O Mito da Alma Gêmea

Rollo Tomasi

UMA-íte: Uma obsessão romântica doentia por uma única pessoa. Geralmente acompanhada de afeto não retribuído e idealização completamente irrealista da dita pessoa. UMA-íte é paralisia. Você deixa de amadurecer, você deixa de se mover, você deixa de ser você.

Não há A UMA. Este é o mito da alma gêmea. Há algumas mulheres boas e algumas mulheres ruins, mas não há A UMA. Qualquer pessoa que te diga o contrário está tentando te vender algo. Existem muitos “alguéns especiais” para você, é só perguntar à pessoa divorciada/viúva que se casou novamente depois que sua “alma gêmea” morreu ou seguiu em frente com outra pessoa que eles insistem ser sua verdadeira alma gêmea. É isso que atrai as pessoas sobre o mito da alma gêmea, é essa fantasia que todos nós pelo menos compartilhamos de alguma forma, uma idealização – que existe UM parceiro perfeito para cada um de nós, e assim que os planetas se alinharem e o destino seguir seu curso, saberemos que fomos “destinados” um ao outro.

Embora isso talvez seja uma boa trama pra uma comédia romântica, não é uma maneira realista de planejar sua vida. Na verdade, é geralmente paralisante. O que eu acho ainda mais fascinante é o quão comum a ideia é (e particularmente para os homens) de que uma visão geral da vida deva ser superada por essa fantasia na área das relações intersexuais.

Homens que de outra forma reconheceriam o valor em compreender psicologia, biologia, sociologia, evolução, negócios, engenharia, etc., homens com uma consciência concreta da interação em que vemos esses aspectos acontecerem diariamente em nossas vidas, são alguns dos primeiros a se voltarem violentamente contra a idéia de que talvez não exista “alguém para todos”, ou que há muito mais UMAs por aí que possa atender os critérios que inconscientemente definimos para elas serem a UMA.

Talvez isso soe niilista, ou esse temor de que talvez o investimento do ego nessa crença seja falso – é como dizer “Deus está morto” para os profundamente religiosos. É terrível demais imaginar que talvez não haja UMA, ou talvez existam várias UMAs com que passar suas vidas. Essa mitologia romantizada ocidental baseia-se na premissa de que existe apenas UM companheiro perfeito para cada indivíduo, e que uma vida inteira pode ser gasta na busca constante dessa “alma gêmea”. Tão forte e penetrante é esse mito em nossa consciência coletiva, que se tornou semelhante a uma declaração religiosa, e, de fato, foi integrada em muitas doutrinas religiosas, à medida que a feminização da cultura ocidental se espalha.

Acho que houve uma descaracterização da UMA-íte. É necessário diferenciar entre um relacionamento saudável baseado em afinidade e respeito mútuos e um relacionamento desequilibrado baseado em uma UMA-íte desigual. Mais do que alguns rapazes já buscaram meus conselhos, ou desafiaram minha opinião sobre o UMA-íte, essencialmente me pedindo permissão para aceitar a UMA-íte como monogamia legítima. “Mas Rollo, está tudo bem se um cara tiver UMA-íte pela sua esposa ou namorada. Afinal, ela é A UMA para ele, certo?”

Em minha opinião, A UMA-íte é uma dependência psicológica doentia que é o resultado direto da socialização contínua do mito da alma gêmea em nosso consciente coletivo. O que é verdadeiramente assustador é que a UMA-íte acabou sendo associada a um aspecto normativo saudável de um relacionamento de longo prazo (RLP) ou casamento. Eu chego à conclusão de que a UMA-íte é baseada em raízes sociológicas, não apenas por ser uma declaração de crença pessoal, mas pelo grau em que essa ideologia é disseminada e massificada na cultura popular através da mídia, música, literatura, cinema, etc.

Os serviços de namoro, como eHarmony, descaradamente vendem e exploram exatamente as inseguranças que essa dinâmica gera nas pessoas que buscam desesperadamente a UMA “para a qual foram destinadas”. A idéia de que os homens possuem uma capacidade natural de proteção, provisão e semi-monogamia tem mérito de ambos ponto de vista social e bio-psicológico, mas uma UMA-íte psicótica não é um subproduto dela. Em vez disso, eu a diferenciaria dessa dinâmica saudável de protetor/provedor, uma vez que ela essencialmente sabota o que nossas propensões naturais poderiam de outra forma filtrar.

UMA-íte é insegurança enlouquecida enquanto uma pessoa está solteira, e potencialmente paralisante quando associada ao objeto da UMA-íte em um RLP. O desespero neurótico que leva uma pessoa a se contentar com a sua UMA, seja de forma saudável ou não, é a mesma insegurança que o impossibilita abandonar um relacionamento prejudicial – “Este é o seu UM, e como eu poderia viver sem ele?” Ou “Ela é minha UMA, mas tudo que eu preciso é me consertar ou corrigi-la para ter meu relacionamento idealizado.”

*Essa idealização de um relacionamento está na raiz da UMA-íte. Com essa abordagem binária limitante, de tudo ou nada, dedicada a procurar uma agulha no palheiro e investir esforço emocional ao longo de toda a vida, como amadureceremos para uma compreensão saudável do que essa relação realmente deveria acarretar? O relacionamento idealizado – o “felizes para sempre” – que a crença em UMA promove como destino, é frustrado e contradito pelos custos da busca constante da UMA com a qual eles se contentarão. Depois que a maior parte da vida é investida nessa ideologia, quão mais difícil será chegar à conclusão de que a pessoa com quem ela está não é o seu UM? Até que ponto uma pessoa pode ir para proteger uma vida inteira baseada nesse investimento do ego?

Em algum momento de um relacionamento da UMA-íte, um participante estabelecerá a dominância, baseado na impotência que esta UMA-íte necessita. Não há maior agência para uma mulher do que saber, sem qualquer dúvida, que ela é a única fonte para a necessidade de sexo e intimidade de um homem, Uma mentalidade de UMA-íte apenas consolida isso na compreensão de ambas as partes.

Não há nada mais paralisante para o amadurecimento de um homem do que acreditar que o relacionamento emocional e psicologicamente prejudicial em que ele investiu seu ego é com a única pessoa em sua vida com a qual ele será compatível. O mesmo é verdade para as mulheres, e é por isso que balançamos a cabeça incrédulos quando vemos uma mulher excepcionalmente bonita ir atrás de seu namorado babaca, abusivo e indiferente, porque ela acredita que ele é o UM, e a única fonte de segurança disponível para ela. A hipergamia pode ser sua raiz imperativa para ficar com ele, mas é o mito da alma gêmea, o medo do “UM que escapuliu” que a faz ter esse investimento emocional, quase espiritual.

A definição de poder não é sucesso financeiro ou influência sobre os outros, mas o grau em que temos controle sobre nossas vidas. Adotar a mitologia da alma- gêmea exige que reconheçamos a impotência nesta parte de nossas vidas. Melhor seria, creio eu, promover uma compreensão saudável de que não há A UMA. Há algumas boas e há algumas más, mas não há a UMA.

Religião da alma gêmea

O que você acabou de ler foi um dos meus primeiros posts nos fóruns do SoSuave por volta de 2003-04. Eu estava terminando minha graduação e tive a Falácia do UM ilustrada graficamente para mim em uma aula de psicologia. Eu estava na sala de aula, cercado por (em sua maioria) estudantes muito mais jovens do que eu, todos muito astutos e tão intelectuais quanto poderiam ser por volta dos vinte e poucos anos. A certa altura, a discussão chegou à religião e grande parte da classe expressou ser agnóstico ou ateu, ou “espiritual, mas não religioso”. O raciocínio era claro, que a religião e a crença poderiam ser explicadas como construções psicológicas (medo da mortalidade) que foram expandidas para a dinâmica sociológica.

Mais tarde, nessa discussão, surgiu a ideia de uma “alma-gêmea”. O professor na verdade não usou a palavra “alma”, mas sim expressou a idaia pedindo para que levantassem as mãos os alunos da turma que acreditavam que “havia alguém especial para eles lá fora” ou se temiam ” O UM que escapuliu”. Quase a classe inteira levantou as mãos. Por todo o seu empirismo racional e apelos ao realismo em relação à espiritualidade, eles (quase) unanimamente expressaram uma crença quase kármica em se conectar com outra pessoa idealizada em um nível íntimo por toda a vida.

Mesmo os caras da Fraternidade e as garotas festeiras que eu sabia que não estavam procurando por nada a longo prazo em seus hábitos de namoro, ainda levantaram suas mãos em concordância com a crença em UM. Alguns mais tarde explicaram o que aquilo significava para eles, e a maioria tinha definições diferentes daquela idealização – alguns até admitiam ser uma idealização, à medida que a discussão progredia – mas quase todos ainda apresentavam o que de outra forma, seria chamado de crença irracional ou “predesrinação” ou, mesmo entre os menos espirituais, que é apenas parte da vida se juntar a alguém significativo e havia “alguém para todos”.

Essa discussão foi o catalisador para uma das minhas realizações ao despertar – apesar de todas as probabilidades, as pessoas em grande parte sentem-se intituladas, ou merecedoras de um amor importante em suas vidas. Estatística e pragmaticamente isso é ridículo, mas aí está. A ficção feminizada da Disney deste conceito central foi romantizada e comercializada ao ponto de se tornar uma religião, mesmo para os que não são expressamente religiosos. O anseio Shakespeareano pela UMA, a busca por outra alma (gêmea) destinada a ser nossa parceira foi sistematicamente distorcida de toda razão. E, como vou elaborar mais tarde, os homens chegam a tirar suas próprias vidas na ilusão de terem perdido sua alma gêmea.

Homens de alma-gêmea

Essa perversão do mito da alma-gêmea é atribuível a uma grande parte das convenções sociais feminizadas com que lidamos hoje. O medo do isolamento de nossa alma-gêmea imaginada, ou o medo de ter irremediavelmente perdido aquela “pessoa perfeita” para nós, alimenta muitas das neuroses pessoais e sociais que encontramos na matriz contemporânea de nossa sociedade. Por exemplo, muito do medo inerente ao Mito do Velho Solitário perde seu poder sem uma crença central no Mito da Alma-Gêmea. O medo da perda e os delírios da Equidade Relacional só importam realmente quando a pessoa que os homens acreditam que a eqüidade deve influenciar é a sua predestinada.

O imperativo feminino reconheceu o poder esmagador que o Mito da Alma-gêmea tinha sobre os homens (e mulheres) desde os primórdios de sua ascensão ao cargo de principal imperativo social de gênero. Praticamente todas as distorções da dinâmica da alma-gêmea evoluíram como um esquema de controle para os homens. Quando as mulheres que são almas-gêmeas são a principal recompensa para um homem necessitado de alma-gêmea, há muitas oportunidades para consolidar esse poder. Para ser claro, não pense que esta é uma trama diabólica de um cabal femi-centrado que socialmente cria esse medo de perder sua alma-gêmea nos homens. Gerações de homens, criados para não terem conhecimento disso, voluntariamente e ativamente ajudam a perpetuar o Mito da alma-gêmea.

Mulheres de Alma-gêmea

Embora a hipergamia desempenhe um papel importante na determinação do que torna uma alma gêmea idealizada para as mulheres, elas não estão imunes às explorações desse medo central. Mesmo que seja mais um subproduto infeliz do que uma manipulação direta, eu argumentaria que, de certa forma, a hipergamia intensifica essa neurose. Uma Viúva Alfa sabe muito bem o definhamento associado ao anseio pelo Alfa que escapuliu – particularmente quando ela já está unida a longo prazo com o prestativo provedor Beta depois que seu valor no mercado sexual (VMS) declina. Para as mulheres, a alma-gêmea representa essa combinação quase inatingível do excitante domínio Alpha combinado com um leal provimento para sua segurança de longo prazo que só ela pode domar nele.

A hipergamia odeia o princípio da alma gêmea, porque a alma gêmea é uma definição absoluta, enquanto a hipergamia deve sempre testar a perfeição. A hipergamia pergunta: “Ele é o UM? Ele é o UM? ” e o Mito da Alma-gêmea responde:“ Ele TEM de ser O UM, ele é sua alma gêmea, e existe SOMENTE um desses”.

Construindo o Mistério

Devido a este conceito central e à mitologia da alma-gêmea, ambos os sexos procurarão aperfeiçoar essa idealização para si mesmos – mesmo sob a menos ideal das condições e expressões. Queremos construir nossas relações íntimas nesse idealismo de alma- gêmea, a fim de aliviar o medo e resolver o problema, e na maioria das vezes com tanto afinco que podemos ignorar habilmente os avisos, abusos e conseqüências de tê-lo feito. Para as mulheres, o impacto do macho alfa mais significativo é o que define inicialmente essa idealização da alma gêmea. Para os homens, pode ser a primeira mulher com quem ele transa, ou a que melhor exemplifica uma mulher que ele (erroneamente) acredita que pode amá-lo em uma orientação de amor definida pelo homem.

No entanto, estes são os pontos de origem para construir esse ideal de alma gêmea. Este ideal é então composto com camadas de investimentos na esperança de que essa pessoa “possa realmente ser aquela que o destino lhes enviou”.   Investimentos emocionais, pessoais, financeiros, e até mesmo vitais e sacrifícios então surgem, em um esforço para criar uma alma-gêmea. Na ausência de um ideal, deve-se criá-lo a partir de recursos disponíveis.

Esse processo é o motivo pelo qual eu digo que o Mito da Alma-gêmea é ridículo – é psicologicamente muito mais pragmático construir outra pessoa para se encaixar nesse ideal do que jamais será “esperar que o destino siga seu curso”.  As pessoas que adotam o mito preferem construir uma alma-gêmea, as consequências que se danem. Assim, as mulheres tentarão construir um Beta melhor ou domar um Alfa, enquanto os homens tentarão transformar uma prostituta numa dona de casa, ou vice-versa.

Um dos sabores mais amargos de ter despertado para a verdade da pílula vermelha é trocar velhos paradigmas por novos. Eu já descrevi isso antes como semelhante a matar um velho amigo, e um amigo que precisa ser morto. Desativar-se desse medo central é vital para desconectar-se completamente do velho paradigma, porque muito do condicionamento social femi-centrado depende dele.

Abandonar o Mito da Alma-gêmea não é o niilismo que muitas pessoas querem que você acredite que é. Na verdade, isso te libertará para ter um relacionamento futuro melhor e mais saudável com alguém que é genuinamente importante para você – um relacionamento baseado em desejo verdadeiro, respeito mútuo, entendimento complementar um do outro e o amor ao invés de um baseado no medo de perder sua UMA e única representação de contentamento nesta vida. Em qualquer relacionamento, a pessoa com mais poder é aquela que menos precisa do outro.

Esta é a base de qualquer relacionamento, não apenas intersexual, mas também de família, negócios, etc. É uma dinâmica que está sempre em vigor. Para o meu próprio bem estar e o da minha família, preciso do meu empregador mais do que ele precisa de mim, por isso me levanto para ir ao trabalho de manhã e trabalho para ele. E enquanto eu também sou uma parte vital para a continuidade ininterrupta de sua empresa e esforços, ele simplesmente precisa de mim menos do que eu preciso dele. Eu poderia ganhar na loteria amanhã, ou ele pode decidir cortar meu pagamento ou limitar meus benefícios, ou eu posso completar meu Mestrado e decidir que posso fazer melhor do que me manter preso ao seu carrinho indefinidamente. Assim, através de alguma condição, seja iniciada por mim mesmo ou não, sou colocado em uma posição de precisar dele menos do que ele precisa de mim. Neste ponto, ele é forlado a decidir quanto eu valho em suas ambições e, ou se separa de mim, ou negocia um avanço em nosso relacionamento.

O mesmo se aplica às relações intersexuais. Se você deseja basear seu relacionamento em “poder” ou não, não é o problema; isso já está em jogo desde o seu primeiro ponto de atração. Você é aceitável para ela por cumprir qualquer número de critérios e ela também atende aos seus. Se este não fosse o caso, você simplesmente não iniciaria um relacionamento mútuo.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/o-mito-da-alma-gemea/

As Origens do Tarô

Tudo começou com o livro Tarô dos Boêmios (Paris, 1889) que seguramente é o primeiro na história do Tarot a abordar os arcanos, tanto sob a ótica da metafísica cabalística quanto dos jogos adivinhatórios numa única obra, pois os outros autores de sua época ou se reportavam a um ou a outro. O livro em questão foi escrito pelo médico espanhol, radicado na França, Gérard Anaclet Vincent Encausse (1865-1917), conhecido como Papus. Encontrei, com suas próprias palavras, toda sua vaidade e arrogância espiritual explicitada nas páginas 273/275 e depois no final da 309 da edição brasileira. Resumindo o conteúdo: Papus dizia que as mulheres eram todas burras o suficiente para não entenderem sua obra cheia de números, letras hebraicas e deduções abstratas, que pertencia aos homens da ciência, mas como era tradição delas jogarem cartas, ele escreveria algumas páginas para não se aborrecerem; esclarece às ignorantes leitoras que o homem tem a razão e a mulher a intuição. Pensei – Homens não jogavam cartas!? Por que ele exultou a cabala e desdenhou a cartomancia?

Tal fato foi uma luz no fim do túnel para começar o que desejava: entender um pouco do passado do Tarot. Como um detetive segui os passos de Papus para entender seu chovenismo; observei a bibliografia do Tarot dos Boêmios e percebi que de consistente e lógico sobre o estudo das cartas de Tarot, ele citava os autores de sua época até, no máximo, um século antes, precisamente, até 1775 sobre as idéias de Antoine Court de Gebelin. Comecei a ler algumas obras possíveis: Etteila (1787), Claude de Saint Martin (1790), Saint Yves d’Alveydre (1830), J.A.Vaillant (1850), Eliphas Lévi (1854), Estanislau Guaita (1886), Mac Gregor Mathers (1888), Piobb (1890), mas não cheguei a lugar nenhum porque observei que todos citavam uns aos outros e todos tinham como ponto de apoio Gebelin e Lévi. Até ai nenhuma novidade, pois todos os estudantes de Tarot já ouviram falar que eles escreveram uma vasta literatura sobre as origens do Tarot. Bem, então o melhor era começar pelo mais antigo.

Ao pesquisar Antoine Court de Gebelin (1725-1784) fiquei estarrecido com a descoberta que foi negligenciada, não sei se proposital, por ingenuidade ou falta de maiores informações dos ditos mestres ocultistas do século 19. Gebelin era filho do famoso pastor evangélico francês Antonie Court (1695-1760) que restaurou a Igreja reformada na França, fundou um importante seminário para a formação de pastores evangélicos, sendo um grande historiador de sua época. Gebelin seguiu os passos do pai, tornando-se um pastor e mais tarde, também influenciado pelo pai, interessou-se por mitologia, história e lingüística. Embora alguns livros o citem como ocultista, talvez, devido a sua obra sobre o Tarot, em sua biografia não encontrei qualquer referência a este respeito; em todo caso é mister esclarecer que ele não teve uma vida dedicada ao esoterismo. Tinha uma obsessão junto com o pai: descobrirem a língua primeva que dera origem a todas as outras e/ou explicaria as várias mitologias conhecidas; também acreditavam que esta língua seriam símbolos, talvez os hieróglifos egípcios.

Certo dia, como ele mesmo diz em sua obra (Le Mond Primitif…), inclusive citado no Tarot do Boêmios, página 231, foi convidado a conhecer um jogo de cartas que desconhecia e em menos de quinze minutos declarou ser um livro egípcio salvo das chamas, explicando, imediatamente, aos presentes, todas as alegorias das cartas. Escreveu, em sua obra, uma retórica do Tarot como sendo a chave dos símbolos da língua primeva e da mitologia; fez uma relação dos arcanos com as letras egípcias e hebraicas e, revelou que a tradução egípcia da palavra “tarot” é “tar” = caminho, estrada e “ot” = rei, real. Para tornar suas teorias pessoais mais contundentes, lançou mão de seu conhecimento em história, abordando a trajetória do Tarot (Tarot dos Boêmios, página 229 e 233), disse que ninguém antes dele desconfiou de sua ilustre origem porque as imagens eram muito comuns e por isso nenhum cientista dignou-se a estudá-las; também revelou que durante os primeiros séculos da Igreja os egípcios, que estavam muito próximos dos romanos (Era Copta, conversão absoluta do Egito ao Cristianismo – 313 a 631 d.C.), ensinaram-lhes o culto de Ísis e os jogos de cartas de seu cerimonial; assim, o jogo de Tarot ficou limitado à Itália e Alemanha (Santo Império Romano); posteriormente, chegou ao sul da França (Provença, Avignon, Marselha) e, ainda desconhecido, no norte (Paris, Lion).

A primeira vez que li sobre essa história, não atentei ao fato de que numa simples olhadela Gebelin descobre ser o Tarot um livro egípcio, que fora ensinado aos romanos pelos próprios egípcios e que ninguém antes dele sabia a respeito – se aceitarmos esta tese como verdadeira, como é possível os romanos (católicos) aprenderem uma devoção (culto de Ísis) considerada pagã aos moldes da época, passando de geração a geração durante mais de 1.500 anos (de 313 a 1775), incólume pela própria Santa Inquisição (1230/1834), sendo disseminada nas regiões que ele cita e absolutamente ninguém escreve ou fala nada a respeito de sua origem egípcia? Então, onde estaria a tradição egípcia do Tarot tão exultada pelos seus conterrâneos posteriores? No período por ele citado, a Itália teve renomados ocultistas, alquimistas, astrólogos, magistas, historiadores, filósofos, arqueólogos, enciclopedistas, todos formadores de opinião e de grande saber – o hermetismo, a gnose e a cabala eram amplamente disseminados -, e Gebelin chama-os de incapazes de observar o que ele, em sua enorme sapiência evangélica, descobriu literalmente em quinze minutos! Observe que Gebelin NÃO descobriu tal fato (a origem egípcia do Tarot) em algum livro perdido no tempo, em algum documento antigo, em alguma ordem esotérica ou revelado por alguma entidade espiritual! Então, tudo o que falamos a respeito da origem egípcia do Tarot surgiu numa simples visita a uma cartomante, numa tarde de sábado, que nem ela e nem a Europa sabiam nada a respeito? Eu me questionava.

Gebelin ficou rico e famoso com suas obras e, a partir de então, o Tarot se tornou uma febre parisiense, todos queriam aprender o jogo egípcio; as ciganas que eram considerados, na época, de origem egípcia, embarcaram na onda e começaram a ler cartas! Ele publicou um Tarot junto com sua obra, mas não se tem notícias de que tenha jogado ou ensinado, pois não se preocupou com jogos ou métodos em seu livro, somente com o Tarot enquanto revelação da escrita egípcia e com os símbolos das cartas como sendo a chave da mitologia. Bem, Gebelin sempre fora uma pessoa respeitada muito antes de falar sobre as origens do Tarot, era filho de um famoso pastor evangélico, historiador reconhecido e amigo pessoal de Benjamim Franklin (!). Com certeza merecia créditos; eu daria, se vivesse naquela época. Tenho que esclarecer mais um fato: Gebelin não escreveu Le Mond Primitif… para o ocultismo, foi em função de sua vaidade em buscar a mesma fama de seu pai que toda a sua obra é voltada em esclarecer a mitologia egípcia e romana e não propriamente o Tarot; embora os ocultistas o citem como tal depois de sua morte, ele era acima de tudo um evangélico! Suas obras e idéias percorreram o mundo da ciência, todos os arqueólogos queriam falar com ele, pois era uma febre francesa descobrir as chaves dos hieróglifos egípcios. Nenhum ocultista esteve com ele ou o citou em alguma obra até alguns anos após sua morte; somente uma pessoa que se tem notícia o procurou em vida para conversar sobre a origem egípcia e fins adivinhatórios: o francês Etteila, anagrama de seu verdadeiro nome Aliette.

Não encontrei muitas referências sobre a vida de Etteila, nome completo ou datas pessoais, além do que está exposto nas obras dos ocultistas do século 19; diziam que ele era um peruqueiro da corte francesa, professor de álgebra, amigo íntimo de Mlle Lenormand (famosa cartomante de Napoleão) e de Julia Orsini (outra famosa cartomante francesa) – não se tem notícias de que tivesse pertencido a alguma ordem ou fraternidade oculta; em todas as suas referências é tido como charlatão. Lévi e Papus revelam que ele se apropriou para benefício próprio das idéias da origem egípcia, da relação das letras hebraicas e egípcias feitas por Gebelin, criando seu próprio Tarot corrigido, compilando as obras de suas amigas, escrevendo onze livros. Instalou-se num dos mais luxuosos hotéis de Paris, Hotel de Crillon, e começou a atender e ensinar a nata parisiense! Voilá, cherry! Gebelin e Etteila devem ter falecido ricos e felizes; um sob a visão da fama científica e o outro do misticismo.

Vamos sair do contexto ocultista e voltar aos historiadores e arqueólogos que devem ter acreditado na figura respeitada, aos olhos parisienses, de Antoine Court de Gebelin, até que Jean-François Champollion (1790-1832) decifrasse os hieróglifos através da Pedra de Roseta. Champollion publicou em 1822 a relação legítima do alfabeto egípcio e seus fonemas; este trabalho lhe rendeu o disputado cargo de curador do departamento egípcio do Museu do Louvre, em Paris, em 1826. Após sua morte, foi publicado, em 1835, seu mais precioso trabalho onde revela toda a gramática e literatura egípcia jamais revelada em toda a história desde o seu desaparecimento na Era Copta. Descobre-se que tudo o que Gebelin escrevera a respeito do Tarot como língua primeva e codificação dos hieróglifos egípcios estava errado, em nada se sustentava perante as verdadeiras revelações da história do Egito – não existe a palavra tarot na língua egípcia (!), muito menos o que supostamente Gebelin disse ter traduzido (!); também, tudo o que ele decifrara de alguns hieróglifos estava absolutamente errado (!) – esta é a parte negligenciada pelos ocultistas, bem como a forma inconsistente da revelação de que precisou de quinze minutos para descobrir a própria origem das cartas de Tarot – Porque? Eu me perguntava frequentemente.

As respostas começaram a surgir quando reli as obras de Eliphas Lévi (1810-1875), pseudônimo de Alphonse Louis Constant, tido como padre por se instalar por algum tempo na ordem franciscana, em Paris, para ter acesso à vasta biblioteca sobre a cabala cristã, mas não era um padre oficializado na Igreja Católica Apostólica Romana, como se pressupõe – a roupa faz o monge, já diz o ditado popular. Um fato incontestável foi que Gebelin e Etteila mexeram com o imaginário popular e, consequentemente, dos esotéricos, pois fica muito claro nas obras de todos os ocultistas do final do século 18 e início do 19 que no âmbito tradicional do universo das ciências ocultas nunca se analisou ou questionou o Tarot – são palavras do próprio Gebelin e de todos posteriores a ele, sem exceção; este é sem dúvida um dos dados mais importantes a serem analisados no que tange à tão exultada expressão “tradição do Tarot”, pois tradição não é algo que se extingue e depois reparece.

Lévi, em seu primeiro livro (1854), Dogma e Ritual, páginas 405 a 421, e no segundo, História da Magia, páginas 76 e 242 a 252, execra as obras e a conduta de Etteila, contesta a origem egípcia de Gebelin e repudia a palavra tar=caminho e ot=real. Vai mais além, introduz o conceito de que Moisés escondeu nos símbolos do Tarot a verdadeira cabala e depois ensinou aos egípcios o jogo de carta; também, pela primeira vez, um ocultista, em toda a história da magia, faz uma acalentada tese de associações das letras hebraicas com os arcanos e diz que a palavra tarot é análoga a palavra sagrada IHVH ( h w h y ), sendo também uma variação das palavras Rota / Ot-tara / Hathor / Ator / Tora / Astaroth / Tika. Assim como no livro de Papus, numa segunda leitura, também encontrei críticas às mulheres na obra de Lévi, um pouco mais cruéis eu diria – desdenha Mlle Lenormand chamando-a de gorda, feia, ininteligível e louca, e duas outras cartomantes, Madame Bouche e Krudener, de prostitutas (coquetes ou Salomé à época) – História da Magia, paginas 346 e 347. Reparei que tanto Lévi quanto Papus condenavam as práticas femininas de cartomancia, achavam que elas usurpavam o poder do homem na ciência oculta… Indagava-me, por quê?

Bem, encontrei duas passagens em seu livro História da Magia, páginas 78 e 251, e uma no Dogma e Ritual, página 420, que me deixaram muito intrigado; pareceu-me que ele sabia da verdade sobre o passado do Tarot, mas não sei se foi por ingenuidade ou se proposital, preferiu não dar importância. Primeiro, ele diz que o Tarot mais antigo que se conhece é o Tarot de Gringonneur (1392) e que a Biblioteca Imperial tem uma vasta coleção de todas as épocas; segundo, ele contesta a origem dos ciganos revelada na obra de J.A.Vaillant – Les Rômes, historie vraie des vrais Bohémiens, 1853; a mesma obra que Papus faria sua apologia do Tarot mais tarde -; Vaillant diz que os ciganos eram egípcios e entraram na Europa no início do século 15, chegando à Paris em agosto de 1427; e Levi diz que ele estava errado pois os ciganos são originários da Índia, fato revelado historicamente à época. Temos três verdades absolutas: os ciganos são indianos, entraram no início do século 15, depois do surgimento do Tarot no fim do século 14. Surgem minhas questões: por que Lévi não questionou o porquê de tanto tempo sem que nenhum renomado ocultista falasse a respeito, visto que as cartas eram amplamente conhecidas? Por que Papus insistiu na idéia de que os ciganos eram egípcios, se já era de conhecimento publico sua origem indiana? Por que todos sustentaram a história egípcia de Gebelin, tanto na tradução da palavra Tarot quanto em sua origem, visto que, com a descoberta de Champollion, nada se descobriu em pergaminhos e papiros que as amparassem?

Antes de continuar é importante salientar que TODOS os conceitos que Lévi descreve sobre o Tarot NÃO são dele, pois Gebelin já havia feito a equiparação das letras hebraicas e o ocultista Claude de Saint Martin (1743-1803) publicou em 1792, na obra Table Natural du Rapports…, o restante que Lévi descreve para o Tarot; se você tiver paciência irá reparar em todos os escritos de Lévi que Saint Martin é constantemente citado. Outro dado impressionante, que também não havia percebido na primeira vez, é que absolutamente tudo o que Lévi e Papus escrevem sobre a cabala e os sistemas ritualísticos, podem ser encontrados nos seguintes livros da mesma época: Magus de Frances Barret (1801), A língua hebraica restituída de Fabre D`Olivet (1825) e A ciência cabalística de Lenan (1825). Vamos observar que da mesma forma que Gebelin, Lévi não se baseou em nenhum escrito antigo, lenda ou fraternidade oculta para estabelecer sua relação entre a cabala e o Tarot, foi a partir das idéias do próprio Gebelin e Saint Martin. Portanto, assim como Gebelin inventou a história egípcia, Lévi inventou a história hebraica, pois não há registros de nenhum ocultista – cabalista, magista, alquimista, gnóstico, hermetista – fraternidade ou ordem mística que tenha comentado, escrito ou usado o Tarot antes das obras deles. Para se entender o passado do Tarot ou o que escreveram sobre ele é mister observar os dados históricos; a crença e o misticismo pessoal, neste caso, somente levará à equívocos e discussões inúteis.

Contudo, verdade seja dita sobre as obras de Éliphas Lévi com relação aos textos de magia, cabala e filosofia: são perfeitos e maravilhosos; o que estou manifestando é a relação histórica do Tarot e a forma que entrou no ocultismo. A esta altura já tinha uma noção bem razoável que nem Gebelin e nem Lévi possuíam, ou seja, nada que sustentasse de forma verossímil o passado do Tarot como encontramos nas outras ciências: alquimia, hermetismo, astrologia, numerologia, i ching, magia, cabala. Está absolutamente claro o círculo vicioso de informações, um compilando do outro; talvez eles estivessem disputando quem seria o “pai da criança”. Mas tudo tem seu lado positivo, o interesse dos ocultistas pelo Tarot cresceu e, cada um ao seu modo contribuiu para a exploração inesgotável dos arcanos. Tudo é válido no âmbito de sua exploração simbólica, mas a consciência de seu surgimento é um passo importante para o seu futuro.

Eliphas Levi, por ter uma linguagem metafísica muito eloqüente e por sua dissertação dos conceitos cabalísticos em associação ao Tarot, chamou a atenção dos ocultistas ingleses, principalmente, Mac Gregor Mathers (1854-1918). Mac Gregor adota o sistema cabalístico de Lévi, mas faz correções segundo seu entendimento pessoal para aplicar, pela primeira vez na história da magia, o Tarot como forma de meditação e monografia para atingir os degraus de uma ordem esotérica: a Golden Dawn, 1888; esta fraternidade mudaria por completo a visão do Tarot no mundo (!) através de seus dissidentes no início do século 20 – Arthur Waite, Carl Zain, Israel Regardie, Aliester Crowley. No mesmo ano da fundação dessa ordem, ele lança um livro, The Tarot, its occult signification, com base no trabalho de Lévi, Guaita, Etteila, Gebelin, acrescentando correções que achou necessárias sobre a relação da cabala com o Tarot.

Voltemos a Papus – depois de estudar os autores citados até o momento, reli o Tarot dos Boêmios (já era a quinta vez!) e finalmente descobri que o livro é uma fonte arqueológica do Tarot! Tudo está absolutamente lá, só não vê quem não quer! Em cada título de seu livro há subtítulos se referindo a todos os demais. Dentre as obras de Tarot que ele possuía em sua biblioteca, Gebelin era o autor mais antigo e Mac Gregor o mais atual em sua época! Então, vamos observar a principal cadeia viciosa sobre as origens do Tarot: Gebelin (1775) – Etteila (1783) – Saint Martin (1792) – Vaillant (1853) – Lévi (1854) – Christian (1854) – d´Alveydre (1884) – Guaita (1886) – Mathers (1888) – Barlet (1889) – Papus (1889) e ponto final! Um se baseou no outro, cada qual colocou sua teoria, fez suas próprias correções e ninguém questionou nada – ingenuidade, manipulação, arrogância, vaidade, eloquência? Não saberia responder. A verdade dói, em mim também doeu. Eles tatearam no escuro para falarem sobre o Tarot; uma realidade bem cruel é que eles não sabiam absolutamente nada sobre o Tarot e suas origens, mas uma coisa eu achei interessante: por mais que fizessem a retórica cabalística e a verborréia para provar seus pontos de vistas, as explicações práticas sobre os jogos do Tarot terminavam nas cartilhas de Etteila e das cartomantes. Por que? Eu continuava a me indagar. Sinceramente, independente das falhas históricas grotescas que estou questionando em suas obras, eu os indicaria como os patronos do Tarot – Gebelin, Etteila, Lévi, Mac Gregor e Papus; foi graças a estes cinco personagens que o Tarot é o que é atualmente.

A esta altura, sentia-me como um órfão, abandonado de pai e mãe! Eu estava quase jogando para o alto minhas convicções de que o Tarot era sagrado, intocável pelo tempo, guardado a sete chaves por homens eruditos e que escondia toda ciência antiga; mas eu podia estar errado, eu queria acreditar em seu aspecto intocável pela profanidade! A forma como chegou a pseudo história egípcia, cigana ou hebraica do Tarot aos nossos ouvidos eu já havia descoberto: a idéia de Antonie Court de Gebelin foi ampliada por Etteila, Lévi e Mac Gregor; Papus fez uma amalgama de todos; chegou ao século 20 através das mãos dos dissidentes da Golden Dawn, que mantiveram as mesmas histórias, também acrescentando outras, todos corrigindo as imagens do Tarot, todos querendo os louros da vitória, e assim por diante… Mas e antes? Estaria, o Tarot, numa arca sagrada aos pés dos guardiões da verdade? Sendo escondido, noite após noite, do famigerado Santo Ofício?…

Durante anos bisbilhotei várias obras, referências históricas, museus, bibliotecas – tudo está detalhado em meu livro -, fiz uma mapa do tempo de tudo o que havia sobre o Tarot. Confesso que ri muito quando comecei a ver os verdadeiros fatos. É uma pena o século 19 ter sido desprovido do telefone, fax, computador, e-mail, internet, avião, pois não estaríamos dois séculos atrasados nos estudos do Tarot, inventando histórias e distorcendo a potencialidade do uso dos arcanos! Os dados históricos destronam qualquer idéia mais romântica a respeito do Tarot, mas em nada invalidam seu potencial; para continuar este manifesto do futuro do Tarot, vamos separar o que é o Tarot do que querem que o Tarot seja!

Minhas convicções sobre a “tradição” do Tarot começaram a ruir quando eu descobri que entre 1583 e 1811 na Espanha, e entre 1769 e 1832 em Portugal, houve estatais na produção de cartas de Tarot, produziam em média 250.000 pacotes por mês para consumo interno e envio para suas colônias ao redor do mundo! Para jogar adivinhação com o Tarot!? Não, para jogos lúdicos! Sim, o Tarot é usado até os dias atuais na Europa como uma jogatina, principalmente, na França, onde há campeonatos anuais; eu mesmo, já tive a oportunidade de observar um em 1998, em Avignon. O ofício de artesão de Tarot era uma profissão (!) em toda a Europa desde 1455 até o fim do século 19! As cartas pintadas à mão (valiosíssimas) constavam do espólio de famílias nobres, com clérigos! O Tarot teve altas tributações ficais em todos os países desde o século 16 até o início do século 20 – uma particularidade que achei fantástica (para acabar de vez com meu misticismo com o Tarot) foi que em 1751, o rei da França, Luiz XV, ordenou que todas as taxas provenientes do Tarot de todo território fosse para o fundo monetário da Academia Militar! E mais: os primeiros registros oficiais de cartomancia datam por volta de 1540 !!!!!

– Meu Deus!… Onde estava a Santa Inquisição que todos dizem ter persiguido o Tarot? Dormindo? O arcano 15, O Diabo, que possivelmente condenaria o Tarot aos olhos da Igreja, sempre esteve presente em todas as mesas da Europa, desde as primeiras cartas que se tem notícia no final do século 14 até os dias atuais! Como as cartomantes passaram incólumes pela fogueira? Por que Gebelin disse desconhecer as cartas de Tarot se havia alta produção de cartas em Paris e por toda Europa? Por que nenhum ocultista renomado da Europa anterior a Gebelin nunca prestou atenção na cartomancia ou nos símbolos das cartas? Por que??? Por que o Tarot não fazia parte do círculo ocultista?

Por fim soube que o Tarot não se chamava Tarot (!) e nem as cartas se chamavam de arcanos (!). – Onde está a tão exultada tradição milenar dita por Lévi e Papus sobre o nome “Tarot”? Foi a última coisa que me lembro perguntar sobre o passado do Tarot, antes de aterrissar meus pés no chão e ver que o Tarot ainda é um bebê se comparado à astrologia, numerologia, cabala, sem nenhum passado extraordinário… Os primeiros registros datam por volta de 1370/90, o que denominamos de Tarot era chamado de Ludus Cartarum (cartas lúdicas) ou Naibis; depois, por volta de 1440/1500, passou a se chamar Trunfos (mais usual à epoca), Tarocco ou Tarochino; por volta de 1550/1600 de Trunfos do Tarocco na Itália e Trunfos do Tarot na França, também outras variações chamadas de Minchiatte ou Florentino; somente por volta de 1850/1900 surge o termo Arcano do Tarot; e no século 20 cada país passa a nacionalizar a palavra: Tarocco (Itália); Taroc (países germânicos); Tarok (leste europeu); Tarot (língua portuguesa) e Tarot (na maioria dos países). Observe os espaços de datas, não são meses, são em média de um século. Imagine seu eu lhe dissesse que você iria casar daqui a cem anos? Sim, esse é o tempo de uma nominação para outra! Uma média de um século! Cadê a tradição? Onde está a base histórica de Gebelin e de todos os outros que o seguiram? A palavra “tarot” surge na França por volta de 1590/95 nos estatutos da Associação de Fabricantes de Cartas Parisienses!

As descobertas subsequentes não me aborreceram mais, muito pelo contrário: comecei a vibrar por ter certeza de que absolutamente ninguém sabe nada além do que está escrito (de certo ou errado) nos livros! Não tive nenhum trauma quando procurei referências dos grandes ocultistas renomados, formadores de opiniões, cátedras das ciências ocultas, e não encontrei nada que tivessem dito sobre o Tarot ou algo que se assemelhasse a ele. Para dizer a verdade, encontrei somente um único ocultista sem grande expressão que fez uma referência aos quatro elementos em relação ao Tarot – Guilleume de Postel (1510-1581) -, mas ninguém deu ouvidos a sua teoria até Lévi e Papus fazerem sua apologia do passado longínquo do Tarot e citá-lo como destaque. Em 400 anos de existência do Tarot, desde os primeiros registros oficiais até a história egípcia de Gebelin (~1370/~1770), somente uma única pessoa fez referências esotéricas!? Este fato corrobora ainda mais o desinteresse pela classe ocultista dos séculos 14 ao 18 pelo Tarot e sua cartomancia.

Porém, encontrei algo surpreendente fora dos círculos esotéricos sobre as cartas do Tarot: crônicas questionando o que seriam aquelas imagens enigmáticas, poesias líricas, óperas, romances, murais, quadros, uma vasta expressão artística a partir do século 15; assim, as cartas do Tarot estavam inseridas no contexto social, sendo conhecidas por todos! Repito: um fato muito curioso é que as cartilhas sobre a taromancia começaram a surgir por volta de 1530-50 e o Tarot começou a ser visto também como algo para predizer a sorte e o futuro. Por que nenhum renomado ocultista sequer comentou sobre isso – Basílio Valentin (1398-1450), Picco della Mirandola (1463-1494), Paracelso (1493-1541), Cornelius Agrippa (1486-1535), John Dee (1527-1608) -, principalmente, Robert Fludd (1574-1637) e Jacob Boehme (1575-1624) que resumiram todos os oráculos de sua época? Os aspectos de jogos lúdicos e adivinhatórios andaram lado a lado e, estes, paralelos com a astrologia, numerologia, cabala, mitologia, hermetismo, alquimia, magia até se juntarem nas obras de Gebelin, Levi. Mac Gregor e Papus. Outro dado curioso que percebi: somente mulheres jogavam o Tarot (ditas cartomantes)!… Comecei a pensar sobre a sociedade até o final do século 19 – era patriarcal e misógina! Será que houve uma descrença no sistema de cartas por causa do contexto feminino? Ou será que pelo fato do Tarot expressar símbolos comuns de sua época não teria nenhum valor ocultista? Neste caso, eu acredito que foram ambos os fatores!

Lembram como comecei minha pesquisa que durou dez anos (1987/97)? Sim, voltemos ao cavalo de Tróia: Gebelin, Lévi e Papus; eles me forneceram as peças de todo o quebra-cabeça. A partir da bizarra história egípcia sobre o Tarot criada por Gebelin, os ocultistas viram uma possibilidade de abarcarem as técnicas de cartomancia, sem caírem no ridículo de usarem “uma arte feminina nos vôos da imaginação”, como disse Papus, ou usaram a arte das “loucas e coquetes”, segundo Lévi. Como? Fizeram uma retórica metafísica impossível delas compreenderem – se reparar na história do ocultismo, da magia, da cabala e da alquimia observará que não há uma única mulher (eram todas consideradas bruxas, ignorantes e maldosas!) que anteceda a Helena Blavatsky (1831-1891)! Ela foi muito “macho” em peitar todos os ocultistas eruditos. Assim, não foi difícil começarem a estudar uma arte feminina, que estava ao lado de todos eles por tantos séculos, mas que nunca ousaram tocar por puro preconceito machista. Os homens (ocultistas eruditos ou não) sempre tiveram a mulher como burra e incapaz, um ser inferior; como eles iriam admitir que o poder feminino descobriria uma arte oracular que somente pertenciam às sábias mentes masculinas?

Afinal, nada melhor do que a imaginação e a intuição feminina para descobrir o significado simbólico das cartas ao invés da razão e da lógica dos eruditos que necessitavam de fórmulas complicadas para tudo. Para mim ficou muito claro o porquê da ausência do estudo do Tarot entre os renomados ocultistas até o século 18 e, principalmente, o porquê de tanto escárnio nas obras de Lévi e Papus sobre as cartomantes ou, no caso de Etteila, um homem que se atreveu a jogar cartas como elas, denegrindo a imagem do “macho esotérico que conjura demônios”… Coisas do século passado… Hoje, homens e mulheres jogam o Tarot; mas você deve ter percebido que ainda temos uma resistência em aceitar os jogos adivinhatórios e tentamos sempre lucubrá-lo com a mais alta metafísica – talvez seja o ranço herdado das obras de Levi, Papus, Mac Gregor e seus dissidentes.

Vamos falar a verdade? Não conheço um só estudante de Tarot, em qualquer lugar do mundo, que se diga “cabalista da tradição em busca do sagrado”, ou que diga “o Tarot é uma arte do autoconhecimento”, que não esteja diariamente se profanando, jogando o Tarot, querendo saber dos acontecimentos e das causas! Vamos ser honestos? No fundo todos querem aprender a abrir o Tarot como qualquer cartomante antiga! Pode falar que é orientação, autoconhecimento, espiritualidade, tradição, não importa, no fundo terminamos onde Etteila começou; aliás, aperfeiçoamos primorosamente as suas cartilhas e de todas as cartomantes! Assim como os ocultistas do século 19, também estamos nos escondendo atrás dos estudos da cabala, mitologia, astrologia, psicologia, para encontrarmos a dignidade e o direito de jogarmos cartas! Estaremos nos enganando, complicando uma arte que poderia ser simples?

Embora o Tarot fosse conhecido e utilizado há séculos na Itália, Alemanha, Suíça, Espanha e França, foi precisamente em Paris que ele criou sua própria luz espiritual, tanto no surgimento de seu nome (tarot), quanto em sua centrifugação com o ocultismo; observe que todos os autores que descrevemos são franceses e publicaram suas obras na Cidade Luz. Bem, no início do século 20, principalmente, depois da 1º Guerra Mundial, tudo mudou para a imagem feminina: elas conquistaram o direito de trabalhar, de votar, de viver sozinha, escolher sua família e, finalmente, começaram a desenhar o Tarot… ôps, esqueci de dizer, somente homens podiam ser artesãos de Tarot até o início do século 20. A primeira mulher a pintar um Tarot foi Pamela Smith que desenhou o Rider-Waite Tarot, publicado em 1910… Hoje elas tomam seu lugar glorioso no pódio das sibilas e pitonisas parisienses, italianas, americanas, espanholas, brasileiras… Avante mulheres tomem as rédeas do Tarot: ele pertence a vocês – agora posso usar a palavra – por tradição!

Quem sabe, talvez, se tivéssemos a humildade e a dignidade de admitir que o Tarot opera perfeitamente no mundo oracular e divino, mas não existe todo esse passado magnífico, mágico e tradicional que nos imputam ou em que queremos acreditar; ou ainda melhor, aceitar uma verdade tão clara e evidente: ele é um oráculo recente, jovem, aberto à exploração, ávido por uma estruturação, que nasceu há poucos séculos e depende de nós preservá-lo, estudá-lo, tomando o devido cuidado em não deformar seus símbolos por puro egocentrismo e perder essa arte maravilhosa, esse alfabeto mágico, que casualmente foi descoberto! Também por quem foi descoberto não saberemos, como não saberemos nada além do que existe de real e concreto a respeito dele; se os verdadeiros homens eruditos que se debruçavam na maravilhosa arte alquímica e hermética ou de toda espécie de filosofia oculta não sabiam, ou não procuraram saber e investigar as cartas do Tarot, nós que perdemos o elo simbólico e a visão filosófico-espiritual do mundo iremos descobrir? Nós que nos baseamos em todo o manancial de cultura simbólica desses eruditos medievais e renascentistas, que não revelaram nada, iremos desvendar? A resposta é um sonoro NÃO; o restante será apenas conjecturas insólitas e inverossímeis. O Tarot é como uma criança que precisa ser alimentada e educada, senão poderá se perder durante sua vida com tantos Tarots corrigidos que surgem e tantas informações desencontradas.

Em todo caso é compreensível o fato dos antigos ocultistas não aceitarem o Tarot no âmbito esotérico, não pelo seu aspecto de pertencer às mulheres, mas pela falta de conhecimento do conceito de “arquétipo” – padrão de comportamento que é intrínseco na vida humana, desenvolvido na metade do século 20! Hoje observamos o símbolo e não propriamente a imagem desenhada, tentamos nos transportar além de sua figura para atingir um sentido de significações. Assim, o Tarot se tornou um conjunto de modelo comportamental humano, adapta-se a qualquer sistema que se queira trabalhar ou estudar. Talvez algum iluminado, um sábio ocultista, realmente o tenha criado, pois sua estrutura não deixa dúvidas de que há elementos bem significativos de toda ciência oculta, porém acredito que não tenha sido inventado para a finalidade que utilizamos atualmente… Coisas do destino… Também observe que se aceitarmos a associação do Tarot-cabala que Levi desenvolveu, o sistema desenvolvido por Mac Gregor ou Waite estarão errados; se aceitarmos o sistema cabalístico de Crowley, o de Mac Gregor, Waite e Levi estarão errados; se aceitarmos o de Mac Gregor e Waite, o de Levi e Crowley, também, estarão errados – o mesmo ocorre com os trabalhos de Juliet S.Burk (mitologia grega), Clive Barret (mitologia nórdica), Falconnier (mitologia egípica), Anna Franklin (mitologia céltica), que se negam um ao outro em analogias! -. Quem está com a razão? Todos! Qualquer sistema se adapta ao Tarot porque ele é um conjunto arquetípico! Isto é que faz o Tarot tão rico em sua expressão e, talvez, confuso à primeira vista.

Tenho lutado para que todos desenvolvam uma elaboração estrutural do Tarot, sem ego pessoal ou assimilação de outras doutrinas, que escrevam ou conceituam mais do que apenas desenhar “seu próprio Tarot”, porque fica evidente sua deformação simbólica à medida que todos querem ter a “revelação mágica dos símbolos”; mas para tal, não podemos nos negar nada, nem que seja o absurdo de começarmos do nada, de inutilizarmos tudo, fazermos uma deliciosa fogueira exorcizando todo devaneio romântico do que foi aprendido sobre os arcanos e recomeçarmos fortes, verdadeiros, rumo a análises confiáveis e livres de dogmas pessoais. Se não partirmos da premissa básica que é o reconhecimento de seu verdadeiro passado, seja ele bom ou mau, mundano ou divino, falso ou real, lazer ou oracular, não será possível termos certeza do que temos nas mãos, nem a convicção do que poderemos fazer com o Tarot. Sei que formulei mais questionamentos, deixei muito mais perguntas do que evidenciei respostas. Também vamos ser práticos, as respostas do passado não existem, somente as do futuro: como vamos estruturar e conceituar definitivamente seus arcanos e, assim, garantir a continuidade do Tarot para futuras gerações?

Notas Importantes

1) Desenhe o Tarot que desejar, expresse sua criatividade, mas nunca deforme sua fonte original simbólica, nominativa, quantitativa e os atributos essenciais de cada carta;

2) Ao consultar tarot escreva e associe o Tarot com qualquer coisa em nosso universo, mas nunca se esqueça de que é do Tarot que está falando ou explicando – sempre deixe essa “outra associação” em segundo plano;

3) Tenha mais consciência do Tarot enquanto significado de seus arcanos e não do significado da cabala, astrologia, mitologia, numerologia, pois cada uma destas ciências tem sua própria história, estrutura e utilização; todas as associações feitas até hoje ainda são discutíveis;

4) Vamos descobrir novas estruturas, explicações e análises para o Tarot, de uma forma mais pura, mais direta, menos abstrata, como ocorre na astrologia ou numerologia: longe dos devaneios místicos;

5) Esqueça do passado tradicional do Tarot, ele não existe; pense em seu futuro!  O tarot on line e o tarot virtual são apenas um rascunho do que está por vir.

6) Diga não a tudo o que não comporte a significação dos 78 arcanos.

7) Tarot é Tarot.

Por Nei Naiff

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-origens-do-taro/

Divisão Energética do I-Ching

Tradicionalmente, as pessoas estudam o I-ching a partir da divisão estabelecida por Rei Wein e não a questionam ou tentam modificá-la. Para mim, ela nunca fez nenhum sentido e a desculpa de “acompanhar a leitura do poema” não funciona. Sou um homem de ciência. Estudando o Enochiano, que foi compilado por John Dee no século XVI a partir da comunicação com anjos, cheguei à conclusão que ambos os sistemas falam a mesma linguagem e servem para medir a mesma coisa. Assim como se pode medir a temperatura de uma sala em Celsius ou Farenheit, o I-Ching, a Escada de Jacob (Kabbalah) e o Enochiano são maneiras de se quantificar os corpos Mentais, Emocionais e Espirituais do ser humano.

Tradicionalmente, o Diagrama de Rei-Wein é colocado como abaixo, listando todos os 64 hexagramas de uma forma desordenada e sem muito sentido, organizada a mais de 5.000 anos.

Os estudiosos do I-Ching não questionam ou tentam alterar esta estrutura, e o que vou fazer a seguir deve causar arrepios e mimimis nos defensores deste tradicional oráculo chinês… mas estamos no século XXI e tudo deve evoluir. Em primeiro lugar, estabeleci uma graduação que chamei de “yangs” entre os Hexagramas do I-Ching, fazendo-os variar de 0 yangs a 6 Yangs e redistribuí os hexagramas de acordo com suas faixas energéticas, como na figura abaixo, MODIFICANDO a sequencia de Trigramas do diagrama original:

Eu renumerei TODOS os Hexagramas, com base binária, e os redistribuí na grade de acordo com estes critérios. As cores são para facilitar a visualização.

A partir de então, pensei em uma maneira 3D de representar este diagrama, já que fica extremamente complicado visualizar uma estrutura 4D em uma tabela 2D e pensei em uma Esfera.

Para Desenhar a Esfera:

– No Eixo Central ficam, nas extremidades, 6 Yang e 0 Yang. O Equador ficará com os 20 Hexagramas que possuem 3 Yang. Ao longo do eixo, em R/3, estarão distribuídos 5 Yang, 4 Yang, 2 Yang e 1 Yang de cima para baixo.

– No primeiro círculo, localizado R/3 abaixo do Polo Norte, ficam 6 Hexagramas, dispostos em um Hexagono (5 Yang)

– No segundo Círculo, localizado 2R/3 abaixo do polo Norte, ficam 15 Hexagramas, dispostos em um dodecagono (12 lados) e 3 Hexagramas no Eixo (os 3 hexagramas “Equilibrados” ou harmônicos 101101, 110110 e 011011).

– No círculo do Equador ficam os 20 Hexagramas 3Yang, formando 3 Círculos concêntricos: Dois hexagramas (010101 e 101010) ficam no eixo Central; 6 Hexagramas ficam diretamente projetados sob os Hexagramas 5 Yang e 12 Hexagramas restantes são dispostos em pares formando um Hexagono exterior.

– No quarto Círculo, localizado 4R/3 abaixo do polo Norte, ficam 15 Hexagramas, dispostos em um dodecagono (12 lados) e 3 Hexagramas no Eixo (os 3 hexagramas “Equilibrados” ou harmônicos 010010, 001001 e 100100).

– No quinto círculo, localizado 5R/3 abaixo do Polo Norte, ficam 6 Hexagramas, dispostos em um Hexagono projeção dos Hexagonos do 1o círculo e 3o círculo (1 Yang e 3 Yang)

Minhas capacidades gráficas terminam no desenho que vocês vêem acima, mas estava pensando se existe entre os meus leitores alguém que manje de programas gráficos capazes de gerar esta estrutura que eu imaginei em flash, 3DMax, CAD ou outro software que pudesse gerar imagens bonitas (colocar os hexagramas em esferas que simulem vidro, essas coisas estilosas) para que, em uma segunda etapa, possamos trabalhar com Enochiano ou Kabbalah nesta estrutura 3D.

#Enochiano #Iching

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/divis%C3%A3o-energ%C3%A9tica-do-i-ching

Conhecimento do Absoluto

Bhagavad-gita, Capítulo Sete.

01 Agora ouça, ó filho de Prtha (Arjuna), como através da prática de yoga com completa consciência de Mim, com a mente apegada a Mim, você poderá conhecer-Me por completo, sem dúvida alguma.

02 Agora declararei por completo a você este conhecimento tanto fenomenal como numenal, conhecendo o qual não restará mais nada para se conhecer.

03 Dentre muitos milhares de homens, talvez um se esforce pela perfeição, e daqueles que alcançaram a perfeição, dificilmente um Me conhece de verdade.

04 Terra, água, fogo, ar, éter, mente, inteligência e falso ego – todos estes oito em conjunto compreendem Minhas energias materiais separadas.

05 Além desta natureza inferior, ó Arjuna de braços poderosos, há uma energia superior Minha, que são as entidades vivas que lutam com a natureza material e sustêm o universo.

06 De tudo que é material e tudo que é espiritual neste mundo, saiba por certo que Eu sou a origem e a dissolução.

07 Ó conquistador de riquezas (Arjuna), não há verdade superior a Mim. Tudo repousa em Mim, assim como as pérolas estão ensartadas em um cordão.

08 Ó filho de Kunti (Arjuna), Eu sou o sabor da água, a luz do sol e da lua, a silaba om nos mantras védicos; Eu sou o som no éter e a habilidade no homem.

09 Eu sou a fragrância original da terra, e Eu sou o calor no fogo. Eu sou a vida de tudo o que vive, e Eu sou as penitências de todos os ascetas.

10 Ó filho de Prtha, saiba que Eu sou a semente original de todas as exis­ tências, a inteligência dos inteligentes, e o poder de todos os homens poderosos.

11 Eu sou a força dos fortes, desprovida de paixão e desejo. Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos, ó Senhor dos Bharatas (Arjuna).

12 Todos os estados de existência – sejam eles de bondade, paixão ou ig­norância – manifestam-se através de Minha energia. Em um sentido, Eu sou tudo – mas Eu sou independente. Eu não estou sob os modos desta natureza material.

13 Iludido pelos três modos (bondade, paixão e ignorância), o mundo in­teiro não conhece a Mim que estou além dos modos e sou inesgotável.

14 Esta Minha energia divina, que consiste nos três modos da natureza material, é difícil de superar. Mas aqueles que se renderam a Mim podem facilmente atravessá-la.

15 Os canalhas que são grosseiramente tolos; os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão e que participam da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.

16 Ó melhor entre os Bharatas (Arjuna), quatro tipos de homens piedosos prestam serviço devocional a Mim: o aflito, o que deseja riquezas, o curioso e aquele que busca conhecimento do Absoluto.

17 Destes, o sábio que está em conhecimento pleno, unido a Mim através do serviço devocional puro, é o melhor. Pois Eu sou muito querido para ele, e ele é querido para Mim.

18 Todos estes devotos são sem dúvida almas magnânimas, mas aquele que está situado em conhecimento de Mim Eu considero que em verdade mora em Mim. Ocupado em Meu serviço transcendental, ele Me alcança.

19 Depois de muitos nascimentos e mortes, aquele que está realmente em conhecimento se rende a Mim, sabendo que Eu sou a causa de todas as causas e de tudo que existe. Tal grande alma é muito rara.

20 Aqueles cujas mentes estão distorcidas por desejos materiais, rendem­ se aos semideuses e seguem as regras e regulações particulares de adoração de acordo com suas próprias naturezas.

21 Eu estou no coração de todo mundo como a Superalma. Quando uma pessoa deseja adorar aos semideuses, Eu torno firme sua fé para que ela possa consagrar-se a alguma deidade particular.

22 Dotada com tal fé, a pessoa procura favores de um semideus particular e obtém seus desejos. Mas na realidade estes benefícios são outorgados unicamente por Mim.

23 Homens de pouca inteligência adoram aos semideuses, e seus frutos são limitados e temporários. Aqueles que adoram aos semideuses vão para os planetas dos semideuses, mas Meus devotos por fim alcançam Meu planeta supremo.

24 Os homens sem inteligência, que não Me conhecem, pensam que Eu assumi esta forma e personalidade. Devido a Seu pouco conhecimento, eles não conhecem Minha natureza superior, que é imutável e suprema.

25 Eu nunca Me manifesto para os tolos e não inteligentes. Para eles Eu estou coberto por Minha potência criativa eterna (yoga-maya); e assim o mundo iludido não Me conhece, a Mim que sou não nascido e inesgotável.

26 Ó Arjuna, como a Suprema Personalidade de Deus, Eu sei de tudo que aconteceu no passado, de tudo que acontece no presente, e de todas as coisas que estão ainda por vir. Eu também conheço todas as entidades vivas; mas a Mim ninguém conhece.

27 Ó descendente de Bharata (Arjuna), ó conquistador do inimigo, todas as entidades vivas nascem na ilusão, dominadas pelas dualidades de desejo e ódio.

28 Pessoas que agiram piedosamente em vidas anteriores e nesta vida, cujas ações pecaminosas estão completamente erradicadas e que estão livres da dualidade da ilusão, ocupam-se em Meu serviço com deter­minação.

29 As pessoas inteligentes que se esforçam por liberar-se da velhice e da morte, refugiam-se em Mim em serviço devocional. Elas são realmente Brahman porque sabem tudo inteiramente sobre as atividades transcen­dentais e fruitivas.

30 Aqueles que Me conhecem como o Senhor Supremo, como o principio governante da manifestação material, que Me conhecem como o que sus­ tenta todos os semideuses e como o que sustém todos os sacrifícios, podem, com mente firme, compreender-Me e conhecer-Me mesmo no momento da morte.

Fonte: Srila Prabhupada, Bhagavad-gita Como Ele É, 1978, Primeira Edição.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/conhecimento-do-absoluto/

Caim e Abel

Shirlei Massapust

Gênesis 4:8 informa:

“Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou”. Antes ambos estavam no campo (בַּשּׂדֶה) onde Caim cultivava sua horta. Eles conversaram (אמֶר) a respeito do problema, mas não houve acordo. Seguindo a lógica da estória este lavrador certamente possuía um machado para abrir terreno, uma enxada e um arado para trabalhar o solo, uma foice para ceifar a colheita, etc. Tudo notoriamente útil para matar seu desafeto. Mas, considerando que não está escrito que Caim usou armas brancas, fica presumido que ele lutou com unhas e dentes.

Numa época em que havia várias teorias a respeito da motivação e da forma de execução do assassinato, R. ʿAzariah e outros rabinos defenderam a hipótese de que Caim observou atentamente enquanto Adão sacrificava um bezerro e, por isso, deduziu que um sacrifício humano deveria agradar mais a YHWH do que o sacrifício animal. Então perfurou a garganta de Abel. (Midrash Genesi Rabbah 22:8).[1] O Talmude ressalta que Caim não conseguiu tirar a vida até perfurar o esôfago e a traqueia (Sanhedrin 37 b).

Caim segurando um machado de lenhador. Desenhado em 1511 pelo ex-lenhador Dürer.

Num livro apócrifo grego Eva tem um sonho profético e vê o sangue de Abel escorrer na boca de Caim, que o bebia com sofreguidão, embora o irmão suplicasse para não sorvê-lo todo[2]. Lendo diretamente no grego encontramos enunciados exóticos, tipo o trecho onde Caim se transformou (γεγονὸς αὐτοῖς) enquanto brigava. Portanto optou-se por uma tradução aproximada:

2 1 Eva falou ao esposo Adão: 2 “Meu marido, esta noite sonhei ver o sangue de meu bom filho, Abel, escorrer da boca de Caim, seu irmão, que o bebia sem piedade. Ele pediu para deixar um pouco, 3 mas, ao invés de o escutar, continuou bebendo até o fim. Nem tudo ficou no estômago, pois acabou vomitando”.4 Adão respondeu a Eva: “Vamos sair e ver o que está acontecendo com eles, caso estejam brigando furiosamente”. 3 1 Ambos saíram e encontraram Abel morto pelas mãos de Caim.

John Levison consultou nove manuscritos e descobriu quatro formas textuais diferentes desta estória, sendo que a fonte material mais antiga teria sido escrita em Milão durante o século XVII:

A forma textual posterior, aqui chamada de “redação II”, apagou aquilo que não convinha aos interesses do escriba doutrinador: “The other text forms read infelicitously that the blood Cain drank he drank completely and let sit in his stomach. Text form II blunts the impact of this graphic detail. Manuscript R does so by omitting it entirely, while manuscript M abbreviates the wording”.[3]

Robert Henry Charles publicou uma versão crítica, informando que o Manuscrito D (Ambrosiana gr. C 237 Inf.) está corrompido a ponto de substituir o nome de Caim (Κάϊν) por Adiàphotos (‘Αδιάφωτον).[4] Contudo, outra fonte do século XVII confirma a tradição oral sobre mordidas: Na página 1431 do Quæstiones celeberrimæ in Genesim (1623), Mersenne menciona que “Abelem fuisse morsibus dilaceratum ad Cain”. Recentemente o teólogo Daniel Lifschitz opinou que “Caim matou seu irmão mordendo-o como uma serpente[5]”.

 Vampiro Caim em frenesi. The Book of Nod (1993).[6]

Armas com dentes ou informação oculta?

A mais enigmática entre as versões que dão uma arma branca a Caim é aquela conhecida por José Saramago onde o personagem mata Abel “a golpes de uma queixada de jumento que havia escondido antes num silvado”[7]. A cena foi esculpida em 1432, por Jan van Eyck, no altar da Catedral de Saint-Bavo, Ghent, Bélgica; encomendado pelo bispo local na intenção de educar os católicos em matéria de teologia por meio de imagens. Paralelamente, uma tímida iluminura colorida e anônima foi produzida na mesma época.

1) Detalhe da arte sacra no altar da Catedral de Saint-Bavo, Ghent, Bélgica, esculpido por Jan van Eyck (1432). 2) Iluminura anônima (séc. XV).

No quadro a óleo A Tentação de Santo Antônio (c. 1512-15), de autoria de Matthias Grünewald (1480-1528), integrante do acervo permanente do Musée d’Unterlinden, em Colmar, encontramos vários diabos espancando o idoso santo. A figura central, diabo que lhe puxa os poucos cabelos que a calvície ainda não derrubou, se prepara para acertá-lo com um maxilar de burro.[8]

A Tentação de Santo Antônio (c. 1512-15), de Matthias Grünewald.

O inconfundível objeto reaparece nas mãos de Caim em três gravuras assinadas por Lucas Van Leyden em 1520, 1524 e 1529[9]. O fato de um artista haver passado nove anos aperfeiçoando a cena da morte de Abel atingido pela estranha mandíbula, mirada na direção de seu pescoço, ao lado do altar de sacrifícios, demonstra que este tema específico era procurado e apreciado pelo público consumidor.

Conjunto de xilogravuras de Lucas Van Leyden datadas de 1520, 1524 e 1529. Todas trazem o mesmo tema: Caim matando Abel com uma mandíbula de equino.

Gravação de Mabuse (c 1527), impressos de Johann Sadeler (1576) e Jan Lievens (1640).

Lucas Van Leyden viajou pela Europa, vendendo panfletos. Em 1527 ele conheceu o pintor flamenco Mabuse (Jan Gossaert), em Middelbur, e parece tê-lo convencido a divulgar a nova versão da morte de Abel. Foi Mabuse quem teve a ideia de tampar o sexo de cada personagem com um chute de seu rival.

Na última versão de Van Leyden, aparentemente influenciada por Mabuse, só Abel chuta o sexo de Caim enquanto este tenta lhe acertar o pé no coração. Outros pintores adotaram a arma iconográfica, mas mantiveram os personagens com os pés no chão. Encontramos impressos assinados por Johann Sadeler em 1576 e Jan Lievens em 1640. É também este o tema dum rascunho de Rembrandt van Rijn (1606-1669).

Isto não parece com armas medievais tais como a Morgenstern e outras clavas com espetos que passam a impressão de serem porretes com dentes. Logo, é um padrão iconográfico onde Caim utiliza o recurso encontrado por Sansão na ocasião em que o herói foi possuído por Ruach YHWH (יהוה רוח), o espírito de deus, e matou mil homens (Juízes 15:15). Sansão e Caim ganharam טְרִיָּה לְחִי־חֲמוֺר יִּמְצָא — “uma novíssima mandíbula de equino[10]”. Mas, considerando que a melhor tradução de טְרִיָּה é “carne fresca”, por que YHWH teria a ideia estapafúrdia de usar um bife como porrete? Seria isto algum tipo de oferenda ritual?

Obviamente a mandíbula não era um porrete comum. Isto foi usado para fazer magia, pois antes de emprestar poderes para Sansão vencer sozinho uma guerra (Juízes 15:15) e fazer fluir água potável das rochas (Juízes 15:18-19), YHWH encantou o cajado de Aarão com poderes para vencer sozinho uma guerra transformando água em sangue (Êxodo 7:19), etc., e fazer fluir água potável das rochas (Êxodo 17:5). Na época do cerco de Ben-Hadade à capital de Israel a população foi obrigada a passar fome e uma cabeça de jumento chegou a valer oitenta peças de prata (II Reis 6:25).

Sobre a antiguidade do uso, possivelmente religioso, de mandíbulas de equinos, sabemos que uma delas foi encontrada junto aos restos mortais dum homem adulto, falecido na faixa etária dos 50 anos, hoje conhecido como Šamani Brno. Um fragmento de sua costela foi submetido ao teste de radiocarbono, o qual indicou a datação de 23.680 ± 200 anos RCYBP, ou uma idade provável entre 23.280 e 24.080 anos RCYBP.[11] Por isso Jill Cook estimou a idade do esqueleto e suas pertenças em 26.000 anos.[12] O túmulo Brno II estava localizado a quatro metros de profundidade na estrada Francouská, no cruzamento com a rua Předlácká, em Brno, na República Tcheca.

Nomes de poder

O nome de Caim (קין) vem de uma raiz que significa a criação dum produto artesanal. Por exemplo, a atividade do oleiro ao fazer um vaso de argila. Moisés Maimônides observou que os verbos criar (ברא) e fazer (עשו) são sinônimos (Gênese 2:4) em estreita relação com o verbo adquirir (קנה) – radical de Caim (קין) – porque YHWH se tornou adquirente do céu e da terra (Gênese 14:19 e 22). Então Caim ganhou um nome que significa “Criador” no sentido de artesão inventor, em homenagem a YHWH. Eva explicou a paródia quando o pariu: את־יהוה איש קניתי — “Eu gerei um homem de YHWH” (Gênese 4:1).

Uma das coisas a respeito das quais tu deverias conhecer e prestar atenção é o conhecimento manifesto pelo fato dos dois filhos de Adão serem chamados Caim e Abel; porque foi Caim quem matou Abel no campo. Ambos morreram apesar da trégua concedida ao agressor (Guia dos Perplexos II:30, folio 71b).[13]

YHWH nunca falou diretamente com Eva exceto na ocasião em que explicou a ela como nascem os bebês. Eva estava tão feliz que agradeceu pela punição da fecundidade sem a qual ela nunca sentiria as dores do parto, mas também nunca seria mãe (Gênese 3:16). O nome do segundo filho, Abel (הבל), significa luto. Não qualquer luto, mas as dramáticas demonstrações de pesar próprias dos orientais. Luto cheio de gritos e lagrimas, com pessoas rasgando as roupas e arrancando os cabelos.

Segundo o exemplo da narrativa bíblica, José fez luto por Jacó durante setenta dias, chorando com todo o Egito. Foi tão impressionante que deram ao lugar o nome de Abel Mesraim, ou seja, “Luto dos Egípcios” (Gênese 50:11).

Sacrifício dos primogênitos

Até hoje muitos tentaram e não conseguiram traduzir Gênese 4:7 de forma bela e elegante. O teólogo Domingos Zamagna chegou a sugerir que o problema está na corrupção do livro e não no leitor interessado em encontrar o espelho da sua ideologia. Daí a necessidade de oferecer ao leigo nada mais que a “tradução aproximada de um texto corrompido[14]”. Mesmo assim às vezes aparecem pessoas excêntricas afirmando não ter dificuldade em entender o que está escrito. Certa vez o ex seminarista Alphonse Louis Constant (1810-1875) pretendeu desvelar o segredo:

Caim foi o primeiro sacerdote do mundo. Todavia Abel exercera, antes de Caim, uma espécie de sacerdócio e fora o primeiro a derramar sangue. (…) Ele oferecia ao Senhor, diz a Bíblia, os primeiros animais de seu rebanho; Caim, pelo contrário, só oferecia frutas. Deus rejeitou as frutas e preferiu o sangue; mas ele não tornou Abel inviolável, porque o sangue dos animais é antes a expressão do que a realização do verdadeiro sacrifício. Foi então que o ambicioso Caim consagrou suas mãos no sangue de Abel; em seguida, construiu cidades e fez reis, pois se tomara sumo pontífice[15].

O contexto problematiza a exigência de YHWH de que todo filho primogênito, de sexo masculino, animal ou humano, fosse sacrificado em sua honra (Êxodo 34:19-20) ou substituído por um sacrifício expiatório (Gênese 22:13). Caim, que era lavrador, colheu frutos da terra e ofertou a YHWH, mas a comida vegetariana não despertou o interesse da divindade carnívora.

Logo depois Abel, que era pastor de ovelhas, sacrificou os filhos primogênitos do seu rebanho (Gênese 4:4). YHWH olhou para Abel e sua oferenda. Não olhou Caim e sua oferenda. Então a verdade se tornou óbvia. O irmão menor, Abel, possuía os requisitos necessários ao culto, mas Caim não tinha animais.

Caim começou a demonstrar sintomas de desespero porque ele próprio era um filho primogênito predestinado ao sacrifício. Ele tinha a obrigação de morrer ou comprar sua própria vida, mas a tentativa de resgatar a si mesmo falhou e ele já não sabia o que fazer. Na literatura paralela o agricultor recusa veementemente o suicídio e não economiza palavras para ofender YHWH, dizendo: “Eu pensava que o mundo havia sido criado para a bondade, mas vejo que as boas obras não produzem fruto algum. Deus governa o mundo usando arbitrariamente o seu poder[16]”.

Não existe justiça e nem há juízo. Não existe futuro nem vida eterna. Os bons não recebem nenhuma recompensa e para os maus não existe nenhuma punição (Midrash Aggadah 4,8)[17].

Ao contrário do personagem medieval que parece servir de válvula de escape para os incrédulos reprimidos dizerem tudo que pensam, culpando o vilão da estória, o herói bíblico nada fala e nada faz além de ficar nervoso e cabisbaixo. É neste momento que YHWH, olhando para Abel, fala pela primeira vez com Caim:

ךינפ ולפנ המלו ךל הרח המל ןיק לא הוהי רמאיו

Gênese 4:6

וב לשמת התאו ותקושת ךילאו ץבר תאטח חתפל ביטית אל םאו תאש ביטית םא אולה

Gênese 4:7

Primeiro a divindade questiona porque Caim está deprimido. Presumimos que, ao ouvir isso, o humano compreendeu outra premissa básica da antiga religião: Deus não olha nos olhos de quem vai viver porque ninguém pode continuar vivendo após ver sua face (Êxodo 33:20). YHWH não estava olhando somente para o altar repleto de carneiros assados. Deus olhava para “Abel e sua oferenda” (Gênese 4:4).

Pela antiga lei bíblica o primogênito era herdeiro universal do patriarca e os irmãos mais novos lhe deviam obediência. Caim “falou” com Abel, provavelmente tentando negociar a compra de um carneiro, mas este nada fez, notoriamente sabendo que ele herdaria tudo se o irmão morresse. Então, sem nenhum animal para sacrificar no seu lugar, Caim matou a única criatura disponível que, em tese, lhe era subordinada.

No fim de tudo Caim perdeu a memória e acordou dum estado de transe semelhante àquele que acometia Sansão quando este guerreava, possuído por YHWH, e depois não conseguia lembrar o fato de ter matado pessoas. Na versão apócrifa ele tem um acesso de vampirismo e acorda vomitando sangue.

Um texto corrompido?

Com certeza não há nada mais importante em Gênese 4 do que o conselho que YHWH deu a Caim. Seria uma lástima se Domingos Zamagna estivesse certo e o texto corrompido. Rabinos problematizaram a diferença de gêneros entre a palavra feminina chatath (תאטח) e o verbo masculino rovetz (ץבר) que a segue à semelhança de erro ortográfico[18]. Seria isto um indício de que ali termina uma frase e outra começa?

É fato que podemos traduzir tudo. Só não é possível forçar um significado politicamente correto perante as normas de conduta da nossa época. A redação presume um padrão estético onde as feridas são belas e o sangue é uma tinta sagrada.

Considere o costume de decorar a porta da tenda onde vive um primogênito com sangue pincelado com um ramo de manjerona (Origarum maru) para que YHWH não o matasse (Êxodo 12:22-23). Como Caim não tinha animais, e este era seu problema, ele teria a obrigação de usar seu próprio sangue. YHWH disse:

וב לשמת התאו ותקושת ךילאו ץבר תאטח חתפל ביטית אל םאו תאש ביטית םא אולה — Porque se [Caim] não fez uma bela ferida em si mesmo e se não embelezou a porta [pintando-a com sangue, então fará] matança expiatória. Curve-se para satisfazer tua paixão e então reine sobre si mesmo.

Talvez não seja inútil mencionar que o verbo reinar diz respeito à atividade do rei, melek (מלך), título homônimo homógrafo do interventor ou mōlek (מלך) que, de acordo com alguns historiadores, era um ser humano sacrificado no altar de YHWH.[19] Philo de Alexandria (20 a.C-50-d.C.) conheceu uma versão onde efetivamente “Caim se levantou e cometeu suicídio” (Philo. Quod det. Pol. § 14). Só que não é assim que acaba a estória que nós possuímos, baseado na compilação de Mōšeh bem’Āšēr.

A última frase dita a Caim, em Gênese 4:7, parafraseia palavras ditas a Eva, em Gênese 3:16, quando YHWH explica como acontece o coito, a gravidez, o parto e como se mantém a hierarquia duma estrutura familiar: “Ele [Adão] reinará sobre você [Eva]” (בך ימשל והוא). “Você [Caim] reinará sobre si mesmo” (וב לשמת התאו). Se Abel morresse Caim reinaria apenas sobre seus próprios filhos e descendentes. Não reinaria sobre Abel e seus descendentes, mas pelo menos continuaria vivo.

Nos discursos paralelos de YHWH, em Gênese 3:16 e 4:7, a palavra תְּשׁוּקָה com certeza descreve o sentimento de atração irresistível que resultou no doloroso parto de Eva, apaixonada pelo esposo (אישך), e, depois, na tremenda angústia do filho ansioso pela realização dum sacrifício expiatório (חַטַּאת).

A condenação de Caim ao ostracismo

Sansão era o tipo de médium que acordava desmemoriado no meio duma pilha de gente morta. Caim se fez de desmemoriado ou desentendido quando questionado por YHWH a respeito do que aconteceu com Abel.

4 9 E disse o Eterno a Caim: “Onde está Abel, teu irmão?” E disse: Não sei; acaso o guarda do meu irmão sou eu? 10 E disse: “Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a Mim desde a terra. 11 E agora maldito és tu da terra, que abriu sua boca para receber o sangue do teu irmão, da tua mão. 12 Quando lavrares, o solo não dará mais a sua força para ti; fugitivo e vagabundo serás na terra”. 13 E disse Caim ao Eterno: “É tão grande o meu delito de não se poder suportar? 14 Eis que me expulsas hoje de sobre a face da terra, e da Tua presença não poderei me ocultar. E serei fugitivo e vagabundo na terra, e acontecerá que todo o que me encontrar matar-me-á”. 15 E disse o Eterno: “Por isso, quem matar a Caim, sete vezes será vingado”. E o Eterno pôs em Caim um sinal para que não o ferisse quem quer que o encontrasse. 16 E saiu Caim da presença do Eterno e habitou na terra de Nod, ao oriente do Édem[20].

Sangue está no plural, damēy āchiykhā (אָחִיךָ רְּמֵי). Se o texto não se referir a manchas espalhadas por várias partes do chão, então este sangue é dos animais sacrificados por Abel ou de Abel e seus sacrifícios. Isto era um problema para Caim. O corpo delito provava a morte que deveria ser punida por Adão ou por qualquer outro parente colateral de sexo masculino. Abel estava longe de ser um adversário tolo e fraco. A julgar pelo poder dos nomes sobre as personalidades míticas, não seria exagero dizer que ele era uma espécie de mestre das mentiras e dissimulações[21].

Nesta cosmogonia existem fantasmas e Abel se defende intercedendo por si mesmo junto aos seus sacrifícios, certamente clamando por um vingador de sangue para matar Caim[22]. Mas YHWH percebe que precisa ajudar afastando-o da família vingativa e abençoando-o com uma marca protetora. No final Caim foi condenado ao ostracismo (ארור  אתה מן־האדמה ) na terra (אדמה) de seu pai, Adão (אדם), para expiar a culpa coletiva. Depois que a terra, isto é, a humanidade, abriu a boca para beber sangue (אשר פצתה את־פיה לקחת את־דמי)alguém devia pagar por isso[23].

“O Sacrifício de Caim”, pintado por Amico Aspertini (c.1474-1552). Adão e Eva estão exaustos e famintos, junto a prato e jarro vazios, lembrando da expulsão dos campos do Éden. Caim segura um espelho, possivelmente imaginando a si mesmo sendo sacrificado nas chamas da churrasqueira do altar.

Pelo menos uma das numerosas versões judaicas deste mito termina com final feliz. Rabinos descreveram o dia em que Adão encontrou Caim no exílio e perguntou a respeito da conversa que este teve com YHWH: “Como você foi castigado?” Caim respondeu: “Prometi arrepender-me e foi-me dada anistia”. Adão se flagelou batendo no próprio rosto e disse: “Eu não sabia que o arrependimento tem tanto poder!” (Pĕsiḳta dĕ-Raḇ Kahăna 11:18)[24]. Porém era tarde para assumir a culpa pelo furto dos frutos proibidos. A sentença de Adão já havia transitado em julgado, condenando-o a viver duma dieta de cactos comestíveis (דרדר)[25], moyashi (תצמיח), centeio (לחם) e verdura (עשב) cultivada por ele mesmo com sofreguidão (Gn. 3:18-19).

A fábula do corvo

Uma das fábulas de Rumi (1207-1273) descreve Caim em dúvida sobre o que fazer para ocultar o cadáver de Abel. Neste momento ele viu um corvo vivo carregando um corvo morto pousar no solo e abrir uma cova para lhe ensinar, pois a ave carniceira estava inspirada por deus. Depois que o corvo vivo terminou de enterrar o corvo morto, Caim imitou-o e assim aprendeu a cavar sepulturas (Mathnawí IV:1300-1310)[26].

No Corão a história continua após um dos filhos de Adão matar o outro como sacrifício expiatório:

Deus enviou um corvo que se pôs a escavar a terra para ensinar-lhe como ocultar o cadáver do irmão. Disse: “Ai de mim! Sou, acaso, incapaz de ocultar o cadáver de meu irmão, se até este corvo é capaz de fazê-lo?” Contou-se depois entre os arrependidos. (Corão 5:31).[27]

Rabbi Louis Ginzberg (1873-1953) explicou que a variante judaica desta fábula é um comentário ao Salmo 147:9 onde YHWH alimenta os filhos do corvo (עֹרֵב בְנֵי) quando os pais lhes abandonam[28]. Fora de contexto, vale lembrar que na natureza os corvos não enterram os mortos. Eles eliminam cadáveres comendo a carniça.

Na Bíblia o profeta Balaão faz um trocadilho entre Caim (קין = qyn) e ninho (קנך = qen) comparando o rei em sua cidade fortificada a um pássaro no ninho. Provavelmente isto diz respeito a uma cidade redonda e côncava, sobre uma montanha, semelhante à Tel Dan. A cidade está segura, mas Caim tem um problema. O seu reino foi reivindicado como colônia pela Assíria e ele se rendeu sem organizar nenhuma campanha militar defensiva. Então Balaão, em nome de deus, mandou uma mensagem para Caim mandando-o parar de pagar impostos e atacar sem medo: “A tua morada está segura, Caim, e o teu ninho firme sobre o rochedo. Contudo, o ninho pertence a Beor. Até quando serás cativo de Assur?” (Números 24:21-24).

Espírito de Caim. Desenho de Collin de Plancy no Dictionnaire Infernal (1863).

O medo do Rei Caim era fundamentado, pois quando Ben-Hadade declarou guerra contra Israel, a situação na capital sitiada era tão calamitosa que a população precisou recorrer ao canibalismo dos primogênitos para sobreviver (II Reis 6:27-29).

A marca de Caim

Está escrito que YHWH pôs em Caim um sinal para impedir que ele fosse ferido por qualquer pessoa que o encontrasse e prometeu que se algum vingador de sangue vingasse a morte de Abel, matando-o, então outros sete vingadores seriam enviados para vingar a morte de Caim (Gênese 4:15). Noutras palavras, deu carta branca para Enoch, Irad, Mehuyael, Methushael, Lamech e Yaval chacinarem os culpados caso Caim sofresse retaliação.

Se eu fosse YHWH jamais escreveria “assassino” na testa de alguém que, em tese, deveria ser auxiliado e escondido. Eu faria em Caim a mesma tatuagem (קעקע) ou corte (תתגדו) tradicional que servia para fazer demonstrações públicas de luto e proteger contra atividade paranormal (Deuteronômio 14:1 e Levítico 19:28). Isto calaria o clamor do sangue de Abel e confundiria seus perseguidores porque a primeira coisa que alguém pensaria ao vê-lo seria: “Caim está de luto pela morte do irmão”.

Muitas tentativas de explicar a aparência da marca de Caim resultaram em conclusões diversas. O Targum Jonathan descreve o sinal na fronte com a forma de uma das letras do nome de deus.[29] Considerando que uma superstição dos tempos bíblicos incentiva os pais a iniciar nomes de bebês com Yod (י) ou Yod e He (יה) para proteger contra o mau-olhado e atividade paranormal, notadamente o Yod (י) seria a melhor opção[30]. Caim não fez uma bela ferida em si mesmo (תאש ביטית) conforme aconselhado desde o início (Gênese 4:7), mas acabou marcado (אות) igual a certos hindus que pintam o terceiro olho com sangue ao invés de usar pó. (Gênese 4:15)

 1) Imagem duma fábula onde Lamech, cego, prepara o arco para flechar Caim, apontado por Tubal Caim. (Ilustração de Lucas Van Leyden, de 1524). 2) Caim com chifres. (Arte digital © 2009, Kuroi Tsuki e DeviantArt)

Existem outras variantes da lenda. Certa vez compararam o versículo onde YHWH pôs a marca na fronte de Caim (Gênese 4:15) com aquele onde YHWH pôs uma figura de Lichtenberg ou chifres (קרן) na fronte de Moiséis (Êxodo 34:35) e deduziram que sempre que deus perambula por aí e se agrada de alguém, ele dá esse lindo par de chifres de presente para a pessoa. Resultado: Quando Caim clamou por proteção “cresceram-lhe chifres, para amedrontar os animais[31] que pudessem atacá-lo[32]”.

Claro que nem todo mundo entendeu a analogia ou encarou a coroa de chifres como um presente benéfico. Num livro apócrifo é dito que YHWH inflige sete punições “piores que a morte” sobre Caim: 1) Crescimento de chifres constrangedores. 2) Um decreto proibindo que qualquer outra pessoa o mate ou faça amizade com ele. 3) Capacidade de escutar o uivo do vento ecoando nos vales e montanhas como um pranto fúnebre pela morte de Abel. 4)  Insônia eterna. 5) Fome voraz e insaciável. 6) Ereção persistente ou priapismo[33]. 7) Insatisfação. (Adamschriften 35:43)[34].

A informação que a cultura moderna tem sobre a associação de Caim com o mito do vampiro vem principalmente dos livros de ficção The Book of Nod (1993) de autoria de Sam Chupp e Andrew Greenbery, e da sequência autorizada Revelations of the Dark Mother (1998), escrita por Phil Brucato e Rachelle Udell.[35]

Já vi brasileiros compartilhando cópias não autorizadas disto como se fossem livros de doutrina esotérica; mas na verdade ambos foram publicados pela editora White Wolf, distribuídos no Brasil pela livraria-editora Devir, como meros suplementos do jogo de interpretação Vampire Masquerade (1991) onde Mark Rein·Hagen define o personagem bíblico como sendo o primeiro vampiro amaldiçoado com a imortalidade.

Era das hipóteses ad hoc

Alguns religiosos incapazes de se conformar com a literalidade da redação duma estória que protege um assassino mitológico sugeriram que os sete protetores de Caim na verdade seriam sete gerações a serem contadas até o nascimento daquele que executaria a pena de morte porque na sua lei divina revista e anotada não deveria existir esse negócio de prescrição, perdão judicial, anistia, etc. Caim só precisava viver mais um pouco para ter um monte de filhinhos, netinhos, etc., todos ruinzinhos, necessários para servir de exemplo de maldição hereditária e morrer no dilúvio.

Na versão de Flávio Josefo, deus bizarramente decidiu despersonalizar o crime de Caim e aplicar em Lamech a pena pela morte de Abel. O sétimo herdeiro, Lamech, descobriu que estava condenado à pena de morte ao estudar religião e profecias. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:65). Noutras versões Lamech mata o tataravô porque “Caim se arrependeu e confessou seu pecado”. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:3). Shlomo Yitzhaki (1040-1105) opinou que Caim seria castigado “somente após sete gerações”. Meir Matzliah Melamed resumiu a revisão do mito:

Conta o Midrash que sendo Lamech cego, saía a caçar com seu filho Tubal Caim, que o guiava e indicava a presença de caça. O menino confundiu Caim com algum animal e foi assim que Lamech o matou com uma flechada. Ao perceber o seu erro, feriu a si próprio e um dos golpes atingiu a cabeça de filho, matando-o também. Por isso, suas mulheres o acusavam pelo duplo assassinato e Lamech se desculpou.[36]

De acordo com o folclorista Alan Unterman, o tataraneto de Caim disparou uma flecha “após ter sido erroneamente informado de que o chifrudo Caim era um animal selvagem”.[37] Essa lenda é interessante embora tenha sido mal formulada. Gênese 5:23-24 não cita os nomes das pessoas que Lamech matou. Seria relevante nomear caso fossem o tataravô e o filho do assassino. Sobretudo, se Tubal Caim fosse o menino morto em Gênese 5:23, ele não teria crescido para exercer uma profissão de adulto em Gênese 4:22. Também não está escrito na bíblia hebraica que Lamech era cego.

Interpretações cristãs

O Novo Testamento afirma que Abel e Zacarías morreram no altar (εκζητηθησεται). Isto era um problema grave e específico. (Lucas 11:50) Jesus fala de Abel como vivendo na “fundação do mundo” (Lucas 11:50). A palavra grega para “mundo” é Kósmos (κοσμου). O termo “fundação” verte a palavra grega ka•ta•bo•lé (καταβολης) e significa literalmente “lançamento (de semente) para baixo”. Noutra parte lemos que a semente (σπερμα) plantada na terra é literalmente o DNA próprio ou impróprio perante um rígido controle de qualidade eugênica. Todos os filhos de deus (τεκνα του θεου) são incapazes de errar (αμαρτανειν). Por outro lado, Caim nasceu incapaz de praticar a justiça (δικαιοσυνην) por pertencer à linhagem opressora (εκ του πονηρου ην) e ser “filho do diabo” (τεκνα του διαβολου). (1 João 3:9-12).

Abel (Αβελ) conhecia a verdade (πιστει) e ofereceu um sacrifício (θυσιαν) melhor que o de Caim (Καιν), sendo por isso rotulado pelo adjetivo dikaious (δικαιος) o qual define a “observância de um costume” e é comumente traduzido como “piedoso” e “justo”. Desta forma ele comprou um super poder: Mesmo depois de morto ainda fala. (Hebreus 11:4) Abel sofreu uma espécie de ressurreição espiritual temporária semelhante à de Jesus, diferente da de Lázaro e do filho da viúva de Naim.

Apócrifos gnósticos cristãos

Os apócrifos gnósticos trazem variantes onde Caim já nasce com o “coração duro” – cheio de ódio por tudo e todos – enquanto Abel é um religioso compulsivo de “coração manso”. Nestas fontes Caim e Abel decidiram casar com a mesma mulher ao mesmo tempo, quando tinham respectivamente quinze e doze anos.

Caim achava que Luluva era a mulher mais bela do mundo. Abel só queria casar com a irmã mais velha porque o pai mandou. Luluva nasceu com Caim e ele acreditava que, por isso, esta era sua esposa predestinada. Quando chegou aos seus ouvidos a fofoca de que os pais prendiam casá-lo com uma garota feia e dar Luluva em casamento para Abel, ele lembrou o antigo costume israelita de dar a viúva do irmão morto como esposa ao irmão vivo e formulou a dúvida: “Por que pretendeis tomar minha irmã e uni-la em matrimônio com meu irmão? Acaso estarei morto?” (Primeiro Livro de Adão e Eva 78:12)[38]. Então aconteceu o episódio da seleção dos sacrifícios e ele teve a certeza de que havia algo errado. Tudo termina com o afável Abel esperando pacientemente enquanto Caim procura paus e pedras para espancá-lo até a morte.

Uma vez enterrado, o corpo é cuspido pela terra falante que, zombando de Caim, se recusa a receber Abel. Deus demonstra misericórdia para com Caim e amaldiçoa “o solo que bebeu o sangue de teu irmão” (Primeiro Livro de Adão e Eva 79:22)[39]. Não muito longe dali, escondido na floresta, satanás bate palmas rindo muito de tudo isso.

Os perpétuos

O Livro da Gênese menciona a data da morte de todos os personagens exceto a de Caim e seus descendentes. Para complicar mais o caso, um regente chamado Caim aparece em vários pontos da bíblia hebraica, a exemplo de Números 24:22, sempre em datas impossíveis nas quais qualquer ser humano normal já teria morrido. Outras referências são tão ambíguas quanto o discurso do azarado Jó reclamando da vida: “Por que eu não fui abortado? Por que Caim não me ajudou?” (Jó 3:12).

Será que Caim fez jus ao efeito literal da antiga bênção “ó rei, viva para sempre” (Daniel 6:6)? Se a genealogia de Seth for levada a sério, ali qualquer um vivia oitocentos anos… Certa vez o jornalista Hyam Maccoby achou algo muito estranho:

There can be little doubt that the Cain of the Bible is derived from the Cain whom the Kenites regarded as their ancestor and the founder of their tribe. (…) The truth is that the line of Seth has no real existence at all, but is a shadow or reflection of the line of Cain. For it requires little enquiry to see that the two lines of Seth and Cain are really one line, and that the line of Seth was derived from the line of Cain and not vice versa. If we examine the names in both lists, we see that there is only one list with slight variations, for the names are basically the same in both lists[40].

Comparando as listas genealógicas, Hyam percebeu que tanto Caim quanto Seth tiveram um filho chamado Enoch (חנוך)[41] que, por sua vez, teve um descendente chamado Lamech (למך). Quatro nomes foram corrompidos de forma que Irad (עירד) virou Jared (ירד), Mehuyael (מחויאל) virou Mahalalel (מהללאל), Methushael (מתושאל) virou Mathuselaḥ (מתושלח), e o próprio Caim (קין) virou Cainã (קינן) que viveu novecentos e dez anos (Gênese 5:14).

É como se alguém tivesse tentado memorizar sem sucesso todos esses nomes corrompidos e embaralhados. Dois intrusos foram importados e adaptados. Seth é o deus egípcio que matou seu irmão Osíris. Uma duplicata de Caim. Noé foi o apelido que o autor da revisão deu ao herói babilônio Utnapishtim. (Se ele não conseguia memorizar nomes nacionais, imagine se tentasse transliterar o cuneiforme Utnapishtim! Isso parece Arnold Schwarzenegger. Ninguém lembra como se escreve).

“Outra semelhança é que cada lista termina com um trio de nomes, ainda que tais nomes não sejam idênticos[42]”. A bigamia de Lamech, a repartição igualitária de bens entre o par de filhos primogênitos com os irmãos mais novos e o reconhecimento do direito de herança de uma filha foi demais para a cabeça do revisor.

O orientalista escocês Willian Robertson Smith (1846-1894) propôs uma hipótese onde a marca de Caim seria uma espécie de distintivo que levavam sobre sua pessoa os membros da tribo e que lhes servia de proteção, ao indicar que seu portador pertencia a uma comunidade que não deixaria de vingar sua morte. J.G. Frazer refutou tal hipótese argumentando que “uma marca semelhante protegia igualmente a todos os membros da tribo, fossem ou não homicidas”.[43] Entretanto, Caim ensinou algo que seu tataraneto aprendeu muito bem: Pela lei da selva, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Regras só atingem a quem não é capaz de contra-atacar represálias. Quando até os vingadores de sangue perdem não há vingança contra os sentenciados.

Lamech disse às suas mulheres:
“Ada e Sela, ouvi minha voz,
mulheres de Lamech, escutai minha palavra:
Eu matei um homem por uma ferida,
Uma criança por uma contusão.
É que Caim é vingado sete vezes,
mas Lamech, setenta e sete vezes!”[44]

Se alguém vingasse o sangue de Abel matando Caim sofreria vingança por parte do próprio deus ou dos descendentes de Caim. Devemos concluir que se alguém vingasse o sangue do homem ou do garoto morto por Lamech sofreria vingança de setenta e sete defensores do patriarca? Tudo isso parece um círculo vicioso.

Não sabemos se Lamech matou de forma dolosa, culposa ou em legítima defesa. Só porque tem um menino envolvido não significa que Lamech não corria perigo. Quem nunca viu um menor de idade assaltar um adulto ou idoso? Não é impossível que Lamech tenha matado duas pessoas porque teve filhos primogênitos com duas esposas diferentes e preferiu realizar sacrifícios expiatórios com humanos substitutos ao invés de oferecer animais ou dinheiro ao templo. Mas ele estava com tanto medo da represália que contratou setenta e sete guarda costas! É óbvio que os mortos pertenciam a clãs ou quadrilhas perigosas. É igualmente óbvio que Lamech tinha recursos para dispor de tantos protetores. Riqueza atrai cobiça.

O filho primogênito de Caim foi Enoch (חנוך). Caim edificou uma cidade que recebeu o nome deste filho (Gênese 4:17). Mais tarde, em Judá, outra cidade foi chamada Caim em honra ao mitológico herói nacional (Jos 15:1,48,57). M. Gaster traduziu isto dum manuscrito judaico do século XIV, do acervo da Bodleian Library:

Caim fecundou Qalmana, sua esposa, e Enosh nasceu. Ele construiu uma cidade e a chamou de Enoch, em homenagem ao seu filho. Ele costumava raptar e alojar pessoas ali. Ele construiu aquela cidade cercando-a com muralhas e trincheiras. Foi o primeiro a fortificar uma cidade deste jeito por medo de seus inimigos. Enoch foi a primeira entre todas as cidades. (…) Quando Caim terminou de construir a cidade de Enoch ela foi habitada por seus descendentes, que existiam no dobro do número daqueles que saíram do Egito. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:1-3)[45].

O filho primogênito de Enoch foi Irad (עירד), o de Irad foi Mehuyael (מחויאל), o de Mehuyael foi Methushael (מתושאל) e o de Methushael foi o polêmico Lamech (למך). Lamech tomou para si duas mulheres: ‘Adah (עדה) e Ṣillah (צלה). Ada teve dois filhos chamados Yaval (יבל) e Yuval (יובל). O primogênito foi pai dos que viviam em tendas e tinham propriedades rurais naquela região, como era costume entre os criadores de rebanhos. O outro foi pai de todos os habitantes da cidade que tocavam musica usando um antigo instrumento de corda chamado Kinor (כנור) juntamente com os complexos instrumentos de sopro (עוגב) que antecederam o órgão hidráulico.

Zilah teve uma filha, Naamah (נעמה), que os comentários bíblicos afirmam ter sido uma excelente cantora. Ela devia cantar na banda da família da mesma forma que Michael Jackson iniciou a carreira cantando na banda Jackson Five. Mesmo assim sua ocupação principal era a tecelagem. Naamah inventou vários instrumentos usados para tecer e costurar seda, lã e outros tecidos. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).[46]

O filho de Zilah foi Tubal Caim (תובל־קין), que trabalhava amolando as lâminas de cobre e ferro fabricadas por seus conterrâneos. (Gênese 4:17-22) Segundo Rashi, “Lotêsh Col Chorêsh” refere-se ao artesão que afia e lustra artefatos de cobre e ferro, um tipo de serralheiro e polidor dos nossos dias. O açacalador realiza ambas as atividades[47].

Desde então Caim passou a ser uma espécie de prenome ou sobrenome de alguns descendentes do pai hipônimo. O sogro de Moisés, Héber Caim, filho de Hobabe Caim, pertencia a esta família (Juízes 4:11). Hervé Masson compilou uma lenda de influência islâmica de data incerta que inclui Hiram Abi, o construtor do templo de Jerusalém, entre os descendentes de Tubal Caim[48]. Collin de Plancy afirma que ainda existiam cainitas no século II, mas estes procuravam fazer tudo que era errado, eram falsos, mal interpretados ou mal compreendidos[49].

Evolução dos trabalhos

Após o imenso trabalho de construir a primeira cidade, Caim se tornou rei. A julgar pelo cargo ostentado expressamente por Héber Caim, o título da nobreza cainita não era o dum Faraó ou Cezar qualquer, mas um impressionante kohen (כהן)[50] que reúne os poderes legislativo, executivo, judiciário e eclesiástico.

Em toda a Bíblia só mais um personagem foi kohen, além dos cainitas, e este era Melchizedek (Gênese 14:18) cujo conhecimento e poderio teria sido invejado por Jesus (Hebreus 7:17). A versão de Flávio Josefo sobre como Caim teria iniciado a vida urbana é diferente da que lemos no Gênese 4:16. Sendo o autor um apologista romano, a sua revisão do personagem segue o exemplo dos saques de Roma a outros povos:

(60) Após viajar por muitas terras, Caim, com sua esposa, construiu uma cidade chamada Nod. Lá ele fez sua morada e teve filhos. Consequentemente ele abandonou a penitência e aumentou sua maldade, porque só pensava em buscar tudo que fosse útil aos prazeres da carne – mesmo que implicasse no prejuízo de seus vizinhos. – (61) Ele aumentou os bens de família do seu clã adquirindo muitas riquezas por meio de rapina e violência. Tornou-se um grande líder de homens que seguiam rumos impiedosos ao exercer sua habilidade de obter prazeres e espólio por meio de assaltos. Também introduziu uma mudança na vida simples dos homens que viveram antes dele, pois inventou o cálculo de pesos e medidas. Considerando que todos viviam na inocência e generosidade enquanto desconheciam tais artes, ele mudou o mundo introduzindo os valores econômicos. (62) Primeiramente ele demarcou terras e fixou fronteiras. Então construiu uma cidade e fortificou com muralhas, compelindo sua família a ir junto com ele para lá. Chamou aquela cidade de Enoch em honra ao filho mais velho. (Antigudade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:60-62)[51].

Enquanto a bíblia hebraica informa apenas que Tubal Caim trabalhava polindo e amolando lâminas de ferro e cobre, produzidas na cidade, Flávio Josefo sugeriu que este personagem inventou a arte de produzir bronze. (Antiguidade Judaica. I, 2, 2:64)

Outros continuaram aumentando as habilidades de Tubal, alegando que ele descobriu a arte de juntar chumbo e ferro para temperar o ferro e fazer lâminas mais afiadas. Ele também inventou a pinça, o martelo, o machado e outros instrumentos de ferro. No fim Tubal já sabia trabalhar com estanho, prata e ouro. Ele forjava utensílios de guerra e foi artífice em todos os ramos da indústria siderúrgica. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).

Tal como os gregos, romanos e outros povos do mundo antigo, os descendentes de Caim costumariam guerrear em busca de espólio, escravos e belas mulheres:

Ainda no tempo de vida de Adão, os descendentes de Caim se tornaram cada vez mais impiedosos. Morriam continuamente, um após o outro, mas o sucessor era sempre mais impiedoso que o antecessor. Eram insuportáveis na guerra e destemidos nos assaltos. Se algum deles era lento para matar pessoas, ainda era ousado em seu comportamento libertino, agindo injustamente e causando lesões corporais por lucro. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 2:66)[52].

Tubal Caim usava produtos feitos por ele mesmo. “Sua força superava a de todos os homens. Ele era famoso pelo domínio das técnicas de artes bélicas, usadas na busca de tudo que favorecia os prazeres corporais”. (Antiguidade Judaica. I, 2, 2:64). Foi graças à descoberta da metalurgia ensinada por Tubal que os homens começaram a fazer estátuas para o culto religioso (Crônicas de Jeraḥmeel 24:8).[53]

Juntamente com seu poderoso clã, ao longo do tempo, o rei Caim construiu ou reformou mais seis cidades: Mauli, Leeth, Teze, Iesca, Celeth e Tebbath. Nesta época Caim e sua esposa Themech tiveram mais três filhos, Olad, Lizaph e Fosal, e duas filhas, Citha e Maac.[54] Diz-se que ele “foi progenitor de muitos povos”.[55]

Nos dias de Enoch os homens começaram a ser designados por títulos de juízes e príncipes, foram deificados e erigiram templos em sua homenagem. A prosperidade do reino de Caim durou até a conquista da capital cainita pelo Rei Reu, quando toda a classe governante foi deposta. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:9).[56]

Em tempos de paz os cainitas continuavam trabalhando em busca de ascensão social. Yaval inventou trancas de porta em forma de χ para evitar a entrada de ladrões nas casas, fez cercas e estábulos para separar o rebanho bovino do ovino, e também dos bois castrados. (Crônicas de Jeraḥmeel 24:5). Depois de descobrir a ciência da música, Yuval escreveu-a sobre duas estelas[57], uma de mármore branco e outra de barro cozido, porque se a erosão destruísse a mais frágil ainda restaria uma cópia para transmitir seu conhecimento à posteridade (Crônicas de Jeraḥmeel 24:6-7).[58]

Caim rumando para construir a primeira cidade. Gravura de F. Cormon.

Conclusão

Caim é um personagem mitológico e literário que, tal como inúmeros outros, existe no mundo das ideias desde épocas imemoriais. A condenação de Caim ao ostracismo se assemelha parcialmente ao rito grego de purificação do ágos.

Explica-se: Todo homicida é amaldiçoado (enagés) por uma condição peculiar (ágos) capaz de contaminar outras pessoas ao seu redor. A comunidade da época arcaica sabia-se obrigada a “expulsar” o ágos e com ele o homicida que buscaria no exterior um local, um senhor protetor que aceitasse executar a sua purificação.

Até aí, o homicida não poderia ser recebido em casa, nem partilhar as refeições. O exemplo mítico é o matricida Orestes que fugiu para o estrangeiro. Locais diferentes com os seus rituais locais são associados à sua purificação: Em Tréizen, defronte do santuário de Apolo, havia uma “cabana de Orestes” que se dizia ter sido construída para não aceitar o homicida numa casa normal (Pausânias, 2, 31,8).

Um grupo de sacerdotes encontrava-se ali regularmente para uma refeição sacra[59]. Mas nem todos estavam felizes com isso. Por exemplo, Heráclito de Éfeso criticou a falta de lógica ou paradoxo do ritual:

Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando em lama, em lama se lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindo assim. E também a estas estátuas eles dirigem suas preces, como alguém que falasse a casas, de nada sabendo o que são deuses e heróis (Heráclito, B 5).[60]

Quem pisa em lama não fica limpo tomando banho com mais lama. Por que a primeira morte haveria de ser expirada por outra(s) morte(s)? Talvez o objetivo não fosse purificar o amaldiçoado, mas fazê-lo passar por um rito de passagem. O homicida coloca a si próprio fora da comunidade. Sua reintegração a um nível diferente é, portanto, uma iniciação. Assim, a purificação de Hércules, antes da consagração em Elêusis, e a purificação de Orestes parecem ter paralelos estruturais.

De acordo com Walter Burket, “oferecer às potências da vingança que perseguem o homicida um sacrifício sucedâneo, parece ser uma ideia natural”. O essencial, porém, parece ser o fato de o indivíduo maculado pelo sangue entrar de novo em contacto com o sangue: Trata-se de uma repetição demonstrativa do derramamento de sangue durante a qual a sua consequência, a mácula visível, é eliminada de modo igualmente demonstrativo. Assim, o acontecimento não é recalcado, mas sim superado.

Comparável a este é o costume primitivo de o homicida beber o sangue da sua vítima e o expelir logo de seguida: Ele tem de aceitar o fato pelo contacto íntimo com o mesmo e simultaneamente livrar-se dele de modo efetivo.[61]

Noutras ocasiões o sangue é derramado com objetivo de purificação. Isto é comprovado, de modo mais detalhado, na purificação do local da assembleia popular e do teatro em Atenas: No início da reunião, funcionários especiais, peristíarchoi, transportam leitões ao redor do local, lhes cortam a garganta, polvilham os assentos com sangue, lhes cortam os testículos e deitam-nos fora.

Os mantineus purificam todo o seu território transportando animais sacrificados (sfágia) ao longo das fronteiras e aí os executando. Walter Burket sugeriu a existência de ritos paralelos na tradição do Velho Testamento e dos Persas.

A crueldade deliberada faz parte do “robustecimento” para a peleja. Contava-se então que quem recusasse o serviço militar era levado como vítima de sacrifício; uma forma particular da preparação da batalha pela sfágia. Isto também é um rito de passagem. Por isso, tanto a expiação do homicídio como a iniciação à guerra podem ser igualmente denominadas “purificações”.[62]

(57) God convicted Cain, as having been the murderer of his brother; and said, “I wonder at thee, that thou knowest not what is become of a man whom thou thyself has destroyed”. (58) God therefore did not inflict the punishment [of death] upon him, on account of his offering sacrifice, and thereby making supplication to him not to be extreme in his wrath to him; but he made him accursed, and thereatened his posterity in the seventh generation. He also cast him, together with his wife, out of that land. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 1:57-58)[63].

Com o passar dos séculos o mito de Caim foi mudando e ganhando variantes. A influência helênica logrou transformar herói em vilão (Sabedoria 10:1-4). Existem várias versões da morte de Caim. A mais surreal é aquela em que acontece um abalo sísmico no momento em que ele tenta enterrar Abel num terreno lamacento, escorrega e afunda na cova como alguém que pisa em areia movediça, enquanto o cadáver de Abel torna a subir e fica boiando até ser descoberto.

Dizem que o corpo de Abel permaneceu incorrupto, em perfeito estado de conservação, durante setecentos e oitenta e oito anos. Um cão ficou do seu lado todo este tempo, espantando os corvos. Depois Abel foi enterrado[64]. O Testamento dos Vinte Patriarcas diz que Caim morreu no dilúvio (Benjamin 7:4) junto com todos os cainitas, a despeito do fato de Balaão haver falado a seu clã em data posterior (Números 24:22).

Até hoje o personagem continua a morrer e ser ressuscitado pela arte. Não existe folclore certo ou errado. Algumas estórias vieram antes das outras e isto é tudo. Caim tem múltiplas personalidades. Viverá para sempre no mundo das ideias desde que nós, os vivos, lembremos dele por toda a eternidade.

Na condição de personagem fictício, o mítico Caim pode virar vampiro, sem dúvida: “A tradição sustenta que Caim, o assassino bíblico de seu irmão Abel, é o senhor de toda a Família. Há muita controvérsia a este respeito dentro da comunidade dos vampiros, posto que não há nenhum membro que possa garantir com absoluta certeza já haver encontrado Caim. Certamente, aqueles de Segunda Geração saberiam, mas estes já não dizem nada”. (Mark Rein-Hagen. Vampiro: A Máscara)[65].

Notas:

[1] MIDRASH RABBAH: GENESIS. Trad. Rabbi Freedman & Maurice Simon. London, Soncino Press, 1961, Vol I, p 187-188.

[2] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trd. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 29.

[3] LEVISON, john R. Texts in Transition: The Greek Life of Adam and Eve. Georgia, Society of Biblical LKiterature, 2000, p 26.

[4] 2. 1 Εὔα τῷ κυρίῳ αὐτῆς Ἀδάμ· 2 κύριέ μου, ἴδον ἐγὼ κατ᾽ ὄναρ τῇ νυκτὶ ταύτῃ τὸ αἷμα τοῦ υἱοῦ μου Ἀμιλαβὲς τοῦ ἐπιλεγομένου Ἄβελ βαλλόμενον εἰς τὸ στόμα Κάϊν τοῦ ἀδελφοῦ αὐτοῦ, καὶ ἔπιεν αὐτὸ ἀνελεημόνως. παρεκάλει δὲ αὐτὸν συγχωρῆσαι αὐτῷ ὀλίγον ἐξ αὐτοῦ, 3 αὐτὸς δὲ οὐκ ἤκουσεν αὐτοῦ, ἀλλὰ ὅλον κατέπιεν αὐτό· καὶ οὐκ ἔμεινεν ἐπὶ τὴν κοιλίαν αὐτοῦ, ἀλλ᾽ ἐξῆλθεν ἐκ τοῦ στόματος αὐτοῦ. 4 εἶπεν δὲ Ἀδὰμ τῇ Εὔᾳ· ἀναστάντες πορευθῶμεν καὶ ἴδωμεν τί ἐστιν τὸ γεγονὸς αὐτοῖς,  μή ποτε πολεμεῖ ὁ ἐχθρός τι πρὸς αὐτούς. 3 1 Πορευθέντες δὲ ἀμφότεροι εὗρον πεφονευμένον τὸν Ἄβελ ἀπὸ χειρὸς Κάϊν τοῦ ἀδελφοῦ αὐτοῦ. (CHARLES, Robert Henry. The apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament in English. Oxford, 1913, Vol.II, σελ. 138).

[5] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trad. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 43.

[6] CHUPP, San & GREENBERG, Andrew. The Book of Nod. Georgia, White Wolf, 1993, p 37.

[7] SARAMAGO, José. Caim. São Paulo, Companhia das Letras, 2009, p 34.

[8] The Temptation of Saint Anthony, ca. 1512-15. Em: Artsy. Acessado em 25/02/2017 as 19h13. URL: <https://www.artsy.net/artwork/matthias-grunewald-the-temptation-of-saint-anthony>

[9] Tais gravuras se encontram respectivamente nos acervos do Rijksmuseum, em Amsterdam, do Metropolitan Museum of Art, de New York, e na National Gallery of art, em Washington D.C. Lucas Van Leyden também recorreu à tradição oral a respeito da morte de Caim antes de pintá-lo, em 1524, sob a mira imprecisa do arco de Lamech (Referência M28417 do catálogo do Museum of Fine Arts, Boston). Em 1529 ele completou a primeira seqüência onde Adão e Eva encontram o cadáver de Abel.

[10] No hebraico bíblico não existia termo específico para diferenciar o cavalo (Equus caballus) ou jumento (Equus asinus) de seus filhos híbridos. Então חֲמוֺר tanto pode ser um jumento como um hibrido destas ou doutras espécies. Certa vez se tentou proibir a criação de eqüinos (Dt 17.16) e o sacrifício ritual de eqüinos (2 Rs 23:11), mas a população continuou usando estes animais para montaria e trabalhos no campo (Isaías 28:28, Jó 39:19-25).

[11] PETTITT, Paul B & TRINKAUS, Erik. Direct Radiocarbon Dating of the Brno 2 Gravettian Human Remains. Em:  Anthropologie XXXVIII/2. Brno, Anthropos institute (Moravian museum), 2000, p 149-150. URL: <http://puvodni.mzm.cz/Anthropologie/article.php?ID=1603>.

[12] COOK, Jill. Ice Age Art: The arrival of the modern mind. London, The British Museum Press, 2013, p 99-102.

[13] MAIMÔNIDES, Moisés. The Guide of The Perplexed: Vol II. Trd. Shlomo Pines. London, University of Chicago, 1963, p 357.

[14] ZAMAGNA, Domingos. Gênesis. Em: BÍBLIA DE JERUSALÉMA. São Paulo, Paulus, 1995, p 36, nota t.

[15] LEVI, Éliphas. A Ciência dos Espíritos. Trd. Setsuko Ono. SP, Pensamento, 1997, p 109.

[16] GINZBERG. The Tem Generations, notas 15 e 16. Em: LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. São Paulo, Paulinas, 1998, p 35.

[17] LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. SP, Paulinas, 1998, p 35.

[18] Midrash Genesi Rabbah 22,6 e Tifereth Tzion a Midrash Genesi Rabbah 22,6. Em: LIFESCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. SP, Paulinas, 1998, p 35.

[19] STAVRAKOPOULOU, Francesca. King Manasseh and Child Sacrifice: Biblical distortions of historical realities. New York, Walter de Gruyter, 2004, p 310-311.

[20] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 10-11.

[21] A palavra que originou o nome de Abel aparece noutras partes da bíblia hebraica agregada à ruína (Isaías 49:4), falsidade (Salmo 31:7), frustração (Eclesiastes 4:4), aflição (Eclesiastes 4:8), decepção (Eclesiastes 4:16) e sofisma (Eclesiastes 6, 11). Hebēl (הבל) está sempre em “má companhia”. Jeremias, os Salmos e principalmente o Eclesiastes, como também Jó e Isaías, dão-nos o pior dos retratos de seu significado.

[22] A palavra hebraica go∙’él, que tem sido aplicada ao vingador de sangue, é um particípio de ga∙’ál, que significa, “reivindicar” ou “recuperar”. O termo aplicava-se ao parente masculino mais próximo, que tinha a obrigação de vingar o sangue daquele que fora morto. (Números 35:19,  Gênese 9:5 e Números 35:19-21, 31).

[23] Gênese 4:11 diz, para Caim, que “a terra abriu a boca para receber os sangues do irmão, das suas mãos” (מידך אחיך את־דמי לקחת את־פיה פצתה אשר אדמה). Isto é uma óbvia metáfora, pois אדמה é a forma feminina de אדם. A terra representa os outros familiares de Abel.

[24] BRAUDE, Willian G. Pĕsiḳta dĕ-Raḇ Kahăna. Philadelphia, The Jewish Publication Societh, 1975, p 499.

[25] Hoje chamado de sabra (צבר), o cacto Opuntia fícus-indica é um símbolo de Israel.

[26] NICHOLSON, Reynold A. The Mathnawí of Jalálu’ddin Rúmí: Translation of Books III and IV. Great Britain, Gibb Memorial Trust, 1990, p 344.

[27] ALCORÃO SAGRADO. Trd. Samir El Hayek. São Paulo, Cetro de Divulgação do Islam para América Latina, 1989, p 83.

[28] Na variante judaica compilada no Pirké do Rabbi Eliezer 21:5 (séc. XIII), foi Adão quem aprendeu com os corvos a sepultar Abel. (LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trd. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 44). Collin de Plancy parece ter interpretado mal essas lendas ao afirmar que rabinos ensinam que Caim viu um corvo matar outro corvo esmagando entre duas pedras: “Les rabbins disent que, ne sachant comment s’y prende pour tuer son frère Abel, Caïn vit venir à lui le diable, qui lui donna une leçon de meurire em mettant un oiseau sur une pierre et en lui écrasant la tête avec une autre pierre”. (PLANCY, J. Collin. Dictionnaire Infernal. Paris, Société de Saint-Victor & Sagnier et Bray, 1853, p 109).

[29] LIFSCHITZ, Daniel. Caim e Abel: A Hagadá sobre Gênesis 4 e 5. Trad. Bertilo Brod. São Paulo, Paulinas, 1998, p 55.

[30] Outra variante de influência cristã carece de lógica: “Um velho midrash descreve a marca de Caim como uma letra tatuada no seu braço. A proposta de identificação com a letra hebraica ṭēth, em textos medievais, talvez seja inspirada por Ezequiel 9:4-6 onde deus raspa uma marca nas sobrancelhas de alguns justos, em Jerusalém, que serão salvos. Caim não foi julgado digno deste emblema. Contudo o hieróglifo do tav, última letra do alfabeto fenício e do proto-hebraico, era uma cruz (U); e disto derivou a letra grega tau (Θ) que, de acordo com o Lis Consonantium, de Lucian de Samosata, inspirou a ideia da crucificação. Desde que o tav fora reservado para identificar os justos, o midrash substituiu a marca de Caim pela letra mais parecida com o tav tanto no som quanto na forma escrita; chamada ṭēth”. (GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 96-97).

[31] Este comentário é relacionado à versão de Flávio Josefo que, apesar do contexto similar, não menciona que a marca de Caim eram chifres: “Ele estava com medo de ser atacado por animais selvagens enquanto perambulava pela floresta. Deus o tranquilizou para que não tivesse preocupações tão funestas e conseguisse andar pelo mundo sem temer emboscadas de animais selvagens”. (Antiguidade Judaica. Livro I, capítulo 2, 1:59. Em: WHISTON, Willian. The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31).

[32] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trad. Paulo Geiger. RJ, Jorge Zahar, 1992, p 54-55.

[33] Literalmente “que o endurece feito folhas de álamo”, planta afrodisíaca que, segundo a superstição, assegurava a reprodução dos animais (Gênese 30:37-38).

[34] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 93.

[35]Este material afasta a ideia de deus, pondo na boca de Adão a ordem de ostracismo. Na crônica suplementar Caim não se transforma no momento pré-estabelecido pelo editor. Ele é desperto pela magia de Lilith que oferece sangue numa tigela. Neste ponto existe um erro aparente na grafia da palavra “magick” com “k”, que muito provavelmente é uma mensagem subliminar relativa aos ritos de fertilidade de Aleister Crowley. (CHUPP, San & GREENBERG, Andrew. The Book of Nod. Georgia, White Wolf, 1993, p 28).

[36] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 10, nota 15 e p 12, nota 23.

[37] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Trd. Paulo Geiger. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992, p 54-55.

[38] TRICCA, Maria Helena de Oliveira. Apócrifos II: Os proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 126-127.

[39] TRICCA, Maria Helena de Oliveira. Apócrifos II: Os proscritos da Bíblia. São Paulo, Mercuryo, 1995, p 131.

[40] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 17-18.

[41] A segunda coluna teria sido truncada quando o nome de Enoch (חנוך), filho de Cain, foi corrompido para Enosh (אנוש), filho de Seth, e depois corrigido de volta para Enoch (חנוך), tataraneto de Seth, donde vem o defeito inicial do processo de interpolação. A seguir praticamente todo o resto foi truncado.

[42] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 18.

[43] FRAZER, Sir James George. El Folklore em el Antiguo Testamento. Trad. Geraldo Novás. Madrid, Fondo de Cultura Económica, 1993, p 50.

[44] ZAMAGNA, Domingos. Gênesis. Em: A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo, Paulus, 1995, p 36.

[45] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Traslation Fund, 1899, p 50.

[46] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[47] MELAMED, Meir Matzliah. Tora – A Lei de Moisés. São Paulo, Sêfer, 2001, p 11-12, nota 22.

[48] MASSON, Hervé. Dictionnaire Initiatique (1970). Em: COUSTÉ, Alberto. Biografia do Diabo. Trad. Luca Albuquerque. Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1997, p 161.

[49] Ele escreveu: “Il y a eu, dans le deuxième siècle, une secte d’hommes effroyables qui glorifiaient le crime et qu’on a appelés caïnites. Ces misérables avaient une grande vénération pour Caïn”. (PLANCY, J. Collin. Dictionnaire Infernal. Paris, Société de Saint-Victor & Sagnier et Bray, 1853, p 109).

[50] MACCOBY, Hyam. The Sacred Executioner: Human sacrifice and the legacy of guilt. New York, Thames and Hudson, 1982, p 14 e 16.

[51] WHISTON, Willian (trad. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[52] WHISTON, Willian (trad. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[53] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[54] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 94.

[55] ROTH, Cecil. Enciclopédia Judaica A-D. Rio de Janeiro, Tradição, 1959, p 268, verbete CAIM.

[56] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[57] Na versão de Flávio Josefo foi Seth e seus descendentes quem escreveu sobre ciências variadas nestas estelas a fim de evitar que o conhecimento fosse perdido (Antiguidade Judaica, Livro I, capítulo 2, 2:70-71).

[58] THE CHRONICLES OF JERAḤMEEL. Trad. M. Gaster, Ph.D. London, Oriental Translation Fund, 1899, p 51.

[59] Desde Ésquilo se imaginava que o próprio Apolo purificou Orestes em Delfos com o sacrifício de um porco. Pinturas sobre vasos fornecem uma ideia do procedimento, análogo à purificação das Preitides: O porco é segurado sobre a cabeça de quem vai ser purificado, o sangue tem de escorrer diretamente sobre a cabeça e pelas mãos. Naturalmente, o sangue é depois lavado e a pureza de novo adquirida torna-se então visível. (BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 173-174).

[60] ARISTÓCRITO, Teosofia, 68; Orígenes, Contra Celso, VII, 62. Em: OS PRÉ-SOCRÁTICOS. São Paulo, Abril Cultural, 1978, p 79-80.

[61] BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 174.

[62] BURKET, Walter. Religião Grega na Época Clássica e Arcaica. Trad. M. J. Simões Loureiro. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1977, p 174-175.

[63] WHISTON, Willian (trd. e org.) The Works of Josephus. United States of America, Hendrickson, 1987, p 31.

[64] GRAVES, Robert & PATAI, Raphael. Hebrew Myths. United States of America, Doubleday, 1963, p 93.

[65] REIN●HAGEN, Mark. Vampiro: A Máscara. Trad. Sylvio Gonçalves. São Paulo, Devir, 1994, p 52.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/caim-e-abel/

Mapa Astral de Jerry Lee Lewis

Não tem como deixar passar o mapa de Jerry “the Killer” Lee Lewis.

Nascido em Ferriday, Louisiana, Jerry Lee Lewis demonstrou talento natural para o piano desde cedo. Apesar da pobreza, seus pais conseguiram um empréstimo para comprar um piano hipotecando a própria casa, e com um ano Jerry já desenvolvera seu próprio estilo de tocar. Assim como Elvis Presley, ele cresceu cantando música gospel nas igrejas pentecostais sulistas. Em 1950, ele entrou para o Southwestern Bible Institute em Texas, mas foi expulso por má-conduta (como por exemplo tocar versões rock and roll dos cânticos da igreja).

Deixando a música religiosa para trás, ele tornou-se parte do recém-surgido movimento rock and roll, lançando sua primeira gravação em 1954.Lewis desenvolveu um som misto de rhythm and blues, boogie-woogie, gospel e country. Dois anos depois, no estúdio da Sun Records em Memphis, Tennessee, o produtor e engenheiro-de-som Jack Clement gravou com Lewis pelo selo enquanto seu dono, Sam Phillips, viajava para a Flórida. Como consequência, Lewis juntou-se a Elvis Presley, Roy Orbison, Carl Perkins e Johnny Cash na lista de astros que começaram sua carreira no Sun Studios na mesma época.

Mapa Astral

O Mapa de Jerry Lee possui Sol em Libra, Lua em Libra-escorpião e Mercúrio em Escorpião-Libra (ambos praticamente na faixa de 50/50; Ascendente em Aquário, Vênus em Virgem; Marte em Sagitário; Júpiter em Escorpião; Saturno em Peixes e Caput Draconis em Capricórnio. Seu Planeta mais forte é Júpiter (5 Aspectações muito fortes).

Autodidata, a força do Mapa de Jerry lee está em saber lidar com códigos e símbolos, um impulso agressivo e expansivo para observar o mundo à sua volta, organizar e compor regras. Sol em Libra na Casa 8 indica a facilidade em entender o outro e utilizar esta capacidade em níveis psicológicos mais profundos (Casa 8); Tanto sua Lua quanto Mercúrio estão na combinação chamada de “Cavaleiro de Taças” (que reúne as habilidades escorpianas e librianas, intensificando ainda mais esta energia de observar os outros ao seu redor e aprofundar estas relações, embora Lewis infelizmente tenha trabalhado nas oitavas baixas desta combinação). Marte em Sagitário indica uma pessoa com muito pouca paciência, talvez arrogante, impetuosa e segura de si (é uma combinação encontrada por vezes em religiosos extremistas, professores donos da verdade e pessoas com fortes crenças pessoais). Júpiter em Escorpião potencializa este magnetismo pessoal e o Ascendente em Aquário conduz esta tendência para quebrar barreiras, tabus e paradigmas.

A Música de Jerry Lee Lewis (e sua vida extremamente conturbada) mostra muito desta combinação entre Marte e Júpiter no ímpeto de chocar as pessoas ao redor com suas atitudes, seja através da música, seja através da quebra de tabus.

Vênus em Virgem geralmente indica pessoas perfeccionistas. Um mapa como o dele poderia muito bem pertencer a algum matemático, filósofo, psicólogo ou outra pessoa que lidasse com códigos e/ou pessoas. O Espírito encarnado naquele tempo-espaço seguia a linha dos músicos e utilizou esta potencialidade dentro da música.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-jerry-lee-lewis

Do Universo e Tudo Mais

Apareceu pela primeira vez no mar há quase quatro bilhões de anos na forma de vida de uma célula única. Em uma explosão de vida ao longo de milhões de anos, os primeiros organismos multicelulares da natureza começaram a se multiplicar.

E então pararam.

440 milhões de anos atrás uma grande extinção em massa matou quase todas as espécies no planeta, deixando os vastos oceanos mortos e vazios.

Vagarosamente as plantas começaram a evoluir. Então os insetos. Apenas para desaparecerem na segunda extinção em massa da Terra. O ciclo repetiu-se inúmeras vezes. Répteis emergindo do oceano, apenas para serem extintos.

Então os dinossauros lutando pela vida, juntamente com os primeiros pássaros, peixes e plantas desabrochando. Sua dizimação: a quarta e quinta grande extinção da Terra.

Há apenas 100.000 anos atrás o homo sapiens apareceu. O homem. Das pinturas nas cavernas à Bíblia, de Colombo a Apollo 11, temos sido uma força incansável sobre a Terra e além, catalogando o mundo natural a medida que ele se revela para nós. Crescendo para uma população mundial de mais de cinco bilhões de pessoas, todos decendentes daquela célula única original. Aquela primeira centelha de vida.

Mas apesar de todo nosso conhecimento, o que ninguém pode dizer ao certo é o que ou quem acendeu aquela centelha original. Existe um plano, um propósito, ou uma razão para a nossa existência?

Nós cairemos, como aquele antes de nós, no esquecimento? Na sexta extinção que os cientistas já nos alertam que já está em andamento? Ou o mistério será revelado através de um sinal? Um símbolo? Uma revelação?

Começou com um ato de extrema violência. Um big-bang expandindo-se constantemente. Um cosmo nasceu de matéria e gás. Matéria e gás. Dez bilhões de anos atrás.

De quem foi a idéia? Quem teve a audácia para tal invenção? E a razão? Fazíamos parte daquele plano, dez bilhões de anos atrás? Nascemos apenas para morrer?

Para crescer, multiplicar e encher a Terra para abrir caminho para as nossas gerações? Se há um início, deve haver um fim? Queimamos como fogueiras em nossa época, somente para sermos extintos. Para render-nos à eterna regeneração dos elementos.

Tudo isso acabará um dia? A vida não se transformará em vida? A Terra se tornará árida como as estrelas no céu? Como o cosmo? Será que a mão que acendeu a chama deixará que se apague? Nós também nos tornaremos extintos? Ou se o fogo que vive dentro de nós deve continuar, quem decide? Quem cuida das chamas? Ele pode reanimar a centelha até mesmo quando ela estiver fria e enfraquecida”?

Hoje temos recursos nunca sonhados pelas civilizações antigas. Podemos ver desde grandes estrelas e galáxias distantes até células e átomos. Nossa visão se ampliou de maneira exponencial em poucas décadas do século passado e nosso tempo corre cada vez mais rápido, com novas tecnologias surgindo a cada hora. Mas onde ficou a fé?

A fé não é apenas ir à missa ou no culto sempre num certo dia, isso é um ritual, a fé é acreditar, mesmo sem provas. O que grandes místicos do passado podiam apenas teorizar, acreditar, ter fé, hoje podemos comprovar, ter certeza que o comportamento de planetas e galáxias se assemelha ao comportamento de células e átomos, “assim como é em cima, também é embaixo”. Hoje vivemos na era da ciência, da razão, podemos ver muito além do que nossos olhos poderiam, captar sons e outras vibrações que nosso corpo não teria capacidade de assimilar, hoje sabemos. Mas ao mesmo tempo perdemos parte da capacidade de imaginar e de acreditar.

Nessa Era da Razão, a maior parte das “descobertas” já haviam sido previstas por místicos do passado, muito já se sabia, apenas não se podia provar. Hoje provamos muito, mas como em outros tempos, muito é lançado ao descrédito por não conseguir provar com a tecnologia que temos. Para nós não há dúvida que daqui há anos, décadas ou séculos todas nossas crenças serão efetivamente provadas, conforme a humanidade evoluir. Pseudo-cientistas pseudo-céticos se multiplicam defendendo o empirismo puro, desacreditando teses bem embasadas, apenas por sua moralidade torta, pela sua própria incapacidade de acreditar. Capacidade esta que não é estimulada nas escolas, o pensamento próprio é subestimado em função de fórmulas prontas, oferecidas de pronto para desestimular a iniciativa, o Sonho.

As fórmulas e rituais, como bem sabemos, são importantes e fazem sua função, porém não devem estar acima do próprio indivíduo, são ferramentas, não objetivos.

E todo esse empirismo cai por terra quando confrontados com os escritos dos nossos precursores no estudo místico. Esses místicos souberam de assuntos além de seu tempo por sua capacidade de intuir, de sonhar e de se harmonizar com o princípio criador, o Cósmico, Deus, ou qual quer que seja o nome que tenha dado à nossa Origem. O que é dito hoje é que apenas vivemos e que nossa essência estaria limitada a apenas essa curta vida. Porém é difícil acreditar que somos fruto de um resultado aleatório e caótico, que depois de bilhões de anos a vida originou-se em nosso planeta e neste milhões de anos de história até a vida humana surgir tenha sido fruto de mero acaso químico.

E se não somos um mero acaso, se há um plano para nós, qual seria ele? Estaremos vivendo para apenas sermos vitimados por uma extinção em massa? Possivelmente não. Pelas ações humanas o planeta está doente, mas ele em si continuará existindo, o que pode ocorrer é do planeta não poder mais comportar a vida humana, mas para o planeta está tudo bem. Devemos nos desenvolver e evoluir para que possamos manter a vida no planeta, como a conhecemos. Hoje nossa chama está enfraquecida e corremos o risco que ela se acabe como resultado da ação humana no planeta, a quem cabe a decisão de manter essa chama queimando? Ora, não pode ser de outrem que não o próprio responsável, nós mesmos, nossa raça, cabe a nós tomar a decisão de preservar nosso lar para nós mesmos e nossos descendentes, nossas outras vidas. Somos dotados do livre-arbítrio para podermos escolher entre o bem e o mal, cabe a nós a decisão de acreditar e ter fé, de preservar e esse lindo presente que é nosso planeta.

#Filosofia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/do-universo-e-tudo-mais

A Senda Infinita

Paulo Jacobina

Para se compreender o processo de transformação do Eu, sua passagem pelos planos, é preciso entender a sua jornada e, consequentemente, a sua origem e o seu destino. Religiões e doutrinas filosóficas pelo mundo inteiro abordam esta origem, cada uma à sua maneira, mas todas com um ponto em comum: o homem, o Eu, decorre de uma entidade superior, que é conhecida por muitos nomes, dependendo de onde se origina a doutrina. Deus, Rahim, Elohim, Brahman, Nhanderuvuçú são apenas alguns exemplos dos infinitos nomes dados pelo homem ao Absoluto, aquele que deu causa a tudo o que existe e ao que não existe. A questão do nome utilizado pouco importa, uma vez que, por ser inefável, o Absoluto não possui nome e, por isso, pode ser chamado por qualquer um sem deixar de ser o Absoluto. Isso porque, caso tivesse um nome, não seria possível chamá-lo por milhares de nomes, pois, assim, deixaria de ser o Absoluto[1].

Aqui, apenas por questões conceituais e buscando facilitar a compreensão, serão utilizados nomes como o Absoluto, o Todo e Aquele que É. Tal escolha se baseia, unicamente, na imanência que se busca ressaltar, de que o Absoluto é uno, eterno, imóvel, imutável e perfeito.

É uno, porque tudo o que existe, e o que não existe, nEle está contido, sem que Ele deixe de existir como um todo, nem que nada dEle se separe.

É eterno, porque não possui início, nem meio, nem fim.

É imóvel porque preenche o infinito e, por isso, não tem para onde se locomover, pois nada existe para além dEle, uma vez que não existe o “além do Absoluto”. Se existe além, lá o Absoluto também estará e também será o além, da mesma forma que o vazio e o nada inexistem, pois, para existirem teriam de ser desprovidos de tudo, inclusive do Absoluto, e o Absoluto se encontra em tudo o que existe e o que não existe.

É imutável, porque não se transforma e, assim, nunca está e sempre é. E, por não se transformar, é perfeito, pois não necessita de corrigir detalhes.

Compreender essas informações pode parecer difícil e isso é normal. Uma vez que o ser humano se encontra limitado pelo estado de consciência no qual se encontra, e a compreensão do Todo está muito além do estado de consciência no qual aqueles que aqui estão encarnados conseguem visualizar. É também fundamental destacar, que mesmo entre o que se tem consciência e o que se consegue expressar, há uma distância, posto que as palavras, os símbolos, as imagens, são limitadas face àquilo que se tem consciência.

Consciência não se restringe ao simples saber. Consiste em ter aquele conhecimento arraigado no seu âmago, ao ponto de ele estar intrinsicamente contido em sua conduta. Não há, sequer, necessidade de se pensar naquele comportamento, pois sobre ele não recaem dúvidas ou qualquer tipo de questionamento filosófico, físico, metafísico, religioso, abstrato…

Estar consciente de algo consiste em ter o comportamento fluido, natural e sem empecilho, por menor que seja, no sentido de se sublimar em direção ao Absoluto, cumprindo, assim, o que alguns conhecem por Dharma, o caminho pelo qual o Eu flui sem atritos, sendo verdadeiramente Eu.

Porém, como se dá a criação do Homem, estado transitório no qual o Eu, que estuda este material, se encontra? Novamente, doutrinas por todo o mundo contam a mesma história travestida de acordo com a realidade local ou o grau de compreensão que possuem.

Para alguns, a “vida” surgiu com o sopro da divindade. Para outros, de centelhas divinas. Há, ainda, os que defendem que a divindade primordial animou uma porção de matéria. O que poucas doutrinas deixam claro (até porque não visam explicar esse processo), é que existe um aparente lapso entre esse “sopro” e o “aparecimento” do Homem, do Eu: que o Homem, o Eu, assim como ele está hoje, não veio imediatamente da divindade primordial, mas percorreu um longo período de transformação até alcançar a sua atual condição.

De igual forma se percebe, ao analisar os homens, que estes também se encontram em estágios distintos, embora, ao se observar numa análise macro, ainda próximos uns dos outros.

Outro ponto que se constata é o de que todos os homens, por não serem perfeitos, ainda podem se transformar. Dessa forma, verifica-se que existe uma jornada iniciada no seio do Absoluto e que não fica estagnada, mas se desloca infinitamente até algum lugar. Mas, que lugar seria esse para o qual o homem se desloca? Mais uma vez, as doutrinas estão corretas ao afirmarem que o destino do Eu em sua jornada existencial é o retorno ao Absoluto. Então, a jornada tem o seu início no seio do Absoluto e, após percorrer toda a jornada existencial, retorna ao seio do Absoluto.

Assim com a dança de Shiva, o Absoluto parece se expandir em um processo de subdivisão[2] até o infinito, quando, após atingir o infinito, volta a se recolher, reunindo as partes que foram divididas inicialmente. Nesse processo de sístoles e diástoles[3], a existência é criada na origem primordial e caminha à infinitésima partícula, até retornar, percorrendo todos os planos de existência, passando, em certo ponto, pelos reinos mineral, vegetal, animal, hominal, angelical…

Contudo, tal como ondas num lago provocadas pelo contínuo e eterno estímulo inicial, o processo existencial jamais se esgota, pois, quando a primeira onda inicia o processo de retorno após atingir o infinito, uma nova onda a substitui chegando ao infinito. Por existirem infinitas ondas neste indo e vindo infinito, inexiste movimento aparente, embora ele ocorra, tal qual objeto que vibra em altíssima velocidade e, mesmo assim, parece estático para aquele que o observa[4].

Como todas as ondas são partes integrantes do Todo, ele se estende eternamente até o infinito, jamais se movendo, embora o movimento exista em seu interior[5]; jamais se limitando, embora a limitação exista em seu interior; jamais se transformando, embora a transformação exista em seu interior; e, por não se transformar, é perfeito, embora a imperfeição também exista em seu interior.

Dessa forma, a jornada existencial se inicia no seio do Absoluto e a Ele retorna ao término do seu processo transformador. Tal lugar pode ser considerado o centro do Absoluto e estar localizado nos confins da galáxia mais distante, na Terra, em Aldebarã, no Sol, em Sirius, em Alcione ou, até mesmo, no Eu. Pois, uma vez que se estabelece um ponto localizado no Absoluto, ele sempre será o Seu centro, uma vez que se encontra infinitamente equidistante a todas as direções do Absoluto.

O Ser, então, seria como um raio, que irradia do seio do Absoluto até o infinito, atravessando todas as ondas geradas pelo eterno e contínuo estímulo inicial. Esse raio, assim como o Absoluto, por conta do Princípio de Correspondência[6], também é imóvel, embora o movimento exista em seu interior; também é imutável, embora a transformação ocorra em seu interior; também é perfeito, embora a imperfeição exista dentro dele.

Entretanto, se o Ser é imóvel, o que se desloca na senda infinita não é o Ser propriamente dito, mas alguns de seus atributos[7]. E é um desses atributos que passa por um infindável processo de transformação nas esferas existenciais, nascendo quando se inicia o retorno do infinito em direção ao seio do Absoluto. Este atributo é o que costumeiramente chamamos de Consciência. Seu nascimento ocorre no retorno do infinito, pois, apenas então, tem início o processo restaurador, o de se reconectar as partes do Absoluto que ilusoriamente foram desconectadas: ali se dá o início da jornada de compreensão.

Da mesma forma que o Ser, pelo Princípio de Correspondência[8], a Consciência também é imóvel, embora em seu interior ocorra o movimento; também é imutável, embora exista transformação em seu interior; também é perfeita, embora a imperfeição exista dentro de si.

Contudo, se a Consciência também é imóvel, quem se desloca na senda infinita não é a Consciência em si, mas um de seus atributos, o Eu. É o Eu que se desloca pela Consciência, sendo impulsionado pelas ondas que se propagam em direção ao seio do Absoluto e sofrendo o impacto das ondas que se deslocam ao infinito. O impulso dado pelas ondas que rumam para o seio do Absoluto é a força motriz que inexoravelmente leva o Eu em direção ao Eu Superior, enquanto o impacto das ondas em direção ao infinito tem o efeito de gerar o atrito necessário para a depuração do Eu, fazendo com o que é mais bruto seja arrancado, permanecendo no Eu Inferior, e apenas aquilo que é sutil possa se deslocar na senda infinita, nas vicissitudes existenciais, para se transformar no Eu Superior, no processo que alguns chamam de reencarnação e outros conhecem como roda de Samsara.

Nesse processo de transformação, o Eu se desloca do Eu Inferior (aquele que acredita ser uma criatura individualizada e ainda apegada àquilo o que é bruto) e começa a se perceber parte integrante do Absoluto quando a ideia do eu desaparece e passa a ser suplantada pela ideia do nós, até chegar ao Eu Superior, onde habita um novo Eu, o Eu Coletivo, aquele que sabe o que é, o Eu que sabe que tudo o que existe também faz parte dele e que ele está intimamente associado a tudo o que existe, como uma única coisa, como parte integrante, indissociável e indelével do Absoluto.

Desta forma, o Eu é o atributo da Consciência que se encontra em processo de transformação, cada vez mais, tornando-se a Consciência, e, consequentemente, o Ser; percebendo-se, passo a passo, parte integrante do Absoluto; sutilizando-se, abandonando corpos mais brutos e mantendo os mais sutis.

Enquanto a Consciência nasce na volta do infinito, quando inicia o processo restaurador, outro atributo do Ser, faz o caminho inverso, nascendo no seio do Absoluto e infinitamente se subdividindo até os confins do infinito. A este atributo, que nasce no seio do Absoluto e se dirige até o infinito, pode ser dado o nome de Tecido Elementar[9].

Tal qual a sua contraparte[10], a Consciência, o Tecido Elementar, pelo Princípio de Correspondência, também é imóvel, embora em seu interior ocorra o movimento; também é imutável, embora exista transformação em seu interior; também é perfeito, embora a imperfeição exista dentro de si.

Por ser imóvel, não é o Tecido Elementar que se desloca na senda em direção ao infinito, mas um de seus atributos, o Agente Modelador, que se desloca do seio do Absoluto, impulsionado pelas ondas que se expandem até o infinito e sofrendo o atrito das ondas que se concentram em direção ao seio do Absoluto, brutalizando-se e dando forma aos planos de existência. Este atributo, que carrega dentro de si a capacidade de moldar os planos de existência, foi amplamente relatado ao longo da história humana e, no contato com os planos existenciais que o Homem costuma ter mais acesso, recebe, comumente, o nome de Elemental. Assim, o Eu e o Agente Modelador se deslocam em sentidos paralelamente opostos, mas unidos no processo existencial.

Ponto que merece destaque é o de que, assim como o próprio Absoluto, todos os seus Atributos e subatributos não são bons ou maus, mas neutros. É normal, para alguns, pensar que o deslocamento do Agente Modelador, brutalizando-se, o deixe mau, enquanto o deslocamento da Consciência, sutilizando-se, a deixe boa. Na verdade, tanto um, quanto o outro, apenas cumprem a sua função estabelecida no plano criador e, por isso, não podem ser rotulados como bom ou mau, melhor ou pior.

Essa falsa necessidade que o Homem possui, de criar dualidades e demais separatismos, decorre da influência exercida pelo Agente Modelador, que atua em tudo o que existe, inclusive na forma com que o Eu analisa tudo o que existe e o que não existe, subdividindo conforme foi programado, em essência, para ser. Tal atuação não se limita ao plano material, mas também se aplica ao espiritual, ao mental e a todos os demais, uma vez que tudo o que existe e o que não existe é moldado no Tecido Elementar e, consequentemente, sofre a ação de seus atributos, inclusive a do Agente Modelador, gerando o Princípio de Polaridade[11].

Por isso, não se pode catalogar algo como bom ou mau, pior ou melhor: apenas deve ser verificado se aquilo está cumprindo o seu propósito de ser. Se o Agente Modelador está sendo Agente Modelador, se a Consciência está sendo Consciência, se o Tecido Elementar está sendo Tecido Elementar, isso significa que tudo está em sintonia e, por isso, respondendo à determinação do Absoluto, pois é para isso que cada coisa serve: para ser ela mesma.

Os aparentes conflitos, no plano em que o Homem atualmente se encontra, decorrem do desejo do Homem em ser o que ele não nasceu para ser. Por exemplo, imagine que uma planta deseja abandonar o seu propósito: ao invés de realizar fotossíntese e servir de alimento e moradia para outros seres, ela deseje ser um leão, caçar gazelas para se alimentar e deixar de fazer o que ela foi destinada a ser. Não é necessária muita elucubração para se constatar que o mundo entraria em colapso. Porém, a planta não deseja nada além de ser planta, assim como o leão não deseja nada além de ser leão: tanto a planta, quanto o leão têm o seu desejo em sintonia com a Vontade do Absoluto, que é a de que eles sejam eles mesmos.

Assim como a planta existe para ser planta, o animal para ser animal e o mineral para ser mineral, o ser humano existe para ser humano, para que o seu desejo se confunda com a Vontade do Absoluto, que é a de que ele seja benevolente, piedoso, tenha compaixão, seja integralizador. Quando o homem respeita a sua essência, não há conflitos. Contudo, quando, ao fazer uso de seu Livre-Arbítrio, tenta fugir daquilo para o qual foi criado, os atritos acontecem e o conflito aparece.

Só há atrito onde há a separação do desejo e da Vontade. Onde a Vontade e o desejo estão unidos, inexiste atrito, existe o Dharma[12]. Dessa forma, pode-se acreditar erroneamente que o Livre-Arbítrio seria ruim, pois permite ao Homem ter um querer distinto da Vontade. Entretanto, assim como tudo o que existe e o que não existe, o Livre-Arbítrio também não é bom ou mau, ele é neutro e cumpre a função para a qual foi criado: permitir, pela experimentação, que o Eu encontre o caminho para o Eu Superior, ao compreender que tudo o que existe e o que não existe é apenas o Absoluto e nada mais. Por cumprir a função para a qual foi criado, o Livre-Arbítrio não é bom ou mau, ele apenas é o Livre-Arbítrio e, ao ser Aquele que É, ele é neutro.

Da mesma forma que o Livre-Arbítrio tem como essência permitir que o Eu escolha o caminho ao qual seguir, para, assim, encontrar o Dharma, o Karma existe, em sintonia com o Livre-Arbítrio, como forma de gerar a compreensão no Eu. Enquanto o Livre-Arbítrio permite a realização de uma escolha, o Karma é a escolha permitida pelo Livre-Arbítrio. É aquilo que, com base no estado de Consciência no qual se encontra, o Eu opta por fazer. É o agir. Ao agir, o Eu gera a Consequência, isto é, respostas às ações realizadas pelo Eu.

Assim como tudo o que existe e o que não existe, essas respostas, a Consequência, não são boas nem más, mas neutras, pois têm como função atuar em sintonia com o Karma e o Livre-Arbítrio, gerando o atrito necessário para que o Eu se desloque, por ressonância, na Consciência em direção ao Eu Superior. E, pelo fato de a Consequência cumprir a sua essência, ela é Aquele que É.

Aqui, deve ser destacado que a inação verdadeiramente inexiste. Só o que realmente existe é o agir, pois mesmo no que está parado, há, em seu interior, o movimento, da mesma forma que ocorre com o Absoluto, que está parado, mas, em seu interior existe o movimento[13]; e, onde há o movimento, há o agir, e o agir é o Karma.

Entretanto, como o movimento não está limitado a um único plano existencial, acontecendo em todos eles, o Karma também ocorre simultaneamente em todos os planos de existência, e como o Karma é agir, e o agir gera a Consequência, ele produz efeitos que reverberam em todos os planos de existência[14], em sincronicidade. Esses efeitos, pela aplicação do Princípio de Polaridade, tornam-se novas causas e, ressonando, propagam-se pela existência.

Como tudo o que existe e o que não existe se encontra em perfeita sintonia com a Vontade, aquilo que o Eu ilusoriamente entende como futuro, já está determinado, que é o momento no qual o Eu se torna o Eu Superior. Contudo, embora o destino se encontre determinado, o caminho percorrido pelo Eu é traçado pelo seu Karma, com base no Livre-Arbítrio. Porém, o Karma escolhido pouco importa para o resultado final, pois tudo se compensa sincronisticamente, de forma a permanecer na perfeita sintonia, no Princípio de Ritmo[15].

Como “o que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como está em cima”, o Karma e a Consequência também são neutros, visto que atendem ao seu propósito e, assim, não são bons ou maus, mas são Aquele que É. Essa compreensão é importante para se constatar que nenhum caminho pelo o qual o Eu escolhe seguir é errado, pois tem como função primordial, como essência, gerar as condições necessárias para o deslocamento do Eu na Consciência. Toda escolha que o Eu faz, isto é, todo o Karma, é realizado com base no estado de consciência no qual o Eu se encontra e, portanto, o Eu sempre realizaria a mesma escolha baseada nos mesmos fatores e na condição na qual se encontra.

Apenas com o Karma e a Consequência, as condições são modificadas para gerar a ressonância necessária para impulsionar o Eu em direção ao Eu Superior. Desta forma, toda escolha realizada é a escolha certa, pois é feita no estado de Consciência na qual o Eu se encontra e o permite experimentar as sensações necessárias para o seu deslocamento na Consciência em direção ao Eu Superior.

Quando se compreende esse fato, o apego ao que é chamado de passado e a insegurança quanto ao que é chamado ilusoriamente de futuro desaparecem. O Eu se concentra no que é chamado de presente, afastando-se da ilusão da transitoriedade e fixando-se na perenidade, onde ele deixa de ser “Aquele que Está” e se revela Aquele que É.

Ao compreender a sua essência, o Eu deixa de se preocupar com a ilusão do que aconteceu e do que vai acontecer, pois ele sabe que apenas acontece o que tem de acontecer, pois essa é a sintonia perfeita, a contradança[16] na qual tudo o que existe e o que não existe se encontra; ele sabe que bom e mau apenas são polaridades da Consequência, assim como Luz e Trevas são polaridades da Consciência e, portanto, são ilusões criadas pelo Agente Modelador.

A percepção de que bom e mau são polaridades da Consequência é facilmente constatada quando o Eu faz uma análise das experiências às quais se submeteu. Quando ocorre a Consequência, o Eu, influenciado pelo Agente Modelador, tende a observar de um jeito pontual e, consequentemente, a cataloga como algo bom ou ruim. Contudo, caso o Eu visse a Consequência em sua real forma, ele compreenderia que ela não é boa ou má.

Um meio pelo o qual o Eu pode ver a real forma da Consequência é analisar um fato que já foi vivenciado. No momento no qual o fato foi vivenciado, o Eu o classifica como bom ou mau, porém, em momento posterior, quando o Eu já se deslocou na Consciência em direção ao Eu Superior, ao olhar para esse mesmo fato (já vivenciado), o vê de forma diferente, classificando-o, algumas vezes, de forma diversa da que fizera inicialmente. O fato em si não mudou, então como pode algo que permanece inalterado ter o seu significado modificado? Isto ocorre porque o observador mudou, o Eu que analisou o fato pela primeira vez não é o mesmo Eu que analisou o fato da última. Assim, ser bom ou mau não é uma característica do fato, da Consequência, do Karma ou de tudo o que existe e o que não existe, mas uma característica da forma com que o Eu os analisa.

Uma vez que a distinção entre bom e mau, melhor ou pior, existe na forma com que o Eu analisa aquilo que existe e o que não existe, e não nessas coisas em si, encontra-se a verdade por de trás do Princípio de Polaridade, o qual determina, conforme já se definiu acima, que “tudo é duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau, os extremos se tocam; todas as verdades são meias verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

Sabendo que a polaridade está na forma de analisar o que existe e o que não existe, o Eu pode modificá-la ao seu bel-prazer, transformando o que é ruim em bom e o que é pior em melhor, ao aplicar o Princípio de Vibração[17] sob a influência do que se conhece no Hermetismo como Princípio de Mentalismo[18]. Assim, enxergar as coisas como boas ou más, melhores ou piores, torna-se uma escolha permitida pelo Livre-Arbítrio, e isto é o Karma.

Karma e Consequência são polos do Livre-Arbítrio, haja vista que de todo agir decorre uma consequência e a consequência se torna um novo agir, desencadeando uma nova consequência, isto é, um influencia e é influenciado pelo outro, pois, um, além de gerar o outro, também é gerado por este, uma vez que “tudo se manifesta por oscilações compensadas, sendo que a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda”[19], compensando-se em sincronicidade para permanecer em um estado de perfeito equilíbrio na divina contradança.

Ao compreender que o Karma e a Consequência são unos, o Eu também compreende que o tempo é uma ilusão provocada pelo fracionamento da Existência, através da ação do Agente Modelador, pois tudo o que existe e o que não existe, na verdade, apenas é, e, por isso, é Aquele que É.

Contudo, apesar de ser ilusório, o tempo, como todas as ilusões, existe para o Eu, uma vez que é um evento e, como tal, pode ser vivenciado. Tudo o que pode ser vivenciado pelo Eu existe para ele, pois tem a capacidade de gerar a energia necessária para que o Eu mude a sua vibração e, por ressonância, se desloque na Consciência em direção ao Eu Superior.

Esta é a distinção entre aquilo que não existe e aquilo que inexiste: enquanto aquilo que não existe, por ser ilusório, existe em algum plano de existência, mas não em todos; o que inexiste não existe em nenhum deles[20]. Apenas o Absoluto existe em todos os planos de existência, uma vez que ele é Aquele que É, enquanto todo o resto, por ser transitório, pode ou não existir dependendo do plano existencial observado. Desta forma, verifica-se que por ser Aquele que É, o Absoluto é o único que verdadeiramente existe, enquanto tudo o mais, por ser transitório, inconstante, é ilusório[21] e não existe verdadeiramente.

A Compreensão do que é permanente e daquilo que é transitório, auxilia o Eu a superar os ilusórios sofrimentos aos quais voluntariamente se submete. O sofrimento nasce do apego do Eu ao que é transitório, da sua vã tentativa de tornar imóvel aquilo o que é móvel, de deter o que não pode ser detido, de escapar da inexorabilidade do Dharma. Ao compreender o que é permanente, o que é transitório e o que isso significa, o Eu se desapega do que é mutável e se fixa no que é imóvel, tornando-se Aquele que É.

Assim como tudo o que existe e o que não existe, o mutável, também não é bom ou mau, mas neutro, pois apenas existe para cumprir a sua função, a de proporcionar as experiências necessárias para que o Eu se desloque por ressonância na Consciência. E, por ser aquilo que foi determinado em essência para ser, o mutável também é Aquele que É.

Notas:

[1] O mesmo se aplica a tudo o que existe e ao que não existe. O estabelecimento de nomes, como os que aqui são adotados, trata-se apenas de uma ferramenta que visa facilitar a compreensão e a absorção de conceitos, não um mecanismo de limitação que a imposição de um nome pode estabelecer.

[2] Processo decorrente da aplicação daquilo o que se conhece no Hermetismo por Princípio de Gênero: “o Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos”.

[3] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Ritmo: “tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação”.

[4] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Vibração: “nada está parado, tudo se move, tudo vibra”.

[5] Princípio de Vibração, citado na Nota de Rodapé (“NR”) anterior.

[6] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio da Correspondência, “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.

[7] Este processo de ser gerado e gerar (ou ser derivado e derivar) que será visto constantemente, só é possível por conta do Princípio de Gênero (“o Gênero está em tudo, tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos”, vide NR nº. 2) no qual tudo tem o seu princípio masculino, isto é, fecundante, e o seu princípio feminino, isto é, fecundável.

[8] “o que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima”.

[9] Também conhecido por Fluido universal, elemento universal, fluido elementar.

[10] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Polaridade: “tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

[11] “tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados”.

[12] Pois o Dharma é o fluxo sutil decorrente da impulsão das ondas que retornam ao seio do Absoluto, sem colidir nem sofrer o impacto denso daquelas que se expandem até o infinito.

[13] Mesmo que o corpo físico possa parecer parado, dentro dele, o Corpo Energético estará vibrando, isto é, em movimento. Mesmo que o Corpo Energético possa parecer parado, dentro dele, o Corpo Emocional estará em vibração. Da mesma forma que se o Corpo Emocional parece sem movimento, dentro dele o corpo mental estará em movimento; e assim sucessivamente.

[14] Segundo o que se conhece no hermetismo pelo Princípio de Causalidade: “toda Causa tem seu Efeito; todo Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei”.

[15] “Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação.”

[16] É uma dança de ritmo rápido e compasso binário, composto de várias seções de oito compassos que se repetem.

[17] “Nada está parado; tudo se move; tudo vibra”.

[18] “O TODO é MENTE; o Universo é Mental”.

[19] Princípio de Ritmo.

[20] O “vazio”, por exemplo, verdadeiramente inexiste, visto que assumir a sua existência, significaria que, em algum lugar, o Absoluto não se encontra, o que, por si, O faria deixar de ser o Absoluto.

[21] Princípio de Mentalismo: “o TODO é MENTE; o Universo é Mental”.

~ Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalista.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-senda-infinita/

O Problema da Felicidade Humana

Texto de Huberto Rohden

Os maiores médicos e psiquiatras do mundo concedem e confessam que o grosso da humanidade hodierna é neurótica, frustrada ou esquizofrênica. O Dr. Victor Frankl, diretor da Policlínica Neurológica da Universidade de Viena, em diversos livros traz estatísticas pavorosas sobre essa calamidade do homem civilizado dos nossos dias. E dá também o diagnostico do mal: a falta de uma consciência de unidade. O homem moderno, hipertrofiado na sua diversidade (ego) e atrofiado na sua unidade (Eu), é a consequência dessa descosmificação do homem, que não podia deixar de acabar num caos, em que a dispersividade derrotou a centralidade.

Frustrar é a palavra latina para despedaçar, fragmentar, desintegrar. O homem frustrado sente-se realmente como que desintegrado interiormente, o que produz nele um senso de profunda infelicidade. Em última análise, toda felicidade provém de uma consciência de coesão e integridade. O homem é infeliz porque perdeu a consciência da sua inteireza e unidade; pode ser uma personalidade, uma persona (máscara), mas deixou de ser uma individualidade, um ser indiviso em si mesmo. Unidade, integridade, felicidade, são sinônimos.

Muitos frustrados acabam em esquizofrenia. A palavra esquizofrênico quer dizer, em grego, mente partida. O homem mentalmente fragmentado é um homem desunido, descosmificado. Onde não há realização existencial há necessariamente uma frustração existencial, que é o motivo da infelicidade de milhares de homens.

O homem que deixou de ser cosmo pela unidade acaba, cedo ou tarde, num caos pela desunião consigo mesmo. As leis que regem o Universo sideral regem também o Universo Hominal. Os Mestres da vida, além de fazerem o diagnóstico da enfermidade, indicam também a sua cura. Victor Frankl cura os seus doentes frustrados com logoterapia, mostrando-lhes o caminho para restabelecer a sua integridade existencial, despertando-lhes a consciência do seu Lógos interno, o seu Eu, a sua alma. E os que conseguem fazer gravitar os planetas dos seus egos em torno do sol do seu Eu, restabelecem a harmonia e felicidade da sua existência.

Krishna, na Bhagavad Gita, afirma que o ego é o pior inimigo do Eu, mas que o Eu é o maior amigo do ego. O próprio Einstein, à luz da sua matemática metafísica, mostra que do caminho dos fatos (ego) não conduz nenhum caminho para o mundo dos valores (Eu).

Que é tudo isto senão Filosofia Univérsica, expressa de outra forma? O homem, para ter harmonia e felicidade, deve ter um centro de gravitação fixo e

imutável, deve afirmar a soberania da sua substância divina sobre todas as tiranias das circunstâncias humanas – deve ser Universificado.

Nada disto, porém, é possível, se o homem passar as 24 horas do dia na zona da dispersividade centrífuga do ego, e não der uma hora sequer à

concentração centrípeta do Eu. As leis cósmicas são inexoráveis e imutáveis, tanto no mundo sideral como no mundo hominal. Obedecer a essas leis da natureza humana é harmonia e felicidade – desobedecer-lhes é caos e infelicidade.

Não somos advogados da passividade contemplativa de certos orientais – mas defensores da harmonia e do equilíbrio entre atividade e passividade, entre introversão e extroversão, entre concentração e expansão, entre implosão e explosão, que são o característico de todos os setores da natureza. Enquanto o homem não se “naturalizar” ou cosmificar, será sempre frustrado e infeliz. Uma hora, ou meia hora, de profunda cosmo-meditação pode dar ao homem o devido equilíbrio para o resto do dia.

Não recomendamos a meditação em forma de pensamentos analíticos, que é ineficiente, mas recomendamos a profunda sintonização com a alma do

Universo, o esvaziamento de toda a ego-consciência, para que a plenitude cosmo-consciência possa plenificar com as águas vivas da fonte divina a

vacuidade dos canais humanos. Enquanto a ego-plenitude (egocentrismo, egolatria) funciona, a teo-plenitude não pode funcionar. É lei cósmica: plenitude só enche vacuidade, ou na linguagem dos livros sacros, “Deus resiste aos soberbos (ego-plenos), mas dá da sua graça aos humildes (ego-vácuos)”.

Durante a cosmo-meditação deve o homem esvaziar-se de todos os conteúdos do seu ego-humano – sentimentos, pensamentos e desejos – mantendo, porém, plenamente vígil a sua consciência espiritual; deve manter 100% de teo-consciência (Eu) e reduzir a ego-consciência a 0%.

O fim da Filosofia Univérsica é, pois, estabelecer no homem a mesma harmonia que existe no Universo, com a diferença de que no homem esta harmonia é voluntária e livre, enquanto no cosmo ela é automática. Esta harmonia livremente estabelecida pode dar ao homem uma felicidade consciente infinitamente maior do que toda a harmonia, beleza e felicidade do Universo extra-hominal.

O esforço inicial dessa harmonização vale a pena pela subsequente felicidade da vida humana. No princípio necessita o principiante de períodos determinados, em lugar certo para essa integração; mais tarde pode ele manter a concentração interior no meio de todas as dispersões exteriores, pode unir a sua implosão mística com todas as explosões dinâmicas; pode viver simultaneamente no Deus do mundo e nos mundos de Deus.

Huberto Rohden foi um dos precursores do espiritualismo universalista, trabalhou como professor, conferencista e escritor onde publicou mais de 65 obras sobre ciência, filosofia e religião. Foi tradutor da Bhagavad Gita, Tao Te Ching, O Evangelho de Tomé, O Novo Testamento, dentre outros. Propôs a Filosofia Univérsica como um meio de conexão do ser humano com a consciência coletiva do universo e florescimento da essência divina do indivíduo.

Encontre-nos no facebook.com/filosofiauniversica

#espiritualismo #Filosofia #Rohden #Universalismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-problema-da-felicidade-humana

Ainda não acabou

O Relógio do Apocalipse é um relógio simbólico mantido desde 1947 pelo comitê de diretores do Bulletin of the Atomic Scientists da Universidade de Chicago. Se trata de um alerta para a iminência de uma guerra nuclear de larga escala, o que potencialmente significaria o fim da civilização humana. Segundo a analogia, quanto mais próximo da meia-noite, mais próxima estaria a humanidade de um apocalipse nuclear. Os ponteiros iniciaram com 7 minutos para a meia-noite, e chegaram a estar à apenas 2 minutos, em 1953, quando EUA e URSS testaram novas armas nucleares a poucos meses de intervalo um do outro. Hoje, ele marca 3 minutos para o fim.

É irônico como foi justamente a ciência quem nos levou mais próximo de um Juízo Final, um Armagedom real para a humanidade. A despeito de milênios de mitos e lendas acerca do final dos tempos, que muitos racionalistas sempre caçoaram, coube justamente a mais racional das invenções da mente humana o poder de nos levar, de fato, a uma guerra final. Claro que a ciência por si só não tem culpa alguma, os culpados somos nós, os seres que vivem neste mundo e, muitas vezes, consciente ou inconscientemente, trabalham para a sua aniquilação.

A palavra “apocalipse”, do grego apokálypsis, significa literalmente algo como “a retirada do véu”, o que geralmente é compreendido como alguma espécie de revelação divina. No entanto, como o Livro da Revelação no Novo Testamento bíblico trata justamente de uma elaborada metáfora para alguma espécie de fim dos tempos, o termo Apocalipse também se tornou uma espécie de sinônimo para fim do mundo na cultura popular.

De fato, numa análise esotérica do significado essencial de uma revelação divina, temos duas possibilidades que fazem todo o sentido: o fim de uma era, para que outra se inicie, ou mesmo a morte de uma persona, para que outra mais espiritual e profunda surja deste processo. No entanto ocorre que, muitas vezes, tanto o Apocalipse bíblico quanto os de outras doutrinas religiosas é visto não como o fim de um processo para que outro se inicie, mas simplesmente como o final de todos os processos, de todo o sofrimento e de todo trabalho, geralmente para ser substituído por um julgamento sumário de alguma divindade, onde uns serão condenados a sofrer eternamente num Lago de Enxofre, enquanto outros serão conduzidos a uma espécie de Jardim de Ócio Eterno.

A despeito do absurdo lógico de ambas as opções (uma divindade amorosa que permitiria que suas criações fossem torturadas brutalmente ad aeternum; seres amorosos que conquistaram uma passagem para um Céu de Escolhidos, sendo lá felizes mesmo sabendo que há muitos de seus irmãos sofrendo), é mais ou menos nisso que muitos povos e culturas, principalmente no Ocidente e Oriente Médio, colocaram todas as suas fichas. Durante séculos e séculos, depois de Cristo, e até mesmo antes, tivemos muitos crentes aguardando ansiosamente pelo final dos tempos, alguns com temor no coração, e outros simplesmente ansiando pelo fim desta terra… Todos eles na expectativa do prometido julgamento dos bons e dos maus.

E dificilmente os que creem nessas coisas veem a si mesmos como pertencentes aos não escolhidos, aos maus. Daí se tira que, muitas vezes, o seu desejo pelo Juízo Final parte muito mais do próprio julgamento que fazem dos seus irmãos do que genuinamente de um desejo de habitar o Jardim de Ócio pela eternidade, para fazer sabe-se lá o quê pelos milênios a perder de vista. Ou seja: pode ser preferível que o mundo acabe de fato, se com ele todos os gays que insistem em se beijar na rua e desafiar os mandamentos do Levítico sejam levados para o Inferno, ou se todos aqueles jovens metidos a besta que insistem em usar drogas ilícitas ardam nas forjas subterrâneas, ou se os políticos de um ou outro campo ideológico cumpram suas penas junto ao Tinhoso.

Claro, também há muitos que cansam de simplesmente esperar pela chagada de Cristo, e partem eles mesmos para provocar o seu próprio fim dos tempos, se radicalizando e chacinando os inocentes que encontram pela frente. Para nossa sorte, esse tipo de radical religioso ainda não dispõe de armas nucleares, somente das armas que as grandes empresas armamentistas dos países de primeiro mundo lhes vendem.

Neste baile da ignorância humana, é curioso pensar como, ao menos até aqui, as armas de destruição em massa talvez tenham freado uma nova e derradeira Guerra Mundial, ao contrário do que muitos poderiam imaginar. Explica-se: até o advento das armas nucleares, guerras destruíam cidades, e às vezes países inteiros, mas não podiam destruir a civilização humana como um todo. Hoje, uma guerra nucelar pode fazer justamente isso. Hoje, o Armagedom deixou de ser uma metáfora mitológica para se tornar uma possibilidade real. Hoje, aqueles que detém o poder de lançar ogivas nucleares sabem muito bem que, num cenário de guerra nuclear total, pressionar o botão vermelho será essencialmente um ato de suicídio.

Mas nem todo Apocalipse é um Apocalipse global. Há muitos povos e territórios da Terra que sofreram os seus próprios Juízos Finais. Desnecessário dizer que até hoje em dia eles estão em pleno processo, particularmente no Oriente Médio e arredores, ironicamente o grande berço das civilizações humanas.

Como narra um memorável anúncio dos Médicos Sem Fronteiras, “podemos ser violentos, insensíveis, cruéis, egoístas, indiferentes, mas só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano”. O MSF atua justamente para amenizar o Juízo Final alheio.

Voltando ao Apocalipse como revelação, como final de um estágio para o início de outro, recorro à história de vida de minha amiga Debora Noal, psicóloga do MSF, brasileira: pouco antes de ser convocada para a sua primeira missão humanitária no Haiti, há quase uma década, Debora morava numa cobertura de frente para uma praia paradisíaca de Aracaju, e tinha um emprego público na área médica.

Então, como ela mesma relatou numa reportagem da Época, “Pedi demissão, larguei tudo […] Porque era uma missão de urgência. Entreguei o apartamento, deixei os móveis no meio do corredor porque não tinha condições de distribuir tudo rápido. O que não é possível carregar comigo é porque não é meu. E acho que, se você se apega a alguma coisa que é material, isso quer dizer que você está plantando sua raiz por uma estrutura material. Eu quero ter raiz, mas raízes aéreas, que eu possa levar para onde eu quiser”. E após o Haiti, Debora foi ajudar mulheres brutalmente estupradas e infectados pelo vírus ebola em algumas missões humanitárias nos cantões mais afastados dos olhares da Grande Mídia, em plena África…

Como Debora estava tão preparada para substituir suas raízes terrestres por raízes aéreas, senão por um processo de Apocalipse pessoal? Senão por haver colocado sua própria vida mundana em segundo plano, e a Alma do Mundo, a alma e o coração de todos os seres, acima de tudo o mais? Não há Revelação maior do que este Amor que brotou aos borbotões do coração de minha amiga.

E, se ainda nos convém falar em mitologia, que a praia em Aracaju seja o Céu, que as periferias do Congo sejam o Inferno, e que Debora seja o Anjo… Tampouco existe mitologia mais bela, pois que trata exatamente da realidade, de como as coisas de fato o são. Pois só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano. E só quem pode salvar a própria vida é o próprio ser em si.

Assim sendo, sempre que se sentir abatido pelo peso deste mundo de chumbo, pense sobre os pensamentos que lhe vêm à mente, pense sobre de onde eles de fato surgiram, e para onde pretendem lhe levar. Há muitos que desejaram modificar o mundo inteiro, e terminaram por se regozijar com a promessa do Juízo Final, e assim perderam seu entusiasmo, e se deixaram afogar no charco dos hábitos moribundos… Mas há alguns, alguns de nós, que pensaram em mudar primeiro a si mesmos, e ser a própria mudança que desejam ver neste mundo.

Passo a passo, mudaremos a nós mesmos, a vizinhança e o mundo inteiro. Se a vida já não tem qualquer outro sentido, que tenha este. Afinal, a despeito da crença e do desejo de muitos, nossa história ainda não acabou… Gritem meus irmãos, gritem pela alma adentro: ainda não acabou!

***

Para encerrar, gostaria de descrever em maiores detalhes a autoria e o cenário das duas fotos que ilustram este artigo:

A primeira, no topo, é da Reuters e mostra uma multidão de refugiados (na grande maioria palestinos) do Campo de Yarmouk, em Damasco na Síria, em fevereiro de 2014. Eles estavam tão somente aguardando a distribuição de alimentos pela ONU. Em abril de 2015 este campo foi atacado e controlado pelo Estado Islâmico, mas foi recuperado pelo governo sírio alguns meses depois. Yarmouk está ativo há mais de meio século.

A segunda, ao longo do texto do artigo, é de um jovem fotógrafo da Faixa de Gaza, Emad Nassar, e foi tirada em junho de 2015. Ela mostra um pai palestino dando banho na filha e na sobrinha, no pouco que restou inteiro de seu apartamento em Gaza. A Faixa de Gaza é um dos territórios mais densamente povoados do mundo, e vive um Apocalipse permanente há muitas décadas.

O que cada uma das fotos têm a ver com o meu artigo, deixo que cada um de vocês interprete e sinta por si só…

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum
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#Cristianismo #guerra

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ainda-n%C3%A3o-acabou