Os Gêmeos

Quando conheci os gêmeos, John e Michael, em 1966, em um hospital psiquiátrico, eles já eram célebres. Haviam se apresentado no rádio e na televisão e haviam sido tema de minuciosos informes científicos e populares. Eu desconfiava que eles tinham inclusive penetrado na ficção científica, um tanto ”ficcionalizados” mas essencialmente conforme haviam sido retratados nas descrições publicadas.

 

Os gêmeos, que na época estavam com 26 anos, viviam em asilos desde os sete anos de idade, sob diagnósticos variados, como autistas, psicóticos ou gravemente retardados. A maioria dos informes concluía que, em se tratando de ”idiotas sábios”, nada havia de ”muito especial” neles — exceto por sua notável memória ”documental” para os mínimos detalhes de sua própria experiência e seu uso de um algoritmo inconsciente de calendário que lhes permitia dizer de imediato em que dia da semana cairia uma data no futuro ou passado distante. Essa é a opinião de Steven Smith em seu livro abrangente e imaginativo, The great mental calculators (1983). Pelo que eu saiba, não houve outros estudos sobre os gêmeos depois de meados dos anos 60, sendo o breve interesse que despertaram dissipado pela aparente ”solução” dos problemas que apresentavam.

 

Mas isso, a meu ver, é um equívoco, talvez natural considerando a abordagem estereotipada, o formato fixo das questões, a concentração em uma ou outra ”tarefa” presentes nas primeiras investigações sobre os gêmeos, que os reduziam — sua psicologia, seus métodos, sua vida — a quase nada.

 

A realidade é muito mais estranha, muito mais complexa, muito menos explicável do que sugere qualquer um desses estudos, porém é impossível até mesmo vislumbrá-la por meio de ”testes” formais dinâmicos ou pela usual entrevista dos gêmeos no estilo 60 Minutes.

 

Não que qualquer um desses estudos, ou apresentações na tevê, esteja ”errado”. Eles são muito aceitáveis, com freqüência informativos, no que se propõem a fazer, porém restringem-se à ”superfície” óbvia e passível de ser testada, não se aprofundando — e nem mesmo dando a entender, ou talvez supondo, que existe algo além.

 

De fato, não obtemos indício algum de haver algo mais profundo, a menos que deixemos de testar os gêmeos, de considerá-los “sujeitos de experiência”. É preciso pôr de lado o impulso de limitar e testar e gradualmente travar conhecimento com os gêmeos — observá-los, abertamente, com serenidade, sem pressuposições, porém com uma total e compreensiva receptividade fenomenológica, enquanto eles vivem, pensam e interagem tranqüilamente, tratando da própria vida, com espontaneidade, em sua maneira singular. Descobrimos então que existe algo extraordinariamente misterioso em ação, poderes e intensidades de um tipo talvez fundamental, os quais não fui capaz de ”desvendar” ao longo desses dezoito anos em que os conheço.

 

De fato, eles nada têm de extraordinário à primeira vista — são uma espécie de Tweedledum e Tweedledee (os gêmeos de Alice no país das maravilhas), grotescos, impossíveis de distinguir, reflexos no espelho, idênticos no rosto, nos movimentos corporais, na personalidade, na mente, idênticos também em seu estigma de dano cerebral e tecidual. Têm estatura muito baixa, cabeça e mãos tremendamente desproporcionais, palato e pés muito arqueados, voz esganiçada e monótona, uma profusão de tiques e maneirismos muito peculiares e uma fortíssima miopia degenerativa, requerendo óculos tão grossos que faz seus olhos parecerem distorcidos e lhes dá a aparência de absurdos professorzinhos, examinando de perto e apontando, com uma concentração mal dirigida, obsessiva e absurda. E essa impressão é fortalecida assim que os questionamos — ou lhes permitimos começar espontaneamente, o que tendem a fazer, como marionetes de pantomima, uma de suas ”rotinas”.

 

Esse é o quadro que tem sido apresentado nos artigos publicados e no palco—eles tendem a ser ”apresentados” no show anual do hospital em que trabalho — e em suas não raras, e muito embaraçosas, aparições na tevê.

 

Os ”fatos”, nessas circunstâncias, são demonstrados até se tornarem monótonos. Os gêmeos pedem: ”Digam-nos uma data — qualquer data nos últimos ou próximos 40 mil anos”. Uma data é mencionada e, quase instantaneamente, eles informam em que dia da semana ela cairá. ”Outra data!”, bradam eles, e a proeza se repete. Eles também dizem a data da Páscoa durante o mesmo período de 80 mil anos. Podemos observar, embora isso não seja normalmente mencionado nos relatórios, que seus olhos movem-se e se fixam de maneira singular quando se dedicam a essa operação — como se estivessem desenrolando, ou examinando minuciosamente, uma paisagem interior, um calendário mental. Parecem estar ”vendo”, visualizando intensamente, apesar de ter sido concluído que se tratava de puro cálculo.

 

Sua memória para algarismos é notável — e possivelmente ilimitada. Eles repetem um número de três dígitos, de trinta dígitos, de trezentos dígitos com a mesma facilidade. Também isso foi atribuído a um ”método”.

 

Mas quando alguém testa sua habilidade para calcular—a típica especialidade de prodígios em aritmética e ”calculadores mentais” — seus resultados são espantosamente ruins, tão ruins quanto seu QI de sessenta nos faria imaginar. Eles são incapazes de fazer corretamente adições ou subtrações simples, e nem sequer conseguem compreender o que significa multiplicação ou divisão. O que é isto: ”calculadores” que não sabem calcular e não têm nem mesmo as mais rudimentares habilidades aritméticas?

 

E, no entanto eles são chamados de ”calculadores de calendário” — e tem sido inferido ou aceito, praticamente sem fundamentos, que não se trata absolutamente da memória em ação, mas do uso de um algoritmo inconsciente para cálculos de calendário. Quando lembramos que até Carl Friedrich Gauss, ao mesmo tempo um dos maiores matemáticos e peritos em cálculo, teve enorme dificuldade para descobrir um algoritmo para a data da Páscoa, torna-se impossível acreditar que esses gêmeos, incapazes até mesmo dos mais simples métodos aritméticos, poderiam ter inferido, descoberto e empregado um algoritmo desses. E verdade que muitos ”calculadores” possuem um repertório mais amplo de métodos e algoritmos que descobriram para uso próprio, e talvez isso tenha predisposto W. A. Horwitz et al. a concluir que isso valia também para os gêmeos. Steven Smith, interpretando ao pé da letra esses estudos iniciais, comentou:

 

Algo misterioso, embora banal, está em ação aqui — a misteriosa habilidade humana para formar algoritmos inconscientes com base em exemplos.

 

Se isso fosse tudo, eles de fato poderiam ser vistos como banais, e não como um mistério — pois o cálculo de algoritmos, que uma máquina pode fazer com precisão, é essencialmente mecânico e pertence à esfera dos ”problemas”, mas não dos ”mistérios”.

 

Contudo, mesmo em algumas das ”apresentações” dos gêmeos, em seus ”truques” há uma qualidade que espanta. Eles são capazes de dizer como estava o tempo e quais foram os eventos de qualquer dia de suas vidas — qualquer dia a partir de seus quatro anos de idade. Sua maneira de falar — bem descrita por Robert Silverberg em seu retrato do personagem Melangio — é ao mesmo tempo infantil, detalhada e desprovida de emoção. Ao lhes ser dita uma data, eles reviram os olhos por um momento, depois os fixam, e com uma voz apática e monótona informam o tempo, enunciam superficialmente os eventos políticos de que ouviram falar e os eventos de suas próprias vidas — estes últimos incluindo, com freqüência, as dolorosas e comoventes angústias da infância, o desprezo, a zombaria, as mortificações que sofreram, mas tudo recitado em um tom uniforme, invariável, sem o menor indício de inflexão pessoal ou emoção. Aqui, claramente, trata-se de lembranças que parecem ser de um tipo ”documental”, nas quais não existem referências pessoais, relações pessoais, absolutamente nenhum centro vivo.

 

Poderíamos afirmar que o envolvimento pessoal, a emoção, foram apagados dessas lembranças, no modo defensivo que podemos observar em tipos obsessivos ou esquizóides (e os gêmeos sem dúvida devem ser considerados obsessivos e esquizóides). Mas poderíamos afirmar, igualmente, e na verdade com mais plausibilidade, que lembranças desse tipo nunca tiveram um caráter pessoal, pois isso é, de fato, uma característica fundamental de uma memória eidética como a deles.

 

Mas o que precisa ser ressaltado — e que é insuficientemente salientado por quem os estudou, embora perfeitamente óbvio para um ouvinte ingênuo disposto a se maravilhar — é a magnitude da memória dos gêmeos, sua extensão aparentemente ilimitada (ainda que infantil e banal) e, com ela, o modo como as lembranças são recuperadas. E se lhes perguntamos como é que conseguem reter tanto na mente — um número com trezentos dígitos ou os trilhões de eventos de quatro décadas—eles dizem, simplesmente: ”Nós vemos tudo isso”. E ”ver” — ”visualizar” — com extraordinária intensidade, alcance ilimitado e perfeita fidelidade, parece ser a chave de tudo. Parece ser uma capacidade fisiológica inata de suas mentes, de um modo que guarda certas analogias com a maneira como o famoso paciente de A. R. Luria, descrito em The mindofa mnemonist, ”via”, embora talvez aos gêmeos falte a rica sinestesia e organização consciente das lembranças do mnemonista. Mas não resta dúvida, pelo menos a meu ver, de que os gêmeos têm à sua disposição um prodigioso panorama, uma espécie de paisagem ou fisionomia, de tudo o que já ouviram, viram, pensaram ou fizeram, e que, num piscar de olhos, externamente óbvio quando eles os reviram brevemente e depois os fixam, eles são capazes (com os ”olhos da mente”) de recuperar e ”ver” quase qualquer coisa que esteja nessa vasta paisagem.

 

Tais poderes de memória são raríssimos, porém não únicos. Pouco ou nada sabemos das razões por que os gêmeos ou qualquer outra pessoa os têm. Haverá, então, alguma coisa nos gêmeos que seja de um interesse mais profundo, como vim insinuando? Acredito que sim.

 

Conta-se que sir Herbert Oakley, o professor oitocentista de música em Edimburgo, ao ser levado a uma fazenda e ouvir um porco guinchar, bradou no mesmo instante: ”Sol sustenido!”. Alguém correu para o piano, e era sol sustenido mesmo. Minha primeira impressão das capacidades ”naturais” e do modo ”natural” dos gêmeos veio de maneira semelhante, espontânea e (não pude deixar de sentir) bastante cômica.

 

Uma caixa de fósforos que estava em cima da mesa caiu e o conteúdo espalhou-se no chão: ”111”, gritaram os gêmeos simultaneamente; a seguir, John disse baixinho: ”37”. Michael repetiu esse número, John disse-o pela terceira vez e parou. Contei os fósforos — demorei um pouco — e havia 111.

 

”Como conseguiram contar os fósforos tão depressa?”, perguntei. ”Não contamos”, eles responderam. ”Nós vimos os 111”.

 

Histórias semelhantes contam-se a respeito de Zacharias Dase, o prodígio dos números, que declarava instantaneamente ”183” ou ”79” quando se derramava um punhado de ervilhas e indicava do melhor modo possível — ele também era deficiente mental — que não tinha contado as ervilhas, mas apenas ”visto” o número delas, num todo, de relance.

 

”E por que vocês murmuraram ’37’ e repetiram isso três vezes?”, perguntei aos gêmeos. Eles responderam em uníssono ”37,37,37,111”.

 

E isso eu achei ainda mais intrigante, se possível. O fato de eles verem 111 — a ”condição de 111” — em um lampejo era extraordinário, mas talvez não mais extraordinário que o ”sol sustenido” de Oakley — uma espécie de ”tom absoluto” para números, por assim dizer. Mas eles em seguida ”fatoraram” o número 111 — sem contar com nenhum método, sem mesmo ”conhecer” (da maneira usual) o que significavam fatores. Pois eu já não observara que eles eram incapazes de fazer os mais simples cálculos e não ”entendiam” (ou não pareciam entender) o que era multiplicação ou divisão? E no entanto, ali, espontaneamente, eles haviam dividido um número composto em três partes iguais.

 

”Como foi que vocês calcularam isso?”, perguntei, ardendo de curiosidade. Eles indicaram, do melhor modo que puderam, em termos pobres, insuficientes — mas talvez não haja palavras que correspondam a coisas assim — que não tinham ”calculado”, apenas ”visto” aquilo, num lampejo. John fez um gesto com dois dedos esticados e o polegar, o que parecia sugerir que eles haviam espontaneamente dividido o número em três partes ou que o número ”dividira-se” por conta própria nessas três partes iguais, por uma espécie de ”fissão” numérica espontânea. Eles pareciam surpresos diante de minha surpresa — como se eu fosse cego de alguma forma; e o gesto de John transmitiu um extraordinário senso de realidade imediata, sentida. Será possível, pensei comigo, que eles possam de algum modo ”ver” as propriedades, não da maneira conceitual, abstrata, mas como qualidades sentidas, sensíveis, de algum modo imediato, concreto? E não simplesmente qualidades isoladas — como a ”qualidade de 111” — mas qualidades de relações? Talvez mais ou menos do mesmo modo como sir Herbert Oakley teria dito ”uma terça” ou ”uma quinta”

 

Eu já chegara à idéia, com base na ”visão” de eventos e datas pelos gêmeos, de que eles podiam reter na mente, que haviam retido, uma imensa tapeçaria mnemónica, uma vasta (ou possivelmente infinita) paisagem na qual tudo podia ser visto, isoladamente ou em relação. Era o isolamento, em vez de um senso de relação, que era primordialmente exibido quando eles despejavam seu implacável ”documentário” desordenado. Mas não poderiam esses prodigiosos poderes de visualização — poderes essencialmente concretos e muito distintos da capacidade de conceituar — dar-lhes o potencial de ver relações, relações formais, relações de forma, arbitrárias ou significativas? Se eles podiam ”ver” a ”qualidade de 111” em um lampejo (se podiam ver toda uma ”constelação” de números), não poderiam também ”ver”, num lampejo—ver, reconhecer, relacionar e comparar, de um modo inteiramente sensitivo e não intelectual —, formações e constelações de números enormemente complexas? Uma habilidade ridícula, até mesmo incapacitante Pensei no ”Funes” de Borges

 

Nós, de relance, podemos perceber três copos em uma mesa, Funes, todas as folhas, gavinhas e frutos que compõem uma videira [ ] Um circulo desenhado no quadro-negro, um ângulo reto, um losango — todas estas são formas que podemos entender intuitivamente e por completo, Ireneo podia fazer o mesmo com a emaranhada erma de um pônei, com uma manada de gado na colma [ ] não sei quantas estrelas ele era capaz de enxergar no céu

 

Poderiam os gêmeos, que pareciam ter uma singular paixão pelos números e ”domínio” dos mesmos — poderiam eles, que tinham visto a ”qualidade de 111” num relance, talvez ver em suas mentes uma ”videira” numérica, com todas as folhas-números, gavinhas-números, frutas-números que a compunham? Uma idéia estranha, talvez absurda, quase impossível — mas o que eles já me haviam mostrado era tão estranho que quase não se prestava à compreensão E, pelo que eu soubesse, aquilo era tão-somente um indicio mínimo do que eles podiam fazer

 

Refleti sobre o assunto, mas ele quase não permitia reflexão. Depois, deixei-o de lado. Esqueci-o até que deparei, totalmente por acaso, com uma segunda cena espontânea, uma cena mágica.

 

Nessa segunda vez, eles estavam sentados juntos em um canto, com um sorriso misterioso, secreto, um sorriso que eu nunca tinha visto antes, desfrutando o estranho prazer e paz que agora pareciam ter. Furtivamente, para não os perturbar, eu me aproximei. Pareciam absortos em uma conversa singular, puramente numérica. John dizia um número — um número de seis dígitos. Michael ouvia, assentia com a cabeça, sorria e parecia saborear o número. Em seguida, ele próprio dizia um número de seis dígitos, e dessa vez era John quem o recebia e apreciava com prazer. À primeira vista, lembravam dois connoisseurs provando vinho, compartilhando gostos raros, raras apreciações. Sentei-me quieto, sem que eles me vissem, hipnotizado, perplexo.

 

O que eles estavam fazendo? Que diabos estava acontecendo? Eu não conseguia entender. Talvez se tratasse de algum tipo de jogo, mas tinha uma gravidade e intensidade, uma espécie de intensidade serena, meditativa e quase sagrada, que eu nunca vira em nenhum jogo comum e que certamente nunca vira antes nos gêmeos, normalmente tão agitados e distraídos. Contentei-me com anotar os números que eles diziam — números que manifestamente lhes proporcionavam tanto prazer e que eles ”contemplavam”, saboreavam, compartilhavam em comunhão.

 

Teriam aqueles números algum significado, perguntei-me a caminho de casa, teriam algum sentido ”real” ou universal, ou (se é que tinham algum) apenas um sentido estapafúrdio ou particular, como as ”línguas” secretas e tolas que irmãos e irmãs às vezes inventam para si mesmos? E, dirigindo na volta para casa, pensei nas gêmeas de Luria — Liosha e Yura, gêmeas idênticas com dano no cérebro e na fala—e em como elas brincavam e tagarelavam entre si em uma língua própria, primitiva, balbuciante (Luria e Yudovich, 1959). John e Michael nem sequer estavam usando palavras ou meias palavras — simplesmente jogavam números um para o outro. Seriam números ”borgenses” ou ”funesianos”, meras videiras numéricas, crinas de pônei ou constelações, formas numéricas privadas — uma espécie de jargão numérica, conhecida apenas pelos gêmeos?

 

Assim que cheguei, fui buscar tabelas de potências, fatores, logaritmos e números primos—lembranças e relíquias de um período singular e isolado de minha infância, quando eu também fora uma espécie de ruminante de números, um ”vidente” de números, nutrindo por estes uma paixão peculiar. Eu já tinha um palpite — e então o confirmei. Todos os números, os números de seis dígitos que os gêmeos tinham compartilhado, eram primos — ou seja, números que só podem ser divididos em partes iguais por eles mesmos ou por um. Teriam os gêmeos, de algum modo, visto ou possuído algum livro como o meu — ou estariam, de algum modo inimaginável, ”vendo” números primos, mais ou menos da mesma forma que tinham ”visto” a qualidade de 111 ou a triplicidade de 37? Sem dúvida não poderiam tê-los calculado — não eram capazes de fazer cálculo algum.

 

Voltei à enfermaria no dia seguinte, levando comigo o precioso livro dos números primos. Novamente os encontrei encerrados em sua comunhão numérica, mas dessa vez, sem nada dizer, juntei-me a eles de mansinho. De início ficaram surpresos, mas, vendo que eu não os interrompia, retomaram seu ”jogo” de números primos de seis dígitos. Após alguns minutos, decidi tomar parte e arrisquei dizer um número, um número primo de oito dígitos. Ambos se voltaram para mim, e subitamente ficaram quietos, com uma expressão de concentração intensa e talvez espanto. Houve uma longa pausa—a mais longa que eu já os vira fazer, deve ter durado meio minuto ou mais — e então, de súbito, simultaneamente, os dois abriram um sorriso.

 

Depois de algum inimaginável processo de teste, eles de repente haviam visto meu número de oito dígitos como um número primo — e isso manifestamente era para eles um grande prazer, um duplo prazer; primeiro, porque eu introduzira um delicioso brinquedo novo, um número primo de uma ordem que eles nunca haviam encontrado antes, e segundo porque era evidente que eu tinha visto o que eles estavam fazendo, que tinha gostado, que admirava e era capaz de participar também.

 

Os dois se afastaram ligeiramente um do outro, dando lugar para mim, um novo colega de brincadeiras numéricas, um terceiro em seu mundo. Em seguida, John, que sempre saía na frente, pensou por um tempo muito longo — deve ter sido pelo menos cinco minutos, embora eu não ousasse me mexer e mal respirasse — e enunciou um número de nove dígitos; depois de um tempo semelhante, seu irmão gêmeo, Michael, respondeu com um número do mesmo tipo.

 

E então, eu, na minha vez, depois de olhar furtivamente o livro, acrescentei minha própria e desonesta contribuição, um número primo de dez dígitos.

 

Fez-se novamente, e por um tempo ainda mais longo, um silêncio repleto de fascinação e quietude; em seguida, John, depois de uma prodigiosa contemplação interna, saiu-se com um número de doze dígitos. Esse eu não tinha como verificar, e assim não pude responder à altura, pois meu livro — que, pelo que eu sabia, era o único de seu gênero — não ia além dos números primos de dez dígitos. Mas Michael mostrou-se apto para o desafio, embora demorasse cinco minutos — e uma hora mais tarde os gêmeos estavam trocando números primos de vinte dígitos, ou pelo menos supus que fosse isso, pois não havia meio de comprovar. Também não existia uma maneira fácil, em 1966, sem ter à disposição um computador sofisticado. E, mesmo então, teria sido difícil, pois quer usemos o crivo de Erastótenes ou qualquer outro algoritmo, não existe um método simples de calcular números primos. Não existe um método simples para os números primos dessa ordem — e, no entanto os gêmeos os estavam descobrindo. (Ver, porém, o pós-escrito.)

 

Novamente pensei em Dase, sobre quem eu tinha lido anos antes, no fascinante livro Human personality, de F. W. H. Myers (l 903).

 

Sabemos que Dase (talvez o mais bem-sucedido desses prodígios) era singularmente desprovido de compreensão matemática […] Apesar disso, em doze anos ele produziu tabelas de fatores e números primos para o sétimo e quase todo o oitavo milhão — uma tarefa que poucos homens poderiam ter realizado, sem auxílio mecânico, ao longo de todo um período normal de vida.

 

Portanto, concluiu Myers, ele pode ser considerado o único homem a ter prestado um valioso serviço à matemática sem ser capaz de entender os conceitos matemáticos mais simples.

 

O que Myers não esclarece, e que talvez não estivesse claro, era se Dase possuía algum método para produzir as tabelas ou se, como sugerido por seus simples experimentos de ”ver números”, ele de algum modo ”via” aqueles grandes números primos, como aparentemente os gêmeos viam.

 

Observando-os discretamente — isso era fácil de fazer, pois eu tinha uma sala na enfermaria onde os gêmeos estavam alojados —, vi-os em inúmeros outros tipos de jogos numéricos ou comunhão numérica, cuja natureza não pude apurar ou mesmo supor.

 

Mas parece provável, ou certo, que eles estejam lidando com propriedades ou qualidades ”reais” — pois o arbitrário, como os números aleatórios, não lhes dá prazer, ou lhes dá muito pouco. Está claro que eles precisam ter ”sentido” em seus números — do mesmo modo, talvez, como um músico precisa ter harmonia. De fato, eu me surpreendi comparando-os a músicos — ou a Martin, também retardado, que encontrava na serena e magnífica arquitetônica de Bach uma manifestação sensível da suprema harmonia e ordem do inundo, inacessível para ele conceitualmente devido às suas limitações intelectuais.

 

”Todo aquele que é composto harmonicamente”, escreve sir Thomas Browne, ”deleita-se com a harmonia [ ] e uma profunda contemplação do primeiro compositor. Há nela algo da divindade mais do que descobre o ouvido, é uma hieroglífica e obscurecida lição sobre todo o mundo [ ] uma pequenina seção da harmonia que soa intelectualmente nos ouvidos de Deus […] A alma […] é harmônica e tem sua afinidade mais estreita com a música ”

 

Richard Wollheim, em The thread ofhfe (1984), faz uma distinção absoluta entre cálculos e o que ele denomina estados mentais ”icônicos”, e antevê uma possível objeção a tal distinção

 

Alguém poderia contestar o fato de que todos os cálculos são não icônicos alegando que, quando a pessoa calcula, as vezes o faz visualizando o calculo em uma pagina. Mas isso não constitui um contra exemplo. Pois o que esta representado em tais casos não é o cálculo em si, mas uma representação do mesmo, os números e que são calculados, mas o que se visualiza são os numerais, que representam números

 

Leibmz, por outro lado, apresentou uma instigante analogia entre números e música ”O prazer que obtemos da música vem de contar, mas contar inconscientemente A música nada mais é do que aritmética inconsciente”

 

Até onde podemos apurar, qual é a situação dos gêmeos, e talvez de outros? O compositor Ernst Toch — contou-me seu neto, Lawrence Weschler — conseguia prontamente reter na memória, depois de ouvir uma única vez, uma série muito longa de números, mas fazia isso ”convertendo” a série de números em uma melodia (que ele próprio criava, ”correspondendo” aos números). Jedediah Buxton, calculador dos menos elegantes, mas dos mais tenazes de todos os tempos, que tinha uma grande, até mesmo patológica, paixão por cálculos e cômputos (ele ficava, em suas próprias palavras, ”bêbado de contar”), ”convertia” música e drama em números. Segundo um relato contemporâneo sobre ele, escrito em 1754: ”Durante a dança, ele fixava a atenção no número de passos; depois de um belo trecho musical, declarava que os inúmeros sons produzidos pela música o haviam deixado imensamente perplexo, e ia até mesmo assistir às peças do sr. Garrick só para contar as palavras que este proferia, no que afirmava ter pleno êxito”.

 

Eis um belo, ainda que extremo, par de exemplos — o músico que transforma números em música e o perito em contar que transforma a música em números. Fica-se com a impressão de que é impossível encontrar tipos de mentes mais opostos ou, pelo menos, estilos mentais mais opostos.

 

A meu ver, os gêmeos, que têm uma ”sensibilidade” extraordinária para números, sem serem capazes de calcular coisa alguma, têm nesse aspecto uma afinidade não com Buxton, mas com Toch. Exceto — e isto nós, pessoas comuns, achamos dificílimo imaginar — pelo fato de que eles não ”convertem” números em música, mas realmente sentem os números, em si mesmos, como ”formas”, como ”tons”, como as numerosíssimas formas que compõem a própria natureza. Eles não são calculadores, e sua habilidade numérica é ”icônica”. Eles convocam, habitam estranhos cenários numéricos; perambulam livremente por vastas paisagens de números, criam dramaturgicamente todo um mundo feito de números. Eles têm, creio, uma imaginação extremamente singular — da qual a singularidade maior é o fato de que ela só pode imaginar números. Não parecem ”operar” com números, de um modo ”não icônico”, como um calculador; eles os ”vêem”, diretamente, como um vasto cenário natural.

 

E se nos perguntarmos ”existem analogias, pelo menos, com uma iconicidade assim?”, nós as descobriremos, acredito, em certas mentes científicas. Dmitri Mendeleev, por exemplo, carregou consigo, escritas em cartões, as propriedades numéricas dos elementos até que elas se tornaram totalmente ”familiares” para ele — tão familiares que ele não mais pensava nelas como agregados de propriedades, mas (segundo ele próprio afirmou) ”como rostos conhecidos”. Ele passou a ver os elementos, iconicamente, fisionomicamente, como ”rostos” — rostos que se relacionavam, como membros de uma família, e que compunham, in totó, periodicamente organizados, todo o rosto formal do universo. Uma mente científica assim é essencialmente ”icônica” e ”vê” toda a natureza como rostos e cenas, talvez também como música. Essa ”visão”, essa visão interna, envolta pelo fenomênico, tem ainda assim uma relação integral como físico, e devolvê-la do psíquico para o físico constitui o trabalho secundário, ou externo, dessa ciência. (”O filósofo procura ouvir dentro de si os ecos da sinfonia do mundo”, escreveu Nietzsche, ”e volta a projetá-los na forma de conceitos.”) Os gêmeos, embora deficientes mentais, ouvem a sinfonia do mundo, imagino, mas a ouvem inteiramente em forma numérica.

 

A alma é ”harmônica” seja qual for o Qi da pessoa, e para alguns, como os cientistas físicos e os matemáticos, o senso de harmonia, talvez, é primordialmente intelectual. No entanto, não consigo pensar em algo intelectual que não seja, de algum modo, também sensível — de fato, a própria palavra ”senso” tem sempre essa dupla conotação. Sensível e, de certo modo, também ”pessoal”, pois é impossível alguém sentir alguma coisa, julgar uma coisa ”sensível” sem que ela seja, de algum modo, relacionada ou passível de relacionar-se com a pessoa. Assim, a imponente arquitetônica de Bach proporciona, como fazia para Martin A., ”uma hieroglífica e obscurecida lição sobre todo o mundo”, mas ela também é, reconhecível, única e afetuosamente Bach; e isso também era sentido, comoventemente, por Martin A., e por ele relacionado ao amor que sentia pelo pai.

 

Os gêmeos, a meu ver, não possuem apenas uma estranha ”faculdade” — mas uma sensibilidade, uma sensibilidade harmônica, talvez afim à musical. Poderíamos chamá-la, com muita propriedade, de sensibilidade ”pitagórica” — e o singular não é sua existência, mas sua evidente raridade. A alma da pessoa é ”harmônica” seja qual for o seu QI, e talvez a necessidade de encontrar ou sentir alguma harmonia ou ordem suprema seja um universal da mente, independentemente das capacidades desta ou da forma que ela assuma. A matemática sempre foi considerada a ”rainha das ciências”, e os matemáticos sempre viram o número como o grande mistério e o mundo como sendo organizado, misteriosamente, pelo poder do número. Isso é expresso com primor no prólogo à autobiografia de Bertrand Russell:

 

Com igual paixão tenho buscado o conhecimento. Desejo compreender o coração dos homens. Desejo saber por que as estrelas brilham. E tento entender o poder pitagóríco pelo qual os números têm influência sobre o fluxo.

 

É estranho comparar esses gêmeos deficientes mentais a um intelecto, um espírito como o de Bertrand Russell. E, no entanto, em minha opinião, não é tão absurdo. Os gêmeos vivem exclusivamente em um mundo de pensamentos numéricos. Não têm interesse pelas estrelas que brilham nem pelos corações dos homens. Mas acredito que para eles os números não são ”apenas” números, mas significâncias, significantes cujo ”significando” é o mundo.

 

Eles não lidam com os números levianamente, como faz a maioria dos calculadores. Não estão interessados em cálculos, não têm capacidade para os mesmos e não são capazes de compreendê-los. São, antes, serenos contempladores do número — e lidam com os números com um senso de reverência e pasmo. Os números, para eles, são sagrados, repletos de significação. Essa é a sua maneira — como a música é a maneira de Martin — de entender o primeiro compositor.

 

Mas os números não são apenas impressionantes para eles, são também amigos — talvez os únicos amigos que eles já tiveram em sua vida isolada de autistas. Esse é um sentimento muito comum nas pessoas que têm um dom para os números — e Steven Smith, embora considerasse o ”método” o mais importante, fornece muitos exemplos fascinantes disso: George Parker Bidder, que escreveu sobre sua primeira infância numérica: ”Adquiri total familiaridade com os números até cem; eles se tornaram, por assim dizer, meus amigos, e eu conhecia todos os parentes e conhecidos”; ou o contemporâneo Shyam Marathe, da índia: ”Quando digo que os números são meus amigos, quero dizer que em alguma época passada lidei com aquele número específico de várias maneiras e, em muitas ocasiões, descobri novas e fascinantes qualidades nele ocultas […] Assim, se em um cálculo deparo com um número conhecido, imediatamente o vejo como um amigo”.

 

Hermann von Helmholtz, discorrendo sobre a percepção musical, afirma que, embora tons compostos possam ser analisados e divididos em seus componentes, eles são normalmente ouvidos como qualidades, qualidades únicas de tom, todos indivisíveis. Ele fala, nesse sentido, de uma ”percepção sintética” que transcende a análise e é a essência, impossível de analisar, de todo senso musical. Compara esses tons a rostos, e reflete que podemos reconhecê-los mais ou menos da mesma maneira pessoal. Em suma, parece sugerir que os tons musicais, e certamente as melodias, são de fato ”rostos” para os ouvidos e são reconhecidos, sentidos, imediatamente como ”pessoas” (ou como tendo ”qualidade de pessoa”), um reconhecimento que implica afeto, emoção, relação pessoal.

 

Isso parece ocorrer com os que amam os números. Estes também se tornam reconhecíveis como tais — em um único, intuitivo, pessoal: ”Eu conheço você!”.20 O matemático Wim Klein expressou isso muito bem: ”Os números são amigos para mim, mais ou menos. Para você, 3844 não significa o mesmo, não é? Para você, é apenas um três, um oito, um quatro e outro quatro. Mas eu digo: ’Olá, 62 ao quadrado!’”.

 

Acredito que os gêmeos, aparentemente tão isolados, vivem num mundo cheio de amigos, tendo milhões, bilhões de números aos quais dizem ”Olá!” e que, tenho certeza, respondem ”Olá!” para eles. Mas nenhum dos números é arbitrário — como 62 ao quadrado — nem (e este é o mistério) se chega a ele por algum dos métodos usuais, ou por qualquer método que eu consiga discernir. Os gêmeos parecem empregar uma cognição direta — como anjos. Eles vêem, diretamente, um universo e um céu de números. E isso, embora singular, embora bizarro — mas que direito temos de chamá-lo ”patológico”? —, proporciona uma singular auto-suficiência e serenidade às suas vidas, e poderia ser trágico interferir nelas ou destruí-las.

 

Essa serenidade foi, de fato, interrompida e destruída dez anos mais tarde, quando se julgou que os gêmeos deviam ser separados – ”para seu próprio bem”, a fim de prevenir sua ”prejudicial comunicação entre si” e que pudessem ”sair e enfrentar o mundo […] de um modo adequado, socialmente aceitável” (segundo explicado pelo jargão médico e sociológico). Assim, foram separados em 1977, com resultados que podem ser considerados tanto gratificantes como calamitosos. Ambos foram transferidos para ”semiinternatos” e executam trabalhos simples e subalternos em troca de um pagamento mínimo, sob estrita supervisão. Eles são capazes de tomar ônibus, se forem cuidadosamente orientados e receberem um passe para pagar a condução, e de se manterem moderadamente apresentáveis e limpos, embora seu caráter de retardados mentais e psicóticos ainda seja reconhecível à primeira vista.

 

Esse é o lado positivo — mas também há um lado negativo (não mencionado em suas fichas, pois antes de mais nada nunca foi reconhecido). Privados da ”comunhão” numérica entre si e de tempo e oportunidade para qualquer ”contemplação” ou ”comunhão” — sempre sendo apressados e empurrados de uma tarefa para outra — , eles parecem ter perdido sua estranha capacidade numérica e, com ela, o principal prazer e sentido de suas vidas. Mas isso é considerado um pequeno preço a ser pago, sem dúvida, por se terem tornado semi-independentes e ”socialmente aceitáveis”.

 

Isso nos lembra um pouco o tratamento dado a Nadia—criança autista com um dom fenomenal para o desenho. Nadia também foi submetida a um regime terapêutico ”para encontrar maneiras nas quais suas potencialidades em outras direções poderiam ser maximizadas”. O efeito líquido foi que ela começou a falar — e parou de desenhar. Nigel Dennis comenta: ”Ficamos com um gênio que teve seu gênio removido, nada restando além de uma deficiência generalizada. O que devemos pensar de uma cura assim tão curiosa?”.

 

Cabe acrescentar — este é um aspecto ressaltado por F. W. H. Myers, cuja reflexão sobre os prodígios numéricos abre seu capítulo sobre ”Gênios” — que essa faculdade é ”estranha” e pode desaparecer espontaneamente, embora com a mesma freqüência seja vitalícia. No caso dos gêmeos, obviamente, não se tratava apenas de uma ”faculdade”, mas do centro pessoal e emocional de suas vidas. E agora que eles estão separados, agora que ela desapareceu, já não há mais um sentido ou um centro em suas vidas

 

PÓS-ESCRITO

 

Quando Israel Rosenfield leu o original deste texto, salientou que existem outras aritméticas, superiores e mais simples do que a aritmética ”convencional” das operações, e aventou a possibilidade de as singulares capacidades (e limitações) dos gêmeos refletirem o uso, por eles, de uma aritmética ”modular” desse tipo. Em um bilhete que me escreveu, ele sugeriu que os algoritmos modulares, do tipo descrito por lan Stewart em Concepts of Modern mathematics (1975), poderiam explicar as habilidades dos gêmeos como calendário:

 

Sua habilidade para determinar os dias da semana ao longo de um período de 80 mil anos sugere um algoritmo bastante simples. Divide-se o número total de dias entre o ”agora” e o ”então” por sete Se não houver resto, a data cai no mesmo dia que ”agora”, se o resto for um, a data cairá um dia mais tarde e assim por diante Observe que a aritmética modular é cíclica- ela consiste em padrões repetitivos. Talvez os gêmeos estivessem visualizando esses padrões, seja na forma de tabelas fáceis de construir, seja na de algum tipo de ”paisagem” como a espiral de inteiros mostrada na página 30 do livro de Stewart

 

Isso não responde por que os gêmeos comunicavam-se com números primos. Mas a aritmética do calendário requer o sete, que é primo E quando se pensa em aritmética modular em geral, a divisão modular produzirá padrões cíclicos distintos apenas se forem usados números primos. Como o número primo sete ajuda os gêmeos a identificar datas e, conseqüentemente, os eventos de dias específicos de suas vidas, eles podem ter descoberto que outros números primos produzem padrões semelhantes àqueles que são tão importantes para seus atos de recordação. (Observemos que, quando a caixa de fósforos caiu e eles disseram ”111 — 37 três vezes”, eles estavam tomando o número primo 37 e multiplicando por três.) De fato, apenas os padrões de números primos podiam ser ”visualizados”. Os diferentes padrões produzidos pelos diferentes números primos (por exemplo, tabelas de multiplicação) podem ser os elementos de informação visual que eles estão comunicando um ao outro quando repetem um dado número primo. Em suma, a aritmética modular pode ajudá-los a recuperar seu passado e, em conseqüência, os padrões criados para usar esses cálculos (que só ocorrem com números primos) podem assumir uma importância particular para os gêmeos.

 

Com o uso de uma aritmética modular como essa, ressalta Stewart, pode-se chegar com rapidez a uma solução única que não se presta a nenhuma aritmética ”ordinária” — em especial visando exatamente (pelo chamado pigeon-hole principie, o princípio da classificação sistemática) números primos extremamente grandes e incomputáveis (por métodos convencionais).

 

Se tais métodos, tais visualizações, são vistos como algoritmos, eles são algoritmos de um tipo muito singular — organizados não algebricamente, mas espacialmente, como árvores, espirais, arquiteturas, ”paisagens de pensamentos”—, configurações em um espaço mental formal e contudo quase sensorial. Os comentários de Israel Rosenfíeld e as exposições de lan Stewart sobre aritmética ”superior” (e especialmente modular) empolgaram-me, pois parecem prometer, se não uma ”solução”, pelo menos uma grande chance de se chegar à compreensão de capacidades de outra forma inexplicáveis como as dos gêmeos.

 

Essas aritméticas superiores ou mais profundas foram concebidas, em princípio, por Gauss em Disquisitiones arithmeticae, em 1801, mas só receberam aplicações práticas em anos recentes. Não se pode deixar de pensar que talvez exista uma aritmética ”convencional” (ou seja, uma aritmética de operações) — muitas vezes irritante para o professor e para o aluno, ”antinatural” e difícil de aprender—e também uma aritmética íntima do tipo descrito por Gauss, que pode ser verdadeiramente inata ao cérebro, tão inata quanto a gramática sintática e gerativa ”íntima” de Chomsky. Uma aritmética dessas, em mentes como as dos gêmeos, poderia ser dinâmica e quase viva — aglomerados globulares e nebulosas de números turbilhonando e evoluindo em um céu mental sempre em expansão.

 

Como já mencionei, depois da publicação de ”Os gêmeos” recebi uma vasta correspondência, tanto pessoal como científica. Algumas cartas tratavam dos temas específicos de ”ver” ou apreender números, outras do sentido ou importância que pode haver nesse fenômeno, outras ainda do caráter geral de inclinações e sensibilidades autistas e como elas podem ser incentivadas ou inibidas, e finalmente outras da questão dos gêmeos idênticos. Especialmente interessantes foram as cartas de pais de crianças desse tipo, as mais raras e notáveis provenientes de pais que tinham sido, eles próprios, forçados a refletir e pesquisar e que haviam conseguido combinar o mais profundo sentimento e envolvimento com uma acentuada objetividade. Nessa categoria estavam os Park, pais muito inteligentes de uma criança muito talentosa, porém autista (ver C. C. Park, 1967, e D. Park, 1974, pp. 313-23). A filha dos Park, ”Ella”, era uma exímia desenhista e também muito habilidosa com números, especialmente quando bem pequena. Ella fascinava-se com a ”ordem” dos números, especialmente os primos. Esse sentimento singular pelos números primos evidentemente não é raro. C. C. Park escreveu-me sobre uma outra criança autista que ela conhecia, a qual enchia folhas de papel com números escritos ”compulsivamente”. Todos eram primos, observou ela, e acrescentou: ”São janelas para um outro mundo”. Posteriormente, ela mencionou uma experiência recente com um jovem autista que também sentia fascinação por fatores e números primos e que os percebia instantaneamente como ”especiais”. De fato, a palavra ”especial” precisava ser usada para provocar uma reação:

 

”Há alguma coisa de especial, Joe, nesse número (4875)?”

 

Joe: ”Só é divisível por 13 e 25”.

 

Sobre outro (7241): ”É divisível por 13 e 557”.

 

E sobre 8741: ”É um número primo”.

 

Park comenta: ”Ninguém na família dele incentiva seus números primos; eles são um prazer solitário”.

 

Não está claro, nesses casos, o modo como se chega às respostas quase instantaneamente: se elas são ”pensadas”, ”conhecidas” (lembradas) ou — de alguma forma — apenas ”vistas”. O que está claro é o singular senso de prazer e significação ligado aos números primos. Parte disso parece dever-se a um senso de beleza formal e simetria, mas uma outra parte, também, a um singular ”significado” ou ”potencial” associativo. Isso com freqüência foi considerado ”mágico” no caso de Ella: números, especialmente os primos, evocavam pensamentos, imagens, sentimentos, relações especiais — alguns quase ”especiais” ou ”mágicos” demais para serem mencionados. Isso é bem descrito no artigo de David Park (op. cit).

 

Kurt Gõdel, de uma maneira muito abrangente, expôs como os números, em especial os primos, podem servir como ”marcadores” — para idéias, pessoas, lugares, qualquer coisa; e esse marcador gõdeliano abriria caminho para uma ”aritmetização” ou ”numeralização” do mundo (ver E. Nagel e J. R. Newman, 1958). Se isso realmente ocorre, é possível que os gêmeos, e outros como eles, não meramente vivam em um mundo de números, mas em um mundo, no mundo, como números, sendo sua meditação ou brincadeira numérica uma espécie de meditação existencial e, se for possível alguém entendê-la, ou encontrar a chave (como David Park às vezes consegue), também uma estranha e precisa comunicação.

por Oliver Sacks

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/os-gemeos/

Palhaços, Tricksters, Bobos e Xamãs com Wellington Nogueira

Bate-Papo Mayhem #094 – gravado dia 24/10/2020 (Sabado) Marcelo Del Debbio bate papo com Wellington Nogueira – Palhaços, Tricksters, Bobos e Xamãs

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

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Babalon e Therion

As Palavras de Babalon

Deverá se prostar diante de minha estrela e invocando o Caos, iniciará a operação. ‘Glorioso és, CHAOS, Pai de toda vida, em tuas sete cabeças, em toda teu esplendor; torne-me cada vez mais forte e brilhante’.Toda força reside em teu tesão, portanto eleve-o ao máximo. Dedicar-se ao celibato dias antes de se deleitar em minha taça, será, teu sacrificio.

E beijarás, o próprio corpo, ou o corpo de teu consorte inteiramente. Ele é o líquido que inflamará, e tu é a chama. E embriagado de ansia pela penetração, deverás me chamar – ‘Bela És, Prostituta da Babilônia, que teu corpo, seja morada do meu prazer nesse momento. Eu Te louvo, BABALON’ E assim possua ou se deixe possuir.

Eu O levarei aos Infernos e te darei todos os prazeres que nele contem, haverás em ti, apenas a minha Chama e o Corpo de outrem será teu combustivel – deverá dissolver sua substancia, e arder dentro do líquido inflamavel. O dois juntos trarão um novo Inferno para Terra. E tua mente, é a terra fértil de todos os demônios, nela criarás, uma idéia, de algo que deseja trazer.

O incendio causado e a consumação dele deverão estar alinhados á Essa Vontade. Pois não há, outra magia além dessa – ela é o Todo, de tudo aquilo que outros feiticeiros retiram partes. E se entregando as profanas artes, deverá fazer do coito uma arma de guerra – com mente afiada, mentalizará o que deseja com ardor, como se aquilo já fosse uma realidade. E assim o extase virá, e tu se entregarás, deixando aquilo que mentalizou em teu orgasmo, tomar o rumo pra manifestar sobre a realidade.Deixando livre, sem tentar prende-lo com tua mente.

E por fim, invoque-me, trazendo teu pedido qualquer que seja,diferente daquilo ao qual você direcionou tua energia anteriormente.

Eu o Louvarei ao fim da operação, quando retirares os fluidos e dedica-los á mim, peça-me o que desejar que trarei – Seja a morte de um inimigo, a vitória, a prosperidade ou o amor de uma pessoa. Em todos os desejos, eu formo vida, pois sou, a Mãe de todas as Coisas manifestadas, a Terra, e toda Santa Imundicie que nela habita.

As Palavras de Therion

Atente as minhas palavras, pois eu sou o CAOS, o consorte daquela que á Todos servem e a todos Regem, e de minha união, surge todo espaço-tempo. E de minha mente, surge os homens e deuses. Aos quais, através de meu falo, dou vida e força.

Invoque-me pelo nome de Therion, e dedique uma chama á mim, pedindo o meu poder criativo e minha força.

E em tua mente, una em Mim, criarás um novo ser. Darás a eles vida, e forma igual os deuses antigos fizeram do homem. E o nomearás com a palavra que achar adequada, e sua forma, eu deixo sua imaginação reger. E com esse novo ser completo, em tua alma, firmarás no nome dele, e em sua cópula deverás firmar seu pensamento-serpente sobre este ovo. Sobre este nome. O orgasmo deve vir com todo teu poder, e direcionado á preencher uma nova forma de vida, que habitará as regiões astrais, e dali, poderá ser comandada. Visualizando ela com sua força, deverás dar comandos, para que aja em teu nome, assim como Jeová fez com Adão.

E a cada orgasmo, fixe teu poder no nome de teu ser, para que ele se alimente e cresça, assim como a propria vida do homem, ele deverá nascer, crescer , viver para servir ao teu Deus e morrer.  E teu adão astral, deverá seguir as suas ordens, de modo que ele viverá para cumprir a tua vontade.
E como o proprio mistério de vida e morte, tu darás aordem a morte dele – como um ente astral, e você como seu criador, deverás visualiza-lo e em seguida, absorve-lo, imaginando a energia desse ser fluido de volta para ti. E quando desejar, encarnar outro ser, com a mesma energia. Pois este é o misterio dos mistérios, A vida que renasce da morte, o homem que um dia foi oriental renasce ocidental – A criação que Eu faço, Eu destruo, Eu reconstruo. Pois sou THERION e minha palavra é a lei no espaço infinito de Nuit. E Eu estou em você, assim como todos os outros Deuses e Homens.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/babalon-e-therion/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/babalon-e-therion/

Co-herdeiros do Caos

H. P. Lovecraft através de seus sonhos pode ter tido acesso ao universo paralelo que o permitiu relcthulhudesenho.jpgatar profecias a cerca da destruição do nosso mundo através de forças advindas do Caos. As perguntas a cerca das datas relacionadas a esse terror cósmico foram feitas desde sua morte em 1937. – Com isso, passou a existir duas escolas da filosofia de “lovecraft” – Uma entende as obras de H.P. Lovecraft como ficções de terror e consequentemente Lovecraft como um talentoso mestre das palavras – a outra, um corpo selecionado de pessoas que vêem Lovecraft como um conhecedor de verdades cósmicas ocultas, considerando-o como um receptor, um profeta involuntário do Caos.

Ainda que estranha, há uma evidência admissível para ambos os lados; Lovecraft sofria com estranhos sonhos relacionados a esses deuses antigos que representariam o próprio Caos. Alguns especialistas comparam essa estranha situação referente à Lovecraft e consideram que essa era uma situação que poderia ser chamada de dissonância cognitiva.

Ou seja, todos possuem modelos mentais de como as coisas são ou deveriam ser; isso inclui valores referentes a emoções, crenças, opiniões e etc. De forma que geralmente esses valores não possuem qualquer relação entre si, mas mantêm uma relação de concordância, ou seja, consonância. Agora o problema se inicia a partir do momento em que surge uma nova informação onde essa informação entra em choque com o modelo mental existente, e isso é a dissonância cognitiva, pois as pessoas não se sentem bem com esse tipo de incoerência entre modelos. – Isso levando em conta a aflição de Lovecraft com algo que dizia respeito à lei natural das coisas… Que o universo tendia ao Caos. – Essa evidencia foi suficiente pra alguns, mas para muitos não passou de especulação, principalmente para aqueles que viam Lovecraft como um profeta involuntário do Chaos; suas obras eram claras e muito do que era escrito se encaixava perfeitamente sobre os trabalhos místicos realizados na época.

H.P. Lovecraft então tomou seus sonhos como fonte de suas obras, transformando seus sonhos em arte, transformando-os nos mitos de Cthulhu. – Lovecraft atingiu o receio das pessoas através de seus contos; um universo unidimensional onde habitam seres tão antigos e poderosos e etc. – Isso causou grande polemica.

Kenneth Grant indiretamente sugeriu que H. P. Lovecraft era semelhante a uma lente defeituosa que recebia imagens distorcidas; neste caso, distorcidas por medos pessoais e pela rejeição consciente produzida por sua mente por causa dos sonhos. Grant compara os trabalhos de Lovecraft com os de Crowley fazendo conexões explicitas das entidades comentadas por Crowley e as comentadas por Lovecraft;

Lovecraft fala a cerca dos Antigos em muitos dos seus trabalhos; de forma que essas forças viriam de uma dimensão externa, não conhecida pelo homem, e que essa passagem se daria como uma fusão entre os mundos e isso teria sido iniciado por pequenas brechas entre as dimensões causadas pelos crimes do ser humano contra a criação. Fala, também, a cerca do alinhamento das estrelas. O que nos faz pensar em um tema atual – O grande Tsunami que devastou a costa da Ásia matando milhares de pessoas e deslocando o Eixo do planeta em alguns centímetros – Certo, os cientistas disseram que isso não causaria dano ao planeta Terra, mas lembrando da teoria de Lorenz acerca do “Efeito Borboleta” onde pequenas modificações poderiam alterar completamente a forma final de determinadas situações… Creio que devemos levar em consideração que essa pequena alteração no Eixo da Terra pode provocar modificações no Universo; alinhamento de estrelas que nunca deveriam se alinhar e outras coisas mais.

O homem gerou o Caos parcial ao cometer crimes contra a criação, contra a vida esse Caos buscou por sua fonte original; O núcleo do Caos… Onde habitam os Sete deuses antigos e não revelados. – Esse conceito de não revelados se deu referente aos trabalhos ministrados por sacerdotes do Antigo Egito; sacerdotes que em segredo trabalhavam com forças relacionadas ao Caos Inicial, as forças originadas do Duat – espaço inferior onde às estrelas se perdem; no texto é tratado como o núcleo do Caos – porém esses trabalhos foram proibidos e esses deuses relacionados ao Duat, foram considerados deuses negros e ‘banidos’ – não revelados.

Os Antigos sempre foram cultuados; em cada Era e em cada povo por um nome diferente; mas nunca estiveram tão presentes como agora. – Porém existe uma visão negativa a cerca desta força contida no Chaos; mas devemos analisar que a vida como à conhecemos se origina do Caos e tende a retornar ao Caos – enquanto ausência de ordem – Porém se essa força for controlada ele pode se tornar algo de grande valor; é como um jardim que com o auxilio do jardineiro fica belo e receptivo, porém sem o jardineiro as plantas tendem a desordem… Se tornando um lugar repulsivo. – Do mesmo modo é o trabalho realizado junto aos Antigos enquanto pórticos de acesso ao Núcleo do Caos… Se essa força for trabalhada adequadamente, se torna algo incomparável. – É por isso que muitos nos enviam e-mails para se informarem de como se tornam membros do Círculo Iniciático dos Sete Caos e nós sempre respondemos que o sistema trabalhado se baseia em capacidade e não em conhecimento; e os testes realizados são baseados na capacidade de trabalhar com a força contida no Caos; É o sistema que escolhe e não o candidato que se faz escolhido – Logo sendo radical… Ao se trabalhar com a força contida no Centro do Caos só duas coisas podem acontecer;

1) Ou você se torna parte dele, pois é capacitado e se torna não um magista, mas parte da magia através da força contida neste núcleo caótico. – de forma a controlar todo essa força.

Ou

2) Fica louco por não suportar uma verdade primitiva e que sempre esteve ao nosso alcance. – Essa loucura vem não da força contida no Caos, mas da mente que tenta não acreditar em algo tão presente – da mente que se limita em paradigmas e dogmas.

O ser humano precisa entender que nós enquanto criação somos uma derivada do Caos; isso é constatado em todos os seguimentos e filosofias; pelos egípcios, hebreus e etc. – E se o homem e toda a criação é derivada deste Chaos… Porque não buscar as verdades contidas nele. – Somos co-herdeiros do Caos.

E como co-herdeiros; estamos ligados ao Caos como um todo; ao Universo como um todo; a Criação e consequentemente aos Antigos que são a representação desta força contida no Caos.

Sejamos parte dessa magia… E através desta força… Sejamos uma das faces do Caos; do Universo.

Frater AhaZeD. Baseado no artigo ‘profeta relutante’ de Stephen Sennitt

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/co-herdeiros-do-caos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/co-herdeiros-do-caos/

A Sophia de Jesus Cristo

A chamada “Sophia” teve seu texto encontrado na Biblioteca de Nag Hammadi (em duas cópias, III,3 e V,1), descoberta em 1945 no alto Egito, e também presente no Códex de Berlim – encontrado no séc. XIX. Foi dirigido a uma assembléia que já conhecia o gnosticismo. Este texto foi reelaborado no séc. II d.C., na Escola de Valentino, a partir de ‘Epístola de Eugnostos’, que tem um conteúdo de gnosticismo mais egípcio. Esta última – séc. I a.C. – é uma carta formal, mais curta e direta, escrita por um Instrutor a seus discípulos, também encontrada em Nag Hammadi (III,4)

As passagens colocadas entre colchetes [ ] em itálico fazem parte da ‘Epístola de Eugnostos’ e foram aqui acrescentadas quando a diferença entre os dois textos é expressiva. Entre parênteses () a numeraç]ão das notas explicativas ao final do documento. O texto ‘A Sophia de Jesus, o Cristo de Deus’ é apresentado na forma de diálogos, enquanto na epístola os discípulos não são nominados, mas apenas as instruções.)

O TEXTO

Após ele ressurgir de entre os mortos, seus doze discípulos e sete mulheres (1) continuaram a ser seus seguidores e foram para a Galileia, até a montanha chamada ‘Presságio e Alegria’ (2).

Quando se reuniram, estavam perplexos, confusos sobre a realidade subjacente do universo, o plano, a sagrada(3) providência e os poderes das autoridades (4) e sobre tudo que o Salvador estava fazendo com eles no segredo (5) do plano sagrado.

Então, o Salvador apareceu, não em sua forma anterior, mas como um espírito invisível. E sua aparência assemelhava-se a um grande anjo de luz. Mas não devo descrever a sua aparência. Nenhum corpo mortal poderia suportá-la (6), somente um corpo físico puro e perfeito, como aquele sobre o qual ele nos ensinou na Galileia, no monte chamado ‘das Oliveiras’ (7).

E ele disse: “A paz esteja com vocês! Minha paz eu lhes dou!” E todos eles ficaram maravilhados e apreensivos.

O Salvador riu e disse a eles: “O que vocês estão pensando? Porque estão perplexos? O que estão procurando (entender)?”

Filipe respondeu: “A respeito da realidade subjacente do universo e do plano”.

O Salvador disse a eles: “Quero que saibam que todos os homens nascidos na terra, desde a fundação do mundo até agora, sendo pó, apesar de terem inquirido sobre Deus, quem ele é e como é ele, não o encontraram. Ora, os mais sábios entre eles especularam sobre o ordenamento (8) do mundo e seus movimentos. Mas sua especulação não alcançou a verdade. Pois, é dito por todos filósofos que o ordenamento é direcionado de três maneiras e por isso não há concordância entre eles.

Alguns deles dizem que o mundo é dirigido por si mesmo. Outros que é a providência (que o dirige). E outros, que é o destino. Mas não é nenhum desses. Novamente, das três explanações que há pouco mencionei, nenhuma está próxima da verdade e elas são dos homens.

Mas eu, que vim da Luz Infinita. Estou aqui – por conhecê-la – para que possa (9) falar-lhes a respeito da natureza precisa da verdade. Tudo quanto seja de si mesmo é uma vida contaminada, pois é auto-gerado. A providência não possui sabedoria nela. E o destino não discerne.

[Pois tudo quanto seja de si mesmo é vazio de vida, é auto-gerado. A providência é tola. E o destino é algo sem discernimento.]

Mas a vocês é dado conhecer. E quem quer que seja merecedor do conhecimento, (o) receberá, aquele que não tenha sido gerado pelo relacionamento impuro (10), mas pelo Primeiro Que Foi Enviado, pois ele é imortal em meio aos homens mortais.”

[Então, quem quer que seja capaz de se libertar destas três opiniões que há pouco mencionei e vir, por meio de outra explanação, a reconhecer o Deus da verdade e concordar em tudo concernente a ele, esse é imortal, habitando em meio aos homens mortais.]

Mateus disse-lhe: “Senhor, ninguém pode encontrar a verdade exceto através do senhor. Portanto, ensina-nos a verdade”.

O Salvador falou: “Aquele QUE É é inefável. Nenhum princípio o conhece, nenhuma autoridade, nem dependência, nem qualquer criatura desde a fundação do mundo até agora, com exceção (11) dele mesmo e daqueles a quem ele queira revelar-se, através daquele que é da Primeira Luz. De agora em diante eu sou o Grande Salvador. Pois ele é imortal e eterno.

Ora, ele é eterno, não tendo nascido, pois todo aquele que nasce, perecerá. Ele não foi gerado, não tendo princípio, pois tudo que tem um princípio, tem um fim. Já que (12) ninguém o governa, ele não tem nome, pois quem quer que tenha um nome é a criação de um outro (13). Ele é inominável, não tem forma humana, pois todo aquele que tem forma humana é a criação de um outro. Ele tem a aparência de si mesmo (14) – não como aquela que vocês viram e receberam, mas uma aparência estranha que supera todas as coisas e é superior ao universo.

Ele olha para todos os lados e vê a si próprio a partir de si mesmo. Como é infinito, é eternamente incompreensível. É imperecível e não tem semelhança (a qualquer coisa). Ele é o imutável bem. É sem falhas. Eterno. Abençoado. Apesar de ser incognoscível, sempre conhece a si mesmo. Ele é imensurável. Insondável. É perfeito, não tendo defeito. Ele é imperecivelmente abençoado. É chamado ‘Pai do Universo’.”

Filipe disse: “Senhor, como, então, ele apareceu aos perfeitos?”

O Salvador perfeito respondeu-lhe: “Antes que qualquer coisa seja visível, dentre aquelas que são visíveis, a majestade e a autoridade estão nele, visto que ele abarca inteiramente as totalidades, enquanto que nada o abarca. Pois ele é todo mente. E é pensamento, consideração, reflexão, racionalidade e poder. Todos são poderes iguais. São a fonte das totalidades. E todas as raças, desde a primeira até a última, estavam em sua previsão, aquela do Pai Não-gerado e infinito.”

[E todas as raças (desde a primeira) até a última, estão previstas pelo Não-gerado, pois (15) ele ainda não surgiu à visibilidade.]

Tomé falou-lhe: “Porque esses surgiram e porque foram revelados?”

O perfeito Salvador respondeu: “Eu vim do Infinito, para que eu possa dizer-lhes todas as coisas. O Espírito QUE É foi o progenitor, que tem o poder (de) um progenitor e a natureza de (dar) forma, para que a grande fartura que estava oculta nele pudesse ser revelada. Por causa de sua compaixão e de seu amor ele desejava dar fruto por si mesmo, para que ele não (gozasse) sua benevolência sozinho, mas (que) outros espíritos da Geração Resoluta pudessem dar corpo e fruto, glória e honra na imperecibilidade e em sua graça infinita; para que seu tesouro pudesse ser revelado pelo Deus Auto-Gerado, o pai de toda imperecibilidade e daqueles que apareceram mais tarde. Mas eles não haviam alcançado ainda a visibilidade.  Porém existe uma grande diferença entre os imperecíveis.”

Porém existia uma diferença entre os eons imperecíveis. Vamos, então, refletir (sobre isto) desta forma.

Ele exclamou dizendo: “Quem tem ouvidos para ouvir a respeito das infinidades, que ouça”, e “Dirigi-me àqueles que estão despertos.”

E ele continuou ainda, dizendo: “Tudo que veio do perecível, perecerá, já que veio do perecível. Mas tudo o que veio da imperecibilidade, não perecerá, mas se tornará imperecível (BG 89, 16-17 acrescenta: pois se origina da imperecibilidade). Portanto, muitos homens se perderam porque eles não conheciam esta diferença e morreram.”

Maria disse a ele: “Senhor, como vamos então conhecer isto?”

O Salvador perfeito disse:

Porém isto é suficiente, pois é impossível para alguém disputar a natureza das palavras que acabei de falar sobre Deus verdadeiro, bem-aventurado e imperecível.

Mas, se alguém quiser acreditar nas palavras (aqui) determinadas, que ele vá do que está oculto até o fim do que está visível, e este Pensamento lhe instruirá sobre como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada no que é visível. Este é um princípio de conhecimento.

“Venham das coisas invisíveis até o fim das que são visíveis, e a própria emanação do Pensamento lhe revelará como a fé nas coisas que não são visíveis foi encontrada naquelas que são visíveis, aquelas que pertencem ao Pai Não-Gerado. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça.

O Senhor do Universo não é chamado ‘Pai’, mas ‘Antepassado’. (Porque o Pai é) o início (ou princípio) daqueles que vão aparecer, mas ele (o Senhor) é (o) Antepassado sem início. Olhando-se dentro de si mesmo num espelho, ele se parece com sua própria semelhança, porém sua aparência parecia como seu Próprio-Pai Divino e (como) Confrontador ‘daqueles confrontados’, o Primeiro Pai Existente Não-Gerado. Ele na verdade tem a mesma idade da Luz que veio antes dele, mas não é igual a ela em poder.

“E a seguir foi revelada uma grande multidão de seres auto-gerados confrontadores, iguais em idade e poder, estando na glória (e) sem número, cuja raça é chamada ‘A Geração sobre a Qual Não Há Reino’ ‘daquele em quem vocês mesmos apareceram destes homens.’ E toda esta multidão sobre a qual não há reino é chamada ‘Filhos do Pai Não-Gerado, Deus, Salvador, Filho de Deus,’ cuja semelhança está consigo. Porém, ele é o Incognoscível, que está sempre pleno de glória imperecível e de alegria inefável. Eles todos descansam nele, sempre se regozijam em alegria inefável na sua glória imutável e sua jubilação imensurável. Isto nunca foi ouvido ou conhecido entre todos os eons e seus mundos até agora.”

Mateus disse a ele: “Senhor, Salvador, como o Homem foi revelado?”

O Salvador perfeito disse: “Quero que vocês saibam que aquele que apareceu antes do universo no infinito, o Pai construído e desenvolvido por Si Mesmo, sendo pleno de luz brilhante e inefável, no princípio, quando ele decidiu que sua semelhança (deveria) se tornar um grande poder, imediatamente o princípio (ou início) daquela Luz apareceu como Homem Andrógino e Imortal. Isto, para que por meio daquele Homem Imortal eles pudessem alcançar a sua salvação e despertar do esquecimento por meio do intérprete que foi enviado, que estará com vocês até o fim da pobreza dos ladrões.

Seu nome masculino é “Mente Perfeita Gerada”. E seu nome feminino (é) “Toda-sábia Sophia Geradora.” Também é dito que ela se parece com seu irmão e consorte. Ela é a verdade incontestada; porque abaixo daqui o erro, que existe com a verdade, a contesta.

“E seu consorte é a Grande Sophia, que deste o princípio lhe foi destinada para união pelo Pai Auto-Gerado, do Homem Imortal ‘que apareceu como Primeiro, divindade e reino,’ pois o Pai, que é chamado ‘Homem, Pai-Próprio,’ revelou isto. E ele criou um grande eon, cujo nome é Ogdoad, para sua própria majestade.

“Ele recebeu grande autoridade, e governou sobre a criação da pobreza. e governou sobre todas as criações. Ele criou deuses, anjos (e) arcanjos, miríades sem número para o acompanhamento daquela Luz e do Espírito masculino-tríplice, que é o de Sophia, seu consorte. Pois deste Deus por meio deste Homem originou-se a divindade e o reino. Portanto, ele foi chamado ‘Deus dos deuses,’ ‘Rei dos reis.’

“O Primeiro Homem tem sua mente singular, interior, e o pensamento – assim como ele é isto (pensamento) – (e) a consideração, a reflexão, a racionalidade, o poder. Todos os atributos que existem são perfeitos e imortais. Com relação a imperecibilidade, eles são na verdade iguais. (Porém) com respeito ao poder, eles são diferentes, como a diferença entre pai e filho, (e filho) e pensamento, e o pensamento e o resto.

“Como eu disse antes, entre as coisas que foram criadas, a mônada é a primeira. A díada segue-a, e a tríada, até as décimas. As décimas, porém, governam as centésimas; as centésimas governam as milésimas; as milésimas governam as décima-milésimas. Esta é a seqüência (entre os) imortais. O Primeiro Homem é desta forma: Sua Mônada.

(As páginas 79 e 80 estão faltando. Elas foram substituidas pela seção correspondente de Eugnostos – Código V, cujo começo é algo diferente da frase parcial final de III 78.

Mais uma vez, esta é a seqüência (que) existe entre os imortais: a mônada e o pensamento são as coisas que pertencem ao Homem Imortal. Os pensamentos (são) as dezenas, e as centenas são (os ensinamentos), (e os milhares) são os conselheiros, (e) os dez mils (são) os poderes. Porém aqueles que vêm do … existem com seus ( … ) (em) cada eon ( … ) ( … No princípio, o pensamento) e os pensamentos (apareceram da) mente, (então) os ensinamentos dos pensamentos, os conselhos (dos ensinamentos), (e) o poder (dos ) (conselhos).

E depois de tudo isto, tudo o que foi revelado apareceu de seu poder. E do que foi criado, tudo o que foi moldado apareceu. Do que foi moldado apareceu o que foi formado. Do que foi formado, o que recebeu nome. Assim surgiu a diferença entre os não-gerados do começo ao fim.”

O que recebeu nome apareceu do que foi formado, enquanto a diferença entre as coisas geradas apareceu do que recebeu (nome), do começo ao fim, pelo poder de todos os eons. Porém o Homem Imortal está pleno de toda glória imperecível e de todo contentamento inefável. Todo seu reino se regozija em júbilo eterno, aqueles que nunca foram ouvidos ou conhecidos em qualquer eon que (vieram) depois (deles e de seus) mundos.

Então Bartolomeu disse a ele: “Como (é que ele) foi designado no Evangelho ‘Homem’ e ‘Filho do Homem’? A qual deles, então, é este Filho relacionado?” O Ser Divino disse a ele:

“Quero que vocês saibam que o Primeiro Homem é chamado ‘Gerador, Mente Auto-aperfeiçoada’. Ele refletiu com a Grande Sophia, sua consorte, e revelou seu unigênito, o filho andrógino. Seu nome masculino é designado ‘Primeiro Gerador Filho de Deus; seu nome feminino, ‘Primeira Geradora Sophia, Mãe do Universo.’ Alguns a chamam ‘Amor’. Porém, o Unigênito é chamado ‘Cristo’. Como ele tem autoridade de seu pai, ele criou uma multidão infindável de anjos como comitiva do Espírito e da Luz.”

Em seguida (outro) (princípio) veio do (Homem) Imortal, que é (chamado) (Gerador) “Auto-aperfeiçoado”. (Quando ele recebeu o consentimento) de seu (consorte), (a Grande Sophia, ele) revelou (que o andrógino unigênito), (é chamado) “(Filho) Unigênito (de Deus).” Seu aspecto feminino (é) Sophia (a Primeira)-gerada, (Mãe do Universo)”, que alguns chamam “Amor”. Ora, o Unigênito, como ele deriva (sua) autoridade de seu (pai), Ele criou anjos, infindáveis miríades, como comitiva. Toda esta multidão de anjos é chamada “Assembléia dos Divinos, as Luzes Sem Sombra”. Quando estes se cumprimentam, seus abraços tornam-se anjos como eles.

Seus discípulos disseram a ele: “Senhor, revela-nos a respeito daquele chamado ‘Homem’ para que nós também possamos conhecer exatamente a sua glória.”

O Salvador perfeito disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O Primeiro Pai Gerador é chamado ‘Adão, Olho da Luz,’ porque ele veio da Luz brilhante, (e) seus anjos sagrados, que são inefáveis (e) sem sombras, sempre se regozijam com júbilo em suas reflexões, que eles receberam de seu Pai. Todo o reino do Filho do Homem, que é chamado ‘Filho de Deus,’ está cheio de alegria inefável e sem sombra, um imutável júbilo, (com eles) se regozijando a propósito de sua glória imperecível, que nunca foi ouvida até agora, nem foi revelada nos eons que vieram depois com seus mundos. Eu vim do Auto-Gerado e da Primeira Luz Infinita para que eu possa revelar tudo a vocês.”

Mais uma vez seus discípulos disseram: “Diga-nos claramente como (aconteceu) que eles desceram das invisibilidades, do (reino) imortal para o mundo que morre?”

O Salvador perfeito disse: “O Filho do Homem consentiu com Sophia, sua consorte, e revelou uma grande luz andrógina. Seu nome masculino é designado como ‘Salvador, Gerador de Todas as Coisas.’ Seu nome feminino é designado como “Sophia a Geradora de Tudo.’ Alguns chamam-na de ‘Pistis’.

Então o Salvador consentiu com sua consorte, Pistis Sophia, e revelou seis seres espirituais andróginos que são do tipo daqueles que os precederam. Seus nomes masculinos são estes: primeiro, “Não-gerado”; segundo, “Auto-Gerado”; terceiro, “Gerador”; quarto, “Primeiro Gerador”; quinto, “Gerador de Tudo”; sexto, “Arqui-Gerador”. Os nomes femininos também são estes: primeiro, “Sophia Totalmente Sábia”; segundo, “Sophia Mãe de Tudo”; terceiro, “Sophia Geradora de Tudo”; quarto, “Sophia, a Primeira Geradora”; quinto, “Sophia Amor”; sexto, “Pistis Sophia”.

(A partir) do consentimento daqueles que acabei de mencionar, apareceram pensamentos nos eons que existem. Dos pensamentos, reflexões; das reflexões, considerações; das considerações, racionalizações; das racionalizações, vontades; das vontades, palavras.

Então os doze poderes que acabo de discutir, consentiram uns com os outros. (Seis) machos (de cada um) (e) (seis) fêmeas (de cada uma) foram reveladas, de tal forma que existem setenta e dois poderes. Cada um dos setenta e dois revelou cinco (poderes) espirituais que (juntos) são os trezentos e sessenta poderes. A união de todos eles é a vontade.

Portanto, nosso eon surgiu como a espécie de Homem Imortal. O tempo surgiu como a classe de Primeiro Gerador, seu filho. (O ano) surgiu como o exemplo de (Salvador. Os) doze meses surgiram como o símbolo dos doze poderes. Os trezentos e sessenta dias do ano surgiram como a classe dos trezentos e sessenta poderes que apareceram do Salvador. Suas horas e momentos surgiram como os tipos de anjos que deles vieram (os trezentos e sessenta poderes) (e) que são inumeráveis.

Todos os que vieram ao mundo, como uma gota da Luz, são enviados por ele ao mundo do Todo-Poderoso, para que possam ser protegidos por ele. E o vínculo de seu esquecimento o atou à vontade de Sophia, para que a matéria pudesse ser (revelada) por meio dele a todo o mundo em pobreza com relação à sua arrogância e cegueira (do Todo-Poderoso) e a ignorância com que foi designado.

Porém eu vim das localidades acima, pela vontade da grande Luz, que escapou daquele vínculo. Eu interrompi o trabalho dos ladrões. Despertei aquela gota que foi enviada de Sophia, para que ela possa dar muitos frutos por meu intermédio e ser aperfeiçoada e não mais ser defeituosa. E para que possa (se juntar) por meu intermédio, o Grande Salvador, para que sua glória possa ser revelada e que assim Sophia possa ser justificada também com relação àquele defeito, para que seus filhos não se tornem outra vez defeituosos, mas que possam alcançar a honra e a glória, subir a seu Pai e conhecer as palavras da Luz masculina.

E vocês foram enviados pelo Filho, que foi enviado para que vocês pudessem receber a Luz e se removerem do esquecimento das autoridades, e para que isto não possa mais ocorrer por sua causa, ou seja, o relacionamento impuro que vem do fogo terrível que se origina de sua parte carnal. Pise sobre a sua intenção maliciosa.

Então Tomas disse a (ele): “Senhor Salvador, quantos são os eons que ultrapassam os céus?”

O Salvador perfeito disse: “Louvo vocês porque perguntam a respeito dos grandes eons, pois suas raízes estão nos infinitos. Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, ele (ofereceu)

(As páginas 109 e 110 estão faltando. Elas foram substituidas neste texto com a seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim (nº 8502), cujo início é um pouco diferente da frase parcial final de III 108.)

Ora, quando aqueles sobre os quais eu discuti anteriormente foram revelados, o Pai Auto-Gerado muito em breve criou doze eons como comitiva para os doze anjos.

E em cada eon haviam seis (céus), e assim haviam setenta e dois céus dos setenta e dois poderes que surgiram dele. E em cada um dos céus haviam cinco firmamentos, portanto existem (ao todo) trezentos e sessenta (firmamentos) dos trezentos e sessenta poderes que surgiram deles.

Quando os firmamentos estavam completos, foram chamados “Os Trezentos e Sessenta Céus”, de acordo com o nome dos céus que estavam diante deles. E todos estes eram perfeitos e bons. E desta forma o defeito da feminilidade apareceu.

E (Tomas) disse a ele: “Quantos são os eons dos imortais, começando das infinidades?”

O Salvador perfeito disse: “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. O primeiro eon é o do Filho do Homem, que é chamado de ‘Primeiro Gerador’, que é chamado ‘Salvador’, que apareceu. O segundo eon (é) o do Homem, que é chamado ‘Adão, Olho da Luz’. O terceiro é o do filho do Filho do Homem, que é chamado de ‘Salvador’.

Aquilo que abraça estes é o eon sobre o qual não há reino, (o eon) do Deus Infinito Eterno, o Auto-Gerado eon dos eons que estão nele, (os eons) dos imortais, que eu descrevi anteriormente, (os eons) acima do Sétimo, que apareceu de Sophia, que é o primeiro eon.

Ora, o Homem Imortal revelou eons, poderes e reinos, e deu autoridade a todos que aparecem nele para que possam exercitar seus desejos até as últimas coisas que estão acima do caos. Pois estes consentiram uns com os outros e revelaram toda a magnificência, até mesmo do espírito, luzes numerosas que são gloriosas e sem número. Estas foram chamadas no princípio, isto é, o primeiro eon, (o) segundo e (o terceiro). O primeiro (é) chamado Unidade e Descanso.’ Cada um tem seu (próprio) nome. O (terceiro) eon foi designado ‘Assembléia’ devido ao grande número que apareceu: como um, uma multidão se revelou.

Ora, como as multidões se reúnem e chegam a unidade, (BG 111, 2-5 acrescenta aqui: portanto, (eles) são chamados ‘Assembléia’, devido àquela Assembléia que ultrapassa o céu) chamamos a elas de ‘Assembléia’ do Oitavo.’ Apareceu como andrógina e foi chamada parcialmente como macho e parcialmente como fêmea. O macho é chamado ‘Assembléia’, enquanto que a fêmea é chamada ‘Vida’, para que possa ser demonstrado que de uma fêmea veio a vida para todos os eons. E cada nome foi recebido, começando do princípio.

“Pois desta concordância com seu pensamento, em breve apareceram os poderes que eram chamados ‘deuses’. E (os) deuses dos deuses, por sua sabedoria revelaram deuses. (E os deuses) por sua sabedoria revelaram senhores. E os senhores dos senhores, por seu pensamento revelaram senhores. E os senhores, por seu poder revelaram arcanjos. Os arcanjos, por suas palavras revelaram anjos; destes, apareceram semelhanças com estrutura, forma e nome para todos os eons e seus mundos.

“E os imortais, que acabo de descrever, todos eles têm autoridade do Homem Imortal, ‘que é chamado ‘Silêncio’, porque ao refletir sem falar toda sua majestade foi aperfeiçoada.’ Pois desde o momento que os imperecíveis tiveram autoridade, cada qual criou um grande reino no Oitavo bem como tronos, templos (e) firmamentos para sua própria majestade. Pois todos estes surgiram pela vontade da Mãe do Universo.

Então os Santos Apóstolos disseram a ele: “Senhor, Salvador, fale-nos a respeito daqueles que estão nos eons, pois é necessário que perguntemos a respeito deles.” O Salvador perfeito disse: “Se vocês perguntarem a respeito de qualquer coisa, Eu lhes direi. Eles criaram hostes de anjos, números infindáveis para seu acompanhamento e sua glória. Eles criaram espíritos virgens, as luzes inefáveis e imutáveis. Pois elas não têm nenhuma doença nem fraqueza, mas simplesmente vontade. (BG 115,14 acrescenta aqui: E elas apareceram num instante.)

“Desta forma os eons foram completados rapidamente com os céus e os firmamentos na glória do Homem Imortal e de Sophia, sua consorte: (que são) a área da qual cada eon, o mundo e aqueles que vieram após, tiraram (seu) modelo para sua criação de semelhança nos céus do caos e de seus mundos. E todas as naturezas, começando da revelação do caos, estão na Luz que brilha sem sombra, no contentamento que não pode ser descrito e no júbilo impronunciável. Eles se deleitam para sempre em virtude de sua glória imutável e do descanso imensurável, que não pode ser descrito, entre todos os eons que apareceram depois e todos seus poderes. Ora, tudo o que acabo de dizer a vocês, disse para que vocês possam brilhar mais do que eles na Luz.”

Mas isto é suficiente. Tudo o que acabo de dizer a vocês, disse de uma forma que vocês possam aceitar, até que aquele que não precisa ser ensinado apareça entre vocês. Ele falará todas estas coisas a vocês com alegria e no conhecimento puro.

Maria disse a ele: “Santo Senhor, de onde vieram seus discípulos, para onde vão e (o que) eles deveriam fazer aqui?”

O Salvador perfeito disse a eles: “Quero que vocês saibam que Sophia, a Mãe do Universo e o consorte, desejou por si só trazer todos estes à existência sem seu (consorte) macho. Mas, pela vontade do Pai do Universo, para que sua bondade inimaginável possa ser revelada, ele criou aquela cortina entre os imortais e aqueles que vieram depois, para que a consequência pudesse acompanhar cada eon e o caos, e assim o defeito da fêmea pudesse (aparecer), e o Erro viesse a lutar com ela. E esta tornou-se a cortina do espírito.

(As páginas 115 e 116 estão faltando. Elas foram substituidas aqui pela seção correspondente do Código Gnóstico de Berlim , nº 8502.)

 

os eons acima das emanações da Luz, como já disse, uma gota da Luz e do Espírito desceram às regiões inferiores do Todo Poderoso no caos, para que suas formas moldadas pudessem aparecer daquela gota, pois isto é um julgamento sobre o Arqui-Gerador, que é chamado Yaldabaoth.’ Aquela gota revelou suas formas moldadas por meio do alento (sopro), como uma alma viva. Ela definhou e dormiu na ignorância da alma. Quando ela se tornou quente com o alento (sopro) da Grande Luz do Macho, e tomou pensamento, (então) nomes foram recebidos por todos os que estão no mundo do caos e por todas as coisas que estão nele por meio daquele Ser Imortal, quando o alento soprou dentro dele.

Mas quando isto ocorreu, pela vontade da Mãe Sophia para que o Homem Imortal pudesse ajuntar ali as vestes para um julgamento a respeito dos ladrões (ele) então recebeu com agrado o sopro daquele alento. Mas como ele era semelhante à alma, não foi capaz de tomar aquele poder para si mesmo até que o número do caos estivesse completo, (isto é,) quando o tempo determinado pelo grande anjo estiver completo.

Ora, lhes ensinei a respeito do Homem Imortal e soltei as amarras dos ladrões dele. Quebrei os portões dos impiedosos na presença deles. Humilhei a intenção maliciosa deles, e eles foram todos envergonhados e se elevaram de sua ignorância. Por causa disto, então, vim aqui para que eles possam ser unidos com aquele Espírito e Alento, aquele ( ….. ) e Alento, e que possam tornar-se de dois um, da mesma forma como do primeiro, para que vocês possam dar muito fruto e subir a Ele Que É desde o Princípio, em alegria e glória inefável, e (honra e) graça do (Pai do Universo).

“Quem conhece, (então), (o Pai em pura) gnosis (partirá) para o Pai (e repousará no) (Pai) Não-Gerado. Mas (quem o conhece) (de forma defeituosa) partirá (para o defeito e para o resto (do Oitavo. Ora,) quem conhece o (Espírito) Imortal de Luz no silêncio, por meio da reflexão e do consentimento na verdade, que me traga sinais do Ser Invisível, e ele se tornará uma luz no Espírito do Silêncio. Quem conhece o Filho do Homem na gnosis e no amor, que me traga um sinal do Filho do Homem, para que ele possa partir para os lugares de moradia com aqueles no Oitavo.

“Vejam, eu revelei a vocês o nome do Ser Perfeito, toda a vontade da Mãe dos Anjos Sagrados, para que a (multidão) masculina possa ser completada aqui, para que (possa aparecer nos eons,) (as infinidades e) aqueles que (surgiram na) insondável (riqueza do Grande Espírito) Invisível, (para que) todos (possam receber de sua bondade), mesmo a riqueza (de seu descanso) que não tem (reino sobre ele). Eu vim (do Primeiro) Que Foi Enviado, para que eu pudesse revelar a vocês Aquele Que É desde o Princípio, por causa da arrogância do Arqui-Gerador e de seus anjos, já que eles que são deuses. E eu vim para removê-los de sua cegueira para que possam dizer a todos a respeito do Deus que está acima do universo. Portanto, pisem sobre seus túmulos, humilhem sua intenção maliciosa, e destruam o seu jugo e assumam o meu. Dei autoridade a vocês sobre todas as coisas como Filhos da Luz, para que vocês possam pisar sobre o poder deles com (seus) pés.”

Estas são as coisas (que o) bem aventurado Salvador (disse), (e ele desapareceu) do meio deles. Então, (todos os discípulos) ficaram numa (grande alegria inefável) no (espírito) daquele dia em diante. (E seus discípulos) começaram a pregar (o) Evangelho de Deus, (o Espírito) eterno imperecível. Amem.

 

Notas explcativas para estudo deste Texto

 

(1)    Provável referência a doze que são mais íntimos, mais ‘fortes’, do núcleo mais interno – incluindo mulheres – e mais outros sete seguidores do círculo não tão íntimo, como um grupo intermediário, incluindo homens

(2)    Poder ser uma referência a um local físico, de encontro, ou a um estado de consciência no qual os discípulos se encontrassem para um aprofundamento nestas temáticas e que lhes tornava possível a presença do Senhor e sua percepção.

(3)    Ou ‘divina’.

(4)    Provavelmente uma alusão às potestades.

(5)    No oculto, o nível interno, nos planos mais sutis onde ele se encontrava. Este, provavelmente, não é o primeiro encontro que têm após a morte do Senhor.

(6)    No sentido de lhe dar sustento, geração, de mantê-la.

(7)    Referência ao estado de consciência elevado específico em que eram ministradas as instruções mais reservadas.

(8)    Como o universo passa do Caos à ordem.

(9)    Ele tem esta capacidade, este poder

(10)Outra tradução: ‘pela (semeadura ou) disseminação do atrito impuro’. Pode referir-se à geração carnal em oposição à regeneração espiritual, ou à contaminação pelo contato (atrito) com as idéias impuras.

(11)No Eugnosto a frase termina aqui com ‘exceto só ele’.

(12) No Eugnosto não há esta relação de dependência entre estas duas orações. Diz: ‘Ninguém o determina. Ele não tem nome’.

(13) Sobre este ponto, veja-se o Evangelho da Verdade atribuído a Valentino (séc II d.C.).

(14) No Eugnosto, ‘Ele tem sua própria aparência’.

(15) Esta parte se encontra, no texto SJC, na resposta a Tomé

Fonte e tradução: Raul Branco (Membro da Sociedade Teosófica pela Loja Brasília, de Brasília-DF)

 

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[…] NHC III, 2 — O Evangelho dos Egípcios  NHC III, 3 — Eugnostos, o abençoado NHC III, 4 — Sofia de Jesus Cristo NHC III, 5 — Diálogo do […]

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[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-sophia-de-jesus-cristo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-sophia-de-jesus-cristo/

Arcano 2 – Gimmel – A Sacerdotisa

A Sacerdotisa - Marselha Grimaud (1760)

Uma mulher sentada, com um livro aberto sobre a saia e uma coroa tripla na cabeça.

Olha para a esquerda e veste uma túnica vermelha sobre a qual se desdobra um manto azul (em algumas versões as cores são opostas). Duas partes da sua tiara estão ornadas de florões, mas a parte superior é uma simples abóbada. Um véu, que lhe cai sobre os ombros, cobre totalmente os seus cabelos; na mesma altura desse véu, por trás, aparece uma cortina cujos pontos de fixação não são visíveis. Tampouco se podem ver os pés da mulher, assim como a base do trono.

Fato curioso, que é reencontrado somente no arcano XXI, é que a figura ultrapassa a margem superior do quadro: o extremo da tiara supera a linha negra, um pouco à direita do número II.

Significados simbólicos

A Sabedoria, a Gnose, a Casa de Deus e do homem, o santuário, a lei, a Cabala, a igreja oculta, a reflexão.

Fala também do binário, do princípio feminino, receptivo, materno.

Mistério. Intuição. Piedade. Paciência, influência saturnina passiva.

Interpretações usuais na cartomancia

Reserva, discrição, silêncio, meditação, fé, confiança atenta. Paciência, sentimento religioso, resignação. Favorável às coisas ocultas.

Mental: Grande riqueza de ideias. Responde a problemas concretos melhor do que a questões vagas.

Emocional: É amistosa, recebe bem. Mas não é afetuosa.

Físico: Situação garantida, poder sobre os acontecimentos, revelação de coisas ocultas, segurança de triunfo sobre o mal. Boa saúde, mas com um ritmo físico lento.

Sentido negativo: Dissimulação, hipocrisia, intenções secretas. Mesquinharia, inação, preguiça. beatice. Rancor, disposição hostil ou indiferença. Misticismo absorvente, fanático. Peso, passividade, carga. As intuições que traz invertem seu sentido e se tornam falsas. Atraso, lentidão nas realizações.

História e iconografia

A tradução exata do nome que o Tarô de Marselha dá a este arcano (La Papesse) é A Papisa. Outras versões, como A Sacerdotisa ou A Alta Sacerdotisa, vêm do nome que lhe é dado em inglês (The High Priestess).

A figura da Papisa faz alusão a um fato histórico, ou melhor, lendário, que ocupa um lugar notável na literatura da Idade Média: a pretensa existência de um Papa do sexo feminino. A tradição popular diz que uma mulher ocupou a cadeira de São Pedro durante alguns anos sob o nome de João VIII.

Várias versões aparecem, mas o mais antigo testemunho que chegou até nós é bastante posterior à data de seu suposto reinado.

De qualquer modo, para o estudo tradicional e iconográfico do Tarô, não importa estabelecer alguma fidelidade histórica. Embelezada com o correr do tempo, uma de suas versões combina admiravelmente com o simbolismo maternal que se atribui à estampa: segundo tal versão, a papisa teria ficado grávida de um dos seus familiares e, como não se recolheu à época do parto, o acontecimento teria se dado em plena rua, durante uma procissão entre a igreja de São Clemente e o palácio de Latrão.

Com a dramática descoberta do embuste, o enfurecido séquito papal teria assassinado Joana e seu filho. Antigas tradições romanas asseguram que, no lugar do homicídio, permaneceu durante séculos um túmulo ornado por seis letras P, que podiam ser lidas de três maneiras diferentes (jogando com a inicial comum a Papa, Pedro, pai e parto).

Ainda com relação a essa lenda, deve-se assinalar um fato notável: na célebre Bíblia ilustrada alemã do ano de 1533, a grande prostituta do Apocalipse está representada com uma tiara na cabeça, A tradição afirma que foi desenhada deste modo por desejo expresso e sugestão de Martinho Lutero.

Enquanto o Mágico não poderia permanecer em repouso (numa unidade andrógina onde tudo é impulso e estímulo), a Sacerdotisa é o próprio repouso: sentada, majestosa, receptiva, seu reino é binário, uma etapa na distinção da polaridade do universo. Se o binário equivale a conflito, no sentido de rompimento da unidade, de abandono do caos essencial onde não existem as magnitudes nem os nomes, é também a primeira etapa dolorosa e imprescindível das vias iniciáticas, o começo da busca da identidade.

A Sacerdotisa representa a submissão majestosa às exigências dessa iniciação, o equilíbrio que a repartição elementar de forcas produz no conflito.

O que o Arcano I era para a encarnação das energias espirituais o Arcano II o é quanto à aceitação dessa metamorfose: o reconhecimento prévio da luta entre os princípios branco-negro, dia-noite, Yang-Yin.

Alguns autores veem na Sacerdotisa a representação de Isis, com todas as suas conotações noturnas e ocultas. Também a associam a Cassiopéia, a rainha negra da Etiópia e mãe da constelação Andrômeda, e a Belkis, a belíssima rainha de Sabá, para quem Salomão teria composto o Cântico dos Cânticos. Essa relação da Sacerdotisa com deusas e rainhas negras (ou escuras) não parece casual e acentua a contrapartida com a carta a seguir: o simbolismo branco, luminoso e diurno do Arcano III (A Imperatriz), com quem a Sacerdotisa forma a dupla oposta e complementar da feminilidade.

Este símbolo subterrâneo, que se refere ao aspecto esotérico da revelação, teria passado para o cristianismo sob a forma das virgens negras, cujo ritual se realiza com frequência numa cripta ou num lugar inacessível.

Mãe, esposa celeste, senhora do saber esotérico, a Papisa ou Sacerdotisa ocupa na estrutura do Tarô o lugar da porta, da passagem entre o exterior e o interior, do ponto imóvel e comum entre a Casa e a rua.

Por Constantino K. Riemma

http://www.clubedotaro.com.br/

#Kabbalah #Tarot

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-2-gimmel-a-sacerdotisa

Corpo e Chakra

Paulo Jacobina

O Corpo é o veículo utilizado pelo Eu para passar pelas situações no Orbe ou Mundo de Existência, capazes de gerar a experiência necessária para o deslocamento na Consciência. Sua criação também ocorre pela ação do Agente Modelador, que o brutaliza e, assim como acontece com o Mundo de Existência, o Corpo também pode ser subdividido infinitamente, conforme a sua região de sutileza, nos Corpos Existenciais.

Tal divisão tem apenas caráter explicativo, haja vista que, embora possam parecer distintos, todos os Corpos Existenciais são apenas o Corpo, da mesma forma com que ocorre numa paleta de tons de uma cor. Aparentemente o “azul celeste” e o “azul índigo” são distintos, mas ambos continuam sendo “azul”, assim como o Corpo Físico e o Corpo Átmico, que parecem distintos, mas ambos continuam sendo o Corpo.

Apesar de a ocorrência de Corpos Existenciais ser infinita, o de maior compreensão do Eu, que se encontra encarnado neste planeta em decorrência do seu estado de Consciência, é o Corpo Físico, que é aquele utilizado pelo Eu para passar pelas situações que ocorrem no Mundo Material.

Obviamente, existem infinitos Corpos Existenciais mais brutos do que o Corpo Físico, mas que dificilmente são percebidos pelo Eu que está encarnado neste planeta, tendo em conta que o Eu, mesmo se encontrando em um estágio considerado grosseiro, também está em um estágio mais sutil do que o desses outros Corpos Existenciais.

Ao sofrer a ação do Agente Modelador, o Corpo passa a apresentar características mais segregadas e, a espelho do que foi apresentado no Mundo Existencial, pode ser subdividido, à medida que se torna mais grosseiro, em Corpo Átmico, Corpo Búdico, Corpo Mental Abstrato, Corpo Mental Concreto, Corpo Emocional, Corpo Energético e Corpo Físico.

Como a divisão ocorre de maneira artificial e, tendo como base o grau de compreensão daquele Eu que aqui se encontra encarnado, cada um desses Corpos Existenciais pode ser subdividido infinitamente em outros Corpos Existenciais, de acordo com o grau de sutileza. Por isso que, por ter a sua compreensão ainda muito ligada aos assuntos do Mundo Material, o Eu entende o Corpo Energético como um Corpo Existencial (não um “intermediário” entre o Material e o Emocional), mas ainda não compreende o corpo no qual se vislumbra o “cordão de ouro” como um Corpo Existencial, apenas o percebendo como um agente “intermediário” entre o Emocional e o Mental Inferior. Tal fato ocorre em função da atuação do Agente Modelador, que causa a ilusão da separatividade e faz o Eu pouco compreender sobre aquilo que ele acredita estar distante.

Tendo em vista que o Corpo é um veículo, sobre ele recaem não só as influências do Eu, mas também as do Agente Modelador, fornecendo ao Corpo tanto o poder do Amor, quanto o do Ódio, além dos demais atributos do Eu e do Agente Modelador.

Corpo Átmico

Também chamado de Atmam, Yechida, Atmú e de Espírito Divino. É o “primeiro” Corpo Existencial a ser formado e o mais distante da compreensão do Eu que aqui se encontra encarnado e, por isso, muitos o confundem com o próprio Eu em função do seu estado de sutileza e por se esquecerem da ocorrência do plano Anupádaka e do Ádi.

Sua composição é predominantemente de elementos contidos no Grande Plano Átmico e possui três atributos: a Existência ou Sat, responsável pela irradiação da Vitalidade que alimenta os demais Corpos Existenciais; a Consciência ou Chit; e a Felicidade Inefável ou Ananda.

É neste Corpo Existencial que a individualidade é criada.

Corpo Búdico

Também chamado de Buddhi, Búddhico, Shayah, Putah, Anandamaya Kosha, Corpo Intuicional e por Espírito de Vida, o Corpo Búdico é aquele utilizado pelo Eu para interagir no Mundo Búdico, o estado de sutileza inferior ao apresentado no Mundo Átmico.

Neste Corpo Existencial se encontra registrada a experiência do Eu, o seu Akasha.

Aqui, a ilusão do tempo ainda não foi criada pelo Agente Modelador e, consequentemente, só existe o agora.

Por se encontrar plenamente no agora e possuir um único “núcleo de consciência”, o Eu compreende tudo o que lhe ocorre com o uso da Intuição, um de seus atributos.

À medida que se desloca para outros Corpos Existenciais pela ação brutalizante, a compreensão começa a se separar por ser analisada em “diferentes” mentes, em “diferentes” momentos etc, fazendo com que a experiência passe a ser vista como o que o Eu faz com o que lhe acontece.

Sua composição ainda é de elementos pertencentes ao Grande Plano Átmico.

Corpo Mental Abstrato

Em um estado mais bruto do que o apresentado pelo Corpo Búdico, encontra-se o Corpo Mental Abstrato, também conhecido por Corpo Mental Superior, Manas Arrupa, Nechamah, Sab, Espírito Humano, Corpo Causal e Vijnanamaya Kosha.

Sua sutileza já se encontra modificada em relação ao Corpo Búdico pelo aumento da proporção de elementos constitutivos pertencentes ao Plano da Mente Hominal, que já passa a contar com todos os seus subplanos integrando o Corpo Mental Superior.

Por possuir elementos integrantes do Grande Plano Mental, o Corpo Mental Abstrato já começa a apresentar atuação densificadora, haja vista que a densidade é um atributo do Grande Plano Físico decorrente da ação originária do Grande Plano Mental.

Em função de já possuir elementos de todos os subplanos do Plano da Mente Hominal, a esse Corpo Existencial também se dá o nome de Corpo Causal, numa alusão à origem de todos os fenômenos no Grande Plano Físico experimentado pelo homem.

Nesse Corpo Existencial ocorre a primeira divisão da Mente, deixando a unidade apresentada no Corpo Búdico (o Núcleo de Consciência) e passando a se manifestar na dualidade do que se chama de Mente Espiritual ou Super-Consciente e Mente Intelectiva ou Consciente.

A Mente Espiritual é a responsável pela Vontade no Plano Mental do Eu. Com a brutalização provocada pelo deslocamento para os Corpos Existenciais posteriores, o desejo começa a se separar da Vontade.

A Mente Intelectiva é a responsável pelo Raciocínio, isto é, o estabelecimento de relação entre as coisas. À medida que se brutaliza, deslocando-se para outros Corpos Existenciais, o raciocínio se torna menos depurado, dificultando a correlação entre as coisas.

No Corpo Mental Abstrato, a Intuição vinda do Corpo Búdico já sofreu a ação brutalizadora do Agente Modelador, fazendo surgir as ideias de bem e mal, certo e errado.

Corpo Mental Concreto

Também chamado de Corpo Mental Inferior, Manas Rupa, Ruach, Akbú, Mente, Manomaya Kosha, o Corpo Mental Concreto é o Corpo Existencial responsável pelo processo cognitivo e onde uma nova mente surge, a Mente Instintiva ou Inconsciente, que é a responsável pela criação das formas físicas e dos desejos.

A Mente Instintiva está associada aos sentidos externos, às emoções, e é onde fica registrado o condicionamento decorrente das experiências pretéritas, tendo em vista que a ilusão do tempo já se encontra atuante no Mundo Mental Inferior.

Por se encontrar em um estágio menos sutil do que o do Corpo Mental Abstrato, é no Corpo Mental Concreto que as emoções surgem dos sentimentos e os desejos da vontade.

Com o surgimento das emoções, a ilusão do tempo se torna mais atuante, tendo em vista que a ilusão do tempo decorre do estado emocional e da compreensão por intermédio das formas.

A proporção de elementos constitutivos desse Corpo Existencial já possui todos os subplanos do Grande Plano Mental, embora seja proporcionalmente ínfima a presença dos elementos contidos a partir do Plano da Mente Animal.

A partir deste Corpo Existencial, os elementos constitutivos do Grande Plano Físico passam a fazer parte da sua composição e, à medida que o Corpo continua a se brutalizar, mais os elementos do Grande Plano Físico se tornam preponderantes.

É no Corpo Mental Concreto que as formas concretas surgem, inclusive o próprio Corpo Mental Concreto assume uma forma concreta arredondada. Com o aparecimento dos próximos Corpos Existenciais menos sutis, pela ação da densidade desses Corpos, o Corpo Mental Concreto sofre uma leve modificação em sua forma, passando a apresentar um aspecto mais ovalado.

Corpo Emocional

Também chamado de Kama Shárira, Nephesch, Khabá, Corpo dos Desejos, Corpo Astral, Psicossoma, Corpo Espiritual, Perispírito e Kamamaya Kosha. É o Corpo Existencial no qual ocorrem as interações no Mundo Emocional. É o palco das emoções e dos desejos e, por isso, tem os seus atributos[1] influenciados por eles.

Em decorrência desta preponderância de elementos do Grande Plano Físico e, consequentemente, da ocorrência de densidade, torna-se possível, de acordo com o nível desse atributo, subdividir artificialmente o Corpo Emocional em sete níveis, a espelho do que se fez com o Corpo e o Mundo Existencial.

Corpo Energético

Também chamado por Corpo Vital, Corpo Etérico, Linga Shárira, Kusch há Guf, Bah, Duplo Etérico e Pranamaya Kosha.

O Corpo Energético basicamente é a porção do Chakra que une o Corpo Emocional ao Corpo Físico.

Composto por elementos do Grande Plano Físico, o Corpo Energético, como o próprio nome sugere, é a parte mais sutil do Corpo Físico, tendo em vista que ambos são feitos de energia, porém em níveis de sutileza distintos, sendo o Corpo Físico composto, basicamente, por energia densa, chamada corriqueiramente de matéria; e, o Corpo Energético, por energia mais sutil.

Corpo Físico

Também chamado por Stulo Shárira, Guf, Kha, Corpo Denso, Annamaya Kosha.

O Corpo Físico é aquele amplamente estudado pela ciência terrena e responsável pelas interações do Mundo Material.

Esse Corpo Existencial compõe-se de elementos químico-biológicos decorrentes da ação direta das Formas-Pensamento existentes no Grande Plano Mental e adquiridos no processo de alimentação. Por exemplo, ao se analisar a composição química do Corpo Físico, encontra-se a presença de elementos que são formados pela atuação direta do Plano da Mente Mineral. Esta presença pode ser maior, caso se analise uma rocha, ou menor, no caso de se analisar o corpo humano.

Contudo, todo Corpo Físico possui, em maior ou menor quantidade, a ação das formas-pensamento do Plano da Mente Mineral e, à medida que se torna mais complexo, passa a receber a ação das formas-pensamentos decorrentes dos outros planos que integram o Grande Plano Mental.

Ao se deslocar na Consciência enquanto está no Corpo Físico, o Eu passa por acontecimentos que são típicos de cada um desses estados, experimentando o físico no mineral, as sensações no vegetal, as emoções no animal e, por fim, o intelecto no hominal. Esse caminho de sutilização é percebido quando se verifica que o Eu ali contido começa a experimentar acontecimentos típicos dos próximos estados de sutilização, como um mineral que já começa a captar as sensações como ocorre com o vegetal; uma planta que já começa a experimentar o emocional como o animal; e um animal que já começa a experimentar o pensar como o homem.

Como ocorre com todos os Corpos Existenciais, a composição do Corpo Físico decorre da união da Vitalidade emanada pelo Corpo Átmico com os elementos existentes no Mundo Existencial no qual se encontra. Contudo, enquanto nos outros Corpos Existenciais a utilização dos elementos do Mundo Existencial no qual se encontra decorre da absorção direta do meio, no Corpo Físico utilizado no Reino Animal ocorre o fenômeno conhecido por alimentação.

CHAKRA

Chakra é uma palavra de origem sânscrita que significa “roda”, no sentido de círculo, e seu nome foi dado em função da sua visão em um corte frontal. É através dele que os atributos irradiados pelo Corpo Átmico percorrem e alimentam todos os demais Corpos Existenciais, animando-os.

Além de servir de meio pelo qual os atributos do Corpo Átmico se deslocam entre os Corpos Existenciais, também é por intermédio do Chakra que ocorre a comunicação entre os Corpos Existenciais, fazendo com que as vivências em cada Corpo Existencial sejam transferidas entre eles.

Entretanto, tal troca de vivências não ocorre de maneira livre, existindo, ao longo do Chakra, uma série de “filtros”, sendo o supostamente mais conhecido chamado por muitos de “Tela Etérica” ou de “Tela Búdica”, que fica localizado no Corpo Energético, e é responsável por filtrar a comunicação de determinadas sensações, impressões, vivências etc. entre o Corpo Físico e o Corpo Emocional.

Por mais que seu nome em sânscrito signifique “roda”, o formato do Chakra, mais se assemelha ao de um duto por meio do qual, principalmente, a vitalidade se desloca.

À medida que percorre os demais Corpos Existenciais e sofre a ação do Agente Modelador, o Chakra se subdivide infinitamente de maneira a conectar todos os elementos constitutivos dos Corpos Existenciais, permanecendo unido, nos Corpos Existenciais, por outros Chakra denominados nadi[2].

Esta subdivisão faz com que a porção do Chakra “localizado” em um Corpo Existencial menos sutil seja menor do que a sua porção localizada em um Corpo Existencial mais sutil, dando-lhe um aspecto cônico e, consequentemente, resultando em que uma quantidade menor de vitalidade e de outros atributos superiores se encontre presente no Corpo Existencial menos sutil.

Tendo em vista essa rede de vitalidade propiciada pelo Chakra, seja pelos chakra que unem os Corpos Existenciais entre si, seja pelas nadi que unem os Corpos Existenciais correspectivamente, é possível se estabelecer que os Corpos Existenciais são formados ao seu redor e se nutrem da Vitalidade que transita pelo Chakra.

No Corpo Energético, onde supostamente é mais conhecido, o Chakra se apresenta como uma miríade de chakra e nadi.

Os chakra são agrupados e classificados no Corpo Energético de acordo com a sua capacidade de transmissão e, consequentemente, função, em chakra mínimos, menores, maiores, secundários, principais e primordiais.

Os chamados de primordiais estão reunidos em dez grupos: o Muladhara ou Adhara ou Fundamental; o Svadhishthana ou Adhishthana ou Shaddala ou Genésico ou Sexual; o Manipura ou Manipuraka ou Nabhi ou Umbilical; o Esplênico; Gástrico ou Solar; o Anahata ou Hritpankaja ou Rirupana ou Cardíaco; o Vishuddha ou Kantha Padma ou Shodasha Dala ou Laríngeo; o Ajna ou Bhru Madhya ou Dvidala Padma; o Soma ou Amrita ou Indu ou Cerebral ou Frontal; e o Sahasrara ou Shunya ou Niralambapuri ou Coronário.

Enquanto as nadi também apresentam subdivisões de acordo com o seu fluxo de energia, as chamadas de principais são em número de quatorze: Sushumna; Ida; Pingala; Gandhari; Hastajihva; Yashasvini; Pusha; Alambusha; Kahu; Shankhini; Sarasviti; Payasvini; Varuni; e Vishvodara.

Ao se localizar no Corpo Físico, pela ação do Agente Modelador, o Chakra se torna menos sutil e se manifesta na forma de sistemas.

A exemplo do que ocorre no Corpo Energético, que possui “Tela Etérica” ou “Tela Búdica” como “filtros”, o Corpo Físico possui o sistema imunológico e o linfático, que desempenham a mesma função. As nadi se manifestam como os sistemas cardiovascular, o digestório, o nervoso, o esquelético, o endócrino e o muscular. Já os sistemas sensorial, excretor, urinário e reprodutor[3] atuam como os chakra que unem o Corpo Físico ao próximo Corpo Existencial mais denso, o Planeta.

O Planeta, por sua vez, também possui suas nadi (que recebem o nome de Linhas Ley), e seus chakra (que recebem o nome de Nodos ou Mecas), que unem os Corpos Existenciais do Planeta e auxiliam na sua jornada de sutilização, na qual o Planeta se liberta de seus Corpos Existenciais mais densos, mantendo os mais sutis[4].

Notas:

[1] Costuma-se estabelecer que o Corpo Emocional possui, dentre outros, os seguintes atributos: a plasticidade, a densidade, a ponderabilidade, a luminosidade, a penetrabilidade, a visibilidade, a expansibilidade, a bicorporeidade, a tangibilidade, a sensibilidade global, a sensibilidade magnética, a unicidade, a mutabilidade, a capacidade refletora, o odor e a temperatura. Estes atributos também podem ser encontrados em outros Corpos Existenciais.

[2] A palavra nadi tem a raiz sânscrita nad que significa “movimento”, dando a ideia de “correnteza”.

[3] O sistema reprodutor também tem atuação de chakra, pois, por intermédio do sistema reprodutor é que outro Eu pode se manifestar no Planeta, contribuindo não só com a sua jornada existencial, mas também com a do Eu que está encarnado no Planeta.

[4] Tal processo de sutilização do Planeta é conhecido por alguns como “transição planetária” e faz com que o Eu “encarnado” no Planeta comece a se tornar mais consciente de que ele é parte integrante de um todo, do seu Sistema Planetário, aproximando-o, cada vez mais e à medida que se sutiliza, dos outros Planetas, incluindo da Estrela em torno da qual orbita, tendo em vista que esta também é um Planeta, porém em estado bem mais sutilizado do seu grupo.

À medida que o Sistema Planetário se sutiliza, ele também passa por transformações, transmutando-se infinitamente em outros corpos mais sutis, como os observados pelos astrônomos modernos em sua classificação da evolução estelar, que culmina em um Buraco Negro, um chakra que une esse Corpo Existencial ao estágio no qual o Eu será submetido às experiências vivenciadas no Reino Mineral “encarnado” diretamente em um corpo mineral; depois no mineral que se encontra dentro do reino vegetal; depois no mineral que se encontra dentro de um corpo do reino animal; depois no mineral que se encontra dentro de um corpo do reino hominal; para então vivenciar as experiências diretamente no Reino Vegetal; depois um aspecto vegetal dentro do reino animal; depois no aspecto vegetal dentro do reino hominal e assim sucessivamente, passando, inclusive, pelo aspecto hominal dentro do reino angelical, na Senda Infinida, no eterno e natural caminho sem começo e sem fim, no Sanatana-Dharma.

Assim, no interior de cada Corpo Existencial, habitam infindáveis Eus, que veem aquele Corpo Existencial como o Absoluto, como Aquele que É, como Deus, pois “vós sois deuses”.

~ Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalista.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/corpo-e-chackra/

Para ser feliz (parte 1)

No Taiti, uma das belíssimas ilhas da Polinésia Francesa, Everaldo Pato está içando as velas do seu barco com a ajuda do amigo, da esposa e da filha. O cenário é deslumbrante e, logo após, o barco começa a velejar por um mar cristalino, num clima paradisíaco. Isso tudo filmado e registrado para o novo programa do Canal OFF, da TV a cabo, chamado Nalu a Bordo.

Everaldo é surfista profissional e já rodou as mais belas praias do mundo atrás da dança que o oceano faz quando encontra a praia. Como tantos outros surfistas do circuito profissional que envelhecem e têm filhos, ele poderia simplesmente voltar ao Brasil e criar Nalu, sua filhinha, de maneira convencional, numa escola erguida no seu país natal, e não numa ilha estrangeira, mas para ser feliz, para realmente ser feliz, Everaldo sabia que precisava continuar bailando com o mar pelo maior tempo possível.

Não foi da noite para o dia que o seu sonho se tornou possível. Foram anos de preparação. Nalu, a filha pequena, precisou estudar anos no Havaí para poder se adequar totalmente ao inglês, uma vez que teria de continuar seus estudos online, direto do barco. Fabiana, a esposa e cinegrafista do programa, precisou acompanhar a ambos na aventura, e abandonar as comodidades de poder viver e criar uma filha pequena numa cidade relativamente grande, abastecida de escolas, parques e shoppings…

Mas em busca dessa tal felicidade que escorre pelos dedos como a areia das praias do Taiti, eles se sacrificaram, e ninguém poderá dizer que não merecem a felicidade que conquistaram. No entanto, é até estranho de se pensar, mas mesmo velejando na Polinésia, distantes das notícias de guerras, de terrorismo, de corrupção e crises econômicas, mesmo nesse paraíso, nenhum deles parece conseguir ser inteiramente feliz todo o tempo. Claro, Everaldo mostra estar em êxtase quando desce as ondas em sua prancha, e sua mulher é a cara da felicidade quando contempla sua filha crescer, literalmente, conhecendo o mundo. Mas eles são adultos, e adultos dificilmente estão felizes todo o tempo.

Com a filha, Nalu, já não é o caso. Como tantas outras crianças que cresceram com pais amorosos e carinhosos (e não apenas as que velejam o mundo), ela parece ter chegado a este mundo com um manual de como ser feliz todo o tempo. Mas, como infelizmente sabemos, tal manual, um dia conhecido por tantos de nós, também será esquecido…

Não é que Nalu não passe por momentos de dor e tristeza, mas é que eles parecem ser raros, e bem compreendidos pelo que de fato são – algo passageiro, pois há sempre outra brincadeira mais adiante. Em As Leis, sua obra mais extensa, e que deixou inacabada, Platão nos esclarece muito bem tal questão:

Quando crianças as primeiras sensações pueris a serem experimentadas são o prazer e a dor, e é sob essa forma que a virtude e o vício surgem primeiramente na alma; mas no que concerne à sabedoria e às opiniões verdadeiras [aletheia], um ser humano será feliz se estas o alcançam mesmo na velhice, e aquele que é detentor dessas bênçãos, e de tudo que abarcam, é de fato um homem perfeito. [1]

O filósofo grego acreditava nisso que nossa intuição tenta nos mostrar todos os dias desde que aqui desembarcamos, isto é, que na experiência imaculada das crianças tanto o prazer quanto a dor são melhor discernidos do que na vida adulta, pois que, de alguma forma, a sua percepção da verdade [aletheia] ainda não foi esquecida, ocultada, perdida, como ocorre com a maior parte dos que vivem por muitos anos nesse mundo brutal que entorpece os sentidos, engana a alma, e por vezes nos faz confundir o que é dor e o que é prazer. Assim, nos perdemos do que poderia nos conduzir a virtude, ou seja, saber discernir o prazer da dor, e poder, como as crianças,  optar por ser feliz todo o tempo.

Everaldo Pato não é filósofo e muito menos um homem perfeito, mas quando desce as ondas com sua tábua de resina, e baila com o próprio oceano, ele não está mais preocupado com a audiência do programa, com as notas da filha, ou com a sua conta bancária. Por breves momentos, sob o sol do Taiti, Everaldo se lembra do que é verdade: para ser feliz, basta estar no mundo, basta abrir os olhos, a alma, e dançar com o próprio momento, basta ser.

Logo depois, a onda passa, o sol se põe, e Everaldo esquece tudo de novo. E assim é com todos nós…

Segundo o filósofo Mario Sérgio Cortella, “a felicidade é uma vibração intensa, um momento em que sentimos a plenitude da vida dentro de nós, e desejamos que isto se eternize. É a capacidade de ser inundado por uma alegria imensa por um instante”, e prossegue: “Aliás, felicidade não é um estado contínuo, mas uma ocorrência eventual, sempre episódica. Você sentir a vida vibrando, seja num abraço, seja na realização de uma obra, seja numa situação em que seu time vence, ou algo que você fez deu certo, ou ouviu algo que queria ouvir, é claro que isso não tem perenidade. Ora, a felicidade marcada pela perenidade seria impossível, afinal de contas nós só temos a noção de felicidade pela sua carência. Se fosse contínua, não seria percebida. Nós só sentimos felicidade porque ela não acontece o tempo todo.”

Essa aparente contradição com o que estávamos dizendo ocorre precisamente porque estamos imersos num mundo de linguagem, que nos possibilita viver mais integrados a uma sociedade global, mas que também nos confunde, pois os termos, as palavras, os conceitos, são inteiramente incapazes de abarcar as sensações, a experiência, a verdade de se estar aqui, existindo.

Assim, se a felicidade não dura por ser o oposto da tristeza, e se o prazer não dura por ser o oposto da dor, é preciso tentarmos ir além do próprio termo, “felicidade”, descascá-lo para tentar encontrar o sentimento que reside ali, e que vive além do tempo. Por isso mesmo, quando falamos que as crianças são felizes todo o tempo, é porque elas não estão preocupadas em “serem felizes”, de fato elas não estão nem aí para a própria definição do que seja “a felicidade”. A sua alegria eternizada, o seu contentamento perene ante a vida, nasce justamente daquela antiga intuição, daquela verdade que nasceu com elas, e foi lentamente, dia a dia, sendo esquecida. Até que algum adulto veio e lhes perguntou, “Você está feliz? Você é feliz?”, e elas caíram na armadilha de tentar responder.

***

Nessa pequena introdução a um tema tão simples, porém coberto por complexidade, e tão essencial, porém envolto em superficialidade, tentei transparecer de alguma forma de qual “felicidade” estamos falando aqui: uma felicidade que não é o oposto da tristeza, que não é ganha para ser perdida e nem perdida para ser ganha, mas que, de alguma forma, sempre esteve conosco, sempre esteve aqui, mais próxima de nós do que nossos olhos, pulsando tanto em nosso coração quanto junto às brisas do mar, e arrebentando nas praias de todo o mundo, neste exato momento, em todos os momentos.

E, se são somente as crianças que brincam de pega-pega por essas areias úmidas, para tentarmos descobrir o que é isso que nós adultos chamamos “felicidade”, mas que de fato não tem nome, nós teremos de tentar relembrar daquilo que sabíamos, mas que a linguagem soterrou em conceitos, e a vida adulta desmembrou em momentos distintos, nos confundindo… Para ser feliz, é necessário tentar resolver tal confusão.

» Na próxima parte, o manual para a vida…

***

[1] Trecho de As Leis, Edipro, pág. 103 (tradução de Edson Bini).

Crédito das imagens: [topo] Nalu a Bordo/Canal OFF/Divulgação; [ao longo] GoPro/Divulgação

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do .

Ad infinitum

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#Espiritualidade #Felicidade #Filosofia #Vida

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/para-ser-feliz-parte-1

A’Ano’Nin: O Diabo é uma Mulher de Vermelho

© Linda Falorio 1993.

No Tarô das Sombras, a carta de A’Ano’Nin fala com o lado negro de Atu XV, O Diabo dos tarôs tradicionais. O Diabo, conhecido nos ensinamentos esotéricos da Golden Dawn (Aurora Dourada) como O Senhor dos Portais da Matéria, e O Filho das Forças do Tempo, cai astrologicamente sob a égide do planeta Saturno, Cronos, Guardião do Tempo, a oitava superior da Lua em seu papel de significante dos ritmos lentos e inexoráveis ​da natureza. Alquimicamente, Saturno relaciona-se com as qualidades do chumbo, com a densidade e o peso da matéria, a solidez da Terra, a atração da gravidade que nos mantém no planeta, bem como o núcleo derretido do planeta.

Saturno, o planeta mais externo conhecido nos tempos antigos, definiu os limites do cosmos então conhecido e também define nossos limites e vulnerabilidades pessoais, tanto físicas quanto psicológicas. Onde a Lua, o brilhante satélite da Terra, nutre a vida terrena, o escuro e distante Saturno define as limitações inerentes à estrutura e forma da vida. Frio e escuro, Saturno nos remete ao Norte geofísico, a direção de onde a energia orgone flui para nossa teia de vida, discernível como a aurora pulsante da aurora boreal. Saturno, portanto, também está associado ao inverno, dezembro no Hemisfério Norte, quando o Sol entra em Capricórnio, o signo nativo de Saturno.

No Tarô das Sombras, O Diabo, embora na maioria das vezes pensado como tipicamente masculino, em vez disso, vira um rosto feminino para nós como Set, deus egípcio dos desertos com cabeça de burro, Shaitan dos Yezidis que moram no deserto, cujos devotos adoravam voltados para o norte. Nesta carta encontramos a alma em escravidão aos sentidos e à terra: a matéria governando o espírito. No entanto, onde no tarô tradicional a ideia da matéria dominando o espírito foi vista como má, no Tarô das Sombras experimentamos isso como uma condição a ser buscada. O feminino há muito tem sido caluniado, mas há verdade nisso, pois se a existência terrena é vista como um mal a ser suportado a caminho de algum paraíso celestial, o feminino tem apenas dois papéis possíveis: o de psicopompo virginal, guiando a alma a Deus, como Beatrice fez para o poeta Dante Alighieri, ou a de sedutora, levando a alma de Deus, ligando o homem à terra como a porta física para o mundo material da sensualidade e satisfação do desejo animal através do sutil trabalho feromonal de seu corpo. De fato, a matéria (matter) é igual à mãe (mother), pois é ela que veste todas as coisas com forma, ela que mantém o feto em desenvolvimento em seu corpo, assim ela mantém nossos limites e nos mantém na realidade.

A’Ano’Nin nos chama para a dança luxuriosa do espírito revestido de forma. A alma é puxada para a encarnação pelo desejo. Encantados pelo arrebatamento dos sentidos, a miragem lançada sobre nós por nosso adorável planeta nos liga às bênçãos da terra, caímos no Tempo para que possamos nos deleitar com a alegria da existência física.

No pentagrama – a estrela de cinco pontas – vemos um antigo selo de proteção. Representa os quatro elementos dos Antigos — fogo, água, ar e terra — cujas infinitas combinações constituem o universo manifestado coroado pelo quinto elemento do espírito ao qual a humanidade aspira. Invertido, o pentagrama torna-se o signo de Pater Pan: “Pamphage, Pangenitor, o pai de todos, o progenitor de todos”. Ele representa o espírito gerador da terra fértil, o Deus dos Pés de Bode, Cernunnos, Capricórnio, Saturno – O Diabo, se você preferir – ninguém menos que o deus que “tem uma força espiral”, o espírito de A’Ano’Nin, que nos une a todos à vida.

Na carta de A’Ano’Nin, Set, o asno ruivo que passou a representar a paixão corporal e a luxúria, aparece como a sedutora Mulher Escarlate, ou Suvasini – “mulher de aroma doce” – seu corpo exalando poderosas essências feromoniais. Estes afetam as áreas límbicas do cérebro dos mamíferos primitivos que regulam os níveis mais básicos do comportamento instintivo. Há muito se sabe que as mulheres que vivem e trabalham juntas tendem a menstruar durante o mesmo período. Isso se deve à liberação de feromônios que desencadeiam hormônios em certas fases do ciclo menstrual, a biologia de uma mulher desencadeia a de outra, tudo ocorrendo inteiramente abaixo do nível de percepção consciente.

Nesta carta, as emoções intensificadas e a intensificação dos sentidos causadas por essa estimulação do antigo rinencéfalo, ou “cérebro do nariz“, através do olfato primitivo, são representadas graficamente. Sátiros e faunos são encontrados saltitando na bem-aventurança priápica engendrada, em uma selvagem Saturnália de paixão e desejo à qual Set dá o sinal de bênção. Este carnaval pagão (do L. carnem levare, “tirar a carne”, como alimento) da Saturnália era celebrado no final de dezembro, mês de Capricórnio, durante os sete dias anteriores ao Solstício de Inverno. Este festival, geralmente começando no dia quinze de dezembro, uma ocorrência interessante em que 15 é também o número dos arcanos maiores do DiaboAtu XV – comemorado o governo de Saturno, rei etrusco beneficente na lendária Idade de Ouro da paz, prosperidade , e felicidade universal, em que a ganância era desconhecida, nem havia escravidão ou propriedade privada, pois os cidadãos tinham todas as coisas em comum. A festa da Saturnália era marcada pela festa, folia e busca louca do prazer, em que os senhores trocavam de lugar com seus escravos, e todos comiam em uma mesa comum, mantendo viva a ideia de igualdade. Além disso, a guerra não pôde ser declarada e as execuções foram adiadas. Esta temporada, então como agora, era hora de dar e receber presentes.

Mas havia um lado mais sombrio na Saturnália romana. Foi também um período de licença, quando as restrições costumeiras da lei e da moral foram deixadas de lado, quando todos se entregaram ao prazer, e as paixões mais sombrias foram liberadas nunca permitidas no curso sério e sóbrio da vida comum. A personalidade humana foi autorizada a se dissolver na loucura, alimentando-se do mundo sombrio dos sentidos enquanto as mênades (também conhecidas como as bacantes) se banqueteavam com suas vítimas, despedaçadas na adoração extática de seus deuses.

A Saturnália, embora seja um festival antigo, tem uma semelhança impressionante com as práticas nativas atuais daqueles que vivem no alto das montanhas andinas do Peru. Em certas épocas do ano, esses nativos organizam festas selvagens acompanhadas de muita mastigação de folhas de coca. Durante o festival eles tocam flautas e tambores, se envolvem em ritos eróticos públicos e se entregam a lutas sangrentas, bebendo cerveja de milho e conhaque durante a noite até atingir o estupor.

O Diabo, sempre uma carta difícil de interpretar, muitas vezes tem sido explicado como a alma ou espírito em escravidão aos sentidos e à terra. Quando esta carta está ativa em nossas vidas, estão envolvidas questões de poder e controle, escravidão e submissão. A competição entra em jogo, alimentada pela ganância material e pela ambição de chegar ao topo. Os métodos podem ser encobertos, envolvendo manipulação sutil e “jogar política” para ganhar o jogo. Assim, o Diabo, Capricórnio, pode ser visto como o homem organizacional arquetípico. Ele acredita na hierarquia, no trabalho duro e na tradição, acredita no controle das paixões e emoções animais, no autocontrole e na submissão à autoridade, no sacrifício de sua individualidade em favor do bem comum. Isso, em sua mais alta expressão, apoia a criação de uma sociedade na qual o espírito humano possa ser sustentado e nutrido.

Como cada ideia contém a semente de seu próprio oposto, o Diabo como A’Ano’nin torna-se aquele selvagem, indomável espírito animal luxurioso dentro de nós, aquela força extática cega da natureza que é uma expressão da fertilidade e abundância da terra. No entanto, essa expressão livre e alegre do espírito humano é temida como arrogância (hubris) que constitui um perigo social, ameaçando as próprias ideias de hierarquia, estrutura, autoridade e controle sobre as quais as sociedades se baseiam. Portanto, para funcionar e sobreviver, uma sociedade descobre que deve colocar limites ao comportamento individual definido como perturbador para o bem comum do grupo. Além disso, para que não se transforme em anarquia e caos, deve haver um consenso de significado, um acordo sobre o que constitui sua razão de existência, seus propósitos e planos.

O indivíduo, uma vez que se tornou um perigo para o status quo, despertando a ansiedade de que o universo humano possa desmoronar no caos e a incerteza deve ser reprimido e colocado sob controle social. A sociedade, para justificar suas ações na preservação de sua estrutura de poder, apela aos estabelecimentos combinados de igreja, estado e medicina para definir tais indivíduos como “pecadores”, como “criminosos” ou “loucos” no velho jogo de “culpe a vítima”, ou bode expiatório.

A submissão a uma hierarquia morta que deixou de fornecer pouco significado ou contexto social além do imperativo ideológico de preservar sua própria capacidade de perseguir ganância e ambição materiais, gera pobreza de espírito, desesperança, desamparo e depressão, que podem eventualmente explodir em violência, raiva e agressão, ameaçando a estrutura de poder com a própria incerteza e caos que tanto teme.

Não deveria surpreender que tal liberação de energia reprimida, como encontramos na antiga Saturnália, ou nos modernos ritos peruanos, muitas vezes degenerou em orgias selvagens de luxúria e crime, nas quais talvez possamos identificar um tipo antigo de prática corrente perturbadora conhecida como “selvageria“. No entanto, a louca onda de violência e agressão antissocial aleatória de gangues conhecida como selvageria, também pode ser vista como resultado da repressão do indivíduo por uma sociedade que dá pouco significado além da busca de ganância e ambição materiais, que, em vez de nutrir o espírito humano livre permite poucas oportunidades para sua expressão, gerando violência, raiva e agressão.

Quando nos encontramos presos a um sistema tão repressivo, em vez de seguir com o ciclo de repressão – depressão – raiva – violência, precisamos encontrar a capacidade de ver além da sabedoria convencional que nos adverte a observar silenciosamente o status quo, precisamos enxergar além das limitações sociais artificiais impostas ao comportamento. Em vez de explodir de raiva de nossos repressores, podemos então nos libertar com alegria para seguir o caminho com o coração, o ditame de nosso espírito e nossa Vontade.

Em Uma Leitura:

Quando usamos esta carta para meditação, ou quando a vemos em uma leitura, somos lembrados de viver através dos sentidos. É hora de voltar a entrar em contato com os ciclos da terra, de nos sintonizarmos com os vastos ritmos da natureza e com a sabedoria atemporal de nossos corpos. Precisamos ter tempo para voltar ao básico, perceber o mundano, apreciar e apreciar aqueles que nos rodeiam, com todas as suas falhas e falhas, na medida em que são expressões únicas das fases e ciclos que afetam a vida humana.

Às vezes, todos nos sentimos presos e estressados, frustrados pela sujeição a regras e regulamentos sem sentido. Encontramo-nos curvados à pressão social para nos conformarmos a padrões que achamos desprovidos de significado. Temos momentos em que tememos estar em perigo de nos tornarmos Mirmidões para a analidade corporativa e patriarcal, que sacrificamos obedientemente o melhor em nós, nossa vitalidade e juventude, às demandas da eficiência industrial em nossa busca por “avançar”.

Essa pressão social e excesso de trabalho tendem a bloquear as energias orgonômicas de nossos corpos, e podemos experimentar depressão, impotência sexual ou sentimentos vagos de ansiedade e culpa quando nos permitimos experimentar o prazer sensual. Ficamos nos sentindo isolados, presos, controlados, deprimidos e alienados da natureza e do corpo. Desejando escapar, podemos nos sentir atraídos por religiões ou outras visões de mundo que validam a negação do prazer sensual no aqui e agora, prometendo libertação através da transcendência do mundo material e do mundo dos sentidos. Por outro lado, quando buscamos nos libertar das sanções sociais e expressar nossa liberdade e prazer dos sentidos, podemos encontrar aqueles que, dando vazão a um senso de justiça vingativa baseada no medo, procuram impor sua moralidade sexual restritiva sobre outros — o que Wilhelm Reich chamou de “praga emocional“.

Esteja Aqui Agora“, permanecer no momento é o segredo de A’Ano’Nin, pois em sintonia com o mundo natural, encontramos a capacidade de extrair energia de cura e vitalidade do contato direto com a terra como o grego Tellus, derivou sua força. Um com a terra, somos capazes de encontrar pontos de poder e de “aterrar” forças potencialmente disruptivas, canalizando-as de volta para a terra que tudo aceita. Em nossa sintonia com a natureza, em nosso amor e aceitação da base da vida, em nossos próprios instintos naturais e humanidade, encontramos a capacidade de contatar todos os tipos de fadas, gnomos, silfos, ondinas e devas dos reinos da terra. , e se comunicar com todas as formas de vida. Sentindo-se uno com a expressão da vida, à vontade em um mundo holístico do qual a humanidade é uma parte natural, onde os instintos não são maus, onde tudo/todos/todo ato é aceitável como um desdobramento necessário da Sem Face, Hécate, La Belle Dame Sans Merci (A Bela Senhora Sem Misericórdia) – a Grande Deusa Insondável – ganhamos a capacidade de materializar o desejo no Aqui e Agora.

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A’Ano’Nin: The Devil Is A Woman Dressed In Red.

© AnandaZone 1998 – 2019. All articles and art © Linda Falorio unless otherwise noted.

Linda Falorio / Fred Fowler Pittsburgh, PA 15224 USA

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.


Participe do financiamento O Tarô das Sombras, de Linda Falorio

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/aanonin-o-diabo-e-uma-mulher-vestida-de-vermelho/

Do Enoque bíblico à gênese da Magia Enoquiana

Donald Tyson

A magia enoquiana é um sistema de teurgia, ou magia angelical, transmitida psiquicamente ao alquimista e vidente elizabetano Edward Kelley por um grupo de espíritos que veio a ser chamado de anjos enoquianos. Ao longo dos anos 1582-1587, os espíritos ditaram várias partes dessa magia para Kelley, ou a apresentaram na forma de visões enquanto Kelley olhava para uma bola de cristal.

Kelley repetia as palavras dos espíritos e descrevia as visões para seu amigo e empregador, o grande matemático, geógrafo e astrólogo Dr. John Dee. Dee sentou-se ao lado de Kelley durante as sessões de vidência com uma caneta na mão e papéis espalhados diante de si. Tudo o que Kelley dizia, Dee registrava literalmente. Graças ao método cuidadoso de Dee, as comunicações dos espíritos foram preservadas com a precisão de uma transcrição do tribunal.

Os anjos se identificaram para Kelley como os mesmos anjos que instruíram o patriarca Enoque na linguagem angélica e na sabedoria de Deus. Enoque foi o único patriarca do Antigo Testamento a ser elevado ao céu enquanto ainda estava vivo – pelo menos, esta foi a interpretação dos rabinos e cabalistas judeus de Gênesis 5:24: “E Enoque andou com Deus: e não se viu mais; porque Deus para si o tomou.” Todos os outros descendentes de Adão até Noé mencionado na Bíblia são explicitamente declarados mortos, mas não Enoque.

Ao longo dos séculos, uma tradição de sabedoria cresceu em torno de Enoque. Junto com Adão, Noé, Salomão e alguns outros, ele teria sido um dos responsáveis ​​por transmitir os ensinamentos primordiais dos anjos à humanidade. O livro apócrifo de Enoque surgiu dessa tradição. O evento-chave neste livro é uma descrição de como os anjos rebeldes, cobiçando as filhas dos homens, desceram à Terra e ensinaram à humanidade todas as artes e ciências do adorno, magia e guerra que semeiam conflitos em todo o mundo.

TEURGIA E GOETIA

De acordo com o anjo Ave, esses anjos maus foram autorizados a descer sobre a Terra e espalhar ensinamentos falsos e destrutivos porque os reis da Terra se tornaram arrogantes através do uso da sabedoria legada a eles por Enoque. Como punição, Deus enviou anjos falsos e enganadores para ensinar o que hoje é conhecido como magia negra. Desta forma, Deus permitiu que a humanidade fosse o instrumento de sua própria punição. No entanto, Ave diz a Kelley, Deus decidiu permitir que a verdadeira sabedoria de Enoque, como preservada em seus livros celestiais, seja novamente conhecida na Terra. Dee e Kelley deveriam ser os instrumentos de sua disseminação:

“O Senhor apareceu a Enoque, e foi misericordioso com ele, abriu seus olhos para que ele pudesse ver e julgar a terra, que era desconhecida de seus pais, por causa de sua queda; porque o Senhor disse: Mostremos a Enoque, o uso da terra: E eis que Enoque era sábio e cheio do espírito de sabedoria.”

E ele disse ao Senhor: Que haja lembrança da tua misericórdia, e que aqueles que te amam provem disto depois de mim: Oh, não seja esquecida a tua misericórdia. E o Senhor se agradou. E depois de 50 dias Enoque escreveu: e este foi o título de seus livros, aqueles que temem a Deus, e são dignos de serem lidos.

Mas eis que o povo se tornou perverso e se tornou injusto, e o espírito do Senhor estava longe e se afastou deles. De modo que aqueles que eram indignos começaram a ler. E os reis da terra disseram assim contra o Senhor: O que é que não podemos fazer? Ou quem é ele, que pode resistir a nós? E o Senhor se aborreceu, e enviou entre eles cento e cinqüenta leões, e espíritos de maldade, erro e engano; e eles apareceram para eles. Porque o Senhor os colocou entre os anjos bons aqueles que são maus. E eles começaram a falsificar as obras de Deus e seu poder, pois eles tinham poder dado a eles para fazê-lo de modo que a memória de Enoque se apagou e os espíritos do erro começaram a ensinar-lhes Doutrinas: que de tempos em tempos até esta era e até hoje, se espalhou por todas as partes do mundo, e é a habilidade e astúcia dos maus.

Assim eles falam com os demônios: não porque eles têm poder sobre os demônios, mas porque eles são unidos a eles na liga e disciplina de sua própria doutrina.

Pois eis que, como o conhecimento das figuras místicas e o uso de sua presença é o dom de Deus entregue a Enoque, e por Enoque aos fiéis, para que assim eles possam ter o verdadeiro uso das criaturas de Deus e do terra em que habitam: Assim o diabo entregou aos ímpios os sinais e sinais de seu erro e ódio para com Deus; condenação eterna.

A estes chamados caracteres são uma coisa lamentável. Pois por destes, muitas Almas pereceram.

Agora aprouve a Deus libertar esta Doutrina novamente das trevas e cumprir sua promessa contigo, para os livros de Enoque: A quem ele diz como disse a Enoque.

Que aqueles que são dignos entendam isso por ti, para que seja uma testemunha da minha promessa para contigo.”

Deus promete diretamente a John Dee, por meio de seu mensageiro, o anjo Ave, e por meio do vidente de Dee, Edward Kelley, que o sistema de magia que está sendo revelado a Dee é a sabedoria genuína de Enoque pela qual pode ser obtido “o uso da terra”. Os cento e cinquenta leões, “espíritos de maldade, erro e engano” são os mesmos anjos caídos que, no Livro de Enoque, pecam com mulheres mortais e ensinam ciências corruptoras à humanidade. De acordo com Ave, esse falso ensinamento consistia principalmente em magia demoníaca, ou goetia.

É comum que os proponentes de um sistema de religião, filosofia ou magia afirmem que a sua é a única prática legítima e que todos os métodos que diferem dela são corruptores e falsos. Ao caluniar outras formas de magia, os anjos esperam elevar seus próprios ensinamentos e dar-lhes uma importância maior aos olhos de Dee.

Kelley, que antes de sua associação com Dee tinha um conhecimento considerável em primeira mão de necromancia e outras formas de magia negra, diz a Ave que a sabedoria de Enoque parece muito com magia comum para ele, mas Ave garante a Kelley. “Não, todos eles apenas brincaram com isso”, significando que todas as formas de magia, exceto a magia enoquiana, são meros brinquedos de que a magia enoquiana é a única teurgia verdadeira aprovada por Deus e aceita pelos anjos do céu.

OS PORTÕES E AS CHAVES

É importante entender que a magia enoquiana se preocupa apenas com a convocação ritual e o comando de anjos e espíritos inferiores. Ao falar sobre as evocações formais enoquianas conhecidas como Chamadas ou Chaves, o anjo Mapsama diz a Dee:

“Esses Chamados tocam todas as partes do Mundo. O Mundo pode ser tratado em todas as suas partes; Portanto, você pode fazer qualquer coisa. Esses Chamados são as chaves para os Portões e Cidades da sabedoria. Tais portões não podem ser abertos senão com aparição visível.”

Os portões para as cidades da sabedoria são quarenta e nove em número. No entanto, um dos portões é sagrado demais para ser aberto, então as chaves reais são quarenta e oito. As cidades da sabedoria são reinos espirituais habitados por diferentes hierarquias de anjos com funções distintas na terra. Essas cidades celestiais são representadas por quarenta e nove quadrados de números/letras extremamente complexos que contêm quarenta e nove linhas e quarenta e nove colunas. Tomados em conjunto, os anjos referem-se a esses quadrados como o Livro de Enoque. Um dos quadrados está representado em uma placa no início de Uma Relação Verdadeira e Fiel, de Meric Casaubon. Sobre esses quadrados mágicos, Nalvage diz a Dee:

Você tem 49 Tábuas: Nessas Tábuas estão contidas as vozes místicas e sagradas dos Anjos: as dignas e as em estado desgraça e encharcadas de confusão  que perfuram o Céu e olham para o Centro da Terra: a própria linguagem e fala das Crianças e Inocentes, que engrandecem o nome de Deus e são puras”.

As tábua servem como o solo caótico de onde as palavras das Chaves são extraídas letra por letra tortuosa durante as sessões de vidência. Kelley observava no cristal enquanto um anjo apontava para uma parte ou outra da tábua em questão e então mostrava a posição para Dee, que então procurava em sua cópia da tabua e escrevia a letra que era encontrada lá. As Chaves Enoquianas foram extraídas das tábuas e entregues desta forma, de trás para a frente e uma letra de cada vez.

As energias ocultas dessas tábuas são incorporadas coletivamente em uma única tábua de letras com quatro quadrantes chamada de Grande Tábua. É um diagrama esquemático mágico de todo universo enoquiano. Cada quadrante da Grande Mesa é conhecido como Torre de Vigia. As Chaves abrem os portões para as cidades dos anjos cujos nomes estão escritos nas Torres de Vigia e os chamam, junto com seus numerosos servos. Juntas, as quarenta e oito Chaves Enoquianas e a Grande Mesa das quatro torres de vigia formam o coração da magia enoquiana.

O LIVRO DAS FOLHAS PRATEADAS

Há outro livro falado pelos anjos que está indubitavelmente ligado ao livro dos quadrados mágicos. Dee é instruído a construí-lo com folhas em branco em preparação para receber a O Livro dos Espíritos já era uma prática comum da magia angelical na idade média. Eles continham os nomes, sigilos e, ocasionalmente, imagens dos espíritos que estão vinculados ao serviço do mago – geralmente após um trabalho ritual intenso e envolvente até alcançar a evocação inicial dos espíritos. Os próprios espíritos escreviam o livro, assinam-no com suas marcas e assinaturas, ou pelo menos juram obediência a ele. É claro que os espíritos não são realmente capazes de escrever no livro. Isso é realizado possuindo o mago sem sua consciência e usando o corpo do mago para escrever ou assinar o Livro dos Espíritos.

No caso de Dee, os anjos das quarenta e oito cidades espirituais que podem ser abertas pelas Chaves foram representados por símbolos ocultos que provavelmente continham combinações de letras e números. No entanto, nunca saberemos o que o Livro das Folhas Prateadas deveria conter, já que a cópia de Dee não sobreviveu. Esses sinais misteriosos deveriam ser inscritos em pergaminho prateado pela poderosa Mãe de muitos dos anjos enoquianos, um ser tão exaltado que ela se identifica apenas com o título EU SOU, que é equivalente ao nome hebraico de Deus, Eheich. Ela parece ser o mesmo anjo que é a Rainha do Céu de Apocalipse 12:1.

O TRABALHO ENOQUIANO

A inscrição do Livro das Folhas Prateadas de Dee ocorreria após um período de dezoito dias de trabalho ritual durante o qual uma evocação original composta por Dee e Kelley deveria ser dita a cada dia. Nos primeiros quatro dias de trabalho, Dee foi instruído por Ave a dirigir sua evocação apenas aos nomes de Deus; para após quatorze dias, Dee  evocar as hierarquias dos anjos pelos nomes específicos de Deus que regem cada um:

“Quatro dias… você deve invocar apenas esses nomes de Deus, ou o Deus dos Exércitos, nesses nomes: E 14 dias depois de você (neste, ou em algum lugar conveniente) deve Chamar os Anjos por Petição, e peloo nome de Deus, ao qual são obedientes.”

No 15º dia vocês se revestirão, em vestes feitas de linho branco: e assim terão a aparição, uso e prática das Criaturas. Pois, não é um trabalho de anos, nem de muitos dias.

As Criaturas às quais Ave se refere parecem ser os anjos dos Trinta Aethers ou Airs, que são representados pelas últimas trinta Chaves Enoquianas. Essas chaves são realmente uma única chamada ou convocação para trinta diferentes zonas ou esferas angélicas chamadas Aethers. Apenas os nomes dos Éteres mudam nas últimas trinta Chaves – eles são idênticos. Por esta razão, a décima nona Chave é conhecida como a Chave dos Trinta Aethers. Os Príncipes dos Aethers governam os espíritos menores das regiões ou reinos do mundo. Eram esses espíritos geográficos que Dee mais queria controlar.

Sobre as vestes e o livro usado durante este trabalho, Ave diz: “Você nunca deve usar o Garment depois, mas apenas uma vez, nem o livro.” Kelley objeta com bastante razão: “Para que fim o livro é feito então, se não for para ser usado depois.” Dee um tanto irritado escuta de Kelley: “É feito para ser usado naquele dia apenas..”

Há alguma ambiguidade aqui sobre qual livro está sendo discutido. Kelley parace falar do livro de nomes e invocações que ele e Dee são ordenados a criar. Sobre este livro de exercícios, que chamarei de Livro dos Espíritos de Dee, Ave diz a Dee: “O Livro consiste de Invocação dos nomes de Deus, e invocação dos Anjos e pelos nomes de Deus seus ofícios são manifestados”. Essa parece ter sido a função de todos o os dezoito dias de trabalho, e talvez de trabalho posterior. Dee realmente criou um modelo para este Livro dos Espíritos invocando os nomes de Deus e dos anjos. Estes formam o manuscrito de Dee Liber Scientiae Auxilii e Victoriae Terrestris, que ainda existe e é mantida na Biblioteca Britânica.

Já o anjo Ave provavelmente fala do livro de folhas em branco e prateadas que deve ser inscrito sobrenaturalmente por sua mãe. Este Livro de Prata seria usado apenas no único dia em que os anjos jurassem obediência a Dee. O prateamento das folhas sugere que a Mãe dos anjos é uma deusa lunar, e que a magia enoquiana é de natureza lunar. Segunda-feira (o dia da Lua) parece ser o sábado enoquiano.”

MAGIA ENOQUIANA PROIBIDA PARA DEE E KELLEY

Não há evidência de que Dee e Kelley alguma vez tenham conduzido este trabalho para usar o o poder dos anjos enoquianos. Eles estavam esperando a permissão dos anjos para fazê-lo, mas essa permissão nunca foi concedida.

Mapsama: Você pediu sabedoria, Deus abriu para você, seu julgamento: Ele entregou a você as chaves, para que você possa entrar; Mas seja humilde. Entre não de presunção, mas de permissão. Não entre precipitadamente; Mas seja trazido de bom grado: pois muitos subiram, mas poucos entraram. No domingo você terá todas as coisas que precisam ser ensinadas; então (conforme a ocasião servir) você pode praticar o tempo todo. Mas você está sendo chamado por Deus, e para um bom propósito.

Dee: Como devemos entender este Chamado de Deus?

Mapsama: Deus cala minha boca, não te responderei mais.”

É evidente para mim, a partir de um estudo minucioso das transcrições enoquianas, que os anjos pretendiam que Dee tivesse o sistema de magia enoquiana, mas nunca pretendiam permitir que ele realmente o usasse. Dee e Kelley serviram como instrumentos humanos através dos quais os anjos foram capazes de transmitir a magia enoquiana à raça humana. Gabriel diz a Dee e Kelley: “Mas em vocês dois está a hora de chegar.” Os anjos garantem a Dee e Kelley que eles continuarão a prosperar e a serem seguros enquanto permanecerem juntos, porque são duas partes de um único todo. “O Vidente deixe-o ver, e cuide do que ele vê, pois você é apenas um corpo nesta obra.”

Kelley recebeu o dom da segunda visão apenas para que ele pudesse ajudar Dee a receber a magia enoquiana.

Um vendedor obscuro poderia se gabar de sua beleza só porque recebe luz e clareza, por uma vela trazida ou brilhando nela? Não mais podes tu, (E.K.) para o amadurecimento de tua inteligência e  compreensão é através da nossa presença, e nossa iluminação. Mas se partirmos, você se tornará um vendedor obscuro e pensará muito bem de si mesmo em vão.”

Em outro lugar, o anjo Uriel, falando na voz de Deus, diz a Kelley: “Farei de ti um grande Vidente: Aquele que julgará o Círculo das coisas na natureza. Mas o entendimento celestial e o conhecimento espiritual serão selados de ti neste mundo.” Kelley é considerado pelos anjos como pouco mais do que um telefone psíquico através do qual eles podem alcançar a mente consciente de John Dee. Os anjos pouco toleram suas suspeitas e abuso verbal. Eles sabem que Kelley os detesta e os considera enganadores.

Os anjos respeitam Dee por sua grande piedade e sabedoria, mas mesmo ele não terá permissão para atingir a plena compreensão da magia enoquiana. O anjo Gabriel diz isso a Dee e faz mais referência à necessidade de Dee e Kelley permanecerem juntos como uma unidade orgânica (mesmo ao ponto de compartilhar suas esposas em comum, um evento futuro prefigurado aqui):

“Nunca conhecereis os mistérios de todas as coisas que foram ditas. Se vocês amarem juntos, e habitarem juntos, e em um só Deus, então o mesmo Deus se compadecerá de vós, que vos abençoará, vos consolará e fortalecerá  vocês até o fim.”

Dee e Kelley eram duas metades de uma máquina humana para receber e registrar os mistérios das comunicações angélicas. Kelley tinha a habilidade de perceber os anjos e seus ensinamentos. Dee teve a inteligência para entendê-los e transcrevê-los com precisão e corrigir quaisquer erros que ocorressem durante sua transmissão. Nenhum homem poderia ter gerado o sistema de magia enoquiana sozinho. Cada um atuou como um catalisador para o outro.

*Excerto da obra Magia Enoquiana para Iniciantes

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/do-enoque-biblico-a-genese-da-magia-enoquiana/