A presunção dos magos

“O pior cego é aquele que não quer ver”

Ao iniciar a caminhada na Senda, vemos logo no começo um panorama no mínimo fantástico: esclarecimento para todas as nossas dúvidas, solução para todos os nossos problemas, e até a conquista de dons e poderes para nosso deleite! Oh, que maravilhoso é esse caminho!
É precisamente ao adquirirmos esse posicionamento que nos mostramos indignos e, principalmente, ponto focal para as forças destruidoras da ignorância e do orgulho.
Prontamente perdemos o que mal começamos a entender e a, erroneamente, querer. Queremos o que não precisamos querer. E, querendo, caímos quando na verdade queríamos ascender.
Tolo é aquele que acha que, sozinho, consegue fazer tudo. Idiota é aquele que acredita ter algo especial que outro não possui.

“Tira primeiro a trave do teu olho, e então poderás ver com clareza para tirar o cisco do olho de teu irmão”.

Alguns podem torcer o nariz ao ler essas palavras, mas boas lições podem ser encontradas em muitos lugares, e esse lugar, a origem dessa frase, não é diferente dos outros, então, por que não? O sábio reconhece a sabedoria, independentemente do meio em que a sapiência aflorou. Essa é a beleza da lição e do aprendizado: surgir em qualquer lugar. No limpo ou no sujo, no profano ou no sagrado, no corrupto ou no imaculado. O dever é saber reconhecê-la e absorvê-la.
O que essa frase implica denota bem o que foi dito anteriormente: olhar para si antes de olhar para fora. Somos alvo de nossos próprios defeitos, manias, maus-hábitos, vícios, demônios (internos e externos). Esses últimos são combatidos com unhas e dentes, mas e os outros, os internos? Esses estão tão bem alojados e estão tão invisíveis no dia-a-dia, que continuam a agir como se pouca coisa tivesse mudado, embora estejamos fazendo nossas práticas defensivas conforme prega a ordem/ o mestre/ o templo. Há a necessidade de se vivenciar as práticas, internamente, com toda a sua atenção e intenção.
Expurgar o mal que habita em si para daí olhar para as estrelas, buscar e encontrar.
Haveria diferença entre olhar para fora ou para dentro? Ambas são formas válidas de se encontrar o que tanto se busca. Se tem pesquisado para fora e não tem encontrado, procure pesquisando para dentro. Ficará surpreso.

“Nenhum homem é uma ilha”.

Todos precisamos de ajuda, direta ou indireta. Sempre precisaremos de alguém, por mais que se isole ou por mais poderoso que se torne. Há uma interdependência entre tudo. Uma teia invisível nos liga e nos une, e se faz necessário que o outro exista e sobreviva. Nem o mais poderoso ser humano pode viver somente de si próprio. E se há alguém que consiga, sempre há aqueles que o servem, sendo esses os que são a base para ele existir e, sendo assim, o apoio vital desse alguém, sem os quais viria a morrer.

“Sempre há um peixe maior”.

Sempre houve e sempre haverá alguém em uma hierarquia superior a você próprio e, se não houver, então você responderá a toda a classe hierárquica inferior, que é quem lhe dirige. Portanto, saber seu lugar e saber o seu dever e responsabilidades lhe dá perspectiva de sua importância na grande escala. Respeito é bom, humildade é melhor ainda.
Não confundir humildade com humilhação. Humildade é ser o que se é, sem aumentar nem diminuir. Humilhar é se diminuir. Soberba é se aumentar.
O poder não é exclusividade de quem estuda mais, ou de quem tem mais oportunidades. O poder vêm e vai, dos mais pobres aos mais ricos, dos mais simples aos mais letrados.
O poder amplia e mostra o que há em cada pessoa no qual ele “pousa”. O poder é somente emprestado, e é geralmente para testar quem o recebe. Se for alguém digno, essa dignidade será ampliada e mostrada àqueles ao seu redor… se for indigno, essa pessoa exibirá ainda mais seus fortes traços negativos de caráter. Sempre lembrando, que ninguém é totalmente bom ou ruim. Como disse Sirius Black, “o mundo não se divide em pessoas boas e más. Todos temos Luz e Trevas dentro de nós.”, ou seja, estamos o tempo todo decidindo agir em nuances, em graduações entre esses extremos e, ao receber poder, estamos sendo testados. É uma oportunidade que nos está sendo dada de testar-nos, de aprender com nossas capacidades e nossas decisões e de receber o julgamento dos olhos públicos, pois todo aquele que recebe o poder jamais fica oculto de todos os outros por muito tempo. Cedo ou tarde, a Verdade prevalece. A Justiça é feita, as pessoas sabendo ou não.

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Texto publicado originalmente no blog Labirinto da Mente em 12/01/2016.

#MagiadoCaos

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-presun%C3%A7%C3%A3o-dos-magos

A Magicka Penta-Dimensional do Sétimo Caminho

Tradução por Diabolus Shugara

Revisado em 124yf

 

A Verdadeira Natureza da Magicka:

 

Magicka, corretamente definida e corretamente entendida, é a presenciação de energia acausal no causal por meio de um nexion. Pela natureza de nossa consciência, nós, como indivíduos humanos, somos um tipo de nexion – isto é, nós temos a habilidade para acessar, e presenciar, certos tipos de energia acausal.

 

Os símbolos e rituais da genuína magicka convencional (como representada pela ONA) são simplesmente um meio para acessar, ou representar, certos tipos de energia acausal. Assim, e por exemplo, a Árvore de Wyrd, como convencionalmente descrita (“desenhada”) e com suas correspondências, associações e símbolos, representam certas energias acausais, e o individuo que torna-se familiar com tais correspondências, associações e símbolos pode acessar (em um maior ou menor grau dependendo de sua habilidade e destreza) as energias associadas com a Árvore de Wyrd. A Árvore de Wyrd é um símbolo, uma representação, desse encontro (ou “intersecção”) do causal e acausal que é um ser humano, e pode ser usada para representar a jornada, a busca, do individuo em direção do acausal – isto é, em direção a meta da magicka, que é a criação de um novo, mais desenvolvido, individuo.

 

Entretanto, tal símbolo como a Árvore de Wyrd (AdW) – para ser uma correta e assim útil representação – deve ser entendida (“vista”) em termos causais e acausais. Como descrita convencionalmente (“desenhada”) a AdW é mais um estático objeto bi-dimensional. Uma representação mais acurada é tri-dimensional. Uma descrição ainda mais acurada é tetra-dimensional onde os símbolos são entendidos “fluir”/mudar de acordo com suas naturezas – e aqui, as transformações das peças/símbolos do Jogo Estelar são a chave. A melhor – mais acurada – descrição de tal símbolo como a AdW é penta-dimensional, pois Tempo tem “duas” dimensões, ou componentes: um causal (o “fluxo”/mudança) e um acausal, o qual o aspecto acausal não pode ser entendido, ou visto, ou mesmo simbolizado por meios convencionais tetra-dimensionais. Assim, cada símbolo individual, ou “associação” ou “correspondência” não é estática ou isolada – elas são mais emanações individuais, causais do que é um aspecto de mudança de energia acausal, a qual não pode ser totalmente contida (ou “descrita”) por alguma representação finita, causal.

 

Isto é, há um aspecto acausal para todos os trabalhos magickos, rituais e “representações”/símbolos, o qual aspecto acausal não pode ser representado por uma mera descrição ou símbolo tetra-dimensional.

 

É claro, o leitor astuto perceberá que não é somente a AdW que é uma emanação causal do que é um aspecto de mudança de alguma energia acausal em particular, mas também que nós, como indivíduos, somos como uma “coisa”.

 

A falha da magicka pré-ONA é a falha em entender, conhecer, a natureza tetra e a penta-dimensional da genuína magicka. De algum modo, em um nível básico, isso é porque, por exemplo, no caminho da ONA, não há coisas estúpidas como “rituais de banimento” – porque o individuo é um nexion, antes, durante e após algum ritual causal, ritual o qual envolve energia acausal.

 

O Sétimo Caminho da ONA:

 

O Caminho da ONA é um Caminho que permite o individuo experimentar, conseguir conhecer, energia acausal, e começar o processo de entendimento de tal energia via simbolismo acausal. Toda magicka – externa, interna e Aeonica – é mais como um meio para compreender, experimentar e presenciar energias acausais, e assim criar/provocar Mudança. Isto é, a magicka convencional da AdW, de livros tal como Naos, de rituais, é mais como um inicio – através de tais coisas, o individuo iniciado adquire experiência e conhecimento, e também se desenvolve como individuo: em termos de caráter. Em um sentido simples, eles se movem, através de Graus, além do “Abismo”, em direção a Meta, que é a transformação do individuo e a emergência de um novo tipo de ser, além do Adepto. E em tal movimento, tal desenvolvimento, eles adquirem conhecimento do acausal, o qual usualmente começa durante e após o Estagio de Adepto Interno – e que é frequentemente relanceado, em algum modo causal, por alguns Adeptos Externos que podem assim intuitivamente alcançar a essência do sinistro. Também, em tal movimento, eles causam/provocam mudanças no causal: isto é, eles empreendem Magicka Aeonica.

 

A base para o Sétimo Caminho é, primeiramente, o entendimento do causal, acausal e nexions, e, segundamente, a compreensão que nós, como indivíduos, podemos nos desenvolver de um modo consciente e racional.

Esotéricamente, o nome – o Sétimo Caminho – não é importante, e em essência serve somente para expressar alguma coisa que é diferente do que tem existido até agora. Exotéricamente, se refere as sete esferas convencionalmente descritas pela AdW – isto é, aquilo que tem sido chamado sistema septenario, o qual é mais um causal, e conveniente, meio para descrever o nexion que nós somos e o nexion que é a intersecção/encontro do causal e acausal em nosso mundo fenomenal.

 

O que, então, é o simbolismo acausal que pode ajudar o processo de entendimento e que em si é um ato de magicka, um presenciamento do acausal? Em sua forma mais simples é O Jogo Estelar – ou melhor, a forma avançada do Jogo Estelar. Mas mesmo isso é somente um inicio – uma mera manifestação tetra-dimensional. Em outra forma, tal simbolismo acausal são os Deuses Sombrios – não como algum “nome” ou “nomes”, e não como uma vibração/canto de alguma colocação de letras/nomes (tal vibração/canto é uma representação mais acurada que um mero “nome”). Antes, o simbolismo é/são os Deuses Sombrios e as energias (as “forças”) que Eles representam.(1)

 

Mas o que tudo isso significa, em termos práticos? Significa que para presenciar tais energias o individuo tem que ir não somente além do “simbolismo”, mas também ir além todas aquelas coisas que militam contra o “fluxo” de energia acausal para o causal. Isto é, eles tem aberto o nexion que eles são – eles não se tornam somente um “canal” ou “portal” mas um aspecto do próprio acausal, enquanto tal presenciamento é feito, e enquanto algumas dessas manifestações se manifestam em nosso tempo-e-espaço causal. Essa é a essência do que significa ir “além do Abismo” – alcançado seguindo o Caminho Septenario.

 

Em adição, e de importância crucial, no sentido pratico significa que os efeitos da genuína magicka não são puramente causais – eles não são limitados a um “ritual” ou ação especifica, e não podem ser contidos dentro de uma forma causal escolhida, tal como uma imagem estática ou algum artefato. Em um sentido muito simples, genuínas energias magickas são “penta-dimensionais” elas são parecidas com “formas vivas” que assim mudam, podem crescer (ou decair) e que podem causar ou provocar mudanças, no tempo causal, de acordo com suas “naturezas”.(2) Assim, considerando um exemplo muito noviciado, quando um ritual convencional é empreendido, as energias envolvidas são presenciadas em tempo causal e acausal – noviços ( e mesmo, as vezes, Adeptos) usualmente somente consideram ou sentem ou estão cientes do presenciamento causal e os efeitos causais, o qual eles frequentemente assumem que eles podem “controlar”. O que eles raramente consideram são os efeitos acausais.

 

Os Nove Ângulos – Significados Esotéricos:

 

Os Nove Ângulos tem muitos significados – ou interpretações – dependendo do contexto. No exotérico, sentido pré-Adepto , eles podem ser dito representarem os 7 nexions da AdW mais os 2 nexions que representam a própria AdW como um nexion, com O Abismo (uma conexão entre o individuo e o acausal) sendo um desses 2 “outros nexions”. Deve ser lembrado, é claro, que cada esfera da AdW não é bi-dimensional (ou mesmo tri-dimensional) e em modo simples cada esfera pode ser considerada como um reflexo (uma “sombra”) de outra – por exemplo, Mercúrio é a ‘sombra’ de Marte.

 

Em outro sentido exotérico, o nove são os processos alquímicos dos 7 mais 2, o qual 2 é a união de opostos: e, em um sentido, essa união pode ser considerada ser (magickamente, por exemplo, em um ritual pratico) como a união de macho e fêmea (por isso que é chamado um dos Ritos dos Nove Ângulos) – ainda que, é claro há outras combinações práticas, exatamente como cada ato magicko envolvendo tais Ângulos devem ser empreendidos por uma inteira e particular estação alquímica: isto é, tal trabalho deve ocupar um espaço de tempo causal, fazendo dele assim um tipo de magicka penta-dimensional que pode acessar a quinta dimensão magicka, o próprio acausal. Um entendimento um pouco mais avançado do Nove – em relação a um ritual para criar um Nexion – é vislumbrado no recente MS baseado em ficção Atazoth.

 

Além disso, os Nove Ângulos são símbolos do Jogo Estelar o qual ele próprio é magicka – isto é, um nexion que pode presenciar o acausal. Mas mesmo isso é somente um inicio – uma representação, em símbolos, do que é, em essência, sem símbolos: um meio útil para Iniciados, e Adeptos, para se mover em direção da nova magicka penta-dimensional incorporada na, e além da ONA.

 

O Sétimo Caminho e o Satanismo

 

Para o corrente Aeon, o Sétimo Caminho, Esotéricamente, é o caminho do Satanismo, expressado em seu mais obvio caminho por oposição a religião do Nazareno e por uma afirmação, através de rituais e construções similares, da energia/arquétipo comumente conhecido como “Satan”.

 

Como explicado em vários outros MSS da Ordem esse Aeon (3), deixado por ele mesmo, persistirá – isto é, suas formas externas e ethos continuarão sendo manifestas e ainda mantêm as pessoas cativas fisicamente e mentalmente – por pelo menos algumas centenas de anos, ainda que algumas das energias do próximo Aeon (energias manifestas em grupos como a ONA) são manifestas agora e se tornarão crescentemente manifestas. No sentido pratico, isso significa que indivíduos, organizações, grupos (e outros) continuarão a ser influenciados/controlados pelas forças do Velho Aeon, e aquelas forças do Novo Aeon não alcançarão mudança significativa, em formas tal como “sociedade”, por muitas centenas de anos, mudança a qual marcará a chegada real do próximo Aeon.

 

Portanto, virá um tempo quando a ONA – e os indivíduos que são parte dela ou que são influenciados por ela – derramarão exteriormente a retórica, as imagens, as formas de “Satanismo”, pois tais coisas são emanações causais ligadas a um Aeon em particular; eles não são a essência acausal supra-Aeonica a qual nós, através da progressão de Aeons, estamos nos movendo em direção e a qual o propósito do Ocultismo e magicka genuína nos movem como indivíduos, em direção da experiência e entendimento deles. O que mudará também são os meios – a magicka – para presenciar o acausal. Assim, haverá um distanciamento do ritual, e do evidente simbolismo do Velho Aeon – e especialmente das “palavras” e “nomes” (4) – em direção a uma magicka muito mais sombria: uma magicka que manifesta o acausal sem a necessidade de formas causais. E certamente sem a necessidade de “nomes”. Um tipo de magicka nova é O Jogo Estelar (a magicka do “Pensamento”) e outro é aquilo que retorna o Caos o qual é, e o qual não é, Os Deuses Sombrios – mas haverá muitos outros tipos dessa magicka penta-dimensional, alguns os quais já são conhecidos, e usados pelos genuínos Adeptos da Tradição Sombria.

 

Anton Long

Ascensão Matutina de Arcturus

(Nexion Black Rhadley) 116af

 

Notas:

 

(1) Parte dessa representação, é claro, é o que nós chamamos de sinistro – ou mais corretamente, aquelas energias/mudanças as quais quando presenciadas produzem um re-ordenamento, re-ordenamento que é mais frequentemente chamado “sinistro”.

 

(2) Isso não significa, é claro, que tais energias devem ser conceituadas no modo do Velho Aeon como efetivas “entidades vivas” tais como “demônios” ou coisas parecidas, aqueles seres vivos têm sua própria “natureza”. Mas uma conceituação, na verdade alude a uma verdade muito mais profunda, o qual em um sentido é incorporado nos mitos dos Deuses Sombrios, como pode ser usada como um inicio do movimento em direção de melhor entendimento baseado na realidade de como as energias acausais se manifestam – e então existem (“vivem”) – no causal.

 

(3) Para ser preciso, nós realmente escreveríamos: “A distorção que tem atingido o Aeon Ocidental persistirá…” Pois, como explicado em vários MSS da Ordem, o que é manifesto agora – e tem certamente sido obvio mesmo para muitos não-Adeptos nos cinco anos passados – é a distorção Magiana do Ocidente, distorção a qual é evidente no neo-cons da América com seu novo imperialismo que serve a uma importante agenda Sionista/Magiana. Inteiramente de acordo com MSS antigos: O ultimo Aeon, o Ocidental do qual centro é no Norte da Europa, está se arrastando para um fim, enquanto suas energias enfraquecem. O próximo Aeon, entretanto, tem seu centro não na nossa Terra, mas em uma locação no espaço e até esse centro ser alcançado, o Novo Aeon não será possível. Entretanto, o Velho Aeon tem cerca de 350 anos ainda para existir, e durante esse período, as energias do Novo Aeon se tornarão mais e mais obvias enquanto elas escoam em volta do Portal, trazidas em parte pelos Rituais deliberados de pequenos grupos de Adeptos…”

 

(4) Como tem sido escrito: ‘Não é correto dar nomes para algumas coisas…’ Pois uma nomeação é um distanciamento da essência da “coisa” que é nomeada – frequentemente um erro do qual o nome denota para a essência que é supostamente denotada por tal nomeação. Magicka é um meio distante de tal projeção, como uma transferência de pensamento “causal” limitado – um meio em direção a uma expressão das coisas, como as coisas são.

 

Alguns MSS Relevantes:

 

1) Magicka Aeonica – Uma Introdução Básica

2) Ritual Magicko: Dure e Sedue Cerimonial

3) Aeonicas: A Tradição Secreta (Parte I)

4) As metas da ONA

5) Aeonicas: A Tradição Secreta (Parte Três)

6) Os Nove Ângulos – Significados Esotéricos

7) Os Segredos dos Nove Ângulos

Ordem dos Nove Ângulos

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-magicka-penta-dimensional-do-setimo-caminho/

O Diabo Eleito

por Nicholaj de Mattos Frisvold

“Replicou-lhes Jesus: Não vos escolhi eu em número de doze?

Contudo, um de vós é diabo.”

– Do Evangelho de João 6:70

O drama que cerca a Última Ceia detalha um Grande Mistério, pois vemos aqui a necessidade cósmica do Diabo como aquele que afirma o desígnio. O papel do Diabo pode ser dado de acordo com o ditame de Destino ou ao se nomear alguém que mantenha esta dignidade. Em ambos os casos, o Diabo é aquele que marca o limite exterior da possibilidade, a contração dos mundos na dor ou prazer já que afirma a beleza e a bem-aventurança. Em suas atividades mais profanas, o Diabo apontado é meramente percebido como um causador de problemas, uma nuance, um difamador, um mentiroso – um filho desobediente de Mercúrio em todas as medidas. Ainda assim, ao ser apontado como Diabo, uma tensão é estabelecida e afirma a intenção daquele que apontou seu acusador – e o acusador então afirmará a verdade e a mentira através de sua mera existência.

Comumente “Diabo” e “Demônio” são usados intercambiavelmente, mas é importante aqui distingui-los. Se seguirmos as primeiras transcrições gregas da Bíblia Sagrada, o Manuscrito de Vaticano número 1209, também conhecido com o “Emphatic Diaglott”, é interessante notar que no Evangelho de João, capítulo 6 onde Jesus aponta Judas como seu diabo, a palavra grega original é diabolos. Em outra passagem onde a versão King James (Rei James/Tiago) usa “diabo”, como através do 11º capítulo do Evangelho de Lucas, encontramos o daimone/demônio grego em uso. Na versão de King James, esta distinção é ausente e diabo é a tradução tanto para diabolos e daimone. Diaglott nos deixa claro que o chefe dos demônios é Baelzebubth/Baelzebub – e foi com o auxílio de Baelzebubth que Jesus, o Cristo, foi acusado de controlar a hoste demoníaca. Não há conexão aqui com demônios sempre serem diabolos.

Barry W. Hale comenta, em relação a isto, em seu excelente tratado demonológico “Legion 49” que “Diabolus” também pode ser interpretado como “o que traz para baixo”, não apenas como “acusador”. Esta observação é interessante, pois Diabolus pode ser visto como aquele que descende ou cai tal qual um ídolo celestial encarnando uma intenção particular que é feita na revelação do ato de acusar.

Logo, a qualidade diabólica, ou seja, a acusação, não deve ser entendida somente como uma categoria nefasta ou profana – porque isto tornaria este mistério vulgar. Como João 6 demonstra, este é um mistério embutido na concepção cósmica. Em relação a isto, Hale menciona em um comentário sobre Mateus 12:25 que aqui falamos de um “reinado dividido contra si mesmo”. O mistério diabólico, a acusação e difamação que tomam forma internamente são relacionados à divisão dentro de si mesmo. O santo para esta divisão interna deve ser Judas Iscariotes.

Judas Iscariotes, o diabo apontado, foi instrumental para o cumprimento do propósito através da traição e acusação. Pela divisão interna ele afirmou o desígnio. A afirmação do desígnio do salvador veio com a promessa de má reputação e calúnias sobre seu legado, encontrando sua libertação ao se enforcar pelo caminho de prata. Este tema também lança luz no comentário enigmático nos Eddas, que fala sobre o penduramento de Odin como o sacrifício de si para si, e as nove noites revelando a presença do caminho e chave de prata – ao afirmar a divisão temporal e restabelecer a unidade.

Sobre isto podemos ver na cruz o símbolo atemporal para o equilíbrio, interação, sacrifício, manifestação, unidade e potência. Na cruz, o círculo se torna “quadrado” e assim, o atemporal é manifesto ao longo do rio da repetição em terras de diferença.

Na sabedoria bogomila, como em algumas linhagens Sufis como silsilyah e tariqah, o Diabolus, sob o nome Satanael, Iblis ou outro de seus muitos nomes, é considerado como o poder que define os limites e afirma a criação. Curiosamente, estes pensamentos também são expressos por Maria de Naglowska e sua exposição sobre o Terceiro Termo da Trindade, onde Judas Iscariotes assume um papel similar em relação ao drama da salvação em torno de Jesus, o Cristo. Naglowska também menciona o significado mais profundo do enforcamento de Iscariotes propriamente, carregando sua própria salvação pela afirmação e remorso nascidos pelo amor.

Parece-me que o diabo, assim como demônio, representa em geral qualquer deidade ou espírito estrangeiro e particularmente a corte de anjos caídos, enquanto o diabo, como em Diabolus, é mais uma reminiscência de um ofício, uma função, um verbo, em conformidade com a função jurídica mesopotâmica de ha-satan, o acusador, que poderia ser material ou imaterial. Segue-se daqui um anjo, caído ou não, bem como um homem que assume esta função seja pelo Destino ou pela nomeação. Como tal, uma calúnia direcionada ao Diabolus toma forma de fogo que permite ao acusador afirmar a verdade velada dentro do caluniador. Em face da calúnia, o Diabo somente responderá a única coisa apropriada para seu ofício, ou seja, “abençoado seja”.

A função jurídica do acusador era a de provocar o surgimento da verdade ao salientar a Companhia da Mentira. Esta função, traduzida para uma compreensão metafísica, tomará então a forma de afirmar a verdade. A verdade não deve ser confundida com simples fatos, mas sim tomada com a pureza de uma Idéia ou forma particular. Ela toma, por todas as formas e intenções, a completa profundidade da freqüente declaração de Robin the Dart, o Magister do Clan of Tubal Cain: “Que a Palavra lhe proteja da Mentira”. Com este reconhecimento, a forma do estado apropriado pode também ser percebida, assim como a Palavra se tornou Carne – porque no coração deste drama repousa a percepção, livre da corrupção, completa e pura na forma em que percebe o mundo e seus caminhos.

Nota Biográfica:

Nicholaj de Mattos Frisvold é um antropólogo e psicólogo com uma inclinação para a metafísica dos cultos de uma genealogia tradicional. Ele é um especialista nas obras de Marsilio Ficino, e é um astrólogo tradicional praticante. Autor de várias obras, entre as quais estão “Artes da Noite – A história da prática da bruxaria” (Ed. Rosa Vermelha), “Craft of the Untamed – An inspired vision of Traditional Witchcraft” (Mandrake of Oxford), “Invisible Fire” (Capall Bann) e “Pomba Gira and the Quimbanda of Mbuma Nzila” (Scarlet Imprints). É um irmão jurado do Clã de Tubal Caim e Magister do Lilium Umbrae Cuveen, sua extensão no hemisfério sul. O autor mantém o blog “The Starry Cave” (http://www.starrycave.com/).

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-diabo-eleito

Carta de Barnabé

CAPÍTULO 1:

Saudação:

Filhos e filhas, eu vos saúdo na paz, em nome do Senhor que nos amou.

A fé dos destinatários Grandes e ricos são os decretos de Deus a vosso respeito. Acima de tudo, eu me alegro imensamente pelos vossos espíritos felizes e gloriosos, pois dele recebestes a semente plantada em vós mesmos, a graça do dom espiritual. Por isso, eu me alegro mais na esperança de me salvar, porque verdadeiramente vejo em vós que o Espírito da fonte abundante do Senhor foi derramado sobre vós. Em vosso caso, foi isso que me chamou a atenção ao vê-los, o que eu tanto desejava.

Intenções do autor:

Estou convencido e intimamente persuadido disso, porque conversei muito convosco. O Senhor caminhou comigo no caminho da justiça e eu também me sinto impulsionado a amar-vos mais do que à minha própria vida, pois a fé e o amor que habitam em vós são grandes e fundados sobre a esperança da vida dele. Pensei que, se eu me preocupasse em participar-vos aquilo que recebi, eu teria recompensa por ter servido a espíritos como os vossos. Esforcei-me então para vos enviar estas poucas linhas, para que, além de vossa fé, tenhais também o conhecimento perfeito. Os ensinamentos do Senhor são três: a esperança da vida, começo e fim da nossa fé; a justiça, começo e fim do julgamento; o amor, testemunho pleno da alegria e contentamento das obras realizadas na justiça. Com efeito, por meio dos profetas, o Senhor nos fez conhecer o passado e o presente, e nos fez saborear antecipadamente o futuro. Vendo que uma e outra coisa se realizam conforme ele falou, devemos progredir no seu temor, de maneira mais rica e mais elevada. Quanto a mim, não é como mestre, mas como um de vós, que vos preparei umas poucas coisas. Através delas, vocês se alegrarão nas circunstâncias presentes.

CAPÍTULO 2:

O culto que Deus quer:

Introdução:

Como os dias são maus e é aquele que exerce o poder, devemos, para o nosso próprio bem, procurar as decisões do Senhor. Os auxiliares da nossa fé são o temor e a perseverança, e nossos companheiros de luta são a paciência e o autocontrole. Se essas virtudes permanecem puras diante do Senhor, a sabedoria, a inteligência, a ciência e o conhecimento virão regozijar-se com elas.

Os sacrifícios:

De fato, foi-nos mostrado, mediante todos os profetas, que Deus não tem necessidade de sacrifícios, nem de holocaustos, e nem de ofertas. Em certa ocasião, ele diz: “Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?” diz o Senhor. “Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de cordeiros não sangue de touros e de bodes, e nem que venhais vos apresentar diante de mim. Quem pediu essas coisas de vossas mãos? Não continueis a pisar em meu átrio. Se ofereceis flor de farinha, é em vão; vosso incenso para mim é abominação. Não suporto vossas neomênias e vossos sábados.” Ele rejeitou essas coisas, para que a lei nova de nosso Senhor Jesus Cristo, que é sem o jugo da necessidade, não precise de oferta preparada por homens. Ele ainda lhes disse: “Por acaso, ordenei a vossos pais, ao saírem do Egito, que me oferecessem holocaustos? Pelo contrário, eis o que lhes ordenei: Que nenhum de vós guarde em seu coração rancor contra o próximo e que não ame o juramento falso.” Devemos, portanto, compreender, pois não somos sem inteligência, o desígnio de nosso Pai em sua bondade, pois ele se dirige a nós, desejando que procuremos o modo de nos aproximar dele, sem nos extraviar, como aqueles homens. Eis, portanto, o que ele nos diz: “O sacrifício para Deus é um coração contrito; o perfume de suave odor para o Senhor é o coração que glorifica o seu Criador.” Irmãos, devemos, portanto, cuidar de nossa salvação, para que o maligno não introduza em nós o erro, e nos atire, como pedra de funda, para longe da nossa vida.

CAPÍTULO 3:

O jejum:

A respeito disso, falou-lhes ainda, “Com que finalidade jejuais para mim”, diz o Senhor, “como se ouve hoje aos gritos a vossa voz? Não é esse jejum que escolhi”, diz o Senhor, “não o homem que humilha a si mesmo. Nem quando dobrais vosso pescoço como um círculo, nem quando vos cobris de pano de saco e cinza, não chameis isso de jejum agradável.” Para nós, porém, ele diz: “Eis o jejum que eu escolhi”, diz o Senhor: “Desata todas as amarras da injustiça; desfaz as cordas dos contratos iníquos; envia os oprimidos em liberdade; rasga toda escritura injusta; reparte teu pão com os famintos; se vês alguém nu, veste-o; conduz para a tua casa os desabrigados; se vês algum pobre, não o desprezes; não te afastes dos membros de tua família. Então tua luz romperá pela manhã, tuas vestes rapidamente resplandecerão, a justiça irá à tua frente e a glória de Deus te envolverá. Então outra vez gritarás, e Deus te ouvirá. Ao falar, ele te dirá: Eis-me aqui! Isso, se renunciares a tecer amarras, a levantar a mão, a murmurar, e se deres de coração o teu pão ao faminto e tiveres compaixão da pessoa necessitada.” Por isso, irmãos, o paciente (Deus), prevendo que o povo, que ele preparou através do seu Amado, acreditaria com simplicidade, nos antecipou todas essas coisas, para que nós, como prosélitos, não nos arrebentássemos contra a lei deles.

CAPÍTULO 4:

Vigilância:

Exortação geral:

É preciso, portanto, que examinemos com grande atenção a situação presente, para procurar o que nos pode salvar. Fujamos, pois, radicalmente de todas as obras iníquas, para que as obras iníquas jamais se apoderem de nós. Odiemos o erro do mundo presente, para que sejamos amados no mundo futuro. Não demos à nossa alma a liberdade, de modo que ela não tenha poder de correr com os maus e pecadores, a fim de que não nos tornemos semelhantes a eles.

Iminência do fim:

O máximo do escândalo se aproxima, conforme está escrito, como diz Enoque. Com efeito, é por isso que o Senhor abreviou os tempos e os dias, a fim de que seu Amado chegue mais depressa à herança. Assim diz o profeta: “Dez reis reinarão sobre a terra e, depois disso, surgirá um pequeno rei que humilhará três reis de uma só vez.” Sobre isso, Daniel diz algo semelhante: “Vi a quarta besta, maligna, forte e mais terrível do que todas as bestas do mar. Dela brotaram dez chifres, e desses saiu um pequeno chifre, como broto. Este, de uma só vez, humilhou três dos chifres grandes.” Deveis, portanto, compreender.

A Aliança tem exigências:

Além disso, peço-vos insistentemente, eu que sou um e vós e vos amo a todos e a cada um em particular mais do que a mim mesmo: tomai cuidado para não ficardes como certas pessoas, que acumulam pecados, dizendo que a Aliança está garantida para nós. Claro que era é nossa. Eles (os judeus) a perderam definitivamente, embora Moisés já a tivesse recebido. De fato, a Escritura diz: “Moisés jejuou na montanha durante quarenta dias e quarenta noites, e depois recebeu do Senhor a Aliança, as tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor”. Eles, porém, a perderam, por se terem voltado para os ídolos. Com efeito, assim disse o Senhor: “Moisés, Moisés, desce depressa, pois teu povo pecou, aqueles que fizeste sair da terra do Egito”. Moisés compreendeu, e jogou as duas tábuas de suas mãos. A Aliança deles foi rompida, para que a de Jesus, o Amado, fosse selada em nossos corações pela esperança da fé que nele temos. Querendo escrever muitas coisas, não como mestre, mas como convém a quem ama, não deixando perder nada do que possuímos, apliquei-me a escrever, como vosso humilde servidor. Estejamos atentos nestes últimos dias! Nada adiantará todo o tempo de nossa vida e de nossa fé, se agora, neste tempo de impiedade e na iminência dos escândalos, não resistirmos, como convém a filhos de Deus. A fim de que as Trevas não se infiltrem em nós e às escondidas, fujamos de toda vaidade e odiemos completamente as obras do mau caminho. Não vos isoleis, dobrando-vos sobre vós mesmos, como se já estivésseis justificados, mas reuni-vos, para procurar juntos o vosso bem comum. De fato, a Escritura diz: “Ai daqueles que se crêem inteligentes e que são sábios diante de si mesmos!” Tornemo-nos espirituais, tornemo-nos um templo perfeito para Deus. Quanto nos for possível, apliquemo-nos ao temor de Deus e combatamos para observar seus mandamentos, a fim de nos alegrarmos em suas disposições. O Senhor julgará o mundo com imparcialidade; cada um receberá segundo o que fez. Se for bom, sua justiça o precederá; se for mau, diante dele irá o salário do mal. Tomemos cuidado para não ficarmos tranqüilos como chamados, adormecendo sobre nossos pecados, de modo que o príncipe do mal se apodere de nós e nos afaste do reino do Senhor. Meus irmãos, compreendei ainda o seguinte: quando vedes que, depois de tantos sinais e prodígios acontecidos em Israel, assim mesmo eles foram abandonados, tomemos cuidado, como está escrito, para que não sejamos encontrados “muitos chamados, mas poucos escolhidos.”

CAPÍTULO 5:

Sofrimento do Senhor:

O Senhor sofreu para purificar-nos de nossos pecados
O Senhor suportou entregar sua própria carne à destruição, para que fôssemos purificados pelo perdão dos pecados, isto é, pela aspersão feita com seu sangue. A respeito dele, a Escritura diz o seguinte sobre Israel e sobre nós: “Ele foi ferido por causa de nossas iniqüidades e maltratado por causa de nossos pecados, e nós fomos curados por sua chaga. Foi conduzido como ovelha ao matadouro e, como cordeiro, ficou mudo diante do tosquiador.”

Responsabilidade do homem:

Precisamos, portanto, multiplicar nossos agradecimentos ao Senhor, porque ele nos fez conhecer as coisas passadas, tornou-nos sábios no presente e não estamos sem inteligência para as coisas futuras. A Escritura diz: “Não se estendem injustamente as redes para os pássaros”. Isso quer dizer que, com razão, se perderá o homem que, tendo conhecimento do caminho da justiça, toma entretanto o caminho das trevas.

O Senhor sofreu para cumprir a promessa:

Ainda o seguinte, meus irmãos: “Se o Senhor suportou sofrer por nós, embora fosse o Senhor do mundo inteiro, a quem Deus disse desde a criação do mundo: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança’, como pode ele suportar sofrer pela mão dos homens? Aprendei. Os profetas, que tinham a graça dele, profetizaram a seu respeito. E ele afim de destruir a morte e mostrar a ressurreição dos mortos, teve que se encarnar e sofrer, afim de cumprir a promessa feita aos pais e preparar para si o povo novo e demonstrar, durante sua estada na terra, que era ele mesmo que julgaria, depois de ter realizado a ressurreição.

O Senhor sofreu na carne para que os pecadores pudessem vê-lo
Por fim, embora ele tivesse ensinado a Israel e realizado tão grandes prodígios e sinais, eles não foram levados por sua pregação a amá-lo acima de tudo. Porém, quando ele escolheu seus próprios apóstolos, que iriam anunciar o seu Evangelho, homens cujo pecado ultrapassava a medida, foi para mostrar que ele não tinha vindo chamar os justos, e sim os pecadores. Então ele manifestou que era Filho de Deus. Com efeito, se não se tivesse encarnado, como os homens poderiam ter sido salvos ao vê-lo, uma vez que eles não podem levantar os olhos para olhar de frente os raios do sol, que todavia um dia deixará de existir e que é tão-somente obra de suas mãos?

O Senhor sofreu para levar ao máximo o pecado de Israel:

Se o Filho de Deus se encarnou, foi para levar ao máximo os pecados daqueles que tinham perseguido mortalmente os profetas dele. E por isso que ele suportou. De fato, Deus diz que é deles que vem a ferida de sua carne: “Quando ferirem o seu pastor, então as ovelhas do rebanho perecerão”. Foi ele, porém, que quis sofrer desse modo. Com efeito, era preciso que ele sofresse sobre o madeiro, pois o profeta diz a seu respeito: “Poupa à minha vida à espada”. E “transpassa com cravo a minha carne, porque uma assembléia de malfeitores se levantou contra mim”. E diz ainda: “Eis que ofereci minhas costas aos açoites e minha face para as bofetadas. Contudo, mantive o meu rosto como pedra dura”.

CAPÍTULO 6:

Vitória pascal:

O que diz ele, quando cumpriu o mandamento? “Quem é que me julga? Coloque-se diante de mim. Ou quem quer ser declarado justo diante de mim? Que se aproxime do servo do Senhor. Ai de vós! Porque todos vós envelhecereis como veste e a traça vos roerá”. E o profeta continua, uma vez que ele foi colocado como sólida pedra para esmagar: “Eis que colocarei nos alicerces de Sião uma pedra de grande valor, escolhida, angular e preciosa”. O que diz em seguida? “Aquele que nela crer, viverá para sempre”. Será que a nossa esperança está numa pedra? De modo nenhum. Mas foi o Senhor que tornou forte a sua carne. Com efeito, ele diz: “Ele me tornou como pedra dura”. O profeta continua: “A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a cabeça de ângulo”. E diz ainda: “Este é o dia grande e maravilhoso que o Senhor fez”.

A paixão:

Eu, humilde servo do amor, vos escrevo com simplicidade, para que compreendais. O que diz ainda o profeta? “Uma assembléia de malfeitores me rodeou. Eles me cercaram como abelhas ao favo”. E “sobre minhas vestes tiraram sortes”. E como era na sua carne que ele devia revelar-se e sofrer, sua paixão foi revelada de antemão. De fato, o profeta diz a respeito de Israel: “Ai da vida deles! Pois conceberam um desejo mau contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque ele nos incomoda”.

Nova criação:

Que lhes diz Moisés, outro profeta? “Eis o que diz o Senhor Deus: Entrai na terra boa, que o Senhor prometeu a Abraão, Isaque e Jacó. Tomai posse dessa terra, onde correm leite e mel.” O que diz a sabedoria? Aprendei: “Ponde vossa esperança em Jesus, que deve revelar-se a vós na carne”. Com efeito, o homem é terra que sofre, pois é da terra que Adão foi plasmado. Que significa: “Na terra boa, terra onde correm leite e mel”? Bendito seja nosso Senhor, irmãos, pois ele pôs em nós a sabedoria e o entendimento de seus segredos. Pois o profeta diz: “Quem poderá compreender uma parábola do Senhor, a não ser o sábio que conhece e ama o seu Senhor?” Depois de nos ter renovado com o perdão dos pecados, ele fez de nós um novo ser, de modo que tenhamos alma de criança, como se ele nos tivesse plasmado novamente. De fato, a Escritura fala a nosso respeito, quando ele diz ao Filho: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar”. E, vendo que nós éramos boa criação, o Senhor disse: “Crescei, multiplicai-vos e enchei a terra”. Foi isso que ele disse ao Filho. Vou agora te mostrar como ele fala de nós. Ele realizou segunda criação nos últimos tempos. O Senhor diz: “Eis que faço as últimas coisas como as primeiras.” Nesse sentido, assim falou o profeta: “Entrai na terra onde correm leite e mel, e dominai-a”. Eis-nos, portanto, criados de novo, conforme o que ele diz ainda por outro profeta: “Eis”, diz o Senhor, “que arrancarei deles” – isto é, daqueles que o Espírito do Senhor via de antemão – “os corações de pedra, e implantarei neles corações de carne”. De fato, é na carne que ele devia manifestar-se e habitar em nós. Com efeito, meus irmãos, nossos corações assim habitados formam um templo santo para o Senhor. E o Senhor diz ainda: “Como me apresentarei diante do Senhor e serei glorificado”? Ele diz: “Celebrar-te-ei na assembléia de meus irmãos e cantarei teus louvores em meio à assembléia dos santos”. Portanto, somos nós que ele fez entrar na terra boa. E o que significam o “leite” e o “mel”? E porque a criança é nutrida primeiro com o mel e depois com o leite. Igualmente nós, alimentados pela fé na promessa e na palavra, vivemos dominando a terra. Ora, ele tinha dito antes: “Que eles cresçam, se multipliquem e dominem os peixes”. E quem pode hoje dominar as feras, ou os peixes, ou os pássaros do céu? Devemos compreender que dominar implica poder, a fim de que aquele que ordena possa dominar. Se hoje não é assim, ele nos disse o tempo: Quando formos perfeitos para sermos herdeiros da aliança do Senhor.

CAPÍTULO 7:

Jejum e o bode expiatório:

Compreendei, portanto, filhos da alegria, que o bom Senhor nos revelou tudo de antemão, para que saibamos a quem constantemente celebrar com ação de graças. Se o Filho de Deus, que é Senhor e julgará os vivos e os mortos, sofreu para nos dar a vida por meio de seus ferimentos, acreditamos que o Filho de Deus não podia sofrer, a não ser por causa de nós. Além disso, já crucificado, deram-lhe a beber vinagre e fel. Escutai como os sacerdotes do templo se expressaram sobre isso. O mandamento escrito dizia: “Quem não jejuar no dia do jejum, será condenado à morte”. O Senhor deu esse mandamento, porque também ele devia oferecer a si próprio pelos nossos pecados, como receptáculo do Espírito, em sacrifício, a fim de que fosse cumprida a prefiguração manifestada em Isaque, oferecido sobre o altar. O que diz ele por meio do profeta? “Que comam, durante o jejum, do bode oferecido por todos os pecados”. Notai bem: “E que todos os sacerdotes, e somente eles, comam as vísceras não lavadas com vinagre”. Por que isso? “Porque vós me fareis beber fel com vinagre, a mim que ofereci minha carne pelos pecados do meu novo povo. Somente vós comereis, enquanto o povo jejuará e se flagelará com pano de saco e cinza”. Isso era para mostrar que ele deveria sofrer na mão deles. Como ele ordenou? Prestai atenção: “Tomai dois bodes bonitos e iguais, e oferecei-os em sacrifício. Que o sacerdote tome o primeiro como holocausto pelos pecados.” E o que farão com o outro? Ele diz: “O outro é maldito.” Notai como a figura de Jesus é manifestada. “Cuspi todos nele, transpassai-o, coroai sua cabeça com lã escarlate e, desse modo, seja expulso para o deserto”. Feito isso, aquele que leva o bode o conduz ao deserto, tira-lhe a lã e a coloca sobre um arbusto chamado sarça, cujos frutos costumamos comer quando nos encontramos no campo. Somente os frutos da sarça são doces. O que significa isso? Prestai atenção: “O primeiro bode sobre o altar, o outro é maldito”. Justamente o maldito é que é coroado. É que eles o verão, naquele dia, trazendo sobre sua carne o manto escarlate, e dirão: “Não é este que outrora crucificamos, depois de o ter desprezado, transpassado e cuspido? Na verdade, era este que então se dizia Filho de Deus”. Qual a sua semelhança com aquele? São bodes “semelhantes”, “belos”, iguais, para que quando o virem então vir, fiquem espantados com a semelhança do bode. Eis, portanto, a figura de Jesus que devia sofrer. E por que se coloca a lã no meio dos espinhos? É uma figura de Jesus proposta para a Igreja: porque os espinhos são terríveis, aquele que quer pegar a lã escarlate deve sofrer muito, e deve apossar-se dela através da dor. Ele diz: “Dessa forma, aqueles que desejam ver-me e alcançar o meu Reino devem passar por tribulações e sofrimentos, para se apossar de mim”.

CAPÍTULO 8:

Sacrifício da novilha:

E que figura pensais que representa o mandamento dado a Israel: os homens que têm pecados consumados ofereçam a novilha, a imolem e, depois queimem? Além disso, as crianças deviam recolher as cinzas, colocá-las nos vasos, enrolar a lã escarlate num pedaço de madeira – de novo aqui a imagem da cruz e a lã escarlate – e o hissopo. E assim, as crianças deviam aspergir todos os membros do povo, para que ficassem purificados dos pecados. Reconhecei como ele vos fala com simplicidade: a novilha é Jesus; os pecadores que a oferecem são aqueles que o conduziram para ser imolado. Basta com esses homens! Basta com a glória dos pecadores! As crianças que fazem a aspersão são aqueles que nos anunciaram a remissão dos pecados e a purificação do coração. A eles foi conferida a autoridade de anunciar o Evangelho, e são doze para testemunhar às tribos, pois as tribos de Israel eram doze. E por que são três crianças que fazem a aspersão? Para testemunhar Abraão, Isaque e Jacó, que são grandes diante de Deus. E a lã sobre o madeiro? Ela significa que o Reino de Jesus está sobre o madeiro e os que nele esperam viverão para sempre. Contudo, por que se põem juntos a lã e o hissopo? Porque no seu Reino haverá dias maus e poluídos, durante os quais seremos salvos. Com efeito, é pelo respingo poluído do hissopo que se cura aquele cuja carne está doente. E por isso que esses acontecimentos são tão claros para nós, mas para eles tão obscuros, pois eles não ouviram a voz do Senhor.

CAPÍTULO 9:

A verdadeira circuncisão:

Circuncisão do ouvido:

De fato, é dos ouvidos que ele fala ainda, quando diz que circuncidou nossos ouvidos e nossos corações. O Senhor diz por meio do profeta: “Obedeceram-me com os ouvidos.” E diz ainda: “Os que estão longe escutarão com o ouvido e conhecerão o que eu fiz”. E mais: “Circuncidai vossos ouvidos, diz o Senhor.” E diz também: “Escuta, Israel, eis o que diz o Senhor teu Deus: Quem deseja viver para sempre? Que ele escute com o ouvido a voz do meu servo”. E diz ainda: “Escuta, ó céu; dá ouvidos, ó terra, pois o Senhor falou isso como testemunho”. E diz mais: “Escutai a palavra do Senhor, príncipes deste povo”. E diz ainda: “Filhos, escutai a voz que grita no deserto”. Ele, portanto, circuncidou nossos ouvidos, para que escutemos a palavra e creiamos.

Circuncisão do coração:

Contudo, a circuncisão, na qual eles depositavam confiança, foi rejeitada. De fato, ele dissera que a circuncisão não devia ser da carne, mas eles transgrediram, porque um anjo mau os enganou. Todavia, ele lhes diz: “Assim fala o Senhor vosso Deus” – é aí que encontro o mandamento – “Não semeeis entre os espinhos, mas circuncidai-vos para o vosso Senhor”. E o que diz ele? “Circuncidai a maldade do vosso coração”. E diz ainda: “Eis, diz o Senhor, que todas as nações têm o prepúcio incircunciso, mas este povo tem o coração incircunciso”.

Circuncisão de Abraão:

Vós, porém, direis: “O povo recebeu a circuncisão como selo”. Contudo, todos os sírios, os árabes e todos os sacerdotes dos ídolos também têm a circuncisão. Pertencem também eles à sua aliança? Até os egípcios praticam a circuncisão! Filhos do amor, aprendei mais particularmente estas coisas: Abraão, praticando por primeiro a circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente seu olhar para Jesus, dando-lhe o conhecimento das três letras. Com efeito, ele diz: “E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito homens”. Qual é, portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele menciona em primeiro lugar os dezoito e depois, fazendo distinção, os trezentos. Dezoito se escreve: I, que vale dez, e H, que representa oito. Tens aí: IH(sous) = Jesus. E como a cruz em forma de T devia trazer a graça, ele menciona também trezentos (= T). Portanto, ele designa claramente Jesus pelas duas primeiras letras e a cruz pela terceira. Quem depositou em nós o dom do seu ensinamento sabe bem disto: Ninguém recebeu de mim ensinamento mais digno de fé. Sei, porém, que vós sois dignos.

CAPÍTULO 10:

Significado espiritual das prescrições alimentares:

Primeira formulação:

Moisés disse: “Não comereis porco, nem águia, nem gavião, nem corvo, nem peixe algum que não tenha escamas”. Porque ele tinha em mente três ensinamentos. Por fim, ele diz a eles no Deuteronômio: “Exporei a esse povo as minhas decisões”. A proibição de comer não é, portanto, mandamento de Deus, pois Moisés falava simbolicamente. Eis o significado do que ele diz sobre o “porco”. Não te ligarás a esses homens que se assemelham aos porcos; isto é, que quando vivem na abundância, se esquecem do Senhor; mas na necessidade reconhecem o Senhor. Assim é o porco: enquanto está comendo, ele não conhece seu dono; mas quando está com fome, ele grunhe e, uma vez tendo comido, volta a se calar. Ele diz: “Também não comerás a águia, nem o gavião, nem o milhafre, nem o corvo.” Isto é: não te ligarás, imitando-os, a esses homens que não sabem ganhar o alimento por meio do trabalho e do suor, mas que, em sua injustiça, arrebatam o bem alheio. Andam com ar inocente, mas espionam e observam a quem vão despojar por ambição. Eles são como essas aves, as únicas que não providenciam o alimento por si próprias, mas se empoleiram ociosamente, procurando a ocasião de se alimentar da carne dos outros. São verdadeiros flagelos por sua crueldade. Ele continua: “Não comerás moréia, nem polvo, nem molusco.” Isto é: não te assemelharás, ligando-te a esses homens que são radicalmente ímpios e já estão condenados à morte. O mesmo acontece com esses peixes: são os únicos amaldiçoados, que nadam nas profundezas, sem subirem como os outros; permanecem no fundo da terra, habitando o abismo.

Segunda formulação:

Também “não comerás a lebre.” Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos orifícios quanto o número de seus anos. Também “não comerás a hiena”. Isso quer dizer: não serás nem adúltero, nem homossexual, e não te assemelharás àqueles que são assim. Por que razão? Porque esse animal muda de sexo todos os anos e torna se ora macho, ora fêmea. Ele odiou também “a doninha”. Muito bem! Não serás como aqueles que cometem, como se diz, iniqüidade com a boca por depravação, nem te ligarás a esses depravados que cometem iniqüidade com sua boca. De fato, esse mal se concebe pela boca. Moisés, tendo recebido tríplice ensinamento sobre os alimentos, usou linguagem simbólica. Eles, porém, o entenderam sobre os alimentos materiais, por causa do desejo carnal.

Davi confirma o ensinamento:

Davi recebeu o conhecimento desse mesmo ensinamento tríplice. Ele fala de forma semelhante: “Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios”, como os peixes que se movem nas trevas para o fundo; “e que não pára no caminho dos pecadores”, como aqueles que aparentam temer ao Senhor, mas pecam como o porco; “e que não se assentou na cátedra da pestilência”, como as aves que se postam para a rapina. Aí tendes perfeitamente o que se refere à comida.

Conclusão:

Moisés, porém, disse: “Comei de todo animal que tem o casco fendido e que rumina.” O que ele quer dizer? Que (tal animal), quando recebe a comida, conhece aquele que o alimenta, e quando repousa, parece que se alegra com ele. Disse-o bem, considerando o mandamento. Que quer ele dizer? Vinculai-vos àqueles que temem o Senhor, que meditam no coração sobre o sentido exato da palavra que receberam, que ensinam e observam as decisões do Senhor, que sabem que a meditação é alegre exercício e que ruminam a palavra do Senhor. O que significa o “casco fendido”? É que o justo caminha neste mundo e espera o mundo santo. Vede como Moisés legislou bem! Mas, para eles, como é possível compreenderem ou entenderem essas coisas? Nós, tendo compreendido exatamente os mandamentos, os exprimimos como o Senhor desejou. Por isso, ele circuncidou nossos ouvi dos e nossos corações, para compreendermos essas coisas.

CAPÍTULO 11:

Profecias do Batismo e da Cruz:

A água:

Pesquisemos se o Senhor teve intenção de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz. Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam constituído um. Com efeito, diz o profeta: “Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu mal duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para si mesmos uma cisterna de morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o ninho”. E o profeta diz ainda: “Eu marcharei à tua frente, aplainarei as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro, e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor do Senhor”.

A água e o madeiro:

Ele diz ainda por meio de outro profeta: “Quem assim age, será como a árvore plantada junto à corrente d’água, e que dá seu fruto no tempo certo. Sua folhagem não cairá; e tudo o que ele fizer terá sucesso. Não são assim os ímpios, não são assim. Eles são, antes, como a poeira que o vento espalha na face da terra. E por isso que os ímpios não se levantarão no julgamento, nem os pecadores no conselho dos justos. Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá”. Notai que ele designa ao mesmo tempo a água e a cruz. Com efeito, ele quer dizer: “Felizes aqueles que, tendo lançado sua esperança na cruz, desceram para a água. Pois ele diz que o salário vem “no tempo certo”. Então, diz ele, eu retribuirei. Mas para hoje, ele diz: “Sua folhagem não cairá”. Isso significa que toda palavra de fé e amor que sair da vossa boca será para muitos causa de conversão e de esperança. E outro profeta diz ainda: “E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra terra”. Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que diz ele a seguir? “Havia um rio que corria, vindo da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente”. Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o temor e a esperança em Jesus. “Quem comer deles viverá eternamente”, quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente.

CAPÍTULO 12:

O madeiro:

Da mesma forma, é sobre a cruz que ele fala por meio de outro profeta: “Quando tais coisas se cumprirão? Diz o Senhor: Quando um madeiro for estendido no chão e depois novamente levantado, e quando o sangue gotejar do madeiro.” Eis que se fala de novo da cruz e daquele que seria crucificado. Ele ainda fala a Moisés, quando Israel é atacado pelos povos estrangeiros, para lembrar-lhes, nesse combate, que era pelos pecados deles que estavam sendo entregues à morte. Falando ao coração de Moisés, o Espírito lhe fez representar a figura da cruz e de quem sofreria, pois, diz ele, se não esperarem nele, serão eternamente atacados. Então Moisés amontoou as armas no meio do combate e, de pé, no lugar mais alto de todos, estendeu os braços, e assim Israel venceu novamente. Em seguida, cada vez. que os abaixava, os israelitas sucumbiam outra vez. Por quê? Para que soubessem que não podiam ser salvos, se não confiassem nele. Por meio de outro profeta, ele diz ainda: “O dia inteiro estendi meus braços para um povo desobediente e que se opõe ao meu justo caminho”. Outra vez ainda, no momento em que Israel sucumbia, Moisés fez prefiguração de Jesus, mostrando que ele devia sofrer, e justamente aquele que acreditavam estar morto na cruz, haveria de dar a vida. De fato, o Senhor fez com que todo tipo de serpentes os mordessem, e eles morriam, embora a serpente tenha sido para Eva o instrumento da desobediência. Ele queria assim convencê-los de que era por causa da desobediência deles que seriam entregues à tortura da morte. Finalmente, o próprio Moisés tinha ordenado: “Não tereis, como vosso deus, nenhuma imagem fundida ou esculpida.” Mas ele próprio fez uma serpente de bronze, colocou-a diante de todos, e convocou o povo. Quando se reuniram naquele lugar, suplicaram a Moisés que intercedesse pela cura deles. Moisés porém, lhes respondeu: “Quando alguém de vós for mordido, venha até à serpente fixada ao madeiro e creia com confiança. Crendo que essa serpente, embora morta, possa dar a vida, no mesmo instante será salvo”. Assim fizeram eles. Eis aqui de novo a glória de Jesus, porque tudo está nele e tudo é para ele.

Jesus, Filho de Deus:

Que diz ainda Moisés a respeito do profeta Josué, filho de Num, dando-lhe esse nome, somente para que todo o povo ouvisse que o Pai revela todas as coisas em torno de seu Filho Jesus? Enviando-o para explorar o país, depois de lhe ter dado esse nome, Moisés disse a Josué, filho de Num: “Toma em tuas mãos um livro e escreve o que diz o Senhor: Nos últimos dias, o Filho de Deus arrancará pelas raízes a casa de Amaleque”. Mais uma vez, eis que Jesus, manifestado em prefiguração carnal, não filho de homem, mas Filho de Deus. Porque diriam que o Cristo é filho de Davi, o próprio Davi, temendo e prevendo o erro dos pecadores, profetiza: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como estrado para teus pés”. Isaías também diz: “O Senhor disse ao Cristo, meu Senhor: Eu o tomei pela mão direita, para que as nações lhe obedeçam, e eu romperei a força dos reis”. Vede como Davi o chama Senhor, e não filho!

CAPÍTULO 13:

A Aliança:

Qual povo é o herdeiro?:

Vejamos agora qual é o povo que recebe a herança. Se este, ou se o primeiro. E a Aliança, é para nós, ou para aqueles? Escutai, então, o que diz a Escritura a respeito do povo: “Isaque rezava pela sua mulher Rebeca, que era estéril, e ela concebeu”. Depois: “Rebeca saiu para consultar o Senhor, e o Senhor lhe disse: Há duas nações em teu seio e dois povos em tuas entranhas. Um povo dominará o outro, e o mais velho servirá ao mais jovem”. Deveis compreender quem é Isaque e quem é Rebeca, e a quem se referia ao mostrar que este povo é maior do que aquele. Em outra profecia, Jacó se dirige mais claramente ainda a seu filho José, dizendo: “Eis que o Senhor não me privou de tua presença. Traze-me teus filhos, para que eu os abençoe”. Ele levou Efraim e Manasses, querendo que Manassés, o mais velho, recebesse a bênção. José o conduziu para a mão direita de seu pai Jacó. No entanto, Jacó viu em espírito a prefiguração do povo futuro. E o que disse ele? “E Jacó cruzou as mãos, e colocou a direita sobre a cabeça de Efraim, o segundo e o mais novo, e o abençoou. Então José disse a Jacó: ‘Desvia tua mão direita e coloca-a sobre a cabeça de Manassés, pois ele é o meu filho primogênito’. Então Jacó disse a José: ‘Eu sei, meu filho, eu sei. O mais velho servirá ao mais jovem, e é este que será abençoado’”. Vede a quem ele se referia ao decidir que este povo seria o primeiro e o herdeiro da Aliança. Se isso ainda nos é lembrado no caso de Abraão, então nosso conhecimento torna-se completo. O que é que ele diz então a Abraão, pelo fato de que somente ele tinha acreditado, e foi estabelecido na justiça? “Abraão, eis que eu te estabeleci como pai de nações que, embora incircuncisas, acreditam em Deus”.

CAPÍTULO 14:

A quem Deus dá sua Aliança?:

Muito bem. Porém vejamos: Pesquisemos, para ver se ele deu ao povo a Aliança que prometera – juramento a seus antepassados. Certamente ele a deu, mas eles não foram dignos de recebê-la, por causa de seus pecados. De fato, o profeta diz: “Moisés jejuou quarenta dias e quarenta noites no monte Sinai, para receber a Aliança do Senhor com o povo. E Moisés recebeu do Senhor as duas tábuas escritas em espírito pelo dedo da mão do Senhor. Moisés as tomou, e começou a descer, para levá-las ao povo. Então disse a Moisés o Senhor: ‘Moisés, Moisés, apressa-te a descer, pois teu povo, que fizeste sair da terra do Egito, pecou’. Moisés compreendeu que eles ainda tinham feito para si imagens de metal fundido. Então ele atirou de suas mãos as tábuas, e as tábuas da Aliança do Senhor se quebraram”. Moisés, portanto, a recebeu, mas eles não foram dignos dela. Aprendei como nós a recebemos. Moisés a recebeu como servo, mas o próprio Senhor, depois de sofrer por nós, no-la entregou como povo da herança. Ele apareceu, para que aqueles levassem ao máximo a medida dos pecados e nós recebêssemos a Aliança mediante o Senhor Jesus, o herdeiro. Jesus foi preparado por ocasião de sua manifestação, para libertar das trevas nossos corações já consumidos pela morte e entregues aos desvios da iniqüidade, e para estabelecer conosco uma Aliança com a palavra. De fato, está escrito que o Pai lhe ordenou libertar-nos das trevas, a fim de preparar para si um povo santo. Diz, portanto, o profeta: “Eu, o Senhor teu Deus, te chamei na justiça, e te tomarei pela mão e te fortificarei. Eu te coloquei como Aliança de um povo, como luz das nações, para abrir os olhos dos cegos, para libertar das cadeias os prisioneiros e da prisão aqueles que estão nas trevas”. Sabei, portanto, de onde fomos libertos! O profeta diz ainda: “Eis que eu te coloquei como luz das nações, a fim de que sirvas para a salvação, até os confins da terra. Assim diz o Senhor, o Deus que te libertou”. E o profeta diz ainda: “O Espírito do Senhor está sobre mim e, por isso, me ungiu para anunciar aos pobres o evangelho da graça. Ele me enviou para curar os corações quebrantados, para proclamar aos prisioneiros a liberdade e aos cegos a vista, para anunciar o ano favorável do Senhor e o dia da retribuição, para consolar todos os que choram.”

CAPÍTULO 15:

O Sábado de Deus:

Ainda, sobre o sábado, está escrito no Decálogo que Deus o entregou pessoalmente a Moisés sobre o monte Sinai: “Santificai o sábado do Senhor com mãos puras e coração puro”. Em outro lugar, ele diz: “Se meus filhos guardarem o sábado, então estenderei sobre eles a minha misericórdia”. Ele menciona o sábado no princípio da criação: “Em seis dias, Deus fez as obras de suas mãos e as terminou no sétimo dia, e nele descansou e o santificou”. Prestai atenção, filhos, sobre o que significa: “terminou no sétimo dia”. Isso significa que o Senhor consumará o universo em seis mil anos, pois um dia para ele significa mil anos. Ele próprio o atesta, dizendo: “Eis que um dia do Senhor será como mil anos.” Portanto, filhos, em “seis dias”, que são seis mil anos, o universo será consumado. “E ele descansou no sétimo dia”. Isso quer dizer que seu Filho, quando vier para pôr fim ao tempo do Iníquo, para julgar os ímpios e mudar o sol, a lua e as estrelas, então ele, de fato, repousará no sétimo dia. Por fim, ele diz: “Tu o santificarás com mãos puras e coração puro”. Contudo, se alguém atualmente pudesse santificar, de coração puro, esse dia que Deus santificou, então nós nos teríamos enganado completamente. Porém, se este agora não é o caso, ele o santificará verdadeiramente no repouso, quando nós formos capazes disso, isto é, quando tivermos sido justificados e tivermos recebido o objeto da promessa, quando não houver mais iniqüidade, e o Senhor tiver renovado tudo. Então, poderemos santificá-lo, tendo sido primeiro nós mesmos santificados. Ele finalmente lhes disse: “Não suporto vossas neomênias e vossos sábados”. Vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.

CAPÍTULO 16:

O Templo:

No que se refere ao templo, eu vos direi ainda como esses infelizes extraviados puseram sua esperança num edifício, como se fosse a casa de Deus, e não no Deus deles, que os criou. Com efeito, quase como os pagãos, eles o consagraram no templo. Mas, como fala o Senhor, abolindo-o? Aprendei: “Quem mediu o céu com o palmo e a terra com a mão? Não fui eu? diz o Senhor: O céu é o meu trono e a terra é o estrado dos meus pés. Que casa construireis para mim, ou qual será o lugar do meu repouso”? Vede como era vã a esperança deles. Por fim, ele diz ainda: “Eis! aqueles que destruíram esse templo, eles mesmos o edificarão.” E o que está acontecendo. De fato, por causa da guerra deles, o templo foi destruído pelos inimigos. E agora, os mesmos servos dos inimigos o reconstruirão. Ele tinha igualmente revelado que a cidade, o templo e o povo de Israel seriam entregues. Com efeito, a Escritura diz: “Acontecerá no fim dos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do pasto, o aprisco e a sua torre”. E aconteceu conforme o Senhor tinha dito. Indaguemos se existe um templo de Deus. Sim, existe onde ele mesmo diz que o há de construir e aperfeiçoar. De fato, está escrito: “Quando a semana estiver terminada, será construído um templo de Deus, com esplendor, sobre o nome do Senhor”. Acho pois que existe um templo. E como ele “será construído sobre o nome do Senhor”? Aprendei: antes que acreditássemos em Deus, nossos corações eram uma habitação corruptível e frágil, exatamente como um templo construído por mão humana. Com efeito, estava cheio de idolatria e era casa de demônios pois todas as nossas ações se opunham a Deus. Contudo, “ele será construído sobre o nome do Senhor”. Estai atentos, para que o templo do Senhor seja construído “com esplendor”. De que modo? Aprendei: recebendo o perdão dos pecados e pondo nossa esperança no Nome, nós nos tornamos novos, recriados desde o princípio. É por isso que Deus habita verdadeiramente em nós, tornando-nos sua morada. Como? Pela sua palavra de fé, pelo chamado da sua promessa, pela sabedoria das suas leis, pelos mandamentos da doutrina, e ele próprio profetizando em nós, habitando em nós, abrindo para nós a porta do templo, que é a nossa boca, e dando-nos o arrependimento, ele nos introduz no templo incorruptível. De fato, quem deseja ser salvo não olha para o homem, mas para aquele que habita nele e fala por meio dele, maravilhado “Neomênias” é o primeiro dia do mês (lunar), a “lua nova” ou “neomênia”, era uma festa celebrada tanto entre os israelitas como entre os cananeus (cf. Lv 23,24; 1Sm 20,5.24; Is 13; Am 8,5). Como o sábado, a lua nova (neoménia) interrompia as transações comerciais de não ter ouvido as palavras daquele que fala através de uma boca humana, nem de ter desejado ouvi-las. Esse é o templo espiritual construído pelo Senhor.

CAPÍTULO 17:

Conclusão:

Eu vos expliquei essas coisas com a maior simplicidade possível, e espero não ter deixado nada de lado. Com efeito, se vos escrevesse sobre o presente ou o futuro, não compreenderíeis, pois isso permanece em parábolas.

PARTE MORAL:

CAPÍTULO 18:

Os Dois Caminhos:

Introdução:

Sobre esse assunto, chega. Passemos para outro tipo de conhecimento e ensinamento. Existem dois caminhos de ensinamento e autoridade: o da luz e o das trevas. A diferença entre os dois é grande. De fato, sobre um estão postados os anjos de Deus, portadores da luz; e sobre o outro, os anjos de satanás. Um é Senhor de eternidade em eternidade, o outro é príncipe do presente tempo da iniqüidade.

CAPÍTULO 19:

O caminho da luz:

Este é o caminho da luz: se alguém quer andar no caminho e chegar ao lugar determinado, que se esforce em suas obras. Eis, portanto, o conhecimento que nos foi dado para andar nesse caminho.

Ama aquele que te criou. Teme aquele que te formou. Glorifica aquele que te resgatou da morte. Sê simples de coração e rico de espírito. Não te ligues àqueles que andam no caminho da morte. Odeia tudo o que não é agradável a Deus. Odeia toda hipocrisia.

Não abandones os mandamentos do Senhor. Não te engrandeças a ti mesmo, mas sê humilde em todas as circunstâncias. Não te arrogues glória. Não planejes o mal contra o teu próximo. Não te entregues à insolência.

Não pratiques a prostituição, nem o adultério, nem a pederastia. Não divulgues a palavra de Deus entre pessoas impuras. Não faças diferença entre as pessoas, ao corrigir alguém por sua falta. Sê manso, tranquilo, respeitando as palavras que ouviste. Não sejas vingativo para com teu irmão.

Não fiques hesitando sobre o que vai ou não acontecer. Não tomes em vão o nome do Senhor. Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo. Não mates a criança no seio da mãe, nem logo que ela tiver nascido. Não te descuides de teu filho ou de tua filha. Pelo contrário, dá-lhes instrução desde a infância no temor do Senhor.

Não cobices os bens do teu próximo. Não sejas avarento, não te juntes de coração com os grandes, mas conversa com os justos e pobres. Aceita como boas as coisas que te acontecem, sabendo que nada acontece sem o consentimento de Deus.

Não sejas dúplice no pensar e no falar, porque a duplicidade é armadilha mortal. Sê submisso a teus senhores, com respeito e reverência, como à imagem de Deus. Não dês ordens com rudeza ao teu servo ou à tua serva, pois eles esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus, que está acima de uns e de outros; com efeito, ele não vem chamar a pessoa pela aparência, mas aqueles que o Espírito preparou.

Compartilha tudo com o teu próximo, e não digas que são coisas tuas. Se estais unidos nas coisas incorruptíveis, tanto mais nas coisas corruptíveis. Não sejas loquaz, porque a boca é armadilha mortal. O quanto podes, sê puro com a tua alma.

Não sejas como os que estendem a mão na hora de receber, e a retiram na hora de dar. Ama, como a pupila do teu olho, todo aquele que te anuncia a palavra de Deus.

Lembra-te noite e dia, do dia do julgamento. A cada dia, procura a companhia dos santos. Empenha-te com a pregação, exortando e preocupando-te em salvar uma alma pela palavra, ou então em trabalhar com tuas mãos, para resgatar teus pecados.

Não hesites em dar, nem dês reclamando, pois sabes quem é o verdadeiro remunerador da tua recompensa. Guarda o que recebeste, sem nada acrescentar ou tirar. Odeia totalmente o mal. Julga de modo justo.

Não provoques divisão. Pelo contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si. Confessa os teus pecados. Não te apresentes em má consciência para a oração.

CAPÍTULO 20:

O caminho das trevas:

O caminho das trevas é tortuoso e cheio de maldições. De fato, em sua totalidade, ele é o caminho da morte eterna nos tormentos. Nele se encontram as coisas que arruínam a alma dos homens: idolatria, insolência, altivez do poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, homicídio, rapina, orgulho, transgressão, fraude, maldade, arrogância, feitiçaria, magia, avareza e ausência do temor de Deus. (São) os que perseguem os bons, odeiam a verdade, amam a mentira, ignoram a recompensa da justiça, não se ligam ao bem nem ao julgamento justo, não cuidam da viúva e do órfão, não vigiam para o temor de Deus, mas para o mal, afastam-se da mansidão e da paciência, amam as vaidades, correm atrás da recompensa, não têm misericórdia para com o pobre, recusam ajudar o oprimido, difamam facilmente, ignoram o seu Criador, matam crianças, corrompem a imagem de Deus, não se compadecem do necessitado, não se importam com os atribulados, defendem os ricos, são juízes injustos com os pobres, e, por fim, são pecadores consumados.

CAPÍTULO 21:

Conclusão:

É bom, portanto, aprender as sentenças do Senhor, que estão escritas, e a elas conformar o comportamento. Com efeito, aquele que as pratica será glorificado no Reino de Deus, mas aquele que escolher o outro (Caminho) perecerá com suas obras. Por isso, existe ressurreição, e por isso existe retribuição. A vós, que sois superiores, peço que aceitem um conselho da minha benevolência: Tendes no meio de vós pessoas para com as quais praticar o bem. Não deixem de o fazer. Está próximo o dia, no qual todas as coisas perecerão com o Maligno. Está próximo o Senhor, justo com a sua retribuição. Peço-vos ainda: sede bons legisladores para vós mesmos, permanecei fiéis conselheiros para vós mesmos, afastai de vós toda hipocrisia. O Deus, que reina sobre o mundo inteiro, vos dê sabedoria, inteligência, ciência, conhecimento de suas decisões, e perseverança. Deixai-vos instruir por Deus, procurando o que o Senhor quer de vós, e praticai-o, para que vos encontreis no dia do julgamento. Se vos recordais do bem, lembrai-vos de mim ao meditar sobre essas coisas. Desse modo, meu desejo e minha vigilância levarão a realizar algum bem. Peço-vos com insistência, como uma graça: enquanto o belo vaso ainda está convosco, não negligencieis nada das vossas coisas, mas buscai-as constantemente e cumpri todos os mandamentos, pois eles são dignos. Eis por que me esforcei em vos escrever, segundo minhas possibilidades. Eu vos saúdo, filhos do amor e da paz. Que o Senhor da glória e de toda graça esteja com vosso espírito.

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Fonte: http://agnusdei.50webs.com/barnabe1.htm

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/carta-de-barnabe/

Repercussão Vibratória

No trabalho com o plano astral, o médium é muito exigido, pois seu trabalho não se resume ao curto período em que fica no centro espírita. Um irmão sofredor, que teve um desencarne abrupto, acidental, é desperto num médium que transpira os fluidos ectoplásmicos curadores específicos a este fim. Isto se dá pela aproximação e envolvimento áurico e fluídico. Sendo estes trabalhos em grupo, após este despertamento – que é como se fosse um choque – este irmão se acopla para psicofonar em outro médium. Precisa botar para fora os seus sentimentos, pois ficou cristalizada no seu campo mental a cena do seu desencarne, como se fosse um filme com sensações, que não cessa nunca, se repetindo ininterruptamente. Nesta comunicação este irmão sente-se como se tivesse um corpo, não tendo noção ainda que desencarnou e está usando uma organização anátomo fisiológica emprestada, por caridade, para manifestar-se. Externado os seus sentimentos, desopilada esta situação mental de desequilíbrio, tendo servido o médium como verdadeiro desafogador destes fluídos pesados, podemos “chegar-lhe” e este irmão poderá nos ver. Mostramo-lhe os curativos, que não está mais com órgãos decepados e nem sangrando, aliviando-lhe as dores e colocando-o em repouso em local apropriado. Quando tem permissão, contará a sua história em outra ocasião, através da fala ou da escrita e irá para estância de refazimento, de acordo com seu merecimento e afinidade vibratória energética.

Muitas vezes um dos médiuns que o atendeu fica com uma espécie de repercussão vibratória. Isto é permitido para a sua educação e amadurecimento. E como é esta repercussão vibratória? As sensações e percepções que estavam cristalizadas no campo mental e sensorial do irmão sofredor atendido (aumentadas sobremaneira pelo fato de não ter um corpo físico, em verdadeiro estado de dementação) imantam-se no perispírito do médium, que serve como verdadeiro exaustor, aliviando o irmão em tratamento. Mas esta imantação não repercute no físico imediatamente: O médium fica com uma sensação de mal estar, que gradativamente, decorrência de uma força centrípeta, vai aumentando de intensidade, até repercutir no corpo físico e chegar-lhe na área consciencial. Em médiuns de maior sensibilidade perispiritual é possível ver-se e sentir-se toda a cena do desencarne do irmão socorrido, durante o sono físico e do desprendimento noturno, em geral até 48 horas depois do trabalho mediúnico, em ocorrência de clarividência. É como se o médium fosse o ator principal de um filme, vivificando a experiência marcante do desencarne no lugar deste irmão sofredor. Vejam as nuanças e a complexidade do trabalho de caridade no exercício dos dons mediúnicos. É uma verdadeira missão. Neste ínterim, com todo o mal estar em repercussão, nosso medianeiro tem que manter a sua vida de relação normalmente: trabalhar, deslocar-se, assistir sua família, escutar os filhos e àqueles que o procuram, pois a mediunidade sempre está presente. Outras vezes há que ainda é solicitado para compor grupo de socorro e incursão no astral inferior, durante o sono físico, em situações que exigem desdobramentos noturnos. Por isto a importância do equilíbrio, do discernimento, do conhecer-se. O médium que não conhece a si mesmo é um estranho lidando com estas variáveis, ocultas aos seus sentidos físicos e imperceptíveis no seu cotidiano. Em todas estas situações lá estão nossos irmãos menos esclarecidos, em verdadeiros conluios, à espreita de uma desatenção e de uma janela vibratória para influenciá-lo e prejudicá-lo para que desista das suas aspirações.

A prece é refrigério que desce do alto preservando-o ileso nestes momentos. Permitimos, com muito amor e abnegação estas experimentações, pois o médium deve ter luz própria e brilhar no meio da escuridão e das trevas. Não deve, em qualquer dificuldade, correr e apoiar-se nos mentores, como se fossemos uma bengala eternamente disponível. As mesmas potencialidades que temos no astral dormitam em vós e, cada vez mais, galgareis os degraus da escada que levam a plenificação como espírito imortal que és e o mediunismo nunca cessa em todos os planos, sendo aquisição meritória. Andai com vossas próprias pernas, em súplica, com fé e confiança, que cada vez mais vos fortaleceis.

Jesus, o maior médium que esteve entre vós, com toda a potencialidade cósmica do Cristo, passou por todas as situações provacionais, na mais das vezes solitariamente, conforme a programática da sua missão terrena. Teve a tentação dos magos negros, curou chagados, expulsou “demônios”, foi humilhado, agredido, negado e, no momento culminante da sua estada na Terra, assumiu para si toda a responsabilidade dos seus atos, aliviando os apóstolos e seus seguidores perante o poder religioso e do estado romano estabelecidos. Quando estava na cruz, no ápice do seu desencarne, ainda falou: “Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem”.

Muita paz e muita luz.

Ramatis

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/repercuss%C3%A3o-vibrat%C3%B3ria

As Qliphot Secundárias

As Qliphot secundárias são os poderes demoníacos que dominam os vinte e dois caminhos sombrios (ou buracos serpentinos) que ligam as dez dimensões Acausais Qliphóticas.

Estas forças demoníacas devem ser incitadas pela visualização de sigilos, e as vibrações de seus nomes conjuntamente com o derramamento de sangue.

Os Magistas fazem melhor uso destas energias demoníacas e desarmônicas durante os rituais que visam à descoberta de caminhos inconscientes/ conscientes através dos escuros túneis que levam à Sitra Ahra (O Outro lado).

A seguir estão os nomes, características e sigilos das Qliphot secundárias que são os demoníacos e anticósmicos caminhos que formam a “Árvore da Morte”:

  • O Caminho XI – Amprodias.

Amprodias domina a transcendência do limitado intelecto cósmico (que pelos não iluminados é chamada de loucura), e concede o poder ao Magista para que tenha capacidade de ver através das ilusões da luz e enxergar na escuridão da verdade.

  • O Caminho XII – Baratchial.

Baratchial possui toda a ciência anticósmica e toda ciência da negra magia sexual, é ele que inicia o Magista nos Qliphóticos mistérios mágickos que estão mais ocultos.

 

  • O Caminho XIII – Gargophias.

Gargophias é um demônio feminino que possui a clarividência, é esta divindade que ensina os mistérios sombrios dos rituais de necromancia e magias proibidas relacionadas à morte.

  • O Caminho XIV – Dagdagiel.

Dagdagiel é um demônio feminino da magia sexual, que pode iniciar o Magista nas artes do amor e Magia Negra, desde que o Magista esteja receptivo e disposto a pagar uma quantia de sangue que Dagdagiel exigir.

  • O Caminho XV – Hemethterith.

Hemethterith é um demônio feminino que controla a arte da Qliphótica astrologia e as práticas proibidas para criação de demoníacas crianças espirituais por meio da prática da bestial magia sexual.

Bariron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “rebanho”, habita e reside no caminho XV, compartilhando-o com Hemethterit.

  • O Caminho XVI – Uriens.

Uriens detém os mistérios alquímicos sombrios do sangue humano e é capaz de fazer o Magista fisicamente forte.

Adimiron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “sangue”, localiza-se no mesmo décimo sexto caminho sombrio.

  • O Caminho XVII – Zamradiel.

Zamradiel conhece a arte da viagem astral e os esotéricos mistérios do vampirismo.

Tzelladimiron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “mudança”, também reside neste caminho.

  • O Caminho XVIII – Characith.

Characith é o mestre dos mistérios e encantos da magia negra.

Shechechiriron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “O Sombrio”, habita neste caminho.

  • O Caminho XIX – Temphioth.

Temphioth é o mestre de todos os prazeres infernais e tem a capacidade de “domar as bestas”.

Shelhabiron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “Incendiário”, também está localizado neste caminho.

  • O Caminho XIX – Yamatu.

Yamatu, cujo número é 131, domina as artes mágickas da imortalidade e da invisibilidade.

Tzephariron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “riscar”, também pertence a este caminho sombrio.

 

  • O Caminho XXI – Kurgasiax.

Kurgasiax possui os mistérios dos Súcubos e Íncubos e também tem a capacidade de dar o poder mundano ao Magista.

  • O Caminho XXII – Lafcursiax.

Lafcursiax é um demônio feminino, que com o demônio Lamias extrai os órgãos da alma humana e, assim, a mata.

Este demônio também pode dar capacidade ao Magista de passear pelo “abismo do Caos” e enviar sinistras correntes Acausais de poder.

Obiriron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “barro” (o barro que representa a carne morta humana), também rege este caminho.

 

  • O Caminho XXIII – Malkunofat.

Malkunofat pode conceder riqueza e poder sobre os mistérios dos sonhos.

  • O Caminho XXIV – Niantiel.

Niantiel é o mestre da necromântica magia sexual (Necrofilia astral), é ele que pode iniciar os Magistas nos mistério sombrios do vazio.

Necheshetrion, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “Serpente do Pecado”, localiza-se neste vigésimo quarto caminho.

 

  • O Caminho XXV- Saksaksalim.

Saksaksalim conhece a arte da transmutação espiritual e os mistérios sombrios da alquimia. Nachashiron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “Serpente”, também reside neste caminho.

  • O Caminho XXVI – A’ano’nin.

A’ano’nin possui os poderes do mau-olhado e reina sobre todos os sátiros e “demônios Pan”.

Dagdagirion, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “demônio assim como peixe” também pertence a este caminho.

  • O Caminho XXVII – Parfaxitas.

Parfaksitas conhece a arte do movimento espacial e os mistérios sangrentos da licantropia.

  • O Caminho XXVIII – Tzuflifu.

Tzuflifu detém os mistérios dos raios caóticos e segredos anticósmicos.

Behemiron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “bestial”, localiza-se neste vigésimo oitavo caminho.

 

  • O Caminho XXIX – Qulielfi.

Qulielfi é um demônio feminino que domina a vampira e destrutiva magia sexual, e também pode ajudar o Magista a enviar, com um proposito sanguinário, Súcubos e Íncubos aos seus inimigos.

Nashimiron, que também é um demônio Qliphótico, cujo nome significa “mulher malvada”, também governa este caminho.

 

  • O Caminho XXX – Raflifu.

Raflifu é o sábio da produção alquímica do ouro, ele também pode fazer o Magista rico e poderoso.

 

  • O Caminho XXXI – Shalicu.

Shalicu é dono da Magia da Chama Negra que dissolve todas as formas e liberta a essência amorfa.

 

  • Caminho XXXII – Thantifaxath.

Thantifaxath é o mestre das magias de morte e maldição, ele pode, de acordo com a vontade do Magista, espalhar a morte e o derramamento de sangue.

Fonte: Liber Azerate: O Livro do Caos Colérico.

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© 2002 MLO – Anti-Cosmic Productions Todos os Direitos Reservados.

Tradução e Adaptação: Zeis Araújo (Inmost Nigredo) Revisão: Gabriela Paiva 2014.

Texto enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/as-qliphot-secundarias/

Emanuel Swedenborg

Emanuel Swedenborg nasceu em Stockholm, em 1688, e morreu em Londres, em 1772, com a idade de 84 anos. Era notável em todas as ciências, e sobretudo na teologia, na mecânica, na física e na metalurgia. Sua prudência, sua sabedoria, sua modéstia e sua simplicidade valeram-lhe a alta reputação da qual goza ainda hoje. Os reis o chamaram em seus conselhos. Em 1716, Charles XII nomeou-o assessor ao Colégio metálico de Stockholm; a rainha Ulrique tornou-o Nobre, e ele ocupou os postos mais honrosos com distinção até 1743, época em que teve sua primeira revelação do mundo invisível.

Embora os fenômenos vividos por ele fossem relatados sob a influência da sua crença nos escritos bíblicos, percebe-se a veracidade dos fatos vividos por esse surpreendente personagem mais de 100 anos antes do estabelecimento da Codificação Espírita.
Usando a formatação bíblica, descreveu as zonas de sofrimento como sendo o inferno e as zonas felizes como Céu, e os espíritos superiores como Anjos e os inferiores como demônios, mas os reconheceu como espíritos que viveram na Terra.

Segundo suas experiências fora do corpo ele afirma ter observado que o outro mundo, para onde vamos após a morte, consiste de várias esferas, representando outros tantos graus de Luminosidade e de felicidade; cada um de nós irá para aquela a que se adapta a nossa condição espiritual. Somos julgados automaticamente, por uma lei espiritual das similitudes; o resultado é determinado pelo resultado global de nossa vida, de modo que a absolvição ou o arrependimento no leito de morte têm pouco proveito.

Nessas esferas verificou que o cenário e as condições deste mundo eram reproduzidas fielmente, do mesmo modo que a estrutura da sociedade. Viu casas onde viviam famílias, templos onde praticavam o culto, auditórios onde se reuniam para fins sociais, palácios onde deviam morar os chefes.

A morte era suave, dada a presença de seres celestiais que ajudavam os recém-chegados na sua nova existência. Esses recém-vindos passavam imediatamente por um período de absoluto repouso. Reconquistavam a consciência em poucos dias, segundo a nossa contagem.

Havia anjos e demônios, mas não eram de ordem diversa da nossa: eram seres humanos, que tinham vivido na Terra e que ou eram almas retardatárias, como demônios, ou altamente desenvolvidas, como anjos.

O homem nada perde pela morte: sob todos os pontos de vista é ainda um homem, conquanto mais perfeito do que quando na matéria. Leva consigo não só as suas forças, mas os seus hábitos mentais adquiridos, as suas preocupações e os seus preconceitos.
Não havia penas eternas. Os que se achavam nos infernos podiam trabalhar para a sua saída, desde que sentissem vontade. Os que se achavam no céu não tinham lugar permanente: trabalhavam por uma posição mais elevada.

Havia o casamento sob a forma de união espiritual no mundo próximo, onde um homem e uma mulher constituíam uma unidade completa.

Não havia detalhes insignificantes para a sua observação no mundo espiritual. Fala da existência da arquitetura, do artesanato, das flores, dos frutos, dos bordados, da arte, da música, da literatura, da ciência, das escolas, dos museus, das academias, das bibliotecas e dos esportes.

Os que saíram deste mundo velhos, decrépitos, doentes, ou deformados, recuperavam a mocidade e, gradativamente, o completo vigor. Os casais continuavam juntos, se os seus sentimentos recíprocos os atraíam. Caso contrário, era desfeita a união. “Dois amantes verdadeiros não são separados pela morte, de vez que o Espírito do morto habita com o do sobrevivente, até à morte deste último, quando então se encontram e se unem, amando-se mais ternamente do que antes”.

Apesar do renome e dos privilégios de que desfrutava junto a sociedade contemporânea, Swedenborg teve a coragem de publicar suas experiências transcendentes, mesmo sabendo que elas feriam velhos conceitos religiosos predominantes na sua época.

Essas experiências vividas e relatadas por um leigo, no período em que o Espiritismo ainda não havia sido estabelecido, se ajustam e confirmam as revelações dos espíritos superiores codificadas por Kardec.

O mais interessante nas suas observações sobre a vida após a morte é que ela é rica de detalhes, o que contribui para ampliar nossa visão sobre certas características do mundo espiritual conhecidas até agora. Revelações que vão além das Colônias Espirituais preconizadas na maioria das obras psicografadas.

As várias esferas de luminosidade e felicidade a que se refere Swedenborg, e que ele denomina como o céu, são os planos vibratórios que transcendem às zonas umbralinas onde se situa a Colônia Nosso Lar. Verdadeiros mundos paralelos aglutinando as consciências afins formando um todo imensurável com as características aperfeiçoadas dos mundos físicos a que estão vinculados.

Swedenborg morreu em 29 de março de 1772, morte por ele prevista com com semanas de antecedência. Ele foi enterrado na catedral luterana de Londres que havia sido criada em 1710, por seu pai, mas, em 1908, seu corpo foi transportado para ser enterrado na Catedral de Upsália.

Bibliografia: “O Céu e o Inferno” de Emmanuel Swedenborg – (O Céu, e suas maravilhas, e o Inferno, segundo o que foi ouvido e visto). Traduzido pelo Sr. Levindo Castro de La Fayette. Publicado no Rio de Janeiro em 1920.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/emanuel-swedenborg/

A Maçonaria Paládio: A Farsa de Léo Taxil

A fraude de Taxil foi uma farsa de exposição de 1890 por “Léo Taxil” destinada a zombar não apenas da Maçonaria, mas também da oposição da Igreja Católica a ela.

Léo Taxil e a Maçonaria:

Léo Taxil era o pseudônimo de Marie Joseph Gabriel Antoine Jogand-Pagès, que havia sido acusado anteriormente de difamação em relação a um livro que escreveu chamado The Secret Loves of Pope Pius IX (Os Amores Secretos do Papa Pio IX). Em 20 de abril de 1884, o Papa Leão XIII publicou uma encíclica, Humanum genus (O Gênero Humano), que dizia que a raça humana era:

“[…] separada em duas partes diversas e opostas, das quais uma defende firmemente a verdade e a virtude, a outra daquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade. Um é o reino de Deus na terra, ou seja, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo… O outro é o reino de Satanás… Neste período, no entanto, os partidários do mal parecem estar se unindo e sendo lutando com veemência unida, liderados ou assistidos por aquela associação fortemente organizada e difundida chamada Maçons.”

Após esta encíclica, Taxil passou por uma conversão pública fingida ao catolicismo romano e anunciou sua intenção de reparar o dano que havia causado à verdadeira fé.

O primeiro livro produzido por Taxil após sua conversão foi uma história da Maçonaria em quatro volumes, que continha testemunhas oculares fictícias de sua participação no Satanismo. Com um colaborador que publicou como “Dr. Karl Hacks”, Taxil escreveu outro livro chamado Le Diable au XIXe siècle (O Diabo no Século XIX), que introduziu um novo personagem, Diana Vaughan, uma suposta descendente do alquimista rosacruz Thomas Vaughan. O livro continha muitos contos sobre seus encontros com demônios encarnados, um dos quais deveria ter escrito profecias em suas costas com sua cauda, ​​e outro que tocava piano na forma de um crocodilo.

A chamada “Diana Vaughan”, vestida como “Inspetora Geral do Paládio”. Fotografia de Van Bosch, publicada no livro Memoirs of a Perfect, Initiated, Independent Ex-Palladist (Memórias de uma Perfeita, Iniciada e Independente Ex-Paladista, 1895)

Diana estava supostamente envolvida na Maçonaria Satânica, mas foi redimida quando um dia ela professou admiração por Joana d’Arc, em cujo nome os demônios foram postos em fuga. Como Diana Vaughan, Taxil publicou um livro chamado Eucharistic Novena (Novena Eucarística), uma coleção de orações que foram elogiadas pelo Papa.

Os Paladistas:

Na fraude de Taxil, os Paladistas eram membros de um suposto culto satanista teísta dentro da Maçonaria. De acordo com Taxil, o Paladismo era uma religião praticada dentro das mais altas ordens da Maçonaria. Os adeptos adoravam Lúcifer e interagiam com demônios.

Em 1891 Léo Taxil (Gabriel Jogand-Pagès) e Adolphe Ricoux afirmaram ter descoberto uma Sociedade Paladiana. Um livro francês de 1892, Le Diable au XIXe siècle (O Diabo no Século 19″, 1892), escrito por “Dr. Bataille” (na verdade o próprio Jogand-Pagès) alegou que os Paladistas eram satanistas com sede em Charleston, Carolina do Sul, liderados pelo maçom americano Albert Pike (autor do famoso Morals and Dogma) e criados pelo patriota e autor liberal italiano Giuseppe Mazzini.

Arthur Edward Waite, desmascarando a existência do grupo em Devil-Worship in France, or The Question of Lucifer (Adoração ao Diabo na França, ou A Questão de Lúcifer), cap. II: “The Mask of Masonry (A Máscara da Maçonaria)” (Londres, 1896), relata de acordo com “os trabalhos de Domenico Margiotta e Dr. Bataille” que “[a] Ordem de Paládio fundada em Paris 20 de maio de 1737 ou Sovereign Council of Wisdom (Soberano Conselho da Sabedoria)” foi um “Ordem diabólica maçônica”. Dr. Bataille afirmou que as mulheres seriam supostamente iniciadas como “Companions of Penelope (Companheiras de Penélope)”. Segundo o Dr. Bataille, a sociedade tinha duas ordens, “Adelph (Adelfo)” e “Companion of Ulisses (Companheiro de Ulisses)”; no entanto, a sociedade foi desmembrada pela aplicação da lei francesa alguns anos após sua fundação. Uma suposta Diana Vaughan publicou Confessions of an Ex-Palladist (Confissões de uma Ex-Paladista) em 1895.

Confissão:

Em 19 de abril de 1897, Léo Taxil convocou uma entrevista coletiva na qual, segundo ele, apresentaria Diana Vaughan à imprensa. Na conferência, em vez disso, ele anunciou que suas revelações sobre os maçons eram fictícias. Ele agradeceu ao clero católico por sua ajuda em dar publicidade às suas reivindicações selvagens.

A confissão de Taxil foi impressa, na íntegra, no jornal parisiense Le Frondeur, em 25 de abril de 1897, intitulada: Twelve Years Under the Banner of the Church, The Prank Of Palladism. Miss Diana Vaughan–The Devil At The Freemasons. A Conference held by M. Léo Taxil, at the Hall of the Geographic Society in Paris (Doze Anos sob a Bandeira da Igreja, a Fraude do Paladismo. Senhorita Diana Vaughan – O Diabo nos Maçons. Conferência realizada por M. Léo Taxil, no Salão da Sociedade Geográfica em Paris).

O material falso ainda é citado até hoje. O tratado da Chick Publications, The Curse of Baphomet (A Maldição de Baphomet), e o livro de Randy Noblitt sobre abuso ritual satânico, Cult and Ritual Abuse (Culto e Abuso Ritual), ambos citam as alegações fictícias de Taxil.

O escritor cristão William Schnoebelen, em seu livro, Lúcifer Destronado, apresenta certificados nos quais consta que ele foi membro de uma “Ordem do Paládio”, o que mostra sua dependência das obras de Léo Taxil. O autor apresenta um “Pirâmide Ocultista” que tem na base a Loja Azul da Maçonaria, Rito Escocês e o Rito de York da Maçonaria, The Shrine, o Grau de Soberano Grande Inspetor-Geral (33º Grau), o Supremo Conselho dos Soberanos Grandes Inspetores-Gerais, A Ordem do Trapezoide, Antigo e Primitivo Rito (97 Graus), Ordo Templo Orientis (O.T.O.), A Ordem Paládio, A Ordem Illuminatti, Os 9 “Desconhecidos”, Os Sete (“Demônios”, com o ápice no T.G.A.T.U. (“O Grande Arquiteto do Universo”, Ain Soph Aur, que ele identifica com Lúcifer), mas esse escritor e as bizarrices contidas em suas obras são assuntos para um outro artigo.

Uma Entrevista Posterior com Taxil:

Na revista National Magazine, an Illustrated American Monthly, Volume XXIV: abril – setembro de 1906, páginas 228 e 229, Taxil é citado como dando suas verdadeiras razões por trás da farsa. Dez meses depois, em 31 de março de 1907, Taxil morreu.

Os membros das ordens maçônicas entendem a falsa exposição acumulada sobre essa organização nas guerras antimaçons. A Igreja Católica e muitas outras ordens religiosas foram vítimas desses ataques semiescritos e muitas vezes venenosos. A confissão de Taxil, o livre-pensador francês, que primeiro expôs os católicos e depois os maçons, faz uma leitura interessante sobre a situação atual hoje. Motivos semelhantes acionam alguns dos “ancinhos” de hoje, como indicado na seguinte confissão:

“O público me fez o que sou; o arquimentiroso da época”, confessou Taxil, “pois quando comecei a escrever contra os maçons meu objetivo era diversão pura e simples. Os crimes que dei à sua porta eram tão grotescos, tão impossíveis, tão amplamente exagerados, que pensei que todos veriam a piada e me dariam crédito por originar uma nova linha de humor. Mas meus leitores não aceitaram; eles aceitaram minhas fábulas como a verdade do evangelho, e com o propósito de mostrar que eu menti, mais convencidos ficaram de que eu era um modelo de veracidade.”

“Então me ocorreu que havia muito dinheiro em ser um (Barão de) Munchausen do tipo certo, e por doze anos eu dei a eles quente e forte, mas nunca muito quente. que escrevia profecias nas costas de Diana com a ponta do rabo, às vezes eu dizia a mim mesmo: ‘Espere, você está indo longe demais’, mas não o fiz. Meus leitores até aceitaram com carinho a história do diabo que, em ao se casar com um maçom, transformou-se em crocodilo e, apesar do baile de máscaras, tocava piano maravilhosamente bem.”

“Certo dia, ao dar uma palestra em Lille, disse à plateia que acabara de ter uma aparição de Nautilus, a mais ousada afronta à credulidade humana que eu havia arriscado. Mas meus ouvintes nunca viraram um fio de cabelo. “Ouça, o médico viu Nautulius”, disseram eles com olhares de admiração. Claro que ninguém tinha uma ideia clara de quem era Nautilus, eu não tinha, mas eles presumiram que ele era um demônio.”

“Ah, as noites alegres que passei com meus colegas autores inventando novas tramas, novas, inauditas perversões da verdade e da lógica, cada uma tentando superar a outra na mistificação organizada. Achei que ia me matar de rir de algumas coisas propostas, mas deu tudo certo; não há limite para a estupidez humana”.

A Citação Luciferiana:

Uma série de parágrafos sobre Lúcifer são frequentemente associados à farsa de Taxil. Eles leem:

“O que devemos dizer ao mundo é que adoramos um deus, mas é o deus que se adora sem superstição. A vós, Soberanos Grandes Inspetores Gerais, dizemos isto, para que o repitais aos irmãos dos graus 32, 31 e 30: A Religião Maçônica deve ser, por todos nós iniciados dos graus superiores, mantida na Pureza da doutrina luciferiana. Se Lúcifer não fosse Deus, Adonay e seus sacerdotes o caluniariam?

Sim, Lúcifer é Deus, e infelizmente Adonay também é deus. Pois a lei eterna é que não há luz sem sombra, nem beleza sem feiura, nem branco sem preto, pois o absoluto só pode existir como dois deuses; sendo a escuridão necessária para que a luz sirva de contraste, como o pedestal é necessário para a estátua, e o freio para a locomotiva…

Assim, a doutrina do satanismo é uma heresia, e a verdadeira e pura religião filosófica é a crença em Lúcifer, igual a Adonay; mas Lúcifer, Deus da Luz e Deus do Bem, está lutando pela humanidade contra Adonay, o Deus das Trevas e do Mal.”

Embora esta citação tenha sido publicada por Abel Clarin de la Rive em seu Woman and Child in Universal Freemasonry (A Mulher e a Criança na Maçonaria Universal), ela não aparece nos escritos de Taxil propriamente, embora seja originada em uma nota de rodapé de Diana Vaughan, a criação de Taxil.

Na Cultura Popular:

Os Paladistas são o nome da sociedade satanista de Greenwich Village no filme de Val Lewton, A Sétima Vítima (1943).

Os Paladistas desempenham um papel importante na última parte do romance de Umberto Eco, O Cemitério de Praga (2011).

***

Principal fonte:

Melior, Alec (1961). “A Hoaxer of Genius-Leo Taxil (1890-7)”. Our Separated Brethren, the Freemasons. trans. B. R. Feinson. London: G. G. Harrap & Co. pp. 149–55.

***

Revisão final: Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-maconaria-paladio-a-farsa-de-leo-taxil/

Orobas

Orobas é tido pela Ars Goetia como um grande Príncipe, cuja imagem bestial às vezes lembra a de um cavalo com corpo, membros superiores e mãos humanas. O mais interessante, no entanto, é que uma das principais virtudes que lhes são imputadas é a capacidade ímpar de dar respostas verdadeiras e precisas sobre o passado, o presente e até mesmo sobre o futuro. Exatamente por isso, ele é um dos demônios prediletos daqueles ocultistas que, inadvertidamente, como o honrado doutor Weyer do século XVI, creem nas maravilhosas artes mágicas e divinatórias.

Justamente por este nome estreiou em Janeiro deste ano o blog Orobas, de um grande irmão chamado Carlos Raposo, um dos maiores conhecedores da história da OTO no Brasil. Recomendo que visitem e adicionem aos seus favoritos!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/orobas

As Origens de Lilith

 

Lilith (em hebraico: לִילִית, romanizado: Līlīṯ) é uma figura feminina na mitologia mesopotâmica e judaica, alternativamente a primeira esposa de Adão e supostamente a demônio primordial. Lilith é citada como tendo sido “banida” do Jardim do Éden por não obedecer e obedecer a Adão. Ela é mencionada no hebraico bíblico no Livro de Isaías, e na Antiguidade Tardia na mitologia mandeana e nas fontes da mitologia judaica a partir de 500 EC. Lilith aparece em historiolas (encantamentos que incorporam uma pequena história mítica) em vários conceitos e localidades que dão descrições parciais dela. Ela é mencionada no Talmude Babilônico (Eruvin 100b, Niddah 24b, Shabat 151b, Baba Bathra 73ª), no Livro de Adão e Eva como a primeira esposa de Adão, e no Zohar, Levítico 19a como “uma mulher ardente e quente que primeiro coabitou com o homem”.

O nome Lilith deriva de lilû, lilîtu e (w)ardat lilî. A palavra acadiana lilu está relacionada à palavra hebraica lilith em Isaías 34:14, que é considerada um pássaro noturno por alguns estudiosos modernos, como Judit M. Blair. Na antiga religião da Mesopotâmia, encontrada em textos cuneiformes da Suméria, Assíria e Babilônia, Lilith significa um espírito ou demônio.

A Lilith bíblica inspirou a autora e a primeira teóloga feminista judia Judith Plaskow a escrever, ‘The Coming of Lilith (A Vinda de Lilith)’ examinando o domínio patriarcal no judaísmo e no cristianismo, e a escrita de ‘Which Lilith (Qual Lilith)’ explorando as diversas identidades desse personagem por feministas, incluindo Enid Dame.

Lilith continua a servir como fonte de material na cultura popular de hoje, cultura ocidental, literatura, ocultismo, fantasia e horror, muitas vezes retratada como uma mulher lutando pela igualdade e pela justiça.

A HISTÓRIA DE LILITH:

No folclore judaico, como no satírico Alfabeto de Sirach (c. 700–1000 d.C.), Lilith aparece como a primeira esposa de Adão, que foi criada na mesma época e do mesmo barro que Adão. Compare esse relato com Gênesis 1:27, em que isso contrasta com Eva, que foi criada de uma das costelas de Adão). A lenda de Lilith desenvolveu-se extensivamente durante a Idade Média, na tradição da Aggadah, do Zohar e do misticismo judaico. Por exemplo, nos escritos do século 11 de Isaac on Jacob ha-Cohen, Lilith deixou Adão depois que ela se recusou a se tornar subserviente a ele e depois não retornou ao Jardim do Éden depois de se casar com o arcanjo Samael.

As interpretações de Lilith encontradas em materiais judaicos posteriores são abundantes, mas pouca informação sobreviveu sobre a visão suméria, acadiana, assíria e babilônica dessa classe de demônios. Embora os pesquisadores quase universalmente concordem que existe uma conexão, estudos recentes contestaram a relevância de duas fontes anteriormente usadas para conectar a lilith judaica a uma lilītu acadiana – o apêndice de Gilgamesh e os amuletos de Arslan Tash. (veja abaixo a discussão dessas duas fontes problemáticas). Em contraste, alguns estudiosos, como Lowell K. Handy, sustentam a opinião de que, embora Lilith deriva da demonologia mesopotâmica, a evidência da Lilith hebraica estar presente nas fontes frequentemente citadas – o fragmento sumério de Gilgamesh e o encantamento sumério de Arshlan-Tash sendo duas de tais evidencias – é escassa, se estiver presente.

Em textos de língua hebraica, o termo lilith ou lilit (traduzido como “criaturas da noite”, “monstro da noite”, “bruxa da noite” ou “coruja”) ocorre pela primeira vez em uma lista de animais em Isaías 34. A referência a Lilith em Isaías 34:14, não aparece na maioria das traduções comuns da Bíblia, como a KJV (Versão do Rei James) e a NIV (Nova Versão Internacional). Comentaristas e intérpretes muitas vezes imaginam a figura de Lilith como um perigoso demônio da noite, que é sexualmente libertina e que rouba bebês na escuridão. Nos Manuscritos do Mar Morto 4Q510-511, o termo ocorre pela primeira vez em uma lista de monstros. Inscrições mágicas judaicas em tigelas e amuletos do século VI Dc identificam Lilith como um demônio feminino e fornecem as primeiras representações visuais dela.

ETIMOLOGIA DA PALAVRA LILITH:

Na língua acadiana da Assíria e Babilônia, os termos lili e līlītu significam espíritos. Alguns usos de līlītu estão listados no Dicionário Assírio do Instituto Oriental da Universidade de Chicago (CAD, 1956, L.190), em Akkadisches Handwörterbuch de Wolfram on Soden (Ahw, p. 553), e Reallexikon der Assyriologie (RLA, página 47).

Os demônios femininos sumérios lili não têm relação etimológica com o acadiano lilu, “noite”.

Archibald Sayce (1882) considerou que o lilit hebraico (ou lilith) לילית e o anterior līlītu acadiano são derivados do proto-semítico. Charles Fossey (1902) traduz literalmente para “ser/demônio da noite feminino”, embora existam inscrições cuneiformes da Mesopotâmia onde Līlīt e Līlītu se referem a espíritos do vento portadores de doenças.

LILITH NA MITOLOGIA MESOPOTÂMICA:

Lilu:

Um lilu ou lilû é uma palavra acadiana masculina para um espírito ou demônio.

História:

Jo Ann Scurlock e Burton R. Andersen (2005) veem a origem do lilu no tratamento de doenças mentais.

Na Literatura Suméria e Acadiana:

Na literatura acadiana ocorre hlilu. Na literatura suméria ocorre lili. A datação de textos específicos acadianos, sumérios e babilônicos que mencionam lilu (masculino), lilitu (feminino) e lili (feminino) é casual. Em estudos mais antigos, como The Devils and Evil Spirits of Babylonia (Os Diabos e Espíritos Malignos da Babilônia, 1904), de R. Campbell Thompson, raramente são dadas referências de texto específicas. Uma exceção é K156 que menciona um ardat lili. Heinrich Zimmern (1917) identificou provisoriamente vardat lilitu KAT3, 459 como amante de lilu.

Uma inscrição cuneiforme lista lilû ao lado de outros seres perversos da mitologia e folclore da Mesopotâmia:

Os perversos Utukku que matam o homem vivo na planície.

Os perversos Alû que cobrem (o homem) como uma roupa.

Os perversos Edimmu, os perversos Gallû, que amarram o corpo.

Os Lamme (Lamashtu), os Lammea (Labasu), que causam doenças no corpo.

Os Lilû que vagueiam na planície.

Eles chegaram perto de um homem sofredor do lado de fora.

Eles provocaram uma doença dolorosa em seu corpo.

— Stephen Herbert Langdon 1864.

Na Lista de Reis Sumérios:

Na Lista de Reis Sumérios, diz-se que o pai de Gilgamesh é um lilu.

O ‘Espírito na Árvore’ no Ciclo Gilgamesh:

A Tabuinha XII, datada de c. 600 Ac, é uma tradução acadiana assíria posterior da última parte do sumeriano Epopeia de Gilgamesh. Ele descreve um ‘espírito na árvore’ referido a um ki-sikil-lil-la-ke.

Traduções sugeridas para a Tabuinha XII ‘espírito na árvore’ incluem ki-sikil como “lugar sagrado”, lil como “espírito” e lil-la-ke como “espírito da água”. Mas também simplesmente “coruja”, já que a pequena constrói uma casa no tronco da árvore.

O ki-sikil-lil-la-ke está associado a uma serpente e a um pássaro zu. Kramer traduz o zu como “coruja”, mas na maioria das vezes é traduzido como “águia”, “abutre” ou “ave de rapina”. Em Gilgamesh, Enkidu e Netherworld, uma árvore huluppu cresce no jardim de Inanna em Uruk, cuja madeira ela planeja usar para construir um novo trono. Depois de dez anos de crescimento, ela vem para colhê-lo e encontra uma serpente vivendo em sua base, um pássaro Zu criando filhotes em sua copa, e que um ki-sikil-lil-la-ke fez uma casa em seu tronco. Diz-se que Gilgamesh matou a cobra, e então o pássaro zu voou para as montanhas com seus filhotes, enquanto o ki-sikil-lil-la-ke com medo destrói sua casa e foge para a floresta.

Relação de Lilu com a Lilith Hebraica e com as Lilin:

É contestado se, se é que a palavra acadiana lilu ou seus cognatos estão relacionados com a palavra hebraica lilith em Isaías 34:14, que é considerada um pássaro noturno por alguns estudiosos modernos, como Judit M. Blair. O conceito babilônico de lilu pode estar mais fortemente relacionado ao conceito talmúdico posterior de Lilith (feminino) e lilin (feminino).

Samuel Noah Kramer (1932, publicado em 1938) traduziu ki-sikil-lil-la-ke como Lilith na “Tabuinha XII” da Epopeia de Gilgamesh. A identificação de ki-sikil-lil-la-ke como Lilith é indicada no Dictionary of Deities e Demons in the Bible (Dicionário de Divindades e Demônios na Bíblia, 1999). De acordo com uma nova fonte da Antiguidade Tardia, Lilith aparece em uma história de magia mandaica onde ela é considerada como representando os galhos de uma árvore com outras figuras demoníacas que formam outras partes da árvore, embora isso também possa incluir vários “Liliths”.

Uma conexão entre o ki-sikil-lil-la-ke em Gilgamesh e a Lilith judaica foi rejeitada por motivos textuais por Sergio Ribichini (1978).

A Mulher com Pés de Pássaro no Burney Relief (Relevo de Burney):

 

O Relevo de Burney, Babilônia (1800-1750 a.C.).

A tradução de Kramer do fragmento de Gilgamesh foi usada por Henri Frankfort (1937) e Emil Kraeling (1937) para apoiar a identificação de uma mulher com asas e pés de pássaro no disputado Burney Relief relacionado a Lilith. Frankfort e Kraeling identificaram a figura no relevo com Lilith. Pesquisas modernas identificaram a figura como uma das principais deusas dos panteões mesopotâmicos, provavelmente Ereshkigal, a deusa do submundo mesopotâmico, mais isso é assunto para um outro artigo.

Os Amuletos Arslan Tash:

Os amuletos Arslan Tash são placas de calcário descobertas em 1933 em Arslan Tash, cuja autenticidade é contestada. William F. Albright, Theodor H. Gaster e outros aceitaram os amuletos como uma fonte pré-judaica que mostra que o nome Lilith já existia no século VII a.C., mas Torczyner (1947) identificou os amuletos como uma fonte judaica posterior.

LILITH NA BÍBLIA HEBRAICA:

A palavra lilit (ou lilith) aparece apenas uma vez na Bíblia hebraica, em uma profecia sobre o destino de Edom, enquanto os outros sete termos da lista aparecem mais de uma vez e, portanto, são mais bem documentados. A leitura de estudiosos e tradutores é muitas vezes guiada por uma decisão sobre a lista completa de oito criaturas como um todo. [Veja Os animais mencionados na Bíblia, por Henry Chichester Hart, 1888, e fontes mais modernas; também entradas Brown Driver Briggs Hebrew Lexicon para tsiyyim, ‘iyyim, sayir, liylith, qippowz e dayah.] ​​Citando Isaías 34 (NAB):

(12) Seus nobres não existirão mais, nem reis serão proclamados ali; todos os seus príncipes se foram.

(13) Seus castelos serão cobertos de espinhos, suas fortalezas de cardos e sarças. Ela se tornará uma morada para chacais e um refúgio para avestruzes.

(14) Os gatos selvagens se encontrarão com as feras do deserto, os sátiros chamarão uns aos outros; Ali a Lilith descansará e encontrará para si um lugar para descansar.

(15) Ali a coruja aninha e põe ovos, choca-os e recolhe-os à sua sombra; Ali se reunirão os abutres, nenhum faltará ao seu companheiro.

(16) Olhem no livro do Senhor e leiam: Nenhum destes faltará, porque a boca do Senhor o ordenou, e o seu espírito os reunirá ali.

(17) É Ele quem lança a sorte para eles, e com Suas mãos Ele marca suas partes dela; Eles a possuirão para sempre, e habitarão ali de geração em geração.

Lilith no Texto Hebraico Massorético:

No Texto Massorético:

Hebraico:

u-pagšu ṣiyyim et-ʾiyyim, w-saʿir ʿal-rēʿēhu yiqra; ʾak-šam hirgiʿa lilit, u-maṣʾa lah manoaḥ

34:14 “E encontrarão gatos selvagens com chacais

o bode que ele chama de seu companheiro

lilit (lilith) ela descansa e ela encontra descanso [מנוח, manoaḥ, usado para pássaros como a pomba de Noé, Gen.8:9 e também humanos como o povo de Israel, Deut.28:65; Noemi, Rute 3:1.]

34:15 ali ela aninhará a grande coruja, e ela põe (ovos), e ela choca, e ela ajunta sob sua sombra: falcões [abutres, milhafres] também eles se reúnem, cada um com seu companheiro.

Nos Manuscritos do Mar Morto, entre os 19 fragmentos de Isaías encontrados em Qumran, o Grande Rolo de Isaías (1Q1Isa) em 34:14 apresenta a criatura no plural liliyyot (ou liliyyoth).

Eberhard Schrader (1875) e Moritz Abraham Levy (1855) sugerem que Lilith era um demônio da noite, conhecido também pelos exilados judeus na Babilônia. A visão de Schrader e Levy é, portanto, parcialmente dependente de uma datação posterior de Deutero-Isaías no século VI a.C., e a presença de judeus na Babilônia, que coincidiria com as possíveis referências ao Līlītu na demonologia babilônica. No entanto, essa visão é contestada por algumas pesquisas modernas, como Judit M. Blair (2009), que considera que o contexto indica animais impuros.

Lilith na Septuaginta, a Tradução Grega da Bíblia:

A Septuaginta traduz tanto a referência a Lilith quanto a palavra para chacais ou “animais selvagens da ilha” dentro do mesmo verso para o grego como onokentauros, aparentemente assumindo-os como referindo-se às mesmas criaturas e omitindo “gatos selvagens / animais selvagens do deserto” (assim, em vez dos gatos selvagens ou bestas do deserto se encontrarem com os chacais ou bestas da ilha, a cabra ou “sátiro” chorando “para seu companheiro” e lilith ou “coruja” descansando “lá”, é a cabra ou “sátiro” , traduzido como daimonia “demônios”, e os chacais ou bestas da ilha “onocentauros” se encontrando e gritando “um para o outro” e o último descansando ali, na tradução). Isaías 34:14: καὶ συναντήσουσιν δαιμόνια ὀνοκενταύροις καὶ βοήσουσιν ἕτερος πρὸς τὸν ἕτερον ἐκεῖ ἀναπαύσονται ὀνοκένταυροι εὗρον γὰρ αὑτοῖς ἀνάπαυσιν  Tradução: E os daemons encontrarão com os onocentauros, e eles irão gritar um ao outro: ali descansarão os onocentauros, tendo encontrado para si [um lugar de] descanso.]

Lilith na Vulgata, a Tradução Latina da Bíblia:

A Vulgata do início do século V traduziu a mesma palavra como lâmia, ou seja, lâmia.

et ocorrerent daemonia onocentauris et pilosus clamabit alter ad alterum ibi cubavit lamia et invenit sibi requiem

— Isaías (Isaías Propheta) 34.14, Vulgata.

A tradução é: “E demônios se encontrarão com monstros, e um peludo clamará ao outro; ali a lâmia se deitou e encontrou descanso para si mesma”.

Lilith nas Traduções da Bíblia para o Inglês:

A Bíblia de Wycliffe (1395) preserva a tradução latina lamia:

Is 34:15 Lamya viverá ali, e ali descansa para si mesma.

A Bíblia dos Bispos de Matthew Parker (1568) do latim:

Is 34:14 ali a Lâmia se deitará e terá o seu alojamento.

A Bíblia Douay-Rheims (1582/1610) também preserva a tradução latina lamia:

Is 34:14 E demônios e monstros se encontrarão, e os peludos clamarão uns aos outros; ali a lâmia se deitou, e encontrou descanso para si.

A Bíblia de Genebra de William Whittingham (1587) do hebraico:

Is 34:14 e ali descansará a coruja, e achará para si uma morada sossegada.

Em seguida, a versão King James (Versão do Rei James, 1611):

Isaías 34:14 As feras do deserto também se encontrarão com as feras da ilha, e o sátiro clamará ao seu companheiro; a coruja noturna também descansará ali, e achará para si um lugar de descanso.

A tradução “coruja noturna (screech owl)” da versão King James é, junto com a “coruja” (yanšup, provavelmente uma ave aquática) em 34:11 e a “grande coruja” (qippoz, propriamente uma cobra) de 34:15, uma tente traduzir a passagem escolhendo animais adequados para palavras hebraicas difíceis de traduzir.

Traduções posteriores incluem:

  • A coruja da noite (Young, 1898).
  • O espectro noturno (Rotherham, Emphasized Bible, 1902).
  • O monstro da noite (ASV, 1901; JPS 1917, Good News Translation, 1992; NASB, 1995).
  • Os vampiros (Moffatt Translation, 1922; Knox Bible, 1950).
  • A bruxa da noite (Versão Padrão Revisada, 1947).
  • Lilith (Bíblia de Jerusalém, 1966).
  • (a) lilith (New American Bible, 1970).
  • Lilith (Nova Versão Padrão Revisada, 1989).
  • (a) demônio da noite Lilith, maligna e voraz (A Mensagem (Bíblia), Peterson, 1993).
  • A criatura da noite (New International Version, 1978; New King James Version, 1982; New Living Translation, 1996, Today’s New International Version).
  • As aves noturnas (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, 1984).
  • O pássaro noturno (versão padrão em inglês, 2001).
  • O pássaro noturno (NASB, 2020).
  • Os animais noturnos (New English Translation (NET Bible)).

LILITH NA TRADIÇÃO JUDAICA:

As principais fontes na tradição judaica sobre Lilith em ordem cronológica incluem:

  1. 40–10 a.C. Os Manuscritos do Mar Morto – Canções para um Sábio (4Q510–511).
  2. 200 A Mishná – não mencionada.
  3. 500 A Gemara do Talmude.
  4. 700-1000 O Alfabeto de Ben-Sira.
  5. 900 Midrash Abkir.
  6. 1260 O Tratado sobre a Emanação Esquerda, Espanha.
  7. 1280 O Zohar, Espanha.

Lilith nos Manuscritos do Mar Morto:

 

Reprodução fotográfica do Grande Rolo de Isaías, que contém uma referência ao plural lilyyot.

Os Manuscritos do Mar Morto contêm uma referência indiscutível à Lilith em Songs of the Sage (As Canções do Sábio, 4Q510-511) fragmento 1:

E eu, o Instrutor, proclamo Seu glorioso esplendor para assustar e aterrorizar todos os espíritos dos anjos destruidores, espíritos dos bastardos, demônios, Lilith, uivadores e habitantes do deserto… e aqueles que caem sobre os homens sem aviso prévio para desviá-los de um espírito de entendimento e para tornar seu coração e seu… desolados durante o presente domínio da maldade e tempo predeterminado de humilhações para os filhos da luz, pela culpa dos séculos dos que foram feridos pela iniquidade – não para a destruição eterna, mas para uma era de humilhação por transgressão.

Tal como acontece com o texto massorético de Isaías 34:14, e, portanto, diferente do plural liliyyot (ou liliyyoth) no rolo de Isaías 34:14, lilit em 4Q510 é singular, este texto litúrgico adverte contra a presença de malevolência sobrenatural e assume familiaridade com Lilith; distinta do texto bíblico, no entanto, esta passagem não funciona sob nenhuma agenda sociopolítica, mas serve na mesma capacidade de Um Exorcismo (4Q560) e Canções para Dispersar Demônios (11Q11). O texto é assim, para uma comunidade “profundamente envolvida no domínio da demonologia”, um hino de exorcismo.

Joseph M. Baumgarten (1991) identificou a mulher sem nome de A Sedutora (4Q184) como relacionada ao demônio feminino. No entanto, John J. Collins considera essa identificação como “intrigante”, mas é “seguro dizer” que (4Q184) é baseado na mulher estranha do Livro de Provérbios, capítulos 2, 5, 7, 9:

Sua casa afunda até a morte,

E seu caminho leva às sombras.

Todos que vão até ela não podem voltar

E reencontrar os caminhos da vida.

— Provérbios 2:18–19.

As suas portas são portas da morte, e desde a entrada da casa

Ela parte em direção ao Sheol.

Nenhum dos que ali entram jamais voltará,

E todos os que a possuem descerão ao Poço.

— 4Q184.

Lilith na Literatura Rabínica Primitiva:

Lilith não ocorre na Mishná. Existem cinco referências a Lilith no Talmude Babilônico na Gemara em três tratados separados da Mishná:

  • “Rav Judah citando Samuel decidiu: Se um aborto tivesse a semelhança de Lilith, sua mãe é impura por causa do nascimento, pois é uma criança, mesmo que tenha asas.” (Talmude Babilônico no Tratado Nidda 24b).
  • “[Explicando sobre as maldições da feminilidade] Em um Baraitha foi ensinado: As mulheres crescem cabelos compridos como Lilith, sentam ao urinar como uma fera e servem de travesseiro para o marido.” (Talmude Babilônico no Tratado Eruvin 100b).
  • “Para gira, ele deve pegar uma flecha de Lilith e colocá-la com a ponta para cima e derramar água sobre ela e beber. Alternativamente, ele pode pegar a água que um cachorro bebeu à noite, mas deve tomar cuidado para que não tenha sido exposta.” (Talmude Babilônico, tratado Gittin 69b). Neste caso em particular, a “flecha de Lilith” é provavelmente um fragmento de meteorito ou fulgurita, coloquialmente conhecido como “relâmpago petrificado” e tratado como medicamento antipirético.
  • “Rabbah disse: Eu vi como Hormin, filho de Lilith, estava correndo no parapeito da muralha de Mahuza, e um cavaleiro, galopando abaixo a cavalo não podia alcançá-lo. Uma vez eles selaram para ele duas mulas que estavam em duas pontes do rio Rognag; e ele pulou de uma para a outra, para trás e para frente, segurando em suas mãos duas taças de vinho, derramando alternadamente de uma para outra, e nem uma gota caiu no chão.” (Talmude Babilônico, tratado Bava Bathra 73a-b). Hormin que é mencionado aqui como o filho de Lilith é provavelmente o resultado de um erro de escriba da palavra “Hormiz” atestado em alguns dos manuscritos talmúdicos. A própria palavra, por sua vez, parece ser uma distorção de Ormuzd, a divindade da luz e da bondade no Zend Avesta, o livro sagrado do Zoroastrismo. Se assim for, é um tanto irônico que Ormuzd se torne aqui o filho de um demônio noturno.
  • “R. Hanina disse: Não se pode dormir em uma casa sozinho [em uma casa solitária], e quem dorme em uma casa sozinho é capturado por Lilith.” (Talmude Babilônico no Tratado de Shabat 151b).

A afirmação acima de Hanina pode estar relacionada à crença de que as emissões noturnas engendraram o nascimento de demônios:

  • “R. Jeremiah b. Eleazar declarou ainda: Em todos aqueles anos [130 anos após sua expulsão do Jardim do Éden] durante os quais Adão estava sob a proscrição, ele gerou fantasmas e demônios masculinos e demônios femininos [ou demônios noturnos], pois isso é dito nas Escrituras: E Adão viveu cento e trinta anos e gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem, do que se segue que até aquele momento ele não gerou conforme a sua própria imagem… sua morte foi ordenada como punição ele passou cento e trinta anos em jejum, desvinculou-se de sua esposa por cento e trinta anos, e vestiu roupas de figo em seu corpo por cento e trinta anos. – Essa declaração [de R. Jeremiah] foi feito em referência ao sêmen que ele emitiu acidentalmente.” (Talmude Babilônico no Tratado Eruvin 18b).

A coleção Midrash Rabbah contém duas referências a Lilith. A primeira está presente em Gênesis Rabá 22:7 e 18:4: de acordo com Rabi Hiyya Deus passou a criar uma segunda Eva para Adão, depois que Lilith teve que retornar ao pó. No entanto, para ser exato, as referidas passagens não empregam a palavra hebraica lilith em si e, em vez disso, falam da “primeira Eva” (Heb. Chavvah ha-Rishonah, analogamente à frase Adam ha-Rishon, ou seja, o primeiro Adão). Embora na literatura e no folclore hebraico medieval, especialmente aquele refletido sobre os amuletos protetores de vários tipos, Chavvah ha-Rishonah fosse identificada com Lilith, deve-se ter cuidado ao transpor essa equalização para a Antiguidade Tardia.

A segunda menção de Lilith, desta vez explícita, está presente em Números Rabá 16:25. O midrash desenvolve a história da súplica de Moisés depois que Deus expressa raiva pelo mau relato dos espiões. Moisés responde a uma ameaça de Deus de que Ele destruirá o povo israelita. Moisés implora diante de Deus, que Deus não deve ser como Lilith que mata seus próprios filhos. Moisés disse:

[Deus,] não faça isso [ou seja, destruir o povo israelita], para que as nações do mundo não o considerem um Ser cruel e digam: ‘A Geração do Dilúvio veio e Ele os destruiu, a Geração da Separação veio e Ele os destruiu, os sodomitas e os egípcios vieram e Ele os destruiu, e também estes, a quem chamou de Meu filho, Meu primogênito (Êxodo IV, 22), Ele agora está destruindo! Como aquela Lilith que, quando não encontra mais nada, se volta contra seus próprios filhos, porque o Senhor não foi capaz de trazer este povo para a terra… Ele os matou’ (Núm. XIV, 16)!

Lilith nas Tigelas de Encantamento:

Uma tigela de encantamento com uma inscrição aramaica ao redor de um demônio, de Nippur, Mesopotâmia, entre o sexto e o sétimo século.

Uma Lilith individual, junto com Bagdana “rei dos lilits”, é um dos demônios a aparecer com destaque em feitiços de proteção nas oitenta tigelas de encantamentos ocultos judaicos sobreviventes da Babilonia, sob o Império Sassânida (séculos 4 a 6 d.C.) com influência da cultura iraniana. Essas tigelas eram enterradas de cabeça para baixo abaixo da estrutura da casa ou no terreno da casa, a fim de prender o demônio ou demônio. Quase todas as casas tinham essas tigelas protetoras contra demônios e demônios femininos.

O centro do interior da tigela retrata Lilith, ou a forma masculina, Lilit. Ao redor da imagem está a escrita em forma de espiral; a escrita geralmente começa no centro e segue até a borda. A escrita é mais comumente uma escritura ou referências ao Talmude. As taças de encantamento que foram analisadas estão inscritas nas seguintes línguas: aramaico judaico babilônico, siríaco, mandaico, persa médio e árabe. Algumas taças são escritas em uma escrita falsa que não tem significado.

A tigela de encantamento corretamente redigida era capaz de afastar Lilith ou Lilit da casa. Lilith tinha o poder de se transformar nas características físicas de uma mulher, seduzir seu marido e conceber um filho. No entanto, Lilith (feminina) se tornaria odiosa em relação aos filhos nascidos do marido e da esposa e tentaria matá-los. Da mesma forma, Lilit (masculino) se transformaria nas características físicas do marido, seduziria a esposa, daria à luz um filho. Tornar-se-ia evidente que a criança não foi gerada pelo marido, e a criança seria desprezada. Lilit iria se vingar da família matando os filhos nascidos do marido e da esposa.

As principais características da representação de Lilith ou Lilit incluem o seguinte. A figura é frequentemente representada com braços e pernas acorrentados, indicando o controle da família sobre o(s) demônio(s). O(s) demônio(s) é(são) representado(s) em posição frontal com toda a face à mostra. Os olhos são muito grandes, assim como as mãos (se retratadas). O(s) demônio(s) é totalmente estático.

Uma tigela contém a seguinte inscrição encomendada a um ocultista judeu para proteger uma mulher chamada Rashnoi e seu marido de Lilith:

Vós liliths, lili masculino e lilith feminina, bruxa e ghool, eu vos conjuro pelo Forte de Abraão, pela Rocha de Isaque, pelo Shaddai de Jacó, por Yah Ha-Shem por Yah seu memorial, para se afastarem deste Rashnoi b. M. e de Geyonai b. M. seu marido. [Aqui está] seu divórcio e mandado e carta de separação, enviados por meio de santos anjos. Amém, Amém, Selá, Aleluia! (imagem)

— Trecho da tradução em Aramaic Incantation Texts from Nippur (Textos de Encantamentos Aramaicos de Nippur), por James Alan Montgomery 2011, p. 156.

Lilith no Alfabeto de Ben Sira:

 

 

Lilith, ilustração por Carl Poellath, de 1886 ou anterior.

O pseudepigráfico Alfabeto de Ben Sira dos séculos VIII a X é considerado a forma mais antiga da história de Lilith como a primeira esposa de Adão. Não se sabe se esta tradição em particular é mais antiga. Os estudiosos tendem a datar o alfabeto entre os séculos 8 e 10 d.C. O trabalho tem sido caracterizado por alguns estudiosos como satírico, mas Ginzberg concluiu que foi feito com seriedade.

No texto, um amuleto é inscrito com os nomes de três anjos (Senoy, Sansenoy e Semangelof) e colocado no pescoço dos meninos recém-nascidos para protegê-los dos lilin até a circuncisão. Os amuletos usados ​​contra Lilith que se pensava derivar desta tradição são, de fato, datados como sendo muito mais antigos. O conceito de Eva ter uma antecessora não é exclusivo do Alfabeto, e não é um conceito novo, como pode ser encontrado em Gênesis Rabbá. No entanto, a ideia de que Lilith foi a antecessora pode ser exclusiva do Alfabeto.

A ideia no texto de que Adão teve uma esposa antes de Eva pode ter se desenvolvido a partir de uma interpretação do Livro de Gênesis e seus relatos de criação dual; enquanto Gênesis 2:22 descreve a criação de Eva por Deus da costela de Adão, uma passagem anterior, Gênesis 1:27, já indica que uma mulher havia sido feita: “Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” O texto do alfabeto coloca a criação de Lilith após as palavras de Deus em Gênesis 2:18 que “não é bom que o homem esteja só”; neste texto, Deus forma Lilith do barro do qual ele fez Adão, mas ela e Adão brigam. Lilith afirma que, como ela e Adão foram criados da mesma forma, eles eram iguais e ela se recusa a se submeter a ele:

Depois que Deus criou Adão, que estava sozinho, Ele disse: “Não é bom que o homem esteja só”. Ele então criou uma mulher para Adão, da terra, como Ele mesmo havia criado Adão, e a chamou de Lilith. Adão e Lilith imediatamente começaram a brigar. Ela disse: “Eu não vou deitar embaixo”, e ele disse: “Eu não vou ficar embaixo de você, mas apenas em cima. Pois você só serve para estar na posição inferior, enquanto eu sou o superior”. Lilith respondeu: “Somos iguais um ao outro, pois ambos fomos criados da terra”. Mas eles não ouviriam um ao outro. Quando Lilith viu isso, ela pronunciou o Nome Inefável e fugiu voando para o ar.

Adão ficou em oração diante de seu Criador: “Soberano do universo!” ele disse, “a mulher que você me deu fugiu.” Imediatamente, o Santo, bendito seja Ele, enviou esses três anjos Senoy, Sansenoy e Semangelof, para trazê-la de volta.

Disse o Santo a Adão: “Se ela concordar em voltar, o que foi feito é bom. Se não, ela deve permitir que cem de seus filhos morram todos os dias.” Os anjos deixaram Deus e perseguiram Lilith, a quem alcançaram no meio do mar, nas águas impetuosas onde os egípcios estavam destinados a se afogar (ou seja, o Mar Vermelho). Disseram-lhe a palavra de Deus, mas ela não quis voltar. Os anjos disseram: “Nós a afogaremos no mar”.

“Deixem-me!’ ela disse. “Eu fui criada apenas para causar doenças às crianças. Se a criança for do sexo masculino, eu tenho domínio sobre ele por oito dias após seu nascimento, e se for do sexo feminino, por vinte dias.”

Quando os anjos ouviram as palavras de Lilith, eles insistiram que ela voltasse. Mas ela jurou a eles pelo nome do Deus vivo e eterno: “Sempre que eu vir você ou seus nomes ou suas formas em um amuleto, não terei poder sobre aquela criança”. Ela também concordou em que cem de seus filhos morressem todos os dias. Assim, todos os dias, cem demônios perecem e, pela mesma razão, escrevemos os nomes dos anjos nos amuletos das crianças. Quando Lilith vê seus nomes, ela se lembra de seu juramento e a criança se recupera.

O pano de fundo e o propósito do Alfabeto de Ben-Sira não são claros. É uma coleção de histórias sobre heróis da Bíblia e do Talmude, e pode ter sido uma coleção de contos folclóricos, uma refutação de movimentos cristãos, caraítas ou outros movimentos separatistas; seu conteúdo parece tão ofensivo aos judeus contemporâneos que chegou a ser sugerido que poderia ser uma sátira antijudaica, embora, em qualquer caso, o texto tenha sido aceito pelos místicos judeus da Alemanha medieval.

O Alfabeto de Ben-Sira é a fonte sobrevivente mais antiga da história, e a concepção de que Lilith foi a primeira esposa de Adão só se tornou amplamente conhecida com o Lexicon Talmudicum do século XVII do estudioso alemão Johannes Buxtorf.

Nesta tradição popular que surgiu no início da Idade Média, Lilith, um demônio feminino dominante, tornou-se identificada com Asmodeus, o Rei dos Demônios, como sua rainha. Asmodeus já era bem conhecido nessa época por causa das lendas sobre ele no Talmude. Assim, a fusão de Lilith e Asmodeus era inevitável. O segundo mito de Lilith cresceu para incluir lendas sobre outro mundo e, segundo alguns relatos, este outro mundo existia lado a lado com este, Yenne Velt é a palavra em iídiche para este descrito “Outro Mundo”. Neste caso, acreditava-se que Asmodeus e Lilith procriavam infinitamente descendentes demoníacos e espalhavam o caos a cada passo.

Duas características primárias são vistas nessas lendas sobre Lilith: Lilith como a encarnação da luxúria, fazendo com que os homens sejam desencaminhados, e Lilith como uma bruxa assassina de crianças, que estrangula neonatos indefesos. Esses dois aspectos da lenda de Lilith pareciam ter evoluído separadamente; dificilmente há um conto em que ela englobe os dois papéis. Mas o aspecto do papel de bruxa que Lilith desempenha amplia seu arquétipo do lado destrutivo da bruxaria. Tais histórias são comumente encontradas no folclore judaico.

Lilith e a Influência das Tradições Rabínicas:

 

 

Adão agarra uma criança na presença da sequestradora Lilith. Fresco por Filippino Lippi, Basílica de Santa Maria Novella, Florença.

Embora a imagem de Lilith do Alfabeto de Ben Sira não tenha precedentes, alguns elementos em seu retrato podem ser rastreados até as tradições talmúdicas e midráshicas que surgiram em torno de Eva.

Em primeiro lugar, a própria introdução de Lilith na história da criação repousa no mito rabínico, motivado pelos dois relatos separados da criação em Gênesis 1:1-2:25, de que havia duas mulheres originais. Uma maneira de resolver a aparente discrepância entre esses dois relatos era supor que deve ter havido alguma outra primeira mulher, além daquela posteriormente identificada com Eva. Os rabinos, notando a exclamação de Adão, “desta vez (zot hapa’am) [esta é] osso do meu osso e carne da minha carne” (Gênesis 2:23), tomaram como uma insinuação de que já deve ter havido um ” primeira vez”. De acordo com Gênesis Rabbá 18:4, Adão ficou enojado ao ver a primeira mulher cheia de “poeira e sangue”, e Deus teve que lhe fornecer outra. A criação subsequente é realizada com as devidas precauções: Adão é feito dormir, para não testemunhar o processo em si (Sinédrio 39a), e Eva é adornada com joias finas (Gênesis Rabbá 18:1) e trazida a Adão pelos anjos Gabriel e Miguel (ibid. 18:3). No entanto, em nenhum lugar os rabinos especificam o que aconteceu com a primeira mulher, deixando o assunto aberto para mais especulações. Esta é a lacuna na qual a tradição posterior de Lilith poderia se encaixar.

Em segundo lugar, esta nova mulher ainda é recebida com duras alegações rabínicas. Novamente jogando com a frase hebraica zot hapa’am, Adão, de acordo com o mesmo midrash, declara: “é ela [zot] que está destinada a tocar o sino [zog] e falar [em contenda] contra mim, como você lê: ‘um sino de ouro [pa’amon] e uma romã’ [Êxodo 28:34] … é ela quem me perturbará [mefa’amtani] a noite toda” (Gênesis Rabbá 18:4). A primeira mulher também se torna objeto de acusações atribuídas ao rabino Josué de Siknin, segundo o qual Eva, apesar dos esforços divinos, acabou sendo “egoísta, sedutora, bisbilhoteira, fofoqueira, propensa ao ciúme, desonesta e farrista” (Gênesis Rabá 18:2). Um conjunto semelhante de acusações aparece em Gênesis Rabbá 17:8, segundo o qual a criação de Eva da costela de Adão e não da terra a torna inferior a Adão e nunca satisfeita com nada.

Terceiro, e apesar da concisão do texto bíblico a esse respeito, as iniquidades eróticas atribuídas à Eva constituem uma categoria separada de suas deficiências. Diz-se em Gênesis 3:16 que “seu desejo será para o seu marido”, ela é acusada pelos rabinos de ter um desejo sexual superdesenvolvido (Gênesis Rabbá 20:7) e constantemente seduzir Adão (Gênesis Rabbá 23:5). No entanto, em termos de popularidade e disseminação textual, o motivo de Eva copulando com a serpente primitiva tem prioridade sobre suas outras transgressões sexuais. Apesar do caráter pitoresco bastante inquietante desse relato, ele é transmitido em vários lugares: Gênesis Rabá 18:6 e BT Sotah 9b, Shabat 145b–146a e 156a, Yevamot 103b e Avodah Zarah 22b.

Lilith na Cabala:

 

 

A Queda do Homem, por Cornelis van Haarlem (1592), mostrando a serpente no Jardim do Éden como uma mulher.

O misticismo cabalístico tentou estabelecer uma relação mais exata entre Lilith e Deus. Com suas características principais bem desenvolvidas no final do período talmúdico, após seis séculos decorridos entre os textos de encantamento aramaico que mencionam Lilith e os primeiros escritos cabalísticos espanhóis no século XIII, ela reaparece, e sua história de vida torna-se conhecida em maiores detalhes mitológicos. Sua criação é descrita em muitas versões alternativas.

Uma versão menciona sua criação como anterior à de Adão, no quinto dia, porque as “criaturas viventes” com cujos enxames Deus encheu as águas incluíam Lilith. Uma versão semelhante, relacionada às primeiras passagens talmúdicas, relata como Lilith foi moldada com a mesma substância que Adão, pouco antes. Uma terceira versão alternativa afirma que Deus originalmente criou Adão e Lilith de uma maneira que a criatura feminina estava contida no homem. A alma de Lilith estava alojada nas profundezas do Grande Abismo. Quando Deus a chamou, ela se juntou a Adão. Depois que o corpo de Adão foi criado, mil almas do lado esquerdo (mal) tentaram se unir a ele. No entanto, Deus as expulsou. Adão foi deixado deitado como um corpo sem alma. Então uma nuvem desceu e Deus ordenou que a terra produzisse uma alma vivente. Este Deus soprou em Adão, que começou a ganhar vida e sua mulher foi anexada ao seu lado. Deus separou a mulher do lado de Adão. O lado feminino era Lilith, então ela voou para as Cidades do Mar e atacou a humanidade.

Ainda outra versão afirma que Lilith emergiu como uma entidade divina que nasceu espontaneamente, seja do Grande Abismo Superno ou do poder de um aspecto de Deus (o Gevurah de Din). Esse aspecto de Deus era negativo e punitivo, assim como um de seus dez atributos (Sefirot), em sua manifestação mais baixa tem afinidade com o reino do mal e é a partir disso que Lilith se fundiu com Samael.

Uma história alternativa liga Lilith com a criação de luminares. A “primeira luz”, que é a luz da Misericórdia (uma das Sefirot), apareceu no primeiro dia da criação quando Deus disse: “Haja luz”. Esta luz ficou escondida e a Santidade ficou cercada por uma casca do mal. “Uma casca (klippa) foi criada ao redor do cérebro” e essa casca se espalhou e trouxe outra casca, que era Lilith.

Lilith na Cabala Luriânica:

Nos ensinamentos do rabino Isaac Luria, diz-se que existem muitas Liliths. Manasseh Matlub Sithon disse que “muitos Liliths e demônios estão no exterior, e sobem e descem”.

A maior delas é a esposa de Adam Qadmon, um ser que Deus usou como avatar para criar o Universo em todas as suas dez ou mais dimensões, daí um multiverso.

Outra Lilith, mais demoníaca, conhecida como a mulher da prostituição, é encontrada no livro do Zohar 1:5a. Ela é a contraparte feminina de Samael (Satanás).

A Lilith com a qual a maioria está familiarizada é a esposa de Adão no alfabeto de Ben Sira (8 a 10 séculos EC), conhecido como Adam haRishon, “o primeiro homem”, entre os cabalistas.

Existem visões mistas de Lilith no Zohar. Em um relato ela é a contraparte de Samael e uma mãe de demônios. Em outro ela é vista seduzindo os anjos caídos como Naamah; os anjos Azza e Azazael depois de desafiarem a Shekhinah (a presença feminina de Deus) sobre a criação do homem. Isto é mencionado no livro do Zohar 1:19a-b, 23a-b, 27a-b respectivamente. Quando Lilith e Naamah (outro aspecto de Lilith) estavam com Adão em sua separação de 130 anos de Eva após a queda, elas tiveram filhas nascidas de sua união. Estas foram as nashiym, as liliyot(F), os espíritos liloth que foram os que seduziram os Vigilantes. Essas filhas, juntamente com Lilith e Naamah, são restauradas a Adão através da Sabedoria de Salomão, o aspecto da Shekhinah (referida como as duas prostitutas e as Nashiym nos capítulos 4 e 5 do Zohar, o Livro da Ocultação, o Sifri D Tsri-nita).

De acordo com a tradução do rabino Isaac Luria, Isaías 34:14-15 significa “O gato selvagem se encontrará com os chacais, E o sátiro clamará ao seu companheiro, Sim, Lilith descansará lá E encontrará para ela um lugar de descanso”. A partir dessas passagens, o rabino Isaac Luria acreditava que Lilith seria restaurada a Adão através do casamento de Lia com Jacó – Jacó era Adão, Lia era Lilith e Raquel era Eva. Esta deve ser entendida como uma das muitas interpretações sobre o Zohar e de Lilith.

Lilith no Midrash Abkir:

A primeira fonte medieval a retratar Adão e Lilith na íntegra foi o Midrash A.B.K.I.R. (c. século 10), que foi seguido pelo Zohar e outros escritos cabalísticos. Diz-se que Adão é perfeito até que reconheça ou seu pecado ou o fratricídio de Caim, que é a causa de trazer a morte ao mundo. Ele então se separa da santa Eva, dorme sozinho e jejua por 130 anos. Durante este tempo “Pizna”, um nome alternativo para Lilith ou uma filha dela, deseja sua beleza e o seduz contra sua vontade. Ela dá à luz multidões de djinns e demônios, o primeiro deles sendo chamado de Agrimas. No entanto, eles são derrotados por Matusalém, que mata milhares deles com uma espada sagrada e força Agrimas a dar-lhe os nomes dos restantes, após o que os lança longe para o mar e as montanhas.

Lilith no Tratado sobre a Emanação Esquerda:

A escrita mística de dois irmãos Jacob e Isaac Hacohen, o Tratado sobre a Emanação Esquerda, que antecede o Zohar em algumas décadas, afirma que Samael e Lilith têm a forma de um ser andrógino, de dupla face, nascido da emanação do Trono da Glória e correspondendo no reino espiritual a Adão e Eva, que também nasceram como hermafroditas. Os dois casais andróginos gêmeos se pareciam e ambos “eram como a imagem do Acima”; isto é, que eles são reproduzidos em uma forma visível de uma divindade andrógina.

  1. Em resposta à sua pergunta sobre Lilith, explicarei a você a essência do assunto. Sobre este ponto há uma tradição recebida dos antigos Sábios que fizeram uso do Conhecimento Secreto dos Palácios Menores, que é a manipulação de demônios e uma escada pela qual se ascende aos níveis proféticos. Nesta tradição fica claro que Samael e Lilith nasceram como um só, semelhante à forma de Adão e Eva que também nasceram como um só, refletindo o que está acima. Este é o relato de Lilith que foi recebido pelos Sábios no Conhecimento Secreto dos Palácios.

Outra versão que também era corrente entre os círculos cabalísticos na Idade Média estabelece Lilith como a primeira das quatro esposas de Samael: Lilith, Naamah, Eisheth e Agrat bat Mahlat. Cada uma delas é mãe de demônios e tem suas próprias hostes e espíritos imundos em grande número, para não dizer inumeráveis. O casamento do arcanjo Samael e Lilith foi arranjado pelo “Dragão Cego”, que é a contrapartida do “dragão que está no mar”. O Dragão Cego atua como intermediário entre Lilith e Samael:

O Dragão Cego monta (isto é, tem relações sexuais com) Lilith, a Pecadora – que ela seja extirpada rapidamente em nossos dias, Amém! – E este Dragão Cego traz a união entre Samael e Lilith. E assim como o Dragão que está no mar (Isaías 27:1) não tem olhos, assim também o Dragão Cego que está em cima, em aparência de forma espiritual, não tem olhos, ou seja, não tem cores… (Patai 81:458) Samael é chamado de Serpente Inclinada, e Lilith é chamada de Serpente Tortuosa.

O casamento de Samael e Lilith é conhecido como o “Anjo Satanás” ou o “Outro Deus”, mas não foi permitido que durasse. Para evitar que os filhos demoníacos de Lilith e Samael, os Lilin, enchessem o mundo, Deus castrou Samael. Em muitos livros cabalísticos do século XVII, isso parece ser uma reinterpretação de um antigo mito talmúdico onde Deus castrou o Leviatã masculino e matou o Leviatã feminino para impedí-los de acasalar e, assim, destruir a Terra com seus descendentes. Com Lilith sendo incapaz de fornicar com Samael, ela procurou acasalar com homens que experimentam emissões noturnas de sêmen. Um texto da Cabala do século 15 ou 16 afirma que Deus “esfriou” a Leviatã feminina, o que significa que ele tornou Lilith infértil e que ela é uma mera fornicação.

O Tratado da Emanação Esquerda também diz que existem duas Liliths, sendo a menor casada com o grande demônio Asmodeus.

A Lilith Matrona é a companheira de Samael. Ambos nasceram na mesma hora à imagem de Adão e Eva, entrelaçados um no outro. Asmodeus o grande rei dos demônios tem como companheira a Lilith Menor (mais jovem), filha do rei cujo nome é Qafsefoni. O nome de sua companheira (de Qafsefoni) é Mehetabel filha de Matred, e sua filha é Lilith (Menor).

Outra passagem acusa Lilith de ser uma serpente tentadora de Eva.

E a Serpente, a Mulher da Prostituição, incitou e seduziu Eva através das cascas de Luz que em si é santidade. E a Serpente seduziu a Santa Eva, e o suficiente é dito para quem entende. E toda essa ruína aconteceu porque Adão, o primeiro homem, se juntou a Eva enquanto ela estava em sua impureza menstrual – esta é a sujeira e a semente impura da Serpente que montou Eva (isto é, teve relações sexuais com ela) antes que Adão a montasse (isto é, tivesse relações sexuais com ela). Eis que aqui está diante de você: por causa dos pecados de Adão, o primeiro homem, todas as coisas mencionadas vieram a existir. Pois a Lilith Maligna, quando ela viu a grandeza de sua corrupção, tornou-se forte em suas cascas, e veio a Adão (isto é, teve relações sexuais com ele) contra sua vontade, e ficou quente com ele (ou seja, ficou grávida dele) e deu-lhe muitos demônios e espíritos e Lilin. (Patai 81:455f).

Lilith no Zohar:

As referências à Lilith no Zohar incluem o seguinte:

Ela vagueia à noite, e vai por todo o mundo e faz esporte com os homens e faz com que eles emitam sementes. Em todo lugar onde um homem dorme sozinho em uma casa, ela o visita e o agarra e se apega a ele e tem seu desejo dele, e carrega dele. E ela também o aflige com doença, e ele não sabe disso, e tudo isso acontece quando a lua está minguante.

Esta passagem pode estar relacionada à menção de Lilith no Talmude, Shabbath 151b (veja acima), e também ao Talmude, Eruvin 18b onde as emissões noturnas estão conectadas com a geração de demônios.

De acordo com Rapahel Patai, fontes mais antigas afirmam claramente que após a estada de Lilith no Mar Vermelho, mencionada também em Legends of the Jews (As Lendas dos Judeus, de Louis Ginzberg), ela retornou a Adão e gerou filhos dele, forçando-se sobre ele (ou seja, tendo relações sexuais com ele). Antes de fazer isso, ela se apega a Caim e lhe dá numerosos espíritos e demônios. No Zohar, no entanto, diz-se que Lilith conseguiu gerar descendentes de Adão mesmo durante sua curta experiência sexual. Lilith deixa Adão no Éden, pois ela não é uma companheira adequada para ele. Gershom Scholem propõe que o autor do Zohar, o Rabi Moisés de Leon, estava ciente tanto da tradição folclórica de Lilith quanto de outra versão conflitante, possivelmente mais antiga.

O Zohar acrescenta ainda que dois espíritos femininos em vez de um, Lilith e Naamah, desejaram Adão e o seduziram. O objetivo dessas uniões eram (a geração de) demônios e espíritos chamados de “as pragas da humanidade”, e a explicação usual adicionada era que foi através do próprio pecado de Adão que Lilith o subjugou a ter relações sexuais com ela contra sua vontade.

Lilith nos Amuletos Mágicos Hebraicos do Século XVII:

 

 

Amuleto hebraico medieval destinado a proteger uma mãe e seu filho de Lilith,

Uma cópia da tradução de Jean de Pauly do Zohar na Biblioteca Ritman contém uma folha hebraica impressa do final do século XVII inserida para uso em amuletos mágicos onde o profeta Elias confronta Lilith.

A folha contém dois textos dentro das bordas, que são amuletos, um para um homem (‘lazakhar’), o outro para uma mulher (‘lanekevah’). As invocações mencionam Adão, Eva e Lilith, ‘Chavah Rishonah’ (a primeira Eva, que é idêntica a Lilith), também demônios ou anjos: Sanoy, Sansinoy, Smangeluf, Shmari’el (o guardião) e Hasdi’el (o misericordioso). Algumas linhas no idioma iídiche são seguidas pelo diálogo entre o profeta Elias e Lilith quando ele a encontrou com seu exército de demônios para matar a mãe e levar seu filho recém-nascido que desejavam (‘beber seu sangue, chupar seus ossos e comer sua carne’), provavelmente no episódio da Viúva de Sarepta (1 Reis 17:8-24). Lilith diz a Elias que perderá seu poder se alguém usar seus nomes secretos, que ela revela no final: lilith, abitu, abizu, hakash, avers hikpodu, ayalu, matrota

Em outros amuletos, provavelmente informados pelo Alfabeto de Ben-Sira, ela é a primeira esposa de Adão. (Yalqut Reubeni, Zohar 1:34b, 3:19)

A porção do dicionário de Charles Richardson da Encyclopædia Metropolitana acrescenta à sua discussão etimológica da palavra lullaby (canção de ninar) “uma nota manuscrita escrita em uma cópia da Etymologicon Linguæ Anglicanæ de 1671, de Stephen Skinner, que afirma que a palavra lullaby (canção de ninar) se origina de Lillu abi abi, um encantamento hebraico que significa “Vá embora, Lilith!” recitado por mães judias no berço de uma criança. Richardson não endossou a teoria e os lexicógrafos modernos a consideram como uma etimologia falsa.

LILITH NA MITOLOGIA GRECO-ROMANA:

 

 

Lâmia (primeira versão), por John William Waterhouse, 1905.

No livro da Vulgata Latina de Isaías 34:14, Lilith é traduzida como lâmia.

De acordo com Augustine Calmet, Lilith tem conexões com visões iniciais sobre vampiros e feitiçaria:

Alguns eruditos pensaram ter descoberto alguns vestígios de vampirismo na mais remota antiguidade; mas tudo o que dizem sobre isso não chega nem perto do que está relacionado aos vampiros. As lâmias, as strigas, os feiticeiros que eles acusavam de sugar o sangue de pessoas vivas e assim causar sua morte, os magos que diziam causar a morte de crianças recém-nascidas por encantos e feitiços malignos, nada mais são do que o que entendemos pelo nome de vampiros; mesmo que se admita que essas lâmias e strigas realmente existiram, o que não acreditamos que possa ser bem provado. Admito que esses termos [lâmia e striga] são encontrados nas versões da Sagrada Escritura. Por exemplo, Isaías, descrevendo a condição à qual Babilônia deveria ser reduzida após sua ruína, diz que ela se tornará a morada de sátiros, lâmias e strigas (em hebraico, lilith). Este último termo, segundo os hebreus, significa a mesma coisa, como os gregos expressam por strix e lâmias, que são feiticeiras ou magos, que procuram matar os recém-nascidos. De onde vem que os judeus estão acostumados a escrever nos quatro cantos da câmara de uma mulher que acabou de dar à luz: “Adão, Eva, saia daqui, lilith”. … Os antigos gregos conheciam essas feiticeiras perigosas pelo nome de lâmias, e acreditavam que devoravam crianças ou sugavam todo o seu sangue até morrerem.

De acordo com Siegmund Hurwitz, a Lilith talmúdica está ligada à Lâmia grega, que, de acordo com Hurwitz, também governava uma classe de demônios-lâmias que roubavam crianças. Lâmia tinha o título de “assassina de crianças” e era temida por sua malevolência, como Lilith. Ela tem diferentes origens conflitantes e é descrita como tendo um corpo humano da cintura para cima e um corpo serpentino da cintura para baixo. Uma fonte afirma simplesmente que ela é filha da deusa Hécate, outra, que Lâmia foi posteriormente amaldiçoada pela deusa Hera para ter filhos natimortos por causa de sua associação sexual com Zeus; alternativamente, Hera matou todos os filhos de Lâmia (exceto Cila) com raiva por Lâmia ter dormido com seu marido, Zeus. A dor fez com que Lâmia se transformasse em um monstro que se vingava das mães roubando seus filhos e os devorando. Lâmia tinha um apetite sexual vicioso que combinava com seu apetite canibal por crianças. Ela era notória por ser um espírito vampírico e adorava sugar o sangue dos homens. Seu dom era a “marca de uma Sibila”, um dom da segunda visão. Zeus disse ter lhe dado o dom da visão. No entanto, ela foi “amaldiçoada” para nunca ser capaz de fechar os olhos para que ela ficasse para sempre obcecada por seus filhos mortos. Com pena de Lâmia, Zeus deu a ela a capacidade de remover e recolocar os olhos das órbitas.

LILITH NO MANDEÍSMO:

Nas escrituras mandeanas, como Ginza Rabba e Qolasta, as liliths são mencionadas como habitantes do Mundo das Trevas.

LILITH NA CULTURA ÁRABE:

O escritor ocultista Ahmad al-Buni (d. 1225), em seu Sol do Grande Conhecimento (árabe: الكبرى المعارف شمس), menciona um demônio chamado “a mãe dos filhos” (الصبيان  ام), um termo também usado para “colocar em um lugar”. Tradições folclóricas registradas por volta de 1953 falam sobre um gênio chamado Qarinah, que foi rejeitada por Adão e acasalou com Iblis (O “Satã” do Islã). Ela deu à luz uma série de demônios e ficou conhecida como a mãe deles. Para se vingar de Adão, ela persegue crianças humanas. Como tal, ela mataria o bebê de uma mãe grávida no útero, causaria impotência aos homens ou atacava crianças pequenas com doenças. De acordo com as práticas ocultas da feitiçaria árabe, ela estaria sujeita ao rei demônio Murrah al-Abyad, que parece ser outro nome para Iblis usado em escritos mágicos. Histórias sobre Qarinah e Lilith se fundiram no início do Islã.

LILITH NA LITERATURA OCIDENTAL:

Lilith na Literatura Alemã:

 

 

Fausto e Lilith, por Richard Westall (1831).

A primeira aparição de Lilith na literatura do período romântico (1789-1832) foi na obra de Goethe de 1808, Fausto: A Primeira Parte de uma Tragédia.

Fausto:

Quem é aquela ali?

Mefistófeles:

Dê uma boa olhada.

Lilith.

Fausto:

Lilith? Quem é aquela?

Mefistófeles:

A esposa de Adão, sua primeira. Cuidado com ela.

O único orgulho de sua beleza é seu cabelo perigoso.

Quando Lilith enrola em torno de jovens

Ela não os solta tão cedo.

—  Tradução de Greenberg de 1992, linhas 4206–4211.

Depois que Mefistófeles oferece esse aviso a Fausto, ele, ironicamente, encoraja Fausto a dançar com Lilith, “a Bruxa Bonita”. Lilith e Fausto travam um breve diálogo, onde Lilith conta os dias passados ​​no Éden.

Fausto: [dançando com a jovem bruxa]

Um lindo sonho que sonhei um dia

Eu vi uma macieira de folhas verdes,

Duas maçãs balançavam em um caule,

Tão tentadoras! Subi para elas.

A Bruxa Bonita (Lilith):

Desde os dias do Éden

Maçãs têm sido o desejo do homem.

Como estou feliz em pensar, senhor,

Maçãs também crescem no meu jardim.

—  Tradução de Greenberg de 1992, linhas 4216 – 4223.

Lilith na Literatura Inglesa:

 

 

Lady Lilith por Dante Gabriel Rossetti (1866-1868, 1872-1873).

A Irmandade Pré-Rafaelita, que se desenvolveu por volta de 1848, foi muito influenciada pelo trabalho de Goethe sobre o tema de Lilith. Em 1863, Dante Gabriel Rossetti, da Irmandade, começou a pintar o que mais tarde seria sua primeira versão de Lady Lilith, uma pintura que ele esperava ser sua “melhor imagem até agora”. Os símbolos que aparecem na pintura aludem à fama de “femme fatale” da Lilith romântica: papoulas (morte e frio) e rosas brancas (paixão estéril). Acompanhando sua pintura Lady Lilith de 1866, Rossetti escreveu um soneto intitulado Lilith, que foi publicado pela primeira vez no panfleto-revisão de Swinburne (1868), Notes on the Royal Academy Exhibition.

Da primeira esposa de Adão, Lilith, conta-se

(A bruxa que ele amava antes da dádiva de Eva,)

Que, antes da serpente, sua doce língua pudesse enganar,

E seu cabelo encantado foi o primeiro ouro.

E ela ainda está sentada, jovem enquanto a terra é velha,

E, sutilmente contemplativa de si mesma,

Atrai homens para observar a teia brilhante que ela pode tecer,

Até que o coração, o corpo e a vida estejam em seu poder.

A rosa e a papoula são sua flor; Para onde

Ele não é encontrado, ó Lilith, a quem derramou perfume

E os beijos suaves e o sono suave aprisionarão?

Eis! Como os olhos daquele jovem queimaram nos seus, assim foi

Teu feitiço através dele, e deixou seu pescoço reto dobrado

E em volta de seu coração um cabelo dourado estrangulado.

— Collected Works, 216.

O poema e a imagem apareceram juntos ao lado da pintura de Rossetti, Sibylla Palmifera e do soneto Soul’s Beauty (A Beleza da Alma). Em 1881, o soneto de Lilith foi renomeado “Body’s Beauty (A Beleza do Corpo)” para contrastá-lo com a Soul’s Beauty (A Beleza da Alma). Os dois foram colocados sequencialmente na coleção The House of Life (A Casa da Vida, sonetos número 77 e 78).

Rossetti escreveu em 1870:

Lady [Lilith] … representa uma Lilith Moderna penteando seus abundantes cabelos dourados e olhando para si mesma no espelho com aquela auto-absorção por cujo estranho fascínio tais naturezas atraem outros para dentro de seu próprio círculo.

— Rossetti, W. M. ii.850, ênfase de D. G. Rossetti.

Isso está de acordo com a tradição folclórica judaica, que associa Lilith tanto com cabelos longos (um símbolo do perigoso poder sedutor feminino na cultura judaica), quanto com o poder de possuir mulheres entrando nelas através de espelhos.

O poeta vitoriano Robert Browning reimaginou Lilith em seu poema “Adão, Lilith e Eva”. Publicado pela primeira vez em 1883, o poema usa os mitos tradicionais em torno da tríade de Adão, Eva e Lilith. Browning retrata Lilith e Eva como sendo amigáveis ​​e cúmplices uma com a outra, enquanto se sentam juntas em ambos os lados de Adão. Sob a ameaça de morte, Eva admite que nunca amou Adão, enquanto Lilith confessa que sempre o amou:

Como o pior dos venenos deixou meus lábios,

Eu pensei: ‘Se, apesar dessa mentira, ele se despir

A máscara da minha alma com um beijo – eu rastejo

Sua escrava — alma, corpo e tudo!

— Browning 1098.

Browning concentrou-se nos atributos emocionais de Lilith, em vez das de suas antigas predecessores demoníacas.

O autor escocês George MacDonald também escreveu um romance de fantasia intitulado Lilith, publicado pela primeira vez em 1895. MacDonald empregou o personagem de Lilith a serviço de um drama espiritual sobre pecado e redenção, no qual Lilith encontra uma salvação duramente conquistada. Muitas das características tradicionais da mitologia de Lilith estão presentes na descrição do autor: longos cabelos escuros, pele pálida, ódio e medo de crianças e bebês e uma obsessão por se olhar no espelho. A Lilith de MacDonald também tem qualidades vampíricas: ela morde as pessoas e suga seu sangue para se sustentar.

O poeta e estudioso australiano Christopher John Brennan (1870–1932), incluiu uma seção intitulada “Lilith” em sua obra principal “Poems: 1913” (Sydney: G. B. Philip and Son, 1914). A seção “Lilith” contém treze poemas explorando o mito de Lilith e é central para o significado da coleção como um todo.

A história de 1940 de C. L. Moore, Fruit of Knowledge (O Fruto do Conhecimento), é escrita do ponto de vista de Lilith. É uma releitura da Queda do Homem como um triângulo amoroso entre Lilith, Adão e Eva – com Eva comendo o fruto proibido sendo nesta versão o resultado de manipulações equivocadas da ciumenta Lilith, que esperava que sua rival fosse desacreditada e destruída por Deus e assim recuperar o amor de Adão.

A coleção Full Blood (Plena de Sangue) de 2011 do poeta britânico John Siddique tem um conjunto de 11 poemas chamado The Tree of Life (A Árvore da Vida), que apresenta Lilith como o aspecto feminino divino de Deus. Vários dos poemas apresentam Lilith diretamente, incluindo a peça Unwritten (Não-Escrita), que lida com o problema espiritual do feminino sendo removido pelos escribas da Bíblia.

Lilith também é mencionada no livro As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, de C.S.Lewis. O personagem Sr. Castor atribui a ascendência do principal antagonista, Jadis, a Feiticeira Branca, à Lilith.

Lilith é um poema de Vladimir Nabokov, escrito em 1928. Muitos o conectaram à Lolita, mas Nabokov nega veementemente: “Leitores inteligentes se absterão de examinar essa fantasia impessoal em busca de qualquer ligação com minha ficção posterior”.

LILITH NO ESOTERISMO OCIDENTAL E NO OCULTISMO MODERNO:

A representação de Lilith no Romantismo continua a ser popular entre os Wiccanos e em outros Ocultismos modernos. Existem algumas ordens mágicas dedicadas à subcorrente de Lilith, apresentando iniciações especificamente relacionadas aos arcanos da “primeira mãe”. Duas organizações que usam iniciações e magias associadas à Lilith são a Ordo Antichristianus Illuminati e a Order of Phosphorus. Lilith aparece como uma súcubo em De Arte Magica de Aleister Crowley. Lilith também foi um dos nomes do meio da primeira filha de Crowley, Nuit Ma Ahathoor Hecate Sappho Jezebel Lilith Crowley (1904–1906), e Lilith às vezes é identificada com Babalon nos escritos thelêmicos. Muitos dos primeiros escritores ocultistas que contribuíram para a Wicca moderna expressaram uma reverência especial por Lilith. Charles Leland, no apêndice do livro Aradia, ou o Evangelho das Bruxas, associou Aradia à Lilith: Aradia, diz Leland, é Herodias, que era considerada no folclore da stregheria como associada à Diana como a líder das bruxas. Leland observa ainda que Herodias é um nome que vem do oeste da Ásia, onde denotava uma forma primitiva de Lilith.

Gerald Gardner afirmou que havia adoração histórica contínua de Lilith até os dias atuais, e que seu nome às vezes é dado à deusa sendo personificada no coven pela sacerdotisa. Esta ideia foi ainda atestada por Doreen Valiente, que a citou como uma deusa que preside a Bruxaria: “a personificação dos sonhos eróticos, o desejo reprimido por prazeres”.

Em alguns conceitos contemporâneos, Lilith é vista como a personificação da Deusa, uma designação que se acredita ser compartilhada com o que essas religiões acreditam serem suas contrapartes: Inanna, Ishtar, Asherah (Aserá), Anath, Anahita e Ísis. De acordo com uma visão, Lilith era originalmente uma deusa mãe suméria, babilônica ou hebraica do parto, das crianças, das mulheres e da sexualidade.

Raymond Buckland afirma que Lilith é uma deusa da lua escura a par com a deusa hindu Kali.

Muitos satanistas teístas modernos consideram Lilith como uma deusa. Ela é considerada uma deusa da independência por aqueles satanistas e muitas vezes é adorada por mulheres, mas as mulheres não são as únicas pessoas que a adoram. Lilith é popular entre os satanistas teístas por causa de sua associação com Satanás ou Satã. Alguns satanistas acreditam que ela é a esposa de Satanás e, portanto, pensam nela como uma figura materna. Outros baseiam sua reverência por ela em sua história como súcubo e a elogiam como uma deusa do sexo. Uma abordagem diferente para uma Lilith satânica afirma que ela já foi uma deusa da fertilidade e da agricultura.

A tradição de mistério ocidental associa Lilith com as Qliphoth da Cabala. Samael Aun Weor em seu livro, A Pistis Sophia Desvelada escreve que os homossexuais são os “sequazes de Lilith”. Da mesma forma, as mulheres que se submetem ao aborto voluntário e as que apoiam essa prática são “vistas na esfera de Lilith”. Dion Fortune escreve em sua Autodefesa Psíquica que: “A Virgem Maria é refletida em Lilith”, e que Lilith é a fonte de “sonhos luxuriosos”.

Devido ao fato do tema de Lilith no Esoterismo Ocidental e no Ocultismo Moderno ser bastante amplo e diverso, o mesmo será abordado em outros artigos.

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Fontes:

  • Charles Fossey, La Magie Assyrienne, Paris: 1902.
  • Siegmund Hurwitz, LilithSwitzerland: Daminon Press, 1992. Jerusalem Bible. New York: Doubleday, 1966.
  • Samuel Noah Kramer, Gilgamesh and the Huluppu-Tree: A reconstructed Sumerian Text.(Kramer’s Translation of the Gilgamesh Prologue), Assyriological Studies of the Oriental Institute of the University of Chicago 10, Chicago: 1938.
  • Raphael Patai, Adam ve-Adama, tr. as Man and Earth; Jerusalem: The Hebrew Press Association, 1941–1942.
  • Patai, Raphael(1990) [1967]. “Lilith”. The Hebrew Goddess. Raphael Patai Series in Jewish Folklore and Anthropology (3rd Enlarged ed.). Detroit: Wayne State University Press. pp. 221–251. ISBN 9780814322710OCLC 20692501.
  • Archibald Sayce, Hibbert Lectures on Babylonian Religion
  • Schwartz, Howard, Lilith’s Cave: Jewish tales of the supernatural, San Francisco: Harper & Row, 1988.
  • Campbell Thompson, Semitic Magic, its Origin and Development, London: 1908.
  • Augustin Calmet, (1751) Treatise on the Apparitions of Spirits and on Vampires or Revenantsof Hungary, Moravia, et al. The Complete Volumes I & II. 2016. ISBN 978-1-5331-4568-0.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/as-origens-de-lilith/