Kotodama – (言霊) : a crença no poder mágico das palavras

Por George Lloyd

Kotodama (言霊) refere-se à crença de que as palavras têm poderes místicos. Ele combina a palavra para “fala” (言 koto) e a palavra para “alma” (霊 tama).

Kotodama pressupõe que os sons podem afetar objetos magicamente e que o canto ritualístico das palavras pode afetar tanto o indivíduo quanto seu ambiente. Por exemplo, se você chamar o nome de alguém, o som terá um impacto sobre eles, quer eles possam ouvi-lo ou não.

Kotodama tem suas raízes no xintoísmo, a religião animista do Japão. Nos tempos antigos, feitiços e encantamentos para os deuses xintoístas eram vistos como tendo poder divino. Os xintoístas acreditam que não apenas as pessoas, mas também os animais e os objetos têm alma, por isso não é de surpreender que eles acreditem que as palavras também tenham alma.

Kotodama não é um conceito tão estranho como pode parecer à primeira vista. Embora fora de moda, a crença em palavras mágicas, como hocus pocus, abracadabra ou abra-te sezamo, já foi difundida. No hinduísmo, acredita-se que palavras diferentes produzem vibrações diferentes e que cantá-las como mantras criará efeitos diferentes, seja paz interior, cura de ferimentos ou proteção contra a má sorte. Os mantras hindus geralmente começam com a palavra “Om”, que se acredita ser o som do universo.

No Japão, a crença no kotodama é tão antiga quanto a palavra escrita. No Man’yoshu, a mais antiga coleção sobrevivente de poesia waka japonesa, que foi compilada algumas vezes após 759 d.C. é referido como kotodama no sakiwau kuni (言霊の幸わう国), ou “a terra onde os misteriosos trabalhos de linguagem traz felicidade.”

Originalmente, apenas feitiços e encantamentos xintoístas eram vistos como tendo poder divino, mas com o tempo, outras palavras também passaram a ser consideradas divinas. Um exemplo que sobreviveu até os dias atuais é o grito curto proferido ao fazer um movimento de ataque no karatê ou no aikido. É chamado de kiai (気合) e deve concentrar a determinação do atacante.

Você também pode ver kotodama trabalhando na tradicional cerimônia de casamento japonesa. Os convidados devem evitar usar as palavras “cortar”, “quebrar”, “dividir”, “voltar”, “terminar” ou quaisquer palavras que sugiram separação na cerimônia. Tal é o poder de uma palavra mal escolhida, o fim do casamento é até referido como a “abertura”.

O medo de certas palavras, geralmente porque soam como algo considerado azar, é intrínseco ao kotodama. Por exemplo, a palavra shisan pode se referir ao número 43, mas também pode significar “natimorto”, e isso torna 43 um número de azar.

Da mesma forma, o número 17 é dito como junana, que também significa “grande riqueza” e isso o torna um número da sorte. Em japonês, esse tipo de coincidência cósmica é chamado doonigigo (同音異議語) ou “palavras que soam iguais, mas têm significados diferentes”.

Como todas as religiões, o xintoísmo às vezes foi interpretado em termos políticos. Na verdade, é particularmente suscetível a ser manipulado por políticos porque coloca muita ênfase em conceitos politicamente carregados como “pureza” e “limpeza”. Quando se trata de kotodama, isso implica a crença de que a própria língua japonesa tem poder divino e que deve sua força à sua ‘pureza’.

No passado, essa suspeita de influência estrangeira levou muitos xintoístas a evitar o uso de palavras originárias da China e, em vez disso, usar apenas yamatokotoba (大和言葉、vocabulário nativo japonês) em seus rituais. Esta não foi uma tarefa fácil, uma vez que as palavras emprestadas sino-japonesas estão em uso há mais de 1.500 anos e tiveram um impacto formativo na língua japonesa. Também é irônico, porque a crença em kotodama é ainda mais forte na China do que no Japão.

A suspeita de empréstimos sino-japoneses diminuiu durante o período do governo militar no Japão (1932-1945), mesmo porque agora havia um novo bicho-papão para exorcizar da língua japonesa: as novas palavras inglesas.

Nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, os nacionalistas fizeram o possível para purgar sua língua do que chamavam de tekiseigo (a língua do inimigo) e substituir as palavras ofensivas por palavras sino-japonesas. Por exemplo, a palavra ragubî, (ラグビー), uma palavra emprestada do rugby inglês, tornou-se tokyu (闘球), uma palavra sino-japonesa que significa “bola de luta”.

Hoje em dia, a luta para purificar a língua japonesa é apenas uma memória, mas você ainda ouve a palavra kotodama sendo usada hoje. A banda japonesa de pop-rock Southern All Stars teve um grande sucesso em 1996 com “Ai no Kotodama (“As palavras mágicas do amor” podem ser uma boa tradução).

Até mesmo a comunidade científica é tentada pelo apelo do kotodama de tempos em tempos. Em 2004, o empresário e autor japonês Masaru Emoto afirmou que a consciência humana poderia afetar a estrutura molecular da água.

Ele conduziu um experimento no qual pronunciou palavras positivas para uma tigela de água, o que fez com que a água produzisse belos padrões de cristal quando congelada. Quando ele dizia coisas ruins para a água, ela formava padrões de cristal feios quando congelada.

Masaru Emoto estava convencido de que a água poluída poderia ser limpa pelo poder da oração (se lavar a roupa fosse tão fácil!)

Claro, é fácil rir da religião quando ela se disfarça de ciência, mas não devemos ser muito desdenhosos. A tradução em inglês do livro de Emoto, “The Hidden Messages in Water”, tornou-se um best-seller do New York Times.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/kotodama-%e8%a8%80%e9%9c%8a-a-crenca-no-poder-magico-das-palavras/

As figuras da corte e suas associações elementais

Leonora Dias

Para entendermos melhor as figuras da corte, precisamos buscar nas raízes de sua significância, o número 4. A estrutura numérica dos chamados Arcanos Menores é totalmente baseada nesse número – são cinquenta e seis cartas, divididas em quatro grupos de catorze cartas – os naipes. Dessas catorze cartas, dez são numeradas e quatro são figuras da corte. Ao que se sabe, a estrutura quaternária dos naipes existe desde a origem das cartas – ao menos, quando cartas de jogar surgiram na Europa, no final do século 14, já seguiam um sistema de quatro naipes. Experiências com mais naipes e figuras da corte foram feitas, mas o que realmente perdurou foi o esquema de quádruplo. Não se sabe ao certo a razão da existência desse princípio, mas isso não é exatamente estranho, se considerarmos que o número 4 acompanha a humanidade desde tempos ancestrais.

Os Quatro Elementos (da esquerda para a direita: terra, água, ar e fogo
Tratato alquímico “Viridarium chymicum”, 1624, Francfort-sur-le-Main

Nossa consciência é quaternária. Nossos corpos, com dois braços e duas pernas, naturalmente sugerem o número quatro. Percebemos quatro direções básicas – frente, atrás, direita e esquerda; essa consciência espacial é reproduzida naturalmente em nossas construções – nossas casas têm quatro paredes. Também são quatro os pontos cardeais. A percepção da natureza como se modificando através de quatro estações também pode figurar entre outro fator quaternário que ficou gravado no pensamento humano desde seus primórdios, tendo suas origens na percepção dos solstícios, também em número de quatro. Além disso, a cruz figura entre os símbolos mais antigos desenhados em cavernas.
Os elementos primordiais tradicionais, que servem de base para a existência de todas as coisas no universo, são um grupo de quatro – Fogo, Água, Ar e Terra. No mundo ocidental, a tradição dos elementos surgiu na filosofia grega antiga e, consolidada por Aristóteles, permeou todo o pensamento científico do ocidente desde a Antiguidade até o século 17, marcado pelo início da Era Moderna, que introduziu uma concepção de mundo mais calcada no pensamento racional, ligado aos fatos e seus desdobramentos lógicos – concepção essa que permanece em voga até hoje.

O sistema de associações entre as cartas do Tarot e a tradição dos quatro elementos é um dos fundamentos do entendimento esotérico do Tarot. Nesse sentido, as Figuras da Corte são um caso à parte. Além de estar associada ao elemento de seu respectivo naipe, cada figura da corte relaciona-se também a um dos quatro elementos por meio de sua posição hierárquica. O cruzamento entre esses dois fatores abre uma ampla dimensão de significado para as cartas da corte. Esse esquema de associações elementais, junto com as associações das figuras da corte com a Astrologia e com elementos cabalísticos, formam a tríade dos principais elementos na atribuição de significado a essas cartas. Sendo assim, entender esse esquema de associações elementais é entender melhor as próprias figuras da corte no contexto do Tarot.
Cada naipe é associado a um dos quatro elementos, que determina o tema tratado no naipe. As associações elementais de cada naipe e os temas tratados em cada um podem ser sumariamente esquematizados na tabela abaixo:

Naipe
Elemento
Tema
Paus
Fogo
  Movimento, ação, as lutas (e conflitos) da vida, realização pessoal
Copas
Água
  Emoções, relacionamentos, sonhos
Espadas
Ar
  Lições de vida, valores, aprendizado, compreensão da vida,
(daí) conflitos, sofrimento, dificuldades
Ouros
Terra
  Assuntos materiais, o vai-e-vem do dinheiro, os resultados da
nossa energia aplicada

As cartas que compõem o naipe falam do desenvolvimento da experiência no tal tema. Começando com o ás, que é a energia do elemento em seu estado bruto, vamos subindo até o dez, passando por diversas situações que representam um aspecto específico da experiência com o tema em questão, de forma progressiva. Sucedendo a ordem das cartas numeradas, as cartas das figuras da corte representam um estágio a mais no desenvolvimento da experiência no tema – o desenvolvimento da relação com a energia elemental no âmbito do indivíduo. Em outras palavras, as figuras da corte são personificações sucessivas de cada elemento, desde seu estado embrionário ou infantil em nós (os Pajens) até seu estado maduro e completamente desenvolto (os Reis/Rainhas). Enquanto as cartas numeradas representam a ação das forças elementais em nossas vidas, as figuras da corte representam a manifestação de tais energias em nós. É só pensar nas cartas numeradas como as situações do enredo de uma estória, e as figuras da corte como os personagens. Cada figura da corte é, portanto, um estágio de desenvolvimento da relação com a energia elemental no campo pessoal. Tal desenvolvimento é representado na progressão das quatro posições hierárquicas dentro do sistema da corte:
• os Pajens representam essa energia manifestando-se na personalidade em seu estado primário, pouco desenvolvido e bruto. Eles são as bases do naipe;
• os Cavaleiros personificam a energia do naipe se desenvolvendo a pleno vapor, com toda sua força. Representam a intensidade da energia do naipe crescendo;
• as Rainhas representam essa energia já desenvolvida, de forma madura e profunda. São a energia do naipe amadurecida;
• os Reis também representam o completo desenvolvimento dessa energia. Eles são os reis do naipe, o estágio mais alto que eles podem alcançar em seu desenvolvimento.
Até agora, descobrimos então que:
1. cada naipe, relacionado a um dos quatro elementos, trata sobre as experiências em um determinado tema da vida;
2. enquanto as cartas numeradas falam de situações nas quais a energia desses elementos se manifesta, as figuras da corte representam a manifestação dessa energia no indivíduo;
3. tanto no caso das cartas numeradas quanto no caso das figuras, a ordem numérica imprime um senso de progressão na experiência com as energias elementais, que vai da inexperiência à experiência.
O ocultista inglês MacGregor Mathers, em seu livro Book T, escrito no final do século 19, baseou-se na Qabalah, astrologia e geomancia para traçar os paralelos entre os elementos e as figuras da corte. Seu sistema vigora até hoje, servindo de base para a maior parte de novos esquemas de associação. Um dos traços mais marcantes do sistema de Mathers foram as mudanças feitas por ele na hierarquia da corte do Tarot. Acreditando estar fazendo uma retificação, Mathers modificou os nomes e importância das posições, trocando os títulos tradicionais de Rei, Rainha, Cavaleiro e Pajem por Rei, Rainha, Príncipe e Princesa. Sua modificação mais discutida foi a alteração da importância de certas figuras na dinâmica da corte – Mathers colocou o Cavaleiro no posto mais alto, e rebaixou o Rei à posição de príncipe. Os motivos para tais mudanças baseiam-se no que supôs como uma melhor associação do Tarot com a Qabalah.
Mathers foi um dos fundadores da Ordem Hermética da Golden Dawn. Os criadores dos dois baralhos de Tarot mais famosos da modernidade foram membros dessa Ordem – Aleister Crowley, que junto com Lady Frieda Harris criou o baralho de Thoth, entre 1938 e 1943; e Arthur Waite e Pamela Smith, criadores do baralho Waite-Smith, lançado em 1909. Ambos os baralhos exibem claramente influências do sistema esotérico e mágico da Golden Dawn em vários pontos, sendo um deles a associação elemental das Figuras da Corte. Dada a sua popularização através dos dois baralhos acima mencionados, o sistema desenvolvido pela Golden Dawn é hoje o mais aceito e reproduzido. Abaixo, a título de informação, uma tabela com as variações das figuras da corte, de acordo com os Mathers, Crowley e Waite:

Mathers
Crowley
Waite
    Rei (antigo Cavaleiro)
    Cavaleiro
    Rei
    Rainha
    Rainha
    Rainha
    Príncipe (antigo Rei)
    Príncipe (antigo Rei)
    Cavaleiro
    Princesa (antigo Pajem)
    Princesa (antigo Pajem)
    Pajem

Percebemos pela tabela que, enquanto Crowley adotou mais inteiramente o sistema de Mathers nas figuras da corte, Waite preferiu manter-se fiel à estrutura tradicional de Rei-Rainha-Cavaleiro-Pajem. O esquema tradicional faz mais sentido para mim, talvez por eu usar o Waite-Smith e estar habituado a esse esquema de hierarquia. Portanto, é dele que vamos tratar aqui. Contudo, é importante mencionar que não há um sistema certo e absoluto; tais associações foram feitas de acordo com a forma de pensar de cada ocultista, fazendo sentido no contexto do sistema de pensamento dele. Cabe a cada estudante escolher o sistema com o qual se sentir mais confortável, o que fizer mais sentido para ele.
Isto posto, agora temos as bases para estabelecer as associações elementais a cada posição hierárquica da corte.
As associações elementais e as quatro funções da psique
Usando a imagem da ascensão social, o caminho progressivo do Pajem ao Rei ilustra o desenvolvimento da energia elemental dentro de nós. Da manifestação primária dos Pajens ao completo desenvolvimento dos Reis, cada figura da corte representa um dos quatro estágios de manifestação dessas qualidades. A ideia esotérica por trás disso é a de que a manifestação do espiritual ao material é quaternária, e cada estágio subdivide-se em quatro estados, num total de dezesseis. Entendendo que a manifestação ocorre do mais sutil ao mais bruto, a ascensão ou retorno ao espírito faz logicamente o caminho inverso, do mais bruto ao mais sutil, onde está o Uno, a fonte primordial de tudo. De acordo com o pensamento místico, esse conceito serve como molde para o desenvolvimento de qualquer coisa existente, incluindo as pessoas e as coisas que elas produzem, os acontecimentos, a natureza e o cosmos. Vale lembrar que nenhum estágio é mais importante ou sagrado que o outro. Cada um tem sua própria importância e seu papel, fundamentais no processo de manifestação/ascensão.
Uma maneira de abordar a relação das figuras da corte com os quatro elementos é através da teoria das funções do ego, desenvolvida na primeira metade do século 20 pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Segundo Jung, o ego tem quatro funções, quatro formas fundamentais diferentes de perceber e interpretar a realidade e de lidar com o mundo; são elas Sensação, Intuição, Sentimento e Pensamento. Esse grupo de quatro funções consiste em dois pares de elementos opostos. De um lado temos o par Sensação-Intuição, que Jung chamou de funções irracionais, caracterizando-se pela percepção e simples resposta a estímulos . Do outro, temos o par Sentimento-Pensamento. Jung chamou as duas funções que compõem esse segundo par de racionais, pois ambas envolvem o ato de tomar decisões ou fazer julgamentos, mais do que simplesmente receber estímulos.
A função da Sensação consiste na recepção de informação por meio dos sentidos físicos. A função da Intuição define-se por uma percepção que funciona fora do processo consciente comum, consistindo numa complexa integração de grandes quantidades de informação, mais do que simplesmente ver ou ouvir. Ambas são irracionais, no sentido de que não envolvem julgamento. A Sensação é uma percepção mais voltada para o exterior, enquanto que a Intuição é uma percepção de estímulos psíquicos, interiores.
No segundo par, ambas as funções Sentimento e Pensamento são formas de avaliar a informação recebida, ou seja, dar a ela um valor, atribuir-lhe um sentido. Sentimento é a capacidade de fazer julgamentos baseando-se nas respostas emocionais, seguindo valores de bom/mau, agradável/desagradável. A função do Pensamento distingue-se de sua função oposta por basear-se na lógica e na razão para avaliar informações. Enquanto Emoção é voltada para dentro, ou seja, para a realidade interior dos sentimentos, Pensamento volta-se para o exterior, isto é, para as evidências e os fatos do mundo objetivo.
O próprio Jung baseou-se nas tradições antigas dos quatro elementos, através da teoria dos quatro humores de Hipócrates, para formular seu esquema de quatro funções psíquicas. Hipócrates, por sua vez, baseou-se na teoria dos quatro elementos de Empédocles, onipresente no pensamento filosófico grego antigo desde 600 a.C.

Os Pajens

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Terra
Sensação
Infância

O Pajem é o estágio inicial do desenvolvimento. Nele, a energia do naipe está em seu estado bruto, não desenvolvido e primário. Como crianças, relacionam-se com o mundo de maneira bem simples e direta. Ligado ao elemento Terra, o Pajem no Tarot mostra que tudo começa no chão, e a ele está incondicionalmente ligado.

A figura do Pajem representa o aprendiz. Na Idade Média, o pajem era o servo de um cavaleiro, um aprendiz a escudeiro. Após sete anos servindo o cavaleiro, o pajem tornava-se um escudeiro que, depois de mais sete anos, poderia vir a ser ele mesmo um cavaleiro. O pajem executava as funções mais básicas, como cuidar da organização e limpeza dos aparatos de seu cavaleiro, ou levar e trazer mensagens. Simbolicamente, o pajem do Tarot representa o estágio mais básico do desenvolvimento no naipe. Ele é a experiência direta com o naipe, sem abstrações ou sofisticações. Sendo uma criança, o Pajem é neutro – pode ser tanto masculino quanto feminino.
O elemento Terra é o plano material, o mundo objetivo ao nosso redor, e o nosso próprio corpo. No ser humano, a experiência mais primária é a relação com nosso próprio corpo, que percebe o mundo que nos circunda através dos estímulos de nossos sentidos. Relacionados ao elemento terra, os Pajens representam essa experiência sensória, táctil, básica a todo ser humano. Eles estão em contato direto com a energia do elemento ao qual pertencem, sem abstração nenhuma. Psicologicamente, a figura do Pajem equivale à função da sensação, que se caracteriza pela consciência dos estímulos físicos.
As características dos pajens incluem:
• Curiosidade
• Criatividade
• Dedicação
• Inocência
• Sensitividade (no sentido de fisicalidade)
• Inexperiência
• Certa arrogância inocente
• Visão limitada

Os Cavaleiros

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Fogo
Intuição
Juventude

O Cavaleiro é um impulso de energia; retrata o estágio de ascensão da intensidade da energia do naipe. Nele, a energia está subindo, ficando cada vez mais intensa. Os Cavaleiros são cheios de si. Enquanto os pajens são dedicados, quase despersonalizados (tal como as

crianças, os pajens, estão ainda desenvolvendo sua personalidade), os cavaleiros são personalidades desenvoltas; eles sabem quem são, e sabem o que querem – ou melhor dizendo, pensam que sabem. Relacionados ao elemento Fogo, os cavaleiros são o impulso da vida, que brota da terra em direção ao céu.
Na Idade Média, os cavaleiros eram os representantes da classe militar. Assim, a figura do cavaleiro é naturalmente associada à guerra, à missão, à luta por um ideal, uma crença (típicos do elemento Fogo). No Tarot, os cavaleiros tipicamente agem por impulso, seguindo seu coração e perseguindo os ideais onde depositam sua fé. No contexto evolutivo ilustrado na corte, a figura do cavaleiro representa o impulso criador fecundo, o ímpeto rumo ao progresso. Se os pajens são associados à infância, os cavaleiros estão ligados à juventude. Assim como os jovens, os cavaleiros são cheios de energia e disposição para negar, questionar e contestar tudo, preferindo sempre seguir seu próprio caminho.
O elemento Fogo corresponde à força criativa. Ele é a vida, o espírito que preenche a estrutura física formada pelo elemento Terra. Sem a vida do Fogo, toda a estrutura do elemento Terra torna-se um mero objeto inanimado. Psicologicamente, esse impulso vital traduz-se pela intuição, a função psíquica que se caracteriza pela
manifestação de uma experiência espontaneamente trazida à consciência, em vez de provir de atividade mental (ou seja, pensamentos e emoções), ou de estímulos físicos (sensações). Trata-se de um sentimento instintivo, a fonte da inspiração, criatividade e ideias espontâneas. Psicologicamente, os cavaleiros também se relacionam à vontade. As características dos cavaleiros incluem:
• Ação
• Coragem
• Idealismo
• Impulsividade
• Iniciativa
• Paixão
• Entusiasmo
• Egocentrismo
• Imaturidade
• Teimosia

O Casal Monárquico

Existe uma tênue divisão na corte do Tarot entre o casal monárquico (o Rei e a Rainha) e os par de servos, o Cavaleiro e seu Pajem. Enquanto entre o Pajem e o Cavaleiro existe um movimento de ascensão perceptível (a diferença entre eles é comparável à diferença entre um aluno do ensino fundamental e um estudante universitário), as figuras do casal monárquico são mais estáticas e semelhantes. Nelas, o processo de desenvolvimento não é tão evidente como entre o Pajem e o Cavaleiro. A diferença está no fato de que o Rei e a Rainha são como as duas faces de uma mesma moeda. Seu poder é similar – o que distingue um do outro é o foco onde tal poder exerce sua força. Os Reis focam-se no mundo exterior, além das fronteiras de seu reino; as Rainhas concentram sua atenção ao mundo interior, dentro das fronteiras de seu reino.
Psicologicamente, poderíamos dizer que o Rei e a Rainha são os dois aspectos de uma mesma entidade, que personifica a maturidade da manifestação do elemento na personalidade, em seus aspectos ativo e passivo, yang e yin. O poder real das duas figuras do casal monárquico pode servir como metáfora para o domínio que uma pessoa completamente amadurecida tem sobre sua vida e a influência que exerce sobre os outros ao seu redor.
Na teoria jungiana das funções do ego, o grupo de quatro funções divide-se em dois pares; o par sensação-intuição caracteriza-se pela percepção de experiências irracionais, enquanto o segundo par, pensamento-sentimento se destaca por experiências racionais. A exemplo das funções psíquicas, o primeiro par de figuras da corte, Cavaleiro e Pajem, exibe formas mais imediatas de perceber a realidade; já o segundo par, Rei e Rainha, caracteriza-se pela abstração do julgamento.
O casal monárquico faz as decisões, enquanto os dois subalternos cuidam de executá-la. A exemplo do Rei e a Rainha, o par de subalternos também exibe a dicotomia de ativo/passivo, exterior/interior. O Cavaleiro é mais voltado ao mundo exterior ao reino, enquanto o Pajem ocupa-se principalmente das tarefas domésticas e cotidianas.

As Rainhas

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Água
Emoção
Idade adulta/maturidade

A Rainha representa o completo desenvolvimento do naipe, voltado para o interior. É o entendimento de si mesmo. E, através da compreensão de si mesma, ela é capaz de compreender o outro. O estágio da Rainha é um contraponto ao estágio anterior do Cavaleiro.
Ela representa o processo de internalização da energia do naipe, a transcendência da individualidade, e a percepção do outro. Enquanto o Cavaleiro está preocupado em se auto-afirmar, seguir seu próprio caminho e ser dono da sua própria vida (ou seja, sua individualidade), a Rainha já tem sua posição conquistada, e já tem sua identidade completamente estabelecida.

A rainha encarna a figura da matrona, da mãe, do feminino superior e autoritário. As Rainhas têm a mesma energia da Imperatriz, a carta 3, porém manifestada em um nível mais humano e imediato. De fato, é como se cada Rainha fosse um aspecto da Imperatriz.
O elemento Água é o responsável pela união, pela associação. A água serve de meio para a combinação de diversos elementos para o surgimento de algo novo. Ela é responsável pela manutenção da vida. Esse é o motivo devido ao qual o naipe de Copas se associa ao elemento Água – através de sua propriedade fluida, a Água aproxima e une as pessoas pelo que elas têm em comum, suas emoções. Por pertencerem a esse elemento, as Rainhas são sensíveis e conciliadoras.
Elas enxergam as pessoas por dentro, conhecem e compreendem suas necessidades. Empédocles, o primeiro filósofo grego a propor a ideia de quatro elementos primordiais, já associava o elemento Água a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores, o mundo dos mortos. Nesse sentido, note-se a relação de Perséfone com a Sacerdotisa da carta 2 dos arcanos maiores. Por trás da Sacerdotisa, no tarô de Waite,
há uma cortina estampada de romãs. Após ser raptada por Hades, o Rei dos mundos inferiores, Perséfone não pôde mais voltar por ter comido algumas sementes de romã. Através desse paralelo, a Sacerdotisa do Tarot pode ser também uma alusão a Perséfone, a Rainha dos mundos inferiores – do inconsciente, por assim dizer.
Psicologicamente, o elemento Água equivale à função psíquica da emoção. As características das Rainhas incluem:
• Autoridade
• Sensibilidade
• Percepção
• Sentimentalidade
• Conhecimento
• Receptividade
• Experiência
• Auto-segurança
• Possessividade
• Controle excessivo
• Mutabilidade

Os Reis

Elemento
Função Psíquica
Fase de desenvolvimento humano
Ar
Pensamentoo
Idade adulta/maturidade

O Rei representa o estágio de máximo desenvolvimento do naipe, voltado para o exterior e para a ação. Esse é o estágio do domínio, do poder total sobre as forças do naipe. Imagine cada naipe como um reino, então entenderá melhor o papel do Rei. Ele é a autoridade em seu campo.


Enquanto as figuras do Pajem e do Cavaleiro estão mais vinculadas a um momento específico da história, as figuras de rei e rainha estão presentes em todas as culturas, de todas as épocas. De certa forma a figura do rei era um reflexo maior da figura do pai em sua sociedade; assim como o pai era o chefe da família, o rei era chefe do povo. O papel do rei é comandar, e isso significa estabelecer as leis e dizer o que deve ser feito, e quando. Frequentemente, o rei detinha o papel de juiz máximo de seu povo, sendo responsável por definir o que era certo e o que era errado. O Rei é capaz de julgar e avaliar o exato valor de cada coisa, porque ele tem a experiência necessária para fazer um julgamento acertado, e a autoridade para ter sua palavra seguida.
Assim como as Rainhas dos naipes estão relacionadas à Imperatriz do Tarot, cada Rei representa a manifestação da energia do Imperador no nível humano e tangível. A diferença é que, enquanto o poder do Imperador é absoluto, a autoridade de cada Rei se delimita ao seu campo, ou seja, ao naipe ao qual ele pertence.
A figura do Rei é associada ao elemento Ar. Empédocles associou o elemento Ar a Zeus, o Rei dos deuses. Psicologicamente, o elemento Ar traduz-se pelo intelecto – a capacidade de combinar informações e criar abstrações a partir disso.
O aspecto intelectual do Ar está relacionado ao papel do Rei como juiz. A palavra “pensar tem origens em comum com a palavra “pesar” – ambas vêm do latim pendere, significando “pesar”.
A função psíquica associada ao elemento Ar é o pensamento, a capacidade de emitir julgamentos e tomar decisões através do raciocínio. O raciocínio, por sua vez, consiste na habilidade de alcançar a verdade através de um processo de comparações e abstrações dos fatores existentes em uma certa questão. As principais características dos Reis são:
• Autoridade
• Poder
• Liderança
• Domínio
• Julgamento
• Razão
• Discernimento
• Experiência

Cruzamentos dos elementos e seus significados

O Tarot é um jogo, um conjunto de elementos que seguem regras e têm cada qual sua função definida. Uma das “regras” do jogo do Tarot é a doutrina dos quatro elementos. Tal doutrina funciona como um denominador comum entre a quadruplicidade dos naipes e a quadruplicidade das figuras da corte. Observando a dinâmica dos quatro elementos através das cartas, podemos identificar o lugar delas no jogo do Tarot, ou seja, seu papel.
A coisa mais importante que deve ser entendida sobre esse processo de atribuição de significado é que ele acontece do geral ao específico, isto é, do âmbito simbólico do naipe ao âmbito simbólico de cada posição hierárquica. Cada figura da corte é um dos quatro aspectos de seu elemento e, como tal, incorpora um papel único entre as dezesseis figuras. Assim, todas as quatro figuras do naipe de Copas, por exemplo, pertencem ao elemento Água – são do “reino da Água”, por assim dizer; o que difere uma das outras é a associação elemental específica de sua função/posição. Todos os Pajens são de Terra, todos os Cavaleiros são de Fogo, todas as Rainhas são de Água e todos os Reis são de Ar. O Rei de Copas seria então “Ar de Água”, ou seja, a “parte ar” do elemento Água. Algumas pessoas preferem usar a fórmula “elemento do naipe + comportando-se como + elemento da posição, ou seja, “Água comportando-se como Ar”, no exemplo citado anteriormente.
Abaixo, uma tabela listando as associações para cada figura da corte:

Ouros/Terra
Paus/Fogo
Copas/Água
Espadas/Ar
Pajem/Terra
Terra de Terra
Terra de Fogo
Terra de Água
Terra de Ar
Cavaleiro/Fogo
Fogo de Terra
Fogo de Fogo
Fogo de Água
Fogo de Ar
Rainha/Água
Água de Terra
Água de Fogo
Água de Água
Água de Ar
Rei/Ar
Ar de Terra
Ar de Fogo
Ar de Água
Ar de Ar

Isto tudo pode ser confuso no começo, mas fica fácil à medida que percebemos o sentido das denominações dos elementos. Os quatro elementos da tradição ocidental são na verdade símbolos-raiz. Quando dizemos Fogo, não nos referimos apenas ao fogo que queima na lareira; no sentido esotérico, o elemento Fogo diz respeito a todo um complexo de conceitos, que, por convenção e economia, resumem-se na palavra-símbolo “Fogo”, do qual o fogo da lareira é a manifestação física.
Quando percebemos que, no lugar dos nomes dos elementos, podemos colocar outras palavras pertencentes a uma mesma categoria, as coisas começam a ficar mais fáceis. Por exemplo, em vez de dizermos que o Pajem de Copas é “Terra de Água” ou “Água comportando-se como Terra”, podemos dizer que ele é Emoção em Desenvolvimento. O elemento Terra nos Pajens traduz-se por um estado receptivo de desenvolvimento primário e inicial; o naipe de Copas caracteriza-se pela temática emocional. No Pajem de Copas temos a manifestação da emoção, do sentimento, de forma primária, direta, bruta e espontânea. É isso que faz de tal Pajem um personagem sonhador, delicado, sensível, doce, brincalhão, romântico e inocente; o contato direto que ele tem com suas emoções o faz vivenciá-las em sua forma pura. É isso também que faz o Pajem de Copas simbolizar o início de um sentimento ou sonho, ou a inspiração, ou uma afeição desapegada e espontânea. Através das chaves de dois elementos combinadas, podemos extrair uma infinidade de associações de significado. Esse sistema foi desenvolvido do final do século 19 ao começo do século 20, e perdura até hoje como uma base para a avaliação das figuras da corte.

Uma representação de conjunto dos quatro elementos
www.taroteca.multiply.com

O diagrama acima resume, em forma de imagem, os princípios que acabei de expor. No lado esquerdo temos o diagrama dos elementos, contendo em si seus aspectos quaternários; no lado direito vemos, como exemplo, o elemento Ar em destaque e, ressaltando dele, o seu aspecto Fogo – em outras palavras, Fogo de Ar, a configuração elemental correspondente ao Cavaleiro de Espadas.
Tipos de combinações
A forma que os elementos se combinam determina traços da personalidade que emerge de tal combinação. As regras das combinações são as mesmas usadas no método de Elemental Dignities
Combinações entre elementos opostos (Água + Fogo e Ar +Terra), caracterizam-se por um conflito entre o elemento geral (do naipe) e o elemento especifico (da posição hierárquica). Isso resulta em uma personalidade ambivalente e conflitante, altamente mutável e imprevisível.
Combinações entre elementos amigáveis (Fogo + Ar, Água + Terra) resultam em uma personalidade poderosa, que se destaca no naipe ao qual pertencem.
Combinações entre elementos complementares (Água + Ar, Fogo + Terra) são equilibradas, flexíveis e adaptáveis.
As personificações puras
Observando o diagrama dos elementos, abaixo, percebemos que, em cada ponta do quadrado, a parte do elemento permanece a mesma.

Esquema representativo da força específica de cada elemento
www.taroteca.multiply.com

Na tabela das associações, tais combinações estão em negrito. Esses são os aspectos puros de cada elemento, nos quais o estado de manifestação que ele representa e um dos seus próprios estados de manifestação coincidem. São o lado do elemento que permanece inalterado e puro. No Tarot, as figuras da corte relacionadas a esses aspectos personificam cada um dos quatro elementos de forma integral. Sua presença numa leitura indica – a) que a energia bruta dos ases está se manifestando no próprio consulente ou; b) que existe alguém, ou um acontecimento onde ele entrou em contato com essa energia. Tais cartas assemelham-se aos quatro ases, com a diferença de que elas não são impessoais como os ases; elas são os próprios elementos em forma de entidades.
Finalização: por que estudar tudo isso?
Quem chegou até aqui, depois de ler o texto todo, pode estar perguntando-se qual a utilidade de tanta complexidade. E a resposta é bem simples – esses sistemas são o paradigma fundamental na atribuição de significado às cartas. É neles que se baseiam os significados que geralmente lemos nos livros. Mesmo as definições populares, em última instância, têm como referência esses paradigmas. Mas isso é definitivo? É mesmo necessário estudar essas coisas para entender melhor as cartas? Bem, depende.
Ao contrário do que muita gente pode imaginar, o Tarot não surgiu como um sistema divinatório. De acordo com a grande maioria das evidências de que dispomos hoje, seu uso original foi em jogos de cartas comuns. Registros de um uso divinatório/oracular das cartas datam de cerca de 300 anos após o seu surgimento. Até que, no final do século 18, as cartas do Tarot começaram a chamar a atenção de ocultistas Europeus mais influentes, que não demoraram a incluí-lo em seu sistema esotérico. Foi a chamada redescoberta do Tarot – ou invenção, de acordo com o seu ponto de vista. Os primeiros a olharem o Tarot como portador de um conhecimento secreto encararam-no como um sistema simbólico universal. Na crença de estarem descobrindo sua grandiosidade, tais estudiosos acabaram por inventar um novo Tarot, em muitos aspectos. Esse sistema serviu de base para os voos mais altos que fazemos hoje em dia, como associar o Tarot à psicologia jungiana, por exemplo.
Qualquer pessoa que estuda o Tarot entra em contato com um conhecimento que foi estabelecido, a princípio, por essas pessoas. Independentemente do uso que fazemos das cartas, maior ou menor que seja nosso embasamento teórico, todos nós incorporamos, conscientes disso ou não, elementos das doutrinas desses estudiosos no nosso processo de entender e extrair significado das cartas. Pessoas como Court de Gébelin, Eliphas Lévi ou MacGregor Mathers são os responsáveis pela associação das cartas com a Astrologia, a Qabalah e a Tradição dos Quatro Elementos, as três doutrinas mais fortemente associadas ao Tarot. Tal união foi tão forte que o sistema imagético de versões novas do Tarot passou a ser produzido de acordo com esses novos parâmetros de significado. Não há, portanto como negar a importância de tais figuras na conceitualização e uso modernos do Tarot. Exceto no caso de usar um baralho anterior as inovações introduzidas por essas pessoas, alguém que deseja ter uma relação mais próxima com seu baralho de trabalho, bem como uma compreensão mais profunda dos símbolos contidos nele, certamente conseguirá isso melhor buscando a informação de onde ela veio, ou seja, na produção literária dessas pessoas.
Isso nos leva à seguinte conclusão – as associações das cartas com Astrologia, Qabalah ou elementos são um sistema artificial, mais inventado do que descoberto, ou percebido. Apesar do fato de a Astrologia e a doutrina dos quatro elementos terem feito parte do corpo de pensamento filosófico na época da criação do Tarot, não há hoje evidências apontando para uma profunda associação delas com as cartas que não seja anterior ao século 18. Isso quer dizer que os significados dados às cartas são sim relativos e particulares, o que significa basicamente que eles fazem total sentido quando inseridos em um sistema maior, que lhes dá a referência.
Mas, é possível não se basear nessas tradições para compor o corpo de significados das cartas? Sim, claro. Temos hoje uma infinidade de baralhos disponíveis, que se baseiam mais ou menos nos sistemas tradicionais – isso quando há algum embasamento tradicional sequer. Novos artistas, novos teóricos – e novos tarólogos – têm abordado as cartas por outros viés, contribuindo para uma nova concepção do Tarot – uma nova invenção do Tarot, por assim dizer. E eu acredito que a validade dessas novas teorias e visões não é algo que possa ser decidido objetivamente, cabendo a cada um que estuda as cartas decidir se elas cabem ou não no seu universo de concepção tarológica. Para alguém que amadurece sua comunicação com as cartas, as interpretações tradicionais servem mais como trampolins para uma relação mais íntima com as cartas. O Tarot é uma linguagem entre o tarólogo e seu próprio sistema de valores, símbolos e significados. Em última instância, o único compromisso que cada estudante de Tarot deve ter, é consigo mesmo.

Bibliografia
Livros:
The Tarot: History, Mystery and Lore – Cynthia Giles, 1992, Paragon House
Understanding the Tarot Court – Mary K. Greer & Tom Little, 2004, Llewellyn
Seventy Eight Degrees of Wisdom: a Book of Tarot – Rachel Pollack, 1980), Weiser Books
Tarot Symbolism – Robert O’Neill, 1986 (ed. 2004), ATS
The Complete New Tarot: Theory, History, Practice – Onno & Rob Docters van Leeuwen
Sites:
Taroteachings.com, de Avia Venefica – www.tarotteachings.com/tarot-court-cards-elements.html
Llewellyn.com: artigo Hidden and Secret Meanings – The Court Cards, part II, de David Allen Hulse – www.llewellyn.com/journal/article/387
Kheper.net – artigo The Four Ego Functions, M. Alan Kazlev – www.kheper.net/topics/Jung/typology.html
Wikipedia.com – verbetes Aristotle, Carl Jung, Knight, Queen, King, Page
Taroteca.multiply.com (imagens)

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/as-figuras-da-corte-e-suas-associacoes-elementais/

Uma Introdução Inicial aos Mistérios Matemágicos – que são muito interessantes

Não vos percais com os preceitos da Ordem
– O LIVRO DO ÚTERO 1:5

NO PRINCÍPIO

Olhe para o céu em um dia ensolarado, sem núvens e diga o que vê. Se conseguir descrever algo é porque está olhando para o lugar errado. Procure no céu algo que perturbe o olhar, é uma forma esférica e luminosa, quando a encontrar, olhe diretamente para ela e diga o que vê. É o Caos. A Maçã da Discórdia em sua forma mais pura. É o sorriso da Deusa. Os macacos chamam esse Glorioso Explendor simplesmente de sol, ou ainda estrela, ou ainda astro, numa tentativa cada vez maior de enterrar Sua Sorriso Esquisofrenicamente Belo. Mas para poder compreender os macacos, temos que falar sua língua, e assim nós começamos nosso mergulho.

Macacos, perdão, cientistas, acreditam que o sol, e outras estrelas, mas vamos nos focar apens no sol, nada mais é do que uma bola gigante de gás. Mas não bastando acreditar nisso eles foram além, eles acreditam que os gases que formam essa bola ficam no lugar por causa do próprio peso. De cara já percebemos que existem duas palavras que não se encaixam em um descritivo de uma dama: bola e peso. Mesmo assim, continuemos.

Cada parcela do sol é atraída para todas as parcelas restantes pela força da gravidade[1], se precisar de uma imagem para conseguir entender isso, pense na atmosfera da terra sendo atraída para a terra. Agora, se temos uma quantidade discretamente chamativa, de gases sendo forçados em direção a um único ponto, o lógico seria que o sol fosse do tamanho da cabeça de um alfinete, certo? Isso poderia ser o caso, caso não fosse por outra força.

Imagine que está em um show. Imagine que é um show do AC/DC e você quer chegar perto da banda para vê-los tocar. Você tem duas opções:

A) Chega cedinho, assim que abrem os portões corre para a grade perto do palco, abraça a grade e espera.

B) Chega minutos antes da banda entrar, com o estádio lotado e força caminho rumo a grade.

Estou falando por experiência própria. Num show cheguei cedo e fui para a grade. A Banda entrou. Em dois minutos estava sendo pisoteado e meu braço estava sendo quebrado. Foi um show do cacete. No outro cheguei logo antes da banda entrar, forçando passagem consegui assistir a tudo a menos de 3 metros de distância do palco. Qual a licão que tirei dessas duas experiências?

No jogo da vida é melhor ser o gás sendo levado rumo ao centro do sol do que o gás que está no centro e não tem por onde sair.

Para o sol não desmontar sobre si mesmo a pressão em seu interior cresce de acordo com a força pela qual os gases são atraídos para o centro. Isso faz com que no centro a temperatura seja mais alta, a pressão maior, o número de coisas ocorrendo ao mesmo tempo loucamente incalculável. Faz com que quem está fora queira entrar e quem está dentro comece a desejar não estar naquele miolo. O sol de fato é muito semelhante a um show do AC/DC. Todo astrofísico deveria realizar este experimento para se aproximar daquilo que estuda de longe.

Aumente a pressão de algo, a temperatura aumenta, e qualquer pessoa que já esqueceu uma panela de pressão no fogão ligado conhece um dos fatos básicos da vida: você pode estar cercado de alumínio, pode estar cercado por ferro, pode estar cercado por uma liga metálica criada pela NASA, quando o calor resolve sair, ele sai. Assim essa energia que existe dentro do sol de pressão empurrando pra fora, gravidade puxando para dentro resulta, num primeiro momento em luz e calor. Mas num segundo momento resulta em muito mais.

Para resumir uma longa e chata história esse ciclo é cíclico, muito gás, muito peso, muita pressão no núcleo, essa pressão empurra tudo para fora, onde o peso faz voltar para o núcleo, etc… Mas afirmarmos que o sol é feito de gás é um erro, e como já demos várias explicações científicas desde o começo do texto vamos corrigí-la. O calor dentro do sol é tão descomunal e a pressão tão fodasticamente forte que, como no show do AC/DC, qualquer coisa lá no meio não tem forma. Se não possui uma forma básica que seja composta de alguma coisa menor não podemos nem dizer que aquilo é um gás. Por isso usam o nome plasma ou, trocando em miudos, aquilo que quando for deixado em paz vai virar a base para se formar átomos. O centro do sol é uma enorme sopa de energia nem em estado líquido, nem gasoso, nem sólido.  Quando se afastam do centro essas partículas começam a se formar e do meio do Caos surge a primeira forma, poderíamos chamar de a primeira informação. Só que essas partículas estão alucinadas, como se tivessem passado o dia numa fissura atrás de crack e tivesse acabado de cheirar meio quilo de cocaína cada uma. Isso faz com que essas partículas recém formadas já saiam para bater cabeça umas com as outras, novamente, como no show. Quando partículas sub atômicas batem uma de frente com a outra numa velocidade grande o bastante o que acontece?

Bem, poderíamos dizer agora que Chernobyll foi não um acidente, mas uma homenagem à Deusa.

O núcleo do sol é como um reator nuclear boiando no espaço. Mas nem tudo é simplesmente bate cabeça. Quanto mais distantes do núcleo, mas as formas aparecem. Eventualmente várias partículas fogem do núcleo do sol, vários prótons e neutrons e elétrons, assim que a força do núcleo diminui um pouco sobre eles, graças à distância as forças nucleares fortes e fracas e o eletromagnetismo entra em ação e voilá, um elétrom fica preso na órbita de um prótom e ai você tem seu primeiro átomo da tabela periódica, o Sr. Hidrogênio. Quando eventulamente as estrelas entram em colapso, suas áreas cheias de hidrogênio são esmagadas em cima de si mesmas, o sol explode e nisso começa a fabricar hélio, que tem dois prótons e dois elétrons, e a coisa continua, cada vez que uma estrela entra em colapso ela começa a fazer os átomos que a constituem se fundir em átomos mais pesados, chegando no urânio que é a baleia dos átomos e serve pra fazer bombas. Eventualmente esses átomos são cuspidos para longe das estrelas quando elas explodem e vão para o universo, onde sob certas condições começam a se combinar em moléculas, e as moléculas se combinam em coisas maiores e logo logo surgem gases, líquidos e minérios. Por isso, sim! A culpa de você estar sem ter o que fazer na frente do computador é do sol – isso do ponto de vista do macaco. Do ponto de vista correto isso significa que todos viemos d’Ela, cada micro parte de nosso ser, vomitado por suas maçãs espalhadas pelos cosmos.

Esse processo explica como um bando de matéria solta se une, forma uma estrela e começa a cuspir átomos que viram outras coisas como gasosas, planetas e você ou eu. Acredita-se que no início do universo havia apenas hidrogênio e hélio, por um lado esses dois elementos partiram de uma sopa violenta de energia, que só existia por causa do Caos e por outro esses dois elementos, depois de milhões e milhões de anos de abuso, foram transformados em outros elementos. Como a Deusa sorri para sua criação de todos os ângulos que podemos perceber não é surpresa descobrir que isso vem acontecendo pelos últimos 17 bilhões de anos.

Se chegou até aqui ótimo, você acabou de me ver explicando dois processos interessantes:

1- Fusão Nuclear

2- Matemática

APÓS O PRINCÍPIO

Resolvi sair na rua e brincar um pouco. Escolhi a rua porque ela fica mais longe da wikipedia do que a casa e locais de trabalho dos outros. Também escolhi a rua porque vivemos em uma sociedade onde as pessoas tendem a despirocar quando aparece dentro de suas casas e locais de trabalho uma pessoa estranha. E assim sai pelas calçadas com uma prancheta na mão, um crachá no bolso do paletó e meu melhor sorriso de vendedor de carros usados perguntando para as pessoas coisas como nome, número do rg, endereço, idade, telefone, grau de escolaridade e o que é matemática. Descobria algumas coisas interessantes com isso.

Primeiramente descobri que mesmo vivendo em uma sociedade onde as pessoas despirocam quando aparece dentro de suas casas e locais de trabalho uma pessoa estranha, elas não tem problemas para dar seus dados para uma pessoa estranha se ela está segurando uma prancheta e sorrindo para elas.

Segundamente descobri que quanto mais velhas e supostamente instruidas, mais estúpidas ficam as pessoas. Vejam, as pessoas mais velhas e com maior grau de instrução respondiam que a matemática é O ESTUDO DOS NÚMEROS. As mais jovens e com menos instrução respondiam que a matemática é A CIÊNCIA DOS NÚMEROS. As crianças de até 7 anos que responderam a pesquisa afirmaram que NÃO SEI O QUE É MATEMÁTICA, mesmo quando o responsável presente insistia em querer contaminar a jovem mente com a idiotice da maturidade.

Ponto para as crianças. Não há como explicar o que é a matemática.

Cientistas são por definição pessoas preguiçosas. Sempre que vão fazer estudos com animais perdem anos ensinando a eles como se comunicar de forma humana para tentar entender o que os bichos pensam ao invés de simplesmente aprender a línguagem dos bichos e experienciar o que eles pensam. Tente ler Finnegan’s Wake do Joyce em qualquer tentativa de tradução e logo vai entender o problema com essa preguiça científica.

Para evitar cair no mesmo erro eu dediquei horas e dias aprendendo a linguagem dos macacos e transcrevo aqui exatamente o que eles pensam sem traduções grosseiras.

O Dogma Simiesco afirma que:

“É fato sabido que a espécie humana já conhece os números abstratos há cerca de 8.000 anos. A matemática formal, simbólicam com equações, teoremas e provas, tem pouco mais de 2.500 anos. O cálculo infinitesimal foi desenvolvido no século 17; os números negativos passaram a ser usados comumente no século 18, e a álgebra abstrata moderna, onde símbolos como x,y e z denotam entidades arbitrárias, tem apenas 150 anos.”

O macaco que disse isso não é um macaco qualquer, ele é Keith Devlin, um macaco que atingiu o cargo de diretor executivo do Centro de Estudos de Linguagem e Informação, além de professor do Departamento de Matemática da Universidade de Stanford, assim como pesquisador da Universidade de Pittsburgh, nas horas vagas ele é membro da American Association for the Advencement of Science. Como eu disse, parece qu equanto mais velha e instruída, mais estúpidas ficam as pessoas.

Nosso amigo prossegue com uma rápida linha do tempo da matemática que tenta explicar do que ela se trata:

Até 500 a.C. a matemática era algo que tratava de números. A matemática do antigo Egito, Babilônia e China consistia quase que inteiramente em aritmética. Era largamente utilitária e de uma variedade bem do tipo “livro de receitas” (Faça isso e aquilo com um número e você terá a resposta).

– Entre 500 a.C. e 300 d.C. a matemática se expandiu além do estudo dos números. Os matemáticos da antiga ©récia se preocupavam mais com a geometria. Na verdade eles viam os números de uma perspectiva geométrica, como medidas de comprimento, e quando descobriram que havia comprimentos aos quais não correspondiam seus números (chamados comprimentos irracionais), o estudo do assunto praticamente estancou. Para os gregos, com sua ênfase em geometria, a matemática era números e forma. Foi somente com os gregos que a mamtemática realmente passou de um conjunto de técnicas para se medir, contar e calcular para uma disciplina acadêmica, que tinha tanto elementos estéticos quanto religiosos.

– Depois dos gregos, embora a matemática progredisse em diversas partes do mundo – notavelmente na Arábia e na China -, sua natureza não mudou até meados do século 17, quando sir Isaac Newton (na Inglaterra) e Gottfried Leibniz (na Alemanha) inventaram, independentemente, o cálculo infinitesimal. O cálculo infinitesimal, em essência, é o estudo do movimento e da mudança. A matemática tornou-se o estudo dos números, da forma, do movimento, da mudança e do espaço.

– A partir de 1750 houve um interesse crescente na teoria matemática, não apenas em suas aplicaçnoes, à medida que os matemáticos procuravam compreender o que estava por trás do enorme poder do cálculo infinitesimal. Ao final do século 19, a matemática havia se transformado no estudo dos números, forma, movimento, mudança, espaço e das ferramentas matemáticas que são usadas nesse estudo. Este foi o início da matemática moderna.

Bem, vocês sentiram esse cheiro? Parece comida digerida, descolorada e largada ao vento? Aquele cheiro fresco de merda?

SIM!!! É chegado o momento do selo.

Como qualquer um pode ver, toda essa exposição é uma grande pilha de merda. Mas não há motivos para nos chatearmos. Qualquer jardineiro sabe que é na merda que crescem as flores.

Vejamos que flores podemos colher dai.

1ª Flor

No post anterior vimos que números são coisas sinistras, vamos expandir aqui essa noção baseadas em fatos. Números são invenção de nossas mentes, a matemática, como veremos, não precisa em absoluto de números para ser conduzida.

2ª Flor

Não houve um período em que a matemática adquiriu elementos religiosos, ela teve sua origem na religião, como veremos.

3ª Flor

Essa evolução da matemática parte de um ponto de vista técnico e não natural. Veja porque agora.

Muitos construtores, fossem arquitetos, engenheiros, agrimensores, artesãos, perceberam que para se fazer qualquer coisa é preciso se trabalhar com proporções. Para se erguer uma coluna de tantos metros precisamos de pedras de tal tamanho. Para se fazer uma ponte assim e assado, precisamos de tanta madeira e tanta corda. Para se construir pássaros metálicos autômatos que cantam sozinhos, precisamos de tanta água e tanto metal, e as coisas precisam ser montadas de tal forma para que o sopro do ar imite o canto dos pássaros.

Logo eles descobriram que a matemática tinha uma forma de fazer essas proporções se tornarem perceptíveis e maleáveis, e passarma a usá-la como ferramenta de trabalho, da mesma forma que a Igreja Católica passou a usar Deus e Jesus e Maria como ferramentas de trabalho.

Assim não é de se espantar que quando Newton e Leibnitz começaram a brincar de cálculo que os cientistas da época resolvessem criar uma modinha de se usar matemática pra tudo. Como a física era o ramos da ciência que mais dava status, todos queriam ser físicos, e assim a matemática, coitada, ficou presa à física. Veja que na época quase tudo que era considerado matemática tinha a ver com a física. Depois disso ela evoluiu e tomou outros rumos, como matemática pura por exemplo, que descarta a necessidade de um mundo para a ciência existir.

Por isso, sempre que procuramos uma história da matemática, quase sempre encontramos uma descrição de seu desenvolvimento e evolução do ponto de vista que vai do primitivo e supersticioso, e também inteiramente prático até o século XVII e XVIII, e ai se torna uma arte física, e a partir dai o quanto ela se distancia da física. Assim temos uma noção primitiva e mística/supersticiosa de matemática, temos a criação da matemática moderna por homens brancos e religiosos e depois temos a evolução da matemática nas mãos desses homens brancos e religiosos que agora gostam de se intitular de Ateus para poder dizer que eles inventam a matemática, e não algum Deus de barbas brancas.

Bom, em um ponto esses homens brancos acertaram, a matemática não veio de um Deus de barbas brancas, veio de uma Deusa com sérios problemas bipolares – como toda deusa que se preze tem que ter.

4ª Flor

E talvez a mais importante. Por mais cavalhereisco que você seja, nunca foda com um alemão que inventa uma forma nova de se usar a matemática. Ele com certeza vai descobrir onde sua mãe mora. A fama nem sempre vale o preço que estamos dispostos a pagar.

Amarrando nosso lindo buquê

Temos então a visão clara de que grande parte do estudo matemático e da história da matemática é racista e chauvinista. Mas não se preocupe, vamos começar a corrigir isso agora.

Já vimos que um dos efeitos colaterais de nosso sistema nervoso, isso para não dizer da vida, é a capacidade de reconhecer pequenos grupos e notar pequenas diferenças de mudanças nesses grupos. Essa capacidade é aquilo que evoluindo se torna a capacidade de contar. Essa capacidade de reconhecer grupos e mudanças é facilmente confundida não apenas com contagem como com uma persepção ou senso de números. Vejamos alguns experimentos interessantes realizados com bebês e pessoas acidentadas.

Em 1967 Jacques Mehler e Tom Bever decidiram brincar com crianças. Não de uma forma suja e bizarra, mas cientificamente. Até então muitas pessoas não sabiam se bebês podiam contar ou tinham uma mínima noção de grandezas. Até então não havia testes que pudessem dar respostas claras do que os bebês achavam ou pensavam. Até os dois supracitados cientistas perceberem algo.

Eles reuniram crianças entre dois e quatro anos, e apresentaram para elas dois grupos de doces. Ao invés de testes onde haveria qualquer necessidade de comunicação a coisa foi resolvida da seguinte maneira. Na frente de cada criança colocavam dois grupos de doces, um com seis M&Ms, agrupados juntos e outro com quatro M&Ms espaçados. A idéia era criar um grupo de aparência menor, com mais docês e um que ocupasse mais espaço e tivesse menos doces. Então diziam para as crianças escolherem qual grupo de doces queriam. A grande maioria das crianças não pensava duas vezes antes de atacar o grupo mais compacto porém com mais doces.

Em 1980 resolveram ir além e testar crianças ainda mais novas. Prentice Starkey, na Universidade da Pensilvânia, fez um teste com 72 bebês com idades variando entre 16 e 30 semanas de vida. Ela colocou os bebês no colo da mãe e ambos na frente de um monitor. Sem avisar o bebê, como se ele estivesse em uma pegadinha do Mallandro, Prentice filmava os olhos dos bebês para poder cronometrar o tempo que ele investia observando algo. A lógica é muito boa, simples e muito MUITO boa. Se um bebê encara algo por muito tempo está prestando atenção – da forma que bebês prestam atenção – se os olhos ficam vagando de um lado para outro é porque perderam o interesse.

Nas telas exibiam slides, sempre que os olhos do bebê perdiam o interesse um novo slide era mostrado. E o que era mostrado era o seguinte: uma tela com dois pontos dispostos mais ou menos horizontalmente. Assim que o olhar mudava de direção surgia um novo slide com dois pontos em direções diferentes. Ela notou que a cada novo slide o tempo de atenção era menor. De repente, sem aviso, mostravam três pontos. Imediatamente o bebê voltava a se interessar, encarando o monitor por um período grande de tempo de 1.9 segundos, subia para 2.5 segundos.

A mesma experiência era feita ao contrário. Três pontos em posições aleatórias eram mostrados, sendo detectada uma crescente falta de interesse. Assim que era substituído por dois pontos o interesse voltava.

Algum tempo depois foram feitos experimentos que comprovaram que bebês com 2 ou 3 dias de vida conseguiam descriminar mudanças em no tamanho de conjuntos.

Essas e inúmeras outras experiências do tipo provaram que bebês conseguem lidar com mudanças em conjuntos que contenham 1, 2 ou 3 objetos. As crianças com menos de um ano parecem não saber distinguir 4 objetos de qualquer número maior. Mas o interessante é que essa habilidade não é exclusividade de crianças e bebês, em experimentos onde adultos tem que responder quantos pontos, arranjados de maneira aleatória, aparecem em uma tela, o tempo necessário para darem a resposta quando surgem um ou dois pontos é praticamente idêntico, para reconhecer três pontos levam pouco mais de meio segundo, mas quando o número de pontos ultrapassa o três o tempo de reconhecimento começa a subir, e conforme o número de pontos cresce o número de erros cresce também. Isso deixa claro que as respostas são resultados de dois processos cerebrais completamente diferentes. Até três nós reconhecemos imediatamente a quantidade, além de três nós contamos quantos objectos estão presentes. Quando o número de pontos nos slides aumenta, o tempo requerido para que a cobaia cuspa o resultado também aumenta. Linearmente. Ou seja, demora mais porque está contando, e números maiores precisam de mais tempo para serem contados. Duvida? Conte até 10 mentalmente. Que número chega antes? o 7 ou o 3?

1, 2 e 3 são “valores”, “quantidades”, “padrões” que reconhecemos instintivamente. Sem pensar. Da mesma forma que a vespa talvez não fique imaginando que precisa arranjar a raiz quadrado de 25 lagartas para deixar com seus ovos. Isso me faz crer que 1, 2 e 3 não sejam números de fato. Numeração começa além do quatro. Se preferir podemos inverter e eu afirmo que os únicos números que existem em nosso cérebro são o 1, o 2 e o 3, e a partir do 4 são outra coisa qualquer. Desenvolverei essa ideia com o tempo.

Bem, além de preguiçosos, cientistas e homens da razão em geral tem uma diversão depravada curiosa: adoram passar décadas reinventando a roda.

Releia os experimentos antes de prosseguir. Para facilitar a compreensão vamos seguir certa ordem cronológica.

1- A moda hoje é afirmar que o Antigo Testamento foi escrito na época do rei Salomão, que afirmam ter sido por volta de 1009a.C. a 922 a.C. No livro Gênesis 1:26-27 (negritos meus)

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.

E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.

2- Lao-tsé, em seu Tao-te king, escreveu, na China, no ano 500 a.C:

“Tau a Razão criou Um. Este Um tornou-se Dois, e o Dois produziu o Três, e o Três produziu todos os outros seres”.

3- Platão, que viveu entre os anos 427 a.C. e 348 a.C. (dando ou tirando um ou dois anos), escreveu:

“O ser humano foi criado no início com o homem e a mulher não formando mais do que um só corpo.

Cada corpo tinha quatro braços e quatro pernas. Os corpos eram redondos e rolavam por toda parte, servindo-se dos braços e pernas para se mover. Acabaram por desafiar os deuses. Um deus disse então: “Matemo-los, pois são muito perigosos‖! Um outro disse: “Não, tenho uma idéia melhor.

Vamos dividi-los em dois; assim não terão mais que dois braços e duas pernas; não serão mais redondos. Não poderão rolar; sendo dois oferecerão o dobro de sacrifícios e, o que é mais importante, cada metade estará tão ocupada procurando a outra que não terão tempo para nos desafiar”.

4- Manava Dharma Sastra, antigo livro hindu datado do século 1 a.C. traz o seguinte texto:

“No começo só existia o infinito, chamado aditi. No infinito se encontrava A U M, razão pela qual deve preceder toda prece ou invocação”.

O Livro de Manu, antiga obra hindu, diz: “A sigla A U M significa terra, céu e paraíso”.

5- Uma tábua de argila encontrada por William Niven no México datadas de ?! e batizada como tábua número 150, lemos uma lenda Nacal de como a terra foi povoada:

“O Criador criou Um, Um se tornou Dois”.
“Dois produziram três”.
“Destes três descende toda a humanidade”.

digo datadas de ?! porque alguns entusiastas do impossível chegam a datar as tábuas de mais de 12.000 anos atrás. Investigaremos isso a fundo e talvez coloquemos a data correta.

Ainda entre os Nacals existe o seguinte símbolo:

Ele é um dos três símbolos formando um parágrafo que significa:

O criador é Uno. Ele é dois em um, Lahun. Esses dois formam o Filho – o Homem Mehen.

Este gráfico é chamado também de “o texto misterioso”, porque de qualquer maneira em que seja lido, começando-se de qualquer ponto do triângulo formado pelos símbolos, o significado permanece o mesmo: um, dois,
três.

6- Em 1967 John Lennon compôs uma epifania musical, que se inicia com:

I am he as you are he as you are me and we are all together.

Para ilustrar melhor eu costumo dividir em:

|I am he| as |you are he| as |you are me| and |we are all| to get her!

Agora tentem notar alguma similaridade entre aquilo que foi descoberto com crianças e esses textos citados.

Alguém?

Nos diz muito a respeito de nosso cérebro como podemos pensar “que coincidência a religião e a filosofia tratarem de trindades e termos uma capacidade inata de distinguir grupos de três” mas não achamos coincidência que os isótopos de ferro que são cuspidos por super-novas como isótopos radioativos de níquel e cobalto nas proporções exatas que encontramos no ferro usado para fazer martelos aqui na terra.

Em um primeiro momento essa conexão pode parecer estranha. Mas vamos analisar outras coisas que não tem nada a ver com isso por hora.

Dê uma olhada com calma na figura abaixo. Me diga o que acha que ela é.

O engraçadinho que respondeu que isso se parece com o raio X da mochila de alguma senhora  embarcando para o Paraguai terá a cabeça sodomizada mais tarde. Isso é um Mattang, um mapa. Ele é confeccionado com fibras de palmeira, gravetos ou qualquer coisa que possa ser usada para traçar linhas e curvas.

Para dar uma idéia do que exatamente é uma dessas coisas chamaremos Pablo.

PABLO! TRAGA O MATTANG!

Como podem ver, o Mattang de cima é uma versão do que Pablo, nosso Travesti de estimação segura. Espere.

PABLO! SUA BESTA, VIRE ELE!

Pronto, agora dá pra reconhecer aquele padrão de folha na parte superior direita, as duas retas paralelas no centro e as linhas curvas na esquerda em baixo.

Falemos sobre mattangs agora.

Os ilhéus do pacífico costumavam navegar bastante de uma ilha para outra. Vai ver eles se enchiam das pessoas presas com eles na própria ilha, vai ver eles ouviam sobre festas nas ilhas visinhas. Algumas das ilhas eram próximas umas das outras, algumas estavam distantes centenas de quilómetros. Esses ilhéus eram o que você provavelmente chamaria hoje de “índios”, ou seja, suas viagens eram realizadas em pequenos barcos e sem a ajuda de qualquer  instrumentos de navegação moderno. Por serem “índios” eles não dispunham de bússolas, sextantes, ou mesmo de cartas de navegação. Latitude e longitude deveriam soar como marcas concorrentes de refrigerante para eles. Mesmo assim, eles pegavam seus barquinhos de “índio” e se metiam no mar para ir atrás das outras ilhas. E acredite, eles chegavam onde queriam.

Na falta de civilização para os entreter, esses ilhéus se ocupavam com outras coisas que estavam por perto, como por exemplo o mar. Na verdade o mar não estava apenas por perto, ele estava em volta, se estendia até o infinito e em algumas épocas também estava por cima. Com o tempo esses ilhéus aprenderam a reconhecer o padrão formado pelas ondas. Não apenas as que rebentavam em suas praias, mas as ondas no meio do caminho. Pelo movimento das águas na superfície do mar, mesmo que não houvesse qualquer vestígio de terra à vista, eles sabiam exatamente onde estavam por saber que desenho as ondas se formavam lá.

Como eles dependiam da navegação para muitas coisas, eles tinham “escolas de índios” que ensinavam os jovens a reconhecer esses padrões. Um dos “livros didáticos de índios” que eles usavam eram os mattangs. No mattang eles colocavam a posição de onde estavam, dos desenhos das ondas ao redor, no meio e no final dos vários percursos. Também contavam com a ajuda do sol e das constelações, além de pássaros, mas o mattang era o simulador de vôo que eles dispunham.

Agora pense no seguinte. Se o mar fosse sempre o mesmo, nós seríamos estúpidos de não nos guiar por seus padrões, mas ele não é o mesmo. Para começar ele é feito de água, e água, diferente de concreto, costuma ter uma natureza muito mais maleável e insconstante. Além disso se venta um dia num canto, ou tem um tsunami do outro lado do mundo, as ondas são afetadas e mudam de forma certo? Como conseguir se guiar por padrões que estão constantemente sujeitos a mudanças? Como gravar esses padrões em muttangs para que eles pudessem ser ensinados a jovens e crianças para que eles os reconhecessem quando os vissem? Se o mar muda o tempo todo, como um navegador índio da Oceania consegue saber onde está, a qualquer momento, apenas olhando para o mar?

Deixemos os índios de lado, vamos voltar para a civilização pelo momento. Claramente vocês se lembram de eu ter citado “pessoas acidentadas” mais acima. Vamos a elas.

Esta é Signora Gaddi. Ela sofreu um derrame. Mas males o menor e o derrame deixou sua faculdade de fala e de rascioncíneo, mas fudeu completamente com sua capacidade de reconhecer números. Ela literalmente não conseguia determinar ou avaliar o número de objetos em qualquer conjunto. Ela também só conseguia repetir os “nomes” dos números até o 4, e assim só conseguia contar os elementos de um grupo de quatro ou menos objetos.

Esta é Frau Huber. Ela teve que fazer uma operação. Enquanto a maioria das mulheres de hoje opera para tirar um pouco de gordura ou colocar muito silicone, Frau Huber queria retirar uma parte de seu lobo pariental esquerdo; não era exatamente vaidade, ela tinha um tumor lá. Depois da cirurgia, sua inteligência e capacidade de falar pareciam ter permanecido bastante boas, mas os números não. Ela também conseguiu foder sua capacidade de reconhecer números. Ela não conseguia somar nem multiplicar nem mesmo usando os dedos. Ela repetia a tabuada de multiplicação, mas era como se estivesse recitando um poema, nada daquilo fazia sentido. Ela continuava capaz de aprender que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa, mas apenas como você consegue decorar que a energia é a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado. Não fazia sentido nenhum, se mostrasse um triIangulo retângulo de catetos igual a 3 e 4 e pedisse para dizer quanto media a hipotenusa ela repetiria a fórmula, mas não saberia calcular ou dizer ou entender aquilo.

Em Paris, algum tempo atrás, uma pessoa que vamos identificar aqui como “o paciente” sofreu um acidente. Sim, ele deve ter recebido flores. Sim, ele deve ter usado um daqueles aventais de hospital que deixa a bunda de fora. Não ele não morreu. Na verdade para deixar mais misterioso nem vou dizer se O Paciente é ele ou ela. Ao invés de morrer seu cérebro sofreu uma lesão que deixou o cérebro basicamente intacto, a não ser por sua capacidade de contar. Ele conseguiu foder sua capacidade de reconhecer números. Isso não significa que O Paciente não conseguia somar 2 mais 2. Isso significa que se você colocasse cinco objetos na frente d’Ele, Ele não saberia dizer quantos eram. Se colocasse dez objetos a mesma coisa. Curiosamente quando 3 pontos eram mostrados para ele em um slide ele conseguia repetir corretamente o número de pontos.

Claro que apenas usar acidentados para conseguir ibope pode parecer de mal gosto. Vamos ver pessoas que não precisaram foder sua capacidade de reconhecer números, elas já nasceram com a capacidade fodida.

Este é Charles. Ele é um jovem muito inteligente. Ele é graduado em psicologia. Ele precisa de uma calculadora para somar 2+2. Vejam, ele é de fato inteligente. Ele se graduou em psicologia e não em frentistologia, e ele não consegue somar 5+8. Isso não quer dizer que ele não consiga, ele usa a calculadora, lembra-se? Ele consegue usar a calculadora para fazer as contas e percebe o resultado, mas nada do que ele digita nela ou ela lhe mostra faz sentido algum. Quando a conta é simples e ele tem tempo ele usa os dedos, conhece os nomes dos números, mas não os enxerga. Dê dois números a ele como 20 e 2, ou 14 e 10.937.498 e pergunte qual o maior. Ele não saberá dizer, ele começa a contar nos dedos e vê qual chega primeiro, esse, logicamente, é o menor. Em um teste ele levou oito segundos para somar 8 e 6, em outro levou doze segundos para subtrair 2 de 6. Ele não conseguiu realizar contas mais complexas como 7+5 e 9+4. Obviamente ele levou mais tempo do que seus amigos para se formar, mas se formou.

Aquela ao lado de Charles é Julia. Não eles não tem qualquer parentesco, nem se conhecem. Como Charles, Julia também se graduou e não apenas isso, ela fez pós graduação. Como Charles ela também só conseguia contar usando os dedos e quando os números iam além do 10 ela suava frio e sentia os olhos se encherem de lágrimas, quando os dedos terminavam, também terminava a contagem. Frações para ela eram algo incompreensível, apesar dela ser capaz de cortar um bolo de aniversário em pedaços. Ela não consegue contar de 3 em 3, a não ser na mão, um a um e enfatizando cada terceiro nome: um, dois, TRÊS, quatro, cinco, SEIS, sete, oito, NOVE, etc., etc., ETC. Diferente de Charles, Julia conseguia dizer se um número era maior do que outro.

Que lições podemos tirar disso? Em primeiro lugar parece que um daltonismo para números é possível. Depois que chamamos pessoas que não percebem cores, pessoas que não percebem números, pessoas que não percebem dor de deficientes, mas pessoas que não percebem a Deus de Ateus, e por algum motivo esses “ateus” parecem se colocar em um grupo acima ao dos daltônicos, das pessoas com deficiência no senso numérico e das pessoas acometidas de Alopecia.

Há uma terceira lição que pode ser interessante. As pessoas lesionadas ou que não tem esse senso de número mostram que aquilo que chamamos de números parecem parasitar uma área específica do cérebro. Uma área diferente da parasitada pela linguagem. Dito isso podemos também afirmar que… ok, bando de covardes.

Dito isso eu afirmo que a matemática, assim como a linguagem, possuem circuitos próprios que já vem instalados em nosso sistema nervoso. Quando essas placas de circuito se quebram deixamos de contar ou de falar. Isso separa a matemática de nós, de cara. Nós somos equipados com o hardware, mas o software não vem de nós, nós apenas a descobrimos. E digo mais. Não precisamos de números para realizar matemática. E vou além! Aquilo que chamamos de números, não são o que você acha que são.

Caso você ainda pense que a matemática é inventada ou criada pela mente superior do homem moderno, pense nisso antes de dormir: se o teorema dos quadrados dos catetos não tivesse sido “inventado” antigamente para você calcular uma hipotenusa, ele eventualmente seria inventado em algum ponto da história, exatamente igual. O mesmo para teoremas e fórmulas mais complexas. Se um teorema ou fórmula não depende da mente superior de um “homem” específico para vir a existir como a compartilhamos? Se a matemática é uma invenção da mente, de quem é a mente que a cria?


eis sua MÃO!!!

Por LöN Plo

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/uma-introducao-inicial-aos-misterios-matemagicos-que-sao-muito-interessantes/

Música e Magia

do blog Piano Musici

A Música é um instrumento da magia

A magia é um conjunto de práticas das quais o homem se vale para impor sua vontade à natureza e aos espíritos. A religião e a magia pressupõe a crença nos espíritos, mas num tipo de relação diferente. Na religião o homem dirige-se a um todo-poderoso, um ser superior e implora o seu auxílio. Os atos religiosos passam por sentimentos e intenções, dos quais são os símbolos. Na magia, pelo contrário, o homem não pede, ele comanda. Através de rituais, atitudes ou palavras, manipula os acontecimentos, impondo a sua vontade.

Há na magia dois tipos de ritos: ritos manuais, que consistem em confeccionar imagens, fazer laços, nós, desenhar figuras, misturar ou queimar substâncias. E os ritos orais, que são os mais antigos. Sendo a voz instrumento natural, físico, com a qual o homem já nasce, o instinto é suficiente para seu uso. Os ritos manuais eram considerados ineficazes se não contassem com o apoio das fórmulas vocais. Dessa opinião compartilhava inclusive Platão. Os ritos orais começam com o canto. As fórmulas mágicas são passadas para frases e evoluem primeiramente cantadas, depois recitadas, mais tarde escritas sobre algum objeto que pode se transformar em talismã.

O músico-mágico que canta não tem consciência do encantamento, conceito moderno inventado pelos estudiosos. Para ele a magia musical é a sua ciência, tal como é a ciência para os eruditos, o que lhe dá absoluta confiança em praticá-la. O seu mundo é repleto de espíritos, que acredita serem reais e disponíveis e aos quais recorre com toda familiaridade quando pratica a cura de uma doença, muda um fenômeno da natureza ou caça um demônio. É completamente sincero e confiante. Ignora o nome e a forma do espírito em que crê, mas tem a música como um meio seguro de comunicação, um médium entre ele e o espírito. O canto que produz efeito torna-se talismã para o resto da vida.

Entre os efeitos diversos do encantamento por meio da música está o canto com poderes de prejudicar e causar até a morte. Se os primitivos usavam sons melódicos para estabelecer a harmonia do mundo, usavam-nos também para satisfazer sentimentos de ódio e causar o mal até às últimas conseqüências, como faziam na China, Índia, entre os romanos, nas Américas.

Um canto homicida, reconhecido até no contexto cristão, tem comprovação por meio de uma notícia do Concílio de Colonia, de 1316, que proíbe, em todas as igrejas submissas a ele, fazer imprecações (lançar pragas, maldições) e cantar a melodia Media Vita contra qualquer pessoa, salvo com autorização especial. É um interessante caso de um concílio, autoridade cristã máxima na Idade Média, aceitando formalmente que há cantos com poderes para produzir danos até mortais. E mais ainda, a interdição pressupõe abusos e uso mal intencionado de canto litúrgico que anteriormente já fora prática da magia musical. É uma prova de que cantos da Igreja, desvinculados de sua função primitiva, com novas palavras, adaptados, tinham no fundo uma popular música de magia.

A melodia citada, um dia atribuída a Balbulus Notker, é tida como uma das melodias mais bonitas feitas na Abadia de Saint-Gall. Na forma primitiva era cantada com três versos. Foi modificada de diversas maneiras mas, na verdade, não deixa de ser oriunda da feitiçaria. Há ainda levantamento de cantos para induzir a amnésia, causar efeitos sobre animais, assim como cantares específicos para propiciar o amor, curar doenças.

Sabe-se do uso medicinal da magia para curar doenças por meio da música. A idéia dos primitivos ( e não só dos primitivos) é que a morte é uma lei da vida. As causas, porém, são interpretadas de maneiras diferentes: a morte natural é causada por acidentes ou pela guerra; a morte por doença é atribuída à maldição dos espíritos. Um homem que sofra de dores na cabeça ou nas entranhas é um possuído: um demônio alojou-se nele. A arte de curar resume–se, então, na arte de caçar demônios. Por essa razão, era rara a administração de remédios, a não ser para casos de feridas e doenças na pele.

Os gregos, de uma certa forma, pensavam assim também quando diziam que uma doença era um mal sagrado. Os romanos afirmavam que a febre era filha de um deus, Saturno, e erigiam um templo à Febre, no Palatino.

África e Oriente mostraram a persistência do tratamento de doenças pela música. No Congo, por exemplo, o feiticeiro curador é habitualmente chamado a praticar sua função para caçar um espírito maligno no corpo de um doente. Afujenta o mal cantando e dançando durante dois dias, diante do paciente. Toda a aldeia participa de uma cerimônia de exorcismo, com uma orquestra composta por dois gongos de madeira, um tambor de guerra e uma marimba. A música é lenta ou agitada, monótona ou variada, de acordo com o desenvolvimento do drama. O feiticeiro canta estrofes que são respondidas em coro pelos assistentes. Depois de duas horas o ritual termina quando o mágico dançador se sente exaurido. Em sua gesticulação, representa por vezes a guerra, luta fervorosamente contra o inimigo; com lança na mão simula ataque e defesa e por fim encena a morte do rival , culminando tudo com o canto da vitória.

O método mágico da cura, isto é, da caça aos demônios, segue um caminho: primeiro o condicionamento pela música; depois o feitiço é associado – em um processo duplo – aos primeiros passos da cirurgia e da terapêutica, cuja eficácia é considerada maior graças à cantoria; em seguida, a fórmula mágica não é mais cantada, mas recitada; no fim, cede lugar a outros meios, quando a medicina se liberta da magia e da religião e torna-se, finalmente, um corpo independente de conhecimento e práticas.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/m%C3%BAsica-e-magia

Entendendo as Três Trilogias Tifonianas

O Nono Arco (The Ninth Arch), que inclui o Livro da Aranha (Book of the Spider – OKBISh), é o volume final de uma série de Trilogias que traçam o surgimento em tempos históricos de um antigo corpo de doutrina oculta conhecido como a Tradição Tifoniana. A fim de compreender plenamente seu propósito e conteúdo, o Nono Arco deve ser escaneado contra o pano de fundo maior sobre a qual é pintado. Tal abordagem facilitará a compreensão dos Oráculos de OKBISh e seus comentários.

Como uma ajuda adicional para focalizar características salientes da Tradição, a narrativa Against the Light, ‘Contra a Luz’ (Starfire Publishing, 1997) do autor deve servir como uma “nota de rodapé” útil e explicativa para as circunstâncias existentes na época em que o OKBISh foi “recebido”. Os Oráculos foram comunicados audivelmente, e ocasionalmente visualmente, a vários membros da New Isis Lodge, a Loja Nu-Ísis (1955-62) e em certos estágios do ritual mágico. A Corrente que gerou o material começou, esporadicamente, já em 1939, com o movimento inicial de uma transmissão que se desenvolveu ao longo dos anos no texto conhecido como Wisdom of S’lba, A Sabedoria de S’lba, (ver Outer Gateways, Portais Externos, Skoob Books Publishing, 1994). Em 1945, Wisdom of S’lba, – então em sua fase nascente – foi reconhecida por Aleister Crowley como uma comunicação autêntica. A partir dessa época, a Inteligência Informante passou a completar o Wisdom, e passou a produzir a série maciça de Oráculos apresentada em O Nono Arco. O modo de recepção foi descrito na Introdução. O método de documentação confirma além do sofisma a validade da cabala em série, como usada anteriormente nas análises de Wisdom. O padrão ricamente complexo de correspondências mágicas, em ambos os casos, provou ser de valor inigualável na determinação do contato genuíno com forças ocultas possuídas de Conhecimento e Presciência a respeito de eventos terrestres importantes. Que o padrão reflete o contato direto com uma Gnose Tifoniana indefinidamente antiga e sempre nova, é demonstrado pela aplicação de uma exegese cabalística incansável e rigorosa, como registrado nos comentários.

Para os leitores interessados em relações significativas entre os conceitos Numérico (físico) e Mágico-Místico (metafísico), O Nono Arco contém uma exaustiva enciclopédia da Tradição Tifoniana. Mas, além das considerações sobre gematria, os Oráculos de OKBISh esboçam Eventos que provavelmente passarão pelo planeta Terra dentro da vida de muitos leitores do livro; e – para indivíduos que são capazes de interpretar os Oráculos em termos relativos a seu próprio universo mágico – eles emitem avisos sobre os perigos que estão à frente daqueles despreparados para invocar o Sinal de Proteção contra a onda vindoura das Forças Exteriores dispostas a assumir o controle do planeta. Agora, na virada de um milênio, parece apropriado liberar este Conhecimento.

O lançamento de “O Nono Arco” foi realizado na noite de 21 de dezembro de 2002 na sala de eventos do The Plough Inn, Museum Street, Londres. O lançamento começou às 18h, e pouco depois foi servido um buffet de recepção. Michael Staley explicou que Kenneth não pôde comparecer ao lançamento, e assim, na ausência do tocador de órgão, as pessoas teriam que se contentar com o macaco naquela noite. Cópias da edição padrão de “O Nono Arco”, assinado por Kenneth e Steffi Grant especialmente para o lançamento, estavam à venda.

Às 19h15, Michael deu a primeira de duas palestras, uma breve visão geral do trabalho de Kenneth Grant antes de “O Nono Arco”. A palestra incluiu trechos de vários livros de Grant, e estes foram lidos por Caroline Wise.

O texto desta palestra, que foi bem recebido, está a seguir:

As Trilogias Tifonianas

por Michael Staley

As Trilogias Tifonianas consistem em nove volumes, distribuídos em trinta anos, desde o primeiro livro, O Renascer da Magia, em 1972, até o último livro, O Nono Arco, publicado agora em 2002. Embora cada volume seja completo em si mesmo, tomados em série, eles representam um corpo de trabalho em desenvolvimento.

Antes de considerar esta série com mais detalhes, precisamos saber algo de suas origens. Os anos formativos de Grant são os anos da New Isis Lodge, o grupo mágico que ele fundou no início dos anos 50, cujo corpo principal de trabalho durou de 1955 a 1962, e que se dissolveu alguns anos depois. Quando jovem, Grant se interessou apaixonadamente pelo ocultismo, e leu amplamente obras de mitologia, religião comparada, misticismo e magia. No decorrer de seus estudos, ele encontrou o trabalho de, entre outros, Aleister Crowley e Austin Osman Spare, e foi atraído por ambos. Em 1944 ele iniciou uma correspondência com Aleister Crowley, e viveu com Crowley por um curto período em 1945 como seu “chela” ou discípulo, cantando para seu jantar e atuando como secretário. Durante este tempo, Grant recebeu instruções orais de Crowley. Ele também recebeu o retrato de Lam de Crowley, ao qual ele se sentiu atraído ao vê-lo pela primeira vez no portfólio de Crowley, e que Crowley finalmente lhe deu em agradecimento pela ajuda durante uma noite particularmente ruim para sua saúde. Em 1991, Grant publicou um livro de memórias de sua associação com Crowley, intitulado Remembering Aleister Crowley (Relembrando Aleister Crowley). Trata-se de um livro de memórias afetuoso, mas que não se coíbe de retratar uma relação que às vezes era difícil. Crowley era velho, doente e frágil, e muitas vezes não era muito generoso. No entanto, Grant aprendeu muito com Crowley. Há uma tradição de “darshan”, de receber iniciação de estar na presença do guru; que assim como uma imagem diz mais do que qualquer quantidade de palavras, há uma compreensão e uma percepção que é passada de adepto para adepto que não tem preço.

Um pouco depois da morte de Crowley em 1947, Grant finalmente conheceu Austin Osman Spare. Este foi um relacionamento mais longo, que durou até a morte de Spare em 1956. E também, a julgar pelo relato publicado por Kenneth e Steffi em seu Zos Speaks! (Zos Fala!) em 1998, bem como pelo anterior Images & Oracles of Austin Osman Spare (Imagens e Oráculos de Austin Osman Spare), publicado em 1975, foi uma relação mais profunda, talvez menos formal. É minha impressão, como leitor da obra de Grant, que Spare teve o maior impacto sobre ele. O trabalho de Spare é certamente mais fugidio que o de Crowley, mas está de alguma forma mais próximo da fonte da consciência na imaginação cósmica. Um relato da relação entre os Grant e Spare é dado em Zos Speaks! Foi em grande parte devido aos apelos dos Grant que Spare reconstruiu muito do Alfabeto do Desejo e outros aspectos de seu sistema que ele havia esquecido em grande parte ao longo dos anos, e se comprometeu muito mais com o papel.

Durante o início dos anos 50, um círculo de ocultistas se agrupou em torno de Grant que formou o núcleo de um grupo de trabalho, a Loja Nu-Ísis. Vários dos membros haviam sido membros da O.T.O. sob Crowley – Kenneth e Steffi, e é claro; um peleiro e alquimista, David Curwen; e uma mulher a quem Grant se refere por seu nome mágico Clanda. O próprio Spare nunca foi membro da Loja Nu-Ísis, preferindo trabalhar sozinho. Ele apoiou os Grant em seus esforços, e projetou vários cenários para a Loja. Os Grants descreveram a Loja Nu-Ísis como uma célula dependente da O.T.O., e ela tinha uma estrutura de grau e um programa de trabalho que devia muito mais à Astrum Argenteum de Crowley do que à O.T.O. como era na época de Crowley. A relação com Curwen também foi fundamental para Grant obter uma cópia de um comentário de um adepto Kaula sobre um texto tântrico, o Anandalahari. Isto deu importantes insights sobre a magia sexual tântrica, aproximando a magia sexual de uma direção muito diferente da de Crowley. A abordagem de Crowley à magia sexual é basicamente solar-fálica, para não dizer que é falo-cêntrica. Ou seja, há grande ênfase na importância das energias sexuais masculinas, mas muito pouco nas energias femininas. Muitas vezes, a parceira feminina é apenas uma taça na qual o mago masculino derrama seu fogo de estrela. O texto Kaula abordou o assunto de uma perspectiva diferente, acentuando o papel dos kalas e como eles variam ao longo do ciclo menstrual.

Os Grants emitiram um Manifesto da Loja Nu-Isis em seu lançamento em 1955, no qual falavam da descoberta de um planeta além de Plutão, a Ísis transplutoniana, e o que ela poderia significar para a evolução da consciência neste planeta. Deixando de lado a questão de existir ou não um planeta neste sistema solar além de Plutão, é certamente óbvio que os Grant não estavam falando sobre a descoberta de um planeta físico. Tal descoberta teria sido mais relevante para uma revista astronômica. Se tivermos em mente que a primeira sephira, Plutão (Pluto), é atribuída a Plutão, então um planeta transplutoniano, seria o “Um Além de Dez”, o Grande Exterior. Grant o expressou assim alguns anos depois, em Aleister Crowley e o Deus Oculto:

“No Livro da Lei, a deusa Nuit exclama: “Meu número é onze, como todos os números deles que são de nós”, o que é uma alusão direta à A.’. A.’., a Astrum Argentum ou Ordem da Estrela de Prata, e seu sistema de Graus. Nuit é o Grande Exterior, representada fisicamente como “Espaço Infinito e as Estrelas Infinitas dali” – ou seja, Ísis. Nuit e Ísis são assim identificadas no Livro da Lei. Ísis é o espaço terrestre, iluminado pelas estrelas. Nuit é o espaço exterior, ou espaço infinito, a escuridão imortal que é a fonte oculta da Luz; Ela também é, em um sentido místico, o Espaço Interno e o Grande Interior.”

Ao longo dos anos de 1959 a 1963, os Grants produziram uma série de monografias, as Carfax Monographs (Monografias Carfax), cada uma sobre um tema diferente. Anos mais tarde, em 1989, estas foram publicadas em um único volume, como Hidden Lore (O Conhecimento Oculto).

Grant não publicou muito sobre os rituais mágicos da Loja Nu-Ísis até agora, mas uma série de anedotas resultantes do trabalho, o que Grant chama de “magicollages”, estão espalhadas por muitos dos nove volumes das Trilogias Tifonianas, principalmente em Hecate’s Fountain (A Fonte de Hécate), publicada há dez anos, em 1992. Há também vislumbres de Trabalhos da Loja na ficção de Grant.

O trabalho subsequente de Grant surge a partir do trabalho feito na Loja Nu-Ísis. Estes anos foram, portanto, extremamente formativos para ele. Antes da Loja Nu-Ísis ele teve um aprendizado extremamente amplo e profundo, assim como sua associação com Crowley e Spare. Entretanto, todas estas influências foram sintetizadas através do trabalho mágico da Loja Nu-Ísis. São as experiências obtidas através destes trabalhos, a iniciação, a percepção, que dão poder ao trabalho subsequente de Grant. É o poço sem o qual o trabalho de Grant teria secado. Sem ele, ele teria se tornado apenas mais um imitador do trabalho de outros – e Deus sabe que já temos o suficiente deles.

A Primeira Trilogia

Um artigo foi publicado por Grant no ‘International Times’ no final dos anos 60, sobre Crowley, no qual ele afirma ter escrito um estudo sobre o trabalho de Crowley e outros, chamado Aleister Crowley e o Deus Oculto. Posteriormente, ele o apresentou aos editores londrinos Frederick Muller, que expressaram seu interesse, mas sugeriram que, devido ao seu tamanho, ele deveria ser dividido em dois volumes. O primeiro volume foi publicado em 1972 como O Renascer da Magia.

O Renascer da Magia é um estudo e uma análise de uma variedade de tradições ocultas que sobreviveram durante muitos milhares de anos, e que agora estão revivendo em novas formas e novos vigor. Em particular a gênese e o desenvolvimento do Culto Draconiano através das Dinastias egípcias são traçados, e contra este cenário mais antigo são examinadas as manifestações mais modernas tais como Blavatsky, Crowley, a Golden Dawn (A Aurora Dourada), Dion Fortune e Austin Osman Spare. É demonstrado que embora sejam manifestações recentes, elas estão enraizadas na corrente mágica muito mais antiga que alimentou e sustentou todos os eflorescentes subsequentes. Incluído como uma placa no livro está uma reprodução do desenho de Lam de Crowley, a primeira vez que foi publicado desde sua publicação original no Blue Equinox (O Equinócio Azul) em 1919.

Isto foi sucedido em 1973 pelo segundo volume, Aleister Crowley e o Deus Oculto. Este é um estudo mais especificamente sobre o sistema de magia sexual de Crowley, amplificado por uma consideração do comentário Kaula referido acima. Há também um capítulo sobre “Nu-Isis and the Radiance Beyond Spare” (Nu-Ísis e a Radiância Além de Spare), no qual Grant se refere à  Loja Nu-Ísis e seu programa de trabalho.

Cults of the Shadow (Os Cultos da Sombra) foi publicado em 1975, e explorou aspectos obscuros do ocultismo que são frequentemente vistos negativamente como “magia negra”, o “caminho da mão esquerda”, etc. De particular destaque é um capítulo sobre o trabalho de Frater Achad e o Aeon de Maat, no qual Grant tem uma visão um tanto céptica das reivindicações de Frater Achad sobre o alvorecer do Aeon de Maat. Posteriormente, Grant veio a mudar sua visão. O livro também continha um par de capítulos sobre a obra de Michael Bertiaux (expoente do Voudon Gnóstico).

A Segunda Trilogia

A segunda Trilogia inicia com Nightside of Eden (O Lado Noturno do Éden), publicado em 1977. Esta é essencialmente uma exploração dos Túneis de Set, que se encontram sob os caminhos da Árvore da Vida. Esta obra foi baseada inicialmente em um breve e obscuro trabalho de Crowley, o Liber 231, publicado pela primeira vez em no Equinox. Este livro consiste em sigilos dos gênios das 22 escamas da Serpente, e os sigilos das 22 células das Qliphoth, e alguns oráculos obscuros. Esta obra evidentemente fascinou Grant, e a exploração destas células das Qliphoth forma a espinha dorsal da obra da Loja Nu-Ísis. Grant tem sido criticado em alguns setores por trabalhar com o que alguns consideram como os aspectos maléficos e avessos da magia. Entretanto, os aspectos mais obscuros da experiência são tão necessários para entender como os aspectos mais claros; é necessário entender ambos.

Em 1980 Grant publicou Outside the Circles of Time (Fora dos Círculos do Tempo), uma obra que cobre uma área extremamente ampla e expõe, para citar a sinopse da capa: “uma rede mais complexa do que jamais foi imaginada: uma rede não muito diferente da visão escura de H.P. Lovecraft das forças sinistras que se escondem na borda do universo”. O livro é mais famoso, talvez, por mostrar a obra de Sóror Andahadna (que mais tarde se tornou Nema, autora de A Magia de Maat), uma Sacerdotisa contemporânea de Maat cuja obra tinha paralelos com a obra de Frater Achad muitas décadas antes. Muitos Thelemitas têm problemas com o Aeon de Maat. No que lhes diz respeito, cada Aeon dura 2.000 anos; estamos no início do Aeon de Hórus, portanto, Maat ainda está longe. Eles farão eco da famosa réplica de Crowley ao jovem Grant: “Maat pode esperar!”. Entretanto, a seguinte passagem de Outside the Circles of Time coloca o assunto sob uma luz muito mais interessante:

“Mitos e lendas são do passado, mas Maat não deve ser pensada em termos de eras passadas ou futuras. Maat está presente agora para aqueles que, conhecendo os ‘alinhamentos sagrados’ e o ‘Portal da Intermediária’, experimentam a Palavra sempre vindo, sempre emanando, da Boca, nas formas sempre novas e sempre presentes que estão sendo geradas continuamente a partir do Atu ou Casa de Maat, o Ma-atu … “

Mas o livro é sobre muito mais. É uma tecelagem potente de uma série de fios aparentemente diversos em uma única, ampla e poderosa corrente. Embora os livros de Grant sejam todos diferentes de seus predecessores, Outside the Circles of Time parecia anunciar um salto para uma dimensão diferente.

Outside the Circles of Time foi o último livro publicado pela (Editora) Muller, e houve uma pausa de 12 anos até 1992, quando a Editora Skoob publicou a Hecate’s Fountain. Grant tinha originalmente concebido isto como um relato dos rituais da Loja Nu-Ísis. No entanto, como muitas vezes acontece, o trabalho tomou um impulso próprio e lançou uma flor bem diferente. O livro ainda era tecido em torno do trabalho da Loja. Entretanto, esta obra é ilustrada como relatos anedóticos de trabalhos específicos, ilustrando em particular o que Grant denomina de “tantra tangencial”, onde um trabalho mágico tem efeitos colaterais curiosos e às vezes alarmantes em desacordo com seu aparente propósito. Grant traça essas anomalias para uma interface catalítica que ele chama de “Zona Malva”, existente entre os domínios do sono sonhador e do sono sem sonhos. Na Zona Malva, há movimentos, verticilos e turbilhões que dão origem a tênues espectros, sonhos, e imagens que entram na consciência e são revestidas pela imaginação.

A Terceira Trilogia

A terceira Trilogia abre com Outer Gateways (Portais Exteriores), publicado pela Skoob em 1994. Este livro continua e amplia alguns dos temas de Hecate’s Fountain. Ele contém um longo relato das vertentes aparentemente contraditórias do Livro da Lei, explora a obra de Crowley em relação à Sunyavada, e tem algumas coisas notáveis a dizer sobre a gematria criativa. No entanto, o seu núcleo é sem dúvida Wisdom of S’lba e os vários capítulos de análise que se seguem. S’lba é uma bela, altamente carregada e rica transmissão recebida durante muitos anos por Kenneth Grant desde o final dos anos 30, a maior parte dela recebida durante os anos da Loja Nu-Ísis.

Há uma grande quantidade de mal-entendidos sobre a natureza das transmissões. Não se trata de simplesmente tirar ditados de uma entidade desencarnada. O contato com o que é chamado de planos internos é muito mais complexo e mais sutil do que isso. Tomemos por exemplo a seguinte nota introdutória de Grant:

“A série de versos intitulados coletivamente a Wisdom of S’lba … não foram escritos em nenhum momento ou lugar em particular, embora o estado de consciência em que foram recebidos fosse invariavelmente o mesmo. O processo foi iniciado já no ano de 1939, quando a Visão de Aossic se manifestou pela primeira vez da maneira descrita em Outside the Circles of Time (capítulo 8). A visão se desenvolveu esporadicamente durante todo o tempo da associação de Aossic com Aleister Crowley e Austin Osman Spare. Mas o aspecto dinâmico do Trabalho, ou seja, a integração da Visão em um todo coerente, ocorreu durante o período de existência da Loja Nu-Ísis.”

O próximo volume, Beyond the Mauve Zone (Além da Zona Malva), estava prestes a ir para a imprensa quando os editores de Grant, a Skoob Publishing, decidiram que não iriam publicar mais nada dele. Nenhuma razão para isto jamais foi dada. O resultado foi que mais alguns anos se passaram até sua eventual publicação, pela Starfire Publishing, em 1999. Beyond the Mauve Zone é, como seu nome sugere, uma consideração mais profunda daquela região entre o sono sem sonhos e o sonho que fecunda a imaginação, e em particular uma consideração de vários métodos de acesso à Zona Malva. Há três capítulos sobre o Ritual Kaula da Serpente de Fogo, dando muito mais material do comentário Kaula iniciado, obtido de David Curwen. Há também uma análise prolongada da Liber Pennae Praenumbra recebida por Sóror Andahadna (A futura Nema), e um relato do trabalho do sérvio Zivorad Mihajlovic Slavinski.

Olhando para estes primeiros oito volumes das Trilogias Tifonianas, podemos ver o quanto o trabalho de Grant mudou, e ainda assim se reintegrou com sua fonte. Por maiores e mais profundos que sejam os volumes anteriores, eles dão poucos indícios da gloriosa floração que é a terceira e última Trilogia. E é o último volume, O Nono Arco, para o qual nossa atenção se volta em seguida.

No entanto, para encerrar esta parte da palestra, há uma passagem de Outside the Circles of Time que sempre achei inspiradora. Ela expressa um conceito que é a essência de grande parte do trabalho de Grant, e o faz de uma forma excepcionalmente bela e intensamente comovente. São os dois parágrafos finais da Introdução a esse livro extraordinário:

“Um último ponto é aqui relevante, e eu o declaro sem desculpas. Não é meu propósito tentar provar nada; meu objetivo é construir um espelho mágico capaz de expressar algumas das imagens menos elusivas vistas como sombras de um futuro Aeon. Isto eu faço por meio de sugestão, evocação e por aqueles conceitos oblíquos e “intermediários” que Austin Spare definiu como “Neither-Neither (Nem-Nem)”. Quando isto é compreendido, a mente do leitor torna-se receptiva ao influxo de certos conceitos que podem, se recebidos sem distorções, fertilizar as dimensões desconhecidas de sua consciência. Para atingir este objetivo, uma nova forma de comunicação deve ser desenvolvida; a própria linguagem deve renascer, reviver e dar uma nova direção e um novo impulso. A imagem verdadeiramente criativa nasce da imaginação criativa, e este é – em última análise – um processo irracional que transcende a compreensão da lógica humana.”

 “É bem conhecido que cientistas e matemáticos desenvolveram uma linguagem críptica, uma linguagem tão esquiva, tão fugitiva e, no entanto, tão essencialmente cósmica que forma um modo de comunicação quase cabalístico, muitas vezes mal interpretada por seus próprios iniciados! Nossa posição não é tão desesperada, pois estamos lidando principalmente com o complexo corpo-mente em sua relação com o universo, e o corpo-aspecto está profundamente enraizado no solo do sentimento. Nossa mente pode não compreender, mas nas camadas mais profundas do subconsciente onde a humanidade compartilha um leito comum, há um reconhecimento instantâneo. Da mesma forma, um mago concebe sua cerimônia em harmonia com as forças que ele deseja invocar, portanto, um autor deve prestar considerável atenção à criação de uma atmosfera adequada para suas operações. As palavras são seus instrumentos mágicos, e suas vibrações não devem produzir um ruído meramente arbitrário, mas uma elaborada sinfonia de reverberações tonais que provocam uma série de ecos cada vez mais profundos na consciência de seus leitores. Não se pode enfatizar ou superestimar a importância desta forma sutil de alquimia, pois é nas nuances, e não necessariamente nos significados racionais das palavras e números empregados, que reside o mago. Além disso, é muito frequentemente na sugestão de certas palavras não utilizadas, ainda indicadas ou empregadas por outras palavras sem relação direta com elas, que se produzem as definições mais precisas. O edifício de uma construção real pode às vezes ser criado apenas por uma arquitetura de ausência, onde o edifício real é ao mesmo tempo revelado e escondido por uma estrutura alienígena assombrada por probabilidades. Estas são legiões, e é a faculdade criativa do leitor – desperto e ativo – que pode povoar a casa com almas. Portanto, este livro pode significar muitas coisas para muitos leitores, e diferentes coisas para todos; mas para nenhum pode significar nada, pois a casa é construída de tal maneira que nenhum eco pode ser perdido.”

…continua em Vislumbres do Novo Arco

 

Fonte: Glimpses Through the Ninth Arch.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/entendendo-as-tres-trilogias-tifonianas/

Alan Moore, Promethea e Daath

Saiu recentemente em sites de HQ este comentário feito pelo desenhista JH Williams III quando trabalhava num arco de Promethea, de Alan Moore, quando este recebeu uma estranha ligação do barbudo… Vejam o que o cara falou sobre isso:

Eu estava desenhando uma viagem pela Árvore da Vida da Cabala, e estava me aproximando do clímax da história, quando os personagens tinham que atravessar os limites da escuridão, pra chegar em lugares de formas mais elevadas da realidade, passando por uma dimensão destruída no caminho…

Alan me ligou, dizendo que eu poderia ter alguns problemas físicos ao desenhar essa parte da HQ, pois ele mesmo se sentiu muito mal ao escrever o roteiro e só melhorou depois que terminou seu trabalho e parou de mexer na história.

Alan acreditava que os pensamentos sobre essa dimensão negativa e maligna se manifestou fisicamente, e ele acabou experimentando todas as sensações ruins que os personagens da HQ deveriam ter passado devido a sua viagem pela Cabala… E achou por bem me avisar sobre isso.

Quando comecei a desenhar a passagem, quanto mais eu me aproximava do momento em que mostrava o buraco negro e a passagem negativa da vida que levava até a Árvore, sentia dores no peito.

E quanto mais eu desenhava o buraco negro, piores as dores ficavam, acabei indo ao hospital pra fazer um exame, e os médicos disseram que eu tivera um pequeno ataque cardíaco, mas que não detectaram nada que pudesse ser a causa dele.

A medida que fui terminando e me afastando das páginas que mostravam o buraco negro as dores foram passando até sumirem por completo…

Depois de alguns dias conversei com Mick Gray sobre isso, e ele me disse que enquanto fazia a arte final dessa parte, todos na sua casa ficaram muito mal, com um surto de gripe.

Daath é a Esfera que está entre Kether e Tiferet; a citação feita ao “Caminho 13”, ou Gimmel (letra hebraica que significa “Camelo”, e tem sua representação no Arcano da Sacerdotisa, no Tarot, daí Promethea e sua companheira encontrarem Aleister Crowley montado em um Camelo mais para a frente nesta parte da história) faz a conexão entre o Iniciado e Deus, ou a comunicação simbólica entre Jesus e seu pai quando ele estava na Cruz.

Daath representa o conhecimento, mas também é um portal para as partes mais sombrias e interiores do Ser humano, o Caminho de conexão entre a Árvore da Vida e a Árvore da Morte (os Túneis de Set, em contraposição aos Caminhos de Toth) que o Iniciado precisa derrotar completamente (abandonar o Ego e compreender totalmente a Sombra que habita dentro de todas as pessoas).

Daath representava o planeta que um dia ficou entre Marte e Júpiter e que hoje é conhecido como Cinturão de Asteróides e algumas mitologias chamam de Ymir ou Tiamat. Quando o Planeta foi destruído, esta esfera deixou de existir também para os Cabalistas (na verdade, para os anjos que assim passaram este conhecimento, já que, quando os cabalistas chegaram, o planeta já tinha sido destruído há milhões de anos).

Daath está localizado entre Binah e Chesed, o que daria a ele um valor intermediário. Muitos cabalistas colocam este valor como sendo PI (3,141592…) porque é um número infinito com uma relação intrínseca com o Abismo… recomendo que assistam ao filme de mesmo nome (PI) para entender melhor esta relação.

Meditar nesta esfera traz para a consciência todos os demônios internos da pessoa, o que pode causar os problemas que mr. moore alertou aos desenhistas. Uma vez que, tanto Moore escrevendo quanto os artistas desenhando estavam em contato mental com esta esfera, eles puxaram para si esta energia e, como o contato foi muito efêmero, tiveram manifestados alguns efeitos físicos.

Como experiência pessoal, quando estudava Qlipoth e os Túneis de Set, em 2006, uma parte do teto do meu escritório quebrou durante uma tempestade, que aconteceu na noite seguinte, e a mesa ficou encharcada, destruindo completamente meu caderno de anotações e os livros do Karlsson (os livros de teurgia ficaram intocados).

Quando ministro o curso de Qlipoth (que é apenas para alunos mais avançados na magia), sempre preciso da permissão e autorização dos meus exús para isso; fazemos uma firmeza de proteção e há todo um preparatório para o estudo de NOX; no último curso, tivemos relatos de alunos que eram médiuns a respeito de sombras e seres astrais grotescos (semelhantes aos desenhados na HQ) que ficavam ao redor do prédio, tentando entrar, quando falávamos os nomes deles em aula.

São energias muito poderosas e extremamente agressivas.

Bem… Agora vocês sabem porque todo satanista de orkut que diz que faz e acontece com as qlipoth é sempre um fodido na vida.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/alan-moore-promethea-e-daath

Entradas das Trevas: uma introdução a magia de Mito de Cthullu

A Ordem Esotérica do Dagon é uma rede internacional de mágicos, artistas e outros visionários que estão explorando os mistérios ocultos inerentes ao horror e a fantasia escritos na Nova Inglaterra pelo escritos Howard Phillips Lovecraft (1890-1937). O “Mito de Cthullu” (como normalmente é conhecido) depende de uma serie de contos de Lovecraft, mais os de outros escritores que empregam dispositivos fictícios semelhantes. A premissa básica do Mito de Cthullu é que há um grupo de entidades transdimensionais – conhecidas como os Grandes Antigos que, “quando as estrelas estão certas” podem entrar em nosso mundo através de portões psíquicos ou portões físicos. Os Grandes Antigos representam um “Conhecimento Ancião” que antecede a civilização, para a percepção humana, são ambos imensamente poderosos e alienígenas. Nos contos do Mito de Cthullu, há uma rede (ou conspiração) de cultos que adoram os Grandes Antigos e procuram acelerar o seu retorno a Terra.

A inspiração de Lovecraft para seus escritos vieram de seus sonhos, e suas cartas (ele carregava uma volumosa correspondência com colegas escritores) mostram que ele teve um pesadelo todas as noites de sua vida. Extraído de uma carta ele descreve um pesadelo sobre Nyarlathotep, um dos Grandes Antigos:

“Como eu fui atraído para o abismo eu emitia um grito retumbante, e a imagem parou. Eu estava com muita dor – testa batendo e ouvidos zumbindo – mas eu tinha somente um impulso automático – para escrever e preservar a atmosfera de medo incomparável, e antes que eu percebesse eu tinha puxado a luz e estava rabiscando desesperadamente… Quando completamente acordado eu recordei de todos os incidentes, mas havia perdido a emoção requintada do medo – a real sensação da presença de um hediondo desconhecido.”

Embora Lovecraft tenha escrito inúmeras historias de horror ele não tinha nenhuma crença ou fascínio especial com a ocorrência real do fantástico. Enquanto ele negou veementemente a existência de fenômenos ocultos – que ele era incapaz de aceitar e por isso marca os Grandes Antigos como o mal e as praticas de seus cultistas como “blasfêmia”. Os ocultistas, no entanto, reconhecem o poder das imagens transmitidas por sonho. A capacidade de experimentar sonhos lúcidos que são internamente consistentes e contíguos uns aos outros é um elemento fundamental ao xamanismo, de fato, em algumas culturas, potencias xamãs sã reconhecidos pelas características dos seus sonhos. O sonho é um portal físico para as “vibrações” dos Grandes Antigos para entrarem na consciência humana, é um conceito recorrido muitas vezes nos contos de Lovecraft. Seus protagonistas, por vezes assistem aos “Sabat Astrais” em que são iniciados nos cultos secretos, são mostrados mistérios que abalam a sanidade e recebem os benefícios dos Conhecimentos Anciões. Tais experiências são bastante comuns entre os magos que trabalham em qualquer sistema, como ambos os eventos espontâneos e o resultado de “sonhar a vontade” (usando sigilos, por exemplo) em experimentação com agentes psicoativos. Vários dos Grandes Antigos aparecem para aqueles que buscam o Conhecimento Ancião através dos sonhos (ou quem busca de um “sintonizador desconhecido” para as transmissões dos Antigos), e o mais proeminente um Antigo Cthullu, uma estrela alada cefaloide que reside “no sonho da morte” dentro de uma cripta na cidade mais Anciã de R’Lyeh, sob o Oceano Pacifico. A historia de Lovecraft “O Chamado de Cthullu” relata os acontecimentos que envolveram  a breve aparição de R’Lyeh, que anunciada por uma onda mundial de insanidade, como certos indivíduos “sensitivos” pegam oníricas transmissões do Grande Cthullu. No Mito, ele é o senhor dos sonhos, e atua como uma espécie de intermediário entre a consciência humana e a natureza verdadeiramente alienígena dos Antigos tais como Azathoth ou Yog-Sothoth. Sua cidade, R’Lyeh, foi recentemente identificada com Nan-Madol, uma cidade de pedra arruinada consistindo de ilhotas artificiais na ilha do Pacifico de Pohnpei. No Mito, R’Lyeh é construída ao longo de linhas de uma geometria não Euclidiana, com ângulos e perspectivas estranhas em que os incautos podem ser engolidos. A cidade inteira é uma serie de portais para outras dimensões, e pode ser visto como uma forma de tuneis de Set Kenneth Grant. Ângulos estranhos e matemática foram também um interesse de Austin Osman Spare, que percebia coisas em sonhos, mas não podia coloca-las no papel. R’Lyeh é uma porta psíquica para as camadas mais profundas da consciência e os sonhos formam a interface pela qual há dois sentidos de trafego de imagens da consciência desperta para a Mente Profunda.

Nas historias de Lovecraft, muito do Conhecimento Ancião é preservado em uma coleção de grimorios, dos quais o mais famoso é o Necronomicon (Livro dos Nomes Mortos), que ao longo dos anos tem aparecido em varias formas. O Necronomicon é reconhecido pelo arquétipo de  “Livro Astral” – chaves primárias no discurso que são “secretadas” no mundo dos sonhos e que podem ser “ligadas a Terra” em forma de fragmentos por artistas, mágicos e outros visionários. Mais uma vez, esta é uma experiência oculta recorrente, não existindo uma grande variedade de obras que foram recebidas por clarividência ou canalizadas através de varias entidades. Dentro da E.O.D, existe uma “Escola de Sonho” (contatada através do sonhar) que consiste em uma variedade de locais, alguns dos quais são retirados os contos do Mito de Cthullu, na qual os iniciados podem ter acesso a artefatos e livros notáveis. Há alguns anos atrás, por exemplo, em um mosteiro no alto do Planalto Ciclópico de Leng, me foi mostrado uma serie de imagens de tarô de detalhes obscuros e cores vivas que embora tenha sido (e continua sendo) muito impossível para eu coloca-las para baixo, para mim é muito fácil chama-los a mente, mesmo quando escrevo este artigo. O “keeper” das imagens estava disposto a exibi-las, mas como ele cinicamente comentou na época sabia que eu não era capaz de traduzi-las a partir dos sonhos do mundo físico. O Mundo dos Sonhos Lovecraftiniano tem sua própria tipologia – ter ligações com ambos os locais terrestres e lugares que são acessíveis apenas para sonhadores qualificados e intrépidos. Ao explora-la é possível conversar com seus habitantes relativos do Conhecimento Ancião, visitar locais de renome e viajar através do tempo e espaço usando uma forma de exploração astral que novamente é primariamente Xamânica – o de mudança de forma. Imagens relacionadas com a mudança de forma ocorrem durante todo o Mito de Cthullu, com a transição de humano para “O Profundo” – uma corrida de batráquio – moradas do mar que são servos de Cthullu, relacionados ao deus Dagon; ou a transição de humano para Ghoul. O conceito magico relacionado com tais transformações é o “Ressurgimento Atavistic” – a reificação das “encarnações” anteriores da consciência humana desde as profundezas da mente, na consciência de vigília. Lovecraft apontou o caminho para ascender a estados específicos de consciência que se relacionam com nossos ancestrais reptilianos e os chamados “cérebro dragão” – o sistema límbico primitivo que é a sede de nossa consciência primal.

Outra chave para desvendar os segredos dos Conhecimentos Anciões é a técnica de vidência – em um copo ou bola de cristal. Ambas vidências de vidros e cristais que estão sintonizados para transmitir certas vibrações surgem em contos do Mito de Cthullu, muitas vezes como um processo de mão dupla. A pessoa que usa esses dispositivos vislumbra outras dimensões, mas ao mesmo tempo, os habitantes daquelas dimensões tornam-se cientes e eventualmente ameaçam os videntes. Esta foi a única maneira em que Lovecraft podia aceitar o processo de se tornar receptivo as imagens e “transmissões” da mente profunda, como ser acusado com ameaças de insanidade e eventualmente desgraça.

Todas as técnicas descritas até agora tendem a ser do praticante só, e são orientadas introspectivamente. Mas Lovecraft também faz uso extenso de “ritos amigáveis”, que são novamente remanescentes do xamanismo, vodu ou até mesmo bruxaria. Tais feitiçarias físicas estão relacionadas com pontos físicos de energia – normalmente círculos de pedra, edifícios especialmente construídos ou marcos estranhos. Eles muitas vezes envolvem sacrifícios humanos ou animal, cruzamento incestuoso e em “The Dunwich Horror” um “casamento sagrado” entre a entidade conhecida como Yog-Sothoth e uma cultista feminina. Lovecraft continuamente aludiu à natureza degenerada de cultistas de Cthullu, provavelmente refletindo suas atitudes à raça e realização intelectual. Mas há também uma consciência de degeneração das praticas de culto como a influencia os Antigos encolhendo o mundo devido à propagação do materialismo e a decadência das comunidades rurais. A entidade Nyarlathotep ocasionalmente aparece como o mítico “homem negro” ou líder da coleta cultista do sabat – sugerindo um avatar humano como base para o trabalho do culto, usando as gnoses mais físicas como a dança, flagelação, sexo, cânticos, tambores, respiração acelerada e sangria. Comentaristas modernos do Mito de Cthullu tem-se enganado supondo que magia é terror, principalmente a gnose emocional, porque este era o sentimento muitas vezes experimentado por protagonistas de Lovecraft (e de fato, o próprio Lovecraft). Embora o medo possa ser inicialmente empregado, logo o sepulcro como uma alavanca eficaz para a gnose, no entanto.

A implantação de feitiçarias físicas levou a uma grande variedade de experimentos pelos iniciados da E.O.D pelo mundo, tais como o uso de terraplanagem no Monte da Serpente na gnose Vodu – trabalhando com sede para Cincinnati Yig-Lodge (Yig é uma divindade serpente no Mito). Evocações “Dos Profundos” também foram realizadas em um lago em Wisconsin (nota do tradutor: EUA). Alguns iniciados da ordem estão atualmente interessados no uso de mantras e “fala primal”, bem como padrões de som “off-key” usados como pano de fundo sonoro para a evocação das entidades do Mito.

Magos ocidentais parecem ter uma tendência a tentar “encaixar” os Mitos de Cthullu em sistemas ordenados de logica ou correspondências. Executor de Lovecraft, August Derleth, também tentou colocar os Grandes Antigos dentro de alguma estrutura – dando-lhes associações elementares e as vinculando a determinados locais e formas. Isso só pôde ser feito de forma limitada, antes de perder o “sabor” dos Antigos que residem na sua natureza altamente proteica. Lovecraft deixa bem claro que os humanos não podem perceber claramente os Grandes Antigos e as entidades são raramente descritas com clareza ou coesão; ao contrario, eles são insinuados ou aludidos.  Sua própria natureza é que eles são “primais e não dimensionados” – eles mal podem ser percebidos, e para sempre “espreitam” na borda da consciência.

As mais poderosas energias são aquelas que não podem ser nomeadas – ou seja, elas não podem ser claramente apreendidas ou concebidas. Elas permanecem intangíveis e tênues. Muito parecido com a sensação de despertar de um pesadelo aterrorizador, mas incapaz de se lembrar do por que. Lovecraft entendeu isso muito bem, provavelmente porque a maioria de seus escritos envolviam seus sonhos.

Os Grandes Antigos ganhar seu poder de sua indefinição e intangibilidade. Uma vez que eles são formalizados em sistemas simbólicos e relacionados a meta sistemas intelectuais, alguns tem sua intensidade primal perdida. Willian Burroughs coloca desta forma:

“Assim que você nomeia algo, você retira o seu poder… Se você pudesse olhar a morte de frente ela perderia seu poder para mata-lo. Quando você pergunta a morte por suas credencias, seu passaporte é por tempo indeterminado.”

O LUGAR DAS ESTRADAS DA MORTE:

É a própria intangibilidade dos Antigos que lhes dá o seu poder, e permite que os muitos espaços mágicos para a exploração pessoal de suas naturezas.

É geralmente aceito que a maioria das magias “poderosas” são encontradas nos cultos xamânico primais e sobreviventes. A E.O.D esta preocupada em como angariar conhecimento e técnicas do que pode ser visto como primordial, magia Xamânica “dark”, como um amplo espaço para o desenvolvimento futuro e expansão. Sugere da estelar sobrevivência (“quando as estrelas estão certas”) baseada na sabedoria. E de raízes que se estendem em todo o mundo, e um conhecimento mais velho que esta enterrado dentro de nossas mentes, mas pode ser aproveitado, tanto na forma consciente, e no caso de Lovecraft, inconscientemente.

·         Nota: este ensaio foi publicado originalmente no “Starry Wisdom” uma coleção de ensaios de membros da Ordem Esotérica do Dagon, Pagan News Publications 1990. Desde então, o E.O.D. provocou em vigília, mais uma vez, e mesmo agora, seus tentáculos podem estar rastejando em sua direção.

por Frater Zebulon, Dunwich Lodge, E.O.D. – Tradução Carolina Rezende

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/entradas-das-trevas-uma-introducao-a-magia-de-mito-de-cthullu/

O Ovo

O escritor norte-americano Andy Weir escreveu um pequeno conto em 2009. É uma história que é ao mesmo tempo bonita e assustadora. Vou deixar você desbrava-la.

Você estava a caminho de casa quando você morreu.
Um acidente de carro. Nada particularmente marcante, mas mortal, no entanto. Você deixou uma mulher e dois filhos. Foi uma morte indolor. Socorristas tentaram o impossível para lhe salvar, mas sem sucesso. Seu corpo estava tão machucado que é melhor desse jeito, acredite em mim…
E lá, você me conheceu.
“Então… o que houve?” você perguntou. “Onde estou?”
“Você está morto,” eu disse, no mesmo tom que banalidades são ditas. Sem querer enrolar.
Havia… um caminhão? Uma derrapagem…”
“Sim,” eu disse.
“Eu… estou morto?”
“Sim. Mas não se preocupe. Todo mundo morre,” eu disse.
Você olhou ao seu redor. Nada. Uma expansão de nada. Somente você e eu. “Que lugar é este?” Você perguntou. “É o paraíso?”
“Mais ou menos.” eu disse.
“Você é Deus?” você perguntou.
“Sim,” eu respondi. “Eu sou Deus.”
“Meus filhos… minha esposa,” você disse.
“Sim, e?”
“Eles ficarão bem?”
“É isso que eu gosto de ver,” eu disse. “Você acabou de morrer, e sua primeira preocupação é a sua família. Isso é bom, eu gosto.”
Você me observou com fascinação. Em seus olhos, eu não parecia com Deus. Só algum homem. Ou alguma mulher. Um exemplo de autoridade, talvez, mais do tipo professor do que o todo-poderoso.
“Não se preocupe,” eu disse. “Eles vão superar. Seus filhos irão se lembrar de você como uma pessoa perfeita de todos os ângulos. Eles não tiveram tempo de desenvolver desprezo por você. Sua esposa irá chorar, tenha certeza, mas bem lá no fundo ela estará secretamente aliviada. Para ser honesto, seu casamento estava afundando. Se te ajuda, ela se sentirá muito culpada pelo sentimento de alivio.”
“Oh,” você disse. “E agora? Eu irei para o paraíso, ou para o inferno, ou o quê?”
“Nenhuma das opções,” eu disse. “Você irá reencarnar.”
“Ah,” você disse. “Então os Hindus estavam certos!”
“Todas as religiões estão certas, cada uma de sua forma,” eu disse. “Venha, vamos lá.”
Você me seguiu enquanto caminhávamos pelo vazio. “Onde estamos indo?”
“Nenhum lugar em particular,” eu disse. “É bom caminhar enquanto conversamos.”
“Então, qual é o objetivo, de repente?” você perguntou. “Quando eu renascer, eu serei como um quadro em branco, certo?” Um bebê. E, portanto, todas as minhas experiências, e tudo o que eu já tenha feito nesta vida não contarão mais.”
“Nem tanto!” eu disse. “Você tem em você todo o conhecimento, todas as experiências das suas vidas passadas. Você não se lembra agora, isso é tudo.”
Eu parei de caminhar e lhe peguei pelos os ombros. “Sua alma é grandiosa, mais bonita, mais gigante que qualquer coisa que você pode imaginar. Um espírito humano não pode jamais conter mais do que uma pequena parte do que você é. É como colocar seu dedo em um copo d’água para ver se está quente ou frio. Você coloca somente uma pequena parte de você lá, e quando você a tira, você remove todas as experiências que ela teve.”
“Você tem estado em uma forma humana pelos últimos 48 anos, então você ainda não se expandiu, para sentir o resto da sua imensa consciência. Se ficássemos aqui tempo suficiente, você começaria a lembrar de tudo. Mas não há porque fazer isso entre vidas.”
“Quantas vezes eu reencarnei, então?”
“Oh, muitas. Toneladas e toneladas. E em várias diferentes vidas. ” eu disse. “Desta vez, você será uma pequena garotinha camponesa na China de 540 a.C”
“Espera, o quê?” você gaguejou. “Você está me enviando de volta ao passado?”
“Bem, sim, tecnicamente, eu acho. Tempo, como você conhece, somente existe no seu universo. As coisas são diferentes de onde eu venho.”
“De onde você é?” você perguntou.
“Oh, claro,” eu expliquei “Eu venho de algum lugar”. Algum outro lugar. E lá há outros como eu. “Eu sei que você gostaria de saber como é lá, mas honestamente, você não entenderia.”
“Oh,” você disse, um pouco desapontado. “Mas espera. Se eu reencarnei em outros tempos, eu fui capaz de interagir comigo mesmo algumas vezes.”
“Claro. Acontece o tempo todo. E em cada vida sua, você só foi capaz de reconhecer aquela existência, você nem percebeu isso acontecendo.”
“Então, qual o sentido disso?”
“Sério?” eu perguntei. “Sério? você quer que eu te explique o significado da vida?” Não é um pouco clichê?”
“Ok, mas foi uma pergunta razoável,” você insistiu.
Eu olhei em seus olhos. “O significado da vida, a razão pela a qual eu criei este universo todo, é para você crescer.”
“Você quer dizer a humanidade? Você quer que a humanidade cresça?”
“Não, somente você. Eu criei esse universo somente para você. A cada vida você cresce, você se torna mais rígido e seu intelecto amadurece, se amplia.”
“Somente eu? Mas então, e todos os outros?”
“Não há mais ninguém,” eu disse. “Neste universo, só há eu e você.”
Você olha para mim. “Mas e todas as outras pessoas na terra…”
“Tudo faz parte de você. Diferentes incarnações de você.”
“Espera… eu sou todo mundo!?”
“Ah, aqui está você, começando a compreender,” eu disse, pontuando minha sentença com um tapinha de parabenização nas suas costas.
“Eu sou toda a existência humana que já existiu?”
“Ou que irá existir, sim.”
“Eu sou Abraham Lincoln?”
“E você é John Wilkes Booth também,” eu acrescentei.
“Eu sou Hitler?” você disse, consternado.
“E você é os milhões que ele matou.”
“Eu sou Jesus?”
“E você é aqueles que o seguiu.”
Você continuou e silêncio.
“Sempre que você leva alguém como uma vítima,” eu disse, “é você quem está sendo levado como uma vítima. Todo ato de generosidade que você fez, você fez. Todo momento feliz ou triste que um ser humano experimentou foi, ou será, experimentado por você.”
Você continuou pensativo por um longo tempo.
“Por quê?” você disse. Para que tudo isso?”
“Porque um dia, você se tornará como eu. Porque é isso o que você é. Você é um de mim, meu filho.”
Wow,” você disse incrédulo. “Você quer dizer que eu sou um deus?”
“Não. Ainda não. Você é um feto. Você está em crescimento. Uma vez que você tenha vivido todos os tempos, você terá crescido o suficiente para nascer.”
“Então todo o universo,” você disse, “é somente…”
“Um ovo.” eu respondi. “Venha, agora é hora de você seguir em frente para a sua próxima vida.”
Eu eu te encaminhei.

#Reencarnação

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-ovo

Apócrifo de João (Longo)

(O Livro Secreto de João – A Revelação Secreta de João)

O ensinamento do salvador, a revelação dos mistérios, das coisas escondidas no silêncio, e também as coisas que ele ensinou a João, seu discípulo.

E aconteceu um dia, quando João, irmão de Tiago (que são os filhos de Zebedeu), ele havia subido ao templo, e um Fariseu chamado Arimanes o aproximou e disse, “Onde está seu mestre a quem você seguia?” E João respondeu, “Ele retornou para o lugar de onde ele veio.” O Fariseu disse a ele, “Este Nazareno os enganou com ilusão, ele encheu suas orelhas com mentiras, fechou seus corações e desviou vocês das tradições dos seus pais.”

Quando eu, João, ouvi estas coisas, eu abandonei o templo e fui para um lugar deserto. E eu fiquei muito angustiado em meu coração, dizendo, “Como então o salvador foi escolhido? Por que ele foi enviado ao mundo pelo Pai dele? Quem é o Pai dele que o enviou? De que tipo é aquele aeon para o qual nós deveremos ir? Pois o que ele quis dizer quando ele nos falou, ‘Este aeon para o qual vocês irão é do tipo de aeon imperecível’, mas ele não nos ensinou sobre este último.”

Enquanto eu estava contemplando estas coisas, imediatamente, veja, os céus se abriram e a criação que está abaixo de todos os céus brilhou, o mundo inteiro estremeceu. Eu tive medo, no entanto, veja, na luz eu vi uma criança que ficou diante de mim. Enquanto eu observava, ele se tornou um homem velho. E ele mudou sua aparência novamente, se tornando um jovem. Não eram vários diante de mim, mas sim uma aparência com múltiplas formas na luz. E uma aparência surgia através da outra. A aparência tinha três formas.

Ele me disse, “JoãoJoão, por que você duvida, ou por que você está assustado? Esta imagem não é estranha para você, é? – portanto, não seja medroso! – Eu sou aquele que está com vocês sempre. Eu sou o Pai, eu sou a Mãe, eu sou o Filho. Eu sou o inviolado e impoluto. Agora eu vim para te ensinar sobre o que é, o que foi, e o que será, para que você conheça tanto as coisas que estão invisíveis quanto aquelas que estão visíveis, e te ensinar a respeito da raça inabalável do Homem perfeito. Agora, em vista disso, levante seu rosto, para que você possa receber as coisas que eu irei te ensinar hoje, e possa contar para aqueles espíritos que são seus companheiros da raça inabalável do Homem perfeito.”

E eu perguntei por curiosidade, e ele me disse, “A União é uma monarquia com nada acima dela. É o Deus e Pai do Todo, o sagrado, o invisível, que existe acima do Todo. Aquele que é o Pai de imperecibilidade, existindo como luz pura, dentro da qual nenhum olho consegue olhar.

Ele é o Espírito Invisível. Não é correto pensar Dele como um deus, ou algo similar. Porque Ele supera divindade. É um domínio que não tem nada acima Dele para governá-lo. Porque não há nada existindo antes Dele, nem Ele necessita deles. Ele não necessita de vida. Pois Ele é eterno. Ele não precisa de nada. Ele não pode ser aperfeiçoado, como se Ele fosse deficiente e necessitasse de aprimoramento; pelo contrário, Ele é sempre completamente perfeito. Ele é luz. Ele não pode ser limitado, já que não há nada anterior a Ele para o limitar. Ele é insondável, já que não existe ninguém anterior a Ele para o examinar. Ele é imensurável, porque não há alguém anterior a Ele que possa medi-lo. Ele é invisível, já que ninguém é capaz de visioná-lo. Ele é uma eternidade existindo eternamente. Ele é inefável, já que ninguém foi capaz de compreendê-lo para falar sobre Ele. Ele é inominável, já que não há ninguém anterior a Ele para dar-lhe um nome.

Ele é luz imensurável, o puro, que é sagrado e impoluto. Ele é inefável, sendo incorruptivelmente perfeito. Ele não é perfeição, nem bem-aventurança, nem divindade, pois Ele é algo muito superior a estes. Ele não é indelimitado nem delimitado, mas Ele é algo muito superior a estes. Ele não é corpóreo nem incorpóreo. Ele não é grande nem pequeno. Ele não é uma quantidade. Ele não é uma criatura. Nem é possível que alguém o compreenda. Ele não é algo que pertença ao Todo que existe, pelo contrário, Ele é algo que é melhor do que isso. Não que Ele seja simplesmente superior, como se Ele fosse comparável aos outros, mas Ele é algo que pertence a Si próprio.

Ele não participa em um aeon (como parte constituinte dele). O tempo não existe em relação a Ele. Pois qualquer um que participa em um aeon foi criado. O tempo não foi determinado a Ele, já que Ele não recebe nada de outro que estabelece limites. E Ele não necessita de nada.

Nada do Todo existe antes Dele. Ele é suficiente para si próprio em sua luz perfeita. Porque a perfeição é majestosa. Ele é mente pura imensurável. Ele é um aeon doador-de-aeon. Ele é vida doadora-de-vida. Ele é uma bem-aventurança doadora-de-bem-aventurança. Ele é sabedoria doadora-de-sabedoria. Ele é bondade doadora-de-bondade. Ele é piedade e redenção doadores-de-piedade. Ele é graça doadora-de-graça, não porque ele as tem, mas porque Ele doa a luz imensurável e incompreensível.

Como eu devo falar Dele com você? Ele é um aeon indestrutível, em repouso, existindo em silêncio, em tranquilidade, e sendo anterior a tudo. Pois Ele é o topo de todos os aeons, e é Ele quem os dá força e bondade. Porque nós não conhecemos as coisas inefáveis, e nós não compreendemos o que é imensurável, exceto por aquele que veio Dele, ou seja, do Pai. Pois foi ele quem disse para nós somente. Porque é ele quem se olha na luz que o envolve, isto é, a nascente da água da vida. E é Ele quem doa para todos os aeons, de todos os modos, e que observa sua própria imagem visível na nascente do Espírito. É Ele quem coloca sua vontade na fonte da água-luz pura que o envolve.

E seu pensamento teve uma ação, e ela surgiu, ou seja, aquela que tinha aparecido diante Dele no brilho da sua luz. Este é o primeiro poder que existia antes deles todos, e que veio da mente Dele. Ela é o Pensamento do Todo (Protenoia) – a luz dela brilha como a luz Dele – o poder perfeito, que é a imagem do Espírito puro, invisível, e perfeito. É o primeiro poder, a glória de Barbelo, a glória perfeita nos aeons, a glória da revelação. Ela glorificou o Espírito puro, e foi ela quem o saudou, porque graças a ele, ela havia surgido. Este é o primeiro pensamento, a imagem Dele; ela se tornou o útero de tudo, pois ela que é anterior a todos eles, ela é a Mãe-Pai, o Primeiro Homem, o Espírito sagrado, os três-vezes-macho, os três-vezes-poderosos, o andrógino três-vezes-nomeado, o aeon eterno entre os invisíveis, e o primeiro a vir.

<Ela> pediu para que o Espírito puro invisível a desse previsão. E o Espírito consentiu. E quando ele havia consentido, a previsão veio, e ficou ao lado da presciência; esta origina do pensamento do Espírito puro invisível. A previsão glorificou o Espírito e Barbelo (o poder perfeito dele), porque foi por ela que ele tinha surgido.

E ela pediu novamente para a conceder indestrutibilidade, e ele consentiu. Quando ele havia consentido, a indestrutibilidade veio, e ficou ao lado do pensamento e da presciência. A indestrutibilidade glorificou o Espírito invisível e Barbelo, aquele pelo qual eles haviam surgido.

E ela solicitou que a concedesse vida eterna. E o Espírito invisível consentiu. E quando ele havia consentido, a vida eterna veio, e estes auxiliaram e glorificaram o Espírito invisível e Barbelo, aquele pelo qual eles haviam surgido.

Ela solicitou novamente, para que a concedesse verdade. E o Espírito invisível consentiu. E quando ele havia consentido, a verdade surgiu, e estes auxiliaram e glorificaram o Espírito excelente invisível e Barbelo, aquele pelo qual eles haviam surgido.

Este é o grupo-de-cinco dos aeons do Pai, que é o Primeiro Homem, e que é a imagem do Espírito invisível; a presciência, que é Barbelo, e o pensamento, a previsão, a indestrutibilidade, a vida eterna, e a verdade. Este é o grupo-de-cinco andrógino dos aeons, o qual é o grupo-de-dez dos aeons, que é o Pai.

E ele olhou para Barbelo com a luz pura que envolve o Espírito invisível e com sua centelha. E ela concebeu dele. Ele gerou uma centelha de luz possuindo bem-aventurança. Mas que não o iguala em grandeza. Esta foi uma criança unigênita da Mãe-Pai que tinha vindo; é o fruto único, o unigênito do Pai. A Luz pura.

E o Espírito puro invisível se alegrou pela luz que veio, que surgiu pelo primeiro poder da presciência dele, que é Barbelo. E ele a ungiu com sua bondade até que se tornasse perfeita, não carecendo de qualquer valor, porque ele tinha ungido com a bondade do Espírito invisível. E ela (a luz) o auxiliou quando ele derramou sobre ela. E imediatamente, quando a luz tinha recebido do Espírito, ela glorificou o Espírito sagrado e a presciência perfeita, pela qual ela tinha vindo.

E ela pediu que lhe desse um ajudante, que é a mente, e ele consentiu alegremente. E quando o Espírito havia consentido, a mente veio, e auxiliou Cristo, glorificando ele e Barbelo. E todos estes surgiram no silêncio.

E a mente quis realizar uma ação através da palavra do Espírito invisível. E a vontade dele se tornou uma ação, e apareceu com a mente; a luz o glorificou. E a palavra acompanhou a vontade. Porque pela palavra, Cristo, o Autogenes divino, criou tudo. A vida eterna, a vontade dele, a mente, e a previsão, serviram e glorificaram o Espírito invisível e Barbelo, pelos quais eles haviam surgido.

E o Espírito sagrado completou o Autogenes divino, que é o filho dele, junto com Barbelo, para que ele pudesse auxiliar o Espírito puro invisível e poderoso como o Autogenes divino, o Cristo, a quem ele havia reverenciado com uma voz poderosa. Ele veio pela presciência. E o Espírito puro invisível colocou o Autogenes divino de honestidade acima de tudo. E submeteu a ele toda a autoridade e a verdade que ele possui, para que ele conheça o Todo, que foi aclamado com um nome exaltado acima de todos os nomes. Porque esse nome será mencionado para aqueles que são dignos dele.

Pois pela luz, que é Cristo, e a indestrutibilidade, através da dádiva do Espírito, as quatro luzes apareceram do Autogenes divino. Ele esperou que eles o assistissem. E os três são: vontade, pensamento, e vida. E os quatro poderes são: compreensão, graça, percepção, e prudência. E a graça pertence ao aeon-luz Armozel, que é o anjo de luz no primeiro aeon. E há três outros aeons com este aeon: graça, verdade, e forma.

E a segunda luz é Oriel, que foi colocado sobre o segundo aeon. E há três outros aeons com ele: concepção, percepção, e memória. E a terceira luz é Daveithai, que foi colocado sobre o terceiro aeon. E há três outros aeons com ele: compreensão, amor, e ideia. E o quarto aeon foi colocado sobre a quarta luz Eleleth. E há três outros aeons com ele: perfeição, paz, e sabedoria. Estas são as quatro luzes que assistem o Autogenes divino, e estes são os doze aeons eternos que assistem o filho do poderoso, o Autogenes, o Cristo, através da vontade e da dádiva do Espírito invisível. E os doze aeons pertencem ao filho do Autogenes. E todas as coisas foram estabelecidas pela vontade do Espírito sagrado através do Autogenes.

E pela previsão da mente perfeita, através da revelação da vontade do Espírito invisível, e da vontade do Autogenes, o Homem perfeito apareceu, a primeira revelação, e a verdade. É ele quem o Espírito puro chamou de Pigera-Adamas, e ele o colocou sobre o primeiro aeon com o poderoso, o Autogenes, o Cristo, ao lado da primeira luz de Armozel; e com ele estão seus poderes. E o invisível lhe deu um poder mental imbatível. E ele falou, glorificou, e saudou o Espírito invisível, dizendo, “Foi por ti que tudo surgiu, e tudo retornará para ti. Eu saudarei e glorificarei a ti, o Autogenes, e os aeons, os três: o Pai, a Mãe, e o Filho – o poder perfeito.’

E ele (Adamas) colocou o filho dele, Seth, sobre o segundo aeon, na presença da segunda luz Oriel. E no terceiro aeon, a semente de Seth foi colocada sobre a terceira luz Daveithai. E as almas dos santos foram colocadas lá. E no quarto aeon foram colocadas as almas daqueles que não conhecem o Pleroma, e também aqueles que não se arrependeram imediatamente, mas que persistiram por um tempo e se arrependeram depois; eles estão ao lado da quarta luz Eleleth. Estas são criaturas que glorificam o Espírito invisível.

E a Sofia da Epinoia, sendo um aeon, concebeu um pensamento dela mesma pela concepção do Espírito invisível e pela previsão. Ela queria produzir reinos por conta própria sem o consentimento do Espírito (ele não havia aprovado), sem o cônjuge dela, e sem a apreciação dele. E, embora a pessoa da masculinidade dela não tinha aprovado, e ela não tinha obtido a autorização, e ela havia pensado sem o consentimento do Espírito, mesmo assim ela prosseguiu. E devido ao poder invencível que existe nela, o pensamento dela não permaneceu inativo, e algo que era imperfeito e diferente de sua aparência saiu dela, porque ela havia criado aquilo sem seu cônjuge. E era diferente da aparência da mãe, pois tinha uma outra forma.

E quando ela viu as consequências do seu desejo, aquilo se transformou numa serpente com cabeça de leão. E os olhos dele eram como chamas com clarão. Ela o lançou para fora dela, para fora daquele lugar, para que nenhum dos imortais o visse, porque ela o havia criado em ignorância. E ela o rodeou com uma nuvem luminosa, e ela colocou um trono no meio da nuvem para que ninguém visse exceto pelo Espírito sagrado, que é chamado a mãe dos vivos. E ela o nomeou Yaldabaoth.

Este é o primeiro arconte que tomou um grande poder da mãe dele. E ele se separou dela, e se dirigiu para longe do lugar em que ele tinha nascido. Ele ficou forte, e criou para si outros aeons com uma chama de fogo luminoso que ainda existe hoje. E ele se juntou com a arrogância que existe nele, e gerou autoridades para si. O nome do primeiro é Athoth, a quem as gerações chamam de o ceifeiro. O segundo é Harmas, que é o olho da inveja. O terceiro é Kalila-Oumbri. O quarto é Yabel. O quinto é Adonaios, que é chamado Sabaoth. O sexto é Caim. Aquele a quem as gerações dos homens chamam de sol é o sétimo, Abel. O oitavo é Abrisene. O nono é Yobel. O décimo é Armoupieel. O décimo primeiro é Melceir-Adonein. O décimo segundo é Belias (ou Beliel), é ele quem está acima da profundeza de Hades. E ele colocou sete reis – cada um correspondente aos firmamentos do céu – sobre os sete céus, e cinco sobre as profundezas do abismo, para que eles reinem. E ele compartilhou seu fogo com eles, mas ele não emitiu do poder da luz que ele havia tomado de sua mãe, porque ele é escuridão ignorante.

E quando a luz havia se misturado com a escuridão, ela fez a escuridão brilhar. E quando a escuridão havia se misturado com a luz, ela escureceu a luz e não ficou nem claro nem escuro, mas ficou uma penumbra.

Agora o arconte que é penumbra tem três nomes. O primeiro é Yaldabaoth, o segundo é Saclas, e o terceiro é Samael. E ele é ímpio em sua arrogância. Porque ele disse ‘Eu sou Deus, e não há outro Deus além de mim,’ pois ele é ignorante da força dele, e do lugar de onde ele veio.

E os arcontes criaram sete poderes para eles mesmos, e os poderes criaram para si seis anjos cada um, até se tornarem 365 anjos.

Estes são os nomes das autoridades com seus corpos: o primeiro é Athoth, e ele tem um rosto de ovelha; o segundo é Eloaiou, ele tem um rosto de burro; o terceiro é Astaphaios, ele tem um rosto de hiena; o quarto é Yao, ele tem um rosto de dragão com sete cabeças; o quinto é Sabaoth, ele tem um rosto de serpente (naja); o sexto é Adonin, ele tem um rosto de macaco, o sétimo é Sabbede, ele tem um rosto de fogo brilhante. Estes são os sete da semana.

Mas Yaldabaoth tem muitas faces, mais do que todos eles, para que ele pudesse por uma face diante deles quando ele desejasse, quando ele está no meio dos serafins. Ele compartilhou seu fogo com eles; por isto ele se tornou senhor sobre eles. Por causa da glória e do poder que ele possuía da luz da mãe dele, ele se chamou Deus. E ele não respeitou o lugar de onde ele veio. Ele uniu os sete poderes no seu pensamento com as autoridades que estavam com ele. E quando ele falou, aconteceu. E ele nomeou cada poder, começando pelo mais alto; bondade, com a primeira autoridade, Athoth; previsão com o segundo, Eloaio; divindade com o terceiro, Astaphaio; senhoria com o quarto, Yao; reino com o quinto, Sabaoth; inveja com o sexto, Adonein; compreensão com o sétimo, Sabbateon. E estes têm um firmamento correspondente a cada aeon-céu. Eles foram nomeados de acordo com a glória que pertence ao oitavo céu, para a destruição dos poderes. E havia poder nos nomes que foram dados a eles pelo seu Originador. Mas os nomes que foram dados a eles, de acordo com a glória que pertence ao oitavo céu, significam para eles destruição e impotência. Portanto, eles têm dois nomes.

E tendo criado […] tudo, ele organizou de acordo com o modelo dos primeiros aeons que tinham surgido, para que ele pudesse criá-los como aqueles indestrutíveis. Não porque ele tinha visto aqueles indestrutíveis, mas o poder dentro dele, que ele tinha tomado de sua mãe, produziu nele a aparência do cosmos. E quando ele viu a criação que o rodeava, e a multidão dos anjos em sua volta que tinha vindo através dele, ele disse para eles, ‘Eu sou um Deus ciumento, e não há outro Deus além de mim.’ Mas, anunciando isto, ele indicou aos anjos que o servem que existe outro Deus. Porque se não houvesse outro, de quem ele teria ciúmes?

Então a mãe começou a se mover para lá e para cá. Ela percebeu a deficiência quando o brilho da luz dela diminuiu. E ela ficou escura, porque seu cônjuge não havia concordado com ela.”

E eu disse “Senhor, o que significa ela se moveu para lá e para cá?” Mas ele sorriu e disse, “Não pense que é como Moisés falou, ‘sobre as águas.’ Não, mas quando ela havia visto a perversidade que tinha ocorrido, e o roubo que o filho dela tinha cometido, ela se arrependeu. E ela foi dominada pelo esquecimento da escuridão da ignorância, e ela começou a ficar envergonhada. E ela não ousou retornar, mas ela estava circulando. E a movimentação é o ir para lá e para cá.

E aquele arrogante tomou um poder da mãe dele. Porque ele era ignorante, pensando que não havia outro além da mãe dele. E quando ele viu a multidão dos anjos que ele havia criado, então ele se exaltou acima deles.

E quando a mãe reconheceu que a vestimenta da escuridão era imperfeita, aí ela soube que seu cônjuge não havia concordado. Ela se arrependeu com muito choro. E o pleroma inteiro escutou a oração do arrependimento dela, e em nome dela, eles solicitaram a bênção do Espírito puro invisível. Ele consentiu; e quando o Espírito invisível havia consentido, o Espírito sagrado, a partir do pleroma deles inteiro, derramou a bênção sobre ela. Porque não foi o cônjuge dela que veio, mas ele veio até ela pelo pleroma, para que ele pudesse corrigir a deficiência. E ela foi levada, não para o seu aeon, mas para um lugar mais elevado do que o filho dela, para que ela esteja no nono céu até que ela tenha corrigido sua deficiência.

E uma voz veio do aeon-céu sublime: ‘O Homem existe, e o filho do Homem também.’ E o chefe arconte Yaldabaoth ouviu isto, e achou que a voz tinha vindo da mãe dele. E ele não sabia de onde tinha vindo realmente: a Mãe-Pai perfeita e sagrada, a previsão completa, a imagem do invisível que é o Pai de tudo, e através do qual surgiu tudo, o Primeiro Homem. Porque ele revelou sua aparência numa forma humana.

E o universo inteiro do arconte chefe estremeceu, e os alicerces do abismo balançaram. E o fundo das águas que estão sobre a matéria foi iluminado pelo aparecimento da imagem Dele, que havia sido revelada. E quando todas as autoridades e o arconte chefe olharam, eles viram a região inteira do fundo que estava iluminada. E, através da luz, eles viram a forma da imagem na água.

E ele disse para as autoridades que o servem, ‘Venham, vamos criar um homem de acordo com a imagem de Deus e de acordo com a nossa forma, para que a imagem dele se torne uma luz para nós.’ E eles criaram, por meio de seus respectivos poderes, de acordo com as características que foram dadas. E cada autoridade forneceu uma característica nos moldes da imagem que eles tinham visto na forma natural. Eles criaram um ser segundo a aparência do Primeiro Homem perfeito. E eles disseram, ‘Vamos chamá-lo de Adão, para que o nome dele se torne um poder de luz para nós.’

E os poderes começaram: o primeiro, bondade, criou uma alma-osso; e o segundo, previsão, criou uma alma-nervo; o terceiro, divindade, criou uma alma-carne; e o quarto, senhoria, criou uma alma-medula; o quinto, reino, criou uma alma-sangue; o sexto, inveja, criou uma alma-pele, o sétimo, compreensão, criou uma alma-cabelo. E a multidão de anjos o ajudou, e eles receberam dos poderes as sete substâncias da forma natural para criar as proporções dos membros, a proporção do quadril, e o funcionamento correto do conjunto de cada uma das partes.

O primeiro começou a criar a cabeça. Eteraphaope-Abron criou a cabeça dele; Meniggesstroeth criou o cérebro; Asterechme (criou) o olho direito; Thaspomocha, o olho esquerdo; Yeronumos, a orelha direita; Bissoum, a orelha esquerda; Akioreim, o nariz; Banen-Ephroum, os lábios; Amen, os dentes; Ibikan, os molares; Basiliademe, as amídalas; Achcha, a úvula; Adaban, o pescoço; Chaaman, a vértebra; Dearcho, a garganta; Tebar, o ombro direito; […], o ombro esquerdo; Mniarcon, o cotovelo direito; […], o cotovelo esquerdo; Abitrion, a axila direita; Evanthen, a axila esquerda; Krys, a mão direita; Beluai, a mão esquerda; Treneu, os dedos da mão direita; Balbel, os dedos da mão esquerda; Kriman, as unhas dos dedos; Astrops, o seio direito; Barroph, o seio esquerdo; Baoum, a articulação do ombro direito; Ararim, a articulação do ombro esquerdo; Areche, a barriga; Phthave, o umbigo; Senaphim, o abdome; Arachethopi, as costelas da direita; Zabedo, as costelas da esquerda; Barias, o quadril direito; Phnouth o quadril esquerdo; Abenlenarchei, a medula; Chnoumeninorin, os ossos; Gesole, o estômago; Agromauna, o coração; Bano, os pulmões; Sostrapal, o fígado; Anesimalar, o baço; Thopithro, os intestinos; Biblo, os rins; Roeror, os nervos; Taphreo, a espinha do corpo; Ipouspoboba, as veias; Bineborin, as artérias; Atoimenpsephei, os seus são as respirações que estão em todos os membros; Entholleia, toda a carne; Bedouk, a nádega direita; Arabeei, o pênis; Eilo, os testículos; Sorma, os genitais; Gorma-Kaiochlabar, a coxa direita; Nebrith, a coxa esquerda; Pserem, os rins (músculos?) da perna direita; Asaklas, o rim (músculo) esquerdo; Ormaoth, a perna direita; Emenun, a perna esquerda; Knyx, a tíbia direita; Tupelon, a tíbia esquerda; Achiel, o joelho direito; Phnene, o joelho esquerdo; Phiouthrom, o pé direito; Boabel, os dedos do pé direito; Trachoun, o pé esquerdo; Phikna, os dedos do pé esquerdo; Miamai, as unhas dos pés; Labernioum – .

E aqueles que foram designados sobre todos estes são: Zathoth, Armas, Kalila, Jabel, (Sabaoth, Caim, Abel). E aqueles que são especialmente ativos nos membros (são) a cabeça Diolimodraza, o pescoço Yammeax, o ombro direito Yakouib, o ombro esquerdo Verton, a mão direita Oudidi, a mão esquerda Arbao, os dedos da mão direita Lampno, os dedos da mão esquerda Leekaphar, o seio direito Barbar, o seio esquerdo Imae, o peito Pisandriaptes, a articulação do ombro direito Koade, a articulação do ombro esquerdo Odeor, as costelas da direita Asphixix, as costelas da esquerda Synogchouta, a barriga Arouph, o útero Sabalo, a coxa direita Charcharb, a coxa esquerda Chthaon, todos os genitais Bathinoth, a perna direita Choux, a perna esquerda Charcha, a tíbia direita Aroer, a tíbia esquerda Toechtha, o joelho direito Aol, o joelho esquerdo Charaner, o pé direito Bastan, os dedos do pé direito Archentechtha, o pé esquerdo Marephnounth, os dedos do pé esquerdo Abrana.

Sete possuem poder sobre todos estes: Michael, Ouriel, Asmenedas, Saphasatoel, Aarmouriam, Richram, Amiorps. E aqueles que estão no comando dos sentidos (são) Archendekta; e aquele que está no comando das recepções é Deitharbathas; e aquele que está no comando da imaginação é Oummaa; e aquele que está sobre a composição é Aachiaram, e aquele que está sobre todo o impulso é Riaramnacho.

A origem dos quatro demônios que estão no corpo todo são: calor, frio, umidade e secura. E a mãe de todos eles é a matéria. Aquele que reina sobre o calor é Phloxopha; aquele que reina sobre o frio é Oroorrothos; aquele que reina sobre o que é seco é Erimacho; e aquele que reina sobre a umidade é Athuro. A mãe de todos estes, Onorthochrasaei, fica entre eles, já que ela é ilimitável, e ela se mistura com todos eles. E ela é verdadeiramente material, pois eles são nutridos por ela.

Os quatro chefes demônios são: Ephememphi, que pertence ao prazer, Yoko, que pertence ao desejo, Nenentophni, que pertence à tristeza, Blaomen, que pertence ao medo. E a mãe deles todos é Aesthesis-Ouch-Epi-Ptoe. E dos quatro demônios surgiram paixões. E da tristeza vieram: inveja, ciúmes, incômodo, aborrecimento, dor, insensibilidade, ansiedade, lamentação, etc. E do prazer surge muita perversidade, orgulho vazio, e coisas similares. Do desejo vem raiva, fúria, amargura, paixão amarga, insaciabilidade, e coisas similares. Do medo vem temor, adulação, agonia, e vergonha. Todas estas são como coisas úteis e também coisas más. No entanto, a percepção profunda do caráter verdadeiro delas é Anaro, que é a cabeça da alma material. Porque ela pertence aos sete sentidos, Ouch-Epi-Ptoe.

Este é o número dos anjos: juntos eles são 365. Eles todos trabalharam nisto até que, membro a membro, o corpo material e natural foi concluído. Agora há outros no comando das paixões restantes, os quais eu não mencionei a você. Mas se você quiser conhecê-los, está escrito no livro de Zoroaster (Zostrianos?). E todos os anjos e demônios trabalharam até que eles haviam construído o corpo natural. E o produto deles ficou completamente inativo e imóvel por um longo tempo.

E quando a mãe quis reaver o poder que ela havia dado ao arconte chefe, ela fez uma petição à Mãe-Pai do Todo, que é muitíssimo misericordioso. Ele enviou, por meio do decreto sagrado, as cinco luzes abaixo para o universo dos anjos e do arconte chefe. Eles o aconselharam que eles deveriam acionar o poder da mãe. E eles disseram para Yaldabaoth, ‘Assopre no rosto dele algo do seu espírito, e o corpo dele se erguerá.’ E ele soprou no rosto dele o espírito que é o poder da mãe dele, mas ele não sabia disto, pois ele existe na ignorância. E o poder da mãe saiu de Yaldabaoth e entrou no corpo natural, o qual eles haviam produzido segundo a imagem daquele que existe desde o início. O corpo se moveu e ganhou força, e era luminoso.

E naquele momento, os restantes dos poderes ficaram com ciúmes, porque ele havia surgido deles todos, e eles haviam dado poder ao homem, e a inteligência dele era maior do que a daqueles que o haviam criado. Maior do que a do arconte chefe. E quando eles reconheceram que ele era luminoso, que ele podia pensar melhor do que eles, e que ele estava livre da perversidade, eles o tomaram e o jogaram na região mais baixa de toda a matéria.

Mas O abençoado, a Mãe-Pai, O misericordioso e beneficente, teve misericórdia do poder da mãe que havia vindo do arconte chefe, pois eles (os arcontes) podiam ganhar força sobre o corpo natural e perceptível. E ele enviou, através do Espírito beneficente dele e de sua grande misericórdia, um ajudante para Adão, a Epinoia luminosa que surge dele, que se chama Vida. E ela auxilia a criação inteira, trabalhando com ele e o restaurando à sua totalidade. Ela o instrui sobre a descida da sua semente e sobre o caminho da ascensão, que é o caminho que ele veio para baixo. E a Epinoia luminosa estava escondida em Adão, para que os arcontes não a conhecessem, mas para que a Epinoia pudesse ser uma correção da deficiência da mãe.

E o homem veio por causa da sombra da luz que está nele. E o raciocínio dele era superior a todos aqueles que o haviam feito. Quando eles verificaram, eles viram que o raciocínio dele era superior. E eles consultaram a ordem inteira de arcontes e anjos. Eles pegaram fogo e terra e água e misturaram com os quatro ventos flamejantes. E eles os forjaram em conjunto, e causaram uma grande perturbação. E eles trouxeram ele (Adão) para dentro da sombra da morte, para que eles o formassem novamente pela terra, água, fogo, e o espírito que origina na matéria (o qual é a ignorância da escuridão e do desejo), e o espírito falsificado deles. Esta é a tumba do corpo recém-formado com a qual os ladrões haviam vestido o homem, o laço do esquecimento; e ele se tornou um homem mortal. Este é o primeiro que desceu, e a primeira separação. Mas a Epinoia da luz que estava dentro dele, ela é que iria despertar o raciocínio dele.

E os arcontes o pegaram e o colocaram no paraíso. E eles disseram para ele, ‘Coma sem se preocupar,’ pois a luxúria deles é amarga, e a beleza deles é depravada. A luxúria deles é enganação, e as árvores deles são ateísmo, a fruta deles é um veneno mortal, e a promessa deles é a morte. A árvore da vida deles, eles haviam colocado no centro do paraíso.

E eu irei ensinar a vocês qual é o mistério da vida deles, que é o plano que eles fizeram juntos, que é a aparência do espírito deles. A raiz desta árvore é amarga, e seus galhos são morte, sua sombra é ódio, e a enganação está em suas folhas. Sua florescência é o unguento do mal, e sua fruta é morte. Desejo é a sua semente, e ela germina em escuridão. A morada daqueles que provam dela é Hades, e a escuridão é o lugar de repouso deles.

Mas o que eles chamam de árvore da sabedoria do bem e do mal, que é a Epinoia da luz, eles ficaram na frente dela para que ele (Adão) não pudesse ver sua plenitude e reconhecer a nudez de sua infâmia. Mas fui eu quem propiciou que eles comessem.”

E eu falei para o salvador, “Senhor, não foi a serpente que ensinou Adão a comer?” O salvador sorriu e disse, “A serpente ensinou eles a comer da perversidade da procriação, do desejo sexual, e da destruição, para que Adão pudesse ser útil para ele. E Adão sabia que ele tinha sido desobediente ao arconte chefe, devido à luz da Epinoia que está dentro dele, a qual o fez mais correto no seu raciocínio do que o arconte chefe. E o arconte queria incitar o poder que ele mesmo tinha dado para Adão. E ele trouxe um esquecimento sobre Adão.”

E eu disse ao salvador, “O que é o esquecimento?” E ele disse “Não é como Moisés escreveu e como você ouviu. Porque ele disse no primeiro livro dele, ‘Ele o colocou para dormir’ (Gn 2:21), mas foi apenas na percepção dele. Pois ele também disse através do profeta, ‘Eu tornarei pesado os corações deles, para que eles não prestem atenção e não vejam’ (Is 6:10).

Então a Epinoia da luz se escondeu em Adão. E o arconte chefe queria tirá-la da costela dele. Mas a Epinoia da luz não pode ser agarrada. Embora a escuridão a perseguiu, ela não a pegou. E ele retirou uma parte do poder dele. E ele fez uma outra criatura, na forma de uma mulher, de acordo com a aparência da Epinoia que havia aparecido em Adão. E ele pegou a parte que ele havia tomado do poder do homem, e pôs na criatura fêmea, e não como Moisés falou, ‘ele pegou uma costela e fez a mulher.’

E Adão viu a mulher ao lado dele. E naquele momento a Epinoia luminosa apareceu, e ela removeu o véu que cobria a mente dele. E ele ficou sóbrio da embriaguez da escuridão. Ele reconheceu sua contraparte e disse, ‘Esta é de fato um pedaço de mim e possui a minha semelhança.’ O mistério disso é o seguinte: para adquirir a sua contraparte espiritual o homem deverá rejeitar a união carnal com as criaturas mortais, assim sua consciência despertará, e a partir do reino invisível ele receberá a sua cônjuge, então os dois serão um único ser. Pois os dignos receberão a sua ajudante, e eles deixarão os costumes dos seus pais e suas mães … (3 linhas ilegíveis)

E nossa irmã Sofia, é ela quem desceu em inocência para retificar a deficiência. Portanto, ela foi chamada Vida, porque é a mãe dos vivos, pela previsão da soberania do oitavo céu. E através dela, eles provaram da Sabedoria perfeita. Eu apareci na forma de uma águia na árvore da sabedoria, que é a Epinoia da previsão da luz pura, para que eu pudesse instruir e acordá-los para fora da profundeza do sono. Porque eles dois estavam em um estado decaído, e eles reconheceram sua nudez. A Epinoia apareceu para eles como luz; ela despertou o raciocínio deles.

E quando Yaldabaoth percebeu que eles se afastaram dele, ele amaldiçoou a sua terra. Ele encontrou a mulher quando ela estava se preparando para o marido dela. Ele entregou a mulher para que o homem fosse dono dela, porque ele não sabia o mistério que tinha se passado através do decreto sagrado. E eles estavam com medo de renegar Yaldabaoth. E ele demonstrou a seus anjos a ignorância que está dentro dele. Ele os expulsou (Adão e Eva) do paraíso, e os vestiu com escuridão lúgubre. E o arconte chefe viu a virgem que estava com Adão, e viu que a Epinoia luminosa de vida havia aparecido nela. E Yaldabaoth estava cheio de ignorância. Quando a previsão do Todo percebeu o que iria acontecer, ela enviou alguns assistentes, e eles removeram Vida Divina de Eva.

E o arconte chefe a seduziu, e ela gerou dois filhos; o primeiro e o segundo são Eloim e Yave. Eloim tem um rosto de urso, e Yave tem um rosto de gato. Um é justo e o outro é injusto. (Yave é justo, mas Eloim é injusto.) Ele colocou Yave no comando do fogo e do vento, e Eloim ele colocou no comando da água e da terra. E estes ele chamou de Caim e Abel, com a intenção de enganar.

Agora, até os dias de hoje, a prática sexual continuou devido ao arconte chefe. E ele incitou desejo de procriação naquela que pertence a Adão. E ele produziu as cópias dos corpos através da relação, e os inspirou com seu espírito falsificado.

Então Sabaoth colocou os dois arcontes no poder supremo, para que eles governassem sobre a tumba (corpo). E quando Adão reconheceu a aparência da sua própria previsão, ele gerou a aparência do filho do homem. Ele o chamou de Seth, de acordo com aquele da raça nos grandes aeons. Do mesmo modo, a mãe também enviou para baixo o espírito dela (que é a sua aparência), e uma cópia daqueles que estão no pleroma, pois ela preparou uma habitação para os aeons que desceram. E ele os fez beber beber da água do esquecimento, do arconte chefe, para que eles não saibam de onde eles vieram. Deste modo a semente permaneceu por um tempo, para que quando o Espírito vier dos aeons sagrados, o Espírito possa os erguer e curar a deficiência. Para que o pleroma inteiro se torne sagrado e perfeito novamente.

E eu disse para o salvador, “Senhor, então todas as almas serão trazidas com segurança para dentro da luz pura?” Ele respondeu e me disse, “Coisas grandiosas surgiram em sua mente, porque é difícil explicar elas para outros, exceto àqueles que são da raça inalterável. Aqueles em quem descerá o Espírito de vida, e com quem ele permanecer com o poder, eles serão salvos, e se tornarão perfeitos e dignos da grandeza. Eles serão purificados de toda a perversidade e envolvimentos com o mal naquele lugar. Então eles não têm outra preocupação senão a incorruptibilidade apenas, para a qual eles direcionam a atenção deles daqui por diante, sem medo, raiva, inveja, ciúmes, desejo, ou ganância por nada. Eles não são afetados por nada exceto apenas pelo estado de espírito na carne, a qual eles suportam enquanto esperam ansiosamente pela hora em que eles se encontrarão com os destinatários (do corpo). Estes então são dignos da vida eterna, incorruptível, e do chamado. Pois eles resistem a tudo e suportam tudo, para que eles possam terminar a boa luta e herdar a vida eterna.”

Eu disse a ele, “Senhor, as almas daqueles que não fizeram os trabalhos, mas aos quais o poder do Espírito desceu, eles serão rejeitados?” Ele respondeu e me disse, “Se o Espírito desceu sobre eles, de qualquer modo eles serão salvos, e eles se tornarão melhores. Pois o poder irá descer sobre todos os eleitos, porque sem ele ninguém consegue se manter puro. E após eles nascerem, então, quando o espírito de vida aumenta, e o poder vem e fortalece aquela alma, ninguém consegue desencaminhá-la com trabalhos do mal. Mas naqueles que o espírito falsificado descer, estes são compelidos por ele, e se desencaminham.”

E eu disse, “Senhor, aonde irão as almas destes quando eles tiverem saído da carne?” E ele sorriu e me disse, “A alma na qual o poder se tornar maior do que o espírito falsificado, é forte e ela escapa do mal, e através da intervenção do incorruptível, ela é salva, e é levada para cima, para o repouso dos aeons.”

E eu disse, “Senhor, aqueles que, pelo contrário, não souberam a quem eles pertencem, onde estarão as almas deles?” E ele me disse, “Nesses, o espírito desprezível ganhou força quando eles se desencaminharam. E ele atormenta a alma, e a atrai para os trabalhos do mal. Ele joga a alma no esquecimento. E após ela deixar o corpo, ela é entregue para as autoridades que vieram pelo arconte, e eles a prendem com correntes e a jogam na prisão novamente. Eles a acompanham até que ela se liberte do esquecimento e ganhe sabedoria. E se então ela se tornar perfeita, ela é salva.”

E eu disse, “Senhor, como a alma pode ficar menor e retornar para dentro da natureza da mãe dela, ou dentro do homem?” Então ele se alegrou quando eu perguntei isto, e me disse, “Realmente você é abençoado, porque você entendeu! Aquela alma é feita para seguir uma outra em quem está o Espírito de vida. Ela é salva através dele. Portanto, não é novamente jogada dentro de outra carne.”

E eu disse, “Senhor, aqueles que compreenderam, mas mesmo assim se desviaram, aonde irão as almas deles?” Então ele me disse, “Eles serão levados para aquele lugar onde os anjos da pobreza vão, o lugar onde não há arrependimento. E eles serão detidos para o dia em que serão torturados aqueles que blasfemaram o espírito, e eles serão punidos com punição eterna.”

E eu disse, “Senhor, de onde vem o espírito falsificado?” Então ele me disse, “A Mãe-Pai que é rica em misericórdia, o Espírito sagrado em todos os sentidos, Aquele que é misericordioso e que simpatiza com vocês, a Epinoia da previsão da luz, ela fortaleceu a descendência da raça perfeita, junto com seu raciocínio e a luz eterna do homem. Quando o arconte chefe percebeu que eles eram mais elevados do que ele – e eles superavam o raciocínio dele – ele então quis sabotar o raciocínio deles, sem saber que eles o superavam em raciocínio, e que ele não seria capaz de capturá-los.

Ele planejou com as autoridades que são seus poderes, e eles juntos cometeram adultério com Sofia, e a pobreza amarga foi gerada através deles. Esta é a principal forma de dominação. A necessidade varia de acordo com o lugar e a época. Ela é mais resistente e mais forte do que aquela com quem os deuses se uniram, e do que os anjos, e os demônios, e todas as gerações, até hoje. Porque através da necessidade veio cada ato imoral, e injustiça, blasfêmia, e a corrente do esquecimento e da ignorância, e cada ordem rígida, e ofensas graves, e grandes medos. Deste modo, a criação inteira foi aprisionada, para que eles não conhecessem o Deus Eterno, que está acima de todos eles. E por causa da corrente do esquecimento, as ofensas deles foram escondidas. Pois eles estão presos a medidas, e tempos, e momentos, já que a necessidade governa sobre tudo.

E o arconte chefe se arrependeu de tudo o que tinha surgido através dele. Desta vez ele planejou trazer um dilúvio sobre o trabalho do homem. Mas a grandiosidade da luz da previsão informou Noé, e ele proclamou para todos os descendentes que eram filhos dos humanos. Mas aqueles que eram estranhos a ele não deram ouvidos. Não foi como Moisés falou, ‘Eles se esconderam numa arca’ (Gn 7: 7), mas eles se esconderam num lugar, não apenas Noé, mas também muitas outras pessoas da raça inalterável. Eles entraram num lugar, e se esconderam numa nuvem luminosa. E Noé reconheceu sua autoridade, e aquela que pertence à luz estava com ele, tendo brilhado sobre eles, porque o arconte chefe havia trazido escuridão sobre toda a terra.

E o arconte planejou com seus poderes. Ele mandou seus anjos para as filhas dos homens, para que eles tomassem algumas delas para si mesmos e gerassem filhos para diversão própria. E primeiramente eles não conseguiram. Quando eles falharam, eles se reuniram novamente e fizeram um plano juntos. Eles criaram um espírito falsificado, que se parece com o Espírito que havia descido, com o intuito de poluir as almas através dele. E os anjos se transformaram de suas aparências para a aparência dos cônjuges delas (as filhas dos homens), preenchendo elas com o espírito da escuridão (que eles haviam misturado para si), e com o mal. Eles trouxeram ouro, prata, e um presente, e cobre, e ferro, e metal, e todos os tipos de coisas materiais. E eles conduziram as pessoas que os haviam seguido para grandes aborrecimentos, desencaminhando elas com muitas ilusões. Elas (as pessoas) envelheceram amarguradas, pois elas trabalharam incansavelmente até o fim de suas vidas e não encontraram o repouso. Elas morreram sem ter encontrado a verdade, e sem conhecer o Deus da verdade. E deste modo, a criação inteira foi escravizada para sempre, desde a fundação do mundo até agora. E eles tomaram mulheres, e geraram crianças, através da escuridão, com a aparência do espírito. E eles fecharam seus corações, e eles se endureceram pela rudeza do espírito falsificado, até hoje.

Eu, portanto, a Pronoia perfeita do todo, me transformei na minha semente, pois eu existia antes, caminhando por cada estrada. Porque eu sou a abundância da luz; Eu sou a lembrança do pleroma.

E eu entrei no reino da escuridão e resisti, até que cheguei ao centro da prisão. Os céus do caos estremeceram. E eu me escondi por causa da perversidade deles, e eles não me reconheceram.

Eu voltei novamente uma segunda vez, e prossegui. Eu vim daqueles que pertencem à luz, que sou eu, a lembrança da Pronoia. Eu entrei no meio da escuridão e dentro de Hades, já que eu buscava completar minha tarefa. E os céus do caos estremeceram, para que eles caíssem sobre aqueles que estão no caos e os destruíssem. E novamente eu corri para a minha raiz de luz, para que eles não fossem destruídos antes do tempo.

Ainda por uma terceira vez eu fui – eu sou a luz que existe na luz, eu sou a lembrança da Pronoia – para que eu pudesse entrar no centro da escuridão e no centro de Hades. E eu enchi meu rosto com a luz, contemplando o fim do universo deles. E eu entrei no meio da prisão, que é a prisão do corpo. E eu disse, ‘Aquele que escuta, que se levante do sono profundo.’ E ele chorou e derramou lágrimas. Lágrimas amargas ele derramou e disse, ‘Quem é que chama meu nome, e de onde veio esta esperança até mim, enquanto eu estou nas correntes da prisão?’ E eu disse, ‘Eu sou a pronoia da luz pura; eu sou o raciocínio do Espírito puro, que te elevou para o lugar digno. Se levante, e lembre que foi você quem ouviu. Siga sua raiz, que sou eu, o misericordioso, e se resguarde contra os anjos da pobreza, e os demônios do caos, e todos aqueles que te seduzem. Tenha cuidado com o sono profundo, e com a opressão de dentro de Hades.

Eu o ergui, e o selei com cinco selos na luz da água, para que a morte não tivesse poder sobre ele daqui por diante.

E veja, agora eu devo retornar para o aeon perfeito. Eu completei tudo para você em sua audição. E eu te disse tudo, para que você escreva e dê secretamente para seus espíritos companheiros, pois este é o mistério da raça inalterável.”

E o salvador apresentou estas coisas a ele, para que ele escrevesse e guardasse em segurança. E disse, “Amaldiçoados sejam todos aqueles que trocarão estas coisas por um presente, ou comida, ou bebida, ou roupas, ou qualquer outra coisa do tipo.” E estas são as coisas que ele apresentou a João em um mistério, e imediatamente ele desapareceu. E João foi até seus companheiros discípulos, e relatou a eles o que o salvador havia lhe contado.

Jesus Cristo, Amém.

Apócrifo de acordo com João.

***
Fonte:

Apócrifo de João (versão longa). Biblioteca de Nag Hammadi. Tradução por: http://misteriosantigos.50webs.com. Mistérios Antigos, 2015. <https://web.archive.org/web/20200220170351/http://misteriosantigos.50webs.com/apocrifo-de-joao.html>. Acesso em 16 de março de 2022.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

⬅️ Voltar para a Biblioteca de Nag Hammadi

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/apocrifo-de-joao-versao-longa/

Incorporação demonstrada em Foto Kirlian

Olá crianças,

Durante o curso de Tarot e História da Arte em Belo Horizonte, conheci o prof. Márcio Gandra, Mestre em Reiki e que trabalha com fotos Kirlian em seus diagnósticos há anos, e concordei em participar de um experimento, que se provou bastante interessante e elucidativo.

No lado esquerdo da imagem mostra uma foto tirada durante a aula, alguns poucos minutos após a primeira foto, quando o Exú Caveira, ou tio Samedi, estava encostado passando informações para a classe (quem já teve aula comigo já sabe que boa parte das aulas são dadas em conjunto com as Entidades que orientam o TdC, o AA e o Mayhem, apesar de não ocorrer incorporação, apenas compartilhamento de consciência).

Podemos perceber que os chakras que “doam” energia para a entidade são o Muladhara e o Manipura (Básico e Umbilical), que na parte teórica da Umbanda e Kardecismo são justamente os chakras que doam energia para incorporação. Já nos Chakras Ajna e Sahashara (Frontal e Coronário) percebemos essa “Energia Intrusa” densa (Yang) indicando a manifestação de uma energia externa no meu campo áurico.

Podemos ver nitidamente a energia sendo “drenada” dos chakras que deveriam ser para alimentar os chakras que deveriam ser alimentados em uma incorporação, confirmando toda a teoria espiritualista.

Isso será de grande valia para os estudiosos das fotos Kirlian, pois muitas vezes esta energia densa (avermelhada) era tida como “obsessores” por conta de um pensamento kardecista que permeia os pesquisadores quando, na verdade, esta manifestação pode ser o resultado de Entidades de esquerda, como Exus, Marinheiros e Pomba-giras. Geralmente, estas imagens apareciam em pacientes que procuravam o tratamento, e agora conseguimos testar em uma pessoa perfeitamente equilibrada que “invoca” esta energia de maneira controlada e consciente.

Agradeço a colaboração do prof. Gandra, em propor o experimento envolvendo umbanda, magia e fotos Kirlian; a partir de Agosto faremos mais experimentos deste tipo, desta vez em terreiros de Umbanda, para examinar as imagens dos médiuns em comparação com diferentes entidades como Pretos-Velhos, Caboclos e Exus e em rituais do A.’. A.’. para testarmos o resultado de RMPs, Banimentos e Evocações.

Manteremos vocês informados.

#MagiaPrática #Umbanda

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/incorpora%C3%A7%C3%A3o-demonstrada-em-foto-kirlian