Alquimia e Harry Potter, parte I

Arianrhod.

Este artigo traçará a história antiga da alquimia, suas metas e objetivos, e explicará os sete estágios da transformação alquímica. Mais tarde, discutirei os livros um de cada vez, discutindo as imagens alquímicas e o simbolismo em cada um no que se refere aos Sete Estágios e ao enredo. Finalmente, tentarei fazer algumas previsões sobre o próximo livro com base nos princípios da alquimia e nos elementos necessários para que Harry termine sua jornada para a iluminação e imortalidade espiritual.

  1. Uma (Muito) Breve Introdução à Alquimia:

A alquimia é uma prática protocientífica inicial que combina elementos de química, física, astrologia, arte, semiótica, metalurgia, medicina, misticismo e religião. Dois objetivos entrelaçados procurados por muitos alquimistas eram a pedra filosofal, uma substância mítica que possibilitaria a transmutação de metais comuns em ouro; e a panaceia universal, um remédio que curaria todas as doenças e prolongaria a vida indefinidamente. A alquimia pode ser considerada como a precursora da moderna ciência da química anterior à formulação do método científico.

A palavra alquimia vem do árabe al-kimiya ou al-khimiya e da palavra grega khumeia, que significa “juntar”, “derramar”, “soldar”, “ligar”, etc. (de khumatos, aquilo que é derramado fora, um lingote”). Outra etimologia liga a palavra com “Al Kemi”, que significa “a arte egípcia”, já que os antigos egípcios chamavam sua terra de “Kemi” e eram amplamente considerados como poderosos magos em todo o mundo antigo.

Essa é a definição padrão dos livros didáticos de alquimia como ciência, que é encontrada literalmente em vários sites de alquimia. Como veremos, porém, os próprios alquimistas eram tudo menos malucos, pagãos e ocultistas. A alquimia era muito mais do que uma protociência infantil baseada em princípios quase científicos e impregnada de alegoria e metáfora, embora certamente tivesse muito disso.

Ninguém sabe realmente a idade da alquimia. De acordo com o alchemylab.com, há algumas evidências de que o advento da alquimia antecede a Revolução Agrícola, que ocorreu há cerca de 8.000 anos. Algumas fontes conectam alquimia com xamanismo e metalurgia; certamente era conhecido na Suméria, Egito e Babilônia e mais tarde na Grécia, misturando-se cada vez mais com metalurgia e adivinhação até o advento do cristianismo, quando se tornou uma filosofia de pleno direito por direito próprio. Muitos dos alquimistas medievais eram devotos cristãos ou muçulmanos e começavam todos os dias com orações e devoções.

A alquimia como filosofia (assim como o Tarô, a Cabala, a astrologia e todos os estudos ocultistas) deve sua existência a um único documento chamado A Tábua de Esmeralda, também conhecida como a Mesa Smaragdine, Os Segredos de Hermes ou a Tabula smaragdina de Hermes Trismegisto. É um texto curto e enigmático que pretende revelar o segredo da substância primordial e suas transmutações. Até o século XX, suas primeiras fontes conhecidas eram manuscritos latinos medievais, mas a fonte documentada mais antiga para o texto é o Kitab Sirr al-Asrar, um livro de conselhos para governantes de autoria de Abd al-Qadir al-Jilani por volta de 800 d.C. Esta obra foi traduzida para o latim como Secretum Secretorum (O Segredo dos Segredos) por Johannes “Hispalensis” ou Hispaniensis (João de Sevilha) por volta de 1140 d.C. e por Filipe de Trípoli por volta de 1243 d.C. 1

A palavra-chave aqui é “documentado”. As origens da Tábua de Esmeralda podem remontar a vários milhares de anos; foi traduzido para o grego por estudiosos alexandrinos e, na verdade, foi exibido no Egito em 330 a.C. Por volta do ano 400 d.C., teria sido enterrado em algum lugar no planalto de Gizé para protegê-lo de fanáticos religiosos que estavam queimando bibliotecas ao redor do mundo naquela época. Muitos acreditam que a tabuleta ainda está escondida lá, escondida sob um hipogeu sob as patas traseiras da Esfinge. Segundo a lenda, o deus egípcio Thoth construiu um Salão de Registros ali, armazenando todos os registros da humanidade antes do dilúvio universal.

Para esclarecer um ponto: Hermes Trismegisto não deve ser confundido com o deus grego Hermes. Enquanto o nome Hermes Trismegisto significa “Hermes Três Vezes Grande”, o nome é realmente uma combinação do deus grego e Thoth, o deus egípcio do conhecimento, sabedoria e escrita. Aliás, os gregos, e os romanos depois deles, se recusaram a identificar Thoth com Hermes ou Mercúrio, e Cícero notou vários indivíduos conhecidos como Hermes. Hermes e Thoth, no entanto, compartilhavam muitos traços semelhantes. Ambos são deuses da escrita, comunicação e magia, e ambos eram considerados psicopompos, ou deuses que agiam como guias para as almas na vida após a morte.

No século XIV, o alquimista Ortolano escreveu O Segredo de Hermes, que influenciou o desenvolvimento subsequente da alquimia. Muitos manuscritos desta cópia da Tábua de Esmeralda e o comentário de Ortolano sobrevivem, datando pelo menos desde o século XV. A Tábua também foi encontrada anexada a manuscritos do Kitab Ustuqus al-Uss al-Thani (O Segundo Livro dos Elementos da Fundação) atribuído a Jabir ibn Hayyan ou Geber, e o Kitab Sirr al-Khaliqa wa San`at al-Tabi `a (O Livro do Segredo da Criação e da Arte da Natureza), datado entre 650 e 830 d.C.

Desde o início do texto vem o lema dos alquimistas: Como em cima, assim embaixo. É uma metáfora para recriar o céu na terra através dos segredos dos antigos, que certamente sabiam muito melhor do que nós como fazê-lo. Da Tábua de Esmeralda:

Verdade! Certeza! Aquilo em que não há dúvida!

O que está em cima é do que está em baixo, e o que está em baixo é do que está em cima, operando os milagres de um.

Como todas as coisas eram de um.

Seu pai é o Sol e sua mãe a Lua.

A Terra o carregou em seu ventre, e o Vento o alimentou em seu ventre,

como Terra que se tornará Fogo.

Alimente a Terra com o que é sutil, com o maior poder.

Ele sobe da terra ao céu e se torna governante sobre o que está em cima e o que está em baixo.

E já expliquei o significado de tudo isso em dois desses meus livros.

  1. As Metas e os Objetivos da Alquimia: Harry Potter e Tom Riddle (Lord Voldemort):

Os alquimistas medievais perseguiram três objetivos:

1· A transmutação de metais básicos em ouro;

2· A imortalidade da alma e do espírito;

3· A criação de vida artificial.

Enquanto muitos alquimistas passaram décadas tentando transformar metais básicos em ouro por meio de uma substância vaga chamada Pedra Filosofal, outros, como William Lilly e Nicolau Flamel, buscaram a iluminação espiritual da alma. Embora esses objetivos possam parecer incompatíveis ou mesmo mutuamente exclusivos, é importante lembrar que a alquimia era tanto uma filosofia quanto uma ciência experimental, e a transmutação dos metais permitiu aos alquimistas tentar provar que o Acima poderia ser recriado no Abaixo; em suma, recriar o céu na terra e na alma. Vemos o genuíno espírito científico nas palavras de um dos alquimistas: “Quisera Deus… que todos os homens se tornassem adeptos de nossa Arte – pois então o ouro, o grande ídolo da humanidade, perderia seu valor, e deveríamos valorizá-lo apenas por seu ensino científico.” 2 Infelizmente, porém, poucos alquimistas chegaram a esse ideal; e para a maioria deles, a alquimia significava apenas a possibilidade de fazer ouro barato e ganhar uma riqueza incalculável.

O terceiro objetivo da alquimia “a criação da vida a partir do nada” pertencia quase inteiramente aos alquimistas islâmicos. Isso entrará em jogo mais tarde, quando discutirmos o Cálice de Fogo. Os alquimistas islâmicos, especialmente Jabir ibn Hayyan ou Geber, experimentaram os princípios dos elementos na esperança de produzir takwin, a criação artificial da vida, incluindo a vida humana, em laboratório. Até onde sabemos, Geber não teve sucesso, mas Mary Shelley tocou nesse tema em seu romance Frankenstein, assim como muitos outros autores da época. Eles chamaram suas criações de homunculus, ou o “pequeno homem”, e parece que o grande alquimista e médico medieval Paracelso cunhou o termo depois que ele supostamente criou um homem falso que tinha apenas cerca de 30 centímetros de altura. O conceito é semelhante ao golem judeu, que era a criação de vida a partir de objetos inanimados, e os homúnculos geralmente faziam o trabalho atribuído aos golens.

A alquimia contém um elemento profundamente místico, e quem tentar estudá-la com um ponto de vista moderno ou puramente científico não a compreenderá nem a apreciará. Os alquimistas sempre falaram de sua arte como um Dom Divino, cujos segredos não poderiam ser aprendidos em nenhum livro, e só poderiam ser alcançados por longos anos de estudo e devoção. A iluminação, quando e se veio, ocorreu de uma só vez e sem aviso prévio. Mais de um alquimista ficou maravilhado com a simplicidade da resposta e quanto tempo eles levaram para compreendê-la. A atitude mental correta com Deus foi o primeiro passo crucial para alcançar a Grande Obra (magnum opus), porque a alquimia é uma transformação tripla: física, espiritual e psicológica.

De acordo com The Hermetic House (A Casa Hermética): “Do ponto de vista ascético… o desenvolvimento da alma só é plenamente possível com a mortificação do corpo; e todo o verdadeiro misticismo ensina que se alcançarmos o objetivo mais elevado possível para o homem – união com o Divino – deve haver um abandono de nossas próprias vontades individuais, um rebaixamento da alma diante do Espírito. E assim os alquimistas ensinaram que para a realização da magnum opus no plano físico, devemos despojar os metais de suas propriedades exteriores para desenvolver a essência interior, como diz Helvetius:

“… As essências dos metais estão escondidas em seus corpos exteriores, como o núcleo está escondido na noz. Todo corpo terrestre, seja animal, vegetal ou mineral, é a habitação e morada terrestre daquele espírito celestial, ou influência, que é seu princípio de vida ou crescimento. O segredo da Alquimia é a destruição do corpo, que permite ao Artista obter e utilizar para seus próprios propósitos, a alma viva.” Essa morte da natureza externa das coisas materiais deveria ser provocada pelos processos de putrefação e decadência; daí a razão pela qual tais processos figuram tão amplamente nas receitas alquímicas para a preparação do “Magistério Divino”. 3

O buscador deve entrar em seus estudos com um coração puro. Aqueles que não o fizerem “usar a alquimia para obter poder ou ganho financeiro” nunca alcançarão a perfeição espiritual e a imortalidade. Suspeito que foi isso que aconteceu com Tom Riddle. Em sua busca por conhecimento sobre as Horcruxes e em seus experimentos para se tornar imortal, seu coração e seus motivos não eram puros. Ele usou seu ganho para mutilar sua alma, um ato que ia contra as leis da natureza e de Deus. E ele pagou por isso: No capítulo “O Pedido de Lord Voldemort”, vemos o resultado de sua loucura. Sua boa aparência se foi “ainda não como uma cobra, mas apenas uma sombra do que eles eram uma vez. O exterior espelha o interior. Uma alma mutilada e difamada não pode ser encerrada em um belo pacote:

“Em primeiro lugar, que todo químico e estudante devoto e temente a Deus e estudante desta Arte considere que este arcano deve ser considerado, não apenas como uma arte verdadeiramente grande, mas como uma arte santíssima (vendo que ele tipifica e obscurece a mais alta bem celestial). Portanto, se alguém deseja alcançar este grande e indizível Mistério, deve lembrar-se de que ele não é obtido pelo poder do homem, mas pela graça de Deus, e que não nossa vontade ou desejo, mas apenas o misericórdia do Altíssimo, pode concedê-la a nós.

“Por esta razão, você deve primeiro limpar seu coração, levantá-lo somente a Ele, e pedir-Lhe este dom em oração verdadeira, fervorosa e indubitável. Só Ele pode dar e outorgar.” 4

Thomas Norton em seu Orindall of Alchemy coloca isso muito bem quando diz:

“… Uma graça e dom singular do Todo-Poderoso

Que nunca foi encontrado, como testemunha podemos,

Nem esta ciência jamais foi ensinada ao homem…

TAMBÉM NENHUM HOMEM DEVE ESSA CIÊNCIA ENSINAR

Pois é tão maravilhoso e tão isolado

Que deve ser ensinado de boca em boca,

Também ele deve (se ele nunca for tão relutante),

Receba-o com um juramento mais sagrado,

Que, ao recusarmos grande dignidade e fama,

Então ele deve necessariamente recusar o mesmo…

Para que por dúvida de tanto orgulho e riqueza

Ele deve tomar cuidado com o que esta ciência ensina

Nenhum homem, portanto, pode alcançar este presente

Mas ele tem virtudes excelentes.” 5

Tom Riddle também buscou o conhecimento dos alquimistas; ele também buscou a imortalidade da alma e do espírito para permanecer aqui na terra. A diferença entre Riddle e Harry, no entanto, são suas motivações para buscar o conhecimento para começar. Tom queria poder e ganho enquanto Harry não. Um excelente exemplo disso é um dos capítulos finais do primeiro livro “O Espelho de Ojesed”. Dumbledore, ele próprio um alquimista, estava bem ciente do princípio do amor e da iluminação, e escondeu a Pedra em um lugar onde apenas os puros de coração poderiam obtê-la. O professor Quirrell podia se ver com a Pedra Filosofal, mas não conseguia pegá-la. Por quê? Porque ele queria isso para ganho material e poder” para devolver seu mestre à força. Harry, por outro lado, queria que a Pedra a mantivesse segura; de forma alguma ele pretendia usá-lo para si mesmo. É por isso que ele conseguiu pegar a Pedra do Espelho.

Este é o caminho no qual Harry se encontra – o caminho para a iluminação. Somente buscando aquela parte de si mesmo “sua bondade e amor” ele encontrará os meios para destruir Voldemort de uma vez por todas. Ele deve se tornar a personificação física da Pedra Filosofal, alcançando a perfeição espiritual e a imortalidade, antes de finalmente se libertar do vínculo entre ele e Tom Riddle.

III. A Pedra Filosofal e o Elixir da Vida:

Mencionado pela primeira vez por Zósimo, o Tebano, no século III a.C., o conceito da Pedra Filosofal é verdadeiramente antigo. É conhecida por muitos nomes em muitas civilizações, mas o conceito ainda é o mesmo: a Pedra Filosofal é um meio pelo qual os humanos podem alcançar a perfeição espiritual e a imortalidade. Representa a força por trás da vida e o poder universal de ligação entre a mente e o corpo.

Uma das manifestações mais antigas da Pedra é tão antiga quanto a própria civilização. A água da vida suméria, agora conhecida como álcool ou aqua vitae, também era chamada de “água viva”, ou a “água com espíritos” e era usada na alquimia como agente de destilação. Foi mencionado na Epopeia de Gilgamesh e apresentada com destaque no mito do renascimento da deusa Inanna depois que sua irmã Eriskegal, a esposa do deus da morte, a assassinou no submundo.

A Pedra Benben da lenda egípcia também era chamada de “a pedra que caiu do céu” (lapsit ex caelis). Era o símbolo do sol, de forma piramidal, e residia no Templo do Sol em Heliópolis, o centro da religião e da astronomia no antigo Egito. Dizia-se que a Pedra Benben tinha os segredos da vida inscritos nela. A tradução latina da Pedra Filosofal/Elixir da Vida é ex lapis elixir, que é estranhamente semelhante ao nome que Wolfram von Esenbach dá ao Santo Graal em seu romance arturiano Parzival (lapsit exillis). Na verdade, Wolfram se esforça para descrever o Graal como uma pedra, e sua escolha de palavras não parece coincidência. O termo lapsit exillis também pode ser traduzido como lapsit ex caelis: a “pedra que caiu do céu”, o que implica que tanto a Pedra quanto o Graal podem ser rastreados pelo menos até o antigo Egito, embora provavelmente seja muito mais antigo do que isso.

Algumas das outras manifestações da Pedra incluem:

1· Lia Fáil, Irlanda/A Pedra do Destino, Escócia

2· Caldeirão da Imortalidade de Keridwen, Irlanda

3· A Pedra de Jacó, Bíblica

4· Caldeirão do Renascimento de Bran, País de Gales

5· O Santo Graal, Europeu.

6· A Kaa’ba, no Islã.

A Pedra era vista como uma substância mágica que poderia aperfeiçoar imediatamente qualquer substância ou situação. A Pedra Filosofal tem sido associada a muitos outros exemplos e fenômenos místicos e religiosos, incluindo o Sal do Mundo, o Corpo Astral, o Elixir e até mesmo Jesus Cristo. O Elixir dos alquimistas tem essencialmente a mesma capacidade de aperfeiçoar qualquer substância. Como a panaceia universal, o Elixir cura doenças e restaura a juventude.

Se a criação da Pedra Filosofal foi difícil, a criação do Elixir da Vida foi quase impossível. O Elixir da Vida deve conter os quatro elementos (fogo, terra, ar e água) mais os três princípios do animal, vegetal e prima materia (tan). Para trabalhar com esses ingredientes, muitos achavam que era necessário usar fígados de crocodilo, esqueletos humanos, raízes de mandrágora e vesículas biliares de antílopes, além de outros ingredientes bizarros.

Acredita-se que a prima materia ou tan seja o mineral cinábrio, ou sulfeto de mercúrio, também conhecido como Sangue de Dragão. Aprendemos em A Pedra Filosofal que Alvo Dumbledore era o parceiro de Nicolau Flamel, que possuía “a única Pedra Filosofal conhecida”. Como veremos, Flamel foi um dos melhores alunos de alquimia, e que Dumbledore era seu parceiro certamente não é por acaso da parte de Rowling. Dumbledore estava então familiarizado com o conhecimento dos alquimistas, suas metas e objetivos, e a atitude necessária para ter sucesso em sua busca. Rowling credita a Dumbledore a descoberta dos doze usos do Sangue de Dragão, que é um ingrediente crucial na construção da Pedra Filosofal. Muito usado pelos antigos como uma droga de longevidade, o cinábrio é extraído desde os tempos antigos e é altamente tóxico devido ao seu teor de mercúrio.

Sangue de Dragão também é o nome de uma planta, Dracaena draco, que é nativa das Ilhas Canárias, e outra planta, D. cinnabari, que é encontrada apenas na ilha de Socotra, na costa sul da Arábia. Acreditava-se que a resina seca dessas plantas tinha propriedades mágicas devido à sua cor vermelha brilhante. O Sangue de Dragão agora é usado em uma variedade de aplicações industriais” como verniz e em fotogravura, entre outros. Ainda é usado na Índia para fins cerimoniais. Embora tenha muito mais de doze usos, nenhum deles é limpador de forno!

O cinábrio, também chamado de vermelhão, combinava as duas substâncias importantes na alquimia: mercúrio e enxofre. Segundo Paracelso:

“A NATUREZA gera um mineral nas entranhas da terra. Existem dois tipos dele, que são encontrados em muitos distritos da Europa. figura do mundo maior, e está na parte oriental da esfera do Sol. A outra, na Estrela do Sul, está agora em sua primeira eflorescência. As entranhas da terra a empurram através de sua superfície. em sua primeira coagulação, e nele se escondem todas as flores e cores dos minerais. Muito se escreveu sobre isso pelos filósofos, pois é de natureza fria e úmida, e concorda com o elemento água.

No que diz respeito ao seu conhecimento e experimentação, todos os filósofos antes de mim, embora tenham mirado nele com seus mísseis, foram muito longe do alvo. Eles acreditavam que o Mercúrio e o Enxofre eram a mãe de todos os metais, nunca sequer sonhando em fazer menção a um terceiro; e, no entanto, quando a água é separada dela pela arte espagírica, a verdade é claramente revelada, embora fosse desconhecida para Galeno ou Avicena. Mas se, por causa de nossos excelentes médicos, tivéssemos que descrever apenas o nome, a composição; a dissolução e coagulação, como no início do mundo a Natureza procede com todas as coisas em crescimento, um ano inteiro dificilmente me bastaria, e para explicar essas coisas, nem mesmo as peles de numerosas vacas seriam adequadas.

Agora, afirmo que neste mineral se encontram três princípios, que são o Mercúrio, o Enxofre e a Água Mineral que serviu para coagular naturalmente. A ciência espagírica é capaz de extrair este último de seu próprio suco quando não está totalmente amadurecido, no meio do outono, como uma pera de uma árvore. A árvore contém potencialmente a pera. Se os astros celestiais e a natureza concordam, a árvore, antes de tudo, dá brotos no mês de março; em seguida, brota os botões e, quando estes se abrem, a flor aparece, e assim sucessivamente, até que no outono a pera amadurece. Assim é com os minerais. Estes nascem, da mesma maneira, nas entranhas da terra. Que os Alquimistas que estão procurando o Tesouro dos Tesouros observem isso cuidadosamente. Eu lhes mostrarei o caminho, seu começo, seu meio e seu fim. No tratado a seguir descreverei a Água adequada, o Enxofre adequado e o Bálsamo adequado. Por meio desses três, a resolução e a composição são coaguladas em uma…” 6

Como sabemos, a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida eram os principais objetivos dos alquimistas. A Pedra Filosofal era a substância que poderia transformar chumbo barato em ouro e criar uma panaceia universal que tornaria os humanos imortais – o Elixir da Vida. A Grande Obra, ou Magnum Opus, refere-se à busca por esta pedra. Além disso, a fabricação da Pedra Filosofal era entendida como conferir um tipo de iniciação ao aluno, e essa iniciação é a culminação adequada da Grande Obra. A Pedra Filosofal é um símbolo para a jornada para a iluminação, quebrando e recombinando elementos dentro de nós (solve et coagula).

Embora houvesse tradicionalmente sete etapas para a conclusão da Pedra Filosofal, outros autores colocam o número mais alto. De acordo com o Pergaminho Ripley, havia 12 etapas envolvidas na fabricação da Pedra Filosofal. Basílio Valentino escreveu As Doze Chaves. A diferença nos sistemas é que o sistema tradicional de sete etapas remonta a Tábua de Esmeralda, enquanto o sistema de 12 etapas lida mais com arquétipos astrológicos.

Ripley escreveu sobre os quatro elementos conhecidos: fogo, terra, ar e água:

Você deve fazer Água da Terra, e Terra do Ar, e Ar do Fogo, e Fogo da Terra.” 7

De acordo com a Wikipédia, os alquimistas acreditavam que todos os quatro elementos eram interdependentes uns dos outros e que qualquer processo produziria os quatro elementos. Essa ideia remonta aos filósofos, especificamente Empédocles de Agrigento (440 a.C.), que consideravam que havia quatro elementos – terra, água, ar e fogo. Aristóteles acrescentou o chamado Quinto Elemento, “o éter”. (alt: aether) Esses elementos eram considerados, não como diferentes tipos de matéria, mas como diferentes formas de uma única matéria original, pela qual manifestavam diferentes propriedades. Pensava-se que isso se devia às quatro propriedades primárias de secura, umidade, calor e frio, com cada elemento tendo duas dessas propriedades: fogo era equiparado a quente e seco, quente e úmido ao ar, úmido e frio à água, e seco e frio para a terra. Assim, corpos úmidos e frios (a maioria dos líquidos) foram chamados de “águas”. Além disso, como esses elementos não eram considerados diferentes tipos de matéria, os alquimistas pensavam que a transmutação era possível. Na verdade, é possível, mas foi preciso o desenvolvimento da fissão nuclear para tornar realidade os sonhos dos alquimistas.

De acordo com Rowling, as quatro Casas de Hogwarts são usadas para representar esses quatro elementos. Grifinória é Fogo, Corvinal é Ar, Lufa Lufa é Terra e Sonserina é Água. Mas e o Quinto Elemento de Aristóteles, o éter? É aqui que entra Harry. O éter, ou quintessência, está sozinho acima dos outros elementos. É puro e incorruptível, a presença essencial de algo ou alguém. A quintessência combina o Acima e o Abaixo, o mental e o material. Pode ser pensado como a encarnação etérea da força vital que encontramos em sonhos e estados alterados de consciência. Segundo os gregos, o éter era o fogo celestial na visão grega, a pura essência em que os deuses viviam e respiravam, e os gregos o comparavam ao calor radiante do sol, que podia se mover no espaço vazio; isso levou Aristóteles a afirmar que “a natureza abomina o vácuo”. 8

Os elementos clássicos são frequentemente usados juntos tematicamente na fantasia moderna, ficção científica, cinema e televisão. Normalmente, um mago, mago ou alguém capaz de usar magia tem a habilidade de influenciar um dos elementos, ou pode usar os elementos para afetar o mundo ao seu redor. O quinto elemento ou quintessência está incorporado no herói, que geralmente é o epítome do amor, e do amor puro. Exemplos deste tema incluem Capitão Planeta, onde o Capitão Planeta é invocado combinando o poder de cinco anéis que representam cada um dos quatro elementos clássicos, bem como um anel que representa o “Coração”; A série The Sword of Truth (A Espada da Verdade) de Terry Goodkind e o programa de televisão infantil Avatar, onde quatro nações representando os quatro elementos estão em guerra. Os “magos” de cada nação têm a capacidade de controlar o elemento para o qual sua nação é nomeada. O Avatar, Ang, uma criança pequena, é o único que pode controlar todos os quatro elementos e trazer as nações de volta à harmonia. Ainda outro exemplo é o longa-metragem O Quinto Elemento, onde o personagem principal (interpretado por Bruce Willis) deve usar os quatro elementos para alimentar uma arma para a defesa da Terra, juntamente com o amor, o “quinto elemento”. Exemplos mais recentes incluem dois filmes populares do ano passado: Os Incríveis e O Quarteto Fantástico (que originalmente era uma história em quadrinhos).

Harry está em busca da quintessência dentro de si mesmo. Ele é aquele que pode unir as quatro casas como uma. Ele sozinho contém todas as quatro características dentro de si mesmo. A busca da quintessência é a busca da Pedra Filosofal, seu despertar e imortalidade espiritual.

Em O Enigma do Príncipe, até encontramos Harry lendo um livro sobre a quintessência:

“Harry não respondeu, mas fingiu estar absorto no livro que eles deveriam ter lido antes de Feitiços na manhã seguinte, Quintessence: A Quest (A Quintessencia: Uma Busca). (US Deluxe HBP, p. 304).

  1. As Ferramentas da Alquimia e Harry Potter:

Os alquimistas acreditavam que a fórmula universal contida na Tábua de Esmeralda era a base para uma filosofia espiritual introduzida pela primeira vez no antigo Egito na remota antiguidade” algumas fontes dizem mais de 10.000 anos atrás. Esta fórmula consiste em sete operações consecutivas realizadas sobre a “matéria” – seja de natureza física, psicológica ou espiritual.

Basílio Valentim, em seu Azoth dos Filósofos, descreve o significado completo da Coisa Única, que é tanto a Caótica Matéria no início da Obra quanto a Pedra aperfeiçoada em sua conclusão. A palavra “Azoth” é da Tábua de Esmeralda; o “A” e o “Z” na palavra relacionada ao alfa e ômega gregos, que significa simplesmente o começo e o fim de todas as coisas. 9

No desenho acima, tirado de Os Sete Estágios da Transformação Alquímica, uma salamandra envolta em chamas e um pássaro em pé estão tocando as asas de um caduceu. Abaixo da salamandra está a inscrição Anima (Alma); abaixo do pássaro está a inscrição Spiritus (Espírito). Corpus significa Corpo. De acordo com o Alchemy Electronic Dictionary (O Dicionário Eletrônico da Alquimia), a alma é “a presença passiva em todos nós que sobrevive por toda a eternidade e, portanto, é parte da substância original (Primeira Matéria) do universo. Em última análise, é a Única Coisa do universo. A alma foi considerada além dos quatro elementos materiais e, portanto, conceituada como um quinto elemento (ou Quintessência). O espírito é “a presença ativa em todos nós que luta pela perfeição. O espírito busca manifestação material para expressão. Em última análise, é a Mente Única do universo”. Em outras palavras, a alma é aquilo com que nascemos; é o espírito e as escolhas que fazemos na vida que nos moldam em quem somos, um ponto que Rowling enfatiza repetidamente nos romances.

Spiritus, Anima e Corpus formam um grande triângulo invertido que fica atrás do emblema central. De acordo com McLean, juntos eles simbolizam as três forças celestes arquetípicas que os alquimistas chamavam de Enxofre, Mercúrio e Sal. Na filosofia da alquimia, não são produtos químicos, mas nossos sentimentos, pensamentos e corpo.

Antes de discutirmos os livros e como Rowling habilmente tece os fios da alquimia através deles, é necessário dar algumas breves definições e descrições das substâncias básicas usadas na alquimia. Havia sete metais conhecidos pelos alquimistas: ouro, prata, mercúrio, chumbo, cobre, estanho e ferro (ver figura 1). Cada um teve um papel específico na formação da Pedra Filosofal; no entanto, como veremos, os alquimistas nem sempre foram claros sobre os nomes das substâncias, muitas vezes expressando-os em metáfora e simbolismo. Além disso, antes do século XIX não havia um sistema de nomenclatura universal para os elementos químicos. O que um alquimista chamava de enxofre outro poderia chamar de mercúrio e vice-versa; isso torna a interpretação de seus textos extremamente difícil.

METAL/PLANETA REGENTE:

Ouro – Sol

Prata – Lua

Mercúrio – Mercúrio

Cobre – Vênus

Estanho – Júpiter

Ferro – Marte

Chumbo – Saturno

Figura 1: Os Sete Metais da Alquimia e seus planetas regentes.

Além dos sete metais, havia também outros elementos e compostos em uso: vitríolo, antimônio (o lobo cinzento ou estribita), salitre (nitrato de potássio), uma combinação de ácido sulfúrico e ácido nítrico (chamado aqua regis), ácido nítrico (aqua fortae), água, sal amoníaco (cloreto de amônio), alúmen (sulfato de alumínio e potássio) e sal, entre outros.

É importante lembrar que os elementos que possuíam as mesmas propriedades foram classificados sob o mesmo nome; por exemplo, os compostos mais combustíveis com os quais os alquimistas trabalharam receberam o nome de “enxofre”, embora claramente não sejam todos enxofre elementar. Mercúrio era bem conhecido por sua capacidade de se unir e era famoso por seu brilho e maleabilidade. Mas os alquimistas rotularam muitas substâncias como “mercúrio” – aquelas que eram macias, brilhantes e fáceis de trabalhar, o que inclui a maioria dos metais – e às vezes é difícil determinar exatamente do que eles estão falando. Mais uma vez, os próprios alquimistas nunca são claros sobre a qual “enxofre” ou “mercúrio” eles estavam se referindo, o que só agrava o problema da tradução.

As três substâncias mais importantes na alquimia eram mercúrio, enxofre e sal. Os alquimistas acreditavam que todos os metais eram compostos de mercúrio e enxofre, em diferentes proporções e graus de pureza. O mercúrio também era conhecido como mercúrio ou sangue de unicórnio e era usado para fazer óxido de mercúrio vermelho aquecendo-o em uma solução de ácido nítrico. Um espesso vapor vermelho pairava sobre a solução e cristais vermelhos brilhantes precipitavam no fundo. Isso convenceu os alquimistas de que o mercúrio transcendia os estados líquido e sólido e, consequentemente, tanto o céu quanto a terra, a vida e a morte. Mercúrio foi a causa da “perfeição” nos metais e deu ao ouro seu brilho. Um alquimista desconhecido, citando Arnold de Villanova, escreve: “O mercúrio é a forma elementar de todas as coisas fusíveis; pois todas as coisas fusíveis, quando derretidas, se transformam nela, e se mistura com elas porque é da mesma substância que elas. Tais corpos diferem do mercúrio em sua composição apenas na medida em que está ou não livre da matéria estranha do enxofre impuro”. 10 O “mercúrio filosófico”, presente na busca do buscador pela iluminação, era absolutamente necessário para a conclusão da Magnum Opus. Na alquimia, uma serpente ou cobra geralmente representa mercúrio.

Os alquimistas acreditavam que um excesso de enxofre nos metais causava impurezas. Ao eliminar o excesso de enxofre por meio de um processo de purificação, eles ficariam com mercúrio puro ou mercúrio. Geber chamou o enxofre de “a gordura da terra, por decocção temperada na mina da terra engrossada, até ser endurecida e seca”. 11 Ele considerava o excesso de enxofre como causa de imperfeição nos metais, e escreve que uma das causas da corrupção dos metais pelo fogo “é a inclusão de um enxofre ardente na profundidade de sua substância, diminuindo-os por Inflamação, e exterminando também em Fumo, com Consumo extremo, tudo o que Argentvive (a “prata viva”) neles é de boa Fixação.” 12 Ele assumiu, além disso, que os metais continham dois tipos de enxofre: enxofre incombustível e enxofre combustível, sendo o segundo aparentemente considerado uma impureza.13 Um alquimista posterior diz que o enxofre é “mais facilmente reconhecido pelo espírito vital nos animais, a cor nos metais, o odor nas plantas.” 14 Para piorar a situação, o termo enxofre também foi dado a qualquer substância de cores vivas.

De acordo com The Hermetic House: Alchemy Ancient and Modern (A Casa Hermética: Alquimia Antiga e Moderna), essa “teoria do enxofre-mercúrio dos metais foi defendida por alquimistas famosos como Roger Bacon, Arnaldo de Villanova e Raimundo Lúlio”. 15 O sal, por outro lado, foi uma adição tardia à alquimia. O sal foi o início e o fim da Grande Obra, e esse conceito que será extremamente importante em nossa análise dos livros. Assim como o mercúrio e o enxofre, os alquimistas não se referiam ao sal de mesa aqui. Qualquer substância que fosse resistente ao fogo era chamada de “sal”. Isaac da Holanda e Basílio Valentim tentaram explicar as diferenças nos metais pela quantidade de mercúrio, enxofre e sal que continham. Por exemplo, o cobre, que é brilhantemente colorido, contém um excesso de enxofre, enquanto o ferro, que é duro, contém um excesso de sal. Paracelso e outros aprovaram entusiasticamente a adição de sal à lista de substâncias alquímicas, embora o sal permanecesse menos importante que o mercúrio ou o enxofre.

O vitríolo é outra substância que encontraremos no decorrer de nossa análise. É o líquido mais importante na alquimia, sem exceção, servindo como catalisador para todas as reações subsequentes. Foi destilado a partir de uma substância oleosa e verde (sulfato de cobre) que se formou naturalmente a partir do desgaste do cascalho com enxofre. Este Vitríolo Verde é simbolizado pelo Leão Verde em desenhos alquímicos. Depois de recolhido, foi aquecido e decomposto em compostos de ferro e ácido sulfúrico. O ácido foi então separado por destilação. A primeira destilação produziu um líquido marrom que cheirava a ovos podres (enxofre), mas a destilação posterior produziu um óleo amarelo quase inodoro chamado simplesmente vitríolo. O nome também foi usado para vários sais de sulfato, como sulfato de cobre (vitríolo azul, ou raramente vitríolo romano), sulfato de zinco (vitríolo branco), sulfato de ferro (II) (vitríolo verde), sulfato de ferro (III) (vitríolo de Marte), ou sulfato de cobalto (vitríolo vermelho). O vitríolo dissolve facilmente o tecido humano e é severamente corrosivo para a maioria dos metais, embora não tenha efeito sobre o ouro. A importância do Vitríolo nos romances não pode ser subestimada; sem ela, Harry não pode passar pelos estágios de transformação para a iluminação, mesmo quando as coisas parecem irreprimivelmente sombrias.

O ácido sulfúrico reage com a maioria dos metais para produzir gás hidrogênio e um sulfato metálico. Essas reações fazem com que o ácido ferva e pode explodir. A única maneira de combater um incêndio de ácido sulfúrico é com espuma ou outros agentes de terra seca para evitar que ferva. Uma vez que ferve, libera gases ácidos que podem matar.

Em Harry Potter, essas quatro substâncias são simbolizadas pelos seguintes caracteres, e estes serão discutidos em maiores detalhes: Mercúrio=Dumbledore, Enxofre=Hagrid, Sal=Sirius e Vitriol=Snape. Os outros personagens também têm seus lugares. Três casais representam a união de enxofre e mercúrio ou o Grande Casamento: Tiago e Lílian; Ron e Hermione (o “casal briguento”); e Bill e Fleur. Além disso, o nome completo de Ginny, Ginevra, significa “espuma branca”. Como mencionado nos parágrafos sobre vitríolo, a única coisa que pode combater um incêndio de ácido sulfúrico é a espuma.

  1. Os Sete Estágios da Transformação Alquímica:

Segundo fontes tradicionais, havia sete estágios de alquimia, cujo produto final era a Pedra Filosofal. Os primeiros quatro passos ocorrem no Abaixo, no reino da matéria. Os últimos três passos acontecem no Alto, no reino da mente e da imaginação criativa. Embora cada livro represente um estágio na transformação, os ciclos de alquimia também estão presentes em cada livro, começando com Harry na casa dos Dursley (o Estágio Negro) e terminando com a importante conversa de Dumbledore e a viagem de trem para casa (o Estágio Vermelho).

Cada estágio está relacionado a uma cor, substância alquímica e metal, e cada um tem um lugar específico na criação da Pedra. De acordo com outras fontes, como George Ripley e Basílio Valentino, havia Doze Chaves ou Portões. Para os propósitos desta discussão, no entanto, vamos nos limitar aos sete estágios tradicionais e analisá-los como eles se relacionam com o mundo de Harry Potter. (veja a figura 2) As primeiras cinco fases juntas são chamadas do Estágio Negro ou melanose; o Estágio Branco é destilação ou leucose e o Estágio Vermelho é coagulação ou iose. A iose também é conhecida como fase roxa, porque o material fica roxo durante o processo de coagulação.

Ano 1: A Pedra Filosofal:

No universo de Rowling, a Pedra Filosofal e o Elixir da Vida desempenharam o papel principal no primeiro livro. Lord Voldemort, arrancado de seu corpo onze anos antes, precisa que a Pedra permaneça viva até que possa construir um novo corpo, reduzindo-se a se alimentar de sangue de unicórnio, uma caricatura tão horrível que a partir de então levará uma meia-vida amaldiçoada. Hogwarts se torna um lugar de intriga e perigo para Harry e seus amigos enquanto eles tentam desvendar o mistério do roubo no Banco de Gringotes e evitar que a Pedra caia em mãos erradas. Eventualmente, Harry consegue, no processo descobrindo dentro de si suas próprias habilidades e o segredo do sacrifício de sua mãe por ele. Voldemort não recebe a Pedra e é forçado a fugir para a Albânia, não melhor do que quando voltou para a Grã-Bretanha.

Este é o início da jornada de Harry. Ele começa como uma massa confusa, sozinho sob os cuidados de parentes abusivos, e então leva o choque de sua vida quando Hagrid lhe diz que é um bruxo. A partir daí, ele precisa quebrar (dissolver) tudo o que aprendeu e começar a construir novamente (coagular). Ele aprende no processo que não é apenas um mago; ele é O Menino Que Sobreviveu. Para que ele fique completamente livre de Voldemort, ele deve dissolver o vínculo entre eles, um processo que levará mais seis livros para ser concluído.

Conhecemos Harry pela primeira vez no Capítulo 2, abusado por seus parentes trouxas e confinado em seu armário embaixo da escada. A impressão que temos é a de um menino que está sozinho no mundo, sem um amigo e sem esperança de que sua situação mude. E então, de repente, todo o seu mundo muda. Ele descobre que é um bruxo. O agente dessa mudança profunda é Rúbeo Hagrid, que passará a desempenhar um papel crucial na série. O nome Rúbeo significa “vermelho”, e logo descobrimos que Hagrid tem uma queda por criaturas perigosas. Ele é atencioso e carinhoso, algo que não esperaríamos em um homem tão grande; que ele seja retratado como tal por Rowling não é por acaso, como veremos nos livros posteriores.

De acordo com Adam McLean em seu The Seven Stages of Transformation (Os Sete Estágios da Transformação), este primeiro estágio da Grande Obra, chamado calcinação, é a quebra da massa confusa (massa confusa) pelo fogo. É representado pelo ácido sulfúrico, um potente corrosivo que corrói a pele e reage com todos os metais, exceto o ouro. Os alquimistas criaram o ácido sulfúrico a partir do vitríolo, o agente altamente corrosivo discutido anteriormente. A massa confusa caótica tem que passar por um longo processo no qual é repetidamente dissolvida e coagulada (solve et coagula) e daí surge a prima materia, que é a matéria-prima para a fabricação do ouro. O psicólogo Carl Jung estava muito ocupado com os aspectos arquetípicos da alquimia e ficou impressionado com as semelhanças entre o opus magnum e o processo psicanalítico. Na psicanálise de Jung, a massa confusa do subconsciente é o instrumento primordial para alcançar um estado de equilíbrio e completude mental. A própria calcinação representava a quebra do ego e os apegos às posses materiais. Através deste processo o Buscador torna-se introspectivo e começa a avaliar a sua vida.

A massa confusa é descrita como uma cobra segurando sua cauda – o Ouroboros. A cobra era frequentemente usada como um símbolo para a dualidade – seu corpo alongado separando as polaridades da cabeça e da cauda. Às vezes, a figura de um dragão alado era usada aqui no lugar da cobra, para fechar o círculo com o dragão no início do trabalho. Quando a cobra ou dragão agarrou sua cauda, uniu as polaridades em um círculo, um símbolo para os alquimistas para alcançar a solidez entre as energias dualistas das forças da alma. A criação da Pedra Filosofal foi a formação de uma base interna sólida sobre a qual os filósofos alquímicos puderam construir suas personalidades e experimentar toda a potencialidade de serem humanos.16

Isso é o que Harry começa a experimentar desde o momento em que pisa no Expresso de Hogwarts. Ele está entrando em um mundo totalmente novo; um de magia e admiração, que o obriga a avaliar quem ele é e a que propósito serve. A plataforma 9 3/4 representa sua iniciação neste mundo de maravilhas, cruzando as fronteiras entre os reinos mundano e superior. Ele conhece Ron e Hermione, que imediatamente não gostam um do outro. Juntos, eles representam o Casal Brigante; rei e rainha, mercúrio e enxofre, ouro e prata, cujo Grande Casamento no final da Grande Obra permitirá que Harry alcance todo o seu potencial. Discutiremos isso mais adiante.

O nome de Hermione encontra suas raízes no deus grego Hermes, mas ainda mais importante em Hermes Trismegisto, o autor da Tábua de Esmeralda, da qual derivam todos os estudos de alquimia e ocultismo. Também é significativo que São Tiago (Potter) seja o santo padroeiro da alquimia, e o símbolo do Estágio Branco da transformação seja o lírio.

Neste ponto, encontramos dois dos personagens mais importantes de todo o livro: Alvo Dumbledore e Nicolau Flamel. As Cartas de Sapo de Chocolate de Ron são uma verdadeira fonte de informação para nós na primeira leitura do livro. Descobrimos que Dumbledore e Flamel eram parceiros; além disso, afirma-se inequivocamente que eles eram alquimistas. Dumbledore é creditado com a descoberta dos doze usos do Sangue de Dragão, que como vimos não é uma fantástica virada da imaginação de Rowling. Dumbledore repetidamente mostra-se bem familiarizado com os princípios alquímicos ao longo do livro e de fato ao longo da série.

Por outro lado, Nicolau Flamel é a pessoa mais importante em Harry Potter a nunca ser lembrada em um Cartão de Sapo de Chocolate. A razão para isso não está clara; o fato de ele ainda estar vivo não pode ser o motivo, já que Dumbledore está vivo e tem seu próprio cartão. Em todo caso, a vida de Flamel foi bastante real”sua casa em Paris, construída em 1407, ainda está de pé, na rue de Montmorency, 51, onde foi transformada em restaurante. Suas façanhas, no entanto, são lendárias entre os estudantes de esoterismo e ocultismo.

Este é o fim da Parte I. A Parte II discute a vida de Flamel, seu infame manuscrito e aborda a questão: Flamel realmente encontrou a Pedra Filosofal? Também traço o simbolismo alquímico na Câmara Secreta através do Enigma do Príncipe e além, fazendo algumas previsões para o destino dos personagens e o final da série.

Referências:

1. The Internet Sacred Text Archive. “History of the Tablet.” The Emerald Tablet of Hermes. 2005. The Internet Sacred Text Archive. 10 March 2006. http://www.sacred-texts.com/alc/emerald.htm

2. Waite, A. E. “’EIRENÆUS PHILALETHES’: An Open Entrance to the Closed Palace of the King.” The Hermetic Museum. vol. ii. London. 1893. p. 178

3. Redgrove, H. Stanley. Alchemy: Ancient and Modern. London: William Rider & Son, LTD, 1922. http://www.geocities.com/andymak252/AlchemyAncientModern.htm

4. Geber; Richard Russel. “Of the Sum of Perfection.” The Works of Geber. London : Printed for William Cooper,1678. pp. 69 – 70

5. Norton, Thomas. The Ordinal of Alchemy. London ; New York : Published for the Early English Text Society by the Oxford University Press, 1975.

6. Mileusnic, Dusan Djordjevic. Paracelsus: The Treasure of Treasures for the Alchemists. London: J.H. Oxon, 1659. The Alchemy Web Site. McLean, Adam. 1996. levity.com. 10 March 2006. http://www.levity.com/alchemy/paracel1.html

7. McLean, Adam. The Ripley Scrowle. 1450-1500. The Alchemy Web Bookshop. 10 March 2006. http://www.alchemywebsite.com/bookshop/ripley_scroll.html

8. Wikipedia. “Classic Elements.” Wikipedia Encyclopedia. 2005-06. Wikmedia. 18 Feb. 2006. http://en.wikipedia.org/wiki/Classical_elements

9. De Giorgio,Dr. Laura. “The Seven Stages of Transformation.” Alchemy. 2001-2005. Deep Trance Now. 10 March 2006. http://www.deeptrancenow.com/exc3_7operations.htm

10. Waite, A. E. “The Golden Tract concerning the Stone of the Philosophers” The Hermetic Museum vol. i. London. 1893. p. 17.

11. Geber; Richard Russel. “Of the Sum of Perfection.” The Works of Geber. London : Printed for William Cooper,1678. pp. 69 – 70

12. Ibid, p 156.

13. Ibid, p 160.

14. Waite, A. E. The Hermetic Museum. The New Chemical Light, Part II. Concerning Sulphur. vol. ii. London. 1893. p. 151

15. Redgrove, H. Stanley. Alchemy: Ancient and Modern. London: William Rider & Son, LTD, 1922. http://www.geocities.com/andymak252/AlchemyAncientModern.htm

16. De Giorgio,Dr. Laura. “First Stage – Calcination.” The Seven Stages of Transformation. 2001-2005. Deep Trance Now. 10 March 2006. http://www.deeptrancenow.com/exc3_calcination.htm

Original: http://www.the-leaky-cauldron.org/features/essays/issue1/alchemypart1/

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/alquimia-e-harry-potter-parte-i/

A Ascensão Tifoniana: O Legado Mágico de Kenneth Grant

Matthew Levi Stevens

Onze anos após a morte do autor, ocultista e poeta britânico Kenneth Grant (1924-2011), estamos apenas agora começando a ver as primeiras tentativas de avaliar o impacto e o legado do homem que foi o último estudante e secretário do famoso Aleister Crowley, e que muitos acreditam ser seu sucessor natural.

Grant também foi um amigo próximo do mago artista Austin Osman Spare, apoiando-o em seus últimos anos, teve o padrinho de Wicca, Gerald Gardner, como um colega e às vezes rival, assim como durante seu tempo com Crowley e conheceu a Sacerdotisa da Nova Era, Dion Fortune. Como tal, Grant teve contato direto com quatro das figuras mais influentes do Renascimento Mágico e Místico dos meados do século XX.

Com relação a seu próprio trabalho, os nove volumes das três “Trilogias Tifonianas” de Grant escritos ao longo das três décadas de 1972 a 2003 – assim como vários volumes de ficção com temática oculta, e memórias das personalidades mágicas que ele encontrou – abrangem temas como Alquimia, Cabala, Controle de Sonhos, Egiptologia, Mitos de Cthulhu de H. P. Lovecraft, Caminho da Mão Esquerda, Magia Sexual, Surrealismo, Tantra, Thelema, Budismo Tibetano, Ufologia, Bruxaria e Vodu, que são um retrato único do Renascimento Oculto Moderno, assim como indiscutivelmente uma de suas correntes mais criativas.

Então, quem era exatamente Kenneth Grant?

Nascido em 23 de maio de 1924, muito pouco se sabe sobre os antecedentes de Grant ou sobre a sua biografia real. Ele era um homem intensamente reservado, que apesar – ou talvez até mesmo por causa – da natureza de seu trabalho e a notoriedade de seu mentor, Aleister Crowley, seguia uma rígida política de não divulgação, semelhante ao apagamento da história pessoal defendida nos livros de Carlos Castañeda.

Por sua própria natureza, algo como um jovem livreiro, sonhador, fascinado pela magia e pelo misticismo, o jovem Grant havia experimentado projeção astral e, aos 15 anos de idade, o que ele vivia eram contatos espontâneos de um ser que se chamava Aushik ou Aossic, que mais tarde identificaria como seu Santo Anjo Guardião. Grant tinha encontrado Magick In Theory and Practice (Magia em Teoria e Prática) de ‘Mestre Therion’ (um pseudônimo de Crowley’s) na livraria Charing Cross Road, Zwemmer’s, e, sentindo aqui talvez uma chave para entender – ou mesmo controlar – suas experiências, convenceu Michael Houghton, proprietário da Livraria The Atlantis Bookshop, a colocá-lo em contato com o autor. Houghton declinou, no entanto – as razões para isso não são claras – mas o que é um assunto de registro é que Grant, depois de escrever pela primeira vez, finalmente se encontrou com Crowley. Era dezembro de 1945, e quando eles apertaram as mãos pela primeira vez a música Shine On Harvest Moon estava tocando no rádio em segundo plano.

Foi assim que o jovem Kenneth Grant se tornou, por um tempo, um assistente-secretário do velho Magus ao abandonar Londres devastada pela Blitzkrieg, pela paz, tranquilidade e relativa segurança de uma hospedaria na costa sul. Foi em ‘Netherwood’ em Hastings, onde A Grande Besta terminou seus dias apenas três curtos anos depois, que Grant se tornaria aprendiz da Magia de Crowley a sério, e seria iniciado em sua Ordo Templi Orientis, conheceria pessoas como Dion Fortune, Gerald Gardner e Lady Frieda Harris, a artista talentosa que ilustrou o superlativo Livro do Tarô de Toth de Crowley. Ele também tomou conhecimento da ainda extensa rede de correspondência de Crowley com ocultistas no exterior – tais como Karl Germer e Eugen Grosche na Alemanha, e Jane Wolfe, W. T. Smith e Jack Parsons na América. Por um tempo, parece até que a Besta envelhecida estava preparando o jovem Grant para ser um possível sucessor, referindo-se a ele como um “Presente dos Deuses“, e anotando em seu diário:

“…o valor de Grant. Se eu morrer ou for para os EUA, deve haver um homem treinado para cuidar da OTO inglesa.”

Mas mesmo nesta fase inicial, a propensão de Grant para o devaneio e para o outro mundo desnorteou e frustrou o homem mais velho, que – afinal de contas – procurava assistência prática, no dia-a-dia, em primeiro lugar, e treinar um herdeiro, em segundo. Finalmente tudo se tornou demais – particularmente para Grant, que sentia falta de sua noiva Steffi – e Crowley o deixou ir, mas não antes de iniciar Grant no Grau IXO da O.T.O. e de fornecê-lo com uma Carta para montar um acampamento da Ordem.

Pouco antes da morte de Crowley, Grant também conheceu um homem que mais tarde provaria ser quase tão influente sobre ele quanto A Grande Besta: embora mais na forma de uma eminência parda, que influenciou Grant nos bastidores. Ele forneceu uma iniciação e inspiração que teve um impacto definitivo na reformulação da Thelema de Grant, no propósito e rituais do ramo da O.T.O. que ele fundou, e muito do foco das suas Trilogias Tifonianas. Seu nome era David Curwen.

Um alquimista praticante e aluno do Tantra, que havia dado o passo da devoção a um guru indiano – incomum para um ocidental na época – David Curwen foi mencionado pela primeira vez nas memórias de Grant de 1991, Remembering Aleister Crowley (Relembrando o diário Aleister Crowley):

“David Curwen foi mencionado pela primeira vez nos diários de Crowley, em 2.9.1944. Quando o conheci, pouco antes da morte de Crowley, ele era membro do IX° O.T.O. Sua paixão pela Alquimia era tão grande que ele quase morreu depois de absorver o ouro líquido. Seu conhecimento do Tantra era considerável. Foi através de Curwen que recebi, eventualmente, a iniciação completa em uma fórmula altamente recôndita do Tântrico vama marg.”

Ao discutir a tentativa de Crowley de formular um “elixir” como parte de seu trabalho da magia sexual, Grant menciona um detalhe de relevância fundamental para sua posterior tecelagem de Tantra e Thelema, que seria essencial para sua própria jornada de iniciação:

“Existe um documento relativo a esta fórmula compilado pelo antigo guru de Curwen, um tântrico do sul da Índia. É na forma de um extenso comentário sobre um texto antigo da Escola Kaula. Curwen emprestou a Crowley uma cópia do mesmo.”

O documento em questão era uma cópia do Anandalahari, ou a “Onda de Felicidade“, anotado pelo guru sul-indiano de Curwen e com um Comentário explicando o simbolismo fisiológico – e explicitamente sexual -. Isto forneceu a Grant a chave para desvendar os mistérios ocultos dos Textos Sagrados em Sânscrito, a partir dos quais ele foi capaz de desenvolver – com a ajuda de Curwen – uma visão mais profunda do Tantra do que seu antigo mentor jamais havia conseguido:

Nas instruções que acompanham os graus superiores da O.T.O., não há um relato abrangente do papel crítico dos kalas, ou emanações psicossexuais da mulher escolhida para os ritos mágicos. O comentário foi um abrir de olhos para Crowley, e explicou algumas de suas preocupações durante minha estada no ‘Netherwood’. Estas envolviam uma fórmula de rejuvenescimento. Faltava ao O.T.O. algumas chaves vitais para o verdadeiro segredo da magia que Crowley afirmava ter incorporado nos graus mais altos. Curwen, sem dúvida, sabia mais sobre estes assuntos do que Crowley, e Crowley ficou irritado com isso.

Apesar de suas credenciais externas como ocultista e às vezes transgressor, como um bissexual promíscuo e drogado, Aleister Crowley ainda era, em muitos aspectos, um produto de seu tempo: ele pode não ter sido um misógino, mas sofria de um chauvinismo masculino, todo típico de sua origem vitoriana, privilegiada e branca. Ele também tinha pouco ou nenhum conhecimento do autêntico Tantra de fontes originais, enquanto quando eu troquei cartas e me encontrei brevemente com Kenneth Grant em 1981, ele deixou claro que apesar de sua dedicação de toda sua vida a Crowley e à Lei de Thelema, realmente seu “primeiro amor”, espiritualmente falando, foi o Advaita Vedanta. Esta antiga filosofia hindu da não-dualidade afirma que Atman, ou o Verdadeiro Eu, não é essencialmente diferente do Princípio Universal mais Elevado, ou Brahman. Grant se tornaria por um tempo, nos anos 50, um seguidor do Sábio de Arunachala, Bhagavan Sri Ramana Maharshi, e via sua meditação essencial “Quem sou eu?” como equiparada à busca de Thelema de realizar a Verdadeira Vontade de alguém, escrevendo:

“O espírito natural do Oriente, em sua rotunda mais profunda, está em total concordância com a doutrina de Thelema. Que isto pode ser provado comparando os princípios básicos de Thelema com o Caminho Chinês do Tao, a doutrina Vedântica de Advaita e a filosofia central do Tantricismo Hindu e Budista.”

Vários artigos que Grant escreveu para as revistas anglo-indianas foram posteriormente reunidos e publicados como At the Feet of the Guru (Aos Pés do Guru).

Depois de um período de associação com Gerald Gardner – que também era membro da O.T.O., também com um estatuto para criar um acampamento (embora não haja evidências de que ele alguma vez o tenha utilizado) – Grant criaria um Grupo de Trabalho próprio, “evoluído… para fins de tráfego com os Outer Ones (Exteriores)”, do qual ele escreveu:

“Entre os anos 1955-1962, eu estava envolvido com uma Ordem oculta conhecida como New Ísis Lodge (Nova Loja Ísis). Ela funcionava como uma filial da Ordo Templi Orientis (O.T.O.), com sede em Londres. Fundei a Loja para canalizar transmissões de fontes transplutônicas… O corpo dessas transmissões forma a base das Trilogias Tifonianas.”

Isto causou uma briga com Karl Germer, chefe nominal da O.T.O. quando da morte de Crowley, que sentiu que Grant havia excedido sua autoridade. Houve também conflitos de personalidade porque a New Ísis Lodge havia emitido um manifesto em conjunto com o antigo Grão-Mestre da Fraternitas Saturni alemã, Eugen Grosche, com quem Germer havia se desentendido anteriormente – o resultado foi a expulsão de Grant da Ordem. Este Grant desconsiderou, entretanto, considerando sua autorização de ter vindo do próprio Crowley, e também seus próprios contatos dos “Planos Interiores”. Assim começou a separação dos caminhos entre a Ordem Tifoniana de Grant e o chamado ‘Califado’ O.T.O. reformulado na América por Grady McMurtry.

Uma chave para entender a noção de ‘Gnose Tifoniana é a identificação enfática de Kenneth Grant com Tifón – uma entidade monstruosa da mitologia grega, líder dos Titãs, que fazem guerra contra os deuses do Olimpo, e decididamente feminina – como a Mãe de Set. Grant não hesita em se apropriar deste gigantesco monstro ctônico, de múltiplas asas e membros de cobra, Tifón Primordial, como um avatar da Grande Mãe, ou seja, da própria “Mãe Natureza”, e ousadamente afirma:

“Ela tipificou a primeiro progenitora numa época em que o papel do macho na procriação era insuspeito. Como ela não tinha consorte, ela era considerada uma deusa sem um deus, e seu filho – Set – sendo sem pai, também não tinha deus e era, portanto, o primeiro ‘diabo’, o protótipo do Satã das lendas posteriores.”

Em relação a Set – uma figura sombria e primordial da potência bruta do Egito aborígine, pré-dinástico, mais tarde lançado como o assassino do deus-rei Osíris e depois protótipo do “Deus contra os deuses” – Grant escreveu no prefácio da edição de 1990 do que havia sido originalmente seu primeiro livro, O Renascer da Magia:

“Para nós, que temos o conhecimento interior, herdado ou vencido, resta restaurar os verdadeiros ritos de Átis, Adônis, Osíris, de Set, Serápis, Mitra, e Abel”.

Estas palavras de Aleister Crowley me inspiraram quando jovem e, imaginando-me como um daqueles a quem eram dirigidas, logo descobri que, por alguma razão, não fui capaz de entender que era o deus Set que eu estava sendo chamado a honrar. Assim, tomei a mim mesmo a tarefa de penetrar nos Mistérios deste, o mais antigo dos deuses, e traçar a história de seus ritos desde uma antiguidade indefinida até os dias de hoje.

Os Mistérios Egípcios formam em grande parte o núcleo da Tradição Mágica Ocidental e foram certamente a base para os mitos e rituais da  Hermetic Order of the Golden Dawn (Ordem Hermética da Aurora Dourada), onde Crowley tinha aprendido a maior parte do que precisava para seu desenvolvimento posterior. O Antigo Egito como fonte de poder sobrenatural sancionou seu papel como Profeta, e construiu sobre o Éon de Horus de Crowley e O Livro da Lei, tanto quanto Grant cuja principal fonte para sua Gnose Tifoniana foi o controverso trabalho do egiptólogo esotérico autodidata, Gerald Massey.

Em obras monumentais como o Natural Genesis and Ancient Egypt: The Light of the World (Gênesis Natural e o Egito Antigo: A Luz do Mundo), Massey expôs em termos inequívocos o que ele afirmava ser a base afrocêntrica e fisiológica da Gnose: “Os mais antigos símbolos e religiões têm origem na África”. Ele concebeu o Tifón como equivalente à Tauret egípcia, ou Ta-Urt, o hipopótamo “Senhora da Casa de Nascimento”. Ela era a Deusa das Sete Estrelas do Norte (A constelação da Ursa Maior), e seu filho era a Estrela da (Constelação) do Cão (Maior), Sothis ou Sírius (igualado a Set), cuja ascensão heliacal aparecia acima do horizonte pouco antes da inundação do Nilo. A palavra “Tifoniano” se referia àqueles que adoravam esta Deusa Primordial, e os membros de Seu Culto Estelar haviam fugido para o Oriente, levando sua sabedoria com eles, quando os adoradores do Culto Solar ganharam a ascendência. Em muitos aspectos, a maior inovação de Kenneth Grant foi ligar esta Tradição Tifoniana ao Ocultismo Moderno.

Enquanto Grant se baseava extensivamente nas obras de outros ocultistas que o precederam – Blavatsky, Crowley, Fortune, Grosche, Spare – e citou acadêmicos e estudiosos, do sexólogo pioneiro Havelock Ellis ao ‘Egiptosofista’ Gerald Massey, ele também tinha o curioso hábito de referenciar obras de ficção com a uma aparente mesma seriedade. Assim, as discussões sobre a Sabedoria Estelar e a sobrevivência do culto pré-dinástico do primeiro Egito podem incluir, assim como referências a fontes arqueológicas, também material especulativo extraído dos Registros Akáshicos. Comparações com escritos sobre Tantra e Vodu são todas misturadas com as histórias de terror de Bram Stoker, as pulp novels (romances de celulose) de Sax Rohmer, a ficção sobrenatural de Arthur Machen e os ‘Contos Estranhos’ de H. P. Lovecraft.

Grant tinha uma afeição especial por Lovecraft, aparentemente acreditando que ele estava “em alguma coisa” – que seu temido grimório, O Necronomicon, de fato existia no plano astral, e que HPL (Lovecraft) tinha apreendido isso através de seus sonhos, mas era incapaz de aceitar a “verdade” do que ele tinha discernido – que ele era, de fato, um mago inconsciente. Para aumentar a aparente confusão, em várias obras Grant deu relatos – alegadamente dos Anais de sua Nova Loja Ísis – que parecer como algo da prosa roxa de escritores de horror sobrenaturais, e falou de personagens fictícios como se fossem “reais” – e então em suas obras supostamente fictícias ele se baseou em elementos presumivelmente biográficos de sua própria vida, também personagens e locais “reais”.

A meu ver, este exame excessivamente literal de certos escritos, tais como Grant – ou mesmo Carlos Castañeda, com quem às vezes foi comparado – pode passar despercebido. Se Don Juan ‘realmente’ transformou Castañeda em um corvo, ou se eles saltaram da montanha juntos – ou se Crowley ‘realmente’ perguntou a Kenneth Grant se eles eram parentes distantes por meio de um primo compartilhado em um clã estendido, que por acaso estava de posse de uma herança de família na forma de um grimório documentando seu tráfego de gerações – com inteligências de outros mundos – não está nem aqui nem lá. O que Grant está tentando enfatizar – do que ele era um indubitável Mestre – é o uso da ficção ou literatura como uma forma de Glamour mágico.

As palavras podem tecer mundos, as palavras podem conjurar fantasmas – as palavras podem transportar, transformar, e alterar a consciência – o único limite sendo a imaginação. É preciso lembrar que a imaginação se preocupa com a criação de imagens, em cujo respeito está diretamente relacionada à Antiga Heka egípcia: uma palavra que significava tanto “Magia” quanto “a criação de imagens”. O rol de escritores que também eram magos – ou, alternativamente, ocultistas que empregam a ficção como meio de expressar conceitos mágicos – é longa e distinta.

O próprio Grant segue as pegadas de Aleister Crowley e Dion Fortune, ambos com um passado na Golden Dawn e seus descendentes, assim como Algernon Blackwood, J. W. Brodie-Innes, Arthur Machen, Sax Rohmer, Bram Stoker e A. E. Waite. Grant viu as implicações ocultas no trabalho de tais escritores como não sendo tão diferentes das suas próprias:

“Machen, Blackwood, Crowley, Lovecraft, Fortune e outros, frequentemente usaram como tema para seus escritos o influxo de poderes extraterrestres que têm moldado a história de nosso planeta desde o início dos tempos…”

Assim como outros poetas e escritores decadentes e simbolistas, como Baudelaire, Huysmans, Lautréamont e Rimbaud, pintores surrealistas como Salvador Dali, Paul Delvaux, Max Ernst e Yves Tanguy tem uma apreciação especial. Dali em particular foi elogiado como “Um dos maiores magos de nosso tempo” – com Grant passando a explicitar a comparação deste com Spare:

“Spare já havia conseguido isolar e concentrar o desejo em um símbolo que se tornou senciente e, portanto, potencialmente criativo através dos relâmpagos da vontade magnetizada. Dali, parece, levou o processo um passo adiante. Sua fórmula de ‘atividade paranóico-crítica’ é um desenvolvimento do conceito primordial (africano) do fetiche, e é instrutivo comparar a teoria de Spare de ‘sensação visualizada’ com a definição de Dali de pintura como ‘fotografia colorida feita à mão de irracionalidade concreta’. A sensação é essencialmente irracional, e sua delineação em forma gráfica (“fotografia a cores feita à mão”) é idêntica ao método de Spare de “sensação visualizada”.”

A ênfase no uso de tal criatividade, carregada de intenção mágica e dirigida pela vontade treinada, é um conceito chave da Gnose Tifoniana:

“Dion Fortune enfatizou a importância do devaneio conscientemente controlado. Baseando suas práticas em aspectos dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, ela demonstrou o valor mágico do “sonho verdadeiro”, uma expressão derivada do romance de George du Maurier, Peter Ibbetson. A teoria é que se alguém tece um sonho diurno com intensidade suficiente induz a uma abstração tão total dos sentidos que o sonhador se funde num sonho acordado, no qual ele é o criador e mestre de suas próprias fantasias. Se poderosamente formuladas, estas concretizam, reificam e assumem uma realidade igual em grau – e muitas vezes maior – àquela que é experimentada na consciência desperta comum. As vantagens de ser capaz de induzir tal estado são evidentes.”

Talvez mais do que qualquer outro escritor ocultista moderno, Grant enfatizou a importância, potencial e poder de tal criatividade, escrevendo em Aleister Crowley & O Deus Oculto que, “A Grande arte é sempre simples… a verdadeira arte expressa a Eternidade”. Desde o início, a arte de Austin Osman Spare e a esposa de Grant, Steffi, é essencial para a função das Trilogias Tifonianas – o texto ilustra as figuras tanto quanto as figuras ilustram o texto. Mais tarde, em Outside the Circles of Time (Fora dos Círculos do Tempo), Grant escreve a respeito de artistas como Dali, Sidney Sime, Spare, e Tanguy:

“Estes artistas deram um salto em outras dimensões e – este é o ponto importante – voltaram para registrar suas experiências extradimensionais… A arte, no sentido verdadeiro e vital, é um instrumento, uma máquina mágica, um meio de exploração oculta que pode projetar o vidente no reino do invisível, e lançar a mente desperta nos mares do subconsciente.”

Por mais que as obras de Kenneth Grant possam ser documentos inestimáveis da evolução do ocultismo contemporâneo – assim como registros da contribuição de muitas das figuras pioneiras com as quais ele teve contato pessoal – é de se esperar que a maior contribuição de seus livros seja como catalisadores mágicos para o leitor que está preparado para abordá-los sob a mesma luz. Como escreveu a antiga protegida de Grant, Sacerdotisa da Magia de Maat, Nema: “Estes não são apenas livros sobre Magia; são livros que são Magia”.

Usados como portais para o Nightside (Lado Noturno), os nove volumes das Trilogias Tifonianas – assim como os vários outros livros de Grant – podem finalmente servir como guias para aquele lugar de exploração e inspiração além de distinções como ‘fato’ e ‘ficção’ que ele gostava de chamar de “a Zona Malva”.

Como tal, eles podem servir como plataformas de lançamento ou mesmo veículos para aquele lugar que cada um de nós precisa encontrar por si mesmo: o lugar onde a Magia acontece.

Finalmente, para concluir, sei que uma imagem de Grant é frequentemente pintada como autocrático, até mesmo autoritário da “Velha Escola”, o que pode muito bem ter sido assim – várias pessoas me levaram a acreditar que ele era realmente mais fácil de lidar se você não fosse um membro da sua Ordem Tifoniana! – mas não há dúvida da sua óbvia dedicação ao Feminino Daemônico (ou Demoníaco). A  Fellowship of Isis (Irmandade de Ísis), que Grant apoiou, afirmou que ele era “totalmente a favor da Deusa”. Sua defesa da obra de Dion Fortune, de Marjorie Cameron – numa época em que a maioria das pessoas, se é que tinham conhecimento dela, apenas a consideravam como a “viúva de Jack Parsons” – seu encorajamento ativo às sucessivas gerações de mulheres fortes ocultistas, como Janice Ayers, Jan Bailey, Linda Falorio, Margaret Ingalls (a supracitada Nema), Mishlen Linden e Caroline Wise – assim como sua devoção vitalícia à sua esposa, a artista Steffi Grant, cujas obras complementam e ilustram vividamente seus livros – todas atestam isso.

Retrato de Steffi e Kenneth Grant, por Austin Osman Spare.

Sendo o último elo vivo* com Aleister Crowley, Gerald Gardner, Eugen Grosche e Austin Osman Spare, o legado de Kenneth Grant ainda está para ser totalmente avaliado e não voltaremos a ver algo semelhante a ele novamente.

* Kenneth Grant faleceu em janeiro de 2011 aos 86 anos.


Fonte: Tifon Rising: The Magical Legacy of Kenneth Grant.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-ascensao-tifoniana-o-legado-magico-de-kenneth-grant/

Análise geoquímica do espelho de John Dee

Stuart Campbell, Elizabeth, Yaroslav Kuzmin & Michael D. Glascock

Um dos objetos mais conhecidos em exibição na Galeria do Iluminismo do Museu Britânico é o espelho de obsidiana associado a John Dee, o polímata renascentista, mago e confidente da rainha Elizabeth I. No entanto, outros aspectos do espelho também merecem atenção. Como o aspecto material, por exemplo, a obsidiana é muitas vezes considerada especial; embora amplamente utilizado na fabricação de ferramentas, seu uso para fazer espelhos muitas vezes aumentou seu fascínio e natureza simbólica. Espelhos de obsidiana foram feitos pela primeira vez no sétimo milênio aC no Oriente Próximo, embora espelhos como o associado a Dee provavelmente tenham sido de origem asteca. Como esse espelho em particular chegou a ele na Europa do século XVI não está totalmente claro. Dúvidas até
foram levantadas sobre o quão confiável é sua atribuição a Dee e se na verdade não pode ser uma cópia, feita com obsidiana de origem européia.

Aqui revisamos a história do espelho e sua associação com John Dee, juntamente com artefatos semelhantes no Museu Britânico. Isso inclui a determinação das origens geológicas desses objetos de obsidiana. A pesquisa de um corpus expandido de espelhos mexicanos e artefatos relacionados nos permite colocá-los dentro de uma perspectiva mais ampla, ajudando-nos a entender como os significados associados podem ter acumulado e mudado ao longo do tempo à medida que os objetos movido por diferentes contextos. Esse processo ocorreu em um período crítico da história, em que o espelho John Dee não está apenas associado ao crescente engajamento europeu com o Novo Mundo, mas também passou a simbolizar a relação emaranhada entre ciência e magia no final do Renascimento. A posição contestada do espelho entre culturas e entendimentos do mundo persiste em sua história de coleção mais recente.

John Dee: erudito e mago

John Dee viveu de 1527 a 1608/1609. Ele era um estudioso arquetípico do Renascimento, escrevendo sobre diversos assuntos, incluindo alquimia e astrologia. Dee inicialmente cruzou a linha tênue entre a “magia” natural, que era considerada uma ciência, e a magia demoníaca, que era considerada uma perversão da religião, mas que ele acabou cruzando. Dee acumulou uma vasta biblioteca e coletou uma variedade de equipamentos de navegação. Ele também tinha vários espelhos de vidro que usava para demonstrar ilusões de ótica. Ele estava bem relacionado com os intelectuais europeus e viajou extensivamente na Europa. Em 1558, tornou-se conselheiro científico e astrólogo da rainha Elizabeth I. Entre c. 1550 e 1570, que ele aconselhou em viagens inglesas de descoberta para o Novo Mundo e mostrou grande interesse em relatos dos primeiros encontros espanhóis na região. Na década de 1580, ele se envolveu cada vez mais com o sobrenatural e levou vários videntes ou médiuns para se comunicar com espíritos através do uso de espelhos ou cristais – mais notavelmente Edward Kelley – em seu serviço como intermediários entre ele e os anjos. É por este período de sua vida que ele é mais conhecido na imaginação do público, e provavelmente foi também o momento em que o espelho de obsidiana discutido aqui veio à tona.
Exatamente como e quando Dee obteve esse objeto é incerto. Os espelhos figuram em várias listas de remessas iniciais de artefatos para a Europa dos Habsburgos após a conquista do México (1519-1521), incluindo oito espelhos de vários tipos enviados aos cuidados de Diego de Soto (Martínez 1990: n. 37). Dee teria tido a oportunidade de adquirir um desses espelhos enquanto se misturava em tribunais e círculos diplomáticos durante suas visitas à Europa. Ele pode ter obtido “o espelho durante seus estudos em Louvain durante 1548-1550” . Uma data posterior, no entanto, pode estar mais de acordo com seu interesse crescente pelo ocultismo. Como manteve extensos contatos intelectuais e diplomáticos com o Império Habsburgo, é possível que tenha adquirido o espelho enquanto vivia na Boêmia no início da década de 1580, época em que os objetos do Novo Mundo estavam cada vez mais sendo exibidos no Kunstkammer da Europa.

Por volta de 1770, o espelho estava certamente na posse do político e antiquário Horace Walpole. Uma etiqueta escrita à mão na caixa, escrita pelo próprio Walpole, afirma: “A Pedra Negra na qual o Dr. Dee costumava chamar seus Espíritos”. Isso corresponde aos registros que documentam que a coleção dos Condes de Peterborough passou para Sir John Germain em 1705 e, posteriormente, para Lady Elizabeth Germaine (Ackermann & Devoy 2012: 542–43). Provavelmente fazia parte da coleção do segundo conde de Peterborough, Henry Mordaunt, pois possuía livros sobre ocultismo, e Tait argumentou que pode ter sido originalmente adquirido pelo primeiro conde de Peterborough.

Embora a associação entre o espelho e Dee tenha persistido, também existem dúvidas sobre a falta de documentação chave sobre a conexão. O link ganha forte apoio, no entanto, de uma fonte menos conhecida da década após a morte de Dee. Muitos dos livros e outras posses de Dee passaram para John Pontois, seguindo conselhos sobrenaturais em uma das tentativas finais de Dee de conversar com anjos. Em um processo de 1624 após a morte de Pontois, um depoimento feito por Thomas Hawes registra ter visto na casa de Pontois – antes da partida deste último para servir na Virginia Company no final de 1618 – “uma certa pedra redonda e plana como Cristall, que Pountis disse ser um pedra que um Angell trouxe ao médico para pintar onde ele trabalhava e sabia muitas coisas estranhas”. A coleção de Pontois só foi dispersa em 1625 e 1626, altura em que o primeiro conde de Peterborough pode tê-la adquirido.

O espelho mudou de mãos várias vezes após a dispersão da coleção de Walpole e foi leiloado pelo menos quatro vezes antes de sua aquisição pelo Museu Britânico em 1966, onde imediatamente se tornou uma exposição popular. Notavelmente, o Museu Britânico categoriza o espelho por sua associação com Dee, colocando-o no Departamento da Grã-Bretanha, Europa e Pré-história, e não por sua provável origem americana. Muitas vezes foi emprestado a outros museus para exposições sobre medicina, ciência e magia. Ao invés de focar exclusivamente na conexão com Dee, é útil considerar o espelho como um objeto com um contexto mais amplo e um conjunto de associações que mudaram ao longo de sua história. A associação com John Dee é importante, mas há uma história mais ampla por trás dele.

Espelhos de obsidiana no Museu Britânico

Examinamos o espelho John Dee, juntamente com um grupo de objetos relacionados no Museu Britânico, incluindo dois outros espelhos circulares de tipo semelhante e um espelho retangular. Os três últimos espelhos são mantidos no Departamento da África, Oceania e Américas. Como o espelho de Dee, os caminhos exatos pelos quais esses objetos se moveram de seus contextos originais para o Museu Britânico não são claros, mas todos têm biografias notáveis.
O espelho de John Dee é quase circurlar, medindo 195 × 185mm, com uma aba ou alça curta, quadrada e perfurada. As supefícies frontal e traseira foram finamente polidas e altamente polidas, sem corrosão visível sob baixa ampliação. O estado bem preservado do espelho pode ser porque ele foi mantido em um estojo – pelo menos, no momento em que estava na posse de Walpole. Lascas ao redor da perfuração podem ter sido causadas pela suspensão do espelho.

O segundo espelho é maior, medindo aproximadamente 260mm de diâmetro, e tem uma aba em forma de lágrima. Foi colecionado por William Bullock no México em 1823 e fez parte de sua exposição de material mexicano no Egyptian Hall em Piccadilly, uma exibição que influenciou muito a reintrodução da herança mexicana para a atenção britânica. O catálogo original descreve-o como “Um espelho asteca, composto por uma grande placa de obsidiana, polida em ambos os lados”. Foi adquirido pelo Museu Britânico em 1825, após o encerramento da exposição de Bullock, e atualmente está exposto com o espelho de John Dee na Galeria do Iluminismo, criando um novo contexto por associação. Anteriormente, também foi exibido em 2009/2010 na exposição Moctezuma do Museu Britânico.
O terceiro espelho circular tem uma aba quadrada, como o espelho de John Dee, e mede aproximadamente 240mm de diâmetro. Foi recolhido no século XIX por Sir Edgar Thornton enquanto era adido no México, antes de ser adquirido pelo museu em 1907. Atualmente não está em exibição, mas foi emprestado para exposições sobre Magical Consciousness (em Bristol) e Treasures of the World’s Cultures (em Abu Dhabi, Bonn e Cingapura).

Também examinamos uma laje retangular mantida nas coleções do Museu Britânico. O objeto mede 225 × 190 mm e tem 30 mm de espessura. Tem uma superfície polida, semelhante a um espelho, que parece idêntica às dos espelhos circulares, sua parte inferior é plana, mas áspera, e as bordas da laje form intencionalmente moldadas por descamação. O objeto foi adquirido de uma fonte desconhecida por Sir Cuthbert Edgar Peek, que presumivelmente o incluiu em seu museu em Rousden em Dorset; foi comprado pelo Museu Britânico em 1926.
Embora os espelhos circulares sejam um tipo bem conhecido de objeto asteca, nenhum exemplo foi confirmado anteriormente por proveniência analítica. Um espelho circular anteriormente incluído nesta categori foi recentemente mostrado como proveniente do depósito de obsidiana Mullumica no Equador e, portanto, foi excluído aqui. Sete lajes retangulares de obsidiana com superfícies polidas foram procedidas por emissão de raios X induzida por prótons, com a conclusão de que seis são provenientes da área de origem de Ucareo-Zinapecuaro (seguindo a nomenclatura de Healan (1997)) e uma de Pachuca (Calligaro et al. . 2007), ambos na região central do México. A fluorescência de raios-X (XRF) traça mais um exemplo para a área de origem de Ucareo-Zinapecuaro (Pixley 2013).

Procedência geológica dos espelhos do Museu Britânico

Para determinar a origem da obsidiana explorada para os artefatos no Museu Britânico, usamos um instrumento portátil de XRF (pXRF) (Niton XL3T 980 GOLDD+). O uso da análise de pXRF tem sido bem sucedido na determinação das fontes geológicas de artefatos em muitas partes do mundo. Nosso procedimento analítico seguiu uma metodologia bem estabelecida (Campbell & Healey 2016). Três leituras de 90 segundos foram feitas em dois locais em cada espelho. Embora as leituras consistentes de diferentes pontos – com um meio usado para interpretação posterior – sejam tranquilizadoras, não conseguimos limpar as superfícies desses objetos do museu. Assim, havia algum potencial para contaminação resultante de vários séculos de manuseio. Embora pareça improvável que isso seja uma fonte de grande erro, tal contaminação pode levar a alguma dispersão das leituras. As leituras do instrumento foram submetidas a uma calibração interna de parâmetros fundamentais e uma calibração linear adicional contra um conjunto de 16 padrões internacionais, para produzir concentrações elementares finais (Tabela S2). Os elementos aqui relatados têm uma boa relação com os valores publicados para nosso conjunto de padrões internacionais, com valores de R2 >0,95. A repetibilidade também é boa, com o padrão relativo percentual desvio abaixo de 10 por cento.
Para determinar a origem exata da obsidiana, analisamos uma série de amostras geológicas de potenciais fontes mexicanas, selecionadas da coleção da Universidade de Missouri após uma revisão inicial das leituras. Eles incluíam obsidiana de Otumba (três amostras), Pachuca (quatro amostras), Ucareo (duas amostras) e Zaragoza (quatro amostras) – todas originalmente coletadas durante o trabalho de campo de Robert H. Cobean. Cada amostra fonte foi analisada cinco vezes, sendo a média de cada amostra utilizada posteriormente. Uma comparação das leituras dessas fontes foi feita com resultados obtidos no Missouri usando um instrumento Bruker III-V pXRF. Isso mostra uma alta correspondência para manganês (R2 = 0,91), ferro (R2
= 0,98), zinco (R2 = 0,97), rubídio (R2 = 0,95), estrôncio (R2 = 1,0) e ítrio (R2 = 0,99).

A análise dos dados dos quatro espelhos indica que eles se enquadram em dois grupos geoquímicos que permanecem consistentes em vários elementos. Os gráficos bivariados sugerem que esses dois grupos correspondem de perto ao material de origem geológica de Pachuca e Ucareo. Enquanto a associação com as amostras da fonte Pachuca é um pouco mais frouxa, a fonte em si é mais variada (Lighthart Ponomarenko 2004).

O Artefato 1 (o espelho John Dee) combina muito com a obsidiana geológica de Pachuca, assim como o Artefato 3, o mais semelhante em forma ao espelho John Dee. Os artefatos 2 e 19 pertencem ao segundo grupo composicional, aproximando-se da obsidiana geológica de Ucareo. Que os espelhos sejam feitos de obsidiana de diferentes fontes não é particularmente surpreendente, pois várias fontes de obsidiana foram exploradas pelos astecas. A fonte Pachuca foi a mais explorada e estava localizada em território asteca. Esta obsidiana é descrita como sendo particularmente pura em qualidade e foi o material preferido para núcleos de lâminas prismáticas . A área de origem Ucareo-Zinapecuaro estava em território Tarascan e inclui várias sub-fontes, das quais Ucareo é a mais comumente atestada arqueologicamente (Healan 1997). Esta fonte às vezes aflora em lajes, o que a torna ideal para a fabricação de espelhos. É notável que oito das nove lajes retangulares que agora foram adquiridas vêm de Ucareo, sugerindo que este pode ter sido o local de fabricação especializada usando uma forma de obsidiana particularmente adequada para esta aplicação. Ambas as fontes foram exploradas no período pós-clássico tardio.
(1200-1521) e primeiros períodos coloniais (1521 em diante).

Os espelhos do Museu Britânico não são únicos. Smith (2014: tab. 1.1) identificou 16 espelhos circulares de origem asteca em coleções ao redor do mundo. Podemos agora excluir dois desses exemplos e adicionar mais quatro, para dar um total de 18. A maioria tem abas, presumivelmente usadas para prender o espelho ao corpo de um indivíduo ou a uma escultura. Em alguns casos, a aba está quebrada e em outros não tem aba. Smith (2014: 19) sugeriu que esses espelhos se enquadram em dois grupos de tamanhos, mas isso não parece mais claro: embora os diâmetros de 185 a 220 mm sejam mais comuns, ocorrem exemplos de até 300 mm de diâmetro. O espelho de John Dee está na extremidade menor do intervalo, mas os outros dois espelhos circulares que examinamos são maiores. Alguns podem ter molduras de madeira, e o exemplo agora no Museu Americano de História Natural tem uma moldura dourada decorada que pode ser original (Saville 1925: 87-88; Taube 1992: 184), ou talvez tenha sido uma adição posterior (Smith 2014: 17). Espelhos circulares são retratados em ilustrações de códices criadas por artistas indígenas na época da conquista espanhola, aparentemente com molduras. Faltam contextos arqueológicos seguros para esses objetos; enquanto a maioria dos exemplos provavelmente vem do final do período pós-clássico, a produção de espelhos circulares pode ter continuado no início da era colonial.

As lajes retangulares polidas também são bem conhecidas. Pelo menos 31 objetos desse tipo podem ser identificados em coleções de museus . Eles são frequentemente incluídos ao lado dos espelhos circulares, e a produção de suas superfícies superiores polidas parece se basear nas mesmas tecnologias. Eles podem, no entanto, ter um propósito diferente, pois nenhum possui abas ou orifícios de suspensão para permitir a fixação a um corpo ou escultura. Muitos foram certamente usados ​​no início do período colonial como altares portáteis, ou aras, por missionários cristãos (Saunders 2010), embora não tenhamos evidências de que estes últimos estivessem cientes do significado simbólico anterior dos espelhos de obsidiana. As lajes retangulares foram provavelmente fabricadas durante o século XVI. No segundo quartel do século XVI, Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés “tinha quatro aras de pedra negra mexicana em Santo Domingo […] Vice-rei Mendoza havia enviado ao imperador duas aras pretas com ‘uma veia no meio, de um vermelho vivo como um rubi’”. No final do século XVI, Zinapecuaro (incluindo sem dúvida a fonte de Ucareo) destacava-se pela presença de uma “pedreira de pedra preta de onde se retiravam muitas peças boas para as aras”, e no mercado encontravam-se “pedras que servem para espelhos, e são muito bons para fazer altares” . Uma pequena laje retangular tem uma data inscrita interpretada como 9 de dezembro de 1483, sugerindo que pode pertencer a uma tradição mais antiga. O fato de ser também o único exemplar conhecido feito de obsidiana de Pachuca, no entanto, também o marca como diferente . A concentração da produção de espelhos na área de origem Ucareo-Zinapecuaro sugere que houve continuidade no conhecimento dessas fontes, bem como em aspectos da técnica de fabricação. Quatro exemplos de lajes retangulares aparentemente vêm de contextos funerários, sugerindo que o papel desses artefatos pode ser mais variado – talvez carregando conotações de proteção, conforme observado abaixo. Nas mitologias astecas, há muitas associações de obsidiana com o submundo e com a morte.

Obsidiana era um recurso importante no Império Asteca e era usado para fins militares e equipamentos domésticos, bem como em atividades religiosas. Durante a fase final do Império Asteca, a produção de itens de obsidiana foi cada vez mais realizada por artesãos especializados controlados pela elite. Espelhos, feitos de obsidiana ou pirita, tinham simbolismo complexo e demoravam para serem fabricados. Grande parte da informação sobre espelhos de obsidiana no mundo asteca vem de Frei Bernardino de Sahagún (c. 1499-1590), o missionário e etnógrafo franciscano que compilou a história geral das coisas da Nova Espanha no início do período colonial. Espelhos foram feitos por especialistas (tezcachiuhqui):

O vendedor de pedras de espelho […] (é quem as faz), lapidário, polidor. Ele lixa [… com] areia abrasiva; ele corta; ele esculpe; ele usa cola […] dá polimento com uma bengala fina, dá brilho. Ele vende pedras-espelho — redondas, circulares; perfurado em ambos os lados [translúcidos]; duas faces, uma face, côncavas […] Os espelhos raramente são usados ​​hoje em dia (Pastrana Cruz et al. 2019: 22). Esses tipos de espelhos e suas origens também foram descritos: “um é redondo; um é longo: eles chamam de acaltezcul. [Esses espelhos pedras] podem ser escavadas em minas” (Dibble & Anderson 1963: 228).

Obter, trabalhar e usar obsidiana envolvia mito e ritual, além de ter aplicações práticas. A obsidiana era usada de várias maneiras, inclusive para fins medicinais e de proteção; a aparência reflexiva agia como um escudo contra os maus espíritos e capturava a imagem e alma de uma pessoa. Talvez sem surpresa, várias divindades foram associadas à obsidiana – mais notavelmente Tezcatlipoca, cujo nome significa “espelho fumegante”. Ele é comumente representado com espelhos circulares de obsidiana em sua cabeça, peito ou costas, e caracteristicamente substituindo seu pé perdido. Embora seja uma figura complexa e ambivalente, seus atributos mais relevantes nesse contexto incluem a previsão em um mundo caótico, com seu espelho de obsidiana atuando como meio e símbolo de revelação, premonição e poder (Olivier 2003).

De várias maneiras, esses espelhos estavam situados na fronteira entre os mundos pré-conquista e primeiros coloniais do México. No México pós-conquista, crenças e artefatos anteriores mantiveram o poder simbólico e os significados herdados. Saunders (2001: 227-28) chamou a atenção para a incorporação literal e sincrética de espelhos circulares de obsidiana em cruzes atriais do início do período colonial; alguns espelhos circulares agora em coleções de museus podem ter vindo dessas cruzes. Mesmo os primeiros artefatos enviados do México para a Europa incluíam muitos que foram encomendados e projetados pelo conquistador espanhol Hernán Cortés, potencialmente obscurecendo a transição entre os artefatos pré e pós-conquista (Russo 2011). Embora tecnologias anteriores tenham sido quase certamente usadas em sua fabricação, é inevitável que as complexas associações de espelhos de obsidiana tenham mantido relevância no México durante o século XVI.
e talvez mais distante na Europa, pois esses objetos foram importados da Mesoamérica.

Quando surgiu no contexto europeu, o espelho John Dee se encaixou em um padrão mais amplo, dentro do qual muitos desses artefatos têm biografias complexas, transitando entre proprietários e acumulando significados diferentes à medida que se transferem entre contextos culturais e continentes. Dado que eles foram frequentemente documentados pela primeira vez em coleções nos últimos 200 anos, a biografia do espelho de John Dee é extraordinariamente completa. Algumas dessas biografias podem se entrelaçar. Feest (1990: 32), por exemplo, sugeriu que a aquisição de um espelho retangular por Rudolf II (artefato 30, agora em Viena e provavelmente adquirido entre 1607 e 1635) talvez tenha sido inspirada pelo uso de seu próprio espelho por John Dee enquanto estava em Praga . Juntamente com outros artefatos de elite que passaram para coleções europeias durante e após a conquista do México, é difícil saber até que ponto os significados associados a esses objetos em seu contexto asteca original foram mantidos por seus novos proprietários.

Algumas lajes retangulares e um espelho circular foram usados ​​para fornecer um meio inovador como “telas” para pintar, por exemplo, Murrillo e Stella. A laje pintada de Stella é a mais antiga, datada de 1630. Os artistas podem ter tido pouco conhecimento dos propósitos originais desses espelhos, embora Murillo tenha trabalhado em Sevilha, que tinha conexões de longa data com a Nova Espanha. A aparência visual da obsidiana pode, portanto, ter tido grande influência. Embora esses exemplos pintados sejam um pouco posteriores ao uso de seu espelho por John Dee, eles também mostram o envolvimento criativo proporcionado por um novo material e tipo de artefato.

Quando John Dee adquiriu seu espelho, obteve um objeto desconhecido e estimulante, impregnado de conhecimento novo e exótico, que teria sido ainda mais único em um contexto inglês do que em um contexto continental (Yaya 2008). Dado o interesse de Dee no Novo Mundo, ele pode estar ciente do significado da obsidiana, e a onisciência dos espelhos de Tezcatlipoca teria uma atração óbvia. Na verdade, esta pode ter sido a principal razão para sua aquisição. Ele também, no entanto, viveu em uma época em que o uso de espelhos para fins mágicos na Europa – particularmente espelhos negros (Maillet 2004) – significava que o contexto era receptivo ao uso de um espelho de origem exótica (Forshaw 2015).

Conclusões

Nossa análise geoquímica nos permite demonstrar que todos os espelhos de obsidiana do Museu Britânico são de origem mexicana. O espelho de John Dee e um segundo espelho são semelhantes na forma e são ambos feitos de obsidiana da fonte Pachuca, o que pode vir a ser típico deste tipo de artefato. O outro espelho, com a aba em forma de lágrima e a laje retangular são feitos de dian de Ucareo.

Reforçámos a associação do espelho com John Dee e defendemos que o seu estudo beneficia de ser inserido num contexto mais amplo que considera tanto a história do objecto individual como do corpus de artefactos a que originalmente pertencia. Essa abordagem nos permite documentar como o significado e a compreensão de um objeto podem mudar com o contexto e como novos significados são acumulados. Neste caso, ele ilumina vários episódios diferentes, ajudando-nos a entender as fontes de obsidiana usadas para fazer artefatos de elite no México asteca, a dispersão de tais artefatos na Europa colonial e, finalmente, a apropriação de John Dee do que era então um novo artefato para práticas ocultas na Inglaterra do século XVI. Esses artefatos continuaram a adquirir novos significados à medida que percorriam diferentes coleções e exposições de museus. Contextos de exibição sempre criam significados, e os contextos em que esses objetos foram exibidos são excepcionalmente variados. A conexão com John Dee tem sido particularmente carismática, tornando seu espelho, e outros semelhantes, representativos no mundo moderno dos astecas, do renascimento elizabetano e das crenças ocultas europeias, em um constante ciclo de apropriação e redirecionamento.

© O(s) autor(es), 2021. Publicado pela Cambridge University Press em nome da Antiquity Publications Ltd.

Fonte: https://www.academia.edu/56764408/


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Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-espelho-o-mago-e-mais-reflexoes-sobre-o-espelho-de-obsidiana-de-john-dee/

A Gnose Afro-Americana e o Candomblé Gnóstico

Uma visão moderna dos Cultos-Afro e de suas potencialidades mágicas.

O MOTIVO PELO QUAL ESTE CURSO FOI ELABORADO: Durante meus mais de vinte anos de estudos teóricos e experiências práticas no Ocultismo, tenho travado contato com as mais variadas correntes de pensamento Esotérico.

Como pesquisador que sou, não me contento em permanecer na superfície da questão, como a grande maioria de interessados no tema; muito pelo contrário, pois eu procuro me aprofundar sobremaneira no assunto que me desperta interesse, adquirindo a maior quantidade de informações possível, sejam relatos pessoais, sejam escritos de que natureza forem, para, então, colocar em prática os ensinamentos de dito Sistema.

Tenho experimentado de tudo um pouco, em se tratando de Magia, sofrendo, por assim dizer, “na própria carne”, os resultados de minhas experiências e, porque não dizer, de minha ousadia.

Após algum tempo de militância em determinado Sistema de Magia, coloco os resultados obtidos numa balança imaginária, pesando os prós e os contras, até que me tenho por satisfeito com uma resposta clara e sem evasivas, obtida entre duas únicas opções: tal Sistema FUNCIONA, ou NÃO FUNCIONA.

Assim, concluindo definitivamente minhas pesquisas em tal Sistema, passo a incluí-lo em minhas práticas pessoais (meu próprio Sistema, se assim quiserem), caso a conclusão de meus estudos seja de que tal Sistema funciona; ou, então, descarto tal Sistema em definitivo, caso conclua que o mesmo não funciona.

Muitos dos Sistemas de Magia tidos em elevada conta por especialistas diversos, funcionam a contento. Outros, entretanto, ficam muito a desejar.

Como este não é o momento de abordar tal assunto (o que faço em detalhes no meu livro “CURSO DE MAGIA”), deter-me-ei a examinar os Cultos- Afro, sob um prisma Gnóstico e Esotérico.

Voltando ao assunto de Sistemas que funcionam ou não, vamos falar do Candomblé e seus congêneres.

Tenho observado, ao passar dos anos, que muitas pessoas, interessadas em Ocultismo, nutrem um forte preconceito contra o Candomblé e assemelhados.

Apesar disso, quando encontram-se “no aperto”, buscam, de imediato, “socorro” dentro das práticas mágicas candomblecistas.

Socorridos, entretanto, e mais, sanado o problema que os afligia, “dão as costas” para a tal de “macumba”, coisa que não compreendem mas sabem que funciona, voltando aos seus cristais e florais.

Atitude simplista, para dizer o mínimo.

A “macumba”, designação genérica de tudo quanto seja de origem Afro, manteve a fama de ser infalível; apesar disso, poucos estudiosos do assunto se deteviram a examinar o assunto a luz da ciência experimental, para concluir como funciona a “macumba” e, mais ainda, quando funciona, e por qual motivo, assim como compreender suas falhas e deficiências, que aumentam no mesmo passo em que o assunto é difundido – mas não explicado.

Interessante observar que, nos últimos anos, houve uma verdadeira explosão de livros sobre “macumba”, muitos dos quais ensinando trabalhos para os mais diversos fins, tal qual fossem receitas de bolo.

Assim, sem explicar nem justificar, passam adiante ensinamentos que exigem, para serem postos em prática, um profundo conhecimento dos Cultos- Afro, sem o que tais práticas tornar-se-iam perigosas para todos os envolvidos.

Mais ainda, incentivam ao leitor realizar tal trabalho, sem alertar para os cuidados que devem cercar tais práticas.

Dessa forma, indivíduos inescrupulosos, pouco conhecedores do assunto, mas sabedores das necessidades humanas, travestem-se de “Pais-de-Santo” ou “Mães-de-Santo”, realizando todo tipo de trabalhos, jogando búzios, interferindo na vida de todo e qualquer cidadão, sem o menor cuidado ou escrúpulo.

O resultado? Fracasso, desilusão, além da sensação de que “macumba não funciona”.

Eis o motivo deste curso – explicar tudo, tirar todos os véus, trazer o conhecimento mágico-místico-religioso à luz da ciência experimental, para que todos, admiradores ou não do assunto, possam compreender no que consistem tais práticas, tirando, assim, suas próprias conclusões.

Vamos, portanto, ao curso.

“INTRODUÇÃO AOS SISTEMAS DE MAGIA DE ORIGEM AFRO”

“CANDOMBLÉ, VUDÚ, HOODOO, PETRO, RADA, LUCUMÍ, SANTERÍA, PALO-MAYOMBE, UMBANDA, QUIMBANDA E CATIMBÓ: SUAS SEMELHANÇAS, DIFERENÇAS, TABÚS E FUNDAMENTOS.”

Visão moderna dos Sistemas do Candomblé, do Vudú, da Umbanda e da Quimbanda.

Muitas vezes, quando se fala em Magia, as pessoas pensam imediatamente nas práticas executadas nos Cultos Afro-Brasileiros, Afro-Americanos e Afro- Ameríndios.

Diversas pessoas tem visões semelhantes desses Cultos, mas os conceitos difundidos são preconceituosos, misteriosos e dogmáticos, o que faz, pouco a pouco, com que a Realidade Mágica desses Cultos se perca para sempre.

Para começar, o Candomblé, o Vudú, a Santería, o Palo-Mayombe e o Lucumí são cultos muito semelhantes, de origem africana, mas tremendamente desenvolvidos nas Américas. Já a Umbanda é um culto muito distinto, com bem poucas semelhanças com os outros dois, enquanto a Quimbanda é algo totalmente diferente. O Catimbó é uma espécie de meio-caminho entre a Umbanda e a Quimbanda. O Hoodoo reúne características do Vudú, porém tem diversas peculiaridades, sendo a mais importante delas trabalhar apenas com Elementais, Elementares, Sombras, Cascarões, Larvas e “Almas”. Petro e Rada são duas raízes diferentes do Vudú haitiano, sendo o culto Rada mais voltado às Entidades do panteão Afro original, enquanto o Petro é mais voltado ao culto de Loas semelhantes aos Guias de nossas Umbanda e Quimbanda. O Voudon Gnóstico, apesar do nome, e da nítida influência do Vudú e do Hoodoo, é mais uma Ordem Hermética (uma vez que é ligado à O.T.O.A. – Ordo Templi Orientis Antiqua) do que um culto ou uma religião, razão pela qual está fora deste texto. Todos, porém, tem entre si uma semelhança marcante e de suma importância: são todas “Religiões Thelêmicas”, ou “Cultos Thelêmicos”, como queiram. E o que significa uma religião ser “Thelêmica”? Significa que cada indivíduo, dentro dela, tem sua própria religião, seu próprio Deus, distintos dos de qualquer outro indivíduo. E foi por isso que os cultos africanos sobreviveram na mudança para o novo mundo, cresceram e se multiplicaram.

Sendo assim, vamos começar a definir a Quimbanda.

A Quimbanda é um culto mágico às Entidades malévolas, denominadas Exus, Pombas-Giras, Caboclos Quimbandeiros, Pretos-Velhos Quimbandeiros, e assim por diante. Na Quimbanda não há nenhum tipo de “Iniciação”, quer seja mágica, mística ou religiosa. Basicamente, há duas formas de se praticar a Quimbanda – a Evocação e a Invocação das Entidades. Qualquer que seja o meio escolhido, normalmente desenha-se o “Sigilo” (chamado “Ponto Riscado” na Umbanda e na Quimbanda) da Entidade no chão, pedindo-se, em seguida, sua intervenção. No caso da Invocação, a pessoa que “receber” a Entidade (chamado “Cavalo” ou “Burro” na Umbanda ou na Quimbanda) passa a ter os poderes da mesma; são então feitos pedidos à pessoa “incorporada”, que pedirá então algumas coisas para a execução do “trabalho de magia” . Em geral, na Quimbanda só se trabalha para o mal de alguém, ou então para submeter-se uma pessoa à vontade de outra. Quando se Evoca Entidades na Quimbanda, porém, faz-se oferendas simples, visando obter a intervenção da Entidade para obter o que se deseja, normalmente alguma maldade. Na Umbanda, o que acontece é a mesmíssima coisa, com uma diferença essencial: só se “trabalha” para o bem, pois as Entidades que “baixam” na Umbanda são somente benéficas. Em alguns “terreiros” de Umbanda foram implantados “Rituais Iniciáticos”, herdados de culturas diversas. Na Umbanda, vê-se uma nítida influência do Kardecismo, bem como da mentalidade católico-cristã, além do público e notório sincretismo religioso entre os Orixás da Umbanda (que só comungam dos nomes com os Orixás do Candomblé) e os Santos Católicos. O Catimbó é uma mistura completa entre a Umbanda e a Quimbanda, com algumas diferenças: as Entidades que “baixam” são chamadas de “Mestres”; se são benfazejos, diz-se que “fazem fumaça às direitas”, e dos malévolos se diz que “fazem fumaça às esquerdas”. Concluí-se daí que no Catimbó se “trabalha” indistintamente para o bem e para o mal. Além disso, no Catimbó não se cultuam Deuses ou outras Entidades de grande envergadura de poder, apenas “baixam” Entidades com especial identificação social no grupo aonde se desenvolve a “mesa” do Catimbó. Na Santería ocorrem práticas semelhantes às dos cultos descritos acima, mas há também um culto aos Orixás, no estilo do Candomblé, só que com toda a influência Católico-Cristã imaginável.

Mas existem sutis diferenças entre esses cultos. Na Umbanda, as Entidades são “espíritos” de pessoas desencarnadas (mortas); na Quimbanda, “baixam” indistintamente “espíritos” de pessoas mortas (normalmente de pessoas perniciosas ou criminosas), ou Demônios mesmo. No Catimbó só “baixam” os “espíritos” de mortos.

Mas, será que o que “baixa” em todas essas “sessões” é mesmo uma “alma”? E será que todas essas “almas” são sábias, sinceras e magicamente capazes? Não creio. Para mim, o que ocorre muitas das vezes, é o seguinte: A) o “médium”, desejoso de “receber um guia”, induzido pelo “chefe do terreiro” de que ele/ela “tem mediunidade, precisa desenvolvê-la”, acaba por criar uma Imagem Telemática correspondente a sua idéia do “guia”, que, então, cria “vida”, passando a agir como desejado…

B) cena “A”: alguém morre; seu corpo físico jaz inerte, seu corpo astral separa-se do cadáver físico e, em pouco tempo, o corpo mental do falecido separa-se também do corpo astral, ficando este último também destinado a morrer, a decompor-se; cena “B”: um Elementar Artificial, um Íncubo, um Súcubo, um Vampiro, uma Larva Astral, alguma dessas Entidades simples, busca sobreviver …vampirizando alguém! É porém difícil “sugar vitalidade a força” de alguém; cena “C”: a Larva da “cena B” encontra um cadáver de corpo astral (Cascarão Astral), penetra nele e o “aviva”; cena “D”: o “Cascarão Avivado” encontra uma pessoa receptiva, um “médium”, e começa o ataque; o “médium” acaba por ir a um “terreiro” ou “centro”, aonde “seu guia” o levou, e aonde irá “desenvolver sua mediunidade”; cena “E”: o “médium” já “desenvolvido”, recebendo seu “guia”, dá consultas, passes, faz trabalhos, aconselha…e o “guia” (o Cascarão Avivado) vampiriza o “médium” e as pessoas que vão consultá-los.

É claro que existem incorporações ou possessões reais, mas são muito raras na Umbanda e no Kardecismo. Ocorrem muito freqüentemente no Candomblé e correlatos, mas são raríssimos nos cultos à desencarnados.

Sem mais comentários sobre o assunto.

Agora, Candomblé, Vudú, Palo-Mayombe e Lucumí.

O que digo a seguir é minha experiência e enfoque pessoais. Quem desejar aprofundar-se no assunto deve consultar as obras dos seguintes autores, colocados em ordem de importância: Pierre “Fatumbí” Verger, Fernandes Portugal, Caribé, Bernard Maupoil, William Bascon, Michael Bertiaux, Luis Manuel Nuñes, Jorge Alberto Varanda, Roger Bastide, Juana Elbein dos Santos, Courtney Willis, Ogã Jimbereuá, Babalorixá Ominarê, Lydia Cabrera, Migene Gonzalez-Wippler e João Sebastião das Chagas Varella. Já os apreciadores de Mitologia em geral, deverão conhecer a obra de Joseph Campbell, o mais importante autor do assunto. A Editora Pallas tem bons títulos sobre Candomblé e Vudú. Este texto trata dos aspectos reais das Práticas Mágicas dos Cultos em questão. Desculpem a crueza, mas a verdade é cruel, e dói.

Muitos estudiosos de Magia, bem como inúmeros autores do gênero, colocam os Deuses dos diversos panteãos como Arquétipos. Considerando-os assim, alguns praticantes da Magia Ritual creem que pode-se trabalhar magicamente com os Deuses Internos, como se trabalhassemos com os Arquétipos Universais. Aqui existe um enorme equívoco, pois os Deuses Internos englobam aspectos arquetípicos, não se limitando, porém, a serem Arquétipos simplesmente.

Na verdade, há uma obra muito boa sobre Magia Planetária (Planetary Magick, editora Llewellyn), que, porém, considera os Deuses de diversos panteãos como a mesma coisa que os Arquétipos. Eu particularmente discordo desse prisma, pois considero que os Arquétipos são acessíveis a qualquer pessoa, enquanto que os Deuses só são acessíveis aos que tenham alguma identificação e familiaridade com os mesmos. Na verdade, a experiência chamada de “União com Os Arquétipos Universais”, quando a pessoa entra em “transe” e sofre a “possessão” da Divindade, é o contato que ocorre da pessoa com seu Microcosmos, ou seja, com seu “Universo Interior”, portanto, somente com os Arquétipos Universais, e não com o todo da Egrégora dos Deuses Internos do Homem. A diferença é, portanto, patente, no que diz respeito ao “transe” do sujeito “possuído” pelo Orixá (aonde são despertados poderes latentes dentro do próprio indivíduo), e da Evocação ou Invocação da energia do Orixá como um todo, uma Entidade de existência independente da psique do Mago. O que ocorre entre os profanos, os não-iniciados, o “bolar” no Santo, é somente a “União com O Arquétipo”; o que ocorre na Invocação, feita pelo Mago de forma consciente, é “abrir sua mente” para uma energia externa, de vida autônoma, externa ao Microcosmos do Mago. Portanto, podemos concluir que o Arquétipo Universal existe num nível sub-consciente de cada indivíduo, mas somente manifesta-se no Microcosmos; já o Deus Interno existe num nível Macrocósmico e, após uma iniciação, num nível Macro-Micro-Cósmico, isto é, pode manifestar-se dentro ou fora do indivíduo. Com isso quero dizer que um Orixá pode manifestar-se fora da psique do Mago, até mesmo fora de seu corpo, inclusive, algumas vezes, a um nível social. O poder de um Arquétipo é o de despertar talentos latentes na psique do indivíduo, enquanto que o poder de um Deus Interno (sendo uma Egrégora), é amplo, de uma envergadura bem maior que a psique de um indivíduo apenas, incomensurável em termos humanos. Com isto quero dizer que uma Egrégora antiga e poderosa como a dos Deuses Internos pode quase tudo. Sem exagero. E em se tratando de Deuses Internos (ou Panteônicos), podemos distinguir duas categorias: os Deuses adormecidos, cujo culto inexiste na atualidade, e os Deuses ativos, cujos cultos existem. Nessa última categoria estão os Deuses e Deusas cultuados no Candomblé, no Vudú, no Palo-Mayombe e no Lucumí. Fico, inclusive, muito curioso com a atitude de certos grupos de ocultistas, que cultuam Deuses adormecidos, e torcem o nariz para os Deuses do panteão Afro, talvez considerando-os algo inferior, muito provavelmente pelo motivo de que esses Deuses são cultuados pelo povo, não pelas elites culturais…preconceito e ignorância de sobra! Esses Deuses e Deusas dos Cultos Mágico-Religiosos Afro-Americanos são designados da seguinte forma: na “Fé Indígena” (Indigenous Faith), como o Culto é chamado na Nigéria (África), são chamados de Orixás e Odus, o mesmo ocorrendo nos Candomblés de origem Nigeriana ou Yorubana (“Nação” Keto ou Alaketo); nos Candomblés de origem Daomeana (Fon ou Gêge), são chamados Voduns e Odus; nos Candomblés de origem Angolana (“Nação” Angola), são conhecidos por Inkices ou Santos, e Odus; na Santería, praticada nos Estados Unidos (Puerto Rico, New Orleans, Miami, etc), são chamados de Orichás ou Santos, e Odus; no Vudú, praticado no Haiti e na França, são conhecidos como Loas e Odus; no Lucumí, praticado em Cuba e nos Estados Unidos (Miami), são os Nganga, Orichás, Padrinhos, Prenda, Ndoki, Odus, entre outros nomes, ocorrendo o mesmo no Palo-Mayombe.

Veja-se que o nome do panteão altera-se de região para região, e assim também se alteram as características das Entidades. É interessante notar que o nome Odu (Odus no plural), está presente em todas as “Nações” de Candomblé, e suas atribuições são idênticas em todas as citadas culturas.

Pois Odus são Entidades objetivas que personificam, de forma antropomórfica, as energias das figuras geomânticas. Vê-se que, quando o simbolismo e a energia não sofrem alterações, os nomes permanecem idênticos. O contrário ocorreu com a vinda dos Orixás da África para o Brasil, pois na África os Orixás não possuem as subdivisível ditas “qualidades”, fato que ocorreu no Brasil. Por isso é que o Culto aos Orixás, no Brasil, é mais rico e complexo do que na Nigéria atual, sem nenhuma conotação pejorativa quanto ao Culto praticado na Nigéria. Apenas digo que, no Brasil, cultua-se doze variedades de Xangô, enquanto na Nigéria há somente uma; aqui cultua-se onze Oyá, dezesseis Oxum, dez Oxalá, nove Yemanjá, vinte e um Exu, enquanto na Nigéria há um de cada. É bem verdade que a troca de informações entre Nigerianos e Brasileiros, do Culto, está levando “qualidades” de Orixás para lá, e trazendo para cá as práticas mais modernas do Culto. Assim, em breve, graças às trocas de informações, o Culto aos Orixás estará aprimorado e talvez até estandardizado no Brasil e na Nigéria. Mas aqui o assunto é outro.

Vide os Apêndices desta obra relativos a “Arquétipos” e “Deus, As Egrégoras Coletivas e Os Deuses Internos do Homem”, para compreender a mecânica de que falamos acima.

Somente recomendo, aos que pretendem praticar a Magia Planetária, a Magia Evocativa, a Magia Invocativa ou o “Casamento dos Homens com Os Deuses” (conceito de Aleister Crowley, uma das práticas secretas da O.T.O., revelada no livro “The Secret Rituals of the O.T.O.”, de autoria de Francis X. King)) com os Deuses dos panteãos Afro, que estudem a respectiva mitologia, familiarizem-se com as suas energias, para não sofrerem revezes nem decepções. Estejam avisados que essas energias são incomensuráveis, além de extremamente ativas, pois há, em todo o mundo, pessoas cultuando-os dioturnamente, vivendo para o Culto, alimentando a Egrégora a cada momento, ampliando sua envergadura de poder.

Apesar disso tudo, há muita gente que duvida das potencialidades mágicas dos Cultos-Afro; há também os que creem que tudo quanto se faz nesses Cultos funciona a contento, independentemente dos Fundamentos Mágicos que sejam ou não aplicados às práticas rituais. Pensando nisso gostaria de abordar alguns aspectos importantes desses cultos, muitas vezes mal interpretados pelas pessoas em geral. E é justamente visando separar o joio do trigo, embora revelando muitos segredos guardados com zêlo por muito tempo, que descrevo, a seguir, os Fundamentos Mágicos Racionais das Práticas Mágico-Místico-Liturgicas dos Cultos-Afro.

Espero estar contribuído assim, de alguma forma, para a preservação desse culto que tanto me atrai, e que estudo e pesquiso fazem anos. Afinal, em 1988, fui consagrado Babalaô (Nação Alaketo) – sacerdote de Ifá – , além de ter sido iniciado no culto de Yiá-Mí Oxorongá.

Iniciação

é tipicamente shamânica, quanto a parte do Iniciando, com práticas primitivas (raspar os cabelos da cabeça, esfregar folhas na cabeça e outras partes do corpo, fazer cortes em diversas partes do corpo – cabeça, testa, mãos, pés, língua, braços – para passar “pós mágicos” nos cortes abertos – Kuras – , sacrificar animais deixando o sangue escorrer sobre a região do Chakra Coronário, colocação de substâncias vegetais e animais sobre o Chakra Coronário – o Adoxú, no formato de um cone – , colocação de uma pena de alguma ave no local do Chakra Frontal – Terceiro Olho – , entre outras coisas), requerendo total submissão do Iniciando – Iaô – ao Sacerdote ou Sacerdotisa – Pai ou Mãe de Santo, Babalorixá ou Yialorixá – , que guarda os cabelos daquele, tendo assim, meios de impor sua autoridade à força…

A Iniciação no Candomblé é lenta (21 dias no mínimo) e penosa (a pessoa terá de se submeter aos ditames do Sacerdote, devendo comer o que lhe é permitido – com algumas restrições por toda a vida – , falar quando lhe é permitido, usar as roupas nas cores autorizadas – mais uma vez com restrições para o resto da vida – , até mesmo quais atividades sociais e profissionais poderá ter dali para diante). Uma das partes mais curiosas do Ritual Iniciático reside na pintura da cabeça e do corpo do Iniciando com pontos coloridos, feitos com pós coloridos, numa espécie de Cromo-Punctura rudimentar.

Vê-se aí, nesse conjunto de práticas antiquadas, o aspecto da autoridade do Mestre, inquestionável, sobre a vida do Discípulo, traço típico das iniciações em sociedades primitivas.

Quando, porém, observarmos a parte do Iniciador, do Sacerdote ou da Sacerdotisa, veremos uma enorme quantidade de práticas típicas da feitiçaria, portanto, de caráter muito distinto das práticas shamânicas.

Eis um dos mais flagrantes aspectos da ambiguidade do Candomblé.

Como disse o brilhante ocultista norte-americano Robert North, o que falta aos Cultos-Afro é uma “Auto-Iniciação”. Concordo plenamente. Seguindo as orientações dele, o iniciando deverá praticar uma técnica conhecida nos meios ocultistas como “visualizar uma imagem como se fosse uma porta e mentalmente atravessar a porta”. Daí, o iniciando travará contato com as Entidades que habitam o plano correspondente vibratoriamente à dita imagem.

Mas que imagem é essa? Os desenhos dos Vevés, Pontos-Riscados, Sigilos das Entidades, Figuras Geomânticas (Odus), entre outras. Essa técnica permite uma auto-iniciação com menos riscos que a Invocação Mágica (a “incorporação” da Entidade na pessoa), que evoca riscos óbvios de acidentes.

O que deve, porém, ficar claro, é que ninguém é “filho” desse ou daquele Orixá, ou de qualquer outra Entidade, nem tem tal ou qual Odu. Na verdade, as pessoas identificam-se com um Arquétipo, em geral composto, isto é, com qualidades mescladas de várias Entidades, o que caracteriza o Orixá e suas qualidades, bem como os outros Orixás da pessoa. Identificando-se com o Arquétipo, a pessoa passa a louvá-lo ou cultuá-lo, atraindo então a Entidade Egregórica correspondente ao Arquétipo da identificação pessoal. Fica claro, agora, o motivo pelo qual há pessoas com “santo forte”, outras sempre “acompanhadas” pelo seu Orixá ou Guia, e assim por diante? Lembrem-se de que a energia que flui no contato do Mago com a Egrégora é mutual e simbiótico, isto é, se recebe o tanto que se dá…

No caso dos Odu, eles apresentam-se e manifestam-se em cada momento, mudando de acordo com as chamadas “marés tatwicas”, as marés elementais.

Somente ocasionalmente cristalizam-se num local, situação ou espécie de atividade, promovendo constante sucesso ou fracasso. E os remédios já são conhecidos.

 

Sacudimento

Dá-se esse nome às Práticas Mágicas que são realizadas quando existe uma presença energética intrusa (em pessoas, objetos ou lugares) – Exus ou Egums, isto é, Entidades Demoníacas, Vampiros, Íncubos, Súcubos, Larvas, Espíritos de Desencarnados, entre outras – ; passa-se pelo corpo da pessoa atingida uma série de plantas, folhas, grãos crus, pipocas, legumes, verduras, até mesmo aves (pombo, frango); esses componentes tem atribuições diversas em se tratando de elementos naturais – presentes por analogia nos componentes do sacudimento – , impregnando-se-os com o fluído magnético, que tem a propriedade de sugar energia (no caso, a intrusa), o que então providenciará a remoção das energias intrusas. É prática primitiva que, porém, tem seus méritos; na verdade, há um elemento de grande importância, que não pode faltar, pois é o que faz o “Trabalho” funcionar: o ovo! Sim, um simples ovo de galinha é o suficiente para o “Trabalho” funcionar. Com um ovo e a atitude mental adequada, consegue-se resultados espetaculares.

Na simplicidade está a chave dos grandes mistérios. Quer dizer, a Energia intrusa, nefasta, é transferida para os elementos passados pelo corpo da pessoa; em seguida, esses elementos são deixados em local determinado (praia, cachoeira, rio, praça, encruzilhada, estrada, enterrados, atirados barranco abaixo, cruzeiro do cemitério, etc.), aonde a Energia tornar-se-á inofensiva, ou atingirá curiosos que porventura toquem o material energeticamente contaminado.

 

Ebós

Dá-se esse nome aos sacrifícios ou oferendas, dedicados a alguma Entidade, consistindo nas comidas, bebidas e animais votivos da mesma Entidade; quer dizer, todas as práticas mágicas convencionais do Camdomblé tem o nome de Ebós. Os Ebós funcionam por causa do uso de Condensadores Líquidos e Sólidos, infundidos da vontade do Mago, além de, algumas vezes, a Energia Vital que se desprende de um animal sendo imolado, além da própria Energia do sangue de dito animal. Este é o segredo para a eficiência dos Ebós. E também da ineficiência de muitas bobagens batizadas de Ebó, mas que, na verdade, não são nada, magicamente falando. Para os interessados, basta consultar um dos numerosos livros sobre Ebós – do Ogã Gimbereuá, do Babalorixá Ominarê, de Fernandes Portugal e de Antony Ferreira, por exemplo – para verificar o uso constante de Condensadores Líquidos e Sólidos (pimentas, cebolas e alhos, atribuídas ao Elemento Fogo, por exemplo).

Existem três espécies de Ebós: A) Periódico: dado em períodos de tempo regulares, para fortalecer o elo com a Entidade, ou para fortalecer uma Entidade Artificial criada pelo próprio grupo ou operador; B) Propiciatório: dado quando se deseja obter algo de uma Entidade, dando-se-lhe algo, esperando o favor almejado em troca; C) Expiatório: dado quando se necessita reparar alguma falta para com a Entidade que, aborrecida com o indivíduo, passa a prejudicá-lo; nos três tipos deve haver uma analogia adequada.

Só para ilustrar, incenso é uma oferenda que, além de agradar as Entidades (desde que de aroma análogo à Esfera da Entidade), pode permitir sua materialização (com sua possível aparição espectral); para Entidades Negativas ou perigosas/nefastas, o sangue (quente) de sacrifício animal faz efeito semelhante; a cebola constitui um elemento de grande vibração quando ofertada à alguma Entidade, o mesmo podendo dizer-se dos ovos; as velas são parte importante de qualquer ofertório, as de cera de abelha adequadas às Entidades Positivas, e as de cebo adequadas às Entidades Negativas.

Devemos sempre buscar as leis de analogia ao desejarmos ofertar algo para qualquer Entidade. Seguindo estes princípios, qualquer Mago poderá elaborar seus próprios Ebós, se esse for seu desejo.

 

Pós Mágicos

Também chamados de Atim (Alaketo), Pemba (Angola), Zorra (para o mal), são diversas substâncias misturadas e posteriormente reduzidas a pó; são usadas para atrair boas coisas (saúde, amizade, amor respeito, bons negócios, dinheiro, proteção contra maus fluidos, paz, etc.), espalhando-se nas mãos, pés, sapatos, roupas, cabeça e utensílios da pessoa, ou soprando-o na residência, veículo, local de trabalho, Templo, etc.; ou então para levar desgraças aos desafetos (doenças, acidentes, maus fluidos, ruína, morte), espalhando-se nos locais, ou soprando-se/jogando-se sobre a vítima.

Respeitando-se as leis de analogia, pode-se compor pós mágicos respectivos aos quatro elementos da natureza, que serão Condensadores Sólidos da vontade do Mago. Para maiores detalhes do assunto, ver o livro de Franz Bardon “Initiation Into Hermetics”, citado na bibliografia desta obra.

 

Azeite de Dendê

 

Elemento que constantemente é utilizado nas práticas ritualísticas Afro-Negras, constituindo poderoso Condensador Líquido; Condensador é um elemento capaz de condensar a vontade e os desejos do Mago.

 

Pólvora

Muito utilizada nos Cultos Afro, ao incandescer ou explodir libera tremenda energia ígnea (do Elemento Fogo), podendo ser utilizada para curar, livrar de alguma influência maléfica, criar embaraços ou até mesmo matar, tudo em analogia completa ao Elemento Fogo, isto é, ao seu campo de ação.

Recebe o nome de “Ponto-de-Fogo”. Nas obras do autor N.A.Molina encontra-se constante referência a ditas práticas, o mesmo ocorrendo nos livros de Antônio de Alva e Antônio Alves Teixeira Neto.

 

Nome Mágico

 

Chamado também de Orukó, é o Nome Mágico que a pessoa adota após a Iniciação no Culto; também os Templos (Ilê) recebem um Orukó.

Folhas Mágicas

Camdomblé e seus similares tem como grande fundamento o uso mágico, litúrgico e medicinal das ervas, folhas, frutos, raízes e outros elementos vegetais. Portanto, seria necessário um volume de centenas de páginas para abordar, de forma adequada, o assunto. De qualquer forma, selecionei algumas folhas e frutos especiais, devido às suas particularidades: A) Folha de Pinhão Branco (Jatrofa Curcas) – usada para substituir o sangue animal nas oferendas a Exu; B) Folha de Acocô (Naelvia Boldos) – usada da mesma forma que a anterior, inclusive sobre a cabeça das pessoas, quando falta o animal a ser imolado para o Orixá; C) Folha de Iroco (Clorophora Excelsa) – usada como substituto do sangue animal nas oferendas, iniciações e assentamentos de Orixás; D) Noz de Cola ou Obi (Sterculia Acuminata) – usada em todos os rituais iniciáticos do Camdomblé, exceto no culto à Xangô, que recebe, ao invés desta, o E) Orobô, Orogbo ou Falsa Noz de Cola (Garcínea Guinetóides).

Tendo-se em vista o que foi dito acima, poderemos tornar nosso Camdomblé mais moderno, utilizando as Essências de Flores e de Ervas (Essências Florais) como se utilizam as folhas, frutos, Flores, raízes, etc.

E, também, substituindo muitos elementos por uma substância sua, dinamizada homeopaticamente. Creio que dinamizações de D-1 ou D-3 combinadas com dinamizações de 10MM seriam o mais adequado, unindo presença física e energética. E, para evitar o sacrifício animal ou a destruição de elementos naturais, pode-se preparar tais substâncias pelos meios radiestésico ou radiônico (ver a obra intitulada “MATERIALIZAÇÕES Radiestésicas”, de autoria dos Irmãos Servranx, que trata do uso do Decágono para reproduzir magicamente a energia de qualquer substância).

 

Banhos Energéticos

Abô ou Omieró (banho pronto e, em geral, putrefato) e Amací (banho fresco feito com ervas maceradas com água da chuva), são um dos mais ricos, complexos e deturpados (magicamente falando) aspectos dos Cultos Afro- Negros; os banhos devem ter apenas duas finalidades: Atração e Repulsão.

Conhecendo-se a natureza dos elementos a serem utilizados no banho, através do conhecimento das leis de analogia, pode-se preparar um banho dotado das características de Atração ou de Repulsão de qualquer tipo de energia. Só isso. Basta escolher qual (ou quais) o elemento da natureza adequado (água, ar, terra, fogo), impregná-lo (o banho) com o fluído Elétrico (para Repulsão) ou Magnético (para Atração), e está tudo pronto. De qualquer forma, a obra de Franz Bardon aborda o assunto com maestria.

Defumação

Vale aqui o que foi dito relativamente aos Banhos.

Podem atrair ou repulsar energias.

 

Assentamentos (de Orixás, Exus, Egums, Odus, etc.)

Chamadas em ioruba “Igbas” pu “Ibás”, os Assentamentos são essencialmente uma construção de um corpo físico não-animado, para receber determinada energia. Cria-se um Elementar Artificial com corpo físico.

Assenta-se Orixás, Exus, Egums (Cascarões de desencarnados), Odus, além de outras Entidades cultuadas no Camdomblé – Ikú, a Morte; Yiá-Mi-Oxorongá, o pássaro negro que personifica todas as feiticeiras e suas energias, entre outras -.

Os elementos, vegetais (folhas, ervas, raízes, madeiras, folhas, cascas, frutos, nozes, caroços), minerais (águas, argilas, barros, terras, rochas, cristais, gemas, metais, areias, calcário), animais – insetos, répteis, mamíferos, aves, peixes, aracnídeos, batráquios, etc – (sangue, peles, chifres, garras, unhas, falanges de dedos, pêlos, olhos, dentes, prêsas, línguas, víscera, ossos, testículos, fluidos, cabeças, etc.) e humanos (sangue de aborto, sangue de acidentado, sangue de morto, feto, unhas, crânios, falanges de dedos, dentes, cérebros, línguas, fluidos corpóreos – até mesmo sêmen e fluidos vaginais -, cabelos, fezes, urina, sangue menstrual, placenta, testículos, víscera, tíbias, ossos diversos, corações, etc.), além de objetos variados (facas, lâminas, navalhas, pembas, giletes, cacos de vidro, ladrilhos, pó ou poeira de lugares variados, folhas de jornais e revistas, pedaços de veículos acidentados, bebidas variadas, condimentos, tinturas naturais, o pó produzido pelos cupins, etc.), são colocados num jarro, porrão, panela ou vaso, misturados com cimento e água, posteriormente assentados em camadas. Daí, sacrificam-se os animais votivos sobre o assentamento, decora-se o mesmo com as insígnias ou os paramentos da Entidade, além de enfeitar os elementos de decoração com pedaços dos animais sacrificados – cabeça, asas, penas, patas, etc -, além de praticar-se atos litúrgicos diversos, incluindo orações, cânticos e louvações.

Tudo isso é muito forte, além de Energeticamente eficiente. Apenas creio que podemos realizar coisa melhor sem todo esse trabalho.

Francis King descreve, em diversas obras suas, coisas interessantíssimas e de grande utilidade mágica, como “O Casamento dos Homens com Os Deuses” e o “The Homunculus”; Aleister Crowley no seu “MAGICK” dá os fundamentos do Mistério da Eucaristia, entre outras preciosidades; Franz Bardon no seu “Initiation Into Hermetics” versa sobre os mesmos Mistérios Eucarísticos, além da criação de Elementares e Elementais Artificiais, Animação Mágica de Figuras e Esculturas, além de muito, muito mais; Pascal Beverly Randolph no seu “Magia Sexualis” (em especial na edição espanhola) descreve também a Animação Mágica de Figuras (imagens, pinturas, fotografias, desenhos); Peter James Carroll nos seus “Liber Null & Psychonaut” e “Liber Kaos”, descreve didaticamente outras práticas de muito interesse. Com esse material em mãos, o Mago tem condições plenas de criar seus próprios Assentamentos, sem ter de realizar práticas ou rituais primitivos, nem sacrificar animais ou trabalhar com materiais orgânicos perecíveis.

Para aqueles que desejarem realizar um assentamento no melhor sistema africano, purgando as bobagens, dou a minha versão da conjuração chamada de “Evocação ao nível da Feitiçaria”, de autoria de Peter James Carroll: Construir um boneco, de material proveniente da natureza, com as próprias mãos (contando, é óbvio, com as ferramentas adequadas); dar forma humanóide ou de algum ser real ou mitológico; utilizar, para a escultura, argila, ou tabatinga, ou barro, ou madeira, ou pedra; anexam-se gemas, cristais, rochas e metais que possuam correspondência energética com a energia que desejamos obter do assentamento; todos os materiais utilizados deverão ser purificados com água mineral, sumo de ervas Energeticamente compatíveis, defumação com substâncias adequadas, além de eventuais desimpregnações por meio de gráficos emissores de Ondas-de-Forma; o interior do boneco deverá ser ôco, aonde deverá ser derramado um condensador líquido universal, o que permitirá a “Animação Mágica” da figura, fato este que dará à mesma movimento…(ver Initiation into Hermetics, de Franz Bardon); vasos com flores energeticamente compatíveis poderão ser mantidos próximos do assentamento, o que manterá energia viva perto de nossa criação; símbolos geomânticos ativos, gravados no boneco, ajudarão a definir e manter a energia definida e sob controle; a decoração externa ou acabamento do homúnculo é livre, devendo-se, porém, evitar materiais perecíveis, derivados ou extraidos de cadáveres de animais ou seres humanos, pois, caso contrário, o assentamento emitirá energias nocivas no ambiente; tomar muito cuidado com o formato do boneco, para que o mesmo não emita RADIAÇÕES nocivas – deveremos, durante a execução do corpo físico da entidade, verificar radiestésicamente, todo o tempo, a qualidade das EMISSÕES; utilizando-nos dos pêndulos cabalísticos para efetuar esse controle, nosso boneco deverá emanar “A Terra”, “Sôpro de Vida”, “Espírito” e “Shin”, além de poder emanar (embora devamos ter cuidado com essa energia) “Magia”; quanto as EMANAÇÕES nefastas, que deveremos evitar a qualquer custo, estão “V-e” (Verde Negativo Elétrico), “Matar” (Vermelho Elétrico), “Necromancia”, “Forças-do-Mal”, “O Adversário”, “Shin” invertido, “Iavê” invertido, “Ilha-de-Páscoa”, “A Terra” invertido, figuras geomânticas nefastas, entre outras coisas; seria muito bom que nossa criação emitisse, além das energias harmônicas, a energia-invertida das energias nefastas; se nossa figura destinar-se a causar influência em terceiros, provavelmente emitirá “Magia” – nesse caso, mantê-la longe de áreas de repouso, trabalho ou lazer, num local aonde somente tenhamos acesso quando quisermos realizar um ato mágico, e não um local aonde se realize outras atividades; isto é, no quarto ou escritório, nem pensar!; a entidade trabalhará somente para o Mago, portanto, só deverá emitir radiações benéficas; realizado o corpo físico da entidade, dirigir-se a ela como se a mesma tivesse vida, conversando com a mesma, afirmando e reafirmando nossos desejos e pedidos, sempre dentro do mesmo âmbito; poderemos realizar vários assentamentos, para ter paz e harmonia, para repelir a má-sorte e acidentes, para proteger contra inimigos e malfeitores, para evitar acidentes e enfermidades, para atrair amor e amizade, para obter conhecimento de planos ocultos ou pessoas distantes, para atrair a prosperidade e a riqueza, entre muitas outras coisas; para melhor definir a envergadura de poder de cada entidade, podemos tomar por base as casas astrológico-geomânticas, que contém em si a energia de uma Egrégora poderosa; tudo isso feito, mentalizar a existência de nosso boneco também no mundo da mente, criando uma Imagem Telemática idêntica em aparência e atribuições ao boneco; e, para terminar, tudo quanto existe deve ter um nome, motivo pelo qual nosso boneco deverá ter um nome, se possível análogo às suas quantidades e qualidades, escolhido ou montado com cuidados numerológicos, visando evitar, entre outras coisas, que a criatura se volte contra o criador…

Tudo feito adequadamente, essa entidade artificial poderá, inclusive, ser invocada e evocada pelo seu criador. Agirá então, a entidade, como qualquer inteligência original. Obviamente, poderão ser criadas entidades artificiais para as mais diversas finalidades, mas, coisas nefastas atraem energias perigosas, e assim por diante. Bom senso faz bem.

Para os que preferem “assentar” Entidades não-antropomórficas, podemos utilizar um cristal de quartzo para “corpo” de nossa criação, uma vasilha de cristal translúcido como receptáculo (à lá Dr. Edward Bach). Areia no fundo, para firmar a base do cristal, condensador sólido sob o cristal, condensador líquido pincelado ou espargido sobre o cristal. Pode-se utilizar de Essências Florais para enriquecer o condensador líquido; sigilo ou pantáculo consagrado são uma boa idéia para potencializar o conjunto. Um “Cofrinho Emissor de Raio PY” para colocar-se os “pedidos” à Entidade. Uma pirâmide, que mantenha todo o conjunto dentro de sua geometria, pode manter a energia num nível surpreendente. Substâncias homeopaticamente dinamizadas poderão tornar o Elementar poderoso e versátil. Pode-se utilizar gráficos moduladores de ondas-de-forma para definir melhor a natureza e a envergadura da Entidade. Por outro lado, ao se querer cultuar os Orixás, pode-se realizar rituais simples como a queima de velas coloridas (compatíveis, é claro), ou até mesmo oferendas de ovos ou de rodelas de cebola, com uma vela acesa no centro da rodela de cebola. Só não se deve tentar “assentar” um Orixá, ou cultuar um assentamento, pois são coisas totalmente distintas e que não devem jamais ser misturadas. Por aí é que se vê que muita coisa que se faz no Camdomblé é cultuar Elementares, suponde se estar cultuando o próprio Orixá.

Para os desejosos em se aprofundar no assunto, ver a obra de Franz Bardon, “Initiation into Hermetics”, e a obra de Peter James Carroll, “Liber Kaos”.

A indicação da utilização de materiais orgânicos perecíveis, freqüentemente encontrada nas instruções para a construção do GOLEM, não trará nenhuma vantagem ao Mago que deseje executar assentamentos de Energias Afro; há exceções, mas devem ser deixadas para quem sabe o que está fazendo.

Para terminar o assunto, evitando induzir alguém em erro, é conveniente lembrar que não devemos tratar um assentamento como se fosse um ídolo. O assentamento não pode ser louvado como uma imagem sacra num altar de Igreja.

O assentamento é, na realidade, uma poderosa “Imagem Talismânica”, criada para tornar mais efetiva a concentração quando da “chamada” (Invocação ou Evocação) da respectiva Entidade.

 

Águas

São utilizadas em praticamente todos os tipos de rituais, tendo especial importância devido a procedência (de poço, de chuva, de praia, de alto mar, de rio, de vala, de cachoeira, de lago, de açude, etc.). Seu uso é tanto interno quanto esterno.

 

Pedras

São importantes devido ao uso litúrgico, sendo o elemento principal da maioria dos assentamentos (são chamadas Otá ou Okutá). Nas pedras reside a força dos Orixás, e nelas devem concentrar-se o Culto, segundo a tradição religiosa. Pena não haverem utilizações mais amplas e práticas das pedras no Camdomblé, além da falta de conhecimento relativo às virtudes terapêuticas e mágicas das mesmas. De qualquer forma, há um Culto às Pedras, e isso é importante! E os cristais de quartzo são pedras! – Metais: diferentemente das pedras, os metais, no Camdomblé, tem papel coadjuvante apenas, tendo cada Entidade seus metais correspondentes, mas o conhecimento do assunto no meio é tão superficial que nada há para dizer.

 

As receitas (inflexíveis e complexas)

Peter James Carroll, brilhante autor e ocultista britânico, diz, em suas obras, que, se um ritual é tão complexo que precisamos escrevê-lo detalhadamente para não cometermos deslizes, esse ritual precisa, urgentemente, ser simplificado, de forma que caiba todo na cabeça! É exatamente assim que penso. Os Ebós utilizados no Camdomblé são como receitas de bolo: detalhados até na quantidade de cada elemento! Claro está que a tradição tem seu lugar, mas esse lugar é no folclore ou na religião, não na Magia e no Hermetismo. Para elaborar as próprias “receitas mágicas” seja lá do que for, o Mago deve conhecer as leis de analogia, bastando decidir se deseja atrair uma Energia, repulsá-la, influenciar alguém (ou a si mesmo) com a Energia Elemental escolhida, ou tratar uma enfermidade pelos fluidos eletro-magnéticos. Para aprofundar-se no assunto, ver as obras de Franz Bardon.

Só para deixar claro, os tópicos para que um “trabalho” funcione são: 1) vontade do operador; 2) invocação ou evocação de alguma Entidade cuja envergadura e natureza do poder permita realizar o que se deseja; 3) direcionamento da energia invocada, evocada ou criada.

Divinação

No Camdomblé, é feita utilizando-se da Geomancia. Há o Jogo da Alobaça (praticada com uma cebola cortada em quatro), o Jogo de Búzios (praticado com quatro ou dezesseis búzios da espécie “Ciprae Moneta” e seus semelhantes) e o Opelê-Ifá (praticado com o Opelê). Dividi-se essas práticas em divinações litúrgicas e profanas. O método Afro, apesar de rudimentar, é preciso e com ele obtem-se bons resultados. Só é necessário ater-se à interpretação da Geomancia Racional, descartando a interpretação clássica, por esta última ser insuficiente e inadequada, além de basear-se em parâmetros equivocados.

 

Criação de Zumbis

Aviva-se um cadáver físico de alguém, cria-se um Elementar Artificial, colocando-se o mesmo “dentro” do cadáver, que então terá novamente vida, muito embora de forma distinta. Mas esse processo é trabalhoso, perigoso e de conseqüências imprevisíveis.

 

Paramentos

São as roupas e insígnias dos Orixás e outros, que mostram clara distinção dos Arquétipos aos quais se deseja vinculá-los.

 

Armas

Vale aqui o que disse no item “paramentos”.

 

Fundamentos de Ifá

São os fundamentos da Geomancia e da Magia Geomântica.

 

Animais

Os Animais Sagrados são considerados Animais Votivos, e imolados em holocausto aos Orixás e Exus; uma deturpação do sentido verdadeiro tanto das correspondências das Entidades com os animais, quanto com relação a função dos sacrifícios animais.

 

Plantas

O mais importante item da cultura mágica Afro, pois as plantas são usadas em todos os rituais, da Iniciação aos funerais, da Magia à terapêutica. Há muito o que aprender sobre fitoterapia com o Camdomblé.

 

Efó

São os encantamentos recitados em Ioruba, que acompanham todos os rituais. Podem ser recitados ou cantados.

 

Evocação, Louvação

É o que se pratica quando se oferece algo (Ebó) à Entidade, pedindo sua proteção ou intervenção.

 

Invocação

É o que se chama “virar no santo” ou “bolar no santo”. Consiste em “receber” a Energia do Orixá de forma passiva, deixando-se usar como instrumento da Entidade.

Talismãs

São os “fios de contas”, “Axés” – breves -, alianças de cobre, pós mágicos dentro de saquinhos de tecido, entre outras coisas. A Magia Pantacular inesiste no Camdomblé.

Mangaka

É o bonequinho todo cravejado de pregos. Consiste simplesmente numa estátua animada magicamente, que contém, em seu interior, um condensador líquido. São cravejados nela inúmeros pregos. Quando se tira um prego, se condensa o desejo no mesmo, enfiando-se a seguir de volta no bonequinho.

Assim, o Homúnculo agirá de acordo com a vontade do Mago. É originário do Congo, atual Zaire.

Música, Ritmos e Cantos

Elementos de suma importância nos rituais Afro, aonde as emoções são expressadas livre e primitivamente, facilitando a atuação da Energia Evocada ou Invocada.

Consagrações

São práticas litúrgicas usadas sempre, em tudo. Os rituais em geral são simples, mas eficazes.

Ebós com Animais

São feitos com partes dos animais (intestinos, por exemplo), que recebem o testemunho da vítima, Condensadores Sólidos e/ou Líquidos, sendo posteriormente enterrados; aí, passado um tempo, o efeito se fará sentir por ação do Elemento Terra (por decomposição).

Há alguns tipos de Ebós que utilizam animais vivos (sapo com a boca costurada, cabra, porco ou coelho com caranguejo vivo costurado dentro do ventre, lagartixa ou caranguejo enrolado em filó), aonde se colocam o testemunho da vítima junto com elementos que farão o animal sofrer lenta e terrível agonia; aí, o que ocorre, é que o animal (sempre) emite Ondas Biológicas (as Ondas utilizadas para diagnóstico e tratamento em Tele- Terapias, Radiestesia e Radiônica), emitindo-as, no caso, permeadas de dor e sofrimento terríveis. Junta-se nessa emissão de Ondas Biológicas do animal a Energia também de Ondas Biológicas da vítima, através de seu testemunho (o Testemunho liga-se a seu “dono” por meio do Raio-Testemunho, o raio que liga a pessoa aos seus pedaços ou imagens). Atingido o alvo, é claro que o resultado será desastroso.

 

Assentamentos de Odus

Assenta-se a Energia das Figuras Geomânticas, da mesma forma que se faz com as outras Energias. O principal problema que se enfrenta aqui é que as interpretações das figuras geomânticas dentro do Camdomblé (e seus similares) é sempre ambíguo, tendo sempre aspectos bons e ruins. Uma reformulação é necessária, para desmanchar esse verdadeiro labirinto.

Só uma dica: pode-se fazer a fixação da energia das figuras geomânticas por meio de um simples Pantáculo! Para que tanto trabalho? Sobre Pantáculos, ver a obra de Franz Bardon.

 

Magia Sexual

Inexiste nos cultos Afro, exceto no Vudú Haitiano. Mesmo assim, está muito aquém de algo realmente prático e eficiente. Ver a obra “Magia Sexualis” de Pascal Beverly Randolph.

 

FT e FPA

Forças das Trevas e Forças Psíquicas Assassinas são dois conceitos metafísicos que definem a Energia da Magia maléfica Afro. Desse prisma, podem ser eliminadas pela Radiônica ou Ondas-de-Forma.

 

Boneco Vodu

 

O clássico bonequinho cheio de alfinetes é simplesmente um boneco de cera, madeira ou pano, com diversos elementos da vítima, que, por práticas ritualísticas, passa a ser um Testemunho Artificial Vivo da vítima; deve ser Animado Magicamente, batizado (utilizando-se da Egrégora do Batismo), posteriormente deixado para “Saturar de Energia” (deixado enterrado por toda uma lunação), o que fará com que o que for feito ao bonequinho cause algum efeito na vítima; daí, se espeta o boneco com alfinetes de aço, devidamente impregnadas com nosso desejo. E o desejado deve ocorrer, em breve. Quando se deseja a morte da vítima, se enterra o bonequinho, com caixão e tudo, reproduzindo um verdadeiro funeral (utiliza-se da Egrégora do Funeral, Enterro). Todas essas práticas podem ser classificadas como de “transplantação” ou “Magia Mumíaca”. Sobre o assunto, ver a obra completa de Franz Bardon (em especial o capítulo VIII do “Initiation Into Hermetics” e o “The Practice of Magical Evocation” em sua totalidade).

Podem ser utilizados, também, em magia benéfica, ou até mesmo em magia de proteção – criando-se, por exemplo, várias égides nossas, deixando-as em locais diversos, visando dispersar ataques mágicos desferidos contra nós.

Sobre isso, ver os livros de Frater U.D., sobre Sigilização Mágica e Magia Sexual.

 

Ferros dos Assentamentos

Usados sobre a massa do assentamento, emitem Ondas-de-Forma análogas às qualidades da Entidade.

 

Importância do Ovo

 

É um dos principais fundamentos da Cultura Mágica Afro, conforme disse antes. Só por curiosidade, o ôvo tem a capacidade de sugar Energias nocivas das pessoas, locais e objetos, quer seja pela colocação do mesmo junto a um testemunho da vítima, ou por passá-lo na própria pessoa (ou colocado no local) alvo da Energia nefasta. Se, após impregnado e saturada de dita Energia, for enterrado, o efeito da Energia some, e a mesma se dissipa nos Elementos. Se, porém, for atirado longe, de forma a espatifar-se, a Energia retorna a quem a enviou…e bem rápido! É importante, porém, frisar, que a Energia “sugada” pelo ovo pode, facilmente, passar para o operador, num instante! Além disso, há práticas místicas que transmutam a Energia natural do ovo em outra coisa; por exemplo, há uma “cantiga” que permite dar, ao ovo, a mesma Energia de um galo vivo! Dessa forma, ao se ofertar o ovo, se entrega à Entidade um galo! Só um alerta importante: NÃO TRABALHEM COM OVOS, sem um prévio conhecimento sobre o assunto.

Estejam avisados!

Troca-de-Cabeça

É a troca da vitalidade do enfermo ou do moribundo pela energia de outro ser, saudável e vigoroso.

Eu aconselho fazer-se com ovos, pedras ou plantas; no Camdomblé se faz com animais; há quem faça com pessoas…

Círculo Mágico

Só aparece na divinação, quer seja na peneira ou no colar de contas (Jogo dos Búzios), ou ainda no Opón, tábua de madeira usada na divinação por Ifá.

 

Tarot

 

 

Inexiste a tradição do uso de cartas para divinação ou meditação, mas já existe um Tarot do Voodoo de New Orleans, e um Tarot dos Orixás, da editora Pallas.

 

Proteção contra ataques psíquicos

 

 

Práticas inexistentes nos Cultos Afro.

 

Espelhos Mágicos

 

 

Existem, mas muito rudimentares, e em pequeno número; são mais comuns em Cuba. Ver obra de Franz Bardon e Pascal Beverly Randolph.

Uso de Testemunhos

 

Nos Cultos Afro, se utiliza muito, para Magia a distância, algum Testemunho (no sentido radiestésico) da pessoa visada. Para os Camdomblecistas, são testemunhos válidos quaisquer sinais da pessoa (sangue, urina, fezes, cabelos, aparos de unhas, esperma, SECREÇÕES vaginais, saliva, suor), sua foto (apesar que muitos Sacerdotes do Culto não gostam muito de trabalhar com fotos, enquanto outros exigem fotos novas – tudo bobagem, pois foto é um excelente testemunho, não importa a idade nem o tamanho), a roupa usada e suja (em especial as roupas íntimas e as meias), fronha do travesseiro, sapatos, palmilhas, assinatura, e, até mesmo, a pegada da pessoa – a terra aonde ela pisou ou o pó do local aonde pisou – , o que eu acho muito arriscado para um uso sério.

De qualquer modo, mesmo em se tratando de testemunhos válidos, a falta de cuidados no manuseio dos mesmos pode invalidar o ato mágico. Muito melhor contruir-se testemunhos artificiais do que trabalhar com um testemunho de valor energético duvidoso.

Assim, podemos observar que o Camdomblé navega num mar da mais profunda ambiguidade.

Enquanto suas práticas iniciáticas são decididamente shamânicas do lado do Iniciando ou Iniciado (ao menos durante seu período como Iaô), as mesmas práticas, isto é, as práticas complementares àquelas, mas realizadas pelo Iniciador, são claramente do nível da feitiçaria.

Na Geomancia, rica e elaborada, com um panteão próprio (uma vez que todos os Odus tem suas representações antropomórficas), o método de praticála é sempre simplificado, utiliza-se de instrumentos primitivos sem nenhum significado oculto, ignora-se as fusões das figuras, que portanto são 256 ao invés de apenas 16; essas, por sua vez, variam quanto a natureza da energia a todo momento, ora significando benesses, ora o oposto – e isto a mesma figura! Por exemplo, tomemos a melhor figura geomântica, no domínio energético e sutil, “Laetitia”, 1222; no Camdomblé, é o melhor Odu, “Obará”, 1222. No Camdomblé, Obará prenuncia riquezas (atribuição de Fortuna Major, 2211), promete que seus filhos nascem pobres mas morrem ricos. Obará só tem um aspecto nefasto: seus filhos são os mais sujeitos a feitiços, inveja, olho-grande e coisas afins. Laetitia significa “alegria”, simbolizada por uma barraca, que provê a proteção do céu. Ou a bobagem foi pura burrice, ou é coisa de painhos querendo faturar…

A Geomancia Afro é mais uma forma de Astrologia Horária; como todas essas, não possui um “evolutivo”. Somente a nossa “Nova Geomancia” a Geomancia Racional, possuí o “evolutivo”, obtido através da rotação das casas, resultado do resto na operação de divisão do total de traços obtidos por doze (ver obra do Panisha sobre o assunto).

Outras figuras de manifesta ambiguidade são o Odu Oxé e a figura Amissio (perda), 1212; como Odu, significa riqueza, mas como figura geomântica significa empobrecimento e, até mesmo, a morte. O Odu Oyekú, o Odu da morte (Oyá-Ikú), em nada corresponde a Populus, embora ambas tenham a mesma figura numérica, 2222. O Odu Odí é tido como o pior dos Odus, enquanto que a figura de Carcer é uma figura de entraves, tendo seu aspecto bom na casa 12 (entrava os acidentes, obstáculos e doenças), e algumas vezes bom na casa 8 (entrava as mudanças, mas também a morte). Isso só para começar. Mas basta de Geomancia.

O Camdomblé possuí um dos mais belos e ricos panteãos de Deuses jamais conhecidos, embora muitos aspectos de relevância tenham se perdido ao longo do tempo. E com a ausência desses elementos fica muito complicado encontrar as corretas atribuições com Deuses de outros panteãos, bem como com a Árvore da Vida. Aspectos relativos a sexualidade, tão patentes entre os Deuses da Índia, são praticamente ausentes entre os Deuses Afro, ou, quando presentes, seus dados são por demais perfunctórios, tornando sua utilização mágica muito arriscada. Creio que o resgate do “elo perdido” é necessitado com urgência.

Como se não bastasse o que relatei acima, temos, no Camdomblé, práticas mágicas do nível da feitiçaria, com alguns poucos toques de shamanismo. Curioso é que muitos praticantes do Camdomblé creem que, para que a Magia funcione, é necessário ter-se o auxílio de um “parceiro astral”, um Exu ou um Egum, devidamente assentado, com todos os Ossé (tratamentos e obrigações) em dia (portanto, potencializado). Quer dizer, o Exu (ou o Egum) deve existir tanto no plano físico, através do assentamento (ver Evocação ao nível da Feitiçaria), como nos planos sutis, pela manutenção da imagem mental da entidade (ver Evocação ao nível do Shamanismo).

E, para encerrar com “Chave-de-Ouro” o assunto, uma verdadeira barbaridade, prova cabal da profunda ignorância daqueles que se dizem detentores dos Fundamentos do Culto: definem os Orixás como sendo Elementais! Seria bom que essas pessoas estudassem um pouco de Mitologia, Arquétipos, Egrégoras e Elementais, para saírem do poço de ignorância que está destruindo o último Culto Vivo aos Deuses Internos do Homem, o Camdomblé!

Trocando em miúdos, na Umbanda e na Quimbanda, se pratica e Invocação Mágica (a qual se chama de Incorporação), e a Evocação Mágica – quando se busca, pelas oferendas compostas de velas coloridas, bebidas, charutos e outras coisas, criar uma atmosfera propícia à manifestação da Entidade – , quando então se pede à Entidade o que se deseja.

Já as oferendas no Candomblé – Ebós – tem dois aspectos distintos, o primeiro sendo a criação de uma atmosfera propícia à manifestação da Entidade, e o segundo a criação de Elementares, para a execução de operações mágicas. Nada, aliás, que não se consiga repetir por outras dezenas de métodos mais simples, práticos e baratos – o que, porém, não invalida a tradição. Praticar o Camdomblé com artigos importados da África ou da Nigéria é tão absurdo quanto importar gêlo das geleiras dos polos ou neve da América do Norte ou Europa para realizar rituais da Wicca adequados ao inverno…

É lamentável constatar que o Candomblé, religião Thelêmica, Sistema de Magia antes de tudo Pragmático, foi transformado num culto vazio, pobre, custoso e dominado por pessoas ignorantes, inescrupulosas e mercantilistas.

Apêndices

 

 

“CAMPO DE ATUAÇÃO, CORES VOTIVAS E SAUDAÇÕES AOS ORIXÁS

 

 

OXALÁ: paz, harmonia, longevidade, velhice, vitória;
– “XEU EU BABÁ!” (para o Velho – OXALUFÃ)
– “ÊPA BABÁ!” (para o Moço – OXAGUIÃ, e outras qualidades)
> branco, algumas vezes branco e azul;

XANGÔ: justiça, conquista, vitória, amor, sexo, lar, trabalho, riqueza;
– “OXÉ CAÔ CABIECILE!”
> branco e vermelho, algumas vezes só vermelho;

XANGÔ AFONJÁ: ídem Xangô.
> branco e vermelho;

XANGÔ AYRÁ: ídem Xangô, além de intelectualidade.
> branco, algumas vezes branco e vermelho;

XANGÔ AGANJÚ: ídem Xangô.
> marrom e vermelho;

OGUM: guerra, vitória, trabalhos manuais, habilidades;
– “OGUNHÊ PATACURÍ!”
> azul-escuro, azulão;

ABALUAIÊ: saúde, doenças, morte;
– “AJUBERÚ, ATÔTÔ!”
> branco e preto, preto e vermelho, preto e amarelo, branco-preto-vermelho;

OXUMARÉ: riqueza, boa sorte;
– “ARRÔBÔBÔI!”
> preto e amarelo;

EXÚ, BÁRA, ELEGBARÁ, LEGBÁ, BOMBOMGIRA: tudo;
– “LARÔIÊ EXÚ, EXÚ É MOJIBÁ!”
> preto, vermelho, branco e roxo, algumas vezes preto e vermelho, ou branco;

ERÊ: alegria, paz, harmonia, infância;
– “ERÊ-MIM!”
> azul-claro, ou rosa-claro, ou branco, ou dourado, ou verde-claro;

OXÓSSI: caça, amor, fartura, agricultura;
– “OKÊ ARÔ!”
> azul-claro;

NANÃ: morte, saúde, longevidade;
– “SALÚBA, NÂN!”
> roxo e branco, algumas vezes só branco;

OXUM: amor, sexo, boa sorte, riqueza, prosperidade;
– “ÓRÁIÊIÊO!”
> dourado, algumas vezes dourado e branco;

IEMANJÁ: harmonia, paz, lar, prosperidade, fartura;
– “ÔDÔIÁ!”
> branco ou incolor, algumas vezes azul-claro, outras azul e branco;

OBÁ: justiça, amor;
– “ÔBÁ XIRÊE!”
> vermelho, algumas vezes coral;

OYÁ: sexo, amor, guerra, os mortos;
– “ÊPARRÊI!”
> coral, algumas vezes vermelho, outras vermelho e coral, ou coral e branco;

IRÔCO: hemorragias;
– “IRÔDEGÍ!”
> cinza;

YEWÁ: visão, vidência;
– “RIRÓ!”
> amarelo e vermelho;

OSSÃE: ervas, saúde, medicina, alquimia, magia;
– “EUEU ASSA!”
> branco e verde;

TEMPO: o tempo, as forças da natureza;
– “ZÁRA, TEMPO!”
> amarelo e vermelho;

LOGUM-EDÉ: amor, sexo, caça;
– “LÓSSI, LÓSSI, LOGUM!”
> azul-claro e dourado;

IFÁ: destino, futuro, segredos;
– “ODÚDÚA DÁDÁ ÔRÚMILÁ – AXÉ IFÁ!”
> verde e amarelo;

YIÁ-MÍ-OXORONGÁ: magia-negra;
– “AXÉ!”
> preto;

AJÊ: riqueza, fartura, prosperidade;
– “AXÉ!”
> dourado e prateado;

EXÚ DE QUIMBANDA/POMBA-GIRA DE QUIMBANDA: tudo;
– “LARÔIÊ!”
> preto e vermelho, algumas vezes preto-branco-vermelho

 

CORRELAÇÃO DE NOMES NOS CULTOS AFROS

 

Segue os nomes respectivamente de ORIXÁ (ALAKETU) VODUM (GÊGE) e INKICE (ANGOLA)

OXALÁ OLISASSA LEMBA-DI-LÊ
XANGÔ SOBÔ, BADÊ ZAZE
OGUM GU ROXIMOCUMBI
IBÊJE ERÊ VUNJI
EXÚ BÁRA, ELEGBARA, LEGBÁ BOMBOMGIRA
OMOLÚ, OMULÚ {XAPANÃ, SAPATÁ, AZOANÍ, KIKONGO, CAJANJÁ
{BABALUAIÊ, INTÔTO
OXUMARÉ, OXUMARÊ {BESSÉM, ABESSÉM, SIMBÍ, {ANGOROMÉIA,
{DAMBALAH, SOBOADÃ {ANGORÔ
OXÓSSI, ODÉ ODÉ, AGUÊ KIBUCOMOTOLOMBO
{NANÃ, NANÃ BURUKÚ, TABOSSI RADIALONGA
{ANÃBURUKÚ
OXUM AZIRÍ KISSIMBÍ
{IEMANJÁ, YEMONJÁ, INAÊ, MARBÔ {JANAÍNA, MUCUNÃ,
{YIÊMÔNDJÁ {KAIALA, KIANDA,
{OLOXUM
YANSÃ OYÁ KAIONGO
TEMPO TEMPO KATENDE
IRÔCO LÔCO LÔCO
IFÁ FÁ IFÁ
YEWÁ YEWÁ YEWÁ
YIÁ-MÍ-OXORONGÁ AJÉ, ADJÉ, OXÔ ADJÉ
AJÊ, ADJÊ ADJÊ-XALÚGA AJÊ

 

OS ARCANOS MAIORES DO TAROT E OS ORIXÁS

 

ARCANO ORIXÁ
0 O LOUCO IAÔ – O INICIANDO
I O MAGO OSSAIN
II A GRÃ-SACERDOTISA NANÃ
III A IMPERATRIZ IEMANJÁ
IV O IMPERADOR XANGÔ
V O PAPA/O HIEROFANTE OXALÁ
VI OS NAMORADOS OXÓSSI
VII O CARRO OGUM
VIII A JUSTIÇA OBÁ
IX O HEREMITA/O HERMITÃO OMOLU
X A RODA DA FORTUNA IFÁ
XI A FORÇA OYÁ
XII O PENDURADO/O ENFORCADO LOGUM-EDÉ
XIII A MORTE ÉGUM
XIV A TEMPERANÇA OXUMARÊ
XV O DIABO EXÚ
XVI A TORRE TEMPO
XVII A ESTRELA OXUM
XVIII A LUA YEWÁ
XIX O SOL IBEJI
XX O RENASCIMENTO/O JUÍZO BABÁ-ÉGUM
XXI O MUNDO O ÔVO CÓSMICO DE DAMBALLAH E AYIDA

 

OS ODÚS E O JOGO DOS BÚZIOS

Segue i jogo com dezesseis búzios – “merindilogum”

nº de búzios abertos * figura geomântica * nome em latim  * nome em yoruba

0 * nenhuma * nenhum * Opira
1 * 1111 * Via * Ogbé ou Ejí-Onile
2 * 1112 * Cauda Draconis * Ogundá
3 * 1121 * Puer * Iretê ou Mejioco
4 * 1122 * Fortuna Minor * Irossum
5 * 1211 * Puela * Oturá ou Ejí-Oligbon
6 * 1212 * Amissio * Oxé
7 * 1221 * Carcer * Odí
8 * 1222 * Laetitia * Obará
9 * 2111 * Caput Draconis * Ossá
10 * 2112 * Conjunctio * Iwóri ou Obetegundá
11 * 2121 * Aquisitio * Ofum
12 * 2122 * Albus * Iká
13 * 2211 * Fortuna Major * Owanrin
14 * 2212 * Rubeus * Eji-Laxeborá ou Oturupon
15 * 2221 * Tristitia * Okaran
16 * 2222 * Populus * Aláfia ou Oyekú

 

por J. R. R. Abrahão

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-gnose-afro-americana-e-o-candomble-gnostico/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-gnose-afro-americana-e-o-candomble-gnostico/

A Coroa

Numa primeira leitura, a coroa simboliza as virtudes mais elevadas que existem no homem, eis o motivo de cingi-la sobre a cabeça, a “cúspide” do microcosmo humano, isto é, naquela parte do mesmo que se corresponde com o Céu, cuja forma circular a coroa reproduz. Mas, precisamente por isso, a coroa também expressa o que está por “cima” ou “além” do Cosmo e do homem: a realidade do divino e do transcendente. Poder-se-ia dizer que no significado da coroa coincidem, pois, as qualidades mais nobres e superiores do ser humano e, ao mesmo tempo, aquilo que as transcende por constituir o arquétipo das mesmas. No caminho do Conhecimento, ou via iniciática, ditas qualidades se vão desenvolvendo depois de um longo processo de transmutação alquímica, durante o qual o aspirante a ele vai tomando gradualmente consciência da sacralidade de sua existência, ou de sua realidade no universal, até se identificar plenamente com esta.

Essa identificação se visualiza muitas vezes como a “conquista” de um estado espiritual (ou supra-individual), que é o que, efetivamente, “coroa” a realização de dito processo, ou seja, “legitima-o” (ou o faz verdadeiro e certo, que é o que esta palavra significa realmente), investindo a quem o complementa de uma autoridade que emana diretamente do próprio poder de Deus, o Rei Supremo, ou Rei do Mundo. Este é o sentido que tinham na Antigüidade os ritos de coroamento dos reis, os chefes de um povo ou de uma comunidade tradicional, que eram tais porque antes tinham chegado a ser os reis e chefes de si mesmos, governando de acordo com a Vontade do Céu, à qual representavam ante seus súditos. O verdadeiro coroamento (que é uma “consagração” ou assunção plena do sagrado) ocorre no mais secreto, no coração, onde se estabelece a “aliança” que sela a união com a Deidade, sendo então a coroa um signo externo e distintivo que confirma a posse da autêntica realeza interior.

Por outro lado, não podemos deixar de mencionar as estreitas vinculações que se dão entre a coroa e os cornos, os quais também se cingiam sobre a cabeça, e simbolizam exatamente o mesmo que aquela. Os cornos são um atributo da potência do Espírito que “desce” à natureza do homem, ao qual fecunda e transfigura integrando-o na entidade superior, que é seu verdadeiro Si Mesmo. Igualmente, é evidente a relação que existe entre os cornos e o raio, e desta forma com o relâmpago, e recordaremos, a este respeito, que as coroas mais antigas estavam enfeitadas de pontas que se assemelhavam aos raios luminosos. O mesmo poderia se dizer da coroa de espinhos que portava o Cristo Rei durante sua Paixão. Com tudo isso, busca-se destacar o aspecto solar destes símbolos, que também aparece na coroa de louros (símbolo eminentemente solar) levada pelos imperadores romanos e com a qual eram coroados os heróis, mas sem esquecer que dito aspecto se complementa com o simbolismo polar, que é o mais primordial.

Efetivamente, ambas as palavras, coroa e cornos, procedem de idêntica raiz lingüística, KRN, a mesma de Kronos, ou Cronos, que é o nome grego de Saturno, a mais alta e elevada das esferas planetárias e considerado como o rei da Idade de Ouro. Também a achamos em Karneíos, que era um dos nomes que recebia entre os gregos o Apolo hiperbóreo (Apollón Karneíos), o deus do “alto lugar” (Karn), sendo esse lugar a própria cúspide da Montanha sagrada do Pólo (o Eixo do Mundo), sede da Tradição e da humanidade primigênia. Aparece deste modo na palavra crânio, que é, efetivamente, a parte mais elevada da coluna –ou eixo– vertebral. Sendo o crânio um símbolo da abóbada celeste, seu extremo superior equivaleria então à Estrela polar, chamada o “ápice” do Céu porque ela “coroa” todo nosso universo visível, e além disso é considerada em todas as tradições como o lugar por onde simbolicamente se acede aos estados superiores do ser, essencialmente supra-cósmicos e metafísicos. Recordemos, neste sentido, que Kether, a Unidade, significa precisamente a “Coroa”, cingida pelo Adam Kadmon ou “Homem Universal”.

Esta idéia do supra-cósmico é a que representa também o Sahasrâra chakra na tradição indiana e budista. Todo este simbolismo polar e axial convém perfeitamente ao da diadema papal (de origem muito remota), que é uma coroa de três andares sobrepostos, e cuja parte superior aparece arrematada por uma cruz, outra figura do Eixo do Mundo (ver por exemplo o arcano V do Tarô). Se a coroa propriamente dita é o símbolo da autoridade temporal exercida pelo rei (o guerreiro), a diadema simboliza a autoridade espiritual assumida pelo sumo pontífice ou sacerdote, que na Antigüidade tradicional ocupava a cúspide da hierarquia iniciática, exercendo sua função sobre os três mundos, ou seja, sobre o conjunto da Existência manifestada, tal qual o Deus Hermes Trismegisto. Ele era, é, a ponte ou eixo que comunica a Terra com o Céu, e o Céu com a Terra, o que transmite as bênçãos ou as influências espirituais e o que possui íntegros a Doutrina e o Ensino tradicional. Isto explicaria o porquê de, durante a Idade Média ocidental, os reis serem coroados pela autoridade espiritual, reconhecendo-se assim a superioridade do metafísico sobre o temporal, do divino sobre o humano.

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-coroa

A busca alquímica do Graal

Eugène Canseliet

“Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra?”
– Epistola de São Paulo aos Romanos 9,21

Com o verso de São Paulo aos Romanos, que acabamos de escrever como epígrafe, entramos plenamente na busca do Graal [1]. A observação do apóstolo, reduzida ao extremo, sublinha uma das figuras com lendas que constituem o jogo da paciência filosófica do castelo de Dampierre-sur-Boutonne no Deux-Sèvres. Ler-se-á, com grande proveito, o que Fulcanelli obteve deste pequeno baixo-relevo, do ponto de vista do simbolismo alquímico, nas páginas 60 a 62, no segundo volume de suas Residências Filosóficas (Edição de Jean-Jacques Pauvert, 1965 ). Para o estudante nada melhor sustentará e completará o ensinamento de nosso mestre, do que a seguinte passagem, do Quarto Livro de Esdras que foi rejeitado entre os apócrifos do Antigo Testamento e que é, sem dúvida, obra inestimável de um judeu cristão do primeiro século da Igreja, já cheio de autoridade, mesmo no tempo de Santo Irineu, Clemente de Alexandria e Tertuliano:

“Dicam autem coram te similitudinem Esdra. Quomodo autem interrogabis terram, & dicet tibi, quoniam dabit terram multam magis unde fiat fictile, parvum autem pulverem unde aurum fit: sic & actus presentis smculi. Multi quidem creati sunt, pauci autem salvabuntur.’

“Mas vou expor diante de você, Esdras, uma semelhança. Mas, ao questionar o solo, ele lhe dirá que dá muito mais terra de que é feito o vaso de barro, mas pouca areia de que é feito o ouro. E tal é a atividade do presente século. Na verdade, muitos foram criados, mas poucos serão salvos.”

Por conseguinte, se encontrarmos, na companhia de Fulcanelli, as duas vias, molhadas e secas, a que correspondem os dois vasos, logo descobriremos que certa relação, que os acontecimentos científicos de nossos dias infelizes trazem à luz, estabelece com as duas árvores antagônicas, oferecidas na suposta origem do mundo, em tempos restaurados do estado de inocência:

A árvore da vida no meio do Paraíso e a árvore da ciência do bem e do mal.

Lignum vitae in medio Paradisi, lignumque scientiae boni & mali [3].

Por seu abuso dos frutos da segunda árvore, o homem apressa a vinda desta morte contra a qual o próprio Deus o advertiu, parecendo muito estranho ao destino trágico de sua criatura. É uma resposta ao argumento ilusório de que Deus não poderia ser bom, que poderia permitir a hecatombe universal e judiciária; é também a solução do problema, sempre colocado, da predestinação e do livre arbítrio, e tido como tão insolúvel quanto o da ciência e da religião. Dupla questão, passível de solução por acordo ou conciliação, que não repele nem mesmo o orgulho, muitas vezes fruto da generosidade e do valor, mas a vaidade sempre acompanhada de maldade e estupidez.

A busca do Graal é a mais bela aventura espiritual que o homem já tentou na terra. Como inventar, que significa descobrir e imaginar, a busca oferece dois sentidos cujo confronto libera o valor do ponto de vista da alquimia. Com efeito, se mendigar significa buscar com atenção e paciência, também significa pedir e mendigar:

“E eu vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.

“Pois quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, abrir-se-á.” (São Lucas, XI, 9 e 10.)

Muitas vezes declaramos o que convém recordar novamente, a saber, que pureza de intenção, profunda honestidade, absoluto desinteresse, devem presidir à expedição sobre-humana, constantemente proposta desde os tempos do Evangelho, e que essas qualidades também devem a qualquer esforço relacionado, seja, por necessidade, a nível comercial. O investigador, lançado na trilha do segredo sublime, poderá levar, para ele, as palavras do evangelista, que se renovam de Malaquias o último profeta, assimilando João Batista ao anjo. Vemos a nós mesmos, no Precursor, o batismo, a lavagem e a purificação prévia, sem os quais ninguém pode se dedicar utilmente à pesquisa antiga. Não era necessário que alguém fosse batizado para contemplar o vaso sagrado, cuja visão foi recusada aos infiéis:

Aqui está, de fato, aquele de quem foi escrito: Eis que diante da tua face envio o meu anjo que preparará o teu caminho diante de ti.

Hic est enim de quo scriptum est: Ecce ego mitto Angelum meum ante faciem tuam, qui prmparabit viam tuam ante te [4].

Não basta ser chamado para ser eleito, e é por isso que Artur, Rei de Gales, quis que a sua Távola Redonda, à volta da qual se sentavam os cavaleiros, continuasse a ser um  lugar vazio destinado a receber o herói, tanto ignorado como esperado. A Ordem era mística e formada como a da Rosa-Cruz, cujos membros se autodenominavam discípulos de Artur, isto é, da Arte, unidos entre si pelos sólidos laços da verdadeira fraternidade. Jean Lallemant, no século XV, adepto indiscutível e, consequentemente, possuidor da Pedra Filosofal, foi Cavaleiro da Távola Redonda. Este, que tinha a forma de uma roda, era dividido em doze setores, – cada um branco e um preto, – exibia no centro uma rosa e, segundo o romano de Tristão, girava como o mundo.

Não é precipitado considerar que a Távola Redonda é, muito positivamente, a Távola de Hermes à qual o epíteto de esmaragdina confere a substância da esmeralda. De textura hialina, esta jóia preciosa entre todas, deve a sua cor verde ao spiritus mundi, ao espírito do mundo que nela entrou como num vaso de eleição. Tal como nos tempos antigos, cabe agora aos cavaleiros, aos cabaleiros, sentarem-se à volta desta mesa e decifrá-la. É… a eles que cabe a missão suprema da busca do Santo Graal, único e indivisível como o Absoluto e a Verdade.

É verdade, sem mentira, certa e muito verdadeira. O que está em baixo é como o que está em cima, e o que está em cima é como o que está em baixo, para operar os milagres de uma coisa.

Verum sine mendacio, certum et verissimum. Quod est inferius est sicut quod est superius, & quod est superius est sicut quod est inferius ad perpetranda miracula rei unius [5].

A tradição, para alguns, a lenda, para muitos outros, relata que o Graal foi feito da enorme esmeralda que Lúcifer abandonou quando caiu na terra. É aí, repetimos, essa questão de nobreza eminente, que é objeto da busca incessante e laboriosa do alquimista; este é o receptáculo, o veículo do espírito, que, por isso, recebeu o nome de vaso sagrado, ou seja, vaso sagrado. Eterna, como sua divina esposa, a matéria está em toda parte, indissoluvelmente unida ao espírito, e cada um na terra pode dela tomar seu quinhão, para trabalhar de acordo com sua vontade, per ignem, que o atanor pertence ao laboratório ou ao apenas o perigoso domínio da fisiologia.

A origem do termo graal é desconhecida, segundo Littré que observa, no entanto, a opinião de Friedrich Diez querendo, a todo custo, que a palavra intratável venha do latim cratera, corte. De nossa parte, descobrimos, em francês antigo, todas as flexões apropriadas para justificar a origem do substantivo posterior: Greal, greail, greel, greil, grazal e até graaus:

“Cil Galais conquistou Gales enquanto graaus foi trazido para Bertaigne [6].”

Essas várias formas foram usadas pelos vários povos gauleses,, que, muito mais tarde, viriam a constituir as grandes províncias e que obviamente tinham uma língua, antes que sua pátria fosse conquistada. ocupado por legionários romanos. Estes, aliás, só falavam o patois da península; eles eram completamente ignorantes da nobre língua do Lácio. Mas não é a própria evidência, para os lexicógrafos, especialmente os mais famosos, de que qualquer palavra francesa – queremos dizer gaulesa – que não pode se prestar a alguma origem estrangeira é, finalmente, considerada como não possuindo nenhuma? Assim, teríamos que admitir, insistimos, esse absurdo, que a numerosa raça de gauleses, que fabricava hidromel, não tinha um termo para designar um recipiente para beber!

Quem não se sentirá profundamente indignado que A. Souché (inspetor primário) e J. Lamaison (assistente de gramática), em seu manual destinado aos alunos do sexto ano, tenham conseguido decidir peremptoriamente, desde o primeiro ponto da primeira aula:

“São as palavras latinas deformadas pouco a pouco pelas ásperas gargantas gaulesas que formaram os primeiros e principais elementos de nossa língua.”

Sublinhámos a proposição principal, que está em negrito neste trabalho, como exige o valor e a evidência de uma afirmação em harmonia com o seguinte, de que todos os bons franceses estão há muito convencidos:

“Nossos pais, os gauleses, eram bárbaros.”

A linguagem de Cícero, no entanto, derrama, de maneira cabalística, sua parcela de revelação no importante arquivo da perene busca do Graal, que os romancistas fixaram no idioma original, enriquecido com o lodo depositado pela linguagem em uso dentro da elite galo-romanoa. A esse respeito, Fulcanelli fornece outra forma antiga da palavra graal, que é gradal, do latim gradale ou gradualia designando, segundo Du Cange, o gradale, o greel, ou seja, o Livro para cantar a missa. O Gradual, no ofício católico, apostólico e romano, situa-se entre a Epístola e o Evangelho, entre a carta e as boas novas.

Não basta possuir o Graal, é preciso também enchê-lo com o duplo licor, precioso e católico ou com ambrosia e néctar olímpico. No quarto emblema de Michael Maier (ver acima), além do cálice que o alquimista entrega, deliberadamente, ao casal filosófico reinando com vigor amoroso, vemos, à direita, no ângulo da gravura, o elegante jarro, onde o licor é primeiro recolhido e conservado:

Junte o irmão com a irmã e ofereça-lhes o cálice do amor.

Conjunge fratrem cum sorore, et propina fillis poculum amoris.

É o que nos diz o título que encima a imagem que segue este epigrama, pouco ortodoxo em relação às leis ordinariamente estabelecidas:

A raça dos homens não seria agora tão numerosa no mundo,

Se a primeira irmã não tivesse sido dada ao irmão como esposa.

Portanto, unam de bom grado os dois gerados de um dos pais,

Para que, através da camada, sejam marido e mulher.

De antemão, faça-os beber os copos eróticos de licor nectáreo,

E o amor trará a esperança do parto.

Da mesma forma, Tristão e Isolda estão unidos em amor total, pela poção encantada preparada pela mãe da rainha de cabelos dourados, renovando a mistura mágica da exclusiva Medeia.

O casamento do irmão com a irmã é o do Rei com a Rainha, na Grande Obra Filosófica do Sol com a Lua, na astrologia cósmica, tal como esta ciência era considerada, até o século XVII, na Alquimia Semelhante, dentro do domínio indivisível da investigação universal.

Como os dois grandes luminares do céu, as estrelas herméticas do pequeno mundo são irmãos e irmãs, e, novamente segundo seu modelo, nasceram gêmeos do caos primordial, sob a vontade e a ação do artista. Vamos uni-los carnalmente, fazendo-os beber a poção do amor que constitui o preciosíssimo sal, retido em solução nas águas superiores, ou, poeticamente e mais precisamente, carregado nas ondas da harmonia.

Quanto ao mediador incomparável, é possível extraí-lo! orvalho, por meio de uma manipulação extremamente secreta e delicada, e, além disso, condicionada pela astrologia. Menstruação inflamada que os antigos autores designam como sendo a água salgada do seu mar, e que Michael Maier canta, em contra-alta, na segunda tríade dos seus Cantilènes:

É chamado de orvalho do céu,

Da qual a flor dos campos é regada,

Conhecido pelos Sábios pelo amor,

E delicioso de possuir.

Ros Caelicus vocatur,

Quo flos agri rigatur,

Sophis nos ama,

E dota o delicado [10].

A busca do Graal se apresenta novamente, mas desta vez resumida ao extremo, no exergo circunscrevendo o paradigma, gravado em madeira e bem conhecido, que na maioria das vezes acompanha um dos melhores tratados de Basílio Valentin. Reproduzimos aqui esta imagem circular que já demos, publicando o livro do alquimista beneditino [11], e no qual se poderá notar, particularmente, o Graal recebendo, juntos, o fluido do sol e o de a lua:

 

Visita Interiora Termo Rectificando Invenies Occultum Lapidem.

Visite o interior da terra; retificando você encontrará a pedra escondida.

As iniciais da frase latina, reunidas na ordem de sua sucessão, reproduzem o termo VITRIOL designando a esmeralda filosófica de que falamos acima e que é a própria substância do Graal. Este cálice e o jarro adequado para alimentá-lo, nós os reconhecemos, há apenas uma semana, durante uma maravilhosa caminhada pelo país cátaro, na barra transversal da antiga cruz forjada, que nosso amigo Píramo, também hospedado na Pignada Atlantis em Arès, nos havia indicado três dias antes.

O grande problema da fonte e do receptáculo foi minuciosamente examinado, do ponto de vista da metafísica, em um livro recente, solidamente construído e muito bem editado, que é o excelente trabalho de Jean-Jacques Chatagnier-Hoste [12].

Recordemos, em conclusão, a condição indispensável que se impõe no início da busca do Graal. Ele será encontrado mencionado no conto de Bernardin de Saint-Pierre: La Chaumière Indienne. O erudito médico inglês que fora enviado ao redor do mundo para colher “luz sobre todas as ciências”, finalmente preferiu, à sua colossal colheita de noventa maços de documentos, o que aprendera de mais útil e que estava contido nestas duas linhas:

“A verdade deve ser buscada com um coração simples; só se encontra na natureza; só deve ser contada a pessoas boas.”

Notas

[1] – As poucas páginas que oferecemos aos leitores da Atlântida foram escritas nas notas ainda esparsas de um livro em preparação em Jacques Pauvert

[2] – Chap. VIII.

[3] – Genesis, chap. II, 9.

[4] – Saint MATHIEU,XI, 10; conférer aussi saint LUC, VII, 27

[5] – Pode-se ler o texto completo da Tábua Esmeralda de Hermes – Smaragdina Hermetis Tabula – que é o tratado mais curto e mais venerado, na parte inferior da magnífica gravura Janitor Pansophus na página 128 de nossa Alquimia (Jean – Jacques Pauvert, Paris, 1964.

[6] – Artus, biblioth. de Grenoble, ms 378, f 88 a. Cité par Frédéric Godefroy, au mot Graal.

[7] – Fernand Nathan, éditeur. Paris. Quarante quatrième édition,

[8] – Les Demeures Philosophales, Jean-Jacques Pauvert, t Ier p 204 et suiv

[9] – Secretioris Naturae Secretorum Scrutinium chymicum… Francofurti – L’Examen chimique des Secrets de la plus secrète Nature, Fracfort 1687, P. 10. Voir notre cliché.

[10] – Cantilenae intellectuales de Phoenice redivivo. les Chants intellectuels sur le Phéni– ressuscite. A llitrig. 1758, p. 34.

[11] – Les Douze Clefs de la l’Philosophie. Editions de Minuit

[12] – L’Emanant et tes Transmutation de l’Emané, Métaphysiqueésotérique du Cosmos, chez l’auteur, château du Valès, Montmaur (AUde) 1963

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-busca-alquimica-do-graal/

Fundamentos da Iniciação em Thelema

Tradução Mago Implacável

Revisão: Maga Patalógica

Introdução

Em Thelema, o termo “iniciação” é usado frequentemente e de maneiras diferentes. Este artigo destina-se a elucidar o significado básico e os fundamentos da iniciação, especialmente no contexto do sistema espiritual de Thelema.

Definição básica: “Iniciação” refere-se, essencialmente, ao caminho da progressão espiritual de cada indivíduo. O “caminho da iniciação” é sinônimo de outros termos, tais como “o caminho da realização” ou “a busca pela iluminação”. Às vezes é chamada de Grande Obra, “subida da Árvore da Vida” ou simplesmente “o Caminho”.

Ao longo do Caminho, chega-se a vários “graus” de iniciação que podem ser entendidos como certos níveis de insight de entendimento ou simplesmente como certas mudanças de consciência, que se move progressivamente da ignorância da visão rasa de si e do mundo para o ser “iniciado” ou para a visão iluminada. Estes “graus” de iniciação referem-se estritamente a um processo interno, e as cerimônias e “graus” de organizações temporais são somente um reflexo simbólico de iniciações interiores. Como Crowley escreveu: “[o] Mestre Therion adverte todos os Aspirantes à Sabedoria Sagrada e à Magia da Luz que a Iniciação não pode ser comprada ou mesmo outorgada; ela deve ser ganha por esforço pessoal” (carta a W. T. Smith de 1934 e.v.).

Isto leva a alguns princípios gerais da iniciação, que são verdadeiros em todas as formas de espiritualidade:

1) Iniciação só poderá vir do esforço e do trabalho do indivíduo.

2) A verdadeira Iniciação sempre se dá na forma da experiência direta do indivíduo.

3) Iniciação não pode ser outorgada por outrem, por meio de palavras, símbolos, rituais ou qualquer outra forma. O máximo que o outro pode fazer é ajudar a apontar o caminho e a evitar armadilhas comuns.

Iniciação de modo geral

A base da iniciação é explicada de maneira razoavelmente sucinta em um texto chamado Liber LXI vel Causae ou Liber Causae. Nele se lê:

“Em todos os sistemas de religião é encontrado um sistema de Iniciação, que pode ser definido como o processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida”.

Isto estabelece que todos os sistemas religiosos têm alguma forma ou outra de se aproximar da mesma Verdade. Todos eles contêm alguma forma de “ processo pelo qual um homem vem a aprender sobre aquela Coroa desconhecida”, que aqui é chamado de “Iniciação”. A “Coroa desconhecida” é uma referência Qabalística à primeira Sephirah da Árvore da Vida, Kether, que literalmente significa “Coroa” e representa a Unidade da Cabeça Deus que o homem pode alcançar. Alguns chamaram esta “Coroa desconhecida” com o termo “Deus”, alguns a chamam “libertação”, “unidade”, “Verdade” e incontáveis outros nomes. Em última análise, é “desconhecida” e sem nome porque está além das dualidades de conhecedor e conhecido, além das dualidades do sujeito e objeto da linguagem e, portanto, não pode ser nomeado com precisão. É, para usar a linguagem da Missa Gnóstica, sempre “além da fala e além da visão”. Iniciação é definida como o processo pelo qual alguém poderá aprender Isto. O Liber Causae continua:

“Embora ninguém possa comunicar o conhecimento ou o poder para realizar isto – que nós podemos chamar a Grande Obra – ainda é possível que os iniciados guiem outros’”.

Aqui nos é dito algo que foi citado anteriormente como um princípio geral de iniciação: Iniciação não pode ser outorgada por outrem, por meio de palavras, símbolos, rituais ou qualquer outra forma. O máximo que o outro pode fazer é ajudar a apontar o caminho e a evitar armadilhas comuns.”Ninguém pode comunicar” não significa que não há ninguém inteligente ou esclarecido o suficiente para comunicar esta Verdade, mas sim que é uma Verdade cuja natureza é simplesmente incomunicável em virtude de ser para além de todos os nomes, formas, sinais e símbolos.

Aqui também vemos o processo de “Iniciação” ser equiparado ao termo “Grande Obra”, como também foi mencionado anteriormente. Aprendemos também que os iniciados não podem transmitir “aquela Coroa desconhecida”, mas que eles podem guiar os outros em direção a ela. Liber Causae continua sobre o tema:

“Todo homem deve superar seus próprios obstáculos, expor suas próprias ilusões. Porém, outros podem ajudá-lo a fazer ambos, e capacitá-lo de forma a evitar muitos dos falsos caminhos, [que levam] a lugar algum, que tentam os pés cansados do peregrino não iniciado. Eles podem, além disso, assegurar que ele seja devidamente provado e testado, pois há muitos que pensam ser Mestres, sem sequer ter começado a trilhar o Caminho do Serviço que para lá conduz.”.

Aqui temos a afirmação de outro princípio geral de iniciação mencionado anteriormente: Iniciação só poderá vir do esforço e do trabalho do indivíduo. Aprendemos também que o caminho da iniciação deve envolver a superação de obstáculos e exposição de ilusões sobre a realidade. Como outro importante texto fundamental afirma, “Tu então que tens provas e problemas, regozija-te por causa deles, pois neles está a Força, e por meio deles é aberta uma trilha àquela Luz (…) Alegrai-vos, ó Iniciado, pois quão maior for a tua prova tão maior será o Triunfo”(Liber Librae).

Há uma reafirmação do fato de que iniciados podem ajudar a guiar os outros, a fim de capacitá-los a não cair em armadilhas comuns. Há também uma afirmação de que “há muitos que pensam ser Mestres” que não estão nem perto [disto], sendo “Mestres” um nome para aqueles que obtiveram sucesso em trilhar o Caminho. Aqueles que “pensam ser Mestres” inclui aqueles que podem pensar candidamente ter se realizado, mas apenas tiveram pequenos vislumbres da verdade, bem como aqueles que podem ser chamados de “charlatães” na medida em que, conscientemente, vampirizam candidatos genuínos, utilizando-se de mentiras e manipulação.

Uma coisa que é particularmente impressionante é a menção de que “o Caminho do Serviço” é o que “conduz a isso”, ou seja, É assim que ocorre o processo de tornar-se um Mestre. Existem várias maneiras de compreender o que quer dizer “o Caminho do Serviço”, e estas estão todas conectadas. Em primeiro lugar, existe o fato que já foi mencionado repetidamente: uma das funções do iniciado é servir de guia para os outros no Caminho. Em muitos sistemas, uma vez que seja confirmado que o iniciado está suficientemente avançado no entendimento (ou na “realização” ou qualquer outro termo similar), ele se torna um professor ou um guia para outros – há muitas tradições que envolvem a “transmissão” da sabedoria do guru ou Mestre para o discípulo, até o início na cadeia; o não iniciado.

Relacionado com este modo de entender “o Caminho do Serviço” é o fato de que, especialmente dentro de Thelema, há uma ênfase em “retornar ao mundo” uma vez que se tenha atingido este grau de entendimento. Isto é virtualmente idêntico ao voto bodhisattva no Budismo Mahayana quando alguém jura retornar do nirvana (libertação, realização, etc) ao samsara (o mundo mundano da ignorância), a fim de que todos os seres possam ser libertados. Há exemplos abundantes desta mesma ideia na tradição ocidental, geralmente envolvendo o simbolismo de alguém que atingiu a iluminação retornando de um lugar distante e/isolado; exemplos proeminentes incluem o retorno de uma montanha (por exemplo, Moisés, Maomé e Zaratustra de Nietzsche) bem como o retorno do deserto (por exemplo, Jesus). Isto é, tornar-se um Mestre está intimamente ligado com o Caminho do Serviço, pois não se torna um Mestre exclusivamente para iluminar a si mesmo, mas também para ajudar os outros a alcançar a Luz.

Finalmente, ligado a estes dois modos de compreender “o Caminho do Serviço” pode-se entender esse Serviço num sentido mais geral: ele requer uma redução do apego [que se tem] ao ego, à identidade pessoal ou ao senso de si, e não é possível se tornar um Mestre se há apego ao ego e aos seus objetivos ego-direcionados. Em todos os sistemas de realização, procura-se a “Coroa desconhecida” que está sempre além do sentido pessoal do eu e do “ego”; [ela] é, para usar a linguagem da Missa Gnóstica, “Tu que és eu para além de tudo o que eu sou.” Deve-se notar que em nenhuma dessas formas de compreender o Caminho do Serviço existe qualquer aparência de “servidão”, de humilhação diante dos outros ou autoimolação: é um Serviço de força, de alguém que transborda de Luz e assim outorga aos outros para que eles possam participar.

“Agora a Grande Obra é uma, a Iniciação é uma, e a Recompensa é uma, embora diversos sejam os símbolos com os quais o Inexprimível é revestido. “

Este é um ponto especialmente importante: essencialmente, a iniciação sempre leva ao Uno, a “aquela Coroa Desconhecida”, ao “Inexprimível”. Os místicos e iniciados sempre falaram da mesma “Grande Obra”, mas todos têm usado diferentes símbolos e linguagens para explicá-la. Num Livro Sagrado da Thelema está escrito: “sempre deverá existir a divisão na palavra. Pois as cores são muitas, mas a luz é uma só” (Liber LXV). Esta é uma bela imagem onde a Luz, o “Inexprimível” é sempre Um, mas ela entra através do prisma do mundo e cada indivíduo que fala sobre isso representa uma cor entre muitas. Deve haver sempre diversidade de expressão, mas são todas [as expressões] facetas que apontam para uma Luz. Uma ideia idêntica é expressa em outro Livro Sagrado de Thelema onde está escrito:

“Para você que ainda vagueia na Corte do Profano ainda não podemos revelar tudo; mas você vai entender facilmente que as religiões do mundo são apenas símbolos e véus da Verdade Absoluta. Assim também são as filosofias. Para o adepto, vendo todas estas coisas de cima, parece haver nada a escolher entre Buda e Maomé, entre o ateísmo e teísmo” (Liber X).

Os Mistérios no Novo Aeon

Entende-se que há uma única Luz, a “Verdade Absoluta”, “o Indizível” etcetera, e que a diversidade de expressões [representa] apenas diferentes modos para simbolizar e velar o Uno. Em Thelema, há um entendimento mais profundo de que há diferentes “fórmulas” de iniciação ou realização que são eficazes ao mesmo tempo, mas que precisam ser atualizadas para uma nova era ou “aeon”. Uma noção virtualmente idêntica é mantida na doutrina hindu dos “yugas” ou eras (por exemplo, o Kali Yuga), onde os requisitos para alcançar a libertação mudam a cada “yuga”. Este é o significado essencial por trás da ideia de que estamos em um “Novo Aeon”. Vamos olhar para esta ideia com mais profundidade:

No mundo do esoterismo ocidental ou “ocultismo”, há uma certa forma simbólica pela qual são explicados os “mistérios” do caminho da iniciação. Em geral, há uma série de rituais cerimoniais pelos quais cada candidato é submetido, simbolizando os estágios de iluminação e oferecendo orientação no Caminho. Mais importante, há um “Hierofante” (que significa literalmente “aquele que revela coisas sagradas”), cujo propósito é servir como o propagador dos Mistérios. Em última análise, este Hierofante representa ou reflete o Deus dentro de cada indivíduo, que é o verdadeiro Hierofante de todo iniciado.

Em uma tradição esotérica, a da Ordem Hermética da Golden Dawn, o Caminho foi simbolizado em vários psicodramas de variados “graus” de iniciação. O Hierofante sentava a Leste, o lugar do Sol nascente, enquanto outros oficiais sentavam em outros quadrantes. Este Hierofante não só revelava os mistérios como um “iniciador”, mas também representava a “fórmula” dos próprios mistérios. Neste sistema, o Hierofante era representado como Osíris, um deus que morto e ressuscitado em uma forma mais “divina”. Isto significa essencialmente que a realização foi conseguida via um processo de vida-morte-ressurreição, a “fórmula” de Osíris. Isto, é claro, inclui a fórmula representada pela morte e ressurreição de Cristo, que é vista como uma expressão da fórmula “Osíris” (juntamente com Attis, Adônis, Dionísio, etcetera).

Em algo chamado “Cerimônia do Equinócio”, os vários oficiais rotacionam ao redor da sala, assumindo novos postos e com um novo indivíduo se tornando o Hierofante. Da mesma forma, havia um “Equinócio dos Deuses”, em que os próprios deuses mudam de posições: Osíris já não mais representava a fórmula de iniciação. É por isso que a era ou Aeon onde sua fórmula estava ativa é chamada de “Aeon de Osíris” ou “Aeon do Deus Morto”. Agora, Hórus sentava no Leste como o Hierofante e uma nova fórmula foi posta em prática: “A palavra da lei é Thelema” (AL I:39). Este é o simbolismo trabalhado n’O Livro da Lei, onde está escrito: “Abolidos estão todos os rituais, todas as provações, todas as palavras e sinais. Ra-Hoor-Khuit tomou o seu assento ao Leste no Equinócio dos Deuses (…) Hoor em seu secreto nome e esplendor é o Senhor iniciado”(AL I:49). Em Thelema, é dito que este Equinócio dos Deuses tenha ocorrido no Equinócio da Primavera de 1904, com o novo Livro da Lei – uma nova Lei para um novo Aeon – tendo sido recebido alguns dias depois. Crowley comenta sobre este verso de O Livro da Lei:

“Este verso [Al 1:49] declara que a velha fórmula mágicka – a fórmula do Deus Morto Osíris-Adônis-Jesus-Marsyas-Dionisius-Attis-etcetera não é mais eficaz. Ela repousava na crença ignorante de que o Sol morria todos os dias, e todos os anos e que sua ressuscitação era um milagre. A fórmula do Novo Aeon reconhece Hórus, a Criança coroada e conquistadora, como Deus. Todos nós somos membros do Corpo Divino, o Sol; e o nosso Sistema é o Oceano do Espaço. Esta fórmula deve ser baseada nestes fatos. Nosso “Mal”, “Engano”, “Escuridão”, “Ilusão”, como queira chamar, é simplesmente um fenômeno de separação acidental e temporária. Se você está “andando no escuro”, não tente fazer o Sol nascer por auto sacrifício [isto é, a fórmula de Osíris], mas espere confiante no alvorecer, e enquanto isso desfrute dos prazeres noturnos. A alusão geral é ao Ritual de Equinócio da Golden Dawn”.

Muitos aspectos do caminho iniciático mudaram – ou ao invés disso, estão melhor compreendidas – no Novo Aeon. Um olhar mais profundo nos principais aspectos que mudaram é dado na série de artigos “Iniciação do Novo Aeon”. O que é notável em Thelema é o entendimento de que a Lei deste Aeon irá mudar novamente no futuro: Thelema é para este Aeon e uma nova Lei surgirá quando houver a próxima mudança, um outro “Equinócio dos Deuses”. É isto que é dito em outra parte do Livro da Lei:

Mas o vosso local santo ficará intocado através dos séculos: embora com fogo e espada ele seja queimado e destruído, ainda assim uma casa invisível lá permanecerá, e continuará até a queda do Grande Equinócio; quando Hrumachis se erguerá e aquele da dupla baqueta assumirá meu trono e lugar. Outro profeta se erguerá, e trará febre fresca dos céus; outra mulher despertará a lascívia e adoração da Cobra; outra alma de Deus e besta se mesclará no sacerdote englobado; outro sacrifício manchará a tumba; outro rei governará; e não mais serão derramadas bênçãos Ao Senhor místico com cabeça de Falcão!” (Al III:34).

Ocorrerá “a queda do Grande Equinócio” e, ao invés de Hórus, o deus “Hrumachis”se erguerá, e o novo deus – “aquele da dupla baqueta” – será instalado a Leste como o Hierofante com uma “fórmula” diferente para o novo Aeon. Crowley comenta: “Hrumachis é o Sol Nascente; ele, portanto, simboliza qualquer novo curso de eventos”. Portanto “Hrumachis se erguerá” é outro jeito de dizer que a luz de um novo Aeon surgirá. Crowley continua: “‘Aquele da dupla baqueta’ é ‘Thmaist em sua forma dual como Thmais e Thamait’, de quem os gregos derivaram sua Themis, deusa da Justiça”. Crowley se refere a Thmaist como um oficial das cerimônias da Golden Dawn; Thmaist é idêntica à deusa grega “Themis” e à egípcia “Maat”, ou simplesmente “Ma” ou todos os deuses da Justiça e do equilíbrio. Crowley continua: “Seguindo Hórus surgirá o Equinócio de Ma, a Deusa da Justiça, pode ser daqui cem anos ou dezenas de milhares de anos; pois a Computação do Tempo não está aqui como Lá (…) A Força irá preparar o Reino da Justiça. Nós deveremos começar já, julgo eu, a considerar essa Justiça como o Ideal cujo caminho devemos preparar, pela virtude de nossa Força e Fogo”

Sumário

A iniciação é o processo pelo qual chegamos à Luz Una, à “Coroa desconhecida” dentro de cada um de nós. Ela só pode ser alcançada através de nossos próprios esforços, embora outros iniciados e adeptos possam guiar-nos[,] apontar o caminho e ajudar a evitar armadilhas mais comuns. Há uma Luz única, ainda que ela seja expressa de diferentes formas; é a mesma Luz, independentemente de crença ou tradição. A antiga fórmula iniciatória de Osíris se tornou não mais eficaz com o despertar do Novo Aeon de Hórus, cuja palavra da Lei é Thelema. Mais detalhes sobre iniciação neste Novo Aeon pode ser explorado na série de artigos “Iniciação do Novo Aeon”. No futuro distante, o Aeon de Hórus também vai terminar e um novo deus, o da Justiça, se erguerá com a nova Lei.

Amor é a Lei; Lei sob Vontade

Publicado originalmente em https://iao131.com/2014/04/26/fundamentals-of-initiation-in-thelema/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/fundamentos-da-inicia%C3%A7%C3%A3o-em-thelema

A Magia Maior e a Magia Menor no Satanismo

Magia Maior e Magia Menor (conhecida também como Alta e Baixa Magia ou coletivamente Magia Satânica), dentro do Satanismo LaVeyano, designa tipos de crenças com o termo maior magia aplicada à prática ritual significada como catarse psicodramática para focar as emoções para um propósito específico e magia menor aplicado à prática de manipulação por meio de psicologia aplicada e glamour (ou “astúcia e malícia”) para dobrar um indivíduo ou situação à sua vontade.

TEORIA E DEFINIÇÃO:

 “A magia branca é supostamente utilizada apenas para propósitos bons ou altruístas, e a magia negra, nos dizem, é usada apenas por razões egoístas ou “más”. O satanismo não traça tal linha divisória. Magia é magia, seja usada para ajudar ou atrapalhar. O satanista, sendo o mago, deve ter a habilidade de decidir o que é justo, e então aplicar os poderes da magia para atingir seus objetivos.” – Anton LaVey.

Delineado na Bíblia Satânica, LaVey definiu a magia como “a mudança em situações ou eventos de acordo com a vontade de alguém, que, usando métodos normalmente aceitos, seria imutável”. Esta definição incorpora dois tipos amplamente distintos de magia: maior e menor. De acordo com LaVey, um dos objetivos da magia ritual é “isolar a suprarrenal dissipada e outras energias emocionalmente induzidas, e convertê-la em uma força dinamicamente transmissível”. LaVey definiu magia menor como “astúcia e astúcia obtidas através de vários dispositivos e situações inventadas, que quando utilizadas, podem criar mudanças de acordo com a vontade de alguém”. Dentro deste sistema de magia, os termos feiticeiro e bruxa são mais comumente usados ​​e para se referir a praticantes masculinos e femininos, respectivamente.

LaVey defendia a visão de que havia uma realidade objetiva para a magia, e que ela dependia de forças naturais que ainda não haviam sido descobertas pela ciência. Em vez de caracterizá-los como sobrenaturais, LaVey expressou a visão de que eles faziam parte do mundo natural. Ele acreditava que o uso bem-sucedido da magia envolvia o mago manipular essas forças naturais usando a força de sua própria força de vontade. LaVey também escreveu sobre “o fator de equilíbrio”, insistindo que quaisquer objetivos mágicos deveriam ser realistas. LaVey recusou qualquer divisão entre magia negra e magia branca, atribuindo essa dicotomia puramente à “hipocrisia presunçosa e autoengano” daqueles que se autodenominavam “magos brancos”. Tal neutralidade se correlaciona com a visão filosófica de LaVey de um universo impessoal e, portanto, amoral.

LaVey explica suas razões para escrever A Bíblia Satânica em um pequeno prefácio. Ele fala com ceticismo sobre os volumes escritos por outros autores sobre o assunto da magia, descartando-os como “nada mais do que fraude hipócrita” e “volumes de desinformação e falsas profecias”. Ele reclama que outros autores não fazem mais do que confundir o assunto. Ele zomba daqueles que gastam grandes quantias de dinheiro em tentativas de seguir rituais e aprender sobre a magia compartilhada em outros livros de ocultismo. Ele também observa que muitos dos escritos existentes sobre magia e ideologia satânicas foram criados por autores do “caminho da mão direita”. Ele diz que a Bíblia Satânica contém verdade e fantasia, e declara: “O que você vê pode nem sempre agradar a você, mas você verá!” Muitas das ideias de LaVey sobre magia e ritual são descritas na Bíblia Satânica. LaVey explica que alguns dos rituais são simplesmente psicologia aplicada ou ciência, mas que alguns contêm partes sem base científica. Os Rituais Satânicos, publicado por LaVey em 1972, descreve os rituais com mais precisão. O terceiro livro da Bíblia Satânica descreve rituais e magia. De acordo com Joshua Gunn, estes são adaptados de livros de magia ritual, como Magick de Crowley: Teoria Elementar, mais conhecido como o Liber ABA.

A MAGIA MENOR

 “O significado antiquado de ‘glamour’ é bruxaria. O trunfo mais importante para a bruxa moderna é sua capacidade de ser sedutora, de utilizar o glamour. A palavra ‘fascinação’ tem uma origem similarmente oculta. Fascinação era o termo aplicado ao mau-olhado. Fixar o olhar de uma pessoa, em outras palavras, fascinar, era amaldiçoá-la com o mau-olhado. Portanto, se uma mulher tinha a capacidade de fascinar os homens, ela era considerada uma bruxa.” – Anton LaVey.

A Magia Menor, também conhecida como magia “cotidiana” ou “situacional”, é a prática de manipulação por meio da psicologia aplicada. LaVey escreveu que um conceito-chave na magia menor é o “comando para olhar”, que pode ser realizado utilizando elementos de “sexo, sentimento e admiração”, além da utilização de aparência, linguagem corporal, aromas, cores, padrões , e odor. LaVey escreveu que os termos “fascínio” e “glamour” têm origens no mundo da magia “coercitiva”. A palavra “fascinação” vem da palavra latina “fascinare”, que significa “lançar um feitiço sobre”. Este sistema encoraja uma forma de dramatização manipulativa, em que o praticante pode alterar vários elementos de sua aparência física para ajudá-lo a seduzir ou “enfeitiçar” um objeto de desejo.

LaVey desenvolveu “O Relógio Sintetizador”, cujo objetivo é dividir os humanos em grupos distintos de pessoas com base principalmente na forma do corpo e nos traços de personalidade. O sintetizador é modelado como um relógio, e baseado em conceitos de somatótipos. O relógio destina-se a ajudar uma bruxa a se identificar, posteriormente auxiliando na utilização da “atração de opostos” para “encantar” o objeto de desejo da bruxa, assumindo o papel oposto. Diz-se que a aplicação bem-sucedida da magia menor é construída sobre a compreensão de seu lugar no relógio. Ao encontrar sua posição no relógio, você é encorajado a adaptá-la como achar melhor e aperfeiçoar seu tipo harmonizando seu elemento para melhor sucesso. LaVey explica que, para controlar uma pessoa, é preciso primeiro atrair sua atenção. Ele dá três qualidades que podem ser empregadas para esse propósito: apelo sexual, sentimento (fofura ou inocência) e admiração. Ele também defende o uso de odor.

Dyrendal se referiu às técnicas de LaVey como “Erving Goffman conhece William Mortensen”. Extraindo insights da psicologia, biologia e sociologia, Petersen observou que a magia menor combina ocultismo e “ciências rejeitadas de análise corporal e temperamentos”.

  • No MorteSubita.net há uma seção dedicada a Baixa Magia com diversas informações a respeito.

A MAGIA MAIOR:

Da esquerda para a direita: Karla LaVey, Diane Hegarty e Anton LaVey ritualizando na Casa Negra, a sede original da Igreja de Satã.

A Magia Maior é um ritual realizado para concentrar a energia emocional de uma pessoa para um propósito específico. Esses ritos são baseados em três grandes temas psicoemotivos, incluindo compaixão (amor), destruição (ódio) e sexo (luxúria). Esses rituais são frequentemente considerados atos mágicos, com o satanismo de LaVey incentivando a prática da magia para ajudar os fins egoístas. Muito do ritual satânico é projetado para um indivíduo realizar sozinho; isso ocorre porque a concentração é vista como a chave para a realização de atos mágicos. O ritual é referido como uma “câmara de descompressão intelectual”, onde o ceticismo e a descrença são voluntariamente suspensos, permitindo assim que os magos expressem plenamente suas necessidades mentais e emocionais, não retendo nada em relação aos seus sentimentos e desejos mais profundos. LaVey listou os componentes-chave para um ritual bem-sucedido como: desejo, tempo, imaginação, direção e “O Fator de Equilíbrio” (consciência das próprias limitações). Os rituais LaVeyanos às vezes incluem blasfêmias anticristãs, que se destinam a ter um efeito libertador sobre os participantes. Em alguns dos rituais, uma mulher nua serve de altar; nestes casos, fica explícito que o próprio corpo da mulher se torna o altar, em vez de tê-la simplesmente deitada sobre um altar existente. Não há lugar para orgias sexuais no ritual LaVeyano. Nem animais nem sacrifícios humanos acontecem. As crianças são proibidas de participar desses rituais, com a única exceção sendo o Batismo Satânico, que é especificamente projetado para envolver bebês.

Detalhes para os vários rituais satânicos são explicados no Livro de Belial, e listas de objetos necessários (como roupas, altares e o símbolo de Baphomet) são fornecidas. LaVey descreveu uma série de rituais em seu livro, Os Rituais Satânicos; estas são “performances dramáticas” com instruções específicas sobre a roupa a ser usada, a música a ser usada e as ações a serem tomadas. Esta atenção aos detalhes na concepção dos rituais foi intencional, com sua pompa e teatralidade pretendendo envolver os sentidos e os sentidos estéticos dos participantes em vários níveis e aumentar a força de vontade dos participantes para fins mágicos. LaVey prescreveu que os participantes do sexo masculino devem usar túnicas pretas, enquanto as mulheres mais velhas devem usar preto, e outras mulheres devem se vestir de forma atraente para estimular os sentimentos sexuais entre muitos dos homens. Todos os participantes são instruídos a usar amuletos do pentagrama virado para cima ou da imagem de Baphomet. De acordo com as instruções de LaVey, no altar deve ser colocada uma imagem de Baphomet. Isso deve ser acompanhado por várias velas, todas, exceto uma, devem ser pretas. A única exceção é uma vela branca, usada em magia destrutiva, que é mantida à direita do altar. Também deve ser incluído um sino que é tocado nove vezes no início e no final da cerimônia, um cálice feito de tudo menos ouro, e que contém uma bebida alcoólica simbolizando o “Elixir da Vida”, uma espada que representa a agressão, uma falo modelo usado como aspersório, gongo e pergaminho no qual os pedidos a Satã devem ser escritos antes de serem queimados. Embora o álcool fosse consumido nos ritos da Igreja, a embriaguez era desaprovada e o consumo de drogas ilícitas era proibido.

O livro final da Bíblia Satânica enfatiza a importância da palavra falada e emoção para a magia eficaz. Uma “Invocação a Satã” bem como três invocações para os três tipos de ritual são dadas. A “Invocação a Satã” ordena que as forças das trevas concedam poder ao invocador e lista os nomes Infernais para uso na invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da luxúria” é usada para atrair a atenção de outro. As versões masculina e feminina da invocação são fornecidas. A “Invocação empregada para a conjuração da destruição” comanda as forças das trevas para destruir o sujeito da invocação. A “Invocação empregada para a conjuração da compaixão” solicita proteção, saúde, força e a destruição de qualquer coisa que aflija o sujeito da invocação. O resto do Livro de Leviatã é composto pelas Chaves Enoquianas, que LaVey adaptou do trabalho original de Dee. Elas são dados em enoquiano e também traduzidas para o inglês. LaVey fornece uma breve introdução que credita Dee e explica um pouco da história por trás das Chaves Enoquianas e da linguagem. Ele sustenta que as traduções fornecidas são um “desenvernizamento” das traduções realizadas pela Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada) em 1800, mas outros acusam LaVey de simplesmente mudar as referências ao cristianismo com as de Satã.

Ao projetar esses rituais, LaVey baseou-se em uma variedade de fontes mais antigas, com o estudioso do satanismo Per Faxneld observando que LaVey “montou rituais de uma miscelânea de fontes históricas, literárias e esotéricas”. LaVey brincou abertamente com o uso da literatura e da cultura popular em outros rituais e cerimônias, apelando assim ao artifício, pompa e carisma. Por exemplo, ele publicou um esboço de um ritual que ele chamou de “Chamado a Cthulhu”, que se baseava nas histórias do deus alienígena Cthulhu, de autoria do escritor de terror americano H. P. Lovecraft. Neste rito, programado para acontecer à noite em um local isolado perto de um turbulento corpo de água, um celebrante assume o papel de Cthulhu e aparece diante dos satanistas reunidos, assinando um pacto entre eles na linguagem da ficção de Lovecraft “Old Ones (Os Antigos)”.

  • O Morte Súbita inc tem uma seção inteiramente dedicada a Baixa Magia

RITUAIS E RITOS CERIMONIAIS:

No Livro de Belial, ele discute três tipos de rituais: rituais de luxúria que trabalham para atrair outra pessoa, rituais de destruição para destruir outra pessoa e rituais de compaixão para melhorar a saúde, inteligência e sucesso. Rituais de luxúria são projetados para atrair o parceiro romântico ou sexual desejado e podem envolver a masturbação, com o orgasmo como objetivo. Rituais de destruição são projetados para prejudicar os outros e envolvem a aniquilação simbólica de um inimigo através do uso de sacrifício humano “vicário”, muitas vezes envolvendo uma efígie personalizada representando a vítima pretendida que é então submetida a fogo ritual, esmagamento ou outra representação de obliteração . Os rituais de compaixão são projetados com a intenção de ajudar as pessoas (incluindo a si mesmo), para evocar um sentimento de tristeza ou tristeza, e o choro é fortemente encorajado.

Nos Rituais Satânicos, LaVey faz uma distinção entre o ritual e a cerimônia, afirmando que os rituais “… são direcionados para um fim específico que o performer deseja”, e que as cerimônias são “… evento, aspecto da vida, personagem admirado, ou declaração de fé (…) um ritual serve para atingir, enquanto uma cerimônia serve para sustentar”. LaVey enfatizou que em sua tradição, os ritos satânicos vinham em duas formas, nenhuma das quais eram atos de adoração; em sua terminologia, os “rituais” tinham a intenção de provocar mudanças, enquanto as “cerimônias” celebravam uma ocasião particular.

Um batismo satânico é uma cerimônia para uma criança que se destina a ser um reconhecimento simbólico da criança como tendo nascido satanista e só deve ser realizada para menores de quatro anos, pois LaVey afirmou que além dessa idade, a criança já começou a ser influenciado por ideias “alienígenas”. Os batismos de adultos servem como uma declaração de “fé”, onde “falsidades, hipocrisia e vergonha do passado” são simbolicamente rejeitadas. Em 1967, LaVey realizou o primeiro batismo satânico registrado publicamente na história para sua filha mais nova, Zeena, que ganhou publicidade mundial e foi originalmente gravado no LP, The Satanic Mass (A Missa Satânica). Os Batismos Satânicos foram escritos por LaVey e publicados em Os Rituais Satânicos.

Em fevereiro de 1967, LaVey oficiou o primeiro casamento satânico, o casamento muito divulgado de Judith Case e o jornalista John Raymond. O primeiro funeral satânico foi para o mecânico-reparador naval dos EUA, de terceira classe e membro da Igreja de Satã, Edward Olsen. Foi realizado por LaVey a pedido da esposa de Olsen, completo com uma guarda de honra com capacete cromado. Ambas as cerimônias foram escritas por LaVey, mas nunca foram publicadas oficialmente até 2007, quando As Escrituras Satânicas lançou ao público uma versão adaptada delas pelo atual Sumo Sacerdote da Igreja, Peter H. Gilmore.

Junto com as cerimônias de casamento e funeral, As Escrituras Satânicas de Gilmore também publicou um rito menor de dedicação de objetos cerimoniais, que satiriza os rituais de ‘limpeza’ de outras religiões, e o Ragnarök Rite (Rito do Ragnarök), um ritual escrito por Gilmore na década de 1980 inspirado no o antigo mito nórdico do Ragnarök pretendia expurgar seus participantes da angústia e do ódio despertados após serem vítimas do fanatismo religioso.

A MISSA NEGRA:

LaVey também desenvolveu sua própria Missa Negra, que foi concebida como uma forma de descondicionamento para libertar o participante de quaisquer inibições que desenvolvessem ao viver na sociedade cristã. Ele observou que ao compor o rito da Missa Negra, ele se baseou no trabalho de Charles Baudelaire e Joris-Karl Huysmans.

SIMBOLISMO:

Os Quatro Príncipes Coroados do Inferno:

LaVey utilizou o simbolismo dos Quatro Príncipes Herdeiros do Inferno na Bíblia Satânica, com cada capítulo do livro sendo nomeado após cada Príncipe. O Livro de Satã: A Diatribe Infernal, O Livro de Lúcifer: A Iluminação, O Livro de Belial: Domínio da Terra, e O Livro do Leviatã: O Mar Furioso. Esta associação foi inspirada na hierarquia demoníaca do Livro da Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago.

  • Satã (hebraico) “O Senhor do Inferno”:

O adversário, representando a oposição, o elemento fogo, a direção do sul e o Sigilo de Baphomet durante o ritual.

  • Lúcifer (romano) “A Estrela da Manhã”:

O portador da luz, representando orgulho e iluminação, o elemento ar, a direção do leste e velas durante o ritual.

  • Belial (hebraico) “O Sem Mestre”:

A baixeza da terra, independência e autossuficiência, o elemento terra, a direção do norte e a espada durante o ritual.

  • Leviatã (hebraico) “A Serpente do Abismo”:

O grande dragão, representando o segredo primordial, o elemento água, a direção do oeste e o cálice durante o ritual.

Frases:

Hail Satan (Salve Satã)” uma saudação comum e termo ritual na Igreja de Satã, tanto em sua forma inglesa, Hail Satan, bem como na versão original em latim, Ave Satanas. Quando Ave Satanas é usado, muitas vezes é precedido pelo termo Rege Satanas (“Satã Reina”). (Rege Satanas pode ser ouvido no vídeo de um casamento amplamente divulgado da Igreja de Satã realizado por LaVey em 1º de fevereiro de 1967.) A combinação “Rege Satanas, Ave Satanas, Hail Satan!” é encontrado como uma saudação na correspondência inicial da Igreja de Satã, bem como em sua gravação de 1968, The Satanic Mass (A Missa Satânica) e, finalmente, em seu livro de 1969, A Bíblia Satânica. A frase é usada em algumas versões da Missa Negra, onde muitas vezes acompanha a frase Shemhamforash e é dita no final de cada oração. Este rito foi realizado pela Igreja de Satã aparecendo no documentário Satanis em 1969.

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Principais fontes:

Aquino, Michael (2002). The Church of Satan.

Barton, Blanche (1992). The Secret Life of a Satanist: The Authorized Biography of Anton Lavey. Feral House. p. 86. ISBN 978-0-922915-12-5.

Gilmore, Peter H. (2007). The Satanic Scriptures. Baltimore (MD): Scapegoat Publishing. pp. 131–182.

Gunn, Joshua (2005). “Prime-time Satanism: rumor-panic and the work of iconic topoi”. Visual Communication. 4 (1): 93–120. doi:10.1177/1470357205048939. S2CID 144737058.

LaVey, Anton (1969). The Satanic Bible. Avon.

LaVey, Anton, The Satanic Mass, LP (Murgenstrumm Records, 1968)

Melech, Aubrey (1985). La Messe Noire (PDF). London: Sui Anubis. p. 52. ISBN 0-947762-03-5.

Mortensen, William; Dunham, George (2014). The Command to Look: A Master Photographer’s Method for Controlling the Human Gaze. p. 203.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/a-magia-maior-e-a-magia-menor-no-satanismo/

A biologia na alquimia: correlações para uma educação alquímica

Marcelo Ribeiro dos Santos[1]

Carlos Eduardo Albuquerque Miranda[2]

Marcus Alexandre Finzi Corat[3]

I. INTRODUÇÃO

Alquimia. Permanece a grande dúvida fomentada por milênios de ocultamento proposital. Com que intenção? Pura burla? Piada milenar atravessando o tempo com comediantes pontuais extremamente meticulosos? A mentira para obter poder? Deter conhecimentos fictícios sobre a imortalidade e a riqueza infinita para melhor ascender sobre seus contemporâneos? Pouco provável. Alquimistas sempre foram renegados, vivendo à margem da sociedade, mesmo quando favorecidos por algum mecenato ambicioso. Alquimistas, ao que se sabe, tiveram vidas sacrificadas até que conseguissem a Pedra. Mesmo após a coroação de sua obra, não obtinham proveito próprio e viviam humildemente, como parecem sugerir os escritos sobre a vida de Nicolas Flamel. Mas obtinham realmente a Pedra? A Pedra dos Filósofos. A Pedra Filosofal, no caminho para a qual deviam realizar obrigatoriamente o Xir, El Ixir, o Elixir da Longa Vida. Fábulas?

Mas ao invés de especularmos sobre e de antemão descartarmos o conhecimento alquímico, talvez seja proveitoso deitar um olhar mais sereno e ordenado, fugindo dos extremos metafísicos dos realistas, que enxergam a alquimia como precursora da química, ou dos idealistas de verve Junguiana, que a consideram como simbolismo arquetípico de um processo interno de depuração e individuação psíquica. Não vamos aqui discorrer sobre estes dois caminhos já vastamente percorridos, mas sim propor uma análise baseada nos conceitos de Henri Bergson, filósofo Francês do final do século XIX que, apesar de reconhecido em seu tempo com um prêmio Nobel, tem sido sistematicamente relegado ao esquecimento pela Ciência contemporânea.

Utilizaremos aqui uma ferramenta conceitual já testada em outras investigações por nós efetuadas, a qual denominamos “Acordeom de Bergson” (Fig.1). Este apelido visa descrever as qualidades de expansão e contração da memória e as ressonâncias virtuais no objeto, descritas pelo esquema, que representa o que Bergson chama de “memória reflexiva”; aquela que utilizamos quando estamos atentos a um objeto desejando extrair dele, através de um circuito expansivo com nossa memória objetiva (A,B,C,D), as camadas virtuais presentes na memória intuitiva que nos permitam uma apreciação cada vez mais complexa voltada para a ação sobre o próprio objeto (O, B’,C’,D’). A profundidade de visão assim obtida nos permitirá uma versatilidade cada vez maior em nossas ações, ou esboços de ações, passíveis de serem executadas sobre o objeto percebido (BERGSON, 1991).

Figura 1 – o “Acordeom de Bergson”

 

Temos em vista que o objeto de nossa análise não é a Alquimia em si, tão diáfana e impalpável, mas sim os textos e imagens alquímicas que chegaram até nós. São com estes textos e imagens que desejamos fazer circuito, começando com um olhar de criança, que enxerga diferenças e semelhanças óbvias, para gradualmente expandirmos os níveis de complexidade de nossa memória à medida que se desvendam as camadas virtuais dadas nos próprios textos e imagens. Esperamos assim conseguir uma compreensão prática e útil do conhecimento alquímico, saindo da esfera da pura teorização estéril.

 

II. ALQUIMIA

A imediata associação que o pensamento comum nos traz sobre a Alquimia é o seu papel como precursora da química, para a qual contribuiu com diversos achados e técnicas. Esta contribuição pode de fato ter acontecido, porém quando nos deparamos com a materialidade dos textos e imagens que chegaram até nossos dias, nada vemos que nos remeta à química, exceto talvez a construção de misturas e reações entre elementos com o intuito de uma transformação ou produto final diferenciado, assim como, o nome de algumas substâncias principais tais como os Sais, o Enxofre e o Mercúrio. Estas três substâncias são recorrentes, porém também recorrente é a afirmação de que não correspondem às substâncias químicas reativas e vulgares que recebem estes nomes, mas sim, a estados ou “fases” separadas de uma mesma matéria inicial. Temos, portanto, o direito de desfocarmos nossos pensamentos da opinião comum materialista e caminharmos num sentido de análise filosófica metafísica nos levando não mais para o campo da química, mas agora, para as sinergias da alquimia para com as práticas biológicas de cultivo celular. Para delimitar nosso campo de análise, poderíamos começar por determinar o que a alquimia não é:

A atitude e o método do alquimista devem, portanto, ser totalmente distintos daqueles adotados pelo químico. A Alquimia não buscava tão-somente lidar com metais e suas inter-relações, nem mesmo tratar com as matérias das quais se interessava a química, mais ainda, não investigava assuntos que a química tornou de sua alçada. Não encontraremos em trabalhos alquímicos nenhum intento de estabelecer ou concluir catálogo ou tabela de substâncias conhecidas, nem mesmo o cuidado de estabelecer suas propriedades, nem mesmo a intenção de mostrar como uma classe de corpos passa a outra (FLAMEL, 1973).

Mas o que seria então a alquimia? Libertando-nos de preconceitos, podemos lançar mão de nossa ferramenta metodológica para desdobrarmos as camadas virtuais presentes em nosso objeto, atingindo níveis cada vez mais profundos de sua realidade. Ao aplicarmos nossa “memória reflexiva” em seus níveis mais primários, aqueles que detectam apenas diferenças e semelhanças entre objetos percebidos, podemos separar nosso material alquímico em dois grandes grupos: os textos e as imagens.

Vamos nos ater inicialmente aos textos: detectamos textos que se parecem com enredos teatrais, tendo como personagens as substâncias e processos alquímicos, com enredos descritivos e diálogos, os quais dramatizam o que parece ser a descrição de um processo e um protocolo de ação (ex: Zózimo de Panóplis, Maria a Profetiza, CALID apud ZALBIDEA et al., 1980)

Existem também textos semelhantes a receitas, ou protocolos experimentais, com descrições impessoais pormenorizadas dos passos a seguir (BACON apud ZALBIDEA et al., 1980). Outros textos são vinculados a imagens e funcionam como explicação detalhada e descrição destas (ex: Nicolau Flamel, BASÍLIO VALENTIM apud ZALBIDEA et al., 1980). Em todos os casos temos a impressão de estarmos diante de instruções genéricas sobre a consecução de um mesmo processo.

As imagens, quando analisadas em separado, nos apresentam a princípio uma profusão delirante de personagens míticos ou quiméricos, além de objetos e equipamentos os mais variados. Temos símbolos astrológicos em abundância e menções bíblicas. Mas quando abstraímos esta multidão pictórica e nos atemos à composição e ao ordenamento das figuras, vemos claramente os sinais inconfundíveis da Arte da Memória. Poderíamos dizer, modernamente, que há arquitetura gráfica, que distingue um arranjo qualquer de um arranjo que faz parte de um programa de educação visão-memória, historicamente agenciada e que tonar-se recorrente na cultural visual, moderna e contemporâneo (ALMEIDA, 1999; MIRANDA, 2001).

A Arte da Memória clássica e medieval trabalhava basicamente com imagens agentes imaginárias colocadas em construções e “nichos” de memória, que deveriam ser seriados e numerados, permitindo ao operador percorre-los a seu bel prazer, extraindo das figuras impactantes as lembranças de que necessitava (YATES, 2013). Um exemplo bastante explícito deste uso das imagens como arquitetura mental visando a rememoração do processo alquímico encontra-se no Arco pintado por encomenda de Nicolas Flamel e sua esposa Perrenelle na Igreja do Cemitério dos Inocentes, em Paris.

Figura 2 -Arco pintado por Nicolas Flamel no Cemitério dos Inocentes (FLAMEL, 1973)

Em outra linha de figuração alquímica temos o famoso “Mutus Liber” ou “Livro Mudo” (Sulat, 1667), que consiste de uma sequência de imagens com apenas algumas curtas frases de texto. O objetivo explícito desse livro é fornecer ao leitor instruções sobre o processo alquímico somente de modo figurativo, de tal maneira que leitores, em qualquer língua, possam compreender o processo.

O fato é que, quer levemos em conta os textos, as imagens ou ambos, sempre nos deparamos com uma espécie de “receita”, ou melhor, receitas diversas para a consecução de um mesmo processo. Temos alguns elementos básicos recorrentes na alquimia, que podem, no entanto, sofrer acréscimos ou variar em sua ordem de manipulação, aproximadamente da mesma maneira com que, para fazermos pão, precisamos ao menos de farinha, água e calor, porém com os inúmeros acréscimos de ingredientes e diferenças de receita, teremos pães de formatos e sabores variados, porém sempre reconhecíveis como pão.

Temos assim uma instância básica de memória reflexiva que, ao fazer circuito com os textos e imagens alquímicos, recria-os enquanto receitas ou protocolos variados para a obtenção dos mesmos fins: o Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal, um visando à extensão da vida e a outra à transmutação de metais inferiores em ouro. As imagens relacionadas a estes protocolos compõem um processo educativo que se harmoniza, em alguns casos, com os preceitos da Arte da Memória clássica e medieval, em outros, com a imagética figurativa e didática mais próxima à de Comenius (MIRANDA, 2011). Mas teriam estas receitas tão variadas uma consistência funcional? Para determinar isso teríamos que continuar a utilizar nossa memória de diferenciação, porém agora a aplicando ao conteúdo dos textos e imagens e não mais à sua apresentação genérica. Daqui para frente, pretendemos discorrer sobre a nossa interpretação dos relatos e imagens encontrados nos textos alquímicos rumo à obtenção do elixir da vida e contextualizando-os à prática da cultura de células na biologia dos dias atuais, trazendo-a como fruto de uma memória ressonante. Vamos analisar, na sequência, os 5 conteúdos reconhecíveis como sendo recorrentes ou básicos do processo alquímico: o Fogo Alquímico, a Matéria Alquímica, os Elementos Alquímicos, os Procedimentos Alquímicos, o Elixir de Longa Vida e a Pedra Filosofal.

O Forno Alquímico

Esqueçam a imagem de fornos fumegantes cheios de metal incandescente. O forno principal descrito pelos alquimistas mal pode ser chamado de forno, pois seria mais bem definido como uma estufa. O mesmo tipo de forno é representado tanto nas figuras de Flamel (Fig.2, canto esquerdo e arco central) como minuciosamente desenhado no “Mutus Liber”, conforme demonstra a figura abaixo, que representa um desses “fornos” com uma detalhada visão interna de seu funcionamento.

Figura 3 – Forno Alquímico (ROOB, 1996)

Podemos ver que a fonte de calor é uma simples lamparina colocada na parte mais baixa da estrutura. Isto condiz com as inúmeras recomendações dos alquimistas reiterando que não se deve usar fogo de madeira e que a temperatura deve ser constante e relativamente baixa.

Se esse fogo não é medido na proporção que lhe é própria, diz Calid; se ele é ateado com a espada, diz Pitágoras, se inflamas teu vaso, diz Morienus, e fa-lo sentir o ardor do fogo, ele te trará um revés… Além disso, deves sustenta-los perpetuamente neste calor temperado, isto é, noite e dia… (FLAMEL, 1973)

Podemos ver também um cone sobre a lamparina, sob a estrutura oval onde está o frasco ou “ovo alquímico”, geralmente descrito como sendo de vidro ou cerâmica vitrificada. Este cone pode ser um repositório de matéria vegetal (palha) úmida sobre a qual deveria ficar o “ovo alquímico” (o frasco de vidro contendo a matéria), conforme atestam as diversas menções e figuras alquímicas de galinhas chocando em um ninho de palha. Note-se que o fogo não tem contato direto com a câmara oval acima, servindo apenas para manter aquecido o cone, favorecendo a fermentação da palha que irradia um calor brando e uniforme na câmara oval, exalando também gás carbônico. As duas chaminés laterais distribuem o ar quente pelos lados da estrutura além de levar para o exterior qualquer tipo de fumaça, que não atinge assim a câmara oval, a qual apresenta também uma chaminé para saída do ar quente.

Temos, portanto, o desenho detalhado de uma engenhosa estufa artesanal visando manter uma temperatura tépida constante, umidade e alto teor de gás carbônico em sua câmara principal, devido à lenta fermentação da palha úmida favorecida pelo calor da lamparina que aquece o cone. Este não é o único tipo de forno que aparece nos desenhos alquímicos, mas é claramente o principal deles.

A Matéria Inicial (Matéria-Prima)

O que constitui a Matéria-Prima da Obra? Aqui tocamos no grande arcano dos alquimistas, que se recusam a se referir diretamente a este segredo inviolável, usando sempre linguagem figurativa quando falavam sobre ele. Será mesmo? “Chamaram-lhe semente, que quando se transforma se torna em sangue e logo se coalha e se converte numa espécie de carne composta;…(CALID in ZALBIDEA et al., 1980)”.

Portanto, apesar dos protestos veementes de Flamel que diz não se tratar de sangue – “que é maldoso e vil” -, podemos estar bastante certos de que se trata aqui de matéria biológica relacionada ao sangue, provavelmente de origem humana, o que justificaria plenamente o grande segredo zelosamente mantido, visto que a Idade Média absolutamente não olhava com bons olhos a profanação cirúrgica do corpo humano, ainda que de cadáveres, considerando esta atividade correlata com a bruxaria. Certamente os alquimistas já tinham problemas suficientes…

Os Elementos Alquímicos

Todos os textos são unânimes em afirmar que a Obra é feita a partir da separação e recombinação de elementos extraídos de uma mesma matéria: “O nosso magistério vem primeiramente de uma raiz, que logo se expande e reparte em várias coisas e depois torna-se numa só coisa (CALID apud ZALBIDEA et al., 1980)”.

Perante este fato, fica claro que os três elementos básicos sempre recorrentes na linguagem alquímica, o Mercúrio, o Enxofre (ou Latão) e os Sais, são nada mais que designações de estados ou frações da matéria básica. Os próprios alquimistas repetem incessantemente que não se trata dos elementos químicos vulgares conhecidos com estes nomes.

Filósofos escondem altas lembranças
Que não se dirigem a crianças;
Quando citamos metais vulgares,
Só por figuras disciplinares:
Pois eles sabem que esses metais
São todos mortos (disso falar não mais)
Que jamais retomarão
Substância e vida, antes repousarão[…] (FLAMEL, 1973).

O Mercúrio é descrito como sendo translúcido e branco como a lua, além de líquido e volátil. O Enxofre, algumas vezes designado como Latão, é amarelo alaranjado como o sol e de natureza oleosa ou gelatinosa, através de sua calcinação obtém-se os Sais ou cinzas de natureza seca e em forma de pó. A separação e mistura repetida dessas substâncias oriundas da mesma Matéria viva tem o intuito de potencializar a vitalidade desta, até a consecução do Elixir, considerado a primeira etapa da Obra.

Os Procedimentos Alquímicos

Elaboramos uma listagem comentada dos procedimentos básicos descritos nos textos alquímicos:

Decantação: deposição da parte sólida de um composto por ação da gravidade.

Calcinação: secagem dos elementos através do calor.

Dissolução: solubilização de elementos coagulados.

Separação: separação de elementos por filtragem ou decantação.

Conjunção: reunião de elementos.

Putrefação: coagulação de uma camada negra sobre o Mercúrio, ou meio líquido.

Coagulação: solidificação da matéria líquida.

Umidificação: Saturação das matérias secas com líquido.

Sublimação: extração por destilação ou volatilização.

Exaltação: aumento do poder ou vitalidade do Elixir ou da Pedra Filosofal.

Multiplicação: aumento vegetativo na quantidade do Elixir ou da Pedra Filosofal.

Projeção: transmutação de metais.

O Elixir da Longa Vida e a Pedra Filosofal

A consecução da Obra é a obtenção de um objeto descrito como sendo de textura macia e coloração vermelha, que pode ser usado como panaceia universal, prolongando indefinidamente a vida, ou pode ser utilizado para transmutar metais inferiores em ouro e prata, caso em que é chamado de Pedra Filosofal. No caso da transmutação em metais devia-se deixar este fermento vermelho ou purpúreo incubado durante certo tempo com pó de ouro, após o que adquiriria a propriedade de transmutar chumbo ou mercúrio metálico no mais nobre dos metais. Obtendo assim a imortalidade relativa e a riqueza infinita, o alquimista dá o devido valor à vida, desprezando a mesquinhez e utilizando as bênçãos recebidas para anonimamente auxiliar e curar ao próximo. Percebe-se assim a consistência material e espiritual deste sistema extremamente detalhado de obtenção da felicidade humana.

Não temos de maneira alguma a pretensão de haver esgotado nesta breve resenha toda a riqueza de materiais e procedimentos descritos pelos inúmeros textos e imagens remanescentes, no entanto, o delineamento que fizemos nos fornece uma visão orgânica e genérica do fenômeno que estamos analisando. Poderíamos resumir esta visão genérica como: um conjunto de textos e imagens que esboçam uma receita ou protocolo que é efetuado em estufas, com calor brando e constante, a partir de uma matéria inicial relacionada com o sangue a qual é separada em seus componentes líquido e sólido, os quais são recombinados de diversas maneiras para que se obtenha uma matéria final extremamente vitalizada e capaz de curar e rejuvenescer pessoas e transmutar metais. Tendo assim um bom esboço de nosso objeto, podemos agora expandir nossa memória reflexiva buscando sistemas semelhantes ao que esboçamos. Assim, imediatamente nos ocorre a semelhança surpreendente com um sistema de textos e imagens atuais que conhecemos bem: os protocolos de cultivo de células tronco de medula-óssea.

De acordo com nossa metodologia, podemos agora compor estes dois sistemas em um circuito ressonante, pois verificamos que o cultivo de células-tronco de medula óssea possui todas as características que esboçamos em nosso resumo, visto que é um processo realizado em estufas a partir de um tecido semelhante a sangue espesso, que se encontra no interior dos ossos: a medula óssea. Atualmente utilizam-se meios de cultura comerciais especialmente formulados, porém o “soro” ou plasma sanguíneo; a fração líquida e translúcida do sangue; poderia perfeitamente ser usado como um meio de cultivo natural, desde que previamente preparado para isso através de processos semelhantes àqueles descritos na alquimia.

A utilização de frações purificadas de células mononucleares[1] de medula óssea já demonstrou sua eficácia terapêutica em diversos trabalhos científicos, havendo indícios de rejuvenescimento em animais experimentais (SANTOS, 2010), além da cura de paralisias por sequelas neuronais até então incuráveis (BRITO et al., 2010). Para aqueles que pesquisam nesta área, fica claro que a utilização desta terapêutica só não se generaliza devido às idiossincrasias socioeconômicas de nossa era.

Quanto à transmutação dos metais, sabemos que a utilização de culturas de bactérias e fungos unicelulares para a aceleração da transmutação de metais – por exemplo, o Manganês (Mg) em Ferro (Fe) (VYSOTSKII; KORNILOVA, 2011) – já é uma tecnologia incorporada à ciência das fusões a frio, uma das promessas tecnológicas para a geração de energia limpa. Será então assim tão absurdo pensar que as células-tronco poderiam, mediante certos protocolos de cultivo que desconhecemos, transmutar metais inferiores em ouro?

Mas será que poderíamos realmente conectar o processo alquímico com um protocolo de extração e purificação de células-tronco de medula óssea? Para ilustrar nossa hipótese, faremos uma narração do “Mutus Liber” ou “Livro Mudo” que se compõe de uma série de imagens sem texto as quais intencionam descrever figurativamente o processo alquímico. Nossa narração deverá formular um protocolo de extração artesanal, purificação e cultivo de células-tronco de medula óssea que terá que se adequar consistentemente às imagens alquímicas descritas. Vamos ao nosso experimento.

 

III. O “LIVRO MUDO” FALA

O “Mutus Liber” nos apresenta uma sequência de imagens que fogem bastante à regra da maior parte das imagens alquímicas. Enquanto estas se enquadram nitidamente nos cânones da Arte da Memória clássica e medieval (ver Fig.2) com suas imagens agentes exóticas e surpreendentes que visam despertar correlações mnemônicas, o “Mutus Liber” nos parece mais próximo das pretensões pedagógicas de um sistema contemporâneo a ele, elaborado por Jean Amos Comenius também em meados do século XVII para a educação escolar. Comenius, apesar de nitidamente influenciado pela Arte da Memória medieval, utiliza as figuras como suportes realistas de comentários didáticos. No entanto estas figuras são compostas de maneira a serem independentes do comentário (MIRANDA, 2011).

O “Mutus Liber” nos coloca perante um conjunto de equipamentos e uma sequência ordenada de atos realizados por um casal de personagens que cumprem uma determinada tarefa. O simbolismo aparece também, porém com uma função totalmente secundária e quase “hieroglífica”, ou nominativa, em relação ao conjunto das imagens, que se preocupam mais em figurar minuciosamente um protocolo de ação.

Realizaremos comentários didáticos, ao modo de Comenius, visando complementar as figuras para testar nossa hipótese de que a alquimia, conforme descrita pelos textos e imagens que conhecemos, pode funcionar como uma educação do cultivo artesanal de células-tronco. Para contextualizar nossos comentários, deveremos ter em mente que todo o processo deveria ser feito sem o auxílio da tecnologia que temos hoje, tais como microscópios, estufas elétricas com termostato e meios de cultura comerciais previamente formulados, portanto, teremos que nos orientar, como aparentemente faziam os alquimistas, pela coloração e formato das culturas de células. Além disso, deveremos ter uma etapa de síntese artesanal de um meio de cultivo realisticamente eficiente. Obviamente, utilizaremos nossos conhecimentos e linguagem atuais sobre cultivo de células, de modo a podermos perfazer o circuito que desejamos entre imagem e memória reflexiva.

Outra dimensão que deve ser levada em consideração é a atitude emocional e religiosa dos operadores, que aparentemente tinham uma preocupação com o momento astrológico das atividades e consideravam a oração continua como parte do processo: “Ora lege lege lege relege labora et invenies”[1]. No entanto, não nos ateremos aos fatores afetivo-religiosos em nosso protocolo, buscando apenas coerência técnica entre um protocolo de cultivo viável e as imagens do “Mutus Liber” (ROOB A., 1996)[2].

Deixaremos de fora a capa e a primeira prancha, que não parecem estar envolvidas com a descrição técnica. Destacamos em seu significado apenas o despertar para uma visão mais ampla da realidade. Começaremos nosso protocolo, portanto, a partir da prancha 2:

Prancha 2

Prancha 3

Prancha 2-) acima, temos a matéria inicial representada sob a forma de duas crianças e um homem adulto no interior do balão de vidro ou “ovo alquímico”. Veremos adiante que essa representação figura concretamente as fontes iniciais da obra, que provém de corpos humanos. Abaixo vemos um homem e uma mulher, ele em posição de oração e ela como que testando a temperatura que sai pela chaminé do forno que é na verdade uma estufa, sobre a qual já comentamos. Podemos pensar que a maior sensibilidade tátil e a excelente discriminação de cores das mulheres podem ser fatores indispensáveis na falta de termômetros e microscópios, sendo uma recomendação tradicional que a obra seja efetuada por um casal. Veremos que a mulher está com uma roupa diferente a cada imagem sucessiva e que é ela quem realiza as manipulações, ficando o homem mais como um auxiliar braçal. Esta troca de roupas pode nos sugerir a higiene perfeita, tanto do corpo dos operadores quanto dos objetos utilizados, necessária para o cultivo celular, sem a qual teríamos necessariamente contaminações na cultura. Esta necessidade de higiene e de uma matéria inicial limpa e saudável é destacada no início da Obra por diversos alquimistas.

Tal como o médico que purga as entranhas e limpa as sujeiras por meio dos medicamentos, do mesmo modo os nossos corpos devem ser purgados e limpos de todas as impurezas a fim de que, na nossa geração, o que é perfeito possa produzir operações perfeitas[…] (BASÍLIO VALENTIN apud ZALBIDEA et al., 1980)

 

Prancha 4

 Prancha 5

Nas pranchas com vários quadros (4, 5 e 6), estes serão nomeados como a,b,c,d,e,f. A leitura será feita de cima para baixo e da esquerda para a direita, conforme a escrita ocidental.

Prancha 4-) A formulação do meio de cultura ou Mercúrio dos Filósofos: a) A água de orvalho é despejada no jarro de destilação. b) A água de orvalho é destilada desprezando-se a parte inicial, a “cabeça do corvo”, que conterá uma mancha enegrecida com as substâncias voláteis diluídas no orvalho. Apenas a parte secundária deverá ser destilada e aproveitada. c) O sangue coletado dos operadores é aquecido até que se volatilize toda a parte líquida (Mercúrio volátil) restando apenas a parte sólida calcinada, seca sem queimar (Enxofre sólido). A seguir, repõe-se o líquido com a água de orvalho destilada, obtendo-se um meio de cultura esterilizado pelo calor e com todos os nutrientes necessários, porém sem células vivas: o Mercúrio Filosofal. Este meio de cultura é colocado em uma garrafa de cultivo juntamente com quatro pedaços da “Matéria Inicial”, cuja origem nos é mostrada no quadro seguinte. d) Aqui é mostrada claramente a origem da “Matéria Inicial” dos alquimistas. Trata-se das quatro extremidades do fêmur (epífises) de uma criança recém-morta, colocadas em uma garrafa por um homem de aspecto selvagem com o crescente do Islã no peito (ossos de crianças pagãs?). As extremidades do fêmur de bebês ou de fetos abortados seriam fontes abundantes de medula óssea e, portanto, das chamadas células-tronco pluripotentes, aquelas que ainda são totalmente indiferenciadas. Estas células seriam extremamente vigorosas, ainda possuindo longos telômeros[4] devido à sua juventude, e muito adequadas à terapia celular visando rejuvenescimento e regeneração. Se ao leitor essa correlação entre a figura e a utilização de ossos de bebês parece forçada, então talvez uma figura mais explícita o convença.  Trata-se de uma ilustração do tratado alquímico “Aurora Consurgens”, do século XIV.

Figura 4 – mulher parindo. “Aurora Consurgens” (ROOB, 1996, p.80)

Vemos na figura 4 a representação nua e crua de uma mulher (uma freira?) que acaba de parir ou abortar, oferecendo seu bebê ou feto em uma pequena trouxa para o signo de Leão, cujo astro, o Sol, é símbolo do ouro alquímico. Temos, porém, a mais explícita das declarações em um compêndio anônimo de textos medievais alquímicos publicado no século XVII:

Considero o grão metálico como a medula dos ossos…Nos ossos há também medulas de diferentes espécies, a melhor está no tubo dos ossos, e a outra, menos perfeita, está nas suas extremidades…esta porém está a caminho da perfeição da melhor medula; pois este osso esponjoso é coberto por uma cartilagem, e essa cartilagem é acompanhada de glândulas mucilaginosas, nas quais se coze e prepara a sinóvia, que, sob certos aspectos pode ser vista como uma matéria prima das cartilagens e da medula (anônimo, 2006).

Admirável rebuscamento e meticulosidade na descrição da medula óssea da diáfise dos ossos, contendo células medulares prontas, diferenciadas (“…e a outra, menos perfeita, com células-tronco indiferenciadas, está em suas extremidades…esta porém está a caminho da perfeição da melhor medula;…”) em uma época em que o estudo da anatomia em cadáveres era crime que levava à fogueira!

Nicolas Flamel também é bastante explícito quanto à origem da Obra:

Foram estas as coisas que me obrigaram a pôr essas figuras dessa maneira e num lugar como um cemitério, já que se alguém obtiver o bem inestimável da conquista de este rico velo, que pense como eu, que não se deve manter enterrado o talento de Deus comprando terras e propriedades, que são as vaidades deste mundo, mas que deve socorrer os seus irmãos, recordando-se de que este conhecimento foi adquirido com base nos ossos dos mortos… (FLAMEL apud ZALBIDEA et al., 1980)[5]

Olhando-se a questão deste ângulo, compreende-se o grande interesse de Flamel por um cemitério de crianças e suas doações generosas ao Cemitério dos Inocentes adquirem uma conotação não tão inocente. e) Em uma estufa de gás carbônico artesanal, realiza-se o cultivo da medula óssea de cada uma das cabeças de fêmur, pois há lugar na estufa para quatro frascos de cultivo. Inicialmente deve-se remover toda a medula por meios mecânicos, utilizando-se qualquer instrumento pontiagudo esterilizado no fogo, e colocar o tecido semelhante a sangue espesso em solução no meio nutriente previamente preparado com o precipitado de sangue, plasma e a água destilada. Guardam-se os ossos já limpos de medula para sua utilização em fase posterior (Prancha 5, quadro f). O meio de cultura deve ser trocado constantemente e após algum tempo as células terão formado duas populações: uma, aderente, no fundo do frasco; as chamadas células estromais ou fibroblastóides; e outra população de células não aderentes, as células precursoras de células sanguíneas, ou hematopoiéticas. Quando as células aderentes atingirem confluência, ou seja, quando cobrirem todo o fundo do frasco, é o momento de coletá-las e fazer o repique em baixa densidade, para obter as unidades formadoras de colônias fibroblastóides (CFU-F), que são identificadas como colônias circulares de células no fundo do frasco de cultivo (Kern et al., 2006).

Prancha 5-) a) Um passo interessante se delineia aqui, pois trata-se da preparação de um meio de cultura feito com as células sobrenadantes do cultivo acima descrito. Primeiramente despeja-se o líquido sobrenadante dos quatro frascos de cultivo em outro frasco, repondo-se o meio nutriente novo para as células aderentes. b) Coloca-se o meio retirado com as células em suspensão no destilador. c) O meio é destilado em alta temperatura até aparecer um coágulo de células. d) Após a esterilização e coagulação, repõe-se a fase líquida coletada no destilador e separa-se o meio esterilizado, fase líquida e sólida reunidas, em outro frasco. e) Este meio é entregue ao personagem solar, significando que só será utilizado na segunda parte da Obra: a transmutação biológica de metais em ouro. f) As quatro cabeças de fêmur limpas que haviam sido separadas anteriormente, serão fervidas em água para retirada do colágeno, que será utilizado como substrato na próxima fase.

Prancha 6

Prancha 7

Prancha 6-) a) Verte-se o colágeno dissolvido com as epífises em uma bandeja. Este colágeno formará um substrato macio no fundo do frasco de cultivo, favorecendo a quiescência (não diferenciação) das células tronco (WINER et al., 2009). b) O meio de cultura novo contendo colágeno é filtrado em lã; esterilizada por fervura; sobre um funil, para retirar eventuais fragmentos de osso. c) O meio é esterilizado em alta temperatura. d) O meio de cultivo esterilizado contendo substrato de adesão (colágeno gel) é cuidadosamente colocado em um frasco de cultivo em que são também colocadas as colônias de células aderentes (CFU-F) do cultivo anterior. e) Este frasco de cultivo, contendo as células aderentes dos quatro frascos do cultivo anterior, deverá ter seu meio de cultura periodicamente trocado, realizando-se a lavagem das células que estarão aderidas no substrato de colágeno até que se perceba uma população de células fibroblastóides sobreposta por uma colônia de células-tronco que iniciam o processo de osteogênese, ou diferenciação em células ósseas, indicando a presença de células-tronco pluripotentes na cultura (a criança clara com a mão na boca do adulto vermelho) que deverão com o tempo atingir confluência na camada superior (branqueamento, o adulto e a criança brancos após serem lavados com meio de cultura). Também periodicamente deverá ser feito o repique das células quando estas atingem confluência, o que é figurado como a espada cortante na mão do homem, voltada para o frasco de cultivo. O repique consiste na fragmentação da cultura em novos frascos contendo meio com colágeno, evitando-se a superpopulação e o início da diferenciação “in vitro” das células-tronco.

Prancha 7-) Acima, vê-se aqui a ampola de vidro contendo as células prontas para uso, provavelmente diluídas em solução fisiológica salina, simbolizadas pelo deus Mercúrio. As dez serpentes do caduceu de Mercúrio podem ser lidas como dez doses de células derivadas do processo descrito, utilizando-se as quatro extremidades do fêmur de uma criança. Abaixo, o balão de vidro fechado contendo as células-tronco é mantido na estufa padrão, com calor constante e atmosfera saturada de gás carbônico, devendo o casal de operadores vigiar constantemente a uniformidade, a adequação da temperatura e a vitalidade da cultura, que deverá ser descartada se apresentar sinais de deterioração.

Terminamos aqui a primeira etapa da Obra: a confecção do Elixir da Longa Vida. As mesmas células serão utilizadas na segunda etapa.

É importante esclarecer que este esboço de protocolo tem apenas o detalhamento necessário para que o discurso do cultivo contemporâneo de células se componha harmoniosamente com as imagens. Um protocolo real deverá ter uma miríade de ajustes e detalhes que só poderiam ser determinados com a prática, não sendo nosso objetivo aqui estabelecer se este esboço que propusemos poderia ou não obter sucesso em um cultivo real.

A Transmutação Alquímica dos Metais

A comunidade acadêmica relutou muito em reconhecer a validade dos experimentos de C. L. Kervran e George Ohsawa, que foram os primeiros cientistas a demonstrar experimentalmente que sistemas vivos realizavam rotineiramente, como parte de suas funções fisiológicas, a transmutação de elementos (KERVRAN, 2011). Seus experimentos foram repetidos e, apesar de alguns deles terem sido descartados em face de novos fatos científicos que os invalidavam, outros demonstraram resultados consistentes, tais como os experimentos envolvendo a criação de Cálcio (Ca) por plantas a partir da transmutação do Potássio (K) (KERVRAN, 1982). Porém, Kervran e os cientistas que seguiram sua linha de trabalho trabalhavam com medidas em organismos multicelulares, plantas ou animais, e não com cultivo celular. O impulso neste sentido veio dos experimentos de fusão a frio, fenômeno que envolve a transmutação de elementos em níveis baixos de radioatividade e calor. Este campo de estudos foi ofuscado pelo campo do conhecimento de fusões de altíssima radiação, concretizado nos estudos que redundaram na bomba atômica. O campo muito mais pacífico das fusões a frio ficou durante muito tempo restrito a pequenos grupos de pesquisa com poucas verbas e equipamentos e, no entanto, passos importantes foram dados nos sentido de aperfeiçoar esta tecnologia para a produção limpa de energia (NAGEL, 2011).

Um ramo de estudos das fusões a frio envolve as transmutações biológicas efetivadas por culturas de micro-organismos unicelulares tais como leveduras e bactérias, as quais tem a capacidade de potencializar tremendamente a transmutação de metais pesados em elementos mais leves, sendo muito úteis na inativação de resíduos radioativos. Um experimento bastante impressionante neste sentido é o que demonstra rigorosamente a transmutação de Manganês em Ferro por uma cultura mista de bactérias (VYSOTSKII; KORNILOVA, 2011). Visto que tanto bactérias, que são procariontes (sem núcleo organizado), quanto as leveduras, organismos eucariontes (com núcleo organizado), podem realizar a transmutação nuclear de metais, não vemos razão para pensar que poderia ser diferente com células animais cultivadas. Porém, o experimento simplesmente não foi feito e, portanto, tentar seguir aqui o “Mutus Liber” seria puro exercício de imaginação, ao contrário do primeiro protocolo que apresentamos, embasado em conhecimentos práticos e reais.

 

IV. CONCLUSÃO

Estaríamos forçando a realidade se disséssemos que todas as imagens e textos alquímicos encaixam-se na hipótese aventada neste trabalho. Existe toda uma linha de entendimento sobre a alquimia, a partir do séc. XVII, que trabalha com as chamadas “quintessências” de elementos minerais vegetais e animais. Esta corrente inicia-se com Paracelso e acaba por resultar nos trabalhos que criaram a homeopatia e os florais, já no séc. XIX. Os textos clássicos mais antigos, porém, encaixam-se quase que invariavelmente na abordagem que descrevemos. Ainda assim, não estamos preocupados se desvendamos neste trabalho a verdade histórica. Em realidade, a verdade histórica nos interessa muito pouco, visto que ela não poderá nunca ser absolutamente comprovada. O passado permanece em nossa memória e é nela que devemos procurar os recursos para esclarecer nossas ações presentes. Interessa-nos, portanto, não a verdade, mas sim a conectividade fecunda que um conhecimento histórico pode estabelecer com nossas escolhas.

Na medida em que podemos formar circuitos criativos e funcionais com os objetos que o passado distante nos legou, isso nos basta. O circuito aqui experimentado demonstra-se harmonioso e plausível: assim como o cultivo celular pode esclarecer e dar coerência às imagens e textos alquímicos, estes podem atuar como uma didática do cultivo celular artesanal, sugerindo técnicas e procedimentos que ainda não foram experimentados pela ciência atual, deflagrando um ciclo virtuoso que só pode trazer avanços para o saber científico.

Dentre as possíveis ramificações futuras deste trabalho poderíamos destacar: os experimentos com meios de cultura artesanais feitos a partir de plasma e sangue, a construção de estufas de cultivo de células que dispensem o uso de energia elétrica e a elaboração de protocolos práticos de cultivo passíveis de serem executados com mínima infraestrutura. A experimentação com transmutação de elementos em cultivo de células tronco é também uma vertente muito interessante ainda inexplorada pela ciência oficial. É necessário enfatizar que, a abordagem interdisciplinar que utilizamos, demonstra ser um instrumento poderoso para estabelecer correlações fecundas entre assuntos aparentemente distantes, possibilitando sua aplicação em outras esferas de conhecimento além das que aqui abordamos.

 

Bibliografia

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ZALBIDEA, V.; et al. Selecção de textos: Alquimia e Ocultismo. 1ª ed. Lisboa: Edições 70, 1980.

 

Recebido em: 15/10/2018

Aceito em: 15/11/2018


[1] Biólogo, Mestre em Fisiopatologia Médica e Doutor em Educação. Laboratório OLHO – FE/Unicamp E-mail: jorgeodragao@yahoo.com.

[2] Graduado em Educação, Mestre em Educação e Doutor em Educação. Laboratório OLHO – FE/Unicamp E-mail: ceamiranda@gmail.com.

[3] Biólogo, Doutor em Clínica Médica. CEMIB/Unicamp  E-mail: marcus@cemib.unicamp.br.

[4] Conjunto de células precursoras semi-diferenciadas e células-tronco indiferenciadas.

[5] “Ora, lê, lê, lê, relê, trabalha e encontrarás”. Frase final do “Mutus Liber” (Roob A, 1996).

[6] As Pranchas de 2 a 7 são da versão do “Mutus Liber” contida no Hermetische Museum (Roob, 1996, pp.380-384).

[7] No Hemisfério Norte.

[8] Os telômeros podem ser definidos como uma proteção física contra mutações nas extremidades do DNA cromossômico. A diminuição gradativa dos telômeros é característica do envelhecimento.

[9] Flamel se refere às figuras alquímicas pintadas no arco da Igreja dos Inocentes, doado por ele.

Fonte:
ClimaCom – Inter/Transdisciplinaridade, ANO 05 – N13 – ISSN 2359-470

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-biologia-na-alquimia-correlacoes-para-uma-educacao-alquimica/

A Conexão Reptiliana

Se você é novo ao meu trabalho, a informação mais bizarra que você vai encontrar neste site é a relativa à conexão reptiliana.

Eu compreendo isso. É algo totalmente diferente da nossa versão condicionada da realidade. Mas, esse é exatamente o ponto principal. Se você quer manter algo secreto das pessoas, dê a elas uma versão de realidade e possibilidade que seja tão distante do que realmente está acontecendo, que, até mesmo se a verdade vier à luz, ela parecerá absurda e extrema demais para a maioria das pessoas acreditar.

De fato, se você fizer o seu trabalho bem o bastante, as pessoas irão rir da verdade, chamá-la de insanidade, e ridicularizar qualquer um que a promova.

Para verdadeiramente entender como toda a informação neste site ajusta-se em um todo coerente, você realmente precisa ler meu livro, O Maior Segredo. Mas, para aqueles que ainda não leram, aqui está algum pano de fundo básico. Contudo, por favor lembre-se de que no livro há uma enorme quantidade de informação para apoiar o que eu estou a ponto de dizer.

Quando eu alcancei o ponto, alguns anos atrás, onde eu tinha reunido e entendido a estrutura pela qual poucas pessoas controlam a direção do mundo (veja E a Verdade o Libertará), estava claro que esta rede de sociedades e grupos secretos que manipulam a política global, os negócios, os bancos, as forças armadas, mídia, e assim por diante, não poderia ter sido criada dentro de poucos anos ou décadas. Ela tinha que voltar um tempo muito longo.

Assim eu comecei a rastrear suas origens no que nós chamamos de história. Eu fiz isto com o conhecimento de que, por alguma razão, descendência e genética eram vitalmente importantes a esses manipuladores, os Illuminati ou Iluminados – iluminados no conhecimento que o público nunca vê.

Eu segui confortavelmente a pista ao tempo das Cruzadas no Oriente Médio, aos 12º e 13º séculos, aquele “amável” período, e, a partir daí, voltei ainda mais longe: ao mundo antigo e pré-história.

Lá, por todo o planeta, você encontra as lendas e contos antigos de “deuses” de outro mundo que cruzaram com a humanidade para criar uma rede de descendentes híbridos. O Velho Testamento, por exemplo, fala sobre os “Filhos de Deus” que cruzaram com as filhas dos homens para criar a raça híbrida, chamada de Nefilim. Antes que fosse traduzido para o inglês, aquela passagem, dizia “os filhos dos deuses”, plural. Mas os contos da Bíblia são apenas alguns dos muitos que descrevem o mesmo tema.

As Tábuas de barro sumérias, achadas no local que nós chamamos agora de Iraque, na metade do século 19, conta uma história semelhante. É estimado que elas foram enterradas ao redor de 2,000 AC, mas as histórias que elas contam voltam muito antes disso. As Tábuas falam de uma raça de “deuses” de outro mundo que trouxe conhecimento avançado para o planeta e cruzou com humanos para criar uma descendência de híbridos. Esses “deuses” são chamados nas Tábuas, os “Anunnaki” que aparentemente traduz como “aqueles que do céu para a Terra vieram.”

Os contos antigos nos falam que estes descendentes híbridos, resultantes da fusão dos genes de humanos selecionados com os dos “deuses”, foram postos nas posições de comandar o poder real, especialmente no antigo Oriente Médio e Próximo Oriente, em culturas avançadas como a Suméria, Babilônia e Egito. Mas isto também aconteceu em outros lugares, como você descobrirá se pesquisar, por exemplo, nas informações surpreendentes fornecidas neste site pelo shaman zulu africano, Credo Mutwa, e nos incríveis Credo vídeos, Agenda Reptiliana, partes um e dois. Ele conta a mesma história vinda da tradição negra africana que eu tenho descoberto em outros lugares do mundo.

Os contos sobre a “raça serpente” em culturas antigas são simplesmente intermináveis para onde quer que você olhe, e o simbolismo serpente-reptiliano em relação aos Anunnaki e outras versões destes “deuses” são igualmente difundidos. Nós vemos isto na Bíblia, por exemplo, com a serpente no “Jardim do Éden” – uma história que claramente vem dos contos Sumérios, assim como a história de Moisés nos juncos, uma história contada sobre um rei Sumério muito antes da Bíblia. É por isso que eu achei tão surpreendente quando Zecharia Sitchin, o melhor e mais conhecido tradutor das Tábuas Sumérias, me disse que não havia nenhuma evidência de uma raça serpente no mundo antigo. Claro que há. Ele também me aconselhou fortemente em relação à raça serpente… “não vá lá”. Porque? Quando a evidência, antiga e moderna, é tão enorme?

Destes descendentes híbridos veio “o direito divino dos reis”, a crença de que somente aqueles de “sangue azul” têm o direito de governar dado por Deus. Na verdade esse direito não é “divino”. É o direito de governar dado pelos “deuses” reptilianos por via de sua genética híbrida.

Estes híbridos se tornaram depois as famílias reais e aristocráticas da Europa e, graças ao “Grande” Império britânico e aos outros impérios europeus, eles foram exportados para as Américas, África, Austrália, Nova Zelândia, e diretamente para o Distante Oriente onde eles conectaram-se com outros híbridos reptilianos, como aqueles, mais obviamente, na China onde o simbolismo do dragão é a base da cultura deles.

Estas linhagens híbridas reptilianas-humanas se tornaram os governantes políticos e econômicos daquelas terras ocupadas pelos impérios europeus e elas continuam governando esses países ainda hoje. Os Estados Unidos da América tem sido o lar de centenas de milhões de pessoas desde 1776. E o que é mais surpreendente é que essas pessoas vieram de uma incrivelmente diversa mistura genética. E contudo, espere por isto, os 42 homens que se tornaram Presidentes dos Estados Unidos são todos relacionados!!! Trinta e três deles sozinhos estão relacionados à Carlos Magno, um dos monarcas mais famosos do que nós chamamos agora de França. Acontece que ele é uma figura principal na história e na expansão dessas linhagens híbridas para a Inglaterra, a França, a Alemanha, e para outros lugares.

Os Rothschilds, os Rockefellers, a família real britânica, e as famílias que controlam a política e a economia do EUA e do resto do mundo vêm desta MESMA linhagem. É por isso que as assim chamadas famílias do Estabelecimento Oriental dos Estados Unidos cruzam entre si tão obsessivamente quanto as Famílias reais e “nobres” européias sempre fizeram. Assim como outras famílias similares ao redor do mundo. Elas não fazem isso por serem snobes, mas para manterem, da melhor forma que puderem, uma estrutura genética: a combinação do DNA réptil-mamífero, a qual permite que eles mudem de forma.

Você também verá referências neste site para “mudança de forma”, o fenômeno no qual testemunhas informam terem visto pessoas (freqüentemente aquelas em posições de poder), transformar-se diante dos seus olhos, de uma forma humana para uma réptil e então retornar à forma humana. Você achará muito sobre isto em O Maior Segredo. E Credo Mutwa confirma exatamente a mesma experiência na África negra. Uma vez mais, antigos e modernos contos apóiam uns aos outros. Os deuses antigos dos Vales Indus, os Nagas, eram ditos terem sido capazes de assumir ou a forma humana ou a réptil.

O presidente anterior dos EUA, George Bush, incidentemente, é mencionado mais do que qualquer outra pessoa em minhas experiências em relação à mudança de forma. é por isso que o filho dele está sendo conduzido para a eleição presidencial de 2000. Na America presidentes não são eleitos por votos,  eles são selecionados por seu sangue.

Al Gore, o seu oponente “Democrático” no Estado de um único partido, também é desta linhagem genética. Olhe quase em qualquer lugar no mundo para uma posição significativa de poder e você achará o mesmo.

O simbolismo reptiliano que você vê ao seu redor em gárgulas, em brasões, em propaganda, e assim por diante, é tudo parte disto.

Estes “deuses” não poderiam assumir o controle do planeta abertamente porque não há bastante deles, assim eles estão fazendo isto secretamente, disfarçando-se de humanos. Filmes como Eles Vivem, A Chegada (o primeiro, não a seqüência), e a série de televisão americana, V, conta a história do que REALMENTE está acontecendo. Se você é novo a tudo isto, eu sugiro que você pense em assistir estes filmes para acordar pra realidade o mais depressa possível.

Os pesquisadores de conspirações e da Nova Ordem Mundial também têm seus próprios sistemas de crença políticos e religiosos para defender e enquanto eles descobrem um nível da conspiração, a maioria rejeita e até mesmo ridiculariza o que eu estou dizendo sobre a conexão reptiliana. Tudo bem, mas a menos que eles entendam este quadro maior eles nunca irão, em minha visão, entender o que está verdadeiramente acontecendo ao nosso redor.

Como disse Ghandi: “Mesmo se você está em uma minoria de um, a verdade ainda é a verdade.”

E como resultado das ondas que O Maior Segredo têm causado, e as novas informações, experiências, e contos que o livro e este website têm atraído do mundo inteiro, há uma compreensão crescente de que esta aparentemente bizarra e louca história é de fato verdade. Que o mundo realmente pode ser controlado por linhagens genéticas reptilianas que se escondem por atrás de uma forma aparentemente humana. E é este entendimento que reúne todas as informações aparentemente desconexas neste site em um grande e conectado todo.

Aqui estão alguns exemplos:

RELIGIÃO

Se você deseja controlar uma grande quantidade de pessoas, você tem que desconectá-las do verdadeiro conhecimento de quem elas são e do próprio potencial infinito delas para manifestar o seu próprio destino e controlar suas próprias vidas. Você tem que convencê-las de que elas são insignificantes e impotentes assim elas viverão as suas vidas de acordo com isso.

É por isso que a religião tem sido uma das armas mais efetivas da Illuminati e das linhagens genéticas reptilianas. Ela enche as pessoas de medo de um Deus vingativo e diz que a menos que eles acreditem que a “verdade” de tudo pode ser achado dentro um livro ou sistema de crença, eles irão para inferno ou então experimentarão outras conseqüências extremamente desagradáveis.

Religiões diferentes também têm sido veículos maravilhosos para dividir e conquistar as pessoas através de conflitos inter-religiosos arrogantes. Os reptilianos criaram as religiões por isso e os jogadores-chave dentro delas nem mesmo acreditam na tolice que eles papagueiam para os seus seguidores. Eles apenas querem que a população acredite nisto, assim ela será fácil de controlar. É por isso que você descobre que tantos famosos evangelistas “Cristãos”, por exemplo, são de fato Satanistas. O “Cristianismo” deles é só uma cortina de fumaça.

MEDICINA E MÍDIA

A supressão do verdadeiro conhecimento de curar e a dominação de drogas e cirurgias na “medicina” assegura que o corpo físico humano opere muito longe do seu potencial máximo. Esta é a razão para a descarada falta de representação e supressão das chamadas formas “alternativas” de curar que surgiram milhares de anos antes da moderna “medicina”.

Suplementos alimentares, fast food (comida rápida), flúor nos suprimentos de água, os venenos que nós colocamos na terra e conseqüentemente comemos em nossa comida e bebemos em nossa água, estão suprimindo não só nossa saúde física e vibração, mas, crucialmente, nossas funções cerebrais e intelecto. Uma população completamente acordada e mentalmente afiada é a última coisa de que você precisa se você quer controlá-la. Assim as linhagens genéticas reptilianas também dão muita ênfase em controlar a “educação” e a mídia. Isso permite que eles nos alimentem com uma dieta constante de lixo desmiolado, como game shows, enquanto a mídia de “notícias” nos conta o que os controladores querem que nós pensemos. A maioria dos jornalistas são tão desmiolados, e com uma enorme falta de compreensão do que eles fazem parte, que eles, como a maioria da população, ajudam a avançar uma agenda que eles nem mesmo sabem que existe.

CONTROLE DA MENTE

O controle mental está obviamente muito relacionado a religião, que é, para mim, a melhor forma de controle mental em massa já inventado. Assim como propaganda e televisão. Mas o controle de mente vai muito mais fundo do que isso. Os projetos de controle da mente dos Illuminati-reptilianos têm produzido literalmente milhões de robôs mente-controlados que são programados para levar a cabo a Agenda da Illuminati.

Há muitas formas eletrônicas através das quais isto é feito hoje, mas um dos métodos-chave é o controle da mente baseado no trauma. Onde pessoas são traumatizadas por abuso sexual, violência, são forçadas a testemunhar e tomar parte em rituais de sacrifício humano e outros incontáveis horrores. Tais experiências ativam o mecanismo da mente que bloqueia recordações de trauma extremo.

Um exemplo disto, o qual muitas pessoas experimentaram, é quando elas não podem recordar de um grave acidente de carro. Elas podem se lembrar de antes e depois do acidente, mas não do impacto. A mente põe uma barreira amnésica ao redor da memória assim nós não temos que continuar revivendo o acidente. Isso é uma boa coisa, mas a Illuminati tem desenvolvido métodos de usar esta técnica para traumatizar uma mente seguidamente até que ela se fragmente em várias barreiras amnésicas desconectadas. Eles então programam esses diferentes fragmentos da mente (altares como eles os chamam) com tarefas diferentes. As tarefas são pré-programadas para serem ativadas com um “gatilho”, que pode ser uma palavra, uma cor, um som, ou o que quer que seja. Uma vez que o gatilho é determinado, o programa se fecha e a pessoa fará tudo o que ela foi programada pra fazer.

Essa tarefa pode ser ter sexo com um político famoso, a qual elas não se lembrarão; assassinar alguém como John Lennon; enlouquecer com uma arma em uma escola, o que conduz para políticas de controle de armas, etc. Os campos de concentração da Alemanha Nazista sobre a supervisão do “Anjo da Morte”, Josef Mengele, foram uns dos principais centros para tais experimentos. Mengele foi levado para os Estados Unidos e América do Sul depois da guerra pela Illuminati com o nome de Doutor Green ou Greenbaum para continuar o seu horroroso “trabalho”. Isso resultou no notório projeto de controle mental, MK Ultra. O Centro de armas navais China Lake no deserto da Califórnia foi uma das suas primeiras bases de operação.

O tempo mais efetivo para começar este processo de criação de robôs humanos é antes da idade de cinco ou seis anos. Conseqüentemente você tem as colossais redes de abuso de crianças e o ritual Satânico de abuso de crianças expostos neste site e em meus livros.

O ABUSO E O RITUAL SATÂNICO DE ABUSO DE CRIANÇAS, E CERIMÔNIAS DE SACRIFÍCIO HUMANO EM GERAL

Estarrecedor como isso pode parecer, tudo isso acima é maciçamente difundido no mundo inteiro. Está acontecendo dentro de sua comunidade agora, não importa onde você esteja. Eu, e outros, temos revelado isto durante anos e agora, como você verá neste site, a escala disto, e as pessoas famosas envolvidas, estão finalmente vindo à luz.

Em parte, estes rituais e redes de abuso são para traumatizar pessoas, especialmente as crianças, mas é muito mais do que apenas isso. Siga as linhagens genéticas Illuminati-reptilianas do mundo antigo até agora e você verá que elas SEMPRE tomaram parte em cerimônias de sacrifício humano e SEMPRE beberam sangue. Os sacrifícios para os “deuses” nos contos antigos, eram literalmente sacrifícios para os reptilianos e suas linhagens genéticas híbridas. A história do Drácula, o bebedor de sangue, é simbólica desses “vampiros” reptilianos. Um dos locais deste grupo reptiliano parece ser o sistema estelar conhecido como Draco (dragão), e “draconiano” certamente resume a Illuminati.

Para sustentar a sua forma humana, essas entidades precisam beber sangue humano (mamífero), e acessar a energia que ele contém para manterem seus códigos genéticos em sua expressão “humana”. Se eles não fazem isso, eles manifestam os códigos reptilianos deles e, dessa forma, todos nós veríamos o que eles realmente se parecem. “Oh meu Deus, Sr. Presidente, você sempre toma seu café da manhã dentro do quarto?”

Do que eu entendi através de informações de pessoas que já trabalharam pra essa “gente” (ex-insiders), o sangue (energia) de bebês e de crianças pequenas é o mais efetivo para isso, como também é o sangue de pessoas loiras e de olhos azuis. Conseqüentemente essas são as pessoas predominantemente usadas em sacrifício e, ao que parece, também as pessoas de cabelo vermelho.

É por isso que pessoas como George Bush, Henry Kissinger, e uma corrente de outros “grandes nomes” da Illuminati estão expostos em meus livros e neste site como reptilianos que mudam de forma e que tomam parte em sacrifícios humanos e bebem sangue. Os dois acontecem juntos. Parece haver também uma ênfase muito significativa entre os Illuminati-reptilianos e os seus aliados com pedofilia, que é excessiva neste planeta.

Eu também gostaria de enfatizar antes de eu terminar aqui, que eu estou expondo certos GRUPOS reptilianos por trás da Illuminati, não a corrente genética reptiliana em geral. Há muitos de origem reptiliana que estão aqui para ajudar a humanidade a se livrar desta escravidão mental e emocional. De fato, todos nós temos um corpo com muitos genes répteis, inclusive parte do cérebro chamado de complexo-R, o cérebro réptil.

Eu confio que este breve resumo o ajudará a ver a relevância de todos os artigos e informações que você achará neste site. No fim, todas essas aparentemente desconexas “conspirações” são parte de UMA conspiração projetada para introduzir UMA agenda: O controle reptiliano do Planeta Terra e de toda a sua população.

Exposição do plano de controle reptiliano do Planeta Terra por David Icke

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-conexao-reptiliana/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-conexao-reptiliana/