A Voz do Silêncio

Tradução de Carlos Cardoso Aveline

Prefácio de Helena Blavatsky

As páginas que se seguem têm como origem o Livro dos Preceitos de Ouro, uma das obras que são colocadas nas mãos dos estudantes místicos do Oriente. O conhecimento destas páginas é obrigatório naquela Escola cujos ensinamentos são aceitos por muitos teosofistas. Portanto, como conheço de memória muitos destes Preceitos, o trabalho de traduzi-los foi uma tarefa relativamente fácil para mim.

É bem sabido que, na Índia, os métodos de desenvolvimento psíquico diferem de acordo com os Gurus (professores ou mestres), não só porque eles pertencem a diferentes escolas de filosofia, das quais existem seis, mas também porque cada Guru tem o seu próprio sistema e o mantém em grande segredo. Porém do outro lado dos Himalaias o método das Escolas Esotéricas não difere, a menos que o Guru seja simplesmente um Lama, e tenha poucos conhecimentos mais do que aqueles a quem ensina.

A obra da qual eu traduzo o material aqui publicado faz parte da mesma série de que foram tiradas as “Estâncias” do Livro de Dzyan, e nas quais se baseia a Doutrina Secreta. Assim como a grande obra mística chamada Paramartha − que, segundo conta a lenda de Nagarjuna, foi dada ao grande Arhat pelos Nagas ou “Serpentes” (na verdade um termo usado para designar os antigos Iniciados) −, o Livro dos Preceitos de Ouro reivindica a mesma origem. No entanto, as suas máximas e suas ideias, embora sejam nobres e originais, são frequentemente encontradas sob diferentes formas em obras sânscritas como o Dnyaneshvari, aquele esplêndido tratado místico no qual Krishna descreve para Arjuna, em cores brilhantes, o estado de um Iogue plenamente iluminado; e também em certos Upanixades. Isto é bastante natural, já que a maior parte, se não a totalidade dos grandes Arhats − os primeiros seguidores de Gautama Buddha − eram hindus e arianos, não mongóis, especialmente os que emigraram para o Tibete. Só as obras deixadas por Aryasangha já são muito numerosas.

Os Preceitos originais estão gravados em finas folhas ou lâminas oblongas; as cópias são feitas, com muita frequência, em discos. Estes discos, ou chapas, são geralmente preservados nos altares dos templos que existem junto aos centros onde as Escolas chamadas de contemplativas, ou Mahayana (Yogacharya), estão estabelecidas. Os Preceitos são escritos de várias maneiras, às vezes em tibetano, e na maior parte dos casos em escrita ideográfica. A língua sacerdotal (Senzar), além de possuir o seu próprio alfabeto, também pode ser usada em vários tipos de escrita, em símbolos cifrados que parecem mais ideogramas do que sílabas. Outro método (lug, em tibetano) consiste em usar algarismos e cores, cada um dos quais corresponde a uma letra do alfabeto tibetano (trinta letras simples, e setenta e quatro letras compostas), formando-se assim um alfabeto criptográfico completo. Quando são usados os ideogramas, há um modo definido de ler o texto, porque, neste caso, os símbolos e sinais usados em astrologia − isto é, os doze animais do zodíaco e as sete cores primárias, cada uma delas com três tonalidades, a mais clara, a básica e a mais escura − correspondem às trinta e três letras do alfabeto simples, para as palavras e as frases. Por isso, neste método, os doze “animais”, repetidos cinco vezes e associados aos cinco elementos e às sete cores, formam um alfabeto inteiro, composto de sessenta letras sagradas e doze signos. Um sinal, colocado no início do texto, determina se o leitor deve formar as palavras do modo indiano, segundo o qual cada palavra é simplesmente uma adaptação do sânscrito, ou de acordo com o princípio chinês da leitura por ideogramas. A maneira mais fácil, no entanto, é a que permite ao leitor não usar nenhuma língua em especial, ou usar qualquer língua, já que os sinais e símbolos eram, assim como os números ou algarismos arábicos, propriedade comum e internacional dos místicos iniciados e os seus seguidores. A mesma peculiaridade é característica de um dos modos chineses de escrever, que pode ser lido com igual facilidade por qualquer um que esteja familiarizado com o símbolo: por exemplo, um japonês pode lê-lo em sua própria língua, assim como um chinês o lê com igual facilidade em seu idioma.

O Livro dos Preceitos de Ouro − alguns dos quais são pré-budistas enquanto outros pertencem a uma data posterior − contém cerca de noventa diferentes tratados pequenos. Destes, eu memorizei trinta e nove, alguns anos atrás. Para traduzir o resto, eu teria que recorrer a notas espalhadas por um número excessivamente grande de papéis e memorandos reunidos durante os últimos vinte anos e que nunca foram colocados em ordem, para que a tarefa se tornasse pelo menos um pouco mais fácil. Além disso, nem todos eles poderiam ser traduzidos para um mundo tão egoísta e tão apegado aos objetos dos sentidos que não está preparado, de modo algum, para receber do modo correto uma ética tão elevada. Porque, a menos que o homem persevere seriamente na busca do autoconhecimento, ele jamais ouvirá com boa vontade conselhos desta natureza.

E, no entanto, esta ética ocupa volumes e volumes da literatura oriental, especialmente nos Upanishads. “Mate o desejo de viver”, diz Krishna a Arjuna. Este desejo se concentra apenas no corpo, o veículo do eu materializado, e não no EU que é “eterno, indestrutível, que não mata nem pode ser morto” (Katopanishad). “Mate a sensação”, ensina o Sutta Nipata; “olhe do mesmo modo para o prazer e a dor, o ganho e a perda, a vitória e a derrota.” E ainda: “Busque refúgio apenas no Eterno” (ibid). “Destrua o sentido de separatividade”, repete Krishna de muitas maneiras diferentes. “A mente (Manas) que segue os sentidos oscilantes torna a alma (Buddhi) tão indefesa quanto o barco que o vento leva à deriva pelas águas.” (Bhagavad Gita, cap. II)

Portanto, foi considerado mais correto fazer apenas uma seleção sábia daqueles tratados que serão mais úteis para os poucos realmente místicos da Sociedade Teosófica, e que irão, certamente, atender às necessidades deles. Só eles serão capazes de apreciar estas palavras de Krishna-Cristos, o “Eu Superior”:

“Os sábios não se preocupam nem pelos vivos nem pelos mortos. Eu nunca deixei de existir, nem você, nem estes líderes dos homens. Nenhum de nós jamais deixará de existir.” (Bhagavad Gita, cap. II)

Nesta tradução, fiz o melhor que pude para preservar a beleza poética da linguagem simbólica que caracteriza o original. Cabe ao leitor avaliar até que ponto o esforço foi bem sucedido.

“H.P.B.”, 1889.

A VOZ DO SILÊNCIO

1. Estas instruções são para aqueles que ignoram os perigos dos IDDHI inferiores.

2. Aquele que pretende ouvir a voz de Nada , o “Som Sem Som”, e compreendê-la, deve aprender antes a natureza de Dharana.

3. Tendo se tornado indiferente aos objetos de percepção, o aluno deve buscar o Rajá dos sentidos, o Produtor do Pensamento, aquele que desperta a ilusão.

4. A Mente é o grande Assassino do Real.

5. O Discípulo deve matar o Assassino.

Porque −

6. Quando para ele mesmo a sua forma parecer irreal, como parecem irreais ao despertar as formas que ele vê em sonhos;

1 A palavra páli Iddhi é sinônimo do termo sânscrito Siddhi, e se refere às faculdades psíquicas, os poderes anormais no homem. Há dois tipos de Siddhis. Um grupo abrange as energias inferiores, grosseiras, psíquicas e mentais; o outro grupo exige o mais elevado treinamento dos poderes Espirituais. Krishna afirma no Shrimad Bhagavad [Bhagavad Gita]: “Aquele que se dedica à realização da Ioga, que controlou seus sentidos e concentrou sua mente em mim (Krishna) a tal Iogue todos os Siddhis estão prontos para servir.”

2 A “Voz Sem Som”, ou a “Voz do Silêncio”. Do ponto de vista literal, talvez a melhor tradução seja “A Voz no Som Espiritual”, já que Nada é a palavra equivalente, em sânscrito, de um termo em senzar.

3 Dharana é a intensa e perfeita concentração da mente sobre um objeto interior, acompanhada de completa abstração de tudo o que pertence ao Universo externo, ou ao mundo dos sentidos.

7. Quando ele tiver cessado de escutar os muitos, ele poderá discernir o UM − o som interno que
mata os sons externos.

8. Só então, e não antes disso, ele poderá abandonar a região de Asat, do falso, para vir até o reino de Sat, o verdadeiro.

9. Antes que a Alma possa ver, a Harmonia interior deve ser alcançada e os olhos físicos precisam ficar cegos para toda ilusão.

10. Antes que a Alma possa ouvir, a imagem (o homem) deve tornar-se surda tanto para rugidos como para sussurros, e tanto para o bramido dos elefantes quanto para o leve zumbido do vaga- lume dourado.

11. Antes que a Alma possa compreender e possa lembrar, ela deve estar unida ao Orador Silencioso, assim como a forma pela qual a argila é modelada se une, primeiro, à mente do oleiro.

12. Porque então a Alma irá escutar, e ela lembrará.

13. E então falará, ao ouvido interno – E ela dirá: A VOZ DO SILÊNCIO

14. Se tua Alma sorri enquanto se banha na luz do Sol da tua Vida; se tua Alma canta dentro da sua crisálida de carne e matéria; se tua Alma chora dentro do seu castelo de ilusão; se tua Alma luta para romper o cordão de prata que a liga ao MESTRE, então fica sabendo, ó Discípulo, que a tua Alma é da terra.

15. Quando diante do tumulto do mundo a tua Alma florescente se põe a escutar; quando tua Alma responde à voz ruidosa da Grande Ilusão; quando, assustada por ver as lágrimas quentes do sofrimento, ensurdecida pelos gritos de aflição, tua Alma se retira como a tímida tartaruga para dentro da carapaça do SEU PRÓPRIO INTERIOR, percebe, ó Discípulo, que tua alma não é um templo digno do Silencioso “Deus” dela própria.

16. Quando, tornando-se mais forte, a tua Alma sai do seu retiro seguro; e, rompendo com o santuário protetor, estende o seu fio de prata e se apressa para avançar; quando, olhando para sua própria imagem nas ondas do Espaço, ela murmura: “esta sou eu” − confessa, ó Discípulo, que tua Alma está presa pelas redes da ilusão.

17. Esta terra, Discípulo, é o Salão do Sofrimento, e nele, ao longo de um Caminho de duras provações, há armadilhas para fascinar o Eu através da ilusão chamada “Grande Heresia”.

18. Esta terra, ó Discípulo ignorante, é apenas a entrada sombria que leva à luz fraca existente antes do vale da verdadeira luz − aquela luz que nenhum vento pode apagar, a luz que queima sem uma mecha, e sem combustível.

19. Diz a Grande Lei: “Para que tu te tornes CONHECEDOR de TODO SER, tu tens primeiro que conhecer o SER”. Para alcançar o conhecimento daquele SER, tu deves desistir do Eu em função do Não-Eu, e desistir do ser em função do não-ser. Então poderás repousar entre as asas do GRANDE PÁSSARO. Sim, agradável é o repouso entre as asas daquilo que não nasce, nem morre, mas é o AUM, ao longo das eras da eternidade.

20. Cavalga o Pássaro da Vida, se quiseres ter conhecimento.

21. Renuncia à tua vida, se queres viver.

22. Três Salões, ó Peregrino exausto, conduzem ao final da fadiga. Três Salões, ó vencedor de Mara, te levarão através de três estados até o quarto , e dali até os sete Mundos, os mundos do Descanso Eterno.

23. Se queres aprender os nomes deles, então escuta com toda atenção e lembra.

24. O nome do primeiro Salão é IGNORÂNCIA − Avidya.

25. Este é o Salão em que tu viste a luz, em que tu vives e morrerás.

26. O nome do segundo Salão é Salão do APRENDIZADO. Nele a tua alma encontrará as flores da vida, mas sob cada flor haverá uma serpente enroscada.

27. O nome do terceiro Salão é SABEDORIA, além do qual se estendem as águas sem praia de AKSHARA, a indestrutível Fonte da Onisciência.

28. Se queres atravessar o primeiro Salão em segurança, não deixes que a tua mente confunda o fogo da luxúria, que arde ali, com a luz do sol da vida.

29. Se queres atravessar o segundo Salão em segurança, não pares para experimentar a fragrância fascinante das suas flores. Se queres libertar-te das correntes cármicas, não procures o Guru nestas regiões mayávicas.

30. Os SÁBIOS não se demoram nas regiões prazenteiras dos sentidos.

31. Os SÁBIOS não dão atenção às vozes encantadoras da ilusão.

32. Busca por aquele que te fará nascer no Salão da Sabedoria, o Salão que está mais além. Nele todas as sombras são desconhecidas, e a luz da verdade brilha com uma glória que jamais perde sua força.

33. Aquilo que nunca foi criado está presente em ti, Discípulo, assim como está presente naquele Salão. Se queres alcançá-lo e unir os dois, deves deixar de lado as tuas escuras vestimentas de ilusão. Endurece a voz da carne, não deixes que imagem alguma dos sentidos se ponha entre a sua luz e a tua, de modo que assim os dois possam tornar-se um. E, tendo compreendido a tua própria Ajnyana, foge do Salão do Aprendizado. Este Salão é perigoso em sua beleza pérfida. Ele só é necessário para a tua provação. Cuida, Lanu, para não ser fascinado e capturado por esta luz enganosa.

34. Esta luz brilha desde a joia do Grande Enganador (Mara). Ela domina os sentidos, cega a mente, e deixa o imprudente abandonado e destruído.

35. A mariposa atraída para a luz deslumbrante do teu lampião noturno está condenada a perecer no óleo viscoso. A alma imprudente que deixa de lutar contra o demônio da imitação e da ilusão, retornará à terra como escrava de Mara.

36. Observa as Hostes de Almas. Olha como elas pairam sobre o mar tempestuoso da vida humana, e como, exaustas, sangrando, com as asas quebradas, caem uma depois da outra nas ondas crescentes. Levadas por ventos terríveis, perseguidas pelo temporal, elas vão à deriva até os remoinhos, e desaparecem dentro do primeiro grande vórtice.

37. Se queres alcançar o Vale da Bem-Aventurança através do Salão da Sabedoria, Discípulo, fecha com força os teus sentidos contra a terrível heresia da Separatividade que te afasta do resto.

38. Não deixes que o teu “Nascido-no-Céu”, submerso no mar de Maya, rompa com a Fonte Universal (ALMA), mas faz com que o poder flamejante se retire até a câmara mais interna, a câmara do Coração, e moradia da Mãe do Mundo.

39. Então, desde o coração aquele Poder surgirá no sexto, a região do meio, o lugar entre os teus olhos, e se transformará no alento da ALMA UNA, a voz que tudo permeia, a voz do teu Mestre.

40. Só então tu podes tornar-te um “Caminhante do Céu”, que pisa os ventos sobre as ondas e cujo passo não toca as águas.

41. Antes de colocares o teu pé sobre o degrau superior da escada, na escala dos sons místicos, deves escutar de sete maneiras a voz do teu DEUS interior.

42. O primeiro som é como a voz doce do rouxinol cantando uma canção de despedida para sua companheira.

43. O segundo vem como o som de um címbalo prateado dos Dhyanis, acordando as estrelas cintilantes.

44. O próximo é como o lamento melodioso de um espírito do oceano, preso em sua concha.

45. E este é seguido pelo canto da Vina.

46. O quinto alcança o teu ouvido como o som agudo da flauta de bambu.

47. Ele muda em seguida para o toque de uma corneta.

48. O último vibra como o rolar distante e pesado de um trovão pela nuvem.

49. O sétimo engole todos os outros sons. Eles morrem, e então já não são ouvidos.

50. Quando os seis são destruídos e colocados aos pés do Mestre, então o discípulo se une ao UM, torna-se aquele UM e nele vive.

51. Antes de ingressar neste caminho, tu deves destruir o teu corpo lunar, limpar o teu corpo mental, e tornar puro o teu coração.

52. As águas puras da vida eterna, cristalinamente claras, não podem misturar-se às águas lamacentas da tempestade tropical.

53. A gota de orvalho do céu que brilha no meio da flor de lótus com o primeiro raio de sol da manhã, quando cai na terra se torna um pedaço de barro; olhe, a pérola agora é uma partícula de lama.

54. Luta contra teus pensamentos impuros antes que eles te dominem. Usa-os como eles te usarão, porque se os poupares e deixares que criem raízes e cresçam, deves saber que estes pensamentos te dominarão e te matarão. Tem cuidado, Discípulo, não deixes sequer que a sombra de tais pensamentos se aproxime. Porque a sombra crescerá, aumentará em tamanho e poder, e então esta coisa de escuridão absorverá o teu ser antes que tu tenhas percebido bem a presença do monstro preto e repugnante.

55. Antes que o “Poder místico” 33 possa fazer de ti um Deus, Lanu, tu deves ter desenvolvido a capacidade de destruir à vontade a tua forma lunar.

56. O Eu Material e o EU Espiritual nunca podem encontrar-se. Um dos gêmeos deve desaparecer; não há lugar para ambos.

57. Antes que a mente da tua Alma possa compreender, o casulo da personalidade deve ser esmagado; a lagarta dos sentidos deve ser destruída além da possibilidade de ressurreição.

58. Não podes trilhar o Caminho antes de te transformares no próprio Caminho.

59. Que tua Alma ouça cada grito de dor, assim como a flor de lótus se abre para beber o sol da manhã.

60. Não deixes que o sol ardente seque uma só lágrima de dor antes que tu a tenhas tirado do olho daquele que sofre.

61. Mas faz com que cada lágrima humana caia queimando no teu coração e lá permaneça; não a afastes jamais, antes que a dor que a causou tenha sido removida.

62. Estas lágrimas, ó ser de coração extremamente piedoso, estas são as correntes que irrigam os campos da compaixão imortal. É neste solo que nasce a flor da meia-noite de Buddha, mais difícil de encontrar e mais rara que a flor da árvore de Vogay. É a semente da libertação dos renascimentos. Ela isola o Arhat tanto do conflito como da luxúria, e o leva através dos campos do Ser até a paz e a bem-aventurança conhecida apenas na terra do Silêncio e do Não-Ser.

63. Mata o desejo; mas, se o matas, cuida para que ele não ressurja dos mortos outra vez.

64. Mata o amor à vida, mas, se matas Tanha, que isso não seja por uma sede de vida eterna, mas sim para substituir o que é passageiro pelo que é eterno.

65. Não desejes coisa alguma. Não te irrites com o Carma, nem com as leis imutáveis da Natureza. Mas luta apenas com o que é pessoal, com o transitório, o evanescente e o perecível.

66. Ajuda a Natureza e trabalha com ela; e a Natureza te verá como um dos seus criadores, e te obedecerá.

67. E ela abrirá diante de ti os portais das suas câmaras secretas, e revelará diante do teu olhar os tesouros ocultos nas profundezas do seu puro seio virgem. Jamais manchada pela mão da Matéria, ela mostra os seus tesouros apenas para o olho do espírito − o olho que jamais se fecha, a visão diante da qual não há um só véu, em todos os reinos da natureza.

68. Então ela te mostrará os meios e o caminho, o primeiro portão e o segundo, o terceiro, até o próprio sétimo portão. E, então, a meta; depois da qual estão, sob o sol do Espírito, glórias indizíveis que só o olho da Alma pode ver.

69. Há uma única estrada para o Caminho; só no seu final a Voz do Silêncio pode ser ouvida. A escada pela qual o candidato sobe é formada por degraus de sofrimento e dor, e estes só podem ser silenciados pela voz da virtude. Ai de ti, portanto, discípulo, se houver um só vício que ainda não abandonaste; porque então a escada cederá e te derrubará. O pé desta escada se apoia na lama profunda dos teus pecados e falhas, e, antes que tu possas tentar atravessar este amplo abismo de matéria, tens que lavar os teus pés nas Águas da Renúncia. Cuida para não pôr um pé ainda sujo no primeiro degrau da escada. Ai daquele que ousa sujar um degrau com pés enlameados. O barro mau e pegajoso seca, se torna resistente, e então gruda os seus pés naquele ponto. E, assim como um pássaro preso pela isca do caçador astuto, ele fica impossibilitado de obter mais progresso. Os seus vícios tomam forma e o arrastam para baixo. Seus pecados erguem suas vozes como a risada e o soluço do chacal depois que o sol se pôs. Os seus pensamentos se tornam um exército e o levam para longe como um escravo e um prisioneiro.

70. Mata teus desejos, Lanu, torna teus vícios impotentes, antes que seja dado o primeiro passo da viagem solene.

71. Estrangula os teus pecados e torna-os mudos para sempre, antes de erguer um pé para subir pela escada.

72. Silencia os teus pensamentos e fixa toda tua atenção em teu Mestre, que ainda não vês, mas sentes.

73. Funde os teus sentidos em um só sentido, se queres estar seguro contra o inimigo. É por este sentido apenas – que está escondido dentro do vazio do teu cérebro – que o caminho íngreme até o teu Mestre pode ser revelado diante dos teus olhos turvos.

74. O caminho diante de ti é longo e cansativo, ó discípulo. Um só pensamento sobre o passado, que tu deixaste para trás, te arrastará para baixo e então terás que começar novamente a subir.

75. Mata em ti mesmo toda memória de experiências passadas. Não olhes para trás ou estarás perdido.

76. Não acredites que se possa jamais eliminar a luxúria gratificando-a ou saciando-a, porque esta ideia é uma abominação inspirada por Mara. É ao alimentar o vício que o vício se expande e se torna forte, como o verme que engorda às custas do coração de uma flor.

77. A rosa deve transformar-se novamente em botão, nascido do seu caule progenitor antes que o parasita comesse seu coração e bebesse o seu fluido vital.

78. A árvore dourada produz botões de joias antes que o seu tronco fique ressequido devido à tempestade.

79. O Aluno deve recuperar o estado infantil que ele perdeu, antes que o primeiro som possa chegar ao seu ouvido.

80. A luz vinda do MESTRE ÚNICO, a única luz dourada e imperecível do Espírito, lança seus raios brilhantes sobre o Discípulo desde o início. Os seus raios atravessam as nuvens densas e escuras de Matéria.

81. Aqui e ali, agora e mais adiante, estes raios iluminam a Matéria assim como os clarões da luz do sol iluminam a terra através da densa folhagem da floresta em crescimento. Mas, ó Discípulo, a menos que o corpo físico esteja imóvel, a mente calma, a Alma tão firme e tão pura como um diamante que brilha, a energia radiante não chegará à câmara, a sua luz solar não aquecerá o coração, nem os sons místicos das alturas do akasha alcançarão os ouvidos – por mais que eles estejam atentos – no estágio inicial.

82. A menos que tu escutes, não poderás ver.

83. A menos que tu vejas, não poderás escutar. Ouvir e ver é o segundo estágio.

84. Quando o Discípulo vê e ouve, e quando ele percebe o odor e o gosto com os olhos e ouvidos fechados e a boca e as narinas paralisadas, quando os quatro sentidos se combinam e estão prontos a passar para o quinto sentido, o sentido do tato interior − então ele passou para o quarto estágio.

85. E no quinto, ó matador dos teus pensamentos, todos eles têm de ser mortos de novo, além da possibilidade de serem reanimados.

86. Afasta a tua mente de todos os objetos externos, de todas as visões externas. Detém as imagens internas, para que elas não lancem uma nuvem escura sobre a luz da tua Alma.

87. Tu estás agora em DHARANA, o sexto estágio.

88. Quando tu tiveres passado para o sétimo, ó ser feliz, tu já não perceberás o Três sagrad, porque te terás transformado tu mesmo naquele Três. Tu mesmo e a mente, como gêmeos em uma linha; a estrela que é a tua meta brilha no alto.

Os Três que vivem na glória e na bem-aventurança inefável agora perderam seus nomes no Mundo de Maya. Eles se tornaram uma estrela, o fogo que brilha mas não queima, aquele fogo que é o Upadhi da Chama.

89. E isso, ó iogue bem sucedido, é o que os homens chamam de Dhyana, o legítimo precursor de Samadhi.

90. E agora o teu Eu está perdido no EU, tu mesmo estás em TI MESMO, unido a AQUELE EU do qual foste irradiado em primeiro lugar.

91. Onde está a tua individualidade, Lanu, onde está o Lanu, ele próprio? Ele é a faísca que se perdeu na chama, é a gota dentro do oceano, o raio sempre-presente que se transforma no Todo e na radiância eterna.

92. E agora, Lanu, tu és o autor e a testemunha, o radiador e a radiação, a Luz no Som, e o Som na Luz.

93. Tu conheces os cinco impedimentos, ó ser abençoado. Tu és o vencedor, o Mestre do sexto, transmissor dos quatro tipos de Verdade. A luz que cai sobre eles brilha a partir de ti, ó tu que foste um discípulo, mas agora és um Mestre.

Em relação a estes tipos de Verdade: −

94. Tu não passaste pelo conhecimento de toda aflição − a primeira verdade?

95. Não venceste o Rei dos Maras no Tsi, o portal de reunião − a segunda verdade?

96. Não destruíste o pecado no terceiro portão, atingindo a terceira verdade?

97. Não entraste no Tau, o “Caminho” que leva ao conhecimento, a quarta verdade?

98. Que descanses agora sob a árvore de Bodhi, a perfeição de todo conhecimento; porque tu deves saber que és o Mestre do SAMADHI − o estado em que há uma visão impecável.

99. Observa! Tu te tornaste a Luz, tu te tornaste o som, tu és o teu Mestre e o teu Deus. Tu és TU MESMO o objeto da tua busca: a Voz inquebrantável que ressoa através das eternidades, isenta de mudança, isenta de pecado, os Sete Sons em um,

A VOZ DO SILÊNCIO

100. Om Tat Sat.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-voz-do-silencio/

A Manifestação de Nuit

"Eu sou Nuit, e minha palavra é seis e cinqüenta.
Dividi, somai, multiplicai e compreendei!"
- Liber AL vel Legis, I, 24-25.

50 dividido por 6 = 8,333, a interação do oito com o três: denotando as sete Sephiroth inferiores, mais Daäth como a Oitava, e as três Sephiroth Supernas, acima do Abismo, perfazendo Onze em
tudo.

6 somado a 50 = 56, o valor de NV, ou Nu, que é a palavra da deusa Nuit.

6 multiplicado por 50 = 300, o valor da letra Shin, que significa tanto Fogo quanto Espírito. Além disso 56 multiplicado onze vezes na série de 1-11, dá as manifestações de Nu de 56-616:

A Manifestação de Nuit:

Comentários da Manifestação de Nuit:

56 é o valor da frase Um a Um, ou AChD LACHD em hebraico. Significa a fusão do sujeito com o objeto no arrebatamento do relâmpago; ela ilumina o vazio primordial do espaço e obscurece o padrão e a sequência das Onze Sephiroth. Isso é demonstrado pelo fato de que 5 + 6 = 11, ou ‘um para um’. 11 é “O número geral de magia, ou energia que tende a mudar”. (Aleister Crowley, 777 Revised, p.xxv).

A efusão de energia resultante é primeiramente dividida nas duas sephiroth, ou emanações, do Pai e da Mãe Supernos – em termos Thelêmicos, de Hadit como Chokmah e N’uit como Binah. Eles projetam o impulso originado em Kether como um reflexo nas águas do Abismo, onde se torna focalizado como a quase-sephirah de Daäth, ou Conhecimento. Este é o Filho deles: Heru-ra-ha, o Senhor do Aeon, combinando dentro de si os aspectos gêmeos de Hórus e Harpócrates, representando a projeção da Palavra e sua subsequente retirada no Silêncio de Che. E ele é orgulhoso de espírito, brilhante como uma estrela na escuridão do espaço; ele permanece como uma fortaleza, (TIRH = 224), guardando o Caminho (DRK = 224) das Supernas.
Essas correspondências lembram as instruções dadas à Mulher Escarlate em AL III,44-45:  “Mas que ela se erga em orgulho! Que ela me siga em meu caminho! Que ela trabalhe a obra de perversidade! Que ela mate seu coração! Que ela seja escandalosa e adúltera! Que ela seja coberta com jóias, e ricos trajes, e que ela seja desavergonhada diante de todos os homens! Então eu a irei elevar aos pináculos do poder: então eu irei gerar dela uma criança mais forte que todas os reis da terra. Eu irei preenchê-la com alegria: com minha força deverá ela ver & golpear na adoração de Nu: ela deverá alcançar Hadit.”

As qualidades desta criança são ainda manifestadas como sendo vontade e desejo naquelas emanações relacionadas a Chesed e Geburah, respectivamente.

Tiphereth representa o lugar onde as energias celestiais se misturam e são distribuídas entre as sephiroth inferiores; o ponto de foco onde os “poucos e secretos” exercem seu domínio sobre “os muitos e os conhecidos”. (Ver AL I,10). Com efeito, a tríade sefirótica de Tiphereth-Netzach-Hod reproduz as energias que se manifestam naquela de Daäth-Chesed-Geburah em um nível inferior.

A emanação de Netzach relaciona-se diretamente com AL II,18: “…Nós não somos pelos pobres & tristes: os lordes da terra são nossos parentes.”. As correspondências associadas dos novos deuses (ALHIM ChDShIM = 448) e os lugares altos (BMVTh = 448) também são relevantes aqui. Os filhos da transgressão são a forma que a Corrente de Nu assume na emanação de Hod; eles se expressam com a língua dos sábios (LShVN ChKMIM = 504) que é como uma flecha afiada (ChTz ShNVN = 504), penetrando as barreiras ilusórias da restrição. A palavra hebraica PShO, para ‘transgressão’, também tem o significado de ‘vício’. Como AL II,52 declara: “…Arrancai aquele espectro mentiroso dos séculos: não veleis vossos vícios em palavras virtuosas: estes vícios estão a meu serviço; vós fazeis bem, & eu irei recompensar-vos aqui e no porvir”.

560 é a manifestação de Nu que corresponde à sephirah de Yesod, a fundação de toda a Árvore Cabalística. Kenneth Grant comentou sobre este número que: “560 resume o coração secreto da Corrente OTO pois 560 é o número do ThNINIM que é ‘Rei de todas as conchas e demônios’. A palavra está na forma plural e significa ‘dragões’”. (Fora dos Círculos do Tempo, p.77). Outra correspondência é a de Sombras (TzLLITh = 560). A qualidade fortemente qlippothicas desta emanação é melhor colocada em perspectiva por referência a AL II,9 “Lembrai-vos todos vós que a existência é puro gozo; que todos os amargores são como que sombras; eles passam e se vão mas existe aquilo que permanece.”

Finalmente, a Corrente está aterrada em Malkuth como a Lei do Novo Aeon. Aqui, na esfera material do Reino “os rituais deverão ser metade conhecidos e metade ocultos: a Lei é para todos.” (AL I,34). Enquanto a Torá, ou Lei religiosa, de tempos antigos era baseada em uma miscelânea de ‘mandamentos, estatutos e julgamentos’, a Lei de Thelema deriva direta e espontaneamente da corrente de inspiração que é o relâmpago das manifestações de Nu, a palavra sagrada (DBR QDVSh = 616), incorporada no Livro da Lei.

Texto de Stephen Dziklewicz, Starfire, Volume I, Número 5

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/manifestacao-de-nuit/

Full Metal Alchemist e a Kabbalah

FMA é um anime baseado em magia e alquimia. Como tal, a autora coloca em seus personagens principais as características de cada parte da Árvore da Vida. Veja a explicação de cada esfera abaixo (AVISO: contém pequenos spoilers):

– Malkuth – Amestris = O desenho do mapa de Amestris representa Malkuth, com as quatro divisões representando os quatro elementos. O nome do país remete a Hermes Trismesgistos.

– Yesod – Izumi Curtis = A mestra dos irmãos Elric, representando a sacerdotisa, o inicio da caminhada espiritual, a iniciação. Depois de muita insistência por parte dos irmãos Elric, Izumii decide treiná-los e lhes ensinar alquimia, mas primeiro os deixa sozinhos em uma ilha. (Os testes dos iniciados.)

– Hod – Winry Rockbell = A esfera de Hod por representar o intelecto e estar ligado à tecnologia, Winry expressa essa esfera, pela sua capacidade de aprender com facilidade e colocar em prática (esplendor) a tecnologia dos automails, que são a sua vida, tanto que quando ela chega em Rush Valley, fica encantada com a tecnologia dos automails e fica por um tempo ali para aprender mais.

– Netzach – Alphonse Elric = Calmo, bondoso e paciente, ele representa muito bem Netzach (um dos aspectos da esfera é a tolerância). Com seu comportamento amoroso e carinhoso, ele acaba se deixando levar emocionalmente durante o anime. Todos acham que ele é o Alquimista de Aço por causa da armadura, mas esse título pertence ao irmão dele, Edward, que conseguiu esse título após entrar para o exército.

– Tiphereth – Edward Elric = Mesmo sendo a história dos irmãos Elric, Edward se encaixa em Tiferet, por sempre assumir a responsabilidade de toda a situação que ele encontra (compaixão). Um exemplo disso é depois que eles fazem a transmutação humana, ele se sente responsável pela situação do Alphonse. No final do anime ele se sacrifica mais uma vez, ou seja, sacrifica seu conhecimento sobre alquimia para poder vencer o Homunculo do frasco. Outra parte interessante que pela minha visão se encaixa como “A Noite Negra da Alma”, é quando Edward vai desenterrar os ossos da transmutação humana que ele fez, pensando ser os ossos transmutados de sua mãe.

– Geburah – Roy Mustang = Ele é o estereótipo de Geburah, trabalha tanto com seus defeitos (pavio curto, impaciente) e com sua qualidade (sua ambição é chegar ao posto de Fuhrer – diligência), usa o elemento fogo.

– Chesed – Maes Huge = É o melhor amigo de Roy Mustang, e um pai exemplar. Ele se comprometeu em ajudar Roy a atingir o posto de Fuhrer, ficando logo atrás dele. Sempre trabalharam juntos, porém em postos distintos. Aqui podemos ver o trabalho das duas esferas entre si, a diligência de Geburah – Roy – Posto Fuhrer e Chesed – Maes – Pai Atencioso.

– Daath – Pequenino do Frasco = Tudo aquilo que temos que encarar e trabalhar em nós mesmos, nossos defeitos, representados pelos homunculos criados por ele, os tuneis e os imensos encanamentos que levam ao subterrâneo, ao interior da cidade. As nossas Oitavas Baixas estão representadas pelo Pequenino do Frasco.

– Binah – Scar = Revoltado pela dizimação de seu povo, começa a buscar vingança, e quer destruir a todos os envolvidos no massacre de Ishval, usando sua vingança como uma forma de justiça (pilar da severidade). Após se envolver mais com os outros personagens do anime, passa a usar a alquimia que aprendeu para a construção, para a vida. Aqui vemos o que o anime passa: “A alquimia consiste em três passos: compreensão, destruição e reestruturação”. Depois que Scar “compreende” o que a alquimia significa, ele deixa de “destruir” (o braço de seu irmão transplantado nele) e passa a “construir, reestruturar” (o outro braço coberto de tatuagens).

– Chokmah – Van Hohenheim = Uma figura masculina, barbada (Cabala Mística – Dion Fortune). Representa a Sabedoria, a força bruta que gera vida (no corpo dele contem metade das almas da população de Xerxes). Sábio e muito velho, teve tempo de conversar com todas as almas dentro de si, mais de 3000 almas.

– Kether – A Verdade = Um local branco, sem noção de espaço, tempo, apenas uma figura representa quem acessa essa esfera, com se fosse um negativo da pessoa/ser que a acessa. “Eu sou a existência que vocês chamam de ‘Mundo’. Sou o ‘Universo’. Sou ‘Deus’.

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/full-metal-alchemist-e-a-kabbalah

A Arte da Magia de Satan

Magia pode ser definida como o uso de rituais para trazer a intervenção de forças sobrenaturais, na natureza ou nos problemas humanos, para um propósito específico. O surgimento da magia é interligado ao da religião, o ser humano primitivo percebendo as forças da natureza ao ser redor, incompreensíveis a ele, coloca-as em estado divino. A magia surge da necessidade de se entrar em contato com os deuses para manipulá-los a favor dos humanos, para isso foram criados rituais. Com forma e simbologia variando de cultura para cultura, a magia foi se diversificando através da criatividade humana ao longo dos tempos. Normalmente a magia benéfica e altruísta é chamada de “magia branca”, para exemplificar podemos citar os rituais de fertilidade dos povos primitivos, onde a benção dos deuses era pedida para a melhoria da caça e plantio; os rituais de cura com a utilização de ervas, etc. A magia maléfica e egoísta é chamada de “magia negra”, rituais para a destruição de inimigos, rituais para trazer o amor de alguém, podem ser considerados exemplos de “magia negra”.

No Satanismo o conceito de magia é fazer sua vontade prevalecer através de meios ocultos, não há magia “branca” ou “negra”, ignoramos essa idéia clássica de coloração da magia. Mas o que significa isso? Significa ficar dentro de um pentagrama recitando palavras enigmáticas, esperando que o demônio se apresente e realize seus desejos? Nada disso! No Satanismo não trabalhamos com o “sobrenatural”, já que não acreditamos nele. O que era “sobrenatural” para nossos antepassados hoje chamamos de Ciência, o trovão não é mais um deus, mas um estrondo produzido por descarga de eletricidade atmosférica. Obviamente, a Ciência não nos explica tudo de forma plausível ainda, aliás acho que a Ciência nunca irá explicar todos os mistérios do Universo, mas não é por isso que, para amenizar minhas dúvidas e conflitos, irei recorrer a crendice. O “sobrenatural” não existe, como pode existir algo que excede as forças da natureza, sendo que a natureza engloba tudo?

Há dois tipos de magia, a magia ritual e a magia manipulativa. A magia ritual se caracteriza em psicodramas, ou seja, teatros com o propósito de transformar emoções em energias transmissíveis. A magia manipulativa consiste em utilizar-se de artimanhas, estratégias, planejar situações que farão sua vontade prevalecer. Deve-se ressaltar que no Satanismo trabalhamos com o palpável, e não com coisas impossíveis. É como disse LaVey: “Magia é como a própria natureza, e sucesso em magia requer o trabalho em harmonia com a natureza, e não contra ela”. Exemplos: uma mulher totalmente fora de estética faz um ritual para conquistar o amor do galã da novela das oito; um cara resolve fazer um ritual que o ajude a adivinhar os números da loteria, etc. Esses são casos típicos de trabalhos mágicos que sempre fracassarão. Se você quer realmente praticar magia, esqueça os filmes de Hollywood.

Eu particularmente considero a prática de rituais como secundária no Satanismo, em primeiro lugar está a parte filosófica. Acho lamentável que a maioria das pessoas que procuram por Satanismo, anseiam por conhecimento na área mágica. Sem uma base filosófica solida, o aspirante a satanista pode colher frutos nada agradáveis com a prática de magia. E além disso, o estudo mágico não é requisito, se o satanista achar que deve ignorar a realização de rituais, que assim seja.

Por ©Satanael

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-arte-da-magia-de-satan/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-arte-da-magia-de-satan/

Bruce Dickinson e Aleister Crowley

Por Adriano Camargo.

Todos sabem que o mago inglês Aleister Crowley (1875-1947) tem influenciado o mundo do rock (e as artes em geral). E todos sabem também que o cantor inglês Bruce Dickinson é um cara multitalentoso e uma das personalidades mais inteligentes do heavy metal. Mas é possível que nem todos saibam que Bruce Dickinson sempre teve um grande interesse por história da magia, ocultismo e… Aleister Crowley!

E, ao contrário do que a maioria pensa, Crowley não era satanista, mas sim um filósofo e ocultista praticante assíduo envolvido em diversos ramos da magia (magick) e da filosofia oculta, desde a bruxaria europeia e o paganismo até a cabala, alquimia, magia sexual, hinduísmo, budismo, etc. Contudo, Crowley ficou muito conhecido e mal-afamado devido ao seu comportamento “inadequado” e “chocante” para a época (a Era Vitoriana) e às difamações de fundamentalistas religiosos; nos dias de hoje provavelmente ele não chamaria tanta atenção…

Por outro lado, nos dias de hoje, certamente que Bruce Dickinson chama muita atenção devido ao seu trabalho artístico e suas outras habilidades, interesses e inteligência. Como músico e letrista, o trabalho de Bruce é repleto de referências ao mago inglês e a diversas áreas da filosofia oculta, desde as letras de sua carreira solo e do Iron Maiden até o seu filme Chemical Wedding (2008).

Do álbum solo de Bruce Dickinson Accident of Birth, a música Man of Sorrows fala do próprio Crowley quando menino, profetizando o seu futuro quando iria então estabelecer a vinda de um Novo Mundo, de uma Nova Era. Em Man of Sorrows, podemos encontrar também a frase “do what thou wilt”, que significa “faze o que tu queres”, uma referência mais direta e explícita a Crowley e à sua Lei de Thelema. Entretanto, tal lema thelêmico tem uma origem anterior a Crowley, remontando à obra Gargântua e Pantagruel, do escritor francês François Rabelais (1494-1553), na qual uma abadia fictícia chamada Abadia de Thelema apresenta esse lema como uma de suas “leis”. Esse famoso lema posteriormente também foi adotado por um dos clubes ingleses pseudo-satanistas do século XVIII chamados de Hellfire Club (“Clube do Fogo do Inferno”), no qual se reuniam os aristocratas para praticar orgias, bebedeiras, comilanças, jogatinas e discutir arte e literatura. Porém, na filosofia de Crowley, e de acordo com a letra de Man of Sorrows, “faze o que tu queres” se refere à Vontade do Eu Superior de cada indivíduo e não a meros desejos descontrolados. Esse Eu (ou a Individualidade, o Logos individual, o SAG, o Daimon socrático, etc.), de acordo com a letra da música, supostamente sofre por estar preso em um corpo carnal e por não se fazer conhecido pelo indivíduo que também sofre perdido, desorientado na vida, sem conhecer a Si mesmo e seu verdadeiro destino.

The Chemical Wedding, seguinte álbum de Bruce, é em parte baseado na obra literária e artística do poeta inglês William Blake (1757- 1827), que por sua vez também influenciou a filosofia de Crowley a ponto deste acreditar ser uma reencarnação daquele. Contudo, o título do álbum se refere à outra obra, um manifesto rosacruz intitulado The Chemical Wedding of Christian Rosenkreutz (“O Casamento Alquímico de Christian Rosenkreutz”) publicado em 1616 e que narra o casamento alquímico de um rei e uma rainha. Esse “casamento” é basicamente uma alegoria para a união sexual do masculino com o feminino (Sol e Lua; Fogo e Água; Espada e Cálice) por meio da magia sexual devidamente ritualizada a fim de expandir a consciência, assim como a união das duas partes da alma (psique) conhecidas na psicologia junguiana como animus (masculino) e anima (feminino); a magia sexual era uma prática central na filosofia thelêmica de Aleister Crowley.

Na letra de The Chemical Wedding encontramos no refrão:

“We lay in the same grave/ Our chemical wedding day”

(Nós nos deitamos no mesmo túmulo/Nosso dia do casamento alquímico”).

O túmulo é uma representação para o caldeirão na alquimia, no qual a matéria-prima densa é putrefata, desintegrada, ou seja, transformada, para em seguida dar surgimento a algo novo; ou seja, o casamento do homem e da mulher (os alquimistas) que “morrem” no êxtase alquímico-sexual para dar surgimento a uma nova consciência, expandida, cheia de alegria e livre no infinito.

The Tower, também do álbum The Chemical Wedding, é uma das letras do álbum mais ricas em referências alquímico-sexuais e relativamente crowleyanas. Sendo assim, vamos analisar alguns pontos. A música fala especialmente sobre as imagens alquímicas do tarô e do zodíaco (ambos de suma importância no sistema de Crowley). O próprio título da música se refere a uma das cartas mais “sinistras” do tarô: A Torre, que é referida no Livro da Lei (Liber AL), de Crowley. Na letra da música os versos “There are twelve commandments/ There are twelve divisions” (“Há doze mandamentos/ Há doze divisões”) aludem aos doze signos astrológicos dispostos divididos em casas de 30º no cinturão (imaginário) do zodíaco com seus “mandamentos”. A frase “The pilgrim is searching for blood” (“O peregrino está à procura de sangue”) diz que o alquimista buscador, em sua senda solitária está buscando sua iluminação; o sangue é uma referência à fase “vermelha” da alquimia chamada rubedo. Nessa última fase alquímica a Pedra Filosofal é “encontrada” e o alquimista (ou qualquer iniciado) se torna um sábio “imortal” autoconsciente, realizando sua própria Vontade livre, uma referência direta à Lei de Thelema e que está presente no seguinte verso da letra: “To look for his own free Will” (“Buscar por sua própria Vontade livre”).

E no refrão temos os versos:

“Lovers in the tower/ The moon and sun divided/ the hanged man smiles/ Let the fool decide/the priestess kneels/ the magician laughs”

(“Amantes na Torre/ A Lua e o Sol divididos/ o Enforcado sorri/ Deixe o Louco decidir/ a Sacerdotisa se ajoelha/ o Mago dá risada”),

nos quais podemos encontrar referências diretas a várias cartas do tarô: The Lovers (Os Amantes), The Tower (A Torre), The Moon (A Lua), The Sun (O Sol), The Hanged Man (O Enforcado), The Fool (O Louco), The Priestess (A Sacerdotisa) e The Magician (O Mago). Para não nos alongarmos demais na letra de The Tower, podemos dizer que ela contém alguns segredos alquímico-ritualísticos de magia sexual.

Há outras músicas interessantes em The Chemical Wedding, incluindo aquelas inspiradas diretamente por William Blake: Book of Thel, Gates of Urizen e Jerusalem. Do álbum Tyranny of Souls, podemos destacar alguns versos. O título da música Navigate the Seas of the Sun significa a libertação de restrições e a expansão da consciência, já que o Sol é um símbolo da cabeça humana, da inteligência e da consciência. Nessa letra, encontramos “Our children will GO on and on to navigate the seas of the sun” (“Nossas crianças continuarão a navegar os mares do sol”), que na filosofia thelêmica diz respeito ao arcano d’O Sol no qual duas crianças gêmeas, inocentes e livres “navegam” os raios solares, representando a humanidade em mais uma fase evolutiva, com seus aspectos masculinos e femininos assimilados e harmonizados pelo Eu.

Na música-título A Tyranny of Souls, encontramos os versos

“Who rips the child out from the womb?/ Who raise the dagger, who plays the tune?/At the crack of doom on judgment day”

(Quem arranca a criança do útero?/ Quem ergue a adaga, quem toca a música?/ À beira da condenação no dia do julgamento”).

É uma descrição do Aeon (Era, Idade, Tempo) de Crowley, retratado no arcano O Aeon (no tarô comum é conhecido como O Julgamento). Esse Aeon é marcado pela destruição do velho Aeon de Osíris e pelo nascimento do novo Aeon de Hórus. A criança arrancada do útero, conforme a letra da música, é Hórus, filho de Osíris e Ísis; a adaga erguida significa a morte do Aeon passado, o Aeon de Osíris ou Era de Peixes, considerado tirano, repressor, restritivo e opressor; a música referida nos versos é tocada por meio de uma trombeta tradicionalmente por um ser angélico que anuncia a Nova Era, o Novo Aeon, com o julgamento e condenação do velho. Mas no Novo Aeon, Hórus mantém silêncio para representar a “perfeição” do Novo Tempo. Com relação ao Iron Maiden, Bruce Dickinson tem colaborado razoavelmente nos processos de composição. Do álbum Piece of Mind, a letra de Revelations apresenta alguns “mistérios”. O verso “Just a babe in a Black abyss” (“Apenas um bebê em um abismo negro”) é um referência ao conceito crowleyano de “bebê do abismo”, um termo para designar aquele que mergulha e atravessa o Vazio. Trata-se de um abismo metafísico e psíquico entre o universo real e o universo ilusório, entre a “insana” dimensão do espírito e a igualmente insana (e aparentemente segura) dimensão da matéria; o magista ou iniciado que fracassa em cruzar o Abismo (e em assimilar o conhecimento nele contido) geralmente enlouquece. O verso

“No reason for a place like this”

(“Nenhuma razão para um lugar como este”)

mostra que, uma vez no Abismo, a razão humana como se conhece é completamente abolida.

Do álbum Powerslave a música-título fala sobre um faraó, tido como um deus, que não quer morrer, mas continuar governando no mundo material. Na filosofia thelêmica de Crowley, Osíris representa a Era decadente que insiste em continuar, mas que deve ser destruída para dar lugar ao Aeon de Hórus (filho de Osíris). Por outro lado, o faraó é uma representação de todo mago que fracassa em cruzar o Abismo, tornando-se assim um “escravo do poder da morte” (como diz a letra), psicoespiritualmente. Isso pode ser visto especialmente nos versos

“Into the abyss I’ll fall – the eye of Horus/ Into the eyes of the night – watching me go”

(“no abismo eu cairei – o olho de Hórus/ Nos olhos da noite – olhando-me ir”).

E no verso

“Shell of a man god preserved”

(“A casca de um homem-deus preservado”)

o faraó/deus/magoestá morto fisicamente, com seu cadáver mumificado ou não, ao mesmo tempo em que ele se torna um ser vazio e insano, sem conexão com o seu Eu, ou seja, uma “casca” no mundo qliphótico (do hebraico “qlipha”, que significa “casca”, “concha”) cujos portais estão no próprio Abismo, segundo outro verso: “But open the gates of my hell” (“Mas abra os portais de meu inferno”).

Moonchild, do álbum Seventh Son of a Seventh Son, é uma referência direta a uma das obras de Crowley de mesmo nome. A letra da música fala sobre a união de dois magistas (homem e mulher) e o nascimento de um ser supra-humano (entendido também como uma supraconsciência). Na letra, o homem é representado por Lúcifer, o Portador da Luz, o não-nascido, e a mulher é a Prostituta Escarlate, Babalon (nome derivado de Babylon), como aparece nos versos “The fallen angel watching you/ Babylon, the Scarlet whore” (“O anjo caído observando você/ Babilônia, a prostituta escarlate”).

Os nomes Babalon e Mulher Escarlate, apesar de derivados da Bíblia, são próprios do sistema mágico thelêmico de Crowley e equivalentes à deusa Lilith (mesopotâmica), Hécate (grega), Kali (hindu), entre outras, representando ainda os aspectos femininos da Natureza e a Grande Mãe do universo, livre dos dogmáticos conceitos morais sobre bem e mal. O álbum Seventh Son of a Seventh Son é todo “profético”, com colaborações de outros membros da banda em torno de temas como magia, alquimia, ocultismo, bem e mal, etc.

Por fim, vamos falar sobre alguns trechos do último álbum do Iron Maiden, The Final Frontier, que novamente traz alguns temas sobre alquimia, magia crowleyana e expansão da consciência. Na música Starblind, podemos ler o verso “Let the elders to their parley meant to satisfy our lust” (“deixar os anciãos às suas barganhas significa satisfazer nosso desejo”). Lust é o título de uma das cartas do tarô de Crowley, que se refere, entre outras coisas, a tudo o que é dos sentidos e que provoca êxtase, pois, nas palavras de Crowley, “não tema que deus algum lhe negue isso.” Os anciãos representam a religião dogmática e repressora do Aeon passado, que oferecem “liberdades de carcereiros” e que “parlamentam” aquilo que lhes traz vantagens ilícitas.

Enquanto eles falam e negociam e ficam no passado, os desejos (lust) do novo Aeon, ou seja, a Vontade livre e o desejo pela vida são satisfeitos naqueles que se libertaram do dogmatismo e que estão sem “o dispositivo cruel da religião”, conforme o verso “Religion’s cruel device is gone”. A frase “You are free to choose a life to live” (“Você é livre para escolher uma vida para viver”) é outra referência à Lei de Thelema, ao cumprimento da Vontade. Ainda do álbum The Final Frontier, a letra da música The Alchemist pode parecer óbvia, mas ela fala sobre algo mais do que um mero alquimista. O trecho “My dreams of empire from my frozen queen will come to pass” (“Os sonhos de império da minha rainha congelada irão passar”) refere-se à rainha inglesa Elizabeth, que protegia o também multitalentoso, suposto espião e mago John Dee (1527-1608), citado no verso “Know me, the Magus I am Dr. Dee” (“Conheça-me, o Mago Dr. Dee sou eu”). John Dee é conhecido especialmente por seu trabalho sobre magia enochiana e por sua associação com o alquimista e clarividente Edward Kelley (1555-1597), com quem “criou” esse poderoso sistema de magia, posteriormente praticado por Crowley (que acreditava ser também a reencarnação de Edward Kelley).

A letra da música de modo geral descreve as práticas de John Dee e Edward Kelley com a magia enochiana, considerada um sistema angélico, descrevendo também os contatos com os anjos, isto é, os “demônios”. Enquanto Edward Kelley se comunicava com os seres enochianos, conforme o verso da letra “Know you speak with demons” (“Sei que você fala com demônios”), John Dee ia anotando todo o sistema. O termo “angélico” aqui, entretanto, não diz respeito às imagens populares de anjinhos rechonchudos ou anjos esbeltos e delicados, mas a seres considerados alienígenas terríveis e demoníacos (no sentido original da palavra grega “daimonos”, quer dizer, “espírito”, “gênio”), conhecidos popularmente como “anjos caídos”, os supostos instrutores e doadores do conhecimento nos primórdios da espécie humana. Tais anjos enochianos foram contactados por Crowley, que fez as invocações pelas chaves enochianas, resultando em sua obra chamada Liber 418 – A Visão e a Voz. As invocações enochianas de Dee/Kelley e Crowley são referidas no seguinte verso de Bruce: “Hear the master summon up the spirits by their names” (“Ouça o mestre chamar os espíritos por seus nomes”)…

O Iron Maiden sempre carregou uma forte aura de intelectualismo, profetismo e mistério, contando muitas vezes com as inteligentes e valiosas contribuições de Bruce Dickinson. Por afinidades intelectuais e de interesses, independentemente do tempo cronológico, Crowley sempre esteve presente, ou apenas “pairando”, no trabalho de Bruce. E diferentemente do trabalho de Ozzy Osbourne, cuja letra da música Mr.Crowley é um tanto sarcástica e superficial, Bruce Dickinson tem se interessado muito mais seriamente pelas questões que envolvem a magia de Aleister Crowley. Ambos, Bruce e Crowley, sempre buscaram ir mais além, demonstrando que é possível chegar à “última fronteira” entre a consciência e a supraconsciência…

#LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/bruce-dickinson-e-aleister-crowley

Noé – o que merece ser salvo? (parte 1)

Nos primeiros meses de 2014 estreou no país mais um filme supostamente “bíblico”, narrando a famosa história da Arca de Noé. Darren Aronofsky, entretanto, não parecia a primeira vista um diretor ou roteirista com muita inclinação a temas demasiadamente religiosos. E, de fato, o seu Noé passa longe de ser uma história “fiel a Bíblia Sagrada”, tanto que gerou comentários como este, de um missionário cristão “enganado pelo trailer do filme”:

O filme tem muitas coisas de mau gosto e interpretações sem nenhum fundamento religioso ou bíblico. Penso que o autor da obra poderia ter respeitado, pelo menos, o essencial da narração do texto bíblico […] A verdade é que o longa-metragem é uma afronta e uma distorção da beleza da revelação divina. Ele não merece ser visto nem apreciado por quem tem a Bíblia como um Livro Sagrado, fonte da revelação divina e inspiração primeira de fé. Existem filmes mais sérios e de roteiros mais qualificados.

Enquanto, ao mesmo tempo, vimos esta “sinopse do filme Noé, escrita por um ateu” fazer certo sucesso nas mídias sociais:

O filme conta a história de um ancião chamado Noé, de 600 anos, que resolve construir um barco após ouvir Deus dizer que mandaria um dilúvio para afogar toda a humanidade. Noé e seus filhos passam a ser responsáveis por acomodar na embarcação quase 5 milhões de casais de animais, incluindo os de continentes ainda desconhecidos. Após serem os únicos sobreviventes do dilúvio, a família de Noé tem um novo desafio: repovoar o planeta através do incesto, e dar origem a povos de diferentes etnias, como negros, pardos, asiáticos, etc.

Ah, nada como o choque de extremos! Enquanto os fanáticos da crença não suportam ouvir a sua querida história fossilizada num livro milenar com sequer uma vírgula fora do lugar, os fanáticos da descrença caçoam ferozmente de qualquer um que tenha ido ao cinema “ver tamanho absurdo ilógico”.

Pois bem, a vantagem de não sermos fanáticos, senão pelo bom senso, é que podemos muito bem ir ao cinema ver o filme de Aronofsky sem nos sentirmos escandalizados nem pelo fato de o roteiro se afastar em muito do Gênesis, nem pelo fato de a história não ser nem um pouco verossímil – pois que se trata de mitologia!

O Dilúvio

São tantas as mitologias que falam de um Grande Dilúvio que cobriu a Terra, que muitos historiadores creem que, de fato, nossos ancestrais devem ter atravessado não uma, mas diversas inundações catastróficas. Pense numa época sem internet, TV, jornais ou telégrafos, onde muitas vezes tudo o que um povo conhecia eram os arredores de sua floresta ou campina… Ora, qualquer inundação capaz de cobrir uma área extensa o suficiente poderia muito bem lhes parecer como se o mundo todo estivesse sendo inundado!

E, de fato, relatos como este não faltam nos mitos dos mais variados povos – muitos deles mais antigos que os hebreus:

Na Epopéia de Gilgamesh, o mais antigo poema épico de que se tem notícia na história, encontrado no Iraque (que, há cerca de 5 mil anos atrás, foi o berço de uma grandiosa civilização antiga, quando a região era então conhecida como Mesopotâmia) por arqueólogos modernos, temos a passagem onde o herói Gilgamesh pergunta a Siduri (deusa do vinho e da sabedoria) como encontrar Utnapishtim, o sobrevivente do Grande Dilúvio e único humano a receber a imortalidade. Ao finalmente encontrá-lo, ouve de sua boca o relato de como os deuses, zangados com o comportamento barulhento e desregrado dos humanos, resolveram destruir os mortais com um dilúvio. Utnapishtim afirma que só foi salvo porque Ea (deus da água) o visitou num sonho e lhe mandou construir um barco. Como fora o único a sobreviver à grande tempestade, os deuses lhe concederam a vida eterna como prêmio (ele provavelmente trouxe algumas mulheres em seu barco).

O conceito de dilúvio como punição divina aparece também na história clássica da Atlântida. No mito da Grécia Antiga, Zeus enviou um dilúvio para punir a arrogância dos primeiros homens. O titã Prometeu advertiu Deucalião, seu filho, da catástrofe eminente. Ele então construiu uma arca e nela se refugiou com a esposa, Pirra. Por nove dias e nove noites ficaram à mercê das águas (um dilúvio mais curto que o bíblico), até pararem no monte Parnaso. Quando as chuvas cessaram, Deucalião ofereceu um sacrifício a Zeus, que em troca lhe concedeu um desejo. O seu desejo foi simplesmente pedir por mais homens e mulheres para os ajudar a repovoar e Terra (um homem prático).

Há muitos mitos parecidos espalhados pelos povos antigos. Em muitos mitos de criação o mundo era formado por um oceano quando em seu estado primitivo; dessa forma, pela sua inundação, os deuses o devolvem ao seu estado inicial, permitindo um recomeço.

Nos contos dos chewongs da Malásia, o criador Tohan transforma o mundo de tempos em tempos, quando submerge todas as pessoas, exceto as que foram prevenidas, e cria uma nova Terra no fundo das águas. Na mitologia nórdica, temos o conto do Choro de Baldur, quando o malvado Loki faz o arqueiro cego e sua flecha de visgo assassinarem o benevolente Baldur, e todas as coisas que existem choraram por ele, causando um dilúvio. Na mitologia hindu, um peixe disse a Manu que as águas cobririam a terra e, novamente, temos uma arca salvando a continuidade da humanidade. Entre os celtas, os poemas do Ciclo de Finn narram a ocupação da Ilha após o Grande Dilúvio. Nos índios americanos, temos a história de Kwi-wi-sens e como ele e seu amigo corvo escaparam do dilúvio causado pelos deuses dos céus… Acho que já deu para entender né? Essa história simplesmente não será esquecida…

O mito de cada um

O que nos leva a questão de compreender o que diabos é exatamente a mitologia. Segundo Joseph Campbell, “um mito é algo que não existe, mas existe sempre”. Com isso, ele queria dizer que os mitos são nada mais que os fatos da mente, os sonhos e pesadelos do consciente e inconsciente humano, encenados “do lado de fora”. O lado exterior, que um cético poderia, quem sabe, chamar de “mundo real”, é o lado que existe no tempo. Mas o lado interior, apesar de também computar a passagem dos dias e noites, faz algo que vai além da capacidade das máquinas e tecnologias mais avançadas: os interpreta!

É na interpretação da vida que sentimos emoções como o amor, o medo, a raiva, a tranquilidade e a angústia. É na constante lembrança e reinterpretação de tais emoções que terminamos por produzir a arte, e toda arte precisa contar uma história – e toda grande arte acaba por tocar na essência atemporal do ser humano, acaba por conceber um mito…

No entanto, como também dizia Campbell, “qualquer deus, qualquer mitologia ou qualquer religião são verdadeiros num sentido – como uma metáfora do mistério humano e cósmico: Quem pensa que sabe, não sabe.

Quem sabe que não sabe, este sim, sabe. Há uma velha história que ainda é válida. A história da busca. Da busca espiritual… Que serve para encontrar aquela coisa interior que você basicamente é. Todos os símbolos da mitologia se referem a você: Você renasceu? Você morreu para a sua natureza animal e voltou à vida como uma encarnação humana? Você venceu o Grande Dilúvio para recomeçar numa nova Terra? Na sua mais profunda identidade, você é um desses heróis, você é também um deus”.

Dessa forma, quando uma criança ouve falar do Homem-Aranha ou do Super-Homem, e logo quer uma fantasia para poder brincar de ser o Homem-Aranha ou o Super-Homem, isto diz mais sobre a mente humana e sobre a mitologia do que julga a vã filosofia.

O que Aronofsky fez em seu filme foi nada mais do que reinterpretar o mito da Arca de Noé. Podemos não gostar da sua interpretação, mas seria realmente infantil (no mal sentido) julgarmos a sua obra “heresia” ou “absurdo ilógico” de antemão, apenas porque, provavelmente, ainda não fazemos a mais vaga ideia do que vem a ser, de verdade, a mitologia.

A mensagem ecológica do filme é clara e evidente. Se no Gênesis a humanidade era punida pelo Criador pelo fato de haverem procriado com “os filhos de Deus” e de, por alguma razão, a maldade haver se espalhado pelo mundo (Ge 6:1-5), no Noé do cinema o homem arrasou com os recursos naturais do planeta, ao ponto de não vermos sequer uma única árvore remanescente até que Noé tenha plantado uma das sementes do Éden que foram guardadas pelo seu avô.

Além disso, Aronofsky também incorre em uma arriscada crítica ao fanatismo religioso, a tornar o próprio Noé um advogado do fim de toda a raça humana, desejando deixar apenas os animais “inocentes” para o novo mundo. A maneira como este enredo de desenrola no filme é um dos pontos mais originais e que mais se afastam da narrativa bíblica – no entanto, se formos analisá-lo do ponto de vista da nossa época atual, se trata de uma adição totalmente válida ao mito.

Que bom que Aronofsky soube interpretar a história do Dilúvio a sua maneira. Porque não podemos, então, fazer o mesmo?

» Em seguida, os mares internos da alma…

***

Bibliografia: Guia Ilustrado Zahar de Mitologia (Philip Wilkinson e Neil Philip); Enciclopédia de Mitologia (Marcelo Del Debbio); O Poder do Mito (Joseph Campbell e Bill Moyers)

Crédito da imagem: Noé – O filme (Divulgação)

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

Ad infinitum

Se gostam do que tenho escrito por aqui, considerem conhecer meu livro. Nele, chamo 4 personagens para um diálogo acerca do Tudo: uma filósofa, um agnóstico, um espiritualista e um cristão. Um hino a tolerância escrito sobre ombros de gigantes como Espinosa, Hermes, Sagan, Gibran, etc.

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#Cinema #Cristianismo #Gênesis #Mitologia #Judaismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/no%C3%A9-o-que-merece-ser-salvo-parte-1

No Início era o CAOS

A matemática nasceu nas sociedades coletoras e caçadoras primitivas, se derivando da necessidade de manter um registro de gado e outros bens. Eles se utilizavam de marcas em pedaços de paus, pedras, etc. aplicando o princípio de correspondência biunívoca[1]. Essas necessidades foram responsáveis por uma crescente abstração por parte desses povos como, por exemplo, a percepção que um grupo de duas maçãs e um grupo de duas laranjas possuem algo em comum. Desta forma a matemática evoluiu gradualmente para

Espere. Por um momento me esqueci que este blog passa por constantes processos de higienização, tornando-o livre de merda. Isso mesmo. Se duvida confira o selo abaixo.

Viu? Um livre de merda.

Afirmar que conceitos matemáticos primitivos se limitavam a experiências nascidas de uma necessidade práticas é apenas uma forma moderna de poder ser racista sem que as pessoas falem mal de você. Isso é apenas uma maneira de dizer que os homens primitivos eram limitados e burros, incapazes de fazer contas e de lidar com abstrações filosóficas complexas. Bem, eles podiam ser feios. Com certeza eram fedidos e tinham bafo, piolhos talvez. Mas burros? Me dê uma prova de que a burrice foi extinta com a evolução e continuamos com esta conversa.

Já que a burrice e a limitação existem até hoje, de forma refinada ainda, e a matemática continua evoluindo, podemos afirmar que limitações cerebrais não tem nada a ver com o seu desenvolvimento.

Pare para pensar. O texto mais antigo que temos hoje, ou o registro mais antigo de um texto que temos hoje, é a Epopéia de Gilgamesh, um registro que conta a história de um monarca que existiu provavelmente no fim do segundo período dinástico da Suméria, aproximadamente no século XXVII a.C. O registro mais completo deste texto está em uma tábua de argila escrita na língua acádia que data do século VIII a.C., embora existam tábuas com excertos do texto datando do século XX a.C. Em 1860 George Smith traduziu o texto para que pudéssemos apreciá-lo.

Por acaso você sentiu calafrios ao ler o parágrafo acima? Não? Então releia-o mais devagar, pode ler acompanhando com a boca, ninguém vai tirar sarro.

Imagine agora que um texto escrito há mais de quarenta (40) séculos (grupo de 100 anos), não apenas pode ser lido como também traduzido e compreendido. Não só isso, ele pode ser compreendido e comentado, “nossa, esse Gilgamesh era mesmo um malandro não? Um velhaco de fato!” Hoje uma criança de sete anos pode ler e entender, e talvez achar chato, um coisa escrita em argila a mais de quatro mil (4000) anos atrás, depois de traduzida – a não ser que a criança tenha sido alfabetizada em acádio e assim pode entender sem a tradução. E o que assusta mais é que se a coisa foi escrita é porque a escrita já existia, e a história já circulava muito antes, pelo menos desde alguns anos depois do século XXVII a.C. Meu ponto aqui não é me surpreender com o período relativamente curto da história, desde que a linguagem escrita se desenvoleu até os dias de hoje e blah blah blah. Meu ponto é que sabendo a língua e as gírias, uma pessoa de hoje poderia trocar figurinhas e fofocar com um ser humano que viveu quarenta séculos atrás, cinquenta, sessenta séculos atrás. Ou seja, hoje vivemos praticamente o que se vivia naquela época, claro que temos essas chatisses de facebook e provão do Enem, mas de resto, tirando os odores corporais uma pessoa de 5.000 anos atrás é basicamente como nós. Dê um uniforme e alguns dias de treinamento ao homem de Cro-Magnon e ele poderá trabalhar no metrô. Tendo as mesmas dúvidas, os mesmos desejos e as mesmas divagações que qualquer um de nós teria.

Obviamente que historicamente isso não é muito, para se ter uma idéia eu perdi meu tempo criando uma linha do tempo (não se pode falar de tempo por muito tempo sem se esbarrar nesses malditos paradoxos) da evolução do que hoje é cientificamente conhecido como “nós”. Para entender o que é aceito cientificamente hoje pelo Dogma, temos que entender que ser humano, no contexto de evolução humana, se refere especificamente aos macacos carecas do gênero Homo (podem fazer suas piadinhas de bichas sendo nossos antepassados e como isso influencia nosso medo de esfregar pintos no metrô, eu faço o tempo todo). Como sei que desde crianças somos ensinados a associar nomes a formas coloridas, preparei um gráfico para que você não se perca com essa linha do tempo:

No início havia o nada e então BUM! O primeiro de nós, o macaco.

7.000.000 a 5.000.000 de anos atrás – aquilo que virariam seres humanos ramificaram-se de seu ancestral comum com os lêmures;

5.000.000 a 4.000.000 de anos atrás – Depois de uma boa caminhada com o resto da macacada Ardipithecus ramidus se separa dos chipanzés para explorar seu próprio ramo evolutivo

4.000.000 a  3.500.000 de anos atrás – os Australopithecus espicham um pouco o cérebro e se sentem muito importantes para compartilhar o mesmo ramos dos Ardipithecus.

3.500.000 a 2.300.000 de anos atrás – o Gênero Homo se afastou dos Australopitecos na África.

ALERTA DE FATO IRRELEVANTE

Fato irrelevante: Dado à limitação do progresso linear do Dogma, o pessoal das antigas já andava ereto muito antes do Homo Erectus (1,8 milhões a 300 mil anos atrás – elemento 4) aparecer e ficar com a fama. Da mesma forma existem indícios de que já usavamos e construíamos coisas muito antes do Homo Habilis (2.3 a 1.4 milhões de anos atrás – Elemento 1) levar o título para casa. Isso é compreensivel já que no momento em que seus fósseis foram descobertos, respectivamente em 1891 e 1962 todos os macacos já haviam esquecido destes fatos ou eram novos demais para lembrar deles, e todos os livros a respeito de nossa evolução já haviam sido escritos e ficava complicado recolher a todos, reescrever os fatos, mudar todos os nomes e colocar tudo no mercado de novo como se nada houvesse acontecido.

400.000 e 250.000 de anos atrás – o Homo sapiens (Elemento 2) arcaico evoluiu.

O Dogma segue afirmando que o Homo sapiens surgiu na África e migrou para fora da continente num período que engloba provavelmente 100.000 a 50.000 anos atrás, substituindo as populações de H. erectus na Ásia e de H. neanderthalensis (Elemento 7) na Europa.[2]

(Os elementos restantes são Australopithecus boisei – Elemento 5 – que viveu entre 2.3 e 1.4 milhões de anos atrás. Homo Heidelbergensis 700.000 a 300.000 anos atrás – Elemento 6 – e o H. Floresiensis – Elemento 3 – que ficou famoso por comer ratos gigantes entre  95.000 e 13.000 anos atrás.)

Pelo menos 400.000 anos atrás já havia pessoas como nós contanto piadas e falando mal dos outros. Agora, caso você seja um racista de primeira linha, pode dizer que só em 250.000 anos atrás surgiram “pessoas como nós” correndo para cima e para baixo pelo mundo, as mesmas que alguns milênios depois e estariam escrevendo coisas como o Gilgamesh.

Seria justo imaginar que esses “primitivos” seriam tão diferentes de nós hoje em dia, que teriam que ficar olhando maçãs e laranjas feito imbecis babando antes de perceber que havia algo sinistro ali?

Esqueça que somos humanos por um momento. Será que a abstração que chamamos de números é algo unicamente primata? Como outros animais lidam com números?

Kevin C. Burns, da Victoria University em Wellington, Nova Zelândia, e seus colegas realizaram experimentos. Ele fizeram buracos em troncos e pedaços de troncos caídos. Mas não pararam por ai, dentro dos buracos eles colocaram diferentes númeras de larvas de besouros e, não se dando por satisfeitos por essa ousadia, fizeram isso na frente de grupos de tordos – tordos são pássaros ( No futuro será provado que pássaros são répteis, mas este é outro assunto). Não sabemos o que ele quis originalmente provar com esse experimento, mas sabemos o que ele descobriu com ele. Não apenas os tordos voavam juntos para os buracos que tinham uma maior quantidade de larvas, como se Kevin os enganasse, removendo alguns dos insetos quando os pássaros não podiam ver, após devorar todas as larvas que tiveram a infelicidade de ser colocadas no buracos, os pássaros permaneciam muito mais tempo lá “procurando algo” do que quando o número de larvas que eles viam ser postos não era adulterado.

Rosa Rugani, da Universidade de Trento, na Itália, e seu time de pesquisa realizaram experimentos. Eles chocaram ovos de pintinhos. Obviamente não se contentaram em parar por ai e foram além, assim que nasceram os pintinhos foram criados com cinco objetos idênticos. Obviamente as pequenas aves se encontravam em um de seus momentos de vulnerabilidade de impressão[3] e por isso passaram a considerar os objetos seus pais. Não sabemos o que ela quis originalmente provar com esse experimento, mas sabemos o que ela descobriu com ele. Quando um dos cientistas subtraia dois ou três dos objetos originais colocando os objetos subtraídos atrás de um biombo, os pintinhos saiam em busca pelo número maior de objetos, como se dissessem que sua mãe estava mais para um 3 do que para um 2. Rugani também variou o tamanho dos objetos para descartar a possibilidade de que os pintinhos se baseassem simplesmente no grupo de itens que ocupasse mais espaço.

Elizabeth Brannon da Universidade de Duke realizaou experimentos. Ela fez uma máquina que apitava. Mas não parou por ai. Na frente da máquina havia monitores que mostravam formas geométricas, um com o número de objetos igual ao número de apitos que a primeira máquina produzia e outros com números que não combinavam com nada. Não satisfeita ela pegou macacos rhesus e os fez ouvir os apitos e apresentou os víros monitores. Não sabemos o que ela quis originalmente provar com esse experimento, mas sabemos o que ela descobriu com ele. Os macacos eram capazes não apenas de contar, mas de combinar inputs vindo de diferentes estímulos. Claro que ela não parou por ai. Ela pegava uma tela mostrando um número X de objetos, cobria a tela e subtraia alguns deles, mostrando a tela depois. Os macacos eram colocados em telas que mostravam a diferença e outras com objetos aleatórios. Claro que eles acertaram as telas com as diferenças corretas. Não satisfeita ela colocou duas telas lado a lado, cada uma mostrando um grupo de pontos, a pegadinha é que um tinha mais pontos e o outro menos pontos. E não se limitou a macacos desta vez, ela colocou estudantes da universidade na cadeira também. O objetivo apontar a tela com mais pontos. “A performance final dos estudantes e a dos macacos é praticamente indistinguível uma da outra”. Olhando apenas os resultados você não sabe dizer se o teste foi realizado por um humano ou um macaco.

Claudia Uller, da Universidade de Essex, Reino Unido, descobriu que Salamandras sabem contar, escolhendo tubos de ensaios que possuem mais quantidades de moscas. Primeiro escolhendo entre tudo com 1, 2 e 3 moscas e depois entre tubos que possuiam diferenças de até 16 moscas entre si.

Porra, Christian Agrillo e seus colegas mostraram que um peixe-mosquito consegue contar, discriminando números até 16!

Pela Deusa, vivemos em um mundo onde atá galinhas fazem aritmética! E nós achando que os árabes eram fodas.

Se animais percebem números, por que nós, ou nossas versões antigas, não perceberiam também?

Assim, se fôssemos ignorar tudo isso que foi escrito para então reescrever o primeiro parágrafo, ele seria mais ou menos assim:

“Aquilo que conhecemos como matemática nasceu antes de nós, e é passada para nós através de nosso cérebro, queiramos ou não.” [4]

Concordo que é muito mais elegante e sucinto. Mas nem por isso menos real.

Querendo ou não, a matemática é algo que parece vir de brinde quando se é vivo. Macaco ou não. Mamífero ou não. Assim a história da matemática estaria de certa forma ligada à história de nosso sistema nervoso. Hoje existem cientistas fazendo pesquisas que indicam que invertebrados tem essa “abstração numérica” também. Logo vão descobrir que a abstração numérica é algo que independe de um sistema nervoso e ai as pessoas começam a pirar, ou não. Já existem hoje aqueles que afirmam que a Matemática existe pronta na natureza, nós apenas a percebemos. Se Pascal já não tivesse feito isso eu diria que é uma questão de tempo até as pessoas começarem a afirmar que a matemática é algo que não apenas emana de Deus como também Deus pode ser comprovado matematicamente. Deixemos isso para outro dia.

Peixes contam, anfíbios contam, répteis contam, aves contam, macacos contam, nós contamos. Assim não houve sociedades caçadoras e coletoras primitivas desenvolvendo uma noção abstrata de números, esse noção já fazia parte delas antes delas nascerem.

Mas ela pode ter sido desenvolvida graças à contagem de rebanhos e frutas, certo?

Hoje em dia, o conceito público do que é evolução tem a ver com algo primitivo se tornando moderno, com um aumento de sofisticação, com uma melhoria. Os primeiros computadores pesavam toneladas e ocupavam salas inteiras e não tinham 1/100 da capacidade do seu relógio digital de hoje certo? Se a voz do povo é a voz de Deus então infelizmente Deus é burro. Evolução tem a ver com um aumento de complexidade. Pense na primeira célula que só sabia comer, cagar, se dividir e morrer e pense no que existe hoje no tocante a variedade de espécies. Tecnicamente essas novas espécies fazem as exatas mesmas coisas que aquela célula primitiva, mas houve um aumento significativo na complexidade desses seres e mais ainda, na variedade desses seres. É ai que Darwin pisou na bola, já que seu cânon explica muito bem como uma espécie se adapta e evolui, mas não como surgem novas espécies com tanta variedade. Mas não viemos discutir religião aqui, voltemos aos números.

Se a Matemática se desenvolveu, ou evoluiu, partindo de uma forma simples de abstração numérica rumo a uma forma muito mais complexa, acompanhando o desenvolvimento do raciocínio, ela deve ter deixado evidências. Vejamos se podemos encontrar por ai alguns fósseis de idéias abstratas.

Estudos sobre como a matemática surgiu, recuando até 50.000 anos atrás, supostamente a época que os Homo sapiens começaram a se espalhar pelo mundo, chegaram-se à conclusão que o conceito de divisão numérica tem aproximadamente 12.000 anos, antes disso ele seria muito complexo para que os pobres macacomens que zanzavam pelo mundo a compreendessem.

Um entalhe feito na presa de um mamute, datado de aproximadamente 32.500 anos atrás traz uma representação da constelação de Orion. Num primeiro momento isso pode não parecer muito, mas quem fez esse entalhe já possuia uma noção muito boa de constelações. Fazer uma representação de um grupo aleatório de coisas é algo, uma costelação já é outra diferente. Você precisa saber que aquele grupo de estrelas surge constantemente. Isso já mostra uma noção de abstração de tempo muito boa. Datado quase da mesma época, aproximadamente 32.000 anos atrás, uma espécie de calendário trazendo o desenho de uma mulher a cada 28 dias. Pessoas, como você e eu, há dezenas de milhares de anos, com uma compreensão do mundo muito próxima da nossa hoje. Muito primitivo não? Esses dois entalhes nos mostram de cara que nossos tatatatatatatatatata elevado a tata taravós já se utilizavam de conceitos abstratos (números) para medir outro conceito abstrato (tempo), dividindo esse conceito em grupos menores – constelações de um lado, períodos de 28 dias do outro. Além disso existem outras evidências interessantes hoje como, por exemplo, um culto a cobras na Africa, datando de pelo menos 70.000 anos atrás ou um registro, datando de 30.000 anos atrás, da cerimônia de enterro de um xamã – para terem idéia isso é coisa do paleolítico, da idade da pedra lascada, é nessa época que o Dogma acredita que o homem descobriu o fogo e a roda. Esses achados já mostram que abstrações eram algo que já fazia parte do dia a dia dos antepassados, e já eram abstrações complexas. As formas de culto ou cerimônias de sepultamento não eram diferentes das que temos hoje – nossa capacidade de abstração não evoluiu tanto quanto gostaríamos de pensar que ela fez.

Dizer que o homem da caverna tinha medo do relâmpago e por isso achava que ele era um Deus, já que não sabia explicá-lo cientificamente, e ai criava uma religião para adorá-lo é uma besteira. Um pensamento simplista e tosco, mas que mesmo assim já mostra uma capacidade complexa de abstrações gerando ainda mais abstrações. Agora o que seriam esses primitivos e sociedades primitivas?

Quando pensamos em civilizações antigas hoje, a grande maioria de nós pensa nos Egípcios, nos Babilônios, nos Sumérios. A civilização Suméria é considerada a mais antiga de todas, ela é datada de 6.000 anos atrás mais ou menos. Antes disso a crença não era em civilização, mas em sociedades mais ou menos complexas e organizadas. Infelizmente esse pensamento a cada dia parece afundar cada vez mais e fazer cada vez menos sentido.

Ruinas submersas na ilha de Yonaguni no Japão, são o testemunho de sociedades complexas com economia e engenharia que datam de cerca de 11.000 anos atrás. Ou seja,  dezenas de milênios antes da nossa “civilização” mais antiga já haviam japoneses contando e medindo não apenas o tempo ou trabalhando com padrões cíclicos e repetitivos, mas erguendo obras arquitetônicas e lidando com economia.

Assim, não é de se surpreender que os artefatos matemáticos mais antigos que temos hoje venham deste período pré-civilizado, o osso Lebombo sendo o bisavô de todos eles. Datado de 37,000 anos, ele é uma fíbula de babuíno marcada com 29 talhos, e foi descoberto nas montanhas da Suiça. “Primitivo”, mas interessante, se bem que se peixes contam isso não deveria nos surpreender. Na Checoslováquia encontraram outro desses ossos com marcas, foi chamado de osso de Lobo, datados de 30.000 anos atrás, esse osso traz 55 marcas e uma escultura da figura de Vênus em uma das pontas; contagem ligada à Deusa da Fertilidade, a Deusa-Mãe. Uma complexidade maior, mas matematicamente simples ainda, afinal se envolve a deusa Mãe é apenas matemática aliada à biologia.

Olhemos para outro osso agora, batizado de osso Ishango. Ele foi encontrado perto do rio Nilo, no Congo, datado de 20,000 anos. Outra fíbula de babuíno com marcas, em um aponta trazia um cristal de quartzo preso, o que levou muitos a acreditarem que esse osso era uma espécie de caneta antiga, usada para marcar outras coisas. Nada sensacional certo?

Vamos olhar o osso de Ishango:

garotas, é só clicar na imagem acima com jeitinho que ela cresce pra vocês

Repare nos talhos que aparecem nele. Bem, logo que foi descoberto acreditaram que as marcas deste osso fossem simplesmente uma forma de deixar o osso menos escorregadio, e melhorar a “pegada” nele, a versão antiga das capinhas de silicone das canetas metidas de hoje.

Como essa imagem ainda é confusa, vamos remover o osso e deixar apenas as marcas:

Coluna A

Coluna B

Coluna C

Se você parou para contar as marcas das 3 colunas do osso deve ter se assombrado também. Repare como elas estão em três colunas assimétricas. na primeira coluna as marcas estavam agrupadas em 4 grupos:

19 riscos
17 riscos
13 riscos
11 riscos

Na coluna do centro em 8 grupos:

7 riscos
5 riscos
5 riscos
10 riscos
8 riscos
4 riscos
6 riscos
3 riscos

na última coluna 4 grupos:

9 riscos
19 riscos
21 riscos
11 riscos

Bem, isso implica que alguém, ou alguma coisa, 20.000 anos atrás, em pleno Paleolítico, pegou o osso do braço de um babuíno, e como não tinha nada a fazer começou a riscar nele, em colunas. Na primeira coluna marcou apenas números ímpares, listando todos os números primos entre 10 e 20, o que, se não bastasse forma um primo quádruplo – primos quádruplos são uma série de quatro primos na forma {p,p+2, p+6, p+8}, que representa o agrupamento mais próximo possível de quatro primos maiores que 3, caso você não esteja conseguindo seguir o raciocínio do primitivo limitado que riscava ossos.

Na coluna do meio, a pessoa/coisa começou fazendo 3 riscos e depois fez 6 (olhe da direita para a esquerda). Para provar que essa evolução não foi por acaso, em seguida foram feitos 4 riscos seguidos por 8. Notou algum padrão? Se não olhe de novo e veja que foram feitos 10 riscos e então 5. Para aqueles desavisados isso parece muito com multiplicação e divisão por 2.

Na terceira coluna números que podem ser representados como [10-1], [20-1], [20+1] e [10+1]. Se isso não fosse assustador o suficiente repare que as somas dos riscos da primeira coluna é igual a 60 e da terceira é igual a 60 também. Como vimos, de acordo com o Dogma, o ser humano só adquiriu o conceito de divisão em aproximadamente 10.000 a.C. e sem ele não haveria a chance de ter idéia do que são números primos, que por sua vez só seriam compreendidos no ano 500 a.C. Bem, parece que de novo o Dogma vai por água abaixo; bem, vimos que macacos e estudantes costumam ter o mesmo desempenho em alguns tipos de testes matemáticos, talvez este tenha sido o caso au invés de considerações matemáticas complexas – pense assim se imaginar um homem das cavernas brincando com números primos e coisas assim te faz cagar tijolos.

SIM IRMÃOS E IRMÃS! A MATEMÁTICA ESTÁ DENTRO DE NÓS! E ELA QUER SAIR! ALELUIA!

Mas antes de começarmos a cantar hinos e fazer dancinhas sinistras, vamos ver como diferentes pessoas ativaram esses circuito de contar de dentro de si, e como eles colocaram ele em uso. E então vejamos como podemos usar a própria matemática para alterar esse circuíto que existe dentro de nós.

Notas:

[1] Correspondência biunívoca é simplesmente a capacidade de comparar dois conjuntos estabelecendo uma relação entre o conjunto que se conta e o conjunto contado. Em linguagem simples, fechar a mão e levantar um dedo para cada vez que alguém espirrar, ou fazer uma marca para cada ave que enxergar.

[2] Existem, obviamente, hereges defensores da crença de que o Homo sapiens evoluiu em regiões geograficamente separadas. Muitos cientistas hoje invejam em segredo a Igreja Católica por ter inventado a inquisição e ficam tristes porque hoje queimar pessoas vivas em praça pública pode dar cadeia.

[3] Abracadabra

[4] Claro que se consideramos a matemática uma música que existe por tráz da existência, desenrolando de maneira sutil e que gradualmente é percebida por nós, eu afirmo que a matemática nos é passada independente de termos ou não um cérebro. Não precisamos dele para perceber a harmonia matemática, sentimos ela com o nosso ser – independente dele ser humano ou não.

Créditos fotográficos:

A imagem de abertura é da calculadora mecânica O Macaco Educado. Inventada na distante antiguidade, aproximadamente 100 anos atrás, era usada como um auxílio educacional e funcionava de forma totalmente mecânica, bastava mover os pés do macaco para os números que você desejava multiplicar e as mãos mostravam o resultado.

A imagem da rapaziada é de autoria de Ivan Allen.

fecham-se as cortinas – lembrem-se que é expressamente proibido alimentar os animais sem as calças.

Por LöN Plo

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/no-inicio-era-o-caos/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/no-inicio-era-o-caos/

Mulher Objeto

Com o recente debate iniciado no post “Feminismo: um delírio“, achei por bem trazer um texto sobre o tema (todos os links no texto abrem novas janelas)…

Vamos ser honestos e ir direto ao ponto: faz muito tempo que o mundo ocidental é machista – no mínimo, desde que o culto a Deusa foi destroçado pela Igreja, mas isso não vem ao caso no momento…

Sim, já foi pior, já foi muito pior. Houve época em que mulheres “não tinham alma”. Houve época em que não podiam nem estudar nem trabalhar “porque sua única função era cuidar da casa e dos filhos”. Houve época em que não podiam votar e muito menos se eleger… Mas graças aos anticoncepcionais e aos movimentos de emancipação do século passado, as mulheres hoje estão em situação bem mais digna.

Ou melhor, elas sempre estiveram em situação digna. Os homens é que eram indignos das mulheres, pois por muito tempo foram educados para as tratar como seres secundários, às vezes serviçais.

Dizem que a humanidade não evoluiu moralmente. Os dogmáticos do apocalipse adoram lembrar que nossa evolução tecnológica nada fez por nossa moral. Dizem que “não há nada de novo abaixo do céu”… Eu não concordo.

Não concordo, porque há 2 mil anos o povo ia ver feras devorarem homens no Coliseu de Roma. E aplaudiam… Hoje o povo vai a um estádio de futebol (mesmo em Roma) para ver uma disputa esportiva, e raramente aplaude algum derramamento de sangue – é claro que os hooligans estão aí para nos lembrar do quão ignorante parte de nós ainda é, mas eles são a minoria, felizmente…

Os homens diziam que o mercado de trabalho não comportaria o afluxo de mulheres, que isso provocaria desemprego e conflitos e caos generalizado… Não, o apocalipse não chegou porque uma mulher assumiu a gerência de uma multinacional, ou a presidência de um país. Elas não são tão diferentes assim dos homens, e em muitas áreas são estatisticamente melhores – como na direção de automóveis, por exemplo; Se não acredita basta verificar em qualquer seguradora quanto custa o seguro para homens, e quanto custa o mesmo seguro para mulheres.

Mas há homens inteligentes e sensíveis o suficiente para reconhecer todas as potencialidades femininas… Vejamos o presidente da França, por exemplo, que certamente não deve ter muitas reclamações acerca da belíssima ex-modelo com quem se casou – uma artista de mão cheia, que não deixou de ser musicista e nem escritora por ser uma “primeira-dama”. Quantos homens não se sentiriam intimidados por uma Carla Bruni? Alguém tão bela, tão dona de si mesma, tão deliciosamente poética… Seria “muita areia para o caminhãozinho dele”? Certamente, talvez exatamente por isso ele esteja com ela – “o mais improvável dos relacionamentos”. “Improvável”, isto é, para os machistas que ainda se sentem melhor com as mulheres serviçais, as secundárias, as que não os podem ofuscar…

Porém, os ecos da barbárie medieval e a sombra da ignorância humana ainda se fazem presentes na época atual. Há algo de obscuro enterrado no cerne de nossa educação precária. Uma idéia de que homens são provedores e mulheres são “alguma espécie de bem material” – e que os homens devem ter muito, muito dinheiro, para poder “usufruir” dessas mulheres. Eis o absurdo conceito de mulher objeto (não estou me referindo a parafilia, mas simplesmente ao conceito em si), tão absurdo que se oculta longe da racionalidade, de modo que muitas vezes ele está no inconsciente, e não no consciente. Mulheres objeto no inconsciente coletivo de homens, e também de mulheres… Não acredita?

Se não acredita, dê uma breve olhada em comerciais de cerveja, em revistas masculinas, em sites pornô – ou melhor, talvez seja mais simples ir direto ao ponto, direto na “ferida”…

Clipes de música americana! Eles infestam as mentes de jovens e adolescentes – e mesmo de crianças e pré-adolescentes… Eu poderia citar vários exemplos, mas vamos direto a um ícone, do Black Eyed Peas (vale lembrar que não tenho nada contra a música em si, mas contra a idéia que os levou a escrever uma letra que, no fim das contas, resume muito bem o conceito de mulher objeto):

» Ver clipe de “My Humps” (Black Eyed Peas) no YouTube

Na música acima, chamada “My Humps”, temos praticamente uma relação comercial estabelecida: o homem deve prover a mulher com dinheiro e jóias caras, e ela deve prover ele (com o perdão da palavra) com “muita bunda dentro do seu jeans” – eu estou apenas traduzindo a letra!

Algumas mulheres perceberam o absurdo estabelecido na cultura musical “pop” americana… Alanis Morissette nos brindou com sua brilhante paródia da mesma música, em que ela usa a mesmíssima letra, mas com outro ritmo (ela certamente não pretendia lançar um hit com esse clipe):

» Ver clipe da paródia de “My Humps” (Alanis Morissette) no UOL+

Isso dá uma pequena idéia geral de como o conceito de mulher objeto penetra em nossa cultura desde praticamente o berço – e nem sempre nossos adolescentes percebem por onde esse tipo de pensamento adentrou suas vidas (e até mesmo alterou o funcionamento cerebral)… Infelizmente não somos educados para pensar por nós mesmos, e dá no que dá: “conceitos enlatados goela adentro” – muitos de nós são praticamente gansos com cérebro inchado (ao invés do fígado).

E como mudar? Como fazer com que as mulheres escapem dessa sina – e de quebra reduzir (muito) a violência contra a mulher, causa direta de muitos traumas e assassinatos, mesmo nas “melhores famílias” –?

Simples: não aceite. Não compre essas idéias. Analise a si mesmo, conheça aos próprios pensamentos, e questione-se até que ponto eles são seus, e até que ponto são fruto de uma sociedade algo decadente, onde o deus do consumo faz o que quer e aonde quer… E todos o aplaudem, ou quase todos.

Mas, sobretudo, homens e mulheres, não desanimem! Quem sabe o dia em que nos chamaremos não de homens e de mulheres – mas de seres, de almas, de consciências –, não esteja tão distante assim… Era após era. Século após século… Hoje melhor do que ontem. Amanhã melhor do que hoje. Passo a passo.

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» Tradução da música “My Humps” (atenção: a leitura pode fazer você perder a fé na humanidade)

Nota: Não desconsidero a possibilidade da própria banda Black Eyed Peas ter feito uma grande sátira da nossa sociedade atual com a sua música. No entanto, seja porque a sátira tenha sido “sutil demais”, seja porque a grande maioria das pessoas não a entendeu, a crítica permanece válida. E, se for o caso de ter sido mesmo uma sátira, é possível que o próprio Black Eyed Peas também concorde com a crítica feita aqui…

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Crédito das fotos: Anônimo/Divulgação.

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#Música #sexo #sociedade

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mulher-objeto

Pactum Pactorum

pactum-pactorum

Venha Participar de um ritual de Alta Magia que tem por objetivo abrir os portais da Riqueza e da Prosperidade para o praticante. Este é um ritual sério que nada tem a ver com Pactos Demoníacos e entidades maléficas.

Só que não!

Praticamente uma vez por mês recebo estes SPAMS inúteis vindo de Estelionatários ávidos por separar os trouxas de seu dinheiro, prometendo pactos mirabolantes, cursos de magia e rituais de riqueza fantasiosas. P.T.Barnum estava coberto de razão quando dizia que “Nasce um otário a cada minuto!”. No caso de Pactos com Lúcifer, parece que essa cota aumenta…

Vamos observar o email:

Sabemos que existem muitos mitos que rodeiam sobre rituais de Alta Magia e Pactos e que assim povoam o consciente da maioria das pessoas com pensamentos assustadores e tenebrosos. Não são medos infundados, pois desde a Inquisição muitas estórias foram inventadas para colocar medo naqueles que ousassem desobedecer as ordens da Igreja Romana. Além disso, são comuns em nossos tempos, pessoas praticarem ritos absurdos com entidades do plano inferior oferecendo a própria alma em troca de poucos anos de riqueza.

Nosso Ritual não tem nada a ver com isso!

Trata-se de um ritual sério, bonito, fundamentado em conhecimento, não na fé cega. Nosso Ritual não ofende a nenhuma religião, não blasfema contra nenhum Deus, não é um ritual de cunho sexual, não há nudismo, não há venda de almas e nem sacrifícios de sangue. E, além disso, funciona melhor que qualquer outro ritual que se possa ter notícias. Simplesmente porque não há nenhuma entidade superior à do nosso ritual na função de distribuir riquezas em nosso planeta -Nosso Ritual é para Reis – Venha Reinar Conosco!

Podemos perceber a marmotagem logo no primeiro parágrafo… o cara é mais escorregadio que um pastor evangélico. Não fala quem faz o ritual, o que faz, o que fará, nada… a idéia de que exista um ritual “que não blasfema contra nenhum Deus” ou “que não ofenda nenhuma religião” já mostra a total picaretagem do sujeito e já deveria levantar todas as bandeiras de suspeita… mesmo os bananas satanistas de orkutbook e seus “rituais de prosperidade do diabo” sabem que os crentes se melindram até com as velas dos rituais dos wiccas.

Outra indicação forte de picaretagem está em anunciar “segredos proibidos, rituais de reis, coisas que apenas o nosso grupinho secreto sabe para dominar o mundo”. Curiosamente, continuam pobres e desesperados por vender pactos da prosperidade.

Ora, qualquer meio-cérebro sabe que, se um ritual de prosperidade luciferiana funcionasse, a pessoa só precisaria fazê-lo uma vez e seria próspero… se a pessoa tem de mandar spams vendendo pactos a cada dois meses, é mais do que óbvio que eles não funcionam.

· O ritual é realizado individualmente em nosso Castelo (de forma secreta), ou seja, sem que ninguém mais necessite saber que vós realizou o ritual (isso será entre você e os Mestres Magos possuidores do Rito (e somente com tal discrição existirá o retorno esperado – não prossiga sem total discrição) ’Para obter algo que você nunca teve, precisa fazer algo que nunca fez’. Através desse ritual, nós vos apresentamos à uma Poderosa Entidade Espiritual, incumbindo-lhe a missão de trazer-lhe riquezas e bens materiais. Você obterá também aumento da percepção, da influência, do poder e fortuna pessoal.

Mesmo porque imagine a vergonha alheia de voce ter de ir na polícia reclamar que foi feito de trouxa porque queria “fazer um pactum pactorum com lucifugo rocambole para ficar rico, mas eles roubaram seu dinheiro e não te deram nada”… o delegado ia mijar de rir da sua cara… Muitos desses pilantras esquisotericos utilizam-se dessa cobertura de “sigilo e segredo” para criar uma aura de mistério e amedrontar os trouxas. Quem os vê no youtube até poderia dar alguma credibilidade (ainda mais porque o alvo desses espertalhões geralmente é a pessoa que não entende nada de hermetismo). Depois, quando nada der certo, o otário vai reclamar com quem? com Satã? hauahauaha

continuando:

O nosso Rito possui alta tensão mágicka e não meras formalidades teatrais ou simbólicas. O que pode ser descrito (é bem limitado, pois não deve ser exposto). Em sua iniciação você passará por algumas preparações fundamentais, que seguem toda uma tradição ritualística, essa cerimônia é individual e realizada somente com sua presença em nosso Castelo, na região de xxxxxxxxxxx; em data específica, com absoluto sigilo. Seu corpo astral receberá ”marcas” que serão reconhecidas por outros seres astrais, além do recebimento de alguns ”itens” (que não podemos descrever aqui).

Para participar do ritual é preciso antes fazer o Curso Preparatório e também uma preparação pessoal antes do rito. Além disso, nós temos que confeccionar a jóia ritualística, os utensílios mágickos, vestimenta e pergaminho sagrado que será usado por vós na realização do ritual.

Dercy Gonçalves, grande illuminati, dizia sempre que “alta tensão mágicka de cu é rola!” e, na verdade, todo o teatrinho desses vigaristas era feito pensando justamente em deixar o infeliz assustado. Os crentes em suas centenas de anos de propaganda já criaram um diabo super-hiper-duper-poderoso, e nada mais bacana do que aproveitar dessa fama para pegar alguns trouxas. Além do mais, se o camarada já ficar com medo, melhor ainda, porque não vai reclamar depois. O lance de inventar um “curso preparatório para ritual de prosperidade” é coisa de Jênio! Espremer cada trocado da carteira do mané.

*Existem diversos custos que envolvem esse forte ritual e portanto esse custo é repassado ao interessado(a) que também deve contribuir com o Grande Templo, assim sendo, a taxa de participação é um investimento único de R$3.000,00 (Três Mil Reais) = um único investimento para uma nova vida de absoluto sucesso.

*pagamento no valor acima à vista e antecipado ao agendamento do ritual.

*consulte opções de parcelamento da taxa – com cheque – valor diferenciado.

Aceitamos vale-transporte e ticket restaurante também!

O nosso ritual é um rito de Alta Magia somente para os Reis!

Os Reis são aqueles que tem a mente aberta e têm coragem de encarar o mundo como ele realmente é!

Os Reis são aqueles que se responsabilizam pelos seus atos ao invés de compadecer-se de suas próprias dôres!

Os Reis são guerreiros, conquistadores e ambiciosos…

Os Reis compreendem que não ser escravo da matéria não significa viver na pobreza e sim possuir e dominar todo o qualquer bem que vier a desejar. Os Reis reinarão sobre todas as coisas materiais. E os escravos servirão!

Se você realmente tem interesse e está preparado para vir reinar conosco;

Obviamente, qualquer um que tenha o mínimo dessas qualidade passa longe dos picaretas. A única coisa certa que disseram é que os escravos servirão…

Felizmente, a polícia já começou a desbaratar essas quadrilhas de espertalhões. Alguns já foram, outros continuam agindo por ai. Fique esperto!

#Fraudes

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/pactum-pactorum

Azathoth: Flautista Idiota ou Gênio Idiota?

Por T. Allan Bilstad

De acordo com Lovecraft, no centro do universo há um deus. Esta divindade, aparentemente no lugar mais importante de toda a existência, a princípio pareceria ser sua razão de ser: a materialização do universo do pensamento em realidade.

Agora, imagine uma massa corpulenta de formas e formas tumultuadas e caóticas, canalizando de forma misteriosa uma melodia de cana fina sem nenhuma melodia ou ritmo. Ao redor desta divindade, como um sultão em seu trono, estão seres semelhantes, de menor estatura, mas de igual forma inquieta e matéria animada, cada um acrescentando às canções pouco saudáveis seus próprios tubos torcidos e espinhosos.

Este é Azathoth, o deus insano e sem forma, a massa louca do caos que canaliza suas canalizações não-mortas, desde seu início até seu fim.

A razão pela qual Azatoth e suas cortes tocam seus canos no centro do universo é desconhecida, nem é conhecida a causa pela qual se esforçam, pois tudo o que vem de Azatoth parece estar sem ordem ou estrutura. Tal é a natureza do caos primordial.

Talvez Lovecraft tenha feito de Azatoth uma metáfora para todo o universo – que o universo existe por causa do caos, e com o caos ele ainda cria. Em suas histórias, Lovecraft menciona que os feiticeiros humanos às vezes imploram a esse deus insano com súplicas e rituais para lhe fazer caril. Estes feiticeiros, vestidos de imagens astrológicas e místicas, carregadas de símbolos, formam uma sociedade, um sacerdócio, se você quiser, que tenta dar sentido aos insensatos. Estes seguidores esperam que suas orações caiam sobre os ouvidos simpáticos: ouvidos no centro do universo, ouvidos que só podem ouvir os sons de suas próprias melodias criadas em tubos profanos e sujos.

Você vê o que um homem poderia pensar se sentisse que o mundo era apenas a causa da insanidade e do caos? Lovecraft o fez, e este axioma ele expressou com tanto cuidado e calculismo em suas histórias de entretenimento.

Azathoth, como em muitas criações literárias, é um símbolo de um todo maior, uma peça de um quebra-cabeça, mas talvez o quebra-cabeça não tenha solução ou significado.

Não se saberia se o quebra-cabeça tem significado até que se comece a construí-lo juntos. E mesmo assim, pode haver apenas o caos na estrutura.

E insanidade.

A insanidade faz o mundo girar … e ao redor … e ao redor … e ao redor …

Extraído de The Lovecraft Necronomicon Primer, de T. Allan Bilstad.

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Fonte:

BILSTAD, T. Allan. Azathoth: Idiot Flutist or Idiot Genius?. The Llewellyn’s Journal, 2009. Disponível em: <https://www.llewellyn.com/journal/article/1973>. Acesso em 8 de março de 2022.

COPYRIGHT (2009). Llewellyn Worldwide, Ltd. All rights reserved.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/azathoth-flautista-idiota-ou-genio-idiota/