O Útero dos Anjos

– Uma homenagem às mulheres –

Figura ‘Yonitântrica” de Kali em pleno fluxo menstrual (Séc.XVII).

Por Katy Frisvold.

Há um tempo um comentário nesta mesma coluna me chamou a atenção, não só pela franca erudição do remetente, mas também pela graciosa comparação com Bruxaria Tradicional e a Magia Tradicional Salomônica. Nas palavras dele: “Me parece que a bruxaria tradicional se assenta sobre a mesma filosofia e cosmologia da magia grimórica, mas imagino que na sua tradição haja um trabalho maior com os chamados espíritos terrestres, o que a meu ver é interessantíssimo. De fato, há uma lacuna na tradição grimórica no que diz respeito a trabalhos com elementais e espíritos dos mortos (os ancestrais), e seria interessante ver como a bruxaria tradicional lida com isso.”

Na época em que este comentário foi feito, deixei disponível meu email de contato. Não achei que era momento de escrever um texto muito longo como resposta como fora a resposta anterior.  As férias se passaram e estes são assuntos que ainda se apresentam muito pertinentes e que eu gostaria de desdobrar um pouco mais, de forma em que percebo este questionamento uma forma de clarear alguns assuntos àqueles que apreciam a abordagem teológica mais simples e pragmática. Isto porque a abordagem não recorre aos Doutos Mestres de outrora, mas na simples compreensão daquelas que foram caladas por séculos de repressão patriarcal.

A classificação bipartida da magia geralmente se apóia em “celestial x infernal” e “alta x baixa”, comumente compreendendo “celestial” como algo superior e sagrado e “infernal” como algo diabólico, ou do mal. Hoje alguns conseguem sair deste território ignorante, mas esta ainda é uma teoria muito vigente quando falamos de “baixa magia”, graças ao dualismo reinante nas culturas cristianizadas. Dentro da miríade de mundos e possibilidades, criou-se então uma dicotomia absurda ainda adotada por muitos magos, e “baixa magia” se tornou um rótulo negro às artes que lidam com o fator humano, a corporeidade e a noção de mortalidade.

O que alguns parecem desconhecer é que por “baixa magia” abarca-se toda a magia telúrica, todos os espelhos celestes (tais como os oráculos compostos de elementos naturais, ou seja, de pedra, areia, nas águas, etc.), bem como a comunhão entre vivos, mortos e seres intermediários entre mundos, como manifestações naturais e os chamados “anjos caídos”, ou seja, aqueles anjos que operam em nossa esfera e que conhecem a humanidade muito proximamente.

Da mesma forma em que Eruditos, Astrólogos e Magos necessariamente se apóiam em Tradição, o mesmo se dá àqueles que hoje são denominados Bruxos Tradicionais. Um Bruxo Tradicional se apóia à Tradição enquanto dá foco à magia mais imediata em seu reino, bem como em reinos próximos e paralelos ao humano, ou seja, ao aspecto mais “feiticeiro” ou “anímico” da Tradição.

Para quem opera nestas premissas, “Terra” ou “Inferno” são tão diferentes quanto “respirar” e “não respirar”. Ambos os reinos se localizariam no mesmo lugar: sob a abóboda celeste. Assim a tal “lacuna” na magia grimórica refere-se pura e simplesmente na compreensão entre o mundo que “respira” e o que “não respira”, ou seja, o mundo logo abaixo de nossos pés, os mortos em cujos ombros nos sustentamos. Segundo a Tradição, nossa “Memória” é composta especificamente pelos nossos antepassados e ancestrais. Antepassados e Ancestrais são História, são os chamados Mortos Poderosos, ideais míticos e exemplos de como a vida repete padrões cíclicos, são o “expirar”, e nós, vivos, somos Aspiração e Respiração. Devir e processo.

“Sheela Na Gig” – Quantas representações sagradas são necessárias para relembrar o portal de homens e anjos?

A compreensão sobre o mundo dos mortos e vivos como paralelos e não necessariamente locais de sofrimento sempre foi um assunto espinhoso para aqueles que unicamente “aspiram” a ida – ou retorno – ao Éden. Para estes, o Homem deverá mortificar a carne para se tornar digno de um extremo bem, enquanto a humanidade comum pavimenta seu caminho rumo ao extremo mal. Mas a própria visão do que seja o Inferno foi algo que mudou através dos tempos, fosse por influências literárias ou por interesses político-religiosos. “Inferno”, ou Mundo Subterrâneo, na acepção de boa parte dos povos primitivos, era simplesmente a “morada dos mortos”, o Castelo dos nossos Ancestrais, ou o lugar onde encontramos aqueles que nos são queridos e vinculados pela consangüinidade ou alma. Então, não, os Bruxos não “aspiram” o inferno de fogo e sofrimento tão propagado por alguns. Nem os Bruxos Tradicionais se apóiam em um mundo dualista – pelo contrário, como a Tradição sugere, monismo qualificado seria a forma mais acurada de explicar a idéia cosmológica de um Bruxo.

De acordo com certos grimórios, os anjos teriam caído de amor pelas mulheres. Eles teriam caído no reino de possibilidades, dos desdobramentos da Sabedoria Divina – com toda a sua ambivalência -, pois não há um reino, ser, palavra ou ação que não esteja no Plano Divino.

Tenho certeza que neste momento encontramos alguns Magos coçando a cabeça e pensando no quão similar isto tudo soa. Mas aparte os comuns preconceitos, todo Sábio – não interessa se chamado de Mago ou de Bruxo – opera nas duas vias em busca da União Mística, ao Criador(a) através da Natureza, ou como chamamos “Natureza Perfeita”.

As Três Bruxas de Macbeth – As bruxas figuram aqui com suas forquilhas – que também representam o “pé da bruxa”, (cerca de 1948, dirigido e estrelado por Orson Welles)

Na Bruxaria encontramos não a Trindade, mas o Quaternário Sagrado, o da manifestação, que ocorre entre Pai, Mãe, Miguel e Satanael, tão replicado em temas como Caim e Abel ou Judas e Jesus. Tudo isto se reflete na figura do “pé da bruxa” e na forquilha, que fortifica a constante memória de nossa condição e a aceitação plena dos nossos daemons.

E é justamente aqui que encontramos as “heresias” como a dos Bogomilos, que relegam a carne ao reino de uma “amada sombra divina”, e daí, ao Homem. Fora dos confinamentos “heréticos”, a mulher sempre foi satanizada por ser o portal, o “templo” onde anjos ganham corpo, pois é no útero, em última instância, onde eles “caem”.

Como representante desta Mãe do quaternário, está a terra onde vivemos – o corpo que sangra pelos seus filhos. Sua conexão maior se encontra na mulher, a bruxa, consolatrix e progenitora última de homens e anjos, cuja linguagem não se desvela completamente ao homem puramente celestial, mas naqueles que são de carne, osso e sangue.  Bruxas são as domadoras do fogo dos homens, preservadoras da Memória dos Mortos, Mães e Consoladoras, e como tal, são capazes de absoluta amoralidade: a única lei é ensinada pela única professora possível – a Natureza.

Os homens são movidos por impulsos celestes, são o fogo e o sopro que alimenta fogo. Enquanto a dor tem sido a condição mais celebrada quando falamos da saudade idílica reservada a Adão, do outro lado, para a Mulher, a Bruxa, o equilíbrio é a chave mestra de toda a magia da vida, e assim, o prazer é também reconhecido como inerente ao carnal. Negue sua mãe, negue sua corporeidade e você não deveria estar aqui para contar história, para sentir dor ou prazer, para amar ou sentir saudades. É tudo uma questão de “exercício”, e não de “exorcismo”.

Como aquela que traz do imanifesto ao manifesto, por séculos e séculos pisada, acusada e lançada nos recônditos sociais e morais, agora é o momento de seu ressurgimento e reconhecimento. A Mãe última não pede sua dor, mas por equilíbrio entre os mundos. Honre-a e o sagrado portal aos reinos celestes estará sempre aberto ao justo peregrino!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-%C3%BAtero-dos-anjos

Boys Don’t Cry – The Cure

Em tempos de animosidade entre cristãos e árabes,   o que pode ser melhor do que achar uma canção em que o protagonista conta uma história em que ele manda um filho de alá de volta para o berço celestial de Maomé ? O The Cure sempre se achou muito mais assombroso e ameaçador em suas composições do que a maioria dos gótico-satanistas de plantão.

Não deixa de ser verdade, bandas como o The Cure, Bauhaus e Sisters Of Mercy sempre tiveram muito mais profundidade e conteúdo do que a maioria dos wannabes satanistas gritando sandices em latim em seus microfones cheio de perdigotos.

A canção, inspirada em um trabalho de Albert Camus gerou diversos protestos da comunidade árabe na Inglaterra, e até o hoje o fato é lembrado como um sinal da incapacidade de ambas as religiões se tolerarem.

Como diz Gavin Baddeley, o papa das culturas gótica e/ou satanista mescladas à cultura POP: as bandas do pós-punk como o The Cure são inegavelmente mais relevantes para nós do que a maioria daqueles que ostentam pentagramas no peito sem saber que neles, isto não passa de mera exposição de símbolos geométricos.

Andar com uma banana pendurada no pescoço teria o mesmo efeito.

Killing An Arab – The Cure

 

I’m Standing on a beach
With a gun in my hand
Staring at the sky
Staring at the sand
Staring down the barrel
At the arab on the ground
See his open mouth
But hear no soundI’m alive
I’m dead
I’m the stranger
Killing an arab

I can turn and walk away
Or I can fire the gun
Staring at the sky
Staring at the sun
Whichever I choose
It amounts to the same

Absolutely nothing

I’m alive
I’m dead
I’m the stranger
Killing an arab

Feel the steel butt jump
Smooth in my hand
Staring at the sea
Staring at the sand
Staring at myself
Reflected in the eyes of
The dead man on the beach

The dead man on the beach

I’m alive
I’m dead
I’m the stranger
Killing an arab

Tradução de Killing An Arab
(Matando um árabe)Parado na praia
Com uma arma em minha mão
Olhando fixamente para o mar
Olhando fixamente para a areia
Olhando fixamente para o cano
Do árabe no chão
Vejo sua boca aberta
Mas não escuto nenhum som
Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estranho
Matando um árabe
Eu posso voltar atrás
Ou eu posso abrir fogo com a arma
Olhando fixamente para o céu
Olhando fixamente para o sol
Qualquer escolha que eu faça
Tem a mesma importância
Absolutamente nenhuma
Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estranho
Matando um árabe
Senti a arma disparar
Acalmando minha mão
Olhando fixamente para o mar
Olhando fixamente par o sol
Olhando fixamente para eu mesmo
Refletindo nos olhos
O homem morto na praia
Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estranho
Matando um árabe

 

 

Nº 44 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/boys-dont-cry-the-cure/

APIKORSUS

m ensaio em diversas práticas de Magia do Caos da Lincoln Order of Neuromancers – L.O.O.N.
Compilado por SKaRaB, SNaKe, Sister Apple & Bro. Moebius B
Este é um livro cadeia. Recebendo-o, por favor o copie e passe-o para qualquer um.
Nenhuma maldição é invocada se você escolher não o fazer.
De qualquer forma nós ganhamos.

Todos os direitos reservados – 1986
Versão 2.11 distribua/adicione livremente.

Introdução

Alguns conceitos chaves são comuns a vários sistemas/tradiçõ es/paradigmas. Nós persuadimos o leitor a não rejeitar ou aceitar estas construções teóricas, mas a tentá-las e verificá-las por experiência pessoal. O todo está codificado dentro de cada um de seus constituintes – “Assim acima como abaixo.”

O todo é interconectado, e todas as totalidades relativas compartilham na consciência em vários níveis. O todo é auto-organizante, e a evolução de todas as formas é governada por princípios similares. Por meio de uma vontade treinada e direcionada, nós podemos afetar a mudança (probabilidade > possibilidade) em vários níveis de organização. Mudança é a única constante.

O todo é mais do que a soma de suas partes. Nossas crenças definem os limites de nossa experiência permitida. “Realidade do Cotidiano” não é o limite de nossa experiência – entrando em estados alterados de consciência nós podemos experimentar outras realidades.

As entidades que podem ser encontradas durante nossas experiÊncias destas outras realidades são reais dentro de seus próprios mundos. Questionar suas existências relativas é insignificante, uma vez que o universo comporta-se como se eles existissem. Habilidade Mágica é engedrada através de uma jornada interna e transformativa.

Gnosis

Gnosis é a chave para as habilidades mágicas – a realização de um intenso estado de consciência conhecido em várias tradições como ´Não-mente´, ´Foco único´ ou ´Sartori´. Consciência é esvaziada de toda informação exceto o objeto/sujeito da concentração. Vários métodos de alcançar gnosis podem ser empregados, da dança frenética à contemplação arrebatada de uma idéia. Qualquer que seja o método escolhido, o praticante continua-o até ele(a) ser levado(a) ao Êxtase.

Alcançar gnose pode resultar, para o orientado religiosamente, em ´experiências místicas´ – Visitações por Deuses, Demônios, ou a revelação de verdades divinas. Para o magista, entretanto, o conteúdo de tais momentos de gnosis são menos interessantes do que o que pode ser feito com eles – é durante momentos de gnosis: que sigilos podem ser lançados; que o magista pode alcançar diretamente níveis de tempo-espaço para manifestar sua vontade; que Deuses podem possuir seus devotos. Historicamente, muitas das técnicas de gnosis tem sido aumentadas pelo uso de drogas – dos ungüentos para voar das bruxas ao LSD e experimentos deprivatórios de sentidos de John Lilly.

Qualquer sistema ou tradição é incompleto enquanto ele permanecer uma curiosidade teórica. Estudo isolado é de pouco valor, a não ser que seja complementado com prática à respeito. Obras completas podem ser escritas ´explicando´ a natureza mágica de diversas entidades como Deusas, Demônios, ou Espíritos, mas elas não são substituto para a experiência ´real´ de uma deidade durante o curso de um ritual. Embora existe muita conversa sobre ´segredos mágicos´, os únicos ´verdadeiros´ segredos são aqueles que podem ser pessoalmente descobertos através da luz da experiência mágica direta. Estados alterados de consciência podem ser alcançados usando uma combinação de mudanças internas (o uso dos métodos de gnosis), e interação com outros, como na hipnose, ritual de grupo ou orgia.

 

Invocando Esquisitices

Meu antigo Adepto (instrutor) costumava me dizer ´Laddie, não existe nenhuma coisa que você não possa fazer se colocar sua mente nela. Então, distantes, nós fomos à completa realidade Golden Dawn para segurar a maré, à frente do mar em Bournemouth. Depois daquilo ele me fez fazer sigilos para fazer os cabelos de Harold Macmillan ficar na extremidade. Ele doou sua vida à magia (o instrutor), disse ele, depois de conhecer Crowley em um banho turco (sauna), mas ele tinha entusiasmo ilimitado que era contagioso. Você sentia que podia fazê-lo, não importa o quanto estúpido ou absurdo o fosse. Ele gostava muito de dizer “Se o reino dos céus está dentro de você, porque gastar mais do que R$50 em livros de ocultismo?” Aqui estão algumas das coisas que ele me fazia fazer: “Todas as coisas que conhecemos extrata no final em suposições, então reverta todas as declarações, ou ponha ´nãos´ nas assertivas e vire-as (n.t. aqui o autor usou o termo ´leap´, no sentido de ´solte-as´, ´arremesse-as´ , o tradutor preferiu uma tradução não literal para ´vire-as´ por achar mais adequado ao português) antes de olha-las. Acorde um dia e tente banir sua realidade diária – todas as coisas tornam-se novas, não familiares e totalmente frustrantes. Objetos se tornam intensos e assustadores.

Esteja errado. Gastamos muito tempo buscando por respostas ´corretas´, crenças certas, fazer o certo. Fazer certo = confiança = sucesso. Enfadonho! Esteja errado! ”

Deuses e Gurus.

Possessão por um Deus ou espírito permite você fazer coisas que ordinariamente não faria. Um guru prova que você pode caminhar em uma corda esticada sem cair, que você pode brincar no fundo de uma piscina sem se afogar. Insanidade parece ser um risco ocupacional de magistas. Melhor ser maluco agora e poupar tempo depois. Harpo Marx foi o maior shaman de Hollywood. Você conseguiria explodir uma luva de borracha e depois ordenha-la? Sanidade está ´lá fora´ antes do que na sua cabeça, uma vez que a maior parte das pessoas parece ver a si mesmas como mais louca do que o resto. Se dissermos muitos pensamentos loucos, somos trancafiados. Lembro de uma mulher no asilo local que dizia ser um passarinho na gaiola – ela tinha aprendido a ficar calada sobre isto, pois dizê-los aos outros só havia conseguido mais medicação e Eletro-choque para ela. Ser ´safo´ é ser sano – não expressando seus pensamentos loucos. Magia pode ser sobre deixar seus pensamentos loucos saírem para ver as ruas em grupos. Magia é uma coisa da rua. Magistas precisam ser vistos e ouvidos. A personalidade travessa de Crowley exemplificava isto, seguindo o caminho em zigue-zague de Cagliostro, Simon Magus e inumeráveis Shamans e bruxas de todo o mundo. Um bom magista toca para sua audiência, seja ele um shaman tribal fazendo ritual de IFÁ ou um feiticeiro da esquina fazendo talismãs anti-polícia de tampas de latas vazias. Aprenda a iludir, dançar, jogar ludicamente (n.t. tradução não literal para ´play Irish Stan-down´); estes são os verdadeiros poderes mágicos. Se você está realmente indo tornar-se um pequeno megalomaníaco ascendente, você pode também conseguir algumas risadas enquanto isto. Passe o Chapéu.”

Titã-Gnosis

Existe uma grande discussão no momento no assunto da mudança no Aeon, e da influência de várias ´Correntes´. Aparentemente algumas pessoas sentem que a era de Aquário – verdade, justiça, comidas sadias, não-nuclear (n.t. Guerra) e brincadeiras pagãs pacíficas é apenas, como nas esquinas … ´maan´ (n.t. o termo não tem tradução, mas é uma expressão de surpresa incrédula). De outro lado, a possibilidade do Novo Aeon ser governado por zumbis canibais radioativos também não pode ser eliminada totalmente.

O século XX está ocupado ressurgindo os titãs – os primais ´construtores´ dos cosmos que aparecem nos mitos da Criação sob vários modos – os Gigantes da mitologia Nórdica ou os Titãs Gregos por exemplo. Uma vez que estas forças Titãs tinham completado seus trabalhos, eles eram banidos ou mandados embora do cosmos ordenado, que era então povoado com todas as formas de entidades. Os Titãs estão sempre presentes, espreitando das beiradas da ´realidade´. Estas forças, tanto destrutivas e criativas, continuamente aparecem na literatura como o tema de conflito entre a razão e a natureza baixa, primária. O ´Sacerdote´ de tais mistérios é o autor H.P. Lovecraft, do qual os ´Antigos´ parecem reter uma fascinação contínua dos ocultistas, juntamente com vários outros panteões de Deuses Negros, Deuses da Morte …

O mito cíclico dos Titãs representa a catabólica força que propaga mudança em qualquer sistema, seja na escala universal ou subatômica. Eles são compreendidos estar dormentes ou sonhando e nisto estão em equilíbrio. Entretanto, quando um sistema envolve um certo grau de complexidade se torna incrementalmente instável, o que pode eventualmente levar tanto a evolução – o sistema ´evolui´ para uma ordem superior de complexidade, ou entra em colapso, destruindo-se. É nestes pontos críticos que os Titãs mais uma vez tornam-se ativos – quando um grande volume de instabilidade precisa ser construído, para que o salto evolucionário seja feito.

O desenvolvimento de tecnologia nuclear tem levado a um incremento súbito de pontos de acesso onde as esferas encontram-se entre nossa realidade ordenada e o Caos Primal dos Titãs. Os portões tem sido abertos, e a evolução de todas as entidades dentro da biosfera (tanto orgânica como elemental) está sendo afetada.

Enquanto o poder dos Titãs retorna, um novo sacerdócio tem surgido para adorá-los – os políticos obcecados por poder e seus numerosos seguidores. Como os magos inatos dos Mitos de Cthulhu, eles acreditam que os Titãs podem ser controlados, e que eles possuem os encantamentos para combinar e encadear as forças nucleares sem perigo. Desafortunadamente para eles ( e nós ), os Titãs são completamente amorais, não sendo conscientes como nós o conhecemos (n.t. a consciência). Nosso único ponto de interface com eles é através do assim chamado ´cérebro de Dragão´, com seus atavismos pré-verbais e conduções instintivas.

Titã-Gnosis é o nome que nós demos para a evolução em consciência que os Titãs estão gerando nos seres humanos enquanto suas ondas ativas atravessam nossa mente. A percepção cresce de que a sobrevivência humana ultrapassa todos os limites, ambos ideológicos e cultural; que é necessário viver melhor dentro da natureza melhor do que destruindo o ambiente. Parece que enquanto os Titãs agitam em sonhos de morte, mais próximos nós estamos de ´acordar´ em números maiores e maiores.

O ponto traiçoeiro acerca dos Titãs é que por enquanto, nós necessitamos deles se o salto evolucionário é para ser feito bem sucedidamente. Seu retorno (n.t. dos Titãs) é gerado pela corrente entrante que tem sido conceptualizada variadamente como 93, Ma´at ou Caos. Na análise final, os nomes e simbolismos utilizados não são tão importantes – eles são facetas de um mesmo processo (n.t. o retorno dos Titãs).

Magistas e outros visionários que estão atentos para a Titã- Gnosis e seus efeitos estão agora trabalhando ativamente como transportadores para estas energias. Evocação destas energias titânicas para dentro do ensejado espaço-tempo de alguém é uma jornada perigosa, ainda que existam aqueles podem aparentemente fazê-lo com impunidade. O uso de nomes, sigilos, e cantos são apenas parcialmente úteis, desde que os ´nomes´ dos Titãs formam a estrutura de nossa própria realidade.

NB: Este ensaio foi escrito seguindo uma série de trabalhos coincidentes com eventos precedentes a sucedentes ao desastre de Chernobyl.

Ego & Vontade

O conceito do Ego – a estrutura psíquica de auto-identificações, crenças, desejos e personificações é reconhecida como a base de nosso psico-cosmo. Um curioso mal-entendido tem emergido, de que o Ego é uma barreira para o desenvolvimento mágico – que isto (n.t. o ego) deve de alguma maneira ser derrubado ou destruído antes que alguém possa avançar na espiritualidade. Para alguns, parece que enquanto o ´desenvolvimento ocidental´ constrói o ego, os meios orientais baseiam-se em transcendÊncia do ego. Existe muita discussão de ´ser superior´ que aparece após o ego ter sido transcendido – este é um tema comum no assim chamado pensamento ´Nova Era´. A psique entretanto, não é uma entidade estática, e este tipo de coisa ´ego versus ser superior´ é um extravasamento da racionalista divisão ´corpo – mente´. Tentativas de se livrar do ego podem facilmente resultar em um desenvolvimento de um lado só, promovendo ambos auto-importância e atitude de ´mais santo que outros´. Evitar o assim chamado aspecto ´sombrio´ de d sejo humano resulta em uma caricatura superficial da potencialidade humana, uma gentileza que evita o sondar das profundezas da psique. Clareza de pensamento, insights e esforço são polidos com uma cobertura de felicidade.

Trabalhar com o ego é iniciar uma alquimia interior, cujo objetivo não é ´destruí-lo´, nem ´transcendê-lo´ , mas mover de um estado de fixação (ego-cêntrico) para uma condição de mutabilidade (exo- cêntrico), que é capaz de constante revisão e mudança. Isto é o que se diz com a frase ´lettin go´ (n.t. deixar ir), e de dissolver a idéia da mente como separada do mundo. O ego subsiste como um ponto de ´Eu´, que dá significado para a experiência, ainda que o conteúdo da psique torne-se mais fluído. De certa forma, é o ego que enraízanos no espaço-tempo – o equivalente psíquico de ter o senso de lugar, de ocupar um conjunto particular de coordenadas. A maioria de nossa experiência de realidade está no nível de objetos, corpos e eventos que parecem ser temporariamente separados. Nós experimentamos a nós mesmos como centros de vontade, percepção e ego.

Em contraste com o ego, a vontade mostra uma qualidade de vetor, e nisto ambas direção e magnitude. A vontade é a onde para as partículas do ego. Embora nós gostemos de pensar em nós mesmos como centros da intencionalidade, muito de nosso comportamento é resultado da ressonância vetorial – ondas ondulando através, aparecendo em nosso universo de tempo-espaço como eventos separados e experiências síncronas. A chave para a apropriada postura mágica é dada por Crowley em sua novela, Filho da Lua: “… o homem inteligente, assim chamado, o homem de talento, expulsa seu gênio pela construção de sua vontade consciente como uma entidade positiva. O real homem de gênio deliberadamente subordina-se a si mesmo, reduzindo-se em uma negativa e permite seu gênio brincar com ele como queira…”

O conceito Telêmico de realização da Verdadeira Vontade necessita de um desdobramento de consciÊncia da vontade como uma qualidade vetorial. Vontade impõe organização – ordem fora do ´caos do normal´ (Austin Osman Spare), e a realização da Verdadeira Vontade envolve uma ´obediência à atenção´ dos padrões evolucionários que governam o desenvolvimento humano. Vontade é uma propriedade emergente de nossa interação com o ambiente total – não pode ser isolada por nenhum elemento. Vontade, percepção e consciência – nós estamos imersos nelas da maneira que um peixe está imerso na água. Elas são propriedades emergentes da biosfera total de Gaia. Muita coisa por teoria. (n.t. – ´So much for theory´).

Como esta alquimia é concluída? A chave é integração – dissolver a fragmentação (n.t. separação) do corpo-mente, matéria-espírito. Entrar em uma dança ´ser-no-presente´ , imerso no corpo de Gaia, no interiro do universo. Vontade em qualquer nível é um princípio organizante – shakti-kundalini em espiral cria todas as formas. Portanto: Invoque sempre, sentindo todos os atos mágicos como uma passagem da Vontade através de você. Atenda à reconstrução contínua de seu psico-cosmo através doexaminar de crenças, desejos e atitudes. Busque união com tudo o que você tenha rejeitado. Pratique mágica como sua verdadeira sobrevivência dependesse disto. Esqueça tudo que lhe foi dito sobre o mundo, assuma nada e desenvolva seu próprio caminho. Coma mais bolinhos!

 

Sigilos

Sigilização é um método pelo qual um desejo/intençã o é codificado em uma forma não óbvia, i.e. um glifo ou figura que não imediatamente chama a mente a intenção original. Qualquer intenção mágica pode ser escrita e as letras misturadas para formar uma figura, mantra ou neologismo, que pode ser repetida
ou objeto de concentração até que ocorra gnosis. Alternativamente, o sigilo pode ser deixado de lado até que seu propósito original seja esquecido, e então lançado.

Durante gnosis ou momentos de grande sentimento emocional, o sigilo pode ser desenhado, visualizado e foco de feroz concentração, até a exclusão de todo o resto. Isto habilita a assim chamada mente subconsciente a ´reprogramar´ a realidade de acordo com a vontade. Uma vez que o sigilo é lançado, ele é
esquecido, para que a realização do desejo não seja impedida pela ´ânsia do resultado´.

A palavra, dita ou escrita, forma a maioria dos sigilos. É também válido experimentar codificar os desejos com aromas, gostos ou sons específicos. Sigilos podem trazer uma grande variedade de resultados, do mais abstrato ao mais ´mundano´. De alterar conteúdo de sonhos, a reformas de comportamentos e hábitos, a
arranjar consciências fortuitas.

Sigilos podem ser formados desta maneira independentemente de qualquer sistema planetário e outros símbolos, e podem ser lançados em rituais elaborados. Como um método de magia prática, ele é simples e elegante; sua efetividade pode ser descoberta através de experiÊncia pessoal.

Veja:
The Book of Results – Ray Sharin.
Liber Null – Peter Carroll.

Dançando no fio da navalha

Duelos mágicos deliberados entre feiticeiros são geralmente considerados ´magia negra´pelos ocidentais, enquanto combate mágico pode ser um caminho extremamente poderoso de trazer magistas ´aprendizes´ para completa operacionabilidade. Tais ´testes de ginástica´ podem ser encontrados nos desafios de pupilos Zen sobre mestres diversos, as explorações xamânicas de CArlos Castaneda ou Lynn Andrews, e na lenda de Nimue e Merlin.

Como parte de uma iniciação, pode ser esperado que o candidato defenda um local ou objeto, apesar de todos os esforços combinados do grupo em obtê-lo. Ataques mágicos de longo alcance podem empregar impulsos telepáticos destrutivos, projeção de formas pensamento ou magia simpática (bonecas voodoo ). Combate mágico deve ser diferenciado de ataque psíquico, no qual uma grande proporção de ocultistas se consideram estar, e é amplamente um produto de auto-desilusã o e degraus variáveis de megalomania.

Combates mágicos verdadeiros tem suas regras próprias e limites, que são conhecidos pelo expert, enquanto um aprendiz deve rapidamente aprende-las, se quiser evitar trauma. Preso em uma situação que ele(a) acha incompreensível e alienígena, o aprendiz apenas conhecerá confusão e terror. Despido da presunção de que ´isto não pode acontecer comigo´ ele(a) aprende a perceber o ambiente com clareza, a dar atenção para os ritmos e pulsos do mundo. Verdadeiramente, Morte é uma grande professora. Se você poder alcançar além e ver o momento de ´morte´, então aquele momento irá lhe dar um vislumbre de seu potencial. Nisto, o magista é menos um guerreiro e mais um ladrão ( Garantido, ´Ladrão do Caos´ não é um título tão atrativo quando ´Guerreiro do Caos´). Prometheus é a imagem mítica apropriada – o furtador do fogo. Ninguém pode lutar com a Morte e vencer, mas ela pode ser lograda. O magista é alguém que faz cambalhotas para trás, um tolo sábio. Ninguém leve um tolo seriamente. Torne-se um tolo e deixe um rastro falho. Deixe cair a máscara de iniciado e pegue seus parceiros para a dança.

O progresso de magistas ocidentais não parece ser tão terrível como os desafios de magistas em outras culturas. Desde que tanto ´conhecimento´ possa ser comprado, a idéia de lutar contra desafios de poder soam distante. Isto não é só um glamour; situações de risco de vida ou mentalmente traumáticas podem abrir os portões de habilidade mágica de uma forma que nenhum workshop de final-de-semana ou curso de correspondência jamais poderá. Viver no limite é uma frase apropriada, como se não existisse espaço para meias medidas. Um combate mágico, se propriamente arranjado, irá forçar você a re-aprender o que você precisa, para ser capaz de fazer o que é preciso para sobreviver. Se um Magus está indo passar seu poder para outro, ele deve ter certeza de que o candidato tem as qualidades (i.e. um instinto de sobrevivência e poder de permanecer) necessárias para aceitar a responsabilidade ?(karma) que a posição requer. O objetivo de tal combate é construtivo, mas se o candidato falhar – assim deve ser.

Ritual

Durante o ritual, a rede de conceitos, símbolos e mapas mentais ´tornam-se vivas´ e a experiência direta produz uma mudança na consciência. Ritual envolve deixar de lado o mundo do dia a dia e criar uma bolha onde todas as limitações estão suspensas, e o poder da magia flui desimpedido. Um grupo bem sintonizado pode agir como um chip de silicone dentro da biosfera (nós gostamos às vezes de pensar que Gaia como sendo a Motherboard) , acessando e interfaceando (n.t. comunicando) com outros subsistemas através dos códigos de símbolos, gnosis e imaginação, permitindo que a mudança se manifeste em todos os níveis possíveis no sistema – Desenvolvimento da Era, ritmos sazonais, desenvolvimento psíquico – Assim aqui como em todos os lugares.

O uso crescente de metáforas de computadores dentro das células L.O.O.N. tem influenciado nosso estilo de ritual. Nós temos abandonado a forma tradicional, com seus formatos quase religiosos e robes monásticos. A moda corrente é jaquetão branco de laboratório, luvas e máscara negras. Isto junto com andar de robot e fundo de decoração eletrônico nós dá um estilo distinto. Garantido, parece um pouco fora de lugar em Glastonbury. Danças podem refletir as energias espirais do universo, manifestando no DNA e outras formas. A formação de um grupo de Gestalt permite o grupo trabalhar rituais enquanto estiverem temporariamente ou espacialmente separados, se necessário.

Rituais criam Ordem do Caos, uma esfera dentro da qual tudo (até nossos erros) é uma expressão de vontade. Quando invoca a Corrente do Caos, alguém está identificando- se com a mudança dos Aeons, então literalmente este alguém se torna a corrente, como um lugar físico.

Armado com esta consciência, um ritual sazonal pode se tornar um poderoso foco de mudança, enquanto o pulso sazonal é direcionado tanto para dentro (mudança pessoal) quanto para fora (mudança ambiental). Tradicionalmente, estes festivais são encruzilhadas entre os mundos – e consciência das dimensões interna/externa parece ter sido amplamente esquecida pelos ocidentais, protegidos como somos dos elementos pelos nossos corpos centralmente inflamados (n.t. Tradução não literal – ´protegidos como somos dos elementos pelo nosso egocentrismo´ ).

A escala na qual um ato ritual manifesta é dependente da vontade dos seus participantes – qualquer coisa desde a vidência das ondulações e movimentos do Caos até a desfigurar a própria fábrica de espaço-tempo. O formato do trabalho é aquele em que os participantes percebem ser apropriados para o intento – invocação pode ser verbal ou estruturada pelo arranjo de sinos e congos de tons diferentes. A seqüência de danças pode ser arranjada para refletir a transformação da forma na forma, ou da energização de maquinas astrais ou circuitos. Um ritual, começa fisicamente, podendo ser re-encenada ou continuado nos sonhos.

Nos temos achado que geralmente, são os rituais estruturados simplesmente que têm o resultado mais efetivo. Vontade é o toque de pluma que pode mover montanhas.

Como com qualquer outra coisa, o ritual de outros somente será efetivo para vocÊ até um ponto – olhar para os rituais das outras pessoas como dispositivos de aprendizagem. Ritual por si só é raramente efetivo, mas quando reforçado pela Vontade/Intençã o, o é altamente (efetivo). Entretanto a condição de mente que deve ser dominada é parar de pensar sobre se o rito será ou não efetivo. Ânsia pelo resultado deve ser substituída por uma certeza celular que uma vez que a seta do desejo tiver sido lançada, ela irá acertar o alvo. Por todos os meios discuta experiência, técnica e como poderá ser feito melhor da próxima vez, mas deixa o desejo/intençã o desaparecer da preocupação consciente.

Armas Mágicas

“Seu corpo e mente são ferramentas preciosas” – Bene Gesserit

O suficiente tem sido escrito sobre as tradicionais armas de magia, então nós não aumentaremos a verborragia. Em geral, uma arma mágica é um foco para percepção e vontade – um veículo para energia etérea/astral (seja lá o que for). Forma física é uma consideração secundária. Uma arma é qualquer instrumento imbuído de poder. Alguns instrumentos xamânicos – bonecas, máscaras, chocalhos, tambores, etc, tem sua história própria, personalidade e carisma – eles são completamente prováveis a ´morder´ o descuidado, e são considerados pelos seus donos como semi- conscientes. O relacionamento entre tal arma e seu dono é similar àquele entre um humano e um gato – uma verdadeira arma de poder possui a si mesmo e é perfeitamente provável que decida quando deve ser passada para frente.

Talvez a primeira arma seja o corpo. Em combate mágico, projeção da Bio-aura pode corromper o campo de outra pessoal, e o ´empurrão´ resultar em trauma psico-físico. Yogis orientais são reputados serem capazes de causar a morte pela aplicação de mantra yoga. A forma que experimentamos nosso corpo tende a refletir nossa experiência de mundo – ver o corpo como uma máquina e ela é passível de se quebrar. Nós da L.O.O.N. preferimos ver o corpo como um biosistema, um microcosmo da biosfera, ele mesmo um microcosmo do universo. Então o corpo torna-se uma arma para o entendimento de sistemas maiores nos quais estamos imersos.

Ao invés de sustentar que aquelas armas A, B, C e D, como necessárias antes que alguém comece a praticar magia, nós nos colocamos em nossos caminhos e deixamos que as armas se mostrem para nós. Como Don Juan diz, não existe tal coisa como um ´acidente´ para um ´homem de conhecimento´ – tudo está lá fora, esperando para ocorrer. Então, ao invés de procurar por uma arma fora de nós, ou de correr à uma loja esotérica e comprar uma, nós atraímos os instrumentos necessários para nós pelos nossos trabalhos – isto pode se manifestar através de um ´achado´, de um ´presente´ ou apareça como uma entidade inspirada em alguma outra dimensão. UM exemplo desta última alternativa é o objeto com chifres possuído por sKaRaB, que foi inspirado a desenhá-lo durante um momento de vacuidade (assistindo TV) e horas mais tarde, viu-o no astral:

“fui dormir cerca de 01:45. Procedi a visualização da imagem do objeto num templo egípcio. Encontrei o objeto preso em uma falha no chão, de forma que estava ereto. Agarrei o objeto com minha mão direita e uma onda de energia intensa me invadiu, começando na base de minha espinha – tirando meu fôlego, mas não violentamente. Vibrei os nomes divinos do objeto (recebidos anteriormente) : Ra, Isis, Ma´at, Hatar, Sekhmet – com cada vibração, a agitação aumentava. Mudando a postura do corpo não interrompeu isto. Soltei o objeto e assumi a forma astral de Osíris sacrificado. Senti calmo, brilhante, mas cansado. Peguei o objeto novamente e senti as vibrações físicas percorrerem meu braço direito. Invoquei Hathor e disse mentalmente: ´Basta – Não consigo agüentar mais´. A energia cessou abruptamente. Deixei a forma astral do objeto no templo. Trabalho encerrado as 05:35.”

SKaRaB nota que a montagem subseqüente do objeto físico foi uma transformação em si mesmo, embora a forma etérica e personalidade tinham sido já estabelecidos em grande extensão. Quando assistido SKaRaB e o objeto em ação, era difícil às vezes dizer quem estava segurando quem. A arma tinha conhecimento e seus próprios familiares, e poderia ainda abandonar SKaRaB e encontrar outra pessoa que pudesse efetivar seu propósito em maior precisão.

Neuromancia

Neuromancia centra toda habilidade oculta e potencial dentro do cérebro humano – possivelmente o menos compreendido e mais complexo de todos os sistemas. Todos os exercícios ocultos, de acordo com este modelo, tem algum tipo de efeito no cérebro, e também sucede que à respeito de experiências como ASCs, possessão, gnosis, etc, que a raiz do evento está ocorrendo no nível neurológico.

Então o objetivo de qualquer psicotecnologia é destravar os poderes do cérebro humano. Nós acreditamos que a adaptação evolucionária da humanidade é um contínuo desenvolvimento da consciência, e o lugar onde todos os vetores se encontram é expressado, na forma física, como o biosistema individual. De todas as técnicas de neuromancia, o recurso à Quimiognosis é o mais difundido através das culturas, e particularmente no hemisfério ocidental, o que mais causa controvérsia. Apenas aqueles que tenham recebido treinamento médico, e que pode conseqüentemente dizer de uma posição de autoridade que eles não conhecem como o cérebro trabalha, são autorizados a mexer com isto – através de ECT, cirurgia e o bom e velho ´cassetete químico´. Enquanto é fácil para aqueles cães de guarda impor suas vontades sobre o cérebro de outros, é bem outra coisa para as pessoas não qualificadas tentarem consigo mesmas.

Dance e Fodam-se

Nós somos magia. Isto não é uma ostentação, nós não encontramos “L.O.O.N. é magia!” colocados em pontos de ônibus – mas magia não é algo que fazemos, ou algo em que ´estamos dentro´, é o que decidimos ser. Mas nossa magia não é algo que sentimos distante e que fazemos depois do trabalho, em finais de semana, ou uma vez por semana quando o grupo se encontra – diabos, o melhor trabalho de grupo que fazemos é quando estamos separados! Magia nós vivemos, comemos, respiramos e cagamos! Este livro é uma breve pausa no vídeo – uma pausa momentânea para nós. Quando você estiver lendo isso, nós já teremos partido, no curso de colisão com nossos futuros.

Escreva o seu volume (n.t. – Tomo, livro) de Magia do Caos.

Porquê comprar livros em Magia do Caos quando você pode escrever o seu próprio?! É simples, tudo que você precisa é um monte de papel, canetas, cola, e a substância alteradora de consciÊncia de sua preferência. Vá até a livraria e escolha livros aleatoriamente, colete uma pilha de revistas de lugares onde você puder obtê-las gratuitamente. Grave pedaços das conversas de outras pessoas. Junte todas estas coisas e coloque no chão em uma pilha. Tome (nt.- coma) o sacramento, espalhe a pilha de coisas no chão e comece a cortar os pedaços (não faça isso com os livros) em clippings. Quando você alcançar gnosis ou encher o saco disto, varra tudo para uma caixa de papelão. Não esqueça de inserir a palavra ´Caos´ no texto a cada duas ou trÊs frases. E próxima semana nós estaremos mostrando para você como fazer a capa para contar tudo isto, um tema musical legal… créditos.

Este é usualmente o estágio em todo volume de Magia do Caos onde os autores começam os insultos e diarréia verbais e começam a encher lingüiça com exemplos de rituais, feitiços, ´novos´ sistemas de adivinhação ou equações. Então sem mais alvoroço nós apresentamos o ritual de banimento L.O.O.N. : “FODAM-SE SEUS FILHOS DA PUTA!”

 Tecno-shamanismo

Porque usar uma bola de crista? Tente uma televisão fora de estação – vem com de graça um fundo de ruído ´branco´!

Recupere o descarte de outras pessoas e use-os para produzir objetos mágicos. Talismãs feitos de colagens e foto-montagens, pedaços de latas e partes de rádios velhos.

Invoque os fetiches da era moderna, canalize as identidades corporativas da ´Unilever´ ou ´Max Factor´. O que nós chamamos feitiçaria, eles chamam publicidade.

Rituais para ´Parar a cidade´, furtos de loja, batidas de aluguel ou zerar computadores são muito mais divertidas do que as coisas usuais. Veja se você consegue conjurar um poltergeist a ´baixar´ em na secretaria de finanças local.

Experimente com transmissões de notícias de rádio falsas. Faça fitas de áudio anunciando maluquices e toque-as sem alarde em lotadas estações de trem ou ônibus. Veja as pessoas pensando ´Eu realmente ouvi aquilo?´ e curta a suspensão momentânea da realidade para conseguir fazer alguma feitiçaria espontânea!

Talvez nós precisemos de uma revolução de feiticeiros?

 Entropolítica

Não existe tirania no estado de confusão´… A mídia age para censurar a informação. Toda mídia em rede é programada para dar a ilusão de liberdade de expressão e multiplicidade de opções. Manipulação política da media está tornando-se incrementalmente. .. quem se importa?

E sobre as assim chamadas revistas de ocultismo ´underground´? Elas tendem a ser produtos de indivíduos, ordens ou grupos, e provêem uma rede essencial para passar informações – ou para injetar uma dose saudável de desinformação. Nós tendemos a julgar um grupo oculto pela base das informações circulantes sobre ele. Tais julgamentos são no mínimo tênues. No passar dos últimos anos, nós temos visto o debate ´Caoístas x Cabalistas´, o ´Bitchcraft´ da Wicca, e as numerosas facções OTO todas tomando suas posições. Embora existe muita discussão sobre as ´Correntes do Caos´, a mais poderosa corrente é aquele som das caixas eletrônicas registrando mais uma venda… ´ring!´ Magia do Caos já está morta, e o único debate atual entre os abutres é sobre quem fica com os maiores ossos. Então volte às suas câmaras caóticas, esferas, politrapezóides e desapareça sobre suas ondas de vácuo. Um exemplo típico, você poderia dizer, de um espetáculo ´lembrando´ a situação.

Sem dúvida existem tentativas de classificar L.O.O.N. entre as facções deste quebra-cabeças. Bem justo, mas nós ´gostamos de todo mundo´. Nós gostamos da OTO, ONA, IOT, OS, OTOA, BOTA, SOL, OCS. Nós também gostamos das pessoas que mantém posição (em grande extensão) em nós gostar de … (insira um grupo de sua escolha). Nós podemos até mesmos sermos cabalistas gozando da cara de toda essa pose da Magia do Caos.

Magia do Caos tem sido a ´onda´ deste Aeon. Relativamente ´boa grana´ nas arrebentações da mídia ocultista. Alguns dizem que ela fez pela magia o que o punk fez pelo cenário musical. O que sucederá então… Nova Re-magia?

L.O.O.Naticos

Quando vocÊ estiver lendo isto nós não estaremos mais em Lincoln.
Nós não somos uma ´ordem´ no senso comumente aceito.
Apikorsus é a palavra grega para ´céptico´.
Minhas arvores carregam um estranho fruto: dividam e repartam de mesma forma. — Eris, ´the Stupid Book.´

T.T.F.N:
SNaKe, SKaRaB, Sister Apple, Bro. Moebius B. com agradecimentos to HTC pela versão original impressa.

Traduzido por Lobo Solitário – t_lone_wolf@ yahoo.com. br

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/apikorsus/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/apikorsus/

Três bacias cheias de sangue

Conto degustação da obra Rei da Dor e outros contos de horror

Gregori não podia reclamar do trabalho. O circo Bruxelas o havia recebido com os braços abertos quando, com apenas 17 anos, ele se juntou à trupe. Foi contratado primeiro como ajudante geral, tirava o lixo dos trailers, carregava e descarregava os vagões, fazia o trabalho pesado. Da limpeza, tornou-se o responsável pela jaula dos animais, alimentando os grandes felinos. Até se apegou a eles. Ficou radiante quando a leoa teve filhotes e assistiu com tristeza chegar até ela as dores e dificuldades da idade avançada. Mas Gregori sempre olhava para o futuro, ele era pró-ativo e solícito e queria progredir na carreira. Já havia tentado se juntar aos malabaristas, mas não tinha a habilidade necessária. Também já havia provado não ter graça o bastante para ser um bom palhaço. Em suas várias tentativas acumulou fracassos, mas também amigos. Não podia reclamar do trabalho, mas podia reclamar do chefe. Embora realmente tivesse progredido – em obrigações, não em salário – na cabeça do Sr. Stephano Bruxelas, o proprietário do circo, ele ainda só era apenas um desprezível ajudante geral.

Suba essas vigas. Bata o chão do picadeiro. Panflete o circo nas ruas. Lave essas roupas. Às vezes Grigori sentia que era o escravo pessoal do Sr. Bruxelas e não um membro da equipe. Nunca era chamado para os anúncios importantes, mas por ser uma espécie de faz-tudo tinha acesso a praticamente todas as partes do circo e ficou sabendo pela mulher barbada da pauta da última reunião. O Grande Jéan Eugene estava morto.

O velho mágico era o funcionário mais antigo do circo e segundo alguns já fazia apresentações antes dos pais do Sr. Bruxelas nascerem. Se morreu com 120 anos foi pouco, mas ninguém realmente sabia sua idade. Seus espetáculos eram lendários e sem dúvida o maior chamariz da bilheteria. Em certa ocasião, teria subido a altura dos trapézios em uma escada de fumaça; em outra, feito um saco de ossos se transformar em um macaco. A verdade é que o proprietário não cuidava dos negócios como seus pais. Sem o grande Jéan Eugene, o Circo corria o sério risco de fechar.

Ao saber do ocorrido, Gregori primeiro se entristeceu. Certa vez, Jéan Eugene tinha lido o futuro em sua bola de cristal e dito que ele tinha um grande futuro no circo. Era esse tipo de apoio dos amigos que o animava. Não que ele acreditasse em bolas de cristal. Mesmo assim, quando se lembrou da profecia, pensou que deveria tentar outra vez. Talvez fosse essa a grande oportunidade que Gregori precisava. Quando sugeriu ao Sr. Bruxelas que poderia tentar a vaga de mágico foi recebido com uma humilhante gargalhada.

— Está louco menino? Quem é você?

— Sr. Bruxelas, sei que parece loucura, mas o que você tem a perder?

— Tempo moleque. E tempo é dinheiro.

— Quero crescer aqui dentro. Olha, escolhe uma carta. E puxou um baralho.

O Sr. Bruxelas deu um tapa de baixo para cima no maço, arruinando a tentativa patética de o impressionar.

— Garoto, nem os palhaços te quiseram. Como você imagina poder tomar o lugar do grande Jeán Eugene?

— Não sei. Mas talvez eu me descubra como ilusionista. Tenho que ser bom em algo, certo?

— Você é bom em limpar o chão – disse a dançarina dos bambolês, Liliane, atual amante do chefe, entrando na conversa sem ser chamada para o prazer do Sr. Bruxelas. Era uma beldade de cabelos cacheados e sabia se aproveitar de sua juventude.

— Ótima essa, meu querubim!

O casal arrogante riu um para o outro e quase se esqueceram da presença de Gregori, que tentou mais uma vez:

— Sei que ainda não descobri meu lugar. Mas eu acredito em mim, Sr. Bruxelas.

— Oras, pivete, saiba do seu lugar! Olhe para si mesmo. Você devia agradecer de limpar nossa sujeira. Onde acha que conseguiria um emprego desse? Sabe como anda a economia?

Após pensar um pouco, o ajudante tomou coragem e desafiou:

— Pois bem! Deixe-me fazer uma apresentação. Uma única apresentação. Se você gostar, me dá a vaga. Se não gostar, eu trabalho de graça por um ano!

Sr. Bruxelas fingiu fazer algumas contas de cabeça e sorriu concordando.

— Você é um tolo, menino. Se é o que quer, eu gostaria mesmo de poupar a esmola que você ganha. Daqui a três dias, você fará seus truques baratos para que eu e meu querubim possamos dar outras risadas.

— Ai docinho, você é demais! – comentou a dançarina.

II

Gregori estava decidido pela vitória. Faria qualquer coisa para ganhar aquela aposta. Imaginou que talvez dentro do trailer do grande Jéan Eugene encontrasse algum truque que pudesse usar. Esperou todos dormirem e entrou no vagão com as chaves a que, como faz-tudo, tinha acesso. Avançou como um ladrão pela noite e chegou na porta. Colocou a chave na fechadura e a virou, praticamente sem emitir nenhum som. Quando entrou, sua espinha gelou. O barulho de bater asas das pombas na gaiola denunciavam o ladrão que rapidamente encostou a porta. Com a morte do mágico, todos haviam esquecido delas. Na verdade, aparentemente ninguém havia entrado lá desde a morte de Jeán. Talvez por respeito, provavelmente por medo.

A cama ainda estava bagunçada do último sono do mágico e sobre a escrivaninha um café frio que nunca seria terminado. Grigori fechou a porta e acendeu o lampião. Pôde assim ver uma série de instrumentos arcaicos dividindo estranhamente o ambiente com artigos de palco. Cristais, incensário ao lado de varinhas e argolas. Em um baú, encontrou uma cartola, luvas brancas e um crânio sem a tampa do osso parietal – tão realista que preferiu não pensar a respeito. No chão, um triângulo desenhado com giz.

A maior parte do trailer era, entretanto, ocupado por uma pequena, mas poderosa biblioteca que ocupa do chão ao teto de praticamente toda a lateral. Nessas prateleiras, havia uma coleção de livros clássicos de ilusionismo pareando com antigos tomos de superstição pagã e feitiçaria medieval. Não havia nenhuma organização aparente, mas era uma biblioteca realmente invejável: O Grande Livro da Magia, de Wendy Rydell, bem ao lado das Clavículas de Salomão, vários volumes do Zohar interrompidos pela Enciclopédia Ilustrada Blackstone de Truques de Baralho. Era muita coisa para ler em uma noite, talvez em um dia, de modo que Grigori apenas fechou os olhos e deixou seus dedos escolherem ao acaso. Puxou um livro de capa de couro carcomido e que emanava um certo poderio oracular.

Colocou o livro sobre a escrivaninha e o abriu. Era um volume velho como uma pirâmide azteca. Como ela, uma obra repleta de desenhos e glifos. As páginas eram amarelas de idade e todas as palavras escritas com uma tinta cor de ferrugem que lembrava sangue oxidado. Na folha de rosto, pôde ler em tipos antigos: “Suk’Nazbot”, abaixo dele o subtítulo excessivamente descritivo: “Coletânea de sortilégios demoníacos e artes trevosas”. Tentou ler, mas conforme o fazia as palavras se agitavam como formigas nervosas e o texto tornava-se ilegível. Quando isso acontecia, avançava algumas páginas para recuperar o poder de leitura. Foi assim guiado pelo próprio volume a ler o que devia ser lido e chegou em um capítulo intitulado “Sacrifício da Carne: Como obter poderes ocultos derramando o sangue dos vivos”.

Aprendeu que poderes verdadeiros poderiam ser adquiridos se fizesse um pacto com certas realidades inumanas. Teria que se comprometer a dar algo em troca. Usando as estranhas runas descritas naquelas páginas, esse acordo poderia ser feito com o mundo oculto, não com dinheiro ou joias, mas oferecendo o sangue dos vivos. O sangue deveria ser todo retirado e oferecido a entidades cujos nomes o homem mal pode pronunciar. Pela descrição e ilustração do livro, seriam necessárias três bacias cheias de sangue. Gregori calculou em torno de nove litros, o equivalente a dois adultos saudáveis. O sangue precisaria ser tirado na hora em que fosse oferecido e seus fornecedores obrigatoriamente mortos no processo.

Gregori foi seduzido por aquelas páginas como Eva pela serpente. Parecia um bom negócio. Com apenas um assassinato, usando aquelas palavras de poder, ele teria acesso às forças que fazem as leis da natureza se curvarem. Podia escolher alguém que merecesse morrer. Não seria difícil encontrar. Poderia depois usar os poderes adquiridos para fazer muitas boas ações que compensariam até mesmo o homicídio. Se matasse duas pessoas, poderia melhorar a vida de outras quarenta. Tentava reduzir a moral a uma conta aritmética. Já não pensava com clareza. Leu o capítulo muitas e muitas vezes como um maníaco. Horas depois, percebeu que não viu o tempo passar. Quando deu por si, notou que não viu a manhã chegar e foi tomado pelo impulso da fuga. Não queria ser pego lá dentro. Saiu do trailer como um animal liberado sai do cativeiro. Estava agora tomado de uma certeza luciferina e sabia exatamente o que fazer. Atrás de si, deixou a porta e o livro aberto.

Naquela mesma manhã, o Sr. Bruxelas fazia a ronda que os chefes gostam de fazer para não ter eles mesmos que trabalhar. Andava devagar com a pompa dos grandes proprietários, avaliando os ensaios dos palhaços e o treino dos trapezistas.  Quando passou pelo trailer do poderosos Jéan Eugene, achou muito estranho ver a porta aberta. Nunca tinha entrado naquele local enquanto o mágico anterior vivia e agora adentrava com a curiosidade de quem explora as ruínas de um templo antigo.  Entrando, notou o livro aberto e se horrorizou com ele. Na escrivaninha e ao lado dele, o molho de chaves do tratador de leões.

Saiu, trancou a porta de forma afetada e mandou chamar o ajudante geral.

— Você sabe que não posso ignorar isso.

— Não se preocupe, Stephano, nada aconteceu. Ele nunca havia chamado ele pelo primeiro nome.

— Você invadiu o trailer do grande Jean. Não é só um desrespeito. É um crime. Um pecado!

— Crime? Pecado? Ainda não… por acaso algo foi roubado? Sua calma era perturbadora.

— Não sei. Parece que não. Mas essas chaves são suas.

– Devo ter esquecido lá quando fui alimentar as pombas. E pegou a chave de forma excessivamente cortez.

O Sr. Bruxelas estava sem ação com a nova postura do ajudante.

— Sacrifício? Pacto de Sangue? Você sabe que isso é loucura não é, Gregori?

— Não é loucura o nome que os covardes dão à sabedoria? – e saiu.

Não se falaram mais até o dia da apresentação. A nova postura dominante de Gregori fez com que não apenas o dono do circo, mas também todos os funcionários se reunissem na ala oeste do picadeiro onde foi montado um palco para a exibição.

 III

As cortinas abriram. No seu centro do palco, havia agora uma caixa retangular de pé como uma enorme lápide dividida em três partes. Em cada uma das partes, uma parcela de uma figura demoníaca estava desenhada ao estilo azteca. A cabeça era como a de um javali, o tronco com o de um macaco e as pernas iguais às de um bode agachado. Gregori entrou no palco pela esquerda em passos lentos com a autoridade com que um juiz entra no tribunal. O silêncio imediatamente se fez presente em todos que escutavam a sola de seus sapatos bater na madeira do chão enquanto ele se aproximava da caixa. 

Audácia das audácias. Estava vestido com as roupas do grande Jéan Eugene. O tamanho era um número maior que o dele, dando-lhe a impressão desleixada. Sua cartola e capa lhe dava uma impressão que seria cômica se não houvesse algo de errado em seu rosto. Havia agora um sorriso quase deformado em seu rosto, como que esticado por dedos invisíveis, uma certa perversão que ninguém até então já tinha observado. Era como se o próprio diabo tivesse emprestado seu corpo para brincar de circo. Sua voz também era quase a mesma:

— Senhoras e senhores, lhes apresento a Tumba Montezuma!

A luz do holofote iluminou a caixa, embora todos os outros funcionários estivessem na plateia.

— Esta noite vamos desafiar a vida e a morte quando um de vocês for colocado na tumba e as próprias leis da natureza forem violadas.

A tumba se abriu. A divisão em três partes continuava na parte de dentro separada por três lâminas que cortavam lado a lado toda sua área interna. O mago se aproximou e retirou as três lâminas com a firmeza de um cirurgião.

— Como devem imaginar, estou sem minha ajudante. Será necessário um voluntário da plateia.

Silêncio total.

— Com certeza, você, nosso amado chefe, Stephano não vai perder a chance de entrar para a história do circo Bruxelas.

O dono do picadeiro olhou para os lados confuso quando uma força invisível pareceu ter forçado sua cabeça para frente. Ele então disse em uma voz tremendo tal qual um gago que se esforça para falar.

— Ee eu soo souu o vooluuuntário…

— Excelente! Aproxime-se! – disse o mágico.

Pouco se moveu à medida em que Stephano se dirigia à tumba como um zumbi. Uma vez dentro, deu uma meia-volta militar e a plateia pôde ver o vazio de seus olhos.

— Agora, algumas medidas de segurança. Não queremos que o corpo caia quando arrancarmos seus pedaços – prosseguiu Grigori com a solenidade de um carrasco. 

Enquanto ele retirava das mãos as algemas, Stephano colocou as mãos para frente. Uma faixa de fita adesiva reforçada foi colocada em sua boca e uma corda de marinheiro apertou forte uma perna contra a outra. Cada parte do corpo estava também bem presa a uma das três partes da caixa. A tudo isso, o dono do circo colaborava tal qual um bovino ignorante do abate. 

— Estamos prontos, amado público! Hora de um pouco mais de ação!

Ao dizer isso, estalou os dedos e todos puderam ver que o dono do circo havia voltado a si. Estava completamente apavorado e se esforçou em vão para se soltar. Emitiu um mugido mudo de sequestrado quando o mágico fechou a porta da tumba à sua frente.

— Música! 

O som que preencheu o ambiente era como um coral de monges do inferno cantando para o deus da morte. O horror que se apossou da plateia fez a maioria dos funcionários paralisar de medo e aqueles que tentaram fugir se viram presos por forças estranhas.

— Primeiro, vamos separar as pernas… para que não corra, sabem? – e piscou para a plateia.

A primeira lâmina foi enviada com a brutalidade de um açougueiro. O grito abafado pela caixa e pela fita adesiva superou até mesmo a música infernal que tocava e foi ouvida da última fileira.  

— Agora, lhe arrancamos a cabeça! – disse Gregori rindo descontroladamente.

O mágico posicionou a segunda lâmina na fenda da caixa e olhou de forma sádica para a plateia.

— Contem comigo, amado público!

Como uma horda de almas condenadas, todas as bocas obedeceram.

— Dez… Nove… Oito..  Sete… Quando a contagem começou os gritos de dentro da caixa se intensificaram e um leve balançar pode ser notado à medida que seu prisioneiro se debatia como um peixe fora d’ água.

— Sete… Cinco… Quatro… – alguns choravam desesperados e outros molhavam as calças. Ninguém conseguia fechar os olhos.

— Três… Dois… Um… – os gritos abafados chegaram ao ápice e pararam, quando a lâmina foi enfiada com força. A música apoteótica sobrenatural também cessou como que para todos pudessem ouvir o barulho de pele e carne rasgada de dentro da caixa. 

A essa altura, o sangue escorria pela abertura da tampa frontal e empatava o espaço ao redor do palco.

— Outro voluntário! Quero outro voluntário! – anunciava o mágico satisfeito – Você, dançarina, venha fazer parte do meu espetáculo!

Liliane se levantou. A urina lhe escorria pela meia-calça. Seu rosto porcamente desmaquiado pelas lágrimas se afastava aterrorizado, enquanto seus braços e suas pernas se dirigiam obedientes ao picadeiro.. 

— Vamos, minha cara… Retire a Lâmina de baixo!

Toda a alma da dançarina devia estar empenhada em resistir a essa ordem, pois a mão vacilava em obedecer. Apesar disso, obedeceu como uma sonâmbula. Tentou retirar a lâmina inferior, mas teve dificuldade. Forçou-a e quando conseguiu a tumba de madeira se mexeu como se um novilho natimorto tivesse sido arremessado ao chão. O fluxo de sangue no chão se intensificou.

— Agora a de cima! Retire ela também!

A segunda lâmina foi puxada com facilidade pelo ajudante involuntário. Manchada do centro em diante de sangue escuro como se um dragão a tivesse lambido após se fartar de carne humana. Novamente, o barulho de algo caindo.

— Agora, abra a tumba! Senhoras e senhores, esse é meu presente para todos!

A mão da circense tremia e vacilava como uma palmeira em uma tempestade denunciando a revolta da alma dominada. Ainda assim, segurou a pequena maçaneta. O sangue do chão começou a evaporar de forma sobrenatural, criando serpentes de fumaça  ao redor da tumba, como coroando o ponto alto do espetáculo.

— Vamos, abra! Abra! Abracadabra!

A porta da tumba foi aberta.

Dentro dela estava Sr. Bruxelas. E que surpresa, sem algemas nem fita. Com pernas e cabeça. No chão, a última gota de sangue evaporava. Estupefato, o homem apenas deu alguns passos para frente e olhou ao redor completamente perplexo. 

Gregori segurou com autoridade a mão do dono do circo e da bailarina e os levou até a frente do palco, obrigando-os a fazer uma teatral referência para a plateia. Ao levantarem suas cabeças, soltou as mãos de ambos e com um gesto liberou todos os funcionários das forças sobrenaturais que os oprimiam. Alguns caíram desmaiados. Outros fugiram de horror.

A dançarina foi uma das que desmaiou quase que imediatamente. Grigori a ignorou e se voltou para o casaco do Sr. Bruxelas. Tirando o pó de seus ombros com o zelo de uma mãe severa, Grigori explicou sorrindo com os olhos:

— Uma fantástica ilusão, não acha, meu caro Stephano? O emprego é certamente meu.

Obedientemente, ele apenas assentiu com a cabeça como uma criança assustada. Sabia que lá estava alguém com quem não poderia discutir. Na verdade, tinha dúvidas sobre quem era o proprietário do circo agora. Grigori ganhou não apenas a vaga de mágico, mas o maior salário da trupe, o trailer com toda coleção de artigos raros de seu antigo dono e principalmente, o nefasto livro Suk’Nazbot. 

O circo não fechou. Pelo contrário, nos meses que se seguiram, as arquibancadas estavam diariamente mais lotadas. As apresentações do grande Grigori Vigatto superaram até mesmo as de Jéan Eugene. Aparições espectrais de cair o queixo. Cabeças decepadas flutuando como balões. Fileiras de esqueletos dançando um cancã macabro como garotas francesas. Criaturas inomináveis brotando do chão. Mãos amputadas correndo pela plateia como caranguejos. Até os jornalistas dos grandes jornais vinham assistir seus espetáculos. O circo estava de volta.

Foi, contudo, logo após a sádica apresentação inicial que o Sr. Bruxelas entendeu o que havia acontecido. Os funcionários que saíram correndo daquele horror encontraram em uma área não muito distante do circo uma cena digna de uma missa diabólica. No centro, um corpo rasgado de peito para cima. Ao seu redor, um triângulo de sal repleto de símbolos indecifráveis. Em cada ponto do triângulo, uma bacia cheia de sangue. O sacrifício havia mesmo sido feito. A velha leoa estava morta.

 

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/tres-bacias-cheias-de-sangue/

Como o Senhor Krishna é a Fonte de todos os Avatares: As Expansões do Supremo

Por Stephen Knapp.

Apesar do fato de que tudo vem do Ser Supremo, Ele ainda está distante de tudo. Ele não se desprende de seus eternos passatempos de prazeres com seus devotos no reino espiritual. Assim, no processo de criação dos mundos materiais, o Supremo se expande em várias formas, que são suas partes plenárias. Krishna é o Senhor primordial, a Personalidade original da Divindade, para que Ele possa se expandir em formas ilimitadas com todas as potências. Eles não são diferentes dEle, mas podem apresentar diferenças de forma.

Ele primeiro se expande em Baladeva, ou Balarama, que é considerado o segundo corpo e irmão de Krishna. Balarama auxilia nos inúmeros passatempos espirituais do Senhor Krishna, tanto no âmbito espiritual como no material.

O Senhor Balarama também é o Senhor Sankarshana, o predominante da energia criativa. Ele cria e é o abrigo do mundo material e espiritual. Pela vontade de Krishna e pelo poder da energia espiritual, o Senhor Balarama cria o mundo espiritual, que consiste do planeta Goloka Vrindavana e dos planetas Vaikuntha. 1

O Senhor Balarama auxilia especialmente o Senhor Krishna na criação dos mundos materiais. Depois que Balarama expandiu-se no Lorde Maha-Sankarshana, Ele se expande em quatro formas diferentes, inclusive: 1) Karanadakashayi Vishnu [Maha-Vishnu], 2) Garbhodakashayi Vishnu [a expansão em cada universo], 3) Ksirodakashayi Vishnu [a Supersoul em cada indivíduo], e 4) Sesha, também chamada Seshanaga. Estas quatro primeiras porções plenárias auxiliam na manifestação cósmica material. Sesha é a forma de Balarama que auxilia no serviço pessoal do Senhor. Ele também é chamado de Ananta, que significa ilimitado, porque Ele assiste ao Senhor em Sua ilimitada variedade de passatempos. 2

* * *

Para explicar mais claramente, todas as expansões do Senhor começam com Sri Krishna. Para Seus passatempos em um dos mais altos níveis do reino espiritual, chamado Dvaraka, Sri Krishna se expande para Balarama, que depois se expande para Pradyumna e Aniruddha. Estes quatro se expandem em um segundo quádruplo que está presente nos ilimitados planetas Vaikuntha do céu espiritual. O segundo quádruplo é conhecido como Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna e Aniruddha. Eles são expansões transcendentais e imutáveis do Senhor Supremo, Krishna. Neste segundo quádruplo, Vasudeva é uma expansão de Krishna, e Sankarshana é uma representação de Balarama.

No céu de Vaikuntha há a energia pura e espiritual criativa chamada Shuddha-sattva que sustenta todos os planetas espirituais com todas as opulências do conhecimento, riqueza, poder, beleza, etc., tudo isso permeia todo o reino espiritual e é plenamente desfrutado pelos residentes de lá. Esta energia é apenas uma demonstração das potencialidades criativas de Balarama, Maha-Sankarshana. É também este Sankarshana que é a causa original do Oceano Causal onde dorme Karanodakashayi Vishnu (Maha-Vishnu), enquanto expira as sementes de inumeráveis universos. Quando a criação cósmica é aniquilada, todas as entidades vivas materialmente condicionadas, embora indestrutíveis, se fundem de volta ao corpo de Maha-Vishnu, onde descansam até o momento da próxima criação. Assim, Balarama como Sankarshana é a origem de Maha-Vishnu, de quem origina todas as potencialidades da manifestação material. 3

Assim, para resumir, para Seus passatempos espirituais no reino de Vaikuntha, o Senhor Krishna tem quatro expansões originais, a saber: Vasudeva, Sankarshana, Pradyumna e Aniruddha. Maha-Vishnu é uma expansão do Sankarshana; Garbhodakashayi Vishnu é uma expansão do Pradyumna; e Ksirodakashayi Vishnu é uma expansão do Aniruddha. 4

* * *

Para começar a explicar o propósito e a função dessas expansões, o Srimad-Bhagavatam (2.6.42) descreve que, “Maha-Vishnu (Karanadakashayi Vishnu) é a primeira encarnação do Senhor Supremo no processo de criação dos mundos materiais. Ele é o mestre do tempo eterno, espaço, causa e efeitos, mente, elementos, ego material, os modos da natureza, sentidos, a forma universal do Senhor (Garbhodakashayi Vishnu) e a soma total de todos os seres vivos, tanto em movimento como não em movimento”.

Então Maha-Vishnu se deita no rio Viraja, que é a fronteira entre o mundo espiritual e o material. 5

O Senhor Maha-Vishnu é a fonte de milhares de avataras em Seus milhares e milhares de porções subjetivas. Ele é o criador de incontáveis almas individuais. Ele também é conhecido pelo nome de Narayana, que significa o abrigo de todas as almas individuais jiva. Dele brota a vasta extensão de água conhecida como o Oceano Causal espiritual. Maha-Vishnu então se reclina nas águas do Oceano Causal em um estado de sono divino, chamado yoga-nidra. Assim, diz-se que a criação universal é apenas o sonho de Maha-Vishnu. 6

Como as águas do Oceano Causal, conhecido como o Oceano Karana, vêm do corpo de Maha-Vishnu, ele é completamente espiritual. O Ganges sagrado é apenas uma gota daquele oceano, que pode purificar as almas caídas. 7

O Senhor Balarama também se expande para a grande serpente conhecida como Ananta, ou Seshanaga. Ele repousa no Oceano Causal e serve como o sofá sobre o qual o Senhor Maha-Vishnu se reclina. 8

Que Ananta-Sesha é a encarnação devota de Deus que nada mais sabe além de serviço ao Senhor Krishna. Com seus milhares de bocas, ele sempre canta as infinitas glórias do Senhor Krishna. Ele também se expande para servir como parafernália do Senhor Krishna, incluindo itens como o guarda-chuva, chinelos, roupa de cama, travesseiro, vestuário, cadeira de descanso, residência, fio sagrado gayatri e trono nos passatempos do Senhor Krishna. Assim, Ele atingiu e exibe o fim último da servidão ao Senhor Krishna. 9

Na época da criação, depois que o Supremo está dormindo há algum tempo, a primeira emanação da respiração do Senhor Maha-Vishnu são os Vedas personificados que O servem acordando-o de Seu sono místico. Eles começam a cantar com entusiasmo Suas glórias, passatempos e louvores, assim como um Rei é despertado pela manhã por poetas que recitam seus feitos heroicos. 10 Isto mostra a natureza eterna da literatura védica. Eles não são meramente escritos pelos homens, mas são vibrações espirituais que existem antes e depois da criação material, e que emanam do Senhor Supremo.

Quando o Senhor é despertado, Ele lança seu olhar sobre a energia material da maya. Então ela se torna agitada. Naquele momento, o Senhor injeta as sementes originais de todas as entidades vivas. Este olhar é como o Supremo impregna a natureza material com todas as entidades vivas. Assim, o Senhor não toca pessoalmente a energia material, mas por Sua expansão funcional Ele coloca as entidades vivas na natureza material através de Seu olhar. 11 Esta expansão funcional do Senhor toma a forma de Shiva, que será explicada mais tarde.

Após agitar a natureza material em três qualidades, que são os modos da natureza na forma de paixão, bondade e ignorância, eles se tornam ativos e a natureza material começa a dar origem à energia material total conhecida como o hiranya-mahat-tattva. Esta é a soma total da inteligência cósmica. Assim, a natureza material torna-se agitada pelos destinos das almas condicionadas, conforme determinado pela influência dos modos da natureza. 12

Simplesmente pelo olhar da consciência Maha-Vishnu é criado, que é conhecido como o mahat-tattva. A Deidade predominante do mahat-tattva é o Senhor Vasudeva, outra expansão do Senhor Krishna. Isto explica como a energia material é como a mãe dos seres vivos, enquanto o Senhor é o Pai Supremo de todos. Assim como uma mulher não pode dar à luz sem o contato de um homem, ou pelo menos de sua semente, também a natureza material não pode criar sem o contato do Ser Supremo.

Assim, primeiro se manifesta a energia material total, e daí surgem os três tipos de egoísmo, que são as fontes originais de todos os semideuses [as deidades menores que controlam], os sentidos, e os elementos materiais. Ao combinar os diferentes elementos, o Senhor Supremo cria todos os universos ilimitados. Uma vez manifestados os elementos materiais, e estabelecido todo o potencial de criação dos universos, os inúmeros universos começam a emanar dos poros do corpo de Maha-Vishnu, e de Suas exalações. Eles aparecem exatamente como partículas atômicas que flutuam ao sol e passam através de uma tela. Quando Maha-Vishnu inspira no momento da aniquilação universal, elas retornam ao Seu corpo. Desta forma, Maha-Vishnu é a Superalma de todos os universos. 13

Brahma, os semideuses, e cada universo permanecem vivos durante a duração de uma de suas exalações. 14 Entretanto, não há limite para as exalações de Maha-Vishnu. 15

Uma vez criados todos os universos, que são ilimitados, Maha-Vishnu se expande em formas ilimitadas e entra em cada universo como Garbhodakashayi Vishnu. Uma vez que Ele está em cada universo, Ele vê que não há lugar para se residir. Então, após alguma consideração, Ele enche metade do universo com água de sua própria transpiração. Ele então se deita sobre a água, novamente apoiado pelo leito de Seshanaga. 16

Garbhodakashayi Vishnu, que é conhecido no universo como Hiranyagarbha e Antaryami, a Superalma, é glorificado nos hinos védicos. Ele é o mestre de todo e qualquer universo e abrigo da energia externa ou material. No entanto, sendo transcendental, Ele está completamente além do toque da energia externa.

A seguir é a terceira expansão de Vishnu, chamada Ksirodakashayi Vishnu, que é a encarnação da qualidade do bem. Ele é a forma universal do Senhor e se expande como a Superalma dentro de cada entidade viva. Ele é conhecido como Ksirodakashayi Vishnu porque Ele está no oceano de leite na ilha de Svetadvipa. Estas são as três expansões do Senhor Vishnu que supervisionam e tornam possível a criação do mundo material. 17

Desta forma, podemos ver como todas as expansões do Senhor, e também todas as Suas energias que se manifestam para fazer surgir a criação cósmica, todas originam-se do Senhor Krishna. Portanto, a razão pela qual o Senhor Krishna é considerado a nona encarnação é apenas porque esta é a ordem pela qual Ele exibe Seus avatares antes de exibir Seus próprios passatempos. Basicamente, se pudermos entender melhor esta descrição, tudo não é mais do que um passatempo do Senhor.

Alguns versículos adicionais que esclarecem este tópico incluem o 3º capítulo do 1º Canto de Srimad-Bhagavatam que descreve as principais encarnações do Senhor Supremo. Tendo feito isso, diz o versículo 28:

ete camsha-kalah pumsah

krsnas tu bhagavan svayam

indrari-vyakulam lokam

mridayanti yuge yuge

“Todas as encarnações acima mencionadas são porções plenárias ou porções plenárias do Senhor, mas o Senhor Sri Krishna é a Personalidade original da Divindade”. Todas elas aparecem nos planetas sempre que há um distúrbio criado pelos ateus. O Senhor encarna para proteger os teístas”.

Também em Brahma Samhita (5.1), diz o Senhor Brahma:

isvarah paramah krishnah sac-cid-ananda-vigrahah

anadir adir govindah sarva-karana-karanam

“Krishna, que é conhecido como Govinda, é a Suprema Divindade. Ele tem um corpo espiritual eterno e bem-aventurado. Ele é a origem de todos. Ele não tem outra origem e Ele é a principal causa de todas as causas”.

Desta forma, a literatura védica concorda que Krishna é a fonte de Brahma, Shiva e de todos os outros semideuses. No Atharva Veda (Gopala-tapani Upanishad 1,24) é dito, yo brahmanam vidadhati purvam yo vai vedamsh cha gapayati sma krishnah: “Foi Krishna quem no início instruiu Brahma no conhecimento védico e quem disseminou o conhecimento védico no passado”.

Então o Narayana Upanishad (1) diz, atha purusho ha vai narayano kamayata prajah srijeyeti: “Então a Personalidade Suprema Narayana desejava criar entidades vivas”. O Upanishad continua, narayanad brahma jayate, narayanad prajapatih prajayate, narayanad indro jayate, narayanad ashtau vasavo jayante, narayanad ekadasha rudra jayante, narayanad dvadashadityah: “De Narayana nasce Brahma, e de Narayana também nascem os patriarcas”. De Narayana, nasce Indra, de Narayana nascem os oito Vasus, de Narayana nascem os onze Rudras, de Narayana nascem os doze Adityas”.

Este Narayana é uma expansão de Krishna, como explicado anteriormente.

É ainda dito no Narayana Upanishad 4, brahmanyo devaki-putrah: “O filho de Devaki, Krishna, é a Personalidade Suprema”.

No próprio Moksha-dharma Sri Krishna diz: “O filho de Devaki, Krishna, é a Personalidade Suprema”,

prajapatim cha rudram chapy aham eva srijami vai

tau hi mam na vijanito mama maya-vimohitau

“Os patriarcas, Shiva e outros são criados por Mim, embora eles não saibam que são criados por Mim porque estão iludidos por Minha energia ilusória”.

O Senhor Brahma continua a rezar e explica em sua Brahma Samhita (5.46) como a potência nas expansões de Krishna se espalha de uma forma para outra:

diparchir eva hi dashantaram abhyupetya

dipayate vivrita-hetu-samana-dharma

yas tadrig eva hi cha vishnutaya vibhati

govindam adi-purusham tam aham bhajami

“A luz de uma vela sendo comunicada a outras velas, embora queimando separadamente nelas, é a mesma em sua qualidade”. Adoro o primordial Senhor Govinda que se expõe igualmente com a mesma mobilidade em suas diversas manifestações”.

Assim, o conhecimento védico aceita claramente Sri Krishna (Govinda) como a fonte original independente e sem causa de todas as suas várias manifestações de personalidade conhecidas como os vários avatares Vishnu (formas/personalidades).

Notas do Capítulo:

1. Chaitanya-caritamrita, Madhya-lila, 20.255-6

2. Ibid., Adi-lila, 5.4-6, 8-11

3. Ibid., Adi-lila, 5.41 & purport

4. Ibid., Adi-lila, 2.56, purport.

5. Ibid., Madhya-lila, 20.268-271

6. Brahma-samhita, 5.11-12

7. Chaitanya-caritamrita, Adi-lila, 5,54

8. Brahma-samhita, 5.47

9. Chaitanya-caritamrita, Madhya-lila, 5.120-124

10. Srimad-Bhagavatam, 10.87.12-13

11. Chaitanya-caritamrita, Madhya-lila, 20.272

12. Srimad-Bhagavatam, 3.26.19

13. Chaitanya-caritamrita, Madhya-lila, 20.275-282

14. Brahma-samhita, 5.48

15. Chaitanya-caritamrita, Madhya-lila, 20.324

16. Ibid., Madhya-lila, 20.284-6

17. Ibid., Madhya-lila, 20.292, 294-5

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Fonte:

KNAPP, Stephen. How Lord Krishna is the Source of all Avatars:
The Expansions of the Supreme. Stephen Knapp, 2022. Disponível em: <https://www.stephen-knapp.com/how_lord_krishna_is_the_source_of_all_avatars.htm>. Acesso em: 15 de março de 2022.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/como-o-senhor-krishna-e-a-fonte-de-todos-os-avatares-as-expansoes-do-supremo/

As stregoicas do castelo do Conde Drácula

Shirlei Massapust

Certa vez, muitos anos atrás, eu estava num shopping tirando xérox quando um homem que nunca vi na vida se apresentou como jornalista e depositou uma fotografia de Christopher Lee no balcão. Perguntei se me permitiria xerocar a foto também, para minha coleção de vampiros. Então ele anotou seu telefone atrás e gentilmente me doou aquele tesouro. Nunca telefonei. E nunca descobri quem são as três atrizes posando para nu artístico diante do ator vestido dos pés à cabeça.

No século XX a imprensa fazia ruidoso alarido sobre a virilidade do pródigo polígamo que tinha à sua mercê uma coleção de belas mulheres. Sérgio França resumiu o espírito da época numa curiosa edição retirada do mercado por decisão judicial em processo movido por Francis Ford Copolla contra um humilde e trêmulo editor brasileiro:

Essa é a essência do mito de Drácula, presente na totalidade das versões no cinema, na literatura, no inconsciente coletivo. O medo ancestral do hábito de morte e maldição nos dentes do vampiro, a sugar não só o sangue, mas a humanidade e o direito final de todas as pessoas — a morte.

Esse é o Drácula que retorna, o vampiro sempre presente: sangue e fogo; morte e amor — a real natureza do bem e do mal, da magia e do poder. Atitudes geradas pela liberação sexual de mulheres reprimidas. A vitória da sedução. Na verdade, a questão principal não é o efeito de Drácula sobre as mulheres, mas o fascínio que esse poder do vampiro exerce sobre os homens. E a despeito da eterna cena final dos filmes, Drácula sobrevive. Sempre.[1]

Em Drácula (1897) o conde não é o único residente num castelo na Transilvânia, Romênia. A poeirenta ala proibida para visitas era habitada por três stregoicas que, pelas atitudes e trajes, “se comportavam como damas da mais alta classe”.[2] Contudo, embora se comporte como arrimo da família provendo habitação e sustento, o Conde Drácula não parece sexualmente interessado em nenhuma das suas convivas. Quando flagra o trio em frenesi alimentar, aos beijos com o agente imobiliário Jonathan Harker, o vampiro expressa ciúme não por elas, mas por sua mais recente presa humana.

Tive a clara e imediata consciência da presença do conde e de sua explosão de raiva, violenta como a fúria de uma tormenta. Ao abrir meus olhos involuntariamente, vi sua possante mão agarrar a bela mulher pelo pescoço e com brutal violência arrastá-la para traz. Os olhos azuis como safiras expediam fagulhas de ódio, os dentes rilhavam e seu rosto agora estava rubro de paixão.

E o conde?

Eu nunca poderia imaginar tal expressão de ódio e de fúria, mesmo entre os demônios do inferno. Seus olhos estavam literalmente lançando chamas e seus lampejos sanguíneos eram sinistros, dando a impressão de que o fogo do inferno tivesse se concentrado em seu olhar. Agora seu rosto perdera o rubor anormal, se tornara mortalmente pálido e suas feições adquiriam uma rigidez de máscara mortuária. As espessas sobrancelhas que se tocavam por sobre o nariz pareciam formar um arco incandescente. Com um violento empurrão desferido por seu braço, arremessou a mulher para longe de si, e então investiu sobre as outras duas, como se as empurrasse para trás, mesmo sem tocá-las. Era aquele o mesmo e imperioso gesto que eu o vira empregar quando afugentara os lobos. E ele usou um tom de voz que, embora baixo e quase não passando de um sussurrar, parecia cortar o denso ar da sala.

— Como ousam vocês, qualquer uma de vocês, tocar esse homem? Como têm a audácia de se arriscar apenas para vir vê-lo, quando eu as proibi? Para trás, eu lhes ordeno! Esse ser me pertence! Fujam da tentação de se misturar com ele, do contrário terão de se haver comigo!

— Você nunca amou mesmo! Jamais amará!

Essas palavras foram apoiadas pelas outras duas, e as três, em uníssono, explodiram em uma nova, melancólica e cruel gargalhada que ecoou na sala de tal forma que por pouco não me causa um desmaio, parecendo-me antes uma demonstração de prazer demoníaco. Depois disso o conde voltou-se e, olhando firmemente em meus olhos, tornou a falar no mesmo tom sussurrado.

— Sim, eu também posso amar, e vocês mesmas o podem testemunhar através do passado. Não foi assim? Bem, agora lhes farei uma promessa… Depois que eu terminar com ele, as três poderão beijá-lo à vontade. Agora basta! Vão embora! Eu tenho de despertá-lo, pois há muito o que fazer.

— E nós não teremos nada esta noite? — perguntou ainda uma delas.

Ela deu uma breve risada, ao mesmo tempo apontando para um saco que fora lançado sobre o soalho e dentro do qual se debatia, como se ali se ocultasse algum ser vivo. O conde respondeu apenas movendo a cabeça, num leve aceno afirmativo.

Uma das mulheres deu alguns passos para a frente e abriu o pequeno fardo. Se meus ouvidos não me enganaram, ouvi um débil suspiro, acompanhado de um gemido, vindo daquela direção, como o som emitido por uma criança quase asfixiada. Em uma fração de segundo as três mulheres formaram um círculo em torno do local do ruído, enquanto eu estremecia de horror. Mas, quando voltei a olhar, elas já haviam desaparecido com o tétrico fardo.[3]

A minissérie brasileira Drácula – A Sombra da Noite (1985-1987)[4], com roteiro de Ataíde Braz e desenhos de Neide Harue Nakazato, foi a primeira adaptação onde uma das stregoicas ganhou um nome, Natasha. A segunda história é o único trecho fiel ao romance de Bram Stoker, com uma diferença significativa: As vampiras do castelo tem escrúpulos; ao invés de crianças elas só atacam assaltantes em legítima defesa.

Stregoicas, por Luis Royo.[5]

A primeira adaptação do livro Drácula para o cinema que os herdeiros de Bram Stoker autorizaram foi realizada pela Universal Studios Inc., em 1931. Nesta época não somente as stregoicas permaneceram anônimas como os nomes das atrizes Jeraldine Matilda Dvorak (1904-1985), Mildred Pierce (1908-1981) e Dorothy Estelle Triebitz (1906-1992) não foram listados nos créditos finais, em razão do papel secundário ser equiparado ao da mera figuração! As criaturas depravadas, com seios de fora, que mordem a virilha de Jonathan Harker (Keanu Reaves), em Bram Stoker’s Drácula (1992), ganharam coreografia personalizada, mas não identidades. Mas pelo menos os créditos mencionam as atrizes Michaela Bercu, Florina Kendrick e Mônica Belluci.

“Faça com que fique esquisito”, era a instrução básica de Francis a seu filho Roman Coppola, diretor da segunda unidade de Drácula de Bram Stoker e diretor de todos os efeitos especiais vistos no filme. Sem orçamento bastante para disputar com a tecnologia de ponta utilizada em marcos computadorizados (…) ele recorre a técnicas antigas, como (…) alçapões para o surgimento das noivas de Drácula de sob a cama. (…) Outros efeitos criados por Roman obedecem à tradição inicial do cinema — trucagem se dá pela maneira como a cena é realizada, não pela maneira como é filmada. Um exemplo claro é quando as noivas de Drácula se transformam numa gigantesca aranha humana. O “efeito”, ali, resultou de uma complicada coreografia, através da qual as atrizes criaram a forma da aranha combinando seus próprios corpos.[6]

Passaram cento e dez anos até o roteirista Stephen Sommers conceder o mínimo de dignidade às stregoicas, dando-lhes os nomes Aleera, Verona e Marishka no filme Van Helsing (2004). Interpretadas respectivamente pelas atrizes Eleana Anaya, Silvia Colloca e Josie Maran, elas fazem a diferença neste filme onde o conde quase fica em segundo plano. Aliás, tudo acontece porque Aleera, Verona e Marishka desejam superar a infertilidade natural da condição vampírica e criar enxames de bebês morcego.

Drácula ama Jonathan?

A interpretação de tal diálogo depende muito da permissividade e censura prévia dos editores e veículos de comunicação. Na Itália dos anos oitenta Guido Crepax (1933-2003) roteirizou e ilustrou o romance gráfico Conte Dracula (1987), onde fez Jonathan Harker queixar-se em desespero pelo vampiro tê-lo possuído como um animal cobrindo sua fêmea. Esse discurso discreto e minimamente gráfico foi a menção mais explícita a bissexualismo que pudemos encontrar desde sempre até décadas depois.

Noutro extremo, nos EUA do século XXI, a série Dracula (2020), adaptada por Mark Gatiss e Steven Moffat, dirigida por Jonny Campbell, Damon Thomas e Paul McGuigan, obedeceu à agenda progressista intrínseca ao período caracterizando o Conde Drácula (Claes Bang) como um monstro de gênero bissexual que se põe em posição passiva ao se relacionar sexualmente com homens hipnotizados.

Provavelmente a perspectiva menos incorreta era a interpretação majoritária das editoras paulistanas Continental (1959-1961), Outubro (1961-1966), Taika (1966-1978), D-Arte (1967-1993) e outras menos expressivas onde, nas inúmeras e intermináveis quadrinizações do Conde Drácula, o rei dos vampiros até poderia aparecer em posições sugestivas – ele frequentemente elogiava a beleza feminina,  –  todavia estava impedido por imposição de pacto demoníaco de se apaixonar, ou teria seus poderes reduzidos.

Romance de R. F. Lucchetti, sob o pseudônimo Brian Stockeler.

Nesta perspectiva vampiros extrairiam prazer do sangue e poder da maldade. Diferentemente do mitologema e folclore europeu, os vampiros dos principais títulos de quadrinhos brasileiros não faziam indivíduos eleitos para a conversão beberem sangue com propriedade de transposão de informação genética ou mágica, extraído de seus corpos. A reprodução (transformação) se dava por mordedura, como se eles fossem morcegos contaminados transmitindo vírus da raiva. Então o Conde Drácula precisa, ele mesmo, eliminar o perigo de concorrência todas as vezes em que não deseja que suas vítimas se transformem em novos vampiros e disputem território consigo.

Nos romances gráficos de Nico Rosso – especialmente naqueles roteirizados pela brasileira Helena Fonseca – o conde só morde mulheres e, a seguir, crava lâminas de ferro no coração da vítima para prevenir a explosão demográfica e concorrência pelo sangue dos mortais. Se algo der errado, caçadores de vampiros fazem serviço de utilidade pública eliminando restolhos antes que elas se tornem muito numerosas.

R. F. Lucchetti chegou a dar a um livro o título Os Vampiros não Fazem Sexo (1974), o qual originou uma versão em quadrinhos com desenhos de Nico Rosso.

Quando o Conde Drácula desobedece às regras do pacto e cai de amores por alguma mulher, não somente o Diabo vem pessoalmente lhe punir disparando raios como nascem poderosas vampiras boazinhas que atormentam a pós-vida do vilão, a exemplo de Naiara e Nadia, duas filhas de Drácula que ganharam séries próprias.

Voltando ao livro de Bram Stoker, imagino que todos os vampiros, machos e fêmeas, tinham interesse em humanos de qualquer sexo ou gênero; porém perdiam a chama da paixão por eles depois de conversos. — Repare que Drácula não procura Lucy após a conversão. — Se for verdade que uma ou todas as stregoicas foram noivas de Drácula, parece que eles passaram a viver sob regime de separação de corpos porque, embora o costume da época atribuísse à mulher o dever de realizar trabalhos domésticos, era o próprio conde quem limpava a ala do castelo onde somente ele vivia.

Um pesadelo inspirador

Pesquisadores descobriram que Bram Stoker não criou a parte da estória onde Jonathan é arrebatado pelas vampiras. Ele apenas descreveu um pesadelo sonhado em 08/03/1890, no qual “um rapaz vê algumas jovens; uma delas tenta beijá-lo, não nos lábios, e sim no pescoço”. Seis dias depois Stoker voltou a escrever sobre o assunto, já na intenção de produzir as primeiras linhas de um conto:

— “Será um sonho? Mulheres querem beijá-lo. Terror de morte. De repente o conde a afasta: ‘Este homem me pertence!’”

Houve quem sugerisse que a temível mulher era Florence Stoker. Um parente da família descreveu Florence como uma pessoa absorta, amaldiçoada por sua grande beleza e o desejo de preservá-la. Florence rompeu o noivado com Oscar Wilde para casar com Bram Stoker, mas, depois, o esposo preferia passar a maior parte do tempo viajando sozinho… A experiência da paternidade foi demasiadamente dispendiosa e o convívio foi se tornando cada vez mais problemático. Então, neste dia em particular, não foi só a comida indigesta que estragou sua noite. A antipatia pela pessoa real, em sua cama, fê-la invadir seus sonhos na forma de súcubo para exigir a atenção de um marido que não a amava mais.

Papéis descrevem os lugares que visitou, os livros que leu e os pensamentos que teve entre março de 1890 e fevereiro de 1986. O pesadelo esteve sempre presente nesses seis anos. Na redação final Jonathan observa que duas stregoicas possuíam “tez de um moreno dourado” e narizes aquilinos “à semelhança do conde”, detalhe que sugere parentesco consanguíneo.[7] Estas agregadas respeitam a hierarquia doméstica da mulher de etnia caucasiana, que abalou o sono do autor na pele do personagem:

Era dotada de rara beleza — o que de mais fascinante se possa imaginar sob a forma de mulher —, com uma farta e longa cabeleira de cachos dourados e olhos magníficos, da cor e com o brilho de safiras. Tive a impressão, embora indefinida e imprecisa, de já haver visto seu rosto e de conhecê-lo por meio de sua aparição em algum sonho tenebroso, do qual na hora não me foi possível lembrar.[8]

Infelizmente a diversidade genética nunca é representada nos filmes temáticos onde as stregoicas parecem todas iguais, modificando somente a cor da cabeleira lisa. A tendência nas produções cinematográficas do século XX foi o branqueamento da pele das personagens e redução do vestuário até o nudismo.

Notas:

[1] FRANÇA, Sérgio. Drácula: Sangue e sedução. Em: AS MELHORES HISTÓRIAS DE DRÁCULA. São Paulo, Bloch, 1993, p 31.

[2] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 45.

[3] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 46-47.

[4] A minissérie brasileira Drácula – A Sombra da Noite, com roteiro de Ataíde Braz e desenhos de sua esposa, Neide Harue Nakazato, foi lançada em cinco números pela editora Nova Sampa, indo às bancas de 1985 a 1987. Em 1989 os dois primeiros números foram relançados com novas capas. Em 1991 a minissérie completa foi reunida em um grosso volume. Uma nova edição está prevista para 2022.

[5] COOL WALLPAPERS. Acessado em 21/04/2022. URL: https://coolwallpapers.me/picsup/6058417-art-moon-luis-royo-girls-vampires-vampires-blood-cemetery.jpg>.

[6] RONDEAU, José Emilio. Drácula: Delírio sangrento. Em: SET: Cinema e vídeo, Ano VII, N.º 1. São Paulo, Editora Azul, janeiro de 1993, p 18-19.

[7] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 45.

[8] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 45.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/as-stregoicas-do-castelo-do-conde-dracula/

A TV Globo e Sua História Secreta

“Um povo ignorante é o instrumento cego de sua própria destruição”

As reais motivações que a Globo teve, e tem agora, depois das eleições, com uma inusitada e inesperada aproximação do Governo Lula. Uma reflexão sobre o papel da emissora na implantação do poder do capital especulativo sobre o produtivo no Brasil.

Recebi, com alegria, algumas observações competentes do amigo Giovano de Oliveira Cardoso, leitor da Novae, a respeito de meu artigo publicado nesta Revista em 28 de outubro [link da revista retirado do ar], sobre o resultado das eleições, o qual lembrou algumas razões da neutralidade da Rede Globo no recente processo eleitoral brasileiro.

Apropriadamente lembrava o amigo Giovano dos interesses conflitantes entre a rede Globo e o Grupo Silvio Santos, em diferentes âmbitos de uma mesma disputa. A aproximação do Gugu Liberato do candidato Serra, enquanto negociava a aquisição de um canal de televisão no Mato Grosso, e que já lhe havia sido concedido o direito de compra, fora dos prazos legais que são admitidos nos contratos de concessão, seria um dos motivos para essa disputa.

Outros motivos, que também podem ser visualizados no estreito contato do Governador de São Paulo ao próprio Silvio Santos, em evidente envolvimento por ocasião de seu seqüestro, em nebuloso episodio que incluiu o assassinato do seqüestrador na prisão, após ser admitido publicamente sua salvaguarda e integridade física pelo próprio Governador, em meio a fatos de apropriação do botim do seqüestro por policiais que não ficaram devidamente esclarecidos.

E ainda o pleito da Globo junto ao BNDES, de um escandaloso credito de um bilhão de reais, no sentido de salvar do naufrágio econômico os erros cometidos pela administração incompetente de um canal de TV por assinaturas dessa Rede, e vergonhoso, se comparamos o volume de crédito aos recursos de 400 milhões negados pelo Governo ao desenvolvimento de toda uma região, no caso o nordeste brasileiro, através da SUDENE, que foi fechada, para evitar que se averiguassem denuncias de corrupção em projetos financiados pelo órgão.

O amigo Giovano lembra ainda, com propriedade, o temor da Globo pela aprovação da lei que permite a participação de empresas estrangeiras em até 90% do capital social das emissoras nacionais, o que daria ensejo as redes norte-americanas para assediar a Globo, como maior canal brasileiro, e tentar assumir seu controle, dentro de uma política de lançamento da ALCA em nosso pais e de avanço dos produtos norte-americanos em substituição aos nacionais em nosso mercado interno.

Acredito que esses temas devam ser tópicos de reflexão ponderada de pesquisadores e intelectuais militantes, que se interessem por esclarecer as reais motivações que a Globo teve, e tem agora, depois das eleições, com uma inusitada e inesperada aproximação do Governo Lula. E, para colocar mais um pouco de lenha na fogueira, transcrevo um fragmento de meu livro Capitalismo Autoritário, ainda não publicado, onde abordo, em determinado momento o papel das comunicações, em especial da Rede Globo, para a implantação do poder do capital especulativo sobre o produtivo no Brasil.

Do livro “Capitalismo Autoritário”, ainda inédito:

Como veremos adiante, não se trata aqui somente dos recursos tecnológicos e materiais indispensáveis para o suporte técnico do Capitalismo Autoritário, mas da função adquirida pelos mesmos na estratégia montada para a condução desse Capitalismo, em suas bases ideológicas e econômicas que exercerão o poder de fato na nova Sociedade Capitalista.

Uma citação do diretor-presidente da TV Globo, em 1966, respondendo à Comissão Parlamentar de Inquérito (já se fazia isto, naquela época) que investigou as ligações entre a Globo e o grupo Time-Life (ligações espúrias, conforme veremos) é muito elucidativa para se entender a importância do sistema de comunicações no novo cenário nacional: “As empresas jornalísticas sofreram, mais talvez do que quaisquer outras, certas injunções, como depressões políticas, acontecimentos militares. Os prognósticos que estamos fazendo na TV Globo dependem muito da normalidade… da tranqüilidade da vida brasileira. Esses planos podem ser profundamente alterados, se houver um imprevisto qualquer ou advir uma situação que não esteja dentro dos esquemas traçados, como se vê nas operações de guerra.”

Esta era uma citação que fazia ver o papel que a rede Globo planejava, junto com o grupo Time-Life no futuro imediato do Brasil. O acusador, por outro lado, coincidentemente representante da rede de televisão já existente e líder das comunicações na época (os Diários Associados, proprietários da Rede Tupi), esclarecia à mesma CPI: “E esta é uma guerra – não é uma guerra quente, mas um episódio da guerra fria. Entretanto, se perdermos neste episódio, o Brasil deixará de ser um país independente para virar uma colônia, um protetorado. É muito mais fácil, muito mais cômodo e muito mais barato, não exige derramamento de sangue, controlar a opinião pública através dos seus órgãos de divulgação, do que construir bases militares ou financiar tropas de ocupação”.

Feitas estas considerações, passemos a analisar a montagem do sistema de comunicações durante o período da ditadura militar, que é um ponto importante para compreender a função desse sistema como parte do Capitalismo Autoritário.

A legislação que orienta as concessões de rádio e televisão foi estabelecida logo após o Golpe Militar de 1 de abril de 1964 e conservou-se inalterável até a Constituição de 1988, que apenas confirmou as normas já existentes e somente agora pretende ser alterada, para pior, é claro, dando permissão às empresas estrangeiras participarem do capital da radiodifusão brasileira.

Ela atribui ao presidente da República poder absoluto sobre as concessões, que não dependem em nenhum momento de pareceres técnicos, considerando-se, desta forma, apenas os prêmios políticos que o presidente utiliza como barganha para conquistar os votos dos deputados e senadores no Parlamento.

No apagar das luzes da ditadura, já no governo Figueiredo, foram feitas 700 concessões de rádio e televisão, que representou na época mais de um terço do total das emissoras inauguradas desde o surgimento da radiodifusão no país. (FSP, 14 mar. 1985).

O serviço de radiodifusão no Brasil é mantido sob estrito padrão privado comercial, sem a preocupação da transmissão e defesa da cultura nacional, exceção feita à Rede Universitária -TV Cultura que sobrevive com parcas verbas e de qualidade técnica inferior frente às concorrentes comerciais.

As concessões são feitas sem o cuidado de análise mercadológica e, distribuídas como brindes, dentro da mentalidade cartorial do governo federal. Elas são freqüentemente superpostas e tem sua abrangência geográfica aumentada arbitrariamente.

Dois são os tipos de concessão: a controlada pelas grandes redes de rádio e televisão e as presenteadas aos apaziguados do Poder. Servem, assim, para contemplar diretamente o poder econômico e o poder político, sem visar em nenhum momento o interesse público. A rede Globo sozinha detém 40% do mercado publicitário das emissoras de televisão, dominando, desta forma, o mercado em sua totalidade, e em completa abrangência do território nacional.

Na história da rede Globo existe o obscuro acordo com o grupo Time-Life, norte-americano, que financiou, equipou, planejou, treinou o pessoal e deu assistência técnica durante mais de dez anos, até sua autonomia técnica e comercial; este acordo, como vimos a pouco, foi motivo, inclusive de uma CPI para investigar as suas conseqüências monopolizadoras do mercado do país, logo no início da ditadura militar, quando esta ainda se preocupava em dar alguma função aos deputados e senadores, e mesmo que, como todas, terminasse em pizza.

Conforme o livro “História Secreta da Rede Globo – Ed. Tchê! Porto Alegre “, (p.71) o autor afirma que “Controlando as entidades representativas das emissoras de radiodifusão, o sistema Globo faz predominar seus interesses e neutraliza as manifestações das pequenas e médias empresas que são sufocadas pela concorrência dos oligopólios”. E, em seguida: “Com a Nova República, a Globo teve seu poder fortalecido”.

Visto está que, após a ditadura, o sistema de comunicações brasileiro, capitaneado pela rede Globo, manteve-se intacto e até fortalecido, dentro dos padrões ideológicos definidos pelo grupo Time-Life na década de sessenta, em plena guerra fria. E, pela importância e destaque que a Globo continua ocupando na mídia nacional, é evidente que este processo continuou a se fortalecer durante os últimos quinze anos.

Que a implantação da rede Globo no Brasil foi ilegal e fato criminoso é assunto já discutido e conhecido por uma grande parte da população pensante do país, mas entender que este fato faz parte de um contexto econômico e político-social configurado na “globalização” das comunicações e que é o grande orientador ideológico do Capitalismo Autoritário, isto é que é preciso analisar e definir claramente.

Com isso estaremos dando argumentos para que os setores que ainda resistem aos avanços do Capitalismo Autoritário possam ser “sacudidos” em seus brios éticos e de compromisso com a nação, e passem a defender o direito das maiorias de impor seus interesses nos sistemas de comunicação de massa.

Os jornais, censurados, dirigiram as notícias segundo os interesses da ditadura, que coincidiam com os Estados Unidos. Foi a era do “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. A subserviência aos americanos passou a ser completa, e assim continua até os dias atuais.

Mas a grande vedete das comunicações já era a televisão. Inaugurada em 1950, teve um caminho ascendente muito lento, que durou toda a década de cinqüenta. Só na década de sessenta é que começou a espalhar suas antenas e repetidoras por todo o país, tornando-se o maior veículo de comunicação e transmissão ideológica a partir de então.

O grupo Time-Life, da direita conservadora norte-americana tentou associar-se ao “Estado de São Paulo” mas os seus proprietários, ou não entenderam bem o significado da proposta, o alcance histórico que ela teria na formação da consciência nacional nas décadas seguintes, ou eram pretensiosos demais para dividirem o poder da mídia que detinham, mesmo que fosse com os norte-americanos.

O fato é que o grupo Time-Life acabou associando-se com o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, reconhecido como a cabeça da reação, do conservadorismo e do entreguismo no Brasil. O contrato assinado entre Roberto Marinho e o grupo Time-Life o foi em 1962, mas a primeira emissora só começou a funcionar em 1965, depois do Golpe Militar. Até então já haviam sido assinados vários acordos de cooperação entre ambos os sócios, chegando os dólares americanos em profusão, para a importante missão.

Tão importante que, em outubro de 1964, na “Conferência sobre o Desenvolvimento  Latino-americano”, promovida pelo Hudson Institute foram expostos com clareza, pelo comparsa de Roberto Marinho no projeto da rede Globo, Weston C. Pullen Jr., Presidente do Time-Life Broadcasting Inc., os desígnios norte-americanos com as associações na mídia televisiva que se processavam entre os Estados Unidos e os países da América Latina, que aqui reproduzimos, e que está citada na obra acima mencionada “História Secreta da Rede Globo – Ed. Tchê! Porto Alegre (p. 125/126)”:

“Passando em revista sua experiência em TV na Europa, Oriente Médio e América Latina, o Sr. Pullen afirmou que ele está operando na Venezuela, no Brasil, na Argentina e possivelmente entrará em nova operação na Colômbia. (…) A NBC, a CBS e a ABC, estão todas ativas nessas áreas e todas têm, como o Time, uma fórmula comercial que tende a incluir as seguintes características:

1. O grupo norte-americano necessariamente tem posição minoritária, em termos de oportunidade de investimentos, devido às leis dos respectivos países sobre telecomunicações.

2. Em todos os casos é indispensável ter sócios locais, o que é importante; e eles têm provado ser dignos de confiança.

3. A programação das estações é uma tarefa conjunta norte e latino-americana.

4. A política adotada mostra que a TV educativa diurna é importante para o êxito comercial e poderosamente eficaz e popular, quando tentada. O Sr. Pullen considera que o governo norte-americano pode e deve interessar-se por esse tipo de expansão por parte de grupos norte-americanos como um meio de atingir o povo. E apesar dos problemas que surgem, a TV se tornará para todo latino-americano, tal qual como para todo norte-americano (sic) em futuro bem próximo.”

A estratégia, portanto, estava muito clara: tratava-se de apoderar-se dos meios de comunicação mais importantes dos países-chaves da América Latina – Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia, da mesma maneira como o mesmo Sr. Pullen vinha fazendo na Europa e no Oriente Médio, e a intenção, óbvia, era a de influir decisivamente na formação da consciência das gerações que formariam o novo mundo do terceiro milênio, que os Estados Unidos desejavam, estivessem sob seu controle.

E, para garantir a completa estruturação do sistema de dominação ideológica através da mídia televisiva, o senhor Pullen ficou governando a Globo durante treze anos: desde o contrato inicial, em 1962, até o final do contrato de “assistência técnica”, em 1975.

Aqui é preciso verificar que o conceito básico da formação da consciência, que seria o objeto da programação, do conteúdo dessa programação, apresentado através das novelas e programas de auditório, procurava, além de alienar o povo brasileiro, quebrar também a sua auto-estima como Nação, única forma de se dominar sem precisar armas, nem bases militares que servissem à ocupação pelos norte-americanos.

As medidas eram mais simples: da mesma forma como o americano é auto-endeusado, através da metáfora do super-homem, ou seja, a capacidade que qualquer indivíduo isolado nascido nos Estados Unidos tem de resolver qualquer tipo de problema, situação ou risco, o que é mostrado sistematicamente na filmografia americana, principalmente, mas nas demais produções que se fabricam naquele país, com o intuito de elevar a auto-estima desse povo, e leva-lo a considerar-se superior aos demais, a estratégia da Time-Life e do governo norte-americano em relação ao povo brasileiro era justamente a oposta: mostrar as mazelas do povo, as dificuldades sem solução, a incapacidade, a corrupção e o conformismo como base do espírito brasileiro, utilizando-se para isto, principalmente, das novelas da televisão e dos programas “bandeira dois” nas rádios locais.

Nas novelas são mostrados o tempo todo as fraquezas dos personagens, a complacência e a traição permanente e geral. A vulgaridade das classes médias urbanas, nos bairros pobres cariocas, em contraste com a exuberância e extravagância das classes médias da Zona Sul. A caricatura do povo nordestino, apresentado como sub-nação, e ridicularizado em suas maneiras e modo de vida. É, evidentemente uma imagem falsa, mas, que de tanto ser repetida durante décadas pela rede nacional da Globo, acabou por ser aceita como verdade, quebrando a auto-estima desse povo, que se ridiculariza a si próprio, e ri de si mesmo com as humilhantes alegorias feitas aos pobres por “Caco Antibes” no programa “Sai de baixo” dos domingos globais.

A questão da TV educativa diurna também ficou bem colocada e explícita, segundo o ponto 4 acima, e se tornou mais recentemente uma tarefa sistemática, com os programas de ensino supletivo, dirigidos pela Rede Globo, assumindo a função do Estado e por ele reconhecido oficialmente, assim como os novos meios de ensino à distância, a tele-escola, com programas de desenvolvimento escolar através de tele-salas, o ensino técnico, empresarial (“Pequenas Empresas Grandes Negócios”), etc.

Antes que aconteça a expansão da tele-educação a níveis mais abrangentes, a Rede Globo se antecipou no controle desse nicho formador de consciência, assumindo essa tarefa, imprescindível para a manutenção do seu domínio, da ideologia norte-americana imperialista e do Capitalismo Autoritário que se estabeleceu.

Ou seja, a Globo assume a orientação da educação, cria e financia os sistemas de divulgação, estabelece a programação e é reconhecida em todos os seus atos pelo Ministério da Educação. Fecha-se o círculo, e a formação da Consciência Nacional fica entregue aos objetivos da Rede Globo e de sua integração com o pensamento e ideologia norte-americana.

Hoje, a Rede Globo absorve metade da audiência televisiva e setenta e cinco por cento das verbas gastas com publicidade, segundo abalizada opinião do jornalista Paulo Henrique Amorim. É evidente, assim, o domínio total deste meio de comunicação sobre a formação da consciência do povo brasileiro, capaz de eleger presidentes e determinar o curso de nossa história, como era o objetivo central da Ditadura Militar e do Governo Norte-americano, mancomunados para a derrota histórica da Nação Brasileira em 1964, quando lançaram os esteios sobre os quais se ergueria o Capitalismo Autoritário.

À mesma época se instalaram no Brasil dois outros grupos editoriais importantes: o grupo Visão, com matriz em Nova York, cujas publicações eram dirigidas à orientação da classe empresarial, assim como a editora Mc Graw Hill, que destinava suas publicações técnicas ao meio empresarial e que depois se associou ao grupo Visão. Além desses, o grupo Civita, da Editora Abril, também começou suas atividades, com dezenove revistas, o mesmo número que, na mesma época, começava a publicar na Argentina e no México. Victor Civita, seu presidente, italiano de nascimento, mas naturalizado norte-americano, havia sido empregado do grupo Time-Life e veio para a América do Sul com seu irmão, ele ficando no Brasil e o irmão indo para Argentina.

Assim, ficou formado o quadro de propriedade dos meios de comunicação brasileiros e latino-americanos, onde o grupo Time-Life aparecia como maior parceiro, ditando os investimentos financeiros, tanto na televisão, como no rádio e nas revistas. Mesmo alguns jornais, como O Globo, especialmente, já eram porta-vozes das posições norte-americanas pela afinidade ideológica que possuía e ainda possui com este país.

Evidentemente, a estratégia foi coroada de êxito, pois, nas décadas seguintes:

1. O Brasil passou a receber a influência cultural apenas dos Estados Unidos.
2. Foi estimulado o desenvolvimento de uma sub-cultura semelhante à norte-americana que dominou a consciência das massas.
3. A filmografia mostrada na Televisão concentrou-se na violência e no culto ao super-homem americano, que tudo resolve sozinho, seja ele homem, velho, moço, mulher ou criança, desprezando os esforços coletivos e o trabalho social.
4. Ao contrário do que ocorria nos Estados Unidos, nos países periféricos, como o Brasil, tentava-se quebrar a auto-estima desses povos, para permitir a dominação e a alienação a partir dos países centrais, Estados Unidos em primeiro lugar.
5. A mediocridade tomou conta das programações das estações (decidida em conjunto, “entre americanos e brasileiros”, segundo o Sr. Pullen).
6. A alienação cultural passou a ser a característica das novas gerações, contribuindo para o abandono do espírito crítico que ainda sobrevivia na “geração de 68”.
7. Os assuntos a serem ventilados e discutidos na Televisão passaram a ser os assuntos que interessavam aos norte-americanos e não aos brasileiros.
8. A metodologia educacional divulgada através da TV passou a privilegiar os resumos, as visões gerais, sem contribuir para a formação de conhecimentos sólidos, que levem ao pensamento crítico.
9. Surgiu, a partir da rede Globo, uma concentração desproporcional do mercado da televisão em mãos de uma única rede.
10. A formação da Consciência integrada, seguindo a ideologia norte-americana do Capitalismo Autoritário foi entregue oficialmente nas mãos da Rede Globo, com a parceria entre a Fundação Roberto Marinho e o Ministério da Educação.

11.2002

José Lucas Alves Filho – Economista pernambucano, formado na Faculdade de Ciências Econômicas de Montevideo. É professor de Metodologia Dialética em cursos de ‘pós-graduação’ nas universidades de Pernambuco, Consultor de Empresas, escritor e dramaturgo, entre outras atividades. Publicou trabalhos de economia como “Não à Teoria do Subdesenvolvimento” (Kairós, SP, 1983); “S.O.S., Homem do Campo”(Kairós, SP, 1984); “Capital Ilusão”(Ed. Coragem, SP, 1986); “O Fim do Desemprego ou A Jornada de Seis Horas”(Ed. do Autor, Recife, 1999); “A Cachorra Isaura (Romance, Ed. do Autor, Recife, 2001), além de outras obras inéditas, como: “Metodologia Científica – O Método Dialético”;”Reforma Agrária em Pernambuco”;os Romances “Madalena Uchôa”, “Para Onde Vamos” e “O Castelo Destruído”; as peças teatrais “O Direito à Preguiça”, “Verso e Reverso da História de Olinda”, “Ëlogio da Loucura” e o Poema “Século XXI”.

Ilustração: Cris Fernandes, produtora executiva da Novae. http://www.crisfernandes.blogger.com.br

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Por José Lucas Alves Filho

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-tv-globo-e-sua-historia-secreta/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-tv-globo-e-sua-historia-secreta/

Quem tem medo dos Illuminati?

Publicado no S&H dia 12/05/09

Com a estréia do próximo filme do Dan Brown nesta sexta feira, os católicos e evangélicos de todo o mundo entrarão novamente em polvorosa, com as maluquices que lhes são peculiares e todas as desculpas possíveis para aumentar a arrecadação de Dízimo para a luta contra “os maléficos Illuminati”.
Mas afinal de contas, quem são os Illuminati? De onde surgiram? Como se organizam? O que fazemos em reuniões? Eles querem mesmo dominar o mundo?
Estas e outras respostas você só encontra aqui no Teoria da Conspiração.

A Origem do Nome
O termo “Illuminati” ficou famoso por causa da loja de estudos fundada pelos professores Adam Weishaupt e Adolph Von Knigge em 1º de Maio de 1776, mas as origens deste termo são muito mais antigas e muito mais simples do que parecem.
Illuminati vem de “Iluminados”, ou seja, qualquer sacerdote ou estudioso que atingiu determinada posição dentro do Templo que permitiu a ele dispor de segredos iniciáticos até então desconhecidos aos graus inferiores.
O termo vem da correlação com o SOL. O centro do Templo, o Deus de nossos próprios corações. Simbolicamente denominado Tiferet, na Kabbalah; o grau de consciência no qual todos os quatro elementos estão dominados e o Adepto prossegue para a Câmara do Meio.
O grau de Illuminatus é um dos mais altos graus de diversas Ordens Esotéricas; o equivalente à “Faixa Preta” nas artes marciais… mas isso é tudo o que Illuminatus significa: alguém que deteve os conhecimentos de grau daquela Ordem, nada mais.
Achar que os “Illuminati” estão todos operando em uníssono para a dominação do mundo é tão ingênuo quanto achar que todos os “faixas-pretas” do mundo lutam e aprovam o mesmo estilo de combate.

A Estrutura dos Illuminati
A maioria dos graus ligados à Rosacruz ou aos gnósticos trabalha com graus baseados nas Emanações da Árvore da Vida. Esta estrutura foi desenvolvida inicialmente nos Templos de Toth/Hermes, mas contava apenas com sete graus, baseados nos Planetas Alquímicos (Lunae, Mercure, Veneris, Martis, Jovis, Saturni e Solis), sendo Solis o mais avançado. Cada grau possuía um Kamea (Quadrado Mágico) correspondente. Mais tarde os Pitagóricos finalizariam a estrutura para conter 10 esferas numeradas, como conhecemos hoje em dia.
Da relação do Sol com a iluminação tanto exotérica quanto esotérica, chamavam-se estes Mestres de “Mestres Iluminados”. O número 666 era atribuído a estes Mestres.

666? Mas não é o número do capeta?
Não… a origem do 666 é muito mais simples e prosaica; vem dos Kameas de cada um dos sete graus iniciáticos das Escolas de Toth.
Um Kamea é um “quadrado mágico” contendo os números e nomes (da conversão numérica para o alfabeto hebraico) divinos que servem como janelas para entender a natureza do ser humano e como ela interage com o macrocosmos.
Um kamea é representado como um quadrado contendo divisões internas, de acordo com a sefira da Kabbalah que aquele planeta representa: Então o Kamea de Saturno/Binah é um quadrado dividido em 3×3, o de Júpiter/Chesed 4×4, o de Marte/Geburah 5×5, o do Sol/Tiferet 6×6, o de Vênus/Netzach 7×7, o de Mercúrio/Hod 8×8 e o da Lua/Yesod 9×9.
Cada Kamea possui em seu interior os números de 1 até o quadrado da Sefira, dispostos de maneira que a SOMA de todas as linhas e colunas seja sempre o mesmo número.
Assim sendo, o Kamea de Saturno possui números de 1 a 9 (e cada linha/coluna soma 15 – ver na imagem ao lado), o de Júpiter de 1 a 16 (e cada linha/coluna soma 34), o de Marte de 1 a 25 (e cada linha/coluna soma 65), o do Sol de 1 a 36 (e cada linha/coluna soma 111), o de Vênus de 1 a 49 (e cada linha/coluna soma 175), o de Mercúrio de 1 a 64 (e cada linha/coluna soma 260) e o da Lua de 1 a 81 (e cada linha/coluna soma 369).
Além disto, cada Planeta está associado diretamente a um número sagrado, que é a somatória de todos os valores dentro do Kamea. Assim sendo, o número associado de Saturno/Binah é 45 (1+2+3+4+5+6+7+8+9), Júpiter/Chesed é 136, Marte/Geburah é 325, Vênus/Netzach é 1225, Mercúrio/Hod é 2080 e a Lua/Yesod é 3321.
E o Sol?
Se somarmos os números do Kamea do SOL, teremos 1+2+3+4…+34+35+36… adivinhem que número resulta desta soma? Isso mesmo… pode fazer as contas na sua calculadora, eu espero.
Calculou?
Exato. 666.
Tiferet representa o ser Crístico que habita dentro de todos nós. Dentro da Kabbalah, representa todos os deuses iluminados e solares:Apolo, Hórus, Bram, Lugh, Yeshua, Krishna, Buda, todos os Boddisatwas, todos os Mestres Ascencionados, todos os Serenões, todos os Mentores, todos os Pretos-velhos e assim por diante. Escolha uma religião ou filosofia e temos um exemplo máximo a ser atingido.
Tiferet representa a união do macrocosmos com o microcosmos, o momento onde o homem derrota o dragão simbólico (que representa os quatro elementos) e se torna um iluminado e, como tal, senhor de seu próprio destino. Tiferet é o mais alto grau de consciência que um encarnado pode atingir.
Desta maneira, quando se tornar um iluminado e senhor de seu próprio destino, o homem não vai mais se submeter aos mandos e desmandos de nenhuma religião dogmática… muito menos pagar DÍZIMO para ela… estão começando a entender da onde vem a associação da Igreja entre o 666, os “Iluminados” e o “anticristo” católico/evangélico?
Duvida? Aqui temos o exemplo de Washington, onde os arquitetos maçons projetaram a estrutura da Árvore da Vida dentro de um triângulo nas ruas da cidade… eu tomei a liberdade de pintar de vermelho a única parte que os evangélicos divulgam, “esquecendo” convenientemente o resto do projeto para “provar” suas teorias malucas de Illuminati…

Alumbrados, Iluminés e Rosa Cruzes
O historiador Marcelino Menéndez Pelayo encontrou registro do nome “Illuminati” já em 1492 (na forma iluminados, 1498), mas ligou-os a uma origem gnóstica, e julgou que seus ensinamentos eram promovidos na Espanha por influências vindas dos Carbonários da Itália. Um de seus mais antigos líderes, nascido em Salamanca, foi a filha de um trabalhador conhecida como a “Beata de Piedrahita”, que chamou a atenção da Inquisição em 1511, por afirmar que mantinha diálogos com Jesus Cristo e a Virgem Maria. Foi salva da fogueira por conta de padrinhos poderosos (fato citado pelo mencionado historiador espanhol em seu livro “Los Heterodoxos Españoles”, 1881, Vol. V).

Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus, ordem religiosa da Igreja Católica cujos membros são conhecidos como jesuítas, na época em que estudava em Salamanca em 1527, foi trazido perante uma comissão eclesiástica acusado de simpatia com os alumbrados, mas escapou apenas com uma advertência. Outros não tiveram tanta sorte. Em 1529, uma congregação de ingênuos simpatizantes em Toledo foi submetida a chicoteamento e prisão. Maior rigor foi a conseqüência e por cerca de um século muitos alumbrados foram vítimas da Inquisição, especialmente em Córdoba.
Os Jesuítas, apesar de fortemente religiosos, enveredaram pelos estudos ocultistas e possuem sua própria organização interna de magistas e conhecedores de ciências herméticas. Aqui no Brasil, seu representante máximo é o famoso Padre Quevedo… esqueçam aquele personagem que vocês vêem na TV, o verdadeiro Quevedo fora das câmeras é uma pessoa totalmente diferente. É… quem diria que o Quemedo também possui o grau de Illuminatus?… isso ele não fala lá no programa da Luciana Gimenez!

Além dos Jesuítas e dos Alumbrados, o movimento com o nome de Illuminés chegou até a França em 1623, proveniente de Sevilha, Espanha, e teve início na região da Picardie francesa, quando Pierce Guérin, pároco de Saint-Georges de Roye, juntou-se em 1634 ao movimento. Seus seguidores, conhecidos por Gurinets, foram suprimidos em 1635. Um século mais tarde, outro grupo de Illuminés, mais obscuro, contudo, apareceu no sul da França em 1722 e parece ter atuado até 1794, tendo afinidades com o grupo conhecimento contemporaneamente no Reino Unido como French Prophets (Profetas Franceses), um ramo dos Camisards.

Uma classe diferente de Iluminados formam os Rosacruzes, que têm sua origem formal em 1422. Constituem uma sociedade secreta, que afirma combinar com os mistérios da alquimia a posse de princípios esotéricos de religião. Suas posições estão incorporadas em três tratados anônimos de 1614, mencionados no “Dictionnaire Universel des Sciences Ecclésiastiques”, de Richard and Giraud, Paris 1825. Os Rosacruzes deste período alegam serem herdeiros dos estudos dos Cavaleiros do Templo, ou Templários. Dentro da Filosofia Rosa Cruz Illuminati é o estágio de plenitude atingido depois de alguns anos de estudo.

O texto abaixo, da autoria do meu irmão Carlos Raposo, um dos maiores conhecedores e estudiosos da Ordo Templi no Brasil, vai ajudar a explicar os Illuminati da Baviera. 

Os famosos Illuminati da Baviera
Em Primeiro de Maio de 1776, na Alemanha, foi fundada uma sociedade que passaria a representar a síntese dos anseios e ideais compartilhados por Maçons e Rosacruzes: Os Iluminados. (ou Iluministas). Hoje, eles também são conhecidos como os Illuminati – embora haja o temerário risco do termo levá-los a serem confundidos com alguns movimentos esotéricos de nosso presente século.
Seu mentor, Adam Weishaupt (1748-1830), era um Maçom de ascendência judia, que havia tido educação católica e jesuíta. Essa singular mistura daria a Weishaupt uma grande versatilidade de pensamento, bem como independência de opiniões.
De raro e reconhecido talento, Weishaupt se graduou em Direito pela Universidade de Ingolstadt, onde passaria a exercer a profissão de professor titular de Direito Canônico, além de ser decano da Faculdade de Direto.
Durante seu estudos, antes de sua graduação acadêmica, Weishaupt obteve preciosos conhecimentos a respeito dos antigos ritos ditos pagãos e das religiões antigas. Nesses seus “aprendizados paralelos”, Adam Weishaupt muito absorveu dos antigos costumes, dando especial ênfase aos Mistérios de Elêusis e aos ensinamentos de Pitágoras.

Com base nesses conhecimentos, Weishaupt iniciava um esboço de uma Sociedade modelada segundo os conceitos do paganismo e da tradição dos mistérios ocultos. Porém, apenas após ele ter sido iniciado na Maçonaria (ao que tudo indica, Adam Weishaupt teria sido iniciado em Munique, por volta de 1774. Alguns autores, entretanto, apontam para 1777. Outros negam sua possível afiliação Maçônica) é que seu plano de formar uma nova Sociedade Secreta encontrou força suficiente para prosseguir. E assim foi feito.

Originalmente fundado como a “Sociedade dos Mais Perfeitos” (Perfekbilisten), os Iluminados, em princípio, contaram com a adesão de apenas cinco participantes.

Entretanto, tão logo foi começado a difusão de seus ideais, os Iluminados começaram a receber a adesão de vários novos membros, todos entusiastas dos propósitos de Weishaupt.

Os Iluminados da Baviera – como também eram conhecidos os Iluminados – eram dirigidos por um conselho de Areopagitas liderado por Weishaupt, que, para essa função, usava o pseudônimo de “Spartacus”. A estrutura básica dos Iluminados era composta de três graus, a saber: I* – Aprendiz (ou A Sementeira); II* – Maçonaria Simbólica; e o III* – Grau dos Mistérios. Os dois primeiros graus, por sua vez se subdividiam em outros três graus intermediários, enquanto que o III* era divido em Mistérios Menores e Maiores, que, por sua vez, também se subdividiam em graus intermediários. O total de Graus perfazia 12 estágios: começando em Noviço (o primeiro estágio do I*), até o Grau XII*, sob o título de Rex, ou Rei da Ordem. (Do sistema de graduação dos Iluminados veio a estrutura básica de algumas Ordens que hoje existem. Por exemplo, não chega a ser uma novidade o fato de uma bem famosa organização Rosacruz atual ter 12 Graus de Templo. Da mesma forma, uma das mais conhecidas Ordens Templárias de nossos dias, possui o grau de Rex, para a sua liderança)

O Grau de Noviço era tomado com a idade mínima de 18 anos, quando o novo aprendiz, através de indicação de alguém de confiança da Ordem, tinha acesso aos Iluminados, passando a receber suas primeiras instruções. Para ascender aos Graus subsequentes, havia um período de Provação de, pelo menos, um ano. (Novamente, o modelo adotado pelos Iluminados, segundo a concepção de Weishaupt, seria o padrão para uma série de outras escolas)

A função principal dos Graus superiores dos Iluminados era, através de todo um processo simbólico, baseado em toda uma temática libertária, impregnar seus Iniciados com esses ideais.

Como já dito, não só devido a proposição Iniciática de Weishaupt, mas também pelo modo como os Iluminados entendiam os sistemas políticos vigentes da época, interferindo quando julgavam necessário, logo eles alcançaram uma enorme repercussão por toda a Europa. O iluminismo, aos poucos, ganhava a adesão de importantes nomes do cenário Europeu, influenciando decisões que mudaram o rumo de alguns países do velho mundo. (os Iluminados – assim é afirmado -atuaram decisivamente na revolução francesa)
A visão política dos Iluminados era algo próximo de um Estado onde reinaria o bem comum, sendo abolidos a propriedade, autoridade social e as fronteiras. Uma espécie de anarquismo superior, saudável e utópico, onde o ser humano viveria em harmonia, numa Fraternidade Universal, baseada na sabedoria espiritual, em franca Igualdade, Liberdade e Fraternidade.

Os discursos de Igualdade, liberdade e fraternidade de Weishaupt iam de encontro aos poderes estabelecidos e esbarravam, em franca oposição à Monarquia, como instituição política; a Igreja, como instituição religiosa e aos grandes proprietários, como instituição econômica. (Hoje, por todos esses ideais, Weishaupt seria facilmente taxado de “comunista”. Entretanto, na época, esse modelo político ainda não havia sido devidamente sistematizado, nem definido). Outro ponto que devemos levar em consideração, antes de simplesmente considerá-lo um comunista, é que, as bases Religiosas que moviam os Iluminados, provavelmente eram, mesmo que uma utopia, bem nobres e absolutamente contrária ao que hoje consideramos como sendo de natureza “comunista”.

Weishaupt chegou a constituir toda uma eficiente rede de espionagem, na forma de agentes espalhados pelas principais cortes da Europa. A função básica dessa rede era se infiltrar entre o clero e os regentes, conseguindo informações políticas que permitissem a elaboração de uma estratégia de ação Illuminati, no sentido de se permitir a criação do Estado Ideal.
Após muitas tentativas de se estabelecer uma nação segundo seus princípios, os Iluminados foram politicamente extintos, em decreto instituído pelo Eleitor da Baviera, ao final do século XVIII.

E depois?
Uma vez que a semente do iluminismo foi lançada, não havia mais o que fazer por parte da Igreja. Grupos de livres-pensadores, estudiosos, cientistas e filósofos começaram a se reunir em lojas maçônicas, grupos de estudos e capítulos rosacruzes em todos os lugares do mundo.
Para tentar acabar com eles, a Igreja fez o que a Igreja faz melhor: chamou todos de “filho do demônio” e tentou distorcer ao máximo tudo o que conseguia, para continuar mantendo o povo no cabresto e arrecadar seus dízimos por ai.
Outra das estratégias da Igreja foi a de “jogar todos os gatos no mesmo balaio”. Assim como todas as Religiões afro são chamadas de “macumba” pelos fiéis, todos os estudiosos de todas as fraternidades esotéricas foram chamados de “Illuminati”.
Então “Os Illuminati isso, os Illuminati aquilo, mimimi… como eles são malvados, vamos queimá-los!”

E existem Illuminatis malvados, afinal?
Claro que existem!!! Da mesma maneira que você não tem como impedir que lutadores de jiu-jitsu faixa preta saiam pela rua batendo em mendigos, você também não tem como impedir que pessoas que tenham chegado aos últimos graus de conhecimento nas Ordens Esotéricas fundem suas próprias ordens. Basta ver que a Thulegesselshaft (que mais tarde seria a base de toda a estrutura nazista), a Ordem dos Nove Ângulos, a Igreja de Satã, o Scroll and Key, a Centúria Dourada, os Acumuladores e muitas outras ordens tidas como “fraternidades negras” tiveram entre seus fundadores pessoas que um dia obtiveram graus iniciáticos semelhantes aos dos Illuminati.
Disseram que eles estariam por trás dos Protocolos dos Sábios do Sião, por trás da Nova Ordem Mundial, por trás do Governo Oculto do Mundo, entre outras coisas, mas posso falar por experiência própria: a maioria dos Illuminati não consegue nem chegar a um acordo depois de uma sessão sobre que pizzas vão pedir para jantar, quanto mais dominar o mundo!

Os Illuminati e a Linhagem Sagrada
Outra confusão que acabou aparecendo na mídia depois dos livros do Dan Brown foi justamente a de que os Illuminati tomariam conta da Linhagem Sagrada, o que não é necessariamente falso nem verdadeiro. Muitas Ordens Esotéricas incluem estudos sobre a história das religiões em seus graus mais avançados, o que acaba levando ao conhecimento dos fatos relativos à família de Yeshua, à transformação do Yeshua-messias no Jesus-Apolo por Constantino e assim por diante.
Então obviamente existem grupos Illuminati que protegem supostos descendentes da linhagem e, ao mesmo tempo, devem existir também grupos Illuminati que desejam matar estas pessoas, ou que nem acreditam que elas existam…

E a Skull and Bones?
A Skull and Bones é uma sociedade secreta estudantil dos Estados Unidos da América, fundada em 1832. Foi introduzida na Universidade de Yale por William Huntington Russell e Alphonso Taft em 1833.
Entre 1831 e 1832, Russell estudou na Alemanha, onde supostamente teria sido iniciado em uma sociedade secreta alemã, a qual teria inspirado a criação da Skull and Bones. Tal hipótese foi confirmada durante obras realizadas no salão de convenções da Skull and Bones. Naquela ocasião foi encontrado material que se refere a Skull and Bones como o capítulo de Yale de sociedade alemã rosacruciana com influências das filosofias de Weishaupt. Skulls and Bones é uma fraternidade nos moldes das incontáveis fraternidades alfa-beta-gama dos filmes americanos tipo “A Vingança dos Nerds”, com a diferença que quem vai pra Yale tem MUITA, mas MUITA grana e poder…

E uma vez que eles saem da faculdade, eles se ajudam uns aos outros, como todas as fraternidades do planeta fazem com seus membros… a diferença é que eles estão no governo dos EUA.
Então eles NÃO são parte da maçonaria, NÂO são parte dos “Illuminati”

Junte-se aos Illuminati
Qualquer estudante sério de ocultismo consegue galgar os graus necessários para se chegar ao grau de Illuminatus em seis ou sete anos, em qualquer ramificação da Rosacruz, Maçonaria ou Martinismo. 

Semana que vem continuamos com o último capítulo da saga dos Cavaleiros da Távola Redonda.

Abraços
Marcelo Del Debbio
“Ad Rosem per Crucem;
Ad Crucem per Rosem.”

#Illuminati

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/quem-tem-medo-dos-illuminati

A Corrente Anticósmica 218

As bases da Corrente 218 firmam se originalmente nos mitos sumérios contidos no poema épico Enuma Elish escrito há mais de 3000 anos. No mito babilônio, Tiamat, um monstruoso dragão feminino, é a mãe de tudo aquilo que existe e de todos os deuses. Ela é a personificação da água salgada, das águas do Caos. Tiamat tem originalmente Apsu como consorte. Apsu é a personificação do abismo primordial da água doce do mundo inferior. Da união de Tiamat e Apsu surgiram os primeiros deuses.

O comportamento dos primeiros deuses irritava o casal primordial e Tiamat e Apsu planejaram matar a própria descendência. Ea (deus das águas doces; patrono da magia e da sabedoria; dizia-se que era onisciente.) , deus da quarta geração após Tiamat e Apsu, descobriu os planos e engendrou um plano para matar Apsu.

Ea aguardou Apsu adormecer e o matou. Tiamat foi tomada por fúria violenta ao saber da morte de seu esposo, tomou seu filho Kingu (Tiamat e Kingu são chamados Dragões do Caos.) como novo consorte e criou um exército de onze demônios para vingar a morte de Apsu. Tiamat pretendia que seu filho e esposo se tornasse Senhor dos Deuses, deu a ele as Tábuas do Destino e o colocou à frente de sua armada.

Foi Marduk, filho de Ea e Damkina, quem enfrentou e venceu Tiamat e Kingu ( Segundo o mito babilônio, Marduk criou a humanidade com o sangue de Kingu.). A vitória sobre os dragões do Caos conferiu a Marduk “poderes supremos”.

Marduk representa os poderes cósmicos que são combatidos pela Corrente 218 que, por sua vez, é representada pelos deuses anticósmicos e pelos onze poderes criados por Tiamat, ou seja, por Azerate.

Cosmos e Logos, Um Esboço de Definição

O cosmos nos é apresentado como a totalidade de um universo “ordenado”. Descrevem-no como o espaço universal, composto de matéria e energia, regulado por certas leis.

À suposta lei universal e fixa, regedora da “harmonia”, Heráclito de Éfeso chamou “Logos”. “Logos” também significa Palavra, Verbo e Razão.

O evangelista João se referiu ao Cristo como sendo o Logos. “Adaptado”, o vocábulo passou a ser uma forma de sinônimo para Deus e para seu filho.

Para os filhos do Logos morto o universo está sob a lei de uma pretensa força criadora onipotente, responsável pela manutência da “harmonia”: o funesto e confuso “demiurgo”. O Logos Morto, a pretensa força criadora do “demiurgo”, os conceitos arcaicos, tolos e estagnados resumem a corrente cósmica, a Grande Ilusão de Maya.

Nesse contexto, encontramos Marduk, o “demiurgo” associado a Javé.

Da Não Percepção ou da Percepção Ilusória

O homem ordinário (não) “percebe” o universo ao seu redor através de sentidos comuns, sendo ele mesmo parte do cosmos. O homem ordinário não percebe nada além de ilusão. No estado de dormência há uma espécie de sensação de equilíbrio (falso‐), um caminho com o qual se conformar, uma senda que se segue guiado por outrem, por algo. Um “ir” junto aos “muitos”, um caminhar entre os vários. Um não ver aquilo que é. Um não‐ser. Um enaltecer da ilusão. Um doloroso sonho cósmico. O indivíduo tem o Eu (Ego) plasmado, modelado pelas restrições impostas pelas correntes cósmicas, por Maya. O indivíduo comum É algo que não É.

Da Dominação do Pão e do Circo

Servilismo. Subserviência. Alienação. Prostração. Cega sujeição à vontade alheia e aos interesses manipuladores daquilo que o próprio homem ordinário criou e que não controla. Alheação. Incapacidade. O rebanho oprimido sob o jugo se deleita no que é franca e deliberada mentira, ilusão. Os muitos são os Vermes.

Da Caosofia

O vazio informe e a vacuidade ilimitada a que se referiu Hesíodo, a desordem e a confusão dos platônicos. Estado indefinido de não‐ordem que antecedeu a pretensa obra do “demiurgo”. Caos, o estado original do que está além e sob o abismo. Propiciar o Caos é incitar, impelir e impulsionar Transformação. Somente a transformação é contínua. O cosmos é tridimensional, linear, causal, previsível. O caos é multidimensional, não linear, é acausal e imprevisível. No cosmos jazem forças. No caos, energia dinâmica explode mundos e possibilidades sem fim. O cosmos precisou ser criado. O caos é causado por si, em si. Caos é potencial ilimitado em destruição (transformação) e criação. Nele estão todas as coisas manifestas e não‐manifestas.


   Azerate

Divindade – Fórmula – Conceito

Azerate é formado pelos 11 demônios criados por Tiamat para ajudá‐la a vingar a morte de Apsu.

Azerate é o nome da Divindade amorfa e anticósmica originária da reunião dos Onze Arquidemônios das Qliphoth. É o Deus Híbrido formado pela totalidade dos aspectos de Nahema, Lilith, Adramelek, Baal, Belfegor, Asmodeus, Astaroth, Lucifuge Rofocale, Beelzebub e Moloch.

Azerate alude aos onze príncipes de Edom que reinaram ao sul do Mar Morto antes das guerras judaicoromanas. É a fórmula de consecução mágicka que opera a destruição dos véus da Ilusão que aprisiona e aliena.

Azerate é a união das onze potências da Árvore do Conhecimento que destroem a mentira sobre o Universo criado.

Azerate é a chave para as dimensões de poder além dos limites da consciência.

Azerate é o Dragão Negro de 11 Cabeças que vomita fogo, morte, destruição e terror.

218 é o número místico de Azerate e da Corrente Anticósmica.

Aleph = 1
Zayin = 7
Resh = 200
Aleph = 1
Teth = 9

1+7+200+1+9=218
218
2+1+8=11
1+2+3+4+5+6+7+8+9+10+11=66

Azerate evoca e manifesta o conceito maldito e banido do Onze sobre o Dez.

O Onze, aquele que sucede o Ciclo Eterno, aquele que traz destruição, antítese e embate ao cosmos.

Azerate é o Onze que é Sessenta e Seis.

66 é o número místico das Qliphoth e da Grande Obra.

Σ(1‐11) =66

Azerate é o duplo 109, a dupla Esfera da Iluminação.

Proposições Básicas da Corrente Anticósmica

Destruir os véus da Ilusão, trazer a condição de Caos ao universo manifesto. A implosão impele e impulsiona dolorosa Transformação e Renascimento em Nox.

Fazer ruir estruturas decrépitas nas quais se fundamentam as idéias dos opositores da Vida.

Desfazer laços e cortar amarras que impedem o avanço e a evolução do indivíduo.

Proporcionar desafio ao indivíduo que, por vocação, aprende e faz guerra contra os agentes alienadores em todos os aspectos.

Trazer ao Universo manifesto as forças que combatem eternamente para que elas possam destruí‐lo tal como o conhecemos.

Trazer Morte ao Universo, propiciar Dissolução do Ego plasmado sobre os moldes da restrição imposta por padrões hipócritas, vazios e mentirosos.

A Corrente 218, Algumas Características Mais

Podemos dizer que a Corrente 218 é anticósmica, caótica, luciferiana e satânica.

É uma corrente por ser caracterizada pelo movimento acelerado das forças que a compõe.

É anticósmica por estar alinhada à Destruição dos conceitos estagnados de cosmos e logos tal como os

conhecemos e por buscar a Dissolução da dispersão do Ego que concorre contra a verdadeira vontade.

É Caótica por não se apegar a conceitos estagnados, superficiais e submissos; por enfatizar que o processo verdadeiro de aprendizado e de evolução do indivíduo se dá através da própria experiência, do contato direto com as forças inerentes à corrente; por estar alinhada com muitas das idéias do que se costuma rotular como magia do CAOS; por ter como uma de suas proposições básicas trazer o CAOS ao Universo manifesto e Destruí-lo como Ilusão, como Maya.

Luciferiana por propiciar ao indivíduo a possibilidade de evolução através do Conhecimento (Luz, Gnose Luciferiana).

Satânica por ser uma força de embate contra valores idiotas, hipócritas, ultrapassados, dominadores e alienadores.

O motor da Corrente é a força dinâmica de Azerate como Divindade, Conceito, Chave e Fórmula de consecução mágicka.

A fundamentação da corrente se dá a partir de um vasto sincretismo de ramos e vertentes do Caminho da Mão Esquerda. Tal sincretismo busca sintetizar a essência de cada aspecto que compõe a heterogeneidade e aplicá-la na consecução das proposições fundamentais. Dentre as diversas tradições que coadunam forças que se combinam na Corrente 218 citamos: a magia do Caos, o Satanismo (Tradicional e Moderno), o Luciferianismo
(Tradicional e Moderno), a tradição Draconiana, a tradição Tifoniana, a Bruxaria Sabática, a Qabalah Qliphótica, Thelema, o Tantra, a Quimbanda, o Vodu e cultos ligados à Morte.

Atualmente o Templo da Luz Negra na Suécia é o maior expoente relacionado à corrente anticósmica. O Templo é a evolução do trabalho iniciado pela Ordem Misantrópica Luciferiana (MLO). Seus principais trabalhos literários publicados são Liber Azerate, Liber Falxifer – The Book of the Left‐Handed Reaper e Quimbanda – Vägen till det Vänstra Riket. O Templo planeja lançar Liber Azerate em inglês durante o ano de 2010.

Uma das principais manifestações artísticas relacionadas à Corrente 218 é o singular álbum Reinkaos, último trabalho da banda Dissection.

Algumas Divindades Anticósmicas

Kali e Shiva

Deuses hindus que conduzem à liberação removendo a ilusão do Ego. Kali é a toda‐consumidora do tempo (Kal), Deusa que traz Morte à falsa consciência, pois está além de Maya.

Kali é uma das variadas formas de Devi, Mãe compassiva que traz liberação (moksha) aos seus filhos. Seus devotos adoram‐na com amor incondicional. É conhecida e adorada por vários nomes: Kalikamata, Kali Ma, Bhavatarini, Dakshineshvara, Kalaratri, Kottavei, Kalighat e Negra Mãe Divina. Kali Ma é a dissolução e a destruição. Foi graças a ela que os deuses, feitos Shiva, puderam destruir Raktabija, pois Kali consumiu todo o sangue que jorrava dos ferimentos de Raktabija e ele não pôde mais se reproduzir.

Shiva é o Deus da destruição e regeneração, fogo consumidor da transformação, cujo olhar relampeja e destrói violentamente. É um dos Três formadores da Trimurti hindu. Shiva é chamado o Destruidor. Shiva e Kali costumam ser adorados em crematórios a céu aberto, pois aludem à transitoriedade da vida material. O Lingam está para Shiva como a Yoni está para Kali: na destruição estão os elementos da geração.

Apsu

Deus primevo sumero-acadiano das águas doces do submundo. Primeiro consorte de Tiamat.

Tiamat

Deusa Dragão senhora do Caos e das águas salgadas. Deusa das águas abissais e do oceano primevo. Na mitologia sumeriana é chamada Nammu. É provavelmente uma das divindades mais antigas do panteão sumeriano.

Kingu

Deus Dragão, filho de Tiamat. Seu sangue foi utilizado para criar a humanidade segundo o mito babilônio. Tiamat o tomou como esposo após a morte de Apsu.

Lúcifer

Insígnia máxima da não-servidão, da rebeldia, do conhecimento aplicado e esclarecido. Beleza sem mácula. Portador do Archote, da Luz que guia “seus filhos” no tortuoso caminho da liberação.

Lilith
Negra Mãe Divina, Rainha da Noite e das Bestas da Escuridão, personificação da plena

Pharzhuph

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-corrente-anticosmica-218/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-corrente-anticosmica-218/

A Morte segundo Alan Watts

Alan Watts (tradução: Nando Pereira)

Sempre fui fascinado pela idéia da morte desde que consigo me lembrar, desde a primeira infância. Talvez você ache isso meio mórbido, mas quando uma criança à noite diz a frase Se eu morrer antes de acordar, há algo nisso que é absolutamente diferente. Como seria ir dormir e nunca acordar? A maioria das pessoas razoáveis simplesmente dispensa esse pensamento. Elas dizem, “Você não pode imaginar isso”, dão de ombros e dizem “Vai ser o que vai ser”.

Mas eu sou uma dessas pessoas teimosas que não se contentam com uma resposta dessas. Não que eu esteja tentando descobrir algo além, mas eu sou totalmente fascinado pelo que seria ir dormir e nunca mais acordar. Muitas pessoas pensam que seria como ir para uma eterna escuridão ou ser queimado vivo. Obviamente não seria nada como isso! Porque só conhecemos a escuridão pelo contraste, e somente pelo contraste, com a luz.

Tenho uma amiga, uma garota, que é muito inteligente e articulada, que nasceu cega e não tem a menor idéia do que seja a escuridão. A palavra significa tão pouco pra ela quanto a palavra luz. Então é a mesma coisa pra você: você não está consciente da escuridão quando está dormindo.

Se você for dormir, para dentro da inconsciência por todo o sempre, não seria nada como estar na escuridão; não seria nada como ser queimado vivo. Na verdade, seria como se você jamais tivesse existido! Não só você, mas como tudo o mais. Você estaria naquele estado, como se nunca tivesse existido. E, claro, não haveria problemas, não haveria alguém para se arrepender da perda de nada. Você nem sequer poderia chamar isso de tragédia porque não haveria ninguém para chamar isso de tragédia. Seria um simples – nada. Para sempre e para o nunca. Porque, não só não haveria futuro, você também não teria passado nem presente.

A essa altura provavelmente você deve estar pensando, “Vamos falar de outra coisa”. Mas eu não me contento com isso, porque isso me faz pensar em duas outras coisas. Primeiro, o estado do nada me faz pensar que a única coisa na minha experiência que é próxima do nada é a maneira que minha cabeça olha para meu olho, e então por trás do meu olho não há um ponto preto, não há sequer um lugar vazio. Não há nada! Não estou consciente da minha cabeça, como se fosse, como um buraco negro no meio de toda a experiência luminosa. Não tem nem delimitações muito claras. O campo de visão é oval, e por causa dessa visão oval não há nada. Claro, se eu usar meus dedos e tocar eu posso sentir algo por trás dos meus olhos; mas se eu uso o sentido da visão sozinho há simplesmente nada. Ainda assim, do vazio, eu enxergo.

A segunda coisa que me faz pensar é quando eu estiver morto eu serei como se eu nunca tivesse sido, e isso era o que eu era antes de ter nascido. Assim como eu tento ir para trás dos meus olhos e descubro o que há lá eu chego num vazio, se eu tentar ir pra trás e pra trás e me lembrar minhas memórias mais antigas, e anterior a elas – nada, branco total. Mas do mesmo jeto que sei que há algo por trás dos meus olhos usando meus dedos na minha cabeça, eu sei por outras fontes de informação que antes de eu nascer havia algo acontecendo. Havia meu pai e minha mãe, e os pais e mães deles, e todo o ambiente sólido da Terra e da vida de onde eu vim, e por trás disso o sistema solar, e por trás a galáxia, e por trás todas as galáxias, e por trás outro branco – o espaço. Eu raciocino que se quando eu morrer eu voltar para o estado onde eu estava antes de nascer, poderia isso acontecer de novo?

O que aconteceu uma vez pode muito bem acontecer de novo. Se aconteceu uma vez é extraordinário, e não é realmente muito mais extraordinário se acontecer de novo. O que eu sei é que vi pessoas morrerem e vi pessoas nascerem depois delas. Então depois que eu morrer não somente alguém vai nascer mais miríades de outros seres vão nascer. Todos sabemos disso; não há dúvida sobre isso. O que nos preocupa é se quando estivermos mortos haverá nada para sempre, como se houvesse algo com o que nos preocupar. Antes de você nascer havia esse mesmo nada para sempre, e você aconteceu. Se você aconteceu uma vez você pode acontecer de novo.

Mas o que isso significa? [nota da tradução: neste parágrafo o autor Alan Watts inventa um verbo em inglês e faz uma analogia com outra palavra em inglês que não se traduz da mesma maneira para o português, mas, apesar disso, o sentido está mantido] Olhar isso da maneira mais simples e pra me explicar, devo inventar um novo verbo. Esse é o vergo “ser EU” (do inglês, “to I”). Vamos falar com a palavra “Eu” mas invés de ser um pronome será um verbo. O universo “se torna eus”. Se torna eu em mim e eu em você. E vamos resoletrar a palavra “olho” (eye, igual a pronúncia de “I”), que significa olhar para algo, estar ciente de algo. Então vamos mudar as letras e diremos que o universo “olha”. Se tornar ciente de si mesmo em cada um de nós, e se manter “se tornando eus”, e cada vez que se torna um eu cada um de nós esse “eu” sente que é o centro de todas as coisas. Eu sei que você sente que você é esse “eu” do mesmo jeito que eu sinto que eu sou eu. Todos temos o mesmo passado do nada, não nos lembramos de ter feito isso antes, e ainda assim isso foi feito antes várias vezes, não só antes no tempo mas em torno de nós em todo o lugar há todo mundo, há o universo “se tornando eus”.

Vou tentar deixar isso mais claro dizendo que é o universo que está se “eu-sificando”. O que quero dizer com “Eu”? Há duas coisas. Primeiro, você pode entender pelo seu ego, sua personalidade. Mas esse não é o seu real Eu, porque sua personalidade é sua idéia de si mesmo, sua imagem de si mesmo, e isso vem de como você se sente, de como você pensar a respeito de si mesmo junto com o que todos os seus amigos e seus relacionamentos lhe disseram sobre você mesmo. Então sua imagem de si mesmo obviamente não é você assim como uma fotografia não é você e nenhuma outra imagem de qualquer coisa é. Todas as nossas imagens de nós mesmos não são mais do que caricaturas. Elas não contém informação para a maioria de nós de como nós crescemos nossos cérebros, como trabalhamos nossos nervos, como circulamos nosso sangue, como secretamos nossas glândulas, e como formamos nossos ossos. Isso não está contido na sensação da imagem que chamamos de ego, então obviamente, a imagem do ego não sou eu.

Meu ser contém todas essas coisas que o corpo está fazendo, a circulação do sangue, a respiração, a atividade elétrica dos nervos, tudo isso sou eu mas eu não sei como é construído. E, ainda assim, faço tudo isso. É verdadeiro dizer que eu respiro, que eu ando, eu penso, eu estou consciente – eu não somo eu faço para ser, mas eu faço da mesma maneira que cresço meu cabelo. Eu devo então localizar o centro de mim, meu “Eu-sificador” (I-ing), num nível mais profundo que meu ego que é minha imagem ou a idéia de eu mesmo. Mas quão profundo nós vamos?

Podemos dizer que o corpo é o “Eu”, mas o corpo vem do resto do universo, vem de toda essa energia – então é o universo que está se “eu-sificando”. O universo “se torna eus” da mesma maneira que uma árvore “se torna maçã” ou uma estrela brilha, e o centro do “em-maçã-amento” é a árvore e o centro do brilho é a estrela, e então o centro básico do ser do “se tornar eu” é o universo eterno ou a eterna ciosa que tem existido por dez milhares de milhões de anos e que provavelmente vai existir por no mínimo tanto tempo mais. Não estamos preocupados com o quão longo vai existir, mas repetidamente “se torna eus”, então parece totalmente razoável assumir que quando eu morrer e este corpo físico evaporar e o sistema de memória inteiro ir com ele, então a consciência que eu tinha antes começará tudo de novo, não exatamente da mesma maneira, mas de um bebê nascendo.

Claro, miríades de bebês irão nascer, não apenas bebês humanos mas bebês sapos, bebês coelhos, bebês moscas, bebês virus, bebês bactérias – e qual deles eu serei? Apenas um deles e ainda assim cada um deles, essa experiência sempre vem de uma maneira singular por vez, mas certamente um deles. Na verdade não faz muita diferença, porque se eu nascer de novo como uma mosca de fruta eu pensaria que ser uma mosca de fruta seria o curso normal dos eventos, e naturalmente eu pensaria ser uma pessoa importante, um ser de alta cultura, porque moscas de fruta obviamente tem alta cultura. Nós nem sabemos como olhar pra isso. Mas provavelmente elas tem todo tipo de sinfonias e música, de performances artísticas no jeito que a luz reflete em suas asas de maneiras diferentes, o jeito que dançam no ar, e elas dizem, “oh, olhe pra ela, veja ela realmente tem um estilo, olhe como a luz do sul aparece das asas dela”. Elas no mundo delas pensa que são tão importantes e civilizadas quanto nós pensamos em nosso mundo. Então, se eu acordasse como uma mosca de fruta eu não me sentiria nada diferente do que sinto quando acordo como um ser humano. Eu me acostumaria.

Bem, você diz, “Não seria eu! Porque se fosse eu de novo eu teria me lembrado de como eu era antes!”. Certo, mas você não sabe, lembre-se, como você era antes e ainda assim você está contente o suficiente para ser o “eu” que você é agora. Na verdade, é através de um bom arranjo neste mundo que nós não lembramos como era antes. Por que? Porque a variedade é o sabor deste mundo, e se lembrássemos, e lembrássemos, e lembrássemos termos feito isso de novo e de novo e de novo nós ficaríamos entediados. Para você conseguir ver uma figura, você tem que ter um fundo, para que a memória tenha valor você tem que ter um “esquecimento”. Por isso vamos dormir toda noite para nos renovarmos; vamos para a inconsciência para que ao voltar à consciência de novo tenhamos uma grande experiência.

Dia após dia nós lembramos os dias que se foram antes, mesmo que exista o intervalo do sono. Finalmente chega uma hora em que, se considerarmos o que é do nosso verdadeiro gostar, nós quereremos esquecer tudo que aconteceu antes. Então podemos ter a extraordinária experiência de ver o mundo de novo e de novo através dos olhos de um bebê, qualquer tipo de bebê. Então será tudo completamente novo e nós teremos toda a surpreendente maravilha que uma criança tem, toda a vivacidade da percepção que teríamos se lembrássemos tudo para sempre.

O universo é um sistema que esquece de si mesmo e então lembra-se como novo, para que sempre haja mudança e variedade constante em um período de tempo. Também faz isso no período de espaço ao olhara para si mesmo através de diferentes organismos vivos, dando uma visão completa ao redor.

É um jeito de se livrar do preconceito, de se livrar de uma visão fixa. A morte neste sentido é uma tremenda liberação da monotonia. Ela coloca um ponto final no processo do esquecimento total num processo rítmico de liga-desliga, liga-desliga para que você possa começar tudo de novo e nunca estar entediado. Mas o ponto é que se você pode fantasias a idéia de ser nada para sempre, o que você está realmente dizendo é que depois que eu estiver morto o universo pára, e o que eu estou dizendo é que ele vai justamente como foi quando você nasceu. Você pode achar incrível ter mais de uma vida, mas não é incrível que você tenha esta aqui? Isso é assombroso! E pode acontecer de novo e de novo e de novo!

O que estou dizendo é apenas que porque você não sabe como ser consciente, como crescer e formar o corpo, isso não significa que você não esteja fazendo. Da mesma maneira, se você não sabe como o universo estrela as estrelas, como ele constela as constelações, ou galaxia as galáxias – você não sabe mas não significa que você não esteja fazendo da mesma maneira que você está respirando sem saber como respirar.

Se eu disser realmente e verdadeiramente que sou este universo inteiro, ou este organismo particular, é um “eu-sificamento” feito pelo universo inteiro, então alguém poderia dizer pra mim, “Que diabos você pensa que é? Você é Deus? Você faz as galáxias girarem? Você pode unir as doces influências das Plêiades ou afrouxar os elos de Orion?. E eu respondo, “Quem diabos você pensa que é! Você pode me dizer como faz crescer seu cabelo, como forma seus globos oculares, e como faz para enxergar? Bem, se você não puder me dizer isso, eu não posso lhe dizer como eu giro as galáxias. Apenas localizei o centro de meu ser num nível mais profundo e mais universal do que nós estamos, em nossa cultural, acostumados a fazer”.

Então, se essa energia universal é o verdadeiro eu, o verdadeiro ser que “se torna eus” em diferentes organismos em diferentes espaços ou lugares, e acontece de novo e de novo em tempos diferens, temos um maravilhoso sistema funcionando em que podemos ficar eternamente surpresos. O universo é realmente um sistema em que se mantém surpreendendo a si mesmo.

Muitos de nós tem uma ambição, especialmente em uma era de competência tecnológica, de ter tudo sobre seu controle. Esta é uma falsa ambição porque você só tem que pensar por um momento como seria realmente saber e controlar tudo. Suponhamos que nós tivéssemos uma tecnologia supercoloosal que poderia realizar nossos maiores sonhos de competência tecnológica de maneira que tudo que estivesse acontecendo seria pré-conhecido, previsto e tudo estaria sobre nosso controle. Por que, seria como fazer amor com uma mulher de plástico! Não haveria surpresa nisso, nenhuma resposta nos tocar como quando tocamos outro ser humano. Disso vem uma resposta, algo inesperado, e é isso que realmente queremos.

Você não pode experimentar o sentimento que você chama de “eu” a menos que seja em contraste com o sentimento de um outro. É como conhecido e desconhecido, luz e escuridão, positivo e negativo. O outro é necessário para que você sinta si mesmo. Não é esse o arranjo que você quer? E, da mesma forma, não poderia você dizer que o arranjo que você quer é não se lembrar? A memória é sempre, lembre-se, uma forma de controle:Tenho em mente como fazer. Eu sei o seu jeito, você está sob controle. Eventualmente você irá querer largar esse controle.

Agora, se você for lembrando e lembrando e lembrando, é como escrever em um pedaço de papel e escrever e escrever até que não haja mais espaço no papel. Sua memória é preenchida e você precisa limpá-la para que você possa começar a escrever de novo.

Isso é o que a morte faz pra gente: ela limpa o quadro e também, do ponto de vista da população e do organismo humano no planeta, também nos “limpa”! Uma tecnologia que permitisse a cada um de nós ser imortal iria progressivamente lotar o planeta com pessoas com memórias desesperadoramente cheias. Elas seriam como pessoas vivendo em uma casa onde acumular tantas propriedades, tantos livros, tantos vasos, tantos jogos de garfos e facas, tantas mesas e cadeiras, tantos jornais que não existiria nenhum espaço para se mover.

Para viver precisamos de espaço, e espaço é um tipo de nada, e a morte é um tipo de nada – é tudo o mesmo princípio. E colocando blocos ou espaços de nada, espaços deespaço dentro os espaços de alguma coisa, tornamos a viva adequadamente espaçada. A palavra alemã lebensraum significa espaço para viver, e isso é o que o espaço nos dá, e o que a morte nos dá.

Perceba que em tudo que eu disse sobre a morte eu não trouxe nada que pudesse ser chamado de fantasmagórico. Não trouxe nenhuma informação sobre nada que você já não soubesse. Não invoquei nenhum conhecimento misterioso sobre almas, memórias de vidas passadas, nada disso; apenas falei usando termos que você já conhecia. Se você acredita na idéia que a vida além da tumba é apenas um desejo iludido, eu admitirei.

Vamos assumir que é um desejo iludido e quando você estiver morto não exista nada. Que seja o fim. Note, em primeiro lugar, que essa é a pior coisa que você poderia ter medo. Isso lhe amedronta? Quem é que vai ter medo? Suponha que termina – nenhum problema mais.

Mas então você verá que esse nada, se você acompanhou meu argumento, é algo de onde você seria jogado pra fora de novo assim como você foi jogado pra dentro quando nasceu. Você é jogado pra fora do nada. O nada é um tipo de salto porque implica que o nada implica algo. Você volta novo, diferente, nada a ser comparado com o de antes, uma experiência renovada.

Você tem esse senso de nada assim como você tem o senso de nada por trás do seus olhos, um nada muito poderoso e vivo por trás do seu inteiro ser. Não há nada naquele nada para se temer. Com esse entendimento você pode viver como se o resto da sua vida fosse um molho de carne porque você já está morto: você sabe que vai morrer.

Dizemos que as únicas certezas que temos são a morte e os impostos. E a morte de cada um de nós agora é tão certa quanto seria se fossemos morrer daqui a cinco minutos. Então, onde está sua ansiedade? Onde está sua desistência? Tome a si mesmo como já morto para que você não tenha nada a perder. Um provérbio turco diz que “Aquele que dorme no chão não cai da cama”. Da mesma forma é a pessoa que se toma como já morta.

Portanto, você é virtualmente nada. Daqui a cem anos você será um punhado de pó, e isso acontecerá de verdade. Junte tudo isso agora e aja baseado nessa realidade. E a partir disso… nada. Você repentinamente se surpreenderá: quanto mais você souber que é nada, mais você vai ascender a alto.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-morte-segundo-alan-watts/