HermetiCAOS – Tradição, Ciência, Arte e Cultura

PARTE 1: TRADIÇÃO*

Você quer praticar Magia. Quer se tornar um Mago. Tomou a decisão e está determinado.

Ótimo, que bom pra você. Mas e agora? Qual o próximo passo?

Descobrir que diabos é “Magia” e como é que se pratica isso é, logicamente, o caminho a seguir. E daqui a pouco você vai entender por quê. O que interessa agora é que as respostas mais acessíveis — seja em livrarias, seja na internet — vão te levar, conforme aponta o mago inglês Alan Chapman, ao “quase impenetrável transcendentalismo de textos mágicos do início do século XX, o moralismo ambientalista do movimento Pagão moderno, o sentimentalismo ingênuo e popular da Nova Era e o materialismo prático e bobo de alguns autores pós-modernos”. A escolha é difícil. O que existe por detrás das cortinas da realidade que dá fundamento à Magia e se encontra na base de qualquer “Tradição”? E por que elas são tão diferentes entre si? Este é o primeiro de uma série de textos que buscarão responder a essas e outras perguntas.

Antes de mais nada, é preciso esclarecer um ponto: qualquer coisa que se diga a respeito do assunto aqui tratado é, no fim das contas, uma interpretação pessoal. Cada indivíduo vive a partir de uma perspectiva que foi construída nele/por ele/com ele durante toda a sua vida, como um conjunto de suas impressões psíquicas derivadas de experiências vividas. É aquilo que o psicólogo e romancista (e mago) discordiano Robert Anton Wilson chamou de “túnel de realidade”. As experiências com a realidade podem se dar de forma direta ou indireta: quando a porção de realidade experienciada vai além de nossa capacidade de traduzí-la, para nós mesmos, a partir de uma lógica que nos pareça coerente, estamos diante de uma experiência direta; a indireta acontece quando, por conta de paradigmas que adotamos (consciente ou inconscientemente), já experienciamos a realidade a partir de uma leitura, ou explicação, prévia do fenômeno observado, ou seja, antes de obtermos o resultado de nossa experiência, já sabíamos exatamente o que esperar dela.

Pois bem. Ocorre que, mesmo na forma direta, a experiência é interpretada com a linguagem que conhecemos. Parece-me que está além da capacidade humana viver uma experiência sem elaborar uma explicação para ela. Por que isso aconteceu? Como aconteceu? Quais são as condições de possibilidade dessa experiência? Tudo isso vai ser elaborado a posteriori, sempre a partir do jogo de linguagem da pessoa, para usar uma expressão do filósofo Ludwig Wittgenstein. Vamos analisar um exemplo qualquer.

Algo na vida de uma determinada pessoa vai muito mal. Pode ser em qualquer âmbito: financeiro/profissional, sentimental/amoroso, saúde física ou mental, ou sei lá mais o quê. Se a pessoa é cristã — e especialmente se for evangélica –, é bem provável que ela atribuirá a culpa dos seus males ao Diabo ou a alguns de seus demônios enviados à Terra para espalhar o Mal (aquele, com letra maiúscula). Se, entretanto, o indivíduo foi criado dentro da crença espírita (e concorda com ela, veja bem), então será natural que ela atribua a origem de seus males a algum espírito obsessor que se alimenta de seu sofrimento (o famoso “encosto”) e não passa de alguém que morreu, mas se encontra num estado de ignorância sobre sua condição e como melhorá-la, seja, como “evoluir espiritualmente”. Ainda existe a possibilidade, mais complexa e rara, do indivíduo em questão ser um psicólogo junguiano ou transpessoal; se for esse o caso, a chance é a de que ele compreenda as dificuldades que está passando como uma projeção externa de complexos inconscientes que se colocam como obstáculos ao processo de individuação.

Cada um deles pode ter tido a mesma experiência. Entretanto, a interpretam de forma radicalmente diferente. Por que essa volta toda? Para esclarecer que, mesmo em Magia do Caos, as diferentes explicações para os diferentes fenômenos podem variar em abordagem. Mais sobre isso será discutido em textos vindouros. O que interessa aqui é que, no tocante à palavra MAGIA, ela diz respeito, diretamente, a uma determinada tradição sagrada de ensinamentos sobre a Mente e o Universo, típica do Ocidente. Em seu famoso diagrama, Peter Carroll liga os Grandes Mistérios Antigos diretamente ao Xamanismo, supostamente o Pai de toda a Magia. A partir daí, passamos pelas Escolas de Mistérios do Egito, da Babilônia e da Grécia, como os Pitagóricos, Órficos, Elêusis e Essênios. As transformações seguem, com influência do Cristianismo Primitivo (Gnosticismo) e do Sufismo, uma doutrina derivada do Islã.

A partir daí, passa pela Idade Média, através dos Cavaleiros Templários e da Alquimia, escondendo-se nas sociedades secretas rosacruzes e maçônicas, até encontrar Aleister Crowley e Austin Osman Spare.

Essas associações procedem muito mais por uma relação temática do que propriamente com base em evidências históricas (exceto talvez nos documentos secretos das Ordens iniciáticas, acessíveis a poucos — mas isso, por óbvio, é mera especulação). Os conhecimentos do passado parecem nunca haver estado completamente à disposição de todas as pessoas; o poder estabelecido geralmente encontra uma forma de exterminar aqueles que tentem libertar o povo da ignorância, tão necessária ao exercício da dominação das massas. Na Modernidade, com o advento do Estado laico, o problema parece ter mudado: como aprendemos no filme Matrix, as pessoas carregam o Sistema dentro de si e lutarão por ele quando o perceberem ameaçado. As pessoas lutam para se manterem aprisionadas. Assim, os conhecimentos que foram ocultos em sociedades secretas e transmitidos por baixo dos panos para sobreviver aos períodos mais sombrios da civilização, agora estão mais acessíveis que nunca. Só não os alcança quem não quer.

Na essência dos ensinamentos está a compreensão de que nossa realidade é moldada pela nossa mente e, a partir daí, a utilização de fórmulas, símbolos, palavras, rituais, canto, música, meditação, dança e até mesmo substâncias psicoativas para provocar impressões na mente e obter mudanças de acordo com a Vontade. O que muda de uma Tradição para a outra é a escolha de que elementos serão utilizados e de que maneira. O que determina essa escolha? Os fatores variam e têm diferentes graus de complexidade. Os mais simples apontam para uma mera apreciação estética, ou seja, pratica-se a Tradição que se considera mais bonita; os mais complexos sugerem um comprometimento ideológico a partir da dinâmica da crença. Em textos futuros pretendo abordar a questão da crença, sua função e sua disfunção.

No fim das contas, qual a importância de se adotar uma determinada Tradição e como escolher entre elas? Esse é, afinal, o objetivo desse texto. O objetivo de uma Tradição é oferecer um conjunto de associações simbólicas coerentes, testadas ao longo do tempo por determinado grupo de pessoas e, por isso, com condições de oferecer ao praticante um método de alcançar a sabedoria. Não se comprometer com uma Tradição pode significar, em muitos casos, uma vida inteira de doloroso aprendizado no esquema tentativa-erro, sem nunca atingir um bom nível de proficiência em Magia.

Seguem minhas recomendações pessoais para uma boa decisão:

Primeiramente, escolha uma Tradição pela estética. Pode parecer um motivo superficial, mas é fundamental que você veja beleza na sua prática mágica. Isso influencia diretamente no quanto o seu ato mágico é capaz de te impressionar e provocar os efeitos desejados na sua mente. Em segundo lugar, certifique-se que sua relação com a Tradição escolhida não impossibilite que você experimente coisas que não se encaixam necessariamente no paradigma escolhido; ou seja, esteja aberto para a possibilidade de estar errado sobre o que quer que seja. Três: atente-se para a possibilidade de a Tradição te oferecer o devido amparo nos momentos de dificuldade, sem que ela precise te escravizar por isso. Busque conhecer os fundamentos da Tradição ANTES de se comprometer com ela. Se houver liderança do tipo “sacerdotal”, desconfie severamente. A enorme maioria dos sacerdotes busca um séquito de admiradores e bajuladores; preste atenção, por exemplo, à enorme quantidade deles que afirma que você vai se dar muito mal se abandonar aquela Tradição. Não se meta em nenhum grupo que tenta se promover desvalorizando outro.

E, por último, confie sempre na sua intuição e na sua experiência acima de qualquer dogma. O que significa dizer que, se a sua experiência contradiz o dogma da sua Tradição, o melhor a fazer é, geralmente, abandonar a Tradição.

Uma vez que você tenha escolhido, é necessário também fazer alguns apontamentos:

Leve a sério sua escolha; conduzí-la de forma leviana significa desrespeitá-la e desvalorizá-la. Se isso acontecer, ela não poderá fazer mais nada por você. Estude bastante; somente um conhecimento aprofundado te dará a segurança necessária para conduzir um ritual que produza os efeitos desejados. Não desconsidere nenhum requisito da sua Tradição até que entenda perfeitamente seu sentido e propósito; as consequências podem ser nefastas.

No mais, tudo o que você leu aqui eu aprendi com minhas próprias experiências e erros e acertos, com experiências de amigos e conhecidos e, também, com relatos de pessoas em quem eu aprendi a confiar. Nesse último caso, essas pessoas não sabem o quanto sou grato pela disposição que elas tiveram em compartilhar com o mundo (e comigo, por tabela) aquilo que aprenderam. Minha forma de expressar essa gratidão é passar o ensinamento adiante. Por isso, se a Tradição que você escolheu (ou vier a escolher) for a Magia do Caos ou o Hermetismo, apareça por aí toda segunda-feira que vai ter texto novo.

É minha Vontade que minhas palavras levem Luz. Assim seja!

* Essa é a Parte 1 do texto em 4 partes abordando a Magia enquanto Tradição, Ciência, Arte e Cultura. Cada conceito desse, um texto. Mas não sei se eles serão publicados em sequência, porque pode ser que segunda que vem eu escreva sobre outra coisa, se me der na telha.

Publicado originalmente no Blog HermetiCaos

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/hermeticaos-tradi%C3%A7%C3%A3o-ci%C3%AAncia-arte-e-cultura

A Queda dos Anjos

Embora no Gênesis não esteja claro que os nefilins fossem maus, assim eles foram considerados nos livros apócrifos da época do Segundo Templo. Entre os achados arqueológicos mais importantes nesta área, encontra-se um texto em aramaico, descoberto no inverno de 1896-97 numa genizah de uma comunidade hebraica do Cairo e publicada, pela primeira vez, sob o título de Documento de Damasco, em 1910. Diz o seguinte:

«III – E, agora, ouvi-me, meus filhos, que eu descerrarei os vossos olhos para que possais escolher aquilo que Ele ama e desprezar tudo aquilo que odeia, para poderdes caminhar perfeitamente em todos os Seus caminhos e não errardes seguindo impulsos culposos ou deitando olhares de fornicação. Porque muitos foram os que se desviaram e homens fortes e valorosos aí escorregaram, tanto outrora como hoje. Caminhando com a rebelião nos corações, caíram os próprios guardas dos céus, a tal chegados porque não observavam os mandamentos de Deus, tendo caído também os seus filhos, cuja estatura atingia também a altura dos cedros e cujos corpos se assemelhavam a montanhas. Todo o ser vivo que se encontrava em terra firme, caiu, sim, e morreu, e foram como se não tivessem sido, porque procediam conforme a sua vontade e não observavam os mandamentos do seu Criador, de maneira que a cólera de Deus se inflamou contra eles.»

Vários fragmentos do Livro de Enoch, escritos em aramaico, foram descobertos nas célebres grutas de Qumran, no Mar Morto. Contudo, mesmo depois dos textos terem sido comparados e executado um árduo trabalho de reconstituição, ainda faltaram diversas lacunas. Tentei amenizar este problema tapando os buracos com passagens de uma tradução livre para o etíope quase idêntica ao original aramaico, encontrada na Abissínia (conhecida como Enoch Etíope ou I Enoch):

VI – 1 «Sucedeu que quando se multiplicaram naqueles dias os filhos dos homens, nasceram-lhe filhas formosas e belas. Os Vigilantes, filhos do céu, viram-nas, desejaram-nas e disseram uns aos outros: Vamos e escolhamos mulheres dentre as filhas dos homens e engendremos filhos. Porém Semihaza, que era o seu chefe, lhes disse: Temo que não queiras realizar esta obra, e seja eu sozinho culpável de um grande pecado. Responderam e lhe disseram todos:» «Juremo-nos todos e comprometamo-nos todos sob anátema. Uns com os outros, a não voltarmos atrás neste projeto até que tenhamos realizado esta obra. Então se juramentaram todos em uníssono e se comprometeram uns com os outros. Eram duzentos todos os que desceram no tempo de Jared sobre o cimo do monte Hermon. Chamaram o monte “Hermon”, porque juram e se comprometeram sob anátema uns com os outros nele. Estes são os nomes de seus chefes: Semihazah, que era seu chefe; ‘Ar’teqof, o segundo com relação a ele; Ramt’el, o terceiro com relação a ele; Kokab’el, o quarto com relação a ele; ???’el, o quinto com relação a ele; Ra’ma’el, sexto com relação a ele; Dani’el, sétimo com relação a ele; Zeq’el, oitavo com relação a ele; Baraq’el, nono com relação a ele; ‘Asa’el, décimo com relação a ele; Hermoni, undécimo com relação a ele; Matar’el, duodécimo com relação a ele; ‘Anan’el, décimo terceiro com relação a ele; Sato’el, décimo quarto com relação a ele; Shamsi’el, décimo quinto com relação a ele; Sahari’el, décimo sexto com relação a ele; Tumi’el, décimo sétimo com relação a ele; Turi’el, décimo oitavo com relação a ele; Yomi’el décimo nono com relação a ele; Yehadi’el, vigésimo com relação a ele. Estes são os chefes dos chefes de dezena.»

VI – 1 «Eles e seus chefes, todos tomaram para si mulheres, escolhendo entre todas, e começaram a ir a elas e a contaminar-se com elas, a ensinar-lhes bruxarias, encantos e o corte de raízes, e a revelar-lhes as plantas. Elas ficaram grávidas deles e pariram gigantes, altos uns três mil côvados, que nasceram sobre a terra conforme a sua infância, e cresceram de acordo com seu crescimento, e que devoravam o trabalho de todos os filhos dos homens, sem que os homens pudessem abastecê-los. Os gigantes conspiravam para matar os homens e para devora-los. Começaram a pecar […] contra todos os pássaros e animais da terra e contra os répteis que se movem sobre a terra e nas águas e no céu, e os peixes do mar, e a devorar uns a carne dos outros, e bebiam o sangue. Então a terra acusou os ímpios por tudo o que se havia feito nela.»

VIII – 1. «’Asa’el ensinou os homens a fabricar espadas de ferro e couraças de cobre e lhes mostrou o que se escava e como poderiam trabalhar o ouro para deixa-lo preparado; e quanto à prata, a lavrá-la para braceletes e outros adornos para as mulheres. Às mulheres revelou acerca do antimônio e acerca do sombreado dos olhos e de todas as pedras preciosas e sobre as tinturas [E assim grassava uma grande impiedade; eles promoviam a prostituição, conduziam aos excessos e eram corruptos em todos os sentidos.]» «Semihazah ensinou encantamentos e a cortar raízes; Hermoni ensinou a desencantar, a bruxaria, a magia e habilidades; Baraq’el ensinou os sinais dos raios; Kokab’el ensinou os sinais das estrelas; Zeq’el ensinou os sinais dos relâmpagos; ???’el ensinou os sinais de […]; ‘Ar’teqof ensinou os sinais da terra; Shamsi’el ensinou os sinais do sol; Sahari’el ensinou os sinais da lua. E todos começaram a descobrir segredos à suas mulheres.» «Como estava perecendo uma parte dos homens da terra, seu grito subia até o céu.»

IX -1 «Então Miguel, Sariel, Rafael, e Gabriel olharam para a terra do santuário dos céus e viram muito sangue derramado sobre a terra; e toda a terra estava cheia da maldade e da violência que se pecava sobre ela. Ouvindo isto, os quatro foram e disseram que o grito e o lamento pela destruição dos filhos da terra subia até as portas do céu. E disseram aos santos do céu: É agora a vós, santos do céu, a quem suplicam as almas dos filhos dos homens dizendo: “Levai nosso caso diante do Altíssimo e nossa destruição diante da majestade!” Foram Rafael, Miguel, Sariel e Gabriel, e disseram diante do Senhor do mundo: “Tu és nosso grande Senhor, tu és o Senhor do mundo; Tu és o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores e o Rei dos reis. Os céus são o trono de tua glória por todas as gerações que existem desde sempre, e toda a terra é o escabelo ante ti por toda a eternidade, e teu nome é grande e santo e bendito para sempre. [Tudo foi por Ti criado e conservas o domínio sobre todas as coisas. Tudo é claro e manifestado diante dos teus olhos. Tu vês tudo e nada pode ocultar-se na tua presença. Tu vês o que foi perpetrado por Azazel, como ele ensinou sobre a terra toda espécie de trangreções.]» «pois (eles) ensinaram os mistérios eternos que há no céu para que os praticassem os conhecedores dentre os homens. E (olha) Shemihaza, a quem deste autoridade para reinar sobre todos os seus companheiros. Foram às filhas dos homens da terra e dormiram com aquelas mulheres, contaminando-se com elas [e familiarizaram-nas com toda sorte de pecados. As mulheres pariram gigantes e, em conseqüência, toda a terra encheu-se de sangue e de calamidades. 6. Agora clamam as almas dos que morreram, e o seu lamento chega às portas do céu. Os seus clamores se levantam ao alto, e em face de toda a impiedade que se espalhou sobre a terra não podem cessar os seus queixumes. 7. E Tu sabes de tudo, antes mesmo que aconteça. Tu vês tudo isso e consentes. Não nos dizes o que devemos fazer.]”»

X – 1 «[Então o Altíssimo, o Santo, o Grande, tomou a palavra e enviou Uriel (= Sariel) ao filho de Lamech (Noé), com a ordem seguinte: “Diz-lhe, em meu nome: ‘Esconde-te’, e anuncia-lhe o fim próximo! Pois o mundo inteiro será destruído; um dilúvio cobrirá toda a terra e aniquilará tudo o que sobre ela existe.] Ensina ao justo o que deve fazer, e ao filho de Lamec a preservar sua alma para a vida e a escapar para sempre. E por ele será plantada uma planta e serão estabelecidas todas as gerações do mundo.» «[O Senhor] disse a Rafael: “Vai, pois, Rafael, e ata Azael de pés e mãos e arremessa-o nas trevas! [Cava um buraco no deserto de Dudael e atira-o ao fundo! Deposita pedras ásperas e pontiagudas por baixo dele e cobre-o de escuridão! Deixa-o permanecer lá para sempre e veda-lhe o rosto, para que não veja a luz! 4. No dia do grande Juízo ele deverá ser arremessado ao tremendal de fogo! Purifica a terra, corrompida pelos Anjos, e anuncia-lhe a Salvação, para que terminem seus sofrimentos e não se percam todos os filhos dos homens, em virtude das coisas secretas que os Guardiões revelaram e ensinaram aos seus filhos! Toda a terra está corrompida por causa das obras transmitidas por Azazel. A ele atribui todos os pecados!”]»; «E a Gabriel disse o Senhor: “Vai aos bastardos e aos filhos da fornicação e destrói os filhos dos Vigilantes dentre os filhos dos homens; mete-os em uma guerra de destruição, pois não haverá para eles longos dias. Nenhuma petição a seu favor será concedida a seus pais; pois esperam viver uma vida eterna, ou que cada um deles viverá quinhentos anos”. E a Miguel disse o Senhor: “Vai, Miguel, e anuncia a Shemihaza e a todos os seus amigos que se uniram com mulheres para contaminar-se com elas em sua impureza, que seus filhos perecerão e eles verão a destruição de seus queridos; acorrenta-os durante setenta gerações nos vales da terra até o dia grande de seu juízo. [Nesse dia, eles serão]» (condenados a) «tortura e ao fechamento na prisão eterna. Tudo o que seja condenado estará perdido desde agora; será acorrentado com eles até a destruição de sua geração. E no tempo do juízo com que eu julgarei, perecerão por todas as gerações. Destrói todos os espíritos dos bastardos e dos filhos dos Vigilantes, porque fizeram operar o mal aos homens. Destrói a iniqüidade da face da terra, faz perecer toda obra de impiedade e faz que apareça a planta da justiça; ela será uma bênção e as obras dos justos serão plantadas no gozo para sempre. Naquele tempo todos os justos escaparão e viverão até que engendrem milhares. Todos os dias de vossa juventude e de vossa velhice se completarão em paz.”»

VII – 1. [Enoch havia desaparecido, e nenhum dos filhos dos homens sabia onde ele se encontrava, onde se ocultava e o que era feito dele. O que ocorrera é que ele havia estado junto dos Guardiões e transcorreu os seus dias na companhia dos Santos. 2. Eu, Enoch, ergui-me e louvei o Senhor da Majestade e Rei do mundo. Então os Guardiões (santos) me chamaram, a mim Enoch, o Escriba, e disseram-me: “Enoch, tu, o Escriba da Justiça, vai e anuncia aos Guardiões do céu que perderam as alturas do paraíso e os lugares santos e eternos, que se corromperam com mulheres à moda dos homens, que se casaram com elas, produzindo assim grande desgraça sobre a terra; anuncia-lhes: ‘Não encontrareis nem paz nem perdão’. Da mesma forma como se alegram com seus filhos, presenciarão também o massacre dos seus queridos, e suspirarão com a desgraça. Eles suplicarão sem cessar, mas não obterão nem clemência nem paz!”]

XIII – 1. [Então Enoch encaminhou-se até eles e assim falou a Azazel: “Tu não terás a paz. Uma sentença severa recaiu sobre ti: deverás ser acorrentado. Não alcançarás indulgência nem será aceita a intercessão, por causa dos atos violadores que ensinaste a praticar, e por causa de todas as obras blasfemas, da violência e dos pecados que mostraste aos homens.” Então eu redigi a palavra a todos eles. Todos encheram-se de grande medo e foram tomados de pavor e tremor. Suplicaram-me que lhes escrevesse um rogo intercessório, para que pudessem obter o perdão, e que eu lesse o seu pedido na presença do Senhor dos céus. Pois a partir de então não lhes era mais permitido falar com ele nem levantar seus olhos para o céu, de vergonha pelos seus delitos, pelos quais foram castigados. Assim eu redigi o seu rogo] «com todas as suas petições, por suas almas, por todas e cada uma de suas obras e por todos o que pediam: que houvesse para eles perdão e longevidade. Fui e me sentei junto às águas de Dã, na terra de Dã, que está ao sul do Hermonim, ao seu lado oeste, e estive lendo o livro de anotações de suas petições até que dormi. Eis que me vieram sonhos e caíram sobre mim visões até que levantei minhas pálpebras às portas do palácio do céu […] E vi uma visão do rigor do castigo. E uma voz veio e me disse: Fala aos filhos do céu para repreendê-los. Quando despertei, fui a eles. Todos eles estavam reunidos juntos e sentados e chorando em Abel-Maya (a Fonte do Pranto) que está entre o Líbano e Senir, com os rostos cobertos.»; «Eu contei diante deles todas as visões que havia visto em sonhos e comecei a falar com palavras de justiça e de visão e a repreender os Vigilantes celestes.»

XIV 1. [Este é o] «livro das palavras da verdade e da repreensão dos Vigilantes que eram desde sempre, segundo o que ordenou o Grande Santo no sono que sonhei. Nesta visão eu vi em meu sonho o que agora digo com a língua carnal, com o alento de minha boca, que o Grande deu aos filhos dos homens para que falem com ela e para que compreendam no coração. Assim como Deus destinou e criou os filhos dos homens para que compreendam as palavras do conhecimento, assim me destinou e fez e criou a mim para que repreenda os Vigilantes, os filhos do céu. Eu escrevi vossa petição, Vigilantes, e numa visão me foi revelado que vossa petição não vos será concedida por todos os dias da eternidade, e que haverá juízo por decisão e por decreto contra vós; que a partir de agora não voltareis ao céu e não subireis por todas as idades; e que foi decretada a sentença para acorrentar-vos nas prisões da terra por todos os dias da eternidade; porém que antes vereis que todos os vossos queridos irão à destruição com todos os seus filhos; e as propriedades de vossos queridos e de seus filhos não as desfrutareis; cairão ante vós pela espada de destruição, pois vossa petição por eles não vos será concedida, como não vos é concedida por vós mesmos. Vós continuareis pedindo e suplicando. […] Não pronunciareis nem uma palavra do escrito que eu escrevi.»

Esses Vigilantes que “mudaram suas obras” e resolveram ensinar aos humanos ciências divinas foram responsabilizados não só pelas guerras (que naquele tempo nem sempre eram vistas como algo ruim) mas também por terem iniciado ou aperfeiçoado a própria civilização: Semihazah ensinou “bruxarias, encantos e o corte de raízes, e a revelar-lhes as plantas”. Nisso se incluía a antiga homeopatia (fabricação de remédios naturais), já conhecida e rigorosamente aperfeiçoada pelos egípcios desde tempos remotos; E também a fabricação de venenos – retirados das plantas – que era uma especialidade daquele período, herdada da dominação romana.

Menos eficazes, mas nem por isso menos populares, deveriam ser as “bruxarias” e “encantos”, aos quais alegava-se que serviam para praticamente tudo que se pudesse desejar, principalmente ganhar fama, fortuna e atrair o sexo oposto. Geralmente nessas práticas se ensina que quando o feitiço da errado é 1) porque o praticante não executou como devia ou 2) porque seu inimigo fez um contra feitiço anulando o primeiro. Assim Hermoni (et. Armaros) “ensinou a desencantar, a bruxaria, a magia e habilidades”… Uma segunda versão em etíope fala sobre outros Vigilantes que, juntamente com Semihazah, teriam ensinado magia: Kasdeja “ensinou aos filhos dos homens toda espécie de sortilégios dos espíritos e dos demônios, bem como os malefícios contra o fruto do ventre materno, para sua expulsão, e os contra a alma, feitiços contra a picada de cobra, contra a insolação e contra o filho da serpente, chamado Tabaet. – E esta foi a tarefa de Kasbeel, que desvelara aos Santos o Juramento supremo, quando habitava no alto da Glória e se chamava Bika. Este pedira a Michael para transmitir-lhe o Nome secreto, a fim de que pudesse ser conhecido e empregado nos juramentos, conquanto aqueles que ensinaram as coisas ocultas aos filhos dos homens tremessem em face desse Nome e desse Juramento.” (I Enoch LXIX)

Sobre culinária, alfabetização e leis, é dito que Penemue “ensinou aos filhos dos homens o doce e o amargo, bem como todos os segredos da sua sabedoria. Ele também instruiu os homens na escrita com tinta e sobre papel, e com isso muitos se corromperam, desde os tempos antigos por todas as épocas, até os dias de hoje. Pois os homens não foram criados para fortalecer sua honestidade dessa maneira, por meio de pena e tinta”. (I Enoxh LXIX)

Kokab’el “ensinou os sinais das estrelas. (et. Ciência das constelações)”. Isso sem dúvida é antiga Astrologia, que incorporava elementos da astronomia. Esta “ciência” era muito valorizada pois, na antigüidade, eram os astrólogos que ficavam encarregados de informar sobre a mudança das estações, da configuração de calendários e outras coisas de grande utilidade para a vida rural e economia dos reinos. Ainda no campo da astrologia, parece que Zeq’el, que “ensinou os sinais dos relâmpagos (Et. Observação das nuvens)” e Baraq’el que “ensinou os sinais dos raios” ficaram responsáveis pala previsão do tempo… Para completar o quadro astronômico/astrológico, Shamsi’el “ensinou os sinais do sol” e Sahari’el “ensinou os sinais da lua. (et. Fazes da lua)”.

Em auxílio da agricultura, ‘Ar’teqof “ensinou os sinais da terra”, se era boa ou ruim para o plantio, etc. Tudo isso gerava grandes facilidades na vida humana que, tendo menos trabalho e mais tempo livre podia se dedicar a cuidados pessoais, iniciar uma vida urbana e até mesmo pensar numa expansão através da guerra. É aqui que entra aquele que apesar de não ser o líder parece ter provocado o maior dano de todos: ‘Asa’el (hebr. et. e árabe Azazel) “Ensinou os homens a fabricar espadas de ferro e couraças de cobre e lhes mostrou o que se escava e como poderiam trabalhar o ouro para deixa-lo preparado; e quanto à prata, a lavrá-la para braceletes e outros adornos para as mulheres. Às mulheres revelou acerca do antimônio e acerca do sombreado dos olhos (Kohol) e de todas as pedras preciosas e sobre as tinturas”.

Aparentemente, se não fosse pelos insaciáveis filhos vampiros, parece que os ensinamentos dos Vigilantes não seriam tão condenáveis assim, já que trouxeram para a humanidade mais bem do que mal… Tanto que um dos chefes de dezena, Dani’el (et. Danjal) foi adotado posteriormente como anjo da misericórdia pela tradição cristã, ficando mundialmente conhecido. Outro mencionado em versões posteriores, Uzza, tornou-se anjo benéfico para os árabes. De fato, o livro apocalíptico dos Jubileus conta que os Sentinelas (= Vigilantes) vieram para a Terra e depois pecaram, mas que seu príncipe, Samael, teria tido a permissão de Iahweh para atormentar a humanidade. Entretanto, o judaísmo posterior e quase todos os primeiros escritores eclesiásticos viram nesses “filhos de Deus” anjos culpados.

Sobre a posterior condenação, a Segunda versão de I Enoch limita-se a dizer que «em conseqüência desse Julgamento, eles serão submetidos à angústia e ao estremecimento por terem desvelado aquelas coisas aos habitantes da terra.» (I Enoch LXIX).

Na verdade nenhuma das sete cópias fragmentadas do Livro de Enoch (nem das cinco do Livro dos Gigantes) encontrados nas cavernas de Qumran continha menção ao “abismo de fogo” descrito no Enoch Etíope, o que é significativo pois se trata de textos particularmente grandes. É possível que estes textos sejam acréscimos posteriores de escribas ou tradutores Coptas – mesmo porque eles se assemelham mais à doutrina cristã dos primeiros séculos d.C. do que à mitologia judaica/essênia da época em que foram escritos os Manuscritos do Mar Morto. Uma descrição mais detalhada deste local de condenação aparece no Livro das “Similitudes de Enoch” (II Enoch); Esta versão, descoberta na Rússia em um texto eslavo, foi provavelmente escrita no Egito no princípio da era cristã e fala da viagem de Enoch através das diferentes coortes do Paraíso.

Por Shirley Massapust

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/a-queda-dos-anjos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/a-queda-dos-anjos/

Como entender e ler o I-Ching

Ao fluir com as circunstâncias se evita o atrito
e portanto a resistência: esse é o caminho do homem sábio.

CONTEÚDO:

O I Ching [pronuncia-se “I Jing”] ou Livro das Mutações é um poderoso oráculo que usa as imagens do Céu, da Terra, dos elementos e da natureza para prever as mudanças do tempo na vida dos humanos, e um livro de sabedoria chinês muito difundido entre os orientais, onde o consultante utiliza-se de moedas ou varetas, que são jogadas enquanto faz uma pergunta, formando um Hexagrama* – figuras formadas pelas combinações de 6 linhas inteiras ou partidas superpostas – para ser consultado em um livro, onde a resposta à pergunta é respondida.

Um Hexagrama é composto pela combinação de dois Trigramas (figuras formadas pelas combinações de 3 linhas inteiras ou partidas superpostas), um sobreposto ao outro.

12º Hexagrama do I Ching = Pi (Estagnação)
Formado por dois Trigramas:
1. Abaixo Trigrama K’um (três linhas Yin)
2. Acima Trigrama Chi’em (três linhas Yang)

O I Ching é um dos mais antigos e um dos únicos textos antigos chineses que chegaram até nossos dias. A parte principal dos textos tem pelo menos 3.000 anos de existência. Antes era chamado apenas “I”, cujo ideograma é traduzido de muitas formas, e no século XX ficou conhecido no ocidente como “mudança” ou “mutação”; Ching, significa “clássico”, foi o nome dado por Confúcio (nome latinizado de King Fu Tze – século VI a. C.) à sua edição dos antigos livros.

O livro é um texto clássico chinês composto de várias camadas, sobrepostas ao longo do tempo, e traz 64 Hexagramas, acompanhados de seus respectivos textos explicativos. Cada um dos textos está dividido em várias partes:

1 – a Sentença – é a interpretação do Hexagrama como um todo, atribuída ao Rei Wen.
2 – o Comentário – é uma explicação das Sentenças (ou Julgamentos) do Rei Wen, atribuída a Confúcio.
3 – a Imagem – é o simbolismo maior ou a idéia do Hexagrama, também atribuído a Confúcio. Refere-se às imagens associadas aos Trigramas.
4 – as Linhas – com duas subdivisões: a primeira é a explicação dada pelo Duque de Chou, e a segunda são as observações de Confúcio, sobre esta explicação, ou o simbolismo menor.

Como fonte que alimentou diversas religiões e filosofias orientais, ele tem sido usado desde as mais remotas épocas até os tempos atuais, nos países cuja cultura tem forte influência chinesa, como Japão, Coréia e Vietnã. No Japão, até a época da Reforma Meiji, um século atrás, mesmo as táticas militares eram baseadas em configurações inspiradas por este livro extraordinário. Muitos japoneses acreditam que as vitórias navais que conseguiram na primeira parte da Guerra do Pacífico se deveram ao fato de serem os livros de estratégia baseados no “Livro das Mutações”. Nas universidades japonesas, a obra ainda retém parte de seu papel tradicional; na verdade, entre os povos do Extremo Oriente, o livro conserva um número incontável de admiradores em todas as camadas populares.

Na China, tradicionalmente, se utiliza o I Ching em todos os momentos, especialmente para a tomada de grandes decisões e definições de impasses. Decide caminhos políticos e econômicos do governo, auxilia empresários em suas definições, orienta famílias inteiras com relação à mudanças, casamentos, auxilia indivíduos a escolher os melhores lugares para construir suas residências, e ainda prevê as possíveis transformações na vida particular e coletiva das pessoas, oferecendo a oportunidade de que se decida qual o melhor rumo a tomar, sem sofrer conseqüências desagradáveis.

TRADUÇÕES E EDIÇÕES INDICADAS

Várias tentativas de transpô-lo para os idiomas ocidentais foram feitas, destacando-se a do sinólogo Richard Wilhelm, considerada a melhor existente em idioma ocidental, que aliou a sua compreensão do pensamento chinês (incluindo a concepção básica de que as situações por que passamos são, em essência, as mesmas) a uma refinada tradução: após verter o texto original para o alemão, passou-o novamente para o chinês, a fim de se garantir contra eventuais erros que comprometessem o sentido dos Hexagramas.

Richard Wilhelm traduziu o I Ching para o alemão ao longo dos anos em que viveu na China, inclusive durante a invasão japonesa, quando a cidade em que estava foi cercada. Teve o apoio de um velho e sábio mestre, Lao Nai Suan, que morreu ao ser concluída a tradução. Wilhelm traduziu também outro clássico chinês, o “Tao Te Ching”.

No Brasil, a melhor tradução do I Ching é a do monge budista Gustavo Alberto Corrêa Pinto, feita com Alayde Mutzenbercher, a partir da edição feita pelo sinólogo alemão Richard Wilhelm, publicada em 1923. Seguindo a tendência histórica do livro, a tradução para o português custou três anos de trabalho.

TEORIA DA SINCRONICIDADE

Foi baseando-se no I Ching que Jung elaborou sua “Teoria da Sincronicidade”, segundo a qual tudo o que acontece em um dado momento está legado à situação universal daquele instante.

O psicanalista suíço Carl Gustav Jung, que escreveu o prólogo da tradução inglesa da versão alemã de Richard Wilhelm, sugeriu que o efeito dos textos oraculares do “Livro das Mutações” é extrair do inconsciente para a superfície da consciência os elementos necessários à compreensão de determinado problema. E foi baseando-se no I Ching que Jung elaborou sua teoria da sincronicidade, segundo a qual tudo o que acontece em um dado momento está ligado à situação universal daquele instante.

A definição da tradição hermética, fonte primordial do ocultismo ocidental, ajuda a entender esta concepção de acaso significativo: “Toda a Causa tem seus Efeito, todo o Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei” (O Caibalion, Três Iniciados, Ed. Pensamento, São Paulo, 1985).

ORIGEM DO I CHING

A origem do I Ching é amplamente discutida, mas de qualquer forma, ela é cercada de mistérios e misticismo. Ele surgiu antes da dinastia Chou (1150-249 a.C.) e era um conjunto de oito Kua, figuras formadas por três e seis linhas sobrepostas. Na tradição chinesa, o I Ching foi usado para adivinhação na dinastia Shang.

Dizem que este oráculo sagrado foi escrito na China há cerca de 3.000 anos por Fu Hsi, o criador mítico chinês, conhecido como o pai da civilização, e até a dinastia Chou eles formavam o “I”. Conta a lenda que um dia, quando em suas meditações diárias, ele avistou uma tartaruga emergindo da água de um rio. Analisando o casco desta tartaruga, Fu Hsi concebeu que todo o universo estava representado em pequenas marcas, dispostas ordenadamente no casco. Estes oito símbolos, cada um com certas características, receberam no Ocidente o nome de Trigramas [James Legge, em sua tradução para o inglês (1882), chamou de Trigrama o conjunto de três linhas e Hexagrama o de seis, para distingui-los entre si. Os oito Trigramas têm nomes não encontrados em chinês, sua origem é pré-literária.]. Com a combinação destes oito Trigramas em todas as variações possíveis, tem-se 64 Hexagramas (composto por 6 linhas), ou seja, todo o I Ching.

O tempo obscureceu a compreensão das linhas, e no começo da dinastia Chou surgiram dois anexos: o Julgamento, atribuído pela tradição ao Rei Wên, e as Linhas Móveis, atribuídas a seu filho, o Duque de Chou, ambos fundadores desta dinastia. Essa era a forma do livro quando Confúcio o encontrou. Mais tarde, mesmo o significado destes textos começou a ficar obscuro, e no século VI a.C. foram acrescentadas as Dez Asas, que a tradição atribui a Confúcio, embora seja claro que a maioria delas não pode ser de sua autoria. O nome “I Ching” é dado ao conjunto dos textos posteriores. Dizem que Lao-Tsé também contribuiu com sua sabedoria ao I Ching.

Um fato célebre ocorreu ao “Livro das Mutações”: no ano de 213 a.C., Ch’in Shih Huang Ti, um tirano conhecido como “o Grande Unificador” (foi o construtor de parte da Grande Muralha e o unificador das províncias chinesas), ordenou a queima de todos os livros existentes, exceto os dos arquivos imperiais. Verdadeiro desastre para a maior parte da velha literatura chinesa: entre os livros clássicos que deveriam ser lançados às chamas, foi feita uma exceção àqueles que tratassem de “medicina, adivinhação e agricultura”. Como nessa época o I Ching era considerado livro de adivinhação, escapou a esta tragédia.

A doutrina do yin-yang foi sobreposta ao texto.

O QUADRADO MÁGICO DE LO SHU – Literalmente: Diagrama do Rio Lo.

Existe uma lenda que diz que este quadrado apareceu magicamente às margens do Rio Lo, afluente do Rio Amarelo, no centro da China, cinco mil anos atrás, inscrito no osso peitoral de uma tartaruga gigante que saiu do rio durante os trabalhos de irrigação, e lhe são atribuídas poderes mágicos.

As marcas no casco dela formavam um quadrado mágico perfeito, com nove ideogramas de números, que estavam organizados de tal maneira que, quando 3 números fossem somados, seja no sentido horizontal, vertical ou diagonal, o resultado era sempre 15, e foi interpretado como revelação da geometria secreta do universo, que está por trás de todas as coisas, origem do seu nome “quadrado mágico”. Em alguns lugares é chamado de “Chi das Nove Estrelas” porque reflete a posição de Vega, Polaris e as sete estrelas da Ursa Maior no céu.

Todos os sábios da época se interessaram por esse evento, resultando disso a criação do I Ching, do Feng Shui, e da Astrologia Chinesa. Esse “Quadro Mágico” também indicava 8 direções (sendo 1 o Norte e 9 o Sul), que representavam diferentes aspectos da vida da pessoa.

A INFLUÊNCIA DE CONFÚCIO

Confúcio (King Fu Tze) passou a se dedicar intensamente ao estudo do I Ching, escrevendo explicações relativas ao texto e transmitindo-as oralmente a seus discípulos. Por isso, considera-se como altamente provável, mas não absolutamente certo, que a parte denominada “Comentário” (Tuan Chuna) seja da autoria do famoso filósofo, assim como as explicações sobre as “Imagens”. Confúcio disse certa vez que poderia dar sábios conselhos apenas após ter estudado com profundidade o I Ching.

Lao Tse inspirou-se no I Ching para escrever os aforismos mais profundos do seu Tao Te King (traduzido no Ocidente como “Caminho Perfeito”), obra clássica do Taoísmo.

COMO CONSULTAR O ORÁCULO

Como todo oráculo, exige a aproximação correta: a meditação prévia, o ritual, e a formulação precisa da pergunta.

A consulta oracular é tradicionalmente feita com 50 varetas (originalmente de mil-folhas, uma planta sagrada), das quais uma é separada e as outras 49 manuseadas, seguindo seis vezes a mesma operação matemática, para a obtenção da resposta.

O I Ching, por ser um livro sagrado, e as varetas usadas na consulta, eram guardados em uma caixa de madeira virgem, embrulhados em seda também virgem.

No Japão, a consulta é feita com o uso de três moedas. Esta prática encurta a consulta, e aí reside seu defeito: nem sempre cria a disposição interior necessária à consulta.

Aqui, vamos ensinar o método das 3 moedas:

Você vai precisar de uma edição do livro do “I Ching“.

Usam-se 3 moedas, que serão lançadas juntas por 3 vezes. Consiste basicamente em jogar moedas e registrar o resultado (cara ou coroa) e daí consultar um padrão já definido de conselhos e/ou orientações no manual ou livro.

Você poderá procurar em casas de produtos esotéricos as “Moedas Chinesas do Feng Shui”, ou poderá usar pequenas moedas antigas (iguais, ou seja do mesmo tamanho e valor), de preferência moedas que não tenham mais valor comercial; costuma-se dar propriedade às moedas de cobre. Separe, limpe, purifique e consagre três moedas. Primeiramente, lave-as, e ponhas ao Sol (se puder depois as enterre na terra ou em um vaso com sal grosso, deixando-as por 3 dias, e por último torne a lavá-las).

As moedas chinesas têm um furo quadrado no centro, que representa a Terra (que os chineses antigos acreditavam ser quadrada); a forma circular da moeda representa o céu. Na moeda chinesa um lado é Yang (descrito por quatro caracteres), o outro o lado Yin (dois caracteres).

Se usar uma moeda comum, dê à sua face “cara” (Yang) o valor 3 e à face “coroa” (Yin) o valor 2.

1 – Pense no caso para o qual precisa de orientação.

2- Junte as mãos em concha e sacuda delicadamente as moedas na concavidade formada pelas palmas das mãos. Quando achar que sacudiu as moedas o suficiente para mistura-las, deixe-as cair suavemente sobre uma superfície plana (tradicionalmente usa-se um diagrama com os 8 Trigramas distribuídos ao redor da figura do símbolo do Tao).

3 – Quando elas pararem, examine quais caíram com a face “cara” e quais caíram com a face “coroa” (ou se caíram todas com a mesma gravura), contando o número total de pontos (“cara” = 3, “coroa” = 2). Há somente quatro possibilidades, pois não importa a ordem em que as moedas sejam examinadas. Por conseguinte, os números que podem ser obtidos pelas combinações cara-coroa do lançamento das três moedas, em cada uma das 6 jogadas, são: 6 (3 coroas – “Grande Yin”), 7 (2 coroas e 1 cara), 8 (2 caras e 1 coroa) e 9 (3 caras – “Grande Yang”). O primeiro lançamento formará a linha inferior do Hexagrama de seis linhas que você está construindo. O Hexagrama é produzido de baixo para cima, de forma que o resultado da primeira jogada determina a linha inferior ou primeira; o da segunda, a segunda linha, e assim por diante. Se o lançamento deu o número 6 (três coroas) ou 8 (duas caras e uma coroa), trace uma linha partida assim , e coloque o número obtido ao lado da linha. Se o lançamento deu o número 7 (duas coroas e uma cara) ou 9 (três caras), trace uma linha contínua, assim , e coloque o número obtido ao lado da linha.

4 – Para completar o Hexagrama, sacuda novamente as mãos e repita o lançamento das moedas, com os mesmos pensamentos em mente, e desenhe a linha apropriada (números pares = linhas interrompidas; linhas ímpares = linhas contínuas), estruturando o seu Hexagrama da linha de baixo (a primeira) para a de cima (a sexta).

A numeração ao lado indica apenas a seqüência das linhas, e não os números obtidos pelas jogadasdas moedas, que produzem as lin

Consulte a tabela abaixo. A coluna da esquerda traz 8 Trigramas, onde você irá procurar o “Trigrama inferior” do seu Hexagrama. Na coluna horizontal superior, você encontrará o seu “Trigrama superior”. Do cruzamento desses dois você terá o Hexagrama da questão consultada. Anote o número e nome dele e procure-o no manual ou livro.

NOTA: Ficou claro que as três moedas devem ser jogadas jutas seis vezes, sucessivas. O Hexagrama é formado de baixo para cima, ou seja, a primeira vez que você jogar as moedas estará formando a linha de baixo. E assim vai até a sexta linha – a última, ou linha de cima. Há somente sessenta e quatro (64) possibilidades de arranjo das linhas.

Preste atenção no pequeno número que aparece ao lado de cada linha. Se tiver algum 6 (3 coroas – “Grande Yin”) ou 9 (3 caras – “Grande Yang”), essas linhas estão com excesso do principio ativo ou passivo, e tendem a se transformar na sua oposta, ou complementar, de onde vem a fama do I Ching como “Livro das Mutações”. Estas Linhas têm significado próprio (há um comentário para as “Linhas Móveis” no texto que fala do primeiro Hexagrama obtido). Se não há nenhuma linha 6 ou 9 (linhas mutantes) no Hexagrama original, não haverá um segundo Hexagrama, geralmente dito “Hexagrama Futuro”.

O primeiro Hexagrama refere-se ao presente ou ao passado recente; já o segundo indica as mudanças necessárias para que o objetivo seja atingido. Se numa consulta o Hexagrama resultante não contêm nenhuma linha móvel, a situação que ele simboliza é constante e firme.

COMO INTERPRETAR

A linguagem do I Ching é, para a nós ocidentais do século XXI, um tanto quanto cifrada. Devemos sempre ter em mente que o I Ching é um intermediário entre o nosso “EU” interior, o nosso inconsciente, nosso Mestre Interior e o ambiente; dessa forma, nós o utilizamos para obter as respostas que temos dentro de nós.

A primeira linha representaria a sensação, chamada de “a causa externa”; a segunda o pensamento, a terceira o sentimento, a quarta o corpo, a quinta a alma e a sexta o espírito; que é o “resultado”. Esta sexta linha, como a primeira também não depende de sua consciência. A segunda linha é o “oficial”; a quinta “o príncipe”; a terceira é “a sua motivação” que o levará à quarta linha que é o “Karma”.

Cada Hexagrama tem uma ou mais linhas diretrizes, uma das quais normalmente ocupa o quinto lugar. As linhas 1 e 6 são extremidades da situação principal, e por isso, são as menos importantes. A linha 6 freqüentemente representa um sábio afastado da vida ativa.

EXPRESSÕES MAIS USADAS NOS TEXTOS

Há algumas expressões mais utilizadas pelo I Ching que para quem está começando a utilizá-lo podem parecer herméticas. Aqui seguem algumas dicas do que elas costumam significar:

  • A perseverança traz boa sorte: podemos dar prosseguimento aos nossos planos.
  • A perseverança traz desgraça: É melhor desistir dos nossos planos.
  • Arrependimento: consciência de nossos erros.
  • Boa fortuna – O céu está de acordo com a nossa vontade
  • Desgraça: acontecimentos ruins aos olhos dos outros e aos nossos próprios olhos.
  • É favorável atravessar a grande água: podemos empreender alguma coisa difícil ou viajar.
  • É favorável ver o grande homem – Seremos recompensados se buscarmos conselho e assistência de alguma pessoa de alto valor moral
  • É propício ter um objetivo em vista: desde que tenhamos um objetivo determinado, podemos seguir adiante.
  • É propício ver o grande homem: seremos recompensados se buscarmos conselho e assistência de alguma pessoa de alto valor moral.
  • Êxito Supremo: o Céu está de acordo com a nossa vontade.
  • Homem superior, nobre ou santo sábio: homem de grande valor moral, capaz de resistir firme e serenamente a forças que transformariam outros homens (os homens inferiores) em joguetes. Invulnerável à glória e à derrota, não gasta suas energias tentando o impossível. “Os tolos o consideram ainda mais tolo; os sábios, um sábio incomparável”. Invulnerável à glória e à derrota, não gasta suas energias tentando o impossível. Com freqüência designa o melhor de nós mesmos, nosso lado mais elevado, sábio, ético e nobre. Eventualmente pode designar pessoas em posição superior ou de poder.
  • Infortúnio – Acontecimento ruim aos olhos dos outros e aos nossos próprios olhos.
  • Nenhuma culpa – Se os resultados não são bons, devem-se a circunstâncias alheias à nossa vontade.
  • Sem erro ou culpa: se os resultados não são bons, devem-se à circunstâncias alheias à nossa vontade.

FILOSOFIA CHINESA

O I Ching é considerado um sistema operacional vazio, que independe do objeto e pode ser aplicado em diversas áreas, tornado-se a espinha dorsal de todas as ciências clássicas chinesas, como a Acunpuntura, o Feng Shui, etc. Para o pesquisador Ion Freitas Filho, seus símbolos são como uma álgebra, um código de barras. De fato, o próprio criador do cálculo binário, o filósofo e matemático alemão Leibniz (1646-1716) deve ao I Ching o “insight” para terminar seu estudo que possibilitou o surgimento da informática. “Ao contemplar a mudança de um símbolo em outro na seqüência circular dos 64 Hexagramas do I Ching, ele associou as linhas Yin e Yang a zero e 1, formulando o cálculo binário, que é a linguagem dos computadores modernos”, explica Ion . Portanto, não é nada exagerado dizer que o I Ching é o avô da informática.

As oito figuras que formam o I Ching estão na base da cultura que se desenvolveu na China durante milênios. Para os chineses a ordem do mundo depende de se dar o nome correto às coisas, portanto o significado de “I” sempre foi objeto de discussão.

A idéia básica do I Ching é o conceito de mutação, a eterna lei que rege todo o Universo. Entre os chineses, esta lei era chamada de Tao (que pode ser imperfeitamente traduzido com diversos significados: o Caminho, o curso dos acontecimentos) e se manifesta através do “Grande Princípio Primordial” (Tai Ch’i), cuja representação é um círculo dividido em escuridão e luz: Yin e Yang.

Para o pensamento chinês, não há o que mude, há apenas o mudar. A mutação seria o caráter mesmo do mundo. Mas a mutação é, em si mesma, invariável, ela sempre existe. Portanto, “I” significa mutação e não-mutação. Subjaz, à complexidade do Universo, uma “simplicidade” que consiste nos princípios que estão por trás de todos os ciclos. Ao fluir com as circunstâncias se evita o atrito e portanto a resistência: esse é o caminho do homem sábio. Tudo está em movimento e mutação constante, pois só a mudança é permanente. Aquele que reconhece a mutação não mais se detém sobre as coisas particulares, mas dirige-se à eterna lei imutável presente em toda mutação. Esta lei é o Tao.

O Tao representa o aspecto funcional do Absoluto e não deve ser confundido com o T’ai Chi, embora em muitos aspectos se assemelhe a este. Para cada coisa ou cada indivíduo existe um sentido próprio, um caminho.

Não há um homem que possa banhar-se duas vezes no mesmo rio”, dizia o filósofo grego Heráclito, “porque nem o rio é o mesmo rio, nem o homem é o mesmo homem”. Este sentido de transitoriedade para nossa cultura é algo terrível, mas para o pensamento chinês tradicional é a própria essência da mudança e da mutação. As coisas são transitórias porque mudam constantemente, mas não mudam por mudar, mudam constantemente porque tem um sentido, um TAO. Compreender que as coisas acontecem e se desvanecem é, então, compreender o movimento para adiante. Tudo na natureza muda e nunca é estável, lembrando o símbolo que representa o Yin e Yang.

Tanto o Taoísmo como o Confucionismo, as duas linhas da filosofia chinesa, beberam da fonte do I Ching. A ênfase no aspecto oracular variou com o tempo. No século VI a.C. era visto mais como livro de filosofia, ao passo que na dinastia Han, quando a magia teve grande papel, era visto como oráculo. No ocidente, infelizmente, seu uso como livro de sabedoria tem papel irrelevante.

O I Ching tem o conceito de uma família, cada pessoa representada por um Trigrama. Assim, temos o Pai e a Mãe, e mais três filhas e três filhos. O Trigrama do Pai, por exemplo, compreende três linhas inteiras. Também chamado “O Criativo”, e associado com o pai, o líder, o homem. Seu nome chinês é Chien . Simboliza o céu, o firmamento e a perseverança. Todos os outros Trigramas têm características próprias.

A cada Trigrama corresponde um ponto cardeal e uma direção na bússola; também representam os Elementos e, como vimos, sintetizam um determinado membro da família.

NOTA AUXILIAR AO USO DO I CHING:

Para descobrir a dinâmica do Trigrama é melhor analisar suas linhas.

 

O 1o Trigrama (linhas 1-2-3) contém assuntos pessoais e humanos. O 2o segundo Trigrama (linhas 4-5-6) contém assuntos universais. As linhas 1 e 6 estão nas extremidades do Hexagrama e por isso são as menos importantes. Os Trigramas (e os Hexagramas) são sempre lidos de baixo para cima.

ESTUDO DOS TRIGRAMAS

Os 8 Trigramas e seus principais significados:

BIOGRAFIA

 

I Ching, tradução do chinês para o alemão por Richard Wilhelm, 1923. Edição brasileira, 1982, traduzida do alemão por Alayde Mutzenbecher e Gustavo Corrêa Pinto; traz o prefácio de C.G.Jung à tradução inglesa.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/como-entender-e-ler-o-i-ching/

Mapa Astral de Aleister Crowley

Aleister Crowley (12 de Outubro de 1875 – 1 de Dezembro de 1947), nascido Edward Alexander Crowley, foi um influente ocultista inglês, responsável pela fundação da doutrina Thelema. Ele é conhecido hoje em dia por seus escritos sobre magia, especialmente o Livro da Lei, o texto sagrado e central da Thelema, apesar de ter escrito sobre outros assuntos esotéricos como magia cerimonial e a cabala.

Libriano com Lua em Peixes, Ascendente em Leão e Caput Draconis em Áries. Uma pessoa que possui uma percepção dos outros e o íntimo em estreito contato com o Plano astral, que gosta de aparecer e de se mostrar e ao final de sua vida, terá se tornado um líder.

O gosto de Crowley pelo oculto vem da combinação forte de Júpiter em conjunção a Mercúrio (em Escorpião), que indica não apenas que a mente de Crowley procurava buscar o que há de mais profundo nos mistérios como seu facilitador natural também o impulsionava para tal. Mercúrio em Escorpião é a mente daqueles que desejam desvendar mistérios, encontrada tanto em céticos quanto em ocultistas.

O Planeta mais forte do Mapa de Crowley é Plutão (em Touro), que indica uma pessoa voltada para experimentar tudo o que a vida pode oferecer. Sua combinação com a Lua em Peixes (em sextil de 0,2 graus) faz com que ele canalize estas experiências para o Plano Astral e escapismo da realidade. Esta combinação é comum em viciados em jogos ou drogas (o caso do Crowley). Some-se esta energia com sua curiosidade e facilidade para buscar o que há de experiências mais profundas (Mercúrio e Júpiter em escorpião) e você tem um mapa de alguém que está disposto a testar todos os limites da experimentação.

Marte é o Planeta que mostra como a pessoa briga, planeja e executa suas ações. Marte em Capricórnio é o guerreiro-planejador-estratégico, muito encontrado em militares de carreira e também em jogadores de xadrez ou outros esportes que exijam calma, planejamento e disciplina (alpinismo, por exemplo).

Uma Aspectação interessante no Mapa de Crowley é a Oposição Urano em Leão (facilidade em exibir-se para os outros) e Saturno em Aquário (facilidade para organizar/controlar/estar responsável por grupos de pessoas). Com Sol e Vênus em Libra (diplomacia), fica fácil entendermos como Aleister conseguiu mesclar e utilizar todos estes recursos e se tornar “o homem mais perverso do mundo” segundo os jornais sensacionalistas…

Engraçado notar que, ao contrário de outros ocultistas como Arthur Waite (que tinha Marte/Vênus em Virgem) ou este que vos escreve (Marte/vênus em Virgem) que abordam o ocultismo de uma maneira mais enciclopédica (pesquisar, anotar, comparar, catalogar…) Crowley era um verdadeiro porra-louca, que precisava experimentar e testar tudo em sua própria pessoa para obter o conhecimento direto em primeira mão.

Acabou quebrado e falido, mas deixou seu legado para toda a posteridade.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-aleister-crowley

Afeição e sexualidade

Uma das principais causas da diminuição do entusiasmo é a sensação de que não nos querem, enquanto o sentir-se amado, ao contrário, aumenta o entusiasmo mais do que tudo. Um homem pode ter a sensação de que não lhe querem bem pelas mais diversas razões. Consegue, por exemplo, considerar-se uma pessoa tão horrível que ninguém poderia amá-lo; talvez em sua infância tenha sido obrigado a acostumar-se a receber menos amor do que outras crianças; e pode realmente tratar-se de uma pessoa a quem ninguém ama. Mas, neste último caso, o motivo provavelmente é a falta de confiança em si, devido a uma infância infeliz.

O homem que não se acha querido pode, em conseqüência disso, adotar várias atitudes. Pode fazer esforços desesperados para ganhar o afeto dos outros, possivelmente atos de excepcional amabilidade. É quase certo que não se saia bem quanto a isso, pois os beneficiários percebem facilmente o motivo de tanta bondade, e é típico da condição humana estar mais disposta a conceder seu afeto àqueles que menos o solicitam. Assim, o homem que se propõe comprar afeto com atos benévolos fica desiludido ao comprovar a ingratidão humana. Nunca lhe ocorre que o afeto que está tentando comprar tem muito mais valor que os benefícios materiais que oferece como pagamento e, no entanto seus atos se baseiam nesta convicção. Outro homem, ao dar-se conta de que não é amado, pode querer vingar-se do mundo, provocando guerras e revoluções, ou molhando sua pena no amargor, como [Jonathan] Swift. Esta é uma reação heróica à desgraça, que requer força de caráter suficiente para que um homem se atreva a enfrentar o resto do mundo. Poucos são capazes de alcançar tais alturas; a grande maioria, tanto homens como mulheres, quando se acredita não querida, afunda em uma tímida desesperação, só aliviada por ocasionais centelhas de inveja e malícia. Como regra geral, essas pessoas vivem muito concentradas em si mesmas, e a falta de afeto lhes dá uma sensação de insegurança de que procuram instintivamente escapar, deixando que os hábitos dominem por completo suas vidas. As pessoas que são escravas de uma rotina invariável costumam agir assim por medo do frio mundo exterior e porque sentem que não tropeçarão se continuarem trilhando o mesmo caminho que fazem todos os dias.

Aqueles que enfrentam a vida com sensação de segurança são muito mais felizes do que os que enfrentam com insegurança, desde que a sensação de segurança não os conduza ao desastre. E, em muitos e muitos casos, embora não em todos a própria sensação de segurança ajuda-os a escapar de perigos a que outros sucumbiram. Se alguém caminha sobre um precipício por uma tábua estreita, terá mais possibilidade de cair, caso sinta medo, do que se não o sentir. E o mesmo se aplica a nosso comportamento na vida. Positivamente, o homem sem medo pode deparar-se de imediato com o desastre, mas é quase certo que saia incólume de várias situações difíceis, nas quais um tímido se arranharia. Como é natural, esse tipo tão útil de autoconfiança geral é, sobretudo, conseqüência de estarmos acostumados a receber o afeto de que precisamos. É deste hábito mental, considerado uma fonte de entusiasmo, que desejo falar neste capítulo.

O que causa esta sensação de segurança é o afeto recebido, não o afeto dado, embora na maior parte dos casos costume ser o carinho recíproco. Em termos estritos, não é apenas o afeto, mas a admiração, o que produz mais resultados. As pessoas que, por profissão, precisam ganhar a admiração do público, como os atores, pregadores, oradores e políticos, dependem cada vez mais do aplauso. Quando recebem o ansiado prêmio da aprovação pública, suas vidas se repletam de entusiasmo; quando não o recebem, vivem descontentes e compenetrados. A simpatia difusa de uma multidão é para eles o que é, para os outros, o carinho concentrado de uns poucos. A criança cujos pais a querem bem aceita o afeto deles como lei da natureza. Pouco pensa nisso, nas aventuras que lhe vão acontecendo e naquelas ainda mais maravilhosas que ocorrerão quando for mais velha. Por trás de todos esses interesses externos se acha a sensação de que o amor de seus pais a protegerá contra qualquer desastre.

Já a criança que, por alguma razão, não pode contar com o amor parental, reúne muitas possibilidades de tornar-se tímida e retraída, cheia de medos e autocompaixão, e já não é capaz de enfrentar o mundo com o espírito da alegre exploração. Tais crianças começam a refletir cedo sobre a vida, a morte e o destino humano. A princípio, são introvertidas e melancólicas, mas com o tempo buscam o consolo irreal de algum sistema filosófico ou teológico. O mundo é um lugar muito confuso, que contém coisas agradáveis e coisas desagradáveis misturadas ao acaso. E o desejo de encontrar um rumo ou um sistema inteligível é, no fundo, conseqüência do medo. De fato, é uma agorafobia, ou medo dos espaços abertos. Entre as quatro paredes de sua biblioteca, o estudante tímido sente-se a salvo. Se lhe acontece convencer-se de que o universo é igualmente ordenado, mostrará a mesma quando tiver que aventurar-se pelas ruas. Caso essas crianças houvessem recebido mais carinho, seu medo do mundo seria menor e não teriam que inventar um mundo ideal para substituir o real em suas mentes.

Nem todo carinho tem esse efeito de incentivar a aventura. O afeto dado deve ser forte, não tímido, e objetivar a excelência do ser amado mais do que sua segurança, embora, naturalmente, não devamos ser indiferentes à segurança. A mãe ou babá medrosas, que estão sempre avisando às crianças dos desastres que podem lhes ocorrer, que acham que todos os cães mordem e que todas as vacas são touros, podem inculcar-lhes apreensões iguais às suas, fazendo-as sentir que nunca estarão a salvo se saírem da barra de suas saias. Uma mãe extremamente possessiva pode achar bastante agradável essa sensação por parte do filho: interessa-lhe mais que o menino dependa dela do que da própria capacidade para enfrentar o mundo. Neste caso, a longo prazo, certamente, a criança cresce pior do que se não a houvessem amado.

Os hábitos mentais adquiridos nos primeiros anos de vida tendem a persistir durante todo o tempo. Muitas pessoas, quando se apaixonam, buscam nisso um pequeno refúgio contra o mundo, onde possam estar seguras de ser admiráveis, e elogiadas, embora não sejam dignas de elogios. Para muitos homens, o lar é um refúgio contra a verdade: o que procuram é uma companheira com o qual possam descansar de seus medos e apreensões. Procuram na esposa o que obtiveram de uma mãe tola e, ainda assim, surpreendem-se quando as esposas os consideram crianças grandes.

Definir o melhor tipo de caminho não é em nada fácil, visto que, evidentemente, sempre haverá nele algum elemento protetor. Não somos indiferentes às dores das pessoas a quem amamos. Creio que a apreensão ou o temor da desgraça – que não deve ser confundida com a solidariedade quando realmente aconteceu alguma desgraça – deve desempenhar o menor papel possível no carinho. Ter medo por outros é pouco melhor que termos medo por nós próprios. E, além disso, quase sempre é apenas uma camuflagem dos sentimentos possessivos. Ao infundir temor no outro, pretendemos adquirir um domínio mais completo sobre ele. Esta, naturalmente, é uma das razões porque os homens gostam de mulheres tímidas, já que, ao protegê-las, sentem que as possuem. A quantidade de solicitude de que uma pessoa pode ser objeto sem sair arranhada depende de seu caráter: uma pessoa forte e aventureira agüenta o bastante sem ser prejudicada, mas, a pessoa tímida deve ser encorajada a esperar pouco nesse sentido.

O afeto recebido cumpre uma função dupla. Até agora falei do tema em relação à segurança, mas na vida adulta ele tem um propósito biológico ainda mais importante: a procriação. Ser incapaz de inspirar amor sexual é uma grande desgraça para qualquer homem ou mulher, já que os priva das maiores alegrias que a vida pode oferecer. É quase certo que, mais cedo ou mais tarde, tal privação venha a lhes destruir o entusiasmo e conduzi-los à introversão. O mais freqüente é que a infância infeliz ocasione defeitos de caráter que são a causa da incapacidade de inspirar amor mais adiante. Certamente isso afeta mais os homens do que as mulheres, já que, em geral, as mulheres amam os homens por seu caráter, ao passo que estes amam as mulheres por sua aparência. Devemos dizer que, neste aspecto, os homens se mostram inferiores às mulheres, uma vez que as qualidades que estes acham agradáveis nas mulheres são, em seu conjunto, menos desejáveis do que aquelas que as mulheres acham agradáveis nos homens. Não estou certo de que seja mais fácil adquirir bom caráter do que adquirir boa aparência. Seja como for, as medidas necessárias para conseguir esta última são mais conhecidas, e as mulheres se esforçam mais nisso do que os homens se esforçam para adquirir bom caráter.

Até agora falei do carinho que uma pessoa recebe. Agora me proponho a falar do carinho que uma pessoa dá. Neste caso, existem também dois tipos diferentes: um deles traduz-se possivelmente na manifestação mais importante do entusiasmo pela vida, ao passo que o outro é uma manifestação de medo. O primeiro me parece inteiramente admirável, enquanto o segundo é, na melhor das hipóteses, um simples consolo. Se, em um belo dia de sol, estamos fazendo um passeio de barco, ao longo de um formoso litoral, admiramos suas praias e isso nos causa prazer. O prazer decorre completamente desse gesto de olhar para fora e nada tem a ver com qualquer necessidade premente que possamos ter. Mas se o barco vira e precisamos nadar até a praia, isso nos inspira um novo tipo de afeto: o da segurança contra as ondas – e a beleza e a feiúra do local deixam, então, de ser importantes. O melhor tipo de afeto é equivalente à sensação do homem cujo barco se acha seguro; o menos bom corresponde ao do náufrago que se vê obrigado a nadar. O primeiro desses dois tipos de afeto só é possível quando a pessoa se acha segura ou indiferente aos perigos que a cercam; o segundo tipo, ao contrário, é causado pela sensação de insegurança.

A sensação gerada pela insegurança é muito mais subjetiva e egocêntrica do que a outra, já que a pessoa amada é valorizada pelos serviços prestados e não por suas qualidades intrínsecas. Não tenho a intenção se afirmar que este tipo de afeto não desempenhe um papel legítimo na vida. Com efeito, quase todo afeto real combina algo de ambos os tipos e, se o afeto cura realmente a sensação de insegurança, o homem se vê livre para sentir novamente este interesse pelo mundo que se anula nos momentos de perigo e de medo. Entretanto, mesmo reconhecendo o papel que este tipo de afeto desempenha na vida, persisto em sustentar que não é tão bom quanto o outro tipo, porque depende do medo, e ter medo é ruim e, além do mais, é um sentimento egocêntrico. O melhor tipo de afeto faz com que o homem espere uma nova felicidade e não o escape de uma antiga infelicidade.

O melhor tipo de afeto é reciprocamente revitalizador. Cada qual recebe carinho com alegria e o oferece sem esforço, e ambos acabam por achar o mundo mais interessante, como conseqüência dessa felicidade recíproca. Mas existe uma outra modalidade, que não é rara, na qual uma pessoa suga a vitalidade da outra. Uma recebe o que a outra dá, mas não oferece quase nada em troca. Alguma pessoas de extrema vitalidade pertencem a esse tipo vampírico. Extraem a energia vital se uma vítima após a outra, mas, enquanto prosperam e se tornam cada vez mais interessantes, as pessoas de onde tiram sua vitalidade vão ficando apagadas e tristes. Essas pessoas utilizam os outros para os seus próprios fins e nunca os consideram como um fim em si. Na verdade, não lhes interessam as pessoas que julgam amar em cada momento; só lhes interessam o estímulo para suas próprias atividades, que podem ser do tipo muito impessoal. Com certeza, isso se deve a algum tipo de defeito de caráter, mas seu diagnóstico e sua cura não são fáceis. É uma característica que costuma estar associada com uma grande ambição – e que eu diria que se baseia numa opinião exageradamente unilateral daquilo que constitui a felicidade humana.

O afeto, no sentido de autêntico interesse recíproco de duas pessoas – e não apenas como um meio para que cada qual obtenha benefícios, mas sim como um ajuste com vistas ao bem comum -, é um dos elementos mais importantes da autêntica felicidade, e o homem, cujo ego se encontra de tal forma encerrado entre muros de aço que não o deixa expandir, perde o que melhor a vida pode oferecer, por maior que seja o êxito de sua carreira. A ambição que não inclui o afeto em seus planos costuma ser conseqüência de algum tipo de ressentimento ou ódio à raça humana, provocado por uma infância infeliz, por injustiças sofridas posteriormente ou por qualquer das causas que conduzem à mania de perseguição. Um ego demasiadamente forte é uma prisão da qual o homem deve escapar se quiser desfrutar plenamente o mundo. A capacidade de sentir afeto autêntico é um dos sinais de que alguém conseguiu escapar desse cárcere de ego. Receber afeto não é o bastante; o afeto que este alguém recebe deve liberar o afeto que deve ser dado em retribuição e só quando ambos existem em igual medida é que tornam realidade suas melhores possibilidades.

Os óbices psicológicos e sociais que inibem o florescimento do afeto recíproco são um grave mal de que o mundo tem padecido. As pessoas resistem a conceder seus afetos com medo de equivocar-se; e sentem dificuldade em dar amor, com medo de que a pessoa amada as faça sofrer, ou mesmo com medo de que o mundo lhes seja hostil. Alimentamos a cautela, tanto em nome da moral quanto em nome da sabedoria profana, e o resultado é que procuramos evitar a generosidade e o espírito aventureiro nas questões afetivas. Tudo isto tende a produzir timidez e ira contra a humanidade, já que muitas pessoas ficam privadas durante toda a sua vida de uma necessidade fundamental que, para 90% delas, é condição indispensável à felicidade e à possibilidade de uma atitude aberta para com o mundo. Não devemos supor que as pessoas consideradas imorais sejam superiores às outras nesse aspecto.

Nas relações sexuais quase nada há que possamos chamar de autêntico afeto; muitas vezes existe mesmo uma hostilidade básica. Cada qual procura não se integrar, tenta manter sua solidão fundamental, por pretender manter-se intacto e, por isso, o afeto não frutifica. Tais experiências não tem nenhum valor fundamental. Não digo que devam ser evitadas, já que as medidas que precisariam ser tomadas para isso interfeririam também nas ocasiões em que poderia crescer um afeto mais valioso e profundo. Mas teimo em que as relações sexuais que possuem autêntico valor são aquelas em que não há reticências, em que as personalidades de ambas as pessoas se fundem em uma nova e única personalidade. Entre todas as formas de cautela, a cautela no amor é, possivelmente, a mais letal para a autêntica felicidade.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/afeicao-e-sexualidade/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/afeicao-e-sexualidade/

O que aprendemos com Rafael Chiconeli?

– Por que você estuda magia?

– Porque estou em busca da Verdadeira vontade.

– então você está em busca de uma verdade.

– Sim

– Quando a gente busca a verdade, é normal as mentiras caírem pelo caminho.

Em 2000, uma figuraça apareceu na mídia nacional alegando, aos 99 anos, falar 33 idiomas e 72 dialetos. Omar Kayan dizia ter 107 títulos de doutor e três indicações ao Prêmio Nobel.

Ninguém no país tinha ouvido falar nesse detentor de tanta sapiência. Mesmo assim, o senhor com ares de profeta enganou todo mundo direitinho. Deu entrevistas para os grandes jornais e chegou a ocupar dois blocos do Programa do Jô Soares. Khayam na verdade se chamava Alexandre Selva, tinha 62 anos, e não era doutor coisíssima nenhuma. Tratava-se de um charlatão que se fazia passar por gênio para dar palestras e faturar dinheiro. Um estelionatário de marca maior.

Recentemente, tivemos um caso semelhante aqui no Brasil. Rafael Chiconeli, a.k.a. Raphael Chiconelli, a.k.a. Rafael Ithzaak, a.k.a. Rafael Moura Pessoa Freire, se passava por rabino, cabalista e rav para dar cursos e se aproveitar das alunas seduzidas com seu papo mole de “alma gêmea”. Chegou a palestrar no mais importante Simpósio de Hermetismo da América do Sul e até escreveu posts para este blog. Mas nem judeu ele é. Como ele conseguiu chegar tão longe? e como foi descoberto?

Tivemos o desprazer de conhecer esta figura uma semana antes do Simpósio de Hermetismo. Para quem não o conhece, ele é extremamente simpático e de uma cara de pau inacreditavel. Coisa de psicopata mesmo.

Quando o encontrei pela primeira vez, ele foi extremamente simpático e conversamos durante umas duas horas e vi que ele sabia o básico da cabalá judaica. Não aprofundamos porque ele era indicado de pessoas conhecidas do RJ, então não tínhamos a menor razão para desconfiar dele.

[Update 2013] – as pessoas no RJ o recomendaram sem o conhecer pessoalmente, com base em seu blog, que depois verificamos ser apenas um amontodado de plágios de blogs de cabalistas famosos. quando denunciado, Rafael Moura tentou deletar o blog, mas mantivemos uma cópia no Internet Archive.

No Simpósio, tanto sua palestra sobre a Cabalá quanto o ritual conduzido no final da palestra foram bem executados ([Update] O ritual e a palestra são recortes de palestras dadas no Kabbalah Centre). A pedidos, ele começou a ministrar o módulo de Cabala I em São Paulo também ([update] O curso de “cabala iniciática” – nomenclatura que ele INVENTOU e que não existe em nenhum lugar, é uma colcha de retalhos montada com material do Kabbalah Centre também, como alguns alunos relataram posteriormente). Perdi contato com ele até as vésperas do Sefirat ha Omer. Nesse meio tempo, conseguiu fazer diversos contatos nas lojas de maçonaria mista e espaços holísticos com pouca seriedade.

Quando ele quis começar a palestrar na Maçonaria regular, fiz o pedido de praxe: número do CIM e Loja na qual foi iniciado. E ele começou a me enrolar. Logo em seguida, dois fatos ocorreram em menos de uma semana para terminar de desmascará-lo.

O primeiro foi ele ter falhado com o Sefirat ha Omer e, de quebra, ferrado o exercício de quase quinhentas pessoas que estavam “seguindo o rabino” ao invés das orientações do Blog, pois ele disse que só poderia haver uma fonte. Mas a melhor veio pelo Facebook.

[Update] Rafael Moura tentou duas vezes entrar na Maçonaria depois dos ocorridos, e foi rejeitado em ambas as tentativas. Descobrimos que ele fingia ser maçom desde 2010.

Uma moça que estava em recuperação pela Narcóticos Anônimos tinha como um dos passos buscar a espiritualidade e acabou na cabala judaica, com o “mestre” que lhe garantiu que já havia cuidado de vários casos assim e que precisaria vê-la pessoalmente. Depois do encontro, do qual não teve tratamento cabalistico nenhum, o rabino se dizia apaixonado, que ela era a alma gêmea dele e que iriam se casar. E, uma semana depois, desapareceu sem dar explicações e, quando confrontado, disse que ela era louca e que tudo era imaginação dela. O que ele não contava é que a guria estava pensando em se suicidar e que, quando foi conversar com uma psicóloga, por essas “coincidências” dos deuses, foi parar justamente em uma amante do rabino, que já estava tendo um caso com ele há quase um ano e também achava que era a alma gêmea do “mestre”.

Com as duas garotas muito putas da vida, decidiram investigar o caso a fundo e acharam quase uma dezena de alunas na mesma situação… em SP e RJ… cada uma achando que era a alma gêmea dele e que iria se casar e ter filhos koshers. Uma delas, uma senhora, planejava fazer uma viagem a Israel acompanhada do rav. E ai a novela chega aos ouvidos deste que vocês escreve.

[update] Pelo menos 8 casos com o mesmo modus operandi.Escolhe mulheres fragilizadas emocionalmente e usa de manipulação e lábia para prometer casamento, dizendo serem almas gêmeas. apesar do papo mole de don juan, ele é CASADO. Casou-se com Márcia Chiconeli para adotar o sobrenome dela (no Brasil, que homem adota o sobrenome da mulher?) pouco antes de tentar processar o autor deste blog pelas denúncias feitas.

Primeira lição: Coerência

A Primeira coisa que se aprende em uma Ordem Iniciática séria, no grau de Zelator, é o Caminho da Terra. O Caminho da Terra ensina a Coerência, ou seja, que devemos agir de acordo com o que pregamos. Não faz o menor sentido criticar o Vaticano por ficar remanejando padres pedófilos e ao mesmo tempo passar a mão na cabeça de um suposto rabino que abusava da confiança das alunas pelo seu cargo. Aqui no TdC, cortamos a própria carne se precisar.

Como somos justos, tentamos entrar em contato de todas as formas para perguntar o que estava acontecendo e dar a ele amplo direito de defesa. Porém, algumas das almas gêmeas já haviam contado a ele sobre o caso e ele desapareceu. Nesse meio tempo, procurando por telefones e meios de contato, descobrimos que “Rafael Chiconeli” simplesmente não existia. Nenhum RG, nenhum CPF, nenhum telefone, nenhum registro… um fantasma. E como ele chegou até o Aya? Excelente pergunta.

Em 2011 ele começou a dar os cursos de Cabalá no RJ, no espaço da mãe, em uma empresa fantasma sem CNPJ ou endereço e seduziu algumas alunas como o papo mole de alma gêmea. Uma delas o apresentou a organização da Mystic Fair RJ. E lá ele conheceu outra palestrante, que se tornou aluna e alma gêmea e o trouxe para espaços em São Paulo. Ele teve problemas no primeiro espaço que conseguiu, com absurdos do tipo andar de cuecas na casa da pessoa que o acolheu, deixar camisinhas jogadas pelo espaço e causar brigas entre alunas apaixonadas pelo don juan cabalístico, um completo absurdo… ([update] conforme fomos levantando material dele para o processo, mais e mais absurdos apareciam…) e levou o que restou da turma que ainda não sabia dos escândalos para o novo espaço.

Segunda Lição: Conhecimento não traz caráter

Ele teria sido descartado de cara pelo Leo, por mim ou pelo frater Alef se não tivesse um grande conhecimento. E de onde diabos veio isso? ao investigarmos a vida do sujeito, descobrimos que tudo era uma fraude. Ele nunca pisou em Israel, a historinha do pai diplomata era outra mentira ([update] o pai é um sargento aposentado da marinha com segundo grau completo, nunca nem abriu um livro de cabala na vida); a história da avó ser uma judia milionária dona de imóveis também é uma farsa ([update] a família toda de Rafael Moura mora no subúrbio do RJ, na Vila Sulacap) e ele tentou ser iniciado na maçonaria, mas foi rejeitado, e nunca esteve nem perto de uma Yeshiva ou de um rabino de verdade.

A resposta veio de uma namorada do tempo de adolescente: ele estuda por livros e fez uns módulos do Kabbalah Centre. E, segundo ela, já tinha essa mitomania de falar que era judeu desde sempre. Tentou aplicar os primeiros golpes como Rafael Ithzaak (o sobrenome de um rabino famoso) e depois de 2010, Chiconeli (sobrenome de uma tal de Márcia, que vive com ele e para uns diz que é irmã, para outros diz que é esposa ([update] Márcia Chiconeli é esposa dele desde 2013, quando ele assumiu o nome dela para posteriormente tentar processar o autor deste blog)).

O que, para mim, é o mais triste dessa história toda: a necessidade dele inventar toda essa maluquice doente. Não há nada de errado em se ter estudado a cabalá judaica no Kabbalah Center e ter adquirido esse conhecimento pelo esforço próprio. Foi essa psicopatia e necessidade de enganar as pessoas e abusar das mulheres que fez com que ele fosse banido do cenário sério do ocultismo brasileiro, sendo relegado a ficar como uma barata se juntando com outros lixos para enganar quem ainda não o conhece.

[update] Hoje ele ainda tenta se vender como “cabalista”, em espaços de quinta categoria e acompanhado de “simbologistas” e “cientistas quanticos” e “sagrado masculinos” em uma invencionice pior que a outra para angariar quem ainda não o conhece.

Você é responsável por sua própria queda, Rafael.

#cabala #Fraudes

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-que-aprendemos-com-rafael-chiconeli

Moral e Dogma

A Maçonaria possui em sua filosofia um ensinamento que pode ser expresso num simples ditame: “Proteja os oprimidos dos opressores; e dedique-se a honra e aos interesses de seu País“. Maçonaria não é especulativa nem teórica, mas experimental, não sentimental, mas prática. Ela requer renúncia e autocontrole. Ela apresenta uma face severa aos vícios do homem e interfere em muitos de nossos objetivos e prazeres. Penetra além da região do pensamento vago; além das regiões em que moralizadores e filósofos teceram suas belas teorias e elaboraram suas esplendidas máximas, alcançando as profundezas do coração, repreendendo-nos por nossa mesquinhez, acusando-nos de nossos preconceitos e paixões e guerreando contra nossos vícios.É uma luta contra paixões que brotam do seio dos mais puros sentimentos, um mundo onde preconceitos admiráveis contrastam com práticas viciosas, de bons ditados e más ações; onde paixões abjetas não são apenas refreadas pelos costumes e pelos cerimoniais, mas se escondem por trás de um véu de bonitos sentimentos.

Este solecismo tem existido por todas as épocas. O sentimentalismo católico tem muitas vezes acobertados a infidelidade e o vício. A retidão dos protestantes apregoa, freqüentemente, a espiritualidade e a fé, mas negligencia a verdade simples, a candura e a generosidade; e a sofisticação do racionalismo ultraliberal em muitas ocasiões conduz ao céu em seus sonhos, mas chafurda na lama de suas ações.

Por mais que exista um mundo de sentimentos maçônicos, ainda assim ele pode ser um mundo onde ela esta ausente. Ainda que haja um sentimento vago de caridade maçônica, generosidade e desprendimento, falta a pratica ativa da virtude, da bondade, do altruísmo e da liberalidade. A Maçonaria assemelha-se aí às luzes frias, embora brilhantes.Há clarões ocasionais de sentimentos generosos e viris, um esplendor fugaz de pensamentos nobres e elevados, que iluminam a imaginação de alguns. Mas não há o calor vital em seus corações.

Boa parte dos homens tem sentimentos, mas não princípios. Os sentimentos são sensações temporárias, enquanto os princípios são como virtudes permanentemente impressas na alma para seu controle. Os sentimentos são vagos e involuntários; não ascendem ao nível da virtude. Todos os têm. Mas os princípios são regras de conduta que moldam e controlam nossas ações. Pois é justamente neles que a Maçonaria insiste.

Nós aprovamos o que é certo, mas geralmente fazemos o que é errado; esta é a velha história das deficiências humanas. Ninguém encoraja e aplaude injustiça, fraude, opressão, ambição, vingança, inveja ou calúnia; ainda assim, quantos dos que condenam essas coisas são culpados delas, eles mesmos.Já nos foi dito: “Homem, quem quer que sejas, se julgas, para ti não há desculpa, porque te condenas a ti mesmo, uma vez que fazes exatamente as mesmas coisas.”É surpreendente ver como os homens falam das virtudes e da honra e não pautam suas vidas nem por uma nem por outra. A boca exprime o que o coração deveria ter em abundância, mas quase sempre é o reverso do que o homem pratica.

Os homens podem realmente, de um certo modo, interessar-se pela Maçonaria, mesmo que muitos deficientes em virtudes. Um homem pode ser bom em geral e muito mau em particular: bom na Loja e ruim no mundo profano, bom em público e mau para com a família.Muitos desejam sinceramente ser bons Maçons. Mas é preciso que resistam a certos estímulos, que sacrifiquem certos caprichos. Como é ingrato aquele que morre medíocre, sem nada fazer que o glorifique para os Céus. Sua vida é como árvore estéril, que vive, cresce, exaure o solo e ainda assim não deixa uma semente, nenhum bom trabalho que possa deixar outro depois dele! Nem todos podem deixar alguma coisa para a posteridade, mas todos podem deixar alguma coisa, de acordo com suas possibilidades e condições.

Quem pretender alçar-se aos Céus, sozinho dificilmente encontrará o caminho.A operosidade jamais é infrutífera. Senão trouxer alegria com o lucro, ao menos, por mantê-lo ocupado, evitará outros males. Têm-se liberdade para fazer qualquer coisa, devemos encara-la como uma dádiva dos Céus; têm-se a predisposição de usar bem esta liberdade, então é uma dádiva da Divindade.

Maçonaria é ação, não inércia. Ela exige de seus iniciados que trabalhem, ativa e zelosamente, para o benefício de seus Irmãos, de seu país e da Humanidade. É a defensora dos oprimidos, do mesmo modo que consola e conforta os desafortunados.

Frente a ela é muito mais honroso ser o instrumento do progresso e da reforma do que se deliciar nos títulos pomposos e nos autos cargos que ela confere. A maçonaria advoga pelo homem comum no que envolve os melhores interesses da Humanidade. Ela odeia o poder insolente e a usurpação desavergonhada. Apieda-se do pobre, dos que sofrem, dos aflitos; e trabalha para elevar o ignorante, os que caíram e os desafortunados. A fidelidade à sua missão será medida pela extensão de seus esforços e pelos meios que empregar para melhorar as condições dos povos. Um povo inteligente, informado de seus direitos, logo saberá do poder que tem e não será oprimido. Uma nação nunca estará segura se descansar no colo da ignorância. Melhorar a massa do povo é a grade garantia da liberdade popular.

Se isto for negligenciado, todo o refinamento, a cortesia e o conhecimento acumulado nas classes superiores perecerão mais dia menos dia, tal como capim seco no fogo da fúria popular.Não é a missão da Maçonaria engajar-se em tramas e conspirações contra o governo civil. Ela não faz propaganda fanática de qualquer credo ou teoria; nem se proclama inimiga de governos. Ela é o apostolo da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Não faz pactos com seitas de teóricos, utopistas ou filósofos. Não reconhece como seus iniciados aqueles que afrontam a ordem civil e a autoridade legal, nem aqueles que se propõem a negar aos moribundos o consolo da religião. Ela se coloca à parte de todas as seitas e credos, em sua dignidade calma e simples, sempre a mesma sob qualquer governo.

A maçonaria reconhece como verdade que a necessidade, assim como o direito abstrato e a justiça ideal devem ter sua participação na elaboração das leis, na administração dos afazeres públicos e na regulamentação das relações da sociedade. Sabe o quanto à necessidade tem por prioridade nas lidas humanas.

A maçonaria espera e anseia pelo dia em que todos os povos, mesmo os mais retrógrados, se elevem e se qualifiquem para a liberdade política, quando, como todos os males que afligem a terra, a pobreza, a servidão e a dependência abjeta não mais existirão. Onde quer que um povo se capacite à liberdade e a governar-se a si próprio, ai residem as simpatias da Maçonaria.A Maçonaria jamais será instrumento de tolerância para com a maldade, de enfraquecimento moral ou de depravação e brutalização do espírito humano. O medo da punição jamais fará do maçom um cúmplice para corromper seus compatriotas nem um instrumento de depravação e barbarismo. O

nde quer que seja, como já aconteceu, se um tirano mandar prender um crítico mordaz para que seja julgado e punido, caso um maçom faça parte do júri cabe a ele defende-lo, ainda que à vista do cadafalso e das baionetas do tirano.O maçom prefere passar sua vida oculto no recesso da penumbra, alimentando o espírito com visões de boas e nobres ações, do que ser colocado no mais resplandecente dos tronos e ser impedido de realizar o que deve. Se ele tiver dado o menor impulso que seja a qualquer intento nobre; se ele tiver acalmado ânimos e consciências, aliviado o jugo da pobreza e da dependência ou socorrido homens dignos do grilhão da opressão; se ele tiver ajudado seus compatriotas a obter paz, a mais preciosa das possessões; se ele cooperou para reconciliar partes conflitantes e para ensinar aos cidadãos a buscar a proteção das leis de seu país; se ele fez sua parte, junto aos melhores e pautou-se pelas mais nobres ações, ele pode descansar, porque não viveu em vão.

A Maçonaria ensina que todo poder é delegado para o bem e não para o mal do povo. A resistência ao poder usurpado não é meramente um dever que homem deve a si próprio e a seu semelhante, mas uma obrigação que ele deve a Deus para restabelecer e manter a posição que Ele lhe confiou na criação. O maçom sábio e bem informado dedicar-se-á à Liberdade e a Justiça. Estará sempre pronto a lutar em sua defesa, onde quer que elas existam. Não será nunca indiferente a ele quando a Liberdade, a sua ou a de outro homem de mérito, estiver ameaçada.

O verdadeiro maçom identifica a honra de seu país como a sua própria. Nada conduz mais à glória e à beleza de um país do que ter a justiça administrada a todos de igual modo, a ninguém negada, vendida ou preterida.Não se esqueçam, pois daquilo a que você devotou quando entrou na Maçonaria: defenda o fraco contra o truculento, o destituído contra o poderoso, o oprimido contra o agressor! Mantenha-se vigilante quanto aos interesses e à honra de teu país! E possa o Grande Arquiteto do Universo dar-lhe a força e a sabedoria para mantê-lo firme em seus altos propósitos.

Por Albert Pike

#Maçonaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/moral-e-dogma

O Tarot no Século XIV

tarot-sforza

É para a Europa, especificamente o norte da Itália, que devemos nos voltar para encontrar as primeiras manifestações do jogo do 78 cartas que hoje conhecemos pelo nome de Tarot. E, a julgar pelos mais antigos exemplares conservados, as mudanças sofridas ao longo do tempo foram muito menores do que se poderia esperar: os quatro naipes conhecidos hoje são os mesmos dos jogos italianos desde sempre: Copas, Espadas, Paus e Ouros. Além das dez cartas numéricas, as figuras são em número de quatro, para cada naipe: um rei, uma rainha (ou dama), um cavaleiro e um valete.

Restam ainda 22 cartas especiais que, de certo modo, formariam um quinto naipe e que os documentos italianos denominam de trionfi (trunfos) e, os franceses, atouts, com o mesmo sentido de trunfo, ou seja, de cartas que se sobrepõem às demais. Cada um dos vinte e dois arcanos maiores do Tarô permitem paralelos com Alquimia,

Astrologia, Sufismo, Cabala, Mística Cristã…

Restaram inúmeras cartas de tarô pintadas à mão, do século XV. São os mais antigos legados históricos, que estão sob guarda de museus ou em posse de colecionadores.

Registros concretos

Não se sabe ao certo a origem das cartas do baralho tradicional. Nem se pode afirmar, com certeza, se o conjunto dos 22 trunfos ou Arcanos Maiores – com seus desenhos emblemáticos – e as muito bem conhecidas 56 cartas dos chamados Arcanos Menores – com seus quatro naipes – foram criados separadamente e mais tarde combinados num único baralho, ou se, desde seu nascimento, tiveram a forma de um baralho de setenta e oito cartas.

Tudo indica que as 56 cartas do baralho comum foram copiadas do jogo difundido entre os guerreiros mamelucos. Os autores da adição das 22 cartas, hoje denominadas “arcanos maiores” entre os tarólogos, permanecem desconhecidos.

Existe, no entanto, um ponto de concordância entre a maior parte dos estudiosos: raros imaginam que se trataria de alguma manifestação ingênua de “cultura popular” ou de “folclore”. Ao contrário, a abstração das 40 cartas numeradas, bem como as evocações simbólicas dos trunfos, permitem associações surpreendentes com inúmeras outras linguagens simbólicas. Sugerem uma produção muito bem elaborada, um trabalho de Escola.

A maior parte dos estudiosos considera os 22 trunfos – atualmente denominados “arcanos maiores” – uma criação do norte da Itália, como atestam as cartas do Tarot Visconti Sforza.

Já as dúvidas aparecem quando se trata do conjunto das cartas numeradas – atualmente conhecidas por “arcanos menores” ou “baralho comum” –, que teriam sido levadas pelos gurreiros mamelucos à Europa durante a Idade Média. Existem menções às “cartas sarracenas” em registros do séc. 14.

Anteriores às lâminas apresentadas acima, encontramos apenas referências a um “jogo de cartas”. É bastante citado, nos estudos de Tarô, o relato de Johannes, monge alemão de Brefeld, Suíça: “um jogo chamado jogo de cartas (ludus cartarum) chegou até nós neste ano de 1377”, mas declara expressamente não saber “em que época, onde e por quem esse jogo havia sido inventado”. Sobre as cartas utilizadas, diz que os homens “pintam as cartas de maneiras diferentes, e jogam com elas de um modo ou de outro. Quanto à forma comum, e ao modo como chegaram até nós, quatro reis são pintados em quatro cartas, cada um deles sentado num trono real e segurando um símbolo em sua mão”.

Há outra menção, ainda no século XIV, embora não tenha restado exemplar algum das referidas cartas: nos livros de contabilidade de Charles Poupart, tesoureiro de Carlos IV, da França, existe uma passagem que declara que três baralhos em dourado e variegadamente ornamentados foram pintados por Jacquemin Gringonneur, em 1392, para divertimento do rei da França.

Variantes

Numa composição diferente, com 50 cartas divididas em 5 séries de 10 cartas cada, existem vários exemplares do jogo chamado Carte di Baldini (c. 1465), também conhecido como Tarocchi de Mantegna, nome de um um importante pintor do norte da Itália no séc. XV.

Alem de estruturas diferentes, exemplificada com o Tarô de Mantegna, existem inúmeros exemplos posteriores de acréscimo de cartas – como é o caso do I Tarocchi Classici – e também de cortes e supressões que acabaram por originar jogos reduzidos que se tornaram populares: Baralho Petit Lenormand, também conhecido como Baralho Cigano.

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Os Corvos de Wotan, parte final

» Parte final da série sobre Odin ver parte 1 | ver parte 2 | ver parte 3

Bran estava caindo mais depressa do que nunca. As névoas cinzentas uivavam em seu redor enquanto mergulhava para a terra, embaixo. “O que você está me fazendo?” – [Bran] perguntou ao corvo, choroso. Estou lhe ensinando a voar.

“Não posso voar!”. Está voando agora mesmo. “Estou caindo!”. Todos os voos começam com uma queda, disse o corvo. Olhe para baixo. “Tenho medo…” OLHE PARA BAIXO!

Bran olhou para baixo e sentiu as entranhas se transformarem em água. O chão corria agora em sua direção. O mundo inteiro espalhava-se por baixo dele, uma tapeçaria de brancos, marrons e verdes. Via tudo com tanta clareza que, por um momento, se esqueceu de ter medo. Conseguia ver todo o reino e toda a gente que nele havia.

[…] Agora você sabe, sussurrou o corvo ao pousar em seu ombro. Agora você sabe por que deve viver.

(Trechos das páginas 120 e 121 de A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin. Publicado no Brasil pela Editora Leya).

Dentre as inúmeras e intrincadas histórias contadas por George R. R. Martin em seu épico As crônicas de gelo e fogo [1], a aventura de Bran, o menino aleijado que, não obstante, parece destinado a se tornar um grande xamã, está certamente entre as de maior importância para a trama geral. Ora, a imagem da própria família de Bran, os Stark de Winterfell, já nos remete a elementos nórdicos, mas será que Martin estudou apenas as descrições de experiências xamãnicas, ou ainda neste caso podemos falar em alguma influência do mito de Odin?

Ora, como eu já havia dito, Odin é também um deus de muitos nomes, e muitas facetas. Boa parte das mais de 200 denominações a Odin estão ligadas, pela raiz (no nórdico arcaico), às palavras vada e od, e, no antigo alto alemão, a Watan e Wuot, que significavam a princípio razão, memória ou sabedoria [2]. Há ainda a palavra Óðr (também do nórdico arcaico) que está mais diretamente associada à deusa Freyja (uma deusa dos vanir, que posteriormente foi associada à Odin como sua esposa), mas que também deu origem ao próprio nome “Odin”, e que poderia significar: mente, alma, espírito, além de poesia e inspiração artística.

O nome de Odin que mais nos interessa, no entanto, para esta associação com o corvo de três olhos dos livros de Martin, é o que deriva do nórdico arcaico Hrafnáss, ou do germânico latinizado Hrafnagud, ou seja: The Raven God, O Deus Corvo. Sabemos que Odin está intimamente ligado aos corvos, tanto que possuí dois corvos muitos especiais (dos quais falarei a seguir); além disso, sabemos que um olho em meio à testa, entre nossos dois outros olhos, significa o olho da mente, o olho da alma: o sentido pelo qual o xamã percebe o mundo espiritual… Ora, o primeiro ato de iniciação de Bran [3], nos livros de Martin, é exatamente ser bicado pelo corvo bem no meio dos olhos, e na altura da testa. Logo após o garoto acorda e acha que tudo “não passou de um sonho estranho”, mas no decorrer dos livros sabemos que não foi bem assim, não é mesmo?

Huginn e Muninn

Por causa de seu voo alto, o corvo foi, muitas vezes, visto como um mensageiro dos deuses. Inúmeras histórias, de diferentes partes do mundo, falam-nos de como um corvo orientou humanos em suas jornadas. Por exemplo: segundo uma tradição, foram corvos que orientaram os beócios rumo ao lugar em que deveriam fundar uma nova cidade – a Beócia. Teriam sido eles que, também, guiaram Alexandre o Grande, até o templo de Júpiter Amon, no oásis de Siwa, no Egito (e que, lá, predisseram sua morte). O imperador japonês Jimmu, teria marchado para a guerra, no século VII, guiado por um corvo dourado. Um corvo era o mensageiro do Rei Marres, do Egito… E as histórias assim se seguem.

Mas é exatamente na mitologia nórdica que o corvo está ainda mais diretamente associado à magia. Diz-se que o voo do corvo simboliza a viagem espiritual, através do Grande Mistério, onde ela se torna igualmente desejada e perigosa, pois pode tanto trazer a iluminação quanto a loucura, dependendo do cuidado com que é realizada. Obviamente isso tudo tem a ver, claramente, com o xamanismo.

Odin possui então esses dois corvos, Huginn e Muninn, cujos nomes significam, no nórdico arcaico: pensamento (Huginn) e memória (Muninn, que também pode significar mente). Diz-se que, todos os dias, enquanto Odin cuida de seus afazeres como governante de Asgard, seus corvos sobrevoam todo o mundo e depois retornam, na calada da noite, para se empoleirar em seu ombro e lhe cochichar tudo o que virem e ouviram. Dessa forma, o Granda Xamã conseguia manter-se bem informado de todos os eventos, e todos os segredos do mundo, enquanto governava seu grande reino mítico.

Mas, o que é mais extraordinário nesta história, e o que a liga ainda mais profundamente ao xamanismo antigo, é o medo que Odin tinha de que seus corvos não retornassem de seus voos diários… Há um trecho da Edda Poética que fala exatamente dessa tal característica tão humana do deus nórdico:

Huginn e Muninn voam a cada dia
Sobre os grandes espaços de Midgard [4]
Eu temo por Huginn, que ele não consiga voltar,
Mas fico ainda mais ansioso pelo retorno de Muninn [5]

Me parece que esse é o mesmo medo de todo o xamã iniciante, de todo aquele que mergulha no Grande Mistério da própria alma, e teme se perder de seu corvo guia, e nunca mais encontrar o caminho de volta. Trata-se de uma belíssima metáfora não somente para a própria arte da magia, como para todo o risco que ela envolve… Ainda assim, Odin é o Grande Xamã, não mais habita nosso mundo (Midgard), mas o mundo espiritual (Asgard), e mesmo assim, mesmo do alto de toda sua sabedoria, ele ainda temia perder seus corvos. Mesmo um deus teme perder sua memória, e seu pensamento – sem estes, ele reduz-se a nada, ou quase nada. Um deus louco não é muito mais do que um xamã louco…

***

Através desta nossa curta, porém espiritualmente profunda, viagem pelo mito de apenas um único deus, quantos ecos ocultos de nossa história não parecem ter vido a tona…

Não tenho dúvidas de que, assim como Odin, todo grande deus, todo grande mito, um dia foi homem: um grande e feroz guerreiro, um exímio caçador cuja lança jamais errava o alvo, um xamã ancião que intercedia no mundo espiritual para proteger e guiar sua tribo ou, quem sabe, apenas mais um que contemplou as estrelas, e tornou-se um artista, um poeta. Nossos mitos mais grandiosos provavelmente são as histórias das vidas de grandes homens e mulheres, mescladas com nosso temor e fascinação pelas forças da natureza, e com os aspectos psicológicos – nossas mais belas e profundas reflexões acerca do porque, afinal, estamos aqui neste mundo.

Eis porque nós mesmos também somos da raça dos deuses, e porque todos, deuses e homens, nada mais são do que emanações da Alma do Mundo, do Grande Mistério, do Oceano que somente alguns de nós se arriscaram até hoje em mergulhar, e de lá trouxeram as mais belas e aterrorizantes interpretações daquilo de oculto que sentiram – mas que, claro, seria impossível traduzir em palavras, em linguagem cognoscível.

Interessante como iniciamos este relato de Odin através das histórias em quadrinhos, onde o mito está mais diluído, mas é exatamente um escritor de quadrinhos que nos traz, atualmente, uma das definições mais completas da grande viagem dos corvos: “Magia é arte, a arte. E essa arte, seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma, é literalmente magia. A arte é como a magia, a ciência de manipular símbolos para operar mudanças de consciência” – define Alan Moore no genial The Mindscape of Alan Moore.

Toda a arte nasceu da mitologia. A pintura e a gravura nasceram na arte rupestre, pré-histórica, xamãnica. A música também se desenvolveu conjuntamente com os rituais religiosos ancestrais. Mesmo o teatro surgiu na Grécia antiga, quando os cultos ao deus Dionísio acabaram evoluindo para peças teatrais onde os atores, tal qual aos xamãs, vivenciavam aos mitos. Já a poesia, é pura magia posta em palavras… É exatamente por isso que a magia é a arte, a primeira arte, pois foi através dela que nossos ancestrais puderam transportar suas ideias e pensamentos, seus símbolos, para este nosso mundo de carne e osso. E o que é a mitologia senão o arcabouço simbólico de toda a nossa arte?

Sob um ponto de vista, você poderá dizer: “poxa, mas a magia é apenas isso?”; ou poderá dizer, sob outro ponto de vista: “puxa, mas então a magia é tudo isso!”. O seu ponto de vista dependerá tão somente da altura na qual seus corvos conseguem voar…

***

Há muito Heimdall não ouvia aquele pio tão familiar… De fato, há muitas eras nada se mexia – animal, homem ou deus – na ponte Bifröst; de modo que seu fogo havia quase se apagado, e suas cores se mesclado num acinzentado triste. “Eram os corvos”, o antigo guardião jamais se confundiria com tais sons, ainda que fosse difícil os escutar com o ouvido decepado, mergulhado na mesma fonte em que seu Senhor havia deixado um de seus olhos.

Soerguendo-se lentamente – algo que não fazia há gerações –, Heimdall tentou soprar seu berrante, mas faltou-lhe ar nos pulmões, e as aves negras adentraram a clausura dos deuses sem serem sequer anunciadas…

Não era necessário. Asgard estava morta, e todos os seus deuses e semideuses dormiam, algo que ansiavam há muito fazer. Há muitas eras nenhum pensamento chegara até ali, nenhuma invocação, nenhum pedido de boa colheita, nem mesmo um agradecimento… O Deus Corvo e sua linhagem estavam esquecidos, como estátuas antigas em meio à paisagem, das quais ninguém mais lembrava para que serviam, ou o que representavam…

Ainda assim, enraizado em seu trono, coberto pelo denso metal de sua ainda reluzente armadura, Odin dormia por detrás de sua extensa barba, branca como a neve do inverno. Quando o primeiro corvo pousou em seu ombro, foi o medo que o fez abrir lentamente o único olho que lhe restava: “Huginn está aqui, ele voltou, finalmente! Mas, onde está o outro, onde está Muninn?”

Seu outro corvo pousou imediatamente no outro ombro, e juntos eles lhe relataram tudo o que viram e ouviram nos últimos séculos, e sobre como o povo de Midgard, apesar de tudo o que foi dito a seu respeito, ainda o respeitava. E como, ainda hoje, alguns deles ainda tocavam as pedras antigas, e ainda invocavam a magia dos corvos… Foi então que, após tantas e tantas eras, o Grande Xamã sorriu uma vez mais, despiu-se de sua couraça metálica e, apanhando a mesma antiga capa com que perambulava pelo mundo ainda antes das civilizações, pôs-se a caminhar uma vez mais. Em sua mente, ecoavam os antigos sons que as pedras faziam…

Sigur Rós – Odin’s Raven Magic (ao vivo em Reykjavík/Islândia, 2002)

***
[1] Apesar de ainda incompleta, os livros já publicados da série (5 de prováveis 7, ao todo) já inspiraram uma legião de fãs, e uma excelente série de TV produzida pela HBO, canal a cabo americano. A melhor (e ao mesmo tempo pior) coisa que podemos falar de Martin é que “ele é o novo Tolkien”: melhor, pois realmente se trata de um dos grandes escritores de literatura fantástica das últimas décadas; pior, pois o seu estilo literário quase nada tem a ver com o de Tolkien, sendo bem mais ancorado na história “real” do que na mitologia em si.
[2] Mais tarde tornaram-se equivalentes a tempestuoso ou violento, sentido que os cristãos faziam empenho de acentuar, procurando depreciar a figura do deus nórdico.
[3] Em gaélico antigo a palavra “bran” significa exatamente “corvo”. Há também um gigante gaulês antigo chamado Bran o Abençoado, que em sua mitologia foi o rei de toda a Bretanha, e que também era associado à imagem do corvo. Martin provavelmente também se interessou pela mitologia celta.
[4] Na mitologia nórdica Midgard é a Terra (este mundo), portanto Odin permanecia em Asgard, mas seus corvos sobrevoavam o nosso mundo.
[5] Traduzido da interpretação (em inglês) de Benjamin Thorpe, conforme aparece na Wikipedia.

Este post originalmente foi publicado numa quarta-feira, e agora novamente…

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Crédito das imagens: [topo] Daaria (Bran e o corvo de três olhos); [ao longo] Google Image Search (Odin e seus corvos)

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-corvos-de-wotan-parte-final

A Teosofia Termina no Vaishnavismo

Por Srila Prabhupada

O resumo de uma palestra proferida na sessão de abertura da Quinquagésima-Sexta Convenção Anual da Sociedade Teosófica na América, realizada em 25 de julho de 1943, foi-me entregue por um amigo bem intencionado em um panfleto sob o título “O Teosofista como o Cidadão Ideal na Guerra e na Paz”. Ao ler o panfleto, pudemos reunir os seguintes pontos que levam aos ideais e à filosofia do Vaishnavas.

O Teosofista acredita em uma Consciência Personalizada ou uma Vontade Direta por trás da operação da atividade universal. Esta conclusão é bastante lógica, como podemos ver em todos os campos de nossas atividades. Podemos observar que nada no mundo é possível de ser realizado sem uma Vontade Direta. A matéria não tem poder de movimentação sem um toque de Livre Vontade direcionadora e como tal é bastante natural pensar que toda a natureza material, por maior e consumadora que seja, é dirigida por trás, por uma grande Vontade que é denominada de forma diferente por diferentes especuladores.

Mas os Vaishnavas ou os devotos da Personalidade Absoluta da Divindade, não só acreditam em uma Consciência Personalizada no processo de direção das atividades universais, mas também aceitam Sri Krishna como a Pessoa Absoluta que é a raiz de todas as causas e de todos os efeitos.

Neste contexto, se nos referirmos a literaturas autênticas como Bhagavad Gita, Brahma-samhita etc., elas podem nos ajudar a nos aproximar mais da Consciência Personalizada da Personalidade Absoluta da Divindade. A primeira estrofe do Quinto Capítulo em Brahma-samhita, afirma muito enfaticamente que o Senhor Sri Krishna, que é conhecido como Govinda, é a Suprema Divindade. Ele tem um corpo espiritual eterno e bem-aventurado. Ele é a Origem de todos e Ele não tem outra origem, pois Ele é a Causa Principal de todas as causas.

Sua Divina Graça Sri Srimad Bhakti Siddhanta Saraswati Goswami Prabhupada explica esta estrofe da seguinte forma:

“Krishna é a entidade Suprema exaltada tendo Seu nome eterno, forma eterna, atribuição eterna e passatempos eternos. O próprio nome Krishna implica sua designação amorosa, expressando por sua eterna nomenclatura o Acme de entidade. Seu eterno e belo corpo azul-celeste brilhando com intensidade de conhecimento sempre existente, tem uma flauta em ambas as mãos. Como sua inconcebível energia espiritual está se estendendo, ele ainda mantém seu tamanho médium todo encantador por seus instrumentos espirituais qualificados. Sua suprema subjetividade é bem manifestada em sua forma eterna. A presença concentrada de todos os tempos, o conhecimento descoberto e a felicidade inebriante têm nEle sua beleza. A porção mundana manifestativa de Seu próprio Eu é conhecida como Paramatma, Iswara (Senhor Superior) ou Vishnu (Tudo-animador). Por isso é evidente que Krishna é a Única Divindade Suprema. Seu incomparável ou único corpo espiritual de encanto superexcelente é eternamente revelado com inúmeros instrumentos espirituais (sentidos) e atributos incontáveis mantendo sua localização significante adequadamente, ajustando-se ao mesmo tempo por seus inconcebíveis poderes conciliadores. Esta bela figura espiritual é idêntica a Krishna e a Entidade Espiritual de Krishna é idêntica a Sua própria figura”.

“A própria entidade combinada de intensidade de presença eterna de cognição feliz é o charmoso Ícone de mira ou transcendental. Segue-se que a concepção da magnitude indistinguível sem forma (Brahman), que é um indolente, laxista, pressentimento de bem-aventurança cognitiva, é meramente uma penumbra de intensidade de brilho misturado dos três concomitantes, ou seja, o bem-aventurado, o substantivo e o cognitivo. Este Ícone de manifestação transcendental de Krishna em sua face original é o fundo primordial da magnitude infinita Brahman e de toda a Superalma universal de Krishna como verdadeiramente visionada em seus variados passatempos, tais como Proprietário de vacas transcendentais, Chefe de vaqueiros, Consorte de criadas de leite, Governante da Morada terrestre Goloka e Objeto de adoração por residentes transcendentais das belezas de Goloka, é Govinda. Ele é a causa raiz de todas as causas que são os agentes predominantes e predominantes do Universo.

O olhar de Sua porção fracionária projetada na água Sagrada Originária, ou seja, a Alma Excedente Pessoal ou Paramatma, dá origem a uma potência-natureza secundária que cria o universo mundano. Esta energia intermediária da Superalma traz as almas individuais analogamente aos raios emanados do Sol”. O olhar de Sua porção fracionária projetada, como mencionado acima, é confirmado no 10º sloka do nono capítulo de Bhagavad Gita. A Personalidade da Divindade diz: “A Natureza Material (Prakriti) sob minha vigilância, dá à luz tudo que se move ou se fixa (animado ou inanimado) e por este processo, ó filho de Kunti, o universo evolui”.

Este olhar, superintendência ou vigilância, como podemos preferir chamar pela Suprema Personalidade da Divindade, é como a superintendência de um chefe executivo de um governo que faz tudo como vontade direta, mas ainda assim não o vê em todas as esferas das atividades governamentais. Sem ele, nada pode ser feito a não ser à face da atividade que ele parece estar ausente, pois o desempenho é completado por outro agente. Tal é a relação da Natureza Material com a Personalidade Absoluta da Divindade.

A Natureza Material é chamada de ‘Mãe Brahman’, ou seja, Ela está impregnada com as sementes da criação pela Personalidade Absoluta da Divindade, conforme confirmado no Bhagavad Gita no 14º capítulo.

Sri Krishna diz ali “Que a Natureza Material que também é chamada ‘Mahat Brahma’ é meu ventre; aí eu coloco as sementes ou germes da criação de onde vem o nascimento de todas as entidades, ó filho de Bharata”.

Sob a Consciência Personalizada em que o Teosofista acredita, é natural concluir que existe um grande plano para o universo criado.

Os Vaishnavas aceitam este plano de uma maneira muito simples. Sendo a Personalidade Suprema da Divindade o Desfrutador Absoluto e Criador de tudo o que é, o plano é feito de tal forma que tudo na criação é destinado à gratificação do sentido do Ser Supremo. Qualquer um que crie perturbação neste grande Plano do Ser Supremo é considerado pelo Vaishnava como Aparadhi ou Ofensor e aí ele conclui muito naturalmente que quando uma entidade ou alma Jiva se esquece de si mesmo como o eterno servidor do Ser Supremo para o ajuste do Grande Plano e se considera um desfrutador, ele é imediatamente apanhado pela potência externa do Ser Supremo que é chamado de Maya, e começa sua existência na natureza material esquecendo-se de sua verdadeira natureza de Espírito. Ele arrasta uma vida condicional sob os modos da Natureza, depois disso.

Este Grande Plano é explicado no Bhagavad Gita em dois slokas finais, ou seja, o 65o e o 66o slokas do 18o Capítulo que concluem os ensinamentos de Bhagavad Gita. A Personalidade da Divindade Sri Krishna diz ali que cada um deve oferecer-se a si mesmo como o eterno servo transcendental ou devoto de Sri Krishna com coração e alma. Ele não deveria ser como o “Karmayogi”, “Jnanyogi” ou “Dhyanyogi”, mas deveria ser “Bhaktayogi” puro e simples e, em cada esfera de sua atividade, ele deveria servir apenas ao propósito da Personalidade Suprema da Divindade, de acordo com Seu Grande Plano, sob a orientação Dele ou de Seu representante de boa-fé. Isto o levará gradualmente à posição de servidão eterna da Pessoa Eterna e este conselho foi dado a Sri Arjuna porque ele era o peito e o amigo mais querido de Sri Krishna.

Dentro deste plano de ação, Arjuna também foi aconselhado a desistir de todos os outros compromissos e simplesmente a seguir a Personalidade da Divindade. No início das lições de Gita, a Personalidade da Divindade explicou a Arjuna tantos compromissos diferentes como os deveres de um renunciante, de um Sanyasin, de um Yogi, ou um Jnani, de um Karmi, etc., e agora ele ordena diretamente a Arjuna que desista de todos esses compromissos e siga diretamente os desejos da Personalidade da Divindade. Dessa forma, ele garantiu a Arjuna que o protegeria de todos os vícios que pudessem acumular por não ter tentado cumprir todos os outros deveres e por isso teve que lamentar por nada. Pelos atos de serviço amoroso transcendental à Personalidade da Divindade, a pura natureza espiritual de cada um e tudo se torna manifesta. Os desempenhos de todos os chamados deveres neste mundo mundano, tais como o desempenho de deveres religiosos, deveres mundanos, deveres purificadores para um estado de vida superior, aquisição de conhecimento, meditação para controlar os sentidos e a mente, etc., são realizadas para se elevar da vida condicional da existência corporal e mental e para alcançar a existência espiritual de forma simples e simples; mas quando se transcende todo esse estado condicional de vida e se eleva alto pela atração espiritual da forma eterna e bem-aventurada de Sri Krishna, ele não tem nada a fazer e nada a realizar.

Todas as atividades da existência material são direcionadas a algum tipo de ideal ou plano. “O universo nunca é em momento algum o resultado de um mero ‘concurso fortuito de átomos’, mas, por outro lado, o resultado das operações da Direção da Vontade”. A partir disto, segue-se a conclusão lógica de que o Testamento opera de acordo com um plano: Em resumo, um crente da Teosofia aceita como fato que, “em e através de todas as coisas, uma Vontade Direta está em ação, com um plano de Ação de momento em momento em direção a um fim predominante”. Essa é a versão do Teosofista de uma maneira diferente como funciona o Vaishnavita. O fim predominado é servir ao propósito do Absoluto Predominador.

Em outras palavras, todas as nossas atividades são dirigidas ou ao fim de algum propósito corporal, ou algum propósito mental ou algum propósito espiritual. As atividades até o fim de algumas finalidades corporais e mentais não têm praticamente nenhum valor permanente, tendo em vista que o próprio fim é transitório e temporário e, portanto, são classificadas sob duas cabeças: boas ou más. Mas as atividades para o fim espiritual são chamadas transcendentais para todos os bons e todos os maus propósitos e como tais atividades podem ser divididas em três departamentos para a existência permanente e eterna. Esses três departamentos podem ser denominados apego à existência espiritual impessoal em oposição à existência material variegada, apego à Divindade Tudo-Perigosa ou ao aspecto localizado de Paramatma, a Superalma, ou apego à Personalidade Predominadora da Divindade em sua forma todo-brilhante, eterna e todo-atrativa. Se analisarmos todas as nossas atividades neste mundo, elas podem ser agrupadas sob qualquer um dos diferentes títulos acima, ou seja, mundano ou transcendental, temporário ou permanente e todas essas atividades atingem algum tipo de atmosfera de acordo com o plano ou ideal do executante. Eles são nomeados de forma diferente sob diferentes cabeçalhos e diferentes planos, mas tais atividades que são orientadas para a gratificação do sentido transcendental do Predominador, Personalidade da Cabeça de Deus Sri Krishna, são denominadas como devoção sem vínculo. Tais atividades são atividades devocionais e nunca devem ser mal concebidas como atividades comuns sob os títulos de plano de ação corporal ou mental. Estas atividades ou as atividades devocionais são atividades reais no final do Grande Plano e nunca devem perturbar o ajuste do Grande Plano, enquanto todas as outras atividades podem ser boas ou ruins, são simplesmente perturbadoras para o Grande Plano do Predominador e devem, portanto, ser abandonadas por alguém que deseje trabalhar de acordo com o Plano.

No nono capítulo (24º Sloka) a Personalidade da Divindade declara enfaticamente que “Eu sou o Desfrutador e Senhor também de todos os sacrifícios, mas os homens não Me conhecem na verdade e por isso sofrem”.

Sempre que qualquer atividade que não satisfaça os sentidos transcendentais da Personalidade da Divindade ou que não ajuste o Grande Plano de Ação é chamada de pecado. Quando Sri Krishna quis que Moharaj Judhisthir contasse uma mentira direta a Dronacharya, Moharaj Judhisthir primeiro se recusou a contar tal mentira e depois contou a verdade de uma forma que aparentemente parecia aos homens comuns ser inverdade de uma forma redonda. Mas o próprio Moharaj Judhisthir disse a verdade na medida do possível. Mas o resultado posterior foi que Judhisthir teve que visitar o inferno pela razão de que ele se recusou a contar uma mentira de acordo com o Plano de Sri Krishna. Os homens comuns entenderam que Judhisthir foi obrigado a visitar o inferno porque ele disse mentira de uma forma rotunda, mas os savants puderam entender que ele teve que visitar o inferno pela razão de que ele se recusou a dizer mentiras de acordo com a ordem de Sri Krishna. A importância da história é que contar mentiras ou dizer a verdade não importa se ela pode se reconciliar com o Fim Predominado. Na vida comum também podemos julgar um meio pelo resultado de seu fim. O fim justifica os meios. Se o fim é satisfazer o Grande Plano do Predominador Personalidade Absoluta da Divindade, não importa se os meios estão certos ou errados de acordo com o julgamento deficiente dos juízes imperfeitos. A Personalidade Absoluta da Divindade sendo o Desfrutador Supremo Ele deve ser satisfeito por todos os meios que é o Grande Plano de acordo com a filosofia dos Vaishnavitas.

O Teosofista empírico dá a este Grande Plano da Pessoa Absoluta nomes diferentes como “o Plano de Deus, que é Evolução”, o “Mundo Arquetípico”, um “Poder, não nós mesmos”, que faz justiça” e o Teosofista argumentará “que em e através de todas as coisas, de um elétron a uma estrela, de uma ameba a um anjo, há um padrão” e quem descobriu este padrão é chamado de Teosofista.

O Vaishnavita acredita no “Plano de Deus, que é Evolução”, mas não do modo como o Teosofista aceita. O Teosofista acredita que “todas as coisas estão se movendo para um fim ordenado, assim como uma raiz de lótus enterrada na lama, no processo de seu crescimento ordenado, produzirá inevitavelmente a bela flor”. Mas o Vaishnavita lhe aplicará mais razão do que qualquer outro filósofo, e ele dirá que o processo de crescimento ordenado também é condicional. A semente ou raiz de um lótus pode estar enterrada na lama, mas ainda assim o crescimento será verificado se não houver ajuda adequada da Natureza ou do Prakriti. A condição é oferecida pela natureza que faz com que a flor cresça ou morra no botão. A evolução não é constante de um estágio para outro, mas o mesmo depende também dos modos da Natureza Material e de acordo com os modos de trabalho de cada um. Portanto, não se deve concluir que uma vez que uma alma ou espírito Jiva é encarnado em forma humana, ele não é mais transformado em tigre ou anjo, mas de acordo com os Vaishnavitas a Evolução é tão flexível que um Anjo pode se tornar um tigre ou um tigre pode se tornar um Anjo a qualquer momento de acordo com as obras do livre arbítrio ajudado pelos modos da Natureza.

Cada alma individual que faz parte da Superalma tem independência subordinada à independência Absoluta do Predominador e esta independência nunca é prejudicada pela independência Predominadora da Pessoa Absoluta. Ele está cheio em Si mesmo e sua independência nunca é condicional à independência da alma Jiva. De acordo com o Plano Arquetípico, o Vaishnavita acredita que o Homem é feito de acordo com o próprio Modelo de Deus e, portanto, o Homem é considerado o ser mais elevado no processo de Evolução e é realmente assim, como podemos julgar pelas circunstâncias favoráveis.

A altura do homem, sua beleza em relação à cor e forma, sua inteligência e força, seu poder de resistência e acima de tudo seu desenvolvimento psíquico indicam claramente que ele é o mais alto de todos os seres criados. E para isso o Vaishnavita afirma que a encarnação de uma alma Jiva como ser humano é a forma de vida mais cobiçada e rara que é útil para a salvação espiritual dos encarnados e, portanto, o Vaishnavita conclui que esta forma de vida humana é muito mais importante do que a vida de um anjo e o que falar de outros em animais inferiores.

Mas infelizmente muito poucos homens percebem esta importância da vida humana e a maioria deles prefere aproveitar a vida ao máximo em suas melhores capacidades nas condições oferecidas pela natureza Material. Quando um homem percebe que sua forma humana de vida lhe foi concedida após crostas e crostas de nascimentos e mortes através de muitas espécies de encarnação pelo processo de Evolução e reconhece “um Poder, não nós mesmos, que faz justiça” e como tal distingue o mesmo com outro poder que faz justiça indiretamente, então ele tenta elevar-se à incondicional vida e atividade completamente livre no reino da Divindade e para este propósito ele engaja sua vida, dinheiro, inteligência e palavras para alcançar a mais alta forma de existência espiritual.

No processo de Autorrealização acima, o Vaishnavita como o Teosofista não só percebe que ele é também, em alguma medida, o Bom, o Verdadeiro e o Belo, mas também se lembra constantemente que quantitativamente sua bondade, veracidade e beleza nunca são comparáveis com as do Predominador. Como dizem os filósofos egípcios, “O Princípio que dá vida habita em nós, e sem nós, é imortal e eternamente benéfico, não é ouvido ou visto, ou cheirado, mas é percebido pelo homem que deseja a percepção”; assim, o Vaishnavita também percebe o mesmo Princípio tanto qualitativa quanto quantitativamente. Qualitativamente ele não faz diferença com o grande Predominador, mas quantitativamente ele sempre mantém uma diferença entre o Predominador e o Predominado.

Assim, o Vaishnavita não só reconhece “um Poder que não é nós mesmos, que faz justiça”, mas também reconhece o mesmo de forma indireta e dá a estes diferentes nomes, tais como Jogamaya e Mohamaya e as Jiva-almas que estão sob o controle de qualquer um dos Poderes ou Energias acima, são chamados de Poder Marginal. E acima de todos estes três Poderes, coloca o Poder ou o Predominador como a Personalidade Absoluta da Divindade. A Filosofia de Kshetra e Kshetrajna como discutida no Bhagavad Gita é baseada nestes três poderes e acima deles a Personalidade Todo-Poderosa da Cabeça-de-Deus Sri Krishna. Nosso ensaio sobre a Divindade e Suas potencialidades publicado neste folheto tenta explicar este assunto de forma mais elaborada. A conclusão pode ser tirada assim: a Divindade é o Todo e o Todo Poderoso e os Poderes podem ser grosseiramente divididos em três títulos que são como acima. O Vaishnavita, como o Teosofista, se acredita como uma unidade no mesmo Todo, sob o subtítulo Poder Marginal.

O deleite do Teosofista no sentimento de fraternidade de todas as entidades vivas é o plano mais alto do Vaishnavita chamado de palco de Mohabhagabat; mas o processo de realização dessa forma mais alta de fraternidade universal pelo Vaishnavita é diferente daquele do Teosofista.

O ideal de fraternidade universal do Teosofista é sem uma relação Central, enquanto que a fraternidade universal do Vaishnavita se baseia em uma relação Central. O Teosofista coloca seu ideal de fraternidade universal da seguinte forma:

“Mas ser irmão de tudo o que vive significa para o Teosofista uma responsabilidade para com tudo o que vive”. Como o Teosofista é um ser humano, sua responsabilidade é para com todos os outros seres como ele”. O conceito de uma Fraternidade Universal de toda a Humanidade passa de um mero ideal intelectual a uma Realidade sempre presente, sempre impulsionadora.

“É a partir desta realização de uma interligação de toda a humanidade, e de uma maneira muito precisa a interligação do homem e do homem dentro de qualquer comunidade, seja pequena como uma aldeia, ou grande como uma nação, que a realidade subjacente à palavra ‘cidadão’ deriva suas implicações de responsabilidade, dever e sacrifício. O Teosofista sabe, por seu conhecimento do padrão, que os homens não se uniram para formar comunidades por causa da ganância ou com o propósito de autoproteção; mas que se uniram principalmente porque devem ser mutuamente úteis, cada um para dar o que pode aos outros, e receber deles o que precisa e ajudar a liberar em todos os outros a Bondade, o Amor e a Beleza que se escondem no coração de cada homem, mulher e criança.

“É para este objetivo que o Grande Plano tem fomentado a civilização de selvagem para civilizado; portanto a palavra civilizado conotava os deveres da Cidadania. Entre estes deveres estão uma defesa corajosa daqueles que são injustamente atacados, para proteger os fracos contra a exploração pelos fortes, e para liberar a Beleza oculta do Divino em todos os homens e coisas, ajudando no desenvolvimento das ciências e das artes, e por todas as formas que apelam ao Altíssimo no Homem e que ligam o homem ao homem e nação à nação”.

O Vaishnavita aceita todos os princípios acima no vínculo da fraternidade universal, mas ele pode ver que estes laços de irmandade são apenas superficiais e não podem suportar um relacionamento permanente. Grandes líderes de pensamento em quase todos os países do mundo tentaram este método de ligar o homem ao homem e nação à nação por algum tipo de método altruísta, mas o Vaishnavita difere deles que tal processo pode causar temporariamente algum tipo de fraternidade externa entre homem e homem, etc., mas falhará no final, a menos que não seja ajudado a reviver sua natureza inata tecnicamente chamada de “Swarupa” como distinguida de sua “Birupa” ou natureza externa. A valente defesa daqueles que são injustamente atacados ou protegem os fracos da exploração pelos fortes, são sem dúvida dignos de menção por ligarem o homem ao homem e nação a nação, mas a Vaishnavita quer tornar cada um e todos tão fortes que ele não precisaria de nenhuma proteção externa nem será explorado por… …ninguém mais. O Vaishnavita diz que uma entidade viva quando ele esquece sua verdadeira “Swarupa” como a eterna unidade de serviço transcendental subordinada, torna-se explorada e constantemente atacada pela “Birupa” ou natureza material. A exploração e o ataque que geralmente vemos externamente sobre nossos semelhantes não são mais que os ataques e a exploração da natureza material sombria que tenta colocar a alma condicionada no caminho da retidão num método indireto – assim como o professor castiga o aluno a fim de colocá-lo na retidão. A ajuda temporária para salvar um de tal ataque ou exploração, pode salvar um de tais ataques ou exploração por um agente visível da natureza material, mas isso não salvará o doente das mãos da natureza material que é chamada de Deus e insuperável no Bhagavad Gita. Quando um culpado é punido dentro das paredes de uma prisão pelo Superintendente da prisão, o grito infantil de outros prisioneiros ou o protesto deles pode dar algum alívio temporário ao prisioneiro destinado à punição, mas isso não pode lhe dar alívio real. A fraternidade dentro dos muros da prisão pelos próprios prisioneiros não melhorará certamente seu ideal de fraternidade universal sob as rédeas do carcereiro responsável.

Todo o ideal de fraternidade universal, paz e amizade certamente dará prazer permanente assim que os irmãos receberem alívio da exploração e dos ataques da Natureza Material, assim como os prisioneiros, quando forem libertados do controle do Superintendente da Cadeia para desfrutar da doçura da fraternidade concebida por eles. Dentro dos muros da fraternidade de uma prisão para alívio mútuo está a revolta contra as leis da Cadeia e como tal a fraternidade universal dentro das leis da Natureza Material não tem sentido.

O Vaishnavita, portanto, tenta tirar um primeiro da exploração e ataque das mãos da Natureza Material, colocando um sob a orientação do Yogamaya e depois só ele concebe para uma verdadeira fraternidade universal entre homem para homem e nação para nação.

O processo de obter alívio da exploração e do ataque das mãos da Natureza Material é entregar-se incondicionalmente aos cuidados da Personalidade Absoluta da Divindade e essa é a fórmula reconhecida no Bhagavad Gita. Quando alguém consegue “VOLTAR A DEUS” ele pode realmente formar uma unidade nos ideais da Fraternidade Universal e nenhuma outra.

Toda ação no mundo mundano é influenciada pelos modos da Natureza Material e como tal são ativados ou por bons ideais, paixão ou ignorância. As ações de primeira classe são realizadas sob os modos de bondade, mas mesmo tais ações são influenciadas pela natureza material como resultado da qual elas são não permanentes, imperfeitas e não propícias.

Assim, para se livrar das mãos exploradoras e atacantes da natureza material, é preciso transcender os modos da natureza material através do serviço constante da Personalidade da Divindade, pois esse é o processo de transcender os modos da natureza material. Quando cada um, portanto, está engajado no serviço da Personalidade da Divindade é então e somente em relação à Personalidade da Divindade, tudo se torna perfeito, permanente e transcendental. Este é o processo concluído em Bhagavad Gita.

A Personalidade da Divindade diz no 26º sloka do 14º capítulo:

“E aquele que Me adora por uma devoção exclusiva no serviço, tendo passado por todas as três modalidades, está em conformidade com a natureza de Brahman (o Absoluto)”.

Assim, de acordo com o Vaishnavita, somente aqueles que se engajarem no serviço devocional da Personalidade da Divindade por sua vida, dinheiro, inteligência e palavras podem ser elegíveis para ser um membro do vínculo da fraternidade universal. Ao servir ao todo, somente as unidades podem ser servidas.

Os ideais do Teosofista, tal como foi dito por H. P. Blavatsky, são os seguintes:

“Que a tua Alma empreste seus ouvidos a todo grito de dor, como se o lótus batesse seu coração para beber o filho da manhã”.

Não deixe o sol feroz secar sobre lágrimas de dor antes que você mesmo as tenha enxugado do olho do sofredor”.

Mas que cada lágrima humana ardente caia sobre seu coração e lá permaneça; nem nunca a escove até que a lágrima seja removida.

Estas lágrimas, ó misericordioso de coração, são os rios que irrigam os campos da caridade imortal”.

Estas palavras só podem ser dadas forma prática por aqueles que dedicaram sua vida por cento do serviço da Personalidade da Divindade e sem isso simplesmente permanecerão como ideais de ouro que nunca serão cumpridos no reino do homem. Os devotos só pensam pelos caídos e abatidos, tentam pegá-los da lama da existência material e são eles que apenas tentam para o benefício permanente dos que sofrem com a exploração e o ataque das mãos da Natureza Material Soturna representada pela figura da Deusa Kalika em modo destrutivo.

A “Caridade imortal” só pode ser realizada quando somos capazes de reavivar a lembrança do serviço eterno da Personalidade da Divindade. Como este serviço pode ser realizado é um assunto a ser delineado em outro capítulo, mas como o Teosofista diz que tornar-se um cidadão no reino de Deus implica responsabilidade, dever e sacrifício, a responsabilidade de um Vaishnavita é reavivar na consciência de todos e de cada um, a relação transcendental da Divindade. O dever é primeiro se engajar no serviço transcendental da Personalidade da Divindade e depois tentar engajar outros também no mesmo compromisso transcendental e, portanto, deve haver sacrifício de vida, dinheiro, inteligência e palavra para a propagação e o renascimento de tais atividades transcendentais. O Senhor Jesus Cristo sacrificou Sua vida por esta causa e todos que querem entrar no Reino de Deus devem estar prontos para sacrificar pelo menos parte de sua renda se não outras coisas, a fim de transformar este inferno no Reino de Deus. Deus é Grande e Ele se reserva o direito de não ser exposto ao mundano especulador e filósofo seco, mas Ele próprio aparece por Sua própria vontade e independência quando lhe são oferecidos serviços amorosos transcendentais em todos os aspectos. O Sol aparece pela manhã apenas por Sua própria vontade e sem estar preso ao esforço alheio do cientista. O cientista deixará de fazer aparecer o Sol à noite pela descoberta de todos os holofotes e instrumentos científicos.
Quando Ele aparece, a ignorância desaparece e a pessoa é capaz de vê-lo Todo Bom, Todo Sabido e Todo Bonito e também é capaz de ver a si mesmo, que ele também é Todo Bom, Todo Sabido e Todo Bonito qualitativamente. Quando ele se levanta, pode-se ver o sol nos raios do sol e não só o sol, mas também a si mesmo e todas as outras coisas por ele. Assim como com a aparência do Sol, a escuridão voa, assim com a aparência da divindade por seu nome transcendental, fama, forma, qualidades, etc., a ignorância, a pobreza e a miséria desaparecem; esse é o veredicto de todos os aforradores e escrituras.

O Teosofista tenta conhecer a Divindade e Seu Reino no Padrão em graus lentos no processo de esforço próprio e pelo processo indutivo de generalização, mas o processo de Vaishnavita é o oposto. Ele se aproxima de uma Autoridade Superior que conhece a Divindade e Seu Reino e tenta saber dele submissamente pelo processo de dedução em um modo de serviço e perguntas sinceras relevantes para conhecer a verdade. O trigésimo quarto sloka do quarto capítulo de Bhagavad Gita ordena isto com as seguintes palavras:

“Aprenda isto (conhecimento da Divindade e de Seu Reino, etc.) fazendo reverência (isto é, tornando-se discípulo) por contraquestões e por serviços. O Sábio (aquele que realizou a Divindade e Seu Reino) que viu a Verdade te ensinará (este conhecimento)”.

O processo do Vaishnavita é mais fácil e perfeito do que o processo dos filósofos empíricos que tentam conhecer Deus e Seu Reino por causa de seu pobre fundo de sentidos limitados e conhecimento imperfeito derivado da especulação sensual. No curso normal de nossa vida também nos aproximamos da pessoa certa para aprender um assunto perfeitamente. Não nos aproximamos de um engenheiro se quisermos aprender a ciência dos medicamentos. Da mesma forma, se quisermos conhecer Deus e Seu reino ou se quisermos ser servidores de Deus, devemos nos aproximar de um verdadeiro servo de Deus e não devemos nos aproximar de um servo de cachorro. A menos, portanto, que não nos aproximemos dos pés de alguém que seja transcendentalmente sábio e perfeito, é inútil falar de Deus e de Seu reino.

Nesse processo, o Vaishnavita percebeu Sri Krishna como a Personalidade Absoluta da Divindade e a Origem de todas as causas. Os Grandes Goswamins descobriram 64 qualidades transcendentais em sua plenitude em Sri Krishna que nunca devem ser descobertas em nenhuma outra pessoa ou deus e, portanto, O encontraram (Krishna) como Todo Bom, Todo Conhecedor e Todo Bonito.

O Teosofista percebe Sri Krishna em seu aspecto impessoal Brahman ou Vishnu que reside dentro como Paramatma e fora como a Virata e esta realização está em perfeita harmonia com a observação do Vaishnava. Mas o Vaishnava vai ainda mais fundo e O vê como a Personalidade da Divindade “Bhagwan”. O aspecto que permeia tudo da Personalidade da Divindade é realizado pelo Vaishnava simultaneamente com a realização de seu Aspecto Pessoal. O exemplo vívido para isto é Pralhad Moharaj. Quando Pralhad Moharaj estava sendo ameaçado por seu pai ateu Hiranyakashipu de ser morto instantaneamente, Ele (Pralhad Moharaj) permaneceu firme e corajosamente sem qualquer cuidado com as palavras ameaçadoras de seu pai. Hiranyakashipu perguntou: “Como é que você, menino tolo, ousa negligenciar minha raiva que ameaça todo o universo? Sob a influência de quem você é tão destemido que não se importa com as minhas palavras”?

Pralhad Moharaj respondeu a seu pai: “Oh rei, a força da qual eu dependo não é apenas minha força, mas é também a sua força e essa força é também a força de todos os homens fortes. Sob essa força tudo anima ou inanimado neste universo funciona como subordinado. Ele é o Todo-Poderoso, Ele é o Tempo, Ele é o Poder dos sentidos, Ele é a força da mente, Ele é a força do corpo e Ele é o espírito dos órgãos dos sentidos. Seu poder é ilimitado, Ele é o Maior de todos, Ele é o Senhor dos três modos da natureza e Ele, por sua própria força, cria, mantém ou destrói todo este universo. Você pode desistir deste caráter infiel, não nutra esta natureza de inimizade e amizade dentro do seu coração, mas seja igual a todos os seres. Não há outro inimigo maior do que a mente que está descontrolada e sempre se extraviando. Sentir para todas as entidades como uma só conosco é a forma mais elevada de religião. Nos tempos antigos, alguns homens tolos como você costumavam pensar como se tivessem conquistado todos os quatro cantos do universo, sem conquistar os seis sentidos dentro de si mesmos, que são objetos que matam a todos. Mas não há inimigo para aquele, que é igual a todas as entidades, santo autoconquistado. O inimigo é criado apenas por nossa ignorância”.

O pai ateísta ficou muito irritado com estas palavras de seu filho Pralhad Moharaj e começou a insultá-lo dizendo: “Seu tolo, você se atreve a me fama de mal e se chama de conquistador de todo inimigo e, portanto, você está orgulhoso de sua aquisição. Com isto posso entender claramente que você está fortemente desejoso de morrer, pois conheço aqueles que querem morrer, dizem todas estas palavras de lixo diante de mim. Você acredita que existe algum Deus mais poderoso do que eu? Onde Ele vive? Se Ele é todo-penetrante, por que Ele não vive dentro deste pilar diante de mim? Eu arrancarei sua cabeça de seu corpo que está tão orgulhoso e deixarei seu Deus vir aqui e salvá-lo”.

Pralhad Moharaj ainda permaneceu em silêncio, pois sabia que Deus é onipresente e que Ele certamente viverá dentro do pilar marcado por Hiranyakashipu. Hiranyakashipu quebrou o pilar e a Personalidade da Divindade saiu dele na forma de Narasingha apenas para matar o ateu Hiranyakashipu e outras pessoas demoníacas.

Assim, a realização do Vaishnavita da Divindade Absoluta é plena e perfeita em todos os seus diferentes aspectos, enquanto a realização do Empirista ou do Trabalhador Místico (Iogins) ou Fruitivo é apenas parcial e imperfeita, pois eles só podem perceber em um aspecto da Verdade Absoluta.

O Teosofista como uma unidade no Todo deseja moldar seu destino e, portanto, o destino do Todo. A alma individual quando ele se torna um Vaishnava ou seja, se identifica com o interesse do Visnu, o Senhor do Universo, é então apenas ele percebe sua verdadeira posição como unidade no Todo e assim ele descobre seu dever para com o Todo também. Ele percebe que faz parte do Todo e não é igual ao Todo. Ele é simultaneamente um com o Todo e diferente também. Ele percebe que Sri Krishna, a Personalidade Absoluta da Divindade, é Grande e Infinita enquanto ele mesmo, embora a parte e parcela desse Infinito, seja infinitesimal. Ele é o Fogo e as almas individuais são inumeráveis faíscas emanadas Dele. Como tal, qualitativamente, as almas individuais têm a mesma potência de fogo que o próprio Fogo. Sri Krishna, a Personalidade Absoluta da Divindade, é Todo-atraente, portanto, a alma individual, quando realmente se dá conta de sua própria posição e assim se torna atraída por Sri Krishna, é então capaz de atrair milhares e milhares de outras almas individuais para os pés de lótus de Sri Krishna. Em outras palavras, quando uma alma individual se realiza plenamente pela misericórdia de Sri Krishna, então só é possível para ele atrair outros para os Pés de Lótus da Personalidade Absoluta da Divindade. Nesta fase, somente a alma individual pode perceber que ele é um eterno servidor do Grande e do Infinito. A vida eterna é sua constituição e o amor transcendental da Divindade é seu negócio ou religião. Como tal, o Vaishnavita nesta fase molda seu destino por atividades que transcendentalmente aumentam seu Amor a Deus e da mesma forma ele tenta para os outros de modo que eles também possam reviver sua constituição latente de Amor e Serviço para a Pessoa Absoluta. Estas atividades são tão práticas quanto temos que fazer nossos trabalhos diários necessários e nunca devem ser simplesmente uma especulação intelectual com resultado de fadiga e desapontamento. Os trabalhos práticos são tão reais que gradualmente se colocam no oceano da bem-aventurança transcendental e todo o universo aparecerá a tal amante de Deus, como todo bem-aventurado, eterno e cheio de luz. Isto é chamado de vida pura e eterna incondicional da alma individual em sua existência espiritual.

Como tal, o Vaishnavita pode distinguir a vida de uma alma individual em divisões: incondicional e condicional. Como mencionado acima, a alma individual permanece a mesma parte e parcela do Grande e do Infinito, tanto no estado incondicional quanto no condicional. Nunca deve ser mal entendido que no estado incondicional a alma individual se torna o Infinito do Infinito. E porque a alma individual é infinitesimal sempre e nunca o Infinito, ela está sujeita a se tornar condicional sob as leis da natureza material e se fosse infinita em qualquer estágio, ela nunca teria sido sujeita a uma vida condicional sob as leis da natureza. Essa é sua posição marginal.

[Este artigo também apareceu em duas partes em Back to Godhead Vol I Parte VIII e Vol I Parte IX publicado em 1952].

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PRABHUPADA, Srila. Theosophy Ends in Vaishnavism. In. Back To Godhead. January, 1944. Disponível em:
<https://back2godhead.com/theosophy-ends-in-vaishnavism/>. Acesso em 4 de março de 2022.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-teosofia-termina-no-vaishnavismo/