Amodali

Amodali é um artista multidisciplinar, música e escritora do norte da Inglaterra. Essas atividades e disciplinas têm sido aplicadas à investigação da metafísica, fenomenologia e à prática da magia sexual desde os anos 1980. Seu trabalho se preocupa em explorar a fenomenologia dos estados alterados de consciência vivenciados pelas mulheres, a fim de resgatar aspectos psíquicos e físicos do “corpo mágico” e sua dinâmica oculta que foram rejeitados ou menos explorados na tradição mágica ocidental. Ela sugere que as narrativas simbólicas que definem a feminilidade dentro do esoterismo devem ser desafiadas e o status ontológico das mulheres reorientado de acordo com práticas “biognósticas” alquímicas incorporadas.

Amodali, Isis -Inside the Third Garment (Ísis – No Interior da Terceira Vestimenta). Colagem de mídia mista.

Sua pesquisa conduzida pela prática é focada principalmente na escavação do feminino erótico e divino na forma da deusa thelêmica Babalon – usando métodos vocais estendidos, performance ritual, estados de transe sexual e uma variedade auto-desenvolvida de tecnologias mágicas. A desestabilização dos modelos tradicionais de participação de gênero em práticas esotéricas também tem o efeito de trazer a teoria queer para esse discurso que se baseia nos conceitos de ‘imanência radical’ de Luce Irigaray e noções progressivas do feminino divino, bem como no discurso New Materialist (neomaterialist) sobre a interação pós-humana com a biosfera e cosmos — teorias que remodelam como percebemos nossas relações com a matéria, desde as partículas atômicas até o universo no macrocosmo. Sua pesquisa compartilha a especulação do filósofo Timothy Morton sobre as “reservas de zonas impensadas da materialidade” do misticismo e ela sugere que conceituações progressivas e esotéricas da sexualidade podem fornecer mecanismos físicos para que tais zonas impensadas se manifestem e quebrem as barreiras entre a vida humana e não humana.

Sua práxis tem sido amplamente apresentada desde a década de 1990 como parte de uma série de performances rituais ao vivo com o projeto ‘Mother Destruction (A Destruição da Mãe)’ e, mais recentemente, em apresentações solo na Europa e nos EUA.

Amodali -Mother Destruction (A Destruição da Mãe) – Sessão de fotos de Hagazussa. 1999. Foto por Robert Cook. 

A produção musical inicial na cena musical pós-punk, eletrônica experimental e underground inclui um álbum com seus vocais e teclados em discos de fábrica com o ‘Royal Family and the Poor’ (FACT140). Após esta colaboração, Amodali ficou fascinada com os aspectos mágicos da voz e o papel esotérico da cantora e desenvolveu um conjunto único de técnicas vocais estendidas como parte de seu trabalho com a corrente 156. Ela é mais frequentemente associada a ‘Mother Destruction‘, um projeto de música / performance ritual de dez anos criado com Patrick Leagas do 6 Comm. Mother Destruction gravou um grande catálogo de obras musicais e excursionou extensivamente por toda a Europa entre 1990-2000.

Amodali ao vivo no WGT/Leipzig Kuppelhalle. 2008. Com Psychic TV, Voxus Imp e Barditos. 

Após o término do projeto Mother Destruction, Amodali continuou desenvolvendo uma prática que integra voz, movimento e estados de transe em espaços de performance como meio de criar experiências imersivas da corrente 156. Ela se apresentou na Europa e nos EUA como artista solo. Desde 2000, Amodali também se estabeleceu como artista e escritor. Formada pela Liverpool School of Art, suas colagens complexas e eroticamente carregadas da anatomia sutil do corpo mágico feminino foram exibidas em Londres, Seattle e Dublin nos últimos anos.

‘Moon Moth Woman (A Mulher-Mariposa Lunar)‘ – Imagem usada como Capa para a Dreamflesh Magazine.

Amodali concluiu recentemente um mestrado em Belas Artes para explorar ainda mais os estados alterados de consciência e o feminino divino encarnado dentro da pesquisa artística conduzida pela prática. Ampliando seu repertório para escultura, instalação e realização de curtas-metragens.

Amodali 2020-21, Angels, Angles, Anarchy-installation and Geogamicas:Galvah-short film.  (Anjos, Ângulos, Instalação Anárquica e Geogâmicas: O curto-metragem Galvah). Documentação da exposição no laboratório da LJMU Exhibition  Research.

Os escritos de Amodali foram publicados em várias publicações de livros, como Schillerndes Dunkel: Geschichte, Entwicklung und Themen der Gothic-Szene (A Escuridão Iridescente: História, Desenvolvimento e Temas da Cena Gótica), ‘Spirit Builders’: A free Illuminist Approach to the Antient and primitive Rite of Memphis Misraim. (Os Construtores de Espíritos: Uma Abordagem Iluminista Livre do Rito Antigo e Primitivo de Memphis Misraim), e um ensaio foi apresentado no Three Hand Press Anthology, ‘A Rose veiled in Black’– Arcana and Art of Our Lady Babalon (‘Uma Rosa Velada de Preto’ – A Arcana e a Arte de Nossa Senhora Babalon).

Muitos projetos paralelos adicionais incluem material de trilha sonora escrito e gravado para ‘Claire Obscure’, um filme de Madmoiselle L/Limonadeart que foi exibido em festivais internacionais de curtas-metragens na França, Canadá, Cingapura e EUA

Amodali dá palestras sobre assuntos relacionados à magia de Babalon, e deu palestras sobre os aspectos mágicos e fenomenológicos da corrente 156 na série de palestras ‘Ecology, Cosmos and Consciousness (Ecologia, Cosmo e Consciência)’ na October Gallery, Londres. 2013 e na Esoteric Book Conference 2014, nas Magical Women Conferences 2019/21, na ASE Conference 2018 e a série de palestras Studium Generale KABK. Uma extensa síntese de sua prática mágica, THE MARKS OF TETH (Os Marcas de Teth), deve ser publicada pela THREE HANDS PRESS.

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Fonte: Biography, by Amodali.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/amodali-uma-autobiografia/

Alice Bailey

Alice LaTrobe Bateman  nasceu em Manchester,  Inglaterra no dia 16 de junho de 1880, mudando para os Estados Unidos logo no início da fase adulta.

Recebeu educação cristã e casou-se com um anglicano, mas após o divórcio abandonou essa religião para tornar-se teosofista. Em pouco tempo tornou-se uma celebrada autora de misticismo, desencadeando um movimento esotérico internacional.

Segundo Alice contou, no outono de 1919 foi contatada telepaticamente pelo mestre tibetano Djwhal Khul, considerado pelos membros da Sociedade Teosófica o guia espiritual de toda a humanidade e desse encontro surgiram os 24 livros, escritos entre 1919 a 1949.

Os escritos de Bailey incluem uma exposição detalhada dos “sete raios” que são apresentados como as energias fundamentais que estão por trás e existem em todas as manifestações. Os sete raios são vistos como as forças criativas básicas do universo e emanações da Divindade que fundamentam a evolução de todas as coisas. Os raios são descritos como relacionados à psicologia humana, ao destino das nações, bem como aos planetas e estrelas do céu. O conceito dos sete raios pode ser encontrado nas obras teosóficas.

Suas obras causaram divisão dentro do movimento teosofico, surgindo ramificações como a Escola Arcana e o Movimento Internacional da Boa Vontade para seguir e difundir suas ideias. Uma das principais polêmicas diziam a respeito da diversidade racial humana. Segundo a autora cada qual com suas cargas cármicas com consequências na humanidade atual.

A Grande Invocação

Particularmente influente foi sua Grande Invocação recebida em 1937. Segundo ela “Esta nova Invocação, se for amplamente distribuída, pode ser para a nova religião mundial que virá como Pai Nosso foi para o Cristianismo e o Salmo 23 foi para o o povo Judeu”

“Do ponto de luz na mente de Deus

Que flua a luz à mente dos homens

e que a Luz desça à Terra!

Do ponto de amor no coração de Deus.

Que flua o amor aos corações dos homens

Que Cristo retorne à Terra!

Do centro onde a vontade de Deus é conhecida,

Que o propósito guie a vontade dos homens,

Propósito que os Mestres conhecem e servem!

Do centro a que chamamos a Raça dos Homens,

Que se realize o Plano de Amor e de Luz

E cerre a porta onde se encontra o mal!

Que a Luz, o Amor e o Poder restabeleçam

O Plano Divino sobre a Terra,

Hoje e por toda a eternidade! ”

Alice morreu aos 69 anos em 15 de dezembro de 1949 na cidade de Nova Yorque.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alice-bailey/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alice-bailey/

Ali al-Rida

Ali ibn Musa, mais conhecido como o Imam Ali “Al-Rida” (A.S.) “A Aprovação”, nasceu na cidade de Medina, no ano de 765 d.C. Ele viveu com seu pai durante vinte e cinco anos. Ali Al-Rida foi o oitavo Iman do Xiismo dos Doze Imans.

Seu pai foi o Imam Musa Ibn Jaafar “Al-Kazim”. Sua mãe se chamava Tacatom, era uma das servas da mãe do Imam Musa Ibn Jaafar, e, era apelidada de “Attáhera”, isto é, “A Pura”.

SEUS FILHOS:

Não teve outros filhos além do Imam Mohammad “Al-Jauád”.

SEU MINISTÉRIO:

O Imam Ali Ibn Musa “Al-Rida” tomou posse do seu ministério no imamato após a morte de seu pai, o Imam Musa Ibn Jaafar, no ano de 173 da Hijra, prolongando-se por trinta anos, sendo dez anos durante o califado Abássida de Haroun Al-Rachid, cinco anos durante o califado de seu filho Al-Amin e outros quinze anos durante o califado de Al-Mamun Ibn Haroun Al-Rachid.

SEU CARÁTER E CONDUTA:

O Imam Ali Ibn Musa “Al-Rida” era bondoso em suas ações e atitudes, cumpridor da palavra dada, jamais caindo em contradições, sendo o exemplo em sua convocação e disciplina. Ele (A.S.) foi tal como foram os Imames anteriores, um belo exemplo para os muçulmanos na sua devoção, paciência, caráter, humildade, remissão do mal que lhes fora feito, em todas as virtudes e altos valores; por isso, os Imames purificados (a paz estejam com eles) não só possuíram a dignidade representativa, mas também a dignidade no trabalho, empenho e dedicação à Deus, fazendo jus com isto a serem o modelo de virtude para a humanidade.

ALGUMAS DAS QUALIDADES DO IMAM “AL-RIDA”:

Um dos seus parentes falou ao se referir à sua moral e polidez: “Jamais vi Abu Al-Hassan, isto é, o Imam, ofender alguém em uma palavra sequer, e nunca o vi interromper alguém, ouvindo-o até o fim, como nunca o vi recusar auxilio que estava ao seu alcance. Não estendia as suas pernas diante de quem quer que seja. Jamais insultou alguém e tampouco os que o serviam, sejam servos seus ou não, e jamais o vi se coçar ou dar gargalhadas, pois sorria somente”.

Um dos seus companheiros disse: “Certa vez estive viajando em companhia de “Al-Rida” para Khorassan, onde convidou seus servos para comerem na mesma mesa com ele; então lhe propus: “Que tal se reservássemos uma mesa a parte para eles?” E ele (A.S.) respondeu: “Ora! Deus Supremo e Bendito é único. A mãe e o pai são únicos e a recompensa é pelos atos”. Assim era o Imam Al-Rida (A.S.), ele personificava o bom caráter e o sentimento humanitário através de seu procedimento para com todos, sejam servos ou não, e os olhava com ternura e humildade sem jamais mostrar-se superior ou prioritário a quem quer que seja, exceto na devoção. O seu servo Yasser disse-nos certa vez: “O Imam nos falou, se alguma vez eu chegar enquanto estiverdes comendo, não levanteis até terminardes”. Se o Imam (A.S.) mandava chamar um dos seus servos e este estivesse comendo, ele dizia, “deixai-o até terminar a refeição”. Ele (A.S.) reunia os pequenos e os grandes e palestrava com eles; até os cavalariços ou os tratadores de sangria fazia-os sentarem-se a sua mesa de refeições.”

Certo homem se aproximou do Imam “Al-Rida” (A.S.) e lhe disse: “Por Deus, ó venerável Imam! Não há na face da Terra um pai mais honrado do que vós!”. O Imam respondeu: “A devoção os honrou e a obediência a Deus os privilegiou”. Outro veio e lhe falou: “Juro que és o melhor dos homens que conheci!” e o Imam retrucou: “Não jures para tal. Aquele que é devoto a Deus e o Obedece é melhor do que eu. Acaso não leste o versículo que diz: “… e Nós os fizemos povos e tribos a fim de saberdes, a vossa devoção vos enobrece diante de Deus?”.”

Em se tratando da devoção do Imam “Al-Rida” (A.S.), ele era tido como o melhor dos exemplos aos outros, expoente pela piedade e relacionamento com Deus Supremo. Dizia um dos seus companheiros: “Quando viajava com ele, de Medina para Merw. Por Deus! Nunca vi um homem tão devoto à Deus como ele, e ninguém menciona Deus como ele o faz em qualquer tempo e hora, como não vi alguém temente a Deus Protetor e Majestoso como ele o foi… Logo que amanhecia, o Imam orava e glorificava Deus e O Engrandecia e agradecia, orando pelo Profeta Mohammad (S.A.A.S.) até o surgimento do sol, ficando de joelhos até que o dia clareasse por completo, e só depois disto é que se aproximava do povo e conversava com ele até o crepúsculo”. Outra narrativa sobre ele diz que um de seus amigos o descrevia: “Dormia pouco e a noite ficava de vigília orando na maioria das vezes, até o amanhecer, jejuava muito e dizia: “Este é o jejum da vida”. Praticava muito o favor e a caridade enquanto passava pelas ruas, principalmente quando andava pelas noites escuras… e se ouvires falar que houve alguém como ele, não acredite”.

MOVIMENTO CIENTÍFICO NA ÉPOCA DO IMAM “AL-RIDA”:

O Imam “Al-Rida” (A.S.) viveu numa época em que florescia o movimento cientifico, dinamizando nele a pesquisa e a constituição, bem como, a especificação do conhecimento e do ensino, instituindo a corrente filosófica e a escola do espiritualismo diversificado; começou, outrossim, o movimento das traduções e registros de outros idiomas, aliás, isto já havia sido encorajado desde a época do sexto Imam Jaafar Ibn Mohammad “Assadeq”, permanecendo no tempo do Imam “Al-Rida”, e esta foi a fase mais rica das etapas do pensamento e da cultura islâmica (foi nessa fase que viveram os fundadores dos dogmas da erudição tais como: Al-Cháfii, Ahmad Ibn Hanbal, Mâlek Ibn Ans, Sufian Al-Tauri, Yahia Ibn Akhtam e outros), e o Imam Al-Rida (A.S.) era o refúgio dos senhores do conhecimento, da ciência e da legislação islâmica.

O califa abássida Al-Mamún reunia para si os sábios e oradores de todas as religiões e dogmas, para fins de diálogo e investigação, e o Imam “Al-Rida” (A.S.), lhes respondia com firmeza e eloquência, tanto é que um dos notáveis chamado Mohammad Ibn Issa Al-Yaqtini lhe apresentou quinze mil questões, as quais foram resolvidas satisfatoriamente pelo Imam (A.S.), que tinha inclusive, a posição de ser o servidor para os cientistas, e amparo dos discípulos do pensamento e do conhecimento, e sua palavra era a palavra de virtude e decisão.

Um dos amigos do Imam (A.S.) falou: “Nunca vi alguém mais sábio do que Ali Ibn Musa “Al-Rida” e todo erudito que o conheceu apoia totalmente meu testemunho.”

Certa vez, Al-Mamun reuniu em assembleia um determinado número de eruditos, teólogos e oradores, questionando o Imam “Al-Rida” (A.S.), o qual sobrepujou a todos, sem exceção, e todos lhe reconheceram a sapiência. Para esclarecimento, citaremos a seguir alguns questionários feitos ao Imam (A.S.) e suas respostas:

Onde esteve Deus e como era e em que Ele se apoia?

“Deus criou o local, por isso não havia local. Ele é como é, portanto não poderia ser de outra forma e Ele se apoia no Próprio Poder”.

O que significa o Poder de Deus?

“São as suas ações nada mais. Se ele ordena seja então será, sem pronúncias, nem pensamentos nem como será”.

O que significam as palavras de seu avô o Imam “Assadeq”: Sem determinismo e sem delegação, porém, uma ordem entre duas questões”?

“Quem pensou que Deus faz nossas ações e depois nos castiga por elas, afirmou pelo determinismo; quem pensou que Deus delegou a questão da criação e da graça aos seus peregrinos, isto é, os Imames, então afirmou na delegação. Aquele que fala pelo determinismo é um blasfemo e aquele que fala pela delegação é um idólatra, porém, o significado da ordem entre duas questões, significa a existência da vereda em praticar o que Deus ordena e abandonar o que Ele alerta, isto é, Deus Glorificado e Supremo é mais Poderoso do que o mal e se o permitiu foi porque deixou-nos a opção para fazer o bem ou mal. Deus ordena algo e alerta contra outro”.

Perguntaram-lhe sobre o conceito.

“Existem conceitos em camadas: se analisarem a má ação de alguém e a aprovam, já tiveram um mal conceito; se pensam que alguém fez algo e dele obter a benção de seu Senhor Deus, e se Deus o abençoou, é então um bom conceito”.

Perguntaram-lhe sobre o melhor na devoção.

“Aqueles que foram caridosos se consultaram; aqueles que se conduziram mal, pediram perdão; e se ofereceram algo, agradeceram; e se afligiram, enfraqueceram; e se irritaram, perdoaram”.

Perguntaram-lhe os significados das Palavras de Deus: “… e os abandonou na escuridão onde nada se enxerga”.

“Deus Supremo descreve o abandono tal como descreve a Sua criação, porém, ao saber que eles não renunciarão à blasfêmia e à aberração, Ele afasta deles o auxílio e a gentileza, deixando a opção a cargos deles”.

SITUAÇÃO POLÍTICA NA ÉPOCA DO IMAM “AL-RIDA”:

O Imam “Al-Rida” (A.S.) notabilizou-se pela grande popularidade e simpatia na maioria das províncias da nação, pois quando tomou posse do ministério, após a morte de seu pai, fez um extenso giro no mundo islâmico a partir de Medina até Basra no Iraque, e daí a todas as localidades do conhecimento islâmico, onde se reunia com os eruditos e oradores, dialogando com todos a respeito de diversos assuntos. Inclusive visitava as cidades principais tais como Al-Cufá, Al-Yomna, Maruá, Naichabur, etc. O Empenho do Imam “Al-Rida” (A.S.) destacou-se muito pela atenção no conhecimento religioso entre a população.

Os Abássidas deram continuidade à política do terror e suplícios contra os partidários dos Imames, e as perseguições contra os mesmos aumentavam a cada dia, enquanto que os chefes que eram contrários ao califado continuaram a liderar os levantes e as revoluções contra o Governo Abássida, porque, tanto os Omíadas como os Abássidas eram usurpadores no califado, e eram tiranos e perversos nos seus procedimentos contra a população, totalmente contrários aos preceitos islâmicos. Entre os rebeldes defendia-se a ideia que os verdadeiros sucessores (califas) seriam na verdade, os descendentes da “gente da Casa” que é a Linhagem do Profeta Mohammad (S.A.A.S.), representados pelos Imames purificados.

Quando Al-Mamun chegou ao poder, decidiu mudar a sua política, por aperceber-se de que já estavam em perigo a paz e a tranquilidade nos países islâmicos. Astuciosamente, começou a traçar novos planos a fim de conquistar a confiança e a simpatia do povo, principalmente a dos rebeldes, trocando a política da perversão e das condenações a morte, praticada durante setenta anos por seus ancestrais, os califas, sem resultado algum, por outra política astuciosa, nomeando o Imam “Al-Rida” (A.S.) como seu sucessor no califado, pois tendo-o ao seu lado e afastando o encanto e a inquietação de seu governo, poderia assim acalmar as insatisfações e revoltas da população islâmica, e por outro lado, aprisionaria o Imam “Al-Rida” (A.S.) em uma ‘gaiola de ouro’, isto é, não numa fétida prisão, mas no Palácio, onde ele poderia ser observado sutilmente em todos os seus passos.

Quando o califa Abássida Al-Mamun propôs ao Imam (A.S.) ficar ao seu lado, este se recusou terminantemente, pois sabia que não teria liberdade e teria de pedir a permissão do Al-Mamun para cada passo seu por mais curto que fosse. Diante da recusa, Al-Mamun lhe falou com severidade: “Com a tua recusa, tu me obrigas àquilo que detesto e tu ultrajaste a minha autoridade… Pois juro por Deus! Ou aceites a sucessão no califado ou te obrigarei a isto, caso contrário, se recusardes, decapitarei a tua cabeça”. O Imam (A.S.), não teve outra opção, aceitando o califado contra a sua vontade, pois sabia que com isto perderia a própria paz e o povo o desprezaria ao vê-lo se aliar ao Abássidas excedentes na opressão e na perversidade, enquanto que ele não poderia fazer nada para impedi-los ou modificá-los. Enfim, o Imam (A.S.) se encontrava de mãos atadas diante da situação.

Assim sendo, por causa desta sucessão, o califa Al-Mamun mandou o Imam “Al-Rida” (A.S.) para Khorassan, ao norte do Irã, que era a capital do Califado. Lá estando, o Imam passou a sentir o gosto da solidão no exílio, longe dos parentes e de sua família, separado do povo. O califa Al-Mamun procedeu propositadamente ao confinar o Imam (A.S.) em seu Palácio, onde os olhares o observavam e os serviçais o espionavam. A vida do Imam “Al-Rida” (A.S.) tornou-se insuportavelmente controlada e fiscalizada.

O PLANO DE AL-MAMUN COM A SUCESSÃO:

Houve vários motivos que levaram o Califa Al-Mamun a agir assim, eis que mencionaremos a seguir:

Quis cobrir o seu califado com a vestidura legal, pois os próprios Abássidas olhavam para o seu governo com a dúvida e a desconfiança, principalmente após o assassinato de seu irmão Al-Amin; daí, quis o Al-Mamun acrescentar ao seu mandato o que chamaríamos de “santidade” e “fé” no conceito dos outros, e, por outro lado, pretendeu atrair para si os rebeldes e os muçulmanos em geral.

Al-Mamun tentou plantar a semente da desconfiança e da dúvida sobre o ministério do imamato, e dessa forma se aproximava do sistema dos governantes Abássidas, cheio de contradições, espalhando cinzas nos olhos ao nomear como seu sucessor, o Imam “Al-Rida” (A.S.), e inclusive isolando seu próprio irmão Al-Mutamen. Após a nomeação, determinou o que segue: casou o Imam “Al-Rida” com sua filha Umm Habiba; substituiu a insígnia da vestimenta negra dos Abássidas como cor oficial da corte, pela cor verde dos xiitas; ordenou os Abássidas, colaboradores e oficiais da corte, a patentear a sucessão ao califado do Imam “Al-Rida”; e cunhou moedas com o nome do Imam “Al-Rida”.

Al-Mamun quis com essa sucessão épica fazer com que o Imam (A.S.) permanecesse ao seu lado e controlar suas ações, a fim de afastá-lo dos preceitos do xiismo e do resto do povo; e assim o Imam “Al-Rida” (A.S.) passou a viver sob a espionagem permanente no Palácio de Al-Mamun, vivendo o exílio no sufoco da saudade de sua gente e de seus adeptos.

A MORTE DO IMAM “AL-RIDA”:

Mencionamos de forma breve os motivos que levaram Al-Mamun a nomear o Imam “Al-Rida” (A.S.) como seu sucessor ao califado e esclarecemos que a causa para tal era a pretensão de afastar o ponto de vista negativo que pairava sobre ele, incluindo a inquietação política que as províncias sofriam, e por fim, mostramos que o Imam “Al-Rida” (A.S.) estava bem ciente das intenções de Al-Mamun e seus projetos.

Al-Mamun temia a inteligência do Imam considerando-o de suma importância e influência junto ao povo e personalidades de gabarito. Diante deste fato, Al-Mamun se empenhou em se livrar dele, assassinando-o pelo envenenamento fatal e fulminante, administrado em sua comida. Estrategicamente, Al-Mamun omitiu o fato, escondendo o corpo por um dia e uma noite, e depois, mandou chamar o tio e o pessoal dos Abi Táleb, a fim de notificá-los da morte repentina e “natural” do Imam “Al-Rida”, entregando-lhes os restos mortais do ente querido.

Entretanto, os historiadores relatam de que o povo se aglomerou ao redor do Palácio em que se encontrava o Imam, surgindo boatos de que foi o próprio califa Al-Mamun que mandara matar o Imam “Al-Rida” (A.S.). Temeroso, Al-Mamun pediu ao tio do Imam que anunciasse o féretro. Feito isto, as pessoas se afastaram, e, durante a noite escura, o Imam “Al-Rida” (A.S.) foi sepultado ao lado do sepulcro de Haroun Al-Rachid, no ano 203 da Hijra correspondente ao ano de 818 d.C, morrendo aos 55 anos de idade, pelo calendário lunar da Hijra, na cidade de Tuss em Khorassan.

Atualmente seu sepulcro é uma das maiores sepulturas sagradas do mundo, e é onde há um museu do Alcorão Sagrado e outro do Imam “Al-Rida”, onde se encontram pertences pessoais que ele usava em vida, inclusive as moedas cunhadas em seu nome.

Certa vez, o Mensageiro de Deus (S.A.A.S.) falou: “Será enterrado um pedaço de mim em Khorassan, onde cada visitante será recompensado por Deus com o Paraíso e livrará seu corpo do fogo”.

Outra frase do Profeta (S.A.A.S.) sobre o Imam “Al-Rida”: “Aquele que me visitou longe do meu lar, eu virei a ele no Dia do Juízo Final em três atribuições a fim de livrá-lo de seus horrores, nem que os livros tenham se espalhado pela direita ou pela esquerda, nos caminhos e nas qualificações”.

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Fonte:

https://www.arresala.org.br/profeta-mohammad-s-a-a-s/8-imam-ali-ibn-mussa-a-s

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/ali-al-rida/

Ali al-Hádi

O Imam Ali Ibn Mohammad era chamado de “Al-Hádi”, isto é, “O Orientador”. Ali al-Hádi foi o décimo Imam do Xiismo dos Doze Imans.

Ele nasceu na pequena aldeia de Sarba, que se localizava a 5 Km e meio da cidade de Medina, no ano de 829 d.C (214 da Hijra), e se desenvolveu sob os cuidados de seu pai por sete anos, sobrevivendo-lhe por mais trinta e três anos e alguns meses. Seu pai foi o Imam Mohammad “Al-Jauád” (A.S.). E sua mãe foi Sammaná, a maghrebita, uma senhora de prestigio e virtudes intocáveis, e de uma fé inabalável.

SEUS FILHOS:

O Imam “Al-Hádi”(A.S.) teve quatro filhos e uma filha: Al-Hassan “Al-Ascari”, Al-Hussein, Mohammad, Jaafar e Àlia.

SEU MINISTÉRIO:

O Imam Ali “Al-Hádi” tomou posse de seu ministério no imamato após a morte de seu pai o Imam Mohammad “Al-Jauád” (A.S.), em 220 da Hijra. Tinha ele na ocasião seis anos e alguns meses de idade, praticando a sua liderança apesar de pouca idade, tal como o fez seu pai anteriormente. E esta pura e extraordinária circunstância esclarece e comprova a continuidade dos Imames pela vontade de Deus Supremo, prolongando-se esta sua liderança por trinta e três anos, passando por sete governantes Abássidas, os quais são: Al-Mamun e seu irmão Al-Mutassem (Al-Uátiq Ibn Al-Mutassem, Al-Mutauaquel Ibn Al-Mutassem, Al-Muntasser Ibn Mutauaquel, Al-Mustaín primo de Al-Muntasser e por último Al-Muutazz Ibn Al-Mutauaquel.

SUA BIOGRAFIA E GENEROSIDADE:

Os Imames da Linhagem do Profeta (S.A.A.S.) eram privilegiados pelo especial compromisso com Deus Supremo e com o mundo do desconhecido, por causa da categoria da infalibilidade e do imamato que conquistaram pelo favorecimento de Deus; e a eles se conectam os milagres e a generosidade, os quais apoiam seus preceitos em Deus unicamente, que os fez Imames e líderes para guiarem a sociedade aos caminhos da virtude e da perfeição, e por intermédio deles, em algumas ocasiões, deu-se provas que levaram à serenidade da alma, por terem sido os Imames da justiça prediletos por Deus para a propagação de Sua Mensagem. E tais predicados unidos à generosidade e nobreza de caráter encontramos sem dúvida no Imam “Al-Hádi”,

A própria história confirma os acontecimentos milagrosos generosos ocorridos pelas mãos do Imam “Al-Hádi”, os quais citaremos a seguir:

SUBMISSÃO DAS FERAS AO IMAM “AL-HÁDI”:

A história menciona que, certa vez, o califa Abássida, Al-Mutauaquel, foi favorecido com três leões magníficos e ferozes. Um dia, mandou colocá-los no pátio do Palácio e ordenou que fechassem o Imam “Al-Hádi” nele juntamente com os leões esfomeados. Feito isto, as três feras começaram a rodeá-los até que finalmente sentaram-se e estenderam a suas patas dianteiras, como se quisessem se colocar em posição de obediência enquanto que o Imam (A.S.) as acariciava. Pouco depois, foi levado a presença de Al-Mutauaquel e começaram a dialogar por cerca de uma hora, retornando depois ao pátio em companhia dos leões, que procederam da mesma forma como tinham feito anteriormente. Quando o Imam “Al-Hádi” (A.S.) foi liberado e saiu do palácio, vieram os assessores do Califa e lhe falaram: “O vosso primo (aludindo ao Imam) procedeu com os leões tal qual como Vossa Majestade observaste. Então, que tal fazeres o mesmo?!”. Irritado o Governante exclamou: “Ora, vós quereis o meu fim?!”. Depois ordenou-os a calarem sobre o fato e jamais o mencionaram ou deixaram ventilar o que aconteceu.

SEU CONHECIMENTO SOBRE QUESTÕES SECRETAS:

Um dos amigos do Imam “Al-Hádi” (A.S.), chamado Abu Háchem Al-Jaafari, contou o seguinte: “Certa vez estive com muita dificuldade financeira quando por fim, me vi obrigado em recorrer ao Imam. Ao me receber em seu gabinete, me fez sentar diante dele, iniciando ele próprio o assunto, indiretamente alusivo àquilo que me levou a sua presença dizendo: “Ó Abu Háchem, diga-se, a qual das graças que te empenharias em agradecer?”. Encabulado e confundido, nada lhe respondi. Diante do meu silêncio, o Imam tornou a falar-me: “Sabei ó Abu Háchem que a benção é pela vossa fé, portanto, precavenha o vosso corpo contra o fogo. Vossa benção é a saúde, e isto o auxiliará na obediência. Vossa benção é o contentamento, que vos protegerá do desperdício; se iniciei a conversa, ó Abu Háchem, é porque percebi que desejas queixar-te a mim. Por isso, já dei ordem de vos entregar 100 dinares. Pegue-os e atenda a vossa necessidade”.”

A REVERÊNCIA DO IMAM E SUA GRANDEZA:

Mohammad Ibn Al-Hassan Al-Achtar, contou o seguinte: “Certa vez, quando eu era menino, estive em companhia de meu pai juntamente com outras pessoas a espera, na porta do Al-Mutauaquel, quando surgiu o Imam “Al-Hádi” ainda rapaz. Imediatamente, as pessoas começaram a se inclinar para reverenciá-lo, apesar de, enquanto esperávamos comentavam entre si: “Daqui a pouco virá o Imam “Al-Hádi”, e a troco do que iremos reverenciar este rapaz, afinal, ele não é mais importante do que nós, nem mais velho do que nós e tampouco mais honrado do que nós… Pois juro que não lhe reverenciaremos: Mas um dos presentes (que era amigo do Imam) retorquiu: “Por Deus é que ireis reverenciá-lo só de vê-lo!”. Nem acabou de falar, e, chegando o Imam (A.S.), todos o reverenciaram com respeito e dignidade. Nisso, Abu Háchem lhes disse: “Vós não decidistes em não reverenciá-lo?” E eles lhe responderam: “Nós não nos controlamos para tal ao vê-lo, portanto, o reverenciamos pela sua venerabilidade e grandeza!”.

FALOU EM TURCO:

Certa vez, Abu Háchem Al-Jaafari relatou o seguinte: “Estive um dia na cidade de Medina, em companhia do Imam “Al-Hádi” quando passou por nós um homem. De repente, vi o Imam conversar com ele no idioma turco, instantes depois, o cavaleiro desceu cavalo e começou a beijar as patas do cavalo do Imam. Surpreendido, insisti com o turco: “Afinal, o que o Imam vos falou para que agisse desta forma?”. O turco me respondeu com outra pergunta: “Acaso, este homem é um Profeta?”, e eu lhe respondi: “Não… não é um Profeta, porém, é um dos recomendados do Profeta Mohammad (S.A.A.S.)… Por que me perguntas isto?”. Perplexo, o turco me disse: “Porque o Imam me chamou por um nome que só me chamavam assim quando eu era criança, na Turquia somente, e até hoje, ninguém soube deste fato!”.”

PALAVRAS DO IMAM “AL-HÁDI”:

“Aquele que não se valoriza, não se deve fiar em seu mal”.

“Aquele que se conformou e se acomodou, aumentou sobre si os problemas”.

“A desgraça do paciente é uma só e do temeroso são duas”.

“O melhor do benefício é seu benfeitor. A preferência do conhecimento é seu portador. O pior dos males é seu transmissor. O mais temível que o terror é seu praticante”.

“Deus fez o mundo ser a morada da aflição; e da eternidade a morada final. Fez da aflição do mundo, o resultado da recompensa à eternidade; e a recompensa com a eternidade, é o resultado da aflição do mundo”.

“O mundo é um mercado: nele há os que lucram e os que perdem”.

“Aquele que reuniu para vós o seu afeto e o seu parecer, reúna para ele a vossa obediência”.

“O grato é mais benquisto do que aquele que concedeu o favor, porque os favores são a felicidade, e o agradecimento é a graça e a eternidade”.

“Não espere sinceridade de quem aborreceste, nem lealdade a quem traíste e nem conselhos de quem perdeste nele a confiança, pois o coração dos outros é semelhante ao teu coração”.

“Quem teme Deus é temido; quem obedece Deus é obedecido, pois quem obedece o Criador não alcança a ira das criaturas humanas”.

“A fé é o que veneram os corações e confirmam as ações; e o Islam é o que a boca divulga e nele se permitem as uniões”.

“O cinismo é o gracejo dos insolentes e procedimento dos ignorantes”.

A SITUAÇÃO POLÍTICA QUE O IMAM PRESENCIOU:

Aqueles que acompanharam a vida dos que foram da Linhagem do Profeta (A.S.), verificaram que sua existência terrena era de conhecimento, de boas ações e de exortação à fé em Deus Supremo e em Seu Livro, como também, no preceito de Seu Mensageiro (S.A.A.S.) bem como, a divulgação dos princípios do Islam na sociedade. E suas vidas eram de lutas e empenhos em prol da justiça e da verdade, afrontando e contrariando com coragem a opressão e os opressores, e que, por causa de sua oposição contra os maus governantes, os Imames se expuseram aos piores suplícios e ofensas… e a vida do Imam “Al-Hádi” (A.S.) não foi diferente. Ele também foi alvo da pior das tiranias dos governantes Abássidas, que o queriam afastado da prática de suas atividades no empenho de sua liderança sobre a nação islâmica.

Durante o período de 835 a 869 d.C., ou melhor, desde o califado de Al-Mutassem, começaram os sintomas da decadência da dinastia Abássida, devido a insegurança generalizada, rebeliões e movimentos separatistas, corrupção administrativa, etc… Caracterizando a desintegração política do califado, principalmente com o domínio dos turcos e impotência moral dos governantes, os quais eram Califas no título somente e não na ação e autoridade. Tanto é que certo Sheikh disse ao Califa Al-Muutassem, quando ele saía em dia de festejos numa procissão ornamentada com os seus servos e sua comitiva: “Que Deus não vos recompense com boa vizinhança e júbilo, pois vieste com aqueles desprezíveis mercenários turcos e os fizeste habitarem entre nós, e provocaste a orfandade de nossas crianças e enviuvaste as nossas mulheres e mataste nossos homens!”. Ao ouvir o que o sheikh acabara de praguejar, Al-Muutassem decidiu transferir a sede do Governo para Samarra.

Em certa ocasião, veio Al-Mutassem conversar com um dos seus assessores, o qual lhe falou a respeito do califado: “Majestade, para que vos preocupaste com o califado e seus problemas? Fique com o título sem exceder em vossas ordens e permissões e deixe a questão por nossa conta”. Desde então e, a sombra daquela situação, a comitiva e os ministros dominaram a Casa da Moeda, extorquindo as heranças e desperdiçando altos valores nas casas de diversões e deleites oferecendo altas somas aos poetas aduladores que enalteciam o Califa e rebaixavam a memória dos membros da Linhagem do Profeta (S.A.A.S.).

A opressão se estendeu e a justiça se perdeu, e acabaram as vozes que contradiziam a opinião do Estado, enquanto que Al-Mutassem pouco se importava com os santuários, com o povo e com sangue derramado. Conta a história que quando o sábio Ahmed Ibn Hanbal, contrariou Al-Mutassem em seu parecer e opinião, este mandou chicoteá-lo até que o sábio desfaleceu, e depois, ordenou algemá-lo e jogá-lo na imunda prisão.

Foi sob a sombra de tais ocasiões e acontecimentos que o Imam “Al-Hádi” (A.S.) praticava a sua liderança junto a nação islâmica na difusão da vigilância, da atenção e do conhecimento a fim de proteger a autenticidade do pensamento islâmico e seu verdadeiro caminho, reivindicando o direito e a justiça junto as autoridades, enfrentando toda espécie de pressões e dificuldades.

E assim, os Abássidas continuaram neste sistema, vindo substituir Al-Mutassem, seu filho Al-Uátiq, o qual não era melhor que seu pai, exceto que fora menos violento contra os da Linhagem do Profeta e seus seguidores, pois não se registrou que ele tenha mandado executar algum deles; pelo contrário, procurava manter a harmonia com eles e os demais, perdurando seu califado por seis anos aproximadamente (842 a 847 d.C.), e durante este período o Imam “Al-Hádi” (A.S.) era domiciliado, na cidade de Medina, dedicando-se ao conhecimento, orientando e alertando o seu povo.

O IMAM ALI “AL-HÁDI” NO TEMPO DO AL-MUTAUAQUEL:

Al-Mutauaquel sucedeu seu irmão Al-Uátiq em 232 da Hijra (847 d.C.), porém, era extremamente bruto e violento para com os da Linhagem do Profeta e seus seguidores. Este califa era movido por uma forte hostilidade contra o Imam Ali “Al-Hádi” (A.S.), e costumava exercer a tentativa de deturpar a sua reputação entre os muçulmanos, mencionando-o durante as suas reuniões a fim de fazer rir os presentes, escarnecendo o Imam (A.S.), chegando a insultar a memória de Fátima “Azzahra” filha do Profeta. Al-Mutauaquel decretou sítio econômico contra os seguidores da Linhagem do Profeta, proibindo que qualquer pessoa os auxiliassem, principalmente aos descendentes do Imam Ali Ibn Abi Táleb (A.S.); e as mulheres passaram a fazer trabalhos manuais para que pudessem dar sustento aos seus. A situação deles chegou ao auge das dificuldades, tanto é que as mulheres não mais possuíam mais as vestimentas adequadas para as orações, exceto indumentárias já em farrapos, tal era o ódio do Al-Mutauaquel contra os descendentes de Ali Ibn Abi Táleb, que chegou a nomear autoridades especiais em Medina para que se apertasse ao máximo o cerco contra os Ahlul Bait e contra os que os ajudavam, chegando a declarar condenação à pena de morte a quem amasse Ali e seus descendentes.

O Imam Ali “Al-Hádi” realizou uma transferência forçada da cidade de Medina para Samarra no Iraque, a capital do Califado Abássida, ocorreu no ano de 243 da Hijra (858 d.C.), tinha ele então 29 anos de idade, onde passou a ser espionado e observado com maior severidade. O Al-Mutauaquel chegou a realizar uma tentativa de substituir o Imam Ali “Al-Hádi” (A.S.) com a eleição de uma liderança fictícia, nomeando como líder espiritual o próprio irmão do Imam, cujo nome era Mussa, porém, a tentativa acabou malograda, porque o povo estava ciente de que o Imam determinado pela vontade Divina era Ali “Al-Hádi” (A.S.). Vendo-se burlado, Al-Mutauaquel apertou mais o sítio ao redor do Imam e, vez ou outra costumava mandar seus oficiais invadirem a sua casa durante a noite no intuito de levar o Imam ao Palácio para interrogatórios, alegando que estavam efetuando busca de armas e tesouros ilícitos na casa dele, porém, só encontravam o Alcorão Sagrado e livros sobre o conhecimento. E assim, o Imam “Al-Hádi” (A.S.) passou pelos mesmos sofrimentos que seus ancestrais experimentaram por parte dos governantes Abássidas.

A MORTE E SACRIFÍCIO DO IMAM ALI “AL-HÁDI”:

O Imam Ali Ibn Mohammad, que era mais conhecido como Ali “Al-Hádi”, viveu por quarenta e um anos, dedicados ao serviço da doutrina e do conhecimento dos preceitos do Islam, deparando-se com toda sorte de infortúnios e terrorismo psicológico por parte dos califas Abássidas e seus assessores, que o fizeram sair da cidade de seus avós obrigando-o a viver em Samarra, a fim de ser controlado e observado de perto, permanecendo nela por quase onze longos anos, até que a morte veio buscá-lo em 254 da Hijra (870 d.C.).

O Imam Ali “Al-Hádi” (A.S.) foi enterrado em sua residência na cidade de Samarra, durante o califado de Al-Muutazz.

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Fonte:

https://www.arresala.org.br/profeta-mohammad-s-a-a-s/10-imam-ali-ibn-mohammad-a-s

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/ali-al-hadi/

Aleister Crowley

1875 – 1947
“Faça o que quiseres pois é tudo da Lei.
O amor é a lei, amor sob a vontade.”

Edward Alexander (Aleister) Crowley nasceu dia 12 de Outubro de 1875, em Leamington Spa, Inglaterra. Seus pais eram membros do Plymouth Brethren, uma seita cristã muito estrita. Como resultado, Aleister cresceu com uma educação cristã muito forte, assim como um desdém muito forte pelo cristianismo.

Ele atendeu ao colégio de Trinity na Universidade de Cambridge, abandonando os estudos pouco antes de se formar. Pouco tempo depois ele foi apresentado a George Cecil Jones, que era membro da Ordem Hermética do Amanhecer Dourado (Hermetic Order of the Goldew Dawn). A Golden Dawn era uma sociedade oculta liderada por S. L. MacGregor Mathers, que ensinava magia (magick), cabala (qabalah), alquimia, taro, astrologia e outras matérias de interesse hermético. A ordem possuía muitos membros notáveis (entre eles A. E. Waite, Dion Fortune e W. B. Yeats), e sua influência no desenvolvimento do ocultismo ocidental moderno foi profunda.

Crowley foi iniciado na Golden Dawn em 1898, e iniciou muito rapidamente sua escalada através dos níveis de desenvolvimento. Mas em 1900 a ordem foi desmembrada pela separação dos membros em grupos que possuiam filosofias divergentes, e Crowley então abandonou a Inglaterra para viajar extensivamente através do Leste. Foi então, nessas viagens, que ele aprendeu e praticou disciplinas mentais de Yoga, suplementando seus conhecimentos de magia ritual de estilo ocidental, com métodos de misticismo Oriental.

Em 1903, Crowley se casou com Rose Kelly e então seguiu para o Egito para a lua-de-mel. Ao retornar ao Cairo, em meados de 1904, Rose (que até esse ponto não havia demonstrado nenhum interesse ou familiaridade com o oculto) passou a experienciar estados de transe e a dizer ao marido que o deus Horus estava tentando entrar em contato com ele. Finalmente Crowley levou Rose ao Museu Boulak e pediu a ela para mostrar a ele a imagem de Horus. Ela passou por inúmeras imagens conhecidas de do deus e levou Aleister diretamente a um tablete funerário de madeira da 26a dinastia, mostrando Horus recebendo o sacrifício dos mortos, de um sacerdote chamado Ankh-f-n-khonsu. Crowley ficou especialmente impressionado pelo fato dessa peça ter sido marcada pelo museu pelo número 666, um número com o qual ele se identificava desde a infância.

O resultado foi que ele começou a ouvir Rose, e, seguindo suas instruções, nos três dias consecutivos, a partir de 8 de Abril de 1904, ele entrou em seu estúdio e escreveu o que lhe foi ditado por uma presença envolta em sombras que permanecia atrás dele. O resultado foram os três capítulos conhecidos como Liber AL vel Legis, ou O Livro da Lei. Esse livro foi o mensageiro do despertar da nova era de Horus, que seria governada pela Lei de Thelema. “Thelema” é a palavra grega que significa “vontade”, e a Lei de Thelema é comumente citada como: “Faça o que for da sua vontade”. Como profeta desta nova era Crowley passou o resto de sua vida desenvolvendo e estabelecendo a filosofia Thelêmica.

Em 1906 Crowley reencontrou George Cecil Jones na Inglaterra, onde juntos iniciaram a tarefa de criar uma ordem mágica para continuar de onde a Golden Dawn havia parado. Eles chamaram essa ordem de A.’. A.’. (Astron Argon ou Astrum Argentium ou Estrela de Prata), e ela se tornou o principal veículo de transmissão do sistema de treinamento mágico baseado nos princípios do Thelema de Crowley.

Então em 1910 Crowley foi contatado por Theodore Reuss, o líder de uma organização de base na Alemanha chamada Ordo Templi Orientis (O.T.O.). Esse grupo, composto de maçons dos altos níveis, clamava ser o descobridor do segredo supremo da magia prática, que era ensinado em seu mais alto grau. Aparentemente Crowley concordou, se tornando membro da O.T.O. e eventualmente tomando o lugar como líder quando Reuss morreu em 1921. Crowley reformulou os rituais da O.T.O. para adaptá-los à Lei do Thelema, e investiu à organização o propósito maior de estabelecer o Thelema no mundo. A ordem se tornou independente da Maçonaria (apesar de terem sido mantidos os mesmos padrões) e permitiu a associação de mulheres e homens que não estivessem ligados à Maçonaria.

Aleister Crowley morreu em Hastings, Inglaterra, no dia 1 de Dezembro de 1947. Mas seu legado ainda vive na Lei do Thelema trazida por ele à humanidade (juntamente com dúzias de livros e escrituras em magia e outros assuntos místicos), e nas ordens A.’. A.’. e O.T.O. que continuam a seguir e desenvolver os princípios do Thelema até os dias de hoje.

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/aleister-crowley/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/aleister-crowley/

Aldous Huxley

por Marco Scott Teixeira

Na cidade inglesa de Goldaming (Surrey, Inglaterra), onde nasce a 26 de julho de 1894, Aldous Leonard Huxley passa uma infância de menino tímido.

Quando começa a cursar o colégio de Hillside, revela-se um aluno inteligente e esforçado, que escreve poesias entre uma aula e outra e aproveita o recreio para decorar seu papel numa peça de Sheakspeare, tradicionalmente encenada no fim do ano letivo. Com treze anos, obtém seu primeiro “sucesso literário”. A publicação de seu poema “Cavalos do Mar” na revista da escola.

Em 1910, ingressa no colégio de Eton, reservado às crianças de famílias ricas. E Aldous tem razões para se orgulhar de seus parentes: o avô paterno, Thomas Huxley, fora médico e zoólogo de renome; o irmão mais velho, Julian, iniciava brilhante carreira de biólogo.

Também Aldous demonstra este interesse familiar pelas ciências naturais: quando sua cegueira começa a se manifestar, ele está olhando através de um microscópio (1910). A doença progride até que ele só possa ver sombras indistintas, mas desaparece ao fim de oito meses. (A desagradável experiência seria descrita em A Arte de Ver, publicada em 1943.) Em 1914, quando o trauma causado pela doença já está superado, Aldous recebe novo e profundo abalo: seu irmão Trev suicida-se.

Tudo isso faria do menino solitário um homem precocemente amadurecido, cuja obra refletiria a amargura e o pessimismo irônico e resignado de seu caráter.

Mas essa sofrida maturidade não impede que, aos 25 anos, Aldous seja um noivo nervoso e embaraçado. Em 1919, casa-se com Maria Nys, quatro anos depois de ter se formado em letras pela Universidade de Oxford. E a vida de casado viria a ampliar a atividade literária que começara em 1916, quando ele publicara versos na revista Wheels, editada pela poetisa Edith Sitwell (1887-1964), e que continuara em 1919, quando passara a colaborar no Athenaeum, revista dirigida pelo crítico John Middleton Murry.

Fugindo da agitação das grandes cidades, o casal aluga um chalé retirado, na Suíça, onde ele passa a maior parte do tempo escrevendo. Maria datilografa os manuscritos (Aldous jamais se habituaria à “diabólica” máquina de escrever) e, mais que esposa e secretaria, é um estímulo à produção do marido. Faz o impossível para que ele escreva romances e ensaios sem se deixar vencer pela insegurança e pela severidade do julgamento que dispensava a seus textos. Sua coluna de crítica dramática da Westminster Gazette, por exemplo, é quase uma consagração, mas ele tem a sensação de estar enganando o público. Maria consegue vencer esses anseios injustificados e leva Aldous a escrever dia e noite. Só interrompem o trabalho para breves passeios pela floresta ou viagens ocasionais à Itália (país que fascina o escritor e ambiente de muitos dos seus romances) Surgem o Limbo (1920), Crome Yellow (Amarelo Brilhante, 1921) e Essas Folhas Murchas (1925).

De 1928 é Contraponto, romance incomum, saudado e criticado no mundo literário da época, em que faz uma ousada elaboração formal ao construir um romance dentro de um romance e adaptar a estrutura na “Suíte Número 2 em Si Menor” de Bach à narrativa em palavras. Nele, Aldous denuncia o que acredita ser a impossibilidade do amor, da comunicação e da arte na sociedade excessivamente racionalizada, cheio de sofisticação e materializada da Inglaterra de entre-guerras. A intelectualidade britânica é mordaz e implacavelmente dissecada – Huxley está se colocando ao lado de James Joyce, Virgínia Woolf e D. H. Lawrance, inovadores que recusam criticamente a sociedade em que vivem. O misticismo e a angústia intelectual do pós-guerra estão sendo substituídos pela reação desesperada a um mundo cada vez mais tecnicista e impessoal, e Aldous, fustigando as injustiças e a hipocrisia, anseia pela volta do homem aos princípios básicos da sua natureza.

Admirável Mundo Novo, de 1932, é uma utopia na qual a fé no progresso científico e materialista é cruelmente ridicularizada: Aldous descreve em minúcias uma sociedade que resolveu o problema do excesso de população esmagando racionalmente qualquer individualidade. Outro ponto importante é o consumo. No livro, tudo gira em torno da questão do consumo, como hoje, onde vivemos atrás de marcas e etiquetas. O livro é muito bem aceito – talvez por alertar os leitores para um possível estado da sociedade futura, e se manteve conhecido através de sete décadas provavelmente por seu tom panfletário e porque quase todo mundo pode enxergar nele sustentação para suas próprias crenças. Foi saudado do na época por André Maurois como um “prognóstico pessimista, uma terrificante distopia”. No minha concepção é um extraordinário romance, que deixa marcas indeléveis mesmo no leitor mais insensível. É, respeitado o ano de publicação, a mais trágica, profética e aterradora visão do mundo, de uma civilização escravizada pela máquina e dominada pela tecnologia. Uma sociedade onde as crianças são geradas em laboratórios e especialmente treinadas para desempenhar funções pré-determinadas no meio social programado. Um mundo em que foi abolida a família e onde não há lugar para os sentimentos e para o amor. Ainda em 1932, Aldous edita a Correspondência de Lawrance. Dois anos depois, viaja para a América Central.

Em seus romances seguintes ele demonstra crescente preocupação com os grandes problemas morais e religiosos.

Sem Olhos em Gaza, de 1936, em que o relato da história salta no tempo em vez de obedecer à cronologia tradicional – recurso pouco utilizado na época e que se destaca pela criatividade ou qualidade do conteúdo, deixa clara a influência do budismo e do misticismo oriental. A bagagem cultural de Huxley impressiona. Em um determinado trecho, por exemplo, cita, com desenvoltura e pertinência, Pavlov, David Hume e o Marquês de Sade.

A narrativa em si pode não ser encontrada nas entrelinhas do livro, no entanto o enredo fez com que os intelectuais conservadores da época entrassem em polvorosa.

Se Huxley com sua alucinada lucidez utilizou a sensibilidade para prever acontecimentos, aí já é outra coisa… Lançada antes da Segunda Guerra Mundial, o fato é que a publicação trouxe idéias e visões que mais uma vez fariam os leitores refletir acerca da sociedade em que viviam.

A epígrafe de abertura é um verso da obra Samson Agonistes, do poeta inglês John Milton, cuja cegueira não era empecilho para captar o universo e transcrevê-lo como sentia, consagrando-se como uma dos maiores escritores já existentes.

Aliás, “Sem Olhos em Gaza” pode ser considerado um estudo sobre a cegueira humana que permeava as altas camadas da sociedade nas primeiras décadas do século XX. E metáforas com os olhos são bastante comuns em toda sua obra, fato que encontra justificativa biográfica.

Em 1937, Aldous transfere-se para Los Angeles, com sua mulher. Os americanos conhecem então um escritor para o qual o bem e o mal não existem em si mesmos: a vida é composta por ambos. A ninguém cabe julgar radical e definitivamente coisa alguma. Assim, seu romance já não procura mais destruir para melhorar: contenta-se em contemplar os homens, fixando sua realidade. É o espírito que transparece em Fins e Meios (1937).

Nos Estados Unidos, o trabalho continua intenso: Também o Cisne Morre (1939), sobre o tema da morte e da imortalidade. O público não identificou que o inspirador do enredo é o mesmo que levou Orson Welles a realizar o filme “Cidadão Kane”, ou seja: William Randolph Hearst, o legendário empresário, jornalista e político da Califórnia, ícone permanente da cultura de massa; Eminência Parda (1941), biografia do padre Joseph (confessor e conselheiro de Richilieu), onde se revela também a preocupação entre bem e mal; A Arte de Ver; O Tempo Precisa Parar (1944) e a Filosofia Perene (1946) são os principais livros do período, acompanhados de dezenas de ensaios literários e filosóficos.

Em 1948, Aldous recebe Laura Archera em sua casa em Wrigwood, perto de Los Angeles. Ela deseja fazer um filme, e espera contar com a ajuda do escritor, familiarizado com os meios cinematográficos. Mas Laura é italiana, e acabam falando muito mais de seu país do que a respeito de tal filme. Torna-se amiga dos Huxley e passam muito tempo juntos.

Os três se encontrariam pela última vez na Itália, em 1954. Foram dias agradáveis, mas poucos: o casal logo volta aos Estados Unidos, e Maria morre no ano seguinte. Quando recebe o telegrama de Aldous, Laura intui, antes de lê-lo, que seu amigo está agora mais sozinho que nunca. Precisa de sua companhia. Faz as vezes, durante um ano, da secretária e da companheira estimulante que Aldous perdera. E, em março de 1956, passa a substituir também a esposa, após um casamento repentino e informal.

Huxley continua sendo um homem de intensa atividade intelectual: além de sua enorme produção literária, encontra tempo para ler de tudo, desde os grandes autores da época até a Enciclopédia Britânica, que sabia quase de cor, passando pelas revistas mais extravagantes. Numa delas, lida em 1952, um artigo chamou particularmente sua atenção. Era o trabalho de um certo Dr. Osmond acerca de alguns cactos e cogumelos que produzem visões semelhantes às do êxtase religioso. Não se restringindo à teoria, Aldous entra em contato com o médico e faz experiências – com a atitude objetiva de um cientista – com mescalina e ácido lisérgico (LSD). No ano seguinte, As Portas da Percepção relatam suas impressões a respeitos dos alucinógenos. Talvez esta obra nunca tivesse saído da obscuridade se Jim Morrison não tivesse dado este nome à sua banda. As conseqüências da droga sobre a mente humana passaram a constituir um dos temas prediletos do autor.

Huxley escreve incessantemente. No ano da morte de Maria, publicara O Gênio e a Deusa, seguido, já em 1956, de Céu e Inferno.

Em 1958, acompanhado de Laura, está no Brasil, como hóspede oficial do governo. Quer ver de tudo (as obras de Brasília, as favelas do Rio de Janeiro, os índios do Mato Grosso), mas as jornadas lhe são fatigantes, apresenta-se pálido e fraco às inúmeras entrevistas e conferências. É um câncer na garganta que começa a se manifestar.

Mesmo assim, publica, no ano seguinte, Volta ao Admirável Mundo Novo, e, em 1961, viaja à Suíça. Mas os sintomas da doença, agora, já são conclusivos: Aldous deve retornar imediatamente aos Estados Unidos, para um tratamento que – no máximo – lhe prolongará a espera. De volta a Los Angeles, escreve seu último romance, A Ilha (1962), onde volta a falar da experiência com drogas, numa mensagem de amor e de confiança na humanidade. O livro trata da tentativa da fusão cultural do Ocidente e do Oriente na busca de uma convivência pacífica entre os homens (radicalmente oposta ao ceticismo irônico de Contraponto). O romance começa com Will Farnaby, jornalista que encontra-se perdido em Pala, a ilha em questão. Descoberto pelos nativos, Farnaby começa uma jornada que o levará a conclusões sobre si mesmo em relação ao novo meio em que viverá: uma nova cultura em que os valores foram estabelecidos a fim de alcançar o equilíbrio pleno da sociedade.

O Oriente como um ‘espelho’ do Ocidente. Ao invés da atitude predadora do consumo ocidental frente à mansidão oriental, o inverso acontece: o pensamento milenar tem como objetivo restaurar os resultados da inconseqüência gerada pelo avanço tecnológico.

Os habitantes da ilha seguem um livro filosófico chamado “Notas sobre o que é o quê e sobre o que seria razoável fazer a respeito disso”, que traz os princípios básicos a serem seguidos.

Aldous Huxley foi um personagem interessante. Precursor do que hoje se chama de “intelectual público” (o que se aventura em todas as áreas da criação e da política e se torna referência constante da atenção da mídia) e um dos últimos exemplares do que antigamente se chamava “renaissance man” (pessoa de múltiplos interesses e habilidades, da música ao esporte, das ciências à literatura).

Apesar das aplicações de cobalto, o escritor não apresenta melhoras. Está praticamente mudo, não pode mais ditar (como era seu hábito). Escrever a mão lhe é penoso, mas pior seria não poder empregar em literatura seus últimos dias.

Se houve no século XX um escritor que nunca cedeu ao cansaço e ao tédio, que conservou até o fim um apaixonado interesse pela vida e pelo conhecimento, que não cessou de se elevar a patamares cada vez mais altos de compreensão, até chegar, em seus últimos dias, às portas de uma autêntica sabedoria espiritual, esse foi Aldous Huxley.

Morre em 22 de novembro de 1963. Mas, nesse dia, o mundo, abalado com o assassínio de John F. Kennedy, não fica sabendo dessa outra perda. Apesar do renome que alcançara, e de contar entre seus amigos com grandes nomes das letras e da política, o escritor não tem um enterro muito concorrido: Laura e Mathew (filho único do escritor e de Maria) enterram-no como ele vivera – com simplicidade e discrição. Depois da cerimônia, comunicam ao mundo que Aldous Leonard Huxley já não existia.

1894 – 1963

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/aldous-huxley/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/aldous-huxley/

Alberto Magno

pesquisa & texto Ligia Cabús

albertomagno.gifO Grande Alberto ou Alberto Magno nascido na Bavária ─ Alemanha em data incerta, 1193 ou 1206, é um dos nomes mais citados entre os ocultistas de diferentes épocas, do fim da Idade Média à Renascença até o Iluminismo. Ele é um santo, [santo Albertus Magnus],  beatificado em 1622, canonizado pelo papa Pio XI e honrado com o título de Doutor da Igreja em 1931. Mestre de outros doutores, São Tomás de Aquino, figura notável da escolástica, foi seu pupilo e seus livros influenciaram fortemente a formação do abade Johannes Trithemius [1462-1516, nascido Johann Heidenberg] e Cornelius Agrippa [1486-1535].

Educado em Pádua, ali conheceu o pensamento de Aristóteles e foi um dos primeiros filósofos cristãos-católicos a se empenhar na tarefa de conciliar pensamento aristotélico e doutrina cristã. Entre 1221 e 1223 Alberto teria tido um encontro místico, uma visão com a Virgem Maria. Depois disso, contrariando a vontade paterna, decidiu se dedicar à vida religiosa. Dizem que antes da visão ele era um jovem completamente estúpido. A experiência com o sobrenatural teria resultado na “iluminação mental” que tomou conta do rapaz. Caso semelhante ocorreu com o padre Vieira no Brasil, completamente bronco até sofrer o “estalo de Vieira”, uma dor de cabeça acachapante, um desmaio e um despertar de gênio.

Albertus tornou-se membro da Ordem Dominicana e como monge dominicano foi estudar teologia em Bolonha. Em Colônia, foi pregador. Em 1254 foi designado para ser provincial, o mais alto posto regional da Ordem e, em 1260, o papa Alexandre IV ordenou-o bispo de Rosensburg. Em 1263, já beirando os 70 anos, renunciou a todos os cargos e retirou-se no convento de Wuzburg, [em Colônia], onde dedicou-se aos estudos pelo resto da vida.

Embora seja uma contradição, na Europa ocidental medieval muitos dos estudiosos proeminentes das ciências ocultas pertenceram ao clero da Igreja católica, o que deu origem a uma curiosa geração de ocultistas fervorosamente cristãos cuja herança aparece claramente nas obras de mestres como abade Thritemius, Paracelso, Agrippa, Eliphas Levi, Papus.

Na chamada Alta Idade Média ou nos primeiros tempos do cristianismo medieval os mosteiros eram centros de cultura onde a erudição da obras de cientistas e artistas clássicos era preservada em meio à treva intelectual que dominava o povo e mesmo parte da nobreza do período. Os monges, muitos dos frades enclausurados, escribas das bibliotecas, tornavam-se intelectuais que transcendiam a esfera doa teologia; eram poliglotas, estudiosos de ciências comparadas, tinham acesso aos textos pagãos e adquiriam um saber enciclopédico.

Os escritos de Alberto Magno, reunidos em 1899, somaram 38 volumes sobre os mais variados temas: lógica, botânica, geografia, astronomia, astrologia, mineralogia, química, zoologia, psicologia, frenologia (estudo da relação entre a configuração do crânio e traços de caráter e personalidade) e, naturalmente, sobre teologia. Possivelmente, foi o autor mais lido de sua época. Poucos séculos depois de sua morte, em 15 de novembro de 1280, surgiram rumores de que o bispo dominicano tinha sido um mago alquimista. Afinal, entre suas numerosas obras havia tratados como Alchemy, Metals and Materials, Secrets of Chemistry, Orign of Metals, Origns of Compounds e Theatrum Chemicum, esta, uma coleção de observações sobre a Pedra Filosofal, Sobre a pedra filosofal, um segredo que teria sido a ele transmitido pelos discípulos de São Domenico [1170-1221].

Estudava astrologia; tal como muitos intelectuais de seu tempo, Alberto Magno admitia que os corpos celestes influenciam a vida dos homens determinando características físicas e comportamentais. Escreveu sobre suas teorias astrológicas em Speculum Astronomiae. Acreditava que as pedras possuem propriedades ocultas conforme relata em De mineralibus. Atribui-se a Magno a descoberta do arsênico e diz a tradição que pouco antes de morrer em 15 de novembro de 1280 ele transmitiu o segredo da pedra filosofal para o discípulo Thomas de Aquino, a quem teria revelado que testemunhara a criação de ouro por meio de um processo de transmutação.

Bispo & Mago

É curioso que o religioso e santo Albertus Magnus, respeitado estudioso escolástico do século XIII tenha sido o mestre virtual, por meio de seus escritos, de alguns dos nomes mais destacados do ocultismo ocidental. Sua influência é evidente quando se conhece um pouco dos textos, que necessitam de uma urgente reedição em português; são títulos muito raros.

Collin Wilson, em The Occult, transcreve um ensinamento atribuído a Magno: “O alquimista deve viver em solidão, afastado dos homens. Deve ser silencioso e discreto… Deve saber escolher a hora certa para suas operações, isto é, quando os corpos celestes estão propícios”. Agrippa, Paracelso, Eliphas Levi, Papus, todos esses grandes mestres recomendam a mesma postura ao pesquisador da Magia.

É notório que Alberto Magno conhecia extensivamente as propriedades ocultas das pedras preciosas para influenciar a saúde do corpo e do espírito. a ametista, propiciando concentração; a esmeralda, inspiradora da virtude, castidade, temperança, abstenção; ágata, para a saúde dos dentes e para afastar fantasmas e serpentes.

Sobre ervas, diz que a betônica (Betônica Officinalis) produz o poder da profecia e a verbena, o encantamento do amor.  O Eupatório (Eupatorium perfoliatum) é usado no tratamento de febres, em quadros de dengue, por exemplo.

Alberto Magno, com toda a sua erudição, também ensinou sobre a eficiência da magia simpática ação à distância, indireta, sobre um objeto relacionado ao objetivo desejado. Trata-se de uma crença bastante difundida e é a base da magia que trabalha com roupas e objetos de indivíduos ou bonequinhos de cera representativos de uma pessoa.

O Grande Alberto acreditava ser possível tratar a lesão de um homem operando simultaneamente sobre o objeto/arma que o feriu: a faca, a pedra com que o golpe foi desferido ou aconteceu. A machadinha com a qual o açougueiro feriu a si mesmo em um momento de descuido deve ser “medicada” com o mesmo remédio que é ministrado ao doente.

Depois, o objeto assim “magnetizado” deve ser colocado atrás da porta do quarto. Em alguns casos, quando o paciente reclamava de dor verificava-se que o objeto tinha caído.  Outros ocultistas, nos séculos seguintes à época de Magno, repetiram o ensinamento e esforçaram-se para explicar este fenômeno. Apesar de, a primeira vista, “operar objetos” ou, ainda ─ operar as/nas secreções do paciente, no sangue ─ pareça uma providência absurda, sem lógica, o fato é que a magia simpática está na origem de todas as “técnicas” de auto-cura/auto-ajuda tão disseminadas nesta pós-modernidade doentia.

Embora as autoridades eclesiásticas insistissem em negar o teor ocultista dos escritos de Albertus classificando obras alquímicas a ele atribuídas como espúrias, em 1480, The Great Chronicle of Belgium referia-se a ele como “Grande em magia, grande em filosofia, grande em teologia”. Um escritor anônimo tenta desconstruir a imagem do monge mago alegando que Albertus jamais praticou a Arte Hermética sobre a qual escreveu.

O Andróide do Grande Alberto

Consta que uma das mais fantásticas proezas de Albertus Magnus foi a invenção de um andróide. A artefato teria consumido 30 anos de estudos das ciências ocultas e, muito evidentemente, ciências exatas. Foi confeccionado com metais cuidadosamente escolhidos sob as influências planetárias adequadas. O autômato era maravilhoso: falava e tinha a sabedoria de um oráculo infalível, respondendo a qualquer questão ou problema que lhe fosse proposto. Eliphas Levi relata o fim daquele que teria sido o primeiro robô dotado de inteligência artificial de todo o mundo:

Asseguram os cronistas que ele [Alberto Magno] … conseguiu depois de trinta anos de trabalho, a solução do problema do andróide, isto é, ele fabricou um homem artificial, vivo, falante, dizendo e respondendo a todas as questões com uma precisão e sutileza tal que Santo Tomás de Aquino [discípulo de Magno], aborrecido de não poder reduzi-lo ao silêncio, o partiu com uma cajadada. [LEVI, 2004 ─ p 208]

Eliphas Levi explica que a “lenda do andróide de Alberto, o Grande” é uma metáfora para o fanatismo aristotélico do monge, escolástico do tipo que pretendia promover a filosofia aristotélica a sustentáculo da teologia cristã-católica, fonte inesgotável de respostas para tudo com suas “palavras preparadas” pela “lógica do silogismo que argumentava em vez de raciocinar”. A filosofia de Aristóteles era o “autômato filosófico”, o “Andróide” de Alberto e a “Suma Theologica… foi o bastão magistral” que destruiu a aberração
[LEVI, 2004].

Segundo Clute e Nicholls a palavra andróide apareceu na língua inglesa em 1727 para referir-se justamente as supostas tentativas do alquimista Albertus Magnus (1200-1280) de criar o homem artificial(8) (apud Oliveira, op. cit. p. 9). …De Albertus Magnus era dito que tinha trato com o próprio diabo, pois tinha confeccionado uma cabeça de cobre que era capaz de falar e responder a estímulos. Seus inimigos o acusavam também de ter fabricado um autômato capaz de falar. [BOECHAT, , 2009]

Senhor do Tempo

Embora o Andróide seja incrível, o mais assombroso prodígio realizado pelo Grande Alberto entrou para a história da Universidade Paris. O religioso ocultista tinha convidado William II, Conde de Holanda e Rei dos Romanos para um jantar, uma ceia em sua sua casa monacal, em Colônia. Estavam em pleno inverno e Albertus mandou preparar as mesas no jardim do convento.

A terra estava coberta de neve e os cortesãos que acompanhavam William murmuravam sobre a imprudência do filósofo, expondo o príncipe ao desconforto do tempo. Porém, quando tomaram seus lugares, a neve subitamente desapareceu e todos sentiram o frescor de um dia primaveril. O jardim coloriu-se de flores perfumadas que desabrocharam, nas árvores e arbustos; pássaros voavam e cantavam sob o sol. Era uma metamorfose da natureza e espetáculo tornou-se ainda mais impressionante quando, ao fim do jantar, todas as maravilhas desapareceram em um instante e o vento frio voltou a soprar castigando o jardim invernal.

Reputação Duvidosa

Apesar da fama de poderoso, há quem diga que “Magno”, no nome de Alberto não proveio, originalmente, de sua grandeza intelectual mas, antes, é um nome de família: Albert the Groot.  Para Eliphas Levi, que notoriamente não aprecia os escolásticos aristotélicos, o prestígio do monge é um folclore entre e somente entre a plebe ignara ele é considerado “o grande mestre de todos os Magos”. De sua extensa produção científica, poucos textos genuínos teriam chegados aos dias atuais e, ironicamente, suas obras mais conhecidas seriam “espúrias”. O ocultista Gerard Anacelet Vincent Encausse, o Papus, comenta os dois textos.

Os Admiráveis Segredos de Alberto, o Grande, publicado em 1791, “contém certos ensinamentos que podem ser utilizados, misturados com receitas bizarras e tradições da magia dos campos. O Grande Alberto compreende:

1º ─ Um tratado de embriologia…
2º ─  Um tratado de correspondências mágicas consagrado ao estudo das virtudes de ervas, pedras e animais, acompanhado de um quadro de influências planetárias.
3º ─  Um livro de “segredo” que se refere mais às práticas da feitiçaria que às da Magia.
4º ─  Um apêndice contendo noções fundamentais de fisionomia.

Pequeno Alberto

Segredos Maravilhosos da Magia Natural e Cabalística do Pequeno Alberto, Lion ─ 1758. O Pequeno Alberto é consagrados às tradições populares relativas à Magia. Encontram-se aí páginas inteiras inspiradas na Filosofia Oculta de Agrippa [Henry Cornelius Agrippa, 1486–1535]. São receitas ingênuas e curiosas sobre os processos empregados nos campos para inspirar e aumentar o amor… satisfação dos interesses materiais e resolução de questões de dinheiro. Relata processos mais ou menos pueris para conseguir ganhar no jogo e para a descoberta de tesouros. Este último capítulo só é interessante pelo estudo teórico que faz referente aos espíritos dos defuntos e aos que gnomos que guardam os referidos tesouros. [[PAPUS, 2003].

Sobre trechos “inspirados” na Filosofia Oculta de Agrippa, não é de se estranhar o fato: a biografia de Agrippa, [também alemão e também nascido em Colônia], mostra que este ocultista também estudou os textos atribuídos a Alberto Magno pouco mais de 200 anos depois da morte do monge, época em que, talvez, ainda fosse possível diferenciar os livros falsos dos verdadeiros. Deste modo, é muito difícil determinar se os livros de Agrippa influenciaram os “espúrios” de Alberto; se os originais de Magno influenciaram os “espúrios” de Magno; e seus originais [ou não], por sua vez, fizeram parte da formação de Agrippa.

O próprio Agrippa confessa em uma carta [epístola  23, I, I] que desde muito jovem era dominado por uma curiosidade pelos mistérios. Esse interesse pelas coisas secretas pode ter sido romantizado e exagerado pela sombra histórica do grande estudioso do oculto Alberto Magno. Ele [Agrippa] escreve a Teodorico, bispo de Cirene, que um dos primeiros livros de magia que estudou foi o Speculum, de Alberto. Devia ser fácil para um jovem corajoso e rico adquirir os grimórios de magia em um centro comercial e escolástico tão prolífero. [TYSON, 2008 ─  p 14]

O fato é que hoje a autenticidade das obras é colocada em dúvida. Em português, os títulos são raríssimos. Este articulista pesquisou e encontrou três exemplares de O Grande e o Pequeno Alberto, editado pela Edições 70 Lisboa em 1977, 458 páginas, listado em Estante Virtual, livros usados, aos preços salgadinhos de 180 e 200 reais. Online, outros poucos títulos como: O Composto dos Compostos ─ IV volume do Theatrum Chemicum  ─ e o suspeitíssimo Egyptian Secrets, White and Black Art for Man and Beast.

Os Admiráveis Segredos de Alberto, o Grande

Apesar da imensa obra deixada pelo dominicano seu nome foi eternizado justamente pelos livros considerados falsos, não escritos, de fato, por Magnus. O Grande Alberto e o Pequeno Alberto, mais se parecem com almanaques que reúnem receitas mágicas para enfrentar todo tipo de mazela ou infortúnio. O valor destes textos é conservar a memória de uma cultura que é a matéria prima de uma magia popular [magia exotérica, folclórica] que floresceu na Europa medieval, levou muita gente para a fogueira, atravessou eras e ainda se mostra presente em costumes e crenças hoje cultivados nas áreas rurais, pelas comunidades mais simplórias, especialmente no mundo ocidental.

Trata-se do conhecimento não científico mas tradicional das propriedades ocultas de plantas, pedras, animais e do poder dos rituais [e orações, pois é uma curiosa magia cristã] como forma de projeção da vontade. Algumas “receitas” são, atualmente, impensáveis, pelo tanto que ofendem aos princípios básicos da higiene e assepsia. Conforme assinala Marco Antonio Lopes em Princípios de ciência médica na época de Montaigne e Cervantes [2009]:

O pepino, por exemplo, figurava nessa farmacologia estritamente empírica como eficaz repelente de insetos. É o que afirma o tratado alemão de sabedoria médica popular intitulado Os admiráveis segredos de Alberto, o Grande, publicado em 1703, em finais da Idade Média. Para erradicar percevejos, o livro recomenda apanhar um pepino em forma de serpente, mergulhá-lo em água para, em seguida, esfregá-lo na cama infestada. Excremento de boi era recomendado para o mesmo fim, com a garantia expressa de que nenhum percevejo jamais seria encontrado nessa cama. Já o excremento de rato misturado com mel era recurso infalível para a calvície; a sua fricção tópica promovia a recomposição dos pêlos, em qualquer parte do corpo em que tinham existido [cf. Sallmann, 2002, p.172-173].

Fontes:
AUGHTERSON, Kate. The english Renaissence: Sources and Documents. Routledge, 2008. IN Google Books ─ acessado em 06/04/2009.
BOECHAT, Walter. Ficções do Corpo na Era Tecnológica: Mitologias da Ficção Científica. IN Revista Coniunctio nº 5 Volume 2 | SIZIGIA: Núcleo de Estudos em Psicologia Analítica ─ acessado em 06/04/2009.
Grimoires: Albertus Magnus.  In The Miskatonic University Library.
LEVI, Eliphas. História da Magia. [Trad. Rosabis Camayasar] São Paulo: Pensamento, 2004.
TYSON, Donald. A Vida de Agrippa IN Três Livros de Filosofia Oculta. [Trad. Marcos Malvezzi] ─  São Paulo: Madras, 2008.
WAITE, Arthur E.. Alchemists Through the Ages. In Google Books ─ acessado em 05/04/2009.

1193 – 1280

[…] dentro das paredes da Igreja. Todos os grandes alquimistas desta fase foram sacerdotes católicos. Albertus Magnus, Basilio Valentim e Roger Bacon são alguns desses nomes.  Foi apenas a partir de Nicolas Flamel […]

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alberto-magno/ […]

[…] dentro das paredes da Igreja. Todos os grandes alquimistas desta fase foram sacerdotes católicos. Albertus Magnus, Basilio Valentim e Roger Bacon são alguns desses nomes.  Foi apenas a partir de Nicolas Flamel […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alberto-magno/

Albert Mackey

Alguns autores e obras são citados constantemente na maioria dos livros pela sua importância cronológica e, mais ainda, pela contribuição imprescindível que deram na organização de nossa instituição. Poderíamos mencionar os trabalhos eternos de Joseph Paul Oswald Wirth, Robert Freke Gould, George Kloss, William Hutchinson, René Guénon, Wilhelm Begemann, Eliphas Levy, Alec Mellor e tantos outros não menos importantes. Trataremos aqui, de maneira breve, da obra de Albert Gallatin Mackey, possivelmente, o mais citado de todos os autores, fato este que se deve a especificamente um de seus legados.

O americano Albert Gallatin Mackey talvez tenha sido o mais importante historiador e jurista maçônico que aquela nação já produziu. Segundo seus próprios compatriotas, até hoje não se avaliou adequadamente as conseqüência que seus trabalhos tiveram sobre a maçonaria, não só americana, mas também de todo o mundo.

Dos Irmãos Americanos que conquistaram fama internacional no mundo maçônico, vários foram escritores cujos trabalhos ajudaram na formação e na extensão da luz maçônica, dentre estes nenhum escreveu tão volumosamente como o fez Mackey.

Nascido em 12 de março de 1807 na cidade de Charleston no estado americano da Carolina do Sul, Albert Mackey graduou-se com honras na faculdade de medicina daquela cidade em 1834. Praticou sua profissão por vinte anos, após o que dedicou quase que completamente sua vida à obra maçônica.

Recebeu o grau 33, o último grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, e tornou-se membro do Supremo Conselho onde serviu como Secretario-Geral durante anos. Foi nesta época que ele manteve uma estreita associação com outro famoso maçom a americano, Albert Pike.

Participou como membro ativo de muitas lojas, inclusive a legendária “Solomon’s Lodge No. 1,” (http://www.solomonslodge.org/main.htm), fundada em 1734, que é, ainda hoje, a mais famosa e mais antiga loja operando continuamente na América do Norte. Ocupou inúmeros cargos de destaque nos mais altos postos da hierarquia maçônica de seu país.

Pessoalmente o Dr. Mackey foi considerado encantador por um círculo grande de amigos íntimos. Seu comportamento representava bem o que, entre os americanos, é chamado de cortesia sulista. Sempre que se interessava por um assunto era muito animado em sua discussão, até mesmo eloqüente. Generoso, honesto, leal, sincero, ele mereceu bem os elogios e qualificações que recebeu de inúmeros maçons de destaque.

Um revisor da obra de Mackey disse que, como autor de literatura e ciência maçônica, ele trabalhou mais que qualquer outro na América ou na Europa. Em 1845 ele publicou seu primeiro trabalho, intitulado Um Léxico de Maçonaria, depois disto seguiram-se: “The True Mystic Tie” 1851; The Ahiman Rezon of South Carolina,1852; Principles of Masonic Law, 1856; Book of the Chapter, 1858; Text-Book of Masonic Jurisprudence, 1859; History of Freemasonry in South Carolina, 1861; Manuel of the Lodge, 1862; Cryptic Masonry, 1867; Symbolism of Freemasonry, and Masonic Ritual, 1869; Encyclopedia of Freemasonry, 1874; and Masonic Parliamentary Law 1875.

Mackey esteve até o fim da vida envolvido com a produção de conhecimento maçônico. Além dos livros citados ele contribuiu com freqüência para diversos periódicos e também foi editor de alguns. Por fim, publicou uma monumental “History of Freemasonry”, que possui sete volumes. Um testemunho da importância e popularidade que os livros escritos por Mackey têm é o fato de que muitos deles são editados até hoje e estão à venda em livrarias, inclusive pela Internet. No Brasil, por exemplo, é possível encontrar pelo preço aproximado de R$54,00 um exemplar de “History of Freemasonry” (http://www.sodiler.com.br/index.cfm). No site da livraria Amazon (www.amazom.com), tida como a maior da Internet, é possível adquirir 26 edições diferentes quando se procura livros usando como referência as palavras Albert Mackey. Para quem tem habilidade de leitura em inglês, é possível ler um livro inteiro de Mackey disponível na internet. O título “Symbolism of Freemasonry” ou o Simbolismo na Maçonaria, de 364 páginas, que pode ser encontrado neste link. Dos muitos trabalhos que o Dr. Mackey legou à posteridade, um julgamento quase universal identifica a “Encyclopedia of Freemasonry” como a obra de maior importância. Anteriormente a publicação deste livro não havia nenhum de igual teor e extensão em qualquer parte do mundo. Esta obra teve muitas edições e foi revisada várias vezes por outros autores maçônicos.

A contribuição de Mackey para o pensamento e leis maçônicas, produto de sua mente clara e precisa, é tida como de fundamental importância. Praticamente toda a legislação maçônica fundamental é hoje interpretada com base em alguns de seus escritos. É verdade que algumas de suas obras contêm enganos, mas o conjunto é de extremo valor e, em particular, um trabalho tem especial destaque no mundo todo. A compilação feita por ele dos marcos ou referenciais básicos da maçonaria é adotada como fundamento em vários ritos e obediências. Estamos falando aqui dos tão mencionados e conhecidos “Landmarks”.

A primeira vez em que se fez menção à palavra Landmark em Maçonaria foi nos Regulamentos Gerais compilados em 1720 por George Payne, durante o seu segundo mandato como Grão-Mestre da Grande Loja de Londres, e adotados em 1721, como lei orgânica e terceira parte integrante das Constituições dos Maçons Livres, a conhecida Constituição de Anderson, que, em sua prescrição 39, assim, estabelecia:

“XXXIX – Cada Grande Loja anual tem inerente poder e autoridade para modificar este Regulamento ou redigir um novo em benefício desta Fraternidade, contanto que sejam mantidos invariáveis os antigos Landmarks…”

A tradução da palavra Landmark do inglês para o português resulta no substantivo “marco”, que, caso consultemos o dicionário Aurélio, tem o seguinte significado: marco [De marca.] S. m. 1. Sinal de demarcação, ordinariamente de pedra ou de granito oblongo, que se põe nos limites territoriais. [Cf. baliza (1).] 2. Coluna, pirâmide, cilindro, etc., de granito ou mármore, para assinalar um local ou acontecimento: o marco da fundação da cidade. 3. Qualquer acidente natural que se aproveita para sinal de demarcação. 4. Fig. Fronteira, limite: os marcos do conhecimento.

Estas definições exemplificam bem o contexto no qual o termo Landmark é utilizado, além de fazer uma referência quase explícita às origens operativas da maçonaria, quem já construiu algo em alvenaria sabe que a fixação dos marcos é um dos primeiros momentos da obra e um passo fundamental para a sua execução. Sem marcos bem estabelecidos fica muito difícil a obra ser bem executada.

Os Landmarks, que podem ser considerados uma “constituição maçônica não escrita”, longe de serem uma questão pacífica, se constituem numa das mais controvertidas demandas da Maçonaria, um problema de difícil solução para a Maçonaria Especulativa. Há grandes divergências entre os estudiosos e pesquisadores maçônicos acerca das definições e nomenclatura dos Landmarks. Existem várias e várias classificações de Landmarks, cada uma com um número variado deles, que vai de 3 até 54. Virgilio A. Lasca, em “Princípios Fundamentales de la Orden e los Verdaderos Landmarks”, menciona uma relação de quinze compilações.

As Potências Maçônicas latino-americanas, via de regra, adotam a classificação de vinte e cinco Landmarks compilada por Albert Gallatin Mackey. Deve-se a isto a frequência com que o Mackey é mencionado também entre nós.

Segundo estudiosos do assunto, a compilação de Mackey teve sucesso por que conseguiu ir ao passado e trazer as tradições e costumes imemoriais à prática maçônica moderna. Este trabalho estabeleceu a ordem em meio ao caos, fornecendo um ponto de partida para os juristas e legisladores maçônicos que o seguiram.

Fato é que o grande trabalho de Mackey em jurisprudência, e mesmo o que se estende além dos Landmarks ou da jurisprudência, sobreviveu ao teste do tempo. Ainda hoje ele é freqüentemente citado como uma autoridade final. Suas contribuições tiveram, e ainda tem, um efeito profundo e permeiam grande parte do pensamento maçônico moderno. Ao criar sua obra, este autor, estava na realidade criando os marcos sobre os quais foi possível edificar grande parte do conhecimento maçônico que se produziu posteriormente.

Albert Gallatin Mackey passou ao oriente eterno em Fortress Monroe, Virgínia, em 20 de junho de 1881, aos 74 anos. Foi enterrado em Washington em 26 de junho, tendo recebido as mais altas honras por parte de diversos Ritos e Ordens. Hoje existe nos Estados Unidos uma condecoração, a “Albert Gallatin Mackey Medal” , que é a mais alta condecoração concedida a alguém que muito tenha contribuído para a causa maçônica.

Bibliografia:

Este trabalho foi elaborado tendo como base a bibliografia listada abaixo, sendo que dela foram retirados as idéias centrais, referências e inclusive transcrições literais.

1-Publicação da Aug.’. Resp.’. Loj.’. Simb.’. São Paulo nº 43. (http://www.lojasaopaulo43.com.br/publicacoes.php)
2-Publicação da Gran.’. Loj.’.Maç.’.do Estado da Paraíba. (http://www.grandeloja-pb.org.br/legis_landmarks.htm)
3-The Grand Lodge of Free and Accepted Masons of the State of California (http://www.freemason.org/mased/stb/stbtitle/stb1936/stb-1936-02.txt)

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/albert-mackey/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/albert-mackey/

Alan Moore

Pesquisa de Jose Carlos Neves

Confira abaixo um resumo dos principais fatos na vida e bibliografia do escritor e mago inglês Alan Moore. Trata-se de excertos do livro Alan Moore: Portrait of an Extraordinary Gentleman, um livro-tributo dedicado aos 50 anos do artista. São páginas recheadas de ensaios, ilustrações, artigos, fotografias, entrevistas, e opiniões sobre o mago-escritor de Northampton. Escritores, desenhistas e pessoas relacionadas aos quadrinhos comentam sua relação com Moore.

Alguns nomes presentes no livro: Michael Moorcock, Ian Sinclair, Darren Shan, Brad Meltzer, John Coulthart, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Bryan Talbot, David Lloyd, J. H. Williams III, Kevin O’Neill, Will Eisner, Howard Cruse, James Kochalka, Adam Hughes, Peter Kuper, Jose Villarubia, Jimmy Palmiotti, Rick Veitch, Michael T. Gilbert, Steve Parkhouse, Nabiel Kanan, Bill Koeb, Rich Koslowski, Trina Robbins, Michael Avon Oeming, Sean Phillips, Jeff Smith, Sergio Toppi, Giorgio Cavazzano, Claudio Villa, Daniel Acuna, Willy Linthout, Jean-Marc Lofficier, Eduardo Risso, Dave Sim, Ben Templesmith e outros tantos.

O lançamento da editora Abiogenesis Press, do artista britanico Gary Spencer Millidge, tem caráter beneficente. Toda sua renda está destinada para o Fundos de Combate ao Mal de Alzheimer. Para mais informações, acesse www.millidge.com

Linha da Vida de Alan Moore

– Alan nasceu com pouca visão na vista esquerda e surdo do ouvido direito. Mesmo assim, ele evitou usar óculos até quinze anos. Já adulto, abandonou os óculos chegando a cogitar a possibilidade de usar um monóculo, acabando por achar essa alternativa muito kistch.

– A primeira casa do jovem escritor não tinha banheiro nem gás em sua rua.

– Em 1961, aos 7 anos, Moore descobriu os quadrinhos americanos da DC Comics.

– Moore atribui sua formação moral graças as histórias do Super-Homem.

– Padecendo de uma gripe comum, o jovem Alan Moore pediu para a mãe lhe comprar uma BlackHawk. Ao invés de trazer a HQ pedida, sua mãe o presenteou com a edição número 3 de Fantastic Four (Quarteto Fantástico). Essa revista foi o primeiro contato do escritor com os trabalhos de Jack Kirby, de quem se tornou fã imediato.

– Moore matava aulas no colegial para andar de motocicleta no pátio de um hospital para doentes mentais.

– Em 1968, Moore se tornou fã dos personagens da Charlton Comics, que mais tarde seriam os arquétipos dos personagens da maxi-saga Watchmen.

– Em 1969, ele começou a colaborar com vários fanzines, sempre como desenhista

– Aos 17, em 1970, Moore foi expulso da escola por uso de LSD. O diretor escreveu uma carta para todas as outras escolas e universidades da região, para que ele jamais fosse aceito em outro estabelecimento de ensino.

– Sem poder estudar, Alan trabalhou em um matadouro e limpou latrinas em um hotel de Northampton.

– Nessa época, ele deixou o cabelo crescer, ajudou a publicar o fanzine Embryo e conquistou sua futura esposa Phyllis lendo poesias em um cemitério. Em 1974, aos vinte anos, Moore e Phyllis se casaram.

– Em 1977, nasceu Leah, a primeira filha de Moore. Nessa época, Moore percebeu que tinha que fazer alguma coisa que gostasse logo ou então passaria a vida frustrado. O escritor começou a colaborar com jornais e revistas locais, escrevendo e desenhando tiras de humor. A mais conhecida delas foi Maxwell, the Magic Cat, uma espécie de Garfield inglês. Anos depois, Moore declarou que odiava escrever as historias de Maxwell e que se sentia envergonhado de receber dinheiro por elas. Mesmo assim, ele passou 7 anos escrevendo estas tiras. Detalhe: Moore assinava as tiras com o pseudônimo de Jill de Ray (uma alusão ao francês acusado de ter assassinado dezenas de crianças).

– A experiência com Maxwell mostrou que ele não servia como desenhista. Moore passou a dedicar “apenas” a escrever.

– Moore comecou a trabalhar com a Marvel UK (divisão anglo-saxônica da Casa das Idéias) em 1981. Aos 27 anos, Moore escrevia pequenas tramas nas revistas Star Wars e Dr. Who. Na mesma época, ele fez alguns trabalhos para a 2000AD e teve sua segunda filha: Amber.

– Em 1982, Alan recebeu sua primeira grande chance ao escrever para a recém-criada revista Warrior. Para quem não sabe, a Warrior publicava 4 a 6 histórias por edição, cada história com 6 a 8 páginas. Moore escreveu 3 sagas para a Warrior simultaneamente: The Bojeffrie’s Saga (uma família de monstros muito engraçada), Marvelman (Miracleman) e V de Vingança.

– Naquele mesmo ano, Moore começou a escrever as histórias do Capitão Bretanha. Já no primeiro capítulo, ele se livrou dos conceitos criados pelo escritor anterior e no capitulo seguinte matou o próprio protagonista da série, recriando-o totalmente reformulado na edição de número 3.

– Enquanto a fama de Moore crescia nos quadrinhos, ele encontrava tempo para se envolver em outros projetos. Ele formou uma banda chamada The Sinister Ducks, gravando um single em 1983.

– Na 2000 AD, Moore escreveu D.R. & Quinch, uma hilária saga de dois alienígenas delinqüentes. E ainda escreveu A Balada de Halo Jones e Skizz.

– Todos esses trabalhos renderam a Moore o prêmio Eagle Award de melhor escritor de 1982 e 1983. Foi quando os Estados Unidos começou a se interessar pelos trabalhos do autor.

– Em novembro de 1983, Lein Wein, criador do Monstro do Pântano, ligou para a casa de Alan perguntando se ele queria trabalhar para a DC e escrever as historias do monstro. Alan achou que era um trote e desligou na cara do escritor. É claro que depois ele viu que não era mentira e aceitou trabalhar com o personagem.

– Sob ao comando de Alan Moore, Swamp Thing passou das 17.000 cópias/mês para mais de 100.000 cópias!!!

– No período em que escreveu o Monstro do Pântano, Moore fez outros trabalhos pouco divulgados na DC, como “Tales of the Green Lantern Corps”, “Vigilante”(uma historia sobre abuso sexual de crianças) e uma historia do Batman onde ele enfrenta o Cara de Barro (publicada no Brasil na extinta SuperAmigos). Moore ainda escreveu 2 histórias memoráveis com o Homem de Aço (ambas relançadas no Brasil pela Opera Graphica). Uma delas, “For the Man who has Everything” é possivelmente uma das melhores histórias do Super-Homem.

– O próximo trabalho de Moore seria A Piada Mortal. A história foi escrita em 1985, mas devido a atrasos do desenhista Brian Bolland, a revista só foi terminada e publicada em 1988.

WATCHMEN

Ainda em 1986, a DC concordou em deixa-lo produzir sua própria série. Com o artista britânico Dave Gibbons, Moore sugeriu o projeto de uma série chamada WATCHMEN. A história, como Weaveworld de Clive Barker, é uma epopéia sobre um mundo fictício – embora o mundo que Moore inventou seja de várias maneiras igual ao mundo real de hoje.

Começando em uma Nova Iorque durante os anos 80, Watchmen descreve uma América como poderia ter sido se realmente tivesse testemunhado o surgimento de fato dos “super-heróis” – isto é, seres que possuem habilidades super-normais ou que se apresentam como vigilantes idealistas. Assim como a América nunca teria sofrido uma divergencia política progressiva dos Anos sessenta, imagina Moore, também nunca teria perdido a Guerra de Vietnã, e teria achado um modo para manter Richard Nixon como Presidente. Já no início de Watchmen, dificilmente as coisas são sublimes: alguém decidiu eliminar ou desacreditar os poucos super-heróis remanescentes enquanto que, em uma série de eventos aparentemente não relacionados, os Estados Unidos e a União soviética desenham um crescente conflito nuclear por causa de uma disputa na Ásia.

No centro da consciência desta história, de olho na (e tentando desafiar a) maneira de como o mundo está desmoronando, está um incomum herói criado por Moore: um mascarado, horrendo e transtornado vigilante direitista conhecido como Rorschach. Rorschach fala para o psiquiatra sobre a noite em que ele cruzou a linha da brutalidade:

“Me senti limpo. Senti o sombrio planeta girando sob os meus pés e descobri o que faz os gatos gritarem como bebês durante a noite. Olhado para o céu através da espessa fumaça de gordura humana, e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante, continua para sempre, e nós estamos sós. Vamos viver nossas vidas na falta de qualquer coisa melhor para fazer. Deixemos a razão para depois.

Nascemos para o esquecimento; agüentando crianças destinadas para o inferno, nós mesmos; caminhando para o esquecimento. Não há nada mais. A existência é fortuita. Nenhum padrão seguro imaginado por nós depois de encarar isto por muito mais tempo. Nenhum significado seguro além do que nós escolhemos impor. Este mundo sem direção não é moldado por vagas forças metafísicas. Não é Deus que mata as crianças. Não é o destino que as abate ou que as dá de alimento para os cachorros. Somos nós. Somente nós… Estava renascido então, livre para rabiscar meu próprio desígnio neste mundo moralmente vazio..”

O assustador Rorschach

“Aquela foi uma história terrivelmente depressiva para se escrever,” disse Moore, “em parte porque Rorschach em nada se parece comigo: Eu não compartilho a sua política, e nem compartilho a sua filosofia. Ele é um homem aterrorizado e, em minha visão, ele acaba se rendendo ao horror do mundo.

Mas eu penso que o fundo do poço dos medos e ansiedades de muitas pessoas pode ser igual ao do Rorschach. As coisas que uma vez usamos para nos abrigarmos da escuridão – como Deus, a rainha, o país, e a família – foram se distanciando de nós. Em muitos casos, temos esmagados a nós mesmos, e agora nos deixamos tremendo na chuva, olhando para o mundo e vendo um obstáculo preto que não tem nenhum significado moral, afinal”.

Até que alcance seu devastador mas reafirmado fim, é evidente que, acima de tudo o mais, Watchmen é uma história de como as pessoas encaram a perplexidade do mundo de hoje: como alguns se movem furiosamente e de maneira fatal contra ele e de como outros, heroicamente, reúnem forças até mesmo em face ao Armageddon.

“Enquanto estava trabalhando em Watchmen,” conta Moore, “eu tive que me perguntar, O que é que mais me assusta? E percebi que a verdade é que quando o mundo acabar, não haverá nenhum aviso de quatro minutos, não haverá nenhum conflito nuclear de baixa escala. A verdade é que os mísseis poderiam estar no ar em cinco minutos. E se houver um Armageddon nuclear, não iremos retirar o pó de nós mesmos e nem reinventar os valores humanos. Não poderia haver nenhum valor humano após uma guerra nuclear porque não haveria nenhum humano.

Nosso passado seria erradicado. Nosso futuro seria erradicado. Nosso presente seria erradicado. E eu me achei pensando, Quando as crianças foram para escola esta manhã, eu gritei com elas ou lhes falei que eu as amo?”.

Os roteiros de Moore para essa saga viraram uma lenda pela riqueza de detalhes. O primeiro capítulo, por exemplo, tinha mais de 100 páginas e foi entregue ao desenhista Dave Gibbons sem parágrafos.

Com Watchmen, Moore virou uma celebridade do mundo dos quadrinhos, mas não estava feliz com isso. Certo dia, em uma convenção sobre HQ´s em San Diego, ele foi cercado por dezenas de fãs que o imprensaram contra uma escadaria na tentativa de agarrá-lo e conseguir um autógrafo. Moore decidiu que jamais participaria de convenções novamente.

A Casa do Trovão, em Twilight of the Superheroes

O próximo projeto de Moore na DC seria Twilight of the Superheroes, mas por razões desconhecidas, esse projeto não foi adiante. Anos depois, muitas das idéias de Moore para essa série seriam reaproveitadas na aclamada saga “Kingdon Come”(Reino do Amanhã) de Mark Waid e Alex Ross. A dupla nega qualquer reciclagem dos conceitos de Twilight.

Moore, que já não trabalhava para a Marvel desde a época de Capitão Bretanha, tambem passou a não trabalhar mais para a DC, pois discordava sobre os royalties de Watchmen e principalmente com o fato da DC adotar o código “for mature readers” (própria para leitores maduros/adultos) nas suas revistas.

A última colaboração de Moore para a DC foi o final de V de Vingança, que havia ficado incompleta apos a falência da Warrior. A série foi reeditada nos EUA e se tornou outro best-seller.

 

Miracleman

Na mesma época, ele voltou a escrever Miracleman (agora para a editora Eclipse). Além de tudo o que já havia sido escrito para a Warrior, Moore criou novas historias, entre elas a maravilhosa saga Olympus. Depois disso, ele passou os direitos autorais do personagem para Neil Gaiman (que mais tarde resultou naquele pega ´pra capar entre Gaiman e a cria do inferno, Todd McFarlane. O embate jurídico dura até os dias de hoje).

Moore recusou varios trabalhos nessa época, inclusive o roteiro de Robocop 2 (que assumiu a criança foi Frank DKR Miller). Seus próximos trabalhos foram o livro “Brought to Light”, com ilustrações de Bill Sienkieckz e a graphic novel “A Small Killing”.

Em 1989, Moore decidiu colaborar com a recém-criada revista “Taboo” de Stephen Bissete (parceiro de Moore em Swamp Thing). Para a Taboo, ele escreveu a espetacular “From Hell” – fruto de mais de 8 anos de pesquisa, e “Lost Girls”.

Ainda naquele ano, Moore passou a viver um triângulo amoroso com sua esposa e sua namorada Deborah Delano. Irritado com a intolerância do governo de Margareth Tatcher com os homosexuais, Moore colaborou com entidades GLS, publicando a história “Mirror of Love”, pela editora Mad Love, propriedade do próprio autor e de sua esposa.

Big Numbers

O próximo projeto era a serie Big Numbers, projetada para 12 capítulos e mais de 500 páginas. Somente 3 edições foram lançadas, 2 com desenhos de Sienckwiecz e uma com os traços de Al Columbia. Ninguém sabe ao certo porque o projeto nao foi adiante, mas especula-se que a complexidade do texto de Moore foi demais para os desenhistas que nao conseguiram dar conta do recado.

Nessa época teve início o inferno astral de Alan Moore: a Mad Love faliu e seu casamento terminou. A Taboo também chegou ao fim, deixando sagas como From Hell para serem completadas anos depois.

Em 1993, Moore tomou uma decisão que desapontou muitos de seus fãs. Aceitou trabalhar para a Image Comics escrevendo títulos como Spawn, Supreme, Glory, Youngblood, Wild C.a.t.s. Moore desabafou que aquilo não era um retrocesso ou que ele estava vendendo sua alma para os demônios Rob Liefeld e Jim Lee, e sim um desejo de escrever histórias mais simples, para garotos de 14 anos e não para adultos de 30. Ainda pela Image, ele participou do projeto 1963. Este ultimo projeto acabou gerando uma briga entre ele e Stephen Bissette. Até hoje eles não se falam.

Moore passou a morar com uma nova companheira: Melinda Gebbie. No dia em que completou 40 anos, Moore decidiu se tornar um mago. Ainda em 1993, ele praticou performances teatrais como “Snakes and Ladders” e “BirthCaul”. Mais tarde essas performances foram adaptadas para HQ´s por Eddie Campbell, seu companheiro de trabalho em From Hell.

Algumas conclusões de Moore em relação à magia foram adaptadas para histórias como Supreme, Glory e mais tarde Promethea. Em Supreme, Moore explorou o conceito do IDEASPACE, um mundo de arquétipos, semelhante ao Mundo das Idéias de Platão. Supreme vai investigar uma estranha cidade no alto do Tibet, encontrando uma paisagem desnorteante, formada por um grande número de paisagens diferentes fundidas numa só. Há partes dela que parecem como um bairro decadente durante a Depressão de 1930, onde ele conhece uma gangue de crianças e um herói fantasiado.

O Grande Criador

Supreme continua a vagar pela estranha paisagem até encontrar uma trincheira de um campo de batalha, onde há uma infinidade de soldados de várias etnias: Um irlandês, um judeu, um negro, tudo muito parecido com o Sgt. Fury e toda uma enorme linha de heróis patrióticos.

Isto continua até Supreme conhecer o criador supremo deste mundo, que se mostra ser Jack Kirby. Isto é muito difícil de explicar porque leva uma história inteira para ser contada, mas é basicamente uma gigantesca cabeça flutuante, que se altera sob uma fotomontagem da cabeça de Kirby em transmutação; ela sempre é apresentada no estilo dos desenhos de Jack Kirby. Esta entidade gigantesca explica a Supreme que ele foi um artista de carne e osso e sangue, mas agora ele está completamente no reino das idéias, que é muito melhor porque a carne e os ossos e o sangue tem suas limitações, já que ele podia fazer somente quatro ou cinco páginas em um dia de trabalho; mas agora ele existe puramente no mundo das idéias. As idéias só podem fluir sem interrupções. Ele fala sobre todo um conceito de um espaço onde idéias são reais, que é o tipo de lugar onde, de algum modo, todos os criadores de quadrinhos trabalham durante toda a sua vida, talvez Jack Kirby mais do que a maioria. É como se uma idéia se tornasse livre do corpo físico, e este artista pode então explorar os mundos infinitos da imaginação e das idéias.

Em 1996, Moore escreveu seu primeiro romance, intitulado A Voz do Fogo. Foram 5 anos para escrever este livro, um tratado de 5 mil anos da sua cidade natal, Northampton. O primeiro capítulo é narrado em primeira pessoa (de forma muito singular) por um personagem que vive numa Northampton paleolítica, quando a cidade tinha duas a três cabanas de barro e uma ponte. O segundo é narrado em primeira pessoa por um personagem totalmente desligado do primeiro que vive em Northampton durante a Idade de Bronze, em uma comunidade que começou a crescer, se desenvolvendo através das eras. Lentamente, nós movemos através dos séculos, até o décimo primeiro capítulo, que é narrado pelo próprio autor na Northampton do presente.

Trabalhando para a editora Wildstorm (que acabou sendo posteriormente vendida para a DC) Moore criou uma nova linha de HQ´s, a America’s Best Coomics (ou ABC), onde surgiram as aclamadas séries: Top Ten, Tom Strong, League of Extraordinary Gentlemen, Promethea e Tomorrow Stories.

Aos 50 anos, Moore anunciou que pretende se aposentar dos quadrinhos. Será?

Liga dos Cavalheiros Extraordinários

Se você assistiu LXG, a dica de leitura é um antídoto para a pataquada que você viu na telona. Leia a edição especial A Liga Extraordinária da Devir. Apesar do preço salgado (R$ 45,00), você pode encontrar esse lançamento na FNAC por R$ 36,00. Preço justificado pela luxuosa edição de 192 páginas repleta de material inédito, incluindo o tão aguardado conto “Allan e o Véu Rasgado”, no melhor estilo das obras de H.P. Lovecraft.A Liga de Moore não tem nada a ver com aquela versão X-Men Vitorianos. As Aventuras da Liga dos Cavalheiros Extraordinários é o fanfict definitivo: Imagine uma força-tarefa formada por personagens da literatura inglesa, mas com uma pitadinha do tempero de Alan Moore: Então o Capitão Nemo é uma figura intrigante, um fanático cheio de equipamentos misteriosos. Hyde é de uma complexidade assustadora. Mina Murray não é uma vampira anabolizada e o decadente Alan Quatermain passa longe da interpretação impecável de Sir Connery. Só para você ter uma idéia, o Quatermain da HQ é viciado em ópio! Leia o mais rápido possível e fique aguardando ansiosamente o volume dois, ainda “inédito” aqui no Brasil.

Entrevista com Alan Moore

Apresento-vos uma entrevista com o escriba, realizada por Alan David Doane. A tradução é de David Soares (Portugal)

Eu soube que este “Quiz de 5 perguntas” seria um esforço maior que os anteriores, excedendo certamente esse número de questões, quando o homem que eu considero ser o melhor escritor de banda desenhada de sempre deteu-se, pensativamente, durante oito minutos para responder à minha primeira interrogação (envisionando e esclarecendo, em conjunto, as seguintes). Olhando a isso, abandonei a fórmula inicial; que outra escolha tinha? Durante a década de 80, Alan Moore recriou a banda desenhada por imprevisto, como irão ler adiante, e, desde a sua estréia, uma engenhosidade e paixão superlativas constantes são as características reconhecidas no seu trabalho. Conversar com Alan Moore, mais que uma honra, foi uma aventura e é meu dever agradecer ao autor a sua disponibilidade, mas, também, a Chris Staros, da Top Shelf Productions, por apadrinhar este encontro. Esta editora publica muitos dos melhores trabalhos de Moore, como o seu romance “Voice of the Fire”.

Alan David Doane – O que te inspirou a escrever um romance com a profundeza de “Voice of the Fire”?

Alan Moore – Sempre vivi em Northampton, como os meus pais, talvez tenha sido isso. Somos todos descendentes uns dos outros nesta única grande família que são os seus cidadãos. “Nascidos de fresco com sangue em segunda-mão”, como gostamos de dizer por cá. Esta cidade fascina-me e saber que a sua história, tão singularmente rica, é completamente ignorada sempre se me apresentou contra-sensual. A maioria dos ingleses é capaz de identificar Northampton apenas como uma mancha indistinta a meio da M-1, entre Birmingham e Londres, mas quando comecei a investigar as suas origens na altura em que me lembrei de escrever este livro encontrei matéria convincente o bastante para concluir que Northampton é, mesmo, o centro do universo. No mínimo, eu fiquei convencido.

Penso que a sua é uma história esplêndida que remonta desde a Idade da Pedra quando caçadores de mamutes, e os próprios mamutes obviamente, ainda caminhavam sobre estas ruas, atravessando a Idade do Bronze e as migrações dos povos Celtas, prosseguindo pela Idade do Ferro e as invasões romanas e, ainda, parece-me ser uma cidade que assumiu sempre uma importãncia central, de um modo mais complexo que a sua simples localização geográfica. Lembro-me, se me encontro sem erro, que os avós de George Washington, e de Benjamin Franklin, habitavam duas pequenas aldeotas vizinhas durante os anos da Guerra Civil Inglesa. Os pais de Washington moravam aqui, os pais de Franklin moravam em Ekton e ambos os casais abandonaram Northampton após a guerra civil que terminou nesta cidade (provavelmente, o local mais desconfortável para comprar uma casa durante o séc. XVII) e emigraram para a América. De acordo com aquilo que sei, a própria bandeira norte-americana é baseada no seu, agora esquecido, brasão de família, tradicional de Northampton.

O tipo que descobriu o ADN, Francis Crick, viveu aqui e foi aluno na mesma escola que eu frequentei com apenas algumas décadas de intervalo entre os seus anos lectivos e os meus e ia semanalmente à catequese na igreja que ainda se encontra no fim da minha rua. Muitos episódios da história inglesa também circulam Northampton, como a Guerra das Rosas que também conheceu o seu fim neste lugar, simetricamente à nossa Guerra Civil, como já te contei, e a Conspiração da Pólvora que foi urdida nesta cidade e pretendia rebentar a sede do parlamento, em Londres, em 1605. Pensamos, inclusive, que o empreendimento foi um fracasso e é por essa razão que o tornámos numa festa anual, mas os conspiradores não se saíram, realmente, mal.

Também foi nesta cidade que a rainha Mary, da Escócia, foi decapitada e é avaliando esse conjunto de acontecimentos que te digo que existe muita história aqui, nem sempre agradável, admito, mas está presente uma força nuclear para a vida humana e que influenciou de certeza a evolução do modo de vida inglês, e, em última análise, possivelmente outros modos de vida em outros lugares.

A génese do livro nasceu dessa fé que me diz que, sim, Northampton é, na verdade, o centro do universo. Acredito nisso, assim como acredito que é esta é uma cidade despida de características especiais. Posso dizer-te que qualquer pessoa, habitante de qualquer lugar sobre o globo, pode desenterrar uma mão-cheia de maravilhas da terra do seu próprio quintal, se tiver feito uma pesquisa paciente sobre esse local e se for engenhosa o bastante para as encontrar. Demasiadas vezes caminhamos pelas nossas ruas, a pé ou de automóvel, e não compreendemos que sob as fachadas descaracterizadas se pode esconder o antigo cárcere de algum poeta ou um sítio reservado ao homicídio, o sepulcro oculto de alguma rainha lendária e é o somatório destas pequenas histórias que enriquecem um lugar: de repente, não te encontras simplesmente a passear numa cidade comum, aborrecida e homogénea, mas numa aventura em avenidas prodigiosas recheadas de histórias fantásticas. Na minha opinião, viver é uma experiência muito mais recompensadora se conhecermos intimamente a parte do mundo que nos foi destinada como casa e esta é a melhor resposta que te posso dar sobre a tua pergunta.

ADD – Bom, na verdade já respondeste às primeiras quatro perguntas.

AM – A sério? (Risos) Estou em forma.

ADD – (Risos) Sendo assim, vamos à última. Imagino que durante a criação das histórias deste livro, à medida que ias desenvolvendo a tua pesquisa e estruturando a narrativa, foste apanhado de surpresa por algumas coisas acidentais que não estavam previstas quando iniciaste o empreendimento.

AM – Fui surpreendido por uma grande quantidade de coisas. Repara que uma das minhas premissas iniciais era a de não querer escrever um trabalho histórico, por que não queria abdicar da liberdade que um trabalho de ficção me oferece, como, por exemplo, entrar na personalidade das pessoas sobre quem eu pretendo escrever e o sentido dessas vidas, pois acredito que dessa forma o resultado final é mais verdadeiro, mais humano. Contudo, mesmo conjurando todas estas vozes fictícias do passado queria que o seu discurso se baseasse em fatos reais e circunstâncias possíveis e comecei com esse objetivo em mente para, em seguida, compreender que determinados temas, determinadas imagens, estavam a emergir da minha narrativa.

Aparentemente, a maioria dos episódios ocorrem em Novembro, no dia do meu aniversário,e, paralelamente a isso, outros elementos estavam a manifestar-se repetidamente em diferentes histórias e indicavam-me uma espécie de padrão: pessoas com membros amputados; matilhas de cães pretos espectrais; cabeças decepadas e outros ícones de natureza igualmente inquietante.

O desafio de “Voice of the Fire”, se eu queria realizar esse livro de acordo com a minha ideia original, era ter um narrador diferente para cada uma das doze histórias, alguém que pertencesse a esse espaço-tempo e que relatasse na primeira pessoa. Para o último capítulo, que tem lugar nos dias de hoje, o único narrador possível só poderia ser mesmo eu próprio. Contar essa história com a minha voz, debruçando-me sobre os meus assuntos particulares sem inventar pormenores sobre o que estaria a acontecer durante essa altura e, coincidentemente, quando finalmente comecei a fazê-lo, descobri que já me encontrava em Novembro, mais uma vez… Iniciei a escrita desse capítulo com a esperança que a própria cidade me sugerisse um final que amarrasse todas as pontas e todas as hipóteses que fui deixando por rematar ao longo dos capítulos anteriores sem saber se isso iria acontecer ou se, pelo contrário, os últimos cinco anos da minha vida tinham sido um logro e que não deveria ter começado o livro, em primeiro lugar.

Sempre acreditei que existem momentos na vida de um escritor em que ele, ou ela, é confrontado com a noção de que as fronteiras entre a ficção e a vida real são, muitas vezes, inexistentes e isso é frequente em trabalhos nos quais optamos por um registro auto-referencial. Esses dois universos inclinam-se para um maior cruzamento à medida que te aproximas de casa o que pode ser desconfortável, no mínimo. Por isso não foi surpreendente, mas ainda assim bizarro, quando sucessivas ocorrências se conjugaram para satisfazer as necessidades do meu texto. Coisas sobre e com cabeças cortadas e enormes cães pretos que me mostraram que enquanto ações mirabolantes têm lugar na ficção, outros movimentos igualmente mirabolantes, e perigosos, acontecem na vida real; experiências que são simétricas. Por mais que as esperes, são sempre perturbantes.

ADD – Esse capítulo final, acredita, foi uma das coisas mais perturbantes que já li.

AM – Pois. Obrigado.

ADD – Existe uma frase nesse capítulo… Tu sabes qual: “O Homem escreve.”, “O Homem escreve.”…

AM – Sim.

ADD – Essa tua frase que aparece repetidas vezes e que parece tão absurda consegue reunir toda a informação do livro e fazer sentido no final, quando todas as centenas de páginas e todas as centenas de anos que assimilaste acabam por nos conduzir à tua casa, ao teu quarto, não é verdade?

AM – É quase isso. Não és conduzido ao meu quarto, felizmente para ti, mas à minha mente. Até esse ponto exato, ainda poderias pensar que “Voice of the Fire” é composto por uma série arbitrária de histórias suavemente associadas em órbita da minha cidade e nesse capítulo quis fundir tudo isso: as histórias, a minha vida, a minha mente e as vidas e as mentes dos leitores. Aparentemente, para surpresa de todos, o livro acaba mesmo por ser sobre mim. Pode ser sobre mim, sentado a escrever o próprio livro. Ou ser sobre o processo criativo de se escrever outro livro. Ou sobre outro assunto qualquer. É isso. E fico contente que tenhas reagido bem à frasezinha, por que ela arrepiou-me um bocadinho quando a escrevi. Lembro-me que pensei: “-Isto está a ficar sinistro, por isso devo estar a criar algo interessante”.

ADD – A frase não é sinistra, em si, mas consegue impressionar-te dessa forma.

AM – Obrigado.

ADD – É perturbante, como já te disse. Aliás, já li o teu “From Hell” e senti em algumas passagens dessa história que ultrapassaste a barreira entre autor e leitor. Uma barreira que não tinha sido ultrapassada em nada que já tivesse lido.

AM – Isso é maravilhoso…

ADD – Não tenho a certeza de qual dos livros foi editado em primeiro lugar, mas o efeito que “Voice of the Fire” me provocou pareceu-me uma ampliação do que senti em segmentos de “From Hell”, naqueles momentos em que tu, como acabaste de explicar, penetras, e nós contigo, na mente da personagem, que neste caso és tu. Não tinha pensado nisso, mas o leitor acaba por se transformar em Alan Moore.

AM – Pois… é possível. Penso, inclusive, que um ingrediente que pode ajudar a cozinhar esse efeito é o facto de que no último capítulo de “Voice of the Fire” não possuo um conhecimento “in loco” do meu consciente não-autónomo, ou seja: o meu “eu” pensante. Falando nisso, nunca utilizo a palavra “eu”, entendes? Acaba por funcionar como uma narração na primeira pessoa do singular, mas sem uma pessoa. Não sei se era a isto que fazias referência, mas eu também não compreendo muito bem o que me leva a escolher uma determinada forma de fazer as coisas. Na altura, pareceu-me que funcionava.

Pareceu-me que deixava o leitor respirar, sem estar constantemente a ser confrontado com a noção de que é um… deixa-me pensar… um ego de outra ordem que fala com ele. Fico satisfeito pela tua reacção a esta experiência.”Voice of the Fire” e “From Hell” nasceram mais ou menos na mesma altura, talvez com um ano de diferença, e isso acaba por estabelecer uma comunicação entre os dois, por que têm algumas afinidades, como, por exemplo, o facto de partilharem um momento da minha vida em que decidi tornar-me um ocultista e estudar a fundo matérias que estão imersas num mundo à parte às quais, vulgarmente, chamamos magia. No “From Hell” isso está explícito nos diálogos de William Gull quando ele nos descreve as suas crenças e que os deuses existem realmente, em majestade e monstruosidade, na nossa mente. Escrevi isso quase por acidente e compreendi depois que tinha escrito algo mais profundo, algo significante que, eventualmente, acabou por introduzir o meu interesse pela magia.

Certamente, esta inclinação coloriu com outros tons o final de “From Hell”, e a conclusão de “Voice of the Fire”. Este título reservou-me outra surpresa: comecei o livro contando a história de um xamã que procura um código de palavras, uma ladainha, um conjunto mnemónico para aglutinar o seu povo e na última história, eu sou esse xamã, inconscientemente, milénios depois, realizando a mesma rotina. Não a mesma, claro, pois os meus métodos não envolveram nenhum sacrifício humano. Podes dormir sossegado.

ADD – A mensagem de “From Hell, bom, pelo menos a que eu retirei da minha leitura e que, infelizmente, não é expressa pela sua adaptação cinematográfica…

AM – Tens de compreender que estás em vantagem sobre mim nesse tópico, por que não vi o filme.

ADD – Tudo bem. Penso que na melhor das hipóteses representar todas as preocupações do teu trabalho, já por si bastante extenso, num filme de duas horas é uma tarefa impossível de concretizar. Mas falava-te do que retirei do livro, a tal mensagem que é a de que a arte tem o poder de transformar o artista, até divinizá-lo, e no decurso da minha leitura percebi que ambos os livros, “From Hell” e “Voice of the Fire”, partilham essa preocupação. Não sei se foi intencional, mas a verdade é que quando se chega ao fim desses livros essa mensagem é, de facto, sugerida.

AM – A magia tem o poder de mudar a relação que tens com o mundo que te rodeia e isso aconteceu comigo. Comecei a olhar as coisas de outra forma, com um sentido, felizmente, mais útil, até, e considerando tudo isso, o que dizes sobre os dois livros pode ser verdade. Através deles, apresento uma visão alternativa da nossa história e das nossas experiências, mesmo que em “From Hell” a minha intenção principal fosse contar uma história sobre um crime, um homicídio. Nessa altura, nem pensei nos crimes de Jack, o estripador. Era, apenas, o uso de um crime como uma experiência avassaladora que me norteava. Felizmente, um homicídio, no contexto de uma vida, é uma experiência bastante improvável. Repara que o número de pessoas que acabam por morrer dessa forma é, ainda assim, muito reduzido.

Essa raridade sugeriu-me a idéia de falar sobre o homicídio de uma forma particular. Porquê abordar apenas a identidade do autor, que parece ser o motor constante de tantos romances policiais? Essa é uma alusão quase tão redutora como um vulgar jogo de salão. Como o CLUEDO, por exemplo, onde só precisas de descobrir quem foi o assassino, a arma que usou e em que local a vítima foi abatida. Com “From Hell” quis esclarecer, também, as variáveis sociais e culturais que permitiram a práctica desse crime, muito mais que, somente, especular sobre a identidade do homicida. Queria ver como um crime poderia agir sobre a sociedade e estudar todas as hipóteses de desenvolvimento que poderiam florescer posteriores a essa ação.

Prosseguindo nessa óptica, se estás a falar sobre um crime, essa experiência avassaladora que pode acontecer na nossa vida, tomas consciência que és capaz, inclusive, de ir mais longe e ter alguma coisa a dizer sobre a grandiosidade da própria condição humana. Podes dirigir este ponto de vista para “Voice of the Fire”, claro, mas desviado suavemente, já que a intenção desse livro não é provar-te que Northampton é o núcleo do universo, mesmo tendo fé absoluta na verdade dessa afirmação, como já te disse, mas mostrar-te que qualquer local, onde quer que te encontres, é muito mais rico, muito mais exótico e prodigioso do que parece à primeira olhadela, entendes? No primeiro livro, procurei mostrar um ponto de vista crítico sobre a condição humana e a cultura, neste caso a cultura e a sociedade inglesas, usando um crime como casa de partida, mas com “Voice of the Fire”, as minhas ambições estavam à solta, a pensar em outras paisagens e para onde a nossa evolução nos conduz. Penso que o que estabelece a comunicação entre os dois livros é mesmo o meu interesse pela magia, que influencia o meu modo de olhar as coisas e de as contar.

ADD – Gostaria  que falasses do modo como vê a tua carreira na banda desenhada e a forma como as obras que tu escreveste, como “From Hell”, mas também “Watchmen” e “The League of Extraordinary Gentlemen”, mudaram o comportamento da indústria da publicação de comics.

AM – Posso dizer-te que a minha ambição foi sempre ganhar a vida como cartunista e nem pretendia ser famoso. O problema foi quando descobri que nunca seria um artista bom e rápido o suficiente para aguentar uma carreira nessa atividade.

Lembrei-me, então, da hipótese de me concentrar na escrita, por que senti que poderia fazer um trabalho melhor como escritor e que desenhando os storyboards para as histórias a minha ligação com o desenho continuaria. Investi com essas premissas e compreendi logo no início que seria incapaz de escrever uma história de encomenda. Se uma idéia sugerida não fosse aquilo que eu tinha em mente, invertia-a para a transformar em algo que me desse prazer escrever ou que fosse, no mínimo, um desafio. Penso que o método que desenvolvi me salvou de muitos compromissos e sempre me providenciou com a motivação necessária para realizar um bom trabalho.

Comecei a ser requisitado aos poucos, para ali e para acolá, em resultado dele e apliquei-o, concisamente, quando a DC me engajou para escrever o “Swamp Thing”. Na minha lógica, o leitor nunca se irá interessar em ler uma história escrita por mim, se eu próprio não estiver interessado em escrevê-la. Isso pressente-se, não te parece? Penso que os leitores são muito bons em descobrir se o autor gostou realmente de fazer o seu trabalho.

Tive de tornar o material mais arrojado, mais destemido, para o forçar a ser interessante. Pensei que fosse arranjar uma porção de problemas por causa disso, mas não. Os leitores compreenderam as minhas escolhas e eu, encorajado por eles, inovei mais ainda, sempre com o apoio da Karen Berger, claro, a minha editora da DC na altura, e, também, por outras pessoas que apreciaram muito a subida das vendas do título, sempre maiores a cada mês. Todo esse conjunto de situações fez nascer uma relação de confiança mútua na qual os editores perceberam que se eu tivesse controlo sobre as minhas decisões criativas nunca lhes iria apresentar um trabalho inteiramente despropositado e foi essa credibilidade que me permitiu ir sempre mais longe, por vezes a locais perturbadores ou tétricos, mas sempre interessantes. De que forma é que isso influenciou a indústria? Não te posso oferecer uma explicação clara. Depende da minha disposição, se queres
mesmo saber. Se eu me sentir deprimido penso que a minha influência foi terrível e que os autores que cresceram a ler o “Swamp Thing” ou “Watchmen” só foram capazes de imitar a violência desses trabalhos, e a sua pose intelectualista, sem a suportarem com a ingenuidade e a aventura que também lá se encontram. Sinto que ignoraram completamente a minha vontade de romper os limites da própria fórmula de contar histórias em BD e contentaram-se em produzir uma série de livros tristes e penosos. Como te disse, esta visão desconsolada da realidade depende muito da minha má-disposição e hoje tiveste azar.

A sério que gostava mesmo de acreditar que, em vez de tudo isto que contei, consegui realmente mostrar com o meu trabalho que a banda desenhada permite inúmeras possibilidades aos seus autores e que estão para nascer livros fabulosos com contornos que somos incapazes de imaginar neste momento. Que podes fazer tudo com algo tão simples como palavras e imagens se as abordares sensivelmente e se fores inteligente, diligente e virtuoso no teu esforço. Talvez esteja a ser brusco, lamento, mas queres afirmar que existe uma influência minha na indústria? Então, por favor, coloca-a aqui em vez de encorajares a minha percepção de que a minha herança será invariavelmente composta por psicopatia e sarcasmo.

ADD – Sou capaz de regressar mais longe que os anos oitenta, quando o teu “Watchmen” e o “The Dark Knight Returns”, do Frank Miller, foram publicados. Na minha opinião, o que poderá ter iniciado a redefinição das personagens, dos super-heróis, poderá muito bem ter sido aquela história que escreveste no “Swamp Thing” na qual representaste os membros da Liga da Justiça, o Batman, o Super-Homem e os outros, como se fossem novos deuses, curiosos em relação à humanidade. É um segmento de quantas páginas? Duas? Contudo, penso que a mudança começou nesse momento.

AM – Quem sabe se a razão está do teu lado… Lembro-me que foi a primeira vez que escrevi sobre super-heróis, no mínimo, os americanos. O Swamp Thing não conta, por que, na altura, era refugo. Para mim, escrever essa história foi voltar a divertir-me com os brinquedos da minha infância, o Flash, o Super-Homem e sentá-los todos no seu grande gabinete cósmico e devolver-lhes o carisma que eles costumavam ter para mim e que, infelizmente, se tinha transformado num sentimento mais próximo de casa. Fi-lo usando pequenos ardis, como nunca os chamar pelo nome verdadeiro e ocultá-los na penumbra. Podes ver uma insígnia pelo canto do olho ou uma silhueta, mas isso é tudo. Sobretudo, quis fazer poesia com estas personagens.

Dizer que uma personagem consegue ver o que acontece no outro lado do globo ou que é capaz de aquecer a antracite o suficiente para a transformar em diamante, como fiz para o Super-Homem, ou que se move a uma velocidade tão intensa que a sua vida se assemelha a uma visita numa galeria de estátuas, como escrevi para o Flash. Falei em poesia e isto, de fato, não é um exemplo de boa poesia, mas constitui um novo olhar sobre estas personagens que temos inclinação a desdenhar, ou a esquecer, por que se tornaram, com o passar dos anos, demasiado familiares e a aproximação que nos liga às coisas e aos assuntos tende, por vezes, a criar essa desilusão. Só pintei uma maquilagem nova sobre o encanto que já existia. O Frank Miller fez a mesma coisa nas páginas do “Daredevil”, não? Quando introduziu outras personagens da Marvel nessa cronologia.

ADD – Tens razão, mas repara que ele não se desviou dos padrões instituídos e nunca nos fez olhar uma personagem conhecida de um modo singular. A mesma acusação é válida para a maioria dos criadores posteriores. É mesmo como dizes: se tivessem considerado a face mais experimental dos vossos trabalhos em vez de se concentrarem no sensacionalismo as coisas poderiam, certamente, ter conhecido outra evolução.

AM – Não duvides e essa face mais arriscada é o que existe de atraente no trabalho do Frank, essa sua mestria narrativa e a inovação constante que ele introduziu no género através das histórias do Demolidor e do Batman, muito mais que o desalento e a testosterona. Seria tão bom se a sua influência penetrasse mais fundo que a camada superficial feita de sexo e violência.

Não vamos dizer, todavia, que tudo o que apareceu depois de “Watchmen” e “The Dark Knight Returns” se encaixa nessa pobre categoria e posso dizer-te que na periferia do mainstream encontras grandes trabalhos que não são clones de nenhum destes títulos, mas ainda assim penso que a nossa herança é maldita e uma péssima desculpa para oportunidades perdidas, o que não desvirtua a qualidade do trabalho do Frank e do meu, obviamente.

ADD – Esta conversa sobre herança vem mesmo a propósito. O teu amigo Neil Gaiman já tornou público o que ele diz ser “a conclusão, ou o fim eminente, de um episódio interminável com um editor desonesto, desleal até ao limite do imaginável”, aludindo ao desfecho do processo que levantou contra Todd McFarlane pela posse dos direitos que envolvem parte do franchise do personagem Miracleman, que tu próprio resgataste e ressuscitaste nos anos oitenta. Passados todos estes anos, o que é que tu gostaria de ver feito com essas histórias que escreveste e qual é a tua opinião sobre o processo-crime?

AM – Estou muito contente pelo Neil, como podes imaginar. Ainda bem que acabou, por que deve ter sido um pesadelo moroso. É sempre ridículo que alguém que não seja o criador venha exigir direitos sobre um trabalho e custa-me a entender essa falta de ética, ou melhor, compreendo-a, mas não posso pronunciar-me sobre ela sem dizer um ou dois palavrões. É algo embaraçoso, seboso até, que acaba por nos sujar a todos e que não oferece uma boa imagem da indústria da banda desenhada, por culpa dela própria, também, já que, infelizmente, casos semelhantes a este são frequentes. Penso que o Neil, chegando impoluto à outra margem desse lodaçal para onde irrefletidamente o quiseram arrastar, comportou-se como um verdadeiro super-herói.

Seria divertido ver reimpressões do Miracleman, para que os leitores não estivessem a pagar preços proibitivos por edições raras guardadas religiosamente desde a sua publicação original. Algum do material apresentado nessas histórias era realmente fantástico, como o escrito pelo Neil, por exemplo, e era bom que ele, em algum momento, tivesse oportunidade para lhe dar continuidade. Ele já me propôs há uns tempos uma parceria com vista à realização de uma conta em que todos os royalties derivados das vendas das reimpressões fossem guardados para serem distribuídos com justiça aos autores que trabalharam na série, como nós ou como o Mark Buckingham.

Parte desse dinheiro podia ir, também, para o Comic Book Legal Defense Fund e se houvesse a infelicidade de um ou outro filme aparecer o dinheiro, os meus royalties pelo menos, poderiam ir diretamente para esse fundo ou ficar no estúdio para serem partilhados pelos criadores envolvidos no projeto, por que eu não quero receber um único centavo de mais um filme adaptado de um dos meus livros, nem desejo ver o meu nome associado a um empreendimento desse género. O ideal era que não se fizessem mais filmes inspirados em livros do Alan Moore. Em vez disso, era mais agradável ver bons trabalhos serem reimpressos por um bom editor, sob uma boa política editorial.
Isso seria uma excelente premissa para o futuro e não digo isto motivado pela ganância de ganhar mais uns tostões com o meu material antigo, mas com a intenção de garantir que criadores como eu e como o Neil não tenham de atravessar campos minados no percurso das suas carreiras, por que, na verdade, temos assuntos muito mais importantes com que nos preocupar.

1953 –

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/

Al-Wahhab

 

Muhammad Ibn Abd al-Wahhab (1703- 1791) foi um reformador religioso conservador que lançou o movimento Wahhabi e ajudou a fundar o primeiro estado saudita.

Ibn Abd al-Wahhab nasceu em Uyayna, uma cidade oásis localizada no Najd, a região central do que hoje é a Arábia Saudita.

Ele foi criado em uma família de juristas e estudiosos religiosos da Escola Hanbali e demonstrou um interesse inicial em estudar o Alcorão e outras áreas do aprendizado islâmico, especialmente os estudos sobre a Hadith (Coletânea de Narrações e Ditos do Profeta Muhammad e seus Companheiros).

Seu pai, um juiz da Escola Hanbali e professor da Hadith e da Fiqh (a Jurisprudência Islâmica), lhe proporcionou sua educação precoce nas ciências religiosas.

Mais detalhes sobre o início da carreira de Ibn Abd al-Wahhab são anedóticos, mas parece que ele começou a defender um rigoroso reformismo islâmico quando estava na casa dos 20 anos.

Ele ganhou seguidores em sua cidade natal, mas a oposição política o forçou a ir a Meca e Medina, onde ele se encontrou e estudou com outros Ulamas (teólogos islâmicos) reformistas.

Ele se familiarizou com os escritos do reformador medieval da Escola Hanbali, Ibn Taymiyya, e se destacou por seu conhecimento da lei Hanbali.

Mais tarde ele viajou para Basra, uma cidade portuária no Iraque, onde encontrou doutrinas e práticas do Xiismo que encontraram sua desaprovação por terem se afastado do Islã do Alcorão e da Sunna.

Depois de Basra, Ibn Abd al-Wahhab mudou-se para Huraymila, a cidade Najdi onde seu pai vivia.

Foi aqui que ele escreveu O Livro da Unidade (Kitab al-Tawhid), no qual expressou muitos dos seus principais ensinamentos.

Cópias do mesmo foram espalhadas por todo o Najd.

Após a morte de seu pai em 1740, sua missão tornou-se mais pública.

Ele promoveu a doutrina do Tawhid, a crença na unicidade absoluta de Deus e a rejeição do politeísmo (shirk), da idolatria e da descrença.

Sua crença de que o Tawhid incluía seguir os mandamentos e as proibições de Deus significava que ele também procurava tratar das questões morais em sua sociedade e cultura.Ele favoreceu a aplicação rigorosa da Sharia (a Lei Islâmica), incluindo a realização de orações, a entrega do Zakat (esmolas) e a aplicação de punições por adultério.

Aqueles que falharam em atender seus ensinamentos eram vistos como descrentes (Kafirs, os infiéis) e podiam ser subjugados através da Jihad.

Líderes tribais e Ulamas em Huraymila decidiram que não queriam que Ibn Abd al-Wahhab minasse a autoridade deles, então conspiraram contra a sua vida, forçando-o a voltar para Uyayna, sua cidade natal.

Uthman ibn Hamid ibn Muammar (d. 1749), o governante de Uyayna, a princípio deu as boas-vindas ao reformador, até mesmo providenciando para que ele se casasse com a sua tia.

A situação mudou, porém, quando ele cortou uma das árvores sagradas da cidade, demoliu um santuário pertencente a Zayd ibn al-Khattab (um dos companheiros do profeta) e, acima de tudo, condenou uma mulher à morte por apedrejamento depois que ela confessou adultério.

O clamor público que essas ações provocaram fez com que Uthman retirasse o seu apoio a Ibn Abd al-Wahhab, o qual teve que fugir de Uyayna em 1744.

Ele se estabeleceu em Diriya, a cerca de 65 quilômetros de Uyayna, perto de Riyadh.

A pequena cidade era governada pelo clã dos Saud, liderado por Muhammad ibn Saud.

Nesse mesmo ano, “os dois Muhammads” chegaram a um acordo mútuo: Ibn Saud protegeria Ibn Abd al-Wahhab de seus inimigos e o tornaria o Imã (líder religioso islâmico) de Diriya, enquanto Ibn Abd al-Wahhab coletaria Zakat para o governante saudita e o ajudaria a estender seu controle sobre a região de Najd através de sua pregação e da sua declaração da Jihad contra os inimigos dos sauditas.

Estes incluíam os “infiéis” que não atendiam ao chamado de Ibn Abd al-Wahhab (Daawa) para aceitar sua versão do Islã, bem como as tribos que não se submeteriam ao domínio saudita.

O acordo acabou sendo mais frutífero do que os dois poderiam ter imaginado.

A partir dele eles puderam criar uma confederação de grupos tribais, tanto estabelecidos como nômades, a qual forneceu a base para um novo estado na Arábia Central.

Quando Muhammad ibn Saud morreu em 1765, Ibn Abd al-Wahhab continuou a aliança com seu filho Abd al-Aziz ibn Muhammad (m. 1803).

Ele manteve sua base em Diriya, onde ensinou e escreveu, procurando conquistar outros para sua causa.

Sua estratégia incluía a designação de juízes Wahhabi para as cidades e oásis que se haviam submetido ao domínio saudita.

Na época de sua morte, o governo saudita Wahhabi alcançou Riad (a futura capital saudita) e as margens do Golfo Pérsico.

Alguns anos mais tarde, o governo saudita abrangeu a maior parte da Península Arábica, incluindo as cidades sagradas de Meca e Medina.

O legado de Ibn Abd al-Wahhab foi levado adiante por seus descendentes e discípulos.

Seu filho Abd Allah escreveu obras contra o Xiismo e endossou as incursões Wahhabi no sul do Iraque no início de 1801.

Seu neto Sulayman (m. 1818) serviu como juiz em Diriya até ser executado pelas forças otomanas-egípcias enviadas do Egito para a Arábia para destruir o estado saudita primitivo.

Hoje, seus ensinamentos fazem parte da ideologia oficial do Reino da Arábia Saudita, que surgiu das cinzas do primeiro estado saudita sob a liderança do rei Abd al-Aziz ibn Saud (m. 1953) no início do século 20.

Os herdeiros de Ibn Abd al-Wahhab, conhecidos como Al al-Shaykh (a família do Shaykh Ibn Abd al-Wahhab), agora ocupam poderosos cargos no governo saudita e se casam com membros da família real saudita.

Suas obras estão amplamente disponíveis em forma impressa, e suas ideias prevalecem entre os reformadores religiosos conservadores e radicais em muitos países Sunitas.

Entre aqueles influenciados pelos ensinamentos de Ibn Abd al-Wahhab estava Osama bin Laden, líder da organização Al-Qaeda responsável pelos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono em 2001.

No entanto, muitos muçulmanos, Sunitas, e Xiitas rejeitam o entendimento puritano do Islã conforme feito por Ibn Abd al-Wahhab.

Leitura adicional:

– Natana J. DeLong-Bas, Wahhabi Islam: From Revival to Global Jihad (Oxford: Oxford University Press, 2004);

– Madawi al-Rasheed, A History of Saudi Arabia (Cambridge: Cambridge University Press, 2002), 14–23;

– John O. Voll, “Muhammad Hayat al-Sindi and Muhammad Ibn Abd al-Wahhab: An Analysis of an Intellectual Group in Eighteenth Century Medina.” Bulletin of the School of Oriental and African Studies 38, no. 1 (1975): 32–39.

***Fonte:

Encyclopedia of Islam

Copyright © 2009 by Juan E. Campo

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/al-wahhab/