O Esoterismo

A alguns séculos os Mestres Invisíveis vem atuando para expansão do conhecimento em relação às coisas antes reservada a poucos. Desde a manifestação dos Rosacruzes, em 1616 em Paris, quando estes finalmente revelaram sua existência ao mundo, do Mestre ARI (Isaac Lúria) em seu trabalho Etz Chaim (Árvore da Vida) que disse: “este conhecimento não é só fundamental para homens e mulheres do povo judeu, mas para homens, mulheres e crianças de todas as nações”, e de muitos outros Iniciados, cientistas e religiosos, que ousaram levantar os véus do desconhecido àqueles que tem olhos para ver, quebrando dogmas e paradigmas da sociedade.

São graças a eles que hoje está em nossas mãos o dever de conciliar a Ciência e a Espiritualidade.

O Esoterismo consiste em estudar as coisas que estão ocultas por algum tipo de véu. Hoje denominamos esse conhecimento de Ocultismo, que consiste no estudo esotérico do Homem, da Natureza, de Deus e do Universo. Esse conhecimento esotérico são os estudos herméticos, que é um termo usado para denominar que são estudos fechados, selados, de difícil compreensão.

Todo símbolo possuí sua parte externa e interna. O homem profano enxerga somente aquilo que aparenta ser, a superficialidade. O neófito que deseja a Iniciação, ou o Homem de Desejos, ousará penetrar no sentido oculto deste símbolo até obter seu significado. A cruz para o Cristão profano é o símbolo que relembra o sacrifício de Jesus pela humanidade, ao ateu um instrumento de tortura medieval, para o Iniciado a Cruz representa o caminho pelo qual ele próprio poderá subjugar suas paixões e desejos para despertar o Cristo dentro de si.

O homem tem a necessidade da alma e a necessidade do espírito, que são a necessidade do sentir e do compreender. A alma é o aspecto da ciência e o espírito da religião. Crer sem saber é ser tolo, saber sem crer é ser louco. Por isso o Iniciado precisa experimentar e comprovar, para só então crer.

Cada Religião e cultura tem seu próprio meio de entender e de se fazer compreender a realidade que estamos inseridos. Mas o conhecimento esotérico vai além dos cinco sentidos e gradualmente na caminhada interior percebemos que toda essa variedade religiosa e cultural nada mais são do que manifestações das necessidades humanas. São pontos de apoio.

A verdadeira Religião só existe dentro de nós e só nós podemos senti-la.

Por isso o Iniciado compreende que deve respeitar todas as religiões e todas as culturas. Também entende que só ele próprio pode manifestar em si seu aspecto Divino, pois Religião nenhuma fará isso por ele.

O Ocultismo e o Hermetismo são ciências esotéricas que estudam as Leis Imutáveis do Universo/Deus, e através delas devemos guiar nossas vidas segundo nossa Verdadeira Vontade. Todos os Mistérios Antigos estudavam e praticavam essas Leis. Seu objetivo principal era, e ainda é, o contato consciente de cada homem com a Centelha Divina que está dentro de cada um de nós. E isso ainda é praticado hoje por nós de maneira simbólica, só nos falta enxergar.

Visita Interiorem Terrae, Rectificando que, Invenies Occultum Lapidem, que significa: “Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta”. O “Centro da Terra” é seu próprio interior que deve ser lapidado até encontrar a “Pedra Oculta”, que é o seu próprio aspecto Divino, e com essa Pedra construir o Templo Perfeito.

Eis a caminhada interior.

Liberdade, Amor, Vida e Luz.

Frater Hamal

Publicado originalmente no excelente blog Esoterismo Demolay

#Alquimia #hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-esoterismo

Olhos novos para o mais distante…

Sabemos que a maior parte do que chamamos de “realidade”, permanece oculta aos nossos olhos. De certo modo isso é bom. Imaginem o caos que não seria, se enxergássemos as ondas rádio, as microondas ou as inúmeras radiações. A natureza fez bem em delimitar nosso campo visual e auditivo. Nos deu o suficiente para sobrevivermos.

Do mesmo modo, somos incapazes de enxergar as infindáveis galáxias que nos rodeiam, bem como a estrutura de um átomo. Acreditamos que essas coisas existem, mesmo que não tenhamos os instrumentos certos para averiguar. Isso porque, existiram, e ainda existem, homens ou mulheres, que fazem disso a sua vida, a sua razão de existir: romper os limites observáveis.

O italiano Galileu Galilei, físico, matemático, astrônomo e filósofo foi um desses. Não saberia ele, da existência dos anéis de Saturno, das manchas solares, das montanhas lunares, das fases de Vênus e das “luas” de Júpiter se não tivesse realizado sua verdadeira vontade.

Novas visões trazem novos pensamentos, o sistema heliocêntrico ganhava força. No entanto, novos pensamentos não eram bem vindos. Visões que rompem nossos paradigmas é sempre um incômodo. E na época de Galileu, expor essas visões, poderia ser um tanto perigoso. Julgado pelo tribunal da inquisição romana e temendo um fim semelhante ao de Giordano Bruno, Galileu se viu forçado a renunciar publicamente as suas ideias.

Se engana quem acredita que isso pertence apenas a um passado distante. As chamas da inquisição se apagaram, mas suas cinzas continuam a intoxicar a sociedade, a sufocar o pensamento livre. Eles atuam silenciosamente, como uma espécie de câncer que se desenvolve em nossas entranhas. Lamentavelmente, quando nos dermos conta dos sintomas, já estaremos em fase terminal.

Nosso saudoso Rubem Alves, sabia muito bem disso ao escrever que “os hereges que as religiões queimam e matam não são assassinos, terroristas, ladrões, adúlteros, pedófilos, corruptos. Esses são pecados suaves, que podem ser curados pelo perdão e pelos sacramentos. Os hereges, ao contrário, são aqueles que odeiam as gaiolas e abrem as suas portas, para que o Pássaro Encantado voe livre. Esse pecado, abrir as portas das gaiolas para que o Pássaro voe livre, não tem perdão. O seu destino é a fogueira. Palavra do Grande Inquisidor.”

Ainda hoje, pensamentos diferentes do padrão o qual estamos inseridos, ou que estejam em dissonância com os dogmas religiosos, não são bem vindos. É notável como um livre pensador pode incomodar. Incomoda porque não fomos programados para pensar livremente. Incomoda porque balança as colunas dos templos fundamentalistas, que lamentavelmente são construídos sobre a maleabilidade da areia. “E caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra aquela casa, e ela desmoronou. E foi grande sua ruína! ” (Mateus 7:27)

Até quando carregaremos as traves do preconceito e do legalismo? Até quando permitiremos que a cegueira ideológica nos impeça de enxergar o que está por trás das aparências?

Escreve Frei Beto que “toda realidade é sacramento, sinal de algo maior e mais profundo do que as meras aparências demonstram”. O que precisamos? O que nos falta? Teilhard de Chardin deixa a dica: “uma nova maneira de ver, ligada a uma nova maneira de agir: eis o que nos falta”.

Em poucas linhas, Nietzsche nos apresenta toda uma filosofia de vida, uma espécie de “código de conduta” para quem deseja vivenciar essa nova maneira de ver e a nova maneira de agir proposta por Chardin. Afinal, o que é necessário para que sejamos, de fato, livres pensadores? O que é necessário para que deixemos de ser apenas mais uma mera bateria da matrix, e quem sabe um dia, alcançarmos o livre arbítrio intelectual?

“É necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou prejudicial… Possuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu entusiasmo… Auto-reverência, amor-próprio, absoluta liberdade para consigo”.

Creio, que Galieu Galilei, está entre esses raros homens que tiveram “olhos novos para o mais distante”.

Fabio Almeida é bacharel em administração de empresas, especializado em filosofia, teologia e história. Eterno aprendiz, amante das artes e do livre pensar. 

#Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/olhos-novos-para-o-mais-distante

A Mulher, o Divino e a Criação

Desde tempos imemoriais que os nossos antepassados nos deixaram imagens (sagradas?) das formas femininas. Na arte e nos artefactos do Paleolítico e Neolítico que representam os mais primitivos impulsos da génese do mito humano, estas imagens indicam uma profunda tomada de consciência do elemento criador do ser feminino. Aquando do aparecimento dos mitos de criação em inúmeras civilizações, o princípio feminino aparece como criador do mundo e do homem.

Até meados do século XX o interesse pelo papel desempenhado pelas deusas nas mitologias era ligeiro já que o interesse de pesquisa estava orientado para os deuses. Mas, nos meados dos anos 70 há uma mudança de atitude parcialmente inspirada pelo desabrochar dos movimentos feministas. A tomada de consciência do papel desempenhado pela mulher na sociedade expande-se durante esta época e começa a integrar tradições espirituais do Ocidente e do Oriente. A luta pela igualdade do homem e da mulher expandiu-se para além do social, político e económico para entrar na esfera do sagrado. Inúmeros livros e artigos vão revolucionar o modo como as pessoas viam as raízes da sua herança espiritual. Não podemos, no entanto, deixar de mencionar um autor que já no século passado tinha chamado a atenção para a existência de um período da história da humanidade em que os valores morais, jurídicos e políticos eram estruturados em torno da Mulher e da Mãe. Trata-se de J. J. Bachofen. A sua obra intitulada o Matriarcado não foi bem acolhida na época. María del Mar Llinares García [1] diz-nos que “ só quando F. Engels lhe presta atenção ao considerar que confirmava a sua teoria do carácter histórico da família é que a obra se revaloriza e consolida com o desenvolvimento da antropologia e da arqueologia pré-histórica desde os fins do século XIX “. Hoje é uma das obras fundamentais para o estudo do tema; no entanto, alguns especialistas do mito, como J.- P. Vernant e M. Detienne, não o consideram como um dos estudiosos do mito durante o século XIX. É mencionado, no entanto, por J. de Vries mas sem que este valorize a sua obra. Actualmente as obras que mais impacto causaram no grande público na defesa da existência de um princípio de matriarcado, são The Goddesses and Gods of Old Europe, Myths and Cult Images, 6500- 3500 B C de Marija Gimbutas [2] e as publicações de James Mellaart sobre as suas escavações na Anatólia, nomeadamente em Çatal Hüyük e Hacilar. As justificações científicas destes arqueólogos sobre a existência de um culto à Deusa-Mãe na Anatólia e que se teria estendido até à Europa Antiga são bastante convincentes. Quando o livro de Riane Eisler, O Cálice e a Espada [3] surgiu, a sua obra fundamental sobre o tema do matriarcado, para além de outras que já tinha escrito, foi saudada por todos os defensores da existência de um matriarcado na Velha Europa . Os testemunhos da arqueologia, linguística e mitologia indicavam que em muitas culturas da Europa antiga o primeiro impulso das sociedades na esfera do religioso, para além dos sepultamentos, era uma profunda veneração pela Terra, que era Mãe, pois tal como da mulher nasciam os filhos, assim dela Terra brotava vida. Será talvez essa a explicação para o aparecimento no período do Paleolítico e Neolítico de numerosas estatuetas femininas formadas inicialmente a partir de argila e cinza e depois já cozidas no forno, e, estatuetas esculpidas a partir do osso, chifre e marfim ou mesmo na própria rocha. Existe uma grande polémica sobre a intenção original que esteve por detrás destas imagens. Desde serem consideradas como mulheres reais, cânones de beleza ou objectos pornográficos ou eróticos até terem sido usadas para ilustrar o processo do nascimento às mães da época. No entanto, a opinião mais generalizada identifica-as como símbolos da fertilidade. De notar que são representadas sem acompanhante masculino o que pode indicar que os seres humanos da época estavam convencidos de que os homens não tomavam parte na reprodução. Assim, qualquer nascimento seria um exemplo de partenogénese, o que vai dar origem ao culto da Deusa-Mãe. Culto esse que teria englobado a zona circundante do mar Egeu, os Balcãs, a região oriental da Europa Central, o Mediterrâneo Central e a Europa do Ocidente.

Na generalidade da comunidade científica considera-se que as Vénus do paleolítico foram feitas por homens num acto de veneração pelas mulheres enquanto fonte da vida. No entanto, é de assinalar uma opinião diferente: Le Roy Mc Dermott, professor de Arte na Universidade Estadual do Missouri nos Estados Unidos, sugeriu que as distorções características desta figuras (ventres inchados, seios e nádegas volumosas, pernas curtas e pés pequenos) eram devidas ao facto de terem sido esculpidas por mulheres grávidas que representavam o seu próprio corpo. A visão que uma mulher grávida tem do seu corpo, num mundo sem espelhos, assemelha-se porventura a estas estatuetas. Talvez que um dos melhores exemplos seja a Vénus de Lespugne. Se assim tiver acontecido podemos deduzir que a maior parte das esculturas femininas do Paleolítico, e não só, foi feita por mulheres. A aceitação desta teoria vem introduzir um dado novo nas capacidades da mulher da época: também foi artífice.

Estas estatuetas mostram uma consistência de forma e de tema: descrevem a capacidade corpórea da mulher para dar à luz, amamentar, perder sangue e curar-se a ela própria todas as luas. Das muitas estatuetas desta época queremos destacar pela sua carga iconográfica a Vénus de Laussel. Esta estatueta, como muitas outras, apresenta-se com seios pendentes, barriga e triângulo púbico bem marcados. A particularidade que queremos destacar é que esta estatueta segura numa mão um crescente lunar com a forma de um chifre de bisão manchado com ocre vermelho. No chifre foram esculpidos treze entalhes, o que poderá significar que a concepção tem lugar no 14º dia após o período da lua da mulher. Um atributo lunar onde quer que apareça tem sempre o mesmo significado, qualquer que seja o número de sínteses religiosas que tenham colaborado na constituição dessas formas: é o prestígio da fertilidade, da criação periódica, da vida inesgotável. Os chifres de bovídeo que caracterizam as grandes divindades da fecundidade são um emblema da Deusa-Mãe. Onde quer que apareçam nas culturas neolíticas, quer na iconografia quer nos ídolos de forma bovina, eles marcam a presença da deusa da fertilidade. O chifre não é mais do que a imagem da Lua Nova. A lua é fonte de toda a fertilidade e dirige ao mesmo tempo o ciclo menstrual. Através da observação dos seus próprios ciclos e do crescimento sazonal das plantas é natural que as mulheres tivessem sido as primeiras a observar as periodicidades da natureza, e o registo destes ritmos internos e externos poderiam ter servido para formar as mais primitivas raízes da ciência e da religião. Com este conhecimento crescente da vida veio uma relação igualmente intensa com a morte. O homem de Neanderthal e o de Cro-Magnon enterravam os seus mortos cerimonialmente e usavam ocre vermelho para adornar os mortos. O ocre vermelho é representativo das qualidades de afirmação de vida do sangue. As pessoas perdem sangue só enquanto são vivas. Mas as mulheres perdem sangue menstrual e durante o parto. Não há talvez outro período no qual a mulher mostre estar mais ligada ao feminino sagrado do que no acto do parto. É apesar de tudo o processo do nascimento e da morte que sustenta a crença na Deusa-Mãe, já que o nascimento sempre contém a semente da morte. O vermelho do sangue do nascimento é a primeira cor que cada um de nós vê quando presenciamos um parto. O sangue é sagrado e o ocre vermelho simula a energia vital da vida e da renovação. É possível que os primitivos humanos ao cobrir o defunto com ocre vermelho pensassem que o morto pudesse ressurgir numa outra vida.

Para além do simbolismo do sangue a mulher é como vimos intensamente influenciada pela Lua. Enquanto o Sol permanece igual a si próprio, a Lua em contrapartida é um astro que cresce, decresce e desaparece, um astro cuja vida está submetida à lei universal do devir, do nascimento e da morte. Mas esta “morte” é seguida de um renascimento: a Lua Nova. O desaparecimento da Lua na obscuridade nunca é definitivo. Este eterno retorno às suas formas iniciais faz com que a Lua seja por excelência o astro dos ritmos da vida. Tal como a Lua a mulher segue o mesmo ritmo.

Um outro símbolo ligado à mulher e à fertilidade é a serpente. A serpente tem significados múltiplos; de entre eles o mais importante é o da sua regeneração. Como atributo da Grande Deusa a serpente conserva o seu carácter lunar – o da regeneração cíclica. Animal telúrico e ctónico, feminino por excelência, é uma hierofania do sagrado. Sob a forma de Ouroboros, a serpente que morde a cauda, simboliza um ciclo de evolução fechado sobre si próprio. Este símbolo abrange as ideias de continuidade, de autofecundação e em consequência, de eterno retorno. Mas a forma circular da imagem dá lugar a outra interpretação: a união do mundo ctónico figurado pela serpente e do mundo celeste figurado pelo círculo, significa a união de dois princípios opostos – a terra e o céu, a noite e o dia. Todas as grandes deusas da natureza que se revêem no Cristianismo sob a forma de Maria têm, como dissemos, a serpente como atributo. Mas se há figura da Deusa-Mãe que mais se possa aproximar a Maria é Ísis, que embora sendo “ Senhora do Ocidente “ ( o que significa Senhora no mundo dos mortos, onde assiste a Osíris ) é também uma deusa solar que ilumina as Duas Terras com os seus raios, enviando a luz a todos os homens. Ísis sustenta sobre a fronte a cobra real, uraeus de ouro puro, símbolo de soberania, de conhecimento, de vida e de Juventude Divina.

A árvore é outro dos símbolos que está ligado à mulher na iconografia e mitologias arcaicas porque a árvore é fonte inesgotável de fertilidade, dá frutos e regenera-se periodicamente. A epifania de uma divindade numa árvore é corrente e podemos assinalá-la nas civilizações hindu, mesopotâmica, egípcia e egeia. Na iconografia egípcia, por exemplo, encontrámos o motivo da Árvore da Vida de onde saem os braços divinos carregados de dons e despejando com um vaso a água da vida. Na parede do túmulo de Tutmósis III em Tebas vemos o faraó a receber a seiva da árvore directamente de um ramo. Inúmeros exemplos poderiam ser dados, comprovativos de que as árvores foram desde há muito sagradas para a Deusa e são uma epifania dela própria.

A água é um outro símbolo da vida, um dos mais importantes. Segundo Mircea Eliade “ Na cosmogonia , no mito, no ritual, na iconografia, as águas desempenham a mesma função, qualquer que seja a estrutura dos conjuntos culturais nos quais se encontram: elas precedem qualquer forma e suportam qualquer criação “ [4]. Justifica-se plenamente a ideia do autor se nos debruçarmos sobre a cosmogonia egípcia. A criação do mundo, por quem e como foi criado era matéria de constante interesse para os Egípcios. Os mais antigos textos religiosos conhecidos reflectem uma amálgama de cosmogonias locais elaboradas provavelmente nos tempos pré-históricos mas que se vão diferenciar nos tempos históricos. Todas, no entanto, estão de acordo ao afirmar que o mundo não é obra de um demiurgo atemporal. Segundo os Egípcios no princípio era o Caos e o Demiurgo encontrava-se diluído no Caos onde jazia inerte, como que privado de existência.Todos os sistemas religiosos concebem o Caos como um Oceano primordial que contém todos os gérmens e todas as possibilidades da Criação. Esta água é o Nun o “ pai dos deuses “. O Demiurgo aparece mais tarde na superfície das águas e adopta aspectos diferentes em cada sistema cosmogónico. A importância das águas primordiais era tão grande para os Egípcios que todos os templos possuíam lagos sagrados que simbolizavam as águas primordiais, origem de toda a Criação (…).

O desaparecimento do culto da Deusa na Europa foi ocasionado segundo os defensores do princípio do matriarcado pela vaga de indo-europeus,os Kurgan, que se estenderam por vagas sucessivas desde as estepes asiáticas e destruíram as pacíficas civilizações da Europa Antiga e as assimilaram. Portadores de armas, domesticadores do cavalo, exaltavam os deuses guerreiros e heróicos. Os seus deuses principais eram uranianos: o deus da tempestade ( cujos emblemas eram o raio e o trovão,o machado, a maça e o arco ) e o deus solar, o deus do sol que empunhava a adaga e a espada e em algumas ocasiões apresentava-se com um carro. Gerda Lerner [5] relaciona a subordinação das mulheres e a degradação da Deusa com as mudanças políticas ocorridas no III milénio quando uma sociedade baseada nos vínculos do parentesco deu lugar ao estado arcaico. Como resultado desta transformação sociopolítica, a figura da Deusa foi suplantada por um panteão de deuses e deusas. Lerner chama também a atenção para uma alteração do simbolismo. A simbologia para aludir às potências da criação passou da “ vulva da Deusa à semente do Varão “ [6]. Por outro lado, a árvore da vida símbolo da capacidade criativa da natureza foi suplantada pela árvore do conhecimento.

Sem pretender fazer uma análise sóciopsicológica das populações do Paleolítico e do Mesolítico, idades que precedem a organização da vida sedentária, podem graças à arqueologia e ao estudo dos mitos fundamentais retirar-se hipóteses a propósito desta mudança de tendência. É praticamente tido como certo que os primeiros humanos ignoravam o papel exacto do homem na procriação. Os homens mantinham uma atitude ambígua face às mulheres, aparentemente mais fracas do que eles mas capazes de dar misteriosamente a vida. Daí um profundo respeito para não dizer veneração e ao mesmo tempo uma espécie de terror perante os poderes incompreensíveis, senão mágicos ou divinos. É infinitamente provável que a humanidade primitiva tenha considerado a divindade, qualquer que ela fosse, como de natureza feminina. Tudo mudou quando o homem compreendeu a sua participação no acto sexual como condição necessária à procriação. Isto deve ter-se passado nas épocas da sedentarização quando as técnicas rudimentares da agricultura se sucederam à recolecção e à caça de animais selvagens. É preciso ter em conta no entanto, que esta alteração não se efectuou rapidamente porque os costumes ancestrais são tenazes e não se modificam senão lentamente na mentalidade colectiva. Com a domesticação dos animais e o desenvolvimento dos rebanhos, a função do homem no processo de criação tornou-se mais evidente e compreendeu-se melhor. Em consequência desta situação encontramos a Deusa-Mãe acompanhada de um ser masculino, um filho ou um irmão que a acompanha nos ritos da fertilidade e com os quais se une. Nos mitos e ritos trata-se de um deus jovem que há-de morrer para logo renascer. No entanto, é a Grande Deusa quem cria a vida e governa a morte, mas agora reconhece-se muito melhor a participação masculina na procriação. As núpcias sagradas ( hierogamias ) e outros ritos similares festejados durante o quarto e terceiro milénios expressavam estas crenças. Até que a deusa se tivesse unido ao jovem deus e houvesse tido lugar a morte e o renascimento deste, não podia recomeçar o ciclo anual das estações. A sexualidade da Deusa é sagrada.

A grande mudança seguinte aparece simultaneamente com o nascimento dos estados arcaicos sob reis poderosos. Nos começos do terceiro milénio a figura da Deusa-Mãe é deposta da sua liderança no panteão divino. Cede lugar a um deus masculino. No panteão Sumério a deusa da terra Ki e o deus do céu An presidem aos outros deuses. Da sua união nascerá o deus do ar Enlil. Por volta de 2400 os principais deuses sumérios aparecem enumerados da seguinte forma: An (ceú), Enlil (ar), Ninhursag ( rainha das montanhas ), Enki ( senhor da terra ). A deusa da terra Ki está agora afastada e em textos mais tardios aparece mencionada em último lugar depois de Enki. Nammu, a Deusa-Mãe dos Sumérios que deu nascimento ao céu e à terra e foi criadora da humanidade desaparece do panteão. Na Mesopotâmia assistimos à mesma situação. O Enuma Elis conta-nos que a deusa primordial é Tiamat, o mar. Às vezes tranquila às vezes caprichosa. É a natureza primordial indiferenciada que possui nela toda a força e o poder do que é selvagem. Tem por esposo Apsu, o deus das águas doces sobre as quais repousa o mundo. De ambos nascerão os deuses que compõem o panteão mesopotâmico. O Enuma Elis narra toda a história da luta entre os deuses da primeira geração com os da geração seguinte que culmina com a destruição de Tiamat por Marduk ( filho de Damkina, senhora da terra e de Enki/ Ea ) um deus de uma nova geração que representa a vida, a civilização e o progresso, enquanto que os deuses primitivos são conotados com o caos, a natureza desorganizada, a força bruta sem inteligência. É acompanhando talvez a par e passo a evolução da importância dos deuses sumérios, acádicos e a formação final do panteão mesopotâmico que verificámos como a deusa primordial foi perdendo lentamente a sua importância até desaparecer do panteão. É o caso da Nammu suméria de que se perdeu a memória, da Tiamat mesopotâmica que foi transformada num monstro, numa serpente que é necessário abater porque representa as forças do caos, tal como é preciso que seja abatido o Yam ugarítco que será derrotado por Baal, outro deus das novas gerações que se transformou em deus principal, deus da tempestade e do trovão, deus fertilizador dador de vida. Não esqueçamos também Leviatã, a serpente, que Javé tenta destruir como lemos em Isaías 27,1 “ Naquele dia o Senhor ferirá com a sua espada pesada temperada e forte a Leviatã, a serpente tortuosa e matará o monstro do mar “

A Deusa é, já no período histórico, personificada com o mal que é preciso destruir. O episódio do pecado original no Génesis pode, como sabemos, revestir-se de vários significados. A serpente do Génesis é a representação da tentação, do mal. Eva cometeu a falta sob a influência da serpente. Mas a serpente é um símbolo da Deusa assim como a arvore se identifica com a deusa. André Smet [7] diz-nos que Eva transgride a proibição patriarcal que é representada por Javé: “ O pecado original da Bíblia pode ser considerado como o primeiro acto desta longa luta de Deus Pai contra a Deusa-Mãe. Esta primeira queda, que será seguida de muitas outras, será como todas as outras severamente punida pelo Deus Pai. A inimizade é lançada entre a serpente e a mulher o que significa que a mulher não terá mais o direito de honrar a deusa e de lhe obedecer mas antes deverá lutar contra ela “. Javé pune também a mulher precisamente naquilo que fazia a sua glória: a gravidez e a maternidade, quando lhe diz “ Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores “ . E em seguida “ procurarás com paixão a quem serás sujeita, o teu marido “. Em vez de suscitar o desejo dos homens, símbolo do culto sexual rendido à Deusa, a mulher é a eles subjugada. E por fim Javé ordena “ maldita seja a terra por tua causa “ [8].

Há quem veja nesta atitude uma mudança radical na história das mentalidades. É uma outra civilização que começa onde a predominância será do homem, enquanto que até aqui pertenceu primeiro à mulher, em seguida foi partilhada por ambos e agora o poder cabe exclusivamente ao homem. Mas a atitude de Adão não deixa de ser curiosa ao pôr o nome de Eva à sua mulher porque ela iria ser a Mãe de todos os homens. Significará esta uma maneira oculta de homenagear a Deusa -Mãe através de Eva?

Não temos documentos relativos à passagem da religião da Deusa da Europa antiga para a religião grega. No entanto, alguns investigadores vêem na trilogia de Ésquilo, Oresteia uma recordação da época em que a sexualidade feminina era objecto de veneração: Orestes é julgado pela acusação de matricídio. Defendiam-no Apolo e os outros deuses celestes gregos. Contra eles pronunciavam-se as Fúrias ou Erínias, antigas deusas relacionadas com a terra. Orestes tinha matado a mãe por esta ter assassinado o seu pai, Agamémnon, pelo facto de este ter sacrificado a filha com o objectivo de assegurar a vitória na batalha. As fúrias discutem com Apolo, mas este baseia-se em considerações nas quais a mãe não é a verdadeira progenitora do filho, porque é a semente do pai a portadora da energia geradora de vida, a que produz nova vida ao ser colocado no seio da mãe. A força geradora está na sexualidade masculina, não na feminina, segundo Apolo.

A teoria dos filósofos pré-socráticos Empédocles, Anaxágoras e Demócrito afirmava a existência das sementes masculina e feminina, mas as suas ideias foram repelidas por Aristóteles. Aristóteles tentou dar uma base científica acerca da potencialidade da sexualidade masculina e da possibilidade das funções sexuais femininas em dois tratados: Espécie dos animais e As partes dos animais. Em síntese diz-nos que “ Masculino é o que possui a capacidade de condensar, tornar mais denso, fazer que tome forma e descarregar o sémen, que possui o princípio da forma. Feminino é o que recebe o sémen, mas é incapaz de fazer que tome forma ou de descarregá-lo (…) . O sémen contém em si mesmo o princípio da actividade e da organização efectiva para a organização do embrião. Posto que o sémen masculino era portador da capacidade de gerar, procriar, o ovo feminino não podia ter esse mesmo poder “. A ideologia grega acerca da sexualidade em termos de princípio activo e passivo terminou por impor-se até ao século XVIII.

Mas Hesíodo na Teogonia dizia: “ Primeiro de tudo foi o Caos, depois a Terra, de amplo seio, sólida e eterna morada de todos os seres, e Eros o mais formoso dos deuses imortais ( …). Do Caos nascem as Trevas e a Noite negra, e da Noite nascem a Luz e o Dia , filhos seus concebidos depois da sua união amorosa com as Trevas. A Terra criou primeiro o Céu estrelado, tão grande como ela, para a envolver por todos os lados. Depois criou as altas montanhas, moradas agradáveis dos deuses, e deu também o ser às águas estéreis, o mar com as suas altas ondas, tudo isto sem paixão amorosa “ . Já no mito platónico da criação, a passividade feminina é um facto: “ A mãe e receptáculo de todas as coisas criadas e visíveis e de algum modo sensíveis não há-de ser chamada terra ou ar ou fogo ou água ou qualquer dos seus compostos, senão que é um ser invisível e informe que recebe todas as coisas e de algum modo misterioso participa do inteligível e é absolutamente incompreensível.” Podemos referir que quanto mais se caminha à frente no tempo mais se desvanece a importância da mulher.

Ao atravessarmos toda a história da Europa e do Próximo Oriente Antigo desde a Idade do Bronze até aos nossos dias verificámos que a mulher perdeu muito da dignidade que possuiu. O Cristianismo tentou suavizar a imagem da mulher com o culto de Maria. No entanto, o inconsciente colectivo da comunidade cristã via em Maria, Mãe de Deus, a Mãe Universal, a Mãe de todos nós. Não podemos deixar de referir que foi devido à grande pressão popular desde os primeiros séculos do Cristianismo que a Igreja proclamou Maria, no Concílio de Éfeso em 431, Theotokos. Mas só em 1854 foi proclamado o Dogma da Imaculada Conceição, após séculos de divergências no seio da Igreja principalmente entre franciscanos e dominicanos. Finalmente Pio XII, em 1950, proclamou o Dogma da Assunção.

O modelo mítico de Maria, Mãe de um deus encarnado que morreu pela salvação da humanidade e ressuscitou ao terceiro dia perpassa por inúmeras Deusas-Mãe da Antiguidade. Mas, Maria não é a Grande Deusa das religiões que precederam o Cristianismo, a Grande Deusa dadora da vida e da morte, a deusa da terra, a deusa das forças telúricas. A Virgem Maria é a Deusa dos Céus que sendo Virgem deu à luz o filho de Deus. Tiepolo entre 1767-69 pintou a Imaculada Conceição. Inspirando-se em Apocalipse 12,1 representou-a rodeada de querubins, de pé sobre o Quarto Crescente da Lua, pisando uma serpente dragão que tem na boca um fruto. A serpente é trespassada na cauda por um lírio símbolo da pureza de Maria. Por cima da sua cabeça paira uma pomba, símbolo do Espírito Santo que lhe concedeu o dom da concepção. Esta iconografia é totalmente reveladora da distinção entre a Deusa- Mãe da Terra e da Deusa -Mãe dos Céus.

De tudo o que foi dito concluímos que a Criação seja do mundo ou do homem está intrínseca e profundamente ligada ao princípio feminino e à mulher. A investigação científica diz-nos que a origem da vida na terra surgiu nas águas primordiais. A Ciência hoje, com todo o seu avanço científico e tecnológico quer na fertilização in uitro quer no processo de clonagem não conseguiu substituto do suporte feminino. Nós continuamos a nascer de uma mulher. E, até Deus, para se tornar humano precisou de um corpo de Mulher.

[1] Introdução à publicação em língua castelhana por María del Mar Llinares García, da obra de J.J. Bachofen, El Matriarcado , Ediciones Akal, 2ª edición, Madrid, 1992, p. 6.

[2] GIMBUTAS, M. The Goddesses and Gods of Old Europe, Myths and Cult Images , 6500- 3500 B. C. Thames and Hudson Ltd, London, 1996.

[3] EISLER, R. O Cálice e a Espada, Colecção Diversos Universos, Via Optima, Porto, 1998.

[4] ELIADE, M. Tratado da História das Religiões, Edições ASA, Porto, 1992, p.244.

[5] LERNER, G. The Creation of Patriarchy, Oxford University Press, Inc., New York, 1986.

[6] Idem, p. 146.

[7] SEMET, A. La grande Deésse n´est pas mort, Paris 1983, p.81.

[8] Gn 3, 14-18.

Ana Maria Mendes Moreira

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-mulher-o-divino-e-a-criacao/

Gibran – Pais e Filhos

Vossos filhos não são vossos filhos:

são filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.

Vêm através de vós, mas não de vós,

e embora vivam convosco, não vos pertencem.

Podeis doar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos;

Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,

porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.

O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força, para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: pois assim como ele ama a flecha que voa, ama também o arco que permanece estático.

(Gibran Khalil Gibran; O profeta)

___________________

Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando da parte de fora, mandaram chamá-lo. E a multidão estava sentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te procuram.

Respondeu-lhes Jesus, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos! E olhando em redor para os que estavam sentados à roda de si, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois aquele que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.

(Marcos 3:31-35)

Por que os pais (mesmo os mais espiritualizados) consideram seus filhos como sendo suas propriedades? Será que estão tão iludidos com a matéria que vêem no filho um apêndice? Será que a morte não ensina que não podemos controlar sequer os fios de nossa cabeça?

Quem não abandona seu pai e sua mãe, como eu, não pode ser meu discípulo. E quem não amar a seu Pai e sua Mãe, como eu, esse não pode ser meu discípulo; porque minha mãe me gerou, mas minha Mãe verdadeira me deu a vida.

(Evangelho de Tomé 101)

Huberto Rohden explica: “Quem nunca teve experiência mística da alma, e só conhece o seu corpo, dificilmente compreenderá essa insistência de Jesus no supremo amor das almas, que nasceram de Deus e são filhas da Divindade.”

Os pais temem que os filhos passem por dores, decepções, frustrações. Mas NADA vai prepará-los para a vida, a não ser a própria vivência. Pais frustrados passam seu legado maldito de medos, recalques e frustrações para os filhos, que introjectam esta carga venenosa e repassam, mesmo sem querer, para seus próprios filhos. Precisamos impedir esse vírus de se incubar dentro de nós e matá-lo logo no início. Os pais acham que não precisam de psicólogos, que basta ter um filho pra se tornar guardião da verdade. Não é assim. Os filhos também têm sua parcela de culpa por achar que os pais são a autoridade constituída (como um governo ditatorial) e que por isso mesmo deve ser combatida e superada.

Você culpa seus pais por tudo. E isso é absurdo. São crianças como você. O que você vai ser, quando você crescer

(Renato Russo; Pais e Filhos)

São seus pais, ora bolas. Seu espírito os escolheu, por algum motivo (seja qual for, era para o seu aprendizado, não para a revolta). Às vezes nascemos numa família cujos pais são alcoólatras para reforçar em nosso espírito a aversão pelo álcool. Mas nem sempre dá certo, e o sentimento de revolta (se não for trabalhado internamente) pode acabar jogando essa criança no alcoolismo. Outras vezes vemos nossos pais brigando e juramos pra nós mesmos que não seremos assim… e quando crescemos agimos exatamente como eles… onde ficou nosso aprendizado? Somos seres humanos em evolução? Cadê a evolução?

A revolta deve ser canalizada para a correção íntima, para o Dharma, o caminho correto. Quando a revolta não é trabalhada, gera apenas dor, sofrimento, mágoa, e quando menos se espera a pessoa está fazendo aquilo que ela outrora criticava…

Há uma parábola de Jesus no Evangelho de Tomé que ilustra o fato de que o espírito pode e deve ser trabalhado através das gerações:

Disse Jesus: O Reino se parece com um homem que possuía um campo no qual estava oculto um tesouro de que ele nada sabia. Ao morrer, deixou o campo a seu filho, que também não sabia de nada; tomou posse e vendeu o campo – mas o comprador descobriu o tesouro ao arar o campo.

(Evangelho de Tomé 109)

Huberto Rohden explica: “Tesouros espirituais não são transmitidos de pai para filho. O tesouro espiritual só pode ser descoberto quando se ara devidamente o campo, atingindo as profundezas ocultas do ser humano. A experiência espiritual é uma conquista da consciência, individual de cada um, e não um patrimônio racial. Cada indivíduo tem de “arar” o seu próprio campo humano para descobrir o tesouro oculto, que existia também nos antigos possuidores do campo, mas não foi descoberto e devidamente conscientizado por eles.”

Outras vezes nascemos numa família espiritual (ou seja, criada pela afinidade de muitas vidas juntos) e, quando constituídas de espíritos bons, os frutos dessa família poderão gozar de toda a infra-estrutura espiritual para a formação do seu caráter. Não é difícil que no seio dessa família surja uma “ovelha negra”, alguém que foi criado com todo o amor e cuidado, e se revela um mau-caráter desde cedo. É porque esse espírito imbecil tinha “créditos” (sabe-se lá como foram conquistados) para nascer nesta família, a fim de “endireitar-se”, e os pais, por serem bondosos, nem sempre assumem as rédeas da educação dos filhos como deveriam. Se o criador de uma árvore vê que ela está nascendo torta, é mais do que obrigação que ele amarre uma tala que impeça os movimentos para os lados, enquanto ela está em formação. Depois de enrijecido o tronco, não adianta se lamentar que a árvore nasceu torta…

Se, por outro lado, a família espiritual é composta de espíritos atrasados, tende-se a repetir (geração após geração) os mesmos erros do passado, que são tolerados por conta da convivência e que, quando não são botados em prática com os da família, o fazem com os “outros” (e ai de quem se apaixonar por um membro de uma dessas “confrarias” procurando trazer novos valores). Às vezes pode ocorrer de nascer um espírito totalmente diferente (pra melhor) para contestar certas “tradições” e trazer renovação ao grupo espiritual.

É através desses atritos (gente ruim nascendo em familia boa e gente boa nascendo em família ruim) que a evolução espiritual se processa. Pedra que rola não cria lodo. Os grandes espíritos não se sutilizaram através do ócio, e sim do trabalho aqui na Terra. O exemplo dos Grandes Mestres de todo o mundo não é de usufruto, e sim de serviço ao próximo. Você não precisa ir pra Índia lavar pratos e varrer o Ashram pra adquirir iluminação. Também não precisa dar esmolas ou contribuir com a Unicef. Pode começar se interessando em ajudar um parente, um amigo, o vigia do prédio, a secretária do lar. Ajudar não só materialmente, mas com um sorriso, um ouvido amigo, um conselho. Mas, principalmente, ajudando a criar aquilo que é sua responsabilidade direta, aquilo que o “destino” confiou a você: seja um animal de estimação, uma planta ou um filho. Vejam o drama de Pelé: rodou o mundo pregando o não-uso das drogas nos esportes, mas esqueceu de participar da vida do próprio filho. Culpa dos pais? Não mesmo. Pelé é um exemplo para a humanidade. Mas nada vai tirar da sua consciência que ele poderia ter feito mais pelo filho. Essa é a dor moral, a dor de um comprometimento kármico que ele precisa reajustar. A dor que só um pai ou mãe espiritual sente.

O que sobra disso tudo é a lição:

Pais, criem seus filhos doando de si o melhor de sua personalidade, não o pior. Lembrem-se da Lei do retorno: um dia você poderá ser o filho deles (mesmo nessa vida!).

Filhos, tentem aprender o máximo com os seus pais; antiquado não é sinônimo de ruim; absorva o que eles têm de melhor para ofereceram, descarte o pior, e repasse o aprendizado para seus próprios filhos.

#Espiritualidade #poesia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/gibran-pais-e-filhos

Guia dos Orgasmos Múltiplos

A técnica de indução de orgasmos femininos é um método antigo que não foi inventado, e sim compilado, pelo autor deste texto,  não funciona automaticamente, e é necessário entrosamento e atração entre os envolvidos na sua prática. Os orgasmos infinitos femininos, ou orgasmos múltiplos progressivos são uma série de orgasmos que a mulher vai tendo, cada vez mais fortes, até que, em torno do décimo orgasmo, a mulher cai em sono profundo. A intensidade, quantidade e velocidade dos orgasmos varia de mulher para mulher.

Procedimentos Iniciais:

Para uma mulher atingir o orgasmo múltiplo é preciso, que antes de tudo ela esteja excitada e atraída pela situação. Como em uma média as mulheres tem dificuldade de se entregar e confiar em um parceiro novo, esta técnica tende a apresentar maiores resultados em pessoas que já se relacionam a algum tempo e já adquiriram um nível de confiança mútua maior. Fique sempre atento para as expressões faciais, sons, movimentos ou qualquer outra coisa que a mulher possa lhe passar como informação. O seu sucesso depende diretamente da sua capacidade de saber se a mulher está fria ou quente na relação

Uma excelente forma de aumento de rendimento é ter a relação dentro do ambiente de fantasia da parceira, o que aumenta o seu nível de excitação.

Exemplos de fantasias mais comuns:

Carros, praias desertas, lugares com pessoas passando, elevadores, situações de perigo em geral, sado-mazoquismo (consentido), roupas e uniformes civis e militares, mesa da cozinha, pia do banheiro, laje, terraço e etc.

Exemplos de fantasias menos comuns:

Toilet sex, Rape sex, animais, profissões (fotógrafo, ginecologista, padre, professor, etc).

Via de regra as mulheres; diferentemente do homem, que se excitam mais visualmente; tendem a ficar mais atraídas por impulsos físicos, como o beijo, o abraço e carinhos em geral. Tenha isso em mente para um bom rendimento.

Outra forma de captar a concentração feminina de uma maneira bem eficiente é sussurrando e/ou gemendo em seu ouvido. O que vai ser sussurrado muda muito de mulher para mulher, algumas sugestões são: palavras de amor, pornografia leve, pornografia pesada, ofensas leves, ofensas pesadas, etc. É necessário saber exatamente em que tipo a mulher se encaixa, pois, o uso errado destas causa efeito contrário.

Técnica:

Para se alcançar o objetivo em questão, a maneira é fazer com que a mulher tenha o maior número de áreas sexuais estimuladas ao mesmo tempo. As áreas principais para a maioria é: boca, peito, anus, vagina, clitóris e bumbum. Como não existe regra, podem haver áreas diferentes para cada mulher, como os pés as mãos, a clavícula, o pescoço, a parte posterior do cotovelo e outras. Em um futuro será descrito como excitar essas áreas menos comuns.

A posição:

Existem duas posições principais nas quais foram conseguidos bons rendimentos: posição ginecológica, e de quatro. Uma outra alternativa é uma semi-cambalhota, mas essa é mais complicada.

Boca:

Beijo é fundamental, muito bem conhecido, não cabe a este texto ficar descrevendo uma forma de excitação tão bem difundida

Peito:

Outra forma de excitação bem conhecida, e uma das mais importantes. As melhores maneiras de excitação são: com os dedos em movimento circular em volta do bico, com os dedos no bico, comumente chamada de sintonia de rádio, e com o lábios, individualmente ou apertando os dois com a mão de forma a tentar chupar os dois ao mesmo tempo.

Anus:

Muito controvertido, geralmente adorado pelos homens, nem tanto pelas mulheres, é parte fundamental do processo. É muito recomendável que você conheça a pessoa, e faça uma higienização antes dessa fase, depois disso, não há muito problema. Abaixo algumas maneiras de excitação anal:

Beijo, beijar a entrada do anus causa excelentes resultados

Introduzir a língua, tão eficaz  ou melhor que o primeiro item. Deve-se penetrar com a língua o mais fundo possível, para isso, a melhor posição é a de quatro com o peito abaixado, formando um triângulo.

Introduzir o dedo, introduzir um dedo, ou mais de um ser for o caso, preferencialmente lubrificado, causa boas sensações, a parte mais sensível é a superior, logo abaixo da vagina, mais ou menos a 3 ou 4 cm do anus. Procure massagear de formas variadas, em círculos, vibrando, pressionando e tente descobrir qual a que fornece melhores resultados.

bolas tailandesas, fantástico acessório, são bolinhas plásticas amarradas por uma corda, com uma argola na ponta, que são introduzidas uma a uma no anus. Pode se acondicionar estas dentro de uma camisinha, para uma melhor higiene. A forma recomendada para o uso deste acessório, é ficar puxando a cordinha, como se solta uma pipa, ou puxa-lo até o limite imediatamente antes da bolinha sair do anus, e ai, soltá-la novamente. A medida que o êxtase vai chegando, tira-se as bolas uma a uma, de uma maneira mais ou menos calculada, para que, a última saia junto com o clímax, quando isso acontece, a reação feminina é fortíssima e indescritível. Estas bolas são amplamente vendidas no comércio, podendo ainda ser comprada on line, sua faixa de preço é de R$15,00 tendo três tamanhos principais: pequeno médio e grande; prefira o grande ou médio. Existe ainda o Mega Ball, que são três bolas ao invés de cinco, com um tamanho bem mais avantajado, as bolas normais tem o tamanho de uma uva, as megas tem o tamanho de uma bola de ping-pong, e podem ser usada analmente ou vaginalmente. Tenha o cuidado de lavar a bola ou trocar a camisinha se for tirar a bola do anus e introduzir na vagina.

enema, método muito apreciado pelo autor, também conhecido como lavagem intestinal. Existem explicações mais científicas ou menos científicas para o prazer que a mulher sente com o enema, encontram-se páginas na web que tratam somente deste assunto, são as water sports. Muito usado medicinalmente em mulheres grávidas e outros procedimentos cirúrgicos, este método pode ser repugnante e humilhante para uns, e muito admirado por outros, cabe ao leitor a descoberta. O processo consiste em injetar água ou óleo de preferência mineral, no anus da mulher, aguardar pelo menos cinco minutos, e depois faze-la expelir, então repete-se a operação mais duas vezes, ou quantas forem necessárias ou agradável. Durante o processo podem surgir cólicas, se isso acontecer, pare. Alguns gostam de ter orgasmo com o intestino cheio do fluido, outros preferem esvaziá-lo. O equipamento para o enema pode ser um clister, uma ducha ginecológica, um irrigador ou uma seringa bem grande. A capacidade de enchimento varia de pessoa para pessoa, mas a média fica em torno de 400 a 600mL. E a posição adequada para isso é a deitada de lado, de costas ou de quatro, preferencialmente a primeira.

Penetração: Outra forma apreciada e detestada é a penetração anal, também bastante conhecida, todavia, não se aplica bem a técnica abordada.

Plug anal: plug ou pênis artificial é um bom artifício para excitação anal,  causa uma sensação de preenchimento maior. Existem várias formas e preços, com ou sem vibrador, procure escolher um que não seja muito grosso, e que tenha um formato e cor simpáticos.

Vagina:

Parte fundamental da técnica, todavia, não tão bem explorada,  como deveria ser. Abaixo algumas sugestões:

Língua: Passar a língua na porta da vagina inicialmente para um pré-aquecimento, e só depois disso colocá-la bem fundo na vagina. Procure de preferência excitar as parte superiores, o mais próximo do Ponto G, que fica na metade do caminho entre a entrada e o colo do útero. Movimente a língua ao máximo, para cima e para baixo, de um lado para o outro e movimentos circulares. Depois de uma excitação vigorosa, pare por 10 segundos, isso vai parecer uma infinidade para a mulher, e vai deixá-la mais propensa a próxima excitação, depois do que retome o processo. Pode-se também intercalar uma penetração profunda com uma superficial, na porta. Distribua beijos por toda a área da vulva. Sugue os grandes e pequenos lábios. Sem dúvida a melhor posição para a penetração vaginal é a de quatro, segura-se a cintura da parceira, com a língua na entrada da vagina, e puxa-se contra o seu rosto com força. Um alternativa que também rende bons resultados é a posição ginecológica.

Dedo: Tão excitante quanto a língua, para algumas até melhor, é a excitação da vagina através dos dedos, em condições normais, um ou dois. O número de dedos vai com o gosto da pessoa, mas, um dedo apenas é melhor para acariciar o ponto G, este, como foi dito, fica na metade do caminho entre a entrada da vagina e o colo do útero, na parte de cima logo abaixo da barriga, contudo, você só o vai identificar a diferença na textura da mucosa vaginal após uma boa excitação. Algumas pessoas sentem mais rugosas outras chegam a encontrar uma espécie de fio tensionado, caso o encontre, este é o melhor lugar para acariciar. O  movimento ótimo para para ser feito é o movimento em  forma de oito, com o centro do oito sobre o ponto G. Alterne movimentos de fricção forte e rápida, com suaves e lentas, mude para carinhos externos e depois para outros profundos chegando até o colo do útero.

Clitóris:

O clitóris é a parte decisiva da técnica, e existe uma infinidade de formas de excitá-lo. Serão descritas algumas aqui.

Massagear o clitóris com um dedo, o polegar ou o indicador, de preferência lubrificado com saliva. Faça movimentos com delicadeza para não doer. Pode-se colocar o clitóris entre o dedo indicador e o maior de todos e fazer movimentos circulares, esta forma é complicada de se executar, mas também tem bons efeitos.

Beijar o clitóris, levemente, fortemente, ou alternando, são excelentes maneiras de aquecer uma mulher.

Passar a língua: das formas de acariciar o clitóris esta é a mais diversificada. Um dos movimentos de maior sucesso é o que se faz em forma de oito, com o centro do oito sobre o centro clitoriano. Outra forma é o de cima para baixo, e de um lado para o outro. Procure sempre atingir o clitóris pela parte de baixo dele, levantando a pele que o recobre com o auxílio suave das mãos ou dos lábios, esse ponto é o de maior sensibilidade, e provoca efeitos mais rápidos. Outra abordagem é começar os trabalhos com o clitóris fazendo um mínimo toque com a língua ou com os lábios, quanto menor melhor,  e a partir daí, aumentar progressivamente. Apertar  entre os lábios e chupar-los também causa um bom efeito. Varie sempre a velocidade e intensidade dos movimentos, até achar a forma adequada.

Procedimentos Finais:

Para se chegar a etapa final que são os orgasmos múltiplos é preciso ter em mente uma regra básica, quanto mais sensações a mulher estiver sentindo ao mesmo tempo, e mais excitada ela estiver melhor.

Primeira Etapa: As preliminares

Para a primeira parte é necessário empregar um bom tempo nas etapas de beijo, de preferência pelo corpo todo, e na de excitação das mamas. A etapa seguinte deve ser feita somente depois de a mulher estar com um bom ímpeto sexual, caso não esteja, a possibilidade de insucesso é mais alta.

Segunda Etapa: O clitóris

Tendo concluído a fase anterior, o passo seguinte é a massagem do clitóris com as mãos, pode-se passar direto aos lábios ou língua, mas, começando-se com as mãos, a língua terá seu efeito  multiplicado. Uma analogia para o que acontece são situações de quente e frio, ou doce e salgado, exemplo, se coloca as mãos em uma água muito gelada e depois troca-se para uma água muito quente, esta vai parecer bem mais quente do que realmente está.

Terceira Etapa: O ânus

Para a terceira etapa, que também só deve ser feita após ter-se resultados satisfatórios com a fase anterior, pode-se escolher entre uma das técnicas acima descritas. Pelas experiências práticas, a que surte maior resultado é a das bolas tailandesas, também conhecida como bolas chinesas ou anal beads. Toma-se as bolas e introduz-se uma a uma na parceira, a melhor posição para isso é a de quatro, com o peito abaixado. Estando a mulher bem excitada, seu anus deverá estar latejando, assim, deve-se encostar a bolinha efetuando-se leve pressão, e só empurrar para a introdução quando os músculos estiverem relaxados. Caso seja possível, mantenha a massagem clitoriana durante esse etapa, isto não é difícil como pode parecer. Após ter-se colocado a última bola, passe um tempo aplicando leve puxões a cordinha, sem deixar nenhuma bola sair, isto causará uma sensação muito agradável a parceira.

Escolhendo a excitação com a língua, deve-se fazê-la, juntamente com a massagem do clitóris.

Lançando-se mão da introdução anal de um dedo,  também deve-se manter a língua ou os lábios no clitóris.

Observe que para o caso da opção ser as bolas, ou a do enema, é preciso ter tais acessórios preparados antecipadamente, para que não haja perda de tempo, e com isso, redução do ímpeto sexual.

Quarta Etapa: A vagina

Concluindo o processo está a quarta etapa, se a moça não estiver bem quente neste momento, talvez seja melhor recomeçar.

A experiência mostrou que ótimos resultados são alcançados da seguinte forma: mantém-se a excitação anal com uma das mãos, outra mão passa a massagear o clitóris, e os lábios beijam a vulva, primeiro bem levemente, e a medida que o tempo passar, cada vez mais forte, até que chegue o momento de penetrar a vagina com a língua, primeiramente só na entrada e progressivamente o mais fundo que for possível. Depois de um espaço de tempo empregado desta forma, alterna-se os lábios para o clitóris e os dedos para a vagina, também ai deve-se primeiramente excitar a entrada e depois lá dentro. Procure o ponto G, como foi descrito anteriormente, e passe a massageá-lo vigorosamente, pode-se empregar bastante força nisto, cuidando-se apenas para não encostar a unha, que certamente fará um corte na mucosa. Mantenha este procedimento, anus, vagina e clitóris, mudando de vez enquanto uma das mãos para as mamas, bumbum ou o resto do corpo, e depois voltando ao mesmo local.

Conclusões:

O tempo para a mulher começar a ter os orgasmos múltiplos vai variar de uma para a outra, pode ser que não se consiga os resultados desejados na primeira tentativa, mas a medida que o timing da parceira seja sincronizado, o processo vai ficar bem mais fácil.

Se a mulher nunca tiver usado o ponto G, e sendo este devidamente estimulado, sua parceira pode vir a ter reações muito fortes, podendo vir a ter uma ejaculação.  Já foi observada situações de a mulher ter quinze minutos de orgasmos em séries intermitentes. Geralmente nenhuma resiste a mais de dez, caindo em sono profundo, completamente exausta.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/guia-dos-orgasmos-multiplos/

As lições da evolução

Todos aqueles que não se alistaram em guerras santas tem como tirar lições da teoria de Darwin-Wallace para a evolução das espécies; Lições de como a natureza funciona não só no nível físico, como também no espiritual. Engana-se quem pensa que a evolução determina o trunfo do materialismo sobre as demais interpretações da natureza. Se a ciência moderna optou por “esquecer” de Alfred Russel Wallace, que era espiritualista, pelo menos nada pode fazer quanto ao encerramento que Charles Darwin deu para o seu célebre livro, no último parágrafo de “A Origem das Espécies”:

“Assim, a coisa mais elevada que somos capazes de conceber, ou seja, a produção dos animais superiores, resulta diretamente da guerra da natureza da fome e da morte. Há grandeza nesta concepção de que a vida, com suas diferentes forças, foi alentada pelo Criador num curto número de formas ou numa só e que, enquanto este planeta foi girando segundo a constante lei da gravitação, desenvolveram-se e se estão desenvolvendo, a partir de um princípio tão singelo, infinidades de formas as mais belas e portentosas.”

Sabemos que esta teoria nunca pretendeu explicar o surgimento da vida, tampouco o da consciência humana, e sim o mecanismo pelo qual a vida evoluiu a partir das primeiras e mais primitivas formas de vida na Terra. Mesmo assim, e não sem boas razões, ela se tornou um dos pilares que sustentam o pensamento materialista moderno – de que tudo o que somos se resume as partículas de nosso corpo – ainda que não façamos idéia de quais partículas formam a consciência, mas isso é uma outra história.

O que eu gostaria de destacar aqui, porém, é que a evolução também traz enormes lições para uma visão espiritualista da existência:

Somos todos um

Ainda que a nível físico, somos formados por partículas, por poeira de estrelas longínquas que chegaram até nós em meteoritos e, misturando-se com os elementos da Terra em seu berço, criaram de alguma forma ainda oculta os primeiros organismos. De formas tão simples quanto bactérias, tudo o mais surgiu, evoluindo a partir do mesmo código da vida, o DNA.

Hoje a ciência sabe que não existem raças humanas, nosso genoma é praticamente idêntico do aborígene australiano ao homem branco europeu. Não apenas o racismo é ignorância, mas a própria noção de que somos seres a parte na criação, de que os animais irracionais nos servem como meros objetos, é absurda. Os índios já sabiam que somos todos um, que a natureza é uma só, e que estamos todos conectados; Mas, na época moderna, foi preciso a prova científica para que abríssemos os olhos. Esta é a maior lição da natureza: da próxima vez que olhar um pequeno roedor em sua toca, saiba que foi graças a eles que sobrevivemos à época da grande extinção dos dinossauros [1]. Nós somos filhos dos roedores, e das bactérias, porque nesse caminho cósmico, ninguém é mais especial que ninguém, a todos foi dada a mesma oportunidade de viver e de evoluir.

Nos beneficiamos das trocas

O conceito de “raça pura” foi definitivamente enterrado pela evolução. Se o nazismo surgiu no mundo, foi porque seus líderes eram também ignorantes, e perderam a oportunidade de aprender com a natureza. Seres humanos isolados, reproduzindo-se apenas em pequenas comunidades locais, são muito mais vulneráveis a vírus e doenças em geral, pois simplesmente não tiveram misturas suficientes com os genes de outros humanos que caminharam por outras partes do globo.

Porém, mais do que isso, sabemos que as trocas comerciais, culturais e religiosas são fundamentais para o desenvolvimento da humanidade como um todo. Foi com a rota da seda, da Índia para a Europa e Oriente Médio, que as grandes civilizações começaram a se desenvolver mais rapidamente. Foi na época da afluência de várias correntes filosóficas, científicas e religiosas para um mesmo local de paz que muito do pensamento humano se solidificou: da Grécia Antiga a Alexandria, de Al-Andalus ao Renascimento na Europa.

Se alcançamos tais façanhas com trocas de genes, mercadorias e conhecimento, quem sabe onde poderemos chegar com a troca de amor?

O altruísmo é uma evolução da espécie

Desde bactérias que gastam energia para produzir uma substância viscosa que faz suas colônias flutuarem na água e ficarem mais protegidas, até a troca de oferendas ancestrais de hominídeos, onde os machos traziam alimento de suas caçadas para trocar pelo sexo com as fêmeas, o altruísmo tem se comprovado como uma evolução da espécie.

Aquele que caça sozinho terá mais comida quando abater uma presa, porém a história prova que são as espécies que caçam em grupo que obtém a maior vantagem evolutiva: quando todos se ajudam e auxiliam mutuamente, ainda que tenham de dividir a caçada, existem maiores garantias de que não morrerão de fome, solitários, pois a probabilidade de haver boa caça todos os dias é bem maior em grupos que têm mais olhos e mais armas afiadas.

Desde épocas imemoriais, a natureza tem nos ensinado tal mistério: quanto mais nos afeiçoamos aos seres, mais capacidade temos de nos afeiçoar ainda mais. O amor é combustível que não acaba nunca, o fogo de sua pira é eterno e o vento só faz ele crescer mais e mais…

Das adversidades nascem os grandes saltos evolutivos

Nenhuma espécie evoluiu com vida mansa, seja pela abundância de presas para caçar ou pela ausência completa de predadores. Sem a adversidade, seja esta um predador faminto ou um estômago suplicando por energia, os seres não teriam motivo para evoluir.

Embora todos gostemos de paz, de que tudo “ande nos trilhos”, não podemos esperar que as adversidades passem ao largo. Esta seria, ao longo prazo, uma grande armadilha. A estagnação, seja física, seja mental, seja espiritual, é o grande mal da humanidade. A época negra na Europa medieval demonstrou que dogmas não nos servem de salvação, e que manuais de verdades absolutas de nada adiantam se as pessoas ainda são ignorantes da real interpretação dessas verdades. Adquirir conhecimento não faz de ninguém um santo: é preciso praticar, é preciso sujar os pés de lama, é preciso encarar o deserto e compreender que, onde quer que haja estagnação, a natureza não nos deixará relaxar.

A “guerra da natureza”, a que Darwin mencionou acima, é uma forma pela qual o seu mecanismo continua nos puxando, e puxando, sempre para cima.

O ambiente nos molda
Pequenos cataclismas submarinos, causados pelo fim da vazão de água em altas temperaturas da crosta terrestre, podem fazer com que nichos ecológicos inteiros de seres microscópicos se extinguam, levando consigo pequenas barreiras de corais e espécies das profundezas do oceano. Um rio muda de curso, as monções são interrompidas, e impérios inteiros se extinguem, ou partem para invadir novos territórios, como é caso tão comum na história do sul da Ásia…

Em nossa vã esperança de que fossemos o centro de todo o Cosmos, acreditamos que os deuses é quem deveriam nos servir, ainda que através das mais variadas formas de barganha. Ainda hoje, há cientistas que crêem que podem ditar os rumos da natureza, “criando” novas espécies ou retardando indefinidamente o envelhecimento das células do corpo. Tudo em vão: nada está parado, tudo flui, tudo vibra. A natureza se move em ciclos, e dentre eras glaciais terrestres, surgiu o ser humano e todo o seu conhecimento.

Mas nem todo conhecimento é em vão. A maior prova está na compreensão de que, muito mais do que as disputas pela sobrevivência, é o meio-ambiente que molda a evolução das espécies. E mesmo aqui, uma vez mais, os índios estavam certos: estamos todos conectados, principalmente com a natureza a nossa volta.

A natureza é livre

O homem vem tentando compreender os mecanismos da natureza, mas até hoje falha miseravelmente em qualquer tipo de previsão mais aprofundada sobre para onde o vento soprará a seguir. Prever o clima a curto prazo é possível, a longo prazo não: é que a natureza insiste em erguer o seu véu, e dentre pequenos eventos que, por não sabermos a causa real, chamamos de “caóticos” ou “aleatórios”, nada realmente pode ser previsto do futuro. Nem onde o vento vai soprar, nem onde a terra vai tremer, nem até onde a evolução poderá nos levar.

Darwin dizia que o destino das espécies “tende a perfeição”. Muito embora seja complexo definir o que seja perfeição, a natureza jamais cansará de nos surpreender. Em apenas alguns segundos do ano cósmico, surgiu o homem e todo o seu conhecimento. A perfeição é o amanhã, é o porvir, é a potencialidade das consciências etéreas a bailar por entre eras e espécies – e ninguém pode realmente prever aonde tudo isso vai dar.

De sua agenda, a vida mesmo cuida: a natureza é livre.

A vida é a função do sistema

Embora todo sistema tenha sua função, há muitos que preferem ignorar que o sistema-natureza também tenha a sua. Em cada partícula que insiste em moldar organismos que se comportam de forma anti-entrópica enquanto vivificados, encontra-se parte do texto sagrado; Texto este que, codificado, reafirma através de infinitas reações químicas em meio ao turbilhão do universo: “Produzir vida, esta é a minha função”.

A lei da evolução
Nem o mais forte, nem o mais inteligente. Sobrevive e evolui aquele que melhor se adapta as condições do ambiente, e as suas mudanças.

Fisicamente, fazemos parte da espécie que obteve o maior sucesso em se adaptar ao meio-ambiente. Exploramos e ocupamos as zonas mais remotas do planeta, e hoje estamos em via de nos lançar ao oceano do Cosmos. Que nos faltará, senão uma adaptação de consciência? Senão explorar e ocupar nosso infinito interior?

***
[1] Um biólogo amigo meu apontou uma correção: “nosso ‘ancestral’ sobrevivente da extinção dos dinossauros não era um Roedor, que é um grupo avançado do qual os Primatas não derivaram; mas fazia parte de ordens extintas, como os Multituberculados, que só superficialmente lembram roedores”. Devido a característica poética do trecho, preferi deixar assim.

Este artigo também se encontra traduzido para o inglês: “The lessons of evolution”

Crédito das imagens: [topo] Louie Psihoyos/CORBIS (Paleontologista Doug Zhiming); [ao longo] Bettmann/CORBIS (Neanderthal)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Ciência #Espiritualidade #Evolução

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/as-li%C3%A7%C3%B5es-da-evolu%C3%A7%C3%A3o

Lovecraft Country: racismo, spoilers e papel higiênico

Critica e resenha do livro Lovecraft Country de Matt Ruff que está sendo adaptado pela HBO e ainda em sua primeira temporada.

29 de janeiro de 1839, Darwin propõe casamento a sua prima Emma que aceita o pedido. Pouco mais de dois meses antes ele fez uma lista em seu diário pessoal contabilizando os prós e contras de se assumir tal compromisso. Na lista dos motivos pró casamento ele deixou registrado pérolas tais como “uma companhia constante (& uma amiga na velhice) que se interessará por mim – alguém para amar e brincar – melhor do que um cachorro, de qualquer forma”. Na lista dos contra ele expôs “ter que trabalhar por dinheiro – adeus aos livros – perda de tempo – menos dinheiro para comprar livros – não poderei ler durante as tardes”. O homem que, querendo ou não, matou Deus, de uma forma mais brutal do que Nietzsche, chorando por causa de livros. Pense a respeito sobre isso por um instante.

Comecei o ano de 2020 com a publicação de “O Caso de Charles Dexter Ward” da editora Hedra, lançado em 2014. Acredito que, em parte, a culpa disso tenha se originado no fato de a última leitura do ano de 2019 tenha sido a coletânea “À Procura de Kadath” da editora Iluminuras, publicada em 2002. Termine um ano com Lovecraft e inicie o próximo com Lovecraft. Acho que foi por isso que minha escolha de primeira leitura oficial do ano tenha sido “Lovecraft Country (Território Lovecraft)“, escrito por Matt Ruff em 2016.

Foi no fim em 1982, quando eu contava com meus 12 anos, que meu nariz foi quebrado pela primeira vez. Era um jantar de ano novo, me ofereceram uma taça de Champagne para comemorar e eu, no auge da maturidade que apenas uma criança de 12 anos recém completados, respondi algo como “Ta maluco? Vovô diz que vinho é coisa de viado!” Minha mãe, sentada ao meu lado, apenas esticou o braço com um golpe certeiro, resultado de anos praticando boxe. “Querido, se não vai falar algo inteligente, cale a boca. E coloque o guardanapo no nariz, você vai pingar sangue em toda a mesa.” A ceia prosseguiu, eu não consegui comer mais nada, estava assustado, estava sentindo dor, humilhação, raiva… mas não deixei meu sangue pingar na toalha.

Desde pequeno me agradava a companhia de livros. Às vezes nem os lia, apenas gostava de sentir o peso na mão, mas em grande parte do tempo os devorava. De Monteiro Lobato às aventuras americanas dos detetives juvenis d’Os Hardy Boys – escritas por uma miríade de escritores fantasmas que assinavam Franklin W. Dixon. Guardava debaixo da cama um bloco maciço formado por mais de quinhentos livros, todos trazendo meu ex-libris carimbado na contra capa. Ainda não possuía nenhum método ou organização. Conheci Frank Belknap Long e Robert Bloch antes de ser apresentado a Lovecraft. Anos separaram Dejah Thoris, Princesa de helium, de John Clayton II, Visconde de Greystoke – apesar de terem nascido na mente do mesmo homem. Lia sobre homens sendo cimentados vivos atrás de paredes e sobre corcéis indomados em ilhas desertas. Esta época eu chamo, com certa nostalgia, de a época de minha inocência literária. A inocência que terminou naquela noite em que permaneci sentado na mesa, segurando o choro, enquanto todos comiam animados e eu segurava um guardanapo molhado de encontro ao nariz.

Eu sentia o peso do livro nas mãos. A arte das capas e o papel usado na impressão remetendo à época em que escrevia e às revistas que publicavam suas histórias. Revistas Pulp, baratas – ao contrário do livro que no Brasil está sendo vendido a mais de R$70,00, com sorte você encontra uma edição nova por R$55,00 ou R$60,00. E, em janeiro de 2020, comecei a ler sobre Atticus Turner e sua busca para encontrar o pai desaparecido em 1954. Atticus era, assim com seu tio e tia e aparentemente a maior parte de sua família, um fã ferrenho de ficção científica e de literatura fantástica. Ele, assim como sua família, era negro – ou afro descendente como o pudor nos faz dizer hoje. Uma semana depois e eu fechava o livro. Em minha melhor época, ler essas 400 páginas me custaria 3 dias, 4 no máximo, mas a responsabilidade de hoje faz com que as leituras acabem me tomando mais tempo, o que não acho nem um pouco desagradável, para ser sincero. O que achei desagradável foi a história escrita pelo senhor Ruff. Não sabia se ficava mais nervoso em ter gastado o dinheiro com o livro – ao invés de comprar dois ou três obras diferentes – ou de ter perdido uma semana lendo aquilo. Se existe algo que eu levo muito a sério, mais do que na época da inocência, é o que alguém deixa impresso em uma brochura.

Naquela noite de fim de ano minha mãe se sentou ao meu lado na cama e disse “aguente firme”. Com um movimento rápido ela fez meu nariz estalar, um jorro de dor quente brotar atrás de meus olhos e então eu comecei a sangrar de verdade. “Pronto, está de volta no lugar”, ele disse como alguém que apenas constata um serviço que sabe estar bem feito.

Eu estava encarando o vazio, tentando não chorar de novo – desta vez por causa da dor – quando, com um dedo dobrado segurando meu queixo, ela m e fez encarar seus olhos.

“Seu avô nunca disse aquilo que você falou na mesa. Dizer aquilo daquela forma é uma falta de respeito com ele, com o que ele diz e o pior: com as ideias dele. Para alguém que passa tanto tempo lendo você deveria ser o primeiro a respeitar as ideias de alguém. Mas você só aprende a respeitar as ideias de alguém quando aprende a ouvir realmente o que dizem.”

Ela jogou com delicadeza meu queixo para um lado e depois para o outro, examinando meu nariz.

“Às vezes fico pensando se você está lendo mesmo esses livros ou se só fica repetindo as palavras dentro de uma cabeça oca. Quando você lê, ouve um eco entre as orelhas?”

Eu pretendia ficar quieto, achei que era parte das perguntas retóricas que normalmente compõe um sermão, mas vi os olhos dela. Balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu rosto latejando enquanto fazia isso.

“Ótimo. Então eu proponho que você aprenda a ler de verdade antes de continuar perdendo seu tempo com esses livros, porque pelo que disse hoje parece mesmo que só fez perder seu tempo.”

Ela colocou uma cópia de Alice no País das Maravilhas no meu colo. Não sei de onde havia saído o livro, não a vi carregando ele.

“Pegue este livro e o leia. Depois releia e leia mais três, quatro, dez vezes. Só pare de ler quando tiver aprendido a ler o que está aqui. Eu não pegaria mais nenhum outro livro até ter certeza que está aprendo a ler mesmo. Entendeu?”

Fiz que sim com a cabeça.

Ela ia se levantar da minha cama quando olhou para mim e me fez encarar novamente seus olhos.

“Querido, você sempre será amado por todos nós. Somos uma família, certo? Esse amor é incondicional. Mas para ser respeitado você precisa crescer. Não seja burro, não seja alguém que diz coisas só por dizer. O mundo está cheio de idiotas assim, que não sabem ouvir algo, que não sabem interpretar algo, que não querem pensar e que dizem qualquer coisa que lhes vem ao que chamam de mente e eu não quero meu filho seguindo esse caminho. Se seguir, continuará sendo meu filho, entende? Mas não é o que quero para você e com certeza não é o que você irá querer para você também. Boa noite.”

Obviamente o nome Lovecraft está na capa como isca. Ele ou qualquer referência à sua obra são citadas de forma casual apenas um punhado de vezes. Se a ideia era criar um clima Lovecraftiano para a história Ruff falhou lamentavelmente, a história curta de Borges ‘There Are More Things…’ publicada na coletânea Livro de Areia consegue em sua dezena de páginas criar uma ambientação que literalmente explode no clímax. Obviamente não estou comparando Ruff com Borges, seria o mesmo que colocar um cadeirante no ringue para lutar 15 rounds com Muhamed Ali ou Rocky Marciano. Minha sugestão seria apenas que o primeiro lesse o conto do segundo e, quando percebesse que não teria a capacidade de criar algo próximo, desistisse de associar seu livro com o testamento literário do escritor da Nova Inglaterra. O texto em si é insosso e as histórias – sim, existe mais de uma – vão ficando cada vez mais previsíveis e parecem todas carecer de um clímax, mesmo que todas estejam conectadas pela trama principal acabam sendo versões fracas de diferentes estilos de contos de ficção científica, de terror ou de fantasia. Não existe um vilão que você queira ver vencido, não existe uma personagem cujo carisma se mantenha quando você não está lendo sobre ela – e algumas nem enquanto lê apresentam o carisma. Se minha ideia era ter em mão uma releitura contemporânea do gênero que Lovecraft criou, moldou e apadrinhou, ler o livro foi como receber um novo murro no nariz. A leitura superficialmente é insossa tal qual uma tigela de caldo de pedra. Mas poderia haver alguma complexidade mais profunda?

Durante aquela semana li e reli o livro que contava as aventuras de Alice, ficando cada vez mais frustrado. No segundo dia perguntaram se eu não pretendia sair do quarto para comer, disse que não tinha fome.

“Claro que tem fome, está com o orgulho ferido e por isso não quer sair do quarto, desça agora”, e assim minha mãe pôs fim a minha greve de fome.

O que aquele livro tinha demais? Chegou o momento em que eu conseguia recitar algumas passagens de cor, mas não era o que eu queria. Resolvi começar a escrever uma resenha do livro, logo havia escrito cinco. Era uma metáfora que mostra que quando crescemos perdemos também a inocência? Que somos obrigados a viver em um mundo louco e sem sentido? Confrontamos adultos com regras que aparentemente são loucas para uma criança, mas temos que obedecê-las? Tudo fazia sentido, tudo era óbvio, nada me agradava. Não levei um murro na cara por causa disso. Quem

Escreveu o livro era um padre inglês, isso eu sabia, e ele inventava a história para entreter uma garotinha, a Alice do livro. Pedofilia? Uma versão real de Lolita? Ou seria simplesmente uma história sem sentido com o único objetivo de entreter uma criança de 10 anos? A cada dia meu humor azedava mais e mais.

Casualmente numa tarde particularmente irritante, fechei o livro. Meu irmão mais novo estava sentado no chão, rabiscando algo em folhas de papel – provavelmente tentando resolver algum problema ou charada. Antes de perceber o que estava fazendo o chamei:

“Leroy, me diz se isso faz sentido.”

E li para ele um trecho do livro:

“Vou experimentar para ver se sei tudo que sabia antes. Deixe-me ver: quatro vezes cinco é doze, e quatro vezes seis é treze, e quatro vezes sete é… ai, ai! deste jeito nunca vou chegar a vinte!”

“Claro que não, esse livro está deixando você com miolo mole!”

Naquele momento eu senti toda a angústia dos últimos dias subir pela minha garganta e se destilar em ódio. Fiquei de pé, joguei o livro longe e marchei com passos duros em direção ao caçula. Os punhos doíam pela força com que os estava fechando. Parei na frente dele e…

Não sabia se o que ele tinha falado era besteira ou não. De fato sentia como se o livro estivesse amolecendo meus miolos. Estava com raiva de ler e sentia que aquilo seria a desculpa para não pegar em mais nenhuma porcaria de livro pelo resto da vida e foi então que reparei nos olhos de Leroy. Ele não havia saído correndo – imaginou que ia apanhar, deve ter pensado que merecia e apenas ficou lá para levar o castigo pela piada impensada – mas então vi algo que até então apenas havia lido a respeito.

Os olhos de Sherlock Holmes, em algumas das histórias escritas por Sir Arthur Conan Doyle, são descritos como particularmente afiados e penetrantes, imbuídos de um olhar distante e introspectivo quando sua mente passava a funcionar a pleno poderes e como ele tinha a capacidade de desconectar em grau extraordinário sua mente sempre que precisava.

Naquele dia fui testemunha de algo semelhante. A mente de Leroy não se desconectou por vontade própria, foi como se ela percebesse algo e o deixasse catatônico, enquanto a consciência de seus olhos era tragada para o fundo de sua psiquê. Num momento ele me encarava com medo e apreensão quando, de repente, não havia mais nada ali, primeiro seus olhos se apagaram e depois de instantes passaram a brilhar.

“Pera…” Ele disse, começando devagar e ficando agitado “repete, como é? Quatro vezes cinco é doze? Quatro vezes seis é treze?”

Enquanto eu corria para pegar o livro para abrir na página ele continuou.

“Isso… e ele falou quanto era quatro vezes sete?”

“Não.” Eu respondi, olhando para ele e sabendo que não ouvia o que eu dizia.

“Bom… quatro vezes sete então seria catorze, seguindo a lógica. E quatro vezes oito igual a 15. Isso faz sentido!” E começou a rabiscar no papel. “Nossa, isso é brilhante e muito engraçado! Que livro é esse?”

Eu mostrei a capa.

“Quem escreveu isso gosta de matemática, tem mais contas? Ou charadas?”

Eu disse que assim que acabasse de ler lhe emprestaria o livro e pedi para explicar o que era brilhante.

Ele olhou para mim irradiando de felicidade. Leroy gostava de números, muito. Isso significa que ele nunca teve muito com quem conversar – além de um tio nosso. Quando alguém precisava resolver um problema falava com ele, mas raramente pedia explicação. Alguém se interessar pelos números dele e querer entendê-los era algo que o deixava extático.

“Olha, é assim. A gente escreve e pensa em uma base decimal, certo? A gente usa 10 números: 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8 e 9 para escrever qualquer número, e dividimos os números em casas decimais, a casa das unidades, das dezenas, centenas…” Ele ergueu os olhos do papel onde desenhava pequenos quadrados e me encarou “Muito chato?”

“Não… nem um pouco… continua, finge que eu sou burro, pode explicar bem devagar.”

Ele riu e se animou mais.

“Então, quando a gente conta até nove chegamos no limite das unidades, por isso que quando vamos para dez colocamos um zero no lugar das unidades e um número um no lugar das dezenas. Ai cabem mais nove unidades e mais do que isso são duas dezenas. Mais do que nove dezenas vira uma centena e assim vai. Certo? Então. Quando fazemos quatro vezes cinco, terminamos com vinte unidades, ou duas dezenas. Marcamos dois e zero, assim: 20. Agora, e em outro sistema diferente? Tipo num sistema de base onze cabem dez unidades na casa das unidades e só uma na casa dos onze aqui. Então em um sistema onze teríamos um número assim: 1-10 como resultado para 4 vezes 5. Agora não podemos colocar um 10 aqui, porque são dois números, mas a ideia é que do lado direito é o número mais alto, como o nosso 9, então em base onze quatro vezes cinco seria igual a 19. Se vamos subindo a base, base doze, base treze, base quinze… o resultado vai diminuindo. Em base 18 quatro vezes cinco é igual a doze.”

“E quatro vezes seis é treze?” Perguntei entusiasmado.

“Não. E ai é que fica genial. Quatro vezes seis só é 13 se usarmos base 21. Quatro vezes sete é 14 em um sistema de base 24. Legal né?”

Eu começava a enxergar algo por trás da história. “Sim” Eu concordei boquiaberto.

“Agora fica genial. Se aumentarmos as bases de 3 em 3, como ele parece estar fazendo, olha só. Em base 27 quatro vezes oito é igual a 15. Em base 30, quatro vezes nove é igual a 16. A gente vai subindo a base em três, multiplicamos quatro por um número mais alto e o resultado sobe de um em um, rumo a vinte, viu? Só que ele disse que assim nunca vai chegar a vinte, olha. Na base 39, quatro vezes doze é igual a 19. A próxima base seria 42. Mas o produto não dá igual a vinte, porque cabe muito mais unidades antes da base 42 se encher duas vezes. Então ele nunca vai chegar a vinte mesmo seguindo essa tabela. Insano né?”

Fiquei olhando para Leroy pensando que genial era alguém conseguir enxergar isso de forma tão rápida e achar graça ainda. Agradeci e peguei o livro e resolvi pesquisar a vida de Lewis Carrol antes de continuar lendo.

Duas semanas depois estava no sofá da sala, lendo da forma mais casualmente escancarada que era fisicamente possível para mim um livro de William Blatty. Escolhi aquele livro não pelo assunto, mas porque a capa vermelha chamava a atenção a quadras de distância – ou assim esperava. Se passaram algumas horas até ouvir a voz da minha mãe do outro lado da capa.

“Livro novo?”

“Não. Foi escrito há mais de dez anos.”

“Leitura nova?” A voz dela curiosa, intrigada pela piada.

“Sim.”

Silêncio. O tique-taque do relógio da parede ficando mais alto, os taques parecendo ficar mais distantes dos tiques.

“Acabou de ler Alice?”

“O livro protesto que o Reverendo Dodgson escreveu porque a matemática estava virando uma coisa extremamente abstrata e perdendo qualquer laço com o mundo real? Terminei. Leroy está lendo ele lá no quarto.”

Meus dedos estavam gelados e fazia força para evitar que meus braços tremessem. Meu nariz começou a latejar sem motivo algum aparente.

“Matemática?” Veio a questão do outro lado da capa do livro, eu ainda não tinha tido coragem de encará-la, sentias as bochechas pegando fogo.

“Parece que sim” minha voz saia casual como minha postura, ou assim eu esperava “Alice não passa de uma euclidiana sensível, tentando desesperadamente manter a calma e a sanidade enquanto o mundo das Maravilhas era a faculdade em Oxford, onde Dodgson vivia e os habitantes eram provavelmente seus colegas, discutindo a nova matemática abstrata da época. Antes ele fazia contas com maçãs, agora ele nano sabia como calcular a raiz quadrada de menos uma maçã. Dai o livro.”

Acho que não estava mais respirando, tomei coragem e abaixei a capa do livro. Lá estava o sorriso dela olhando de volta para mim. Tive vontade de chorar, mas me mantive firme.

“Entendeu agora?” Ela perguntou?

“Eu não sei” respondi com voz trêmula.

“Se você vai viver com a cabeça entre as capas de um livro, faça isso direito. Se vai viver consertando carros, faça isso direito, se vai viver fazendo algo, faça como se sua vida dependesse disso, ou então ela vai ser uma vida fútil e você vai estar estragando a única coisa que tem algum valor, o que tem aqui dentro.”

Ela se aproximou e beijou minha testa.

“Veja seu irmão mais novo e como ele vive com os números dele. Faça a mesma coisa com seus livros, com suas histórias. O mundo está cheio de imbecis, não vire um deles. Vou continuar te amando se você for um imbecil, mas você não. Nunca se contente só com o que existe na superfície, mergulhe, veja se exista algo no fundo e brigue com esse algo. A vida é muito curta para você se contentar em só amar algo ou alguém. Entende? Tudo o que vale a pena é profundo, tem complexo, misterioso. São essas coisas abismais que te fazem mudar e crescer. Não pare de crescer nunca. E a maior lição é que você e seus irmãos juntos podem se tornar algo inquebrantável. Nunca se satisfaça com a mediocridade do mundo e nunca se contente com o que boia, vá atrás do que se esconde no fundo.”

A assim mergulhei no livro de Ruff para, primeiro, saber se possuía alguma profundidade e então ver se havia algo de valor ali.

Daqui em diante o livro será exposto como a fotógrafa O do romance de Anne Desclos, se não quiser surpresas reveladas pare de ler aqui e continue no final caso se interesse pela avaliação do material.

NOTAS SENSORIAIS

  • VISÃO

– A apresentação do livro é sensacional. Arte da capa e material remetem a Lovecraft e às revistas Pulp que publicavam seus contos. Até o papel impresso cria uma ambientação fenomenal, o cheiro de jornal velho, você sente o material áspero se esfarelar minimamente em contato com os dedos. Parece algo saído do passado. A arte gasta, a impressão reticulada e o destaque ao nome de Lovecraft maior do que o nome do próprio autor, talvez uma indicação do que viria.

  • AROMA

– Primeira decepção. O autor não consegue manter uma linguagem lovecraftiana em seus textos. O livro, inclusive, não conta apenas uma história, mas várias, cada capítulo uma pseudo homenagem a um estilo de história diferente do universo terror e ficção científica – atenção aqui:

a) “pseudo homenagem” porque não homenageia na verdade, apenas faz uso da ambientação o que torna cada capítulo um mero clichê

b) “a um estilo de história” porque o autor não tem o talento ou a capacidade de incorporar no que narra o estilo dos textos originais, os vícios de linguagem, os maneirismos, os adjetivos. A história de fantasmas não tem a alma gótica, a história de ficção científica não tem o espírito fantástico do inimaginável. É sempre o mesmo tom, o mesmo ritmo a mesma linguagem insossa e sem graça.

Também decepcionante quando se percebe que o nome de Lovecraft não é um título, é apenas mais uma isca para atrair leitores desavisados, se você é fã do escritor de Providência não se deixe levar pelo nome com que esta obra foi batizada, dele ela não tem nada além de algumas menções e de nomes de títulos emprestados para alguns dos capítulos.

Fraco, muito fraco. Fraco e chato.

  • PALADAR

Como o livro é composto por diferentes histórias com uma espinha dorsal que as une, vou dar minha breve opinião sobre cada “capítulo”.

– Lovecraft Country (País de Lovecraft)

A primeira história é de longe a “melhor do pacote”. Talvez o clima que vá se criando, e o fato de você ainda não saber que o livro seria ruim, ajude muito com isso. Ela é que dá nome ao livro. 1954, Atticus é um militar negro que recebeu dispensa e está decidindo o que fazer com a vida quando recebe uma carta misteriosa de seu pai. A partir dai parte em uma jornada que mudará sua vida.

– Dreams of the witch house (sonhos na casa da bruxa)

Uma das melhores histórias de Lovecraft vira título de um capítulo com a única intenção de… de nada além de se usar um título do autor. Típica história da casa mal assombrada, claro que o fantasma é branco e racista e a nova proprietária da casa uma mulher negra. Um conto fraca cujo ápice é a piada que surge quando o fantasma tenta matar a protagonista e acreditem que se esta descrição pareceu interessante, ela não é.

– Abdullah’s book (o livro de Abdula)

Uma sugestão de semelhança com o Necronomicon de Lovecraft, dai atribuírem o livro a um nome árabe. Desta vez um ramo negro da maçonaria se envolve com o ramo branco da Ordem que tem como membros figuras poderosas da sociedade – chefes de polícia irlandeses, prefeitos, ricaços. O conto não gira em torno da criação do livro, ou de sua história, apenas como os maçons conseguirão driblar uma armadilha sobrenatural que tem em seu interior o livro mágico – que não foi escrito, nunca pertenceu e nem foi lido por Abdullah.

– Hippolyta disturbs the universe (Hipólita perturba o universo)

Típico conto de ficção científica e o segundo conto com personagem feminina. Hippolyta acaba com uma chave nas mãos que a leva para um observatório que serve como portal para infinitos mundos. Desde criança ela idolatra astronomia e o conto tem o sabor de destino pré fabricado – como uma personagem batizada de Magnus se tornar um vilão chamado Magneto que controla o magnetismo, ou alguém batizado Otto Octavius terminar com tentáculos no corpo com o nome de Dr. Octopus. A criança que nunca pôde ingressar na astronomia por ser mulher, negra e pobre, acaba vivendo a maior aventura galática de todas. Mas ao ler você não sente o gosto do fantástico, do absurdo, daquilo que é alienígena, nem a surpresa e o maravilhamento de alguém realizando os sonhos de criança.

Hyppolita com certeza viveria uma aventura uito mais memorável se fosse parar em uma dimensão paralela onde os brancos fossem alvo do racismo e o mundo oriental fosse dominado pelos negros. Mas ela apenas vai para uma casa pré fabricada que tem um forno que produz comidas misteriosas de forma aleatória.

– Jekyll in Hyde Park (Jeckyll no parque Hyde)

Contos que trazem por título trocadilhos de obra de Stevenson por si só mereceriam ser ignoradas, mas tais trocadilhos parecem ser populares não apenas em literatura ruim, mas em música, curtas animados, etc…

Na obra de Stevenson o médico manso e gentil dr. Jekyll, faz pesquisas para entender os impulsos e os sentimentos humanos mais profundos, a acaba por criar uma droga que libera seus aspectos mais primitivos, é a deixa para surgir Sr. Hyde (do verbo hide, esconder, ocultar). Então o aceito socialmente se torna um monstro.

Ruff inverte aqui os papéis sociais e uma poção mágica transforma Ruby – mulher negra para quem nada dá certo – em uma mulher branca e ruiva que pode fazer o que quiser. Aqui o “monstro” se torna o que é aceito e desejado socialmente. O único objetivo deste conto é nos mostrar o que é a Ordem e quais os planos de Caleb para ela.

– The narrow house (A Casa Estreita)

Outro trocadilho sutil, já que “casa estreita” em inglês tem o significado poético de cova, sepultura – pense a respeito você entenderá. O título seria interessante se o conto fosse bom. Desta vez ao invés de trazer fantasmas para nosso mundo o pai de Atticus acaba indo parar em uma casa fantasma, agora são os vivos que assombram os mortos. Não sei como mas o autor conseguiu criar uma história monótona e chata. Já que fantasmas não sentem mais nada se alimentam de emoções. “Conte uma história e você pode ir”.

Não há momentos de perigo, não há reviravoltas, não há nada fantástico. Apenas usam um fantasma para contar como pode ser horrível para um branco viver um casamento interracial e ainda por cima ser burro. Um conto linear sem surpresas que tem como único objetivo mostrar que um vivo pode negociar com um morto.

– Horace and the devil doll (Horácio e o boneco satânico)

A promessa de um conto na linha do clássico Além da Imaginação. Será que o que está acontecendo é real? É ilusão? É loucura? Poderia ser Contos Fantásticos em seu ápice. Com certeza melhor do que os contos anteriores, mas o autor falha em personificar a criança protagonista da história, nos parece apenas um adulto que não sabe agir. Tudo o que caracterizaria uma criança, a inocência, o medo do desconhecido, o pânico que o terror causa, a suave ignorância dos primeiros anos são tratados de forma artificial, a visão de um adulto que não sabe escrever através de mãos infantis.

– The mark of Cain (A marca de Caim)

O climax une um pouco do que foi exposto em cada conto anterior. Quando um personagem não adquire uma experiência que o motive ou que lhe dê sabedoria ele ganha uma bugiganga mágica como uma varinha mágica com um desenho de libélula que tem o mesmo efeito do beliscão nevrálgico vulcano em seus inimigos.

Tudo, obviamente termina bem para os protagonistas, qualquer associação ou lealdade que uma personagem de cor tenha com uma branca é desfeita e termina a história principal.

  • FINALIZAÇÃO

É um livro que deixa um gosto ruim na boca.

Termino de ler o livro e a impressão clara é a da tentativa de se criar um texto onde o sobrenatural é ofuscado pelo racismo – o ódio irracional humano é pior do que qualquer monstro que nossa mente possa conjurar.

Ao mesmo tempo fechei o livro pensando que ele não passava de um pré roteiro para alguma nova série infanto juvenil de suspense e sobrenatural.

O mais engraçado é um homem branco de nossa época escrever sobre o racismo da década de 1950 e isso parece ser uma tendência da literatura. Victor Lavalle, outro escritor branco, escreveu “Tha Ballad of Black Tom: uma revisão do conto O Horror de Redhook de Lovecraft onde o protagonista é negro. Esse tipo de literatura Mea Culpa deveria ser vendida junto com livros de auto ajuda para quem se identifica com esse tipo de material.

Tudo isso somado a um escritor que não conseguiu adicionar brilho ou profundidade ao que escreveu, muito pelo contrário, na última história a personagem que se transforma na personagem ruiva acaba sendo subjulgada pela tia de Aticus, um dos homens que ambas haviam amarrado pisca para ela e diz “é isso o que ganha tentando ajudar os negros” apenas para receber um cala boca de ambas as mulheres, a negra e a negra no corpo branco.

Geralmente, escritores que se enveredam pela senda do sobrenatural, do fantástico e do horror possuem uma receita que visa, durante o desenrolar da história, criar uma dualidade moral tremenda. Uma criatura que representa o mal, a amoralidade, tudo o que é errado, e ela tem poderes e força muito maior do que a daquele (ou daquela) que a vai enfrentar. Cria-se assim a eterna síndrome bíblica de um David enfrentado um Golias armado de um simples pedregulho e vencendo o gigante no final.

Este tipo de roteiro geralmente é fraco, mas as pessoas se afeiçoam dele – acredito eu – porque o mal é sempre exposto como algo tão repulsivo que não tem outro destino cabível a não a aniquilação total, e ficamos aliviados quando ela finalmente chega.

No livro de Ruff a personagem Caleb Braithwhite deveria ser esse antagonista supremo, mesmo que velado durante a obra, alguém cuja presença devesse ser aturada, mas não suportada por muito tempo. O problema é que durante o desenrolar do livro ele não atinge esse status.

Ele salva Aticus e seu pai, seu tio e sua amiga Letitia – todos os quatro seriam mortos. No processo Atticus coloca uma “amiga” de Caleb em coma – com o tempo vemos que eles eram mais do que amigos. Caleb ainda paga para a família o salário que calculam ser devido a sua antepassada que trabalhou como escrava. Dá à irmã de Letitia, Ruby, uma chance de fazer o que desejar com a vida e num golpe final acaba com todos que tinham motivo para acabar com a familia e os amigos de Atticus. E como pagamento disso e mais é traído, tem seus poderes apagados, é expulso da cidade, fica sem dinheiro, sem influência e termina com todos os outros protagonistas rindo dele e das advertências que ele faz – não ameaças. Não sei qual a intenção de Ruff, mas terminei de ler o livro com as palavras do capanga amarrado ecoando em minha mente:

“é isso o que ganha tentando ajudar os negros”

Um erro grotesco do escritor, a não ser que ele suponha que como todas as outras personagens são intrinsecamente boas, o que fazem é intrinsecamente correto. Mas não é porque o racismo é a base moral de uma novela que tudo o que aqueles que sofrem do racismo fazem é justificável. Se Caleb era de fato alguém que merecia ser neutralizado e humilhado o autor falha em mostrar isso e criar um clima indigesto por lidar de um assunto tão delicado e fundamental: a ignorância humana e o desprezo que ela gera a tudo que nos parece diferente, a nossa tendência estúpida de diminuir e tirar valor de tudo aquilo que aparentemente é diferente de nós.

Além disso a forma como o autor coloca o universo da ficção científica preenchendo alguns vazios deixa a impressão de ter tentado pintar como seria alguém de cor gostar de ficção científica em mundo onde até hoje, para a maioria, Jesus Cristo é loiro de olhos claros.

Se o objetivo era mostrar a uma pessoa branca como era ser negro na época, ele faz isso da maneira mais tosca e despreocupada. Isso seria uma visão tão linda para ser trabalhada, mas lhe falta talento para desenvolvê-la, acaba deixando um fim suspenso no ar sem significado nenhum além do gosto tonto da traição.

Eu sinto dor em meu coração por todas as árvores que morreram para serem transformadas em papel e ter impressa em seus cadáveres as palavras que formam este volume.

MINHA AVALIAÇÃO

Papel higiênico usado

(está cheio de merda, o lugar dele é no lixo mas teve uma utilidade prática)

Mas… apesar de todo o desgosto… o prazer que as personagens tem por obras clássicas da fantasia e da ficção científica despertaram algo em mim e servirão de norte para as leituras que pretendo realizar este ano. Ray Bradbury, Edgar Rice Burroughs, planetas distantes, futuros improváveis… mutantes… 2020 ficará marcado como o ano do fantástico e esses serão os livros que surgirão aqui nas próximas postagens.

Bônus

Uma dica para quem gostaria de ver a proposta de racismo extremamente bem desenvolvida em uma história de ficção científica:

Kindred: Laços de Sangue de Octavia E. Butler

Publicado pele aditora Morro Branco, e com o título “Kindred – laços de sangue”, esta é a primeira obra de Octavia lançada no Brasil. O livro foi escrito por uma mulher negra que nasceu na década de 40. Ela sabe sobre o que está escrevendo. O livro narra a história de uma mulher negra que viaja de volta no tempo e tem que salvar a vida do escravagista que irá se tornar seu antepassado.

Octavia era uma mestra das palavras. Sua narrativa única, suas histórias um murro na carra do leitor. Este livro é uma obra prima que merece ser lida.

Bônus 2: Trailler da Série

Excelente review, ‘bem vidos de volta, Mortesubitos’!

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/lovecraft-country-racismo-spoilers-e-papel-higienico/

Alguns Conceitos Básicos de Astrologia

Texto Publicado originalmente no blog “Astrologia Tradicional”, do Yuzuru Izawa.

É importante salientar que a Astrologia Medieval é muito mais limitada e mística do que a Astrologia Hermética. Existiam conceitos como “o Grande Maléfico”, “Grande Benéfico” e outras que hoje em dia estão descartadas mas que podem ser compreendidas do por que as pessoas pensavam daquela maneira. Por exemplo, a casa 6 como a casa dos “escravos” não faz o menor sentido hoje em dia. Mas pode ser simbolicamente atrelada ao conceito de Workaholic dos virginianos… o estudo dos símbolos nunca pode ser feito desatrelado do tempo-espaço de onde foi originado.

A palavra Zodíaco, que pode se traduzir como “Roda da Vida” (também como Roda animal), é a seqüência das doze constelações que se encontram de um e de outro lado da eclíptica, ou seja, do plano curvo imaginário no qual o Sol percorre num ano a totalidade da esfera celeste.

Em seus percursos os astros desenham formas diretamente ligadas à sorte da Terra e de seus habitantes, os homens, membros ativos do sistema. Estas condições nos marcam e nos servem para conhecer nossos limites, determinados primeiramente pelo lugar e pelo tempo de nosso nascimento e, a partir de tais limites, poderemos optar pelo ilimitado como fundamento de toda ordem verdadeira.

Desde o começo dos tempos, os astros escrevem no céu uma dança contrapontística e harmônica de formas e ritmos computáveis para o ser humano que, sumido no caos de um movimento sempre passageiro, toma essas pautas como mais fixas e estáveis no decorrer constante de noites e dias que tende a se confundir num amorfo sem significado. Estas pautas condicionam sua vida, tal qual a cultura em que nascemos, sujeita ao devir histórico e à determinação geográfica, também não alheios à sutil influência de planetas e estrelas. Trata-se de conhecer não só o mapa do céu como introdução ao entendimento da Cosmogonia, senão também de considerar a importância que estes têm em nossa vida individual e em relação à integração dela no macrocosmo, sem cair em jogos meramente egóticos ou simplistas senão, pelo contrário, com o objetivo de encontrar nos planetas e no zodíaco pontos de referência para conciliar as energias anímicas de nossa personalidade, equilibrando-as de modo tal que o estudo da Astrologia seja um auxiliar precioso do Processo de Conhecimento, fundamentado na experiência que os astros e seus movimentos produzem no ser individual e sua existência, e que podem ser manejadas de acordo às pautas benéficas e maléficas que sua própria energia-força dual manifesta no conjunto cósmico.

Essa cola serve para quem não sabe de memória a ordem dos signos, ou o nome dos planetas, ou onde mesmo achava “aqueles tais dos termos”, etc. Por enquanto teremos poucos itens, e vamos crescendo:

– planetas

– signos

– casas astrológicas

– Tipos de aspectos

1 – Planetas (na ordem caldeica – mais lentos até os mais velozes)

– Saturno – grande maléfico – ordem, restrição, ossos, problemas, reis, mendigos, velhos, melancolia – seu ciclo demora 29 anos

– Júpiter – grande benéfico – advogados, justiça, benevolência, chuvas, filhos, fama e fortuna, sorte, alegria, filosofia e sabedoria – 12 anos

– Marte – pequeno maléfico – soldados, brigas, violência, coragem, homens jovens, irmaos, viagens – 2 anos e meio

– Sol – o rei, o coração, o poder, as autoridades, a coragem, a força, o olho direito, a força vital, o pai, o marido – 1 ano

– Vênus – sexo e casamento, diversao, bebidas e alegria, vestidos, coisas bonitas, a esposa, a amante – 1 ano – nunca se separa muito do sol

– Mercúrio – mensageiros, a escrita, a fala, escravos, nem homem nem mulher, nem bem nem mal, a inteligência, o cérebro, todos que trabalham com palavras e números – 1 ano, sempre muito próximo do sol

– Lua – a emoção, a esposa, a mãe, o corpo físico, a fertilidade, a mente, os leva-e-traz, a prata, os objetos perdidos, os fugitivos, etc, 1 mês.

2 – Zodíaco (elemento do signo, regentes, parte do corpo, e caracteristicas importantes)

– Áries – fogo, cardinal, representa a cabeça, signo “quadrúpede”, é regido por marte.

– Touro – terra, fixo, pescoço, quadrúpede, é regido por vênus

– Gêmeos – ar, signo mutável ou “comum”, mercúrio, ombros e braços, signo humano, de “grande voz”, é regido por mercúrio.

– Câncer – água, cardinal, lua, peito, signo fértil e silencioso, é regida pela Lua.

– Leão – fogo, fixo, sol, coração e costas, signo estéril e bestial, é regido pelo Sol.

– Virgem – terra, mutável, mercúrio, abdômen, signo humano e estéril, de grande voz, é regido por mercúrio.

– Libra – ar, cardinal, vênus, as cadeiras e bunda, signo humano de grande voz, é regido por Vênus.

– Escorpião – água (e não fogo, como muitos pensam), fixo, rege o pênis/vagina e o ânus, um signo escuro, fértil, silencioso. regente é marte (e não plutão),

– Sagitário – fogo, mutável, regente é júpiter, rege as pernas, a primeira parte do signo é considerada humana, a segunda é bestial, é regido por Júpiter.

– Capricórnio – terra, cardinal, regente é saturno, joelhos, de natureza bestial. É regido por Saturno.

– Aquário – ar, fixo, rege a panturrilha e batata da perna, medianamente comunicativo, poucos filhos, signo humano, regente é saturno (e não urano).

– Peixes– água, mutável, rege os pés, signo fértil e silencioso, regente é júpiter (e não netuno).

3 – Casas Astrológicas

– Casa 1 – Ascendente – o corpo físico

– Casa 2 – o dinheiro, as coisas que ajudam a casa 1, como por exemplo um assistente pessoal ou um advogado (em horária)

– Casa 3 – irmãos, viagen, a religiosidade prática das pessoas

– Casa 4 – o pai (e não a mãe), a família (considerada em geral), a casa, a terra, o país natal, os bens imóveis, objetos perdidos, tesouros enterrados, etc.

– Casa 5 – filhos, diversão, o sexo (e não a casa 8 como muitos aprenderam), propriedades do pai, embaixadores.

– Casa 6 – doença (e não saúde), defeitos do corpo, trabalho penoso (e não carreira), escravos, pequenos animais, inimigos (na astrologia grega).

– Casa 7 – inimigos (para os árabes e medievais), esposo(a), amor, casamento, parcerias, combates, processos legais.

– Casa 8 – Morte (e não o sexo), assassinato e outras causas para a morte, heranças, pobreza, dinheiro da esposa, gastos.

– Casa 9 – Espiritualidade (e não a casa 12) , Viagens, religiao, seriedade, conhecimento, filosofia, confianca, visoes, sonhos e profecias

– Casa 10 – o rei, o governador, autoridade, nobres, sucesso, fama, carreira, comércio, profissao, a mãe.

– Casa 11 – felicidade, amigos, rezas, coisas que ganhamos do nada ou repentinamente, coisas que nos ajudam, amor, longevidade, dinheiro do trabalho.

– Casa 12 – inimigos secretos, miséria, ansiedade, prisoes, asilos, dividas, auto-destruicao, doencas, principalmente as mentais e as crônicas, que causam longa hospitalizacao, escravidao, animais grandes, exilio, depressao (ou seja, nada a ver com espiritualidade), bruxaria (no sentido de magia negra).

4 – Tipos de Aspectos – os aspectos são relações angulares entre os planetas. Um planeta “aspecta” outro quando estão em signos que podem “enxergar-se”, pois o conceito tem a ver com a sua transmissão de luz. Os aspectos modernos (semi-sextil, sesquiquadratura) devem ser ignorados. Existem cinco tipos de aspectos, às vezes chamados de ptolomeicos:

– Conjunção (0 grau) – não é tecnicamente um aspecto, mas tá valendo. Você encontrará o dois planetas no mesmo signo, em graus próximos, por exemplo, o sol em 5 de leão e saturno em 7 de Leão estão em conjunção. Significa a fusão de duas naturezas planetárias.

– Oposição (180 graus) as duas naturezas se combatem como inimigas. A oposição de um planeta em áries estará no signo oposto, Libra. A oposição de touro está em escorpião, etc.

– Quadratura (90 graus) – relação tensa entre dois planetas. Por exemplo, um planeta em áries estará em quadratura por signo com qualquer planeta em câncer, libra ou capricórnio.

– Trígono (120 graus) – relação “fácil” que se dá entre signos de mesmo elemento. Por exemplo câncer, escorpião e peixes formam trígonos entre sí, porque são signos de água.

– Sextil (60 graus) – relação também fácil, mas bem mais fraca que o trígono, muitas vezes nem se nota

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/alguns-conceitos-b%C3%A1sicos-de-astrologia

Um elogio a reflexão

É sempre muito proveitoso ler boa filosofia, a despeito das inúmeras lendas acerca de sua complexidade e aparente inutilidade prática. Ademais, nunca é tarde para começar a pensar sobre si, a se aventurar nos reinos da própria alma, a se conhecer. Ou, como bem resumiu Epicuro:

Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz.

Obviamente há que se ter em mente para que serve propriamente a filosofia. Em minha adolescência ela não foi ensinada no colégio, e portanto não servia para passar nas provas e tampouco no vestibular. Da mesma forma, o fato de alguém haver estudado filosofia não parece ser uma das prioridades das empresas na hora de analisar um currículo. Nesse sentido, é melhor aprender a programar, gerenciar ou até mesmo cozinhar. De fato, a filosofia não serve para passar em provas nem para se ter um bom salário.

No entanto, ela serve para se ter uma boa vida, uma vida com muito mais felicidades do que angústias, o que é fruto direto do contato e conhecimento de nossa própria alma. Não se deveria estudar filosofia somente para ter assuntos para conversar com este ou aquele intelectual de linguagem rebuscada, melhor seria evitar amizades deste tipo. A verdadeira filosofia não cria barreiras de linguagem entre as pessoas, todo verdadeiro filósofo é um apreciador da alma humana, pois é somente de lá que advém a sabedoria.

O Chefe Seattle, por exemplo, não sabia nada de física ou química, nem nunca leu nenhum clássico da literatura alemã ou russa. Mas todo filósofo saberá apreciar o seu quinhão de sabedoria, pois reconhecerá nela um pouco da água que flui da mesma fonte, na essência das almas, de todas as almas:

O Presidente em Washington diz que deseja comprar a nossa terra. Mas como pode comprar ou vender o céu, a terra? Essa ideia é estranha para nós. Cada parte dessa terra é sagrada para o meu povo. Cada agulha de pinheiro brilhante. Cada grão de areia da praia, cada névoa na floresta escura. Cada característica é sagrada na memória e na experiência do meu povo.

Somos parte da terra e ela é parte de nós. As flores são nossas irmãs. O urso, o veado, a grande águia são nossos irmãos. Cada reflexo na água cristalina dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. Sabemos que a terra não pertence ao homem. O homem pertence à terra. Todas as coisas são interligadas, como o sangue que nos une. O homem não tece a teia da vida – ele é apenas um fio dela. O que fizer à teia, fará a si mesmo.

E foi necessário bem mais de um século para que o restante da humanidade se desse conta destas verdades. Ora, Epicuro e o Chefe Seattle nunca ouviram falar um do outro, mas certamente dariam excelentes amigos, pois ambos conheciam suas próprias almas de uma forma bem mais profunda do que a maioria de nós. A sabedoria, nesse sentido, é um dos nossos maiores tesouros, bem mais valiosa do que terras, petróleo, ou um cargo na diretoria de uma multinacional.

Amar a sabedoria, ser um filósofo, nesse sentido, é antes se preocupar em ser do que em ter. Antes se preocupar com as coisas naturais do que com as coisas superficiais. Mas no que exatamente a mera leitura dos clássicos poderá nos auxiliar? Em quase nada, se nos mantivermos apenas na leitura dos manuais de natação, sempre nos resguardando do mergulho. Por que deixar para amanhã a aventura que pode se iniciar neste momento?

Uma das máximas do estoicismo, por exemplo, é uma frase supreendentemente simples: “Preocupe-se apenas com aquilo que pode mudar”. Mas qual a utilidade em se ler e decorar tal máxima, quem sabe para passar nalguma prova estranha, ou talvez para recitá-la em meio a uma reunião de negócios, querendo passar a ideia de que é um intelectual?

Pois é, de nada adianta haver lido Epicteto ou Sêneca se você nunca exercitou esse amor a sabedoria, esse olhar para si, enfim, a reflexão. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que poderemos nos desligar um pouco das crises nos noticiários, e tratar de resolver as crises de nossa própria existência. Somente pela reflexão em cima de tais palavras é que podemos, quem sabe, sair de casa para dirigir nosso carro numa metrópole engarrafada tendo em mente que o trânsito estará lá, como sempre esteve, e não é xingando o motorista ao lado ou algum deus da fortuna que iremos chegar mais rapidamente ao nosso destino.

O nosso destino, afinal, sempre foi nossa própria alma. Viaje até a Índia, visite um vulcão na Islândia ou um cassino em Las Vegas, e não terá dado sequer um passo para além de sua alma, de sua essência. Há todo um mundo por lá – de fato, o único mundo que há.

E somos bombardeados constantemente por informações, anúncios, equações de lucros e perdas, número de mortos e feridos, placares de partidas e resultados de provas, e nada disso existe por si só, ou tem significado por si só: somos nós, em nós mesmos, quem interpretamos o mundo. Por que, então, se abster de mergulhar, por que viver a margem de nossa própria alma?

Seja na filosofia, na ciência, na religião ou até mesmo na poesia, a primeira coisa que o mergulhador aprende é que os manuais só nos servem para dar a coragem do primeiro mergulho, dos primeiros cem metros na trilha da floresta íntima, pois que o restante da aventura caberá somente a nós.

Neste caminho, entretanto, não temos somente a ajuda do relato daqueles que caminharam há séculos ou milênios atrás por essas mesmas trilhas, temos também a possibilidade de sermos auxiliados pelos que caminham ao mesmo tempo que nós. E a única coisa que eles lhe pedirão é que ajudem também aos que vêm atrás.

E é assim, é somente assim, de mãos dadas nesta jornada, que poderemos um dia alcançar a eternidade. Esta região onde residem todas as utopias e todas as promessas de um novo amanhã, de onde cintila a luz que não gera nem é gerada, e que existe e sempre existiu para ser refletida – um pensamento de cada vez.

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Crédito da imagem: Google Image Search (Epicuro)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum
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Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/um-elogio-a-reflex%C3%A3o

Primeiro a alma

Se você esteve no Ocidente na última década, já deve saber que o presidente americano afirmou ter assassinado o célebre terrorista, Osama Bin Laden.

Osama foi um dos membros sauditas da próspera família Bin Laden, além de líder e fundador da Al-Qaeda, organização terrorista famosa pelos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e numerosos outros contra alvos civis e militares. A Al-Qaeda (“A Base”) foi originalmente destinada a combater a família real saudita. Bin Laden detestava os modos ocidentalizados, perdulários, corruptos e “pouco islâmicos” da família real. Tinha como objetivo alijá-la do poder e implantar no país a semente do que sempre sonhou – o novo califado islâmico. A família real, por ironia do destino, possuía grande consideração para com a família de Bin Laden.

O historiador e pesquisador do Laboratório do Tempo Presente, Daniel Santiago Chaves, chama a atenção para o tipo de “escola de terrorismo” desenvolvido pela Al-Qaeda e que hoje serve de modelo para organizações menores. “Quando nós lembramos da Al-Qaeda, a primeira imagem que vem à nossa cabeça é a de um avião sequestrado sendo jogado contra um prédio, causando a morte de milhares de pessoas. Esse conceito de terrorismo espetacular foi apropriado por esses pequenos grupos”, afirmou. Círculo vicioso: segundo ele, a Al-Qaeda, os demais grupos terroristas e a mídia acabam se retroalimentando por essas ações. “Ter a imagem vinculada a Al-Qaeda é bom para os grupos porque dá visibilidade aos seus atos, é bom para a Al-Qaeda, que se mantém na mídia, e é bom para mídia, que vende a sua notícia”, analisa. Quem entende esse mecanismo e está à frente das principais explosões em hotéis, boates e restaurantes, principalmente na Ásia, são grupos oriundos de famílias ricas que têm condições de planejar ações desse porte, explica. “São pessoas com liquidez financeira não necessariamente pertencentes a uma grande rede como a de Osama Bin Laden, mas que entendem o significado de um atentado com impacto midiático e são capazes de gerar a inteligência suficiente para executá-lo. De comum com a Al-Qaeda, além dos métodos, existe uma agenda: transformar os Estados da Ásia em um califado islâmico”. Por isso os principais alvos dos atentados estão sempre ligados de alguma forma ao Ocidente.

Assim como o alvo da Al-Qaeda nunca foram as torres gêmeas, e sim a mídia, eles tampouco se organizam tal qual os apreciadores de fantasias de duelos do bem contra o mal gostariam: como uma organização hierárquica, com apenas um grande “mestre do mal” – um inimigo para os filmes de Hollywood… Seu quadro composto por células terroristas localizadas em diversos países gerou o que os analistas chamam de Al-Qaeda “nebulosa”. Esta denominação tem duplo significado. Ao mesmo tempo em que dá a ideia de que se trata de algo difícil de enxergar, remete ao termo nebulosa presente no vocabulário da astronomia, cuja definição é um conglomerado de astros com uma formação complexa e variável.

São como “franquias do terror” – assim como a desativação de uma lanchonete da Subway praticamente não afeta seu funcionamento global, destruir uma célula da Al-Qaeda, mesmo que seja a do próprio Bin Laden, não vai fazer com que a nebulosa se dissipe da noite para o dia.

Em realidade, violência gera violência, terror gera terror, e esta grande roda da ignorância ainda está longe de parar sua rotação. Sejam os ditos “bonzinhos”, que aceitam a tortura institucionalizada de Guantanamo, ou o conceito de “guerra preventiva”, como caminhos para “aplacarmos o mal”; Sejam os terroristas, os “mestres do mal”, que creem piamente que mudarão os hábitos e o pensamento do povo islâmico com bombas e atentados – todos estão profundamente equivocados. Ou, como dizia Gandhi, o grande guerreiro da alma: “Olho por olho, dente por dente, e a humanidade continuará profundamente carente”…

A grande luz que se acende no mundo islâmico está além das doutrinas do capitalismo ou do terrorismo: foi o próprio povo islâmico, os jovens em sua grande maioria, quem começaram a mudar o seu mundo… E nenhum deles trazia fotos ou cartazes de Bin Laden, nem se dizia abertamente contra o Ocidente ou o capitalismo. Eles não querem terror, eles não querem seguir estritos preceitos de doutrinas religiosas ultra-conservadoras, eles não querem se empanturrar de sanduiches, gadgets e carros grandes – eles querem apenas a liberdade de pensar, a liberdade para a alma.

***

Todo esse cenário me remeteu ao belo diálogo entre Judas e Jesus no roteiro do filme “A Última Tentação de Cristo”, de Paul Schrader, baseado no romance homônimo, de Nikos Kazantzakis. Como podemos ver, a história ainda se repete, e embora evoluamos lentamente a passo de formigas anestesiadas, ainda insistimos no caminho da dor, e não do amor:

Judas – Eu não sou como esses homens [referindo-se aos outros seguidores de Jesus]. Digo, eles são boas pessoas. Mas eles são fracos. Como irão lutar por você? Eles não podem nem lutar por si mesmos. Onde você os encontrou? Um é pior do que o outro. Isso não é um exército.

Jesus – Eu não preciso de soldados.

Judas – Você me procurou. E se eu amo alguém, eu morro por ele. Caso odeie alguém, eu o mato. Eu posso até matar alguém que eu amo se ele fizer a coisa errada. Você me entende?

Jesus – Eu compreendo.

Judas – Noutro dia quando você disse para darmos a outra face para quem nos bateu, eu não gostei disso. Somente um anjo poderia fazer isso, ou um cachorro. Eu sou um homem livre. Eu não dou minha face para ninguém bater. Você precisa de soldados.

Jesus – E acaso os soldados me farão livre?

Judas – Você deseja a liberdade para Israel?

Jesus – Eu desejo a liberdade para a alma.

Judas – Primeiro você liberta o corpo, depois a alma. Você sabe disso. Os romanos vêm primeiro.

Jesus – A alma vêm primeiro. Se você não mudar o que a alma deseja, você irá apenas substituir a dominação romana por outra dominação, e nada nunca irá mudar. Primeiro você deve mudar o homem por dentro. Então o homem pode mudar o que está a sua volta. É o desejo de riquezas e poder que faz com que o homem queria dominar os outros. É o desejo que precisamos mudar, precisamos primeiro libertar a alma. Com amor.

***

Crédito da imagem: Divulgação (William Dafoe em “A Última Tentação de Cristo”).

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br).

#amor #liberdade #política #Jesus #guerra

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/primeiro-a-alma