Princípios da Engenharia Mágica

Thiago Garcia Tamosauskas

Nomes podem ser trapaceiros. O Nacional Socialismo não é socialista, a República Democrática do Congo não é democrática e a República Federativa do Brasil não é federativa. Este não é um problema exclusivo da política: A Teoria da Relatividade trata de absolutos nada-relativos como a constante cosmológica e velocidade da luz e a teoria do caos, por sua vez encarrega-se, na verdade, de lidar com a ordem que surge em meio à complexidade. O mesmo pode ser dito da corrente conhecida como Magia do Caos, que ao contrário do que pode soar, na verdade é uma corrente ordenadora que consegue unificar os mais diferentes campos da prática mágica, muitos dos quais seriam paradoxais e contraditórios caso ela não existisse.

A magia, assim como outras expressões da natureza – como a música por exemplo – pode ser convertida em linguagem matemática para medir sua harmonia, seus padrões e assim ser estudada, observada e desenvolvida. É justamente isso que Peter J. Carroll propôs, em seu livro Liber Kaos, editado pela primeira vez em 1992. Carroll se utilizou da matemática formal para ordenar a mecânica mágica em uma série de equações. Não é minha intenção, repetir sua explicação e suas justificativa, nem mostrar o porquê e o como destas equações. Ele mesmo já fez um trabalho fenomenal na seção intitulada ‘Chaos Mathematics’, logo no primeiro capítulo da obra acima citada. Sendo assim irei apenas citar rapidamente as três equações básicas e fornecer uma rápida legenda para elas  na esperança de que o praticante perceba novas ramificações da prática mágica e vá imediatamente atrás da fonte original. Feito isso entrarei na real proposta deste artigo.

Pm = P + (1-P) M^(1/P)

A primeira equação calcula a Probabilidade de Sucesso Mágico (Pm).

Entre as centenas de definições existentes de magia uma das mais acuradas é a “Ciência de manipular as probabilidades”, isso porque ela abarca tanto a definição de Alta Magia como de Baixa Magia manipulativa e não se apega a termos de nenhum modelo mágico específico como Vontade, Espírito ou Destino.  Esta equação é uma das maneiras de se calcular a influência do processo mágico em aumentar a probabilidade de algum evento acontecer.

O bom resultado de qualquer operação mágica depende portanto de dois fatores: P, que é a chance de algo acontecer por simples chance e M, o fator que se cria pela operação mágica que aumentando a probabilidade deste algo acontecer. Esta probabilidade varia entre 0 (fracasso, impossibilidade) e 1 (sucesso, certeza). A equação a seguir demonstra como calcular M, segundo o paradigma proposto por Peter Carroll.

M = GL(1-A)(1-R)

Numa explicação rápida, podemos dizer que o fator mágico (M) é o produto do estado de Gnosis (G), pela Ligação com o alvo (L) descontada a ansiedade (A) e a resistência subconsciente ao processo todo (R). Resumindo de forma clara: Ansiedade é sua preocupação de que algo aconteça e Resistência é a voz  na sua cabeça dizendo que aquilo não vai acontecer. O fator M, após ser calculado deve ser incluído na primeira equação. Isso entretanto apenas para o caso de tentar-se aumentar a probabilidade de algum evento.

Existe também o caso de querer se utilizar de magia não para aumentar a probabilidade de algo ocorrer, mas o oposto, que a probabilidade de algo caia drasticamente. Um exemplo rápido disso é imaginar que um ritual que seria usado caso você deseje que um conhecido, por exemplo, não consiga arranjar um emprego. Neste caso, do segundo exemplo, você deve utilizar esta terceira fórmula:

Pm = P - PM^[1/(1-P)]

Como pode-se notar, trata-se apenas de uma inversão da primeira equação. Lembrando que o sinal ^ refere-se a exponenciação matemática. A probabilidade resultante nesta fórmula é portanto igual a probabilidade natural subtraída pelo produto de si mesma  com o fator M elevado a 1 dividido por 1 menos esta mesma probabilidade original.

Estas fórmulas, permitem uma série de conclusões interessantes e trazem boas e más notícias aos magistas. A primeira boa notícia é que o Fator de Equilíbrio que mencionei alguns anos atrás no Manual do Satanista é algo matematicamente óbvio e de extrema importância. Qualquer valor M entre 0.5 e 0.7 terá um grande resultado sobre probabilidades na mesma faixa numérica, mas pouco efeito em eventos altamente improváveis onde P é superior ou igual a 0.8. O magista deve portanto sempre tentar alimentar as chances naturais antes de se engajar magicamente. Por outro lado, se M chegar a 1, então mesmo eventos altamente improváveis tornar-se-ão possíveis.

Explicadas as três equações da magia, chegamos ao verdadeiro objetivo deste artigo e minha real contribuição a engenharia mágica iniciada acima.  Não basta apenas ter muita vontade de se trocar uma lâmpada se antes você não tiver uma lâmpada nova em mãos. Creio que Peter Carroll deixou uma grande lacuna em sua obra que pode e deve ser explorada para benefício de todos os praticantes. Trata-se da ausência de fatores bem definidos para as variáveis G, L, A e R. É necessária uma aproximação numérica para cada uma destas partes, pois sem isso as fórmulas não alcançam toda sua utilidade prática, permanecendo apenas no reino da pura especulação subjetiva.

É realmente muito difícil padronizar coisas tão sutis como o funcionamento da mente, contudo considero que graças a experiência pessoal, longas discussões com outros praticantes e muita revisão em cima dos conceitos consegui chegar a um resultado aceitável. As tabelas a seguir são uma pequena aproximação pragmática dos quatro fatores essenciais da equação M:

Fator L = Ligação

Esta primeira tabela é uma sugestão de padrão numérico para a sua ligação com o alvo de seu ato mágico. Ela por si mesma mostra porque rituais de iluminação costumam ser mais efetivos do que rituais de encantamento, pois o vinculo consigo mesmo é sempre mais garantido do que a ligação com terceiros. Eis a tabela do Fator L:

  • 0    Nenhuma forma de vinculo
  • 0.1  Vinculo abstrato/simbólico (símbolos, assinaturas, nomes)
  • 0.2  Vinculo material (sangue, cabelos, roupas, etc.. )
  • 0.3  Vinculo pictórico/representativo (fotos, desenhos )
  • 0.4  Constructo mental ordinário (imaginação não treinada, lembrança vaga que você associe com o alvo)
  • 0.5  Vinculo usando 3 sentidos ( em geral, visual e sonoro + olfativo ou tátil)
  • 0.6  Uso pleno dos cinco sentidos no vinculo
  • 0.7  Cinco sentidos + tempo (filme, teatro, psicodrama)
  • 0.8  Constructo mental elaborado (imaginação bem treinada e realista)
  • 0.9  Contato real com o alvo (entrar em contato com ele)
  • 1    Contato real e interativo com o alvo (entrar em contato e interagir com ele)

Note que os itens 0.9 e  1 são para contatos reais com o seu alvo. Para a maioria das pessoas isso representará uma proximidade espacial, mas não a diferença significativa entre uma mente completamente convencida de um contato físico e uma mente completamente convencida de um contato astral.

Fator A = Ansiedade

A segunda tabela é uma escala da preocupação com o ritual ou trabalho mágico funcionar. A Sigilização, esta grande contribuição do século XX a tradição mágica ,é uma maneira conhecida de reduzir a ansiedade, mas não é a única forma, como prova toda a história anterior do ocultismo. Idiomas bárbaros, pentáculos e chaves enoquianas são alguns dos exemplos comuns. Al;em disso, todo grau avançado de Gnosis reduz a Ansiedade na medida em que a mente fica tão envolvida e/ou satisfeita que não tem motivos para se preocupar e o ritual oblitera qualquer ânsia de resultados. Eis a tabela do Fator A:

  • 0    Não ligo se o resultado for negativo ou positivo.
  • 0.1  Não tenho necessidade, nem urgência. O fracasso é uma opção.
  • 0.2  Não tenho pressa, nem necessidade urgente de um resultado favorável
  • 0.3  Tenho necessidade de um resultado favorável, mas quase não perco tempo pensando nisso
  • 0.4  Tenho necessidade de um resultado favorável e penso nisso ocasionalmente
  • 0.5  Tenho necessidade de um resultado favorável e penso nisso freqüentemente
  • 0.6  Tenho necessidade de um resultado favorável e penso nisso o tempo todo.
  • 0.7  Tenho urgência. Esta é uma das mudanças importante para mim agora.
  • 0.8  De todas esta é a mudança mais relevante para mim atualmente.
  • 0.9  Esta e uma das mudanças mais importantes da minha vida
  • 1    Esta é a mudança mais importante de toda a minha vida

Fator R = Resistência subjetiva

A terceira tabela esquematiza a sua resistência psicológica a magia. A segunda palavra é importante porque lembra que não se trata de uma crença superficial que pode ser facilmente mudada, mas daquilo que interiormente é aceito como verdadeiro. Ela define em última instancia sua opinião sobre um ritual ou um trabalho mágico.

  • 0    Tudo é possível, indivíduos podem afetar até as leis da realidade.
  • 0.1  As leis da natureza podem ser temporariamente quebradas
  • 0.3  Existem leis cósmicas que fazem a magia funcionar
  • 0.2  Tudo é possível sob certas condições raras
  • 0.4  É possível. Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia
  • 0.5  A Magia é real mas está restrita à natureza e às suas leis. Funciona em alguns casos e em outros não.
  • 0.6  As leis da natureza as vezes de comportam de modo a parecer mágicas.
  • 0.7  Magia é apenas uma maneira de conseguir estar no lugar certo na hora certa.
  • 0.8  Magia tem um poder limitado a consciência individual ligado apenas a psicologia, neuro-linguistica, etc.
  • 0.9  Magia é um nome pomposo para auto-ilusão, placebo e sorte
  • 1    Magia não existe.

Fator G = Gnosis

A última variável é calculada de maneira diferente. Realizei alguns experimentos com algumas  escalas lineares para a Gnosis  e todas elas mostraram-se insatisfatórias e imprecisas. Este problema foi contornado pelo aperfeiçoamento da escala original que resultou na criação de uma quarta equação da magia:

G = S T

Gnosis é portanto, o produto do fator Spare (S) pelo Tempo (T). O conceito importante aqui é o fator S central. Ele se refere a Tabela Spare que desenvolvi, (em homenagem a Austin Spare) e que será relacionada abaixo.

O Tempo, T não é uma escala cronológica de segundos ou horas. Isso não faria sentido uma vez que o tempo linear é por si só ilusório e se torna cada vez mais irrelevante a medida que nos aprofundamos da realidade psíquica interior. Trata-se portanto da percepção subjetiva que a consciência tem da duração do estado de Gnosis.  De 0.1 a 0.3 são experiências rápidas e fugazes, como um espirro, um susto ou uma topada no pé. Valores T iguais a 0.4 a 0.6 são para experiências moderadas como auto-flagelação, os giros dervixes ou uma corrida em uma montanha russa. De 0.7 a 0.9 são experiências relativamente longas, como um transe xamânico, uma seção sado-masoquista ou um exorcismo neo-pentecostal. O fator 1.0 é reservado apenas a aquelas experiências onde a noção de tempo é completamente superada e o adepto experimenta a atemporalidade como no caso do Samadi yogui, das Experiências Culminantes de Abraham Maslow e das visões descritas no Apocalipse de João.

A Tabela Spare, por sua vez, não é uma escala progressiva mas sim a soma ponderada de diversos sintomas específicos. Cada um deles com seu valor. Ela foi criada com base no trabalho de Austin Spare e dos Círcuitos de Consciência de Timothy Leary e enriquecida com as experiências de minha prática mágica pessoal.  A unidade de medida do estase eu chamo de spare. A Tabela foi estrategicamente concebida de maneira a evitar trapaças evitando acúmulos desleais na contagem. Assim, qualquer soma superior a 1 spare é indício claro de que você está enganando a si mesmo na hora de estimar o fator.

A Tabela Spare

  • 0.1   Sensações intensas de Prazer/Dor física.
  • 0.1   Privação/Estase dos sentidos.
  • 0.1   Privação/Sobrecarga do organismo  (jejum, fastio, insônia, imobilidade, exaustão)
  • 0.1   Emoções atávicas, fortes ou significativas.
  • 0.1   Estímulos abstratos complexos (música, dança, matemática, teatro, etc…)
  • 0.1   Libertação socio-cultural. Entrega completa. (perda de auto-censura, alivio de normais cotidianas, quebra de tabus tribais)
  • 0.1   Memórias Simultâneas/Amnésia
  • 0.1   Consciência não-local. Transcedência da noção de espaço.
  • 0.1   Superação conceito de individualidade.
  • 0.2   Pensamento único extremamente concentrado
  • 0.2   Vacuidade. Ausência absoluta de pensamentos.

Para exemplificar a consulta da Tabela Spare: Um orgasmo de má qualidade acumularia o estado de vacuidade, 0.2 spares (sp), ao prazer físico 0.1 sp, a perda de auto-censura 0.1 sp e a emoção da luxúria 0.1 sp num total de 0.5 spares. Já um orgasmo tântrico acumularia ainda, o estase dos sentidos 0.1 sp, os estímulos sensórios complexos próprios do ritual 0.1 sp, a consciência expandida não-local resultante 0.1 sp e a superação do conceito do Eu ordinário 0.1. num total de 0.9 sp.

Aplicando a equação G=ST teríamos que uma seção tântrica longa de T=0.9 que atinja 0.9 spares resultaria em uma Gnosis na ordem de 0.8.

Fator P = Probabilidade

Agora, voltando às duas fórmulas, não adianta nada se ter todas os elementos mágicos calculados se não temos o fator P (a chance de algo acontecer por simples chance) na equação também. O fator P é a probabilidade natural de algo acorrer sem a influência do magista ainda, é a probabilidade simples que deve ser calculada antes de mais nada. Nossas duas fórmulas dependem deste fator como podemos ver:

Pm = P + (1-P) M^(1/P)
Pm = P - PM^[1/(1-P)]

Vamos ver então como chegar a este número agora. Para se calcular a probabilidade de qualquer evento acontecer podemos nos valer de três regras principais de cálculo. A primeira delas afirma que a probabilidade de dois eventos ocorrerem nunca pode ser maior do que a probabilidade de que cada evento ocorra individualmente. Essa é a primeira lei da probabilidade. Trocando em miúdos ela simplesmente afirma que em um caso onde temos dois eventos possíveis, evento A e evento B, a chance do evento A acontecer = chance que evento A e B ocorram + chance que evento A ocorra e evento B não ocorra.

Um exemplo mais visual para isso é: A chance de a primeira pessao entrar numa sala ser uma garota de vestido vermelho nunca pode ser maior do que a chance da primeira pessoa que entrar na sala seja uma garota. Que evento você acha que tem uma probabilidade maior de acontecer, qual acha mais provável:

  1. A) Que uma pessoa se forme em aconomia
  2. B) Que uma pessoa se forme em economia e vá trabalhar em um banco
  3. C) Que uma pessoa se forme em economia, vá trabalhar em um banco e depois de 3 anos seja promovida à vaga de gerente

Resposta certa: A

Em casos mais complexos a lei permanece. Por exemplo a probabilidade de um garoto ser destro é sempre maior do que a probabilidade dele ser destro e ter cabelos pretos e maior do que ele ser destro. Para isso basta calcular a probabilidade de um garoto ser destro (GD), a probabilidade dele ter cabelo preto(CP) e colocar na fórmula: (GD + CP) + (GD + Cabelo qualquer outra cor).

A segunda lei da probabilidade importante para chegarmos no fator P é a lei da combinação de probabilidades: Se dois eventos possíveis, A e B, forem independentes, a probabilidade de que A e B ocorram é igual ao produto de suas probabilidades individuais.

Hoje com o advento da compra de ingresso pela internet para assitir a filmes no cinema, suponha que um cinema exibindo o último filme comentado esteja quase lotado, tenha apenas mais uma cadeira disponível e dois ingressos tenham sido reservados pelo site do cinema. Suponha que, a partir da experiência, o atendente do cinema saiba que existe uma chance de 2/3 de alguém que reserva um ingresso apareça para ver o filme, ou seja de cada 3 pessoas que reservam ingressos 2 pelo menos aparecem para ver o filme. Então ele sabe que, caso essas últimas duas reservas que faltam ser preenchidas, se tiverem sido feitas por pessoas independentes, podem resultar em uma chance de 2/3 X 2/3 de terminar com um cliente puto porque reservou um lugar e quando chegou não tinha cadeiras, ou seja a chance do cliente 1 aparecer, multiplicada pela chance do cliente 2 aparecer, que é de aproximadamente 44%. Ao mesmo tempo existe uma chance de 1/3 (probabilidade da pessoa reservar e não aparecer) X 1/3 do filme começar com uma cadeira vazia apesar das reservas, ou seja: 11%.

E existem ainda casos onde aplicamos outra lei: se um evento pode ter diferentes resultados possíveis, A, B, C e assim por diante, a possibilidade de que A ou B ocorram é igual à soma das probabilidades individuais de A e B, e a soma das probabilidades de todos os resultados possíveis (A,B,C e assim por diante) é igual a 1 (ou seja 100%). Esta lei serve para calcular a probabilidade de que um dente dois eventos mutuamente excludentes, A ou B, ocorra. Como exemplo vamos voltar para o caso do cinema. Suponha que o atendente queira calcular a chance de que as duas pessoas que reservaram a cadeira apareçam ou que nenhuma delas apareça. Calculando com os números acima, e somando ao invés de multiplicar, terminamos com o resultado de 55% aproximadamente.

Essas três leis são basicamente tudo o que você precisa para poder chegar ao fator P e adicioná-lo à fórmula. Agora para isso você precisa saber a sutileza do que quer saber para descobrir que fórmula usar.

A seguir faremos uma sugestão de uma abordagem experimental para tudo o que foi explicado até agora. A Engenharia Mágica que propomos deve ser baseada em resultados práticos e acima de tudo mensuráveis.

Provas Experimentais

A prática mágica só se distingue da religião e das demais crenças na medida em que coloca a si mesmo a prova. Por enquanto tenha toda a teoria passada até agora apenas como uma hipótese a ser testada. Para isso vou propor um experimento simples para a utilização da formula sem que o adepto perca-se com números e possa por sua própria experiência pessoal cruzar a linha entre o mito e o método. Além disso este será exercício fundamental para você “afinar” a sua percepção sobre si mesmo e superar suas limitações enquanto magista.

Você vai precisa de papel e caneta, ou alguma outra forma de registro e dois dados de 6 lados cada.

O espaço amostral, ou seja o conjunto de todos os resultados possíveis do resultado de um lance de dois dados são:

[1-1], [1-2], [1-3], [1-4], [1-5], [1-6]

[2-1], [2-2], [2-3], [2-4], [2-5], [2-6]

[3-1], [3-2], [3-3], [3-4], [3-5], [3-6]

[4-1], [4-2], [4-3], [4-4], [4-5], [4-6]

[5-1], [5-2], [5-3], [5-4], [5-5], [5-6]

[6-1], [6-2], [6-3], [6-4], [6-5], [6-6]

Existem 36 resultados possíveis, logo a chance de qualquer combinação é de 1 para cada 36 jogadas ou 1/36, P = 0,027. Em outras palavras, sando o espaço amostral do resultado do jogo de dois dados, temos uma chance de 2,7% de saírem 2 números 6 em cada jogada.

Atire 200 vezes os dois dados e anote os resultados. Atire 500, 1000 vezes, lembre-se que quanto maior o número de resultados melhor você vai poder mensurar os seus atributos mágicos. Caso tenha a possibilidade, você pode simular rapidamente estas jogadas usando softwares próprios de sorteio, isso não influenciará em nada o resultado da experiência.

Depois de anotar todos os resultados, veja quantos duplos 6 você tirou. Tabule esta informaçao.

Realize então o sua prática mágica de preferência. Evoque espíritos antigos, assuma uma forma-deus, canalize as linhas Leis, faça pactos com demônios, etc. Exercite sua magia dentro de sua área de expertise desejando que os próximos resultados da experiência sejam apenas duplos 6. Se possivel passe uma semana realizando rituais ou se preparando antes das próximas jogadas e então faça o mesmo exercício de jogar os mesmos dados.

Anote todos os resultados e veja como a sua magia influencia a probabilidade natural dos resultados. Estes serão os dados de controle para o restante da experiência.

Na próxima semana, utilizando as fórmulas e tabelas fornecidas neste artigo tente melhorar o resultado matemático do seu fator M. Munido deste ajuste fino prepare-se mais uma semana e repita a experiência. Estas três semanas devem bastar para convencer o magista sobre o poder desta abordagem magica. Entretanto alguns praticantes podem desejar realizar este exercício por um tempo mais longo devido aos benefícios óbvios que ele fornece. Se este for o seu caso, aproveite para comparar os resultados com o passar das semanas, se possível mantendo alguma espécie de registro gráfico ou tabular.

Isso é interessante por vários motivos, por um lado você pode ter uma “prova” real de como pode influenciar a probabilidade natural de algo com o sua magia, e outro é ver porque você não influencia tanto quanto gostaria. Use os princípios ensinados neste artigo e afine os parâmetros de suas experiências. Depois da segunda amostragem realize outro tipo de ritual buscando variar os elementos fundamentais das fórmulas e repita o experimento, veja como isso afeta de forma diferente os resultados. Será que sua Gnose não é tão intensa quanto você acha que é? Será que é extremamente ansioso e não consegue relaxar depois? Será ainda que no fundo acredita que magia é besteira e só funciona com coisas que apresentem um resultado vago o bastante para poder ser atribuído ao acaso? Estas são perguntas que só você poderá responder e mestre ou guru nenhum no mundo poderão substituir.

Conclusão

Como conclusão resta dizer que estas ferramentas dadas acima servem não apenas para se calcular o quanto a interação mágica pode afetar a chance de algo ocorrer, mas também como forma de ver como o praticante deve evoluir ou se adaptar para que essa probabilidade mude. Identifique suas forças e fraquezas. Trabalhe com os pontos das tabelas para ver como aumentar a chance de sucesso vendo como sua crença e sua ansiedade, por exemplo, afetam os resultados de suas práticas trabalhando então de forma a mudar a balança a seu favor.

Da mesma forma este estudo pode ser usado como uma excelente arma de ataque mágico. Sabendo como funcionam essas engrenagens você pode afetar outros magistas usando os elementos da tabela de forma que afetem o sucesso de seus trabalhos. Aumentando a ansiedade de seus oponentes, fazendo com que o seu fator R aumente ou diminuindo a ligação dele/a com o alvo, etc… Essas informações são tão mais poderosas conforme a ignorância de seu oponente chegando a perfeição no caso de magos naturais que sequer sabem o que estão fazendo.

Eu estimulo meus irmão da prática mágica a explorar sutilezas dos métodos aqui ensinados. Isso é não apenas aceitável, mas bastante recomendado, inclusive tentando acrescentar ou mudar elementos de acordo com sua própria experiência. Devo destacar ainda que é necessária completa honestidade consigo mesmo na hora de avaliar cada um dos fatores. No caso de G devemos ser francos com o grau de alteração de consciência que realmente conseguimos atingir. Em L os graus 0.4 e 0.8 devem ser judiciosamente distinguidos, pois existe uma tendência entre os iniciantes de achar que suas imagens mentais fracas sejam como aquelas que uma mente treinada consegue projetar. Como distinguir? Tente fazer uma descrição de uma pessoa para alguém e então peça para a pessoa tentar adivinhar de quem você está falando. Em A e R, é necessário que escolhamos com sinceridade nossa posição, buscado aquilo que realmente pensamos e não aquilo que gostaríamos de pensar.

Uma nota se faz necessária quanto a possibilidade de drogas e substâncias químicas para melhorar o desempenho das variáveis que compõem o fator M. Não existem evidências de que nenhuma substância química possa ajudar no elemento R, isso porque trata-se da resistência subconsciênte. O uso de Álcool por exemplo, para esse fim se prova impróprio pois ele apenas aflora as mesmas crenças subjetivas. A variável A, de ansiedade pode ser melhorada pelo uso haxixe e de ansiolíticos em geral como os derivados da morfina. Por fim spares podem ser acumulados pelos uso de uma grande variedade de substâncias químicas, e notadamente o LSD, a Psilocibina e o Ayahuasca.

Agora devemos estar atentos quando formos inserir qualquer forma de consumo de drogas em rituais por um motivo simples: a banalização que se tornou o consumo deste tipo de substância.

Gregos e romanos antigos, e xamãs muito antes deles, era famosos de substâncias em seus rituais, de ópio a anticolnérgicos, passando por toda uma gama de cogumelos e outros vegetais ou substâncias biológicas excretadas por animais. E esse uso de drogas era feito de forma precisa e “sagrada”, ou seja, consciente. O uso de drogas, mesmo o álcool, em trabalhos mágicos tem 3 estágios claros. O primeiro é aquele em que a droga é necessária para se atingir certos níveis de percepção que apenas a mente não atinge sozinha sem muita prático, é o estágio da droga como auxiliar. Esse estágio pode evoluir para o uso da droga sempre que se deseja atingir aquele estágio, já que é mais fácil do que exercitar a mente, este é o estágio da droga como muleta. E finalmente existe o estágio onde você pode usar drogas para seus rituais da mesma forma que usa para escovar os dentes, assistir tv ou sair na rua que é o estágio “eu sou um drogado que gosta de fazer rituais”.

Acredito que o objetivo da magia é a evolução do praticante para um estágio onde apenas a própria vontade seja capaz de causar alterações na realidade sem o uso de muletas. Desta forma, até algum estudo provar o contrário afirmo que as substâncias químicas não constituem substitutos seguros para o treinamento mágico. É por este motivo que os treinamentos mentais e as práticas de iluminação constituem a parte inicial de qualquer tradição mágica competente. Ansiedade, Resistência, Ligação e os estados alterados de consciência da Gnosis são elementos que podem sem dúvida ser aprimorados com treino e persistência. É a alquimia interna que acaba servindo como exercícios para melhorar cada um destes fatores consideravelmente.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/principios-da-engenharia-magica/

Carta a um evangélico

Olá Sr. Evangélico, aqui quem fala sou eu, o Sr. Espiritualista.

Antes de mais nada, preciso lembrar-lhe de que somos irmãos, ou pelo menos não há nada explícito em nossas doutrinas que afirme o contrário…

Vejamos, então, a questão da espiritualidade africana. Tenho visto o senhor dizer que os orixás são demônios e que toda macumba é necessariamente coisa do Capeta… No entanto, é preciso que saiba: para o pessoal lá dos terreiros, macumba é só um instrumento musical, tipo reco-reco, sabe como é? Nem tem tanta importância assim, o som dos tambores é bem mais importante no ritual deles; E, já que falamos nos rituais, são coisas bem antigas, bem antigas mesmo! Muito antes dos termos “demônio” e “Capeta” terem sido inventados, já se faziam rituais para os orixás na África. Se ler um pouco de ciência e antropologia, saberá o que os cientistas já dão por quase certo: que viemos todos da África, o homo sapiens surgiu em algum ponto entre a parte sul e central do continente mãe.

O próprio deus bíblico deve muito ao deus que era cultuado na Mesopotâmia por povos que já eram bisnetos milenares dos primeiros africanos que batiam tambores em homenagem a Natureza. Sem El, Javé não seria muito mais do que o espírito ancestral de alguma tribo de hebreus perambulando por Canaã. Javé foi cultuado como um patriarca de homens, El foi compreendido como um deus cósmico, criador de tudo o que há [1]… Mais ou menos como Olorun, que criou o mundo, mas está tão acima de nosso plano de existência que não há nenhum xamã africano que tenha tido coragem de tratar diretamente com ele [2].

Foi muita engenhosidade dos hebreus esta que associou Javé a El, e com isso criou a ideia de um deus cósmico que, não obstante, poderia ser contatado como qualquer outro grande patriarca. O problema é supor que somente os rabinos podiam contatá-lo… Não foi exatamente por isto que Lutero lutou toda sua vida? Para que as pessoas comuns pudessem ler os textos sagrados e conhecer a Deus por si mesmas, sem a intermediação de Roma? Pois bem, pois os nossos irmãos africanos já falavam com Deus há muito mais tempo que a gente, e nem precisavam de livros para isso.

Quer dizer que todo o ritual que evoca orixás é coisa do bem? Claro que não, mas a maioria é. Maçãs podres, temos em qualquer pomar, e tenho certeza de que mesmo o neopentecostalismo tem as suas… Ou o senhor acha que abençoar talismãs com óleo ungido, ou derrubar fileiras inteiras de pessoas ao chão, é algo perfeitamente baseado nas Escrituras?

Tudo bem, vamos ser honestos: o que achamos um barato é essa tal experiência religiosa. Decerto Pentecostes foi uma loucura do Espírito Santo, mas quem garante que foi a primeira? Se até hoje os senhores procuram falar a língua dos anjos, porque encrencar com o caboclo que fala a língua dos espíritos da Natureza? Por mim, anjos e rios, cachoeiras e carruagens de fogo, florestas e sarças ardentes, se foram vistas pelas mentes que creem, se fizeram o bem para elas, que mal há? Onde o senhor vê o Capeta nessa história toda?

Por mim, se existe um ser assim, condenado a ser mal por toda a eternidade, ele não iria atuar sobre os verdadeiramente religiosos, mas antes optar pela via mais simples: tentar aqueles que já não creem, que não se dedicam, que nunca se arriscaram realmente a mergulhar neste Oceano de Amor que permeia todo o espaço e todos os tempos…

Me perdoe, eu tenho certeza que não é o seu caso, mas acaso nunca viu um cristaozão desses que bate no peito dentro da Igreja e diz: “Sou de Cristo!”, mas que começa a falar mal da sogra 5 minutos depois de terminar a oratória do pastor? De que adianta se achar um grande cristão ao chutar imagens de santos e orixás por aí, se ao chegar em casa chuta o seu cachorro e esbofeteia sua esposa? Será que Cristo falou numa espada para matar os infiéis, ou em oferecer a outra face para o agressor?

Os índios das Américas, coitados, também nunca tinham ouvido falar em Cristo. Os colonizadores europeus não deram muitas escolhas para eles: ou se convertiam, ou eram exterminados [3]. Até mesmo muitos que disseram ter se convertido foram exterminados do mesmo jeito, pois não serviam para o trabalho escravo… E o que há de cristão nisso tudo? Nas Cruzadas, o general francês perguntou ao representante do Papa como iriam identificar os cristãos dos não cristãos, na invasão de uma cidade onde cristãos, judeus e cátaros viviam em harmonia; Ele apenas disse isto: “Matem todos, que Deus escolherá os seus”… Ao que lhe pergunto: e quais deles não eram “de Deus”?

Ainda hoje, no Centro-Oeste do Brasil, há tribos indígenas sendo evangelizadas. Evangelizar não é o problema, pois ao menos estão dando a oportunidade para que esses indígenas se tornem parte de alguma outra comunidade que não a sua, e não vivam isolados, como párias, em um país construído sobre a invasão e o extermínio de suas terras ancestrais… O problema, este sim, é proibi-los de pintar o corpo de vermelho. “Vermelho é a cor do Capeta!”, seus colegas dizem… Mas, e o que diabos os índios tem a ver com o Capeta? Na maioria das mitologias indígenas, sequer existe um ser representante do mal, quanto mais um anjo caído… Eles nem sabem o que é um anjo! Se não podem se pintar de vermelho, vão se pintar de branco? Ou de verde? Ou lilás? Convenhamos, isso não faz o menor sentido.

Vamos tentar ser mais seguidores de El, e menos seguidores de Javé. Javé era um espírito ancestral, e precisava de barganhas e favores, e tinha ciúmes dos cultos de espíritos e deuses alheios, como foi o caso com Baal. Mas El não, El não tinha um oposto, pois o Tudo não tem oposto – o Nada não existe.

Dessa forma, se existe um Capeta, seria injustiça da parte de Deus que ele pudesse controlar a mente dos seres puros, corrompendo-os… Acho que faz mais lógica, além de estar mais de acordo com o que vemos na Natureza e na psicologia humana, considerarmos que o mal existe na alma de cada um de nós, e que é somente lá, precisamente lá, que precisamos fazer uso desta espada de que Cristo falou…

Para cortar a trave que obstruí nosso próprio coração. Para que nossa luz de amor transborde, e englobe os irmãos a nossa volta. Para que evangelizemos realmente uma boa nova, uma notícia de uma nova era, de uma nova sociedade, uma nova espiritualidade, uma nova religião… Assim, quem sabe, também poderemos ler, dentro de nossa alma, conectada a Alma do Mundo: “também eu sou da raça dos deuses, também eu trago o Pai dentro de mim, também eu farei tudo aquilo que o Cristo realizou, e talvez até mais”. E nem sequer precisaremos de um livro para guardar tal Verdade.

Cristo salva, afinal, todos aqueles que o encontram dentro de si mesmos… Mas Cristo é apenas uma palavra. O que salva é a fé, e não há fé mais profunda do que a fé no Amor. Pense nisso meu amigo, meu irmão. Pense, e reflita esta boa nova adiante!

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[1] Maiores detalhes na série A roda dos deuses (esta teoria não é minha, mas de Mircea Eliade, um dos maiores especialistas em mitologia do séc. XX).

[2] Na mitologia Iorubá, talvez a de maior influência no Brasil, Olorun ou Olodumare é o criador do universo e mora no Orun (Céu). Embora reconhecido como Ser Supremo, não existe um culto ou templo que lhe é dedicado exclusivamente. Os orixás são os seus representantes em Aiye (Terra).

[3] Michel de Montaigne dá sua opinião, bem mais embasada do que a minha, nesta série de Reflexões sobre o sexo.

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#Cristianismo #Candomblé #sabedoriaindígena #Protestantismo #UmbandaSagrada #ecumenismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/carta-a-um-evang%C3%A9lico

Teoria e Prática: o Livro e a Espada

Seja na magia do caos, na magia tradicional ou em qualquer área do conhecimento, fala-se muito da importância de aprofundar-se tanto na teoria quanto na prática. Conforme a época, o lugar e a área do saber, essas concepções mudam. Às vezes valoriza-se mais a teoria ou mais a prática, devido a motivos culturais, políticos, econômicos, dentre outros.

Na magia atual, vejo muitas críticas aos chamados “magistas de poltrona” (armchair magicians), que “só estudam e não praticam”. Eu conheço uma prática em que se fica sentado “sem fazer nada”, que segundo os relatos levaram muitos à iluminação: ela se chama meditação. Para magistas que apreciam ficar sentados em suas poltronas essa seria uma boa ideia. Mas brincadeiras à parte, será que teoria e prática são assim tão separadas? Algumas sistematizações são mais úteis que outras. Qual seria o caso aqui?

Na Idade Antiga, como na Grécia, trabalhos manuais costumavam ser pouco valorizados e os trabalhos intelectuais eram exaltados (como aqueles dos filósofos). Tanto que a palavra “escola” vem do grego “scholé”, que significa “lugar do ócio”, significado que se busca resgatar, no sentido de “ócio criativo”, que leva ao surgimento de novas ideias, e consequentemente novos paradigmas. Na Idade Média, os médicos aprendiam a teoria e quem realizava as cirurgias eram os barbeiros-cirurgiões, que recebiam pouquíssimo treinamento teórico, sendo considerada uma profissão inferior.

Hoje, o médico cirurgião com destreza manual é algo apreciado.

Na época em que vivemos, um diploma universitário costuma ter mais status do que fazer um curso técnico, sugerindo a maior valorização da teoria em relação à prática. Por outro lado, ter feito cursos técnicos de certas áreas às vezes proporciona um salário mais alto (seja a curto ou longo prazo) do que ter feito certos cursos universitários. E também há aqueles cursos universitários valorizados no mercado de trabalho por harmonizarem teoria e prática no currículo. Existem bolsas tanto para pesquisas quanto para estágios em universidades, mas é comum que a verba para muitas pesquisas importantes seja negligenciada, valorizando-se mais aquilo que tenha aplicação prática direta.

Disso tudo concluímos que não existe nenhuma verdade universal que defina a supremacia da teoria em relação à prática ou vice-versa. As duas são importantes e uma pode prevalecer sobre outra dependendo da área, do momento e de muitos outros fatores.

O que é o ser humano e o que ele busca? Ele é corpo, mas também é mente. Também é alma, é espírito, acrescentariam alguns. Nós não passamos nossa existência apenas no mundo da prática, ou no mundo material. Passamos boa parte dela dormindo, sonhando, imaginando, pensando, planejando. Pensar é teoria, certo? Mas imaginar é teoria ou prática? Se eu faço uma visualização eu estou realizando um exercício teórico ou prático? Uma visualização no interior de uma meditação que tenha como objetivo lançar um sigilo (gnose inibitória) já é definida como prática, certo? Em que ponto será que a fronteira entre teoria e prática se quebra? E será que ela é quebrada realmente em algum momento ou é só nossa mente sistemática que separa o instante em que o estudo teórico acabou e a prática começou?

Quando iniciamos um ritual de magia cerimonial, nós costumamos colocar nossa mente em modo de prática. Vestimos um robe, agitamos uma espada e anunciamos para o universo, seja em voz alta ou em silêncio, que a magia começou. Talvez você até toque um sininho ou uma trombeta para se certificar de que os espíritos entenderam.

No momento da leitura, entramos em modo de “teoria” e intencionalmente acionamos uma área do cérebro diferente. Mas será que não é possível praticar enquanto se estuda e vice-versa? Uma prática pode gerar um grande aprendizado teórico e uma leitura pode ativar fortemente as emoções e gerar um resultado. Num retiro que fiz no início desse ano, a monja me deu a seguinte sugestão: usar um livro que eu estava lendo para meditar. Fomos juntas para a capela e conforme eu lia o livro em voz baixa, entoava em voz alta certos trechos que ressoaram fortemente em mim. Ela prosseguia entoando de volta outras frases que completavam as minhas. Isso gerou um tipo de ritual sagrado (eram ao mesmo tempo entoações dirigidas para Deus alternadas por uma sessão de leitura silenciosa), que fez surgir em mim muitas emoções e foi bastante poderoso. Pude aplicar a energia residual daquele momento em outras práticas que realizei logo a seguir.

Eu honestamente acho que essa briga de qual é mais importante, teoria ou prática, é desnecessária. Ambas são importantes e possuem seu lugar e seu momento na nossa vivência espiritual. Alguns se focam mais na teoria, outros mais na prática (assim como é o caso de nossas profissões), por variados motivos: por exemplo, porque se sentem inspirados em ir mais a fundo em uma delas naquele momento e simplesmente seguem essa intuição. E em outras épocas da vida isso pode mudar, de forma completamente natural.

Acredito que exista um sentido na divisão entre teoria e prática. Não sou contra sistematizações e não critico a forma com que a linguagem atrapalha na comunicação, já que sou da posição de que os benefícios superam os malefícios nesse caso. É aceitável que um magista que julgue estar lendo demais tente separar um tempo para a prática, ou que alguém que passe o dia lançando sigilos e erre muitos deles julgue que um maior aprofundamento na teoria possa levá-lo a uma solução original para melhorar a eficácia de sua magia. Entretanto, o ritmo e o estilo de cada um  deve ser respeitado.

Não é só porque eu (ou outra pessoa) leio muito, ou pratico muito, e isso funcione muito bem para mim que irá funcionar para todo mundo. É preciso reconhecer a importância de se chegar a uma harmonia entre ambos, mas que é uma harmonia para mim e para você? A magia do caos dá muita importância à magia prática (e rápida), mas também existem centenas de livros de caoísmo. Julian Vayne propôs o movimento do “slow chaos” como uma alternativa à magia rápida (como sigilos) dos caoístas. De forma análoga, pode existir um sistema na magia (e eles de fato existem) com foco intensamente teórico. Cada paradigma tem suas vantagens e desvantagens. É melhor ou pior ter mais teoria ou mais prática? Depende de seus objetivos.

Na magia do caos não devemos nos prender a regras e fórmulas prontas. Se você está cansado de escutar: “Pare de estudar e pratique”, mas você está muito feliz atualmente na sua vida espiritual, pessoal e profissional, além de as poucas magias que você faz funcionarem muito bem, qual é o problema? E o contrário também é verdadeiro: vamos supor que você faça muitos rituais, use vários servidores e faça magias de muitos tipos, mas raramente leia, pouco sabe de teoria da magia. E é criticado por ser ignorante, por não saber o que está fazendo, por seguir superstições sem base teórica.

Da mesma forma que pessoas simples, que não sabem ler ou escrever, mas mantém uma prática fenomenal em suas religiões, indo na igreja todo dia, rezando o terço diariamente, etc, são criticadas por não conhecerem alta teologia. Se você está feliz, se as coisas estão dando certo, há algo errado? Ou será que há algo errado na pessoa que te criticou, que não aceita a diversidade da magia e a existência de diferentes caminhos para objetivos semelhantes?

Conselhos possuem seu valor. Pondere o conselho de seu amigo sobre estudar mais ou praticar mais. Porém, no final, a decisão cabe a você, que é aquele que mais sabe do que você precisa nesse momento para ir adiante. As pessoas não precisam necessariamente das mesmas coisas e não existe uma fórmula mágica para todo mundo. Sim, tente equilibrar entre teoria e prática. Mas a medida desse equilíbrio é você quem decide, e sempre lembrando que as duas não são antagônicas e nem são assim tão separadas.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/teoria-e-pr%C3%A1tica-o-livro-e-a-espada

A importância do Zohar nas tradições místicas judaicas

(Texto em inglês extraído da The Encyclopedia of Jewish Myth, Magic and Mysticism do Rabbi Geoffrey Davis).

O Sefer ha-Zohar, cujo nome em hebraico significa “O Livro do Resplendor”, é uma obra-prima maciça da Cabala Espanhola e é a obra de esoterismo mais influente no Judaísmo. Parte comentário esotérico, parte romance medieval e parte evangelho místico, o Zohar é ostensivamente obra do sábio galileu Simon bar Yochai do século II. De fato, a maior parte da coleção é obra de Moisés (shem tov) de Leão de Guadalajara (ca. século XIII), com outras seções adicionadas por colaboradores anônimos. O rabino Moisés compôs o Zohar, em parte por meio de escrita automática, em uma série de folhetos que vendeu e distribuiu ao longo de sua vida. Como resultado, o texto do Zohar que temos hoje é na verdade uma antologia dos livretos manuscritos sobreviventes reunidos no advento da imprensa.

O núcleo do livro publicado (século 18) consiste em três seções: comentários sobre Gênesis, Êxodo e os três últimos livros da Torá. Além disso, estes são geralmente publicados com várias composições relacionadas: comentários parciais sobre Cântico dos Cânticos de Salomão, Rute e Lamentações de Jeremias, o antigo Zohar Chadash, o posterior Ra’aya Meheimna e o muito posterior Tikkunei Zohar.

Escrito em um aramaico excêntrico e carregado de poesia, o Zohar é às vezes lírico, fantástico e absolutamente enigmático. Às vezes, o texto revela paradoxos, enigmas e pronunciamentos obscuros e elípticos. Também é carregado com temas eróticos por toda parte.

A ideia mais destacada nele é seu conceito elaborado e complexo das sefirot (o Pleroma dos poderes divinos). Essas dez forças divinas, desdobrando-se em diferentes níveis, revelando degraus do propósito e função divinas, são a peça central da teosofia do Zohar. O funcionamento dessas sefirot é então aplicado à Bíblia, revelando simultaneamente o funcionamento interno do Pleroma e ilustrando as energias divinas em jogo em todos os aspectos das narrativas bíblicas. Cada figura e evento na Bíblia está correlacionado com as sefirot, destacando o movimento análogo de forças divinas e terrenas.

O Zohar também dá uma visão altamente mitológica do cosmos, com as forças das sefirot também expressas através de demônios, seres celestiais e locais míticos. O mais surpreendente de tudo é a interpretação francamente sexual que o Zohar aplica à Divindade. Deus tem aspectos masculinos e femininos que estão envolvidos em um drama divino dinâmico de hieros gamos (unificação sexual sagrada) contínuo para alcançar a unidade perfeita. O povo de Israel é um elemento crucial da mais baixa das sefirot, Malach (Malkuth),  e tem um papel central na sustentação desse processo divino de unificação. Os mortais efetuam essa unificação divina contínua por meio da observância diligente das mitsvot (os mandamentos da Torá), trazendo a intenção correta ao seu desempenho, e por outros atos específicos de imitato dei (imitação de Deus).

Outro aspecto notável da teosofia do Zohar é sua interpretação do mal. Com base nos ensinamentos do Tratado sobre a Emanação Esquerda, o Zohar ensina que o mal é realmente uma emanação da sefirá Gevurah, da justiça divina, que se torna sustentada e distorcida pela maldade humana.

A obra dedica surpreendentemente pouca atenção à experiência mística pessoal ou como alcançá-la. A única busca mística distintiva mencionada no Zohar é devekut, “clivação”, ou apego erótico-apaixonado a Deus. – negação e práticas indutoras de êxtase, como a privação do sono, também desempenham um papel. Mais importante ainda, o Zohar consistentemente vê a humanidade (especificamente os judeus) e as sefirot inferiores em uma espécie de continuum, obscurecendo a distinção entre Israel e seu Deus. É por isso que os judeus facilitam e participam do Tikkun do zivvuga kaddisha, “União Sagrada”.

O impacto do Zohar no misticismo judaico subsequente é incomparável. Sua importância aumentou após a expulsão catastrófica dos judeus espanhóis, pois esses exilados encontraram significado para sua situação na complexa interação das sefirot. Em alguns segmentos da comunidade judaica, o Zohar eventualmente ficou em pé de igualdade com a Bíblia e o Talmud como um texto oficial. Também teve um impacto profundo nos cabalistas cristãos da Renascença e mais tarde, que vasculharam a linguagem obscura do Zohar em busca de referências secretas à Trindade e outras doutrinas cristãs.

Referência:

1. Matt, O Zohar: Edição Pritzker, vol. 1, lxix–lxxi.

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Tradução e adaptação do inglês para o português por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-importancia-do-zohar-nas-tradicoes-misticas-judaicas/

Black Sabbath (1970)

Chocando o mundo inteiro com este primeiro álbum lançado em 1970, para muitos Black Sabbath é apenas uma banda que se destacou por fazer “músicas de terror” numa época em que praticamente só se falava de amor. Isso é verdade também, mas para quem sabe o que está escutando, Black Sabbath é muito mais do que isso, eles de fato revolucionaram o rock e inventaram um novo estilo, mas também foram os pioneiros a ganhar extrema popularidade ao levar a magia negra para as grandes massas e a primeira grande banda a encher estádios para falar sobre o Diabo.

A origem do nome da banda é motivo de controvérsias. Dependendo de quem contar a história você poderá ouvir que “Black Sabbath” é uma homenagem aos Sabás Negros, rituais medievais de magia negra, uma referência a um filme italiano homônimo da época ou apenas o título de uma música que o baixista Terry Geezer Butler fez inspirado num suspense de Denis Wheatley. Reforçando a hipótese do conhecimento de magia negra, Geezer relata em entrevista de 2001 para a revista Guittar  World:

“Havíamos mudado para esse quarto pintado de preto e cheio de cruzes invertidas. Eu havia emprestado um livro antigo, do século 16 do (Ozzy) Osbourne naquela tarde que ele havia roubado de alguma biblioteca. Naquela noite eu acordei e vi esta figura sombria no pé de minha cama. Uma presença horrível que me assustou até a alma. A figura aos poucos desvaneceu no ar. Eu procurei o livro para jogar ele fora, mas ele já havia desaparecido. Contei aquilo para o Ozzy e isso ficou nas nossas mentes. Então quando comecei a tocar “Black Sabbath” ele apareceu com aquela letra. Veio do nada, e então sabíamos que só havia um nome possível para a banda.

Questionado sobre seus primeiros envolvimentos com o oculto, Geezer, continua:

“Eu cresci como católico então eu realmente acreditava no demônio. Havia esta revista chamada “Man, Myth and Magic” que eu lia e ela tratava sobre Satã e coisas assim. Essas foram minhas primeiras influências assim com os livros de Aleister Crowley e Dennis Wheatley, especialmente a obra “The Devil Rides Out” que foi concebida para ser apenas um conto de terror, mas que pode ser lido como um manual de como ser um satanista.”

Ao contrário de muitas bandas anteriores que ganharam a fama por flertarem com o diabo, Black Sabbath usou isso como parte de sua identidade como Banda. Não existe uma ideologia unificadora nas músicas do grupo, e muitas vezes o Satã é até retratado com um medo cristão sob um ponto de vista quase gnóstico, a saber, de que Deus está morto ou dormindo e que sua contraparte maligna é um deus muito mais ativo e provável. “Nós estamos com Deus”, disse Tony Iommi, o guitarrista para a revista Circus, em 1984, “Mas muitas vezes sentimos que Satã é esse Deus.” A presença infernal na música era tão intensa que Bill Ward, o baterista admitiu em testemunho para o livro  “Black Sabbath An Oral History” que sempre sentiu uma presença sobrenatural nas execuções. Tão real, enfatizou ele, que era como se de fato houvesse um quinto membro na banda.

Mas o grande catalisador da veia satânica do grupo é sem dúvida Ozzy Osbourne, como não deixaria dúvidas posterioremente com sua carreira solo. Identificando a si mesmo como o “Principe das Trevas”, Ozzy, embora sem uma educação formal neste campo sempre foi um grande interessado em magia e demonologia. Interesses estes que muitas vezes, sem uma orientação mais apropriada colaboraram para o deixar ainda mais descontrolado. Em 1984 declarou a revista Hit Parader: “Eu realmente gostaria de saber porque fiz algumas das coisas que fiz em todos estes anos. As vezes acho que estou possuído por algum tipo de espírito. Há alguns anos eu estava convencido de que eu realmente estava possuído pelo diabo. Eu me lembro de assistir o filme Exorcista e eu me identificava muito com tudo aquilo.”

Assim, da mesma maneira que o livro de Dennis Wheatley foi lido pelos membros da banda como um guia para o satanismo, embora o autor original não tivesse essa intenção, igualmente as músicas do grupo foram como um grande chamado para o lado sombrio da existência. Quando nos anos 70, inspirado por seus gostos obscuros, Black Sabbath começou a produzir músicas com o objetivo de assustar as pessoas e dar prazer nos moldes dos livros e filmes de terror, o velho adágio satânico se confirmou. É impossível contemplar o abismo sem que o abismo olhe de volta para você. Black Sabbath fez milhares de pessoas olharem para o abismo. Desta maneira, ao falar de magia, medo, morte, sexo, sangue, diabo e terror, eles tornaram-se a porta de entrada para as hordas infernais entrarem na indústria da música e para que muitos apreciadores de música entrarem para as hordas infernais. Sem querer ou não, graças a eles hoje o inferno está cheio de  boas intenções e de boa música.

Black Sabbath

 

What is this that stands before me?
Figure in black which points at me
Turn around quick and start to run
Find out I’m the chosen one, oh nooo!Big black shape with eyes of fire
Telling people their desire
Satan’s sitting there, he’s smiling
Watches those flames get higher and higher
Oh no, no, please God help me!

Is it the end, my friend?
Satan’s coming ’round the bend
People running ’cause they’re scared
The people better go and beware!
No, no, please, no!

Tradução de Black Sabbath
Sabá NegroO que é isso que se levanta a minha frente?
Um vulto preto que aponta para mim
Viro rapidamente, e começo a correr
Descobri que eu sou o escolhido
Oh não!

Uma grande figura negra com olhos de fogo
Dizendo às pessoas seus desejos
Satã está sentado lá, ele está sorrindo
Observem aquelas chamas crescendo cada vez mais
Oh não, não, por favor Deus me ajude!

Esse é o fim, meu amigo?
Satã está vindo lá na curva
As pessoas correm pois elas estão assustadas
Pessoal, é melhor correr e tomar cuidado!
Não, não, por favor, não!

 

 

Nº 4 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/black-sabbath-black-sabbath/

O Caminho Sinistro – Parte 1

Preparação

Diante da crescente torrente de absurdos vistos na internet envolvendo o Caminho da Mão Esquerda (que prefiro chamar de Caminho Sinistro, por motivo fonético e abreviativo apenas, vide adiante), nasceu a necessidade de trazer luz ao tema. E não se trata de mero jogo de palavras, há uma errônea associação compulsória do caminho sinistro com as trevas e a malignidade que deve ser desfeita durante a nossa caminhada juntos.

Não tenhamos pressa, contudo. Vamos lidar aqui com temas e conceitos que se opõem ao status quo e elementos fortemente enraizados no inconsciente coletivo, e isto NÃO é sinônimo de lesar a integridade física, a humanidade, as leis básicas ou a propriedade, de si mesmo ou de outrem. Se você entende a associação a uma ordem ou culto sinistro como um facilitador para a prática de más ações, saiba que o Código Penal brasileiro prevê tal intenção em seu artigo 288. E se você tem inclinação criminal, peço encarecidamente que pare por aqui.

Uma coisa que talvez decepcione alguns de vocês é que eu não vou dar carteirada. Não vou me esconder atrás de um nome mágico de demônio milenar, nem apresentar cargos, graus iniciáticos e títulos, pois creio ser desnecessário nesse momento. Espero que você se contente, por hora, em saber que sou uma pessoa relativamente acessível, apesar de introvertido.

Bom, vamos ao que interessa.

Meta-Percepção

Antes de qualquer coisa pare e se pergunte por que você está aqui, lendo isso. O Ego destreinado tende a responder que está aqui “porque quer”, porque assim o decidiu baseado em uma escolha pessoal qualquer, e a estes eu surpreendo dizendo que estão aqui porque eu quero. Claramente não escolhi cada leitor deste artigo, mas escolhi ter leitores, escolhi transmitir um conhecimento, escolhi a forma, o conteúdo, o veículo, enfim, criei este instante, este continuum do qual você agora faz parte para, apenas posteriormente, existir algum exercício da sua vontade. Não se trata, neste caso, de um conflito de vontades, visto que elas não se contrapõem, mas curiosamente a minha se faz manifesta e predominante desde antes da existência da sua.

Essa diferença sutil em como percebemos as coisas e seus significados é a forma que escolhi para começar nossa caminhada, pois dela vai depender não só nossa compreensão como nosso sucesso no caminho sinistro. E eis aqui a primeira grande oportunidade de exercitar a semântica.

O Caminho Sinistro
Sinistrum, forma neutra do latim clássico, significando apenas… esquerdo. Oposto a destro. As sinonímias referentes a “impróprio”, “adverso”, “desafortunado”, “funesto” e congêneres são do período pós-clássico. É perfeitamente possível um caminho sinistro ser ensolarado, florido e cheio de vivacidade, como também é perfeitamente possível que seja desolado, pútrido e nefasto. Sinistro, neste caso, apenas alude ao fato dele se encontrar à esquerda de outro.

Mas porque estamos falando de esquerda mesmo?

O ocultismo moderno pegou emprestados os termos usados no Tantra indiano para caracterizar duas correntes doutrinárias: O Caminho da Mão Direita (Righ-Hand Path; RHP; Dakshinachara) refere-se a doutrinas e/ou grupos que seguem princípios éticos, morais e filosóficos mais rígidos e conservadores, com forte tendência ortodoxa e o Caminho da Mão Esquerda (Left-Hand Path; LHP; Vamachara) refere-se a doutrinas e/ou grupos com práticas heterodoxas em sua maioria, que reforçam e induzem o questionamento e a oposição moral, não adotando estruturas éticas e filosóficas complexas.

Contudo, perceba que é um erro grotesco presumir e associar de imediato o caminho destro ao bem e o caminho sinistro ao mal, cabendo aqui lembrar que a prática do bem ou do mal é uma escolha humana individual, independente do caminho trilhado.

Os Aghori

Muitas definições em pouco tempo, certo? Para bem entender o termo, vamos evoluir com ele in loco, com praticantes do Vamachara, o caminho sinistro tântrico.

Os Aghori são devotos de Kala Bhairava, uma manifestação de Shiva associada à aniquilação… do mal. Eles se submetem em sua rotina ritualística à necrofagia, coprofagia, urofagia, caminham entre cadáveres e fazem utensílios com ossos humanos, justificando tal comportamento como uma prática não-dual, o contato com o Advaita Vedanta, o verdadeiro Eu, transcendendo através dos tabus sociais. Apesar de não serem considerados “hindus” pelos indianos em geral, os Aghori têm curandeiros reconhecidos por seus poderes ditos milagrosos. Pense na prática Aghori como uma vacina, em que você se contamina com o que quer evitar e a diferença entre imunização e infecção está simplesmente na dose e na manipulação do agente.

Fatores Históricos

Note, caro leitor, não haver menção sobre o caminho sinistro em época anterior à adoção do termo pelos textos védico e simplesmente não há outros fatores que definam com firmeza a existência da corrente antes das definições tântricas.

Mas não teriam Ahriman ou Baal seus cultos bem antes disso? Por certo que sim, mas neste momento peço encarecidamente que, se ainda não entendeu o motivo da minha pergunta, volte a ler este artigo do início. Um culto a Ahriman pode ser extremamente organizado, ortodoxo, conservador e fundamentalista (nenhuma dessas características se opõe às da entidade e, na verdade, até fazem sentido no contexto histórico e social), classificando-o na corrente doutrinária da Mão Direita. Insisto que, na grande maioria das vezes, “bem” e “mal” são definições e escolhas humanas.

E o que isso quer dizer? Quer dizer que o Caminho Sinistro não é exatamente uma “tradição”. Pra ser bem franco, é um caminho ainda em exploração e formação. Não existem ordens medievais assumidamente sinistras, por exemplo. Faço pequena ressalva para stregheria, druidismo e semelhantes, de forte inclinação heterodoxa que ainda hoje vivem se escondendo por causa dos traumas da… bom, você sabe porque.

Existem pouquíssimas ordens e/ou cultos sinistros que transpuseram ou sequer se aproximaram do seu primeiro século de existência, como a controversa Ordem Tifoniana, antiga O.T.O. Tifoniana (T.O.T.O.), que tem como base o mesmo Thelema e graus iniciáticos de outras ordens Crowleyanas não-sinistras.

Portanto, atenção redobrada com o termo “tradição sinistra” e seus semelhantes, em geral eles não são literais e não são usados para nossa geração, mas embasam e fundamentam a credibilidade dos textos para gerações futuras, quando a tradição de fato existir. Ou não.

Fatores Antropológicos

O ser humano, especialmente o moderno, tem uma forte tendência ao oportunismo, e isso é lamentavelmente notável na área do ocultismo sinistro. O conceito de oposição moral acabou por fazer pessoas de moral intrínseca duvidosa aderirem às fileiras da corrente doutrinária (vide observação sobre crime em Preparação), e fatores psicológicos e sociais deram continuidade a essa prática transformando-a em uma espécie de tendência. Hoje não é completamente errado afirmar que o caminho sinistro é trilhado por outcasts, proscritos e misantropos.

As ordens muitas vezes abraçam alguma espécie de fundamentalismo injustificado, às vezes disfarçado, o que separa ainda mais seus probandos, neófitos e (sic) adeptos do convívio social saudável. Tenha em mente neste ponto, caro leitor, que a misantropia mística exige um nível de concentração, dedicação e domínio mental altíssimos, sendo totalmente contra-indicada para o caminho sinistro sem rígida supervisão.

De uma forma geral, as pessoas buscam o caminho sinistro pelos motivos errados, buscando os objetivos errados e são, invariavelmente, enganadas. Isso tem corroborado para a rápida degeneração da corrente original, desaparecimento das ordens sérias (p.e. O.T.O. Tifoniana deixar de usar o nome O.T.O., círculos internos de outras ordens se desassociarem, recrutamento cancelado, atividades públicas canceladas, etc…), multiplicação de pequenas ordens e cultos oportunistas, crescimento e migração de egrégoras nefastas e a invariável ridicularização geral dos praticantes.

Considerações

Por hora, caro leitor, eu o convido a ficar com a imagem dos Aghori na mente para reflexão. Um povo religiosamente proscrito? Sim. Com hábitos sanitários perigosos? Sem dúvida. Mas qual é o valor prático disso? Note que eu ainda não me atenho ao valor místico, mas o prático mesmo. Quanto sabe de anatomia um Aghori em relação a um hindu que nada faz além de orar? Qual tem melhor sistema imunológico? Qual tem medo do escuro? Qual é o real valor da contaminação física e moral a que se expõem os praticantes? E talvez a questão mais pertinente de todas: você se imagina um Aghori ou ficaria satisfeito em conhecer um curandeiro Aghori quando um familiar adoecesse?

Como este é o nosso primeiro contato, vou ser breve e deixar o que está aqui pra ser digerido e debatido. Procurei usar exemplos de fácil pesquisa para aqueles que queiram se aprofundar em quaisquer dos elementos abordados no artigo.

Gostaria de aproveitar o ensejo e agradecer ao Marcelo pelo espaço e pela oportunidade, e a você leitor pela companhia.

Até breve.

#LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-caminho-sinistro-parte-1

Abracadabra

Assim como acontece com as salsichas, ninguém sabe a origem da paralavra Abracadabra. Essa palavra, que hoje é vista como a caricatura da magia, teve o seu registro mais antigo, pelo que sabemos atualmente, no livro De Medicina Praecepta, um livro escrito pelo médico Dr. Serenus Sammonicus no século II d.C.

Assim como aconteceu com o avião, depois que aquela tralha decolou todo mundo começou a disputar para si os créditos do primeiro vôo – americano, francês, brasileiro – hoje todo mundo disputa a origem da palavra Abracadabra. Como o crédito do primeiro vôo não faz com que brasileiros viajem com desconto ou não precisem de passaporte para entrar em outros países, essa discussão parece mera perda de tempo. Também não vamos nos perder aqui com um lista interminável que mostraria mais e mais significados e origens históricas da palavra – e também mostraria o que eu fico fazendo enquanto vocês trabalham, estudam, assistem televisão de tela plasma ou fazem sexo – e vou me concentrar apenas em uma, a mais foda: a aramaica. Mais foda porque o aramaico é que deu origem ao que conhecemos hoje como hebraico e como árabe. Mais foda porque essa foi provavelmente a língua que Jesus falava quando xingava as pessoas na rua. Mais foda porque “Aramaico” parece o nome de um robo gigante japonês que tem motosserras descomunais no lugar das mãos e solta lasers de fogo pelos olhos. Lasers de fogo, pensem nisso.

No aramaico as palavras  אברא כדברא – ou avra kedabra para vocês que são ignorantes – significam “Eu crio enquanto falo”.

Acredito que depois disso não restaria nada a ser dito, mas pouco me importa o que eu acredito. Digamos mais coisas.

Nós, enquanto seres humanos, somos pequenos milagres bizarros do Cosmos. Sejamos sinceros, se soubéssemos como criar vida a partir do nada sem usar nossos pintos, provavelmente já estaríamos criando toneladas de vida do nada. Nosso planeta é uma massa sólida que se formou graças à condensação de matéria no universo se agrupando em um ponto. Matéria essa que é constituída principalmente de moléculas, que por sua vez vem de átomos que por sua vez vem de estrelas. Todo mundo comigo?

Se a vida como a conhecemos quando olhamos no espelho ou assistimos national geographic fosse parte do processo normal de regurgitação estrelar – ou astrorregurgitação para aqueles que gostam de nomes científicos – então provavelmente haveriam outras formas de vida próximas a nós por todo o lado. Isso é fato. Para aqueles que pretendem começar a argumentar que é necessário que “na verdade” uma série de condições primárias exista, como temperatura, atmosfera, água, etc… um aviso. Este artigo se desenvolve em uma zona completamente livre de merda. Se duvida disso olhe o selo abaixo.

Viu? Livre de merda. Assim como não acatamos ao Papa dos cristãos, não acataremos a Papas de outras religiões bizarras como por exemplo o Ateísmo ou o Evolucionismo.

Parem para pensar. Se em 2008 vocês conseguissem a brochura do CERN sobre o LHC, veriam que o custo total para por o LHC em funcionamento, incluindo material e pessoal para trabalhar lá, o acelerador por completo, cerca de 15% de todos os detetores, e o cluster de computadores ficaria estimado em US$ 5.6 bilhões. Obviamente isso não é muito dinheiro para paises inteiros, mas já dá pra fazer uma festinha. O LHC foi criado com o objetivo de observarmos e constatarmos coisas que infelizmente não influenciam no aumento que você quer ganhar nesse emprego meia boca que tem, no preço dos ovos no mercado, nem no valor do seguro da sua casa. Claro que muitos dirão que o que for descoberto lá é impresncindível para nosso conhecimento e evolução enquanto macacos pelados, mas o ponto não é esse. Se gastam U$5.600.000.000 e mais alguns quebrados de dólares em um canudo gigante que anda em círculos e tem computadores medindo coisas que ninguém pode ver correndo dentro, não acha que não teriam investido já algo em se criar vida a partir do nada?

Nós estamos na Terra, onde a vida foi criada – a não ser que você acredite que fomos semeados aqui por cientistas de fora do nosso sistema – logo, já estamos com uma base das condições ideais. Se gastássemos os últimos 40 anos tentando recriar, por tentativa e erro, as condições primitivas, com certeza já teríamos esbarrado nelas. Sejamos realistas, hoje se é possível dizer qual a composição química, temperatura e estado de humor de nebulosas que estão a um porrilhão de quilómetros daqui, não é dificil usar espectrômetros e outras bugigangas, além de lógica científica e tentativa e erro para se chegarmos a uma estimativa se não correta muito próxima de como era nosso planeta alguns bilhões de anos atrás, e assim fazer surgir da lama de algum tubo de ensaio células famintas e taradas.

Além disso, se a vida já tivesse sido criada em tubos de ensaio a partir do nada, usando apenas uma combinação de minérios e de diferentes condições atmosféricas, para mostrar como se conseguimos as condições ideais ela simplesmente aparece, Richard Dawkins estaria hoje desfilando sem camisa, com piercings nos mamilos gritando THE POPE CAN KISS MY MONKEY ASS! em um megafone com um adesivo com a foto do Darwin. Isso não aconteceu ainda.

Assim voltamos à nossa idéia. Ninguém sabe como a vida surgiu, ou como a vida surge,Todos nós , por conseguinte, somos um milagre bizarro da cosmos. E quando digo nós estou falando de eucariontes e protozoários, de abelhas e formigas, de nós mesmos e tortas de maçã quente derretendo uma bola de sorvete. Não sabemos como surgimos, claro que muitos de nós, presos a nossa massa encefálica simiesca logo concluem que se não sabemos o “como” abviamente não sabemos o “por que”, e como existem perguntas devem haver respostas e assim todo mundo procura um sentido para a vida, já que logicamente deve haver um porquê. Como chegamos nisso é algo que me assuta, portanto deixemos isso de lado.

Logo que surgimos nesta bola de terra, começamos a nos replicar. Replica, replica, replica e logo houve a necessidade de sair da água porque nem todo mundo é peixe e não dá pra respirar dentro do mar. E passando por poucas e boas aqui estamos pagando dinheiro a uma companhia qualquer para termos o prazer de usar ondas de rádio que existem de graça ao nosso redor para nos comunicarmos.

O problema é que entre aquela primeira coisa que se dividiu pela primeira vez e o tataraneto do Kadafi que ainda não nasceu, algo de errado aconteceu! (se rima é porque é verdade)

Nós decidimos que éramos especiais porque resolvemos usar calças. Decidimos que éramos especiais porque proibimos mulheres de sair sem camisa na rua. Decidimos que éramos especiais porque começamos a vender comida, que não criamos do nada já que ela simplesmente brota do chão e literalmente nasce em árvores, para nossos iguais. E no meio disso tudo nos programamos para ser esses bostas que estão aqui hoje. Eu e você!

– Muito prazer bosta, eu também sou bosta!

Vamos… isso não é exagero. Um exemplo claro e prático: uma mulher sair sem blusa e soutien para ir trabalhar é algo inaceitável, mas ao mesmo tempo assinar PlayBoy não é. Ir a inferninhos ainda é algo meio cabreiro para se comentar com a família num almoço de domingo, mas ainda é mais aceitável do que ir trabalhar pelado, e pegar o ônibus ou o trem pelado. Proibimos algo para criar um mercado que venda isso. Isso é algo que só pode sair de bosta.

Nós somos milagres bizarros e grotescos do cosmos que por algum motivo deixou de se comportar como um milagre. Pegamos filas de bancos, vamos para o trabalho ou procuramos um trabalho, discutimos o preço da gasolina e pra quê?

Bem, está na hora de nos lembrarmos que somos milagres. Tortos, com um senso de humor péssimo. Com cáries e seborréia, mas ainda assim milagres.

Não importa o como surgimos, mas sim o como viramos isso que viramos, para que possamos reverter esse processo bostificador.

Para isso vamos encarar nossos cérebros como processadores, ao invés de software ou hardware vamos usar o termo wetware, porque sempre que tiramos o cérebro da cabeça de alguém com quem estamos conversando ele é meio molhado. Deixemos isso como uma homenagem a nossos profetas cyberpunk da década de 1980.

Assim como Deus criou o Homem à sua imagem, nós criamos os computadores à nossa imagem, ou algo póximo disso. Nosso wetware funciona como um computador electro-coloidal.

Quero deixar claro, antes de prosseguir, que ele não é um computador, muito menos um computador elétro-coloidal. Ele simplesmente funciona como um. Sempre que for usar comparativos lembre-se de que você não está dizendo que aquilo que está compando é a coisa com a qual está sendo comparada. Se queimar a língua bebendo café você vai dizer CARALHO ESSA MERDA TÁ QUENTE!, agora imagine se seu corpo, com você dentro, fosse atirado no sol. Esse “quente” a que nos referimos quando olhamos com raiva para a xícara fumegante de café é apenas um comparativo que quer dizer “é mais do que eu posso suportar!”. Você não trabalha com absolutos. Da mesma forma quando olhamos a planta de uma casa, não temos a ilusão de que aquela planta é a casa. Nunca ouvi falar de ninguém que olhando para a o desenho feito no papel começou a pular e rir e a pensar: “mas que idiotas… pra que pagar para pedreiros e engenheiros se o arquiteto já resolveu meu problema?”

Assim, quando digo que o cérebro funciona como uma computador eletro-coloidal, estou criando uma imagem vaga para continuar usando metáforas que possam ser compreendidas facilmente. E agora seguem as metáforas.

Para para pensar um instante. Apenas por um segundo na seguinte questão. A comparação do ser humano com um computador é válida correto? Assim como o computador temos partes físicas (o hardware) e partes não físicas (o software que o hardware lê). Se você parasse para pensar que parte sua associaria com o hardware do computador e que parte associaria com o software do computador?

Depois que pensar nisso pare para pensar no seguinte: sabe essa parte que pensou na questão anterior? Ela é o seu hardware ou é o seu software? Onde você, que está compreendendo este texto, se encontra? Essa questão já foi feita de forma mais poética no passado: quem enxerga aquilo que meus olhos vêem?

Bem, esse “eu” que existe dentro de cada um de nós, essa manifestação de consciência e personalidade, é o resultado direto de como nosso wetware processa os pacotes de programas que rodam nele. Sim, nosso cérebro roda programas como o seu computador roda também. Só que no caso do computador, quando você instala um programa como um Skype ou um Photoshop o maquinário permanece mais ou menos o mesmo. A voltagem dele não muda de 110v para 220v, as letras do teclado não trocam de lugar e o fio que o liga na tomada não fica maior ou menor. Em tese, se o programa for bem feito ele não afeta os outros programas que estão instalados, seu processador de textos continuará funcionando como antes e seu programas de receber e enviar e-mails também. Já nosso wetware… nosso wetware não funciona bem assim. Cada pacote de programas que recebemos muda a maneira como nossa personalidade se desenvolve, afeta a maneira como nosso corpo físico se desenvolve, afeta nossa percepção de certo e errado, de verde e de vermelho.

Hoje você é o que é e quem é porque seu wetware tem sido programado e continua sendo programado desde sempre, desde antes de você nascer. Isso dá um certo frio na espinha. Não é dizer que o indivíduo é um reflexo do meio em que vive, mas é dizer que o indivíduo – você – é reflexo daquilo que programaram na sua cabeça.

Mas não se desespere. Se pudéssemos descobrir a maneira com que nosso wetware é programado, qual a plataforma e a linguagem de programação, não poderíamos nos libertar dos códigos já inseridos e de certa forma passar a nos programar de forma consciente?

SIM!

BINGO!

Isso não seria maravilhoso? Não conseguir apenas controlar o rumo da sua vida, mas da sua própria evolução?

Esse seria um primeiro passo. Mas e quanto ao resto? Começamos a pensar já, pensemos grande então. Que tal não apenas conseguir manipular a própria evolução, mas a própria realidade? O mundo que nos cerca, as pessoas que existem por ai, o espaço tempo? Parece viagem, mas se acha essa proposta absurda não se preocupe. Não é você pensando. São os programas dentro da sua cabeça pensando por você, analisando o que leu e classificando como BESTEIRA. IGNORE. RETORNE À LINHA 12. Acredite, enquanto você não conseguir perceber o mundo como ele realmente é não vai ter idéia do que pode fazer nele e do que pode fazer com ele. Pense que a graças a um bando de gente que enxergava o mundo de um jeito diferente, pedaços de pedra fritaram Nagasaki e Hiroshima. Dá uma cosquinha né?

E se tivéssemos acesso então a esses programas que nos moldam e nos limitam, e se soubéssemos como eles funcionam para que pudéssemos hackeá-los?

Eu serei completamente sincero na resposta. Nós já temos! E já sabemos!

Cada pacote de programas se constituem de quatro partes ou componenetes básicos:

1- Imperativos Genéticos: São programas físicos, como placas de circuitos, nós os chamamos de instintos.

2- Impressões: São programas mais ou menos físicos que nosso wetware foi geneticamente projetado para aceitar, mas somente até certos momentos de nosso desenvolvimento. Esses “momentos” são conhecidos, na etologia, como momentos de vulnerabilidade de impressão.

3- Condicionamento: São programas criados para serem rodados nas Impressões. Eles são independentes e são relativamente fáceis de serem acessados e mudados quando usamos de descondicionamento e contra-condicionamento.

4- Aprendizado: É um programa ainda mais independente e “suave” do que o condicionamento. De forma geral eu já economizei um tempo precisoso para você colocando essas estruturas de programa em uma forma hierárquica. As impressões primordiais podem sempre anular e prevalecer sobre qualquer forma de condicionamento e aprendizado.Uma impressão é uma espécie de programa/software que acabou se tornando um hardware embutido no seu sistema; ela acaba sendo impressionada em nossos neurônios macios quando eles se encontram peculiarmente expostos e vulneráveis. Impressões são os aspectos “não negociáveis” de nossa individualidade. Dentre a infinidade de possíveis programas existentes como softwares potenciais de nosso wetware, a impressão estabelece os limites, parâmetros, perímetros dentro dos quais todos os subsequentes condicionamentos e aprendizados ocorrerão.

Sinistro pra cacete não é?

Saiba que antes da sua primeira impressão, a consciência do jovem infante é como o universo descrito na Bíblia, “vazia e sem forma”. Assim que ocorreu a primeira impressão formasse a primeira estrutura criativa nesse vazia sem forma, a mente em desenvolvimento se torna presa nessas estruturas e acaba se tornando a estrutura.

Cada nova impressão complica ainda mais a vida do software que programa nossa experiência – e que experienciamos como a “realidade”. Condicionamentos e aprendizados apenas servem para tornar essas estruturas mais intrincadas, como galerias de túneis passando por dentro desse leito desoftwares impressos. A estrutura resultante desse circuito cerebral é o que forma o nosso mapa do mundo. Tudo que aprendermos e experienciarmos e decidirmos que é real será limitado por esse mapa.

Por que religiosos acreditam em uma consciência externa a eles capaz de criar o universo?

Por que “céticos” modernos acham impossível que exista uma consciência externa a eles capaz de criar o universo?

Como é que dois tipos tão diferentes e vis de pessoas conseguem viver no mesmo mundo, cada uma tendo 110% de certeza de que sua visão pessoal de mundo é a única correta?

São os mapas mentais. E a maneira com que eles nos obrigam a enxergar o mundo.

Mas como vimos isso pode ser mudado.

Para se ter uma idéia, se nossos imperativos genéticos já foram programados por nossos bisavós, quando começam as primeiras impressões em nosso sistema?

A primeira impressão ocorre assim que a primeira coisa te alimenta na vida. E essa impressão é condicionada então por tudo o que te proteger e te ameaçar. Essa primeira impressão tem uma preocupação básica com sugar, se alimentar, se aconchegar e buscar segurança física para si mesma. Ela se afasta mecamente de qualquer coisa prejudicial ou predatória – ou de qualquer coisa associada (por impressão ou condicionamento) com algo prejudicial ou predatório.

Essas impressões e condicionamentos continuam acontecendo. Quando você começa a engatinhar e usar o penico, BUM! Quando aprende a falar, BUM! Quando aprende a desenhar e escrever, BUM! A primeira vez que se “acasala” ou tem um orgasmo, BUM!

E acredite, esses circuitos, impressões, condicionamentos e aprendizados te seguem pela vida toda, mesmo quando você não percebe, até que ABRACADABRA!

Chega a hora de fazer o computador trabalhar para você e não por você. Eu crio enquanto falo. Pare uma última vez para pensar, pare mesmo, e apenas reflita um tempo sobre o que lerá agora:

Um recém nascido veio ao mundo geneticamente preparado para aprender a compreender  e falar qualquer língua, desenvolver e dominar qualquer habilidade, assumir qualquer papel sexual. Quando é que você começou a se limitar? A mecânica e roboticamente se determinar a aceitar, seguir e mimetizar as ofertas limitadas do seu ambiente social e cultural?

Abracadabra!

Assim que terminar de responder às questões acima, perca mais um minutinho para ler o que o Sr. Robert A. Heinlein escreveu certa vez:

“Um ser humano deveria ser capaz de trocar uma fralda, planejar uma invasão, esquartejar um cachorro, projetar um edifício, invadir um navio, escrever um soneto, fazer um balanço das despesas, construir uma parede, reduzir uma fratura, confortar os moribundos, receber ordens, dar ordens, cooperar, agir sozinho, resolver uma equação, analizar um novo problema, empilhar esterco, programar um computador, cozinhar uma refeição saborosa, lutar com eficiência, morrer de modo galante. Especialização é para insetos.”

por LöN Plo

Muito bom !!!!!

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/abracadabra/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/abracadabra/

Philip K. Dick e Gnosticismo

Por Larissa Douglass, Oxford University

A Scanner Darkly, recente filme baseado na sombria visão de futuro de Philip K. Dick, aborda a discrepância entre a experiênciasubjetiva ou pessoal e a experiência objetiva. Esta última forma de experiência seria fornecida por meio de câmeras que observam processos.
Essa discrepância é uma característica de uma série de histórias e romances de Philip K. Dick, jogando com a noção de que os meios que utilizamos para aprimorar a compreensão da realidade também podem minar e obscurecê-la. Essa confusa realidade subjetiva é, então, associada a um exterior, uma perspectiva objetiva (por meio de scanners: um espelho, uma câmera ou outro meio de vigilância ou dispositivo de gravação) que relaciona-se com a “verdadeira” realidade. O choque resultante aguarda o espectador quando é revelada a discrepância existente entre a narrativa do protagonista e a que aparentemente é a real. O uso de câmeras como um “terceiro olho” tem sido cada vez mais empregado em filmes recentes para revelar uma desconexão entre a percepção dramática dos personagens e acontecimentos reais. Em última análise, que a perspectiva objetiva deve ser colocada em dúvida.

Philip K. Dick, autor

Embora a narrativa subjetiva de Scanner Darkly e em outro romance, The Three Stigmata of Palmer Eldricht, tenha origem no vício por drogas, em outras histórias Dick oferece cifras alternadas num jogo simultâneo de expansão e distorção da percepção. Quando apressentadas em conflito com uma narrativa objetiva, força a consciência humana a níveis cada vez mais altos de vigília do espaço e tempo. Por exemplo, Dick utilizou:

• Robôs em Do Androids Dream of Eletric Sheep? (que deu origem ao filme Blade Runner) para comparar a relatividade humana sobre o “real” e “falsos” seres humanos;
• Colonização de outros planetas, isolamento e doença terminal na história “Chains of Air, Web of Aether”;
• Precognição confundida com autismo ou esquizofrenia em “Martian Time-Slip e a história “A World of Talent”;
• Sono criogênico de humanos em máquinas sencientes e espaçonaves em “Divine Invasion” e na estória “I Hope I Shall Arrive Soon”.

Gnosticismo

Não importa o expediente utilizado, essas estórias, especialmente a última de Philip K. Dick, “Valis”, inspiram-se em no moderno renascimento da antiga heresia cristã do Gnosticismo. Ela pode ser definida mais simplesmente pela Catholic Encyclopedia como “a doutrina da salvação através do conhecimento”. A única verdadeira religião gnóstica que sobreviveu diretamente da Antiguidade tardia é a seita Mandean no Iraque (ou madianitas Mandaeism). Mais ligações tênues são rastreadas na Idade Média, Renascimento e na história do Iluminismo. Um sentido de continuidade histórica foi reforçada pela descoberta arqueológica do século em torno de 1945 de cerca de quatro textos gnósticos em Nag-Hammadi, no Egito.

Com esse pano de fundo, o moderno gnosticismo popular refere-se,a grosso modo, as idéias que incluem:

• Alienação espiritual no mundo material
• Um conhecimento especial, “gnosis”, que pode despertar os seres humanos do estado atual, a falta de consciência semelhante ao sono;
• Uma separação entre os aspectos divinos da existência espiritual e a realidade material, caracterizado por qualidades femininas e masculinas;
• E uma hierarquia de expansão do entendimento através desse conhecimento especial, que pode finalmente curar a cisão entre divindades masculinas e femininas.

Literatura Comparada e Lingüística

Da obra de Dick se originou um mix de novelas, pulp fiction, música popular, vídeo games, animação e filmes cujas referências baseiam-se em muitas idéias gnósticas. Os filmes mais conhecidos incluem a trilogia de Matrix, Dark City (Cidade das Sombras), Vanilla Sky e eXinsteZ e novelas que incluem O Código Da Vinci de Dan Brown. Autores como Umberto Eco e Jorge Luis Borges trouxeram este tema para as fronteiras da literatura comparada e lingüística.
Gnosticismo (Variantes modernas)

Tais exemplos contemporâneos têm raízes culturais no século XIX e no fin-de-siècle, com os aficionados mais notáveis como o psicólogo Carl Jung e o ocultista Aleister Crowley. Crowley se refere ao Gnosticismo, Alquimia, Maçonaria e Cabala para formar suas teorias ocultas, que por sua vez influenciaram L. Ron Hubbard, o fundador da Igreja da Cientologia. Mais provocativo, o cientista político Eric Voegelin, em sua obra “Science, Politics and Gnosticism” (1958), sugeriu que as ideologias do comunismo e do nazismo eram gnósticas, com efeito, heresias cristãs. O escritor Tobias Churton alegou que as idéias gnósticas foram sendo reveladas no campo da física quântica. E com focos sobre o “real” e o “artificial”, e os do sexo masculino e feminino, o gnosticismo pode ter uma influência sobre as teorias pós-modernas e feministas. Assim, o gnosticismo demonstra ser uma gama sincrética de “espiritismo”, Nova Era “,de teorias de conspiração e investigação séria. Tais idéias manifestando-se em tantos campos diferentes sugere que a era moderna tem testemunhado um ressurgimento dessa heresia na cultura ocidental e política.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/philip-k-dick-e-gonosticismo/

Resultados da Hospitalaria – Junho 2009

Ao todo, em Junho, foram 23 mapas e 19 sigilos. Fiquei feliz que as pessoas que fizeram seus mapas estão indicando outras pessoas de fora do círculo de leitores do blog.

Entidades auxiliadas este mês:

– Grupo de assistência à criança com câncer (GAAC) – São José dos Campos
http://www.gaac.com.br

– COELCE – Juazeiro do Norte (ainda auxílio aos desabrigados).

– Poiesis, de Santos, que provê suporte para crianças em situação de risco nos cortiços da área portuária. É uma população total estimada em quase dez mil pessoas. Seu blog é http://ongpoiesis.blogspot.com/.

– Lar dos Desamparados

(rod. Marechal Rondon, km332 – Agudos)

– Vila São Cotolengo (Goiânia)

– Instituto Beneficiente “Viva a Vida”.

– Educandário Lar do Caminho

Via de Acesso Professor Paulo Donato Castellani, s/n- Jaboticabal-SP

– Federação de Resistênciade da Cultura Afro-Brasileira (FRECAB)

– Hospitalaria da 5a regional GOSP
http://www.redecolmeia.com.br/mason/beneficencia.htm

E pretendemos continuar o projeto de Hospitalaria. Quem estiver a fim de participar, é só seguir as instruções e pegar seu Mapa Astral ou Sigilo Pessoal via o TdC.

#Hospitalaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/resultados-da-hospitalaria-junho-2009

A Cruz Cabalística

Praticamente toda cerimônia esotérica ou ritual de magia começa com a limpeza do ambiente onde se vai operar. Da mesma maneira que um médico não vai fazer uma cirurgia em um local contaminado, um magista não fará uma cerimônia em um ambiente astralmente sujo.

Um dos rituais mais importantes de todos, se não for “O” mais importante de todos, é o chamado Cruz Cabalística. É este ritual que demarcará no Plano Físico, espiritual, emocional e mental os limites do trabalho magístico e da vontade do mago naquele momento.

A Cruz Cabalística serve como elo de ligação entre o Magista e o Universo, buscando energias de todas as sephiroth para abastecer todos os rituais que serão realizados em seguida. Provavelmente este será o post mais importante que escreverei este ano.

Começando

– Fique de pé, no centro do local onde você irá traçar o círculo, voltado para o LESTE.

– Feche os olhos, respire fundo e devagar por três vezes, sentindo todo o seu corpo e o ambiente ao seu redor.

– Com a mão direita fechada, os dedos indicador e médio estendidos e o dedão sobre o anular e mindinho, formando a chamada “posição de Athame” (ou, se você estiver responsável pela abertura do círculo, pode ser o próprio athame mesmo).

– Visualize um raio de luz intenso, descendo do topo da Árvore da Vida, descendo do alto do macrocosmos sobre você. esta luz tem de ser tão forte que ilumine o local onde você estiver, fazendo sombra nas paredes ao redor e banhando totalmente o magista.

– Toque o Ajna Chakra (frontal, terceiro olho, etc…) com a ponta dos dedos e pronuncie de maneira vibrante “ATAH” (“para ti”).

Visualize agora este raio de luz atravessando o chão, formando um pilar de luz que passa através do corpo do magista, até o centro da Terra.

Este pilar, assim formado, ficará encarregado de trazer a energia que for necessária de Keter para o ritual, e ao mesmo tempo dissipar qualquer excesso negativo em Malkuth.

– Enquanto imagina este pilar de luz descendo, desça também com a mão da testa até o ventre/genitais, posicionando a mão na forma de uma figa e vibre “Mal-kuth” (“O Reino”).

Visualize agora, um dos braços da cruz (no mesmo formato da imagem que eu coloquei ao lado), expandindo-se para a direita enquanto o magista desloca a mão direita para ombro direito, formando um dos braços da cruz (a cruz dourada luminosa deve ter a altura aproximada do magista, e seus braços o mesmo tamanho dos braços abertos).

– Toque o ombro direito e vocalize “Ve-Geburah” (“O Poder”).

Visualize o outro braço da cruz luminosa, traçando a trave de luz enquanto desloca a mão direita do ombro direito para o ombro esquerdo.

– Toque o ombro esquerdo e vocalize “Ve-Gedulah” (“e a Glória”). Neste momento, visualize a cruz cabalistica completa, brilhante em um dourado quase branco, iluminando toda a sala onde você estiver. Sinta a sombra que esta fonte de luz faz nos objetos ao seu redor.

– Abra os dois braços até formar por um segundo a cruz com o seu corpo, depois junte as duas mãos sobre o chakra cardíaco em posição de prece. Este movimento é acompanhado da vocalização “LE OLAM” (“Para todo o mundo”). O timing é importante nesta parte do ritual. Enquanto você abre os braços, vocalize o “LEeeeee” até esticá-los. Então começe a vocalizar “OLAaaaammm” enquanto junta as mãos em prece sobre o chakra cardíaco.

Com a cruz dourada brilhando sobre o magista, é o momento de se fazer a conexão com as egrégoras que irão trabalhar. Os iniciados na senda rosacruz podem visualizar a rosa vermelha no centro da cruz, os maçons visualizam o esquadro e compasso aberto no grau em que estão (como disposto sobre o L:. L:.), os membros de ordens martinistas visualizam a cruz Patté e assim por diante. Todas as egrégoras nas quais você foi iniciado podem ser invocadas para que estas energias protejam o ambiente e façam a esterilização astral do recinto em conjunto com o magista. Esta visualização dura aproximadamente um ou dois segundos, seguindo o timing.

– Por fim, junte seus dedos polegar, indicador e médio da mão direita no kubera mudra, como se estivesse segurando um “giz invisível” e trace o seu sigilo pessoal na sua frente, na altura do chakra cardíaco, na cor verde esmeralda (a mão esquerda permanece na posição de prece). Não esqueça de fazer as respirações de acordo com o traçado!

– Junte novamente as duas mãos em prece e vocalize “AMEM”.

Parece complicado, mas não é. A parte difícil é fazer a vocalização (tem de sentir o som vibrando na garganta) e o timing da visualização e desenho da cruz no formato certo… Com a prática, você vai memorizar tudo em menos de uma semana.

Este ritual é a origem do famoso “sinal da cruz” dos cristãos, que seria uma versão bem mais simples e reduzida de poder deste ritual de proteção e invocação de energias. A Cruz começa e termina qualquer trabalho dentro da Árvore da Vida, inclusive os rituais do pentagrama, hexagrama, rubi estrela e safira, além do exercício do pilar central e outras meditações.

Quem for fazer o Sefirat ha Omer, pode fazer a cruz cabalística Antes e Depois da meditação noturna, para abrir e fechar os trabalhos na egrégora.

#Kabbalah #MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-cruz-cabal%C3%ADstica