Neuroeconomia

A sociedade deriva do sexo, das relações reprodutivas. Enquanto unidades de trabalho, os primeiros bandos tribais humanos mantiveram-se unidos pelos laços entre casais e grupos mamíferos (as emoções impressas de afeição e confiança). No centro, o eixo central, encontrava-se a ternura orgásmica – ato partilhado, no acasalamento, do amor genital. Dele irradiou a ternura “sublimada” da relação entre pai e filho, irmão e irmã, e tios, tias e avós, toda a “família alargada”, ou bando caçador/coletor de alimentos.

O Estado conquistador, e a subsequente fissão da sociedade em classes distintas de privilegiados e carentes, criou a pobreza. Enquanto instituição humana, a pobreza deriva da conquista, da formação de governos (o bando guerreiro invasor que ficava para reger as suas conquistas) e da instituição de “leis” perpetuando a divisão classista entre Invasores e Invadidos.

Como qualquer outro primata, o ser humano contém circuitos neurogenéticos prontos para serem impressos por laços de casal e laços de bando. O objetivo evolucionário destes laços continua a ser classicamente mamífero: assegurar a biossobrevivência e o status do bando, além de programar a maioria das sementes com os comportamentos heterossexuais reprodutivos necessários à sobrevivência do bando, o que assegura por sua vez a biossobrevivência das gerações futuras.

A ascensão do Estado conquistador, o Estado feudal, e eventualmente do Estado capitalista moderno, minou e subverteu progressivamente os laços tribais de bando (“a família alargada”). Na nação capitalista mais avançada, os EUA, restam muito poucos destes laços tribais. Muito poucos cidadãos americanos se deterão para dar boléias ou esmolas aos pobres, não confiando sequer nos vizinhos. A maioria nem sequer conhece os vizinhos. Os comportamentos normais de bando, como a confiança, a solidariedade, a afeição, etc., passíveis ainda de serem encontrados nas nações feudais, encontram-se aqui atrofiados. A raiz das célebres “anomias”, “ansiedades”, “alienações”, etc., da sociedade capitalista encontra-se nesta ausência de normais laços de bando.

Falando em termos etológicos, os circuitos onde normalmente são impressos os laços de bando sobrevivem ainda. (Poderíamos exprimir o mesmo pensamento em linguagem psicológica dizendo que a necessidade de assegurar a biossobrevivência se mantém ainda). Esta constante mamífera deve ser satisfeita, e numa sociedade abstrata essa satisfação torna-se também abstrata.

Na sociedade capitalista, o dinheiro de papel torna-se a impressão da biossobrevivência.

William S. Burroughs comparou o capitalismo ao vício da heroína, assinalando os terríveis paralelos: o junkie precisa de doses regulares; o cidadão capitalista precisa igualmente de receber injeções regulares de dinheiro. Se não tiver droga, o viciado transforma-se num feixe espasmódico de ansiedades; se não tiver dinheiro, o cidadão capitalista atravessa um trauma de carência em tudo semelhante. Quando a droga escasseia, os junkies comportam-se de forma desesperada, chegando ao ponto de roubar e mesmo matar. Se o dinheiro escasseia, o cidadão capitalista também é capaz de roubar e matar.

Segundo o dr. Timothy Leary, as drogas opiáceas funcionam como neurotransmissores do circuito da biossobrevivência, isto é, ativam as redes neuronais relacionadas com os laços mãe-filho. (Em termos de psicologia freudiana pré-neurológica, o junkie regressa ao êxtase infantil no regaço da

Mãe Ópio). Numa sociedade desprovida dos normais laços mamíferos de bando, o dinheiro é sujeito a uma impressão semelhante, através do condicionamento, sobre os reflexos infantis, de uma série de associações aprendidas. O cidadão capitalista aprende neurologicamente que dinheiro equivale a segurança e falta de dinheiro equivale a insegurança.

Muito cedo na evolução hominídea, a ansiedade da separação infantil (o medo de perder a Mãe toda-importante) generalizou-se à ansiedade da separação tribal. Quem fosse expulso da tribo por comportamento delinqüente ou anti-social experimentava verdadeira ansiedade de biossobrevivência. (Em condições primitivas, uma tribo possui uma capacidade de sobrevivência muito superior à de um indivíduo só. À época, o ostracismo significava geralmente a morte, assim como o ostracismo da mãe pode significar a morte da criança.)

Já que, na sociedade capitalista, o dinheiro substituiu a tribo, a maioria dos cidadãos imprimiu no dinheiro as emoções mamíferas tradicionalmente associadas aos laços de sobrevivência filho-mãe e dos bandos individuais. Esta impressão é mantida por associações condicionadas criadas por experiências de privação real. Nas sociedades capitalistas, antes de surgir a segurança social [no Brasil, assistência social] as pessoas morriam mesmo, e em grande número, por carência de dinheiro; ainda hoje isso sucede ocasionalmente entre os muito ignorantes, os muito tímidos ou os muito velhos. (Por exemplo, há alguns anos, um casal idoso da cidade de Buffalo morreu congelado no mês de janeiro, quando a companhia local lhes corou o aquecimento por falta de pagamento da conta de eletricidade.)

A observação, que fazem os europeus, de que os americanos são “loucos por dinheiro” significa simplesmente que a abstração capitalista e o declínio da tribo se encontram mais avançados aqui do que nos estados capitalistas europeus.

Carente de dinheiro, o americano vagueia como um lunático possesso. A “ansiedade”, a “anomia”, a “alienação”, etc., vão crescendo exponencialmente, reforçadas por reais privações de segurança. Nas sociedades menos abstratas, os pobres partilham os laços de bando e “amam-se” uns aos outros (a nível de aldeia). Carentes de quaisquer laços de bando, e viciados apenas em dinheiro, os americanos pobres odeiam-se uns aos outros. Isto explica a observação paradoxal, que muitos comentaristas fizeram, de como nas sociedades tradicionais a pobreza conserva ainda a sua dignidade e mesmo algum orgulho, mas surge na América como desonrosa e vergonhosa. Na realidade, os americanos pobres não se odeiam apenas uns aos outros; freqüentemente, e talvez em geral, eles odeiam-se a si próprios.

Esses fatos da neuroeconomia encontram-se de tal forma carregados de dor e embaraço que a maioria dos americanos se recusa pura e simplesmente a discuti-los. O puritanismo sexual do século XIX transformou-se no puritanismo monetário. Pelo menos entre o terço mais avant da população, as pessoas conseguem falar muito explicitamente sobre as vertentes fetichistas das suas impressões sexuais (“Sinto-me pleno quando uso a roupa interior da minha mulher”, ou coisas do gênero), mas uma fraqueza equivalente sobre as nossas necessidades monetárias faz gelar a conversa, podendo mesmo esvaziar a sala.

Por detrás do embaraço e dor superficiais encontra-se o terror mamífero máximo: a ansiedade da biossobrevivência.

A mobilidade das sociedades modernas faz aumentar ainda mais esta síndrome de ansiedade monetária. Durante a depressão dos anos 30, por exemplo, muitas mercearias e outras “lojas de esquina” permitiram aos seus clientes a acumulação de grandes contas, por vezes durante meses a fio. Este procedimento baseava-se nos últimos farrapos dos tradicionais laços tribais e no fato de, nessa altura, há 40 anos, quase toda a gente das mesmas redondezas se conhecer. Hoje isso não aconteceria. Vivemos, como diz um romance, “num mundo cheio de estranhos”.

No primeiro capítulo de The Confidence Man, Melville contrasta o “fanático religioso” que carrega um cartaz dizendo “AMAI-VOS UNS AOS OUTROS” com os comerciantes cujos avisos dizem “NÃO FAÇO FIADO”. A ideia desta ironia era fazer-nos refletir sobre a inquieta mistura de cristianismo e capitalismo na América do século XIX – cristianismo esse que, como o budismo e as outras religiões pós-urbanas, parece ser em grande medida uma tentativa, a nível místico, de recriação dos laços tribais no seio da era “civilizada” (isto é, imperialista). A segurança social representa a tentativa de falsificação desses laços por parte do Estado (de forma mesquinha e paranóica, de acordo com o espírito da lei capitalista). O totalitarismo surge como a erupção, possuída de fúria assassina, da mesma tentativa de converter o estado num nexus tribal de confiança mútua e apoio à biossobrevivência.

Quando a filosofia libertária surgiu na América, ela representava duas tendências principais, que os libertários modernos parecem ter esquecido – imprudentemente, caso se provar a justeza da análise acima feita. Refiro-me à ênfase na associação voluntária – a retribalização a um nível superior, através de objetivos evolucionários partilhados – e nas moedas alternativas. As associações voluntárias, ou comunas, desprovidas de moeda alternativa são rapidamente absorvidas pelo nexus da moeda capitalista. As associações voluntárias dispondo de moeda alternativa, abertamente declarada, são empurradas para os tribunais e destruídas. É possível que, tal como acontece em Illuminatus!, existam realmente associações voluntárias usando moedas secretas ou dissimuladas, a julgar por indícios ou códigos em algumas publicações libertárias de direita.

Nas condições presentes, nenhuma forma de libertarianismo ou anarquismo (incluindo o anarco capitalismo e o anarco-comunismo) pode competir eficazmente com o estado do bem estar social [welfare state, aqui no Brasil representado pelo Governo Lula] ou o totalitarismo.

As práticas atuais do bem estar social resultaram de 70 anos de lutas entre liberais e conservadores, tendo estes últimos vencido a maioria das batalhas. O sistema funciona de modo a fazer crescer a síndrome do vício. O desempregado recebe uma pequena dose de dinheiro no princípio do mês, muito bem calculada para sustentar um avarento extremamente frugal até por volta do dia 10 desse mês. Mediante a dura experiência, o beneficiário do bem estar social aprende a fazer render a dose até o dia 15, ou talvez mesmo até o dia 20. O resto do mês é passado sofrendo de aguda ansiedade de biossobrevivência. Como qualquer traficante ou condicionador comportamental sabe, este período de privação é que sustenta o ciclo todo. No primeiro dia do mês seguinte vem outra dose de dinheiro, e todo o drama recomeça.

O rol de beneficiários do desemprego não para de crescer, já que – apesar da maior redundância e ineficácia – a tendência do industrialismo continua a ser, como diz Buckminster Fuller, fazer-mais com-menos e a tudo-tornar efêmero (omni-ephemerize,[2]). A cada nova década, haverá cada vez menos empregos e cada vez mais pessoas dependentes do bem estar social. (Já hoje, 0,5 por cento da população detém setenta por cento da riqueza, deixando os outros 99,5 por cento para competirem violentamente pelo restante). O resultado final poderá muito bem ser uma sociedade totalmente condicionada, motivada apenas pelo vício neuro-químico do dinheiro.

Para medir o seu progresso em direção a este estado, tente o leitor imaginar vividamente o que faria se amanhã todo o seu dinheiro e fontes de rendimento desaparecessem.

É importante termos bem presente que estamos aqui a discutir comportamentos mamíferos tradicionais. Em pesquisas recentes, alguns chimpanzés foram ensinados a usar dinheiro. Indicam os relatórios que eles desenvolveram atitudes “americanas” normais para com esses ícones misteriosamente poderosos. A Pirâmide dos Illuminati, que vem impressa nas notas de um dólar, e similares emblemas “mágicos”, como a Fleur de Lys, a suástica, a águia bicéfala, estrelas, luas, sóis, etc., com que outras nações acharam por bem decorar as suas notas e documentos de estado, são intrínsecos à “fantasmagoria” do monopólio que o Estado detém sobre o maná, ou energia psíquica. Temos aqui dois pedaços de papel verde; um é dinheiro, o outro não. A diferença é o primeiro ter sido “abençoado” pelos feiticeiros do tesouro.

O trabalhador capitalista vive num estado de ansiedade perpétua, em tudo semelhante ao do viciado em opiáceos. Originalmente, a segurança da biossobrevivência, a neuroquímica da sensação de segurança, encontra-se sempre ligada a um poder externo. Esta cadeia condicionada dinheiro equivale a segurança, falta de dinheiro equivale a terror é reforçada sempre que vemos alguém ser “despedido” ou vivendo na miséria. Psicologicamente, este estado pode se caracterizar como paranóia clínica de baixo grau. Politicamente, a manifestação deste desequilíbrio neuroquímico é conhecida por Fascismo: a mentalidade Archie Bunker(3)/Arnold Schickelgruber(4)/Richard Nixon.

Como diz Leary, “A nossa vida social é agora dominada por restrições que o medo e a raiva impõem à liberdade (…). O medo e a violência restritiva podem tornar-se prazeres viciantes, reforçados por dirigentes esquizofrênicos e um sistema econômico que depende da restrição da liberdade, da produção de medo e do incitamento ao comportamento violento”.

Na metáfora perfeita de Desmond Morris, o macaco nu comporta-se tal qual um animal de zoológico: a essência da experiência da jaula é o desespero. No nosso caso, as grades da jaula são as intangíveis regras impressas no jogo: os “grilhões forjados pela mente” de Blake. Somos literalmente o ceguinho que está a ser roubado. Abandonamos literalmente os nossos sentidos. O ícone incondicional, o dinheiro-símbolo, controla totalmente o nosso bem estar mental.

Era aparentemente isto o que Norman O. Brown tentava explicar nas suas obras oculto-freudianas sobre a destruição da nossa “natureza polimorfa” (o êxtase natural do corpo) no processo de condicionamento do sexo sublimado (os laços de bando) em jogos sociais como o dinheiro. A Ressurreição do Corpo prevista por Brown só poderá acontecer através da mutação neurossomática, ou, como lhe chama Leary, engenharia hedônica. Historicamente, os únicos grupos que lograram libertar-se efetivamente da ansiedade do jogo social foram: 1) as aristocracias absolutamente seguras, livres para explorar os vários prazeres “mentais” e “físicos”; e 2) as comunas de pobreza voluntária, uma forma de retribalização alcançada através da pura força de vontade.

À semelhança dos outros idealistas de Esquerda e de Direita, os libertários sofrem geralmente de uma dolorosa percepção do horrendo fosso que separa os seus objetivos evolucionários da presente e triste realidade. Esta sensação complica enormemente a resolução da sua própria síndrome de ansiedade monetária. Como resultado, virtualmente todas essas pessoas sentem uma culpa intensa relativa ao modo como adquirem o dinheiro necessário para sobreviver no mundo de macacos domesticados que nos rodeia.

“Ele se vendeu”, “Ela se vendeu”, “Eu me vendi”, são acusações ouvidas diariamente em todas os grupos idealistas. Qualquer processo de “fazer dinheiro” expõe-nos automaticamente às vibrações culpabilizantes de uma das facções, da mesma forma que, paradoxalmente, nos livra de mais vibrações culpabilizantes oriundas da outra facção. O Catch-22 (5), a Ligação Dupla, O Princípio SNAFU (6), etc. não passam de extensões da ratoeira neuroeconômica básica: Não É Possível Viver Sem Dinheiro.

Como concluiu Joseph Labadie, “A pobreza transforma-nos a todos em covardes”.

Em última análise, existe um certo prazer em suportar a pobreza. É como o prazer de sobreviver ao desgosto e luto causados pela morte de um ente querido; o prazer que sentia Hemingway em manter se firme e continuar a disparar sobre o leão que carregava; o prazer que sente o santo em perdoar aos seus perseguidores. Não se trata de masoquismo mas sim de orgulho: fui mais forte do julgava possível. “Não chorei nem desatei aos gritos”. Foi esta a alegria sentida por Nietszche e Gurdjieff ao ignorarem as suas doenças dolorosas para só escreverem sobre os estados “despertos”, ultrapassando todos os laços e emoções.

A paranóia direitista sobre o dinheiro de papel (as várias teorias conspiratórias sobre a manipulação da oferta e a retirada de moeda) será sempre epidêmica nas sociedades capitalistas. Os junkies nutrem mitos do gênero sobre os traficantes.

São alimentos autênticos, roupas autênticas e abrigos autênticos que são ameaçados quando o dinheiro é suprimido, ainda que por pouco tempo, assim como é autêntica a privação que ocorre quando o dinheiro é suprimido durante qualquer período de tempo. O macaco domesticado é apanhado num jogo de símbolos mentais, e a armadilha é mortal.

Existe uma espécie de prazer masoquista em analisar um assunto doloroso em profundidade, em todas as ramificações e complexidades dos seus labirínticos tormentos. Existe algo deste gênero subjacente à “objetividade” de Marx, Veblen, Freud, Brooks, Adams. Estes autores parecem querer assegurar-nos, e a si próprios também, que “Por pior que a coisa seja, pelo menos conseguimos enfrenta-la sem gritar”.

“Só aqueles que beberam da mesma taça nos conhecem”, disse Solzhenitsyn. Referia-se à prisão e não à pobreza, mas as duas experiências assemelham-se enquanto castigos tradicionais para a dissidência. Enchemo-nos de orgulho por havermos conseguido suportá-los, caso consigamos sobreviver.

Uma crença muito difundida sugere que a contracultura dos anos 60 foi espancada até a morte pelos bastões da polícia, rusgas antidroga e outros tipos de violência direta. A minha impressão é que a deixaram simplesmente morrer de fome. O fluxo de dinheiro foi cortado e, após privações suficientes, os sobreviventes treparam no primeiro salva-vidas capitalista que passou por perto.

Jack London escreveu que o capitalismo tem o seu próprio céu (a riqueza) e o seu próprio inferno (a pobreza). “E o inferno é bem verdadeiro”, escreveu, baseando-se na sua amarga experiência pessoal.

Se, na melhor das hipóteses, a paternidade é uma tarefa problemática, então no capitalismo ela se torna um trabalho de herói. Atualmente, quando o fluxo de dinheiro é cortado, o pai de família americano experimenta ansiedade múltipla: medo por si e medo pelos que o amam e nele confiam. Só o capitão de um navio que naufraga conhece esta vertigem, esta chaga.

Sobreviver ao terror constitui a essência da verdadeira Iniciação. Porque os que vivem mais felizes são os que mais perdoaram e, como disse Nietszche, aquilo que não me mata, me torna mais forte.

1. Este texto faz parte da coletânea de artigos reunida sob o título de The Illuminati Papers, tradução portuguesa: O livro dos Ilumunati, ed. Via Optima, de onde este foi retirado. R.A.W. assina aqui como Hagbard Celine. O capitão Hagbard Celine, para quem não sabe, é um personagem fictício dos romances da trilogia Illuminatus!, de Robert Anton Wilson e Robert Shea. Ele luta contra os Illuminati com seu submarino dourado. É uma espécie de Capitão Nemo discordiano e filósofo anarquista (Nota do Rizoma).

2. Neologismo de Buckminster Fuller (N. do Rizoma).

3. Archie Bunker é um famoso personagem conservador da sitcom americana All in the Family (N. do Rizoma).

4. Arnold Schickelgruber é um trocadilho com o nome do ator Arnold Schwarzenegger e o verdadeiro nome de Hitler, Adolf Schickelburger Hiedler (N. do Trad.).

5. Termo militar, nos EUA, cujo significado básico é: se há uma regra, não importa o que seja essa regra, há sempre uma exceção para ela. É uma espécie de misterioso mecanismo regulador que forma, em essência, um argumento circular (N. do Rizoma).

5. SNAFU é o acrônimo de Situation Normal All Fucked Up (Situação Normal Está Tudo Fodido), aludindo a uma situação de confusão e desorganização provocada por excesso de regulamentações e rotinas. (N. do Rizoma).

por Robert Anton Wilson – Tradução de Luís Torres Fontes

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/neuroeconomia/

A Pedra dos Filósofos por Edward Kelly

Edward Kelly

PREFACIO

Este é o tratado que Edward Kelley escreveu em 1958 para Rodolfo II, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico na esperança de ser solto da prisão. Na ocasião, Kelley estava preso no Castelo Křivoklát, acusado pelo assassinato de um oficial chamado Jiri Hunkler.

Vemos neste obra não o resultado de experimentos laboratoriais, bem a documentação de observações pessoais, mas uma vasta coleção erudita da literatura alquímica da época. Isso nos leva a pensar até que ponto Kelley realmente era dedicado a alquimia operativa.

O fato de ter sido contratado por Rodolfo II para produzir ouro factual é um indicio de que ele não estava sendo completamente honesto enquanto desfrutava das grandes somas de dinheiro que passou a receber. Quando foi incapaz de apresentar resultados que descem um retorno ao investimento, Kelley foi novamente preso, desta vez no Castelo de Hněvín onde por fim faleceu.

Seja como for, a coleção de citações que Kelley apresenta aqui é valiosa tanto historicamente como alquimicamente. Historicamente para os pesquisadores que desejam uma listagem abrangente dos livros mais relevantes e dos autores mais célebres da época. Alquimicamente para aqueles que já possuem a a chave do significado dos metais e sabem o que o Ouro, a Prata, e principalmente o Mercúrio significam.

~Tamosauskas


Embora eu já tenha sofrido duas vezes cadeias e prisões na Boêmia, uma indignidade que não me foi oferecida em nenhuma outra parte do mundo, ainda assim minha mente, permanecendo livre, tem se exercitado todo esse tempo no estudo dessa filosofia que é desprezada somente pelos ímpios e tolos, mas é louvada e admirada pelos sábios. Não, o ditado de que só os tolos e os advogados odeiam e desprezam a Alquimia passou a ser um provérbio. Além disso, como durante os três anos anteriores usei muito trabalho, despesas e cuidados para descobrir para Vossa Majestade o que poderia lhe proporcionar muito lucro e prazer, também durante minha prisão – uma calamidade que me sobreveio pela ação de Sua Majestade – sou totalmente incapaz de permanecer ocioso. Por isso escrevi um tratado, por meio do qual sua mente imperial pode ser guiada em toda a verdade da filosofia mais antiga, de onde, a partir de uma eminência elevada, pode contemplar e distinguir os terrenos férteis do deserto estéril e pedregoso. Mas se meus ensinamentos o desagradam, saiba que você ainda está se desviando completamente do verdadeiro escopo e objetivo deste assunto, e está desperdiçando totalmente seu dinheiro, tempo, trabalho e esperança. Uma familiaridade com os diferentes ramos do conhecimento me ensinou uma coisa, que nada é mais antigo, excelente ou mais desejável do que a verdade, e quem a negligencia deve passar toda a vida na sombra.

No entanto, sempre foi, e sempre será , a maneira da humanidade libertar Barrabás e crucificar Cristo. Isso eu experimentei – para meu bem, sem dúvida – no meu próprio caso. Atrevo-me a esperar, no entanto, que minha vida e meu caráter se tornem conhecidos da posteridade para que eu possa ser contado entre aqueles que sofreram muito por causa da verdade. A plena certeza do tempo presente do tratado é impotente para revogar. Se Vossa Majestade se dignar a examiná-lo à vontade, facilmente perceberá que minha mente está profundamente versada neste estudo.

(1) Todos os filósofos genuínos e judiciosos remontam as coisas aos seus primeiros princípios, isto é, aqueles compreendidos na tríplice divisão da Natureza. A geração de animais eles atribuíram a uma mistura do macho e da fêmea em união sexual; a dos vegetais à sua própria semente; enquanto como princípio dos minerais eles atribuíram terra e água viscosa.

(2) Todas as coisas específicas e individuais que se enquadram em uma certa classe obedecem às leis gerais e se referem aos primeiros princípios da classe a que pertencem.

(3) Assim, todo animal é produto da união sexual; cada planta, de sua própria semente; cada mineral, da mistura de sua terra e água genéricas.

(4) Portanto, uma lei imutável da Natureza regula a geração de tudo dentro dos limites de seu próprio gênero particular.

(5) Segue-se que, quanto à sua origem, os animais são genericamente distintos dos vegetais e minerais; a mesma diferença existe respectivamente entre vegetais e minerais e os outros dois reinos naturais.

(6) A matéria comum e universal desses três princípios é chamada de Caos.

(7) O caos contém em si os quatro elementos de tudo o que é, a saber , fogo, ar, água e terra, pela mistura e movimento dos quais as formas de todas as coisas terrenas são impressas em seus súditos.

(8) Esses elementos têm quatro qualidades: calor, frio, umidade, secura. A primeira é inerente ao fogo, a segunda à água, a terceira ao ar, a quarta à terra.

(9) Por meio dessas qualidades, os elementos agem uns sobre os outros e o movimento ocorre.

(10) Os elementos agem uns sobre os outros, ou sofrem ação, e são chamados ativos ou passivos.

( 11) Elementos ativos são aqueles que, em um composto, imprimem ao passivo um certo caráter específico, de acordo com a força e a extensão de seu movimento. Estes são a água e o fogo.

(12) Os elementos passivos – terra e ar – são aqueles que, por suas qualidades inativas, recebem prontamente as impressões dos mencionados elementos ativos.

(13) Os quatro elementos distinguem-se não só pela sua atividade e passividade, mas também pela prioridade e posterioridade dos seus movimentos.

(14) Prioridade e posterioridade são aqui predicadas ou referenciadas à posição de toda a esfera, ou a importância do resultado ou objetivo do movimento.

(15) No espaço, objetos pesados tendem para baixo e objetos leves para cima; os que não são nem leves nem pesados ocupam uma posição intermediária.

(16) Deste modo, mesmo entre os elementos passivos, a terra ocupa um lugar mais alto que o ar, porque se deleita mais no repouso; pois quanto menos movimento, mais passividade.

(17) A excelência do resultado refere-se à perfeição e à imperfeição, sendo o maduro mais perfeito que o imaturo. Agora, a maturidade é totalmente devida ao calor do fogo. Portanto, o fogo ocupa o lugar mais alto entre os elementos ativos.

(18) Entre os elementos passivos, o primeiro lugar é aquele que é mais passivo, ou seja, que é mais rápida e facilmente influenciável. Em um composto, a terra é primeiro afetada passivamente, depois o ar.

(19) Da mesma forma, em todo composto, o elemento aperfeiçoador atua por último; pois a perfeição é uma transição da imaturidade para a maturidade.

(20) Sendo a maturidade causada pelo calor, o frio é a causa da imaturidade.

(21) É claro, então, que os elementos, ou primeiros princípios remotos de animais, vegetais e minerais, no Caos, são suscetíveis de movimentos ativos no fogo e na água, e de movimentos passivos na terra e no ar. A água atua na terra e a transmuta em sua própria natureza; o fogo aquece o ar e também o transforma em sua própria semelhança.

(22) Os elementos ativos podem ser chamados masculinos, enquanto os elementos passivos representam o princípio feminino.

(23) Qualquer composto pertencente a qualquer um desses três reinos – animal, vegetal, mineral – é feminino na medida em que é terra e ar, e masculino na medida em que é fogo e água.

(24) Somente o que tem consistência é sensorialmente perceptível. Fogo e ar elementares, sendo naturalmente sutis, não podem ser vistos.

(25) Apenas dois elementos, água e terra, são visíveis, e a terra é chamada de esconderijo do fogo, a água a morada do ar.

(26) Nestes dois elementos temos a ampla lei de limitação que divide o macho da fêmea.

(27) A primeira matéria dos vegetais é a água e a terra escondidas em sua semente, sendo estas mais água do que terra.

(28) A primeira matéria dos animais é a mistura do esperma masculino e feminino, que incorpora mais umidade do que secura.

(29) A primeira matéria dos minerais é uma espécie de água viscosa, misturada com terra pura e impura.

(30) A terra impura é o enxofre combustível, que impede toda fusão, e amadurece superficialmente a água a ela unida, como vemos nos minerais menores, marcassita, magnésia, antimônio, etc.

(31) A terra pura é aquela que une de tal maneira as menores partes de sua água supracitada que não podem ser separadas pelo fogo mais feroz, de modo que ambas permanecem fixas ou são volatilizadas.

(32) Desta água viscosa e terra fusível, ou enxofre, é composto o que é chamado mercúrio, a primeira matéria dos metais.

(33) Os metais nada mais são do que Mercúrio digerido por diferentes graus de calor.

(34) Diferentes modificações de calor causam, no composto metálico, maturidade ou imaturidade.

(35) O maduro é aquele que atingiu exatamente todas as atividades e propriedades do fogo. Assim é o ouro.

(36) O imaturo é aquele que é dominado pelo elemento água e nunca sofre a ação do fogo. Tais são chumbo, estanho, cobre, ferro e prata.

(37) Apenas um metal, a saber , o ouro, é absolutamente perfeito e maduro. Por isso é chamado de corpo masculino perfeito.

(38) Os demais são imaturos e, portanto, imperfeitos.

(39) O limite de imaturidade é o início do vencimento; pois o fim do primeiro é o começo do último.

(40) A prata é menos limitada pela imaturidade aquosa do que o resto dos metais, embora possa de fato ser considerada até certo ponto impura, ainda assim sua água já está coberta com a vestimenta congelante de sua terra e, portanto, tende à perfeição .

(41) Esta condição é a razão pela qual a prata é em toda parte chamada pelos Sábios de corpo feminino perfeito.

(42) Todos os outros metais diferem apenas no grau de sua imperfeição, conforme sejam mais ou menos limitados pela dita imaturidade; no entanto, todos têm uma certa tendência para a perfeição, embora lhes falte a referida vestimenta congelante de sua terra.

(43) Esta força de congelamento é o efeito da frieza terrena, equilibrando sua própria umidade própria e causando fixação na matéria fluida.

(44) Os metais menores são fusíveis em um fogo feroz e, portanto, carecem dessa força de congelamento perfeita. Se se solidificam quando arrefecem, isto deve-se à disposição das suas referidas partículas terrosas.

(45) De acordo com as diferentes maneiras pelas quais esta água viscosa e a terra pura se unem, de modo a produzir mercúrio por coagulação, com a mediação do calor natural, temos diferentes metais, alguns dos quais são chamados de perfeitos, como ouro e prata, enquanto o resto é considerado imperfeito.

(46) Quem quiser imitar a Natureza em qualquer operação particular deve primeiro certificar-se de que possui a mesma matéria e, em segundo lugar, que essa substância atua de maneira semelhante à da Natureza. Pois a Natureza se alegra com o método natural, e semelhante purifica semelhante.

(47) Por isso estão enganados aqueles que se esforçam para obter o remédio para o tingimento de metais de animais ou vegetais. A tintura e o metal tingido devem pertencer à mesma raiz ou gênero; e como são os metais imperfeitos sobre os quais a Pedra Filosofal deve ser projetada, segue-se que o pó da Pedra deve ser essencialmente Mercúrio. A Pedra é a matéria metálica que transforma as formas dos metais imperfeitos em ouro, como podemos aprender no primeiro capítulo de ‘O Código da Verdade’: “A Pedra Filosófica é a matéria metálica convertendo as substâncias e formas dos metais imperfeitos”; e todos os Sábios concordam que só pode ter esse efeito sendo como eles.

(48) Que Mercúrio é a primeira matéria dos metais, tentarei provar com o dizer de alguns Sábios.

No Turba Philosophorum, capítulo 1 , encontramos as seguintes palavras: “Na avaliação de todos os Sábios, Mercúrio é o primeiro princípio de todos os metais.” E um pouco mais adiante: “Assim como a carne é gerada a partir do sangue coagulado, o ouro é gerado a partir do Mercúrio coagulado”. Novamente, no final do capítulo: “Todos os corpos metálicos puros e impuros são Mercúrio, porque são gerados a partir do mesmo. ”

Arnold escreve assim ao rei de Aragão: “Saiba que a matéria e o esperma de todos os metais são Mercúrio, digerido e engrossado no ventre da terra; eles são digeridos pelo calor sulfuroso e, de acordo com a qualidade e quantidade do enxofre, diferentes os metais são gerados. Sua matéria é essencialmente a mesma, embora possa haver algumas diferenças acidentais, como um maior ou menor grau de digestão, etc. Todas as coisas são feitas daquilo em que podem ser dissolvidas, por exemplo, gelo ou neve, que pode ser dissolvido em água; e assim todos os metais podem ser dissolvidos em mercúrio; portanto, eles são feitos de mercúrio ” .

A mesma opinião é apresentada por Bernard de Trevisa, em seu livro sobre a “Transmutação dos Metais”: , e recebe as virtudes daquelas coisas que aderem a ele em decocção.” Um pouco mais adiante, o mesmo Trevisan afirma que “o ouro nada mais é do que mercúrio congelado pelo seu enxofre ” .

E, em outro lugar, escreve o seguinte: “O solvente difere do solúvel apenas na proporção e no grau de digestão, mas não na matéria, pois a Natureza formou um do outro sem qualquer adição, como por um processo igualmente simples e maravilhosa, ela evolui ouro de mercúrio.”

Novamente: “Os Sábios afirmam que o ouro não é nada além de mercúrio perfeitamente digerido nas entranhas da terra, e eles significam que isso é causado pelo enxofre, que coagula o Mercúrio e o digere por seu próprio calor. disseram que o ouro nada mais é do que mercúrio maduro.”

Tal também é o consenso de outras autoridades. “O Soar da Trombeta” não dá nenhuma nota incerta: “Extraia mercúrio dos corpos, e você terá acima do solo mercúrio e enxofre da mesma substância de que ouro e prata são feitos na terra ” .

O “Caminho dos Caminhos” leva à mesma conclusão: “Reverendo Padre, incline os ouvidos veneráveis, e entenda que o mercúrio é o esperma de todos os metais, perfeitos e imperfeitos, digeridos nas entranhas da terra pelo calor do enxofre, o variedade de metais devido à diversidade deste seu enxofre ” .

Encontramos no mesmo tratado um cânone semelhante : “Todos os metais na terra são gerados em Mercúrio, e assim Mercúrio é a primeira matéria dos metais”.

A estas palavras, Avicena significa seu consentimento no capítulo iii .: “Assim como o gelo, que pelo calor é dissolvido em água, é claramente gerado a partir da água, todos os metais podem ser dissolvidos em Mercúrio, do qual é claro que eles são gerados a partir de isto.”

Este raciocínio é confirmado por “O Soar da Trombeta”: “Todo corpo passivo é reduzido à sua primeira matéria por operações contrárias à sua natureza; a primeira matéria é mercúrio, sendo ele próprio o óleo de todas as coisas líquidas e dúcteis ” .

Assim também o terceiro capítulo da “Correção dos Tolos”: “A natureza de todas as coisas fusíveis é a de Mercúrio coagulado de um vapor, ou o calor do enxofre incumbível vermelho ou branco “.

No capítulo i. da “Arte da Alquimia” lemos: “Todos os Sábios concordam que os metais são gerados a partir do vapor de enxofre e mercúrio.”

Mais uma vez, uma passagem no Turba Philosophorum é assim: “É certo que todo assunto deriva daquilo em que pode ser resolvido. Todos os metais podem ser dissolvidos em mercúrio, por isso já foram mercúrio. ”

Se valesse a pena, eu poderia acrescentar centenas de outras
passagens dos escritos dos Sábios, mas como elas não serviriam para nenhum bom propósito, deixarei que elas sejam suficientes.

Comete um grande erro aqueles que supõem que a água espessa do Antimônio, ou aquela substância viscosa que é extraída do Mercúrio sublimado, ou de Mercúrio e Júpiter dissolvidos juntos em uma mancha úmida, pode em qualquer caso ser a primeira substância dos metais.

O antimônio nunca pode assumir qualidades metálicas, porque sua água e umidade não são temperadas com terra seca, sutil, e carece, além disso, daquela untuosidade característica dos metais maleáveis. Mas, como Chambar bem diz no “Código da Verdade”: “É apenas por ciúmes que os Sábios chamaram a Pedra de Antimônio ” .

Da mesma forma, aqueles que destroem a composição natural de Mercúrio, para resolvê-la em uma água espessa ou límpida, que chamam de matéria primeira dos metais, lutam contra a Natureza no escuro, como gladiadores cegos.

Assim que Mercúrio perde sua forma específica, torna-se outra coisa, que não pode mais se misturar com os metais em suas menores partes, e é anulado para o trabalho dos Filósofos. Quem quer que se envolva com experiências tão infantis, deve ouvir o Sábio de Trevisa em sua “Transmutação de Metais”:

” Quem pode encontrar a verdade que destrói a natureza úmida de Mercúrio? Alguns tolos mudam seu arranjo metálico específico, corrompem sua umidade natural por dissolução, e mercúrio desproporcional de sua qualidade mineral original, que não queria nada além de purificação e digestão simples. Por meio de sais, vitríolo e alúmen, eles destroem a semente que a Natureza se esforçou para desenvolver. As coisas são formadas pela natureza e não pela arte, mas pela arte são unidas e misturadas. A semente não precisa de adição e não admite diminuição. foi formado pela Natureza. Todos os ensinamentos que alteram o Mercúrio são falsos e vãos, pois este é o esperma original dos metais, e sua umidade não deve secar, caso contrário não se dissolverá. Muito fogo causará uma morbidez id calor, como o de uma febre, e transformar os elementos passivos em ativos, assim o equilíbrio de forças é destruído, e todo o trabalho prejudicado. No entanto, esses tolos extraem dos minerais menores águas corrosivas, nas quais projetam as diferentes espécies de metais, e assim os corroem.

“A única solução natural é aquela pela qual do solvente e do solúvel, ou macho e fêmea, resulta uma nova espécie. Nenhuma água pode dissolver naturalmente os metais, exceto aquela que permanece com eles em substância e forma e que também onde metais dissolvidos podem congelar novamente; não é o caso da aqua fortis, visto que ela apenas destrói o arranjo específico. qualquer outra coisa que esses tolos tenham o prazer de chamar de Água Mercurial.” Até aqui cito Trevisan.

As pessoas que caíram neste erro fatal também podem se beneficiar do ensinamento de Avicena sobre este ponto: “O mercúrio é frio e úmido, e dele, ou com ele, Deus criou todos os metais. É aéreo e torna-se volátil por a ação do fogo, mas depois de resistir um pouco ao fogo, ele realiza grandes maravilhas e é ele mesmo apenas um espírito vivo de potência inigualável. Ele entra e penetra em todos os corpos, passa por eles e é seu fermento. então o Elixir Branco e Vermelho e é uma água eterna, a água da vida, o leite da Virgem, a fonte, e aquele Alum do qual quem bebe não pode morrer, etc. e que se produz no mesmo dia. Com seu veneno, destrói todas as coisas. É volátil, mas os sábios o fazem suportar o fogo, e então o transmuta como foi transmutado, tinge como foi tingido e coagula como foi coagulado. Portanto, é a geração da prata viva deve ser preferida antes de todos os minerais; encontra-se em todos os minérios, e tem seu assinatura em todos eles. O mercúrio é o que salva os metais da combustão e os torna fusíveis. É a Tintura Vermelha que entra na união mais íntima com os metais , porque é de sua própria natureza, mistura-se a eles indissoluvelmente em todas as suas partes menores e, sendo homogênea, naturalmente adere a eles. Mercúrio recebe todas as substâncias homogêneas, mas rejeita tudo o que é heterogêneo, porque se deleita em sua própria natureza, mas recua de tudo o que é estranho. Quão tolo, então, estragar e destruir aquilo que a Natureza fez a semente de todas as virtudes metálicas por elaboradas operações químicas! ”

O “Rosário” nos convida a ser particularmente cuidadosos, para que ao purificar o mercúrio não dissipemos sua virtude e prejudiquemos sua força ativa. Um grão de trigo, ou qualquer outra semente, não crescerá se sua virtude geradora for destruída pelo calor externo excessivo. Portanto, purifique seu mercúrio por destilação em fogo suave.

Diz o Sábio de Trevisa: ” Se o mercúrio é roubado de sua devida proporção metálica, como podem ser geradas outras substâncias do mesmo gênero metálico? É um erro supor que você pode fazer milagres com uma água límpida e límpida extraída de Mesmo se pudéssemos obter tal água, não seria útil, nem na forma nem na proporção, nem poderia restaurar ou construir uma espécie metálica perfeita. ele se torna impróprio para nossa operação, pois perde sua qualidade espermática e metálica. Eu, de fato, aprovo que o Mercúrio impuro e bruto seja sublimado e purificado uma ou duas vezes com sal simples, de acordo com o método apropriado dos Sábios, por tanto tempo. como a fluidez ou humor radical de tal Mercúrio permanece intacto, isto é, enquanto sua natureza mercurial específica não for destruída, e enquanto sua aparência externa não se tornar a de um pó seco”.

Na “Escada dos Sábios” nos é dito para tomar cuidado com a vitrificação na solução dos corpos, com odor e sabor de substâncias imperfeitas, e também com a virtude geradora de sua forma ser de alguma forma queimada e destruída por águas corrosivas .

Se você tem tentado fazer alguma dessas coisas, você pode ver o quão grave foi o seu erro. Pois a água dos Sábios não adere a nada, exceto a substâncias homogêneas. Ele não molha suas mãos se você tocá-lo, mas queima sua pele, irrita e corrói todas as substâncias com que entra em contato, exceto ouro e prata ( não os afetaria até que eles fossem dissipados e dissolvidos por espíritos e fortes águas), e com estes combina mais intimamente. Mas a outra mistura é muito infantil, condenada pelo concerto dos Sábios e por minha própria experiência.

Proponho agora mostrar que o mercúrio é a água com a qual, e na qual, a solução dos Sábios ocorre, colocando diante do leitor as opiniões de muitos Filósofos que vivem em diferentes países e épocas.

Menalates na Turba: “Quem une o mercúrio ao corpo de magnésia, e a mulher ao homem, extrai a natureza oculta pela qual os corpos são coloridos. Saiba que o mercúrio é um fogo consumidor que mortifica os corpos pelo seu contato “, na Turba, diz: “Divida os elementos pelo fogo, una-os pela mediação de Mercúrio, que é o arcano maior, e assim o magistério está completo, consistindo toda a dificuldade na solução e conjunção. A solução, ou separação , ocorre através da mediação de Mercúrio, que primeiro dissolve os corpos, e estes são novamente unidos pelo fermento e pelo Mercúrio”.

Rosinus faz Gold se dirigir a Mercúrio da seguinte forma: “Você disputa comigo, Mercúrio? Eu sou o Senhor, a Pedra que resiste ao fogo”. Diz Mercúrio: “Tu dizes a verdade; mas eu te gerei, e uma parte de mim vivifica muitos de ti, visto que tu és relutante em comparação comigo. Quem me unir a meu irmão ou irmã viverá e se alegrará, e me fará suficiente para ti.”

No capítulo 5 do “Livro das Três Palavras”, lemos: “Digo-te que em Mercúrio estão as obras dos planetas, e todas as suas imaginações em suas páginas ” .

Aristóteles diz que o primeiro modo de preparação é que a Pedra se torne Mercúrio; ele chama Mercúrio o primeiro corpo, que age sobre as substâncias grosseiras e as transforma em sua própria semelhança. ” Se Mercúrio não fizesse nada além de tornar os corpos sutis e semelhantes a si mesmo, isso nos bastaria.”

Sênior: “Nossa Pedra, então, é água congelada, ou seja, Mercúrio congelado em ouro e prata e, quando fixado, resistente ao fogo ” .

“O Soar da Trombeta”: “O mercúrio contém tudo o que os Sábios procuram e destrói todo o ouro escamoso. Ele dissolve , suaviza e extrai a alma do corpo.”

“O Livro da Arte da Alquimia”: “Os Sábios foram os primeiros a tentar revestir os corpos inferiores na glória e esplendor do corpo perfeito quando descobriram que os metais diferem apenas de acordo com o maior ou menor grau de sua digestão, e são todos gerados a partir de Mercúrio, com o qual extraíram o ouro e o reduziram à sua primeira natureza ” .

A “Correção dos Tolos”: “Observe que o Mercúrio bruto dissolve os corpos e os reduz à sua primeira matéria ou natureza. ., ouro e prata.” O mesmo livro observa: “Você pode fazer uso de Mercúrio bruto da seguinte forma – para selar e abrir naturezas, pois coisas semelhantes são úteis umas para as outras”. Mais uma vez: “O Mercúrio é a raiz na Arte da Alquimia, pois os Sábios dizem que todos os metais são dele, e através dele, e nele – segue-se que os metais devem primeiro ser reduzidos a Mercúrio, a matéria e o esperma de todos os metais.”

Novamente: “A razão pela qual todos os metais devem ser reduzidos à natureza de vapor é porque vemos que todos são gerados de mercúrio, através da mediação de que eles vieram a existir. ”

Graciano: “Purifique Laton, ou seja, cobre ( minério), com Mercúrio, pois Laton é de ouro e prata, um corpo composto, amarelo, imperfeito.”

“O Soar da Trombeta”: “Mercúrio Comum é chamado de espírito. Se você não resolver o corpo em Mercúrio, com Mercúrio, você não pode obter sua virtude oculta.”

“Arte da Alquimia”, capítulo vi .: “A segunda parte da Pedra que chamamos de Mercúrio vivo, que, sendo viva e bruta, diz-se que dissolve os corpos, porque adere a eles em seu ser mais íntimo. Esta é a Pedra sem que a Natureza nada faz.”

“Rosário”: “Mercúrio nunca morre, exceto com seu irmão e irmã. Quando Mercúrio mortifica a matéria do Sol e da Lua, fica uma matéria como cinzas. ”

O Sábio de Trevisa: “Não adicione nada acima do solo para digerir e engrossar Mercúrio na natureza do ouro ou dos metais.” Mais uma vez: “Esta solução é possível e natural, isto é, pela Arte como serva da Natureza, e é única e necessária na obra; mas só se consegue pelo mercúrio, nas proporções que se recomendam a um bom operário. que conhece as propriedades mais íntimas da Natureza.”

“Arte da Alquimia”: “Quem pode exaltar suficientemente Mercúrio, pois só Mercúrio tem o poder de reduzir o ouro à sua primeira natureza?”

Destas citações fica claro o que os Sábios queriam dizer com sua água, e o que eles pensavam deste maravilhoso líquido, a saber , Mercúrio, ao qual eles atribuíam todo poder no Magistério, pois nada pode ser aperfeiçoado fora de seu próprio gênero. Os homens digerem os vegetais, não no sangue dos animais, mas na água, que é seu primeiro princípio, nem os minerais são afetados pelo líquido vegetal. Nas palavras do “Soar da Trombeta”: “Todo o Magistério consiste em separar os elementos dos metais, e purificá-los, e em separar o enxofre da Natureza dos metais ” .

Além disso, como diz Hermes, só as substâncias homogêneas são coerentes, e só elas podem produzir descendentes segundo sua própria espécie, ou seja, se se quer um medicamento que é gerar metais, sua origem deve ser metálica, pois “as espécies são tingidas por seu gênero, ” como testemunha o filósofo.

Em suma, nosso Magistério consiste na união do masculino e feminino, ou ativo e passivos , elementos através da mediação de nossa água metálica e um grau adequado de calor. Agora, o macho e a fêmea são dois corpos metálicos, e isso vou provar novamente por citações irrefragáveis dos Sábios:

Dantius nos manda preparar os corpos e dissolvê-los .

Galienus: “Prepare os corpos e purifique-os da escuridão em que está a corrupção, até que o branco se torne branco e vermelho, então dissolva ambos, etc.”

Cálid (capítulo I): ” Se você não tornar os corpos sutis, para que sejam impalpáveis ao toque, você não alcançará seu fim. Se eles não foram moídos, repita sua operação e veja que eles são moídos e sutilizados. Se você fizer isso, você será direcionado ao seu objetivo desejado.”

Aristóteles: “Os corpos não podem ser mudanças, exceto pela redução em sua primeira matéria. ”

Calida (capítulo v.): “Da mesma forma, os sábios nos ordenaram dissolver os corpos para que o calor adere às suas partes mais íntimas; então procedemos à coagulação após uma segunda dissolução com uma substância que mais se aproxima deles.”

Menabadus: “Faça corpos, não-corpos, e corpos de coisas incorpóreas, pois este é todo o processo pelo qual a virtude oculta da Natureza é extraída ” .

Ascanius: “A conjunção dos dois é como a união de marido e mulher, de cujo abraço resulta água dourada. ”

“Antologia de Segredos”: “Case o homem vermelho com a mulher branca , e você terá todo o Magistério.”

“O Soar da Trombeta”: “Há outra tintura de mercúrio e permanente que é extraída de corpos perfeitos por dissolução, destilação, sublimação e subtilização ” .

Hermes: “Junte o macho à fêmea em sua própria umidade, porque não há nascimento sem união de macho e fêmea. ”

Platão: “A natureza segue uma natureza afim, a contém e a ensina a resistir ao fogo. Casa o homem com a mulher, e você tem todo o Magistério. ”

Avicena: “Purifica marido e mulher separadamente, para que se unam mais intimamente; porque se não os purificares, eles não podem amar-se. Pela conjunção das duas naturezas obtém-se uma natureza clara e lúcida, que, quando ascende, torna-se brilhante e útil.”

“Arte da Alquimia”: “Dois corpos nos fornecem tudo em nossa água. ”
Trevisanus: “Somente aquela água que é da mesma espécie, e pode ser engrossada por corpos, pode dissolver corpos.”

Hermes: “Que as pedras da mistura sejam tomadas no início do primeiro trabalho, e que sejam misturadas igualmente na terra.”

“Espelho”: “Nossa Pedra deve ser extraída da natureza de dois corpos, antes que possa se tornar um Elixir perfeito. ”

Demócrito: “Você deve primeiro dissolver os corpos sobre cinzas brancas quentes, e não moê-los, exceto apenas com água.”

“Rosário” de Arnold: “Extraia a Medicina dos corpos mais homogêneos da Natureza. ”

Provei assim o número dos corpos dos quais o Elixir é obtido. Mostrarei agora por citações o que são esses corpos .

“Exposição da Carta do Rei Alexandre”: “Nesta arte você deve se casar com o Sol e a Lua. ”

“O Soar da Trombeta”: “O Sol só aquece a Terra e lhe confere sua virtude por intermédio da Lua, que, de todas as estrelas, recebe sua luz e calor mais prontamente. ”

“A correção dos tolos”: “Semeie ouro e prata, e eles renderão mil vezes ao seu trabalho, pela mediação daquela única coisa que tem o que você procura. A Tintura de ouro e prata exibe as mesmas proporções metálicas que o imperfeito metais, porque eles têm uma primeira matéria comum em Mercúrio.”

Mais uma vez: “Tinja com ouro e prata, porque o ouro dá ao ouro e à prata a cor e a natureza prateadas. Rejeite todas as coisas que não têm natural ou virtualmente o poder de tingir, pois nelas não há fruto, mas apenas desperdício de dinheiro e rangidos. de dentes.”

Sênior: “Eu, o Sol, sou quente e seco, e tu, a Lua, és frio e úmido; quando nos casarmos em uma câmara fechada, eu gentilmente roubarei sua alma.”

Rosinus para Saratant: “Da água viva obtemos a terra, um corpo morto homogêneo, composto de duas naturezas, a do Sol e a da Lua ” .

Novamente: “Quando o Sol, meu irmão, por amor a mim (prata) derrama seu esperma (ou seja, sua gordura solar) na câmara (ou seja, meu corpo lunar), ou seja, quando nos tornamos um em uma tez forte e completa e união, o filho do nosso amor conjugal nascerá.”

Hermes : “Sua umidade é do império da Lua, e sua gordura do império do Sol, e esses dois são seu coágulo e semente pura do Sol e o Espírito da Lua.”

Turba Philosophorum: “Ambos os corpos em sua perfeição devem ser tomados para a composição do Elixir, seja laranja ou branco, pois nenhum se torna líquido sem o outro.”

Mais uma vez, Gold diz: “Ninguém me mata senão minha irmã. ”

Aristóteles: “Se eu não visse ouro e prata, certamente diria que a Alquimia não era verdadeira.”

O Sábio: “A base de nossa Arte é o ouro e sua sombra. ”

“Arte da Alquimia”: “Já dissemos que ouro e prata devem ser unidos.”

“Rosário”: “Há uma adição de cor alaranjada pela qual o Remédio é aperfeiçoado a partir da substância do enxofre fixo, ou seja, ambos os remédios são obtidos do ouro e da prata.”

O Sábio: “Quem sabe tingir enxofre e mercúrio atingiu o grande arcano. Ouro e prata devem estar na Tintura, e também o fermento do espírito. ”

“Rosário”: “O fermento do Sol é o esperma do homem, o fermento da Lua, o esperma da mulher. De ambos obtemos uma união casta e uma verdadeira geração. ”

“O Soar da Trombeta”: “Você quer que a prata subtilize seu ouro e torne-o volátil removendo sua impureza, pois a prata tem uma necessidade maior da luz do ouro.”

Portanto Hermes, como também Aristóteles em seu tratado sobre as plantas, diz que o ouro é seu pai, e a prata sua mãe; nada mais é necessário para a nossa Pedra. Prata é o campo em que a semente de ouro é semeada.” E um pouco mais adiante: “Em minha irmã, a Lua, cresce sua sabedoria, e não em nenhum outro de meus servos, diz o Senhor Sol. Sou como a semente lançada em terra boa e pura, que brota, cresce, se multiplica e dá grande lucro ao semeador . Eu, o Sol, dou a ti, a Lua, minha beleza, a luz do Sol, quando estamos unidos em nossas menores partes.” E a Lua diz ao Sol: “Tu precisas de mim, como o galo preciso da galinha, e eu preciso de tua operação, que és perfeito em moral, o pai das luzes, um grande e poderoso senhor, quente e seco, e eu sou a lua crescente, fria e úmida, mas recebo tua natureza por nossa União.”

Avicena: “Para obter o Elixir vermelho e o branco , os dois corpos devem ser unidos. Pois, embora o ouro seja o mais fixo e perfeito dos metais, se for dissolvido em suas partes menores, torna-se espiritual e volátil, como mercúrio, e isso por causa de seu calor. Esta tintura, que é incontável, é chamada de semente masculina quente. Mas se a prata for dissolvida em água morna, ela permanece fixa como antes, e tem pouca ou nenhuma tintura, mas prontamente recebe a tintura em um temperamento de quente e frio, e é chamada de semente feminina fria, seca. O ouro ou a prata por si só não são facilmente fundíveis, mas uma mistura dos dois derrete facilmente, como é bem conhecido pelos ourives. nossa Pedra não continha ouro e prata, não seria líquida, e não daria remédio por nenhum magistério, nem tintura, pois se ela rendesse tintura, ainda não teria poder de tingimento”.

E um pouco mais adiante: “Cuidado, então, e opere apenas com ouro, prata e mercúrio, pois todo o lucro de nossa arte deriva desses três ” .

Posso acrescentar que o Mercúrio bruto é a água que os Sábios usaram para fins de solução. Provei que dois corpos devem ser dissolvidos, e que não são mais que ouro e prata. Agora descreverei a conjunção desses dois corpos por meio do Mercúrio bruto dos Sábios.

“A Luz das Luzes”: “Saiba que é ouro, prata e Mercúrio que embranquecem e avermelham por dentro e por fora. O Dragão não morre, a menos que seja morto com seu irmão e irmã, e não deve ser por um, mas pelos dois juntos.”

“A Escada dos Sábios”: “Outros dizem que um corpo verdadeiro deve ser adicionado a esses dois, para fortalecer e encurtar a operação. ”

“Tesouro dos Sábios”: “Nossa Pedra tem corpo, alma e espírito, o corpo imperfeito é o corpo, o fermento a alma, e a água o espírito. ”

“Caminho dos Caminhos”: “A água chama-se espírito, porque dá vida ao corpo imperfeito e mortificado, e dá-lhe uma forma melhor; o fermento é a alma, porque dá vida ao corpo e muda em sua própria natureza. ”

Mais uma vez: “Todo o Magistério se realiza com nossa água e por ela. Pois ela dissolve os corpos, calcina-os e reduz-os à terra, transforma-os em cinzas, embranquece-os e purifica-os, como diz Morienus: “Azoth e fogo purificam Laton, isto é, lave-o e remova completamente sua obscuridade; Laton é o corpo impuro, Azoth é mercúrio.”

“O Soar da Trombeta”: “Como sem fermento não há tintura perfeita, como dizem os Sábios, sem fermento não há pão bom . Em nossa Pedra o fermento é como a alma, que dá vida ao corpo morto através da mediação do espírito, ou Mercúrio.”

“O Rosário” e Pedro de Zalentum dizem: ” Se o fermento, que é o meio da conjunção, for colocado no início, ou no meio, o trabalho é mais rapidamente aperfeiçoado”.

“O Soar da Trombeta”: “O Elixir dos Sábios é composto de três coisas, a saber , a Pedra Lunar, a Solar e a Pedra Mercurial. Na Pedra Lunar há enxofre branco, na Pedra Solar, enxofre vermelho, e a Pedra Mercurial abraça ambas, que é a força de todo o Magistério.”

Eximenus: “A água, com seus adjuntos, sendo colocada no vaso, preserva-os da combustão. As substâncias sendo moídas com água, segue-se a ascensão da Ethelia e a embebição de água é suficiente por si só para completar o trabalho. ”

Platão: “Tome corpos fixos, junte-os, lave o corpo na substância corporal e deixe-o ser fortalecido com o corpo incorpóreo, até que você o transforme em um corpo real ” .

Pandulphus: “A água fixa é água pura da vida, e nenhum veneno tingindo é gerado sem ouro e sua sombra. Quem tinge o veneno dos Sábios com o Sol e sua sombra, alcançou a mais alta sabedoria. ”

Novamente: “Separe os elementos com fogo, una-os por meio de Mercúrio, e o Magistério está completo. ”

Exercício, 14: “O espírito guarda o corpo e o preserva do fogo, o corpo clarificado impede que o espírito se evapore sobre o fogo, sendo o corpo fixo e o espírito incombustível. Portanto, o corpo não pode ser queimado, porque o corpo e o espírito são um através da alma. A alma os impede de serem separados pelo fogo. Portanto, os três juntos podem desafiar o fogo e qualquer outra coisa no mundo. ”

Rhasis ( “Livro das Luzes”): “Nossa Pedra tem o nome da criação do mundo, sendo três e ainda um. Em nenhum lugar nosso Mercúrio é encontrado mais puro do que em ouro, prata e Mercúrio comum.”

Quando corpos e espíritos são dissolvidos, eles se dissolvem nos quatro elementos, que se tornam uma substância firme e fixa. Mas quando não estão ambos dissolvidos, há uma mistura particular que o fogo ainda pode separar.”

Rosinus: “Em nosso Magistério há um espírito e corpos, de onde se diz: Regozija-se sendo semeado nas três substâncias associadas”.

Calid: “Prepare os corpos celestes com a umidade dissolvida, até que qualquer um seja reduzido à sua forma sutil. Se você não sutilizar e triturar os corpos até que se tornem impalpáveis, você não encontrará o que procura.”

Rosinus: “A Pedra consiste em corpo, alma e espírito, ou água, como dizem os Filósofos, e é digerida em um vaso. Todo o nosso Magistério é por nossa água, que dissolve os corpos, não em água, mas por uma verdadeira solução filosófica na água de onde os metais são extraídos, e é calcinada e reduzida à terra. Ela torna amarelos como cera aqueles corpos em cuja natureza ela é transformada; ela substancializa, branqueia e purifica o Latão, de acordo com a palavra de Morienus.”

Aristóteles: “Tome seu filho amado e case-o com sua irmã, sua irmã branca , em casamento igual, e dê-lhes o cálice do amor, pois é um alimento que os leva à união. coisas, ou terão filhos diferentes deles. Portanto, antes de tudo, como Avicena aconselha, sublima o Mercúrio e purifica nele os corpos impuros.

Ascanius: “Instigue a guerra entre o cobre e o Mercúrio até que eles se destruam e se devorem. Então o cobre coagula o mercúrio, o mercúrio congela o cobre, e ambos os corpos se tornam um pó por meio de embebição e digestão diligentes. homem vermelho e a mulher branca até se tornarem Ethelia, isto é, mercúrio. Quem os transforma em espírito por meio de mercúrio, e depois os torna vermelhos, pode tingir todos os corpos.

Quanto à natureza desse cobre, Graciano nos instrui com as seguintes palavras: “Faça Laton branco , ou seja, branqueie o cobre com Mercúrio, porque Laton é um corpo imperfeito laranja, composto de ouro e prata.”

Aconselho a todos que sigam meus ensinamentos, cuja exatidão minhas citações dos antigos não podem deixar dúvidas, o que também recebeu confirmação adicional de minhas próprias experiências. Qualquer desvio deste curso leva ao engano, exceto apenas o trabalho de Saturno, que deve ser realizado pela sutilização de princípios. Os Sábios dizem que as coisas homogêneas apenas combinam umas com as outras, tornam-se brancas e vermelhas e permitem a geração comum. O ponto importante é que Mercúrio deve agir sobre nossa terra. Esta é a união de macho e fêmea, da qual os Sábios tanto falam. Depois que a água, ou mercúrio, uma vez apareceu, ela cresce e aumenta, porque a terra fica branca, e isso é chamado de impregnação. Então o fermento é coagulado, isto é, unido ao corpo imperfeito preparado, até que eles se tornem um em cor e aparência: isso é denominado o nascimento de nossa Pedra, que os Sábios chamam de Rei. Desta substância é dito na “Arte da Alquimia” que se alguém queimar esta flor e separar os elementos, o germe gerador é destruído.

Concluo com as palavras de Avicena: “O verdadeiro princípio de nosso trabalho é a dissolução da Pedra, porque os corpos resolvidos assumiram a natureza dos espíritos, ou seja, porque sua qualidade é mais seca há a coagulação do espírito. Seja paciente, portanto, digere, bata , torne amarelo como cera, e nunca se canse de repetir esses processos até que eles sejam perfeitos. Pois as coisas saturadas com água são assim amolecidas. mais você o amolece e sutiliza suas partes grosseiras, até que sejam completamente penetradas com o espírito e assim dissolvidas. Pois batendo, assando e queimando, as partes duras e viscosas dos corpos são separadas.

Finalmente, quero dizer, filhos do conhecimento, que na obra dos Sábios há três soluções.

A primeira é a do corpo bruto.

A segunda é a da terra dos Sábios.

A terceira é aquela que ocorre durante o aumento da substância.

Se você considerar diligentemente tudo o que eu disse, este Magistério se tornará conhecido por você.

Quanto a mim, o quanto sofri por causa desta Arte, a história revelará às eras futuras.

Fonte: The Stone of the Philosophers

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Edição final: Tamosauskas

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-pedra-dos-filosofos-por-edward-kelly/

As Oito Cores da Magia

Peter J. Carroll, Liber Kaos

Nosso aparato perceptivo e conceitual cria uma divisão quádrupla da matéria em uma tautologia de espaço, tempo, massa e energia. Da mesma forma, nossos impulsos instintivos criam uma divisão óctupla da magia. As oito formas de magia são convenientemente denotadas por cores com significado emocional e podem ser atribuídas aos sete “planetas” clássicos [Amarelo/Sol, Púrpura/Lua, Laranja/Mercúrio, Verde/Vênus, Vermelho/Marte, Azul/Júpiter e Preto/Saturno], mais Urano para a cor Octarina. No entanto, na causa de expandir os parâmetros do que pode ser tentado com cada uma dessas formas de magia, tal atribuição será aqui evitada. As oito formas de magia serão consideradas cada uma por sua vez.

Magia Octarina

Seguindo as hipóteses de Pratchett , oitava cor do espectro que é a percepção pessoal do magista da “cor da magia” pode ser chamada de octarina. Para mim, ela é uma tonalidade particular do rosa-púrpura elétrico. Minhas visões mais significativas têm ocorrido, todas nesta cor, e visualizo-a para colorir muitos de meus encantamentos e sigilos mais importantes no Astral. Antes que eu navegasse num barco feito à mão pelo Mar da Arábia, fui induzido por um feiticeiro indiano a aceitar uma imensa estrela de rubi, de valor incalculável. Ela era de um matiz, exatamente, octarino. Durante o mais violento tufão que jamais experimentei, encontrei-me agarrado aos gurupés, gritando minhas conjurações para Thor e Poseidon ao mesmo tempo que enormes ondas atiravam-se contra o barco e luminosos raios octarinos quebravam no mar por toda a volta. Olhando para o passado, parece um milagre que eu e minha tripulação tenhamos sobrevivido. Mantenho a pedra octarina comigo, incerto se ela me foi passada como uma maldição, uma bênção, um teste ou todas estas coisas reunidas.

Outros magos percebem a octarina de diferentes modos. Minha percepção pessoal da octarina provavelmente reflete minhas formas mais eficientes de gnoses: o sexo (púrpura) e a raiva (vermelho). Cada um deve buscar uma cor da magia (octarina) para si. O poder octarino é o nosso impulso instintivo para a magia. Impulso este que, ao permitirmos aflorar, cria o ‘eu-mágico’, ou personalidade na psique, e uma afinidade com várias formas de deus mágicas. O ‘eu-mágico’ varia entre os magos, porém possui as características gerais de antinomianismo e desvio (desencaminho) com uma predileção pela manipulação e pelo bizarro. O antinomianismo do “eu-mágico” surge, até certo grau, pela alienação geral da cultura vigente provocada pela magia. Assim, o “eu-mágico” tende a se interessar por tudo aquilo que não existe, ou que não deveria existir segundo o senso comum.. Para o “eu-mágico” nada é antinatural, uma declaração com ilimitados significados. O desvio do “eu-mágico” é uma conseqüência natural da “destreza da mente”, técnica requerida para manipular aquilo que não pode ser visto. As formas de deus do poder octarino são aquelas que correspondem mais estreitamente às características do “eu-mágico” e são, normalmente, as formas de possessão mais importantes para o mago que busca inspiração de natureza puramente mágica. Baphomet, Pan, Odin, Loki, Tiamat, Ptah, Eris, Hekate, Babalon, Lilith e Ishtar são exemplos de formas de deus que podem ser usadas para este propósito. Como alternativa, o mago pode desejar formular uma forma de deus em uma base unicamente idiossincrática onde, para tal, o planeta Urano e o simbolismo da serpente provaram ser pontos de partida muito úteis.

O mago pode invocar tais formas de deus para a iluminação de vários aspectos do “eu-mágico” e para inúmeros trabalhos de magia pura, preferivelmente à aplicada. A categoria de magia pura inclui atividades como: o desenvolvimento de teorias e filosofias mágicas, o desenvolvimento de programas de treinamento mágico, o planejamento de sistemas simbólicos para uso na adivinhação, o desenvolvimento de encantamentos e a criação de linguagens mágicas com objetivos similares. É valido assinalar aqui que as linguagens da Magia Caótica são, normalmente, escritas em V-primo, antes da transliteração para a forma bárbara mágica. V-primo, ou Vernacular primo, é simplesmente a sua língua nativa na qual são omitidos todos os usos de quaisquer tempos do verbo ser, de acordo com a metafísica quântica. Toda a falta de sentido do transcedentalismo desaparece muito naturalmente uma vez adotada esta tática. Não há ser, tudo é fazer.

Invoca-se o poder octarino para inspirar o “eu-mágico” e para alargar o arcano fundamental do mago. O arcano fundamental do mago consiste nos símbolos pessoais básicos com os quais você interpreta e influencia magicamente a realidade (tudo o que pode acontecer na percepção). Estes símbolos podem ser teorias ou kabbalas, obsessões, armas mágicas, astrais ou físicas, ou de fato, qualquer coisa que diga respeito à prática da magia de forma geral – qualquer coisa que não seja destinada, especificamente, para algum dos outros poderes da magia aplicada. Os símbolos desta última formam o arcano secundário de magia.

Da situação privilegiada que é a gnoses octarina, o “eu-mágico” é capaz de compreender os eus dos outros sete poderes e a sua inter-relação dentro de um organismo global. Portanto, o poder octarino traz alguma habilidade em psiquiatria, cuja função é o ajustamento da relação entre os eus em um organismo. A diferença básica entre um mago e um indivíduo comum é que neste último o poder octarino já é vestígio ou ainda incipiente. O repouso normal ou o modo indiferente de uma pessoa comum corresponde a uma leve expressão do poder amarelo. Este poder é considerado como sendo a personalidade normal ou o ego. O “eu-mágico” entretanto, é totalmente consciente de que este poder amarelo é somente uma das oito principais ferramentas que o organismo possui. Assim, num certo sentido, a personalidade normal do mago é uma ferramenta do “eu-mágico” ( e vice-versa ). Este entendimento dá a ele alguma vantagem sobre as pessoas comuns. Entretanto, o “eu-mágico” em desenvolvimento logo perceberá que não é superior, em si mesmo, aos outros eus pois há muitas coisas que estes podem fazer que ele não pode. O desenvolvimento do poder octarino através da filosofia e prática da magia, tende a prover o mago de um segundo centro principal entre os eus. Este segundo centro irá complementar o ego do poder amarelo. O despertar do poder octarino é, algumas vezes, conhecido como “ser mordido pela serpente”. Aqueles que passam por isto se reconhecem mutuamente tão instantaneamente quanto, por exemplo, dois sobreviventes de um bote salva-vidas.

Talvez um dos maiores artifícios da “destreza da mente” seja permitir que o “eu-mágico” e o ego dancem juntos dentro da psique sem conflitos excessivos. O mago que é incapaz de fingir ser uma pessoa comum ou que é incapaz de agir de forma independente de seu próprio ego, não é mago totalmente.

Por outro lado, o crescimento do octarino ou oitavo poder do eu, a descoberta do tipo de mago que a pessoa quer ser e a identificação ou síntese de uma forma-deus para representar este ideal, tendem a criar algo como um ser mutante que avançou na direção de um paradigma do qual muito poucos estão cientes. Não é fácil voltar atrás uma vez iniciada a viagem, embora alguns tenham tentado abortá-la com narcóticos, inclusive misticismo. É uma peregrinação para um destino desconhecido onde a pessoa desperta com êxito de um pesadelo para entrar em outro. Alguns deles parecem muito interessantes em determinados momentos. Há mundos dentre nós; os abismos são somente as iniciações entre eles.

A evocação de um servidor octarino pode criar uma inestimável ferramenta para aqueles que estão engajados em pesquisa mágica. As principais funções de tais entidades são, normalmente, ajudar na descoberta de informações úteis e contatos. Não podemos ignorar aqui os resultados negativos. Por exemplo: o completo fracasso de um servidor bem preparado em recuperar informações a respeito do hipotético Big-Bang cósmico foi um fator que contribuiu no desenvolvimento da teoria Fiat Nox.

Magia Negra 

Os programas de morte construídos dentro de nossa estrutura emocional e comportamental, ambas genéticas e hereditárias, são o preço que pagamos pela capacidade de reprodução sexuada, a única que permite mudanças evolutivas. Somente são imortais aqueles organismos que se reproduzem assexuadamente, reproduzindo inúmeras cópias idênticas de suas próprias formas, extremamente simples. Duas conjurações com o poder negro são de particular interesse para o mago: lançamento de encantos de destruição e o ato de se evitar uma morte prematura.

Os assim chamados ritos “Chod” são um ensaio ritual da morte, onde o “eu-morte” é invocado para manifestar seu conhecimento e sabedoria. Tradicionalmente concebido como uma figura de um esqueleto vestido em uma túnica negra e armado com uma foice, o “eu-morte” é responsável pelos mistérios do envelhecimento, senilidade, morbidez, necrose, entropia e decadência. Ele também possui um senso de humor pervertido e que denota enfado em relação ao mundo.

Cercado por todos os símbolos e parafernália da morte, o mago invoca o “eu-morte” em um rito “Chod” para um dos dois propósitos mencionados anteriormente. Primeiramente a experiência do “eu-morte” e a gnoses negra trazem o conhecimento do que se sente no momento que se começa a morrer. Isto prepara o mago para resistir às manifestações de uma morte prematura real, por conhecimento do inimigo. Um demônio é somente um deus agindo fora de sua vez ( fora do momento certo ). No curso de vários ritos “Chod” o mago pode, convenientemente, experimentar praticar o banimento, em estilo xamânico, de entidades e símbolos visualizados e invocados que são associados a várias doenças. Portanto, o “eu-morte” tem algumas utilidades em diagnose médica e adivinhação.

Em segundo lugar, o “eu-morte” pode ser invocado como uma condição privilegiada para lançar encantos de destruição. Neste caso, a invocação toma a mesma forma geral, porém a conjuração é normalmente chamada de Rito de Entropia. Deve-se sempre procurar alguma alternativa possível para o exercício da magia destrutiva, pois ser forçado a uma posição de ter que usá-la é uma demonstração de fraqueza. Em cada caso, o mago deve estabelecer um mecanismo no subconsciente pelo qual o alvo possa ir à ruína e, então, projetá-lo com a ajuda de um sigilo ou, talvez, de um servidor invocado. Magia Entrópica funciona mandando ao alvo informações que estimulam o comportamento auto-destrutivo. Magia Entrópica difere da magia de combate da gnoses vermelha em muitos aspectos importantes. Magia Entrópica é sempre realizada com completa discrição, na fúria fria da gnoses saturnina negra. O objetivo é um golpe cruel e cirúrgico sobre o qual o alvo não tem nenhum aviso. O mago não está interessado em uma luta mas, sim, numa morte rápida e eficiente. A grande vantagem de tais ataques é que, raramente, eles são percebidos como tais pelos alvos. Desta forma, o alvo, sem saber o que está acontecendo, terá pouca chance de se queixar pelos desastres que lhe sucederão. Uma desvantagem, entretanto é que é muito difícil apresentar orçamentos a clientes por efeitos que aparentam ser devidos a causas naturais.

Formas de deus do poder negro são Legião; se a forma de um simples esqueleto de manto com uma foice não simboliza adequadamente o “eu-morte”, então formas como Charon, Thanatos, Saturno, Chronos, a bruxa Hécate, irmã negra Atropos, Anúbis, Yama e Kali podem servir.

Raramente são estabelecidos servidores do poder negro para uso geral a longo prazo. Isto ocorre, em parte, porque seu uso é apropriado para ser esporádico e, por outro lado, porque eles podem ser perigosos para o seu possuidor. Assim, a tendência é que eles sejam feitos e enviados para um trabalho específico.

Magia Azul

Não se deve medir riquezas em termos de propriedades mas, sim, em termos de controle sobre pessoas e materiais. Portanto, em última instância, deve-se medi-la em termos de sua própria experiência. Dinheiro é um conceito abstrato usado para quantificar atividade econômica. Portanto, riqueza é uma medida de quão bem você controla suas experiências com o dinheiro. Assumindo que experiências variadas, excitantes, incomuns e estimulantes são preferíveis àquelas que são estúpidas e monótonas e que elas tendem a ser caras, o principal problema para muitas pessoas é encontrar uma forma altamente eficiente de entrada de dinheiro que possua as qualidades agradáveis acima.

O objetivo da magia da riqueza é estabelecer um grande movimento de dinheiro que permita experiências agradáveis em ambos os estágios: de entrada e de saída. Isto requer aquilo que é conhecido como “consciência do dinheiro”.

O dinheiro adquiriu todas as características de um ser espiritual; ele é invisível e intangível. Moedas, notas e números eletrônicos não são dinheiro. Eles são somente representações ou talismãs de algo que os economistas não podem definir de forma coerente. Além disso, embora seja ele próprio intangível e invisível, pode criar efeitos poderosos na nossa realidade.

O dinheiro tem suas próprias preferências e personalidade. Ele evita aqueles que o blasfemam e flui em direção àqueles que o tratam da maneira que ele gosta. Num ambiente apropriado, ele irá, até mesmo, reproduzir-se. a natureza do espírito do dinheiro é movimento; o dinheiro gosta de se mover. Se ele for armazenado e não usado, lentamente morrerá. Assim, o dinheiro prefere manifestar-se como uma propriedade mutável a se manifestar como uma propriedade inexplorada, inutilizada. Excedentes de capital para prazer imediato devem ser reinvestidos como uma evocação adicional, porém aqueles que possuem realmente a “consciência do dinheiro” descobrem que até mesmo seus prazeres fazem dinheiro para si. A “consciência do dinheiro” paga para divertir-se. Aqueles que possuem esta consciência são generosos naturalmente. Ofereça a eles um investimento interessante e eles lhe oferecerão fortunas. Apenas não peça migalhas. A obtenção da “consciência do dinheiro” e a invocação do “eu-riqueza” consiste na aquisição de um conhecimento completo sobre as preferências do espírito do dinheiro e na exploração completa dos desejos pessoais. Quando ambos os fatores forem compreendidos, uma verdadeira riqueza manifestar-se-á sem esforço.

Tais invocações devem ser realizadas com cuidado. A gnosis azul da riqueza e do desejo cria demônios tão facilmente quanto cria deuses. Muitos seminários contemporâneos sobre sucesso e treinamento de verdade concentram-se em criar um desejo histérico por dinheiro associado a um igualmente hipertrofiado desejo pelos meros símbolos de riqueza ao invés do desejo pelas experiências que o jogadores realmente querem. Trabalhar como um maníaco possuído o dia inteiro pelo questionável prazer de beber a si próprio, num estado quase que de esquecimento , numa champanhe de vindima todas as noites, é ter perdido completamente o ponto e ter entrado na condição de anti-riqueza.

Por outro lado, a maioria das pessoas que são pobres em sociedades relativamente livres onde outros são ricos deve a sua pobreza ou à falta de entendimento de como o dinheiro se comporta ou a sentimentos negativos que tendem a repeli-lo. Não são necessários grandes níveis de inteligência ou de capital para se tornar rico. A popularidade dos contos sobre a miséria e o infortúnio do rico é o testemunho do mito ridículo vigente entre os pobres de que o rico é infeliz. Antes de começar a trabalhar com a magia azul, é essencial examinar com seriedade todos os sentimentos e pensamentos negativos sobre dinheiro e tratar de exorcisá-los. Muitas das pessoas pobres que ganham loterias ( e somente o pobre entra regularmente nelas ) orientam suas vidas de tal forma a não terem mais nada poucos anos depois. É como se alguma força subconsciente, de alguma forma, se livrasse de algo que eles sentem que, na verdade, não merecem ou não querem.

As pessoas tendem a ter o grau de riqueza que profundamente acreditam que devem ter. Magia azul é a modificação desta crença através da determinação de crenças alternativas. Rituais de magia azul devem envolver necessariamente exorcismos de atitudes negativas em relação à riqueza, explorações divinatórias sobre quais são os seus desejos mais profundos e invocações do “eu-riqueza” e do espírito do dinheiro durante os quais o nível subconsciente de riqueza é ajustado pela expressão ritual de um novo valor. Durante esses rituais também são feitas afirmações sobre novos projetos para o investimento dos recursos e dos esforços. Podem ser recitados hinos e encantamentos ao dinheiro. Cheques de somas surpreendentes podem ser escritos para você mesmo e pode-se proclamar e visualizar os desejos. Várias formas de deus tradicionais com um aspecto próspero tais como Júpiter, Zeus, o mítico Midas e Croesus podem expressar o “eu-riqueza”.

Raramente são usados encantamentos simples para dinheiro na magia azul moderna. Hoje em dia a tendência é lançar encantamentos desenvolvidos para aumentar o valor dos esquemas projetados para fazer dinheiro. Se você falhou em providenciar um mecanismo através do qual o dinheiro possa se manifestar, nada ocorrerá ou o encantamento irá encarnar-se por meios estranhos como, por exemplo, a herança devida a morte prematura de um parente muito amado. Nunca se tenta a magia azul séria em formas tradicionais de jogo. O jogo tradicional é uma maneira cara de comprar experiências o qual não tem nada a ver com aumentar riqueza. Magia azul é uma matéria de investimentos cuidadosamente calculados. Qualquer um que não seja um idiota deve ser capaz de imaginar um investimento que ofereça maiores vantagens que as formas tradicionais de jogo.

Magia Vermelha

Tão logo a humanidade desenvolveu a sociedade e a tecnologia de armas para derrotar seus principais predadores e competidores naturais, parece ter aplicado um feroz mecanismo de seleção para si mesma na forma de combates sanguinários. Muitas das qualidades que consideramos como marcas de nosso sucesso evolutivo, tais como os polegares em oposição e a conseqüente habilidade de manipulação de ferramentas, nossa capacidade de comunicação por sons, nossa postura ereta e nossa capacidade de dar e receber comandos e disciplina foram quase certamente selecionados para manter milênios de conflitos armados organizados entre grupos humanos. Nossa moralidade reflete nossa história sangrenta pois enquanto é tabu atacar membros de nossa própria tribo, ainda é dever atacar estrangeiros. O único debate é sobre quem constitui nossa própria tribo. Quando o entusiasmo pela guerra é limitado, inventamos esportes e jogos nos quais expressamos nossa agressividade. Por todo o caráter e terminologia do esporte fica claro que o esporte é somente uma guerra com regras extras.

Entretanto, não se deve supor que a guerra seja completamente desapercebida de regras. As guerras são realizadas para aumentar a nossa posição de barganha; na guerra, o grupo inimigo é uma riqueza sobre a qual desejamos ganhar alguma medida de controle. As guerras são realizadas para intimidar os adversários, não para exterminá-los. Genocídio não é guerra.

A estrutura e conduta da guerra refletem o programa de “luta ou fuga” construído em nosso sistema nervoso simpático. Na batalha, o objetivo é intimidar o inimigo para fora do modo de luta e para dentro do modo de fuga. Assim, assumindo que há suficiente paridade de foças para fazer a luta parecer vantajosa para ambas as partes, o estado de ânimo é o fator decisivo em virtualmente todos os encontros competitivos, esportivos ou militares entre seres humanos.

A magia vermelha tem dois aspectos: o primeiro é a invocação de vitalidade, agressão e estado de ânimo para nos manter em qualquer conflito da vida; o segundo é a realização de um combate mágico real. Existe uma variedade de formas de deus onde o “eu-guerra” pode ser expressado, embora formas híbridas ou puramente idiossincráticas funcionem tão bem quanto as anteriores. Ares, Ishtar, Ogoum, Thor, Marte, Mithras e Horus, em particular, são usados freqüentemente. Não devemos negligenciar o simbolismo contemporâneo. Armas de fogo e explosivos são tão bem vindas para a gnose vermelha quanto espadas e lanças. Tambores são indispensáveis. Sigilos desenhados por líquidos inflamáveis ou, ainda, círculos flamejantes completos nos quais se fazem invocações devem ser considerados.

O combate mágico é normalmente praticado abertamente com o adversário sendo publicamente ameaçado e amaldiçoado ou quando ele acha o recipiente de um talismã, encantamento ou runa com um aspecto desagradável. Os objetivos são a intimidação e o controle do adversário que deve se tornar tão paranóico quanto possível e informado da origem do ataque. Por outro lado, a magia de combate toma as mesmas formas gerais das usadas em magia entrópica, com os sigilos e os servidores controlando informações auto-destrutivas para o alvo, agora, contudo, com intenções sub-letais.

Entretanto, a habilidade real da magia vermelha é ser capaz de apresentar tão irresistível glamour de vitalidade pessoal, estado de ânimo e potencial de agressão que o exercício da magia de combate não seja nunca necessária.

Magia Amarela

Muitos dos textos existentes sobre o que se chama tradicionalmente de “magia solar” contradizem-se mutuamente ou sofrem de confusões internas. Os comentários astrológicos a respeito dos supostos poderes do sol estão entre os mais idiotas e sem sentido que a disciplina pode produzir. Isto ocorre porque o poder amarelo possui quatro formas distintas, porém relacionadas, dentro da psique. Esta divisão quádrupla tem induzido a imensos problemas em psicologia, onde várias escolas de pensamento escolhem enfatizar um aspecto em particular e ignorar aqueles aos quais as outras escolas tem se dedicado. Os quatro aspectos podem ser caracterizados como se segue. Primeiro, o ego – ou auto-imagem: que é, simplesmente, o modelo que a mente tem da personalidade em geral. Desta definição excluem-se muitos dos padrões de comportamento extremados dos quais os eus são capazes. Segundo, o carisma que é o grau de autoconfiança que a pessoa projeta para as outras. Terceiro, algo para o qual não há uma palavra específica em inglês ou português: talvez possa ser chamado de criatividade da risada. Quarto, a ânsia de afirmação e domínio. Todas essas coisas são manifestações do mesmo poder amarelo, embora suas ênfases relativas variem enormemente entre os indivíduos.

O sucesso em muitas sociedades humanas normalmente resulta de uma hábil expressão do poder amarelo. A força do poder amarelo em um indivíduo parece manter uma relação direta com os níveis do hormônio sexual testosterona em ambos os sexos, embora sua expressão dependa da psicologia pessoal. Existe uma influência mútua complexa entre os níveis de testosterona, auto-imagem, criatividade, status quo e necessidades sexuais, mesmo que não estejam manifestos. Em termos esotéricos, a Lua é o poder secreto por trás do Sol, como muitas magas percebem instintivamente e muitos magos descobrem mais cedo ou mais tarde. O ego se forma gradualmente através dos acidentes da infância e da adolescência e, na ausência de poderosas experiências posteriores, permanece razoavelmente constante, mesmo que contenha elementos totalmente inadaptáveis. Qualquer tipo de invocação poderia fazer diferença para o ego, porém um trabalho direto com ele pode fazer muito mais. Estão envolvidos muitos truques neste processo. O próprio reconhecimento do ego implica que a mudança é possível. Somente aqueles que percebem que tem uma personalidade ao invés de consistirem de uma personalidade podem mudá-la. Para muitas pessoas, a preparação de um inventário detalhado de suas próprias personalidades é uma atividade muito difícil e transtornante. Porém, uma vez realizada, é normalmente muito fácil decidir que mudanças são desejáveis. Mudanças no ego, na auto-imagem ou na personalidade através da magia são classificadas como trabalhos de iluminação e são, principalmente, realizadas por encantamentos retroativos e invocações. Encantamento retroativo, neste caso, consiste em rescrever a nossa história pessoal. Como nossa história define amplamente o nosso futuro, podemos mudar o nosso futuro redefinindo nosso passado. Todas as pessoas possuem certa capacidade para reinterpretar as coisas que deram errado no passado sob uma luz mais favorável, porém muitas falham em perseguir o processo até o final. Nós não podemos eliminar as memórias limitantes e incapacitantes, porém, por um esforço de visualização e imaginação, podemos escrever em paralelo memórias edificantes e capacitantes do que também poderia ter acontecido. Isso irá neutralizar as originais. Nós podemos também, quando possível, modificar alguma evidência física remanescente que favoreça a memória limitante.

As invocações para modificar o ego são encantamentos e personificações rituais das novas qualidades desejadas. Deve-se dar atenção às modificações planejadas no vestuário, tons de fala, gestos, maneirismos e na postura do corpo que irão melhor corresponder ao novo ego. Um artifício muito usado em magia amarela é praticar a manifestação de uma personalidade alternativa através de um gatilho mnemônico simples tal como a transferência de um dedo para outro.

Várias formas de deus são utilizadas para criar manifestações novas e fortes do ego e para experimentos com as outras três qualidades do poder amarelo. São exemplos: Rá, Helios, Mithras, Apolo e Baldur.

Carisma, a projeção de uma aura de autoconfiança, é baseado num truque simples. Após um curto espaço de tempo não há diferença nenhuma entre simulada e a verdadeira autoconfiança. Qualquer um que deseje remediar a falta de confiança e carisma e que esteja em dúvida sobre como começar a aparentar estas qualidades, poderá descobrir que um ou dois dias gastos aparentando um zero absoluto de autoconfiança irão revelar rapidamente: a eficácia da simulação e os pensamentos, palavras, gestos e posturas específicos requeridos para projetar qualquer simulação.

Parece que não se pode dizer nada a respeito da risada e da criatividade. Porém, o humor depende de uma súbita formação de uma nova conexão entre conceitos desconexos. Nós rimos da nossa própria criatividade em formar esta conexão. Exatamente a mesma forma de exaltação surge de outras formas de atividade criativa e, se o insight vem repentinamente, a risada é o resultado. Se não somos capazes de rir quando vemos uma peça realmente brilhante de matemática, então não somos capazes de entender isto. Também é necessário um certo grau de auto-estima e autoconfiança positivas para rir de algo criativamente divertido. As pessoas de baixa auto-estima tendem unicamente a rir do humor destrutivo e da desgraça dos outros; isso se rirem.

A risada é, freqüentemente, um fator importante nas invocações das formas de deus do poder amarelo. A solenidade não é um pré-requisito para o ritual. A risada é também uma tática comum para atrair a atenção da consciência para longe dos sigilos ou outras conjurações mágicas, uma vez terminados os trabalhos com eles. O forçar deliberado de uma risada histérica pode parecer um caminho absurdo para encerrar um encantamento ou uma invocação, porém isto tem se mostrado extraordinariamente eficiente na prática. Isto pode ser considerado como uma “destreza da mente” artificial que evita a deliberação consciente.

A “ordem da bicada” dentro de vários grupos de animais sociais é, normalmente, imediatamente evidente para nós e para os próprios animais. Dentro de nossa própria sociedade, tais hierarquias de domínio são igualmente comuns em todos os grupos sociais, embora possamos ir a extremos para disfarçar isto de nós mesmos. A situação humana ainda é mais complicada pela nossa tendência de pertencer a muitos grupos sociais, nos quais podemos ter diferentes níveis de status social, e o status social é, freqüentemente, parcialmente dependente de outras habilidades especializadas , diferentes da força bruta. Entretanto, assumindo que uma pessoa possa parecer competente na habilidade especializada que o grupo social requer, a posição pessoal no grupo depende quase inteiramente do grau de afirmação e domínio que a pessoa exibe. Estes são exibidos basicamente através do comportamento não-verbal que todos entendem intuitivamente ou subconscientemente, mas que muitos não entendem racionalmente. Como conseqüência, eles não podem manipulá-lo deliberadamente. O comportamento de domínio típico envolve o falar alto e lentamente, usando muito o contato visual, interromper a fala dos outros enquanto resiste à interrupção feita por estes, manter uma postura ereta de ameaça disfarçada, a invasão do espaço pessoal dos outros enquanto resiste à invasão de seu próprio espaço e colocar-se estrategicamente em algum lugar no foco de atenção. Em culturas onde o toque é freqüente, o dominador sempre o inicia ou, intencionalmente, o recusa. Em ambos os casos, ele domina o contato.

O comportamento submisso é, logicamente, o reverso de tudo acima e aparece muito espontaneamente em resposta ao domínio bem sucedido de outros. Há uma interação em mão dupla entre o comportamento de domínio e os níveis de hormônios. Se o nível muda, por razões médicas, então o comportamento tende a mudar; porém, mais importante do ponto de vista mágico, é que uma mudança deliberada do comportamento irá modificar os níveis de hormônio. “Finja isto até que você o faça”. Não há nada particularmente oculto com a maneira que algumas pessoas são capazes de controlar outras. Nós simplesmente não notamos como isto é feito porque quase todos os sinais comportamentais envolvidos são trocados subconscientemente. Os sinais de domínio tendem a não funcionar se os seus recebedores os percebem conscientemente. Deste modo, em muitas situações, eles devem ser liberados discretamente e com um aumento gradual na intensidade. Uma das poucas situações em que estes sinais são enviados deliberadamente é nas hierarquias militares, porém isto só é possível por causa da imensa capacidade de coerção física direta que tais sistemas exibem. Quebre as regras formais de comunicação não-verbal com um oficial e terá um sargento para inculcar-lhe alguma submissão por meios diretos. Eventualmente as regras formais são absorvidas e funcionam automaticamente, criando obediência suficiente para permitir o auto-sacrifício e a matança em massa. O poder amarelo é a raiz de muito do melhor e do pior que nós somos capazes.

Magia Verde

Há uma considerável superposição no que há de escrito nos livros populares de magia no que diz respeito aos assuntos do amor venusiano e a magia sexual lunar. Conseqüentemente, neste texto evitou-se ao máximo uma nomenclatura planetária. Embora a magia do amor seja realizada freqüentemente com objetivos sexuais, este capítulo irá se limitar às artes de fazer as pessoas amigáveis, fiéis e afetuosas para conosco.

Talvez sejam os amigos a nossa maior propriedade. Meu caderno de endereços é, facilmente, minha mais valiosa posse. Como com a atração erótica, primeiro é necessário gostarmos de nós próprios antes que os outros possam fazê-lo. Esta habilidade pode ser aumentada por invocações apropriadas do poder verde. Muitas pessoas acham fácil fazer vir à tona uma amizade de pessoas de quem eles gostam; porém, fazer amigáveis, pessoas que não estavam dispostas a isto, e pessoas a quem não estamos dispostos a dar nossa amizade, é uma habilidade valiosa. Uma amizade não correspondida é uma inabilidade somente da pessoa que a oferece.

As invocações do poder verde devem começar com o amor próprio, uma tentativa de ver o lado maravilhoso de todos os eus dos quais nós consistimos e, então, proceder a uma afirmação ritual da beleza e amabilidade de todas as coisas e pessoas. Formas de deus disponíveis para o “eu-amor” incluem Vênus, Afrodite e o mítico Narciso cujo mito reflete somente um certo preconceito machista contra este tipo de invocação.

De dentro da gnoses verde, os feitiços para fazer as pessoas amigáveis podem ser enviados por simples encantamentos ou pelo uso de entidades criadas com este objetivo. Entretanto, é nos encontros face-a-face que as habilidades de empatia estimuladas pela invocação trabalham de forma mais eficiente. Fora os artifícios óbvios de mostrar interesse em tudo o que o alvo tem a dizer, afirmar e simpatizar com a maior parte, há um outro fator crítico chamado “combinação de comportamento” que normalmente ocorre subconscientemente. Este fator consiste, basicamente, em tentar imitar o comportamento não-verbal do alvo, com a exceção das posturas que sejam claramente hostis. Sente-se ou fique de pé em idêntica posição corporal, faça os mesmos movimentos, use o mesmo grau de contato visual e fale com intervalos similares. Quando com comportamento de domínio, tais sinais só funcionam se não forem percebidos conscientemente por quem os está recebendo. Não se mexa imediatamente para igualar os movimentos e posturas do alvo. É essencial sondar e equiparar o comportamento verbal e comunicar com o mesmo nível de inteligência, status social e senso de humor que o alvo.

Antes de me tornar rico, eu praticava estas habilidades enquanto pegava carona. Logo, até mesmo pessoas que encontrei desfiguradas e cadavéricas estavam me pagando o lanche e me transportando para longe de seus próprios caminhos. A empatia irá levá-lo a qualquer lugar.

Magia Laranja

Charlatanismo, trapaça, viver de suas próprias habilidades e o pensar rápido são a essência do poder laranja. Estas qualidades mercuriais eram tradicionalmente associadas às formas de deus que atuavam como protetores dos médicos, magos, jogadores e ladrões. Entretanto, agora, desde o momento que os médicos descobriram que os antibióticos e as cirurgias higiênicas realmente funcionam, a medicina está parcialmente dissociada do charlatanismo. Todavia, por volta de oitenta por cento dos medicamentos ainda são basicamente placebos. Por isso o caduceu de mercúrio ainda é o emblema desta profissão. Da mesma forma, a profissão da magia tornou-se menos dependente do charlatanismo através da descoberta da natureza quântica-probabilística dos encantamentos e adivinhações e o total abandono da alquimia e astrologia clássica. No momento, a magia pura é melhor descrita como uma expressão do poder octarino, tendo um caráter uraniano. Porém, o charlatanismo ainda tem seu lugar na magia, assim como na medicina. Não nos esqueçamos que todos os truques de conjuração foram parte, em algum momento, do repertório xamânico de “aquecimento”. Nesta prática, alguma coisa perdida ou destruída é miraculosamente restaurada pelo mago com o intuito de colocar a audiência no estado de ânimo apropriado, antes do verdadeiro negócio de cura placebo começar. Em sua forma clássica, o mago coloca um coelho numa cartola antes de tirá-lo na frente da platéia.

Devemos acrescentar à lista das profissões fortemente influenciadas pelo poder laranja: o vendedor, o vigarista, o corretor e, ainda, todas as profissões com uma alta taxa de ataques cardíacos. A força motriz da gnoses laranja é o medo, basicamente. Porém, um tipo de medo que não inibe aquele que o tem, mas que gera uma velocidade nervosa extraordinária que produz movimentos e respostas rápidas em situações em que se está encurralado.

A apoteose do “eu-inteligência” é a habilidade de entrar naquele estado de sobremarcha mental, onde a resposta rápida está sempre pronta para chegar. Paradoxalmente, para desenvolver esta habilidade é suficiente não pensar sobre o pensar, mas, sim, permitir que a ansiedade paralise parcialmente os processos inibitórios dos pensamentos, de forma que o subconsciente possa liberar uma resposta rápida e inteligente sem a deliberação consciente.

As invocações do poder laranja são melhor realizadas em velocidade frenética, louca; sua gnoses pode ser aprofundada pela performance de tarefas que exijam a mente, tais como: fazer, de cabeça, o somatório de várias listas de números ou abrir envelopes que contenham difíceis questões e respondê-las instantaneamente. Deve-se insistir nessas atividades até penetrar na experiência de pensar sem deliberação. Várias formas de deus podem ser usadas para dar forma ao “eu-inteligência”: Hermes, Loki, o Coiote trapaceiro e o Mercúrio romano.

A magia laranja é normalmente restrita a invocações designadas para aumentar o “pensamento rápido” em atividades seculares, tais como: jogo, crime e objetivos intelectuais. A hipótese do Fiat Nox, por exemplo, veio para junto de mim numa semana após eu ter realizado uma eficiente invocação mercurial utilizando as técnicas acima. Na minha experiência, os encantamentos e as evocações realizadas depois de uma invocação da gnoses laranja raramente dão tanto resultado quanto a própria invocação. Talvez devêssemos falar algo a respeito do crime e do jogo em benefício daqueles que podem não estar entendendo o que pode ser feito com a magia laranja no suporte de tais atividades. É ridiculamente fácil roubar se o fizermos metodicamente. Porém, a maioria dos ladrões são pegos após um certo tempo. Isto ocorre porque eles se tornam afeitos à ansiedade que experimentam como excitação. Desta forma, começam a correr riscos para aumentar essa excitação. É óbvio que o ladrão noviço, que rouba algo em estado de extrema ansiedade e numa situação de risco zero, não será pego. O mesmo ocorre com o profissional cuidadoso. Entretanto, há muito poucos profissionais cuidadosos pois há muitos caminhos mais fáceis de ganhar dinheiro para pessoas com esta espécie de habilidade. A maioria dos ladrões sempre arranja uma forma de se incriminar. Isto ocorre porque, uma vez decaída a ansiedade do roubo, resta a ansiedade da punição. Aqueles que possuem a “inteligência rápida” e frieza exterior suficiente para fazer um roubo bem sucedido poderão ter mais resultado no ramo das vendas.

Existem três tipos de jogadores permanentes, dois dos quais são perdedores. Existem aqueles afeitos à sua própria arrogância que somente precisam provar que podem vencer a sorte ou as vantagens fixadas pelos organizadores do jogo. Há também aqueles afeitos à ansiedade de perder. Mesmo que ganhem, irão, logo em seguida, perder tudo novamente. Há, então, os vencedores. Não se pode dizer que estes últimos sejam, exatamente, jogadores porque ou estão organizando as disputas e apostas, possuem informações internas ou estão trapaceando. Esta é a verdadeira magia laranja. O pôquer não é um jogo de sorte se for jogado habilmente. Um jogo hábil inclui o não jogar contra pessoas de competência igual ou superior ou, ainda, pessoas em posse de uma Smith & Wesson contra seus quatro ases. Muitas formas convencionais de jogo são montadas de forma que qualquer coisa fará pouca diferença, excetuando as mais extremas formas de poder psíquico. Eu jamais perderia tempo com disputas onde minhas chances tenham sido reduzidas de cem para um para apenas seis para um. Entretanto, certos resultados obtidos usando-se presciência oculta em corridas de cavalo têm mostrado um potencial encorajador.

Magia Púrpura

A maior parte dos cultos que atravessaram a história tem uma característica em comum: eles foram conduzidos por homens carismáticos capazes de persuadir mulheres a dispensar livremente favores sexuais a outros homens. Quando começamos a observar, este fato torna-se claro em muitos cultos antigos, seitas monoteístas cismáticas e grupos esotéricos modernos. Muitos, se não a maioria, dos adeptos do passado e do presente foram, ou são, cafetões. O mecanismo é muito simples: pague a mulher com a moeda da espiritualidade para servir aos homens; estes, por sua vez, irão devolver-lhe o pagamento com adulação e a aceitação de seus ensinamentos será, para eles, um efeito colateral. A adulação dos homens irá aumentar seu carisma com as mulheres, criando um laço de realimentação muito positivo. Este processo pode ser um agradável “ganha-pão” até a velhice ou poderá sofrer um ataque da polícia. Outro perigo óbvio é que a mulher e, eventualmente, o homem pode sentir que as constantes mudanças de parceiros irão contra seus interesses emocionais e de reprodução a longo prazo. A circulação de pessoas em tais cultos pode ser muito grande, de forma que jovens adultos constantemente estejam substituindo aqueles que estão se aproximando da meia idade.

Poucas são as religiões ou cultos que não possuem um ensinamento religioso pois qualquer ensinamento provê um poderoso nível de controle. A maioria das mais estabilizadas e duradouras religiões estimulam a supressão do chamado sexo livre. Isso também traz muitos dividendos. A posição das mulheres se torna mais segura e os homens sabem quem são seus filhos. É natural que o adultério e a prostituição floresçam em tais condições porque algumas pessoas querem sempre um pouco mais que uma vida monogâmica pode oferecer. Assim, é muito correto afirmar que os bordéis são construídos com os tijolos da religião: indiretamente com as religiões convencionais, diretamente com muitos cultos.

Tudo o que foi dito nos faz perguntar porque é que as pessoas têm tal necessidade de querer que os outros lhes digam o que fazer com a sua sexualidade. Porque as pessoas têm que procurar justificativas esotéricas e metafísicas para aquilo que elas querem fazer? Porque é tão fácil “vender água para o rio”?

A resposta, ao que parece, é que a sexualidade humana possui uma constituição de insatisfação de origem evolutiva. Nosso comportamento sexual é parcialmente controlado pela genética. Os genes mais aptos a sobreviver e prosperar são aqueles que, nas fêmeas, encorajam a permanente captura do macho mais poderoso disponível e a ligação ocasional (clandestina) com algum macho mais poderoso que possa estar temporariamente disponível. Ao mesmo tempo, nos machos, os genes mais aptos a prosperar são aqueles que encorajam a impregnação do maior número de fêmeas que eles possam sustentar, além, talvez, de impregnar sorrateiramente outras poucas que sejam sustentadas por outros homens. É interessante notar que somente nas fêmeas humanas o cio está oculto. Em todos os outros mamíferos, o período fértil é muito óbvio. Parece que houve esta evolução para permitir, paradoxalmente, o adultério e o aumento das ligações sexuais nos momentos em que o ato não tem nenhuma utilidade reprodutiva. A base econômica de uma determinada sociedade irá exercer certa pressão em favor de um tipo particular de sexualidade, pressão esta que será codificada na forma de moralidade que irá, inevitavelmente, entrar em conflito com as pressões biológicas. Esta confusão reina pois nada é satisfatório continuamente. O celibato é insatisfatório, masturbação é insatisfatória, monogamia é insatisfatória, adultério é insatisfatório, poligamia e poliandria são insatisfatórios e, provavelmente, a homossexualidade também é insatisfatória se a alegre troca frenética de parceiros nesta disciplina for algo que continue.

Nada no espectro das possibilidades sexuais provê um solução a longo prazo, porém este é o preço que pagamos por ocupar o pináculo da evolução dos mamíferos. Muito de nossa arte, cultura, política e tecnologia surgem, precisamente, de nossas ânsias, medos, desejos e insatisfações sexuais. Uma sociedade sexualmente em paz iria, com certeza, oferecer um espetáculo insípido. É, normalmente, se não sempre, o caso da criatividade e realização pessoais serem diretamente proporcionais às suas inquietações sexuais. Esta é, realmente, uma das maiores técnicas da magia sexual, apesar de não ser reconhecida como tal. Inspire-se com o máximo de inquietações e confusões sexuais se você realmente quer descobrir o que você é capaz em outros campos. Uma vida sexual tempestuosa não é um efeito colateral de ser um grande artista, por exemplo. Porém, é a arte que é um efeito colateral de uma vida sexual tempestuosa. Uma religião fanática não cria as supressões do celibato. São as tensões do celibato que criam uma religião fanática. A homossexualidade não é um efeito colateral das vidas nos quartéis entre as tropas de choque de elite suicidas. A homossexualidade cria as tropas de choque de elite suicidas primeiro.

A Musa, a origem hipotética da inspiração, normalmente desenhada em termos sexuais, é a Musa somente quando seu relacionamento com ela é instável. Quaisquer pronunciamentos morais a respeito do comportamento sexual foram dados, sem dúvida, milhões de vezes antes e seria indecoroso para um caoísta reenfatizar algum deles. Porém uma coisa parece relativamente certa. Qualquer forma de sexualidade invoca eventualmente toda a gama de êxtase, auto-rejeição, medo, prazer, tédio, raiva, amor, ciúmes, despeito, auto-piedade, exaltação e confusão. São essas coisas que nos fazem humanos e, ocasionalmente, super-humanos. Tentar transcendê-las é fazer-se menos que humano, não mais. Intensidade de experiência é a chave para estar realmente vivo e, tendo escolha, eu preferiria ter estas experiências através do amor do que através da guerra.

Uma vida sexual insípida cria uma pessoa insípida. Poucas pessoas conseguiram obter grandiosidade em qualquer campo sem a propulsão que uma vida sexual-emocional turbulenta provê. Este é o maior segredo da magia sexual. Os dois segredos menores envolvem a função do orgasmo como gnoses e a projeção de um glamour sexual. Qualquer coisa que seja mantida na mente consciente durante o orgasmo tende a alcançar a subconsciência. Anomalias sexuais podem prontamente ser implantadas ou retiradas por este método. No orgasmo pode-se dar poder aos sigilos de encantamento ou de evocação. Isto pode ser feito, por exemplo, através da visualização pura ou através da contemplação do sigilo fixado na testa do parceiro. Entretanto, este tipo de trabalho é freqüentemente mais conveniente se realizado de forma auto-erótica. Embora a gnoses oferecida pelo orgasmo possa, em teoria, ser usada em suporte de qualquer objetivo mágico, normalmente é desaconselhável usá-lo para as magias entrópica e de combate. Nenhum encantamento é totalmente isolado no subconsciente e qualquer “escape” que ocorra pode implantar associações muito prejudiciais com a sexualidade.

Durante o orgasmo pode ser lançada uma invocação, sendo que esta operação será mais eficiente se cada parceiro assumir uma forma-deus. Os momentos seguintes ao orgasmo são muito úteis para visões de busca adivinatória. Atividades sexuais prolongadas podem, também, conduzir a estágios de transe úteis em adivinhação visual e oracular ou estados oraculares de possessão em invocação.

A projeção de um glamour sexual, com o objetivo de atrair os outros, depende de muito mais que a simples aparência física. Algumas das pessoas mais bonitas, no sentido convencional, carecem totalmente disso, enquanto que algumas das mais comuns desfrutam seus benefícios ao limite.

Para ser atraente para outra pessoa, você deve oferecer alguma coisa que seja a reflexão de alguma parte dela mesma. Se a oferta se torna recíproca, isso poderá conduzir a um senso de complementação que é mais prontamente celebrada pela intimidade física. Em muitas culturas, é convencionado para o macho exibir uma vigor público exterior e para a fêmea exibir uma personalidade mais tenra, ainda que nos encontros sexuais cada um irá procurar revelar seus fatores ocultos. O macho irá procurar mostrar que ele pode ser tão compassivo e vulnerável quanto poderoso, enquanto que a fêmea procurará mostrar uma força interna por trás dos signos e sinais de receptividade passiva. Personalidades incompletas, tais como aquelas que são profundamente machistas ou que consistem do oposto polar disso, não são nunca atraentes sexualmente a ninguém, exceto no sentido mais transitório.

Assim, os filósofos do amor têm identificado uma certa androginia em ambos os sexos como um importante componente da atração. Alguns têm usado de licença poética para expressar o belo ideal de o homem ter uma alma fêmea e a mulher uma alma masculina. Isso reflete o chavão que para ser atraente para os outros, você deve, primeiro, ser atraente para você mesmo. Algumas horas gastas praticando o ser atraente em frente a um espelho é um exercício valioso. Se você não consegue ficar nenhum pouco excitado com você mesmo, não espere que ninguém fique.

A técnica do “olhar da Lua” é freqüentemente eficiente. Você fecha os olhos rapidamente. Visualiza momentaneamente um crescente lunar de prata por trás de seus olhos, com os chifres da lua se projetando de cada lado de sua cabeça, atrás de seus olhos. Então, olhe nos olhos de um amante potencial enquanto visualiza uma radiação prata sendo emitida de seus olhos para os dele, ou dela. Esta manobra também tem o efeito de dilatar as pupilas e, normalmente, causa um sorriso involuntário. Ambos são sinais sexuais universais, sendo que o primeiro atua subconscientemente. Não se deve lançar encantamentos para parceiros específicos. É preferível conjurar para parceiros adequados em geral, para você ou para outros. Seu subconsciente possui uma apreciação muito mais penetrante de quem realmente é adequado.

A magia sexual é tradicionalmente associada com as cores púrpura (da paixão) e prata (da Lua). Entretanto, a eficiência das roupas pretas tanto como sinal sexual quanto anti-sexual, dependendo do estilo e corte, mostra que o preto é, num certo sentido, a cor secreta do sexo, refletindo o relacionamento biológico e psicológico entre o sexo e a morte.

Ritos de Natureza Mista

O poder amarelo combina bem, na invocação, com qualquer uma das outras forças, exceto a negra. Tais trabalhos têm o efeito de atrair a força aliada ao poder amarelo mais completamente para o reino da auto-imagem. Invocações negro-amarelas são realizadas convencionalmente em duas metades como experiências de morte e renascimento, em que o mago procura recriar vigorosamente sua auto-imagem após seu ritual de sacrifício. Invocações e encantamentos de natureza mista verde-púrpura funcionam bem, apesar de estas forças serem melhor utilizadas de forma isolada. Ainda assim, ritos púrpura-negros possuem efeitos incomuns e não são necessariamente perigosos para aquele que os realiza se construídos de forma cuidadosa.

Traduzido por Lucifer 149

[…] ou fortunas modestas e necessárias ou para grandes e inesperados ganhos. A magia do dinheiro, ( ou Magia Azul como colocaria Peter Carroll) é tão antiga quanto as maldições e os feitiçosd e amor, e muitas […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/as-oito-cores-da-magia/

Os Sonhos (Parte 6)

Por: Colorado Teus

Esta é uma série de textos que começou com Breve introdução à Magia, depois definimos nossos termos técnicos em Signos, falamos sobre a precisão das divisões entre os planos em A Percepção e a Evolução e como isso pode ser organizado em em Rituais e depois mostramos como a simples mistura de sistemas mágicos pode ser um fracasso para pesquisas em Análise de sistemas mágicos.

Para entender um pouco melhor o exercício prático do quinto texto, separei outra frase do livro “O Poder do Mito”, de Joseph Campbell:

“Quanto ao ritual, é preciso que ele se mantenha vivo. Muito do nosso ritual está morto. É extremamente interessante ler a respeito das culturas primitivas, elementares – como elas transformam os contos populares, os mitos, o tempo todo, em função das circunstâncias. Um povo se move de uma área em que, digamos, a vegetação era o suporte básico, para as planícies. Muitos dos nossos índios das planícies, do período em que andavam a cavalo, tinham pertencido originariamente à cultura do Mississipi. Eles viviam ao longo do Mississipi, tinham moradia fixa nas cidades e desenvolviam uma agricultura estável.

Então receberam os cavalos dos conquistadores espanhóis, o que tornou possível aventurar-se pelas planícies e praticar a grande caçada das manadas de búfalos. Por essa época, sua mitologia transformou-se de mitologia ligada à vegetação, em mitologia ligada ao búfalo.”

Muitos dos rituais foram criados de maneira a modificar o estado de consciência das pessoas e lembrá-las do que é realmente importante para suas vidas.

Como estamos falando sobre a criação dos sistemas mágicos, é preciso saber o porquê deles serem criados. Quase tudo que foi discutido até agora é mais ligado aos mundos ativo e formativo, ou Assiah e Yetzirah respectivamente (de acordo com a divisão com base nos Quatro Elementos citada no terceiro texto da série), então, após entender estes, vamos falar sobre o mundo emocional ou criativo, o mundo da Água, Briah.

“Emoção é uma experiência subjetiva, associada ao temperamento, personalidade e motivação. A palavra deriva do latim emovere, em que o e- (variante de ex-) significa ‘fora’ e movere significa ‘movimento’.” Emoção. In: Wikipedia. Disponível em:. . Acesso em: 07/08/2014.

Podemos ver que existe uma diferença entre sentimentos e emoções, já que os sentimentos estão ligados diretamente aos nossos sistemas de percepção, enquanto emoção é um tipo específico de sentimento, o que coloca a pessoa reativamente em movimento (aqui falamos dos mais diferentes tipos de movimento, desde um pensamento a um movimento físico).

Todos temos os mais variados tipos de emoções durante nosso dia a dia, desde a vontade de abraçar aqueles que amamos, até a vontade de afastar alguém que queremos não queremos por perto. Mas existe um problema muito grande quando vamos falar sobre emoções, elas estão além da nossa língua, estão acima do plano dos símbolos. Cada emoção depende basicamente da percepção de mundo de quem a sente e também da intensidade com que o algo que a gerou aconteceu.

Quando eu digo “Eu amo minha mãe”, é um amor muito diferente de quando eu digo “Eu amo minha namorada”, ou “Eu amo meu trabalho”, ou “Eu amo meu filho”, ou “Eu amo chocolate” etc. Quando, por exemplo, a palavra “amor” é lida em um texto, o leitor tenta ativá-la recordando de algo (ou seja, o remete a algo que ele já sentiu) para entender que tipo de amor o autor está tentando citar. Mas uma pessoa que nunca teve um filho, não vai entender exatamente o que um pai sente quando diz “Eu amo meu filho” enquanto esse não tiver um (exemplo emprestado do querido MDD).

Para contornar estas situações, existem muitas técnicas que ajudam a colocar uma parte maior do sentimento no texto, como fazer comparações ou metáforas, escrever poemas e músicas, fazer um desenho, um vídeo etc. Eu poderia falar “Eu amo tanto minha namorada que sem ela minha vida seria preto e branco”. Com isto, levo o leitor a pensar em como é a diferença em ver algo em preto e branco e à cores (como tv ou fotos); ao sentir a diferença, ver que é muito mais sem graça (obviamente existem exceções), ele consegue chegar mais perto de entender que minha vida seria bem mais sem graça sem minha namorada, e, assim, entender um pouco mais do meu amor por ela. Mas mesmo assim não é algo preciso, então eu poderia escrever um ou vários poemas, uma ou várias músicas, fazer desenhos e muitas outras coisas. Cada vez que fizer algo assim, as outras pessoas poderão entender um pouco melhor minhas emoções.

Mas sabemos que emoções não são ligadas apenas a amor. Os índios tinham uma ligação muito forte com a Mãe Natureza, então sempre que conseguiam alguma comida, sentiam gratidão e uma felicidade muito grande e, para expressar isso, criavam festivais, músicas, pinturas, esculturas e muitas outras coisas como forma de agradecê-La. É aí que percebemos a diferença que Joseph Campbell cita de quando há uma mudança nos hábitos dos índios, toda sua maneira de cultuar é modificada (cultos de agradecimento à floresta tornam-se cultos de agradecimento aos búfalos), porém, as emoções são praticamente as mesmas. Quem sabe uma foto ajude o leitor a perceber estas emoções que citei dos índios:

Com isso, voltamos àquilo que eu estava falando sobre símbolos no texto 4, que símbolos são imagens que um grupo de pessoas tem com um significado em comum (aquilo que os une), então, com a formação de um sistema simbólico, começa a existir uma padronização que ajuda muito na expressão das emoções entre pessoas que o entendem/vivem. Isto é fortalecido quando as pessoas vivem utilizando e percebendo aquele sistema simbólico rotineiramente, não é que não funciona para quem não vive assim, porém, é bem mais fraco para estes. Eu que, para comer, preciso apenas arrumar dinheiro e ir a um supermercado, nunca saberei de verdade o que é louvar um Deus Caçador, o que é suplicar comida a Ele junto com toda uma cidade, com seus filhos, com medo de nunca mais conseguir comer e ver seus entes queridos morrerem de fome.

Até aqui falamos das emoções que nós conseguimos entender e tentamos transmitir a alguém, mas e as que nem nós mesmos conseguimos entender? É aí que entra o que se chama de “subconsciente” dos seres humanos, o lugar onde ficam as emoções que o ser possui, mas ainda não foi capaz de entender conscientemente. Quando estas emoções começam a aflorar, elas começam a chegar na mente e tomam forma de símbolos que o ser possui em memória, o que pode ficar algo grosseiramente aproximado. Vamos a um exemplo:

Dois nativos, um que viveu a vida toda na Floresta Amazônica e o outro que viveu no Egito. Quando algo começa a ameaçar a vida do primeiro, nos sonhos, ele poderá ver uma onça pintada tentando atacá-lo, uma aranha, uma cobra etc. Se esse mesmo algo ameaça a vida do segundo, ele verá nos sonhos um escorpião, uma serpente, um crocodilo etc.

Quando é algo que a pessoa não consegue fazer a mínima ideia do que seja, não possui nada que se aproxime daquilo, começam a aparecer seres deformados e totalmente desconexos durante os sonhos, como uma onça pintada com cabeça de cobra e oito patas, formando um “novo ser”. Este novo ser, apesar de deformado, não é necessariamente bom ou mal, é apenas divergente dos padrões com que a pessoa criadora está habituada.

Utilizar um bom sistema simbólico ajuda justamente nisso, quando se sintoniza com um, as emoções começam a chegar baseadas nesses padrões. Por exemplo, imaginemos que várias pessoas, em diferentes partes do mundo, precisam disciplinar alguém mas não têm forças para isso. Neste momento um grego pode sonhar que é o deus Áres, um umbandista que é Ogum, um hindu que é Kali, um egípcio que é Hórus, uma criança dos dias atuais que é Vegeta, Kratos, um soldado armado etc.

Como é importante analisar as próprias emoções, é muito importante que se entenda qual a base simbólica que sua mente está utilizando, ou seus sonhos e visões viram uma salada de frutas. Note que, em razão de toda educação e percepção de mundo que as pessoas de um grupo têm (a forma de disciplinar do grego não é a mesma dos umbandistas, hindus e egípcios), logo, as imagens citadas não são as mesmas, gerando deuses, culturas e padrões de ação diferentes (algumas vezes muito parecidos, mas nunca iguais). Mas, apesar disso, existem sim símbolos que servem para a grande parte das pessoas do mundo todo, são imagens formadas à partir do que foi citado no capítulo 3 como “Inconsciente Coletivo”, que é a parte não consciente das coisas que todas as pessoas do mundo são capazes de perceber, simplesmente por serem seres humanos gerados e criados por outros seres humanos; este assunto será abordado no próximo capítulo, quando estivermos falando de Atziluth, ou o mundo do Fogo.

Como de costume, para terminar este texto proponho um exercício prático: a construção de um diário de sonhos. Todas as pessoas do mundo sonham, porém, nem todas lembram deles, justamente porque lembrar dos sonhos gasta energia e a maioria das pessoas não quer gastar energia em algo que para ela não faz o menor sentido. A melhor maneira que conheci para lembrar de sonhos é anotando-os, quando fazemos isso, nosso cérebro começa a dar mais atenção (awereness) a eles e nos ajuda a lembrar cada vez de mais e mais detalhes, até que chegará uma hora em que a pessoa dificilmente conseguirá lembrar se o que se passou foi sonho ou realidade. Daí vem a segunda grande importância de anotá-los: para não confundirmos os sonhos com a realidade do mundo físico. Existem outras coisas que nos ajudam a induzir nosso cérebro a lembrar dos sonhos, como: imagens, talismãs, músicas, orações etc. Um terceiro ponto, não menos importante que os outros, é começar a perceber os padrões em que as imagens chegam, assim, podemos entender melhor quais são nossos próprios sistemas simbólicos e, dessa forma, entender melhor nossas emoções inconscientes.

“Vamos todos em busca do elixir da longa vida…”

Vai dar certo!

#MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-sonhos-parte-6

A errada visão da qual somos vítimas

Não vou propor soluções, pois as que me vêm à cabeça já foram propostas. Este texto não é para dar a solução ao problema, mas é para que fique um registro (registro nosso e de quem leia) de que nós sabemos o que está sendo feito com a nossa imagem, de que nós conhecemos o problema e que estamos cansados de ter que carregar isso, de ter que agüentar aos ignorantes falando de nós, como se soubessem muito bem do que estão falando.

O pouco interesse da mídia por divulgar a verdade é insultante. Deveria ser também insultante para os não – satanistas, já que eles perdem a oportunidade de saber a verdade? É claro que deveria! Mas não é… Não é, porque ouvindo as mentiras da mídia eles se sentem seguros, eles assim têm certeza de que o caminho escolhido por eles é o certo, que o caminho escolhido por eles é o bom, que o “outro” caminho é errado, pois eles viram o que fazem os que “pertencem” (segundo a mídia) ao satanismo. E se eles escutassem uma outra coisa, um outro jeito da mídia se referir ao satanismo (o jeito correto) aquela seguridade que eles têm poderia desaparecer ou ficar muito fraca… Por isso, eles preferem ouvir o que a mídia tem a dizer e a mídia tem a dizer o que eles preferem ouvir, pois senão não venderia, não ganharia dinheiro… então também uma outra pergunta deve ser feita: “Afinal, a culpada é a mídia que só divulga o que quer ou as pessoas que só querem escutar a um único tipo de notícia divulgada?” (“Quem veio primeiro a galinha ou o ovo?”)

A resposta encontrada é: “A culpada é a mídia”… é culpada porque mesmo tendo noticias que as pessoas não queiram escutar, eles devem divulgar essas noticias, de forma correta… Um exemplo: Ninguém quer ouvir que tem, no mundo, gente morrendo de fome, mas mesmo assim essa noticia tem que ser divulgada e de forma correta.

Quero deixar claro que não estou fazendo a comparação entre o fato de existir fome no mundo e satanismo… esse exemplo foi só para mostrar como as noticias tem que ser divulgadas TODAS de maneira correta

Todos nós conhecemos àqueles que acreditam na existência de um ser com chifres, que mora no inferno e é responsável por todo mal na terra, e se acham satanistas porque não só acreditam na sua existência, mas também porque vão pela rua fazendo babaquices, se comportando “mal” só para chamar a atenção dos outros. São essas pragas que nos deixam mal frente aos meios de comunicação, que adoram historias com controvérsia e acrescentam grandes doses de sensacionalismo a todas elas. Assim, vemos jornais, tele-jornais, documentários, etc. falando sobre “os perigos do satanismo”.

EXEMPLO: Se tem um babaca que mata vinte pessoas num local público, e depois de ser pego ele fala que “foi o demônio que o fez fazer isso”, pronto, ai sai uma historia sobre como o assassino era ligado ao satanismo, como ele falava com o Diabo, etc… E depois disso começam as coisas mais ridículas: “Satanismo leva a homicídio”, “Satã quer a destruição da humanidade”, “Satanismo ataca à sociedade moderna”, “Satanismo na música”, “Satanismo nos jogos de computador”, etc… E a mídia organizada não está nem ai com o fato de nos deixar falar e explicar o que o satanismo na realidade é. Porque eles gostam de vender, de ganhar a atenção das pessoas com o sensacionalismo em grandes quantidades. E, quando temos a oportunidade de ter alguém “dos nossos” na tv, tentando se explicar, ele é sempre encaixado num debate com um cristão maluco… bom, até ai tudo bem, não fugimos de discussões e debates, mas o problema é que o cristão sempre tem um 80% do programa para gritar idiotices sobre como os satanistas matam animais nos rituais, sobre as orgias satanistas, etc., e à pessoa que defende o satanismo são dados só uns 5 minutos para se explicar e provar que o cristão está mentindo, além disso sempre tem que se explicar na frente de uma platéia que está totalmente contra o satanismo e que vai vaiar cada palavra que o satanista fale, dificultando assim a explicação. E isso é uma coisa difícil de mudar… não proponho soluções, pelo menos não novas soluções, pois não tenho nenhuma, na verdade, poucos têm, mas vamos continuar procurando. E as soluções antigas, como as de tentar “aparecer mais”, escrever cartas aos “talk-shows”, ligar para os canais de tv, etc. , não tem tido resultados marcantes, porque a mídia simplesmente não está interessada em saber a verdade, nem em falar a verdade, eles estão no controle e querem continuar no controle, mesmo que, sendo fontes de “informação”, contribuam para a desinformação das pessoas.

Por David Brun

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-errada-visao-da-qual-somos-vitimas/

Maçonaria responde às críticas

Desconsiderando as críticas absurdas, aquelas baseadas em crenças idiotas, frutos da ignorância e do fanatismo, ofensivas a qualquer indivíduo de inteligência mediana e um pouco de bom senso, dediquemos um pouco de nosso tempo a responder as demais críticas, relativas ao caráter político, econômico e social da Maçonaria:

1 – A Maçonaria é direitista.

R – A Maçonaria, pelo seu caráter universalista, não assume posição política e proíbe discussões político-partidárias em suas reuniões, mas sempre incentivando seus membros a terem e defenderem suas convicções políticas, em defesa da democracia e da soberania da pátria, atributos ligados à Liberdade, a qual faz parte da tríplice divisa maçônica. Por esse motivo, encontra-se nas fileiras maçônicas filiados e líderes em vários níveis de todas as vertentes políticas.

A Maçonaria, refletindo a sociedade em que está inserida, pode possuir maioria dos membros socialista em Cuba e capitalista nos EUA. E nem por isso a Grande Loja de Cuba ou qualquer Grande Loja Estadual dos EUA tem oficialmente uma ou outra posição, pois abrigam também membros de diferentes convicções políticas, econômicas e sociais.

2 – A Maçonaria é conservadora, tendo resistência em acompanhar os avanços da sociedade.

R – A Ordem Maçônica é instituição não-dogmática, e seu funcionamento é em “regime aberto”. Isso significa que a Maçonaria não possui dogmas que restringem seus membros em quaisquer questões, podendo eles militarem contra ou a favor qualquer questão que não restrinja a liberdade de si mesmo e do próximo. Os maçons não são monges e não vivem trancafiados nas Lojas Maçônicas. Eles vivem na sociedade e apenas frequentam as reuniões maçônicas durante algumas horas por semana ou quinzenalmente. Como instituição filosófica, espiritualista e humanista, a Maçonaria defende a livre e irrestrita busca da verdade. Há maçons conservadores e liberais, e aqueles que se submetem a qualquer dogma o fazem por suas convicções pessoais, e não pela Maçonaria. Novamente, refletindo a sociedade, numa comunidade mais conservadora pode haver mais maçons conservadores, assim como o contrário.

3 – A Maçonaria é machista.

R – Essa ideia de que a Maçonaria é machista é baseada no fato de que a Maçonaria Regular só aceita homens como membros. Para entender melhor essa questão, leia o artigo sobre as mulheres na Maçonaria.

4 – A Maçonaria é inimiga declarada da Igreja Católica.

R – Apesar de uma Ordem presente no mundo inteiro, a Maçonaria não possui um poder central internacional, pois cada Grande Loja no mundo, seja composta de 03 ou de 3.000 Lojas, é independente e soberana. Não existe um “Grão-Mestre Internacional”, nem mesmo um Conselho que possa falar em nome de toda a instituição. Por esse motivo, afirmar que a Maçonaria é a favor ou contra qualquer instituição religiosa é, no mínimo, calúnia. Por outro lado, a Igreja Católica já emitiu algumas bulas papais contrárias à Maçonaria, ameaçando penalidades aos católicos que ingressassem na Ordem. O que também não impediu que vários padres buscassem a Maçonaria e se tornassem maçons ao longo da história. Algo que acontece até os dias de hoje.

5 – A Maçonaria é uma espécie de pirâmide, que favorece financeiramente seus membros.

R – Então, por que diabos eu ainda sou pobre???

Ninguém ganha dinheiro com Maçonaria, mas posso garantir que se gasta muito com livros e taxas de manutenção de nossos templos, estruturas administrativas e projetos sociais.

6 – O maçom é obrigado a favorecer o outro em nome da fraternidade.

R – Sério? Então está na hora de eu cobrar alguns favores!!!

Sendo o maçom um homem que assumiu solenemente compromisso de busca e promoção da justiça em todos os momentos de sua vida, ele está moralmente impedido de favorecer quem quer que seja, independente se irmão maçom ou irmão de sangue. Se um maçom, num momento de fraqueza ou desencaminho, solicitar a outro algum tipo de favorecimento, este último tem a obrigação fraterna de recordar o primeiro dos preceitos maçônicos. O auxílio maçônico refere-se a situações de socorro em momentos de risco ou necessidade, e abrange não somente o maçom como sua família.

7 – A Maçonaria faz pouco pela sociedade.

R – Ao contrário do que alguém possa pensar, a Maçonaria não é uma OnG de ação social, um clube de serviço ou uma sociedade com fins filantrópicos. A Ordem Maçônica é uma espécie de escola, cujo objetivo é o desenvolvimento moral, intelectual e espiritual de seus membros. É através de seus membros vivendo e agindo segundo os princípios maçônicos e em defesa de seus ideais que a Maçonaria espera colaborar para uma humanidade mais feliz. Por esse motivo, a filantropia não é seu fim, mas apenas um de seus meios. Porém, o interessante a se observar é que, mesmo não sendo a sua natureza, a Maçonaria tem desenvolvido excelentes projetos sociais em todo o mundo. A diferença é que a Maçonaria costuma ser discreta, não fazendo publicidade de seus atos em prol do próximo.

8 – A Maçonaria faz parte da Nova Ordem Mundial, movimento que tem a intenção de governar o mundo, influenciando os governos a agir conforme seus interesses.

R – Se a Maçonaria, como explicado anteriormente, não possui uma representatividade internacional, como poderia participar de um “complô mundial”? Além disso, as únicas menções sobre essa tal “Nova Ordem Mundial” só são encontradas em sites de fanatismo religioso e em teorias conspiratórias sem qualquer indício aceitável.

Conclusão

Essas são apenas algumas das várias críticas sobre a sublime instituição, muitas delas heranças de campanhas difamatórias que a Ordem sofreu em outras épocas. A única culpa que a Maçonaria carrega é a de se basear no sigilo, enquanto é da natureza do ser humano recear o desconhecido, e divagar sobre ele.

#Maçonaria

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ma%C3%A7onaria-responde-%C3%A0s-cr%C3%ADticas

Tudo é um Jogo

— Você está estacionando o carro e… — crassshh — amassa o paralama daquele reluzente BMW ao lado. Ninguém viu. Você, um cara decente, pensa em deixar um bilhete se identificando e assumindo a responsabilidade. Mas, espera aí. É um BMW. O dono certamente tem dinheiro, e não estaria dirigindo um carro desses por aí se não tivesse seguro. Essa batidinha para ele não será nada, mas para você.….

— Já é tarde da noite e você está na estação do metrô. Ninguém por perto. Por que não saltar a roleta e viajar sem pagar? É claro que a companhia do metrô não vai quebrar se você fizer isso. Os trens circulam com ou sem passageiros. Por que não saltar a roleta?

Há uma infinidade de situações em que o interesse individual se choca com o coletivo. No caso do carro em que você bateu, o seguro paga e repassa o custo para os prêmios que cobra. Não assumindo o prejuízo, você acaba penalizando gente que nada tem a ver com isso. O caso do metrô é idêntico: engrossando as estatísticas dos que não pagam, você contribui para o aumento das passagens dos que pagam.

Esse é um dilema freqüente nas organizações — na família, na empresas, entre nações. Ele surge de um impulso com o qual todo mundo lida em inúmeras circunstâncias: a tendência a satisfazer o interesse individual agindo de uma forma que, se todos imitassem, seria catastrófica para todos.

Que jogos são esses?

Esse tema é tão recorrente, que há mais de cinquenta anos vem merecendo a atenção de cientistas. John Nash — o matemático interpretado por Russel Crowe no filme “Uma Mente Brilhante” — ganhou o prêmio Nobel de economia, por ter ajudado a desvendar parte da dinâmica desse tipo de situação, usando um ramo da matemática aplicada chamado teoria dos jogos. O filme, aliás, não dá qualquer dica sobre a originalidade e ousadia de seu trabalho-o cara existiu (existe, está vivo), superou a esquizofrenia e ganhou mesmo o Nobel, mas o resto (como em Titanic e outros) — é puro cinema.

O objetivo da teoria dos jogos é lançar luz sobre conflitos de interesse e ajudar a responder ao seguinte: o que é preciso para haver colaboração? Em quais circunstâncias o mais racional é não colaborar? Que políticas devem ser adotadas para garantir a colaboração?

Pense em alguma polêmica atual — Alca, Protocolo de Kyoto, as cotas americanas para o aço… Todas são situações em que conflitos de interesses têm de ser equacionados. Jogos assim, são profundamente ligados à vida em sociedade. Sempre foram, mas hoje, num mundo hiper-conectado, são mais.

Nem precisamos ir tão longe, os insights que se obtêm da teoria dos jogos podem nos ajudar a entender vários casos brasileiros atuais: o quase-apagão, o que está acontecendo na campanha eleitoral, e até no Big Brother/Casa dos Artistas.

A teoria dos jogos constata que conflitos de interesse acontecem por que a regra geral é maximizar, prioritariamente, o ganho individual. Esse é seu ponto de partida, mas não vá pensar que se trata de falta de solidariedade ou civismo. É mais fundamental que isso. Nem as mais civilizadas sociedades conseguiram resolver esse dilema. É claro que se todos se comportassem de forma altruísta (pelo bem do grupo) não haveria dilema algum, mas a vida real não é assim.

A teoria dos jogos é um arcabouço matemático que trata das estratégias que se usa quando há “alguém” em conflito de interesses com outro “alguém”. Não tem nada a ver com moralidade, com “bem ou mal”, ou com “certo e errado”. Tem a ver só com matemática . Ela trata, simplesmente, de jogadores fazendo de tudo para maximizar as chances de um certo resultado. Voltarei logo a isso.

Jogos de amigos. Amigos?

Empresas, países, organizações, pessoas, envolvem-se o tempo todo em situações potencialmente conflituosas. Jogos.

Se você vai jantar com três amigos, e combinam com antecedência rachar a conta, você vai, muito provavelmente, gastar o mesmo que gastaria se cada um pagasse só o que consumiu. Há um acordo implícito para isso.

Como você sabe que vai arcar com 25% da conta, e como quer manter uma relação de confiança com seus amigos, você escolhe pratos que custem mais ou menos o mesmo que os que seus colegas pediram (se um “amigo” mais malandro resolve pedir lagosta ao forno, depois que todo mundo pediu pizza, ele será considerado não confiável, e perderá a condição de amigo).

Já no almoço de fim de ano do escritório com umas 30 pessoas — a coisa é diferente. Você, que está meio duro, pensa em pedir um cheeseburguer, mas os primeiros a pedir escolhem filé mingnon e camarões gratinados.

Você sabe que vai pagar só 3% da conta, independente do que comer, e muda rapidinho — “Vitela especial para mim, seu garçon”. O custo incremental para seus colegas vai ser mínimo, e você vai ter uma refeição muito melhor. Mas, como todo mundo pensa assim, o grupo acaba por gastar muito mais do que teria gasto se cada um pagasse individualmente pelo que consumisse, ou se o grupo tivesse se dividido por várias mesas menores. Não foi culpa de ninguém. As coisas simplesmente aconteceram assim. O grupo explorou a si mesmo. A decisão racional de cada indivíduo, leva a um resultado irracional (negativo) para o grupo.

Tecnicamente, por razões históricas, chamam esse tipo de jogo de “tragédia dos comuns” .Exploração de recursos coletivos sempre leva a tragédias dos comuns, e elas só podem ser evitadas introduzindo-se regras para que os participantes sejam recompensados por agir de forma altruísta. Quer dizer, o altruísmo é “comprado”, de certa forma.

É isso que a teoria dos jogos mostra, e é isso que a história confirma.

Imagine vários fazendeiros cujas vacas pastam no mesmo pasto. Se não há regras, cada um deles vai tentar colocar o maior número possível de cabeças de gado ali, o que levará à destruição do pasto e à morte dos animais. A atitude predominante é: “deixa eu botar mais uma vaquinha aqui, por que se eu não o fizer, alguém fará”. Perfeitamente racional, claro; mas…

A maneira certa de evitar essa tragédia dos comuns, é dividir o pasto — que é um recurso coletivo — entre os fazendeiros, de modo que cada um deles tenha uma área definida para suas vacas, e não apenas colha os benefícios, mas também arque com os custos de sua preservação. Ou seja: a solução é privatizar o pasto. Essa é a razão pela qual as terras das fazendas são cercadas. Mares, rios, o ar que respiramos, as florestas.. tudo isso é recurso coletivo. Você já sabe o que acontece se não houverem regras que impliquem em incentivo (ou punição , dá no mesmo) à sua preservação.

Jogos de brasileiros

Foi precisamente esse o jogo no episódio do racionamento de energia.

Ameaçando com sobretaxas individuais e cortes de fornecimento idem, o governo transferiu para cada cidadão a responsabilidade por algo que até então era percebido como sendo de todo mundo. “Cercou o pasto” da energia elétrica. Usou a solução clássica para tragédias dos comuns, e deu sorte também: foi muito ajudado não só pelas chuvas, mas por algo de cuja importância até então não se tinha idéia: cada “Zé” individual, percebeu que poderia deixar de gastar uma boa grana — sem tornar a vida especialmente miseráve — se cooperasse. Isto é: descobrimos que era do nosso interesse colaborar. John Nash diria que governo e sociedade atingiram uma “estratégia de equilíbrio”. Nesse caso, os interesses deixam de ser conflitantes, por que é vantajoso cooperar.

Examine os jornais de hoje. Aposto que boa parte do que é notícia, pode ter sua dinâmica esclarecida pela teoria dos jogos. Conflito de interesses, afinal, é o que há, certo? Por exemplo: de meados de fevereiro aos primeiros dias de março, o que foi notícia no Brasil? O fim do racionamento de energia, a aliança PT-PL , a reação do PFL na crise gerada pela invasão do escritório do marido da Roseana, e, claro, quem vai ser eliminado no Big Brother e Casa dos Artistas. Pratos cheios (transbordantes) de conflitos de interesse. No caso do nosso quase-apagão, já vimos, os jogadores acabaram cooperando. O incentivo econômico para isso foi muito forte.

Qual a utilidade do jogo?

Ok, incentivo econômico é um termo vago. John Von Neumann inventou, e John Nash, depois, usou, uma formulação que vai além: utilidade ou função utilidade como dizem os matemáticos. Jogadores sempre buscam certos resultados em detrimento de outros. Essas preferências são chamadas de utilidade. Utilidade é o que os jogadores querem no fundo de suas almas. Aquilo que “tanto mais eu tiver melhor”. A utilidade que você atribui a um certo resultado é que determina sua estratégia no jogo. Agir racionalmente (no contexto da teoria dos jogos), significa agir de modo a maximizar a utilidade.

Pense na utilidade como sendo pontos que você quer acumular. Se você joga pôquer valendo palitos de fósforos, então a utilidade é a quantidade de palitos que você junta. Quando se joga por dinheiro, ele é a utilidade. A utilidade para os políticos é sempre o poder.

Jogos eleitorais

Veja o PT na campanha presidencial – um jogo que até agora (escrevo no início de março de 2002) sinaliza um desfecho desfavorável para o partido. O PT não tem consenso sobre como maximizar a utilidade(votos) do jogo. Sem consenso sobre isso, não há como montar uma estratégia, e sem estratégia só se vence por sorte. Em fevereiro, a direção do PT articulara uma aliança com o PL. Alianças são muito racionais em eleições, e é por isso que são feitas. Boa parte do partido, porém, não admite que ganhar votos seja “só o que conta numa eleição”, e botou a boca no mundo.

O PFL, por seu lado, é o oposto. Seus políticos são chamados de “profissionais” exatamente porque admitem sem escrúpulos o que querem maximizar: votos. Estão nas esferas mais altas do poder há mais tempo do que qualquer outro partido. Quando as primeiras pesquisas sinalizaram que Roseana podia ter chances, o PFL foi logo avisando que seu apoio ao candidato do governo poderia ficar para o segundo turno — iria tentar ganhar liderando a chapa, não fazendo só o vice. Fez beicinho no episódio da invasão do escritório do Jorge (“querida, encolhi suas chances”) Murad, saiu do governo, mas é pragmático demais — deixou a porta aberta para alianças no segundo turno. Não têm dúvida sobre o que quer: o poder.

Tipos de jogos

O inventor da teoria dos jogos foi o húngaro radicado nos EUA — John Von Neumann na década de 1940 Sua grande contribuição foi nos chamados jogos de soma zero. É quando a vitória de um ,significa, necessariamente, a derrota de outro — como no xadrez ou no jogo da velha. Em jogos de soma zero, não há possibilidade de colaboração. Nessas circunstâncias, Von Neumann provou que há sempre um curso racional de ação para cada jogador.

John Nash, por seu lado, tratou de situações em que o mais racional é colaborar. A única menção a isso em “Uma mente brilhante” é uma cena, num bar, em que ele convence seus ultra-competitivos colegas, a não tentarem conquistar todos a mesma moça. O mais racional seria distribuirem seus esforços escolhendo alvos diferentes. Não se tratava de um jogo de soma zero, afinal.

Von Neumnan não estava interessado em xadrez porque “esse tipo de jogo nada tem a ver com a vida real”, segundo ele. Pôquer era algo mais próximo do que ele queria tratar, porque, no pôquer, o blefe é mais fundamental. Ele estava interessado na trapaça, no blefe, nas pequenas táticas de dissimulação, na desconfiança, na traição. Falei em campanha eleitoral? Casa dos Artistas e Big Brother? É isso aí.

Sua genialidade foi perceber que a dissimulação não só é algo racional em jogos de soma-zero, mas também que ela é tratável matematicamente. Sua teoria dos jogos lida com seres racionais e desconfiados querendo “se dar bem” a todo custo. Pense no jogo particular que um goleiro joga contra um batedor de penalty. O batedor tem todo interesse em que o goleiro pense que ele vai chutar num certo canto, e então, chuta no outro. Dissimular é uma estratégia racional para o batedor. O mesmo vale para o goleiro, que tentará fazer com que o batedor acredite que ele se atirará para um certo lado. Dissimulação e fingimento são parte do talento que eles têm que ter. Em jogos de soma zero, jogadores racionais têm que blefar.

Jogos de família

Na verdade, a teoria dos jogos é sobre estratégias, ou seja: sobre o quê fazer para obter certos resultados. Nem sempre é preciso matemática para descobrir, e nem sempre, quando a matemática descobre, a gente consegue fazer o que ela manda. É aí que a coisa fica interessante; vamos ver… Uma viúva tinha duas filhas. Todo dia, ao voltar para casa, trazia um pedaço de bolo, e se esforçava para dividi-lo em duas fatias exatamente iguais. Cada filha, porém, sempre achava que a mãe dera o maior pedaço à outra. A mãe sofria. As duas – com aquele maquiavelismo típico de crianças que percebem que os pais são manipuláveis – atormentavam a pobre mulher. Era um jogo. Um jogo fácil de resolver através da lógica: bastaria pedir a uma das filhas que dividisse o bolo, e que a outra fizesse a escolha primeiro. Pronto. Fim da chantagem sentimental. Ninguém poderia reclamar de ninguém. Realmente há casos em que a fria lógica é melhor, mas será sempre? Infelizmente não. Indiana Jones que o diga.

Jogos do Indiana Jones

Você se lembra do filme “Indiana Jones e a última Cruzada “?

Nosso herói Indiana junto com seu pai, mais um bando de nazistas (como o cinema criaria seus vilões sem nazistas?) chegam ao local onde está escondido o Santo Graal. O velho Indiana tinha levado um tiro e sangrava um bocado. Só o poder de cura do cálice sagrado poderia salvá-lo da morte. Num clima de alta tensão, os dois Jones e os nazistas disputam palmo a palmo a primazia de chegar a ele.

Mas há um desafio final: há vários cálices, e só o cálice certo dá a vida eterna, qualquer escolha errada conduz à morte. O nazistão chega primeiro. Escolhe um lindo cálice de ouro cravejado de brilhantes, bebe a “água santa” e morre “aquela morte cinematográfica que é conseqüência das escolhas erradas” – como dizem os autores do livro de onde tirei esse exemplo. Indiana escolhe um tosco cálice de madeira, mas hesita: “só há um jeito de saber”, diz ele. Mergulha o cálice na fonte, bebe, e …acerta! Indiana leva o cálice ao velho (esses velhos de hoje, demoram muito para morrer, viu leitor?) e cura suas feridas mortais. Cenas excitantes, mas, lamento dizer, Indiana usou a estratégia errada. Ele deveria ter levado primeiro o cálice ao pai, sem prová-lo antes. Se tivesse escolhido o cálice certo, seu pai estaria salvo de qualquer forma; se tivesse escolhido errado, bem… o velho morreria mas ele se salvaria. Do jeito que agiu, se tivesse escolhido o cálice errado, não haveria segunda chance — Indiana morreria por causa do cálice e seu pai por causa de seus ferimentos.

Agora, imagine algo que não está no filme mas poderia estar na vida real. Indiana faz a opção racional. Escolhe, leva o cálice primeiro ao pai ferido, e …esse morre. “Bem” , pensaria ele, “eu tentei. De nada adiantaria ter bebido primeiro por que agora eu e meu pai estaríamos mortos. Tenho certeza de que o velho aprovaria o que fiz. Foi a escolha lógica”. Indiana tenta racionalizar a situação, mas o ser humano que nós conhecemos comportar-se assim? Analisa racionalmente vários cursos de ação e escolher – friamente – o mais adequado? A culpa começa a perseguir nosso herói. Ele sonha toda noite com o velho estrebuchando diante dele. Acorda encharcado de suor. Não consegue convencer-se de que fez realmente a melhor escolha. Entra em depressão. Fica impotente (sem um certo exagero dramático essas histórias não têm graça). Começa a beber. A mulher o abandona (ninguém agüenta heróis deprimidos). Procura terapias alternativas. Lê livros de auto-ajuda…coitado do Indiana. A racionalidade, a escolha lógica, nem sempre resolvem.

A matemática da teoria dos jogos trata rigorosamente de conflitos reais, mas não dá garantia de sucesso, só dá a garantia da lógica. Infelizmente, sucesso e lógica não andam necessariamente juntos. Levar em conta o ser humano como ele realmente é, implica em levar em conta sua emoção. Ela tem que ser parte do jogo, e é. Continue lendo…

O jogo que explica os jogos

Eu disse no início, que a raiz dos conflitos de interesse é a tendência de se maximizar o ganho individual, mas, tem de haver algo além da pura racionalidade auto-interesseira, se não, a vida em sociedade seria impossível. Essa questão é muito bem captada por um jogo que se chama “O dilema do prisioneiro” — formulado e estudado na década de 1950 por matemáticos de Princeton, a mesma universidade de Einstein, Von Neumann e Nash. É assim: dois criminosos praticam um crime juntos. São presos e interrogados separadamente. A polícia não tem provas contra eles, e a única forma de condená-los é um acusar o outro. Cada prisioneiro tem uma escolha: calar ou acusar o companheiro. Se os dois permanecerem calados, ambos serão postos em liberdade. A polícia, querendo uma solução rápida para se livrar da pressão da opinião pública, fornece alguns incentivos: o prisioneiro que denunciar o outro ganha a liberdade, e ainda por cima leva um prêmio em dinheiro. O outro pegará prisão perpétua, e ainda terá de pagar o prêmio ao delator. Se os dois acusarem-se mutuamente, os dois serão condenados. Qual a escolha lógica? Ambos começam a pensar. O melhor a fazer é calar, pois ambos serão soltos. Mas o prisioneiro A sabe que B está pensando a mesma coisa, e sabendo que não pode confiar no colega, percebe que o menos arriscado é denunciar B. Sim, pois se esse calar, A ainda assim estará livre (e com o dinheiro da recompensa). Se o outro igualmente denunciá-lo, bem…. A teria de cumprir pena de qualquer forma- pelo menos não ficará com cara de bobo na prisão.

Acontece que B pensa exatamente da mesma maneira. Resultado: ambos são levados pela fria lógica, para o pior resultado possível: traição mútua e prisão. Lembra daqueles exemplos de pessoas rachando a conta no restaurante? São dilemas do prisioneiro jogados por grupos de mais de duas pessoas. O racional é eu pedir lagosta (trair) depois que os outros pediram pizza (cooperaram). Por quê não agimos (racionalmente) assim? Um cientista chamado Robert Axelrod descobriu. Para investigar o dilema do prisioneiro mais a fundo, ele promoveu um torneio em que os participantes apresentariam programas de computador representando os prisioneiros. Os vários programas seriam confrontados aos pares, e cada um deles escolheria trair (dedurar) ou cooperar (calar )em cada encontro.

Havia um detalhe porém: em vez de jogar uma única vez , cada par de programas jogaria um contra o outro duzentas vezes seguidas. Essa seria uma maneira mais realista de representar o tipo de relacionamento continuado a que estamos acostumados na vida real. Note que num dilema do prisioneiro, o melhor para cada jogador é trair enquanto o oponente coopera (a tentação de trair tem que ser grande). O pior para cada jogador é quando ele coopera enquanto o outro trai. Finalmente, a recompensa pela cooperação mútua tem que ser maior que a punição pela traição mútua.

Axelrod atribuiu pontos a cada situação dessas. Venceria o programa que acumulasse mais pontos depois de enfrentar cada adversário duzentas vezes seguidas. Todos os tipos de estratégia poderiam ser representados: por exemplo, um programa adotando uma estratégia “generosa” que sempre perdoasse as traições do outro. Uma estratégia “cínica”, que perdoasse traições até um certo confronto (até a centésima partida, digamos), dando a impressão de ser boazinha, e, depois, traísse sistematicamente até o fim. Uma que sempre traisse. Uma que traisse e perdoasse alternadamente. Enfim, as possibilidades eram infinitas. Que estratégia acumulou mais pontos?

A regra do jogo

De todos os programas participantes, alguns continham estratégias muito complexas, mas o vencedor, para surpresa geral, foi um que adotava uma estratégia muito simples chamada TIT FOR TAT, que em tradução livre significa “olho por olho”. TIT FOR TAT é um programa de apenas quatro linhas. Sempre começa cooperando, e depois faz exatamente o que o oponente tiver feito no lance anterior : trai, se tiver sido traída, e coopera caso tenha obtido cooperação. TIT FOR TAT tem quatro características (entre parêntesis está a terminologia usada no trabalho original em inglês):

1 — É “bacana” (nice) — nunca trai primeiro;

2 — É ” vingativa” (tough) — nunca deixa passar uma traição sem retaliar na mesma moeda no lance seguinte.

3 — É “generosa” (forgiving). Se após a traição e conseqüente retaliação, o oponente passar a se comportar bem, TITFOR TAT esquece o passado e se engaja num comportamento cooperativo

4 — É “transparente” (clear). É uma estratégia simples o suficiente para permitir ao oponente notar de imediato com que tipo de comportamento está lidando. Não há truque, nem “jogada”.

Depois que apareceu como vencedora, TIT FOR TAT foi desafiada e venceu mesmo em torneios em que os demais competidores apresentaram programas desenhados especificamente para batê-la. Com toda sua simplicidade, TIT FOR TAT pode realmente levar à cooperação em uma grande variedade de situações, algumas muito improváveis. Por exemplo, a estratégia “viva e deixe viver” (live and let live) que apareceu espontaneamente nas tricheiras na primeira guerra mundial: unidades inimigas, frente a frente por meses a fio, evitavam dar o primeiro tiro. Apesar de não haver comunicação formal, e de serem inimigas, o compromisso tácito que surgiu foi: “se você não atirar eu não atiro”. O fato de os mesmos soldados estarem convivendo na mesma situação por vários meses, levou ao acordo para a cooperação.

Jogos de morcegos

Mesmo quando não há comportamento consciente envolvido, TIT FOR TAT (daqui para a frente TFT) pode ser adotada. Certas espécies de morcegos vampiros saem em bandos à noite para sugar sangue de cavalos, ovelhas… Nem todos conseguem. É comum alguns morcegos que conseguiram mais do que necessitavam, regurgitarem o excesso de sangue para algum colega que não conseguiu nada. O colega, dias depois, retribui o favor. Eles se reconhecem na multidão de morcegos. Reputação conta e muito. TFT é isso. Como há um lapso de tempo entre a boa ação e a retribuição a ela, esses morcegos têm que ter boa memória. Há dezenas de exemplos análogos. Colabore comigo hoje, que eu retribuo amanhã.

Jogos de guerra

Os soldados na trincheira e os morcegos cooperativos ilustram algo importantíssimo. Para que TFT possa se instaurar, a relação entre os jogadores tem que ter uma perspectiva concreta de durar muito tempo. Tem que haver uma grande probabilidade de haver novos encontros no futuro. A sombra do futuro tem que ser longa, como dizem os especialistas. Se não for… bem se não for você já sabe-o racional é trair. Lembre-se dos soldados na trincheira. Lembre-se de quando você amassou aquele BMW no início. Claro, você saiu de fininho. Nunca mais iria ver o proprietário mesmo…

Jogos de bactérias

Bactérias são outro exemplo. Bactérias não têm cérebro. De um ponto de vista darwiniano, elas são os seres vivos mais bem sucedidos que há. Existem há bilhões de anos, e têm uma capacidade de replicação incrível. Você, leitor, hospeda em suas entranhas bilhões delas. Há mais bactérias vivendo dentro de você do que há seres humanos na Terra.

Nas palavras do biólogo inglês, Richard Dawkins, elas estão: provavelmente envolvidas em dilemas do prisioneiro com os organismos que as hospedam…..Bactérias que normalmente são inofensivas, e mesmo benéficas, podem tornar-se malignas e até provocar septicemias letais numa pessoa ferida. Um médico diria que a “resistência natural” da pessoa ferida diminuiu por causa do ferimento, mas talvez a causa real tenha a ver com jogos tipo dilema do prisioneiro.

Será que não poderemos ver as bactérias que hospedamos como seres que normalmente têm algo a ganhar, mas preferem se conter? No jogo entre bactérias e seres humanos, a “sombra do futuro” é normalmente longa, pois, tipicamente se espera que uma pessoa viva muito tempo. Porém, alguém seriamente ferido está sinalizando que potencialmente a sombra do futuro para a relação com a bactéria, encolheu. A tentação de trair começa a aparecer (para as bactérias) como uma opção mais atraente que a recompensa pela cooperação mútua. Não é que as bactérias ” imaginem” tudo isso em suas cabeças maldosas! A seleção natural atuando em cima de várias gerações de bactérias embutiu nelas uma regra prática, inconsciente, que opera através de meios puramente bioquímicos

Resumindo: de alguma forma as bactérias ficam sensíveis ao fato de que a “sombra do futuro” diminuiu. A relação pode acabar mais cedo do que o esperado. O ferimento no organismo hospedeiro fez com que ele emitisse alguns sinais (químicos). As bactérias decodificam esses sinais que estão dizendo simplesmente: “estou ferido; posso vir a morrer”. E você sabe, leitor, se a relação tem data para terminar, o “racional é trair”. É isso que as bactérias fazem.

Jogos no fundo do mar

Uma maneira de forçar a colaboração é alongar a “sombra do futuro”. Isso se faz , por exemplo, aumentando aos poucos a freqüência da interação entre os jogadores, fazendo-os levar em conta que “logo vou encontrar esse cara de novo” . Nos bancos de coral do Panamá vive um tipo de peixe em que não há distinção sexual. É uma espécie hermafrodita. Todos os membros são macho/fêmea e alternam periodicamente seus papéis sexuais. Durante a fase inicial do acasalamento, cada peixe do par faz o papel de fêmea, e o outro o de macho. Mas cada “fêmea” põe apenas um pequeno número de ovos de cada vez, até que, através da relação continuada, o “macho” demonstre que não vai cair fora depois de os ter fertilizado. Assim ele está dando garantias de que vai fazer o papel de fêmea quando chegar sua vez. Só à medida em que cresce a confiança entre os membros do par é que ambos os peixes começam a pôr quantidades maiores de ovos, confiando cada vez mais que não serão traídos.

O padrão de comportamento de seqüestradores e vítimas que, após longo tempo em contato, acabam desenvolvendo formas de simpatia (colaboração) mútua — a chamada síndrome de Estocolmo — talvez tenha a ver com essa influência da “sombra do futuro”. Quem sabe algum psicólogo se interessa por investigar esse fenômeno à luz da teoria dos jogos?

Jogos do poder

Depois das bactérias, vejamos os políticos (admito: alguns têm cérebro). Ninguém faz acordo com um político sem chance de se reeleger pois não haveria chance para a retribuição no futuro. A cooperação de TFT só existe com base na perspectiva de retribuição, sem isso nada feito. Depois que o Collor mostrou que tinha condições de ganhar em 1990, choveram empresários interessados em contribuir para a campanha; mas só depois. Quando um executivo cai em desgraça não há acordos possíveis com seus colegas, pois seu poder tem data marcada para acabar. Empresas em má situação não conseguem negociar prazos ou créditos com fornecedores. Casais que já decidiram se separar mergulham freqüentemente num mar de mesquinharias. Escondem migalhas um do outro; brigam até por guardanapos. Quando a relação tem data marcada para acabar — quando a “sombra do futuro” é curta — a traição é o racional. A tentação de trair (não cooperar) fica irresistível.

Jogos de humanos

TFT porém tem um grave problema: se ela tivesse sido a estratégia preferencial da evolução, nós humanos não teríamos aparecido como produto dela. Não do jeito que somos. TFT não é capaz de perceber quando alguém erra involuntariamente – é fria demais. Se calhar de dois jogadores TFT entrarem em sintonia, tudo bem, começa o jogo da reciprocidade; mas, se por acidente ou engano, um deles trai, tem início uma série infinita de traições mútuas da qual não se escapa. Lembre-se que o resultado da traição mútua é o pior possível para os jogadores.

O animal humano em suas interações sociais é complexo e sutil. Não é um traidor inveterado. Pelo contrário, busca a cooperação porque de alguma forma percebe que isso é melhor a longo prazo. Damos gorjetas a garçons que nunca mais veremos. Votamos em eleições. Doamos sangue.

Cumprimentamos estranhos com sorrisos. Todas essas ações são perfeitamente irracionais no sentido da teoria dos jogos. Tentamos ao máximo parecer confiáveis, simpáticos, compreensivos, assim como quem diz: “pode jogar comigo, sou confiável”. Por que fazemos isso? Talvez, porque busquemos reciprocidade fazendo essas coisas. Através delas pode-se tirar o máximo proveito da vida em sociedade colaborando nos dilemas do prisioneiro que surgem a toda hora.

Jogos da emoção

TFT pode ter sido o início, o “pé na porta”, mas depois deve ter evoluído para algo que permita distinguir o erro involuntário da má-fé premeditada, levando-nos a perdoar o erro e só retaliar a malandragem. Como a evolução fez isso? Uma hipótese bacana diz que foi embutindo emoção no equipamento mental dos humanos.

Você se lembra de TFT nas trincheiras da primeira guerra. Ingleses e alemães, frente a frente, mantinham tacitamente um cessar-fogo. Axelrod relata um episódio em que, por engano, a trégua foi rompida por tiros vindos do lado dos alemães. Era uma traição clara, e como bons jogadores TFT os ingleses estavam prontos para retaliar. Mas aí veio um emocionado e imediato pedido de desculpas de um soldado alemão, que, aos gritos dizia: “sentirmos muito, a culpa pelos disparos não é nossa, é de soldados de outra unidade- aqueles miseráveis artilheiros prussianos”. Isso fez com que a trégua fosse mantida. Naquele momento, o que restaurou o equilíbrio na trincheira foi a reafirmação dos alemães do compromisso de continuar jogando o jogo como antes. O que levou os ingleses a acreditarem? Foi a forma pela qual o pedido de desculpas foi feito. A emoção fez com que o compromisso anunciado ficasse crível. Naquele momento os ingleses estavam superando TFT.

Para o economista Robert Frank, da Cornell University, emoção é algo que surgiu no processo evolucionário para nos habilitar a jogar o jogo social, garantindo credibilidade a nossos compromissos. Através das emoções, provamos — para além das palavras — que somos jogadores confiáveis: jogue comigo, eu não trapaceio. Você já notou como juramentos estão presentes em nossas vidas? Eles são indispensáveis em interações sociais em todos os níveis. Um especialista comenta que juramentos existem “em todos os povos e em todas as culturas. São indispensáveis no nível econômico, no jurídico, no privado, no público, no intra-tribal , no internacional… Nenhum tratado, nenhum contrato, nenhuma forma de administração da justiça se dá sem um juramento. Juramentos são fenômenos da linguagem; eles existem exatamente porque a linguagem é insuficiente [para garantir credibilidade]. A fraqueza da linguagem é a possibilidade — a probabilidade — da mentira, da fraude, dos truques sujos nos jogos sociais. Chimpanzés a quem se ensina a linguagem dos símbolos, imediatamente tentam enganar seus treinadores, mentindo. É seguro concluir que nos primórdios da civilização, mentira e linguagem surgiram juntas e andavam juntas…Mas colaboração e troca em sociedade exigem confiança; meios para se evitar a trapaça, para possibilitar que as ações dos companheiros sejam previsíveis, para dar estabilidade a um mundo de valores comuns… O objetivo do juramento sempre foi excluir a mentira…”dizendo a verdade, somente a verdade nada mais que a verdade”.

Legal. Mas jurar resolve? Se resolvesse, testemunhas não mentiriam no tribunal, médicos nunca trairiam o juramento de Hipócrates, padres não desrespeitariam os juramentos de pobreza, castidade e obediência…

Não. Para que os jogos básicos do convívio social pudessem se instaurar, a garantia do compromisso teria de ser dada de outra forma Temos mecanismos instintivos em nossos cérebros-emoções – para demonstrar nossa sinceridade, independentemente do que possamos dizer. Emoções são muito difíceis de camuflar. Acabamos revelando através delas, o que de fato estamos sentindo. As dezenas de músculos em nosso rosto deixam transparecer o que realmente vai lá dentro. O que dizemos é, em si, tão vazio que podemos usar até máquinas — detetores de mentiras — para flagrar mentirosos.

Jogos do sexo

Pense na ereção num macho. Por quê será que a evolução escolheu um mecanismo tão trabalhoso para que um pênis fique em condições de penetrar uma fêmea? Por quê não um osso, em vez do complicado processo hidráulico, com sangue tendo de ser bombeado à alta pressão? Vários mamíferos têm ossos no pênis para ajudar na ereção, incluindo nossos “parentes” primatas. Nosso antecessores diretos- os chimpanzés- idem, apesar de serem ossos pequenos. Por quê somos diferentes? A utilidade para os seres vivos é a propagação de seus genes.

Machos em todos os contextos biológicos têm uma inclinação maior para trapacear no jogo do sexo, por uma questão de economia: óvulos são raros, espermatozóides são abundantes. Machos simplesmente não perdem nada — ou perdem muito pouco — sendo promíscuos: copulando com o maior número possível de fêmeas, eles maximizam as chances de propagar seus genes. Esperma gasto é rapidamente subtituído. Fêmeas, ao contrário, têm muito a perder se entregam seus preciosos óvulos para qualquer um fecundar.

Perdem tempo e energia (se gerarem crias doentes por exemplo), e perdem também a possibilidade de gerar outras crias no período da gestação. O conflito de interesses é evidente no jogo do sexo. Uma história que faz sentido é a seguinte: enquanto os machos iam aprendendo formas mais elaboradas de “propaganda enganosa” — (prometer e não cumprir; aparentar sem ser) — as fêmeas respondiam tornando-se progressivamente melhores na detecção dessas fraudes, e reagiam utilizando sua arma mais letal: negando a cópula. Isso forçava a mudança de comportamento do macho. Para fugir da trapaça, a seleção natural embutiu nas fêmeas um instinto que atua como se ela estivesse dizendo: “não me venha com conversa fiada, você diz isso para todas. Prove, se não, não dou”. Através da ereção o macho está demonstrando: “pode copular comigo, eu sou saudável. Não corro risco de gerar crias doentes. Machos doentes não têm ereção”. Trapacear, fazendo um pênis flácido passar por ereto, é impossível. A ereção hidráulica (hmmm…) pode ter sido a prova decisiva para garantir as fêmeas contra a propaganda enganosa. É essa também, a razão do exibicionismo da cauda do pavão- ele está dando uma prova de saúde `a fêmea. Sem isso, adeus cópula.

Fidelidade, família monogâmica, os atributos psicológicos do macho e fêmea humanos, podem ter se originado como conseqüência desse tipo de jogo, jogado através da imensidão do tempo. A busca da reciprocidade nos jogos macho-fêmea, deve ter implicado muito conflito, muita tentativa e erro, mas, quando ela (reciprocidade) se instaurou, pode ter gerado como sub produto os sentimentos e vínculos que nos são mais caros.

O grande jogo

Poucas são as pessoas que conseguem camuflar suas emoções mais sinceras. Ficamos ruborizados, não dá para fingir. É comum não controlarmos o riso ou o choro. Dizemos “eu te amo” emocionadamente, para não deixar dúvidas sobre o compromisso. Conflito de interesse. Instinto. Tentação da trapaça. Jogo. Emoção… Começamos com as especulações matemáticas de um cientista hiper-racional no início da guerra fria. Quem imaginaria que chegaríamos `a emoção como elemento central dos jogos que os humanos jogam? Se a evolução não tivesse embutido em nossos cérebros essa capacidade de discriminar, escolhendo parceiros confiáveis nos jogos em que nos envolvemos, não estaríamos aqui. As emoções são essenciais para validar nosso comprometimento com a cooperação e buscar reciprocidade. Por meio delas superamos a racionalidade auto-destrutiva dos dilemas do prisioneiro, evitamos jogos de soma zero, inventamos nosso jeito “hidráulico” de fazer sexo e, talvez, tenhamos inventado até o amor. E olha, não é Freud que explica — é a teoria dos jogos .

Para ler mais:

a — William Poudstone. Prisoner’s Dilemma – John Von Neumann, Game Theory and the Puzzle of the Bomb. Anchor Books,1992.
b — Richard Dawkins. God´s Utility Function.Scientific American, November 1995.
c — Richard Dawkins. O rio que saía do Éden-uma visão darwiniana da vida. Rocco, 1994.
d — Richard Dawkins. The Selfish Gene. Oxford University Press,1989.
e — Matt Ridley. As origens da virtude-um estudo biológico da solidariedade. Record, 2000.
f — Avinash K Dixit. e Barry J Nalebuff. Pensando Estrategicamente. Atlas,1994.
g —Robert Axelrod. The Evolution of Cooperation. Basic Books,1984.
h — Martin Nowak; Robert May; Karl Sigmund. The Arithmetics of Mutual Help. Scientific American, June 1995
i — Robert Wright .Non Zero-The logic of human destiny. Pantheon Books,1999.
j — Robert Frank,. Passions Within Reason- The Strategic Role of Emotions.Norton,1988
k — Jared Diamond. Por que o sexo é divertido. Rocco,1999.
l — Clemente Nobrega.O Glorioso Acidente. Objetiva,1998. m-Para jogar o dilema do prisioneiro interativamente via Internet :

da revista superinteresante

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/tudo-e-um-jogo/

Demônios da Carne: O Guia Completo para a Magia Sexual do Caminho da Mão Esquerda

Por Nikolas & Zeena Schreck.

Introdução 

Para a Ordem de Babalon, a Ordem de Sekhmet e seus aliados. Dedicado às memórias do Barão Julius Evola, que começou o trabalho de despertar o caminho da mão esquerda no Ocidente, e Cameron, que serviu como avatar para a força Shakti adormecida do Ocidente. Nossos agradecimentos às muitas pessoas que nos ajudaram durante as fases de pesquisa e preparação deste livro, incluindo DM Saraswati, Janet Saunders, Ananda Parikh, Kevin Rockhill, Brian G. Lopez, Michael A. Putman, Curtis Harrington, Kevin Fordham, Nancy Hayes, Lorand Bruhacs, Forrest J Ackerman, Peter-R. Koenig, Dr. Stephan Hoeller, Walter Robinson, Laurie Lowe, Jeanne Forman, Dr. George Grigorian, The Vienna and Paris WO Dens, a equipe da Biblioteca Estadual de Berlim, Tibet House, Leon Wild e James Williamson.

Isenção de Responsabilidade:

As atividades sexuais e mágicas descritas neste livro destinam-se exclusivamente à aplicação de adultos que atingiram a maioridade, e só devem ser realizadas de forma consensual por indivíduos que possuam boa saúde física e mental. Recomendações sugerindo que o leitor realize treinamento adequado em atividades físicas que possam ser prejudiciais são intencionadas seriamente. Nem os autores nem o editor deste livro podem assumir qualquer responsabilidade por qualquer dano que possa ocorrer ao leitor como consequência dos experimentos descritos aqui.

Os Demônios da Carne: O Guia Completo para a Magia Sexual do Caminho da Mão Esquerda

 

 Vamos falar sobre o assunto mais misterioso de todo sexo. O sexo é um fenômeno eletromagnético.

– William S. Burroughs.

O desejo é a grande força.

– André Breton

Das Ewigweibliche zieht un hinan. (O Eterno Feminino nos atrai.)

– Dr. Fausto, no Fausto II de Goethe.

Preliminares:

O livro diante de você é um guia no sentido de que irá acompanhá-lo em uma jornada.

A rota que faremos passa por paisagens de estranha beleza e por abismos perigosos. É conhecido como o caminho da mão esquerda. Poucos percorreram esta estrada e menos ainda chegaram ao seu destino final e distante.

Infelizmente, a maioria dos mapas disponíveis anteriormente deste terreno misterioso foram elaborados por aqueles que nunca pisaram no caminho. No entanto, eles vão avisá-lo dos terríveis perigos enfrentados ao longo do caminho, sugerindo que sua árdua passagem só leva ao mais sombrio dos becos sem saída. Esses cartógrafos defeituosos irão adverti-lo de que as únicas almas que podem ser encontradas nesta via mal iluminada são tolos, lunáticos, canalhas e ladrões. (De fato, pode haver alguma verdade nessa última advertência, mas o aventureiro nato não será dissuadido tão facilmente.)

Existem outros mapas, oferecidos por almas um pouco menos tímidas, que se assemelham mais à realidade. No entanto, esses guias apontam alegremente apenas as atrações turísticas mais reconfortantes do roteiro turístico. Todos os becos escuros, bairros de má reputação e distritos da luz vermelha são mantidos com segurança fora de vista, considerados impróprios para consumo público. Tal escrúpulo permite ao explorador apenas uma visão cuidadosamente expurgada. Além disso, as especificações encontradas neste tipo de mapa são frequentemente tão complicadas que o viajante não sabe qual é o lado para cima.

Por fim, há o mapa elaborado por aqueles que se declaram não apenas como guias turísticos, mas também reivindicam com orgulho esta via à esquerda em sua totalidade, saudando-a como o melhor lugar para se estar. No entanto, se o viajante incauto consultar esses mapas, mesmo para as direções mais simples, imediatamente se torna aparente que houve alguma confusão. Essa confusão, ao que parece, se deve a uma simples, mas duradoura apropriação indevida de nomenclatura. A área nesses mapas marcada tão claramente como “o caminho da esquerda” acaba, em uma inspeção mais próxima, ser um caminho completamente diferente.

Os Demônios da Carne, projetado em parte como um corretivo para as falsas pistas e desvios descritos acima, traça esse caminho até então mal interpretado de uma perspectiva muito diferente. Em nosso mapa, mostramos claramente o plano rodoviário completo em toda a sua topografia e complexidade tridimensionais, a partir de seu antigo ponto de origem oriental remoto. Também rompemos a superfície visível desta calçada para revelar as camadas arqueológicas ocultas da corrente sinistra à medida que ela percorreu o tempo. Acompanhando você nesta viagem, oferecemos sugestões práticas para navegar na estrada da esquerda em um mundo ocidental contemporâneo que não oferece bússola confiável.

Mas chega de metáforas sobre mapas e caminhos. Vamos encarar, você pegou este livro para ler sobre sexo.

E certamente há muito sexo para ser encontrado nestas páginas, narrando uma infinita diversidade de experiências eróticas. Da alquimia do sangue menstrual e do sêmen ao culto ritual da vagina. Sexo com monges promíscuos e prostitutas sagradas, do Tibete à Babilônia. Sexo necrofílico em locais de cremação. Sexo coprofílico na Sicília. Sexo incestuoso na Índia. Sexo vampírico na China. O orgasmo como sacrifício. O orgasmo prolongado. Sexo com Deusas. Transexualismo psíquico. Sexo com seres desencarnados. Escravidão sexual. Domínio sexual. Transe sexual. Sexo anal egípcio antigo entre Set e seu sobrinho Hórus. Sexo oral. Sexo autoerótico. Sexo em grupo. Sexo telepático. Todos os tipos de seitas sexuais. Sexo tântrico. Sexo gnóstico. Sexo satânico. Sexo com jovens virgens. Sexo com idosos. Sexo com as esposas de outros homens. Até sexo com Jesus.

No entanto, o panorama multicorporal de deleite polimorfo que escorre deste livro não é apresentado apenas para estimular os voluptuários ennuyé (entediados) cansados ou excitados com novos desvios que ainda não experimentaram. É importante estabelecer que há uma diferença significativa entre o prazer profundo da sexualidade desfrutada por si mesma como uma experiência fisiológica e estética, e a sexualidade utilizada para propósitos mágicos ou iniciáticos autênticos – o núcleo do caminho da mão esquerda. Tirados de seu contexto apropriado, os boatos aparentemente lascivos pressionados entre estas páginas podem – e provavelmente serão – ser mal interpretados se essa distinção não for levada em conta.

Ao mesmo tempo, deve-se salientar que todo o tópico da magia sexual foi cercado por uma tremenda hipocrisia, emanando tanto dos magos sexuais praticantes quanto daqueles que meramente observam suas atividades. Por exemplo, muitos curiosos pesquisaram casualmente o nível mais superficial da magia erótica, na esperança de aprender algumas dicas de sexo para apimentar uma vida amorosa sem brilho. Na maioria das vezes, esse jogo equivocado de magia sexual é apenas uma perda de tempo, gerando pouco em termos de excitação física e absolutamente nada em termos de magia. Mas alguns magos sexuais hipócritas assumiram a posição da escola de que esse fenômeno bastante comum é “imoral” ou “espiritualmente prejudicial”, ou mesmo que a magia sexual deve ser realizada sem uma centelha de luxúria ou emoção para ser legítima. Por outro lado, o não-mágico pode zombar de toda a ideia de magia erótica, descartando-a como algum tipo de piada suja, recusando-se a aceitar que os magos do sexo estão fazendo algo mais profundo do que saciar seus apetites carnais comuns sob o pretexto de doutrina esotérica.

Por trás dessas atitudes hipócritas está a horrível banalidade a que Eros foi reduzido no mundo ocidental moderno.

Nesse espírito, alguns de nossos leitores podem imaginar que um guia para a magia sexual do caminho da mão esquerda fornecerá as emoções furtivas e baratas da pornografia velada. Literalmente falando, essa palavra tão difamada pornografia, do grego porno (puta) e graphia (escrita) significa simplesmente “escrever sobre putas”. Então, para aqueles de vocês que esperavam fervorosamente que este livro fosse pornográfico, há de fato textos suficientes sobre prostitutas nestas páginas para se qualificar tecnicamente. Claro, as prostitutas com as quais nos preocuparemos são as transportadoras daquela ars amatoria (arte amadora) há muito perdida da prostituição sagrada. Se a prostituição já serviu uma função nobre e até sagrada, então por que não uma pornografia sagrada? Tal forma seria algo muito mais subversivo e poderoso do que a repetição estereotipada de convenções que costumamos associar ao gênero. A autora britânica Angela Carter, cujos contos cruéis geralmente eram tingidos de uma sexualidade inquietante e surreal, certa vez sugeriu as possibilidades:

“O pornógrafo moral seria um artista que usa material pornográfico como parte da aceitação da lógica de um mundo de absoluta licença sexual para todos os gêneros, e projeta um modelo de como tal mundo poderia funcionar. Seu negócio seria a total desmistificação da carne e a posterior revelação, através das infinitas modulações do ato sexual… essas relações, para restabelecer a sexualidade como um modo primário de ser em vez de uma área especializada de férias do ser e mostrar que os encontros cotidianos no leito conjugal são paródias de suas próprias pretensões.

De muitas maneiras, a descrição de Carter do “guerrilheiro sexual” que derruba tabus e que desmistifica totalmente a carne é uma excelente introdução ao trabalho do magista sexual do caminho da mão esquerda que este livro ilustra. Para os magi (magos) do caminho da mão esquerda, a sexualidade é ainda mais do que “um modo primário de ser” – o estado alterado de êxtase erótico extremo é um modo de ser potencialmente divino, a dança caótica de duas energias opostas magneticamente atraídas que permite a criação de um terceiro poder transcendendo o humano. O casal que liberar esse poder oculto e psiquicamente remanifestante do caminho da mão esquerda dentro de seus organismos sob o jugo do orgasmo em toda a sua intensidade achará difícil retornar à existência pré-programada que eles levaram uma vez. O homem e a mulher que mesmo uma vez experimentam a liberdade do caminho da esquerda, expressa através de seus ritos sexuais autodeificantes, saíram do jogo humano como normalmente é jogado.

Se o caminho da mão esquerda é perigoso – um ponto com o qual tanto seus detratores quanto seus defensores concordam – um de seus principais riscos é o perigo da liberdade em um mundo quase instintivamente comprometido em esmagar a liberdade sob qualquer forma que possa aparecer. Todas as autocracias dominaram restringindo severamente o pleno desenvolvimento do poder sexual em seus súditos. O caminho da mão esquerda, um método de ativação consciente de níveis de energia erótica quase desconhecidos nas relações sexuais convencionais, deve ser visto como uma ameaça a qualquer hierarquia que procure frear o desenvolvimento do homem em deus. A gnose sexual do caminho da mão esquerda tem o potencial de forjar indivíduos heroicos e autodeterminados a partir da carne balida do rebanho humano.

As pesquisas do excêntrico (alguns diriam insano) psicólogo Wilhelm Reich sobre os mistérios inexplorados do orgasmo na consciência humana concordam parcialmente com os antigos ensinamentos do caminho da mão esquerda. Em seu Psicologia de Massas do Fascismo, Reich reconheceu a ameaça que a total liberdade erótica representaria para qualquer mecanismo de controle social. Em consonância inconsciente com a veneração do caminho da mão esquerda de Shakti, o poder sexual divino da mulher, ele escreveu: “Mulheres sexualmente despertas, afirmadas e reconhecidas como tal, significariam o colapso completo da ideologia autoritária”. George Orwell, em seu romance distópico 1984, que continua sendo um diagnóstico agudo para o culto moderno do controle, também entendeu que a limitação do poder sexual era uma das armas mais insidiosas da autocracia. Orwell faz Julia, a heroína de 1984, perceber o segredo de Eros: “Ao contrário de Winston, [ela] entendeu o significado interno do puritanismo sexual do Partido. Não foi apenas que o instinto sexual criou um mundo próprio que estava fora o controle do Partido e que, portanto, deveria ser destruído, se possível. O mais importante era que a privação sexual induzia a histeria, o que era desejável porque podia ser transformado em febre de guerra e adoração de líderes.”

O adepto do caminho da esquerda, radicalmente individuado e separado das ilusões da multidão através da transgressão sistemática do tabu e do “mundo próprio” da sexualidade transcendente, dificilmente será arrastado pelas paixões impensadas das massas. Na primeira manifestação histórica da corrente sinistra que investigaremos, a Vama Marga da Índia, esse elemento de desafio social torna-se evidente. A recusa do iniciado do caminho da esquerda indiana em seguir as restrições religiosas de sua sociedade contra o sexo entre as castas, o consumo de vinho, o consumo de certos alimentos “impuros”, é a base sobre a qual ele eventualmente transgrede o estado humano e torna-se divino. Em seitas mais extremas do caminho da esquerda, como os Aghori, a transcendência de tabus internos profundamente arraigados vai muito além. Embora esse fator crítico de subversão social tenha sido ignorado ou branqueado por intérpretes mais moderados do caminho da esquerda do que nós, você descobrirá que essa recusa em seguir as regras ditadas por outros é um dos fatores universalmente definitivos que separam a esquerda caminho da mão de formas mais brandas e menos antagônicas de magia sexual.

Seria fácil interpretar erroneamente esse desafio ao costume social e religioso como uma declaração puramente política. No entanto, uma vez libertado de um conjunto de antolhos psíquicos, o magista do caminho da mão esquerda não os troca simplesmente por um novo conjunto. Ele ou ela se esforça para alcançar um estado de espírito em que todas as formas de ortodoxia devem ser questionadas e rejeitadas.

Mesmo neste estágio inicial, o leitor perspicaz terá percebido que quando falamos de magia sexual da mão esquerda, não estamos preocupados apenas com o funcionamento da genitália para algum propósito feiticeiro. Sim, sua ferramenta central de iluminação é a sexualidade desperta. Mas a tradição do caminho da mão esquerda na verdade fornece uma abordagem para todos os aspectos da existência, uma filosofia – ou “amor de Sophia” – que posta em ação pode transformar a totalidade da estrutura psicobiológica humana, não apenas seu pênis ou vagina.

Pode-se dizer que a magia sexual do caminho da mão esquerda é uma forma de iniciação conscientemente projetada para um mundo irremediavelmente fodido. A filosofia do caminho da mão esquerda postula que é o método mais adequado para os tempos apocalípticos e fora de ordem em que a humanidade existe atualmente, uma era que a tradicional disciplina indiana do caminho da mão esquerda reconhece como Kali Yuga. São necessárias medidas excepcionais para despertar a plena consciência sob condições tão desfavoráveis. O primeiro passo é rejeitar a tristeza e o desespero que esses tempos podem inspirar e abraçar com alegria o caos do mundo em desintegração, esse espetáculo ilusório e cintilante que emana da vulva da escura Kali. E uma das grandes ferramentas de transformação sobre as quais Kali preside é a carne, especialmente quando submetida à chama do desejo.

Fora da tradição do caminho da mão esquerda propriamente dita, a antiguidade pré-cristã reconhecia claramente que os estados mentais transformadores e misteriosos atingíveis através da sexualidade fazem parte do reino dos Deuses. De fato, muitos termos comuns que denotam sexualidade na linguagem moderna ainda carregam os traços indeléveis daquela antiga apreciação da natureza mágica – até mesmo religiosa – da sexualidade humana. O erótico remete ao deus Eros, o afrodisíaco refere-se à deusa Afrodite, assim como o venéreo é derivado de Vênus. As origens mágicas da palavra “fetiche” também são bastante conhecidas – deriva do português feitico (feitiço), para feitiçaria ou encanto. Quem pode negar que o poder poderoso em que um fetiche sexual escraviza o fetichista não é nada além de um fascínio, um glamour, de natureza inteiramente mágica? O caminho da esquerda, em todas as suas formas, conscientemente devolve Eros ao lugar outrora exaltado que ocupava na vida humana, reconhecendo a divindade adormecida do sexo mesmo em práticas que os profanos rejeitam como sórdidas e vergonhosas.

Sob seu exame às vezes contraditório de símbolos e premissas de magia sexual de várias tradições culturais e religiosas, Os Demônios da Carne postula um fenômeno biológico universal aparentemente conectado à consciência e sexualidade humanas. Como veremos, a expressão tântrica indiana caminho da mão esquerda descreve essa anomalia psicossexual com grande precisão. No entanto, também usamos a frase “corrente sinistra”, que indica sua existência não indígena, onipresente, não apenas em uma tradição cultural específica, mas como uma força localizada no próprio corpo.

Indicamos agora quão central é o papel que o sexo desempenha no caminho da mão esquerda, mas, presumivelmente, você pode estar se perguntando onde entra a “mágica” mencionada no subtítulo deste livro. inerente ao prazer sexual foi reduzido ao seu estado atual de degradação, assim como a outrora real arte da magia sofreu um declínio semelhante no mundo moderno. Se não se associa imediatamente a palavra com truques e prestidigitação do show business, então ela evoca o ocultista consumidor vulgar, vestido com o manto “mágico” obrigatório, recitando credulamente feitiços “mágicos” doutrinários, geralmente esperando em vão invocar o dinheiro que ele ou ela não tem as habilidades para ganhar, ou para atrair um determinado objeto de desejo sem adquirir as graças sociais para sequer iniciar uma conversa. Em outras palavras, a magia, pelo menos no mundo ocidental, tornou-se um brinquedo exótico para perdedores, a atuação de pensamentos ilusórios para alcançar objetivos transitórios mais eficientemente realizados através do desenvolvimento mundano da competência pessoal.

A magia, da perspectiva do caminho da esquerda descrita aqui, está muito distante da mercadoria bruta que se tornou no meio ocultista moderno. Estamos focados aqui na Grande Obra, a transformação sexual-alquímica do humano em semidivindade, não no desenvolvimento de alguns truques de salão. No caminho da mão esquerda indiana, os maiores magos são os divya ou bodhisattva, que não precisam recorrer a nada que se assemelhe a um ritual para criar uma transformação radical de maya, a substância da qual a mente e a matéria são compostas. Os poderes mágicos, como entendidos no Ocidente, às vezes são uma consequência da iniciação erótica, mas são secundários à remanifestação radical do eu para modos superiores de ser, que é a raison d’etre (razão de ser) do caminho da mão esquerda. Nas antigas tradições helênicas e gnósticas também consideraremos como expressões da corrente sinistra, um divya é conhecido como um magus (mago), um ser cujo poder mágico se baseia no cultivo interno do eu a níveis demoníacos de consciência.

Como esse estado de ser é o objetivo de todos os sinistros magos sexuais atuais, não fornecemos ao leitor feitiços, maldições ou rituais pré-programados. Nós também não fornecemos nomes de demônios garantidos para cumprir todos os seus comandos, nem feitiços infalíveis que atrairão os alvos de sua luxúria. Se você for ingênuo o suficiente para procurar por tais panaceias instantâneas, nossa ênfase na importância do trabalho mágico autodirigido como um processo interno de autodeificação provavelmente será extremamente frustrante. Este livro deixará claro os métodos perenes do caminho da mão esquerda que ativam o curso eterno do desenvolvimento tomado pelo divya ou o magus (mago) do caminho da mão esquerda, mas ele deliberadamente se abstém de conduzir o leitor mecanicamente através de uma lista de truques externos. Você não encontrará nada como: 1) Vagina aberta. 2) Insira o pênis. 3) Diga a palavra mágica com convicção.

Esse tipo de coisa é inútil, para não dizer um insulto à inteligência do magista iniciante. Instruções dogmáticas, para nossa experiência, não podem ser feitas para grandes magistas – elas apenas provam que o leitor pode obedecer obedientemente aos comandos. Esses atalhos e simplificações não fornecem nenhum atrito necessário para o estudante do caminho da esquerda, sem o qual nenhum esforço abrasivo necessário para iniciar a si mesmo pode ser desencadeado. Os Demônios da Carne, que somos imodestos o suficiente para classificar como um Tantra para o século XXI, é construído para fornecer esse atrito, em vez de destilar o caminho da mão esquerda em um leite materno fácil de engolir para o lactente. . Por esta razão, embora métodos práticos de procedimento sejam sugeridos, este não é tanto um livro de “como fazer” – seu foco está em “por que fazer”. Em nossa opinião, uma marca do verdadeiro magista do caminho da mão esquerda é a capacidade de integrar sistemas simbólicos complexos, sintetizá-los com a experiência pessoal e criar a partir dessa síntese sua própria direção única no caminho da mão esquerda.

Uma crença comum, mas errônea, sobre magia sexual, caminho da mão esquerda ou não, é que sua prática consiste em nada mais do que fazer um forte desejo focado durante o orgasmo. Se fosse esse o caso, dificilmente seria necessário um livro inteiro sobre o assunto – essa última frase seria suficiente para uma educação sexual-mágica completa. Este é, na verdade, apenas um dos menos sofisticados métodos de feitiçaria sexual, e embora o magista do caminho da mão esquerda possa experimentá-lo como um meio de testar a insubstancialidade de todos os fenômenos mentais, não pode ser comparado ao método da mão esquerda, muito mais essencial. métodos de caminho de iluminação sexual, como Kundalini, que remodelam a consciência para níveis supernos de realização que transcendem inteiramente o modelo pueril do “bem dos desejos” da magia sexual popular.

Talvez a prevalência dessa ideia, mesmo entre aqueles que deveriam saber melhor, se baseie no fato de que muito tem sido escrito sobre a “magia sexual” de Aleister Crowley, que em sua própria prática cotidiana consistia em pouco mais do que coordenar desejos e chegando. Mas Crowley, apesar de sua ascensão póstuma como o “nome de marca” mais reconhecível no campo da magia sexual ocidental, não é a essência da magia sexual. A ideia do orgasmo mágico não explodiu espontaneamente das entranhas de Crowley um dia. De fato, como mostraremos, os agora obscuros precursores pseudorrosacruzes de Crowley, como o magista sexual afro-americano PB Randolph e o espermófago alemão Theodor Reuss originaram muitas das ideias que se acredita que a Grande Besta 666 “descobriu”, assim como vários de seus contemporâneos e antecedentes desenvolveram essas mesmas ideias em direções mais pertinentes do que o próprio Mestre. Também tentaremos resolver a espinhosa questão de saber se Crowley é de fato um magus (mago) do caminho da esquerda.

Neste último aspecto, deve-se dizer que a prática da magia sexual por si só não qualifica um magista para o caminho da mão esquerda. Todo maluco oculto que alguma vez proclamou seu orgasmo como um evento mágico de primeira ordem não é necessariamente um iniciado no caminho da mão esquerda. Da mesma forma, a ausência de sexualidade na prática mágica de alguém é um sinal seguro de que não se está mais lidando com o caminho da esquerda em seu sentido clássico.

Colocamos a magia sexual da mão esquerda em um contexto histórico, analisando algumas das figuras históricas coloridas que praticaram a taumaturgia orgástica no Ocidente moderno. Mas devemos deixar claro que não é nossa intenção inspirar nossos leitores a imitar as vidas e lendas desses indivíduos. O caminho da esquerda está firmemente focado na autodeificação – a idolatria fanática e a adoração de heróis inculcadas por tanta literatura oculta para as “estrelas” do passado estão totalmente fora de lugar com os objetivos do caminho da esquerda. Se há uma atitude apropriada no caminho da mão esquerda a ser tomada com os famosos e infames professores de magia sexual do passado, certamente é a irreverência, não a santificação piedosa. De fato, no processo de transformar-se de consciência humana em divina por meio da iniciação erótica, é obrigatória uma irreverência saudável direcionada às próprias pretensões.

O mundo está cheio de pessoas que devoraram mil livros mágicos e ainda assim nunca realizaram um único ato genuíno de magia. Esse fenômeno é tão prevalente que a síndrome até ganhou um nome: o mágico da poltrona. Certamente não é nossa intenção criar através deste livro algo ainda pior – o mágico do sexo à beira da cama. Assumindo que você está lendo isso como uma visão geral introdutória da magia sexual do caminho da mão esquerda, e não simplesmente como uma diversão perversa, os princípios descritos aqui devem ser promulgados em sua própria carne, através da ação no mundo real, em oposição à abstração cerebral .

Claro, houve outros livros que tentaram comunicar algo dos mistérios da magia sexual. No entanto, do nosso ponto de vista, a maioria desses volumes anteriores errou o alvo. Gostaríamos de pensar que nosso objetivo será mais preciso. Na maioria das vezes, os textos de magia sexual anteriormente disponíveis suavizaram o poder penetrante disponível para o magista erótico em uma espuma pegajosa de romantismo insípido. As ofertas mais recentes foram voltadas para as sensibilidades fracas e chorosas do chamado movimento da Nova Era. Esses guias medrosos têm oferecido uma magia sexual totalmente desfigurada e domesticada a seus leitores. Este volume ficará desconfortável na prateleira com aqueles trabalhos mais suaves e menos diretos. Se sua compreensão da magia sexual foi adquirida apenas a partir desse corpo de trabalho doentio, esperamos que este livro sirva como um antídoto de purga para equívocos anteriores.

Não menos importante dos equívocos que visamos é a compreensão totalmente incoerente e historicamente inválida da natureza exata do caminho da esquerda que prevaleceu no século passado ou mais no mundo ocidental. Um dos desafios ao escrever este livro foi definir adequadamente um assunto que tantos já pensam que entendem, mas na verdade não entendem – pelo menos não por qualquer padrão objetivo que possamos identificar Ao tentar esclarecer o que a esquerda O caminho da mão é que estamos apenas começando a tarefa maior de estabelecer um modelo de trabalho congruente da corrente sinistra no Ocidente. Construído, como deve ser, sobre as ruínas da confusão do passado, esse modelo de trabalho pode levar outros cinquenta a cem anos para realmente se firmar.

Embora nós mesmos estejamos praticando magos sexuais do caminho da mão esquerda, este livro não é de forma alguma concebido como um meio de conversão ou como um dispositivo de recrutamento. Como deixaremos claro, o caminho da esquerda é, apesar de todos os seus elementos antiautoritários, uma forma elitista de iniciação. Com isso, não queremos dizer que os adeptos do caminho da esquerda necessariamente se considerem superiores aos não iniciados – apenas que a corrente sinistra não é para todos, e nunca pode ser um caminho para milhões. Ler este livro pode esclarecer para você que você não seria adequado para esta escola de iniciação.

A sexualidade é a expressão no mundo material do conceito metafísico de polaridade – o yin e yang, Shiva e Shakti, a rosa e a cruz, a união e transcendência dos opostos. Os Demônios da Carne é exatamente o que descreve, na medida em que pode ser entendido como uma magia sexual funcionando por si só. Como uma criança criada pelas energias eróticas polarizadas da sexualidade masculina e feminina gerada por seus autores, este livro ilustra como a força sexual combinada de dois magos pode criar uma terceira entidade demoníaca. Ao moldar as palavras e perspectivas colaborativas de dois magos em um todo coeso, pretendemos criar um elemental mágico que ganha uma certa vida própria, independente de seus criadores. Sempre que dois magos trabalham juntos, o resultado é a criação de tal força elementar; William S. Burroughs e Brion Gysin se referiram a esse fenômeno como “a terceira mente”. Assim como a magia erótica do caminho da esquerda cria um espaço numinoso no qual as energias muito diferentes de masculino e feminino podem se comunicar e ver além dos limites do gênero, a voz dupla deste livro fala de um ponto de vista que transcende masculino e feminino.

***

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/demonios-da-carne-o-guia-completo-para-a-magia-sexual-do-caminho-da-mao-esquerda/

Fantasmas Indígenas da América do Sul

Embora a crença em fantasmas seja comum a culturas de todo o mundo, no Ocidente e, especialmente nas Américas, essa crença foi fortemente influenciada pelas tradições do folclore europeu que chegaram ao novo mundo a bordo dos navios colonizadores de portugueses, espanhóis, franceses, holandeses e ingleses. Deste modo, os fantasmas do Velho Mundo emprestaram muito do seu modus operandi, da sua maneira de se manifestar, sincretizando-se aos espectros que já assombravam as populações nativas em terras americanas, mais do que nas colônias orientais, onde as civilizações já estabelecidas e desenvolvidas possuíam tradições firmadas tão antigas e documentadas quanto européias, como na China, Índia, Japão.

Os Condenados Quíchuas

São numerosos grupos étnicos da América do Sul dispersos principalmente nos territórios do Peu, Bolívia, Equador [Kichwa], Colômbia [Ingas] e Argentina. Historicamente, seus ancestrais foram os Incas, os Chanchas, Huancas e Cañaris. Entre suas crenças no sobrenatural, fortemente influenciadas pelo cristianismo-católico dos jesuítas,  figuram os “Condenados”. Quando alguém morre de “boa morte”, antes de deixar este mundo, a alma vagueia por cinco dias nos lugares onde sofreu e foi feliz. Veste uma túnica branca e não põe os pés no solo. Findo aquele período, lava sua roupa, pois precisa estar completamente limpa para subir ao céu. Porém, a situação é diferente se a morte foi trágica, como suicídio, acidente, quando o morto carrega culpas, como o incesto, a avareza, a mentira, ou cometeu crimes. Estes são rejeitados por Deus e condenados a passar um tempo errando entre os vivos. Há os que deixaram dinheiro escondido e voltam para dizer onde está o tesouro porque esconder riquezas e levar o segredo para o túmulo é considerado um ato anti-social.

Conforme o caso, a pena será diferente: os que se matam por amor, somente são recebidos no céu quando chega o momento que estava programado para sua morte. Os ladrões, têm que restituir, de alguma forma, o fruto do roubo. Mas os que morreram de forma violenta são os piores casos, porque reviverão a violência até que consigam a salvação pela misericórdia divina. Estes, são almas penadas que habitam cavernas e cemitérios onde gritam e se lamentam em terrível agonia, atormentados por demônios que os mantêm acorrentados. Tomam a formas de animais ou aparecem vestidos com túnicas negras. Eventualmente libertos por seus algozes demoníacos, assombram cidades em cortejos, procissões, mas também vagueiam sozinhos, escondendo o rosto cadavérico para não serem reconhecidos. São descritos como vultos.

Aqueles condenados mais terríveis, procuram arrastar viventes para seu infortúnio. Querem suas almas que, acreditam, podem servir como moeda de troca em negociação com os demônios e, assim, alcançarem a libertação. O incestuoso, assombra sua vítima e/ou parceira. Há casos em que tentam comer a cabeça porque ali está a sede da alma. Para livrar-se dessas almas penadas pode-se recorrer a orações, segurando um crucifixo, chamando por Jesus ou pedindo a intervenção da Virgem Maria. Alguns objetos também servem como proteção: a lã das lhamas, faixas coloridas, sal, a música do cacho [corneta de chifre, berrante] e, também, a presença de crianças [como na lenda abaixo]. Mas se a intenção é salvar a alma do condenado, então deve-se mandar celebrar missas.

Lenda de Um Condenado Quíchua

 

 

Havia uma mulher que vivia sozinha. ela fiava dia e noite para ganhar seu sustento. Em uma dessas noites de trabalho, era meia-noite quando ouviu baterem à sua porta e, inadvertidamente, ela abriu deparando-se com um homem que lhe disse: “Senhora, por favor, guarda para mim estas velas que amanhã, a esta mesma hora, voltarei para buscá-las”. Apesar da estranheza do pedido, ela concordou. Fechou a porta e, recolhendo-se à casa, à luz do candeeiro, viu que as velas tinham se transformado em ossos humanos. Jogando longe os objetos macabros e cheia de temor, no dia seguinte, correu a procurar o cura da paróquia a quem relatou o sucedido. O religioso disse-lhe que havia feito muito mal em atender a porta em tão adiantada hora da noite e não havia outro remédio senão esperar a volta da assombração, pois era uma assombração, alma do outro mundo, um condenado que, certamente, roubar-lhe-ia a vida ao retornar para buscar os ossos; ossos que ela tinha de recuperar pois necessário seria restituí-los. Porém, para salvar-se, bastava que ao atender a porta não estivesse sozinha, mas acompanhada de seis crianças: três meninos e três meninas. Assim fez a mulher: recorrendo às vizinhas, reuniu as crianças e esperou. Na hora aprazada, bateram à porta. Era o condenado e ela, cercada pelos infantes, entregou os ossos. Contrariado, o espectro disse: “Ah! Então já sabes! Agradece a essas crianças porque sem elas eu teria devorado você!” E desapareceu diante dos olhos de todos. [Velas que viram ossos nas lendas de assombração são um tema recorrente do folclore brasileiro como se verá no tópico “Brasil”].

Lendas Ameríndias


Maauia:
aparentada com o Saci-Pererê, nesta versão, a entidade dos tupi-guarani é “a alma de [índios e índias muito velhos e sábios na feitiçaria, que andam pela noite, saltando numa perna só e gritando como a Matinta-Pereira, uma ave agourenta” [Donato, Hernâni, 1981: Dicionário de Mitologia, São Paulo: Culrix]. O saci, mais conhecido, entre as assombrações, pertence à categoria dos “encantados” e não aos fantasmas.

Iwanch: os índios aguaruna [Peru, do tronco do Jivaros, aqueles que encolhem cabeças] acreditam que todos os seres, homens, animais, plantas, rochas, montanhas, objetos etc., têm uma alma à qual chamam wakán. Quando morre uma criança as mães lançam ao ar sua roupa [da criança] para que o filho [a] possa captar a wakán da vestimenta e, assim, proteger-se do frio no Além. O wakán humano, com a morte do corpo, converte-se em Iwanch e pode ter destino diferente, dependendo da pessoa.

Alguns espíritos tomam uma horrível forma humanóide: perturbado, glutão, covarde e pouco inteligente. É a primeira etapa na existência no post-mortem, a Dekas Iwanch, que dura o mesmo tempo da vida que se acabou [muito semelhante aos cascões, o corpo astral impuro dos ocultistas ocidentais e orientais]. Depois, transforma-se em uma mariposa azul [Iwanch Wampag] que sobe acima das nuvens [Yújagkim], desaparecendo.

As almas dos maus são condenadas a arrastar-se eternamente no fundo dos precipícios pedregosos. Esses espíritos condenados podem assombrar os vivos, raptá-los, golpeá-los até o desfalecimento, deixando-os semi-mortos. A única forma de proteção é recitar uma fórmula mágica, chamada, ánen, que espanta essas assombrações: “Tú, que tomaste a forma de espírito maligno, não leves minha alma, recorda o tempo em que tinhas um corpo e dizias ─ “Irei ver minha esposa”. Já não podes falar assim…. Eu sou como a unha unida à carne. Assim minha alma está unida ao meu corpo… Mas tu já não podes falar assim do teu corpo, pois que na distância perdeste-o para sempre”.

Emesek: é um espírito danoso, vingador, de um inimigo morto que continua, como fantasma, lutando contra o rival que considera devedor. O Emesek quer ajustar contas e neste processo pode perturbar durante anos. Somente através de magia é possível não somente controlar este adversário do Além mas também escravizá-lo, obrigando-o a prestar serviços que favoreçam prosperidade material e familiar pata aquele que conseguiu vencê-lo.

por Ligia Cabús

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/fantasmas-indigenas-da-america-do-sul/

John Dee

John Dee nasceu em Londres, em 13 de julho de 1527 e morreu em dezembro de 1608, tendo vivido 81 anos. Seu pai, Roland Dee, foi um comerciante e Oficial do governo de Henrique VIII, em Londres. Estudou no Saint John’s College, em Cambridge. Construiu robôs, como um escaravelho mecânico que soltou durante a apresentação teatral “Paz de Aristófanes” e causou pânico. Foi expulso de Cambridge em 1547, acusado de bruxaria e chamado de herege. Então foi para a Universidade de Louvain onde se tornou um hábil astrólogo, passando a ganhar a vida fazendo horóscopos.

Dee era da religião anglicana. Estudou Hermetismo, Cabala, o Talmud, Astrologia e Alquimia. Na maior parte de sua vida foi um alquimista itinerante. Mas, além de hábil astrólogo e filósofo oculto, foi um grande estudioso de Matemática. Previu as seguintes invenções posteriores: microscópio, telescópio, navios à propulsão de motores, automóveis e máquinas voadoras.

Dee recebeu uma proposta de lecionar na Universidade de Paris em 1551, e ocupar uma posição como conferencista em matemática em Oxford em 1554. Ele decaiu em ambas posições. Foi sustentado na maior parte de sua vida por meio de patrocínios, nunca viveu necessariamente de seu trabalho e esforço, sempre soube tirar o melhor proveito de seus conhecimentos ocultos, porque o estudo da filosofia oculta sim era o seu forte. Recebeu apoio financeiro para as suas pesquisas da Duquesa de Northumberland e de seu marido, de 1551 a 1555. Neste período, foi também tutor das crianças do ducado de Northumberland, tendo sido tutor do futuro Conde de Leicester. O Rei Edward lhe concedeu uma pensão anual de cem coroas, quando retornou à Inglaterra, em 1552. Dee também recebeu dinheiro de estudantes que o procuravam para aprender alquimia.

Em Louvain, de 1548 a 1550, Dee começou a ser tutor pessoas influentes em assuntos como matemática e geografia. Em algum ponto entre estas datas, ele tutorou o Conde de Warwick. Aparentemente o Senhor Philip Sidney estudou com ele, um pouco mais tarde. Em 1550, em Paris, expôs a teoria da matemática mágica, teoria revivida por Ficino. Ele trouxe instrumentos astronômicos e de navegação para a Inglaterra quando ele voltou do continente em 1550.

Ele foi uma figura importante para as descobertas geográficas que ocorreram durante o reinado Tudor. Por um longo período, aproximadamente de 1551 a 1583, Dee foi o conselheiro para as viagens de descobrimento inglesas, do Nordeste ao Noroeste. Ele pode ter tido Drake como um conselheiro para viagens. Sua Arte Perfeita de Navegação (mais geografia e propaganda para império Inglês do que a ciência de navegação propriamente dita), de 1577, originalmente pretendia ser um trabalho mais grandioso, uma história geral de descobertas. Ele foi um consultor de navegação da Companhia de Muscovy , aproximadamente de 1551 a 1583. A serviço da Companhia, em 1553, ele desenvolveu um gráfico para navegação em regiões polares. Em 1558, escreveu Propaedeumata Aphoristica, um livro de astrologia.

A coroação da Rainha Elizabeth I (05/09/1533), em 1559, teve sua importante participação. Dee, que já havia calculado horóscopos para Elizabeth I durante o reinado de Mary Tudor, e recebido o título de Astrólogo Real, escolheu a data e hora da coroação de Elizabeth I (a Rainha Virgem). O seu trabalho foi considerado o melhor trabalho de Astrologia Eletiva (especialidade na qual o astrólogo escolhe data e hora em que devem ocorrer acontecimentos importantes). Contudo, nunca recebeu o patrocínio esperado por parte de Elizabeth I, tendo recebido apenas quantias irrisórias e cargos pouco pomposos da mesma. O interessante é que havia sido preso no Hampt Court (na mesma semana antes do pentecostes em que Elizabeth I, antes de subir ao trono, também esteve ali prisioneira), acusado de bruxaria e conspiração contra a vida da Rainha Mary Tudor (Bloody Mary). Tudo porque certa vez, durante um retiro em Woodstock, sua irmã mais nova Elizabeth I o consultou sobre a época da morte de Mary Tudor, e este a revelou através de horóscopo. Ele foi julgado e conde nado à fogueira. Se livrou da morte com ajuda de Elizabeth I, e quando esta assumiu tudo melhorou para ele.

Pesquisou durante sete anos a “Steganographia” (alfabeto secreto) de Jean Tritheme (1462-1516), uma figura da renascença germânica que foi um dos mestres de Paracelso. Inspirado em tal obra escreveu Monas Hieroglyphia em 1564. No mesmo ano, apresentou uma cópia de Monas Hieroglypha ao Rei Maximillian II, ao qual ele tinha dedicado o trabalho. Monas Hieroglypha foi feito em 12 dias, e os segredos deste livro ligam-se à criptografia. Dee tinha contato por telepatia e clarividência com seres não-humanos. Quando Dee ficou gravemente doente em 1571, Elizabeth I enviou dois médicos para o curar. Entretanto, ela nunca concedeu a ele as posições lucrativas que este esperava Prefaciou a tradução do livro do grande matemático grego Euclides, em 1570.

Ele projetou um instrumento astronômico de longo alcance para Thomas Digges observar a nova estrela de 1572. Depois, continuou a trabalhar no desenvolvimento de instrumentos científicos. Smet o reconheceu como figura central no desenvolvimento da cartografia científica na Inglaterra, e sugeriu que a influência de Dee fosse transmitida à Holanda, onde o tal influencia ajudou a formular a cartografia Holandesa em sua idade dourada

Em 1573, escreveu Parallacticae commentationis praxos que- teoremas trigonométricos . Foi um admirador e de Copérnico, cujo trabalho estudou.

Em 1580, em Praga, estava na mira de uma condenação por parte da Igreja Católica.
Em 1582, ele se associou com o Edward Kelly em projetos alquímicos e ocultos.
Elizabeth I, finalmente lhe concede uma posição honrosa: a Tutela da Universidade Cristã, em Manchester, de 1595 a 1605.Em maio de 1583, o conde Alberto Laski, um rico polonês, viajou à Oxford especialmente para conhecer os Dee e Kelly. Perante as boas aventuranças que Kelly previa para Laski, este os levou a Polônia, onde começa uma nova fase em suas vidas.

John Dee e Edward Kellley

Antes de relatar os acontecimentos ocorridos após a associação de Dee E Kelly, remontemos à origem de tudo…Quando estava em seu museu, em meio a fervorosas preces, na janela que olhava para o ocidente. O Anjo Uriel (anjo de Mercúrio) lhe apareceu e lhe deu um cristal de forma convexa com o qual se comunicaria com seres de outras esferas se fitasse atentamente o cristal. Dee viu outros mundos e inteligências não humanas. Disse que a linguagem de tais criaturas era linguagem enoquiana. Para praticar sua “Cristalomancia”, chamou os ajudantes Barnabas Saul e Edward Tabolt (mais tarde se tornaria Edward Kelly) para que olhassem no espelho enquanto anotasse. Barnabas Saul foi dispensado por suspeita de agir como um espião.

Edward Kelly nasceu em 1 de agosto de 1555. Segundo Anthony Wood, durante o terceiro ano reinado de Mary Tudor, Kelly teria passado pela Universidade de Oxford;. Wood dia que este fez aprendizado de Boticário, obtendo conhecimentos químicos, e que ainda entrou para as profissões da lei e foi notório, que sabia inglês arcaico, e que por ser natural de Worcester, sabia galês. Era hábil calígrafo, e usava tal habilidade para falsificar documentos. Foi exposto ao pelourinho em Lancaster e perdeu as duas orelhas. Cobriu o local onde estariam as orelhas com um “barrete negro”, escondendo tão bem seu segredo, que o próprio Dee nuca descobrira este aspecto da vida de Kelly.

Depois de tal mutilação e de várias estadias na cadeia, Kelly fugiu para o país de Gales e adotou uma vida nômade, andando pelos arredores da abadia de Glastonbury (território famoso pela lenda do Rei Arthur). Numa hospedaria, ganhou a amizade do proprietário que lhe forneceu um velho manuscrito em língua galesa antiga. O manuscrito tratava da transmutação de metais e foi encontrado durante a violação de um túmulo de um bispo, numa igreja das vizinhanças. Junto ao corpo, estava o manuscrito e dois cofrinhos de marfim que continham respectivamente pó vermelho e pó branco, as “duas tinturas da Filosofia Hermética(!)”. Kelly se tornou dono do “kit”, já que aqueles que o descobriram ignoravam o seu valor. Os pós eram essenciais para a execução do Magnus Opus. Foi assim, num golpe de sorte, que Kelly se tornou proprietário do Livro de Saint Dustan e de seus pós alquímicos. Saint Dustan, ou arcebispo da Cantuária foi um alquimista e “Santo Padroeiro dos Ourives”.

John Dee, que já conhecia a alquimia, e Edward Kelly unidos a este manuscrito achado em Glastonbury (primeiro local Druídico) somaram uma corrente hermética poderosa.
Em relação ao espelho, Dee considerou Kelly um médium excelente. Não é para menos, Kelly havia visto e conversado com os 72 Anjos Herméticos!

Com a fama, o Conde Alberto Laski, os levou à Polônia, na Cracóvia, custeando as suas experiências alquímicas para que lhe fabricassem ouro. Foi durante este período, em 1584, que Dee teve a notícia da destruição de sua Biblioteca e de sua casa em Mortlake, pelas mãos de fanáticos que o acusavam de bruxaria. Com o ocorrido, deixam a corte de Laski, que fica arruinado financeiramente e sem resultados de seu investimento.

A dupla parte para a corte de Rodolfo II, de Habsbourg, em Praga, onde ficam de 1584 a 1589. É para Rodolfo II que Dee deixa o famoso manuscrito Voynich, depois de tenta-lo decifrá-lo em vão. O manuscrito Voynich foi achado pelo duque de Northumberland, quando este pilhava mosteiros durante o reinado de Henrique VIII. A família do duque passou o manuscrito a Dee. Segundo documentos encontrados, o manuscrito teria sido escrito por Roger Bacon (1214-1294). O manuscrito consiste em uma brochura de 15 por 27 cm, sem capa e, segundo a paginação, lhe faltam 28 páginas. Nele se encontram desenhos de mulheres nuas, diagramas e quatrocentas plantas imaginárias.

Em uma determinada altura, dizem que Dee prostituiu a sua esposa nos altares da alquimia. A esposa de Kelly, Joan Kelly, não era bonita e tinha hábitos vulgares, o que o levou a cobiçar Jane Dee, esposa de seu amigo, que era bonita e atraente. Um dia, perante o espelho mágico, Kelly disse a Dee que lhe havia aparecido uma mulher nua que lhe advertiu que os mesmos deveriam fazer uma troca de esposas sob pena de que o espelho não os revelaria mais nada se não o fizessem. Dee não aceitou, e já se encontrava saturado com a figura de Kelly, este por sua vez não conseguia mais esconder a insatisfação de apenas Dee levar o mérito de tudo. Dee dispensa Kelly e coloca seu filho Arthur Dee, na época com oito anos. Para olhar no espelho. Como vidente, seu filho foi uma negação, então Dee teve que recorrer a Kelly e ocorreu a troca de casais.

Em marco de 1589, em Praga, Dee e seus assistentes instalaram uma série de espelhos mágicos, através dos quais conseguiam emitir sinais a largas distâncias. Isso funcionava melhor em noites enluaradas.

Nesta época, a campanha contra os turcos na Hungria estava incerta, mas mesmo assim Dee informou a Rodolfo II que a cidade de Raab acabara de ser conquistada pelas forcas imperiais. É por esta e outras que a estadia de Dee na corte de Praga não foi muito feliz. George Popel Von Lobkowitz afirmava ao povo: “esse homem foi enviado pela rainha Elizabeth I, uma protestante, para afastar o nosso imperador da causa católica”. Rodolfo II expulsou Dee da Boêmia, por causa deste boato. Mas Dee não deixou a Boêmia e se tornou conselheiro de Guilherme de Roisenberg. Kelly permanece na corte de Rodolfo, do qual torna-se amigo e lhe dá um elixir misterioso.

Kelly, em Praga, não havia obtido ainda um bom resultado de suas experiências. O impaciente Rodolfo II, o manda prender na masmorra do Castelo de Zobeslau, para pressioná-lo. Kelly disse que teria que consultar Dee e foi-lhe permitido retornar escoltado à Praga, mas a casa onde se instalou era uma verdadeira prisão. Os católicos se voltaram contra Kelly. Lobkowitz induziu um jovem a desafiar Kelly para um duelo, mesmo com a proibição de duelos por parte de Rodolfo II. Ao se defender, Kelly feriu mortalmente o opositor, foi apanhado e preso. Elizabeth I enviou o capitão Peter Gwinne. Para persuadir Kelly para fugir e retornar ao seu país. Ao tentar fugir, Kelly quebrou uma perna (era muito gordo e a corda da fuga não agüentou o seu peso), e como a ferida não foi tratada adequadamente, ele morreu.

Dee dizia que a Terra não era completamente redonda, e sim composta por esferas superpostas alinhadas ao longo de uma outra dimensão. Entre estas esferas haveria pontos e superfícies de comunicação. Entendia a “Groelândia” como o “infinito” sobre as terras além das nossas. Dizia a Elizabeth I para que ela tomasse conta da Groelândia para que ela tivesse acesso a outros mundos. Conheceu Shakespeare, que se inspirou em Dee para criar seu personagem “Próspero” da obra “Tempestade”. Diz-se que Dee estava mais próximo da obra de Shakespeare do que Francis Bacon. Escreveu o livro chamado “Filosofia Oculta” e um tratado chamado “Harptarchia Mystica”, um sistema hermético prático que ficou conhecido como “Sistema Enoquiano”. Também dizem que Dee teria traduzido o “Necronomicon” de Abdul-Al-Azrid.

A Pedra Negra (espelho mágico), vinda de outro universo, foi recolhida pelo conde Peter Borough e depois por Horace Walpole. Atualmente, se encontra no Museu do Louvre e não pode ser tocado e nem estudado.

Dee havia sido convidado pelo Tzar da Rússia para ir à Moscou, talvez recusou por intermédio de Elizabeth I. Depois de tantos altos e baixos, já estava com a fortuna arruinada e pediu auxílio à Elizabeth I, que lhe negou ajuda dizendo que se fosse um alquimista de verdade não passaria por necessidades. Suas obras foram queimadas por ordem de James I, no triste episódio de Mortlake, local onde mais tarde faleceu por morte natural. Seu “Sistema Enoquiano” influenciou várias ordens secretas, inclusive a Golden Dawn, por onde passaram renomados ocultistas que influenciaram as Ordens Modernas.

Texto de Soror Agarath

1527 – 1608

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/john-dee/