Propaganda: Ideologia e Manipulação

Propaganda comercial, eleitoral e ideológica

Ao assistir à televisão, ler um jornal ou revista, ouvir rádio ou olhar um cartaz de rua, tem-se a atenção despertada para mensagens que convidam a experimentar um determinado produto ou a utilizar algum serviço. São anúncios que pedem para usar um sabonete, fumar cigarros de certa marca, depositar dinheiro numa caderneta de poupança e inúmeros outros. Outras vezes, embora sem se referir especificamente aos produtos ou serviços, os anúncios mencionam uma determinada empresa ou instituição, falam de sua importância para a sociedade, dos empregos que ela propicia ou de sua contribuição para o progresso do país. Procuram, dessa forma, criar uma imagem positiva da entidade para que se a considere com simpatia. Trata-se, em todos esses exemplos, de publicidade, também denominada propaganda comercial.

A propaganda eleitoral, geralmente, é realizada em vésperas de eleições. Suas mensagens, veiculadas pelos meios de comunicação ou divulgadas diretamente através de discursos e apelos pessoais, convidam a votar em determinado candidato, enaltecem suas qualidades positivas e informam sobre as obras que realizou no passado e as que irá fazer no futuro, se eleito.

A produção desses anúncios envolve diversas e diferentes etapas. A empresa que deseja aumentar as vendas, o número de usuários de seus serviços, ou o candidato que quer ser eleito, contrata uma agência de propaganda. A partir daí, profissionais especializados passam a estudar cuidadosamente os diversos aspectos que lhes permitam adquirir um perfeito conhecimento da situação. Verificam as características do produto ou serviço, formas de distribuição, preços e informam-se sobre os concorrentes. No caso de candidatos a cargos políticos, analisam suas qualidades, aspectos físicos, idéias que defendem etc. Obtido o maior número possível de informações, a agência passa a investigar os prováveis consumidores ou eleitores. Pesquisa seus hábitos, expectativas, motivações, desejos e todos aqueles elementos necessários para prever as atitudes que poderão assumir em face das propostas a serem apresentadas. Verifica, ainda, os hábitos de leitura, locais que freqüentam, canais de televisão e estações de rádio que preferem e os respectivos horários. De posse de todos esses dados, relativos ao que deve ser anunciado, às pessoas que devem receber as mensagens e aos veículos de divulgação, a agência prepara a campanha. Tem condição, assim, de criar os comerciais e anúncios de forma atrativa e convincente para, em seguida, difundi-los nos locais, veículos e horários mais adequados à consecução dos objetivos que tem em vista.

A pessoa que recebe a comunicação não encontra nenhuma dificuldade em perceber que se trata de propaganda, ou seja, de que existe o fim específico de gerar uma predisposição para a compra ou utilização da serviço, criar uma imagem favorável da empresa ou obter votos. Pode, inclusive, evitar os apelos desligando a TV, mudando a estação do rádio ou simplesmente não prestando atenção.

Há uma outra forma de propaganda que se desenvolve de maneira bem mais complexa. Nos casos até agora mencionados a meta era estimular apenas a prática de um ou alguns atos isolados. Promovia-se, como vimos, a escolha de bens ou serviços de certas empresas ou a opção de voto para o candidato de determinado partido. A propaganda ideológica ao contrário, é mais ampla e mais global. Sua função é a de formar a maior parte das idéias e convicções dos indivíduos e, com isso, orientar todo o seu comportamento social. As mensagens apresentam uma versão da realidade a partir da qual se propõe a necessidade de manter a sociedade nas condições em que se encontra ou de transformá-la em sua estrutura econômica, regime político ou sistema cultural.

Não é mais tão fácil perceber que se trata de propaganda e que há pessoas tentando convencer outras a se comportarem de determinada maneira. As idéias difundidas nem sempre deixam transparecer sua origem nem os objetivos a que se destina. Por trás delas, contudo, existem sempre certos grupos que precisam do apoio e participação de outros para a realização de seus intentos e, com esse objetivo, procuram persuadi-los agir numa certa direção. E eles conseguem, muitas vezes, controlar todos os meios e formas de comunicação, manipulando o conteúdo das mensagens, deixando passar algumas informações e censurando outras, de tal forma que só é possível ver e ouvir aquilo que lhes interessa.

Os noticiários de jornais, rádio e televisão e os documentários cinematográficos transmitem as informações como se fossem neutras, mera e simples descrição dos fatos ocorridos. Mas, em verdade, essa neutralidade é apenas aparente, pois as notícias são previamente selecionadas e interpretadas de molde a favorecer determinados pontos de vista. Os filmes de ficção, romances, poesias, as letras de músicas e expressões artísticas de maneira geral parecem resultar da livre imaginação dos mais variados artistas. Todavia, a distribuição a promoção das obras são controladas de modo a só tronar conhecidas aquelas cujo conteúdo não contrarie as idéias dominantes. As denominações de ruas e praças, as placas comemorativas e de sinalização, as estátuas e efígies de pessoas, colocadas nos mais diversos logradouros, aparentemente se destinam apenas a servir de orientação ou a decorar os ambientes. Porém, na maioria dos casos, cuja vida deva servir de exemplo, com o objetivo de que sejam imitadas em benefício da realização dos interesses promovidos pela propaganda. Professores extravasam sua função de transmitir conhecimentos científicos para divulgar concepções comprometidas com certas posições. Líderes religiosos, que se propõe a orientar seus adeptos pelos caminhos da paz espiritual e da salvação eterna, acabam empurrando-os para ações que favorecem lucros materiais e ambições terrenas.

Por toda a parte e em todos os momentos são propagadas idéias que interferem nas opiniões das pessoas sem que elas se apercebam disso. Desse modo, são levadas a agir de uma outra forma que lhes é imposta, mas que parece por elas escolhida livremente. Obrigadas a conhecer a realidade somente naqueles aspectos que tenham sido previamente permitidos e liberados, acabam tão envolvidas que não têm outra alternativa senão a de pensar e agir de acordo com o que pretendem delas. Um exemplo concreto, dentro da história brasileira, permitirá esclarecer melhor essa amplitude da propaganda ideológica.

Em abril de 1964, alguns militares, com apoio de políticos, empresários e segmentos da classe média, tomaram o poder através de um golpe de estado. O novo regime político foi redefinido no sentido de restringir a participação popular, impedindo quaisquer reivindicações, movimentos ou conflitos. Paralelamente, propunha-se a reorientação do sistema econômico para um modelo de desenvolvimento que, diferentemente das propostas nacionalistas anteriores, permitiria maior penetração de capital externo no país.

Essas diretrizes eram fixadas em função dos interesses das empresas multinacionais, dos grandes proprietários de terras, industriais, comerciantes e banqueiros. Através delas, estimulava-se a acumulação de capital sem os incômodos das tensões causadas pela luta reivindicatória dos trabalhadores.

Mas esses objetivos não poderiam ser realizados sem o apoio e a colaboração dos trabalhadores em geral e da classe média. Necessitavam-se dos operários nas fábricas, dos colonos nas fazendas e dos funcionários nas repartições. Era preciso que todos trabalhassem e se esforçassem o mais possível, sem grandes exigências, para promover a expansão econômica. É claro que tal apoio não seria conseguido se as pessoas visadas não estivessem convencidas de que atuavam em função de seus próprios interesses e benefícios. Para isso o governo promoveu uma intensa campanha de propaganda ideológica, que se resolveu durante vários anos.

Inicialmente improvisada e pouco sistemática, a propaganda logo passaria a ser orientada por órgãos especialmente criados para coordenar as campanhas. A Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência de República (AERP) encarregou-se da propaganda nos governos de Costa e Silva e Médici. Geisel teve a Assessoria de Imprensa e Relações Públicas (AIRP), depois desmembrada em duas. Figueiredo criou a Secretaria da Comunidade Social (SECOM), posteriormente substituída pela Secretaria de Imprensa e Divulgação (SID).

Organizou-se, em todo o país, um sistema de censura de tal forma rigoroso que quase nada podia ser divulgado sem prévia autorização. Qualquer informação ou notícia que não estivesse de acordo com a ideologia oficial do governo era proibida e podia acarretar a punição do responsável. Estabelecido, dessa forma, o controle absoluto das informações, a propaganda passava a desenvolver-se sem nenhum obstáculo. O primeiro passo foi justificar o golpe do estado e o regime implantado. Explicava-se que o militares haviam tomado o poder porque o Brasil era um país desorganizado pelas crises econômicas e distúrbios políticos constantes que os governantes e administradores corruptos não conseguiam solucionar. A dramática ameaça de subversão e guerra revolucionária, orientada por comunistas portadores de ” ideologias exóticas e alienígenas”, era o pretexto anunciado para justificar o caráter autoritário e repressivo do governo.

Procurando legitimar o regime, a propaganda encarregou-se de enaltecer os presidentes, apresentando-os como líderes os mais indicados para serem chefes de governo. Com a construção de uma imagem positiva dos presidentes, esperava-se conseguir despertar a confiança da população para as suas decisões, explicações e esclarecimentos. Pretendia-se obter, também, a submissão às convocações de mobilização para o trabalho e apoio ao governo.

Mas não bastavam imagens; era preciso alguns fatos concretos que mostrassem governos atuantes, e a propaganda se encarregou de difundi-los. Todas as realizações, pequenas ou grandes, eram divulgadas para todo o Brasil com insistência e repetição. A todo o momento, na imprensa, rádio, televisão ou cinema, se mencionavam a industrialização do Nordeste, a Transamazônica, os milhões alfabetizados pelo Mobral e tantos outros.

Muitos feitos foram exagerados e dramatizados ao extremo, com o objetivo de sugestionar os ouvintes. Sugeria-se que naquele período se fizera mais que em toda a história anterior do país; inúmeras construções eram apresentadas como as maiores do mundo. Afirmava-se que todas a realizações visavam ao bem estar da população em geral, ocultando-se que os maiores beneficiados eram os detentores do grande capital.

Apelava-se para o orgulho patriótico da população, mas o amor à pátria passou a ser sinônimo de submissão ao governo. Quem contestasse o regime militar passava a ser considerado antibrasileiro, e o “slogan” de 1970 impunha: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Em seguida, a propaganda procurava instilar o espírito de fé no país para que a população, confiando no futuro, aguardasse chegada de dias melhores e suportasse calmamente as dificuldades. Diziam que o Brasil era uma grande extensão de terras férteis cujas inúmeras riquezas permitiriam que viesse a se transformar em grande potência. Prometia-se a produção de ouro, urânio, ferro, petróleo e alimentos em grandes quantidades, quando então não haveria mais problemas nem sofrimentos.

Otimismo e confiança passaram a ser a tônica das mensagens. “Chegou a hora de crescer sem inflação” (Castelo Branco). “Confiamos no Brasil” ( Costa e Silva). ” Ninguém segura o Brasil” (Médici). ” Este é um país que vai pra frente” (Geisel). ” O Brasil encontrou a saída. Vamos todos crescer” (Figueiredo). Foram épocas e slogans diferentes, mas sempre o mesmo sentido.

Legitimados o golpe e o regime, construída a boa imagem dos presidentes e suas realizações, estimulados o patriotismo e a confiança, restava pedir apoio e convocar para o trabalho. ” Participação”, a idéia-chave da segunda metade dos anos 60 continuaria um lema a ser repetido pelos anos afora. ” Pague seus impostas” (Castelo Branco). ” A ordem do Brasil é o progresso. Marche conosco” (Costa e Silva). ” Você está convidado a participar das duzentas milhas” (Médici). ” O Brasil é o trabalho e participação de todos” (Geisel). Todos esses slogans, cada um na sua época, foram intensa e sistematicamente repetidos em todos os meios de comunicação.

A propaganda deu resultados. Grande parte da população acreditou no que ouvia confiando em que os governos militares eram legítimos e defendiam seus interesses. Submeteu-se às decisões políticas e colaborou com o seu trabalho. Os objetivos foram alcançados em sua maior parte. O país superou a crise em que se encontrava em 1964, expandiu-se o sistema financeiro, o capital estrangeiro investiu em todos os setores, diversificou-se a agricultura e se desenvolveu a indústria. As fábricas, as fazendas e os bancos cresceram e com eles os lucros. Os grandes beneficiados foram os proprietários do grande capital. Uma pequena parte da população recebeu alguns poucos frutos desse desenvolvimento, mas os capitalistas viram sua riqueza multiplicar-se rapidamente, ficando com a maior parte. Para as classes trabalhadoras, contudo, a pior conseqüência foi a alienação produzida pela propaganda, a ignorância sobre suas próprias condições de vida e seu papel na sociedade. Mistificadas, perderam grande parte da sua capacidade de organização e luta em defesa de seus próprios interesses, e só ao final dos anos 80 é que viriam a recuperar parte de sua força.

Esses exemplos são simplificativos para mostrar a força de expansão da propaganda ideológica. Ela foi empregada em todas as épocas conhecidas da história, pelos mais diversos grupos e líderes. Uns para manter o status quo e garantir seu poder, outros para transformar a sociedade todos procuraram envolver as massas na consecução de determinados objetivos e realização de certos interesses. Inúmeras vezes a propaganda foi total, utilizada não apenas para divulgar alguns idéias e princípios, mas para incutir toda uma visão do mundo e sua história, de idéias e respeito do papel de cada indivíduo e sua família, da posição dos grupos e classes na sociedade e para impor valores e padrões de comportamento como os mais adequados e mais justos.

A propaganda nem sempre se desenvolveu da mesma maneira, mas variou conforme o momento histórico que foi realizada. Em cada época, o modo de produção econômico vigente, o estádio em que se encontravam as forças produtivas, a posição e capacidade das classes sociais em conflito é que determinaram a forma, o conteúdo e o grau de intensidade das campanhas. Mas há alguns aspectos que permanecem constantes, repetem-se na história, e podem ser considerados princípios gerais. É o que se verá a seguir.

Classes Sociais, Ideologia e Propaganda

As ações humanas se definem e se distinguem pelo fato de que são realizadas com um caráter eminentemente social, baseadas na cooperação entre diversos indivíduos. Para que possam satisfazer às suas necessidades, as pessoas dependem de bens e produtos os mais diversos. A produção e distribuição desses bens exigem o trabalho integrado de vários homens, colaborando uns com os demais. Para que essa colaboração seja possível, é indispensável que haja certas idéias orientadoras, partilhadas pela maioria, que a oriente numa mesma direção, permitindo a consecução dos objetivos comuns. Cada indivíduo precisa ter concepções a respeito do meio em que vive, dos objetivos que devem ser atingidos e do seu papel no conjunto das relações sociais. Somente quando essas idéias coincidem com as dos demais membros da sociedade é que lhes é possível agir e participar de forma harmônica e integrada.

As idéias não surgem fortuitamente na mente humana, mas são produzidas a partir da percepção da realidade concreta, tal como vivida pelos membros da sociedade. Ocorre que as pessoas não vivem da mesma forma. Embora se encontrem perante uma mesma realidade, inserem-se nela de maneiras diferentes, advindo daí diversas e distintas formas de pensar. Em outras palavras, as idéias são determinadas pela posição que se ocupa no contexto social. Resta verificar como se caracterizam as diferenças de participação dos indivíduos em uma mesma sociedade.
A forma como os homens se encontram integrados na produção econômica determina os limites de sua atuação e participação em todos os níveis sociais, estabelecendo o seu “espaço”. A expressão “espaço”, no aspecto social, tem um sentido específico. É a área, definida por certos limites, dentro dos quais os indivíduos e grupos podem agir. Não se trata de uma área física ou geográfica, mas de um conjunto de relações. Isto significa dizer que as pessoas, em suas relações com os objetos matérias e imateriais e com outros indivíduos, estão condicionadas por certas barreiras que restringem suas possibilidades de ação. É o caso das classes sociais. Uma classe social se constituem pelo conjunto daqueles indivíduos que têm uma mesma posição e ocupam o mesmo espaço no plano da produção econômica, situação que lhes determina uma mesma forma de participação a nível político e cultural. Quando a produção se encontra organizada em moldes capitalistas, a sociedade se caracteriza pela divisão em duas classes fundamentais: os trabalhadores de um lado e os capitalistas do outro. Essas duas classes vivem em condições totalmente diversas e antagônicas.

Os trabalhadores têm o seu espaço delimitado pelo fato de que entram na produção apenas com sua força de trabalho, participando dos resultados através de um salário que lhes garantem, exclusivamente, o mínimo necessário à própria subsistência. Refletindo essa marginalização econômica, em nível político, os trabalhadores são apenas os sujeitos passivos das decisões e medidas geradas no seio do Estado. Essas decisões são tomadas e implementadas através de órgãos governamentais, onde os representantes dos trabalhadores não existem ou constituem uma minoria insignificante. No plano cultural, da mesma forma, a situação reflete a realidade econômica, sendo mínimas as possibilidades de acesso aos produtos culturais para qualquer trabalhador. Poucos podem estudar em escolas além de determinado grau, não têm condições de adquirir livros, discos ou quadros, nem de freqüentar concertos, cinema ou teatro.

Por outro lado, o espaço dos patrões, dos capitalistas, é bem mais amplo. Eles são os proprietários dos meios de produção: as terras, máquinas, ferramentas. Nessa condição, apropriam-se da maior parte dos bens produzidos, fato que se concretizam no seu crescente enriquecimento. Conseguem controlar órgãos do governo para que as decisões e medidas sejam favoráveis aos seus interesses e têm grande acesso à produção cultural que, inclusive, ajudam a financiar.

Essa diversidade de posições, frente a uma mesma realidade, determinam as concepções a respeito dela sejam igualmente distintas. Se para os mais privilegiados trata-se de uma sociedade bem organizada e justa, para os demais ela lhes parece absurda e desumana.

Todavia, os limites que definem os espaços das classes sociais não são estáticos nem eternos. Em determinados momentos históricos surgem possibilidades, para uma classe ou parte dela, de ampliar seu campo de ação. A possibilidade aparece, geralmente, quando um grupo adquire maior força em virtude do aumento numérico de sues membros, ou por se ter organizado melhor, ou qualquer outra razão que permita visualizar uma alternativa de lutar e conquistar melhores condições de existência. É o que tem ocorrido com os operários da maioria dos países de economia capitalista. O desenvolvimento econômico faz com que sejam necessários trabalhadores com melhor habilitação profissional. Pelo próprio fato de serem mais qualificados e, portanto, intelectualmente melhor preparados, esses operários encontram-se com mais condições de entender a situação e perceber a contradição entre o baixo nível salarial e os altos lucros das empresas. A partir do momento em que passam a trocar informações e discutir sua situação, começam a adquirir maior capacidade de organização e mobilização, que lhes permite lutar o obter melhores condições de vida.

Ocorre, contudo, que devido às dissidências e antagonismos existentes entre as classes sociais, a ampliação do espaço de atuação de uma, geralmente, implica a redução do espaço da outra. Realmente, a possibilidade de os trabalhadores obterem um aumento salarial resulta na igual possibilidade de redução dos lucros dos patrões. Da mesma forma, a participação política através da eleição de alguns representantes operários significaria uma diminuição do número equivalente de representantes dos patrões e assim por diante.

É nessa contradição que se definem os interesses das classes sociais. O espaço passível de ser ocupado pelos trabalhadores constitui, ao mesmo tempo, uma área passível de ser perdida pelos patrões. Esse espaço corresponde, nesse momento, aos “interesses” dos setores em conflito. Isso significa dizer que o “interesse” de uma classe social corresponde à possibilidade que ela tem de ampliar o espaço que ocupa ou à necessidade de defendê-lo contra as ameaças de outra classe. Nesse caso, para a classe operária trata-se de um interesse de transformação, com menor ou maior mudança de suas condições. Para a classe patronal, significa um interesse de manutenção, de conservar a sociedade na forma como se encontra organizada, impedindo uma mudança que signifique a perda de uma área já ocupada e das vantagens e privilégios que ela representa. A intensidade da mudança varia de acordo com as condições concretas em que se encontra a sociedade naquele momento. Pode haver pequenas mudanças quantitativas, com maior índice salarial, mais representantes políticos, direito de freqüentar escolas de grau mais elevado. Pode, também, traduzir-se em radicais transformações qualitativas, como a mudança do sistema econômico ou do regime político. Voltemos, agora, à análise da forma como se desenvolvem as idéias dos agentes sociais.

Qual a primeira condição necessária para que uma classe consiga realizar seus interesses, atuando no sentido de ampliar ou manter seu espaço? Antes de mais nada é preciso que seus membros percebam que essa possibilidade existe. Para tanto é importante que tenham conhecimento da situação em que vivem, saibam qual a sua força e quais as condições em que se encontram os membros de outras classes. Só então têm condições fixar objetos e traçar os caminhos mais adequados para atingi-los, que podem ser desde uma reivindicação perante um tribunal até uma greve geral e mesmo uma revolução armada. Em outras palavras, é preciso que a classe adquira consciência das suas reais condições de existência e das possibilidades de mudança ou da necessidade de manutenção nessas mesmas condições. Essa consciência nada mais é que um conjunto de idéias a respeito da realidade social, ou seja, uma ideologia.

Uma ideologia contém três tipos básicos de idéias, que são as representações, os valores e as normas.

Representações são idéias a respeito de como é a realidade: como está organizada a sociedade, em que classes se divide, se há ou não exploração de uma pela outra, como ocorre a exploração etc. Valores são idéias a respeito de como deve ser a realidade: a organização social deve ser diferente, sem classes e sem exploração ou, então, tudo deve permanecer como está. Finalmente, normas são aquelas idéias a respeito do que deve ser feito para transformar a realidade ou mantê-la nas condições em que se encontra: votar no candidato que torne a sociedade menos injusta, organizar uma greve para forçar o governo a providenciar mudanças ou, para aqueles que querem manter a situação, usar força policial para reprimir reivindicações, demitir operários grevistas etc.

Uma vez definida, a ideologia serve como modelo para a compreensão da realidade e guia orientador da conduta de todo o grupo e de cada indivíduo em particular. Resta verificar de que forma essa ideologia é propagada, tornando-se conhecida pelos diversos membros de uma classe social ou, até mesmo, por toda a sociedade.

Uma ideologia nunca surge, ao mesmo tempo, para todos os membro de uma determinada classe. Geralmente são apenas uns poucos, um pequeno grupo que consegue adquirir consciência e visualizar um quadro completo de sua realidade. Todavia, sua atuação isolada pode não ser suficiente. De nada adiantaria se apenas alguns líderes sindicais fizessem uma greve. Se os operários de um único setor da indústria lutarem por seus interesses, podem ser despedidos sem nada obter, sem realizar nenhuma mudança. Os empresários, também, pouco conseguiriam se apenas alguns reagissem contra as ameaças aos seus privilégios ou só uns poucos procurassem obter medidas que assegurassem maiores lucros. Daí a importância do apoio, senão de todos, ao menos de uma grande maioria dos membros de uma mesma classe, para que possam atingir qualquer resultado. Por essa razão que um grupo, percebendo possibilidades de progresso ou a necessidade de defesa contra certas ameaças, procura difundir suas idéias. Sua expectativa a de integrar o maior número de pessoas que, aceitando os mesmos valores e normas, atuem numa mesma direção, permitindo que os objetos sejam atingidos. Senão houver idéias comuns, torna-se impossível coordenar, integrar as ações, organizar as lutas e os movimentos.

Ocorre também, muitas vezes, que determinado objetivos que podem ser atingidos por certa classe se a outra resistir e impedir as ações. Nesse caso se torna necessário que a outra classe dê seu apoio e, até mesmo, colabore ativamente para a consecução daqueles objetivos, o que exige que a ideologia seja aceita também pelos seus membros. Os patrões querem manter ou aumentar seus lucros, precisam do trabalho de seus empregados, sem o qual lhes é impossível realizar esse intento. Para os trabalhadores, também, é mais fácil conquistar melhores condições se puderem contar com o apoio dos empresários, situação que raras vezes ocorre na realidade concreta. Por essas razões é que os grupos sociais procuram difundir suas idéias, não só para aqueles que pertencem à mesma classe social como aos de outras. Essa difusão da ideologia se faz pela propaganda ideológica.

O Desenvolvimento da Propaganda

A propaganda ideológica envolve um processo complexo, com termos e fases distintas. O “emissor”, grupo que pretende promover a difusão de determinadas idéias, ao visar outros com interesses diversos, realiza a “elaboração” de sua ideologia para que as idéias nela contidas pareçam corresponder àqueles interesses. Feito isso, procede um trabalho de “codificação”. pelo qual transforma as idéias em mensagens que atraiam a atenção e sejam facilmente compreensíveis e memorizáveis. Através do “controle ideológico” o emissor manipula todas as formas de produção e difusão de idéias, garantindo a exclusividade na emissão das sua próprias. Procura, dessa forma, evitar a possibilidade de que os receptores venham a receber, ou mesmo produzir, outra ideologia que os oriente contra os interesses do emissor. A partir daí as mensagens são emitidas através da “difusão”, que procura atingir o mais rapidamente possível um maior número de pessoas.

Elaboração

Quando a propaganda ideológica se faz entre os membros de uma mesma classe social, as idéias a serem propagadas não precisam sofrer nenhum tipo de elaboração mais significativo. Isto porque se trata de pessoas que, por pertencerem à mesma classe, ocupam uma mesma posição, donde se segue que tenham interesses comuns.

Nesta caso, as idéias defendidas por uns dificilmente seriam rejeitadas pelos demais.

Não haveria grandes dificuldades para operários transmitirem a outros a idéia de que sua situação é precária e da necessidade de se mobilizarem para conquistar melhores condições. Podem surgir divergências quanto à forma e ao momento da mobilização, mas dificilmente quanto à idéia em si. Um grupo de empresários tampouco teria dificuldades para mostrar aos demais a importância de se ajustar certas medidas econômicas, de forma a aumentar os lucros de todos. Nesses casos, praticamente não há necessidade de convencer, de persuadir, pis que a apresentação clara das idéias já deve ser suficiente para que os receptores dêem sua adesão e apóiem as propostas. A propaganda adquire, nesses casos, um caráter de demonstração e conscientização. Procura explicar a realidade existente, mostrar a necessidade de mudá-la ou mantê-la e indicar formas de realizar interesses que são comuns.
Se a propaganda é realizada de uma classe social para outra que tem interesses diversos, a simples difusão da ideologia já não é suficiente para gerar adesão. Nesse caso, o grupo emissor, antes de difundir suas idéias, elabora-as para que se adaptem às condições dos receptores, criando a impressão de que atendem a seus interesses. Mas a verdade é que as idéias contêm apenas os objetivos do emissor, e a impressão contrária só é possível se, ao se reportar à realidade, as mensagens ocultem ou deformem alguns de seus aspectos. Nesse caso, convencidos de que as propostas atendem às suas necessidades, os receptores não têm razão para discordar delas. A elaboração, dessa forma, esconde quais são os interesses reais existentes por trás da ideologia, ao mesmo tempo que oculta a realidade vivida pelos receptores, para que estes não possam formular outras idéias que melhor correspondam à sua posição. Neste caso, a propaganda não tem mais o caráter de conscientização, mas de mistificação, manipulação e engano.

A forma mais utilizada na elaboração das ideologias é a universalização. As idéias, que na realidade se referem aos interesses particulares de uma classe ou grupo, são apresentadas como propostas que visam a atender a todos e satisfazer às necessidades da maioria. No Brasil, isto tem sido constantemente feito com relação às medidas governamentais, apresentadas através de fórmulas do tipo: “benefícios para o povo”, “progresso do país”, “desenvolvimento nacional”, “para o bem de todos”, “para todos os brasileiros”.
A elaboração também tem sido feita por transferência, em que os interesses contidos na ideologia são transferidos e atribuídos diretamente aos receptores. Um dos primeiros a adotar ostensivamente essa fórmula, no Brasil, foi Getúlio Vargas. Seus inúmeros discursos começavam dirigidos aos “Trabalhadores do Brasil” e seguiam com a enumeração das medidas tomadas pelo governo como tendo sido adotadas para beneficiar os operários. Ajudava-se os industriais com incentivos, empréstimos e subsídios. Mas a propaganda transferia as vantagens para os trabalhadores alegando que, com o estímulo às indústrias, estas teriam condições de oferecer melhores empregos.

A universalização e a transferência também se processam de forma mais sutil. Há expressões que não têm significado muito preciso, de tal forma que cada pessoa lhes dá uma interpretação. É o que ocorre com os conceitos de “democracia”, “igualdade”, “justiça”, “liberdade” e tantos outros. Quando alguém fala em “democracia” a um grande número de pessoas, cada uma entende a palavra num sentido relacionado à sua própria condição. Pequenos empresários pensam em maior abertura para decidir sobre seus próprios negócios ou na possibilidade de concorrer com as multinacionais em igualdade de condições. Operários pensam em liberdade de lutar eficazmente por melhores condições de trabalho. Estudantes imaginam maior participação dos alunos nas decisões e atividades escolares, e assim por diante. E a palavra democracia é insistentemente utilizada pelos políticos e homens de governo, que raramente explicitam a que se referem concretamente. A propaganda age, assim, resumindo as idéias em expressões ambíguas dos tipos mencionados. Consegue-se, com isso, que cada um dos que ouvem a mensagem concorde com ela, por acreditar que diga respeito a si e a seus interesses e necessidades, e acabe apoiando o sistema econômico e o regime político.

A universalização e a transferência são feitas, ainda, de forma indireta. Ao invés de apresentar propostas como possíveis de atender a todos, mascara-se a diferença entre os indivíduos, grupos e classes sugerindo-se a igualdade. Mostra-se a sociedade como um todo homogêneo onde não há diferenças de posições e interesses. Tal imagem acaba por levar à conclusão de que quaisquer medidas beneficiam a todos sem discriminação, já que são iguais. Expressões do tipo “todos são iguais perante a lei”; teses sobre o Brasil ser um país cordial onde todos falam a mesma língua e professam a mesma religião, a propalada afirmação de que no Brasil não há racismos nem preconceitos, são argumentos empregados com aquele objetivo. Ao serem convencidas de que são cidadãos de um país onde todos são tratados igualmente, as pessoas acabam por não perceber a exploração de que são vítimas. As divergências com países estrangeiros, até mesmo em caso de guerras, têm permitido manipular a população para que esta sinta participar de um todo único. A única diferença passa a ser entre nacionais amigos e estrangeiros inimigos. Nesse contexto, todas as idéias e propostas são recebidas como visando ao interesse geral.

Quando não é possível ocultar as diferenças existentes na sociedade, procuram minimizá-las, torná-las insignificantes. A fórmula mais comumente empregada para tal tipo de sugestão é a do chamado “mito do esforço pessoal”. A idéia é divulgada alegando-se que a diferença entre ricos e pobres corresponderia a uma distinção entre pessoas mais e menos esforçadas. Afirma-se que os que detêm grande quantidade de bens conseguiram adquiri-los porque trabalharam muito para isso, e que qualquer pessoas que se exerça o suficiente pode atingir altos cargos e ganhar muito bem. Tomam-se alguns exemplos de pessoas bem-sucedidas, apesar de sua origem bastante humilde, alegando que progrediram porque estudaram com afinco e se esforçaram muito. Embora esses exemplos raramente ultrapassem uma dezena, num país de milhões, fica a idéia de que qualquer um, com tenacidade, pode atingir a nível dos mais privilegiados na sociedade. Essa idéia parece anular a contradição entre as classes, em que uma é explorada pela outra e não tem alternativas para fugir à dominação. Todavia, oculta um aspecto importante dos países subdesenvolvidos. Nesses, a grande massa populacional, devido à subnutrição, doenças, necessidade de trabalhar desde criança, não tem condições de se esforçar ou estudar.

Há outras situações em que as diferenças e contradições entre as classes sociais são muito gritantes. Quando se vê, numa mesma região, favelas e mansões luxuosíssimas, famintos ao lado de indivíduos ostensivamente poderosos, não há meios de se ocultar ou minimizar as diversidades. A propaganda recorre, então, à ocultação dos efeitos da exploração. Não nega a pobreza existente, mas esconde que ela existe para garantir o enriquecimento de alguns. È assim que a elaboração se faz, no sentido de desvalorizar os benefícios recebidos pela classe dominante. Formulam-se argumentos de que as pessoas não podem comer além de um certo limite, não podem utilizar mais de um automóvel ao mesmo tempo, para concluir que a riqueza não é tão significativa nem tão atraente. Afirmam-se serem tão poucos os privilegiados que a redistribuição de sua riqueza sã daria uma pequena e insignificante parte para cada um. Ou, então, procura-se apresentar a riqueza como desvantajosa sob argumentos do tipo “dinheiro não traz a felicidade”, “dinheiro acarreta preocupações”, “rico morre de enfarte”, “os ricos, para manter sua fortuna, precisam trabalhar mais que os pobres e não têm tempo de aproveitar a vida”, “Natal de pobre é mais humano e não tão formal quanto o dos ricos”.

Aproveita-se a diferença de costumes, onde os hábitos das classes mais abastadas são postos como desagradáveis e cansativos. “Rico não pode comer à vontade por ter de obedecer a regras de etiqueta” ou então “tem de comer pouco por educação”. Sugere-se, com isso, que a condição dos explorados é menos desagradável que a dos exploradores.

Quando não é possível ocultar os benefícios para as classes dominantes, disfarçam-se os prejuízos para os dominados. Nega-se, por exemplo, que os salários sejam tão baixos como de fato são. Diz-se que assistência médica garantida pelos Institutos de Previdência, a existência de produtos a preços mais baixos por subsídio do governo, a construção de estradas e avenidas, a assistência das Delegacias do Trabalho, a segurança policial, tudo deve ser considerado como um salário indireto, já que são vantagens que independem de pagamento direto dos empregados e custariam caríssimas se não fosse assim. Tenta-se, também, sugerir que se a situação não é tão boa, resta o consolo de que poderia ser pior. Exemplo sugestivo dessa tática ocorreu em fins de 1976, quando o governo brasileiro lançou uma campanha que, entre outras coisas, afirmava: “Se você está triste porque perdeu seu amor, lembre-se daquele que não teve uma amor para perder (…); se você está cansado de trabalhar, lembre-se daquele angustiado que perdeu o seu emprego; se você reclama de uma comida mal feita, lembre-se daquele que morre faminto (…), lembre-se de agradecer a Deu, porque há muitos que dariam tudo para ficar no seu lugar”.

Para disfarçar os efeitos da dominação procura-se, também, atribuí-los a um “bode expiatório”, um elemento, muitas vezes externo, que é responsabilizado pelos problemas. Crises internacionais, alto preço de produtos importados, ação de empresas e grupos estrangeiros, corrupção de alguns políticos, infiltração comunista até mesmo misteriosas “forças ocultas” passam a ser apresentados como responsáveis por todos os males. Fatos e pessoas do passado, também, costumam ser responsabilizados por problemas presentes, ocultando-se, dessa forma, a real origem dos males. Assim é que a colonização portuguesa teria sido a causa original do subdesenvolvimento brasileiro e das precárias condições econômicas atuais. Ou então foi o sistema de monocultura da economia cafeeira, adotado nos começos do século, que gerou a atual crise econômica. Com tudo isso, a classe dominante disfarça sua exploração sobre os demais e neutraliza a possibilidade de que lutem por melhores condições de vida.

Chega-se, mesmo, a atribuir a culpa da pobreza aos próprios pobres. Por não se interessarem em estudar, por não ferverem as águas contaminadas, é que são incompetentes, pobres e doentes.

Dessa forma, grande parte da população, que não tem nenhum acesso à assistência médica e educacional, vê inverter-se a relação para se tornar culpada pelo que não tem condições de fazer. É em parte com esse objetivo que os textos de certas campanhas repetem tão insistentemente: “você também é responsável”, “O Brasil é feito por nós”, “não deixe de vacinar seu filho”. De tanto ouvir tais apelos, os receptores acabam sentindo-se culpados pelos problemas, com a impressão de que, se eles existem, é porque não tomaram alguma providência para a qual foram alertados. Por toda a parte, na sociedade, estão pessoas a afirmar que se tivessem estudado mais, ou trabalhado com mais afinco, ou feito isso e aquilo, poderiam encontrar-se em melhores condições. Sequer percebem que sua situação é fruto do fato de pertencerem a uma classe à qual não são dadas outras alternativas e a s poucas apresentadas são ilusórias.

Mascara-se, também, a dominação e a exploração de classes atribuindo-se a algumas pessoas ou a certos órgãos e instituições toda a responsabilidade pelas medidas tomadas e implementadas. Apregoa-se, por exemplo, que o governo, o presidente, ou alguns burocratas é que detêm o poder e se encarregam de todas as decisões. Oculta-se que, na verdade, eles não detêm o poder, mas apenas o exercem na defesa dos interesses dos detentores do capital. esse disfarce permite sugerir que todas as decisões são tomadas por pessoas ou grupos neutros e desinteressados, cuja única preocupação é progresso do país.

Na maioria dos países da América Latina, as classes dominantes, as que realmente detêm o poder da decisão, são compostas por proprietários de capital financeiro, latifundiários, empresários nacionais associados aos de empresas multinacionais. com a plena consciência dessa situação, as populações talvez não apoiassem seus governos, porque perceberiam que a participação do povo é insignificante e seus interesses não são atendidos. Por essa razão, deformam a realidade, atribuindo todo o poder de decisão ais militares ou tecnocratas. Como estes não são banqueiros nem latifundiários, podem afirmar que os interesses visados são os do povo. Na verdade, estes militares e tecnocratas são instrumentos – de boa ou má-fé – de grupos cujos interesses não podem deixar de realizar. Estes, a propaganda esconde e não deixa aparecer como os realmente beneficiados.

Tática muito empregada é a de construir a imagem de um líder, responsável por todas as medidas, único detentor do poder. Enquanto a população acreditar nele não percebe quem são os verdadeiros privilegiados que se encontram por trás das decisões. Além disso, há sempre a possibilidade de se substituir um líder por outro, em épocas de crise econômica ou política, convencendo a população de que o substituto poderá solucionar todos os problemas. São os chamados líderes carismáticos, homens que parecem possuir dotes e atributos excepcionais. A propaganda cuida de propalar insistente e repetidamente as qualidades daquele que dirige. Gênio político, inteligente, hábil, de inusitada memória, e superior a todos os demais, a ele deve caber o exercício pleno do poder. Mas não bastam as qualidades excepcionais; os líderes só são seguidos se forem capazes de compreender a condição de seus liderados. A propaganda cuida deste aspecto também, apresentando-o como popular, simples, acessível e, portanto, capaz de compreender melhor que ninguém os problemas da maioria.

A elaboração da ideologia também tem sido feita pela negação de quaisquer possibilidades de mudanças que possam beneficiar os receptores, como forma de fazer com que estes aceitem as propostas apresentadas como as únicas possíveis. Assim, quando trabalhadores pretendem maior participação nos resultados econômicos através de aumentos salariais, argumentam que é impossível melhorar os salários, porque haveria tal aumento de custos para as empresas que as levaria à falência, deixando os operários em situação ainda pior: a do desemprego. Outras vezes, procuram demonstrar que as contradições e desigualdades são naturais e inevitáveis, que sempre haverá pessoas privilegiadas e outras destituídas de quaisquer recursos, de nada adiantando lutar contra isso. Afirmam mesmo que a realidade é de tal ou qual forma porque Deus quis assim e é inútil pretender transformar a natureza em que só o “Todo Poderoso” pode decidir. Ou então se utiliza a técnica de criar uma imagem das pessoas que seja incompatível com qualquer proposta de mudança social. Sob o rótulo de “caráter nacional brasileiro” se atribui uma série de características à população, onde se diz que o homem brasileiro se define pelo individualismo, pela emotividade, pela vocação pacifista e outros. Daí concluem e argumentam que, sendo individualista, pouco dado ao trabalho em conjunto e em cooperação, é incapaz de se organizar em partidos políticos, justificando o controle autoritário dos partidos pelo governo. Sendo emotivo, de comportamento pouco racional, alega-se que não deve ter maior participação política pelo voto direto, que exige senso crítico e tirocínio. Apoiando-se na idéia de que o povo brasileiro é cordial e pacífico, afirma-se que é contrário aos conflitos e se proíbem as greves e movimentos de contestação, porque seriam insuflados por agentes comunistas estrangeiros.

Chega-se a falsificar e deformar fatos da história, a fim de esconder a capacidade de uma classe para obter a realização de seus interesses. Uma das formas de os indivíduos melhor conhecerem suas condições de existência, sua posição na sociedade, é a compreensão do passado histórico. Importa ter noção das próprias raízes, das origens e do desenvolvimento da classe social a que se pertence, das lutas e conquistas obtidas pelos antepassados. São aspectos importantes para que os membros de uma sociedade possam localizar-se no tempo, compreendendo o processo de desenvolvimento em que estão inseridos. Daí a preocupação daqueles que detém o poder em interpretar a história a seu favor, deformando o passado histórico de certos grupos, para que não adquiram consciência a respeito de sua própria força.

A atuação das classes média e trabalhadora teve um papel importante na evolução de todos os países capitalistas. Suas exigências determinaram uma série de medidas que permitiriam uma organização mais racional e eficiente do trabalho. Todavia, a história universal foi escrita e ensinada nas escolas como um conjunto de fatos resultantes das decisões de apenas alguns homens, ora heróis, ora tiranos. A história passou a ser um conjunto de atos e comportamentos das elites, como se a maioria das populações não tivesse nenhum papel no processo. Essa interpretação, quando disseminada, gera um impressão de que os povos são incapazes de decidir sua própria vida, necessitando das elites para cuidar de seus interesses.

Mas nem sempre é possível ocultar totalmente os interesses dos receptores ou a sua capacidade de escolher seu próprio destino. Nesse caso a elaboração tem sido feita pelo adiamento, para um futuro vago, das satisfação de certas necessidades. As elites e os governantes costumam prometer futuros grandiosos quando haverá bem-estar para todos. Sugerem que se deve suportar alguns problemas e aceitar sacrifícios, em função dos melhores dias que virão. As descobertas de riquezas, os avanços tecnológicos, têm sido constantemente alardeados, de forma dramática, como as novas fontes que trarão o progresso e desenvolvimento para todos. Com tudo isso se faz que as pessoas, confiando no amanhã, no dia melhor para seus filhos, aceitem passivamente suas agruras.

Todos os casos acima mencionados constituem fórmulas de apresentação das idéias e propostas de grupos que deformam a realidade, ocultando o fato de que elas se referem exclusivamente à satisfação de seus objetivos. Adequando-as, assim, aos interesses de todos ou, mais especificamente, dos receptores, tornam possível fazer com que se submetam e até mesmo colaborem para a realização daqueles intentos. Existem ainda outras possibilidades de elaboração de ideologia, cada momento histórico determinando quais são as mais eficazes.

Codificação

A realidade social é extremamente complexa. São indivíduos, grupos menores ou maiores e classes sociais interando-se uns com os outros e se defrontando com objetos que podem ou não satisfazer as suas necessidades. Integram-se econômica, política e culturalmente, compondo toda uma trama de relações altamente diversificada. Por participarem de formas diferentes dessas relações os homens têm conhecimentos e experiências igualmente diversas. Sua capacidade de compreensão variável. Enquanto uns têm mais facilidade para entender certos fenômenos, outros não conseguem sequer percebê-los. Outros, ainda, nem chegam dar atenção a um grande número de fatos e acontecimentos, por não considerá-los importantes, embora possam interferir profundamente em suas vidas. Uma ideologia, por refletir a realidade, reflete também grande parte de sua complexidade e, para muitos, dificilmente é compreensível em seu todo. Nessa condições a propaganda, para transmitir a ideologia, precisa adaptar e adequar as idéias nela contidas às condições e à capacidade dos receptores de tal forma que tenham sua atenção despertada para as mensagens e consigam entender seu significado. Pois bem, codificação é processo pelo qual as idéias são transformadas em mensagens passíveis de serem transmitidas e entendidas.

Há inúmeras formas pelas quais as idéias são codificadas antes de sua divulgação. Em primeiro lugar, levando-se em conta aquelas pessoas que têm dificuldade em entender certas idéias complexas, procura-se simplificá-las. Essa simplificação pode ser maior ou menor, em função do grau de compreensão daqueles que deverão recebê-las. Lenin, procurando definir a maior forma de organizar a propaganda socialista, afirmava que o agitador para atingir uma grande massa, deveria transmitir uma só idéia ou um pequeno número delas. Hitler, por sua vez, entendendo que a capacidade de compreensão do povo era limitada, considerava que a propaganda deveria restringir-se a poucos pontos repetidos como estribilhos. A propaganda, dessa forma, procura difundir apenas o essencial do conteúdo de uma ideologia, selecionando algumas idéias fundamentais, restringindo-se a uma ou se limitando a um mero sinal simbólico.

As declarações, programas e manifestos, entre outros, constituem formas de simplificação em que se encontram selecionadas e destacadas as idéias centrais de uma determinada ideologia. O “Credo” contém as idéias básicas defendidas pela Igreja Católica.

O “Manifesto Comunista” constitui uma síntese das principais conclusões contidas no pensamento socialista tal como formulado por Marx e Engels.

Procurando obter simplificação ainda maior, a propaganda utiliza fórmulas curtas que contenham uma ou alguma das idéias mais importantes de uma dada corrente ideológica. A “palavra de ordem” contém, em uma expressão curta, o principal objetivo a ser atingido em determinado momento.

Quando, durante os movimentos estudantis ocorridos ao final dos anos 60, defendia-se a idéia de que era necessário reduzir a verba destinada às Forças Armadas para que fosse possível atender às necessidades básicas do povo, adotou-se, para difundi-la, a palavra de ordem “Mais pão, menos canhão”.

O slogan, outra forma de simplificação muito semelhante à palavra de ordem, contém um apelo aos sentimentos de amor, ódio, indignação ou entusiasmo daqueles a quem se dirige. “Aqui começa o país da liberdade”, escreviam os revolucionários franceses na fronteira de seu país. Esses mesmos revolucionários adotavam o lema “Liberdade, igualdade e fraternidade” para representar suas idéias e despertar a emoção dos ouvintes.

A fórmula mais sintética que se pode utilizar para exprimir uma idéia é o símbolo, breve sinal que resume uma ideologia ou que a representa. Justamente por ser bastante simples, é usado constantemente pela propaganda. Impresso em jornais, panfletos, nas bandeiras, pintando nas paredes e muros, utilizando como distintivo nas roupas, permite difundir a idéia a que se refere de forma ampla e rápida.

Os símbolos são formados por sinais gráficos, gestos ou expressões e cumprimentos repetidos pelos adeptos de uma determinada corrente. Foram empregados em todas as épocas e, dentre os conhecidos, o adotado pelos aliados durante a Segunda Guerra Mundial pode ser considerado dos mais perfeitos. O “V” era bastante simples: apenas dois traços retos que podiam ser rapidamente reproduzidos, com qualquer instrumento de escrita, em papéis, paredes, no chão ou em quaisquer objetos. Além disso, era suficientemente sugestivo por ser a letra inicial da palavra Vitória ( Victory), que representava o principal objetivo dos aliados. Importa lembrar que a palavra vitória começa com a letra “V” tanto em inglês, como em francês, espanhol ou português, o que lhe dava um grande valor para ser difundida em nível internacional. Era um sinal versátil, que podia passar de gráfico para plástico e ser feito com os dedos indicador e médio ou com os dois braços erguidos. Além disso, tornou-se sonoro, porque a letra V, em código Morse, formada por três pontos e um traço, e passou a ser associada ao trecho inicial da Quinta Sinfonia de Beethoven, que tem três notas curtas e uma longa.

Além da simplificação, as idéias tornam-se mais acessíveis quando associadas a outras mais simples. Essa associação é feita por semelhança, se a idéia transmitida é explicitada por outra diferente, mas com a qual guarda alguma similitude de forma ou estrutura e que seja mais simples. Para transmitir as idéias relativas à organização política do país e à estrutura dos órgãos de governo, tem sido muito utilizado o recurso de compará-las a um sistema familiar. A família é uma realidade mais conhecida e vivida pelos receptores, que nem sempre conseguem compreender toda a complexidade das instituições governamentais. Durante o Estado Novo, procurou-se uma fórmula para apresentar a idéia de que o Brasil era uma só nação, unida sob a direção de Getúlio Vargas, líder absoluto a quem deveriam ser atribuídas todas as decisões e toda responsabilidade. Para tanto, dizia-se: “A nação é uma grande família”, ” Getúlio, o pai dos pobres”, ” Getúlio, o pai dos trabalhadores”.

As ideologias geralmente se referem a certas situações que, por jamais terem sidos presenciadas pelos receptores, são pouco compreensíveis. Como explicar o valor e a importância de um regime liberal e democrático a quem tenha vivido apenas sob sistemas autoritários ? Nesse caso a associação da idéia é feita por contraste, em que se compara a situação a ser explicada a outra contrária, porém mais conhecida. Essa é a fórmula constantemente empregada por grupos de oposição que apresentam suas propostas recorrendo a imagens de um regime “sem censura”, “sem violência policial” etc.

A ilustração de idéias com exemplos concretos conhecidos é outra forma comum de codificação. Aqueles que defendem a necessidade de que a direção da economia fique a cargo da iniciativa privada costumam apoiar-se na tese da incompetência administrativa e gerencial do governo. Para demonstrá-la recorrem freqüentemente a exemplos bem conhecidos de empresas e repartições públicas desorganizadas e ineficientes. A existência de favelas serve para ilustrar a idéia de que o governo deve investir antes na solução do problema habitacional que na construção de obras suntuárias. Lenin, para explicar essa forma de apresentar as mensagens, levantava a hipótese de se ter de explicar uma greve. Segundo ele, para defini-la em suas características mais importantes, o agitador deveria ilustrar a noção de greve tomando um fato bastante conhecido por seus ouvintes, como o de uma família de grevistas pobre e faminta. A partir desse exemplo é que procuraria mostrar o absurdo da contradição entre a riqueza de uns em oposição à miséria absoluta de outros. Só então é que seria possível explicar a greve como uma conseqüência da forma de organização econômica do sistema capitalista.

Outro aspecto importante a ser considerado na codificação é o fato de que as pessoas já carregam consigo uma série de concepções a respeito da realidade em que vive. Ideologias já existentes, idéias e crenças as mais diversas, mitos e superstições dão aos indivíduos que vivem em uma cultura uma versão de seu ambiente e de sua vida, uma explicação da realidade, que lhes permitem integrar-se ao meio e exercer um determinado papel. A propaganda não deve deixar de considerar, ao difundir novas idéias, o fato de que elas podem chocar-se com as já existentes, por serem diversas e mesmo contraditórias. Nesse caso, ao mesmo tempo que se apresentam certas idéias, pode-se negar as já existentes, procurando mostrar que são falsas e não correspondem à realidade. É o que ocorre com alguns pregadores protestantes ao difundir suas idéias aos adeptos da fé católica combatendo a prática da adoração dos santos e criticando a utilização de imagens como as existentes nas igrejas católicas.

Essa orientação, contudo, nem sempre é eficaz, porque as pessoas tendem a se apegar emocionalmente a certas concepções que, às vezes, trazem consigo desde a infância e rejeitam qualquer nova explicação. Outra possibilidade, nesse caso, é a de fundir a idéia a ser propagada com as concepções já existentes, solução que inclusive facilita a aceitação das mensagens, porque baseadas em idéias já aceitas como verdadeiras. A propaganda hitlerista pregava a pureza da raça ariana, destinada a dominar o mundo, ao mesmo tempo que condenava e combatia os judeus. Essas idéias, contudo, não foram criadas pelos nazistas, mas já se encontravam disseminadas pela Alemanha. A propaganda nazista se apropriou delas, combinando-as com as propostas do partido para torná-las mais convincentes.

Controle ideológico

Por mais que um grupo elabore sua ideologia, ocultando que se refere exclusivamente a seus objetivos, para obter o apoio dos demais, é possível que estes acabem por adquirir consciência de sua própria posição na sociedade e de que seus interesses são diversos. Nessa hipótese, poderiam formular outra ideologia, mais adequada às suas condições, que os levaria a agir em sentido diverso daquele pretendido pelos emissores da propaganda. Por essa razão, os grupos que propagam suas idéias, geralmente procuram evitar que os receptores possam perceber a realidade por outro prisma que não aquele que lhes é proposto. Fazem isso tanto impedindo a formação de outras ideologias como neutralizando a difusão das já existentes. O controle ideológico compreende todas as formas utilizadas para que determinados indivíduos e grupos não tenham condições de perceber sua realidade e, assim, fiquem impedidos de formar sua própria opinião.

Os indivíduos e grupos só podem adquirir consciência de suas reais condições de vida por duas vias: a observação direta do meio em que vivem ou através das informações obtidas de outros, seja pessoalmente, seja pelos meios de comunicação. Daí o controle ideológico se realizar sobre o meio ambiente, sobre os meios de comunicação e sobre as pessoas.

A remodelação do ambiente físico permite torná-lo mais adequado às idéias difundidas pela propaganda. Procuram, assim, fazer com que as imagens percebidas confirmam as idéias apresentadas. Desde a Antiguidade se encontram momentos em que os grupos detentores do poder procuraram moldar a decoração do meio, de forma a apoiar suas idéias. Inúmeros reis, imperadores e dirigentes políticos mandaram construir grandes monumentos para reforçar a idéia de seu poder e prestígio.

No Brasil, Getúlio Vargas foi um dos que mais se preocuparam com a forma do ambiente urbano como instrumento de confirmação das suas idéias. A eficiência e modernidade de suas medidas eram sugeridas através de inúmeras construções que indicavam um governo organizado e empreendedor. A idéia do seu carisma e de sua personalidade forte era reforçada através das suas fotografias, obrigatoriamente afixadas em todas as escolas, fábricas, repartições públicas, bares e restaurantes, vagões de trens. Sua efígie estava nas moedas, selos, placas comemorativas e de inauguração. Bustos de bronze foram erigidos em diversos locais. Seu nome foi atribuído a inúmeras ruas e logradouros públicos. Sua imagem, dessa forma, impregnava todos os lugares e ambientes durante todo o tempo.

As idéias e concepções, contudo, nem sempre provêm da percepção direta do meio ambiente. Devido à complexidade do contexto em que vivem as pessoas, elas só têm condições de se informar e se conscientizar a respeito de sua sociedade através dos meios de comunicação. O controle desse meio se faz, principalmente, pela sua utilização direta. Dado o fato de que a comunicação depende, cada vez mais, de aparelhagem sofisticada e bastante cara, torna-se inevitável que os meios sejam controlados por pessoas e grupos da classe economicamente mais forte. Ele os utilizam exclusivamente para a difusão das idéias e opiniões que lhes são favoráveis, não permitindo que se propaguem ideologias contrárias ou fatos que contestem seus interesses. A população fica, desse modo, impossibilitada de ter acesso à maior parte dos aspectos de sua realidade e, assim, impedida de compreender exatamente sua posição e seu interesses, termina por ser envolvida na única ideologia que lhe é apresentada.

A censura oficial, realizada por órgãos governamentais, também é um instrumento de controle ideológico. Através dela se definem os limites do que pode ou não ser divulgado, neutralizando-se as possibilidades de manifestações contrárias aos valores defendidos pelos governos.

Sem acesso às informações que lhe possam fornecer uma visão dos diversos aspectos do mundo em que vive, a população acaba tendo uma visão deformada da realidade, que a conduz a se comportar dentro dos estritos limites traçados a partir dos interesses da classe dominante.

O controle ideológico se exerce, também, diretamente sobre as pessoas, seja reprimindo ou corrompendo líderes para que desistam ou sejam impedidos da tentativa de conscientizar seus liderados, seja exercendo pressões constantes par que os receptores não tenham condições psicológicas de julgar, analisar e avaliar as idéias que recebem.

Geralmente surgem, no seio das classes dominadas, alguns indivíduos que, apesar de toda a censura e manipulação dos meios de comunicação, conseguem perceber melhor certos aspectos da realidade e procuram transmitir sua compreensão aos demais, conscientizando-os. É o caso dos líderes operários, estudantes, religiosos e intelectuais. Nesses casos, a classe dominante, diretamente ou através dos órgãos do governo, procura neutralizar esses líderes através de ameaças, prisões, torturas ou exílio. Outras vezes, a neutralização se faz de forma não tão violenta através da cooptação. Cooptação é o processo pelo qual um indivíduo ou pequeno grupo recebe concessões e privilégios, em troca dos quais deva deixar de defender os interesses da classe social à qual pertence, para defender aquele que lhe fez as concessões. É o caso de trabalhadores e intelectuais que são contratados para exercer certos cargos privilegiados no governo ou em empresas privadas.

A pressão sobre as pessoas pode, também, concretizar-se através de perseguições, denúncias e acusações insistentes contra aqueles que não seguem determinada orientação. É o caso das “patrulhas ideológicas”, expressão muito empregada no Brasil, a partir de 1978, para qualificar os grupos que criticam repetidamente alguns artistas, intelectuais e pessoas muito populares que não aderem às idéias defendidas por aqueles grupos. O cineasta Carlos Diegues e o cantor Caetano Veloso já se queixaram por serem exageradamente criticados ao não assumirem as posturas exigidas por militantes esquerdistas. Pelé afirmou ser perseguido e criticado por grupos que não admitiam sua recusa em assumir a liderança na luta contra o racismo. A mesma forma de pressão tem sido feita, desde os começos do século, sobre aqueles que defendem a necessidade de se dar maior atenção aos problemas sociais como o analfabetismo, a miséria, o alto índice de enfermidades etc. Inúmeros são os que estão prontos a acusá-los de anarquistas, comunistas, agentes russos ou cubanos, antipatriotas. Trata-se de uma forma de perseguição que visa, senão obter a adesão do pressionado, ao menos conseguir seu silêncio para que não expresse idéias julgadas inconvenientes.

A pressão psicológica é uma das formas mais interessantes de controle. Atua diretamente sobre os receptores, afetando sua capacidade de análise, para que recebam as mensagens da propaganda dentro de uma postura passiva e submissa.

As pessoas, em condições normais, ao receberem uma informação ou assistirem a um fato, procuram compreender a situação, analisar os prós e contras, verificar se se trata de algo que lhes diga respeito diretamente assim por diante. É o que se chama senso crítico. Todavia, em determinadas situações de envolvimento emocional, tensão nervosa, temor, cansaço físico e mental, os indivíduos tendem a ter o seu senso crítico diminuído. Nesses momentos, ouvem as afirmações ou assistem aos fatos sem avaliá-los, aceitando passivamente o que lhes apresenta. A propaganda utiliza inúmeras formas de pressão para neutralizar o senso crítico dos receptores e lograr convencê-los. O recurso mais empregado é a organização de grandes concentrações de massas. Nessas ocasiões, as marchas, as músicas e cânticos ampliados por alto-falantes, as luzes, o lançamento de folhetos e papéis, o ritmo dos tambores, as bandeiras, estandartes, os discursos inflamados, tudo reflete sobre os presentes. Envolvem as pessoas com tal intensidade que, quase hipnotizadas, tornam-se mais sugestionáveis às mensagens que recebem. Foi com o emprego constante desses recursos que Adolf Hitler conseguia manter as multidões em contínuo estado de exaltação e conduzi-las ao delírio.

Algumas práticas religiosas também são empregadas como instrumentos de pressão psicológica para obter a adesão fanática dos receptores. Produzem esgotamento físico, fazendo as pessoas ficarem muito tempo em pé, ajoelhadas ou participando de longas e cansativas danças. Geram ansiedade através da espera do sacerdote que se atrasa, da escuridão ou luz muito intensa, palmas, músicas e cantos ritmados, da repetição dos sons de tambores. Embriagam com incenso, álcool, fumo e drogas inebriantes. Despertam temor com ameaças de infernos, monstros e demônios. Em meio a tudo isso fazem-se as pregações, conseguindo não só convencer os receptores. como levá-los a verdadeiros estados de possessão e transe. São os recursos adotados por diversos cultos místicos praticados no Brasil e na África e, embora de forma menos profunda e pouco intensa, por quase todas as seitas religiosas existentes na face da terra.

Dentre as formas de pressão psicológica conhecidas, a mais intensa e, talvez, a mais eficaz é a denominada “lavagem cerebral”. É realizada com indivíduos ou grupos que são conduzidos a locais afastados, de onde não podem sair durante algumas semanas ou meses, ocasião em que são freqüentemente bombardeados com novas idéias. Baseia-se essa técnica no fato de que os conhecimentos, idéias e reflexos dos indivíduos servem para que possam adaptar-se e manter-se em equilíbrio como o seu meio. Conseqüentemente, ao se criar um novo ambiente onde os hábitos e reações costumeiras são insuficientes para obtenção do equilíbrio, torna-se mais fácil incutir novas orientações. Se, além disso, forem feitas pressões que diminuem o senso crítico, a possibilidade de persuasão é ainda maior.

Há ainda, uma técnica de controle ideológico que procura impedir que as pessoas adquiram consciência de suas condições de vida, distraindo sua atenção. Através dos meios de comunicação, bombardeia-se a sociedade com notícias sobre fatos suficientemente atrativos para que os indivíduos tenham sua atenção desviada dos problemas econômicos e sociais. Baseia-se no fato de que as pessoas têm um limite de percepção e atenção e que, saturadas por um certo número de informações que apelam para as emoções e sentimentos, não lhes sobra espaço nem tempo para receber outras idéias. Grandes torneios desportivos, crimes cometidos com crueldade, têm sido constantemente alardeados para envolver os receptores em sua discussão e distraí-los das questões mais graves.

Contrapropaganda

Quando não conseguem obter o monopólio das informações através do controle ideológico, os grupos procuram neutralizar as idéias contrárias através da contrapropaganda.

Ela se caracteriza pelo emprego de algumas técnicas que visam amenizar o impacto das mensagens opostas, anulando seu efeito persuasivo. Procura colocar as idéias dos adversários em contradição com a realidade dos fatos, com outra idéias defendidas por eles próprios ou em desacordo com certos princípios e valores aceitos e arraigados entre os receptores. Outra vezes, atua de forma indireta, tentando desmoralizar as idéias, não pela crítica à personalidade ou ao comportamento daqueles que as sustentam. Critica-se o sacerdote para desmerecer o conteúdo de suas pregações, ataca-se alguns dirigentes políticos para combater a filosofia adotada pelo governo e assim por diante.

A contrapropaganda, na prática, se concretiza através da emissão de mensagens que, associadas aos argumentos ou à personalidades dos adversários, despertam reações negativas.

A apresentação de fatos que estejam em contradição com as mensagens adversárias, sugerindo sua falsidade, irrealidade ou absurdo, é realizada com o intuito de despertar dúvida em relação a elas. A contrapropaganda dos defensores do sistema capitalista procura neutralizar as idéias socialistas difundindo, dramaticamente e com estardalhaço, notícias sobre fugas de pessoas que viviam em países comunistas. O objetivo desse procedimento é o de sugerir que não deve ser bom aquele regime, se a pessoas que nele vivem querem fugir de lá.

Os fatos que se contrapõem às idéias da propaganda adversária costumam ser totalmente forjados. Não tendo condições de verificar, através de fonte segura, a veracidade ou não das informações, os receptores tendem a aceitá-las ou, ao menos, permanecem indecisos. Durante a Segunda Guerra Mundial os aliados criaram uma estação de rádio que se fazia passar por alemã e irradiava notícias para a Alemanha. Um dos informes, apresentado como comunicado oficial do governo nazista e transmitido quando Hitler insistia em que estava vencendo a guerra, gerava certa perplexidade. A notícia dizia que alguns soldados alemães estavam desertando do front e deveriam ser denunciados por qualquer pessoa que conhecesse seu paradeiro. Suscitava-se, assim, dúvidas em relação à vitória de um exército cujos soldados estavam fugindo.
A contrapropaganda também atua sobre o temor, mostrando que as idéias adversárias, se concretizadas, podem causar graves prejuízos e malefícios às pessoas. As campanhas anticomunistas constituem os exemplos mais significativos.

Nos países do “bloco ocidental”, inclusive o Brasil, ainda se repete a técnicas que vem sendo posta em prática há anos de divulgar notícias de atrocidades cometidas na União Soviética, China, Cuba, Nicarágua, e países africanos. Fala-se em crianças e mulheres fuziladas, homens cruelmente torturados, degolados e queimados. Ao mesmo tempo insiste-se que tais fato serão sempre inevitáveis para qualquer país que opte pelo sistema socialista. Com isso, conseguem incutir um tal medo na população que as convencem a apoiar o governo em sua ação repressiva contra os adeptos de idéias igualitárias, sejam socialistas ou apenas superficialmente semelhantes.

A contrapropaganda também é realizada no sentido de despertar desprezo pelos adversários e suas idéias, associando-os a situações contrárias aos princípios e valores respeitados pelos receptores. Os comentários que se fazem a respeito de alguns dirigentes governamentais, acusando-os de desonestos, corruptos, homossexuais e, até mesmo, de traídos pelas esposas, visam desmoralizá-los e gerar desprezo pelas propostas e idéias que defendem.

Com o objetivo de desmoralizar as manifestações estudantis, afirmou-se que se tratava de “filhinhos de papai”que, ao invés de estudar e cumprir suas obrigações, permaneciam fazendo “badernas” e “arruaças”, prejudicando o trânsito, gerando insegurança para o povo e criando dificuldades para todos. Conseguiam, dessa forma, despertar a hostilidade e desprezo de grande parte da população contra os movimentos e, assim, abafar a questão dos problemas sociais que estavam sendo levantados pelos universitários.

As questões de natureza econômica ou política são extremamente significativas para maioria das pessoas, já que se relacionam intimamente com suas condições de vida. Por essa razão, a propaganda procura apresentar as idéias dentro de um clima de grande seriedade, às vezes até solene, que torne possível despertar a atenção para a importância dos assuntos abordados. Daí grande parte da contrapropaganda atuar através do humor, da sátira ou da piada, ridicularizando as idéias e pessoas que as defendem. Procuram, assim, gerar desinteresse pelo conteúdo das mensagens e desvalorizar sua importância.

Os veículos de comunicação, constantemente, difundem charges, apelidos e sátiras que desmoralizam e desfiguram dirigentes e líderes políticos, tornando-os engraçados ou mesmo ridículos. Quebram, assim, a imagem de respeito que estes pretendam impor e afetam o conteúdo de suas afirmações.

Os slogans também são ridicularizados, para perder seu efeito persuasivo e de impacto. No Brasil, os temas das campanhas governamentais têm sido automaticamente ironizados com sugestiva criatividade. Para a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o” criou-se a resposta “O último, apague a luz do aeroporto”. Quando se disse “O Brasil deu um passo à frente”, contestou-se rapidamente “E estava à beira do abismo”. Contra o tema “O Brasil é feito por nós” respondia-se “O difícil é desatá-los”.

A contrapropaganda, portanto, é o instrumento utilizado por um grupo através das formas e recursos mencionados, visando neutraliza a força das teses e argumentos da propaganda adversária. Dessa forma, amenizando o efeito persuasivo das idéias contrárias às suas, o grupo pode desenvolver sua própria campanha de propaganda, sem a necessidade de recorrer a outros artifícios e precauções que esclareçam a razão das diferenças entre suas propostas e as alheias.

Difusão

Elaborada a ideologia, realizada sua codificação e estruturado o sistema de controle ideológico, procede-se à difusão sistemática das mensagens.

Dentre as formas de difusão utilizadas pela propaganda ideológica, a oral, através da palavra falada, ainda é das mais importantes. Empregada desde a antiguidade, foi a forma preferida por inúmeros líderes. Hitler considerava que todos os acontecimentos importantes e todas as revoluções foram produzidas pela palavra falada. Lenin dizia que o agitador, antes de mais nada, deveria agir de viva voz. Os discursos políticos, pregações religiosas, declarações de líderes e homens de governo têm sido, em grande parte, os maiores responsáveis pela propagação das ideologias em todos os recantos do mundo. Uma de suas grandes vantagens é permitir ao orador observar diretamente a reação dos seus ouvintes e, a partir dela, reforçar certos argumentos, insistir em determinados aspectos, dar maior ou menor ênfase às palavras, repetir afirmações, aumentar ou diminuir pausas, sublinhar as idéias com gestos e expressões fisionômicas. Além disso, o discurso e a pregação constituem as únicas formas que permitem reunir um grande número de pessoas, até mesmo em grande praças públicas, de tal forma que cada indivíduo sinta sua personalidade diluir-se na multidão, percebendo-se como parte de um todo e tendendo a acompanhar as manifestações da maioria. Tem-se aí a possibilidade de produzir uma impressão de unanimidade tão persuasiva quanto os argumentos do orador. Esse clima pode ainda ser reforçado pela preparação das claques, grupos de pessoas previamente encarregadas de aplaudir e ovacionar o orador. Outra vantagem da palavra falada, quando proferida diretamente pelos líderes, é a sua maior credibilidade. O orador pode impor uma imagem de sinceridade, impossível de ser transmitida por outro meio; suas afirmações têm mais calor e se tornam mais humanas.

Se a expressão oral encontrava limites restritos de tempo e espaço no passado, hoje, com a evolução tecnológica dos meio de comunicação de massa, adquiriu uma amplitude quase infinita. Os satélites têm possibilitado que muitas declarações do papa ou do presidente dos EUA, dentre outros, sejam divulgadas imediatamente à maioria dos países do globo terrestre.

A imprensa, o mais antigo dos meios materiais de comunicação, exerce um papel importante em propaganda. Jornais e revistas, por informarem constantemente sobre os fatos regionais e internacionais, contribuem em alto grau para fornecer aos leitores uma determinada visão da realidade em que vivem. Dessa maneira transmitem os elementos fundamentais para a formação de um conceito da sociedade e do papel que cada um deve exercer nela. Por trabalhar com fenômenos apresentados de maneira aparentemente objetiva, como se fosse a mera e simples apresentação dos fatos puros, tais como realmente ocorreram, adquire uma aparência de neutralidade que assegura a confiança da maioria dos leitores. Mas essa neutralidade não é real. As notícias internacionais são distribuídas por agências especializadas, principalmente as norte-americanas Associated Press e United Press International, onde se selecionam as informações segundo os critérios estabelecidos pelos interesses econômicos e políticos dos grupos que as controlam. Essas informações são enviadas às redações, onde, juntamente com as notícias locais, são novamente selecionadas, agora com observância de outros critérios, determinados pelo interesse dos proprietários dos jornais ou dos que neles anunciam. Dessa forma, a imprensa acaba por constituir um elemento de manipulação de grupos internacionais e nacionais que só permitem a transmissão daquelas mensagens que possam reforçar sua ideologia.

Além da seleção de informações, há outros meios de manipulação dos fatos. Um deles é a fragmentação da realidade, implícita na própria forma como são apresentadas as notícias. Para se adquirir consciência da realidade social, é necessário que se percebam as relações entre os diversos fenômenos, obtendo-se a visão de conjunto necessária para ver a sociedade como um todo integrado, em que os fatos econômicos, políticos e culturais sejam vistos tal como se determinam reciprocamente. A grande imprensa, ao contrário, aponta os fatos isolados uns dos outros, mantendo ocultas aquelas relações. O leitor, em relativamente pouco tempo, acaba lendo notícias as mais variadas sobre esportes, crimes, cotações de bolsa, inflação, desastres, guerras externas, declarações de brasileiros e estrangeiros. Recebe uma visão caótica da realidade, sem perceber os efeitos que os fatos têm uns sobre os outros.

Outra forma de manipulação é realizada pelo maior ou menor destaque que se dá à notícia. A página em que é colocada, a dimensão do texto, o título, o maior ou menor número de pormenores contidos na descrição permitem dar aos fatos um outro significado. As greves organizadas pelos sindicatos operários, por exemplo, que têm uma enorme repercussão econômica e política, geralmente são tratadas pela grande imprensa como um simples fato acidental sem maior significação. O Estado de S. Paulo, por exemplo, menciona-as em pequenos espaços nas páginas de economia, ao lado de outras informações, como posição de preços no mercado, cotações de bolsa, dando a impressão de um simples fenômeno corriqueiro sem maiores conseqüências.

Há também a interpretação das informações, geralmente realizada dentro de uma linha preestabelecida pela direção do jornal, que é determinada pelos interesses ali defendidos. As notícias a respeito dos países socialistas são selecionadas a interpretadas de forma altamente negativa. Pouco se mencionam as providências bem-sucedidas, tomadas na China e em Cuba, para melhoria dos níveis de educação e saúde. Mas um grande destaque é dado às prisões políticas e torturas, mostrando-se apenas o lado negativo daqueles sistemas. Já em relação aos Estados Unidos, insiste-se no desenvolvimento econômico, na “perfeição” do sistema “democrático”. Mas pouco se menciona a exploração dos povos subdesenvolvidos por aquele país, ou a intervenção norte-americana em países onde se fazem revoluções e se depõem homens de governo que não aceitam certas imposições. Silencia-se sobre a corrupção política existente. Pouco se fala sobre a vida cada vez mais angustiada da juventude americana, que vai buscar nas drogas o único consolo para suas crises existenciais.

Além dos aspectos mencionados, que fazem parte da rotina dos periódicos, estes também são empregados para difundir a declaração dos homens públicos. O próprio governo usa espaço dos jornais para relacionar suas realizações. Grupos particulares também aproveitam a imprensa, pagando o espaço, para apresentar suas idéias.

Até agora falamos da imprensa vinculada aos interesses dos grupos econômicos mais fortes. Mas ela também é adotada, algumas vezes, por grupos minoritários não ligados aos detentores do poder. A História do Brasil registra o aparecimento de inúmeros jornais e pequenas revistas da imprensa operária e estudantil que procuram evidenciar as contradições do sistema vigente e transmitir propostas alternativas. Geralmente são periódicos de vida curta, logo obrigados a fechar em virtude de dificuldades financeiras resultantes de pressões dos grupos econômicos mais fortes ou mesmo por imposição policial, que não permite que se excedam limites preestabelecidos por setores da classe dominante.

A propaganda emprega ainda o cinema, tanto com filmes documentários quanto de ficção. Os documentários têm a grande vantagem, para os que o utilizam, de que é montado com imagens verdadeiras, extraídas diretamente da realidade, fato que lhes dá extrema credibilidade. Todavia, a possibilidade de selecionar, dentre as imagens possíveis, aquelas que confirmem e reforcem uma determinada idéia, permite uma grande oportunidade de manipulação. No Brasil, os documentários cinematográficos são obrigatoriamente exibidos nas telas dos cinemas por imposição legal. São sistematicamente utilizados para engrandecer o regime político vigente e enaltecer a capacidade dos dirigentes e empresários. O conteúdo mais constante desses filmes documentários é a apresentação de grandes realizações governamentais ou de setores privados da agricultura, indústria e comércio.

Quase sempre trazem cenas que sugerem apoio e unanimidade pela presença sorridente e confiante das autoridades civis, militares e eclesiásticas ou de multidões populares que aplaudem. Os documentários podem ser falsificados, montados com sons e cenas verdadeiros, mas sem nenhuma relação uns com os outros, fato que raramente é perceptível para a maioria dos espectadores. Pode-se acrescentar sons de gritos, tiros, aplausos a cenas eu que na verdade não ocorreram. Multidões podem ser associadas a reuniões onde não há mais de uma dezena de pessoas. Essa possibilidade de associar e fundir trechos diversos de filmes e sons permite ao produtor transmitir a idéia que lhe aprouver.

Os filmes de ficção, sendo produzidos não com cenas reais e objetivas, mas interpretadas e montadas, não têm o mesmo ar de autenticidade e o poder persuasivo dos documentários. Mas, através da trama de situações que se pode criar, da variedade imensa de ritmo de som e imagens possíveis de se obter, permitem criar um clima de envolvimento emocional que facilita a inculcação de idéias e valores. Além disso, projetados em salas escuras, podem contar com maior receptividade, já que não existem outros fatos que possam distrair a audiência.

O roteiro padrão dos filmes de aventura americanos permite avaliar bem seu valor como instrumento de transmissão de idéias. Geralmente são compostos de três idéias essenciais. Uma primeira mostra uma situação de paz e harmonia. Em seguida há o aparecimento de uma ameaça para, finalmente, se sucederem as tentativas de defesa que culminam com um final heróico. O espectador, envolvido pelo clima harmonioso inicial, é levado a indignar-se contra o sujeito da ameaça, que pode ser um indígena, um criminoso ou um espião russo. Afinal, acaba identificando-se com o herói ou heróis que vêm proporcionar a solução feliz. Todo filme acaba reduzido a uma proposta maniqueísta em que se apresentam apenas duas alternativas: a certa ou a errada, a boa ou a má. Todo esse contexto é permeado de cenas de amor e ódio, atos de maldade ou bondade, violência e carinho intensos, alguns toques eróticos. O ritmo das cenas se alterna da lentidão à rapidez extrema, as músicas acompanham o crescendo e variam da doce suavidade de um coro celestial à veemência das marchas de guerra, tudo para conduzir o receptor a um clímax.

Foi através desses recursos que o cinema norte-americano conseguiu impor ao mundo ocidental certas imagens estereotipadas como a do indígena selvagem e assassino, dos alemães e japoneses frios e calculistas da Segunda Guerra Mundial, ou do agente russo desumano, traiçoeiro e criminoso. E tudo isso em contraste com a figura do norte-americano bom, leal, corajoso e honesto.

O cinema também pode ser utilizado para conscientizar o espectador acerca das contradições sociais, embora nem sempre esses filmes consigam vencer os obstáculos da censura e das pressões econômicas. No Brasil, tivemos o período do chamado “Cinema Novo”, entre o final dos anos 50 e começo dos 60, onde se produziram alguns filmes que mostravam a miséria dos sertões e o drama das favelas brasileiras. Mais recentemente, fizeram-se alguns filmes sobre a corrupção policial e a violência urbana.

O rádio também é um instrumento da propaganda, com a grande vantagem de poder transmitir as mensagens com rapidez e amplitude, permitindo mesmo que certos fatos sejam divulgados imediatamente após ocorrerem.

Permite dirigir-se às camadas mais humildes da população, inclusive analfabetos, que muitas vezes não têm acesso a outros meios de informação. Permite também o estabelecimento de um clima de intimidade, onde o locutor sussurra opiniões para o ouvinte, criando uma situação de amizade e de descontração informal bastante sugestiva. Por ser tratar de concessão governamental que pode ser cassada a qualquer momento, induz seus proprietários e funcionários a evitar a difusão de mensagens em desacordo com a ideologia proclamada oficialmente. Além disso, pelo fato de, como a imprensa, depender de anúncios comerciais para se manter, o rádio se torna um instrumento passível de ser controlado pelos interesses das classes dominantes que pagam esses anúncios. É largamente empregado para a divulgação dos discursos, declarações e mensagens dos dirigentes e órgãos governamentais. A irradiação oficial chamada “Hora do Brasil” foi criada por Getúlio Vargas com esse objetivo e, embora reformulada, permanece até hoje com o nome de “A voz do Brasil”.

A televisão serve antes de mais nada para e difusão de notícias, o telejornalismo. Como a imprensa escrita, passa por processos de seleção e interpretação, depende de anúncios pagos e de concessão governamental, o que a transforma em instrumento de difusão das ideologias dos grupos econômicos ou do governo. A forma como são produzidos os programas deu à televisão o caráter de instrumento para tornar a população mais passiva. Novelas, programas de auditório, shows de variedades, apresentação de cantores, jogos, disputas, esportes e sorteios absorvem grande parte da capacidade crítica do espectador, conduzindo-o a uma espécie de fuga da realidade. Desviando sua atenção das questões sociais, induz à alienação. Tome-se o exemplo do programa Sílvio Santos, há anos sendo veiculado aos domingos, desde a manhã até a noite. Toda a produção é caracterizada por um clima constante de suspense e de agitação crescentes, com enorme variedade de apresentações. Os sorteios, anunciados desde o início do programa, são realizados ao final quando, em alguns segundos, alguém pode tornar-se um milionário. Envolve-se a audiência de tal forma e com tal ritmo que lhe é impossível raciocinar sobre o que vê e ouve. E não faltam os elogios e enaltecimentos a políticos e governantes.

O teatro teve papel importante na divulgação dos ideais da Revolução Francesa e na preparação da Revolução Russa. Os revolucionários bolchevistas, por exemplo, o empregavam para a apresentação de peças rápidas onde se criticavam a nobreza, a decadência do capitalismo e se enalteciam os operários, camponeses e o regime socialista. No Brasil o teatro tem-se desenvolvido bastante e é muito empregado como instrumento de crítica e contestação dos valores e costumes vigentes. Contudo, devido ao alto preço dos ingressos, a maioria das peças atinge apenas a uma pequena elite econômica e cultural. Dessa forma, pelo pequeno público a quem se dirige, perde grande parte do seu valor como meio de transmissão de idéias e de conscientização.
Os cartazes, ilustrados ou não, em cores ou em branco e preto, são bastante utilizados para afixação em muros e paredes visando transmitir algumas idéias fundamentais através de um impacto rápido. Além deles, inúmeros outros impressos se prestam a auxiliar na difusão de mensagens. Os “manifestos” explicam e defendem uma determinada posição perante certos fatos econômicos e políticos. Os “panfletos” divulgam fatos, notícias ou críticas a determinadas idéias e propostas. Os “volantes” servem para difundir nomes, frases, slogans, palavras de ordem e símbolos ou para anunciar e convocar reuniões e movimentos.

Distribuídos diretamente para os receptores ou lançados do alto de edifícios ou de aviões, são mais freqüentemente adotados por aqueles que, por se oporem aos detentores do poder e contestarem a ideologia dominante, não conseguem ter acesso à imprensa, rádio ou televisão. O livro, por suas próprias características, se destina a levar idéias apenas a um pequeno número de pessoas: aquelas que têm grau de instrução mais elevado.

As idéias nazistas na Alemanha tiveram no livro “Minha Luta”, de Adolf Hitler, um dos seus mais importantes instrumentos de divulgação. No Brasil, foi durante a ditadura de Getúlio Vargas que mais se produziram livros com o objetivo específico de apoiar a propaganda. Centenas de obras elogiosas ao regime e enaltecedoras da personalidade de Vargas foram escritas, em linguagem simples a acessível, para que fossem lidas pelo maior número possível de pessoas.

Além dos meios de comunicação propriamente ditos, a propaganda também se apóia em inúmeros outros suportes. Qualquer objeto ou espaço que possa ser visto por um razoável número de pessoas é aproveitado. As paredes são pichadas com frases, slogans e símbolos. As placas de inauguração e sinalização difundem realizações, prestigiam líderes políticos e homens públicos. As cédulas e moedas, os selos postais, contêm mensagens e efígies de homens públicos. Faixas e estandartes ostentam mensagens e símbolos. Estátuas e bustos concretizam o prestígio daqueles que devem ser considerados heróis. Alto-falantes auxiliam a ampliar o alcance dos discursos e declarações. Aviões escrevem mensagens de fumaça nos céus.

Há, ainda, uma outra forma de difusão de idéias que se caracteriza pelo anonimato: o rumor. A informação, geralmente falsa, circula de pessoa, podendo atingir grande parte de uma população. Como é muito difícil descobrir a fonte inicial da informação, o rumor constitui um instrumento muito útil para aqueles que, por qualquer razão, pretendem transmiti-la sem serem identificados.

Efeitos da Propaganda Ideológica

A propaganda ideológica permite disseminar, de forma persuasiva, para toda a sociedade, as idéias de determinado grupo. Depois de emitida através dos diversos meios e suportes de comunicação, elas passam a ser retransmitidas, direta ou indiretamente, no seio das diversas instituições sociais, ampliando e reforçando o processo de difusão. A ideologia, dessa forma, se espalha e impregna todas as camadas da sociedade. Na família, na escola ou no trabalho, em todas as partes e por todos os meios, todos passam a ser orientados para os mesmos fins e enquadrados dentro dos mesmos princípios.

Nas famílias, os pais, que sofrem o efeito persuasivo da propaganda, acabam transferindo para seus filhos as concepções e normas de conduta que lhes foram inculcadas. Acreditam, na maioria das vezes, que a experiência adquirida lhes dá condições de orientar seus filhos, de forma neutra e objetiva, para que julgam ser o “melhor caminho”. Impõem regras de respeito e obediência, indicam os cursos que devem realizar e as profissões que podem exercer. Dessa maneira, moldam seus filhos para que ingressem no contexto social da forma mais adequada à realização dos interesses da classe ideologicamente dominante. Em cada classe social as famílias produzem os novos membros que deverão entrar, disciplinadamente, no sistema econômico, político e cultural, reproduzindo o papel de seus antecessores. Criam os operários esforçados e submissos, os gerentes hábeis e obedientes, e, até mesmo, os novos privilegiados que deverão saber como manter e reforçar o poder e a dominação adquiridos por herança.

A escola, em princípio, tem o objetivo de orientar o desenvolvimento dos alunos, ao mesmo tempo que fornece as informações e fórmulas práticas que lhes permitirão integrar-se ao meio. Nesse processo, acabam por receber o conteúdo da ideologia aceita por seus professores ou imposta pelos administradores escolares. Aprendem as normas de disciplina que devem cumprir e os conhecimentos que os levarão a integrar-se na sociedade, observando os estritos limites definidos pela ideologia dominante. São condicionados a respeitar hierarquias e obedecer os superiores, aprendem qual é “o seu lugar” e o papel que devem exercer. Há, inclusive, as matérias e disciplinas criadas e programadas com o fito exclusivo de transmitir determinadas ideologias de forma direta. É o caso de cursos como os de “Educação Moral e Cívica” etc.

Nas igrejas e templos, também, os sacerdotes e pastores, além do seu escopo confessado, que é o de transmitir paz e conforto espiritual, ultrapassam os limites das idéias próprias à religião que professam. Defendendo os interesses e valores ideológicos vigentes na sociedade em que atuam, transformam-se em instrumento de sua divulgação. Durante séculos, a Igreja procurou induzir seus fiéis a permanecerem passivos perante os abusos e arbitrariedades em troca da felicidade a ser obtida no “reino dos céus”. Algumas vezes, inclusive, esse papel é previamente orientado pela pressão dos detentores do poder. Merecem ser lembrados os exemplos de Napoleão Bonaparte e Getúlio Vargas que, embora em épocas e países diferentes, utilizaram a mesma tática de impor aos sacerdotes a obrigação de, em suas pregações, afirmar que o “bom cristão” deveria observar as leis e obedecer às ordens e decisões do governo.

Esse processo de retransmissão da ideologia, difundida inicialmente pela propaganda, ocorre, da mesma forma, em todos os tipos de instituições, sejam elas religiosas, políticas ou mesmo culturais e recreativas. Nos partidos, sindicatos, empresas, clubes e associações, a todo momento se está defendendo e disseminando as idéias incutidas pela propaganda.

As conseqüências da difusão de uma ideologia e seu esforço em nível institucional são diversos em função da direção e do plano em que se realiza. Em primeiro lugar, há aquela realizada entre indivíduos e grupos de uma mesma classe social, onde emissores e receptores ocupam uma mesma posição no conjunto das relações econômicas. Nesse caso, as idéias de uns, refletindo suas condições, refletem, ao mesmo tempo, a realidade dos demais. A difusão dessas idéias permitirá que um maior número adquira consciência do espaço que ocupa na sociedade e das possibilidades de ampliação de seus limites. A propaganda adquire aí um papel de instrumento de conscientização, permitindo a cada um dos envolvidos compreender melhor o contexto que o cerce e orientar sua ação em sentido adequado ao sue próprio desenvolvimento. Além disso, a propaganda se transforma em instrumento de união da classe social em torno de metas comuns, permitindo que ela se torne mais organizada e que sua ações sejam mais coerentes. Impede-se que os indivíduos e grupos caminhem em sentido diversos, o que acabaria por obrigá-los a retornar ao ponto de partida e recomeçar o trabalho.

Assegurando, dessa maneira, a atuação coesa numa mesma direção, a propaganda propicia o fortalecimento da classe em questão, que passa a ter maiores possibilidades de se defender de eventuais ameaças e mesmo de ampliar os limites que restringem sua atuação. É através da propaganda, por exemplo, que os empresários conseguem difundir, entre si, uma mesma concepção da realidade econômica em que vivem, através da qual orientam sua ações e integram seis esforços para assegurar a realização dos interesses comuns. Entre operários, somente quando alguns deles conseguem compreender o sistema em que estão inseridos e propagam essa percepção aos demais é que surge maior união. Conscientes do fato de que ocupam posição idêntica no contexto social é que podem organizar-se e mobilizar-se na luta pela melhoria de sua situação. Só com essa consciência e organização é que adquirem força e condições para avançar e progredir econômica, política e culturalmente.

A situação assume outras características quando a propaganda se faz de uma classe social para outra. Pode ocorrer que o emissor apresente suas idéias sem pressão ou imposição. Simplesmente expõe suas convicções e argumentos a té mesmo confessa que se referem a seus próprios interesses, deixando aos demais a liberdade de aderir ou não. Estes, analisando as propostas, têm condições de avaliar até que ponto partilham os mesmos interesses, podendo apoiar ou sugerir outras alternativas. Essa seria a forma normal de transmissão de ideologias dentro de uma sociedade ideal, pluralista e democrática. Todavia, à medida que um dos lados tem possibilidade de exercer o controle absoluto das vias de acesso à realidade, acaba por impor seus objetivos aos demais. As pessoas, a maior parte delas, passam a viver, como sua, uma realidade que lhes é estranha e a lutar pela realização de interesses que se opões aos seus. Inconscientemente, trabalham e se esforçam em benefício de um capital que as explora e propiciam um desenvolvimento que se realiza às expensas de sua miséria. Convencidos de assumir uma personalidade que lhes é imposta e acreditando que essa é a maneira de participar e desenvolver-se, sofrem e se frustam quando não obtêm qualquer recompensa que tenha alguma significação. São membros das classes médias, envolvidos pela ânsia de possuir e consumir bens que não lhes dão a satisfação e bem-estar prometidos. Estudantes, que após anos de esforço, quando logram obter uma colocação, utilizam seus conhecimentos e habilidades na realização dos objetivos de uma minoria que nem sempre conseguem identificar. Agricultores e colonos que ajudam a produzir milhares de toneladas de alimentos, mas não conseguem escapar da ignorância e da miséria. Operários que jamais conseguem adquirir um único, dentre os milhares de objetos que produzem diariamente. Envolvidos, assim, em um modo de vida vazio de sentido, procuram refugir-se em distrações momentâneas e fugazes que conduzem a uma alienação ainda maior. E a propaganda impinge futebol e carnavais que passam a ser algumas das poucas compensações para um longo e estafante período de trabalho.

O controle ideológico, estabelecendo os limites do que pode ou não ser divulgado e reprimindo toda manifestação contrária aos valores vigentes, acaba por gerar um conservantismo obscurantista que atinge a sociedade em todos os seus aspectos. Todos passam a viver em função de um mesmo conjunto de idéias que ficam congeladas e emperram o progresso cultural. Impede-se a evolução da ciência, o desenvolvimento de novas técnicas e o aprimoramento das formas de expressão artística. Intelectuais e artistas são reprimidos e amordaçados. E essas é uma das principais razões pelas quais, em diversas áreas do conhecimento, nós nos encontramos com anos de atraso em relação a outras culturas.

Mas essa situação, se pode ser mantida e reproduzida por longo tempo, não é eterna. No afã de aumentar sua riqueza e acumular mais capital, a classe economicamente dominante precisa ampliar e desenvolver seus negócios. Para tanto, depende de mais apoio e colaboração das subalternas. Em troca, se vê obrigada a ceder e fazer concessões. Os setores dominados, pela própria exigência do desenvolvimento econômico e político, também se desenvolvem e se tornam menos sugestionáveis e vacinados contra certas formas de mistificação. Gradativamente, a manipulação ideológica precisa sofisticar-se, sob pena de perder a eficácia. Cada vez se acredita menos em propostas triunfalistas e promessas demogógicas. Começa-se a exigir maior participação real e efetiva. Embora com um ou outro retrocesso, os esquemas de controle e persuasão vêm perdendo sua força e eficiência e tendem a desmoronar mais cedo ou mais tarde. O futuro deverá trazer formas mais democráticas na transmissão das ideologias.

Por Nélson Jahr Garcia

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/propaganda-ideologia-e-manipulacao/

Os Pobres Cavaleiros de Cristo

No início de 1100, Hugo de Paynes e mais oito cavaleiros franceses, movidos pelo espírito de aventura tão comum aos nobres que buscavam nas Cruzadas, nos combates aos “infiéis” muçulmanos a glória dos atos de bravura e consagração, viajaram à Palestina. Eram os Soldados do Cristianismo, disputando a golpes de espada as relíquias sagradas que os fanáticos retinham e profanavam. Balduíno II reinava em Jerusalém, os acolheu, e lhes destinou um velho palácio junto ao planalto do Monte Moriah, onde as ruínas compostas de blocos de mármore e de granito, indicavam as ruínas de um Grande Templo.

Seriam as ruínas do GRANDE TEMPLO DE SALOMÃO, o mais famoso santuário do XI século antes de Cristo em que o gênio artístico dos fenícios se revelava. Destruído pelos caldeus, reconstruído por Zorobabel e ampliado por Herodes em 18 antes de Cristo. Arrasado novamente pelas legiões romanas chefiadas por Tito, na tomada de Jerusalém. Foi neste Templo que se originou a tragédia de Hiran?, cuja lenda a Maçonaria incorporou. Exteriormente, antes da destruição pelos romanos no ano 70 de nossa era, o Templo era circundado por dois extensos corredores excêntricos, ocupando um gigantesco quadrilátero em direção ao Nascente, a esquerda ficava o átrio dos Gentios e à direita o dos Israelitas, além das estâncias reservadas às mulheres, e aos magos sacerdotes, a que se seguia o Santuário propriamente dito, tendo ao centro o Altar dos Holocaustos.

Os “Pobres Cavaleiros de Cristo” atraídos pela inspiração divina e sensação do mistério que pairava sobre estas ruínas, passaram a explora-las, não tardou para que descobrissem a entrada secreta que conduzia ao labirinto subterrâneo só conhecido pelos iniciados nos mistérios da Cabala. Entraram numa extensa galeria que os conduziu até junto de uma porta chapeada de ouro por detrás da qual poderia estar o que durante dois milênios se constituíra no maior Segredo da Humanidade. Uma inscrição em caracteres hebraicos prevenia os profanos contra os impulsos da ousadia: SE É A MERA CURIOSIDADE QUE AQUI TE CONDUZ, DESISTE E VOLTA; SE PERSISTIRES EM CONHECER O MISTÉRIO DA EXISTÊNCIA, FAZ O TEU TESTAMENTO E DESPEDE-TE DO MUNDO DOS VIVOS.

Os “infiéis do Crescente” eram seres vivos e contra eles, Os Templários, com a cruz e a espada realizavam prodígios de valentia. Ali dentro, porém, não era a vida que palpitava, e sim os aspectos da Morte, talvez deuses sanguinários ou potestades desconhecidos contra as quais a força humana era impotente, isto os fez estremecer. Hugo de Paynes, afoito, bateu com o punho da espada na porta e bradou em alta voz: – EM NOME DE CRISTO, ABRI!! E o eco das suas palavras se fez ouvir: EM NOME DE CRISTO…enquanto a enorme porta começou abrir, ninguém a estava abrindo, era como se um ser invisível a estivesse movendo e se escancarou aos olhos vidrados dos cavaleiros um gigantesco recinto ornado de estranhas figuras, umas delicadas e outras, aos seus olhos monstruosas, tendo ao Nascente um grande trono recamado de sedas e por cima um triângulo equilátero em cujo centro em letras hebraicas marcadas a fogo se lia o TETRAGRAMA YOD.

Junto aos degraus do trono e sobre um altar de alabastro, estava a “LEI” cuja cópia, séculos mais tarde, um Cavaleiro Templário em Portugal, devia revelar à hora da morte, no momento preciso em que na Borgonha e na Toscana se descobriam os cofres contendo os documentos secretos que “comprovavam” a heresia dos Templários. A “Lei Sagrada” era a verdade de Jahveh transmitida ao patriarca Abraão. A par da Verdade divina vinha depois a revelação Teosófica e Teogâmica a KABBALAH.

Extasiados diante da majestade severa dos símbolos, os nove cavaleiros, futuros Templários, ajoelharam e elevaram os olhos ao alto. Na sua frente, o grande Triângulo, tendo ao centro a inicial do princípio gerador, espírito animador de todas as coisas e símbolo da regeneração humana, parece convidá-los à reflexão sobre o significado profundo que irradia dos seus ângulos. Ele é o emblema da Força Criadora e da Matéria Cósmica. É a Tríade que representa a Alma Solar, a Alma do Mundo e a Vida. é a Unidade Perfeita. Um raio de Luz intensa ilumina então àqueles espíritos obscecados pela idéia da luta, devotados à supressão da vida de seres humanos que não comungassem com os mesmos princípios religiosos que os levou à Terra Santa. Ali estão representadas as Trinta e Duas Vidas da Sabedoria que a Kabbalah exprime em fórmulas herméticas, e que a Sepher Jetzira propõe ao entendimento humano. Simbolizando o Absoluto, o Triângulo representa o Infinito, Corpo, Alma, e Espírito. Fogo Luz e Vida. Uma nova concepção que pouco a pouco dilui e destrói a teoria exclusivista da discriminação das divindades se apossa daqueles espíritos até então mergulhados em ódios e rancores religiosos e os conclama à Tolerância, ao Amor e a Fratenidade entre todos os seres humanos.

A Teosofia da Kabbalah exposta sobre o Altar de alabastro onde os iniciados prestavam juramento dá aos Pobres Cavaleiros de Cristo a chave interpretativa das figuras que adornam as paredes do Templo. Na mudez estática daqueles símbolos há uma alma que palpita e convida ao recolhimento. Abalados na sua crença de um Deus feroz e sanguinário, os futuros Templários entreolham-se e perguntam-se: SE TODOS OS SERES HUMANOS PROVÊM DE DEUS QUE OS FEZ À SUA IMAGEM E SEMELHANÇA, COMO COMPREENDER QUE OS HOMENS SE MATEM MUTUAMENTE EM NOME DE VÁRIOS DEUSES? COM QUEM ESTÁ A VERDADE? Entre as figuras, uma em especial chamara a atenção de Hugo de Paynes e de seus oito companheiros. Na testa ampla, um facho luminoso parecia irradiar inteligência; e no peito uma cruz sangrando acariciava no cruzamento dos braços uma Rosa. A cruz era o símbolo da imortalidade; a rosa o símbolo do princípio feminino. A reunião dos dois símbolos era a idéia da Criação. E foi essa figura monstruosa, e atraente que os nove cavaleiros elegeram para emblema de suas futuras cruzadas. Quando em 1128 se apresentou ante o Concílio de Troyes, Hugo de Paynes, primeiro Grão-Mestre da Ordem dos Cavaleiros do Templo, já a concepção dos Templários acerca da idéia de Deus não era muito católica.

A divisa inscrita no estandarte negro da Ordem “Non nobis, Domine, sed nomini tuo ad Gloria” não era uma sujeição à Igreja mas uma referência a inicial que no centro do Triângulo simbolizava a unidade perfeita: YOD. Cavaleiros francos, normandos, germânicos, portugueses e italianos acudiram a engrossar as fileiras da Ordem que dentro em pouco se convertia na mais poderosa Ordem do século XII. Mas a Ordem tornara-se tão opulenta de riquezas, tão influente nos domínios da cristandade que o Rei de França Felipe o Belo decretou ao Papa para expedir uma Bula confiscando todas suas riquezas e enviar seus Cavaleiros para as “Santas” fogueiras da Inquisição. Felipe estava atento. E não o preocupava as interpretações heréticas, o gnosticismo. Não foram portanto, a mistagogia que geraram a cólera do Rei de França e deram causa ao monstruoso processo contra os Templários.

Foi a rapacidade de um monarca falido para quem a religião era um meio e a riqueza um fim. Malograda a posse da Palestina pelos Cruzados, pelo retraimento da Europa Cristã e pela supremacia dos turcos muçulmanos, os Templários regressam ao Ocidente aureolados pela glória obtidas nas batalhas de Ascalão, Tiberíade e Mansorah. Essas batalhas, se não consolidaram o domínio dos Cristãos na Terra Santa, provocaram, contudo, a admiração das aguerridas hostes do Islam (muçulmanos), influindo sobre a moral dos Mouros que ocupavam parte da Espanha. Iniciam entre os Templários o culto de um gnosticismo eclético que admite e harmoniza os princípios de várias religiões, conciliando o politeísmo em sua essência com os mistérios mais profundos do cristianismo. São instituídas regras iniciáticas que se estendem por sete graus, que vieram a ser adotados pela Franco Maçonaria Universal (três elementares, três filosóficos e um cabalístico), denominados “Adepto”, “Companheiro”, “Mestre Perfeito”, “Cavaleiro da Cruz”, “Intendente da Caverna Sagrada”, “Cavaleiro do Oriente”e “Grande Pontífice da Montanha Sagrada”.

A Caverna Sagrada era o lugar Santo onde se reuniam os cavaleiros iniciados. Tinha a forma de um quadrilátero (quadrado) perfeito. O ORIENTE representava a Primavera, o Ar, Infância e a Madrugada.O MEIO DIA (Sul), o Estio, o Fogo e a Idade adulta. O OCIDENTE, o Outono, a Água, o Anoitecer. O NORTE, a Terra, o Inverno, a Noite. Eram as quatro fases da existência. O Fogo no MEIO DIA simbolizava a verdadeira iniciação, a regeneração, a renovação, a chama que consumia todas as misérias humanas e das cinzas, purificadas, retirava uma nova matéria isenta de impurezas e imperfeições. No ORIENTE, o Ar da Madrugada vivificando a nova matéria, dava-lhe o clima da Primavera em que a Natureza desabrochava em florações luxuriantes, magníficas acariciando a Infância. Vinha depois o OUTONO, o Anoitecer, o amortecer da vida, a que a Água no OCIDENTE alimentava os últimos vestígios desta existência. O NORTE, marca o ocaso da Vida. A Terra varrida pelas tempestades e cobertas pela neve que desolam e que matam, é o Inverno que imobiliza, que entorpece e que conduz à Noite caliginosa e fria a que não resiste a debilidade física, a que sucumbe a fragilidade humana.

E é no contraste entre o Norte e o Meio Dia que os Templários baseiam o seu esoterismo, alertando os iniciados da existência de uma segunda vida. Nada se perde: Tudo se Transforma. …Vai ser iniciado um “Cavaleiro da Cruz”. O Grande Pontífice da Montanha Sagrada empunha a Espada da Sabedoria, e toma lugar no Oriente. Ao centro do Templo, um pedestal que se eleva por três degraus, está a grande estátua de Baphomet, símbolo da reunião de todas as forças e de todos os princípios (Masculino e Feminino, A Luz e as Trevas, etc…) como no Livro da Criação, a Sepher-Jetzira Livro mor da Cabala. No peito amplo da estranha e colossal figura, a Cruz, sangrando,imprime à Rosa Branca um róseo alaranjado que pouco a poco toma a cor de sangue. É a vida que brota da união dos princípios opostos.

Por cima da Cruz, a letra “G”. O iniciado, Mestre Perfeito, já conhece muito bem o significado dessa letra que na mudez relativa desafia a que a interpretação na sua nova posição, junto ao Tríplice Falus, na sua junção com a Rosa-Cruz mística. “A Catequese Cristã é apenas, como o leite materno, uma primeira alimentação da Alma; o sólido banquete é a Contemplação dos Iniciados, carne e sangue do Verbo, a compreensão do Poder e da Quintessência divina.” “O Gnóstico é a Verdadeira Iniciação; e a Gnose é a firme compreensão da Verdade Universal que, por meio de razões invariáveis nos leva ao conecimento da Causa…” “Não é a Fé, mas sim a Fé unida as Ciências, a que sabe discernir a verdadeira da falsa doutrina. Fiéis são os que apenas literalmente crêem nas escrituras. Gnósticos, são os que, profundando-les o sentido interior, conhecem a verdade inteira.” “Só o Gnóstico é por essência, piedoso.” “O homem não adquire a verdadeira sabedoria senão quando escuta os conselhos duma voz profética que lhe revela a maneira porqur foi, é, e será tudo quanto existe.” O Gnosticismo dos Templários é uma nova mística que ilumina os Evangelhos e os interpreta à Luz da Razão Humana.

* * * …O Mestre Perfeito entra de olhos vendados, até chegar ao pedestal de Baphomet. Ajoelha e faz sua prece: “Grande Arquiteto do Universo Infinito, que lês em nossos corações, que conheces os nossos pensamentos mais íntimos, que nos dá o livre arbítrio para que escolhamos entre a estrada da Luz e das Trevas.” “Recebe a minha prece e ilumina a minha alma para que não caia no erro, para que não desagrade à vossa soberana vontade” “Guiai-me pelo caminho da Virtude e fazei de mim um ser útil à Humanidade”. Acabada a prece, o candidato levanta-se e aguarda as provas rituais que hão de conduzí-lo a meta da Verdade. …O GRANDE PONTÍFICE TEMPLÁRIO interroga o candidato a “Cavaleiro da Cruz”em tom afetivo e paternal: “Meu Irmão, a nossa Ordem nasceu e cresceu para corrigir toda espécie de imperfeição humana”. “A nossa consciência é que é o juiz das nossas ações. A ignorância é o verdadeiro pecado. O inferno é uma hipótese, o céu uma esperança”. “Chegou o momento de trocarmos as arma homicidas pelos instrumentos da Paz entre os Homens.

A missão do Cavaleiro da Cruz é amar ao próximo como a si mesmo. As guerras de religião são monstruosidades causadas pela ignorância, geradas pelo fanatismo. As energias ativas devemos orientá-las no sentido do Amor e da Beleza; mas não se edifica uma obra de linhas esbeltas sem um sentimento estético apolíneo que só se adquire pelo estudo que conduz ao aperfeiçoamento moral e espiritual”. “O homem precisa Crer em algo. Os primitivos cultuavam os Manes. Os Manes eram as almas humanas desprendidas pela morte da matéria e que continuavam em uma nova vida”. “Onde iriam os primitivos beber a idéia da alma? Repondei-me, se sois um Mestre Perfeito Templário”. “- Nos fenômenos psíquicos que propiciam aparições, nas ilações tiradas dos sonhos, e na percepção”. “-Acreditais que os mortos se podem manifestar aos vivos?” “- Sim. Acredito que a Alma liberta do invólucro físico sobe a um plano superior, se sublima, e volve ao mundo para rever os que lhe são simpáticos, segundo a lei das afinidades”. “- Acreditais na ressurreição física de Cristo?” “- Não.” “- Acreditais na Metempsicose (Lei de Transmigração das Almas)?” “- Sim. A semelhança das ações, dos sentimentos, dos gestos e das atitudes que podemos observar em determinados seres não resultam apenas da educação mas da transmigração das almas. Essa transmigração não se opera em razão hereditária”. “- Acreditai que a morte legal absolve o assassino? Que o Soldado não é responsável pelo sangue que derrama”? “- Não acredito”. ” – Atentai agora nas palavras do Cavaleiro do Ocidente que vos dirá os sentidos que imprimimos no ao Grau de Cavaleiro da Cruz”. “A Ordem do Templo criou uma doutrina e adquiriu uma noção da moral humana que nem sempre se harmoniza com as concepções teológicas cristãs apresentadas como verdades indiscutíveis.

Por isso nos encontramos aqui, em caráter secreto, para nos concentrarmos nos estudos transcendentes por meio do qual chegaremos à Verdadeira Harmonia.” “As boas obras dependem das boas inclinações da vontade que nos pode conduzir à realização das boas ações. A intuição é que leva os homens a empreender as boas ações. Quando o Grande Pontífice vos falou do culto dos primitivos, ele definiu a existência de uma intuição comum a todos os seres humanos.” “Assim como por detrás das crenças dos Atlantes havia a intuição que indicava a existência de um Ser Supremo, o Grande Arquiteto responsável pela construção do Universo, também existia nesses povos um sentimento inato do Bem e do Belo, e um instinto de justiça que era a base de sua Moral.” “A Ciência nos deu meios de podermos aperfeiçoar a Moral dos antigos, mas a inteligência nos diz que além da Ciência existe a Harmonia Divina”. “Das ações humanas, segundo Platão, deverá o homem passar à Sabedoria para lhe contemplar a Beleza; e, lançado nesse oceano,procriará com uma inesgotável fecundidade as melhores idéias filosóficas, até que forte e firme seu espírito, por esta sublime contemplação, não percebe mais do que uma ciência: a do Belo”. Estavam findas as provas de iniciação.

O iniciado dirigia-se então para o Altar dos Holocaustos, onde o Sacrificador lhe imprime a Fogo, sobre o coração, o emblema dos Cavaleiro do Templo. …Foi nessa intervenção indébita de Roma que influiu poderosamente para que a “Divina Comédia” de Dante Alighieri fosse o que realmente é – uma alegoria metafísico-esotérica onde se retratam as provas iniciáticas dos Templários em relação à imortalidade. Na DIVINA COMÉDIA cada Céu representa um Grau de iniciação Templário. Em contraste com o Inferno, que significa o mundo profano, o verdadeiro Purgatório onde devem lapidar-se as imperfeições humanas, vem o Último Céu a que só ascendem os espíritos não maculados pela maldade, isentos de paixões mesquinhas, dedicados à obra do Amor, da Beleza e da Bondade. É lá o zênite da Inteligência e do Amor. A doutrína Iniciática da Ordem do Templo compreende a síntese de todas as tradições iniciáticas, gnósticas, pitagóricas, árabes, hindus, cabires, onde perpassam, numa visão Cosmorâmica todos os símbolos dos Grandes e Pequenos mistérios e das Ciências Herméticas: A Cruz e a Rosa, o Ovo e a Águia, as Artes e as Ciências, sobretudo a Cruz, que para os Templários, assim como para os Maçons seus verdadeiros sucessores, era o símbolo da redenção humana. Dante Alighieri e sua Grande Obra: A Divina Comédia, foi o cronista literário da Ordem dos Cavaleiros do Templo. Os Templários receberam da Ordem do Santo Graal o esquema iniciático e a base esotérica que serviu de base para seu sistema gnóstico.

Pois o que era a Cavalaria Oculta de Santo Graal senão um sistema legitimamente Maçônico ainda mal definido, mas já adaptado aos princípios da Universalização da Fraternidade Humana? O Santo Graal significava a taça de que serviu Jesus Cristo na ceia com os discípulos, e na qual José de Arimathéa teria aparado o sangue que jorrava da ferida de Cristo produzida pela lança do centurião romano. Era a Taça Sagrada que figurava em todas as cerimônias iniciáticas das antigas Ordens de Cavaleiros que possuiam graus e símbolos misteriosos, e que a Maçonaria moderna incorporou em seus ritos, por ser fatal aos perjuros.

Os Templários adotavam-na na iniciação dos Adeptos e dos Cavaleiros do Oriente, mas ela já aparece nas lendas do Rei Arthur, nos romances dos Cavaleiros da Távola Redonda, que eram de origem céltica, e que a própria Igreja Católica a introduziu no ritual do cálice que serve no sacrifício da missa. No Grau de Cavaleiro do Oriente,os Templários figuram um herói: Titurel, Cavaleiro da Távola Redonda, que desejando construir um Templo onde depositar o Cálice Sagrado, engcarregara da construção o profeta Merlin, que idealizou um labirintocomposto de doze salas ligadas por um sistema de corredores que se cruzavam e recruzavam, como no labirinto de Creta onde o Rei Minos escondia o Minotauro(Mit.Grega).

O Postulante Templário tinha de entrar em todas as salas, uma só vez, para receber a palavra de passe, e só no fim dessa viagem podia ascender ao grau que buscava. Mas se em Creta, Theseu tivera o fio de ouro de Ariadne, para chegar ao Minotauro, no Templo dos Cavaleiros do Oriente, o candidato apenas podia se orientar por uma chave criptográfica composta de oitenta e uma combinações (9×9) o que demandava muito esforço de raciocínio e profundos conhecimentos em matemática. A Ciência dos Números tinha para os Templários um significado profundo.

Os Grandes Iniciados, comos os Filósofos do Oriente, descobriram os mais íntimos segredos da natureza por meio dos números, que consideravam agradáveis aos Deuses. Mas tinha grande aversão aos números pares. O Grande Alquimista Paracelso dizia que os números continham a razão de todas as coisas. Eles estavam na voz, na Alma, na razão, nas proporções e nas coisas divinas. A Ordem dos Cavaleiros do Templo, cultuava a Ciência dos Números no Grau de Cavaleiro do Oriente, ensinando que a Filosofia Hermética contava com TRÊS mundos: o elementar, o celeste e o intelectual. Que no Universo havia o espaço, a matéria e o movimento. Que a medida do tempo era o passado, o presente e o futuro; e que a natureza dispunha de três reinos: animal, vegetal e mineral; que o homem dispunha de três poderes harmônicos: o gênio, a memória e a vontade. Que o Universo operava sobre a eternidade e a imensidade movida pela onipotência. A sua concepção em relação à Deus, o Grande Arquiteto do Universo, era Sabedoria, Força e Beleza.

A Maçonaria criou uma expressão própria para os Altos Graus: Sabedoria, Estabilidade e Poder. Tudo isto provinha do Santo Graal, a que os Templários juntavam que, em política, a grandeza e a duração e a prosperidade das nações se baseavam em três pontos primordiais: Justiça dos Governos, Sabedoria das Leis e Pureza dos Costumes. Era nisso que consistia a arte de governar os povos. As oitenta e uma combinações que levavam o candidato ao Templo de Cavaleiro do Oriente tinha por base o sagrado numero Três, sagrado em todas as corporações de caráter iniciático.

O Triângulo encontrado no Templo de Salomão era uma figura geométrica constituída pela junção de Três linhas e a letra YOD no centro significava a sua origem divina. Todas as grandes religiões também têm como número sagrado o Três. A Católica, exprimindo-o nas pessoas da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo) nos dias que Cristo passou no sepulcro, nos Reis Magos, e nas vezes que São Pedro negou o mestre. Nos Grandes Mistérios Egípcios, temos a Grande Trindade formada por Ísis, Osíris e Hórus. Entre os Hindus temos a Trimurti, constituída de Brahama, Shiva e Vishnu personificando a Criação, a Conservação e a Destruição. Em todas elas, como no racionalismo, nós encontramos como elementos vitais a Terra, a Água e o Sol.

Foi, portanto, baseada nas grandes Religiões e no Gnosticismo dos Templários, que por sua vez se inspirou no da Cavalaria Oculta do Santo Graal, que a Maçonaria adotou como símbolo numerológico de vários graus o número três, que se vai se multiplicando na vida maçônica dos iniciados até a conquista da Sabedoria, da Força e da Beleza. …Os Graus na Ordem do Templo eram Sete, como o é na Maçonaria Moderna Universal. Este número era também, junto com o Três, estremamente sagrado para os antigos. Era considerado o Número dos Números. Ele representava os Sete Gênios que assistiam o Grande Mitra, Deus dos Persas, e figurava igualmente os Sete pilotos de Osíris. Os Egípcios o consideravam o símbolo da Vida. Haviam Sete Planetas e são Sete as fases da Lua. Sete foram os casais encerrados na arca de Noé, que parou sete meses depois do dilúvio, e a pomba enviada por Noé só recolheu depois de sete dias de ausência. Foram sete as pragas que assolaram o Egito e o povo hebraico chorou sete sias a morte de Jacob, a quem Esaú saudara por sete vezes. A Igrja Católica reconhece Sete pecados capitais e instituiu os sete sacramentos. Para os muçulmanos existem sete céus. Deus descansou ao sétimo dia da criação. Sete eram as Ciências que os Templários transmitiam nos sete graus iniciáticos: A Gramática, a Retórica, a Lógica, a Aritmética, a Geometria , a Música e a Astronomia. Sete eram também os Sabios da Grécia. Apollo nasceu no dia sete do mes sete e sete era seu número sagrado. … Harmonizando todas as Doutrinas, os Templários fugiam ao sentido fúnebre e superficial do catolicismo para se refugiarem em outros mistérios que entoavam Hinos à Vida.

O argumento para a iniciação dos Intendentes da Caverna Sagrada foram buscá-lo à velha Frígia , Grécia, aos Mistérios dos Sabázios. Para os Gregos, Demeter (ou Ceres para os romanos) deu à luz a Perséfone, a quem Zeus (ou Júpiter) viola, e para isso se transforma em serpente. O Deus, atravessando o seio é a fórmula usada nos mistérios dos Sabázios: assim se chama a serpente que escorrega entre os vestígios dos iniciádos como para lembrar a impudicícia de Zeus. Perséfone dá a Luz a um filho com face de touro. O culto dos Sabázios que servia de tema às iniciações Templárias de Quinto Grau, impressionara o gênio grego mas era um intruso em sua religião, e contra ele se levantaram Aristóphanes e Plutarco. Era um Culto Orgíaco, mas não era disso que se queixavam os gregos, que também tinham o culto de Cybele e arvoravam em divindades as suas formosas hetairas (prostitutas sagradas do Templo) como o demonstra no túmulo da hetaira Tryphera: “Aqui jaz o corpo delicado de Tryphera, pequena borboleta, flor das voluptuosas hetairas, que brilhava no santuário de Cybele, e nas suas festas ruidosas, suas falas e gestos eram cheios de encantos” A iniciação dos Intendentes da Caverna Sagrada realizava-se no mês de Maio, o mês das flores, com o Templo dedicado à natureza, porque o Quinto Grau de Iniciação Templária era um hino à renovação periódica da vida, dentro do Princípio Alquímico que admitia a Transmutação das substâncias e a renovação das células por um sistema circular periódico, vivificante, em que tudo volta ao ponto de partida, OUROBOROS.

O Grande Pontífice da Montanha Sagrada encarnava o papel do Sabázio, o Deus Frígio que figurava as forças da natureza e as movia no sentido da renovação e da regeneração humana. A seus pés, de aspecto ameaçador estava a Serpente Sagrada, símbolo da regeneração e renovação pela mudança periódica de pele. À esquerda, coroada de flores e folhas verdes, cabelos soltos saindo de um emblema de estrelas, tendo ao peito nu, uma trança de papoulas, símbolo da fecundidade, nas orelhas brincos de três rubis e no braço esquerdo arqueado, o crivo místico das festividades de Elêusis, que três serpentes aladas acariciavam, a Grande Estátua de Deméter, personificação da Terra, e das forças produtoras da natureza. À direita, envergando uma cumprida túnica, severa e majestosa, Hera(ou Juno) a imponente Deusa do Olimpo, Esposa de Zeus, estende aos postulantes a taça do vinho celeste que contém em si o espírito da força indomável do sado com a reflexão e com a temperança. As provas, neste Grau, dirigiam-se no sentido da imortalidade da alma, e também no rejuvenescimento físico. Deméter estendia a sua graça sobre o gênero humano para que os iniciados compreendessem que as forças da natureza reuniam a própria essência da Divindade.

Eram elas que impulsionavam a vida, que renovavam as substâncias nos ciclos mais críticos e que podiam levar o homem à Imortalidade. Hera velava do Olimpo e Sabázio conduzia o fogo sagrado. Apenas os profundamente convictos, isentos de dúvidas e fortes em sua crença de que acima da natureza só existia a própria natureza evoluída é que recebiam a consagração da investidura do Grau. “A natureza mortal procura o quanto pode para se tornar imortal. Não há, porém, outro processo senão o do renascimento que substitui um novo indivíduo a um indivíduo acabado.” “Com efeito, apesar de dizer do homem que vive do nascimento até a morte, e que é o mesmo durante a vida , a verdade é que não o é, nem se conserva no mesmo estado, nem o compõe a mesma matéria.” “Morre e nasce sem cessar, nos cabelos, na carne, nos ossos, no sangue, numa palavra: em todo seu corpo e ainda em sua alma.” “Hábitos, opiniões, costumes, desejos, prazeres, jamais se conservam os mesmos. Nascem e morrem continuamente.” “Assim se conservam os seres mortais. Não são constantemente os mesmos, comos os seres divinos e imortais. E aquele que acaba, deixa em seu lugar um outro semelhante.” “Todos os mortais participam da imortalidade, no corpo e em tudo o mais.

Por Paulo Benelli

#Maçonaria #Templários

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/os-pobres-cavaleiros-de-cristo

Preparem seus Filhos para a Vida

Pais são criaturas esquisitas. A maioria é completamente despreparada pra cuidar de um filho. Não estou falando de prover educação, sustento, carinho, mas da parte metafísica mesmo, que é a formação de um ser humano, que vai atuar (e mudar) o mundo no qual vivemos. É um ser humano, com suas nuances psicológicas e muitas vezes uma maturidade que supera (dada as devidas proporções) até mesmo a dos próprios pais!

E como eles lidam isso? Minha experiência têm mostrado dois tipos de pais: Os “superatenciosos” – que ficam escrutinando cada passo dos filhos, botando rédeas, proibindo, criando regras – e os que “não estão nem aí”. Geralmente os superatenciosos (e isso não é um elogio) tiveram uma educação rígida, típica das famílias dos anos 30 ou 50, e não perceberam que o mundo mudou “um pouquinho” nos últimos 50, 70 anos… Tentam segurar os filhos junto a eles pelo simples fato de serem pais (ou seja, não tentam CATIVAR o filho) e invadem arbitrariamente o mundo deles pra extrair informações (ao invés de PARTICIPAR do mundo dos filhos). Quanto mais tendem a apertar o filho, mais ele vai escapar entre os dedos, como areia. E a tendência é que em casa o pai tenha um filho, e na rua outro totalmente diferente. Essa falta de contato com o VERDADEIRO filho pode levar a desagradáveis surpresas, como ter de buscar o rebento na delegacia, ou descobrir que ele está a quilômetros de distância de onde ele tinha dito que ia…

O oposto disso são os pais que não estão nem aí. Geralmente vieram da geração “anos 70”, porralouca, que brigaram no passado com os pais retrógrados e agora se vêem na situação deles… Muitos nem queriam ter filhos, mas aconteceu, e aí? O jeito é criar, e de preferência do jeito que eu gostaria de ter sido criado… Como eles foram muito pressionados, isso significa dar uma total liberdade de criação. Dependendo das companhias que o filho tenha, isso pode resultar na mesma surpresa dos pais superatenciosos: de ter de pegar o filho na delegacia, ou mesmo no IML…

Nos dois casos de pais temos uma tendência em comum: superproteção. No primeiro caso, a superproteção é para que o filho tenha os valores familiares que ELES tiveram (não importando se o Muro de Berlim caiu, ou se o Homem foi ao espaço), como voltar pra casa cedo, trazer o namorado pra almoçar no domingo, etc, ou para que os filhos sofram as mesmas pressões que eles sofreram dos seus pais (ou seja, repetem o esteriótipo do pai durão, da sogra chata, etc). Vão assim propagando a Matrix, de forma que eles nem mais sabem de onde surgiram tais comportamentos (transformados que são em dogmas).

No caso dos pais “nem aí”, a superproteção revela-se mais como uma fuga das responsabilidades, ou seja: “eu te dou tudo o que você quiser, só não me perturbe”. Mimam os filhos com os melhores brinquedinhos que a tecnologia pode comprar, criando assim “marias-mole”, pessoas despreparadas para os desafios da vida. É tenebroso sair na rua e ver pessoas que não conseguem andar um quarteirão sem que seja de carro!! Gastam fortuna em academias, batem perna nos shoppings, mas não conseguem andar na rua! São mentalmente incapacitados para encarar situações adversas, porque elas SEMPRE tiveram o que queriam, quando queriam! Será que os pais não pensam nisso?

Um aviso a quem tenha se aventurado por estas linhas e tenha (ou venha a ter) filhos: Se inspirem na personagem de Sarah O’Connor, do filme O Exterminador do Futuro II, e criem seus filhos como combatentes. Não com armas, mas com INFORMAÇÃO. O futuro é negro, quem conhece a história sabe que a aparente calmaria antecede a tempestade, e as nuvens que estão se delineando apontam para um futuro de transição, no qual não teremos as mordomias às quais estamos nos acostumando, e onde será preciso CRIATIVIDADE para criar as novas ferramentas e superar os obstáculos. Nossas vidas são atualmente baseadas no silício e no petróleo. Todas as tentativas de sair desse modelo são suprimidas ou desmotivada$. Iraque e Afeganistão foram só o começo. Quanto mais o preço do barril subir, mais acirrada irá ficar a disputa… e, num mundo globalizado, com certeza sofreremos as consequências do nosso despreparo.

#Filosofia

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/preparem-seus-filhos-para-a-vida

A Corrupção da Magia – parte II

Continuando a segunda e última parte deste manifesto sobre a magia Moderna; semana que vem seguiremos com a programação normal.

Neste final de Semana, enquanto preparava o post da semana que vem, li a notícia de que uma falsa-vidente-picareta roubou 55 mil de um infeliz em Santa Catarina. Quando não são os religiosos, ateus, céticos e pesudo-céticos espinafrando e atacando o ocultismo, são os esquisotéricos, charlatões, Juscelinos da Luz e estelionatários queimando o filme… depois perguntam por quê os verdadeiros conhecimentos herméticos permanecem ocultos…

A Sexta Razão

A Destruição da Sucessão de Mestre e Discípulo

A sexta maior razão para o deplorável estado da magia moderna é a destruição de uma linha de sucessão entre o guru e chela, mestre e discípulo. Quanto mais pessoas lançaram vários livros contendo os Pequenos Mistérios, mais pessoas começaram a, lentamente, substituir o mestre pela estante. Eles colocam em suas cabeças que, desde que consigam ler muito, nunca precisarão de um professor. Não é preciso dizer que essa abordagem raramente encontra sucesso. Por razões que já foram clarificadas, a vasta maioria dos livros de hoje é quase inteiramente inútil para alguém que esteja procurando por um meio prático e eficiente de autoavanço. Seu conhecimento pode crescer, mas sua alma normalmente não.

Uma razão para essa substituição, que deveria agora ser óbvia ao leitor, é o fato de que as pessoas hoje simplesmente não gostam da ideia de um professor, de um guru. Um mentor é, às vezes, bem recebido, mas apenas sob a exigência de que o mentor não seja saudado com muita apreciação, e a de que ele possa ser facilmente afastado. O ego da maioria das pessoas as leva a odiar a ideia de serem subservientes a um verdadeiro professor, por até mesmo pouco tempo, para assegurarem sua evolução espiritual. Isso as faria sentir menos sagradas que o guru, o que, de fato, elas são, e isso machucaria demais os seus egos. Dessa forma, elas não tolerarão isso.

Isso tudo fez com que muitos autores de hoje não tenham recebido treinamento legítimo de um professor verdadeiro. O conhecimento que eles apresentam em seus livros é, simplesmente, a mesma informação reprocessada que qualquer um poderia armazenar com tempo suficiente numa biblioteca, e eles, portanto, não se tornaram melhores que seus predecessores uma centena de anos atrás, os quais pensavam ser adeptos simplesmente por causa de sua habilidade de compilar a informação disponível. Tais autores, assim, começaram uma tendência que infectará totalmente os autores do amanhã, e, dessa maneira, solidificará essa tendência infeliz e autodestrutiva. Eu rezo seriamente para que, no futuro, mais adeptos que tenham passado por treinamento real nas mãos de um professor treinado dêem um passo à frente e passem os ensinamentos de seus mestres para o mundo. Até se isso acontecesse, cada livro deveria dizer dentro de suas páginas o que eu estou precisamente para dizer: embora o conhecimento ajude e ilumine a mente, a iluminação da alma deve ser recebida de um bom professor.

Por que você não pode fazer tudo sozinho? Por que você não pode ser aquele “lobo solitário” sobre o qual você ouviu falar? Aquele lobo solitário e durão que nunca precisa da ajuda de ninguém? Supere você mesmo. Você não pode fazer isso sozinho porque você nem sabe o que fazer ou onde começar, e se você soubesse, você não entenderia como fazê-lo mesmo assim. Se você pode derrotar o seu ego o suficiente para admitir isso, então você pode ainda ter esperança para o Reino de Deus. Se não, então você está muito mais interessado em si mesmo do que em Deus. Um livro pode sugerir lugares para começar, pode fornecer fórmulas e técnicas práticas (embora poucos, muito poucos o fazem) e podem até suprir uma rotina de treinamento completa. Até se você tenha esses livros memorizados, a quem você se voltaria quando um obstáculo surgisse que você não pudesse superar intelectual ou espiritualmente? Se você, embora com treinamento rigoroso, não visse resultados, como adivinharia o porquê disso? De qual lugar você receberia a informação que nunca foi antes publicada? Além disso, você seria forçado a aceitar a legitimidade de qualquer sistema de treinamento ou séries de informação, baseado inteiramente sobre a sua própria crença. Quando você tem um bom professor que está lhe iniciando diretamente, numa linha de mestre e discípulo, na magia genuína, então você tem alguém para se referir como um modelo e um exemplo. Você consegue ver quão efetiva essa abordagem à magia é, toda vez que você vê o seu professor. Através das ações dele, você pode decidir se o sistema é válido ou não. Dessa forma, o professor destruirá níveis de dúvida que, frequentemente, infectam pessoas que se submetem ao que agora é popularmente chamado de “autoiniciação”.

Neste ponto, nós dificilmente poderíamos continuar sem uma rápida consideração de uma jóia em particular, o livro O Caminho do Adepto, pelo Mestre Arion, Grande Iniciador Rosacruz, o S.F.C.R. (Sagrado Frater Christian Rosencreutz), que vocês conhecem pelo nome de Franz Bardon. Essa grande alma, um dos doze maiores adeptos mestres na inteira Fraternidade Branca, que governa particularmente sobre a iniciação, veio ao mundo em total Nirvikalpa Samadhi, na glória de seu corpo astral imortal, por toda a humanidade. Houve um grande sacrifício nisto.

Urgaya o invocou e ordenou que, enquanto estivesse aqui, ele lançasse ao mundo os primeiros três dos vinte e dois estágios de iniciação da Fraternidade Branca. Ele o fez, mas, do mesmo modo que Veos e eu fizemos, ele suavizou o sistema consideravelmente, para alcançar e ajudar o maior número possível de pessoas, enquanto tomava como estudantes pessoais aqueles poucos que estavam prontos para os ensinamentos mais sérios. O resultado desse serviço altruísta foram os três livros que ele escreveu, que foram feitos para levar o estudante até o ponto em que ele atraia um mestre espiritual que o inicie nos Grandes Mistérios. Embora essa trilogia seja excelente, particularmente seu primeiro livro, O Caminho do Adepto, eles ainda contém todas as inibições que um livro traz. Você não pode perguntar questões ao livro, não pode receber experiências espirituais dele, não pode chorar nos seus ombros quando o mundo parece ter se voltado contra você. O livro não irá assumir o seu karma para te ajudar, não limpará suas nadis e trabalhar nos seus chakras, não imergirá você, amavelmente, em sua própria aura. Acima de tudo, não servirá como um canal de mediação entre sua Kundalini pequena e a Kundalini Cósmica superior.

É minha convicção, baseada na experiência, que existe somente um tipo de pessoa que pode se submeter à autoiniciação com sucesso sem nunca ter tido um professor. Deve ser um adepto reencarnado que está simplesmente recapitulando seu desenvolvimento mágico de vidas passadas. Para tal pessoa, na medida em que ele aprende até apenas técnicas básicas, suas memórias mágicas começarão a, quietamente, voltar a ele, na forma de intuição acurada sobre como certas coisas deveriam ser executadas. Essa intuição mágica guiará suas ações, e sua alma guiará a consciência aos lugares corretos. Essa pessoa não precisa de um professor. Porém, a um tempo atrás ele certamente teve um, e se não tivesse sido pelo professor, ele nunca teria se tornado o adepto que se tornou.

A Sétima Razão

A Remoção de Deus da Situação

Na medida em que o mundo se torna, gradualmente, mais materialista, uma escuridão começa a envolver o intelecto de pessoas inteligentes. É um tipo de doença que dá a uma pessoa cegueira e a torna surda; de fato, deixa-a quase completamente insensível a qualquer estímulo. O nome dessa aflição, que paralisa e torna mudos todos os três corpos, é chamado Ateísmo. Quando algumas pessoas são afligidas por ele, tornam-se totalmente desafiantes contra todos os impulsos espirituais que sugiram a existência de Deus. Eles são uma ninhada de pessoas peculiar, sendo ignorantes ao grau de se tornarem engraçados aos olhos do iniciado.

Existe uma ninhada particular de ateístas que é mais divertida que todas as outras. É uma ninhada relativamente nova, que apareceu apenas neste século passado. Esse tipo de pessoa é um ateísta que acredita que fenômenos espirituais são, na verdade, fenômenos físicos num nível altamente refinado, e dessa forma buscam explicações para as coisas espirituais. Eles não negarão que as energias dos elementos, por exemplo, existem. Eles simplesmente pensarão em alguma teoria absurda e estúpida de como essas energias são apenas divisões de uma substância mental física, mas enormemente refinada, e que suas qualidades atribuídas são algum tipo de ilusão. Eles dirão que espíritos são as expressões externas de arquétipos subconscientes na psique, e sugerem que, quando eles são conjurados à aparência visível, tudo que está ocorrendo é autohipnotismo. Essa estranha espécie de pessoa fará tudo pelo motivo de ser capaz de sugerir que Deus não existe, que mundos espirituais não são reais, que não existe alma, etc, etc.

É óbvio ao iniciado que qualquer pessoa que se submeta ao treinamento adequado possa provar a si mesma além de qualquer possibilidade de dúvida que espíritos não são arquétipos pessoais, que mundos espirituais existem, que existem energias externas diferenciadas, que a alma é real e imortal, e que Deus é uma verdade eterna. Qualquer pessoa que sugere ao contrário está fazendo-o do ponto de vista da teoria e especulação somente, e não tem base prática na magia. Embora o iniciado devesse sempre mostrar respeito sobre a opinião da outra pessoa, de modo a não causar conflito imediato e desconforto, ele não deveria permitir ser persuadido por tais argumentos. Frequentemente, essas pessoas são ótimas em argumentar e debater, mas não podem fazer quase nada a esse respeito com magia verdadeira. Dessa forma, deixe-os falarem a si mesmos enquanto você quietamente volta a sua mente à meditação sagrada.

Isso precisa que consideremos um ponto importante, contudo. Apenas você, no fim, pode provar a si mesmo a realidade de todas essas coisas. Apesar de todos os meus poderes e siddhis, eu não posso fazê-lo. A mente animal duvidará da sua escolha de perseguir esse caminho a cada virada, e, acima de tudo, também tentará me fazer duvidar, não importa o que eu faça. Alguns exemplos podem ilustrar bem este ponto. Ano passado, quando eu estava morando com um grupo de oito aprendizes (com mais cinco visitando regularmente) num belo lote de 5 acres firmado entre árvores e invisível a todos os vizinhos ou à estrada, uma grande tempestade apareceu sobre nós. O vento uivava ferozmente, a chuva parou por um momento, e, então, no pátio próximo a nós, um tornado começou a descer. Os aprendizes, até Veos (até hoje eu brinco com ele sobre isso!) ficaram muito assustados. Na verdade, eu estaria assustado também, apesar da minha confiança para lidar com a situação, se eu não tivesse aberto meus olhos de uma maravilhosa hora de meditação profunda no momento em que o tornado começou a surgir. A mim, naquele estado elevado de felicidade, o tornado era apenas uma demonstração da natureza para ser amada e reverenciada. Apesar disso, eu me esforcei o suficiente para me convencer de que o tornado, tão próximo à casa, era uma coisa ruim. Eu me coloquei na direção da tempestade, com Veos ao meu lado e ajudando, e nós dois elevamos o tornado de volta ao céu e redirigimos a direção da tempestade para longe da casa. Isso foi feito com todos os estudantes assistindo. Em outra ocasião, apenas quatro semanas antes, eu usei um sigilo para criar uma chama sólida e negra no coração de um grande fogo ritual que todos viram e cuja realidade de sua presença atestaram. No momento em que começou a chover, por ele ser um importante ritual do fogo, eu chamei um espírito que me serve para nos proteger da chuva. A chuva parou, mas os estudantes logo notaram que estava chovendo em todos os lugares da propriedade, menos no lugar onde estávamos!

Eu estou relembrando essas coisas não para glorificar a mim mesmo, mas para ajudar a ilustrar este assunto. Embora eu demonstrasse essas aparentemente “maravilhosas” ocorrências, sem pouco esforço meu, eu rudemente exibia a magia aos meus estudantes como um prêmio por sua devoção duradoura aos meus ensinamentos, e, mesmo assim, essas coisas não preveniam suas mentes de, às vezes, duvidar que magia não existia. Pouco menos de um mês depois do incidente com o tornado, um dos meus estudantes melancolicamente veio a mim e confessou que ele estava tendo de lutar com a dúvida, porque ele nunca tinha visto antes um poder mágico. Numa classe do Veritas quatro anos atrás, eu tive um estudante para o qual, um dia, eu mandei uma mensagem e informei que ele estava desenvolvendo uma infecção de sinus. Sendo alguém que duvida por natureza, ele decidiu não tomar nenhum remédio. Quatro dias depois, ele pegou uma infecção de sinus, e, num instante, eu o curei da infecção completamente. Eu não consegui mais informações desse estudante, que terminou aquela classe como um estudante de magia muito devotado, por um longo tempo depois que a classe terminou. Eu descobri, poucos meses atrás, que, pouco depois da minha classe terminar, ele decidiu que eu era uma fraude e um mentiroso, e que eu não tinha habilidade mágica ou consciência elevada, e que ele estava convencido de que magia em si pudesse nem ser real.

Essas, e outras experiências parecidas, me convenceram de que não é o dever do professor fazer o estudante acreditar em magia, e, realmente, que o professor não é capaz de fazê-lo, não importa quais habilidades ele possa ter demonstrado. No final, a última evidência convincente que o estudante será capaz de usar para conquistar a dúvida de seu ser inferior é a evidência que surge de suas próprias práticas continuadas, as recompensas de sua fé douradoura em seu caminho.

Mas, voltando ao assunto à mão, é uma grande má sorte ao mundo dos aspirantes sinceros que esses mesmos ateístas estão realmente se juntando para formar sistemas de “magia” juntos, embora esses, na realidade, sejam feitiçaria astral no máximo. Ao fazê-lo, eles estão apelando aos lados animalistas e mundanos da consciência do ego que governa sobre os não iniciados antes de alma ter uma chance de se agarrar a algo significativo. Por tais sistemas de feitiçaria não terem nenhuma ênfase real na moral, por eles não terem ideia nenhuma de Deus ou de avanço espiritual, as pessoas estão se unindo para achar uma desculpa para praticar o que eles pensam que é magia sem ter de desistir de seus modos pecaminosos de viver. Tais pessoas adoram se ostentar, dizendo “Eu descobri que magia é tão efetiva sem o componente espiritual desnecessário”. Eu juro a todos vocês, pelo meu grande amor por essa ciência, que, nos meus anos de magia, eu nunca encontrei, nunca mesmo, nenhum estudante dessa escola de feitiçaria que poderia produzir até a mais simples das demonstrações mágicas. Eu nunca descobri um estudante dessa escola que possuísse alguma das faculdades mágicas a um grau demonstrável ou talvez significativo. Por quê? Porque eles estão praticando ideias, não verdades. Eles estão tentando fazer com que o universo satisfaça os seus próprios desejos egoísticos, em vez de quererem sacrificar qualquer coisa que seja para se tornarem magos reais.

A Oitava Razão

Charlatões

À luz de todas as razões previamente mencionadas, deveria se tornar óbvio que charlatãos e fraudes naturalmente surgiriam. A falta quase total de iniciados verdadeiros e adeptos conhecidos às pessoas comuns tornou impossível se comparar uma fraude contra a coisa real. Os fraudadores, é claro, saberão isso, e usam isso ao seu favor. O fato de que existam tantos enganadores que se tornaram muito bem-sucedidos não sugere em momento algum que eles tenham alguma habilidade, mas, em vez disso, simplesmente mostra o quão mal informada e enganada a pessoa comum é nesses assuntos.

Bem como fizeram no início dos anos 1900, médiuns começaram a ir e vir e a escreverem pilhas de lixo para encherem as estantes das livrarias modernas. Essas pessoas, que são normalmente tão boas em enganar a si mesmas quanto a enganar os outros, lançam livro após livro. Eles escrevem centenas de páginas, e ainda, de alguma forma, não dizem nada nelas. Eles citam seres espirituais como a fonte de sua sabedoria, ou guias espirituais, ou animais totem, ou trevos de quatro folhas e tal nonsense. Embora eu ainda não o tenha encontrado, eu estou certo de que exista um médium por aí que alega receber instruções místicas de seu sanduíche de presunto. Não seria mais absurdo que as alegações anteriores. Embora, é claro, uma vez, eu tive uma conversa muito reveladora com uma garrafa de coca-cola, e um espírito decidiu, por uma razão qualquer, falar comigo numa voz audível que até os não iniciados poderiam ter ouvido.

Se tais médiuns estão de fato conversando com seres espirituais, então esses espíritos são muito misteriosos ou são muito estúpidos. Se esses médiuns estão conversando com guias espirituais, eles devem estar precisando despedir seus guias e encontrar novos. Em minhas experiências com seres espirituais, animais totem e guias espirituais, nenhum deles era tão mal informado quanto os desses médiuns. Dessa forma, podemos concluir que é muito provável que eles não estejam falando com nenhum dos acima, mas, em vez disso, que eu estou terrivelmente enganado, e que todos estão, na verdade, conversando com sanduíches de presunto. Se eles estivessem conversando com garrafas de coca, então, baseado na experiência, eu seria levado a acreditar que seus livros poderiam ter sido melhores.

Nada disso implica que todos os médiuns são fraudes. É, porém, um infeliz fato que a vasta maioria de fraudadores alegue ser médium, e, se o resto da comunidade de bons médiuns não quiser ser associada com esses charlatãos, então eles deveriam aparecer e lutar contra eles. Eu conheci vários bons médiuns em meu tempo, alguns deles naturais e outros treinados, portanto, essas declarações, de modo algum, se aplicam a esses tipos de pessoa. O leitor observador, porém, será capaz de fazer uma caminhada, achar uma estante de New Age numa livraria popular e ser capaz de ver precisamente de quais autores eu estou falando.

O grupo de médiuns impostores é apenas uma das duas maiores categorias de fraudadores na comunidade ocultista. Para a pessoa firmada em pensamento racional e com pelo menos alguma educação em literatura ocultista, os médiuns impostores são comparativamente fáceis de serem reconhecidos. Embora eles agarrem um número entristecedor de otimistas da New Age, os mais eruditos tendem a ficar longe deles. É, portanto, minha opinião que o mais perigoso dos dois grupos não é o médium impostor, mas o sim mago impostor.

O mago impostor é muito mais difícil de distinguir, e apenas alguém que é firmemente enraizado na experiência prática pode descobrir o disfarce. Existem autores que escrevem livros que fascinam seus leitores sobre simbolismo oculto, aparente conhecimento da Cabala, algumas correspodências ocultas etc, e mostram isso como se a experiência os tivesse levado a acreditar nessas coisas. Eu não estou falando aqui de meros ocultistas. Um ocultista é um filósofo, portanto ele se preocupa com as várias cosmogonias filosóficas, em vez de experimentar o lado prático da espiritualidade. Desse modo, é perfeitamente normal para um ocultista falar num nível puramente intelectual, igual ao filósofo. Não, eu não estou me referindo a esses autores, mas aos autores que criam um véu de suposto conhecimento experimental. Essas pessoas são geralmente indivíduos que aprenderam e, subsequentemente, praticaram apenas duas ou três técnicas básicas, e, então, se consideraram a si mesmos grandes magos. Eles escrevem livros sob esse propósito, e prescrevem ridículos regimes de treinamento para seus leitores.

Tudo isso naturalmente resultou numa situação na qual pessoas que queiram aprender magia, queiram comprar um livro e, por causa da probabilidade, pegarão um livro escrito por um autor fraudulento. Percebendo como pessoas que são completamente novas à magia não são tão sábias, elas acreditam em muito do que é dito, e assim a corrupção começa. Muitos desses aspirantes promissores vieram à minha casa por um curto tempo, e eu descobri que, depois de alguns anos de encherem suas mentes com tal lixo, eles se tornaram ligados demais a esses mundos ilusórios para serem salvos pela luz da experiência prática. Espero que, nas próximas vidas deles, suas almas levarão suas mentes a buscarem algo mais elevado.

A Nona Razão

O Silêncio dos Adeptos

Durante o período do Renascimento, e por um tempo após, houve um número de adeptos que escrevia. O advento do aparecimento público dos rosacruzes na Europa, por um pouco tempo, gerou informação suficiente para os autores discutirem por muitos anos. Pessoas como Paracelso, Agrippa e Francis Bacon forneceram suficientemente os Pequenos Mistérios às pessoas. Autores rosacruzes como Francis Bacon promoviam a iluminação intelectual das pessoas, como a Ordem Exterior Rosacruz (que eventualmente gerou a Maçonaria), focada primariamente no avanço espiritual através de conhecimento e de sabedoria em vez da prática. As práticas estavam presentes, mas eram normalmente ritualísticas e reservadas para dias especiais. Os exercícios mágicos verdadeiros eram mantidos para o próximo nível de iniciados.

Autores como esses forneciam tanto uma vantagem quanto uma desvantagem. De um lado, as pessoas estavam engajando suas mentes, pela primeira vez, no feijão-e-arroz da magia teórica. Em vez de lerem sobre demônios e feitiços mágicos, eles podiam aprender sobre o magnetismo espiritual, o archeus, os éteres, a lei de atração, a lei do microcosmo, e por aí vai. Alguns dos Pequenos Mistérios mais básicos tinham finalmente se tornado disponíveis às pessoas. Isso permitiu que leitores da época checassem duas vezes os escritos de pessoas sobre ocultismo contra autoridades conhecidas. Embora fraudes e charlatãos estivessem ainda rampantes, eles não estavam se focando tanto nas contribuições literárias ao ocultismo e assim não deixaram uma impressão duradoura sobre aspirantes das gerações futuras.

Por outro lado, a explosão de informação intelectual sem uma fundação de trabalho prático levaria gerações futuras ao engajamento somente na filosofia, em vez de na magia verdadeira. Isso permitiria a todos que tivessem lido alguns livros a regurgitarem a informação em novos livros e chamá-los seus. Acima de tudo, deixaria muitas questões sem resposta nas mentes de muitos aspirantes sinceros, sobre onde começar e como avançar na magia. A tendência de alguns dos grandes magos do passado de não aceitarem discípulos diretos resultou numa falta de sucessão de mestre e discípulo, como foi falado anteriormente, e o fato de nenhum manual real de avanço na magia ter sido publicado resultaria em autores lançando livros em assuntos puramente teóricos, em vez de terem investigado praticamente suas ideias.

Nos últimos cinqüenta anos, quase não houve adeptos escritores, e até aqueles que escreveram algo normalmente não forneceram uma base prática para os leitores. Toda uma geração surgiu e desapareceu sem ter quase informação publicada confiável sobre magia. É claro, tudo isso aconteceu de acordo com a Providência Divina, e há razões exatas para os períodos históricos de silêncio que os adeptos escritores assumiram e assumem. Ainda assim, é importante considerar os efeitos desses períodos.

Os poucos adeptos que ainda estão por aí no hemisfério ocidental têm permanecido silenciosos, e talvez por razão, porque o dom de expressar ideias na linguagem escrita não pertence a todas as pessoas. Pelo fato de existirem tão poucos adeptos, existem poucos autores entre eles. Eu espero honestamente que, num futuro próximo, isso comece a mudar.

A Décima Razão

A Falta de Expansão da Consciência

A natureza incompleta das deploráveis desculpas de muitas ordens modernas para rotinas de treinamento resultou na quase extinção da real expansão de consciência entre os chamados iniciados. Seus estudantes recebem complicado “pathworking” e várias invocações para executarem, mas esses são meios tão indiretos de progresso que uma inteira vida de prática renderia pouco sucesso. Infelizmente, a lavagem cerebral de muitos aspirantes hoje os convenceu de que um conhecimento simplesmente experimental dos símbolos das esferas elevadas, e até seu funcionamento, é a realização de modos superiores de consciência. Isso simplesmente não é verdadeiro. Até se você colocar sua mente regularmente na contemplação de reinos nos quais vibrações são muito mais elevadas e puras que as suas, nunca se produzirão os mesmos resultados se você tivesse elevado sistematicamente sua consciência a esse nível. Isso dá um bom suplemento, mas não deveria ser a completa abordagem.

Existem duas principais maneiras de se expandir a consciência:

1) Imergir-se em energias, como em invocação ou viagem esférica.

2) A ascensão gradativa da Kundalini psicossexual da base da espinha e órgãos sexuais até o córtex cerebral.

Nenhum desses métodos resultará necessariamente na realização do outro. A ativação dos seis maiores centros inteiros da consciência na espinha não resultará no aumento de vibração no seu corpo astral, para se adequar às vibrações das esferas elevadas, e passar tempo em esferas mais elevadas não despertará automaticamente a Schechinah-Kundalini e despertar as fortalezas, de modo que ela possa entrar e estar com Elohim-Siva. No mago, ambos deveriam ser realizados. O primeiro é a deificação de si de fora para dentro, e o segundo de dentro para fora.

Até os sistemas de treinamento que utilizam pelo menos o primeiro método de ascensão da consciência, sendo o mais comum no mundo ocidental hoje, não prestam tanta atenção a ele quanto deveriam. Muito frequentemente, ênfase excessiva é dada sobre as habilidades mágicas, ou pelo professor ou na mente do estudante. A meta da magia se torna o poder, em vez da evolução da consciência pessoal. Quando nenhuma habilidade é conseguida, ou uma vez que a curiosidade científica do estudante seja satisfeita, o caminho para. É por essa razão que as escrituras orientais advertem tão ferozmente que poderes mágicos devam ser rejeitados, e não porque tais poderes são inerentemente maus. Os iniciados do Oriente compreendiam simplesmente que, se o estudante acreditasse, do primeiro dia de seu treinamento, que habilidades mágicas eram ruins, ele provavelmente não sacrificaria depois sua evolução espiritual por causa da tentação dessas siddhis. Ele não se distrairia. Na realidade, isso não é ruim, e o estudante é altamente encorajado a adquirir várias habilidades mágicas para manifestar a Vontade Divina mais efetivamente no mundo, mas isso deve ser abordado muito metodicamente e apenas de uma base muito bem estabelecida, com os motivos corretos.

“Pathworking” se tornou, infelizmente, o modo principal com o qual as escolas ocidentais tentam fazer com que seus estudantes expandam sua consciência, mas existem muitas desvantagens nisso. O estudante consegue captar uma compreensão intuitiva de esferas superiores ao elevar suas vibrações às delas diretamente. Quando ele tem um flash e uma visão de Tzaphqiel, ele percebe o simbolismo de Luna e de Hécate, e compreende o tridente e os quatro minotauros índigo que cercam o Templo da Deusa de Três Faces e o Homem Nu, e começa a acreditar que ele realmente elevou seu status espiritual à esfera de Yesod. A iluminação intelectual sobre simbolismo universal é confundida com realização espiritual legítima. O resultado é que o tolo que consegue superar as imagens do Demônio de Face de Cachorro e o Portador do Vinho no limiar do abismo intelectual acredita ter fatualmente cruzado esse abismo e emergido no outro lado como “Magister Templi” ou qualquer cargo sua facção possa ter designado para essa realização. A direção do simbolismo, e a natural habilidade da mente de entrar num modo de resolução de problemas, quando confrontada com a diversidade, levou, neste caso, a mente racional a uma série de equações lineares, resultando na compreensão de certos símbolos ocultos. Embora essa compreensão tenha um efeito positivo sobre o espírito, é quase uma blasfêmia dizer que essa estimulação intelectual sozinha pode ser considerada como uma cruzada do Abismo. Quando a respiração cessa, quando a pele se torna gelada e as suturas entre os ossos parietal e occipital do crânio ficam quentes, quando visões de anjos e personificações de Deus aparecem no olho da mente, quando todas as escrituras se tornam instantaneamente compreendidas, quando os joelhos de cada anjo e arcanjo se dobram em reverência, quando a aura se estende para encompassar um inteiro vale, quando a palavra se torna universalmente criativa, então saiba que o abismo foi cruzado. Procure o homem com o inteiro universo em seus olhos; ele é um deus.

Isso deve bastar por agora. O estudante terá agora uma sólida compreensão dos problemas no modo com o qual a magia é frequentemente praticada hoje, e, com esse conhecimento, ele pode escolher começar seu caminho com uma compreensão correta e a salvação resultante desta bela ciência. Eu forneci nesta aula meras linhas de direção pelas quais o estudante pode checar a si e àqueles que se chamam gurus. Busque o homem que fala da autoridade da experiência, e não da autoridade dos livros.

#MagiaPrática

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-corrup%C3%A7%C3%A3o-da-magia-parte-ii

Charles Webster Leadbeater

Assim como Madame H. P. Blavatsky é tida como uma das maiores ocultistas do século XIX, Charles Webster Leadbeater é considerado um dos grandes ocultistas do século XX. Não apenas isso, mas para muitas pessoas ele é o autor responsável por tornar a obra de Blavatsky mais clara e compreensível. Quem quer que tenha tentado ler a Doutrina Secreta ou Ísis sem Véu sabe que as referências usadas e a cultura erudita de Blavatsky tornam sua leitura bastante dificil. Leadbeater por outro lado fornece um rosto simpático à teosofia com sua forma clara e didática de escrever. Mas esta é apenas uma de suas características.

Leadbeater nasceu em Stockport, Cheshire, Inglaterra em 1854, filho único de Charles e Emma. Aos sete anos sua família se mudou para Londres, onde seu pai trabalho como balconista ferroviário, vindo a falecer dois anos depois. O começo da vida de Leadbeter foi difícil não apenas por ser orfão, mas também porque o banco onde estavam as economias da família faliu deixando-os na pobreza completa. Sem dinheiro para os estudos Leadbeter começou a trabalhar bem cedo para prover o próprio sustento e o de sua mãe. De manhã prestava serviços clericais a Igreja Anglicana, e de tarde estudava por conta própria. Assim aprendeu Francês, Latim, Grego e em determinada altura da juventude comprou um telescópio para estudar astronomia. Seu tio  William Wolfe Capes, sacerdote da Igreja Anglicana influenciou Leadbeater a ser ordenado como padre em 1879 na cidade de Winchester. Em 1881 morava com sua mãe em Bramshott em uma choupana construída por seu tio e vivia como professor e ministro da Igreja.

Em meados da década de 1880 começou a ler e se interessar por espiritualismo e mediunidade, inicialmente por meio da obra de Daniel Dunglas Home. Ele entrou na Sociedade teosófica dia 21 de novembro de 1883 onde conquistou o afeto de  H. P. Blavatsky. Em uma cópia autografada pata Leadbeater de Voz e Silêncio, H.P.B. se refere a ele como “Meu sinceramente apreciado e amado irmão e amigo.” e em uma dedicatória de “A chave da Teosofia” ela escreve: “Ao meu velho e bem amado amigo.”. Estas pequenas notas servem para indicar a afeição de Blavatsky por Leadbeater e talvez seu conhecimento futuro sobre seu importante papel na socieadade que ela fundou seguindo a orientação dos Mestres. De fato em 1884 ambos viajaram juntos para a Índia.

Acesso aos Arquivos Akáshicos

A parte mais importante desta viagem é que nela Leadbeater foi treinado pelos Mestres por trás da Sociedade Teosófica para desenvolver suas habilidades em clarividência.  Por meio de um treinamento árduo que prosseguiu para o resto de sua vida ele passou a ter acesso aos arquivos akashicos, uma espécie de registro no próprio tecido da realidade descrito pela teosofia e tradições orientais como contendo toda experiência humana independente de tempo ou espaço. Os registros akashicos as vezes são descritos como “A Mente de Deus” outras como um supercomputador universal.  Interpretações a parte, o fato é que Leadbeater demonstrava um conhecimento do mundo de uma forma que poucos seres humanos poderiam igualar.

Este Conhecimento Direto mostrou-se tão espetacular que alguns de  seus discipulos o confundiam com Onisciência. Não era este o caso, Leadbeater em pessoa foi quem disse: “Não é porque eu digo que as coisas são assim que vocês devem acreditar; mas se vocês aceitá-las é porque as consideram razoáveis.” Mary Lutyens descreveu este tipo de conhecimento como “uma investigação oculta direta do cosmos, da aurora da humanidade e da constituição dos elementos assim como visitas frequêntes aos mestres por meio de seu corpo astral.” O resultado disso foram cerca de 50 livros escritos e diversos artigos publicados regularmente na revista “Theosophist”.

Conhecimentos a frente de sua época

Desde muito cedo os teosofistas perceberam que ficariam em grande débito com ele, pois se destacou como autor de livros inegavelmente lúcidos e compreensíveis do que os escritos sobre tais assuntos até então. Ele expôs a sabedoria antiga com uma linguagem clara, tornando-a menos misteriosa. Sua clareza foi inclusive responsável por torná-lo um alvo fácil dos detratores durante toda sua vida. Em seu livro “O Homem, de Onde e Como Veio e Para Onde Vai” ele previa por exemplo que, entre outras coisas, no futuro os jornais acabariam desparecendo e que seriam substituídos por “caixas” através das quais as notícias seriam lidas nas residências.

Outro exemplo ainda mais impactante pode ser lido em seu livro momunental “Química Oculta” com co-autoria de Annie Besant que foi amplamente criticado por cerca de 100 anos. Apenas hoje em, dia com a física de particulas começando a descobrir a validade de suas afirmações sobre a estrutura subatômica que ele começou a receber a devida atenção. Segundo alguns autores “Química Oculta” não apenas começou a ser respeitado, mas é , ele mesmo a origem ou “inspiração” de boa parte do conhecimento da química atual que a Ciência ordinária toma para sí. Sobre isso  o físico de particulas Stephen M. Phillips, Ph. D. declarou:

“Ter demonstrar conhecimento de alguns aspectos supra-sensorial do mundo que só agora são confirmados pelos avanços da ciência, muitos anos depois é, sem dúvida, o tipo mais convincente de percepção extra-sensorial. Isso porque esta circunstância não dá ao cético espaço para dúvida ou racionalização quanto as correlações entre os fatos científicos e as observações psíquicas tão numerosas e precisas ou para que considere a possibilidade como um mero golpe de sorte. O trabalho de Leadbeater é um exemplo raro deste tipo de percepção, como mostra as ostensivas, descrições paranormais de átomos e partículas subatômicas publicado há mais de um século e que acabaram por ser confirmada pelos fatos da física nuclear.”

Um de seus alunos, Geoffrey Hodson, comentou os ataques contra a “Química Oculta” de C. W. Leadbeater nos seguintes termos:

“Depois de H.P Blavatsky, dois grandes líderes A. Besant e C. W. Leadbeater, tem desempenhado um importante e nobre papel no processo de desvelar o oculto. O desprezo do mundo era inevitável. Nós os honramos como entre os maiores servidores da Irmandade. Seu azar não foi tanto os erros que cometeram quando as pessoas com quem eles estavam associados, e sobre quem parte do seus planos dependiam. Várias vezes  as canetas humanos – com a qual, em nome da Irmandade, eles tentaram escrever – quebrou como gravetos secos em suas mãos. Mas eles trabalharam incansavelmente, formando Centros ocultos nos modelos ancestrais e deram o melhor de si treinando quem podiam sentarem-se aos seus pés. O mundo ignorante, cego e cruel não reconhece a estatura daqueles que sobrepujava por tanto os grandes homens e mulheres de seu tempo…A dificuldade que os grande ocultistas do mundo devem enfrentar é que seus poderes reais não podem ser revelados. Suas faculdades iniciáticas só pode mostradas em seu trabalho e não em si mesmos. H.P.B. foi concedida a permissão, ou melhor a ordem, para usar suas habilidades para atrair as mentes humanas para a Teosofia e Sociedade Teosófica. Mas a variação na regra só foi um sucesso parcial e assim os seus sucessores escondem seus poderes e deixam o mundo interpretá-los mal quando muitas vezes por um simples ato de vontade eles poderiam alarmar seus críticos mais cruéis…. ”

Pederastia ou Educação Sexual?

Em 1906 Leadbeater enfrentou o momento mais problemático de sua vida ao ser acusado de pederastia, uma palavra que na época trazia a tona os mesmos sentimentos de revolta social que o que chamamos de pedofilia. A verdade é que o conhecimento claro do mundo que o rodeava colocou-o em conflito direto com uma sociedade sexualmente reprimida. Em seu livro sobre Krishnamurti,  Mary Lutyens se refere a este episódio:

Quando voltou para a Inglaterra em 1906, o filho de 14 anos do secretário da seção esotérica de Chicago confessou aos seus pais que Leadbeater o encorajava ao hábito da masturbação. Na mesma época o filho de outro oficial teosófico de Chicago fez a mesma acusação sem nunca ter tido contato com o primeiro garoto.  Foi criada uma comissão na seção Americana para avaliar o assunto, mas Leadbeater desvinculou-se da Sociedade Teosófica para, segundo “salva-la do embaraço.”

A verdade é que Leadbeater vivia na era Vitoriana, mas ainda assim mostrava uma lucidez que só hoje em dia pode ser apreciada. Sobre o assunto ele escreveu em carta a Annie Besant:

“… Então quando os rapazes ficaram sobre meus cuidados, Eu mencionei o assunto [da masturbação], entre outras coisas, sempre tentando evitar todo tipo de falsa vergonha, e fazer parecer algo tão natural e simples quanto possível.”

Leadbeater argumentou posteriormente que a pressão natural e vontades sexuais dos rapazes poderiam levá-los a buscar alívio com prostitutas ou entre si. Demonstrando um conhecimento avançado para a época em termos de educação sexual ele apontou que ao descarregar esta pressão em intervalos regulares por meio da masturbação os rapazes poderiam evitar consequências kármicas e morais muito mais sérias. “Se eles sentirem este tipo de acúmulo, deveriam se aliviar.” e ainda “Esta função natural existe, e por si só não é mais errada do que a vontade de comer e beber.”

Quando Annie Besant se tornou presidente da Sociedade teosófica em 1908 foi novamente admitido como membro.

 

A Igreja Católica Liberal

Em 1906 durante uma missa em que participava Leadbeater, por meio de sua clarevidência testemunhou as energias escondidas por trás dos sacramentos Cristãos. Por outro lado, esta mesma clarividência tornava para ele muito clara toda história de deturpação e controle social dentro da cristandade.  Mas a solução era igualmente clara para ele: revisar toda Liturgia Católica de modo a melhorar o desempenho destas energias.

Esta tarefa ele desempenhou em conjunto com seu amigo e Bispo Wedgwood que foi também quem o consagrou ao Episcopado. Nasceu assim a Igreja católica Liberal, uma igreja que administra todos os sete sacramentos tradicionais instituídos por Cristo, mas que defende também a liberdade intelectual e individual buscando cultivar assim um equilíbrio entre os aspectos cerimoniais, devocionais, científicos e místicos. Para Leadbeater abandonar o poder dos sacramentos por causa da atual situação da Igreja Católica é como jogar o bebê fora junto com a água suja do banho.

Após vários meses de trabalho intenso, a primeira versão da Liturgia foi publicada, mas a primeira celebraçaão pública só aconteceu em 6 de abril de 1917 em Sydney, Austrália. Um Oratório foi instalado no Edifício Penzance, local que desde então serviu de moradia a Leadbeater. A partir deste momento o trabalho com a Igreja Católica Liberal se tornou a principal atividade de sua vida, embora seu trabalho com a Sociedade Teosófica tenha continuada até o fim de sua vida. Além disso continuou sempre organizando palestras informais na casa de seus alunos.

Um ponto importante é que Bispo Leadbeater nunca reinvindicou infalibilidade para si ou a Igreja Católica Liberal.  Nunca impôs seu ponto de vista e sempre deixou seus discípulos todos completamente livres. De fato, muitos de seus ensinamentos (como o vegetarianismo) eram controversos dentro da igreja, mesmo os sacerdotes sentiam-se a vontade para discordar de alguns ensinamentos. Para Leadbeater as forças invisíveis por trás dos sacramentos eram muito mais importantes.

E quanto a nós?

É fácil criticarmos a química do século XIX, a sexualidade vitoriana, ou os dogmas da Igreja Católica hoje em dia. Mas quanto de nossa própria cultura e educação não são também à sua maneira primitivas. É facil aceitar as visões de Charles Webster Leadbeater quando o que ele diz confirma as coisas que sabemos ou acreditamos saber. Mas e quando isso não é verdade, somos diferentes de um católico conservador ou de um moralista vitoriano? Leadbeater disse por exemplo que não só há vida fora da Terra, mas que há vida em absolutamente todos os corpos celestes. Não há planeta inabitado. Ele descreveu civilizações na Lua e em Marte que hoje simplesmente não aceitamos porque o governo e as instituições nos garantem que elas não estão lá.

Esta provocação serve, por si só, de convite à leitura da imensa obra deixada por Leadbeater. Seja em termos de saúde, religião ou física Leadbeater se mostrou a frente de seu tempo. Seu talento em ver as coisas como elas realmente são e sua vontade em transformá-las como realmente deveriam nos deixa em dúvida sobre quanto do mundo moderno na verdade não é também uma quimera.

Charles Webster Leadbeater morreu em 1934 em Perth aos exatos oitenta anos de idade.

1847 – 1934

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/charles-webster-leadbeater/

Arcano 14 – Temperança – Samekh

Significados simbólicos

A alquimia, a transmutação dos elementos.

Renovação da vida, influência celeste, circulação, adaptação.

Serenidade. Harmonia. Equilíbrio.

Interpretações usuais na cartomancia

Tolerância, paciência, praticidade, felicidade. Aceitação dos acontecimentos,

flexibilidade para adaptar-se às circunstâncias. Educação, trato social. Caráter elástico para enfrentar as transformações. Temperamento descuidado.

Mental: Espírito de conciliação, ausência de paixões no julgamento; dá o sentido profundo das coisas, como representante de um princípio eterno de moderação. Exclui a rigidez, o emperramento. Corresponde à flexibilidade e ao plástico.

Emocional: Os seres se reconhecem e se encontram por suas afinidades. Sob a influência desta carta são felizes, mas não evoluem e não conseguirão se livrar um do outro.

Físico: Conciliação nos negócios, atividades e empreendimentos. Pesam-se os prós e contras, encontra-se a maneira de estabelecer um compromisso, mas se ignora se o empreendimento será ou não coroado de êxito. Reflexão, decisão que não pode ser tomada de imediato.

Do ponto de vista da saúde: enfermidade difícil de curar, porque se alimenta de si mesma.

Sentido negativo: Desordens, discordâncias. Indiferença. Falta de personalidade, passividade. Inconstância, humor irregular, desequilíbrio. Tendência a se deixar levar pela corrente, submissão à moda e aos preconceitos. Resultados não conformes às aspirações. Derramamento, saída, fluxo involuntário. As coisas seguem o seu curso.

História e iconografia
A mulher que derrama líquido é uma alegoria muito comum durante a Idade Média para representar a virtude da temperança: supunha-se que misturava água no vinho para diminuir os seus efeitos. Curiosamente, a mesma imagem serviu durante os primeiros séculos do cristianismo para ilustrar o contrário: o milagre das bodas de Canaã, onde a mulher – por ordem de Jesus – vira a água que vai se transformar em vinho.

Com outros significados pode ser encontrada nos versos de Horácio: “O cântaro reterá por longo tempo o perfume que o encheu pela primeira vez”.

Mistura de anjo e mulher, A Temperança evocou sempre, para os investigadores do Tarô, o mito do hermafrodita. Tema recorrente e vastíssimo, por um de seus aspectos – que é o que aqui interessa – a androginia tem sido considerada desde tempos antigos como premonição feliz. Isto faz da Temperança uma carta amável, do ponto de vista adivinhatório, cuja presença alivia sempre a densidade do oráculo.

Arcano de reunião, e portanto de equilíbrio – a coniunctio oppositorum, em sua fase anterior à bissexualidade – onde o derramamento do líquido já foi interpretado como uma metáfora das transformações: a passagem do espiritual ao físico, do sentimento à razão.

Astrologicamente, não deixa dúvidas sobre sua filiação sagitariana, que guarda correspondência com o simbolismo de Indra, divindade hindu da purificação.

Wirth relaciona a androginia da Temperança ao elemento relacionado ao quinto ternário do Tarô, que provém da morte assexuada (XIII) e culmina no Diabo bissexual (XV). É preciso assinalar também sua localização como último termo do segundo setenário, que corresponde à Alma ou psique, plano da personalidade fluente, flexível e instável na natureza, relacionada às águas em quase todas as teofanias, assim como o Espírito é associado à luz (fogo, ar) e o Corpo à terra.

O tema do derramamento e dos vasos gêmeos e opostos dominam, por outro lado, as especulações sobre os prodígios terapêuticos. Neste aspecto, o Arcano XIIII é claramente o curador, o agente reparador e reconstituinte, aquele que verte a harmonia universal sobre o desequilíbrio individual. Como o Eremita, lembra os médicos, curandeiros e charlatães; mais ainda, lembra conselheiros, confessores e terapeutas.

Resta estabelecer uma leitura da Temperança no contexto do interminável simbolismo aquático, pois refere-se à matéria unívoca (o oceano primordial), à corrente circulatória que mantém a vida (chuva, seiva, leite, sangue, sêmen), à mãe (as águas como elemento pré-natal) e às imersões como rito de morte e ressurreição (batismo).

Por Constantino K. Riemma
http://www.clubedotaro.com.br/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-14-temperan%C3%A7a-samekh

Mapa Astral de Peter Paul Rubens

A maioria de vocês não deve conhecer, mas para quem é estudioso de História da Arte, este é um dos pintores mais importantes do planeta, e o meu pintor favorito. Peter Paul Rubens (Siegen, 28 de Junho de 1577 — Antuérpia, 30 de Maio de 1640) foi um pintor flamengo inserido no contexto do Barroco.

Além de manter um grande estúdio em Antuérpia que produziu muitas pinturas populares entre a nobreza e os colecionadores por toda a Europa, Rubens foi humanista de educação clássica, um colecionador e um diplomata, e foi elevado ao título de cavaleiro por Filipe IV da Espanha e Carlos I de Inglaterra.

O Mapa de Peter tem Sol em Câncer, ascendente em Libra; Marte e Mercúrio em Câncer-Leão (Cavaleiro de Bastões); Lua e Vênus em Leão; Júpiter em Virgem e Saturno em Capricórnio, sendo Saturno seu planeta mais forte, com 5 Aspectações.

Seu estilo de pintura é extremamente realista, tornando-se praticamente um portal combinado das energias capricornianas, virginianas e cancerianas. Suas obras conseguem mexer profundamente com o emocional de quem as observa, ao mesmo tempo em que são impregnadas de uma qualidade técnica impressionante (Trígono muito forte entre Júpiter em Virgem e Saturno em Capricórnio). A beleza e as cores vivas utilizadas em sua técnica são reflexos das energias cancerianas e leoninas.

Suas características de colecionador e diplomata ficam evidentes com a forte combinação das energias de Câncer e Libra. Entre 1627 e 1630, a carreira diplomática de Rubens esteve particularmente ativa e ele frequentemente se movimentava entre as cortes da Espanha e da Inglaterra tentando promover a paz entre os Países Baixos Espanhóis e as Províncias Unidas. Ele também fez diversas viagens para o norte da Holanda, tanto como artista quanto como diplomata.

#Astrologia #Biografias

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/mapa-astral-de-peter-paul-rubens

Carl Gustav Jung

1875 – 1961

Carl Gustav Jung nasceu a 26 de julho de 1875, em Kresswil, Basiléia, na Suíça, no seio de uma família voltada para a religião. Seu pai e vários outros parentes eram pastores luteranos, o que explica, em parte, desde a mais tenra idade, o interesse do jovem Carl por filosofia e questões espirituais e o pelo papel da religião no processo de maturação psíquica das pessoas, povos e civilizações. Criança bastante sensível e introspectiva, desde cedo o futuro colega de Freud demonstrou uma inteligência e uma sagacidade intelectuais notáves, o que, mesmo assim, não lhe poupou alguns dissabores, como um lar algumas vezes um pouco desestruturado e a inveja dos colegas e a solidão.

Ao entrar para a universidade, Jung havia decidido estudar Medicina, na tentativa de manter um compromisso entre seus interesses por ciências naturais e humanas. Ele queria, de alguma forma, vivenciar na prática os ideais que adotava usando os meios dados pela ciência. Por essa época, também, passou a se interessar mais intensamente pelos fenômenos psíquicos e investigou várias mensagens hipoteticamente recebidas por uma médium local (na verdade, uma prima sua), o que acabou sendo o material de sua tese de graduação, “Psicologia e Patologia dos Assim Chamados Fênomenos Psíquicos”.

Em 1900, Jung tornou-se interno na Clínica Psiquiátrica Bugholzli, em Zurique, onde estudou com Pierre Janet, em 1902, e onde, em 1904, montou um laboratório experimental em que criou seu célebre teste de associação de palavras para o diagnóstico psiquiátrico. Neste, uma pessoa é convidada a responder a uma lista padronizada de palavras-estímulo; qualquer demora irregular no tempo médio de resposta ou excitação entre o estímulo e a resposta é muito provavelmente um indicador de tensão emocional relacionada, de alguma forma, com o sentido da palavra-estímulo. Mas tarde este teste foi aperfeiçoado e adaptado por inúmeros psiquiatras e psicólogos, para envolver, além de palavras, imagens, sons, objetos e desenhos. É este o princípio básico usado no detector de mentiras, utilizado pela polícia científica. Estes estudos lhe granjearam alguma reputação, o que o levou, em 1905, aos trinta anos, a assumir a cátedra de professor de psiquiatria na Universidade de Zurique. Neste ínterim, Jung entra em contato com as obras de Sigmund Freud (1856-1939), e, mesmo conhecendo as fortes críticas que a então incipiente Psicanálise sofria por parte dos meio médicos e acadêmicos na ocasião, ele fez questão de defender as descobertas do mestre vienense, convencido que estava da importância e do avanço dos trabalhos de Freud. Estava tão enstusiasmado com as novas perspectivas abertas pela psicanálise, que decidiu conhecer Freud pessoalmente. O primeiro encontro entre eles transformou-se numa conversa que durou treze horas ininterruptas. A comunhão de idéias e objetivos era tamanha, que eles passaram a se corresponder semanalmente, e Freud chegou a declarar Jung seu mais próximo colaborador e herdeiro lógico, e isso é algo que tem de ser bem frisado, a mútua admiração entre estes dois homens, frequentemente esquecida tanto por freudianos como por junguianos. Porém, tamanha identidade de pensamentos e amizade não conseguia esconder algumas diferenças fundamentais, e nem os confrontos entre os fortes gênios de um e de outro. Jung jamais conseguiu aceitar a insistência de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual, e Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais como fontes válidas de estudo em si. O rompimento entre eles foi inevitável, ainda que Jung o tenha, de certa forma, precipitado. Ele iria acontecer mais cedo ou mais tarde. O rompimento foi doloroso para ambos. O rompimento turbulento do trabalho mútuo e da amizade acabou por abrir uma profunda mágoa mútua, nunca inteiramente assimilada pelos dois principais gênios da Psicologia do século XX e que ainda, infelizmente, divide partidários de ambos os teóricos.

Aterior mesmo ao período em que estavam juntos, Jung começou a desenvolver uma sistema teórico que chamou, originalmente, de “Psicologia dos Complexos”, mais tarde chamando-a de “Psicologia Analítica”, como resultado direto de seu contato prático com seus pacientes. O conceito de inconsciente já está bem sedimentado na sólida base psiquiátrica de Jung antes de seu contato pessoal com Freud, mas foi com Freud, real formulador do conceito em termos clínicos, que Jung pôde se basear para aprofundar seus próprios estudos. O contato entre os dois homens foi extremamente rico para ambos, durante o período de parceria entre eles. Aliás, foi Jung quem cunhou o termo e a noção básica de “complexo”, que foi adotado por Freud. Por complexo, Jung entendia os vários “grupos de conteúdos psíquicos que, desvinculando-se da consciência, passam para o inconsciente, onde continuam, numa existência relativamente autônoma, a influir osbre a conduta” (G. Zunini). E, embora possa ser frequentemente negativa, essa influência também pode assumir caracterísiticas positivas, quando se torna o estímulo para novas possibilidades criativas.

Jung já havia usado a noção de complexo desde 1904, na diagnose das associações de palavras. A variância no tempo de reação entre palavras demonstrou que as atitudes do sujeito diante de certas palavras-estímulo, quer respondendo de forma exitante, quer de forma apressada, era diferente do tempo de reação de outras palvras que pareciam ter estimulação neutra. As reações não convencionais poderiam indicar (e indicavam de fato) a presença de complexos, dos quais o sujeito não tinha consciência.

Utilizando-se desta técnica e do estudo dos sonhos e de desenhos, Jung passou a se dedicar profundamente aos meios pelos quais se expressa o inconsciente. Os sonhos pessoais de seus pacientes o intrigavam na medida em que os temas de certos sonhos individuais eram muito semelhantes aos grandes temas culturais ou mitológicos universais, ainda mais quando o sujeito nada conhecia de mitos ou mitologias. O mesmo ocorria no caso dos desenhos que seus pacientes faziam, geralmente muito parecidos com os símbolos adotados por várias culturas e tradições religiosas do mundo inteiro. Estas similaridades levaram Jung à sua mais importante descoberta: o “inconsciente coletivo”. Assim, Jung descobrira que além do consciente e inconsciente pessoais, já estudados por Freud, exitiria uma zona ou faixa psíquica onde estariam as figuras, símbolos e conteúdos arquetípicos de caráter universal, frequentemente expressos em temas mitológicos. Por exemplo, o mito bíbilico de Adão e Eva comendo do fruto da árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e, por isso, sendo expulosos do Paraíso, e o mito grego de Prometeu roubando o fogo do conhecimento dos deuses e dando-o aos homens, pagando com a vida pelo sua presunção são bem parecidos com o moderno mito de Frankenstein, elaborado pela escritora Mary Schelley após um pesadelo, e que toca fundo na mente e nas emoções das pessoas de forma quase “instintiva”, como se uma parte de nossas mentes “entendesse” o real significado da história: o homem sempre paga um alto preço pela ousadia de querer ser Deus.

Enquanto o inconsciente pessoal consiste fundamentalmente de material reprimido e de complexos, o inconsciente coletivo é composto fundamentalmente de uma tendência para sensibilizar-se com certas imagens, ou melhor, símbolos que constelam sentimentos profundos de apelo universal, os arquétipos: da mesma forma que animais e homens parecem possuir atitudes inatas, chamadas de instintos, também é provável que em nosso psiquismo exista um material psíquico com alguma analogia com os instintos. Talvez, as imagens arquetípicas sejam algo como que figurações dos próprios insitintos, num nível mais sofisticado, psíquico. Assim, não é mais arriscado admitir a hipótese do inconsciente coletivo, comum a toda a humanidade, do que admitir a existência instintos comuns a todos os seres vivos.

Assim, em resumo, o inconsciente coletivo é uma faixa intrapsíquica e interpsíquica, repleto de material representativo de motivos de forte carga afetiva comum a toda a humanidade, como, por exemplo, a associação do femino com características maternas e, ao mesmo tempo, em seu lado escuro, crueis, ou a forte sensação intuitiva universal da existência de uma transcendência metaforicamente denominada Deus. A mãe boa, por exemplo, é um aspecto do arquétipo do feminino na psique, que pode ter a figura de uma deusa ou de uma fada, da mãe má, ou que pode possuir os traços de uma bruxa; a figura masculina poderá ter uma representação num sábio, que geralmente é representado por um ermitão, etc. As figuras em si, mais ou menos semelhantes em várias culturas, são os arquétipos, que nada mais são que “corpos” que dão forma aos conteúdos que representam: o arquétipo da mãe boa, ou da boa fada, representam a mesma coisa: o lado feminino positivo da natureza humana, acolhedor e carinhoso.

Este mundo inconsciente, onde imperam os arquétipos, que nada mais são que recepientes de conteúdos ainda mais profundos e universais, é pleno de esquemas de reações psíquicas quase “instinitvas”, de reações psíquicas comuns a toda a humanidade, como, por exemplo, num sonho de perseguição: todas as pessoas que sonham ou já sonharam sendo perseguidas geralmente descrevem cenas e ações muito semelhanes entre si, senão na forma, ao menos no conteúdo. A angústia de quem é perseguido é sentida concomitantemente ao prazer que sabemos ter o perseguidor no enredo onírico, ou a sua raiva, ou o seu desejo. Estes esquemas de reações “instintivas” (uso esta palavra por analogia, não por equivalência) também se encontram nos mitos de todos os povos e nas tradições religiosas. Por exemplo, no mito de Osires, na história de Krishna e na vida de Buda encontramos similiradades fascinates. Sabemos que mitos encobrem frequentemente a vida de grandes homens, como se pudessem nos dizer algo mais sobre a mensagem que eles nos trouxeram, e quanto mais carismáticos são esses homens, mais a imaginação do povo os encobrem em mitos, e mais esses mitos têm em comum. Estes padrões arquetípicos expressos quer a nível pessoal que a nível mitológico relacionam-se com caracterísiticas e profundos anseios da natureza humana, como o nascimento, a morte, as imagens parterna e materna, e a relação entre os dois sexos.

Outra temática famosa com respeito a Jung é a sua teoria dos “tipos psicológicos”. Foi com base na análise da controvérsia entre as personalidades de Freud e um outro seu discípulo famoso, e também dissidente, Alfred Adler, que Jung consegue delinear a tipologia do “introvertido” e do “extrovertido”. Freud seria o “extrovertido”, Adler, o “introvertido”. Para o extrovertido, os acontecimentos externos são da máxima importância, ao nível consciente; em compesação, ao nível insconsciente, a atividade psíquica do extrovertido concentra-se no seu próprio eu. De modo inverso, para o introvertido o que conta é a resposta subjetiva aos acontecimentos externos, ao passo que, a nível insconsciente, o introvertido é compelido para o mundo externo.

Embora não exista um tipo puro, Jung reconhece a extrema utilidade descritiva da distinção entre “introvertido” e “extrovertido”. Aliás, ele reconhecia que todos temos ambas as características, e somente a predominância relativa de um deles é que determina o tipo na pessoa. Seu mais famoso livro, Tipos Psicológicos é de 1921. Já nesse período, Jung dedica maior atenção ao estudo da magia, da alquimia,das diversas religiões e das culturas ocidentais pré-cristãs e orientais (Psicologia da Religião Oriental e Ocidental, 1940; Psicologia e Alquimia, 1944; O eu e o inconsciente, 1945).

Analisando o seu trabalho, Jung disse: “Não sou levado por excessivo otimismo nem sou tão amante dos ideais elevados, mas me interesso simplesmente pelo destino do ser humano como indivíduo – aquela unidade infinitesimal da qual depende o mundo e na qual, se estamos lendo corretamente o signficado da mensagem cristã, também Deus busca seu fim”. Ficou célebre a controvertida resposta que Jung deu, em 1959, a um entrevistador da BBC que lhe perguntou: “O senhor acredita em Deus?” A resposta foi: “Não tenho necessidade de crer em Deus. Eu o conheço”.

Eis o que Freud afirmou do sistema de Jung: “Aquilo de que os suíços tinham tanto orgulho nada mais era do que uma modificação da teoria psicanalítica, obtida rejeitando o fator da sexualidade. Confesso que, desde o início, entendi esse ‘progresso’ como adequação excessiva às exigências da atualidade”. Ou seja, para Freud, a teoria de Jung é uma corruptela de sua própria teoria, simplificada diante das exigências moralistas da época. Não há nada mais falso. Sabemos que foi Freud quem, algumas vezes, utilizou-se de alguns conceitos de Jung, embora de forma mascarada, como podemos ver em sua interpretação do caso do “Homem dos Lobos”, notadamente no conceito de atavismo na lembrança do coito. Já por seu turno, Jung nunca quis negar a importância da sexualidade na vida psíquica, “embora Freud sustente obstinadamente que eu a negue”. Ele apenas “procurava estabelecer limites para a desenfreada terminologia sobre o sexo, que vicia todas as discussões sobre o psiquismo humano, e situar então a sexualidade em seu lugar mais adequado. O senso comum voltará sempre ao fato de que a sexualidade humana é apenas uma pulsão ligada aos instintos biofisiológicos e é apenas uma das funções psicofisiológicas, embora, sem dúvida, muitíssimo importante e de grande alcance”.

Carl Gustav Jung morreu a 6 de junho de 1961, aos 86 anos, em sua casa, à beira do lago de Zurique,em Küsnacht após uma longa vida produtiva, que marcou – e tudo leva a crer que ainda marcará mais – a antropologia, a sociologia e a psicologia.

Freud e Jung: Estudos Críticos

A fecunda e tumultuada amizade entre Freud e Jung, nas palavras de Paul Roazen, é um dos marcos da história do pensamento e da cultura ocidental.

O rompimento dessa amizade entre os dois maiores cientistas e sábios do século impediu a continuação de  uma parceria que poderia ter contribuído para um desenvolvimento ainda maior da ciência da psique e para o alargamento dos horizontes de conhecimento da interioridade do homem.

Muito já se disse e se escreveu sobre o assunto. Mas não há conclusão que se imponha de modo a silenciar a polêmica que se arrasta e prossegue entre os discípulos menos avisados de cada um dos mestres.

Relacionamos a seguir textos que iluminam a questão, embora alguns dos seus aspectos permaneçam obscuros e possivelmente nunca venham a ser completamente elucidados. Talvez porque sejam manifestações cujas origens estão fincadas nas mais abissais regiões do inconsciente dos protagonistas.

De qualquer sorte, talvez seja necessário àqueles que se propõem seguir as orientações teóricas de Freud ou de Jung ou, ainda, de Freud e Jung – mergulhar na história dessa turbulenta amizade e extrair as suas próprias conclusões. É possível que esse mergulho termine por ser um encontro pessoal de cada um com a sua própria verdade. Um confronto rico e saudável com o seu inconsciente. Então, quem sabe, talvez tenhamos aprendido a lição maior desses mestres segundo a qual pessoa alguma pode acompanhar ou orientar uma jornada que ela mesmo não a tenha feito.

O confrontar-se com o inconsciente e o defrontar-se com a própria sombra parece ser o exemplo maior de coragem pessoal e honestidade intelectual que Freud e Jung legaram às gerações de estudiosos da alma humana que os sucederam.

Esse entendimento poderá ser útil à compreensão aprofundada das teorias do Dr. Sigmund Freud e do Dr.Carl Gustav Jung.

E, parafraseando o bardo inglês, o resto é silêncio!

  • AMIGOS ÍNTIMOS, RIVAIS PERIGOSOS – A turbulenta convivência de Freud e Jung
    Duane Schultz
    Rio de Janeiro: Rocco, 1991 – 274 p.
    O autor, psicólogo e pesquisador da história da psicologia e da psicanálise, apresenta um relato claro e objetivo da turbulenta convivência entre Freud e Jung.

  • CORRESPONDÊNCIA COMPLETA DE SIGMUND FREUD E CARL G. JUNG
    William McGuire (org.)
    Rio de Janeiro: Imago, 1993 – 651 p.
    Contém a correspondência de Freud e de Jung no período de 1906 a 1914.

  • FREUD E JUNG – Anos de amizade, anos de perda
    Linda Donn
    Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991 – 358 p.
    Percorrendo a trajetória da amizade de Freud e Jung, desde o início até o tempestuoso conflito que levou ao seu rompimento, a autora mostra o trabalho que os dois cientistas realizaram para dar forma e substância à psicanálise e, por fim, focaliza o lastimável conflito que impediu a continuação da amizade e da colaboração científica entre os dois maiores estudiosos da mente humana de todos os tempos.

  • FREUD E A PSICANÁLISE
    Carl Gustav Jung
    Petrópolis: Vozes – Volume IV das Obras Completas
    Reúne os principais escritos de Jung sobre Freud e sobre a psicanálise, destacando principalmente as mudanças do seu ponto de vista sobre a ciência freudiana. Contém uma análise detalhada sobre as suas idéias fundamentais e as suas diferenças em relação a Freud.

  • FREUD E SEUS DISCÍPULOS – Capítulo VI – p. 259-335
    Paul Roazen
    São Paulo: Cultrix, 1978 – 669 p.
    Completo estudo de Freud, contemplando suas idéias, personalidade e as relações com os seus discípulos. No captítulo VI, o autor trata da relação Freud-Jung e da sua importância para psicanálise.

  • FREUD – Uma vida para o nosso tempo – Capítulo 5 – p. 191-231
    Peter Gay
    São Paulo: Companhia das Letras,1989 – 719 p.
    Considerada uma das mais bem documentadas biografias de Freud, Peter Gay dedica praticamente todo o
    seu capítulo 5, que trata da Política Psicanalítica, à análise da amizade Freud e Jung. No começo, Jung
    era o “Principe Herdeiro” , depois transformado no “Inimigo”.

  • UM MÉTODO MUITO PERIGOSO – Freud, Jung e Sabina Spielrein – A história ignorada dos primeiros anos da psicanálise
    John Kerr
    Rio de Janeiro: Imago, 1997 – 643 p.
    Nesse livro, John Kerr apresenta um estudo dos primórdios da história da psicanálise, principalmente sobre o papel que Jung desempenhou nessa etapa do surgimento da ciência freudiana. O autor reexamina a polêmica relação Freud-Jung-Sabina Spielrein e seu impacto na estruturação das idéias de Jung e a importância desse tríplice relacionamento para o movimento psicanalítico.

  • VIDA E OBRA DE SIGMUND FREUD – 3 VOLUMES
    Ernest Jones
    Rio de Janeiro: Imago, 1989
    Tradicional biografia de Freud, escrita por um dos seus contemporâneos e discípulo. No segundo volume da trilogia, Capítulo 5, Ernest Jones trata das dissenções sofridas pelo movimento psicanalítico, dentre as quais inclui o rompimento com Jung ( p. 146-160).

    • VIENA DE FREUD E OUTROS ENSAIOS
      Bruno Bettelheim
      Rio de Janeiro: Campus, 1991 – 273 p.
      Ensaios sobre Freud e a psicanálise. Na primeira parte, no ensaio Uma assimetria secreta, o autor comenta o Diário de uma secreta simetria, que apresenta a correspondência entre Sabina Spielrein, Freud e Jung organizada pelo psicólogo junguiano Aldo Carotenuto.

 

Volume .. Título
..
I ESTUDOS PSIQUIÁTRICOS Esse volume reúne os primeiros escritos psiquiátricos de Jung sobre os chamados fenômenos ocultos:
-SOBRE A PSICOLOGIA E PATOLOGIA DOS FENÔMENOS CHAMADOS OCULTOS – (1902)
-ERROS HISTÉRICOS DA LEITURA-(1904)
-CRIPTOMNÉSIA – (1905)
-DISTIMIA MANÍACA-(1903)

Outros trabalho incluídos:
-UM CASO DE ESTUPOR HISTÉRICO EM PESSOA CONDENADA À PRISÃO – (1902)
-SOBRE A SIMULAÇÃO DE DISTÚRBIO MENTAL – (1903)
-PARECER MÉDICO SOBRE UM CASO DE SIMULAÇÃO DE INSANIDADE MENTAL – (1904)
-UM TERCEIRO PARECER CONCLUSIVO SOBRE DOIS PARECERES PSIQUIÁTRICOS CONTRADITÓRIOS (1906)
-SOBRE O DIAGNÓSTICO PSICOLÓGICO DE FATOS

Os estudos que se contém nesse volume expressam a polêmica de Jung com o modelo psiquiátrico vigente e a tendência de seus estudos e pesquisas.

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II ESTUDOS EXPERIMENTAIS Contém as contribuições de Jung aos “Estudos diagnósticos de associações”, cujas principais experiências foram realizadas, sob a sua direção, na clínica psiquiátrica da Universidade de Zurique, a partir de 1902 e publicados entre 1904 e 1910. Outros estudos incluídos referem-se aos trabalhos de “Pesquisas Psicofísicas” (1907-1908).
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III PSICOGÊNESE DAS DOENÇAS MENTAIS Os artigos integrantes desse volume pertencem à fase das primeiras publicações de Jung e, na sua maioria, abordam temas psiquiátricos, de modo particular a esquizofrenia.
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IV FREUD E A PSICANÁLISE Reúne os principais escritos de Jung sobre Freud e sobre a psicanálise, destacando as mudanças do seu ponto de vista sobre a ciência freudiana. Contém uma análise detalhada sobre as idéias fundamentais de Jung e as suas diferenças em relação às de Freud.
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V SÍMBOLOS DA TRANSFORMAÇÃ0-Análise dos primórdios de uma esquizofreniaVersão completa e definitiva de uma das mais importantes e avançadas obras de Jung, publicada em 1952. O texto original, denominado, Símbolos e transformações da libido data de 1911-12. A elaboração da versão definitiva se estendeu por quase 40 anos. Esse escrito, em que Jung abandona a terminologia da psicanálise e da psiquiatria da época, assinala o ponto de sua ruptura com Freud.
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VI TIPOS PSICOLÓGICOS Publicado em 1921, contém a teoria junguiana sobre as diferenças entre as pessoas e suas relações com o mundo. Nele, o autor faz incursões pelo campo da arte, da filosofia, da mitologia, da religião e do simbolismo para fundamentar as suas idéias. É um dos textos mais conhecidos e divulgados de Jung. A sua elaboração, nas palavras do autor, demorou quase vinte anos para ser concluída.
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VII ESTUDOS SOBRE PSICOLOGIA ANALÍTICA Reúne dois estudos publicados independemente:

– Psicologia do Inconsciente – Vol VII/1

Nesse tomo, Jung discute as concepções de Freud e de Adler sobre o inconsciente, ao mesmo tempo em que apresenta uma introdução à psicologia do inconsciente, fundamentada nos arquétipos do sonho. O texto, publicado inicialmente em 1912, foi modificado ampla e sucessivamente ao longo dos anos, inclusive quanto ao título.

– Eu e o Inconsciente – Vol VII/2

Publicado em 1928, resulta de uma conferência proferida em 1916, subordinada ao tema “A Estrutura do inconsciente”. O trabalho original está incluído no apêndice desse tomo. O texto é uma introdução aos conceitos fundamentais da Psicologia Analítica.

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VIII A DINÂMICA DO INCONSCIENTE Os textos desse volume expõem os conhecimentos fundamentais e as hipóteses de trabalho de Jung, o que permite conhecer a sua posição epistemológica. Destacam-se os seguintes trabalhos: a energia psíquica; a função transcendente;,a teoria dos complexos; o significado da constituição e da herança para a psicologia; determinantes psicológicas do comportamento humano; instinto e inconsciente; a natureza do psíquico; psicologia do sonho; os fundamentos psicológicos da crença nos espíritos; o real e o supra-real; as etapas da vida humana; a alma e a morte; sincronicidade.
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IX – 1 OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE COLETIVO Encontra-se em fase de tradução para o português.
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IX – 2 AION – Estudos sobre o simbolismo do Si-mesmoO segundo tomo do volume IX das obras completas de C.G.Jung contém uma extensa monografia sobre o arquétipo do Si-mesmo.
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X PSICOLOGIA EM TRANSIÇÃO Reúne estudos sobre a relação do indivíduo com a sociedade, tendo como ponto de partida o escrito Sobre o Inconsciente(1918), em que Jung expõe a teoria de que o conflito na Europa, naquela época, tinha a sua origem no inconsciente coletivo, influenciando grupos e nações. A partir desse trabalho, o autor escreveu ensaios que retomam e aprofundam os temas abordados. O volume inclui, ainda, o texto Um mito moderno: Sobre coisas vistas no céu(1958). Nesse trabalho, Jung considera o mito como uma compensação pela unilateralidade de nossa era tecnológica, cuja tendência preponderante é cientificista.
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XI PSICOLOGIA DA RELIGIÃO OCIDENTAL E ORIENTAL Contém os principais estudos de Jung sobre o fenômeno religioso e a sua importância para o desenvolvimento psicológico do homem. Os ensaios contidos neste volume abordam a religiosidade oriental e ocidental, por meio dos quais o autor mostra que subjacentes a todas as religiões estão conteúdos arquetípicos, representações primordiais da alma humana.
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XII PSICOLOGIA E ALQUIMIA Reúne os principais estudos de Jung sobre a alquimia, em que faz relação entre os processos alquímicos e o desenvolvimento da personalidade.
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XIII ESTUDOS ALQUÍMICOS Encontra-se em fase de tradução para o português.
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XIV MYSTERIUM CONIUNCTIONIS Publicada em dois volumes (XIV/1 e XIV/2), essa obra contempla os estudos avançados de Jung no campo da alquimia, em que ele mostra que a alquimia antecipa parte da problemática do homem moderno. O subtítulo do volume “Pesquisas sobre a separação e a composição dos opostos psíquicos na Alquimia” indica a idéia central do trabalho: a unificação ou superação dos opostos.
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XV O ESPÍRITO NA ARTE E NA CIÊNCIA Nesse volume estão publicados os ensaios de Jung sobre:
-Paracelso (1929)
-Sigmund Freud, um fenômeno histórico-cultural (1932)
-Sigmund Freud (1939)
-Richard Wilhelm (1930)
-Relação da psicologia analítica com a obra de arte poética (1922)
-Psicologia e poesia (1930)
-Ulisses, um monólogo ( 1932) – Refere-se à obra de James Joyce.
-Picasso (1932)
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XVI A PRÁTICA DA PSICOTERAPIA Contém trabalhos sobre questões relativas à prática da psicoterapia. Na primeira parte trata, o autor trata dos problemas gerais:princípios básicos da prática da psicoterapia; o que é psicoterapia; alguns aspectos da psicoterapia moderna; os objetivos da psicoterapia; os problemas da psicoterapia moderna; psicoterapia e visão do mundo; medicina e psicoterapia; psicoterapia e atualidade; questões básicas da psicoterapia. E na segunda, aborda os temas específicos:o valor terapêutico da ab-reação; aplicação prática da análise dos sonhos; a psicologia da transferência.
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XVII O DESENVOLVIMENTO DA PERSONALIDADE Esse volume reúne os trabalhos de Jung sobre psicologia infantil, cuja parte mais importante é constituída por três preleções sobre “Psicologia Analítica e Educação” Foram incluídos também os ensaios “O casamento como relacionamento psíquico” texto que tem sido amplamente estudado e debatido nas questões de terapia de casais. Outro estudo incluído:”Sobre a Formação da Personalidade”.
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XVIII ESCRITOS DIVERSOS XVII/1 -Fundamentos de Psicologia Analítica

Reúne as cinco conferências proferidas por Jung, na Clínica Tavistock, em Londres. em 1935. Nessas textos, Jung faz um introdução ampla aos princípios fundamentais de sua psicologia. Dentre os ouvintes dessas conferências encontravam-se médicos, psiquiatras, psicanalistas freudianos, etc. É interesssante registrar que o psicanalista Wilfred R.Bion esteve presente, pelo menos, às duas primeiras exposições.No texto estão registradas as intervenções que fez.  Os demais textos que compõem este volume estão em fase de tradução para o português.

OUTRAS OBRAS DE C.G.JUNG PUBLICADAS EM PORTUGUÊS

  • HOMEM E SEUS SÍMBOLOS (O)
    Editor:Carl G.Jung e, após a sua morte, Marie-Louise von Franz
    Edição especial brasileira
    Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 317 p.
    Nesse livro, Jung acentua que o homem só se realiza através do conhecimento e da aceitação do inconsciente – conhecimento que ele adquire por intermédio dos sonhos e seus símbolos. Trata-se do único trabalho de Jung destinado a explicar ao público leigo a sua maior contribuição ao conhecimento da mente humana: a sua teoria a respeito da importância do simbolismo. Particularmente, o simbolismo dos sonhos.
  • HOMEM À DESCOBERTA DA SUA ALMA (O)
    Porto: Livraria Tavares Martins, 1975.
    Livro publicado originariamente em francês-“L’HOMME À LA DÉCOUVERTE DE SON ÂME”. No prefácio que escreveu, em setembro de 1943, Roland Cohen declara que a obra destinava-se a apresentar ao público francês o essencial da psicologia de Carl Gustav Jung, reunindo os trabalhos que expunham as bases de sua obra:
  • LIVRO I – EXPOSIÇÃO

I – O problema fundamental da psicologia contemporânea
II- A psicologia e os tempos presentes

  • LIVRO II – OS COMPLEXOS

III-Introdução à psicologia analítica – Primeira parte: Psicologia geral
IV-Introdução à psicologia analítica – Segunda parte: Os complexos
V- Considerações gerais sobre a teoria dos complexos

 

  • LIVRO III – OS SONHOS

VI-A psicologia do sonho
VII-A utilização prática dos sonhos
VIII-Introdução à psicologia analítica – Terceita parte: Os sonhos

  • MEMÓRIAS, SONHOS E REFLEXÕES
    Compilação e prefácio de Aniela Jaffé
    Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1989. 361 p.
    Testemunho que Jung dá de si mesmo. No prólogo ele afirma “A minha vida é a história de um inconsciente que se realizou”. A leitura desse livro é imprescindível para uma compreensão adequada da personalidade do criador da psicologia analítica.

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/carl-gustav-jung/

H. P. Lovecraft, Charles Dexter Ward, Joseph Curwen e Necromancia

No início do ano de 1927, Howard Phillips Lovecraft escreveu o seu único romance, entitulado “O Caso de Charles Dexter Ward“, um romance que o autor não pôde ver publicado. A história foi impressa de forma resumida em 1941, quatro anos após a morte do escritor, nas edições de Maio e Julho da revista Weird Tales e em sua forma completa apenas dois anos depois, na coleção Beyond the Wall of Sleep publicada pela editora Arkham House.

O livro conta a história de Charles Dexter Ward, um jovem preso ao passado, especialmente à figura de seu tataravô Joseph Curwen, um feiticeiro que fugiu da caça às bruxas que tomou conta da cidade de Salem indo se estabelecer na província de Providência, na Ilha de Rodes. Joseph Curwen ganhou notoriedade em sua época por seus estranhos hábitos, como vagar por cemitérios, e pelas experiências alquímicas que realizava. A semelhança física que compartilha com o antepassado é motivo de espanto para Ward, que se torna obcecado em reproduzir as experiências cabalísticos e alquímicas registradas nos diários de Curwen e, pesquisando as anotações do mago, descobre uma forma de trazer de volta à vida qualquer ser já morto, e decide que conversar com seu ascendente renderia mais frutos do que apenas estudar sobre sua vida.

Apesar do resumo da obra, o primeiro presuposto deste texto é que o leitor já tenha lido o romance. Caso não seja o seu caso seria interessante parar agora para ler a obra antes de prosseguir, não apenas porque o texto que segue contém o que pode ser considerado como spoilers, mas também porque isso contribui com um compreendimento mais amplo sobre o que será apresentado. Você pode fazer o download do texto integral clicando aqui.

Antes de continuar é importante frisar que este tratado não defende de forma alguma que Lovercraft tenha se envolvido com o ocultismo, tenha participado de alguma ordem iniciática secreta ou que praticasse qualquer forma de magia além de sua própria escrita. Ele era um homem extremamente culto, um gênio até para os padrões modernos, e tinha acesso a muita informação. De mitologia a obras de ocultismo, que já eram de conhecimento geral como os escritos de Papus, Blavatsky e Eliphas Levi – todos esses livros que poderiam ser adquiridos por qualquer curioso na época. Lovecraft cresceu entre livros e aproveitou cada oportunidade que tinha para ler e estudar. Outro ponto que não será desenvolvido aqui é o argumento que defende que mesmo não sendo mago ele era um médium, um portal de contato com uma realidade maior e mais sombria. Sabemos que ele era vítima de sonhos e devaneios que lhe serviam de inspiração para muito do que escrevia, mas qualquer tentiva de desenvolver a hipótese de um dom de vidência do desconhecido merece um tratado próprio que desenvolva o assunto com a seriedade que merece.

 

Despertando os Mortos

Conforme a história se desenrola Ward, a princípio gradualmente e então de maneira brusca, vai perdendo a sanidade e a substituindo com rituais mágicos, evocações e experimentos alquímicos que o distanciam não apenas de seus entes mais próximos como também da realidade, atingindo seu clímax quando é realizado o ritual para trazer da morte Joseph Curwen. O ritual em si é descrito de forma simples mas traz implicações profundas.

O ritual e seus elementos podem ser organizados da seguinte forma:

 

– Sais Essenciais

“Sobre a imensa mesa de mogno jazia virado para baixo um exemplar de Borellus, gasto pelo uso, trazendo muitas notas misteriosas escritas à mão por Curwen ao pé da página e entre as linhas”, este livro trazia um “trecho sublinhado” de “forma febril”. O trecho dizia:

“Os Sais Essenciais dos Animais podem ser preparados e preservados de tal forma que um Homem engenhoso possa ter toda a Arca de Noé em seu próprio Estúdio e fazer surgir a bela Forma de um Animal de suas próprias Cinzas a seu Bel-prazer; e, pelo mesmo Método, dos Sais essenciais do Pó humano, um Filósofo pode, sem recorrer à Necromancia criminosa, evocar a Forma de qualquer ancestral Falecido das cinzas resultantes da incineração de seu Corpo”.

 

– Um Local Reservado ou Afastado Para o Ritual

Conforme sua obcessão por seu antepassado, Curwen, crescia, Ward comprou uma “fazenda na Pawtuxet Road que havia sido propriedade do bruxo. Um lugar para onde se mudava, durante o verão. A propriedade era habitada apenas por duas pessoas, além do próprio Ward, um casal de índios da tribo Narragansett “o marido mudo e com curiosas cicatrizes, e a mulher com uma expressão extremamente repulsiva”, eles eram “seus únicos empregados, trabalhadores braçais e guardas”.

Em um anexo dessa casa ficava o laboratório onde era realizada a maior parte das experiências químicas. Os vizinhos mais próximos à fazenda se encontravam a uma distância de mais de um quarto de milha. Também existe menção “a um grande edifício de pedra, pouco distante da casa, com estreitas fendas em lugar das janelas”.

 

– Diagramas e figuras geométricas desenhados no chão

Dr. Willet, outro personagem central na história, quando investiga o sótão onde Ward passava tanto tempo, percebe “restos semi-apagados de círculos, triângulos e pentagramas traçados com giz ou carvão no espaço livre no centro do amplo aposento” e mais tarde, investigando o laboratório subterrâneo de que Ward montara no antigo bangalô de Curwen, em Pawtuxet, “um grande pentagrama no centro, com um círculo simples de cerca de noventa centímetros pés de diâmetro, entre este e cada um dos outros cantos”

 

– Invocação Per Adonai

Durante uma Sexta-Feira Santa, no fim do dia, “o jovem Ward começou a repetir certa fórmula num tom singularmente elevado” enquanto queimava “alguma substância de cheiro tão penetrante que seus vapores se expandiram por toda a casa”. A repetição da fórmula se prolongou por tanto tempo que a mãe de Ward foi capaz de reproduzí-la por escrito.

A fórmula descrita pela senhora Ward era:

Per Adonai Eloim, Adonai Jehova, Adonai Sabaoth, Metraton On Agla Mathon, verbum pythonicum, mysterium salamandrae, conventus sylvorum, antra gnomorum, daemonia Coeli God, Almonsin, Gibor, Jehosua, Evam, Zariatnatmik, veni, veni, veni. 

Depois de duas horas repetindo initerruptamente a evocação “se desencadeou por toda a vizinhança um pandemônio de latidos de cachorros”, tamanho foi o estardalhaço dos latidos que viraram manchetes de jornal no dia seguinte.

 

– A Invocação Dies Mies Jeschet

Então o pandemônio causado pelos cães da região foi sobrepujado por um “odor que instantaneamente se seguiu; um odor horrível, que penetrou em toda parte, jamais sentido antes nem depois” e então se seguiu “uma luz muito nítida como a do relâmpago, que poderia ofuscar e impressionar não fosse dia pleno”. Uma voz, “que nenhum ouvinte jamais poderá esquecer por causa de seu tonitroante tom distante, sua incrível profundidade e sua dissemelhança sobrenatural da voz de Charles Ward […] abalou a casa e foi claramente ouvida pelo menos por dois vizinhos, apesar do uivo dos cães”. A voz dizia claramente:

DIES MIES JESCHET BOENE DOESEF DOUVEMA ENITEMAUS 

 

– A Invocação Yi-nash-Yog-Sothoth

Logo após a poderosa voz declarar seu intento, “a luz do dia escureceu momentaneamente, embora o pôr-do-sol demorasse ainda uma hora, e então seguiu-se uma lufada de outro odor, diferente do primeiro, mas igualmente desconhecido e intolerável”. Ao mesmo tempo Ward volta a entoar de forma monótona uma nova fórmula, que era percebida como sílabas aparentemente sem sentido:

Yi-nash-Yog-Sothoth-he-lgeb-fi-throdog

Sendo seguida por um grito de YAH!, “cuja força desvairada subia num crescendo de arrebentar os tímpanos”.

Instantes depois um “grito lamentoso que irrompeu com uma explosividade desvairada e gradativamente foi se transformando num paroxismo de risadas diabólicas e histéricas”, este episódio foi seguido por um segundo grito, desta vez proferido certamente por Ward, se fez ouvir, ao mesmo tempo em que a risada continuava a ser ouvida.

 

Tão Morto Quanto Um Morto Pode Estar

Necromancia é uma forma de divinação que envolve os mortos. Na grécia antiga o objetivo do ritual era enviar o mago praticante para o mundo subterrâneo, onde ele consultaria os mortos e voltaria com o conhecimento adquirido. Com o passar do tempo a viagem às profundezas foi substituída por uma evocação, o morto era arrancado do domínio da morte e por momentos poderia se comunicar com os vivos em nosso mundo. Nekros, “morte”, e manteia, “divinação”, o termo foi adotado pelos povos cuja língua se derivou do latim, como os italianos, espanhois e franceses, como nigromancia, nigro significando também “negro”, uma forma negra, escura, de divinação; termo que deu origem a magia negra ou artes negras, uma prática que causava resultados maravilhosos graças à intervenção de espíritos mortos.

Conforme o cristianismo foi se tornando a crença dominante na europa, os espíritos dos mortos que se envolviam com tais rituais começaram a ser considerados espíritos cruéis, almas atormentadas e eventualmente demônios do próprio inferno. Se havia uma magia “negra”, em um mundo de dualidade com certeza haveria o seu oposto, a magia “branca”, se a primeira lidava com almas de mortos que habitavam o submundo e com demônios a segunda obviamente colocava o mago em contato com os espíritos dos Santos e com os Anjos de Deus. Em uma analogia ao Gênese bíblico ou ao Big-Bang moderno, a escuridão e trevas “nigro” deu origem à luz. Nesta aspecto a magia negra é muito mais antiga do que a sua contraparte branca.

 

Necromancia à Moda Antiga

A necromancia é encontrada com outras formas de divinação e magia em praticamente todas as nações da antiguidade, mas nada pode ser dito com certeza a respeito de suas origens. Strabo afirmou que era a principal forma de divinação dos Persas, ela também era praticada na Caldéia, Babilônia e Etrúria. O livro de Isaias, da Bíblia, se refere à prática entre os egípcios – 19:3 – e no livro de Deuteronômio – 18:912 – alerta os israelitas contra a sua prática, chamada de “abominação dos Cananeus”.

Como vimos, as práticas mais antigas eram de ir ao submundo buscar os mortos no reino do qual não podiam escapar, assim na Grécia e em Roma o ritual tinha lugar especialmente em cavernas ou vulcões, que supostamente tinham ligação com o submundo, ou próximo a lagos e rios, já que a água era vista como um “canal de acesso” de comunicação com os mortos, sendo o rio Acheron o mais procurado.

A menção mais antiga à prática da necromancia é a narrativa da viagem de Ulisses ao Hades e sua evocação das almas dos mortos através de vários rituais que lhe foram ensinados por Circe. Outra romantização da evocação de mortos está no sexto livro da Eneida, de Virgílio, que relata a descida de Enéas às regiões infernais, mas neste caso não existe um ritual, o herói vai fisicamente à morada das almas.

Além das narrativas poéticas e mitológicas existem inúmeros registros, por parte de historiadores, de praticantes da necromancia. Em Cabo Tenarus, Callondas evocou a alma de Archilochus. Periandro, o tirano de Coríntio, conhecido como um dos sete sábios da Grécia, enviou mensageiros para o oráculo do Rio Acheron para interrogar sua falecida esposa, depois de dois encontros os mensageiros conseguiram a resposta que buscavam. Pausanis, rei de Esparta, matou Cleonice ao confundí-la com um inimigo durante a noite, e como consequência não encontrava mais paz de espírito nem descanso, após tentativas infrutíferas de se livrar dos sentimentos que o afligiam ele se dirigiu para o Psicopompeion de Phigalia e evocou a alma da morta, recebendo a garantia de que assim que voltasse para Esparta seus pesadelos e medos desapareceriam, assim que voltou para a cidade ele morreu. Após sua morte os espartanos viajaram para Psicagogues, na Itália, para evocar e aplacar sua alma. Entre os romanos, Horácio constantemente alude à evocação dos mortos. Cícero testemunha que seu amigo Appius praticava a necromancia e que Vatinius conjurava as almas do além. O mesmo é dito a respeito do imperador Drusus, de Nero e de Caracalla.

Não existe certeza sobre os rituais realizados, ou os encantamentos feitos. A cada relato surgem descrições complexas e completamente diferentes entre si da maneira de chamar os mortos. Na odisséia Ulisses cava uma trincheira, entorna libações nela e sacrifica uma ovelha negra, cujo sangue será bebido pelas sombras, antes que elas lhe respondam a qualquer pergunta. Lucan descreve em detalhes inúmeros encantamentos e fala de sangue fresco sendo injetado nas veias de um cadáver para que ele retorne à vida. Cícero nos relata sobre Vatinius, que oferecia à alma dos mortos as entranhas de crianças e São Gregório fala de virgens e meninos sendo sacrificados e dissecados para que os mortos pudessem ser evocados ou para que o futuro pudesse ser visto.

Nos primeiros séculos depois de Cristo, os patriarcas da nova religião testemunharam a adoção da prática dentre seus novos convertidos, a necromancia era praticada em conjunto com outras artes mágicas que passaram a ser associadas com demônios, e passaram a advertir seus novos seguidores contra essas práticas nas quais: demônios se apresentavam como se fossem a alma dos mortos” (Tertuliano, De anima, LVII, em P.L., II, 793), mesmo assim, como seria de se esperar, muitos ignoravam os alertas e se entregavam à prática. Surgiram então os esforços das autoridades eclesiásticas, Papas e conselhos em suprimir por completo tal abominação. Leis criadas por imperadores cristãos como Constantino, Constantius, Valentino, Valens e Teodósio não se restringiam apenas à necromancia mas a qualquer forma de magia considerada pagã – precisamos nos lembrar que a igreja aceita que de acordo com a vontade de Deus as almas de pessoas mortas podem aparecer para os vivos lhes revelando coisas desconhecidas, ou que milagres podem ser realizados. Graças a este combate contra magia, rituais e superstição pagã, com o tempo o termo necromancia perdeu seu sentido estrito e passou a ser aplicado a toda forma de “magia negra”, se tornando associado com alquimia, bruxaria e magia. Mesmo com todos seus esforços, a igreja não conseguiu abolir essas práticas e a necromancia sobreviveu, se adaptando quando necessário, à Idade Média ganhando um novo ímpeto pela época do renascimanto.

 

As Raízes da Necromancia de Charles Dexter Ward

smackDuas coisas precisam ser levadas em consideração quando estudamos os rituais de necromancia apresentados por Lovecraft em sua obra, especialmente no Caso de Charles Dexter Ward.

Em primeiro lugar a superstição causada pela religião dominante. O cristianismo abominava qualquer ato religioso e ou mágico que não os rituais consagrados pela igreja e realizado por seus clérigos. Qualquer coisa além disso era vista de forma agressiva pelos religiosos, isso se refletiu no grande público frequentador de igreja e formado por uma sociedade criada a partir de uma moralidade cristã. O medo do sobrenatural acompanhou a raça humana desde seus primórdios, mas além deste sentimento natural houve, a partir do século IV, uma campanha focada em cristalizar esse medo e mudar seu status de característica humana em virtude humana. Isso é o motivo por até hoje religiões que não flertem diretamente com o cristianismo sejam vistas com preconceito, medo ou indiferença por uma sociedade religiosamente “morna”.

No início do século XX, a menção de rituais depravados era tabu. Ordens religiosas como a Golden Dawn, O.T.O., Maçonaria, Teosofia, Wicca e Rosa-Cruz, haviam mostrado para a Europa que cultos mágicos haviam sobrevivido ao feudo religioso da Idade Média, grimórios mágicos falavam sobre as práticas de evocação e negociação com espíritos vindo do inferno. E rumores sobre tais feitos e grupos chegavam através do oceano a um continente onde por anos a luta contra a feitiçaria havia sido uma realidade. A Inquisição teve seus ecos em solo americano, onde bruxas eram caçadas, torturadas e queimadas ainda com vida. Novas religiões nasciam em segredo e tinham que se afastar de áreas populadas para poderem ser seguidas – religiões que se derivavam do cristianismo, como os Mórmons por exemplo. Esses rumores assustavam muitas pessoas que consideravam estar a salvo da sombra do diabo e de seus seguidores.

Em segundo lugar havia a literatura gótica e fantástica. Escritores de contos de terror tinham inspiração de sobra na época. Cultos pagãos que haviam sobrevivido em segredo. Criaturas demoníacas que roubavam crianças recém nascidas e colocavam cópias maléficas em seu lugar. Livros que ensinavam a evocar o próprio demônio. Histórias que se aproveitavam dos temores mais profundos das pessoas e os exploravam para se tornarem fenômenos comerciais, em uma época, diga-se de passagem, em que o analfabetismo era a regra.

Dos principais temas góticos que se tornaram sucesso, e por isso recorrentes em inúmeros livros, temos o dos fantasmas que surgiam como pessoas vivas, interagindo com os protagonistas para apenas revelar sua natureza sobrenatural no clímax da obra, e o do alquimista que após concluída a aventura se revelava uma pessoa com séculos de idade, prolongada de forma artificial através de rituais, acordos e da química proibida. Esses livros inspiraram muito o trabalho de Lovecraft e estão presentes em muitos de seus contos como por exemplo Ar Frio, O Alquimista e A Coisa Na Soleira da Porta.

Quando Lovecraft escrevia ele buscava transpor para o papel algo que despertasse no leitor seus medos mais ocultos e violentos, um temor puro e inexplicável de algo incompreensível para a mente humana. E assim ele combinou em um texto a ficção que admirava com a superstição que dominava as pessoas, e para isso ele buscou bases reais para seu romance.

 

Senhor Mather e Mestre Borellus

Durante o desenrolar da história o nome do livro de Borellus não é citado, e nem qualquer outra informação direta sobre seu autor, mas Lovecraft nos dá uma pista importante. Durante sua narrativa ele escreve uma passagem sobre uma carta escrita por Jebediah Orne, de Salem, para Curwen na qual lemos:

“[…]Não possuo as artes químicas para imitar Borellus e confesso que fiquei confuso com o VII Livro do Necronomicon que o senhor recomenda. Mas gostaria que observasse o que nos foi dito a respeito de quem chamar, pois o senhor tem conhecimento do que o senhor Mather escreveu nos Marginalia de______”

Aqui entram dois personagens importantes na solução do mistério, Mather e suas escritas marginais em algum livro.

Mather muito provavelmente se trata de Cotton Mather, o ministro puritano da Nova Inglaterra que teve grande influência nos tribunais de caças a bruxas nos Estados Unidos, especialmente na cidade de Salém. A mera citação do nome de Mather no texto é importante pois ajuda a dar credibilidade ao passado de Joseph Curwen, um bruxo que deixou Salém na época em que bruxos era perseguidos e se isolou para dar continuidade a seu trabalho, sem perder o vínculo com os feiticeiros de lá. Em 1702, a maior obra de Mather é publicada, o Magnalia Christi Americana – Os Gloriosos Trabalhos de Cristo na América, o livro traz biografias de santos e descreve o processo de colonização da Nova Inglaterra. A obra, composta de sete livros, traz também o livro entitulado “Pietas in Patriam:  A vida de Vossa Excelência Sir William Phips”. Pietas havia sido publicado anonimamente em Londres em 1697.

Aqui se faz necessária a apresentação de outro escritor, Samuel Taylor Coleridge. Coleridge foi um famoso poeta e ensaista inglês, considerado um dos fundadores do Romantismo na Inglaterra. Dentre de suas obras mais conhecidas se destacam Balada do Antigo Marinheiro – conhecida também por ter inspirado a música de mesmo nome da banda Iron Maiden – Kubla Khan e Cristabel. Lovecraft conhecia e admirava o escritor, como deixa claro em seu O Horror Sobrenatural na Literatura. Mas além de escrever os próprio poemas e prosas, Coleridge era famoso por suas marginália nos livros que possuia. Como todo leitor da revista MAD ou qualquer fã de Sérgio Aragonés já sabe, marginália (do latim marginalia, como também é usado – sem o acento) é o termo geral que designa as notas, escritos e comentários pessoais ou editoriais feitos na margem de um livro, o termo é também usado para designar desenhos e floreados nas iluminuras dos manuscritos medievais. Tantas foram que hoje existem volumes com suas anotações pessoais sendo impressos e um livro em particular se encaixa nesta obra de Lovecraft, o Magnalia Christi Americana de Mather. A Biblioteca de Huntington contém alguns dos livros que Coleridge cobriu com suas notas e comentários e um deles é a edição de 1702 do Magnalia. A principal característica dessas notas são o tom anti puritano e anti Mather, Coleridge se surpreende com a credulidade do ministro e se perturba com suas descrições sobre bruxaria, como detectar e tratar as acusadas de feitiçaria. Em um ponto Coleridge se aborrece com a incapacidade de Mather fornecer dados suficientes para que o poeta pudesse calcular a velocidade com que um fantasma se desloca.

Neste ponto é importante frisar que não há evidência de que Lovecraft tenha descoberto o livro de Mather por causa de Coleridge, existe uma chance dele próprio ter possuido uma cópia do Magnalia, ou ao menos do Pietas. Muitas das coisas descritas ali com certeza seriam de seu interesse, especialmente as alusões ao sobrenatural e à bruxaria, um tema também tratado por ele em muitos contos. Mas de fato este livro contém a chave para a identificação de Borellus. Mather o inicia com algumas palavras sobre a natureza da arte da biografia, comparando o biógrafo com a teoria defendida por Borellus de se evocar a forma dos ancestrais – Livro II, Capítulo XII. Na época de Mather viveu um químico, alquimista, físico e botânico francês que ganhou muita notoriedade escrevendo sobre ótico, história antiga, filologia e também sobre bibliografia, Pierre Borel (1620-1679). Não é difícil de se supor que Mather, também um biógrafo apaixonado, conhecesse Pierre Borel e sua obra. Dos muitos textos existentes de Borel não existe a passagem literal citada por Mather, o que leva a crer que Mather parafraseou o alquimista francês usando suas próprias palavras. Este ponto também é importante porque mostra que Lovecraft de fato teve acesso ao livro de Mather e não à obra de Borel, cujo nome em latim era escrito Petrus Borellius, ou simplesmente Borellus, já que atribui ao alquimista a passagem literal.

Fora isso, a menção de uma Marginalia de punho do próprio Mather pode servir como subterfúgio para indicar que Curwen e Jebediah possuiam anotações não publicadas de Mather, o que agrega ao romance um ar muito mais sinistro; uma das grandes contribuições de Mather para os tribunais de feitiçaria foi o incentivo do uso de provas sobrenaturais para acusar as supostas feiticeiras. Notas marginais de Mather em  um livro de evocações demoníacas seria o mesmo que um selo legitimando o ritual.

 

A Alquimia do Sal

“Se um químico renomado como Quercetanus, juntamente com uma tribo inteira de ‘trabalhadores no fogo’, um homem culto encontra dificuldades em fazer a parte comum da humanidade acreditar que eles podem pegar uma planta em sua consciência mais vigorosa, e após a devida maceração, fermentação e separação, extrair o sal da planta, que, como se encontra, no chaos, de forma invisível reserva a forma do todo, que é seu princípio vital; e que, mantendo o sal em um pote hermeticamente selado, podem eles então, ao aplicar um fogo suave ao pote, fazer o vegetal se erguer ao poucos de suas próprias cinzas, para surpreender os espectadores com uma notável ilustração da ressurreição, na mesma fé que faz os Judeus, ao retornarem das tumbas de seus amigos, arrancarem a grama da terra, usando as palavras da Escritura que dizem “Seus ossos florecerão como uma erva”: desta forma, que todas as observações de tais escritores, como o incomparável Borellus, encontrarão a mesma dificuldade de criar em nós a crença de que os sais essenciais dos animais podem ser preparados e preservados de tal forma que um homem engenhoso possa ter toda a Arca de Noé em seu próprio estúdio e fazer surgir a bela forma de um animal de suas próprias cinzas a seu bel-prazer: e, pelo mesmo Método, dos sais essenciais do pó humano, um filósofo pode, sem recorrer à necromancia criminosa, evocar a Forma de qualquer ancestral falecido das cinzas resultantes da incineração de seu corpo. A ressurreição dos mortos será da mesma forma, um artigo tão grandioso de nossa crença, mesmo que as relações desses homens cultos se passem por incríveis romances: mas existe ainda a antecipação da abençoada ressurreição, carregando em si algumas semelhanças a estas curiosidades, quando em um livro, como no pote, nós reservamos a história de nossos amigos que partiram; e ao aquecermos tais histórias com nosso afeto nós revivemos, de suas cinzas, a forma verdadeira desses amigos, e trazemos com uma nova perspectiva tudo aquilo que era memorável e reprodutível neles.”

Magnalia Christi Americana – Livro II, Capítulo XII

Como descrito por Mather, Borellus, Quercetanus e os membros da tribo dos “Trabalhadores no Fogo” afirmam que para ressucitarmos os mortos, precisaríamos apenas de um processo puramente químico, isso se torna evidente na passagem “sem recorrer à necromancia criminosa”. Mas, em sua história, Lovecraft sugere que Borellus, em seu livro misterioso, afirmava a necessidade de componentes ritualísticos. Na troca de correspondência entre Jebediah, Hutchinson e Curwen lemos:

Jebediah:

“Eu ainda não possuo a arte química para seguir Borellus…”

Curwen:

“As substâncias químicas são fáceis de serem conseguidas, eu indico para isso bons químicos na cidade. Doutores Bowen e Sam Carew. Estou seguindo o que Borellus disse, e consegui ajuda no sétimo livro de Abdul Al-Hazred.

Hutchinson:

“Você me supera em conseguir as fórmulas para que um outro o possa dizê-las com sucesso, mas Borellus supôs que seria assim, se apenas as palavras corretas fossem proferidas.”

Isso faria com que o processo alquímico da obtenção dos sais e da sua conseguinte restauração em suas formas originais deveria ser acompanhado de certos rituais, fórmulas pronunciadas, combinando a química com a Alta Magia.

 

Entra em Cena Eliphas Levi

A fórmula recitada por Ward na Sexta-Feira Santa, anotada por sua mãe foi identificada por especialistas como uma das evocações encontradas “nos escritos místicos de ‘Eliphas Levi’, aquele espírito misterioso que se insinuou por uma fenda da porta proibida e teve um rápido vislumbre das terríveis visões do vazio além”.

Eliphas Levi era o nome mágico do ocultistas francês Alphone Louis Constant (1810-1875), um dos grandes, se não o maior, responsável pelo renascimento do ocultismo moderno. Paracelso elevou a magia ao status de ciência, Cagliostro a incorporou na religião que buscava a regeneração da espécie humana, mas foi Levi que a tranformou em literatura. A atmosfera e densidade com que trata o ocultismo diferenciava as obras de Levi dos outros grimórios que existiam e circulavam na época. O assunto que parecia tomar a forma de livros de receitas demoníacas e angelicais, passou a ser tratado com reverência, como uma filosofia e um estudo no qual eram necessários anos de aprimoramento para se dominar.

Seu livro mais conhecido do grande público é o Dogma e Ritual da Alta Magia, e é exatamente nesta obra que encontraremos a fórmula usada por Ward, mas muito provavelmente não foi este livro que Lovecraft teve em suas mãos para inspirar esta passagem.

Crowley sempre fez questão de ser conhecido e lembrado como o mais depravado dos homens, o mago negro de sua geração, a Grande Besta 666, e fez um bom trabalho nisso. Mas como devemos chamar então o seu arqui-inimigo, aquele que inspirou a vilão Arthwate do livro Moonchild escrito por Crowley?

Arthur Edward Waite se tornou um místico muito menos popular do que Crowley, mas em alguns pontos muito mais poderoso. Durante sua vida escreveu extensamente sobre ocultismo e esoterismo. Foi um dos criadores do Tarô Raider-Waite, considerado um Tarô clássico até os dias de hoje. Ele fez parte da Ordem Hermética da Aurora Dourada, Sociedade Rosa-Cruz Inglesa, Sociedade da Cruz Rosada, dentre outras. Seus trabalhos atravessaram o atlântico e acabaram chegando às mãos de Lovecraft que inclusive o incluiu em um de seus contos, também como um vilão, o mago negro Ephraim Waite de A Coisa Na Soleira da Porta. Mas não foi com seus trabalhos que Waite influenciou O Caso de Charles Dexter Ward. Além de escrever sobre Tarô, divinações, esoterismo, os Rosacruz, Maçonaria, Cabala e alquimia, Waite também traduzia e publicava muitos livros ainda inéditos na língua inglesa, e Eliphas Levi havia se tornado uma celebridade entre os praticantes de magia cerimonial. Em 1886 Waite publicou um livro intitulado Os Mistérios da Magia, formado por vários artigos tirados de livros de Levi, posteriormente em 1896 conseguiu publicar as duas obras do ocultista francês, Dogma da Alta Magia e Ritual da Alta Magia, em uma versão em inglês, rebatizada para Magia Transcedental, Sua Doutrina e Rituais. Ambos os livros possuem um mesmo capítulo entitulado O Sabbat dos Feiticeiros, e neste capítulo encontramos a fórmula Per Adonai. Hoje não há como saber com certeza de qual livro de Waite Lovecraft tirou o encantamento, mas muitos pesquisadores apontam para o livro de coletânia de textos, o Mistérios da Magia.

O capítulo em questão, trata do que Levi define como “o fantasma de todos os espantos, o dragão de todas as teogonias, o Arimane dos persas, o Tifon dos egípcios, o Píton dos gregos, a antiga serpente dos hebreus, a vouivre , o graouilli , tarasque , a gargouille , a grande besta da Idade Média, pior ainda do que tudo isso, o Baphomet dos templários, o ídolo barbado dos alquimistas, o deus obsceno de Mendes, o bode do Sabbat”. Dentro do assunto tratado em seu romance, Lovecraft não podia ter escolhido uma fonte melhor de onde tirar a porção de magia cerimonial do ritual realizado por Ward. Mas apesar de tratar do ritual de adoração ao Diabo, Levi deixa clara sua visão quando afirma que “digamos bem alto, para combater os restos de maniqueísmo que ainda se revelam, todos os dias, nos nossos cristãos, que Satã, como personalidade superior e como potência, não existe. Satã é a personificação de todos os erros, perversidades e, por conseguinte, também de todas as fraquezas”. Indo mais a fundo em sua exposição, Levi classifica tais rituais em três grupos distintos:

– Os que se referem a uma realidade fantástica e imaginária;

– Aqueles que revelam os segredos expostos nas assembléias ocultas dos verdadeiros adeptos;

– Aqueles realizados por loucos e criminosos, tendo como objetivo a magia negra.

E prossegue:

“[…]e existiu realmente; até ainda existem as assembléias secretas e noturnas em que foram e são praticados os ritos do mundo antigo, e destas assembléias umas têm um caráter religioso e um fim social, outras são conjurações e orgias. É sob este duplo ponto de vista que vamos considerar e descrever o verdadeiro Sabbat , quer seja o da magia luminosa, quer o da magia das trevas.”

Levi então descreve a personalidade de alguém que será bem sucedido em suas evocações infernais. A pessoa deve ser teimosa, ter uma consciência ao mesmo tempo endurecida e acessível ao remorso e ao medo, acreditar naquilo que “a parte comum da humanidade” não acredita ser real. Para o ritual ter sucesso são necessários sacrifícios sangrentos.

Por toda a cidade se comentavam sobre os hábitos estranhos adotados pelo jovem ward, que incluíam encomendas de quantidades imoderadas de carne e sangue fresco fornecidas pelos dois açougues da vizinhança mais próxima, uma quantidade muito grande para uma casa em que habitavam apenas três pessoas.

Levi então diz que após os preparativos, que podem levar dias a evocação deve ser feita, de segunda para terça-feira ou de sexta-feira para sábado, o que coincide com o ritual realizado na Sexta-Feira Santa por Ward. A pessoa então deve traçar círculos e triângulos e os molhar não com o sangue de uma vítima, mas do próprio operador.

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“A pessoa pronunciará, então, as fórmulas de evocação que se acham nos elementos mágicos de Pedro de Apono ou nos engrimanços, quer manuscritos, quer impressos. A do Grande Grimório , repetida no vulgar Dragão Vermelho , foi voluntariamente alterada na impressão. Ei-la como deve ser lida:

“Per Adonai Elohim, Adonai Jehova, Adonai Sabaoth, Metraton On Agla Adonai Mathom, verbum pythónicum, mystérium salamándrae, convéntus sylphórum, antra gnomórum, doemónia Coeli Gad, Almousin, Gibor, Jehosua, Evam, Zariatnatmik, veni, veni, veni ”.

 

Veni, Veni, Veni

Como Levi afirma, a evocação Per Adonai já existia muito tempo antes dele a publicar em seu livro, dizendo que a do Grande Grimório, talvez mais antiga que tenha visto pessoalmente, foi reimpressa de forma alterada no Dragão Vermelho.
Apesar de na cabeça das pessoas a história dos grimórios, ou engrimaços, se perder no tempo, eles não são tão antigos assim. A maior fonte de todos os livros mágicos que surgiram na Europa até recentemente, foi a Bíblia. Os primeiros cinco livros das Escrituras Sagradas, conhecidos como Pentateuco, são atribuídos a Moisés. Muitas pessoas acreditavam que Moisés escreveu muito mais coisas do que apenas os cinco livros e não demoraram a aparecer cópias do livro entitulado o oitavo livro de Moisés. Esse livro, datado de aproximadamente IV d.C., trazia, supostamente, os ensinamentos de Deus que ficaram fora do Pentateuco, as maneiras de se chamar anjos e realizar maravilhas, curiosamente os manuscritos mais antigos retratavam Moisés como um egípcio e não um judeu. Outros textos que diziam ter sido escritos por Salomão, existiam na forma de um livro que circulava no primeiro século cristão. Outro autor bíblico que fazia sucesso era Enoque, haviam inúmeros manuscritos mágicos que descreviam o que Deus supostamente havia lhe ensinado sobre o controle das forças por trás da Criação. Todos esses livros, obviamente, não tinham ligação direta com os patriarcas bíblicos, mas eram muito populares porque as pessoas que os adquiriam acreditavam nisso, o que torna os primeiros grimórios excelentes exemplos de jogadas de marketing séculos antes do marketing sequer ser criado. Em 1436, com o advento da prensa móvel por Gutenberg, dezenas de grimórios “antigos” começaram a circular, dentre eles as Claviculas de Salomão, o Pequeno Alberto, o Grimório de Honório, o Sexto e Sétimo Livros de Moisés, o Galo Negro, Grande Grimório, Grimorium Verum e inúmeros outros. Os livros mais caros eram grandes, ilustrados, os mais baratos eram cópias mal feitas, com coletânias de textos vindo de outros livros sem muita explicação de como seguí-las, eram de fato livros de receitas em que anjos e demônios eram evocados em horas planetárias pré determinadas.
O Grande Grimório, citado por Levi, traz uma introdução que afirma que a obra foi impressa em 1552, mas não existem registros de publicações anteriores ao século XVIII. Seu autor é apresentado como Alibek, o Egípcio. Em sua página de introdução está escrito:
“Este livro é tão raro e procurado em nosso país que foi chamado, por nossos rabinos, de a verdadeira Grande Obra. Foram eles que nos entregaram este precioso original que muitos charlatães tentaram inutilmente reproduzir, tentando imitar a verdade que eles nunca encontraram, de forma a tirar vantagem de indivíduos ingênuos que tem fé em encontros com pessoas quando buscam a Fonte original.
Este manuscrito foi copiado de inúmeros escritos do grande Rei Salomão. Este Grande Rei passou muitos de seus dias na mais árdua busca atrás dos mais obscuros e inesperados segredos.”
Ao examinar o Grande Grimório é fácil perceber que a evocação Per Adonai não se encontra nele, a maior parte das evocações lá presentes são variantes da fórmula:
“Eu Te imploro, O grande e poderoso ADONAI, lider dos espíritos. Eu Te imploro, O ELOHIM, eu Te imploro O JEHOVA, O grande Rei ADONAI, seja condescendente e favorável. Que assim seja. Amém.”
Mas isso não é uma surpresa. Grimórios eram colchas de retalhos, hoje um exemplo disso é o Livro de São Cipriano, diferentes editoras o lançam com diferentes nomes, O Livro de São Cipriano, O Verdadeiro Livro de São Cipriano, São Cipriano da Capa Preta, São Cipriano da Capa Metálica, etc. Na época de Levi ainda havia o agravante de cada tradução ser uma versão diferente do grimório traduzido, partes eram introduzidas ou retiradas, assim quando mudava de língua, o livro mudava de conteúdo, não eram traduções e sim editorações de conteúdo. Outro problema era a origem do livro e seu nome real. Muitos grimórios afirmavam ser versões modernas inspiradas por livros mais antigos, no caso do Grande Grimório, há aqueles que acreditem que ele foi amplamente inspirado no livro conhecido como o Grimório Jurado de Honório, o Liber Juratus – não confundir com o Grimório do Papa Honório III. No Liber Juratos é possível se encontrar fórmulas muito mais próximas à de Levi, como por exemplo:
“HAIN, LON, HILAY, SABAOTH, HELIM, RADISH~~, LEDIEHA, ADONAY, JEHOVA, YAH, TETRAGRAMMATON, SADA!, MESSIAS, AGIOS, ISCHYROS, EMMANUEL, AGLA”
O que pode indicar que talvez o Grande Grimório ao qual Levi se referia seria na verdade o Liber Juratus. Levi o compara ao Dragão Vermelho, que se conecta de forma diferente aos dois livros, Grande Grimório e Liber Juratus. Muitos afirmam que o Dragão Vermelho e o Grande Grimório são os mesmos livros, outros afirmam que são livros diferentes, mas que o Dragão Vermelho, por seu conteúdo também era conhecido como um grande grimório, o maior e mais perverso de todos, dai o nome Grande Grimório ser mais um título no ranking dos maiores grimórios do que simplesmente o nome que trazia. Como Levi o descreve nos leva a crer que ao menos na França, onde circulava com o nome “Le Veritable Dragon Rouge” o Dragão Vermelho poderia ser uma versão mais popular do Grande Grimório original. Neste caso ele poderia ter alguma relação ao Liber Juratus e trazer uma versão mais próxima da fórmula apresentada, mas sem o livro que Levi tinha em mãos, não há como saber se a evocação se manteve fiel ao original ou não, mas hoje é sabido que Levi tinha uma estranha atração pelo livro, o que pesa a favor da fidelidade do texto, por outro lado Levi era um romancista e adorava “corrigir” textos que ele percebia haver chegado em suas mãos com desvios do original, assim essa evocação pode ter sido desenvolvida pelo próprio Levi para sua obra.
Independente de sua origem a evocação se consagrou, fazendo parte de inúmeros livros publicados posteriormente. Tais evocações, mesmo conflitantes entre si em sua formulação, eram muito comuns nos livros. Como grande parte dos os grimórios, se não todos eles, se derivaram da Bíblia, por mais nafasta que fosse a criatura evocada, ela deveria se curvar perante o poder de Deus, assim a fórmula era recitada, após os diagramas desenhados, para obrigar, em nome de Deus, que o espírito se materializasse.
Nas palavras de Cornelius Agrippa, quando fala sobre necromancia em seus Três Livros de Filosofia Oculta:
“Para a empreitada de chamar e compelir os maus espíritos, adjurando por um certo poder, especialmente aquele dos nomes divinos; pois sabemos que toda criatura teme, e reverencia, o nome de quem a criou, não é de admirar, se infiéis goetians, pagãos, judeus, sarracenos, e homens de toda seita profana e da sociedade, conseguirem controlar demônios ao se invocar o nome divino.”
Assim, a evocação Per Adonai traduzida se lê:
Por meu Senhor Deus, meu Senhor que Vive, meu Senhor Das Hostes Celestes, por Metraton[1] On[2] e o Senhor Eternamente Forte, pela quinta hora da noite, pela palavra profética, pelo mistério das salamandras, pelos espíritos das florestas, pelas cavernas dos gnomos, pela fortuna descrita nos céus pelos espíritos, por Almousin, Senhor da Força, por Jesus, por Evam[3], o Filho de Deus, VENHA, VENHA, VENHA.”
[1] Metraton é o príncipe dos Anjos, o único que fala diretamente com Deus, por isso chamado também A Voz de Deus.
[2] ON é outro nome de Deus.
[3] Evam é um termo que permanece incerto
O objetivo era, assim que um canal com o mundo dos mortos fosse aberto, obrigar, através da menção dos nomes/qualidades de Deus, o espírito escolhido a se manifestar. Mas, seguindo a lógica do texto de Lovecraft, as conversas trocadas pelo círculo de Curwen, o espírito deveria animar a forma, ou seja o corpo, criado alquimicamente a partir dos sais do corpo original, não apenas se manifestar em sua forma etérea. A alquimia criava um corpo físico, uma versão antiga da gentética de hoje, e a magia devolvia o espírito original a esse novo corpo.
E aparentemente Ward obteve sucesso em sua evocação, já que junto com seus clamores uma segunda voz lhe respondeu, uma voz que com certeza não era a sua.
Corta Para o Signore Pietro d’Abano
Também conhecido como Petrus De Apono ou Aponensis, viveu entre as décadas de 1250 e 1310, ele foi um filósofo italiano, que estudava astrologia e medicina em Pádua. Eventualmente, como toda pessoa culturalmente prolífera que não fazia parte da igreja, foi acusado de heresia e ateísmo e acabou caindo nas mãos da Inquisição, morrendo na prisão em 1315.
Durante sua vida estudou por muitos anos em Paris, onde recebeu os três graus de doutorado em filosofia e medicina, se tornando um médico talentoso e de muito renome, chegando a ser chamado de O Grande Lombardo. Foi em Pádua que ganhou sua reputação como astrólogo e físico e foi acusado pela primeira vez de praticar magia – diziam que com a ajuda do demônio ele conseguiu recuperar todo o dinheiro que gastou em sua educação e que possuia uma pedra filosofal, as pessoas que o acusavam disso não deviam saber dos honorários salgados que cobrava para exercer a medicina.
Pietro também gostava de escrever e registrar os conhecimentos que ia coletando, criando uma verdadeira enciclopédia de ciências ocultas, procurando sempre provar através de experimentos, aquilo que registrava sobre fisiognomia – diferente de fisionomia -, geomancia e quiromancia entre outros. E foi dentre esses estudos que registrou o seguinte:
pega saci“A peneira é sustentada por tenazes ou pinças que são erguidas pelos dedos médios de dois assistentes. Desta forma pode ser descoberto, com a ajuda de demônios, as pessoas que cometeram um crime ou que roubaram algo ou feriram alguém. A conjuração consiste de seis palavras – que não são compreendidas nem por aqueles que as proferem nem pelos que as escutam – que são DIES, MIES, JUSCHET, BENEDOEFET, DOWIMA e ENITEMAUS; uma vez que sejam pronunciadas elas compelem o demônio a fazer a peneira, apoiada nas tenazes, a girar no momento que o nome da pessoa culpada for pronunciado (pois o nome de todos os suspeitos devem ser pronunciados), tornando o culpado imediatamente conhecido.”
Mais de 200 anos depois da morte de Pietro, Agrippa começa a coletar o conhecimento ocultista existente até então em seus próprios escritos, que posteriormente foram coletanos em dois volumes entitulados Opera omnia em 1600 pela editora Lyons. Em seu total os volumes traziam seus três volumes do De occulta philo-sophia, De incertitudine et vanitate scientiartn argue artium declamatio, Liber de Iriplici ratione cognoscendi Dewn e In artem brevem Ravtnundi Lulli commentaria. Popularmente esse trecho foi apontado como saindo de algum dos três livros do Occulta, mas ele não se encontra neles, o que fez muitos pesquisadores modernos o atribuirem ao apócrifo quarto livro do Occulta philo-sophia, um livro que surgiu, escrito em latim, aproximadamente 30 anos após a morte do autor e que foi denunciado como fraude por Johann Weyer, um dos estudantes de Agrippa. Esse tipo de confusão entre D’Abano e Agrippa é comum já que um dos maiores tratados ocultos, o Heptameron – ou Elementos Mágicos – atribuído a D’Abano apareceu como apêndice no quarto livro de filosofia oculta atribuído a Agrippa. Em ambos os casos parece que os livros apenas foram atribuídos aos ocultistas como forma de marketing, já que parece que nenhum dos dois redigiu nenhuma das obras. Mas Agrippa faz menções a D’Abano em seu trabalho, especificamente em seu terceiro livro da Filosofia oculta, apontando o italiano como sendo sua fonte para o alfabeto Thebano, desenvolvido por Honório de Thebas, o suposto autor do Liber Juratus.
Assim um texto escrito por D’Abano se tornou famoso como sendo a Grande Evocação de Agrippa:
“Dies Mies Jeschet Boenedoesef Douvema Enitemaus”
As seis palavras, que antes surgiam como fórmulas mágicas individuais, agora são uma única frase, ou fórmula. Levi provavelmente a incluiu nesta parte de seu tratado por se tratar de uma fórmula de evocação ao demônio, e a associou ao ritual do sabbat, onde o diabo era supostamente evocado, mas como podemos ver, o objetivo original da fórmula não era chamar O diabo, e sim forçar algum diabo a identificar um malfeitor. Levi provavelmente teve acesso aos dois volumes do Opera omnia de Agrippa e reproduziu de lá a frase. E de lá cai nas mãos de Lovecraft.
Em seu texto sobre o Sabbat Levi esclarece:
“A grande evocação de Agrippa consiste somente nestas palavras: Dies Mies Jeschet Boenedoesef Douvema Enitemaus . Não temos a pretensão de entender o sentido destas palavras que, talvez, não têm nenhum, e ao menos não deve ter nenhum que seja razoável, pois que têm o poder de evocar o diabo, que é a soberana irracionalidade.”
Esta declaração talvez tenha tornado este trecho da obra de Levi irresistível a Lovecraft, pai dos livros que não podiam ser lidos, dos cultos inomináveis e dos nomes impronunciáveis. Giovanni Pico della Mirandola, o cabalista italiano do século XV, era outro que afirmava que  as palavras mais bárbaras e absolutamente ininteligíveis são as que produzem melhores resultados em rituais na magia negra. Até nas Mil e Uma Noites encontramos referências a tal prática, onde uma feiticeira apanha uma porção de água lago com as mãos e sussurra sobre ela “palavras que não podiam ser compreendidas”, e as Mil e Uma Noite foram uma das maiores fontes de inspiração de Lovecraft, tanto quando criança quanto quando adulto.
 
Eis o Professor de Aleister Crowley
O encontro de Darth Vader e Obi Wan Kenobi, no filme Uma Nova Esperança da saga Guerra nas Estrelas, se tornou um clássico do cinema, mas poderia ter sido plagiado da vida de dois outros grandes ocultistas: Samuel Liddell MacGregor Mathers e Aleister Crowley. Mathers, antigo amigo e mestre de Aleister Crowley nas artes mágicas, com o tempo se tornou um vilão para o ex-aprendiz.
Mathers era um Mestre Maçom, um membro da Societas Rosicruciana in Anglia e então em 1888 fundou a Ordem Hermética da Aurora Dourada. Ele também era um poliglota que dominava, entre outras línguas, o inglês, o francês, o latim, o grego, o hebraico, o gaélico e o copta, e dedicou parte da vida a traduzir e publicar antigos livros de magia em inglês, sua língua nativa. Um desses livros foi o grimório conhecido como A Clavícula Maior de Salomão – ou a Chave do Rei Salomão. Mathers aceitava a tradição que dizia que livro havia de fato sido escrito pela Rei Bíblico, mesmo que o manuscrito mais antigo que tenha estudado fosse datado do século XVI. Até a publicação da versão de Mathers o texto da Clavicula se encontrava fragmentado, partes dele circulavam em diferentes países até ser reunido em um único tomo na edição de 1889. No trabalho traduzido e publicado por Mather a evocação Dies Mies Jeschet aparece no capítulo IX do livro I no feitiço para “Como Saber Quem Cometeu o Roubo”, a fórmula aparece ligeiramente diferente e apesar de não haver uma tradução oferecida Mathers oferece, de forma discreta um possível significado:
“DIES MIES YES-CHET BENE DONE FET DONNIMA METEMAUZ; Deus Meu, Que liberou a santa Susanna da falsa acusação do crime”
Este feitiço descreve exatamente o mesmo procedimento do de D’Abano, se utilizando de uma peneira para descobrir quem realizou um roubo. Isso indica que Mathers pode ter tido acesso ou a algum texto de D’Abano ou a algum texto ao qual D’Abano teve acesso.
Curiosamente Lovecraft usa esta fórmula como uma resposta por parte do morto que foi trazido de volta a este mundo graças ao ritual realizado por Ward, ou talvez Lovecraft tenha achado interessante um espírito que volta da morte proferir as palavras usadas em rituais de demonologia antigos que ninguém sabe o significado. Mas historicamente Joseph Curwen e seus associados poderiam ter obtido a fórmula Dies Mies Jeschet tanto da Opera omnia de Agrippa, algum manuscrito que poderia fazer parte da Clavicula de Salomão.
Muito Trabalho, Sem Diversão
Tudo o que Jack Torrance precisou para resolver dar um fim em sua mulher e filho com um machado foi um tempo isolado nas entranhas do Hotel Overlook. De fato a isolação pode perturbar uma mente comum e ordinária, mas ela é ingrediente fundamental para a magia – tanto o isolamento quando a perturbação mental.
A magia é real e nos cerca, mas enxergá-la e lidar com ela é algo trabalhoso. O mago ou feiticeira deve aprender a percebê-la e a trabalhar com ela e para isso deve se distanciar da rotina que o cerca. Da mesma forma que um casal pode buscar lugares que despertem o desejo sexual e a inspiração luxuriante quando desejam novas experiências, o praticante deve buscar ambientes que tornem mais fácil para seus sentidos perceberem os poderes ocultos. Quando o ritual tem a ver com necromancia, o local de isolamento deve evocar sentimentos característicos no mago.
Levi recomenda “um lugar solitário e assombrado, tal como um cemitério freqüentado por maus espíritos, uma ruína temida no campo, os fundos de um convento abandonado, o lugar onde foi cometido um assassinato, um altar druídico ou um antigo templo de ídolos”.  Esta citação tem uma origem judaica, nos livros do antigo testamento que faz um alerta sobre rituais e sacrifícios realizados no alto de montanhas ou nos profundezas da terra.
Ward realizou rituais tanto no porão da casa da família, quanto no bangalô de seu antepassado, na cripta subterrânea. Curwen, antes dele, era conhecido também por vagar em cemitérios, e posteriormente construiu um laboratório subterrâneo em seu bangalô, sua “ruína no campo”.
Yog-Sothotheria: A Cabeça e a Cauda do Dragão
 
beautyful one
Seguindo a agenda de Ward, após a invocação Dies Mies, seguiu-se uma invocação a Yog-Sothoth, quando ele volta a entoar de forma monótona uma nova fórmula, que era percebida como sílabas aparentemente sem sentido:
“Yi-nash-Yog-Sothoth-he-lgeb-fi-throdog”
Sendo seguida por um grito de YAH!, “cuja força desvairada subia num crescendo de arrebentar os tímpanos”.
Esta nova fórmula descrita por Lovecraft não possui origem clássica; ou invés de se utilizar de um ritual tradicional Lovecraft parece ter inventado um ritual próprio dedicado a uma das deidades que apresentou ao público. A invocação a Yog-Sothoth criada por Lovecraft segue um padrão usado não apenas pelo autor, mas também por outros escritores, de se fazer valer da linguagem alienígena, batizada de Aklo, sempre que se tenta evocar, banir ou chamar algum de seus antigos. Essa “pseudo-liguagem” está presente em outros contos, como O Chamado de Cthulhu e o Horror de Dunwich e não possui um significado claro.
O Portão, a Chave e o Guardião
Em o Horror de Dunwich, Lovecraft nos oferece a seguinte descrição deste Antigo:
“Também não é para se pensar (dizia o texto, que Armitage ia traduzindo mentalmente) que o homem é o mais velho ou o último dos mestres da Terra, nem que a massa comum de vida e substância caminha sozinha. Os Antigos foram, os Antigos são e os Antigos serão. Não nos espaços que conhecemos, mas entre eles. Caminham serenos e primitivos, sem dimensões e invisíveis para nós. Yog-Sothoth conhece o portal. Yog-Sothoth é o portal. Yog-Sothoth é a chave e o guardião do portal. Passado, presente e futuro, todos são um em Yog-Sothoth. Ele sabe por onde os Antigos entraram outrora e por onde Eles entrarão de novo. Ele sabe por quais campos da Terra Eles pisaram, onde Eles ainda pisam e por que ninguém pode vê-los quando pisam […] Yog-Sothoth é a chave para o portal, onde as esferas se encontram.”
No conto Através dos Portões da Chave de Prata, Randolph Carter identifica Yog-Sothoth com a origem de todo o universo criado:
“Era um Tudo em Um e Um em Tudo de ser e existir ilimitado – não meramente uma coisa de um continuum de espaço-tempo, mas aliado à essência criadora máxima de toda a existência – aquele último ímpeto sem limites que não possui fronteiras e que transcende tanto a fantasia quanto a matemática. Foi, talvez, isso que certos cultos secretos da terra sussurraram como sendo Yog-Sothoth…”
Podemos dividir os seres do universo Lovecraftiano em alguns grupos. Existem aqueles que podem ser classificados como seres, indivíduos, como o próprio Cthulhu, Nyarlatothep, Shub Niggurath, e outros. Existem também as criaturas “menores” como Bronw Jenkings, shoggoths, o sabujo voador e entidades que fazem parte de uma história maior ou que estão ligadas a outros seres maiores. E existem aqueles que são como forças da natureza, Azathoth e Yog-Sothoth são exemplos desses. Eles cumprem uma função quase cósmica. Enquanto Cthulhu pode ser considerado um líder ou um sacerdote alienígena Yog-Sothoth está além da mera existência, ele não tem um propósito da forma que compreendemos propósitos. Em um primeiro momento Yog-Sothoth parece ser alguém excessivamente poderoso para ser usado apenas com o objetivo de se trazer alguém de volta da morte. Mas dentro da mitologia Lovecraftiana ele também se mostra uma escolha lógica para essa tarefa. Como vemos pela descrição do Horror de Dunwich, Yog-Sothoth é aquele que será usada pelos antigos “mortos”, como Cthulhu por exemplo, para retornarem à vida. Isso nos mostra que nossa compreensão de vida e morte é extremamente limitada, se comparada àquela de criaturas que mesmo mortas sonham, e com a afirmação de que até mesmo a morte um dia pode morrer. Assim, magos como Curwen talvez tenham enxergado uma vantagem em entrarem em contato com algo tão poderoso assim. Podemos acompanhar essa decisão na correspondência trocada por ele com outros magos de seu círculo:
“Mas eu estou disposto a enfrentar tempos difíceis, como lhe disse, e tenho trabalhado muito sobre a maneira de reaver o que perdi. Na noite passada, descobri as palavras que evocam YOGGE-SOTHOTHE e vi pela primeira vez aquele rosto de que fala Ibn Schacabac”.
Em uma carta escrita por Simon Orne encontramos a saudação “Yogg-Sothoth Neblon Zin” e mais adiante em outra escrita por Curwen lemos:
“Evoquei três vezes Yog-Sothoth e no dia seguinte fui atendido.”
Evidentemente o poder de Yog-Sothoth é reconhecido como algo que jamais poderia ser controlado após a primeira morte de Curwen, em uma carta escrita por Ezra Weeden, onde o escritor cita um aviso de Simon Orne enviado anteriormente para Curwen:
“Eu lhe digo novamente, não chame aquilo que você não possa dispensar depois; e com isso me refiro a ninguém que, por sua vez, possa evocar algo contra o senhor, algo contra o qual seus recursos mais poderosos não terão nenhuma eficácia. Busque os menores, para que aqueles que são grandes não respondam mostrando um poder maior do que o seu”.
Este não é o primeiro conto de Lovecraft onde Yog-Sothoth é evocado mas traz uma peculiaridade que não surge em nenhum outro lugar. A evocação usada por Ward, como mais tarde é descoberto por Willett, é uma das duas partes de um feitiço aparentemente maior. As fórmulas descobertas são:
Y’AI ‘NG’NGAH,
YOG-SOTHOTH
H’EE—L’GEB
F’AI THRODOG
UAAAH
OGTHROD AI’F
GEB’L—EE’H
YOG-SOTHOTH
‘NGAH’NG AI’Y
ZHRO
Assim como Willett percebeu, basta uma olhada cuidadosa em ambas as fórmulas para notarmos que uma é o inverso da outra. Se excluimos os dois gritos finais, UAAAH e ZHRO, uma fórmula é exatamente a outra com cada letra escrita de trás para frente, à excessão do nome de Yog-Sothoth. Os gritos finais são uma pista da funcionalidade das fórmulas – indicam o início e o fim, talvez uma aluzão ao A e ao Z do alfabeto, ao “Alfa et Ômega”. Junto com as  fórmulas encontramos dois símbolos:
caput e  cauda
conhecidos respectivamente como a Cabeça do Dragão e a Cauda do Dragão.
Esses dois conceitos estão presentes em três ciências que possuem ligações íntimas: a alquimia, a geomancia e a astrologia.
Quando Lovecraft escreveu o texto, seu personagem lidava com a alquimia, e nela o dragão tem um papel fundamental, como explicou Carl Gustav Jung em seu Psicologia e Alquimia:
“Quando o alquimista fala de Mercúrio ele está falando de duas coisas, superficialmente ele está falando do elemento químico mercúrio, mas de forma mais profunda ele se refere ao espírito criador do mundo que se encontra aprisionado na matéria. O dragão é provavelmente o mais antigo símbolo pictórico na alquimia que temos evidência. Ele surge como o Ouroboros, deverando a própria cauda, no Codex Marcianus, que data do século X ou XI, juntamente com a legenda ‘O Um o Todo’. Vezes sem fim o alquimista reafirma que a obra se origina no um e leve de volta ao um, que é como um círculo tal qual um dragão que devora a própria cauda. Por essa razão a obra já foi chamada de circulare (circular) e rota (roda). O Mercúrio está presente no início e no fim do trabalho: ele é a matéria prima (primeira matéria), o caput corvi, o nigredo; como o dragão ele também se devora, morrendo para então ressurgir no lápis.”
Assim um símbolo draconiano deixa claro o objetivo do trabalho, ou obra, que estava sendo realizado, seria um trabalho lidando com morte e renascimento. Algo que tanto Curwen quanto Ward estavam fazendo.
na geomancia ambos os símbolos tem uma relação oposta. Cauda Draconis está relacionada à má orientação, mau conselho, más companhias, engano, etc., já a Caput Draconis à boa orientação, bom conselho, bons contatos, boa dica. A geomancia é uma arte muito antiga, uma das ferramentas oraculares mais primitivas que se tem notícia. Suas origens remontam à Pérsia antiga, e traz consigo muitas semelhanças com o I-Ching chinês. Algumas pessoas mais exaltadas inclusive apontam para as passagens bíblicas que mostram Jesus escrevendo nas areias antes de responder aos questionamentos de alguns homens que o procuravam como evidências de Jesus ser um geomante. Os 16 símbolos geomânticos possuem hoje uma ligação direta com os planetas e signos da astrologia e com os Planetas da Alquimia.
A escolha dos símbolos atrelados à fórmula de evocação de Yog-Sothoth se mostram curiosos, pois apesar de existirem em tratados alquímicos antigos, como o Últimos Desejos e Testamento de Basil Valentine, publicado em 1671, traz um símbolo semelhante ao Caput Draconis com o significado de Sublimação ou o Medicinisch Chymisch und Alchemistisches Oraculum, publicado em 1755, que traz o símbolo equivalente ao Caput Draconis com o significado de purificação, estão ligados à astrologia a aos nodos lunares. Os dois símbolos usados na obra de Lovecraft se derivam, então, da astrologia.
A Cabeça e a Cauda do Dragão, ou Caput Draconis e Cauda Draconis, são os nomes dos dois nós ou nodos lunares; são pontos imaginários que mostram onde a órbita da lua ao redor da Terra atravessa a órbita que a terra faz ao redor do sol. Essas órbitas coincidem a cada 28 dias, em 2 momentos,como se fossem 2 nós, amarrando aquelas órbitas naquele momento específico.
Na interpretação astrológica, todos os signos têm os seus nós que em algum momento cortam a órbita ascendente e descendente. O nós ascendente é onde a lua atravessa o norte da elipse, o descendente onde cruza o sul, é por isso que as eclipses só podem ocorrer próximos aos nós lunares, os eclipses solares ocorrem apenas quando a lua cruza o nó em sua fase Nova e eclipses lunares quando a lua cruza o nó em sua fase Cheia.
Os nós recebem diferentes nomes em diferentes lugares do mundo. O nó ascendete, também chamado de nó norte, era conhecido na europa antiga como Cabeça do Dragão, ou Anabibazon, e representado pelo símbolo à esquerda. O nó descendente, ou sul, era chamado de Cauda do Dragão, ou  Catabibazon, e representado pelo símbolo da direita – uma inversão do primeiro.
Com a popularização da astrologia e seu distanciamento com a estronimia, esses nós acabaram se relacionando com aspectos ocultos e indicadores do destino das pessoas. A crença é que a Cabeça do Dragão se relacione com o caminho do destino da pessoa, enquanto a Cauda do Dragão se relaciona com o passado da pessoa, ou o Karma que traz consigo.
Não há como apontar uma obra específica que tenha inspirado Lovecraft a usar esses dois signos, mas com certeza ele estava familiarizado com eles de estudos que realizou e de contatos que tinha com entusiastas do assunto, como mostra este trecho de uma carta que escreveu para E. Hoffmann Price em fevereiro de 1933:
“Quanto a astrologia – como sempre fui um devoto da ciência real da astronomia, que tira todo o apoio no qual se baseiam os arranjos celestes irreais e aparentes todas nos quais se derivam todas predições astrológicas, eu desprezo essa arte de forma que não tenho interesse nela – exceto quando refutando suas afirmações pueris. Pelos idos de 1914 eu realizei uma pesada campanha contra um defensor local de astrologia em um de nossos jornais, e em 1926 eu li uma bela quantidade de livros astrológicos (desde então esquecidos em sua maioria) para que pudesses trabalhar como escritor fantasma em uma obra que expusesse de forma irrefutável a falsa ciência, tendo como cliente ninguém menos do que Houdini. Isto resume a soma do meu conhecimento astrológico – já que criar horóscopos nunca foi uma de minhas ambições. Se eu em algum momento me utilizar de qualquer subterfúgio astrológico em algumas de minhas histórias eu com todo o prazer lhe escreverei atrás de detalhes mais realistas”
Com o desenrolar da história a fórmula acaba se revelando não apenas a chave para de evocar o morto, para que possa se manifestar em nosso mundo, mas também a chave para despachá-lo de volta para a morte. Isso se reflete na escrita das duas chamadas, uma sendo o inverso da outra, a primeira cria a obra, a segunda a descria.
Curiosamente, o efeito reverso “Caput Draconis” parece ser muito mais poderoso do que a obra para se trazer o vivo e se recriar seu corpo a partir de seus sais. Qual o possível motivo disso?
E Se Eu Cortasse Seus Braços e Cortasse Suas Pernas?
Outro livro de ocultismo que com certeza fez parte da coleção de Lovecraft foi a Enciclopádia de Ocultismo de Lewis Spence. O artigo sobre necromancia no livro a define como “divinação através dos espíritos dos mortos”. Lovecraft foi muito além disso.
A história nos fala de duas pessoas que foram trazidas de volta: Curwen e Daniel Green.
Daniel Green foi trazido de volta por Curwen e posteriormente escapa de sua fazenda em Pawtuxet. O processo utilizado por Curwen difere em muito daquele descrito no livro de Spence, que escreve:
“Se o fantasma de uma pessoa morta deve ser chamado, a sepultura deve ser procurada à meia-noite e uma forma diferente de conjuração se faz necessária. Ainda outra é o sacramento infernal “todo corpo que já foi enforcado, afogado ou de outra forma liquidado”; e neste caso as conjurações são realizadas sobre o corpo, que finalmente se erguerá e, de pé, responderá com uma fraca voz oca as questões que lhe forem feitas.”
Parte do trabalho de Curwen reflete a necromancia clássica. Ele violou a sepultura de Green, que posteriormente foi encontrada vazia, e tinha o costume de interrogar o morto:
“A natureza das conversas pareciam sempre ser uma espécie de catequismo, como se Curwen estivesse tentando extorquir algum tipo de informação de horrorizados prisioneiros rebeldes […] a maior parte das questões que podia compreender eram de cunho histórico ou científico; ocasionalmente relativas a lugares e eras remotas.”
Mas sua obra não tinha como objetivo apenas prender uma alma a um corpo morto, ele desejava restaurar a vida ao corpo morto. Ao contrário dos processos descritos em outros livros que falam sobre necromancia, como O Livro da Magia Negra de A. E. Waite – que Lovecraft chegou a recomendar a um amigo escritor em uma carta escrita anos depois de ter terminado O Caso de Charles Dexter Ward -, o corpo utilizado por Curwen não precisava ser o de um suicida. O corpo não precisava ser de alguém que havia morrido há pouco tempo. Não necessitava ser revivido no local. O processo envolvia substâncias químicas que podiam ser obtidas de “bons químicos na cidade”
O morto deveria então ser incinerado para que seus sais – ou cinzas – fossem conseguidos antes que a operação tivesse início. A reanimação necessitava de grandes quantidades de sangue fresco, não importando se animal ou humano. Posteriormente quando revivido, Curwen diz para Ward que precisa de sangue humano por três meses – o que deu origem à série de ataques vampíricos.
O corpo revivido aparentemente pode permanecer vivo por longos períodos, mas não é imortal. Daniel Green, assim que foge da fazenda de Curwen é encontrado morto, se pelo frio ou pela falta de novas infusões de sangue não há como dizer. Curwen depois de ressuscitado viveu por mais de um ano.
A chave para esse ligação mais duradoura pode ser a presença de Yog-Sothoth, que é evocado com a fórmula da Cabeça do Dragão depois de longos rituais – Ward passou horas recitando a evocação Per Adonai, a fórmula Dies Mies, além de qualquer outra coisa que possa ter realizado que não foi percebida graças ao desmaio de sua mãe, a única testemunha do ocorrido.
E mesmo assim, o novo corpo recriado pelo trabalho com os sais não é perfeito: Daniel Green apresentava certas “peculiaridades” como um aparelho digestivo que parecia nunca ter sido usado, “enquanto toda a sua pele tinha uma textura grosseira e frouxa impossível de explicar”. Curwen também possuia os tecidos grosseiros e suas funções vitais eram mínimas, mesmo assim ele foi capaz de personificar e então tomar o lugar de seu descendente, Ward.
A necessidade constante de quantidades de sangue e a indicação de que o sistema digestivo dos novos corpos pareciam nunca ter sido usados sugerem que os novos corpos não possuiam um metabolismo próprio e necessitavam ser constantemente “alimentados”. Além da alquimia e do sangue a magia era parte fundamental de sua manutenção. Quando o Dr. Willet acaba se confrontando com Curwen, ele usa a fórmula OGTHROD AI’F, associada à Cauda Draconis, para desfazer o feitiço que mantinha a alma presa ao corpo, fazendo com que ele “morra” imediatamente. Isso indica que apesar de ser necessário muito trabalho e muita energia para se recriar e reviver alguém, apenas um encantamento pode desfazer o trabalho. Outra sugestão é que o corpo permanecesse funcional pela intervenção de Yog-Sothoth, e que a menção da fórmula Cauda Draconis encerra o acordo, Yog-Sothoth encerra seu contato, seja lá qual for, com o corpo e ele morre novamente, isso tornaria o papel de Yog-Sothoth no ritual muito mais importante do que uma mera evocação para liberar uma alma.

por Rev. Obito

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/h-p-lovecraft-charles-dexter-ward-joseph-curwen-e-necromancia/

Para Que Serve Essa Tal de Radiestesia?

Não é novidade para nenhum estudante de Espiritualismo ou de Ciências Ocultas, que nós vivemos cercados por energias que muitas vezes fogem da nossa percepção sensorial, mas com as quais, quer vejamos ou não, sofremos influências diretas e indiretas. Muito se fala dessas influências, com tratados que vão desde ataques astrais até projeção de formas pensamento, mas a verdade é que pouco se sai da teoria e se aplica esse conhecimento de forma prática.

A Radiestesia, dentro dos seus vários campos de ações, trabalha também, de forma prática, com o uso, manipulação e aplicação dessas energias. É verdadeiro afirmar que ela tem sido pouco difundida por aqueles que a aplicam com seriedade. E, por ser uma ciência pouco difundida, tem sido utilizada de modo pouco produtivo por aqueles que se interessam curiosamente por ela e no outro extremo, ignorada pelos estudantes que desconhecem nela uma importante ferramenta para o mago, vendo-a até mesmo como charlatanismo. Isso acontece muitas vezes, pela experiência que cada um obteve nesse campo, que como nas outras tantas áreas das Ciências Ocultas, possuem bons e maus empregadores. Basta olhar para o histórico da Astrologia e das Terapias Holísticas para entender o que eu quero dizer com isso. O mais legal nessa área, é que a aplicação da Radiestesia não só pode como deve ser associada ao demais estudos do mago e as demais práticas holísticas dos terapeutas. No segundo caso, vale comentar que por se basear num estudo direto do campo áurico do paciente, os diagnósticos holísticos associados a radiestesia, tornam-se mais precisos.

Muito bonita essa história, Iara, mas afinal, o que é Radiestesia?

Radiestesia é uma Ciência Mística que através do uso de materiais e técnicas compatíveis a sua área de atuação, identifica e/ou estuda as radiações emitidas pelos meios e pelos corpos animados ou inanimados, tanto em níveis físicos e como supra físicos.

É tida como uma Ciência Mística, pois como tudo ou pelo menos como a grande maioria das coisas dentro das Ciências Ocultas, não pode ser satisfatoriamente comprovada pelos métodos ortodoxos da Ciência. O que não é de se admirar, uma vez que a Ciência ainda ignore alguns fundamentos essenciais a sua aplicação, como a existência dos sete corpos sutis do homem, dos chakras, do plano imaterial e por aí vai…

A Radiestesia faz uso de alguns aparelhos para identificar e/ou medir a existência e/ou a atuação dessas radiações. Dentre esses aparelhos, os mais básicos são o pêndulo e o aurímetro. Importante que se entenda que não são esses aparelhos que medem ou detectam nada. Eles são meros instrumentos de tradução daquilo que a cognição, ou seja, a mente, o organismo, essencialmente a glândula pineal, e o campo energético do atuante, estão captando. Tornando-se fetiches futuramente dispensáveis, conforme o desenvolvimento do Radiestesista. Então, conforme a sensibilidade do usuário vai aumentando, mais eficazes serão seus diagnósticos e menos dependência ele terá dessas ferramentas.

Uma coisa extremamente importante para o mago Radiestesista, é que ele aprenda como seu campo áurico, ou sete corpos, “gritam” quando algo está errado. Essas informações geralmente são percebidas num estado mais primitivo, como mal estares, incômodos ou até mesmo como dores em certas regiões do corpo, que podem variar de pessoa para pessoa. Num estado mais desenvolvido, o mago Radiestesista poderá identificar como, onde e o porque da energia que ele captou ou até mesmo compreender, vendo no campo áurico da pessoa, os aspectos que traduzem a influência de dada energia. Uma vez que tudo vibra, como diz o terceiro axioma hermético, tudo pode ser potencialmente usado dentro dessa área.

Okay, e como ou ao quê pode ser aplicada a Radiestesia?

Existem várias aplicações para a Radiestesia. A mais conhecida pelos profanos é com a finalidade de encontrar água para a perfuração de poços. Mas essas possibilidades se estendem muito mais, conforme a gente vai estudar nessa coluna. Vejamos alguns exemplos:

Aplicações simples:

– Encontrar objetos e minerais.

– Mapear terrenos.

– Determinar pontos cardeais.

– Encontrar pessoas perdidas ou corpos enterrados.

– Conservar os alimentos por mais tempo, sem que pereçam.

– Melhorar o sabor das frutas.

– Usar a água radionizada como agente adubador das plantas.

– Determinar qual medicamento homeopático ou natural pode ser usado para determinada doença.

– Para acessar determinada faixa vibratória e poder interagir com ela, como por exemplo, espíritos.

– Para identificar ataques astrais e saber por qual chakra ele está entrando, o que causou a vulnerabilidade e como cuidar dela para que novos ataques não encontrem passagem pelos corpos sutis.

– Para cura.

– Para construções civis, com mapeamento e disposição ideal para o encanamento, instalações, etc., influenciando diretamente na energia do ambiente e dos usuários.

Além disso, a Radiestesia pode ser empregada em comunhão com os princípios da Kabbalah, do Hermetismo, da Geometria Sagrada, Terapias holísticas, Florais e outros. Mas isso é uma coisa que eu pouco praticarei na coluna, por se tratar de questões potencialmente perigosas se usadas de má fé. Deixo, contudo, a informação no ar, pois acredito que como foi comigo, poderá ser com outras pessoas: havendo potencial para se desenvolver nessa área, com certeza as informações ou os instrutores certos chegarão até você ou vice-versa.

No próximo artigo, eu vou falar um pouco dos materiais que são mais usados na radiestesia, e vou passar alguns exercícios práticos para vocês mesmos comprovarem a eficácia dessa Ciência.

Como lição de casa desse primeiro artigo, eu sugiro que você comece a prestar atenção para os mal estares, intuições ou incômodos que algum lugar ou que alguma pessoa te causa, sem você saber o que é. E daí, você vai tentar identificar se é porque você está projetando alguma particularidade sua naquele ambiente ou pessoa ou se é porque ele tem dissonância com você. Por exemplo: eu simplesmente não coabito com a falta de educação pessoa, porque eu não sou mal educada ou aquilo me incomoda porque ela me faz olhar pra um defeito meu, que eu reluto em enxergar? Se esse tipo de observação não lhe for útil em radiestesia, caso você opte por não seguir estudando ela, com certeza lhe será útil como terapeuta, espiritualista, mago… Enfim, como pessoa.

Então, até a próxima pessoal!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/para-que-serve-essa-tal-de-radiestesia