A Interpretação do Conhecimento (Nah Hamadi)

(faltam 13 linhas)
… eles passaram a acreditar por meio de sinais e maravilhas e fabricações. A semelhança que veio a ser através deles o seguiu, mas através de reprovações e humilhações antes de receberem a apreensão de uma visão que fugiram sem ter ouvido que o Cristo tinha sido crucificado. Mas nossa geração está fugindo, pois ainda nem sequer acredita que o Cristo está vivo. Para que nossa fé seja santa (e) pura, não confiando em si mesma ativamente, mas mantendo-se plantada nEle, não diga: “De onde vem a paciência para medir a fé?”, pois cada um é persuadido pelas coisas em que acredita. Se ele os desacredita, então ele não seria capaz de ser persuadido. Mas é uma grande coisa para um homem que tem fé, já que ele não está na incredulidade, que é o mundo.

Agora o mundo é o lugar da infidelidade e o lugar da morte. E a morte existe como … (faltam 14 linhas)… semelhança e eles não acreditarão. Uma coisa santa é a fé para ver a semelhança. O oposto é a infiel à semelhança. As coisas que ele lhes concederá os apoiará. Era impossível para eles alcançarem a imperecibilidade […] tornar-se-ão […] soltos […] aqueles que foram enviados […]. Pois aquele que está angustiado não acreditará. Ele é incapaz de trazer uma grande igreja, já que ela é reunida a partir de uma pequena reunião.

Ele se tornou uma emanação do vestígio. Pois também dizem sobre a semelhança que ele é apreendido por meio de seu rastro. A estrutura é apreendida por meio da semelhança, mas Deus apreende por meio de seus membros. Ele os conhecia antes de serem gerados, e eles o conhecerão. E aquele que gerou cada um desde o primeiro, residirá neles. Ele governará sobre eles. Pois é necessário para cada um … (faltam 25 linhas)… o Salvador se retirou, pois é apropriado. De fato, não ignorante, mas carnal, é a palavra que o tomou como marido. E é ele que existe como imagem, já que aquele (masc.) também existe, assim como aquele (fem.) que nos fez nascer. E ela fez com que ele soubesse que ela é o Ventre. Esta é uma maravilha dela que ela nos faz transcender a paciência. Mas esta é a maravilha: ele ama aquele que foi o primeiro a permitir uma virgem […]. É próprio […] dela […] até a morte […] desejo de praticar […]. (faltam 23 linhas)Portanto, ela se rendeu a ele em seu caminho. Ele foi o primeiro a fixar nosso olhar nesta virgem que está fixada na cruz que está naqueles lugares. E vemos que é sua água que a autoridade suprema concedeu àquele em quem há um sinal. Esta é a água da imortalidade que as grandes potências lhe concederão enquanto ele estiver abaixo, à semelhança de seu jovem filho. Ela não parou por causa dele. Ela […] o […] ele se tornou […] na palavra […] que aparece ao […]. Ele não […]. (13 linhas faltando)… em […] através de […] veio desses lugares. Alguns caíram no caminho. Outros caíram nas rochas. E ainda outros ele semeou nos espinhos. E ainda outros ele deu de beber […] e a sombra. Eis […] ele […] E esta é a realidade eterna antes que as almas saiam daqueles que estão sendo mortos.

Mas ele estava sendo perseguido naquele lugar pelo rastro produzido pelo Salvador. E ele foi crucificado e morreu – não sua própria morte, pois ele não merecia de modo algum morrer por causa da igreja dos mortais. E ele foi pregado para que eles pudessem mantê-lo na Igreja. Ele lhe respondeu com humilhações, pois desta forma havia suportado o sofrimento que havia sofrido. Pois Jesus é para nós uma semelhança, por causa de … (faltam 14 linhas)… esta […] toda a estrutura e […] a grande amargura do mundo […] nós com os […] ladrões […] os escravos […] até Jericó […] eles receberam […]. Pois […] até aqueles que vão esperar enquanto todo o defeito os prende até a realidade final que é sua porção, já que ele nos derrubou, tendo nos amarrado em redes de carne. Como o corpo é uma morada temporária que os governantes e as autoridades têm como morada, o homem dentro dele, após ter sido aprisionado na fabricação, caiu em sofrimento. E depois de tê-lo obrigado a servi-los, eles o constrangeram a servir as energias. Dividiram a Igreja de modo a herdar … (faltando 9 linhas)… poder para […] e […] e […] ter tocado […] antes de […] é a beleza que […] vai querer […] e estar com [… […] lutar uns com os outros […] como outros […] virgens […] para destruir […] feridas […] mas ela […] gosta de […] a […] desde que eles tinham golpeado […] imperecíveis. Esta […] que ele permanece […] virgem. A […] sua beleza […] sua fidelidade […] e portanto […] ela. Ele apressou […] ele não atendeu […] eles desprezam […]. Pois quando a Mãe tinha [… (5 linhas faltando)… a Mãe […] seu inimigo […] o ensinamento […] da força […] da natureza […] eis que uma donzela […] é incapaz […] primeiro […] o oposto […]. Mas como ele […] não foi capaz […] ele se tornou […] matou-o […] vivo […] ele a considerou […] melhor do que a vida […] pois ele sabe que se […] o mundo o criou […] para criá-lo […] a partir de […] sobre as regiões […] aqueles que eles governam […]. Mas […] ele o emitiu […] ele habita nele […] o Pai de Todos […] seja mais para ela […] ele. Ele […] ele … (faltam 8 linhas)… como […] em […] ele as tem […] elas […] cada uma será digna […] levá-lo e […] o professor deve se esconder como se ele fosse um deus que abraçaria suas obras e as destruiria. Pois ele também falou com a Igreja e se fez seu mestre da imortalidade, e destruiu o professor arrogante, ensinando-a a morrer.

E esse professor fez uma escola viva, pois esse professor tem outra escola: enquanto nos ensina sobre os escritos mortos, ele, por outro lado, estava nos fazendo sair do excesso do mundo; através deles nos ensinavam sobre nossa morte.

Agora este é o seu ensinamento: não chame um pai sobre a terra. Seu Pai, que está no céu, é um só. Vós sois a luz do mundo. Eles são meus irmãos e meus companheiros que fazem a vontade do Pai. Para que serve se você ganha o mundo e perde a sua alma? Pois quando estávamos no escuro, costumávamos chamar muitos de “pai”, já que ignorávamos o verdadeiro Pai. E esta é a grande concepção de todos os pecados … (faltam 8 linhas)… prazer. Somos como […] ele a […] alma […] homens que […] o lugar de morada.

O que é agora a fé estabelecida pelo mestre que o libertou da grande ignorância e da escuridão do olho ignorante? Ele o lembrou das coisas boas de seu Pai e da raça. Pois ele lhe disse: “Agora o mundo não é teu, que não estimes a forma que está nele como vantajosa; antes (como) desvantajosa e (como) um castigo”. Receba agora o ensinamento daquele que foi censurado – uma vantagem e um lucro para a alma – e receba sua forma. É a forma que existe na presença do Pai, a palavra e a altura, que o faz conhecer antes de ter sido desviado enquanto estava em (a) carne da condenação.

Da mesma forma eu me tornei muito pequeno, para que através da minha humildade eu pudesse levá-lo até a grande altura, de onde você tinha caído. Você foi levado a este poço. Se agora você acredita em mim, sou eu que o levarei para cima, através desta forma que você vê. Serei eu quem te levará sobre meus ombros. Entra pela costela de onde vieste e esconde-te das feras. O fardo que você carrega agora não é seu. Sempre que você (fêmea) for … (faltam 14 linhas)… de sua glória […] desde a primeira. De ser contado com a fêmea, o sono trouxe o trabalho de parto e o sábado, que é o mundo. Pois de ser contado com o Pai, o sono trouxe o sábado e o êxodo do mundo dos animais. Pois o mundo é das bestas e é uma besta. Portanto, aquele que está perdido foi contado para o astuto, e aquele que é das bestas que surgiram. Eles colocaram sobre ele uma roupa de condenação, pois a fêmea não tinha outra roupa para vestir sua semente, exceto aquela que ela trouxe no sábado. Pois nenhuma besta existe no Éon. Pois o Pai não guarda o sábado, mas (ao contrário) aciona o Filho, e através do Filho ele continuou a se munir dos Éons. O Pai tem elementos racionais vivos dos quais ele veste meus membros como vestes. O homem … (faltam 11 linhas)… este é o nome. O […] ele se emitiu a si mesmo e ele emitiu o reprovado. Aquele que foi reprovado mudou (seu) nome e, junto com aquele que seria como a reprovação, ele apareceu como carne. E o humilhado não tem equipamento. Ele não tem necessidade da glória que não é sua; ele tem sua própria glória com o nome, que é o Filho. Agora ele veio para que pudéssemos nos tornar gloriosos através do humilhado que habita nos lugares da humilhação. E através dele que foi censurado, recebemos o perdão dos pecados. E por aquele que foi censurado e por aquele que foi redimido, recebemos a graça.

Mas quem redimiu aquele que foi repreendido? É a emanação do nome. Pois assim como a carne tem necessidade de um nome, também a carne é um Éon que a Sabedoria emitiu. Ela recebeu a majestade que está descendo, para que o Éon possa entrar naquele que foi censurado, para que possamos escapar da desgraça da carcaça e ser regenerado na carne e no sangue de … (faltam 8 linhas)… destino. Ele […] e os Éons […] aceitaram o Filho embora ele fosse um mistério completo […] cada um de seus membros […] graça. Quando ele gritou, ele foi separado da Igreja como porções da escuridão da Mãe, enquanto seus pés lhe deram traços, e estes queimaram o caminho da ascensão ao Pai.

Mas qual é o caminho e a maneira (em) como ela (fêmea) se tornou sua cabeça? Bem, ela (fême.) fez a morada para trazer a luz àqueles que habitam dentro dele, para que pudessem ver a Igreja ascendente. Pois a Cabeça se levantou do poço; estava dobrada sobre a cruz e olhou para baixo para Tártaros, para que os de baixo pudessem olhar para cima. Assim, por exemplo, quando alguém olha para alguém, então o rosto daquele que olhou para baixo olha para cima; assim também uma vez que a Cabeça olhou da altura para seus membros, nossos membros foram para cima, onde estava a Cabeça. E ela, a cruz, estava sendo pregada para os membros, e apenas para que eles pudessem … (7 linhas faltando)… têm […] porque eram como […] escravos. A consumação é assim: Aquele que ela indicou será completado por aquele que indicou. E as sementes que restarem durarão até que o Todo seja separado e tome forma.

E assim o decreto será cumprido, pois assim como a mulher que for honrada até a morte tem a vantagem do tempo, assim também ela dará à luz. E esta descendência receberá o corpo designado para ela, e se tornará perfeita. Ele tem uma natureza generosa, uma vez que o Filho de Deus habita nele. E sempre que ele adquire o Todo, o que quer que ele possua < será dissolvido> no fogo porque desprezava e ultrajava muito o Pai.

Além disso, quando o grande Filho foi enviado após seus pequenos irmãos, ele espalhou o Édito do Pai e o proclamou, opondo-se ao Todo. E ele removeu o velho vínculo da dívida, o da condenação. E este é o édito que foi: Aqueles que se fizeram escravos se tornaram condenados em Adão. Eles foram trazidos da morte, receberam perdão por seus pecados e foram redimidos por … (faltam 9 linhas)… já que somos dignos […] e […] mas eu digo […] e estes […]. Pois […] é digno de […] a Deus. E o Pai […] o Cristo se afastou de tudo isso, pois ama seus membros com todo o seu coração. Aquele que é invejoso põe seus membros uns contra os outros. Se não tiver ciúmes, não será afastado de (os) outros membros e do bem que ele vê.

Ao ter um irmão que nos considera como ele também é, glorifica-se aquele que nos dá graça. Além disso, é conveniente para cada um de nós desfrutar do dom que recebeu de Deus, e que não tenhamos ciúmes, pois sabemos que aquele que tem ciúmes é um obstáculo em seu (próprio) caminho, pois destrói somente a si mesmo com o dom e desconhece a Deus. Ele deve se alegrar e se alegrar e participar da graça e da generosidade. Será que alguém tem um dom profético? Compartilhe-o sem hesitar. Não se aproxime de seu irmão com inveja nem … (faltam 8 linhas)… escolhidos como […] vazios enquanto escapam […] caídos de seu […] ignoram que […] desta forma eles […] os têm […] em […] para que possam refletir forçosamente sobre as coisas que você quer que eles pensem quando pensam em você. Agora seu irmão também tem sua graça: Não se menospreze, mas alegre-se e agradeça espiritualmente, e reze por isso, para que você possa compartilhar a graça que habita dentro dele. Portanto, não o considere estrangeiro para você, mas (como) aquele que é seu, a quem cada um de seus <-colegas> membros recebeu. Ao amar o Chefe que os possui, você também possui aquele de quem é que essas efusões de dons existem entre seus irmãos.

Mas será que alguém está fazendo progressos na Palavra? Não se deixe impedir por isso; não diga: ”Por que ele fala enquanto eu não falo”, pois o que ele diz é (também) seu, e o que discerne a Palavra e o que fala é o mesmo poder. A Palavra … (faltam 13 linhas)… apenas um olho ou uma mão, embora sejam um só corpo. Aqueles que pertencem a todos nós, servem à Cabeça juntos. E cada um dos membros a considera como um membro. Todos eles não podem tornar-se inteiramente um pé ou inteiramente um olho ou inteiramente uma mão, pois estes membros não viverão sozinhos; ao contrário, estão mortos. Sabemos que eles estão sendo mortos. Então, por que você ama os membros que ainda estão mortos, ao invés daqueles que vivem? Como você sabe que alguém ignora os irmãos? Pois você é ignorante quando os odeia e tem ciúmes deles, pois não receberá a graça que habita dentro deles, não estando disposto a reconciliá-los com a generosidade da Cabeça. Você deve agradecer por nossos membros e pedir que também a você seja concedida a graça que lhes foi dada. Pois a Palavra é rica, generosa e bondosa. Aqui ele dá presentes a seus homens sem ciúmes, de acordo com … (faltam 11 linhas)… apareceram em cada um dos membros […] ele mesmo […] já que eles não brigam entre si por causa de suas diferenças. Ao contrário, trabalhando uns com os outros, eles trabalharão uns com os outros, e se um deles sofrer, eles sofrerão com ele, e quando cada um deles for salvo, eles serão salvos juntos.

Além disso, se eles esperarem pelo êxodo da harmonia (terrena), eles virão para o Éon. Se estiverem aptos a participar da (verdadeira) harmonia, quanto mais aqueles que derivam da unidade única? Eles devem ser reconciliados uns com os outros. Não acuse sua cabeça porque ela não o nomeou como um olho, mas sim como um dedo. E não tenha ciúmes daquilo que foi colocado na classe de um olho, de uma mão ou de um pé, mas esteja grato por não existir fora do Corpo. Pelo contrário, você tem a mesma cabeça por conta da qual o olho existe, assim como a mão e o pé e o resto das partes. Por que você despreza aquele que é nomeado como […] desejava […] caluniou […] não abraça […] corpo não misturado […] escolhido […] dissolve […] da descendência de Éon […] por mais que nos arrancou de <os> Éons que existem naquele lugar. Alguns existem na Igreja visível – aqueles que existem na Igreja dos homens – e unanimemente proclamam uns aos outros o Pleroma de seu éon. E alguns existem para a morte na Igreja em cujo nome eles vão – ela para quem eles são a morte – enquanto outros são para a vida. Portanto, eles são amantes da vida em abundância. E cada um dos demais resiste por sua própria raiz. Ele dá frutos que são como ele, já que as raízes têm uma conexão entre si e seus frutos são indivisíveis, o melhor de cada um. Eles os possuem, existindo para eles e uns para os outros. Assim, sejamos como as raízes, pois somos iguais […] que Éon […] aqueles que não são nossos […] acima do […] o agarram […] desde […] sua alma. Ele vai […] nós lhe demos […] a ele. Se você o purificar, ele permanecerá em mim. Se a encerrares, ela pertence ao Diabo. Mesmo se você matar suas forças que estão ativas, ela estará com você. Pois se a alma está morta, ainda assim ela foi decretada (por) os governantes e autoridades.

O que, agora, você pensa como espírito? Ou por que eles perseguem homens desse tipo até a morte? Eles não estão satisfeitos em estar com a alma e procurá-la? Pois cada lugar é excluído deles pelos homens de Deus enquanto eles existirem em carne e osso. E quando não podem vê-los, já que eles (os homens de Deus) vivem pelo espírito, destroem o que aparece, como se assim pudessem encontrá-los. Mas qual é o lucro para eles? Eles são insensatamente loucos! Eles rasgam o que os rodeia! Escavam a terra! […] ele […] esconde […] existe […] purifica […] porém […] depois que Deus […] nos agarra […] mas nós caminhamos […]. Pois se os pecados são muitos, tanto mais agora é o ciúme da Igreja do Salvador. Pois cada um era capaz de ambas (tipos) de transgressão, a de um adepto, e a de uma pessoa comum. É ainda uma única capacidade que eles possuem. E quanto a nós, somos adeptos da Palavra. Se pecamos contra ela, pecamos mais do que os gentios. Mas se superarmos cada pecado, receberemos a coroa da vitória, mesmo quando nossa Cabeça foi glorificada pelo Pai.

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Fonte:

http://gnosis.org/naghamm/intpr.html.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-interpretacao-do-conhecimento-nah-hamadi/

O Fumo e os Terreiros de Umbanda

O fumo é a erva mais tradicional da terapêutica psico-espiritual praticada na Umbanda. Originário do mundo novo, os nativos fumavam o tabaco picado e enrolado em suas próprias folhas, ou na de outras plantas, conhecendo o processo de curar e fermentar o fumo, melhorando o gosto e o aroma.

Durante o período físico em que o fumo germina, cresce e se desenvolve, arregimenta as mais variadas energias do solo e do meio ambiente, absorvendo calor, magnetismo, raios infravermelhos e ultravioletas do sol, polarização eletrizante da lua, éter físico, sais minerais, oxigênio, hidrogênio, luminosidade, aroma, fluidos etéreos, cor, vitaminas, nitrogênio, fósforo, potássio e o húmus da terra. Assim, o fumo condensa forte carga etérea e astral que, ao ser liberada pela queima, emana energias que atuam positivamente no mundo oculto, podendo desintegrar fluídos adversos à contextura perispiritual dos encarnados e desencarnados.

O charuto e o cachimbo, ou ainda o cigarro, utilizados pelas entidades filiadas ao trabalho de Oxalá são tão somente defumadores individuais. Lançando a fumaça sobre a aura, os plexos ou feridas, vão os espíritos atuando em benefício daqueles que os procuram com fé.

Os solos com textura mais fina, com elevado teor de argila, produzem fumos mais fortes, como os destinados a charutos ou fumos de corda, enquanto os solos mais arenosos produzem fumos leves, para a fabricação de cigarros. No fabrico dos charutos (palavra derivada do tâmil churutu), as folhas, após o processo de secagem, são reunidas em manocas de 15 a 20 folhas e submetidas a fermentação, destinada a diminuir a percentagem de nicotina, aumentar a combustividade do fumo e uniformizar a sua coloração. Os tipos de fumo mais utilizados na confecção dos charutos brasileiros são: Brasil-Bahia, Virgínia, Sumatra e Havana.

Nos trabalhos umbandistas é muito utilizado por Exu Bombogira. A cigarrilha de odor especial, quando utilizada por esta entidade, melhor se ajusta ao descarrego do magiado, por proporcionar-lhe mais tranquilidade. Os cigarros são utilizados para fins mais materiais, normalmente relacionados com negócios financeiros.

Os charutos de fumo grosseiro e forte são peculiares à magia dos Exus, enquanto os charutos de fumo de melhor qualidade são usados por Caboclos. Já os Pretos-Velhos dão preferência aos cachimbos, nos quais usam diversos tipos de mistura de ervas, como o alecrim, a alfazema e outros, além de utilizarem cigarros de palha, impregnando assim os elementos com a sua própria força espiritual, transformando o tradicional “pito” em um eficiente desagregador de energias negativas. Desta maneira, como o defumador, o charuto ou o cachimbo são instrumentos fundamentais na ação mágica dos trabalhos umbandistas executados pelas entidades. A queima do tabaco funciona como um defumador individual, próprio, dirigido ao objetivo do Guia, que não traz nenhum vício tabagista, como dizem alguns, representando apenas um meio de descarrego, um bálsamo vitalizador e ativador dos chakras dos consulentes. Vemos assim que, como ensinou um Pai Velho, “na fumaça está o segredo dos trabalhos da Umbanda”.

#Umbanda

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-fumo-e-os-terreiros-de-umbanda

A Cabala Luriânica

A Cabala Luriânica é uma escola de Cabala com o nome de Isaac Luria (1534-1572), o rabino judeu que a desenvolveu. A Cabala Luriânica deu um novo registro seminal do pensamento cabalístico que seus seguidores sintetizaram e leram na Cabala anterior do Zohar que se disseminava nos círculos medievais.

A Cabala Luriânica descreve novas doutrinas das origens da Criação, e os conceitos de Olam HaTohu (hebraico: עולם התהו “O Mundo de Tohu-Caos”) e Olam HaTikun (hebraico: עולם התיקון “O Mundo de Tikun-Retificação”), que representam dois estados espirituais arquetípicos de ser e consciência. Esses conceitos derivam da interpretação de Isaac Luria e das especulações míticas sobre referências no Zohar. O principal divulgador das idéias de Luria foi o rabino Hayyim ben Joseph Vital da Calábria, que afirmou ser o intérprete oficial do sistema luriânico, embora alguns contestassem essa afirmação. Juntos, os ensinamentos compilados escritos pela escola de Luria após sua morte são metaforicamente chamados de “Kitvei HaARI” (Escritos do ARI), embora diferissem em algumas interpretações centrais nas primeiras gerações.

As interpretações anteriores do Zohar culminaram no esquema racionalmente influenciado de Moisés ben Jacó Cordovero em Safed, imediatamente antes da chegada de Luria. Os sistemas de Cordovero e Luria deram à Cabala uma sistematização teológica para rivalizar com a eminência anterior da filosofia judaica medieval. Sob a influência do renascimento místico em Safed do século XVI, o lurianismo tornou-se a teologia judaica dominante quase universal no início da era moderna, tanto nos círculos acadêmicos quanto na imaginação popular. O esquema luriânico, lido por seus seguidores como harmonioso e sucessivamente mais avançado que o cordoveriano, em grande parte o deslocou, tornando-se a base dos desenvolvimentos subsequentes do misticismo judaico. Após o Ari, o Zohar foi interpretado em termos luriânicos e, posteriormente, os cabalistas esotéricos expandiram a teoria mística dentro do sistema luriânico. Os movimentos hassídicos e mitnágdicos posteriores divergiram sobre as implicações da Cabala Luriânica e seu papel social no misticismo popular. A tradição mística sabática também derivaria sua fonte do messianismo luriânico, mas tinha uma compreensão diferente da interdependência cabalística do misticismo com a observância judaica halakha.

A NATUREZA DO PENSAMENTO LURIÂNICO

A característica do sistema teórico e meditativo de Luria é sua reformulação da hierarquia estática anterior de desdobramento dos níveis Divinos, em um drama espiritual cósmico dinâmico de exílio e redenção. Através disso, essencialmente, tornaram-se duas versões históricas da tradição teórico-teosófica na Cabala:

  1. A Cabala Medieval e o Zohar como foi inicialmente entendido (às vezes chamado de Cabala “clássica/zoharica”), que recebeu sua sistematização por Moshe Cordovero imediatamente antes de Luria no período da Modernidade
  1. A Cabala Luriânica, a base do misticismo judaico moderno, embora Luria e os cabalistas subsequentes vejam o lurianismo como nada mais do que uma explicação do verdadeiro significado do Zohar.

A Cabala Primitiva

As doutrinas místicas da Cabala apareceram em círculos esotéricos no século 12 no sul da França (Provence-Languedoc), espalhando-se para o norte da Espanha do século 13 (Catalunha e outras regiões). O desenvolvimento místico culminou com a disseminação do Zohar a partir de 1305, o principal texto da Cabala. A Cabala Medieval incorporou motivos descritos como “Neoplatônico” (reinos linearmente descendentes entre o Infinito e o finito), “Gnóstico” (no sentido de vários poderes se manifestando da Divindade singular, em vez de deuses plurais) e “Místico” (em contraste com racional, como as primeiras doutrinas de reencarnação do judaísmo). Comentários subsequentes sobre o Zohar tentaram fornecer uma estrutura conceitual na qual suas imagens altamente simbólicas, ideias vagamente associadas e ensinamentos aparentemente contraditórios pudessem ser unificados, compreendidos e organizados sistematicamente. Meir ben Ezekiel ibn Gabbai (nascido em 1480) foi um precursor disso, mas as obras enciclopédicas de Moisés Cordovero (1522-1570) sistematizaram de maneira influente o esquema da Cabala Medieval, embora não explicassem algumas crenças clássicas importantes, como a reencarnação. O esquema Medieval-Cordoveriano descreve em detalhes um processo linear e hierárquico onde a Criação finita evolui (“Hishtalshelut“) sequencialmente do Ser Infinito de Deus. As sefirot (atributos Divinos) na Cabala, agem como forças discretas e autônomas no desdobramento funcional de cada nível da Criação, do potencial ao atual. O bem-estar do Reino Divino Superior, onde as Sephirot se manifestam supremamente, está mutuamente ligado ao bem-estar do Reino Humano Inferior. Os atos do Homem, no final da cadeia, afetam a harmonia entre as Sephirot nos mundos espirituais superiores. Mitzvot (observâncias judaicas) e atos virtuosos trazem unidade Acima, permitindo a unidade entre Deus e a Shekhinah (Presença Divina) Abaixo, abrindo o Fluxo da vitalidade Divina em toda a Criação. O pecado e os atos egoístas introduzem ruptura e separação em toda a Criação. O mal, causado por ações humanas, é um transbordamento mal direcionado Abaixo de Gevurah (Gravidade/Severidade) não controlada no Alto.

A Comunidade Moderna de Safed

O renascimento da Cabala no século XVI na comunidade galileana de Safed, que incluía Joseph Karo, Moshe Alshich, Cordovero, Luria e outros, foi moldado por sua perspectiva espiritual e histórica particular. Após a expulsão da Espanha em 1492, eles sentiram uma urgência e responsabilidade pessoal em nome do povo judeu para apressar a redenção messiânica. Isso envolvia uma ênfase em parentesco próximo e práticas ascéticas, e o desenvolvimento de rituais com um foco messiânico-comunal. Os novos desenvolvimentos de Cordovero e Luria na sistematização da Cabala anterior buscavam a disseminação mística além dos círculos acadêmicos próximos aos quais a Cabala anteriormente estava restrita. Eles sustentavam que a ampla publicação desses ensinamentos e práticas meditativas baseadas neles aceleraria a redenção para todo o povo judeu.

A CABALA LURIÂNICA

Onde o objetivo messiânico permaneceu apenas periférico no esquema linear de Cordovero, o esquema teórico mais abrangente e as práticas meditativas de Luria explicaram o messianismo como sua dinâmica central, incorporando toda a diversidade de conceitos cabalísticos anteriores como resultados de seus processos. Luria conceitua os Mundos Espirituais através de sua dimensão interna de exílio e redenção divina. O mito luriânico trouxe à tona noções cabalísticas mais profundas: teodicéia (origem primordial do mal) e exílio da Shekhinah (Presença Divina), redenção escatológica, o papel cósmico de cada indivíduo e os assuntos históricos de Israel, simbolismo da sexualidade no mundo celestial Manifestações divinas e a dinâmica inconsciente na alma. Luria deu articulações teosóficas esotéricas às questões mais fundamentais e teologicamente ousadas da existência.

Pontos de Vistas Cabalísticos

Os cabalistas religiosos vêem a abrangência mais profunda da teoria luriânica devido à sua descrição e exploração de aspectos da Divindade, enraizados no Ein Sof, que transcendem o misticismo revelado e racionalmente apreendido descrito por Cordovero. O sistema da Cabala Medieval é incorporado como parte de sua dinâmica mais ampla. Onde Cordovero descreveu as Sefirot (atributos divinos) e os Quatro Reinos espirituais, precedidos por Adam Kadmon, desdobrando-se sequencialmente a partir do Ein Sof, Luria sondou a origem supra-racional desses Cinco Mundos dentro do Infinito. Isso revelou novas doutrinas do Tzimtzum Primordial (contração) e do Shevira (quebra) e reconfiguração das Sephirot. Na Cabala, o que precedeu mais profundamente nas origens, também se reflete nas dimensões internas da Criação subsequente, de modo que Luria foi capaz de explicar o messianismo, os aspectos divinos e a reencarnação, crenças cabalísticas que permaneceram dessistemas de antemão.

As tentativas de sistematização cabalística de Cordovero e Medieval, influenciadas pela filosofia judaica medieval, abordam a teoria cabalística através do paradigma racionalmente concebido de “Hishtalshelut” (“Evolução” sequencial de níveis espirituais entre o Infinito e o Finito – os vasos/molduras externas de cada mundo espiritual ). Luria sistematiza a Cabala como um processo dinâmico de “Hitlabshut” (“Revestimento” de almas superiores dentro de vasos inferiores – as dimensões interiores/alma de cada mundo espiritual). Isso vê dimensões internas dentro de qualquer nível da Criação, cuja origem transcende o nível em que estão revestidas. O paradigma espiritual da Criação é transformado em um processo dinâmico de interação na Divindade. As manifestações divinas envolvem-se umas nas outras e estão sujeitas ao exílio e à redenção:

“O conceito de hitlabshut (“vestimenta”) implica uma mudança radical de foco ao considerar a natureza da Criação. De acordo com essa perspectiva, a principal dinâmica da Criação não é evolutiva, mas interacional. Os estratos superiores da realidade estão constantemente se revestindo dentro dos estratos inferiores, como a alma dentro de um corpo, infundindo assim cada elemento da Criação com uma força interna que transcende sua própria posição dentro da hierarquia universal. Hitlabshut é muito mais uma dinâmica “biológica”, responsável pela força vital que reside na Criação; hishtalshelut, por outro lado, é “físico”, preocupado com a energia condensada da “matéria” (vasos espirituais) em vez da força vital da alma.”

Devido a este paradigma mais profundo e interno, as novas doutrinas introduzidas por Luria explicam os ensinamentos e passagens cabalísticas do Zohar que permaneceram superficialmente compreendidos e descritos externamente antes. Conceitos aparentemente não relacionados tornam-se unificados como parte de um quadro abrangente e mais profundo. Os sistematizadores cabalísticos antes de Luria, culminando com Cordovero, foram influenciados pelo Guia filosófico de Maimônides, em sua busca para decifrar o Zohar intelectualmente e unificar a sabedoria esotérica com a filosofia judaica. Na Cabala isso incorpora o nível mental Neshamá (Compreensão) da alma. Os ensinamentos de Luria desafiam a alma a ir além das limitações mentais. Embora apresentada em termos intelectuais, continua sendo uma doutrina revelada e supra-racional, dando uma sensação de estar além do alcance intelectual. Isso corresponde ao nível da alma de Haya (insight de Sabedoria), descrito como apreensão de “tocar/não tocar”.

Pontos de Vista Acadêmicos

No estudo acadêmico da Cabala, Gershom Scholem viu o lurianismo como uma resposta historicamente localizada ao trauma do exílio espanhol, uma mitificação plenamente expressa do judaísmo e um misticismo messiânico paradoxalmente paradoxal, pois o misticismo fenomenologicamente geralmente envolve a retirada da comunidade. Na academia mais recente, Moshe Idel desafiou a influência histórica de Scholem no lurianismo, vendo-o como um desenvolvimento em evolução dentro dos fatores inerentes ao misticismo judaico por si só. Em sua monografia Physician of the Soul, Healer of the Cosmos: Isaac Luria and His Kabbalistic Fellowship (O Médico da Alma, o Curador do Cosmos: Isaac Luria e Sua Irmandade Cabalística), Stanford University Press, 2003, Lawrence Fine explora o mundo de Isaac Luria do ponto de vista da experiência vivida por Luria e seus discípulos.

OS PRINCIPAIS CONCEITOS DA CABALA LURIÂNICA:

O Tzimtzum Primordial – A Contração da Divindade:

Isaac Luria propôs a doutrina do Tzimtzum, (significando alternativamente: “Contração/Ocultação/Condensação/Concentração”), a Auto-Retirada primordial da Divindade para “dar espaço” para a Criação subsequente.

A Cabala anterior ensinou que antes da criação dos reinos espirituais ou físicos, a simplicidade divina de Ein Sof (“Sem Fim”) preenchia toda a realidade. Em uma forma mística de auto-revelação Divina, a Ohr Ein Sof (“Luz do Ein Sof/Luz Infinita”) brilhou dentro do Ein Sof, antes de qualquer criação. Na Unidade absoluta do Ein Sof, “nenhuma coisa” (nenhuma limitação/fim) poderia existir, pois tudo seria anulado. Sobre o Ein Sof, nada pode ser postulado, pois transcende toda apreensão/definição. A Cabala Medieval sustentava que no início da Criação, do Ein Sof emergiram da ocultação os 10 atributos Divinos Sephirot para emanar a existência. A vitalidade brilhou primeiro para Adam Kadmon (“Homem Primordial”), o reino da Vontade Divina), nomeado metaforicamente em relação ao Homem que está enraizado no plano Divino inicial. De Adam Kadmon emergiram sequencialmente os Quatro Reinos Espirituais descendentes: Atziluth (“Emanação” – o nível da Sabedoria Divina), Beriah (“Criação” – Intelecto Divino), Yetzirah (“Formação” – Emoções Divinas), Assiah (“Ação” – Realização Divina). Na Cabala Medieval, o problema da criação finita emergindo do Infinito foi parcialmente resolvido por inumeráveis ​​e sucessivas ocultações/contrações/encobrimentos de tzimtzumim da abundância Divina através dos Mundos, reduzindo-a sucessivamente a intensidades apropriadas. Em cada estágio, o fluxo absorvido criava reinos, transmitindo resíduos para níveis mais baixos.

Para Luria, essa cadeia causal não resolveu a dificuldade, pois a qualidade infinita da Ohr Ein Sof, mesmo sujeita a inúmeros véus/contrações, ainda impediria a existência independente. Ele avançou um salto Tzimtzum primordial inicial e radical antes da Criação, a auto-retirada da Divindade. No centro do Ein Sof, a retirada formou um metafórico (não espacial) Khalal/Makom Ponui (“Vácuo/Espaço Vazio”) no qual a Criação ocorreria. O vácuo não estava totalmente vazio, pois restava uma leve Reshima (“Impressão”) da Realidade anterior, semelhante à água que se agarra a um recipiente vazio.

No vácuo então brilhou uma nova luz, o Kav (“Raio/Linha”), uma “fina” extensão diminuída da Luz Infinita original, que se tornou a fonte de toda a Criação subsequente. Embora ainda infinita, essa nova vitalidade era radicalmente diferente da Luz Infinita original, pois agora estava potencialmente adaptada à perspectiva limitada da Criação. Assim como a perfeição de Ein Sof abarcava tanto a infinitude quanto a finitude, a Luz Infinita possuía qualidades finitas ocultas e latentes. O Tzimtum permitiu que qualidades infinitas se retirassem para o Ein Sof, e qualidades potencialmente finitas emergissem. À medida que o Kav brilhava no centro do vácuo, englobava dez Iggulim “concêntricos” (o esquema conceitual dos “Círculos”), formando as Sephirot, permitindo que a Luz aparecesse em sua diversidade.

Shevira – A Quebra dos Vasos das Sephirot:

A primeira configuração divina dentro do vácuo compreende Adam Kadmon, o primeiro reino espiritual primitivo descrito na Cabala anterior. É a manifestação da vontade divina específica para a criação subsequente, dentro da estrutura relativa da criação. Seu nome antropomórfico indica metaforicamente o paradoxo da criação (Adam – homem) e manifestação (Kadmon – divindade primordial). O homem é concebido como a futura encarnação na criação subsequente, ainda não surgida, das manifestações divinas. O Kav forma as Sephirot, ainda apenas latentes, de Adam Kadmon em dois estágios: primeiro como Iggulim (Círculos), depois englobado como Yosher (Reto), os dois esquemas de arranjo das Sephirot. Na explicação sistemática de Luria dos termos encontrados na Cabala clássica:

  • Iggulim é o Sephirot agindo como dez princípios “concêntricos” independentes;
  • Yosher é um Partzuf (configuração) no qual as Sephirot agem em harmonia umas com as outras no esquema de três colunas.

“Reto” é assim chamado por meio de uma analogia com a alma e o corpo do homem. No homem, os dez poderes sefiróticos da alma atuam em harmonia, refletidos nos diferentes membros do corpo, cada um com uma função particular. Luria explicou que é a configuração Yosher das Sephirot que é referido por Gênesis 1:27, “Deus criou o homem à Sua própria imagem, à imagem de Deus Ele o criou, macho e fêmea Ele os criou”. No entanto, em Adam Kadmon, ambas as configurações das Sephirot permanecem apenas em potencial. Adam Kadmon é pura luz divina, sem vasos, limitado por sua futura vontade potencial de criar vasos e pelo efeito limitador da Reshima.

Da configuração figurativa não corpórea de Adam Kadmon emanam cinco luzes: metaforicamente dos “olhos”, “ouvidos”, “nariz”, “boca” e “testa”. Estes interagem uns com os outros para criar três estágios do mundo espiritual particular após Adam Kadmon: Akudim (“Ligado” – caos estável), Nekudim (“Pontos” – caos instável) e Berudim (“Conectado” – início da retificação). Cada reino é um estágio sequencial no primeiro surgimento dos vasos sefiróticos, antes do mundo de Atziluth (Emanação), o primeiro dos quatro mundos espirituais abrangentes da criação descritos na Cabala anterior. À medida que as Sephirot emergiam dentro dos vasos, elas atuavam como dez forças Iggulim independentes, sem inter-relação. Chesed (Bondade) se opôs a Gevurah (Severidade), e assim com as emoções subsequentes. Este estado, o mundo de Tohu (Caos) precipitou uma catástrofe cósmica no reino Divino. Tohu é caracterizado pela grande divina Ohr (Luz) em vasos fracos, imaturos e não harmonizados. À medida que a luz divina se derramava nas primeiras sefirot intelectuais, seus vasos estavam próximos o suficiente de sua fonte para conter a abundância de vitalidade. No entanto, à medida que o transbordamento continuou, as sefirot emocionais subsequentes se despedaçaram (Shevirat HaKeilim – “A Quebra dos Vasos”) de Binah (Compreensão) até Yesod (a Fundação) sob a intensidade da luz. A sephirah final Malkhut (Reinado) permanece parcialmente intacta como a Shekhina exilada (imanência divina feminina) na criação. Este é o relato esotérico em Gênesis e Crônicas dos oito reis de Edom que reinaram antes de qualquer rei reinar em Israel. Os fragmentos dos vasos quebrados caíram do reino de Tohu na ordem criada subsequente de Tikun (Retificação), estilhaçando-se em inúmeros fragmentos, cada um animado pelas Nitzutzot (Faíscas) exiladas de sua luz original. As centelhas divinas mais sutis foram assimiladas nos reinos espirituais mais elevados como sua força vital criativa. Os fragmentos animados mais grosseiros caíram em nosso reino material, com fragmentos inferiores nutrindo os Kelipot (Conchas) em seus reinos de impureza.

Tikun – Retificação:

Partzufim – As Personas Divinas:

Os subsequentes quatro mundos espirituais da Criação abrangentes, descritos na Cabala anterior, incorporam o reino luriânico de Tikun (“Retificação”). Tikun é caracterizado por luzes mais baixas e menos sublimes que Tohu, mas em vasos fortes, maduros e harmonizados. A retificação é iniciada em Berudim, onde as Sephirot harmonizam suas 10 forças, cada uma incluindo as outras como princípios latentes. No entanto, a retificação celestial é completada em Atziluth (Mundo da “Emanação”) após a Shevira, através das Sephirot transformando-se em Partzufim ( “Faces/Configurações”) Divinas. Na Cabala Zoharica, os partzufim aparecem como aspectos divinos supernais particulares, expostos no Idrot esotérico, mas tornam-se sistematizados apenas no Lurianismo. Os 6 partzufim primários, que se dividem em 12 formas secundárias:

  • Atik Yomin (“Ancião dos Dias”) parte interna de Keter, a Deleite.
  • Arikh Anpin (“O Semblante Maior”) partzuf exterior de Keter, a Vontade.
  • Abba (“Pai”) partzuf de Chokhma, a Sabedoria.
  • Imma (“Mãe”) partzuf de Binah, a Compreensão.
  • Zeir Anpin (“O Semblante Menor” – Filho) partzuf das Sephirot emocionais.
  • Nukva (“Feminino” – Filha) partzuf de Malkhut, a Realeza.

Os Parzufim são as Sephirot agindo no esquema de Yosher, como no homem. Em vez de incluir latentemente outros princípios independentemente, os partzufim transformam cada sephirah em configurações antropomórficas completas de três colunas de 10 Sephirot, cada uma das quais interage e envolve as outras. Através do parzufim, a fraqueza e a falta de harmonia que instigou a shevirah é curada. Atziluth, o reino supremo da manifestação Divina e consciência exclusiva da Unidade Divina, é eternamente retificado pelos partzufim; suas centelhas de raiz de Tohu são totalmente redimidas. No entanto, os três mundos inferiores de Beri’ah (“O Mundo da Criação”), Yetzirah (“O Mundo da Formação”) e Assiah (“O Mundo da Ação”) incorporam níveis sucessivos de autoconsciência independente da Divindade. A retificação ativa de Tikun da Criação inferior só pode ser alcançada de baixo, de dentro de suas limitações e perspectivas, em vez de imposta de cima. A redenção messiânica e a transformação da Criação são realizadas pelo Homem no reino mais baixo, onde predomina a impureza.

Este procedimento era absolutamente necessário. Se Deus no princípio tivesse criado os partzufim em vez das Sefirot, não haveria mal no mundo e, consequentemente, nenhuma recompensa e punição; pois a fonte do mal está nas Sefirot ou vasos quebrados (Shvirat Keilim), enquanto a luz do Ein Sof produz apenas o que é bom. Essas cinco figuras são encontradas em cada um dos Quatro Mundos; ou seja, no mundo da Emanação (Atzilut), Criação (Beri’ah), Formação (Yetzirah) e no mundo da Ação (Asiyah), que representa o mundo material.

Birur – O Esclarecimento pelo Homem:

A tarefa de retificar as centelhas de santidade que foram exiladas nos mundos espirituais inferiores autoconscientes foi dada ao Adão bíblico no Jardim do Éden. No relato luriânico, Adão e Hava (Eva) antes do pecado da Árvore do Conhecimento não residiam no mundo físico Assiah (“Ação”), no nível atual de Malkhut (sephirah mais baixa “Reina”). Em vez disso, o Jardim era o reino não-físico de Yetzirah (“Formação”), e na sephirah superior de Tiferet (“Beleza”).

Gilgul – A Reencarnação e a Alma:

O sistema psicológico de Luria, no qual se baseia sua Cabala devocional e meditativa, está intimamente ligado às suas doutrinas metafísicas. Dos cinco partzufim, diz ele, emanaram cinco almas, Nefesh (“Espírito”), Ru’ach (“Vento/Fôlego”), Neshamah (“Alma“), Chayah (“Vida”) e Yechidah (“Singularidade“); sendo o primeiro deles o mais baixo, e o último o mais alto. (Fonte: Etz Chayim). A alma do homem é o elo de ligação entre o infinito e o finito e, como tal, tem um caráter múltiplo. Todas as almas destinadas à raça humana foram criadas juntamente com os diversos órgãos de Adão. Assim como existem órgãos superiores e inferiores, há almas superiores e inferiores, segundo os órgãos com os quais estão acoplados, respectivamente. Assim, há almas do cérebro, almas do olho, almas da mão, etc. Cada alma humana é uma centelha (nitzotz) de Adão. O primeiro pecado do primeiro homem causou confusão entre as várias classes de almas: a superior misturou-se com a inferior; bem com mal; de modo que mesmo a alma mais pura recebeu uma mistura do mal, ou, como Luria chama, do elemento das “conchas/cascas” (Kelipoth). Em consequência da confusão, os primeiros não são totalmente privados do bem original, e os segundos não estão totalmente livres do pecado. Este estado de confusão, que dá um impulso contínuo para o mal, cessará com a chegada do Messias, que estabelecerá o sistema moral do mundo sobre uma nova base.

Até a chegada do Messias, a alma do homem, por suas deficiências, não pode retornar à sua fonte, e tem que vagar não apenas pelos corpos dos homens e dos animais, mas às vezes até por coisas inanimadas como madeiras, rios e pedras. A esta doutrina do gilgulim (reencarnação das almas) Luria acrescentou a teoria da impregnação (ibbur) das almas; isto é, se uma alma purificada negligenciou alguns deveres religiosos na terra, ela deve retornar à vida terrena e, unindo-se à alma de um homem vivo, e unir-se a ela para compensar tal negligência.

Além disso, a alma morta de um homem liberto do pecado aparece novamente na terra para apoiar uma alma fraca que se sente desigual para sua tarefa. No entanto, essa união, que pode se estender a duas almas ao mesmo tempo, só pode ocorrer entre almas de caráter homogêneo; isto é, entre aqueles que são centelhas do mesmo órgão adamita. A dispersão de Israel tem como propósito a salvação das almas dos homens; como as almas purificadas dos israelitas cumprirão a profecia de se tornarem “Lâmpada para as nações”, influenciando as almas dos homens de outras raças a fazer o bem. Segundo Luria, existem sinais pelos quais se pode conhecer a natureza da alma de um homem: a que grau e classe ela pertence; a relação existente entre ela e o mundo superior; as andanças que já realizou; os meios pelos quais pode contribuir para o estabelecimento do novo sistema moral do mundo; e a qual alma deve se unir para se purificar.

INFLUÊNCIA DA CABALA LURIANICA

 As Heresias Místicas Sabateanas:

A Cabala Luriânica foi acusada por alguns de ser a causa da disseminação dos Messias Sabbateanos Shabbetai Tzvi (1626–1676) e Jacob Frank (1726–1791), e suas heresias baseadas na Cabala. O renascimento místico do século XVI em Safed, liderado por Moshe Cordovero, Joseph Karo e Isaac Luria, fez do estudo cabalístico um objetivo popular dos estudantes judeus, até certo ponto competindo pela atenção com o estudo talmúdico, ao mesmo tempo em que capturava a imaginação do público. O shabbetianismo surgiu nessa atmosfera, juntamente com as opressões do exílio, ao lado dos genuínos círculos místicos tradicionais.

Onde o esquema de Isaac Luria enfatizou o papel democrático de cada pessoa em redimir as faíscas caídas de santidade, alocando o Messias apenas uma chegada conclusiva no processo, o profeta de Shabbetai, Nathan de Gaza, interpretou seu papel messiânico como fundamental para recuperar essas faíscas perdidas na impureza. Agora, a fé em seu papel messiânico, depois que ele se converteu ao islamismo, tornou-se necessária, assim como a fé em suas ações antinomianas. Jacob Frank alegou ser uma reencarnação de Shabbetai Tzvi, enviado para recuperar faíscas através das ações mais anarquistas de seus seguidores, alegando que a quebra da Torá em sua era messiânica emergente era agora seu cumprimento, o oposto da necessidade messiânica da devoção haláchica por Luria e os cabalistas. Em vez disso, para os cabalistas de elite do século XVI de Safed após a expulsão da Espanha, eles sentiram uma responsabilidade nacional pessoal, expressa através de seu renascimento místico, restrições ascéticas, fraternidade devotada e estreita adesão à prática judaica normativa.

Influência na Prática Ritual e na Meditação da Oração:

A Cabala Luriânica permaneceu a principal escola de misticismo no judaísmo e é uma influência importante no hassidismo e nos cabalistas sefarditas. De fato, apenas uma minoria dos místicos judeus de hoje pertence a outros ramos do pensamento no misticismo zoharico. Alguns cabalistas judeus disseram que os seguidores de Shabbetai Tzvi evitavam fortemente os ensinamentos da Cabala Luriânica porque seu sistema refutava suas noções. Por outro lado, os Shabbetians usaram os conceitos luriânicos de faíscas presas na impureza e almas puras sendo misturadas com as impuras para justificar algumas de suas ações antinomianas.

Luria introduziu seu sistema místico na observância religiosa. Cada mandamento tinha um significado místico particular. O Shabat com todas as suas cerimônias era visto como a encarnação da Divindade na vida temporal, e cada cerimônia realizada naquele dia era considerada uma influência sobre o mundo superior. Cada palavra e sílaba das orações prescritas contêm nomes ocultos de Deus sobre os quais se deve meditar devotamente enquanto recita. Novas cerimônias místicas foram ordenadas e codificadas sob o nome de Shulkhan Arukh HaARI (O “Código de Lei do Ari”). Além disso, um dos poucos escritos do próprio Luria compreende três hinos à mesa do sábado com alusões místicas. Do hino da terceira refeição:

Vocês, príncipes do palácio, que anseiam por contemplar o esplendor de Zeir Anpin

Esteja presente nesta refeição em que o Rei deixa Sua marca

Exulte, regozije-se nesta reunião com os anjos e todos os seres celestiais

Alegrai-vos agora, neste momento tão propício, quando não há tristeza…

Convido o Ancião dos Dias neste momento auspicioso, e a impureza será totalmente removida…

De acordo com o costume de se dedicar ao estudo de Torá durante toda a noite no festival de Shavuot, Isaac Luria organizou um serviço especial para a vigília noturna de Shavuot, o Tikkun Leil Shavuot (“Retificação para a Noite de Shavuot”). É comumente recitado na sinagoga, com o Kadish se o Tikkun for estudado em um grupo de dez. Depois, os hassidim mergulham em um mikveh antes do amanhecer.

Espiritualidade Judaica Moderna e Opiniões Divergentes:

As idéias do rabino Luria gozam de amplo reconhecimento entre os judeus hoje. Ortodoxos, bem como reformistas, reconstrucionistas e membros de outros grupos judaicos frequentemente reconhecem a obrigação moral de “reparar o mundo” (tikkun olam). Essa ideia se baseia no ensinamento de Luria de que fragmentos de divindade permanecem contidos na criação material defeituosa e que os atos rituais e éticos dos justos ajudam a liberar essa energia. A teologia mística do Ari não exerce o mesmo nível de influência em todos os lugares, no entanto. As comunidades onde o pensamento de Luria tem menos influência incluem muitas comunidades alemãs e ortodoxas modernas, grupos que levam adiante as tradições espanholas e portuguesas, um segmento considerável de judeus iemenitas Baladi (ver Dor Daim) e outros grupos que seguem uma forma de judaísmo da Torá baseada mais no clássico autoridades como Maimônides e os Geonim.

Com seu projeto racionalista, o movimento Haskalah do século 19 e o estudo crítico do judaísmo descartaram a Cabala. No século 20, Gershom Scholem iniciou o estudo acadêmico do misticismo judaico, utilizando metodologia histórica, mas reagindo contra o que ele via como seu dogma exclusivamente racionalista. Em vez disso, ele identificou o misticismo judaico como a corrente vital do pensamento judaico, renovando periodicamente o judaísmo com um novo ímpeto místico ou messiânico. O respeito acadêmico da Cabala no século XX, bem como o interesse mais amplo pela espiritualidade, reforçam um interesse cabalístico renovado de denominações judaicas não-ortodoxas no século XX. Isso é frequentemente expresso através da forma de incorporação hassídica da Cabala, incorporada no neo-hassidismo e na renovação judaica.

Lurianismo Tradicional Contemporâneo:

O estudo do Kitvei Ha’Ari (escritos dos discípulos de Isaac Luria) continua principalmente hoje entre os círculos cabalísticos de forma tradicional e em seções do movimento hassídico. Mekubalim mizra’chim (orientais sefarditas cabalistas), seguindo a tradição de Haim Vital e o legado místico do Rashash (1720-1777, considerado pelos cabalistas como a reencarnação do Ari), vêem-se como herdeiros diretos e em continuidade com Os ensinamentos e esquema meditativo de Luria.

Ambos os lados do cisma hassídico-mitnagdico do século 18, defenderam a visão teológica do mundo da Cabala Luriânica. É um equívoco ver a oposição rabínica ao judaísmo hassídico, pelo menos em sua origem formativa, como derivada da adesão ao método filosófico judaico medieval racionalista. O líder da oposição rabínica Mitnagdic ao renascimento místico hassídico, o Vilna Gaon (1720-1797), estava intimamente envolvido na Cabala, seguindo a teoria luriânica, e produziu ele mesmo uma escrita cabalisticamente focada, enquanto criticava o Racionalismo Judaico Medieval. Seu discípulo, Chaim Volozhin, o principal teórico do judaísmo mitnagdico, diferia do hassidismo sobre a interpretação prática do tzimtzum luriânico. Para todos os efeitos, o judaísmo mitnagdico seguiu uma ênfase transcendente no tzimtzum, enquanto o hassidismo enfatizava a imanência de Deus. Essa diferença teórica levou o hassidismo a um foco místico popular além das restrições elitistas, enquanto sustentava o foco mitnagdico no judaísmo talmúdico e não místico para todos, exceto a elite, com uma nova ênfase teórica no estudo talmúdico da Torá no movimento lituano da Yeshiva.

O desenvolvimento judaico de maior escala baseado no ensino luriânico foi o hassidismo, embora tenha adaptado a Cabala ao seu próprio pensamento. Joseph Dan descreve o cisma hassídico-mitnágdico como uma batalha entre duas concepções da Cabala Luriânica. A Cabala de elite mitnagdica era essencialmente leal ao ensino e à prática luriânica, enquanto o hassidismo introduziu novas ideias popularizadas, como a centralidade da imanência divina e Deveikut para toda atividade judaica, e o papel místico social da liderança hassídica tzadik.

Interpretações Literais e Não Literais do Tzimtzum:

Nas décadas após Luria e no início do século 18, diferentes opiniões se formaram entre os cabalistas sobre o significado de tzimtzum, a auto-retirada Divina: deve ser tomada literal ou simbolicamente? Immanuel Hai Ricci (Yosher Levav, 1736-7) tomou tzimtzum literalmente, enquanto Joseph Ergas (Shomer Emunim, 1736) e Abraham Herrera sustentaram que tzimtzum deveria ser entendido metaforicamente.

Os Pontos de Vista Hassídicos e Mitnágdicos do Tzimtzum:

A questão do tzimtzum sustentou a nova popularização pública do misticismo incorporado no hassidismo do século XVIII. Sua doutrina central da imanência divina quase panenteísta, moldando o fervor diário, enfatizava a ênfase mais não literal do tzimtzum. A articulação sistemática desta abordagem hassídica por Shneur Zalman de Liadi na segunda seção do Tanya, esboça um Ilusionismo Monístico da Criação a partir da perspectiva da Unidade Divina Superior. Para Schneur Zalman, o tzimtzum apenas afetava a ocultação aparente da Ohr Ein Sof. O Ein Sof, e o Ohr Ein Sof, na verdade permanecem onipresentes, este mundo anulado em sua fonte. Somente, da perspectiva da Unidade Divina Inferior, Mundana, o tzimtzum dá a ilusão de aparente retirada. Na verdade, “Eu, o Eterno, não mudei” (Malaquias 3:6), pois interpretar o tzimtzum com qualquer tendência literal seria atribuir falsa corporeidade a Deus.

Norman Lamm descreve as interpretações hassídicas-mitnagdicas alternativas disso. Para Chaim Volozhin, o principal teórico da oposição rabínica do Mitnagdim ao hassidismo, o ilusionismo da Criação, decorrente de um tzimtzum metafórico é verdadeiro, mas não leva ao panenteísmo, pois a teologia mitnagdica enfatizava a transcendência divina, enquanto o hassidismo enfatizava a imanência. Como é, a impressão geral inicial da Cabala Luriânica é de transcendência, implícita na noção de tzimtzum. Em vez disso, para o pensamento hassídico, especialmente em sua sistematização Chabad, a essência divina última de Atzmus é expressa apenas na finitude, enfatizando a imanência hassídica. Norman Lamm vê ambos os pensadores como sutis e sofisticados. O Mitnagdim discordou do Panenteísmo, na oposição inicial do líder Mitnagdic, o Vilna Gaon vendo-o como herético. Chaim Volzhin, o principal aluno do Vilna Gaon, era ao mesmo tempo mais moderado, buscando acabar com o conflito, e mais teologicamente principiológico em sua oposição à interpretação hassídica. Ele se opôs ao panenteísmo tanto como teologia quanto como prática, pois sua espiritualização mística do judaísmo substituiu o aprendizado talmúdico tradicional, pois era capaz de inspirar a confusão antinomiana das restrições de observância judaica da Halachá, em busca de um misticismo para o povo comum.

Como resume Norman Lamm, ao Schneur Zalman e ao hassidismo, Deus se relaciona com o mundo como uma realidade, por meio de sua imanência. A imanência divina – a perspectiva Humana, é pluralista, permitindo a popularização mística no mundo material, ao mesmo tempo em que resguarda a Halachá. A Transcendência Divina – a perspectiva Divina, é Monista, anulando a Criação em ilusão. Para Chaim Volozhin e Mitnagdism, Deus se relaciona com o mundo como ele é através de Sua transcendência. A imanência divina – a forma como Deus olha para a Criação física, é monista, anulando-a na ilusão. Transcendência Divina – a forma como o Homem percebe e se relaciona com a Divindade é pluralista, permitindo que a Criação exista em seus próprios termos. Dessa forma, tanto os pensadores quanto os caminhos espirituais afirmam uma interpretação não literal do tzimtzum, mas a espiritualidade hassídica se concentra na proximidade de Deus, enquanto a espiritualidade mitnagdica se concentra no afastamento de Deus. Eles então configuram sua prática religiosa em torno dessa diferença teológica, o hassidismo colocando o fervor do Deveikut como sua prática central, o mitnagdismo enfatizando ainda mais o estudo intelectual talmúdico da Torá como sua atividade religiosa suprema.

Texto Original.  Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-cabala-lurianica/

Ser seu próprio mestre…

Já pararam de fato para pensar nisso? Talvez com o romantismo da adolescência isso soe de algum modo prático e funcional, mas há uma questão conflituosa neste ponto. Se pensarmos bem, esse tipo de motivação está intimamente relacionada ao fato de que não existem tantos mestres por ai afora (incluindo ironicamente os diplomados) e que ao desejar isso é por que esperamos alcançar algo que está além da nossa realidade. Sendo assim e descartando o primeiro motivo, o fato de não sermos aptos a fazer algo ainda, significa inexperiência e portanto uma distinta e distante posição dos mestres. Assim sendo, como ser aquilo pelo qual almejamos se ainda somos iniciantes, ou nos termos do gueto… neófitos?

Nossa carne ainda tem muito em que se espetar e sofreremos devidamente cada arranhão. Serão estes, pois, demonstrados como troféus da labuta e quando por fim chegarmos ao ponto áureo de nossa jornada o ser mestre parecerá ainda longínquo como o próprio horizonte.

A Montanha Sagrada

Esse conflito nada mais é do que um jogo de sedução, pois quanto menos se possui mais se deseja. Vale ressaltar que o motivador é bom somente enquanto formos capazes de não nos confundirmos com ele, nossa integridade deve permanecer, senão perderá o sentido/nome se tornando qualquer outra coisa…

Mesmo assim convenhamos que há de fato necessidade de se reconhecer o mérito, ainda que esse auto reconhecimento ocorra tão somente por intermédio deste Eu, nosso, que vive no outro. A soberba, o orgulho, o peito inflado, o status é tão somente pó inútil do qual deveríamos lidar com flanelas ou espanadores. Livrar os olhos destes brilhos ajuda a não perder o foco e como bem sabemos, o foco é o quinhão do momento. Brindemos ‘pois’ a cada boa conquista, sem gritar como os embriagados (sentiram o Eliphas?), sem enfraquecer no que é de fato importante que é aquilo que continua a desenvolver-se… pois, logo quando o sorriso passa, o que ficará no lugar se nossos olhos ainda estiverem inebriados?

Ser seu próprio mestre é em si um desafio aterrorizador, ou deveria, mas as tantas literaturas new age, filmes hollywoodianos e etc., tornam o “SER – mestre” um produto acessível em qualquer conveniência. E o pior é que isso é verdade!

O mestre não é e nunca foi, como nunca será, o clichê que pensamos ser ou que chegamos a imaginar. Talvez já tenha sido, na época em que ser mestre era ofício; mestre no sentido de ter pala de mestre: barbas longas (perdão às mulheres, mas bem sabemos todos dos machismos de outrora), vestes sacerdotais, olhar penetrante, palavras certas e todo tipo de fetiches do personagem. O mestre é tão somente aquele que por força da situação está preparado mesmo que de forma inusitada. Há de se considerar levemente que os bêbados, os loucos e as crianças tem um certo quê deste tipo-mestre…

Se bem nos permitirmos olharmos com mais cautela para as coisas ao redor podemos nos deparar com nosso mestre sem nunca nos darmos conta disso na vida. Esse mestre, que não somos, mas que está em nossos olhos choraria amargamente se não fosse mestre e já não soubesse do descaso destes novatos que somos. O desprezo ao olhar no justo momento o plástico que envolve o chiclete que contém em si dizeres tais que mudam nossa vida, faz com que a vida não mude um mísero centímetro sequer, mas somos jovens e isso tudo é permitido. E o plástico cai de nossas mãos sem ter significado nada além do que o açúcar nos permite, voando silente e insignificante tanto quanto o significado que nos permitimos doá-lo. Isso tudo poderia até comover, mas só comove o gari que tem mais uma partícula de sua tonelada diária para recolher.

Esses insights, intuições, eurecas nada mais são do que as intervenções deste mestre em potencial que somos para o calouro que de fato contamos a todo instante. É a velha balança que nos enxerta um ritmo do qual poderemos ser espectador, músico acompanhante, solista ou regente. Essa escolha há de parecer não ser nossa, mas o mestre sabe que sempre fora nossa e ri prazerosamente, por que rir é para os mestres como o chorar é para os fracos! E o silêncio envergonha a todos.

Este é um bom momento para o ato de se retirar, pois, tão claro como a regra ‘geek-iluminati’ nos adverte: não tem como um jogo funcionar se um bug já deu o ar da graça, mesmo que o primeiro estágio já tenha sido iniciado, no mínimo o save vai dar o trava final e levar as boas risadas há um choro emputecido. Raro aquele que não tem uma mísera partícula de esperança e permanece no lugar acreditando que na verdade o mestre está em algum outro canto escrevendo textos em folhas de ouro para o seu mais puro e fiel aluno, num futuro distante qualquer. É assim que morrem os filhos e ficam os pais emburrecidos pelos seus próprios mimos acreditando realmente que a vida existe para ser pano de fundo para as nossas vãs crenças. E quando o corpo definha por falta do fôlego vívido seria o momento em que o mestre choraria se este não esvaísse junto com o olhar que esfria. Mas ainda assim há sempre um novo dia, como a esperança que se implica como agonia.

Ser seu próprio mestre é, portanto, não esperar encontrar esta resposta aqui, desde já em canto algum, mas abrir-se à resposta como se esta já estivesse sempre ao lado esperando na verdade do olhar um mísero perceber… já que é certo que Ele ri… e que Ele chora… rindo… chorando… cooptando sincronicamente.

Djaysel Pessôa

#hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/ser-seu-pr%C3%B3prio-mestre

A Dura Verdade sobre Projeção Astral

Eis algo que você não vai ler muito em livros de ocultismo: Projeção Astral não existe.

Não me entenda mal, eu mesmo já tive diversas experiências e sei como induzi-las. O que estou tentando dizer aqui é que ‘Projeção Astral’ é um péssimo nome usado para descrever o que realmente acontece. Este é um nome que não apenas não condiz com os fatos experimentados mas que confunde ainda mais os praticantes ao empurrar discretamente goela a baixo uma série de conceitos ultrapassados e até mesmo ingênuos.

Este nome propõe, como muitas escolas esotéricas ensinam, que o ser humano é composto de diferentes corpos, sendo que um deles é o chamado corpo astral. Até ai nenhuma crítica, cada um dá ao próprio rabo o apelido que mais gosta, além disso é uma forma didática de se ver o mundo – como quem separa o sistema circulatório do sistema nervoso em um livro de anatomia, mas sabe que não pode separá-los na anatomia propriamente dita. O ponto amargo é que é justamente isso que a Projeção Astral propõe: a suposição que o corpo astral se projeta para fora do corpo, permanecendo ligado a ele por um fio luminoso infinitamente elástico, que sinceramente nunca vi.

O problema central é tentar explicar uma experiência mental usando vocabulário corporal. Outro nome horrível é EFC (OBE), sigla para “Experiência Fora do Corpo”, pois igualmente sugere que um “espírito”, “fantasma” ou qualquer coisa etérea exista e que sob as condições certas deixe corpo e saia passeando por aí. Eis o velho perigo no ocultismo, aceitar o que é dito sem refletir, estudar e experimentar um determinado assunto por si mesmo. Não se trata apenas de levianidade, mas um tipo de estupidez pois quando o praticante passa pela experiência, e vê que é real, acaba acreditando que a teoria fajuta que veio com o pacote também é verdadeira. Felizmente para a mente sagaz uma gota de bom senso basta para purificar um mar de ilusões.

De fato, não podemos dizer que ‘nada acontece’. Sabemos por algumas pesquisas que durante as projeções algo de diferente se passa. O artigo de Andra M. Smith e Claude Messierwere publicado pela Frontiers of Human Neuroscience monitorou por exemplo, algumas “projeções” via ressonância magnética e pode comprovar uma “forte desativação do córtex visual” acompanhada de  intensa atividade “no lado esquerdo de diversas áreas associadas a imagens cinestésicas”. Em outra palavras é como se a visão fosse desligada e as pessoas se movimentassem dentro de sua prrópria cabeça. Para a pessoa a experiência em si é absolutamente real e ela pode inclusive sentir que esta fora do próprio corpo. Mas quem realmente está em atividade é seu cérebro.

Isso pode ser comprovado de modo simples. Você provavelmente conhece algumas pessoas e “mestres ocultos” que dizem conseguir projetar-se para fora do corpo. Proponha para elas um teste simples. Que feche os olhos e sorteie uma carta de baralho. Sem olhar para ela coloque-a sobre uma mesa em um um recinto próximo. Feche a porta e na próxima oportunidade simplesmente se projete e veja qual foi carta sorteada. Alternativamente tente descobrir a cor de um lápis de cor também sorteado cegamente, peça para verem a a cor e depois voltem para te contar. É importante que você também feche os olhos na hora do sorteio, mesmo se estiver testando outra pessoa. De todas as pessoas a quem propus o teste, posso dizer que nenhuma foi capaz de descobrir o que havia na sala ao lado.

Em minhas experiências nunca vi nada que me convencesse da existência de um corpo astral interagindo com o mundo físico. Em outras palavras, o corpo astral não está “flutuando”, ele não “sai do corpo”, não “enxerga” nem “escuta” as coisas por onde passa. Pense no seguinte: sabemos que quando vemos algo, estamos na verdade estamos experienciando impulsos elétricos enviados a nosso cérebro, causados pela luz que é interceptada por nossa retina; se não temos mais olhos, retina ou sistema nervoso, como nosso espírito astral consegue “enxergar” qualquer coisa? Também ouvimos coisas quando vibrações do ar estimulam nossos tímpanos; como nosso corpo “astral” é estimulado por tais ondas?

Assim defendo que tudo o que experimentamos no desdobramento é uma realidade mental e não corpórea. Não é um salto para fora mas um mergulho para dentro. Se o corpo astral existe, e não é este o ponto da discussão aqui, ele apenas percebe o que podemos chamar, com certa cautela, de “plano astral” da mesma forma que o corpo físico apenas percebe o mundo físico a nossa volta. Na verdade eu me arriscaria chamar este plano de “virtual”, mas sei que muitas pessoas iriam confundir isso com uma internet fantasma e tenho medo dos desdobramentos que isso pode causar, “meu Deus… o cordão de prata é então o fio do mouse astral? Onde ele é enfiado?”

Isso não quer dizer que esta experiência não seja realmente um fenômeno genuíno e não passe de imaginação. Isso seria um contra senso pois a imaginação é também ao seu modo um fenômeno genuíno. Por falta de um nome melhor e por razões que apontarei a seguir, prefiro o nome “Desdobramento da Consciência” ou simplesmente “Desdobramento” pois o eu posso dizer que realmente experimento nestas ocasiões é uma tomada de consciência mais profunda dentro de minha própria mente. Um desdobramento mal feito é algo muito semelhante a uma visualização e um desdobramento bem feito é idêntico a um sonho lúcido. De fato quem sonha está em contato com essa realidade seja consciente ou inconscientemente.

O termo desdobramento é usado por outras pessoas que ao contrário de mim, acreditam na exteriorização de algum tipo de corpo sutil. Mas uso esse termo por uma razão diferente. Eu poderia usar termos herméticos e dizer que “O que está embaixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está embaixo”, mas prefiro me arriscar a usar alguns termos cunhados pelo físico David Bohm, um dos pais da física quântica: “Em certo sentido, o homem é um microcosmo do universo, e portanto o ser humano é uma pista do que o universo é. Nós somos o desdobramento do universo.”

Para mim o Desdobramento da Consciência é a mudança de perspectiva entre a “ordem explicita”, com a qual estamos acostumados graças aos nossos sentidos e a “ordem implícita” que é a nossa natureza anterior. O próprio termo ordem implícita me parece um pouco traiçoeiro pois o que temos la é um caos, no sentido de potencialidades infinitas e não de mera bagunça, é óbvio. Nesse sentido me agrada bastante os termos universo causal e acausal usado na Tradição Septenária. Uma ordem limitada não é mais real do que um outra além da compreensão, assim como as imagens de um canal de TV não são mais reais do que as ondas eletromagnéticas de todos os canais juntos. Ambas simplesmente duas formas de encarar a realidade. Em última estância a realidade é experimentada por nós através de nossa mente, todo o universo onde habitamos não passa de um construto mental nosso. Um mesmo fenômeno pode ser visto e experienciado de formas diferentes ou pode ser caracterizado por diferentes princípios em diferentes contextos, como por exemplo, em diferentes escalas. Um exemplo seria o processo pelo qual um aparelho de rádio transforma ondas eletromagnéticas em ondas sonoras. Outra analogia possível é a de fazer um furo em um pedaço de papel dobrado várias vezes. ao desdobrá-lo a ordem explícita de vários buracos se revelará, embora implicitamente sejam o mesmo buraco. Este modelo de como a mente funciona é semelhante ao modelo proposto pelo neurocientísta Karl H. Pribram, que descreve o funcionamento do cérebro como uma espécie de projeção holográfica.

O mundo mental não pode ser tratado da mesma forma que o mundo físico. Seria como usar regras de macro-economia para explicar o comportamento dos ácaros ou micro-biologia para falar das estrelas. Dizer que o corpo astral fica preso no corpo físico por um cordão de prata infinitamente elástico sinceramente é algo que beira o ridículo. Quando você passa por um desdobramento, você muda de tabuleiro. As peças são outras e o jogo mudou. Na realidade mental, espaço e tempo não são fatores dominantes determinando a relação de dependência ou independência dos diferentes elementos. Em seu lugar um conjunto inteiramente diferente de conexões básicas dos elementos é possível, das quais nossas noções de causa e consequência, bem como de partículas existindo separadamente são abstraídas como formas derivadas de uma ordem mais profunda. Nesta condição não é preciso ‘ir’ para ‘chegar’ pois não há distâncias a serem percorridas. Tudo o que pode ser alcançado está presente em toda parte em um único instante.

O plano astral, se quiser continuar usando o termo, possui sua própria (des)ordem e sua própria (i)lógica. Esta (des)ordem não pode ser entendida apenas como meramente o arranjo regular de objetos (como uma fila) ou de eventos (como uma história), é um caos que só ganha forma com a tenção e assim dá origem a cada e toda região do espaço e tempo que você pode visitar. Veja um exemplo mais prático e didático disto, observe a imagem abaixo:

cone

 

Você pode perceber seu universo como um círculo, uma elípse, uma parábola ou uma hipérbole, dependendo apenas de como o observar, mesmo que ele seja “realmente” um cone. Acredite ou não fora de nossa mente, no mundo da astronomia e da física, a cada momento, cientistas percebem o universo “real” – vou chamá-lo de físico para não desgastar a palavra real- de maneiras diferentes. Antes algo infinito para todos os lados, então algo plano e circular, então algo em forma de pêra, então de sino… a cada vez as próprias leis da física mudavam, para corroborar essas novas visões, outras vezes novas descobertas matemáticas é que nos forçavam a mudar a nossa visão sobre o universo. O “universo astral” é apenas uma outra perspectiva.

Um ponto que quero destacar, que é imensamente importante, é que se você mergulhar profundamente em sua própria consciência verá que possui em sua cabeça muito mais informação do que imaginava. Qualquer  estudante de psicologia sabe hoje que a mente consciente é só a ponta do ice-berg de nossa Monte Everest mental. Isso fica evidente quando sonhamos, mas torna-se assustadoramente claro nos sonhos lúcidos e nos desdobramentos. Tudo o que você já viu, ouviu, tocou, cheirou, sentiu, pensou e provou está gravado. A mente como um todo é incapaz de esquecer. Por si só, isso já faria do desdobramento uma ferramenta interessantíssima de se trabalhar. Embora você não possa virar o gasparzinho para espiar a vizinha tomando banho, certamente sua mente possui coisas muito mais interessantes de se ver. Entretanto, existe ainda mais a ser explorado.

Se você mergulhar ainda mais profundamente poderá experimentar o que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. O conteúdo atávico de onde nasceram todos os grandes épicos. A matéria prima da qual foram feitos todos os mitos e todas as religiões. Todos as deusas e todas as feras são acessíveis de forma assustadoramente interativa para quem se dedicar à prática do desdobramento. Descrevi uma forma pela qual você pode chegar a este estado no capítulo “Mergulhando no Abismo” do Lex Satanicus.

Quanto mais fundo você desce na própria mente, mais próximo fica da mente de todos os demais – para que perder tempo vendo sua vizinha pelada, quando pode literalmente transar com qualquer estrela de cinema ou modelo de revista erótica? O fato é que se fizer o teste das cartas com pessoas o suficiente verá que, algumas delas, embora não possam ver de fato a carta podem de alguma forma, que sinceramente desconheço, ver por meio da sua mente aquilo que os seus olhos viram antes. Em algum lugar abaixo do inconsciente coletivo, ou quem sabe através dele, as mentes podem se tocar.

Para uma experiência prática a este respeito existem várias técnicas as quais você pode recorrer.  Agende um dia que possa fazer isso e acorde no mesmo horário que costuma acordar. Se arrume, tome um café rápido troque de roupa como se estivesse se preparando para sair e então… volte para cama e tente dormir novamente. Percebi que, ao menos comigo, isso engana o cérebro que entende que deveria estar acordado e assim realmente torna-se mais fácil acordar dentro do sono. Outra prática benéfica é criar um diário onde todos os dias ao acordar você anote o máximo possível de seus sonhos. Em um primeiro momento tal tarefa será ardua e pouco produtiva mas com constância em breve estará escrevendo páginas e mais páginas e assim tornando-se cada vez mais consciente do universo acausal. Existem muitas outras técnicas que você pode tentar, é tudo uma questão de descobrir qual a mais adequada para você.

A respiração holotrópica, técnica desenvolvida por Stanislav Grof é outra forma de atingir resultados semelhantes e as vezes ainda mais intensos. Em tempo as pesquisas de Grof, assim como Os Campos Morfogenéticos de Rupert Sheldrake não deixam dúvidas quanto a existência de um nível mais essencial de comunicação entre as mentes de todos os seres vivos. Se você realmente se dedicar poderá levar este nível ao seu extremo e cruzar a fronteira da pessoalidade. Esta é a razão para eu ter pedido para você fechar os olhos na hora de tirar uma carta no teste acima. Como as pesquisas de Joseph Banks Rhine demonstraram, sob certas condições a mente humana tem acesso a conhecimentos que não passaram pelos seus sentidos. É razoável supor que tenham vindo de algum outro lugar. O experimento de Jacobo Grinberg-Zylberbaum mostrou que pode sim existir alguma espécie de ligação não-local entre duas mentes, embora isso passe desapercebido no nível consciente.

Podemos dizer que em um nível superficial o chamado plano astral reflete nossa própria realidade mental e em um nível mais profundo, a realidade mental da coletividade. Durante o desdobramento absolutamente tudo é simbólico. O símbolo e o simbolizado são uma coisa só. Uma casa que você visita não é exatamente uma casa de concreto armado, mas antes disso um lar, um constructo com todas as impressões simbólica e emocionais tanto de seus habitantes quando de si mesmo. Muito mais do que no chamado mundo físico, nesta outra realidade o observador e o observado influenciam e modificam um ao outro o tempo todo.

O Desdobramento deve ser a fronteira final a ser cruzada por todo psiconauta corajoso. É um mergulho dentro de si mesmo com destino ao universo. Essa é a razão porque muitas pessoas tem dificuldades com desdobramentos. Não é um problema de escolher esta ou aquela técnica, mas de se estar pronto para o que vai encarar. Quase sempre esta experiência deve ser precedida de um processo de auto-conhecimento e auto-aceitação, quando não de psicoterapia. Antes de mergulhar de cabeça, certifique-se de que a piscina está cheia. A dificuldade em conseguir experiências eficazes quase nunca é por causa do método ou receita usada, mas sim por conta das próprias travas internas de cada um. O famoso guardião do umbral possui uma face assustadoramente familiar; a sua. A dura verdade é que as pessoas têm medo de olhar para si mesmas.

Morbitvs Vividvs é autor de Lex Satanicus: O Manual do Satanista e outros livros sobre satanismo.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-dura-verdade-sobre-projecao-astral/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/magia-do-caos/a-dura-verdade-sobre-projecao-astral/

A Pedra de Sangue

Shirlei Massapust

Segundo o geólogo Walter Schumann, heliotrópio é uma calcedônia opaca verde escura pontilhada de machas vermelhas: “Foram-lhe atribuídos, durante a Idade Média, poderes mágicos, porque as pequeninas manchas vermelhas eram consideradas gotas de sangue de Cristo”.[1]

Uma edição do Les Admirables Secrets D’Albert Le Grand (1703), livro mais conhecido como Grande Alberto, diz-nos que os padres se serviam do heliotrópio, importado de jazidas “na Etiópia, em Chipre e nas Índias”, para adivinhar e interpretar os oráculos e as respostas dos ídolos.[2] A homonímia da planta e da pedra conduziu à ideia do uso conjunto como ingrediente de fórmulas milagrosas:

Os caldeus chamam a primeira erva Ireos, os Gregos Mutichiol e os Latinos Eliotropium. Esta interpretação vem de Hélios, que significa o Sol, e de Tropos, que quer dizer “mudança”, porque esta erva vira-se para o Sol. Tem ela uma virtude admirável, se a colhermos no mês de agosto, quando o Sol está no signo do Leão, porque ninguém poderá falar mal, nem prejudicar com más palavras quem a trouxer consigo, envolvida numa folha de loureiro com um dente de lobo, pelo contrário, não se dirá dele senão bem. Além disso, quem a puser sob a cabeça, durante a noite, verá e conhecerá aqueles que poderiam vir roubá-lo. Mais ainda, se se puser esta erva, da maneira que acima se disse, numa igreja onde estejam mulheres, aquelas que tiverem violado a fidelidade prometida aos seus maridos não conseguirão sair se não a tirarem da igreja.[3]

A versão do personagem Rabino Hebognazar no manuscrito da Chave de Salomão (1890), compilado por Stanislas de Guaïta e François Ribadeau Dumas, ensina a produzir um anel astronômico com aro forjado numa liga de ferro e ouro e adorno superior contendo “um retalho de folha de Heliotropium europaeum, outro de Aconitum napellus, um pedacinho de pele de leão, outro de pele de lobo, um pouco de pluma de cisne e de abutre e, acima de tudo, um rubi lapidado”.[4]

O Grande Alberto atribui aos “antigos filósofos” a afirmação de que a pedra possui grandes virtudes quando associada com a planta homônima. A tradição sugere que a união do heliotrópio mineral com o vegetal produz “outra virtude muito maravilhosa sobre os olhos dos homens, que é a de suspender sua capacidade, vivacidade e penetração, e de cegá-los de forma a não poderem ver a quem os levam”.[5] Ou seja, a gema untada adquire a propriedade prodigiosa “de confundir os olhos das pessoas a ponto de tornar o usuário invisível”.[6]

Tal ideia deriva da mitologia grega, onde os artefatos de invisibilidade são propriedade dos deuses e titãs. Platão narra uma história fantástica sobre Giges, rei do Hindustão (c. 687-651 a.C.), que usou um anel de invisibilidade encontrado junto ao corpo de um gigante para assassinar o monarca anterior, Candaules, e desposar a viúva deste:

Era ele um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que se dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder.[7]

O homem invisível pode agir livremente, conforme sua vontade, pois está protegido das reprimendas e comentários maldosos do vulgo. Henri Cornélio Agrippa (1486-1535) atribuiu a Alberto Magno e Willian de Paris o registro de crenças medievais, segundo as quais o Heliotropium europæum confere glória constante e boa reputação a quem o carrega. Francis Barret interpreta a afirmativa de que “quem a usar terá uma boa reputação, boa saúde e viverá muito tempo[8]”, concluindo que o porte da planta e/ou da pedra “faz do usuário uma pessoa segura, respeitável e famosa, e contribui para uma vida longa”.[9]

O mago envolto em brumas

O anel de heliotrópio não deveria funcionar exatamente como o hipotético anel de Giges. Aparentemente, ele deveria envolver seu possuidor em névoa… Na versão do Magus (1801), Francis Barret omitiu um efeito citado por Cornélio Agrippa (1486-1535), segundo o qual o heliotrópio “tem admirável virtude sobre os raios do sol, pois diz-se que os converte em sangue. Quer dizer, faz o sol aparecer como em um eclipse, se lhe unta com uma erva que leva o mesmo nome e o coloca em vaso cheio d’água”.[10]

Presumo que a pedra deveria ser fervida com suco de heliotrópio até que a água em ebulição produzisse uma nuvem de vapor suficientemente densa para filtrar os raios solares. Apesar de incompleta, a descrição mais extensa deste rito aparece no Grande Alberto:

Para fazer com que o Sol pareça cor de sangue deve-se usar a pedra que se chama Heliotrópio, que tem a cor verde e que se parece com a Esmeralda e é toda pintalgada como que de gotas de sangue. Todos os necromantes lhe chamam comumente a pedra preciosa de Babilônia; esta pedra, esfregada no suco de uma erva do mesmo nome, faz ver o Sol vermelho como sangue, da mesma maneira que num eclipse. A razão disto é que fazendo ferver água em grandes borbotões em forma de nuvens, ela espessa o ar que impede o Sol de ser visto como de costume. Contudo, isto não pode fazer-se sem dizer algumas palavras com certos caracteres de magia.[11]

Se as palavras e caracteres de magia forem padronizados com aquela outra tradição da Chave de Salomão, onde se utiliza a erva, as palavras consistem na invocação voltada para o ocidente “no dia e hora de marte” dos anjos “Michael, Cherub, Gargatel, Turiel, Tubiel, Bael, os Silfos Camael, Phaleg, Samael, Och, Anael”.[12] Estes caracteres de magia são gravados no halo do anel:

O que se publicou em todos os manuais de magia editados desde o fim do séc. XIX até meados do séc. XX, que tive a oportunidade de consultar, foram apenas cópias, muitas vezes incompletas, dos textos supracitados.

Por exemplo, Gérard Encausse (1865-1916) reproduz “um tratado muito curioso sobre pedras extraído de um livro sob os nomes de Evax e de Aaron”, igual aos tratados de Agripa e Kircher, adicionando-lhe a classificação das pedras “conforme as relações planetárias”.[13] A “pedra heliotrópio” foi relacionada com o Sol.[14]

Embora N.A. Molina conhecesse e recomendasse uma versão integral do Grande Alberto publicada “por um ocultista muito conhecido na Espanha e na América sob o nome de Mago Bruno[15]”, ele preferiu copiar a cópia imperfeita de Gérard Encausse com todos os seus rearranjos e omissões, conforme a tradução para português pré-existente, em seu Antigo Livro de São Cipriano.[16]

Anel de pedra heliotrópio em aro de prata forjado pelo meu finado amigo Afrânio, fazedor de joias e artigos de umbanda. Foi untado com extrato de heliotrópio.

O anel do vampiro

Waldo Vieira, fundador do Instituto Internacional de Projeciologia, autor de obras psicografadas junto com Chico Xavier, foi também um dos maiores colecionadores de gibis do Brasil. Em 1978 ele selecionou e forneceu a maioria das “histórias antológicas” publicadas pelo editor Otacílio D’Assunção Barros no número especial sobre vampiros da revista Spektro. É claro que o nível de informação nas entrelinhas subiu à estratosfera!

Um dos romances gráficos cuidadosamente seletos entre dez mil exemplares foi publicado pela primeira vez no Brasil em julho de 1954, no n º 44 de O Terror Negro. No enredo um personagem acerta uma lança no coração de um vampiro possuidor de um “anel com um morcego”.[17] Ataíde Brás incrementou o motivo num novo roteiro onde o vampiro Paolo coloca “um anel, com um morcego como enfeite” no dedo de sua amada e, imediatamente, “os caninos dela começam a crescer”.[18]

Parece que esta variante do mito surgiu de um equivoco. Todos os filmes da Hammer em que Christopher Lee interpretou Drácula terminaram com a morte do conde. O corpo, as roupas e até mesmo o castelo do nobre vampiro dissolviam-se, restando apenas um anel.  Ninguém sabia por que a joia escapava intacta nem qual era o seu significado. Todos os fãs queriam ter aquilo. Os mais crédulos desejavam que o suposto amuleto existisse e tivesse poderes mágicos.

Poucos conheciam a explicação de Christopher Lee sobre o valor emocional do apetrecho: O anel com aro de prata e pedra vermelha gravada com as iniciais B•L era mera réplica de outra joia enterrada no dedo do finado ator Bela Lugosi, que também interpretou Drácula, sendo usada pelo sucessor em sua memória.[19]

Enquanto durou a polêmica, Robert Amberlain afirmou ter encontrado manuais de feiticeiros alemães descrevendo a confecção de um anel especial:

Um Vampiro gravado na pedra heliotrópio transforma-a numa pedra de sangue. Ela dará a quem a transportar, segundo os ritos convenientes, o poder de comandar os demônios íncubos e súcubos. Ela assisti-lo-á nas suas conjurações e nas suas evocações.[20]

Juro pela alma de Nicolae Paduraru que não existe um manual de feitiçaria contendo semelhante rito ou que, se existe, é um livro particular que nunca foi editado, certamente escrito entre 1958 e 1978 por um feiticeiro fã de vampiros cinematográficos que achou que a descrição do mago envolto em brumas, no Grande Alberto, parecida com a do Conde Drácula virando névoa.

O jornalista fantástico Jean-Paul Bourre também procurou o tal livro e ouviu o seguinte quando entrevistou Vladimir S, membro da seita veneziana Ordem Verde:

Casanova foi encarcerado em Veneza, nas celas do palácio ducal. E sabem os motivos? Foi preso pela Santíssima Inquisição a seguir a uma denúncia em que foi acusado de magia negra. Manuzzi, espião dos inquisidores de Veneza, mandou apreender em sua casa os livros e manuscritos ocultos, entre os quais se contavam os seguintes: Clavículas de Salomão, as obras de Agrippa e o Livro de Abramelin o Mágico. Quais eram então as atividades ocultas do jovem veneziano? Ele afirmava, na sua correspondência, que não praticava a Cabala, mas a arte do Kab-Eli, isto é, a arte da “pedra do sol”. Esta pedra é nossa conhecida. É o heliotrópio (…), os nossos adeptos chamam-lhe “pedra de sangue”, uma vez que permite evocar os defuntos e originar o aparecimento dos vampiros. Outrora tinha também uma função medicinal ligada ao sangue: Ajudava a neutralizar as hemorragias.[21]

Essa estória vingou e se desenvolveu. De acordo com Robert Amberlain e Jean-Paul Bourre, usando isto se podia distinguir “os espectros, os manes e os Vampiros” quando o Sol aparecia vermelho por traz dos vapores. O anel mágico destinado às operações de vampirismo devia ter a pedra montada sobre prata (metal lunar, noturno), enquanto o anel de proteção seria forjado em ouro vermelho (símbolo solar, diurno).

Pela razão de que é verde (cor do astral ou do ‘mundo’ imediato dos mortos) e verde escura (os mortos maléficos), raiada de traços vermelhos (o sangue), esta pedra liga-se aos mistérios da morte, do vampirismo e do sangue. (…) Outrora era tida como capaz de parar as perdas de sangue, as hemorragias, e como proteção contra os venenos e mordeduras dos Vampiros.[22]

Robert Amberlain reconhece que quando se penetra no domínio da magia, penetra-se igualmente no da superstição. Então, “no caso de se tratar de uma seita votada ao vampirismo” os nobres afligidos pela seita poderiam ser enterrados com o anel contendo a “pedra do sangue” na crença de que ele protegeria o túmulo, os despojos e o “duplo” durante as saídas e materializações. “Imaginavam que o uso do anel maléfico lhes evitaria uma acidental e desastrosa exposição aos raios do Sol”.[23]

Jean-Paul Bourre incluiu a proteção contra “o aparecimento de caçadores de vampiros, a estaca aguçada e o fogo que podia destruir em poucos segundos o corpo do não morto”.[24] Como isso? O amuleto protege o vampiro causando a morte de quem quer que pise “dentro do perímetro mágico”. A sorte do homem que penetra na zona sagrada se assemelha a dum inseto caído numa teia de aranha. “Uma pequena e subtil vibração basta para que toda essa teia seja sacudida”. A aranha desperta e abocanha o intruso. “Sua lei é inexorável”.[25]

Fada do Heliotrópio, ilustração de Cicely Mary Barker (1895-1973), parte duma coleção de 168 fadas com plantas botanicamente corretas, no livro Flower Fairies of the Garden (1944).

Sangue de dragão

Existem lendas sobre uma pedra impossível cuja descrição parece remeter ao jaspe sanguíneo, chamado “sangue de dragão”, que só um exímio caçador de dragões consegue obter. O frade Rogério Bacon (1214-1292) escreveu o seguinte:

 

Sábios etíopes vieram à Itália, à Espanha, à França, à Grã Bretanha e essas terras cristãs onde existem bons dragões voadores. E, por uma arte oculta, que possuem, excitam os dragões a saírem das suas cavernas. E tem selas e freios já prontos, e montam esses dragões e fazem-nos voar a toda a velocidade pelos ares a fim de amolecerem a rigidez da sua carne (…) e quando desse modo amaciam esses dragões, tem a arte de preparar a sua carne (…) que utilizam contra os acidentes da velhice, para prolongarem a sua vida e subutilizarem a sua inteligência de maneira inconcebível. Porque nenhuma doutrina humana pode fornecer tanta sabedoria como o consumo da sua carne.[26]

Esse é o tipo de estória mirabolante na qual ninguém acredita, mas que todos gostam de ouvir. A temática faz boa parelha com uma instrução obscura do talvez contemporâneo livro do Grande Alberto:

Para vencer os inimigos deve usar-se a pedra Draconite, que se tira da cabeça do dragão; é boa e maravilhosa contra o veneno e a peçonha, e quem a usar no braço esquerdo sairá sempre vitorioso dos seus adversários.[27]

Estas são estórias para divertir crianças, embasadas na interpretação literal da lenda cristã onde São Jorge ou o arcanjo Miguel mata um dragão.

Em 1222, o National Council of Oxford decidiu organizar um grande festival em honra ao santo, no qual o dragão foi apresentado, à guisa de satânico adversário da verdadeira fé, para ser dominado e vencido pelo herói do dia. Por todos esses motivos foram inúmeras as histórias ligando São Jorge ao dragão, naqueles tempos. A mais popular entre todas foi, talvez, a que contou Jacques de Voragine, arcebispo de Gênova (de 1236-1898), em sua Lenda Dourada (…) Segundo essa lenda, houve uma vez, na Líbia, uma cidade chamada Selene. Todos os campos em seu redor tinham sido devastados por um monstro terrível, que somente era impedido de atacar e devastar a cidade pela oferta diária de dois gordos carneiros. Mas chegou um tempo em que não havia mais nem um só carneiro para apaziguar a fome do monstro, que imediatamente começou a aumentar sua devastação em torno da cidade. Por isso, diariamente, eram sorteadas duas crianças até a idade de quinze anos e as indicadas pela sorte eram oferecidas em sacrifício ao monstro. Um dia a sorte apontou a própria filha do rei, Cleodolinda. Imediatamente o soberano ofereceu tudo o que possuía ao cidadão que se apresentasse para substituir a infeliz. Porém todos recusaram e Cleodolinda foi abandonada, só, fora das muralhas de Selene, a fim de seguir o seu triste destino. Um tribuno do exército romano, Jorge da Capadócia, surgiu cavalgando um cavalo branco e, ao saber da triste história da jovem princesa, decidiu, imediatamente, sair ao encontro do dragão, em nome de Jesus Cristo, a fim de matar a fera ou morrer nessa empresa.

 

O monstro se atirou contra o cavalheiro e tremenda luta se seguiu, até que Jorge, com ousadia e perícia sem par, varou o dragão com sua espada. Porém a fera não morreu imediatamente e Jorge disse a Cleodolinda que passasse seu próprio cinto em redor do pescoço do monstro, a fim de o conduzir em triunfo até a cidade. Ela assim fez e o monstro seguiu-a submisso. À chegada do estranho grupo, o povo, cheio de terror, tratou de fugir. Porém, Jorge a todos serenou e, depois de os ter reunido na praça principal, degolou o dragão. Foram necessários quatro juntas de bois para arrastar para fora da cidade a imensa carcaça.

 

O rei, a rainha, Cleodolinda e vinte mil cidadãos abraçaram o cristianismo. O rei ofereceu a Jorge a mão de sua filha em casamento. Porém o santo herói, cortesmente, declinou essa proposta e, após recomendar ao rei que honrasse a religião e amasse aos pobres, beijou-o nas duas faces e continuou viagem.[28]

Quanta imaginação para dizer que nem uma princesa virgem, nem um reino inteiro valem a quebra de um voto de castidade de um santo católico!

Pedrarias genéricas

A cultura da desinformação aconselha os brasileiros a nacionalizar toda e qualquer coisa pela substituição do antigo pelo novo, do raro pelo disponível, da economia pela ostentação. Em meados do século XX um famoso autor brasileiro – que eu me absterei de identificar pelo nome – aconselhou seu público alvo, os mandingueiros, a empapar seus objetos de uso pessoal com Helianthus annuus, óleo de girassol, ao invés de extrato perfumado de Heliotropium europaeum, de fragrância agradável e duradoura, que custava seis reais o frasco.

Na virada do milênio um quilo de pedra heliotrópio custava cinco centavos de dólar no atacado, no Rio de Janeiro. Mesmo assim faltava no estoque das lojas revendedoras onde pseudo-especialistas nos ofereciam o conteúdo da caixa etiquetada “bloodstone” que poderia conter jaspe sanguíneo, hematita e até mesmo pedra imã.

Eu tive de insistir e pagar adiantado pela lapidação de um heliotrópio, pois o especialista em produção de artigos para terapeutas alternativos relutou a crer que uma mulher pudesse preferir uma pedra barata a um rubi-zoisita. Algo parecido ocorreu algumas vezes no passado. Hebognazar intercambia heliotrópio e rubi em sua Chave de Salomão. Por que trocar um pelo outro? Naquela época o herói da mineralogia George Frederick Kunz (1856-1932) ainda não havia nascido nem catalogado um batalhão de pedras mágicas de baixo custo para a alegria do povo e felicidade geral da nação.

Sem ninguém para explicar aos soberbos que gosto não se discute pareceria um desperdício gastar um aro de ouro ou prata para equipar uma pedra adquirida ao custo de poucas moedas numa barraquinha de camelô. Uns e outros pensariam ser mais adequado portar uma gema digna de ser comercializada numa joalheria que fornece certificado de origem. O problema é que a troca prejudica a lógica ritualística pondo a perder a relação de homonímia entre erva e pedra, onde o semelhante reage com o semelhante.

Notas:

[1] SCHUMANN, Walter. Gemas do Mundo. Trad. Rui Ribeiro Franco e Mario Del Rey. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, p 128.

[2] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[3] HUSSON, Bernard (org). Obra citada, p 149-150.

[4] CLAVÍCVLAS DE SALOMON: Libro de Conjuros y Fórmulas Mágicas. Trad. Jorge Guerra. Barcelona, Editorial Humanitas, 1992, p 93 do fac simile.

[5] AGRIPPA, Cornélio. La Filosofia Oculta: Tratado de magia y ocultismo. Trad. Hector V. Morel. Buenos Aires, Kier, 1998, p 42.

[6] BARRET, Francis. Magus: Tratado completo de alquimia e filosofia oculta. Trad. Júlia Bárány. São Paulo, Mercuryo, 1994, p 60.

[7] PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p 56-57.

[8] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[9] BARRET, Francis. Obra citada, p 60-61.

[10] AGRIPPA, Cornélio. Obra citada, p 42.

[11] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[12] CLAVICULAS DE SALOMON (1641). Barcelona, Humanitas, 1997, p 93 do fac simile.

[13] PAPUS. Tratado Elementar de Magia Prática. Trad. E. P. São Paulo, Pensamento, 1978, p 232-233.

[14] PAPUS. Obra citada, p 235.

[15] MOLINA, N. A. Nostradamus – A Magia Branca e a Magia Negra. Rio de Janeiro, Espiritualista, p 63 e 76.

[16] MOLINA, N. A. Antigo Livro de São Cipriano: O gigante e verdadeiro capa de aço. Rio de Janeiro, Espiritualista, p 131-135.

[17] A VILA DO VAMPIRO. Em: SPEKTRO: Especial dos vampiros. Rio de Janeiro, Vecchi, março de 1978, nº 5, p 82.

[18] BRAZ, Ataíde (roteiro) e KUSSUMOTO, Roberto (desenho).  A Noite da Vingança. Em: SPEKTRO: Especial dos vampiros. Rio de Janeiro, Vecchi, março de 1978, nº 5, p 68.

[19] AS VÁRIAS FACES DE CHRISTOPHER LEE. Brasil, Dark Side, 1996, DVD.

[20] AMBERLAIN, Robert. O Vampirismo. Trad. Ana Silva e Brito. Lisboa, Livraria Bertrand, 1978, p 213.

[21] BOURRE, Jean-Paul. O Culto do Vampiro. Trad. Cristina Neves. Portugal, Europa-América, p 137.

[22] AMBERLAIN, Robert. Obra citada, p 213.

[23] AMBERLAIN, Robert. Obra citada, p 214.

[24] BOURRE, Jean-Paul. Os Vampiros. Trad. Margarida Horta. Portugal, Europa-América, 1986, p 133.

[25] BOURRE, Jean-Paul. Idem, p 133-134.

[26] BACON, Rogério. Opus Majus: Vol. II. Oxford, J. H. Bridges, 1873, p 211. Em: HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 75.

[27] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 167.

[28] SÃO JORGE: HISTÓRIA, TRADIÇÃO E LENDA. Em: EU SEI TUDO, nº 11. Abril de 1954, p 16-18.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/a-pedra-de-sangue/

A Fórmula de H.E.L.L.

“Não sabei vós, Irmãos, (pois falo para aqueles que conhecem a lei,) que a lei tem domínio sobre o homem enquanto ele vive? ”

Romanos VII, 1

A palavra inglesa “Hell” poderia ser literalmente traduzida como Inferno. Ela aparece no Livro da Lei de forma individualizada ao final do quadragésimo – primeiro versículo da primeira parte (AL I,41) – o que corresponde no manuscrito pela mão da Besta à linha sétima da décima-primeira  lâmina. É nossa perspectiva que a palavra Hell  representa um acróstico dos Graus descritos no versículo imediatamente anterior (AL I,40). Estes Graus são em número de Três, nomeadamente:

1. O Eremita (“the Hermit”);
2. O Amante (“the Lover”);
3. O homem da Terra (“the man of Earth”).

De imediato podemos adiantar que tratamos aqui de um modelo ontológico cujos extremos se encontram representados pelo Ponto Primordial (o Eremita é Iod, o Ponto) a partir do qual se atinge a manifestação propriamente dita (o homem da Terra). A intermediação entre estes dois pólos opostos poderá se dar tanto no sentido de solidificação progressiva quanto no sentido oposto de uma sublimação. É esta dupla possibilidade de movimento que no presente modelo encontra-se expressa pelo sinal de gemelaridade do(s) Amante(s). Eis porquê se pode escrever HELL ou HEL, sem nada prejudicar o sentido profundo da palavra. Grafar-se-á HELL quando se fizer referência ao duplo movimento do agente intermediário e HEL quando se preferir destacar uma determinada polarização. Existe ainda uma outra observação que devemos realizar a este respeito, após o que abandonaremos estas considerações introdutórias. Haveremos de nos ater, no decorrer do presente trabalho, única e exclusivamente à transição do imanifesto ao manifesto, movimento comumente designado como sendo o de descida ou queda (Kathodos). Dois motivos nos levaram a optar por esta abordagem: (1) por ser este o movimento natural dentro da perspectiva humana formal ou, pelo menos, o mais comumente observável dentro da referida perspectiva; (2) por corresponder à ordem fornecida em AL I, 39-41. Esta última assertiva em parte se explica pela própria Tríade basilar do Livro da Lei, que acreditamos ser conhecida de todos que lêem estas linhas.

Transcrevemos abaixo, em benefício daqueles não familiarizados com o texto da Lei, os versículos pertinentes ao presente estudo, antecedidos por uma tradução em estilo livre:

AL I, 39: A palavra da Lei é THELEMA (1).
AL I, 40: Quem nos chamar Thelemitas não fará errado, se ele olhar bem de perto na palavra. Pois ali dentro existem Três Graus, o Eremita, e o Amante, e o homem da Terra. Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.
AL I, 41: A palavra de Pecado é Restrição. Ó homem! não recuse tua esposa, se ela quer! Ó amante, se tu o queres, parte! Não existe laço que possa unir os divididos a não ser amor: todo resto é maldição. Maldito! Maldito seja isto para os aeons! Hell.

(AL I, 39:  “The word of the Law is THELEMA (1).”
AL I, 40:  “Who calls us Thelemites will do no wrong, if he look but close into the word.  For there are therein Three Grades, the Hermit, and the Lover, and the man of Earth.  Do what thou wilt shall be the whole of the Law.”
AL I, 41:  “The word of Sin is Restriction.  O man!  refuse not thy wife, if she will!  O lover, if thou wilt, depart!  There is no bond that can unite the divided but love: all else is a curse.  Accursed!  Accursed be it to the aeons!  Hell.”)

A palavra grega qelhma – usualmente transliterada como ThELEMA – apresenta-se composta dos seguintes caracteres:

1 Theta  –  T ;
2 Épsilon  – he ;
3 Lambda – l;
4 Eta – e ;
5 Mu – m ;
6 Alpha – a .

Devemos reparar, em primeiro lugar, que as letras gregas Épsilon e Eta  embora distintas do ponto-de-vista morfológico representam, na realidade, diferentes entonações do mesmo fonema, respectivamente breve e longo. Poder-se-ia traçar aqui um paralelo para com as letras hebraicas Heh e Heth (ou Cheth), que lhes são, de certa sorte, análogas. Seria imensamente oportuno – para os propósitos manifestos do presente trabalho – referir que as letras Épsilon e Eta, quando capituladas, exibem uma acentuada semelhança para com os caracteres latinos ‘E’ e ‘H’, respectivamente. Estas observações, ainda que ligeiras, permitem-nos não só divisar a presença de HEL já  em AL I, 39 transliterada sob a forma de elh, como tecer outras considerações ainda mais intrigantes. Se observarmos a ordem de progressão dos elementos constitutivos de HEL no interior da palavra Th(ELE)MA [ou Th(ELH)MA], verificaremos a repartição da mesma em uma metade que lhe é inferior, basilar, (Th) e em uma outra que lhe é, pelo contrário, superior (MA). No que se refere à grafia desta última, não podemos nos furtar a registrar alguns de seus desdobramentos possíveis. A letra grega Alpha – de situação terminal ou capitular – encontra-se tradicionalmente associada ao elemento aéreo, pelo que vem a participar tanto das atribuições do ‘H’ latino como do Heh hebraico, o que nos permite igualmente transliterar Th(ELE)ME [ou Th(ELH)ME], sem que haja nisto qualquer violação do simbolismo implícito (2). A partícula ME [ou melhor, MH] mereceria, por si só, um estudo à parte devido à sua extraordinária recorrência na estrutura da Lei. Contentar-nos-emos aqui simplesmente em registrar-lhe a importância sem, no entanto, poder dispensar-lhe a devida atenção, o que nos desviaria em muito do presente curso de nossas elucubrações. Bastará, portanto, reter deste parágrafo a idéia de uma existência – diríamos – embrionária da palavra HEL no seio da palavra da Lei, que acreditamos suficientemente demonstrada.

A palavra HEL, como visto, é efetivamente soletrada (“spelled”)  no versículo AL I, 40 por intermédio das letras capitalizadas dos títulos dos Graus. A fusão destes elementos numa palavra coesa só se dará, no entanto, ao final do quadragésimo – primeiro versículo, sob a forma de HELL. Estas duas hipóstases são antecedidas, como já o vimos, pela figuração da palavra HEL de forma encoberta em AL I, 39. Se repararmos a ordenação de seus elementos constituintes tal como estes aparecem nos versículos supra citados, obteremos a seguinte distribuição:

1. AL I, 39: ELH (elh);
2. AL I, 40: HLE;
3. AL I, 41: HEL.

Se a total inversão dos elementos – tal como se verifica na transição de AL I, 39 à AL I, 40 – pode ser facilmente interpretada como uma confirmação da natureza refletora do princípio intermediário, as modificações na posição relativa de dois destes elementos na passagem de AL I, 40 à AL I, 41 merecem uma atenção mais demorada. Trata-se aqui, em realidade, de uma expressão da transição verificada entre os estados de existência informal (AL I, 40) para a sua contraparte formal (AL I, 41) – dentro da qual a existência humana se encontra incluída. Uma situação inteiramente análoga verifica-se no campo específico da Alquimia – naquilo que se refere às posições relativas dos três princípios. De um ponto-de-vista puramente Philosóphico, o Mercúrio deverá necessariamente preceder a substância salina a qual corresponde ao grau de máxima cristalização possível. Por outro lado, se assumirmos uma perspectiva mais Hermética, o Sal deverá ocupar a posição de intermediário entre o Enxofre e o Mercúrio – uma vez que pode ser considerado como o resultado da interação destes últimos. Uma vez dirimidas quaisquer dificuldades que esta transição poderia apresentar ao entendimento, resta ainda um último aspecto a ser considerado a propósito deste padrão de descida da palavra HEL através dos versículos:

1. AL I, 39: Th(ELH)MA;
2. AL I, 40: H-L-E;
3. AL I, 41: HEL.

Se insistirmos um pouco mais na metáfora previamente utilizada por nós no presente trabalho e que busca simbolicamente equiparar a existência de HEL no interior de Th(ELH)MA (AL I, 39) à de um embrião no interior do útero segue-se naturalmente que o parto deva encontrar-se representado em AL I, 40 e a sua emersão enquanto forma individualizada em AL I, 41. Ainda dentro desta linha particular de comparação, poderíamos assimilar o arcabouço que cerca a palavra HEL em AL I, 39 à fortaleza uterina [Th(eta) – T] bem como ao fluido amniótico [MH ou MA – mh ou ma] que é ativamente inalado pelo embrião a partir de determinado estágio de sua existência (3). A inversão dos elementos da palavra HEL transcorrida entre AL I, 39 à AL I, 40 encontraria um paralelo biológico, portanto, na rotação sofrida pelo feto nas fases terminais da gestação humana. Esta rotação de 180 graus ao longo do eixo longitudinal tem como função imediata garantir o ajuste da extremidade cefálica ao canal de passagem. Falamos até aqui, evidentemente, de uma gestação humana modelar porém, igualmente poderíamos – sem que vejamos nisto perda alguma do determinante simbólico e, muito ao contrário, uma demonstração cabal de seu carácter extremamente fluido e dinâmico – filiar a conformação do útero humano ao seu antecessor filogenético remoto, representado pelo ovo – seja em sua figuração mais imediata ou mesmo em sua designação tradicional enquanto “Ovo do Mundo”. Dentro deste último ponto-de-vista, as partículas que acercam a palavra HEL em AL I, 39 podem ser interpretadas como sendo uma figuração dos dois hemisférios resultantes da eclosão do “Ovo do Mundo”. Este, por sua vez, nada mais é do que uma figuração simbólica do Logos, ou seja, daquela Palavra que exprime as possibilidades inerentes a um determinado ciclo de manifestação. Este, porém, é um assunto que merece ser tratado de uma forma mais extensiva e quiçá o faremos em uma outra oportunidade.

Notas :

(1) Em grego no original.

(2) Confira-se, a este respeito, o capítulo LIII do Gargântua bem como, de uma forma mais imediata, o versículo AL II, 60.

(3) O líquido amniótico atua, desta forma, como uma fonte suplementar de oxigênio ao ser em formação ao lado do tronco vascular placentário.

por Frater Sinn

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-formula-de-h-e-l-l/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/thelema/a-formula-de-h-e-l-l/

A História da Ordem dos Cavaleiros Templários

Por Spartakus FreeMann.

A História da Ordem
Organização do Templo
A vida no Templo
Lista dos Grão-Mestres
Símbolos e História oculta
Dante e os Templários
Godfrey de Bouillon e a Ordem do Priorado de Sião
Relação com as comunidades muçulmanas e gnósticas

História

 Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão.

Em 1097, a primeira cruzada liderada por Godfrey de Bouillon, Robert de Flandres e Bohémon de Tarento é lançada pelo Papa Urbano II.

Em 1099, Jerusalém foi tomada. Godfrey, não se sentindo digno de usar uma coroa na cidade onde Cristo foi crucificado, tomou o título de “Protetor do Santo Sepulcro”.

Em 1100, a morte de Godfrey de Bouillon, Baudoin de Boulogne, seu irmão, foi coroado Rei de Jerusalém.

Em 1118, Baudoin II foi coroado Rei de Jerusalém. Nesse mesmo ano, nove cavaleiros franceses, liderados por Hugues de Payens, chegaram a Jerusalém, onde se apresentaram a Baldwin II. Eles foram recebidos no recinto do Templo do Rei Salomão. Os cânones do Santo Sepulcro foram movidos para a ocasião. Antes do Patriarca de Jerusalém (Garimond) eles fizeram os três votos de pobreza, castidade e obediência e seguiram a regra de Santo Agostinho. A origem de Hugues de Payens levantou muitas controvérsias entre os historiadores. Nada se sabe sobre isso, exceto que ele provavelmente veio da região de Champagne. O personagem deve ser de alguma importância, pois seu nome aparece em duas cartas de Hugh de Troyes. O vilarejo cujo nome ele leva está localizado a cerca de dez quilômetros de Troyes.

“… O rei, os cavaleiros e o senhor patriarca, cheios de compaixão por esses homens nobres que haviam desistido de tudo por Cristo, apoiaram-nos com seus próprios recursos e posteriormente lhes conferiram… alguns benefícios e algumas propriedades. Como eles ainda não tinham uma igreja própria, nem uma residência fixa, o rei senhor lhes concedeu uma pequena moradia por um tempo em uma parte de seu palácio, perto do templo do Senhor… eles foram posteriormente chamados de Cavaleiros do Templo Irmãos”.

 Jacques de Vitry

 Em 27 de dezembro de 1118, dia de São João Evangelista, estes nove cavaleiros (Hugues de Payns, Geoffroy de Saint-Omer, André de Monbard (tio de São Bernardo), Payen de Montdidier, Archambaud de Saint Aignan (ou de Saint Amant), Geoffroy Bisol, Hugues Rigaud, Rossal e Gondemare) reuniram-se no local do Templo de Salomão onde revelaram a fundação da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (pauperes commilitones Christi Templique Salomonici).

“Há um templo em Jerusalém onde eles vivem em comum; se ele está longe de igualar na arquitetura o antigo e famoso templo de Salomão, ao menos não é inferior a ele em glória. Na verdade, toda a magnificência da primeira consistia na riqueza dos materiais corruptíveis de ouro e prata e na montagem de pedras e madeiras de todos os tipos que entraram em sua construção; A segunda, ao contrário, deve toda sua beleza, seus ornamentos mais ricos e agradáveis, à piedade, a religião de seus habitantes e sua vida perfeitamente regulamentada; uma encantava os olhos por suas pinturas; mas a outra exige respeito pelo espetáculo variado das virtudes que ali são praticadas e dos atos de santidade que ali são realizados.”

(São Bernardo de Claraval, “Para os Cavaleiros do Templo”)

A Ordem dos Templários havia acabado de nascer. Sua missão era proteger as rotas dos peregrinos para a Terra Santa.

De 1118 a 1127, durante 9 anos, os Templários se organizaram, mas estranhamente, eles que queriam proteger os peregrinos, não tomaram parte em nenhuma batalha. Sua única ocupação era renovar os estábulos subterrâneos do Templo. Em 1220, Baldwin II deu todo o Palácio do Templo aos Templários. Durante o mesmo período, a Ordem recrutou escudeiros e sargentos de armas.

Em 1126, o Conde Hugues de Champagne aderiu à Ordem, uma importante contribuição, pois era um grande amigo de Bernardo de Claraval, cuja autoridade era imensa nos círculos eclesiásticos.

Em 1227, Baldwin II enviou Hugues de Payens e alguns de seus companheiros para a Europa. O Papa Honório II os recebeu. Foram feitos contatos com Bernardo de Claraval, que organizou o Conselho que deveria dar existência legal à Ordem.

Em 14 de janeiro de 1128, o Conselho de Troyes, reunido na Catedral de Troyes, sob o impulso de Bernardo de Claraval, dotou oficialmente a nova congregação com as “Regras da Ordem”. Na verdade, isto só aprovou uma regra pré-existente. Esta regra, escrita em latim, contém 72 artigos e subordina o Templo à autoridade do Patriarca de Jerusalém.

Por volta de 1130, Bernardo de Claraval escreve “De Laude Novae Militiae”, uma obra na qual ele contrasta a cavalaria secular e o cavalheirismo celestial dos Templários.

“Diz-se que um novo tipo de milícia nasceu na terra, na mesma terra que o sol nascente veio visitar do céu, para que onde ele espalhou os príncipes das trevas com seu poderoso braço, a espada desta corajosa milícia extermine logo seus satélites, ou seja, os filhos da infidelidade. Ela redimirá novamente o povo de Deus e fará o chifre da salvação crescer aos nossos olhos na casa de Davi, seu filho (Lucas I, passim). Sim, é um novo tipo de milícia, desconhecido dos séculos passados, destinada a lutar sem descanso contra a carne e o sangue, e contra os espíritos da maldade espalhados no ar. Não é tão raro ver homens lutando contra um inimigo corporal apenas com a força do corpo que eu me surpreenda; por outro lado, travar guerra contra o vício e o diabo apenas com a força da alma também não é tão extraordinário a ponto de ser louvável; o mundo está cheio de monges que lutam essas batalhas; Mas o que eu acho tão admirável quanto é obviamente raro é ver ambas as coisas combinadas, o mesmo homem pendurando corajosamente sua espada dupla a seu lado e cingindo nobremente seus flancos com seu arnês duplo ao mesmo tempo. O soldado que veste sua alma com a couraça da fé e seu corpo com uma couraça de ferro ao mesmo tempo não pode deixar de ser destemido e em perfeita segurança; pois sob sua dupla armadura ele não teme nem o homem nem o diabo. Longe de temer a morte, ele a deseja. Pois o que ele pode temer, seja ele vivo ou morto, já que só Jesus Cristo é sua vida e a morte é seu ganho? Ele vive sua vida com confiança e de todo o coração por Cristo, mas o que ele preferiria é estar livre dos laços do corpo e estar com Cristo; isso é o que lhe parece melhor. Ide, pois, para a batalha em segurança, e acusai os inimigos da cruz de Jesus Cristo com coragem e destemor, pois sabeis que nem a morte nem a vida podem separar-vos do amor de Deus, que se fundamenta nas indulgências que Ele toma em Jesus Cristo, e recordai estas palavras do Apóstolo, em meio a perigos: “Se vivemos ou morremos, pertencemos ao Senhor” (Romanos XIV. 8). Que glória para aqueles que retornam vitoriosos da batalha, mas que felicidade para aqueles que encontram o martírio! Alegrai-vos, generosos atletas, se sobreviverdes à vossa vitória no Senhor, mas deixai que vossa alegria e alegria sejam dobradas se a morte vos une a Ele: sem dúvida vossa vida é útil e vossa vitória gloriosa; mas é com boa razão que se prefere a morte santa a eles; pois se é verdade que aqueles que morrem no Senhor são abençoados, quanto mais felizes ainda são aqueles que morrem pelo Senhor?

São Bernardo de Claraval, “Aos Templários Louvores de sua Nova Milícia”

Em 29 de março de 1139, Inocêncio II emitiu a bula papal “Omne Datum Optimum”, a fonte de todos os privilégios da Ordem. O objetivo disto era fornecer ao Templo capelães para o serviço religioso e assim libertá-lo da jurisdição episcopal. A Ordem foi submetida diretamente à autoridade do Papa, deixando assim o Mestre e seu capítulo quase total liberdade. Além disso, os Templários tiveram o privilégio de coletar o dízimo.

“Nós os exortamos a combater os inimigos da cruz com ardor e, como sinal de nossa recompensa, permitimos que guardem para si todos os saques que tiraram dos sarracenos sem que ninguém tenha o direito de reivindicar uma parte deles. E declaramos que sua casa, com todos os seus bens adquiridos pela generosidade dos príncipes, permanece sob a proteção e a tutela da Santa Sé.”

Em 1146, o Papa Eugênio III lhes deu a túnica branca com a cruz vermelha no ombro com quatro ramos iguais.

A partir daquele momento, a Ordem cresceu constantemente e logo teve comandantes em toda a Europa, bem como na Palestina. A Ordem fretou sua própria frota sediada em La Rochelle. De lá, navios com destino ao Levante partiram e navios da Inglaterra e da Bretanha chegaram a este porto.

Durante os séculos XII e XIII, a história do Templo se entrelaçou com a história das Cruzadas.

Esquieu de Floyrian, sob pressão de Guillaume de Nogaret, confessou em 1305 ao Rei da França as práticas obscenas dos ritos de entrada da ordem, e Filipe, o Belo aproveitou esta informação para encomendar uma investigação, e assim em 13 de outubro de 1307 os sargentos de Felipe, o Belo apreenderam quase todos os Templários da França. Quase todos os outros estados europeus seguiram o exemplo. De acordo com os documentos da investigação papal, que contêm até 127 itens, os Templários foram acusados principalmente de simonia (tráfico criminal de coisas sagradas), heresia, idolatria, magia e sodomia. Além disso, eles foram acusados de forçar seus neófitos a negar Cristo, cuspir no crucifixo e dar beijos obscenos. Os sacerdotes, enquanto celebravam a missa, foram omitidos voluntariamente para consagrar os anfitriões; foi dito que eles não acreditavam na eficácia dos sacramentos.

Finalmente, foi dito que os Templários se dedicaram à adoração de um ídolo conhecido como “Bafomet” (uma cabeça humana, que discutiremos mais tarde) ou de um gato; foi dito que eles usaram cordas encantadas em suas camisas noite e dia. A acusação representou todos estes crimes como sendo ordenados por uma Regra secreta.

O Conselho de Viena de 1311-1312 examinou o caso dos Templários, mas a maioria dos cardeais concluiu que não havia provas da culpa da Ordem e que seus representantes deveriam ser ouvidos novamente. Sob pressão de Felipe, o Belo, o Papa oficializou a supressão da Ordem em 22 de março de 1312 com a bula papal “Vox in excelso”.

“Considerando, portanto, as infâmias, suspeitas e insinuações ruidosas e outras coisas acima mencionadas que surgiram contra a ordem, e também a recepção secreta e clandestina dos irmãos desta ordem; que muitos destes irmãos se afastaram dos costumes, vida e hábitos gerais dos outros fiéis de Cristo, e isto especialmente quando receberam outros [homens] entre os irmãos de sua ordem; [que] durante esta recepção fizeram com que aqueles que receberam fizessem profissão e jurassem não revelar a ninguém a forma de sua recepção e não deixar esta ordem, por causa da qual surgiram presunções contra eles;

 Considerando ainda o grave escândalo que essas coisas causaram contra a ordem, que parecia não poder ser apaziguada enquanto essa ordem permanecesse, e também o perigo para a fé e as almas; que tantas coisas horríveis foram cometidas por muitos irmãos dessa ordem […] que caíram no pecado de uma apostasia atroz contra o próprio Senhor Jesus Cristo, no crime de uma idolatria detestável, no execrável ultraje dos sodomitas […] ;

 Considerando também que a Igreja Romana às vezes reprimiu outras ordens ilustres de obras muito menos do que as acima mencionadas, sem sequer uma reprovação apegada aos irmãos: Não sem amargura e tristeza de coração, não em virtude de uma sentença judicial, mas por meio de disposição ou decreto apostólico, a referida ordem do Templo e sua constituição, hábito e nome por decreto irrevogável e válido perpetuamente, e o submetemos à proibição perpétua com a aprovação do santo conselho, proibindo formalmente qualquer pessoa de se permitir no futuro entrar na referida ordem, de receber ou vestir seu hábito, ou de agir como Templário. Quem transgredi-lo incorrerá ipso facto na sentença de excomunhão.

Além disso, reservamos as pessoas e bens desta ordem à ordem e disposição de nossa sede apostólica, que, pela graça do favor divino, pretendemos dispor para a honra de Deus, a exaltação da fé cristã e a prosperidade da Terra Santa antes do fim do presente Concílio.”

A bula papal “Ad providam” de 2 de maio decretou que a propriedade do Templo passaria para as mãos dos Hospitalários.

O Papa Clemente V apoiou o Rei da França e assim, em 1314, Jacques de Molay (22o Grande Mestre), Geoffroy de Charnay (Colecionador da Normandia) e 37 cavaleiros da Ordem foram queimados vivos em Paris, na Ilha dos Judeus. Godfrey de Paris foi uma testemunha ocular desta execução. Em sua Crônica Métrica (1312-1316), ele escreveu as palavras do Mestre da Ordem: “Eu vejo aqui meu julgamento, onde morrer me convém livremente; Deus sabe quem está errado, quem pecou. Deus sabe quem está errado, quem pecou. A infelicidade logo recairá sobre aqueles que erroneamente nos condenaram: Deus vingará nossa morte”. Esta é uma versão muito distante da versão de Rois Maudits de Druon (Reis Malditos de Druon) das diatribes de Molay.

Na Alemanha, os Templários foram absolvidos e se juntaram a outras ordens. Na Espanha, os Templários se refugiaram na Ordem de Calatrava e foi criada uma nova ordem, a de Montesa. Em Portugal, os Templários foram absolvidos e fundaram a Ordem de Cristo (da qual Vasco da Gama e Henrique o Navegador eram membros). Vale a pena notar que os navios de Colombo carregavam a Cruz Templária e que ele mesmo era casado com a filha de um antigo Grão Mestre desta ordem.

Organização do Templo

Os territórios onde são realizadas as atividades do Templo estão divididos em Províncias. Em 1294, havia 22 deles (5 na França, 4 na Espanha, 3 na Itália, 2 na Alemanha, 1 na Inglaterra, 1 na Hungria, 6 no Leste).

Os Templários formaram um exército permanente de vários milhares de homens, liderado por 500 cavaleiros e 1000 sargentos. Todos eles obedeciam ao Mestre e sua equipe.

Baldwin II cedendo o Templo de Salomão a Hugues de Payns e Gaudefroy de Saint-Homer, de William of Tyre, século XIII.

Hierarquia :

O pessoal do Templo é composto por:

  • O Mestre da Ordem: comparado a um Abade ou, melhor dizendo, a um soberano. Ele não pode tomar nenhuma decisão sem o acordo do Capítulo.
  • O Seneschal da Ordem: ele tem o selo da Ordem.
  • O Marechal: líder militar e responsável pela disciplina.
  • O Comandante da Terra e do Reino de Jerusalém: Tesoureiro do Templo e chefe da Marinha.
  • O Comandante de Trípoli e de Antioquia.
  • O Drapier: encarregados dos suprimentos da Ordem.
  • O Turcopolier.
  • O Submarechal.
  • O Gonfanonier.
  • O Comandante de Jerusalém: guardião dos peregrinos, da Santa Cruz e Embaixador da Ordem.

O Mestre do Templo, que mais tarde foi chamado Grande Mestre, tinha a autoridade de um líder supremo, mas só podia tomar uma decisão após consulta ao Capítulo. Ele não podia dar ou emprestar os bens da ordem e não podia começar ou terminar uma guerra. Na verdade, o Grande Mestre era como um presidente controlado pelo capítulo. Ele tinha que cumprir com as decisões do capítulo. “Todos os Irmãos devem obedecer ao Mestre e o Mestre deve obedecer a seu Convento”. (Estatutos Hierárquicos).

Com a morte do Mestre, as funções são assumidas pelo Marechal que reúne todos os dignitários da Ordem. Eles nomeiam o Grande Comandante que atuará até a eleição do novo Mestre. O Grande Comandante forma um pequeno conselho que fixa o dia da eleição. Naquele dia, ele convoca um capítulo restrito que escolhe três irmãos, um dos quais é nomeado Comandante da Eleição. O Capítulo escolhe um deputado. O Comandante da Eleição e seu deputado se retiram para a capela onde rezam até o nascer do sol. Pela manhã, o Comandante da Eleição e seu deputado nomeiam mais dois Irmãos. Depois elegem mais dois Irmãos e assim por diante até que haja 12 (em memória dos Apóstolos) e depois um décimo terceiro que deve ser capelão da Ordem. Entre este Capítulo devem existir 8 Cavaleiros e 4 Sargentos. Os treze eleitores se aposentam e quando parece haver acordo sobre dois nomes, o Comandante coloca à votação e aquele que recebe a maioria é designado como o novo Mestre da Ordem do Templo.

Os demais membros do Templo foram distribuídos da seguinte forma: Cavaleiros, Escudeiros, Sargentos, Capelães e Irmãos Artesãos.

Além disso, havia três categorias de pessoas que serviram a Ordem por um período fixo de tempo: Cavaleiros Clientes, Escudeiros Clientes e Turcopoles.

A vida no Templo

O enxoval dos cavaleiros consistia de duas camisas, dois pares de sapatos, dois calções, um gibão, uma peliça, uma capa, dois casacos, uma túnica e um amplo cinto de couro. Além dessas roupas, há duas toalhas: uma para a mesa e a segunda para a lavagem.

O traje militar consistia de uma cota de malha, um par de calções de ferro, um chapéu de ferro, um elmo, sapatos e um brasão. O armamento consistia de uma espada, uma lança e um escudo.

Além de suas ocupações civis e do serviço militar, sua existência era a dos monges. Quando soa o sino das matinas, os Templários vão à capela onde devem dizer 13 Pais-nossos para Nossa Senhora e 13 para o santo do dia. Após as matinas, eles devem ir para os estábulos. À prima, os cavaleiros vão novamente à missa. Os Templários não podem comer sem ouvir ou recitar 60 Pais-nossos. Antes das refeições, são recitados a Bênção e um Pai-nosso. Graças na capela após o refeitório, depois as vésperas, as horas da nona e completa.

Cada uma das horas é acompanhada por 13 ou 18 Pais-nossos. Além disso, há toda a gama de obrigações nas festas católicas. Ao cair da noite, os irmãos fazem um lanche e depois vão para a capela.

Lista dos Grão-Mestres

Observe que a lista aqui apresentada é indicativa e é apenas uma das muitas listas emitidas por historiadores. De fato, parece que os historiadores não concordam com o número e os nomes dos Grão-Mestres da Ordem do Templo…

  1. Hugues de Payens
  1. Robert le Bourgignon
  1. Evrard des Barres
  1. Bernard de Tramelay
  1. Bertrand de Blanquefort
  1. Filippe de Napelouse
  1. Odon de Saint-Amand
  1. Arnaud de Toroge
  1. Terrie (ou Thierry ou Therence)
  1. Gerard de Riddeford
  1. Robert de Sablé
  1. Gilbert Horal
  1. Filippe de Plessiez
  1. Guillaume de Chartres
  1. Pierre de Montaigu
  1. Armand de Périgord
  1. Guillaume de Tonnac
  1. Renaud de Vichiers
  1. Thomas Beraut
  1. Guillaume de Beaujeu
  1. O monge Gaudin
  1. Jacques de Molay

Símbolos e História oculta

Aqui estão algumas hipóteses e elementos de ocultismo relacionados com o Templo. Os templários sempre animaram a imaginação de muitos pesquisadores profissionais e não profissionais. Assim, há aqueles que defendem a ideia do esoterismo templário e tentam ligar todos os eventos mundiais à intervenção direta ou indireta dos Templários. O objetivo desta seção não é defender ou rejeitar esta ou aquela hipótese.

1 – O Selo da Ordem: representa dois cavaleiros cavalgando juntos em um cavalo. Este selo pode então simbolizar a pobreza da Ordem, mas também em um nível mais profundo, pode simbolizar:

  • A natureza dupla da Ordem, exotérica e esotérica, bélica e monástica
  • A natureza dual do homem, divina e humana
  • A tripartição do ser em spiritus (mente), animus (alma) e corpus (corpo)

Descriptio Terrae Sanctae, 1283. De Jerusalém, por Michel Join-Lambert. Elek Books, 1958.

2 – O Bafomet: antes de tudo, é importante saber que o termo “Bafomet” nunca foi usado pelos acusadores ou pelos próprios Templários. Na verdade, apenas a forma adjetival “bafomética” ou “bafomético” é encontrada. Assim, um irmão occitano da Ordem em Montpezat, Gaucerant, confessou ter adorado uma “imagem bafomética” que, em langue d’oc, poderia ser uma distorção do nome do profeta islâmico Maomé. Segundo os ocultistas, o Bafomet é um ídolo de origem islâmica, enquanto o Islã proíbe qualquer representação humana, ou uma simbolização dos dois São João na forma de Jano, um símbolo de batismo e iniciação?

Aqui, antes de tudo, estão os termos precisos de um artigo da primeira investigação (articulo super quibus inquiretur contra ordinem Templi): “Que os cavaleiros nas várias províncias tinham ídolos, ou seja, cabeças, algumas com três rostos e outras apenas uma; outras tinham um crânio humano. Estes ídolos ou este ídolo foram adorados… Os cavaleiros disseram que esta cabeça podia salvá-los, enriquecê-los, que fazia florescer as árvores, que fazia brotar as colheitas; os cavaleiros cingiram ou tocaram com cordas uma certa cabeça destes ídolos e depois se cingiram com esta corda, seja sobre a camisa ou sobre a pele.”

O historiador dinamarquês Munter, assim como outros, levantou a hipótese de que as chamadas cabeças adoradas pelos Templários eram simples cabeças relicárias, como ainda são encontradas em muitos museus e tesouros da igreja.

3 – A Beaucéant: preto e branco ou vermelho e dourado, poderia simbolizar as Trevas e a Luz. Veja o livro de Gérard de Sède para outras implicações desta bandeira.

4 – Números Simbólicos:

O número três aparece frequentemente na vida da Ordem (esmola três vezes por semana, aceitando três assaltos antes de retaliar…)

O número nove de fato, a Ordem foi fundada por nove cavaleiros em 27 de dezembro de 1118 (2+7=9, 12=9+3…), a Regra Latina tem 72 artigos (7+2=9), há nove anos entre 1118 e 1127 e os anos 18 e 27 são múltiplos de nove, a Ordem tinha nove províncias, a Beaucéant era às vezes um composta de 81 quadrados pretos e brancos (quadrados de 9, 8+1=9).

Dante e os Templários

Em 1318, Dante terminou sua Divina Comédia, na qual alude várias vezes aos Templários. No Paraíso (Canto XXX), Beatrice é cercada e protegida por “um conjunto de capas brancas” (nome pelo qual os Templários eram conhecidos). Também nos círculos do Paraíso, Dante escolhe São Bernardo como seu guia (Canto XXXII) por causa de seu papel na fundação da Ordem do Templo. São Bernardo em sua De laude novae militiae estabelece, como vimos, a missão e o ideal do cavalheirismo cristão, a ‘milícia de Deus’, termo muitas vezes encontrado nos escritos dos Fiéis do Amor, dos quais Dante era um membro proeminente.

No Purgatório (Canto XXVII), Dante lembra-se de testemunhar a execução de Jacques de Molay e Geoffroy de Charnay na fogueira em 18 de março de 1314 em Paris: “Estiquei-me para frente com as mãos fechadas e me deitei, olhando para o fogo e imaginando vividamente os corpos humanos que eu já tinha visto queimados”.

Finalmente, Dante compara o Papa Clemente V ao Anticristo, e lhe atribui um lugar em seu Inferno (Canto XIX): ‘Um pastor sem lei virá do oeste […] Ele será um novo Jasão, do qual os Macabeus falam, e quanto a este flexível foi seu rei, a este será o rei que governa a França’. Ele compara ainda o rei da França, Felipe, o Belo, a Pilatos em seu Purgatório (Canto XX): “Vejo o novo Pilatos tão cruel que não o satisfaz, mas sem decreto ele empurra seus véus gananciosos para dentro do Templo”.

Dante e os Fiéis do Amor, aos quais Dante pertencia, aspergiram suas obras com vários símbolos esotéricos a fim de lembrar sua filiação ao espírito cavalheiresco da Ordem do Templo. Assim, Dante frequentemente usa o número 9 como um número sagrado, simbolizando a trindade: espírito, alma, corpo, cada um com 3 aspectos e 3 princípios. Este número, também muito simbólico para os Templários, lembra os 9 fundadores tradicionais da Ordem, assim como as 9 províncias do Templo Ocidental; através do significado dos “Céus” dado por Dante em sua Divina Comédia – os 9 “Céus” são os graus da hierarquia iniciática que conduzem à “Terra Santa”.

Godfrey de Bouillon e a Ordem do Priorado de Sião

Em 1099, diz-se que ele fundou a Ordem do Priorado de Sião na Abadia de Notre-Dame du Mont de Sion (Nossa Senhora do Monte Sião), que é a origem da fundação da Ordem do Templo. De acordo com algumas fontes, o Priorado de Sião era a estrutura esotérica enquanto o Templo era a estrutura exotérica visível. Diz-se que o Priorado sobreviveu de várias formas até os dias de hoje. Na realidade, e para grande desgosto dos fãs do Código Da Vinci e outros disparates místicos e misteriosos, o Priorado de Sião foi mencionado pela primeira vez em 1956, a invenção do mistificador francês Pierre Plantard. Em uma série de documentos forjados depositados na Biblioteca Nacional em meados dos anos 60 e intitulados “Arquivos Secretos de Henri Lobineau”, Plantard apresenta o Priorado como uma irmandade datada de 1099, ligada à Ordem do Templo e cuja missão teria sido preservar o segredo de uma descendência oculta dos merovíngios para a restauração de uma monarquia merovíngia na França.

Relação com as comunidades muçulmanas e gnósticas

 1- Os Assassinos: uma seita xiita fundada no século XI por Hassan Ibn Sabbah, os Assassinos são cavaleiros baseados principalmente na Síria e na Pérsia que obedecem cegamente a seu líder, o “Velho da Montanha”.

Existe um certo paralelismo entre a ordem Assassina e a ordem Templária:

  • cavaleiros – refiks
  • escudeiros – fedavi
  • sargentos – lassiks
  • priores – daîkebir
  • grande mestre – xeque el djebel

Embora religiosamente opostas, houve um certo grau de colaboração entre as duas ordens. Além disso, os Templários mantiveram relações diplomáticas e até militares com os Assassinos da Síria. Também vale a pena notar que havia uma certa comunidade de espírito na linha das ordens de cavalheirismo.

2- Ordem dos Irmãos do Oriente: fundada na segunda metade do século XI por Michael Psellos, esta ordem está impregnada de doutrinas herméticas neopitagóricas.

3- Ordem dos Santos (ou Kaddosh): esta ordem era de inspiração Essênia, Gnóstica e Joanina. Diz-se que um certo Arnaud de Toulouse foi para a Palestina no início do século IX para estudar e penetrar nos mistérios desta sociedade. Ele atingiu o início das três graus e obteve permissão para fundar uma emanação da Ordem na Europa. A primeiro alojamento, ou loja, foi fundado em 804 em Toulouse por Arnaud sob o nome de Amus. A ordem teria incluído figuras como Gerber de Aurillac (futuro Papa Silvestre II), Raymond de Saint-Gilles (Conde de Toulouse), Godefroi de Bouillon e os nove cavaleiros fundadores da Ordem dos Templários. No Museu de Viena, uma medalha de Dante de Pisanello está em exposição. No verso da medalha, que representa Dante, pode-se ler a seguinte estranha sequência de letras: “F.S.K.I.P.F.T.”. Segundo René Guénon, estas letras significam “Fidei Sanctae Kadosh Imperialis Principatus Frater Templarius”.

Se você quiser saber mais sobre o esoterismo templário, não hesite em consultar nosso livro, coautoria de Spartakus FreeMann e Soror D.S., Le Bafomet, Figure de l’ésotérisme templier & de la franc maçonnerie, retraçando a lenta elaboração do mito do Bafomet, recém-publicado pela Alliance Magique.

Ordem do Templo, Spartakus FreeMann, agosto de 2008.

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Fonte:

Ordre du Temple : histoire, Spartakus FreeMann, août 2008. 

https://www.esoblogs.net/211/l-ordre-du-temple-histoire-1/

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-historia-da-ordem-dos-cavaleiros-templarios/

A Árvore e os Triângulos

Nota: Observe-se que os três planos superiores são equivalentes a três tríades, ficando a última sefirah (Malkhuth), exclusivamente em conexão com o plano de Asiyah. Daremos uma última correspondência. A que relaciona às sefiroth da Árvore com as distintas partes do corpo humano, divisão comum a distintas Tradições e que no Ocidente se expressa particularmente desde a Idade Média. Lembraremos que para a Cabala o Cosmo é um homem gigantesco chamado Adam Kadmon, e o ser humano uma miniatura dele:

– Kether, Hokhmah e Binah constituem sua cabeça, estando estas duas últimas sefiroth vinculadas ao olho esquerdo e direito, respectivamente; desta forma, correspondem a cada um dos hemisférios cerebrais.

– Hesed é relacionada com o braço esquerdo, e Gueburah ao direito, enquanto o coração, ou centro da Árvore, deve atribuir-se a Tifereth.

– A Netsah a perna e o quadril esquerdo e a Hod a do lado direito, sendo Yesod a que se relaciona aos genitais, ficando finalmente Malkhuth em relação com os pés.

Temos de lembrar que de acordo às leis da analogia e da natureza dos símbolos, o que é direito desde um ponto de vista pode ser esquerdo de outro. Portanto, pode também se ver à Árvore de maneira invertida, como indicado, correspondendo nesse caso à coluna do amor o direito e à do rigor o esquerdo, ou seja, a imagem de um homem paradigmático vista de frente ou de modo posterior.

Pode o leitor se exercitar em tratar de visualizar estas sefiroth em correspondência com centros sutis de seu corpo. Se o consegue, é interessante pensar em próximas práticas, incluídas as de inversão de polaridades de energia.

@MDD – na maçonaria e nas Ordens templárias, o lado direito do templo corresponde à beleza/misericórdia e o esquerdo à força/rigor.

#hermetismo #Kabbalah

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-%C3%A1rvore-e-os-tri%C3%A2ngulos

A Bruxaria Italiana e o Catolicismo

Por Raven Grimassi

“É a coisa mais natural do mundo que haja certas misturas, compromissos e pontos de afinidade entre a Stregheria – bruxaria, ou “religião antiga”, fundada na mitologia e ritos Etruscos ou Romanos – e a Católica Romana: ambos eram baseados em magia, ambos usavam fetiches, amuletos, encantamentos e recorreram a espíritos. Em alguns casos, esses espíritos ou santos Cristãos correspondiam e eram realmente derivados da mesma fonte dos pagãos. Os feiticeiros entre os camponeses Toscanos não demoraram a perceber isso.”

– Citação do livro Etruscan Roman Remains (Restos Romanos Etruscos, 1892), por Charles Leland.

Na Itália, há muito tempo é costume, desde a Idade Média, que as bruxas Italianas cubram sua identidade com um verniz de Catolicismo para não levantar suspeitas. Isso inclui assistir à Missa e participar dos Ritos de Passagem esperados de alguém na comunidade Católica. Charles Leland, em seu livro Etruscan Magic & Occult Remedies (Magia Etrusca e Remédios Ocultos), registra a antiga conexão entre Bruxas e Catolicismo, sobre a qual escreve:

“Quanto às famílias em que se conserva a stregeria, ou o conhecimento dos encantos, das velhas tradições e dos cantos, nem sequer se pretendem Cristãs entre si. Quer dizer, eles mantêm observâncias externas, e criam os filhos como Católicos, e “mantêm-se” com o padre, mas à medida que os filhos crescem, se alguma aptidão é observada neles para a feitiçaria, alguma velha avó ou tia toma as mãos e as inicia na antiga fé”.

Grande parte de sua magia aparece misturada com ritos e santos Católicos, cujas origens remontam aos tempos antigos. Certos santos como Antônio, Simão e Eliseu são vistos como semideuses e seus ritos mágicos de evocação são realizados nas adegas. Leland menciona na introdução do livro Etruscan Roman Remains, uma conversa que teve com uma mulher Strega, ela diz:

“Eu me chamo de Católica – ah sim – e uso uma medalha para provar isso” – aqui ela, empolgada, tirou do peito uma medalha de santo – “mas não acredito em nada disso. Você sabe no que acredito.” (Leland responde) “Si, la vecchia religione (a velha fé), respondi, com que fé eu queria dizer aquela estranha e diluída feitiçaria Etrusco-Romana que é apresentada neste livro. A magia era sua verdadeira religião.”

Uma distinção precisa ser feita entre as duas formas de Stregoneria e a de Stregheria. A stregoneria comum popular é uma tradição de magia popular que abraça elementos Cristãos e trabalha dentro dessa teologia. Em outras palavras, é uma prática de magia dentro de um sistema formatado Cristão. É o que os italianos nativos estão familiarizados e, portanto, é o sistema conhecido pela pessoa média que cresce na Itália. Elementos desse sistema geralmente aparecem como coisas feitas dentro das famílias cotidianas na cultura italiana. Ela difere substancialmente da tradição pré-Cristã de stregoneria que é conhecida apenas por seus iniciados que possuem a conexão de linhagem. Esta antiga forma pré-Cristã de stregoneria é, portanto, escondida da população em geral.

A forma iniciada de stregoneria já foi a tradição mágica dentro de Stregheria (em oposição aos ritos religiosos de veneração). Em algum momento, foi levado e praticado por Bruxas não religiosas e acabou se tornando sua própria tradição. Partes dela eventualmente vazaram para a cultura dominante e, como sempre é o destino do esotérico, tornou-se distorcida e mal interpretada pela comunidade exotérica. A última forma é o único sistema conhecido pelo “homem-da-rua” italiano nativo médio e é mal interpretado como sendo a Bruxaria Italiana.

Em contraste com a stregoneria comum (o sistema de magia popular dos não iniciados), a Stregheria é não-Cristã em sua essência e seus praticantes entendem que a prática da magia santa, e na inclusão de itens religiosos Católicos, são apenas para exibição. Mesmo que ambas as palavras (stregoneria e stregheria) sejam traduzidas para o Inglês como Witchcraft (Bruxaria), isso é falso em termos do que cada sistema realmente representa. Stregheria é Bruxaria, uma tradição pré-Cristã. Stregoneria comum é uma forma de feitiçaria usada em tradições de magia folclórica e popular de raiz Católica.

TRECHO DE WAYS OF THE STREGA (CAMINHOS DA STREGA) de Raven Grimassi:

Muitas Strega modernas simplesmente consideram os Católicos como Pagãos que aceitaram a divindade de Jesus. Existem alguns conceitos interessantes no Antigo e no Novo Testamento que se assemelham às crenças Strega e podem muito bem ser a base de tal conceito. De acordo com o Novo Testamento, os Magos foram os primeiros a procurar Jesus depois de “ver” sua estrela. A lenda afirma que eles eram astrólogos e os associa às terras da Caldéia, Egito e Pérsia. Estes são todos os lugares que têm uma história oculta que remonta à antiguidade.

A história dos magos registrada no livro de Mateus parece indicar que esses místicos Pagãos estavam entre os primeiros a prestar homenagem a Jesus. No livro dos Provérbios (capítulo 8, versículo 2) encontramos um personagem chamado “sabedoria” concebido na forma de uma divindade feminina que “está na encruzilhada” (uma frase usada nos tempos antigos em relação à deusa das bruxas). A sabedoria fala de estar presente antes e durante o processo da Criação. No versículo 30 (A Bíblia de Jerusalém) ela afirma ter sido assistente de Deus durante o processo da Criação: “Eu estava ao seu lado, um mestre Artesão, encantando-o dia após dia, sempre brincando em sua presença, brincando em qualquer lugar do mundo, deleitando por estar com os filhos dos homens.”

No livro da Sabedoria (encontrado apenas na versão Católica), a “sabedoria” é louvada com estas palavras (capítulo 7: 22-27): “Pois dentro dela há um espírito inteligente, santo… penetrando todos os espíritos inteligentes, puros e mais sutis; pois a Sabedoria se move mais rapidamente do que qualquer movimento; ela é tão pura, ela permeia e preenche todas as coisas… Ela é um reflexo da luz eterna, espelho imaculado do poder ativo de Deus… pode fazer tudo; ela mesma imutável, ela faz todas as coisas novas…”

Conectada a este conceito do aspecto feminino da Divindade está a palavra “ruach (espírito)”. Em Hebraico, esta palavra é de gênero feminino e seria propriamente definida no sentido de divindade feminina. Quando lemos no relato da Criação (Livro de Gênesis) que o “espírito de Deus movia-se sobre a face das águas”, a palavra hebraica usada aqui para espírito era “ruach”. No Novo Testamento isso foi traduzido como “Espírito Santo” como no conceito da Trindade de “Pai, Filho e Espírito Santo”.

Os místicos hebreus da Cabala consideravam que “ruach” estava associado ao elemento ar e, portanto, também ao espírito. Entre os primeiros Cabalistas, o som de uma palavra denotava sua associação elementar; sons suaves eram associados ao ar, sons fortes à terra, sons sibilantes ao fogo e sons abafados à água. Não é necessário, no entanto, olhar para o Catolicismo para encontrar resquícios do culto pagão anterior. Aspectos da Stregheria ainda sobrevivem hoje na Itália e na América, mesmo entre aqueles que não se identificam prontamente como membros da La Vecchia Religione. Eles empregam várias orações para uma série de santos, acendendo velas e colocando objetos variados conforme exigido pela tradição. Santos como Santo Antônio, São Judas, Santa Ana e São Simão substituíram os antigos deuses pagãos a quem antes eram feitas orações e oferendas semelhantes.

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Fonte: Catholicism and Italian Witchcraft, by Raven Grimassi.

©1995 – 2005 by Raven Grimassi and Clan Umbrea, all rights reserved.

Texto adaptado, revisado, resgatado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-bruxaria-italiana-e-o-catolicismo/