Lon Milo DuQuette fala sobre Goétia

Lon Milo DuQuette, célebre ocultista, emérito escritor é um dos principais membros da Ordo Templi Orientis e da Igreja Gnóstica Católica nos Estados Unidos. Recentemente teve uma de suas obras publicada em português pela Editora Madras, trata-se do “A Magia de Aleister Crowley, Um Manual dos Rituais de Thelema”. Lon escreveu muitos livros importantes e reconhecidos, entre eles estão: “Angels, Demons & Gods of the New Millennium”, “Enochian Vision Magick” e “The Key to Solomon’s Key: Secrets of Magic and Masonry”. Junto com Christopher Hyatt publicou os excelentes “Aleister Crowley’s Illustrated Goetia: Sexual Evocation” e “Enochian World of Aleister Crowley: Enochian Sex Magick”.

Aos sessenta anos de idade, Lon está em plena atividade: além de suas inclinações literárias, DuQuette dá palestras, cursos, seminários e workshops por todo o mundo e produz séries de DVD’s como o box “The Great Work – Iniciation Into the Mysteries”.

Mesmo com uma agenda bastante atarefada e com mais de mil e-mails para responder, Lon nos concedeu uma breve entrevista para falar sobre Goetia. Com a Palavra, Lon Milo DuQuette…

1. Cada Magista possui motivações próprias para praticar a Goetia. Em sua opinião, em quais ocasiões o Magista deveria utilizar a Goetia?

DuQuette – Em minha opinião, a natureza do trabalho Goético é tal que o Magista deve ter uma estaca emocional muito forte no sucesso da evocação.

Para mim, a evocação Goética funciona melhor quando já exauri todos os outros meios para resolver um problema, ou seja, quando não tenho outra escolha.

O problema deve ser de caráter pessoal. Eu aprendi que é desastroso tentar fazer uma evocação Goética para outra pessoa ou junto com outra pessoa.

2. É possível estabelecer uma relação entre a Goetia e o conceito de Sombra de Jung? Como?

DuQuette – Eu não conheço muito sobre Jung, então prefiro não dizer.

3. Goetia é significado de baixa magia para você? Porque há tantos escritores e ocultistas que a condenam?

DuQuette – Quando você evoca um Espírito Goético, você evoca uma espécie de aventura, uma experiência incomum. Essas “aventuras” raramente são agradáveis, na maioria das vezes a experiência é completamente desagradável.

Em todo caso, a evocação terá idealmente o caráter de construir a experiência que o fortalecerá e o transformará no tipo de pessoa que fará com que a sua vontade aconteça. Frequentemente essas experiências podem ser consideradas “baixas e sujas”.

Algumas pessoas consideram Goetia como baixa magia porque na maioria das vezes esse caminho é muito áspero, árduo.

Em minha mente isso poderia ser considerado “baixo” somente porque você está lidando com forças cegas sobre as quais você jamais teve controle antes da evocação.

Isso pode parecer “baixa magia” para pessoas que pensam que Magick é só com anjinhos fofinhos.

4. Em sua opinião, qual é a importância da Goetia para a espiritualidade do Magista?

DuQuette – Pode ser vitalmente importante. Isso depende somente do Magista. Ignorar “o que está abaixo” não é uma boa idéia.

5. O que podemos aprender com essas práticas?

DuQuette – Você pode aprender muito sobre você mesmo nas operações Goéticas.

As pessoas costumam dizer que a Goetia traz o pior daquilo que está no Mago.

Eu lhes falo: Sim! É exatamente isso que deve acontecer!

Trazer o pior de você para que você possa se confrontar com isso… Conquistar isso…

Redirecionar esse poder aterrador para que ele trabalhe por você e não contra você.

6. Qual é a origem dos Espíritos da Goetia? Astaroth, por exemplo, ele possui alguma relação com a Deusa Astarte dos fenícios ou o espírito da Goetia chamado Astaroth é um ser absolutamente independente? Poderia explicar?

DuQuette – É óbvio que muitos dos 72 Espíritos listados na Goetia são corrupções de deidades pagãs. Mas de fato eu não vejo estes como sendo muito mais do que nomes ligados a arquétipos mais genéricos.

7. Conheço praticantes que não executam banimentos após as operações de Goetia. Essa prática é nociva? Os banimentos são recomendados?

DuQuette – Eu faço banimentos antes e após evocações Goéticas. Isso faz parte de minha rotina operacional. Outros Magistas podem se sentir mais confortáveis sem os banimentos. É uma questão que deve ser resolvida por eles.

8. Um espírito da Goetia pode se manifestar através da voz de um ser humano numa operação mágicka? Algo semelhante a uma “possessão” ou estado de transe? Em quais circunstâncias isso seria possível?

DuQuette – Eu acredito que sim, é claro. Eu não me preocupo como isso pode ser possível. Acima de tudo, isso é Magick…

9. Muito se fala sobre os modos de operação da goetia. Quais técnicas poderiam ser recomendadas?

DuQuette – Eu só posso falar sobre o melhor método para mim. Minha técnica é “bem baixa”. Uso uma corda fina de seda negra para fazer o círculo e um triângulo. Não uso as conjurações clássicas, prefiro fazer minhas próprias invocações e conjurações.

10. Tendo evocado o espírito o que garante que ele irá cumprir a vontade do Magista?

DuQuette – O Espírito faz aquilo que é falado ou não faz. Se ele não faz então deve-se evoca-lo novamente e ter uma conversa mais forte com ele. Se após várias tentativas o espírito não resolver cooperar, deve-se considerar a hipótese de conjurá-lo novamente para sua total aniquilação. Eu só tive que fazer isso uma vez.

11. Quais conselhos você daria aos estudantes e Magistas sobre Goetia?

DuQuette – Não mudem de idéia sobre aquilo que querem no meio de uma conjuração.

A tentação para que isso ocorra vem do Espírito que está sendo evocado. Isso foi feito contra você sua vida inteira.

fonte: http://www.mortesubita.org

#Goécia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/lon-milo-duquette-fala-sobre-go%C3%A9tia

O Livro Enochiano dos Amuletos e Talismãs

Pesquisa, tradução e adaptação feita
POR ROBSON BÉLLI
abril de 2022

Sumario

Origem deste material
Teoria dos Amuletos e Talismãs
Correspondências.
Geometria Talismanica da Golden Dawn.
Gematria Enochiana.
Magnetizando um Talismã.
Teoria dos quadrados mágicos.
Usos dos quadrados mágicos.
Ritual para magnetizar os talismãs.
O que fazer?
Perguntas para este material
Bibliografia.

Origem deste material

Este material tem origem no livro “The Enochian workbook” e no livro “Advanced Enochian Magic” dos autores Gerald & Betty schueller, obra recomendadíssima para aqueles que desejam entender mais sobre o assunto aqui apresentado, foram usadas inúmeras outras referencias tanto pelos autores quanto por mim (Robson Bélli) para a composição deste material.

Este material se refere a pratica da magia neo-enochiana, não sendo usado em outras vertentes, quaisquer outras duvidas pergunte no grupo, estamos sempre prontos em melhor aconselhar o grupo em suas praticas.
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Teoria dos Amuletos e Talismãs

Talismãs e amuletos são dispositivos bem conhecidos que são usados ​​por praticantes de magia há milhares de anos. Amuletos e talismãs geralmente têm o mesmo design; a principal diferença entre os dois dispositivos é como eles devem ser usados.

Amuletos são geralmente usados ​​no corpo como uma forma de proteção mágica – para afastar forças indesejadas ou entidades hostis. Eles podem ser feitos e usados ​​no corpo sem ser previamente magnetizados. O material de que são feitos influencia você diretamente. Um amuleto deve durar muito tempo, um cristal, um orgonite.

Os talismãs geralmente não são usados ​​no corpo e são construídos e carregados com força mágica para um propósito específico. Um talismã pode ser usado uma vez – então geralmente é cuidadosamente destruído ou recarregado (assim como uma bateria deve ser recarregada periodicamente).

Na Magia Enochiana, amuletos e talismãs são usados ​​como uma expressão física de sua Vontade Mágica. Eles são usados ​​para lembrá-lo do poder de sua Vontade Mágica. Além disso, outros que o virem também serão movidos consciente ou inconscientemente para realizar a sua vontade ou intento.

Correspondências

A construção de um amuleto ou talismã depende de sua função e como será usado. Seu propósito geralmente determina o material do qual é feito, as inscrições que são colocadas nele e o tipo de força ou poder que é invocado nele. Vários metais, cores, pedras preciosas e os dias da semana têm correspondências mágicas com os corpos sutis e planetas. Essas correspondências, mostradas na Tabela a seguir, devem ser consideradas ao projetar/desenhar um amuleto ou talismã.

Correspondências do Talismã

Corpo Planeta Metal Cor Dia Pedra
1 Físico Sol Ouro Amarelo Domingo Topázio, Jade amarelo
2 Etéreo Marte Ferro Vermelho terça-feira Rubi, Hematita
3 Astral Lua Prata Violeta segunda-feira Quartzo, pedra da lua
4 Mental Saturno Chumbo Preto Sábado Onix, Turmalina
5 Causal Vênus Cobre Verde sexta-feira Jade, esmeralda
6 Espiritual Mercúrio (não usar) Laranja quarta-feira Cornalina, Berilo
7 Divino Júpiter Estanho Azul quinta-feira Ametista, Lapis-Lazuli

Outras correspondências

Símbolo Incenso Animal
1 Cruz, candelabro, mandala Olibano, arruda, louro Leão, águia. Ecaravelho, veado
2 Espada, lança, açoite, escudo Café, alho, lavanda, cravo Lobo, Javali, Carneiro
3 Arco e flecha, taça, meia lua Jasmin, Canfora, Acacia Serpente, sapo, peixe
4 Foice, Cranio, Cruz Tau Mirra, Almiscar, Salsa Morcego, Coruja, Corvo
5 Rosa, Pomba, cruz ansata Rosa, Sandalo, Baunilha Pomba, Pavão, Borboleta
6 Caduceu, Livro, Pluma Benjoin, Estoraque, Alecrim Íbis, Macaco, Cão
7 Sino, Flor de liz, Quadrado Hortelã, Olibano, Eucalipto Bufalo, Alce, Elefante

Todas as correspondências aqui descritas foram conferidas no 777 e no livro Kabbalah Hermetica do Marcelo Del Debbio

Geometria Talismanica da Golden Dawn

Na Golden Dawn temos formas geométricas especificas para cada talismã e isso pode ser encontrado no livro “Self Initiation in the Golden Dawn Tradition” do Chic Cicero e Sandra Tabatha Cicero, na realidade a Golden Dawn oferece modelos de talismãs prontos para cada planeta especifico, a seguir algumas informações que podem ajudar você a compor seus proprios talismãs:

Planeta Arestas Nome da forma geométrica
Sol 6 Hexágono
Lua 9 Eneogono
Marte 5 Pentágono
Mercúrio 8 Octogono
Júpiter 4 Quadrado
Venus 7 Heptagono
Saturno 3 Triangulo

Gematria Enochiana

Os dados de origem a partir dos quais as tabelas de gematria foram calculadas são tão preciso quanto várias revisões rápidas poderiam fornecer, mas é não é garantido que seja preciso além da expectativa razoável, e sem dúvida contém pelo menos um erro. Alerta Mago!

VALORES DE GEMATRIA DOS CARACTERES ENOQUIANOS

GOLDEN DAWN CROWLEY ULISSES MASSAD
A 1 6 1
B 2 5 2
C 20 300 10
D 4 4 4
E 5 7 8
F 6 300 9
G 3 9 3
H 8 1 5
I 10 60 10
J 0 0 10
K 0 0 10
L 30 40 11
M 40 90 12
N 50 50 13
O 70 30 15
P 80 8 16
Q 90 40 17
R 100 100 20
S 200 10 14
T 300 400 22
U 0 0 6
V 400 70 6
W 0 0 6
X 60 400 21
Y 0 0 10
Z 7 1 7

Para maiores relações entre cabala, arvore da vida e magia enochiana, recomendo a leitura atenta ao Liber Arphe de Ulisses Massad, As demais gematrias podem ser encontradas através de estudos no Liber 777 e The Golden Dawn de Israel Regardie.

Magnetizando um Talismã

Os talismãs devem ser recarregados periodicamente. Os passos necessários para construir e carregar um talismã enoquiano são os seguintes:

1. No dia indicado na Tabela de correspondencias, faça um talismã em forma de pantáculo de preferencia com o metal mostrado na mesma tabela. Se os metais não estiverem disponíveis, use um substituto, como madeira ou papel pintado na cor apropriada, conforme indicado na Tabela. Esta cor serve como a cor de fundo do talismã e não da tinta.

2. No mesmo dia, inscreva o talismã com os números e símbolos apropriados. Por exemplo, se invocar uma divindade, use o número de gematria do nome do deus e sigilo, se conhecido.

3. No dia apropriado (veja a Tabela de correspondencias), realize um ritual de invocação para carregar o talismã (um ritual típico para este propósito é dado mais adiante).

4. Após carregar o talismã com a força adequada, enrole-o em linho branco ou seda e guarde-o cuidadosamente em sua própria caixa para ajudar a manter a carga até que seja usado.

5. Use o talismã quando e onde for necessário para obter o resultado desejado.

Geralmente isso feito é durante um ritual apropriado onde o talismã é usado para enfatizar o propósito desejado e garantir um resultado favorável.

Exemplo:

Vejamos um exemplo, mas lembre-se de que não existem regras rígidas e rápidas. Use os símbolos/sinais disponíveis neste e em outros livros e coloque-os juntos de uma maneira que seja do seu agrado. Uma regra da Golden Dawn era “Na construção de um talismã, o simbolismo deve ser exato e em harmonia com as forças universais”.

Exemplo:

A Figura acima mostra um talismã que pode ser usado para obter riqueza, fertilidade, abundância e prosperidade geral. Ele emprega o poder mágico de ALHKTGA, o quarto Sênior da Terra. Este talismã é projetado com um heptágono de sete lados que tem uma letra do nome do Sênior em cada espaço. Deve ser feito de cobre e pintado de verde (o metal e a cor de Vênus porque este Sênior está associado a Vênus.

O centro do talismã contém um pentagrama verde com o número 338 no centro. O verde esmeralda é a cor especial do ALHKTGA. O pentagrama simboliza o número 5. (O valor da gematria do nome deste Sênior é 338 que se reduz a 5 por adição teosófica. Ou seja, você adiciona os três números que compõem o valor da gematria, 338, (3+3+8=14) e, em seguida, some os números que compõem o resultado, 14, (1+4=5), para obter um valor de 5.

Os principais símbolos deste Sênior também estão incluídos: uma rosa vermelha e um amuleto vermelho de cinco faces. O vermelho é usado porque é o complemento do verde, a cor de ALHKTGA. Ao lado da parte superior da estrela está o signo mágico do elemento Terra (elemento deste Sênior); e abaixo do pentagrama temos o símbolo de vênus.

Teoria dos quadrados mágicos

 

Um antigo texto egípcio diz: “A vida de uma pessoa é investida em seu nome”. Esse antigo ensinamento expressa a ideia de que os nomes têm poder no sentido de que, se você souber o verdadeiro nome de algo, terá um grau de controle sobre ele. Nomes e palavras sempre foram considerados importantes na magia.

A Magia Enoquiana usa nomes e palavras enoquianas. Algumas palavras podem ser colocadas juntas de uma maneira especial para formar um quadrado. Estes são chamados de Quadrados Mágicos.

As tabelas abaixo mostram dois típicos Quadrados Mágicos Enochianos.

 

N E M O
E M O A
M O A D
O A D O

NEMO. Este quadrado soma 516, o número para MIKA-SOESA que significa “o poderoso salvador interior”.

Também 516 = 129×4 onde 129 é o número para MOZ que significa “alegria”. Além disso, 516 = 12×43 onde 43 é o número para BALT-ZA que significa “na justiça”. AIK BKR reduz 516 e 129 para 12 que reduz a 3, “o filho ou soma de um” (o pai supremo) e “dois” (a mãe suprema). Esta é a praça de NEMO, o Magister Templi ou Mestre do Templo.

 

B A B A L O N
A D A N O D O
B A H A N O Q
A N A N A E L
L O N A S M I
O D O R M N A
N O Q L I A D

BABALON. Este quadrado soma um total de 1183, o número de KA-KAKOM-ZORGE que significa “fazer o amor florescer”. Também 1183=169×7, onde 169 é o número para RIT que significa “misericórdia” e PIR, “brilhante”. AIQ BKR reduz 1183 para 4, o número para definição através da memória.

BABALON é a corrente feminina encontrada nos Aethyrs, ADNA-ODO implica abrir-se ao conceito de obediência; BAHA [L]-NOQ [01 é “o clamor de um servo fiel”; ANANAEL significa “a sabedoria secreta”; LONSA-MI sugere o poder ou energia que está latente em todos; ODO-EMNA pode significar “abrir-se a partir de agora” e NOQ[01-L-IAlD pode significar “o servo supremo (ou ministro) de Deus”.

Uma interpretação deste Quadrado Mágico é:

Ó BABALON

Reverências a você.

Receba-me,

Seu servo fiel

Quem proclama sua Sabedoria Secreta.

Você é o poder que reside em todos.

Receba-me,

Por agora e para sempre.

Usos dos quadrados mágicos

O uso de tais quadrados é variável. Por exemplo, muitos, se não todos, os Quadrados Mágicos podem ser transformados em talismãs, devidamente carregados, e então usados ​​em rituais mágicos. De acordo com o livro da  magia de Abramelin, simplesmente ter tal quadrado em sua pessoa e tocá-lo, enquanto faz um desejo correspondente, ajudará a tornar esse desejo realidade.

Muitos magos, especialmente aqueles que praticam Magia Enochiana, os usam para meditação. Cada letra representa uma ideia mágica especial, conforme mostrado na Tabela abaixo.

Letra ZODIACO/ELEMENTO Tarô
A Touro Hierofante
B Aries Estrela
C, K Fogo Julgamento
D Espirito Emperatris
E Virgem Eremita
F Cauda Mago
G Cancer Carruagem
H Ar Louco
I, J, Y Sagitario Temperança
L Cancer Carroagem
M Aquario Imperador
N Escorpiao Morte
O Libra Justiça
P Leão Força
Q Agua Pendurado
R Peixes Lua
S Gêmeos Amantes
T Leão Força
Caput Draconis Alta sacerdotiza
U, V, W Capricornio Diabo
X Terra Universo
Z Leão Força
Caput draconis Alta sacerdotiza

Quadrados de letras podem fornecer a base para meditações poderosas simplesmente concentrando-se nos significados das letras e sua disposição dentro dos quadrados.

Os três exemplos a seguir são fornecidos.

Exemplos

Exemplo 1. O quadrado LAMA.

L A M A
A A I T
M I A O
A T O L

Este quadrado contém as palavras enoquianas, LAMA-AAI-T-MI-AOA-TOL, que podem ser traduzidas como “o caminho que está dentro de você leva ao poder que está dentro de todos”, ou “o caminho em você é o poder em todo.” Este quadrado contém a ideia de que todos nós temos uma fonte interna de poder que podemos usar para superar quase todos os problemas que podem surgir se soubéssemos como. O valor da gematria de todas as 16 letras é 430 e isso se reduz a 7 (4+3+0=7), o número para integridade e completude. Este quadrado deve ser usado sempre que nos sentimos indignos ou mal sucedidos para aumentar nossa auto-estima e otimismo.

Exemplo 2. O quadrado PAHS.

P A S H S
A B R A M
S R O R N
H A R G A
S M N A D

Este quadrado contém as palavras enoquianas, PASHS-ABRAM-S-ROR-NHARG-A-SMNAD, que significam “As crianças são providas pelo Sol. Posso conceber uma assim”, ou “As crianças são preparadas pelo Sol. Que eu semear outro.” Este quadrado contém a ideia de que as crianças são um presente da divindade criativa porque o Sol foi ensinado pelos antigos a ser a mais alta divindade criativa em nosso sistema solar. O valor da gematria de todas as 25 letras é 802 que a adição teosófica reduz a 1 (8+0+2=10, 1+0=1). O número 1 é o número para a mônada, unidade e para masculino e feminino conjugados. Tomado em conjunto, este quadrado deve ser usado para garantir a fertilidade ao tentar produzir um filho.

Exemplo 3. O quadrado ZORGE.

Z O R G E
O I L
R I T Z
G A
E L Z A P

Este quadrado representa um tipo popular de quadrado, um quadrado incompleto, pois nem todas as posições contêm letras. O quadrado contém três palavras enoquianas: ZORGE, que significa amor; RIT, significando misericórdia; e ELZAP, significando o caminho. Sugere que a maneira correta de viver é com misericórdia e amor. As 19 letras enoquianas têm um valor total de gematria de 489 que reduz para 3 (4+8+9=21 e 2+1=3), o número de palavras usadas. O número 3 indica inteligência e manifestação. Sugere que a maneira inteligente de viver neste mundo é expressar amor e misericórdia. Este quadrado deve ser usado por qualquer pessoa que queira ver mais amor e misericórdia em suas vidas.

Ritual para magnetizar os talismãs

Talismãs

Ritual para Carregar o Talismã

PASSO 1.

Faça um círculo mágico. Coloque uma mesa ou altar no centro. Coloque o Talismã de no altar. Entre no círculo.

PASSO 2.

Conduza o Ritual de Invocação do Pentagrama e depois o Ritual de Invocação do Hexagrama para invocar as forças necessárias da Torre de Vigia.

PASSO 3.

Vire a face para a respectiva Torre de Vigia (direção).

PASSO 4.

Entre no seu Corpo de Luz (conforme ensinado no Livro do Mochileiro dos éteres).

PASSO 5.

Trace o Hexagrama de Invocação de (do planeta da entidade).

PASSO 6.

Vibre os nomes:

(nome divino de 12 letras da torre adequada)

(nome do rei da torre adequada)

(nome do sênior da torre adequada)

PASSO 7.

Assuma o caráter e a forma divina da entidade enochiana que vai atuar no talismã. Deixe seu Corpo de Luz assumir a aparência deste anjo.

PASSO 8.

Recite uma invocação:

Ó (nome do anjo), (titulo) da atalia do (elemento), Venha a mim e me ajude.

Ajude-me a eliminar tudo o que se opõe ao meu progresso.

Conceda-me sua grande dádiva de (campo de atuação da entidade).

Ajude-me em minha Vontade Mágica E dilacere meus inimigos.

PASSO 9.

Assuma o caráter do anjo (veja-se como se fosse o mesmo).

PASSO 10.

Agindo como se fosse o anjo, estenda sua mão direita sobre o Talismã e veja uma névoa das cores do sigilo da atalaia correspondente. Deixe sua mão e entre no Talismã carregando-o com seus poderes e habilidades.

PASSO 11.

Retorne a sua própria forma. Retorne ao seu corpo físico.

PASSO 12.

Trace o Hexagrama de Banimento de (do planeta da entidade).

PASSO 13.

Conduza o Ritual de Banimento do Pentagrama e depois o Ritual de Banimento do Hexagrama para banir as forças da Torre de Vigia.

O que fazer?

  1. Faça seu próprio Talismã de um anjo a sua escolha e necessidade de acordo com as regras dadas na Lição.
  2. Faça um talismã do quadrado LAMA ou de qualquer outro a sua escolha e necessidade.

Perguntas para este material

  1. Qual é a diferença entre um talismã e um amuleto?
  2. Verdadeiro ou Falso: Quadrados Mágicos podem ser usados ​​como talismãs mágicos.
  3. Verdadeiro ou Falso: A construção de um amuleto ou talismã depende do seu uso.
  4. Verdadeiro ou Falso: Quadrados Mágicos podem ser usados ​​para meditação.

 

Bibliografia

Self Initiation of the Golden Dawn Tradition. By Chic Cicero and Sandra Tabatha Cicero, Llewellyn.

Kabbalah Hermetica. By Marcelo Del Debbio, Daemon editor.

Liber Arphe, By Ulisses Massad, V0.15 2015

Liber 777, Aleister Crowley, Weiser Books

The Golden Dawn. Ed by Israel Regardie, Llewellyn.

The Sacred Magic of Abramelin the Mage. Trans, by S.L. Macgregor Mathers, Dover.

The Magus. Francis Barrett, Citadel.

The Book of the Goetia of Solomon the King. Ed. by Aleister Crowley, Magical Childe.

Amulets and Superstitions. E.A. Wallis Budge, Dover.

Egyptian Magic, E.A. Wallis Budge, Citadel.

The Complete Book of Spells, Ceremonies & Magic. Migene Gonzalez-Wippler, Llewellyn.

The Secret Lore of Magic. Idries Shah, Citadel.

The Book of Ceremonial Magic, a Complete Grimoire. A.E. Waite, Citadel.

The Legend ofAleister Crowley. RR. Stephensen and Israel Regardie, Llewellyn.

The Eye in the Triangle. Israel Regardie, Llewellyn.

A Pictorial History ofMagic and the Supernatural. Maurice Bessy, Spring Books.

The Complete Book ofAmulets & Talismans. Migene Gonzalez-Wippler, Llewellyn.

The Book of Ceremonial Magic: A Complete Grimoire. A. E. Waite. Citadel.

Techniques of High Magic; A Manual of Self-Initiation. Francis King and Stephen Skinner, Doubleday.

Applied Magic. Dion Fortune, Weiser.

The Swordand the Serpent. Denning & Phillips, Llewellyn.

The New Magus. Donald Tyson, Llewellyn.

The Golden Dawn. Ed. by Israel Regardie, Llewellyn.

The Key ofSolomon the King. S. Liddell MacGregor Mathers, Weiser.

The Secret Rituals ofthe O.T.O. Ed. by Francis King, Weiser.

The Book of the Goetia of Solmon the King. Trans, by Aleister Crowley, Magickal Childe.

Buckland’s Complete Book of Witchcraft. Raymond Buckland, Llewellyn.

A Witches Bible Compleat. Janet and Stewart Farrar, Magical Childe.

Planetary Magick. Denning and Phillips, Llewellyn.


Robson Belli, é tarólogo, praticante das artes ocultas com larga experiência em magia enochiana e salomônica, colaborador fixo do projeto Morte Súbita, cohost do Bate-Papo Mayhem e autor de diversos livros sobre ocultismo prático.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-livro-enochiano-dos-amuletos-e-talismas/

Magia com os Arcanos do Tarot de Thoth – Marcia Seabra

Bate-Papo Mayhem 237 – gravado dia 30/09/2021 (Quinta) Com Marcia Seabra – Magia com os Arcanos do Tarot de Thoth

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

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#Batepapo #Tarot #Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/magia-com-os-arcanos-do-tarot-de-thoth-marcia-seabra

Bruxarias de Zos

A concepção popular de feitiçaria, formada pela manifestação anti-cristã que ocorreu na Idade Média é tão distorcida e tão inadequada, que para procurar e interpretar os símbolos de seus mistérios, pervertidos e adulterados como eles estão, sem referência aos numerosos sistemas antigos dos quais eles derivam, é como tomar a ponta de um iceberg por sua massa total.

Tem sido sugerido por algumas autoridades que as feiticeiras originais vieram de uma raça de origem Mongol da qual os Lapps são os únicos sobreviventes restantes. Isto pode ou não ter sido assim, mas aqueles “mongóis” não eram humanos. Eles eram sobreviventes degenerados de uma fase pré-humana de nosso planeta, geralmente – embora erroneamente – classificada como Atlante. A característica que distinguia-os dos outros de sua espécie, era a habilidade que eles possuíam de projetar a consciência em formas de animais, e o poder de revificar formas-pensamento. O bestiário de todas as raças da terra foram criados como resultados de suas bruxarias.

Eles eram entidades não-humanas; isto quer dizer que eles são de épocas anteriores à raça começar a vagar sobre este planeta, e seus poderes – os quais devem hoje parecer extraterrenos – derivados de dimensões extra-espaciais. Eles impregnaram a aura da terra com a semente mágica da qual o foetus humano foi finalmente gerado.

Arthur Machen, talvez aproximou-se da verdade quando sugeriu que as fadas e os duendes do folclore eram invenções próprias que escondem os processos de feitiçaria não-humana repelentes ao gênero humano.

Machen, Blackwood, Crowley, Lovecraft, Fortune e outros, freqüentemente utilizaram como tema para seus escritos, o influxo dos poderes extraterrenos que tem moldado a história de nosso planeta desde o início dos tempos; isto é, desde o início dos tempos para nós, por sermos muitíssimo inclinados à supor que estávamos aqui primeiro e que estamos aqui sozinhos agora, ao passo que as tradições ocultas mais antigas afirmam que nós não estávamos aqui primeiro, nem somos as únicas pessoas na terra; o Grande Antigo e o Senhor dos Deuses encontram ressonância nos mitos e lendas de todos os povos.

Austin O. Spare alegou ter tido experiência direta à existência de inteligências extraterrenas, e Crowley – como sua autobiografia faz abundantes esclarecimentos – devotou parte de sua vida à comprovar que a consciência extraterrena e supra-humana podem e existem independentemente do organismo humano.

Como explanado nas Imagens & Oráculos de Austin O. Spare, ele foi iniciado na corrente vital da antiga e criativa bruxaria por uma mulher idosa de nome Paterson, que alegou descender de uma linhagem de bruxas de Salem. A formação do Culto de Spare do Zos e do Kia adquiriu muito do seu contato com a Bruxa Paterson, quem serviu de modelo para muitos de seus desenhos e pinturas “sabáticos”. Muito do conhecimento oculto que ela transmitiu para ele, está contido em dois de seus livros – O Livro do Prazer e o Foco da Vida. Nos últimos anos de sua vida ele incorporou em um grimoire pesquisas esotéricas ulteriores, o qual ele intentava publicar como uma seqüência de seus dois outros livros. Embora sua morte tenha impedido a publicação, o manuscrito sobreviveu, e a essência do grimoire forma a base deste capítulo.

Spare concentrou o tema de sua doutrina no seguinte “Credo de Afirmação de Zos vel Thanatos”.

“Eu creio na carne “agora” e sempre…
visto que sou a Luz, a Verdade, a Lei, o Caminho,
e nada deverá vir de algo exceto através de sua carne.

Eu não lhe mostrei o caminho eclético entre êxtases;
aquele caminho funâmbulatório precário.

Porém você teve coragem, estava cansado e amedrontado.

ENTÃO ACORDE!

Des-hipnotizem-se da realidade desprezível que vocês vivem e enganam-se.

Pois a grande Corrente Meridiana está aqui, o grande sino bateu.

Deixe os outros aguardarem a imolação involuntária,
a inevitável redenção forçada para muitos apóstatas para com a Vida.

Agora, neste dia, peço-lhe para buscar suas recordações,
pois a grande unificação está próxima.

O Cerne de todas as suas memórias é a sua alma.

Vida é desejo, Morte é reformação…

Eu sou a ressurreição…

Eu, que transcendeu o êxtase pelo êxtase e medita na Necessidade do Não Ser

no Auto-Amor…”

Este credo, criado pela vontade dinâmica de Spare e sua grande habilidade como um artista, criou um Culto sobre o plano astral que atraiu para si todos os elementos naturalmente orientados para ele. Ele (Spare) refere-se à ele (Culto) como Zos Kia Cultus, e seus adeptos alegam afinidade sobre os seguintes termos:

Nosso Livro Sagrado:

O Livro do Prazer.

Nosso Caminho:

– O Caminho eclético entre êxtase; o caminho funâmbulatório precário.

Nossa Divindade:

– A Mulher-Triunfante (“E eu perco-me com ela, no caminho reto.”)

Nosso Credo:

– A Carne Vivente. (Zos) (“Novamente eu digo: Este é seu maior momento de realidade – a carne vivente.”)

Nosso Sacramento:

– Os Sagrados Conceitos de Neutralidade.

Nossa Palavra:

– Nada Importa – apenas Não Ser.

Nossa Eterna Morada:

– O estado místico de “Nem isto – Nem aquilo”. O “Eu Atmosférico” (Kia).

Nossa Lei:

– A Violação de todas as Leis.

O Zos e o Kia são representados pela Mão e o Olho, os instrumentos do tao e da visão. Eles formam a base da Nova Sexualidade, a qual Spare desenvolveu pela combinação deles para formar uma arte mágica – a arte da sensação visualizada, de “tornar-se um com todas as sensações”, e de transcender as duplas polaridades da existência pela aniquilação de identidades separadas através da mecânica da Postura da Morte. Há muito tempo atrás, um poeta persa descreveu com poucas palavras o objetivo da Nova Sexualidade de Spare:

“O reino do abandono do Eu e do Nós, tem sua morada na aniquilação.”

A Nova Sexualidade, no sentido que Spare a concebeu, é a sexualidade não das dualidades positivas, mas do Grande Vazio, o Negativo, o Nada: O Olho do Potencial Infinito. A Nova Sexualidade é, simplesmente, a manifestação do não-manifesto, ou do Universo “B” como Bertiaux pensava, o qual é equivalente ao conceito de “Nem isto – Nem aquilo” de Spare. O Universo “B” representa a diferença absoluta daquele mundo de “todo indiferente” de tudo relativo ao mundo conhecido, ou Universo “A”. Sua entrada é Daath, guardada pelo demônio Choronzon. Spare descreve este conceito como “a entrada de toda neutralidade essencial”. Em termos de Vodu, esta idéia está implícita nos ritos de Petro com sua ênfase sobre os espaços entre os pontos cardeais do compasso: a cadeia rítmica dos tambores que convocam o “loa” de além do Véu e formula as leis de sua manifestação. O sistema de bruxaria de Spare, como expressado no Zos Kia Cultus, Continua em uma linha reta não apenas na tradição Petro de Vodu, mas também no Vama Marg Tantra, com suas oito direções de espaço agrupadas pelo Yantra da Deusa Negra, Kali: a Cruz de Quatro Quartos mais o conceito de neutralidade essencial que juntas compõem a Cruz de oito-braços, o Lótus de oito-pétalas, um símbolo da Deusa da Hepta-Estrela mais o filho dela, Set ou Sírius.

Os mecanismos da Nova Sexualidade são baseados na dinâmica da Postura da Morte, uma fórmula desenvolvida por Spare para o propósito de revificar o potencial negativo em termos de poder positivo. No antigo Egito a múmia era uma variação desta fórmula, e a simulação pelo Adepto do estado de morte – em práticas tântricas – envolve também a paralisação total das funções psicossomáticas. A fórmula tem sido utilizada por Adeptos não necessariamente em trabalhos especificamente tântricos ou de cunho mágico, notavelmente pelo celebrado Advaitin Rishi, Bhagavan Shri Ramana Maharshi de Tiruvannamalai, que alcançou a Iluminação Suprema pelo processo simulado de morte; e também por Bengal Vashinavite, Thakur Haranath, que foi tomado como morto e realmente preparado para um sepultamento após um “transe mortal” que durou muitas horas e do qual ele emergiu com uma consciência totalmente nova que transformou até mesmo sua constituição corporal e aparência. É possível que Shri Meher Baba, de Poona, durante o período de amnésia que o afligiu em época precoce, também tenha experimentado um tipo de morte da qual ele emergiu com poder de iluminar outros e de liderar um grande movimento em seu nome.

A teoria da Postura da Morte, primeiramente descrita em O Livro do Prazer, foi desenvolvida independente das experiências dos Mestres acima mencionados sobre os quais nada havia de escrito ou publicado em qualquer língua européia naquela época.

O mito Rosacruz do ataúde que continha o corpo de Christian Rosenkreutz – dramatizado por S. L. MacGregor Mathers na Cerimônia de 5*=6º da Golden Dawn – resume o mistério desta fórmula essencialmente Egípcia de Osíris mumificado. Spare estava familiarizado com esta visão do Mistério. Ele tornou-se um membro da A A de Crowley, por um curto período, em 1910, e os rituais da Golden Dawn – publicados concisamente mais tarde em O Equinócio – podem ter sido aproveitados por ele.

Os conceitos de morte e sexualidade estão inextricavelmente conectados. Saturno, morte e Vênus, vida, são aspectos duplos da Deusa. Que eles são, em um sentido místico, uma idéia é evidenciado pela natureza do ato sexual. A atividade dinâmica conectada com a direção para conhecer, penetrar, iluminar, culminando em uma quietude, um silêncio, uma cessação de todo esforço, que dissolve-se na tranqüilidade da negação total. A identidade destes conceitos está explícita na antiga equação Chinesa 0=2, onde o zero simboliza o negativo, potencial não-manifesto da criação, e o dois a polaridade dupla envolvida em sua realização. A Deusa representa a fase negativa: o “Eu Atmosférico” simbolizado por aquele “Olho que tudo vê” com todo o seu simbolismo inerente; e a dupla – Set-Hórus – representa a fase do 2, ou dualidade. A alternação repentina destes últimos, ativo-passivo, são emanações positivas do vazio, por ex. a manifestação do Imanifesto, e a Mão é o símbolo desta dualidade criativa auto-manifestante.

O símbolo supremo do Zos Kia Cultus resume-se inteiramente naquele da Mulher Escarlate, e é reminescente do Culto de Crowley do Amor sob Vontade. A Mulher Escarlate corporifica a Serpente Ígnea, que quando controlada causa “mudança ocorrida em conformidade com a vontade”. O entusiasmo energizado da Vontade é a chave do Culto de Crowley, e é análogo à técnica de obsessão induzida magicamente que Spare utiliza para tornar real o “sonho inerente”.

Um dos primeiros magistas de nossa época – Salvador Dalí – desenvolveu um sistema de revificação mágica na mesma época que Crowley e Spare elaboravam suas doutrinas. O sistema de Dalí de “atividade crítica-paranóica” evocava ressonâncias de atavismos ressurgentes que eram refletidos no mundo concreto das imagens por um processo de obsessão similar àquele induzido pela Postura da Morte.

Dalí nasceu em 1904 – o ano em que Crowley recebeu O Livro da Lei – fazendo-o, literalmente, uma criança do Novo Aeon; uma das primeiras. Seu gênio criativo auxiliou-o em cada estágio de seus vôos, a ornamentação do germe essencial que o fez uma viva corporificação da consciência do Novo Aeon, e o “Homem Real” descrito no L.A.L..

Os objetos de Dalí eram refletidos no fluído e luminosidade sempre mutável da Luz Astral. Elas revolvem-se e encontram-se continuamente no “próximo passo”, a próxima fase da expansão da consciência na imagem distante de “Tornar-se”.

Spare já havia conseguido isolar e concentrar um desejo em um símbolo que tornava-se consciente e logo potencialmente criativo através dos raios da vontade magnetizada. Dalí, parece-o, incorporou ao processo um passo além. Sua fórmula de “atividade crítica-paranóica” é um desenvolvimento de um conceito primal (Africano) de fetiche, e é instrutivo comparar a teoria de Spare de “sensação visualizada” com a definição de Dalí de pintura como “mão vestida de cores fotográficas de completa irracionalidade”. Sensação é essencialmente irracional, e sua delineação em forma gráfica (“mão vestida de cores fotográficas”) é idêntica ao método de “sensação visualizada” de Spare.

Estes magistas utilizaram corporificações humanas de poder (shakti) que mostravam-se – usualmente – na forma feminina. Cada um dos livros que Crowley produziu tinha sua shakti correspondente. “Os Ritos de Elêusis” (1910) foi energizado, amplamente, por Leila Waddell. “O Livro Quatro, Partes I & II” (1913) veio através de Sóror Virakam (Mary d’Este). “Liber Aleph – O Livro da Sabedoria ou Loucura (1918)” – foi inspirado por Sóror Hilarion (Jane Foster). Seu grande trabalho, “Magick em Teoria e Prática”, foi escrito no ano de 1920 em Cefalu, onde Alostrael (Leah Hirsig) proveu o ímpetus mágico; e assim por diante, seguindo a interpretação do Tarot do Novo Aeon (O Livro de Thoth), o qual ele produziu em colaboração com Frieda Harries em 1944. A shakti de Dalí – Gala – foi o canal através do qual a inspiração do fluxo criativo foi fixada ou visualizada em algumas das grandes pinturas que o mundo já viu. E no caso de A.O.Spare, a Serpente Ígnea assumiu a forma da Senhora Paterson, uma bruxa auto-confessa que incorporou as feiticeiras de um culto tão antigo que já era velho no começo do Egito.

O grimoire de Spare é uma concentração de todo o corpo de seu trabalho. Ele abrange, de certo modo, todas as coisas de valor mágico ou criativo que ele constantemente pensava ou imaginava. Assim, se você possuir uma pintura de Zos, e estas pinturas contêm alguns de seus feitiços sigilizados, você possui o grimoire, e você está diante de uma grande chance de alcançar e harmonizar-se com as vibrações do Zos Kia Cultus.

Um aspecto pouco conhecido de Spare, um aspecto que está ligado à sua antiga amizade com Thomas Burke, revela o fato de que uma curiosa sociedade oculta chinesa – conhecida como o Culto de Kû – floresceu em Londres nos anos vinte. Seu “quartel-general” pode ter sido em Pequim, Spare não fez menção à isso, talvez nem soubesse; mas sua ramificação londrina não era em Limehouse como alguns poderiam esperar, mas em Stockwell, não muito distante do apartamento-estúdio que Spare compartilhava com um amigo. Uma sessão secreta do Culto de Kû foi presenciada por Spare, que parece ter sido o único europeu à ter ganho admissão. Ele parece, de fato, ter sido o único europeu além de Burke que havia sido Tão mais que um ouvinte do Culto. A experiência de Spare é de excepcional interesse por razão de sua estreita aproximação de uma forma de controle-onírico no qual ele foi iniciado muitos anos antes pela Bruxa Paterson.

A palavra Kû tinha muitos significados em chinês, mas neste caso particular ela denota uma forma peculiar de feitiçaria envolvendo elementos dos quais Spare já havia incorporado em sua concepção da Nova Sexualidade. Os adeptos de Kû adoravam uma deusa-serpente na forma de uma mulher dedicada ao Culto. Durante um elaborado ritual ela seria possuída, com o resultado de que ela lançava, ou emanava, múltiplas formas da deusa como sombras conscientes dotadas com todas as seduções possuídas por sua representante humana. Estas mulheres-sombra, impelidas por alguma lei sutil de atração, atraiam-se por um ou outro dos devotos que sentavam em uma condição de entorpecimento ao redor da extasiada sacerdotisa. O congresso sexual com estas sombras então ocorria e ele era o começo de uma forma sinistra de controle onírico envolvendo jornadas e encontros nas regiões infernais.

O Kû parecia ser uma forma da Serpente Ígnea exteriorizada astralmente como uma mulher-sombra ou súcubus, e o congresso com a qual tornava possível ao devoto revificar seus “sonhos inerentes”. Ela era conhecida como “prostituta infernal” e sua função era análoga àquela da Mulher Escarlate do Culto de Crowley, à Suvasini do Círculo Tântrico de Kaula e à “Demoníaca” do Culto da Serpente Negra. O Kû chinês, ou prostituta infernal, é uma corporificação ilusória de desejos subconscientes concentrados em uma forma tentadoramente sensual da Serpente da Deusa das Sombras.

O mecanismo de controle onírico é de muitas formas similar àqueles que realizam a projeção astral consciente. Meu próprio sistema de controle onírico deriva de duas raízes: a fórmula da Lucidez Eroto-Comatosa descoberta por Ida Nellidof e adaptada por Crowley às suas técnicas de magia sexual, e o sistema de Spare dos Sigilos Conscientes explicado abaixo.

O sono deve ser precedido por alguma forma de Karezza, durante o qual um sigilo escolhido especificamente, simbolizando o objeto de desejo é vividamente visualizado. Desta maneira a libido é impedida de suas fantasias naturais e procura satisfação no mundo onírico. Quando a habilidade necessária é adquirida, o sonho torna-se extremamente intenso e dominado por uma súcubus, ou mulher-sombra, com quem o intercurso sexual ocorrerá espontaneamente. Se o sonhador tiver adquirido um grau até mesmo moderado de proficiência nesta técnica, ele estará consciente da contínua presença do sigilo. O sigilo deve ficar restringido sobre a forma da súcubus, em um local que esteja dentro dos limites de sua visão durante a cópula; por exemplo, como um pingente pendente no pescoço dela; como um brinco; ou como um diadema ao redor de sua testa (da súcubus). Seu ponto focal deve ser determinado pelo magista, respeitando a posição assumida durante o coito. O ato assumirá então, todas as características de uma Operação do Nono Grau, porque a presença da Mulher-Sombra será experimentada com uma sensação intensamente vívida e realista. O sigilo assim, torna-se consciente e no devido curso, o objeto da Operação materializa-se sobre o plano físico. Este objeto é, obviamente, determinado pelo desejo corporificado e representado pelo sigilo.

A importante inovação neste sistema de controle onírico, encontra-se na transferência do Sigilo da consciência desperta ao estado de consciência onírica, e à evocação, na parte final, da Mulher-Sombra. Este processo transforma um Rito de Oitavo Grau na semelhança do ato sexual utilizado na Operação do Nono Grau.

Resumidamente, a fórmula tem três estágios:

Karezza, ou atividade sexual sem culminação, com visualização do sigilo até o sono superficial.

Congresso sexual no estado onírico com a Mulher-Sombra evocada pelo estágio I. O sigilo deve aparecer automaticamente neste segundo estágio; se isso não acontecer, a prática deverá ser repetida em outra hora. Se o sigilo aparecer, então o resultado desejado revificará no estágio III.

Após despertar (por ex., no mundo dos fenômenos mundanos do dia-a-dia).

Uma palavra de explicação é, talvez, necessária concernente ao termo karezza como utilizado no presente contexto. A retenção do sêmen é um conceito de importância central em certas práticas Tântricas, a idéia é que a bindu (semente) cresce, então, astralmente, e não fisicamente. Em outras palavras, uma entidade de alguma espécie é levada à nascer no nível astral de consciência. Esta, e técnicas análogas, tem dado origem à impressões – completamente errôneas – de que o celibato é um sine qua non para o sucesso mágico; mas tal celibato é de uma característica puramente local e confinado ao plano físico, ou estado desperto, somente. O celibato, como normalmente entendido, é portanto uma paródia inexpressiva ou caricatura da verdadeira fórmula. Tal é o sensato celibato do iniciado tântrico, e alguma semelhante interpretação indubitável aplicada também à outras formas de ascetismo religioso. As “tentações” dos santos, ocorrem precisamente sobre o plano astral porque os canais físicos encontram-se deliberadamente bloqueados. O estado de entorpecimento notado nos seguidores de Kû, sugere que a sombra-sedutora decorrente, foi evocada após um padrão similar ao obtido por uma espécie de controle onírico.

Gerald Massey, Aleister Crowley, A.O.Spare, Dion Fortune e etc., tem – cada um à seu modo – demonstrado a base bioquímica dos Mistérios. Eles realizaram na esfera do “oculto” aquilo que Wilhelm Reich realizou na psicologia, e estabeleceram-no sobre uma segura base bioquímica.

Os “símbolos conscientes” e o “alfabeto do desejo” de Spare, correlacionando, como eles fazem a energia nervosa do corpo com os princípios-sexuais específicos, antecipou em diversas formas o trabalho de Reich que descobriu – entre 1936 e 1939 – o veículo de energia psico-sexual, o qual ele nomeou de orgônio. A contribuição singular de Reich para a psicologia e, incidentalmente, para o ocultismo Ocidental, situa-se no fato de que ele isolou com sucesso a libido e demonstrou sua existência como uma energia biológica tangível. Esta energia, a atual substância do conceito puramente hipotético de Freud – libido e id – foi medida por Reich, elevada da categoria de hipótese, e reativada. Ele estava, contudo, errado em supor que o orgônio fosse a energia definitiva. Ela é um dos mais importantes kalas, mas não o Supremo Kala (Mahakala), embora ele possa transformar-se em tal, por virtude de um processo não conhecido dos Tantrikas do Vama Marg. Até épocas comparavelmente recentes, ele era conhecido – no Ocidente – dos alquimistas Árabes, e completava o corpo da literatura alquímica com sua terminologia tortuosa e estilo hieroglífico, revelando – se ela revelava algo – um plano deliberado da parte dos Iniciados para velar o verdadeiro processo de refinar o Mahakala.

A descoberta de Reich é significante porque ele foi provavelmente o primeiro cientista a colocar a psicologia em sólida base biológica, e o primeiro à demonstrar sob condições laboratoriais a existência de uma energia mágica tangível e por último dimensionável e, portanto, estritamente científica. Se essa energia é a chamada luz astral (Éliphas Lévi), força vital (Bergson), energia ódica (Reichenbach), libido (Freud), Reich foi o primeiro – com possível exceção de Reichenbach- atualmente a isolá-la e demonstrar suas propriedades.

Austin O. Spare suspeitava, tanto antes quanto em 1913, que algum tipo de energia era o fator básico na reativação de atavismos primais, e ele tratou-a de acordo como energia cósmica (o “Eu Atmosférico”) suscetível à sugestão subconsciente através dos Símbolos Conscientes, e através da aplicação do corpo (Zos) de tal forma que ele poderia revificar atavismos remotos e todas as formas futuras possíveis.

Durante a época em que ele estava preocupado com estes temas, Spare sonhou repetidamente com construções fantásticas cujos alinhamentos ele achou inteiramente impossível de passar para o papel ou tela quando desperto. Ele supunha-os ser ecos de uma geometria do futuro do aspecto espaço-tempo sem relação conhecida com as formas da arquitetura dos presentes dias. Éliphas Lévi alegou um poder similar de revificação da “Luz Astral”, mas ele falhou ao mostrar a forma precisa de sua manipulação. Foi para este fim que Spare desenvolveu seu Alfabeto dos Desejos, “cada letra das quais, relaciona-se com um princípio sexual”. Isto quer dizer que ele registrou algumas correspondências entre o movimento interior do impulso sexual e a forma externa de sua manifestação em símbolos, sigilos ou letras tornadas conscientes por estarem carregadas com sua energia. Dalí refere-se à tal forma-fetiche carregada magicamente como “acomodações de desejo” que são visualizadas como vácuo irreal, negridão vazia, cada uma tendo a forma de objetos fantasmagóricos que ocupam sua latência, e que É somente pela virtude do fato de que ela Não É. Isto indica que a origem da manifestação é o não-manifesto, e é evidente à compreensão intuitiva que o orgônio de Reich, o Eu Atmosférico de Spare e a delineação de Dalí da “Acomodação do desejo” refere-se em cada um dos casos à uma Energia manifesta através do mecanismo do desejo. Desejo, Vontade Energizada e Obsessão, são as chaves para a manifestação ilimitada, por toda forma e todo poder estarem latentes no vazio, e sua forma divina é a Postura da Morte.

Estas teorias tem suas raízes em práticas muito antigas, algumas das quais – em forma distorcida – proveram as bases do Culto da Bruxaria medieval, covens que floresceram em Nova Inglaterra na época dos Julgamentos das Bruxas de Salém no final do século XVII. As perseguições subseqüentes, eliminaram aparentemente todas as manifestações externas de ambos cultos: o genuíno e sua simulação alterada.

Os principais símbolos do culto original tem sobrevivido à passagem dos aeons – longos ciclos de tempo. Todos eles lembram o Caminho Retrógrado: o Sabbath sagrado de Sevekh ou Sebt, o número Sete, a Lua, o Gato, o Chacal, a Hiena, o Porco, a Serpente Negra, e outros animais considerados impuros por tradições posteriores; o giro sobre os pés e a dança de Costas-com-Costas, o Beijo Anal, o número Treze, a Bruxa montada sobre um cabo de vassoura, o Morcego, e outras formas de palmípedes ou criaturas noturnas voadoras; os Batráquios em geral, dos quais o Sapo, a Rã, ou Hekt eram proeminentes. Estes e símbolos similares, tipificavam originalmente a Tradição do Dragão que foi adulterada pelos pseudos cultos de bruxaria durante os séculos de perseguição Cristã. Os Mistérios foram profanados e os sagrados ritos foram condenados como anti-cristãos. O Culto tornou-se, assim, o repositório de ritos religiosos invertidos e pervertidos, e símbolos sem nenhum significado inerente; meras afirmações das bruxas adicionaram perpetração à doutrina anti-cristã ao passo que – originalmente – eles eram emblemas vivos conscientes da fé pré-cristã.

Quando a importância dos símbolos ocultos estiverem aprofundados ao nível Draconiano, o sistema de bruxaria que Spare desenvolveu através do contato com a Bruxa Paterson, torna-se explicável e todos os círculos mágicos, bruxarias e cultos, serão vistos como manifestações das Sombras.  

Kenneth Grant, Excerto de Cultos das Sombras

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/bruxarias-de-zos/

Amprodias (Os Túneis de Set)

Por Kenneth Grant, O Lado Noturno do Éden.

 

O DÉCIMO-PRIMEIRO caminho ou kala é atribuído ao elemento Ar e seu aspecto negativo é o demônio ou sombra conhecido como Amprodias cujo sigilo é dado aqui e cujo número é 401. Esta sombra pode ser evocada vibrando-se o nome Amprodias na clave de ‘E’479. O sigilo deve ser pintado em amarelo pálido luminoso em um quadrado baseado em esmeralda(?) manchado com dourado.

 

401 é o número do Azoto que significa a ‘soma e essência de tudo, concebido como Um’. Em sua fase negativa esta essência é concebida como Nenhuma e é o Vazio do qual procede a manifestação 480. A natureza deste vazio é também 401 como ATh, a palavra hebraica significando ‘fora de’; sua raiz é o Ut egípcio, portanto útero, o portal da saída. É fora do útero do Ain, via Kether, que a manifestação é emitida.

 

O sigilo de Amprodias exibe uma boca aberta típica do útero que pronuncia a Palavra. Esta Palavra é a Luz Oculta, cujo símbolo é a cruz rodopiante ou suástica. Ele é idêntico à letra A ou aleph, a letra atribuída ao décimo-primeiro caminho. No grimório mágico CCXXXI, o seguinte verso pertence a este kala:

 

A, o coração de IAO, reside em êxtase no local secreto dos trovões. Entre Asar e Asi ele habita em júbilo.

 

Os Túneis de Seth.

 

O raio, ou dorje, é a arma do suporte do relâmpago da Luz Oculta que risca para baixo a partir do vazio, reificando tal como este faz a terra ou matéria. O número 401 é também aquele da palavra ARR que significa ‘amaldiçoar’. Ele é a maldição primal do Fogo do Espírito aprisionado na forma corporal, descrito nos Livros Sagrados ‘a Injustiça do Começo’481, o começo sendo considerado como Kether, através da qual cintilam os raios do Ain ou Olho do Vazio.

 

Os animais atribuídos a este kala são a Águia e o Homem. O Homem representa a mais elevada forma incorporada da divindade; a Águia é aquele querubim do Ar que penetra os mais altos éteres na forma de inteligência: i.e., consciência dirigida por vontade extra-terrestre ou ‘divina’. Contudo o significado íntimo deste caminho está resumido no poder mágico do décimo-primeiro kala que é aquele da divinação. Isto depende do aspecto divino ou supra-mundano do espírito que cintila para dentro do útero e fecunda a terra virgem com Luz (inteligência) desde além do último Pylon (Kether). Poder divinatório é o aspecto intuitivo da inteligência e como tal seu curso é tão imprevisível quanto o relâmpago bifurcado que penetra o útero do espaço e se manifesta como o trovão. – o A entre o I e o O482. O mistério do trovão é explicado no CCXXXI. Aqui, a suástica do décimo-primeiro caminho é comparado com o fulgor do caminho 28 (q.v.) que contém o mistério da transformação da santa virgem. Ela aparece ‘como um fogo fluídico, transformando sua beleza em um raio’ (i.e., uma suástica). Isto simboliza a “Força que restaura o mundo arruinado pelo mal’, i.e. pela maldição primal ou Injustiça do Começo.

 

No plano mágico, o poder divinatório se manifesta no irracional, dessa forma os maiores mestres da Magia(k) traficam constantemente com as energias do décimo-primeiro kalas. O elemento irracional aparece tão fortemente nos magistas que utilizam este kala que seu trabalho não tem sido frequentemente levado a sério ou tem sido completamente negligenciado. Um exemplo recente é H.P.Blavatsky, cujas excentricidades lançaram tal dúvida sobre a autenticidade de sua obra que poucos na sua época foram capazes à estimá-la em seu verdadeiro valor. Similarmente, as palhaçadas de Crowley o colocaram em uma categoria ainda mais duvidosa. Poucos deveras compreendem que o décimo-primeiro caminho é aquele do Louco que dança à beira do abismo, como retratado no trunfo de taro atribuído à este caminho. Salvador Dali, cujas brincadeiras práticas são notórias, também às vezes trouxe descrédito sobre sua arte, embora muitas pessoas fiquem impressionadas pela riqueza que sua arte acumulou. O ocultista Gurdjieff também cai nesta categoria483. Seu livro Cartas a Belzebu tem sido descrito como uma piada prática complicada, então, novamente, obscurecendo deliberadamente a importância vital de um ensinamento que é compreendido apenas pelos poucos. Cristo também não falou em parábolas de forma que ele não fosse compreendido?484

 

A nota principal da escala musical atribuída a Amprodias – ‘E’ – é, como Hé, a letra do útero da virgem impregnado pelo Louco485. De acordo com isto, o Rio do Submundo atribuído ao décimo-primeiro kala é o Acheron, que recebe espíritos como o útero recebe o relâmpago criativo. O arqui-demônio deste caminho é o próprio Satan, Senhor dos Poderes do Ar (aleph) através do que o raio traceja.

 

Onze é o número atribuído à zona de poder (Daäth) dentro do abismo. A cor atribuída a Daäth é o Lavanda, ou Violeta Pura, que tipifica a cor além do espaço que vibra em uníssono com o kala ativado pela evocação de Amprodias. Ela é a cor do Louco; aquele que está fora do alcance da inteligência normal. A negação da razão que tipifica seu estado de consciência é consoante com o lado positivo deste caminho que é atribuído àquela parte da alma conhecida como a Ruach, ou Razão. Mais corretamente, a ruach é a respiração do espírito, a semente rodopiante que impregna a virgem do espaço e faz nascer inúmeros mundos.

 

O órgão corporal correspondente a este simbolismo é o nariz, o órgão da respiração e o veículo do sentido olfativo. Esta atribuição ajuda a explicar os fenômenos olfativos conectados às operações ‘satânicas’. O fedor do incenso empregado em ritos medievais era o véu grosseiro e externo de um fato espiritual interior. Portanto, uma das armas mágicas associadas a este kala é o abanador, que dispersa os vapores fétidos que envolvem o mago assim que ele evoca o demônio deste kala. Porém o instrumento principal é a adaga do ar, isso quer dizer a arma que rompe o hímen do éter virgem (representado pelo Ovo Negro do Espírito) e exibe a deidade terrível além da margem do ‘universo’; aquele que está sentado no Centro de Tudo, o deus louco celerado por Lovecraft sob o nome de Nyarlathotep486, o deus rodeado por ‘tocadores de flauta idiotas’.

 

A flauta é a Flauta de Pan, e aquele que ergue este véu e perscruta além é desprovido de razão e senso. Em outras palavras, ele vê a verdade das coisas em seu brilho nu e ele percebe que aquilo novamente é nada mais que um véu do sacramento primitivo alcançável apenas através da suprema fórmula da aniquilação, pois este é o caminho final, que conduz – via Kether – ao Grande Inane (Ain).

 

Onze, sendo o ‘número geral da Magia(k), ou Energia tendendo à mudança’487, o décimo-primeiro caminho representa particularmente o caminho da reversão e o ponto da volta do mais próximo para o outro lado da Árvore.

 

A enfermidade típica do décimo-primeiro caminho é o ‘fluxo’, que em termos mágicos é expressado como descargas desequilibradas ou ‘intempestivas’ da energia lunar. Este é portanto o kala do Sangue da Lua Negra. Ele adverte sobre um vazamento de fluido vital que, ao transbordar, forma um resíduo de energia mágica desequilibrada. Isto cria fantasmas que aparecem na forma de Silfos; elementais associados ao ar ou éter. Como as fadas e os duendes dos contos infantis eles são, mais frequentemente que não, retratados como criaturas diáfanas e enganadoras. Mas no aspecto no qual eles se manifestam no lado negativo da Árvore, eles assombram as terríveis brechas do espaço interior onde eles aparecem em feições de extremo horror que obsedam o mago e muitas vezes o deixam literalmente fora de si. Então eles invadem o espaço desocupado e, como sanguessugas, drenam o sangue de sua mente488 para dentro de seus próprios organismos. Esta é a origem dos mitos relacionados a magos aprisionados no espaço exterior489, suas mentes segregadas em celas transparentes que flutuam através dos golfos do vazio como imensas bolhas, aumentando em tamanho e luminosidade enquanto os silfos invasores extraem mais e mais energia vital dos fluxos que atacaram o imprudente invasor neste caminho.

 

Estas criaturas foram vagamente sentidas por Lovecraft490. Ele as descreve como ‘entidades sem forma compostas de uma geleia viscosa que pareciam como uma aglutinação de bolhas’491. Uma descrição similar é aplicada à semi-entidade Yog-Sothoth. A passagem é citada em O Renascer da Magia (p.116) onde a atenção é dirigida à grande similaridade entre o fenômeno descrito e a esfera de globos iridescentes incorporados por Crowley no desenho de seu pantáculo mágico pessoal onde elas aparecem por trás do Pentagrama de Set invertido.492

 

As maiores iniciações sozinhas podem conferir imunidade contra estes vampiros que navegam com asas cintilantes. O conhecimento das fadas tem ocultado estas criaturas com véus de encantamento que ocultam o horror de suas perseguições e contata com os habitantes dos sistemas alienígenas de consciência nas regiões mais inferiores do cosmo. Arthur Machen, o escritor galês que sabia mais sobre estes assuntos do que ele se preocupava em admitir, nota esta propensão do estudioso das fadas em caiar estes seres aéreos e retratá-los como entidades justas.493

 

O título do trunfo de taro atribuído ao décimo-primeiro kala é o ‘Espírito do Éter’. No lado mais próximo da Árvore este espírito é mais resplandecentemente belo e luminoso do que as palavras podem descrever, mas seu reverso ou reflexo é tal como acima descrito; assim também são as bolhas sopradas pelo Louco do Taro em sua louca carreira à margem do abismo.

 

O número de Amprodias se concentra em 5, o mais misterioso e místico dos números no cosmos, e além deste. Lovecraft494 indica a respeito das influências que ele denota quando ele alude à ‘quíntupla tradição matemática dos Antigos’ e suas estruturas de ciclope e moradas baseadas na forma da estrela de cinco pontas. No AL, I,60, Nuit descreve seu símbolo como “A Estrela de Cinco Pontas, com um Círculo no Meio, & o círculo é Vermelho. Minha cor é o negro para o cego… ‘ Todas estas ideias pertencem ao décimo-primeiro caminho495. O círculo vermelho é a lua ‘negra’ ou lua de sangue, os cinco pontos ou raios da estrela são as vibrações vaginais da mulher durante o derramamento de cinco dias. A estrela de cinco pontas é também o glifo dos Antigos transcósmicos; e o ‘Ovo do Espírito’496 é ‘negro para o cego’, ou aqueles cujos olhos espirituais não estão abertos e que são, portanto, como a virgem que mais tarde assume a forma de ‘fogo fluido’ como o relâmpago.

 

O conceito africano de Afefe tem sido atribuído ao décimo-primeiro kala 497. Afefe é ‘o vento’, e é precisamente aqui no mais primitivo simbolismo conhecido que nós descobrimos a identidade da serpente como um símbolo de potência criativa, a ruach ou espírito. Afefe tornou- se o Apep ou serpente Apap dos Mistérios Draconianos no Egito. O Afefe-Apophis é também a origem do Verme Fafnir da mitologia Nórdica e, como Massey mostrou, um derivativo moderno é nossa palavra ‘puff’, ‘estourar’ no sentido de tornar-se grande, inchado, entumecido ou grávido. O Afefe africano revela portanto a força ‘protuberante’ ou ondulante do vento que é a rajada ou espírito que se tornou – em um retrocesso posterior dos Mistérios – o Espírito Santo que impregna a virgem na forma da Pomba, o pássaro típico do ar. Isso é mais adiante confirmado pelo fato de que o gênio do vento, do qual Afefe é o ‘mensageiro’, reside no grande templo de Legba, a divindade fálica africana que nos cultos posteriores foi equacionado com o mal devido à sua conexão com os mistérios do sexo.

 

A letra ‘A’ na fórmula IAO é idêntica com Apophis e é o campo de operação no qual as energias mágicas do I e do O (o phallus e a kteis) se polarizam e realizam sua função criativa.

 

479 Este som deve se elevar a partir de um sussurro escassamente audível até um silvo penetrante como o ar sendo forçado ao longo de um tubo estreito.

 

480 A manifestação pode proceder apenas da não-manifestação. Esta declaração de uma verdade óbvia deve ser percebida, ela é a verdade mais profunda do caminho místico e a plena compreensão desta confere a chave da Iniciação definitiva. (ao lado, ilustração dos 22 Caminhos na Árvore)

 

481 Vide Liber VII, v.42; Liber LXV, iv.56, e em outras partes.

 

482 A fórmula de IAO foi analisada em Aleister Crowley & o Deus Oculto (capítulo 7).

 

483 Vide o excelente estudo de David Hall sobre Crowley e Gurdjieff.

 

484 Lucas, 8, 10.

 

485 Vide O Livro de Thoth, de Aleister Crowley.

 

486 O deus ‘sem face’. Cf. o ‘sem cabeça’ do texto Greco-Egípcio usado por Mathers em sua tradução da Goetia.

 

487 777 Revisado (Crowley).

 

488 Matéria mental ou chittam.

 

489 Vide página 255.

 

490 Lovecraft chamava estas bolhas de shoggoths. Existe uma palavra similar na língua caldaica, viz.: shaggathai. O Beth Shaggathai era a Casa de Fornicação, e isto sugere os semitons sexuais contidos no nome da ‘geleia viscosa’, ou lodo, que é o veículo primitivo da semente criativa.

 

491 Nas Montanhas da Loucura, Lovecraft, p.63.

 

492 Este pantáculo é reproduzido em O Renascer da Magia na pág.52.

 

493 Vide O Povo Branco (Machen), Introdução.

 

494 Nas Montanhas da Loucura (Lovecraft), p.86.

 

495 ‘Meu número é 11, como todos os seus números que são de nós.’

 

496 O símbolo de Akash ou Espaço é um Ovo Negro; isto também tipifica o Espírito.

 

497 Vide Cultos da Sombra, p.30.

 

***

 

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/amprodias-os-tuneis-de-set/

A Moderna Feitiçaria

Os paroquianos da respeitável igreja da rua Arlington, em Boston, viram e ouviram muita coisa ao longo dos anos. Afinal, é em seu altar que o evangelho unitário de um deus único, e não tríplice, tem sido transmitido de geração em geração. Foi ali também, numa crise agora remota, que o abolicionista William Ellery Channing protestou contra os malefícios da escravatura. E, um século depois , seria nessa mesma igreja que vários manifestantes externariam seu protesto contra a intervenção americana no Vietnã.

Contudo, é possível pensar que nem mesmo paroquianos com tanta tradi­ção e audácia teriam sido capazes de prever a incrível cena que ocorreu nessa igreja numa sexta-feira de abril, no ano de 1976. Naquela noite, quando as luzes da igreja diminuíram e o som cristalino de uma flauta se espalhou por entre mais de mil mulheres ali reunidas, quatro feiticeiras, cada uma delas empunhando uma vela, colocaram-se ao redor do altar. Com elas encontrava-se uma alta sacerdotisa da magia, Morgan McFarland, filha de um ministro protestante. Numa voz clara e firme, McFarland proferiu um longo encantamento cujos místicos ecos pareciam realmente muito distintos da doutrina que os paroquianos unitaristas estavam habituados a ouvir: “No momento infinito antes do início do Tempo, a Deusa se levantou em meio ao caos e deu a luz a Si Mesma (…) antes de qualquer nascimento (…) antes de seu próprio nascer. E quando separou os Céus das Águas e neles dançou, a Deusa, em Seu êxtase, criou tudo que há. Seus movimentos geraram o vento, o elemento Ar nasceu e respirou.”

Enquanto a alta sacerdotisa prosseguia em seu cântico, descrevendo sua própria versão da criação do mundo, suas companheiras de altar começaram a acender as velas, uma após a outra — a primeira para o leste, depois para o sul, o oeste e, por fim, para o norte. As palavras de MacFarland repercutiam, ressoando diante de todos como se fossem ditas pela voz de uma antiga pitonisa, uma voz que invocava a grande divindade feminina que, segundo afir­mavam as sacerdotisas, havia criado os céus e a terra. No ápice de seu canto, MacFarland rememorava o dia em que a deusa criara a primeira mulher e lhe ensinara os nomes que deveriam ser eternamente pronunciados em forma de oração: “Sou Ártemis, a Donzela dos Animais, a Virgem dos Caçadores. Sou ísis, a Grande Mãe. Sou Ngame, a Deusa ancestral que sopra a mortalha. E serei chamada por milhares de nomes. Invoquem a mim, minhas filhas,  e saibam que sou Nêmesis.”

Tudo isso ocorreu durante uma convenção de três dias, cujo tema era a espiritualidade feminina. Apesar de recorrer a elementos familiares tais como velas, túnicas e música, essa foi a prece menos ortodoxa que já ecoara pelas paredes de arenito da igreja da rua Arlington. A cerimônia deve ter sido contagian-te, pois no final a nave da igreja estava repleta de pessoas dan­çando e quase mil vozes preenchiam aquele local majestoso e antigo unidas em uma só cantilena que dizia: “A Deusa vive, há magia no ar. A Deusa vive, há magia no ar.”

Para muitos especialistas que pesquisam a história da feiti­çaria, aquela deusa invocada durante a cerimônia, uma deusa cuja dança arrebatada teria urdido o vento, o ar e o fogo e cujo riso, afirmava-se, instilara a vida em todas as mulheres, não poderia, de modo algum, ter existido no momento da criação, porque nasceu e re­cebeu sua aparência, tanto quanto sua personalidade, de uma imaginação absoluta­mente moderna. Sua origem histórica, afirmam os céticos, limita-se a poucos traços co­lhidos de concepções um tanto nebulosas relacionadas com divindades da Europa pré-cristã, concepções estas que teriam sido intencional­mente rebuscadas com deta­lhes teatrais para adequar-se aos ritos e cerimônias.

Porém, para muitos praticantes da feitiçaria, sua Grande Deusa é realmente um ancestral espírito criador, cultuado na Europa e no Oriente Próximo muito antes da intro­dução do Deus cristão. Acreditam que a deusa tenha sobrevivi­do aos séculos de perseguição ocultando-se nos corações de seus adoradores secretos, filhos e filhas espirituais que foram condenados ao ecúleo e à fogueira da Inquisição devido a suas crenças. E agora, dizem, a deusa emerge mais uma vez, aberta­mente, inspirando celebrações nos redutos daquela mesma reli­gião organizada que anteriormente tentara expurgar tudo que estivesse relacionado com ela e seus seguidores.

Seus modernos adeptos não têm a menor dúvida quanto à antigüidade de sua fé. Ser um feiticeiro, afirma um deles, é “en­trar em profunda sintonia com coisas que são mais antigas do que a própria espécie humana”. E, realmente, até certos não-iniciados declaram perceber nesse movimento dos praticantes de feitiçaria uma força invisível que anima o universo. Uma mulher que classificou os ensinamentos e ritos da feitiçaria como “meras palavras, sem qualquer significado”, disse no en­tanto que, quando compareceu ao local no qual as feiticeiras se reuniam, sentiu uma força que parecia pairar além dos limites da razão. “Sinto uma corrente”, confessou em carta a uma ami­ga, “uma força que nos cerca. Uma força viva, que pulsa, flui e reflui, cresce e desaparece como a lua (…) não sei o que é, e não sei como usá-la. É como quando se está bem perto de uma corrente elétrica, tão perto que se pode até ouvir seu zumbido, seu estalo, mas sem conseguir conectá-la.”

Hoje, contudo, milhares de homens e mulheres que levam uma vida comum, afora essa busca, acreditam estar conectando essa corrente e extraindo energia daquilo que Theo-dore Roszak define como “a fonte da consciência espiritu­al do homem”. No decorrer desse processo, estes que se proclamam neopagãos des­cobrem — ou, como dizem alguns deles, redescobrem — o que afirmam ser uma reli­gião ancestral, uma religião cuja linguagem é a do mito e do ritual, cuja fé professa a realidade do êxtase e é difícil de ser definida, uma religião de muitas divindades e não de apenas um só Deus.

Esses modernos adora­dores da natureza, tal como os pagãos de eras passadas, não separam o natural do so­brenatural, o ordinário do extraordinário, o mundano do espiri­tual. Para um neopagão, tudo pertence a um mesmo todo. Cal­cula-se que o número de neopagãos alcance um número aproximado de 100 mil ou mais adeptos nos Estados unidos, formando uma irmandade que se reflete na verdadeira explo­são de festivais pagãos iniciada na década de 70. Mo final da década de 80, havia mais de cinqüenta desses festivais nos Estados Unidos, atraindo uma platéia que reunia desde os adeptos mais radicais até meros curiosos. Segundo Margot Adler, autora de Atraindo a Lua, um livro que documenta a ascensão do neopaganismo, tais festivais “mudaram comple­tamente a face do movimento pagão” e estão gerando uma comunidade paga nacional. Adler afirma que esse grupo abrange pessoas cujo perfil social inclui desde tatuadores e estivadores até banqueiros, advogados e muitos profissionais da área de informática.

Nem todos os neopagãos da atualidade podem ser chama­dos de bruxos ou feiticeiros, pois nem sempre associam o culto neopagão à natureza e a antigas divindades com a prática da magia ritualística, como fazem os feiticeiros. Mas um número desconhecido de neopagãos adota os princípios de uma fé popularmente chamada de feitiçaria e conhecida entre os iniciados como “a prática”. Essa religião também é conhecida pelo nome de Wicca, uma palavra do inglês antigo que designa “feiticeiro”; esse termo pode estar relacionado com as raízes indo-européias das palavras wic e weik, que significam “dobrar” ou “virar”. Portanto, aos olhos dos modernos adeptos da Wicca, as bruxas nunca foram as megeras ou mulheres fatais descritas pelo populacho, mas sim homens e mulheres capazes de “dobrar” a realidade através da prática da magia. Eles acreditam que os feiticeiros da história se­riam os curandeiros das aldeias, senhores do folclore e da sabedo­ria tradicional e, portanto, os pilares da sociedade local.

Apesar da moderna popularidade da feitiçaria como religião, a crença medieval no poder das bruxas para convocar malefícios nunca desapareceu completamente. E era ainda bem forte em 1928, no condado de York, na Pensilvânia, a ponto de provocar mortes. Dois homens e um menino confes­saram o assassinato de Nelson Rehmeyer, um fazendeiro soli­tário que se dizia feiticeiro, para apanhar um cacho de seus cabelos. Precisavam do cacho, afirmaram, para quebrar o fei­tiço que ele lhes jogara. John Blymyer, o mais velho, decla­rou que ele também era bruxo e que durante quinze anos buscara o responsável por seus infortúnios. Logo após sua detenção, declarou: “Rehmeyer está morto. Não me sinto mais enfeitiçado. Agora consigo comer e beber.”

Blymyer e seus amigos não estavam sozinhos em suas crenças. Os jornais mencionavam outras pessoas preocupa­das com feitiços; um barbeiro contava que alguns fregueses levavam consigo o cabelo cortado, para evitar “dores de ca­beça”. Depois do médico-legista do condado de York ter se lamentado de que metade do condado acreditava em magia negra, as sociedades locais de médicos anunciaram uma “cruzada contra a prática de feitiçaria e suas crendices maléficas”.

Mas o estereótipo persiste, e as bruxas continuam a ser objeto de calunia, lutando para desfazer a imagem de companhei­ras do diabo. Para muitos, a bruxa era, e ainda é, a adoradora do demônio. Bem recentemente, em 1952, o autor britânico Pennethorne Hughes classificou algumas feiticeiras da história como “lascivas e pervertidas”, atribuindo-lhes uma longa lista de peca­dos reais ou imaginários. “Elas faziam feitiços”, escreveu, “cau­savam prejuízos, envenenavam, provocavam abortos no gado e inibiam o nascimento de seres humanos, serviam ao diabo, parodiavam os rituais cristãos, aliavam-se aos inimigos do rei, copulavam com outros bruxos ou bruxas que chamavam de íncubos ou súcubos e cometiam abusos com animais domésticos.”

Diante de tantas acusações, não chega a ser surpreendente o fato de que as palavras “mago”, “feiticeiro” ou “bruxo” e “ma­gia”, “feitiçaria”, ou “bruxaria” continuem a despertar profundas reações. “A feitiçaria é uma palavra que assusta a uns e confun­de a outros”, observa uma escritora radicada na Califórnia, tam­bém praticante de feitiçaria, conhecida pelo nome de Starhawk. “Na mente do povo”, ela observa, as bruxas do passado são “me­geras horrendas montadas em vassouras, ou maléficas satanistas que participavam de rituais obscenos.” E a opinião contem­porânea não tem demonstrado bondade maior para com as feiti­ceiras atuais, considerando-as, como aponta Starhawk, “mem­bros de um culto esquisito, que não tem a profundidade, dignida­de ou seriedade de propósitos de uma verdadeira religião”.

Mas trata-se de fato de uma religião, tanto para quem a re­ligião é “uma necessidade humana de beleza”, como no sentido que figura no dicionário: “sistema institucionalizado de atitudes, crenças e praticas religiosas”. Até mesmo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos cedeu às reivindicações dos praticantes da Wicca para que esta fosse considerada como religião váli­da e, em meados da década de 70, o Pentágono recrutou uma feiticeira, Lady Theos, para revisar o capítulo referente a bruxaria no Manual dos Capelães do exército. As contribuições de Lady Theos foram atualizadas em 1985, por uma erudita neopagã chamada Selena Fox. Outro sinal dos tempos pode ser visto nos cartões de identidade dos membros das forças armadas, nos quais as palavras “pagão” e “wiccan” agora aparecem com fre­qüência, embora certamente em menor número, do que os no­mes de outras afiliações religiosas.

Apesar desse reconhecimento e embora a Constituição americana — tal como a brasileira — garanta o direito à liberda­de de crença, a prática de feitiçaria ainda enfrenta duras críticas e até mesmo uma perseguição premeditada. Esses ataques natu­ralmente não se comparam, em escala e em violência, com o prolongado reinado de horror que predominou do século XIV ao XVII, período descrito pelas feiticeiras contemporâneas como “a época das fogueiras”, ou “a grande caçada às bruxas”. De fato, a perseguição atual é comparativamente até benigna — demissões de empregos, perda da custódia dos filhos, prisão por infrações aos bons costumes —, mas causa prejuízos que levaram a alta sacerdotisa da ordem Wicca, Morgan McFarland, a rotular estes tempos como ua era das fogueiras brandas”.

Pelo menos em parte, a fonte da relativa tolerância atual, bem como as raízes desse renascimento da Wicca, podem ser encontradas nos trabalhos elaborados no início do século XX pela antropóloga inglesa Margaret Murray. As pesquisas de Murray sobre as origens e a história da feitiçaria começaram, como ela posteriormente registrou em sua autobiografia, com “a idéia comum de que todas as feiticeiras eram velhas pade­cendo de alucinações por causa do diabo”. Mas ao examinar os registros dos julgamentos que restaram da Inquisição, Murray logo desmascarou o diabo, segundo suas próprias palavras, e descobriu em seu lugar algo que identificou como o Deus Chi-frudo de um culto à fertilidade, uma divindade paga que os inquisidores, em busca de heresias religiosas, transformaram em uma incorporação do diabo. À medida que aprofundou o es­tudo daqueles registros ela se convenceu de que esse deus pos-

suía um equivalente feminino, uma versão medieval da divina caçadora das épocas clássicas, que os gregos chamavam de Ártemis e os romanos de Diana. Ela supunha que as feiticeiras condenadas reverenciavam Diana como líder espiritual.

Na visão de Murray, a feitiçaria seria o mesmo culto a ferti­lidade anterior ao cristianismo, que ela denominou culto a Diana, e seria “a antiga religião da Europa ocidental”. Vestígios dessa fé, segundo ela, poderiam ser rastreados no passado a ate cerca de 25 mil anos, época em que viveu uma raça aborígine com­posta de anões, cuja existência permaneceu registrada pelos conquistadores que invadiram aquelas terras apenas nas lendas e superstições sobre elfos e fadas. Seria uma “religião alegre”, como a descreve Murray, repleta de festejos, danças e abandono sexual e incompreensível para os sombrios inquisidores, cujo único recurso foi destruí-la até as mais tenras raízes.

Em 1921, Murray divulgou suas conclusões em O Culto a Feiticeira na Europa Ocidental, o primeiro dos três livros que ela publicaria sobre o assunto, em um trabalho que outorgaria cer­ta legitimidade à religião Wicca. Outros estudiosos, contudo, imediatamente atacaram tanto os métodos utilizados por Murray como suas conclusões. Um crítico simplesmente classi­ficou seu livro como “um palavrório enfadonho”. Embora o tra­balho de Margareth Murray nunca tenha desfrutado de muito prestígio nos círculos acadêmicos, recentes estudos arqueológi­cos induziram alguns historiadores a fazer ao menos uma releitura mais criteriosa de algumas de suas teorias mais polê­micas. Mesmo que a seu modo, Murray realmente conseguiu, através de uma reavaliação favorável da feitiçaria, abrir uma porta para um fluxo de interesse pelo culto a Diana.

queles que acataram a liderança de Murray e se aventuraram a penetrar por aquela porta logo descobriram que estavam também na trilha de um escritor e folclorista americano chamado Charles Leland. Em 1899, mais de duas décadas antes de Murray apresentar suas teorias, Leland havia publicado Aradia, obra que ele descreveu como o evan­gelho de La Vecchia Religione, uma expressão que desde então passou a fazer parte do saber “Wicca”. Ao apresentar a tradu­ção do manual secreto de mitos e encantamentos de um feiti­ceiro italiano, o livro relata a lenda de Diana, Rainha das Feiti­ceiras, cujo encontro com o deus-sol Lúcifer resultara numa fi­lha chamada Aradia. Esta seria Ia prima strega, “a primeira bru­xa”, a que revelara os segredos da feitiçaria para a humanidade.

Aradia é no mínimo uma fonte duvidosa e provavelmente uma fraude cabal; contudo, terminou servindo de inspiração para inúmeros ritos praticados por feiticeiros contemporâneos, inclusive para a Exortação à Deusa, que convoca seus ouvintes a “reunir-se em lugares secretos para adorar Meu Espírito, a Mim que sou a Rainha de todas as Feitiçarias”. Embora a obra conte com poucos, ou raros, defensores no círculo acadêmico, em oposição aos que lhe lançam duras críticas, Aradia de certo modo reacendeu as chamas desse renascimento da feitiçaria, e sua ênfase no culto à deusa tornou o livro muito popular nas assembléias feministas.

Um trabalho mais recente com enfoque similar, porém de reputação mais sólida, é o livro de Robert Graves, A Deusa Branca, publicado pela primeira vez em 1948. Em estilo lírico, Graves apresenta argumentos que revelam a existência de um culto ancestral centrado na figura de uma matriarcal deusa lu­nar. Segundo o autor, essa deusa seria a única salvação para a civilização ocidental, substituta da musa inspiradora de toda criação poética. Mas, se por um lado muitos entre os primeiros leitores encontraram nesse livro fundamentos para a prática de feitiçaria e se mais tarde ele continuou a inspirar os seguidores da Wicca, o próprio Graves expressou profundas reservas com relação à bruxaria. Sua ambivalência torna-se aparente num ensaio de 1964, no qual o autor sublinha a longevidade e a for­ça da religião Wicca, mas também faz críticas ao que ele consi­dera como uma ênfase em jogos e brincadeiras. Na verdade, o ideal para a feitiçaria, escreve Graves, seria que “surgisse um místico de grande força para revestir de seriedade essa prática, recuperando sua busca original de sabedoria”.

A referência de Graves era uma irônica alfinetada em Gerald Brosseau Gardner, um senhor inglês peculiar e caris­mático, que exerceria profunda — embora frívola, do ponto de vista de Graves — influência no ressurgimento do interesse pela feitiçaria. Gardner, que nascera em 1884 nas proximidades de Liverpool, tivera diversas carreiras e ocupações: funcionário de alfândega, plantador de seringueiras, antropólogo e, finalmente, místico declarado. Pouco afeito às convenções, era um nudista convicto, professando um perpétuo interesse pela “magia e as­suntos do gênero”, campo que para ele incluía tudo: desde os pequenos seres das lendas inglesas até as vítimas da Inquisição e os cultos secretos da antiga Grécia, Roma e Egito. Pertenceu, durante certo tempo, à famosa sociedade dos aprendizes de magos chamada Ordem Hermética da Aurora Dourada.

Gerald Gardner enfureceu os círculos acadêmicos quando anunciou que as teorias de Margaret Murray eram verdadeiras. A feitiçaria, declarou, havia sido uma religião e continuava a ser. Ele dizia saber isso simplesmente porque ele próprio era um bruxo. Seu surpreendente depoimento veio à luz em 1954, com o lançamento de A Feitiçaria Moderna, o livro mais impor­tante para o renascimento da feitiçaria. Sua publicação teria sido impossível antes de 1951, ano no qual os frágeis decretos de 1753 contra a feitiçaria foram finalmente revogados pelo Parlamento britânico. Curiosamente, o Parlamento rescindiu es­ses decretos cedendo às pressões das igrejas espíritas, cujas tentativas de contato com as almas dos que já se foram tam­bém haviam sido reprimidas pela lei. A revogação contou com pouquíssimos oponentes, porque os legisladores imaginavam que certamente após mais de três séculos de perseguição e 200 anos de silêncio, a feitiçaria era assunto morto e enterrado.

Se a prática não havia desaparecido, como A Feitiçaria Moderna tentava provar, o próprio Gardner admitiu ao menos que a feitiçaria estava morrendo quando ele a encontrou pela primeira vez, em 1939. Gardner gerou muita polêmica ao afirmar que, após a catastrófica perseguição medieval, a bru­xaria tinha sobrevivido através dos séculos, secretamente, à medida que seu saber canônico e seus rituais eram transmiti­dos de uma geração para outra de feiticeiros. Segundo Gardner, sua atração pelo ocultismo havia feito com que se encontrasse com uma herdeira da antiga tradição, “a Velha Dorothy” Clutterbuck, que supostamente seria alta sacerdoti­sa de uma seita sobrevivente. Logo após esse encon­tro, Gardner foi iniciado na prática, embora mais tarde tenha afirmado, no trecho mais improvável de uma história inconsistente, que desconhecia as intenções da velha Dorothy até chegar ao meio da cerimônia iniciática, ouvir a palavra “Wicca” e perceber “que a bruxa que eu pensei que morrera queimada há centenas de anos ainda vivia”.

Considerando-se devidamente preparado para tal função, Gardner gradualmente assumiu o papel de porta-voz informal da prática. Assim, lançou uma nova luz nas atividades até então secretas da bruxaria ao descrever em seu livro, por exemplo, a suposta atuação desses adeptos para impedir a invasão de Hitler na Inglaterra. De acordo com Gardner, os feiticeiros da Grã-Bretanha reuniram-se na costa inglesa em 1941 e juntos produziram “a marca das chamas” — uma intensa concentração de energia espiritual, também conhecida como “cone do poder”, para supostamente enviar uma mensagem mental ao Führer: “Você não pode vir. Você não pode cruzar o mar”. Não se pode afirmar se o encantamento produziu ou não o efeito desejado mas, como Gardner salientou prontamente, a história realmente registra o fato de Hitler ter reconsiderado seu plano de invadir a Inglaterra na última hora, voltando-se abruptamente para a Rússia. Gardner declara que esse mesmo encantamento teria, aparentemente, causado o desmoronamento da Armada Espa­nhola em 1588, quando muitos feiticeiros conjuraram uma tempestade que tragou a maior frota marítima daquela época.

O poeta inglês Robert Graves inadvertidamente incentivou o ressurgimento da feitiçaria ao divulgar em seu livro de 1948, “A Deusa Branca”, sua visão da divindade feminina primordial. Ele acreditava que, apesar da repressão dos primeiros imperadores cristãos, esse culto havia sido preservado.

Quando não reescrevia a história, Gerald Gardner assumia a tarefa de fazer uma revisão da feitiçaria. Partindo de suas próprias extensas pesquisas sobre magia ritual, ele criou uma “sopa” literária sobre feitiçaria feita com ingredientes que incluíam fragmentos de antigos rituais supostamente preserva­dos por seus companheiros, adeptos da prática, além de ele­mentos de ritos maçônicos e citações de seu colega Aleister Crowley, renomado ocultista que se declarava a Grande Besta da magia ritual. Gardner decidiu então acrescentar uma pitada de Aradia e da Deusa Branca e, para ficar no ponto, temperou seu trabalho incorporando-lhe um pouquinho de Ovídio e de Rudyard Kipling. O resultado final, escrito numa imitação de inglês elisabetano, engrossado ainda com pretensas 162 leis de feitiçaria, foi uma espécie de catecismo da Wicca, ressusci­tado por Gardner. Assim que completou o trabalho, seu com­pilador tentou fazê-lo passar por um manual de uma bruxa do século XVI, ou um Livro das Sombras.

Apesar dessa origem duvidosa, o volume transformou-se em evangelho e liturgia da tradição gardneriana da Wicca, como veio a ser chamada essa última encarnação da feitiça­ria. Era uma “pacífica e feliz religião da natureza”, nas pala­vras de Margot Adler em Atraindo a Lua. “As bruxas reuniam-se em assembléias, conduzidas por sacerdotisas. Adoravam duas divindades, em especial, o deus das florestas e de tudo que elas encerram, e a grande deusa tríplice da fertilidade e do renascimento. Nuas, as feiticeiras formavam um círculo e pro­duziam energia com seus corpos através da dança, do canto e de técnicas de meditação. Concentravam-se basicamente na Deusa; celebravam os oito festivais pagãos da Europa, bus­cando entrar em sintonia com a natureza.”

Como indaga o próprio Gardner em seu livro, “Há algo de errado ou pernicioso nisso tudo? Se praticassem esses ritos dentro de uma igreja, omitindo o nome da deusa ou substituin­do-o pelo de uma santa, será que alguém se oporia?”

Talvez não, embora a nudez ritualística recomendada por Gardner causasse, e ainda cause, um certo espanto. Mas para Gardner as roupas simplesmente impedem a liberação da for­ça psíquica que ele acreditava existir no corpo humano. Ao se desnudarem para adorar a deusa, as feiticeiras não só se des­piam de seus trajes habituais, como também de sua vida coti­diana. Além disso, sua nudez representaria um regresso sim­bólico a uma era anterior à perda da inocência.

Gardner justifica a nudez ritualística em sua adaptação da Exortação à Deusa, de Aradia, na qual a prima strega reco­menda a suas seguidoras: “Como sinal de que sois verdadeira­mente livres, deveis estar nuas em seus ritos; cantai, celebrai, fazendo música e amor, tudo em meu louvor.” A recomendação da nudez, acrescentada à defesa feita por Gardner do sexo ritualístico — o Grande Rito, como ele o chamava —, virtual­mente pedia críticas. Rapidamente o pai da tradição gardneriana ganharia reputação de velho obsceno.

as, sendo um nudista e ocultista vitalício, Gardner  estava habituado aos olhares reprovadores da socie­dade e em seu livro A Feitiçaria Moderna, parecia  antever as críticas que posteriormente recebe­ria. Contudo, angariou pouquíssima simpatia entre seus detratores ao optar por caracterizar a nudez ritua­lística como “um grupo familiar tentando fazer uma experiência científica de acordo com o texto do livro”. Pior ainda, alguns de seus críticos pensaram ter sentido um cheiro de fraude após o exame minucioso de seus trabalhos, começando então a ques­tionar a validade do supostamente antiquíssimo Livro das Som­bras, bem como de sua crença numa tradição ininterrupta de prática da feitiçaria.

Entre seus críticos mais ferrenhos encontrava-se o historia­dor Elliot Rose, que em 1962 desacreditou a feitiçaria de Gardner, afirmando que era um sincretismo, e aconselhando ironicamente àqueles que buscassem alguma profundidade mística na prática da bruxaria que escolhessem uns dez “amigos alucinados” e formassem sua própria assembléia de bruxos. “Será um grupo tão tradicional, bem-instruído e autêntico quanto qualquer outro desses últimos milênios”, observava Rose acidamente.

Os críticos mais contumazes mantiveram fogo cerrado ate mesmo após 1964, quando Gerald Gardner foi confinado em segurança dentro de seu túmulo. Francis King, um destacado cronista britânico do ocultismo, acusou Gardner de fundar “um culto às bruxas elaborado e escrito em estilo romântico, um culto redigido de seu próprio punho”, um pouco para escapar do tédio. King chegou até a declarar que Gardner contratara seu amigo, o mágico Aleister Crowley, para que este lhe redigisse uma nova liturgia.

Aidan Kelly é outro crítico, o fundador da Nova Ordem Orto­doxa Reformada da Aurora Dourada, uma ramificação da prática da magia. Kelly declarou trivialmente que Gardner inventara a fei­tiçaria moderna e que ele, em sua tentativa desorientada de reformar a velha religião, formara outra, inteiramente nova. Segundo Kelly, a primazia da deusa, a elevação da mulher ao status de alta

sacerdotisa, o uso do círculo para concentração de energia e até mesmo o ritual para atrair a lua, no qual uma alta sacerdotisa se transforma temporariamente em deusa, eram contribuições de Gardner à prática. Além disso, em 1984, Kelly assegurou em um jornal pagão que não há base alguma para a declaração de Gardner segundo a qual sua tradição de feitiçaria teria raízes no antigo paganismo europeu. No mesmo ar­tigo, Kelly forneceu detalhes acerca das origens do polêmico Livro das Sombras, de Gardner. O trabalho não teria sido ini­ciado, desconfiava Kelly, no século XVI, como Gardner afirmava, mas sim nos primórdios da Segunda Guerra Mundial.

Gardner teria começado a registrar em um livro de anotações vários rituais que havia pilhado de outras tradições ocultistas, bem como passagens favoritas dos textos que lia. Quando encheu seu primeiro livro de anotações, segundo Kelly, Gardner considerou que tinha em mãos a receita do primeiro Livro das Som­bras. Kelly também chamou atenção para uma profunda revisão daquilo que se tornara a “tradição” de Gardner, demonstrando que não se tratava da continuidade de uma religião cujas raízes remontavam a milênios, mas sim de uma invenção recente e, como tal, um tanto inconsistente. Em seus primeiros anos, a Wicca de Gardner estivera centralizada no culto ao equivalente masculino do deus principal, registrava Kelly. Por volta da década de 50, contudo, o Deus Chifrudo fora eclipsado pela Grande Deusa. Uma mudança equivalente havia ocorrido na própria prática das assembléias, durante as quais o alto sacerdote fora subitamente relegado a segundo plano, substituído por uma alta sacerdotisa. Como Kelly demonstrou, essas mudanças só aconteceram depois que Doreen Valiente, a primeira alta sacerdotisa da linha de Gardner, começou a adotar o mito da Deusa Branca de Robert Graves como sistema oficial de crenças. Na verdade, Valiente é, na vi­são de Kelly, a verdadeira mentora da grande maioria dos ri­tuais gardnerianos.

Um sumo sacerdote veste um adereço de pele com chifres para representar o lado masculino da divindade Wicca, durante um ritual. Os adeptos da Wicca dizem que seu Deus Chifrudo, vinculado ao grego Pã e ao celta Cernuno, corporifica o princípio masculino e é simbolizado pelo sol.

Kelly no entanto contrabalançou suas virulentas críticas a Gardner ao creditar-lhe não só uma criatividade genial, mas também a responsabilidade pela vitalidade da feitiçaria contem­porânea. O mesmo fez J. Gordon Melton, um ministro meto­dista e fundador do Instituto para o Estudo da Religião Ameri­cana. Numa entrevista recente, comentou que todo o movimen­to neopagão deve seu surgimento, bem como seu ímpeto, a Gerald Gardner. “Tudo aquilo que chamamos hoje de movimen­to da feitiçaria moderna”, declarou Melton, “pode ser datado a partir de Gardner”.

Dúvidas e polêmicas sobre suas fontes à parte, a influên­cia de Gerald Gardner no moderno processo de renascimento da Wicca é indiscutível, assim como seu papel de pai espiritual dessa tradição específica de feitiçaria que hoje carrega seu nome. Embora os métodos de Gardner revelassem um certo to­que de charlatania e seus motivos talvez parecessem um tanto confusos, sua mensagem era apropriada para sua época e foi recebida com entusiasmo dos dois lados do Atlântico. Quer ele tenha ou não redescoberto e resgatado um antigo caminho de sabedoria, aparentemente seus seguidores foram capazes de captar em seu trabalho uma fonte para uma prática espiritual que lhes traz satisfação.

Além do mais, na condição de alto sacerdote de seu gru­po, Gerald Gardner foi pessoalmente responsável pela iniciação de dúzias de novos feiticeiros e pela criação de muitas novas assembléias de bruxos. Estas, por sua vez, geraram outros gru­pos, num processo que se tornou conhecido como “a colméia” e que, de fato, resultou numa espécie de sucessão apostólica cujas origens remontam ao grupo original criado por Gardner. Outras assembléias gardnerianas nasceram a partir de feiticei­ras autodidatas, que formaram seus próprios grupos após ler as obras de Gardner, adotando sua filosofia.

Contudo, nem todas as feiticeiras estão vinculadas ao gardnerianismo. Muitas professam uma herança anterior a Gardner e desempenham seus rituais de acordo com diversos modelos colhidos das tradições celta, escandinava e alemã. Além disso, alguns desses pretensos tradicionalistas declaram-se feiticeiros hereditários, nascidos em famílias de bruxos e destinados a transmitir seus segredos aos próprios filhos.

Zsuzsanna — ou Z — Budapest é uma famosa feiticeira feminista e alta sacerdotisa da Assembléia Número Um de Fei­ticeiros de Susan B. Anthony, nome atribuído em homenagem à famosa advogada americana, defensora dos direitos da mulher. Z Budapest afirma que a origem de seu conhecimento remonta a sua pátria, a Hungria, e ao ano de 1270. Mas diz ter sido educada acreditando que a prática da feitiçaria era apenas uma prática, e não uma religião, cujos fundamentos lhe foram trans­mitidos pela própria mãe, uma artista que previa o futuro e su­postamente usava seus poderes mágicos para acalmar os ven­tos. Somente muitos anos depois, quando migrou para os Esta­dos Unidos, Z teria descoberto os trabalhos de escritores como Robert Graves e Esther Harding, e passou a reconhecer-se como a praticante de Wicca que era na realidade.

utras feiticeiras que também se declaram herdeiras de uma tradição descrevem experiências semelhan­tes às de Z. Budapest. Contam que, para elas, a prá­tica era um assunto de família até lerem, acidental­mente, a literatura sobre a Wicca — geralmente li­vros escritos por Gerald Gardner, ou Margaret Murray, ou por autores contemporâneos como Starhawk, Janet e Stewart Farrar, ou Margot Adler. Só então teriam compreendido que pertenciam a um universo mais amplo. Lady Cibele, por exem­plo, uma bruxa de Wisconsin, afirma que cresceu acreditando que a prática se limitava ao círculo de seus familiares. “Foi só na universidade que descobri que havia mais pessoas envolvi­das com a prática”, confessou a Margot Adler, “e eu não sabia que éramos muitos até 1964, quando meu marido veio corren­do para casa, da biblioteca onde trabalhava, murmurando mui­to animado que Tem mais gente como nós no mundo!’.” O ma­rido de Lady Cibele havia encontrado A Feitiçaria Moderna e, quando leram o livro juntos, emocionaram-se com a sensação de familiaridade que sentiram pelas idéias e práticas descritas por Gerald Gardner.

Mesmo que todos esses depoimentos sejam verdadeiros, o nascimento no seio de uma família de feiticeiros não repre­sentaria uma garantia de que uma criança em especial se tor­naria posteriormente especialista nos segredos da prática. Em alguns casos o dom pula uma geração, na maioria das vezes porque um feiticeiro decide que nenhum de seus próprios filhos possui o temperamento adequado para iniciar-se na prática. O resultado é que a Wicca geralmente se vincula às tais “historias da vovó”, nas quais, como aponta J. Gordon Melton, “aparece alguém que diz: fui iniciado por minha avó que era bruxa, des­cendente de uma linhagem ancestral”. Pouquíssimas histórias dessa natureza sobrevivem a um exame minucioso e muitas parecem até ridículas. Os próprios praticantes da Wicca sen­tem-se um tanto constrangidos com a proliferação de histórias da vovó. “Depois de algum tempo”, comentou um sacerdote Wicca, “você percebe que, se ouviu uma história de avó, já ou­viu todas. Você percebe que o além deve estar lotado de vovozinhas assim.”

Entre as “histórias da vovó” mais interessantes está a que foi contada pelo suposto Rei das Feiticeiras, Alexander Sanders, que declarou ter sido iniciado na prática por sua avó, em mea­dos de 1933, com apenas 7 anos de idade. Mas os céticos rapi­damente salientam o fato de que a linha de feitiçaria de Sanders, conhecida como Tradição Alexandrina, guarda profun­da semelhança com a de Gardner. De fato, muitos dos rituais de Sanders são virtualmente idênticos aos de Gardner e isto le­vou alguns observadores a desprezar essa tradição, consideran­do-a como uma simples variante, e não um legado deixado por uma avó misteriosa e convenientemente falecida.

Muitos desses mesmos céticos encararam com igual des­confiança a história da famosa feiticeira inglesa Sybil Leek, que também afirmava ter se iniciado na prática ainda no colo da avó. Na opinião de Melton, Leek, como Sanders, simplesmente exage­rou alguns acontecimentos de sua infância. No entanto, os ata­ques dos incrédulos pouco fizeram para diminuir a enorme popu­laridade da feiticeira-escritora e na época de sua morte, em 1983, Sybill Leek era uma das bruxas mais famosas dos dois lados do Atlântico. Leek era uma autora prolífica, e durante sua vida produ­ziu mais de sessenta livros que espalharam pelo mundo o evange­lho da fé Wicca — e, não por acaso, sua própria fama.

Porém, ainda mais do que os livros de Leek, o que levou a Wicca da Inglaterra para os Estados Unidos foi a própria tra­dição de Gardner, que cruzou o Atlântico em 1964 como parte da bagagem espiritual de dois expatriados britânicos. Raymond e Rosemary Buckland já estavam prontos para pas­sar dois anos em Long Island, Nova York, quando, movidos pelo interesse por ocultismo, decidiram escrever a Gardner em sua casa em Isle of Man. Tal correspondência resultaria poste­riormente em um encontro e um curso rápido de feitiçaria na casa de Gardner. Nesse breve período o casal Buckland foi sa­grado respectivamente sacerdote e sacerdotisa gardnerianos. Foram uns dos últimos feiticeiros iniciados e ungidos pessoal­mente por Gardner antes de sua morte.

Assim que regressaram ao lar nova-iorquino, os Bucklands rapidamente puseram em prática tudo que haviam apren­dido. Formaram a primeira assembléia gardneriana nos Estados Unidos e esta por sua vez, com o passar do tempo, gerou mui­tos outros grupos. Esses grupos propagaram o evangelho gardneriano de uma costa a outra, tanto nos Estados Unidos quanto no Canadá. Durante certo tempo, Rosemary Buckland, ou Lady Rowen, como era conhecida entre os praticantes da Wicca, foi coroada a rainha das feiticeiras pelos grupos aos quais dera origem. Enquanto isso, Ray Buckland, ou Robat, nome que havia adotado, seguindo o exemplo de Gerald Gard­ner, seu mentor, publicou o primeiro de uma série de livros que produziria sobre feitiçaria. Seus trabalhos fizeram com que a prática se tornasse acessível para muitos aspirantes a iniciados, especialmente em seu novo lar, onde o interesse pela Wicca floresceu na atmosfera tolerante do final da década de 60 e iní­cio dos anos 70.

No mesmo período em que Ray e Rosemary Buckland se dedicaram a propagar esse renascimento da feitiçaria na Ame­rica do Norte, o ocultismo começou a se transformar em algo que a antropóloga cultural Tanya M. Luhrmann descreveu como “uma contracultura sofisticada”. Em seu livro Atrativos da Feiti­çaria publicado em 1989, Luhrmann apresenta uma teoria se-qundò a qual “a contracultura da década de 60 voltou-se para o ocultismo – astrologia, tarô, medicina e alimentação alternati­va – porque eram alternativas para a cultura estabelecida; muitos descobriram as cartas do tarô ao mesmo tempo que descobriram o broto de feijão”.

Ray Buckland recorda esse período como uma época ex­citante durante a qual veio a luz um número crescente de as­sembléias de bruxos, bem como as mais diversas expressões da crença Wicca. Feiticeiras detentoras de estilos altamente personalizados eram estimuladas pela permissividade daqueles dias  sentindo-se finalmente livres para expor-se. Ao mesmo tempo, a tradição gardneriana frutificava, espalhando as se­mentes de novas assembléias e gerando dissidências em todas as direções.

Certos grupos, tais como os que professavam a tradi­ção de Alexandria e ainda um híbrido mais recente chamado de tradição de Algard, eram crias perfeitas do grupo anterior, isto é, assemelhavam-se aos progenitores gardnerianos em tudo, menos no nome. Outros eram parentes mais afastados, baseando-se nos ensinamentos de Gerald Gardner, mas acrescentando idéias novas. Entre estes figuram a Nova Wicca de Illinois, a Wicca Georgiana sediada na Califórnia e a Wicca de Maidenhill, da Filadélfia. Outras, tais como a igre­ja de Y Tylwyth Teg, a Pecti-Wita, e o Caminho do Norte, ins­piram-se no passado mágico das lendas celtas, escocesas e nórdicas.

As variações da Wicca não terminam por aqui: na verda­de, elas apresentam uma diversidade que reflete a natureza in­dividualista da prática da feitiçaria. A Wicca é tão aberta quanto eclética. “Todos nós conectamos com o Divino de maneiras di­ferentes”, afirma Selena Fox, fundadora de uma tradição pró­pria. “Muitos caminhos levam à verdade.” De fato, o próprio grupo de Fox, o Santuário do Círculo, reconhecido como uma igreja Wicca pelo governo fede­ral, estadual e local, tenta for­necer um substrato comum a todos esses caminhos. O San­tuário do Círculo define-se co­mo um serviço de troca e inter­câmbio internacional para prati­cantes de diferentes estirpes de Wicca. Muitas feministas, no entanto, envolveram-se em al­gum dos inúmeros cultos a Diana que proliferaram na dé­cada de 70. Essas assembléias assumiram seu nome a partir do culto a Diana, com base na concepção de Margaret Murray, e enfatizam em suas práticas a veneração à deusa. Há até mes­mo um curso por correspon­dência para aspirantes à Wicca que já conseguiu atrair aproximadamente 40 mil alunos.

Mas essa onda de bruxos autodidatas passou a preocupar alguns dos antigos adeptos da Wicca, inclusive Ray Buckland, que certa vez lamentou o advento dessa religião “feita em casa”. Em 1973, contrariado com algo que ele considerava como a corrupção da feitiçaria, Buckland rompeu seus vínculos com o gardnerianismo e criou um novo conjunto de práticas, retomando a tradição da Seax-Wicca, ou Wicca saxã. Ao fazer isso, produziu também sua própria versão de uma feitiçaria au­todidata e em sua obra A Árvore, seu primeiro produto na linha Seax-Wicca, incluía instruções detalhadas que permitiam a qualquer leitor “iniciar-se como feiticeiro e gerar sua própria Assembléia”.

Com o anúncio aparentemente contraditório de uma “nova tradição” espalhando-se aos quatro ventos, a Wicca in­gressava numa fase de contendas entre os novos e os antigos. Ao romper com a tradição gardneriana, Ray Buckland tentava distanciar-se das querelas. “Enquanto os outros brigam para definir qual seria a mais antiga das tradições”, anunciou orgulhosamente, “declaro pertencer à mais jovem de todas elas!”.

Isso ocorreu em 1973. Depois, surgiu uma grande profu­são de assembléias e correntes da Wicca nas quais a honra de ser a novidade do dia às vezes confere uma importância passa­geira. Além disso, essa abundância de ritos e nomes transfor­mou a própria Wicca numa fé um tanto difícil de ser definida. Até agora foram inúteis as tentativas de formular um credo aceitável por todos que se proclamam seguidores da Wicca, apesar da necessidade profunda de seus seguidores no sentido de tornar público um conjunto de crenças que os distinga ofi­cialmente dos satanistas. Em 1974, o Conselho dos Feiticeiros Americanos, um grupo de representantes de diversas seitas Wicca, formulou um documento que se intitulava corajosamen­te “Princípios da Crença Wicca”. Porém, assim que se ratificou o documento, o conselho que o produzira se desfez devido a desavenças entre seus membros, pondo fim a esse breve con­senso. No ano seguinte, uma nova associação, que hoje englo­ba cerca de setenta grupos de seguidores da Wicca, ratificou o Pacto da Deusa, um decreto mais duradouro propositalmente redigido nos moldes do documento da igreja Congregacional. Embora o pacto incluísse um código de ética e garantisse a au­tonomia das assembléias signatárias, está longe de definir o que seria a Wicca. “Não poderíamos definir com palavras o que é Wicca”, admite o pacto, “porque existem muitas diferenças.”

Muitos bruxos alegam que essas diferenças apenas fazem aumentar os atrativos da Wicca. De fato, mesmo no seio de uma tradição específica, distintos grupos podem ater-se a cren­ças contrastantes e praticar rituais dessemelhantes. Essa situa­ção é satisfatória para a maioria dos feiticeiros, que não vêem por que a Wicca deveria ser menos diversificada do que as inú­meras denominações cristãs.

Porém, até mesmo na ausência de um credo oficial, um grande número de feiticeiros acata um pretenso conselho, ou lei da Wicca: “Não prejudicarás a terceiros.” Não se sabe ao certo, mas aparentemente essa adaptação livre da regra de ouro do cristianismo tem vigorado pelo menos desde a época de Gerald Gardner. Nas palavras do Manual dos Capelães do Exército dos Estados Unidos, a lei da Wicca geralmente é interpretada como se dissesse que o praticante pode fazer o que bem desejar com suas capacidades psíquicas desenvolvidas na prática da feitiçaria, contanto que ja­mais prejudique alguém com seus poderes. Como mais uma medida de precaução contra o mau uso desses po­deres mágicos, a maioria das assembléias também apela para uma lei chamada “lei do triplo”, que consiste em uma outra máxima antiga. O provérbio adverte os bruxos, prevenindo: “Todo bem que fizerdes, a vós retornará três vezes maior; todo mal que fizerdes, também a vós re­gressará três vezes maior.”

Dada a dificuldade em clas­sificar a feitiçaria, ou estabe­lecer uma lista concisa com as crenças comuns a todos os adeptos da Wicca, uma descrição completa das ca­racterísticas de um bruxo moderno necessariamente é apenas aproximativa. Toda­via, pode-se afirmar com segurança que a maioria dos feiticeiros acredita na reencarnação, reverencia a natu­reza, venera uma divindade  onipresente e multifacetada e incorpora a magia  ritualística em seu culto a  essa divindade. Além disso, poucos feiticeiros questiona­riam os preceitos básicos re­sumidos por Margot Adler em Atraindo a Lua. “A pala­vra é sagrada”, ela escreveu. “A natureza é sagrada. O corpo é sagrado. A sexuali­dade é sagrada. A mente é sagrada. A imaginação é sa­grada. Você é sagrado. Um caminho espiritual que nãoestiver estagnado termina conduzindo à compreensão da pró­pria natureza divina. Você é Deusa. Você é Deus. A divindade está (…) tanto dentro como fora de você.”

Três pressuspostos filosóficos fundamentam essas cren­ças e estes, mais do que qualquer outra característica, vincu­lam a feitiçaria moderna e o neopaganismo às práticas corres­pondentes do mundo antigo. O primeiro pressuposto é o animismo, ou a idéia de que objetos supostamente inanimados, tais como rochas ou árvores, estão imbuídos de uma espiri­tualidade própria. Um segundo traço comum é o panteísmo, se­gundo o qual a divindade é parte essencial da natureza. E a ter­ceira característica é o politeísmo, ou a convicção de que a di­vindade é ao mesmo tempo múltipla e diversificada.

Juntas, essas crenças compreendem uma concepção ge­ral do divino que permeou o mundo pré-cristão. Nas palavras do historiador Arnold Toynbee, “a divindade era inerente a to­dos os fenômenos naturais, inclusive àqueles que o homem do­mara e domesticara. A divindade estava presente nas fontes, nos rios e nos mares; nas árvores, tanto no carvalho de uma mata silvestre como na oliveira cultivada em uma plantação; no milho e nos vinhedos; nas montanhas; nos terremotos, no tro­vão e nos raios.” A presença de Deus ou da divindade era senti­da em todos os lugares, em todas as coisas; ela seria “plural, não singular; um panteon, e não um único ser sobre-humano e todo-poderoso”.

A escritora e bruxa Starhawk reproduz em grande parte o mesmo tema ao observar que a bruxaria “não se baseia em um dogma ou conjunto de crenças, nem em escrituras, ou em al­gum livro sagrado revelado por um grande homem. A feitiçaria retira seus ensinamentos da própria natureza e inspira-se nos movimentos do sol, da lua e das estrelas, no vôo dos pássaros, no lento crescimento das árvores e no ciclo das estações”.

Mas Starhawk também reconhece que o aspecto politeísta da Wicca — o culto à “Deusa Tríplice do nascimento, do amor e da morte e a seu consorte, o Caçador, que é o senhor da Dança da Vida”— constitui a grande diferença entre a feitiçaria moder­na e as principais religiões ocidentais. Mesmo assim, muitos adeptos da Wicca discordam quanto ao fato de seu deus ou deusa serem meros símbolos, entidades verdadeiras ou poderosas imagens primárias — aquilo que Carl Jung alcunhou de ar­quétipo —, profundamente arraigadas no subconsciente huma­no. Os feiticeiros também divergem quanto aos nomes de suas divindades. Como se expressa no cântico da alta sacerdotisa Morgan McFarland na igreja da rua Arlington, são inúmeros os nomes para o deus e a deusa. Abrangem desde Cernuno, Pã e Herne no lado masculino da divindade, a Cerridwen, Arianrhod e Diana, no aspecto feminino. Na verdade, há tantos nomes di­ferentes provenientes de tantas culturas e tradições que McFarland não se afastava da verdade quando dizia a sua pla­téia que a deusa “será chamada por milhares de nomes”.

Seja qual for seu nome, a deusa, na maioria das seitas da Wicca, tem precedência sobre o deus. Seu alto status reflete-se em títulos tais como a Grande Deusa e a Grande Mãe. De fato, para Starhawk e para muitas outras feiticeiras, o culto a uma suprema divindade feminina constituiu, desde tempos re­motos, a própria essência da feitiçaria, uma força que “per­meia as origens de todas as civilizações”.

Starhawk comenta que “A Deusa-Mãe foi gravada nas pa­redes das cavernas paleolíticas e esculpida em pedra desde 25 mil anos antes de Cristo.” Ela argumenta ain­da que as mulheres com freqüência tinham papel de chefia em culturas centradas na deusa, há milhares de anos. “Para a Mãe”, escreve, “foram erguidos grandes círculos de pedra nas Ilhas Britânicas. Para Ela foi escavada a grande passagem dos túmulos na Irlanda. Em Sua honra as dançarinas sagradas saltaram sobre os touros em Creta. A Avó Terra sus­tentou o solo das pradarias norte-americanas e a Grande Mãe do Oceano lavou as costas da África.”

Na visão de Starhawk, a deusa não é um Deus Pai distan­te e dominador, principal arquiteto da terra e remoto gover­nante no além. Ao contrário, a deusa é uma amiga sábia e pro­fundamente valiosa, que está no mundo e a ele pertence. Starhawk gosta de pensar na deusa como o sopro do universo e, ao mesmo tempo, um ser extremamente real. “As pessoas me perguntam se eu creio na deusa”, escreve Starhawk. “Res­pondo: ‘Você acredita nas rochas?’.”

Certamente, a força e a permanência são as analogias mais óbvias da imagem da deu­sa enquanto rocha. Contudo, é essa deusa de aspectos eterna­mente mutantes e multifaceta-dos, a misteriosa divindade fe­minina que aos poucos se revela.

Dicionário do Feiticeiro

Antigos, ou Poderosos: aspectos das divindades, invocados como guardiães durante os rituais.

Assembléia, ou “Coven”: reunião de iniciados na Wicca.

Balefire: fogueira ritualística.

Charme: objeto energizado; amuleto usado para afastar certas energias ou talismã para atraí-las.

Círculo mágico: limites de uma esfera de poder pessoal den­tro da qual os iniciados realizam rituais.

Deasil: movimentos no sentido horário, que é o do sol, reali­zados durante o ritual, para que passem energias positivas.

Divinação: a arte de decifrar o desconhecido através do uso de cartas de tarô, cristais ou similares.

Elementos: constituintes do universo: terra, ar, fogo e água; para algumas tradições, o espírito é o quinto elemento.

Encantamento: ritual que invoca magia benéfica.

Energizar: transmitir energia pessoal para um objeto.

Esbat: celebração da lua cheia, doze ou treze vezes por ano.

Familiares: animais pelos quais um feiticeiro sente profundo apego; uma espécie de parentesco.

Força da Terra: energia das coisas naturais; manifestações visíveis da força divina.

Força divina: energia espiritual, o poder do deus e da deusa.

Instrumentos: objetos de rituais .

Invocação: prece feita durante uma reunião de feiticeiros pedindo para que os altos poderes se manifestem.

Livro das Sombras: livro no qual o feiticeiro registra encantamentos, rituais e histórias mágicas; grimoire.

Magia: a arte de modificar a percepção ou a realidade por outros meios que não os físicos.

Neopagão: praticante de religião atual, como a Wicca.

Pagão: palavra latina que designa “morador do campo”, membro de uma religião pré-cristã, mágica e politeísta.

Poder pessoal: o poder que mora dentro de cada um, que nasce da mesma fonte que o poder divino.

Prática, A: feitiçaria; a Antiga Religião; ver Wicca.

Sabá: um dos oito festivais sazonais.

Tradição Wicca: denominação ou caminho da prática Wicca.

Wicca: religião natural neopagã.

Widdershins: movimento contrário ao do sol, ou anti-horá­rio. Pode ser negativo, ou adotado para dispersar energias negativas ou desfazer o círculo mágico após um ritual.

Implementos Ritualísticos

Tradicionalmente, os bruxos preferem encontrar ou fabricar seus próprios instru­mentos, que sempre consagram antes de utilizar em trabalhos mágicos. A maioria dos iniciados reserva seus instrumentos estritamente para uso ritual; alguns dizem que os instrumentos não são essenciais, mas ajudam a aumentar a concentração.

Embora pouco usados para manipular coi sas físicas, estes implementos primários mostrados nestas páginas são chamados de instrumentos de feitiçaria. Jamais são utilizados para ferir seres vivos, declaram os iniciados, e muito menos para matar. Os bruxos dizem que eles estão presentes em rituais inofensivos e até benéficos, ce­rimônias desempenhadas para efetuar mu danças psíquicas ou espirituais.

Recipientes como a taça e o caldeirão simbolizam a deusa e servem para captar e transformar a energia. Os instrumentos longos e fálicos — o athame, a espada, o cajado e a varinha — naturalmente repre­sentam o deus; são brandidos para dirigir e cortar energias. Para cortar alimentos durante os rituais, os feiticeiros utilizam uma faca simples e afiada com um cabo branco que a diferencia do athame.

O athame, uma faca escura com dois fios e cabo negro, transfere o poder pessoal, ou energia psíquica, do corpo do feiticeiro para o mundo.

A espada, como o athame, desempenha o corte simbólico ou psíquico, especialmente quando é usada para desenhar um círculo mágico, isolando o espaço dentro dele.

A taça é o símbolo da deusa, do princípio feminino e de sua energia. Ela contém água (outro símbolo da deusa) ou vinho, para uso ritual.

O cajado pode substituir a espada ou varinha para marcar grandes círculos mágicos.

Uma tiara com a lua crescente, símbolo da deusa, é usada pela suma sacerdotisa para retratar ou corporificar a divindade no ritual.

Um par de chifres pode ser usado na cabeça do sumo sacerdote em rituais ao Deus Chifrudo.

Com a varinha mágica, feita de madeira sagrada, invoca-se as divindades e outros espíritos.

Símbolo do lar, da deusa e do deus, a vassoura é um dos instrumentos favoritos dos iniciados, usada para a limpeza psíquica do espaço do ritual antes, durante e após os trabalhos mágicos.

O caldeirão é pote no qual, supostamente, ocorre a transformação mágica, geralmente com  a ajuda do fogo. Cheio de água, é usado para prever o futuro.

O tambor tocado em alguns encontros contribui para concentrar energia.

A Roda do Ano Wicca

Os seguidores da Wicca falam do ano como se ele fosse uma roda; seu calendário é um círculo, significando que o ciclo das estações gira infinitamente. Espaçadas harmonicamente pela roda do ano Wicca estão as oito datas de festas, ou sabás. Es­tas diferem dos “esbás”, as doze ou treze ocasiões durante o ano em que se realizam assembléias para celebrar a lua cheia. Os quatro sabás menores, na verdade, são feriados solares, marcos da jornada anual do sol pelos céus. Os quatro sabás maiores celebram o ciclo agrícola da terra: a semeadura, o crescimento, a colheita e o repouso.

O ciclo do sabá é uma recontagem e celebração da ancestral história da Grande Deusa e de seu filho e companheiro, o Deus Chifrudo. Há entre as seitas Wicca uma grande diversidade em tomo desse mito. Segue-se uma dessas versões, que in­corpora várias crenças sobre a morte, o renascimento e o fiel retorno dos ciclos, acompanhando o ciclo do ano no hemisfério norte.

Yule, um sabá menor, é a festa do solstício de inverno (por volta de 22 de dezembro), marcando não apenas a noite mais longa do ano, mas também o início do retorno do sol. Nessa época, narra a história, a deusa dá à luz a deus, representado pelo sol; depois, ela descansa durantes os meses frios que pertencem ao deus-menino. Em Yule, os iniciados acen­dem fogueiras ou velas para dar boas-vindas ao sol e confeccionam enfeites com azevinho e visco — vermelho para o sol, verde pela vida eterna, branco pela pureza.

Imbolc (1º de fevereiro), um sabá importante também chamado de festa das velas, celebra os primeiros sinais da primavera, o brotar invisível das sementes sob o solo. Os dias mais longos mostram o poder do deus-menino. Os iniciados encerram o confinamento do inverno com ritos de puri­ficação e acendem todo tipo de fogo, desde velas brancas até enormes fogueiras. Durante o sabá menor do equinócio da primavera (por volta de 21 de março), a exuberante deusa está desperta, abençoando a terra com sua fertilidade. Os iniciados da Wicca pintam cascas de ovos, plantam sementes e planejam novos empreendimentos.

Em Beltane, 1º de maio, outro grande sabá, o deus atinge a maturidade, enquanto o poder da deusa faz crescerem os frutos. Excitados pelas energias da natureza, eles se amam e ela concebe. Os adeptos desfrutam um festival de flores, o que geralmente inclui a dança em volta do mastro, um símbolo de fertilidade.

O solstício de verão (por volta de 21 de junho) é o dia mais longo e requer fogueiras em homenagem à deusa e ao deus. Tam­bém é uma ocasião para pactos e casamentos, nos quais os recém-casados pulam uma vassoura. O sabá mais importante da estação é Lugnasadh (pronuncia-se “lun-sar”), em 1º de agosto, que marca a primeira colheita e a promessa de amadurecimento dos frutos e ce­reais. Os primeiros cereais são usados para fazer pãezinhos em forma de sol. À medida que os dias encurtam o deus se enfraquece e a deusa sente o filho de ambos crescer no útero. No equinócio do outono (por volta de 22 de setembro), o deus prepara-se para morrer e a deusa está no auge de sua fartura. Os iniciados agradecem pela colheita, simbolizada pela cornucópia.

Na roda do ano, opondo-se às profusas flores de Beltane, surge o grande sabá de Samhain (pronuncia-se “sou-en”), em 31 de outubro, quando tudo que já floresceu está perecendo ou adormecendo. O sol se debilita e o deus está à morte. Oportuna­mente, chega o Ano Novo da Wicca, corporificando a fé de que toda mor­te traz o renascimento através da deusa. Na verdade, a próxima festa, Yule, novamente celebra o nascimento do deus.

A coincidência desses festivais com os feriados cristãos, bem como as semelhanças entre os símbolos da Wicca e os do cristianismo, segundo muitos antropólogos, não seria apenas acidental, mas sim uma prova da pré-existência das crenças pagãs. Para as autoridades cristãs que reprimiam as religiões mais antigas durante a Idade das Trevas, converter os feriados já estabelecidos, atri­buindo-lhes um novo significado cristão, facilitava a aceitação de uma nova fé.


Cerimonias e Celebrações

A cena está se tornando cada vez mais comum: um grupo se reúne, geralmente em noites de luar, em meio a uma floresta ou em uma colina isolada. Às vezes trajando túnicas e máscaras, outras inteiramente nus, os participantes iniciam uma cerimônia com cantos e danças, um ritual que certamente pareceria esquisito e misterioso para um observador casual, embora seja um comportamento indiscutivelmente religioso.

Assim os bruxos praticam sua fé. Como os adeptos de religiões mais convencionais, os iniciados em feitiçaria, ou Wicca, usam rituais para vincular-se espiritualmente entre si e a suas divindades. Os ritos da Wicca diferem de uma seita para outra. Vários rituais da Comunidade do Espírito da Terra, uma vasta rede de feiticeiros e pagãos da região de Boston, nos Estados unidos, estão representados nas próximas páginas.

Algumas cerimônias são periódicas, marcando as fases da lua ou a mudança de estações. Outras, tais como a Iniciação, casamentos ou pactos, só ocorrem quando há necessidade. E há também aquelas cerimônias que, como a consagra­ção do vinho com um athame, a faca ritualística (acima), fazem parte de todos os encontros. Seja qual for seu propósito, a maioria dos rituais Wicca — especial­mente quando celebrados nos locais eleitos eternamente pelos bruxos — evoca um estado de espírito onírico que atravessa os tempos, remontando a uma era mais romântica.


Iniciação: “Confiança total”

Para um novo feiticeiro, a iniciação é a mais significativa de todas as cerimônias. Alguns bruxos solitários fazem a própria iniciação, mas é mais comum o ritual em grupo, que confere a integração em uma assembléia, bem como o ingresso na fé Wicca. Trata-se de um rito de morte e renascimento simbólicos. A iniciação mostrada aqui é a praticada pela Fraternidade de Athanor, um dos diversos grupos da Comunidade do Espírito da Terra. Lide­rando o ritual — e a maioria das cerimônias apresentadas nestas páginas — está o sumo sacerdote de Athanor, Andras Corban Arthen, trajando uma pele de lobo, que ele crê confe­rir-lhe os poderes desse animal. A iniciação em uma de suas assembléias ocorre ao cabo de dois ou três anos de estudo, durante os quais o aprendiz passa a conhecer a história da Wicca, produz seus próprios implementos ritualísticos, pratica a leitura do tarô e outros supostos métodos divinatórios e se torna versado naquilo que eles chamam de técnicas de cura psíquica.

Como a maioria dos ritos da Wicca, a iniciação começa com a delimitação de um círculo mágico para definir o espaço sagrado da cerimônia. Aqui, há um largo círculo, cheio de inscrições, depositado na grama, mas o bruxo pode traçá-lo na terra com o athame, ou apenas riscá-lo no ar com o indicador.

A candidata é banhada ritualisticamente, e então conduzida para o círculo mágico, nua, de olhos vendados e com as mãos amarradas nas costas. Tais condições devem fazê-la sentir-se vulnerável,’ testando sua confiança em seus companheiros. Cima interpeladora dá um passo em sua direção, pressiona o athame contra seu peito e lhe pergunta o nome e sua intenção. Em meio a um renascimento simbólico, ela responde com seu novo nome de feiticeira, afirmando que abraça sua nova vida espiritual e vem “em perfeito amor e em total confiança”.

Ao término da cerimônia, o sacerdote segura seus pulsos e a faz girar nas quatro direções (à direita), apresentando-a para os quatro pontos cardeais. Então ela é acolhida pelo grupo e todos celebram sua vinda bebendo e comendo. Como diz Arthen, “os pagãos gostam muito de festejos”.


Para Captar a Energia da Lua

Os praticantes da Wicca identificam a lua, eternamente mutante — crescente, cheia e minguante —, com sua grande deusa em suas diversas facetas: donzela, mãe e velha. É por isso que a cerimônia destinada a canalizar para a terra os poderes mágicos da lua está na essência do culto à deusa, sendo um rito chave na liturgia da Wicca.

Quando se encontram para um dos doze ou treze esbás do ano, que são as celebrações da lua cheia, os membros da Frater­nidade de Athanor reúnem-se em um círculo mágico para direcionar suas energias psíquicas através de seu sumo sacerdote — que aqui aparece ajoelhado np centro do círculo — e para sua suma sacerdotisa, que está de pé com os braços erguidos em direção aos céus. Acreditam que a concentração de energia ajudará a sacerdotisa a “atrair a lua para dentro de si” e transformar-se em uma; corporificação da deusa.

“Geralmente, a época da lua cheia é sempre; repleta de muita tensão psíquica”, explica Arthen, o sumo sacerdote. Esse ritual tenta utilizar essa tensão. “Ele ajuda a sacerdote a entrar em um transe profundo, no qual terá visões ou dirá palavras que geralmente são relevantes para as pessoas da assembléia”.

As taças nas mãos da sacerdotisa contêm água, o elemento que simboliza a lua e é governado por ela. Os membros dizem que essa água se torna “psiquicamente energizada” com o poder que a trespassa. Cada feiticeiro deve beber um pouco dela ao término do ritual, na cerimônia que o sumo sacerdote Arthen chama de sacramento.

Muitos grupos realizam essa cerimônia de atrair a lua em outras fases, além da lua cheia. Tentam conectar o poder da lua crescente para promover o crescimento pessoal e começo de novas empreitadas e conectam com a minguante, ou lua negra, para selar os finais de coisas que devem ter um fim.

A maioria dos grupos considera a cerimônia como uma maneira de honrar a Grande Deusa, mas muitos abdicam dos rituais, resumindo-se simplesmente a deter-se por um mo­mento quando a lua está cheia, para meditar sobre a divindade Wicca.


Para Elevar o Cone do Poder

“A magia”, diz o sumo sacerdote Arthen, “está se unindo às forças psíquicas para pro­mover mudanças.” Parte do treinamento de um feiticeiro, ele observa, é aprender a usar a energia psíquica e uma técnica primária com esse objetivo, um ritual praticado em quase todos os encontros e o de elevação do cone do poder. Como a maioria das atividades, isso acontece no centro de um círculo mágico. “Especialmente no caso deste ritual”, diz Arthen, “o círculo mágico é visualizado não apenas como um círculo, mas como um domo, uma bolha de energia psíquica — uma maneira de conter o poder antes de começar a usá-lo.”

Ao tentar gerar energia para formar o cone do poder, os bruxos recorrem à dança, à meditação e aos cânticos. Para “moldar” o poder que afirmam produzir, reúnem-se em torno do círculo mágico, estiram os braços em direção à terra e gradualmente os levantam, como se vê aqui, em direção a um ponto focal acima do centro do círculo. Quando o líder da assembléia sente que a energia atingiu seu ápice, ordena aos membros: “Enviem-na agora!” Então, todos visualizam aquela energia assumindo a forma de um cone que deixa o círculo e viaja até um destino previamente determinado.

O alvo do cone pode ser alguém doente ou outro membro do grupo que necessite de assistência em seu trabalho mágico. Mas seu destino também pode estar menos delimitado. Como a prática da feitiçaria está profunda­mente vinculada à natureza, o cone do poder pode ser enviado, diz Arthen, “para ajudar a superar as crises ambientais que atravessamos.


Festas do Ano Wicca

Nem todos os rituais da Wicca são solenes e taciturnos. “Misturamos a alegria e a reverência”, diz Arthen. Os oito sabás que se destacam no ano dos bruxos — homenageando a primeira jornada do sol e o ciclo agrícola rítmico da terra — são ocasiões para muitas festas animadas. O mais festivo de to­dos os sabás é Beltane, alegre acolhida à primavera que acontece no dia 19 de maio. Em Beltane, os pagãos do Espírito da Terra reú­nem-se para divertir-se com a brincadeira do mastro, como se vê aqui.

A dança do mastro, antigo rito da fertilidade, começa como um jogo ritualístico carregado do forte simbolismo sexual que caracteriza a maioria das cerimônias da Wicca. As mulheres do grupo cavam um buraco dentro do qual um mastro, obviamente fálico, deverá ser planta­do. Mas quando os homens se aproximam, carregando o mastro, são confrontados por um círculo formado por mulheres, que cercam o poste como se o estivessem defendendo.

Num ato de sedução simbólico, as mulheres brincam de abrir e fechar o círculo em lugares diferentes, enquanto os homens correm carregando o mastro e tentando penetrar naquele círculo.

“Finalmente”, conta o sumo sacerdote Arthen, “os homens têm a permissão de entrar com o mastro e plantá-lo na terra.” Em seguida, as feiticeiras começam a dança da fita, ao redor do mastro, cruzando e atravessando os carrinhos umas das outras até que as fitas brilhantes estejam todas entrelaçadas no mastro. “O ritual une as energias dos homens e das mulheres”, explica Arthen, “para que haja  muita fertilidade.”

Acreditando que cada sabá conduz a um ápice de energias psíquicas e terrenas, os feiticeiros praticam os rituais do sabá mesmo que estejam sós. Contudo, nos últimos anos, os adeptos da Wicca têm se reunido em número cada vez maior para celebrar os sabás; o comparecimento aos festivais do Espírito da Terra aumentou cerca de sete vezes, no período de quase uma década.


A Celebração das Passagens da Vida

Como outros grupos religiosos, as comunida­des Wicca celebram os momentos mais significativos na vida individual e familiar, inclusive nascimento, morte, casamento — que chamam de “unir as mãos” — e a escolha do nome das crianças. O Espírito da Terra é reconhecido como igreja pelo estado de Massachusetts, diz Arthen, e portanto seu ritual de “unir as mãos” pode configurar um matrimônio legal.

Muitas vezes o ritual não é usado para estabelecer um casamento legal, mas sim um vínculo reconhecido apenas pelos praticantes da Wicca. Se um casal que se uniu dessa forma decidir se separar, seu vínculo será desfeito através de outra cerimônia Wicca, conhecida como “desunião das mãos”.

Fundamental para essa cerimônia é a bênção dada à união do casal e o ritual de atar suas mãos — o passo que corresponde ao nome do ritual e que há muito tempo produziu a famosa metáfora que se tornou sinônimo de casamento, “amarrar-se”. A fita colorida que une o par é feita por eles, com três fios de fibra ou couro representando a noiva, o noivo e seu relacionamento. Durante as semanas ou até meses que antecedem o casamento, o casal deve sentar-se regularmente — talvez a cada lua nova — para trançar um pedaço dessa corda é conversar sobre o enlace de suas vidas através de amor, trabalho, amizade, sexo e filhos.

Os filhos de feiticeiros são apresentados ao grupo durante um ritual de escolha de nome chamado “a bênção da criança”, ou batismo. Essa cerimônia inclui com freqüência o plantio de uma árvore, que pode ser fertilizada com a  placenta ou com o cordão umbilical. Em uma cerimônia semelhante conhecida como batismo mágico, que geralmente ocorre antes da iniciação, o aprendiz de feiticeiro declara os nomes pelos quais deseja ser conhecido dentro de seu grupo de magia.

PAX DEORUM

Por Witch Crow

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-moderna-feiticaria/

Fluidos Sexuais: o segredo da OTO revelado

Anarco-Thelemita

‘Não há nada que possa unir o dividido, exceto o Amor ‘– Aleister Crowley

Muito é dito na literatura oculta thelemita sobre Kalas, as secreções do corpo que podem ser usadas para fins mágico, mas isso é quase sempre feito por meio de alegorias e metáforas, mesmo entre ousados thelemitas. Como se tivessemos algo a esconder. Para algumas organizações isso é tido como um segredo que deve ser escondido a qualquer custo. Mas se um segredo fosse, exatamente secreto, correria na direção oposta de tudo o que o vivemos hoje. O segredo é, no fim das contas, algo comum, que não damos valor e que, pode conter em si o poder de alterar a própria realidade, de modo assustador até. É algo que está lá, mas ninguém quer vê.

Considere a quantidade de relações sexuais diárias ao redor do mundo, e que, nem 10% do mundo utilizaria esse potencial pessoal, o mago tem pelo teu próprio saber, uma pequena arma nuclear a sua disposição, um verdadeiro ‘Elixir da Vida’, como disse Aleister Crowley no capítulo ‘Emblemas e Modos de Uso’ do seu famoso Livro 4. A maior parte das informações deste artigo serão justamente extraídas deste importante texto.

Os textos do Crowley visavam tanto a preservação e o entendimento destes conceitos de acordo com a capacidade pessoal do seu leitor. Mas nem todos tem a mesma visão – Os segredos, repito, sempre foram abertos, só não percebidos. Mega Therion ensina por meios de símbolos alquímicos que “o ovo, é a cópula entre os dois sexos, entre a Águia e o Leão, Mulher e Homem.” neste texto em vez de teorizarmos sobre os mecanismos ocultos por trás disso, vamos nos limitar a parte pratica de operações sexuais, deixando as os mecanismos metafísicos para autores com mais tempo para a arte dos malabares.

O Estado Mental

A melhor ponte pra qualquer operação sexual é uma mente calma e um corpo energizado. Praticas de pranayama fazem milagres acalmando até tempestades violentas que um cérebro pode ter, por vezes, uma substituição por métodos de vampirismo pode ser empregado por quem domina a técnica. No fim das contas,  os dois métodos são viáveis e não muito diferentes um do outro. O Adepto não deveria se perder em nomenclaturas na sua obra, mas sim focar-se em teu objetivo. Carregar seu centro sexual de energia vital, para que, a obra possa ser concretizada. Lembro do fato que, por experiência pessoal, isso nem sempre é regra, e se for uma regra, pode ser quebrada. A pratica constante leva o desrespeito das regras iniciais em qualquer tipo de operação mágicka. Lúcifer toma as regras do céu, as burla para criar seu reino pessoal. Prometheus rouba o fogo dos deuses, ainda que pague seu preço ilumina e aquece a humanidade toda deste então. Crowley diz que os participantes devem “estar transbordantes de energia, magneticamente atraídos um pelo outro, transbordantes de energia, magneticamente atraídos um pelo outro” para dizer que devem estar com tesão.

O Casamento Alquímico

A Operação em si apesar de ser muito protegida com segredos por algumas organizações thelemitas, pode na verdade tomar a forma de uma cópula normal, sem preceitos, mantras, orações e afins. O Adepto pode, caso isso o agrade, santifica-la, tornando-a adornada em invocações que ache viáveis e correspondentes a seu objetivo. Os thelemitas usam as formas-deus de Nu e Hadit para operações de iluminação e de desenvolvimento pessoal e as formas Hórus e Babalon para trabalhos de feitiçaria com fins de Guerra, Vitória ou Amor. Alternativamente,  pode-se dedicar a própria copula a algum Deus especifico e procurar repetir, invocando o nome dessa divindade durante toda a cópula. É uma pratica alternativa, não necessária. Porem, efetiva. Baphomet também é sempre presente em operações ligadas a fins matériais.

Independente disso, a cópula deveria ser a melhor possível, sem se preocupar com restrições e especialmente não caindo na armadilha do cerimonialismo. De fato “esquecer por completo o propósito da operação é um prenúncio de sucesso, na linguagem alquímica o “Leão deve estar enraivecido” Fazer com Verdadeira Vontade é a formula ideal. Se o adepto desejar, ele pode concentrar-se no objetivo da operação desde o inicio, mas isso não é de todo necessário. O objetivo é concentrar o fluido sexual, não é necessário santificar algo que por natureza já é intenso e prazeroso. Assim como não se pode blasfemar contra algo que não é divino tão pouco pode-se abençoar algo tão elevado como o sexo. Intensidade ou Amor é a chave para ambos, mas como sempre, amor sob Vontade.

O Fluido: A Taça transbordada

Após o coito feito de forma intensa, chega-se a hora realmente ritualística. Deve-se sugar os fluidos com a boca de modo evitar desperdiçar qualquer gota que seja. E então, despejá-los em uma taça. O homem deve fazer isso com a mulher e a mulher com o homem. A união dos dois fluidos, junto com a saliva, é que formarão a chamada Taça das Abominações, a Pedra Filosofal, Medicina dos Metais. O adepto nessa hora, deve olhar para a taça com os fluidos e mentalizar fortemente, imprimindo no fluido gerado sua vontade. A postura mental nesta parte da operação é mais importante do que na anterior, como diz Crowley, “Ovo, mal cuidado, pode adquirir uma Serpente venenosa, de elementos hostis e malignos.”

A mente do Macho e da Fêmea devem estar em absoluta harmonia quanto ao propósito da operação. Não fosse assim, haveria um conflito interno entre as partes e o todo a operação seria um fracasso, ou no pior dos casos contrária ao desejado. Se um matrimônio perfeito não é possível (e de fato é muito raro) é mais indicado que apenas um dos lados saiba o que esta acontecendo e  o outro busque um estado mental de nulidade. Quem quer que imprima sua vontade é a Serpente. A operação lida com polaridades, mas não é necessariamente uma questão de gênero, sabe-se que Crowley se dedicou a ela passiva mente (como Águia) e ativamente (como Leão), mas em todos os casos era a Serpente. Independente do que dizem a respeito de sexualidade ligar a aspectos Sephiróticos/Qliphóticos, aos quais, os resultados práticos contradizem o medo.  A concentração sobre o objetivo, sobre essa energia materializada, é a chave da operação e o ato simbólico é a porta sendo aberta.

Para fortalecer o “chocar do ovo”, ou seja, a ligação com o objeto final um ato simbólico especifico pode ser criado. Isso pode ser feito colocando fios de cabelo do alvo, no caso de uma operação de cura, amor ou destruição. Ou colocar emblema de uma loja e uma moeda de ouro para a prosperidade do lugar. Para operações de prosperidade pode-se mergulhar uma moeda de ouro e para batalhas uma arma pode ser besuntada.

O Sacramento

Seja o uso como for, e especialmente para fins de cura e energização pessoal, faz-se beber da Taça. O Fluido da Imortalidade pode trazer rejuvenescimento segundo as lendas tradicionais e o uso adequado deveria ser feito por, pessoas mental/fisicamente saudáveis. A magia é, no fim das contas, Gerar aquilo que se é, se multiplicar, por assim dizer. Precisa-se de Amor, para gerar Amor, Guerra interna pra gerar Externa. Este é o motivo dos alquimistas dizerem que “Para fazer outro é preciso ter ouro.”

O fluido em questão pode ser entregue á Forças, para que estas trabalhem pela tua vontade. São métodos alternativos de trabalho, que não desvinculam o propósito da mesma. É interessante dedicar toda a operação á um fim especifico, porem resultados interessantes podem ser obtidos, dedicando a energia do coito pra um propósito, e os fluidos para o outro. Aqui temos uma questão que só pode ser esclarecida pela experimentação pessoal.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/fluidos-sexuais-o-segredo-da-oto-revelado/

O Legado Mágico de John Dee

por Julie Stern.

Na época da ascensão dos fundamentalismos e outros versos satânicos não é inútil viajar ao século XVI para descobrir um ponto central de respostas e questões relacionadas com a ética da felicidade e a tecnologia ocidental. Nove séculos após a revelação islâmica, 200 ocidentais de toda a Europa se viram carregando o espírito do Renascimento com a tocha de suas certezas. Eram místicos, engenheiros, matemáticos, técnicos, corteses, evangelistas do céu na terra. Eles criaram o humanismo de que todos falam em nossos tempos de reflexões morais, mas que poucos conhecem. A democracia tira disso uma dimensão transcendental e bíblica. John Dee é quem recebeu a revelação mais imponente – várias centenas de páginas, incluindo um monólogo de Deus tão amargo e profundo quanto o Livro de Jó, onde ele até se arrepende de ter criado o ser humano…  famoso livro dos Diálogos com o Anjo – uma revelação espiritual de alcance universal oculto que se inscreve implicitamente no coração da relação atual do homem com sua identidade, da sociedade e da natureza, da mulher e do homem, dos povos e suas histórias, das religiões e política, liberdade e amor. E da Arte. A grande aventura da evolução do espírito humano.

Os Mistérios de John Dee

Até recentemente, John Dee era considerado um maníaco isolado e marginal da história britânica da dinastia Tudor, não tendo se beneficiado de nenhum estudo aprofundado, acadêmico e sério, um homem digno de interesse apenas aos olhos de uma pequena minoria de antiquários e ocultistas . Ainda hoje, a Enciclopédia Britânica nos oferece apenas um pequeno e acanhado parágrafo sem informações exaustivas – um destino nada invejável para um homem que foi reverenciado em seu tempo – o grande Renascimento – como o homem mais erudito de toda a história.

Inspiração para o personagem Próspero na Tempestade de Shakespeare, John Dee está na raiz da revolução técnica anglo-saxônica moderna e das contradições éticas do sistema herdado e transformado pelo exercício do poder. Escrever uma biografia significa trabalhar na história da ciência e da tecnologia (astronomia, astrologia, matemática, mecânica), das sociedades (da antiguidade ao século XVI) e das espiritualidades (em todo o mundo).

John Dee deu à Inglaterra o conceito político de “Império Britânico” e abriu os fluxos marítimos da Grã-Bretanha com a Rússia e a América. Ele alegou ter se comunicado com os anjos como se reis, imperadores e os grandes não fossem suficientes para ele. Uma vida que se desenrola como um filme de aventura místico-política, um épico ao ritmo de um thriller mítico porque Shakespeare não está muito longe e a Tempestade realmente aconteceria….

Biografia

John Dee nasceu em Londres em 13 de julho de 1527. Ele era filho de Rowland Dee, um cortesão a serviço privado do rei Henrique VIII. As duas famílias de origem galesa se uniram durante a guerra das duas rosas, onde a púrpura dos Tudors derrotou a brancura da rosa de York. De 1542 a 1545, John Dee estudou no St John’s College em Cambridge, do qual ele conta; “Eu estava tão profundamente imerso no estudo que durante esses anos aderi inviolavelmente ao meu horário; apenas quatro horas de sono por noite; duas horas por dia para comida e bebida (e alguns refrescos depois); e o resto das dezoito horas (exceto o tempo para ir e realizar o serviço divino) foi gasto em meus estudos e aprendizado).” Em seguida, Trinity College. Recebeu o título de Bacharel em Artes em 1546, tornou-se membro da Sociedade dos Amigos do Trinity College, ainda em Cambridge.

Nesse mesmo ano, construiu uma máquina voadora para a representação teatral de Zeus em Paz, peça de Aristófanes. Infelizmente, essa proeza técnica para a época forjou a base para uma acusação de prática de artes mágicas malignas (pense em Zeus voando em uma carruagem dentro do Olimpo no final da Idade Média religiosa!) e um evocador de espíritos malignos. Ordinário. A dura vida do século XVI. Como Bertrand Gilles indicou em seu famoso livro Les Ingénieurs de la Renaissance, apenas os místicos estudavam matemática, o que levou ao projeto de máquinas que permitiram fazer desaparecer trabalhos difíceis para a humanidade. Mas a Igreja havia proibido essa prática de “artes mecânicas” consideradas diabólicas. Só os reis e a alta nobreza militar protegiam parte do saber técnico herdado da antiguidade para fabricar armas, pontes, veículos, fatos de mergulho, moinhos, protomáquinas voadoras ou de mergulho… E os 200 do renascimento europeu…

Mas Dee foge com isso. Corremos por toda a Europa e as cidades estão cheias de vegetação florida. E fugiu. Bélgica. Flandres. De 1548 a 1551, John Dee estudou em Louvain, uma universidade financiada pelo papado e pelo imperador Carlos V, renomada em toda a Europa pelo estudo de leis civis e matemática. John Dee também visita Antuérpia antes de chegar a Paris e realizar ali a notável performance para um jovem de 33 leituras sucessivas sobre Euclides. “Uma coisa que nunca havia sido feita publicamente em nenhuma universidade da cristandade”, como ele mesmo observou antes de prefaciar a primeira obra britânica de Euclides que ainda seria usada para o ensino de matemática nas faculdades inglesas de 1914. Mas, acima de tudo, a obra de John Dee a visita a Louvain, que não foi para completar o doutorado, foi a do encontro e da longa amizade com Gérard Mercator, o primeiro geógrafo do globo terrestre real, fundador da geografia moderna. John Dee retorna à Inglaterra de posse do segredo da bússola orientada no pólo magnético, cujo lugar e papel são descobertos por Gérard Mercator, os países da América e as supostas passagens para o Mar Báltico e a Rússia. Foi a amizade de John Dee que abriu a dimensão do “império marítimo” ao mundo anglo-saxão. Rússia. E Virgínia…

Na Inglaterra, ele passou os anos de 1551 a 1553 como tutor de Robert Dudley, filho do Lord Protector Northumberland, e mais tarde Conde de Leicester. Em 1553, Eduardo VI concedeu-lhe duas igrejas em funcionamento, com suas pensões, as reitorias de Upton-on-Seven, Worcestershire e Long Leadenham, Lincolnshire. No entanto, a ascensão da rainha Maria Tudor (casada com o ultracatólico rei da Espanha Filipe II que reprime o protestantismo puritano) causou uma desagradável reversão da sorte, especialmente como estudantes de magia e artes matemáticas (na época ele é a mesma disciplina, proibidos ao mesmo tempo que o estudo de qualquer arte “mecânica”) são perseguidos pelas apostas. John Dee foi preso em 1555 sob a acusação de ser “suspeito de lançar feitiços contra a rainha”. Ele é libertado, mas seu mordomo, Barthlet Grene, é queimado vivo.

Para recuperar seu crédito, John Dee dirige uma petição à rainha Maria para a pesquisa e preservação de escritos antigos (queimados pelos tribunais) e monumentos. 1556. É contratado como assistente de um inquisidor. Ele recupera todos os manuscritos de alquimia (que estuda) apreendidos nas casas dos réus da justiça eclesiástica e acumula um enorme fundo de manuscritos que serão usados ​​para o desenvolvimento científico posterior da Grã-Bretanha. “Se o fator essencial de uma universidade é uma excelente biblioteca, FR Johnson apontou que a casa de Dee pode realmente ser considerada a academia científica da Inglaterra durante a primeira metade do reinado de Elizabeth 1ª da Inglaterra.” como apontam os biógrafos modernos de John Dee, Frances Yates e Peter French. Sua biblioteca inclui as obras completas de Platão e Aristóteles, os dramas de Ésquilo, Eurípides, Sófocles, as sentenças de Sêneca, Terêncio e Plauto, os escritos de Tucídides, Heródoto, Homero, Ovídio, Lívio, Plutarco.

Mas a rainha Maria Tudor acaba de morrer.

Ele teve muitas obras sobre religião e teologia: a Bíblia, o Alcorão, São Tomás de Aquino, Lutero, Calvino. Todas as principais obras para antiquários britânicos contemporâneos estavam presentes, incluindo todas as obras de ciência e matemática. Geografia. Obviamente, para um homem renascentista, o misticismo e a magia eram importantes no esquema de arranjo, junto com Plotino, Roger Bacon, Raimundo Lúllio, Alberto Magno, Marsílio Ficino, Pico de la Mirandola, Paracelso, Tritemius e Agripa, e outros. Todo o Renascimento em um único estudioso. Escrever sua biografia é dar conhecimento científico e técnico desde a antiguidade até o século XVI. Uma aula de arte da memória (a base da educação tradicional) como bônus.

O Mago da Rainha Elizabeth I da Inglaterra

O astrólogo da data escolhida para a coroação solene da rainha Elizabeth 1ª da Inglaterra chama-se John Dee. Ele a servirá com devoção incomum durante todos os anos de seu reinado. Dee era conhecido na corte com seu ar de bardo merlinesco e se reuniu com o conde de Leicester, seu primeiro aluno, bem como o círculo de Sir Philip Sydney, a profunda amizade de Sir William Cecil e muitos outros parentes da Coroa, incluindo o chefe do serviço secreto, Sir Gresham, incluindo – especialmente – a própria rainha. O número de agente secreto de Dee com a Rainha era o número 7. É uma época muito boa. Anos “estudiosos, produtivos e cheios de sucesso”. Ele via a rainha várias vezes por semana em conversas privadas. Ela muitas vezes vinha à sua casa sem avisar. Ele parece ter cumprido o papel de conselheiro político, espiritual, militar, cultural e técnico ao mesmo tempo. Segredos de estado britânicos. John Dee vê a Inglaterra salva se ela decidir adquirir o domínio das águas. A criação da frota inglesa com madeira russa. Ivan, o Terrível, logo se tornou conhecido pelos cortesãos como o “czar inglês”. Ele ficou tão impressionado com a fama de John Dee que o convidou para Moscou, oferecendo-lhe comida e uma grande casa, além de £ 2.000 por ano. John Dee se recusa como um bom patriota. Em 1580, John Dee presenteou a rainha Elizabeth com um mapa do hemisfério norte, permitindo que ela estabelecesse sua legitimidade dos direitos ingleses na América do Norte. E promover três anos depois as viagens de seu amigo Sir Walter Raleigh com o batismo de “Virginia” e a expedição ao Orinoco, inspirando também as de Francis Drake. O Império Britânico nasceu enquanto a França lutava em suas Guerras Religiosas, distanciadas à vontade pelas obras do francês Rabelais…

Para ler as obras criptografadas e avaliar o papel de seu país no nível físico e metafísico, John Dee está especialmente interessado nas criptografias da alquimia, da cabala e das possibilidades de comunicação direta com as forças divinas da vida que emanam dos textos. Ele tem todas as obras de Roger Bacon, este monge franciscano do século XIII que descreve as etapas da revolução científica que não se completará até o século XVII, e fará a ponte com Francis Bacon, que encontra duas vezes, revelando-lhe o essencial papel do método experimental para o desenvolvimento de ciências e técnicas úteis à humanidade, bem como sua responsabilidade perante Roger Bacon, que leva o mesmo nome que ele. Francisco não foi tão profundo, mas apresentará ao mundo científico uma visão do método experimental que, embora carente de sal, não permanece menos real.

Como todos os grandes renascentistas, John Dee descobre na Árvore da Vida um diagrama de síntese ecumênica de todas as religiões e mitologias, um diagrama funcional onde cores, minerais, plantas, árvores, letras, números, partes do corpo, porções do céu e nomes divinos correspondem. A alquimia o obriga a fazer uma viagem à Hungria para comprar um famoso antimônio, mas os experimentos que ele realiza há muitos anos não são conclusivos. São sobretudo os manuscritos mágicos que abrirão as portas para experiências estranhas, as da filosofia oculta.

O ano é 1582. Ele conhece o homem com quem seu nome será tantas vezes associado, Sir Edward Kelley. Muitas pessoas meditaram em vão para entender como era possível que um homem inteligente como Dee, formado em estudos clássicos, aficionado em navegação, matemática, lógica, literatura e filosofia, tivesse cuidado de alquimia, magia e conjuração de espíritos com a habilidade de Kelley. ajuda. Vamos examinar esta questão.

A filosofia oculta teve uma influência muito grande no Renascimento. Descreveu o universo em três dimensões: o mundo elementar da Natureza Terrestre que era a província das ciências físicas, o Mundo Celestial das estrelas que poderia ser entendido e apreendido pelo estudo e prática da Alquimia e Astrologia, incluindo astronomia e matemática, e o Mundo Supercelestial que poderia ser estudado por operações numéricas e pela evocação dos próprios anjos. Dee tenta explorar o Mundo Supercelestial em busca de respostas vivas que não encontrou mais nos livros que leu. Sua tentativa de obter esse contato angélico é do ponto de vista de seu tempo e do método experimental puramente lógico. As motivações profundas de Dee são científicas e religiosas. Religioso nisso o próprio Dee acreditava sinceramente que estava conversando com os emissários de Deus e mostrava uma atitude constante marcada pela sabedoria cristã. Científico em que Dee colocou a questão: existe vida inteligente em outras dimensões? Ele acreditava que assim era e que o Homem poderia conseguir estabelecer uma comunicação permanente com os anjos. Ele tentou. Encontrando-se pobre vidente, John Dee procura um médium para ver e ouvir os anjos convocados. Saul Barnabé foi substituído por Edward Kelley, de quem pouco se sabe.

Nascido em Worcester em 1º de agosto de 1555, ele entrou em Oxford sob o nome de Edward Talbot e depois desapareceu da universidade. Alguns historiadores acreditam que ele abriu a tumba de São Dunstão na esperança de encontrar ali um pó de projeção alquímica mencionado nas lendas. Seja como for, ele se tornou por um tempo o secretário do matemático e estudante hermético Thomas Allen, antes de apresentar seus próprios serviços na casa de Dee em Mortlake.

A Língua Enoquiana

10 de março de 1582. De acordo com o doutor Thomas Head: “O retrato do relato das sessões com Dee é o de uma personalidade ambígua no mais alto grau, má e mentirosa, instável e ácida, rápida de um lado a terríveis explosões de raiva acompanhada de violência física e, por outro, a súbitas explosões espirituais das quais ele se separa rapidamente”. A maioria dos biógrafos concorda que o contraste entre a vida e o caráter de Dee e os de Kelley é a fonte do fascínio dos dois homens. O santo e o debochado. Nossa própria tradução das atas das sessões nos fornece outras pistas. Dee foi atraído por Kelley quando ele se apresentou como um “alquimista operativo”. Dee não teria conseguido experimentar sua “magia angelical” sem o excepcional apoio mediúnico de Kelley e levando, após resultados iniciais extraordinários em relação ao objetivo pretendido, a emergência de um enigma ainda não resolvido: a língua enoquiana . Dee ainda não sabia o que pensar disso na noite de sua vida, trinta anos depois…

Os preparativos iniciais foram simples. Como observa o Dr. Head: “Simplesmente colocando uma pedra de visão ou cristal de rocha na mesa de prática e uma breve oração dita pelo Dr. Dee”. O resultado foi que Kelley recebeu uma visão do Anjo Uriel no primeiro dia que revelou sua assinatura secreta e deu instruções preliminares para a construção de “dois talismãs mágicos”:

1 – O “Sigillum Dei Aemeth (O “Selo da Verdade Divina”), um pantáculo de cera purificada de 9 polegadas de diâmetro, atualmente guardado no Museu Britânico.

2 – A “Tabula Sancta” (A “Mesa Sagrada”), uma mesa feita de madeira preciosa, com 1,60 metros de altura por 0,8 de largura, sobre a qual um grande selo retangular contendo 12 letras de um alfabeto desconhecido (o Enoquiano…) 7 selos circulares atribuídos aos poderes planetários.

Os dois talismãs que eram de fato os dois primeiros documentos enoquianos deveriam ser usados ​​juntos, o pantáculo sendo colocado sobre a Mesa Sagrada durante seu uso. Dee e Kelley estavam convencidos de que essa língua era a dos próprios anjos e correspondia a uma espécie de língua de origem, da qual viriam as línguas mais antigas. A complexidade dos eventos aumenta. Em 14 de março, um espírito posando como o anjo Miguel dá instruções para fazer um anel mágico de ouro, com um selo que ele disse ser o mesmo que “possibilitou todos os milagres e obras divinas e maravilhas realizadas por Salomão”. Em 20 de março o Anjo Uriel dita um quadrado de 49 caracteres, contendo 7 nomes angélicos identificados por Dee e Kelley. Um dia depois, um segundo quadrado é ditado. Kelley estava prestes a começar a ditar a Dee as visões na linguagem angelical ou “enoquiana”. Como escreve Head: “O alfabeto enoquiano apareceu primeiro: 21 caracteres semelhantes ao etíope em forma de letras, embora não em estrutura semelhante à grega, escritos da direita para a esquerda, como todas as línguas semíticas. Isso continuou com um livro também contendo cem quadrados, a maioria preenchido com 2401 quadrados (49 vezes 49), cujo ditado se tornou o principal trabalho de todas as sessões diárias por 14 meses. E o material continuou a se acumular página após página, livro após livro, até a separação final entre Dee e Kelley em 1589.”

Dee e Kelley vão para a Polônia a convite de um aristocrata, ficam em Cracóvia onde os Anjos conversam com eles sobre alquimia, antes de serem recebidos em Praga pelo imperador Rudolf II de Habsburgo, imperador dos alquimistas, protetor de Dürer, Arcimboldo, Tycho Brahe , Kepler e muitos outros. O anti-Philip II da Espanha. Ele leva Dee (que lhe dá um manuscrito original de Roger Bacon contando sobre seus contatos angelicais) e Kelley sob sua proteção. Pura sincronicidade da presença da palavra “Aemeth” colocada no selo de cera de Dee e o “Aemeth” colocado no Golem do famoso rabino Loew que viveu em Praga na mesma época? O diário de Dee não menciona um encontro com o rabino, mas ele conhece o médico alquimista do imperador, Michael Maïer, o primeiro que escreverá para atestar a existência de uma fraternidade com o emblema da Rosa e da Cruz, presente curar a humanidade de seus males. Irmandade invisível. Mas qualquer que seja o encontro fictício ou real narrado pelo romancista Gustav Meyrink em seu famoso “Anjo na Janela Ocidental”, qualquer que seja a desgraça social que recai sobre os dois homens (Dee retornou à Inglaterra com sua esposa em 1589, Edward Kelley foi preso por Rudolf II de Habsburgo e morreu em 1595), a verdadeira questão colocada por Dee é a da Rosa. Etno-história. Crônicas da transmissão xamânica européia.

John Dee na Origem da Rosa-Cruz?

A lenda Rosacruz – a história da fundação de uma irmandade mística por um certo Christian Rosenkreuz, sua morte em 1484 e a abertura de seu túmulo 120 anos depois – foi contada pela primeira vez em vários panfletos publicados nos anos de 1614 e 1615. Dee morreu em 1608. O mais influente dos textos foi o Fama Fraternitatis rapidamente traduzido para todas as línguas dos estudiosos do século XVII. René Descartes procurou febrilmente os Rosacruzes na Europa e manteve sua marca em sua filosofia pessoal. Este livreto influenciou não apenas os cabalistas e mágicos da época, aqueles humanos que tendiam a pensar mais em símbolos do que em palavras, mas também as irmandades maçônicas do século XVIII e os ocultistas do período posterior a 1850. em todos os tempos e em todos os lugares o emblema da beleza da vida e do amor expressa o pensamento secreto de todos os protestos manifestados durante o Renascimento. É como escreveu Eliphas Lévi: “A carne se revoltou contra a opressão do espírito; era a natureza se declarando Filha de Deus, como a Graça; era a Vida que não queria mais ser estéril; era a humanidade aspirando a uma religião natural, toda de razão e amor, fundada na revelação da harmonia do ser, da qual a rosa era para os iniciados o símbolo vivo e florido.”

A rosa é uma arma mágica. Um pantáculo natural universal. A rosa vinda da gnose de Alexandria, das tradições monásticas e das ordens religiosas de cavalaria, é o Amor invencível que une a carne ao espírito, é o Amor do Rosto feminino da Divindade. É claro que se pensa em Guillaume de Lorris, que iniciou o Roman de la Rose (O Romance da Rosa), sem esquecer o Cântico dos Cânticos do Antigo Testamento. A Rosa de Saron e o Lírio do Vale. A Rosa é a Natureza, a Mulher. E o cabalista cristão Agripa publica seu livro Sobre a Superioridade das Mulheres. A Inquisição e as Guerras Religiosas atingiram duramente as mulheres sob a cobertura de julgamentos de feitiçaria, como muitos estudiosos anglo-saxões apontam. Pensa-se na Ordem do Templo e na construção de catedrais na Europa. As cidades. Jehan de Meung retoma o Roman de la Rose (O Romance da Rosa) depois de ter lido, é o mínimo, os textos taoístas transmitidos a Felipe VI, o Belo pelos mongóis em 1265. Esta é a data de nascimento de Dante que será um dos líderes da Fede Santa, terceira ordem de filiação templária. Ele descreverá em seu oitavo céu do paraíso o Céu Estrelado, o da Rosa-Cruz, perfeito vestido de branco que ali professa o universalismo da doutrina evangélica, oposta à doutrina católica romana, evitando a ruptura. Dee era pela reconciliação do cristianismo de todos os matizes. Mas os abusos do papado os acharam impiedosos. Ali se juntaram às correntes ocultas do Hermetismo, do Catarismo, das teses abertamente gnósticas defendidas por Alberto Magno, São Tomás de Aquino, Pedro Lombardo, Ricardo de São Vitor, São Francisco de Assis, Santa Clara e toda a Ordem Terceira. A Ordem Terceira que derrotará o feudalismo deixando o Terceiro Estado brotar dele. Porque para John Dee a coisa fica clara na carta de 1563 que ele dirige a Sir William Cecil:

  1. Tudo é Uma Unidade, criada e sustentada pelo Uno através de suas Leis.
  2. Essas leis são ensinadas pelos Números-Filhos.
  3. Há uma arte combinatória das letras hebraicas que as torna válidas com o Número, de tal forma que se revelam verdades profundas sobre a natureza do Único e sua relação com o Ser humano.
  4. O ser humano é de origem divina. Longe de ter sido criado do pó como narrado no Gênesis, ele é, em essência, um gênio estelar.” Ou como dirá O Livro da Lei, transmitido a Aleister Crowley que estudou Dee no início do século XX: “Todo homem e toda mulher é uma estrela”.
  5. É essencial regenerar a essência divina dentro do ser humano, e isso pode ser alcançado pelos poderes do intelecto divino.
  6. Segundo a sagrada Cabala, Deus se manifesta através das intenções de 10 emanações progressivamente densas: e o ser humano, dedicando sua mente ao estudo da sabedoria divina e refinando todo o seu ser, e pela possível comunhão dos próprios anjos, acabará por poder entrar na presença de Deus.
  7. Uma compreensão cuidadosa dos processos naturais, visíveis e invisíveis, permite ao ser humano jogar com esses processos através dos poderes de sua vontade, sua inteligência e sua imaginação.
  8. O Universo é um padrão ordenado de correspondências. Qualquer coisa no Universo tem ordem, simpatia e força estelar com muitas outras coisas.

Para John Dee, isso não é uma metáfora. Todo ser humano é verdadeiramente uma reprodução terrena de uma das estrelas visíveis no céu, conforme Paracelso. A astrologia astronômica esboça uma síntese das ciências que leva a uma astrosofia e uma geosofia. As revelações angélicas lhe fornecerão importante material relacionando os diferentes povos conhecidos, com suas qualidades específicas e suas singularidades, segundo um esquema relativamente próximo da história real das civilizações. O primeiro raio é formado pelo Egito, França no dia 8, Alemanha no dia 10… Diplomacia psicológica, histórica e metafísica para relaxar.

O Romance da Rosa do século XVI:

História de amor. 1578. John Dee tem 51 anos. Seu cabelo e barba ficam brancos e ele parece cada vez mais um Merlin sóbrio. Sua reputação como mágico discreto não é discutida na corte da rainha. Mas a verdadeira magia da vida vem quando a jovem mais bonita da comitiva de Elizabeth I, a atendente de Lady Howard, então Jane Fromont, então com 25 anos, se apaixona perdidamente por ele. Eles se casaram. Ela lhe dará 5 filhos e a ideia certa da verdadeira dimensão do amor de uma mulher em um tempo muito patriarcal e muito puritano/debochado. Jane e John Dee casaram com rosas brancas, rosas e vermelhas, sem esquecer as rosas negras da arte ocidental do amor, tantrismo natural onde o espírito revisita toda a história das divindades femininas, a Rosa da Suméria, do Egito, Babilônia, Grécia, Roma, Gália, País de Gales, Celta, Idade Média e século XVI com a descoberta da Face Feminina da Vida reivindicando seus direitos ao longo da história humana, paridade em um mundo dominado pelo poder masculino.

Pétalas de Rosas. O Romance Escarlate.

Mas ninguém é profeta em seu país e o retorno de Praga a Londres, em 1589, é difícil. Certamente, Jane está com John e a Invencível Armada das frotas espanholas lançadas para conquistar a Inglaterra pereceu em 1588 na Grande Tempestade cuja lenda atribui o milagre ainda no povo à fabricação por John Dee de um pentagrama consagrado aos elementos das águas para proteger a Grã-Bretanha da dominação marítima. Mas, ao mesmo tempo, a mesma fama de mago destruiu pelas chamas a casa de Dee em Mortlake, tendo a vizinhança percebido a presença de espíritos e espectros ao redor antes de queimá-la.

Não houve recepção suntuosa para recebê-los. Seus pedidos de assistência e proteção falharam sucessivamente, e Dee foi intensamente atormentada por problemas financeiros e escândalos. Finalmente, foi a rainha Elizabeth quem o nomeou para o College of Christ, em Manchester, em 1596. Mas os estudantes deram as costas às reformas de John Dee, que lhes deram mais trabalho. Em 1605, eles o forçaram a desistir de seu posto. Ele voltou para Mortlake, viúvo, Jane tendo morrido pouco antes. Seus últimos anos foram filosóficos. Ele morreu em 1608.

A história da descoberta do trabalho “mágico” de John Dee é bastante surpreendente. Sua propriedade foi vendida e passada como herança. Um século depois, um amigo de Elias Ashmole o apresenta à jovem que os possuía. Sir Elias Ashmole já estava fundando o que viria a se tornar a Maçonaria Inglesa quando recebeu os escritos completos e o Sigillum Dei Aemeth de John Dee.

Não conhecemos nenhum comentário particular sobre a chance objetiva que permitiu que ele se tornasse seu possuidor, sem que ninguém interferisse em uma transmissão que faria o “depósito ou o legado enoquiano” passar ao médico legista do século XIX, Dr. Wynn Westcott, que as oferece para leitura a um jovem e brilhante estudante maçônico, que se tornará cunhado do filósofo francês Henri Bergson: Samuel Liddell MacGregor Mathers. Um dos homens por trás da Ordem Hermética da Golden Dawn (Aurora Dourada).

***

Fontes: Sobre John Dee, Lucie Stern, fevereiro de 1995 e.v.

Ilustração: Retrato de John Dee. Século XVI, artista desconhecido. Museu Ashmolean, Oxford, Inglaterra.Consulte a página do autor/domínio público.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.


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Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/o-legado-magico-de-john-dee/

Aprenda Cabala com Aleister Crowley

Anarco-Thelemita

No quarto capítulo de “Magick Without Tears”, Crowley enfatiza o estudo da cabala para qualquer pessoa realmente interessada na prática mágicka. De fato, este capítulo aparece quase imediatamente após aquele em que os postulados de sua Magicka são definidos. Mais do que isso, ele traça um itinerário de estudos breve de descrever, mas difícil de atravessar composto de três fases. São estes três atos que veremos abaixo de forma detalhada. Se você não tem nenhum conhecimento sobre cabala, veio ao lugar certo. Se já tem, leia mesmo assim, você pode ter algumas surpresas no final.

Ato 1: Alfabetização Mágicka

Crowley chama a cabala de “Alfabeto Magicko”, mas um alfabeto que consiste não de letras, mas de ideias, e numa observação mais atenta, ideias matemáticas. Contudo os números são apenas uma das formas com as quais essas ideias podem ser expressas.  Neste sentido é até uma boa coisa que o estudante não fale hebraico. Isso porque muitas palavras são em hebraico e sem referência o magista está impedido de fazer qualquer associação literal, tendo que desenvolver dentro de si a abstração necessária. Qualquer tentativa de traduzir os nomes das sephirot pode no final das contas mais atrapalhar do que ajudar. Nesse sentido o hebraico é para a cabala o que o francês é para o ballet ou o inglês para o marketing.

Cada uma dessas abstrações deve ser explicada, investigada, compreendida por meios muito diversos. Neste primeiro momento o estudante deve se preocupar apenas em criar em sua mente o esboço das letras hebraicas, seus valores numéricos e as 10 esferas por elas conectadas. Crowley não detalha como deve ser essa memorização mas uma boa ideia é simplesmente pegar um caderno novo e desenhe na primeira página a seguinte estrutura:

*Deixaremos de fora Daath por enquanto para que o estudante sério possa fazer suas próprias descobertas mais avançadas no futuro. 

Essa é a chamada “Árvore da Vida”. Por enquanto temos apenas números, nomes e posições. Cada um deles é uma sefira (no plural sefirot). Passe a semana consolidando esta estrutura em sua mente. Desenhe-a quantas vezes precisar até que sua ordem e números estejam internalizados. Só então para a próxima etapa. 

Feito isso temos que saber que cada sefira “se conecta” às demais por seus por meio de 22 ligações que também possuem seus nomes hebraicos. Estas ligações se somam às sephiras e se enumeram de 11 a 32. Concentre-se alguns dias em ter de memórias a estrutura a seguir:

Uma boa maneira de acelerar o processo é desenhar a árvore respeitando sua sequência numérica. Com isso você terá impresso na mente algo como uma planta do edifício que iremos construir a seguir. A Árvore da Vida deve ser aprendida de cor; você deve conhecê-lo de trás para a frente, de frente para trás, dos lados e de cabeça para baixo; deve se tornar o pano de fundo automático de todo o seu pensamento. Não negligencie esta etapa. Ela é semelhante ao aprendizado das notas musicais, do alfabeto e da tabuada. Só avance quando puder, a qualquer momento desenhar a árvore completa com todos os seus nomes e números.

Ato 2: o Código Fonte do Universo 

Contam às bocas prussianas que certa vez houve um diálogo entre Frederico Guilherme IV da Prússia e Argelander, seu astrônomo imperial. De forma provocativa o rei perguntou “Então, o que há de novo nos céus?” E o pesquisador respondeu: “Será que Vossa Majestade já conhece o que há de velho?”. Assim o próximo ato no desenvolvimento cabalistico deve ser um olhar atento para o passado.

A próxima etapa é atribuir a estes espaços alguns conjuntos de “elementos naturais”. Crowley admite que mesmo estes elementos são sempre arbitrariamente compostos, mas é a interação entre eles que fará toda máquina funcionar, principalmente quando o cabalista começa a perceber que toda e qualquer coisa no universo tem seu lugar no mapa da cabala. 

As primeiras atribuições sugeridas são aquelas que fazem conexão com outros três grandes campos de saber oculto: a astrologia, gematria e o tarô. Cada sefira tem uma correspondência astrológica, e portanto uma cor própria. Da mesma forma, cada uma das 22 ligações tem relação com uma das 22 letras do alfabeto hebraico (que é de onde tira seu nomes), mas também dos 22 Arcanos Maiores do Tarot. E para os caminhos próximos do Sol, um signo do zodíaco:

Só essas cinco atribuições iniciais (planetas, cortes, letras, valor gematrico e arcanos do tarô) já bastam para levar os estudos cabalísticos para outro patamar. Em particular às letras hebraicas darão um poder enorme por meio da prática da gematria no futuro.

Para facilitar essa etapa, pegue aquele mesmo caderno e depois da primeira página, em que a árvore estará desenhada, dedique uma folha para cada sefira e caminho. No topo da folha coloque o número apropriado e abaixo delas suas atribuições

Transcreva de punho próprio no seu caderno os dados abaixo em suas páginas apropriadas:

Sefira Correspondência Astrológica Cor
1. Kether Netuno Branco
2. Chochmah Urano Cinza
3. Binah Saturno Preto
4. Hesed Júpiter Azul
5. Geburah Marte Vermelho
6. Tipheret Sol Amarelo
7. Netzach Vênus Verde
8. Hod Mercúrio Laranja
9. Yesod Lua Violeta
10. Malkuth Terra Marrom

 

Ligação Zodiaco Gematria Arcano
11. Aleph א 1 O Louco
12. Bet ב 2 O Mago
13. Gimel ג 3 A Sacerdotisa
14. Dalet ד 4 A Imperatriz
15. Heh ה Áries 5 O Imperador
16. Vav ו Touro 6 O Hierofante
17. Zayin ז Gêmeos 7 Os Enamorados
18. Het ח Câncer 8 A Carruagem
19. Tet ט Leão 9 A Volúpia (Força)
20. Yud י Virgem 10 O Eremita
21. Kaf כ 20 (500 no final) A Fortuna (A Roda da Fortuna)
22. Lamed ל Libra 30 Ajustamento (A Justiça)
23. Men מ 40 (600 no final) O Enforcado
24. Nun נ Escorpião 50 (700 no fina) A Morte
25. Samech ס Sagitário 60 Arte (A Temperança)
26. Ayin ע Capricórnio 70 O Diabo
27. Peh פ 80 (800 no final) A Torre
28. Tzady צ Aquário 90 (900 no final) A Estrela
29. Koof ק Peixes 100 A Lua
30. Reish ר 200 A Sol
31. Shin ש 300 Aeon (O Julgamento Final)
32. Taf ת 400 O Universo (O Mundo)

Você deve então iniciar seus estudos cabalisticos. As próximas atribuições que podem ser feitas devem vir por meio de pesquisa. Algumas sugestões incluem as runas nordicas, os trigramas do i-ching, os patriarcas de Israel, os deuses egípcios e alguns nomes hebraicos de Deus e seus anjos. Também é muito esclarecedor buscar quais vícios e virtudes se encaixam em cada espaço da árvore da vida.

Crowley admite que o impacto inicial pode não ser fácil: 

“A princípio, é claro, tudo isso será terrivelmente confuso; mas persista, e chegará o tempo em que todas as partes estranhas se encaixarão no quebra-cabeças, e você verá – com graça e admiração! – a beleza e a simetria maravilhosas do sistema cabalístico. E então – que arma você terá forjado! Que poder de analisar, ordenar, manipular seu pensamento!

Cada ideia, seja qual for, pode ser, e deve ser, atribuída a um ou mais desses símbolos primários; assim, o verde, em diferentes tons, é uma qualidade ou função de Vênus, da Terra, do Mar, de Libra e de outros. Assim, também é com ideias abstratas; desonestidade significa “um Mercúrio sob tensão”, generosidade um bom, embora nem sempre forte, Júpiter; e assim por diante.

Agora você está armado! E poderá perguntar a si mesmo coisas como: por que a influência de Tiphareth é transmitida a Yesod pelo Caminho de Samekh, uma cerca, 60, Sagitário, o Arqueiro, Arte, azul – e assim por diante; mas para Hod pelo Caminho de Ayin, um olho, 70, Capricórnio, a Cabra, o Diabo, Indigo, etc..

Estas atribuições não apenas começam a lhe dar um entendimento da cabala, mas os sinais passam a explicar uns aos outros. Entender o signo de Gêmeos é entender o arcano dos Enamorados. Você sabe agora que a letra Peh tem às mesmas qualidades do Arcano Maior da Torre, e entende o tipo de percepções que ocorre quando a ligação entre Hod, com suas qualidades Mercuriais e Netzach, com suas qualidades Venusianas são feitas. 

A partir daqui você pode também iniciar seus estudos de gematria. 

Nas palavras de Crowley em uma observação no final da introdução de Magicka sem Lágrimas: “Os métodos da gematria servem para se descobrir verdades espirituais. Números são a rede estrutural do Universo e suas relações a forma de expressão do nosso Entendimento sobre ele.” A gematria une o rigor da matemática com as inspirações da poesia e assim enxerga coisas que os artistas não enxergam por falta de coerência e os matemáticos não enxergam por falta de imaginação.

Por exemplo, a palavra hebraica Achad (Unidade) e a palavra Ahebah (Amor) tem ambas o valor 13:

echadאחד  ahavah אהבה 
א = 1 

ח = 8

ד = 4

———-

Total: 13

א = 1 

ה = 5

ב = 2

ה = 5

———-

Total: 13

No pensamento cabalistico isso significa que Amor e Unidade são em última instância uma coisa só. Porque Jesus Cristo se uniu a um grupo de 12 apóstolos, porque o 13º Arcano é o Enforcado, relacionado a sacrifícios e porque o Diabo surge quando você duplica 13 e obtém 26, são outros pensamentos que surgem.

Ou achar graça que Pai + Mãe = Filho, visto que אב‎ (Pai, numericamente equivalente a 3) + אמ (Mãe, equiv. a 41) = ילד (Filho, equivalente a 44). Mas note, a gematria hebraica é só uma das possíveis. Lembre que seja em grego, hebraico ou inglês os números são os mesmos não importa sua grafia.

Para estudos mais profundos no segundo ato temos em português s livros fantásticos como a enciclopédia “Kabbalah Hermética” de Marcelo del Debbio e “Sistemagia” de Adriano Camargo Monteiro. Entre os autores estrangeiros às obras “Cabala Mística” de Dion Fortune, A Arvore da Vida de Israel Regardie e Liber 777 e o Sepher Sefira do próprio Crowley como boas indicações de estudos. 

Estas e outras relações se tornaram mais claras conforme se estuda a cabala, tornando-se enfim um novo estilo de pensamento que o tornará muito mais perceptivo, criativo e perspicaz do que às pessoas comuns. Sua memória também será expandida pois se tornará cada vez mais fácil fazer associações entre tudo lhe rodeia. De fato Crowley afirma que a Cabala é “O Melhor Treinamento para a Memória” e no capítulo “Jornada Astral”, acrescente que “Não há melhor treinamento para a memória do que a Santa Qabalah” dando então um exemplo possível:

“Você sai para dar uma caminhada e a primeira coisa que vê é um carro; que representa o Arcano VII, a Carruagem, relacionado ao signo de Câncer. Então você chega a uma peixaria e nota certos crustáceos, novamente o signo de Câncer. A próxima coisa que você nota é um vestido cor de âmbar em uma loja; âmbar também é a cor de Câncer. Agora você tem um conjunto de três impressões que são unidas pela classe de Câncer a ligação 17.Zayin. Você então verá que irá lembrar-se de todos os três eventos com muito mais clareza e precisão do que poderia lembrar-se de qualquer um dos três individualmente.”

Você não apenas pode pensar melhor sobre o universo. Você passa a pensar como o universo pensa. Neste mesmo capítulo Aleister Crowley explica o porque:

“Todo mecanismo da memória consiste na união de dados independentes. Você pode ir adicionando de pouco em pouco, sempre relacionando as impressões simples com outras mais gerais até que todo universo é organizado como um cérebro ou sistema nervoso. Este sistema de fato, se torna o Universo. Quando tudo esta apropriadamente correlacionado sua consciência central entende e controla todos os pequenos detalhes.”

Mas saiba desde já que uma vez que não podem compreender seu raciocínio para estas pessoas qualquer associação ou discurso cabalístico será indistinguível do delírio.

Ato 3: Sua própria Cabala

A próxima etapa de estudos cabalísticos é tão extravagante que o próprio Crowley a reconhece como uma sugestão sórdida e bestial. Mas faz a sugestão mesmo assim. Quando seu pensamento estiver absolutamente imerso nas associações da árvore da vida, chegou a hora de construir sua própria Cabala!

Após alguns anos seu caderno de estudo estará repleto de associações importantes. E se você o fez bem será algo muito semelhante aos livros já escritos sobre cabala citados acima. Mas existem associações que ninguém pode fazer a não ser você pois dizem respeito à perspectiva única de sua vida. 

A partir deste ponto você deve constantemente pendurar tudo que vier em seu caminho em seu galho mais apropriado. Onde cabe nesta grande estrutura a história da sua vida, suas conquistas, amores e maiores derrotas? Na sua perspectiva única em que espaços da Árvore da Vida estão seus parentes? Seus amigos? Seus relacionamentos? As etapas do seu crescimento? Suas comidas, roupas, músicas e livros favoritos?  E o que a gematria lhe diz sobre todos estes nomes? 

Após isso, fique atento para novas impressões. Uma prática excelente é adquirir o hábito de incluir um nome no caderno sempre que fizer sua leitura matinal ou noturna ou do que quer lhe chame atenção durante uma caminhada ou afazer.

Mega Therion coloca a questão da seguinte forma:

“Ninguém pode fazer isso por você. Qual é o seu verdadeiro número? Você deve encontrá-lo e provar que está correto. No decorrer de alguns anos, você deveria ter construído um Palácio da Glória Inefável, um Jardim do Prazer Indescritível. Afinal, é bastante simples. Cada palavra que você encontrar, some-a, cole-a contra aquele número em um livro guardado para esse propósito. Isso pode parecer tedioso e bobo; por que você deveria fazer de novo o trabalho que já fiz por você?

Motivo: simples. Fazer isso vai te ensinar Cabala como nada mais poderia. Além disso, você não ficará entulhado de palavras que nada significam para você; e se acontecer de você querer uma palavra para explicar algum número particular, você pode procurá-la em meu próprio Sepher Sephiroth.

Por este método, também, você pode encontrar um rico reservatório de suas próprias palavras ou de conceitos que foram completamente ignorados por outros autores até agora.

Para começar, é claro, você deve escrever as palavras que estão fadadas a atrapalhar seu caminho. Sem dúvida, um Grande Professor teria dito: “Cuidado! Use meu Dicionário, e apenas o meu! Todos os outros são espúrios!” Mas eu não sou um R.G.T. desse tipo.

Se qualquer palavra, estímulo, evento ou nome lhe chamar atenção coloque-o em seu livro. Crowley sugere inclusive diz que devemos deixar estas associações serem guiadas por nosso trabalho no Plano Astral. Ao investigar o nome e outras palavras comunicadas a você por seres que você encontra em suas projeções ou invocar, muitas outras conexões adequadas surgirão. Em breve, você terá seus próprios Sepher Sephiroth pequenos e agradáveis. “Lembre-se de almejar, acima de tudo, a coerência.”, completa a Grande Besta.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/aprenda-cabala-com-aleister-crowley/

O Mito do Vampiro e a Rosacruz

Por Shirley Massapust

Na obra O Vampirismo, Robert Amberlain alega que os membros da Rosa-Cruz do Grande Rosário iniciaram-se na pneumatologia que “não é senão a ciência dos Espíritos, aquilo a que chamamos agora metafísica, ciência que engloba o conhecimento da Alma”.[1] Ele descreve a ação e conversão dos vampiros alegando que “é muito possível que seja a isto que o marquês de Chefdebien faz alusão na sua carta publicada na página 52 da obra de B. Fabre, Um Initié des Sociétés Secrètes Supérieures (Paris, 1913), quando ele evoca a existência dos ‘irmãos do Grande Rosário’, cujo berço era em Praga ainda nesta época, ou seja, nos finais do século XVIII”.[2]

De fato, a metafísica rosa-cruz fundia recursos da metafísica tradicional, teologia, alquimia e cabala. Por exemplo, num manuscrito escrito entre 1700 e 1750, Phisica, Metaphisica et Hyperphisica. D.O.M.A., estas matérias correspondem às “três partes do homem” (espírito, alma e corpo) e representam os três elementos da pedra filosofal (sal, enxofre e mercúrio).[3] Contudo, o simples fato de estudarem variantes da metafísica tradicional não basta para provar que praticavam o vampirismo. A única justificativa para tal associação, seria a descoberta de uma interpretação especial da matéria e uso objetivo a fim de atingir tais ideais; fato que nos leva a um novo problema: Onde procurar? Existe uma quantidade infindável de escritos ‘metafísicos’ inspirados no movimento, de forma que até mesmo Descartes dedicou uma obra de juventude “aos eruditos do mundo inteiro e, especialmente, aos Irmãos Rosa-Cruzes, tão célebres na Germânia” (Preâmbulos), além de haver escrito trabalhos onde “transparecem suas preocupações científicas aliadas à influência dos temas da sociedade Rosa-Cruz”.[4] Comecemos, pois, pelo começo. Não irei discutir sobre a antiguidade da ordem. Cabe a cada um optar pela posição de certos historiadores que afirmam sua invenção no século XVI ou pela doutrina da atual Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (A.M.O.R.C.), que se proclama receptora da tradição de uma ordem hermética egípcia fundada por Thutmose numa ‘Reunião do Conselho’ ocorrida de 28 de março a 4 de abril de 1489 a.C. Para nosso tópico basta dizer que o interesse do público leigo pela ordem formou-se após a publicação da Fama Fraternitatis, 1614, e Confessio Fraternitatis R. C., 1615, dois escritos anônimos que ganharam importância em associação ao Chymische Hochzeit Christian Rosencreutz, Anno 1459 (1616). Este último trazia a alegoria de um casamento no qual alguns convidados são assassinados e trazidos novamente à vida através da alquimia; sua autoria acabou sendo reivindicada por um certo Johann Valentin Andrea (1586-1654), respeitado e ortodoxo membro do clero luterano, conhecido como opositor dos rosa-cruzes. Andréa esforçou-se ao máximo para distanciar-se da obra, chamando-a de sátira ideada em sua juventude tresloucada.[5] Contudo, independente da intenção do(s) autor(es), tais obras exerceram grande influência na concepção do rosacrucianismo. A descrição da exumação do corpo de Christian Rosencreutz – herói protagonista da Fama Fraternitatis – foi especialmente discutida devido a sua condição imputrescível:

Como até o momento não tivéssemos visto o corpo do nosso falecido pai, prudente e sábio, afastamos o olhar para um lado e ao erguermos a chapa de bronze, encontramos um corpo formoso e digno, em perfeito estado de conservação, tal qual uma contrafação viva do que aqui se encontra com todas as suas vestimentas e atavios.[6] Dentre outros livros e objetos, os descobridores do túmulo encontraram o Vocabular de Teophrastus Paracelsus ab Hohenheim (1493-1541).[7] Isso prova que os dois panfletos não se sincronizavam ou simplesmente pretendiam narrar uma ficção, pois de acordo com a Confessio o Irmão C. R. nasceu em 1378 e morreu aos 106 anos, em 1484, sendo o túmulo fechado e selado nove anos antes do nascimento de Paracelso. Em todo caso, o autor da Fama Fraternitatis devia ter em alta estima as teorias deste médico; cuja comparação dos “corpos embalsamados” com um filtro grego “preparado com sangue” levou a conclusão de que “o que cura verdadeiramente as feridas é a múmia: a própria essência do homem”.[8] Tal é a função do cadáver de R. C. na narrativa.

Seguindo raciocínio semelhante, W. Wynn Westcott apresentou como fato verídico à história de que Rosenkreutz “foi sepultado, conforme ele e os membros de seu círculo mais íntimo planejaram, numa cripta especial dentro do domus ou moradia secreta”.[9] Então, o teriam embalsamado com “esmero no cuidado carinhoso e no trabalho hábil de preservar os restos mortais do Mestre” do que resultou o ‘belo e notável corpo, integro e intacto’ descrito na tradução de Eugenius Philalethes (Londres, 1652).[10] Noutro extremo, no livro Perguntas e Respostas Rosacruzes, H. Spenser Lewis anuncia de forma pitoresca que “o verdadeiro autor dos panfletos que trouxeram o renascimento na Alemanha foi, nada mais, nada menos, que Sir Francis Bacon,[11] então Imperator da Ordem para a Inglaterra e várias partes da Europa”.[12] Ele teria velado a autoria da Fama Fraternitatis sob um nome simbólico, “como é natural em toda a literatura Rosacruz antiga”, cujo significado seria meramente “Cristãos da Rosa-Cruz”. Por isso “é muito duvidoso” que em seu tempo “qualquer indivíduo culto… que lesse esses panfletos, acreditasse que Christian Rosenkreutz fosse o nome verdadeiro de alguma pessoa”.[13] De qualquer forma, independente do autor ou da pretensão de ser ficcional, doutrinário ou verídico, o manifesto contém a descrição de um cadáver bem conservado semelhante aos de certos santos católicos ou dos relatos de vampiros primordiais que também são interpretados ora como ficção alegórica, ora como fruto de embalsamamento natural (ou milagre, ou produto de magia, etc.).

Interações culturais entre o pensamento maçônico e rosa-cruz:

A antiguidade histórica da afinidade entre a Rosa-Cruz e a Maçonaria inglesa é tal que ultrapassa a existência institucionalizada de ambas as ordens. Por exemplo, o poema A Trinódia das Musas, de Henry Adamson de Perth, 1638, contém a passagem ‘For we are the brethren of the Roise Cross. We have the mason word and second sight’. Ou seja, para que os irmãos da Rosa Cruz pudessem possuir a ‘palavra Maçônica’ seria necessário que já naquela época houvesse um intercâmbio entre as duas correntes de pensamento. Talvez por isso a fraternidade Rosa-Cruz “foi confundida muitas vezes com a maçonaria e, de certo modo, a maçonaria moderna assimilou muitos princípios esotéricos do grande movimento”, conforme atesta Rizzardo da Camino, autor de O Príncipe Rosa-Cruz e Seus Mistérios.[14] Em Orthodoxie maçonique, Ragon alega que Elias Ashmole “e os demais Irmãos da Rosa-Cruz” se reuniram em 1646 na sala de sessões dos franco-maçons, em Londres, onde livremente “decidiram substituir as tradições orais adotadas nas recepções de adeptos nas lojas por um processo escrito de Iniciação”. Após a aprovação do grau de Aprendiz pelos membros da loja, “o grau de Companheiro foi redigido em 1648, e o de Mestre, pouco tempo depois. Mas a decapitação de Carlos I em 1649 e o partido tomado por Ashmole a favor dos Stuarts, trouxeram grandes modificações a este terceiro e último grau, tornado bíblico, tomando-se totalmente por base esse hieróglifo da natureza simbolizado pelo fim de dezembro”.[15] Dessa forma, Papus aponta Ashmole como “autor principal” da lenda de Hiram, cujo assassinato simbólico revela que “é necessário saber morrer para reviver imortal”,[16] ou, conforme a versão vigente do Ritual do Grau de Mestre-Maçon (GR .’. 3), “ensina a lei terrível que faz com que aquele que auxiliastes e instruístes se revolte contra vós e procure matar-vos, segundo a fórmula da BESTA HUMANA: ‘O INICIADO MATARÁ O INIADOR’”.[17] O aumento da preocupação com os estudos teóricos em detrimento das práticas da construção levou ao nascimento da Maçonaria Moderna em 1717, quando quatro lojas londrinas se reuniram para a formação da Grande Loja de Londres. É sobre esta que recai a crítica do Daily Journal de 5 de setembro de 1730:

Tem-se de reconhecer que há uma associação estrangeira, da qual os maçons ingleses, envergonhados de sua verdadeira origem, copiaram certas cerimônias, tendo bastante dificuldade de persuadir a todos de que eles são os descendentes, embora só tenham uns poucos signos de prova ou de iniciação. Os membros dessa sociedade levavam o nome de Rosa-Cruzes e seus membros, chamados de grandes mestres, vigilantes etc., seguravam durante suas cerimônias uma cruz vermelha como signo de reconhecimento.[18] Se isto for verdade, ironicamente o ‘iniciado’ terminou mesmo matando por acidente seu ‘iniciador’ de forma simbólica, abolindo-o da memória.

Posteriormente, o grau 12º do rito Adoniramita foi chamado de ‘Rosa Cruz’,[19] assim como o grau 18.º do rito escocês antigo e aceito, surgido na França em 1754, recebeu o título de Soberano Príncipe da Rosa-Cruz de Heredom (ou simplesmente Cavalheiro Rosa Cruz). Segundo Leadbeater, neste grau revela-se o nome do Grande Arquiteto do Universo, que descobri tratar-se do epíteto INRI.[20] Sobre isto, o autor maçom informa que “em Sua encarnação como Christian Rosenkreutz, o C.D.T.O.V.M. traduziu a Palavra para o latim, conservando muitíssimo engenhosamente seu notável caráter mnemônico, todas as suas complicadas acepções e ainda uma íntima aproximação com o seu som original”.[21] O capítulo Rosa-Cruz possui dois estandartes quase idênticos; vermelhos, com franjas douradas, levam o titulo do Supremo Conselho acima e o do capítulo, local de funcionamento e data de fundação abaixo. Como figura central o primeiro mostra a cruz latina “com a rosa na interseção de seus braços” e o segundo traz o pelicano rasgando o peito com o bico para alimentar sete filhotes com seu sangue.[22] Autores maçons dão diversas interpretações para seus símbolos. O pelicano representa a “disposição ao sacrifício”.[23] Ragon diz que a rosa seguida pela cruz seria o modo mais simples de escrever “o segredo da imortalidade”.[24] Já para José Ebram, o homem de pé com os braços abertos pode dizer: “Eu sou a representação da cruz, e a alma que se encontra dentro de mim é a rosa mística”.[25] Fanatismo, ataques psíquicos e ‘guerra dos magos’:

Numa manhã de agosto de 1623 diversos cartazes apareceram nas ruas de Paris informando que a fraternidade Rosa-Cruz acabava de fixar-se na cidade. Prontamente, a igreja francesa emitiu vários manifestos acusando os recém chegados de haverem emigrado da província de Lyons, onde teriam feito “pactos horríveis” com Satã. Outro comentário, intitulado o Mercure de France, tentava liquidar o problema pelo ridículo ao observar que a chegada dos rosa-cruzes à cidade criara pânico generalizado.

Alguns hoteleiros locais diziam ter registrado hóspedes estranhos que desapareciam em uma nuvem de fumaça quando chegava a hora de acertar as contas… Vários cidadãos inocentes acordaram no meio da noite e depararam com aparições pairando sobre eles; quando gritavam para pedir socorro, as figuras de sombras desapareciam.[26] O Mercure concluía, jocosamente, que não era surpreendente encontrar parisienses prudentes dormindo com mosquetes carregados ao lado da cama e apedrejando os estranhos que se aventurassem em seus bairros. Por isso, não é de se admirar que o movimento rosa-cruz tenha esperado até o século XIX para se instituir de forma ordenada naquele país. Antes, o embrião desenvolveu-se na Inglaterra.

Na época em que exercia a função de Grande Secretário do Edifício da Maçonaria, sede nacional da Fraternidade Maçônica Inglesa, Robert Wentworth Little encontrou documentos na biblioteca da Grande Loja com informações sobre ritos rosa-cruz que não faziam parte das atividades maçônicas. A partir daí idealizou a Societas Rosicrocian in Anglia, também chamada pelas iniciais S. R. I. A. ou Soc. Ross., cujo ingresso era estrito a maçons. Esta organização fora fundada em 1867 e teve como Magus Supremo o Dr. W. Wynn Westcott, que posteriormente integrou a Ordem Hermética da Aurora Dourada.

Também Alphonse Louis Constand (vulgo Eliphas Levi) esteve na S. R. I. A. por alguns anos, mas “os registros da S. R. I. A. declaram que Levi caiu em seu desagrado devido à publicação de seus vários livros sobre magia e ritual”.[27] De fato ele escreveu coisas como, por exemplo, que a mais antiga sociedade secreta do iluminismo a tomar consistência na Alemanha fora os “Rosa-Cruzes cujos símbolos remontam aos tempos dos Guelfos e dos Gibelinos, como o vemos pelas alegorias do poema de Dante e pelas figuras do Romance da rosa” e que “a conquista da rosa era o problema dado para a iniciação à ciência enquanto a religião trabalhava em preparar e em estabelecer o triunfo universal, exclusivo e definitivo da cruz”.[28] No mesmo livro, História da Magia, o ator trata de uma miríade de temas, incluindo uma longa explanação sobre os casos, causas e técnicas do vampirismo; assunto tratado de forma mais abreviada em A Ciência dos Espíritos e outras obras.

Durante a década posterior à morte do ocultista Eliphas Lévi, existiram poucas pessoas que estudaram os seus escritos, porém uma delas foi o novelista e poeta Catulle Mendès, que tinha conhecido Lévi e lhe havia apresentado a Victor Hugo. Em meados da década de oitenta, Mendès fez amizade com o marquês Stanislas de Guaita (1861-1897), jovem poeta e esteta a quem recomendou que lesse as obras deste autor. O marquês seguiu o conselho e encontrou nos escritos de Lévi uma revelação espiritual que descreveu como “o raio oculto”. Desde 1885 até o seu prematuro falecimento em 1897, dedicou sua vida ao ocultismo, chegando a ingerir cocaína, narcóticos e morfina para “afrouxar as ataduras da alma” e conseguir que seu espírito abandonasse seu corpo.

Em 1888, Guaita fundou a Ordre Kabbalistique de la Rosae Croix, na França, juntamente com Gérard Encause (1865-1916) e Joséphin Peladam (1858-1918), que abandonou a fraternidade em 1890 para fundar sua própria Ordem Católica Rosa-Cruz do Templo e do Graal.[29] Depois, Guaita entrou numa disputa contra a Igreja do Carmo[30], dirigida por Boullam (1824-1893), e – com a colaboração do ex-membro Oswald Wirth – escreveu o ensaio, Le Temple du Satan, no qual denunciavam Boullam como “pontífice da infâmia, desprezível ídolo da Sodoma mística, mago da pior espécie, retorcido criminoso, maligno feiticeiro”.[31] A novidade é que este livro inclui um estudo sobre as causas dos casos de vampirismo bastante concordante as teorias do Satanismo & Magia de Jules Bois, que se inspirou no ‘testemunho’ de J. K. Huysmans; ou seja, há uma possível acusação mútua implícita, mas expressa, de vampirismo.

Sabemos que após a denúncia, os dirigentes da Rosa-Cruz enviaram a Boullam uma carta solene na qual lhe comunicavam que era “um homem condenado”, frase que entendeu como uma ameaça de morte por meios mágicos. Assim, iniciou-se uma guerra entre magos. Cada bando amaldiçoou o outro e estava convencido de que os seus inimigos se propunham a destruí-lo. No meio de tudo, o novelista J. K. Huysmans tomou o partido da igreja do Carmo, apresentou Boullam como sendo o santo “Dr. Johannes” de Là-bas e chegou a acreditar que, devido à sua amizade com Boullam, Guaita e os seus se propunham a lhe matar. Passou a queixar-se de que à noite ele e o seu gato sofriam “agressões fluídicas”, golpes propiciados por demônios invisíveis. Estes ataques não tiveram conseqüências mais graves, conforme Huysmans, graças às medidas protetoras idealizadas por Boullam, que incluíam o emprego da hóstia consagrada e a queima de um incenso composto por cravo, cânfora e mirra. No entanto, em 3 de janeiro de 1893, Boullam escreveu a Huysmans para lhe comunicar um novo ataque da Rosa-Cruz: “Durante a noite sucedeu algo terrível. Às três da manhã acordei sufocado… caí inconsciente. Das três às três e meia, estive entre a vida e a morte… Madame Thibault sonhou com Guaita e de manhã ouvimos o canto de um pássaro da morte”. Na noite daquele mesmo dia Boullam morreu, dando fim à contenda.[32] Este caso, impulsionado pelo fanatismo, guarda semelhanças fundamentais com outro mais recente. No livro Lightbearers of Darkness, Miss Stoddart introduz o conceito de ‘Black Rosicrucians’. Segundo a Encyclopedia of Black Magic, antes de 1914, Miss Stoddart foi iniciada numa sociedade secreta britânica, The Red Rose and the Golden Cross, que dizia derivar do corpo germânico da ordem. “Miss Stoddart ocupava uma posição proeminente nesta alegada sociedade rosa-cruz, mas eles começaram a ter séries de experiências extraordinárias subjetivas que sugerem que ela também sofria séries de desilusões esquizofrênicas ou, como ela e alguns de seus associados próximos acreditavam, estava sofrendo ataque psíquico”. Os surtos começaram a partir de 17 de abril de 1919, dentro de templos da Igreja Anglicana, apresentando sintomas que incluíam a percepção de odores desagradáveis, alucinações visuais e experiência de ‘black-out’ ou ‘transes espontâneos’. No cume desses ataques ela via 12 figuras vestindo mantos negros, sentia dor no coração e tinha desmaios. Estava convicta de que seus sintomas provinham de “trabalhos de magia negra feitos contra ela por membros da sociedade rosa-cruz” e gastou boa parte do resto de sua vida denunciando a ordem.[33] Menções e acusações de vampirismo na Ordem Hermética da Aurora Dourada:

Criada como um subproduto da S. R. I. A., a Ordem Hermética da Aurora Dourada (G.D.) foi fundada em 1 de março de 1888 por William Wynn Westcott, William Robert Woodman e Samuel Liddell MacGregor Mathers. Mina Bérgson (Moina Mathers), uma talentosa artista da Escola de Slade, foi a primeira iniciada; tornando-se também esposa de Mathers após um breve compromisso. Em 1891 o casal mudou-se para Paris onde, dois anos depois, estabeleceu um Templo operativo chamado Ahathor.

A GD foi muitas vezes envolta em histórias fantásticas. Por exemplo, o primeiro documento produzido pela ordem, conhecido como Cipher Manuscript, teve caráter anônimo. Ele contém uma alegoria hermética trabalhada sobre um pingente rosa-cruz chamado Adept’s Jewel (jóia do adepto), mas pelo fato de estar codificado numa adaptação do alfabeto alquímico de Johannes Tritheminus (The Polygraphiae; Paris, 1561) decifra-lo é no mínimo aborrecido… Se tal artifício fosse mantido em todo material produzido teria livrado a ordem de muitos problemas, visto que, por volta de 1891, Mathers baseou-se na Fama Fraternitatis para criar o rito 5=6, Adeptus Minor, que incluía o momento dramático da descoberta do “corpo” de Christian Rosenkreuz, no caixão, representado por Mathers ou Westcott.[34] Imagino que tenha sido um documento com a descrição deste rito para iniciação na Segunda Ordem[35] que o Dr. Winn Westcott teve a infelicidade de esquecer dentro de um táxi em 1897. Seus papéis acabaram na polícia que não achou recomendável um coroner[36] se ocupar de tais atividades, pois poderia “ficar tentado a utilizar os cadáveres que são postos à sua disposição, para operações de necromancia”.[37] Westcott demitiu-se da Aurora Dourada.

Resta-nos, contudo, a dúvida sobre a impressão dos iniciados a respeito da natureza do prodígio. Sabemos que em Oil and Blood (1929) o poeta William Butler Yeats denuncia o paradoxo da afirmação do ‘milagre’ da incorruptibilidade dos corpos de certos santos, exaltado pela mesma igreja católica que escarnecia de fenômeno idêntico atribuído a vampiros pelos ortodoxos gregos:

Em tumbas de ouro e lapis lazuli

Corpos de homens e mulheres santos se aparecem.

Óleo milagroso, odor de violeta.

Mas debaixo de cargas pesadas de barro pisoteado

Corpos de mentira dos vampiros cheios de sangue;

Suas mortalhas são sangrentas e seus lábios estão molhados.

A influência de Yeats na G.D. era tal que quando lhe pareceu conveniente pode expulsar Mathers da ordem e substituí-lo como Imperator do templo Isis-Urania em Londres. Se quisesse, ele poderia muito bem impor sua visão de que a incorruptibilidade dos santos e vampiros deriva do mesmo princípio (podendo-se deduzir que seria plausível que a sentença se aplicasse igualmente bem ao corpo de Christian Rosencreutz).

Em 1956, um individuo publicou o artigo L’orde hermétique de la Golden Dawn, sob o nome de Pierre Victor, nos números 2 e 3 da revista La Tour Saint-Jacques, contendo “uma série de revelações sobre a existência, na Inglaterra, no final do século XIX e princípio do XX, de uma sociedade iniciática inspirada na Rosa-Cruz”.[38] Antes, contudo, ele havia colaborado como informante no best-seller O Despertar dos Magos, onde tornou conhecida a teoria de que “Stoker, o autor de Drácula” encontrava-se entre os escritores filiados a G.D. (informação que deve ter sido colhida da tortuosa tradição oral).[39] Tal filiação não consta em obras especializadas confiáveis, como o The Magicians of the GD de Ellic Howe, e o máximo que Sotker registrou foram menções vagas de seus encontros em Londres com “sugadores de sangue” ou “vampires personalites” (o que descreve tão bem seus contemporâneos da G.D. quanto qualquer outro alvo do adjetivo depreciativo).[40] Creio que o primeiro impresso que usou o termo vampirism para nomear técnicas utilizadas por membros da G.D. foi o De Arte Magica (1914), de Aleister Crowley. Segundo ele, havia “um método de vampirismo comumente praticado” pelo fundador McGregor Mathers, sua esposa Moina, pelo adepto E.W. Berridge, por Mr. e Mrs Horos – que tiveram contato com os ritos egípcios de Mathers – e por Oscar Wilde “em seus anos finais”, que apesar de não ter nenhuma relação com a ordem, pelo menos na ficção de O Retrato de Doriam Grey, sintetizou a fórmula da juventude eterna numa filosofia a seu gosto: “Para se voltar à mocidade, basta repetir as suas loucuras”.[41] Sabemos que o próprio Crowley filiou-se a G.D., sendo expulso junto a Mathers em 1900. Insatisfeito, usou os ritos da ordem para fundar uma dissidência chamada Argentium Astrum (AA) em 1907 e aderiu a Ordo Templi Orientes (O.T.O.) em 1911. Dentre as inúmeras curiosidades escabrosas que envolveram sua vida de Crowley, podemos destacar que chegou a limar os dentes caninos, deixando-os bem pontiagudos, e quando encontrava mulheres costumava dar-lhes o “beijo da serpente”, mordendo-lhe o pulso ou às vezes a garganta com suas presas.[42] Para perpetuar a tradição, Crowley criou uma elaborada ritualística. Segundo seu sucessor, Kenneth Grant, dois de seus ritos escritos para a O.T.O. envolvem o uso de sangue: “Eles são a Missa da Fênix e um certo rito secreto da Gnose, ensinado no Soberano Santuário da O.T.O.” Neste último o magista “consome a hóstia embebida em sangue”, enquanto na Missa da Fênix – publicada como Liber XLIV, tanto no Livro das Mentiras quanto no Magick – ele “corta seu peito e absorve seu sangue oralmente”. Por isso “a Missa da Fênix é, com efeito, a Missa do Vampiro”.[43] A Primeira Guerra Mundial chegou e Mathers viveu o suficiente para ver a vitória dos aliados no outono de 1918. Desde então, as coisas se voltaram obscuras. Dizem que Mathers morreu em seu apartamento na Rue Rivera em 20 de novembro de 1918, sucumbindo às poderosas correntes mágicas que emanavam de Crowley, segundo a primeira edição da autobiografia de Yeats.[44] Por sua vez, Dion Fortune relata que Moina lhe informou que seu marido falecera de uma epidemia de gripe nesse ano, mas não se encontrou nenhuma Certidão de Óbito de Mathers, nem sua tumba – e ainda que Moina possuísse uma Certidão de Óbito, não há registros cartorários.

No livro Ritual Magic in England (1970), Francis King relata a história subseqüente da Ordem da Aurora Dourada. A Sra. Mathers assumiu a liderança de uma das ramificações, mas não conseguiu mantê-la unida. A ocultista Dion Fortune, psicóloga freudiana cujo nome verdadeiro era Violet Firth, provocou uma divisão e formou seu próprio Templo; posteriormente, afirmou que a Sra. Mathers lhe dirigia “ataques espirituais” criminosos, tendo mesmo conseguido matar um membro itinerante.[45] Em 1920, Crowley instalou-se em uma quinta decadente de Calefu, na Sicília, e batizou esse santuário da AA como Abadia de Thelema. Um incidente deplorável aconteceu na abadia de Crowley. Um poeta oxfordiano chamado Raoul Loveday bebeu o sangue de um gato durante uma cerimônia e morreu instantaneamente, o que não estava previsto.[46] Sua viúva, Betty May, fez um escândalo e, entre boatos de que além de gatos também bebês haviam sido mortos, o governo italiano tomou medidas para expulsar Crowley da Sicília. Da mesma forma, a morte de Raoul Loveday na abadia causou furor na Inglaterra depois que Betty May forneceu a um jornal popular de Londres detalhes de “drogas, magias e práticas vis”.[47] A partir daí prosseguiria meio que morto em vida.

O dr. R. W. Felkin, chefe de outra facção da G.D. chamada Stella Matutina, dizia aos membros que “nosso pai Christian Rosenkreuz parece ter chegado a um estado quase divino”.[48] Ele acreditava na existência da tumba-cofre descrita na Fama Fraternitatis, em alguma parte do Sul da Alemanha, e estava a caminho pra procura-la quando estourou a guerra 1914-18. Os ritos herdados da G.D. foram publicados numa obra de quatro volumes por Frances Israel Regardie, um discípulo de Crowley que ingressou na ordem em 1934.

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[1] AMBERLAIN, Robert. O Vampirismo. Trd. Ana Silva e Brito. Lisboa, Livraria Bertrand, 1978, p. 163.

[2] AMBERLAIN, Robert. Op. Cit, p. 213.

[3] HALL, Manly P. (introduction and commentary). Codex Rosæ Crucis D.O.M.A. A Rare & Curious Manuscript of Rosicrucian Interest. Los Angeles, Philosophical Reserarch Societh, 1938, p 5 (do manuscrito).

[4] PESSANHA, José Américo Motta. Descartes – Vida e Obra. Os Pensadores: Descartes. São Paulo, Nova Cultural, 1996, p 12.

[5] TIME-LIFE BOOKS. Seitas Secretas. Rio de Janeiro, Abril Livros, 1992, p 54-55.

[6] YATES, Francês A. O Iluminismo Rosa-Crux. Trd. Syomara Cajado. São Paulo, Pensamento, 1983, p 306.

[7] YATES, Francês A. Op Cit., p 305-306.

[8] PARACELSO. A Chave da Alquimia. Trd. Antonio Carlos Braga. São Paulo, Três, 1973, p 220-222.

[9] GILBERT, R. A. (org). Maçonaria e Magia, Antologia de Escritos Rosa-cruzes, Cabalísticos e Maçônicos de W. Wynn Westcott, Fundador da Ordem Hermética “Golden Dawn”. São Paulo, Pensamento, 1996, p. 15.

[10] GILBERT, R. A. (org). Op. Cit, p. 23.

[11] É preciso ter cuidado ao fazer tal identificação. Encontrar fraudes de trabalhos de Francis Bacon é tão fácil quanto desmascarar as mesmas. Por exemplo, a página do Calvin College, Christian Classics Ethereal Library, disponibilizou por longo período a cópia de uma pretensa obra póstuma; The Fearful Estate of Francis Spira by Nathaniel Bacon (Londres, 06/01/1638). Nesta ficção curiosa Spira – o protagonista melancólico – nega crer que os pecados são redimidos com o sangue de Cristo e pede aos religiosos que lhe assediam: “Left miserable mortals should be swallowed up with the greatness of their willfully with my hands pulled down this vampire”… Ora, o que o termo ‘vampire’ esta fazendo numa publicação de 1638 se o vernáculo vampyr só tomou esta forma em inglês e francês no ano de 1732?

[12] LEWIS, H. Spenser. Perguntas e Respostas Rosacruzes. Curituba, Ordem Rosacruz AMORC – Grande loja do Brasil, Maio de 1983, p 85.

[13] LEWIS, H. Spenser. Op. Cit., p 78-79.

[14] CAMINO, Rizzardo da. Breviário Maçônico. São Paulo. Madras, 1995, p. 345.

[15] PAPUS (Dr. Gerard Encause). O Que Deve Saber um Mestre Maçom. Trd. J. Gervásio de Figueiredo 33º. São Paulo, Pensamento, p 85-86.

[16] PAPUS (Dr. Gerard Encause). Op. Cit, p 90.

[17] GRANDE LOJA DE MINAS GERAIS. Ritual do Grau de Mestre-Maçon (GR .’. 3). Belo Horizonte, Littera Maciel, 1976, p. 9.

[18] CARLES, Jacques e GRANGER, Michael. Alquimia: Superciência Extraterrestre? Trd. Hélio Pinheiro Carneiro. Rio de Janeiro, Eldorado, 1973, p 166.

[19] Marques, A. H. de Oliveira. Dicionário de Maçonaria Portuguesa. Vol. II. J-Z. Lisboa, Editorial Delta, 1986, coluna 1263.

[20] GODOY, A. C. & DELLAMONICA, J. A Cruz e a Rosa. São Paulo, Madras, 1994, p 43.

[21] LEADBEATER, C. W. A Vida Oculta na Maçonaria. Trd. Gervásio de Figueiredo 30º. São Paulo, Pensamento, 1964, p 229.

[22] CASTELLANI, José e FERREIRA, Cláudio R. Buono. Manual Heráldico do Rito Escocês Antigo e Aceito do 19º a 33º. São Paulo, Madras, 1997, p 13.

[23] LURKER, Manfred. Dicionário de Simbologia. Trd. Mario Krauss e Vera Barkow. São Paulo, Martins Fontes, 1997, p 534.

[24] GODOY, A. C. & DELLAMONICA, J. Op. Cit, p 41.

[25] EBRAM, José. A Águia Bicéfala Sobre o Altar. São Paulo, Madras, 1996, p 58.

[26] TIME-LIFE BOOKS. Seitas Secretas. Rio de Janeiro, Abril Livros, 1992, p 47.

[27] LEWIS, H. Spenser. Perguntas e Respostas Rosacruzes. Curituba, Ordem Rosacruz AMORC – Grande loja do Brasil, Maio de 1983, p 92.

[28] LEVI, Eliphas. História da Magia. Trd. Rosabis Camaysar. São Paulo, Pensamento, 1995, p 277.

[29] A Rosa-Cruz cabalística sobreviveu às mortes, não só do seu fundador, mas da de muitos dos seus dirigentes, como por exemplo o poeta Edouard Dubus, viciado em morfina que morreu em um urinário público enquanto estava se drogando. Durante muitos anos a ordem esteve dirigida por Papus, que estabeleceu um ramo na Rússia e foi um dos ocultistas que influiriam no último czar. Papus faleceu em 1916 e com sua morte a ordem se separou em várias facções rivais, algumas das quais ainda mantém uma existência precária.

[30] Esta igreja teve sua origem na Obra da Misericórdia, fundada em 1840 por Vintras, que tinha instituído em Tilly um oratório onde celebrava a Missa Provitimal de Maria; rito de sua própria invenção onde ocorriam numerosos prodígios. Os discípulos de Vintras viam, ou pelo menos pensavam ver, cálices vazios que se enchiam de sangue até transbordar e símbolos sangrentos que apareciam na Hóstia. A Obra de Misericórdia, que começava já a ser conhecida como igreja do Carmo, foi condenada oficialmente pelo papa em 1848.

[31] KING, Francis. Magia. Trd. Traduções e Serviços, S.L. Madrid, Ediciones Del Prado, agosto 1996, p 22.

[32] KING, Francis. Op. Cit, p 22.

[33] ‘CASSIEL’. Encyclopedia of Black Magic. New York, Mailland Press, 1990, p 39.

[34] VÁRIOS. Os Rosa-Cruzes. Homem Mito e Magia, fascículo 16. Vol 2. São Paulo, Editora Três, 1973, p 315-320.

[35] Espécie de degrau evolutivo interno da G.D. também chamado Order of the Rose of Ruby and the Cross of Gold (R.R. et A.C.).

[36] Coroner: Posto jurídico que acumula as funções de médico legista e juiz de instrução. Em caso de morte suspeita, reunia um júri que pronunciava um veredicto, podendo eventualmente haver intervenção da justiça e da polícia. (Um desses veredictos foi célebre no século XIX; o júri concluíra que um desconhecido encontrado morto num parque londrino havia sido assassinado “por pessoas ou coisas desconhecidas”).

[37] BERGIER, Jacques. Os Livros Malditos. Trd. Rachel de Andrade. São Paulo, Hemus, p 91-92.

[38] PAUWELS, Louis e BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos. Trd. Gina de Freitas. São Paulo, Difel, 1974, p. 241-242.

[39] PAUWELS, Louis e BERGIER, Jacques. Op Cit., p. 241.

[40] STOKER, Bram. O Monstro Branco. Trd. João Evangelista Franco. São Paulo, Global, p 7-12.

[41] WIDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Trd. Ed. Nova Aguiar. São Paulo, Abril, 1980, p 54.

[42] WILSON, Colin. O Oculto. Vol 2. Trd. Aldo Bocchini Netto. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p 44.

[43] GRANT, Kenneth. Renascer da Magia. São Paulo, 1999. Madras, pp 153-166.

[44] WILSON, Colin. O Oculto. Vol 2. Trd. Aldo Bocchini Netto. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p 30.

[45] WILSON, Colin. O Oculto. Vol 2. Trd. Aldo Bocchini Netto. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1991, p 30.

[46] BERGIER, Jacques. Os Livros Malditos. Trd. Rachel de Andrade. São Paulo, Hemus, p 96-97.

[47] TIME-LIFE BOOKS. Seitas Secretas. Rio de Janeiro, Abril Livros, 1992, p 117.

[48] Os Rosa-Cruzes. Homem Mito e Magia, fascículo 16. São Paulo, Três, 1973, p. 320.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-mito-do-vampiro-e-a-rosacruz