Pai Saturno, Mãe Lua

Sobre Robert Cochrane e seu encontro com o Destino

por Nicholaj de Mattos Frisvold

Evan John Jones & Robert Cochrane

O veneno que Cochrane escolheu para si e o caminho que ele tomou podem nos contar sobre a influência de Saturno e da Lua em sua vida. Ele escolheu ir embora temperado por Saturno e usar o caminho da Lua, através da aliada Beladona. Talvez na escolha da aliada que iria levá-lo à Companhia Oculta possamos entender mais sobre a abordagem de Cochrane ao coração da matéria, o Círculo de Tubal Caim – e, deste modo, entender as polaridades mágicas de sua Pellar Craft, que ele demonstrou de formas aparentemente estranhas, até onde se relaciona o seu suicídio ritual. As polaridades que tenho em mente são aquelas entre a Chance ou Destino e a Sabedoria (ambas em sua oitava feminina, bem como na forma exigida pelo Senhor dos Chifres), assim como podem ser vistas nos mistérios mantidos dentro dos reinos de Tubal Caim e da Senhora Fortuna. Há uma gravura francesa do século XVI que é notável no caso da compreensão de Cochrane sobre o Destino como uma Deusa. 

Nesta gravura, retratada no livro de Paul Huson, vemos a Senhora Fortuna sentada em frente à Senhora da Sabedoria (MOT, pág.37). A Senhora Fortuna está vendada, segurando a roda da humanidade em sua mão esquerda. A Senhora da Sabedoria, por outro lado, monitora cuidadosamente o cosmos e se certifica que sua imagem seja refletida dentro da criação, aqui simbolizada adequadamente como o espelho, que ela segura em sua mão direita. A Roda da Fortuna está sob o domínio da Senhora Fortuna e deve ser refletida pela sabedoria, já que a Senhora Destino é concebida como cega – ou deveríamos dizer que sua cegueira obriga a humanidade a abrir seus olhos à influência de Destino? É minha crença que Cochrane percebeu alguns profundos ensinamentos durante o período de dificuldades com Jane, que foi usada pela Senhora Fortuna e a Senhora Sabedoria para mexer em sua alma e aspiração, rejuvenescer sua alma, e talvez ainda mais, em um nível superior de perfeição e humildade. Esta, acredito, é a melhor forma de visualizar o infortúnio, como uma lição que interfere em nossa alma para uma condição melhor. Pode-se ter a impressão de que ele simplesmente desistiu face ao infortúnio (ou ‘Miss Fortuna’, se preferir) e procurou uma saída digna. Ao fazer uma busca nas próprias palavras de Cochrane, é possível encontrar uma pista para este enigma, e talvez extrair uma lição.

As premissas para a visão de Cochrane sobre a Bruxaria são bastante simples. Ele diz em um de seus poucos ensaios: “Todo pensamento místico é baseado sobre uma premissa maior: a compreensão da verdade como oposta à ilusão” (RT. Pág.49). E esta verdade é “em essência, meios pelos qual o homem pode perceber sua própria divindade inerente” (ibid. 51). Ele usa as discussões sobre bruxaria nos anos 50 e 60 como um espelho desse fato, quando comenta que na bruxaria as ideias que as pessoas do meio da bruxaria tinham em seu tempo continham tanta superstição e ilusão quanto fora dessa esfera. “A Fé está finalmente atinente com a Verdade… trazendo, como faz o homem em contato com Deuses, e o homem em contato com si próprio” (ibid. 56). Cochrane opôs-se a tal ponto contra as formas dogmáticas e superstições que ele viu crescendo em relação à Wicca simplesmente porque aqui ele observou que a verdade foi substituída por ilusão. Pode-se, naturalmente, ver-se isso de duas formas, quer como uma tentativa de colocar-se a si próprio sob os holofotes do crescente interesse pela bruxaria nos anos 60, quer como um homem honesto em sua repulsa pela forma em que a crescente comunidade Wiccana caminhava cada vez mais para longe das diretrizes básicas da Arte, do Mestre Chifrudo e da Senhora Escura e em uma reverência dos ciclos da natureza, com uma Deusa muito mais do que maternal em foco.

Como ele disse: “A filosofia inerente à Arte sempre foi fluida, e o que é fluido deve se transformar novamente antes de desaparecer sob um monte de tolices cediças, teologia cozidas pela metade e filosofia” (ibid. 51). Isso ele demonstra muito bem no ensaio The Faith of the Wise, de 1.965, no qual enfatiza a importância da Experiência, Devoção e Visão como ferramentas em direção ao abraço da verdade. Isto porque a fé não possui nenhum segredo no sentido de que existem certas fórmulas que podem ser prontamente entendidas e ensinadas. Pelo contrário, ele diz que a verdade só pode ser apreendida através do “duro trabalho devocional”, e isso conduz à visão em que se tem uma experiência direta da verdade. Fica evidente aqui a ênfase das qualidades lunares na visão de Cochrane sobre a Arte. Tanto as técnicas e objetivos, quanto as advertências dos perigos, estão sujeitas à lua. O perigo envolvido na Arte é algo que Cochrane estava muito consciente, e seu suicídio ritual pode indicar que nós, que fomos deixados com seu legado em escritos – e que nos sentimos atraídos ao seu espírito – devemos tomar conhecimento disto.

Ele diz: “Primeiramente o Roebuck in the Ticket[1] representa o espírito de sacrifício e liderança. Também pode representar a idéia de destino na velha forma Anglo-Saxã de ‘Shapers’[2], as que criam o futuro que temos que viver” (ibid. 85). Ele entendia muito bem o perigo ao assumir a herança da Arte, e, visto seu fascínio pelo livro The White Goddess de Graves, e sua percepção dentro do mistério demonstrado, ele também sabia como a Mãe Lua pode tanto alimentar quanto devorar sua cria. De certo modo, é possível ver em Cochrane as dificuldades de balancear a Senhora Fortuna e a Senhora Sabedoria em sua vida. Entender pela visão e inspiração é diferente de ser desafiado por Tubal Caim e tendo a nossa ferocidade temperada – o desafio dado no que Cochrane chama de “superação do Destino”. Este desafio também pode ser visto na idéia de iniciação de Cochrane. Ele diz: “Quando os iniciados tomam o juramento completo do coven eles estão se submetendo à vontade de Hécate. De certo modo, ao fazer isso, eles então se tornam o Roebuck in the Thicket, porque eles escolheram seguir o caminho que ela selecionou para eles” (ibid. 92/93).

Abraçar o destino a fim de superá-lo pode ser visto em termos alegóricos como abraçar a Lua enquanto se é armado com Saturno. Isso tudo é relacionado com o Tempo, Cronos – e ao subjugar o Pai Tempo e agarrar a conexão com todas as coisas dentro do Tempo é que podemos estabelecer uma fundação para compreensão e, então, uma profunda superação de todos os desafios, até do próprio Destino. Cochrane foi claro em como ele entendeu a importância da Morte, outro domínio profundamente relacionado à esfera de saturniana. Saturno sem compreensão facilmente se transforma em depressão, abrigando elementos maléficos na vida da pessoa, criando uma perspectiva negativa da vida e fatalismo. Assim como Luna pode fornecer a experiência visionária de profunda verdade, ela também pode dar o golpe doloroso que leva à queda na ilusão – ao abismo onde Saturno e a Lua tomam parte em uma união misteriosa.

Cochrane sabia disso, mas aparentemente foi incapaz de se levantar deste abismo de união maléfica e misteriosa das poderosas forças em sua vida. A Senhora da Sabedoria lhe deu uma mente clara, mas ele escolheu entrar através da aliada Mãe Lua no Castelo da Rosa Imortal. No que diz respeito à morte, suas ideias e considerações eram belas e diretas ao ponto. Ele disse: “Nada é dado se nada for feito, e qualquer coisa que criamos agora cria o mundo no qual existiremos amanhã. O mesmo se aplica à morte: o que temos criado em pensamento, criamos naquela outra realidade. Também deveríamos nos lembrar que Desejo foi a primeira das coisas criadas” (ibid. 70). E, infelizmente, ele escapou do caminho que Destino deitou à sua frente ao passar para o Castelo, da forma que ele fez, no lugar de superá-La. É quase como se ele seguisse a direção contrária de seu melhor discernimento, quando convidou Beladona para levá-lo. Ele disse: “As Três Irmãs também eram consideradas as guardiãs do Caldeirão da Criação, que é lugar onde o passado, presente e futuro são como um, ainda que em estado de fluxo, movimento e potencial prometido” (ibid. 88/89). O que novamente nos leva ao desafio final: “Então, de certo modo, quando começamos a procurar a Deusa e sua magia, estamos, com efeito, nos tornando o caçador. Ainda assim, quando então a encontramos nos tornamos a caça, porque a Deusa nos prega ao chão, e faz-nos dela para sempre” (ibid. 90).

É nesse desafio, quando a mesa vira, que precisamos ser fortes e focarmos na superação através da compreensão e, então, aplicarmos a experiência prática que já temos – isso é crescimento. Sem Saturno existiria pouco progresso, sem a Lua existiria pouca visão. A conjunção destas forças em uma unidade superior de aceitação, já que o destino de cada um é único e grandioso não importando o quão insignificante no grande esquema, é ainda a maior força na vida de cada um e de todos. Destino não é relacionado ao infortúnio, na verdade, talvez devêssemos pensar melhor sobre o termo infortúnio sob a luz do poder que Destino nos apresenta em termos de desafios, dos quais as lições de crescimento podem ser extraídas. Armados à semelhança de Tubal Caim, podemos participar na forja do nosso próprio destino e embarcar com coragem na ordália da superação – e é na luz do elemento do sacrifício relacionado ao Corço (Roebuck) que ela é mais bem compreendida. Como falecido magister da Cultus Sabbati, Andrew D. Chumbley disse: “O Caminho do Sacrifício faz o Homem Completo”. Em outras palavras, quando Destino apresenta os desafios e os enxergamos como infortúnios, isso significa que estamos perdendo o conceito inteiro, que estamos rejeitando a Senhora da Sabedoria e focando somente na cegueira da Senhora Fortuna, maldizendo sua Roda da Fortuna. Com a maldição, caímos nos mais baixos caminhos do ser do Pai Saturno, e nos engajamos em um processo de desintegração e piedade que nos deixa cegos às ferramentas oferecidas de boa vontade por Tubal Caim em nossa batalha no Castelo silencioso, onde nos encontramos não somente com Ela – mas com toda a atrocidade e toda a beleza que conhecemos como ‘Self’.

Um último e significante ponto a se fazer aqui está relacionado a Destino ou fatalismo em um contexto mais filosófico. Parece que há uma brecha entre Destino e Fatalismo. É como se ela pudesse inspirar o abraço de Destino de formas entendidas como boas e/ou más. No passado, quando o fatalismo era uma doutrina filosófica, não existia nada significativamente diferente entre Destino e Fatalismo. O fatalismo simplesmente se referia a uma submissão ao Destino, similarmente às ideias de Cochrane. Ela não carregava nada de necessariamente mal ou ruim em termos de um foco exclusivo na desgraça. Nos casos de pensamentos fatalistas centrados ao redor de algum infortúnio catastrófico, algo glorioso sempre viria na sua esteira. Porém, hoje em dia, o fatalismo normalmente se refere a alguma desgraça inevitável que está prestes a atingir a vida de alguém, ou refere-se a uma perspectiva negativa de vida. Podemos também mencionar o ideal estóico, no qual o suicídio poderia ser transformado em um ato de dignidade frente a Destino, e assim receber a opção de ingerir o Cálice Envenenado, como no caso de Sócrates e Sêneca. É importante ressaltar que os suicídios destes filósofos foram exigidos pelo Imperador. Não foi uma escolha de Destino, mas uma aceitação de Destino, uma saída honrosa de uma situação que não podia ser transformada de modo favorável a eles.

Talvez Cochrane tenha visto o seu suicídio ritual dessa forma, como uma reflexão da Mãe Lua ou, ainda, a vontade de Hécate, a saída inevitável de uma situação que não poderia ser transformada para algo melhor. Existe uma passagem interessante em uma de suas cartas a Joe Wilson que poderia indicar tal atitude. Cochrane disse em relação às “leis bruxas” o seguinte: “Não faça o que você deseja – faça o que é necessário. Tome tudo que lhe é dado – dê tudo de si. O que eu tenho… eu seguro! Quando tudo o mais estiver perdido, e não até então, prepare-se para morrer com dignidade” (RCL:50). Talvez ele visse o suicídio ritual, ao ingerir de bom grado o veneno que Destino lhe deu, como uma forma digna de deixar o corpo terrestre para trás, a favor da Companhia Oculta. Outra citação dele pode ser entendida de tal forma: “Ver a Senhora não é suficiente… porque em Destino, e a superação dela, é que há o ganho da chave da inspiração e da própria morte. Não existe destino tão terrível que não possa ser encarado e superado, seja por uma vitória concreta, ganha pela ação ou uma vitória mais profunda do espírito engajado na batalha solitária do Self. A Senhora do Destino, destino e danação são a provação, o Castelo das Ordálias, no qual devemos nos encontrar, para vencer ou morrer” (RT:161). Pode parecer que Cochrane se viu derrotado por Destino. Seu encontro no Castelo e sua batalha lhe garantiram a morte, ou “polegares para baixo”, para continuar nossa antiga alegoria romana relacionada ao seu suicídio ritual.

Cochrane definiu a Arte de ser sobre a Verdade, Experiência e Devoção. Todos esses elementos ele colocou sob a misericórdia de Hécate, Mãe Lua, Senhora Fortuna ou Destino. Parece que ele pode ter esquecido algo em sua identificação com o Corço, como o símbolo do sacrifício e da liderança, que é a ferocidade e a coragem. De qualquer forma, seu legado vive e sua centelha espiritual continua a inspirar. O que fazer de sua morte prematura e sua atemporalidade ou temporalidade é ainda matéria de uma multiplicidade de opiniões, e no final isso provavelmente não importa, já que as visões e os ensinamentos que ele compartilhou com aqueles que continuaram seu legado ainda estão lá para nutrir. Vendo o crescente interesse em seu legado, podemos observar que ele ganhou, enfim, a vida eterna. Ambas, as lições que ele aprendeu e dominou, e as lições que o derrotaram, estão lá e podem servir como uma bússola no caminho do peregrino.

[1] Nota da Tradução. Roebuck in the Ticket significa literalmente “Corço na Moita”.

[2] Nota da Tradução. “Shapers” significa literalmente “Moldadores da forma”.

Leitura recomendada:

Cochrane, Robert & Jones, Evan John (Ed. Mike Howard). 2001.The Roebuck in the Thicket. Cappall Bann. Abr. No texto, RT.

Cochrane, Robert & Jones, Evan John (Ed. Mike Howard). 2002. The Robert Cochrane Letters. Cappall Bann. Abr. No texto RCL.

Huson, Paul. 2004. Mystical Origins of the Tarot. Destiny Books. Abr. No texto MOT.

Frisvold, Nicholaj. 2010. Artes da Noite – A História da Prática da Bruxaria. Ed. Rosa Vermelha

Links Indicados:

+ Father Saturn, Mother Moon (Ensaio Original em Inglës)

+ The Clan of Tubal Cain (Página Oficial do Clã)

+ O Fluxo e o Contra-fluxo: O Feitiço e o Milagre

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/pai-saturno-m%C3%A3e-lua

A Origem do Tarot

A origem do Tarot continua em questão e são muitas as teorias propostas. Na verdade, porém, nada existe de idêntico em outras culturas, pintado ou impresso em cartões, que pudesse ter estabelecido um modelo direto para o jogo de 78 cartas que vem à luz, na Europa, no final do séc. 14. E os desenhos mais antigos de cartas que chegaram até nós são coerentes com a iconografia cristã dessa época. Se essa afirmação vale particularmente para os 22 arcanos maiores, não cabe inteiramente para o conjunto das 56 ou 52 cartas do baralho sarraceno, já mencionado no séc. 14.

Apesar desses dois indícios mais próximos cabe investigar a possível influência de outras culturas desse período histórico e, igualmente, o material resgatado de civilizações anteriores.

Alguns estudiosos mostram as analogias entre o Tarot e o antigo jogo indiano do Chaturanga, ou jogo dos Quatro Reis, que correspondem aos quatro naipes das cartas de jogar. A quadruplicidade, no entanto, é a representação de uma realidade universal que transcende os dois jogos em questão.

O Chaturanga, que data do séc. V ou VI, antecessor do moderno jogo de xadrez, originalmente tinha o Rei, o General (a Rainha moderna), seu Cavaleiro e os peões ou soldados comuns. Não há, porém, indicações consistentes de como poderia ter ocorrido um caminho entre esse jogo e o Tarot.

Cruzados ou árabes?

Há quem acredite que as cartas de jogar foram levadas para a Europa pelos cruzados. Contudo, a última Cruzada terminou mais ou menos em 1291 e não existem referências que comprovem a presença de cartas de jogar na Europa até pelo menos cem anos mais tarde.

Uma justificativa para a origem sarracena das cartas é o nome espanhol e português naipe, que derivaria do árabe naibi. Também a palavra hebraica naibes se assemelha a naibi, o antigo nome italiano dado às cartas e, em ambas as línguas, a palavra indica bruxaria, leitura da sorte e predição. No entanto, não se encontram na história dos árabes e judeus referências ao jogo de cartas, anteriores aos século 15.

Esse tipo de restrição histórica, no entanto, não invalida a hipótese de uma criação ou recriação “multi-tradicional” do Tarot. Sabemos que, em especial na Península Ibérica, sábios cristãos, árabes e judeus, mantiveram uma criativa convivência durante o período em que o Tarot dá sinal de vida.

Do ponto de vista das provas históricas, o que se pode afirmar com segurança é que os árabes utilizavam, já em meados do séc. 14, um baralho de 52 cartas, com estrutura idêntica aos que hoje conhecemos como “arcanos menores” ou “baralho”.

Origem cigana?

Igualmente discutível é a hipótese que associa as cartas de ler a sorte com os ciganos originários do Hindustão. Apenas no começo do século XV começaram a entrar na Europa. Em 1417, um bando de ciganos chegou às proximidades de Hamburgo, na Alemanha; outros relatos situam os ciganos em Roma, no ano de 1422 , e em Barcelona e Paris, em 1427. Há, porém, claras evidências de que a raça cigana só estendeu suas peregrinações para o interior da Europa depois que as cartas já eram conhecidas ali há algum tempo.

Povo nômade, recorria aos mais variados expedientes para sobreviver. As mulheres particularmente utilizavam diversos recursos para “ler a sorte” dos habitantes das comunidades que visitavam, em especial a quiromancia (predição do futuro segundo as linhas e sinais das mãos) e, bem mais tarde, a cartomancia (utilização dos baralhos impressos na Europa). É esse um dos motivos pelos quais os ciganos ficam intimamente associados às cartas, ao baralho, no imaginário popular. Tiveram um grande papel na circulação e na difusão da cartomancia popular, mas estavam longe da tradição escrita e do conhecimento técnico de impressão das cartas.

Origem egípcia?

A hipótese da origem egípcia do Tarot foi aventada por Court de Gebelin em sua obra, Le Monde Primitif analysé et comparé avec le monde moderne, publicada a partir de 1775.

Gebelin foi um apaixonado estudioso da mitologia antiga e estabeleceu inúmeras correlações entre os ensinamentos tradicionais e as cartas do Tarot que, segundo ele, seriam alegorias representadas em antigos hieróglifos egípcios.

Um ponto, no entanto, não pode ser esquecido: embora existam necessariamente similaridades entre as linguagens simbólicas mais consistentes, isso não quer dizer que tenha existido influência direta de uma sobre a outra.

O significado das correspondências entre linguagens simbólicas constitui um tema delicado. Nem sempre é possível chegar a uma conclusão, pois similaridades e correspondências não querem dizer, necessariamente, que tenha havido cópia ou simples adaptação de uma cultura nacional para outra.

A favor da correção intelectual de Court de Gebelin, é importante lembrar que as cartas utilizadas por ele continuaram a ser as do Tarot clássico. Ele não falsificou nem inventou um “baralho egípcio” para justificar suas hipóteses. Somente após a publicação de seus estudos é que começaram a aparecer baralhos desenhados com os motivos egípcios, descompromissados com a história comprovável desse desafiador jogo de cartas.

Seja como for, é com Gebelin que se inicia a divulgação de textos e de estudos que assinalam um sentido mais alto para o Tarot, como uma linguagem simbólica, como um meio de transmissão dos conhecimentos esotéricos, espirituais, que vai muito além de sua utilização como jogo de baralho.

Múltiplas influências

A maior parte dos estudiosos reconhece uma origem iniciática do Tarot, ou seja, ele traduziria o significado e as propriedades do Cosmo, bem como o do papel do homem na Criação. Seria produto de uma Escola (escola dos criadores de imagens da Idade Média, como sugere Oswaldo Wirth). Nessa direção de pensamento, o Tarot seria uma criação de Escolas francesas e/ou italianas, no final do séc. XII, sem qualquer relação com indianos ou chineses. A favor desse ponto de vista pesa o fato de que não se encontram, em particular, jogos iguais aos arcanos maiores em qualquer outra civilização.

Há muitos estudos que apontam as relações entre o Tarot e Cabala. De fato, as 22 lâminas dos “trunfos”, ou “Arcanos Maiores”, são em igual número ao das letras do alfabeto hebraico e ao dos 22 “caminhos” ou conexões entre os sefirot do desenho simbólico denominado “Árvore da Vida”. As 40 cartas numeradas, dos Arcanos Menores, representam o mesmo número de sefiroth da “Escada de Jacó”, esquema resultante da superposição de quatro “Árvores da Vida”.

Tal constatação, porém, não exclui a hipótese de contribuições árabes, que tiveram um forte e prolongado impacto, através do sufismo, sobre a mística cristã, em particular na Península Ibérica.

Um período de ouro

Não é implausível, para alguns autores, imaginar o nascimento do Tarot por volta de 1180, período de grande força criativa na Europa, embora as primeiras menções registradas ocorram apenas duzentos anos após, em 1391. A razão para isso, segundo eles, seria simples: na origem, o Tarot não tinha a função lúdica de jogo de paciência ou de apostas em dinheiro, mas desempenhava o papel de estimular a reflexão pessoal sobre o caminho espiritual. Desse modo, ele não poderia ser mencionado como jogo de lazer nas crônicas da época.

“A essência do Tarot – escreve Kris Hadar – se funde maravilhosamente à mística que fez do séc. XII um século de luz, de liberdade e de profundidade da qual não temos mais lembrança. Nessa época, a mulher era mais liberada que hoje.”

É no correr desse período que são erigidas as catedrais góticas, em memória da elevação do espírito, e que aparece igualmente a busca de um ideal cavalheiresco que alcançará sua perfeição graças aos trovadores e o Fin’Amor, que colocará em evidência a arte de crescer no amor.

Para corroborar tal ponto de vista, pode ser lembrado que nesse mesmo período se desenvolvem os primeiros romances iniciáticos sobre os cavaleiros da Távola Redonda, a lenda do Rei Artur e a Demanda do Santo Graal.

Contemporâneo dos primeiros romances, o Tarot poderia ser considerado como um dos livros sem palavras (comuns na alquimia) para a reflexão e a meditação sobre a salvação eterna e a busca de Si, mesmo para quem não soubesse ler. Era uma porta aberta à verdade, tal como as catedrais, que permitiam aos pobres e aos ricos crescerem na comunhão com Deus.

“O Tarot” – afirma Kris Hadar – “é uma catedral na qual cada um pode orar para descobrir, no labirinto de sua existência, o caminho da Salvação”.

Paralelos do Tarot com outros jogos

Quando deixamos de lado as tentativas – algumas delas forçadas – de encontrar para o Tarot uma origem necessariamente fora da Europa, em outras culturas e povos, abre-se um outro campo muito atraente para os estudos simbólicos.

Tal como foi mencionado mais acima, a propósito da similaridades entre o Tarot e o jogo indiano do Chaturanga, os estudos comparativos permitem reconhecer princípios básicos e universais que estão presentes em diferentes jogos criados em culturas diversas sem que houvesse um contato próximo entre elas, sem que uma expressão em dado contexto cultural tenha sido necessariamente copiado de outro. Podemos encontrar provas de que o conhecimento das leis primordiais se revela por caminhos criativos e renovados.

Por Constantino K. Riemma

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Um Olhar Tradicional sobre Charles Leland

por Mazarol Rosmarin

As crenças mágicas dos italianos começaram a ter repercussão na mídia escrita a partir das publicações de Charles Leland, principalmente com o seu Gospel of the Witches e Etruscan and Roman Remains. No Gospel of the Witches, ele parte de um suposto relato de uma bruxa da Toscana, Maddalena, enquanto no Etruscan and Roman Remains ele descreve lendas e crenças mágicas dos camponeses da Romanha, e devido ao recém movimento de unificação da nação e língua italiana, generaliza como sendo absoluta em toda a Itália. No final dos anos 90 se utilizando das fontes de Leland e fragmentos familiares de magia popular, sob uma perspectiva wiccana de culto, o autor ítalo-americano Raven Grimassi lança a sua stregheria, ajudando a intensificar a nostalgia pela velha Itália, de muitos já nostálgicos ítalo descendentes em todo mundo. Atualmente, Brasil, EUA e Argentina são os países com maior número de ítalo descendentes, superando até mesmo a Itália em número de italianos, por isso, somado aos movimentos de Nova Era, esoterismo e revivalismo pagão, o trabalho de Grimassi teve uma aceitação muito grande.

Nos anos 2000 a antropóloga ítalo descendente Sabina Magliocco, da UCLA, apresenta uma série de artigos referentes à magia e espiritualidade italiana e ítalo-americana, classificando a stregheria de Raven Grimassi como uma “bruxaria neo-pagã de origem ítalo-americana”, desvelando o purismo que Raven Grimassi clamava existir em suas tradições.

Atualmente, na segunda década do século XXI, vemos em termos de Brasil um considerável crescimento de uma bruxaria chamada italiana, baseada nos escritos de Raven Grimassi, mas que devido à toda rejeição acadêmica que esse autor possui, mascara-se na forma de uma Bruxaria Tradicional supostamente desintoxicada dos escritos e conceitos desse autor.

As motivações do crescimento dessa bruxaria italiana no Brasil são os mesmos expostos acima. O Brasil é o maior país com concentração de ítalos descendentes, e a cultura italiana influenciou e ainda influencia a cultura de toda região Sudeste e Sul do país, acabando por refletir em muitas áreas das outras regiões brasileiras.

Porém muito do que exposto como bruxaria italiana por essas correntes neopagãs não passa de releituras da religiosidade romana, sem nenhuma relação como os movimentos de bruxaria na Itália medieval. Poucas são de fato as crenças desses stregoni modernos que possam ser classificadas como bruxaria, mas podem e devem ser classificadas como crenças neopagãs baseadas na Roma Antiga.

O trabalho de Leland deve ser lido com olhos cuidadosos e contextualizados na época e cultura no qual foi concebido. Ele relatou uma série de lendas oriundas de um período histórico confuso, onde a Itália tentava estabelecer uma identidade única, que nunca havia ocorrido em sua história. Por isso figuras de exaltação à romanidade dos italianos eram exaltadas, como o poeta Virgílio, tentando enaltecer nos italianos o sentimento de união e patriotismo como se vindo dos antigos romanos. Nunca desde o Império Carolíngio a Itália apresentara uma união.

Nesse clima de ultranacionalismo italiano é que Leland recolhe seus relatos.

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As Correntes do Budismo

Enquanto viveu Siddhartha Gautama (o Buda Sakyamuni), sua doutrina era oralmente transmitida. Com a sua morte, foi preciso reunir na cidade de Rajagriha o primeiro concílio budista. Este teve o fim de fixar em língua Pali os fundamentos da sabedoria do Senhor Buda. Assim, foram compostos os Tripitaka (Coleção de Três Livros). No primeiro ficaram reunidos os sermões de Sakyamuni. No segundo, as regras disciplinares da comunidade de monges. E no último, uma coletânea de comentários adicionais.

Cem anos mais tarde, idéias reformistas reuniram em Vesali o segundo concílio budista. A partir daí ficou o Budismo dividido em duas grandes correntes:

A corrente ortodoxa Theravada (Escola dos Antigos) caracteriza-se por seguir literalmente aos Tripitaka e por acreditar que a Iluminação Budista é somente alcançada mediante a observância dos preceitos monásticos. Daí vir ser conhecida como a corrente Hinayana (Pequeno Veículo) do Budismo.

A segunda corrente, a reformadora, diz que todos os seres originalmente possuem a Semente da Iluminação Budista, estando esta ao alcance de todos, mesmo os sem compromisso monástico. Portanto, é a corrente Mahayana (Grande Veículo) do Budismo.

No Mahayana, o esforço individualista na conquista no Nirvana (Iluminação Búdica) cede lugar à compaixão do Bodhisattva (aquele que renuncia à sua iluminação para que possa orientar os seres à compreensão do Caminho de Buda).

A corrente Theravada difundiu-se para o Ceilão, Birmânia, Camboja, Vietnã, Indonésia e Tailândia. O Mahayana multiplicou-se em inúmeras escolas surgidas da miscigenação com diversas seitas da Índia. Ramificou-se para o Tibet, China, Coréia e Japão.

Adaptado de Shingon Shu – Budismo Esotérico

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Aoi Kuwan é autora do blog Magia Oriental, dedicado à divulgação das tradições e sistemas de magias orientais, especialmente aqueles ligados ao Japão.

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Arcano 5 – Vav – O Hierofante

Um grupo de três personagens em que um deles é visto de frente, sentado, com a mão direita levantada no sinal da benção, tendo em sua mão esquerda o eixo de uma cruz de seis braços; sua cabeça está coroada por uma tiara. Os outros dois personagens que se encontram em primeiro plano, de costas para quem contempla a imagem, têm os rostos voltados para o primeiro personagem.

Este, protagonista da figura, tem veste azul, capa vermelha ornada de amarelo. Sua mão esquerda está fechada e coberta por uma luva que tem impressa uma cruz dos templários. A barba e o cabelo do Pontífice são brancos.

Percebe-se apenas vagamente a cadeira em que o personagem central está sentado, com duas colunas ao fundo.

Os dois personagens que estão de costas mostram a tonsura. O da esquerda aponta sua mão direita para o solo, com os dedos separados. O homem da direita aponta para o alto com sua mão esquerda, com os dedos juntos.

Significados simbólicos

É o arcano do ato da bênção, da iniciação, da demonstração, do ensino. Lei, simbolismo, filosofia, religião.

Dever. Moral. Consciência. O Santo.

Interpretações usuais na cartomancia

Autoridade moral, sacerdócio. Proteção, lealdade. Observância das convenções, respeitabilidade. Ensino, conselhos equilibrados. Benevolência, generosidade indulgente, perdão. Mansidão.

Busca de sentido, revelação, hora da verdade, confiança, indicações do caminho da salvação.

Mental: O Pontífice representa a forma ativa da inteligência humana, que traz principalmente as soluções lógicas.

Emocional: Sentimentos poderosos, afetos sólidos, solicitude, sem cair em sentimentalismos. O Pontífice indica os sentimentos normais, tal como devem ser manifestados na vida, de acordo com as circunstâncias.

Físico: Equilíbrio, segurança na situação e na saúde. Segredo revelado. Vocação religiosa ou cientifica.

Sentido negativo: Indica um ser desprovido de sua razão e seus instintos, na obscuridade, carente de apoio espiritual. Projeto retardado.

Chefe sentencioso, moralista estreito, prisioneiro das formalidades, metafísico dogmático, professor autoritário, teórico limitado, pregador da “boca pra fora”.
Conselheiro desprovido de sentido prático.
Problemas com saúde, indecisão, negligência.

História e iconografia

O Arcano V é uma das figuras que permitiram precisar com maior exatidão a antiguidade do Tarô, já que seus detalhes iconográficos remontam a um modelo perdido em que se inspirou necessariamente o desenho de Fautrier (Tarô de Marselha), o que é confirmado pelas diferenças e semelhanças com maços mais antigos, como os de Baldini (1436-1487) e Gringonneur (1450).

Em primeiro lugar, é preciso destacar que o Pontífice do Tarô de Marselha é barbudo, enquanto seus precursores renascentistas e medievais não o são. Há estudos que estabelecem uma curiosa cronologia da moda papal neste aspecto. Torna-se assim evidente que o tarô clássico copia um modelo mais antigo que não chegou até nós, mas que assegura a continuidade evolutiva do Tarô desde os imagiers du moyen age até a atualidade.

Outro detalhe interessante é o da evolução da tiara papal na iconografia do Tarô. A tiara (com seu simbolismo sobre a existência dos três reinos ou mundos) não é um elemento litúrgico que permaneceu invariável ao longo da História. Os estudiosos tendem a concluir que as composições das tiaras representadas no Tarô clássico estão inspiradas em gravações bem anteriores ao final do século XV, possivelmente dos fins do primeiro milênio.

A luva papal ornada com a cruz-de-malta indica também a origem remota da imagem, já que desde os tempos de Inocêncio III (1197-1216) a cruz havia sido substituída por uma plaqueta circular.

Arcano da capacidade adivinhatória, da intuição filosófica, do conhecimento espontâneo, o Pontífice simboliza também (por seu número) o homem como intermediário entre a divindade e o plano das coisas criadas.

A soma destes simbolismos permite associá-lo ao mediador por excelência, o pacifista, o construtor de pontes, o que encontra a saída para situações aparentemente insolúveis, mediante um luminoso clarão intuitivo.

O Papa também é visto como representante da lei moral, não escrita, que domina a consciência e, no setenário que as pontas da sua cruz organizam, as virtudes necessárias para vencer os sete pecados capitais:

– orgulho (Sol), preguiça (Lua),
– inveja (Mercúrio), cólera (Marte), luxúria (Vênus),
– gula (Júpiter) e avareza (Saturno).

Wirth o imagina um ancião pleno de indulgência para com as debilidades humanas, pontificando ante duas categorias de fiéis: aqueles que compreendem (representados pelo personagem com a mão para o alto); e os que formam o rebanho cego e inconsciente que obedece por temor ao castigo, e não por autodeterminação (representados pelo personagem que aponta a mão para o chão). Estas combinações (alto e baixo, direita e esquerda) voltam a colocar a ordem do quaternário como modelo de organização. Considerado do ponto de vista do quaternário formado pelos arcanos anteriores, o Pontífice representaria o conteúdo da forma, a quintessência concebível (se bem que imperceptível), o domínio da quarta dimensão.

Por Constantino K. Riemma
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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-5-vav-o-hierofante