Curso de Projeciologia – Viagem Astral

Este curso é promovido pela Fundação Cultural e Educacional Aun Weor, instituição de utilidade pública sem fins lucrativos cuja finalidade é levar à sociedade conhecimentos há muito esquecidos e que, só agora, recentemente, têm voltado ao panorama mundial.

Ainda que o homem tenha construído máquinas voadoras, foguetes para leva-lo ao espaço, computadores e uma medicina capaz de até mesmo transplantar corações, paradoxalmente podemos observar a multiplicação dos sofrimentos humanos causados pelas doenças, pela violência e pela quebra dos princípios básicos sociais e morais.

Dessa forma fez-se necessário trazer à luz conhecimentos ancestrais, outrora herméticos, mas que, devido à condição humana, precisam ser colocados a fim de mostrar ao homem que a resposta para todos seus dramas, sejam eles quais forem, tem origem em um só ponto, ou seja, nos afastamos de nós mesmos para procurar a felicidade externamente, onde nunca poderemos encontrá-la.

Por isso elaboramos um curso que visa levar as pessoas a se projetarem para fora de seu corpo material, já que nesta condição cada um poderá por si mesmo entender melhor a situação atual do homem e seu estado de evolução.

Com empenho e dedicação, o estudante poderá travar contato com outra realidade, acendendo em seu interior uma ansiedade de caráter espiritual que o impulsionará na busca de novos (ou antigos) valores.

Além de cursos rápidos a FUNDASAW oferece cursos de longa duração, visando ao estudo e aprofundamento nas doutrinas esotéricas através do conhecimento teórico e, principalmente, prático em tudo aquilo que é ensinado, pois somente a experiência direta das realidades supra-sensiveis pode nos livrar das terríveis dúvidas que assolam nossa mente.

Seja bem-vindo e esperamos que este Curso lhe seja bastante proveitoso.

Daniel Ruffini

INTRODUÇÃO

As viagens fora do corpo têm sido uma constante na história da humanidade. Muitos homens do saber as têm descrito conforme seus campos de experiência, e outros, por uma razão qualquer, a ignoraram completamente. Aqueles empenhados em desenvolver um estudo científico e acadêmico ortodoxo fecharam seus olhos para não se incomodarem com assuntos impalpáveis e quase impossíveis de serem medidos através de aparelhos; por outro lado, um novo ramo da ciência moderna, ainda precariamente estabelecido e intitulado Parapsicologia, catalogou as experiências fora do corpo dentro da vastíssima gama de fenômenos paranormais como Projeciologia; muitas linhas psiquiátricas e psicológicas, sem terem onde encaixar estes estados de consciência inexplicáveis para seus estudos acadêmicos, simplesmente a definiram como distúrbios psíquicos ou alucinações. Finalmente, os místicos e religiosos de todas as doutrinas e religiões do mundo nos relatam serem tais experiências uma ponte entre o divino e o eterno.

Afinal, onde devemos nos enquadrar para podermos ter maior compreensão desses estudos?

A resposta para essa pergunta é simples de ser dada, mas, ao mesmo tempo, extremamente complexa de ser obtida, haja vista a demanda de tempo e de esforços que cada pessoa terá que dispor para chegar à resposta por si mesma, e não através de opiniões emitidas por pessoas que nem sequer tiveram a bem-aventurança de ver com outros olhos e ouvir com outros ouvidos (metafísicos). Oral! Não devemos seguir nenhuma das direções isoladamente, mas sim empreendê-las holisticamente, ou seja, integralmente. Sem dúvida não será um trabalho fácil, mas o risco de dogmatismo, em qualquer área, também será afastado. Por isso faz-se necessário conhecermos todas as visões: a psicológica, a cientifica, a paracientifica, a mística e a religiosa, pois todas elas, isoladamente, são apenas fragmentos da verdade; no entanto, numa visão superior do conjunto, complementam-se umas às outras em suas limitações e impropriedades.

Sabemos que os primeiros passos serão confusos, pois muitas informações se chocarão umas com as outras, mas será deste caos que haverá de nascer a compreensão das realidades que constatam a multiplicidade dimensional presente em todo o universo.

Não podemos trilhar por você os caminhos capazes de o levarem à vivência de outra realidade além desta já conhecida, mas podemos lhe indicar para onde deve caminhar e até mesmo como deve fazê-lo; a caminhada, por si mesma, ficará por sua conta. Ainda que devamos buscar a compreensão deste conhecimento através do holismo, conforme citamos, somos obrigados a afirmar que, ainda sim, para iniciarmos este labor, precisamos ter em mãos algo prático, real, o qual nos será a prova da existência de possibilidades múltiplas em nosso interior.

Por isso, somos enfáticos em afirmar a necessidade de vivenciarmos diretamente a realidade de estar “acordado” do outro lado, pelo menos num primeiro estágio, para então, mais adiante, ocupar-nos de desenvolver completamente o sentido integral, o qual nos levará ao nosso completo autodomínio nas diferentes dimensões descobertas.

Vivenciar, expandir e dominar são três estágios diferentes para o iniciante. Neste curso tratamos apenas de possibilitar as primeiras vivências, dando-lhe pequenas pinceladas possíveis de serem expandidas, caso você se eleve até elas. Já o terceiro estágio não pode lhe ser oferecido por ninguém, a não ser por você a si mesmo.

Por último, de todo o abordado neste curso, aquilo que realmente terá validade será a parte prática. É ilusão e auto-engano perder seu tempo apenas virando páginas e decorando frases, ou mesmo ouvindo atentamente as palavras do instrutor. Sem dúvida é importante o conhecimento teórico das possibilidades a serem encontradas, mesmo porque é o caminho holistico que nos interessa, mas é somente a prática com afinco que ativará os centros responsáveis em tirar da letargia seus potenciais mais interiores. Enfim, somente as práticas constantes poderão lhe proporcionar as experiências fora do corpo.

O HOMEM METAFÍSICO

Matéria é energia em estado condensado e energia é matéria em estado radiante. Deste postulado podemos deduzir o universo em suas inumeráveis formas, do macrocosmo ao microcosmo, como variações do estado vibracional da matéria. O homem (microcosmo) não será diferente. Tal qual as ondas sonoras, luminosas e demais ondas ultra-sensíveis (energias variando em seu estado de radiação), o homem também é formado de diferentes categorias de energias, cada qual ocupando uma determinada gama que o alimenta e serve de meio de expressão. Assim sendo, os alimentos sólidos pertencem à matéria cuja gama vibracional é densa e serve para preservar o corpo físico e suas funções biológicas. Todavia, existem outros “alimentos energéticos” tão ou até mais importantes que os tradicionalmente conhecidos, logicamente servindo para nutrir outros corpos conforme o grau vibracional correspondente.

Logo, as emoções e os pensamentos também são matéria, só que radiantes, cuja função é alimentar, como falamos, outros corpos: o emocional e o mental. O corpo emocional (corpo astral) e o corpo mental não possuem o designativo corpo por acaso. Eles realmente têm a forma de nossa parte física, variando em perfeição dependendo do nível evolutivo de cada um, e podem ser usados como veículos para deslocarmos nossa consciência desperta, tal como fazemos quando esta consciência está sendo transportada pelo corpo físico, tendo o cérebro como instrumento de manifestação neste mundo de três dimensões.

Quando falamos em experiências fora do corpo estamos a nos referir à possibilidade de projeção da consciência através desses dois veículos, o emocional e o mental. Além desses dois existem outros veículos altamente refinados chamados de Causal, Búdico e Átmico, impossíveis de serem acessados pelas pessoas comuns.

Se colocarmos numa linguagem mais simples, podemos afirmar, ainda que de forma grosseira estarem todos esses corpos dentro da conhecida separação do homem em corpo (parte física), Alma (emocional e mental) e Espírito (Causal, Búdico e Átmico).

Não podemos deixar de citar a existência do que muitos chamam de corpo vital, etérico ou energético. Na verdade não é propriamente um corpo, pois permeia a matéria física, conduzindo as energias mais básicas para alimentar a vida orgânica e vegetativa, usando para isso cerca de 72.000 canais energéticos (etéricos) chamados de nadis. Hoje em dia, o que muitos chamam de AURA não passa da parte visível do corpo etéreo.

AS DIMENSÕES DA NATUREZA

Cada veículo de manifestação da consciência está vinculado a urna diferente dimensão. Como sabemos, a ciência cada vez mais admite a existência de universos paralelos presentes em todos os lugares ao mesmo tempo, ocupando espaços em mundos diferentes, sem interferência aparente sobre o homem. Por exemplo: você que agora está lendo esta frase está situado num determinado lugar (não importa qual), num determinado momento de tempo (não importa quando), onde existem, simultaneamente, diversas camadas de energia se interpenetrando. Essas energias são as diferentes dimensões da natureza, os diferentes planos existentes, aos quais somente podemos ter acesso (por enquanto) através de percepções ultra-sensoriais e desdobramentos da consciência nos respectivos planos. No ambiente em que você se encontra, mesmo que não possa ver, há uma infinidade de ondas energéticas diferentes (ondas de televisão, de rádio, raios cósmicos, etc.), ou seja, podemos traçar paralelos com as diferentes dimensões, elas estão lá (ou aqui), à espera de serem sintonizadas e captadas, e o que é melhor, o receptor é você, basta ajustar-se adequadamente.

O mesmo principio serve para os corpos sutis do homem: estão aqui e agora, só não os captamos com clareza devido a nossa pobreza de percepções. Somos capazes apenas de perceber aquilo que nos oferecem nossos sentidos, muitas vezes degenerados. As percepções já entram no campo da metafísica, e é neste campo que estamos interessados.

Dessa forma, habitamos com nossa parte física o mundo das três dimensões, o piano físico. Ao mesmo tempo coexistem em nós, apenas recebendo as percepções mais grosseiras, o corpo emocional numa dimensão superior e o corpo mental numa outra ainda mais refinada. Lembramos que a palavra superior refere-se á dimensão cuja vibração é mais sutil que outra, não querendo dizer com isso que uma está sobre a outra, como camadas de terra ou areia. Todas estão presentes aqui e agora.

O processo de projetar-se conscientemente para fora do corpo nos coloca diretamente em contato com as diferentes dimensões, ou seja, se nos projetamos com o corpo emocional estaremos tendo acesso à quarta dimensão; com o corpo mental teremos acesso à quinta dimensão.

A projeção com cada corpo dependerá do desenvolvimento do estudante, por isso é mais comum a projeção com o corpo emocional e, partindo do domínio deste, poderemos acessar a projeção com o corpo mais sutil e mais difícil, o mental.

VEÍCULOS DE DESDOBRAMENTO ASTRAL

Cada corpo é um veículo para a manifestação da consciência. Os corpos, nos planos correspondentes, possuem forma idêntica ao corpo físico. Entretanto, essas formas podem variar muito, desaparecendo inclusive a aparência semelhante ao físico, para dar lugar a uma luz opaca e sem vida nos casos de pessoas de baixa evolução espiritual, ou formas brilhantes e bastantes luminosos nos casos de pessoas evoluídas interiormente.

Por serem exatamente aquilo que temos cultivado para nós em vida, esses corpos refletem o estado interior de cada ser humano. As pessoas acostumadas a se alimentarem” de emoções inferiores e pensamentos distorcidos, dificilmente terão corpos suficientemente capazes de servir de veículo para a consciência, pois estes já estão deveras desvirtuados e não servirão para tal fim. Assim é fácil de entender o porquê da dificuldade existente em conseguir a projeção para fora do corpo.

Cada veículo absorve energias afins a sua gama de variação: o emocional se “alimenta” de emoções e o mental de pensamentos. Logo, o cultivo das emoções e pensamentos superiores será de fundamental importância para o êxito da projeção. As pessoas simples do campo, as pessoas que levam uma vida contemplativa ou que ainda não foram intoxicadas pelas impressões deturpadas pelos meios de comunicação e pelos preconceitos sociais e morais, geralmente têm maior facilidade em projetar-se, pois suas emoções e pensamentos mantêm-se puros e espontâneos.

Aqui chamamos a atenção do estudante realmente interessado. Há necessidade de aprofundamento em todos os setores necessários para o crescimento espiritual, diríamos melhor, há necessidade de uma verdadeira regeneração nas formas de pensar, sentir e agir. Como falamos no inicio, se não houver um desenvolvimento holístico do ser, tão logo comece seu aprendizado você ficará estagnado pelos primeiros obstáculos a serem encontrados. Quando falamos em regeneração, falamos em autoconhecimento, somente isto basta para que as portas em sua jornada sejam abertas.

PORTAS DIMENSIONAIS

Os chakras são as verdadeiras portas dimensionais que podem nos conduzir a outros universos. Esses centros ou vórtices de energias quando estimulados ou desenvolvidos em alto grau, alteram toda vibração atômica do corpo, projetando nossa consciência desperta através de outros veículos mais sutis. Por isso podemos afirmar que as portas para outras dimensões se abrem, onde quer que estejamos.

Mesmo que não possamos nos projetar para o “outro lado” por algum motivo, fazendo uso das faculdades extrafisicas podemos ver, ouvir e sentir coisas que estão além de nossos cinco sentidos.

Os chakras são em número de sete e estão distribuídos ao longo da espinha dorsal. Estão baseadas sobre órgãos muito importantes, quase todas glândulas endócrinas (secreções interna) do organismo: o chakra superior, situado no topo da cabeça, tem seu fundamento na glândula pineal ou epífase; o frontal fica no entrecenho sobre a glândula pituitária ou hipófise; o da garganta está ligado às glândulas tireóide e paratireóides; o do coração não fica exatamente sobre uma glândula, mas tem seu fundamento no coração e na timo; o chakra do plexo solar (umbigo) está vinculado ao fígado e ao baço principalmente; o chakra prostático fica na próstata no homem e no útero na mulher; por último o chakra fundamental baseado nas glândulas sexuais (testículos e ovários).

Nesses estudos precisaremos trabalhar com os chakras através de práticas especiais, principalmente com alguns deles, como veremos na parte prática do Curso.

É importante citar que os chakras tão comumente conhecidos na literatura esotérica estão relacionados somente ao corpo etérico ou energético. No entanto, cada corpo ou veículo superior possui seus chakras correspondentes. Se ainda formos mais longe podemos afirmar ser cada átomo ou molécula de nosso corpo um pequenino chakra ou vórtice de energia.

CORDÃO DE PRATA OU ANTAKARANA

Quando há a projeção para fora do corpo denso em outra dimensão, continua existindo um elo entre a consciência projetada num corpo mais sutil e seu veículo físico. Esse elo é conhecido corno cordão de prata ou cordão de ouro.

Como estamos abordando a projeção em dois veículos diferentes, geralmente usa-se o nome cordão de prata para o primeiro (emocional) e cordão de ouro para o segundo (mental).

Este fio de vida somente será rompido no momento da morte, e isso nunca ocorrerá devido á projeção. Ao mesmo tempo, este elo serve de proteção ao corpo físico abandonado momentaneamente, para não ocorrer o que muitas pessoas acreditam ser possível: a tomada do corpo físico por outras entidades quando não estamos de posse dele.

Cada cordão está ligado ao seu corpo pelo chakra correspondente, isto é, saindo do corpo denso temos o cordão de prata pelo plexo solar e o cordão de ouro pelo topo superior da cabeça, ambos conectados á parte de trás da cabeça nos veículos mais sutis.

Na verdade cada cordão é parte integrante do próprio veículo, desprendendo-se e sendo alongado no momento da projeção. Quando do retorno dos corpos eles são reabsorvidos normalmente.

Não é tão comum tomarmos contato com esses cordões e, inclusive, é possível nos projetarmos durante anos sem ao menos vê-los, já que nas experiências fora do corpo raramente iremos nos preocupar com eles. Eles estão lá e cumprem sua finalidade, isso é o que importa: conduzem do corpo fisico-etérico parte da energia necessária para ficarmos acordados “do outro lado”, e trazem, das dimensões onde a consciência se encontra desdobrada, as energias mais sutis e espirituais para engrandecer e sublimar o veiculo mais denso.

OS SONHOS

Devemos dar ênfase ao estudo dos sonhos. Muitas linhas psicológicas baseadas nas idéias de seus precursores, principalmente direcionados pelos estudos de um dos maiores psicólogos modernos (C.G. Jung), já fazem uso constante da análise dos sonhos. Sem exceções, todas as religiões do mundo, sejam elas primitivas ou não, sempre foram enfáticas ao afirmarem que o sonho reintegra o homem (micro) ao Cosmos (macro).

Tal qual somos hoje, o sonho nos proporciona um mergulho às memórias ancestrais e arquetípicas que cada homem, povo, raça ou humanidade traz dentro de si. O sonho nos leva ao inconsciente, e é no inconsciente que encontraremos as respostas para solucionarmos os grandes problemas e obstáculos que nós mesmos, via de regra inconscientemente, criamos.

Se não somos melhores do que somos hoje, se não somos felizes, se não conseguimos materializar nossos planos devido a nossas próprias fraquezas ou, aparentemente, devido às fraquezas e obstáculos do mundo e das pessoas que nos cercam, é porque não conhecemos nossos potenciais psíquicos mais profundos; é porque a origem de nossas ansiedades, traumas e bloqueios ficou perdida no passado imemorial, seja na infância inconsciente ou seja num passado mais distante ainda que se perde na esteira do tempo…

Por isso devemos, num primeiro passo, mergulhar em nós mesmos através dos sonhos. Posteriormente, as experiências conscientes fora do corpo nos proporcionarão meios mais eficazes e profundos, algo palpável para expandirmos aquilo que demos inicio através de nossos sonhos.

Não há uma só pessoa que não sonhe toda noite; aliás, é comum termos vários sonhos durante o período de sono. O problema é não nos lembrarmos deles, e isso ocorre por falta de preparo e exercício ou, o que é pior, por falta de interesse. No passado foram construídos grandes e belos templos para onde os reis e sacerdotes, governantes dos maiores impérios da humanidade, dirigia-se a fim de sonharem e, através de seus sonhos, liderarem povos e nações para as conquistas sociais e políticas que os aguardavam. Esperavam eles as indicações que sempre lhes vinham através dos sonhos, haja vista a ponte que os ligava à divindade. O homem se embruteceu e se materializou, perdeu-se nas maravilhas da tecnologia e começou a procurar fora de si as respostas para seu sofrimento. Assim afastou-se de Deus. Logo, é hora de recultivarmos a semente original da humanidade. Sem perdermos a visão do futuro, podemos reconquistar a sabedoria do passado.

OS TIPOS DE SONHOS

Desde o momento que nos deitamos para dormir, até levantarmos para o novo dia, o sono se passa em diversas fases. Primeiramente passamos pelo estado de transição da vigília para o sono leve; logo após entramos no sono profundo que pode ser interrompido algumas vezes; por último passamos do estado de sono profundo para o sono leve e entramos novamente no estado de vigília.

O sonho, genericamente falando, não passa de projeção para fora do corpo denso, onde nossa consciência usa os veículos ou corpos num profundo sono hipnótico. Logicamente existem outros tipos de sonhos variando até mesmo conforme o estágio do sono indicado linhas atrás, Vamos dividi-los em 03 (três):

1. O sonho de número 1 é o sonho leve. Não houve o desdobramento da consciência propriamente dito. O veículo astral ainda está em coincidência com o veículo físico. Este tipo caracteriza o estágio vigília-sono, sono leve e sono-vigília.

Ainda que não seja projeção, este estado é deveras importante, pois é o limiar ou a porta entre os mundos. Ora vemos imagens existentes do outro lado, ora percebemos as nossas projeções mentais provenientes dos reflexos passados. Aprender a distinguir essas imagens será de muita utilidade, já que, como nos sonhos, nelas encontraremos valiosos subsídios simbólicos.

2. No segundo caso o sonho é característico da projeção inconsciente, ou seja, estando fora do corpo o projetor se perde nas imagens externalizadas pela sua própria mente, ou as confunde completamente com os locais e seres existentes na dimensão onde se encontra. O homem já entrou no estágio de sono profundo e não sabe o que ocorre, bem como das possibilidades inerentes a si mesmo.

A maioria da humanidade experimenta diariamente esse estado de inconsciência. Pode-se tirar grande proveito das coisas que se passam. O passado, o presente e o futuro se unem completamente. Muitas mensagens nos são passadas. Se soubermos decodificar a linguagem simbólica contida nessas mensagens e imagens, teremos grande material de estudo e uma ótima oportunidade de começar a compreender melhor nossa própria vida.

3. O último tipo de sonho é ainda mais profundo que o segundo e também está ligado ao mesmo estágio de sono anterior. Nesses casos a pessoa começa a se fazer consciente de si mesma. Faz perguntas como essas: Onde estou? O que está acontecendo? Será isto realidade ou fantasia? Será que estou sonhando?

Quando entramos nesse estágio estamos a um passo de “despertarmos” nossa consciência numa dimensão superior. Muitos segredos nos podem ser revelados nessas condições, por isso devemos estar atentos aos acontecimentos ocorridos durante essa experiência. E difícil, mas não raro, encontrarmos pessoas que vivem esta situação.

Os sonhos, em verdade, são como válvulas de escape para nossa personalidade. Durante o dia vivemos muitas situações onde nosso desejo animal (depositado nas regiões inferiores do inconsciente) se vê aflorado. As máscaras que formam a personalidade impedem que eles dominem completamente nossos pensamentos e nossa parte motora. E, quando isso não ocorre, aparecem os casos de homicídio, estupro, etc. Todavia, ao dormirmos, nossas máscaras caem completamente e passamos a ser conduzidos pelo inconsciente. Somos projetados em outras dimensões e ali externalizamos e revivemos o produto mórbido de nossos desejos, já que nessas regiões a lei e a moral humana não imperam, e sim a verdadeira lei espiritual se faz presente.

Por conseguinte, acabamos por nos ver cometendo os atos mais absurdos, aqueles que acreditávamos (ou não queríamos aceitar) sermos incapazes de fazer. Por isso os sonhos nos mostrarão o que realmente somos, sem máscaras, mentiras e ilusões. Logo, aquelas pessoas que juram fidelidade ao seu cônjuge, se vêem adulterando constantemente. Aquelas que se dizem passivas e amorosas, se vêem matando e odiando como nunca imaginaram ou aceitaram.

Recomendamos aos estudantes o hábito de anotarem diariamente seus sonhos. Primeiramente isso forçará o trabalho com a memória onírica um tanto “enferrujada”. Posteriormente, o aluno terá, depois de certo tempo, vasto material de auto-estudo.

Para lembrarmos dos sonhos com mais facilidade existem algumas dicas importantes, as quais servem também para o desdobramento consciente propriamente dito:

a) Nunca devemos dormir de estômago cheio. A última refeição deve ser feita com 3 horas de antecedência. A fome antes de dormir também deve ser evitada, e se for este o caso, devemos ingerir alimentação bem leve.

b)Tanto o frio como o calor são prejudiciais. A temperatura deve estar agradável. O ambiente limpo e arejado. Faça um relaxamento antes de dormir, nada deve apertá-lo ou incomodá-lo.

c) Devemos despertar lentamente e nunca bruscamente. Ao se acordar é importante mantermos total imobilidade e permanecermos de olhos fechados. Relembraremos todos os sonhos possíveis, recriando-os mentalmente até fixa-los. Levantaremos de forma lenta e escreveremos tudo que nos lembrarmos. Não deixe nada para depois, você pode esquecê-los.

d) Se o problema é a falta de memória onírica, recomendamos, além das seqüências ‘a”, “b” e principalmente “c”, o mantra RAOM – GAOM? que é feito da seguinte maneira: RRRRAAAA0000MMMM GGGGAAAA0000MMMM mentalmente junto com o exercício “c”. Um desjejum com frutas ácidas e amêndoas moídas misturadas com mel de abelha possui propriedades que facilitam a lembrança dos sonhos.

AS LINGUAGENS E FORMAS DE SE TRANSMITIR E RECEBER O ENSINAMENTO

Existem, a saber, três linguagens ou formas diferentes para transmitir e receber conhecimentos.

A primeira delas é a linguagem comumente usada em nosso mundo regido pelos princípios Newtonianos ou mecânicos, ou seja, a didática.

Através da didática trocamos experiências e levamos informações através dos meios de comunicações para todo globo. A didática é o meio racional e lógico expresso pela linearidade da mente humana para passar todos os tipos de conhecimentos básicos. Para isso, acaba por abranger diversos setores de nossa sociedade e é aplicada desde os ensinos da pré-escola ao cursos mais avançados de pós-graduação nas universidades ou centros acadêmicos superiores.

A segunda linguagem é o Simbolismo Universal, presente em toda natureza, atuando nas dimensões mais elevadas e nas mais densas. Tem, inclusive, vias de manifestação dentro do próprio homem. Isto quer dizer que o simbolismo não somente serve de instrumento para descobrir os mistérios mais ocultos da natureza, como também nos guiará seguramente através da psique coletiva e individual.

Ainda que os meios de comunicação também façam uso da segunda linguagem, nem de longe se aproximam do verdadeiro significado da mesma, sendo ainda quase que invariavelmente distorcida em seu principio e conteúdo. Obviamente a mente humana desconhece e é incapaz de compreender os valores superiores da linguagem dos símbolos, já que estes pertencem à consciência e visam ter acesso á Alma de cada homem. Logo, o simbolismo, tal qual conhecemos hoje em sua parte externa, foi deturpado para atingir e alienar os sentidos e desejos facilmente manifestados pela fraqueza humana.

O Simbolismo também é expresso através da Dialética Superior ou, como diziam os antigos sábios pitagóricos, através de Matemática e da Música contidas nas Esferas Ascendentes.

A terceira e última linguagem é chamada de lniciática.

Se a humanidade no sentido geral já desconhece inteiramente a segunda linguagem, será muito raro encontrarmos homens despertos cuja altivez espiritual elevou suas consciências até esta terceira e mais sublime forma de passar e adquirir conhecimentos superiores. Esta está reservada aos grandes Mestres e Avataras.

O SIMBOLISMO DOS SONHOS

A linguagem simbólica deve ser estuda e compreendida pelas pessoas que realmente visam a sabedoria do ser. Mais especificamente, é deveras importante para os projetores iniciantes e avançados conhecerem profundamente a linguagem dos símbolos, pois ser’ a através dela que poderão subtrair maior número de informações nas experiências e chegar a compreender os grandes mistérios inacessíveis à razão e à palavra.

No verdadeiro esoterismo é impossível abordar os mais delicados e profundos estudos ligados à consciência e ao despertar do homem sem tal conhecimento.

Em conformidade com o principio da sicronicidade descrito por Jung, e da interação mútua entre todas as coisas, onde as partes se interagem com o todo e não pode haver perfeita compreensão das partes nem do todo sem a visão holística e abrangente das complementações, o homem se relaciona da mesma forma com o Universo e com a natureza. Em outras palavras, não se compreende o homem se não se compreende a natureza e seus símbolos; não se compreende o universo se não o interagimos com a própria natureza e com o homem.

Nos estudos sobre os sonhos e também nas projeções fora do corpo, bem como em grande parte das experiências extrasensoriais, sejam elas quais forem, necessariamente entraremos em contato com a linguagem simbólica.

Na medida em que nos aprofundamos na interpretação correta, percebemos a existência de diferentes graus de compreensão sobre o mesmo simbolismo. Isto quer dizer que cada homem compreende e interpreta um determinado símbolo de acordo com seu próprio nível de ser (espiritualidade). Por isso Jesus, o Cristo, difundiu seu ensinamento através de parábolas. Das mesmas palavras havia (e há) diversas interpretações: ao sábio as palavras traduzem sabedoria; ao homem grosseiro as palavras lhe parecem simples comparações; sendo que as crianças entendem como brincadeiras ou belas histórias.

Para se chegar à compreensão do Simbolismo Universal é necessário, num primeiro estágio, estudar profundamente as doutrinas que são os instrumentos para a veiculação dos símbolos. Assim é possível recebermos cátedras maravilhosas e inimagináveis onde só víamos figuras geométricas, letras e números aparentemente sem importância. Logo, não é possível compreender a Astrologia sem o estudo da Alquimia e da Magia. Não se admite cabalistas que não conheçam profundamente os Arcanos do Tarô e a interação destes também com a Astrologia. Também torna-se difícil e até mesmo inaceitável falarmos profundamente em experiências fora do corpo sem abordarmos as doutrinas citadas, pois são justamente esses entendimentos que nos possibilitam a compreensão em escalas superiores daquilo que vivemos fora do corpo físico.

Num caso mais preciso, ligado principalmente aos sonhos e às projeções conscientes, é preponderante, em determinado momento do desenvolvimento, perceber a profunda ligação entre os sonhos e as projeções com nossos processos psicológicos inconscientes. Somente dai poderão surgir então as projeções interiores, onde entraremos em contato com os deuses atômicos e siderais presentes no micro-universo que somos nós. Esta intraprojeção será descrita em capitulo à parte.

A INTERPRETAÇÃO DAS EXPERIÊNCIAS

Na Idade Média os textos alquímicos sempre estavam a se referir ao Mercúrio dos Sábios e á Pedra Filosofal. Será que estavam eles querendo falar de objetos e materiais físicos? Obviamente que não.

Esses exemplos e muitos outros estão espalhados por toda nossa civilização. Nas experiências fora do corpo e também nos sonhos constantemente entraremos em contato com a simbologia. O problema é como interpreta-la.

Antes de tudo, para a correta interpretação de nossas vivências, é necessário começarmos a desabrochar uma intuição aguçada. Muitas vezes compreendemos o que está ocorrendo pelo simples sentir. Não há palavras, não há pensamentos e nem há emoções. Você simplesmente sabe, como se alguma coisa tivesse nascido do mais profundo e enigmático vazio. A mente e as emoções só compartilharão mais tarde dessa descoberta.

Isto pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, no mundo físico e mais ainda quando fora dele.

Para desabrochar a intuição fazem-se necessários a auto-atenção constante e uma seqüência de práticas esotéricas para o despertar dos chakras (assuntos abordados em tópicos posteriores).

A Lei das analogias dos contrários, dos acontecimentos paralelos e das comparações terá validade de acordo com cada pessoa. E assim vem a importância do estudante tornar-se seu próprio instrutor, familiarizando-se com os símbolos e relações existentes consigo mesmo.

As imagens e os símbolos religiosos ligados à cultura individual, bem como tudo que lhe foi passado na infância pelos pais e’ pela sociedade, são fundamentais. As experiências também estarão ligadas às crenças espirituais ou até mesmo às descrenças e ao ceticismo. Cada um terá como símbolo para sua compreensão aquilo que vem não plantando e colhendo durante a vida.

Quem nada plantou nada pode colher.

Logo, o estudante deverá, algumas vezes, compreender um símbolo pelo que ele lhe traz de recordações. E este símbolo poderá vir na figura de um animal, de um homem, de um objeto ou de uma ocorrência passada.

Em outras ocasiões será necessário buscar na Simbologia Universal a resposta para o sonho ou experiência consciente fora do corpo. Nos casos dos números e figuras matemáticas, bem sabemos a relação entre o divino e o humano através deles, pois como já dizia Euclides, “Deus geometriza”.

Como a interpretação dos números está ligada diretamente à Caballa e aos Arcanos do Tarô, colocaremos resumidamente a seguir o simbolismo numérico:

1. Espada, vontade, poder…

2. Ciência oculta; favorável…

3. Produção material e espiritual…

4. Mando, progresso, êxito e misericórdia.

5. Carma, Marte, guerra…

6. Vitória, boa sorte…

7. Guerras, lutas, expiação, amarguras, dor, porém finalmente o triunfo.

8. Sofrimentos, provas, dor…

9. Solidão, sofrimentos…

10. Bons negócios, mudanças…

11. A Lei favorece. Que não haja temor! … Marte.

12. Provas e dor. O amor e o sexo (Alquimia) tiram-nos da dor.

13. Transformações. Indica mudança total.

14. Longa vida, estabilidade, sem mudanças.

15. Fracasso amoroso. Anuncia perigos.

16. Castigo, queda terrível. Evite-se esta data.

17. Significa esperança e espera.

18. Os inimigos ocultos surgem em qualquer momento. Enfermidades, não fazer negócios…

19. Êxitos, boa sorte, A Pedra Filosofal…

20. Mudanças favoráveis. Aproveite-as para acabar com suas debilidades.

21. Desmoralização total para o mal. Antítese, inimigos.

22. Triunfo. Tudo sai bem. Poder, força, boa sorte…

A partir do número 23 (inclusive) somam-se os algarismos para que possamos encontrar a simbologia dentro dos 22 Arcanos Maiores do Tarô.

A seguir colocamos algumas interpretações oníricas ligadas ao símbolos que podem muito bem ser vividas em experiências fora do corpo (sonho ou projeção). Todavia, não devemos traduzi-las ao pé da letra, mesmo porque há que se ter afinidade com o mundo contido nesses símbolos. Mesmo assim, é fácil observarmos idéias valorosas implícitas em cada interpretação. A intuição pode e deve sempre falar mais alto do que qualquer informação proveniente do exterior.

Estes símbolos serão melhor interpretados pelas pessoas que tomam conhecimento da linguagem universal do Gnosticismo.

Aborto: Graves decepções. Ver um aborto: enfermidade séria.

Afogado: Ver um afogado: herança, avanço hierárquico no trabalho seja interior ou exterior.

Água que sai da pedra: Energia sexual.

Águia: Representa o Espírito. O avanço espiritual é indicado pela altura em que voa a águia. Vôo rápido: êxito na vida. Vôo lento: estancado na senda. Águia retida: fracasso, resultados nulos.

Árvore partida: Alguém vai ser atingido, mas poderá depois se recuperar.

Árvore arrancada: Alguém (nós mesmos) vai ser atingido e sem possibilidade de recuperação.

Banho em égua suja: Enfermidades, doenças, dor, tragédia. Deve-se ter muito cuidado.

Banho em éguas puras: Saúde, harmonia, tudo favorece.

Banho em piscina: (Ver água).

Barco, canoa: Necessidade de trabalhar na Alquimia.

Beijo: Benefícios e satisfações. Beijar a um morto conhecido: muitos anos de vida. O sonhador é beijado na testa: matrimônio, se for solteiro; felicidade, se for casado. O sonhador é beijado na boca: imprudência no amor.

Bicicleta: Equilíbrio espiritual, tolerância.

Burro: A mente.

Cachorro que ataca: Ataque de um amigo; se morde, haverá danos.

Cachorro manso: Amizade sincera, amigos que ajudarão a sair de dificuldades.

Carro: Observar como se dirige; de modo análogo dirigimos nosso corpo físico.

Carruagem: Também significa o corpo físico.

Casa: O nosso corpo físico ou a nossa condição interior.

Casamento: Se duas pessoas se vêem casando e vestidas de noivos é sinal de desencarnação.

Castelo: Vitórias e conquistas espirituais em vidas anteriores.

Cavalo: Corpo físico, também significa luxúria. Queda do cavalo significa abandono do caminho de evolução espiritual.

Cavalo desdentado: Má espiritualidade; o íntimo não pode governar o corpo físico.

Chacal ou lobo: Justiça, Lei Divina. Se ataca, a Lei está contra ou há karma para pagar.

Chapéu: Viagem e se deve partir.

Chuva: Lágrimas, sofrimento.

Cordeiro, ovelha. Símbolo do Cristo.

Cores:

Amarelo: avanço, conhecimento, progresso.

Azul: amor, satisfação, saúde.

Branco: pureza.

Cinza: temor, angústia, medo.

Escarlate: tragédias, violência, ira.

Laranja: criatividade, iniciativa.

Negra: negativo, diabólico, hostil

Preto: solenidade, seriedade, negativo, fracassos..

Rosa: bons sentimentos.

Verde: penetração, esperança, segredos desvelados.

Vermelho: força, algumas vezes paixão.

Corpo enredado: Calúnias, difamações, fofocas.

Coruja: Forças negativas, magos negros, ataques de tenebrosos.

Criança: Nossa parte espiritual e consciência.

Cruz: Transmutação.

Datas: Devem ser anotadas e interpretadas conforme a Cabala. Anunciam acontecimentos importantes. Ver também números.

Defecar: Eliminar defeitos.

Dente: Os dentes superiores referem-se á família. Os dentes inferiores referem-se aos amigos. Dentes sadios riquezas, poder, saúde e importância em aumento. Dentes sujos: vergonha na família Dentes cariados: morte de um parente. Dente novo: nascimento. Dentes que caem: enfermidade ou morte – tragédia espiritual.

Escada: Caminho iniciático (espiritual), deve-se seguir.

Escorpião: Larvas astrais que precisam ser eliminadas.

Escova: Há necessidade de se limpar psicologicamente.

Espinho: Vontade superior, sofrimento voluntário.

Estar na beira de um abismo: Pode-se cair espiritualmente.

Estar na cadeia: Karma a pagar.

Exército: Se contra, a Lei em ação; se a favor, tudo ajuda.

Flores: Atributos da Alma, qualidades, virtudes.

Fogo: Paixão, trevas, ódio, falta de calma. Renovação.

Gato que ataca: Traição de pessoas queridas (familiares).

Insetos: Larvas astrais, há necessidade de limpeza.

Jardim: Felicidade espiritual.

Látego (chicote): Representa a vontade.

Livro: Quando se recebe um livro de um Mestre, sinal de que nada se sabe nos mundos internos, ignorância espiritual. Necessidade de aprender, estudar.

Leão que ataca: Justiça, Lei em ação, karma. Se o leão é manso, a Lei está a favor.

Machado: Destruição.

Mar tormentoso: Não há domínio sobre as paixões.

Mar manso: Castidade, pureza, perfeito domínio sobre paixões sexuais.

Montanhas: A meta espiritual, o caminho, o plano astral.

Morte de um filho: Provas.

Mula: Involução, está se indo muito mal espiritualmente.

Nuvens: Mente opaca, fechada, presa a idéias fixas e dogmas.

Ouro: Resultados espirituais acumulados.

Ovos: Símbolo da vida e de nascimentos (espirituais).

Pavão: Orgulho, soberba.

Pedras: Contradições. Às vezes necessidade de melhoria interna.

Peixes (pesca): Peixes mortos: doença, problemas; Peixes vivos: vitalidade.

Pomba, pombinha: Pureza, castidade, símbolo do Espírito Santo.

Relógio: O tempo; é chegado o momento.

Sapatos: Viagens. Um só sapato, o caminho espiritual não está bem.

Semente: Nascimentos.

Sonhar que está morto: Morte do EGO, aniquilação budista.

Serpente que ataca: Mulher que nos seduzirá (ou vice-versa), perda de energia, traição.

Serpente mansa: Domínio sobre paixões sexuais, forças acumuladas, favorabilidade.

Tartaruga: Lentidão, preguiça, atraso, etc.

Tempestade: Destruição.

Tigres: Traição.

Tigres trabalhando: Mestres trabalhando a favor do estudante.

Tocha: Fogo sexual transmutado em energia.

Torre: Ver uma torre forte e sólida diante de uma tormenta: sairá vitorioso de uma dura prova. Torre rachada ou destruída: catástrofe, desgraça.

Touro: Inimigos. Às vezes representa a ira; outras vezes paciência e trabalho.

Tudo doce: Amarguras.

Vaca: Símbolo da natureza e da Mãe Divina. Ver-se morto: Mudança favorável, morte de um defeito, renascimento.

Ver-se nu: Amargura, dor, tragédias. Ver-se em trajes íntimos tem o mesmo significado.

Vestido de trapos: Espiritualmente muito mal.

Voar: Indica certo tipo de consciência desperta. Se interpreta o que se vê e o que se sente quando se está voando. Geralmente é um bom sintoma. Avanço espiritual.

POR QUE NÃO TEMOS CONSCIENCIA DESPERTA DURANTE O SONO?

Por que não temos experiências fora do corpo conscientemente? Existem muitos motivos, mas os principais nós podemos relacioná-los para que você, dentro de seu aprendizado, possa superá-los:

a) O primeiro deles e o mais importante é o fato de sermos extremamente mecânicos. Não temos consciência de nós mesmos durante o transcorrer normal dos dias. Quando acordamos ligamos o piloto automático” e passamos a nos conduzir como máquinas, robôs na forma de agir, sentir e pensar.

Quantas vezes durante o dia paramos para nos auto-recordarmos? Somos completamente condicionados pelos fatores externos, e isso ocorre em todos os sentidos, ou seja, não somos nunca nós mesmos, apesar de acreditarmos sinceramente no contrário. Podemos dizer, sem errar, algo que pode nos parecer absurdo, mas você verá que analisando cuidadosamente é realmente verdade: não só dormimos á noite, dormimos da mesma forma durante o dia. Não colocamos atenção em quase nada que fazemos; nossa mente perdeu a capacidade de concentrar-se; nossos pensamentos são dispersivos e pulam de segundo a segundo mudando seu foco de atenção; nossas emoções oscilam constantemente de acordo com as atitudes das pessoas e da situação em que estamos. Poderíamos citar dezenas de exemplos para ilustrar o que estamos afirmando, mas acreditamos ser bastante o já acima colocado.

Muito bem, mas o que tem a ver isso com projeção inconsciente?!

Os sonhos são os reflexos daquilo que acontece durante o dia, só que nas dimensões superiores não há limite de tempo e de espaço, como veremos mais adiante, e por isso mesmo tudo que fizemos no transcorrer do dia, seja ontem, na semana passada ou no ano passado, volta a se repetir como antes, mecanicamente.

Há, porém, uma profunda e significativa diferença: no mundo físico, devido à densidade da matéria, nossas emoções e pensamentos giram em torno de nós mesmos. Ficamos abstraídos, perdidos em nossas ilusões, agindo, como dissemos, como autômatos condicionados pelo meio. Estamos perdidos em pensamentos ou ocupados com nossas emoções e, num instante, acontece algo (alguém chama nosso nome, por exemplo) e nos tira de nossos devaneios e fantasias para, daqui a alguns segundos ou minutos, voltarmos a outras elucubrações até que a história volte a se repetir.

Nos mundos superiores o processo é diferente: quando começamos nossas elucubrações e devaneios, a substância astral ou mental, por ser de extrema sutileza, toma forma e se materializa. Na verdade cristaliza nossos pensamentos e emoções, independente de que tipo sejam , e ficamos presos nas imagens externalizadas, gerando, por sua vez, outras imagens sobre as anteriores, criando assim uma verdadeira bola de neve que somente acaba quando acordamos. Ninguém nos tirará das ilusões criadas por nós mesmos, como ocorre no plano físico. Ficaremos presos dentro de nosso mecanismo emocional e mental. Não viveremos o real, aquilo que lá existe, e sim a ilusão formada por nós ou por entidades que lá habitam.

b) O segundo grande problema é a capacidade de fabricação de energia psíquica e a conservação da mesma. A energia psíquica é a que nos mantém despertos nas outras dimensões, é o somatório de todas as energias produzidas pelo correto funcionamento dos chakras, bem como as captadas durante o transcorrer normal do dia.

Por que estamos sempre esgotados ao final de um simples dia de trabalho?

Aqui precisamos falar novamente sobre a mecanicidade e a falta de consciência em que vivemos. As energias produzidas pelo metabolismo através da ingestão de alimentos físicos, não é suficiente para nos manter conscientes fora do corpo físico. Ainda porque nossa constante identificação emocional e mental com as coisas do dia-a-dia esgotam completamente a reserva energética que por ventura possa existir. Dai faz-se necessário tomarmos uma atitude mais contemplativa, onde a auto-observação constante será o gerador e acumulador de energias para o desdobramento consciente. Mesmo assim, quase sempre é necessário uma série de práticas de conteúdo energético antes de efetuarmos o desdobramento. Essas práticas visam ao acúmulo das energias e podem ser respiratórias, de meditação, vocalização de mantras para ativar os chakras necessários e outras. Abordaremos esse assunto com maiores detalhes ao final deste Curso.

Essa dificuldade (captar e manter energias) é inversamente proporcional a capacidade que podemos adquirir de permanecer constantemente atentos e ‘despertos durante o dia. Isto é, quanto mais autoconscientes de nossos atos, emoções e pensamentos, menor será a dificuldade para a aquisição e reserva de energia psíquica. Somente com muito esforço e dedicação, através de um estudo mais abrangente de cunho holístico (integral) chegaremos a despertar para essa possibilidade.

c) Sem dúvida outro grande obstáculo, talvez o primeiro deles, é a preguiça. Esse tipo de conhecimento não pode ser comprado em lojas ou adquirido em livros. Por isso a primeira seleção é feita naturalmente através da falta de persistência e dedicação de cada pessoa. Sivananda, um grande mestre do Oriente, certa vez afirmou: “Somente os fortes chegam a Deus’’ O cultivo da força de vontade é fator essencial. Sem ela é melhor nem dar início a este processo, estancaremos no primeiro obstáculo encontrado, e a preguiça quase sempre estará se escondendo atrás de suas diversas facetas.

d) Outro obstáculo importante a ser vencido é o medo. O medo, corno a preguiça, se manifesta de várias formas. Muitas vezes não nos apercebemos dele, mas ele está ali, arrumando desculpas e aliando-se á preguiça para nos afastar logo nas primeiras etapas. Não há por que ter medo. Nunca estamos sozinhos onde quer que estejamos. Geralmente tememos o desconhecido e, neste campo, o que mais encontraremos é o desconhecido.

Não devemos esquecer que o homem é a morada de Deus. Por acaso você daria ao seu filho alguma coisa que ele pudesse se machucar? Da mesma forma o Pai que está em oculto também não o faria, a não ser que você já estivesse pronto para cuidar de si mesmo sozinho. Mesmo assim Ele estaria atento, observando seu aprendizado.

O medo será vencido na medida que o combatermos e verificarmos o quanto era infundada nossa atitude.

e) A ansiedade é o último tem de nossa pequena lista. Cabe ressaltar a existência de outros bloqueios, mas quase todos giram em torno dos colocados nesse tópico.

A ansiedade gera desequilíbrio emocional, fácil de observar pela taquicardia (o coração pulsa rapidamente). Se houver desequilíbrio de qualquer espécie já não é possível o desdobramento consciente, isto porque há perda de energia e bloqueios na circulação da mesma.

Para se vencer a ansiedade recomendamos a prática constante dos exercícios descritos no final deste Curso. De acordo com o avanço dentro de cada exercício o estudante será capaz de dominá-la perfeitamente.

O QUE HÁ DO OUTRO LADO?

Na verdade são infinitas as formas de vida e os lugares existentes Impossível descrever tudo que existe ou aquilo que você encontrará. Tudo dependerá muito de você mesmo, pois as experiências estão sempre relacionadas a cada ser humano. Queremos dizer que as pessoas têm acesso somente aquilo a que merecem. Há que se ter crédito, caso contrário, nada conseguiremos.

De qualquer forma vamos enumerar algumas possibilidades, as mais comuns, possíveis de serem vividas por qualquer um que se aventure a investigar a realidade da existência de vida além da matéria física.

CAEM AS BARREIRAS DO TEMPO E DO ESPAÇO

O tempo e o espaço nada significam nas dimensões superiores ao plano físico. Ainda que existam, são totalmente diferentes. Logo, 01 (um) minuto lá pode equivaler a O 1 (uma) hora neste plano ou vice-versa.

Quanto mais sutil for a dimensão, menor significado terão essas duas barreiras, ao ponto de chegarmos ao limiar da eternidade.

Em conseqüência dessa quebra de conceitos tradicionais, poderemos acessar tanto ao passado como ter vislumbres do futuro, ainda que muitas vezes nem percebamos isso.

Como dissemos, não basta querer para conseguir, há que merecer.

Como é comum ocorrer em toda natureza, os fatos sempre acontecem naturalmente, sem grandes festas ou exageros, tal qual um por do sol, belo! simples e resplendoroso. Nós, infelizmente, distorcermos os fatos c fantasiamos situações comuns tornando-as inexistentes, e acabamos por não perceber as verdades mais profundas por estarmos impregnados de conceitos e preconceitos irreais.

Quando menos esperamos nos vemos em ambientes e épocas passadas, com roupas antigas, vivendo cenas as quais nunca antes presenciamos. Se não estivermos atentos, ou se mantivermos em nossa mente idéias e conceitos já pré-estabelecidos, provavelmente não seremos capazes de compreender o real significado daquele momento. Muitas vezes apenas vemos os acontecimentos, como se estivéssemos à janela de nossa casa observando as pessoas e os carros passarem. Como dissemos, devido à nossa falta de atenção, podemos até mesmo receber cátedras completas e nem nos darmos conta.

O futuro se apresenta de mesma forma: podemos ver claramente situações futuras ou conversar com pessoas que nos dão informações acerca dele, mas isso não quer dizer que tudo irá acontecer, pois o futuro não passa de uma série de possibilidades que podem ser modificadas. Tudo dependerá do nível de compreensão e, principalmente, da intuição e percepção do estudante.


COMO É O MUNDO ASTRAL?

Existem, nos mundos superiores, cidades e templos desconhecidos a este mundo em que vivemos. Cadeias de montanhas, mares, lagos… enfim, ao que vemos neste plano físico podemos somar outros tantos lugares, onde a maioria deles não podem ser encontrados na terceira dimensão.

Como existem outras dimensões além da nossa, existirão também sete subdimensões para cada uma delas. Por exemplo: o plano astral, sendo mais sutil que o físico, ainda se subdivide em outros graus de matéria interior a ele mesmo, sem, no entanto, sair desse plano para passar para o acima (mental). As paisagens encontradas no mundo físico fazem parte também dos planos astral e mental; todavia, não existem nas subdimensões mais sutis desses dois planos. Novamente daremos um exemplo para que fique claro esta afirmação: uma cadeira ou uma cidade, no mundo físico, têm sua contrapartida astral e mental nas primeiras subdivisões dessas dimensões (1º, 2º, 3º e 4º). No entanto, nas últimas subdivisões de cada dimensão (5º, 6º e 7º) deixam de existir, somente estando presente suas vibrações por demais sutis.

Por isso, voltando aos ambientes, numa projeção no plano astral, se for efetuada dentro de nossa casa e numa subdimensão inferior, poderemos encontrar tudo aquilo que há normalmente dentro dela. Algumas vezes encontraremos até mesmo objetos inexistentes ou que ainda ali estarão no futuro. Lembremos a quebra da barreira tempo e espaço.

Algumas vezes podemos também, numa projeção dentro de nossa própria casa, não encontrar nada do esperado. Nos vemos em outro lugar totalmente diferente, numa situação exótica ou simplesmente incomum. Nesse caso a projeção se fez numa subdimensào superior do plano astral, sem que percebêssemos este fato.

Geralmente as projeções iniciais sempre se dão nas primeiras subdimensões da dimensão astral. Inclusive, para ter acesso à dimensão mental e mesmo às subdimensões superiores do plano astral, é necessário muito domínio de si e do corpo astral. Além disso, precisaremos méritos para tal.

Não é tão difícil o desdobramento, existem inclusive pessoas materialistas ou de índole inferior que o executam; entretanto essas pessoas ficarão restritas às dimensões e subdimensões inferiores do plano astral e mental, quando não ac limbo, como iremos explicar no tópico mais adiante.

Numa experiência fora do corpo, respeitando os requisitos necessários poderemos visitar cidades perdidas ou Templos de Mistérios. As maiores c verdadeiras Escolas Esotéricas existem nas dimensões superiores. O que temos hoje neste mundo é um pálido reflexo dessas Escolas. Aprende diretamente com os Mestres, ou entrar em contato com o Mestre Interno que cada um possui não é utopia nem demagogia, ainda que muitos assim pensem.

Deixar de teorizar sobre civilizações antigas e sim estudar suas cidades costumes, além de conversar com as pessoas que lá viviam e ainda vivem, é outra possibilidade.

Se uma cidade desaparece, sua contrapartida astral mental continua existindo, a não ser que seja construída outra no plano físico onde antes estivera a antiga.

FORMAS DE VIDA

As formas de vida são tão variadas que vão desde as criaturas mais inferiores geradas pela mente humana, até os mais elevados Devas (deuses da natureza), cada qual ocupando a dimensão de acordo com suas vibrações Aqueles que possuem vibrações elevadas em conseqüência da espiritualidade vivem nas dimensões mais sutis e nas subdimensões intermediárias superiores de cada plano. Já as criaturas de baixa evolução, tanto as criada pelo homem (elementares) como os invólucros grosseiros dos mortos que ainda não se desprenderam da matéria, habitam as subdimensões inferiores a região chamada de limbo.

Como cada experiência fora do corpo estará de acordo com nosso nível de vibração, ou seja, nos projetaremos para a dimensão ou subdimensão à que temos afinidade, poderemos estar sujeitos a entrar em contato com cada um desses seres.

Nada acontece por acaso, e qualquer experiência é direcionada para nosso aprendizado, ainda que sejam desagradáveis num primeiro instante.

Aliás, não devemos nos preocupar, pois nada ou ninguém poderá nos fazer mal, mesmo porque é raro os seres mais inferiores se preocuparem com iniciantes.

Há alguns casos esporádicos onde nos veremos em situações diferentes do normal, mas isso sempre ocorrerá pré-definidamente, com finalidades muito especiais de aprendizado.

Em outras ocasiões poderemos nos assustar com os elementais (espíritos da natureza), pois eles são como as crianças, estão além do bem e do mal e só querem brincar e se divertir conosco.

De conformidade com o abordado acima, sempre é importante efetuarmos uma constante higiene mental, principalmente antes de deitarmos para sonhar ou para tentar a projeção consciente, pois o estado psíquico ou físico é que será responsável pela boa ou má experiência. Se, durante o dia, entrarmos em graves desentendimentos, tendo como fruto dessas desarmonizações, explosões emocionais e mentais, quase certamente numa projeção consciente nos veremos em subdimensões densas. Ainda que seja desagradável estar em locais inferiores, presenciando o sofrimento dos habitantes dessas paragens teremos nessa experiência grande material de crescimento.

Um mal-estar causado por indigestão, ou mesmo deitar-se de estômago cheio pode provocar efeito semelhante, projetando-nos para locais mais densos.


OS ELEMENTARES

Elementares são formas de vida criadas pelo homem; na maioria das vezes sem intenções de fazê-lo, ou seja, inconscientemente. São chamados também de formas-pensamento.

Cada pensamento ou desejo ganha forma e se materializa nas dimensões e subdimensões correspondentes. Assim, um pensamento ou uma emoção sublime se cristaliza através de cores radiantes, ondas sonoras harmônicas e formas de beleza estética. Logicamente isso ocorrerá conforme a intensidade e a persistência de cada desejo e pensamento. Algumas vezes, nos pensamentos mais rápidos, surgem apenas formas luminosas também rápidas que logo se apagam. Outras vezes, as emoções e os pensamentos são tão intensos que perduram e acabam por fazer parte da aura humana.

O caso contrário também ocorre. Emoções e pensamentos negativos criam cores e sons feios e desarmônicos. Quando são intensos e constantes, materializam-se em formas de bestas e animais medonhos, permanecendo em volta da pessoa que a criou durante anos ou até mesmo por toda vida. Em outros casos essas formas-pensamento passam a não só obsidiar seu criador, mas sim todas as pessoas que estejam em seu raio de alcance. Muitas vezes sobrevivem durante anos e anos após a morte daquele que a gerou, pois seu alimento pode ser tirado de qualquer pessoa cuja afinidade vibracional se compatibilize com a de seu criador.

As pessoas cujo hábito de drogar-se é constante, acabam por criar meios artificiais para contato com esses e outros seres ainda piores, isso quando não acessam regiões proibidas ao homem comum. Forçam sua passagem para o mundo tenebroso e acabam sintonizando cada vez mais suas próprias vibrações com as vibrações rudimentares desses planos. Entram em contato com criaturas que realmente existem, quando não, partes obscuras de si mesmos. Os incubos e súcubos citados com freqüência nas histórias da Idade Média, são justamente essas formas obsessoras geradas pelo mau uso da energia sexual. Essas criaturas, algumas vezes horríveis e outras vezes aparentemente formosas, provinham dos recendidos mais escondidos do subconsciente, e eram engendradas pelo desejo sexual reprimido e distorcido por isso eram tão fortes ao ponto de se materializarem no mundo físico.

Existem formas de proteção simples que cada projetor deve saber, caso se veja em situações negativas e precise enfrentar formas-pensamento. A maioria dessas situações são facilmente contornáveis. Novamente realçamos a necessidade de tirar aprendizado de fatos como esses.

Assim sendo, colocamos 05 (cinco) precauções que todo projetor deve ter ciência:

1. A primeira precaução é não ter medo. O medo lhes alimenta e dá força.

2. Em caso de se deparar com qualquer entidade aparentemente negativa mantenha-se em estado passivo, como observador, procurando emitir-lhe pensamentos de amor e harmonia. Somente isto já seria suficiente para afastar essas criaturas, ou simplesmente fazer você mesmo se translada para outra subdimensão mais sutil, onde as formas-pensamento não podem incomodar.

3. Você pode transladar-se tanto das dimensões e subdimensões mais elevadas para as menos elevadas e também o contrário, da de menos vibração para a de maior; as formas-pensamento somente no sentido “de cima para baixo’.

4. Nunca parta para a agressão, pois isso fere o principio de que somente  pode se combater o ódio com amor. Mesmo porque você acabará por se identificar completamente, esquecendo-se de si mesmo e caindo no som hipnótico. E necessário manter-se atento e autoconsciente todo o tempo pois o risco de mecanizar-se novamente, adormecendo a consciência, maior que no mundo físico.

5. Existem certas frases mágicas, chamadas conjurações, cuja função é exatamente afastar as entidades nocivas do plano astral ou mental. Daremos algumas delas, mas elas devem ser decoradas e usadas com fé, imaginação e vontade, se é que você quer fazê-las funcionar. A oração possui um poder gigantesco e, muitas vezes, tem o mesmo efeito das conjurações.

a) KLIM, KRISHNAYA, GOVINDAYA, GOPIJANA, VALLABHAYA, SW(JAHA)

b) HELION, MELION, TETRAGRAMATON

o) EM NOME DO CRISTO, PELO PODER DO CRISTO, PELA FORÇA DO CRISTO, EU TE CONJURO … (dizer o que está conjurando)

d) EM NOME DE MICHAEL QUE JEHOVAH TE MANDE E TE AFASTE DAQUI, CHAVAJOTH. EM NOME DE GABRIEL QCIE ADONAI TE MANDE E TE AFASTE DAQUI, BAEL. EM NOME DE RAPHAEL DESAPARECE ANTE ELIEL, SANGABIEL. POR SAMAEL SABAOTH E EM NOME DO ELOHIM GIBOR, AFASTA-TE, ANDRAMELECK. POR ZACARIEL ET SECHELMELECH, OBEDECE ANTE ELVAH, SANAGABRIL. PELO NOME DIVINO E HUMANO DE SADAI E PELO SIGNO DO PENTAGRAMA QUE TENHO NA MINHA MAO DIREITA, EM NOME DO ANJO ANAEL E PELO PODER DE ADÃO E DE EVA, QUE SÃO JOTCHAVAH, RETIRA-TE LILITH; DEIXA-NOS EM PAZ, NAHEMAH. PELOS SANTOS ELOHIM E EM NOME DOS CIËNIOS CASHIEL, SEHALTIEL, APHIEL E ZARAHIEL, E AO MANDATO DE ORIFIEL, AFASTA-TE DE NÓS MOLOCH. NÓS NÃO TE DAREMOS NOSSOS FILHOS PARA QUE OS DEVORES. AMÉM. AMÉM. AMÉM.

O MUNDO DOS MORTOS

Numa subdimensão intermediária do plano astral existe uma região que alguns povos antigos chamavam de limbo ou orco. Na terminologia cristã chama-se purgatório.

Esta região pode ser comparada a um cone de penumbra intermediando a luz e as trevas. A Luz aqui é representada pelas dimensões superiores do mundo astral ou mesmo do mundo mental. As trevas, por sua vez, representam as regiões submersas ao planeta terra, onde a densidade da matéria chega a ser superior a existente no plano físico. Parece impossível conceber dimensões inferiores à terceira dimensão na qual vivemos, no entanto essas regiões existem e são conhecidas em todas as religiões como ‘infernos”. No Oriente a religião hindu a chama de avitchi.

É interessante traçarmos paralelo com a astrofísica, pois esta tem descoberto estrelas minúsculas, muito menores que o nosso sol, cuja densidade atômica equivale a densidade de diversos sistemas solares ou até mesmo galáxias.

Isto prova como é possível existirem mundos imensos comprimidos em espaços fisicamente pequenos, o que corresponde a constante descrição, pelas religiões de todo mundo, dessas regiões abismais. Aliás, como já vimos, o espaço físico praticamente inexiste quando falamos em dimensões.

Não podemos deixar de citar a profunda relação existente entre os mundos externos e internos ao homem. Assim descreve a grande Lei Oculta: “como é em cima é em baixo, e o que está dentro é igual ao que está fora”, logo, o homem possui em si mesmo a parte abismal da natureza, e podemos encontrá-la nas regiões infraconscientes da mente. Lembremos como as vibrações afins se atraem mutuamente. Por isso, aqui abrimos pequena lacuna para alguns questionamentos:

De onde mais poderia vir tamanha crueldade quando vimos os crimes mais infames provocados pelo homem? De onde poderia ter saído a música inferna e as pinturas que representam figuras grotescas e totalmente sem harmonia e estética? Se refletirmos um pouco compreenderemos como a natureza anima e infraconsciente tem se apoderado quase que completamente da humanidade no sentido geral. A inversão total dos valores mais sagrados e tradicionais da humanidade deixaram a mercê os instintos. Em outras palavras, o homen perdeu o controle sobre si mesmo, as portas de seus infernos foram abertas Assim, mais do que nunca, este curso insiste na necessidade de mudança radical em cada individuo. Recuperar os valores arquetipicos faz parte de grande aventura do homem quando pretende vencer as barreiras que o separam dos universos paralelos. É ilusão acreditar que, tal como estamos podemos ter acesso à sabedoria sagrada contida nesses mundos.

Dando continuidade ao exposto nos parágrafos anteriores, dentro das experiências fora do corpo, essas regiões inferiores somente podem sei acessadas pelo projetor em casos muito especiais, quando ele necessite aprender e é conduzido por seres inteligentes através de seus umbrais Temos na literatura de todos os tempos grandes exemplos que o mundo até hoje não chegou a compreender. Obras julgadas infantilmente como ficção pelos cépticos e materialistas: A Divina Comédia de Dante; os relatos da descida de Orfeu aos infernos; da mesma forma Hermes e (Ullisses tiveram que descer á morada de Plutão (regente do mundo subterrâneo); Hércules ac executar parte de seus doze trabalhos (principalmente a luta com Cérbero Guardião dos infernos na mitologia) e, enfim, tantos outros relatos antiqüíssimos e até mais recentes espalhados pelo mundo com roupagem religiosas, míticas, mitológicas, etc.

Já a região intermediária, aqui chamada de cone de sombra, é o limite para projetor comum. Ali ele se deparará com os invólucros dos mortos, como aqueles que morreram e ainda não sabem. Essas pessoas mortas ainda estão presas ao mundo pelo apego e pelo desejo de perpetuar as sensações físicas pela dor dos parentes e amigos que em vida choram, também desejando presença constante do morto neste mundo novamente; pelas sessões mediúnicas que levam ao morto tudo aquilo que tinha em vida, cedendo corpo humanos através de médiuns ou abrindo canais de comunicação com eles. Por essas e outras razões tais desencarnados permanecem perambulando a solta pelo limbo, atraídos e presos ao plano físico.

Quando nos projetarmos certamente poderemos entrar em contato com essas pessoas. Veremos que o corpo astral do desencarnado, sede do desejo inconsciente após a morte, vaga como um sonâmbulo pelo mundo astral, repetindo todas as atividades feitas durante a vida. Permanece revivendo seus sofrimentos e ampliando suas angústias, ansiando os prazeres antigos que os sentidos ofereciam e externalizando, como num pesadelo, suas cobiças e ambições. Poderemos tentar ajudar essas pessoas, mas pouco conseguiremos fazer, pois somente elas terão que se livrar dos fantasmas gerados pelo passado.

Poderemos ser vitimas de obsessões nessas regiões, assim como pode ocorrer com os elementares. Essas criaturas precisam de luz, de vida e amor. Uma pessoa projetada, ainda mais se estiver consciente, traz um campo energético considerável que atrai esses invólucros autômatos. Não o fazem por mal, muitas vezes, mas sim por necessidade. Em tais situações basta tomarmos as atitudes citadas no tópico sobre elementares.

Na medida do desprendimento das emoções e apegos baixos, o invólucro astral mais denso começa a se desfazer, e essas pessoas mortas vão como que tirando as roupas mais pesadas para poderem transcender as subdimensões, chegando a realizarem o mesmo processo na dimensão mental. Assim, a certa altura, podemos entrar em contato com a essência divina que o ser humano carrega dentro de si, já livre de seu passado e apenas aguardando novo corpo para retornar. Quando falamos em essência divina não estamos nos referindo á personalidade, mas sim àquilo que já existia e sempre existiu num homem antes mesmo dele nascer. Poderíamos, por exemplo, entrar em contato com a essência de uma criança que está por vir e saber, diretamente dela, o que aqui veio fazer, qual sua missão e até mesmo quais foram suas existências passadas.

A essência humana é o verdadeiro ser imortal, é o fragmento divino que devemos despertar em nós, a fim de fazê-la fluir perfeitamente através dos valores transitórios da personalidade.

UBIQÜIDADE E ESTADO DE JINAS (4ª DIMENSÃO)

Este tópico foi incluído à parte, pois não podemos deixar de citar dois casos especiais relacionados, de certa forma, com as experiências fora do corpo.

O primeiro deles é o dom da ubiqüidade, ou seja, a capacidade que uma pessoa tem de deslocar-se, ao mesmo tempo, para dois ou mais locais diferentes com o corpo projetado. Este fenômeno é raro mais pode ser encontrado em algumas literaturas.

Na medida que o projetor aprende a dominar seus corpos sutis e a usar o poder da Vontade nas projeções, bem como na medida que ele cria para si corpos mais poderosos através da Alquimia, ele se vê livre das técnicas e pode projetar-se quando quiser e aonde estiver, mesmo que seu corpo físico não esteja repousando sobre uma cama ou cadeira. Isto quer dizer que é possível continuar trabalhando, estudando ou dando uma conferência e, ao mesmo tempo, estar projetado em outro lugar com o corpo sutil tendo uma entrevista com alguém sem que as demais percebam este fato. O próximo passo é adquirir a ubiqüidade, já que obteve total controle sobre os demais corpos Neste caso pode-se estar em diversos locais diferentes ao mesmo tempo, realizando também diversas tarefas sem ligações umas com as outras.

Logicamente estamos falando de pessoas muito desenvolvidas? verdadeiros super-homens dentro do esoterismo. Esta possibilidade, para ser exercida com total domínio, somente pode existir quando se chega ao estado de polividência ou elevado nível de consciência.

Tão fabuloso ou mais que a ubiqüidade é o estado Jinas. Colocar-se em Jinas é colocar o corpo físico na quarta coordenada (quarta dimensão).

Este fenômeno, também conhecido por Nagualismo ou Licantropia, foi muito usado pelos feiticeiros (Naguais) dos povos antigos da América Central (Astecas, Toltecas, Zapotecas, Maias, etc.).

Ainda hoje existem pessoas que dominam as técnicas do estado Jinas. Podemos encontrar referências nas obras de Carlos Castaffleda, antropólogo que travou contato com essa cultura. Isto só para citar obras e autores mais conhecidos e contemporâneos. Em Jinas é possível até mesmo mudar a forma física do corpo, dando a ele aspecto animal ou de outra criatura qualquer. Muitas lendas tenebrosas advém dos relatos de pessoas que viram essas transformações (lobisomem, por exemplo).

Em Jinas também é possível deslocar o corpo físico para qualquer lugar do planeta – sobrevoar rios e mares, atravessar rocha sólida e ainda caminhar sobre as águas, como fez o Mestre Jesus.

PROJEÇÃO INTERIOR

Quando falamos em experiências fora do corpo somente imaginamos o desdobramento da consciência para o mundo circundante (externo). Mais importante ainda é saber da possibilidade em projetar-se para dentro de si mesmo. Isso pode ocorrer de duas formas:

1. A projeção é efetuada dentro de nosso sistema vegetativo, ou seja, podemos ver o interior de nosso corpo. As veias, as funções vegetativas tais como o coração, o fígado e outros se tornam translúcidos para nós. Passamos, muitas vezes, a fazer parte desse sistema, como se fôssemos ele próprio, detectando possíveis doenças ainda não manifestadas.

2. O outro tipo é muito mais intrigante, pois a projeção ocorre dentro do universo psíquico que possuímos: nossos pensamentos, emoções e fantasias ganham vida e são materializados tal como são. O macro-universo e o micro-universo se fundem nesses momentos, por isso podemos entrar em contato com a divindade que existe dentro de cada ser humano. A frase Evangélica: “O homem é a imagem e semelhança de Deus” expressa muito bem o que acabamos de falar, e é essa divindade que buscamos. A essência a que nos referíamos no último tópico não passa de um fragmento da presença de Deus no homem.

Os arquétipos representam a perfeição de todos os valores sublimes cultuados pela humanidade. Tais arquétipos também se manifestam individualmente, por isso o Deus interior também manifestar-se-á através das imagens e símbolos por nós considerados perfeitos: o budista verá Buda, o cristão verá Cristo, o hinduísta verá Krishna. Na verdade, todos serão a mesma centelha divina manifestado na sua multiplicidade de formas.

Todavia, apesar de possuir a centelha divina, o homem a mantém imanifestada, pois a imperfeição humana não pode coexistir com a perfeição divina. Dai possuir em seu interior a semente do mal, a qual gerou uma série de artifícios para afastar o homem da pureza original. Assim, o orgulho, a vaidade, a luxúria, o ódio e outros também terão suas manifestações nas infradimensões do inconsciente humano, e serão vasculhados e encarados cara-a-cara nas projeções interiores.

Uma árvore, para lançar seus galhos o mais alto possível, deve projetar suas raízes no lodo mais profundo e sombrio da terra. Teremos que descer ao lodo mais profundo de nossa “terra psicológica” para projetarmos nossos galhos e nossos frutos acima das nuvens.

Quando nos deparamos com essas criaturas, que na verdade fazem parte de nós mesmos, veremos nossas imperfeições materializadas de acordo com a densidade correspondente a cada uma delas. Teremos que nos enfrentar diante de um espelho, e a visão, muitas vezes, não nos agradará nem um pouco.

O COMPORTAMENTO DURANTE A VIAGEM ASTRAL

Como comportar-se do outro lado? Em conformidade com nossas atitudes e comportamento é que poderemos tirar maior ou menor proveito das experiências realizadas.

Após a projeção consciente, seja através de qualquer técnica, deveremos tornar algumas atitudes importantes para nos manter conscientes durante maior tempo possível. Nossa consciência permanecerá “desperta” de acordo com a quantidade de energia psíquica armazenada anteriormente, e de acordo com a capacidade de não identificação com os acontecimentos em nossa volta. Isto, pois, a identificação leva a perda de energia, e esta a adormecimento e ao sono. Assim, uma experiência que pode começar lúcida acaba se tornando um sonho, podendo acontecer também o contrário como iremos colocar mais adiante.

Para permanecermos despertos será importante sempre a posição passiva, ou seja, contemplativa. O bom observador não julga, não analisa, não interfere apenas observa. Caso faça o contrário com certeza interferirá no: acontecimentos, inclusive externalizando e cristalizando pensamentos 4 emoções sem perceber, e estes colocarão em risco a autenticidade & experiência.

A percepção deve ser ampliada juntamente com a intuição, pois ambas terão papel fundamental na vida de todo projetor, inclusive não só durante a experiências fora do corpo, e sim também no estado de vigília. Para ias seremos obrigados, mais uma vez, frisar o estudo holístico de si mesmo, pois será necessário tomar contato com outras disciplinas esotéricas para obter que somente a Projeciologia não pode nos oferecer. De qualquer forma, num experiência fora do corpo, percebe-se certos poderes latentes com mais clareza, e podemos dizer até mesmo que fazemos uso deles naturalmente mas não adequadamente.

Para o projetor iniciante não é fácil dominar o veiculo recém descoberto. Não temos controle sobre ele e somos facilmente desviados de nosso objetivo pelas circunstâncias e maravilhas que encontramos numa experiência. Aprender a usar a Vontade superior como condição de deslocamento será importante, pois é justamente essa Vontade aliada ao autodomínio que nos conduzirá pelas dimensões e subdimensões.

É interessante traçarmos nossos objetivos antes de efetuarmos a projeção para não acontecer o acima citado, nos perdermos no emaranhado de coisas novas encontradas. Se anteriormente à projeção já sabemos o que queremos, após nos vermos do outro lado, fixaremos nossa idéia no objetivo e poderemos fazer da idéia motivo de meditação e profunda reflexão. O resto a própria natureza se encarregará de fazê-lo, pois somente o fato de nos concentrarmos naquilo desejado já acarreta um deslocamento dentro do tempo e do espaço.

Ainda assim não é tão fácil como parece. A verdade é que somos débeis e fracos, falta-nos atenção, concentração, persistência … por isso é importante ter humildade e solicitar à Divindade interior (alguns chamam de mestre interno) que nos transporte para o local desejado se assim merecermos. Devemos ter em mente que, em última análise, tudo, absolutamente tudo está nas mãos de Deus.

Se não tivermos traçado nenhum piano anterior ao desdobramento, poderemos simplesmente aguardar que os fatos ocorram, ou sair caminhando pelo local onde estivermos a fim de estudarmos detalhadamente tudo que houver no ambiente.

Além de caminharmos podemos nos deslocar da forma a qual nos agradar melhor. Podemos caminhar, flutuar, voar ou qualquer outra maneira de locomoção mais original, quanto menos esforços fizermos melhor, menos energias gastaremos.

A atenção deve estar sempre voltada para si mesmo (interiorizada) ao mesmo tempo que examinamos o local ou os seres com quem estivermos.

Nas projeções efetuadas nas subdimensões mais densas de cada plano nos depararemos com os objetos e obstáculos existentes no plano físico. Eles podem ser simplesmente atravessados com nosso corpo astral, isto é, podemos atravessar paredes, portas e coisas desse tipo, isso se não tivermos medo e dúvidas, porque nesses casos externalizaremos uma angústia imperceptível para nós, mas suficiente para bloquear essa possibilidade.

EXERCÍCIOS PREPARATÓRIOS

É impossível padronizarmos qualquer prática, técnica, exercício ou experiência. Cada pessoa deve encontrar aquela que lhe proporcione maior facilidade de projeção. No entanto existem alguns pontos básicos de onde podemos partir, e o resultado dependerá da dedicação exclusiva de cada estudante.

Recomendamos o cumprimento da seqüência abaixo para surgir o efeito desejado.

a) Os exercícios devem ser efetuados antes de dormir ou de manhã bem cedo Temos observado que pela manhã os resultados são melhores. Todavia estudante poderá adaptar seus horários conforme sua necessidade.

b) Exercícios de mantras, concentração e meditação para ativar os chakras e acelerar a vibração dos corpos mais sutis. Os chakras responsáveis pelo desdobramento são o superior, frontal, cardíaco e do plexo solar. A mantralização deve ser feita durante dez minutos para cada chakra, oi podemos estipular um número especifico (30 vezes para cada um, por exemplo).

• Para o chakra superior e frontal o mantra “1” (concentrando-se entre a sobrancelhas).

• Para o chakra cardíaco o mantra “0” (concentrando-se no coração).

• Para o chakra do plexo solar o mantra “1” (concentrando-se dois dedo acima do umbigo).

Aprender o correto uso da meditação, aliado ao poder da imaginação, será de grande valor para a ativação dos chakras e circulação das energias a fim d uma total harmonização. Podemos fazer os mantras na posição deitado em decúbito dorsal ou sentado. O importante é manter a coluna reta.

c) Ao deitarmos, o relaxamento completo sempre é recomendável, ainda mais se iremos tentar a projeção consciente. A música serve de estimulo ao relaxamento, no entanto somente músicas adequadas podem ser usadas: música sacra, erudita, new age ou especial para relaxamentos. Deve ser agradável e induzir introspeção. (Este item pode ser suprimido se desejar).

d) Exercício respiratório para oxigenação e energização. Quanto mais tenta e profunda for a respiração maior será o estado de interiorização do estudante. Esses exercícios respiratórios devem ser efetuados após o exercício ‘b”, durante o tempo necessário para se atingir o estado de completa concentração e relaxamento (20 minutos, por exemplo). Após o exercício a respiração pode normalizar-se.

e) É imprescindível a autopercepção constante, concentração e imobilidade completa.


TÉCNICAS

Os exercícios do tópico anterior são os pontos primários e qualquer pessoa que esteja se iniciando na Projeciologia deve passar por eles sem suprimir nenhuma das partes. A partir daqui entra a experiência individual de cada estudante. Mas, ainda assim, existem algumas técnicas possíveis de serem passadas.

Lembramos a necessidade de experimentar todas para descobrir a que mais se adaptará ao seu biótipo.

Na verdade existem muitas técnicas diferentes, mas elas giram todas em torno dos pontos abordados a seguir.

Qualquer técnica, para ser eficaz, deverá ser experimentada após o estudante ter seguido as dicas e exercícios abordados no item 13, e ainda sim durante o período de 30 dias consecutivos, no mínimo. Algumas pessoas conseguem êxito em poucas semanas, outras podem necessitar de meses.

a) Imaginação gradativa: o estudante usará o poder da imaginação aliada à concentração e à vontade para se induzir a um estado de projeção. Criará na sua tela mental o processo de desdobramento.

Primeiro sentirá torpor em todo corpo, depois sentirá seu corpo astral e sua consciência, nele centralizada, desligar-se lentamente do corpo físico. Depois se imaginará subindo e deslocando-se através das regiões superiores ac físico.

Este processo deverá ser feito muito lentamente, etapa por etapa, tantas vezes quanto necessário. É bom deixar claro que a projeção é algo distinto de imaginação, fácil de ser separado. Mesmo assim, no inicio, o estudante poderá ter dúvidas, mesmo porque, não possuindo energia suficiente pan estar completamente ‘desperto’ no plano astral, sua experiência poderá se confundir com o sonho lúcido, até adaptar-se à nova realidade. No entanto isso não é regra geral.

b) Meditação transitória: nutra técnica que será usada ao término dos exercícios de preparação é a meditação transitória.

Após os exercícios iniciais, o estudante deitar-se-á em decúbito dorsal, braços esticados (posição esta padrão para todas as técnicas) e relaxado.

Entrará em meditação profunda, contemplando sua mente e seus pensamentos. Não julgará e nem se identificará corri as idéias, apenas deve aguardar a hora em que o sono começa a se apoderar do corpo.

Quando perceber que chegou o limiar entre vigília e sonho, quando começar a observar na tela mental imagens desconexas, ele simplesmente usará sua vontade e levantará.

Terá saído de seu leito corri o corpo astral, por isso deverá se afastar da cama para não retornar ao corpo físico devido a forte atração exercida pelo cordão de prata. Após distanciar-se alguns metros, poderá começar a exploração do ambiente.

Para o estudante se certificar que está fora do corpo pode dar um pulo ou puxar seu dedo indicador, se sair voando no primeiro caso, ou se seu dedo esticar, não deve se espantar, pois está desdobrado. Caso não o esteja, deverá reiniciar o processo.

Na tentativa de levantar-se do leito no momento de transição vigília-sono, se sentir seu corpo pesado, poderá rolar ou engatinhar, o importante é afastar-se do leito conscientemente.

c) A técnica da pineal: pineal é uma glândula situada aproximadamente no centro de nosso crânio. Juntamente com a glândula pituitária rege todas as demais do corpo. Nos corpos sutis existem os chakras superior e frontal, ambos ativados com o mantra “1”.

Após os exercícios iniciais, tomaremos a posição padrão de meditação e nos manteremos concentrados o tempo inteiro na região do entrecenho, colocando, se possível, a ponta da língua na região superior do céu da boca para estimular esta glândula e este chakra. A partir daí é só aguardar e manter a consciência desperta o tempo todo, deixando que o sono se aproxime, mas sem sucumbir à sua força adormecendo completamente.

A estimulação dos chakras aumentará a freqüência vibratória do corpo astral, projetando-o para fora da matéria densa. Pode-se adaptar esta técnica à técnica da meditação transitória (“b”).

d) A projeção no corpo mental: para a projeção no corpo mental será necessário, quase sempre, completo domínio do corpo astral, haja vista ser o processo idêntico ao necessário para projetar-se no corpo astral. Todavia esta técnica se torna difícil devido a necessidade de realizá-la no plano astral, quando o estudante já está de posse deste veículo.

Neste caso o projetor deixará seu corpo astral repousando e se projetará com o corpo mental exatamente como fez para sair com o veículo anterior na técnica da meditação transitória.

e) Despertar no sonho: neste caso não temos propriamente uma técnica, mas sim conseqüência do processo de autopercepção diária abordado em alguns tópicos desse Curso.

Durante o sonho começaremos a nos dar conta que algo anormal está acontecendo (estamos conversando com uma lebre, por exemplo). Este fato será o catalisador para pararmos o que estivermos realizando e começarmos a simplesmente observar o local onde estamos, como estamos e o que estamos fazendo.

“Despertaremos” no astral e deixaremos de sonhar, tornando as rédeas dos acontecimentos e nos direcionando de acordo com a nossa vontade (se a tivermos).

Podemos usar três dicas durante o dia (quando em estado de vigília) para facilitar este fato:

A primeira delas é nos perguntarmos constantemente sobre o que estamos fazendo.

Nesses instantes focalizaremos atenção plena sobre nós e os acontecimentos ocorrendo em nossa volta. Em outras palavras, nos lembraremos de nós mesmos.

A segunda e a terceira das dicas nós faremos em qualquer local ou momento: pararemos nossas obrigações momentâneas, puxaremos nosso dedo indicador e daremos dois “pulinhos”. Como vimos, nossos atos diários são repetidos nos sonhos, se estivermos atento, estes pequenos fatos serão suficientes para nos darmos conta que estávamos sonhando.

Cuidado apenas para não mecanizar também esses atos. E necessário fazê-los atentamente, pois caso contrário o estudante também o repetirá no astral de forma mecânica, perdendo completamente a finalidade e não resultando em consciência desperta.

Finalizaremos as técnicas com dois manhas que são, por excelência, os mantras da projeção astral. Eles deverão ser feitos diariamente até obtermos resultados.

primeiro é o Mantra FARAON:

FFFAPAAAA-RRRRRAAAAA00000NNNNN. Deve ser pronunciado na medida que vem o sono e o adormecimento. Nesses momentos o estudante se concentrará nas pirâmides do Egito para que as forças elementais possam sacar a pessoa conscientemente fora de seu corpo.

O outro Mantra é conhecido como som do grilo, pois se parece com o silvo agudo deste pequenino inseto, O Mantra é a letra S, pronunciado assim:

SSSSSSSSSSSS. A concentração e a vontade aumentará a vibração que este som provoca em nosso corpo até que o mantra se confundirá com o próprio som do deslocamento do corpo astral.

Fundação Aun Weor

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/curso-de-projeciologia-viagem-astral/

O Mapa Astral de Aleister Crowley

Aleister Crowley (12 de Outubro de 1875 – 1 de Dezembro de 1947), nascido Edward Alexander Crowley, foi um influente ocultista inglês, responsável pela fundação da doutrina Thelema. Ele é conhecido hoje em dia por seus escritos sobre magia, especialmente o Livro da Lei, o texto sagrado e central da Thelema, apesar de ter escrito sobre outros assuntos esotéricos como magia cerimonial e a cabala.

Libriano com Lua em Peixes, Ascendente em Leão e Caput Draconis em Áries. Uma pessoa que possui uma percepção dos outros e o íntimo em estreito contato com o Plano astral, que gosta de aparecer e de se mostrar e ao final de sua vida, terá se tornado um líder.

O gosto de Crowley pelo oculto vem da combinação forte de Júpiter em conjunção a Mercúrio (em Escorpião), que indica não apenas que a mente de Crowley procurava buscar o que há de mais profundo nos mistérios como seu facilitador natural também o impulsionava para tal. Mercúrio em Escorpião é a mente daqueles que desejam desvendar mistérios, encontrada tanto em céticos quanto em ocultistas.

O Planeta mais forte do Mapa de Crowley é Plutão (em Touro), que indica uma pessoa voltada para experimentar tudo o que a vida pode oferecer. Sua combinação com a Lua em Peixes (em sextil de 0,2 graus) faz com que ele canalize estas experiências para o Plano Astral e escapismo da realidade. Esta combinação é comum em viciados em jogos ou drogas (o caso do Crowley). Some-se esta energia com sua curiosidade e facilidade para buscar o que há de experiências mais profundas (Mercúrio e Júpiter em escorpião) e você tem um mapa de alguém que está disposto a testar todos os limites da experimentação.

Marte é o Planeta que mostra como a pessoa briga, planeja e executa suas ações. Marte em Capricórnio é o guerreiro-planejador-estratégico, muito encontrado em militares de carreira e também em jogadores de xadrez ou outros esportes que exijam calma, planejamento e disciplina (alpinismo, por exemplo).

Uma Aspectação interessante no Mapa de Crowley é a Oposição Urano em Leão (facilidade em exibir-se para os outros) e Saturno em Aquário (facilidade para organizar/controlar/estar responsável por grupos de pessoas). Com Sol e Vênus em Libra (diplomacia), fica fácil entendermos como Aleister conseguiu mesclar e utilizar todos estes recursos e se tornar “o homem mais perverso do mundo” segundo os jornais sensacionalistas…

Engraçado notar que, ao contrário de outros ocultistas como Arthur Waite (que tinha Marte/Vênus em Virgem) ou este que vos escreve (Marte/vênus em Virgem) que abordam o ocultismo de uma maneira mais enciclopédica (pesquisar, anotar, comparar, catalogar…) Crowley era um verdadeiro porra-louca, que precisava experimentar e testar tudo em sua própria pessoa para obter o conhecimento direto em primeira mão.

Acabou quebrado e falido, mas deixou seu legado para toda a posteridade.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-mapa-astral-de-aleister-crowley

A Origem do Conflito Igreja X Maçonaria

Conflito que opõe a Igreja Católica e o governo brasileiro entre 1870 e 1875. É causado pelo choque entre a hierarquia católica e a maçonaria, muito influente no Império. Esta sociedade secreta, ligada a idéias e movimentos políticos liberais na Inglaterra e na França, chega ao Brasil no final do século XVIII. Durante o processo da independência e no decorrer do Império aumenta seu prestígio social e sua presença na estrutura de poder. As maiores figuras do regime, com raras exceções, pertencem aos seus quadros. No dia-a-dia do governo e nas decisões administrativas como nomeação de funcionários ou destinação de recursos orçamentários , a maçonaria é um canal de influência e de mediação, paralelo e por vezes superior aos partidos políticos. Essa atuação da maçonaria colide com a atuação da Igreja Católica, também muito influente no período imperial. Em 1871, o Vaticano impõe regras rígidas de doutrina e de culto e condena as sociedades secretas. Os bispos brasileiros, acatando as novas diretrizes, determinam a expulsão dos maçons das irmandades católicas e passam a exigir mais disciplina moral e canônica do clero.

O conflito Se a maçonaria tem poder político, a Igreja tem autoridade e presença religiosa, fortalecidas pela condição privilegiada do catolicismo como religião oficial do império. O conflito começa em 1872, quando o padre Almeida Martins é suspenso de suas funções no Rio de Janeiro por causa de um discurso em uma loja maçônica. A reação da maçonaria, condenando a decisão, espalha-se pelo país. Mas, logo em seguida, os bispos de Olinda e de Belém do Pará, dom Vital e dom Macedo Costa, tomam atitudes semelhantes, mandando fechar as irmandades que ainda aceitavam membros maçons. Os bispos são então processados pela justiça, convocados ao Rio de Janeiro e condenados a quatro anos de prisão. Depois da suspensão das punições eclesiásticas aplicadas aos maçons, a pena dos bispos é reduzida e eles são anistiados. Esse conflito abala as relações entre o império e a Igreja e contribui para enfraquecer ainda mais a monarquia. A partir da proclamação da República, em 1889, passa a vigorar a separação entre Igreja e Estado, que deixa de ter uma religião oficial.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-origem-do-conflito-igreja-x-maconaria/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-origem-do-conflito-igreja-x-maconaria/

A Prática Vodu

1 – Introdução ao Vodu

Vodu é uma tradição espiritual originada no Haiti durante o período de escravidão colonial francesa. Africanos de muitas linhagens étnicas foram transportados à força para o Haiti, para servirem principalmente como escravos agricultores. Os povos nativos das ilhas, os Taino e os Carib, foram exterminados pelos espanhóis durante as primeiras invasões. Durante este período histórico, europeus da França e de outros países, incluindo deportados pro-Stuart da Escócia, radicaram no Haiti. Devido à tantas linhagens estarem representadas, nenhum culto africano poderia satisfazer todos os participantes, pois a reverência aos ancestrais era muito importante. Entretanto, cada nação tomaria sua vez num encontro. Essa alternância de cultos eventualmente evoluiu para a ordem cerimonial da liturgia Vodu. Durante este período formativo é que foram adotadas também entidades européias pré-cristãs, como Brigid, ou Maman Brigitte na tradição vodu. Também houve uma pequena influência das populações restantes de Tainos e Caribs.

Também há sectos no Vodu, assim como em tantas outras religiões. O primeiro e mais amplamente conhecido é o Vodu Ortodoxo. Nesta seita, o Rito Dahomeano tem posição de primazia e as iniciações são conduzidas com base principalmente no modelo dahomeano. Um sacerdote ou sacerdotisa recebe o asson, um chocalho ritual, como símbolo do sacerdócio. Neste rito, um sacerdote é chamado de Houngan, ou às vezes de Gangan; uma sacerdotisa é conhecida como Mambo.

No vodu ortodoxo, as linhas Iorubás também têm certa proeminência. Outras nações ou linhagens que não a Dahomeana são vistas com menor importância, como subtítulos na ordem cerimonial. Este rito é amplamente representado no Haiti, e concentrado em Port Au Prince e no sul do Haiti.

O segundo secto é chamado de Makaya. Neste rito, as iniciações são menos elaboradas e o sacerdote ou sacerdotisa não recebem o asson. Um sacerdote makaya é chamado de Bokor e uma sacerdotisa é às vezes chamada de Mambo, às vezes de sorcière. Os termos bokor e sorcière são pejorativos no vodu ortodoxo e o termo bokor pode também servir para classificar um especialista em magia maléfica não iniciado, também chamado de malfacteur.

Tais indivíduos não são clericais em qualquer seita. A liturgia makaya é menos uniforme de peristilo ( terreiro ) para peristilo do que a do vodu ortodoxo e há uma ênfase maior na magia do que na religião. Este rito está presente em Port Au Prince e é fortemente representado no Vale Artibonite, no Haiti central.

Um terceiro secto é o Rito Kongo. Como o próprio nome já diz, é quase que exclusivamente representante da tradição do Kongo. A iniciação é baseada no modelo kongo; o sacerdote e a sacerdotisa são ambos chamados de Serviteur. No vodu ortodoxo, um(a) serviteur é apenas o iniciado que serve o Loa (deidade do vodu). Este rito está concentrado perto de Gonaives, no centro do Haiti e um grande festival anual dos Kongo é realizado perto em Sucrie, perto de Gonaives.

Todas estas tradições têm pontos em comum :

– Há apenas um Deus, chamado de Gran Met, o Grande Mestre; e também de Bondye, do francês Bon Dieu, o Bom Deus.

– Há entidades menores, chamadas de Loa (singular). Elas são consideradas acessíveis de imediato através do mecanismo de possessão. Tal estado é considerado normal e natural dentro do contexto duma cerimônia vodu e também altamente desejável, havendo entretanto uma certa etiquette para a mesma ocorrer, que será discutida em lições mais avançadas.

– Todos os ritos empregam orações, cânticos, percussão, roupas específicas e danças durante as cerimônias.

2 – Quem pode participar do Vodu ?

Qualquer um pode participar dos ritos. Não há qualquer requisito de sexo, raça, idade, opção sexual ou origem nacional. Muito menos é pedido para se abandonar crenças e afiliações religiosas anteriores. No Haiti, a vasta maioria de praticantes é também católica romana.

Há vários níveis de participação, é claro, como em quase todas as outras religiões. Uma cerimônia vodu é pública e qualquer um pode entrar no peristilo, ou templo, e observar. Participação na cantoria e na dança são encorajadas. Porque não há qualquer hierarquia centralizada, pagando salário para houngans e mambos, e porque o templo é propriedade privada, é considerada normal uma pequena doação em dinheiro. Este dinheiro é normalmente empregado para pagar os percussionistas, as comidas que são oferecidas aos participantes, para a manutenção do peristilo e dos sacerdotes envolvidos. Isto é freq&utrema;entemente difícil de entender para pessoas criadas em tradições judaico-cristãs, onde padres, pastores e rabinos são profissionais assalariados.

Indivíduos que tenham um grau iniciático podem participar de cerimônias privadas relativas à outros indivíduos de seu próprio grau ou mais baixo. Pessoas com graus mais baixos não podem participar de cerimônias aferidas a graus mais altos porque o conhecimento ali presente é secreto e elas não seriam competentes para lidar com a mesma.

Houve algumas controvérsias nos últimos anos nos EUA sobre afiliação e participação étnica em religiões afroamericanas. Alguns houngans e mambos inescrupulosos enganam estrangeiros desavisados, realizando cerimônias falsas e cobrando taxas exorbitantes. Outros têm um certo entendimento silencioso de que eles não revelarão o conhecimento secreto do Vodu, isto é, informação e iniciação corretas, a pessoas que não sejam pretas e que não sejam haitianas. Entretanto, outros houngans e mambos têm a visão que as pessoas são escolhidas pelos loa, e não de outra maneira, e que qualquer sacerdote que recuse iniciar e treinar um estrangeiro enviado por um loa irá sofrer graves conseqüências. A iniciação requer um período significante de estudo e o compromisso mostrado por um estrangeiro será o suficiente para qualquer sacerdote/sacerdotisa oficiante. Eu inclusive vi um houngan defender vigorosamente seu candidato não haitiano e refutar quaisquer opiniões que invalidassem o iniciante.

Eu ressalvo que o respeito pelos negros de qualquer parte do mundo é imanente às tradições vodu. Nunca devemos esquecer que incontáveis negros foram arrancados de suas terras, estuprados, torturados, castrados e queimados vivos num esforço para erradicar o vodu. O Vodu deu suporte ao ímpeto de resistência à escravidão colonialista e foi combustível para a única rebelião de escravos de sucesso real na América, sendo responsável pela formação da primeira república independente negra americana. Mesmo recentemente na ocupação militar ianque no Haiti, de 1915 a 1934, foi realizado um esforço sistemático para a erradicação do vodu.

Templos foram destruídos, tambores ancestrais sem preço foram queimados e houngans e mambos foram surrados, presos e assassinados.

3 – Nomes e Graus dos Níveis Iniciatórios do Vodu

Há uma série de níveis iniciatórios no vodu ortodoxo, que são atingidos seqüencialmente conforme o indivíduo cresce em conhecimento e permanência na comunidade vodunista. Todos os graus de iniciação estão abertos tanto para os homens como para as mulheres.

Uma pessoa não iniciada que freqüenta as cerimônias, recebe aconselhamento e tratamento medicinal do houngan ou da mambo e toma parte nas atividades do vodu é normalmente chamada de vodunista. Este é um termo geral, assim como cristão ou budista .

Um não iniciado que está associado a um peristilo em particular, freqüenta as cerimônias regularmente e aparenta estar sendo preparado para a iniciação é classificado como hounsi bossale. Hounsi é da linguagem Fon dos Dahome e significa noiva do espírito , embora o termo no Haiti seja utilizado para homens e mulheres. Bossale significa selvagem ou indomado , no sentido de um cavalo selvagem.

O primeiro grau de iniciação confere o título de hounsi kanzo. Kanzo, também do Fon, refere-se ao fogo, e a cerimônia do fogo, também chamada de Kanzo, empresta seu nome a todo o ciclo iniciático. Indivíduos que são kanzo podem ser comparados a batizados numa seita cristã. Numa cerimônia vodu, os hounsi kanzo vestem-se com uma roupagem branca, formam o coro e são prováveis candidatos de possessão pelos loa.

O segundo grau é chamado de si puen, sur point em francês, isto é, no ponto , sobre o ponto . Este termo se refere ao fato de que o iniciado passa por cerimônias no ponto ou apadrinhado por um loa em particular. Essa pessoa é então considerada um houngan ou uma mambo e lhes é permitido o uso do asson, sagrado chocalho emblema do sacerdócio.

Indivíduos que são si puen podem ser comparados a pastores de seitas cristãs. Numa cerimônia eles conduzem orações, cânticos e rituais e são candidatos quase inevitáveis para possessão. Uma vez iniciados como sur point eles podem realizar iniciações de hounsi kanzo e de si puen.

O terceiro e último grau de iniciação é o asogwe. Houngans e mambos asogwe podem ser comparados aos bispos das seitas cristãs, pois podem consagrar outros sacerdotes. Indivíduos que são asogwe podem iniciar outros em kanzo, si puen e em asogwe. Numa cerimônia eles são a autoridade final sobre os procedimentos, a menos que um loa esteja presente e manifesto através do mecanismo de possessão. Eles são também o último recurso quando a presença de um loa específico é requerida. É dito que um asogwe tem o asson , referindo-se à capacidade do asogwe de conferir um outro iniciado com o asson, elevando então o grau deste a asogwe.

Mesmo um houngan ou mambo asogwe deve submeter-se à opinião do houngan ou da mambo que o iniciou, dos que foram iniciados em asogwe antes dele, do houngan ou mambo que iniciou seu iniciador, dos iniciadores deste e por aí vai. Estas relações podem se tornar realmente complexas e há um ponto na cerimônia do vodu ortodoxo onde todos houngans e mambos, sur point e asogwe, participam duma série de gestos e abraços rituais que servem para elucidar e regular estas relações.

LIÇÃO 2

OS ANCESTRAIS

Parte 1 – Os Ancestrais e a Maneira Vodu de Recuperação dos Mortos

Os ancestrais, zanset yo no Creole haitiano, estão sempre com um vodunista. Ele vive, age, respira com a consciência de sua presença. O hino nacional do Haiti começa assim Pelo país e pelos ancestrais, nós andamos unidos…

No interior do Haiti, cada aglutinado familiar tem seu cemitério familiar. As tumbas dos familiares são tão elaboradas quanto possível. Algumas lembram casas nas quais a cripta é subterrânea. As estruturas construídas para as famílias ricas podem até conter pequenas salas de estar, com um retrato do falecido e boas cadeiras. Quando um visitante adentra as terras de uma família para uma visita extensa, a cortesia requer que ele faça uma pequena libação de água nas tumbas para que os ancestrais o recebam bem. Membros da família e convidados podem também, a qualquer momento, fazer uma iluminação . Velas ou fitas de cera de abelha são acesas, colocadas nas tumbas e então uma pequena prece é dita.

Na cidade, a lei requer que se enterre no cemitério da cidade. Novamente, as estruturas podem ser bem elaboradas e grandes cadeados e outros meios de segurança são usados para evitar que violadores de tumbas roubem metais, ossos e outros artigos da pessoa morta.

Os ossos de indivíduos mortos são considerados de grande poder mágiko, especialmente se a pessoa morta fosse um houngan ou uma mambo ou fosse de alguma maneira notável e distinta, para o bem ou para o mal.

Um vodunista é enterrado com uma cerimônia católica romana e uma vigília é feita durante nove dias após a morte. A nona noite é chamada de denye priye, a última prece. Após a última prece, a parte católica do funeral é encerrada.

Em algum ponto, antes ou após a cerimônia católica, a cerimônia de vodu desounin é realizada. Neste rito, as partes componentes da alma e da força de vida da pessoa e o loa primário na cabeça da pessoa são separados e enviados para seus destinos corretos. O desounin de um houngan famoso e altamente respeitado pode ser assistido por centenas de enlutados lamentosos vestidos de robes brancos. É neste momento que o herdeiro de qualquer loa familiar libertado do falecido é normalmente revelado, ficando o indivíduo escolhido brevemente possuído.

Um ano e um dia após a morte do indivíduo pode ser feita a cerimônia mo nan dlo (tirar o morto da água). O espírito da pessoa é chamado através de um vaso com água, que é coada por um lençol branco para um pote de barro limpo chamado govi, onde é ritualisticamente instalado. A voz do morto pode ser ouvida através do govi ou através de uma pessoa brevemente possuída para o propósito. O govi é reverentemente colocado no djevo, ou salão interno do templo.

Algumas vezes o espírito de um ancestral pode retornar por sua própria vontade como um loa Ghede.

Parte 2 – Os loas ancestrais : Baron, Maman Brigitte e os loa Ghede

BARON – O cabeça da família de ancestrais loa é o Baron (barão). Ele é mestre do cemitério e guardião do conhecimento ancestral. Ele tem vários aspectos incluindo Baron Samedi, Baron Cemetiere, Baron la Croix e Baron Criminel. Em todos seus aspectos ele é um loa masculino com uma voz nasal, carrega um cajado ou baton, usa impropérios livremente e se veste de negro ou púrpura. Ele é considerado o último recurso para mortes causadas por magia, porque mesmo se um feitiço trouxer uma pessoa para perto da morte, se o Baron se recusar a cavar a cova , a pessoa não morre.

Baron, com sua esposa Maman Brigitte, é também responsável por recuperar as almas dos mortos e transformá-las em loa Ghede. Baron pode ser invocado para casos de esterilidade e ele é o juiz divino para o qual as pessoas podem trazer seus pedidos, cantando :

Ó kwa, Ó jibile ! 2x (Ó cruz, Ó júbilo !)
Ou pa we m inosan ? (Não vês que sou inocente ?)

O túmulo do primeiro homem enterrado em qualquer cemitério do Haiti, quer a pessoa em vida participasse do Vodu ou não, é dedicado para o Baron (não Ghede) e uma cruz cerimonial é erigida no ponto. Em terrenos familiares no interior, uma família pode erigir uma cruz para o Baron de sua linhagem e nenhum peristilo é completo sem sua cruz para Baron. Baron pode ser invocado a qualquer momento e ele pode aparecer sem ser chamado, tão poderoso é ele. Ele bebe rum no qual vinte e uma pimentas vermelhas foram pisadas, bebida que mortal algum pode suportar. Suas comidas cerimoniais são café preto, amendoim grelhado e pão. Ele dança extraordinariamente banda improvisada e às vezes coloca seu bastão no meio das pernas, representando assim o falo. Baron é um loa muito masculino.

O Festim dos Ancestrais, Fet Ghede, é considerado o final do velho ano e o começo do novo, tal qual na tradição européia Wicca. Quaisquer débitos com Baron, Maman Brigitte ou Ghede devem ser pagos nesta festa. O Baron Criminel canta para seus devedores :

Bawon Criminel, map travay pou ve de te yo, m pa bezwenn lajan ! 2x
Bawon Criminel, Ó! Lane a bout o, map paret tan yo !

Barão Criminal, estou trabalhando para os vermes da terra (pessoas pobres), eu não preciso de dinheiro ! 2x
Barão Criminal, Ó ! O ano terminou, eu aparecerei para esperá-los (para pagarem-me) !

MAMAN BRIGITTE

Maman Brigitte, surpreendentemente para um loa de Vodu, é britânica em origem, descende de Brigid/St. Brigit, a deusa tripla celta de poesia, forjaria e cura. Ela deve ter entrado para o Haiti nos corações dos escravos deportados escoceses e irlandeses. Há uma canção que nós cantamos em cerimônias : Maman Brijit, nan anglete de soti de li, Maman Brigitte, ela é da Inglaterra…” (Eu penso que Brigid era escocesa, não inglesa, mas talvez no Haiti a palavra anglete represente todas as Ilhas britânicas.)

Hoje em dia, Maman Brigitte é considerada esposa do Baron, mestre do cemitério e chefe de todos os ancestrais, conhecidos como loa Ghede. O túmulo da primeira mulher enterrada em qualquer cemitério no Haiti é consagrado a Maman Brigitte e lá é erigida a cruz cerimonial dela. Ela, também como o Baron, é invocada para elevar o morto “, significando curar e salvar os que estão no ponto de morte por enfermidade causada por magia. Aqui está uma canção muito famosa sobre Maman Brigitte cantada em cerimônias de Vodu:

Mesye la kwa avanse pou l we yo!
Maman Brigitte malad, li kouche sou do,
Pawol anpil pa leve le mo (morts de les, Fr.)
Mare tet ou, mare vant ou, mare ren ou,
Yo prale we ki jan yap met a jenou.

Cavalheiros da cruz (os antepassados falecidos) avancem para ela vê-los!

Maman Brigitte está doente, ela se deita de costas,
Muita conversa não elevará a morta,
Amarre sua cabeça, amarre sua barriga, amarre seus rins,
Eles verão como eles ajoelharão.

(Significando, arregace as mangas para se preparar , nós faremos para as pessoas que fizeram este feitiço maléfico ajoelharem-se, implorar perdão e receber o castigo delas.)

Maman Brigitte, como o resto da constelação Ghede é um loa boca-dura que usa muitas obscenidades. Ela bebe rum com pimenta, tão quente que uma pessoa não possuída por um loa nunca poderia beber isto. Ela também é conhecida por passar pimentas haitianas quentes na pele dos órgão genitais do cavalo e este é o teste para o qual são sujeitadas as mulheres suspeitas de falsa possessão . Ela dança a banda sexualmente sugestiva e artística e seu virtuosismo na dança é legendário. Maman Brigitte e Baron são a mãe e o pai que recuperam os mortos e os transformam em loa Ghede e os removem das águas místicas onde eles estavam sem conhecimento da própria identidade, nomeando-os. Há uma canção melancólica sobre a condição das almas nas águas místicas que também é cantada quando um iniciado está preparando-se para o período de exclusão, morte ritual e renascimento do ciclo de iniciação:

Dlo kwala manyan, nan peyi sa maman pa konn petit li,
Nan peyi sa, fre pa konn se li, dlo kwala manyan.

Água manyan de kwala (palavras não creole), naquele país uma mãe não conhece a própria criança.

Naquele país um irmão não conhece sua irmã, água manyan de kwala.

O LOA GHEDE

Os loa Ghede são uma família enorme de loa, tão numerosos e variados como eram as almas das famílias das quais eles se originaram. Desde que eles são todos membros da mesma família, as crianças espirituais de Baron e Maman Brigitte, eles têm todos o mesmo sobrenome – La Croix, a cruz. Não importa outros nomes que eles possam vir a carregar, a assinatura deles sempre é La Croix.

Algum os nomes de Ghede incluem: Ghede Arapice Croix, Brav Ghede de la Croix, Ghede Secretaire de la Croix, Ghede Ti-Charles la Croix, Makaya Moscosso de la Croix; e nomes tristes e degradantes como GhedeTi-Mopyon la de Deye Croix (Ghede Pequeno Piolho de Caranguejo Atrás da Cruz), Ghede Fatra de la Croix (Lixo Ghede da Cruz), Ghede Gwo nan de Zozo CrekTone de la Croix (Ghede Pinto na Buceta Trovão da Cruz) e por aí vai.. Há uma razão para estes nomes estranhos que ficará clara mais à frente.

A vasta maioria de Ghedes é masculina. Ghede pode possuir qualquer um, a qualquer hora, até mesmo os protestantes (para enorme vergonha deles.) No Haiti eu tenho uma amiga que um dia estava observando um grupo de mulheres possuído por Ghede dançando a banda. Ela disse algo como, ” Olhe as prostitutas nojentas, elas não têm nenhum respeito por si mesmas . Naquele mesmo lugar, a Ghede possuiu minha amiga, a lançaram ao solo, prostraram-na e declararam que ela iria se juntar aos ancestrais! Súplicas e intercessões dos familiares finalmente pacificaram o Ghede que prometeu ceder – com a condição de que a mulher e tornasse Mambo! Mambo Delireuse agora pratica em uma área rural próximo del’Artibonite de Riviere Delicada, no Haiti central! Os Ghedes são figuras muito transitivas, existindo entre a vida e a morte, entre os antepassados em Guiné e entre os homens e mulheres vivos do Haiti. Talvez é por isto que eles sejam homenageados a meio caminho da plena cerimônia de Vodu ortodoxa, depois do Rada (Dahomean e Iorubá) e antes do Petro.

O Ghedes vestem-se quase como seu pai Baron – roupas negras ou púrpuras, chapéus elaborados, óculos escuros, às vezes sem uma lente, um cajado ou baton. Eles também dançam a banda, mas eles retêm mais da personalidade da pessoa de quem eles se originaram.

A família de Ghede, incluindo o pai e a mãe, o Baron e a Maman Brigitte, são absolutamente notórios no uso de baixarias e termos sexuais. Há uma razão para isto – os Ghede estão mortos, além de qualquer castigo. Nada mais pode ser feito a eles, assim o uso de profanidades normalmente entre os haitianos um pouco formais são um modo de declaração, “Eu não me preocupo! Eu passei além de todo o sofrimento, eu não posso ser ferido “. Num país onde desrespeito para com figuras de autoridade era até recentemente punido com tortura ou morte, esta é uma mensagem poderosa. Porém, esta profanidade nunca é usada de modo maligna ou abusiva, para amaldiçoar alguém. Sempre é humorístico, até mesmo quando há uma forte mensagem envolvida.

Há algumas canções muito imponentes e dignas cantadas para Ghede, particularmente o mais velho, raciais ou aspectos raiz, como Brav Ghede. Hoje em dia, entretanto, a ênfase está no humor sexual e obsceno promovido pelos loa Ghede. Aqui está uma canção popular cantada para Ghede em peristilos de Vodu e em celebrações públicas:

Si koko te gen dan li tap manje mayi griye,
Se paske li pa gen dan ki fe l manje zozo kale!

Se vagina tivesse dentes, comeria milho assado,
É porque não tem nenhum dente que come pênis descascado !

Da mesma maneira, é dito que um ghede é um ladrão. É verdade que ele se apropria do que quiser de vendedores de rua, mas uma vez que este ceda às demandas do loa, este se limita a pegar um pouco de coco ou de milho de assado. Na Fet Ghede, a maioria dos terreiros cozinham especialmente comida para as centenas de Ghedes que aparece vagando pelas ruas. Aqui está uma canção que uma multidão de Ghedes cantou enquanto iam para a casa de uma Mambo famosa e particularmente generosa da área de Port au Prince :

Ting ting ting ting kay Lamesi,
Whoi mama,
Kay la Mesi gen yon kochon griye,
Whoi mama!

Ting ting ting ting a casa de Lamesi
Mamãe de Whoi,
A casa de Lamesi tem uma porca inteira assada,
Mamãe de Whoi!

FET GHEDE NO HAITI ATUALMENTE

Dois de novembro, Dia dos Mortos, normalmente chamado de Fet Ghede (pronuncia-se guêdei)é um feriado nacional no Haiti. Católicos assistem missa de manhã e então vão para o cemitério, onde eles rezam e fazem consertos nas tumbas de familiares. A maioria dos católicos haitianos também são vodunistas, e vice-versa, de modo que no caminho para o cemitério muitas pessoas mudam de roupas, do branco que eles vestem para ir à igreja para o púrpura e negro dos loa Ghede, os espíritos de antepassados.

No meio da manhã as ruas de Port Au Prince estão atulhadas de milhares de pessoas. Dúzias já estão possessas por um Ghede e suas vozes nasais, piadas obscenas e giros da dança banda os fazem inconfundíveis. Grand Cemetiere, o cemitério principal de Port Au Prince, é lotado por pessoas. Multidões apertam-se ao redor da cruz cerimonial de 8 metros de Baron e da cruz menor de Maman Brigitte. Muitos trazem oferendas de café e rum que eles vertem ao pé das cruzes. Eles também oferecem pão, amendoim grelhado, milho assado e às vezes comida apimentada.

Ocasionalmente uma pessoa, normalmente um Houngan ou Mambo, sacrificam uma galinha ou um par de pombos. As oferendas são rapidamente consumidas pelos mendigos que se amontoam pelo cemitério. Algumas pessoas vendem velas, fitas de cera de abelha e imagens religiosas de santos para representar o Baron, Maman Brigitte e os Ghedes.

Imagine uma Mambo em saias volumosas de negro e lavanda, um babado das mesmas cores, vários lenços de seda amarrados ao redor de sua cabeça e fios de contas ao pescoço dela; ela aproxima-se da cruz de Maman Brigitte com seus hounsis (os que receberam a primeira iniciação.) Ela leva fitas de cera de abelha pegajosa que ela afixa a cada braço da cruz e ao centro. Então ela retira uma galinha preta de seu saco de palha e a passa em cima dos corpos dos hounsis, removendo todas as más influências. Depois da oração, ela mata a galinha rapidamente da mesma maneira que ela faria para uma refeição ordinária. O sangue jorra na cruz e ela doa a galinha a uma mendiga faminta que espera. A Mambo é possuída por Maman Brigitte e profetiza os eventos do próximo ano. Um do hounsis que se comportou mal é castigado com alguns tapas gentis e um que está doente recebe uma receita para um tônico de ervas. Então Maman Brigitte encharca a cruz dela com rum, canta e dança a banda com grande virtuosismo para alegria dos presentes. Alguns momentos depois ela sai da cabeça da Mambo, que ,novamente consciente, recompõe-se a e deixa o cemitério com dignidade extrema.

Pela cidade, no cemitério de Drouillard, onde é enterrado o mais pobre dos pobres, as pessoas do bairro Cite de Soleil, a adoração é ainda mais intensa. Filas de vodunistas de vários peristilos marcham cantando atrás de times de percussionistas, com cada vez mais pessoas sofrendo possessões conforme eles se aproximam do cemitério. Os que permanecem conscientes visitam os sepulcros de amigos e parentes e falam a eles como se pudessem ouvir debaixo do solo.

” Olhe, Papai, ” diz uma mulher, ” eu trouxe comida para você “.

Irmão mais velho, lamenta um homem jovem, ” o Exército o matou, nós achamos seu corpo em pedaços, mas todos eles estão aí, irmão, não estão? Você não tocará os tambores novamente para nós, querido irmão…. Mamãe sente saudades, ela quis vir mas ela está doente. Veja o rum que eu trouxe para você “!

Os loa Ghede varrem o cemitério gritando piadas obscenas e cantando canções obscenas com todo o ar de seus pulmões. Aqui está uma canção popular entre os Ghedes ano passado no cemitério de Drouillard:

Zozo, tone! A la yon bagay ingra, (repita)
Koko malad kouche, zozo pa bouyi te ba l bwe ,
Koko malad kouche, zozo pa vine we l.

Pênis, pelo trovão! Que coisa ingrata, (repita)
Vagina está doente e cansada, pênis não ferve chá para ela,
Vagina doente e cansada, pênis não vem a ver.

Ano passado eu, uma Mambo americana, deixei um peristilo com um Houngan e nossa congregação. O Houngan teve em sua cabeça um Baron poderoso chamado Secretaire de la Croix, mas Secretaire estava recusando-se a possuir o Houngan, porque o Houngan tinha pego algum dinheiro dado para o Fet Gede e tinha usado para seus próprios propósitos. O Houngan foi muito humilhado, e decidiu ir diretamente para o cemitério pedir perdão.

Eu fiz uso de um caminhão, assim nós o enchemos de membros de nosso peristilo e rumamos pelas ruas sufocadas para o cemitério. Nós ficamos presos no tráfego e como esperamos demais, Baron Secretaire de la Croix ficou impaciente e me possuiu!

Até onde me foi falado, havia um carro na pista da contramão, também parado. Secretaire abriu a janela do motorista da pickup e começou a falar com os ocupantes do carro, muito surpreendidos por ver um Baron na cabeça de uma Mambo estrangeira! Duas senhoras muito ricas sentadas na parte de trás do carro foram para quem Baron prestou honra especial.

” Boa noite, senhoras. Baron disse.

” Boa noite, Baron, Papai.” elas deram risada.

” E como estão seus clitóris hoje ? o Baron inquirindo muito seriamente.

Se seus clitóris não estiverem bem, vocês podem me falar e eu direi para esses dois grandes pênis velhos na frente do carro para entrarem em ação!

As mulheres que em qualquer outra circunstância teriam ficado furiosas, riram, como fizeram os dois homens na frente do carro. As velhas apoiaram na janela e responderam ao Baron.

” Nossos clitóris estão muito bem, Papai Baron. Muito obrigado !

E em alguns momentos cessara o trânsito intenso e o Baron me lançou da possessão e me deixou dirigir a pickup até o cemitério e lidar com a vergonha de nossos membros do peristilo rirem histericamente, relatando o incidente para mim!

À noite, cada peristilo faz uma dança em honra de Baron, Maman Brigitte, e dos Ghedes. As pessoas que vêm devem estar todas alimentadas e os loa que aparecem também são festejados com caldeiras de comida especialmente preparadas para eles. A dança segue ao longo na noite, mesmo até a alvorada. O talento artístico dos loa é incomparável e até mesmo não-vodunistas vêm assistir. Então os adoradores exaustos voltam para casa, esperar o próximo Fet Ghede do ano seguinte.

O LWA

Parte 1 – Características Gerais dos Loa

O Vodu é mal entendido freqüentemente como sendo politeísta, sincrético e animista. Estes conceitos errados serão clareados conforme nós discutirmos as características dos loa.

Vodunistas acreditam em um Deus, Gran Met, ou Grande Mestre. Este Deus é todo poderoso, onisciente, mas lamentavelmente ele é considerado algumas vezes distante e destacado de negócios humanos. Ele é não obstante presente na fala diária dos haitianos que nunca dizem “Até amanhã”, sem que somem ” se Deus quiser “.

Os loa são entidades menores, mas mais prontamente acessíveis. À parte de um amor generalizado para com os descendentes de africanos, os loa requerem uma relação mútua com o adorador. Os loa servem aqueles que os servem. Os Loa têm características bem definidas, incluindo números sagrados, cores, dias, comidas cerimoniais, maneirismos de fala e objetos rituais. Então, um loa pode ser servido usando-se roupas das cores do loa, fazendo oferendas de comidas preferidas e observando os dias sagrados para o loa.

Muitos loa são figuras arquetípicas representadas em muitas culturas. Por exemplo, Erzulie Freda é uma deusa de amor comparável a Vênus, Legba é um loa da comunicação comparável a Hermes ou Mercúrio. Estas correspondências, e às vezes pura coincidência, levou os haitianos a comparar aspectos de loa e imagens de santos católicos como eles eram representados em litografias populares. Durante os dias do colonialismo francês, quando a maioria de pessoas pretas no Haiti eram escravas que haviam nascido na África, a adoração dos santos proveu uma cobertura conveniente para os rituais de deuses africanos. Até mesmo o priere Guiné, uma oração longa recitada perto do começo de cerimônias de Vodu ortodoxas, incorporam versos sobre a Virgem Maria e vários santos.

Isto não significa, porém, que os loa foram sincretizados com os santos católicos. Ninguém confunde Ogoun Feraille com São James, o Grande, simplesmente a imagem que é usada. Se São James é invocado, ele é considerado diferente de Ogoun. Embora o priere Guiné incorpore versos sobre santos católicos, ninguém confunde uma cerimônia de Vodu realizada num peristilo com uma missa católica. John Murphy, em seu livro Santeria , propõe simbiose como um termo mais preciso que sincretismo.

Os Loa às vezes são considerados residentes em árvores, pedras ou raramente em animais. Porém, o loa na árvore não é o loa da árvore e cerimônias realizadas ao pé da árvore são dirigidas ao loa, não a qualquer princípio animista de energia vital pertencente à árvore. Os Loa do Vodu manifestam sua vontade através de sonhos, incidentes incomuns e através do mecanismo de possessão. A possessão é considerada normal, natural e desejável no contexto de uma cerimônia de Vodu e sob outras circunstâncias. Lwa que se manifestam por possessão cantam, dançam, contam piadas, curam doentes e dão conselhos.

Parte 2 – Que grupos de loa são reconhecidos ?

Em uma cerimônia de Vodu ortodoxo, seguinte ao priere Guiné e às saudações para a assembléia e à energia espiritual dos tambores e percussionistas, os loa são honrados em seqüência. A sua vez, são oferecidas canções para cada loa e em casos específicos, oferendas de comida ou sacrifícios de animais. Um iniciado tem que memorizar esta seqüência como uma parte do seu treinamento e um Houngan ou Mambo devem poder observar esta ordem quando administrando uma cerimônia. Um mínimo de três canções são cantadas para cada loa e cada canção é repetida pelo menos três vezes.

No rito de Vodu ortodoxo, há três grupos principais de loa : o Rada, o Ghede e o Petro.

Os loa do Rada são principalmente mas não exclusivamente Dahomeanos em origem. Suar cor cerimonial é branca, com a qualificação que loas individuais dentro deste grupo podem ter suas próprias cores. Eles são considerados misericordiosos e em alguns casos tão antigos por serem vagarosos e desprendidos no agir. Os ritmos dos loas de Rada são batidos em tanbou kon, tambores com tiras de madeira que seguram o couro estirado em cima da cabeça de tambor. A pele do tambor maior, o maman, é couro de vaca, o outro de couro de cabra. Os tambores são tocados com baquetas. Esta parte da cerimônia é disciplinada, concentrada, meticulosa e cerebral.

Os loa Rada, em ordem cerimonial, são como segue: Legba, Marassa, Maluco, Aizan, Damballah e Aida Wedo, Sobo, Badessy,Agassou, Silibo, Agwe e La Sirene, Erzulie, Bossu, Agarou, Azaka, o grupo Ogoun (St. Jacques de Ogoun, Ossange, Ogoun Badagri, Ogoun Feraille, Ogoun Fer, Ogoun Shango, Ogoun Balindjo, Ogoun Balizage, OgounYemsen).

Seguindo os loa Rada, vêm a família Ghede incluindo Baron e Maman Brigitte. Não há nenhuma ordem particularde aparição destes loa dentro do seu próprio grupo. Suas cores cerimoniais são o violeta e o negro. O grupo dos Ghede é obsceno e lascivo, e eles provêem boas risadas para segurar o intenso e disciplinado esforço da seção Rada. Os Barons e Brigittes são muito místicos. Os Ghede estão sempre ansiosos para contar piadas e dar conselhos.

Depois do Rada e do Ghede resta uma parte da cerimônia dedicada para os loa do grupo Petro. Estes loa são predominantemente do Congo e de origem ocidental. Sua cor cerimonial é vermelha. Eles são considerados ferozes, protetores, mágikos e agressivo para com os adversários. O ritmo dos loa Petro é batido em tanbou fey, tambores com aro de corda que segura o couro estirado em cima da cabeça do tambor. A cabeça deste tambor é exclusivamente de couro de cabra e é batido com as palmas das mãos. Esta parte da cerimônia é quente, de ritmo rápido e excitante. Os loa Petro, em ordem cerimonial, são como segue: Legba Petro, Marassa Petro, Wawangol, Ibo, Senegal, Kongo, Kaplaou, Kanga,Takya, Zoklimo, Simbi Dlo, Gran Simba, Carrefour, Cimitiere, Gran Bwa, Kongo Savanne, Erzulie Dantor (também conhecida como Erzulie Je Rouge), Marinette, Don Petro, Ti-Jean Petro, Gros Point, Simbi Andezo, Simbi Makaya.

Quando as três repetições da canção final para Simbi Makaya são terminadas, a cerimônia acaba. Às vezes participantes que são especificamente entusiasmados continuarão a cantar canções populares que, embora relacionadas aos loa, necessariamente não são parte da ordem cerimonial. Tais canções são parte da música popular haitiana, feita por artistas haitianos. Uma vez que os participantes estejam satisfeitos, os tambores são deitados e todos vão descansar em esteiras de talos de bananeira até o alvorecer.

Parte 3 – Os loa chamados Djab

A palavra djab no Crèole haitiano é derivada do francês diable (diabo), mas o termo no contexto do Vodu haitiano leva conotação diferente. Certos loa são individuais e sem igual, servidos por só um indivíduo, às vezes uma Mambo ou um Houngan e são considerados quase propriedade do indivíduo. Estes loa não se ajustam facilmente na liturgia de Vodu ortodoxo, em qualquer dos três grupos. Tais loa, e mesmo loa mais comuns, como os loa Makaya, são comumente chamados djab, mas aqui na significação arcaica de espírito, não necessariamente bom ou ruim. A função destes djab é mágika ao invés de religiosa. Um djab é freqüentemente conjurado por um Houngan, Mambo ou Bokor, em nome de um cliente, para entrar em ação agressiva contra o inimigo do cliente ou concorrente do mesmo. Um djab requer pagamento do cliente por seus serviços, normalmente na forma de sacrifício animal regularmente realizado.

Um Houngan ou Mambo que servem um djab são normalmente protegidos de possíveis atos de agressão fortuita pelo djab; geralmente por um garde, uma proteção mágika efetuada esfregando ervas secas especialmente preparadas em cortes pequenos feitos cerimonialmente na pele do indivíduo. O garde é anualmente renovado no solstício de inverno, quando os membros se reúnem para preparar ervas.

As leves cicatrizes do garde formam um padrão peculiar para a sociedade, e podem servir como uma marca identificando membros. Por exemplo, eu tenho em meu ombro esquerdo um garde conferido a mim pelo Houngan Sauvert Joseph que ajudou a minha iniciação. No encontro anual de sua sociedade, eu recebi o garde do djab Kita Maza, um djab protetor afável mas agressivo e a forma da cicatriz, uma cruz dupla semelhante em forma a um jogo-da-velha, é distinguível para Kita Maza e para a sociedade do Houngan Sauvert Joseph.

Djabs também pode ser específicos para um determinado lugar. Nas cavernas de Bodde perto de Trouin no sul do Haiti, acredita-se que resida um djab de nome Met Set Joune, Mestre Dos Sete Dias. Até mesmo se uma Mambo, Houngan ou Bokor sirva este djab em um peristilo localizado em outro lugar, as cavernas permaneceram a casa do djab.

Certos djabs particularmente amorais podem ser invocados, drenar a energia vital de uma pessoa e efetuar seu falecimento. Quando um djab é responsável pela morte de uma pessoa, o dito crèole não é o djab matou a pessoa , mas ao invés, djab la manje moun nan, o djab comeu a pessoa . Isto não significa que a carne da pessoa é comida canibalisticamente pelo Houngan, Mambo ou Bokor possuído pelo djab, somente que o djab consome a força vital da pessoa.

Um Houngan ou uma Mambo ortodoxos estão sob juramento de nunca ferir alguém, embora as invocações de djabs são mais freqüentes no caso de Bokors. Porém um iniciado de Vodu ortodoxo pode invocar um djab e até mesmo dirigi-lo para matar uma pessoa, se a pessoa é uma assassina, um ladrão profissional ou um seqüestrador profissional.

Mambo Marinette invocou uma loa Petro freqüentemente chamada de djab, Erzulie Dantor, e executou o sacrifício de um porco selvagem, à cerimônia de Bwa Caiman em 1794, o que começou a revolução haitiana. Durante a revolução, djabs haitianos eram muito importantes e acreditava-se que conferiam imunidade contra as balas desferidas pelo escravizador francês branco. Até mesmo a morte da maioria dos membros da força expedicionária do Gel. LeClerc devido a febre amarela foi devida ao resultado do trabalho de djabs.

SEU ALTAR E PRIMEIRA OFERENDA AOS ANCESTRAIS

Parte 1 – Construindo um Altar

Pessoas de muitas fés diferentes constróem altares. Até mesmo pessoas que não pertencem a qualquer fé particular podem reservar um canto de um quarto onde eles se sentam e pensam, meditam e rezam, fazem yôga ou tocam um tambor africano. Muitas vezes eles criam altares improvisados que incluem muitos destes objetos – flores, pedras e cristais, símbolos sagrados, fotografias ou imagens dos antepassados do indivíduo ou de personagens importantes, incensos, instrumentos musicais, velas, livros espiritualistas.

Conscientemente ou inconscientemente, quando nós construímos altares nos comprometemos num esforço em abrir a mais enigmática de todas as portas – a porta entre o mundo humano e o mundo espiritual. Um altar é uma representação da mesma porta em termos materiais – o altar é a porta. Quando você se senta na frente de seu altar, você está convidando as forças espirituais do outro lado desta porta para te notarem, te visitarem e agirem sobre você.

Considerando que a maioria das pessoas que moram no Brasil não podem começar a prática desta religião assistindo cerimônias de Vodu, uma das primeiras coisas que se pode fazer é construir um altar. Os altares de Vodu são tão variados quanto os indivíduos que praticam o mesmo. De certo modo, um peristilo é um altar, grande o bastante para os adoradores dançarem ao redor do centro, tocar tambor, executar sacrifícios, sofrer possessão – em resumo, representar cada aspecto do drama cósmico. Dentro do peristilo há áreas dedicadas a um loa específico – a cruz do Baron ou uma barraca de folhas de palmeira para Erzulie. Junto ao peristilo existem salas menores chamadas djevo ou bagi nas quais são mantidos os objetos cerimoniais de uma sociedade de Vodu. Porém, estes objetos que incluem chocalhos sagrados, garrafas vazias para oferendas de bebida, tetes dados durante a iniciação e potes de barro chamados govi, não têm uso algum para quem não seja iniciado. Um modelo melhor é achado no kay myste (do francês caille des mysteres, casa de mistérios). Estas são casas pequenas, freqüentemente não maiores do que 5 a 7 metros, nas quais são construídos altares individuais para cada loa que o dono da kay myste serve . Estes altares incorporam muitos materiais comuns, facilmente disponíveis em todos lugares no mundo. Eles são notáveis por sua individualidade e beleza. Frequentemente são construídos altares no Haiti num chão sujo.

Sua kay myste pode consistir em uma área pequena em seu quarto ou sala, embora o sentimento no Haiti é que não é bom dormir no mesmo lugar com objetos consagrados ao loa, especialmente com uma pessoa do sexo oposto; exceto durante a iniciação, quando o sexo é proibido de qualquer maneira. Você pode separar esta área com uma cortina ou separar um quarto inteiro para o serviço ao loa. As instruções que seguem lhe darão sugestões para construir um tipo de altar muito básico que pode ser então ser elaborado para o serviço a qualquer loa específico que você deseje.

Sugestões para construir um altar básico:

No Haiti, quando um Vodunista deseja fazer um altar em casa para um aspecto determinado de Deus, um santo, ou um loa, eles freqüentemente compram certos objetos religiosos identificados com qualquer princípio que eles queiram servir e então um Houngan ou Mambo monta e consagra o altar. Alguns são feitos por definição em um chão sujo, outros são construídos em plataformas de tábuas ou mais freqüentemente de  concreto.

Aqui está um possível método para montar um altar básico em lugar fechado, sem ser em chão sujo. Adquira um pano branco e lave em água com sua primeira urinada da manhã. Você pode substituir a urina por vinagre. Deixe o lençol secar ao ar livre, ao sol se possível. Cubra sua mesa de altar com ele e então borrife-o levemente com seu perfume favorito. Logo, consiga quatro pedras pequenas que encontre próximas à sua casa, limpe-as deixando-as de molho com sal grosso e enxaguando bem, então coloque uma pedra em cada canto de seu altar. Limpe uma garrafa de vinho, uma tigela de vidro ou outra vasilha e encha de água. Não use metal ou louça – apenas vidro ou cristal. Coloque-a no centro de seu altar e adicione três de porções de anisete ou rum branco assim que você abençoar a água.

É comum no Vodu a prática de batizar objetos rituais, quer dizer, dar nomes a eles. Você pode levar um maço de manjericão e pode ungir o batismo sobre seu vidro de água que agora será uma passagem poderosa para energia espiritual. Você pode nomear quase qualquer coisa apropriado, de maneira fantástica e positiva – Água da Vida ou Gargarejo da Mamãe Que Traz Espírito ou o que quer que seja!

Em um castiçal de vidro, coloque um pouco de terra de próximo da sua casa e uns grãos de sal grosso. Pegue uma vela branca e com algum óleo vegetal puro esfregue do meio até o topo e então do meio até a base. Enquanto você lubrifica a vela, dirija sua energia para suas mãos e ore por consciência espiritual. Ponha firmemente na frente a vela no castiçal e coloque tudo na frente da vasilha de água. Não acenda a vela ainda.

Ao redor do altar você colocará outros objetos de acordo com os princípios divinos que você deseja servir. Um santuário de ancestrais terá imagens de antepassados mortos, o altar de Ogoun terá um machete e um lenço vermelho, o santuário de Erzulie Freda terá flores e jóias, e assim por diante.

Parte 2 – Realizando um Festim Ancestral

Agora que você construiu um altar básico, você está pronto para o primeiro passo na prática do Vodu – reverência aos seus ancestrais. Não importa como tenha feito seu altar, sempre se lembre que é uma porta entre o mundo humano e o mundo dos antepassados e dos loa. Deixe-o empoeirado, deixe que a água fique escura e envelheça, use-o como um local conveniente para deixar chaves e lápis; ignore-o, e você se achará cansado, drenado, azarado e não-inspirado. Trate-o com respeito, mantenha-o imaculado, limpo, visite-o freqüentemente e você será recompensado com crescimento espiritual, energia, vitórias pessoais e coincidências notáveis.

Seus antepassados o amam. Eles virão e o visitarão, aceitarão suas oferendas. Eles o instruirão, protegerão você, lutarão por você e o curarão. Eles lhe trarão mensagens através da intuição e dos sonhos. Obtenha uma foto ou figura de um parente falecido seu cujo amor para com você está além da dúvida. Se você não tem nenhum parente falecido de quem você se lembre bem, ou de sangue ou por adoção, você pode escolher uma imagem de uma pessoa que representa a você sabedoria e amor ancestrais e dê um nome a esta pessoa. Você também pode obter imagens que lhe agradem de antepassados de todas as raças humanas.

Coloque estas imagens atrás da vasilha de água em seu altar, em qualquer tipo de porta-fotos ou prenda-as na parede atrás de seu altar.

Esta parede também pode ser coberta com um pano branco e as imagens fixadas nele. Arrume as imagens até que você sinta como elas devem estar ordenadas. Você pode escolher trabalham com uma imagem ou muitas.

Sente-se na frente de seu altar. Você pode soar um sino pequeno ou pode balançar um chocalho cerimonial para sinalizar o começo de sua meditação. Acenda a vela branca do seu altar e se possível acenda algum incenso de coco ou baunilha. Amarre um pano branco em volta de sua cabeça se quiser. Contemple a água no cálice central. Relaxe e faça qualquer exercício mágiko com o qual você está familiarizado. Respire fundo, em contagem regressiva de dez até zero ou trabalhando com os chakras, tanto faz. Pense em seu antepassado escolhido. Se possível, relembre e visualize cenas do passado no qual você viveu com aquele antepassado. Sinta o amor entre vocês, que os conecta. Imagine o amor que brilha de seu coração como um raio de luz que atravessa a água e vai para a imagem do antepassado. Convoque o nome de seu antepassado em voz alta, repetidamente. Fale para o antepassado que você o ama e que você quer trabalhar junto com ele. É um princípio básico do Vodu que o vivo e o morto trabalham juntos ajudando-se mutuamente.

Quando você sentir a presença dos antepassados, verta no chão um pouco da água três vezes para lhes dar boas-vindas. Faça freqüentemente esta meditação, até que seja uma rotina confortável. Dentro de uma semana ou duas de prática regular e eficaz, você deverá fazer um festim ancestral para oferecer a seus antepassados.

É um banquete que deve incluir comidas favoritas de seus antepassados em vida, com a exceção que a comida não deve ser salgada. Oferendas de ancestrais genéricos (aqueles que você não conheceu vivos) incluem milho grelhado, amendoim grelhado, coco fresco, comidas brancas como pudim de arroz, leite e bolos de massa com farinha.

Coloque cada tipo de comida em uma tigela e coloque uma vela branca entre as tigelas. Podem ser colocadas oferendas de líquidos em copos. Toque cada prato ou tigela na sua testa, coração e área genital e então cheire profundamente a comida (quase encoste-a no nariz). Fale com seus ancestrais, lembre-lhes que eles já foram parte do mundo dos vivos e que um dia você irá se unir a eles. Peça-lhes para afugentar todo mal como pobreza, enfermidade, desemprego, fadiga, discórdia, tristeza. Peça-lhes para trazer a você tudo aquilo é bom, inclusive amor, dinheiro, trabalho, saúde, alegria, amizade, riso.

Acenda as velas, ponha a comida no altar e deixe o quarto. Quando as velas terminarem de queimar, e de preferência na manhã seguinte, pegue a comida e jogue-a fora ao pé de uma árvore grande. Se isso não for possível, ponha-a em uma bolsa de lixo e jogue-a separadamente de qualquer outro lixo. Lave os pratos, tigelas e copos, esfregue-os com sal e separe-os. Não os use para qualquer outra coisa, nem mesmo para refeições comuns, apenas para outro trabalho de Vodu.

Parte 3 – A Experiência de uma Mambo.

Meu primeiro banquete ancestral aconteceu antes de que eu fosse ordenada como uma Mambo. Eu queria que tudo estivesse tão bonito quanto possível, assim eu limpei minha sala primeiro, então meu altar e todos os objetos do altar, cristais, panos do altar, etc. Eu borrifei o altar com perfume e pus velas novas nos castiçais.

Eu fiz tipos diferentes de comida. Havia galinha, arroz e feijão, verduras cozidas e frutas tropicais para meus antepassados africanos; salsicha, batatas cozidas, saurkraut e doces para meus antepassados europeus, amendoins tostados, milho fervido e carne de coco como comida genérica de antepassado. Havia cerveja, rum, leite, suco de fruta – em resumo, tudo eu pude pensar. Todo prato de comida teve sua própria vela. Eu apresentei as comidas e as bebidas para os antepassados, acendi as velas, meditei e deixei o quarto.

Aquela noite, eu tive alguns sonhos muito interessantes. De manhã, eu notei a condição das velas – toda vela foi queimada até o fim – nem uma gota de cera ou um fragmento de pavio permaneceu em qualquer dos pratos. Puxa , eu pensei, esses antepassados realmente deviam estar famintos! Eu recolhi a comida e coloquei tudo ao pé de uma árvore perto de um rio. Enquanto eu caminhava para casa, eu pensei, qual de meus ancestrais ou loa virá me ajudar agora ?

Era um dia bonito de primavera e eu estava caminhando só em uma estrada rural. Um pequeno fusca amarelo estava passando e buzinou. Eu pensei que a pessoa devia estar perdida e queria indicações, mas assim que olhei, não havia motorista no carro! Instintivamente eu notei a placa – 125 LOA !

Agora, você poderia pensar que alimentar e servir 125 loa deixaria minha conta do supermercado enorme. Mas de fato, a parte de cerimônias maiores, os serviços regulares para os antepassados consistem de um pouco de comida no jantar de segunda-feira, libações ocasionais e a observância correta do Festim dos Mortos (Fet Ghede) a cada 2 de novembro.

Tradução: Michelle Valentim, Autor(a) desconhecido(a)

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-pratica-vodu/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-pratica-vodu/

Do Enoque bíblico à gênese da Magia Enoquiana

Donald Tyson

A magia enoquiana é um sistema de teurgia, ou magia angelical, transmitida psiquicamente ao alquimista e vidente elizabetano Edward Kelley por um grupo de espíritos que veio a ser chamado de anjos enoquianos. Ao longo dos anos 1582-1587, os espíritos ditaram várias partes dessa magia para Kelley, ou a apresentaram na forma de visões enquanto Kelley olhava para uma bola de cristal.

Kelley repetia as palavras dos espíritos e descrevia as visões para seu amigo e empregador, o grande matemático, geógrafo e astrólogo Dr. John Dee. Dee sentou-se ao lado de Kelley durante as sessões de vidência com uma caneta na mão e papéis espalhados diante de si. Tudo o que Kelley dizia, Dee registrava literalmente. Graças ao método cuidadoso de Dee, as comunicações dos espíritos foram preservadas com a precisão de uma transcrição do tribunal.

Os anjos se identificaram para Kelley como os mesmos anjos que instruíram o patriarca Enoque na linguagem angélica e na sabedoria de Deus. Enoque foi o único patriarca do Antigo Testamento a ser elevado ao céu enquanto ainda estava vivo – pelo menos, esta foi a interpretação dos rabinos e cabalistas judeus de Gênesis 5:24: “E Enoque andou com Deus: e não se viu mais; porque Deus para si o tomou.” Todos os outros descendentes de Adão até Noé mencionado na Bíblia são explicitamente declarados mortos, mas não Enoque.

Ao longo dos séculos, uma tradição de sabedoria cresceu em torno de Enoque. Junto com Adão, Noé, Salomão e alguns outros, ele teria sido um dos responsáveis ​​por transmitir os ensinamentos primordiais dos anjos à humanidade. O livro apócrifo de Enoque surgiu dessa tradição. O evento-chave neste livro é uma descrição de como os anjos rebeldes, cobiçando as filhas dos homens, desceram à Terra e ensinaram à humanidade todas as artes e ciências do adorno, magia e guerra que semeiam conflitos em todo o mundo.

TEURGIA E GOETIA

De acordo com o anjo Ave, esses anjos maus foram autorizados a descer sobre a Terra e espalhar ensinamentos falsos e destrutivos porque os reis da Terra se tornaram arrogantes através do uso da sabedoria legada a eles por Enoque. Como punição, Deus enviou anjos falsos e enganadores para ensinar o que hoje é conhecido como magia negra. Desta forma, Deus permitiu que a humanidade fosse o instrumento de sua própria punição. No entanto, Ave diz a Kelley, Deus decidiu permitir que a verdadeira sabedoria de Enoque, como preservada em seus livros celestiais, seja novamente conhecida na Terra. Dee e Kelley deveriam ser os instrumentos de sua disseminação:

“O Senhor apareceu a Enoque, e foi misericordioso com ele, abriu seus olhos para que ele pudesse ver e julgar a terra, que era desconhecida de seus pais, por causa de sua queda; porque o Senhor disse: Mostremos a Enoque, o uso da terra: E eis que Enoque era sábio e cheio do espírito de sabedoria.”

E ele disse ao Senhor: Que haja lembrança da tua misericórdia, e que aqueles que te amam provem disto depois de mim: Oh, não seja esquecida a tua misericórdia. E o Senhor se agradou. E depois de 50 dias Enoque escreveu: e este foi o título de seus livros, aqueles que temem a Deus, e são dignos de serem lidos.

Mas eis que o povo se tornou perverso e se tornou injusto, e o espírito do Senhor estava longe e se afastou deles. De modo que aqueles que eram indignos começaram a ler. E os reis da terra disseram assim contra o Senhor: O que é que não podemos fazer? Ou quem é ele, que pode resistir a nós? E o Senhor se aborreceu, e enviou entre eles cento e cinqüenta leões, e espíritos de maldade, erro e engano; e eles apareceram para eles. Porque o Senhor os colocou entre os anjos bons aqueles que são maus. E eles começaram a falsificar as obras de Deus e seu poder, pois eles tinham poder dado a eles para fazê-lo de modo que a memória de Enoque se apagou e os espíritos do erro começaram a ensinar-lhes Doutrinas: que de tempos em tempos até esta era e até hoje, se espalhou por todas as partes do mundo, e é a habilidade e astúcia dos maus.

Assim eles falam com os demônios: não porque eles têm poder sobre os demônios, mas porque eles são unidos a eles na liga e disciplina de sua própria doutrina.

Pois eis que, como o conhecimento das figuras místicas e o uso de sua presença é o dom de Deus entregue a Enoque, e por Enoque aos fiéis, para que assim eles possam ter o verdadeiro uso das criaturas de Deus e do terra em que habitam: Assim o diabo entregou aos ímpios os sinais e sinais de seu erro e ódio para com Deus; condenação eterna.

A estes chamados caracteres são uma coisa lamentável. Pois por destes, muitas Almas pereceram.

Agora aprouve a Deus libertar esta Doutrina novamente das trevas e cumprir sua promessa contigo, para os livros de Enoque: A quem ele diz como disse a Enoque.

Que aqueles que são dignos entendam isso por ti, para que seja uma testemunha da minha promessa para contigo.”

Deus promete diretamente a John Dee, por meio de seu mensageiro, o anjo Ave, e por meio do vidente de Dee, Edward Kelley, que o sistema de magia que está sendo revelado a Dee é a sabedoria genuína de Enoque pela qual pode ser obtido “o uso da terra”. Os cento e cinquenta leões, “espíritos de maldade, erro e engano” são os mesmos anjos caídos que, no Livro de Enoque, pecam com mulheres mortais e ensinam ciências corruptoras à humanidade. De acordo com Ave, esse falso ensinamento consistia principalmente em magia demoníaca, ou goetia.

É comum que os proponentes de um sistema de religião, filosofia ou magia afirmem que a sua é a única prática legítima e que todos os métodos que diferem dela são corruptores e falsos. Ao caluniar outras formas de magia, os anjos esperam elevar seus próprios ensinamentos e dar-lhes uma importância maior aos olhos de Dee.

Kelley, que antes de sua associação com Dee tinha um conhecimento considerável em primeira mão de necromancia e outras formas de magia negra, diz a Ave que a sabedoria de Enoque parece muito com magia comum para ele, mas Ave garante a Kelley. “Não, todos eles apenas brincaram com isso”, significando que todas as formas de magia, exceto a magia enoquiana, são meros brinquedos de que a magia enoquiana é a única teurgia verdadeira aprovada por Deus e aceita pelos anjos do céu.

OS PORTÕES E AS CHAVES

É importante entender que a magia enoquiana se preocupa apenas com a convocação ritual e o comando de anjos e espíritos inferiores. Ao falar sobre as evocações formais enoquianas conhecidas como Chamadas ou Chaves, o anjo Mapsama diz a Dee:

“Esses Chamados tocam todas as partes do Mundo. O Mundo pode ser tratado em todas as suas partes; Portanto, você pode fazer qualquer coisa. Esses Chamados são as chaves para os Portões e Cidades da sabedoria. Tais portões não podem ser abertos senão com aparição visível.”

Os portões para as cidades da sabedoria são quarenta e nove em número. No entanto, um dos portões é sagrado demais para ser aberto, então as chaves reais são quarenta e oito. As cidades da sabedoria são reinos espirituais habitados por diferentes hierarquias de anjos com funções distintas na terra. Essas cidades celestiais são representadas por quarenta e nove quadrados de números/letras extremamente complexos que contêm quarenta e nove linhas e quarenta e nove colunas. Tomados em conjunto, os anjos referem-se a esses quadrados como o Livro de Enoque. Um dos quadrados está representado em uma placa no início de Uma Relação Verdadeira e Fiel, de Meric Casaubon. Sobre esses quadrados mágicos, Nalvage diz a Dee:

Você tem 49 Tábuas: Nessas Tábuas estão contidas as vozes místicas e sagradas dos Anjos: as dignas e as em estado desgraça e encharcadas de confusão  que perfuram o Céu e olham para o Centro da Terra: a própria linguagem e fala das Crianças e Inocentes, que engrandecem o nome de Deus e são puras”.

As tábua servem como o solo caótico de onde as palavras das Chaves são extraídas letra por letra tortuosa durante as sessões de vidência. Kelley observava no cristal enquanto um anjo apontava para uma parte ou outra da tábua em questão e então mostrava a posição para Dee, que então procurava em sua cópia da tabua e escrevia a letra que era encontrada lá. As Chaves Enoquianas foram extraídas das tábuas e entregues desta forma, de trás para a frente e uma letra de cada vez.

As energias ocultas dessas tábuas são incorporadas coletivamente em uma única tábua de letras com quatro quadrantes chamada de Grande Tábua. É um diagrama esquemático mágico de todo universo enoquiano. Cada quadrante da Grande Mesa é conhecido como Torre de Vigia. As Chaves abrem os portões para as cidades dos anjos cujos nomes estão escritos nas Torres de Vigia e os chamam, junto com seus numerosos servos. Juntas, as quarenta e oito Chaves Enoquianas e a Grande Mesa das quatro torres de vigia formam o coração da magia enoquiana.

O LIVRO DAS FOLHAS PRATEADAS

Há outro livro falado pelos anjos que está indubitavelmente ligado ao livro dos quadrados mágicos. Dee é instruído a construí-lo com folhas em branco em preparação para receber a O Livro dos Espíritos já era uma prática comum da magia angelical na idade média. Eles continham os nomes, sigilos e, ocasionalmente, imagens dos espíritos que estão vinculados ao serviço do mago – geralmente após um trabalho ritual intenso e envolvente até alcançar a evocação inicial dos espíritos. Os próprios espíritos escreviam o livro, assinam-no com suas marcas e assinaturas, ou pelo menos juram obediência a ele. É claro que os espíritos não são realmente capazes de escrever no livro. Isso é realizado possuindo o mago sem sua consciência e usando o corpo do mago para escrever ou assinar o Livro dos Espíritos.

No caso de Dee, os anjos das quarenta e oito cidades espirituais que podem ser abertas pelas Chaves foram representados por símbolos ocultos que provavelmente continham combinações de letras e números. No entanto, nunca saberemos o que o Livro das Folhas Prateadas deveria conter, já que a cópia de Dee não sobreviveu. Esses sinais misteriosos deveriam ser inscritos em pergaminho prateado pela poderosa Mãe de muitos dos anjos enoquianos, um ser tão exaltado que ela se identifica apenas com o título EU SOU, que é equivalente ao nome hebraico de Deus, Eheich. Ela parece ser o mesmo anjo que é a Rainha do Céu de Apocalipse 12:1.

O TRABALHO ENOQUIANO

A inscrição do Livro das Folhas Prateadas de Dee ocorreria após um período de dezoito dias de trabalho ritual durante o qual uma evocação original composta por Dee e Kelley deveria ser dita a cada dia. Nos primeiros quatro dias de trabalho, Dee foi instruído por Ave a dirigir sua evocação apenas aos nomes de Deus; para após quatorze dias, Dee  evocar as hierarquias dos anjos pelos nomes específicos de Deus que regem cada um:

“Quatro dias… você deve invocar apenas esses nomes de Deus, ou o Deus dos Exércitos, nesses nomes: E 14 dias depois de você (neste, ou em algum lugar conveniente) deve Chamar os Anjos por Petição, e peloo nome de Deus, ao qual são obedientes.”

No 15º dia vocês se revestirão, em vestes feitas de linho branco: e assim terão a aparição, uso e prática das Criaturas. Pois, não é um trabalho de anos, nem de muitos dias.

As Criaturas às quais Ave se refere parecem ser os anjos dos Trinta Aethers ou Airs, que são representados pelas últimas trinta Chaves Enoquianas. Essas chaves são realmente uma única chamada ou convocação para trinta diferentes zonas ou esferas angélicas chamadas Aethers. Apenas os nomes dos Éteres mudam nas últimas trinta Chaves – eles são idênticos. Por esta razão, a décima nona Chave é conhecida como a Chave dos Trinta Aethers. Os Príncipes dos Aethers governam os espíritos menores das regiões ou reinos do mundo. Eram esses espíritos geográficos que Dee mais queria controlar.

Sobre as vestes e o livro usado durante este trabalho, Ave diz: “Você nunca deve usar o Garment depois, mas apenas uma vez, nem o livro.” Kelley objeta com bastante razão: “Para que fim o livro é feito então, se não for para ser usado depois.” Dee um tanto irritado escuta de Kelley: “É feito para ser usado naquele dia apenas..”

Há alguma ambiguidade aqui sobre qual livro está sendo discutido. Kelley parace falar do livro de nomes e invocações que ele e Dee são ordenados a criar. Sobre este livro de exercícios, que chamarei de Livro dos Espíritos de Dee, Ave diz a Dee: “O Livro consiste de Invocação dos nomes de Deus, e invocação dos Anjos e pelos nomes de Deus seus ofícios são manifestados”. Essa parece ter sido a função de todos o os dezoito dias de trabalho, e talvez de trabalho posterior. Dee realmente criou um modelo para este Livro dos Espíritos invocando os nomes de Deus e dos anjos. Estes formam o manuscrito de Dee Liber Scientiae Auxilii e Victoriae Terrestris, que ainda existe e é mantida na Biblioteca Britânica.

Já o anjo Ave provavelmente fala do livro de folhas em branco e prateadas que deve ser inscrito sobrenaturalmente por sua mãe. Este Livro de Prata seria usado apenas no único dia em que os anjos jurassem obediência a Dee. O prateamento das folhas sugere que a Mãe dos anjos é uma deusa lunar, e que a magia enoquiana é de natureza lunar. Segunda-feira (o dia da Lua) parece ser o sábado enoquiano.”

MAGIA ENOQUIANA PROIBIDA PARA DEE E KELLEY

Não há evidência de que Dee e Kelley alguma vez tenham conduzido este trabalho para usar o o poder dos anjos enoquianos. Eles estavam esperando a permissão dos anjos para fazê-lo, mas essa permissão nunca foi concedida.

Mapsama: Você pediu sabedoria, Deus abriu para você, seu julgamento: Ele entregou a você as chaves, para que você possa entrar; Mas seja humilde. Entre não de presunção, mas de permissão. Não entre precipitadamente; Mas seja trazido de bom grado: pois muitos subiram, mas poucos entraram. No domingo você terá todas as coisas que precisam ser ensinadas; então (conforme a ocasião servir) você pode praticar o tempo todo. Mas você está sendo chamado por Deus, e para um bom propósito.

Dee: Como devemos entender este Chamado de Deus?

Mapsama: Deus cala minha boca, não te responderei mais.”

É evidente para mim, a partir de um estudo minucioso das transcrições enoquianas, que os anjos pretendiam que Dee tivesse o sistema de magia enoquiana, mas nunca pretendiam permitir que ele realmente o usasse. Dee e Kelley serviram como instrumentos humanos através dos quais os anjos foram capazes de transmitir a magia enoquiana à raça humana. Gabriel diz a Dee e Kelley: “Mas em vocês dois está a hora de chegar.” Os anjos garantem a Dee e Kelley que eles continuarão a prosperar e a serem seguros enquanto permanecerem juntos, porque são duas partes de um único todo. “O Vidente deixe-o ver, e cuide do que ele vê, pois você é apenas um corpo nesta obra.”

Kelley recebeu o dom da segunda visão apenas para que ele pudesse ajudar Dee a receber a magia enoquiana.

Um vendedor obscuro poderia se gabar de sua beleza só porque recebe luz e clareza, por uma vela trazida ou brilhando nela? Não mais podes tu, (E.K.) para o amadurecimento de tua inteligência e  compreensão é através da nossa presença, e nossa iluminação. Mas se partirmos, você se tornará um vendedor obscuro e pensará muito bem de si mesmo em vão.”

Em outro lugar, o anjo Uriel, falando na voz de Deus, diz a Kelley: “Farei de ti um grande Vidente: Aquele que julgará o Círculo das coisas na natureza. Mas o entendimento celestial e o conhecimento espiritual serão selados de ti neste mundo.” Kelley é considerado pelos anjos como pouco mais do que um telefone psíquico através do qual eles podem alcançar a mente consciente de John Dee. Os anjos pouco toleram suas suspeitas e abuso verbal. Eles sabem que Kelley os detesta e os considera enganadores.

Os anjos respeitam Dee por sua grande piedade e sabedoria, mas mesmo ele não terá permissão para atingir a plena compreensão da magia enoquiana. O anjo Gabriel diz isso a Dee e faz mais referência à necessidade de Dee e Kelley permanecerem juntos como uma unidade orgânica (mesmo ao ponto de compartilhar suas esposas em comum, um evento futuro prefigurado aqui):

“Nunca conhecereis os mistérios de todas as coisas que foram ditas. Se vocês amarem juntos, e habitarem juntos, e em um só Deus, então o mesmo Deus se compadecerá de vós, que vos abençoará, vos consolará e fortalecerá  vocês até o fim.”

Dee e Kelley eram duas metades de uma máquina humana para receber e registrar os mistérios das comunicações angélicas. Kelley tinha a habilidade de perceber os anjos e seus ensinamentos. Dee teve a inteligência para entendê-los e transcrevê-los com precisão e corrigir quaisquer erros que ocorressem durante sua transmissão. Nenhum homem poderia ter gerado o sistema de magia enoquiana sozinho. Cada um atuou como um catalisador para o outro.

*Excerto da obra Magia Enoquiana para Iniciantes

Postagem original feita no https://mortesubita.net/enoquiano/do-enoque-biblico-a-genese-da-magia-enoquiana/

Amodali

Amodali é um artista multidisciplinar, música e escritora do norte da Inglaterra. Essas atividades e disciplinas têm sido aplicadas à investigação da metafísica, fenomenologia e à prática da magia sexual desde os anos 1980. Seu trabalho se preocupa em explorar a fenomenologia dos estados alterados de consciência vivenciados pelas mulheres, a fim de resgatar aspectos psíquicos e físicos do “corpo mágico” e sua dinâmica oculta que foram rejeitados ou menos explorados na tradição mágica ocidental. Ela sugere que as narrativas simbólicas que definem a feminilidade dentro do esoterismo devem ser desafiadas e o status ontológico das mulheres reorientado de acordo com práticas “biognósticas” alquímicas incorporadas.

Amodali, Isis -Inside the Third Garment (Ísis – No Interior da Terceira Vestimenta). Colagem de mídia mista.

Sua pesquisa conduzida pela prática é focada principalmente na escavação do feminino erótico e divino na forma da deusa thelêmica Babalon – usando métodos vocais estendidos, performance ritual, estados de transe sexual e uma variedade auto-desenvolvida de tecnologias mágicas. A desestabilização dos modelos tradicionais de participação de gênero em práticas esotéricas também tem o efeito de trazer a teoria queer para esse discurso que se baseia nos conceitos de ‘imanência radical’ de Luce Irigaray e noções progressivas do feminino divino, bem como no discurso New Materialist (neomaterialist) sobre a interação pós-humana com a biosfera e cosmos — teorias que remodelam como percebemos nossas relações com a matéria, desde as partículas atômicas até o universo no macrocosmo. Sua pesquisa compartilha a especulação do filósofo Timothy Morton sobre as “reservas de zonas impensadas da materialidade” do misticismo e ela sugere que conceituações progressivas e esotéricas da sexualidade podem fornecer mecanismos físicos para que tais zonas impensadas se manifestem e quebrem as barreiras entre a vida humana e não humana.

Sua práxis tem sido amplamente apresentada desde a década de 1990 como parte de uma série de performances rituais ao vivo com o projeto ‘Mother Destruction (A Destruição da Mãe)’ e, mais recentemente, em apresentações solo na Europa e nos EUA.

Amodali -Mother Destruction (A Destruição da Mãe) – Sessão de fotos de Hagazussa. 1999. Foto por Robert Cook. 

A produção musical inicial na cena musical pós-punk, eletrônica experimental e underground inclui um álbum com seus vocais e teclados em discos de fábrica com o ‘Royal Family and the Poor’ (FACT140). Após esta colaboração, Amodali ficou fascinada com os aspectos mágicos da voz e o papel esotérico da cantora e desenvolveu um conjunto único de técnicas vocais estendidas como parte de seu trabalho com a corrente 156. Ela é mais frequentemente associada a ‘Mother Destruction‘, um projeto de música / performance ritual de dez anos criado com Patrick Leagas do 6 Comm. Mother Destruction gravou um grande catálogo de obras musicais e excursionou extensivamente por toda a Europa entre 1990-2000.

Amodali ao vivo no WGT/Leipzig Kuppelhalle. 2008. Com Psychic TV, Voxus Imp e Barditos. 

Após o término do projeto Mother Destruction, Amodali continuou desenvolvendo uma prática que integra voz, movimento e estados de transe em espaços de performance como meio de criar experiências imersivas da corrente 156. Ela se apresentou na Europa e nos EUA como artista solo. Desde 2000, Amodali também se estabeleceu como artista e escritor. Formada pela Liverpool School of Art, suas colagens complexas e eroticamente carregadas da anatomia sutil do corpo mágico feminino foram exibidas em Londres, Seattle e Dublin nos últimos anos.

‘Moon Moth Woman (A Mulher-Mariposa Lunar)‘ – Imagem usada como Capa para a Dreamflesh Magazine.

Amodali concluiu recentemente um mestrado em Belas Artes para explorar ainda mais os estados alterados de consciência e o feminino divino encarnado dentro da pesquisa artística conduzida pela prática. Ampliando seu repertório para escultura, instalação e realização de curtas-metragens.

Amodali 2020-21, Angels, Angles, Anarchy-installation and Geogamicas:Galvah-short film.  (Anjos, Ângulos, Instalação Anárquica e Geogâmicas: O curto-metragem Galvah). Documentação da exposição no laboratório da LJMU Exhibition  Research.

Os escritos de Amodali foram publicados em várias publicações de livros, como Schillerndes Dunkel: Geschichte, Entwicklung und Themen der Gothic-Szene (A Escuridão Iridescente: História, Desenvolvimento e Temas da Cena Gótica), ‘Spirit Builders’: A free Illuminist Approach to the Antient and primitive Rite of Memphis Misraim. (Os Construtores de Espíritos: Uma Abordagem Iluminista Livre do Rito Antigo e Primitivo de Memphis Misraim), e um ensaio foi apresentado no Three Hand Press Anthology, ‘A Rose veiled in Black’– Arcana and Art of Our Lady Babalon (‘Uma Rosa Velada de Preto’ – A Arcana e a Arte de Nossa Senhora Babalon).

Muitos projetos paralelos adicionais incluem material de trilha sonora escrito e gravado para ‘Claire Obscure’, um filme de Madmoiselle L/Limonadeart que foi exibido em festivais internacionais de curtas-metragens na França, Canadá, Cingapura e EUA

Amodali dá palestras sobre assuntos relacionados à magia de Babalon, e deu palestras sobre os aspectos mágicos e fenomenológicos da corrente 156 na série de palestras ‘Ecology, Cosmos and Consciousness (Ecologia, Cosmo e Consciência)’ na October Gallery, Londres. 2013 e na Esoteric Book Conference 2014, nas Magical Women Conferences 2019/21, na ASE Conference 2018 e a série de palestras Studium Generale KABK. Uma extensa síntese de sua prática mágica, THE MARKS OF TETH (Os Marcas de Teth), deve ser publicada pela THREE HANDS PRESS.

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Fonte: Biography, by Amodali.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/amodali-uma-autobiografia/

Deus e o Estado

Três elementos ou três princípios fundamentais constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano, coletivo ou individual:

1º) a animalidade humana;
2º) o pensamento;
3º) a revolta.

À primeira corresponde propriamente a economia social e privada; à segunda, a ciência; à terceira, a liberdade.

Os idealistas de todas as escolas, aristocratas e burgueses, teólogos e metafísicos, políticos e moralistas, religiosos, filósofos ou poetas, sem esquecer os economistas liberais, adoradores desmedidos do ideal, como se sabe, ofendem-se muito quando se lhes diz que o homem, com sua inteligência magnífica, suas idéias sublimes e suas aspirações infinitas, nada mais é, como tudo o que existe neste inundo, que um produto da vil matéria.

Poderíamos responder-lhes que a matéria da qual falam os materialistas, matéria espontaneamente, eternamente móvel, ativa, produtiva, a matéria química ou organicamente determinada e manifesta pelas propriedades ou pelas forças mecânicas, físicas, animais e inteligentes, que lhe são forçosamente inerentes, esta matéria nada tem de comum com a vil matéria dos idealistas. Esta última, produto de falsa abstração, é efetivamente uma coisa estúpida, inanimada, imóvel, incapaz de dar vida ao mínimo produto, um caput mortuum, uma infame imaginação oposta a esta bela imaginação que eles chamam Deus; em relação ao Ser supremo, a matéria, a matéria deles, despojada por eles mesmos de tudo o que constitui sua natureza real, representa necessariamente o supremo nada. Eles retiraram da matéria a inteligência, a vida, todas as qualidades determinantes, as relações ativas ou as forças, o próprio movimento, sem o qual a matéria sequer teria peso, nada lhe deixando da impenetrabilidade e da imobilidade absoluta no espaço; eles atribuíram todas estas forças, propriedades ou manifestações naturais ao ser imaginário criado por sua fantasia abstrativa; em seguida, invertendo os papéis, denominaram este produto de sua imaginação, este fantasma, este Deus que é o nada, “Ser supremo”; e, por conseqüência necessária, declararam que o Ser real, a matéria, o mundo, era o nada. Depois disso eles vêm nos dizer gravemente que esta matéria é incapaz de produzir qualquer coisa que seja, até mesmo colocar-se em movimento por si mesma, e que por conseqüência deve ter sido criada por seu Deus.

Quem tem razão, os idealistas ou os materialistas? Uma vez feita a pergunta, a hesitação se torna impossível. Sem dúvida, os idealistas estão errados e os materialistas certos. Sim, os fatos têm primazia sobre as idéias; sim, o ideal, como disse Proudhon, nada mais é do que uma flor, cujas condições materiais de existência constituem a raiz. Sim, toda a história intelectual e moral, política e social da humanidade é um reflexo de sua história econômica.

Todos os ramos da ciência moderna, da verdadeira e desinteressada ciência, concorrem para proclamar esta grande verdade, fundamental e decisiva: o mundo social, o mundo propriamente humano, a humanidade numa palavra, outra coisa não é senão o desenvolvimento supremo, a manifestação mais elevada da animalidade pelo menos para nós e em relação ao nosso planeta. Mas como todo desenvolvimento implica necessariamente uma negação, a da base ou do ponto de partida, a humanidade é, ao mesmo tempo e essencialmente, a negação refletida e progressiva da animalidade nos homens; e é precisamente esta negação, racional por ser natural, simultaneamente histórica e lógica, fatal como o são os desenvolvimentos e as realizações de todas as leis naturais no mundo, é ela que constitui e que cria o ideal, o mundo das convicções intelectuais e morais, as idéias.

Sim, nossos primeiros ancestrais, nossos Adão e Eva foram, senão gorilas, pelo menos primos muito próximos dos gorilas, dos onívoros, dos animais inteligentes e ferozes, dotados, em grau maior do que o dos animais de todas as outras espécies, de duas faculdades preciosas: a faculdade de pensar e a necessidade de se revoltar.

Estas duas faculdades, combinando sua ação progressiva na história, representam a potência negativa no desenvolvimento positivo da animalidade humana, e criam consequentemente tudo o que constitui a humanidade nos homens. A Bíblia, que é um livro muito interessante, e aqui e ali muito profundo, quando o consideramos como uma das mais antigas manifestações da sabedoria e da fantasia humanas, exprime esta verdade, de maneira muito ingênua, em seu mito do pecado original. Jeová, que, de todos os bons deuses adorados pelos homens, foi certamente o mais ciumento, o mais vaidoso, o mais feroz, o mais injusto, o mais sanguinário, o mais despótico e o maior inimigo da dignidade e da liberdade humanas, Jeová acabava de criar Adão e Eva, não se sabe por qual capricho, talvez para ter novos escravos. Ele pôs, generosamente, à disposição deles toda a terra, com todos os seus frutos e todos os seus animais, e impôs um único limite a este completo gozo: proibiu-os expressamente de tocar os frutos da árvore de ciência. Ele queria, pois, que o homem, privado de toda consciência de si mesmo, permanecesse um eterno animal, sempre de quatro patas diante do Deus “vivo”, seu criador e seu senhor. Mas eis que chega Satã, o eterno revoltado, o primeiro livre-pensador e o emancipador dos mundos! Ele faz o homem se envergonhar de sua ignorância e de sua obediência bestiais; ele o emancipa, imprime em sua fronte a marca da liberdade e da humanidade, levando-o a desobedecer e a provar do fruto da ciência.

Conhece-se o resto. O bom Deus, cuja presciência, constituindo uma das divinas faculdades, deveria tê-lo advertido do que aconteceria, pôs-se em terrível e ridículo furor: amaldiçoou Satã, o homem e o mundo criados por ele próprio, ferindo-se, por assim dizer, em sua própria criação, como fazem as crianças quando se põem em cólera; e não contente em atingir nossos ancestrais, naquele momento ele os amaldiçoou em todas as suas gerações futuras, inocentes do crime cometido por seus ancestrais .

Nossos teólogos católicos e protestantes acham isto muito profundo e justo, precisamente porque é monstruosamente iníquo e absurdo. Depois, lembrando-se de que ele não era somente um Deus de vingança e cólera, mais ainda, um Deus de amor, após ter atormentado a existência de alguns bilhões de pobres seres humanos e tê-los condenado a um eterno inferno, sentiu piedade e para salvá-los, para reconciliar seu amor eterno e divino com sua cólera eterna e divina, sempre ávida de vítimas e de sangue, ele enviou ao mundo, como uma vítima expiatória, seu filho único, a fim de que ele fosse morto pelos homens. Isto é denominado mistério da Redenção, base de todas as religiões cristãs.

Ainda se o divino Salvador tivesse salvo o mundo humano! Mas não; no paraíso prometido pelo Cristo, como se sabe, visto que é formalmente anunciado, haverá poucos eleitos. O resto, a imensa maioria das gerações presentes e futuras arderão eternamente no inferno. Enquanto isso, para nos consolar, Deus, sempre justo, sempre bom, entrega a terra ao governo dos Napoleão III, Guilherme 1, Ferdinando da Áustria e Alexandre de todas as Rússias.

Tais são os contos absurdos que se narram e as doutrinas monstruosas que se ensinam, em pleno século XIX, em todas as escolas populares da Europa, sob ordem expressa dos governos. Chama-se a isto civilizar os povos! Não é evidente que todos os governos são os envenenadores sistemáticos, os embrutecedores interessados das massas populares?

Eis os ignóbeis e criminosos meios que eles empregam para reter as nações em eterna escravidão, a fim de poder melhor despojá-las, sem dúvida nenhuma. O que são os crimes de todos os Tropmann do mundo, em presença deste crime de lesa-humanidade que se comete quotidianamente, abertamente, sobre toda a superfície do mundo civilizado, por aqueles mesmos que ousam chamar-se de tutores e pais dos povos?

Entretanto, no mito do pecado original, Deus deu razão a Satã; ele reconheceu que o diabo não havia enganado Adão e Eva ao lhes prometer a ciência e a liberdade, como recompensa pelo ato de desobediência que ele os induzira a cometer. Assim que eles provaram do fruto proibido, Deus disse a si mesmo (ver a Bíblia): “Aí está, o homem tornou-se como um dos deuses, ele conhece o bem e o mal; impeçamo-lo pois de comer o fruto da vida eterna, a fim de que ele não se torne imortal como Nós”. Deixemos agora de lado a parte fabulosa deste mito, e consideremos seu verdadeiro sentido, muito claro, por sinal. O homem se emancipou, separou-se da animalidade e se constituiu homem; ele começou sua história e seu desenvolvimento especificamente humano por um ato de desobediência e de ciência, isto é, pela revolta e pelo pensamento .

O sistema dos idealistas apresenta-nos inteiramente ao contrário. É a reviravolta absoluta de todas essas experiências humanas e deste bom senso universal e comum, que é a condição essencial de qualquer conhecimento humano, e que, partindo desta verdade tão simples, há tanto tempo reconhecida, que 2 mais 2 são 4, até às considerações científicas mais sublimes e mais complicadas, não admitindo, por sinal, nada que não seja severamente confirmado pela experiência e pela observação das coisas e dos fatos, constitui a única base séria dos conhecimentos humanos.

Concebe-se perfeitamente o desenvolvimento sucessivo do mundo material, tanto quanto o da vida orgânica, animal, e da inteligência historicamente progressiva do homem, individual ou social. É um movimento completamente natural, do simples ao composto, de baixo para cima, ou do inferior ao superior; um movimento conforme a todas as nossas experiências quotidianas e, consequentemente, conforme também à nossa lógica natural, às leis próprias de nosso espírito, que só se formam e só podem desenvolver-se com a ajuda destas mesmas experiências, que nada mais são senão sua reprodução mental, cerebral, ou o resumo ponderado.

Longe de seguir a via natural, de baixo para cima, do inferior ao superior, e do relativamente simples ao mais complicado; ao invés de admitir sabiamente, racionalmente, a transição progressiva e real do mundo denominado inorgânico ao mundo orgânico, vegetal, animal, em seguida especialmente humano; da matéria ou do ser químico à matéria ou ao ser vivo, e do ser vivo ao ser pensante, os idealistas, obsedados, cegos e impulsionados pelo fantasma divino que herdaram da teologia, tomam a via absolutamente contrária. Eles vão de cima para baixo, do superior ao inferior, do complicado ao simples. Eles começam por Deus, seja como pessoa, seja como substância ou idéia divina, e o primeiro passo que dão é uma terrível queda das alturas sublimes do eterno ideal na lama do mundo material: da perfeição absoluta na imperfeição absoluta; do pensamento ao ser, ou ainda, do Ser Supremo ao Nada. Quando, como o por que o Ser divino, eterno, infinito, o perfeito absoluto, provavelmente entediado de si mesmo, decidiu-se a esse salto mortal desesperado, eis o que nenhum idealista, nem teólogo, nem metafísico, nem poeta, jamais soube compreender, nem explicar aos profanos. Todas as religiões passadas e presentes e todos os sistemas de filosofia transcendentes apoiam-se nesse único e iníquo mistério[‘].

Santos homens, legisladores inspirados, profetas e messias, procuraram lá a vida e só encontraram a tortura e a morte. Assim como a esfinge antiga, ele os devorou, porque não souberam explicar esse mistério. Grandes filósofos, desde Heráclito e Platão até Descartes, Spinoza, Leibnitz, Kant, Fichte, Schelling e Hegel, sem falar dos filósofos hindus, escreveram amontoados de volumes e criaram sistemas tão engenhosos quanto sublimes, nos quais disseram passagens muito belas, e grandes coisas, e descobriram verdades imortais, mas deixaram este mistério, objeto principal de suas investigações transcendentes, tão insondável quanto antes deles.

Os esforços gigantescos dos mais admiráveis gênios que o mundo conhece, e que, uns após outros, durante trinta séculos pelo menos, empreenderam sempre esse trabalho de Sísifo, só conseguiram tornar este mistério mais incompreensível ainda. Podemos esperar que ele nos seja desvendado pelas especulações rotineiras de algum pedante discípulo de uma metafísica artificialmente requentada, numa época em que todos os espíritos vivos e sérios desviaram-se dessa ciência equivoca, saída de uma transação entre o contra-senso da fé e a sadia razão científica? É evidente que esse terrível mistério é inexplicável, isto é, absurdo, e absurdo porque não se deixa explicar. E evidente que alguém que dele necessite para sua felicidade, para sua vida, deve renunciar à sua razão e retornar, caso seja possível, à fé ingênua, cega, estúpida; repetir com Tertuliano e com todos os crentes sinceros estas palavras que resumem a própria quintessência da teologia: Credo quja absurdum.

Nesse caso cessa toda a discussão e só resta a estupidez triunfante da fé. Mas logo em seguida surge uma outra pergunta: Como pode nascer, em um homem inteligente e instruído, a necessidade de crer nesse mistério? Que a crença em Deus, criador, ordenador, juiz, senhor, amaldiçoador, salvador e benfeitor do mundo, tenha se conservado no povo, e sobretudo nas populações rurais, muito mais do que no proletariado das cidades, nada mais natural.

O povo, infelizmente, é ainda muito ignorante e mantido na ignorância pelos esforços sistemáticos de todos os governos que consideram isso, com muita razão, como uma das condições essenciais de seu próprio poder. Esmagado por seu trabalho quotidiano, privado de lazer, de comércio intelectual, de leitura, enfim, de quase todos os meios e de uma boa parte dos estímulos que desenvolvem a reflexão nos homens, o povo aceita, na maioria das vezes, sem crítica e em bloco, as tradições religiosas. Elas o envolvem desde a primeira idade, em todas as circunstâncias de sua vida, artificialmente mantidas em seu seio por uma multidão de corruptores oficiais de todos os tipos, padres e leigos, elas se transformam entre eles em um tipo de hábito mental, freqüentemente mais poderoso do que seu bom senso natural.

Há uma outra razão que explica e legitima de certo modo as crenças absurdas do povo. Esta razão é a situação miserável à qual ele se encontra fatalmente condenado pela organização econômica da sociedade, nos países mais civilizados da Europa. Reduzido, sob o aspecto intelectual e moral, tanto quanto sob o aspecto material, ao mínimo de uma existência humana, recluso em sua vida como um prisioneiro em sua prisão, sem horizontes, sem saída, até mesmo sem futuro, se se acredita nos economistas, o povo deveria ter a alma singularmente estreita e o instinto aviltado dos burgueses para não sentir a necessidade de sair disso; mas, para isso, há somente três meios: dois fantásticos, e o terceiro real. Os dois primeiros são o cabaré e a igreja; o terceiro é a revolução social. Esta última, muito mais que a propaganda antiteológica dos livres-pensadores, será capaz de destruir as crenças religiosas e os hábitos de libertinagem no povo, crenças e hábitos que estão mais intimamente ligados do que se pensa. Substituindo os gozos simultaneamente ilusórios e brutais da orgia corporal e espiritual pelos gozos tão delicados quanto ricos da humanidade desenvolvida em cada um e em todos, a revolução social terá a força de fechar ao mesmo tempo todos os cabarés e todas as igrejas. Até lá, o povo, considerado em massa, crerá, e se não tem razão de crer, pelo menos terá o direito de fazê-lo .

Há uma categoria de pessoas que, se não crêem, devem pelo menos fazer de conta que sim. São todos os atormentadores, os opressores, os exploradores da humanidade: padres, monarcas, homens de Estado, homens de guerra, financistas públicos e privados, funcionários de todos os tipos, soldados, policiais, carcereiros e carrascos, capitalistas, aproveitadores, empresários e proprietários, advogados, economistas, políticos de todas as cores, até o último vendedor de especiarias, todos repetirão em uníssono essas palavras de Voltaire: “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo”. Vós compreendeis, “é preciso uma religião para o povo”. E a válvula de escape. Há também um número de almas honestas, mas fracas, que, muito inteligentes para levar os dogmas cristãos a sério, rejeita-os a retalho, mas não têm a coragem, nem a força, nem a resolução necessária para repeli-los por atacado. Elas abandonam à crítica todos os absurdos particulares da religião, elas desdenham de todos os milagres, mas se agarram desesperadamente ao absurdo principal, fontes de todos os outros, ao milagre que explica e legitima todos os outros milagres, à existência de Deus.

Seu Deus não é, em nada, o Ser vigoroso e potente, o Deus totalmente positivo da teologia. E um ser nebuloso, diáfano, ilusório, de tal forma ilusório que se transforma em Nada quando se acredita tê-lo agarrado; é uma miragem, uma pequena chama que não aquece nem ilumina. E entretanto elas se prendem a ele, e acreditam que se ele desaparecesse, tudo desapareceria com ele. São almas incertas, doentes, desorientadas na civilização atual, não pertencendo nem ao presente nem ao futuro, pálidos fantasmas eternamente suspensos entre o céu e a terra, e ocupando, entre a política burguesa e o socialismo do proletariado, absolutamente a mesma posição. Elas não seu tem força para pensar até o fim, nem para querer, nem para se decidir, e perdem seu tempo e sua ocupação esforçando-se sempre em conciliar o inconciliável. Na vida pública, estas pessoas se chamam socialistas burgueses .

Nenhuma discussão é possível com elas. Elas são muito doentes.

Mas há um pequeno número de homens ilustres, dos quais ninguém ousará falar sem respeito, e dos quais nada poderá colocar em dúvida nem a saúde vigorosa, nem a força de espírito, nem a boa fé. Basta que eu cite os nomes de Mazzini, Michelet, Quinet, John Stuart Mill [2] Almas generosas e fortes, grandes corações, grandes espíritos, grandes escritores, o primeiro, regenerador heróico e revolucionário de uma grande nação, são todos apóstolos do idealismo, e desprezadores, adversários apaixonados do materialismo, e, consequentemente, do socialismo, em filosofia tanto quanto em política. É pois contra eles que é preciso discutir esta questão.

* * *

Constatemos inicialmente que nenhum dos homens ilustres que acabo de citar, nem qualquer outro pensador idealista com alguma importância em nossos dias ocupou-se, para dizer a verdade, com a parte lógica desta questão. Nenhum tentou resolver filosoficamente a possibilidade do salto mortal divino das regiões eternas e puras do espírito à lama do mundo material. Será que eles temeram abordar esta insolúvel contradição e se desesperaram de resolvê-la, depois que os maiores gênios da história fracassaram, ou será que eles a consideraram como já suficientemente resolvida? É segredo deles. O fato é que eles deixaram de lado a demonstração teórica da existência de um Deus, e só desenvolveram suas razões e conseqüências práticas. Eles falaram dele como de um fato universalmente aceito e, como tal, não podendo mais tornar-se objeto de uma dúvida qualquer, limitando-se, contra qualquer prova, a constatar a antigüidade e mesmo a universalidade da crença em Deus .
Esta unanimidade imponente, segundo a opinião de muitos homens e escritores ilustres, e, para citar apenas os mais renomados dentre eles, Joseph de Maistre e o grande patriota italiano Giuseppe Mazzini, vale mais do que todas as demonstrações da ciência; e, se a lógica de um pequeno número de pensadores conseqüentes e mesmo muito influentes, mas isolados, lhe é contrária, tanto pior, dizem eles, para estes pensadores e para sua lógica, pois o consentimento geral, a adoção universal e antiga de uma idéia foram sempre consideradas como a prova mais vitoriosa de sua verdade.

O sentimento de todo o mundo, uma convicção que é encontrada e se mantém sempre e em todos os lugares não poderia se enganar; eles devem ter sua raiz numa necessidade absolutamente inerente à própria natureza do homem. E visto que foi constatado que todos os povos passados e presentes acreditaram e acreditam na existência de Deus, é evidente que aqueles que têm a infelicidade de duvidar disso, qualquer que seja a lógica que os tenha levado a esta dúvida, são exceções, anomalias, monstros. Assim, pois, a antigüidade e a universalidade de uma crença seriam, contra toda ciência e contra toda lógica, uma prova suficiente e irrecusável de sua verdade. Por quê? Até o século de Galileu e de Copérnico, todo mundo acreditava que o sol girava em torno da terra.

Todo mundo não estava errado? O que há de mais antigo e de mais universal do que a escravidão? A antropofagia, talvez. Desde a origem da sociedade histórica, até nossos dias, sempre houve, e em todos os lugares, exploração do trabalho forçado das massas, escravos, servos ou assalariados, por alguma minoria dominante, opressão dos povos pela Igreja e pelo Estado. Deve-se concluir que esta exploração e esta opressão sejam necessidades absolutamente inerentes à própria existência da sociedade humana? Eis alguns exemplos que mostram que a argumentação dos advogados do bom Deus nada prova. Nada é, com efeito, nem tão universal nem tão antigo quanto o iníquo e o absurdo; é ao contrário a verdade, a justiça que, no desenvolvimento das sociedades humanas, aio as menos universais e as mais jovens. Assim se explica, por sinal, um fenômeno histórico constante: as perseguições àqueles que proclamam a primazia da verdade, por parte dos representantes oficiais, privilegiados e interessados pelas crenças “universais” e “antigas”, e freqüentemente também por parte destas mesmas massas populares que, após tê-los inicialmente desconhecido, acabam sempre por adotar e por fazer triunfar suas idéias.

Para nós, materialistas e socialistas revolucionários, não há nada que nos surpreenda e nos amedronte nesse fenômeno histórico.

Fortalecidos em nossa consciência, em nosso amor pela verdade, por esta paixão lógica que por si só constitui uma grande força, e fora da qual não há pensamento; fortalecidos em nossa paixão pela justiça e em nossa fé inquebrantável no triunfo da humanidade sobre todas as bestialidades teóricas e práticas; fortalecidos, enfim, em nossa confiança e no apoio mútuo que se dá o pequeno número daqueles que compartilham nossas convicções, nós nos resignamos por nós mesmos a todas as conseqüências desse fenômeno histórico no qual vemos a manifestação de uma lei social tão invariável quanto todas as outras leis que governam o mundo.

Esta lei é uma conseqüência lógica, inevitável, da origem animal da sociedade humana; e diante de todas as provas científicas, fisiológicas, psicológicas, históricas, que se acumularam em nossos dias, assim como diante das façanhas dos alemães conquistadores da França, que dão uma demonstração tão ruidosa, não é mais possível, realmente, duvidar disso. Mas, do momento em que se aceita esta origem animal do homem, tudo se explica. A história nos aparece então como a negação revolucionária, ora lenta, apática, adormecida, ora apaixonada e possante, do passado. Ela consiste precisamente na negação progressiva da animalidade primitiva do homem pelo desenvolvimento de sua humanidade. O homem, animal feroz, primo do gorila, partiu da noite profunda do instinto animal para chegar à luz do espírito, o que explica de uma maneira completamente natural todas as suas divagações passadas e nos consola em parte de seus erros presentes. Ele partiu da escravidão animal, e atravessando a escravidão divina, termo transitório entre sua animalidade e sua humanidade, caminha hoje rumo à conquista e à realização da liberdade humana.

Resulta daí que a antigüidade de uma crença, de uma idéia, longe de provar alguma coisa em seu favor, deve, ao contrário, torná-la suspeita para nós. Isto porque atrás de nós está nossa animalidade, e diante de nós nossa humanidade; a luz humana, a única que pode nos aquecer e nos iluminar, a única que nos pode emancipar, tornar-nos dignos, livres, felizes, e realizar a fraternidade entre nós, jamais está no princípio, mas, relativamente, na época em que se vive, e sempre no fim da história. Não olhemos jamais para trás, olhemos sempre para a frente; à frente está nosso sol, nossa salvação; se nos é permitido, se é mesmo útil, necessário nos virarmos para o estudo de nosso passado, é apenas para constatar o que fomos e o que não devemos mais ser, o que acreditamos e pensamos, e o que não devemos mais acreditar nem pensar, o que fizemos e o que nunca mais deveremos fazer. Eis o que concerne à antigüidade.

Quanto à universalidade de um erro, ela só prova uma coisa: a semelhança, senão a perfeita identidade da natureza humana, em todos os tempos e sob todos os climas. E, visto que está constatado que todos os povos, em todas as épocas de sua vida, acreditaram e acreditam ainda em Deus, devemos concluir disso, simplesmente, que a idéia divina, emanada de nós mesmos, é um erro historicamente necessário no desenvolvimento da humanidade, e nos perguntarmos por que, como ele foi produzido na história, por que a imensa maioria da espécie humana o aceita, ainda hoje, como uma verdade? Enquanto não soubermos dar-nos conta da maneira como a idéia de um mundo sobrenatural e divino se produziu, e pôde fatalmente se produzir no desenvolvimento histórico da consciência humana, de nada adiantará estarmos cientificamente convencidos do absurdo desta idéia, não conseguiremos nunca destruí-la na opinião da maioria, porque não saberemos jamais atacá-la nas profundezas do ser humano, onde ela se originou. Condenados a uma esterilidade sem saída e sem fim, devemos sempre contentar-nos em combatê-la somente à superfície, em suas inúmeras manifestações, cujo absurdo, tão logo abatido pelos golpes do bom senso, renasce imediatamente após, sob uma nova forma, não menos insensata.

Enquanto a raiz de todos os absurdos que atormentam o mundo não for destruída, a crença em Deus permanecerá intacta e jamais deixará de produzir novos brotos. E assim que, em nossos dias, em certas regiões da alta sociedade, o espiritismo tende a se instalar sobre as ruínas do cristianismo. Não é somente no interesse das massas, é no interesse da saúde de nosso próprio espírito que devemos nos esforçar para compreender a gênese histórica, a sucessão das causas que desenvolveram e produziram a idéia de Deus na consciência dos homens. De nada adianta nos dizermos e nos considerarmos ateus; enquanto não tivermos compreendido essas causas, nos deixaremos sempre mais ou menos dominar pelos clamores dessa consciência universal, da qual não teremos descoberto o segredo, e dada a fraqueza natural do indivíduo, mesmo do mais forte, contra a influência todo-poderosa do meio social que o entrava, corremos sempre o risco de recair, cedo ou tarde, de uma maneira ou de outra, no abismo do absurdo religioso. Os exemplos dessas conversões vergonhosas são freqüentes na sociedade atual.

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Falei da razão prática principal do poder exercido ainda hoje pelas crenças religiosas sobre as massas. Essas disposições místicas não denotam no homem somente uma aberração do espírito, mas um profundo descontentamento do coração. E o protesto instintivo e apaixonado do ser humano contra as estreitezas, as vulgaridades, as dores e as vergonhas de uma existência miserável. Contra esta doença, já disse, só há um único remédio: a Revolução Social. Em outros escritos me preocupei em expor as causas que presidiram ao nascimento e ao desenvolvimento histórico das alucinações religiosas na consciência do homem. E aqui quero tratar desta questão da existência de um Deus, ou da origem divina do mundo e do homem sob o ponto de vista de sua utilidade moral e social, e direi poucas palavras sobre a razão teórica desta crença, a fim de melhor explicar meu pensamento .

Todas as religiões, com seus deuses, seus semideuses e seus profetas, seus messias e seus santos, foram criadas pela fantasia crédula do homem, que ainda não alcançou o pleno desenvolvimento e a plena possessão de suas faculdades intelectuais. Em conseqüência, o céu religioso nada mais é do que uma miragem onde o homem, exaltado pela ignorância pela fé, encontra sua própria imagem, mas ampliada e invertida, isto é, divinizada. A história das religiões, a do nascimento, da grandeza e da decadência dos deuses que se se sucederam na crença humana, não é nada mais do que o desenvolvimento da inteligência e da consciência coletivas homens.

À medida que, em sua marcha histórica progressiva, eles descobriam, seja neles próprios, seja na natureza exterior, uma força, uma qualidade, ou mesmo grande defeito quaisquer, eles os atribuíam a seus deuses após tê-los exagerado, ampliado desmedidamente, como fazem habitualmente as crianças, por um ato de sua fantasia religiosa. Graças a esta modéstia e a esta piedosa generosidade dos homens, crentes e crédulos, o céu se enriqueceu com os despojos da terra, e, por conseqüência necessária, quanto mais o céu se tornava rico, mais a humanidade e a terra se tornavam miseráveis. Uma vez instalada a divindade, ela foi naturalmente proclamada a causa, a razão, o árbitro e o distribuidor absoluto de todas as coisas: o mundo não foi mais nada, ela foi tudo; e o homem, seu verdadeiro criador, após tê-la tirado do nada sem o saber, ajoelhou-se diante dela, adorou-a e se proclamou sua criatura e seu escravo.

O cristianismo é precisamente a religião por excelência, porque ele expõe e manifesta, em sua plenitude, a natureza, a própria essência de todo o sistema religioso, que é empobrecimento, a escravização e o aniquilamento da humanidade em proveito da divindade. Deus sendo tudo, o mundo real e o homem não são nada. Deus sendo a verdade, a justiça, o bem, o belo, a força e a vida, o homem é a mentira, a iniqüidade, o mal, a feiúra, a impotência e a morte. Deus sendo o senhor, o homem é o escravo. Incapaz de encontrar por si próprio a justiça, a verdade e a vida eterna, ele só pode alcançar isso por meio de uma revelação divina. Mas quem diz revelação diz reveladores, messias, profetas, padres e legisladores inspirados pelo próprio Deus; e estes, uma vez reconhecidos como os representantes da divindade sobre a terra, como os santos instituidores da humanidade, eleitos pelo próprio Deus para dirigi-la em direção à via da salvação, exercem necessariamente um poder absoluto. Todos os homens lhes devem uma obediência passiva e ilimitada, pois contra a razão divina não há razão humana, e contra a justiça de Deus não há justiça terrestre que se mantenha.

Escravos de Deus, os homens devem sê-lo também da Igreja e do Estado, enquanto este último for consagrado pela Igreja. Eis o que de todas as religiões que existem ou que existiram, o cristianismo compreendeu melhor do que as outras, sem excetuar a maioria das antigas religiões orientais, as quais só abarcaram povos distintos e privilegiados, enquanto que o cristianismo tem a pretensão de abarcar a humanidade inteira; eis o que, de todas as seitas cristãs, o catolicismo romano, sozinho, proclamou e realizou com uma conseqüência rigorosa .
É por isso que o cristianismo é a religião absoluta, a última religião, é por isso que a Igreja apostólica e romana é a única conseqüente, a única lógica. A despeito dos metafísicos e dos idealistas religiosos, filósofos, políticos ou poetas, a idéia de Deus implica a abdicação da razão e da justiça humanas; ela é a negação mais decisiva da liberdade humana e resulta necessariamente na escravidão dos homens, tanto na teoria quanto na prática. A não ser que queiramos a escravidão e o envilecimento dos homens, como o querem os jesuítas, como o querem os mômiers [3], os pietistas[4] e os metodistas protestantes, não podemos nem devemos fazer a mínima concessão, nem ao Deus da teologia nem ao da metafísica. Aquele que, neste alfabeto místico, começa por Deus, deverá fatalmente acabar por Deus; aquele que quer adorar Deus, deve, sem se pôr ilusões pueris, renunciar bravamente à sua liberdade e à sua humanidade. Se Deus é, o homem é escravo; ora, o homem pode, deve ser livre, portanto, Deus não existe. Desafio quem quer que seja para sair deste circulo, e agora que se escolha.

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É preciso lembrar quanto e como as religiões embrutecem e corrompem os povos? Elas matam neles a razão, o principal instrumento da emancipação humana e os reduzem à imbecilidade, condição essencial da escravidão. Elas desonram o trabalho humano e fazem dele sinal e fonte de servidão. Elas matam a noção e o sentimento da justiça humana, fazendo sempre pender a balança para o lado dos patifes triunfantes, objetos privilegiados da graça divina. Elas matam o orgulho e a dignidade humana, protegendo apenas a submissos e os humildes. Elas sufocam no coração dos povos todo sentimento de fraternidade humana, preenchendo-o de crueldade. Todas as religiões são cruéis, todas são fundadas sobre o sangue, visto que todas repousam principalmente sobre a idéia do sacrifício, isto é, sobre a imolação perpétua da humanidade à insaciável vingança da divindade. Neste sangrento mistério, o homem é sempre a vítima, e o padre, homem também, mas homem privilegiado pela graça, é o divino carrasco. Isto nos explica por que os padres de todas as religiões, os melhores, os mais humanos, os mais doces, têm quase sempre no fundo de seu coração – senão no coração, pelo menos em sua imaginação, em seu espírito – alguma coisa de cruel e de sanguinário.

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Tudo isso, nossos ilustres idealistas contemporâneos sabem melhor do que ninguém. São homens sábios, que conhecem sua história de memória; e como eles são ao mesmo tempo homens vivos, grandes almas penetradas de um amor sincero e profundo pelo bem da humanidade, eles amaldiçoaram e estigmatizaram todas estas malfeitorias, todos estes crimes da religião com uma eloqüência sem igual. Eles rejeitam com indignação toda solidariedade com o Deus das religiões positivas e com seus representantes passados e presentes sobre a terra. O Deus que eles adoram, ou que eles pensam adorar, distingue-se precisamente dos deuses reais da história por não ser um Deus positivo, determinado da maneira que se quiser, teologicamente, ou até mesmo metafisicamente. Não 6 nem o Ser supremo de Robespierre e de Rousseau, nem o deus panteísta de Spinoza, nem mesmo o deus, ao mesmo tempo inocente, transcedente e muito equívoco de Hegel. Eles tomam cuidado de lhe dar uma determinação positiva qualquer, sentindo muito bem que toda determinação o submeteria à ação dissolvente da crítica. Eles não dirão se ele é um deus pessoal ou impessoal, se ele criou ou não criou o mundo; sequer falarão de sua divina providência .

Tudo isso poderia comprometê-lo. Eles se contentarão em dizê-lo: Deus, e nada mais do que isso. Mas então o que é seu deus? Não é sequer uma idéia, é uma aspiração. É o nome genérico de tudo o que parece grande, bom, belo, nobre, humano. Mas por que não dizem então: o homem? Ah! E que o rei Guilherme da Prússia e Napoleão III, e todos os idênticos a eles são igualmente homens: eis o que os embaraça muito. A humanidade real nos apresenta um conjunto de tudo o que há de mais vil e de mais monstruoso no mundo. Como sair disso? Eles chamam um de divino e o outro de bestial, representando a divindade e a animalidade como dois pólos entre os quais eles situam a humanidade. Eles não querem ou não podem compreender que estes três termos formam um único, e que se os separarmos, nós os destruímos. Eles não são bons em lógica, e dir-se-ia que a desprezam. E isso que os distingue dos metafísicos panteístas e deístas, e o que imprime às suas idéias o caráter de um idealismo prático, buscando suas inspirações menos no desenvolvimento severo de um pensamento do que nas experiências, direi, quase nas emoções, tanto históricas e coletivas quanto individuais, da vida. Isto dá à sua propaganda uma aparência de riqueza e de potência vital, mas aparência somente, pois a vida se torna estéril quando é paralisada por uma contradição lógica. Esta contradição é a seguinte: eles querem Deus e querem a humanidade. Obstinam-se em colocar juntos dois termos que, uma vez separados, só podem se reencontrar para se entredestruir.

Eles dizem de uma só vez: Deus e a liberdade do homem, Deus e a dignidade, a justiça, a igualdade, a fraternidade, a prosperidade dos homens, sem se preocupar com a lógica fatal, em virtude da qual, se Deus existe, ele é necessariamente o senhor eterno, supremo, absoluto, e se este senhor existe, o homem é escravo; se ele é escravo, não há justiça, nem igualdade, nem fraternidade, nem prosperidade possível. De nada adiantará, contrariamente ao bom senso e a todas as experiências da história, eles representarem seu Deus animado do mais doce amor pela liberdade humana: um senhor, por mais que ele faça e por mais liberal que queira se mostrar, jamais deixa de ser, por isso, um senhor. Sua existência implica necessariamente a escravidão de tudo o que se encontra debaixo dele. Assim, se Deus existisse, só haveria para ele um único meio de servir à liberdade humana; seria o de cessar de existir .

Amoroso e ciumento da liberdade humana e considerando-a como a condição absoluta de tudo o que adoramos e respeitamos na humanidade, inverto a frase de Voltaire e digo que, se Deus existisse, seria preciso aboli-lo.

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A severa lógica que me dita estas palavras é muito evidente para que eu necessite desenvolver esta argumentação. E me parece impossível que os homens ilustres, dos quais citei os nomes tão célebres e tão justamente respeitados não tenham sido tocados e não tenham percebido a contradição na qual eles caem ao falar de Deus e da liberdade humana simultaneamente. Para que tenham passado ao longo do problema, foi preciso que tivessem pensado que esta inconseqüência ou esta injustiça fosse, na prática, necessária para o próprio bem da humanidade .
Talvez, também, ao falar da liberdade como de uma coisa que é para eles respeitável e cara, eles a compreendam completamente diferente da que concebemos, nós, materialistas e socialistas revolucionários. Com efeito, eles não faiam jamais dela sem acrescentar imediatamente uma outra palavra, a da autoridade, uma palavra e uma coisa que detestamos com toda a força de nosso coração.

O que é a autoridade? E a força inevitável das leis naturais que se manifestam no encadeamento e na sucessão fatal dos fenômenos do mundo físico e do mundo social? Efetivamente, contra estas leis, a revolta é não somente proibida, é também impossível. Podemos conhecê-las mal, ou ainda não conhecê-las, mas não podemos desobedecê-las porque elas constituem a base e as próprias condições de nossa existência: elas nos envolvem, nos penetram, regulam todos os nossos movimentos, pensamentos e atos; mesmo quando pensamos desobedecê-las, não fazemos outra coisa que manifestar sua onipotência. Sim, somos absolutamente escravos destas leis. Mas nada há de humilhante nesta escravidão. A escravidão supõe um senhor exterior, um legislador que se situe fora daquele ao qual comanda; enquanto as leis não estão fora de nós, elas nos são inerentes, constituem nosso ser, todo nosso ser, corporal, intelectual e moralmente: só vivemos, só respiramos, só agimos, só pensamos, só queremos através delas. Fora delas não somos nada, não somos. i)e onde nos viria então o poder e o querer de nos revoltarmos contra elas? Em relação às leis naturais, só há, para o homem, uma única liberdade possível: reconhecê-las e aplicá-las cada vez mais, conforme o objetivo de emancipação ou de humanização coletiva e individual que ele persegue. Estas leis, uma vez reconhecidas, exercem uma autoridade que jamais é discutida pela massa dos homens. E preciso, por exemplo, ser, no fundo, um teólogo ou um economista burguês para se revoltar contra esta lei, segundo a qual dois mais dois são quatro. E preciso ter fé para pensar que não nos queimaríamos no fogo e que não nos afogaríamos na água, a menos que tenhamos recorrido a algum subterfúgio, fundado sobre qualquer outra lei natural. Mas estas revoltas, ou melhor, estas tentativas ou estas loucas fantasias de uma revolta impossível não formam mais do que uma exceção bastante rara, pois, em geral, se pode dizer que a massa dos homens, na vida quotidiana, se deixa governar pelo bom senso, o que significa dizer, pela soma das leis naturais geralmente reconhecidas, de maneira mais ou menos absoluta .

A infelicidade é que grande quantidade de leis naturais já constatadas como tais pela ciência, permanecem desconhecidas das massas populares, graças aos cuidados desses governos tutelares que só existem, como se sabe, para o bem dos povos. Há, além disso, um grande inconveniente: é que a maior parte das leis naturais, que estão ligadas ao desenvolvimento da sociedade humana e são tão necessárias, invariáveis, quanto as leis que governam o mundo físico, não foram devidamente constatadas e reconhecidas pela própria ciência [5].

Uma vez tivessem elas sido reconhecidas pela ciência, e que da ciência, através de um amplo sistema de educação e de instrução popular, elas passassem à consciência de todos, a questão da liberdade estaria perfeitamente resolvida. As autoridades mais recalcitrantes devem admitir que aí então não haverá necessidade de organização, nem de direção nem de legislação políticas, três coisas que emanam da vontade do soberano ou da votação de um parlamento eleito pelo sufrágio universal, jamais podendo estar conformes às leis naturais, e são sempre igualmente funestas e contrárias à liberdade das massas, visto que elas lhes impõem um sistema de leis exteriores, e consequentemente despóticas. A liberdade do homem consiste unicamente nisto: ele obedece às leis naturais porque ele próprio as reconheceu como tais, não porque elas lhe foram impostas exteriormente, por uma vontade estranha, divina ou humana, coletiva ou individual, qualquer.

Suponde uma academia de sábios, composta pelos representantes mais ilustres da ciência; imaginai que esta academia seja encarregada da legislação, da organização da sociedade, e que, inspirando-se apenas no amor da mais pura verdade, ela só dite leis absolutamente conforme às mais recentes descobertas da ciência. Pois bem, afirmo que esta legislação e esta organização serão uma monstruosidade, por duas razões: a primeira, é que a ciência humana é sempre necessariamente imperfeita, e que, comparando o que ela descobriu com o que ainda lhe resta a descobrir, pode-se dizer que está ainda em seu berço. De modo que, se quiséssemos forçar a vida prática dos homens, tanto coletivo quanto individual, a se conformar estritamente, exclusivamente, com os últimos dados da ciência, condenar-se-ia tanto a sociedade quanto os indivíduos a sofrer martírio sobre um leito de Procusto, que acabaria em breve por desarticulá-los e sufocá-los, ficando a vida sempre infinitamente maior do que a ciência.

A segunda razão é a seguinte: uma sociedade que obedecesse à legislação emanada de uma academia científica, não porque ela tivesse compreendido seu caráter racional – em cujo caso a existência da academia se tornaria inútil – mas porque esta legislação, emanando da academia, se imporia em nome de uma ciência que ela veneraria sem compreendê-la, tal sociedade não seria uma sociedade de homens, mais de brutos. Seria uma segunda edição dessas missões do Paraguai, que se deixaram governar durante tanto tempo pela Companhia de Jesus. Ela não deixaria de descer, em breve, ao mais baixo grau de idiotia .

as há ainda uma terceira razão que tornaria tal governo impossível. É que uma academia científica, revestida desta soberania por assim dizer absoluta, ainda que fosse composta pelos homens mais ilustres; acabaria infalivelmente, e em pouco tempo, por se corromper moral e intelectualmente. E atualmente, com o pouco de privilégios que lhes deixam, a história de todas as academias. O maior gênio científico, no momento em que se torna acadêmico, um sábio oficial, reconhecido, decai inevitavelmente e adormece. Perde sua espontaneidade, sua ousadia revolucionária, e a energia incômoda e selvagem que caracteriza a natureza dos maiores gênios, sempre chamada a destruir os mundos envelhecidos e a lançar os fundamentos dos novos mundos. Ganha sem dúvida em polidez, em sabedoria utilitária e prática, o que perde em força de pensamento. Numa palavra, ele se corrompe. É próprio do privilégio e de toda posição privilegiada matar o espírito e o coração dos homens. O homem privilegiado, seja política, seja economicamente, é um homem depravado de espírito e de coração. Eis uma lei social que não admite nenhuma exceção e que se aplica tanto a nações inteiras quanto às classes, companhias e indivíduos. E a lei da igualdade, condição suprema da liberdade e da humanidade.

O objetivo principal deste estudo é precisamente demonstrar esta verdade em todas as manifestações da vida humana. Um corpo científico, ao qual se tivesse confiado o governo da sociedade, acabaria logo por deixar de lado a ciência, ocupando-se de outro assunto; e este assunto, o de todos os poderes estabelecidos, seria sua eternização, tornando a sociedade confiada a seus cuidados cada vez mais estúpida e, por conseqüência, mais necessitada de seu governo e de sua direção. Mas o que é verdade para as academias científicas, o é igualmente para todas as assembléias constituintes e legislativas, mesmo quando emanadas do sufrágio universal. Este último pode renovar sua composição, é verdade, o que não impede que se forme, em alguns anos, um corpo de políticos, privilegiados de fato, não de direito, que, dedicando-se exclusivamente à direção dos assuntos públicos de um pais, acabem por formar um tipo de aristocracia ou de oligarquia política .
Vejam os Estados Unidos e a Suíça. Assim,. nada de legislação exterior e nada de autoridade, uma, por sinal, sendo inseparável da outra, e todas as duas tendendo à escravização da sociedade e ao embrutecimento dos próprios legisladores.

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Decorre daí que rejeito toda autoridade? Longe de mim este pensamento .

Quando se trata de botas, apelo para a autoridade dos sapateiros; se se trata de uma casa, de um canal ou de uma ferrovia, consulto a do arquiteto ou a do engenheiro. Por tal ciência especial, dirijo-me a este ou àquele cientista. Mas não deixo que me imponham nem o sapateiro, nem o arquiteto, nem o cientista. Eu os aceito livremente e com todo o respeito que me merecem sua inteligência, seu caráter, seu saber, reservando todavia meu direito incontestável de crítica e de controle. Não me contento em consultar uma única autoridade especialista, consulto várias; comparo suas opiniões, e escolho aquela que me parece a mais justa .

Mas não reconheço nenhuma autoridade infalível, mesmo nas questões especiais; consequentemente, qualquer que seja o respeito que eu possa ter pela humanidade e pela sinceridade desse ou daquele indivíduo, não tenho fé absoluta em ninguém. Tal fé seria fatal à minha razão, à minha liberdade e ao próprio sucesso de minhas ações; ela me transformaria imediatamente num escravo estúpido, num instrumento da vontade e dos interesses de outrem. Se me inclino diante da autoridade dos especialistas, e se me declaro pronto a segui-la, numa certa medida e durante todo o tempo que isso me pareça necessário, suas indicações e mesmo sua direção, é porque esta autoridade não me é imposta por ninguém, nem pelos homens, nem por Deus. De outra forma as rejeitaria com horror, e mandaria ao diabo seus conselhos, sua direção e seus serviços, certo de que eles me fariam pagar, pela perda de minha liberdade e de minha dignidade, as migalhas de verdade, envoltas em muitas mentiras que poderiam me dar. Inclino-me diante da autoridade dos homens especiais porque ela me é imposta por minha própria razão. Tenho consciência de só poder abraçar, em todos os seus detalhes e seus desenvolvimentos positivos, uma parte muito pequena da ciência humana. A maior inteligência não bastaria para abraçar tudo. Daí resulta, tanto para a ciência quanto para a indústria, a necessidade da divisão e da associação do trabalho. Recebo e dou, tal é a vida humana. Cada um é dirigente e cada um é dirigido por sua vez .

Assim, não há nenhuma autoridade fixa e constante, mas uma troca contínua de autoridade e de subordinação mútuas, passageiras e sobretudo voluntárias. Esta mesma razão me proíbe, pois, de reconhecer uma autoridade fixa, constante e universal, porque não há homem universal, homem que seja capaz de aplicar sua inteligência, nesta riqueza de detalhes sem a qual a aplicação da ciência a vida não é absolutamente possível, a todas as ciências, a todos os ramos da atividade social. E, se uma tal universalidade pudesse ser realizada em um único homem, e se ele quisesse se aproveitar disso para nos impor sua autoridade, seria preciso expulsar esse homem da sociedade, visto que sua autoridade reduziria inevitavelmente todos os outros à escravidão e à imbecilidade. Não penso que a sociedade deva maltratar os gênios como ela o fez até o presente momento; mas também não acho que os deva adular demais, nem lhes conceder quaisquer privilégios ou direitos exclusivos; e isto por três razões; inicialmente porque aconteceria com freqüência de ela tomar um charlatão por um gênio; em seguida porque, graças a este sistema de privilégios, ela poderia transformar um verdadeiro gênio num charlatão, desmoralizá-lo, animalizá-lo; e, enfim, porque ela daria a si um senhor .
Resumindo.

Reconhecemos, pois, a autoridade absoluta da ciência porque ela tem como objeto único a reprodução mental, refletida e tão sistemática quanto possível, das leis naturais inerentes à vida material, intelectual e moral, tanto do mundo físico quanto do mundo social, sendo estes dois mundos, na realidade, um único e mesmo mundo natural. Fora desta autoridade exclusivamente legítima, pois que ela é racional e conforme à liberdade humana, declaramos todas as outras autoridades mentirosas, arbitrárias e funestas. Reconhecemos a autoridade absoluta da ciência, mas rejeitamos a infalibilidade e a universalidade do cientista. Em nossa igreja – que me seja permitido servir-me por um momento desta expressão que por sinal detesto: a igreja e o Estado são minhas duas ovelhas negras; em nossa Igreja, como na Igreja protestante, temos um chefe, um Cristo invisível, a ciência; e como os protestantes, até mais conseqüentes do que os protestantes, não queremos tolerar nem o papa, nem o concilio, nem conclaves de cardeais infalíveis, nem bispos, nem mesmo padres. Nosso Cristo se distingue do Cristo protestante no fato de este último ser um Cristo pessoal, enquanto o nosso é impessoal; o Cristo cristão, já realizado num passado eterno, apresenta-se como um ser perfeito, enquanto a realização e a perfeição de nosso Cristo, a ciência, estão sempre no futuro: o que equivale a dizer que elas jamais se realizarão .

Ao não reconhecer outra autoridade absoluta que não seja a da ciência absoluta, não comprometemos de forma alguma nossa liberdade. Entendo por ciência absoluta a ciência realmente universal, que reproduziria idealmente, em toda a sua extensão e em todos os seus detalhes infinitos, o universo, o sistema ou a coordenação de todas as leis naturais, manifestas pelo desenvolvimento incessante dos mundos. É evidente que esta ciência, objeto sublime de todos os esforços do espírito humano, jamais se realizará em sua plenitude absoluta. Nosso Cristo permanecerá pois eternamente inacabado, o que deve enfraquecer muito o orgulho de seus representantes titulados entre nós. Contra este Deus, filho, em nome do qual eles pretendiam nos impor sua autoridade insolente e pedantesca, recorremos a Deus pai, que é o mundo real, a vida real, do qual ele é apenas a expressão muito imperfeita, e do qual somos os representantes imediatos, nós, seres reais, vivendo, trabalhando, combatendo, amando, aspirando, gozando e sofrendo .

Numa palavra, rejeitamos toda legislação, toda autoridade e toda influência privilegiada, titulada, oficial e legal, mesmo emanada do sufrágio universal, convencido de que ela só poderia existir em proveito de uma minoria dominante e exploradora, contra os interesses da imensa maioria subjugada. Eis o sentido no qual somos realmente anarquistas.

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Os idealistas modernos entendem a autoridade de uma maneira totalmente diferente. Ainda que livres das superstições tradicionais de todas as religiões positivas existentes, eles dão, todavia, a esta idéia de autoridade, um sentido divino, absoluto. Esta autoridade não é absolutamente a de uma verdade milagrosamente revelada, nem a de uma verdade rigorosa e cientificamente demonstrada. Eles a fundam sobre um pouco de argumentação quase-filosófica, e sobre muita fé vagamente religiosa, sobre muito sentimento e abstração poética. Sua religião é como uma última tentativa de divinização de tudo o que constitui a humanidade nos homens.

É bem o contrário da obra que realizamos. Em vista da liberdade, da dignidade e da prosperidade humanas, pensamos ter de retirar do céu os bens que ele roubou e queremos devolvê-los à terra. Eles, ao contrário, esforçando-se em cometer um último roubo religiosamente heróico, desejariam restituir ao céu, a este divino ladrão, tudo o que a humanidade tem de maior, de mais belo, de mais nobre. E a vez dos livre-pensadores pilharem o céu pela audaciosa impiedade de sua análise científica! Os idealistas acreditam, sem dúvida, que, para gozar de uma maior autoridade entre os homens, as idéias e as coisas humanas devem ser revestidas de uma sanção divina. Como se manifesta esta sanção? Não por um milagre, como nas religiões positivas, mas pela grandeza ou pela própria santidade das idéias e das coisas: o que é grande, o que e belo, o que é nobre, o que é justo, é divino. Neste novo culto religioso, todo homem que se inspira nestas idéias, nestas coisas, torna-se um padre, imediatamente consagrado pelo próprio Deus. E a prova? Não há necessidade disso; é a própria grandeza das idéias que ele exprime e das coisas que ele realiza. Elas são tão santas que só podem ter sido inspiradas por Deus.

Eis em poucas palavras toda a sua filosofia: filosofia de sentimentos, não de pensamentos reais, um tipo de pietismo metafísico. Isto parece inocente, mas não o é em absoluto, e a doutrina muito precisa, muito estreita e muito seca, que se esconde sob a onda inapreensível destas formas poéticas conduz aos mesmos resultados desastrosos de todas as religiões positivas: isto é, à mais completa negação da liberdade e da dignidade humanas. Proclamar como divino tudo o que se encontra de grande, de justo, de real, de belo, na humanidade, é reconhecer implicitamente que a humanidade, por si própria, teria sido incapaz de produzi-lo; isto significa dizer que abandonada a si própria, sua própria natureza é miserável, iníqua, vil e feia. Eis-nos de volta à essência de toda religião, isto é, à difamação da humanidade pela maior glória da divindade. E do momento em que a inferioridade natural do homem e sua incapacidade profunda de se levantar por si mesmo, fora de toda inspiração divina, até as idéias justas e verdadeiras, são admitidas, torna-se necessário admitir também todas as conseqüências teológicas, políticas e sociais das religiões positivas. No momento em que Deus, o Ser perfeito e supremo, posiciona-se em relação à humanidade, os intermediários divinos, os eleitos, os inspirados de Deus, saem da terra para esclarecer, dirigir e governar a espécie humana em seu nome. Não se poderia supor que todos os homens são igualmente inspirados por Deus? Neste caso não haveria, sem dúvida alguma, necessidade de intermediários. Mas esta suposição é impossível porque os fatos a contradizem sobremaneira. Seria preciso então atribuir à inspiração divina todos os absurdos e erros que se manifestam, e todos os horrores, as torpezas, as covardias e as imbecilidades que se cometem no mundo .

Só haveria, pois, poucos homens divinamente inspirados, os grandes homens da história, os gênios virtuosos, como dizia o ilustre cidadão e profeta italiano Giuseppe Mazzini. Imediatamente inspirados pelo próprio Deus e se apoiando sobre o consentimento universal expressado pelo sufrágio popular, Dio e Popolo, são eles que seriam chamados a governar as sociedades humanas[6]. Eis-nos de novo sob o jugo da Igreja e do Estado. E verdade que nesta nova organização, devida, como todas as organizações políticas antigas, à graça de Deus, é apoiada desta vez, pelo menos quanto à forma, à guisa de concessão necessária ao espírito moderno, e como nos preâmbulos dos decretos imperiais de Napoleão III, sobre a pretensa vontade do POVO, a Igreja não se chamará mais Igreja, ela se chama Escola. O que importa? Sobre os bancos desta Escola não estarão sentadas somente as crianças: haverá o eterno menor, o estudante para sempre reconhecido como incapaz de se apresentar a seus exames, de alcançar a ciência de seus mestres e de passar em sua disciplina: o povo.

O Estado não se chamará mais monarquia, chamar-se-á república, mas nem por isso deixará de ser Estado, isto é, uma tutela oficial e regularmente estabelecida por uma minoria de homens competentes, gênios, homens de talento ou de virtude, que vigiarão e dirigirão a conduta desta grande, incorrigível e terrível criança, o povo. Os professores da Escola e os funcionários do Estado chamar-se-ão republicanos; mas não deixarão de ser menos tutores, pastores, e o povo permanecerá o que foi eternamente até agora: um rebanho. Os tosquiados que se cuidem, pois onde há rebanho há necessariamente pastores para tosquiá-lo e comê-lo. O povo, neste sistema, será eterno estudante e pupilo. Apesar de sua soberania totalmente fictícia, ele continuará a servir de instrumento a pensamentos e vontades, e consequentemente também a interesses que não serão os seus. Entre esta situação e o que chamamos de liberdade, a única verdadeira liberdade, há um abismo. Será sob novas formas, a antiga opressão e a antiga escravidão; e onde há escravidão, há miséria, embrutecimento, a verdadeira materialização da sociedade, tanto das classes privilegiadas quanto das massas.

Divinizando as coisas humanas, os idealistas conseguem sempre o triunfo de um materialismo brutal. E isto por uma razão muito simples: este divino se evapora e sobe para sua pátria, o céu, e só o brutal permanece realmente sobre a terra. Perguntei um dia a Mazzini que medidas seriam tomadas para a emancipação do povo tão logo sua república unitária triunfante se estabelecesse definitivamente. “A primeira medida, disse-me, será a fundação de escolas para o povo.” – E o que será ensinado ao povo nestas escolas? “Os deveres do homem, o sacrifício e a abnegação.” – Mas onde ireis buscar um número suficiente de professores para ensinar estas coisas que ninguém tem o direito nem o poder de ensinar, se não se dá o exemplo? O número dos homens que encontram no sacrifício e na dedicação uma satisfação suprema não é excessivamente restrito? Aqueles que se sacrificam ao serviço de uma grande idéia obedecem a uma elevada paixão, e, satisfazendo esta paixão pessoal, fora da qual a própria vida perde qualquer valor a seus olhos, eles pensam normalmente em qualquer coisa que não seja erigir sua ação em doutrina, enquanto aqueles que fazem da ação uma doutrina esquecem freqüentemente de traduzi-la em ação, pela simples razão de que a doutrina mata a vida, mata a espontaneidade viva da ação.

Os homens como Mazzini, nos quais a doutrina e a ação formam uma admirável unidade, são raras exceções. No cristianismo também houve grandes homens, santos homens, que realmente fizeram, ou que pelo menos se esforçaram apaixonadamente para fazer tudo o que diziam, e cujos corações, transbordando de amor, estavam cheios de desprezo pelos gozos e pelos bens deste mundo. Mas a imensa maioria dos padres católicos e protestantes que, por profissão, pregaram e pregam a doutrina da castidade, da abstinência e da renúncia, desmentem sua doutrina através de seu exemplo. Não é em vão, é em conseqüência de uma experiência de vários séculos que se formaram, entre os povos de todos os países, estes ditados: “Libertino como um padre; comilão como um padre; ambicioso como um padre; ávido, interessado e cúpido como um padre”.

Está constatado que os professores das virtudes cristãs, consagrados pela Igreja, os padres, em sua imensa maioria, fizeram exatamente o contrário daquilo que eles pregaram. Esta própria maioria, a universalidade deste fato, provam que não se deve atribuir a culpa disso aos indivíduos, mas sim à posição social, impossível e contraditória em si mesma, no qual estes indivíduos estão colocados. Há na posição do padre cristão uma dupla contradição. Inicialmente a da doutrina de abstinência e de renúncia às tendências e às necessidades positivas da natureza humana, tendências e necessidades que, em alguns casos individuais, sempre muito raros, podem ser continuamente afastadas, reprimidas e mesmo completamente eliminadas pela influência constante de alguma poderosa paixão intelectual e moral, que, em certos momentos de exaltação coletiva, podem ser esquecidas e negligenciadas, por algum tempo, por uma grande quantidade de homens ao mesmo tempo; mas que são tão profundamente inerentes à nossa natureza que acabam sempre por retomar seus direitos, de forma que, quando não são satisfeitas de maneira regular e normal, são finalmente substituídas por satisfações daninhas e monstruosas. E uma lei natural, e, por conseqüência, fatal, irresistível, sob a ação funesta da qual caem inevitavelmente todos os padres cristãos e especialmente os da Igreja católica romana.

Mas há uma outra contradição comum a uns e a outros. Esta contradição está ligada ao titulo e à própria posição do senhor. Um senhor que comanda, oprime e explora, é um personagem muito lógico e completamente natural. Mas um senhor que se sacrifica àqueles que lhe são subordinados pelo seu privilégio divino ou humano é um ser contraditório e completamente impossível. E a própria constituição da hipocrisia, tão bem personificada pelo papa que, ainda que se dizendo o último servidor dos servidores de Deus, e por sinal, seguindo o exemplo do Cristo, lava uma vez por ano os pés de doze mendigos de Roma, proclama-se ao mesmo tempo vigário de Deus, senhor absoluto e infalível do mundo. E preciso que eu lembre que os padres de todas as Igrejas, longe de se sacrificarem pelos rebanhos confiados a seus cuidados, sempre os sacrificaram, exploraram e mantiveram em estado de rebanho, em parte para satisfazer suas próprias paixões pessoais, em parte para servir à onipotência da Igreja? As mesmas condições, as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos. Isso acontece com os professores da Escola moderna, divinamente inspirados e nomeados pelo Estado. Eles se tornarão, necessariamente, uns sem o saber, os outros com pleno conhecimento de causa, os mestres da doutrina do sacrifício popular para o poderio do Estado, em proveito das classes privilegiadas.

Será preciso então eliminar da sociedade todo o ensino e abolir todas as escolas? Longe disso. É necessário distribuir a mancheias a instrução no seio das massas e transformar todas as Igrejas, todos estes templos dedicados à glória de Deus e à escravização dos homens, em escolas de emancipação humana. Mas, inicialmente, esclareçamos que as escolas propriamente ditas, numa sociedade normal, fundada sobre a igualdade e sobre o respeito da liberdade humana, só deverão existir para as crianças, não para os adultos, para elas se tornarem escolas de emancipação e não de servilismo, será preciso eliminar, antes de tudo, esta ficção de Deus, o escravizador eterno e absoluto. Será necessário fundar toda a educação das crianças e sua instrução sobre o desenvolvimento científico da razão, não sobre o da fé; sobre o desenvolvimento da dignidade e da independência pessoais, não sobre o da piedade e da obediência; sobre o culto da verdade e da justiça e, antes de tudo, sobre o respeito humano. que deve substituir, em tudo e em todos os lugares, o culto divino. O princípio da autoridade na educação das crianças constitui o ponto de partida natural: ele é legítimo, necessário, quando é aplicado às crianças na primeira infância, quando sua inteligência ainda não se desenvolveu abertamente. Mas como o desenvolvimento de todas as coisas, e por conseqüência da educação, implica a negação sucessiva do ponto de partida, este princípio deve enfraquecer-se à medida que avançam a educação e a instrução, para dar lugar à liberdade ascendente.

Toda educação racional nada mais é, no fundo, do que a imolação progressiva da autoridade em proveito da liberdade, onde esta educação tem como objetivo final formar homens livres, cheios de respeito e de amor pela liberdade alheia. Assim, o primeiro dia da vida escolar, se a escola aceita as crianças na primeira infância, quando elas mal começam a balbuciar algumas palavras, deve ser o de maior autoridade e de uma ausência quase completa de liberdade; mas seu último dia deve ser ó de maior liberdade e de abolição absoluta de qualquer vestígio do principio animal ou divino da autoridade. O princípio de autoridade, alicado aos homens que ultrapassaram ou atingiram a maioridade, torna-se uma monstruosidade, uma negação flagrante da humanidade, uma fonte de escravidão e de depravação intelectual e moral. Infelizmente, os governos paternalistas deixaram as massas populares se estagnarem numa tão profunda ignorância que será necessário fundar escolas não somente para as crianças do povo, mas também para o próprio povo Destas escolas deverão ser absolutamente eliminadas as menores aplicações ou manifestações do princípio de autoridade. Não serão mais escolas; serão academias populares, nas quais não se poderá mais tratar nem de estudantes, nem de mestres, onde o povo virá livremente ter, se assim achar necessário, um ensinamento livre, nas quais, rico de sua experiência, ele poderá. ensinar por sua vez muitas coisas aos professores que lhe trarão conhecimentos que ele não tem. Será pois um ensinamento mútuo, um ato de fraternidade intelectual entre a juventude instruída e o povo .

A verdadeira escola para o povo e para todos os homens feitos é a vida .

A única grande todo-poderosa autoridade natural e racional, simultaneamente, a única que poderemos respeitar, será a do espírito coletivo e público de uma sociedade fundada sobre o respeito mútuo de todos os seus membros. Sim, eis uma autoridade que não é absolutamente divina, totalmente humana, mas diante da qual nos inclinaremos de coração, certos de que, longe de subjugá-los, ela emancipará os homens. Ela será mil vezes mais poderosa, estejam certos, do que todas as vossas autoridades divinas, teológicas, metafísicas, políticas e jurídicas, instituídas pela Igreja e pelo Estado; mais poderosa que vossos códigos criminais, vossos carcereiros e vossos verdugos.

A força do sentimento coletivo ou do espírito público já é muito séria hoje.

Os homens com maior tendência a cometer crimes raramente ousam desafiá-la, enfrentá-la abertamente. Eles procurarão enganá-la, mas evitarão ofendê-la, a menos que se sintam apoiados por uma minoria qualquer. Nenhum homem, por mais possante que se imagine, jamais terá força para suportar o desprezo unânime da sociedade, ninguém poderia viver sem sentir-se apoiado pelo consentimento e pela estima, ao menos por uma certa parte desta sociedade. E preciso que um homem seja levado por uma imensa e bem sincera convicção, para que encontre coragem de opinar e de marchar contra todos, e nunca um homem egoísta, depravado e covarde terá esta coragem .

Nada prova melhor do que este fato a solidariedade natural e fatal que une todos os homens. Cada um de nós pode constatar esta lei, todos os dias, sobre si mesmo e sobre todos os homens que ele conhece. Mas, se esta força social existe, por que ela não foi suficiente, até hoje, para moralizar, humanizar os homens? Simplesmente porque, até o presente, essa força não foi, ela própria, humanizada; não foi humanizada porque a vida social, da qual ela é sempre a fiel expressão, está fundada, como se sabe, sobre o culto divino, não sobre o respeito humano; sobre a autoridade, não sobre a liberdade; sobre o privilégio, não sobre a igualdade; sobre a exploração, não sobre a fraternidade dos homens; sobre a iniqüidade e a mentira, não sobre a justiça e a verdade. Por conseqüência, sua ação real, sempre em contradição com as teorias humanitárias que ela professa, exerceu constantemente uma influência funesta e depravadora. Ela não oprime pelos vícios e crimes: ela os cria .

Sua autoridade é consequentemente uma autoridade divina, anti-humana, sua influência é malfazeja e funesta. Quereis torná-la benfazeja e humana? Fazei a revolução social. Fazei com que todas as necessidades se tornem realmente solidárias, que os interesses materiais e sociais de cada um se tornem iguais aos deveres humanos de cada um. E, para isso, só há um meio: destruí todas as instituições da desigualdade; estabelecei a igualdade econômica e social de todos, e, sobre esta base, elevar-se-á a liberdade, a moralidade, a humanidade solidária de todos .

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Sim, o idealismo, em teoria, tem por conseqüência necessária o materialismo mais brutal na prática; não, sem dúvida, entre aqueles que o pregam de boa fé – o resultado habitual, para estes, é de ver todos os seus esforços atingidos pela esterilidade – mas entre aqueles que se esforçam em realizar seus preceitos na vida, em meio a toda a sociedade, enquanto ela se deixar dominar pelas doutrinas idealistas .
Para demonstrar este fato geral, que pode parecer estranho à primeira vista, mas que se explica naturalmente, quando refletimos um pouco mais, não faltam as provas históricas .

Comparai as duas últimas civilizações do mundo antigo: a civilização grega e a civilização romana. Qual delas é a mais materialista, a mais natural em seu ponto de partida, e a mais humanamente ideal em seus resultados? Sem dúvida, a civilização grega. Qual delas é, ao contrário, a mais abstratamente ideal em seu ponto de partida, sacrificando a liberdade material do homem à liberdade ideal do cidadão, representada pela abstração do direito jurídico, e o desenvolvimento natural da sociedade humana à abstração do Estado, e qual delas se tornou, todavia, a mais brutal em suas conseqüências? A civilização romana, certamente. E verdade que a civilização grega, como todas as civilizações antigas, inclusive a de Roma, foi exclusivamente nacional, e teve por base a escravidão. Mas, apesar destes dois imensos defeitos, a primeira nem por isso deixou de conceber e realizar a idéia da humanidade; ela enobreceu e realmente idealizou a vida dos homens; ela transformou os rebanhos humanos em livres associações de homens livres; ela criou, pela liberdade, as ciências, as artes, uma poesia, uma filosofia imortal, e as primeiras noções do respeito humano. Com a liberdade política e social ela criou o livre pensamento .

No fim da Idade Média, na época da Renascença, bastou que os gregos emigrados introduzissem alguns desses livros imortais na Itália para que a vida, a liberdade, o pensamento, a humanidade, enterrados no sombrio calabouço do catolicismo, fossem ressuscitados. A emancipação humana, eis o nome da civilização grega. E o nome da civilização romana? E a conquista, com todas as suas conseqüências brutais. Sua última palavra? A onipotência dos Césares. E o envilecimento e a escravidão das nações e dos homens .

Ainda hoje, o que é que mata, o que é que esmaga brutalmente, materialmente, em todos os países da Europa, a liberdade e a humanidade? E o triunfo do princípio cesáreo ou romano .

Compararei agora duas civilizações modernas: a civilização italiana e a civilização alemã. A primeira representa, sem dúvida, em sua característica geral, o materialismo; a segunda representa, ao contrário, tudo o que há de mais abstrato, de mais puro e de mais transcendente no que concerne ao idealismo. Vejamos quais são os frutos práticos de uma e da outra .

A Itália já prestou imensos serviços à causa da emancipação humana .

Ela foi a primeira que ressuscitou e que aplicou amplamente o princípio da liberdade na Europa, que devolveu à humanidade seus títulos de nobreza: a indústria, o comércio, a poesia, as artes, as ciências positivas e o livre pensamento. Esmagada depois de três séculos de despotismo imperial e papal, arrastada na lama por sua burguesia governante, ela reaparece hoje, é verdade, bem abatida em comparação ao que foi, e, entretanto, quanto ela difere da Alemanha! Na Itália, apesar desta decadência, passageira, esperemo-lo, pode-se viver e respirar humanamente, cercado de um povo que parece ter nascido para a liberdade. A Itália, mesmo burguesa, pode vos mostrar com orgulho homens como Mazzini e como Garibaldi .

Na Alemanha, respira-se a atmosfera de uma imensa escravidão política e social, filosoficamente explicada e aceita por um grande povo, com uma resignação e uma boa vontade refletidas. Seus heróis – falo sempre da Alemanha atual, não da Alemanha do futuro, da Alemanha nobiliária, burocrática, política e burguesa, não da Alemanha proletária – são totalmente o oposto de Mazzini e de Garibaldi: são, hoje, Guilherme 1, o feroz e ingênuo representante do Deus protestante, são os Srs. Bismarck e Von Moltke, os generais Manteuffel e Werler. Em todas as suas relações internacionais, a Alemanha, desde que existe, foi lenta e sistematicamente invasora, conquistadora, sempre pronta a estender sobre os povos vizinhos seu próprio servilismo voluntário; e desde que ela se constituiu em potência unitária, ela se tornou uma ameaça, um perigo para a liberdade de toda a Europa. Hoje, a Alemanha é o servilismo brutal e triunfante .

Para mostrar como o idealismo teórico se transforma incessante e fatalmente em materialismo prático, basta citar o exemplo de todas as Igrejas cristãs e, naturalmente, antes de tudo, o da Igreja apostólica e romana. No sentido ideal, o que há de mais sublime, de mais desinteressado, de mais desprendido em todos os interesses desta terra, do que a doutrina do Cristo pregada por esta Igreja? E o que há de mais brutalmente materialista que a prática constante desta mesma Igreja, desde o século VIII, quando começou a se constituir como poder? Qual foi e qual é ainda o objeto principal de todos os seus litígios contra os soberanos da Europa? Seus bens temporais, seus ganhos inicialmente, e em seguida seu poder temporal, seus privilégios políticos .

É preciso fazer-lhe esta justiça, pois ela foi a primeira a descobrir, na história moderna, esta verdade incontestável, mas muito pouco cristã, que a riqueza e o poder, a exploração econômica e a opressão política das massas são os dois termos inseparáveis do reino do idealismo divino sobre a terra: a riqueza consolidando e aumentando o poder, o poder descobrindo e criando sempre novas fontes de riqueza, e ambos assegurando, melhor do que o martírio e a fé dos apóstolos, melhor do que a graça divina, o sucesso da propaganda cristã. E uma verdade histórica, e as igrejas, ou melhor, as seitas protestantes também não a desconhecem. Falo naturalmente das igrejas independentes da Inglaterra, da América e da Suíça, não das igrejas servis da Alemanha .

Estas não têm nenhuma iniciativa própria; elas fazem aquilo que seus senhores, seus soberanos temporais, que são ao mesmo tempo seus chefes espirituais, lhes ordenam fazer. Sabe-se que a propaganda protestante, a da Inglaterra e a da América sobretudo, se liga de uma maneira muito estreita à propaganda dos interesses materiais e comerciais destas duas grandes nações; sabe-se também que esta última propaganda não tem absolutamente por objeto o enriquecimento e a propriedade material dos países nos quais ela penetra em companhia da palavra de Deus, mas sim a exploração destes países, à vista do enriquecimento e da prosperidade material de certas classes, que, em seu próprio país, só visam a exploração e a pilhagem .

Numa palavra, não é nada difícil provar, com a história na mão, que a Igreja, que todas as Igrejas, cristãs e não cristãs, ao lado de sua propaganda espiritualista, provavelmente para acelerar e consolidar seu sucesso, jamais negligenciaram de organizar grandes companhias para a exploração econômica das massas, sob a proteção e a bênção direta e especial de uma divindade qualquer; que todos os Estados que, em sua origem, como se sabe, nada mais foram, com todas as suas instituições políticas e jurídicas e suas classes dominantes e privilegiadas, senão sucursais temporais destas diversas Igrejas, só tiveram igualmente por objeto principal esta mesma exploração em proveito das minorias laicas, indiretamente legitimadas pela Igreja; enfim, que em geral a ação do bom Deus e de todas as fantasias divinas sobre a terra finalmente resultou, sempre e em todos os lugares, na fundação do materialismo próspero do pequeno número sobre o idealismo fanático e constantemente faminto das massas .

O que vemos hoje é uma nova prova disso. A exceção desses grandes corações e desses grandes espíritos enganados que citei mais acima, quem são hoje os defensores mais obstinados do idealismo? Inicialmente são todas as cortes soberanas. Na França, foram Napoleão III e sua esposa, Madame Eugénie; são todos os seus antigos ministros, cortesãos e ex-marechais, desde Rouher e Bazaine até Fleury e Piétri; são os homens e as mulheres do mundo oficial imperial, que tão bem idealizaram e salvaram a França. São seus jornalistas e seus sábios: os Cassagnac, os Girardin, os Duvernois, os Veuillot, os Leverrier, os Dumas. . . E enfim a negra falange dos jesuítas e das jesuítas de todos os tipos de vestido; é a alta e média burguesia da França. São os doutrinários liberais e os liberais sem doutrina: os Guizot, os Thiers, os Jules Favre, os Pelletan e os Jules Simon, todos os defensores aguerridos da exploração burguesa. Na Prússia, na Alemanha, é Guilherme 1, o rei demonstrador atual do bom Deus sobre a terra; são todos os seus generais, todos os seus oficiais pomeranianos e outros, todo o seu exército que, forte em sua fé religiosa, acaba de conquistar a França da maneira ideal que se sabe. Na Rússia, é o czar e toda a sua corte; são os Muravieff e os Berg, todos os degoladores e os religiosos conversores da Polônia. Em todos os lugares, numa palavra, o idealismo religioso filosófico, um destes qualificativos nada mais sendo do que a tradução mais ou menos livre do outro, serve hoje de bandeira à força sanguinária e brutal, à exploração material descarada; enquanto, ao contrário, a bandeira do materialismo teórico, a bandeira vermelha da igualdade econômica e da justiça social, é agitada pelo idealismo prático das massas oprimidas e famintas, tendendo a realizar a liberdade maior e o direito humano de cada um na fraternidade de todos os homens sobre a terra .

Quem são os verdadeiros idealistas, não – os idealistas da abstração, mas da vida; não do céu, mas da terra; e quem são os materialistas? * * * É evidente que o idealismo teórico ou divino tem como condição essencial o sacrifício da lógica, da razão humana, a renúncia à ciência .
Vê-se, por outro lado, que defendendo as doutrinas ideais, é-se forçosamente levado ao partido dos opressores e dos exploradores das massas populares. Eis duas grandes razões que, segundo parece, bastariam para afastar do idealismo todo grande espírito, todo grande coração. Como é possível que nossos ilustres idealistas contemporâneos, aos quais, certamente, não faltam nem o espírito, nem o coração, nem a boa vontade, e que devotaram toda sua existência ao serviço da humanidade, como é possível que eles se obstinem em permanecer entre os representantes de uma doutrina doravante condenada e desonrada? É preciso que eles sejam levados a isso por uma razão muito forte. Não pode ser nem a lógica nem a ciência, visto que a lógica e a ciência pronunciaram seu veredicto contra a doutrina idealista. Não podem ser também interesses pessoais, pois estes homens estão infinitamente erguidos acima de tudo o que carrega este nome. Só pode ser então uma forte razão moral. Qual? Só pode haver uma. Esses homens ilustres pensam, sem dúvida, que as teorias ou as crenças ideais são essencialmente necessárias à dignidade e à grandeza moral do homem, e que as teorias materialistas, ao contrário, rebaixam-no ao nível dos animais .

-E se o oposto fosse verdadeiro? Todo desenvolvimento, já disse, implica a negação do ponto de partida. A base, ou o ponto de partida, segundo a escola materialista, sendo material, a negação deve ser necessariamente ideal. Partindo da totalidade do mundo real, ou daquilo que se chama abstratamente de costume, ela chega logicamente à idealização real, isto é, à humanização, à emancipação plena e inteira da sociedade. Todavia, e pela mesma razão, sendo o ideal a base e o ponto de partida da escola idealista, ela chega forçosamente à materialização da sociedade, à organização de um despotismo brutal e de uma exploração iníqua e ignóbil, sob a forma da Igreja e do Estado. O desenvolvimento histórico do homem, segundo a escola materialista, é uma ascensão progressiva; no sistema idealista ele só pode ser uma queda contínua .

Qualquer que seja a questão humana que se queira considerar, encontra-se sempre esta mesma contradição essencial entre as duas escolas. Assim, como já fiz observar, o materialismo parte da animalidade para constituir a humanidade; o idealismo parte da divindade para constituir a escravidão e condenar as massas a uma animalidade sem saída. O materialismo nega o livre-arbítrio e resulta na constituição da liberdade; o idealismo, em nome da dignidade humana, proclama o livre-arbítrio, e, sobre as ruínas da liberdade, funda a autoridade. O materialismo rejeita o princípio de autoridade porque ele o considera, com razão, como o corolário da animalidade, e que, ao contrário, o triunfo da humanidade, objetivo e sentido principal da história, só é realizável pela liberdade. Numa palavra, vós encontrareis sempre os idealistas em flagrante delito de materialismo prático, enquanto vereis os materialistas buscarem e realizarem as aspirações, os pensamentos mais amplamente ideais .

A história, no sistema dos idealistas, como já disse, não pode ser senão uma queda contínua. Eles começam por uma queda terrível da qual jamais se levantam: pelo salto mortale das regiões sublimes da idéia pura, absoluta, à matéria. E em que matéria! Não nesta matéria eternamente ativa e móvel, cheia de propriedades e de forças, de vida e de inteligência, tal como ela se apresenta a nós, no mundo real; mas na matéria abstrata, empobrecida e reduzida à miséria absoluta, tal como a concebem os teólogos e os metafísicos, que lhe roubaram tudo para dar a seu imperador, a seu Deus; nesta matéria que, privada de qualquer ação e de qualquer movimento próprios, só representa, em oposição à idéia divina, a estupidez, a impenetrabilidade, a inércia e a imobilidade absolutas .

A queda é tão terrível que a divindade, a pessoa ou a idéia divina se avilta, perde sua consciência, perde a consciência de si mesma e nunca mais se reencontra. E nesta situação desesperada ela é ainda forçada a fazer milagres! Isto porque, do momento em que a matéria é inerte, todo movimento que se produz no mundo, mesmo o mais material, é um milagre, outra coisa não pode ser senão o efeito de uma intervenção providencial, da ação de Deus sobre a matéria. E eis que esta pobre divindade, quase anulada por sua queda, permanece alguns milhares de séculos neste sono, em seguida desperta lentamente, esforçando-se em vão para recuperar alguma vaga lembrança dela mesma, e cada movimento que faz com esta finalidade, na matéria, torna-se uma criação, uma formação nova, um novo milagre. Desta maneira ela ultrapassa todos os níveis da materialidade e da bestialidade; inicialmente gás, corpo químico simples ou composto, mineral, ela se espalha em seguida sobre a terra como organização vegetal e animal, depois se concentra no homem. Aqui, ela parece haver se reencontrado, pois ela acende no ser humano uma chama angélica, uma parcela de seu próprio ser divino, a alma imortal .

Como ela pode conseguir alojar uma coisa absolutamente imaterial numa coisa absolutamente material; como o corpo pode conter, encerrar, limitar, paralisar o espírito puro? Eis mais uma destas questões que somente a fé, esta afirmação apaixonada e estúpida do absurdo, pode resolver. E o maior dos milagres. Aqui, nada temos a fazer senão constatar os efeitos, as conseqüências práticas deste milagre .

Após milhares de séculos de vãos esforços para retornar a ela mesma, a Divindade, perdida e espalhada na matéria que ela anima e que põe em movimento, encontra um ponto de apoio, uma espécie de local para seu próprio recolhimento. E o homem, é sua alma imortal aprisionada singularmente num corpo mortal. Mas cada homem, considerado individualmente, é infinitamente restrito, muito pequeno para englobar a imensidão divina; ele só pode conter uma pequena parcela, imortal como o Todo, mas infinitamente menor que o Todo. Resulta disso que o Ser divino, o Ser absolutamente imaterial, o Espírito, é divisível como a matéria. Eis ainda um mistério cuja solução é preciso deixar à fé .

Se Deus, por inteiro, pudesse se alojar em cada homem, então cada homem seria Deus. Teríamos uma grande quantidade de Deuses, cada um se achando limitado pelos outros, mas nem por isso menos infinito, contradição que implicaria necessariamente a destruição mútua dos homens, a impossibilidade de que existisse mais do que um. Quanto às parcelas, é outra coisa; nada de mais racional, com efeito, que uma parcela seja limitada por outra, e que ela seja menor do que o Todo. Aqui se apresenta outra contradição. Ser maior e menor são dois atributos da matéria, não do espírito, tal como o compreendem os idealistas. Segundo os materialistas, é verdade, o espírito outra coisa não é senão o funcionamento do organismo totalmente material do homem, e a grandeza ou a pequenez do espírito dependem da maior ou menor perfeição material do organismo humano. Mas estes mesmos atributos de limitação e de grandeza relativas não podem ser atribuídos ao espírito, tal como o compreendem os idealistas, ao espírito absolutamente imaterial, ao espírito existindo fora de qualquer matéria. Lá não pode haver nem maior, nem menor, nem qualquer limite entre os espíritos, pois só há um único espírito: Deus. Se acrescentarmos que as parcelas infinitamente pequenas e limitadas que constituem as almas humanas são ao mesmo tempo imortais, evidenciar-se-á o cúmulo da contradição. Mas é uma questão de fé. Deixemos isto de lado .

Eis pois a Divindade destroçada e alojada por infinitas pequenas partes, numa imensa quantidade de seres de todos os sexos, de todas as idades, de todas as raças e de todas as cores. Eis aí uma situação excessivamente incômoda e infeliz, pois as parcelas divinas reconhecem-se tão pouco no início de sua existência humana, que começam por se entredevorar. Todavia, no meio desse estado de barbárie e de brutalidade totalmente animal, estas parcelas divinas, as almas humanas, conservam como que uma vaga lembrança de sua divindade primitiva, e são invencivelmente arrastadas rumo a seu Todo; elas se procuram, elas o procuram. E a própria Divindade, espalhada e perdida no mundo material, que se procura nos homens, e está de tal forma embrutecida por esta multidão de prisões humanas, nas quais se acha espalhada, que, ao se procurar, comete loucuras sobre loucuras .

Começando pelo fetichismo, ela se procura e adora a si mesma, ora numa pedra, ora num pedaço de pau, ora num esfregão. E até mesmo muito provável que jamais tivesse saído do esfregão se a outra divindade, que não se deixou diminuir na matéria, e se conservou no estado de espírito puro, nas alturas sublimes do ideal absoluto, ou nas regiões celestes, não tivesse tido piedade dela .
Eis um novo mistério. E o da Divindade que se cinde em duas metades, mas igualmente infinitas todas as duas, e das quais uma – Deus pai – se conserva nas puras regiões imateriais; a outra – Deus filho – se deixa enfraquecer na matéria. Nós iremos ver, daqui a pouco, estabelecerem-se relações contínuas de cima para baixo e de baixo para cima entre estas duas Divindades, separadas uma da outra; e estas relações, consideradas como um único ato eterno e constante, constituirão o Espírito Santo. Tal. é, em seu verdadeiro sentido teológico e metafísico, o grande, o terrível mistério da Trindade cristã .

Mas deixemos, rapidamente, estas alturas e vejamos o que se passa sobre a terra .

Deus pai, vendo, do alto de seu esplendor eterno, que o pobre Deus filho, humilhado, atordoado por sua queda, mergulhou e perdeu-se de tal forma na matéria, que, preso ao estado humano, não consegue se reencontrar, decide 5& corrê-lo. Entre esta imensa quantidade de parcelas simultaneamente imortais, divinas e infinitamente pequenas, nas quais Deus filho disseminou-se a ponto de não poder se reconhecer, Deus pai escolhe aquelas que mais lhe aprazem; ele toma seus inspirados, seus profetas, seus gênios virtuosos, OS grandes benfeitores e legisladores da humanidade: Zoroastro, Buda, Moisés, Confúcio, Licurgo, Sólon, Sócrates, o divino Platão, e sobretudo Jesus Cristo, a completa realização de Deus filho, enfim recolhido e concentrado numa pessoa humana; todos os apóstolos, São Pedro, São Paulo e São João, Constantino, o Grande, Maomé, depois Gregório VII, Carlos Magno, Dante, segundo uns, Lutero também, Voltaire e Rousseau, Ropespierre e Danton, e muitos outros grandes e santos personagens, dos quais é impossível recapitular todos os nomes, mas entre os quais, como russo, peço para não se esquecerem de São Nicolau .

* * *

Eis que chegamos à manifestação de Deus sobre a terra. Mas tão logo Deus aparece, o homem se aniquila. Dir-se-á que não se aniquila visto ser ele próprio uma parcela de Deus. Perdão! Admito que a parcela de um todo determinado, limitado, por menor que seja esta parte, seja uma quantidade, uma grandeza positiva. Mas uma parcela do infinitamente grande, comparada com ele, é infinitamente pequena. Multiplicai bilhões de bilhões por bilhões de bilhões, seu produto, em comparação ao infinitamente grande, será infinitamente pequeno, e o infinitamente pequeno é igual a zero. Deus é tudo, por conseguinte o homem e todo o mundo real com ele, o universo, nada são. Vós não escapareis disto .
Deus aparece, o homem se aniquila; e quanto maior se torna a Divindade, mais a humanidade se torna miserável. Esta é a história de todas as religiões; este é o efeito de todas as inspirações e de todas as legislações divinas. Na história, o nome de Deus é a terrível dava com a qual os homens diversamente inspirados, os grandes gênios, abateram a liberdade, a dignidade, a razão e a prosperidade dos homens .
Tivemos inicialmente a queda de Deus. Temos agora uma queda que nos interessa mais, a do homem, causada pelo aparecimento da manifestação de Deus sobre a terra .

Vede em que erro profundo se encontram nossos caros e ilustres idealistas. Ao nos falarem de Deus, eles crêem, eles querem nos educar, nos emancipar, nos enobrecer e, ao contrário, eles nos esmagam e nos aviltam. Com o nome de Deus, eles imaginam poder estabelecer a fraternidade entre os homens, e, ao contrário, criam o orgulho, o desprezo; semeiam a discórdia, o ódio, a guerra; fundam a escravidão .
Isto porque, com Deus, vêm os diferentes graus de inspiração divina; a humanidade se divide em homens muito inspirados, menos inspirados, não inspirados. Todos são igualmente nulos diante de Deus, é verdade; mas comparados uns aos outros, uns são maiores do que os outros; não somente pelo fato, o que não seria nada, visto que uma desigualdade de fato se perde por si mesma na coletividade, quando ela não se pode agarrar a nenhuma ficção ou instituição legal; mas pelo direito divino da inspiração: o que constitui logo em seguida uma desigualdade fixa, constante, petrificada. Os mais inspirados devem ser escutados e obedecidos pelos menos inspirados, pelos não inspirados. Eis o princípio da autoridade bem estabelecido, e com ele as duas instituições fundamentais da escravidao: a Igreja e o Estado .

* * *

De todos os despotismos, o dos doutrinadores ou dos inspirados religiosos é o pior. Eles são tão ciumentos da glória de seu Deus e do triunfo de sua idéia que não lhes resta mais coração, nem pela liberdade, nem pela dignidade, nem mesmo pelos sofrimentos dos homens vivos, homens reais. O zelo divino, a preocupação com a idéia acabam por dissecar, nas almas mais delicadas, nos corações mais compassivos, as fontes do amor humano. Considerando tudo o que é, tudo o que se faz no mundo do ponto de vista da eternidade ou da idéia abstrata, eles tratam com desdém as coisas passageiras; mas toda a vida dos homens reais, dos homens em carne e osso, só é composta de coisas passageiras; eles próprios nada mais são do que seres que passam, e que, uma vez passados, são substituídos por outros, também passageiros, mas que não retornam jamais. O que há de permanente ou de relativamente eterno é a humanidade, que se desenvolve constantemente, de geração em geração. Digo relativamente eterno porque, uma vez destruído nosso planeta, e ele’ não pode deixar de perecer cedo ou tarde, pois tudo que começa tem necessariamente um fim, uma vez nosso planeta decomposto, para servir sem dúvida alguma de elemento a alguma nova formação no sistema do universo, o único realmente eterno, quem pode saber o que acontecerá com todo o nosso desenvolvimento humano? Todavia, como o momento desta dissolução se encontra imensamente afastado de nós podemos considerar, em relação à vida humana tão curta, a humanidade eterna. Mas esse fato de a humanidade ser progressiva só é real e vivo por suas manifestações em tempos determinados, em lugares determinados, em homens realmente vivos, e não em sua idéia geral .

* * *

A idéia geral é sempre uma abstração e por isso mesmo, de alguma forma, uma negação da vida real. A ciência só pode compreender e denominar os fatos reais em seu sentido geral, em suas relações, em suas leis; numa palavra, o que é permanente em suas informações contínuas, mas jamais seu lado material, individual, por assim dizer, palpitante de realidade e de vida, e por isso mesmo, fugitivo e inapreensível. A ciência compreende o pensamento da realidade, não a realidade em si mesma; o pensamento da vida, não a vida. Eis seu limite, o único limite verdadeiramente intransponível para ela, porque ela está fundada sobre a própria natureza do pensamento, que é o único órgão da ciência .
Sobre esta natureza se fundam os direitos incontestáveis e a grande missão da ciência, mas também sua impotência vital e mesmo sua ação malfazeja, todas as vezes que, por seus representantes oficiais, nomeados, ela se arroga o direito de governar a vida. A missão da ciência é, constatar as relações gerais das coisas passageiras e reais: reconhecendo as leis gerais que são inerentes ao desenvolvimento dos fenômenos do mundo físico e do mundo social, ela assenta, por assim dizer, as balizas imutáveis da marcha progressiva da humanidade, indicando as condições gerais, cuja observação rigorosa e necessária e cuja ignorância ou esquecimento será sempre fatal. Numa palavra, a ciência é a bússola da vida; mas não é a vida. A ciência é imutável, impessoal, geral, abstrata, insensível, como as leis das quais ela nada mais é do que a reprodução ideal, refletida ou mental, isto é, cerebral (para nos lembrar de que a ciência nada mais é do que um produto material de um órgão material, o cérebro). A vida é fugidia e passageira, mas também palpitante de realidade e individualidade, de sensibilidade, sofrimentos, alegrias, aspirações, necessidades e paixões. É somente ela que, espontaneamente, cria as coisas e os seres reais. A ciência nada cria, ela constata e reconhece somente as criações da vida. E todas as vezes que os homens de ciência, saindo de seu mundo abstrato, envolvem-se com a criação viva, no mundo real, tudo o que eles propõem ou tudo o que eles criam é pobre, ridiculamente abstrato, privado de sangue e vida, natimorto, igual ao homunculus criado por Wagner, o discípulo pedante do imortal Dr. Fausto. Disso resulta que a ciência tem por missão única iluminar a vida, e não governá-la .

O governo da ciência e dos homens de ciência, ainda que fossem positivistas, discípulos de Auguste Comte, ou ainda discípulos da escola doutrinária do comunismo alemão, não poderia ser outra coisa senão um governo impotente, ridículo, desumano, cruel, opressivo, explorador, malfazejo. Pode-se dizer dos homens de ciência, como tais, o que digo dos teólogos e metafísicos: eles não têm nem sentido, nem coração para os seres individuais e vivos. Não se pode sequer fazer-lhes uma censura, pois é a conseqüência natural de sua profissão. Enquanto homens de ciência, eles só podem se interessar pelas generalidades, pelas leis absolutas, e não a levar em conta outra coisa .
A individualidade real e viva só é perceptível para uma outra individualidade viva, não para uma individualidade pensante, não para o homem que por uma série de abstrações põe-se fora e acima do contato imediato da vida; ela pode existir para eles somente como um exemplar mais ou menos perfeito da espécie, isto é, uma abstração determinada .

Se é um coelho, por exemplo, quanto mais bonito for o espécimen, mais o cientista o dissecará com felicidade, na esperança de poder fazer sair desta própria destruição a natureza geral, a lei da espécie .

Se ninguém se opusesse a isso, não existiria, mesmo em nossos dias, um número de fanáticos capazes de fazer as mesmas experiências sobre o homem? E se, todavia, os cientistas naturalistas não dissecam o homem vivo, não é a ciência, são os protestos todo-poderosos da vida que os fizeram parar. Ainda que eles passem estudando três quartos de sua existência, e que, na atual organização, formem um tipo de mundo à parte – o que prejudica simultaneamente a saúde de seu coração e a de seu espírito – eles não são exclusivamente homens da ciência, mas são também, mais ou menos, homens da vida .

Todavia, não se deve confiar nisso. Se se pode estar mais ou menos seguro de que um cientista não ousaria tratar um homem, hoje, como trata um coelho, resta sempre a temer que o corpo de cientistas submeta os homens vivos a experiências científicas, sem dúvida interessantes, mas que seriam não menos desagradáveis para suas vítimas. Se não podem fazer experiências com o corpo dos indivíduos, eles não pedirão nada mais do que fazê-las com o corpo social, e eis o que é precioso absolutamente impedir .

Em sua organização atual, monopolizando a ciência e permanecendo, assim, fora da vida social, os cientistas formam uma casta à parte, oferecendo muita analogia com a casta dos padres. A abstração científica é seu Deus, as individualidades são suas vítimas e eles são seus sacrificadores nomeados .

A ciência não pode sair da esfera das abstrações. Em relação a isso, ela é muito inferior à arte, que, ela também, está ligada a tipos e situações gerais, mas que os encarna por um artifício que lhe é próprio. Sem dúvida, essas formas da arte não são a vida, mas não deixam de provocar em nossa imaginação a lembrança e o sentimento da vida; a arte individualiza, sob uma certa forma, os tipos e as situações que concebe; por meio de individualidades sem carne e osso, e, consequentemente, permanentes e imortais, que tem o poder de criar, ela nos faz lembrar das individualidades vivas, reais, que aparecem e desaparecem sob nossos olhos. A arte é, pois, sob uma certa forma, o retorno da abstração à vida. A ciência é, ao contrário, a imolação perpétua da vida, fugitiva, passageira, mas real, sob o altar das eternas abstrações .

A ciência é tão pouco capaz de compreender a individualidade de um homem quanto a de um coelho. Não é que ela ignore o princípio da individualidade; ela a concebe perfeitamente como principio, mas não como fato. Ela sabe muito bem que todas as espécies animais, inclusive a espécie humana, só possuem existência real em um número indefinido de indivíduos, nascendo e morrendo para dar lugar a novos indivíduos, igualmente fugidios. Ela sabe que, elevando-se das espécies animais às espécies superiores, o princípio da individualidade se determina mais; os indivíduos aparecem mais completos e mais livres. Ela sabe que o homem, o último e o mais perfeito animal desta terra, apresenta a individualidade mais completa e mais notável por causa de sua faculdade de conceber, concretizar, personificar, de um certo modo, em sua existência social e privada, a lei universal. Ela sabe, enfim, quando não está viciada pelo doutrinarismo teológico ou metafísico, político ou jurídico, ou mesmo por um estreito orgulho, quando ela não é surda aos institutos e às aspirações da vida, ela sabe, e esta é sua última palavra, que o respeito ao homem é a lei suprema da Humanidade, e que o grande, o verdadeiro objetivo da história, o único legítimo, é a humanização e a emancipação, é a liberdade real, a prosperidade de cada indivíduo vivo na sociedade. A menos que se recaia nas ficções liberticidas do bem público representado pelo Estado, ficções fundadas sempre sobre a imolação sistemática do povo, deve-se reconhecer que a liberdade e a prosperidade coletivas só existem sob a condição de representar a soma das liberdades e das prosperidades individuais .

A ciência sabe de todas essas coisas, mas ela não vai e não pode ir além. A abstração, constituindo sua própria natureza, pode conceber bem o princípio da individualidade real e viva, mas não pode ter nada a fazer com os indivíduos reais e vivos. Ela se ocupa dos indivíduos em geral, mas não de Pierre ou de Jacques, não de tal ou qual, que não existem, que não podem existir para ela. Seus indivíduos nada mais são, mais uma vez, do que abstrações .

Todavia, não são individualidades abstratas, são os indivíduos agindo e vivendo que fazem a história. As abstrações só caminham conduzidas por homens reais. Para esses seres formados, não somente em idéia, mas em realidade, de carne e de sangue, a ciência não tem coração. Ela os considera quando muito como carne para desenvolvimento intelectual e social. O que lhe fazem as condições particulares e o destino fortuito de Pierre ou Jacques? Ela se tornaria ridícula, ela abdicaria, ela se aniquilaria se quisesse se ocupar disso de outra forma que não a habitual, em apoio de suas teorias eternas. E seria ridículo censurá-la, pois ela obedece a suas leis. Ela não pode compreender o concreto; ela só pode mover-se em abstrações. Sua missão é ocupar-se da situação e das condições gerais da existência e do desenvolvimento, seja da espécie humana em geral, seja de tal raça, de tal povo, de tal classe ou categoria de indivíduos, das causas gerais de sua prosperidade, de sua decadência e dos meios gerais bons para fazê-los progredir de todas as maneiras. Desde que ela realize ampla e racionalmente esta tarefa, ela terá feito todo seu dever e seria realmente injusto pedir-lhe mais .

Mas seria igualmente ridículo, seria desastroso confiar-lhe uma missão que ela é incapaz de realizar, visto que sua própria natureza força-a a ignorar a existência e o destino de Pierre e de Jacques. Ela continuaria a ignorá-los, mas seus representantes nomeados, homens em nada abstratos, mas, ao contrário muito vivos, possuindo interesses muito reais, cedendo à influência perniciosa que o privilégio exerce fatalmente sobre os homens, acabariam por esfolar os outros homens em nome da ciência, como os esfolaram até agora os padres, os políticos de todas as cores e os advogados, em nome de Deus, do Estado, do Direito jurídico .

O que prego é, até certo ponto, a revolta da vida contra a ciência, ou melhor, contra o governo da ciência, não para destruir a ciência – seria um crime de lesa-humanidade – mas para recolocá-la em seu lugar, de maneira que ela não possa jamais sair de novo. Até o presente momento toda a história humana nada mais foi senão uma imolação perpétua e sangrenta de milhões de pobres seres humanos a uma abstração impiedosa qualquer: Deus, Pátria, poder do Estado, honra nacional, direitos históricos, liberdade política, bem público. Tal foi até agora o movimento natural, espontâneo e fatal das sociedades humanas. Nada podemos fazer para mudar isso, devemos suportá-lo em relação ao passado, como suportamos todas as fatalidades atuais. Deve-se acreditar que esta era a única via possível para a educação da espécie humana .
Não devemos nos enganar: mesmo procurando informar amplamente sobre os artifícios maquiavélicos das classes governamentais, devemos reconhecer que nenhuma minoria teria sido bastante poderosa para impor todos estes horríveis sacrifícios às massas, se não tivesse havido, nelas mesmas, um movimento vertiginoso, espontâneo, levando-as a se sacrificarem sempre, ora a uma, ora a outra destas abstrações devoradoras que, vampiros da história, sempre se nutriram de sangue humano .

Que os teólogos, os políticos e os juristas achem isso muito bom, nós os compreendemos. Padres destas abstrações, eles vivem apenas desta contínua imolação das massas populares. Que a metafísica dê a isso também seu consentimento, não deve nos surpreender também. Ela não possui outra missão que a de legitimar e de racionar, tanto quanto seja possível, o que é iníquo e absurdo. Mas o que se deve deplorar é o fato de a ciência positiva ter mostrado as mesmas tendências. Ela o fez por duas razões: inicialmente, porque constituída fora da vida, ela é representada por um corpo privilegiado, e, em seguida, porque ela própria se colocou até aqui como objetivo absoluto e último de todo desenvolvimento humano. Por uma crítica judiciosa, que ela pode e que em última instância se verá forçada a exercer contra si mesma, ela deveria ter compreendido que, ao contrário, ela é somente um meio para a realização de um objetivo bem mais elevado: o da completa humanização de todos os indivíduos que nascem, vivem e morrem na terra .

A imensa vantagem da ciência positiva sobre a teologia, a metafísica, a política e o direito jurídico consiste no seguinte: no lugar das abstrações enganosas e funestas, pregadas por estas doutrinas, ela apresenta abstrações verdadeiras, que exprimem a natureza geral e a lógica das coisas, as relações e as leis gerais de seu desenvolvimento. Eis o que lhe assegurará sempre uma grande posição na sociedade. Ela constituirá, de alguma forma, sua consciência coletiva; mas há um lado pelo qual ela se parece com todas as doutrinas anteriores: possuindo e só podendo ter por objetivo abstrações, ela é forçada por sua natureza a ignorar os homens reais, fora dos quais as abstrações mais verdadeiras não têm nenhuma existência. Para remediar este defeito radical, a ciência do futuro deverá proceder de outra forma, diferente das doutrinas do passado. Estas últimas se prevaleceram da ignorância das massas para sacrificá-las, com volúpia, às suas abstrações, por sinal sempre muito lucrativas para aqueles que as representam em carne e osso. A ciência positiva, reconhecendo sua incapacidade absoluta de conceber os indivíduos reais e de se interessar por seu destino, deve definitiva e absolutamente renunciar ao governo das sociedades, pois se ela se imiscuir, não poderá fazer outra coisa senão sacrificar sempre os homens vivos que ela ignora às abstrações de que faz o único objeto de suas legítimas preocupações .
A verdadeira ciência da história ainda não existe; quando muito começa-se a entrever, hoje, as condições extremamente complicadas .

Mas suponhamo-la definitivamente feita, o que ela poderá nos dar? Ela restabelecerá o quadro fiel e refletido do desenvolvimento natural das condições gerais, materiais e ideais, econômicas, políticas e sociais, religiosas, filosóficas, estéticas e científicas das sociedades que tiveram uma história. Mas este quadro universal da civilização humana, por mais detalhado que seja, jamais poderá conter senão apreciações gerais e, por conseqüência, abstratas. Os bilhões de indivíduos que forneceram a matéria viva e sofredora desta história, ao mesmo tempo triunfante e lúgubre – triunfante pela imensa hecatombe de vítimas humanas “esmagadas sob sua carruagem” -, estes bilhões de obscuros indivíduos, sem os quais nenhum dos grandes resultados abstratos da história teria sido obtido – e que, notemo-lo bem, quer destes resultados jamais se beneficiaram com qualquer destes resultados -, não encontrarão sequer o mínimo lugar em nossos anais. Eles viveram e foram sacrificados pelo bem da humanidade abstrata, eis tudo! Será preciso censurar a ciência da história? Seria injusto e ridículo. Os indivíduos são inapreensível pelo pensamento, pela reflexão, até mesmo pela palavra humana, que só é capaz de exprimir abstrações; eles são inapreensíveis, no presente, tanto quanto no passado. Assim, a própria ciência social, a ciência do futuro, continuará forçosamente a ignorá-los .

Tudo o que temos direito de exigir dela é que nos indique, com mão fiel e segura, as causas gerais dos sofrimentos individuais, e, entre estas causas, ela sem dúvida não esquecerá a imolação e a subordinação ainda muito freqüentes, infelizmente, dos indivíduos vivos às generalidades abstratas; e ao mesmo tempo nos mostrará as condições gerais necessárias à emancipação real dos indivíduos vivendo na sociedade. Eis sua missão; eis também seus limites, para além dos quais a ação da ciência social só poderá ser impotente e funesta. Fora destes limites começam as pretensões doutrinárias e governamentais de seus representantes nomeados, de seus padres. F tempo de acabar com estes pontífices, ainda que se dessem o nome de democratas-socialistas .

Mais uma vez, a única missão da ciência é iluminar O caminho. Mas, liberta de todos os seus entraves governamentais e doutrinários, e devolvida à plenitude de sua ação, somente a vida pode criar .

* * *

Como resolver esta antinomia? De um lado, a ciência é indispensável à organização racional da sociedade, de outro, ela é incapaz de se interessar pelo que é real e vivo .
Esta contradição só pode ser resolvida

de uma única maneira: é preciso que a ciência não permaneça mais fora da vida de todos, tendo por representante um corpo de cientistas diplomados, é necessário que ela se fundamente e se dissemine nas massas. A ciência, chamada doravante a representar a consciência coletiva da sociedade, deve realmente tornar-se propriedade de todo mundo. Assim, sem nada perder de seu caráter universal, do qual jamais poderá se desviar sob pena de cessar de ser ciência, e continuando a se ocupar exclusivamente das causas gerais, das condições e das relações fixas dos indivíduos e das coisas, ela se fundirá à vida imediata e real de todos os indivíduos. Será um movimento análogo àquele que fez dizer aos pregadores, no momento do início da reforma religiosa, que não havia mais necessidade de padres para um homem que se tornará, dali em diante, seu próprio padre, graças à intervenção invisível do Senhor Jesus Cristo, tendo conseguido finalmente engolir seu bom Deus .

Mas aqui não se trata nem de Jesus Cristo, nem de bom Deus, nem de liberdade política, nem de direito jurídico, todas coisas teológicas ou metafisicamente reveladas, e todas igualmente indigestas. O mundo das abstrações científicas não é revelado; ele é inerente ao mundo real, do qual nada mais é do que a expressão e a representação geral ou abstrata. Sem que forme uma região separada, representada especialmente pelo corpo dos cientistas, este mundo ideal ameaça-nos tomar, em relação ao mundo real, o lugar do bom Deus, reservando a seus representantes nomeados o ofício de padres. E por isso que é preciso dissolver a organização especial dos homens de ciência pela instrução geral, igual para todos e para todas, a fim de que as massas, cessando de ser rebanhos conduzidos e tosquiados por padres privilegiados, possam controlar a direção de seus destinos[7] .

Mas enquanto as massas não tiverem chegado a este grau de instrução, será necessário que elas se deixem governar pelos homens de ciência? Certamente que não. Seria melhor para elas absterem-se de ciência do que se deixarem governar por homens de ciência. O governo destes homens teria, como primeira conseqüência, tornar a ciência inacessível ao povo, porque as instituições atuais da ciência são essencialmente aristocráticas. A aristocracia de homens de ciência! Do ponto de vista prático, a mais implacável, e do ponto de vista social, a mais vaidosa e a mais insultante: tal seria o poder constituído em nome da ciência. Este regime seria capaz de paralisar a vida e o movimento da sociedade. Os homens de ciência, sempre presunçosos, sempre auto-suficientes e sempre impotentes, gostariam de se imiscuir em tudo, e as fontes da vida se dissecariam sob seu sopro de abstrações .

Mais uma vez, a vida, não a ciência, cria a vida; somente a ação espontânea do povo pode criar a liberdade. Sem dúvida, será bastante feliz que a ciência possa, a partir de agora, iluminar a marcha do povo para a sua emancipação. Mas, é melhor a ausência de luz do que uma luz trêmula e incerta, servindo apenas para extraviar aqueles que a seguem. Não é em vão que o povo percorreu uma longa carreira histórica e que pagou seus erros por séculos de miséria. O resumo prático de suas dolorosas experiências constitui um tipo de ciência tradicional, que, sob certos pontos de vista, tem o mesmo valor de ciência teórica. Enfim, uma parte da juventude, aqueles dentre os burgueses estudiosos que sentirão bastante ódio contra a mentira, a hipocrisia, a injustiça e a covardia da burguesia, por encontrar em si próprios a coragem de lhe virar as costas, e bastante paixão para abraçar sem reservas a causa justa e humana do proletariado, estes serão, como já disse, os instrutores fraternos do povo; graças a eles ninguém precisará do governo dos homens de ciência .

Se o povo deve evitar o governo dos homens de ciência, com maior razão deve se precaver contra o dos idealistas inspirados .
Quanto mais sinceros são os crentes e os padres, mais se tornam perigosos. A abstração científica, já disse, é uma abstração racional, verdadeira em sua essência, necessária à vida, da qual é a representação teórica, ou se preferirem, consciência. Ela pode, ela deve ser absorvida e dirigida pela vida. A abstração idealista, Deus, é um veneno corrosivo que destrói e decompõe a vida, que a deturpa e a mata .
O orgulho dos homens de ciência, nada mais sendo do que uma arrogância pessoal, pode ser dobrado e quebrado. O orgulho dos idealistas, não sendo em nada pessoal, mas divino, é irascível e implacável: ele pode, ele deve morrer, mas jamais cederá, e enquanto lhe restar um sopro de vida, tentará subjugar os homens a seu Deus; é assim que os tenentes da Prússia, os idealistas práticos da Alemanha, gostariam de ver esmagar o povo sob a bota e espora de seu imperador .

E a mesma lei, e o objetivo não é nada diferente. O resultado da lei é sempre a escravidão; é ao mesmo tempo o triunfo do materialismo mais feio e mais brutal: não há necessidade de desmonstrá-lo para a Alemanha; seria preciso ser cego para vê-lo .

* * *

O homem, como toda natureza viva, é um ser completamente material. O espírito, a faculdade de pensar, de receber e de refletir as diferentes sensações exteriores e interiores, de se lembrar delas quando passaram, e de reproduzi-las pela imaginação, compará-las e distingui-las, abstrair as determinações comuns e criar assim noções gerais, enfim, formar as idéias agrupando e combinando as noções segundo maneiras diferentes, numa palavra, a inteligência, única criadora de todo o nosso mundo ideal, é uma propriedade do corpo animal e, especialmente, do organismo cerebral .

Sabemo-lo de maneira certa, pela experiência de todos, que nenhum fato jamais desmentiu e que todo homem pode verificar a cada instante de sua vida. Em todos os animais, sem excetuar as espécies complementares inferiores, encontramos um certo grau de inteligência, e vemos que, na série das espécies, a inteligência animal se desenvolve, ainda mais quando a organização de uma espécie se aproxima daquela do homem; porém, somente no homem ela alcança este poder de abstração que constitui propriamente o pensamento .

A experiência universal [8], que é a única origem, a fonte de todos os nossos conhecimentos, demonstra-nos pois que toda inteligência está sempre ligada a um corpo animal qualquer, e que a intensidade e o poder desta função animal dependem da perfeição relativa do organismo. Este resultado da experiência universal não é somente aplicável às diferentes espécies animais; nós o constatamos igualmente nos homens, cuja potência intelectual e moral depende, de forma tão evidente, da maior ou menor perfeição de seu organismo como raça, como nação, como classe e como indivíduos, que não é necessário insistir sobre este ponto [9] .

Por outro lado, é certo que nenhum homem tenha visto ou podido ver alguma vez o espírito puro desprendido de toda forma material, existindo separadamente de um corpo animal qualquer. Mas, se ninguém a viu, como foi que os homens puderam chegar a crer em sua existência? O fato desta crença é certo e, senão universal, como dizem todos os idealistas, pelo menos muito geral, e como tal é inteiramente digno de nossa extrema atenção. Uma crença geral, por mais estúpida que seja, exerce uma influência muito poderosa sobre Q destino dos homens, para que possa ser permitido ignorá-la ou dela fazer abstração .

Esta crença se explica, por sinal, de uma maneira racional. O exemplo que nos oferecem as crianças e os adolescentes, até mesmo muitos homens que ultrapassaram em vários anos a maioridade, prova-nos que o homem pode exercer por muito tempo suas faculdades mentais antes de perceber a maneira como as exerce. Neste período do funcionamento do espírito, inconsciente de si mesmo, desta ação da inteligência ingênua ou crédula, o homem, obsedado pelo mundo exterior, levado por este aguilhão interior que se chama vida e as suas múltiplas necessidades, cria uma quantidade de imaginações, noções e idéias necessariamente muito imperfeitas no início, muito pouco conformes à realidade das coisas e dos fatos que elas se esforçam por exprimir. Ainda não tendo consciência de sua própria ação inteligente, ainda não sabendo que ele próprio produziu e continua a produzir estas imaginações, estas noções, estas idéias, ignorando sua origem totalmente subjetiva, isto é humana, ele deve naturalmente considerá-las como seres objetivos, como seres reais totalmente independentes de si, existindo por eles e neles mesmos .
Foi assim que os povos primitivos, emergindo lentamente de sua inocência animal, criaram seus deuses. Tendo-os criado, sem suspeitar que foram seus únicos criadores, eles os adoraram; considerando-os como seres reais, infinitamente superiores a si próprios, atribuíram-lhes a onipotência e se reconheceram suas criaturas, seus escravos. À medida que as idéias humanas se desenvolvem, os deuses, que nunca foram outra coisa senão revelação fantástica, ideal, poética da imagem invertida, idealizam-se também. Inicialmente fetiches grosseiros, eles se tornam pouco a pouco espíritos puros, existindo fora do mundo visível, e, enfim, no transcurso da história, eles acabam por se confundir num único ser divino, Espírito puro, eterno, absoluto, criador e senhor dos mundos .

Em todo desenvolvimento legítimo ou falso, real ou imaginário, coletivo ou individual, é sempre o primeiro passo que custa, o primeiro ato é o mais difícil. Uma vez ultrapassada a dificuldade, o resto se desenvolve naturalmente, como uma conseqüência necessária .

O que era difícil no desenvolvimento histórico desta terrível loucura religiosa que continua a nos obsedar era apresentar um mundo divino tal e qual, exterior ao mundo real. Este primeiro ato de loucura, tão natural do ponto de vista fisiológico, e por conseqüência necessário na história da humanidade, não se realiza de uma só vez. Foram necessários não sei quantos séculos para desenvolver e para fazer penetrar esta crença nos hábitos sociais dos homens. Mas, uma vez estabelecida, ela se tornou todo-poderosa, como se torna necessariamente a loucura, ao apoderar-se do cérebro do homem. Tomai um louco, qualquer que seja o objeto de sua loucura, e vereis que a idéia obscura e fixa que o obseda parece-lhe a mais natural do mundo, e que, ao contrário, as coisas da realidade que estão em contradição com esta idéia, parecem-lhe loucuras ridículas e odiosas. Bem, a religião e uma loucura coletiva, tanto mais poderosa por ser tradicional e porque sua origem se perde na antigüidade mais remota. Como loucura coletiva, ela penetrou até o fundo da existência pública e privada dos povos; ela se encarnou na sociedade, se tornou, por assim dizer, sua alma e seu pensamento. Todo homem é envolvido por ela desde o seu nascimento; ele a suga com o leite de sua mãe, absorve-a de tudo o que toca, de tudo o que vê. Ele foi, por ela, tão bem nutrido, envenenado, penetrado em todo o seu ser que, mais tarde, por poderoso que seja seu espírito natural, precisa fazer esforços espantosos para se livrar dela, e ainda assim não o consegue de uma maneira completa. Nossos idealistas modernos são uma prova disso, e nossos materialistas doutrinários, os conservadores alemães, são outra .

Eles não souberam se desfazer da religião do Estado .

Uma vez bem estabelecido o mundo sobrenatural, o mundo divino, na imaginação dos povos, o desenvolvimento dos diferentes sistemas religiosos seguiu seu curso natural e lógico, todavia conformando-se com o desenvolvimento contemporâneo das relações econômicas e políticas, das quais ele foi, em todos os tempos, no mundo da fantasia religiosa, a reprodução fiel e a consagração divina. Foi assim que a loucura coletiva e histórica que se chama religião se desenvolveu desde o fetichismo, passando por todos os graus, do politeísmo ao monoteísmo cristão .
O segundo passo no desenvolvimento das crenças religiosas, sem dúvida o mais difícil, após o estabelecimento de um mundo divino separado, foi precisamente a transição do politeísmo ao monoteísmo, do materialismo religioso dos pagãos à fé espiritualista dos cristãos. Os deuses pagãos – e aí está seu caráter principal – eram antes de tudo deuses exclusivamente nacionais. Muito numerosos, eles conservaram necessariamente um caráter mais ou menos material, ou melhor, porque eram materiais é que foram tão numerosos, sendo a diversidade um dos principais atributos do mundo real. Os deuses pagãos não eram propriamente a negação das coisas reais; eles nada mais eram do que seu exagero fantástico .

Vimos o quanto esta transição custou ao povo judeu, do qual ela constituiu, por assim dizer, toda a história. Moisés e os profetas tentaram por todos os meios fazer a pregação do Deus único, mas o povo recaía sempre em sua primeira idolatria, a antiga fé, muito mais natural, com vários bons deuses materiais, humanos, palpáveis. O próprio Jeová, seu Deus único, o Deus de Moisés e dos profetas, ainda era um Deus extremamente nacional, servindo-se, para recompensar e para punir seus fiéis, seu povo eleito, somente de argumentos materiais, freqüentemente estúpidos, sempre grosseiros e ferozes. Não parece sequer que a fé em sua existência tenha implicado a negação da existência dos deuses primitivos. O Deus judeu não negava a existência de seus rivais, somente não queria que seu povo os adorasse ao lado de si. Jeová era um Deus ciumento. Seu primeiro mandamento foi o seguinte: “Eu sou teu Deus e não adorarás outros deuses além de mim Jeová, portanto, foi apenas um primeiro esboço material e muito grosseiro do idealismo moderno. Ele nada mais era, por sinal, que um Deus nacional, como o Deus eslavo a que adoram os generais, súditos submissos e pacientes do imperador de todas as Rússias, como o Deus alemão que proclamam os pietistas, e os generais alemães súditos de Guilherme 1, em Berlim. O Ser supremo não pode ser um Deus nacional, ele deve sê-lo de toda a Humanidade. O Ser supremo não pode ser também um ser material, ele deve ser a negação de toda a matéria, o espírito puro. Para a realização do culto do Ser supremo foram necessárias duas coisas: primeira, uma realização igual à Humanidade pela negação das nacionalidades e dos cultos nacionais; segunda, um desenvolvimento já muito avançado das idéias metafísicas para espiritualizar o Jeová tão grosseiro dos judeus .

A primeira condição foi preenchida pelos romanos, de uma maneira sem dúvida muito negativa: pela conquista da maioria dos países conhecidos dos antigos, e pela destruição de suas instituições nacionais. Graças a eles, o altar de um Deus único e supremo pôde se estabelecer sobre as ruínas de outros milhares de altares. Os Deuses de todas as nações vencidas, reunidas no Panteão, anularam-se mutuamente .

Quanto à segunda condição, a espiritualização de Jeová, ela foi realizada pelos gregos, bem antes da conquista de seu país pelos romanos. A Grécia, em seu fim histórico, já havia recebido do Oriente um mundo divino que fora definitivamente estabelecido na fé tradicional de seus povos. Neste período de instinto, anterior à sua história política, ela o tinha desenvolvido é prodigiosamente humanizado por seus poetas, e quando ela começou verdadeiramente sua história, já possuía uma religião inteiramente pronta, a mais simpática e a mais nobre de todas as religiões que tenham existido, pelo menos tanto quanto uma religião, isto é, uma mentira pode ser nobre e simpática. Seus grandes pensadores – e nenhum povo teve pensadores maiores do que a Grécia – encontraram o mundo divino estabelecido, não somente fora deles próprios, no povo, mas também neles mesmos, como hábito de sentir e pensar, e naturalmente eles o tomaram como ponto de partida. Já foi muito bom que eles nada fizessem de teologia, quer dizer, que eles não se aborrecessem em reconciliar a razão nascente com os absurdos deste ou daquele deus, como o fizeram, na Idade Média, os escolásticos. Eles deixaram os deuses fora de suas especulações e se ligaram diretamente à idéia divina, una, invisível, todo-poderosa, eterna, absolutamente espiritualista e não pessoal. Os metafísicos gregos foram, portanto, muito mais que os judeus, os criadores de um Deus cristão. Os judeus apenas acrescentaram a ele a brutal personalidade de seu Jeová .

Que um gênio sublime, como o divino Platão, tenha podido estar absolutamente convencido da realidade da idéia divina, isto nos demonstra o quanto é contagiosa, o quanto é todo-poderosa a tradição da loucura religiosa, mesmo sobre os maiores espíritos. Por sinal, não devemos nos surpreender com isso, pois mesmo nos dias de hoje, o maior gênio filosófico desde Aristóteles e Platão, que é Hegel, esforçou-se em repor em seu trono transcendente ou celeste as idéias divinas, das quais Kant havia demolido a objetividade por uma crítica infelizmente imperfeita e muito metafísica. E verdade que Hegel portou-se de uma maneira tão indelicada em sua obra de restauração que matou definitivamente o bom Deus. Retirou destas idéias seu caráter divino ao demonstrar, a quem quiser lê-lo, que elas jamais foram outra coisa senão uma criação do espírito humano, correndo à procura de si próprio através da história. Para pôr fim a todas as loucuras religiosas e à miragem divina, só lhe faltou pronunciar esta grande frase dita depois, quase ao mesmo tempo, por dois grandes espíritos, e sem que nunca tivessem ouvido falar um do outro: Ludwig Feuerbach, o discípulo e o demolidor de Hegel, e Auguste Comte, o fundador da filosofia política na França. A frase é: “A metafísica se reduz à psicologia”. Todos os sistemas de metafísica nada mais são do que a psicologia humana se desenvolvendo na história .

Agora não nos é mais difícil compreender como nasceram as idéias divinas, como foram criadas pela faculdade abstrativa do homem. Mas na época de Platão, este conhecimento era impossível. O espírito coletivo, e por conseqüência também o espírito individual, mesmo o do maior gênio, não estava maduro para isto. Mal pôde ser dito com Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo”. Este conhecimento de si próprio existia apenas em estado de abstração; na realidade, era nulo. Era impossível que o espírito humano desconfiasse que era o único criador do mundo divino .
Ele o encontrou diante de si, encontrou-o como história, como sentimento, com hábito de pensar, e fez dele necessariamente o objeto de suas mais elevadas especulações. Foi assim que nasceu a metafísica e que as idéias divinas, base do espiritualismo, foram desenvolvidas e aperfeiçoadas .

É verdade que depois de Platão existiu no desenvolvimento do espírito como que um movimento inverso. Aristóteles, o verdadeiro pai da ciência e da filosofia positiva não negou absolutamente o mundo divino, mas ocupou-se com isto o mínimo possível. Estudou primeiramente, como um analista e um experimentador que era, a lógica, as leis do pensamento humano, e, ao mesmo tempo, o mundo físico, não em sua essência ideal, ilusória, mas sob seu aspecto real .

Depois dele, os gregos de Alexandria fundaram a primeira escola das ciências positivas. Eles foram ateus. Mas seu ateísmo permaneceu sem influência sobre seus contemporâneos. A ciência tendeu cada vez mais a se isolar da vida. Quanto à negação das idéias divinas, pronunciada pelos epicuristas e pelos céticos, não teve nenhuma ação sobre as massas .

Uma outra escola, infinitamente mais influente, formou-se em Alexandria .

Foi a escola dos neoplatônicos. Estes, confundindo numa mescla impura as imaginaçõesmonstruosas do Oriente com as idéias de Platão, foram os verdadeiros preparadores e, mais tarde, os elaboradores dos dogmas cristãos .

Assim, o egoísmo pessoal e grosseiro de Jeová, a dominação não menos brutal e grosseira dos romanos, e a especulação metafísica ideal dos gregos, materializada pelo contato com o Oriente, tais foram os três elementos históricos que constituíram a religião espiritualista dos cristãos .
Um Deus que se elevava, pois, acima das diferenças nacionais de todos os países, que era de certa forma a negação direta, devia ser necessariamente um ser imaterial e abstrato. Mas já o dissemos, a fé tão difícil na existência de um semelhante ser não pôde nascer de uma só vez. Assim, também, ela foi longamente preparada e desenvolvida pela metafísica grega, que, inicialmente, estabeleceu, de maneira filosófica, a noção da idéia divina, modelo eternamente reproduzido pelo mundo visível. Mas a divindade concebida e criada pela filosofia grega era uma divindade pessoal. Nenhuma metafísica consequentemente séria, podendo se elevar, ou melhor, se rebaixar à idéia de um Deus pessoal, precisou, pois, imaginar um Deus que fosse único e que fosse três ao mesmo tempo. Ele se encontrou na pessoa brutal, egoísta e cruel de Jeová, o deus nacional dos judeus. Mas os judeus, apesar deste espírito nacional exclusivo que os distingue ainda hoje, tornaram-se, de fato, bem antes do nascimento de Cristo, o povo mais internacional do mundo .

Arrastados em parte como cativos, mas, muito mais ainda, levados por esta paixão mercantil que constitui um dos traços principais de seu caráter, eles se disseminaram em todos os países, levando com eles o culto de seu Jeová, ao qual permaneciam tanto mais fiéis quanto mais ele os abandonava .

Em Alexandria, o deus terrível dos judeus travou conhecimento pessoal com a divindade metafísica de Platão, já muito corrompida pelo contato com o Oriente, e a corrompeu ainda mais pelo seu. Apesar de seu exclusivismo nacional, ciumento e feroz, não pôde, com o tempo, resistir às graças desta divindade ideal e impessoal dos gregos. Desposou-a e deste casamento nasceu o deus espiritualista, mas não espiritual dos cristãos. Os neoplatônicos de Alexandria foram os principais criadores da teologia cristã .

Entretanto, a teologia ainda não constitui a religião, assim como os elementos históricos não bastam para criar a história. Denomino de elementos históricos as condições gerais de um desenvolvimento real qualquer, por exemplo a conquista do mundo pelos romanos e o encontro do deus dos judeus com a divindade ideal dos gregos. Para fecundar os elementos históricos, para fazê-los percorrer uma série de transformações, foi necessário um fato vivo, espontâneo, sem o qual teriam podido permanecer muitos séculos ainda em estado de elementos improdutivos. Este fato não faltou ao cristianismo; foi a propaganda, o martírio e a morte de Jesus Cristo .

Não sabemos quase nada deste personagem, tudo o que nos contam os evangelhos é tão contraditório e fabuloso que mal podemos extrair alguns traços reais e vivos. O certo é que foi o pregador do povo pobre, o amigo, o consolador dos miseráveis, dos ignorantes, dos escravos e das mulheres, e que foi muito amado por estas últimas. Prometeu a vida eterna a todos aqueles que sofrem aqui em baixo, e o número destes é imenso. Foi crucificado, como era de se esperar, pelos representantes da moral oficial e da ordem pública da época. Seus discípulos e os discípulos destes últimos puderam se espalhar, graças à conquista romana e à destruição das barreiras nacionais, e propagaram o Evangelho em todos os conhecidos dos antigos. Em todos os lugares foram recebidos de braços abertos pelos escravos e pelas mulheres, as duas classes mais oprimidas, mais sofredoras e naturalmente mais ignorantes do mundo antigo. Se fizeram alguns prosélitos no mundo privilegiado e letrado, devem isso, em grande parte, à influência das mulheres. Sua propaganda mais ampla exerceu-se quase exclusivamente no povo infeliz, embrutecido pela escravidão. Foi a primeira importante revolta do proletariado .

A grande honra do cristianismo, seu mérito incontestável e todo o segredo de seu triunfo inaudito, e por sinal totalmente legítimo, foi o de ter-se dirigido a este público sofredor e imenso, ao qual o mundo antigo impunha uma servidão intelectual e política estreita e feroz, negando-lhe inclusive os direitos mais simples da humanidade. De outra forma ele jamais teria podido se disseminar. A doutrina que ensinavam os apóstolos do Cristo, por mais consoladora que tenha parecido aos infelizes, era muito revoltante, muito absurda do ponto de vista da razão humana, para que homens esclarecidos tivessem podido aceitá-la. Com que alegria também o apóstolo Paulo fala do “escândalo da fé” e do triunfo desta divina loucura rejeitada pelos poderosos e pelos sábios do século, mas tanto mais apaixonadamente aceita pelos simples, pelos ignorantes e pelos pobres de espírito! Com efeito, seria preciso um bem profundo descontentamento da vida, uma grande sede no coração e uma pobreza quase absoluta de pensamento para aceitar o absurdo cristão, o mais monstruoso de todos os absurdos .

Não era somente a negação de todas as instituições políticas, sociais e religiosas da antigüidade; era a inversão absoluta de senso comum, de toda a razão humana. O ser vivo, o mundo real, eram considerados dali em diante como o nada; enquanto que, para além das coisas existentes, mesmo para além das idéias de espaço e de tempo, o produto final da faculdade abstrativa do homem repousa na contemplação de seu vazio e de sua imobilidade absoluta, esta abstração, este caput mortuum, absolutamente vazio de toda utilidade, o verdadeiro nada, Deus, proclamado o único ser real, eterno, todo-poderoso. O Todo real é declarado nulo, e o nulo absoluto, o Todo. A sombra se torna o corpo e o corpo se desvanece como uma sombra[10] .

Era de uma audácia e de um absurdo sem nome, o verdadeiro escândalo da fé para as massas; era o triunfo da insensatez crente sobre o espírito e, para alguns, a ironia de um espírito fatigado, corrompido, desiludido e enfadado pela busca honesta e séria da verdade; era a necessidade de se aturdir e de se embrutecer, necessidade que se encontra com freqüência entre os espíritos insensibilizados: “Credo quia absurdum” .

Não acredito somente no absurdo; acredito nele precisamente e sobretudo porque ele é absurdo. E assim que muitos espíritos distintos e esclarecidos acreditam, nos dias de hoje, no magnetismo animal, no espiritismo, nas mesas que giram – e por que ir tão longe? -, crêem ainda no cristianismo, no idealismo, em Deus .

A crença do proletariado antigo, tanto quanto a do proletariado moderno, era robusta e simples. A propaganda cristã havia se dirigido a seu coração, não a seu espírito, às suas aspirações eternas, às suas necessidades, aos seus sofrimentos, à sua escravização, não à sua razão, que dormia ainda, e para a qual, consequentemente, as contradições lógicas, a evidência do absoluto não podiam existir. A única questão que o interessava era a de saber quando chegaria a hora da libertação prometida, quando chegaria o reino de Deus. Quanto aos dogmas teológicos, não se preocupava com eles, pois deles nada compreendia. O proletariado convertido ao cristianismo constituía a potência material, mas não o pensamento teórico .

Quanto aos dogmas cristãos, eles foram elaborados em uma série de trabalhos teológicos, literários, e nos concílios, principalmente pelos neoplatônicos convertidos do Oriente .

O espírito grego tinha descido tão baixo, que no século VII da era cristã, época do primeiro concilio, a idéia de um Deus pessoal, espírito puro, eterno, absoluto, criador e senhor supremo, existindo fora de nós, era unanimemente aceita pelos padres da Igreja; como conseqüência lógica deste absurdo absoluto, tornava-se desde então natural e necessário crer na imaterialidade e na imortalidade da alma humana, hospedada e aprisionada em um corpo mortal, em parte somente, porque no corpo há uma parte que, ainda que sendo corporal, é imortal como a alma e deve ressuscitar com ela. Quanto foi difícil, mesmo aos padres da Igreja, imaginar o espírito puro, fora de qualquer forma corporal! E preciso observar que em geral o caráter de todo raciocínio metafísico e teológico é o de procurar explicar um absurdo por outro .

Foi muito oportuno para o cristianismo ter encontrado o mundo dos escravos. Houve outro motivo de alegria: a invasão dos bárbaros. Estes últimos eram uma brava gente, cheios de força natural e sobretudo levados por uma grande necessidade e por uma capacidade de viver; estes bandidos a toda prova, capazes de tudo devastar e tudo engolir, assim como seus sucessores, os alemães atuais; mas eles eram muito menos sistemáticos e pedantes que estes últimos, muito menos moralistas, menos sábios, e em compensação muito mais independentes e orgulhosos, capazes de ciências e não incapazes de liberdade, como os burgueses da Alemanha moderna. Apesar de todas as suas grandes qualidades, eles nada mais eram senão bárbaros, isto é, tão diferentes para todas as questões de teologia e de metafísica quanto os escravos antigos, dos quais um grande número, por sinal, pertencia à sua raça .

Assim, uma vez vencidas suas repugnâncias práticas, não foi difícil convertê-los teoricamente ao cristianismo .

Durante dez séculos, o cristianismo, armado com a onipotência da Igreja e do Estado, e sem nenhuma concorrência, pôde depravar, corromper e falsear o espírito da Europa. Não havia concorrentes, visto que fora da Igreja não houve nem pensadores nem letrados. Somente ela pensava, somente ela falava, escrevia, ensinava. Se heresias surgiram em seu seio, elas só atacavam os desenvolvimentos teológicos ou práticos do dogma fundamental, não a este dogma. A crença em Deus, espírito puro e criador do mundo, e a crença na imaterialidade da alma permaneciam de fora. Esta dupla crença tornou-se a base ideal de toda a civilização ocidental e oriental da Europa; penetrou todas as instituições, todos os detalhes da vida pública e privada das castas e das massas; encarnou-se nelas, por assim dizer .

Podemos surpreender-nos que depois disso esta crença se tenha mantido até nossos dias, continuando a exercer sua influência desastrosa sobre espírito de elite, tais como os de Mazzini, Michelet, Quinet e tantos outros? Vimos que o primeiro ataque foi dirigido contra ela pelo renascimento do livre espírito no século XV, que produziu heróis e mártires como Vanini, Giordano Bruno, Galileu. Ainda que sufocado pelo barulho, pelo tumulto e pelas paixões da reforma religiosa, ele continuou sem barulho seu trabalho invisível, legando aos mais nobres espíritos de cada geração sua obra de emancipação humana pela destruição do absurdo, até que, enfim, na segunda metade do século XVIII, ele reapareceu abertamente de novo, elevando ousadamente a bandeira do ateísmo e do materialismo .

* * * Pôde-se acreditar que o espírito humano iria enfim se livrar de todas as obsessões divinas. Foi um erro. A mentira da qual a humanidade era a vítima havia dezoito séculos (para só falar do cristianismo) deveria se mostrar, mais uma vez, mais poderosa do que a verdade. Não mais podendo servir-se da gente negra, dos corvos consagrados pela Igreja, padres católicos ou protestantes, que tinham perdido todo o crédito, serviu-se dos padres laicos, dos mentores e dos sofistas togados, entre os quais o principal papel foi destinado a dois homens fatais, um, o espírito mais falso, o outro, a vontade mais doutrinariamente despótica do último século: J .-J. Rousseau e Robespierre .
O primeiro é o verdadeiro tipo da estreiteza e da mesquinharia desconfiada> da exaltação sem outro objeto que sua própria pessoa, do entusiasmo frio e da hipocrisia simultaneamente sentimental e implacável, da mentira do idealismo moderno. Pode-se considerá-lo como o verdadeiro criador da reação. Aparentemente, o escritor democrático do século XVIII prepara em si mesmo o despotismo impiedoso do homem de Estado. Foi o profeta do Estado doutrinário, como Robespierre, seu digno e fiel discípulo, tentou tornar-se seu grande padre. Tendo ouvido dizer, por Voltaire, que se não existisse Deus seria preciso inventá-lo, Rousseau inventou o Ser Supremo, o Deus abstrato e estéril dos deístas .
E foi em nome do Ser Supremo e da hipócrita virtude comandada por este Ser Supremo que Robespierre guilhotinou os Hebertistas inicialmente, em seguida o próprio gênio da revolução, Danton, em cuja pessoa ele assassinou a república, preparando assim o triunfo, tornado desde aquele momento necessário, da ditadura napoleônica. Depois do grande recuo, a reação idealista procurou e encontrou servidores, menos fanáticos, menos terríveis, mais de acordo com a estatura consideravelmente diminuta da burguesia atual .

Na França, foram Chateaubriand, Lamartine e – é preciso dizê-lo – Victor Hugo, o democrata, o republicano, o quase-socialista de hoje, e depois deles toda a tropa melancólica, sentimental, de espíritos magros e pálidos que constituíram, sob a direção destes mestres, a escola romântica moderna. Na Alemanha, foram os Schlegel, os Tieck, os Novalis, os Werner, foram Schelling e muitos outros mais, cujos nomes sequer merecem ser lembrados .

A literatura criada por esta escola foi o reino dos espíritos e dos fantasmas. Ela não suportava a claridade; somente a penumbra permitia-lhes viver. Ela também não Suportava o contato brutal das massas. Era a literatura dos aristocratas delicados, distintos, aspirando ao céu, sua pátria, e vivendo, apesar dele, sobre a terra .

Tinha horror e desprezo pela política e pelas questões do quotidiano; mas quando falava disso, por acaso, ela se mostrava francamente reacionária, tomava partido pela Igreja contra a insolência dos livre-pensadores, em favor dos reis contra os povos e de todos os aristocratas contra o populacho das ruas .

De resto, como acabamos de dizer, o que dominava na escola do romantismo era uma indiferença quase completa pela política. No meio das nuvens nas quais ela vivia só se podia distinguir dois pontos reais: o rápido desenvolvimento do materialismo burguês e o desencadeamento desenfreado das vaidades individuais .

* * *

Para compreender esta literatura romântica é preciso procurar sua razão de ser na transformação que se operou no seio da classe burguesa, desde a revolução de 1793 .

Desde a Renascença e a Reforma até a Revolução, a burguesia, senão na Alemanha, pelos menos na Itália, na França, na Suíça, na Inglaterra, na Holanda, foi o herói e o representante do gênio revolucionário da história. De seu seio saía a maioria dos livre-pensadores do século XVIII, os reformadores religiosos dos dois séculos precedentes e os apóstolos da emancipação humana, inclusive, desta vez, os da Alemanha do século passado. Ela sozinha, naturalmente apoiada sobre o braço poderoso do povo que nela tem fé, fez a revolução de 1789 e de 1793. Ela havia proclamado a queda da realeza e da Igreja, a fraternidade dos povos, os Direitos do homem e do cidadão. Eis seus títulos de glória; eles são imortais! Em pouco tempo ele se cindiu. Uma parte considerável de compradores de bens nacionais, tornados ricos, apoiando-se não mais sobre o proletariado das cidades, mas sobre a maior parte dos camponeses da França, tornados, eles também, proprietários de terras, não aspirava a outra coisa senão à paz, ao restabelecimento da ordem pública e ao estabelecimento de um governo poderoso e regular. Ela aclamou pois com alegria a ditadura do primeiro Bonaparte, e, ainda que sempre voltairiana, não viu com maus olhos o tratado com o Papa e o restabelecimento da Igreja oficial na França: “A Religião e tão necessária ao Povo!” . O que significa dizer que, satisfeita, esta parte da burguesia começou desde então a compreender que era urgente, para a conservação de sua situação e de seus bens recém-adquiridos, enganar a fome não saciada do povo pelas promessas de um maná celeste. Foi então que Chateaubriand começou a pregar[11] .

Napoleão caiu. A restauração trouxe de volta à França a monarquia legítima e, com esta, o poder da Igreja e da aristocracia nobiliária, que recuperaram a maior parte de sua antiga influência, até que veio o momento oportuno de reconquistar tudo .

Esta reação relançou a burguesia na Revolução, e com o espírito revolucionário despertou também nela o da incredulidade: ela se tornou de novo um espírito forte. Pôs Chateaubriand de lado e recomeçou a ler Voltaire; mas não chegou até Diderot: seus nervos enfraquecidos não comportavam mais um alimento tão forte. Voltaire, simultaneamente espírito forte e deísta, ao contrário, convinha-lhe muito .
Béranger e P.-L. Courrier exprimiram perfeitamente esta nova tendência .

O “Deus das boas pessoas” e o ideal do rei burguês, ao mesmo tempo liberal e democrático, retraçado sobre o fundo majestoso e doravante inofensivo das vitórias gigantescas do Império, tal foi naquela época o quadro que a burguesia da França fazia do governo da sociedade .
Lamartine, excitado pela monstruosa e ridícula inveja de se elevar à altura poética do grande Byron, tinha começado estes hinos friamente delirantes em honra do Deus dos fidalgos e da monarquia legítima, mas seus cantos só ressoavam nos salões aristocráticos. A burguesia não os escutava. Béranger era seu poeta e Courrier seu escritor político .

A revolução de julho teve por conseqüência o enobrecimento de seus gostos. Sabe-se que todo burguês na França traz em si o tipo imperecível do burguês fidalgo, tipo que jamais deixa de aparecer, tão logo o novo-rico adquire riqueza e poder. Em 1830, a rica burguesia tinha definitivamente substituído a antiga nobreza no poder. Ela tendeu naturalmente a fundar uma nova aristocracia. Aristocracia de capital, antes de mais nada, mas, em suma, distinta, de boas maneiras e de sentimentos delicados. Ela começou a sentir-se religiosa .
Não foram, de sua parte, simples arremedos dos modos aristocráticos .

Era também uma necessidade de posição. O proletariado tinha-lhe prestado um último serviço ao ajudá-la uma vez mais a derrubar a nobreza. A burguesia já não precisava mais deste auxílio, pois sentia-se solidamente estabelecida à sombra do trono de julho, e a aliança do povo, doravante inútil, começava a se tornar incômoda. Era preciso recolocá-lo em seu lugar, o que não se pôde naturalmente fazer sem provocar uma grande indignação nas massas. Tornou-se necessário conter estas últimas. Mas em nome de quê? Em nome do interesse burguês cruamente declarado? Teria sido muito cínico. Quanto mais um interesse é injusto, desumano, mais ele necessita de sanção. Ora, aprisioná-lo, senão na religião, esta boa protetora de todos os satisfeitos e esta consoladora tão útil dos famintos? E mais do que nunca a burguesia triunfante compreendeu que a religião era indispensável ao povo .

Após ter ganho todos os seus títulos de glória na oposição religiosa, filosófica e política, no protesto e na revolução, ela enfim se tornou a classe dominante e, por isso mesmo, a defensora e a conservadora do Estado, instituição desde então regular do poder exclusivo desta classe .
O Estado é a força, e tem, antes de mais nada, o direito da força, o argumento triunfante do fuzil. Mas o homem é tão singularmente feito que este argumento, por mais eloqüente que pareça ser, não é mais suficiente com o passar do tempo. Para impor-lhe respeito, é-lhe absolutamente necessária uma sanção moral qualquer. E preciso, além do mais, que esta sanção seja simultaneamente tão simples e tão evidente que possa convencer as massas, que, após terem sido reduzidas pela força do Estado, devem ser lavadas ao reconhecimento moral de seu direito .
Há somente dois meios de convencer as massas da bondade de uma instituição social qualquer. O primeiro, o único real, mas também o mais difícil de empregar – porque implica a abolição do Estado, isto é, a abolição da exploração politicamente organizada da maioria por uma minoria qualquer – seria a satisfação direta e completa das necessidades e das aspirações do povo, o que equivaleria à liqüidação da existência da classe burguesa e, mais uma vez, à abolição do Estado. E, pois, inútil falar disso .

O outro meio, ao contrário, funesto somente ao povo, precioso ao bem-estar dos privilegiados burgueses, não é outro senão a religião. E a eterna miragem que leva as massas à procura dos tesouros divinos, enquanto que, muito mais astuta, a classe governante se contenta em dividir entre seus membros – muito desigualmente, por sinal, e dando cada vez mais àquele que mais possui – os miseráveis bens da terra e os despojos do povo, inclusive, naturalmente, a liberdade política e social deste .

Não existe, não pode existir Estado sem religião. Considerai os Estados mais livres do mundo, os Estados Unidos da América ou a Confederação Suíça, por exemplo, e vede que papel importante preenche neles, em todos os discursos oficiais, a divina Providência, esta sanção superior de todos os Estados .

Assim, todas as vezes que um chefe do Estado fala de Deus, quer seja o imperador da Alemanha ou o presidente de uma república qualquer, estai certo de que ele se prepara para tosquiar de novo seu povo-rebanho .

A burguesia francesa, liberal e voltairiana, levada por seu temperamento a um positivismo (para não dizer a um materialismo) singularmente estreito e brutal, tendo se tornado classe governante por seu triunfo de 1820, o Estado teve de assumir uma religião oficial. A coisa não era fácil .
A burguesia não podia se colocar cruamente sob o jugo do catolicismo romano. Havia entre ela e a Igreja de Roma um abismo de sangue e de ódio e, por mais práticos e sábios que nos tornemos, nunca conseguimos reprimir em nosso seio uma paixão desenvolvida pela história. Por sinal, o burguês francês se cobria de ridículo se retornasse à Igreja para tomar parte nas cerimônias religiosas de seu culto, levado muito longe. A burguesia foi levada, então, para sancionar seu novo Estado, a criar uma nova religião que pudesse ser, sem muito ridículo e escândalo, condição essencial de uma conversão meritória e sincera. Muitos o tentaram, é verdade, mas seu heroísmo não obteve outro resultado além de um escândalo estéril. Enfim, o retorno ao catolicismo era impossível por causa da contradição insólita que separa a política invariável de Roma e o desenvolvimento dos interesses econômicos e políticos da classe média .

No que diz respeito a isto, o protestantismo é muito mais cômodo. E a religião burguesa por excelência. Ela concede de liberdade apenas o necessário de que precisa o burguês e encontrou o meio de conciliar as aspirações celestes com o respeito que exigem os interesses terrestres .
Assim, foi sobretudo nos países protestantes que o comércio e a indústria se desenvolveram .
Mas era impossível para a burguesia francesa fazer-se protestante. Para passar de uma religião a outra – a menos que o faça calculadamente, como os judeus da Rússia e da Polônia, que se batizam três e até mesmo quatro vezes para receber o mesmo número de vezes a remuneração que lhes é concedida -, para mudar de religião seriamente, é preciso ter um pouco de fé. Ora, no coração exclusivamente positivo do burguês francês não há lugar para a fé. Ele professa a mais profunda indiferença para todas as questões que não dizem respeito nem ao seu bolso inicialmente nem à sua vaidade social em seguida .

Ele é tão indiferente ao protestantismo quanto ao catolicismo. Por outro lado, o burguês francês não poderia passar ao protestantismo sem se colocar em contradição com a rotina católica da maioria, o que teria sido uma grande imprudência por parte de uma classe que pretendia governar a nação .

Restava um meio: retornar à religião humanitária e revolucionária do século XVIII. Mas isto faria a religião altamente proclamada por toda a classe burguesa .

Foi assim que nasceu o Deísmo doutrinário .

Outros já fizeram, muito melhor do que eu poderia fazer, a história do nascimento e do desenvolvimento desta escola, que teve uma influência tão decisiva e, pode-se dizê-lo muito bem, tão funesta sobre a educação política, intelectual e moral da juventude burguesa na França. Ela data de Benjamin Constant e de Mme. de Staël; seu verdadeiro fundador foi Royer-Collard; seus apóstolos, Guizot, Cousin, Villemam e muitos outros .
Seu objetivo abertamente declarado era a reconciliação da revolução com a reação ou, para falar a linguagem da escola, do princípio da liberdade com o da autoridade, naturalmente em proveito deste último .

Esta reconciliação significava: em política, a escamoteação da liberdade popular em proveito da dominação burguesa, representada pelo Estado monárquico e constitucional; em filosofia, a submissão refletida da livre razão aos princípios eternos da fé .

Sabe-se que ela foi sobretudo elaborada pelo Sr. Cousin, pai do ecletismo francês. Orador superficial e pedante, incapaz de qualquer concepção original, de qualquer pensamento que lhe fosse próprio, mas muito forte em lugares-comuns, que ele confundia com o bom senso, este ilustre filósofo preparou sabiamente, para uso da juventude estudantil da França, um prato metafísico a seu modo, cujo uso foi tornado obrigatório em todas as escolas do Estado, submissas à Universidade: é o alimento indigesto ao qual foram condenadas necessariamente várias gerações .

* * *

[O manuscrito foi interrompido aqui.]

Mikhail Bakunin Notas:

[1] Eu o denomino “iníquo” porque este mistério foi e ainda continua sendo a consagração de todos os horrores que foram cometidos e que se cometem no mundo; eu o denomino “iníquo” porque todos os outros absurdos teológicos e metafísicos que embrutecem o espírito dos homens nada mais são do que suas conseqüências necessárias .
[2] Stuart Mill é talvez o único a quem seja permitido colocar em o idealismo sério; e isto por duas razões: a primeira é que, não é absolutamente o discípulo, ele é um admirador apaixonado, um adepto da Filosofia Positiva de Augusto Comte, filósofo apesar de suas inúmeras reticências, é realmente ateu; a segunda é que Stuart Mill era inglês, e na Inglaterra proclamar-se ateu é se colocar fora da sociedade, mesmo hoje .
[3] Mômiers – Apelidos de certos metodistas na Suíça (N. do T.) .
[4] Pietistas – adeptos da doutrina ascética da Igreja Luterana alemã do século XVII (N. do T.) .
[5] Bakunin fala aqui, sem dúvida, das “leis econômicas” e da “ciência social”, que, com efeito, ainda está em seu começo .
[6] Em Londres, eu ouvi o Sr. Louis Blanc exprimir, há pouco, mais Ou menos a mesma idéia: “A melhor forma de governo”, e logo depois, “será a que convocar sempre à direção os homens virtuosos” .
[7] A ciência, tornando-se o patrimônio de todo mundo, desposará, de certo modo, a vida imediata e real de cada um. Ela ganhará em utilidade e em graça o que tiver perdido em orgulho, em ambição e em pedantismo doutrinário. Isto não impedirá, sem dúvida, que homens geniais, melhor organizados para as especulações científicas do que a maioria de seus contemporâneos, se dediquem exclusivamente à cultura das ciências e prestem grandes serviços à humanidade. Todavia, eles não poderão ambicionar outra influência social senão a influência natural exercida sobre seu meio por toda a inteligência superior, nem outra recompensa que não seja a satisfação de uma nobre preparação .
[8] É preciso distinguir a experiência universal, sobre a qual os idealistas querem apoiar suas crenças; a primeira é uma constatação real de fatos, a segunda nada mais á que uma suposição de fatos que ninguém viu e que, por conseqüência, estão em contradição com a experiência de todo o mundo .
[9] Os idealistas, todos os que crêem na imaterialidade e na imortalidade da alma humana, devem estar excessivamente embaraçados com a diferença que existe entre as inteligências das raças, dos povos e dos indivíduos. A menos que se suponha que as diversas parcelas foram irregularmente distribuídas, como explicar esta diferença? Existe infelizmente um número considerável de homens completamente estúpidos, parvos até o idiotismo. Teriam eles, pois, recebido na divisão uma parcela ao mesmo tempo divina e estúpida? Para sair deste embaraço, os idealistas deveriam necessariamente supor que todas as almas humanas são iguais, mas que as prisões nas quais elas se encontram necessariamente fechadas, os corpos humanos, são desiguais, uns mais capazes que outros, para servir de órgão à intelectualidade pura da alma. Esta teria à sua disposição, deste modo, órgãos muito finos; aquelas, órgãos muito grosseiros . Mas estas são distinções de que o idealismo não tem o direito de se servir, sem cair, ele próprio, na inconseqüência e no materialismo mais grosseiro. Isto porque, na absoluta imaterialidade da alma, todas as diferenças corporais desaparecem, tudo o que á corporal, material, deve aparecer como indiferente, igual, absolutamente grosseiro. O abismo que separa a alma do corpo, a absoluta imaterialidade da materialidade absoluta, á infinito. Por conseqüência, todas as diferenças, inexplicáveis por sinal, e logicamente impossíveis, que poderiam existir do outro lado do abismo, na matéria, devem ser, para a alma, nulos, e não podem nem devem exercer sobre ela nenhuma influência. Numa palavra, o absolutamente imaterial não pode ser forçado, aprisionado e ainda menos exprimido em qualquer grau que seja pelo absolutamente material. De todas as imaginações grosseiras e materialistas, no sentido ligado a esta palavra pelos idealistas, quer dizer, brutais, que foram engendradas pela ignorância e pela estupidez primitiva dos homens, a de uma alma imaterial, aprisionada num corpo material, á certamente a mais grosseira, a mais estúpida, e nada melhor prova a onipotência, exercida até mesmo sobre os melhores espíritos, por preconceitos antigos, do que ver homens dotados de uma grande inteligência falarem ainda desta extravagante união .

[10] Sei muito bem que nos sistemas teológicos e metafísicos orientais, e sobretudo nos da Índia, inclusive o budismo, encontra-se já o princípio do aniquilamento do mundo real em proveito do ideal e da abstração absoluta. Mas ele ainda não traz o caráter de negação voluntária e refletida que distingue o Cristianismo; quando estes sistemas foram concebidos, o mundo do espírito humano, da vontade e da liberdade ainda não tinha se desenvolvido como se manifestou na civilização grega e romana .

[11] Creio ser útil lembrar aqui uma história, por sinal muito conhecida e inteiramente autentica, que lança uma luz sobre o valor pessoal destes reaquecedores das crenças católicas e sobre a sociedade religiosa dessa época. Chateaubriand havia levado ao editor uma obra dirigida contra a fé. O editor observou que o ateísmo tinha passado de moda, e que o público leitor não se interessava mais por este tema, que pedia, ao contrário, obras religiosas. Chateaubriand retirou-se, mas, alguns meses depois, retornou trazendo-lhe seu Génie du Christianisme .

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/deus-e-o-estado/

Astronomia, Matemática e Música

A Metafísica Ocidental, não seria a mesma se Pitágoras não descobrisse a íntima ligação existente entre os números e a música.  Isto fez com que a Astronomia, a Música, a Matemática e a Geometria fossem disciplinas básicas de uma Cosmologia que perdurou por toda Idade Média.

Os quatro caminhos, também denominado quadrivium, era o conjunto destas quatro matérias ensinadas nas universidades medievais, uma ressonância da Fraternidade de Pitágoras que procurava unir a ciência e a religião, a matemática e a música, a cura e a cosmologia.

Depois do trivium (gramática, lógica e retórica), o quadrivium era a parte secundária do currículo descrito por Platão em “A República“. Destas disciplinas originou-se a idéia da Música das Esferas, onde a disposição dos astros correspondiam à escala musical, e que a música tocada pelo Cosmos, mesmo que além dos limites da nossa audição, seria inteligível.

A partir das suas descobertas em relação aos fundamentos matemáticos das consonâncias musicais, Pitágoras visualizou uma relação mística entre a matemática a música e a astronomia. Para ele a música era o elo de união entre o homem e o cosmos. Em sua cosmologia cada planeta produzia uma nota musical, e esta orquestra celeste executa uma harmonia cósmica tão perfeita, que nós humanos não seríamos capazes e talvez nem merecedores de ouvi-la.

Em 1766 Johann Titias, acreditando que os planetas formavam naturalmente uma cadeia de oitavas, observou que todos os planetas conhecidos na época tinham distâncias que se tornavam progressivamente maiores na razão 2:1, a razão da própria oitava. Apesar das distâncias não serem exatamente na razão 2:1, outras leis harmônicas, como a velocidade dos movimentos dos planetas na descrição das suas órbitas, podem ter passado de maneira despercebida pelos astrônomos.

Fabio Almeida é membro do Projeto Mayhem e foi autor do blog Sinfonia Cósmica (desativado)

#Astronomia #Matemática #Música #Pitágoras

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/astronomia-matem%C3%A1tica-e-m%C3%BAsica

A origem de Zé Pelintra

Mas afinal, qual a origem de nosso personagem? seu zé torna-se famoso primeiramente no nordeste seja como frequentador dos catimbós ou já como entidade dessa religião. O catimbó está inserido no quadro das religiões populares do norte e nordeste e traz consigo a relação com a pajelança indígena e os candomblés de caboclo muito difundidos na bahia.

Conta-se que ainda jovem era um caboclo violento que brigava por qualquer coisa mesmo sem ter razão. Sua fama de “erveiro” vem também do nordeste. Seria capaz de receitar chás medicinais para a cura de qualquer male, benzer e quebrar feitiços dos seus consulentes. Já no nordeste a figura de zé pelintra é identificada também pela sua preocupação com a elegância. no catimbó, usa chapéu de palha e um lenço vermelho no pescoço.

Fuma cachimbo, ao invés do charuto ou cigarro, como viria a ser na umbanda, e gosta de trabalhar com os pés descalços no chão. de acordo com ligiéro (2004), seu zé migra para o rio de janeiro onde se torna nas primeiras três décadas do século xx um famoso malandro na zona boêmia carioca, a região da lapa, estácio, gamboa e zona portuária. segundo relatos históricos seu zé era grande jogador, amante das prostitutas e inveterado boêmio. quanto a sua morte, autores descordam sobre como esta teria acontecido. afirma-se que ele poderia ter sido assassinado por uma mulher, um antigo desafeto, ou por outro malandro igualmente perigoso.

Porém, o consenso entre todas essas hipóteses é de que fora atacado pelas costas, uma vez que pela frente, afirmam, o homem era imbatível. para zé pelintra a morte representou um momento de transição e de continuidade”, afirma ligiéro, e passa a ser assim, incorporado à umbanda e ao catimbó como entidade “baixando” em médiuns em cidades e países diversos que nem mesmo teriam sido visitadas pelo malandro em vida como porto alegre ou nova york, japão ou portugal, por exemplo. todo esse relato em última instância não tem comprovação histórica garantida e o importante para nós nesse momento é o mito contado a respeito dessa figura.

Seu zé é a única entidade da umbanda que é aceita em dois rituais diferentes e opostos: a “linha das almas” (caboclos e pretos-velhos) e o ritual do “povo de rua” (exus e pombas-giras). A umbanda de zé pelintra é voltada para a prática da caridade – fora da caridade não há salvação -, tanto espiritual quanto material – ajuda entre irmãos – , propagando que o respeito ao ser humano, é a base fundamental para o progresso de qualquer sociedade.

Zé pelintra também prega a tolerância religiosa, sem a qual o homem viverá constantemente em guerras. Para zé pelintra, todas as religiões são boas, e o princípio delas é fazer o homem se tornar espiritualizado, se aproximando cada vez mais dos valores reais, que são deus e as obras espirituais. Na humildade que lhe é peculiar, zé pelintra, afirma que todos são sempre aprendizes, mesmo que estejam em graus evolutórios superiores, pois quem sabe mais, deve ensinar a quem ainda não apreendeu e compreender aquele que não consegui saber.

Zé pelintra, espírito da umbanda e mestre catimbozeiro, faz suas orações pelo povo do mundo, independente de suas religiões. Prega que cada um colhe aquilo que planta, e que o plantio é livre, mas a colheita é obrigatória. Zé pelintra faz da umbanda, o local de encontro para todos os necessitados, procurando solução para o problema das pessoas que lhe procuram. Ajudando e auxiliando os demais espíritos.

Zé pelintra é o médico dos pobres e advogado dos injustiçados, é devoto de santo antonio, e protetor dos comerciantes, principalmente bares, lanchonetes, restaurantes e boates, e sempre recorre a jesus, fonte inesgotável de amor e vida. Na gira em que zé pelintra participa são invocados os caboclos, pretos velhos, baianos, marinheiros e exus. A gira de zé pelintra é muito alegre e com excelente vibração, e também disciplina é o que não falta.

Sempre zé pelintra procura trabalhar com seus camaradas, e às vezes, por ser muito festeiro, gosta de uma roda de amigos para conversar, e ensinar o que traz do astral. Zé pelintra atende a todos sem distinção, seja pobre ou rico, branco ou negro, idoso ou jovem. Seu zé pelintra tem várias estórias da sua vida, desde a lapa do rio de janeiro até o nordeste.

Todavia, a principal história que seu zé pelintra quer escrever, é a da caridade, e que ela seja praticada e que passemos os bons exemplos, de pai para filho, de amigo para amigo, de parente para parente, a fim de que possa existir uma corrente inesgotável de amor ao próximo.

Zé pelintra prega o amparo aos idosos e às crianças desamparadas por esse mundo de deus. Se você, ajudar com pelo menos um sorriso, a um desamparado, estarás, não importa sua religião ou credo, fazendo com que deus também sorria e que o amor fraterno triunfe sobre o egoísmo.

Zé pelintra pede que os filhos de fé achem uma creche ou um asilo e ajudem no que puder as pessoas e crianças jogadas ao descaso. Não devemos esquecer que a fé sem as obras boas é morta.

Zé pelintra nasceu no nordeste, há controvérsias se o mesmo tivesse nascido no recife ou em pernambuco e veio para o rio de janeiro, onde se malandreou na lapa e um certo dia foi assassinado a navalhadas em uma briga de bar. Assim, zé pelintra formou uma bela falange de malandros de luz, que vêm ajudar aqueles que necessitam, os malandros são entidades amigas e de muito respeito, sendo assim não aceitamos que pessoas que não respeitam as entidades e a umbanda, digam que estão incorporados com seu zé ou qualquer outro malandro e que eles fumam maconha ou tóxicos; entidades usam cigarros e charutos, pois a fumaça funciona como defumador astral.

Podemos citar além de seu zé pelintra, seu chico pelintra, cibamba, zé da virada, seu zé malandrinho, seu malandro, malandro das almas, zé da brilhantina, joão malandro, malandro da madrugada, zé malandro, zé pretinho, zé da navalha, zé do morro, maria navalhada, etc.

Os malandros vêm na linha de exú, mas malandros não são exús! ao contrário dos exús que estão nas encruzilhadas, encontramos os malandros em bares, subidas de morros, festas e muito mais.

salve seu zé pelintra!

salve os malandros!

salve a malandragem!

Fonte: https://guardiaooxossi.com.br/orixas/categoria/ze-pilintra/181/a-origem-de-ze-pelintra

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/a-origem-de-ze-pelintra/

Energia Telúrica, Linha de Ley 1 ½

Fico feliz que a idéia destas colunas “intermediárias” tenha agradado o pessoal. Sei que os assuntos que tratamos aqui são razoavelmente complexos, quase nunca abordados na internet e às vezes eu me empolgo, vou escrevendo… e esqueço que certas coisas, apesar de óbvias e corriqueiras para os ocultistas, são um tanto quanto complicadas para quem nunca teve contato com este tipo de informação.

Mas, volto a insistir, se pintar alguma dúvida, basta perguntar que eu tento responder na medida do possível.

Ah, eu andei apagando uns comentários desta vez… acho que comentários de céticos fanáticos sem argumentação que falam apenas “seu texto é uma baboseira, isso ai não está nos livros de ciência” tem tanto valor pra mim quanto os fanáticos religiosos que falarão “seu texto é uma baboseira, isso ai não está na Bíblia”. Se o cara quer questionar e pedir uma explicação adicional (como o Zatraz fez) a gente tenta ajudar da melhor maneira possível, mas ninguém aqui tem de ficar dando espaço pra xingamento gratuito. E é mais triste ainda que isso venha de gente que quer posar de “argumentador pela lógica racional”.

Douglas Moraes, Pokan – Quanto as perguntas. Eu percebi que isso deixaria o post interminável, então não vou fazer… mas dá pra usar o “localizar palavra” com o nome da pessoa que eu coloco em negrito para achar o comentário dela, e vou tentar colocar um subtítulo na frente da resposta para ajudar o povo a se localizar. E outra… de acordo com um dos comentários, a gente só escreve estas colunas para fazer vocês visitarem as páginas do site, então esta é uma conspiração para fazer vocês voltarem inúmeras vezes nos meus posts… =D

Caio – Sobre o Benitez. Sim, ele é autor de ficção, mas… até ai… eu também sou… muitos autores de ficção (escritores, tanto de livros quanto de HQs) eram (e são) ocultistas e usam o recurso da “ficção” para preparar a mente das pessoas para aceitar algumas coisas que virão posteriormente. Alguns exemplos incluem Shakespeare, Victor Hugo, Alexandre Dumas, Arthur Conan Doyle e Julio Verne, pra ficar nos clássicos. Alan Moore e Grant Morrison pra ficar nos contemporâneos.

Igniz – Este site tem muitos textos legais para ler e consultar.

Thiago – Daniel Mastral? Aquele pastor evangélico que se finge de ex-satanista pra inventar bizarrices medievais contra o “tinhoso” e os “adoradores do capeta” e faturar com isso?… Assim como o “TIO CHICO” (ex-bruxo, ex-macumbeiro, ex-maçom, ex-aidético, ex-homossexual… entre outras bizarrices) que se “converteu” e agora ganha uma grana dando “testemunhos”. As igrejas caça-níqueis são pródigas em inventar atrações circenses.

Mais pra frente, eu pretendo falar sobre satanistas de verdade aqui na coluna.

CacauPE, Daniel – Kardec, a Maçonaria e Espiritismo. Allan Kardec, ou melhor, Hippolyte Léon Denizard Rivail, pertenceu à Grande Loja da França, foi um dos primeiros estudiosos a promover uma pesquisa científica séria e metódica a respeito do Plano Astral e seus habitantes e manifestações (chamados de “espíritos” por ele), em 1857. Apesar das otoridades classificarem o kardecismo como “religião” nos rótulos que gostam de colocar nas pessoas, o kardecismo não é uma religião, mas uma filosofia, mesmo porque a Maçonaria não permite debates religiosos dentro de suas lojas e os estudos que Kardec coordenou eram puramente científicos.

Se você já leu os livros básicos dele, eu recomendo os trabalhos do prof. WALDO VIEIRA e da CONSCIENCIOLOGIA, que coordena estudos científicos há 40 anos, com centenas de experimentos em laboratórios sobre todo tipo de manifestação extrafísica. Recomendo especialmente o livro “700 experimentos da Conscienciologia”.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Waldo_vieira
http://www.iipc.org/
700 Experimentos da Conscienciologia

Scherer– o Projeto HAARP (High Frequency Active Auroral Reserach Program) era para ser usado em comunicações ao redor do planeta, controle do clima, irrigação de áreas desérticas, iluminação noturna entre outros usos que os Atlantes possuíam através da combinação das camadas mais sutis da Ionosfera atuando em com as Linhas de Ley. Hoje este projeto está classificado de Top Secret e é coordenado pela USAF, com estudos voltados apenas para o lado bélico, como “ataques de ondas eletromagnéticas”. Uma das minhas teorias da conspiração favoritas envolvem Nicolai Testa (o gênio) e a explosão “inexplicada” de Tunguska. Outro dia falamos mais sobre isso…

Evandro – Yoga. Não tem como falar sobre yoga em apenas um parágrafo, mas eu prometo que, quando chegar nos chakras, a gente entra em detalhes sobre a origem e explicação das 6 linhas de yoga (Hatha, Raja, Bhakti, Jnana, Kriya e Karma).

Daniel, Julien – Vocês estão certos, eu acabei mandando o texto pro eightbits faltando um parágrafo. Apesar de Stonehenge ser construída com base nos mesmos moldes dos templos romanos, ela possui 10 conjuntos de pedras, sendo que o local onde fica a sexta posição é o local onde os sacerdotes levavam certas pedras como as Lia Fail ou Pedra de Scone (a bíblia fala sobre a pedra onde Jacob descansou sua cabeça antes de vislumbrar a “Escada de Jacó” mas falaremos mais sobre isso na Kabbalah) que faziam às vezes de canalizador de energia (como a Arca da Aliança fazia nas Pirâmides). Ou seja: da mesma maneira que os sacerdotes egípcios recebiam suas iniciações dentro da pirâmide na câmara do Faraó, os sacerdotes celtas recebiam suas iniciações neste ponto do círculo. E este costume mágico continua até os dias de hoje. TODOS os reis e rainhas da Inglaterra e Escócia não eram coroados se não estivessem sentados sobre a “Pedra de Scone”. Até eu chegar na parte do Rei Arthur, vamos todos parar para meditar sobre o que pode ter de coincidência nisto que falei acima e na história da “espada cravada na pedra”.

Cícero – Arquivo kmz das linhas de Ley: http://www.vortexmaps.com/hagens-grid-google.php

David – Quem foi que disse que elas não tentaram?

Tio Patinhas – sim, você pode. Eu vou explicar com calma isso no post dos Chakras, mas se você estiver curioso sobre que tipo de efeitos práticos você pode ter, vai no youtube, digita meu nome lá e dá uma olhada nos vídeos de Chi-kung que eu deixei. São demonstrações que a energia dos chakras pode ser manipulada para efeitos práticos/visíveis a qualquer hora em qualquer local, exatamente como os céticos adoram dizer que as coisas científicas devem ser… o único “senão” é que a disciplina mental para chegar neste ponto é extremamente trabalhosa… Ah, as barras de aço tem meia polegada cada uma (e são 4 em cada demonstração).

A HELLSTONE fica em Dorset, é um mini observatório usado para calcular datas de plantio e colheita. Tem este nome porque os cristãos acusavam os bruxos de fazerem “sacrifícios humanos” sobre o altar de pedra central. Como curiosidade, o desenho formado no chão ao redor das pedras é um ouroboros.

Lázaro, Xtecox, Dave, PH, Bolívar, Lego, Thahy, Pet – Thelema rulez. É claro que vou falar sobre Golden Dawn, Rosa Cruz Alfa et Omega e OTO. Tudo a seu tempo… Por sinal, ontem (12/10) foi aniversário do Aleister Crowley.

Jean Bulinckx, Arthur, Krebys – Não importa o quão avançada seja a sua civilização, não dá pra segurar ondas com 500m de altura chegando nas suas cidades. Segundo as informações que temos, o continente afundou em um único dia. Apesar dos avisos dos sacerdotes/cientistas, os governantes não deram atenção a eles. Você já deve ter visto alguma história fictícia semelhante nas HQs, com um cara de capa vermelha e um planeta que explode… Mas, como estamos conversando nas colunas, muitas das informações e conhecimentos se salvaram, SIM. Apenas ficaram sob a guarda de Iniciados para que os erros cometidos pelas civilizações antigas não se repetisse.

Betopow – Na medida do possível, sempre vamos colocar fotos, links ou vídeos para mostrar que todas as pesquisas estão muito bem embasadas. Mas nunca ouvi falar na “Teoria da Terra Chata”. Nos campos ocultistas, os estudiosos já sabiam que a Terra era esférica desde os tempos Egípcios.

Zatraz – Sobre computadores de cristal, controlados por ondas mentais. Os cientistas ortodoxos estão engatinhando nesta tecnologia ainda, mas já possuem alguma coisa pesquisada. Veja estes dois sites das autoridades sobre estas pesquisas (é… autoridades, porque eu gosto dos japoneses e hindus quando se trata de tecnologia, pois eles não têm os preconceitos católicos/muçulmanos/ateus para trabalhar com o espiritual x tecnológico).

http://www.livescience.com/health/050317_brain_interface.html
http://www.newscientist.com/article/mg16922741.000-a-clear-winner.html

O conceito dos “computadores de cristal acionados pela mente humana” exigem um domínio e concentração mental que devem existir em 0,001% da população de hoje em dia, no máximo… Histórias sobre estes computadores de cristal conectados a Linhas de Ley sobreviveram entre os profanos na forma das lendas de “bolas de cristal” das bruxas.

Renan, Mateus, – Vocês estão confundindo as bolas… Místicos e Ocultistas são coisas BEM diferentes… ocultistas são extremamente céticos também… conhecem e estudam todos os livros ateus e normalmente fazem parte de grupos de discussão como os Céticos S/A do Mori… só que são discretos. Nada me irrita mais do que falsos videntes, tarólogos picaretas, astrólogos de programas femininos, falsos médiuns e todo tipo de esquisotérico demente que colabora para colocar mais preconceito na cabeça das pessoas.

É uma burrice achar que estamos em posições antagônicas. A única diferença entre ocultistas e cientistas ortodoxos é que os ocultistas possuem mais informações que vocês para trabalhar seus estudos.

#Astrologia #Pirâmides

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/energia-tel%C3%BArica-linha-de-ley-1