RPGQuest – Diário de Produção – 02

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Este conjunto de textos têm a finalidade de comentar sobre as decisões que tomamos na criação e desenvolvimento de um jogo baseado na Kabbalah, na Jornada do Herói e na Árvore da Vida. Quem ainda não conhece o projeto, recomendo ler primeiro o post sobre O Reino de Arcádia.

No RPGQuest, os Heróis farão sua jornada em uma Grande Ilha chamada Arcádia, composta de diversos Reinos baseados nas Esferas da Árvore da Vida. Cada partida será única, pois todo o cenário, castelos, vilas, torres e outros locais de interesse serão sempre diferentes. Uma vez determinado o cenário, vamos voltar nossa atenção para os Heróis.

Os Quatro Elementos

Dentro da Alquimia, os princípios Herméticos são representados pelos Quatro Elementos. A saber, a TERRA, que representa o Mundo Material, a força e o vigor; o AR, que representa a agilidade de pensamento, leveza e conhecimento da escrita, lógica e razão; a ÁGUA, que representa as emoções, cura, caridade e compreensão; e finalmente o FOGO que representa a Vontade.

As Classes e os Quatro Elementos

Sendo um jogo de tabuleiro baseado na Kabbalah, nada mais natural que o RPGQuest ter como suas quatro classes principais os quatro Elementos da Alquimia. No RPGQuest, a TERRA representa a força e a resistência dos Guerreiros; AR representa a agilidade e destreza dos Ladinos; ÁGUA representa a inspiração e poder de cura dos Clérigos e FOGO representa o poder e a vontade dos Magos. Todos os Personagens de RPGQuest possuem em suas classes principais combinações dos 4 Elementos.

A Jornada do Grupo

No RPGQuest, você não controlará apenas um Personagem, mas um GRUPO de Personagens. O Objetivo de uma partida é guiar este Grupo de Aventureiros dentro de Arcádia de modo que eles se tornem os Aventureiros mais famosos de todos os Reinos. E como fazer isso? Através das Missões, Desafios e Aventuras, oras! A Cada aldeia que os Heróis salvam das garras dos Orcs, a cada Dragão derrotado, a cada Dungeon explorada, a cada Artefato descoberto, a cada missão bem sucedida, o Grupo recebe PONTOS DE VITÓRIA, que indicam o quão famoso aquele Grupo é. Quanto mais aventuras o Grupo realizar, mais prósperos e famosos eles se tornam! E com maiores poderes, maiores responsabilidades…

Durante o jogo, o Grupo terá diversos tipos de missões para resolver, dependendo da estratégia de jogo de cada Jogador: Podem enfrentar exércitos de Orcs, Bullywugs, Gnolls, Trolls e outras criaturas malignas que rondam as florestas, desertos e colinas; proteger rotas comerciais ou servirem de guarda-costas de príncipes e princesas; podem investigar antigas ruínas e dungeons atrás de artefatos e tesouros, realizar missões diplomáticas ou investigar crimes cometidos nos Reinos; podem explorar cavernas, investigar portais ou minerar Mana, auxiliar os magos e os anões na fabricação de seus itens mágicos, realizar missões de resgate e muito mais…

A Evolução de Personagem

Na Jornada do Herói, conforme eles vão conquistando as missões, os personagens adquirem experiência e se tornam mais poderosos, aumentando suas capacidades individuais. No RPGQuest isto também ocorre. Conforme os Heróis de seu Grupo vão avançando na Árvore da Vida, você pode direcionar suas habilidades de acordo com sua estratégia de jogo.

Cada Personagem começa a partida como APRENDIZ. Quando chega ao grau de COMPANHEIRO, pode escolher entre os Elementos de Classe que mais tenha afinidade para evoluir. No caso acima, por ser um Warlock, Ironfoot pode aumentar seus poderes como Guerreiro (Terra) ou Mago (Fogo). Ao chegar ao grau de MESTRE, faz novamente uma escolha. E finalmente chegará ao grau de ESPECIALISTA e terá desenvolvido habilidades únicas, tornando a história de cada Herói única e especial na Jornada (e diferente cada vez que você joga uma nova partida!).

E conforme nossos Heróis ficam mais poderosos, também aumentam os desafios. No próximo artigo, falarei sobre as Aventuras e os Grandes Desafios!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/rpgquest-di%C3%A1rio-de-produ%C3%A7%C3%A3o-02

A Magia e a Mística do Judaísmo

Por Rabbi Geoffrey W. Dennis

Engraçado, Você Não Parece um Druísta: A magia e a Mística do Judaísmo.

Espiritismo, ocultismo, xamanismo – judaísmo? Poucas tradições espirituais estão mais estreitamente associadas à visão moderna e racionalista do mundo do que o judaísmo. Não é apenas nossa afinidade com a educação ocidental, nossa inclinação para a medicina, as ciências e a conquista de prêmios Nobel. Parece haver uma conhecida e antiga associação entre os judeus e o intelectualismo duro. “Lógica Talmúdica” é uma palavra de ordem para o raciocínio esteroide, e o Talmude que nos dá essa lógica já existe há mais de 1.500 anos. Os judeus, de outrora, parecem ter um gosto excessivamente desenvolvido pelo lado esquerdo de seus cérebros.

Mas as aparências podem ser enganosas. A verdade é que, além de sermos a criança do cartaz da civilização “racional”, ainda somos um povo muito tribal. Isso é tribal sem nenhuma citação em torno dela – tribal no sentido dos nativos americanos. Somente em vez de comer milho e salmão defumado, os judeus comem bagels e … bem … salmão defumado.

Poucas pessoas sabem que os judeus são uma das mais antigas culturas tribais contínuas do planeta. Há mais de três mil anos, éramos um povo nômade, inspirado por grandes ensinamentos míticos (Gênesis 1; Salmo 74), celebrando as bênçãos da terra (Levítico 23:1-43; Deuteronômio 8:7-10), comungando com os espíritos (Gênesis 18:1-33; Zac. 4-8), realizando rituais de poder (Gênesis 17:1-12; Deuteronômio 6:4-9; Salmos 108:1-3) e de cura (Números 12:1-16; I Reis 17:17-24). E ainda hoje fazemos muitas dessas mesmas coisas; essas coisas e muito, muito mais.

Os sábios rabínicos e místicos da Cabala (“[Oculta] Tradição”) preservam e transmitem grandes percepções espirituais, ensinamentos de poder e rituais de empoderamento. A tradição judaica inclui histórias maravilhosas e práticas surpreendentes: espiritual, meditativa e transformadora, como a K’riat Sh’ma al ha-Mitah, o ritual de convocação de quatro anjos para cuidar de você enquanto dorme.

Além disso, a tradição ocultista judaica tem sido incrivelmente influente. O judaísmo é uma das tradições esotéricas vivas mais antigas do mundo. Praticamente todas as formas de misticismo e espiritualismo ocultos ocultos conhecidos hoje em dia se baseiam em ensinamentos ocultos judaicos – trágico, angelologia, alquimia, numerologia, interpretação de sonhos, astrologia, amuletos, adivinhação, estados alterados de consciência, cura alternativa e rituais de poder – todos têm raízes nos ensinamentos judaicos.

A ironia é, naturalmente, que até mesmo os próprios judeus compraram os próprios estereótipos que descrevi acima. Pergunte à maioria dos judeus sobre os mitos judeus e eles lhe dirão que o judaísmo é uma religião sem mitologia. Peça-lhes que lhe falem sobre a magia judaica e eles pensarão primeiro em Houdini (ou talvez em Barbra Streisand). E mesmo que o misticismo judeu tenha se tornado parte da cultura pop, a maioria dos judeus ainda sabe pouco ou nada sobre isso. Isto porque durante milênios muitos destes ensinamentos centrais não foram disponibilizados ao público – mesmo da maioria dos judeus -, ocultos por barreiras de linguagem, medo de perseguição e os princípios ocultos da Cabala, que tanto guardaram como alimentaram tal conhecimento.

Surpreendentemente, muito disso está escondido à vista de todos. Muitos judeus têm um mezuzah na ombreira da porta de sua casa ou usam uma hamsa no pescoço, mas não sabem nada de seus poderes talismãs. A maioria dos judeus se sentou em uma sinagoga, mas desconhecem os totens que os rodeiam. Muitos judeus têm dito uma bênção tradicional sobre a comida, desconhecendo como uma fatia de pão é uma porta para o céu.

Intrigado? Mas e se você não for judeu? Isso não importa. A maioria dos judeus pode lhe dizer que embora não pregamos a pessoas de outros credos, estamos felizes em ensinar a qualquer um que esteja interessado. De fato, ser professor, ajudar uma pessoa a se elevar, seja intelectual, moral ou espiritualmente, bem, é uma mitzvah (uma obrigação sagrada).

Portanto, se você estiver interessado em aprender sobre as tradições esotéricas judaicas, então um grande lugar para começar é The Encyclopedia of Jewish Myth, Magic & Mysticism (A Enciclopédia do Mito Judaico, Magia e Misticismo), um livro de referência abrangente de um volume de A a Z com mais de oitocentas entradas sobre crenças autênticas, fabulosas e ocultas judaicas. Tudo, desde “Anjos” até “Zodíaco”, é coberto por entradas individuais. Exemplos incluem “Amuletos”, “Fantasmas”, “Merkavah”, “Reencarnação” e “Sefirot”, todos extraídos do escopo completo da literatura judaica: Bíblia, Talmude, Midrash, contos folclóricos, textos místicos e manuais mágicos.

Este é um livro verdadeiramente único. Ele permite a você, leitor, ir mais longe, mais fundo e mais alto em sua busca pessoal para compreender as verdades ocultas de nosso próprio mundo e mundos além. Se você estiver interessado em metafísica, Cabala, espiritualismo ou na tradição mágica ocidental, A Enciclopédia do Mito Judaico, Magia e Misticismo lhe oferece novos insights sobre os temas que lhe interessam.

Pela primeira vez, 3.500 anos de sabedoria secreta acumulada, sabedoria extraída dos poços de uma grande tradição espiritual, estão ao seu alcance. Não deveria ser tão fácil.

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Fonte: https://www.llewellyn.com/journal/article/1277

COPYRIGHT (2008) Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-magia-e-a-mistica-do-judaismo/

O Triângulo Draconiano

Por Adriano Camargo Monteiro

O triângulo é a primeira forma geométrica completa, uma forma geométrica primitiva cujo simbolismo sintetiza o mundo superior, o plano da Criação, pois envolve três forças primárias que são a origem de Tudo em seu ciclo infinito de criação, preservação e destruição no tempo contínuo (passado, presente e futuro). Isso pode ser ilustrado por diversos símbolos, de diversas culturas e religiões ao redor do mundo. Como exemplos, podemos citar a Trimurti ou Trindade hindu (muito anterior ao cristianismo) composta pelos deuses Brahma (Criação), Vishnu (Preservação) e Shiva (Destruição). Outros exemplos são o Tridente de Shiva; o Tridente de Netuno; o Caduceu de Mercúrio com duas serpentes e um bastão; as três Nornas, deusas escandinavas do Destino (Moiras gregas, Parcas romanas), etc.

Na Clavicula Salomonis, conhecida também como Goetia, um grimório tradicionalmente atribuído a Salomão, mas possivelmente escrito na Idade Média, o triângulo simboliza a manifestação da vida e é usado na prática de evocação em que certas entidades deveriam aparecer. Esse Triângulo da Arte, não só na Goetia, mas também em diversas outras evocações, simboliza a Visão, a Força e a Ação (Visio, Vires, Actio).

Os três pontos representam também o triângulo filosófico, ou seja, o Enxofre, o Mercúrio e o Sal, os três principais elementos alquímicos. O Enxofre é o fogo luminoso, o verdadeiro Ser espiritual autoconsciente, o Eu Superior individual, o Fogo de Prometeus, o Fogo do Dragão e a Tocha de Baphomet (a união dos aspectos mercurianos/luminosos e tifonianos/sombrios), sendo esse Enxofre/Fogo a chispa imortal que vivifica cada ser. O Mercúrio é a alma ou veículo astromental que expressa emoções e pensamentos, que manifesta a inteligência e a imaginação no indivíduo encarnado; é o mediador entre o espírito e o corpo físico. O Sal simboliza o próprio corpo material denso com suas sensações e sentidos físicos, animado pelo Enxofre (o fogo vivificante, o espírito); é o receptáculo das influências espirituais (Enxofre) e das inquietudes da alma (Mercúrio).

Na Cabala Hermética e Tifoniana, os três pontos representam o triângulo superior da Árvore da Vida e da Morte, formado pelas três Sephiroth/Qliphoth, ou esferas (pontos), chamadas Kether/Thaumiel, Chokmah/Ghogiel e Binah/Satariel. Sinteticamente, pode-se dizer que Kether (Coroa) é a força neutra potencial, a centelha original e primordial da vida e do universo, e seu lado sombrio, Thaumiel, expressa as “Forças Combatentes” que “combatem” Kether e abrem um buraco para outro universo, o Universo B, em que o indivíduo expande a consciência para os planos transplutonianos (além dos limites do universo conhecido). Chokmah (Sabedoria) é a força positiva, masculina, ativa, em ação, e seu aspecto sinistro, Ghogiel, é o “Estorvador” que impede a continuidade do velho mundo, que destrói o antigo estado de coisas para dar lugar ao novo, à evolução para além do comum e corrente. Binah (Compreensão) é a força negativa, feminina, passiva, gestadora, da Criação, e seu lado obscuro, Satariel, é o “Ocultador” que oculta a luz nas profundezas, a luz de que faz o indivíduo ver (derkein = drakon), ou seja que possibilita a aquisição do conhecimento secreto. Porém, Satariel vela o acesso àqueles que não possuem as chaves, ou seja, que não estão preparados o suficiente.

Na música, os três pontos representam a tríade ou tricorde, as três notas do acorde considerado perfeito. Esse acorde primordial e básico, de três notas, é formado por intervalos de terças (tríades), por exemplo: tônica (nota dó, primeira), mais a terça (nota mi, terceira da nota dó), mais a quinta (nota sol, terceira da nota mi). Metafisicamente, o acorde perfeito, formado pela tríade, simboliza a Criação incipiente, prestes a desdobrar-se infinitamente no universo, como os muitos acordes e escalas musicais existentes para expressar os muitos aspectos do espírito humano.

No corpo humano, representado pelo Caduceu de Mercúrio, temos o ternário bioenergético, os etéricos condutos nervosos da coluna espinhal, chamados de Idá, Pingalá e Sushumná. Idá é a “serpente”, negativa; Pingalá, a “serpente”, positiva; e Sushumná é o bastão neutro com o globo Aour (Luz). Assim, temos nos três pontos a representação de três forças primárias e fundamentais, a positiva, a negativa e a neutra, que são essenciais para gerar ou criar qualquer coisa no universo manifestado. Aliás, esse princípio pode ser visto na própria Física e na estrutura básica do átomo composto por prótons, elétrons e nêutrons. Ainda no corpo humano, temos as três funções respiratórias (inspiração, retenção e expiração), e na genética e na fisiologia temos as forças manifestadas no pai, na mãe e no filho(a). O período de gestação da vida humana no útero da mulher (o triângulo invertido) é de 9 meses, ou 3×3 (um triângulo duplo entrelaçado formando o hexagrama).

Como analogia, o triângulo, formado pelos três pontos, é também o símbolo alquímico do Fogo e do Enxofre (o triângulo sobre uma cruz equilátera). Sua forma alude ao fogo e sua chama ascendente que termina em ponta triangular. A própria manifestação física do fogo essencialmente requer a combinação de três elementos: combustível (material de combustão), comburente (oxigênio) e calor (princípio de ignição), formando assim o triângulo do fogo, ou, maçonicamente, o delta luminoso do espírito e o plano espiritual do universo.

Símbolo do Enxofre

Mas, acima de tudo, o triângulo, para a Via Draconiana, é invertido, representando o feminino primordial, o útero do qual provém o universo. O triângulo invertido é um dos principais símbolos estilizados do Sagrado Feminino e de tudo o que isso envolve, sendo, consequentemente, um dos símbolos da Via Esquerda. Representa as deusas sinistras (ou seja, esquerdas, um pleonasmo para o próprio feminino), e seus aspectos tríplices, tais como Hécate, por exemplo. Algumas outras deusas arquetípicas correspondentes são: Hel, Hikhet, Nephtis, Crone, Lilith, Kali, Po, Mama Pacha, Tlaltecuhtli e o dragão fêmeo Tiamat. É importante compreender que a palavra “sinistra” significa “esquerda”, e que seu significado original grego, desde os tempos dos gnósticos, indica sempre o gênero feminino (a Iniciatrix), sem qualquer conotação maligna, tendenciosa, dogmática ou pejorativa.

O triângulo invertido, na alquimia, representa o elemento Água, o princípio ou elemento feminino; a taça; o caldeirão; o poço escuro; o útero; a caverna para os reinos subterrâneos, metafisicamente o Sitra Ahra, o “outro lado”, reino essencialmente feminino e primordial onde jaz a sabedoria (Sophia) oculta.

O triângulo invertido também representa os três chacras secretos (Golata, Lalata e Lalana) na parte de trás da cabeça e que são despertados graças ao poder (shakti) da deusa Kali e de Kundalini, a draco-serpentina Mãe Primordial.

Aqueles que sabem ler nas entrelinhas, sabem também como proceder em questões práticas…

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Adriano C. Monteiro é escritor de Filosofia Oculta, articulista em diversas mídias e autor da Tetralogia Draconiana.

#LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-tri%C3%A2ngulo-draconiano

Arquivo de Fontes Morte Súbita Inc.

Para fazer o download clique aqui (.zip)

Símbolos sempre fizeram parte do ocultismo, desde os primeiros alquimistas aos viciados em criptologia medieval. Línguas antigas ou estrangeiras, línguas criadas ou recebidas por ocultistas vitorianos, línguas mortas, línguas fictícias; aparentemente a cada geração alguém criava uma forma de complicar tudo.

Por anos esses símbolos e letras características eram exclusividade de livros, para ter acesso a elas era preciso gastar algum tempo estudando-as e aprendendo a desenhá-las, isso quando se tinha acesso a elas, já que livros eram objetos caros e as livrarias não possuíam uma diversidade deles. Com a internet isso mudou, o acesso a cópias deste material ficou mais fácil, mas a reprodução dele não, os símbolos ainda estavam na forma de páginas escaneadas muitas vezes com uma resolução baixa que deixava muito a desejar; até que algumas pessoas começaram a reproduzir tudo isto na forma de fontes, uma forma muito mais fácil de usar esses símbolos, inclusive para publicar materiais, criar amuletos, lamens e armas mágicas. Não era mais necessário gastar horas desenhando letras enoquianas ou gregas em um sigilo, tentando manter a fidelidade, agora bastava digitar, mesmo assim ainda era, e é, difícil, encontrar fontes específicas em um único lugar, e não é raro mais da metade dos sites onde elas estavam hospedadas estarem já fora do ar, a internet acaba se tornando um mar de links quebrados.

É por isso que a Morte Súbita Inc. reuniu em um arquivo mais de 25 tipos diferentes de fontes, e cada uma com algumas variantes. Agora basta fazer o download do arquivo e instalar as fontes que queira na máquina para conseguir incrementar textos e tratados, criar sigilos ou o que precisar. Além disso elas são muito úteis para pessoas que simplesmente gostem de fontes e simbolos diferentes assim como para jogadores de RPG que desejem criar um material com aparência mais real, antiga e maldita para suas sessões.

Mas nós não simplesmente juntamos fontes e largamos aqui para que você pegue e intale em sua máquina, vamos deixar um breve histórico sobre cada uma delas para servir como guia ou base de estudos também.

O Alfabeto Magi

Foi criado por Theophrastus Bombastus von Hohenheim – também conhecido como Paracelso – no século XVI. Ele usava estes caracteres para gravar o nome dos anjos em talismãs que eram usados para tratar doenças e trazer proteção para aquele que o usasse.

Ele provavelmente foi influenciado em sua criação pelos vários outros alfabetos mágicos que existiam na época e eram utilizados por outros pesquisadores e praticantes do ocultismo. Uma influência óbvia também é o alfabeto hebraico, já que muitos textos mágicos e grimórios, influenciados pelos cabalistas, traziam estudos e sigilos desenvolvidos com o alfabeto dos hebreus.

Símbolos Alquímicos

Há muito pouca coisa que se possa dizer sobre a alquimia que já não se tenha sido dito em algum lugar. Sua origem já foi associada com o Egito, com a China, com Atlântida e mesmo com extra-terrestres, mas como todo estudioso sabe a sua origem é apenas um fato alegórico, já que ela é uma arte prática e não simplesmente especulativa. Desde tratados como O Segredo da Flor de Ouro a compêndios medievais atribuídos a magos que haviam alcançado a imortalidade vemos a busca de homens não por riquezas ou poder, mas evolução pessoal – tanto mental quanto espiritual. A busca pela sabedoria que a natureza escondia em cada elemento que a constitui e dos processos de descobrir essas segredos ocultos, como transmutar elementos, como criar novos e mais importante como tudo se relaciona. É por isso que diferente de outras práticas mágicas a alquimia recebe o título de “proto ciência” já que não parava apenas no aspecto especulativo da vida e não se focava apenas na mente das pessoas mas combinava elementos da química, física, astrologia, arte, filosofia, metalurgia, medicina, ocultismo e religião.

Com o tempo aqueles atraídos por esta prática chegaram a uma espécie de consenso em como registrar seus trabalhos não apenas criando símbolos que agilizassem sua leitura – imagine escrever enxofre a cada vez que usasse este elemento, depois distinguindo os três, quatro tipos que surgissem e compare isso a simplesmente desenhar o símbolo deste elemento ou de uma de suas derivações – como também a esconde-se dos olhos profanos – lembre-se que eles não apenas buscavam um modo de tranformar metais inferiores em ouro, mas lidavam com ácidos, explosivos, materiais tóxicos… era uma forma de evitar que alguém resolvesse brincar com pólvora porque leu por acaso que isso era parte do processo de ficar imortal ou podre de rico.

A simbologia Alquímica se tornou tão rica que seria praticamente impossível se reproduzir cada símbolo já usado, mas aqui apresentamos uma compilação de alguns dos mais populares e usados e não apenas símbolos de elementos, mas processos alquímicos, aparatos e elementos.

Escrita Angelical

Foi criada por Heinrich Cornelius Agrippa, também durante o século XVI, também conhecido como alfabeto Celestial este foi dos dos vários alfabetos criados por este que foi um dos ocultistas mais conhecidos em sua época e até hoje influencia muitos dos praticantes da Arte.

Os alfabetos que Agrippa criou possuiam similaridades entre si em termos de formas e estilo, todos traziam serifas pouco comuns na forma de círculos e eram muito semelhantes aos caracteres gregos e hebraicos, mas apesar das semelhanças temos que nos contentar apenas com uma análise superficial entre os alfabetos de Agrippa e os já existentes já que não existe um material que descreva o processo usado para se criá-los.

Este alfabeto era usado para se comunicar com anjos.

Aramaico

Aramaico é a designação que recebem os diferentes dialetos de um idioma com alfabeto próprio e com uma história de mais de três mil anos, utilizado por povos que habitavam o Oriente Médio. Foi a língua administrativa e religiosa de diversos impérios da Antiguidade, além de ser o idioma original de muitas partes dos livros bíblicos de Daniel e Esdras, assim como do Talmude.

Pertencendo à família de línguas afro-asiáticas, é classificada no subgrupo das línguas semíticas, à qual também pertencem o árabe e o hebraico.

Muitos acreditam que o Aramaico foi a língua falada por Jesus e até os dias de hoje é falada por algumas comunidades no Oriente Médio principalmente no interior da Síria. Sua longevidade se deve ao fato de ser escrito e falado pelos aldeões que durante milênios habitavam as cidades ao norte de Damasco, capital da Síria, entre elas reconhecidamente os vilarejos de Maalula e Yabrud,  além dessas outras aldeias da Mesopotâmia como Tur’Abdin ao sul da Turquia.

No início do século passado, devido a perseguições políticas e religiosas, milhares de pessoas que tinham o Aramaico como língua nativa fugiram para o ocidente onde ainda hoje restam poucas centenas, vivendo nos Estados Unidos da América, na Europa e na América do Sul e que curiosamente falam e escrevem fluentemente o idioma.

A história do aramaico pode ser dividida em três períodos:

– Arcaico 1100 a.C.–200 D.C.), incluindo:
O aramaico bíblico, do hebraico.
O aramaico de Jesus.
O aramaico dos Targum.

– Aramaico Médio (200–1200), incluindo:
Língua siríaca literária.
O aramaico do Talmude e dos Midrashim.

– Aramaico moderno (1200–presente)

Símbolos Astrológicos

Hoje a astrologia é vista por muitos simplesmente como uma superstição ou a crença de que planetas podem reger a personalidade das pessoas ou prever o futuro mas isso está muito longe da verdade. A astrologia foi a primeira ciência a estudar os corpos celestes.

Os documentos mais antigos encontrados hoje sugerem que o estudo dos astros já acontecia três milênios antes da nossa era e já naquela época, mesmo sem a tecnologia que temos hoje, haviam mapas celestes surpreendentes, que registravam posições de planetas, mapeamento de estrelas e constelações, relações de fenômenos físicos como a ligação entre a maré e os ânimos das pessoas com os astros e o registro de cometas, o surgimento de super novas, etc.

A parte deste estudo que se popularizou foi o uso dele para tentar prever o futuro, o que não chega a ser algo absurdo, se levarmos em conta que cada planeta e estrela possuiu sua órbita, seus atributos como gravidade, luminosidade e todos estão relacionados, como uma grande engrenagem cósmica, tornando possível relacionar a posição da lua e de estrelas como Sírius como grandes secas ou cheias de rios, o avanço das marés, as estações do ano e as coisas relacionadas a elas como migração de animais, resultado de colheitas e não apenas da terra mas de outros astros como as estações do sol – relacionadas com as quandidades de manchas solares, a ligação com tempestades e muitas outras coisas. Relegar a astrologia à simples superstição é o mesmo que associar as ollimpíadas a uma simples entrega de medalhas para que os países celebrem quem tem o melhor saltador de vara. Para se ter uma idéia da influência desses estudos, fora do brasil muitos paises de lingua saxônica e espanhola ainda tem os dias da semana nomeados graças ao astro que estava relacionado a eles:

Segunda-Feira

em inglês: Monday
em espanhol: Lunes
em catalão: Dilluns
em norueguês: Mandag
em francês: Lundi
em Italiano: Lunedi
em japonês: 月曜日 (Getsuyôbi)
em alemão: Montag

todos esses querem dizer: dia da Lua, assim ocorrem com os outros dias, associados a planetas, estrelas ou deuses que tinham sua contraparte celeste.

Os símbolos astrológicos, assim como os alquímicos, serviam para que se pudesse ter acesso rápido a informações, ao invés de tabelas e mais tabelas com nomes encontramos símbolos que representam os planetas e o sol, as estações, os elementos, já que o Sol por exemplo não era apenas uma estrela, mas estava relacionado com estações do ano, com Deuses, com obrigações, com a hora do dia, etc. o símbolo trazia não apenas uma forma rápida de se registrar a informação, mas também uma forma de se condensá-la.

Temos aqui não apenas os símbolos astrológicos, mas também os símbolos associados ao zodíaco.

Cuneiforme Persa

Escrita cuneiforme foi desenvolvida pelos sumérios e é a designação geral dada a certos tipos de escrita feitas com auxílio de objetos em formato de cunha. É, juntamente com os hieróglifos egípcios, o mais antigo tipo conhecido de escrita, tendo sido criado pelos sumérios por volta de 3500 a.C. Inicialmente a escrita representava formas do mundo (pictogramas), mas por praticidade as formas foram se tornando mais simples e abstratas.

Os primeiros pictogramas eram gravados em tabuletas de argila, em sequências verticais de escrita, e com um estilete feito de cana que gravava traços verticais, horizontais e oblíquos. Então duas novidades tornaram o processo mais rápido e mais fácil: as pessoas começaram a escrever em sequências horizontais (rotacionando os pictogramas no processo), e um novo estilete em cunha inclinada passou a ser usado para empurrar o barro, enquanto produzia sinais em forma de cunha. Ajustando a posição relativa da tabuleta ao estilete, o escritor poderia usar uma única ferramenta para fazer uma grande variedade de signos.

A escrita cuneiforme foi adotada subsequentemente pelos acadianos, babilônicos, elamitas, hititas e assírios e adaptada para escrever em seus próprios idiomas; foi extensamente usada na Mesopotâmia durante aproximadamente 3 mil anos.

Nós escolhemos liberar a versão persa do alfabeto cuneiforme porque o primeiro registro escrito sobre os persas se encontra numa inscrição assíria de 834 a.C., que menciona tanto Parsua (“persas”) quanto Muddai (“medos”), este termo utilizado pelos assírios, Parsua, era uma designação especial utilizada para se referir às tribos iranianas do sudoeste (que referiam-se a si próprios como ‘arianos’), e vinha do persa antigo Pârsâ. Os gregos (que até então utilizavam nomes relacionados a Média e aos medos) começou, a partir do século V a.C., a utilizar adjetivos como Perses, Persica ou Persis para se referir ao império de Ciro, o Grande.

Enoquiano

O enoquiano foi uma línguagem divulgada pelo astrólogo e mago da corte victoriana Dr. John Dee, que junto com seu assistente Edward Kelley, a recebeu dos anjos no século XVI.

O Alfabeto é usado na prática da Magia Enoquiana e comunicação com os anjos.

Para se aprofundar na magia Enoquiana você pode visitar a nossa sessão dedicada ao assunto, clicando aqui. Este link contem uma sessão de downloads onde é possível conseguir o programa visual enochian, para PC’s, que permite trabalhar com as tabelas e chamadas enoquianas com caracteres enoquianos e latinos.

As versões do alfabeto enoquiano aqui trazem os mesmo caracteres com apenas algumas mudanças no estilo. Temos também duas versões deles que trazem os caracteres simples e a versão acentada dele que apaerecem no Loagaeth.

Etrusco

Os Etruscos eram um aglomerado de povos que viveram na península Itálica na região a sul do rio Arno e a norte do Tibre, então denominada Etrúria e mais ou menos equivalente à atual Toscana, com partes no Lácio e a Úmbria. Eram chamados Τυρσηνοί, tyrsenoi, ou Τυρρηνοί, tyrrhenoi, pelos gregos e tusci, ou depois etrusci, pelos romanos; eles auto-denominavam-se rasena ou rašna.

Até hoje a história dos Etruscos permanece uma colcha de especulações, não se sabe ao certo quando eles se instalaram na região, mas foi provavelmente entre os anos 1200 e 700 a.C.. Nos tempos antigos, o historiador Heródoto acreditava que os Etruscos eram originários da Ásia Menor, mas outros escritores posteriores consideram-nos italianos.

A Etrúria era composta por cerca de uma dúzia de cidades-estados (Volterra, Fiesole, Arezzo, Cortona, Perugia, Chiusi, Todi, Orvieto, Veio, Tarquinia, Fescênia, etc.), cidades muito civilizadas que tiveram grande influência sobre os Romanos. A Fescênia, próxima a Roma, ficou conhecida como um local de devassidão. Versos populares licenciosos, na época muito cultivados entre os romanos, ficaram conhecidos como versos fesceninos (obscenos). Os últimos três reis de Roma, antes da criação da república em 509 a.C., eram etruscos.

A sua língua, que utilizava um alfabeto semelhante ao grego, era diferente de todas as outras e ainda não foi decifrada, aparentemente não era aparentada com as línguas indo-européias. Sua fonética é completamente diferente da do grego ou do latim. O etrusco utilizava a variante calcídica do alfabeto grego, pelo qual pode ser lido sem dificuldade, embora não compreendido. Deste alfabeto grego básico, algumas das letras não eram utilizadas em etrusco e ademais acrescentavam um grafema para /f/ e a digamma grega utilizava-se para o fonema /v/ inexistente em grego.

As principais evidências da língua etrusca são epigráficas, que vão desde o século VII a.C. (diz-se que os etruscos começaram a escrever no século VII a.C., mas a sua gramática e seu vocabulário diferem de qualquer outro conhecido do mundo antigo) até princípios da era cristã. São conhecidas cerca de 10.000 destas inscrições, que são sobretudo breves e repetitivos epitáfios ou fórmulas votivas ou que assinalam o nome do proprietário de certos objetos. Além deste material, existem alguns outros testemunhos mais valiosos:

1. O Liber Linteus ou texto de Agram é o texto etrusco mais extenso com 281 linhas e mais de 1.300 palavras. Escrito num rolo de linho, posteriormente foi cortado a tiras e utilizado no Egito para envolver o cadáver mumificado de uma mulher nova; conserva-se atualmente no museu de Zagrebe (provavelmente quando isto sucedeu considerava-se que tinha mais valor o rolo de linho que o próprio texto, que paradoxalmente hoje é nosso melhor testemunho da língua; talvez se não tivesse sido conservado como envoltura nem sequer teria chegado até nós).

2. Alguns textos sobre materiais não perecíveis como uma tabela de argila encontrada perto de Cápua de cerca de 250 palavras, o cipo de Perugia (ver foto) escrito por duas caras e com 46 linhas e cerca de 125 palavras, um modelo de bronze de um fígado encontrado em Piacenza (cerca de 45 palavras).

3. Além destes testemunhos temos duas mais inscrições interessantíssimas: a primeira delas é a inscrição de Pyrgi, encontrada em 1964, sobre lâminas de ouro que apresenta a peculiaridade de ser um texto bilíngüe em etrusco e púnico-fenício e que ampliou consideravelmente nosso conhecimento da língua. A segunda das inscrições resulta algo intrigante, já que foi encontrada na ilha de Lenos (N. do mar Egeu, Grécia). Composta de 34 palavras, parece escrita num dialeto diferente dos encontrados na Itália, quer seja sintomático da presença de colônias etruscas em outros pontos do mediterrâneo, quer de uma língua irmã do etrusco, o lénio, embora se acredite que a presença de uma só inscrição não aclara grande coisa.

Seguramente a inscrição de Pyrgi é a única inscrição etrusca razoavelmente longa que podemos traduzir ou interpretar convenientemente graças a que o texto púnico, que parece ser uma tradução quase exata do texto etrusco, é perfeitamente traduzível. Quanto ao acesso às inscrições: a maioria de inscrições etruscas conhecidas e publicadas encontram-se recolhidas no corpus inscriptionum etruscarum (CIE).

Fenício

A Língua fenícia era falada originalmente na região do litoral do Mediterrâneo oriental conhecida como Fenícia pelos gregos e latinos, como Pūt pelos Egípcios antigos, como Canaan no próprio Fenício, em hebreu e em aramaico; é uma das Línguas semíticas Ocidentais, Centrais, do Noroeste, do subgrupo das Canaanitas; o Hebreu é, dentra as línguas vivas, a mais próxima ao fenício. A região onde se falava o fenício é aquela onde ficam hoje o Líbano, o litoral da Síria, o norte de Israel, Malta.

A Língua Fenícia foi sendo conhecida por inscrições encontradas no sarcófago de Ahiram (rei de Biblos), nos túmulos de Kilamuwa e de Yehawmilk em Biblos, também em notas ocasionais em obras escritas em outras línguas. Autores romanos como Salústio citam certos livros escritos em Púnico, mas nenhum dessas obras sobreviveu, exceto algumas poucas traduções (Ex, um tratado de Mago) ou em pequenos trechos (Ex. nas peças de Plauto). Na Estela Funerária dita de Melqart descoberta em 1694 havia inscrições em grego antigo e em Cartaginês (Púnica) e isso permitiu ao estudioso francês decifrar e reconstruir o alfabeto Cartaginês e as mais antigas inscrições conhecidas em Fenício vieram de Biblos e datam cerca de 1000 AC. Inscrições Púnicas e Fenícias foram encontradas no Líbano, Síria, Israel, Chipre, Sardenha, Tunísia, Marrocos, Argélia e até na Península Ibérica, até os primeiros séculos da Era Cristã.

Uma curiosidade para os Brasileiros que se relaciona com os fenícios é a Pedra da Gavea, no Rio de Janeiro. Entre os bairros da Barra da Tijuca e São Conrado, no Rio de Janeiro, e a 842 metros acima do nível do mar existe uma montanha com a face de um gigante desconhecido. Seu nome Gávea, remonta à época do descobrimento, quando os portugueses que aqui chegaram notaram que ela era um observatório perfeito das caravelas que chegavam. A face que vemos quando olhamos para ela parece uma figura esculpida e existem inscrições antigas em um de seus lados.

No século XIX algumas “marcas” na rocha chamaram a atenção do Imperador D. Pedro I, apesar de seu pai, D. João VI, rei de Portugal, já ter recebido um relatório de um padre falando sobre as marcas estranhas, as quais foram datadas de antes de 1500. Até 1839, pesquisas oficiais foram conduzidas e no dia 23 de março, em sua oitava seção extraordinária, o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil decidiu que a Pedra da Gávea deveria ser extensamente analisada, ordenando então o estudo do local e suas inscrições. Uma pequena comissão foi formada para estudar a rocha. 130 anos mais tarde o jornal O Globo questionou tal comissão, querendo saber se eles realmente escalaram a rocha, ou se simplesmente estudaram-na usando binóculos. O relatório fornecido pelo grupo de pesquisa diz que eles “viram as inscrições e também algumas depressões feitas pela natureza.” No entanto, qualquer um que veja estas marcas de perto irá concordar que nenhum fenômeno natural poderia ser responsável por elas.

Após o primeiro relatório, ninguém voltou a falar oficialmente sobre a Pedra até 1931, quando um grupo de excursionistas formou uma expedição para achar a tumba de um rei fenício que subiu ao trono em 856 a.C. Algumas escavações amadoras foram feitas sem sucesso. Dois anos depois, em 1933, um grupo de escaladas do Rio de Janeiro organizou uma expedição gigantesca com 85 membros, o qual teve a participação do professor Alfredo dos Anjos, um historiador que deu uma palestra “in loco” sobre a “Cabeça do Imperador” e suas origens.

Em 20 de janeiro de 1937, este mesmo clube organizou outra expedição, desta vez com um número ainda maior de participantes, com o objetivo de explorar a face e os olhos da cabeça até o topo, usando cordas. Esta foi a primeira vez que alguém explorava aquela parte da rocha depois dos fenícios, se a lenda está correta.

Segundo um artigo escrito em 1956, em 1946 o Centro de Excursionismo Brasileiro conquistou a orelha direita da cabeça, a qual está localizada a uma inclinação de 80 graus do chão e em lugar muito difícil de chegar. Qualquer erro e seria uma queda fatal de 20 metros de altura para todos os exploradores. Esta primeira escalada no lado oeste, apesar de quase vertical, foi feita virtualmente a “unha”. Ali, na orelha, há a entrada para uma gruta que leva a uma longa e estreita caverna interna que vai até ao outro lado da pedra.

Em 1972, escaladores da Equipe Neblina escalaram o “Paredão do Escaravelho” – a parede do lado leste da cabeça – e cruzaram com as inscrições que estão a 30 metros abaixo do topo, em lugar de acesso muito difícil. Apesar do Rio ter uma taxa anual de chuvas muito alta, as inscrições ainda conservavam-se quase intactas.

Em 1963 um arqueólogo e professor de habilidade científica chamado Bernardo A. Silva Ramos traduziu-as como:

LAABHTEJBARRIZDABNAISINEOFRUZT

Que lidas ao contrário:

TZUR FOENISIAN BADZIR RAB JETHBAAL

Ou:

TIRO, FENÍCIA, BADEZIR PRIMOGÊNITO DE JETHBAAL

Além disso existem alguns outros fatos interessantes relacionados com a pedra:

– A grande cabeça com dois olhos (não muito profundos e sem ligação entre eles) e as orelhas;

– As enormes pedras no topo da cabeça a qual lembra um tipo de coroa ou adorno;

– Uma enorme cavidade na forma de um portal na parte nordeste da cabeça que tem 15 metros de altura e 7 metros de largura e 2 metros de profundidade;

– Um observatório na parte sudeste como um dolmen, contendo algumas marcas;

– Um ponto culminante como uma pequena pirâmide feita de um único bloco de pedra no topo da cabeça;

– As famosas e controversas inscrições no lado da rocha;

– Algumas outras inscrições lembrando cobras, raios-solares, etc, espalhados pelo topo da montanha;

– O local de um suposto nariz, que teria caído há muito tempo atrás

Roldão Pires Brandão, o presidente da Associação Brasileira de Espeleologia e Pesquisas Arqueológicas no Rio afirmou: “É uma esfinge gravada em granito pelos fenícios, a qual tem a face de um homem e o corpo de um animal deitado. A cauda deve ter caído por causa da ação do tempo. A rocha, vista de longe, tem a grandeza dos monumentos faraônicos e reproduz, em um de seus lados, a face severa de um patriarca”. (O GLOBO)

Hoje já se sabe que em 856 a.C., Badezir tomou o lugar de seu pai no trono real de Tiro, isso fez com que muitos acreditassem que a Pedra da Gávea poderia ser o túmulo deste rei.

Segundo consta, outros túmulos fenícios que foram encontrados em Niterói, Campos e Tijuca sugerem que esse povo realmente esteve aqui. Em uma ilha na costa do Estado da Paraíba, pedras ciclope e ruínas de um castelo antigo com quartos enormes e diversos corredores e passagens foi encontrado. De acordo com alguns especialistas, o castelo seria uma relíquia deixada pelos fenícios, apesar de haver pessoas que contextem essa teoria.

Alfabeto dos Gênios

Também conhecido como Alfabeto da Linguagem Celestial, Alfabeto dos Anjos ou Escrita Celestial.

Cada símbolo deste alfabeto está relacionado com um gênio específico. Os valores fonéticos de cada um deles é derivado do nome do gênio específico. Além disso cada um dos símbolos possui associação com os sinais utilizados na geomancia como vemos no gráfico abaixo:

os nomes dos símbolos são:

Agiel – Belah – Chemor – Din – Elim – Fabas – Graphiel – Hecadoth – Iah – Kne – Labed – Mehod – Nebak – Odonel – Paimel – Quedbaschemod – Relah – Schethalim – Tiriel – Vabam – Wasboga – Xoblah – Yshiel – Zelah

Gênio é a tradução usual em português para o termo árabe jinn, mas não é a forma aportuguesada da palavra árabe, como geralmente se pensa. A palavra em português vem do Latim genius, que significa uma espécie de espírito guardião ou tutelar do qual se pensava serem designados para cada pessoa quando do seu nascimento. A palavra latina tomou o lugar da palavra árabe, com a qual não está relacionada. O termo parece ter entrado em uso no português através das traduções francesas d’As Mil e Uma Noites, que usavam a palavra génie como tradução de jinni, visto que era similar ao termo árabe em som e significado, uso que acabou se estendendo também para o português.

Entre os arqueólogos lidando com antigas culturas do Oriente Médio, qualquer espírito mitológico inferior a um deus é freqüentemente referenciado como um “gênio”, especialmente quando descrevem relevos em pedra e outras formas de arte. Esta prática se inspira no sentido original do termo “gênio” como sendo simplesmente um espírito de algum tipo.

Fonte Grega

O alfabeto utilizado para escrever a língua grega teve o seu desenvolvimento por volta do século IX a.C. e é usado até os nossos dias. Anteriormente, o alfabeto grego foi escrito mediante um silabário, utilizado em Creta e zonas da Grécia continental como Micenas ou Pilos entre os séculos XVI a.C. e XII a.C. O Grego que reproduz parece uma versão primitiva dos dialectos Arcado-cipriota e Jónico-ático e é conhecido habitualmente como Micénico.

Crê-se que o alfabeto grego deriva duma variante do semítico, introduzido na Grécia por mercadores fenícios. Dado que o alfabeto semítico não necessita de notar as vogais, ao contrário da língua grega e outras da família indo-europeia, como o latim e em consequência o português, os gregos adaptaram alguns símbolos fenícios sem valor fonético em grego para representar as vogais. Este facto pode considerar-se fundamental e tornou possível a transcrição fonética satisfatória das línguas Europeias.

Por ter sido considerado durante séculos como uma língua culta muitos estudos filosóficos e mágicos foram feitos e registrados nesta língua, inclusive em séculos recentes como podemos ver em livros de Eliphas Levi, Francis Barret e outros.

Dentro da pasta de fontes gregas estamos disponibilizando também a fonte Apollonian, uma fonte baseada no grego que surgiu no período da baixa Idade Média e era tida pelos ocultistas como um alfabeto secreto criado por Apolônio de Tiana.

Fonte Hebraica

Enquanto o termo “hebreu”, refere-se a uma nacionalidade, ou seja especificamente aos antigos israelitas, a língua hebraica clássica, uma das mais antigas do mundo, pode ser considerada como abrangendo também os idiomas falados por povos vizinhos, como os fenícios e os cananeus. De facto, o hebraico e o moabita são considerados por muitos, dialectos da mesma língua.

O hebraico assemelha-se fortemente ao aramaico e, embora menos, ao árabe e seus diversos dialetos, partilhando muitas características linguísticas com eles.

O hebraico também mudou. A diferença entre o hebraico de hoje e o de três mil anos atrás é que o antigo era um abjad ou seja, não possuía vogais para formar sílabas. As vogais foram os sinais diacríticos inventados pelos rabinos para facilitar na pronúncia de textos muito antigos e posteriormente desativados, nos meios de comunicação atuais.

Não existe um estudioso ou praticante sério de magia que nunca tenha cruzado com o hebraico. Durante a idade média o estudo da cabala e o desenvolvimento mágico da cultura dos judeus influenciou praticamente todos os grandes magos dos quais já ouvimos falar. De livros que exaltam a grandiosidade de Deus a tratados que ensina a chamar demônios de forma que se manifestem e obedeçam ao operador o hebraico se tornou a base para a confecção de sêlos e sigilos mágicos, círculos de evocação, amuletos de proteção e muito mais.

É uma língua que se torna indispensável para o estudioso da magia medieval, da cabala e da demonologia. E com esta fonte se torna muito mais fácil se criar novos amuletos e sigilos sem a necessidade de um domínio completo da grafia original das letras.


Hieróglifos Egípcios

Hieróglifo ou Hieroglifo é cada um dos sinais da escrita de antigas civilizações, tais como os egípcios, os hititas, e os maias. Também se aplica, depreciativamente, a qualquer escrita de difícil interpretação, ou que seja enigmática. Originário duas palavras gregas: ἱερός (hierós) “sagrado”, e γλύφειν (glýphein) “escrita”. Apenas os sacerdotes, membros da realeza, altos cargos, e escribas conheciam a arte de ler e escrever esses sinais “sagrados”.

A escrita hieroglífica constitui provavelmente o mais antigo sistema organizado de escrita no mundo e era vocacionada principalmente para inscrições formais nas paredes de templos e túmulos. Com o tempo evoluiu para formas mais simplificadas, como o hierático, uma variante mais cursiva que se podia pintar em papiros ou placas de barro e, ainda mais tarde, com a influência grega crescente no Oriente Próximo a escrita evoluiu para o demótico, fase em que os hieróglifos iniciais ficaram bastante estilizados havendo mesmo a inclusão de alguns sinais gregos na escrita.

Os hieróglifos foram usados durante um período de 3500 anos para escrever a antiga língua do povo egípcio. Existem inscrições desde antes de 3000 a.C. até 24 de Agosto de 394, data aparente da última inscrição hieroglífica, numa parede no templo de Ilha de Filae. Constituíam uma escrita monumental e religiosa, já que eram usados nas paredes dos templos, túmulos, etc. havendo poucas evidências de outras utilizações. Durante os mais de três milênios em que foram usados, os egípcios inventaram cerca de 6900 sinais. Um texto escrito nas épocas dinásticas não continha mais do que 700 sinais, mas no final desta civilização já eram usados milhares de hieróglifos, o que complicava muito a leitura, sendo isso mais um dos fatores que tornavam impraticável o seu uso e levaram ao seu desaparecimento.

O arquivo que estamos disponibilizando traz os hieróglifos do chamado “alfabeto” egípcio. São estes os sinais hieroglíficos que mantiveram o seu valor fonético praticamente inalterado durante mais de 3000 anos, desde os tempos pré-dinásticos até ao século 5 d.C.

Alfabeto Kemético

Kemet era o nome do antigo egito, (kṃt), ou “terra negra” (de kem, “negro”). Como vimos, as formas mais antigas de hieróglifos era pictogramas mas com o tempo eles evoluiram para um sistema escrito muito similar ao chines, onde cada caracter representava tanto sílabas quanto palavras.

E assim se desenvolveu um alfabeto que apesar de se manter sofisticado como os pictogramas anteriores – por exemplo a letra que significava boca podia ser seguida por um determinativo (um tipo especial de caracter que servia para indicar o sentido de letras individuais) que determinasse se a boca estava relacionada com o ato de comer ou de conversar.

Com o passar do tempo este alfabeto evoluiu ainda mais, onde cada simbolo se
torna uma letra que indicava o primeiro som da palavra e se cria um sistema que indicava se o símbolo deveria ser interpretado como uma palavra completa ou apenas como uma letra.

As fontes apresentadas aqui não são simples transcrições do alfabeto latino, algumas letras não possuiam relações com as nossas modernas algumas faltavam, outras eram adições, e o sistema numérico está mais próximo do romano do que do árabe. Aqui temos duas versões desta fonta a cursiva e uma com ângulos que era a forma como ela era gravada em pedra, metais ou madeira.

Malachim

Outra das escritas criadas por Agrippa. Ela foi derivada também dos alfabetos grego e hebraico e até hoje é usada, em certo grau, por maçons modernos. Esta versão foi feita em cima da que aparece no Biblioteca Magna Rabbinica de Bartolozzi editado em 1675.

Travessia do Rio

Mais uma fonte de Agripa, também conhecida como Passage de Fleuve. Este alfabeto foi derivado do alfabeto hebraico. Este alfabeto era usado para se escrever de forma que aquilo registrado não pudesse ser compreendido e também em sigios e selos mágicos.

Runas

As runas são um conjunto de alfabetos relacionados que usam letras características (também chamadas de runas) e eram usadas para escrever as línguas germânicas, principalmente na Escandinávia e nas ilhas Britânicas.

Em todas as suas variedades, as runas podem ser consideradas como uma antiga forma de escrita da Europa do Norte.

As inscrições rúnicas mais antigas datam de cerca do ano 150, e o alfabeto foi substituído pelo alfabeto latino com a cristianização, por volta do século VI na Europa central e no século XI na Escandinávia.

Elas também eram usadas como oráculos, ou Runemal como era chamada a esta arte pelos iniciados.

Contam as lendas vikings que os deuses moravam em Asgard, um lugar localizado no topo de Yggdrasil, a Árvore que sustenta os nove mundos. Nesta árvore, o deus Odin conheceu a sua maior provação e descobriu o mistério da sabedoria: as Runas. Alguns versos do Edda Maior, um livro de poemas compostos entre os séculos IX e XIII, cantam esta aventura de Odin em algumas de suas estrofes:

“Sei que fiquei pendurado naquela árvore fustigada pelo vento,
Lá balancei por nove longas noites,
Ferido por minha própria lâmina, sacrificado a Odin,
Eu em oferenda a mim mesmo:
Amarrado à árvore
De raízes desconhecidas.

Ninguém me deu pão,
Ninguém me deu de beber.

Meus olhos se voltaram para as mais entranháveis profundezas,
Até que vi as Runas.

Com um grito ensurdecedor peguei-as,
E, então, tão fraco estava que caí.

Ganhei bem-estar
E sabedoria também.

Uma palavra, e depois a seguinte,
conduziram-me à terceira,
De um feito para outro feito.”

Esta é a criação mítica das Runas, na qual o sacrifício de Odin (que logo depois foi ressucitado por magia) trouxe para a humanidade essa escrita alfabética antiga, cujas letras possuiam nomes significativos e sons também significativos, e que eram utilizadas na poesia, nas inscrições e nas adivinhações, mas que nunca chegaram a ser uma língua falada.

Graças a estas crenças as runas sempre tiveram um significado que ia além da simples função de uma letra ou um simples alfabeto. E aqui disponibilizamos alguns tipos diferentes de runas:

Runas Futhark

A forma rúnica mais antiga usada pelas tribos germânicas, ela aparece em inscrições em artefatos como jóias, amuletos, ferramentas, armas e pedras. Mais tarde foi simplificada na Escandinávia e depois alterada pelos anglo-saxões e Frisões, mas diferente dessas novas versões que permanece em uso até os dias de hoje, a sabedoria do Futhark antigo foi perdida e apenas em 1865 pode ser novamente decifrada pelo estudioso noruegues Sophus Bugge.

Runas Germânicas

Uma outra versão das Runas Futhark

Runas Inglesas

Conhecidas como Futhorc, a versão desenvolvida pelos anglo saxões das 24 runas Futhark originais, que continha entre 26 e 33 caracteres. Teve seu uso iniciado no século V.

Runas de Cthulhu

Contém três tipos diferentes de caracteres, os hieroglifosde Cthulhu, pictogramas que trazem símbolos que fazem parte do universo lovecraftiano. As Runas de Cthulhu, caracteres desenvolvidos com o mesmo princípio das runas. O afabeto de Nug-Soth, como mostrado no necronomicon.

Apesar de apenas o alfabeto de Nug-Soth ter um valor “histórico” por aparecer em uma das primeiras versões do Necronomicon, os outros dois alfabetos se tornaram populares entre alguns praticantes de magia negra e magia do caos e são muito utilizados em trabalhos que envolvam o Mito Lovecraftiano ou belíssimas reproduções de novas versões (ou versões antigas, como preferir) do tomo escrito por Abdul Al-Hazred.

Sânscrito

A língua sânscrita, ou simplesmente sânscrito, (संस्कृत; em devanāgarī, pronuncia-se saṃskṛta) é uma língua da Índia, com uso litúrgico no Hinduísmo, Budismo, Jainismo. O sânscrito faz parte do conjunto das 23 línguas oficiais da Índia.

Com relação à sua origem, a língua sânscrita é uma das línguas indo-européias, pertencendo, portanto, ao mesmo tronco lingüístico de grande parte dos idiomas falados na Europa. Um dos sistemas de escrita tradicionais do sânscrito é o devanāgarī, uma escrita silábica cujo nome é um composto nominal formado pelas palavras deva (“deus”, “sacerdote”) e nāgarī (“urbano(a)”), que significa “[escrita] urbana dos deuses”. O sânscrito foi registrado ao longo de sua história sob diversas escritas, visto que cada região da Índia possui uma escrita e uma tradição cultural particularmente diferenciada. A escrita devanágari (seu nome, em português, é acentuado como proparoxítona) acabou-se tornando a mais conhecida devido a ser a mais utilizada em edições impressas de textos originais.

É uma das línguas mais antigas da família Indo-Européia. Sua posição nas culturas do sul e sudeste asiático é comparável ao latim e o grego na Europa e foi uma proto-língua, pois influenciou diversas outras línguas modernas. Ela aparece em forma pré-clássica como o sânscrito védico, sendo o idioma do Rigveda o seu estado mais antigo preservado, desenvolvido em torno de 1500 a.C.[1]; de fato, o sânscrito rigvédico é uma das mais antigas línguas indo-iranianas registradas, e um dos membros mais antigos registrados da família de línguas indo-européias[2]. O sânscrito é também o ancestral das linguagens praticadas da Índia, como o Pali e a Ardhamgadhi. Pesquisadores descobriram e preservam mais documentos em sânscrito do que documentos em latim e grego. Os textos védicos foram escritos em uma forma de sânscrito.

Alfabeto Tebano

As origens do alfabeto Tebano se perderam há muito tempo, ele é conhecido como as Runas de Honório – já que muitos atribuem sua criação a Honório de Thebas, mas durante a idade média ficou conhecido também como o alfabeto das bruxas.

Este alfabeto é notável por não possuir nenhuma correspondência com o alfabeto latino, à excessão das letras j e u (ou I e V). Ele surgiu a primeira vez na publicação Polygraphia de Johannes Trithemius, de 1518. Enquanto Trithemius o atribuia a Honório, seu estudante mais conhecido, Agrippa, o atribuiu a Pietro d’Abano.

Hoje em dia este alfabeto é muito usado por praticantes de Wicca e outras formas mais antigas de paganismo. Alguns o chamam também de Escrita Angélica(l) e é usada também como forma de comunicação com anjos já que muitos crêem que caso se queira pedir algo para um anjo a chance de ser agraciado com um resultado positivo é muito maior caso se use esta escrita.

Alfabeto das Adagas

Este alfabeto é uma cifra baseada no alfabeto latino e é usado para propósitos mágicos, como desenvolver imagens, selos ou mesmo textos inteiros. Existem inclusive cartas como as de taro e peças como as de dominó que usam esses símbolos como formas divinatórias, ele aparece a primeira vez no livro A Visão e A Voz de Aleister Crowley.


BÔNUS

Além das fontes de símbolos, nós coletamos algumas fontes desenvolvidas pela Howard Philips Lovecraft Historical Society para fins mais lúdicos. Inspirada pelos contos do autor essas fontes reproduzem os meios de comunicação de época de forma extremamente fiel. Estas fontes podem ser usadas por pessoas que desejem dar uma aparência antiga e real para documentos, tratados e mesmo panfletos e livros.

HPLHS-OldStyle1, PLHS-OldStyle Italic, HPLHS-OldStyle Small Caps,  são fontes digitalizadas diretamente do catálogo Linotype da década de 1930.

HPLHS-Blackletter é uma fonte texturizada e irregular que simula uma letra escrita à mão inspirada no engravador frances Charles Demengeot. É o tipo de letra usada para se escrever tomos de ocultismo que parecem ter sido escritos por monges loucos.

HPLHS-WW2Blackletter foi baseada em documentos alemães reais da década de 1930. Existe em duas versões: uma com ornamentos e outra sem.

HPLHS-Telegram é uma réplica detalhada das fontes usadas em telegramas reais da Western Union nas décadas de 1920 e 1930.

HPLHS-Headline One é uma réplica das letras usadas em cabeçalhos de jornais da época.

HPLHS-Headline Two é uma adaptação mais rústica da fonte Erbar, usada nas máquinas de linotipo usadas para o corpo das notícias em jornais das décadas de 1920 e 1930.

HPLHS-SlabSerif é um alfabeto condensado baseado nas letras esculpidas em madeira, era muito usado em subtítulos em notícias de jornais, posteres de procurados e outras coisas do tipo.

NOTA

É importante notar que todas as fontes aqui apresentadas tem como o objetivo complementar trabalhos mágicos. Muitas delas faziam partes de sistemas que possuem uma gramática própria enquanto outras eram apenas transliterações. Caso você não tenha conhecimento dos sistemas em que elas são utilizadas elas ainda servem como curiosidade. Mas as fontes e caracteres por sí próprios não possuem muito valor, é necessario um estudo para saber como utilizá-los da maneira correta.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/arquivo-de-fontes-morte-subita-inc/

Arkanun completa 24 anos!

arkanun

24 anos de Arkanun… Um RPG que mistura Mitologia Medieval com Hermetismo, Kabbalah, Anjos e Demônios; um dos poucos RPGs nacionais Blue Label.

Em 1995 o RPG vivia a Era de Ouro no Brasil. Com a publicação de Dungeons & Dragons pela Editora abril em bancas de jornal, Shadowrun pela Ediouro e os livros-jogos pela Marques Saraiva, os Role Playing Games viveram de 1993 a 2001 seu período de maior venda e divulgação no Brasil, com Eventos patrocinados pela Coca-Cola, prefeitura de São Paulo, SECS, Banco do Brasil e outras grandes empresas. No final de 1994, fui convidado por Marcelo Cassaro, na época editor da Dragão Brasil, revista que acabou durando mais de dez anos no mercado, a escrever algumas aventuras como colaborador. Em 1995 estávamos pensando em fazer um RPG de Fantasia Medieval pela Trama, nos moldes do D&D mas seguindo a linha de Mitologia Medieval, com uma pegada de Hermetismo, alquimia, templários, anjos, demônios e Kabbalah.

Nascia assim ARKANUN, que em sua primeira edição esgotou 3.000 exemplares em pouco menos de 3 anos, o que foi considerado um sucesso enorme. No ano seguinte, a DB lançaria TREVAS (Que chegou ao magnífico número de 20 mil unidades vendidas, algo completamente impensável no mercado de RPG de hoje), INVASÂO (um RPG baseado no livro “Espada da Galáxia”, do Cassaro, e o GRIMÓRIO, um suplemento com rituais para Arkanun e Trevas. O público formado pelas vendas de Trevas garantiu as bases para o lançamento da segunda edição de Arkanun, em capa dura e uma tiragem de 5 mil livros, que competia de igual para igual com pesos pesados americanos como Vampiro: a Máscara, GURPS e AD&D.

O Sistema Daemon foi liberado para uso por qualquer editora/mestre/jogador em 2001 e, até hoje, teve mais de 560 livros em pdf/netbooks e adaptações disponíveis no site da Editora e espalhados em centenas de sites e blogs. Ao todo, mais de 60 títulos foram publicados. Trevas e Arkanun foram considerados os Melhores RPGs Brasileiros de todos os tempos em uma pesquisa feita entre mais de 12 mil jogadores em 2015.

Em sua versão 3.5, após mais de 6 reimpressões e versões, Arkanun já vendeu 18 mil exemplares, o que o torna um dos campeões de venda de todos os tempos em termos de RPGs nacionais, ficando atrás somente de Trevas, 3D&T e Tormenta. Mais um motivo para comemorar!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arkanun-completa-24-anos

A Nova Aurora do Alquimista

Cambridge, 1936 : lord Rutherford, o maior físico experimental de seu tempo, que descobriu e realizou a transmutação dos elementos, dá os últimos retoques ao manuscrito que publicará no ano seguinte, nas edições da Universidade de Cambridge. É o cômputo geral de todas as suas descobertas. Dá o título: The Newer Alchemy (A Mais Recente Alquimia).

Marrakech, 1949 : na praça Djema el Fna, um velho árabe, usando turbante verde dos hadj, está atarefado perto do forno que aquece uma bola de vidro hermeticamente fechada. A seu lado, o professor Holmyard (Oxford) segue a experiência com atenção e respeito; por fim, diz:

— Mestre, agradeço por me deixar ver o que podia ser visto por um profano sobre a muito santa alquimia.

Paris, 1967: o editor Jean-Jacques Pauvert reimprime o Livre Muet de l’Alchimie (Mutus Liber). Na primeira página lê-se: “Primeira impressão integral da edição original de La Rochelle, 1677. Introdução e comentários por Eugène Cànseliet, F. C. H., discípulo de Fulcanelli”. Ontem, hoje, em todos os países, os homens não deixaram de estudar a alquimia. Mas que alquimia, e para quê?

Há quem veja na alquimia uma idéia ultrapassada, uma espécie de pré-química ingênua do tempo em que os conhecimentos eram raros e confusos. Essa foi a atitude do nacionalismo clássico no século 19. Pré-química ingênua? Seria mais ou menos tão exato como dizer que a Paixão de Cristo foi a primeira forma ingênua do Grand Guignol. Não. A alquimia é outra coisa. Uma grande coisa. Sem entrar em detalhes, ten-taremos esclarecer seu sentido, que é também seu objetivo.

Todos nós acreditamos saber o que é a matéria. Por toda parte ela nos envolve. Impõe-se a nós. Mas, que é matéria? O drama é que no mais das vezes os filósofos ignoram tudo sobre a ciência, e por muito tempo não viram na matéria senão uma coisa morta, sem propriedades suscetíveis de interessá-los. Enquanto isso, a ciência progredia a passos de gigante e depois do começo do século começou a descobrir os segredos — pelo menos alguns deles — da matéria. Teria sido necessário criar uma nova filosofia, mas isso não foi feito. Um homem — Lenine — teria podido realizar essa tarefa capital, se tivesse vivido mais tempo e não tivesse outras coisas para fazer.

Em Materialismo e Empiriocriticismo escreveu que a matéria era inesgotável e que nem uma eternidade de pesquisas científicas chegaria a revelar todos os segredos. As pesquisas atuais confirmam essa asserção. Fred Hoyle, em Frontières de 1’Astronomie, disse que a matéria é o domínio mais fascinante, mais milagroso, mais extraordinário sobre o qual o pensamento humano pode se exercitar. E que nossa medíocre vida terrestre é bem pouca coisa ao lado do que se passa na matéria universal, tanto no seio das es-trelas, nas regiões longínquas do cosmo, como no grande vazio que separa as estrelas das estrelas, as galáxias das galáxias e talvez as metagaláxias ou universos de outros universos.

Sim, teria chegado o tempo de conceber uma nova filosofia, materialismo verdadeiro ao lado do qual o materialismo ingênuo do século 19 seria apenas caricatura. Porque nós vemos — como escrevia o grande sábio e grande alquimista Isaac Newton — que até agora nada fizemos senão “apanhar algumas pedras na praia”. Para além, encontra-se um imenso oceano de saber.

Ora, esse oceano foi explorado e alguns homens traçaram o mapa dos continentes desconhecidos da ciência que aí se encontram. É esse saber, ao lado do qual nossa ciência é bem pouca coisa, que se chama alquimia.

De onde provêm esses conhecimentos? Não se sabe, e o adágio afirma: — “Aqueles que sabem não falam, aqueles que falam não sabem”. Darei simplesmente minha opinião nacionalista: a alquimia é o resíduo da ciência e da tecnologia pertencentes á uma civilização desaparecida. Não creio absoluta-mente em outras hipóteses: revelação divina, extraterrestre, que trouxe aos homens o fogo, o arco, o martelo, a alquimia etc.

Penso que a civilização desaparecida desencadeou forças fantásticas que perturbaram os continentes, derreteram os gelos e destruíram aquele mundo altamente evoluído. Traços de cultura teriam, contudo, subsistido por muito tempo, explicando certa permanência de conhecimentos até nossa própria civilização. Assim Newton certamente teve contato com os últimos mantenedores dos grandes segredos.

Newton foi o último mágico.

Este aspecto pouco conhecido de sua vida foi especialmente estudado pelo célebre economista e filósofo inglês John Maynard Kaynes, que escreveu:

“Newton não foi o primeiro nacionalista. Foi o último mágico, o último sobrevivente da época da Suméria e da Babilônia, o último grande espírito que olhou o mundo visível e invisível com os mesmos olhos que começaram a reunir nossa herança intelectual há pouco menos de 10 mil anos. Por que chamei-o mágico? Porque ele via o universo inteiro como um enigma, como um segredo que pode ser compreendido, aplicando o pensamento puro a certas provas. Ele pensava que os indícios que podem conduzir à solução do enigma estavam parcialmente no céu e na constituição dos elementos (por essa razão, ele é erroneamente tomado por experimentador cientifico), mas também em certos documentos e certas tradições que percorreram os tempos, sem interrupção, como uma corrente que nunca foi partida desde as primeiras revelações enigmáticas feitas na Babilônia”.

Depois de Newton, houve uma espécie de brecha no conhecimento. A orientação da pesquisa científica mudou e, em particular a partir dessa época, a idéia de que o conhecimento implica em perigo, como acreditavam fundamentalmente os alquimistas, foi completamente negligenciado.

Hoje retorna-se a essa atitude. Inúmeros sábios acreditam que a difusão de certos conhecimentos pode pôr em perigo toda a humanidade. Assim, no Science Journal, revista científica das mais influentes de nossa época, de dezembro de 1967, o editorialista Gordon Rattray Taylor cita uma carta do dr. E. Orowan :

“A grande maioria da população da Terra considera a ciência e a tecnologia como perigo mortal crescente para sua vida. Sentem-se impotentes, à mercê de uma minoria, como se, numa mesa de operações, estivessem entre as mãos, não de pessoas que curam, mas de irresponsáveis levados pela curiosidade ou o que é ainda pior — pelo desejo de prestígio e promoção … Seria bom os sábios entenderem que estão em vias de dançar sobre um depósito de pólvora”. E Gordon Rattray Taylor acrescenta : “A desculpa habitual dos sábios, segundo a qual ninguém é obrigado a aplicar as descobertas científicas senão o desejar, não é mais válida . . . Os sábios chocam-se a responsabilidades inquietantes, que deverão enfrentar cada vez mais”.

Vê-se, pois, reaparecerem no mundo científico contemporâneo as velhas idéias dos alquimistas: ciência e moral são associadas e o segredo é às vezes uma necessidade.

Mas, em seu tempo, como poderiam os alquimistas saber que a ciência podia conduzir à ruína? Não se sabe; contudo, a idéia desse perigo parece ter sempre sido de seu conhecimento. A alquimia é, em todo caso, muito antiga; já existia na China, 4 500 anos antes de Cristo. Célebre texto, muito mais recente deve datar mais ou menos do século 12 —, A Mesa de Esmeralda, retoma os grandes princípios dessa “ciência” merece ser citado por extenso:

“Ë verdade, sem mentira, certo e muito verdadeiro: o que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é comoque está embaixo, para realizar os milagres de uma só coisa.E assim como todas as coisas provieram e provêm do Um, assim todas as coisas nasceram da coisa única, por adaptação. O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento a carregou em seu ventre, a Terra é a nutriz. O Thelema (telesma, perfeição) de todo o mundo está aí.Seu poder não tem limites sobre a Terra. Tu separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, cuidadosamente, com grande habilidade. Ele sobe da terra para o céu, e torna a descer para a terra e reúne a força das coisas superiores e inferiores. Terás assim toda a glória do mundo, eis por que toda a obscuridade se afastará de ti : é a força forte de toda força, pois ela vencerá toda coisa sutil e penetrará toda coisa sólida. Assim o mundo foi criado.Eis a origem de admiráveis adaptações aqui indicadas. Foi assim que fui chamado Hermes Trismegista, possuindo as três partes da filosofia universal. O que eu disse da operação do Sol está completo”.

Este texto é importante, mesmo se à primeira vista parece obscuro, porque expõe a teoria da unidade cósmica, ao mesmo tempo que a “receita” da obra filosofal. O autor parece saber que as estrelas tiram sua energia da transmutação dos elementos. O que chama “operação do Sol” é a própria base da construção da bomba 3 F (fissãofusão-fissão), que ameaça destruir a humanidade hoje. Ora, se podemos realmente fabricar tais bombas por meios relativa-mente simples, é preferível que a “receita” permaneça secreta. Os alquimistas são desconfiados. Nossos sábios, enfim, encontram-se com eles nesse ponto.

Mas pode-se dizer que os alquimistas escreviam muito. É verdade: há milhares, centenas de milhares de livros de alquimia. É assim que se preservam os segredos? Na minha opinião, os livros de alquimia não contêm qualquer segredo diretamente transmissível. Formam apenas a “biblioteca do alquimista”, e aí uma iniciação seria inutilmente procurada. Quer dizer, esses livros não são úteis e compreensíveis senão àqueles que já conhecem a alquimia. Um exemplo esclarece a idéia. Quem quer que se ocupe atualmente de energia atomica aplicada possui em sua biblioteca o livro fundamental de John R. Lamarsh , Introduction to Nuclear Reactor Theory (Addison-Wesley Publishing Company Inc.). Mas o livro básico não pode ser compreendido senão por aqueles que já conhecem a matemática; foi feito para leitores especializados. Em nenhum lugar se apresenta como tratado, retomando os princípios básicos. Somente os atomistas podem tirar proveito. Assim também, somente os alquimistas podem compreender e utilizar os livros de alquimia.

É a pedra filosofal a alegoria da radioatividade?

Mas então como pode alguém tornar-se alquimista?

Como se chega a esse conhecimento? Como aí chegaram os alquimistas se não há livros de iniciação?

Aqui só posso emitir minha opinião pessoal. Não sou um iniciado, não faço parte de qualquer sociedade secreta, mas estudei a alquimia durante perto de 40 anos. Fiz alguns contatos, procedi a algumas experiências. No total, que sei?

Como já disse, minha convicção profunda é de que, antes de nós, em nosso planeta existia uma civilização muito adiantada, que desapareceu. Os mapas de Piri Reis são alguns dos últimos vestígios, a alquimia é um outro. Não temos senão indícios e algum pouco mais para nos guiar.

Essa civilização havia se elevado a nível muito alto e devia certamente possuir conhecimentos, sobre a estrutura da matéria, mais adiantados que os nossos. Essa é a opinião de Frederick Soddy, Prêmio Nobel, grande físico atómico, que descobriu os isótopos e lhes deu o nome. Em seu livro O Rádio, Interpretação e Ensinamento da Radioatividade, escreveu:

“É interessante refletir, por exemplo, sobre a notável lenda da pedra filosofal, uma das crenças mais antigas e universais; por mais longe que acompanhemos seus traços no passado, nunca encontraremos a verdadeira fonte. Atribui-se à pedra filosofal o poder não só de efetuar a transmutação dos me-tais, mas também de agir como elixir da vida. Ora, qualquer que seja a origem dessa associação de idéias aparentemente despida de qualquer sentido, ela se mostra, na realidade, como expressão muito correta e apenas alegórica de nossa atual maneira de ver. Não é necessário grande esforço de imaginação para se chegar a ver na energia a própria vida do universo físico: e hoje sabemos que é graças à transmutação que surgiram as primeiras fontes da vida física do universo.Não é, então, simples coincidência, esta antiga aproximação do poder de transmutação e o elixir da vida? Prefiro crer que seria antes um eco vindo de uma das inúmeras idades quando, nos tempos pré-históricos, antes de nós, os homens seguiram a mesma estrada por onde hoje caminhamos. Mas esse passado é provavelmente tão longínquo que os átomos seus contemporâneos tiveram tempo de desintegrar-se totalmente”.

Antigamente a ciência levou a imenso desastre E o grande sábio (com quem mais de uma vez falei sobre alquimia) prossegue: “Deixemos ainda um instante nossa imaginação vagar livremente por essas regiões ideais. Suponhamos que seja verdadeira essa hipótese que a nós se apresente por si própria, e que podemos confiar no tênue fundamento constituído pelas tradições e superstições transmitidas até nós através dos tempos pré-históricos. Não poderíamos neles ver justificativa para a crença de que homens de alguma raça extinta e esquecida alcançaram não só os conhecimentos recentemente por nós adquiridos, mas ainda capacidades que ainda não possuímos?”

Por meu lado, compartilho a opinião de Soddy, de que uma civilização muito evoluída existiu antes dos tempos históricos. Mas, que pode ter acontecido para que esse mundo desaparecesse sem nos deixar a totalidade de sua herança? Creio que em certo momento essa ciência levou a um imenso desastre. Deve ter havido um conflito, no qual foram utilizadas armas muito mais poderosas que nossas melhores bombas atômicas: armas cujo efeito fizeram deslizar os continentes, rasgando-os na face da Terra, deslocando os pólos magnéticos, modificando as cinturas de radiação que protegem do vento solar, suprimindo a camada de ozone que antepara os raios ultra-violeta, enfim, perturbando o campo gravitacional da Terra.

Todos os estudos atuais parecem com efeito mostrar que, em dado momento, produziram-se importantes modificações ou perturbações das leis naturais que conhecemos. É mesmo provável que até o fim do século 20 possamos datar a grande catástrofe com a margem de alguns ,mil anos. Provavelmente será colocada a uns 100 mil anos.

Por mais grave que tenha sido a catástrofe, por mais graves que fossem seus efeitos em todos os sentidos, alguns homens devem ter sobrevivido, que possuíam fragmentos do saber antigo: conhecimentos positivos, a idéia de que a ciência era perigosa, lendas também. O “pecado original” da religião cristã seria assim explicado.

Depois passaram dezenas de milhares de anos, as geleiras invadiram uma parte do mundo, depois, por sua vez, recuaram. As civilizações que conhecemos começaram a formar-se. Há 10 mil anos ainda existiam guardas do segredo, quer dizer, detentores da tradição. A alquimia na fonte, e desde então, não cessou de fazer sonhar os homens. São inúmeros os que tentaram reencontrar o grande segredo, que quiseram “fabricar o ouro”.

Mas a lenda apagou o famoso segredo. Muitas fábulas identificaram a alquimia com a fabricação do ouro, quando parece que os verdadeiros iniciados não faziam muito caso desse metal. Para eles, o ferro era muito mais importante. Entre os sábios que estudaram a questão, o historiador francês de origem romena, Mircea Eliade, foi um dos raros a notá-lo. Em seu livro Forgerons et A lchimistes chamou a atenção para a importância do ferro nas operações de alquimia. Contudo não sabia, na época em que escreveu, o que logo iria ser demonstrado pela astrofísica e pela química destes últimos anos: que o ferro é uma espécie de eixo à volta do qual gira o mundo.

O ferro, sabemos agora, é com efeito o único elemento do qual não se pode tirar qualquer energia: nem por fissão, nem por fusão. Em termos técnicos está no zero da ausência de massa. O que quer dizer que se pode obter energia dos elementos mais leves que ele, adicionando-os por fusão: assim funciona o Sol… ou a bomba de hidrogênio. E pode-se obter energia de ele-mentos mais pesados que o ferro, decompondo-o por fissão: é o caso da pilha de urânio ou da bomba A. Mas do próprio ferro, que é zero, nada se pode tirar. Ele está na origem da alavanca do universo. Um alquimista alemão escreveu: “Eisen trãgt das Geheiminis des Magnetismus und das Geheiminis des Blutes”. Quer dizer: “O ferro é portador do mistério do magnetismo e do mistério do sangue”.

O ferro é portador de um terceiro mistério, o da alquimia, e não é sem motivo que se fala da pirita de ferro na elaboração da pedra filosofal. Pode-se compreender o interesse que os alquimistas demonstravam pelo ferro, pelo cálculo cabalístico que há em Les Noces Chimiques (1616) : A = 1, L= 12, C=3, H = 8, I=9, M= 13, I = 9, A = 1, total = 56. Ora, 56 é precisamente o peso atômico do principal isótopo de ferro. Poderíamos objetar que o autor de Noces Chimiques devia provavelmente ignorar os pesos atômicos. Nem por isso deixa de ser uma coincidência bastante curiosa, que, se em lugar de indicar que a alquimia = o ferro, o autor tivesse desejado indicar que a alquimia = o ouro, ser-lhe-ia fácil encontrar no arsenal das metáforas de seu tempo uma imagem para fazê-lo compreender.

Mais curioso ainda é notar que o ferro é indiscutivelmente um elemento capital do universo. Qualquer livro de ciência elementar ensina que assim é: o ferro contém magnetismo, é um elemento essencial da hemoglobina, quer dizer, da vida, e constitui material básico do cosmo. É encontrado por toda parte. La Table d’Emeraude diz muito justamente: “O que está no alto é como o que está em-baixo”. Quer dizer, o universo não foi construído ao acaso, feito aos pedaços. É altamente organizado e obedece a leis que podem ser encontradas tanto no exame de uma gota de orvalho, de um grão de areia, como no corpo humano. Essa é a grande lição da alquimia. E isso os homens já sabiam há 10 mil anos, antes dos zigurates e das pirâmides.

Em todas as civilizações encontramos homens que conservaram vestígios do segredo. Mas, à medida que o tempo passou, o segredo diluiu-se, misturado de misticismo, associado a diversas religiões. Alguns sub-produtos foram, contudo, entregues aos homens: a porcelana, a pólvora, os ácidos, os gases. A eletricidade era conhecida no século 2 antes de Cristo, pelos alquimistas de Bagdá. Os da China produziram o alumínio no século 2 por método absolutamente desconhecido. E Newton pôde escrever em carta datada de 1676: “Existem outros segredos além da transmutação dos metais, e os grandes mestres são os únicos a compreendê-los”.

O grande público, como os príncipes, não se interessou senão por uma possibilidade: a dissociação da matéria em elementos muito pequenos que chamaremos partículas elementares, depois sua reconstituição para a fabricação do ouro. Essa operação de dissociação tem, na tradição, o nome de “preparação das trevas”. Foi ao estudá-la que, na China, descobriram a pólvora para canhão. Os livros asseguram, naturalmente, que a invenção deve-se a certo monge chamado Berthold Schwartz. Mas é um gracejo: schwartz quer dizer preto em alemão, e é certamente o símbolo da “preparação das trevas”. Preto também (ou azul-preto) é ainda a cor do gás eletrônico, estrutura quase imaterial que é a própria base dos metais e confere suas propriedades. Podemos observá-lo dissolvendo um metal no amoníaco líquido, a muito baixa temperatura. Vê-se a cor azul-preto que é comum a todos os metais, e qualquer um pode assistir hoje à “preparação das trevas”.

Em alquimia a fase seguinte consiste em juntar alguns grãos de ourio para se obter certa quantidade desse metal . A operação é chamada “sementeira”. Quanto ao catalisador que serviu para dissociar a matéria em subelementos, sabemos que os alquimistas chamam-no pedra filosofal. Pode ser obtido pela pirita de ferro, e já emiti a hipótese de que se tratava do elemento 310, de número atômico 136. A teoria dos números mágicos mostra que esse elemento deve ser estável.

Mas, à medida que se espalhava o boato de que era possível fabricar ouro à vontade, os príncipes deram caça aos alquimistas. Logo começaram a ser torturados e mortos. Barbárie das épocas recuadas, diriam. Não estou certo. O mundo vibra de novo pelo ouro. A libra foi desvalorizada, o dólar vascila, por toda parte as Bolsas vêem importantes negociações em torno do precioso metal. Se aparecesse um homem asseverando poder fabricar ouro, posso apostar que em breve encontrariam seu corpo em alguma floresta ou no fundo de um lago. Os interesses em jogo são por demais importantes.

Então, qual pode ser o destino do alquimista? Sob os governos atuais, como sob os faraós ou os imperadores da China, o alquimista é, foi, permanecerá, um homem só. Quer isto dizer que existem hoje (ou existiram) sociedades secretas de alquimia? Para responder à pergunta, precisamos lembrar em algumas palavras a história dos rosa+cruzes.Quando se fala nos rosa+cruzes, é preciso, para começar, citar suas origens. Com efeito, há dois séculos que se delira a esse respeito. Por meu lado, referir-me-ei ao livro de Arthur Edward Waite, The Brother-hood of the Rosy Cross, edição de 1966 (University Books, New York).

Waite, que morreu em 1940, publicou seu livro pela primeira vez em 1924. Cético feroz, atacou com bastante violência aqueles que se diziam representantes dos rosa-cruzes em sua época. Mas sua obra foi e continua apreciada pelos especialistas, graças à seriedade da informação e à fidelidade das referências. Cito-o por minha vez com a maior exatidão. Segundo Waite, nos séculos 16 e 17 houve um surgimento de avisos, panfletos e livros anunciando que detentores dos segredos dos alquimistas estavam prontos a admitir novos membros e a compartilhar de seus conhecimentos. Esses homens davam-se o nome de rosa+cruzes. Pretendiam vir de Damasco, de Fez e de “certa cidade oculta” (Waite, p. 37). Nada prova que esses indivíduos pertencessem a uma sociedade secreta, mas Waite salientou certos fatos perturbadores, mostrando que não eram simples escroques.

Esses desconhecidos demonstravam gran-de interesse por certas estrelas, principalmente pelas novas das constelações da Serpente e do Cisne (pp. 17, 42, 149). Na época, ninguém havia manifestado a idéia sacrílega (os astros eram tidos como eternos) de que as estrelas pudessem explodir. Certamente a nova da Serpente foi observada em 1604, e a do Cisne, em 1602, mas foi a ciência de hoje que, ao analisar tais explosões, descobriu as fontes de rádio no céu e os quásars. Ora, os rosa+cruzes sustentaram formalmente que essas estrelas novas eram uma das chaves da alquimia. Isto autoriza a pensar que possuíam conhecimentos mais avançados que os dos sábios oficiais de seu tempo.

Os rosa+cruzes pretendiam possuir dois instrumentos excepcionais (p. 261). O “cosmoloterentes” que permitia .destruir qualquer fortaleza com um só golpe, e a “astroniquita”, com a qual podiam ver as estrelas através das nuvens. Esses “instrumentos” são hoje nossos conhecidos. O primeiro é o explosivo nuclear; o segundo, um aparelho que utiliza a luz polarizada, como a pedra mágica dos vikings. Como os rosa+cruzes possuíam esses conhecimentos?

Os rosa+cruzes haviam construído uma miniatura da Terra, reproduzindo com exatidão todos os movimentos do nosso globo (p. 135). Isto não era inteiramente novo: fragmento de mecanismo .semelhante foi encontrado em uma ânfora do século 2, ao largo da ilha Anticitara, e o professor Dereck J. Solla Price, que o reconstituiu, escreveu no Scientific American que a perfeição da invenção era espantosa e abalava as nossas idéias sobre as tecnologias do passado. Mas tanto no século 2 como nos séculos 17 e 18, de onde provinha o conhecimento dos rosa+cruzes sobre os movimentos da Terra?

A 28 de maio de 1776, os rosa+cruzes fizeram uma demonstração de transmutação da água por efeito de radiação. Para isso utilizaram água que cristalizou a temperatura ordinária, formando cristais semelhantes a flores, que emitiam luz insustentável. Como esse alótropo do gelo pôde ser obtido?

No final somos levados a pensar que o saber dos rosa+cruzes vinha do passado. . . uma vez que não podia vir do futuro. Que saber era esse? Seus possuidores sempre afirmaram que o essencial de tais conheci-mentos residia na alquimia, uma alquimia tomada, bem entendido, no sentido lato, da qual a transmutação dos metais não era senão um aspecto:

Nos séculos 16 e 17 parece ter havido o renascimento desse antigo saber. As lendas sobre os rosa-cruzes dizem que possuíram até lâmpadas de luz fria que ficavam acesas sem interrupção, e registros mecânicos da música e da voz humana. Estes últimos pontos são, contudo, contestados, notadamente por Waite. Segundo um manifesto de 1623, Instruction à la France sur la Vérité de l’Histoire des Frères de la Rose-Croix (Instrução à França Sobre a Verdade da História dos Irmãos da Rosa-Cruz), esse ressurgimento visava ao recrutamento: queriam aumentar o número de iniciados. Depois veio de novo o silêncio, com uma exceção: sempre segundo Waite, no século 18 entraram em contato com Leibniz, que teve que passar por um exame e foi nomeado secretário de um grupo de estudos ocultos, em Nuremberg. Fontenelle conta o fato em Eloges des Académiciens.

Enfim, é preciso atribuir aos rosa+cruzes o impulso que permitiu criar duas companhias muito importantes: a Sociedade Real de Ciências, da Inglaterra. . . e a franco-maçonaria. Mas afastamo-nos do assunto.Ainda mais importante — pelo menos para a história da alquimia — parece ter sido a publicação em 1677 do Livre Muet de l’Alchimie, espécie de estenograma ou tábua de logaritmos para uso daqueles que realizaram a grande obra da alquimia. A obra estava assinada Altus, pseudônimo que não foi desvendado. E. Canseliet, no prefácio que acaba de dar à reedição do livro, aproxima o autor a Joseph Duchene, que desde 1609 compreendeu que havia azoto no nitrato pois, afirmava,
“Há um espírito no sal de pedra que é da natureza do ar e que, contudo, não pode manter a chama, sendo-lhe antes contrária”.

O misterioso Altus, representando Duchêne ou outros sábios desconhecidos, foi, de qualquer maneira, violentamente atacado pelos racionalistas da época. O Journal des Savants, da segunda-feira, 26 de agosto de 1677, menciona nestes termos a publicação do Mutus Liber:”O autor da obra é um desses homens que cavam a quimera para precipitar-se na indigência. Teimando na descoberta da pedra filosofal, possuem ciência bastante para se arruinar, e não bastante, como é preciso, para ver os limites do espírito humano que jamais atingirá a transmutação dos metais”. Contudo, para os alquimistas modernos o Mutus Liber continua precioso. Como todos os outros livros que tratam da grande obra, este não é um conjunto de receitas. É apenas um conjunto de sinais destinados àqueles que já sabem. Esses sinais foram, aliás, espalhados por toda parte pelos alquimistas, principalmente nas catedrais. Hoje continuam a escrever secretamente, um pouco por toda parte. Eis por que, nos anos 20, Pierre Dujols, o famoso livreiro especializa-do em ciências ocultas, podia afirmar: “Os reis reinam, mas não governam, segundo célebre aforismo. E parece, às vezes, que há ainda nos bastidores alguma eminência cinzenta que puxa os cordéis. As famosas águas-furtadas do templo talvez não este-jam destruídas como se supõe. E poderia ser escrito um livro surpreendente sobre a filigrana das notas de dinheiro e das siglas das moedas”. Quer dizer, nossa sociedade, como a do passado e como a natureza toda, é uma vasta mensagem que pode ser decifrada.

O Mutus Liber é uma arte dessa mensagem, uma espécie de memorando para os inicia-dos de ontem e de amanhã. O aviso ao leitor, que o precede, afirma claramente: “E também o mais belo livro jamais impresso sobre o assunto, pelo que dizem os sábios, contendo coisas que nunca foram ditas por ninguém. E preciso ser verdadeiro filho da arte para conhecê-lo. Aí está, caro leitor, aquilo que acreditei dever dizer-lhe”.

O livro não é inteligível por completo senão para os filhos da arte, assim como os dia-gr amas de circuitos de um aparelho de televisão só são compreensíveis às pessoas familiarizadas com eletrônica. Quer dizer que ninguém jamais escreverá um livro sobre alquimia ao alcance do comum dos mortais? No prefácio do Mutus Liber, Canseliet responde desta forma:

“Pediram-me muitas vezes e continuam pedindo para escrever um livro elementar que exponha simples e claramente em que consiste a alquimia.Não desejaria ser descortês, mas parece que muitos dos que nos fazem o pedido não leram os livros de Fulcanelli, Deux Logis Alchimiques, Les Douze Clés de la Philosophie e, recentemente, o nosso Alchimie, que ainda pode ser interrogado sobre a natureza, os meios e o fim da antiga ciência de Hermes. E preciso compenetrar-se plenamente, e não esquecermos jamais que a alquimia é, antes de tudo, a disciplina esotérica por excelência, que exige, por base, um estado de alma e de consciência onde o desapego seja igual ao constante desejo de amar e de conhecer. Amoroso da ciência! É a expressão familiar muitas vezes utilizada pelos mais antigos autores e que designa da mesma forma o filósofo, o alquimista e especialmente o artista”.
Canseliet esclarece aqui esta profunda e terrível verdade: a manipulação da matéria pela alquimia, resíduo de uma civilização mais adiantada que a nossa, distingue-se de nossas ciências e técnicas, da mesma maneira que a arte se distingue da decoração mecânica feita por meio de moldes. Há a mesma diferença entre a alquimia e nossa ciência atual, que entre a Gioconda e um papel pintado. . . E por isso que não se deve esperar ver um dia a alquimia industrializada. Não seria possível. Não seria útil.

Historicamente vê-se que os alquimistas entregam ao público, de vez em quando, algumas parcelas de seu saber, ajudando o progresso científico e técnico. A próxima parcela, que nos será assim atirada como alimento, penso que será a manipulação da matéria: não mais a simples transmutação (agora conhecemos o segredo), mas a receita de substâncias novas que não constam de nenhuma tábua periódica dos elementos.

Partindo do ferro, sabemos que Fulcanelli havia obtido metaelementos que não cor-respondiam a nada conhecido pelos químicos. Nossos sábios agora fabricam alguns desses metaelementos: o positrônio, os átomos muônicos etc. São, infelizmente, corpos instáveis, de vida muito curta. Alguns gramas de metaelemento estável fariam progredir nossa ciência de um século. No dia apropriado, tenho certeza, um alquimista nos fará essa revelação.

Enquanto esperamos, não poderíamos pelo menos fabricar ouro? Já dissemos o quanto seria perigoso, impossível mesmo, através das vias da alquimia promovidas à categoria de técnica industrial. Uma operação de alquimia, por definição, não é reproduzível. É uma obra de arte e um pintor não pode pintar duas vezes o mesmo quadro.

Mas àqueles que conservam a paixão pelo ouro, posso assinar a técnica descoberta já há 30 anos, por André Helbronner e eu próprio ( Jacques Bergier ). Podemos seguramente fabricar ouro, partindo do boro e do tungstênio.

A reação é escrita: 5 B 11 + 74 W 186 = 79 Au 197.

Estou persuadido de que, com a técnica moderna do plasma, esse método poderia ser industrializado e o ouro seria produzido por aproximadamente 60% de seu preço de custo ordinário. Seriam necessários, evidentemente, meios consideráveis para montar uma indústria, mas um governo poderia tomar essa iniciativa. Os Estados Unidos, talvez, se seu problema de reservas metálicas se agravasse. . .

Mas tudo isso não passa de alquimia, e a lição que ela nos dá hoje ainda é de outra natureza. Há mais e melhor a fazer do que ouro. Neste mundo cruel, onde a morte ronda a todos, resta ao homem encontrar as fontes da vida. A atitude da alquimia é sempre um exemplo. Ela pode ser um guia, tornar-se uma esperança.

Dia virá, talvez, em que os homens chegarão à plena consciência da alquimia, quer dizer, não apenas a uma ciência, mas a uma ética. Sempre que se pretendeu separar esses dois fatores do progresso humano, a humanidade caminhou com um pé só. Lindos pulos, às vezes, mas também escorregões!

Sim, um dia, talvez. . . A humanidade fará sem dúvida a grande mutação predita por Stapledon ou Teilhard de Chardin. Então a alquimia progredirá a descoberto. Terá conseguido sua última vitória.

 

Extraido de um texto de Jacques Bergier – 1974


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[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-nova-aurora-do-alquimista/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-nova-aurora-do-alquimista/

Anjos Fósseis

Considere o mundo da magia. Uma diversidade de ordens ocultas que, quando não tentam refutar a procedência da outra, ou ficam criogenicamente suspensas na sua raiz ritual, seu jogo de Aiwaz diz, ou então parecem perdidas em alguma expansão canalizada por spam do Dungeons & Dragons, fora do mapa, em algum novo universo injustificável e completamente sem valor, até que eles demonstrem que é como um adesivo preto de unhas colado sobre o antigo. Autoconscientes de estranhas transmissões vindas de entidades com síndrome de Touret, martelando um glossário de horrores. Paralisados olhando bolas de cristal que de alguma forma, recebem trailers do canal Sci-Fi. Muito longe dos chefes secretos, e, no mesmo contexto, muito longe também dos índios secretos.

Além disso, os que passam pelos portões rangentes das sociedades ilustres, são os cinquentões babacas que começam com planos de ingressar no palácio celestial, mas inevitavelmente acabam no Bates Motel, e fora disso estão as massas. Os videntes. Um eco incoerente do nosso superlotado circulo hermético, os Akashicos, Anoraks, os autoproclamados Wiccans e o templo dos quarentões- qualquer- coisa, convencendo pré-adolescentes, para mais tarde vender a eles uma franquia do reino das fadas, o famigerado reino de Potersville.

Exatamente como isso confirmaria um aeon de Hórus, esse aeon de nada exceto mais aparências, consumismo, status de gangster, a pedra filosofal do materialismo¿ Como pode uma aquiescência instintiva a ideias conservadoras ser um sinal de Thelema¿ Cthulhu esta voltando á qualquer momento, há maldições bárbaras das trevas que alguns iluministas tentam encontrar com suas lanternas¿ O ocultismo ocidental contemporâneo não possui nenhum talento em mensurar resultados além de truques de salão¿ A magia tem algum uso definido para a raça humana, fora oferecer a oportunidade de se vestir bem¿

Iguarias tântricas e sacerdotes em noites temáticas thelemicas. Pentagramas em seus olhos. “Esta noite Matthew, eu sou o logos do Aeon”. A magia tem demonstrado um proposito, justificando sua existência da mesma forma que a arte, ou a ciência, ou a agricultura se justificam¿ Resumindo, alguém tem alguma pista do que estamos fazendo, ou precisamente pra que estamos fazendo isso¿.

Certamente, a magia nem sempre foi tão aparentemente separada de toda a função humana básica. Suas origens xamânicas no Paleolítico certamente representaram, naquele momento, os únicos meios humanos de mediação com um universo em grande parte hostil sobre o qual ainda havia muito pouca compreensão ou controle. Dentro de tais circunstâncias, é fácil de conceber a magia como representando originalmente uma realidade, um ponto de apoio, uma visão de mundo em que todas as outras vertentes da nossa existência… a caça, a procriação, elementos com os quais lidam as pinturas nas paredes das cavernas… eram fundidos. A ciência do todo, a sua relevância para as preocupações dos mamíferos comuns eram tanto óbvias, como inegáveis.

Este papel, de uma “filosofia natural” incluída no todo, obtido ao longo do surgimento da civilização clássica podia ainda ser ainda ser vista, de forma mais furtiva, até o final do século 16, quando as ciências ocultas e mundanas não eram tão distinguíveis como são hoje. Seria surpreendente, por exemplo, que John Dee não permitisse que seu conhecimento da astrologia desse contribuições inestimáveis para a arte da navegação, ou vice-versa. Não até a Idade da Razão, que gradualmente limitou a nossa crença e, assim, entrar em contato com os deuses que tinham sustentado nossos antepassados, fariam nosso senso incipiente de racionalidade identificar o sobrenatural como um mero órgão vestigial no corpo humano, obsoleto e, possivelmente, falecido, melhor então que fosse retirado rapidamente.

A Ciência cresceu fora da magia, embora fosse descendente dela, a sua aplicação era mais prática e, portanto, materialmente rentável, muito em breve decidiu-se que o ritual e toda a matéria simbólica da sua cultura-mãe, a alquimia era redundante, um estorvo e um atraso. Orgulhosa em seu novo jaleco branco, usando canetas como medalhas no peito, a ciência veio a ter vergonha de seus companheiros (história, geografia, P.E) não queria se pega fazendo compras com a mamãe, resmungando e cantando. Seu terceiro mamilo. Melhor então que ela fosse escondida em algum local seguro, um asilo para de paradigmas idosos e decadentes.

O abismo que isso causou na família humana das ideias parecia intransponivell, com duas partes do que tinha sido um único organismo, substituído pelo reducionismo, uma “ciência do todo” inclusive ao tornarem-se dois pontos de vista, cada um, aparentemente, em amarga e feroz oposição ao outro. A Ciência, no processo deste divórcio amargo, pode, eventualmente, ter perdido o contato com a sua componente ética, com a base moral necessária para evitar a reprodução de monstros. A Magia, por outro lado, perdeu toda sua utilidade e finalidade comprovada, como acontece com muitos pais quando o bebe cresceu e deixou o ninho. Como preencher o vazio? A resposta é, se estamos falando de magia e do mundo deprimido de mães e pais com ninhos vazios, é, com toda a probabilidade, “com o ritual e nostalgia”.

O ressurgimento da magia no século XIX, com a sua natureza retrospectiva e essencialmente romântica, parece ter sido abençoada com esses dois fatores em abundância. Enquanto é difícil exagerar as contribuições feitas á magia como um campo por, digamos, Eliphas Levi ou os vários magistas da Golden Dawn, é tão difícil argumentar que essas contribuições não foram esmagadoramente sintéticas, na medida em que aspiravam criar uma síntese do conhecimento já existente, para formalizar as sabedorias variadas dos antigos.

Não podemos menosprezar esta realização considerável se observarmos que a magia, durante essas décadas, beirava uma proposital corrida pela caracterização pioneira, como por exemplo, nos trabalhos de Dee e de Kelly. Em seu desenvolvimento do sistema Enochiano, a magia renascentista apareceria com uma urgência criativa e experimental, voltada para o futuro. Em compensação, os ocultistas do século XIX também parecem quase ter-se deslocado no tempo para reverenciar a magia do passado, fazendo uma exposição de museu, criando um acervo, um arquivo, onde cada qual era um curador individual.

Todos os robes e as insígnias, com o seu ar da reencenação histórica para multidões, as sociedades ultra secretas, apenas uma engrenagem fracionada para os menos imbecis verem. O consenso preocupante sobre os valores de direita e o número de vítimas confusas tropeçando umas nas outras do outro lado, provavelmente teria sido idêntica. Os ritos das ordens mágicas, também são semelhantes às bandas de cromwell exaltando homicidas bêbados, a alegria da gravidez se opondo ao sombrio rodízio, implacável frente á realidade industrial. Varinhas lindamente pintadas, obsessivamente levantam piquetes autênticos, contra o avanço sombrio das chaminés. Quanto disto pode ser descrito com mais precisão como fantasias compensatórias para a era das máquinas? role-playing games que só servem para sublinhar o fato brutal que essas atividades não têm relevância humana contemporânea. Uma recriação melancólica de momentos eróticos pela mente de um impotente.

Outra distinção clara entre os magistas do século XVI e os do século XIX encontra-se em sua relação com a ficção de sua época. Os irmãos do inicio da Golden Dawn parecem ser inspirados mais pelo puro romance da magia do que por qualquer outro aspecto, com S.L McGregor Mathers atraído para a arte pelo seu desejo de viver a fantasia de Bulwer-Lytton Zanoni. Incentivando Moina para se referir a ele como “Zan”, alegadamente. Woodford e Westcott, por outro lado, ansiosos para estar dentro de uma ordem que tinha ainda mais parafernália do que Rosacruz e a Maçonaria, e de alguma forma adquirir um contato nas (literalmente)   lendárias fileiras de the Geltische Dammerung, o que significa algo como “a sagrada hora do chá”. Eles esperam para receber seus diplomas vindos de Nárnia, em fila atrás do armário. Como Alex Crowley, irritantemente tentando persuadir seus colegas de escola a se referir a ele como Alastor de Shelley, como alguns que se acham os góticos de Nottingham, um cara chamado Dave insistindo que seu nome vampiro é Armand. Ou, um pouco mais tarde, todos os antigos cultos de bruxas, todos os clãs de linha de sangue brotando como pétalas de dentes do dragão, onde quer que escritos de Gerald Gardner estivessem disponíveis. Os ocultistas do século XIX e início do século XX pareciam todos quererem ser o gênio de Aladdin, de alguma pantomima interminável. Para viver o sonho.

John Dee, por outro lado, era talvez mais consciente do que qualquer outra pessoa de sua época. Mais focado no propósito. Ele não precisou procurar por antecedentes nas ficções e mitologias disponíveis, porque John Dee não estava em nenhum sentido fingindo, não estava jogando jogos. Ele inspirou, ao invés de ser inspirado pelas grandes ficções mágicas de seu tempo. Prospero de Shakespeare. Fausto de Marlow. Ben Johnson foram todos molhados com o mijo do Alquimista. A magia de Dee era uma força inteiramente viva e progressiva de seu tempo, ao contrario de algumas que eram exemplares empalhados de coisas extintas, já não existiam salvo em histórias ou contos de fadas.  A sua era, um capítulo novo, escrito inteiramente no tempo presente, uma aventura mágica em curso. Em comparação, aos ocultistas que se seguiram cerca de três séculos  abaixo na linha do tempo, onde mostram apenas um apêndice elaborado, ou talvez uma bibliografia, após o fato. A liga da preservação, dublando rituais de mortos. versões cover.  Magos de karaoke . A Magia, tendo desistido ou usurpado a sua função social, tendo perdido a razão de ser, por sua vez, tentando arrastar multidões, encontrou apenas o teatro vazio, as cortinas misteriosas e empoeiradas, cabides de vestidos esquecidos, adereços insondáveis de dramas cancelados. Na falta de um papel definido, cresceu incerta de suas motivações, a magia parece não ter economizado nenhum recurso para furar obstinadamente o roteiro estabelecido, consagrando cada última tosse e gesto, tendo um desempenho oco e liofilizado, devidamente embalado; artisticamente enlatada para o Património Inglês.

Como foi infeliz este momento na história da magia, com o conteúdo e função perdidos sob um verniz ritual muito detalhado, calças boca-de sino, sobre as quais as ordens posteriores escolheram se a cristalizar. Sem um objetivo ou missão facilmente perceptível, que não fosse produzir uma mercadoria comercializável, o ocultista do século XIX parece derramar uma quantidade excessiva de sua atenção sobre o papel de embrulho, a fantasia. Possivelmente incapaz de conceber qualquer grupo não estruturado na forma hierárquica das lojas que estavam acostumados, Mathers e Westcott obedientemente importado todas as antigas heranças maçônicas quando vieram a fornecer sua ordem incipiente. Apenas roupas, qualificações e implementos. A mentalidade de uma sociedade secreta de elite. Crowley, naturalmente, pegou toda esta bagagem cara e pesada, e levou com ele quando pulou fora do barco para criar a sua OTO, e todas as ordens, desde então, até os empreendimentos supostamente iconoclastas, como, digamos, a IOT, parecem finalmente ter adotado o mesmo modelo da alta sociedade vitoriana. Armadilhas do drama, teorias complicadas o suficiente para chamar a atenção, e esconder o que a faltava em caridade, e como podem perceber, a falta de qualquer resultado prático, qualquer efeito sobre a condição humana.

O número XIV (e talvez final?) Da estimável revista KAOS de Joel Biroco contou com a reprodução de uma pintura, uma obra surpreendente e assombrosamente bela, o retrato de Marjorie Cameron, ruiva assustadora, Dennis Hopper e seu companheiro de casa Dean Stockwell, retratavam a suposta Mulher Escarlate, Pilar Thelêmico. Quase tão intrigante quanto o trabalho em si, no entanto, é o título: Fóssil de anjo, com suas conjuras contraditórias de algo maravilhoso, inefável e transitório, combinado com aquilo que é, por definição, morto, inerte e petrificado. Existe uma metáfora para nós nisso, tanto decepcionante quanto instrutiva? Não é possível, que todas as ordens mágicas, com suas doutrinas e seus dogmas, interpretaram erroneamente como restos calcificados e inertes de algo que uma vez foi imaterial e cheio de graça, vivo e mutável? Como energias, como inspirações e ideias que dançavam de mente para mente, evoluindo até que, finalmente o gotejamento de calcário do ritual e da repetição congelou-os em seus caminhos, obstruindo-os, deixando-os para sempre no meio do caminho, o final inalcançável, um gesto incompleto? Iluminações, tribulações. Anjos fósseis.

Algo imperfeito e etéreo uma vez desceu rapidamente, quicando como uma pedra na superfície da nossa cultura, deixando a sua fraca impressão tênue no barro humano, uma pegada que nós deixamos endurecer no concreto e, aparentemente, permanecemos ajoelhados perante ela durante décadas, séculos, milênios. Recitar os encantamentos, como canções de ninar familiares e calmantes palavra por palavra, em seguida, resgatando cuidadosamente os velhos e amados dramas, talvez faça algo acontecer, como fez antes.  Colocando bobinas de papel alumínio e palitos de algodão doce em que a caixa de papelão, para que se pareça vagamente com um rádio e então talvez John Frum venha, trazendo os helicópteros de volta? A ordem oculta, inundada de fetiches, um concurso para alguns, há meio século, sentan-se como Miss Haversham e se perguntam se os besouros do bolo de casamento de alguma forma confirmam Liber Al vel Legis.

Mais uma vez, nada disso tem a intenção de negar a contribuição que as várias ordens e suas obras fizeram a magia como um campo, mas apenas observar que essa contribuição reconhecidamente considerável é, em grande parte, uma privação de liberdade em sua natural preservação do folclore passado e ritual, ou então que a sua elegante síntese de ensinamentos diferentes é a sua principal ( e talvez única) conquista. Além dessas realizações, no entanto, o legado duradouro da cultura ocultista do século XIX parece principalmente, a antítese da saudável e continuada evolução, a proliferação contínua viável da magia, que, como uma tecnologia, certamente superou á muito tempo essa ornamentação do final da era vitoriana e tem extrema necessidade de mudança. Toda a mobília maçônica importada por Westcott e Mathers, basicamente, por incapacidade de imaginar qualquer outra estrutura válida, é hoje, pelas características da atualidade, uma limitação e impedimento para a promoção da magia.  Gerando engodos jamais vistos, linhas cerimoniais demasiado restritas que condicionam todo o crescimento, restringem todo o pensamento, ao limitar as maneiras em que nós concebemos ou podemos conceber a magia. Imitar-se as construções do passado, pensando em termos de hoje, não é necessariamente aplicável – talvez nunca realmente fosse – o que parece ter tornado o ocultismo moderno totalmente incapaz de enxergar diferentes métodos pelos quais possa organizar-se; incapaz de imaginar qualquer progresso, qualquer evolução, qualquer futuro, o que provavelmente é uma forma perfeita de garantir que ele não tenha um.

Se a Golden Dawn é muitas vezes apontada como um modelo, um exemplar radiante da ordem perfeita e bem sucedida, isto acontece quase certamente porque suas fileiras incluíam muitos escritores conhecidos de capacidade comprovada, cuja adesão emprestava a sociedade mais credibilidade, que ela nunca teria como pagar a eles. O brilhante John Coulthart sugeriu que a Golden Dawn pode ser caridosamente considerada uma sociedade literária, onde escribas renomados procuravam uma magia que poderiam ter encontrado demonstrável e evidente, já viva e funcionando em seus próprios trabalhos, eles não eram cegados pelo brilho de toda aquela cerimônia, pelo kit fantástico. Um autor que claramente contribuiu com algo que era de valor real mágico para o mundo através de sua própria ficção, muito mais do que através de quaisquer operações na loja foi Arthur Machen. Embora admitindo ter grande prazer em todo o mistério e maravilha das cerimônias secretas da ordem, Machen se sentiu compelido a adicionar ao escrever sobre a Golden Dawn em sua autobiografia, Coisas do tipo “como qualquer coisa vital na ordem secreta, por qualquer coisa não tinha mais importância que dois pedaços de palha para qualquer ser razoável, não havia nada nela, e às vezes menos do que nada”… a sociedade como uma sociedade era pura loucura preocupada com o impotente e imbecil abracadabra. Eles não sabiam nada sobre qualquer coisa e ocultavam o fato debaixo de um ritual impressionante e uma fraseologia sonora. Astutamente, Machen observa a relação aparentemente inversa entre o conteúdo genuíno e inventado, dos elaborados formulário que caracterizavam as ordens desta natureza, uma crítica tão relevante hoje, como era em 1923.

O território de magia, em grande parte abandonada como demasiado perigosos desde o período de Dee e Kelly, foi demarcado e recuperado (quando isso se tornou seguro) por entusiastas do ocultismo do século XIX, por suburbanos de classe média que transformaram a relva ressecada e negligenciada em uma série de requintados jardins ornamentais.  Inventando elementos decorativos, estátuas e adereços de grande complexidade, a imitação de um passado imaginado por sacerdotes hiperativos. Deuses terminais entre as camas arrumadas com azaleias.

O problema é que os jardineiros, por vezes brigavam. Disputas de fronteira. Vinganças e despejos de inquilinos lunáticos. Propriedades invejáveis estão fechadas, são muitas vezes ocupadas por novas famílias problemáticas, novos clas. Apegando-se a antiga placa de identificação, mantendo o mesmo endereço, e permitindo que seus fundamentos caíssem em estado de abandono. Lesmas nojentas e ervas-daninhas espalhando-se entre as rosas de vinte e duas pétalas. Nos anos noventa, a paisagem cansada do jardim da magia se tornou uma expansão mal conservada de loteamentos baratos, com infiltrações e pintura descascada, as casas de veraneio agora se tornam meros galpões onde paranoicos vigilantes se sentaram acordados a noite toda, com suas espingardas esperando vândalos adolescentes. Não há nenhum produto que vale a pena mencionar. As flores perderam o perfume e não mais conseguem encantar. Sabe, eram todos lamens extravagantes e xadrez Enoquiano por aqui , e agora ao olhar para ele, as sebes de topiaria Gótica estão ressecadas como estopa, a podridão toma conta desse gazebo Rosacruz, as madeiras estão secas. Este lugar agora só serve para receber o seguro quando pegar fogo.

Não, é sério. Terra queimada. É tudo o que dá para recomendar. Pense como ficaria quando todos os mantos e estandartes fossem capturados. Pode até mesmo ser que toda mente, corpo e Espírito monstruoso do vento vá na direção certa. Perda de vidas e meios de subsistência seria, evidentemente, inevitável, alguns danos colaterais no setor empresarial, mas com certeza seria muito bonito. As vigas do templo desmoronando em meio às faíscas. “Esqueça-me! Salve os manuscritos cifrados!” Entre as inúmeras missas gnósticas, juramentos, conjuras e banimentos, o que os levou a esquecer de seu péssimo treinamento contra incêndios? Ninguém está completamente certo sobre como eles devem evacuar o circulo interno, nem sei quantos ainda podem estar lá. “Finalmente, surgirão historias de cortar o coração sobre a bravura individual.” E-Ele voltou para resgatar o desenho LAM, e nós não pudemos impedi-lo. “Após um momento de lágrimas, para aconselhamento”. Enterrar os mortos, nomear sucessores. Abrir o selo do Himeneu Gamma. Lançar um olhar triste as nossas terras enegrecidas. Viver um dia de cada vez, Santo Deus. Assoar nossos narizes, nos recompor. De alguma forma, nós vamos superar.

E então? Terra queimada, é claro, é rica em nitratos e fornece uma base para a agricultura de corte e queima. Em terra carbonizada, aparecem os pontos verdes da recuperação. A vida revolve-se indiscriminadamente, agitando a terra preta. Poderíamos sacrificar esses gramados outrora imponentes e terraços á sua volta para o deserto. Por que não? Pense nisso como o ambientalismo astral, a recuperação de um cinturão verde psíquico debaixo da pavimentação, oculto pelas lajes vitorianas rachadas, como um incentivo para o aumento da biodiversidade metafísica. Considerado como um princípio organizador para o trabalho de mágica, a estrutura fractal complexa e autogerada de uma selva parece tão viável como toda a ordem do tabuleiro de xadrez imposta e espúria de um piso preto e branco; parece, de fato, consideravelmente mais natural e vital. Afinal de contas, o tráfego de ideias é que é a essência e a alma de magia é mais naturalmente transacionado nos dias de hoje pelo trafego de informações de um tipo ou outro, em vez de segredos como rituais solenemente alcançados após longos anos de cursinhos em Hogwarts. Não tem sido este jeitão de floresta tropical, de fato, a configuração padrão do ocultismo ocidental prático há algum tempo? Por que não sair e admitir isso, destruir todos estes clubinhos que não são tem mais qualquer utilidade nem beleza, e abraçar a lógica de lianas? Dinamitar as barragens, enfrentar a inundação, permitir a nova vida florescer nos habitats onde anteriormente estava moribunda e ameaçada de extinção.

Em termos de cultura oculta, nova vida equivale a novas ideias. Frescas e se contorcendo nas sombras, possivelmente girinos conceituais venenosos, essas pragas de cores vivas devem ser estimuladas em nosso novo ecossistema imaterial, para que ele floresça e permaneça em saúde. Vamos atrair as pequenas e frágeis ideias que brilham como néon, e as mais resistentes e grandes ideias muito mais fortes, que se alimentam delas. Se tivermos sorte, o frenesi alimentar pode chamar a atenção dos grandes paradigmas-raptor, que atropelarão tudo e agitarão a terra. Lutas ferozes, da mais minúscula bactéria ao incrivelmente grande e feio monstro, todos travando uma luta gloriosa e sangrenta, sem supervisão, pela sobrevivência, uma bagunça darwiniana espetacular.

Doutrinas esfarrapadas encontram-se incapazes de superar o argumento assassino, elegante e cheio de dentes. Dogmas Mastodontes e velhos vão escorregando para baixo na cadeia alimentar, e entrando em colapso sob seu próprio peso servindo de refeição para os carniceiros, virando historia, e em algum lugar há o zum-zum-zum do bate-papo na sala das moscas que colocam seus ovos. Trufas miméticas crescidas a partir da decomposição dos Aeons. Revelações vivas surgiram como um foguete em Londres, do seu meio natural, a expansão bombástica e desordenada. Pânico em Arcádia, cheia de abelhas assassinas. Seleção sobrenatural. Os mais fortes teoremas, os melhores adaptados estão autorizados a prosperar e se propagar, os fracos são sushi. Certamente esta é Thelema hardcore em ação, além de representar uma old-school produtiva e autêntica, o caos que deve aquecer o coração de qualquer um. De tal aplicação vigorosa do processo evolutivo, é difícil ver como a magia que é um campo de conhecimento poderia colher benefícios ao fazer o contrário.

Por outro lado, ao aceitar um meio menos cultivado, menos refinado onde a concorrência pode ser feroz e barulhenta, magia estaria fazendo não mais do que expor-se às mesmas condições que dizem respeito aos seus parentes mais socialmente aceitos, a ciência e a arte. Apresentar uma nova teoria para explicar a massa faltante do universo, ao apresentar alguma instalação conceitual difícil para o Prêmio Turner, é preciso aceitar sem dúvida que a sua ideia vai ser submetida ao escrutínio intenso, em grande parte hostil e proveniente de algum campo rival. Cada partícula de pensamento que desempenhar um papel na construção de sua teoria será desmembrada e examinada. Apenas se nenhuma falha for encontrada o seu trabalho será recebido no cânone cultural. Em toda a probabilidade, mais cedo ou mais tarde o seu projeto de estimação, a sua teoria de estimação vai acabar obsoleta e só servira para decorar as paredes manchadas dessas velhas, arenas públicas impiedosas. Assim é como deve ser. Suas ideias são transformadas e atropeladas, mas o próprio campo é reforçado e melhorado por este teste incessante. Ele avança e sofre mutações. Se o nosso objetivo é verdadeiramente o avanço da visão de mundo mágica (em vez de avanço de nós mesmos como seus instrutores), como alguém poderia opor-se a tal processo?

A menos, claro, que o avanço desta natureza não seja realmente o nosso objetivo, o que nos traz de volta às nossas perguntas de abertura: o que exatamente estamos fazendo e por que estamos fazendo isso? Sem dúvida, alguns de nós estão envolvidos na busca legítima de entendimento, mas isso levanta a questão de como fazemos isso. Temos a intenção de usar essa informação de alguma maneira, ou apenas de acumular conhecimento exclusivamente para seu próprio bem, para nossa satisfação particular? Será que desejamos, talvez, ser vistos como sábios, ou melhorar nossas personalidades sem brilho com notas de conhecimento secreto? Buscamos algum status que pode ser alcançado mais facilmente por uma perseguição do ocultismo, onde convenientemente, não existem padrões mensuráveis para que possamos ser julgados? Ou será que nós nos alinhamos com a definição de Crowley das artes mágicas como trazer mudanças de acordo com a sua vontade, o que quer dizer alcançar alguma medida de poder sobre a realidade?

Esta última, suponho que seria o motivo atualmente mais popular. O crescimento da Magia do Caos na década de 1980 centrado em uma série de promessas que o promoveram, como o mais notável, entre elas a entrega de um sistema de magia baseado em resultados que era prático e fácil de usar. O desenvolvimento único e altamente pessoal de Austin Spare da magia com sigilos, foi-nos dito, poderia ser adaptado para aplicação quase universal, iria fornecer um simples, infalível meio pelo qual o desejo do coração de alguém poderia ser tanto fácil e como imediatamente cumprido. Pondo de lado a questão “Isso é verdade?” (E a resposta gritante “Se for, então por que todos os seus defensores Ainda mantem seus dias de trabalho, em um mundo globalizado, certamente cada vez mais longe dos desejos do coração a cada semana que passa?”), talvez devêssemos perguntar se a prossecução desta atitude pragmática, causal com trabalho oculto é realmente um uso digno de magia.

 

Se formos honestos, a maior parte da feitiçaria causal como é praticado provavelmente é feita na esperança de realizar alguma mudança desejada em nossas duras circunstâncias materiais. Em termos reais, isso provavelmente envolve pedidos de dinheiro (mesmo Dee e Kelly não estavam acima chamando os anjos por um centavo de vez em quando), os pedidos de alguma forma de gratificação emocional ou sexual, ou talvez em algumas ocasiões um pedido para que aqueles que sentimos ter nos menosprezado ou ofendido sejam punidos. Nesses casos, mesmo em um cenário menos cínico, onde o propósito da magia é, digamos, ajudar um amigo em sua recuperação de uma doença, podemos alcançar nossos objetivos muito mais, certa e honestamente, bastando cuidar dessas coisas em um plano material não divino?

Se, por exemplo, é o dinheiro que exigem, por que não imitar o verdadeiro exemplo dado por Austin Spare (quase o único entre os magos que aparentemente viu o uso da magia para atrair mera riqueza como uma anátema) em relação a tais preocupações? Se quisermos dinheiro, então por que não podemos magicamente levantar nossas bundas gordas, e executar magicamente algum trabalho pela primeira vez em nossas vidas mágicas sedentárias, e ver se as moedas solicitadas não são magicamente algum tempo depois somadas as nossas contas bancárias? Se for o afeto de algum objeto de amor não correspondido que estamos buscando, a solução é mais simples ainda: sorrateiramente esperá-la em alguma esquina, e então estuprá-la. Afinal, a miséria moral de que você fez não será pior, e pelo menos você não vai ter arrastado o transcendental j, pedindo que os espíritos a segurem para você. Ou se há alguém a quem você realmente vê como merecedor de alguma retribuição terrível, ao invés de colocar seu nome embaixo de uma clavícula de Salomão porque não avançar direto sobre ele, como um cão pegando um osso, cortando-o com uma navalha do Frankie ou do Big Stan. O capanga contratado representa a decisão ética de escolha quando comparado com o uso de anjos caídos para com o trabalho sujo (isto é assumindo que o que vai volta para casa do cara que mandou, e talvez mesmo, você sabe, ficando com ele e seguindo em frente, não são opções viáveis). Mesmo o exemplo do amigo doente citado anteriormente: basta ir lá e visitá-lo. Apoiá-lo com o seu tempo, o seu amor, o seu dinheiro ou a sua conversa. Cristo! Enviar-lhe um cartão com um coelho de aparência triste dos desenhos animados na parte dianteira só fara você se sentir melhor, não ele. Magia intencional e causal poderia muitas vezes parecer ser sobre a realização de um fim bastante comum sem fazer o trabalho normal associado a ele. Podemos muito bem fazer melhor ao afirmar, como Crowley, que as nossas melhores e mais puras ações são aquelas realizadas “sem ânsia de resultado”.

Talvez sua máxima famosa, onde ele defende que nós devemos procurar “o objetivo da religião” utilizando “o método da ciência”, por mais bem intencionada que pareça, poderia ter levado a comunidade mágica (como é) a esses erros fundamentais. Afinal, o objetivo da religião, se examinarmos as origens latinas da palavra em religare (a raiz compartilhada com outras palavras como “ligamento” e “ligadura”), parece implicar que é melhor que todo mundo esteja “preso em uma crença”. Este impulso à evangelização e conversão deve, em qualquer aplicação no mundo real, chegar a um ponto onde aqueles vinculados por uma ligação virem para cima e contra aqueles ligados a outro conceito. Neste ponto, inevitavelmente, e historicamente, ambas as facções irão prosseguir a sua vontade programando-se para vincular e engolir a outra em sua única e verdadeira crença. Então nós vamos massacrar os taigs, os aguilhões, os goys, os Yids, os kuffirs e os ragheads. E quando isso historicamente e, inevitavelmente, não funciona, nós sentamos e pensamos sobre as coisas por um ou dois séculos, nós deixamos um intervalo decente, e então nós fazemos tudo de novo, o mesmo que antes. O objetivo da religião, enquanto claramente benigno, parece errar o alvo por uma ou duas milhas, lançada pelo recuo. O alvo, a coisa que eles estavam querendo acertar, fica lá ilesa, e as únicas coisas atingidas são Omagh ou Cabul, Hebron, Gaza, Manhattan, Bagdá, Kashmir, Deansgate, e assim por diante, e assim por diante, e assim por diante, para sempre.

A noção de unir está na raiz etimológica da religião é também, de forma reveladora, encontrada no ícone simbólico de varas amarradas, na aparência, o que gera o fascismo á longo prazo. O fascismo, com base em conceitos místicos como sangue e ‘volk’, é mais apropriadamente visto como religião do que como uma postura política, política supostamente baseada em alguma forma de razão, no entanto equivocada e brutal. A ideia compartilhada de presos a uma fé, uma crença; que na unidade (assim, inevitavelmente, na uniformidade) existem linhas de força, parece antitético à magia, que de alguma forma, é certamente pessoal, subjetiva e pertencente ao indivíduo, à responsabilidade de cada criatura sensível por chegar ao seu próprio entendimento, e assim, fazer a sua própria paz com Deus, o universo e tudo mais. Então, se a religião pode ser usada para encontrar um equivalente político próximo no fascismo, pode ser dito que a magia tem como equivalente politico mais natural à anarquia, o oposto do fascismo (decorrente de archon ou “nenhum líder”)? Que, naturalmente, nos leva de volta aos templos queimados e postos a baixo, despossuídos e sem espaço para os cabeças de ordem, a terra queimada e a abordagem anárquica e desértica natural à magia, como sugerido anteriormente.

A outra metade da máxima de Crowley, em que ele promove a metodologia da ciência também parece ter suas falhas, mais uma vez, por mais bem intencionada. Baseando-se nos resultados materiais, a ciência é talvez o modelo que levou as artes mágicas a sua causal decadência, como descrito acima. Além disto, se aceitarmos os caminhos da ciência como um ideal processual a que nossos trabalhos de magia podem aspirar, não caímos no perigo de também adotar uma mentalidade materialista e científica no que diz respeito às inúmeras e diferentes forças que preocupam o ocultista? Um cientista que trabalha com eletricidade, por exemplo, irá justamente considerar a energia como um valor neutro, um poder irracional que pode ser facilmente usado para executar os trabalhos de um hospital, ou acender um lava-lamp, ou para fritar um negro com mentalidade de nove anos de idade, no Texas. Magia, por outro lado, na experiência pessoal, não parece ser neutra em sua natureza moral, nem parece sem sentido. Pelo contrário, ao que parece, é um modo de estar ciente e ativamente inteligente, viva, em vez de viver em cima do muro. Ao contrário da eletricidade, há a sugestão de uma personalidade complexa, com características quase humanas, tais como, por exemplo, um aparente senso de humor. Ainda bem, quando se considera o desfile de truques pomposos de entretenimento que tem sido realizados e tolerados ao longo dos séculos. Magia, em suma, não parece estar lá apenas para ativar sigilos, que são versões astrais do gadget economizando o trabalho ou o aparelho. Ao contrário da eletricidade, pode se pensar que tem a sua própria agenda.

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Fossil Angels foi escrito por Alan Moore em dezembro de 2002, para ser publicado na KAOS # 15. KAOS # 15, na verdade nunca foi publicado, e o artigo ficou sem espaço desde então. (Mais informações sobre KAOS e por que não foi publicado estão neste artigo no Bleeding Cool.) Eu tive a sorte de receber vários textos de Alan Moore do próprio Alan, há alguns anos, e este estava entre eles. Perguntei se poderia publicá-lo e, quando apareceu outra publicação interessada nele, Alan me disse que eu estava livre para ir em frente. Então, eu tenho muito orgulho de ser autorizados a apresentar este artigo aqui na Glycon para a sua primeira publicação.  Foi escrito em duas partes, com um link para a segunda, no final desta página. Este artigo é e continua sendo, de propriedade exclusiva, com todos os direitos autorais pertencentes ao seu criador, Alan Moore.

Texto de Alan Moore. Tradução Giuliana Ricomini

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/anjos-fosseis/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/anjos-fosseis/

As Rainhas Dragão

Lord A .’. (RedeVamp)
Excerto do livro Mistérios Vampyricos

Existe um relato intitulado “As Rainhas Dragão” que fala sobre os mitos de origem da Transilvânia, o qual descobri ainda na década passada, escrito pelo pesquisador David Wilson – mais conhecido como Awo Falokun Fatunmbi, um oraculista especializado no “Ifa” dos africanos. O artigo foi escrito como uma revelação recebida da parte de seus parentes, originários de Arad na Transilvânia, e que tinham o sobrenome Fenyes, cujo significado é “portador da luz”, mais ou menos como o “cohen” hebreu – tal sobrenome pode indicar uma função ritual nas respectivas culturas citadas. Logo no começo do artigo, somos apresentados ao avô Carlos Fenyes, advogado da família Habsburg, e seu filho Adelbert (Adelburt), que era médico da mesma família nos tempos que antecederam a Primeira Guerra Mundial – este também foi embaixador austríaco no Egito. Para quem não conhece os Hapsburg, eles foram a última família que ocupou o trono do Sacro Império Romano-Germanico; alegavam descendência de Cristo, bem como lhes era atribuída a posse da lança de Longinus, a qual inclusive teria perfurado o peito do Messias crucificado e tornava invencível quem a detivesse, tanto que na Segunda Guerra o próprio Hitler não sossegou até consegui-la. A lança também pertence aos mistérios do Graal e tem muita história – sua aparição mais recente foi na trama do filme Constantine, com Keanu Reeves.

Segundo consta, o título de Sagrado Imperador doado à tal família Hapsburg pela Igreja Católica comprou o silêncio deles em sua peculiar história familiar. Particularmente, dado o tom germânico, eu pensaria em Balder como ancestral totêmico e deus sacrificado, mas isso não importa. Segundo o próprio autor, ele detém provas externas acumuladas ao longo de quatro décadas de pesquisa e acredita que a história como nos é ensinada nas escolas, condicionada por interesses de controle político e filtrada pelo academismo e o pensar moderno, e bastante diferente daquilo que realmente aconteceu – e isso tem a ver com a posse de uma tecnologia espiritual que deveria ser um presente para todos e jamais monopolizada em benefício de poucos. E tudo isso pode ser encontrado na história da própria Transilvânia.

Historiadores dizem que a linguagem escrita começou na Europa há quase 5 mil anos; na Transilvânia, há amostras encontradas em sítios arqueológicos que datam de 10 mil anos atrás – estranho intervalo que parece ser ignorado pelos acadêmicos por romper a conformidade de suas ideias. Na mesma região, também foi encontrado um mapa de porcelana com características topográficas exatas. O mapa é impossível de ser datado, mas itens que estavam enterrados juntamente ao mapa foram datados como tendo 20 mil anos de idade. Então, no tempo em que os europeus supostamente estariam fabricando ferramentas toscas de pedra, também estariam forjando mapas em ajuste exato de escala. Alguma coisa está faltando aí, pois o mito da Criação da Transilvânia diz que um caçador seguia um antílope do norte da África até a região das montanhas do que agora é a Roménia.

Segundo David Wilson, existem evidências de que essa região era uma colônia de mineração do antigo Egito. Os egípcios sabiam, compreendiam e usavam os segredos da alquimia como base para o processamento do metal e a transformação do espírito humano. A história acadêmica tende a dispensar a noção da alquimia como uma ciência real, e a matéria recebe pouco estudo sério nos tempos de hoje. Alquimia, da palavra alkemit ou Ala kemit, significa “luz da terra de kemit” ou “luz da terra negra”. A terra do Egito ao longo do Rio de Nilo é rica em platina. Por um processo de fundição, os egípcios conseguiam extrair irídio da platina e, para Wilson, tal elemento assumia importante caráter sagrado nos ritos iniciáticos – permitindo que os adeptos pudessem ver Deus em um arbusto ardente, ou seja, ver através dos véus e realizar jornadas em duplo etéreo.

Na Transilvânia, os segredos da alquimia e desses mistérios eram guardados pelas misteriosas “Rainhas Dragão”, assim como no Egito – um curioso sacerdócio que se mistura com os dragonistas (escrevia assim há quase 20 anos, mas hoje prefiro draconiano) nesse estranho artigo. Suas origens jazem no imaginário atribuído aos “vigias” e “anjos caídos”, para os místicos, e nas estrelas cadentes e meteoritos, para os míticos.

Aparentemente, houve um dilúvio universal que teria exterminado tais sacerdotisas ou quem sabe uma raça com sangue de dragão. Mas aquelas que moravam na Transilvânia conseguiram escapar para as regiões que atualmente pertencem ao Iraque e ao Egito, conforme é narrado no próprio mito da criação da Transilvânia.

Todo mito de criação tende a ser etnocêntrico e especulativo. Em todo caso, a tradição das Rainhas Dragão existia nas regiões montanhosas da Romênia, na antiga cultura acadiana da Suméria e no começo das dinastias egípcias.

Bárbara von Cilli

David também aponta que o escopo de influência dessas mulheres abrangeu o sul da Europa, o norte da África e porções do Oriente Médio, que possuíam uma cultura única, composta de uma confederação solta de Cidades-Estados. Essa cultura recebeu nomes diferentes por historiadores pronomes que refletem a influência do deslocamento de poder entre Cidades-Estados mas falham na precisão da apreciação espiritual comum, ligações científicas e culturais que sustentaram o desenvolvimento desta região. As Rainhas Dragão eram responsáveis pela consagração ritual de reis na Bacia Mediterrânea. Elas possuíam templos no atual Iêmen, no oeste da Nigéria e no sul da França.

Antigamente um rei não podia reinar a menos que fosse ungido pelas Rainhas Dragão, o processo de unção era feito com uma mistura de gordura de crocodilo e sangue menstrual. As Rainhas Dragão tinham abundância de certos hormônios, que podiam ser usados para abrir o terceiro olho, dando ao rei ungido o dom da clarividência. A habilidade de se produzirem os hormônios necessários era considerada genética, então para ser uma Rainha Dragão era necessário também ser filha de uma Rainha Dragão.

Essas mulheres tinham poder de veto efetivo sobre aquele que iria reinar e, como consequência, a tradição desenvolvida fez com que as Rainhas Dragão se tornassem a primeira esposa do rei e, para proteger sua herança genética, elas se casariam com seus irmãos. Esta é a origem do termo sangue azul. Para manter o terceiro olho aberto, os reis ungidos precisavam ingerir regularmente um ritual preparado de sangue menstrual das Rainhas Dragão, assim eles fariam parte do tribunal real.

No Oriente Médio, as Rainhas Dragão viviam em comunidades chamadas Haréns, mas não eram as rameiras descritas na literatura ocidental. A tradição de beber sangue menstrual era chamada “fogo da estrela”, e tal cerimônia foi denegrida pela Igreja Católica pelas histórias de vampiros.

As Rainhas Dragão não eram mordidas por regentes demoníacos; elas preparavam suas poções com carinho e gostavam de beneficiar a comunidade. Acreditava-se que se o rei estivesse alinhado com seu mais alto self como resultado de contato com outras dimensões, ele reinaria em benefício do povo para manter-se alinhado com o plano original da Criação. Em outras palavras, a vida era feita para o benefício de todos. As Rainhas Dragão também eram as guardiãs do mistério da alquimia. A arte ancestral da alquimia foi tanto usada para transformar o metal quanto como medicina para iniciação. A alquimia é essencialmente o aquecimento da platina para fazer irídio.

Na Bíblia o “irídio” é chamado “maná”, que significa “o que é?”. O irídio ou mana era ingerido como parte de um processo ritual. O iniciado jejuava por 30 dias e ingeria mana por dez dias. No fim do processo, o iniciado era descrito como aquele que podia ver Deus em um arbusto em chamas. Essa iniciação é descrita no Livro do Gênesis, quando Moisés recebe os Dez Mandamentos. O processamento do “maná” exige fornos que geram grande calor, e as Rainhas Dragão podiam abrir portais interdimensionais para criar uma chama azul usada para fazer o “mana”. Essa chama tinha um tremendo calor, mas não queimava a carne humana, era chamada de “a chama eterna” e, uma vez acesa, não se apagava. O processo para fazer tal chama é descrito na literatura alquímica como a linguagem dos pássaros. Quando um portal interdimensional é criado vem a relampejar como um flash de câmera, e este lampejo é simbolicamente descrito como um espírito de pássaro. As Rainhas Dragão tiveram vários nomes que dependiam da cultura e região em que elas atuavam.

Esses nomes incluíam Isis, Hator, Maria e Sheba (como a Rainha de Sabá). Acredito que tenha existido um Jesus histórico, mas sua vida não possui uma precisão refletida na Bíblia. “Messias” quer dizer o “Ungido”, e esta é a palavra hebraica usada para descrever as iniciações das Rainhas Dragão.

Na cultura judaica, as Rainhas Dragão eram chamadas de “Maria”. Então, Jesus foi iniciado por Maria, sua mãe, e por Maria Madalena, sua irmã e esposa. Se olharmos para as tumbas dos faraós egípcios, notaremos que seus órgãos internos eram colocados em jarros separados. As Rainhas Dragão usavam esses órgãos como parte do processo de unção. A alquimia do “mana” é tal que, se você ingerir um órgão interno de alguém que faleceu, absorverá suas memórias e experiências de vida. Esta era a base para a crença de que os reis eram divinos. Eles literalmente recebiam a experiência coletiva de todos os seus predecessores. Por essa razão, o corpo de um rei ungido era importante para a instalação do próximo rei.

Alguns filmes e romances vampirescos até hoje trazem releituras dessa curiosa ideia ligada à antropofagia ritualística de certas culturas – incluindo algumas previamente mencionadas em outras páginas, tais como Schytes (Cítas) e os Getae.

Conforme anunciei é, sem dúvida alguma, um artigo que explora a mitologia e a história de forma audaciosa, embora duvido de que haja acadêmicos dispostos a fundamentá-lo ou oferecer algum detalhamento sobre os muitos tópicos lá presentes.

Reproduzi apenas a parte mais convergente para nosso estudo e com o tema deste livro. Mas aqueles que encontrarem o artigo na íntegra observarão apontamentos do autor que demonstram como o Império Romano decidiu criar imperadores sem a dependência das Rainhas Dragão o que os levou às suas políticas de extermínio ao longo do Crescente Fértil e da região da Galileia, para assegurar que nenhum novo rei ungido surgisse naquela região.

O autor também acredita que o corpo de Jesus foi removido da região e levado para o sul da França, para evitar que este caísse nas mãos romanas, o segredo da atual posse do corpo inclusive é guardado pela família do autor, no caso o David Wilson. Ele também explica que a história europeia é pautada no conflito entre os que regiam por iniciação obtida com as Rainhas Dragão e aqueles que regiam sob as bênçãos do papa que comandava a nova regra divina – sua aceitação levou um milênio e meio de confrontos e programas de extermínio em massa daqueles que estiveram reunidos com as “Rainhas Dragão”. Todas as cruzadas e mesmo a caça inquisitorial às bruxas teriam sido os tentáculos desse plano para assegurar o extermínio de todas as Rainhas Dragão e suas descendências.

Mas elas sobreviveram, mesmo que poucas, e seu alcance era longo, Wilson acredita que os Templários e algumas Ordens Monásticas ou de Cavalaria tenham sido criações veladas delas para preservar descendentes e recuperar artigos importantes do seu culto.

Eleanor de Aquitania

Gosto de pensar que talvez algumas rainhas, como Eleanor de Aquitânia (velada criadora do romance de cavalaria e por extensão do tantra ocidental incluso nessas obras) tivesse sido uma delas. Bem como muitas outras damas que vestiram o manto azul de Nossa Senhora e foram patronas de muitas dessas ordens; sincretismo é sempre uma ferramenta curiosa ao lançarmos nossos olhares rumo ao passado. Sábias dragonistas, hábeis em sua invisível arte, jamais se deixariam pegar fácil e certamente estariam por detrás dos meandros do poder. O que não me deixa esquecer de Bárbara von Cilli e até mesmo Elizabeth e Zsofia, da Famila Bathory, ao menos próximo do contexto vampírico que exploramos neste livro.

Como atribuir elementos míticos e místicos às chamadas Catedrais Góticas é tema recorrente no ocultismo, e próprio David Wilson aponta que elas foram construídas para guardar os segredos dessa alquimia das Rainhas Dragão e que sua grande Deusa era Ísis, velada nos subsolos como uma Madona Negra, onde povos nômades da Transilvânia secretamente iam rezar em suas rotas de peregrinação pelo mundo.

A beleza e a importância do culto das Madonas Negras bem como sua expressão da força maior são exploradas no blog Cosmovisão Vampyrica, em, www.redevamp.com.

Infelizmente, os Templários foram destruídos, como bem sabemos, e seu legado e sabedoria tomados pelos membros ávidos de poder do clero e da monarquia não iniciada nos mistérios das “Rainhas Dragão” e acabaram sendo desvirtuados em muitos lugares. O sacrifício de garotas virgens (e que ainda não houvessem menstruado) atos de pedofilia acabaram sendo algumas das práticas erróneas e criminosas mais comuns associadas com esse contexto.

As acusações de nobres beberem o sangue de terceiros – comum da parte dos protestantes para com algumas famílias no Leste Europeu – podiam ser verdadeiras, talvez fossem apenas propaganda política para intimidar adversários ou, ainda, quem sabe, tentativas posteriores dos descendentes do “Sangue do Dragão” tentando recuperar fundamentos que apenas sentiam o potencial para obter, mas que agora estavam fragmentados ou não acessíveis.

Em todo caso, o artigo de David Wilson se encerra com o autor em tom pesaroso pelo descaso dos administradores do museu criado por seu avô na velha mansão Fenyen em Pasadena, Califórnia, para com a rica história de sua família, que tem no brasão a imagem do Dragão Alado, das antigas Rainhas Dragão.

Um fato relevante é que no transcorrer dos séculos tanto a Igreja Católica romana, como a Reforma e o Protestantismo, e mais recentemente o partido comunista fizeram o possível para denegrir e destruir a herança pré-cristã da Transilvânia. Há uma perene influência ou sincronicidade com a cultura dos dragões da Suméria através dos Cárpatos.

O próprio David Wilson aponta em uma das postagens do seu blog que atualmente existem mais de 26 famílias que carregam o dragão vivendo na região. Vale observar que dragões e povos serpentes intervindo e interagindo com humanos existem em diversas eras e culturas – mais recentemente esses mitos são explicados como os anunnaki e outros alienígenas reptilianos na linguagem moderna – será que eles passaram por Marte antes de chegarem aqui?

Particularmente prefiro o tom conotativo dos mitos e ritos mais antigos.

Um epílogo ao Morte Súbita

Lord A:. em 31.05.2022

Meu livro Mistérios Vampyricos foi pesquisado e redigido entre os anos de 2003-2012 e publicado em agosto de 2014 como sabem. Ainda hoje o lançamento dele no stand da Madras Editora na Bienal do livro, em São Paulo, foi uma marca indelével – lembramos até o sabor do vinho chileno da festa. A obra foi bem sucedida. Reencontrar este trecho do livro em 2022 (quase uma década depois da minha última revisão) é como achar uma garrafa selada com uma mensagem dentro a beira mar. Agradeço ao Thiago Tamosauskas por reviver este trecho aqui no Morte Súbita.

Dragões, anjos caídos ou simplesmente estrelas cadentes e meteoritos? Todos são fascinantes per se! Eles encarnam aqueles relatos atribuídos a “Memória” ou a “Ancestralidade” que é escrita na pedra e no sangue; diametralmente oposta à história escrita em papel ou pergaminho.Que sempre serviu na maior parte das vezes para justificar alguns babacas possuírem as chaves do arsenal, da biblioteca, da prisão e do palácio – e quase sempre essa última chave sempre foi a mais importante para eles. Sem tudo isso esses caras são e sempre serão o que foram um bando de estúpidos. Essa abstração chamada humanidade sempre e em sua maioria foi composta por eles. Desde o neolítico e estes serviam para morrerem como água. E para alguns dos “nossos” transmitirem e ressurgirem através de nós em tempos melhores. Dizem que todas obras ocultistas da modernidade oscilam entre dois pólos – Phil Hine e Michael W Ford para iniciantes versus Kenneth Grant e Michael Bertiaux para quem manja. É o que dizem. No entanto, se ouvidam de uma Maria de Naglowska da vida e outras mulheres muito mais interessantes.

Ainda hoje uma taça de vinho a beira de uma fogueira na floresta em noite de lua negra oferece algo; que jurisprudentes e sacerdotes (abraâmicos) da história escrita pelos povos do livro jamais conseguirão apagar.Sejam generosos com o que lhes direi: ainda assim prefiro interpretar tais assuntos por viés do conotativo, do subjetivo, da alegoria, do simbólico e metafórico tão caro e precioso a alquimia. Então, ao concluírem a apreciação dos meus livros ou este texto não saiam por aí buscando no Mercado Livre por irídio, banha de crocodilo ou fazendo propostas pouco usuais para vossas mulheres. Sejam, digamos, mais razoáveis. Saber o mito não implica ter a receita do rito e do seu preparo ou condução. A vida adulta implica saber disso. E saboreiem mais noites de vinho e a luz de uma fogueira, com limões vermelhos jogados dentro dela antes de acender as chamas.

No livro falei e pontuei bastante o relato do grande David Wilson, ele usava seu nome civil nas redes sociais, na época que escrevi Mistérios Vampyricos; mas hoje é mais conhecido por seu nome religioso como Awo Falokun Fatunmbi e tem um trabalho extraordinário promovendo o Ifá e sendo babalawo na América do Norte. Para investigar e entender as origens de sua família húngara, seguiu curiosas visões de seus ancestrais que o levaram inesperadamente à África. Dentre muitos de seus livros Ancestral Memories, aprofunda seu relato sobre as Rainhas Dragões. Todas as suas obras publicadas falam por si e se encontram disponíveis, lá na Amazon e podem ser conhecidas neste link.

As tais Rainhas Dragões foram aquelas que nos primórdios eram avatares de grandes deusas em tribos notáveis e impérios destacáveis.Sua descendência, sua criação e suas dinastias eram de outra estirpe. O que nos leva a um “Sangue” ou ainda o papo de “Sangue-Bruxo” caro aos tradicionalistas bruxos ingleses. Também falamos de uma raça humana em aparência que figura em histórias de Lovecraft, Yeats, Machen e antes deles nas fábulas onde há seres feéricos. E que depois da idade média foram sintetizadas meramente como bruxas ou vampiras. É uma história talhada na pedra e no “Sangue”, não em pergaminhos delicados ou feitos para evitarem diálogos com o velho norte. O que mais posso lhes dizer sobre tais diálogos é o seguinte – quando o resultado dele parecer biografia e cronologia da editora Marvel, você já perdeu o fio da meada. É sobre lampejos e conexões.

Vocês podem chamar as Rainhas Dragões por outros nomes também, elas estarão lá como sempre estiveram. Estão aqui desde o início, como me confessaram incontáveis vezes.

Contos de fadas antigos e o folclore podem falar melhor disso do que textos acadêmicos – ou tabelas de ocultistas protestantes que juram saber até o cep de Lúcifer na Vila Madalena em São Paulo. Parem com isso! Falamos do que vem desde (pelo menos) o neolítico e jaz nos estratos e camadas cerebrais igualmente primitivas que habitam a camada dos imperativos do nosso cérebro, desvelando como somos mais irracionais e movidos por desejos realizados (ou não realizados) do que gostamos de pontuar e assumir nas redes sociais. Curtam o calor e a luz da fogueira, em uma floresta nas noites sem luar – saboreiem o vinho! Quem sabe no céu escuro anjos caídos, dragões ou estrelas cadentes e meteoritos não lhe contem tudo que estiver preparado para receber?


Lord A.’. é autor de diversos livros entre eles, Mistérios Vampyricos, Deus é um Dragão e a série Codex Strigoi. Desenvolve ainda uma série de iniciativas e eventos culturais para a divulgação da Cosmovisão Vampyrica e da comunidade vamp no Brasil bem como as transmissões da RedeVamp, o site redevampyrica.com, o podcast Vox Vampyrica, e a comunidade Campus Strigoi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/as-rainhas-dragao/

Principais Tradições Taoistas

Gilberto Antônio Silva

O conhecimento de algumas das principais tradições taoistas é muito importante, pois cada uma delas possui características particulares. Saber alguma coisa sobre essas características nos auxilia a seguir o fio condutor das práticas taoistas e a compreender melhor seus conceitos e costumes.

Taoismo Huang-Lao: é uma escola de pensamento formada entre os séculos IV e II a.C. que traria principalmente a filosofia de Huangdi, o Imperador Amarelo, e de Laozi, autor do Tao Te Ching. Incorporou também elementos da alquimia e da religião tradicional chinesa (Shendao) e outras escolas como a Naturalista e a de Zhuangzi. Embora a Tradição Huang-Lao em si não possua doutrinas religiosas nem ensinamentos sistemáticos, foi nesse caldeirão que se moldou o Taoismo que viria a se difundir na Dinastia Han do Leste (25-220) e dar início às correntes religiosas taoistas. Era eminentemente filosófico e tinha a alquimia e a busca da imortalidade como de grande importância. Dentro dessa tradição a Medicina Chinesa teve um grande desenvolvimento, reunindo conceitos e fórmulas e sistematizando-as.

Taoismo Zhengyi (Unidade Ortodoxa): também conhecida como “Taoismo dos Mestres Celestiais” (Tianshi Dao). Fundada por Zhang Daoling em 142, foi a primeira organização taoísta e é ainda hoje uma das maiores e mais importantes. Seu fundador dizia ter recebido por transmissão divina do próprio Laozi a “Poderosa Comunidade da Unidade Ortodoxa” (Zhengyi Meng Wei). Teve seu quartel-general no Monte Longhu (Montanha do Dragão e do Tigre).

Eles crêem no Tao como centro de criação e seu representante, Lord Lao. Tem o Rei de Jade como representação da Consciência Universal que rege o cosmos. Possui diversos preceitos a serem seguidos como não praticar o mal, não se considerar sempre certo, não reverenciar a fama, ser sempre modesto e humilde, não desperdiçar sua essência e Qi, não matar ou falar sobre matar. Seus sacerdotes podem se casar e viver em casa com sua família, além de poder comer carne e beber vinho.

Existem duas ramificações principais: Hongtou (“Cabeça Vermelha”) e Wutou (“Cabeça Preta”). Essa diferença inicialmente se deve a ornamentos usados na cabeça durante as cerimônias. O termo “preto” significa que o sacerdote cuida dos mortos, faz cerimônias fúnebres. Já o “vermelho”, cor especial para os chineses, indica que ele lida com o sobrenatural mas também faz cerimônias de cura para os vivos..

Taoismo Shangqing (Suprema Pureza): segue principalmente a escritura “Livro Perfeito da Grande Caverna da Suprema Pureza” (Shangqing Dadong Zhenjing). Foi iniciada por uma mulher, Wei Huacun, filha de um alto oficial da corte Jin e assistente da Escola dos Mestres Celestiais. Mas o patriarca que organizou a tradição foi Tao Hongjing (456-536). Esta é uma importante linhagem que tomou parte na maturação do Taoismo que ocorreu na Dinastia Tang. Seu quartel-general era em Maoshan

Sua criação atraiu grande número de aristocratas e pessoas de grande educação. A ênfase se deu no desenvolvimento individual através da leitura e recitação de textos e na meditação e visualização, afastando-se de práticas místicas como talismãs e alquimia. Ele inova no sentido de aproximar o divino e sagrado do praticante de modo direto, sem intermediários como sacerdotes, por meio principalmente da compreensão e recitação dos textos da linhagem. A comunhão com o Tao torna-se um processo interno conduzido pela quietude.

Taoismo Lingbao (Tesouro Luminoso): tinha como escritura principal o “Livro dos Cinco Talismãs do Tesouro Luminoso” (Lingbao Wufu Jing) e a “Escritura da Salvação do Tesouro Luminoso” (Lingbao Duren Jing). Essa tradição pregava que o adepto não tinha apenas que cultivar a si mesmo de modo a alcançar a imortalidade (o Tao), mas que tinha que ajudar as outras pessoas a obtê-lo também. Seu quartel-general era no Monte Gezao.

Causou grande impacto na formalização dos rituais taoistas, enfatizando a prática litúrgica especialmente nos Ritos de Purificação (zhai) e nos Ritos de Oferenda (jiao), também conhecidos como Rituais de Renovação Cósmica. Os rituais taoistas seriam formas de se harmonizar o mundo humano com o invisível.

O Taoismo Lingbao acabou por ser totalmente absorvido pelas tradições Zhengyi e Quanzhen, desaparecendo como linhagem autônoma mas deixando uma forte influência nestas escolas.

Taoismo Lou Guan (Torre de Observação): floresceu durante a Dinastia Sui e na Dinastia Tang. Sua origem remontava a Yin Xi, guarda de fronteira que recebeu o Tao Te Ching de Laozi. A escola enfatizava especialmente os ensinamentos de Laozi e foi responsável pela criação do primeiro mosteiro taoista. Dentre suas regras administrativas e normas de conduta figuravam cinco principais, fruto da influência budista sobre a estrutura monástica taoista: proibição de matar, roubar, mentir, praticar sexo desregrado e se intoxicar por bebida ou outro produto. Posteriormente essa escola declinou e foi absorvida pela Tradição Quanzhen.

Taoismo Quanzhen (Realização Completa): fundada por Wang Zhe, depois chamado de Mestre Chongyang, em 1170 na província de Shandong. Seu objetivo era conseguir unir o melhor das três tradições chinesas em voga – Taoismo, Budismo e Confucionismo – e incorporá-las em uma versão taoista. Para isso se afastou da confecção de talismãs, das cerimônias elaboradas e dos exercícios intrincados e colocou ênfase no autocultivo principalmente através da meditação sentada e da alquimia interna.

Ele enfatizou especialmente a simplicidade e a naturalidade encontrada em textos de Laozi e de Zhuangzi, incluindo o conceito de wuwei. Do Budismo aproveitou os conceitos de Karma e reencarnação (chamado pelos taoistas de “transmigração”). Estes acabaram influenciando outras linhagens. Também incentivava a leitura do “Clássico da Piedade Filial”, de Confúcio, que encoraja ajudar os outros e promover boas ações sempre que possível.

Valorizando a alquimia interna, Mestre Chongyang considerava que o “elixir dourado” era nossa verdadeira natureza e ajudar os outros e permanecer com o espírito tranqüilo e transparente era muito importante para isso. As pessoas que desejavam cultivar sua verdadeira natureza não deveriam buscar fama, riqueza e lucros, mas eliminar raiva e preocupação, além de se abster de sexo e álcool.

A atual sede da Tradição Quanzhen é no Templo da Nuvem Branca, em Beijing.

Taoismo Longmen (Porta do Dragão): a mais importante das ramificações criadas pelos discípulos de Mestre Chongyang. Fundada por Qiu Chuji, o 5º líder da Tradição Quanzhen, que passou anos meditando na Caverna da Porta do Dragão, daí o nome da linhagem. Durante o início da Dinastia Qing, o 7º patriarca da Tradição Longmen introduziu o sistema de iniciações abertas, uma novidade no Taoismo. Caracteriza-se pela importância no cultivo do Tao, principalmente através da alquimia, e sua popularidade ainda é muito grande.

Taoismo de Wudang: o Monte Wudang sempre foi lugar de eremitas e reclusos que formaram pequenas comunidades para cultivar o Tao. Durante a Dinastia Ming foram, construídos dez grande mosteiros e pavilhões para cultivo do Tao e da alquimia interna. Foi lá que Zhang Sanfeng, o lendário criador do Tai Chi Chuan, viveu como eremita. Ainda hoje os templos de Wudang são morada de uma tradição taoista vigorosa e muito importante, bem como lar das artes marciais internas. O Taoismo de Wudang cresce a cada dia, com pessoas de todo o mundo se dirigindo à montanha para estudar as artes e práticas milenares taoistas, em especial as artes marciais e o Qigong.

* Este artigo é o resumo de um dos capítulos do livro “Os Caminhos do Taoísmo”, disponível para download gratuito em www.taoismo.org

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Gilberto Antônio Silva é Parapsicólogo e Jornalista. Como Taoista, atua amplamente na pesquisa e divulgação desta fantástica cultura chinesa. Site: www.taoismo.org

#Tao

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/principais-tradi%C3%A7%C3%B5es-taoistas

Antonin Artaud

1896 -1948

Rodrigo Emanoel Fernandes com Liege Seraphin e Maíra Silvestre

Artigo originalmente escrito para a disciplina “Interpretação II” do curso de Graduação em Artes Cênicas da Universidade Estadual de Londrina – UEL, sob orientação da Prof. Thaís D’Abronzo.

Onde outros propõem obras eu não pretendo senão mostrar o meu espírito.

A vida é queimar perguntas.

Não concebo uma obra isolada da vida. Não amo a criação isolada. Também não concebo o espírito isolado de si mesmo. Cada uma de minhas obras, cada um dos planos de mim próprio, cada uma das florações glaciares da minha alma interior goteja sobre mim.

Reconheço-me tanto numa carta escrita para explicar o estreitamento íntimo do meu ser e a castração insensata da minha vida, como num ensaio exterior a mim próprio, que me surja como uma gestação indiferente do meu espírito.

Sofro por o espírito não estar na vida e por a vida não ser o espírito, sofro por causa do espírito-órgão, do espírito-tradução ou do espírito-intimidação das coisas para as fazer entrar no espírito.

Este livro, suspendo-o na vida, quero que seja mordido pelas coisas exteriores, e em primeiro lugar por todos os sobressaltos cortantes, todas as cintilações do meu eu por vir.

Todas estas páginas se arrastam como pedaços de gelo no espírito. Perdoe-se-me a minha liberdade absoluta. Recuso-me a estabelecer diferenças entre qualquer um dos momentos de mim mesmo. Não reconheço no espírito nenhum plano.

É preciso acabar com o espírito, tal como com a literatura. Afirmo que o espírito e a vida comunicam a todos os níveis. Gostaria de fazer um livro que perturbasse os homens, que fosse como uma porta aberta e os conduzisse onde nunca teriam consentido ir, uma porta simplesmente conectada com a realidade.

E isso é tão pouco um prefácio a um livro, quanto, por exemplo, os poemas que o balizam ou a enumeração de todas as raivas do mal-estar.

Isto não é senão um pedaço de gelo mal digerido.

(Artaud: O Umbigo dos Limbos, in: O Pesa-Nervos; 1991, pg.13-14)

1. DOR… TEATRO… SOLIDÃO…

Antonin Maria Joseph Artaud (um nome completo raramente mencionado e surpreendentemente sugestivo), nasceu em 4 de setembro de 1896 na cidade de Marselha. Primogênito de uma família de nove irmãos, dos quais apenas três chegaram a idade adulta, em 1901 é acometido de uma grave meningite, da qual não se salvará sem seqüelas. Apenas o início de uma vida de constantes sofrimentos físicos e psíquicos originados de distúrbios no sistema nervoso central. Esse sofrimento, que Artaud nunca desistiu de tentar descrever das mais variadas formas, é de fundamental importância para a compreensão de seu teatro e suas idéias. Constantemente afligido por dores e uma sensação de opressão na cabeça, ombros e pescoço, Artaud afirmava ter sérias dificuldades em ordenar seus pensamentos e dar-lhes uma forma exterior.

A horrível compressão da cabeça e do alto da coluna vertebral, o peito opresso, as visões de sangue e de morte, os torpores, as fraquezas sem nome, o horror geral em que me encontro mergulhado com um espírito no fundo intacto, tornam inútil esse espírito.

(Artaud citado por Virmaux: Artaud e o Teatro;1978, pg10)

Esse “espírito intacto” era o que lhe garantia a lucidez necessária para a criação e para a capacidade de expor seu mal sem, entretanto, conseguir alivia-lo. Com o passar dos anos, Artaud torna-se obcecado com a idéia de que sua agonia (que não deixou de ser um estímulo cruel à sua necessidade imperativa de expressão que acabaria por leva-lo à arte e ao teatro) tinha uma origem metafísica:

Eu não tenho vida!!! Minha efervescência interna está morta! (…) Asseguro-te que não há nada em mim, nada naquilo que constitui a minha pessoa, que não seja produzido pela existência de um mal anterior a mim mesmo, anterior à minha vontade, nada em nenhuma das minhas mais hediondas reações, que não venha unicamente da doença e não lhe seja, em qualquer dos casos, imputável.

(Artaud citado em: Artaud e o Teatro;1978, pg.11)

Essa deterioração corporal e psíquica tornava extremamente difícil seu convívio social e a criação de elos verdadeiros com seus semelhantes. Artaud usa o teatro e sua capacidade única de expressão física, intelectual e – como não cansa de reiterar – metafísica, como seu meio privilegiado de comunicação, de grito. Sua prática teatral é permanentemente voltada para a idéia de uma “cura cruel”, para si mesmo e para a raça humana. Seu “corpo sem órgãos”, seu corpo novo, reconstruído, imortal, finalmente senhor de seu próprio destino e de sua própria anatomia.

Os primeiros passos no teatro dão-se a partir de 1920, quando muda-se para Paris, depois de passar por constantes internamentos em sanatórios, particularmente para desintoxicações, necessárias para manter em níveis aceitáveis a dependência do ópio, adquirida por ocasião dos primeiros tratamentos.

Preciso encontrar uma certa quantidade cotidiana de ópio. (…) pois tenho o corpo ferido nos nervos das medulas e isto é irremediável, incurável, absolutamente irremissível, não existe operação cirurgical que possa restituir ao organismo os nervos que ele perdeu.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.79)

Apesar de seu estado de quase miséria, sobrevivendo muitas vezes graças à cortesia de amigos que lhe ofereciam abrigo e comida, Artaud mantém uma atividade intelectual e profissional frenética, atuando em diversos espetáculos, publicando artigos e poesias e obtendo uma posição de destaque no movimento surrealista (que, posteriormente, criticaria por seu posicionamento político, de forma lúcida, porém cortante). O período de 1920 até 1932 viu o nome da Artaud crescer como uma figura ímpar e polêmica do teatro e da poesia francesas. Trabalhou em todas as frentes da atividade teatral: ator, encenador, cenógrafo, iluminador, escritor, sonoplasta e produtor, participando de inúmeras companhias sem pertencer realmente a nenhuma, exceto – em termos – o conhecido experimento do “Teatro Alfred Jarry”, cujos frutos foram quatro espetáculos e oito representações, entre 1926 e 1930. Além disso, não lhe faltaram oportunidades para trabalhar no cinema, em filmes notórios e raros como “A Paixão de Joana d’Arc”, de Dreyer (1928) e “Napoleão”, de Gance (1925-1927), interpretando Marat. Sem contar o desenvolvimento de roteiros de sua própria autoria, como “A Concha e o Clérigo”, mas suas relações com cinema serão sempre tumultuadas e frustrantes.

Em meros doze anos, Artaud notabilizou-se como um artista enérgico ao defender suas idéias. Suas críticas ao teatro de cunho psicológico, centrado no texto, deixando a encenação em último plano, eram correntemente reiteradas em seus artigos e manifestos, publicados nos periódicos artísticos da época.

(…) apresso-me em dize-lo desde já, um teatro que submete ao texto a encenação e a realização, isto é, tudo o que é especificamente teatral, é um teatro de idiota, louco, invertido, gramático, merceeiro, antipoeta e positivista (…)

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1993, pg.35)

Evidentemente, idéias defendidas de forma tão apaixonada e agressiva raramente passavam despercebidas, mesmo quando rechaçadas por críticos tão veementes quanto antiquados. Apesar das polêmicas, Artaud era um artista respeitado, muito embora esse reconhecimento não tornasse as coisas mais fáceis para um homem eminentemente solitário, morando em quartos alugados e tendo pouquíssimos amigos e, muito menos, amores (seu relacionamento com a atriz Génica Athanasiou teria sido sua paixão mais intensa e, em muitos aspectos, a mais frustrante).

Evocando o comportamento quotidiano de Artaud durante a época de sua participação no grupo surrealista, André Masson enfatizou “seu lado dandy, seu lado não gregário que o fazia chegar após os outros, partir antes de todo mundo, sempre só” (…). É também o testemunho de Anaïs Nin: “Irritável. Gagueja em alguns momentos. Sempre sentado em algum canto isolado, ele se afunda em uma poltrona como em uma caverna, como se estivesse na defensiva”(…)

(Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg. 161)

Esses fatores contribuíram para que, até o fim de sua vida, as cartas fossem uma de suas formas favoritas de expressão e onde sutilezas de sua obra podem ganhar aspectos esclarecedores.

2. CRUELDADE… ORIENTE… PESTE… TEATRO… E SEUS DUPLOS…

Mas foi a partir de 1931 que a crescente carreira de Antonin Artaud começou a tomar o rumo que o tornaria uma figura única na História do Teatro. Durante a Exposição Colonial, em Paris, assiste a uma apresentação de um grupo teatral de Bali. Esse contato com o Teatro Oriental marcará profundamente seu pensamento, quase como uma revelação. Nas evoluções dos “atores/bailarinos”, nos gestos perfeitamente codificados e nas temáticas de caráter metafísico e arquetípico, Artaud encontra os elos que faltam na formulação de suas próprias idéias sobre o Teatro e seu papel na Arte. Para Artaud, um teatro eficaz é aquele capaz de refazer a vida, o que não seria possível sem refazer profundamente a cultura no Ocidente. Toda a sua obra é guiada pelo desejo incessante de reencontrar um ponto de utilização mágica das coisas, recusando uma consciência estética fundada em simulacros e aparências face à realidade empírica das coisas. Ele coloca a questão da linguagem e da manipulação de signos em termos de forças mágicas e da relação mantida, através deles, com o cosmos e com o divino. Para Artaud, o Ocidente europeu é doente pois perdeu sua ligação com o divino, com a consciência cósmica.

Entre 1932 e 1935 publica em diversas revistas os textos que seriam futuramente organizados na forma do livro “O Teatro e Seu Duplo”, editado em 1938. Neles Artaud desenvolve seu projeto maior de refazer o Teatro Ocidental, apontando de maneira contundente os seus vícios, camisas de força e denunciando o abandono dos espetáculos por um público ansioso por emoções verdadeiras que não mais consegue encontrar num teatro que não representa verdadeiramente sua época.

O teatro de Bali revelou-nos uma noção de teatro física, não verbal, na qual o teatro está contido nos limites de tudo o que pode acontecer num palco, independentemente do texto escrito, enquanto que, tal como nós o concebemos no Ocidente, o teatro se aliou ao texto e por ele se encontra limitado. Para o teatro ocidental a Palavra é tudo e não há, sem ela, possibilidade de expressão; o teatro é um dos ramos da literatura, uma espécie sonora da linguagem e mesmo que admitamos uma diferença entre o texto falado no palco e o texto lido pelos olhos, se restringirmos o teatro ao que acontece entre as deixas, não conseguimos, mesmo assim aparta-lo da noção de um texto representado.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg. 75)

Diante dessa “ditadura do texto”, Artaud responde com uma proposta ampla de reestruturação da linguagem teatral, devolvendo ao teatro os elementos que considera “naturais” (no sentido de “primordiais”) na encenação e que foram, pouco a pouco, abandonados por um ocidente por demais atado às limitações do racionalismo.

Para mim, a questão que se impõe é de se permitir ao teatro reencontrar sua verdadeira linguagem, linguagem espacial, linguagem de gestos, de atitudes, de expressões e de mímicas, linguagem de gritos e onomatopéias, linguagem sonora, mas que terá a mesma importância intelectual e significação sensível que a linguagem das palavras. As palavras serão apenas empregadas em momentos determinados e discursivos da vida como uma luz mais preciosa e objetiva aparecendo na extremidade de uma idéia”

(Artaud:Linguagem e Vida; 2004, pg. 80)

Refazer a linguagem teatral para trazer o teatro de volta as suas origens ritualísticas. Nada de espetáculos de entretenimento, nada de psicologismos e narrativas sobre indivíduos. Artaud concebe um teatro para além do imediatismo político, social, psicológico ou moral, um teatro que expresse questões metafísicas (termo constantemente empregado em “O Teatro e Seu Duplo”).

Enquanto a alquimia, através de seus símbolos, é como um duplo espiritual de uma operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser considerado como o duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada, mas de uma outra realidade perigosa e típica, onde os Princípios, como os golfinhos, assim que mostram a cabeça apressam-se a voltar à escuridão das águas.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 49)

No “Manifesto do Teatro da Crueldade”, Artaud propõe a sua visão à comunidade teatral. De forma compacta e desconcertantemente direta, oferece os enunciados básicos de uma prática teatral que sempre se apressou a considerar “mais fácil de fazer do que de dizer”. Um teatro que utilizaria de uma linguagem de imagens e signos para oferecer uma “cura cruel” ao público, numa experiência mágica coletiva, na qual cada elemento da encenação – voz, corpo, iluminação, som, figurino, cor – seria meticulosamente planejado para levar o espectador a um estado de transe, uma transformação. Artaud concebe um espetáculo circular, através de um palco giratório, onde os espectadores ficam no centro e toda ação se dá ao redor, não havendo espaços vazios, integrando o espectador à própria encenação. Temas de caráter universal, uso de textos clássicos (como tragédias) como uma simples base para uma total re-criação em cena, personagens ampliadas à dimensão de deuses, de heróis, monstros, presença no palco de manequins gigantes, máscaras e objetos desproporcionais representando os duplos de ações, eventos e personagens acentuando o caráter metafísico da encenação, um jogo cuidadosamente planejado aonde nada pode ser deixado ao acaso, sob pena de sacrificar os efeitos mágicos específicos que o espetáculo deve provocar. Artaud, portanto, defende veementemente o domínio do encenador para orquestrar cada pequeno aspecto de uma montagem, numa época em que aquilo que se refere como parte da encenação, em contrapartida ao texto, costumava ser alvo de desprezo pela comunidade teatral. Para além dos temas e objetivos, o teatro de Artaud é um teatro que começa e se realiza no palco, com uma linguagem que se dá exclusivamente no palco, sendo o encenador (e não o autor de um texto pré-escrito) o responsável pela “escrita” dessa linguagem.

Nesse contexto, o ator é um elemento essencial mas passivo, já que sua iniciativa pessoal deve estar submetida às exigências da encenação.

O ator é, ao mesmo tempo um elemento de primeira importância, pois é da eficácia de sua interpretação que depende o sucesso do espetáculo, e uma espécie de elemento passivo e neutro, pois toda iniciativa pessoal lhe é rigorosamente recusada. Este é, aliás, um domínio em que não há regras precisas; e, entre o ator a quem se pede uma simples qualidade de soluço e aquele que deve pronunciar um discurso com suas qualidades de persuasão pessoais, há toda a distância que separa um homem de um instrumento.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 95)

Nos capítulos “Um atletismo afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, Artaud procura esboçar as técnicas e qualidades que o ator do Teatro da Crueldade deve buscar. No ator existe uma musculatura de atleta físico e uma outra musculatura que corresponde a localizações físicas dos sentimentos. Essa musculatura afetiva funciona como um duplo da outra, embora não atue no mesmo plano, e deve ser exercitada através da respiração. Para cada alteração dos sentimentos, existe uma respiração apropriada.

O ator, ao mostrar um sentimento, um estado de espírito, fisicamente pode parecer estar delirando, mas na verdade está consciente de tudo o que está fazendo, mantendo o controle através da respiração. O uso da memória emotiva ocorre apenas num primeiro momento, guardando as imagem das reações físicas e da respiração provocadas no corpo para usa-las num segundo, num terceiro, e em vários momentos, constituindo um repertório para o ator. Os sentimentos não devem ser interpretados como abstrações, mas como elementos “materiais”, palpáveis, sob as quais ele pode ter um domínio. “Através da respiração o ator pode representar um sentimento que ele não tem”, ou seja, ele pode chegar num sentimento através da respiração, e a respiração pode nascer de um sentimento.

Saber que a paixão é matéria, que ela está sujeita às flutuações plásticas da matéria (…) Alcançar as paixões através de suas forças ao invés de considerá-las como puras abstrações, confere ao ator um domínio que o iguala a um verdadeiro curandeiro. Saber que existe uma saída corporal para a alma permite alcançar essa alma num sentido inverso e reencontrar o seu ser através de uma espécie de analogia matemática.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1995, pg. 131)

Saber reconhecer o tempo do sentimento é saber reconhecer o tempo da respiração, e essa respiração pode ser dividida em três tempos, que Artaud denominou NEUTRO, MASCULINO e FEMININO.

A respiração FEMININA é uma respiração mais prolongada, interiorizada, baseada no diafragma, que se localiza na região do plexo solar, tendo várias características que essa região contém, como abandono, angústia, apelo, invocação, súplica. A respiração MASCULINA ou melhor, de tempo masculino, é uma respiração mais pesada, rápida, torácica, focada na localização dos rins, que é fisicamente, onde o homem joga a força multiplicada de seus braços. As características que correspondem aos rins, no físico afetivo são: culpa, depressão, humor, impaciência, indecisão, isolamento, obsessão, paranóia, solidão, vitimização e heroísmo.

Esse treinamento baseado na respiração, que Artaud formulou tanto a partir de suas experimentações pessoais quanto de seus estudos da cabala, alquimia e disciplinas orientais, foi constantemente praticado por Artaud até o fim de sua vida e através dele o ator seria capaz de reconstruir não apenas sua arte mas sua própria constituição física e espiritual, tornando possível as visões de Artaud para seu Teatro.

Como Craig, Artaud baseia a sua teoria do ator no princípio da despersonalização. Não só o personagem, no sentido tradicional da palavra, é expulso desse teatro, mas também a personalidade do ator é ocultada pelo tipo de intervenção (não se ousa mais falar em desempenho) que ele exige. Em última instância, o ator artaudiano não é mais um indivíduo de carne e emoções, mas suporte e veículo de um complexo sistema semiótico articulado em torno de uma convenção hieroglífica – a expressão é freqüentemente repetida nos escritos de Artaud – do figurino, do gesto, da voz, etc.

(Roubine: A Linguagem da Encenação Teatral;1998, pg189)

Paralelamente à escrita e organização desses textos, Artaud dedica-se de maneira apaixonada a pôr em prática seu projeto, mas esbarra constantemente nas crescentes dificuldades. Primeiramente as de cunho filológico, os mal-entendidos e acusações a respeito do uso do termo “crueldade”, que Artaud responde de maneira clara na primeira das “Cartas sobre a Crueldade” em “O Teatro e Seu Duplo”. Mas o pior e mais incisivo são as dificuldades técnicas e financeiras de uma proposta teatral de tamanha complexidade. Desde as montagens do Teatro Alfred Jarry até as tentativas frustradas de tirar do papel sua encenação de “A Conquista do México”, mencionada no “Segundo Manifesto do Teatro da Crueldade”, suas tentativas de convencer o público (e, particularmente, os investidores) eram constantemente mal-entendidas embora representassem experimentos “performáticos” notáveis numa visão retroativa, particularmente a conferência que resultaria no texto de “O Teatro e a Peste” que foi relatada por Anaïs Nin, em seus diários:

De forma quase imperceptível Artaud largava o fio que seguíamos e começava a interpretar o papel de um homem a morrer de peste. Ninguém viu em que momento começou a faze-lo. Para ilustrar a conferência, representava uma agonia. (…) Tinha o rosto em convulsões e os cabelos ensopados de suor. (…) Estava em plena tortura. Berrava. Delirava. Representava a sua própria morte, a sua própria crucificação. As pessoas começaram a ficar com a respiração cortada. Depois desataram a rir. Toda a gente ria! Assobiava. Por fim as pessoas foram saindo uma a uma em meio a um grande ruído, a falar alto, a protestar. Ao saírem batiam com a porta. (…) Mais protestos. E vaias também. Mas Artaud continuava até o último suspiro. E lá ficou, no chão.

(Nin citada por Virmaux em sua introdução para: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.17)

Tudo isso para fazer a platéia compreender – fisicamente, portanto efetivamente – o que linhas como essas pretendem expressar:

Tal como a peste, o teatro é uma crise, que tem o desenlace na morte ou na cura. E a peste é um mal superior porque é crise completa e depois da qual não resta mais nada do que a morte ou uma extrema purificação. De igual forma, o teatro é um mal porque equilíbrio supremo só alcançável com destruição. Convida o espírito a um delírio que lhe exalta as energias; e, para terminar, podemos ver que a ação do teatro, como a da peste, sob o ponto de vista humano é benéfica porque levando os homens a verem-se como são faz cair a máscara, põe a mentira à mostra, e a baixeza, a hipocrisia; sacode a inércia asfixiante da matéria que tudo ganha até às mais claras certezas dos sentidos; e revelando às coletividades o seu poder sombrio, a sua força oculta, convida-as a assumir perante o destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca teriam tido.

(Artaud: O Teatro e Seu Duplo; 1999, pg 28-29)

O ápice dessas tentativas de materialização do “Teatro da Crueldade” foi a montagem de “Os Cenci” (1935), projeto ambicioso de uma tragédia na qual os preceitos da visão artaudiana de um teatro que constituísse uma “cura cruel” revelou-se uma grande decepção, para o público, para os envolvidos e, acima de tudo, para o próprio Artaud, que viu-se incapaz de enfrentar os inúmeros percalços financeiros, materiais e humanos que se interpuseram à realização de seus ideais numa montagem real.

3. PEYOTE… MAGIA… ELETRICIDADE… TEATRO… JULGAMENTO DE DEUS…

Essa frustração acabou servindo de combustível para a concretização de um antigo sonho: uma viagem ao México em busca de contato com o culto do Peyote com os índios Tarahumaras, que resultaria na publicação do apaixonado livro “Viagem ao País do Tarahumaras”, editado em 1945. Artaud desde cedo dedicara-se ao estudo de disciplinas esotéricas, cabala, alquimia, magia (estudos que sempre apareceram de maneira clara e sem disfarces nas suas atividades teatrais, sendo largamente citados em “O Teatro e Seu Duplo”) e sua estadia entre os Tarahumaras foi quase uma conseqüência natural desse pensamento, bem como uma tentativa violenta de encontrar respostas para seus tormentos existenciais indizivelmente vivenciados no plano físico.

E foi no México, no alto da montanha, entre Agosto e Setembro de 1936, que eu comecei a me encontrar completamente…Eu procurava o peyote não como um curioso mas, ao contrário, como um desesperado…, contrariamente ao que se podia pensar, eu nunca busquei o supra-normal. Ora, eu não ia ao peyote para entrar, mas para sair… sair de um mundo falso. Vivemos num odioso atavismo fisiológico que faz com que mesmo no nosso corpo, e sozinhos, nós não somos mais livres, pois, cem pai-mãe pensaram e viveram por nós, antes de nós, o que poderíamos em um dado momento, na idade da razão, encontrar por nós mesmos, a religião, o batismo, os sacramentos, os rituais, a educação, o ensino, a medicina, a ciência se apressam em nos tirar. Eu ia, pois, ao peiote para me lavar.

(Artaud citado em: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.96-97)

Recebido com simpatia pelos escritores mexicanos, Artaud faz conferências em universidades e, após vários percalços consegue participar das cerimônias sagradas com os índios. A experiência leva-o a um processo que os místicos chamariam de transfiguração, uma iniciação nos mistérios sagrados, um retorno a um vazio primordial do qual ele retorna permanentemente transformado.

Enquanto isso, na França, amigos dão prosseguimento à editoração de “O Teatro e Seu Duplo”, livro que, mesmo em meio às suas viagens místicas, Artaud nunca relega ao abandono, tendo oportunidade, inclusive, de corrigir os originais quando de seu retorno à Paris. A obra, uma vez publicada, torna-se uma referência importante para os realizadores de teatro, para o bem ou para o mal, alimentando de maneira incontrolável o chamado “mito-artaud” que começara a crescer desde o momento em que partiu da França até muito além de sua morte. Artaud, o “homem-teatro”, Artaud, o bruxo, Artaud, o louco, Artaud que ganhou uma espada mágica de um feiticeiro em Cuba, Artaud que vagou entre os índios e viu a face de Deus, Artaud, o profeta da fecalidade, Artaud que empunhou o cajado mágico de São Patrick, patrono dos irlandeses, na cidade de Dublin.

Anaïs Nin fala, no seu Diário, de uma visão que Artaud teve, nessa época, em Paris,no restaurante Dôme: “Ele levanta, vociferando, brandindo sua bengala mágica mexicana, como um bruxo”.

(Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg.98)

Entre o mito e a realidade, sabe-se que Artaud retornou à França, uma figura ainda mais excêntrica e imprevisível do que era então. Suas dores físicas e o consumo de ópio continuam a crescer, obrigando-o a submeter-se a desintoxicações sempre que tem condições de pagar. Seu interesse em astrologia e tarô acentua-se, chegando a fazer consultas para figuras ilustres da intelectualidade parisiense. Em 1937, Artaud parte para a Irlanda “guiado” pelo cajado de São Patrick, afim de devolvê-lo ao seu lugar de origem e de encontrar traços da cultura celta. Vivendo em condições precárias, em um país onde ele mal domina o idioma, Artaud vive pregando nas ruas com seu bastão, em condições de quase indigência.

Passeava eu tranqüilamente ao pé do jardim público de Dublin, quando um polícia provocador à civil me agrediu de repente e esmagou a coluna vertebral e a dividiu em duas com uma terrível pancada de barra de ferro.

Cambaleei mas não caí.

Houve qualquer coisa que deve ter parecido um milagre porque ainda agora pode ver-se em mim a fractura, mas nem sequer caí no chão, e os dois pedaços soltos voltaram instantaneamente a ficar colados.

Voltei-me para trás, com uma bengalada deitei o polícia provocador ao chão e a batalha ficou acesa. Apareceram polícias fardados que tomaram o meu partido contra os polícias à civil e às ordens do Intelligence Service.

(Artaud: História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg.50-51)

Acusado de ser um agitador e vadio, é preso e extraditado para a França. Um incidente ocorrido durante a viagem de barco faz com que seja internado como louco em estabelecimentos psiquiátricos. Do sofrimento pelo isolamento, brutalidades e privações da vida em um manicômio, adicionou-se com a Ocupação alemã em maio de 1940, as carências alimentares. Assim, em Ville-Évrard, além de sua dignidade e de sua liberdade, Artaud começou a ser privado de seu corpo. Subnutrido, ele se torna um esqueleto vivo, uma sombra dolorosa que tenta manter a vida.

Passei nove anos num asilo de alienados.

Fizeram-me ali uma medicina que nunca deixou de me revoltar.

Essa medicina chama-se eletro-choque, consiste em meter o paciente num banho de eletricidade, fulmina-lo

e pô-lo bem esfolado a nu

e expor-lhe o corpo tão externo como interno à passagem de uma corrente

que vem do lugar onde se não está nem deveria estar para lá estar.

O eletro-choque é uma corrente que eles arranjam sei lá como,

Que deixa o corpo, o corpo sonâmbulo interno, estacionário

para ficar sob a alçada da lei

arbitrária do ser,

em estado de morte

por paragem do coração.

(Artaud: Eu, Antonin Artaud; 1988, pg.76)

Artaud passou por diversos asilos até ser transferido para Rodez, em 1943 de onde só foi libertado três anos depois. Durante esse período escreveu as célebres “Cartas de Rodez”, na maioria endereçadas ao seu médico e diretor do asilo, Dr. Gaston Ferdière.

No Hospital Psiquiátrico de Rodez, quando esteve internado por três anos, depois de passar por vários manicômios franceses, Artaud escreve cartas a seu médico, dr. Ferdière. Aprisionado e maltratado por eletrochoques que prejudicaram sua memória, seu corpo e seu pensamento, “as cartas escritas de Rodez são, para Artaud, um recurso para não perder a lucidez. São o diálogo de um desesperado com seu médico e, através dele, com toda sociedade”.

(Programa da peça “Cartas de Rodez”, dirigida por Ana Teixeira, com atuação de Stephane Brodt. Prêmio Shell, direção e ator, e Mambembe, melhor espetáculo 98.)

Até sua chegada em Rodez o paradeiro de Artaud era desconhecido na França. Sua mãe visitou a maioria dos sanatórios do país em busca do filho desaparecido, os amigos escreveram cartas às autoridades buscando notícias. A guerra assolava a Europa e Antonin Artaud (cujo “Teatro da Crueldade” espalhava-se pelas ruínas, quartéis e campos de concentração) jazia isolado entre loucos e tratamentos desumanos que mais torturavam do que curavam. Até mesmo o psiquiatra Jacques Lacan estudou o “caso Artaud” e seu veredicto não poderia ser mais catedrático: “Viverá até oitenta anos, não escreverá mais uma linha”. Futuramente, o autor de “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” fez cair por terra as previsões lacanianas.

Apesar das condições em Rodez serem um tanto quanto mais toleráveis (principalmente por Ferdière ser um admirador da obra de seu paciente e procurar encoraja-lo a produzir – embora isso não o tenha impedido de também aplicar-lhe sessões de eletrochoque), foi com horror que os amigos reencontraram um Artaud completamente distinto da figura insolente e carismática de outrora.

Marthe e eu decidimos ir visitar Antonin Artaud, esquecido por todos, isolado no hospício de Rodez desde o começo da guerra. Encontramos Artaud muito fraco, aterrado. A certa altura caem à nossa frente alguns livros que pertencem ao Dr. Ferdière (…), Artaud quer apanhar os livros mas não consegue, todo seu corpo treme, temos que ajuda-lo. Conta-nos seu cotidiano em Rodez, acusa o Dr. Ferdière de o aterrorizar: – “Se não se porta bem, Sr. Artaud, temos de voltar a dar-lhe eletrochoques”. No trem de regresso Marthe chora e juramos tirar Artaud de Rodez.

(Arthur Adamov citado por Lins: O Artesão do Corpo Sem Órgãos; 1999, pg. 108)

Finalmente, em 28 de maio de 1946, Artaud foi libertado e retornou a Paris onde procurou dar continuidade aos escritos e práticas já iniciados em Rodez. Seu projeto de um “Teatro da Cura Cruel”, evolução natural de seu “Teatro da Crueldade” crescia e assumia novas formas em meio à uma prática vocal intensa e quotidiana, na qual Artaud exercitava sua respiração e seu corpo, praticando cantos e giros conjuratórios (que também lhe serviam como proteção contra as “bruxarias” de que sentia-se vítima). A energia que ele produzia, as forças que emanavam de seu corpo enfraquecido, as incríveis variações de altura que obtinha de sua voz, a intensidade e a duração dos gritos aconteciam como um fenômeno de operação mágica. Uma prática teatral que dispensava tanto o palco quanto os recursos técnicos que Artaud sempre quis utilizar de maneira plena e constituir como parte de uma legítima linguagem para o Teatro, mas cujo controle escapou de suas mãos nos tempos do Teatro Alfred Jarry e “Os Cenci”. Cantos, gritos, gestos que pareciam absolutamente insanos para os médicos dos hospitais psiquiátricos, ignorantes das teorias que o próprio Artaud já tentara esboçar nos anos 30 nos textos “Um Atletismo Afetivo” e “O Teatro de Seraphin”, avidamente lidos por uma classe teatral que, pouco a pouco, transformava “O Teatro e Seu Duplo” em objeto de culto enquanto seu autor permanecia isolado do mundo. Não foram poucas as ocasiões em que essas práticas serviram de justificativa para as alegações de insanidade de médicos, autoridades e mesmo de leigos, fato que enfurecia Artaud, mas que, após sua libertação, levou-o a assumir tal “carapuça”. De fato, Artaud não deixou de divertir-se fazendo-se de louco e usando do choque e do horror (que ele sempre apreciou utilizar para tirar seu público da apatia, sendo num palco, num restaurante ou na rua) para dizer as verdades que acreditava.

Afirmaria que o próprio corpo do Homem, “desconectado” de suas origens, é o resultado de uma manipulação perpétua e perversa de forças malignas que oprimem a espécie humana (tais forças podem ser entendidas de várias maneiras, podem ser interpretadas como políticas, sociais, culturais, morais, enfim, mas fica claro em seus escritos que Artaud as entendia de maneira mais absoluta e cósmica, num sentido metafísico), em conseqüência a anatomia humana, ao deixar de corresponder à sua natureza, deve ser refeita. No fim de sua vida, Artaud amplia suas concepções do “Teatro da Crueldade” para um grandioso projeto ético-político de insurreição física: trata-se de transformar não apenas o Teatro, mas o Homem. A revolução não é apenas social ou cultural, mas física. O ator (e o Homem) torna-se senhor de seu destino, capaz de refazer sua própria anatomia, juntamente com seu espírito, erigir o “corpo sem órgãos”, invulnerável aos miasmas e “feitiços” do mundo contra a essência individual do ator. Decomposição e recomposição do corpo, desarticulação dos automatismos que condicionam e bloqueiam o indivíduo e o impedem de agir realmente, de modo consciente e voluntário, em cena ou na vida.

A necessidade de afirmar seu pensamento foi o combustível que moveu Artaud nesses últimos anos. Por sua própria natureza, esse pensamento não pode ser expresso meramente com palavras, verdade que Artaud sempre repetiu desde a juventude ao denunciar a limitação do texto como centro da encenação e do discurso. Suas pesquisas de linguagem ganham um ímpeto novo, a busca de uma expressão vocal primitiva, anterior à linguagem articulada, sons que remetem a sentimentos, idéias e forças metafísicas. São inúmeros os exemplos registrados dessa pré-linguagem:

ratara ratara ratara

atara tatara rana

otara otara katara

otara retara kana

ortura ortura konara

kokona kokona koma

kurbura kurbura kurbura

kurbata kurbata keyna

pesti anti pestantum putara

pest anti pestantum putra

São poemas que vão além da significação, apelando para a força dos sons e vocábulos por si mesmos, constituindo verdadeiros “encantamentos” que Artaud utilizava de maneira mística e causava um efeito profundo nas testemunhas. Durante a gravação de sua novela radiofônica “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus”, em 1948, Artaud deu grandes mostras de seu “humor louco”, um humor que provocava medo. Maria Casarès, testemunha da gravação, deixou o seguinte depoimento:

Artaud começou a gritar. Começou a falar como “um cachorro” ou como um “galo” e Roger Blin respondia-lhe, imperturbavelmente, na mesma linguagem. Tudo isso deveria fazer rir a platéia. Ora, nem mesmo um só técnico ria. Estavam paralisados. Num canto da sala, uma mulher chorava.

(Casarès citada por Lins: O Artesão do Corpo sem Órgãos; 1999, pg.120)

A emissão da novela radiofônica foi proibida pela censura pouco antes de ir ao ar. Mais um dos inúmeros fracassos das tentativas de Artaud de tornar real o seu pensamento e seu Teatro. Mas, como Alain Virmaux continuamente repete em seu livro “Artaud e o Teatro”, o fracasso, em Artaud, é tão revelador quanto o sucesso poderia ser. Mesmo interditada, a novela constitui um elemento importantíssimo no “mito-Artaud”, tanto quanto foi “Os Cenci” ao ser visto retroativamente e guardando as limitações impostas pelas circunstâncias. Depois dos internamentos, Artaud tornou-se uma quase vedete da intelectualidade francesa. Mostras foram realizadas em sua homenagem, o “Teatro e Seu Duplo” era reeditado e ganhava cada vez mais atenção, nunca antes Artaud foi tão ouvido, embora o estado doentio em que se encontrava tenha causado o afastamento de velhos amigos que não suportavam lidar com sua presença e o efeito que provocava. Ainda assim, como a solidão já era parte integrante de sua existência desde jovem, Artaud trabalhava freneticamente, escrevendo, compondo, ciente de que a morte rondava, aos 50 anos de idade, com um estado de saúde cada vez mais precário. “Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus” foi seu projeto concreto mais ambicioso no período. Na gravação é possível identificar, de maneira subjetiva e indistinta (como não poderia deixar de ser) o essencial de seu pensamento: o trabalho do ator, a visão do encenador, o feiticeiro, o peregrino regresso das terras do tarahumaras. No “Rito do Sol Negro”, na “Procura da Fecalidade”, Artaud expressa seu ideal de reconstrução do homem e do corpo.

Onde cheirar a merda

cheira a ser.

O homem poderia muito bem deixar de cagar,

deixar de abrir a bolsa anal,

mas preferiu cagar

como poderia ter preferido viver

em vez de consentir em viver morto.

É que para não fazer cocô

teria que aceder

a não ser,

mas ele é que não foi capaz de se resolver a perder o ser,

isto é a morrer vivo.

(Artaud: Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus; 1975, pg 29)

Idéias indigestas, expressas de modo ainda mais indigesto, que Artaud já havia desistido de, tentar explicar verbalmente desde a histórica conferência no Vieux-Colombier, um ano antes, quando um recém libertado Antonin Artaud surgiu diante de um público parisiense de artistas, intelectuais e curiosos (entre os quais, Sartre, Picasso, Camus, além dos amigos Blin, Adamov e Gide) num evento preparado para reintroduzi-lo no universo das letras francesas. O texto dessa conferência sobreviveu e foi editado como “A História Vivida de Artaud-Momo”, narrando desde as experiências com o peyote até a violência dos tratamentos nos sanatórios e suas idéias metafísicas. Mas Artaud jamais terminou a conferência, abandonando-a quando os papéis caíram de suas mãos e ele não quis (ou não pôde) reorganiza-los, partindo para um aparente improviso recheado de silêncios, ofensas, gritos e feitiços. O que ocorreu nessa conferência é assunto controverso. Fala-se tanto de um fracasso deprimente quanto de um êxito soberbo. Virmaux (que assina o texto introdutório de “A História Vivida de Artaud-Momo”) defende que foi no Vieux-Colombier que Artaud, pela primeira e única vez, encenou o “Teatro da Crueldade”, vivido por um único homem, o personagem Antonin Artaud, e todas as testemunhas concordam que, entre vaias e ovações, ninguém saiu indiferente do teatro. Em um testemunho célebre, Gide descreve o evento com as seguintes palavras:

A razão batia em retirada; não unicamente a sua mas a razão de toda a assistência, de todos nós, espectadores desse drama atroz, reduzidos ao papel de comparsas malévolos, debochados e grosseiros. Oh! não, mais ninguém na platéia, tinha vontade de rir (…) Artaud nos havia atraído para seu jogo trágico de revolta contra tudo aquilo que, admitido por nós, para ele permanecia mais puro e inadmissível:

Nós ainda não nascemos.

Ainda não estamos no mundo.

Ainda não existe mundo.

As coisas ainda não se fizeram.

A razão de ser não foi achada…”

Ao sair dessa memorável sessão o público se calava. Que se poderia dizer? Acabávamos de ver um homem miserável, atrozmente sacudido por um deus, como que no liminar de uma gruta profunda, antro secreto da sibila, onde nada de profano é tolerado, onde, como em um Carmelo poético, um vate é exposto, oferecido aos raios, aos abutres vorazes, ao mesmo tempo sacerdote e vítima… Todos se sentiam envergonhados de retomar lugar em um mundo no qual o conforto é formado de compromissos.

(Gide in Virmaux: Artaud e o Teatro; 1978, pg 366)

Embora talvez supervalorizando os fatos através de uma veia poética, o testemunho passa uma noção do impacto da sessão, que o próprio Artaud em parte teria explicado numa carta ao amigo André Breton:

Não creio que o palco do Vieux-Colombier ou outro palco de teatro já tivesse visto o que mostrei e dei a ouvir naquela noite; tanto mais que acresce o facto de toda a gente ter podido verificar, de se ter podido ver como o suposto conferencista que eu realmente não era, de qualquer forma o suposto homem de teatro, renunciava ao seu espetáculo, fazia as malas e ia-se embora; porque, na verdade, eu tinha reparado que já bastava de palavras e até mesmo de rugidos, e o necessário eram bombas; ora, eu não as tinha nas mãos nem nos bolsos.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 26)

Um basta às palavras, portanto, um último ato em “Para Acabar com o Juízo de Deus”, um recolhimento para aguardar o fim. Diagnosticado um câncer inoperável no reto, Artaud sabia que tinha seus dias contados. Ainda assim não deixava de trabalhar e fomentar projetos, mesmo sofrendo cada vez mais agudamente com as dores. A morte, que Artaud nunca deixou de afirmar ser um estado inventado, apenas mais uma máscara a que o homem se submete por renunciar a ser o senhor de seu destino, chegou num quarto da clínica de Ivry, em 14 de março de 1948, poucos meses após a proibição da peça radiofônica. O fim através de um câncer – uma falência do organismo que muitos médicos e místicos afirmam ter uma origem psicossomática – ou, talvez por um suposto suicídio, parece fazer um estranho sentido para um homem que afirmava ter tido a espinha partida e depois recomposta na Irlanda e ter morrido e voltado numa mesa de eletro-choque em Rodez:

(…) Simplesmente te disse e repito que eu, Antonin Artaud, com os cinqüenta que já cá cantam, me lembro do Gólgota. Lembro-me dele como me lembro de estar no asilo de Rodez no mês de Fevereiro de 1943, morto por um eletrochoque que me foi imposto contra vontade.

– Se estivesse morto, não continuaria lá.

– Estou morto, realmente morto, e a minha morte foi clinicamente verificada

E voltei depois, como um homem que regressa do além.

Eu também me lembro desse além.

(Artaud: A História Vivida de Artaud-Momo; 1995, pg 53)

De qualquer forma, Artaud faleceu deixando um legado praticamente mítico. Suas idéias, seus textos, especialmente “O Teatro e Seu Duplo” se tornaram uma referência obrigatória para encenadores do mundo inteiro, sendo aceitas ou não. Os anos 60 e 70 testemunharam o surgimento de um verdadeiro culto à imagem do criador do “Teatro da Crueldade”, um culto muitas vezes exagerado e desprovido de bases sólidas, movido muito mais pela paixão e o pseudo-misticismo ligado ao pensamento artaudiano do que a uma real compreensão de suas idéias. As últimas décadas testemunharam uma releitura mais atenta e menos delirante de sua obra, devolvendo as contribuições de Artaud, tanto para o Teatro quanto para os estudos de linguagem, de volta à sua real proporção.

São inúmeros os grupos, atores e teóricos que deram continuidade aos trabalhos de Artaud, de forma direta ou indireta. Autores como Ionesco e Beckett mostram uma clara influência, bem como às origens do conceito de happening. Peter Brook e o Living Theatre desenvolveram grandes espetáculos assumidamente dentro de uma estética artaudiana, bem como o teatro-laboratório de Jerzy Grotowski, que de forma hábil e lúcida, ajudou a criticar e esclarecer muitas das propostas teatrais de Artaud e lhe dedicou um dos capítulos de “Em Busca de Um Teatro Pobre”: “Ele não era inteiramente ele”.

Deve-se repetir mais uma vez: se Artaud tivesse tido à sua disposição o material necessário, suas visões teriam se desenvolvido do indefinido para o definido. Ele poderia tê-las convertido numa forma, ou, melhor ainda, inclusive numa técnica. Estaria então em condições de antecipar todos os reformadores, pois teve a coragem e o poder de ir além da corrente lógico-discursiva. Tudo isso poderia ter acontecido, mas não aconteceu.

(Grotowski: Em Busca de um Teatro Pobre; 1976, pg.71-72)

Mas aconteceu nos anos que seguiram a morte do “homem-teatro”. É fascinante notar que hoje muito do que era polêmico e alvo de estranhamento nas propostas de Artaud é prática corrente e “comum” nas atividades teatrais: o uso de espaços alternativos, o cuidado especial na composição da iluminação e sonoplastia, o domínio do encenador como regente máximo do espetáculo, o fim do domínio absoluto do texto, o uso de signos, a integração do público à cena, enfim, se o Teatro da Crueldade” só pôde se tornar real em raríssimas e pontuais ocasiões (se é que realmente o foi, ao menos na forma pura que Artaud pregava) ao menos seus diversos elementos integraram-se de maneira efetiva no fazer teatral.

Assim, as palavras finais de Artaud a respeito do Teatro, escritas na “Última Carta Sobre o Teatro”, endereçada à Paule Thévenin em 25 de fevereiro de 1948 (tendo Artaud morrido em 4 de março), definitivamente não ficaram sem um eco:

Paule, estou muito triste e desesperado

meu corpo dói de todos os lados

mas sobretudo tenho a impressão de que todos se decepcionaram

com a minha emissão radiofônica.

Lá onde está a máquina

é sempre o abismo e o nada

há uma interposição técnica que deforma e aniquila aquilo que se faz.

As críticas de M. e A. são injustas mas devem ter tido sua base em um defeito de transmissão

é por isso que eu jamais voltarei ao Rádio

e consagrarei doravante exclusivamente ao teatro

como o concebo

um teatro de sangue

um teatro que a cada representação proporcionará

corporalmente

alguma coisa a quem representa

como a quem vem assistir a representação

aliás,

não se representa,

age-se

o teatro é na realidade a gênese da criação.

Isto se fará.

Tive uma visão hoje à tarde

vi aqueles que me seguirão e aqueles que ainda não tem um corpo

porque os porcos como aqueles dos restaurante de ontem a noite comem demais.

Existe quem como demais

e outros como eu que não podem mais comer sem escarrar

em vocês.

(Artaud citado em Virmaux: Artaud e o Teatro, 1978, pg 334-335)

BIBLIOGRAFIA BÁSICA

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ARTAUD, Antonin (1896-1948). Linguagem e Vida. Org. J. Guinsburg, Sílvia Fernandes Telesi, Antonio Mercado Neto. São Paulo: Perspectiva. 2004

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Pesa-Nervos. Trad. Joaquim Afonso. Lisboa: Hiena Editora. 1991. 91p.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). O Teatro e Seu Duplo. Trad. Teixeira Coelho. 2.ªed. São Paulo: Martins Fontes. 1999.

ARTAUD, Antonin (1896-1948). Para Acabar de Vez com o Juízo de Deus – seguido de O Teatro da Crueldade. Trad. Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes. Lisboa: Publicações Culturais. 1975.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Eu, Antonin Artaud. Trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora. 1988. 111 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). História Vivida de Artaud-Momo. Lisboa: Hiena Editora. 1995. 73 p.

ARTAUD, Antonin (1986-1948). Os Sentimentos Atrasam. Trad. Ernesto Sampaio. Lisboa: Hiena Editora. 1993. 73 p.

ASLAN, Odette. O Ator no Século XX. São Paulo: Perspectiva, 1994

COELHO, Teixeira. Antonin Artaud – Posição da Carne. São Paulo: Brasiliense. 1982, 120p. (Coleção Encanto Radical; 16)

FELÍCIO, Vera Lúcia. A Procura da Lucidez em Artaud. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1996, 202p. (Coleção Estudos; 148)

GROTOWSKI, Jerzy. Ele não era inteiramente ele, in: Em Busca de um Teatro Pobre. Trad. Aldomar Conrado. 2.ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976. (Coleção Teatro Hoje, Série: Autores Estrangeiros/Vol.19)

LINS, Daniel. Antonin Artaud: O Artesão do Corpo Sem Órgãos. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1999. (Coneções/2)

ROUBINE, Jean-Jacques. As Metamorfoses do Ator, in: A Linguagem da Encenação Teatral. Trad. Yan Michalski. 2.ªed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 1998.

SONTAG, Susan. Abordando Artaud, in: Sob o Signo de Saturno. São Paulo: L&PM. 2.ªed. 1973.

VIRMAUX, Alain. Artaud e o Teatro. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Perspectiva, FAPESP. 1978, 388p. (Coleção Estudos; 58)

“Quem sou eu?

De onde venho?

Sou Antonin Artaud

e basta que eu o diga

Como só eu o sei dizer

e imediatamente

hão de ver meu corpo

atual,

voar em pedaços

e se juntar

sob dez mil aspectos

diversos.

Um novo corpo

no qual nunca mais

poderão esquecer.

Eu, Antonin Artaud, sou meu filho,

meu pai,

minha mãe,

e eu mesmo.

Eu represento Antonin Artaud!

Estou sempre morto.

Mas um vivo morto,

Um morto vivo.

Sou um morto

Sempre vivo.

A tragédia em cena já não me basta.

Quero transportá-la para minha vida.

Eu represento totalmente a minha vida.

Onde as pessoas procuram criar obras

de arte, eu pretendo mostrar o meu

espírito.

Não concebo uma obra de arte

dissociada da vida.

Eu, o senhor Antonin Artaud,

nascido em Marseille

no dia 4 de setembro de 1896,

eu sou Satã e eu sou Deus,

e pouco me importa a Virgem Maria.”

 

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/antonin-artaud/