Cristina da Suécia

Thiago Tamosauskas

No final do século XVII, Cristina I da Suécia era filha única do rei Gustavo II Adolfo e de rainha Maria Eleonora de Brandemburgo-Hohenzollern. Nascida em 8 de dezembro de 1626, após a morte do pai tornou-se monarca legítima com apenas 6 anos. O Conselho Nacional sugeriu que Cristina participasse do governo a partir dos 16, mas ela pediu para esperar até os 18 anos para seguir o exemplo de seu pai. Neste período de preparação ela recebeu mesma educação militar, de governança e de artes liberais que um príncipe receberia.

Cristina possuía uma natureza andrógina inegável, suas cartas e diários demonstram sua bissexualidade em seus inúmeros casos amorosos incluindo a Duquesa Ebba Sparre e o embaixador português Antonio Pimentel. Ela dizia ter “uma mente inteiramente masculina” e gostava de ser  vestir segundo a moda dos homens de seu tempo. Em documentos mantidos pelo Vaticano em Roma, ela foi chamada de “hermafrodita”. O poder da coroa lhe deu uma liberdade que poucas pessoas tinham na época, mas seu estilo de vida ofuscam as realizações daquela que a Internet Encylopedia of Philosophy chamou de

uma das mercuriais monarcas da Europa … Em seus escritos, ela faz sua própria contribuição distinta para a filosofia moral e política. Seus textos éticos exploram a natureza da virtude, defendem a equidade de gênero e postulam critérios para a verdade religiosa. Seus trabalhos políticos defendem a tolerância cívica das minorias religiosas. Como muitos salões da época, Cristina analisa a natureza e as variações do amor, mas seus interesses teológicos e políticos lhe proporcionam um horizonte filosófico mais amplo do que o predominantemente romântico da maioria dos salões franceses. Seu trabalho filosófico frequentemente explora a questão que atormentou sua carreira política: a natureza e o exercício adequado da autoridade.

Desde a juventude sentiu-se atraída pelo ocultismo. Sem dúvida este interesse se deve a tutoria que recebeu do antiquário real de Estocolmo, Johannes Bureus que dedicou a Cristina uma cópia manuscrita de suas especulações sobre a origem mística das Runas, sua Adulruna Rediviva, em 1643, e mais tarde uma cópia de sua obra apocalíptica, O Rugido do Leão do Norte.

Cristina I, a rainha

Os estudos esotéricos tiveram que ser deixados parcialmente de lados em 1644, quando Cristina assumiu finalmente o trono do Império Sueco. Seu primeiro desafio como monarca foi conclusão dos tratados de Paz com a Dinamarca e seu sucesso foi tão grande que nas negociações a Suécia ainda ganhou as ilhas de Gotland e Ösel (hoje Saaremaa em Estónia) e o domínio sobre os distritos de Jämtland e Härjedalen que anteriormente pertenciam a Noruega.

A paz e prosperidade que conquistou permitiram que ela estabelecesse diversas academias e universidades e pode dar novamente vazão aos seus interesses intelectuais. Cristina I é lembrada como uma das mulheres mais cultas do século XVII, ela gostava de livros, manuscritos, pinturas e esculturas. Com seu interesse em religião, filosofia, matemática e alquimia, ela atraiu muitos cientistas para Estocolmo e desejava que a cidade se tornasse uma nova “Atenas do Norte”.

Em 1646 demonstrou interesse em instituir uma Ordem de Emanuel, uma fraternidade cavalheiresca de tons iniciáticos. As obrigações do reinado e o desencorajamento do seu conselheiro Johann Adler Salvius a fizeram abandonar os planos temporariamente.

Apesar do sucesso de seu reinado Cristina sabia que a maior expectativa sobre ela era a de proporcionar um herdeiro para o trono sueco. Ela teve um caso rápido e se tornou secretamente noiva de seu primo Carlos, filho da Princesa Catarina e neto do Rei Carlos IX embora tenha registrado mais tarde em sua autobiografia que sentia “uma aversão intransponível para o casamento”.

Em 1649, Cristina tornou pública sua decisão de não se casar e seu desejo de tornar Carlos herdeiro ao trono. Apesar da oposição da nobreza, seu desejo foi aclamada pelo povo e aceita pela burguesia e pelo clero. A coroação de Carlos ocorreu em 1650 no castelo de Jacobsdal, (atual Ulriksdal), na ocasião Cristina adentrou no salão em uma carruagem bordada em veludo e ouro, puxado por seis cavalos brancos.

Cristina I, a alquimista

Com a coroação de Carlos, Cristina podia agora deixar de lado as questões do reinado e e da política, que sempre considerou um fardo para se dedicar aos assuntos que realmente lhe despertavam interesse, a alquimia e o ocultismo.

Nessa época ela se aproximou do botânico Johannes Franck, que a convenceu de que ela cumpriria uma profecia atribuída a Paracelso sobre o retorno da figura messiânica de Helias Artista e da visão de Sendivogius sobre a ascensão de uma monarquia alquímica do Norte. Em 1651 ofereceu a rainha seu livro Colloquium philosophcum cum diis montanis (Upsala 1651) no qual a exortava a iniciar sua busca pelo pó vermelho-rubi dos filósofos.

Christina decidiu ouvir Franck e montou seu próprio laboratório alquímico. Ela também coletou tantos textos raros de alquimia,  cabala, teurgia e hermetismo quanto pôde. Por volta dessa época, ela induziu o especialista grego Johannes Schefferus a escrever uma história dos pitagóricos, que foi publicada na Suécia uma década depois como De natura et constitutione philosophiae Italicae seu pythagoricae (Upsala, 1664). Ela foi criticada por seus interesses por Descartes quando este visitou Estocolmo em 1650. Cristina disse em resposta que achava que as ideias do Discurso sobre o Método já haviam sido formuladas séculos antes por Sexto Empírico e Santo Agostinho.

Amaranthorden

Lady

retrato de 1661 por Abraham Wuchters

Em 1653 retomou sua ambição de criar uma fraternidade iniciática e instituiu a Amaranthorden (Ordem de Amaranto) que teve como emblema uma guirlanda verde de Amaranto significando a vida imortal

A Ordem foi criada em homenagem e memória de seus encontros com o embaixador espanhol Antonio Pimentel de Prado, originário de Amarante, Portugal. Ele também foi o primeiro a ser nomeado cavaleiro da ordem.

A ordem era limitada a 15 cavaleiros, que tinham que permanecer solteiros e “que participavam dos prazeres mais íntimos da rainha”. Entre os membros originais estavam (além do embaixador espanhol) o regente nacional da Dinamarca Corfitz Ulfeldt, o chanceler da Polônia Hieronim Radziejowski, entre outros.

Os membros da Ordem eram convidados a participar de uma ceia no sábado à noite no Castelo de Jacobsdal, chamada de “Festa dos Deuses”. Durante o evento o local era chamado de Arcadia a antiga utopia pastorial grega e cada convidado além de levar uma acompanhante e cada um interpretava um papel. Ulfeldt era o deus Júpiter, Pimentel era o deus da guerra Marte e Radziejowski era Baco enquanto a própria Cristina fazia o papel de uma bela, virtuosa e talentosa Dama da Corte chamada Lady Amarantha. Na primeira noite quatorze casais foram convidados e Cristina não levou nenhum acompanhante. Não há registros do que acontecia depois que as portas do Castelo eram fechadas para a festa.

A ida para Roma

Em 1654 Christina anunciou que conseguiu descobrir o segredo dos alquimistas e era agora capaz de transforma chumbo em ouro. Tal anuncio foi visto como um gracejo pelos intelectuais, afinal ela já era rica.  O incidente, entretanto coincidiu com uma profunda conversão religiosa da rainha protestante para o catolicismo romano. A Ordem de Amaranto foi deixada a cargo dos seus auxiliares espanhóis e a rainha passou os próximos anos de sua vida em peregrinação em Roma.

A conversão de Cristina foi forte o bastante par fazê-la abdicar de qualquer ligação  de poder com o trono sueco, uma vez que todo os monarcas de seu país deveriam ser forçosamente protestantes. Mas apesar da renovação de sua religiosidade Christina permaneceu muito tolerante com as crenças dos outros durante toda a sua vida. Na verdade sua conversão ao catolicismo a aproximou do movimento rosacruz italiano e da alquimia da península.

Cristina passou a morar no Palazzo Farnese, que pertencia ao duque de Parma e todas as quartas-feiras ela abria o palácio aberto a visitantes das classes mais altas para sarais de poesia e discussões intelectuais. A partir de 24 de janeiro de 1656 estes encontros se tornaram a Accademia Dell’arcadia, (Academia de Arcadia) um nome que automaticamente nos remete aos seus eventos da Ordem de Amaranto, oficialmente entretanto a Academia de Arcadia era oficialmente dedicada as artes em geral e a exploração da philosophia perennis como uma oposição ao racionalismo moderno.

O interesse de Cristina pela alquimia não diminuiu em nenhum momento de sua vida. No verão de 1667 em Hamburgo, Cristina fez experiências com o profeta messiânico e alquimista Giuseppe Francesco Borri, mas foi aconselhada pelo cardeal Azzolino a se distanciar dele que já havia sido procurado pela inquisição.  Ela também se correspondeu com outros alquimistas como Johan Rudolf Glauber e Hennig Brandt.

A Porta Mágica

Em 1680 ergueu a Porta Mágica no jardim romano de Palombara e atualmente ainda pode ser vista na Piazza Vittorio Emanuele, em Roma. Diz a lenda que a porta foi levantada como uma comemoração de uma transmutação bem sucedida que culminou na produção da Pedra Filosofal nos aposentos de Cristina.

A Porta Magica consiste em um portal de pedra com um emblema da alegoria alquímica de Henricus Madathanus Aureum Seculum Redivivum. No alto uma cruz sobre um círculo no qual está inscrito um hexagrama com o texto “Centrum in trigono centri” e com o entorno ladeado por insígnias alquímicas e termos alquímicos em latim.

Os sete signos foram retirados do Commentatio de Pharmaco Catholico de Johannes de Monte-Snyder e estão na sequência: Saturno-Chumbo, Júpiter-Estanho, Marte-Ferro, Vênus-Bronze, Mercúrio, Antinomia e Vitríolo.

A Porta Mágica é encimada com a inscrição hebraica Ruach Elohim ou o Espírito do Senhor e ao redor do emblema está o texto:

TRIA SUNT MIRABILIA DEUS ET HOMO MATER ET VIRGO TRINUS ET UNUS.

(HÁ TRÊS MARAVILHAS DEUS E HOMEM, MÃE E VIRGEM TRÊS E UM.)

Também na Porta há uma inscrição alusiva às viagens dos Argonautas:

HORTI MAGICI INGRESSUM HESPERIUS CUSTODIT DRACO ET/ SINE ALCIDE COLCHIAS DELICIAS NON GUSTASSET IASON

(O dragão hesperiano guarda a abertura do jardim mágico e sem Hércules Jasão não teria provado as iguarias da Cólquida).

Da esquerda para a direita as inscrições são:

QUANDO IN TUA DOMO NIGRI CORVI PARTURIENT ALBAS COLUMBAS TUNC VOCABERIS SAPIENS

(Quando em sua casa os corvos negros derem à luz pombas brancas, então você será chamado de sábio).

DIAMETER SPHAERAE THAU CIRCULI CRUX ORBIS NON ORBIS PROSUNT

(O diâmetro da esfera, o tau do círculo, a cruz do globo, não têm utilidade para o mundo).

QUI SCIT COMBURERE AQUA ET LAVARE IGNE FACIT DE TERRA CAELUM ET DE CAELO TERRAM PRETIOSAM

(Aquele que sabe queimar com água e lavar com fogo faz da terra o céu e do céu a terra preciosa).

SI FECERIS VOLARE TERRAM SUPER CAPUT TUUM EIUS PENNIS AQUAS TORRENTUM CONVERTE EM PETRAM

(Se ​​você jogar a terra sobre sua cabeça com seus cabelos, você converterá em pedra as torrentes de água).

AZOTH ET IGNIS DEALBANDO LATONAM VENIET SINE VESTE DIANA

(Quando o Azoth e o Fogo embranquecer Latona, Diana virá sem roupa).

FILIUS NOSTER MORTUS VIVIT REX AB IGNE REDIT ET CONIUGO GAUDET OCCULTO

(Nosso filho morto vive, o rei se afasta do fogo e tem prazer na conjunção oculta).

EST OPUS OCCULTUM VERI SOPHI APERIRE TERRAM UT GERMINET SALUTEM PRO POPULO

(É obra oculta dos verdadeiros sapientes abrir a terra para gerar salvação para o povo).

No limiar há a linha curta que pode ser lida nos dois sentidos:

SI SEDES NON IS

(Se você sentar, não pode ir, se não sentar, vá).

Os últimos anos

Kristian Zahrtmann, Rainha Cristina no Palazzo Corsini (1908). Imagem da Galeria Nacional da Dinamarca.

No final de sua vida os manuscritos magico, espirituais que possuía superavam a casa dos milhares, incluíndo toda obra de Paracelso, os livros de Joachim di Fiore e Campanella, Corpus Hermeticum, Steganographia de Trithemius, Monas Hieroglyphica de John Dee, o Picatrix, uma versão latina do  Sefer-ha-Raziel e as obras alquímicas de Johannes Theurneisser e Andreas Libavius. Os livros de Christina estão listados em um documento agora na biblioteca Bodleian, Oxford.

Sua fome de saber sobre estes assuntos parecia não ter fim e em um dado momento trouxe uma mulher mais jovem chamada Sibylla para realizar com elas alguns experimentos. Ela também contratou um alquimista trabalhador, Pietro Antonio Bandiera, para administrar seu laboratório a quem deixou todos os equipamentos em seu testamento. De fato, ela levou esse interesse até o último momento de sua vida. Quando faleceu foi encontrada com ela em sua cama uma carta sobre a medicina universal, o alkahest, de Samuel Forberg.

Cristina faleceu em Roma aos 63 anos em fevereiro de 1689, vítima da diabetes. Ela adoeceu gravemente após uma visita aos templos da Campânia. Contrariando seu desejo, o Papa Inocêncio XII mandou realizar uma elaboradíssima cerimônia, com cortejo de cardeais, clérigos e noviços até a Basílica de São Pedro, onde está sua sepultura até hoje.

Fontes:

 

* Thiago Tamosauskas autor do Principia Alchimica, um manual simples e direto dos principais conceitos e práticas da alquimia.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/cristina-da-suecia/

Propaganda: Ideologia e Manipulação

Propaganda comercial, eleitoral e ideológica

Ao assistir à televisão, ler um jornal ou revista, ouvir rádio ou olhar um cartaz de rua, tem-se a atenção despertada para mensagens que convidam a experimentar um determinado produto ou a utilizar algum serviço. São anúncios que pedem para usar um sabonete, fumar cigarros de certa marca, depositar dinheiro numa caderneta de poupança e inúmeros outros. Outras vezes, embora sem se referir especificamente aos produtos ou serviços, os anúncios mencionam uma determinada empresa ou instituição, falam de sua importância para a sociedade, dos empregos que ela propicia ou de sua contribuição para o progresso do país. Procuram, dessa forma, criar uma imagem positiva da entidade para que se a considere com simpatia. Trata-se, em todos esses exemplos, de publicidade, também denominada propaganda comercial.

A propaganda eleitoral, geralmente, é realizada em vésperas de eleições. Suas mensagens, veiculadas pelos meios de comunicação ou divulgadas diretamente através de discursos e apelos pessoais, convidam a votar em determinado candidato, enaltecem suas qualidades positivas e informam sobre as obras que realizou no passado e as que irá fazer no futuro, se eleito.

A produção desses anúncios envolve diversas e diferentes etapas. A empresa que deseja aumentar as vendas, o número de usuários de seus serviços, ou o candidato que quer ser eleito, contrata uma agência de propaganda. A partir daí, profissionais especializados passam a estudar cuidadosamente os diversos aspectos que lhes permitam adquirir um perfeito conhecimento da situação. Verificam as características do produto ou serviço, formas de distribuição, preços e informam-se sobre os concorrentes. No caso de candidatos a cargos políticos, analisam suas qualidades, aspectos físicos, idéias que defendem etc. Obtido o maior número possível de informações, a agência passa a investigar os prováveis consumidores ou eleitores. Pesquisa seus hábitos, expectativas, motivações, desejos e todos aqueles elementos necessários para prever as atitudes que poderão assumir em face das propostas a serem apresentadas. Verifica, ainda, os hábitos de leitura, locais que freqüentam, canais de televisão e estações de rádio que preferem e os respectivos horários. De posse de todos esses dados, relativos ao que deve ser anunciado, às pessoas que devem receber as mensagens e aos veículos de divulgação, a agência prepara a campanha. Tem condição, assim, de criar os comerciais e anúncios de forma atrativa e convincente para, em seguida, difundi-los nos locais, veículos e horários mais adequados à consecução dos objetivos que tem em vista.

A pessoa que recebe a comunicação não encontra nenhuma dificuldade em perceber que se trata de propaganda, ou seja, de que existe o fim específico de gerar uma predisposição para a compra ou utilização da serviço, criar uma imagem favorável da empresa ou obter votos. Pode, inclusive, evitar os apelos desligando a TV, mudando a estação do rádio ou simplesmente não prestando atenção.

Há uma outra forma de propaganda que se desenvolve de maneira bem mais complexa. Nos casos até agora mencionados a meta era estimular apenas a prática de um ou alguns atos isolados. Promovia-se, como vimos, a escolha de bens ou serviços de certas empresas ou a opção de voto para o candidato de determinado partido. A propaganda ideológica ao contrário, é mais ampla e mais global. Sua função é a de formar a maior parte das idéias e convicções dos indivíduos e, com isso, orientar todo o seu comportamento social. As mensagens apresentam uma versão da realidade a partir da qual se propõe a necessidade de manter a sociedade nas condições em que se encontra ou de transformá-la em sua estrutura econômica, regime político ou sistema cultural.

Não é mais tão fácil perceber que se trata de propaganda e que há pessoas tentando convencer outras a se comportarem de determinada maneira. As idéias difundidas nem sempre deixam transparecer sua origem nem os objetivos a que se destina. Por trás delas, contudo, existem sempre certos grupos que precisam do apoio e participação de outros para a realização de seus intentos e, com esse objetivo, procuram persuadi-los agir numa certa direção. E eles conseguem, muitas vezes, controlar todos os meios e formas de comunicação, manipulando o conteúdo das mensagens, deixando passar algumas informações e censurando outras, de tal forma que só é possível ver e ouvir aquilo que lhes interessa.

Os noticiários de jornais, rádio e televisão e os documentários cinematográficos transmitem as informações como se fossem neutras, mera e simples descrição dos fatos ocorridos. Mas, em verdade, essa neutralidade é apenas aparente, pois as notícias são previamente selecionadas e interpretadas de molde a favorecer determinados pontos de vista. Os filmes de ficção, romances, poesias, as letras de músicas e expressões artísticas de maneira geral parecem resultar da livre imaginação dos mais variados artistas. Todavia, a distribuição a promoção das obras são controladas de modo a só tronar conhecidas aquelas cujo conteúdo não contrarie as idéias dominantes. As denominações de ruas e praças, as placas comemorativas e de sinalização, as estátuas e efígies de pessoas, colocadas nos mais diversos logradouros, aparentemente se destinam apenas a servir de orientação ou a decorar os ambientes. Porém, na maioria dos casos, cuja vida deva servir de exemplo, com o objetivo de que sejam imitadas em benefício da realização dos interesses promovidos pela propaganda. Professores extravasam sua função de transmitir conhecimentos científicos para divulgar concepções comprometidas com certas posições. Líderes religiosos, que se propõe a orientar seus adeptos pelos caminhos da paz espiritual e da salvação eterna, acabam empurrando-os para ações que favorecem lucros materiais e ambições terrenas.

Por toda a parte e em todos os momentos são propagadas idéias que interferem nas opiniões das pessoas sem que elas se apercebam disso. Desse modo, são levadas a agir de uma outra forma que lhes é imposta, mas que parece por elas escolhida livremente. Obrigadas a conhecer a realidade somente naqueles aspectos que tenham sido previamente permitidos e liberados, acabam tão envolvidas que não têm outra alternativa senão a de pensar e agir de acordo com o que pretendem delas. Um exemplo concreto, dentro da história brasileira, permitirá esclarecer melhor essa amplitude da propaganda ideológica.

Em abril de 1964, alguns militares, com apoio de políticos, empresários e segmentos da classe média, tomaram o poder através de um golpe de estado. O novo regime político foi redefinido no sentido de restringir a participação popular, impedindo quaisquer reivindicações, movimentos ou conflitos. Paralelamente, propunha-se a reorientação do sistema econômico para um modelo de desenvolvimento que, diferentemente das propostas nacionalistas anteriores, permitiria maior penetração de capital externo no país.

Essas diretrizes eram fixadas em função dos interesses das empresas multinacionais, dos grandes proprietários de terras, industriais, comerciantes e banqueiros. Através delas, estimulava-se a acumulação de capital sem os incômodos das tensões causadas pela luta reivindicatória dos trabalhadores.

Mas esses objetivos não poderiam ser realizados sem o apoio e a colaboração dos trabalhadores em geral e da classe média. Necessitavam-se dos operários nas fábricas, dos colonos nas fazendas e dos funcionários nas repartições. Era preciso que todos trabalhassem e se esforçassem o mais possível, sem grandes exigências, para promover a expansão econômica. É claro que tal apoio não seria conseguido se as pessoas visadas não estivessem convencidas de que atuavam em função de seus próprios interesses e benefícios. Para isso o governo promoveu uma intensa campanha de propaganda ideológica, que se resolveu durante vários anos.

Inicialmente improvisada e pouco sistemática, a propaganda logo passaria a ser orientada por órgãos especialmente criados para coordenar as campanhas. A Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência de República (AERP) encarregou-se da propaganda nos governos de Costa e Silva e Médici. Geisel teve a Assessoria de Imprensa e Relações Públicas (AIRP), depois desmembrada em duas. Figueiredo criou a Secretaria da Comunidade Social (SECOM), posteriormente substituída pela Secretaria de Imprensa e Divulgação (SID).

Organizou-se, em todo o país, um sistema de censura de tal forma rigoroso que quase nada podia ser divulgado sem prévia autorização. Qualquer informação ou notícia que não estivesse de acordo com a ideologia oficial do governo era proibida e podia acarretar a punição do responsável. Estabelecido, dessa forma, o controle absoluto das informações, a propaganda passava a desenvolver-se sem nenhum obstáculo. O primeiro passo foi justificar o golpe do estado e o regime implantado. Explicava-se que o militares haviam tomado o poder porque o Brasil era um país desorganizado pelas crises econômicas e distúrbios políticos constantes que os governantes e administradores corruptos não conseguiam solucionar. A dramática ameaça de subversão e guerra revolucionária, orientada por comunistas portadores de ” ideologias exóticas e alienígenas”, era o pretexto anunciado para justificar o caráter autoritário e repressivo do governo.

Procurando legitimar o regime, a propaganda encarregou-se de enaltecer os presidentes, apresentando-os como líderes os mais indicados para serem chefes de governo. Com a construção de uma imagem positiva dos presidentes, esperava-se conseguir despertar a confiança da população para as suas decisões, explicações e esclarecimentos. Pretendia-se obter, também, a submissão às convocações de mobilização para o trabalho e apoio ao governo.

Mas não bastavam imagens; era preciso alguns fatos concretos que mostrassem governos atuantes, e a propaganda se encarregou de difundi-los. Todas as realizações, pequenas ou grandes, eram divulgadas para todo o Brasil com insistência e repetição. A todo o momento, na imprensa, rádio, televisão ou cinema, se mencionavam a industrialização do Nordeste, a Transamazônica, os milhões alfabetizados pelo Mobral e tantos outros.

Muitos feitos foram exagerados e dramatizados ao extremo, com o objetivo de sugestionar os ouvintes. Sugeria-se que naquele período se fizera mais que em toda a história anterior do país; inúmeras construções eram apresentadas como as maiores do mundo. Afirmava-se que todas a realizações visavam ao bem estar da população em geral, ocultando-se que os maiores beneficiados eram os detentores do grande capital.

Apelava-se para o orgulho patriótico da população, mas o amor à pátria passou a ser sinônimo de submissão ao governo. Quem contestasse o regime militar passava a ser considerado antibrasileiro, e o “slogan” de 1970 impunha: “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

Em seguida, a propaganda procurava instilar o espírito de fé no país para que a população, confiando no futuro, aguardasse chegada de dias melhores e suportasse calmamente as dificuldades. Diziam que o Brasil era uma grande extensão de terras férteis cujas inúmeras riquezas permitiriam que viesse a se transformar em grande potência. Prometia-se a produção de ouro, urânio, ferro, petróleo e alimentos em grandes quantidades, quando então não haveria mais problemas nem sofrimentos.

Otimismo e confiança passaram a ser a tônica das mensagens. “Chegou a hora de crescer sem inflação” (Castelo Branco). “Confiamos no Brasil” ( Costa e Silva). ” Ninguém segura o Brasil” (Médici). ” Este é um país que vai pra frente” (Geisel). ” O Brasil encontrou a saída. Vamos todos crescer” (Figueiredo). Foram épocas e slogans diferentes, mas sempre o mesmo sentido.

Legitimados o golpe e o regime, construída a boa imagem dos presidentes e suas realizações, estimulados o patriotismo e a confiança, restava pedir apoio e convocar para o trabalho. ” Participação”, a idéia-chave da segunda metade dos anos 60 continuaria um lema a ser repetido pelos anos afora. ” Pague seus impostas” (Castelo Branco). ” A ordem do Brasil é o progresso. Marche conosco” (Costa e Silva). ” Você está convidado a participar das duzentas milhas” (Médici). ” O Brasil é o trabalho e participação de todos” (Geisel). Todos esses slogans, cada um na sua época, foram intensa e sistematicamente repetidos em todos os meios de comunicação.

A propaganda deu resultados. Grande parte da população acreditou no que ouvia confiando em que os governos militares eram legítimos e defendiam seus interesses. Submeteu-se às decisões políticas e colaborou com o seu trabalho. Os objetivos foram alcançados em sua maior parte. O país superou a crise em que se encontrava em 1964, expandiu-se o sistema financeiro, o capital estrangeiro investiu em todos os setores, diversificou-se a agricultura e se desenvolveu a indústria. As fábricas, as fazendas e os bancos cresceram e com eles os lucros. Os grandes beneficiados foram os proprietários do grande capital. Uma pequena parte da população recebeu alguns poucos frutos desse desenvolvimento, mas os capitalistas viram sua riqueza multiplicar-se rapidamente, ficando com a maior parte. Para as classes trabalhadoras, contudo, a pior conseqüência foi a alienação produzida pela propaganda, a ignorância sobre suas próprias condições de vida e seu papel na sociedade. Mistificadas, perderam grande parte da sua capacidade de organização e luta em defesa de seus próprios interesses, e só ao final dos anos 80 é que viriam a recuperar parte de sua força.

Esses exemplos são simplificativos para mostrar a força de expansão da propaganda ideológica. Ela foi empregada em todas as épocas conhecidas da história, pelos mais diversos grupos e líderes. Uns para manter o status quo e garantir seu poder, outros para transformar a sociedade todos procuraram envolver as massas na consecução de determinados objetivos e realização de certos interesses. Inúmeras vezes a propaganda foi total, utilizada não apenas para divulgar alguns idéias e princípios, mas para incutir toda uma visão do mundo e sua história, de idéias e respeito do papel de cada indivíduo e sua família, da posição dos grupos e classes na sociedade e para impor valores e padrões de comportamento como os mais adequados e mais justos.

A propaganda nem sempre se desenvolveu da mesma maneira, mas variou conforme o momento histórico que foi realizada. Em cada época, o modo de produção econômico vigente, o estádio em que se encontravam as forças produtivas, a posição e capacidade das classes sociais em conflito é que determinaram a forma, o conteúdo e o grau de intensidade das campanhas. Mas há alguns aspectos que permanecem constantes, repetem-se na história, e podem ser considerados princípios gerais. É o que se verá a seguir.

Classes Sociais, Ideologia e Propaganda

As ações humanas se definem e se distinguem pelo fato de que são realizadas com um caráter eminentemente social, baseadas na cooperação entre diversos indivíduos. Para que possam satisfazer às suas necessidades, as pessoas dependem de bens e produtos os mais diversos. A produção e distribuição desses bens exigem o trabalho integrado de vários homens, colaborando uns com os demais. Para que essa colaboração seja possível, é indispensável que haja certas idéias orientadoras, partilhadas pela maioria, que a oriente numa mesma direção, permitindo a consecução dos objetivos comuns. Cada indivíduo precisa ter concepções a respeito do meio em que vive, dos objetivos que devem ser atingidos e do seu papel no conjunto das relações sociais. Somente quando essas idéias coincidem com as dos demais membros da sociedade é que lhes é possível agir e participar de forma harmônica e integrada.

As idéias não surgem fortuitamente na mente humana, mas são produzidas a partir da percepção da realidade concreta, tal como vivida pelos membros da sociedade. Ocorre que as pessoas não vivem da mesma forma. Embora se encontrem perante uma mesma realidade, inserem-se nela de maneiras diferentes, advindo daí diversas e distintas formas de pensar. Em outras palavras, as idéias são determinadas pela posição que se ocupa no contexto social. Resta verificar como se caracterizam as diferenças de participação dos indivíduos em uma mesma sociedade.
A forma como os homens se encontram integrados na produção econômica determina os limites de sua atuação e participação em todos os níveis sociais, estabelecendo o seu “espaço”. A expressão “espaço”, no aspecto social, tem um sentido específico. É a área, definida por certos limites, dentro dos quais os indivíduos e grupos podem agir. Não se trata de uma área física ou geográfica, mas de um conjunto de relações. Isto significa dizer que as pessoas, em suas relações com os objetos matérias e imateriais e com outros indivíduos, estão condicionadas por certas barreiras que restringem suas possibilidades de ação. É o caso das classes sociais. Uma classe social se constituem pelo conjunto daqueles indivíduos que têm uma mesma posição e ocupam o mesmo espaço no plano da produção econômica, situação que lhes determina uma mesma forma de participação a nível político e cultural. Quando a produção se encontra organizada em moldes capitalistas, a sociedade se caracteriza pela divisão em duas classes fundamentais: os trabalhadores de um lado e os capitalistas do outro. Essas duas classes vivem em condições totalmente diversas e antagônicas.

Os trabalhadores têm o seu espaço delimitado pelo fato de que entram na produção apenas com sua força de trabalho, participando dos resultados através de um salário que lhes garantem, exclusivamente, o mínimo necessário à própria subsistência. Refletindo essa marginalização econômica, em nível político, os trabalhadores são apenas os sujeitos passivos das decisões e medidas geradas no seio do Estado. Essas decisões são tomadas e implementadas através de órgãos governamentais, onde os representantes dos trabalhadores não existem ou constituem uma minoria insignificante. No plano cultural, da mesma forma, a situação reflete a realidade econômica, sendo mínimas as possibilidades de acesso aos produtos culturais para qualquer trabalhador. Poucos podem estudar em escolas além de determinado grau, não têm condições de adquirir livros, discos ou quadros, nem de freqüentar concertos, cinema ou teatro.

Por outro lado, o espaço dos patrões, dos capitalistas, é bem mais amplo. Eles são os proprietários dos meios de produção: as terras, máquinas, ferramentas. Nessa condição, apropriam-se da maior parte dos bens produzidos, fato que se concretizam no seu crescente enriquecimento. Conseguem controlar órgãos do governo para que as decisões e medidas sejam favoráveis aos seus interesses e têm grande acesso à produção cultural que, inclusive, ajudam a financiar.

Essa diversidade de posições, frente a uma mesma realidade, determinam as concepções a respeito dela sejam igualmente distintas. Se para os mais privilegiados trata-se de uma sociedade bem organizada e justa, para os demais ela lhes parece absurda e desumana.

Todavia, os limites que definem os espaços das classes sociais não são estáticos nem eternos. Em determinados momentos históricos surgem possibilidades, para uma classe ou parte dela, de ampliar seu campo de ação. A possibilidade aparece, geralmente, quando um grupo adquire maior força em virtude do aumento numérico de sues membros, ou por se ter organizado melhor, ou qualquer outra razão que permita visualizar uma alternativa de lutar e conquistar melhores condições de existência. É o que tem ocorrido com os operários da maioria dos países de economia capitalista. O desenvolvimento econômico faz com que sejam necessários trabalhadores com melhor habilitação profissional. Pelo próprio fato de serem mais qualificados e, portanto, intelectualmente melhor preparados, esses operários encontram-se com mais condições de entender a situação e perceber a contradição entre o baixo nível salarial e os altos lucros das empresas. A partir do momento em que passam a trocar informações e discutir sua situação, começam a adquirir maior capacidade de organização e mobilização, que lhes permite lutar o obter melhores condições de vida.

Ocorre, contudo, que devido às dissidências e antagonismos existentes entre as classes sociais, a ampliação do espaço de atuação de uma, geralmente, implica a redução do espaço da outra. Realmente, a possibilidade de os trabalhadores obterem um aumento salarial resulta na igual possibilidade de redução dos lucros dos patrões. Da mesma forma, a participação política através da eleição de alguns representantes operários significaria uma diminuição do número equivalente de representantes dos patrões e assim por diante.

É nessa contradição que se definem os interesses das classes sociais. O espaço passível de ser ocupado pelos trabalhadores constitui, ao mesmo tempo, uma área passível de ser perdida pelos patrões. Esse espaço corresponde, nesse momento, aos “interesses” dos setores em conflito. Isso significa dizer que o “interesse” de uma classe social corresponde à possibilidade que ela tem de ampliar o espaço que ocupa ou à necessidade de defendê-lo contra as ameaças de outra classe. Nesse caso, para a classe operária trata-se de um interesse de transformação, com menor ou maior mudança de suas condições. Para a classe patronal, significa um interesse de manutenção, de conservar a sociedade na forma como se encontra organizada, impedindo uma mudança que signifique a perda de uma área já ocupada e das vantagens e privilégios que ela representa. A intensidade da mudança varia de acordo com as condições concretas em que se encontra a sociedade naquele momento. Pode haver pequenas mudanças quantitativas, com maior índice salarial, mais representantes políticos, direito de freqüentar escolas de grau mais elevado. Pode, também, traduzir-se em radicais transformações qualitativas, como a mudança do sistema econômico ou do regime político. Voltemos, agora, à análise da forma como se desenvolvem as idéias dos agentes sociais.

Qual a primeira condição necessária para que uma classe consiga realizar seus interesses, atuando no sentido de ampliar ou manter seu espaço? Antes de mais nada é preciso que seus membros percebam que essa possibilidade existe. Para tanto é importante que tenham conhecimento da situação em que vivem, saibam qual a sua força e quais as condições em que se encontram os membros de outras classes. Só então têm condições fixar objetos e traçar os caminhos mais adequados para atingi-los, que podem ser desde uma reivindicação perante um tribunal até uma greve geral e mesmo uma revolução armada. Em outras palavras, é preciso que a classe adquira consciência das suas reais condições de existência e das possibilidades de mudança ou da necessidade de manutenção nessas mesmas condições. Essa consciência nada mais é que um conjunto de idéias a respeito da realidade social, ou seja, uma ideologia.

Uma ideologia contém três tipos básicos de idéias, que são as representações, os valores e as normas.

Representações são idéias a respeito de como é a realidade: como está organizada a sociedade, em que classes se divide, se há ou não exploração de uma pela outra, como ocorre a exploração etc. Valores são idéias a respeito de como deve ser a realidade: a organização social deve ser diferente, sem classes e sem exploração ou, então, tudo deve permanecer como está. Finalmente, normas são aquelas idéias a respeito do que deve ser feito para transformar a realidade ou mantê-la nas condições em que se encontra: votar no candidato que torne a sociedade menos injusta, organizar uma greve para forçar o governo a providenciar mudanças ou, para aqueles que querem manter a situação, usar força policial para reprimir reivindicações, demitir operários grevistas etc.

Uma vez definida, a ideologia serve como modelo para a compreensão da realidade e guia orientador da conduta de todo o grupo e de cada indivíduo em particular. Resta verificar de que forma essa ideologia é propagada, tornando-se conhecida pelos diversos membros de uma classe social ou, até mesmo, por toda a sociedade.

Uma ideologia nunca surge, ao mesmo tempo, para todos os membro de uma determinada classe. Geralmente são apenas uns poucos, um pequeno grupo que consegue adquirir consciência e visualizar um quadro completo de sua realidade. Todavia, sua atuação isolada pode não ser suficiente. De nada adiantaria se apenas alguns líderes sindicais fizessem uma greve. Se os operários de um único setor da indústria lutarem por seus interesses, podem ser despedidos sem nada obter, sem realizar nenhuma mudança. Os empresários, também, pouco conseguiriam se apenas alguns reagissem contra as ameaças aos seus privilégios ou só uns poucos procurassem obter medidas que assegurassem maiores lucros. Daí a importância do apoio, senão de todos, ao menos de uma grande maioria dos membros de uma mesma classe, para que possam atingir qualquer resultado. Por essa razão que um grupo, percebendo possibilidades de progresso ou a necessidade de defesa contra certas ameaças, procura difundir suas idéias. Sua expectativa a de integrar o maior número de pessoas que, aceitando os mesmos valores e normas, atuem numa mesma direção, permitindo que os objetos sejam atingidos. Senão houver idéias comuns, torna-se impossível coordenar, integrar as ações, organizar as lutas e os movimentos.

Ocorre também, muitas vezes, que determinado objetivos que podem ser atingidos por certa classe se a outra resistir e impedir as ações. Nesse caso se torna necessário que a outra classe dê seu apoio e, até mesmo, colabore ativamente para a consecução daqueles objetivos, o que exige que a ideologia seja aceita também pelos seus membros. Os patrões querem manter ou aumentar seus lucros, precisam do trabalho de seus empregados, sem o qual lhes é impossível realizar esse intento. Para os trabalhadores, também, é mais fácil conquistar melhores condições se puderem contar com o apoio dos empresários, situação que raras vezes ocorre na realidade concreta. Por essas razões é que os grupos sociais procuram difundir suas idéias, não só para aqueles que pertencem à mesma classe social como aos de outras. Essa difusão da ideologia se faz pela propaganda ideológica.

O Desenvolvimento da Propaganda

A propaganda ideológica envolve um processo complexo, com termos e fases distintas. O “emissor”, grupo que pretende promover a difusão de determinadas idéias, ao visar outros com interesses diversos, realiza a “elaboração” de sua ideologia para que as idéias nela contidas pareçam corresponder àqueles interesses. Feito isso, procede um trabalho de “codificação”. pelo qual transforma as idéias em mensagens que atraiam a atenção e sejam facilmente compreensíveis e memorizáveis. Através do “controle ideológico” o emissor manipula todas as formas de produção e difusão de idéias, garantindo a exclusividade na emissão das sua próprias. Procura, dessa forma, evitar a possibilidade de que os receptores venham a receber, ou mesmo produzir, outra ideologia que os oriente contra os interesses do emissor. A partir daí as mensagens são emitidas através da “difusão”, que procura atingir o mais rapidamente possível um maior número de pessoas.

Elaboração

Quando a propaganda ideológica se faz entre os membros de uma mesma classe social, as idéias a serem propagadas não precisam sofrer nenhum tipo de elaboração mais significativo. Isto porque se trata de pessoas que, por pertencerem à mesma classe, ocupam uma mesma posição, donde se segue que tenham interesses comuns.

Nesta caso, as idéias defendidas por uns dificilmente seriam rejeitadas pelos demais.

Não haveria grandes dificuldades para operários transmitirem a outros a idéia de que sua situação é precária e da necessidade de se mobilizarem para conquistar melhores condições. Podem surgir divergências quanto à forma e ao momento da mobilização, mas dificilmente quanto à idéia em si. Um grupo de empresários tampouco teria dificuldades para mostrar aos demais a importância de se ajustar certas medidas econômicas, de forma a aumentar os lucros de todos. Nesses casos, praticamente não há necessidade de convencer, de persuadir, pis que a apresentação clara das idéias já deve ser suficiente para que os receptores dêem sua adesão e apóiem as propostas. A propaganda adquire, nesses casos, um caráter de demonstração e conscientização. Procura explicar a realidade existente, mostrar a necessidade de mudá-la ou mantê-la e indicar formas de realizar interesses que são comuns.
Se a propaganda é realizada de uma classe social para outra que tem interesses diversos, a simples difusão da ideologia já não é suficiente para gerar adesão. Nesse caso, o grupo emissor, antes de difundir suas idéias, elabora-as para que se adaptem às condições dos receptores, criando a impressão de que atendem a seus interesses. Mas a verdade é que as idéias contêm apenas os objetivos do emissor, e a impressão contrária só é possível se, ao se reportar à realidade, as mensagens ocultem ou deformem alguns de seus aspectos. Nesse caso, convencidos de que as propostas atendem às suas necessidades, os receptores não têm razão para discordar delas. A elaboração, dessa forma, esconde quais são os interesses reais existentes por trás da ideologia, ao mesmo tempo que oculta a realidade vivida pelos receptores, para que estes não possam formular outras idéias que melhor correspondam à sua posição. Neste caso, a propaganda não tem mais o caráter de conscientização, mas de mistificação, manipulação e engano.

A forma mais utilizada na elaboração das ideologias é a universalização. As idéias, que na realidade se referem aos interesses particulares de uma classe ou grupo, são apresentadas como propostas que visam a atender a todos e satisfazer às necessidades da maioria. No Brasil, isto tem sido constantemente feito com relação às medidas governamentais, apresentadas através de fórmulas do tipo: “benefícios para o povo”, “progresso do país”, “desenvolvimento nacional”, “para o bem de todos”, “para todos os brasileiros”.
A elaboração também tem sido feita por transferência, em que os interesses contidos na ideologia são transferidos e atribuídos diretamente aos receptores. Um dos primeiros a adotar ostensivamente essa fórmula, no Brasil, foi Getúlio Vargas. Seus inúmeros discursos começavam dirigidos aos “Trabalhadores do Brasil” e seguiam com a enumeração das medidas tomadas pelo governo como tendo sido adotadas para beneficiar os operários. Ajudava-se os industriais com incentivos, empréstimos e subsídios. Mas a propaganda transferia as vantagens para os trabalhadores alegando que, com o estímulo às indústrias, estas teriam condições de oferecer melhores empregos.

A universalização e a transferência também se processam de forma mais sutil. Há expressões que não têm significado muito preciso, de tal forma que cada pessoa lhes dá uma interpretação. É o que ocorre com os conceitos de “democracia”, “igualdade”, “justiça”, “liberdade” e tantos outros. Quando alguém fala em “democracia” a um grande número de pessoas, cada uma entende a palavra num sentido relacionado à sua própria condição. Pequenos empresários pensam em maior abertura para decidir sobre seus próprios negócios ou na possibilidade de concorrer com as multinacionais em igualdade de condições. Operários pensam em liberdade de lutar eficazmente por melhores condições de trabalho. Estudantes imaginam maior participação dos alunos nas decisões e atividades escolares, e assim por diante. E a palavra democracia é insistentemente utilizada pelos políticos e homens de governo, que raramente explicitam a que se referem concretamente. A propaganda age, assim, resumindo as idéias em expressões ambíguas dos tipos mencionados. Consegue-se, com isso, que cada um dos que ouvem a mensagem concorde com ela, por acreditar que diga respeito a si e a seus interesses e necessidades, e acabe apoiando o sistema econômico e o regime político.

A universalização e a transferência são feitas, ainda, de forma indireta. Ao invés de apresentar propostas como possíveis de atender a todos, mascara-se a diferença entre os indivíduos, grupos e classes sugerindo-se a igualdade. Mostra-se a sociedade como um todo homogêneo onde não há diferenças de posições e interesses. Tal imagem acaba por levar à conclusão de que quaisquer medidas beneficiam a todos sem discriminação, já que são iguais. Expressões do tipo “todos são iguais perante a lei”; teses sobre o Brasil ser um país cordial onde todos falam a mesma língua e professam a mesma religião, a propalada afirmação de que no Brasil não há racismos nem preconceitos, são argumentos empregados com aquele objetivo. Ao serem convencidas de que são cidadãos de um país onde todos são tratados igualmente, as pessoas acabam por não perceber a exploração de que são vítimas. As divergências com países estrangeiros, até mesmo em caso de guerras, têm permitido manipular a população para que esta sinta participar de um todo único. A única diferença passa a ser entre nacionais amigos e estrangeiros inimigos. Nesse contexto, todas as idéias e propostas são recebidas como visando ao interesse geral.

Quando não é possível ocultar as diferenças existentes na sociedade, procuram minimizá-las, torná-las insignificantes. A fórmula mais comumente empregada para tal tipo de sugestão é a do chamado “mito do esforço pessoal”. A idéia é divulgada alegando-se que a diferença entre ricos e pobres corresponderia a uma distinção entre pessoas mais e menos esforçadas. Afirma-se que os que detêm grande quantidade de bens conseguiram adquiri-los porque trabalharam muito para isso, e que qualquer pessoas que se exerça o suficiente pode atingir altos cargos e ganhar muito bem. Tomam-se alguns exemplos de pessoas bem-sucedidas, apesar de sua origem bastante humilde, alegando que progrediram porque estudaram com afinco e se esforçaram muito. Embora esses exemplos raramente ultrapassem uma dezena, num país de milhões, fica a idéia de que qualquer um, com tenacidade, pode atingir a nível dos mais privilegiados na sociedade. Essa idéia parece anular a contradição entre as classes, em que uma é explorada pela outra e não tem alternativas para fugir à dominação. Todavia, oculta um aspecto importante dos países subdesenvolvidos. Nesses, a grande massa populacional, devido à subnutrição, doenças, necessidade de trabalhar desde criança, não tem condições de se esforçar ou estudar.

Há outras situações em que as diferenças e contradições entre as classes sociais são muito gritantes. Quando se vê, numa mesma região, favelas e mansões luxuosíssimas, famintos ao lado de indivíduos ostensivamente poderosos, não há meios de se ocultar ou minimizar as diversidades. A propaganda recorre, então, à ocultação dos efeitos da exploração. Não nega a pobreza existente, mas esconde que ela existe para garantir o enriquecimento de alguns. È assim que a elaboração se faz, no sentido de desvalorizar os benefícios recebidos pela classe dominante. Formulam-se argumentos de que as pessoas não podem comer além de um certo limite, não podem utilizar mais de um automóvel ao mesmo tempo, para concluir que a riqueza não é tão significativa nem tão atraente. Afirmam-se serem tão poucos os privilegiados que a redistribuição de sua riqueza sã daria uma pequena e insignificante parte para cada um. Ou, então, procura-se apresentar a riqueza como desvantajosa sob argumentos do tipo “dinheiro não traz a felicidade”, “dinheiro acarreta preocupações”, “rico morre de enfarte”, “os ricos, para manter sua fortuna, precisam trabalhar mais que os pobres e não têm tempo de aproveitar a vida”, “Natal de pobre é mais humano e não tão formal quanto o dos ricos”.

Aproveita-se a diferença de costumes, onde os hábitos das classes mais abastadas são postos como desagradáveis e cansativos. “Rico não pode comer à vontade por ter de obedecer a regras de etiqueta” ou então “tem de comer pouco por educação”. Sugere-se, com isso, que a condição dos explorados é menos desagradável que a dos exploradores.

Quando não é possível ocultar os benefícios para as classes dominantes, disfarçam-se os prejuízos para os dominados. Nega-se, por exemplo, que os salários sejam tão baixos como de fato são. Diz-se que assistência médica garantida pelos Institutos de Previdência, a existência de produtos a preços mais baixos por subsídio do governo, a construção de estradas e avenidas, a assistência das Delegacias do Trabalho, a segurança policial, tudo deve ser considerado como um salário indireto, já que são vantagens que independem de pagamento direto dos empregados e custariam caríssimas se não fosse assim. Tenta-se, também, sugerir que se a situação não é tão boa, resta o consolo de que poderia ser pior. Exemplo sugestivo dessa tática ocorreu em fins de 1976, quando o governo brasileiro lançou uma campanha que, entre outras coisas, afirmava: “Se você está triste porque perdeu seu amor, lembre-se daquele que não teve uma amor para perder (…); se você está cansado de trabalhar, lembre-se daquele angustiado que perdeu o seu emprego; se você reclama de uma comida mal feita, lembre-se daquele que morre faminto (…), lembre-se de agradecer a Deu, porque há muitos que dariam tudo para ficar no seu lugar”.

Para disfarçar os efeitos da dominação procura-se, também, atribuí-los a um “bode expiatório”, um elemento, muitas vezes externo, que é responsabilizado pelos problemas. Crises internacionais, alto preço de produtos importados, ação de empresas e grupos estrangeiros, corrupção de alguns políticos, infiltração comunista até mesmo misteriosas “forças ocultas” passam a ser apresentados como responsáveis por todos os males. Fatos e pessoas do passado, também, costumam ser responsabilizados por problemas presentes, ocultando-se, dessa forma, a real origem dos males. Assim é que a colonização portuguesa teria sido a causa original do subdesenvolvimento brasileiro e das precárias condições econômicas atuais. Ou então foi o sistema de monocultura da economia cafeeira, adotado nos começos do século, que gerou a atual crise econômica. Com tudo isso, a classe dominante disfarça sua exploração sobre os demais e neutraliza a possibilidade de que lutem por melhores condições de vida.

Chega-se, mesmo, a atribuir a culpa da pobreza aos próprios pobres. Por não se interessarem em estudar, por não ferverem as águas contaminadas, é que são incompetentes, pobres e doentes.

Dessa forma, grande parte da população, que não tem nenhum acesso à assistência médica e educacional, vê inverter-se a relação para se tornar culpada pelo que não tem condições de fazer. É em parte com esse objetivo que os textos de certas campanhas repetem tão insistentemente: “você também é responsável”, “O Brasil é feito por nós”, “não deixe de vacinar seu filho”. De tanto ouvir tais apelos, os receptores acabam sentindo-se culpados pelos problemas, com a impressão de que, se eles existem, é porque não tomaram alguma providência para a qual foram alertados. Por toda a parte, na sociedade, estão pessoas a afirmar que se tivessem estudado mais, ou trabalhado com mais afinco, ou feito isso e aquilo, poderiam encontrar-se em melhores condições. Sequer percebem que sua situação é fruto do fato de pertencerem a uma classe à qual não são dadas outras alternativas e a s poucas apresentadas são ilusórias.

Mascara-se, também, a dominação e a exploração de classes atribuindo-se a algumas pessoas ou a certos órgãos e instituições toda a responsabilidade pelas medidas tomadas e implementadas. Apregoa-se, por exemplo, que o governo, o presidente, ou alguns burocratas é que detêm o poder e se encarregam de todas as decisões. Oculta-se que, na verdade, eles não detêm o poder, mas apenas o exercem na defesa dos interesses dos detentores do capital. esse disfarce permite sugerir que todas as decisões são tomadas por pessoas ou grupos neutros e desinteressados, cuja única preocupação é progresso do país.

Na maioria dos países da América Latina, as classes dominantes, as que realmente detêm o poder da decisão, são compostas por proprietários de capital financeiro, latifundiários, empresários nacionais associados aos de empresas multinacionais. com a plena consciência dessa situação, as populações talvez não apoiassem seus governos, porque perceberiam que a participação do povo é insignificante e seus interesses não são atendidos. Por essa razão, deformam a realidade, atribuindo todo o poder de decisão ais militares ou tecnocratas. Como estes não são banqueiros nem latifundiários, podem afirmar que os interesses visados são os do povo. Na verdade, estes militares e tecnocratas são instrumentos – de boa ou má-fé – de grupos cujos interesses não podem deixar de realizar. Estes, a propaganda esconde e não deixa aparecer como os realmente beneficiados.

Tática muito empregada é a de construir a imagem de um líder, responsável por todas as medidas, único detentor do poder. Enquanto a população acreditar nele não percebe quem são os verdadeiros privilegiados que se encontram por trás das decisões. Além disso, há sempre a possibilidade de se substituir um líder por outro, em épocas de crise econômica ou política, convencendo a população de que o substituto poderá solucionar todos os problemas. São os chamados líderes carismáticos, homens que parecem possuir dotes e atributos excepcionais. A propaganda cuida de propalar insistente e repetidamente as qualidades daquele que dirige. Gênio político, inteligente, hábil, de inusitada memória, e superior a todos os demais, a ele deve caber o exercício pleno do poder. Mas não bastam as qualidades excepcionais; os líderes só são seguidos se forem capazes de compreender a condição de seus liderados. A propaganda cuida deste aspecto também, apresentando-o como popular, simples, acessível e, portanto, capaz de compreender melhor que ninguém os problemas da maioria.

A elaboração da ideologia também tem sido feita pela negação de quaisquer possibilidades de mudanças que possam beneficiar os receptores, como forma de fazer com que estes aceitem as propostas apresentadas como as únicas possíveis. Assim, quando trabalhadores pretendem maior participação nos resultados econômicos através de aumentos salariais, argumentam que é impossível melhorar os salários, porque haveria tal aumento de custos para as empresas que as levaria à falência, deixando os operários em situação ainda pior: a do desemprego. Outras vezes, procuram demonstrar que as contradições e desigualdades são naturais e inevitáveis, que sempre haverá pessoas privilegiadas e outras destituídas de quaisquer recursos, de nada adiantando lutar contra isso. Afirmam mesmo que a realidade é de tal ou qual forma porque Deus quis assim e é inútil pretender transformar a natureza em que só o “Todo Poderoso” pode decidir. Ou então se utiliza a técnica de criar uma imagem das pessoas que seja incompatível com qualquer proposta de mudança social. Sob o rótulo de “caráter nacional brasileiro” se atribui uma série de características à população, onde se diz que o homem brasileiro se define pelo individualismo, pela emotividade, pela vocação pacifista e outros. Daí concluem e argumentam que, sendo individualista, pouco dado ao trabalho em conjunto e em cooperação, é incapaz de se organizar em partidos políticos, justificando o controle autoritário dos partidos pelo governo. Sendo emotivo, de comportamento pouco racional, alega-se que não deve ter maior participação política pelo voto direto, que exige senso crítico e tirocínio. Apoiando-se na idéia de que o povo brasileiro é cordial e pacífico, afirma-se que é contrário aos conflitos e se proíbem as greves e movimentos de contestação, porque seriam insuflados por agentes comunistas estrangeiros.

Chega-se a falsificar e deformar fatos da história, a fim de esconder a capacidade de uma classe para obter a realização de seus interesses. Uma das formas de os indivíduos melhor conhecerem suas condições de existência, sua posição na sociedade, é a compreensão do passado histórico. Importa ter noção das próprias raízes, das origens e do desenvolvimento da classe social a que se pertence, das lutas e conquistas obtidas pelos antepassados. São aspectos importantes para que os membros de uma sociedade possam localizar-se no tempo, compreendendo o processo de desenvolvimento em que estão inseridos. Daí a preocupação daqueles que detém o poder em interpretar a história a seu favor, deformando o passado histórico de certos grupos, para que não adquiram consciência a respeito de sua própria força.

A atuação das classes média e trabalhadora teve um papel importante na evolução de todos os países capitalistas. Suas exigências determinaram uma série de medidas que permitiriam uma organização mais racional e eficiente do trabalho. Todavia, a história universal foi escrita e ensinada nas escolas como um conjunto de fatos resultantes das decisões de apenas alguns homens, ora heróis, ora tiranos. A história passou a ser um conjunto de atos e comportamentos das elites, como se a maioria das populações não tivesse nenhum papel no processo. Essa interpretação, quando disseminada, gera um impressão de que os povos são incapazes de decidir sua própria vida, necessitando das elites para cuidar de seus interesses.

Mas nem sempre é possível ocultar totalmente os interesses dos receptores ou a sua capacidade de escolher seu próprio destino. Nesse caso a elaboração tem sido feita pelo adiamento, para um futuro vago, das satisfação de certas necessidades. As elites e os governantes costumam prometer futuros grandiosos quando haverá bem-estar para todos. Sugerem que se deve suportar alguns problemas e aceitar sacrifícios, em função dos melhores dias que virão. As descobertas de riquezas, os avanços tecnológicos, têm sido constantemente alardeados, de forma dramática, como as novas fontes que trarão o progresso e desenvolvimento para todos. Com tudo isso se faz que as pessoas, confiando no amanhã, no dia melhor para seus filhos, aceitem passivamente suas agruras.

Todos os casos acima mencionados constituem fórmulas de apresentação das idéias e propostas de grupos que deformam a realidade, ocultando o fato de que elas se referem exclusivamente à satisfação de seus objetivos. Adequando-as, assim, aos interesses de todos ou, mais especificamente, dos receptores, tornam possível fazer com que se submetam e até mesmo colaborem para a realização daqueles intentos. Existem ainda outras possibilidades de elaboração de ideologia, cada momento histórico determinando quais são as mais eficazes.

Codificação

A realidade social é extremamente complexa. São indivíduos, grupos menores ou maiores e classes sociais interando-se uns com os outros e se defrontando com objetos que podem ou não satisfazer as suas necessidades. Integram-se econômica, política e culturalmente, compondo toda uma trama de relações altamente diversificada. Por participarem de formas diferentes dessas relações os homens têm conhecimentos e experiências igualmente diversas. Sua capacidade de compreensão variável. Enquanto uns têm mais facilidade para entender certos fenômenos, outros não conseguem sequer percebê-los. Outros, ainda, nem chegam dar atenção a um grande número de fatos e acontecimentos, por não considerá-los importantes, embora possam interferir profundamente em suas vidas. Uma ideologia, por refletir a realidade, reflete também grande parte de sua complexidade e, para muitos, dificilmente é compreensível em seu todo. Nessa condições a propaganda, para transmitir a ideologia, precisa adaptar e adequar as idéias nela contidas às condições e à capacidade dos receptores de tal forma que tenham sua atenção despertada para as mensagens e consigam entender seu significado. Pois bem, codificação é processo pelo qual as idéias são transformadas em mensagens passíveis de serem transmitidas e entendidas.

Há inúmeras formas pelas quais as idéias são codificadas antes de sua divulgação. Em primeiro lugar, levando-se em conta aquelas pessoas que têm dificuldade em entender certas idéias complexas, procura-se simplificá-las. Essa simplificação pode ser maior ou menor, em função do grau de compreensão daqueles que deverão recebê-las. Lenin, procurando definir a maior forma de organizar a propaganda socialista, afirmava que o agitador para atingir uma grande massa, deveria transmitir uma só idéia ou um pequeno número delas. Hitler, por sua vez, entendendo que a capacidade de compreensão do povo era limitada, considerava que a propaganda deveria restringir-se a poucos pontos repetidos como estribilhos. A propaganda, dessa forma, procura difundir apenas o essencial do conteúdo de uma ideologia, selecionando algumas idéias fundamentais, restringindo-se a uma ou se limitando a um mero sinal simbólico.

As declarações, programas e manifestos, entre outros, constituem formas de simplificação em que se encontram selecionadas e destacadas as idéias centrais de uma determinada ideologia. O “Credo” contém as idéias básicas defendidas pela Igreja Católica.

O “Manifesto Comunista” constitui uma síntese das principais conclusões contidas no pensamento socialista tal como formulado por Marx e Engels.

Procurando obter simplificação ainda maior, a propaganda utiliza fórmulas curtas que contenham uma ou alguma das idéias mais importantes de uma dada corrente ideológica. A “palavra de ordem” contém, em uma expressão curta, o principal objetivo a ser atingido em determinado momento.

Quando, durante os movimentos estudantis ocorridos ao final dos anos 60, defendia-se a idéia de que era necessário reduzir a verba destinada às Forças Armadas para que fosse possível atender às necessidades básicas do povo, adotou-se, para difundi-la, a palavra de ordem “Mais pão, menos canhão”.

O slogan, outra forma de simplificação muito semelhante à palavra de ordem, contém um apelo aos sentimentos de amor, ódio, indignação ou entusiasmo daqueles a quem se dirige. “Aqui começa o país da liberdade”, escreviam os revolucionários franceses na fronteira de seu país. Esses mesmos revolucionários adotavam o lema “Liberdade, igualdade e fraternidade” para representar suas idéias e despertar a emoção dos ouvintes.

A fórmula mais sintética que se pode utilizar para exprimir uma idéia é o símbolo, breve sinal que resume uma ideologia ou que a representa. Justamente por ser bastante simples, é usado constantemente pela propaganda. Impresso em jornais, panfletos, nas bandeiras, pintando nas paredes e muros, utilizando como distintivo nas roupas, permite difundir a idéia a que se refere de forma ampla e rápida.

Os símbolos são formados por sinais gráficos, gestos ou expressões e cumprimentos repetidos pelos adeptos de uma determinada corrente. Foram empregados em todas as épocas e, dentre os conhecidos, o adotado pelos aliados durante a Segunda Guerra Mundial pode ser considerado dos mais perfeitos. O “V” era bastante simples: apenas dois traços retos que podiam ser rapidamente reproduzidos, com qualquer instrumento de escrita, em papéis, paredes, no chão ou em quaisquer objetos. Além disso, era suficientemente sugestivo por ser a letra inicial da palavra Vitória ( Victory), que representava o principal objetivo dos aliados. Importa lembrar que a palavra vitória começa com a letra “V” tanto em inglês, como em francês, espanhol ou português, o que lhe dava um grande valor para ser difundida em nível internacional. Era um sinal versátil, que podia passar de gráfico para plástico e ser feito com os dedos indicador e médio ou com os dois braços erguidos. Além disso, tornou-se sonoro, porque a letra V, em código Morse, formada por três pontos e um traço, e passou a ser associada ao trecho inicial da Quinta Sinfonia de Beethoven, que tem três notas curtas e uma longa.

Além da simplificação, as idéias tornam-se mais acessíveis quando associadas a outras mais simples. Essa associação é feita por semelhança, se a idéia transmitida é explicitada por outra diferente, mas com a qual guarda alguma similitude de forma ou estrutura e que seja mais simples. Para transmitir as idéias relativas à organização política do país e à estrutura dos órgãos de governo, tem sido muito utilizado o recurso de compará-las a um sistema familiar. A família é uma realidade mais conhecida e vivida pelos receptores, que nem sempre conseguem compreender toda a complexidade das instituições governamentais. Durante o Estado Novo, procurou-se uma fórmula para apresentar a idéia de que o Brasil era uma só nação, unida sob a direção de Getúlio Vargas, líder absoluto a quem deveriam ser atribuídas todas as decisões e toda responsabilidade. Para tanto, dizia-se: “A nação é uma grande família”, ” Getúlio, o pai dos pobres”, ” Getúlio, o pai dos trabalhadores”.

As ideologias geralmente se referem a certas situações que, por jamais terem sidos presenciadas pelos receptores, são pouco compreensíveis. Como explicar o valor e a importância de um regime liberal e democrático a quem tenha vivido apenas sob sistemas autoritários ? Nesse caso a associação da idéia é feita por contraste, em que se compara a situação a ser explicada a outra contrária, porém mais conhecida. Essa é a fórmula constantemente empregada por grupos de oposição que apresentam suas propostas recorrendo a imagens de um regime “sem censura”, “sem violência policial” etc.

A ilustração de idéias com exemplos concretos conhecidos é outra forma comum de codificação. Aqueles que defendem a necessidade de que a direção da economia fique a cargo da iniciativa privada costumam apoiar-se na tese da incompetência administrativa e gerencial do governo. Para demonstrá-la recorrem freqüentemente a exemplos bem conhecidos de empresas e repartições públicas desorganizadas e ineficientes. A existência de favelas serve para ilustrar a idéia de que o governo deve investir antes na solução do problema habitacional que na construção de obras suntuárias. Lenin, para explicar essa forma de apresentar as mensagens, levantava a hipótese de se ter de explicar uma greve. Segundo ele, para defini-la em suas características mais importantes, o agitador deveria ilustrar a noção de greve tomando um fato bastante conhecido por seus ouvintes, como o de uma família de grevistas pobre e faminta. A partir desse exemplo é que procuraria mostrar o absurdo da contradição entre a riqueza de uns em oposição à miséria absoluta de outros. Só então é que seria possível explicar a greve como uma conseqüência da forma de organização econômica do sistema capitalista.

Outro aspecto importante a ser considerado na codificação é o fato de que as pessoas já carregam consigo uma série de concepções a respeito da realidade em que vive. Ideologias já existentes, idéias e crenças as mais diversas, mitos e superstições dão aos indivíduos que vivem em uma cultura uma versão de seu ambiente e de sua vida, uma explicação da realidade, que lhes permitem integrar-se ao meio e exercer um determinado papel. A propaganda não deve deixar de considerar, ao difundir novas idéias, o fato de que elas podem chocar-se com as já existentes, por serem diversas e mesmo contraditórias. Nesse caso, ao mesmo tempo que se apresentam certas idéias, pode-se negar as já existentes, procurando mostrar que são falsas e não correspondem à realidade. É o que ocorre com alguns pregadores protestantes ao difundir suas idéias aos adeptos da fé católica combatendo a prática da adoração dos santos e criticando a utilização de imagens como as existentes nas igrejas católicas.

Essa orientação, contudo, nem sempre é eficaz, porque as pessoas tendem a se apegar emocionalmente a certas concepções que, às vezes, trazem consigo desde a infância e rejeitam qualquer nova explicação. Outra possibilidade, nesse caso, é a de fundir a idéia a ser propagada com as concepções já existentes, solução que inclusive facilita a aceitação das mensagens, porque baseadas em idéias já aceitas como verdadeiras. A propaganda hitlerista pregava a pureza da raça ariana, destinada a dominar o mundo, ao mesmo tempo que condenava e combatia os judeus. Essas idéias, contudo, não foram criadas pelos nazistas, mas já se encontravam disseminadas pela Alemanha. A propaganda nazista se apropriou delas, combinando-as com as propostas do partido para torná-las mais convincentes.

Controle ideológico

Por mais que um grupo elabore sua ideologia, ocultando que se refere exclusivamente a seus objetivos, para obter o apoio dos demais, é possível que estes acabem por adquirir consciência de sua própria posição na sociedade e de que seus interesses são diversos. Nessa hipótese, poderiam formular outra ideologia, mais adequada às suas condições, que os levaria a agir em sentido diverso daquele pretendido pelos emissores da propaganda. Por essa razão, os grupos que propagam suas idéias, geralmente procuram evitar que os receptores possam perceber a realidade por outro prisma que não aquele que lhes é proposto. Fazem isso tanto impedindo a formação de outras ideologias como neutralizando a difusão das já existentes. O controle ideológico compreende todas as formas utilizadas para que determinados indivíduos e grupos não tenham condições de perceber sua realidade e, assim, fiquem impedidos de formar sua própria opinião.

Os indivíduos e grupos só podem adquirir consciência de suas reais condições de vida por duas vias: a observação direta do meio em que vivem ou através das informações obtidas de outros, seja pessoalmente, seja pelos meios de comunicação. Daí o controle ideológico se realizar sobre o meio ambiente, sobre os meios de comunicação e sobre as pessoas.

A remodelação do ambiente físico permite torná-lo mais adequado às idéias difundidas pela propaganda. Procuram, assim, fazer com que as imagens percebidas confirmam as idéias apresentadas. Desde a Antiguidade se encontram momentos em que os grupos detentores do poder procuraram moldar a decoração do meio, de forma a apoiar suas idéias. Inúmeros reis, imperadores e dirigentes políticos mandaram construir grandes monumentos para reforçar a idéia de seu poder e prestígio.

No Brasil, Getúlio Vargas foi um dos que mais se preocuparam com a forma do ambiente urbano como instrumento de confirmação das suas idéias. A eficiência e modernidade de suas medidas eram sugeridas através de inúmeras construções que indicavam um governo organizado e empreendedor. A idéia do seu carisma e de sua personalidade forte era reforçada através das suas fotografias, obrigatoriamente afixadas em todas as escolas, fábricas, repartições públicas, bares e restaurantes, vagões de trens. Sua efígie estava nas moedas, selos, placas comemorativas e de inauguração. Bustos de bronze foram erigidos em diversos locais. Seu nome foi atribuído a inúmeras ruas e logradouros públicos. Sua imagem, dessa forma, impregnava todos os lugares e ambientes durante todo o tempo.

As idéias e concepções, contudo, nem sempre provêm da percepção direta do meio ambiente. Devido à complexidade do contexto em que vivem as pessoas, elas só têm condições de se informar e se conscientizar a respeito de sua sociedade através dos meios de comunicação. O controle desse meio se faz, principalmente, pela sua utilização direta. Dado o fato de que a comunicação depende, cada vez mais, de aparelhagem sofisticada e bastante cara, torna-se inevitável que os meios sejam controlados por pessoas e grupos da classe economicamente mais forte. Ele os utilizam exclusivamente para a difusão das idéias e opiniões que lhes são favoráveis, não permitindo que se propaguem ideologias contrárias ou fatos que contestem seus interesses. A população fica, desse modo, impossibilitada de ter acesso à maior parte dos aspectos de sua realidade e, assim, impedida de compreender exatamente sua posição e seu interesses, termina por ser envolvida na única ideologia que lhe é apresentada.

A censura oficial, realizada por órgãos governamentais, também é um instrumento de controle ideológico. Através dela se definem os limites do que pode ou não ser divulgado, neutralizando-se as possibilidades de manifestações contrárias aos valores defendidos pelos governos.

Sem acesso às informações que lhe possam fornecer uma visão dos diversos aspectos do mundo em que vive, a população acaba tendo uma visão deformada da realidade, que a conduz a se comportar dentro dos estritos limites traçados a partir dos interesses da classe dominante.

O controle ideológico se exerce, também, diretamente sobre as pessoas, seja reprimindo ou corrompendo líderes para que desistam ou sejam impedidos da tentativa de conscientizar seus liderados, seja exercendo pressões constantes par que os receptores não tenham condições psicológicas de julgar, analisar e avaliar as idéias que recebem.

Geralmente surgem, no seio das classes dominadas, alguns indivíduos que, apesar de toda a censura e manipulação dos meios de comunicação, conseguem perceber melhor certos aspectos da realidade e procuram transmitir sua compreensão aos demais, conscientizando-os. É o caso dos líderes operários, estudantes, religiosos e intelectuais. Nesses casos, a classe dominante, diretamente ou através dos órgãos do governo, procura neutralizar esses líderes através de ameaças, prisões, torturas ou exílio. Outras vezes, a neutralização se faz de forma não tão violenta através da cooptação. Cooptação é o processo pelo qual um indivíduo ou pequeno grupo recebe concessões e privilégios, em troca dos quais deva deixar de defender os interesses da classe social à qual pertence, para defender aquele que lhe fez as concessões. É o caso de trabalhadores e intelectuais que são contratados para exercer certos cargos privilegiados no governo ou em empresas privadas.

A pressão sobre as pessoas pode, também, concretizar-se através de perseguições, denúncias e acusações insistentes contra aqueles que não seguem determinada orientação. É o caso das “patrulhas ideológicas”, expressão muito empregada no Brasil, a partir de 1978, para qualificar os grupos que criticam repetidamente alguns artistas, intelectuais e pessoas muito populares que não aderem às idéias defendidas por aqueles grupos. O cineasta Carlos Diegues e o cantor Caetano Veloso já se queixaram por serem exageradamente criticados ao não assumirem as posturas exigidas por militantes esquerdistas. Pelé afirmou ser perseguido e criticado por grupos que não admitiam sua recusa em assumir a liderança na luta contra o racismo. A mesma forma de pressão tem sido feita, desde os começos do século, sobre aqueles que defendem a necessidade de se dar maior atenção aos problemas sociais como o analfabetismo, a miséria, o alto índice de enfermidades etc. Inúmeros são os que estão prontos a acusá-los de anarquistas, comunistas, agentes russos ou cubanos, antipatriotas. Trata-se de uma forma de perseguição que visa, senão obter a adesão do pressionado, ao menos conseguir seu silêncio para que não expresse idéias julgadas inconvenientes.

A pressão psicológica é uma das formas mais interessantes de controle. Atua diretamente sobre os receptores, afetando sua capacidade de análise, para que recebam as mensagens da propaganda dentro de uma postura passiva e submissa.

As pessoas, em condições normais, ao receberem uma informação ou assistirem a um fato, procuram compreender a situação, analisar os prós e contras, verificar se se trata de algo que lhes diga respeito diretamente assim por diante. É o que se chama senso crítico. Todavia, em determinadas situações de envolvimento emocional, tensão nervosa, temor, cansaço físico e mental, os indivíduos tendem a ter o seu senso crítico diminuído. Nesses momentos, ouvem as afirmações ou assistem aos fatos sem avaliá-los, aceitando passivamente o que lhes apresenta. A propaganda utiliza inúmeras formas de pressão para neutralizar o senso crítico dos receptores e lograr convencê-los. O recurso mais empregado é a organização de grandes concentrações de massas. Nessas ocasiões, as marchas, as músicas e cânticos ampliados por alto-falantes, as luzes, o lançamento de folhetos e papéis, o ritmo dos tambores, as bandeiras, estandartes, os discursos inflamados, tudo reflete sobre os presentes. Envolvem as pessoas com tal intensidade que, quase hipnotizadas, tornam-se mais sugestionáveis às mensagens que recebem. Foi com o emprego constante desses recursos que Adolf Hitler conseguia manter as multidões em contínuo estado de exaltação e conduzi-las ao delírio.

Algumas práticas religiosas também são empregadas como instrumentos de pressão psicológica para obter a adesão fanática dos receptores. Produzem esgotamento físico, fazendo as pessoas ficarem muito tempo em pé, ajoelhadas ou participando de longas e cansativas danças. Geram ansiedade através da espera do sacerdote que se atrasa, da escuridão ou luz muito intensa, palmas, músicas e cantos ritmados, da repetição dos sons de tambores. Embriagam com incenso, álcool, fumo e drogas inebriantes. Despertam temor com ameaças de infernos, monstros e demônios. Em meio a tudo isso fazem-se as pregações, conseguindo não só convencer os receptores. como levá-los a verdadeiros estados de possessão e transe. São os recursos adotados por diversos cultos místicos praticados no Brasil e na África e, embora de forma menos profunda e pouco intensa, por quase todas as seitas religiosas existentes na face da terra.

Dentre as formas de pressão psicológica conhecidas, a mais intensa e, talvez, a mais eficaz é a denominada “lavagem cerebral”. É realizada com indivíduos ou grupos que são conduzidos a locais afastados, de onde não podem sair durante algumas semanas ou meses, ocasião em que são freqüentemente bombardeados com novas idéias. Baseia-se essa técnica no fato de que os conhecimentos, idéias e reflexos dos indivíduos servem para que possam adaptar-se e manter-se em equilíbrio como o seu meio. Conseqüentemente, ao se criar um novo ambiente onde os hábitos e reações costumeiras são insuficientes para obtenção do equilíbrio, torna-se mais fácil incutir novas orientações. Se, além disso, forem feitas pressões que diminuem o senso crítico, a possibilidade de persuasão é ainda maior.

Há ainda, uma técnica de controle ideológico que procura impedir que as pessoas adquiram consciência de suas condições de vida, distraindo sua atenção. Através dos meios de comunicação, bombardeia-se a sociedade com notícias sobre fatos suficientemente atrativos para que os indivíduos tenham sua atenção desviada dos problemas econômicos e sociais. Baseia-se no fato de que as pessoas têm um limite de percepção e atenção e que, saturadas por um certo número de informações que apelam para as emoções e sentimentos, não lhes sobra espaço nem tempo para receber outras idéias. Grandes torneios desportivos, crimes cometidos com crueldade, têm sido constantemente alardeados para envolver os receptores em sua discussão e distraí-los das questões mais graves.

Contrapropaganda

Quando não conseguem obter o monopólio das informações através do controle ideológico, os grupos procuram neutralizar as idéias contrárias através da contrapropaganda.

Ela se caracteriza pelo emprego de algumas técnicas que visam amenizar o impacto das mensagens opostas, anulando seu efeito persuasivo. Procura colocar as idéias dos adversários em contradição com a realidade dos fatos, com outra idéias defendidas por eles próprios ou em desacordo com certos princípios e valores aceitos e arraigados entre os receptores. Outra vezes, atua de forma indireta, tentando desmoralizar as idéias, não pela crítica à personalidade ou ao comportamento daqueles que as sustentam. Critica-se o sacerdote para desmerecer o conteúdo de suas pregações, ataca-se alguns dirigentes políticos para combater a filosofia adotada pelo governo e assim por diante.

A contrapropaganda, na prática, se concretiza através da emissão de mensagens que, associadas aos argumentos ou à personalidades dos adversários, despertam reações negativas.

A apresentação de fatos que estejam em contradição com as mensagens adversárias, sugerindo sua falsidade, irrealidade ou absurdo, é realizada com o intuito de despertar dúvida em relação a elas. A contrapropaganda dos defensores do sistema capitalista procura neutralizar as idéias socialistas difundindo, dramaticamente e com estardalhaço, notícias sobre fugas de pessoas que viviam em países comunistas. O objetivo desse procedimento é o de sugerir que não deve ser bom aquele regime, se a pessoas que nele vivem querem fugir de lá.

Os fatos que se contrapõem às idéias da propaganda adversária costumam ser totalmente forjados. Não tendo condições de verificar, através de fonte segura, a veracidade ou não das informações, os receptores tendem a aceitá-las ou, ao menos, permanecem indecisos. Durante a Segunda Guerra Mundial os aliados criaram uma estação de rádio que se fazia passar por alemã e irradiava notícias para a Alemanha. Um dos informes, apresentado como comunicado oficial do governo nazista e transmitido quando Hitler insistia em que estava vencendo a guerra, gerava certa perplexidade. A notícia dizia que alguns soldados alemães estavam desertando do front e deveriam ser denunciados por qualquer pessoa que conhecesse seu paradeiro. Suscitava-se, assim, dúvidas em relação à vitória de um exército cujos soldados estavam fugindo.
A contrapropaganda também atua sobre o temor, mostrando que as idéias adversárias, se concretizadas, podem causar graves prejuízos e malefícios às pessoas. As campanhas anticomunistas constituem os exemplos mais significativos.

Nos países do “bloco ocidental”, inclusive o Brasil, ainda se repete a técnicas que vem sendo posta em prática há anos de divulgar notícias de atrocidades cometidas na União Soviética, China, Cuba, Nicarágua, e países africanos. Fala-se em crianças e mulheres fuziladas, homens cruelmente torturados, degolados e queimados. Ao mesmo tempo insiste-se que tais fato serão sempre inevitáveis para qualquer país que opte pelo sistema socialista. Com isso, conseguem incutir um tal medo na população que as convencem a apoiar o governo em sua ação repressiva contra os adeptos de idéias igualitárias, sejam socialistas ou apenas superficialmente semelhantes.

A contrapropaganda também é realizada no sentido de despertar desprezo pelos adversários e suas idéias, associando-os a situações contrárias aos princípios e valores respeitados pelos receptores. Os comentários que se fazem a respeito de alguns dirigentes governamentais, acusando-os de desonestos, corruptos, homossexuais e, até mesmo, de traídos pelas esposas, visam desmoralizá-los e gerar desprezo pelas propostas e idéias que defendem.

Com o objetivo de desmoralizar as manifestações estudantis, afirmou-se que se tratava de “filhinhos de papai”que, ao invés de estudar e cumprir suas obrigações, permaneciam fazendo “badernas” e “arruaças”, prejudicando o trânsito, gerando insegurança para o povo e criando dificuldades para todos. Conseguiam, dessa forma, despertar a hostilidade e desprezo de grande parte da população contra os movimentos e, assim, abafar a questão dos problemas sociais que estavam sendo levantados pelos universitários.

As questões de natureza econômica ou política são extremamente significativas para maioria das pessoas, já que se relacionam intimamente com suas condições de vida. Por essa razão, a propaganda procura apresentar as idéias dentro de um clima de grande seriedade, às vezes até solene, que torne possível despertar a atenção para a importância dos assuntos abordados. Daí grande parte da contrapropaganda atuar através do humor, da sátira ou da piada, ridicularizando as idéias e pessoas que as defendem. Procuram, assim, gerar desinteresse pelo conteúdo das mensagens e desvalorizar sua importância.

Os veículos de comunicação, constantemente, difundem charges, apelidos e sátiras que desmoralizam e desfiguram dirigentes e líderes políticos, tornando-os engraçados ou mesmo ridículos. Quebram, assim, a imagem de respeito que estes pretendam impor e afetam o conteúdo de suas afirmações.

Os slogans também são ridicularizados, para perder seu efeito persuasivo e de impacto. No Brasil, os temas das campanhas governamentais têm sido automaticamente ironizados com sugestiva criatividade. Para a frase “Brasil, ame-o ou deixe-o” criou-se a resposta “O último, apague a luz do aeroporto”. Quando se disse “O Brasil deu um passo à frente”, contestou-se rapidamente “E estava à beira do abismo”. Contra o tema “O Brasil é feito por nós” respondia-se “O difícil é desatá-los”.

A contrapropaganda, portanto, é o instrumento utilizado por um grupo através das formas e recursos mencionados, visando neutraliza a força das teses e argumentos da propaganda adversária. Dessa forma, amenizando o efeito persuasivo das idéias contrárias às suas, o grupo pode desenvolver sua própria campanha de propaganda, sem a necessidade de recorrer a outros artifícios e precauções que esclareçam a razão das diferenças entre suas propostas e as alheias.

Difusão

Elaborada a ideologia, realizada sua codificação e estruturado o sistema de controle ideológico, procede-se à difusão sistemática das mensagens.

Dentre as formas de difusão utilizadas pela propaganda ideológica, a oral, através da palavra falada, ainda é das mais importantes. Empregada desde a antiguidade, foi a forma preferida por inúmeros líderes. Hitler considerava que todos os acontecimentos importantes e todas as revoluções foram produzidas pela palavra falada. Lenin dizia que o agitador, antes de mais nada, deveria agir de viva voz. Os discursos políticos, pregações religiosas, declarações de líderes e homens de governo têm sido, em grande parte, os maiores responsáveis pela propagação das ideologias em todos os recantos do mundo. Uma de suas grandes vantagens é permitir ao orador observar diretamente a reação dos seus ouvintes e, a partir dela, reforçar certos argumentos, insistir em determinados aspectos, dar maior ou menor ênfase às palavras, repetir afirmações, aumentar ou diminuir pausas, sublinhar as idéias com gestos e expressões fisionômicas. Além disso, o discurso e a pregação constituem as únicas formas que permitem reunir um grande número de pessoas, até mesmo em grande praças públicas, de tal forma que cada indivíduo sinta sua personalidade diluir-se na multidão, percebendo-se como parte de um todo e tendendo a acompanhar as manifestações da maioria. Tem-se aí a possibilidade de produzir uma impressão de unanimidade tão persuasiva quanto os argumentos do orador. Esse clima pode ainda ser reforçado pela preparação das claques, grupos de pessoas previamente encarregadas de aplaudir e ovacionar o orador. Outra vantagem da palavra falada, quando proferida diretamente pelos líderes, é a sua maior credibilidade. O orador pode impor uma imagem de sinceridade, impossível de ser transmitida por outro meio; suas afirmações têm mais calor e se tornam mais humanas.

Se a expressão oral encontrava limites restritos de tempo e espaço no passado, hoje, com a evolução tecnológica dos meio de comunicação de massa, adquiriu uma amplitude quase infinita. Os satélites têm possibilitado que muitas declarações do papa ou do presidente dos EUA, dentre outros, sejam divulgadas imediatamente à maioria dos países do globo terrestre.

A imprensa, o mais antigo dos meios materiais de comunicação, exerce um papel importante em propaganda. Jornais e revistas, por informarem constantemente sobre os fatos regionais e internacionais, contribuem em alto grau para fornecer aos leitores uma determinada visão da realidade em que vivem. Dessa maneira transmitem os elementos fundamentais para a formação de um conceito da sociedade e do papel que cada um deve exercer nela. Por trabalhar com fenômenos apresentados de maneira aparentemente objetiva, como se fosse a mera e simples apresentação dos fatos puros, tais como realmente ocorreram, adquire uma aparência de neutralidade que assegura a confiança da maioria dos leitores. Mas essa neutralidade não é real. As notícias internacionais são distribuídas por agências especializadas, principalmente as norte-americanas Associated Press e United Press International, onde se selecionam as informações segundo os critérios estabelecidos pelos interesses econômicos e políticos dos grupos que as controlam. Essas informações são enviadas às redações, onde, juntamente com as notícias locais, são novamente selecionadas, agora com observância de outros critérios, determinados pelo interesse dos proprietários dos jornais ou dos que neles anunciam. Dessa forma, a imprensa acaba por constituir um elemento de manipulação de grupos internacionais e nacionais que só permitem a transmissão daquelas mensagens que possam reforçar sua ideologia.

Além da seleção de informações, há outros meios de manipulação dos fatos. Um deles é a fragmentação da realidade, implícita na própria forma como são apresentadas as notícias. Para se adquirir consciência da realidade social, é necessário que se percebam as relações entre os diversos fenômenos, obtendo-se a visão de conjunto necessária para ver a sociedade como um todo integrado, em que os fatos econômicos, políticos e culturais sejam vistos tal como se determinam reciprocamente. A grande imprensa, ao contrário, aponta os fatos isolados uns dos outros, mantendo ocultas aquelas relações. O leitor, em relativamente pouco tempo, acaba lendo notícias as mais variadas sobre esportes, crimes, cotações de bolsa, inflação, desastres, guerras externas, declarações de brasileiros e estrangeiros. Recebe uma visão caótica da realidade, sem perceber os efeitos que os fatos têm uns sobre os outros.

Outra forma de manipulação é realizada pelo maior ou menor destaque que se dá à notícia. A página em que é colocada, a dimensão do texto, o título, o maior ou menor número de pormenores contidos na descrição permitem dar aos fatos um outro significado. As greves organizadas pelos sindicatos operários, por exemplo, que têm uma enorme repercussão econômica e política, geralmente são tratadas pela grande imprensa como um simples fato acidental sem maior significação. O Estado de S. Paulo, por exemplo, menciona-as em pequenos espaços nas páginas de economia, ao lado de outras informações, como posição de preços no mercado, cotações de bolsa, dando a impressão de um simples fenômeno corriqueiro sem maiores conseqüências.

Há também a interpretação das informações, geralmente realizada dentro de uma linha preestabelecida pela direção do jornal, que é determinada pelos interesses ali defendidos. As notícias a respeito dos países socialistas são selecionadas a interpretadas de forma altamente negativa. Pouco se mencionam as providências bem-sucedidas, tomadas na China e em Cuba, para melhoria dos níveis de educação e saúde. Mas um grande destaque é dado às prisões políticas e torturas, mostrando-se apenas o lado negativo daqueles sistemas. Já em relação aos Estados Unidos, insiste-se no desenvolvimento econômico, na “perfeição” do sistema “democrático”. Mas pouco se menciona a exploração dos povos subdesenvolvidos por aquele país, ou a intervenção norte-americana em países onde se fazem revoluções e se depõem homens de governo que não aceitam certas imposições. Silencia-se sobre a corrupção política existente. Pouco se fala sobre a vida cada vez mais angustiada da juventude americana, que vai buscar nas drogas o único consolo para suas crises existenciais.

Além dos aspectos mencionados, que fazem parte da rotina dos periódicos, estes também são empregados para difundir a declaração dos homens públicos. O próprio governo usa espaço dos jornais para relacionar suas realizações. Grupos particulares também aproveitam a imprensa, pagando o espaço, para apresentar suas idéias.

Até agora falamos da imprensa vinculada aos interesses dos grupos econômicos mais fortes. Mas ela também é adotada, algumas vezes, por grupos minoritários não ligados aos detentores do poder. A História do Brasil registra o aparecimento de inúmeros jornais e pequenas revistas da imprensa operária e estudantil que procuram evidenciar as contradições do sistema vigente e transmitir propostas alternativas. Geralmente são periódicos de vida curta, logo obrigados a fechar em virtude de dificuldades financeiras resultantes de pressões dos grupos econômicos mais fortes ou mesmo por imposição policial, que não permite que se excedam limites preestabelecidos por setores da classe dominante.

A propaganda emprega ainda o cinema, tanto com filmes documentários quanto de ficção. Os documentários têm a grande vantagem, para os que o utilizam, de que é montado com imagens verdadeiras, extraídas diretamente da realidade, fato que lhes dá extrema credibilidade. Todavia, a possibilidade de selecionar, dentre as imagens possíveis, aquelas que confirmem e reforcem uma determinada idéia, permite uma grande oportunidade de manipulação. No Brasil, os documentários cinematográficos são obrigatoriamente exibidos nas telas dos cinemas por imposição legal. São sistematicamente utilizados para engrandecer o regime político vigente e enaltecer a capacidade dos dirigentes e empresários. O conteúdo mais constante desses filmes documentários é a apresentação de grandes realizações governamentais ou de setores privados da agricultura, indústria e comércio.

Quase sempre trazem cenas que sugerem apoio e unanimidade pela presença sorridente e confiante das autoridades civis, militares e eclesiásticas ou de multidões populares que aplaudem. Os documentários podem ser falsificados, montados com sons e cenas verdadeiros, mas sem nenhuma relação uns com os outros, fato que raramente é perceptível para a maioria dos espectadores. Pode-se acrescentar sons de gritos, tiros, aplausos a cenas eu que na verdade não ocorreram. Multidões podem ser associadas a reuniões onde não há mais de uma dezena de pessoas. Essa possibilidade de associar e fundir trechos diversos de filmes e sons permite ao produtor transmitir a idéia que lhe aprouver.

Os filmes de ficção, sendo produzidos não com cenas reais e objetivas, mas interpretadas e montadas, não têm o mesmo ar de autenticidade e o poder persuasivo dos documentários. Mas, através da trama de situações que se pode criar, da variedade imensa de ritmo de som e imagens possíveis de se obter, permitem criar um clima de envolvimento emocional que facilita a inculcação de idéias e valores. Além disso, projetados em salas escuras, podem contar com maior receptividade, já que não existem outros fatos que possam distrair a audiência.

O roteiro padrão dos filmes de aventura americanos permite avaliar bem seu valor como instrumento de transmissão de idéias. Geralmente são compostos de três idéias essenciais. Uma primeira mostra uma situação de paz e harmonia. Em seguida há o aparecimento de uma ameaça para, finalmente, se sucederem as tentativas de defesa que culminam com um final heróico. O espectador, envolvido pelo clima harmonioso inicial, é levado a indignar-se contra o sujeito da ameaça, que pode ser um indígena, um criminoso ou um espião russo. Afinal, acaba identificando-se com o herói ou heróis que vêm proporcionar a solução feliz. Todo filme acaba reduzido a uma proposta maniqueísta em que se apresentam apenas duas alternativas: a certa ou a errada, a boa ou a má. Todo esse contexto é permeado de cenas de amor e ódio, atos de maldade ou bondade, violência e carinho intensos, alguns toques eróticos. O ritmo das cenas se alterna da lentidão à rapidez extrema, as músicas acompanham o crescendo e variam da doce suavidade de um coro celestial à veemência das marchas de guerra, tudo para conduzir o receptor a um clímax.

Foi através desses recursos que o cinema norte-americano conseguiu impor ao mundo ocidental certas imagens estereotipadas como a do indígena selvagem e assassino, dos alemães e japoneses frios e calculistas da Segunda Guerra Mundial, ou do agente russo desumano, traiçoeiro e criminoso. E tudo isso em contraste com a figura do norte-americano bom, leal, corajoso e honesto.

O cinema também pode ser utilizado para conscientizar o espectador acerca das contradições sociais, embora nem sempre esses filmes consigam vencer os obstáculos da censura e das pressões econômicas. No Brasil, tivemos o período do chamado “Cinema Novo”, entre o final dos anos 50 e começo dos 60, onde se produziram alguns filmes que mostravam a miséria dos sertões e o drama das favelas brasileiras. Mais recentemente, fizeram-se alguns filmes sobre a corrupção policial e a violência urbana.

O rádio também é um instrumento da propaganda, com a grande vantagem de poder transmitir as mensagens com rapidez e amplitude, permitindo mesmo que certos fatos sejam divulgados imediatamente após ocorrerem.

Permite dirigir-se às camadas mais humildes da população, inclusive analfabetos, que muitas vezes não têm acesso a outros meios de informação. Permite também o estabelecimento de um clima de intimidade, onde o locutor sussurra opiniões para o ouvinte, criando uma situação de amizade e de descontração informal bastante sugestiva. Por ser tratar de concessão governamental que pode ser cassada a qualquer momento, induz seus proprietários e funcionários a evitar a difusão de mensagens em desacordo com a ideologia proclamada oficialmente. Além disso, pelo fato de, como a imprensa, depender de anúncios comerciais para se manter, o rádio se torna um instrumento passível de ser controlado pelos interesses das classes dominantes que pagam esses anúncios. É largamente empregado para a divulgação dos discursos, declarações e mensagens dos dirigentes e órgãos governamentais. A irradiação oficial chamada “Hora do Brasil” foi criada por Getúlio Vargas com esse objetivo e, embora reformulada, permanece até hoje com o nome de “A voz do Brasil”.

A televisão serve antes de mais nada para e difusão de notícias, o telejornalismo. Como a imprensa escrita, passa por processos de seleção e interpretação, depende de anúncios pagos e de concessão governamental, o que a transforma em instrumento de difusão das ideologias dos grupos econômicos ou do governo. A forma como são produzidos os programas deu à televisão o caráter de instrumento para tornar a população mais passiva. Novelas, programas de auditório, shows de variedades, apresentação de cantores, jogos, disputas, esportes e sorteios absorvem grande parte da capacidade crítica do espectador, conduzindo-o a uma espécie de fuga da realidade. Desviando sua atenção das questões sociais, induz à alienação. Tome-se o exemplo do programa Sílvio Santos, há anos sendo veiculado aos domingos, desde a manhã até a noite. Toda a produção é caracterizada por um clima constante de suspense e de agitação crescentes, com enorme variedade de apresentações. Os sorteios, anunciados desde o início do programa, são realizados ao final quando, em alguns segundos, alguém pode tornar-se um milionário. Envolve-se a audiência de tal forma e com tal ritmo que lhe é impossível raciocinar sobre o que vê e ouve. E não faltam os elogios e enaltecimentos a políticos e governantes.

O teatro teve papel importante na divulgação dos ideais da Revolução Francesa e na preparação da Revolução Russa. Os revolucionários bolchevistas, por exemplo, o empregavam para a apresentação de peças rápidas onde se criticavam a nobreza, a decadência do capitalismo e se enalteciam os operários, camponeses e o regime socialista. No Brasil o teatro tem-se desenvolvido bastante e é muito empregado como instrumento de crítica e contestação dos valores e costumes vigentes. Contudo, devido ao alto preço dos ingressos, a maioria das peças atinge apenas a uma pequena elite econômica e cultural. Dessa forma, pelo pequeno público a quem se dirige, perde grande parte do seu valor como meio de transmissão de idéias e de conscientização.
Os cartazes, ilustrados ou não, em cores ou em branco e preto, são bastante utilizados para afixação em muros e paredes visando transmitir algumas idéias fundamentais através de um impacto rápido. Além deles, inúmeros outros impressos se prestam a auxiliar na difusão de mensagens. Os “manifestos” explicam e defendem uma determinada posição perante certos fatos econômicos e políticos. Os “panfletos” divulgam fatos, notícias ou críticas a determinadas idéias e propostas. Os “volantes” servem para difundir nomes, frases, slogans, palavras de ordem e símbolos ou para anunciar e convocar reuniões e movimentos.

Distribuídos diretamente para os receptores ou lançados do alto de edifícios ou de aviões, são mais freqüentemente adotados por aqueles que, por se oporem aos detentores do poder e contestarem a ideologia dominante, não conseguem ter acesso à imprensa, rádio ou televisão. O livro, por suas próprias características, se destina a levar idéias apenas a um pequeno número de pessoas: aquelas que têm grau de instrução mais elevado.

As idéias nazistas na Alemanha tiveram no livro “Minha Luta”, de Adolf Hitler, um dos seus mais importantes instrumentos de divulgação. No Brasil, foi durante a ditadura de Getúlio Vargas que mais se produziram livros com o objetivo específico de apoiar a propaganda. Centenas de obras elogiosas ao regime e enaltecedoras da personalidade de Vargas foram escritas, em linguagem simples a acessível, para que fossem lidas pelo maior número possível de pessoas.

Além dos meios de comunicação propriamente ditos, a propaganda também se apóia em inúmeros outros suportes. Qualquer objeto ou espaço que possa ser visto por um razoável número de pessoas é aproveitado. As paredes são pichadas com frases, slogans e símbolos. As placas de inauguração e sinalização difundem realizações, prestigiam líderes políticos e homens públicos. As cédulas e moedas, os selos postais, contêm mensagens e efígies de homens públicos. Faixas e estandartes ostentam mensagens e símbolos. Estátuas e bustos concretizam o prestígio daqueles que devem ser considerados heróis. Alto-falantes auxiliam a ampliar o alcance dos discursos e declarações. Aviões escrevem mensagens de fumaça nos céus.

Há, ainda, uma outra forma de difusão de idéias que se caracteriza pelo anonimato: o rumor. A informação, geralmente falsa, circula de pessoa, podendo atingir grande parte de uma população. Como é muito difícil descobrir a fonte inicial da informação, o rumor constitui um instrumento muito útil para aqueles que, por qualquer razão, pretendem transmiti-la sem serem identificados.

Efeitos da Propaganda Ideológica

A propaganda ideológica permite disseminar, de forma persuasiva, para toda a sociedade, as idéias de determinado grupo. Depois de emitida através dos diversos meios e suportes de comunicação, elas passam a ser retransmitidas, direta ou indiretamente, no seio das diversas instituições sociais, ampliando e reforçando o processo de difusão. A ideologia, dessa forma, se espalha e impregna todas as camadas da sociedade. Na família, na escola ou no trabalho, em todas as partes e por todos os meios, todos passam a ser orientados para os mesmos fins e enquadrados dentro dos mesmos princípios.

Nas famílias, os pais, que sofrem o efeito persuasivo da propaganda, acabam transferindo para seus filhos as concepções e normas de conduta que lhes foram inculcadas. Acreditam, na maioria das vezes, que a experiência adquirida lhes dá condições de orientar seus filhos, de forma neutra e objetiva, para que julgam ser o “melhor caminho”. Impõem regras de respeito e obediência, indicam os cursos que devem realizar e as profissões que podem exercer. Dessa maneira, moldam seus filhos para que ingressem no contexto social da forma mais adequada à realização dos interesses da classe ideologicamente dominante. Em cada classe social as famílias produzem os novos membros que deverão entrar, disciplinadamente, no sistema econômico, político e cultural, reproduzindo o papel de seus antecessores. Criam os operários esforçados e submissos, os gerentes hábeis e obedientes, e, até mesmo, os novos privilegiados que deverão saber como manter e reforçar o poder e a dominação adquiridos por herança.

A escola, em princípio, tem o objetivo de orientar o desenvolvimento dos alunos, ao mesmo tempo que fornece as informações e fórmulas práticas que lhes permitirão integrar-se ao meio. Nesse processo, acabam por receber o conteúdo da ideologia aceita por seus professores ou imposta pelos administradores escolares. Aprendem as normas de disciplina que devem cumprir e os conhecimentos que os levarão a integrar-se na sociedade, observando os estritos limites definidos pela ideologia dominante. São condicionados a respeitar hierarquias e obedecer os superiores, aprendem qual é “o seu lugar” e o papel que devem exercer. Há, inclusive, as matérias e disciplinas criadas e programadas com o fito exclusivo de transmitir determinadas ideologias de forma direta. É o caso de cursos como os de “Educação Moral e Cívica” etc.

Nas igrejas e templos, também, os sacerdotes e pastores, além do seu escopo confessado, que é o de transmitir paz e conforto espiritual, ultrapassam os limites das idéias próprias à religião que professam. Defendendo os interesses e valores ideológicos vigentes na sociedade em que atuam, transformam-se em instrumento de sua divulgação. Durante séculos, a Igreja procurou induzir seus fiéis a permanecerem passivos perante os abusos e arbitrariedades em troca da felicidade a ser obtida no “reino dos céus”. Algumas vezes, inclusive, esse papel é previamente orientado pela pressão dos detentores do poder. Merecem ser lembrados os exemplos de Napoleão Bonaparte e Getúlio Vargas que, embora em épocas e países diferentes, utilizaram a mesma tática de impor aos sacerdotes a obrigação de, em suas pregações, afirmar que o “bom cristão” deveria observar as leis e obedecer às ordens e decisões do governo.

Esse processo de retransmissão da ideologia, difundida inicialmente pela propaganda, ocorre, da mesma forma, em todos os tipos de instituições, sejam elas religiosas, políticas ou mesmo culturais e recreativas. Nos partidos, sindicatos, empresas, clubes e associações, a todo momento se está defendendo e disseminando as idéias incutidas pela propaganda.

As conseqüências da difusão de uma ideologia e seu esforço em nível institucional são diversos em função da direção e do plano em que se realiza. Em primeiro lugar, há aquela realizada entre indivíduos e grupos de uma mesma classe social, onde emissores e receptores ocupam uma mesma posição no conjunto das relações econômicas. Nesse caso, as idéias de uns, refletindo suas condições, refletem, ao mesmo tempo, a realidade dos demais. A difusão dessas idéias permitirá que um maior número adquira consciência do espaço que ocupa na sociedade e das possibilidades de ampliação de seus limites. A propaganda adquire aí um papel de instrumento de conscientização, permitindo a cada um dos envolvidos compreender melhor o contexto que o cerce e orientar sua ação em sentido adequado ao sue próprio desenvolvimento. Além disso, a propaganda se transforma em instrumento de união da classe social em torno de metas comuns, permitindo que ela se torne mais organizada e que sua ações sejam mais coerentes. Impede-se que os indivíduos e grupos caminhem em sentido diversos, o que acabaria por obrigá-los a retornar ao ponto de partida e recomeçar o trabalho.

Assegurando, dessa maneira, a atuação coesa numa mesma direção, a propaganda propicia o fortalecimento da classe em questão, que passa a ter maiores possibilidades de se defender de eventuais ameaças e mesmo de ampliar os limites que restringem sua atuação. É através da propaganda, por exemplo, que os empresários conseguem difundir, entre si, uma mesma concepção da realidade econômica em que vivem, através da qual orientam sua ações e integram seis esforços para assegurar a realização dos interesses comuns. Entre operários, somente quando alguns deles conseguem compreender o sistema em que estão inseridos e propagam essa percepção aos demais é que surge maior união. Conscientes do fato de que ocupam posição idêntica no contexto social é que podem organizar-se e mobilizar-se na luta pela melhoria de sua situação. Só com essa consciência e organização é que adquirem força e condições para avançar e progredir econômica, política e culturalmente.

A situação assume outras características quando a propaganda se faz de uma classe social para outra. Pode ocorrer que o emissor apresente suas idéias sem pressão ou imposição. Simplesmente expõe suas convicções e argumentos a té mesmo confessa que se referem a seus próprios interesses, deixando aos demais a liberdade de aderir ou não. Estes, analisando as propostas, têm condições de avaliar até que ponto partilham os mesmos interesses, podendo apoiar ou sugerir outras alternativas. Essa seria a forma normal de transmissão de ideologias dentro de uma sociedade ideal, pluralista e democrática. Todavia, à medida que um dos lados tem possibilidade de exercer o controle absoluto das vias de acesso à realidade, acaba por impor seus objetivos aos demais. As pessoas, a maior parte delas, passam a viver, como sua, uma realidade que lhes é estranha e a lutar pela realização de interesses que se opões aos seus. Inconscientemente, trabalham e se esforçam em benefício de um capital que as explora e propiciam um desenvolvimento que se realiza às expensas de sua miséria. Convencidos de assumir uma personalidade que lhes é imposta e acreditando que essa é a maneira de participar e desenvolver-se, sofrem e se frustam quando não obtêm qualquer recompensa que tenha alguma significação. São membros das classes médias, envolvidos pela ânsia de possuir e consumir bens que não lhes dão a satisfação e bem-estar prometidos. Estudantes, que após anos de esforço, quando logram obter uma colocação, utilizam seus conhecimentos e habilidades na realização dos objetivos de uma minoria que nem sempre conseguem identificar. Agricultores e colonos que ajudam a produzir milhares de toneladas de alimentos, mas não conseguem escapar da ignorância e da miséria. Operários que jamais conseguem adquirir um único, dentre os milhares de objetos que produzem diariamente. Envolvidos, assim, em um modo de vida vazio de sentido, procuram refugir-se em distrações momentâneas e fugazes que conduzem a uma alienação ainda maior. E a propaganda impinge futebol e carnavais que passam a ser algumas das poucas compensações para um longo e estafante período de trabalho.

O controle ideológico, estabelecendo os limites do que pode ou não ser divulgado e reprimindo toda manifestação contrária aos valores vigentes, acaba por gerar um conservantismo obscurantista que atinge a sociedade em todos os seus aspectos. Todos passam a viver em função de um mesmo conjunto de idéias que ficam congeladas e emperram o progresso cultural. Impede-se a evolução da ciência, o desenvolvimento de novas técnicas e o aprimoramento das formas de expressão artística. Intelectuais e artistas são reprimidos e amordaçados. E essas é uma das principais razões pelas quais, em diversas áreas do conhecimento, nós nos encontramos com anos de atraso em relação a outras culturas.

Mas essa situação, se pode ser mantida e reproduzida por longo tempo, não é eterna. No afã de aumentar sua riqueza e acumular mais capital, a classe economicamente dominante precisa ampliar e desenvolver seus negócios. Para tanto, depende de mais apoio e colaboração das subalternas. Em troca, se vê obrigada a ceder e fazer concessões. Os setores dominados, pela própria exigência do desenvolvimento econômico e político, também se desenvolvem e se tornam menos sugestionáveis e vacinados contra certas formas de mistificação. Gradativamente, a manipulação ideológica precisa sofisticar-se, sob pena de perder a eficácia. Cada vez se acredita menos em propostas triunfalistas e promessas demogógicas. Começa-se a exigir maior participação real e efetiva. Embora com um ou outro retrocesso, os esquemas de controle e persuasão vêm perdendo sua força e eficiência e tendem a desmoronar mais cedo ou mais tarde. O futuro deverá trazer formas mais democráticas na transmissão das ideologias.

Por Nélson Jahr Garcia

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/propaganda-ideologia-e-manipulacao/

Entrevista com John Mack

John Mack (1928 – 2004) foi médico, escritor ganhador do Prêmio Pulitzer e professor chefe do departamento de psiquiatria da Harvard Medical School. Foi também o maior pesquisador de sua geração sobre os impactos psicológicos das experiências de abdução por alienígenas. A entrevista foi cedida a revista eletrônica NOVA Online em 2002.

NOVA: Vamos falar sobre sua evolução pessoal, talvez do ceticismo à crença…

MACK: Quando eu encontrei esse fenômeno pela primeira vez, ou particularmente antes de ter visto as próprias pessoas, eu tinha muito pouco espaço em minha mente para levar isso a sério. Eu, como a maioria de nós, fui criado para acreditar que, se quiséssemos descobrir outra inteligência, o faríamos por meio de ondas ou sinais de rádio ou ou algo do gênero.

A ideia de que poderíamos ser alcançados por algum outro tipo de ser, criatura, inteligência que pudesse realmente entrar em nosso mundo e ter efeitos físicos, bem como efeitos emocionais, simplesmente não fazia parte da visão de mundo em que fui criado. Com muita relutância, cheguei à conclusão de que esse era um verdadeiro mistério. Em outras palavras, que eu … fiz tudo o que pude para descartar outras fontes, traumas ou abuso sexual. Algumas dessas pessoas são abusadas. Mas eles são capazes de dizer, distinguir claramente o trauma de abdução de outras formas de abuso.  Há também algumas formas de psicose ou pessoas inventando histórias – mas eu poderia rejeitar isso com base no fato de que não há ganho nisso – inclusive há perdas – para a vasta maioria dessas pessoas.

Já trabalhei intensamente com mais de uma centena de abduzidos. O que envolve uma entrevista inicial de duas horas ou mais antes de fazer qualquer outra coisa. E caso após caso, fiquei impressionado com a consistência da história, a sinceridade com que as pessoas contam suas histórias, o poder dos sentimentos relacionados a isso, a dúvida – todas as respostas apropriadas que essas pessoas tem para suas experiências.

NOVA: Então diga-nos, por favor, quão literalmente você pretende que as pessoas entendam isso? Você está sugerindo que as pessoas estão realmente sendo arrancadas de suas camas por alienígenas e sendo levadas a bordo de uma nave espacial?

MACK: Como interpretar isso literalmente, é um dos aspectos mais interessantes e complexos do assunto. E eu quero passar por isso o mais claramente possível. Existem aspectos  que eu acredito que nos deixa justificados em interpretar literalmente. Ou seja, os OVNIs são de fato observados, filmados por as câmeras ao mesmo tempo que as pessoas estão tendo suas experiências de abdução.

Na verdade, observou-se que havia pessoas desaparecidas no momento em que relatavam suas experiências de abdução. Eles voltam de suas experiências com cortes, úlceras no corpo, lesões triangulares, que seguem a descrição das experiências que eles recuperam, do que foi feito a elas no decorrer da atividade cirúrgica desses seres.

Tudo isso tem um aspecto físico literal e é vivenciado e relatado com sentimento apropriado, pelas pessoas abduzidas, com ou sem hipnose ou exercício de relaxamento.

Há uma – eu acredito – gradação de experiências e que vão desde os tipos físicos mais literais de feridas, cortes, pessoas removidas, espaçonaves que puderam ser fotografadas, até experiências que são mais psicológicas, espirituais, envolvem o extensão da consciência. A dificuldade para a nossa sociedade e para a nossa mentalidade é que temos uma espécie de mentalidade que nos obriga ou isso ou a aquilo. Ou é literalmente físico ou está em outro reino espiritual, o reino invisível. O que parecemos não ter lugar para – ou perdemos o lugar para – são fenômenos que podem começar no reino invisível, e cruzar e se manifestar e aparecer em nosso mundo físico literal.

Portanto, a resposta simples seria: Sim, são os dois. Literalmente, algo fisicamente está acontecendo até certo ponto; e também é algum tipo de experiência psicológica espiritual ocorrendo e se originando talvez em outra dimensão. E assim o fenômeno nos abre, ou nos pede para nos abrir a realidades que não são simplesmente o mundo físico literal, mas para estendermos a possibilidade de que existem outras realidades invisíveis das quais nossa consciência, nossa alma, se você quiser, está aprendendo a experimentar ao longo das últimas centenas de anos.

NOVA: Eu me pergunto, se nesse sentido, você pode falar sobre o que você acha que se trata dessa experiência?

MACK: …. Existem vários efeitos que essas experiências têm para aqueles que passam por encontros de abdução alienígena. O primeiro é o aspecto ou ajuste mais familiar, que é um evento traumático no qual uma luz azul ou algum tipo de energia paralisa a pessoa, esteja ela em sua casa ou dirigindo um carro. Elas não podem se mover.

Eles se sentem removidos de onde quer que estejam. Eles flutuaram através de uma parede ou de um carro, levados por esse feixe de luz para uma nave e lá submetidos a uma série de procedimentos agora familiares que envolvem os seres que os encaram; sondagem de seus corpos e orifícios corporais; e um processo complexo pelo qual eles sentem, no caso dos homens, o esperma removido; nas mulheres, os óvulos são removidos; algum tipo de prole híbrida criada que eles são trazidos de volta os visitar em abduções posteriores. Esse é o tipo de experiência literal.

Agora, o efeito disso é – ou o que parece estar acontecendo lá, em uma série de abduções – não apenas as pessoas que entrevistei, mas aquelas que Budd Hopkins e outras pessoas pesquisaram – é produzir algum tipo de nova espécie ou espécie híbrida que – às vezes é dito aos abduzidos – povoará a terra ou estará lá para levar a evolução adiante, depois que a raça humana tiver concluído o que está fazendo agora, ou seja, a destruição da terra como um sistema vivo. Portanto, é uma espécie de forma futura. É uma reunião estranha com uma espécie menos corporificada do que nós, para um propósito evolutivo.

No entanto, isso pode não ser literalmente verdade. Pode ser que esta seja uma comunicação para nós. Que talvez precisemos mudar nossos hábitos. Pode não ser que sejam literalmente nossos bebês. Pode ser uma espécie de expressão de imagens de bebês; ou pode ser que esses híbridos que nos disseram sejam o que tenhamos que ser. É uma espécie de apólice de seguro se a terra continuar a ser sujeita à exploração de seu ambiente vivo a ponto de não poder sustentar a vida humana e outras como está ocorrendo agora. Mas pode não ser literalmente o que vai acontecer. Então essa é uma área em aberto.

Outra área é todo o aspecto visual, ambiental e informacional disso, em que as pessoas são mostradas nas telas de televisão uma enorme variedade de cenas de destruição ambiental da terra poluída; de uma espécie de cena pós-apocalíptica em que até os espíritos foram expulsos de seu ambiente porque vivem no mesmo ambiente físico e espiritual que nós; e os campos são mostrados com árvores destruídas; pedaços da terra são vistos como se separando, a terra em colapso.

NOVA: ….. Híbrido alienígena. O que isso significa?

MACK: Às vezes, ao longo do caminho, conforme você se aprofunda cada vez mais na consciência da pessoa, na experiência dela, ela descobrirá … o que é chamado de identidade dupla. Em outras palavras, que ambos são humanos – em uma dimensão; mas eles também são eles mesmos, têm uma identidade estranha. Que participam desse programa reprodutivo híbrido, como se fossem parte dele. E que eles podem, de fato, até se sentir como alienígenas. Uma versão sua melhorada que vive em um mundo maior.

Um dos homens em meu livro na verdade foi um participante ativo em levar uma mulher do Texas para uma nave e ser abduzida, e desempenhando a função reprodutiva de um ser alienígena, sentiu que ele próprio era um alienígena. E muitas vezes as abduzidas sentirão que seu trabalho, em termos de desenvolvimento, é integrar essas duas dimensões ou esses dois aspectos de si mesmas: o humano e o alienígena. E que a dimensão alienígena é uma parte de nós mesmos, nossas almas, se você preferir, das quais fomos ou fomos isolados ao longo dos séculos de seres humanos que vivem nesta terra nesta forma densamente incorporada.

NOVA: Você e outros disseram que não há outra explicação psicológica. Mas que há alguma realidade nisso. O que você acha do trabalho de pessoas como Michael Persinger e Robert Baker, que têm essas teorias complicadas sobre neurologia ou afirmam que as alucinações hipnogógicas estão na raiz dessas experiências percebidas?

MACK: Essas experiências geralmente ocorrem na consciência literal. Não em um estado hipnogógico ou onírico. A pessoa pode estar em seu quarto bem acordada. Os seres aparecem. E aí estão eles e a experiência começa. Que está ocorrendo frequentemente não é nenhum estado de sonho. Agora, às vezes eles ocorrem quando uma pessoa está cochilando ou em estado hipnogógico. Mas freqüentemente não.

Além disso, qualquer teoria que considere isso um fenômeno puramente endógeno, ou seja, gerado puramente a partir da psique da própria pessoo é uma espécie de arrogância também. Porque significa que simplesmente não podemos aceitar a noção de que pode haver outra inteligência trabalhando. O que é uma explicação muito mais econômica. Mas se devemos encontrar uma teoria dentro de nós mesmos, devemos ter em mente que qualquer teoria que comece a abordar isso deve levar em consideração cinco fatores:

Número um, a extrema consistência das histórias de pessoa após pessoa. O que você não obteria simplesmente estimulando os lobos temporais. Você obteria respostas idiossincráticas muito variáveis, que diferiam muito de caso em caso.

Número dois, você teria que lidar com o fato de que não existe uma base experiencial comum para isso. Em outras palavras, não há nada em sua experiência de vida que poderia ter dado origem a isso, a não ser o que eles dizem. Em outras palavras, não há nenhuma condição mental que possa explicar isso.

Terceiro, é preciso levar em conta os aspectos físicos: os cortes e outras lesões em seus corpos, que não seguem nenhuma distribuição psicodinâmica, como os estigmas associados à identificação com a agonia de Cristo.

Em quarto lugar, a forte associação com OVNIs, que muitas vezes são observados na comunidade local, pela mídia, independentemente da pessoa que está tendo a experiência de abdução ter ou não avistado o OVNI, mas lê ou vê na televisão no dia seguinte que um OVNI passou perto de onde eles estavam quando tiveram uma experiência de abdução.

E, finalmente, o fenômeno ocorre em crianças a partir de dois, dois e meio, três anos de idade. E qualquer teoria que simplesmente atribua isso à atividade do cérebro, não leva em conta pelo menos três dessas cinco dimensões fundamentais …

NOVA: Você realmente não corre o risco de se prejudicar um pouco, pessoal e profissionalmente, devido as críticas ?

MACK: Acho que, de certa forma, ganhei mais do que perdi em termos de convidar as pessoas para esse mistério, tendo um diálogo com todos os tipos de pessoas maravilhosas, abertas, inteligentes e brilhantes de muitos campos diferentes. Foi muito emocionante. Quer dizer, fui atacado, mas os ataques não foram realmente tão sérios para mim quanto a franqueza que encontrei entre muitas pessoas em toda a cultura e internacionalmente, que estão dizendo: Sim, sempre suspeitei que algo assim era está acontecendo, e fico feliz que você esteja disposto a se apresentar e relatar sobre isso.

Costuma-se dizer que sou um crente e que perdi minha objetividade. Eu realmente contesto isso. Porque não se trata de acreditar em nada. Eu não acreditava em nada quando comecei, eu realmente não acredito em nada agora. Eu vim para onde vim clinicamente. Em outras palavras, trabalhei com pessoas por mais de cem centenas de horas e fiz um trabalho tão cuidadoso quanto pude para ouvir, peneirar e considerar explicações alternativas. E nenhum ase apresentou. Ninguém encontrou uma explicação alternativa em um único caso de abdução.

NOVA: Muitos dizem que isso é apenas uma função de imagens culturais.

MACK: Tenho observado esse fenômeno conforme ele se manifesta nos povos indígenas, nos nativos americanos – os Cherokee, os Hopi, que conhecem esses seres como o povo das estrelas. Já vimos isso na África do Sul, particularmente ao entrevistar em profundidade um importante sangoma sul-africano, ou curandeiro, que chama esses seres de “mandingdas”.

Investigamos isso no Brasil com um fazendeiro em – fora de Belo Horizante, que teve experiências de abdução idênticas ao que foi relatado neste país. Recentemente recebi uma carta sobre experiências de abdução de uma pessoa na Malásia. Em outras palavras, este é – pelo que podemos dizer – um fenômeno mundial. Isso não se restringe, como algumas pessoas pensaram, à cultura ocidental ou, em particular, à cultura americana.

Eu descobri que quanto mais alto ou maior o interesse que uma pessoa tem nesta sociedade, em sua posição ou em seu trabalho, mais relutante ela fica em admitir que teve experiências de abdução. Quando abduzidos foram à televisão comigo durante a primavera de 1994, durante minhas turnês de livros, e queriam se comunicar e educar sobre isso, vários deles receberam ameaças de seus empregos. Alguns deles os perderam, temos um homem em consultoria de gestão que perdeu um contrato importante. Uma mulher que trabalhava para o governo federal, que foi abduzida, foi ameaçada de perder o cargo. Em outras palavras, isso não é algo considerado aceitável.

Entrevistei pilotos de avião que tiveram avistamentos – avistamentos de OVNIs de perto. Eles não vão denunciar, porque serão afastados de seu trabalho. Mesmo que eles tenham tido experiência de abdução, eles não vão falar sobre isso. E 25 a 30 por cento dos pilotos de avião, de acordo com uma pesquisa que uma das pessoas com quem conversei, tiveram avistamentos de perto, mas não vou discutir o assunto.

Isso simplesmente não é algo aceito aceitavel para falar, mas isso pode estar mudando. Recentemente, vi um aluno da Harvard Divinity School e fiz-lhe essas perguntas. Eu disse: você fala sobre isso entre seus colegas estudantes? E ele disse: ‘Oh, sim.’ E descobriu-se que vários deles também tiveram experiências de abdução. E mesmo os que não tinham, ficaram fascinados, interessados, não os ridicularizaram. Então, talvez o clima esteja mudando.

Livros de ou sobre Dr. John Mack, M.D.

  • Abduction: Human Encounters with Aliens
  • Passport to the Cosmos
  • The Believer: Alien Encounters, Hard Science, and the Passion of John Mack

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/entrevista-com-john-mack/

Além do Pylon da Cova

 

 

Por Kenneth Grant, O Lado Noturno do Éden, Capítulo Cinco.

 

A CHAVE para o mistério da redenção ou revitalização da múmia em Amenta repousa no uso mágico da Serpente de Fogo como ensinado nas escolas arcanas, particularmente aquelas da Asia.115 A chave está oculta no mito de Ísis e Osíris, e a busca de Ísis pelo falo perdido de Osíris.116 Este assunto é tratado por Apuleius em seu relato simbólico dos Mistérios de Ísis. Psyche, a alma, aprisionada no submundo de Plutão, é resgatada por Eros. Estes símbolos podem ser explicados em conexão com a Árvore da Vida como interpretada sob a luz da fórmula de Daäth do Novo Aeon. A Sabedoria Superna (Daäth) é representada pelo ego ou alma (Psyche) a qual adoece no Amenta. Kether, como Plutão, o Senhor do Abismo, é o mais externo, e, por analogia, o mais interno pylon de Amenta e o último Portal para o Espaço Exterior (Interior) onde a alma é liberada pela Serpente de Oito Cabeças. Oito representa a oitava, o Octimonos ou Mestre Magista, o mais alto ou altura. O simbolismo envolve o poder criativo primordial representado pela sete estrelas ‘filhas’ de Tífon no abismo do espaço (Malkuth), e a oitava, tipificada por Set ou Sothis na altura do céu (Kether). A profundidade de Malkuth e a altura de Kether é equilibrado pela Serpente de Daäth na qual a fórmula da Serpente de Fogo (Eros) está implícita. Portanto, Kether está em Malkuth, e Malkuth está em Kether, porém conforme outro modo. Em outra versão deste mito, Plutão ou Set é Kether e Eros ou a Serpente é Daäth, porque Daäth é o Jardim do ODN (Éden), o campo de força eletromagnética que é o covil da Serpente de Fogo; e a Psyche é Malkuth.

O simbolismo envolve o poder criativo primal representado pelas sete estrelas de Tífon no abismo do espaço, e o oitavo filho – Set – como a altura do céu tipificada pela estrela Sírius ou Sóthis na qual a fórmula da Serpente de Fogo está implícita. Este simbolismo, embora aparentemente complexo, é simples, como pode ser visto ao equacioná-lo com a bem conhecida fórmula budista: Primeiramente HÁ (there IS) (i.e. Malkuth) – Forma (i.e. Presença de Objeto). Então NÃO HÁ (there is NOT) (i.e. Kether) – Vazio (Void) (i.e. Presença de Sujeito). Então HÁ (there IS) (i.e. Ain) – Nem Forma nem Vazio, porém ausência da presença de ambos Objeto e Sujeito (i.e. a Ausência Absoluta, ou Vazio). Os dois primeiros estágio da fórmula compreendem toda a Árvore e suas dez zonas de poder cósmicas. Mas existe uma além de dez (i.e. onze; Daäth) que é o portal para o Ain a qual torna possível a transição do Universo representado pelo anverso da Árvore até o anti-Universo representado pelo inverso da Árvore. A pseudo-sephira, Daäth, é o espelho mágico no qual o Verdadeiro Ser é refletido em ‘matéria’ na forma de Existência.117

Este conceito era antigamente representado pela identidade de Satan o Opositor (e portanto o oposto ou reverso) com Malkuth, o universo mundano tal como este aparece no estado de consciência de vigília. Ainda assim a transição do universo irreal (representado pela Árvore) para o universo real que é NÃO (NOT) (representado pelas costas da Árvore) é ilusória, pois não existe nenhuma ponte verdadeira entre os dois universos. Existe uma solução de continuidade, e de forma à realizar isto, a altura do Abismo (a oitava estrela, Sóthis) tem que ser realizada em reverso, de forma que aquilo que se parece a altura a partir do lado frontal da Árvore seja realmente a profundidade quando observado a partir do ‘outro lado’. Satan-Set é portando a chave, e o nome do Pylon da Cova, cujo guardião é ‘aquele antigo demônio Choronzon’ cujo número, 333, é também aquele de Shugal, o Uivador, a raposa do deserto, a imagem zoomórfica de Sírius, o Negro ou Escuro, o Negativo Supremo.118

Na terminologia do Culto Tifoniano, Nuit ou Not (Não) é o Negativo Absoluto simbolizado pelas Sete Estrelas da Ursa Maior, o Possuidor-das-Faíscas ou Serpente de Fogo cujo oitavo filho é Sóthis, Set, ou Hoor-paar-Kraat. Portanto, de acordo com o antigo simbolismo onde o filho e a mãe são idênticos, Nuit e Set representam o infinito campo de possibilidade, pois em Set está ocultado seu gêmeo –Hórus– a manifestação da não- manifestacão que o ego (Daäth) sózinho torna possível.119

Austin Osman Spare demonstrou que a Postura da Morte120 é a chave para o Portal do Abismo, e sua doutrina do Nem-Nem (Neither-Neither) está intimamente entrelaçada com o complexo ego-anti-ego de Daäth. Naquela doutrina a mão simboliza o Zos, ou ‘corpo considerado como um todo’, e a mão, como foi mostrado, é um ideograma mágico do Macaco. Ela era de fato o nome do Macaco-Kaf (Kaf-Ape) no antigo Egito.121 O macaco ou cinocéfalo era o veículo de Thoth ou Daäth. O outro glifo-chave da feitiçaria de Spare, o Kia ou ‘Eu’ Atmosférico, é o despersonalizado ou anti-ego simbolizado pelo olho.122 Um certo uso mágico destes dois instrumentos – a Mão e o Olho – em consciência de vigília produz o estado de Nem-Nem que era a designação de Spare para o estado não conceitual (carente de conceito) ou pré-conceitual. Kia, portanto, é a antítese de Ra-Hoor-Khuit123 e, como tal, é idêntico a Set. A implicação Satânica está contida na identidade paranomasic(?) do Olho de Set e o ‘Eu’ de Kia.

O número de Kia, 31, é também aquele de AL, a chave de O Livro da Lei, e neste sentido Kia pode ser considerada como sendo o Olho de Nuit, o Ain, que é o ‘outro’[olho] ou o olho secreto,124 tipificado pelo ânus de Set. O cabalista medieval, Pico della Mirandola, formulou esta equação nos seguintes termos:

As letras do nome do demônio maligno que é o príncipe deste mundo [i.e. Set, Satan] são as mesmas que aquelas do nome de Deus125 – Tetragrama – e aquele que sabe como efetuar sua transposição pode extrair um do outro.126

Eliphas Lévi explica esta passagem com a declaração Daemon est Deus inversus. Em A Sabedoria Secreta da Qabalah, J.F.C. Fuller observa que ‘Satan . . . é de fato a Árvore da Vida de nosso mundo, aquela vontade livre que, para sua verdadeira existência, depende do choque das forças positiva e negativa as quais dentro da esfera moral nós denominamos bem e mal. Satan é portanto a Shekinah127 de Assiah [o mundo material]. Fuller observou previamente com respeito a Satan que:

O Deus de Assiah128 é o Sammael de Yetzirah129 invertido, que é o Metatron de Briah130 invertido, que é o Adam Qadmon de Atziluth131 invertido. Em resumo, Sammael em Assiah é o Adam Qadmon invertido três vezes removido; ele é a ‘sombra negra da manifestação do Grande Andrógino do Bem’. (Qabbalah, Isaac Myer, pág.331).

O número de Sammael, 131, é de grande importância no Aeon presente. Ele contém o número 13 e seu reverso, 31, sendo ambos vitais para a Corrente Ofidiana. Observe também que a elevação aos planos através das três zonas de poder, Malkuth-Yesod-Tiphareth, traz o foco de poder a Daäth, o vórtice que suga as energias cósmicas negativas que nutrem a Árvore. Isto é típico do ego que absorve tudo como uma esponja e então é ele próprio dissolvido no vazio do Abismo.

O Dragão cuja oitava cabeça reina em Daäth é idêntico com a Besta 666. A metade masculina é Shugal (333), o uivador no Deserto de Set; a metade feminina é Choronzon (333) ou Tífon, o protótipo de Babalon, a Mulher Escarlate. Um dos significados de Goetia é ‘uivar’132 o que sugere que os antigos grimórios eram registros primitivos da tentativa do homem em rasgar o véu do abismo e explorar o outro lado da Árvore. As elaboradas codificações de demônios e seus sigilos e os ritos acompanhando seu uso fazem paralelo com os trabalhos mágicos ortodoxos usados em conexão com a parte frontal da Árvore. Isso explicaria a necessidade de segredo e o uso frequente de nomes sagrados que velavam as verdadeiras intenções do feiticeiro.

A.E.Waite, em sua introdução à O Livro de Magia Cerimonial fala sobre as fases mais ortodoxas da magia como ‘aspectos da Tradição Secreta em tal extensão como esta declarou a si mesma ao lado de Deus’. Ele então declara ‘que existe uma tradição à rebours133. Ele observa mais:

‘Como existe a altura de Kether no Kabalismo, igualmente existe o abismo que está abaixo de Malkuth . . . ‘ Ele não diz, contudo, que o abismo abaixo de Malkuth é acessível ao homem apenas através do Portal de Daäth. Porém na página xli ele escreve:

Como existe uma porta na alma que se abre para Deus, igualmente existe outra porta que se abre para as profundezas (recremental_?), e não existe dúvida que as profundezam adentram quando ela é efetivamente aberta. Também existem os poderes do abismo.

Pode ser observado que Waite distingue entre as ‘profundezas’ e os ‘poderes do abismo’.

Existe uma Arte Negra e uma Branca . . . uma Ciência da Altura e uma Ciência do Abismo, de Metatron e Belial.134

É minha intenção mostrar que a Altura e o Profundo, i.e. o Oitavo e o Tepht135 são idênticos abaixo da imagem da Besta, cuja oitava Cabeça é a Porta do Abismo. Waite observa, corretamente, que ‘Typhon, Juggernaut,136 e Hecate137 não eram menos divinos que os deuses do supra-mundo’138. Ele contrasta o supra-mundo com o submundo ou, como poderíamos dizer, a frente da Árvore com seu lado inferior (neste caso, lado posterior).

É significativo que a incorporação da consciência humana, i.e. o homem, é, em hebraico, ‘Adam’, significando ‘terra vermelha’ ou ‘barro’, um símbolo do sangue solidificado como carne. A palavra Adam deriva do egípcio Atum ou Tum, o sol poente, o sol vermelho- sangue que está morrendo e afundando no Amenta, a terra oculta (hell). Nas tradições mais primitivas (i.e. a Draconiana), antes de o período equinocial ter sido estabelecido, o Norte, não o Oeste, era o lugar da escuridão; o esquerdo, o lado inferior; mesmo como o Sul era o Leste primitivo, como a frente ou lugar de ascensão.139 Daäth, primeiramente o norte, mais tarde se tornou identificado com o Pylon Ocidental e o bourne (início_?) da jornada do homem. A partir do momento de sua encarnação, a consciência humana inicia sua jornada para o Amenta. Então, o início está em Malkuth (terra); o fim está em Daäth (ar ou espaço).

A Besta e a Mulher unidos é a fórmula do Baphomet andrógino que era representado pela cabeça de um asno. Esta criatura era um símbolo Tifoniano do caminho, passagem ou túnel regressivo, um glifo apropriado do Abismo, o portal para o que era Daäth (Death / Morte). O símbolo da qliphoth de Yesod é conhecido como o ‘asno obsceno’, que, por sua vez é simbólico da consciência astral tipificada pela água (sangue), o elemento atribuído à Mulher Escarlate. Daäth, como Sabedoria Superna, corresponde ao elemento fogo, pois ele é o aspecto criativo do ego que gera imagens no sangue de Yesod antes da reificação na carne de Malkuth.

As cinco zonas de poder cósmico do Pilar do Meio correspondem aos cinco elementos:

Terra (Malkuth), Água (Yesod), Fogo (Tiphareth), Ar (Daäth), e Espírito (Kether). A dissolução do ego em Amenta tem que ser realizada antes da ‘ressurreição’ ou exaltação ao céu do Espírito, representado por Kether. Os cinco elementos correspondem aos cinco estados de consciência mencionados pelos hindus: Jagrat (consciência de estado de vigília), Malkuth, Terra; Svapna (consciência astral ou de sonho), Yesod, Água; Sushupti (consciência vazia), Tiphareth, Ar; Turiya (consciência transcendente), Daäth, Morte, Fogo; e Turiyatita (estado Nem-Nem de Kia), Kether, Espírito.140

Malkuth (terra) é o mênstruo de reificação; Yesod (água), o mênstruo de reflexão ou o duplo da imagem141via o sangue da lua; Tiphareth (ar), o mênstruo da aspiração pela luz da consciência solar; Daäth (fogo), o mênstruo de vibração, o Local do Logoi ou Palavra Gêmea que é ambas verdadeira e falsa, pronunciada e não pronunciada; e Kether (espírito), o mênstruo do Não-ser que transmite a Negatividade Pura do Ain.

A numeração total das Sephiroth do Pilar do Meio, incluindo Daäth, é 37, que representa a própria Unidade em sua manifestação trinitária equilibrada.142 37 é também a palavra LHB, significando a ‘chama’, ‘cabeça’, ou ‘ponto’, que resume a doutrina da Cabeça (em Daäth) como o ponto de acesso ao universo de Pura Negação. Também, 37 é o número de LVA que significa ‘Non’, ‘Neque’, ‘Nondum’, ‘Absque’, ‘Nemo’, ‘Nihil’; não, nem, não ainda, sem, nenhum, nada.

Como previamente observado, o número 333, a metade da Besta na frente (Shugal- Set) adicionado a 333, a parte detrás (Choronzon) surge como a Besta 666. Quando 333 é subtraído do número 365,143 resta 32. Este é o número da manifestação total; as coisas como elas são em sua totalidade e finalidade, como representado pela Árvore inteira: as dez sephiroth e os vinte e dois caminhos. Mais importante de tudo, entretanto, 32 é o número de IChID, o ego, self, ou alma. A palavra Ichid deriva do egípcio Akhet, o espírito, o manes, o morto, que enfatiza a natureza precisa do ego como uma upadhi – uma entidade ilusória mascarando-se como o Ser. E este upadhi é o único portal para o reino do puro Não-Ser, de onde se originam todos os fenômenos. A Besta 666 então representa o Habitante no Portal do Abismo, e seus dois aspectos – Shugal (333) e Choronzon (333), juntos resumem os 32 kalas144– que são as chaves para o Mistério da Plenitude, Santidade, Totalidade, representados pela Árvore da Vida e a Árvore da Morte.145

Em A Gênese Natural (vol.I.p.137) Massey declara:

Pode ser afirmado, de modo geral, que todos os inícios verdadeiros na tipologia, mitologia, números e linguagem, podem ser traçados até a abertura de uma Unidade (Oneness) que [se] divide e se torna dual em sua manifestação.

Isto também se aplica à metafísica da ‘Criação’. Em egípcio, o local de abertura é o Teph ou Tepht. A palavra hebraica Tophet deriva do egípcio Tepht como a ‘cova’, ‘inferno’, o ‘abismo’. A letra ‘T’ era uma forma anterior da letra ‘D’, e quando a mais recente substitui a letra inicial da palavra Tepht, nós obtemos Depth (Profundeza). Como Daäth, esta é a abertura primal para o Abismo por trás da Árvore. Massey declara mais ainda que ‘o pensamento humano verificável mais antigo estava relacionado à abertura’ no sentido de que a mãe abriu, e o um por este meio se tornou dois. O paralelo metafísico é também verdadeiro, pois o pensamento humano era uma conceitualização de energias partindo da abertura de Daäth como uma fenda no espaço, por assim dizer, através da qual as forças do Não-ser escorreram e se tornaram, no processo, pensamento conceitual. Assim o ego floresceu, e sua raiz estava no abismo. A palavra ego146 totaliza 78, que é o número de Mezla, a influência de Kether. Esta influência não fluiu diretamente para dentro de Tiphareth (o assento da consciência humana), ela veio via o Túnel de Set por trás de Daäth através do qual ela passou – como a luz através de um prisma – para terminar em pensamento conceitual; daí a sua natureza ilusória. ‘No ato da abertura, as coisas se tornaram duais’- Massey expressou portanto o assunto com relação aos fenômenos físicos; o mesmo também é verdadeiro sobre os fenômenos metafísicos. Uma passagem do Bundahish expressa a situação nesses termos:

A região da Luz é o local de Ahura-Mazda, a qual eles chamam de Luz infinita, e sua onisciência está em visão ou revelação.

Por outro lado: Aharman ‘em Escuridão, com entendimento retrógrado e desejo por destruição estava no abismo, e é ele quem não será, e o local daquela destruição, e também daquela Escuridão, é o que eles chamam de a escuridão infinita’.147

o número do ego, 78, é também um número de AIVAS, o transmissor do AL a partir de uma dimensão extraterrestre. Esta dimensão é interna (está dentro), e não externa (não está fora), e a mensagem de Aiwass procedeu desde o Abismo do Não-ser. Esta corrente negativa, ao passar através do prisma do ego,148 assumiu aqueles aspectos com os quais os estudantes do assunto estão familiarizados: ‘Aiwass é chamado o ministro de Hoor-paar-Kraat, o Deus do Silêncio; pois sua palavra é a Fala do Silêncio’149. Em outras palavras, 78 (ego) é o Logos, a pronúncia manifesta do Imanifesto. Esta vibração (Palavra), no processo de se tornar manifesta é inevitavelmente falsificada, porque de formas que ela possa ser formulada, Nada (Nuit) deve aparecer para tornar-se Algo (Hadit). O reino da palavra – no microcosmo – é o Visuddha chakra que é atribuído a Daäth. Seu elemento, ar, é o mênstruo de vibração, o meio através do qual o silêncio se manifesta em som. Em termos mágicos Daäth como ar é o meio pelo qual Hoor-paar-Kraat se manifesta como Ra-Hoor-Khuit. O numênico se torna fenomenal no chit- jada-granthi 150 ou centro-Daäth que tipifica o ego, a fonte aparente de todos os fenômenos.

Também, 78 é o número de Enoch (ChNK), significando ‘iniciar’. Enoch era a fonte das Chamadas ou Chaves usadas por Dee e Kelly em seu tráfico com entidades extraterrestres. É de fato a Dee que nós devemos o primeiro relato sobre Choronzon, o Guardião do Abismo151. Ainda mais, 78 é o número de MBVL, ‘uma enchente’ e portanto a enchente. A palavra deriva do egípcio mehber,152 que contém o nome real do abismo. Finalmente, 78 é o número de cartas que compreendem o pacote do Taro e, como tal, ele resume todas as fórmulas ocultas possíveis.

Em resumo, Daäth é a abertura primal, a fonte do universo conceitual, i.e., o ego; daí sua natureza alegadamente satânica e enganosa. A fórmula de sua resolução é a fórmula de iniciação no Real, i.e. o anti-universo ou mundo do não-ser, o negativo, o Ain.

Já foi observado que Ain, vazio fenomenal, é, no inverso, o Nia. Esta palavra, que é comum á vários dialetos africanos, denota o negativo, não (no, not). Ela era representada no Egito pela deusa Nuit. Seu determinativo hieroglífico é a mulher menstruando. O ain (olho) como nia, é o olho invertido; não o olho da luz, mas o olho da escuridão, o olho oculto, a vulva em sua fase negativa, a lua [feiticeira_?] de sangue, o eclipse lunar.

As Duas Águas ou Cheias descritas no Bundahish são consideradas como fluindo [a partir] do Norte. Este é o lugar de Daäth, a fonte do segundo dilúvio, o primeiro fluindo do Ain, ainda mais além do norte. Dion Fortune salienta que nas tradições mais antigas o Norte era considerado como o local da maior escuridão. Como a mulher foi a primeira a abrir e dividir em dois, então a escuridão precedeu a luz no sentido de que ela era o estado de ser numênico, negativo, a partir do qual a existência, o estado positivo, foi emitida. Daäth é o portal para a escuridão primal no norte. Inversamente ela é também o manifestador da existência, representada pelo sul. Set é Matéria; Nuit é Espírito. O Norte ou costas da Árvore com sua rede de túneis aparece no Sul como a frente da Árvore na forma das zonas de poder e caminhos. Como a Mãe-Escuridão era primal e representava as costas da Árvore, assim a Mão Esquerda como a mão feminina ou infernal, era também a primeira. Existe uma tradição rabínica que mantém [a idéia de] que ‘todas as coisas vieram a partir de Hé’. Hé é o número 5, que é o glifo da Mulher tipificado pela sua fase negativa; ele é também o equivalente de uma mão (cinco dedos), a própria mão sendo típica [do ato] de formar, moldar, criar. Seu ideograma era o macaco-Kaf (?) ou cinocéfalo, o veículo especial do deus Thoth (a lua), assim indicando a natureza lunar desta formação. A mulher produz o sangue a partir do qual a carne é formada. A Mão Esquerda portanto se equaciona com o simbolismo do macaco. Nos antigos mistérios egípcios o macaco era um tipo da morte transformadora, quer dizer, do nascimento dentro do mundo do espírito. O significado esotérico é que, na noite da morte (Daäth), o ego é dissolvido, descarta sua existência ilusória e alcança o ser real que é não-ego, não-ser.

Notas:

115 Eu expliquei os aspectos Tântricos deste Mistério em minha Trilogia Tifoniana (q.v.). Crowley foi um dos primeiros adeptos a incorporar ao ocultismo Ocidental o uso mágico das energias sexuais, embora o iniciado africano, P.B.Randolph, operando nos Estados Unidos por volta da virada do presente século foi talvez o primeiro à advogar abertamente um uso mágico do sexo. Vide Eulis (P.C.Randolph), Toledo, Ohio, 1896.

116 Para uma interpretação iniciática deste mito, vide Aleister Crowley & o Deus Oculto, capítulo 10.

117 O Ser, por si apenas, é real. Ele é a within-ness (internalização_?) das coisas; o noumenon. A existência é irreal pois, como está implícito na palavra, ela comporta a objetividade do Ser em algum estado externo, e não existe nenhum. O universo fenomenal, ou Existência (como uma ‘permanência fora’ de subjetividade) é apenas aparente.

118 A palavra Shugal é o equivalente cabalístico da palavra SaGaLa que é considerada por iniciados como sendo o nome de um metal do qual é constituída a estrela gêmea escura ou invisível de Sírius. Vide Robert Temple, O Mistério de Sírius, pág.24. O simbolismo da raposa é também implícito. Vide Temple, págs. 24, 48.

119 O Universo é conceitual, e nenhum conceito é possível sem um ego para concebê-lo.

120 Vide Imagens e Oráculos de Austin Osman Spare, Parte II, (1975).

121 Kaf em hebraico significa a ‘palma’ (da mão).

122 Olho = Ayin = Ain = Nada.

123 i.e. o ponto de vista individual.

124 i.e. a vulva.

125 Deus (God) = AL = 31; a afinidade vem, como declarado, via Kia, o Olho, AL, a Chave para a Corrente 93 (93 é três vezes 31), e Ain, o olho secreto de Nuit que, como Tífon, era a mãe ou fonte de Set.

126 Como demonstrado. Vide nota anterior. O trecho é de Kabbalistic Conclusions, XIX, citado em A.E. Waite: A Santa Kabbalah, Livro X.

127 Shekinah é o equivalente judaico de shakti, poder divino.

128 i.e. Satan.

129 Sammael (SMAL = 131 = Pan, etc) é o Guardião no Limiar (do Abismo). Yetzirah é o mundo formativo ou astral. SMAL, 131, é também o número de Mako (Set) o filho de Tífon.

130 Metatron é o Anjo de Briah, o Mundo Criativo.

131 Atziluth é o Mundo do Espírito, algumas vezes chamado de o mundo arquetípico. Os quatro mundos: Assiah, Yetzirah, Briah e Atziluth correspondem aos quatro estados de consciência referidos pelos hindus como Jagrat, Svapna, Sushupti, e Turiya. (Vide capítulo anterior).

132 Vide As Confissões de Aleister Crowley , capítulo 20.

133 Página xxxviii. A rebours significa ‘contra o grão’, i.e. ao inverso.

134O Livro da Magia Cerimonial, pág.5.

135 Tophet; a Profundeza.

136 Yog-Nuit. Compare com Yog-Sothoth.

137 Ur-Hekau, a coxa emblema do Grande Poder Mágico (shakti), conhecido pelos egípcios como o ‘Poderoso dos Encantamentos’. Vide O Livro dos Mortos.

138O Livro da Magia Cerimonial , pág.14.

139 i.e. do sol no macrocosmo e do falo no microcosmo.

140 Será notado que na série de atribuições anterior o Ar, e não o Fogo, é atribuído a Daäth. Isso é porque Daäth enquanto o Portal do Vazio = (é igual a) Espaço (Ar), ao passo que Daäth enquanto Morte = (é igual a) Dissolução (Fogo).

141 i.e. reprodução em níveis astrais.

142 111 dividido por 3.

143 O ciclo completo de manifestação como tipificado pelo círculo de 360 graus, mais os 5 dias ‘ proibidos’. Vide Cultos da Sombra, capítulo 4.

144 Dezesseis cada = 32.

145 333 + 32 = 365. O número 365 e os 16 kalas foram explicados em detalhes em Cultos da Sombra, capítulo 4.

146 Por Cabala Simplex, Ego = 25, que é o númedo d’A Besta, ChIVA, como 5 x 5, a fonte ou útero da vida. Tenho uma dívida para com a Soror Tanith por ela ter salientado para mim que ShIVA é uma metátese de AIVASh, assim identificando a Besta com o prisma egoidal através do qual as forças extraterrestres fluem para o ser (para se tornar_?) a partir dos vazios do Espaço (não-ser).

147 Citado por Massey em A Gênese Natural,vol.I, página 147 de O Bundahish , capítulo I, versos 2 e 3. (trans.West.)

148 Neste caso, Aleister Crowley.

149Comentários Mágicos e Filosóficos Sobre o Livro da Lei, p.94.

150 Um termo sânscrito que denota o nó ou centro sutil  no qual a senciência se identifica com a não-senciência e portanto parece criar uma entidade autônoma ou sujeito consciente tendo o ‘mundo’ como seu objeto.

151 Dr.John Dee, 1527-1608: ‘Existe um Poderoso Daemon, O Poderoso Choronzon, que serve para guardar as Grandes Portas do Universo Desconhecido. Conheça-O Bem e Esteja Atento’.

152Meh, ‘o abismo das águas’; ber, mais tarde bel, ‘jorrar’, ‘inchar’ , ‘ser efervescente’.

Revisão final: Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/alem-do-pylon-da-cova/

A História e as Polêmicas da Ordem dos Nove Ângulos

A Ordem dos Nove Ângulos (Order of Nine Angles, ONA ou O9A) é um grupo ocultista satânico e do Caminho da Mão Esquerda sediado no Reino Unido, mas com grupos associados em outras partes do mundo. Afirmando ter sido estabelecida na década de 1960, ganhou reconhecimento público no início de 1980, atraindo a atenção por suas ideologias neonazistas e ativismo. Descrevendo sua abordagem como “Satanismo Tradicional”, também foi identificada como exibindo elementos pagãos herméticos e modernos em suas crenças por pesquisadores acadêmicos.

De acordo com as próprias reivindicações da Ordem, ela foi estabelecida nas Marchas Galesas da Inglaterra Ocidental durante o final da década de 1960 por uma mulher que já havia se envolvido em uma seita pré-cristã secreta que sobreviveu na região. Esse relato também afirma que em 1973 um homem chamado “Anton Long” foi iniciado no grupo, tornando-se posteriormente seu grão-mestre. Vários comentaristas acadêmicos que estudaram a ONA expressam a opinião de que o nome “Anton Long” é provavelmente o pseudônimo do ativista neonazista britânico David Myatt, embora Myatt tenha negado que esse seja o caso. A partir do final da década de 1970, Long escreveu livros e artigos que propagavam as ideias da Ordem e, em 1988, começou a publicar seu próprio jornal, Fenrir. Por meio desses empreendimentos, estabeleceu vínculos com outros grupos satanistas neonazistas em todo o mundo, promovendo sua causa ao abraçar a Internet nos anos 2000.

A ONA promove a ideia de que a história humana pode ser dividida em uma série de eras, cada uma contendo uma civilização humana correspondente. Expressa a visão de que a atual civilização aeônica é a do mundo ocidental, mas afirma que a evolução desta sociedade está ameaçada pela influência “mago/nazareno” da religião judaico-cristã, que a Ordem procura combater para estabelecer uma nova ordem social militarista, que chama de “Imperium”. De acordo com os ensinamentos da Ordem, isso é necessário para que uma civilização galáctica se forme, na qual a sociedade “ariana” colonizará a Via Láctea. Ele defende um caminho espiritual em que os praticantes são obrigados a quebrar tabus sociais, isolando-se da sociedade, cometendo crimes, abraçando o extremismo político e a violência e realizando atos de sacrifício humano. Os membros da ONA praticam magia, acreditando que são capazes de fazê-lo canalizando energias para seu próprio reino “causal” de um reino “acausal” onde as leis da física não se aplicam, e essas ações mágicas são projetadas para ajudá-los a alcançar seu objetivo final. objetivo de estabelecer o imperium.

A ONA evita qualquer autoridade ou estrutura central; em vez disso, opera como uma ampla rede de associados – denominados “kollective” – ​​que são inspirados nos textos originalmente de autoria de Long e outros membros da “ONA interna”. O grupo é composto em grande parte por células clandestinas, que são chamadas de “nexions”. Algumas estimativas acadêmicas sugerem que o número de indivíduos amplamente associados à Ordem cai na casa dos milhares. Vários estupros, assassinatos e atos de terrorismo foram perpetrados por indivíduos de extrema direita influenciados pela ONA, com vários políticos e ativistas britânicos pedindo que a ONA fosse proscrita como um grupo terrorista.

A HISTÓRIA DA ORDEM DOS NOVE ÂNGULOS:

Origens:

A primeira célula da ONA, “Nexion Zero”, foi estabelecida em Shropshire, Reino Unido (foto).

Acadêmicos têm encontrado dificuldades para apurar “informações exatas e verificáveis” sobre as origens da ONA, dado o alto nível de sigilo em que ela se envolve, a fim de se proteger. Tal como acontece com muitas outras organizações ocultas, a Ordem envolve sua história em “mistério e lenda”, criando uma “narrativa mítica” para suas origens e desenvolvimento. A ONA afirma ser descendente de tradições pagãs pré-cristãs que sobreviveram à cristianização da Grã-Bretanha e que foram transmitidas a partir da Idade Média em pequenos grupos ou “templos” baseados nas Marchas de Gales – uma área de fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales – que eram cada um liderado por um grão-mestre ou grande mestra. De acordo com a Ordem, no final da década de 1960, uma grande mestra de um desses grupos uniu três desses templos – Camlad, o Temple of Sun e os Noctulians – para formar a ONA, antes de receber forasteiros na tradição.

De acordo com o relato da Ordem, um daqueles que a grande mestra iniciou no grupo foi “Anton Long”, um indivíduo que se descreveu como um cidadão britânico que passou grande parte de sua juventude visitando a África, Ásia e Oriente Médio. Long afirmou que, antes de seu envolvimento na ONA, ele se interessou por ocultismo por vários anos, tendo contatado um coven baseado em Fenland em 1968, antes de se mudar para Londres e ingressar em grupos que praticavam magia cerimonial no estilo da Ordem Hermética da Golden Dawn e Aleister Crowley. Ele também reivindicou um breve envolvimento em um grupo satânico baseado em Manchester, o Templo Ortodoxo do Príncipe dirigido por Ray Bogart, durante o qual ele encontrou a Grande Mestra da ONA. Segundo o relato da Ordem, Long ingressou na ONA em 1973 – o primeiro a fazê-lo em cinco anos – e tornou-se herdeiro da grande mestra. Mais tarde, ele lembrou que naquela época o grupo realizava rituais em henges e círculos de pedra ao redor dos solstícios e equinócios.

Este relato afirma ainda que quando a Grande Mestra da Ordem migrou para a Austrália, Long assumiu como o novo grão-mestre do grupo. O grupo afirmou que Long “implementou a próxima etapa da Estratégia Sinistra – para tornar os ensinamentos conhecidos em larga escala”. A partir do final da década de 1970, Long incentivou o estabelecimento de novos grupos ONA, que eram conhecidos como “templos”, e a partir de 1976 ele escreveu uma série de textos para a tradição, codificando e estendendo seus ensinamentos, mitos e estrutura. Esses textos são tipicamente escritos em inglês, embora incluam passagens do grego clássico, bem como termos do sânscrito e do árabe, refletindo a fluência de Long em tais idiomas. Depois de examinar esses textos, o historiador Nicholas Goodrick-Clarke afirmou que neles, Long “evoca um mundo de bruxas, feiticeiros camponeses fora da lei, orgias e sacrifícios de sangue em cabanas solitárias nas florestas e vales desta área, Shropshire e Herefordshire, onde ele viveu desde o início dos anos 1980”.

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David Myatt (foto de 1998) é frequentemente citado como o ideólogo central da ONA.

A verdadeira identidade de “Anton Long” permanece desconhecida tanto para os membros da Ordem quanto para os acadêmicos que a estudaram. No entanto, em uma edição de 1998 da revista antifascista Searchlight, afirmou-se que “Anton Long” era um pseudônimo de David Myatt, uma figura proeminente do movimento neonazista britânico. Nascido no início dos anos 1950, Myatt esteve envolvido em vários grupos neonazistas, inicialmente servindo como guarda-costas de Colin Jordan do Movimento Britânico antes de ingressar na milícia Combat 18 e se tornar membro fundador e líder do Movimento Nacional Socialista. Seu texto sobre A Practical Guide to Aryan Revolution (Um Guia Prático da Revolução Ariana), no qual defendia a militância violenta em prol da causa neonazista, foi citado como uma influência sobre o bombardeiro de pregos David Copeland. Em 1998, Myatt se converteu ao Islã e permaneceu muçulmano praticante por oito anos, período em que encorajou a jihad violenta contra o sionismo e os aliados ocidentais de Israel. Em 2010, ele anunciou que havia renunciado ao Islã e estava praticando uma tradição esotérica que denominou “Caminho Numinoso”.

Goodrick-Clarke apoiou a ideia de que Myatt era Long, com o estudioso de estudos religiosos Jacob C. Senholt acrescentando que “o papel de David Myatt é primordial para toda a criação e existência da ONA”. Senholt apresentou evidências adicionais que ele acreditava confirmaram a identidade de Myatt como Long, escrevendo que o abraço de Myatt ao neonazismo e ao islamismo radical representava “papéis de percepção” que Myatt havia adotado como parte da “estratégia sinistra” da ONA para minar a sociedade ocidental, uma visão endossada pelo estudioso do satanismo Per Faxneld. Em 2015, um membro da ONA conhecido como R. Parker argumentou a favor da ideia de que Myatt era Long. Como resultado da publicação de Page, o sociólogo da religião Massimo Introvigne afirmou que a ONA “mais ou menos reconheceu” que Myatt e Long são a mesma pessoa, o que a alegação sobre Myatt a ONA contestou.

O próprio Myatt negou repetidamente as alegações de que ele tem qualquer envolvimento com a ONA, e que ele usou o pseudônimo “Anton Long”, além de contestar os argumentos usados ​​para conectá-lo a Long, alegando que eles são baseados em evidências insuficientes. O estudioso de estudos religiosos George Sieg expressou preocupação com essa associação, afirmando que a considerava “imlausível e insustentável com base na extensão da variação no estilo de escrita, personalidade e tom” entre Myatt e Long. Jeffrey Kaplan, um especialista acadêmico da extrema direita, também sugeriu que Myatt e Long são pessoas separadas, enquanto o estudioso de estudos religiosos Connell R. Monette postulou a possibilidade de que “Anton Long” não fosse um indivíduo singular, mas sim um pseudônimo usado por várias pessoas diferentes.

Aparecimento ao Público:

A ONA surgiu à atenção do público no início de 1980. Durante as décadas de 1980 e 1990, espalhou sua mensagem por meio de artigos em revistas, como Nox, de Stephen Sennitt, bem como pela publicação de volumes como The Black Book of Satan (O Livro Negro de Satã) e Naos. Em 1988, iniciou a publicação de seu próprio jornal interno, intitulado Fenrir. Entre o material que publicou para consumo público estão folhetos filosóficos, instruções rituais, cartas, poesia e ficção gótica. Seu texto ritual central é intitulado The Black Book of Satan (O Livro Negro de Satã). Também lançou sua própria música, um conjunto de tarô pintado conhecido como Sinister Tarot (O Tarô Sinistro) e um jogo de tabuleiro tridimensional conhecido como Star Game (O Jogo da Estrela). A ONA estabeleceu ligações com outros grupos satanistas neonazistas: seu distribuidor internacional foi o neozelandês Kerry Bolton, o fundador da Black Order, que é descrito como um adepto da ONA na correspondência publicada do grupo, e tem acesso a um biblioteca de material oculto e de extrema direita de propriedade da Order of the Jarls de Bælder. Segundo Monette, o grupo agora tem associados e grupos nos Estados Unidos, Europa, Brasil, Egito, Austrália e Rússia. Um desses grupos associados é o Tempel ov Blood, com sede nos EUA, que publicou vários textos através da Ixaxaar Press, enquanto outro é o White Star Acception, com sede na Califórnia, que foi designado como “Flagship Nexion” da ONA nos Estados Unidos apesar de se desviarem dos ensinamentos tradicionais da ONA sobre uma série de questões.

Durante o início da década de 1990, a Ordem declarou que estava entrando no segundo estágio de seu desenvolvimento, no qual deixaria para trás seu foco anterior no recrutamento e divulgação pública dentro da comunidade oculta e que, em vez disso, se concentraria em refinar seus ensinamentos; sua quietude resultante levou alguns ocultistas a especular erroneamente que a ONA havia se extinguido. Em 2000, a ONA estabeleceu uma presença na Internet, utilizando-a como meio de comunicação com os outros e de distribuição dos seus escritos. Em 2008, a ONA anunciou que estava entrando na terceira fase de sua história, na qual voltaria a focar fortemente na promoção, utilizando mídias sociais como blogs online, fóruns, Facebook e YouTube para divulgar sua mensagem. Em 2011, a “Old Guard”, um grupo de membros de longa data da Ordem, afirmou que se retiraria do trabalho público ativo com o grupo. Em março de 2012, Long anunciou que se retiraria da atividade pública, embora pareça ter permanecido ativo na Ordem.

AS CRENÇAS E A ESTRUTURA DA ONA:

A ONA descreve suas crenças como pertencentes a “uma tradição mística sinistramente numinosa”, acrescentando que “não é agora e nunca foi estritamente satanista ou estritamente Caminho da Mão Esquerda, mas usa “satanismo” e o LHP como “formas causais”; isto é, como técnicas/experiências/provas/desafios” para auxiliar o avanço espiritual do praticante. Monette descreveu a ONA como “uma fascinante mistura de Hermetismo e Satanismo Tradicional, com alguns elementos pagãos”. Faxneld descreveu a ONA como “uma forma perigosa e extrema de satanismo” e como “um dos grupos satanistas mais extremos do mundo”. Jeffrey Kaplan e Leonard Weinberg o caracterizaram como um “grupo satanista de orientação nacional-socialista”, enquanto Nicholas Goodrick-Clarke também o considerou um “culto nazista satânico” que “combina o paganismo com o louvor a Hitler”. Ele acrescentou que a ONA “celebrou o lado escuro e destrutivo da vida através de doutrinas anti-cristãs, elitistas e darwinistas sociais”. Considerando a maneira pela qual a ONA sincretizou tanto o satanismo quanto o paganismo, o historiador da religião Mattias Gardell descreveu sua perspectiva espiritual como “um caminho satânico pagão”. O estudioso George Sieg, no entanto, argumentou que a ONA deveria ser categorizada como “pós-satânica” porque “ultrapassou (sem abandonar totalmente) a identificação com seu paradigma satânico original”.

Satanismo Tradicional e Paganismo:

“[Long] rejeita a organização quase religiosa e as palhaçadas cerimoniais da Igreja de Satã, o Templo de Set e outros grupos satânicos. Ele acredita que o satanismo tradicional vai muito além da gratificação do princípio do prazer e envolve a árdua conquista do eu – maestria, auto-superação em um sentido nietzschiano e, finalmente, sabedoria cósmica. Sua concepção de satanismo é prática, com ênfase no crescimento individual em reinos de escuridão e perigo por meio de atos práticos de coragem, resistência e risco de vida.”

— Estudioso do esoterismo Nicholas Goodrick-Clarke.

A ONA descreve seu ocultismo como “Satanismo Tradicional” e como uma “tradição mística sinistra-numinosa”. De acordo com Jesper Aagaard Petersen, um acadêmico especialista em satanismo, a Ordem apresenta “uma nova interpretação reconhecível do satanismo e do Caminho da Mão Esquerda”, e para os envolvidos no grupo, o satanismo não é simplesmente uma religião, mas um modo de vida. A Ordem postula o satanismo como uma árdua conquista individual de autodomínio e autossuperação nietzschiana, com ênfase no crescimento individual através de atos práticos de risco, bravura e resistência. Portanto, “o objetivo do satanismo da ONA é criar um novo indivíduo através da experiência direta, prática e autodesenvolvimento com os graus do sistema ONA sendo altamente individuais, com base nos próprios atos práticos e da vida real dos iniciados, em vez de meramente realizar certos rituais cerimoniais”. Assim, o satanismo, afirma a ONA, exige aventurar-se no reino do proibido e do ilegal para libertar o praticante do condicionamento cultural e político. Intencionalmente transgressora, a Ordem tem se caracterizado por proporcionar “uma espiritualidade agressiva e elitista”. O estudioso de estudos religiosos Graham Harvey escreveu que a ONA se encaixava no estereótipo do satanista “melhor do que outros grupos”, algo que ele achava que foi deliberadamente alcançado ao abraçar atos “profundamente chocantes” e ilegais.

A ONA critica fortemente grupos satânicos maiores como a Igreja de Satã e o Templo de Set, que eles consideram “satânicos falsos” porque abraçam o “glamour associado ao satanismo”, mas têm “medo de experimentar sua realidade dentro e externo a eles”. Por sua vez, a Igreja de Satã criticou o que eles alegaram ser a “insistência paranoica da Ordem de que eles são os únicos defensores da tradição satânica”, com Kaplan afirmando que esses comentários refletem “as tensões internas” que são comuns dentro “do mundo do satanismo “, e sobre qual crítica Anton Long escreveu que a ONA não “afirma ser uma organização de pares com a reivindicação de algum tipo de autoridade … Quando no passado nós e outros como nós dissemos coisas que outros interpretam como sendo contra o Templo de Set ou LaVey, estávamos simplesmente assumindo o papel de Adversário – desafiando o que parecia estar se tornando um dogma aceito.”

Embora se conceba como tendo origens pré-cristãs e descreva o satanismo como “paganismo militante”, a ONA não defende o restabelecimento de sistemas de crenças pré-cristãs, com um tratado da ONA afirmando que “todos os deuses do passado das várias tradições ocidentais são tornados obsoletos pelas forças que o satanismo sozinho está desencadeando”. No entanto, Goodrick-Clarke observou que as “ideias e rituais” do grupo se baseiam em “uma tradição nativa”, com referências ao conceito anglo-saxão pré-cristão de wyrd, uma ênfase em cerimônias realizadas em equinócios e a construção de incenso usando árvores indígenas, sugerindo assim a ideia de “enraizamento na natureza inglesa”. Os praticantes passam por “peregrinações negras” a locais cerimoniais pré-históricos na área ao redor de Shropshire e Herefordshire nas Midlands inglesas. Além disso, Monette escreve que “um exame crítico dos textos-chave da ONA sugere que as conotações satânicas podem ser cosméticas e que seus mitos e cosmologia centrais são genuinamente herméticos, com influências pagãs”.

Cosmologia Aeônica e o Nazismo:

 

“Adolf Hitler foi enviado por nossos deuses

Para nos guiar à grandeza

Acreditamos na desigualdade de raças

E no direito do ariano de viver

De acordo com as leis do povo.

Reconhecemos que a história do “holocausto” judaico

É uma mentira para manter nossa raça acorrentada

E expressar nosso desejo de ver a verdade revelada.

Acreditamos na justiça para nossos companheiros oprimidos

E buscar um fim em todo o mundo da

Perseguição dos Nacional-Socialistas.”

 

— A “Missa da Heresia” da ONA.

A ONA afirma que a evolução cósmica é guiada por uma “dialética sinistra” de energias Aeônicas alternadas. Ele divide a história humana em uma série de Aeons, acreditando que cada Aeon foi dominado por uma civilização humana que surgiu, evoluiu e depois morreu. Ele afirma que cada Aeon dura aproximadamente 2.000 anos, com sua respectiva civilização humana dominante se desenvolvendo nos últimos 1.500 anos desse período. Sustenta que após 800 anos de crescimento, cada civilização enfrenta problemas, resultando em um “Tempo de Problemas” que dura entre 398 e 400 anos. No estágio final de cada civilização há um período que dura aproximadamente 390 anos, no qual ela é controlada por um forte regime militar e imperial, após o qual a civilização cai. A ONA afirma que a humanidade viveu cinco desses Aeons, cada um com uma civilização associada: a Primal, a Hiperbórea, a Suméria, a Helênica e a Ocidental. Tanto Goodrick-Clarke quanto Senholt afirmaram que este sistema de Aeons é inspirado nas obras de Arnold J. Toynbee, com Senholt sugerindo que também pode ter sido influenciado pelas ideias de Crowley sobre Thelêmicos Aeons. No entanto, a ONA afirmou que seu conceito “não tem nada a ver com Crowley”, mas é baseado no trabalho de Toynbee e Spengler.

A ONA afirma que a atual civilização ocidental tem um ethos faustiano e passou recentemente por seu Tempo de Perturbações, com seu estágio final, um “Imperium” de governança militarista, que deve começar em algum momento de 1990-2011 e durar até 2390. será seguido por um período de caos a partir do qual será estabelecido um sexto Aeon, o Aeon do Fogo, que será representado pela civilização galáctica na qual uma sociedade ariana colonizará a galáxia Via Láctea. No entanto, a Ordem sustenta que, ao contrário das civilizações Aeônicas anteriores, a civilização ocidental foi infectada com a distorção “Magia / Nazareno”, que eles associam à religião judaico-cristã. Os escritos do grupo afirmam que enquanto a civilização ocidental já foi “uma entidade pioneira, imbuída de valores elitistas e exaltando o caminho do guerreiro”, sob o impacto do ethos mago/nazareno tornou-se “essencialmente neurótica, introspectiva e obcecada “, abraçando o humanismo, o capitalismo, o comunismo, bem como “a farsa da democracia” e “o dogma da igualdade racial”. Eles acreditam que essas forças magos/nazarenos representam uma tendência contra-evolucionária que ameaça impedir o surgimento do Império Ocidental e, portanto, a evolução da humanidade, opinando que esse inimigo cósmico deve ser superado pela força da vontade. Tanto Goodrick-Clarke quanto Sieg observam que essas ideias sobre a “alma mágica” e a “distorção cultural” trazida pelos judeus foram derivadas das obras de Oswald Spengler e Francis Parker Yockey.

A ONA elogia a Alemanha nazista como “uma expressão prática do espírito satânico… uma explosão de luz luciferiana – de entusiasmo e poder – em um mundo nazareno, pacificado e chato”. Abraçando a negação do Holocausto, afirma que o Holocausto foi um mito que foi construído pelo estabelecimento mago/nazareno para denegrir a administração nazista após a Segunda Guerra Mundial e apagar suas conquistas da “psique do Ocidente”. O grupo acredita que uma revolução neonazista é necessária para derrubar o domínio mago-nazareno da sociedade ocidental e estabelecer o Império, permitindo que a humanidade entre na civilização galáctica do futuro. Assim, referências positivas ao nazismo e neonazismo podem ser encontradas no material escrito do grupo, e evoca o líder nazista Adolf Hitler como uma força positiva em seu texto para a realização de uma Missa Negra, também conhecida como A Missa da Heresia. No entanto, alguns textos da ONA enfatizam que os membros devem abraçar o neonazismo e o racismo não por uma crença genuína na ideologia nazista, mas como parte de uma “estratégia sinistra” para avançar a evolução Aeônica. Uma versão da Missa Negra produzida por um grupo australiano da ONA, The Temple of THEM, substitui elogios a Hitler por elogios ao militante islâmico Osama bin Laden, enquanto os escritos de Chloe Ortega e Kayla DiGiovanni, principais publicitários do White Star Acception, expressam o que Sieg denominou uma plataforma “anarquista de esquerda” que carecia da condenação do sionismo e do endosso do racismo ariano que é encontrado nos escritos de Long. A Ordem é, portanto, muito mais abertamente politicamente extrema em seus objetivos do que outras organizações satânicas e do Caminho da Mão Esquerda, buscando se infiltrar e desestabilizar a sociedade moderna através de meios mágicos e práticos.

Iniciação e o Caminho Sétuplo:

A ONA encoraja seus membros a adotar “papéis de insight” em grupos anarquistas, neonazistas e islâmicos para perturbar a sociedade ocidental moderna.

O sistema central da ONA é conhecido como o “O Caminho Sétuplo” ou a “Hebdomadria”, e é descrito em um dos textos principais da Ordem, Naos. O sistema sétuplo é refletido na cosmologia simbólica do grupo, a “Árvore de Wyrd”, na qual sete corpos celestes – a Lua, Vênus, Mercúrio, Sol, Marte, Júpiter e Saturno – estão localizados. O termo wyrd foi adotado do inglês antigo, onde se referia ao destino ou destino. Monette identificou isso como um “sistema hermético”, destacando que o uso de sete corpos planetários havia sido influenciado pelos textos árabes medievais Ghāyat al-Ḥakīm (conhecido também como o grimório Picatrix) e o Shams I-Maarif. O Caminho Sétuplo também se reflete no sistema iniciático do grupo, que possui sete graus pelos quais o membro pode progredir gradualmente. São eles: (1) Neófito, (2) Iniciado, (3) Adepto Externo, (4) Adepto Interno, (5) Mestre/Mestra, (6) Grão-Mestre/Mousa e (7) Imortal. O grupo revelou que muito poucos de seus membros ascendem ao quinto e sexto graus, e em um artigo de 1989 a ONA afirmou que naquele momento havia apenas quatro indivíduos que haviam alcançado o estágio de Mestre.

A ONA não inicia membros no grupo em si, mas espera que um indivíduo inicie a si mesmo. Exige que os iniciados estejam em boas condições físicas e recomenda um regime de treinamento para os futuros membros seguirem. Espera-se que os recém-chegados assumam um parceiro mágico do sexo oposto, ou do mesmo sexo, se forem lésbicas ou gays. A partir daí, o praticante deve enfrentar desafios pessoais e cada vez mais difíceis para transitar pelos diferentes graus. A maioria das provações que permitem ao iniciado avançar para a próxima etapa são reveladas publicamente pela Ordem em seu material introdutório, pois acredita-se que o verdadeiro elemento iniciático está na própria experiência e só pode ser alcançada através da sua realização. Por exemplo, parte do ritual para se tornar um Adepto Externo envolve uma provação na qual o membro em potencial deve encontrar um lugar solitário e ficar ali, quieto, por uma noite inteira sem se mexer ou dormir. O processo iniciático para o papel de Adepto Interno implica que o praticante se retire da sociedade humana por três meses, de um equinócio a um solstício, ou (mais geralmente) por seis meses, período durante o qual deve viver em estado selvagem sem conveniências modernas ou contato. com a civilização. A próxima etapa – o Ritual do Abismo – envolve o candidato vivendo sozinho em uma caverna escura e isolada por um mês lunar. De acordo com Jeffrey Kaplan, um especialista acadêmico da extrema direita, essas tarefas iniciáticas física e mentalmente desafiadoras refletem “a concepção da ONA de si mesma como uma organização de vanguarda composta por um pequeno círculo de elites nietzschianas”.

Dentro do sistema iniciático da ONA, há uma ênfase na adoção de “papéis de discernimento” pelos praticantes em que trabalham disfarçados em um grupo politicamente extremista por um período de seis a dezoito meses, ganhando experiência em algo diferente de sua vida normal. Entre as tendências ideológicas que a ONA sugere que seus membros adotem “papéis de insight” estão o anarquismo, o neonazismo e o islamismo, afirmando que, além dos benefícios pessoais de tal envolvimento, a participação nesses grupos tem o benefício de minar o poder mágico. sistema sócio-político nazareno do Ocidente e, assim, ajudando a trazer a instabilidade da qual uma nova ordem, o Imperium, pode emergir. No entanto, Monette observou uma mudança potencial nas funções de insight recomendadas pelo grupo ao longo das décadas; ele destacou que, enquanto a ONA recomendava atividades criminosas ou militares durante os anos 1980 e início dos anos 1990, no final dos anos 1990 e 2000 eles estavam recomendando o monaquismo budista como um papel de insight para os praticantes adotarem. Através da prática de “papéis de insight”, a ordem defende a transgressão contínua de normas, papéis e zonas de conforto estabelecidos no desenvolvimento do iniciado … , Essa aplicação extrema de ideias amplifica ainda mais a ambiguidade das práticas satânicas e do Caminho da Mão Esquerda de antinomianismo, tornando quase impossível penetrar nas camadas de subversão, jogo e contra-dicotomia inerentes à dialética sinistra.” Senholt sugeriu que o envolvimento de Myatt com o neonazismo e o islamismo representam esses “papéis de insight” em sua própria vida.

O Reino Acausal, a Mágicka e os Deuses das Trevas:

A ONA acredita que os humanos vivem dentro do reino causal, que obedece às leis de causa e efeito. No entanto, eles também acreditam em um reino acausal, no qual as leis da física não se aplicam, promovendo ainda mais a ideia de que energias numinosas do reino acausal podem ser atraídas para o causal, permitindo o desempenho da magia. Acreditando na existência de magia – que o grupo soletra “mágicka” seguindo o exemplo da obra de Elias Ashmole de 1652, o Theatrum Chemicum Britannicum – a ONA distingue entre mágicka externa, interna e aeônica. A magia externa em si é dividida em duas categorias: mágicka cerimonial, que é realizada por mais de duas pessoas para atingir um objetivo específico, e mágicka hermética, que é realizada solitária ou em casal e que geralmente é de natureza sexual. A mágicka interna é projetada para produzir um estado alterado de consciência no participante, a fim de resultar em um processo de “individuação” que confere um bem-estar. A forma mais avançada de mágicka no sistema ONA é a mágicka aeônica, cuja prática é restrita àqueles que já são percebidos como tendo dominado a mágicka externa e interna e alcançado o grau de mestre. O propósito da mágicka aeônica é influenciar um grande número de pessoas por um longo período de tempo, afetando assim o desenvolvimento de eras futuras. Em particular, é empregado com a intenção de perturbar o atual sistema sociopolítico do mundo ocidental, que a ONA acredita ter sido corrompido pela religião judaico-cristã.

A ONA utiliza dois métodos em seu desempenho de mágicka aeônica. A primeira envolve ritos e cânticos com a intenção de abrir um portal – conhecido como “nexion” – para o “reino acausal” a fim de manifestar energias no “reino causal” que influenciarão o aeon existente na direção desejada pelo praticante. O segundo método envolve jogar uma forma avançada de um jogo de tabuleiro conhecido como Star Game; o jogo foi idealizado pelo grupo, com as peças do jogo representando diferentes eras. O grupo acredita que quando um iniciado joga o jogo, ele pode se tornar um “nexion vivo” e, portanto, um canal para que as energias acausais entrem no reino causal e efetuem a mudança aeônica. Uma forma avançada do jogo é usada como parte do treinamento para o grau de Adepto Interno. De acordo com Myatt, ele inventou o jogo em 1975.

A Ordem promove a ideia de que “Deuses das Trevas” existem dentro do reino acausal, embora seja aceito que alguns membros os interpretem não como entidades reais, mas como facetas do subconsciente humano. Essas entidades são percebidas como perigosas, com a ONA aconselhando cautela ao interagir com elas. Entre os Deuses das Trevas cujas identidades foram discutidas no material publicamente disponível da Ordem estão uma deusa chamada Baphomet que é retratada como uma mulher madura carregando uma cabeça decepada, com a ONA afirmando que o nome é de origem grega antiga. Além disso, existem entidades cujos nomes, segundo Monette, são emprestados ou influenciados por figuras de fontes clássicas e astronômicas, como Kthunae, Nemicu e Atazoth.

Outra dessas figuras acausais é denominada Vindex, após a palavra latina para “vingador”. A ONA acredita que Vindex acabará encarnando como um humano – embora o gênero e a etnia desse indivíduo sejam desconhecidos – através da “presença” bem-sucedida de energias acausais dentro do reino causal, e que eles atuarão como uma figura messiânica ao derrubar o Mago forças e levando a ONA à proeminência no estabelecimento de uma nova sociedade. Sieg fez comparações entre essa crença em Vindex e as ideias de Savitri Devi, o proeminente hitlerista esotérico, sobre a chegada de Kalki, um avatar do deus hindu Vishnu, à Terra. A ONA também propaga a ideia de que é possível ao praticante garantir uma vida após a morte no reino acausal através de suas atividades espirituais. É por esta razão que o estágio final do Caminho Sétuplo é conhecido como o “Imortal”, constituindo aqueles iniciados que conseguiram avançar para o estágio de habitação no reino acausal.

Sacrifício Humano:

Os escritos da ONA toleram e encorajam o sacrifício humano, referindo-se às suas vítimas como opfers. A ONA descreve suas diretrizes para o sacrifício humano em vários documentos: “A Gift for the Prince – A Guide to Human Sacrifice”, “Culling – A Guide to Sacrifice II”, “Victims – A Sinister Exposé” e ” Guidelines for the Testing of Opfers”. De acordo com as crenças da ONA, o assassino deve permitir que sua vítima se “auto-selecione”; isso é conseguido testando a vítima para ver se ela expõe falhas de caráter percebidas. Se este for o caso, acredita-se que a vítima tenha demonstrado que é digna de morte, e o sacrifício pode começar. Aqueles considerados ideais para o sacrifício pelo grupo incluem indivíduos percebidos como sendo de baixo caráter, membros do que eles consideram “grupos falso-satânicos” como a Igreja de Satã e o Templo de Set, bem como “nazarenos zelosos e interferentes” e jornalistas , empresários e ativistas políticos que atrapalham as operações do grupo. A ONA explica que, devido à necessidade dessa “autoseleção”, as crianças nunca devem ser vítimas de sacrifícios. Da mesma forma, a ONA “despreza o sacrifício de animais, sustentando que é muito melhor sacrificar mundanos adequados, dada a abundância de escórias humanas”.

O sacrifício é então realizado através de meios físicos ou mágicos, quando acredita-se que o assassino absorva o poder do corpo e do espírito da vítima, entrando assim em um novo nível de consciência “sinistra”. Além de fortalecer o caráter do assassino ao aumentar sua conexão com as forças acausais de morte e destruição, tais sacrifícios também são vistos como de maior benefício pela ONA, pois retiram da sociedade indivíduos que o grupo considera seres humanos inúteis. Monette observou que nenhuma célula nexion da ONA admitiu publicamente realizar um sacrifício de maneira ritual, mas que os membros se juntaram à polícia e aos grupos militares para se envolver em violência legal e assassinato.

A ONA acredita que existem precedentes históricos para sua prática de sacrifício humano, expressando a crença em uma tradição pré-histórica na qual os seres humanos foram sacrificados a uma deusa chamada Baphomet no equinócio da primavera e à estrela Arcturus no outono. No entanto, a defesa do sacrifício humano pela ONA atraiu fortes críticas de outros grupos satanistas como o Templo de Set, que o consideram prejudicial às suas próprias tentativas de tornar o satanismo mais socialmente aceitável dentro das nações ocidentais.

O Termo “Nove Ângulos”:

Embora os estudiosos ocultistas atribuam o conceito de Nove Ângulos à Igreja de Satã, em seus ensaios e outros escritos a ONA oferece explicações diferentes quanto ao significado do termo “Nove Ângulos”. Uma explicação é que se trata dos sete planetas da cosmologia do grupo (os sete ângulos), somados ao sistema como um todo (o oitavo ângulo), e os próprios místicos (o nono ângulo). Uma segunda explicação é que se refere a sete estágios alquímicos “normais”, com dois processos adicionais. Uma terceira é que se refere às nove emanações do divino, um conceito originalmente encontrado em textos medievais produzidos dentro da tradição mística islâmica do sufismo. Monette sugeriu ainda que era uma referência a uma tradição indiana clássica que dividia o sistema solar em nove planetas.

De acordo com o O9A, eles usam o termo “nove ângulos” em referência não apenas às nove emanações e transformações das três substâncias alquímicas básicas (mercúrio, enxofre, sal), como ocorre em seu uso oculto do Jogo Estelar, mas também em referência à sua jornada hermética com suas sete esferas e seus dois aspectos acausais.

A ORGANIZAÇÃO DA ONA:

A ONA é um coletivo diversificado e mundial de diversos grupos, tribos e indivíduos, que compartilham e buscam interesses, objetivos e estilos de vida sinistros, subversivos semelhantes, e que cooperam quando necessário para seu benefício mútuo. e na busca de seus propósitos e objetivos comuns… O critério para pertencer à ONA é essa busca de interesses, objetivos e estilos de vida semelhantes sinistros, subversivos, juntamente com o desejo de cooperar quando for benéfico para eles e a prossecução dos nossos objectivos comuns. Não há, portanto, nenhum membro formal da ONA, e nenhum Antigo-Aeon, mundano, hierarquia ou mesmo quaisquer regras.

— The ONA, 2010.

A ONA é uma organização secreta. Falta qualquer administração central, operando como uma rede de praticantes satânicos aliados, que chama de “coletivo”. Assim, Monette afirmou que a Ordem “não é uma loja ou templo estruturado, mas sim um movimento, uma subcultura ou talvez uma metacultura que seus adeptos escolhem incorporar ou se identificar”. Monette também sugeriu que essa ausência de uma estrutura centralizada ajudaria a sobrevivência da Ordem, porque seu destino não seria investido apenas em um líder em particular. A ONA não gosta do termo “membro”, preferindo a palavra “associado”. Em 2012, Long afirmou que os afiliados à Ordem se enquadravam em seis categorias diferentes: associados de nexions tradicionais, Niners, Balobians, membros de gangues e tribos, seguidores da tradição Rounwytha e aqueles envolvidos com grupos inspirados na ONA.

O grupo consiste em grande parte de células autônomas conhecidas como “nexions”. A célula original, baseada em Shropshire, é conhecida como “Nexion Zero”, com a maioria dos grupos subsequentes estabelecidos na Grã-Bretanha, Irlanda e Alemanha, no entanto, nexions e outros grupos associados também foram estabelecidos nos Estados Unidos, Austrália, Brasil, Egito, Itália, Espanha, Portugal, Polônia, Sérvia, Rússia e África do Sul. A ala grega da ONA atende pelo nome de Mirós tou Zeús. Alguns desses grupos, como o Tempel ov Blood, com sede nos EUA, descrevem-se como distintos da ONA, embora ambos tenham sido muito influenciados por ela e tenham conexões com ela.

Na terminologia da ONA, os termos Drecc e Niner referem-se à cultura popular ou baseada em gangues ou indivíduos que apoiam os objetivos da Ordem por meios práticos (incluindo criminosos) em vez de esotéricos. Um desses grupos é o White Star Acceptation, que afirma ter perpetrado estupros, agressões e roubos para aumentar o poder do grupo; Sieg observou que a realidade dessas ações não foi verificada. Um balobiano é um artista ou músico que contribui para o grupo através de sua produção de belas artes. A Rounwytha é uma tradição de místicos populares ou folclóricos considerados como exibindo poderes psíquicos talentosos refletindo sua encarnação do “arquétipo feminino sinistro”. Embora uma minoria seja de homens, a maioria das Rounwytha é do sexo feminino, e muitas vezes vivem reclusas como parte de grupos pequenos e muitas vezes lésbicos.

Representante Externo:

Vários comentaristas acadêmicos destacaram a existência de uma posição dentro da ONA chamada de “Representante Externo”, que atua como porta-voz oficial do grupo para o mundo exterior. O primeiro a afirmar publicamente ser o “Representante Externo” do grupo foi Richard Moult, um artista e compositor de Shropshire que usou o pseudônimo de “Christos Beest”. Moult foi seguido como “Representante Externo” por “Vilnius Thornian”, que ocupou o cargo de 1996 a 2002, e que foi identificado por membros da ONA como o ideólogo do Caminho da Mão Esquerda Michael Ford. Posteriormente, no blog do White Star Acception, foi feita a alegação de que o membro do grupo Chloe Ortega era o representante externo da ONA, também este blog mais tarde foi extinto em 2013. Em 2013, uma americana Rounwytha usando o nome de “Jall” apareceu alegando ser o “Representante Externo” da Ordem.

No entanto, de acordo com Long, o “representante externo” era “um exemplo interessante e instrutivo do Labyrinthos Mythologicus da O9A, … um estratagema”, e que foi projetado para “intrigar, selecionar, testar, confundir, irritar, enganar”. Long escreveu que “o estratagema era para um candidato ou um iniciado divulgar abertamente o material da ONA, e possivelmente dar entrevistas sobre a O9A para a mídia, sob o pretexto de ter recebido algum tipo de ‘autoridade’ para fazê-lo, embora tal autoridade – e a hierarquia necessária para dotá-la – era de fato uma contradição de nossa razão de ser; um fato que naturalmente esperávamos que aqueles incipientes de nossa espécie soubessem ou sentissem”. De acordo com Senholt, a ONA “não concede títulos”, com Monette escrevendo que “não há autoridade central dentro da ONA”.

Dentro da ONA havia um grupo de iniciados de longa data conhecidos como a “Velha Guarda” ou “Inner ONA”, cuja experiência com a tradição os levou a se tornarem influentes sobre os membros mais novos que frequentemente procuravam seus conselhos. Os membros desta Velha Guarda incluíam Christos Beest, Sinister Moon, Dark Logos e Pointy Hat, embora em 2011 tenham declarado que se retirariam da esfera pública.

Filiação:

Uma edição da revista Fenrir original da ONA.

Embora a ONA tenha declarado que não é uma organização oculta no sentido convencional, mas uma filosofia esotérica, vários acadêmicos escreveram sobre a associação à ONA. Em uma visão geral de 1995 dos grupos satanistas britânicos, Harvey sugeriu que a ONA consistia em menos de dez membros, “e talvez menos de cinco”. Em 1998, Jeffrey Kaplan e Leonard Weinberg afirmaram que os membros da ONA eram “infinitamente pequenos”, com o grupo atuando principalmente como um “ministério de correspondência”. Quanto à questão da adesão, Anton Long, em carta a Aquino datada de outubro de 1990, escreveu que “uma vez que as técnicas e a essência da ONA estão mais amplamente disponíveis, a adesão como tal é irrelevante, pois tudo está disponível e acessível … com o indivíduo assumindo a responsabilidade por seu próprio desenvolvimento, suas próprias experiências”.

Em 2013, Senholt observou que, como o grupo não possui membros oficiais, é “difícil, se não impossível, estimar o número de membros da ONA”. Senholt sugeriu que uma “estimativa aproximada” do “número total” de indivíduos envolvidos com a ONA em alguma capacidade de 1980 a 2009 era de “alguns milhares”; ele havia chegado a essa conclusão a partir de um exame do número de revistas e periódicos sobre o assunto que circulavam e do número de membros de grupos de discussão on-line dedicados à ONA. Ao mesmo tempo, ele achava que o número de “adeptos de longa data é muito menor”. Também em 2013, Monette estimou que havia mais de dois mil associados da ONA, amplamente definidos. Ele acreditava que o equilíbrio de gênero era aproximadamente igual, embora com variação regional e diferenças entre os nexos particulares. Introvigne observou que se a estimativa de Monette estivesse correta, isso significaria que a ONA é “facilmente… a maior organização satanista do mundo”.

De acordo com uma pesquisa em 2015, a ONA tem mais apoiadores do sexo feminino do que a Igreja de Satã ou o Templo de Set; mais mulheres com filhos; mais torcedores mais velhos; mais adeptos mais bem estabelecidos em termos socioeconômicos; e mais que politicamente estão mais à direita.

TERRORISMO E CRIMES ATRIBUÍDOS À ONA:

De acordo com um relatório do grupo de direitos civis Southern Poverty Law Center, a ONA “detém uma posição importante no nicho, nexo internacional de grupos neonazistas ocultos, esotéricos e/ou satânicos”. Vários jornais relataram que a O9A está ligada a uma série de figuras de alto perfil da extrema direita e que o grupo é afiliado e compartilha membros com grupos terroristas neonazistas, como a Divisão Atomwaffen e a proscrita Ação Nacional, Divisão Sonnenkrieg e Resistência Nórdica. Movimento.

Em 23 de setembro de 2019, o especialista Jarrett William Smith, 24, de Fort Riley, Kansas, foi acusado de distribuir informações relacionadas a explosivos e armas de destruição em massa. O procurador-adjunto dos EUA, Anthony Mattivi, alegou no tribunal federal que Smith distribuiu informações sobre explosivos e estava planejando assassinar agentes federais com três outras pessoas “para a glória de sua religião satanista”. Em 10 de fevereiro de 2020, Smith se declarou culpado de duas acusações de distribuição de informações relacionadas a explosivos, dispositivos destrutivos e armas de destruição em massa e foi condenado a 30 meses de prisão federal.

Um paraquedista norte-americano chamado Ethan Melzer dos Sky Soldiers da 173ª Brigada Aerotransportada, que foi designado para o 1º Batalhão, 503º Regimento de Infantaria, em Vicenza, Itália, em 2019 até 2020, planejou uma emboscada em sua unidade, “para resultar na morte de tantos de seus companheiros de serviço quanto possível.” Ele foi acusado em junho de 2020 de conspirar e tentar assassinar membros do serviço militar e fornecer e tentar fornecer apoio material a terroristas. O paraquedista foi acusado de vazar informações classificadas (incluindo a localização da unidade) para seus co-conspiradores no nexion RapeWaffen e na Ordem dos Nove Ângulos (O9A). Ele enfrenta uma sentença máxima de prisão perpétua.

Depois que Melzer foi exposto, vários outros membros ativos das forças armadas dos EUA também foram descobertos como membros da O9A. Corwyn Storm Carver foi encontrado para ser outro membro em comunicação com o grupo e na posse de parafernália e literatura O9A enquanto estacionado no Kuwait. Shandon Simpson, membro da Guarda Nacional do Exército de Ohio enviado para reprimir os distúrbios de George Floyd em Washington, D.C. defendeu abertamente as opiniões neonazistas e também foi encontrado no Rapewaffen. Simpson disse que planejava atirar nos manifestantes como parte da “guerra santa racial” e foi interceptado pelo FBI, mas só depois de já ter sido destacado.

Em janeiro de 2020, o seguidor da O9A, Luke Austin Lane e dois cúmplices foram presos por supostamente estocar armas e conspirar para matar um casal antifascista e seus filhos pequenos. Em preparação, Lane, juntamente com dezenas de outras pessoas, se envolveu em treinamento paramilitar e sacrificou um carneiro, bebeu seu sangue e consumiu drogas psicodélicas em um ritual oculto em sua propriedade.

O grupo britânico de defesa política Hope not Hate informou em março de 2020 que havia seis casos de neonazistas ligados à O9A sendo processados ​​por crimes terroristas apenas durante o ano. Um artigo de 2019 no jornal The Times afirmou que “um repórter do Times se disfarçou na plataforma de jogos Discord para se infiltrar em um grupo neonazista satanista chamado The Order of Nine Angles (O9A). O grupo encorajou abertamente atos de terrorismo e celebrou o que foi descrito como hitlerismo esotérico.” Em março de 2020, Hope not Hate iniciou uma campanha para banir a Ordem dos Nove, proscrever, como grupo terrorista, uma campanha apoiada por vários membros do Parlamento britânico, incluindo Yvette Cooper, do Partido Trabalhista, presidente do Comitê Seleto de Assuntos Internos.

Em 18 de setembro de 2020, a polícia de Toronto prendeu Guilherme “William” Von Neutegem, de 34 anos, e o acusou do assassinato de Mohamed-Aslim Zafis. Zafis era o zelador de uma mesquita local que foi encontrado morto com a garganta cortada. O Serviço de Polícia de Toronto disse que o assassinato está possivelmente ligado ao assassinato a facadas de Rampreet Singh alguns dias antes, a uma curta distância do local onde ocorreu o assassinato de Zafis. Von Neutegem é membro da O9A e contas de mídia social estabelecidas como pertencentes a ele promovem o grupo e incluíam gravações de Von Neutegem realizando cânticos satânicos. Em sua casa havia também um altar com o símbolo da O9A adornando um monólito. De acordo com Evan Balgord, da Canadian Anti-Hate Network, eles estão cientes de mais membros da O9A no Canadá e de sua organização afiliada Northern Order. A CAHN relatou anteriormente sobre a Ordem do Norte quando um membro das Forças Armadas Canadenses foi pego vendendo armas de fogo e explosivos para outros neonazistas.

Em 11 de dezembro de 2020, a BitChute, com sede no Reino Unido, removeu todo o material da O9A por violar a política antiterror do site, citando as “conexões próximas da O9A com outras organizações proscritas”. No mesmo mês, o Yahoo News adquiriu um relatório do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, o FBI e o Departamento de Segurança Interna circulou para as agências de inteligência dos EUA, avaliando que o O9A representa uma ameaça violenta e que desempenha um papel influente entre os grupos terroristas de direita. . O relatório, no entanto, acrescentou que a O9A foi rejeitada por certos grupos por incitar seus membros a cometer estupro e pedofilia. Em janeiro de 2021, após a tomada do Capitólio dos Estados Unidos em 2021, a discussão sobre a proibição de grupos de extrema direita foi renovada pelo ministro da Segurança Pública Bill Blair, e a O9A foi apontada por especialistas como um dos grupos mais perigosos do Canadá, cuja proibição é uma prioridade. Em abril de 2021, a deputada democrata Elissa Slotkin pressionou o governo de Joe Biden a designar a O9A como uma Organização Terrorista Estrangeira (FTO) em uma carta ao secretário de Estado Antony Blinken. A Divisão Sonnenkrieg foi oficialmente proscrita na Austrália em 22 de março de 2021, com sua adesão à “violenta ideologia supremacista branca inspirada no Partido Nazista e no movimento satânico ‘Ordem dos Nove Ângulos’” citado como o motivo.

As Forças Armadas do Canadá lançaram uma investigação interna em outubro de 2020, depois que um soldado das forças especiais do CJIRU foi identificado como membro da Ordem do Norte e da Ordem dos Nove Ângulos. De acordo com o SPLC, o homem está entre “algumas pessoas bem conhecidas e de alto nível nessas organizações” e um conhecido de James Mason e do ex-mestre cabo Patrik Mathews, que foi exposto anteriormente como recrutador da Ordem e Base do Norte. no Canadá. Em 1º de fevereiro de 2021, um homem da Cornualha disse ter sido o líder da filial britânica da Divisão Feuerkrieg se declarou culpado de 12 crimes de terrorismo. A polícia já havia invadido sua casa em 2019 por armas de fogo e encontrou instruções de construção de bombas e O9A literatura.

Danyal Hussein, que matou duas irmãs, Bibaa Henry e Nicole Smallman, em um parque de Wembley, em Londres, estava “intimamente associado” à Ordem dos Nove Ângulos e participou do fórum da Internet O9A. Ele matou as duas mulheres para cumprir um “pacto demoníaco”. Em resposta, a deputada Stephanie Peacock pediu ao Ministro do Interior que proíba a O9A. Na Rússia, quatro membros da Ordem dos Nove Ângulos foram presos depois que dois confessaram assassinatos rituais envolvendo canibalismo na Carélia e em São Petersburgo. Dois deles também são acusados ​​de tráfico de drogas em larga escala, pois uma grande quantidade de entorpecentes foi encontrada em sua casa.

Em 12 de agosto de 2021, Ben John foi condenado por crimes terroristas após uma investigação de 11 meses pelo Comando Antiterrorista. A declaração da polícia de Lincolnshire afirmou que “John tinha uma riqueza de material supremacista branco e anti-semita, bem como material relacionado à organização satanista chamada Ordem dos Nove Ângulos (ONA), que está cada vez mais sob o foco da aplicação da lei. ” Em outubro de 2021, o Facebook e o Instagram baniram o membro da O9A, E.A Koetting, cuja página tinha 128.000 assinantes por incitar assassinato. O Serviço de Inteligência de Segurança finlandês também destacou a O9A como fonte de radicalização e preocupação no país.

Abuso Sexual:

Alegações foram feitas por organizações antifascistas, vários políticos britânicos e a mídia de que o O9A tolera e incentiva o abuso sexual, e isso foi dado como uma das razões pelas quais o O9A deveria ser proscrito pelo governo britânico. Muitos membros da O9A veem abertamente o estupro como uma forma eficaz de minar a sociedade ao transgredir suas normas. A White Star Acception comete estupros por sua própria admissão e textos da O9A como “The Drectian Way”, “Iron Gates”, “Bluebird” e “The Rape Anthology” recomendam e elogiam o estupro e a pedofilia, até sugerindo que o estupro é necessário para “ascensão do Ubermensch”. Segundo a BBC News, “as autoridades estão preocupadas com o número de pedófilos associados à ONA”. Crianças de pelo menos 13 anos foram preparadas pelo grupo.

Ryan Fleming, da O9A nexion Drakon Covenant, com sede em Yorkshire, está atualmente na prisão pelo estupro de uma menina de 14 anos, depois de já ter sido condenado por agressão sexual e tortura de um menor. O membro da O9A, Andrew Dymock, que foi condenado por 15 crimes terroristas, também foi interrogado pela polícia sobre a agressão sexual de uma adolescente que tinha símbolos nazistas e ocultistas esculpidos em seu corpo. Em julho de 2020, outro membro da O9A, Jacek Tchorzewski, foi condenado pelo Harrow Crown Court por crimes de terrorismo e por possuir mais de 500 fotos e vídeos que retratavam crianças de seis anos sendo estupradas e necrofilia. Tchorzewski também possuía nazi e “literatura satanista retratando estupro e pedofilia”. O co-réu de Tchorzewski, Michal Szewczuk, “administrou um blog que incentivava o estupro e a tortura de oponentes, incluindo crianças pequenas” e também foi condenado a quatro anos de prisão por crimes terroristas. Ethan Melzer também pertencia a uma sala de bate-papo criptografada da O9A, onde os membros encorajavam uns aos outros a cometer violência sexual e compartilhavam vídeos desses estupros. Em novembro de 2019, um adolescente de Durham que, de acordo com a BBC News, adere ao “nazismo oculto” e “influenciado pela ONA, procurou se alterar de acordo com sua literatura” foi considerado culpado de preparar um ataque terrorista. Além dos crimes terroristas, ele é acusado de agredir sexualmente uma menina de 12 anos. Ele acabou sendo condenado por cinco agressões sexuais, além dos crimes de terrorismo.

Em março de 2020, um proeminente membro da O9A e ex-líder da Divisão Atomwaffen John Cameron Denton foi acusado pelos promotores de possuir e compartilhar pornografia infantil de abuso sexual de uma jovem menor de idade por seu grupo, além de fazer 134 ameaças de morte e bomba contra repórteres. e comunidades minoritárias. Em 2 de setembro de 2020, outro membro Harry Vaughan se declarou culpado de 14 crimes de terrorismo e posse de pornografia infantil. Uma busca policial em sua casa descobriu vídeos de estupros brutais de crianças, documentos mostrando como construir bombas, detonadores, armas de fogo e livros “satânicos, neonazistas” da ONA aconselhando estupro e assassinato. Além disso, ele foi descrito no Old Bailey como um entusiasta de armas de fogo e vivendo com suas duas irmãs no momento da prisão. Cinco finlandeses também foram presos por abusar sexualmente de várias crianças, segundo a polícia as atividades envolviam “nazismo e satanismo” e consumo de metanfetamina.

Em Montenegro:

O Astral Bone Gnawers Lodge (comumente conhecido como ABG Lodge) é uma afiliada da ONA (“nexion”) que opera nos Balcãs. Na comunidade virtual da ONA o ABG Lodge tem status de nexion de destaque, conhecido por seu projeto musical Dark Imperivm, bem como por seus ensaios polêmicos. Eles são um dos poucos nexions que fizeram e publicaram gravações de vários Cantos Sinistros da ONA.

A ABG Lodge está estruturada como uma sociedade secreta tradicional, liderada por uma matriarca conhecida como ‘Blood Mistress’. ABG Lodge relata que sua fundadora é ‘Zorya Aeterna’, que também é a atual força motriz por trás da organização. Os membros da Loja ABG afirmam que a loja também se baseia nas tradições herméticas e iniciaram sua própria igreja chamada Igreja Gnóstica de Cristo-Lúcifer.

A Ramificação The Legion Ave Satan:

Os Serviços de Segurança Federal da Rússia prenderam um grupo de satanistas em abril de 2020 em Krasnodar suspeitos de “chamadas públicas para realizar atividades extremistas”, incitação ao assassinato devido ao ódio religioso e racial e atividades criminosas contra mulheres. A polícia também apreendeu “material extremista” oculto durante as batidas. Eles pertenciam a um grupo chamado Legion Ave Satan, um capítulo da O9A, usando o Reichsadler nazista segurando um pentagrama e uma espada como seu símbolo. Em sua página VKontakte agora banida, eles reivindicaram nexions em todos os países da CEI, promoveram a O9A e se identificaram como seguidores do “satanismo tradicional” e da “fé pré-cristã”. Eles apareceram pela primeira vez na mídia russa em 2018, quando um adolescente incendiou uma igreja na República da Carélia. O adolescente expressou seu apoio à Legion Ave Satan no VKontakte e postou fotos usando uma máscara de caveira associada à Atomwaffen e à O9A. Ele foi enviado para tratamento psiquiátrico involuntário. O nexion local usava uma antiga granja de aves em Kondopoga para reuniões, e o grupo atraiu crianças para a prostituição de acordo com Moskovskij Komsomolets. Como é o caso em outros lugares, o grupo está conectado ao capítulo local da Atomwaffen. Quatro membros russos da Ordem dos Nove Ângulos foram presos por assassinatos rituais na Carélia e em São Petersburgo.

O LEGADO E A INFLUÊNCIA DA ONA:

A principal influência da ONA não está no grupo em si, mas no lançamento prolífico de material escrito. De acordo com Senholt, “a ONA produziu mais material sobre os aspectos práticos e teóricos da magia, bem como mais textos ideológicos sobre o satanismo e o Caminho da Mão Esquerda em geral, do que grupos maiores como a Igreja de Satã e o Templo of Set produziu em conjunto o que torna a ONA um importante ator na discussão teórica do que é e deve ser o Caminho da Mão Esquerda e o Satanismo de acordo com os praticantes”.

Esses escritos foram inicialmente distribuídos para outros grupos satanistas e neonazistas, embora com o desenvolvimento da Internet isso também tenha sido usado como meio para propagar seus escritos, com Monette afirmando que eles alcançaram “uma presença considerável no ciberespaço oculto”, e tornando-se assim “um dos grupos mais proeminentes do Caminho da Mão Esquerda em virtude de sua presença pública”. Muitos desses escritos foram então reproduzidos por outros grupos. Kaplan considerou a ONA como “uma importante fonte de ideologia/teologia satânica” para “a margem ocultista do nacional-socialismo”, ou seja, grupos neonazistas como a Ordem Negra. O grupo ganhou maior atenção após o crescimento do interesse público no impacto de Myatt em grupos terroristas durante a Guerra ao Terror nos anos 2000. O historiador do esoterismo Dave Evans afirmou que a ONA era “digna de uma tese de doutorado inteira”, enquanto Senholt afirmou que seria “potencialmente perigoso ignorar esses fanáticos, por mais limitados que sejam seus números”.

Na Música e na Literatura:

A influência da ONA estende-se a algumas bandas de black metal como Hvile I Kaos, que segundo uma reportagem da secção de música do LA Weekly, “atribuem o seu propósito e temas às filosofias da Ordem dos Nove Ângulos”, embora a partir de dezembro de 2018 o a banda não está mais envolvida com a ONA. A banda francesa Aosoth tem o nome de uma divindade O9A e tem influência lírica direta do O9A. O álbum Intra NAOS da banda italiana Altar of Perversion tem o nome do ensaio O9A NAOS: A Practical Guide to Modern Magick e mostra o próprio caminho dos membros da banda através do Numminous Way. Algumas músicas associadas ao O9A também foram controversas; The Quietus publicou uma série de artigos durante 2018 explorando as conexões entre a política de extrema direita, a música e a ONA. Filósofo inglês, contista de terror e “pai do aceleracionismo” Nick Land também promoveu o grupo em seus escritos.

Na série de romances de Jack Nightingale de Stephen Leather, uma satânica “Ordem dos Nove Ângulos” são os principais antagonistas. Da mesma forma, um grupo satânico fictício chamado “Ordem dos Nove Anjos” aparece no romance de 2013 de Conrad Jones, Child for the Devil. Em outro de seus romances, Black Angel, Jones incluiu uma página intitulada “Informações Adicionais” dando um aviso sobre a Ordem dos Nove Ângulos.

No primeiro episódio da história em quadrinhos Zenith a antagonista Greta Haas, uma ocultista nazista, realiza um ato demoníaco chamado “O Ritual dos Nove Ângulos”.

Nota:

A ONA usou o termo Satanismo Tradicional em seu Black Book of Satan (Livro Negro de Satã), publicado em 1984. Desde o estabelecimento da ONA, o termo “Satanismo Tradicional” também foi adotado por grupos satanistas teístas como a Brotherhood of Satan (Irmandade de Satã). Faxneld sugeriu que a adoção da palavra “tradicional” pela Ordem possivelmente refletiu uma “estratégia consciente para construir legitimidade”, remetendo à “sabedoria antiga arcana” de uma maneira deliberadamente distinta da maneira pela qual Anton LaVey procurou ganhar legitimidade para sua Igreja de Satã  apelando para a racionalidade, ciência e seu próprio carisma pessoal. Em outro lugar, Faxneld sugeriu que o uso do “satanismo tradicional” pela ONA para se diferenciar das formas dominantes de satanismo tinha comparações com a forma como aqueles que se descrevem como praticantes de “feitiçaria tradicional” o fazem para distinguir suas práticas mágico-religiosas da forma dominante de bruxaria moderna, Wicca. Segundo Anton Long, escrevendo no texto Selling Water By The River “O Satanismo Tradicional é um termo usado para descrever o caminho sinistro que durante séculos foi ensinado individualmente… A este caminho pertence o Sistema Setenário, o Canto Esotérico e o treinamento abrangente de noviços (incluindo o desenvolvimento do lado físico) e, mais importante, o sistema interno de magia (os Rituais de Grau etc.).”

Dados da ONA:

A ONA foi fundada em Shropshire, no Reino Unido. Ela tem estado em atividade dos anos 1960 até os dias de hoje. Ela possui grupos na Europa, Rússia, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Seus quartéis-generais estão localizados em: Shropshire (Reino Unido), Carolina do Sul (EUA), Carélia (Rússia), Colúmbia Britânica (Canadá) e Tampere (Finlândia).

À ONA são atribuídas as seguintes atividades criminais: Terrorismo de supremacia branca, abusos sexuais, abuso sexual infantil e prostituição infantil.

Os supostos aliados da ONA são: Atomwaffen Division, Black Order, Combat 18, National Action e Nordic Resistance Movement. A ONA tem como rivais a Igreja de Satã e o Templo de Set.

Os membros mais notáveis da ONA são: Jarrett Smith, Garron Helm, Jacek Tchorzewski, Andrew Dymock, Ethan Melzer, Nikola Poleksić e Mirna Nikčević.

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Order of Nine Angles blog

Fenrir. Journal of Satanism and the Sinister

O9A Archive. An Archive of the Order of Nine Angles

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-historia-e-as-polemicas-da-ordem-dos-nove-angulos/

A Menina da Capa Vermelha

Lendo um excelente texto sobre Satanismo aqui Morte Súbita me deparei com a seguinte parte:

——-

[…]Responda as seguintes afirmações com um “X”, caso você aceite e afirmação como verdadeira:

[ ] Chapeuzinho Vermelho era uma menina que usava uma capa vermelho porque era sua cor favorita.

[ ] O Lobo Mal Comeu a Vovozinha literalmente.

[ ] Chapeuzinho Vermelho andava tranquilamente por uma floresta quando se deparou com o Lobo-Mal.

[ ] O Caçador matou o Lobo Mal e tirou a vovozinha viva de dentro de sua barriga.

[ ] A Chapeuzinho Vermelho levava doces para sua vovozinha.

1º “Chapeuzinho Vermelho era uma menina que usava uma capa vermelha porque era sua cor favorita” – Não. Chapeuzinho Vermelho usava uma capa vermelha porque na época em que se passa a história o vermelho era a cor das prostitutas. Pode parecer satírico e pitoresco, mas a história original (antes das versões dos Irmãos Grimm) remonta ao século VII, onde o vermelho era a cor das prostitutas e meretrizes. Quando chapeuzinho vermelho saiu de casa para levar doces para a vovozinha, não era exatamente isso que ela supostamente iria fazer na casa da vovó.

2º “O Lobo Mal Comeu a Vovozinha literalmente”

– Não, o “lobo” é comumente associado na cultura antiga como sendo o símbolo dos “garanhões”, das pessoas que procuravam por sexo e por satisfazerem seus libidos, não raro, com prostitutas idosas.

3º “Chapeuzinho Vermelho andava tranquilamente por uma floresta quando se deparou com o Lobo-Mal”

– Provavelmente, Chapeuzinho Vermelho estava fazendo programa na floresta.quando apareceu um “Lobo Mal”.

4º “O Caçador matou o Lobo Mal e tirou a vovozinha viva de dentro de sua barriga.”

– “Caçador’ também é comumente referido na literatura antiga e medieval como pessoa valente, cumpridora de lei, oficial de justiça. há uma figura de linguagem na expressão pois, em verdade, o que pode estar explicito neste caso é de que um homem da lei “flagrou” o ato entre o “lobo” e a “vovozinha”.

5º “A Chapeuzinho Vermelho levava doces para sua vovozinha.”

– Doces são comumente associados a sexualidade.

– Fonte: Livro “Der Ursprung der Märchen”

Vocês jamais pensariam isto de uma história infantil não?

———–

Bem, a pergunta final ficou em minha cabeça, por isso decidi respoder a ela; dizer o que penso desta história infantil em especial.

Quando eu chego no final da descida eu me volto para o topo da rampa, onde eu paro e me volto e torno a  percorrer o mesmo trajeto até chegar ao fundo, onde finalmente o vejo de novo. HELTER SKELTER.

Os símbolos controlam os homens, os safados controlam os símbolos. Podemos tirar algumas conclusões interessantes disso. Vejamo-as.

É curioso que apesar dos Grimm Brothers terem se tornados famosos por serem os monteiros lobatos da câmara cascudo da Alemanha, a versão mais antiga registrada desta história em particular é francesa, pela pena de Charles Perrault. Perrault viveu entre 1628 e 1703, o dueto alemão surgiu mais de 80 anos depois da mort deste digno francês e acabaram reescrevendo algumas das histórias que a Ganso gigante lhe ditou, talvez seja por isso que que na metade do séc XX Hitler tenha rumado para a terra do queijo, para apagar todo e qualquer registro de Perrault e declarar então a alemanha a dona deste e de outros contos.

Agora tirando este fato sem importância é curioso notar que hoje chamamos tais relatos de histórias para crianças, mas na época elas não tinham nada disso, esses contos eram a versão antiga do Notícia Populares para analfabetos, já que eram passados oralmente, em sua maioria mostravam como o mundo poderia ser cão e ainda não haviam inventado os finais felizes, então eram relatos bem pesados e sujos.

Agora, se pudéssemos captar a essência de um pensamento e rastreá-lo em várias mentes, farejando o caminho que uma idéia tomou de mente para mente, e se nos desprendermos desta ilusão gosmenta de espaço e tempo, poderíamos ver que Perrault simplesmente transcreveu uma versão popular de vários contos que já circulavam, veja que por exemplo esta história já era conhecida, com variantes é claro, pelos camponeses franceses do século XIV assim como na itália onde o título do headliner grotesco era: “La finta nonna” ou a falsa avó. Em outros cantos latinos da europa ainda era conhecida uma versão similar chamada de “História da Avó”. Para aqueles que gostam do velho Balzac ainda temos um link com uma senhora de idade esperando visitas na cama.

Vamos fazer uma pausa lupina agora. Lobos, por algum motivo quase sempre foram associados com sexo, Roma foi fundada por dois gêmeos, Remo – A.k.a. desarmado e perigoso – e Rômulo – A.k.a. quem dá esse nome par auma criança? – que foram criados por uma…………………

Exato, quem respondeu prostituta ganha uma bala (bala de verdade não um narcótico).

Na época e na região prostitutas eram chamadas de Lobas e apesar de achar que aquela estátua famosa dos dois bebês sentados do lado de um loba que parece o logo de uma companhia de gás ficaria melhor se mudassem pra a estátua de uma dama da noite realizando um lap dance enquanto toma conta das crianças dá para entender porque é que com o tempo zoomorfizaram de vez a pobre mulher.

Agora voltemos para a França. Como Freud diria se você não está pensando em fazer sexo selvagem e descabelado com a sua mãe agora, deveria! Logo aquele bando de camponeses que existiam antes de se inventar a televisão a cabo e que não sabiam ler possivelmente passavam o dia pensando em fazer sexo, tentando fazer sexo ou mesmo fazendo sexo, o que deveria render boas histórias de vinganças, noitadas e cartas para o fórum da Ele&Ela. Mas na época havia outra coisa rolando na frança também naquela época e vamos falar dela assim que revirmos outro ponto interessante da história:

Nem todos os relatos nos falam de um destemido lobo mal, muitos deles falavam de outro personagem, não é mesmo meu amigo?

Sim!

É isso mesmo, falavam que a menina foi achacada por um Ogro, e outras vezes ainda, surpresa, por um ‘bzou’. Essas também eram figuras clássicas mas não eram associadas a garanhões sexuais como o Rambo na festa da Kitty, eram associados com ladrões e bandoleiros, mas isso claro se você acreditar nessas figuras míticas, nós sabemos que ladrões, bandoleiros e unicórnios não existem.

Para aqueles não familiarizados com o termo bzou, na França no século XVIII circulavam notícias de que:

“Uma Fera monstruosa semeia o pavor e o desespero na região, atacando e matando sem cessar, especialmente crianças, adolescentes e mulheres.”

A data disso foi 1762, bem depois de Perrault, mas ainda muito antes dos Irmãos Grimm, mais para frente toco neste assunto.

Resumidamente este dita fera fez como primeira vítima uma menina de catorze anos, Jeanne Foulet. Dentro de pouco tempo, mais adolescentes. Em seguida, uma mulher de trinta e seis anos, que cuidava do seu jardim, em frente a casa. A região onde isso aconteceu foi Gévaudan, o mesmo lugar onde Mark Dascascos filmou O Pacto dos Lobos, que por coincidência conta exatamente esta história, com a diferença do filme não ter tido medo de descrever como todos lutavam kung fu na época.

A Igreja, fazendo o seu papel declarou que a Fera era fruto da cólera divina, por pecados cometidos pelo povo: O pavor tomou conta de todos.

Apesar de todos de bom senso dizerem que aquilo era um lobo que matava pessoas os relatos de quem havia encontrado o bicho a descrevia como:

“Tem o porte de um vitelo de um ano os olhos grandes como ele; é baixo na parte da frente e as patas são providas de garras; a cabeça é grande, terminando em focinho alongado; as orelhas são menores do que as de um lobo e espetadas, como chifres; o peitoral é largo e recoberto de pêlos acinzentados; os flancos são avermelhados; acompanhando a espinha, uma listra negra. Mas o que mais impressionava a todos era a sua goela, uma bocarra imensa e provida de afiadíssimas presas, capazes de decepar as cabeças das vítimas como uma navalha. Goela horrenda.

Descreviam-no ainda como tendo andar lento e correndo aos pulos, em velocidade inacreditável. Era visto ora num lugar e ora noutro, a distância que nenhum animal poderia percorrer dentro daquele espaço de tempo. Alguns concordavam que ele pudesse ser semelhante ao lobo; mas eram todos categóricos ao afirmar que não era, em absoluto, um lobo, mas uma fera jamais vista antes.”

Uau….

Sim, se quiserem ver o desfecho desta história podem acessá-la aqui.

Bem, puxei todo mundo para cá para mostrar que na frança e europa da época os bzous não eram os bandidos ganhando fama, mas o que hoje chamamos de lobisomens.. ahhh e naquela época eles estavam por toda parte em todos os lugares.

E isso dá uma reviravolta interessante no conto registrado. As versões mais antigas e distantes que teriam semelhança vem do bom e velho oriente onde o atacante chega mesmo a ser descrito como um tigre, mas na europa era o Ogro, que mesmo sendo um mostro podia conversar e se comunicar, isso é… até os lobisomens chegarem. E o lobo se torna um vilão popular, mas não qualquer lobo, aqueles que podem falar e caminhas em duas patas também.

Veja, nas primeiras versões da história o lobo não “come” a avozinha, nem tampouco a come – sim desculpem posso ouvir os falos se encolhendo dentro das calças. Ele a mata. Então fatia o corpo e coloca a carne em uma travessa, drena o sangue e o coloca em uma garrafa. Quando a pobre Chapeuzinho chega em sua mui humilde morada a avó a convida para jantar e faz a menina devorar a carne crua e a beber o sangue dizendo que é vinho. E só então a chama para a cama. As versões mais antigas terminam com a menina sendo morta pelo lobo, outras ainda dão uma chance para a menina que percebe a arapuca e muito esperta diz para a avó que comeu tanto que precisa ir cagar, que não quer sujar a cama. A avó, matreira, diz que para não se sentir sozinha e para que a menina não se perca na floresta, vai amarrar uma corda na mão ou no pé da netinha. A menina sai de casa, amarra a ponta da corda em alguma coisa e foge, mas não sem antes ouvir algo semelhante a: “Meretriz, você comeu a carne da sua avó e bebeu o seu sangue”.

Um detalhe importante é que o lobo a faz tirar a roupa e a jogar na lareira antes de ir para a cama. Outro detalhe importante é que em todas essas versões, pré Perrault não existe o caçador/lenhador/this is fucking L.A.P.D. open your door! – a menina quando foge, simplesmente foge, pelada, floresta a dentro.

Outro detalhe é que a capa vermelha foi invensão do Perrault também, antes dele a menina não era nem “uma atraente e bem educada moça de família”, nem usava a capa vermelha. Em 1967 Perrault publica o livro: Histoires et contes du temps passé, avec des moralités. Contes de ma mère l’Oye (Histórias e contos do passado, com moral. Contos da Mamãe Ganso). Vejam que existe já no título uma dica de que vai rolar uma moral, você vai ter que aprender algo, não apenas se divertir, e o próprio Perrault disse na época que o objetivo da história era mostrar que não faz bem para meninas dar ouvidos a estranhos, basicamente ele fez o que nossas mães fazem conosco só que de uma maneira longa e com uam roupa vermelha. Também era o objetivo desta nova versão mostrar para as senhoritas o que os homens são capazes de fazer para ver elas peladas.

Agora o caçador só surge depois na alemanha, que de fato tem um fetiche por esses tipos sarados que carregam coisas fálicas para manter a lei. Os irmãos Grimm colocaram este personagem em sua versão de 1812. Outro fetiche dos alemães da época era fazer um lobo engolir crianças, seja uma menina (chapeuzinho vermelho), um menino (pedro e o lobo) ou várias delas (o lobo e as sete crianças), e depois fazer alguém abrir a pança do bicho sem ele acordar, tirar o que tem dentro e encher de pedras costurando novamente para ele morrer afogado quando for beber água. Talvez esteja ai a origem dos relatos de pessoas que dizem que foram dormir, de repente se viram numa mesa com uma criatura estranha fazendo experimentos nela, a abrindo e costurando, a enchendo de implantes e a devolvendo para a cama.

Agora de fato quando analizamos o significado deste conto podemos chegar a algumas conclusões interessantes, como muitos já chegaram. Deixando de lado o obvio: não fale com estranhos! podemos seguir o caminho do Dr. Valerius da universidade de Calgary, que escreveu uma tese de que o conto de fato falava do perigo de você topar com um lobo no meio do mato. Existem aqueles que por algum motivo acham que tudo é um mito solar e associam a capa vermelha ao sol, que é devorada pela noite – o lobo – para depois ser resgatada de suas entranhas – o alvorecer (e ai é óbvio que surgem os fãs de Black Metal Nortico e afirmam que a prova disso é que o lobo da chapeuzinho é SKöl, o lobo da terra de Odin que engole o sol personificado no Ragnarok). Da mesma forma dizem que o conto reproduz o ritual de passagem pela puberdade, o renascimento, o despertar sexual, etc… Mas vamos lembrar que antes dos Grimm e de Perrault o caçador, a capa vermelha e mesmo o lobo não eram constantes e muitas vezes sequer existiam.

E agora crianças, fechem os olhos, vou tocar naquele assunto lá de cima: grande parte da europa foi assolada por ataques de lobisomens. Existem registros, existem monumentos, existem documentos de época que mostram como o povo se f****a na mão dos bichos. Assim podemos supor porque é que de todos os personagens sinistros o lobo (o mesmo que Gengis Khan dizia ser seu antepassado) se tornou o vilão nào apenas desse conto mas de vários.

Claro que a idéia estritamente sexual é divertida, mas nesse caso eu imagino a interpretação dos três porquinhos, era um lance meio sauna gay com um garanhão tentando provar de outra fruta e sendo rejeitado pelo trio?

L.

por LöN Plo

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-menina-da-capa-vermelha/

Filmes sobre Tantra

Excerto de Magia Moderna de Donald Michael Kraig

Tradução: Yohan Flaminio

Embora existam filmes que supostamente tratam do Tantra, poucos realmente manifestam a experiência do Mahatantra. No entanto, há dois que aparentemente não têm nada a ver com o Tantra, mas o retratam de maneira brilhante. E você não vai acreditar no que eles são.

O primeiro é Star Trek: The Motion Picture. Nele, um ser semelhante a um deus, V’ger, se manifesta como Ilia, uma mulher. Para que a divindade definitiva evolua, esta fêmea (deusa?) Deve se unir em total unidade com um homem, o comandante Decker. No clímax, eles se abraçam enquanto a energia gira em torno deles. Eles se fundem e a divindade (V’ger), o deus (Decker) e a deusa (Ilia) evoluem e se movem para um plano superior.

O segundo filme foi o último filme de Natalie Wood, Brainstorm. O conceito básico é a invenção de um dispositivo que permite registrar as experiências, incluindo pensamentos e sentimentos, de uma pessoa. Quando outra pessoa reproduz usando um capacete especial, ela pode vivenciar tudo o que foi gravado, incluindo sensações e emoções. Originalmente, quando alguém estava reproduzindo uma gravação, a imagem na tela do cinema ficava repentinamente muito mais ampla e o filme, viajando em uma velocidade mais rápida, era mais realista. Foi uma sensação intensa para a época.

Para se divertir, um dos experimentadores faz uma gravação de si mesmo fazendo sexo com um parceiro voluntário. Um cientista chamado Gordy Forbes acima do peso, farto de seu trabalho e de sua vida – consegue a gravação e faz um loop, para que possa experimentar sexo orgástico indefinidamente…

Quando o encontram, ele está tremendo em um estado de transe! Claro, eles pensam que é algo terrível e o levam para um hospital onde ele se recupera. Ele diz aos personagens principais (interpretados por Wood e Christopher Walken) que não pode mais fazer seu trabalho. Ele mudou com a experiência. Mais tarde, quando o vemos, ele parece mais saudável e está se exercitando.

Toda a sua vida mudou para melhor com a experiência do MahaTantra.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-sexual/filmes-sobre-tantra/

Karma e Linearidade

Um dos problemas centrais na busca espiritualista é a conciliação entre a crença intuitiva em uma Criação perfeita e o oceano de dúvida e dor que existe em nossa realidade cotidiana. Filosoficamente isso resulta em dezenas de especulações e interpretações que chegam até mesmo a negar a relação direta entre Criador e Criação (supondo que exista tal diferenciação) através de um personagem intermediário, o demiurgo gnóstico, que teria gerado o mundo corrupto que observamos.

Outra maneira de tentar conciliar essas percepções opostas é a concepção de um processo de causa e efeito tão natural e impessoal quanto a gravidade, que ajusta essas realidades aparentemente díspares. Enquanto a tradição ocidental, de raízes egípcias, fala em um julgamento final da alma humana, o oriente imagina um processo dinâmico e cotidiano, que dispensa júri e juiz (embora algumas linhas, como a teosofia, citem a figura dos Senhores do carma, essa personificação da lei não é a mais comum, mantendo seu caráter natural).

O quanto desse conceito é útil e o quanto é apenas uma fantasia egóica? Dando um passo atrás, pensemos a reencarnação e veremos o mesmo comportamento. De uma hipótese sistêmica muito interessante, ela passa a ser uma simples maneira de afagar o ego. Quantas princesas e generais não se redescobrem em centros espíritas e terapias de vidas passadas? Nunca a humanidade foi tão nobre quanto em suas pretensões…

Em sua interpretação tradicional, todo o mecanismo reencarnatório/cármico é tradicionalmente respaldado por um interpretação linear do tempo. Mas essa interpretação faz sentido de um ponto de vista do Self (vamos chamar assim uma possível dimensão maior do Ser) ou é apenas um ponto de vista raso do ego? A argentina Zulma Reyo, em seu livro Karma e Sexualidade faz uma representação interessante entre o que ela chama de tempo linear e o tempo concêntrico, a realidade vivida pelo Self. Ela considera a existência egóica, linear, como uma experiência do Self projetado na tridimensionalidade, a partir de condições absolutamente aleatórias. O mecanismo cármico existe apenas como elemento de aprendizagem dentro dessa única existência linear, não atuando como elemento de ajuste entre consecutivas experiências lineares. Do ponto de vista de uma Criação una, essa visão é absolutamente harmônica. Mas do ponto de vista do ego individualizado, a perspectiva de uma vida iniciada em condições aleatórias não difere em nada de uma visão absolutamente materialista.

A autora também define como elemento chave para entender o processo cármico aquilo que chamamos de forma-pensamento. É através dessas estruturas mentais/emocionais geradas e mantidas por nossos pensamentos e ações que se dá a atração das condições externas que caracterizam a relação de causa e efeito. E essas formas-pensamento seriam visíveis a médiuns treinados como aderências no campo causal. É praticamente a mesma interpretação, dita em termos atuais, do processo cármico tal como compreendido no Jainismo, uma das religiões mais antigas da India. Os janistas crêem que o carma é uma substância que se adere à alma, e essa quantidade e qualidade de substância aderida que define as condições atuais da vida do individuo. Essa substância pode ser eliminada através de jejuns e meditações.

Fica então a questão. É possível conciliar reencarnação, causa e efeito e uma existência não linear?

Texto fantástico do Andrei, do Anoitan.

#Budismo #Espiritismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/karma-e-linearidade

Barbelo: A Deusa no Gnosticismo

Barbēlō (grego: Βαρβηλώ) refere-se à primeira emanação de Deus em várias formas de cosmogonia gnóstica. Barbēlō é frequentemente descrita como um princípio feminino supremo, a único antecedente passivo da criação em sua multiplicidade. Esta figura também é chamada de ‘Mãe-Pai’ (sugerindo sua aparente androginia), o ‘Primeiro Ser Humano’, ‘O Triplo Nome Andrógino’, ou o ‘Aeon Eterno’. Tão proeminente era seu lugar entre alguns gnósticos que algumas escolas foram designadas como os Barbeliotae, os adoradores de Barbēlō ou os gnósticos de Barbēlō.

NA BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI:

No Apócrifo de João, um tratado da Biblioteca de Nag Hammadi contendo o relato mais extenso do mito da criação setiana, a Barbēlō é descrita como “o primeiro poder, a glória, Barbēlō, a glória perfeita nas eras, a glória da revelação”. Todos os atos subsequentes de criação dentro da esfera divina (exceto, crucialmente, o de Sophia, no aeon mais baixo Sophia) ocorrem através de sua coação com Deus. O texto a descreve assim:

“Este é o primeiro pensamento, sua imagem; ela se tornou o ventre de tudo, pois é ela que é anterior a todos eles, a Mãe-Pai, o primeiro homem (Anthropos), o Espírito Santo, o três vezes masculino, o três vezes poderoso, o andrógino três vezes nomeado, e o aeon eterno entre os invisíveis, e o primeiro a surgir.”

Barbēlō é encontrada em outros escritos de Nag Hammadi:

– O Alógenes faz referência a um Espírito Duplo Poderoso Invisível, uma virgem masculina, que é a Barbēlō.

– O Livro Sagrado do Grande Espírito Invisível refere-se a uma emanação divina chamada ‘Mãe’, que também é identificada como Barbēlō.

– Em Marsanes — vários lugares.

– Em Melquisedeque – duas vezes, a segunda vez em uma oração de Melquisedeque:

“Santa és tu, Santa és tu, Santa és tu, Mãe dos aeons, Barbelo, para todo o sempre, Amém.”

– As Três Estelas de Seth oferecem uma descrição do “primeiro aeon, a virginal masculina Barbelo, a primeira glória do Pai invisível, aquela que é chamada ‘perfeita’”.

– A Protenoia Trimórfica (o ‘Primeiro Pensamento em Três Formas’), mesmo na primeira pessoa:

“Ele perpetuou o Pai de todos os Aeons, que sou Eu, o Pensamento do Pai, Protennoia, isto é, Barbelo, a Glória perfeita, e o Invisível imensurável que está oculto. Eu sou a Imagem do Espírito Invisível, e é através de mim que o Todo tomou forma, e (eu sou) a Mãe (assim como) a Luz que ela designou como Virgem, ela que é chamada ‘Meirothea’, o Ventre incompreensível, a Voz irrefreável e imensurável.”

– No Zostrianos— o aeon Barbēlō é referido em muitos lugares. Em Zostrianos, Barbelo possui três subníveis ou subaeons que representam três fases distintas:

– Kalyptos (a “Oculta”), o primeiro e mais alto subaeon dentro do Aeon de Barbelo, representando a latência inicial ou existência potencial do Aeon de Barbelo.

– Protophanes (o “Primeiro Aparecimento”), o segundo maior subaeon, é chamado de grande Mente masculina perfeita e representa a manifestação inicial do Barbelo Aeon.

– Autogenes (“Autogerado”), a atualização autogerada do Aeon Barbelo, é o mais baixo dos três subaeons.

NA PISTIS SOPHIA:

Na Pistis Sophia, Barbēlō é nomeada com frequência, mas seu lugar não é claramente definido. Ela é um dos deuses, “um grande poder do Deus Invisível” (373), unido a Ele e às três “divindades três vezes poderosas” (379), a mãe da luz Pistis Sophia” ou corpo celestial (13, 128; cf. 116, 121); a terra aparentemente é a “matéria criativa de Barbēlō” (128) ou o “lugar de Barbēlō” (373).

NOS TEXTOS PATRÍSTICOS:

Ela é obscuramente descrita por Irineu como “um aeon que nunca envelhece em um espírito virginal”, a quem, segundo certos “Gnósticos”, o Pai Inominável quis se manifestar, e que, quando quatro seres sucessivos, cujos nomes expressam pensamento e vida, havia saído Dele, foi vivificada com alegria com a visão, e ela mesma deu à luz a três (ou quatro) outros seres semelhantes.

Ela é notada em várias passagens vizinhas de Epifânio, que em parte deve estar seguindo o Compêndio de Hipólito, como mostra a comparação com Filastro (c. 33), mas também fala por conhecimento pessoal das seitas ofíticas especialmente chamadas de “Gnósticos” ( i. 100 f.). A primeira passagem está no artigo sobre os nicolaítas (i. 77 f.), mas aparentemente é uma referência antecipatória aos seus supostos descendentes, os “gnósticos” (77 a; Philast.). De acordo com a opinião deles, Barbēlō vive “acima do oitavo céu”; ela havia sido ‘produzida’ (προβεβλῆσθαι) “do Pai”; ela era mãe de Yaldabaoth (alguns diziam, de Sabaoth), que insolentemente tomou posse do sétimo céu e se proclamou o único Deus; e quando ela ouviu esta palavra, ela lamentou. Ela estava sempre aparecendo para os Arcontes em uma bela forma, para que, ao seduzi-los, ela pudesse reunir seu próprio poder disperso.

Outros, Epifânio parece dizer (78 f.), contaram uma história semelhante de Prunikos, substituindo Caulacau por Yaldabaoth. Em seu próximo artigo, sobre os “gnósticos”, ou borboritas (83 d.C.), a ideia da recuperação dos poderes dispersos de Barbēlō se repete conforme estabelecido em um livro apócrifo de Noria (ou Norea), a lendária esposa de Noé.

“Pois Noé era obediente ao arconte, dizem eles, mas Noria revelou os poderes no alto e Barbelo, a descendente ou herdeira dos poderes – a oposta do arconte, como os outros poderes são. E ela deu a entender que o que foi tirado da Mãe nas Alturas pelo arconte que fez o mundo, e outros com ele – deuses, demônios e anjos – deve ser obtido do poder nos corpos, através das emissões masculinas e femininas.”

Em ambos os lugares, Epifânio representa a doutrina como dando origem à libertinagem sexual. Mircea Eliade comparou essas crenças e práticas borboritas envolvendo Barbēlō com rituais e crenças tântricas, observando que ambos os sistemas têm um objetivo comum de alcançar a unidade espiritual primordial através da felicidade erótica e do consumo de menstruação e sêmen.

Em uma terceira passagem (91 ss.), enumerando os Arcontes que dizem ter seu assento em cada céu, Epifânio menciona como os habitantes do oitavo ou mais alto céu “aquela que é chamada Barbēlō”, e o auto-gênero Pai e Senhor de todas as coisas, e o Cristo nascido de virgem (αὐτολόχευτον) (evidentemente como seu filho, pois de acordo com Irineu sua primeira progênie, “a Luz”, foi chamada de Cristo); e da mesma forma ele conta como a ascensão das almas através dos diferentes céus terminava na região superior, “onde está Barbēro ou Barbēlō, a Mãe dos Vivos” (Gênesis 3:20).

Teodoreto (H. F. f. 13) apenas parafraseia Irineu, com algumas palavras de Epifânio. Jerônimo várias vezes inclui Barbēlō em listas de nomes portentosos correntes na heresia espanhola, isto é, entre os priscilianistas; Bálsamo e Leusibora sendo três vezes associados a ele (Ep. 75 c. 3, p. 453 c. Vall.; c. Vigil. p. 393 A; em Esai. lxvi. 4 p. 361 c; em Amos iii. 9 pág. 257 E).

BARBELO E BABEL:

Babel, no livro de “Baruque” de Justino,o  Gnóstico, é o nome do primeiro dos doze “anjos maternos” nascidos de Elohim e Edem (Hipp. Haer. v. 26, p. 151). Ela é idêntica a Afrodite, e é ordenada por sua mãe a causar adultérios e deserções entre os homens, em vingança pela deserção de Edem por Elohim (p. 154). Quando Herácles é enviado por Elohim como “um profeta da incircuncisão” para vencer “os doze anjos maus da criação”, i. e. os anjos maternos, Babel, agora idênticos a Ômfale, o seduzem e o enfraquecem (p. 156; x. 15, p. 323). Ela pode possivelmente ser a Baalti ou Baal feminina de várias nações semíticas, embora o β (beta) intrusivo não seja facilmente explicado. Mas em geral é possível tomar Babel, “confusão” (Joseph. Ant. i. 4, § 3), como uma forma de Barbēlō, que pode ter o mesmo significado. O ecletismo de Justino explicaria sua deposição de Barbēlō do primeiro ao segundo lugar, onde ela ainda está acima de Hachamoth.

SIGNIFICADO DE BARBELO:

Nos relatos gnósticos de Deus, as noções de impenetrabilidade, estase e inefabilidade são de importância central. Pode-se dizer que a emanação de Barbēlō funciona como um aspecto generativo intermediário do Divino, ou como uma abstração do aspecto generativo do Divino através de sua Plenitude. O Espírito invisível oculto mais transcendente não é retratado como participando ativamente da criação. Esse significado é refletido tanto em sua aparente androginia (reforçada por vários de seus epítetos) quanto no próprio nome Barbēlō. Várias etimologias plausíveis do nome (Βαρβηλώ, Βαρβηρώ, Βαρβηλ, Βαρβηλώθ) foram propostas.

– William Wigan Harvey (On Irineu) e Richard Adelbert Lipsius (Gnosticismus, p. 115; Ofit. Syst. in Hilgenfeld’s Zeitschrift for 1863, p. 445) propuseram Barba-Elo, ‘A Deidade-em-Quatro’, com referência à Tétrade, que pelo relato de Irineu procede dela. Sua relação com esta Tétrade, porém, não tem nenhuma analogia verdadeira com a Col-Arba de Marcos; forma apenas o grupo mais antigo de sua progênie; e é mencionado apenas uma vez.

– ‘O limite supremo’, “paravela”, do indiano, “vela”, ‘limite’ – uma sugestão feita por Julius Grill (Untersuchungen über die Entstehung des vierten Evangeliums, Tübingen, 1902, pp. 396-397), que o conecta com o Horos Valentiniano , sendo o Barbēlō chamado de ‘o limite supremo’ em relação ao Patēr akatonomastos de um lado e às sizígias inferiores do outro.

– Wilhelm Bousset (Hauptprobleme der Gnosis, Göttingen, 1907, p. 14 f.) sugere que a palavra é uma mutilação de parthenos — a forma intermediária, Barthenōs, que realmente ocorre em Epifânio (Haer. xxvi. 1) como o nome da esposa de Noé.

– Fenton John Anthony Hort (DCB i. 235, 249) afirma que a “raiz balbel muito usada nos Targums (Buxtorf, Lex, Rabb. 309), em hebraico bíblico balal, significando mistura ou confusão, sugere uma melhor derivação para Barbelo, como denotando o germe caótico da existência variada e discreta: a mudança de ל para ר é bastante comum e pode ser vista na forma alternativa Βαρβηρώ. Se a Babel de Justino (Hipp. Haer. v. 26; x. 15) é idêntica a Barbelo, como é pelo menos possível, esta derivação torna-se ainda mais provável.”

– Pode ser uma construção copta ad hoc significando tanto ‘Grande Emissão’ (de acordo com The Gnostic Scriptures de Bentley Layton) quanto ‘Semente’ de acordo com F.C. Burkitt (em Church and Gnosis).

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Fontes:

– Eliade, Mircea (1978). Occultism, Witchcraft, and Cultural Fashions: Essays in Comparative Religion. University of Chicago Press. ISBN 0-226-20392-1.

– Meyer, Marvin (2007). The Nag Hammadi scriptures. New York: HarperOne. ISBN 978-0-06-162600-5. OCLC 124538398.

– Hoeller, Stephan A. (1989). Jung and the Lost Gospels. Quest Books. ISBN 0-8356-0646-5.

– Jonas, Hans (2001). The Gnostic Religion (3rd ed.). Beacon Press. ISBN 0-8070-5801-7.

– Layton, Bentley (1987). The Gnostic Scriptures. SCM Press. ISBN 0-334-02022-0.

– Rudolph, Kurt (1987). Gnosis: The Nature & History of Gnosticism. Harper & Row. ISBN 0-06-067018-5.

– Williams, Frank (1987). The Panarion of Epiphanius of Salamis. Vol. 2 volumes. Leiden; New York; København; Köln: E.J. Brill.

– Herbermann, Charles, ed. (1913). “Gnosticism”. Catholic Encyclopedia. New York: Robert Appleton Company.

– Hort, Fenton John Anthony (1877). “Babel”. In Smith, William; Wace, Henry (eds.). A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines. Vol. I. London: John Murray. p. 235.

– Hort, Fenton John Anthony (1877). “Barbelo”. In Smith, William; Wace, Henry (eds.). A Dictionary of Christian Biography, Literature, Sects and Doctrines. Vol. I. London: John Murray. pp. 248–49.

– Moffatt, James (1919). “Pistis Sophia”. In James, William (ed.). Encyclopædia of Religion and Ethics. Vol. X. New York: Charles Scribner’s Sons. p. 46. ISBN 9780567065100.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/barbelo-a-deusa-no-gnosticismo/

Atabaques e Ilusões

O osirianismo (e.g religiões abraamicas) atualmente utiliza várias máscaras. Mostra-se mais facilmente visível no cristianismo e suas variações, mas, em Verdade vos digo, o osirianismo é bem aberto nas chamadas religiões Afro (Candomblé, Umbanda e Quimbanda). Os rituais, as festas, o comportamento das pessoas e dos sacerdotes.. Enfim, o osirianismo impregna a atmosfera destas religiões como uma pestilência infindável. Um exemplo disto é o fato de que em uma das etapas do processo iniciático dalgumas nações do candomblé, os participantes devem assistir uma missa.

Muitas pessoas iludem-se pela idéia de falsa liberdade que estas religiões transmitem, principalmente em torno da homossexualidade. Ao contrário de outros terrenos osirianos, as religiões Afro toleram bem manifestações diferentes de sexualidade. Isto incute nas pessoas uma idéia de falsa liberdade e de uma concepção de libertinagem extrema (que em muitos casos, se confirma).

As religiões Afro são religiões de imagem. Se o seu namorado não lhe quer mais, isto não é problema: fale com uma Pomba-Gira (uma entidade de Quimbanda, conhecida por muitos como o “lado negro” das religiões Afro) e em sete dias, depois de algumas oferendas para ela, ele volta cheio de amor e doçura. Se o problema é dinheiro, não tem erro: fale com um pai-de-santo que trabalhe com Oxum (uma entidade ligada à água doce e à riqueza material) e, sete quindins, uma bandeja de canjica amarela e uma galinha depois, tudo se resolverá.

E tenha certeza, as coisas acontecerão.

Seduzidas pela propaganda, pelo que vêem acontecer, muitas pessoas embarcam no sistema. Aí tem-se início o processo de vampirização que irá durar indefinidamente na vida do novo adepto. Cada vez mais escravo dos orixás que lhe dão as coisas que necessita, o adepto não percebe que está retroalimentando entidades sedentas de energia, da sua energia vital. Assim, obedece a elas que de certa forma, obedecem ao pai-de-santo (afinal, ele foi o intermediário entre a nova fonte doadora de energia e estes cascarões esfomeados) que – infeliz iludido – obedece aos orixás que lhe escravizaram. Enfim, um círculo vicioso de vampirização e subserviência.

Os sacerdotes (pais-de-santo/mães-de-santo) são os piores escravos deste sistema alienante e vampirizador. São completamente cegos por conta dos incontáveis caprichos de seus orixás, senhores absolutos de tudo o que refere-se à suas vidas. Escravizados pelas entidades, não hesitam em transmitir esta mesma situação aos “filhos-de-santo”. São “trabalhos” em praias, matos, campos, cachoeiras; rituais no mínimo uma vez por semana; festas homenageando orixás uma vez ou mais por mês (onde muitas vezes existe a necessidade imperiosa de confecções de roupas especiais); ajuda financeira para manter o terreiro; oferendas e “trabalhos de reforço” esporadicamente; paramentos (trajes, colares, instrumentos etc) elaborados; odediência inquestionável à autoridade do sacerdote e da (s) “entidade dona da casa” …

Tais entidades nada mais são do que cascarões esfomeados por energia vital fresca que assumem os nomes de outros cascarões já conhecidos. Baseio esta afirmação nos seguintes questionamentos:

1) Como pode existir ao mesmo tempo, por exemplo, um Xangô em um terreiro em Nova Friburgo (RJ), outro em Fortaleza (CE) e outro em Passo Fundo (RS)?

2) Partindo-se do pressuposto de que existisse uma só manifestação de cada orixá, como esta iria estar em todos os terreiros do Brasil quando fosse lá chamada em uma data especial, como por exemplo, no dia 23 de Abril (dia da tradicional festa de Ogum no Brasil)?

3) Se cada um dos orixás que existem é um ente singular, por que se perguntarmos a uma Pomba-Gira de um terreiro localizado em São Miguel do Oeste (SC) sobre todos os seus “filhos” ela só irá responder sobre o adepto em que está “baixada” naquele terreiro?

Experimente perguntar isto a um sacerdote ou adepto para ver o que ele lhe responde… Justamente pela falta de coerência das respostas de vários deles e pela observação e contato direto que já tive com esta religião é que faço minhas afirmações.

Iansã, Ogum, Nanã, Logun-Edé e outros não passam de cascarões com fome. São estes cascarões de nomes amigáveis que, alimentados a níveis estratosféricos de energia, adquirem uma força considerável. Esta força é o fator determinante e que permite a estas entidades interferirem diretamente nas vidas de seus seguidores. Desta forma é que ocorrem os famosos “castigos” àqueles que ousam abandonar a religião depois de algum tempo: indignadas pela perda de sua fonte de energia e já tendo adquirido uma força maior de atuação, as entidades fazem com que a vida destas pessoas torne-se um verdadeiro tormento.

E novamente vê-se a imagem agindo em conjunto com o medo impingido aos seguidores destas religiões mantendo “as coisas em seus lugares”. O medo que estes possuem de tudo perder caso questionem certas determinações que justificam-se por dogmas oriundos de uma mistura de catolicismo e antigo paganismo africano, é um ingrediente essencial para que esta situação subserviente das religiões Afro permaneça imutada. Medo este reforçado pela imagem daqueles que renegaram a religião, foram à bancarrota, voltaram para o sistema escravista e conseguiram “dar a volta por cima” (que não são poucos, diga-se de passagem).

Muitos podem dizer que as pessoas que isto fazem, o fazem por não terem escolha. Porém, todos nós sabemos que este é um juízo de valor equivocado. Há possibilidade de se evitar a auto-ilusão? Há, claro. Mas bem sabemos que o comodismo e a facilidade alienante de não ter que se preocupar com muita coisa são ótimo; e a imagem, quando bem trabalhada, é um forte argumento para derrubar dúvidas. Então, para quê questionar? Por que dizer não para um sacerdote Afro que vem com a velha história do “teu orixá está te chamando e se tu atenderes, tua vida com certeza vai melhorar”?

Assim, por estar contaminada com esta pestilência osiriana é que considero inviável para um satanista realmente emancipado comungar com quaisquer destas religiões. Nenhum satanista irá procurar alguma espécie de consolo ou apoio nestes cascarões esfomeados para resolver seus problemas; ele próprio irá resolve-los satisfatoriamente. Enquanto isso, dia 02 de Fevereiro, os “africanistas” dirigem-se à praia usando vestes brancas e colares de contas azuis na esperança tola.de que seus problemas se esvairão ao pular sete ondas para Iemanjá…”

Por: Dark Velvet

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/atabaques-e-ilusoes/