doem essas flechas negras…”

Restaurado, o mercador apontou a direção na qual o deus enlouquecido seguiu, e, tão rápido quanto um pensamento, Hermes estava lá, frente a frente com o Eros Vendado:

“Irmão, nosso pai deseja lhe ver…”

“E eu… Eu desejo ver meu pai… Mas como saberei se você é mesmo meu irmão? Como saberei se não é mais um truque da Beleza para que eu jamais veja minha amada novamente? Saia daqui!” – bradou o deus descontrolado, mas ainda muito preciso com seu arco que, sabe-se lá como, estava perfeitamente posicionado na direção de Hermes, ainda que Eros nada pudesse enxergar.

“Irmão, se você não me vê agora, como poderia ver sua amada, ainda que ela estivesse ao meu lado?” – respondeu Hermes ainda muito calmo, embora uma flecha negra e peçonhenta estivesse endereçada a sua fronte.

“Quem é você para falar dela? Maldito!” – atirou a flecha com tamanha precisão que, não fosse pelo elmo alado de seu irmão, o alvo teria sido atingido.

Hermes agachou-se e retirou a flecha do elmo que caíra ao solo. Então, com agilidade divina, o deus mensageiro rolou pelo chão e, antes que seu irmão pudesse atirar outra flecha, cravou-a bem no peito esquerdo, através do coração.

Ali morrera o Eros Vendado. Mas, como os deuses não permanecem mortos por muito tempo, Hermes tratou de levá-lo até a fonte d’água mais próxima e, o tendo lavado e desvendado, deixou-o ali na margem, bem morto, e esgueirou-se para detrás de um arbusto…

Quando finalmente ressuscitou, Eros parecia desnorteado, mas não louco… Na verdade, era como se tivesse acordado de um longo sono de loucura, e aparentemente recuperado sua sanidade novamente. A primeira coisa que fez foi lavar o rosto no espelho d’água. Foi quando Hermes se reapresentou, ele precisava ter certeza:

“Veja seu rosto no espelho, irmão, e diga-me: qual é o mais belo dos deuses?”

Eros procedeu conforme instruído e, virando-se para Hermes, com a face feita ainda mais bela, com pingos d’água a escorrer em torno dos largos olhos, refletindo ao sol, disse-lhe:

“Ninguém… E todos… Todos os deuses são belos; e mais bela ainda é a humanidade, por tê-los imaginado…”

Então, Hermes sorriu: a missão estava cumprida, o Amor havia retornado a sanidade.

raph’12

***

Lá onde nasce o verdadeiro amor

morre o “eu”, esse tenebroso déspota.

Tu o deixas expirar no negro da noite

e livre respiras à luz da manhã.

(Jalal ud-Din Rumi)

***

Crédito da foto: BürgerJ (escultura Eros Bendato, de Igor Mitoraj)

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O mito da caverna comentado, parte 2

Texto de Platão em “A República”. Os comentários ao final são meus.

continuando da parte 1

Sócrates – E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que as que se lhe mostram?

Glauco – Com toda a certeza.

Sócrates – E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora denominamos verdadeiras?

Glauco – Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates – Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua, contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz [5].

Glauco – Sem dúvida.

Sócrates – Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol, no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco – Necessariamente.

Sócrates – Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus companheiros, na caverna [6].

Glauco – É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates – Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os que lá ficaram?

Glauco – Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates – E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia? [7]

Glauco – Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa maneira.

Sócrates – Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco – Por certo que sim.

Sócrates – E se tiver de entrar de novo em competição com os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir até lá? [8] E se alguém tentar libertar e conduzir para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco – Sem nenhuma dúvida.

Sócrates – Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da alma para a mansão inteligível [9], não te enganarás quanto à minha idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco – Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la [10].

(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)

***
[5] Na metáfora Sócrates discorre sobre o processo de evolução do conhecimento, e como ele necessita ocorrer passo a passo, gradativamente.
[6] Buscar o que sustenta a Criação, ou “porque existe algo e não nada”, é o estágio primordial da evolução do conhecimento – onde ela também pode ser confundida, não sem razão, com uma evolução espiritual. Não importa o que dizem os materialistas atuais, foi buscando a Deus que os grandes cientistas comporam suas equações e os grandes filósofos pautaram sua lógica. Qual Deus buscavam eles, entretanto, é algo próprio de cada um deles…
[7] Lembremos que não se trata de mudar de uma realidade para outra, e sim de retroceder a uma vida de ignorância. Ainda que quisesse, entretanto, já não mais conseguiria. Quem vê a luz uma vez e a compreende, jamais voltará a enxergar sombras.
[8] Aquele que compreende a essência das coisas – que sai da caverna – se torna um ser modificado. O que antes lhe interessava na vida dentro da caverna, não lhe interessa mais… Dessa forma, mesmo seus familiares e amigos mais próximos vão estranhar seu comportamento.

É isso precisamente o que ocorre com todos aqueles que “se iniciam” nos estudos mais profundos em filosofia, religião ou ciência. Um físico não conseguirá mais ignorar o baile de partículas do Cosmos, um budista não conseguirá mais ignorar o que compreende em suas meditações, e um filósofo não conseguirá mais viver sem o eterno exercício dos questionamentos existenciais… E todos esses serão agora “estranhos no ninho”, “excêntricos”, “loucos”, “nerds”, etc.
Isso não quer dizer que todo louco seja sábio. Muitas vezes, é apenas louco mesmo. Eis que os sábios são ainda muito poucos, e esta é a razão do mundo ser como é. Tolstói já dizia: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo”.
[9] O “mundo inteligível” não é um céu localizado fisicamente em algum lugar. Nem a “subida da alma” é uma elevação a esse céu mítico. O céu está na consciência de cada um, assim como a ascenção da alma corresponde a ascenção do conhecimento de si mesmo e da essência das coisas. Repito: não é o mundo que muda, somos nós!
[10] Platão nunca afirmou que compreendeu totalmente Sócrates. Eu não afirmo que compreendi totalmente este mito. Da mesma forma, Krishna, Lao Tsé, Buda, Jesus e tantos outros sábios jamais foram compreendidos totalmente, exceto pelos seres de igual estatura espiritual – muito provavelmente não estamos ainda entre eles.

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Crédito da foto: Diana Oliveros

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Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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A Boca do Abutre

Por Kenneth Grant, O Lado Noturno do Éden, Capítulo Onze.

A PALAVRA do Aeon de Maat que os iniciados afirmam ter sido recebida enquanto em comunicação com inteligências extraterrestres,392 é IPSOS, significando ‘a mesma boca’. No segundo capítulo de AL (verso 76) surge uma cifra críptica que contém um grupo de letras possuindo o valor de IPSOS. De fato, duas grafias diferentes de Ipsos resultam em números equivalentes a um grupo de letras em AL. O criptograma em AL é RPSTOVAL, que tem o valor cabalístico de 696 ou 456 conforme ou a letra ‘S’ é lida como um shin ou como um samekh. Similarmente, IPSOS = 696 ou 456 conforme se o primeiro ‘s’ é tomado como um shin ou um samekh. IPSOS é portanto o equivalente cabalístico de RPSTOVAL. O significado deste grupo de letras não é conhecido, mas Ipsos a boca, o órgão da Palavra de Expressão (saída_?), de Alimentação, Sucção, Beberagem, etc., é o órgão não apenas de expressão mas também de recepção da Palavra.

A fórmula RPSTOVAL compartilha com IPSOS, pois a fórmula da Torre393 é aquela do Falo em erupção, e a ejaculação394 da Palavra do Aeon de Maat, a Palavra que se estende até ‘o fim da terra’.395 A terra está sob o domínio do Príncipe do Ar (i.e. Shaitan), mas os espaços além estão sob o domínio do Senhor do Aethyr, cujo símbolo é o abutre.

Nenhuma fórmula pode ser cósmica que não seja essencialmente microcósmica, pois uma contém a outra. É portanto sugerido que a fórmula de RPSTOVAL é aquela de um processo especificamente fisiológico que envolve a boca (útero) em sua fase mais recôndita.

A boca enquanto Maat, a Verdade, a Palavra; Mat, a Mãe; Maut, o Abutre; e Mort, o Morto,396 está implícita no simbolismo da Torre. A erupção ou expressão da Torre (falo) é a saída (?) da Palavra para dentro dos espaços além da terra que são um com os aethyrs397 representada por el Mato, o Louco, o Mat ou O Louco, e Le Mort, o Morto.

O Caminho do Louco (décimo primeiro caminho) é a extensão secreta do Caminho da Torre (Atu XVI) e uma compreensão iniciática deste simbolismo apresenta uma chave para a fórmula do Aeon de Maat que está resumido pelo número 27 (11 + 16), o número do Caminho do Morto e do Atu XVI, A Torre.398 É significativo que o Caminho da Torre seja de fato o 27o Caminho. Este número é atribuído ao Liber Trigrammaton, um Livro Santo, embora ainda não compreendido, recebido por Crowley de Aiwass. Crowley suspeitava que ele continha o segredo da cabala ‘Inglesa’, e em seus Comentários sobre o AL ele tentou equacionar os trigramas com as letras do alfabeto Inglês de modo a descobrir a cabala Inglesa tal como ele estava ordenado a cumprir no AL.399 Mas as equações estavam longe de serem convincentes, mesmo para ele mesmo. O que ele parecia não compreender era que a cabala que ele buscava pertencia a uma dimensão completamente diferente, e que a boca que iria comunicar esta cabala era a boca cujas emanações são os próprios kalas. Portanto, como eu sugeri em Cultos da Sombra (capítulo 7) com relação à palavra RPSTOVAL, com igual probabilidade pode a palavra IPSOS ocultar uma fórmula de kalas psicossexuais que podem ser compreendidos com relação a uma interpretação tantrica da polaridade sexual.

A interação da vagina e do falo (i.e. a boca e a torre) está resumida sob a fórmula eroto-oral conhecida na linguagem popular como o soixante-neuf (69). Mas o assunto é um pouco mais recôndito do que aquele geralmente implicado por esta prática. Os números 6 e 9 denotam o sol e a lua, Tiphareth e Yesod, e, em termos dos 32 kalas o 6 e o 9 se referem àqueles de Leo400 e Pisces401 A enumeração total resulta 109, o número de NDNH, uma palavra Hebraica significando ‘vagina’402. Deduzindo a cifra, 109 se torna 19, que é o ‘glifo feminino’.403 109 mostra portanto o ovo ou esfera – 0 – do Vazio, o ain do infinito em sua forma feminina. O significado mágico deste simbolismo está colocado numa categoria mais ampla sob o número 69: a radiante energia (relâmpago) solar-fálica do Anjo404 correndo veloz para dentro da boca, cálice ou útero da Lua para misturar-se com o qoph kala.405 A bebida resultante é o vinum sabbati, o Vinho do Sabá das Feiticeiras que pode ser destilado, segundo os antigos grimórios, ‘quando o finial(???) da Torre está oscurecido (ou velado) pela asa do abutre’.

Diz-se que um grito peculiar é emitido da boca do abutre. Em O Coração do Mestre,406 Crowley observa que este grito ou palavra é Mu. Seu número, 46, é a ‘chave dos mistérios’, pois ele é o número de Adam / Adão (Man / Homem). Mu é a semente masculina,407 mas ela é também a água (i.e. sangue) da qual o homem foi moldado. 408 O abutre é um pássaro de sangue e seu grito penetrante é expressado no momento de retalhar(?)409 que acompanha o ato de manifestação: ‘Pois estou dividida por causa do amor, para a chance de união’. (AL. I. 29).

O número 46 também implica o véu divisor (Paroketh), previamente explicado. MAH, 46, é o hebraico para 100, o número de qoph e portanto da ‘parte de trás da cabeça’, o assento das energias sexuais no homem. O cem implica na totalização ou realização de um ciclo de tempo.410 O pleno significado do simbolismo é portanto que quando o abutre abre suas asas para receber o golpe fálico no silêncio e discrição da nuvem,411 seu grito penetrante de êxtase, hriliu412, é MU (46).413

Neste estágio é necessário fazer uma digressão aparentemente irrelevante caso a total importância do simbolismo da Torre deva ser entendida.

Numa construção dilapidada anteriormente situada no local atualmente ocupado pelo Centre Point414 ocorreu, em 1949 um rito mágico curioso. Ele aconteceu por instigação de Gerald Gardner.415 O aposento no qual o rito ocorreu estava alugado naquela ocasião por uma ‘bruxa’ a qual eu chamarei de Sra. South. Ela era realmente uma cafetina(?) e prostituta que temperava suas atividades com um sabor ‘oculto’ calculado para apelar à um certo tipo de clientela. Acompanhado por minha esposa e Gerald Gardner, nós três nos dirigimos ao apartamento da Sra. South após passarmos uma tarde com Gardner em seu apartamento em Ridgemount Terrace afastado da Tottenham Court Road. O rito exigia cinco pessoas e só poderia começar após a chegada de uma jovem senhora a quem a Sra. South estava aguardando para aquele propósito. Supunha-se que a jovem senhora era – como a própria Sra.South – bem versada nos aspectos mais profundos da feitiçaria. Eu não vou negar o fato de que sua feitiçaria provou ser genuína, mas que ela sabia menos ainda sobre a arte do que a Sra.South eu também não vou negar.

Gardner explicou que o propósito do rito era demonstrar sua habilidade em ‘trazer para baixo o poder’. Ele pretendia elevar uma corrente de energia mágica com o propósito de contatar certas inteligências extraterrestres com as quais eu estava, naquela ocasião,416 em rapport quase constante. O rito deveria consistir na circunvolução de nós cinco ao redor de um grande sigilo gravado em papel pergaminho que foi especialmente consagrado. O sigilo foi desenhado para meu uso por Austin Osman Spare que também estava, naquele tempo, ocupado em contatar extraterrestres. O sigilo seria mais tarde consumido na chama de uma vela disposta sobre um altar no quadrante norte do apartamento. À parte deste equipamento mágico, o aposento da Sra.South continha apenas duas ou três estantes de livros sobre feitiçaria e o ‘oculto’ em geral; eles foram sem dúvida importados por ela para emprestar um ar de autenticidade à suas buscas mais usuais.

Se o rito teria sido eficaz ou não fica aberto para questionamento. Ele foi interrompido antes da invocação inicial ter sido concluída. Esta consistia de uma circunvolução horária ao redor do altar com rapidez crescente em círculos que iam diminuindo. A campainha da porta da frente tocou subitamente nas profundezas da construção no restante deserta, primeiramente fraca, então de forma penetrante e insistentemente. O determinado visitante provou ser o proprietário de uma livraria ‘oculta’ situada numa distância não muito grande do apartamento da Sra.South. Contudo ao saber que eu estava no alto da escadaria o visitante decidiu não subir.417 Ele saiu e então meteu-se na vaga névoa de Novembro que mais tarde naquela noite se desenvolveu em um bom fog (nevoeiro) Londrino à moda antiga.

O objetivo deste relato é ilustrar um fato curioso característico da estranha maneira na qual a magia(k) freqüentemente funciona. O sigilo que deveria ter formado o foco da Operação aquela noite era o de um espírito particularmente potente, que teria sido indubitavelmente descrito por Gardner e a Sra. South como essencialmente ‘fálico’. Este fato é importante, pois logo após a cerimônia abortada a Sra. South morreu sob circunstâncias misteriosas; o casamento do dono da livraria se desintegrou violentamente e ele também morreu logo após. O próprio Gerald Gardner não demorou em seguir o exemplo(?). Mas o alto edifício mais tarde erguido sobre o local que estes magos frequentavam é no meu entender um monumento adequado à futilidade daquela Operação noturna.

Fui induzido à lembrar de fazer este relato sobre um rito mágico que deu errado devido à uma declaração feita por Ithell Colquhoun que reconhece na Torre do Correio um monumento à magia de MacGregor Mathers, algumas de cujas atividades foram concentradas naquela região de Londres.418 A premissa pode ser absurda, mas deve ser lembrado que os surrealistas, dos quais Ithell Colqhoun era um, penetraram muitos mistérios mágicos que escaparam aos praticantes e investigadores mais prosaicos. Os casos de Centre Point e a Torre do Correio (ambas formas da Torre Mágica discutida no presente capítulo) conduzem logicamente ao simbolismo da Torre que penetra os Trabalhos de vários ocultistas contemporâneos que operam independentemente uns dos outros.

Durante os últimos anos recentes o presente escritor tem recebido cartas de pessoas e grupos mágicos de todo o mundo, e talvez não seja surpreendente – em vista da natureza comum de nossas pesquisas – que certos símbolos dominantes devam recorrer. Por exemplo, o Liber Pennae Praenumbra que foi recentemente recebido por Adeptos em Ohio, EUA, está permeado com os símbolos mostrados no vívido delinear de Allen Holub de O Abutre na Torre do Silêncio (vide ilustração 8): O Abutre de Maat, a Abelha de Sekhet, a Torre do Silêncio, e a Serpente cujas espirais formam a palavra IPSOS.

Um outro grupo independente de Adeptos em Nova Iorque, conduzido por Soror Tanith da O.T.O., também recebeu símbolos idênticos, dos quais a Torre do Silêncio e a Abelha de Sekhet são os predominantes. A transmissão à Soror Tanith foi emitida por uma entidade extraterrestre conhecida como LAM que foi anteriormente contatada por Crowley em 1919.419

O líder do Culto da Serpente Negra, Michael Bertiaux, também contatou LAM enquanto operava com a Corrente Bön-Pa Tibetana nos anos sessenta.420 Em todas estas invocações e operações mágicas, o simbolismo acima descrito tem sido predominante, o que sugere que em todos os três locais (i.e. Ohio, Nova Iorque e Chicago) uma idêntica energia oculta, entidade ou raio, está irradiando vibrações em conformidade com os símbolos de Mu ou Maat e podem portanto proceder daquele aeon futuro. Isso tende à confirmar a teoria de Frater Achad de que existe uma sobreposição provocada por uma ‘curvatura no tempo’ que está manifestando seu enrolar espiral conforme a antiga sabedoria,421 onde era simbolizada pelo abutre com o pescoço em espiral e pelo pescoço torto cujas peculiaridades físicas fizeram dele um totem ou símbolo senciente similarmente apto.

Outro totem, menos facilmente explicável, é a hiena. Como o abutre, a hiena é uma ‘besta de sangue’, mas apenas isso não responde por seu uso como um glifo zoomórfico na Tradição Draconiana. Segundo a antiga sabedoria a hiena só pode enxergar à direita ou à esquerda girando(?) ao redor de todo o seu corpo; i.e. ele não consegue virar sua cabeça. Ele é portanto de igual valência, simbolicamente, como o pescoço torto. Como um totem do abismo, a atribuição da hiena é por si evidente à respeito de esta povoar as criptas e tumbas do antigo Egito e se alimentar dos mortos. O simbolismo do deserto também se aplica. Na Índia o abutre e a hiena estão entre as bestas associadas com os ritos de Kali. O elemento tântrico do rito está então implícito.

Existem similaridades próximas entre os ritos Afro-Egípcios de Shaitan celebrados na Suméria e Acádia, e os posteriores ritos tântricos Indianos de Kali. O sabor distintamente mongol desses ritos observados por estudiosos422 é evidente no ethos(?) peculiar que permeia muito da literatura conectada aos Kaulas, que usam o bode, o porco, o abutre, a serpente, a aranha, o morcego, e outras bestas tipicamente Tifonianas em suas cerimônias sacrificiais. Existem também uma confraternidade secreta na América do Sul atualmente que mantém entre os devotos de seu círculo interno aqueles que atravessaram os Portais Intermediários(?) na forma-deus do morcego. Este é o zoótipo da besta de sangue vampira que está ligada ao simbolismo do abutre e da hiena. O morcego se pendura de ponta cabeça para dormir após se alimentar; a hiena é retromingent423; e o abutre, cujo pescoço torto sugere uma forma de ‘visão’ para trás, são determinativos ocultos daquela retroversão dos sentidos que torna possível o salto por cima do abismo. Este salto é um mergulho para trás através do vazio tempo-espaço de Daäth com o resultado de que o fundo salta fora do mundo do Adepto que o ensaia. Sax Rohmer, que foi uma vez um membro da Golden Dawn,424 faz uma alusão de passagem à este culto em seu romance Asa de Morcego (Batwing), e embora ele prejudique o efeito de sua estória ao recorrer ao truque literário vulgar de uma solução mecanicista, ele não obstante se refere à um culto real quando ele diz:

Enquanto que serpentes e escorpiões tem sido sempre reconhecidos como sagrados por cultuadores do Voodoo, o real emblema de sua religião impura é o morcego, especialmente o morcego vampiro da América do Sul.425

Rohmer, como H.P.Lovecraft, tinha experiência direta e contínua dos planos internos, e ambos estabeleceram contato com entidades não-espaciais. Além do mais, estes dois escritores recuaram – em seus romances e em suas correspondências privadas respectivamente – do atual confronto com entidades que são facilmente reconhecíveis como os enviados de Choronzon-Shugal. As máscaras destas entidades adquiriram uma qualidade de tal clareza forçada que nem Rohmer nem Lovecraft eram capazes de encarar o que jaz abaixo. Ainda assim o repúdio insuperável inspirado por tais contatos ocultavam potencial mágico, comprimido e explosivo, o que tornou estes dois escritores mestres em seus respectivos ramos de ocultismo criativo.

Não há dúvidas que escritores como Sax Rohmer, H.P.Lovecraft, Arthur Machen, Algernon Blackwood, Charles Williams, Dion Fortune, etc., trouxeram influências poderosas para serem ostentadas sobre o cenário ocultista através de seus vários esboços das Qliphoth. A fórmula do abismo, por exemplo, tem sido incomparavelmente expressa em alegoria pelo simbolismo do salto mortal psicológico descrito por Charles Williams (em Descida ao Inferno) que usa as linhas assombrosas:

O Mago Zoroastro, meu filho morto,
Encontrou sua própria imagem caminhando no jardim.

como um tema para sua estória.

O ato de girar ou virar para trás é a fórmula implícita na antiga simbologia da bruxaria.426

Os familiares das bruxas, não menos que as formas-deuses assumidas pelos sacerdotes egípcios, foram adotadas de modo à transformar os praticantes, não nos animais em questão, mas em um estado de consciência que eles representavam no bestiário psicológico de poderes atávicos latentes no subconsciente. A fórmula é resumida por Austin Spare em seu sistema de feitiçaria sexual e ressurgência atávica que são os temas do Zoz Kia Cultus.427 Ithell Colquhoun situa corretamente este culto em seu arranjo contemporâneo como um ramo da O.T.O. e da ‘Feitiçaria Tradicional’,428 mas o Zoz Kia Cultus comporta um outro fio que se origina de influências mais antigas que qualquer uma que possa ser atribuída meramente à ‘feitiçaria tradicional’, o que quer que aquele termo possa significar. Estas influências emanam de cultos tais como aqueles que Lovecraft contatou na Nova Inglaterra via Feitiçaria de Salem que – por sua vez – tinha contato com correntes vastamente antigas que se manifestaram no complexo astral Ameríndio como as entidades ‘eldritch’(?) descritas por Lovecraft em seus contos de horror.

Tais também eram as entidades que Spare contatou através de ‘Black Eagle’.429 Black Eagle induziu em Spare a extrema vertigem que iniciou um pouco de sua mais fina obra. Spare ‘visualizou’ esta sensação de vertigem criativa num quadro entitulado Tragédia do Trapézio (ilustração 15) cujo tema ele repetiu em várias pinturas. A fórmula é essencial à sua feitiçaria.

O trapézio ou balanço era o vahana430 de Radha e Krishna, cujo jogo amoroso está associado à vertigem induzida pelo balançar das emoções e do cair (loucamente) em amor. Com Spare, contudo, o êxtase alcança sua apoteose através de uma sensação catastrófica de opressão esmagadora, de ser empurrado para baixo e mergulhar no abismo.

O balanço é idêntico ao berço que desempenha papel tão proeminente nos mistérios do Culto de Krishna Gopal.431 Porém muito antes de pré datar os ritos da criança negra, Krishna, haviam os ritos da criança negra Set, ou Harpocrates, o bebê dentro do ovo negro do Akasha.432 O Aeon da Criança433 é o Aeon do Bebê do Abismo, sendo que um de seus símbolos é o berço que simboliza o balanço ou travessia para o Aeon de Maat (Mu). Mu, 46, a Chave dos Mistérios, é também o número de MV (água, i.e. sangue) que é tipificado pelo abutre, a hiena, e outras ‘bestas de sangue’. Em termos mágicos, a sensação induzida no trapezista mergulhador é resumida por Spare numa fórmula pictórica à qual ele não deu nenhum nome particular, mas que pode ser descrita como a Fórmula da Vertigem Criativa. No seu quadro do trapezista a executante é feminina pois ela representa a personificação humana da Serpente de Fogo despertada. É o pé,434 e não a mão que é escolhido para instigar os meios da queda.

No Zoz Kia Cultus Spare exaltou a Mão e o Olho como os principais instrumentos de reificação. Isto quer dizer que ele exaltava uma fórmula mágica similar àquela que caracteriza o oitavo grau da O.T.O.435 Ainda assim ele percebeu que a suprema fórmula eficaz na transição do abismo é aquela que envolve não a mão, mas o ‘pé’. O pé está sob ou embaixo da mão e assim, simbolicamente, a mão ‘esquerda’ tipificada pela Mulher Escarlate, de cujos pés a poeira é o pó vermelho celebrado pelos Siddhas Tamil.436 A poeira vermelha, ou poeira do fogo, é a emanação nuclear da Serpente de Fogo em seu veloz deslocamento para cima, e ela conduz à iluminação em um sentido cósmico. Mas é necessário um processo adicional para admitir o Adepto às zonas do Não-Ser representadas pelo outro lado da Árvore da Vida que aterroriza o não-iniciado como sendo a Árvore da Morte.

Além do Abismo, sexualidade ou polaridade perdem todo o sentido. Isto explica porque, segundo a doutrina da Golden Dawn, os Adeptos além do Grau de 7o=4437 não eram mais encarnados. Por não existir nenhuma terminologia adequada (na Tradição Ocidental) para este estado de ocorrência podemos não mais do que nos referirmos, por meio de analogia, aos Mahapurusas da Tradição Hindu. Mahapurusas são seres não humanos que aparecem para os Adeptos no caminho espiritual. Um exemplo recente bem documentado de tal manifestação ocorreu na vida de Pagal Haranath.438 Ele era considerado como sendo uma encarnação de Krishna e uma reencarnação de Sri Caitanya, o bhakta439 do século 15 que inspirou os habitantes de Bengala pela intensidade e fervor de sua devoção à Krishna (Deus). À Pagal Haranath um Mahapurusa apareceu como uma forma radiante com luz gigantesca. O único paralelo ocidental (de anos recentes) que vem à mente é o relato muito citado do encontro de MacGregor Mathers com os ‘Chefes Secretos’ que ocorreu no Bois de Boulogne.440

Aleister Crowley em contradição à MacGregor Mathers, sustentava que os Adeptos de suprema realização algumas vezes permanecem de fato na carne; quer dizer, a experiência conhecida como ‘cruzar o abismo’ não comporta necessariamente a morte física. Isto é, naturalmente, bem conhecido no oriente, onde, em nosso próprio tempo, tem havido exemplos excepcionais tais como Sri Ramakrishna Paramahamsa, Sri Ramana Maharshi, Sri Sai Baba (de Shirdi), Sri Anandamayi Ma e Sri Anusaya Devi,441 para mencionar apenas uns poucos.

Tem sido refutado [o fato de] que Crowley não cruzou o Abismo com sucesso.442 Seja como for, certos iniciados ocidentais indubitavelmente conseguiram fazer esta travessia e isso está evidente em seus escritos. Embora um caso de opinião – e isto é aqui declarado como tal, e não mais – o mais importante dos Adeptos Ocidentais nesta categoria é aquele que escreve sob o pseudônimo de Wei Wu Wei. Seus livros devem ser elogiados como as excursões mais ricas, mais sutis e mais vivamente potentes para dentro do Vazio da Consciência Sem Forma, ainda assim reduzidas em palavras.

Notas:

392 Vide Página 116, nota 36.

393 Associada com a fórmula de IPSOS; vide Figura 8.

394 Via o meatus, uma boca inferior.

395 Maat = 442 = APMI ARTz = ‘o fim da terra’.

396 i.e. o subconsciente (Amenta).

397 IPSOS grafado como 760 é equivalente à ‘Empyreum’, o empíreo.

398 Em alguns maços de Taro este atu é conhecido como A Torre Destruída.

399 Tu obterás a ordem & valor do alfabeto Inglês; tu encontrarás novos símbolos aos quais as atribuirá’. (AL. II. 55).

400 O kala do Sol, atribuído à letra Teth, significando um ‘leão-serpente’.

401 O kala da Lua, atribuído à letra Qoph, significando ‘a parte de trás da cabeça’.

402 O número 109 é também aquele de OGVL, ‘círculo’, ‘esfera’; BQZ, ‘relâmpago’; e AHP, ‘Ar’.

403 Vide 777 Revisado: Significado dos [Números] Primos de 11 a 97.

404 Tiphareth; a Esfera do Santo Anjo Guardião.

405 Vide Diagrama 1, Cultos da Sombra.

406 Reeditado em 1974 pela 93 Publishing, Montreal.

407 Compare a palavra egípcia mai.

408 A-DM ou Adam foi feito da ‘terra vermelha’ (i.e. DM, sangue).

409 HBDLH (retalhando_?) = 46.

410 Compare com a palavra egípcia meh, ‘encher’, ‘cheio’, ‘completar’.

411 Paroketh também significa ‘uma nuvem’; uma referência à invisibilidade tradicionalmente assumida pelo deus masculino ao impregnar a virgem.

412 Em sua cópia pessoal do Liber XV (A Missa Gnóstica), Crowley explica hriliu como o ‘êxtase metafísico’ que acompanha o orgasmo sexual.

413 É interessante observar juntamente com o significado da palavra IPSOS, que Frater Achad chegou muito próximo à uma interpretação similar de sua própria fórmula do Aeon de Maat, a saber: Ma-Ion. Numa carta datada de 7 de Junho de 1948, ele escreve: ‘Por gentileza observe que em Sânscrito Ma = Not (Não). Na mesma linguagem ela também significa: ‘Mouth’ (‘Boca’).

414 Londres WC1.

415 O autor de dois livros sobre Feitiçaria que atraiu alguma atenção no tempo de sua publicação nos anos 50.

416 O incidente ocorreu durante o estágio formativo de uma loja da O.T.O. que eu havia fundado para o propósito de canalizar influências mágicas específicas desde uma fonte transplutoniana simbolizada por Nu-Isis.

417 Minha associação com Aleister Crowley não era desconhecida à ele.

418 Vide a Espada da Sabedoria: MacGregor Mathers e a Golden Dawn, por Ithell Colquhoun, Nevile Spearman, 1975. A Srta.Colqhoun observa que W.B.Yeats e outros foram iniciados na Rua Fitzroy, e comenta: ‘Hoje a Torre do Correio ofuscando a rua poderia, eu suponho, ser vista como uma projeção do poder de Hermes, aqui substituindo o de Isis- Urania’.(p.50).

419 Crowley também estava em Nova Iorque na ocasião em que ele estabeleceu contato com esta entidade. Uma gravura de LAM desenhada por Crowley aparece em O Renascer da Magia, ilustração 5. O desenho foi exibido originalmente em Greenwich Village em 1919 e publicada em O Equinócio Azul.

420 Vide Cultos da Sombra, capítulo 10.

421 Zoroastro (circa 1100 A.C.) estava bem consciente da misteriosa dobra do tempo que exercitou o talento de alguns dos mais perspicazes pensadores modernos. Ele descreveu Deus como tendo uma ‘força espiral’ e associou o hiato de tempo com a progressão dos aeons que retornavam à sua fonte de origem, assim reativando os atavismos primais da consciência primeva.

422 Vide Estudos sobre os Tantras , de Prabodh Chandra Bagchi.

423 Nota do Tradutor: Micção realizada ao contrário.

424 Segundo Cay Van Ash & Elizabeth Sax Rohmer. Vide Mestre da Vileza , capítulo 4. Ohio Popular Press, 1972.

425 Asa de Morcego, p.92.

426 Esta fórmula é equivalente ao nivritti marga hindu ou ‘caminho do retorno’, ou inversão dos sentidos à sua fonte em pura consciência. Ela é tipificada nos tantras como viparita maithuna, simbolizada pela união sexual de ponta cabeça.

427 Vide Imagens & Oráculos de Austin Osman Spare, Parte II.

428 Espada da Sabedoria (Colquhoun), capítulo 16.

429 Para uma imagem desta entidade, vide O Renascer da Magia, ilustração 12.

430 Este termo em Sanscrito denota um ‘veículo’ ou foco de força.

431 Culto da Criança Krishna.

432 Akasha, significando ‘Espírito’ou ‘Aethyr’(Éter), é o quinto elemento.

433 i.e. o Aeon de Hórus. Hórus ou Har significa a ‘criança’.

434 O simbolismo dos pés da deusa é explicado em Aleister Crowley & o Deus Oculto , capítulo 10.

435 A fórmula é aplicada por meio de auto-erotismo manual.

436 Vide A Religião e Filosofia de Tevaram, de D.Rangaswamy.

437 O Grau imediatamente precedente ao Abismo.

438 Sri Pagal Haranath, o ‘Louco’ ou ‘Doido’, viveu na Bengala Ocidental de 1865 a 19 27. Um relato da visita está contido em Shri Haranath: Seu Papel & Preceitos, de Vithaldas Nathabhai Mehta. Bombay, 1954. Tais manifestações ocorrendo nos tempos primitivos poderiam ter dado início ao conceito dos NPhLIM ou Gigantes. Vide capítulo 9, supra.

439 Devoto de Deus.

440 Citado em Aleister Crowley & o Deus Oculto, capítulo 1.

441 Os dois últimos Sábios estão, felizmente, ainda encarnados e na extensão do que sei, estão disponíveis para
darshan.

442 Frater Achad. Vide Cultos da Sombra, capítulo 8.

Revisão final: Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-boca-do-abutre/

A Verdadeira História do Necronomicon

“basta que um livro seja possível para que exista.”
– Jorge Luis Borges

Escrevendo sonhos…

 

Dentro dos contos que formam o Mito de Cthulhu, o leitor se depara com duas dimensões: o mundo humano normal e o Exterior infestado. É a tensão ontológica entre essas duas dimensões que dá poder ao Realismo Mágico Lovecraftiano. Apesar de Cthulhu e seus amigos possuírem aspectos materiais, a sua realidade é horrenda quando paramos para escutar o que ela diz a respeito do universo. Como o estudioso de Lovecraft, T.S. Joshi observa, os narradores dos contos de Lovecraft freqüentemente enlouquecem “não por causa de qualquer tipo de violência física nas mãos de entidades sobrenaturais, mas pela mera realização da existência de uma tal raça de deuses e seres”. Diante de “reinos cuja mera existência atordoa o cérebro”, eles experienciam graves dissonâncias cognitivas – precisamente os tipos de ruptura desorientadoras buscadas pelos magos do Caos.

O jogo RPG “O Chamado de Cthulhu” expressa maravilhosamente a violência desta mudança de paradigma Lovecraftiana. Em jogos de aventura como “Dungeons & Dragons”, uma das medidas mais significativas do seu personagem são seus pontos de dano – um número que determina quanto de punição física seu personagem pode receber antes de se ferir ou morrer. “O Chamado de Cthulhu” substitui esta característica física pela categoria psíquica da sanidade. Encontros face-a-face com Yog-Sothoth ou os insetos de Shaggai tira pontos de sua sanidade, e o mesmo acontece com a sua descoberta de mais informações sobre os Mito – quanto mais você descobrir a partir de livros ou cartas astrológicas, maior a chance de você acabar no Asilo de Arkham. Poder mágico também vêm com um preço irônico, um preço diante do qual os magos lovecraftianos deveria se acautelar. Se você usar qualquer um dos rituais presentes no De Vermis Mysteriis ou nos Manuscritos Pnakóticos, você necessariamente vai aprender mais sobre o Mito e, assim, perder mais um pouco da sua sanidade.

Os heróis acadêmicos de Lovecraft investigam o Mito não apenas se utilizando de leitura e pensamento mas também de movimentos através do espaço físico, e esta exploração psicológica atrai a mente do leitor diretamente para o loop. Normalmente, os leitores suspeitam que a verdade sombria do Mito enquanto o narrador ainda se apega a uma atitude cotidiana – uma técnica que sutilmente força o leitor a se identificar mais com o “Exterior” do que com a visão de mundo convencional do protagonista. Sob um ponto de vista mágico, a cegueira dos heróis de Lovecraft corresponde a um elemento crucial da teoria ocultista desenvolvida por Austin Osman Spare: o de que a magia age sobre e contra a mente consciente, que o pensamento comum deve ser silenciado, distraído, ou completamente perturbado para que a vontade ctônica possa se expressar.

Para conseguir invadir nosso plano, as entidades Lovecraftianas precisam de um portal, uma interface entre os mundos, e Lovecraft enfatiza dois: livros e sonhos. Para invadir o nosso avião, entidades de Lovecraft precisa de um portal, uma interface entre os mundos, e Lovecraft enfatiza dois: livros e sonhos. Em “Sonhos na Casa da Bruxa”, “A Sombra Fora do Tempo” e “A Sombra sobre Innsmouth”, sonhos infectam seus hospedeiros com uma virulência que se assemelha às posses psíquicas mais evidentes que ocorrem em “O Assombro Nas Trevas” e o “Caso de Charles Dexter Ward”. Como os próprios monstros, os sonhos de Lovecraft são forças autônomas rompendo do Exterior e engendrando sua própria realidade.

Mas esses sonhos também evocam um “Exterior” mais literal: a estranha vida de sonhos do prórpiro Lovecraft, uma vida que (como o fã informado sabe) inspirou diretamente alguns de seus contos. Semeando seus textos com seus próprios pesadelos, Lovecraft cria uma homologia autobiográfica entre ele e seus protagonistas. As próprias histórias começam a sonhar, o que significa que também o leitor situa-se no caminho da infecção.

Lovecraft se coloca em seus contos devárias maneiras – os protagonistas em primeira pessoa refletem aspectos de seu próprio estilo de vida recluso e livresco, a forma epistolar do “Um Sussurro nas Trevas” ecoa seu próprio compromisso com a troca regular de correspondência; nomes de personagens são tirados de amigos e a paisagem da Nova Inglaterra que é a sua própria. Esta auto-reflexão psíquica parcialmente explica por que os fãs de Lovecraft geralmente tornam-se fascinados com o próprio homem, um solitário recluso que tinha a correspondência como forma de socialização, exaltava o século XVIII e adotou a aparência e os maneirismos de um velho ranzinza. A vida de Lovecraft e, certamente, sua volumosa correspondência pessoal fazem parte de seu Mito.

Desta forma, Lovecraft solidifica assim sua realidade virtual ao adicionando elementos autobiográficos ao seu mundo compartilhado de criaturas, livros e mapas. Ele também cria uma aura de documentário ao tornar seus contos mais densos com manuscritos, recortes de jornais, citações eruditas, entradas de diário, cartas, e bibliografias que listam livros falsos ao lado de clássicos reais. Tudo isso produz a sensação de que “fora” de cada conto indivídual encontra-se um mundo meta-ficcional que paira à beira do nosso próprio, um mundo que, como os próprios monstros, está constantemente tentando romper nossa realidade para se tornar atual. E graças aos escritores que expandiram o Mito, aos RPG’s e magos sinistros, ele está conseguindo.

 

… e sonhando o Livro

 

Em “A Sombra Fora do Tempo”, Lovecraft torna explícita uma das equações fantásticas que impulsiona seu Realismo Mágico: a equivalência entre sonhos e livros. Por cinco anos o narrador, um professor de economia chamado Nathaniel Wingate Peaslee, é tomado por uma misteriosa “personalidade secundária.” Depois de recuperar sua identidade original, Peaslee é atormentado por sonhos poderosos em que ele se encontra em uma cidade estranha, habitando um enorme corpo brotando repleto de tentáculos, escrevendo a história do mundo ocidental moderno em um livro. No clímax do conto, Peaslee viagensja para o deserto australiano para explorar ruínas antigas enterradas sob as areias, lá ele descobre um livro escrito em Inglês, de próprio punho: o mesmo volume de que ele havia produzido dentro de seu corpo de sonho monstruoso.

Embora não tenhamos conhecimento de seu conteúdo, a não ser pequenos fragmentos, os grimórios diabólicos de Lovecraft são tão pestilentos que até mesmo olhar para os seus sigilos sinistros se mostra perigoso. Tal como acontece com os seus sonhos , estes textos se tornam obsessões para os protagonistas estudiosos de Lovecraft, chegando a um ponto em que os volumes, nas palavras de Christopher Frayling, “vampirizam o leitor”. Seus títulos, por si só, são palavras mágicas, os encantamentos alucinógenos de um antiquário excêntrico: os manuscritos Pnakóticos, o Papiro Ilarnet, o texto de R’lyeh, os Sete Livros Enigmáticos de Hsan. Os amigos de Lovecraft contribuiram com o De Vermis Mysteriis e o Unaussprechlichen Kulten de von Junzt, e Lovecraft batizou o autor de seu Cultes Des Goules de conde d’ Erlette, homenageando seu jovem fã August Derleth. Pairando sobre todos esses tomos sombrios está o “temível” e “proibido” Necronomicon, um livro de invocações blasfemas para acelerar o retorno dos Antigos. O fetiche intertextual supremo de Lovecraft, o Necronomicon, se destaca como um dos poucos livros míticos na literatura que tenham absorvido tanta atenção imaginativa que conseguiram se materializar, publicados, em nossa realidade.

Se os livros devem a sua vida não para os seus conteúdos individuais, mas para a rede intertextual de referências e citações dentro do qual são criados, então o temido Necronomicon claramente possui vida própria. Além de estudos literários, o Necronomicon tem gerado numerosas análises pseudo-eruditas, incluindo a “História do Necronomicon”, escrita pelo próprio Lovecraft. Uma série de perguntas frequentes podem ser encontrados na Internet – onde guerras costumam estourar periodicamente entre magos, os fãs de horror e especialistas em mitologia – sobre a realidade do livro. A entidade morta-viva à qual se refere o famoso par de versos do Necronomicon:

“Não está morto o que pode eternamente jazer,
Ainda, em eras estranhas, até a morte pode morrer”

pode ser nada mais nada menos do que o próprio texto em si, sempre à espreita nas margens da realidade.

 

A breve “História”, escrita por Lovecraft, foi aparentemente inspirada pelo primeiro Necronomicon falso: um estudo de uma edição do tomo temido, submetido ao Massachusetts Branford’s Review em 1934. Décadas mais tarde, cartões de índice para o livro começaram a aparecer em catálogos de bibliotecas universitárias .

É talvez o princípio do Realismo Mágico de Lovecraft,que torne possível que todas essas referências fantasmagóricas finalmente tenham manifestado o livro. Em 1973, uma edição de Al Azif (nome árabe do Necronomicon) apareceu, composto por oito páginas de uma imitação detexto sírio repetidas 24 vezes. Quatro anos depois Satanistas nova iorquinos da de Magickal Childe publicaram o Necronomicon de Simon, um saco de gatos repleto de mitos sumérios e quase nenhum material Lovecraftiano (embora o livro traga um aviso que porções foram “propositadamente deixadas de fora” para a “segurança do leitor” ). O Necronomicon de George Hay – também uma criança dos anos 1970, conhecido como O Livro dos Nomes Mortos, se mostrou o mais complexo, intrigante e lovecraftiano de sua época. No espírito pseudoerudito do mestre, Hay pareia as invocações fabulosas de Yog-Sothoth e Cthulhu com um conjunto de ensaios analíticos, literários e históricos.

Embora sejam comuns os magos que afirmam que mesmo o livro Simon faz maravilhas, as pseudo histórias dos vários Necronomicons são muito mais atraentes do que os próprios textos. O próprio Lovecraft ofereceu as bases sobre as quais a história do livro seria erguida: o texto foi escrito em 730 dC por um poeta, o louco árabe Abdul Al-hazred, recebendo seu nome dos sons noturnos dos insetos. Posteriormente, foi traduzido por Theodorus Philetas para o grego, por Olaus Wormius para o latim e por John Dee para o Inglês. Lovecraft lista várias bibliotecas e coleções particulares, onde fragmentos do volume residem, e insunua que o escritor de fantasia R.W. Chambers derivou o livro monstruoso e suprimido, citado em seu romance “O Rei de Amarelo” a partir de rumores do Necronomicon (Lovecraft chegou a dizer que obteve sua inspiração nos trabalhos de Chambers).

Todos os subseqüentes pseudo-histories do Necronomicon colocam e removem o livro da história real do ocultismo, com John Dee desempenhando um papel particularmente notável. Segundo Colin Wilson, a versão do texto publicado no Necronomicon de Hay fazia parte do texto cifrado em enoquiano de Dee, o Liber Logoaeth. O FAQ sobre o Necronomiconm escrito por Colin Low, afirma que Dee descobriu o livro na corte do rei Rodolfo II em Praga, e que foi sob a influência do livro que Dee e seu vidente, Edward Kelly, conseguiram seus mais poderosos encontros astrais. Nunca publicada, a tradução de Dee tornou-se parte da coleção célebre de Elias Ashmole, abrigado na Biblioteca Britânica. Foi lá que Crowley o leu, tirando livremente dele várias das passagens que usaria para escrever “O Livro da Lei”, de onde, finalmente, teria chegado até Lovecraft, graças a uma amante em comum que teria tido com Crowley: Sophia Greene – que chegou a se casar com Lovecraft. O papel de Crowley no conto de Low é apropriado, já que Crowley certamente conhecia o poder mágico de se combinar farsa com história.

A história do ocultismo é uma confabulação , ela se encontra apegada às suas genealogias, suas “verdades eternas e imutáveis”, fabricadas por revisionistas, loucos e gênios, suas tradições esotéricas são uma conspiração de influências em constante metamorfose. O Necronomicon não é a primeira ficção de gerar atividade mágica real dentro dessa zona de penumbra potente que se encontra entre a filologia e a fantasia.

Para dar um exemplo de uma época anterior, os manifestos Rosacruzes anônimos que apareceram pela primeira vez no início de do século XVII afirmavam se originar de uma irmandade secreta de Cristãos Herméticos que, finalmente, julgaram ser aquele o momento de sair da obscuridade. Muitos leitores imediatamente desejaram juntar-se ao grupo, no entanto é improvável que tal grupo tenha existido na época. Mas essa farsa trabalhou o desejo esotérico da época e inspirou uma explosão de grupos Rosacruzes “reais”. Apesar de um dos dois autores suspeitos dos manifestos, Johann Valentin Andreae, nunca ter assumido ou negado nada, ele fez referências veladas ao Rosacrucianismo como um “jogo engenhoso que uma pessoa disfarçada poderia gostar de brincar no cenário literária, especialmente em uma época apaixonada por tudo que fugisse do ordinário”. Tal como os manifestos Rosacruzes ou o Livro de Dzyan de Blavatsky, o Necronomicon de Lovecraft é o equivalente oculto da transmissão de rádio de Orson Welles da “Guerra dos Mundos”. Como o próprio Lovecraft escreveu: “Nenhuma história bizarra pode realmente causar terror se não for planejada com todo o cuidado e verossimilhança de uma farsa real”.

No “O Pêndulo de Foucault”, Umberto Eco sugere que a verdade esotérica é, talvez, nada mais do que uma teoria da conspiração semiótica, nascida de uma literatura auto-referencial infinitamente requentada – o tecido inter textual que Lovecraft tanto compreendia. Para aqueles que precisam fixar seus estados profundos de consciência em versões correspondentes objetivas, esta é uma acusação grave de “tradição”. Mas como os magos do caos continuam a nos relembrar, a magia não é nada mais do que a experiência subjetiva interagindo com uma matriz internamente consistente de sinais e efeitos. Na ausência de ortodoxia, tudo o que temos é o tantra dinâmico entre o texto e a percepção, da leitura e de sonho. Nos dias atuais a Grande Obra pode ser nada mais nada menos do que este “jogo engenhoso”, fabricando-se a si mesmo sem encerramento ou descanso, tecendo-se para fora do vazio resplandecente onde Azazoth se contorce em seu trono de Mandelbrot.

 

por Shub-Nigger, A Puta dos Mil Bodes

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-verdadeira-historia-do-necronomicon/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/a-verdadeira-historia-do-necronomicon/

Comodismo

Por que as pessoas se acostumam com o que não lhes faz bem? Acho a capacidade do ser humano se adaptar às adversidades fantástica, mas muito mal utilizada. Se você perguntar a um nativo da Islândia se ele é feliz, muito provavelmente vai dizer que sim, e que ama sua terra onde só tem gelo e ventos que queimam o rosto. Isso não é exatamente adaptação. Ele simplesmente nasceu ali e lhe falta parâmetros. Mas ,esse mesmo habitante pode ter ace$$o a outros países, como as Bahamas, e ainda assim preferir seu lugar gelado. Chega a ser irracional pra quem vê de fora, mas isso é costume, apego, afeição. Somente na mente daquela pessoa é que vamos encontrar os verdadeiros motivos que o mantém preso àquilo, porque na fria lógica não há a menor sustentação. Foi ali onde ele deu os primeiros passos, o primeiro beijo, onde há a lembrança de seus ancestrais, sua cultura, etc. É um apego sentimental.

Isso acontece muito em relacionamentos. Muitas vezes continuamos nos desgastando com nosso parceiro(a) e todos ao seu redor dizem “sai dessa, isso é loucura” e de fato toda a lógica aponta para o rompimento daquilo que só faz mal a eles e até mesmo aos que estão a seu redor. Mas, ainda assim, o vínculo permanece, todo construído a partir de sentimentos. Afinal, somos mesmo seres racionais? Fazemos julgamentos o tempo todo (isso é bom, aquilo é feio, aquilo é melhor, mais alto, mais baixo, etc.) só que não são baseados em coisas absolutas, que sirvam para todo ser humano. Nosso julgamento passa obrigatoriamente por nossos valores, sentimentos, experiências, enfim, pela nossa alma. Uma criança pode caminhar pra boca de um Leão que aparentemente era ameaçador pra todo e qualquer ser humano (não necessitando um conhecimento prévio de que aquele bicho vai lhe fazer mal). Mas, sabe-se lá que associação aquela mente fez? Não é exatamente o que acontece com o álcool e o fumo?

A Islândia foi um exemplo extremo. Mas podemos usar o mesmo raciocínio aqui no Brasil. Vivemos num país abençoado por Deus, com uma natureza exuberante, mas no meio de uma população de canibais. Um país de corda de caranguejos, todos se agarrando pra evitar que escapem da panela. É canibalismo no ambiente de trabalho, nas relações sociais, na violência desmedida nas ruas, na fome que assola uma parte gigantesca da população, enquanto uma minoria aumenta seus salários, etc. E vamos nos adaptando a isso com resignação, com o bom-humor característico do brasileiro, comprando a “carteira do ladrão”, achando natural que possamos estar mortos ao sair pra comprar pão, e que nossos “bem-nascidos” possam e devam andar com escolta e ter polícia na porta de casa, enquanto a maioria da população não tem. Tudo porque nos acostumamos a isso, através da aceitação do mal ao meu vizinho, através das repetidas notícias de violência na imprensa, e através de um comodismo que aceita absurdos dos menores aos maiores. Novas gerações simplesmente nascem acostumadas a esse mundo louco, e o tempo dos nossos bisavós, onde se “amarrava cachorro com linguiça”, torna-se apenas uma lenda distante, como uma Shangrilá.

Mas esse ainda não é o ponto onde quero chegar, que é algo que transcende as notícias de jornal e mesmo o nosso planeta. É sabido que existem pessoas que se acostumam a viver de esmola. Normalmente pensa-se que é o efeito da falta de emprego, da especialização, e tal. Mas tivemos exemplos dramáticos no Nordeste por conta do bolsa-escola, onde famílias que OUTRORA trabalhavam ficaram de braços cruzados por acostumar-se a uma mixaria que o governos lhes dá. E ainda procuram botar mais filhos no mundo pra “aumentar a renda”. Isso é um fato, distante pra maoria (que pode dizer o clássico “o que eu tenho a ver com isso?). O que quero alertar, dentro do espírito do Saindo da Matrix, é que, E SE nos acostumamos de tal forma ao planeta Terra que deixamos nosso verdadeiro lar, nosso “paraíso” e nossos sonhos e potencialidades pra trás, justamente por nos acostumar-mos a uma “esmola” fácil e duradoura? Acostumados a um lugar onde o amor é uma coisa contraditória, hora animalesca e regida por instintos, ora Divina e transcedental? E SE hoje usamos uma couraça que limita nossos movimentos, mas que por outro lado é “fácil de usar” e nivela todos por baixo, e nos acostumamos com isso a ponto de esquecer nosso verdadeiro “corpo”? E SE fizemos como os norte-americanos pós-11 de setembro, um povo altamente endividado com as ações do passado e que termina por ter de abdicar de sua liberdade em favor de um ditador que “cuide” deles? E o pior, E SE ainda cultuássemos essa entidade protetora como um DEUS?

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/comodismo

A Mansão Winchester – Parte 1

Rev. Obito

Quando era criança meu pai gostava de brincar de quebra-cabeças e fazer contas. Às vezes ele dizia: se você ficar entre 1 e 2 minutos sem respirar você desmaia. 10 minutos sem oxigênio e seu cérebro desliga, sem volta. Então, se eu prender você e te jogar nessa piscina, quanto tempo você tem para se soltar do cadeado e das correntes para conseguir nadar até a superfície e sair vivo da água?

Talvez hoje esse tipo de brincadeira seja questionado, mas aos 11 anos eu conseguia abrir quase todos os cadeados que via. Eu também conseguia resolver um cubo mágico em menos de 2 minutos, para outras crianças isso significava um nerd chato e sem vida ou futuro, para mim significava sobremesa e poder assistir os filmes que começavam depois da meia noite na tv.

Outra coisa que adorava era ler, quadrinhos especialmente. Claro que na época se os garotos mais velhos te pegassem com uma revistinha você virava saco de pancada, hoje elas viram filmes e se você não é #teamstark as pessoas olham com nojo para sua alma.

Assim, lá pelo fim da década de 1980, encontrei em uma banca a nova edição do Monstro do Pântano, escrita por Alan Moore. Aquilo era arte pura, uma obra de suspense sofisticado, era algo que eu precisava ler. A história no caso era sobre dois casais que se embrenhavam no meio do mato e chegavam a uma mansão assombrada.

A mansão, Alan Moore contava, ficava na cidade de São Miguel, na Califórnia, e havia sido construída pela viúva Amy Cambridge, com a fortuna que herdou de seu marido, o dono da companhia de armas de fogo Cambridge. Cambridge construíu a mansão sem plantas ou mapas, dizia que recebia dos fantasmas as instruções de como deveria construir, o que resultou em uma casa que era um labirinto bizarro, salas com treze lareiras, portas que se abriam para abismos ou para paredes de tijolos. Quartos construídos dentro de quartos, cômodos com alguns poucos metros quadrados de área com armários do tamanho de salões.

Lendo os quadrinhos o resumo do que havia acontecido era: o Sr. Cambridge, depois de fazer fortuna vendendo armas de fogo havia morrido e deixado tudo para a esposa. Ela passou a ser assombrada pelos fantasmas das pessoas mortas pelas armas, cowboys, índios, mexicanos, mendigos, suicidas, etc… Os fantasmas foram claros quando ela perguntou o que queriam:

“The sound of the hammers must never stop”

“O som dos martelos não deve nunca parar!”

Então ela contratou marceneiros que começaram a expandir a casa, trabalhando em turnos, 24 horas por dia, 7 dias por semanas, sem parar nunca. BANG! BANG! BANG!

Eventualmente a viuva morreu e só então as obras da casa pararam. Por causa de sua bizarrice arquitetônica a casa foi abandonada e estava caindo aos pedaços, mas cheia de fantasmas. E o som dos martelos havia parado.

Em inglês a coisa fica mais genial porque hammer significa tanto ‘martelo’, a ferramenta, quanto ‘cão’ aquela peça de metal que as pessoas puxavam para trás para engatilhar a arma. O som de um cão batendo também faz BANG, mas um tipo diferente de BANG.

Os casais se embrenham na casa, o horror acontece e não vou dar mais spoilers, ao invés disso você pode baixar aqui a edição original (em inglês) e se divertir.

Bom, como acontecia com quase tudo que lia de Moore aquilo grudou na minha mente. Uma mansão labirinto construída com instruções dadas pelos fantasmas que morreram como resultado da fortuna que era usada para construir a casa. Uma ode à morte e à loucura.

Muito tempo depois em uma conversa sobre lugares assombrados contei da casa para um grupo de amigos, não me lembrava dos detalhes “a mansão da viuva das armas de fogo”. Uma das amigas presentes respondeu arregalando os olhos: você já ouviu falar da Mansão Winchester? Eu não me lembrava do nome exato e concordei, o que eu puxava da memória ela completava com os próprios detalhes. “Uma boa história!” Eu terminei.

– História? Como assim? Ela existe de verdade!

E foi assim que aquele labirinto me puxou de volta para dentro de seus corredores. Voltei para casa depois de um tempo, cacei a revista e a reli, prestando atenção. Vi que claramente era chamada de mansão Cambridge, mas Moore avia deixado duas pistas:

1ª Um diálogo onde uma das personagens diz: Look, really, it’s not a joke. The Cambridge Repeater was a sort of a second-rate copy of the winchester.

Ou

Olhem, é verdade, isso não é uma piada. O rifle Cambridge foi tipo uma imitação barata do Winchester.

2ª Nunca existiu uma marca Cambridge de rifles, mas o escritor e artistas eram ingleses e Cambridge é uma cidade universitária muito popular do Reino Unido que fica a uma boa distância de Winchester.

Eventualmente, depois dos anos 1990 e início no admirável milênio novo a Mansão Winchester se tornou popular de novo. Aparece em uma série de programas de caçadores de fantasmas, desbancados de mitos e gurus psíquicos. Haviam liberdades poéticas entre a mansão de verdade e a dos quadrinhos. Ambas estavam localizadas na Califórnia, a de Moore em São Miguel a real em São José. Todas as bizarrices do quadrinho existiam na casa real, salas com inúmeras lareiras, portas que levavam a lugar nenhum, os corredores labirínticos e claro, a história da assombração.

Durante anos a fascinação que aquela casa exerceu em mim me levou a estudá-la, sua história, suas lendas e principalmente seu propósito. O que levaria alguém a construir uma casa do tamanho de uma vila com detalhes tão bizarros? A resposta simples “loucura e/ou fantasmas” não me satisfazia, a lógica, mesmo que insana, não fazia sentido. Nessa matemática a conta tinha variáveis demais ou de menos.

(Para entender como funciona a matemática aplicada a essas loucuras você pode ler este textinho)

Então não tive outra opção a não ser arregaçar as mangas, vestir as calças, colocar a cueca e ir atrás de resolver esse problema. Este texto é o resultado do constrangimento de sair correndo pelas ruas, bibliotecas e até mesmo outro país com a cueca por cima das calças.

OS FATOS

A Mansão Winchester, ou Winchester Mystery House, se tornou uma atração turística. Ela se encontra no número 525 South,em Winchester Blvd. in San José, Califórnia. A construção é impressionante.

Quando você entra para fazer a tour – paga, é claro – pode pegar uma pequena brochura que traz alguns fatos sobre a casa, o mesmo texto hoje se encontra disponível no site deles <https://winchestermysteryhouse.com/>, no site também é possível fazer um tour virtual – pago, é claro. A brochura nos diz:

É UMA MARAVILHA

A Winchester Mystery House® é uma maravilha arquitetônica e um marco histórico em San José, Califórnia, que já foi a residência pessoal de Sarah Lockwood Pardee Winchester, a viúva de William Wirt Winchester e herdeira de grande parte da fortuna da Winchester® Repeating Arms.

A tragédia se abateu sobre Sarah – sua filha morreu de uma doença infantil e, alguns anos depois, seu marido foi tirado dela por tuberculose.

A MUDANÇA PARA O OESTE

Pouco depois da morte de seu marido, Sarah deixou sua casa em New Haven, CT e mudou-se para o oeste para San José, CA. Lá, ela comprou uma casa de fazenda com oito quartos e começou o que só poderia ser descrito como a mais longa reforma doméstica do mundo, parando apenas quando Sarah faleceu em 5 de setembro de 1922.

ESTES SÃO OS FATOS

De 1886 a 1922, a construção aparentemente nunca cessou, já que a casa da fazenda original de oito quartos se transformou na mansão mais incomum e ampla do mundo, apresentando:

2.230m2 de área construída
10.000 janelas
2.000 portas
160 quartos
52 claraboias
47 escadas e lareiras
17 chaminés
13 banheiros
6 cozinhas

O custo da construção foi de U$5 milhões de dólares em 1923 ou U$71 milhões hoje.

É UM MISTÉRIO

Mas o que restou é realmente um mistério. Mesmo antes de sua morte, rumores de uma “casa misteriosa” sendo construída por uma mulher rica e excêntrica circulavam. Ela foi instruída a construir esta casa por um médium? Ela foi assombrada pelos fantasmas daqueles abatidos pela “Arma que Venceu o Oeste”? A construção realmente nunca parou? O que motivou uma socialite bem-educada a se isolar do resto do mundo e se concentrar quase exclusivamente na construção da mansão mais bonita e bizarra do mundo?

À FRENTE DE SEU TEMPO

Sarah Winchester foi uma mulher independente, energética e corajosa que até hoje vive em lendas. E a mansão que ela construiu é mundialmente conhecida tanto pelas muitas curiosidades e inovações de design (muitas à frente de seu tempo) quanto pelas atividades paranormais relatadas que ocorrem dentro dessas paredes.

Esses mistérios e muito mais já atraíram mais de 12 milhões de visitantes a visitar a Winchester Mystery House® desde que as portas foram abertas em 30 de junho de 1923. Você será capaz de desvendar o mistério?

Isso resume o mistério a cerca da casa – se bem que vendo as fotos, chamar aquilo de casa é como chamar um elefante de piolho. Ele foi criado com base em lendas e mitos gerados pela excentricidade do projeto.

AS LENDAS

Alan Moore resumiu todas as lendas de maneira bem rápida e poética na história do Monstro do Pântano, depois em 2018 a Lions Gate lançou o filme A Maldição da Casa Winchester (você pode ver o trailer aqui) que além de dar uma mão de tinta moderna nas superstições foi filmado na mansão verdadeira! As cenas que mostram os cômodos e corredores são muito mais belos do que as feitas pelas dezenas de programas sobrenaturais [1], vale a pena ser visto nem que seja para se sentir o tamanho da casa.

Seria impossível tentar reunir em um único texto com menos de 10 volumes tudo o que já disseram sobre a mansão, mas em linhas gerais isso é o que popularmente se acredita:

Hoje a mansão é conhecida como a Winchester Mystery House, mas nas décadas em que estava sendo construído ela era simplesmente a casa de Sarah Winchester.

Sarah era a viuva de William Wirt Winchester, herdeiro da Companhia de Armas Winchester.

Ela nasceu em 1840 – aproximadamente – e cresceu em um mundo de privilégios. Ela falava quatro línguas, frequentava as melhores escolas, se casou bem e chegou a ter uma filha, Annie, aparentemente a vida que todos pedem a Deus. O problema é que Deus tem um senso de humor bizarro e sua filha morreu, logo em seguida foi a vez de seu marido.

Com a morte do marido Sarah herdou aproximadamente U$20 milhões de dólares (mais ou menos U$500 milhões hoje em dia), 50% das ações da empresa que lhe rendia uns U$1000 dólares por dia (ou U$26.000 dólares hoje em dia). Credo, que delícia!

Mas além de mais dinheiro do que poderia queimar, Sarah herdou uma tristeza profunda, depressão e tudo mais que acompanhava o luto de uma mulher do fim do século XIX que perde o único pilar de sua vida: a companhia e o controle de um homem!

Assim ela fez a única coisa que uma mulher como ela poderia fazer, se envolveu com o espiritismo. Começou a realizar sessões espíritas se consultava com médiuns (todos homens, é claro) e buscava entre os mortos a resposta para os problemas de sua vida, não é de se admirar que tenha obtido sucesso.

Contratando os serviços do melhor Médium Psíquico que uma fortuna descomunal poderia pagar Sarah chegou a Adam Coons. Adam conseguiu entrar em contato com William (obviamente Sarah não pediu para falar com filha, provavelmente porque ela também havia sido uma mulher do século XIX) e as notícias não eram boas. Sarah estava sendo amaldiçoada por cada ser vivo que já havia sido morto por uma arma Winchester.

Durante o século XIX houve uma corrida nos Estados Unidos para a criação de uma arma foda. Vários concorrentes desenvolviam seus projetos. Na época os rifles e revólveres disparavam uma bala por vez. Muitos ainda precisavam de pais para queimar a pólvora e disparar o projétil. Pensando em formas mais eficientes e rápidas para matar cada vez mais pessoas, H̶i̶t̶l̶e̶r̶ os americanos começaram a desenvolver novas munições que já traziam a pólvora e o projétil numa única peça e armas que disparassem essa munição cada vez mais rápido. E quem conseguisse isso estava com o futuro feito: o oeste americano estava sendo desbravado. Milhares de índios e mexicanos e búfalos malvados teimavam em não sair de lá e em atacar os pobres patriotas que queriam explorar o ouro e as terras que Deus havia lhes dado. Além desses inconvenientes o pais estava promovendo uma guerra civil que já durava meia década. O mercado precisava de armas melhores.

Oliver Winchester, um empresário e político – é claro – entrou em cena em 1866 e começou a produzir suas armas. O Modelo e, eventualmente o modelo 1873 foram campeões de venda, ficaram conhecidos como A Arma que Conquistou o Oeste. Isso tornou Oliver estupidamente rico até o dia de sua morte em dezembro de 1880. Seu filho William herdou a empresa e morreu quatro meses depois. E ai entra Sarah, que pegou o equivalente a uma Apple depois da volta de Steve Jobs.

Assim, na época da morte de William as armas Winchester já estavam matando, ferindo, aleijando e intimidando pessoas há mais de 24 anos, durante a conquista do oeste bravio e durante o final da guerra civil americana. Muita, muita gente mesmo já havia testemunhado a eficiência das armas que deram a Sarah sua fortuna. E todas essas pessoas queriam atormentá-la.

Coons então disse a Sarah que William pedia para que ela saísse sua casa em New Heaven, Connecticut, e fossa para a Califórnia. Então ela deveria usar sua fortuna para construir uma casa para os espíritos das vítimas da Winchester ou seria atormentada por eles a vida toda.

Em 1884 Sarah comprou uma casa de fazenda e o terreno ao redor, contratou carpinteiros e trabalhou para construir sua cidadela de 7 andares de altura. Ela não tinha plantas, planos ou arquitetos, ela ia instruindo os carpinteiros conforme os fantasmas a iam instruindo, assim cômodos eram construídos do lado de fora da casa, fazendo com que a janela de um quarto desse para dentro de outro quarto. Escadas eram erguidas, cada uma com degraus de tamanhos diferentes, e então interrompidas sem motivo, terminando no teto, levando a lugar algum. Portas eram colocadas e o próximo cômodo não era construído, elas davam para o lado de fora alguns andares acima do chão.

Um corredor começava a ser construído e então pediam mudanças no tamanho, e de novo, e de novo, até que se afunilavam e terminavam quando as paredes se encontravam. Cômodos eram ligados por passagens, cômodos prontos eram desmontados e paredes erguidas ali, muitas portas acabam se abrindo para revelar um muro de tijolos.

Mas a arquitetura não era a única excentricidade. Os fantasmas queriam que tudo fosse construído com madeira de sequoias gigantes mas Sarah não gostava da cor da madeira então ela mandou que pintassem todas as paredes – mais de 90.000 litros de tinta foram gastos – SÔÔÔÔ RIKAAAAAAA!

Além dos números já citados ela tinha dois porões, três elevadores, iluminação automática a gás, chuveiros e toda a tecnologia de ponta da época.

Candelabros de ouro e prata pendiam dos tetos, dúzias de painéis de cristal feitos pela Tiffany & Co. – todos desenhados por Sarah atendendo as ordem precisas dos fantasmas – preenchiam portas, janelas e painéis pela casa. Uma delas, colocada em uma das janelas, foi feita com o propósito de projetar um arco-íris no chão quando a luz do dia batesse no painel… claro que isso seria lindo se a janela não tivesse uma parede do outro lado.

Em 1904 um terremoto sacudiu San Jose, mas a Mansão Winchester havia sido erguida sobre uma base flutuante – uma fundação que distribui e equilibra o peso do solo ao redor, nada mal para uma mulher não arquiteta do século XIX – a casa ficou inteira… ou quase. Os três andares superiores sofreram algum s danos e acabaram sendo desmontados, deixando a mansão com os 4 andares que tem hoje (sem contar os porões).

A “sala Principal” era a sala onde Sarah continuava realizando sessões espíritas da meia noite às 2 da madrugada. Era enorme, tinha treze lareiras e uma mesa de carvalho redondo gigante no centro.

O cenário estava bem desenvolvido, preparado para começar a receber histórias.

Sarah nunca admitiu abertamente que estava construindo uma casa para fantasmas de pessoas assassinadas, mas alguns rumores começavam a nascer.

Os trabalhadores falavam das sessões diárias na sala dos espíritos, realizadas com médiuns locais, numa tentativa de atrair espíritos bons. Esses “espíritos bons” eram consultados para que ela se informasse sobre maneiras de melhor agradar aos espíritos para os quais ela estava construindo a casa, eram esses guias que diziam para Sarah fazer tantas adições aparentemente ilógicas ao seu projeto.

Dos 13 banheiros da casa, apenas um funcionava. Era uma tentativa de confundir espíritos que tentassem assombrar os encanamentos. Ela dormia cada noite em um quarto diferente, e usava suas passagens secretas para ir de um cômodo para outro, evitando os corredores principais.

Enquanto ela estava viva as histórias eram criativas, depois que ela morreu elas ficaram insanas. Os trabalhadores simplesmente largaram suas ferramentas, vários pregos ficando para fora das paredes, madeiras serradas pela metade.

Relatos de pessoas que invadiam a casa, tanto para roubá-la quanto para explorá-la e fugiam apavoradas, se tivessem a sorte de conseguir fugir, é claro, se tornaram lugar comum.

Gritos, choros, sons de marteladas (ou tiros) na casa vazia eram ouvidos por quem passasse por perto.

Sarah divide seus bens em seu testamento, menos um: a casa.

Apesar de seu tamanho e conteúdo ninguém queria comprá-la. Era bizarra demais. Sua sobrinha então retirou toda a mobília e a leiloou. Dizem que foram necessárias 6 semanas para esvaziar a casa. Depois de vazia um investidor local comprou a casa pela bagatela de US135.000 dólares. Apenas cinco meses depois da morte de Sarah a casa estava aberta para o público – embora não em sua totalidade. Muitas alas e cômodos permaneceram fechados, nunca ofereceram uma explicação. Com os anos as surpresas continuavam surgindo, de quando em quando um cômodo secreto era descoberto, cheio de surpresas como um órgão hidráulico, um sofá vitoriano, um armário de vestidos, uma máquina de costura e várias pinturas.

Muitos visitantes relatam sentir a presença dos espíritos dos mortos que moram lá e os guias estão cheios de histórias de acontecimentos e acidentes suspeitos. Como Sarah nunca deu entrevistas, nenhum diário jamais foi encontrado e nenhum parente quis comentar nada sobre ela o mistério persiste.

A PESQUISA

A história toda é fabulosa, um prato cheio para qualquer MindFreak, logo é óbvio que eu não teria como resistir a mergulhar de cabeça.

Se você leu os quadrinhos, assistiu ao trailer e leu tudo até aqui tem basicamente tudo o que eu tinha na época. Isso e uma dúvida que eu batizei em homenagem a outra casa incrível: a Dúvida Amityville!

O que é a Dúvida Amityville?

No dia 13 de novembro de 1974 Ronald DeFeo Jr. matou a tiros seis membros de sua família na casa em que viviam no número 112 da Ocean Avenue em Nova Iorque. Em novembro de 1975 ele foi declarado culpado e condenado. Em dezembro de 1975 George e Kathy Lutz compraram e se mudaram para a casa no estilo colonial holandês onde o crime aconteceu. Eles levaram o cachorro e os 3 filhos. 28 dias depois, os Lutz abandonaram a casa dizendo ser vítimas de atividades paranormais no local.

A história virou um livro escrito por Jay Anson que deu início a uma série de filmes sobre o assunto.

Claro que com o sucesso vieram as dúvidas, o livro, os filmes a família e o escritor passaram a ser alvos de críticas e processos dizendo que a história não era real. Até o padre que aparece na história deu depoimentos dizendo que o conteúdo do livro havia sido distorcido.

Em 1977 os Lutz começaram a processar de volta as pessoas e os meios de comunicação que desacreditavam a história. Mas ano a ano parecia que cada parágrafo do livro era desmentido. As marcas de arrombamento nas fechaduras e maçanetas, o quarto vermelho secreto que não parecia ser nada além de uma despensa, pegadas de bode na neve, marcas de fogo na parede ao redor da lareira, a casa sendo construída sobre um terreno onde originalmente os índios enviavam seus doentes mentais para morrerem, etc., etc., etc.

Com o tempo os Lutz se divorciaram, surgiram mais pessoas que afirmaram terem ajudado a criar a história que os Lutz contaram e que viraram o livro e a vida seguiu. Mas George se manteve firme a vida toda. Em um documentário do History Channel do ano 2000 entitulado Amityville: The Haunting and Amityville: Horror or Hoax? Ele afirmou “Acredito que isso permaneceu vivo por 25 anos porque é uma história verdadeira. Não significa que tudo o que já foi dito sobre isso seja verdade. Certamente não é uma farsa. É muito fácil chamar algo de embuste. Eu gostaria que fosse. Não é.”

Mas qualquer pessoa com acesso à internet e com um conhecimento mediano de inglês acha dezenas e dezenas de matérias que mostram que o casa todo foi inventado pelos Lutz, e isso deveria ser o ponto final para o assunto. Deveria… mas uma dúvida permanece, a Dúvida Amityville:

O livro escrito por Anson foi publicado em setembro de 1977. O primeiro filme sobre o caso estreiou em 1979.

Eu fico imaginando: o que levaria uma família e investir uma bela grana em uma casa e um mês depois sairem correndo feito loucos de lá?

Vamos imaginar que eles pensaram: podemos inventar que a casa é assombrada, vamos colocar cemitérios indígenas, um quarto secreto de sacrifícios satânicos (podemos falar que é na despensa) quartos com infestações de moscas, banheiros vazando ectoplasma, fantasmas nos atacando e tentando nos violentar, um demônio que nosso filho mais novo vê com cabeça de porco e acha que é um anjo, uma lareira assombrada por satã, experiências fora do corpo, cachorro agitado e louco, pegadas do diabo na neve, vizinhos que não chegam perto da casa, todo mundo ficando apático, as pessoas me confundindo fisicamente com DeFeo, portas que não se trancam, meio inferno marchando pela casa… ai nós saímos correndo e colhemos os frutos de nossa imaginação!

Mas que frutos seriam esses? Eles só conheceram Anson DEPOIS de sair da casa. Qualquer acordo financeiro de royalties só começariam a chegar de 2 a 4 anos depois deles saírem. Imagine quem iria querer pagar por uma casa onde um assassinato famoso aconteceu e depois foi possuída por Satã? Quem pagaria perto do que os Lutz tinham pago por um lugar maldito?
Como eles iam saber que a história que eles estavam inventando seria um sucesso?

Eles não permaneceram na casa enquanto o livro e filme aconteciam, eles fugiram anos antes. Por que? Se fossem uma casa herdada, ou um presente, talvez a piada fosse boa o suficiente para valer a pena (sem contar o bulling que as crianças sofreriam na escola, na família, etc…) mas eles pagaram pela casa, venderam o que tinham e se mudaram… e menos de um mês depois tinham fugido de lá. Por quê?

A Dúvida Amityville pode ser resumida assim: num caso de maluquice e birutice e enganação, geralmente o picareta não tem muito à perder e muito a ganhar com a história, mas em alguns casos acontece algo que, por mais pilantragem que aconteça depois, não justifica um dos atos da pessoa.

Os Lutz não tinham como saber que iriam encontrar um escritor, que o que ele fosse escrever iria se tornar um sucesso e que o livro viraria um filme. Então porque saíram da casa e a pintaram como o pior investimento do mundo se todo o dinheiro e crédito que tinham estava investido lá?

(Se quiser saber como qual nossa resposta para a Dúvida Amityville, além de um estudo bem minucioso sobre o caso, escreve ai nos comentários. Diabos… se tiver bastante gente curiosa de repente a gente até procura a editora que publicou o livro por aqui e podemos pensar em algum sorteio!)

E o que a Dúvida Amityville tem a ver com a Mansão Winchester?

Da mesma forma que algo não se encaixa na história de Amityville se ela for 100% invenção e pilantragem, algo não se encaixa na história da Mansão Winchester se ela for 100% loucura e paranóia.

Vamos imaginar que ela estivesse fazendo aquilo para chamar a atenção. Que fosse 100% sã e quisesse criar uma Disney paranormal. Então ela fez um trabalho porco. Construiu a casa até morrer, mas não fez nada além disso, deixou algumas pessoas inventarem lendas e depois ela virou uma atração turística.

Se ela queria criar uma atração turística… bem… na época dela ainda não havia uma Las Vegas para servir de exemplo, mas ela também fez um trabalho porco. Não deixou nada no testamento, apenas largou a casa quando morreu.

Se ela fosse louca e estivesse construindo uma casa aleatoriamente projetada por fantasmas do bem que estavam ensinando ela a construir uma armadilha para capturar fantasmas maus… por que tanto capricho em detalhes que passariam batidos? Os painéis de vidro que ela projetava, os lustres feitos de ouro e prata, os adereços da casa. Aquilo não era para fantasmas.

Algo, eu ainda não sabia o que, não se encaixava.

…continua na parte II

 

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-mansao-winchester/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/realismo-fantastico/a-mansao-winchester/