Seis princípios da Baixa Magia

Morbitvs Vividvs

“O Diabo é real. E ele não é um homenzinho vermelho com chifres e cauda. Ele pode ser lindo. Porque ele é um anjo caído, e ele era o favorito de Deus.”
– Leah, American Horror Story, primeira temporada

Baixa Magia (ou magia menor), em contraste com a Alta Magia ritualística, descreve os atos e ardis sociais usados para manipular, convencer e seduzir as outras pessoas. Nesse universo provavelmente o maior erro é considerar que os seres humanos animais racionais. Sim, raciocinamos, mas isso não significa que raciocinamos o tempo todo. Daniel Kahneman ganhou o prêmio nobel justamente mostrando o quão irracionais somos. Muito mais verdadeiro é dizer apenas que somos animais.

Assim, para adquirir maestria na magia menor é importante entender que o melhor dos argumentos geralmente só serve para deixar as pessoas irritadas. Em vez disso é essencial entender os princípios emocionais que regem os processos sociais. Esses princípios são usados por artistas, políticos, religiosos e empresas do mundo todo e formam por assim dizer a espinha dorsal de qualquer ato de baixa magia.

Princípio da Lei Tríplice

Invariavelmente as pessoas irão lhe rotular. Certifique-se portanto em você mesmo definir qual será o rótulo. Este princípio eu explorei com profundidade no meu livro, “Lex Satanicus: o manual do satanista” mas basicamente trata da relação entre Mente, Modo e Mundo. Na baixa magia isso significa que seu comportamento influencia a forma como as pessoas tratarão você. Haja como um amigo íntimo e as pessoas se abrirão. Haja como um amante e as pessoas o amarão. Haja como um servo e logo estará servindo café. As pessoas observarão seu comportamento para decidir como devem lhe tratar. Shakespeare disse que o mundo é um palco e ele estava certo. O que ele não disse é que você pode escolher o papel que vai interpretar.

Sabendo disso, se seu desejo é ter o controle social você deve diariamente representar o papel do líder até que isso se torne um fato inquestionável. Note que a autoridade não precisa começar como fato. mas pode ser uma ilusão que leva as pessoas a obedecerem e assim se concretiza. Desta forma é importante rodear-se de símbolos de autoridade, como títulos, roupas e acessórios que passam uma mensagem inconsciente. Taxistas costumam buzinas mais para carros velhos do que para limousines quando estão bloqueados. Pareça aristocrático mas tenha cuidado para não ser pedante. Isso acontece sempre que sua nobreza soa artificial, então você deve descobrir o seu estilo pessoal de majestade. Além disso, cuide de não despertar a ira do rei local caso você não tenha poder real para usar a coroa. Mas mesmo neste caso você ainda pode fazer todos os demais entenderem que você faz parte da corte.

Princípio da Reciprocidade

Não se trata de “amar o próximo como a si mesmo” mas sim de entender que o ser humano é programado pela natureza para acreditar na simetria moral do comportamento. Ele terá sentimentos de vingança contra quem lhe fizer mal mas também tenderá a amar aqueles que lhe demonstrarem amor. Na prática, a não ser que a pessoa seja um psicopata, sentimos uma obrigação orgânica de agradecer as boas ações. É por isso que naturalmente sorrimos de volta quando alguém sorri de forma simpática para nós. Para usar isso ao seu favor tudo o que você precisa fazer é cuidar para que as pessoas sintam sempre que estão em dívida com você. Como Don Corleone não permita que elas retribuam imediatamente. Bons pagadores em especial devem sempre ser mantidos em dívida.

Princípio da Inércia Moral

Outra tendência que temos é a de continuar fazendo o que já fazemos. Isso ocorre por diversos motivos: preguiça de irmos contra a inércia mental, orgulho de mudarmos de ideia e a pressão social de sermos coerentes com nossas decisões anteriores. Pense no exemplo de Mefistofeles. O príncipe das trevas inicialmente não foca na alma, mas na assinatura do contrato. Para usar isso ao seu favor faça as pessoas se comprometerem aos poucos com o seu lado. Se possível procure no passado dela alguma situação semelhante em que ela agiu como você quer agora e comece por ai. Faça com que seu alvo se comprometa primeiro com coisas pequenas e então aos poucos expanda as implicações do seu comprometimento, mas sempre de maneira suave e de preferencia imperceptível. Existe uma razão para as pessoas convidarem umas as outras para jantar, quando na verdade a sobremesa será servida na cama.

Princípio da Pressão Social

Macaco vê, macaco faz. Agir em grupo é outra forma típica de comportamento humano. Supomos que a maioria das outras pessoas está sempre mais bem informada que a minoria e desta forma sentimos uma compulsão de agir em conjunto sempre que o grupo em que estamos age. Além disso a maior parte das pessoas tem horror em ser considerada diferente. Coloque um ateu em uma roda de oração e ele provavelmente fechará os olhos e abaixará a cabeça, mesmo que seja só para não se sentir constrangido. Notícias sobre suicídio aumentam a taxa de suicídio, pesquisas eleitorais podem mudar o rumo de uma eleição e programas de auditório usam risadas gravadas pra fazer a audiência rir. Além disso a  prova social é como uma bola de neve. Quantos mais pessoas fazem algo, mais pessoas repetem o padrão. Suas ideias não devem portanto parecer exclusivamente suas, mas um consenso geral que naturalmente precisa ser replicado.

Princípio da Escassez

O valor das coisas está em sua escassez. Se você ou sua oferta estão sempre disponíveis nunca serão procurados.Quem está sempre falando é cada vez menos ouvido e quem se se oferece demais será cada vez menos desejado, pois as pessoas aprenderão que você sempre estará lá quando elas precisarem. O ser humano acredita que tudo o que é inacessível é melhor e que as coisas fáceis podem ser negligenciadas. A consequência desse tipo de pensamento é que aquilo que não está disponível, deve ser a melhor das coisas. É por isso que o amor proibido é mais romântico, o tabu é sedutor e a informação censurada é mais interessante. LaVey lidou muito com isso por meio da sua Lei do Proibido, que diz simplesmente que “O que é proibido deve ser mais gostoso.” A escassez gera também uma sensação de concorrência. Uma antiga tática imobiliária é deixar escapar aos compradores quantas outras pessoas também estão interessadas no imóvel. Da mesma forma você deve criar a sensação de que oferece um produto escasso e que se a pessoa não comprar, alguém mais pode levar primeiro.

Princípio do Encantamento

Use a beleza a seu favor. Esse segredo foi descoberto a muito tempo pela propaganda de massa, mas pode e deve ser aplicado na escala individual. Quando achamos alguém atraente isso altera nosso comportamento para com a pessoa. Pessoas consideradas bonitas tem mais sucesso financeiro e melhores salários que as demais. Criminosos tidos como belos tendem a ter penas menores e professores tendem a achar crianças bonitas mais inteligentes e esforçadas que as demais. Prezar pela estética pessoal é portanto essencial para qualquer satanista. Pessoas atraentes tem muito mais facilidade em persuadir os outros. A única exceção é quando a pessoa bonita é vista como competidora de quem esta sendo persuadido. Você não precisar ser um super modelo, e isso pode até intimidar algumas pessoas. Mas um esforço para ser visualmente mais agradável, usar boas roupas e asseio são investimentos acertados para qualquer pessoa. Lembre que a Falta de Estética foi considerado por LaVey um dos pecados satânicos e que beleza não se trata só de visual, é necessário cultivar a estética da voz, do perfume e do modo de agir.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/seis-principios-da-magia-menor/

Magia com os Arcanos do Tarot de Thoth – Marcia Seabra

Bate-Papo Mayhem 237 – gravado dia 30/09/2021 (Quinta) Com Marcia Seabra – Magia com os Arcanos do Tarot de Thoth

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

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#Batepapo #Tarot #Thelema

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O Livro das Almofadas

Qin Shihuang foi um famoso imperador chinês e até hoje uma das figuras mais lendárias do extremo oriente. Foi patrono de grandes artistas e promulgador de grandes inovações na cultura chinesa, como a reforma na agricultura, nas leis de casamento, no cultivo da seda e mesmo na construção da grandiosa Muralha da China. Mas entre tantas realizações, talvez seu legado mais popular entre os chineses, e quem sabe, grande responsável pelos problema da superpopulação do país seja uma obra relativamente desconhecida dos ocidentais, “O Livro das Almofadas“, cujo nome original é ‘Su Nui Ching‘.

O Livro das Almofadas, também chamado de “O Livro da Cama” ou “O Tao do Amor” é o irmão chinês do antigo clássico hindu conhecido como Kama Sutra. Foi escrito durante o reinado de Qin Shihuang como um manual imperial do prazer sexual. O Imperador Amarelo, como era chamado tinha entre sua numerosa corte, quatro conselheiros sexuais sendo, duas mulheres mais velhas, uma jovem e um homem da mesma idade. Estes conselheiros eram responsáveis diretos pelos encontros luxuriosos de sua majestade.

Com estes conselheiros o imperador experimentava toda sorte de gozo sexual e aprendia diversas técnicas e jogos eróticos. Existem registros por exemplo de que em uma só noite o imperador transou com 72 súditos diferentes, de ambos os sexos. Os mitos, obviamente são aumentados para favorecer a fama do rei, mas guardam mesmo sob os exageros, a mensagem de o quão insaciável ele pode ter sido. Tudo o que pode ser imaginado Qin Shihuang experimentou sob a orientação perfeccionista de seus quatro conselheiros.

Conta a tradição que os diálogos deles dos tutores com Qin Shihuang foram transcritos por escribas da corte e compilados em uma série de perguntas e respostas. O título ‘Su Nui Ching’, quer dizer literalmente, o Livro de Su Nui, que era o nome da conselheiras mais nova de Qin Shihuang que ao que tudo indica também foi sua preferida.

O Conteúdo do Livro das Almofadas, (Su Nui Ching)

Existem poucas traduções para outras línguas do texto original chinês. Apesar de disputas acadêmicas sobre a validade ou não de alguns capítulos a estrutura da obra segue, de modo geral a seguinte ordem:

  • Princípios gerais de Sexo, Prazer e Saúde
  • Técnicas de cortejo e provocações
  • Sinais femininos de excitação
  • Critérios de uma boa ereção
  • Nove princípios eróticos de Su
  • Oito métodos especiais de Su de valor terapéutico
  • Os métodos perfeitos do sexo oral
  • Sete doenças relacionadas a práticas sexuais
  • Delícias e  riscos do sexo anal
  • Benefícios da conservação do sêmen
  • A diferenças de idade e otimização da freqüência
  • Os Ambientes prediletos de Su
  • Sobre a maneira de ter um bebê saudável
  • Características de uma mulher fértil
  • Receitas contra impotência e problemas vaginais

Sexo, Prazer e Saúde no Livro das Almofadas

Por conta dos temas que aborda, o Livro das almofadas tornou-se não só o manual do sexo, mas também um verdadeiro guia médico para muitas gerações de chineses. Este é um ponto importante, pois em toda a obra a ligação sexo = saúde é mais do que enfatizada. Uma pessoa saudável se torna sexualmente ativa da mesma forma uma pessoa sexualmente ativa se torna saudável.

Num dos capítulos por exemplo, O Imperador Amarelo questiona como poderia ter um “membro maior”. A responta de sua doce conselheira é que apesar de um pênis grande ser um sonho masculino muito comum, existem o pênis pequeno, o pênis grande e o “pênis grande demais”. O tamanho doorgão masculino como tudo na vida tem sua medida certa. Qualquer coisa além de oito polegadas, continua o Su Nui é excesso desnecessário e pode ser mais uma maldição do que um dom. Em muitos casos a mulher achará doloroso e em casos graves pode tornar-se um verdadeiro risco para a saúde.

 

É importante também ressaltar um enorme contraste do Su Nui Ching com outro grande clássico erótico; o Kama Sutra. O Sutra indiano é essencialmente um livro religioso com implicações espirituais para os praticantes do hinduísmo, já o Livro das Almofadas é francamente um manual hedonista do sexo e da saudê. Não se trata de atingir a iluminação, mas sim da busca simples pela saúde e pelo prazer sexual como fins em si mesmos. Trata-se de uma obra muito mais liberal do que seu primo famoso indiano. E acreditem ou não, muito mais livre de tabus até do que os padrões ocidentais de hoje.

Alguns trechos do Su Nui Ching

 

Como era de se esperar o livro das almofadas trás também uma série de jogos eróticos, técnicas e descrições de posições amorosas. O restante deste documento tratará propriamente de algumas destas técnicas, lembrando que em chinês, a palavra súdita e súdito (繁體中文版) são idênticas e não variam em gênero.

“A súdita está bem quieta, de olhos fechados, fingindo dormir. O Imperador despe-a lentamente, mas o corpo dela permanece flácido e sem vida. Como os beijos e as carícias não parecem ter efeito, ele, então, começa a acariciar os seios dela e a pérola no Degrau de Jade. Ela fica cada vez mais excitada, até que salta de encontro ao Utensílio de Ferro do Imperador e este golpeia apaixonadamente o Portão de Jade.”

“O Imperador venda a súdita e então venda seus proprios olhos também. Ela se esconde entre as almofadas e ele a procura dentro do quarto. Quando Ela é capturada o coito acontece com ela ainda com os olhos vendados.”

“O Imperador e sua súdita sentam-se com as pernas sobre a cama. Ela senta-se sobre os pés do Imperador com as pernas esticadas sobre as dele, e os pés sobre seu estômago. Quando o desejo aumenta, lançam-se simultaneamente para a frente. As pernas dela se separam e o Talo de Jade penetra no Portão de Jade.”

“O Imperador se deita de costas e ela senta-se sobre a barriga dele, de costas para ele, e começa a acariciar o Talo de Jade. Quando ele está totalmente ereto, ela usa ambas as mãos para conduzi-lo até dentro da Vala Dourada.”

“Aqui a súdita deita-se de costas com o Imperador por cima. Ele abre as pernas dela o máximo possível, até que elas lembrem um pássaro com as asas abertas. Ele então, encosta no Vale Escarlate e realiza o encaixe.”

“O Imperador ajoelha-se na cama, sentando-se sobre uma almofada colocada sob suas coxas. A súdita senta-se sobre os joelhos dele e inclina-se para trás até que sua cabeça toque a cama e seu corpo fique arqueado como um arco-íris. O Imperador então segura-a pelos quadris, golpeando para cima com a Ferramenta de Ferro e acariciando a Pérola no Degrau de Jade, enquanto a ela permanece curvada para trás.”

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/o-livro-das-almofadas/

Os Cavaleiros Templários – parte 1

Publicado no S&H em 1/9/09

Retornando à nossa História das Ordens Iniciáticas, chegamos ao começo do século XII. Herdeiro da desintegração do Império Romano, o Ocidente Europeu do início da Idade Média era pouco mais que uma colcha de retalhos com populações rurais e tribos bárbaras. A instabilidade política e o definhar da vida urbana golpearam duramente a vida cultural do continente. A Igreja Católica, como única instituição que não se desintegrou juntamente com o extinto império, mantinha o que restava de força intelectual, especialmente através da vida monástica.
Com o tempo a sociedade foi se estabilizando e, em certos aspectos, no século IX o retrocesso causado pelas migrações bárbaras já estava revertido, mas nessa época os pequenos agricultores ainda eram impelidos a se proteger dos inimigos junto aos castelos. Esse cenário começa a mudar mais fortemente com a contenção das últimas ondas de invasões estrangeiras no século X, época em que o sistema feudal começa a ser definido. O período de relativa tranqüilidade que se segue coincide com um período de condições climáticas mais amenas. A partir do ano 1000, o Feudalismo entra em ascensão.

Os Templários e a Primeira Cruzada
Depois que Maomé morreu (632), as vagas de exércitos árabes lançaram-se com um novo fervor à conquista dos seus antigos senhores, os bizantinos e persas sassânidas que passaram décadas a guerrear-se. Estes últimos, depois de algumas derrotas esmagadoras, demoram 30 anos a ser destruídos, mais graças à extensão do seu império do que à resistência: o último Xá morre em Cabul em 655. Os bizantinos resistem menos: cedem uma parte da Síria, a Palestina, o Egito e o norte de África, mas sobrevivem e mantêm a sua capital, Constantinopla.
Num novo impulso, os exércitos conquistadores muçulmanos lançam-se então para a Índia, a Península Ibérica, o sul de Itália e França, as ilhas mediterrânicas. Tornado um império tolerante e brilhante do ponto de vista intelectual e artístico, o império muçulmano sofre de um gigantismo e um enfraquecer guerreiro e político que vai ver aos poucos as zonas mais longínquas tornarem-se independentes ou então serem recuperadas pelos seus inimigos, que guardavam na memória a época de conquista: bizantinos, francos e reinos neo-godos.
No século X, esse desagregar acentua-se em parte devido à influência de grupos de mercenários convertidos ao islã e que tentam criar reinos próprios. Os turcos seljúcidas (não confundir com os turcos otomanos antepassados dos criadores do atual estado da Turquia; nem com os Mamelucos, que só vão surgir em 1250; os Seljucidas seguiam o califa Seljucida), procuraram impedir esse processo e conseguem unificar uma parte desse território. Acentuam a guerra contra os cristãos, chutam a bunda das forças bizantinas em Mantzikiert em 1071 conquistando assim o leste e centro da Anatólia e finalmente tomam Jerusalém em 1078.

O Império Bizantino, depois de um período de expansão nos séculos X e XI está completamente ferrado e em sérias dificuldades: vê-se a braços com revoltas de nômades no norte da fronteira, e com a perda dos territórios da península Itálica, conquistados pelos normandos. Do ponto de vista interno, a expansão dos grandes domínios em detrimento do pequeno campesinato resultou em uma diminuição dos recursos financeiros e humanos disponíveis ao estado. Como solução, o imperador Aleixo I Comneno decide pedir auxílio militar ao Ocidente para poder enfrentar a ameaça seljúcida.
E adivinha quem eles mandaram?

Errou. Ao invés de mandarem cavaleiros bem preparados, em 1095, no concílio de Clermont, o papa mané Urbano II exorta a multidão de esfomeados malucos religiosos a libertar a Terra Santa e a colocar Jerusalém de novo sob o domínio cristão, apresentando a expedição militar que propõe como uma forma de “penitência”. A multidão presente aceita entusiasticamente o desafio e logo parte em direção ao Oriente, tendo consigo uma cruz vermelha sobre as suas roupas (daí terem recebido o nome de “cruzados”). Assim começavam as cruzadas. A idéia basicamente era “Vão lá e matem todo mundo, e Deus perdoará os seus pecados”.
Treinamento? Equipamento? Blá…

A Cruzada dos Pobres
A Cruzada Popular ou dos Mendigos (1096) foi um acontecimento extra-oficial que consistiu em um movimento popular que bem caracteriza o misticismo da época e começou antes da Primeira Cruzada oficial. O monge Pedro, o Eremita, graças a suas pregações comoventes, conseguiu reunir uma multidão. Entre os guerreiros, havia uma multidão de mulheres, velhos e crianças.
Auxiliado por um cavaleiro, Guautério Sem-Haveres, os peregrinos atravessaram a Alemanha, Hungria e Bulgária, causando todo tipo de desordens e desacatos, sendo em parte aniquilados pelos búlgaros. Ainda no caminho, seus seguidores tinham criado diversos tumultos, massacrando comunidades judaicas em cidades como Trier e Colônia, na atual Alemanha.
Chegaram em péssimas condições a Constantinopla. Mal equipada e mal alimentada, essa “Cruzada” massacrou judeus pelo caminho, matou, pilhou e destruiu tudo, como hordas assassinas de personagens de RPG. Ainda assim, o imperador bizantino Aleixo I Comneno recebeu os seguidores do eremita em Constantinopla. Prudentemente, Aleixo aconselhou o grupo a aguardar a chegada de tropas mais bem equipadas… Mas a turba começou a saquear a cidade.

O imperador bizantino, desejando afastar esse “bando de personagens low level de world of warcraft” (ok, ele não os chamava assim, mas vocês entenderam a idéia) de sua capital, obrigou-os a se alojar fora de Constantinopla, perto da fronteira muçulmana, e procurou incentivá-los a atacar os infiéis. Foi um desastre, pois a Cruzada dos Mendigos chegou muito enfraquecida à Ásia Menor, onde foi arrasada pelos turcos, que tinham um level muito maior e melhores equipamentos… Noobs.
Somente um reduzido grupo de integrantes conseguiu juntar-se à cruzada dos cavaleiros.

Durante um mês, mais ou menos, tudo o que os cavaleiros turcos fizeram foi observar a movimentação dos invasores, que se ocupavam apenas de badernar e saquear as regiões próximas do acampamento onde foram alojados. Até que, em agosto de 1096, o bando inquieto cansou-se de esperar e partiu para a ofensiva.
Quando parte dos europeus resolveu partir em direção às muralhas de Nicéia, cidade dominada pelos muçulmanos, uma primeira patrulha de soldados do sultão turco Kilij Arslan foi enviada, sem sucesso, para barrá-los. Animado pela primeira vitória, o exército do Eremita maluco continuou o ataque a Nicéia, tomou uma fortaleza da região e comemorou bebendo todas, sem saber que estava caindo numa emboscada. O sultão mandou seus cavaleiros cercarem a fortaleza e cortarem os canais que levavam água aos invasores. Foi só esperar que a sede se encarregasse de aniquilá-los e derrotá-los, o que levou cerca de uma semana.
Quanto ao restante dos cruzados maltrapilhos, foi ainda mais fácil exterminá-los. Tão logo os francos tentaram uma ofensiva, marchando lentamente e levantando uma nuvem de poeira, foram recebidos por um ataque de flechas. A maioria morreu ali mesmo, já que não dispunha de nenhuma proteção. Os que sobreviveram fugiram como galinhas amarelas.
O sultão, que havia ouvido histórias temíveis sobre os francos, respirou aliviado. Mal imaginava ele que aquela era apenas a primeira invasão e que cavaleiros bem mais preparados ainda estavam por vir…

Os Cavaleiros e o Templo
No início de 1100, Hugo de Paynes e mais oito cavaleiros franceses, abrasados pelo fervor religioso e movidos pelo espírito de aventura tão comum aos nobres que buscavam nas Cruzadas, nos combates aos muçulmanos a glória dos atos de bravura e a consagração da impavidez, abalaram rumo à Palestina levando no peito a cruz de Cristo e na alma um sonho de amor. Eram os Gouvains do Cristianismo, que se constituiam fiadores da fé, disputando as relíquias sagradas que os fanáticos do Crescente retinham e profanavam. Reinava em Jerusalém Balduíno II que os acolheu e lhes destinou um velho palácio junto ao planalto do Monte Moriah, onde os montões de escombros assinalavam as ruínas de um grande Templo. Seriam as ruínas do GRANDE TEMPLO DE SALOMÃO, o mais famoso santuário do XI século antes de Cristo.

Hugo de Payens (1070-1136), um fidalgo francês da região de Champagne, foi o primeiro mestre da Ordem dos Templários. Ele era originalmente um vassalo do conde Hugues de Champagne. Conde Hugues de Champagne visitou Jerusalém uma vez com Hugo de Payens, que ficou por lá depois de o conde voltar para a França. Hugo de Payens organizou um grupo de nove cavaleiros para proteger os peregrinos que se dirigiam para a terra santa no seguimento das iniciativas propostas pelo Papa Urbano II.
De Payens aproximou-se do rei Balduíno II com oito cavaleiros, dos quais dois eram irmãos e todos eram parentes de Hugo de Payens, alguns de sangue e outros de casamento, para formar a primeira das ordens dos Templários.
Os outros cavaleiros eram: Godofredo de Saint-Omer, Archambaud de Saint-Aingnan, Payen de Montdidier, Geofroy Bissot, e dois homens registrados apenas com os nomes de Rossal ou possivelmente Rolando e Gondamer. O nono cavaleiro permanece desconhecido, apesar de se especular que ele era o Conde Hugh de Champagne.

O símbolo destes Templários era esta imagem ao lado: dois Cavaleiros “tão pobres que precisavam dividir um cavalo”… você escutou esta balela na escola, certo? Vamos aos fatos: FIDALGO Hugo de Payens; Godofredo de Saint Omer, nobre da Família de Saint Omer, cujos VASSALOS foram alguns dos primeiros cavaleiros recrutados; Payen de Montdidier, da casa nobre flamenca Montdidier; o CONDE Geofroy Bissot, da família Bissot, entre outros… tantos nobres reunidos e não tinham dinheiro sequer para comprar um cavalo para cada um? Fala sério…
O que o Símbolo dos Templários realmente representa é que eles eram guerreiros espirituais. Os dois corpos no cavalo representam a união do guerreiro físico com o guerreiro espiritual que eles ali representavam. Mas a idéia de falar que eles eram pobres não era ruim…
Outro ponto bizarro é dizer que a função dos Templários era “defender as rotas de Peregrinos dos Muçulmanos”… ora, o que nove cavaleiros de meia-idade poderiam fazer contra as hordas de muçulmanos que estavam tomando conta da região? O que estes nove cavaleiros fizeram foi escavar sob os estábulos do Templo durante nove anos (de 1109 a 1118), até que finalmente encontraram o que estavam procurando…

As ruínas do Templo
Destruído pelos caldeus e reconstruído por Zorobabel, fora ampliado por Herodes em 18 antes de Cristo e, finalmente, arrasado pelas legiões romanas chefiadas por Tito, na tomada de Jerusalém. Os “Pobres Cavaleiros de Cristo” atraídos pela sensação do mistério que pairava sobre as veneradas ruínas, não tardou para que descobrissem a entrada secreta que conduzia ao labirinto subterrâneo só conhecido pelos iniciados nos mistérios da Kabbalah. E entraram. Uma extensa galeria conduziu-os até uma porta chapeada de ouro por detrás da qual deveria estar o maior Segredo da Humanidade.

Sobre a porta, uma inscrição em caracteres hebraicos prevenia os profanos contra os impulsos da ousadia: SE É MERA CURIOSIDADE QUE AQUI TE CONDUZ, DESISTE E VOLTA; SE PERSISTIRES EM CONHECER O MISTÉRIO DA EXISTÊNCIA, FAZ O TEU TESTAMENTO E DESPEDE-SE DO MUNDO DOS VIVOS.

Hugh de Payens escancarou aos olhos vidrados dos cavaleiros um gigantesco recinto ornado de figuras bizarras, delicadas umas e monstruosas outras, tendo ao Nascente um grande trono recamado de sedas e por cima um triângulo equilátero em cujo centro em letras hebraicas marcadas a fogo se lia o TETRAGRAMA YOD. Junto aos degraus do trono e sobre um altar de alabastro, estava a “LEI” cuja cópia, séculos mais tarde, um Cavaleiro Templário em Portugal, devia revelar à hora da morte, no momento preciso em que na Borgonha e na Toscana se descobriam os cofres contendo os documentos secretos que “comprovavam” a heresia dos Templários. A “Lei Sagrada” era a verdade de Jahveh transmitida ao patriarca Abraão.

A par da Verdade divina vinha depois a revelação Teosófica da Kabbalah. Extasiados diante da majestade severa dos símbolos, os nove cavaleiros, futuros Templários, ajoelharam e elevaram os olhos ao alto. Na sua frente, o grande Triângulo, tendo ao centro a inicial do princípio gerador, espírito animador de todas as coisas e símbolo da regeneração humana, parece convidá-los à reflexão sobre o significado profundo que irradia dos seus ângulos. Ali estão representadas as Trinta e Duas Vidas da Sabedoria que a Kabbalah exprime em fórmulas herméticas, e que a Sepher Yetzira propõe ao entendimento humano. As chaves expostas sobre o Altar de alabastro onde os iniciados prestavam juramento dão aos Pobres Cavaleiros de Cristo a chave interpretativa das figuras que adornam as paredes do Templo. Na mudez estática daqueles símbolos há uma alma que palpita e convida ao recolhimento. Abalados na sua crença de um Deus feroz e sanguinário, os futuros Templários entreolham-se e perguntam-se: SE TODOS OS SERES HUMANOS PROVÊM DE DEUS QUE OS FEZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, COMO COMPREENDER QUE OS HOMENS SE MATEM MUTUAMENTE EM NOME DE VÁRIOS DEUSES? COM QUEM ESTÁ A VERDADE?

Entre as figuras mais bizarras que adornavam o majestoso Templo, uma em especial chamara a atenção de Hugo de Paynes e de seus oito companheiros. Na testa ampla, um facho luminoso parecia irradiar inteligência; e no peito uma cruz sangrando acariciava no cruzamento dos braços uma Rosa, encantadora. A cruz era o símbolo da imortalidade; a rosa o símbolo do princípio feminino. A reunião dos dois símbolos era a idéia da Criação. E foi essa figura atraente que os nove cavaleiros elegeram para emblema de suas futuras cruzadas.

Quando em 1128 se apresentou ante o Concílio de Troyes, Hugo de Paynes, primeiro Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Templo, já tinha uma concepção acerca da idéia de Deus que não era muito católica. A divisa inscrita no estandarte negro da Ordem “Non nobis, Domine, sed nomini tuo ad Gloria” não era uma sujeição à Igreja mas uma referência à inicial que, no centro do Triângulo, simbolizava a unidade perfeita: YOD.

Continua…

#Maçonaria #Templários

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-cavaleiros-templ%C3%A1rios-parte-1

Chave absoluta das ciências ocultas

dada por Guilherme de Postel e completado por Eliphas Levi  

A religião diz: Acreditai e compreendereis. A ciência vem vos dizer: Compreendei e acreditareis. “Então, toda a ciência mudará de fisionomia; o espírito, por muito tempo destronado e esquecido, retomará seu lugar; será demonstrado que as tradições antigas são inteiramente verdadeiras; que o paganismo não passa de um sistema de verdades corrompidas e deslocadas; que basta limpá-las, por assim dizer, e recolocá-las em seu lugar, para vê-las brilhar com todo o esplendor. Em uma palavra, todas as idéias mudarão; e, uma vez que, de todos os lados, uma multidão de eleitos clama em concerto: “Vinde, Senhor, vinde!, por que reprovaríeis os homens que se lançam nesse futuro majestoso e se glorificam de adivinhá-lo?” Joseph de Maistre, Soirées de Saint-Pétersbourg  

Os espíritos humanos têm a vertigem do mistério. O mistério é o abismo que atrai, sem cessar, nossa curiosidade inquieta por suas formidáveis profundezas.  

O maior mistério do infinito é a existência de Aquele para quem e somente para Ele – tudo é sem mistério.  

Compreendendo o infinito, que é essencialmente incompreensível, ele próprio é o mistério infinito e externamente insondável, ou seja, ele é, ao que tudo indica, esse absurdo por excelência, em que acreditava Tertuliano.  

Necessariamente absurdo, uma vez que a razão deve renunciar para sempre a atingi-lo; necessariamente crível, uma vez que a ciência e a razão, longe de demonstrar que ele não é, são fatalmente levadas a deixar acreditar que ele é, e elas próprias a adorá-lo de olhos fechados.  

É que esse absurdo é a fonte infinita da razão, a luz brota eternamente das trevas eternas, a ciência, essa Babel do espírito, pode torcer e sobrepor suas espirais subindo sempre; ela poderá fazer oscilar a Terra, nunca tocará o céu.  

Deus é o que aprenderemos eternamente a conhecer. É, por conseguinte, o que nunca saberemos.  

O domínio do mistério é um campo aberto às conquistas da inteligência. Pode-se andar nele com audácia, nunca se reduzirá sua extensão, mudar-se-á somente de horizontes. Todo saber é o sonho do impossível, mas ai de quem não ousa aprender tudo e não sabe que, para saber alguma coisa, é preciso resignar-se-a estudar sempre!  

Dizem que para bem aprender é preciso esquecer várias vezes. O mundo seguiu esse método. Tudo o que se questiona em nossos dias havia sido resolvido pelos antigos; anteriores a nossos anais, suas soluções escritas em hieróglifos não tinham mais sentido para nós; um homem reencontrou sua chave, abriu as necrópoles da ciência antiga e deu a seu século todo um mundo de teoremas esquecidos, de sínteses simples e sublimes como a natureza, irradiando sempre unidade e multiplicando-se como números, com proporções tão exatas quanto o conhecimento demonstra e revela o desconhecido. Compreender essa ciência é ver Deus. O autor deste livro, ao terminar sua obra, acreditará tê-lo demonstrado.  

Depois, quando tiverdes visto Deus, o hierofante vos dirá: Virai-vos e, na sombra que projetais na presença desse sol das inteligências, ele fará aparecer o Diabo, o fantasma negro que vedes quando não olhais para Deus e quando acreditais ter preenchido o céu com vossa sombra, porque os vapores da terra parecem tê-la feito crescer ao subir.  

Pôr de acordo, na ordem religiosa, a ciência com a revelação e a razão com a fé, demonstrar em filosofia os princípios absolutos que conciliam todas as antinomias, revelar enfim o equilíbrio universal das forças naturais, tal é a tripla finalidade desta obra, que será, por conseguinte, dividida em três partes.  

Mistério dos outros mundos, forças ocultas, revelações estranhas, doenças misteriosas, faculdades excepcionais, espíritos, aparições, paradoxos mágicos, arcanos herméticos, diremos tudo e explicaremos tudo. Quem pois nos deu esse poder? Não tememos revelá-lo a nossos leitores…  

…Existe um alfabeto oculto e sagrado que os hebreus atribuem a Henoch, os egípcios a Tot ou a Mercúrio Trismegisto, os gregos a Cadmo e a Palamédio. Esse alfabeto, conhecido pelos pitagóricos, compõe-se de idéias absolutas ligadas a signos e a números e realiza, por suas combinações, as matemáticas do pensamento. Salomão havia representado esse alfabeto por setenta e dois nomes escritos em trinta e seis talismãs e é o que os iniciados do Oriente denominam ainda de as pequenas chaves ou clavículas de Salomão  

Essas chaves são descritas e seu uso é explicado num livro cujo dogma tradicional remonta ao patriarca Abraão, é o Sepher Yétsirah, e, com a inteligência do Sepher Yétsirah, penetra-se o sentido oculto do Zohar, o grande livro dogmático da Cabala dos hebreus. As clavículas de Salomão, esquecidas com o tempo e que se dizia estarem perdidas, nós as encontramos, e abrimos sem dificuldade todas as portas dos antigos santuários, onde a verdade absoluta parecia dormir, sempre jovem e sempre bela, como aquela princesa de um conto infantil que espera durante um século de sono o esposo que deve despertá-la.  

Depois de nosso livro, ainda haverá mistérios, mas mais alto e mais longe nas profundezas infinitas. Esta publicação é uma luz ou uma loucura, uma mistificação ou um monumento. Lede, refleti e julgai.  

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/chave-absoluta-das-ciencias-ocultas/

Meu Semelhante

Um poema para se refletir sobre nossa imagem e semelhança…

Eu ando pelo mundo dentre olhares e expressões

Promessas de curas e maldições

Acordos de paz que não podem seguir adiante

Pois os homens em suas guerras

Por riquezas ou santificações

Já não o vêem mais, meu semelhante

Nem a vida que lhes oferta a fronte

Nem os peixes nem as aves nem as vacas sagradas

Nada que nade, caminhe ou voe pelo horizonte

Nada, apenas esse fétido ouro negro

A escravizar aqueles que lhe buscam lá fora

Pois que são como cascas vazias, meu semelhante

Quem dera pudessem olhar o céu noturno

E ver sua luz trazendo as boas novas

De épocas em que não participamos

Não como homens, mas como átomos

Como luz a cruzar o infinito

Quem dera vissem suas estrelas

Como quem vê poesia em quadro negro

Como quem se alegra, mas guarda segredo

Que nem todos estão preparados para enxergar

O que vêem a olho nu

Preferem se iludir ou se entreter com essas sombras

Essas cascas de sentimento

Esses manuais de verdades absolutas

Esses códigos de ciência infalível

E promessas e barganhas de um mundo melhor

Um céu que está sempre lá fora a ser alcançado

Nunca aqui dentro, a ser amado

Eu quero conhecer só a ti, meu semelhante

Que estamos todos conectados:

Pela biologia, a vida.

Pela química, aos planetas.

Pelos átomos, as estrelas.

Mas é tão somente pelo agitar da mente

E pelas lentes claras do pensamento

Que percebemos que aqui sempre estivemos

Que sempre fomos semelhantes

Pois nunca um poderia estar fora do outro

Embora sua substância nos permeie a todos

Como o perfume dos amantes

Todo o turbilhão de partículas do cosmos

E todas as galáxias e estrelas

E todas as eras geológicas

E todas as poesias, e todas as equações

E todos os olhares e expressões

Todo amor e toda a gratidão para ti

A substância que não pode criar a si mesma

Mas que tudo o mais criou

Eu quero desvendar todos os mistérios e enigmas

Todos os códigos que nos ocultou

Dentre essa brisa de poeira vacilante

Eu quero conhecer só a ti, meu semelhante

raph’10

#Espiritualidade #poesia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/meu-semelhante

Eletric Ladyland, Jimi Hendrix

A relação de Jimi Hendrix com magia negra é bem anterior a óbvia obra prima Vodu Chile e suas cenas botando fogo cerimonialmente em seus instrumentos de trabalho. Hendrix tinha fama de ser possuído por todos os seus demônios cativos em cima do palco. Seu interesse nos cultos africanos e em especial no culto Yoruba podem ser evidenciados na maioria de suas entrevista, mas começou com o encontro com o baterista Kwasi Dzidzornu, vulgo Rocki.

Rocki, nativo de Ganá  era filho de sacerdote e percebeu que as músicas de Hendrix eram muito semelhantes aos toques que ouvia quando era pequeno. Na excelente biografia de Jimi Hendrix, ‘Escuse me while I kiss the sky” lemos:

“Uma das primeiras coisas que Rocki perguntou a Jimi foi onde ele tinha aprendido aqueles capenga que muitas das ‘assinaturas rítmicas’ que Jimi tocava na guitarra eram, freqüentemente, idênticas aos ritmos que seu pai tocava em cerimônias Vodu. A maneira com que Jimi dançava aos ritmos que tocava faziam Rocki rememorar os ritmos que seu pai tocava para os loas. A cerimônia é chamada de Vodushi. Quando criança na aldeia, Rocki entalhava em madeira representantes destes espíritos. Eles também representavam seus ancestrais. Estes eram os deuses-demônios que eles adoravam e vieram a tomar um bocado de espaço na casa de Jimi.”

Em sua época de ouro a fama era de que Hendrix vendera a alma ao diabo em troca de seus talentos musicais. Sua namorada oficial, Fayne Pridgon, disse: “Ele costuma falar que há um tipo de diabo nele, você sabe, ele não tinha muito controle sobre isso. Ele não sabia a razão de muitas das coisas que fazia ou dizia em suas canções. ”

Quando colocado contra a parede e questionado se acreditava nestes demônios Jimi se saiu com essa: “Pergunte as cordas de minha guitarra e ouvirá a resposta.”. A música escolhida para representar o álbum registra o amor lascivo de Hendrix pela Magia Cigana, encontrada nesta pérola chamada Eletric Ladyland.

Gypsy Eyes, Jimi Hendrix

 

Well I realize that I’ve been hypnotized, I love your gypsy eyes
I love your gypsy eyes
Alright!

Hey!
Gypsy.

Way up in my tree I’m sitting by my fire
Wond’rin’ where in this world might you be
And knowin’ all the time you’re still roamin’ in the country side
Do you still think about me?
Oh my gypsy.

Well I walked right on to your rebel roadside
The one that rambles on for a million miles
Yes I walk down this road searchin’ for your love and ah my soul too
But when I find ya I ain’t gonna let go.

I remember the first time I saw you
The tears in your eyes look like they’re tryin’ to say
Oh little boy you know I could love you
But first I must make my get away
Two strange men fightin’ to the death over me today
I’ll try to meet cha by the old highway.
Hey!

Well I realize that I’ve been hypnotized, I love your gypsy eyes
I love your gypsy eyes
I love your gypsy eyes
I love your gypsy eyes
Alright!

I’ve been searchin’ so long my feet have made me lose the battle
Down against the road my weary knees they got me
Off to the side I fall but I hear a sweet call
My gypsy eyes is comin’ and I’ve been saved.

Oh I’ve been saved
That’s why I love you uh
Said I love you
Hey!
Love you uh
Lord I love you
Hey!

Tradução de Gypsy Eyes
Olhos ciganos

Bem ,descobri que fui hipnotizado,
Amo seus olhos ciganos
Amo seus olhos ciganos
tudo bem!
hey! cigana
escalo minha árvore e fico e me aqueço no fogo
querendo descobrir onde neste mundo você está
e sabendo o tempo todo que você continua rodando pelo país
você ainda pensa em mim?
oh, minha cigana
bem, eu fui até a estrada, o lugar onde você vive
aquele que se situa a milhão de milhas
sim, saí por aquela estrada em busca de seu amor e de minha alma também
mas quando encontrá-la não vou deixá-la ir
lembro-me da primeira vez que a vi
as lágrimas em seus olhos pareciam que tentavam dizer
oh menino, você sabe que eu poderia amar você
mas pimeiro devo trilhar meu caminho
hoje, dois homens estranhos brigaram até a morte por mim
vou encontrá-lo lá na velha estrada velha
hey!
tenho procurado por tanto tempo e meus pés me fizeram perder a batalha
andando pela estrada meus joelhos cansados
me jogaram fora do caminho, caí mas ouvi uma voz doce chamar
minha olhos ciganos está vindo e serei salvo
oh estarei salvo
por que eu a amo tanto
disse eu te amo
hey!
te amo uh
deus, eu te amo
hey!

Nº 71 – Os 100 álbuns satânicos mais importantes da história

Postagem original feita no https://mortesubita.net/musica-e-ocultismo/eletric-ladyland-jimi-hendrix/

O Senhor dos Anéis e a Kabbalah

Aproveito o começo da Campanha do RPGQuest, um Jogo Baseado na Jornada do herói, para publicar este texto que já estou devendo para vocês ha algum tempo e explicar a importância de se estudar Kabbalah hermética e sua aplicação direta na construção de histórias épicas.

Não vou entrar em detalhes sobre cada uma das Esferas porque nesta altura do campeonato vocês já estão mais carecas que o gollum de saber do que se trata o assunto (se não conhecem, recomendo este livro de Kabbalah Hermética para entender todas as nuances da Árvore da Vida), então vamos às Esferas:

Um dos erros que tenho visto o pessoal nas listas de thelema, kabbalah e mitologia cometer é achar que a “Jornada do herói” é apenas de UM herói por vez. Como mostramos no texto sobre o filme Animais Fantásticos, a Jornada do Herói pode ser construída em múltiplos níveis situacionais e ser dividida em diversos personagens.

Malkuth – O reino, o Início da Jornada do herói. O Shire. No começo da Jornada do herói, temos o famoso “Chamado à Aventura” onde Gandalf chega ao Shire para iniciar toda a Jornada que Frodo e seus companheiros terão de percorrer. Mas o Senhor dos Anéis não possui apenas UM Herói em sua narrativa. O Sol (Tiferet) está dividido na narrativa de três personagens: Frodo, o herói ordinário que é arrancado do seu cotidiano para entrar em um universo muito maior do que o que estava anteriormente, tal qual Harry Potter, Luke Skywalker e muitos outros que seguem a Kabbalah Hermética; Aragorn, o Rei que precisa da jornada para retomar seu local de direito no Reino, tal qual o Rei Arthur; e finalmente Gollum, a Sombra que acompanha o iniciado em sua Jornada e o Deus Solar do Sacrifício (veremos o Sacrifício em duas partes neste épico. O Sacrifício de Chesed para se tornar Hochma e o sacrifício da Sombra do herói para a destruição do lado qlifótico da alma, no qual Gollum encontra a redenção).

Yesod – A figura feminina representada por Galadriel, que faz as partes de Yesod (a figura materna), Netzach (como sedutora) e Hochma (como Senhora das tempestades). Cuida dos heróis na Jornada ao mesmo tempo em que é tentada pelo poder ilusório do anel.

Hod e Netzach – As partes do subconsciente do herói que representam a Razão e a Emoção, tal qual Ron e Hermione, R2-D2 e C3PO, acompanham o herói durante toda a jornada, lembrando-lhes sempre de sua mortalidade. Sam e Pippin acompanham tanto o Iniciado (Frodo) quanto sua Sombra (Gollum) até os limites do Abismo (Mordor, lar de Sauron, que não por acaso é representado na forma de um “olho que tudo vê”, a letra Ayin na Kabbalah e o Caminho do Diabo no Tarot). Arwen faz o papel de futura Rainha, como amante de Aragorn (Tiferet).

Tiferet – O Rei. Dividido em três níveis de consciência e três jornadas distintas: Frodo como o herói tradicional da jornada de Campbell, que é arrancado de sua paz e tranquilidade para viver uma jornada. Frodo representa os leitores que também são arrancados do conforto de suas poltronas para viverem uma aventura de seu ponto de vista; Aragorn como o SAG e a Essência, que já possui sua realeza mas precisa recuperá-la através da mesma jornada do iniciado e, finalmente, Gollum que vivia nas sombras pela tentação qlifótica e tem a oportunidade de redenção durante a jornada.

Geburah – Legolas e Gimli são os guerreiros que acompanham o Herói. Partes antagônicas (tal qual Bruce Banner e o Hulk, dr Jeckyll e mr. Hide e Han Solo e Chewbacca), a esfera marcial está sempre ancorada no rigor e na ira, com personagens extremamente precisos e/ou científicos e/ou heróicos e suas contrapartes brutais, bestializadas ou selvagens. Juntos também formam um par em um segundo nível entre a Beleza e o Rigor, duas das colunas do Templo Simbólico de Salomão.

Chesed – O mentor e o Guia, representado por Gandalf, o herói que já possui sua própria coroa de reconhecimento e que guia o protagonista através da Jornada (como Dumbleodore, Merlin ou o Mestre Yoda). O sacrifício maior em prol do grupo (letra NUN na Kabbalah e arcano da Morte no tarot) é necessário para que ele possa se tornar Gandalf, o Branco (Hochma, a figura que atravessa o Abismo em direção à Sabedoria e, ao final da Jornada, pode atravessar para o “outro lado”).

Daath – O Portal, representado no desafio primordial da Jornada, tal qual o Imperador, a bruxa malvada da Branca de Neve ou Valdemort, representa a causa principal do início da Jornada e a razão do herói existir (os 3 heróis e as três Jornadas, no caso). Tal qual um portal que nos impede de cruzar o abismo, o Conhecimento do bem e do mal fará a separação entre os heróis e o mundo ordinário.

Todas as bases dos roteiros acima são frutos do estudo da Jornada Arquetípica do herói dentro de cada um de nós, cujas fórmulas são derivadas da Kabbalah Hermética. George Lucas, J RR Tolkien, JK Rowlings e muitos outros autores beberam da mesma fonte, que também utilizamos na estrutura do RPGQuest, de modo que cada partida deste Jogo de Tabuleiro será uma Jornada Épica dos Heróis. Uma Campanha inteira de RPG em uma tarde!

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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-senhor-dos-an%C3%A9is-e-a-kabbalah

A Quintessência Alquímica

A Quintessência (quinta essência) é o nome dado quinto Elemento.

A quintessência é uma energia espiritual psíquica que é superior aos outros quatro elementos: terra, ar, fogo e água. Ela pode unir os outros elementos ou dissolvê-los.

De acordo com Pitágoras, a quintessência era o equivalente da alma. Paracelso dizia que a quintessência permeia e anima o corpo, permitindo que ele se torne um ser vivo.

Na Alquimia, a quintessência foi mantida para curar qualquer doença ou condição e para rejuvenescer o corpo. Era importante no processo de transmutação de metais de base para o Ouro e a Prata.

O Primeiro Livro dos Segredos da Natureza ou a Quinta Essência, uma obra espúria atribuída a Raimundo Lúlio, descreve os alegados poderes miraculosos e adaptativos da quintessência: Ela preserva o corpo da corrupção, fortalece a constituição básica (elementativa), a juventude pura é restaurada por ela, unifica o espírito, dissolve os rudes, solidifica o que está solto, solta o sólido, engorda o magro, enfraquece a gordura, resfria o inflamado, aquece o frio, seca o úmido, umedece o seco; de que forma, sempre que uma e a mesma coisa pode realizar operações contrárias, o único ato de uma coisa é diversificado de acordo com a natureza do receptor, assim como o calor do sol tem efeitos contrários, pois seca a lama e liquefaz a cera.

Numerosas receitas de remédios milagrosos foram escritas com a quintessência como ingrediente chave.

A quintessência está associada com a Anima Mundi, a Prima Materia, o Pentáculo, o Pentagrama, a Rosa e o Akasha.

Leitura Adicional:

Patai, Raphael. The Jewish Alchemists. Princeton, N.J.: Princeton University Press, 1994.

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Fonte: The Encyclopedia Of Magic And Alchemy, por Rosemary Ellen Guiley.

Copyright © 2006 by Visionary Living, Inc.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-quintessencia-alquimica/

Em crise no Éden

A origem do termo Éden, em hebraico, parece derivar da palavra acade edinu, que deriva do sumério edin. Em todas estas línguas a palavra significa “planície” ou “estepe”. No entanto, o Gênesis nos conta que o Éden era uma espécie de jardim das delícias, com os frutos mais variados e suculentos, onde Adão e Eva viviam em felicidade plena, sem envelhecer, ou trabalhar, ou adoecer. O mito nos conta que Deus havia feito este tal acordo com o primeiro homem e a primeira mulher: poderiam viver indefinidamente em seu jardim, sem conhecer a fome e a morte, contanto que jamais comecem do fruto do conhecimento do bem e do mal.

Mas, estranho de se pensar: seria a ignorância a razão de sua felicidade? Adão e Eva eram imortais, mas todo animal é imortal, na medida em que não desenvolveu a consciência e, dessa forma, não sabe que vai morrer. O mito nos conta que eles foram expulsos do Éden, que “tomaram conhecimento de sua própria nudez”, mas não seria este momento exatamente o grandioso despertar da consciência humana? O momento em que souberam que eram um ser a parte, com vontade própria? Quando compreenderam que eram como qualquer outro animal, exceto pelo fato de que sabiam que iriam morrer? Neste sentido, a questão da existência não é a morte em si, que é fato, mas sim o que faremos desta vida, desta angústia quase insustentável de termos uma alma, algo tão infinitamente belo e frágil, sem sabermos ao certo o que fazer dela…

Sigmund Freud certa vez disse que houveram três feridas narcísicas [1] na humanidade que tiveram como consequência uma mudança significativa na forma como o homem vê a si próprio. Os três pensadores responsáveis por elas foram Nicolau Copérnico, Charles Darwin e o próprio Freud. Eu tendo a ver a análise de Freud como a análise de uma crise da alma humana, mas todas as crises geram admiráveis oportunidades para a elevação de nossa consciência, ao menos para aqueles que tem olhos atentos nas leis da Natureza:

Não estamos no centro

Inspirado por ideias de manuscritos antigos, Copérnico foi o primeiro cientista moderno a contrariar a ideia comum de que a Terra estava situada no centro do Cosmos, e que mesmo o Sol girava em seu redor. Com o heliocentrismo, que foi posteriormente comprovado por observações de Galileu Galilei, o homem se viu destituído do centro mítico do universo. Assim como Narciso, que só conseguia admirar sua própria imagem refletida no lago, o homem antigo acreditava que habitava a morada central, algum ponto importante do infinito…

Mas, estranho de se pensar: como pode o infinito ter um centro? Que importa se é a Terra que gira em torno do Sol, ou o contrário, se hoje sabemos que tudo se encontra catapultado em direção a tal imensidão, e que mesmo o nosso Sol é somente um dentre bilhões de outros sóis? Ainda que a Terra gire em seu torno, o Sol não está fixado em centro algum, mas viaja pelo Cosmos como um pedaço de poeira ao vento matinal. No Cosmos, afinal, nada se perde, mas tudo flui, e se metamorfoseia, se transforma. Somos formados por poeira de estrelas, e nossos átomos são emprestados do mesmo conjunto de átomos que forma tudo o que há.

Dessa forma, todos os pontos estão igualados – o centro não existe, mas se encontra espalhado por todos os lugares.

Não fomos criados perfeitos

Diz o mito que uma bela ninfa, chamada Eco, estava perdidamente apaixonada por Narciso. Mas o belíssimo rapaz, embriagado pelo próprio reflexo, se julgava um deus e, dessa forma, indigno da afeição de uma mera ninfa… Talvez tenha sido um pensamento parecido que levou o homem a se julgar um ser superior em meio a natureza e aos demais animais. Havia sido criado perfeito, pelo próprio Deus, ainda no Éden, de onde havia sido expulso por desejar adquirir conhecimentos proibidos. Isto tudo foi questionado pela teoria de Darwin e Wallace, que postulava que o homem não havia sido criado como era hoje, mas que veio evoluindo pela árvore da vida, desde uma simples bactéria, por bilhões de anos, e por milhões de espécies distintas.

Mas, estranho de se pensar: como poderia o homem ser uma criação perfeita se, ainda no Éden, havia muitas coisas que desconhecia? Veja bem: o fruto que comeu, e que causou sua expulsão do jardim das delícias, trazia não somente o conhecimento do mal, como do bem. Se o homem não conhecia o mal, tampouco conhecia o bem. Era, dessa forma, um perfeito ignorante – como vimos, nem mesmo conhecia sua própria mortalidade.

Hoje sabemos, através da biologia, que o homem não surgiu do nada, nem tampouco é perfeito, mas que evoluiu através das adversidades, de sua relação com o meio ambiente a volta. Darwin disse que através da “guerra da fome e da morte”, a evolução das espécies “tendia a perfeição”. Mas a perfeição a que ele se referia não era uma perfeição final, derradeira, mas um eterno “vir a ser”, um aprendizado sem fim. Não há nada mais sinistro do que a perfeição, se o próprio universo fosse perfeitamente simétrico desde o início do espaço-tempo, matéria e anti-matéria teriam se aniquilado mutuamente, e nada mais haveria do que vácuo e vazio – nenhum lampejo de luz numa escuridão fria, simétrica. Para nossa sorte, a Natureza nunca foi totalmente perfeita. E, quem somos nós, senão crianças em constante aprendizado?

Dessa forma, todos temos de seguir nesta trilha ancestral – a perfeição está no caminho, e não na chegada.

Não conhecemos sequer nossa casa

Coube ao próprio Freud redescobrir o inconsciente humano, aquele mesmo que se mostrava, antigamente, nos mais variados mitos. Pois que mitos nada mais são do que os fatos da mente encenados em ficções, histórias que eram passadas adiante pelos contadores e menestréis… Diz ainda o mito de Narciso que Némesis, a deusa da vingança e da ética, condenou-o por haver ignorado solenemente o amor da ninfa, que terminou por definhar em desilusão. Mesmo o próprio Narciso, condenado a contemplar sua bela face no lago, terminou por definhar e morrer, assim como Eco. Mas, quando foram buscar seu corpo, encontraram apenas uma flor, a flor da alma que havia morrido para a beleza do ego, e agora contemplava uma beleza ainda mais profunda.

Se antes Narciso andava distraído por sua própria beleza, e não observava o mundo a volta, agora havia morrido, e renascido. Um belo mito, que demonstra que nem todas as punições divinas são aquilo que imaginamos a primeira vista. Némesis teve sim compaixão, mas sobretudo senso de justiça: todos, afinal, precisam reavaliar seus atos, até que se conheçam verdadeiramente, até que compreendam os meandros e os monstros de seu próprio inconsciente.

Se Freud encontrou tantos traumas e tanta escuridão nas mentes mais comuns, é porque a era moderna carece de seus mitos, de modo que somente alguns poucos conseguem ser, ainda, psicólogos de si mesmos. Toda a filosofia se encontra aí: autoconhecimento. A filosofia é a verdadeira autoajuda, e conhecer aos próprios pensamentos, sem medo, sem culpa, é a única forma de lapidar a alma, transformar chumbo em ouro, e renascer, como a lótus, em meio ao charco dos desejos desenfreados – agora, devidamente controlados pela vontade.

Dessa forma, foi preciso que uma grande crise se abatesse sobre a alma para que percebêssemos o que somos – hóspedes em nossa própria mente, mas sempre a procura do Anfitrião.

O despertar

Assim como Narciso, Adão e Eva despertaram para uma existência própria, e deixaram de contemplar a Deus – seja indiretamente, pelo amor a própria beleza, seja diretamente, pelo espanto ante tal imenso jardim. Estavam em crise em meio ao próprio Éden, mas tal crise lhes trouxe a oportunidade de serem, enfim, seres que possuem vontade. E assim que puderam, finalmente, escolher por conta própria, escolheram caminhar a frente, em Sua direção, para não somente contemplar, mas compreender… E, em compreendendo, tornarem-se nesta Criação, cocriadores!

***
[1] Referência ao mito de Narciso, que ainda é revisitado ao longo do artigo.

Crédito da imagem: Robert Recker/Corbis

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

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#Espiritualidade #Gênesis #Freud #Mitologia #Psicologia

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