As stregoicas do castelo do Conde Drácula

Shirlei Massapust

Certa vez, muitos anos atrás, eu estava num shopping tirando xérox quando um homem que nunca vi na vida se apresentou como jornalista e depositou uma fotografia de Christopher Lee no balcão. Perguntei se me permitiria xerocar a foto também, para minha coleção de vampiros. Então ele anotou seu telefone atrás e gentilmente me doou aquele tesouro. Nunca telefonei. E nunca descobri quem são as três atrizes posando para nu artístico diante do ator vestido dos pés à cabeça.

No século XX a imprensa fazia ruidoso alarido sobre a virilidade do pródigo polígamo que tinha à sua mercê uma coleção de belas mulheres. Sérgio França resumiu o espírito da época numa curiosa edição retirada do mercado por decisão judicial em processo movido por Francis Ford Copolla contra um humilde e trêmulo editor brasileiro:

Essa é a essência do mito de Drácula, presente na totalidade das versões no cinema, na literatura, no inconsciente coletivo. O medo ancestral do hábito de morte e maldição nos dentes do vampiro, a sugar não só o sangue, mas a humanidade e o direito final de todas as pessoas — a morte.

Esse é o Drácula que retorna, o vampiro sempre presente: sangue e fogo; morte e amor — a real natureza do bem e do mal, da magia e do poder. Atitudes geradas pela liberação sexual de mulheres reprimidas. A vitória da sedução. Na verdade, a questão principal não é o efeito de Drácula sobre as mulheres, mas o fascínio que esse poder do vampiro exerce sobre os homens. E a despeito da eterna cena final dos filmes, Drácula sobrevive. Sempre.[1]

Em Drácula (1897) o conde não é o único residente num castelo na Transilvânia, Romênia. A poeirenta ala proibida para visitas era habitada por três stregoicas que, pelas atitudes e trajes, “se comportavam como damas da mais alta classe”.[2] Contudo, embora se comporte como arrimo da família provendo habitação e sustento, o Conde Drácula não parece sexualmente interessado em nenhuma das suas convivas. Quando flagra o trio em frenesi alimentar, aos beijos com o agente imobiliário Jonathan Harker, o vampiro expressa ciúme não por elas, mas por sua mais recente presa humana.

Tive a clara e imediata consciência da presença do conde e de sua explosão de raiva, violenta como a fúria de uma tormenta. Ao abrir meus olhos involuntariamente, vi sua possante mão agarrar a bela mulher pelo pescoço e com brutal violência arrastá-la para traz. Os olhos azuis como safiras expediam fagulhas de ódio, os dentes rilhavam e seu rosto agora estava rubro de paixão.

E o conde?

Eu nunca poderia imaginar tal expressão de ódio e de fúria, mesmo entre os demônios do inferno. Seus olhos estavam literalmente lançando chamas e seus lampejos sanguíneos eram sinistros, dando a impressão de que o fogo do inferno tivesse se concentrado em seu olhar. Agora seu rosto perdera o rubor anormal, se tornara mortalmente pálido e suas feições adquiriam uma rigidez de máscara mortuária. As espessas sobrancelhas que se tocavam por sobre o nariz pareciam formar um arco incandescente. Com um violento empurrão desferido por seu braço, arremessou a mulher para longe de si, e então investiu sobre as outras duas, como se as empurrasse para trás, mesmo sem tocá-las. Era aquele o mesmo e imperioso gesto que eu o vira empregar quando afugentara os lobos. E ele usou um tom de voz que, embora baixo e quase não passando de um sussurrar, parecia cortar o denso ar da sala.

— Como ousam vocês, qualquer uma de vocês, tocar esse homem? Como têm a audácia de se arriscar apenas para vir vê-lo, quando eu as proibi? Para trás, eu lhes ordeno! Esse ser me pertence! Fujam da tentação de se misturar com ele, do contrário terão de se haver comigo!

— Você nunca amou mesmo! Jamais amará!

Essas palavras foram apoiadas pelas outras duas, e as três, em uníssono, explodiram em uma nova, melancólica e cruel gargalhada que ecoou na sala de tal forma que por pouco não me causa um desmaio, parecendo-me antes uma demonstração de prazer demoníaco. Depois disso o conde voltou-se e, olhando firmemente em meus olhos, tornou a falar no mesmo tom sussurrado.

— Sim, eu também posso amar, e vocês mesmas o podem testemunhar através do passado. Não foi assim? Bem, agora lhes farei uma promessa… Depois que eu terminar com ele, as três poderão beijá-lo à vontade. Agora basta! Vão embora! Eu tenho de despertá-lo, pois há muito o que fazer.

— E nós não teremos nada esta noite? — perguntou ainda uma delas.

Ela deu uma breve risada, ao mesmo tempo apontando para um saco que fora lançado sobre o soalho e dentro do qual se debatia, como se ali se ocultasse algum ser vivo. O conde respondeu apenas movendo a cabeça, num leve aceno afirmativo.

Uma das mulheres deu alguns passos para a frente e abriu o pequeno fardo. Se meus ouvidos não me enganaram, ouvi um débil suspiro, acompanhado de um gemido, vindo daquela direção, como o som emitido por uma criança quase asfixiada. Em uma fração de segundo as três mulheres formaram um círculo em torno do local do ruído, enquanto eu estremecia de horror. Mas, quando voltei a olhar, elas já haviam desaparecido com o tétrico fardo.[3]

A minissérie brasileira Drácula – A Sombra da Noite (1985-1987)[4], com roteiro de Ataíde Braz e desenhos de Neide Harue Nakazato, foi a primeira adaptação onde uma das stregoicas ganhou um nome, Natasha. A segunda história é o único trecho fiel ao romance de Bram Stoker, com uma diferença significativa: As vampiras do castelo tem escrúpulos; ao invés de crianças elas só atacam assaltantes em legítima defesa.

Stregoicas, por Luis Royo.[5]

A primeira adaptação do livro Drácula para o cinema que os herdeiros de Bram Stoker autorizaram foi realizada pela Universal Studios Inc., em 1931. Nesta época não somente as stregoicas permaneceram anônimas como os nomes das atrizes Jeraldine Matilda Dvorak (1904-1985), Mildred Pierce (1908-1981) e Dorothy Estelle Triebitz (1906-1992) não foram listados nos créditos finais, em razão do papel secundário ser equiparado ao da mera figuração! As criaturas depravadas, com seios de fora, que mordem a virilha de Jonathan Harker (Keanu Reaves), em Bram Stoker’s Drácula (1992), ganharam coreografia personalizada, mas não identidades. Mas pelo menos os créditos mencionam as atrizes Michaela Bercu, Florina Kendrick e Mônica Belluci.

“Faça com que fique esquisito”, era a instrução básica de Francis a seu filho Roman Coppola, diretor da segunda unidade de Drácula de Bram Stoker e diretor de todos os efeitos especiais vistos no filme. Sem orçamento bastante para disputar com a tecnologia de ponta utilizada em marcos computadorizados (…) ele recorre a técnicas antigas, como (…) alçapões para o surgimento das noivas de Drácula de sob a cama. (…) Outros efeitos criados por Roman obedecem à tradição inicial do cinema — trucagem se dá pela maneira como a cena é realizada, não pela maneira como é filmada. Um exemplo claro é quando as noivas de Drácula se transformam numa gigantesca aranha humana. O “efeito”, ali, resultou de uma complicada coreografia, através da qual as atrizes criaram a forma da aranha combinando seus próprios corpos.[6]

Passaram cento e dez anos até o roteirista Stephen Sommers conceder o mínimo de dignidade às stregoicas, dando-lhes os nomes Aleera, Verona e Marishka no filme Van Helsing (2004). Interpretadas respectivamente pelas atrizes Eleana Anaya, Silvia Colloca e Josie Maran, elas fazem a diferença neste filme onde o conde quase fica em segundo plano. Aliás, tudo acontece porque Aleera, Verona e Marishka desejam superar a infertilidade natural da condição vampírica e criar enxames de bebês morcego.

Drácula ama Jonathan?

A interpretação de tal diálogo depende muito da permissividade e censura prévia dos editores e veículos de comunicação. Na Itália dos anos oitenta Guido Crepax (1933-2003) roteirizou e ilustrou o romance gráfico Conte Dracula (1987), onde fez Jonathan Harker queixar-se em desespero pelo vampiro tê-lo possuído como um animal cobrindo sua fêmea. Esse discurso discreto e minimamente gráfico foi a menção mais explícita a bissexualismo que pudemos encontrar desde sempre até décadas depois.

Noutro extremo, nos EUA do século XXI, a série Dracula (2020), adaptada por Mark Gatiss e Steven Moffat, dirigida por Jonny Campbell, Damon Thomas e Paul McGuigan, obedeceu à agenda progressista intrínseca ao período caracterizando o Conde Drácula (Claes Bang) como um monstro de gênero bissexual que se põe em posição passiva ao se relacionar sexualmente com homens hipnotizados.

Provavelmente a perspectiva menos incorreta era a interpretação majoritária das editoras paulistanas Continental (1959-1961), Outubro (1961-1966), Taika (1966-1978), D-Arte (1967-1993) e outras menos expressivas onde, nas inúmeras e intermináveis quadrinizações do Conde Drácula, o rei dos vampiros até poderia aparecer em posições sugestivas – ele frequentemente elogiava a beleza feminina,  –  todavia estava impedido por imposição de pacto demoníaco de se apaixonar, ou teria seus poderes reduzidos.

Romance de R. F. Lucchetti, sob o pseudônimo Brian Stockeler.

Nesta perspectiva vampiros extrairiam prazer do sangue e poder da maldade. Diferentemente do mitologema e folclore europeu, os vampiros dos principais títulos de quadrinhos brasileiros não faziam indivíduos eleitos para a conversão beberem sangue com propriedade de transposão de informação genética ou mágica, extraído de seus corpos. A reprodução (transformação) se dava por mordedura, como se eles fossem morcegos contaminados transmitindo vírus da raiva. Então o Conde Drácula precisa, ele mesmo, eliminar o perigo de concorrência todas as vezes em que não deseja que suas vítimas se transformem em novos vampiros e disputem território consigo.

Nos romances gráficos de Nico Rosso – especialmente naqueles roteirizados pela brasileira Helena Fonseca – o conde só morde mulheres e, a seguir, crava lâminas de ferro no coração da vítima para prevenir a explosão demográfica e concorrência pelo sangue dos mortais. Se algo der errado, caçadores de vampiros fazem serviço de utilidade pública eliminando restolhos antes que elas se tornem muito numerosas.

R. F. Lucchetti chegou a dar a um livro o título Os Vampiros não Fazem Sexo (1974), o qual originou uma versão em quadrinhos com desenhos de Nico Rosso.

Quando o Conde Drácula desobedece às regras do pacto e cai de amores por alguma mulher, não somente o Diabo vem pessoalmente lhe punir disparando raios como nascem poderosas vampiras boazinhas que atormentam a pós-vida do vilão, a exemplo de Naiara e Nadia, duas filhas de Drácula que ganharam séries próprias.

Voltando ao livro de Bram Stoker, imagino que todos os vampiros, machos e fêmeas, tinham interesse em humanos de qualquer sexo ou gênero; porém perdiam a chama da paixão por eles depois de conversos. — Repare que Drácula não procura Lucy após a conversão. — Se for verdade que uma ou todas as stregoicas foram noivas de Drácula, parece que eles passaram a viver sob regime de separação de corpos porque, embora o costume da época atribuísse à mulher o dever de realizar trabalhos domésticos, era o próprio conde quem limpava a ala do castelo onde somente ele vivia.

Um pesadelo inspirador

Pesquisadores descobriram que Bram Stoker não criou a parte da estória onde Jonathan é arrebatado pelas vampiras. Ele apenas descreveu um pesadelo sonhado em 08/03/1890, no qual “um rapaz vê algumas jovens; uma delas tenta beijá-lo, não nos lábios, e sim no pescoço”. Seis dias depois Stoker voltou a escrever sobre o assunto, já na intenção de produzir as primeiras linhas de um conto:

— “Será um sonho? Mulheres querem beijá-lo. Terror de morte. De repente o conde a afasta: ‘Este homem me pertence!’”

Houve quem sugerisse que a temível mulher era Florence Stoker. Um parente da família descreveu Florence como uma pessoa absorta, amaldiçoada por sua grande beleza e o desejo de preservá-la. Florence rompeu o noivado com Oscar Wilde para casar com Bram Stoker, mas, depois, o esposo preferia passar a maior parte do tempo viajando sozinho… A experiência da paternidade foi demasiadamente dispendiosa e o convívio foi se tornando cada vez mais problemático. Então, neste dia em particular, não foi só a comida indigesta que estragou sua noite. A antipatia pela pessoa real, em sua cama, fê-la invadir seus sonhos na forma de súcubo para exigir a atenção de um marido que não a amava mais.

Papéis descrevem os lugares que visitou, os livros que leu e os pensamentos que teve entre março de 1890 e fevereiro de 1986. O pesadelo esteve sempre presente nesses seis anos. Na redação final Jonathan observa que duas stregoicas possuíam “tez de um moreno dourado” e narizes aquilinos “à semelhança do conde”, detalhe que sugere parentesco consanguíneo.[7] Estas agregadas respeitam a hierarquia doméstica da mulher de etnia caucasiana, que abalou o sono do autor na pele do personagem:

Era dotada de rara beleza — o que de mais fascinante se possa imaginar sob a forma de mulher —, com uma farta e longa cabeleira de cachos dourados e olhos magníficos, da cor e com o brilho de safiras. Tive a impressão, embora indefinida e imprecisa, de já haver visto seu rosto e de conhecê-lo por meio de sua aparição em algum sonho tenebroso, do qual na hora não me foi possível lembrar.[8]

Infelizmente a diversidade genética nunca é representada nos filmes temáticos onde as stregoicas parecem todas iguais, modificando somente a cor da cabeleira lisa. A tendência nas produções cinematográficas do século XX foi o branqueamento da pele das personagens e redução do vestuário até o nudismo.

Notas:

[1] FRANÇA, Sérgio. Drácula: Sangue e sedução. Em: AS MELHORES HISTÓRIAS DE DRÁCULA. São Paulo, Bloch, 1993, p 31.

[2] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 45.

[3] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 46-47.

[4] A minissérie brasileira Drácula – A Sombra da Noite, com roteiro de Ataíde Braz e desenhos de sua esposa, Neide Harue Nakazato, foi lançada em cinco números pela editora Nova Sampa, indo às bancas de 1985 a 1987. Em 1989 os dois primeiros números foram relançados com novas capas. Em 1991 a minissérie completa foi reunida em um grosso volume. Uma nova edição está prevista para 2022.

[5] COOL WALLPAPERS. Acessado em 21/04/2022. URL: https://coolwallpapers.me/picsup/6058417-art-moon-luis-royo-girls-vampires-vampires-blood-cemetery.jpg>.

[6] RONDEAU, José Emilio. Drácula: Delírio sangrento. Em: SET: Cinema e vídeo, Ano VII, N.º 1. São Paulo, Editora Azul, janeiro de 1993, p 18-19.

[7] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 45.

[8] STOKER, Bram. Drácula. Trad. Vera M. Renoldi. São Paulo, Nova Cultura, 2002, p 45.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/as-stregoicas-do-castelo-do-conde-dracula/

Alquimia e Transmutação

Já dissemos que toda a transmutação alquímica, seja material, psicológica ou espiritual, é produzida pelo fogo. Quem aspira ao Conhecimento tem de saber que seu fogo interior –a sede pela Verdade e seu amor a ela– tem que ser constante e contínuo, ou seja, que não se acenda tanto que por sua causa arda e se perca nosso ânimo, e também que não diminua a ponto de se apagar. É o delicado jogo dos equilíbrios de que falavam os alquimistas medievais e renascentistas, os quais também aconselhavam que em todas as operações deviam prevalecer as virtudes da paciência e da perseverança. Na manutenção desse fogo e no controle natural de sua potência, radicam os princípios fundamentais da Alquimia. Não obstante, para harmonizar essas energias é imprescindível conhece-las e experimentá-las, sem negá-las nem dá-las por supostas. Muito pouco sabe o homem ordinário do conhecimento de outras realidades e de si mesmo, mesmo no mais elementar. Considera que sua “personalidade” (quer dizer, seus egos, fobias e manias) é sua verdadeira identidade, sem perceber que extraiu esses condicionamentos do meio, de modo imitativo, carente de significado e de transcendência.

A Ciência Sagrada representa uma guia e um caminho que existe para canalizar nosso processo para o Conhecimento. O aprendiz alquimista tem de compreender que a mente condicionada não pode consigo mesma, e que é necessário reconhecer nossa ignorância, que muitas vezes não é senão afeição a descrições da realidade puramente ilusórias, por meio das quais organizamos nossa existência. A Doutrina Tradicional constitui uma garantia neste sentido, pois facilita e concentra a manutenção desse fogo interno através do entendimento gradual que em nossa aprendizagem vamos obtendo de seus ensinos.

#Alquimia #hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/alquimia-e-transmuta%C3%A7%C3%A3o

A Corrente Anticósmica 218

As bases da Corrente 218 firmam se originalmente nos mitos sumérios contidos no poema épico Enuma Elish escrito há mais de 3000 anos. No mito babilônio, Tiamat, um monstruoso dragão feminino, é a mãe de tudo aquilo que existe e de todos os deuses. Ela é a personificação da água salgada, das águas do Caos. Tiamat tem originalmente Apsu como consorte. Apsu é a personificação do abismo primordial da água doce do mundo inferior. Da união de Tiamat e Apsu surgiram os primeiros deuses.

O comportamento dos primeiros deuses irritava o casal primordial e Tiamat e Apsu planejaram matar a própria descendência. Ea (deus das águas doces; patrono da magia e da sabedoria; dizia-se que era onisciente.) , deus da quarta geração após Tiamat e Apsu, descobriu os planos e engendrou um plano para matar Apsu.

Ea aguardou Apsu adormecer e o matou. Tiamat foi tomada por fúria violenta ao saber da morte de seu esposo, tomou seu filho Kingu (Tiamat e Kingu são chamados Dragões do Caos.) como novo consorte e criou um exército de onze demônios para vingar a morte de Apsu. Tiamat pretendia que seu filho e esposo se tornasse Senhor dos Deuses, deu a ele as Tábuas do Destino e o colocou à frente de sua armada.

Foi Marduk, filho de Ea e Damkina, quem enfrentou e venceu Tiamat e Kingu ( Segundo o mito babilônio, Marduk criou a humanidade com o sangue de Kingu.). A vitória sobre os dragões do Caos conferiu a Marduk “poderes supremos”.

Marduk representa os poderes cósmicos que são combatidos pela Corrente 218 que, por sua vez, é representada pelos deuses anticósmicos e pelos onze poderes criados por Tiamat, ou seja, por Azerate.

Cosmos e Logos, Um Esboço de Definição

O cosmos nos é apresentado como a totalidade de um universo “ordenado”. Descrevem-no como o espaço universal, composto de matéria e energia, regulado por certas leis.

À suposta lei universal e fixa, regedora da “harmonia”, Heráclito de Éfeso chamou “Logos”. “Logos” também significa Palavra, Verbo e Razão.

O evangelista João se referiu ao Cristo como sendo o Logos. “Adaptado”, o vocábulo passou a ser uma forma de sinônimo para Deus e para seu filho.

Para os filhos do Logos morto o universo está sob a lei de uma pretensa força criadora onipotente, responsável pela manutência da “harmonia”: o funesto e confuso “demiurgo”. O Logos Morto, a pretensa força criadora do “demiurgo”, os conceitos arcaicos, tolos e estagnados resumem a corrente cósmica, a Grande Ilusão de Maya.

Nesse contexto, encontramos Marduk, o “demiurgo” associado a Javé.

Da Não Percepção ou da Percepção Ilusória

O homem ordinário (não) “percebe” o universo ao seu redor através de sentidos comuns, sendo ele mesmo parte do cosmos. O homem ordinário não percebe nada além de ilusão. No estado de dormência há uma espécie de sensação de equilíbrio (falso‐), um caminho com o qual se conformar, uma senda que se segue guiado por outrem, por algo. Um “ir” junto aos “muitos”, um caminhar entre os vários. Um não ver aquilo que é. Um não‐ser. Um enaltecer da ilusão. Um doloroso sonho cósmico. O indivíduo tem o Eu (Ego) plasmado, modelado pelas restrições impostas pelas correntes cósmicas, por Maya. O indivíduo comum É algo que não É.

Da Dominação do Pão e do Circo

Servilismo. Subserviência. Alienação. Prostração. Cega sujeição à vontade alheia e aos interesses manipuladores daquilo que o próprio homem ordinário criou e que não controla. Alheação. Incapacidade. O rebanho oprimido sob o jugo se deleita no que é franca e deliberada mentira, ilusão. Os muitos são os Vermes.

Da Caosofia

O vazio informe e a vacuidade ilimitada a que se referiu Hesíodo, a desordem e a confusão dos platônicos. Estado indefinido de não‐ordem que antecedeu a pretensa obra do “demiurgo”. Caos, o estado original do que está além e sob o abismo. Propiciar o Caos é incitar, impelir e impulsionar Transformação. Somente a transformação é contínua. O cosmos é tridimensional, linear, causal, previsível. O caos é multidimensional, não linear, é acausal e imprevisível. No cosmos jazem forças. No caos, energia dinâmica explode mundos e possibilidades sem fim. O cosmos precisou ser criado. O caos é causado por si, em si. Caos é potencial ilimitado em destruição (transformação) e criação. Nele estão todas as coisas manifestas e não‐manifestas.


   Azerate

Divindade – Fórmula – Conceito

Azerate é formado pelos 11 demônios criados por Tiamat para ajudá‐la a vingar a morte de Apsu.

Azerate é o nome da Divindade amorfa e anticósmica originária da reunião dos Onze Arquidemônios das Qliphoth. É o Deus Híbrido formado pela totalidade dos aspectos de Nahema, Lilith, Adramelek, Baal, Belfegor, Asmodeus, Astaroth, Lucifuge Rofocale, Beelzebub e Moloch.

Azerate alude aos onze príncipes de Edom que reinaram ao sul do Mar Morto antes das guerras judaicoromanas. É a fórmula de consecução mágicka que opera a destruição dos véus da Ilusão que aprisiona e aliena.

Azerate é a união das onze potências da Árvore do Conhecimento que destroem a mentira sobre o Universo criado.

Azerate é a chave para as dimensões de poder além dos limites da consciência.

Azerate é o Dragão Negro de 11 Cabeças que vomita fogo, morte, destruição e terror.

218 é o número místico de Azerate e da Corrente Anticósmica.

Aleph = 1
Zayin = 7
Resh = 200
Aleph = 1
Teth = 9

1+7+200+1+9=218
218
2+1+8=11
1+2+3+4+5+6+7+8+9+10+11=66

Azerate evoca e manifesta o conceito maldito e banido do Onze sobre o Dez.

O Onze, aquele que sucede o Ciclo Eterno, aquele que traz destruição, antítese e embate ao cosmos.

Azerate é o Onze que é Sessenta e Seis.

66 é o número místico das Qliphoth e da Grande Obra.

Σ(1‐11) =66

Azerate é o duplo 109, a dupla Esfera da Iluminação.

Proposições Básicas da Corrente Anticósmica

Destruir os véus da Ilusão, trazer a condição de Caos ao universo manifesto. A implosão impele e impulsiona dolorosa Transformação e Renascimento em Nox.

Fazer ruir estruturas decrépitas nas quais se fundamentam as idéias dos opositores da Vida.

Desfazer laços e cortar amarras que impedem o avanço e a evolução do indivíduo.

Proporcionar desafio ao indivíduo que, por vocação, aprende e faz guerra contra os agentes alienadores em todos os aspectos.

Trazer ao Universo manifesto as forças que combatem eternamente para que elas possam destruí‐lo tal como o conhecemos.

Trazer Morte ao Universo, propiciar Dissolução do Ego plasmado sobre os moldes da restrição imposta por padrões hipócritas, vazios e mentirosos.

A Corrente 218, Algumas Características Mais

Podemos dizer que a Corrente 218 é anticósmica, caótica, luciferiana e satânica.

É uma corrente por ser caracterizada pelo movimento acelerado das forças que a compõe.

É anticósmica por estar alinhada à Destruição dos conceitos estagnados de cosmos e logos tal como os

conhecemos e por buscar a Dissolução da dispersão do Ego que concorre contra a verdadeira vontade.

É Caótica por não se apegar a conceitos estagnados, superficiais e submissos; por enfatizar que o processo verdadeiro de aprendizado e de evolução do indivíduo se dá através da própria experiência, do contato direto com as forças inerentes à corrente; por estar alinhada com muitas das idéias do que se costuma rotular como magia do CAOS; por ter como uma de suas proposições básicas trazer o CAOS ao Universo manifesto e Destruí-lo como Ilusão, como Maya.

Luciferiana por propiciar ao indivíduo a possibilidade de evolução através do Conhecimento (Luz, Gnose Luciferiana).

Satânica por ser uma força de embate contra valores idiotas, hipócritas, ultrapassados, dominadores e alienadores.

O motor da Corrente é a força dinâmica de Azerate como Divindade, Conceito, Chave e Fórmula de consecução mágicka.

A fundamentação da corrente se dá a partir de um vasto sincretismo de ramos e vertentes do Caminho da Mão Esquerda. Tal sincretismo busca sintetizar a essência de cada aspecto que compõe a heterogeneidade e aplicá-la na consecução das proposições fundamentais. Dentre as diversas tradições que coadunam forças que se combinam na Corrente 218 citamos: a magia do Caos, o Satanismo (Tradicional e Moderno), o Luciferianismo
(Tradicional e Moderno), a tradição Draconiana, a tradição Tifoniana, a Bruxaria Sabática, a Qabalah Qliphótica, Thelema, o Tantra, a Quimbanda, o Vodu e cultos ligados à Morte.

Atualmente o Templo da Luz Negra na Suécia é o maior expoente relacionado à corrente anticósmica. O Templo é a evolução do trabalho iniciado pela Ordem Misantrópica Luciferiana (MLO). Seus principais trabalhos literários publicados são Liber Azerate, Liber Falxifer – The Book of the Left‐Handed Reaper e Quimbanda – Vägen till det Vänstra Riket. O Templo planeja lançar Liber Azerate em inglês durante o ano de 2010.

Uma das principais manifestações artísticas relacionadas à Corrente 218 é o singular álbum Reinkaos, último trabalho da banda Dissection.

Algumas Divindades Anticósmicas

Kali e Shiva

Deuses hindus que conduzem à liberação removendo a ilusão do Ego. Kali é a toda‐consumidora do tempo (Kal), Deusa que traz Morte à falsa consciência, pois está além de Maya.

Kali é uma das variadas formas de Devi, Mãe compassiva que traz liberação (moksha) aos seus filhos. Seus devotos adoram‐na com amor incondicional. É conhecida e adorada por vários nomes: Kalikamata, Kali Ma, Bhavatarini, Dakshineshvara, Kalaratri, Kottavei, Kalighat e Negra Mãe Divina. Kali Ma é a dissolução e a destruição. Foi graças a ela que os deuses, feitos Shiva, puderam destruir Raktabija, pois Kali consumiu todo o sangue que jorrava dos ferimentos de Raktabija e ele não pôde mais se reproduzir.

Shiva é o Deus da destruição e regeneração, fogo consumidor da transformação, cujo olhar relampeja e destrói violentamente. É um dos Três formadores da Trimurti hindu. Shiva é chamado o Destruidor. Shiva e Kali costumam ser adorados em crematórios a céu aberto, pois aludem à transitoriedade da vida material. O Lingam está para Shiva como a Yoni está para Kali: na destruição estão os elementos da geração.

Apsu

Deus primevo sumero-acadiano das águas doces do submundo. Primeiro consorte de Tiamat.

Tiamat

Deusa Dragão senhora do Caos e das águas salgadas. Deusa das águas abissais e do oceano primevo. Na mitologia sumeriana é chamada Nammu. É provavelmente uma das divindades mais antigas do panteão sumeriano.

Kingu

Deus Dragão, filho de Tiamat. Seu sangue foi utilizado para criar a humanidade segundo o mito babilônio. Tiamat o tomou como esposo após a morte de Apsu.

Lúcifer

Insígnia máxima da não-servidão, da rebeldia, do conhecimento aplicado e esclarecido. Beleza sem mácula. Portador do Archote, da Luz que guia “seus filhos” no tortuoso caminho da liberação.

Lilith
Negra Mãe Divina, Rainha da Noite e das Bestas da Escuridão, personificação da plena

Pharzhuph

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-corrente-anticosmica-218/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/a-corrente-anticosmica-218/

Arcano 7 – Carro – Chet

Dois cavalos arrastam uma espécie de caixa, montada sobre duas rodas e coberta por um dossel, onde se encontra um homem coroado, que traz um cetro em sua mão direita. Na parte frontal do carro (a única visível), em boa parte dos tarôs clássicos, há um escudo com duas letras, que variam com as editoras das lâminas.

Mais do que de cavalos, poderíamos falar de dois corpos dianteiros, fundidos ao carro. Os dois animais olham para a esquerda, mas a sua disposição é tal que parecem andar cada um para o seu lado. O cavalo da esquerda levanta a pata direita, e o da direita, a pata esquerda. O dossel repousa sobre quatro colunas.

O homem, que tem uma coroa do tipo das de marquês, tem a mão esquerda sobre um cinto amarelo, na altura da cintura, e na mão direita traz um cetro que termina por um ornamento esférico encimado por um cone. O peito do personagem está coberto por uma couraça. Cada um dos seus ombros está protegido por uma meia-lua, com rostos de expressão diferente.

Os cabelos do personagem são amarelos, e seu olhar dirige-se ligeiramente para a esquerda, no mesmo sentido que o de seus cavalos.

Cinco plantas brotam do solo. Não aparecem rédeas ou qualquer outro meio de guiar o carro.

Significados simbólicos
Contemplação ativa, repouso. Vitória, triunfo.

O setenário sagrado, a realeza, o sacerdócio.

Magistério. Superioridade. Realização.

Interpretações usuais na cartomancias
Êxito legítimo, avanço merecido. Talento, dons, capacidade, aptidões postas em marcha. Tato para governar, diplomacia, direção competente.

Conciliação dos antagonismos, condução de forças divergentes. Progresso, mobilidade, viagens por terra.

Mental: As coisas se realizam, mas falta ainda montar as peças de conjunto.

Emocional: Afeto manifestado; protetor, serviçal.

Físico: Grande atividade, rapidez nas ações. Boa saúde, força, atividade intensa. Do ponto de vista do dinheiro: gastos ou ganhos, movimento de fundos.

Significa também notícia inesperada, conquista. Pode ser interpretado também como difusão da obra ou atividades do consulente através de palavras e, segundo sua localização na tiragem, significa elogios ou calúnias.

Sentido negativo: Ambições injustificadas, vanglória, megalomania. Falta de talento e de consideração. Governo ilegítimo, situação usurpada, ditadura. Oportunismo perigoso. Preocupações, cansaço, atividade febril e sem repouso. Perda de controle.

História e iconografia
O desfile dos heróis triunfantes de pé sobre seus carros de guerra é um costume pelo menos tão antigo quanto os próprios carros de guerra. Court de Gébelin – e com ele os que acreditam numa origem egípcia do Tarô – imagina que o Arcano VII nada mais é que a reapresentação do Osíris triunfal, e que os cavalos são uma herança vulgar da Esfinge.

Mais coerente, contudo, é relacioná-lo às apoteoses lendárias que comoveram a Idade Média, época em que se localiza sua iconografia.

Pode também lembrar um conto do ciclo mítico de Alexandre, o Grande, amplamente reproduzido desde a Antiguidade até o Renascimento.

Levado até o Oriente pela sucessão de seus triunfos, Alexandre teria chegado até o fim do mundo. Quis então saber se era verdade que a Terra e o Céu se tocavam num ponto comum. Para isto seduziu com ardis – é preciso recordar que a astúcia é também prerrogativa dos heróis – dois pássaros gigantes que existiam na região; prendeu-os e acomodou entre eles uma cesta.

Com uma lança na mão, em cujo extremo havia atravessado um pedaço de carne de cavalo, o conquistador subiu ao seu carro improvisado. Com a promessa de comida que oscilava ante seus olhos, os Grifos começaram a mover-se e alçaram vôo. Os heróis não podem, contudo, sobrepor-se aos deuses: na metade do caminho

Alexandre recebeu um emissário dos deuses, um enfurecido Homem Pássaro que insistiu para que ele desistisse de seu projeto. Muito a contragosto, Alexandre aceitou a censura e atirou a lança para a Terra, para onde desceram os Grifos, impacientes e vorazes.

Essa lenda, nascida certamente no Oriente, foi introduzida na Europa no fim do século II. Estendeu-se em seguida por todo o Ocidente cristão e era conhecida desde a baixa Idade Média. Numerosas ilustrações e várias esculturas que a representam chegaram até nós. A Crônica Mundial, de Rudolph von Ems (século XIII) a reproduz em uma detalhada miniatura; em São Marcos de Veneza está o relevo talvez mais significativo para rastrear as fontes inspiradoras do Arcano VII: a cesta de Alexandre é ali uma caixa semelhante à de O Carro; aparecem também as rodas esboçadas.

Durante a Idade Média, a arte dos imagiers parece ter-se servido desta lenda como uma alegoria do orgulho.

Por sua amplitude simbólica e pela beleza da sua composição, O Carro figura entre os arcanos de maior prestígio do Tarô. É, também, um dos que oferecem maiores lacunas de interpretação.

Relacionado em princípio com Zain (sétima letra do alfabeto hebreu, que corresponde ao nosso Z), denuncia uma mobilidade e inquietude que tem a ver com todo deslocamento ou ação ziguezagueante, veloz.

Há autores que relacionam as rodas do Carro aos torvelinhos de fogo da visão de Ezequiel.

Quando se traduz a lâmina pela palavra carro – protótipo dos sistemas de troca – representa o que é móvel, transferível, interpretável. Nesse caso, seu aspecto oracular é associado às mudanças provocadas pela palavra: elogios, calúnias, difusão da obra, boas ou más notícias; e, por extensão, aos sistemas de intercâmbio em geral (economian movimento de fundos).

Aponta-se aqui a questão das relações entre esta mobilidade e o dinamismo mercurial do Prestidigitador, já que esses arcanos se encontram no início e no fechamento do primeiro setenário do Tarô.

Talvez esta analogia possa ser levada mais longe, e não parece impossível que a figura toda seja uma ilustração desta passagem bíblica. Em Ezequiel (I, 4-28), com efeito, aparecem não só as rodas, o carro e os animais, mas também “sobre o trono, no alto, uma figura semelhante a um homem que se erguia sobre ele. E o que dele aparecia, da cintura para cima, era como o fulgor de um metal resplandecente”, o que é uma descrição bastante aproximada do personagem do Arcano VII. Nessa mesma passagem podem-se encontrar também analogias válidas para o simbolismo geral do Arcano XXI (O Mundo).

Há quem veja ainda, nos animais presos, uma anfisbena (serpente de duas cabeças), ou poderes antagônicos que é necessário subjugar para prosseguir – “como no caduceu se equilibram as duas serpentes contrárias”. O veículo representaria o simbolismo do Antimônio (ou a Alma Intelectual dos alquimistas), mencionado como Currus Triumphalis num tratado de Basílio Valentin (Amsterdã, 1671).

A totalidade do arcano sugere, para Wirth, a idéia do corpo sutil da alma, graças ao qual o espírito pode se manifestar no campo do material. Esta idéia de um halo ou dupla transubstancial que não pode ser relacionada a nenhum dos três aspectos do homem (corpo –> alma –> espírito), mas que tende a relacioná-los entre si, gozou de um vasto prestígio esotérico: é o corpo sideral de Paracelso (ou astral, na linguagem teosófica), como também o “corpo aromático”, de Fourier, ou o Kama rupa do budismo soteriológico.

Finalmente, permanece em aberto a explicação para as letras inscritas no escudo: S e M (no Tarô da editora Grimaud). Alguns supõem que se referem a Sua Majestade; outros, que falam dos dois princípios alquímicos, Sulfur e Mercurius). Não é este o único ponto obscuro do arcano que Éliphas Lévy chamou “o mais belo e mais completo de todos que compõem a chave do Tarô”.

Por Constantino K. Riemma
http://www.clubedotaro.com.br/

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arcano-7-carro-chet

Levítico: pedras não faltarão

Em agosto de 2011, na véspera da Parada do Orgulho Gay de Ribeirão Preto, a Justiça mandou retirar da rua um outdoor considerado homofóbico. O outdoor foi feito pela Casa de Oração de Ribeirão Preto e continha citações bíblicas, entre elas uma do livro de Levítico: “se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher, ambos praticaram coisa abominável…”.

Em sua decisão, o juiz que julgou o caso afirmou que “a Constituição Federal protege a conduta do réu de expor suas opiniões pessoais, mas, ao mesmo tempo, também protege a intimidade, honra e imagem das pessoas quando violadas”. Um dia antes da realização da parada gay em Ribeirão Preto, o outdoor foi retirado.

Nos diversos portais de notícias onde essa informação foi divulgada, podemos observar a habitual animosidade entre os defensores dos homossexuais, e os pretensos “defensores da liberdade de expressão”. Esses últimos costumam afirmar algo mais ou menos assim – o que pode se estender não somente para este caso, como para inúmeros outros:

Da mesma maneira que o homossexual tem o direito de viver sua vida como lhe apraz e os simpatizantes dessa conduta demonstrarem sua simpatia, também aqueles que não apoiam esse comportamento devem ter direito a voz e opinião, é simples assim, um peso e uma medida para todos. Parada gay pode, mensagem bíblica em outdoor não pode?

Costumam simpatizar com esse ponto de vista todos aqueles que pensam que “está na moda ser gay”, ou que “defender os gays agora é o politicamente correto”; ou ainda que “precisamos agora é de uma Parada do Orgulho Hetero!”. Se você por acaso também pensa assim, me desculpe, mas acho que precisará rever um pouco os seus conceitos…

Abra a bíblia, e leia

O Levítico é o terceiro livro do Antigo Testamento, cujo autor supostamente é Moisés, inspirado diretamente por Javé (Deus). Basicamente é um livro teocrático, isto é, seu caráter é legislativo; possuí ainda o ritual dos sacrifícios, as normas que diferenciam o puro do impuro, a lei da santidade e o calendário litúrgico entre outras normas e legislações que regulariam a religião. Obviamente, se trata de uma legislação compatível com um povo parcialmente nômade que sobrevivia nos desertos do Oriente Médio há mais de 2 mil anos atrás.

Se reparar bem, a mensagem do outdoor de Ribeirão Preto está incompleta, o versículo completo se lê assim: Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles (Le 20:13).

Como podem ver, no deserto não haviam prisões e, infelizmente, o Deus de Moisés determinava que essas e outras “faltas” fossem punidas com a morte – não se sabe ao certo se pela mão dos homens, ou do próprio Deus.

Ocorre que, esta não é a única “falta” passível de tal punição. Existem muitas, muitas outras…

Algumas “faltas”, segundo o Levítico

– Tatuagens, nem pensar… Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós (Le 19:28).

– É preciso muito cuidado com a forma que cortamos o cabelo… Não cortareis o cabelo, arredondando os cantos da vossa cabeça, nem danificareis as extremidades da tua barba (Le 19:27).

– A cada menstruação, passados 8 dias será necessário sacrificar dois pombos para a purificação da mulher… Quando, pois, o que tem o fluxo, estiver limpo do seu fluxo, contar-se-ão sete dias para a sua purificação […] E ao oitavo dia tomará duas rolas ou dois pombinhos, e virá perante o SENHOR, à porta da tenda da congregação e os dará ao sacerdote (Le 15:13-14).

– Comer carne de porco? Deus me livre… Também o porco, porque tem unhas fendidas, e a fenda das unhas se divide em duas, mas não rumina; este vos será imundo (Le 11:7).

– Muito cuidado antes de consultar um “feiticeiro” [1]… Quando alguém se virar para os necromantes e feiticeiros, para se prostituir com eles, eu porei a minha face contra ele, e o extirparei do meio do seu povo (Le 20:6).

– Mulher casada? Sai fora… Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera (Le 20:10).

– Se por acaso acha sua sogra bonitinha, tire imediatamente este pensamento da cabeça… E, quando um homem tomar uma mulher e a sua mãe, maldade é; a ele e a elas queimarão com fogo, para que não haja maldade no meio de vós (Le 20:14).

Bem, acho que já deu para ter uma ideia do “problema” não? Repare, inclusive, que as 3 últimas “faltas” da lista acima foram retiradas praticamente da mesma página onde se encontra o versículo do outdoor.

Você pode dizer que eu estou apenas citando versículos fora de contexto, que não tenho “a exegese necessária para a interpretação da bíblia”, mas então eu lhe pergunto: e por acaso os versículos do outdoor não estavam mais fora de contexto ainda?

Pois, me parece que numa interpretação mais aprofundada, não seriam somente os homossexuais que mereceriam a morte, mas no mínimo também os adúlteros, os que se consultam com “feiticeiros” e, quem sabe, até mesmo aqueles que comem carne de porco na churrascaria…

Atire a primeira pedra…

No entanto, estranho de se pensar, no mesmo Levítico encontramos ensinamentos do tipo: “Não oprimir os estrangeiros” (Le 19:33); “Não amaldiçoar os deficientes” (Le 19:14); “Não se vingar” e “Amar o próximo como a si mesmo” (Le 19:18).

Não quero aqui discutir se Moisés conseguiu ou não receber as leis de Javé na forma correta, ou ainda se era o próprio Javé quem parecia ter algum problema em elaborar leis que fizessem algum sentido, mas, antes, lembrar do doce Rabi da Galiléia, que nos disse:

Atire a primeira pedra quem não houver pecado.

Será mesmo que o temos escutado? Será mesmo que temos sido cristãos, ou ainda estamos perambulando pelas tribos de Israel, ainda mais no “olho por olho, e dente por dente”, do que no “ama ao próximo de todo o teu coração”?

Errar o alvo

Podemos interpretar as “faltas” mencionadas acima como pecados, sem dúvida.

A origem etimológica da palavra “pecado” remete a um conceito até mesmo bastante simples: errar o alvo. Errar o alvo! Sim, como quem gostaria muito de estar agindo acertadamente mas, seja por ignorância do bem, ou do que quer que seja “o certo”, ainda tem errado o alvo…

Agora, eu te pergunto: quem será que tem errado o alvo por uma distância maior? Aqueles que se dizem cristãos, mas que se aventuram em cruzadas e guerras santas, esquartejando infiéis e fendendo grávidas, ou os pacíficos que atendem a “feiticeiros”? Aqueles que se dizem cristãos, mas traem as esposas, e às vezes até humilham e batem nas esposas, ou os pacíficos que, embora em relações homossexuais, procuram adotar crianças necessitadas? Aqueles que se dizem cristãos, mas julgam “pecadores e condenados a queimar eternamente num lago de enxofre” todos aqueles que cometem às menores faltas, embora não vejam as inúmeras traves a obstruir a própria visão, ou os pacíficos que valorizam a liberdade acima de tudo, e deixam que cada um leve sua própria vida da forma que achar melhor?

Antes de atirar a primeira pedra, cerifique-se de que você mesmo não esteja a errar o alvo – ainda mais do que aqueles a quem as pedras estão endereçadas… Pode ser que mude de ideia, e opte por deixar a pedra cair ao chão, inofensiva. Se, no entanto, não mudar, que Deus tenha piedade de nós, pois pedras não faltarão, e nem alvos.

Você não precisa viver pensando nas “faltas alheias”

Sobretudo, ao encontrar com um homossexual, lembre-se que ele não passa metade da vida fazendo sexo… Mas, ainda que fosse o caso, isso não o impediria de lidar com ele de forma civilizada (supondo, é claro, que ele também seja civilizado): você não precisa apertar a mão de um homossexual imaginando onde ele a tem colocado; você não precisa sentar ao lado de um homossexual imaginando onde ele tem sentado; você não precisa abraçar um homossexual imaginando quaisquer espécies de práticas sexuais “heterodoxas”, pois um abraço é um ato amoroso, e não sexual; e, sobretudo, você não precisa passear na rua próxima a uma Parada Gay – haverão inúmeras outras oportunidades no ano para tal.

Os estrangeiros

Voltando ao Levítico: não oprimais os estrangeiros. Sejam os estrangeiros de sua terra, sejam os estrangeiros de sua cultura, sejam os estrangeiros de sua raça, sejam os estrangeiros de sua crença, sejam os estrangeiros de sua opção sexual.

Se Javé é mesmo o Senhor, ele é o Senhor de todos nós.

Eu sou heterossexual, casado há quase uma década… Não me preocupo nem um pouco com o que homossexuais fazem ou deixam de fazer em suas camas, mas me preocupo com as pessoas que os acham “abomináveis”, verdadeiros estrangeiros de si próprias, quase como se fossem demônios ou seres a parte… Como deve ser complicado viver cruzando com demônios imaginários em todos os cantos!

***

Obs (1): Você pode conferir facilmente todas as citações de versículos do Levítico na Bíblia Online.

Obs (2): Há um consenso atual, mesmo entre os defensores dos direitos homossexuais, de que a Parada Gay se tornou uma espécie de “micareta de carnaval” no Brasil (e provavelmente em boa parte do Ocidente), que retrata os homossexuais como “fanáticos sexuais em busca de sexo fácil e go-go-boys”, não exatamente como a maioria deles realmente é: casais como quisquer outros, que as vezes até criam crianças adotadas, e a noite vão a restaurantes e não a casas de swing. Porém, ainda assim na Parada Gay não há violência, e qualquer manifestação popular onde não haja violência ou depredação do patrimônio público deve ser respeitada em um estado democrático. Ou, em outras palavras, as mesmas críticas que cabem a promiscuidade em uma Parada Gay, cabem igualmente a promiscuidade dos bailes de Carnaval e afins (onde a maioria é heterossexual).
[1] Existem inúmeras discussões acerca do que “feiticeiros e necromantes” significavam exatamente no contexto da época. Em todo caso, é bastante conveniente para os que interpretam a bíblia ao pé da letra considerar “feiticeiros” praticamente qualquer praticante de uma religião situada (teoricamente) fora do cristianismo.

***

Crédito das imagens: [topo] Agência O Globo (este é o outdoor vetado pela Justiça em Ribeirão Preto); [ao longo] Ted Horowitz/Corbis.

O Textos para Reflexão é um blog que fala sobre espiritualidade, filosofia, ciência e religião. Da autoria de Rafael Arrais (raph.com.br). Também faz parte do Projeto Mayhem.

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#homossexualidade #Preconceito #Bíblia #sexo #Jesus

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/lev%C3%ADtico-pedras-n%C3%A3o-faltar%C3%A3o

RPGQuest – Diário de Produção – 02

rpgquest-4-elementos

Este conjunto de textos têm a finalidade de comentar sobre as decisões que tomamos na criação e desenvolvimento de um jogo baseado na Kabbalah, na Jornada do Herói e na Árvore da Vida. Quem ainda não conhece o projeto, recomendo ler primeiro o post sobre O Reino de Arcádia.

No RPGQuest, os Heróis farão sua jornada em uma Grande Ilha chamada Arcádia, composta de diversos Reinos baseados nas Esferas da Árvore da Vida. Cada partida será única, pois todo o cenário, castelos, vilas, torres e outros locais de interesse serão sempre diferentes. Uma vez determinado o cenário, vamos voltar nossa atenção para os Heróis.

Os Quatro Elementos

Dentro da Alquimia, os princípios Herméticos são representados pelos Quatro Elementos. A saber, a TERRA, que representa o Mundo Material, a força e o vigor; o AR, que representa a agilidade de pensamento, leveza e conhecimento da escrita, lógica e razão; a ÁGUA, que representa as emoções, cura, caridade e compreensão; e finalmente o FOGO que representa a Vontade.

As Classes e os Quatro Elementos

Sendo um jogo de tabuleiro baseado na Kabbalah, nada mais natural que o RPGQuest ter como suas quatro classes principais os quatro Elementos da Alquimia. No RPGQuest, a TERRA representa a força e a resistência dos Guerreiros; AR representa a agilidade e destreza dos Ladinos; ÁGUA representa a inspiração e poder de cura dos Clérigos e FOGO representa o poder e a vontade dos Magos. Todos os Personagens de RPGQuest possuem em suas classes principais combinações dos 4 Elementos.

A Jornada do Grupo

No RPGQuest, você não controlará apenas um Personagem, mas um GRUPO de Personagens. O Objetivo de uma partida é guiar este Grupo de Aventureiros dentro de Arcádia de modo que eles se tornem os Aventureiros mais famosos de todos os Reinos. E como fazer isso? Através das Missões, Desafios e Aventuras, oras! A Cada aldeia que os Heróis salvam das garras dos Orcs, a cada Dragão derrotado, a cada Dungeon explorada, a cada Artefato descoberto, a cada missão bem sucedida, o Grupo recebe PONTOS DE VITÓRIA, que indicam o quão famoso aquele Grupo é. Quanto mais aventuras o Grupo realizar, mais prósperos e famosos eles se tornam! E com maiores poderes, maiores responsabilidades…

Durante o jogo, o Grupo terá diversos tipos de missões para resolver, dependendo da estratégia de jogo de cada Jogador: Podem enfrentar exércitos de Orcs, Bullywugs, Gnolls, Trolls e outras criaturas malignas que rondam as florestas, desertos e colinas; proteger rotas comerciais ou servirem de guarda-costas de príncipes e princesas; podem investigar antigas ruínas e dungeons atrás de artefatos e tesouros, realizar missões diplomáticas ou investigar crimes cometidos nos Reinos; podem explorar cavernas, investigar portais ou minerar Mana, auxiliar os magos e os anões na fabricação de seus itens mágicos, realizar missões de resgate e muito mais…

A Evolução de Personagem

Na Jornada do Herói, conforme eles vão conquistando as missões, os personagens adquirem experiência e se tornam mais poderosos, aumentando suas capacidades individuais. No RPGQuest isto também ocorre. Conforme os Heróis de seu Grupo vão avançando na Árvore da Vida, você pode direcionar suas habilidades de acordo com sua estratégia de jogo.

Cada Personagem começa a partida como APRENDIZ. Quando chega ao grau de COMPANHEIRO, pode escolher entre os Elementos de Classe que mais tenha afinidade para evoluir. No caso acima, por ser um Warlock, Ironfoot pode aumentar seus poderes como Guerreiro (Terra) ou Mago (Fogo). Ao chegar ao grau de MESTRE, faz novamente uma escolha. E finalmente chegará ao grau de ESPECIALISTA e terá desenvolvido habilidades únicas, tornando a história de cada Herói única e especial na Jornada (e diferente cada vez que você joga uma nova partida!).

E conforme nossos Heróis ficam mais poderosos, também aumentam os desafios. No próximo artigo, falarei sobre as Aventuras e os Grandes Desafios!

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/rpgquest-di%C3%A1rio-de-produ%C3%A7%C3%A3o-02

A Gnose de Schopenhauer

A xilogravura de Flammarion retrata um homem olhando fora do espaço-tempo:

O que está fora do Eu se encontra além do espaço e do tempo.

por Chrystian Revelles Gatti, do Lectorium Rosicrucianum

Meio século antes da Sociedade Teosófica de Blavatsky e Olcott, foi o filósofo alemão Arthur Schopenhauer quem ergueu a ponte entre a sabedoria do ocidente e a tradição oriental. Influenciado por Platão, Kant e pelo Misticismo Cristão, ele considerou a descoberta das literaturas sânscritas como a maior dádiva do século e anunciou que a filosofia e sabedoria dos Upanishads renovariam a fé ocidental. Para interpretarmos corretamente a Metafísica Schopenhauriana, será necessário situar sua obra no espaço e no tempo, em sua localização histórica e geográfica – compreender quais foram suas influências, seu contexto, e o paradigma do Pensamento Ocidental do XVIII, especialmente a situação da Filosofia Alemã da época.

A FILOSOFIA OCIDENTAL – EMPIRISTAS E RACIONALISTAS

Foi entre Platão e Aristóteles que se manifestou a primeira dialética do pensamento ocidental após a morte de Sócrates. Platão, inclinado à matemática, encarava o mundo material dos sentidos físicos como composto de manifestações imperfeitas, individuais e transitórias, e confiava no conhecimento obtido por meio da Razão, que lhe parecia a única ferramenta humana capaz de apreender as formas perfeitas da Geometria, as verdades eternas da Matemática e as ideias transcendentes de Justiça, Beleza e Virtude. Aristóteles, por sua vez inclinado às ciências naturais, era prático e queria entender o funcionamento das coisas, e, para isso, se dedicava à observação e categorização dos fenômenos naturais, apreensíveis pelos sentidos. Apesar de discípulo direto de Platão, Aristóteles divergia da tendência mística e abstrata da Metafísica Platônica, preferindo confiar nas imperfeitas faculdades sensoriais humanas para construir conhecimento objetivo, empírico, descobrindo os padrões tais como se manifestam no mundo físico, ao invés de voltar-se para a contemplação mental dos arquétipos eternos como faziam os platônicos, que herdaram tais crenças e práticas dos pitagóricos e cujo legado espiritual foi mantido pelos neoplatônicos que, por sua vez, influenciaram todo o misticismo pagão, gnóstico, judaico-cristão e islâmico.

A divergência essencial entre Platão e Aristóteles, isto é, na confiança na Razão ou nos Sentidos, é a raiz do debate dualista entre racionalistas e empiristas, entre os filósofos da lógica e os filósofos da experiência, e se perpetuou dentro do Pensamento Ocidental até ser transcendido por Immanuel Kant no Século XVIII, que daí em diante passa a ser considerado por muitos – inclusive pelo próprio Schopenhauer – como o filósofo mais importante de toda a História, atrás apenas dos próprios fundadores da Filosofia Ocidental – Sócrates, Platão e Aristóteles.

IMMANUEL KANT – O PONTO DE PARTIDA

O debate entre empiristas, como Locke, e racionalistas, como Descartes, foi transcendido por Immanuel Kant, que escreveu Crítica da Razão Pura (uma das obras mais influentes da história da filosofia). Enquanto eles defendiam a primazia da sensibilidade ou do entendimento, Kant declarou que a experiência necessariamente envolve ambos os elementos, não sendo possível a experiência de um objeto em si (fora de nossa mente), mas apenas a percepção possibilitada por nossa própria estrutura mental. Só podemos conceber a existência de um objeto, e situá-lo no espaço e no tempo, na medida em que ele se apresenta à nossa consciência. Disso decorre que as coisas “em si”, enquanto exteriores à mente, não só não podem ser conhecidas como também podem não ter nada a ver com espaço, tempo, ou qualquer outra categoria inerente à nossa estrutura mental. O que está fora do Eu não está apenas fora de você no espaço, mas também fora do espaço, do tempo, da mente e de todos os conceitos a priori por meio dos quais experimentamos o mundo. Opondo-se ao realismo – postura de que a realidade é independente da mente – a teoria de Kant, o idealismo, postula que o espírito tem papel ativo na construção do conhecimento. Por isso, é dito que ele uniu racionalismo e empirismo e que a História da Filosofia pode ser dividida em antes e depois de Kant.

IDEALISMO TRANSCENDENTAL – A METAFÍSICA

Schopenhauer desenvolve seu sistema de pensamento a partir de Kant, não sem dar um passo ousado além da metafísica kantiana, pois afirma ser possível rasgar o véu das aparências. Se a sua versão do mundo é limitada pelas observações e experiências permitidas pela sua consciência, então os limites do seu estado de consciência traçam o limite de sua própria realidade – o estado de consciência determina o estado de vida. O mundo de conceitos e objetos experimentados pela consciência do Eu não passa de uma representação que nós mesmos fazemos da realidade, um véu ilusório – o véu de Maya. Se pudermos reconhecer que nossa separação dO Todo é uma ilusão, fruto de uma Consciência Separada, e não uma realidade fundamental, deixaremos de ver os fenômenos como inumeráveis e separados, e reconheceremos todos os seres e todas as coisas como interdependentes e interligados em uma manifestação Una que Schopenhauer denomina de Vontade Universal. Como o homem é, ao mesmo tempo, parte do mundo e experimentador do mundo, fenômeno e mente, então ele pode experimentar a realidade, a natureza última das coisas. É pela destruição de suas ilusões e no silêncio da contemplação que o homem pode experimentar o Incognoscível em si, essa Unidade que é sua própria Natureza Original, encoberta pela ilusão da Multiplicidade projetada pela Consciência-Eu.

A TRADIÇÃO ORIENTAL

A Magnum Opus (grande obra) de Arthur Schopenhauer é seu livro “O Mundo como Vontade e Representação”, uma das obras mais importantes do século XIX, fortemente influenciada pelos conceitos orientais do Hinduísmo, Budismo e Taoísmo como “Maya” (ilusão), “YinYang” (dualidade), “Dukkha” (sofrimento), “Karuna” (compaixão) e “Nirvana” (iluminação). Amigo pessoal de Goethe, foi por meio deste que Schopenhauer frequentou círculos intelectuais pioneiros e esteve em contato direto com os primeiros tradutores e divulgadores da filosofia oriental na Europa. Arthur Schopenhauer leu a tradução latina dos antigos textos Hindus que o escritor francês Anquetil du Perron traduziu diretamente da versão persa do Príncipe Dara Shikoh entitulada Sirre-Akbar (“O Grande Segredo”). Após interpretar o Bhagavad Gita, Schopenhauer considerou estes textos a mais elevada leitura do mundo, portadora de conceitos sobrehumanos.

A OBRA DE SCHOPENHAUER

A Teologia da época soava como uma série de perplexidades organizadas de um reino puramente conceitual e abstrato, sem conexão alguma com o mundo e com a vida, enquanto a sabedoria universal preservada pelo oriente era, pelo contrário, uma filosofia Do Mundo e Da Vida, cujo objetivo não era enrodilhar o homem em uma teia de abstrações emaranhadas mas, ao invés disso, conduzir o homem para a saída deste labirinto, dissipando as ilusões e projeções do Ego e visando a libertação do sofrimento da vida e do mundo. Entre os paralelos especiais que sua filosofia guarda com os ensinamentos de Gautama está a ideia da Ignorância e do Desejo como origem de todo o sofrimento. A Ignorância Fundamental consiste em tomar as Representações (os conceitos, os objetos, os fenômenos) como Realidade e ver a si mesmo como separado do resto. Consequentemente, o ignorante interpreta a existência como uma luta incessante, uma guerra de todos contra todos. Para Schopenhauer, esta é a origem do egoísmo inato dos indivíduos que, incapazes de conceber a unidade dos seres e compreender que cada indivíduo é apenas a expressão de uma universalidade que o transcende e engloba, é impelido a lutar contra os outros e contra o mundo, sem saber que, com isso, volta-se contra si mesmo. É da piedade pela infelicidade e pelo sofrimento inerente à condição humana que desabrocha a rosa da compaixão impessoal, a compreensão de que todas as vozes são, essencialmente, a voz do Uno, da Vida.

MISTICISMO CRISTÃO

Jakob Böhme foi um místico cristão alemão que tratou intensamente do Problema do Mal e da Natureza da Divindade, e deixou um legado que posteriormente inspirou diversas manifestações culturais e artísticas no Ocidente, como a Teosofia, a Maçonaria, o Rosacrucianismo, o Martinismo, os quadros e poemas de William Blake, a psicologia de Jung, e especialmente o Idealismo Alemão de Baader, Schelling, Schopenhauer e Hegel – este último chega ao ponto de declará-lo “o primeiro filósofo alemão”. Böhme teve uma experiência mística da visão da Unidade do Cosmos, e escrevia para si mesmo no intuito de reter as impressões que chegavam diretamente à sua consciência. Para ele, Deus era a Onipresença Eterna situada além do Espaço e do Tempo e, para alcançá-la, o homem haveria de transpassar seus próprios portões do inferno, já que “a vontade e a imaginação do homem perverteram-se de seu estado original. O homem se rodeou pelo mundo de sua própria vontade e imaginação” e, com isso, perdeu Deus de vista. Louis-Claude de Saint-Martin, filósofo francês que dedicou a vida a traduzir, interpretar e divulgar a obra de Böhme, diz que “A verdade não pede mais que fazer aliança com o homem; mas quer que seja somente com o homem e sem nenhuma mistura com tudo o que não seja fixo e eterno como ela. Ela quer que esse homem se lave e se regenere perpetuamente e por inteiro na piscina do fogo e na sede da unidade”, ou seja, o homem não pode apreender o Infinito por meio dos sentidos, dos desejos ou da razão egoísta, mas por meio de “uma condição na qual a vontade do homem, despindo-se de tudo o que é terrestre, torna-se divina e absorvida na autoconsciência”. É dessa forma que, de acordo com Bohme, o homem e o Deus Incognoscível “se fundem em uma só força”. Eles “se despertam mutuamente e se conhecem entre si. Neste conhecimento consiste o verdadeiro entendimento, que segundo o caráter da eterna sabedoria, é imensurável e abismal, sendo do Um que é o Todo. Uma vontade única, iluminada pela luz divina, pode brotar deste manancial e manter a infinidade. Desta contemplação escreve esta pena.”. O psiquiatra Richard Maurice Bucke escreveu em 1901 o “Estudo da Evolução da Mente Humana” e, explorando o conceito de “consciência cósmica”, cita Jakob Böhme, entre outros, como exemplos da manifestação de uma forma superior de consciência.

A IDEIA DE INCONSCIENTE

Quando agimos e pensamos no cotidiano, acreditamos estarmos no controle de nossas ideias, ações e pensamentos, mas existe algo que nos move. A Filosofia de Schopenhauer dá um nome para esta força primária que nos influencia muito mais do que qualquer lógica, moral ou razão – a Vontade. De acordo com Schopenhauer “a Vontade é um cego robusto que carrega um aleijado que enxerga”, e nossa consciência objetiva é o aleijado. Por isso, Schopenhauer é um dos precursores da ideia de Inconsciente. É a partir da ideia de Schopenhauer sobre a “Vontade” que Eduard von Hartmann escreve Filosofia do Inconsciente em 1869, influenciando toda a psicologia posterior e especialmente os trabalhos de Freud e Jung.

Sobre a conexão entre vontade individual (microcósmica) e vontade em si (macrocósmica), Schopenhauer supõe que há:

“além da conexão externa entre as aparições, fundamentada pelo nexumphysicum, ainda uma outra, que atravessaria a essência em si de todas as coisas como uma espécie de conexão subterrânea, graças à qual seria possível, partindo de um ponto da aparição, agir imediatamente sobre todos os outros por meio de um nexum metaphysicum; que, portanto, deveria ser possível agir sobre as coisas a partir de dentro, ao invés do agir comum a partir de fora, um agir da aparição sobre a aparição graças à essência em si, a qual é uma e a mesma em todas as aparições; que, assim como agimos causalmente como natura naturata, nós poderíamos também ser capazes de uma ação como natura naturans, fazendo valer momentaneamente o microcosmo como macrocosmo; que as divisórias que separam os indivíduos, por mais firmes que sejam, poderiam permitir ocasionalmente uma comunicação como que por detrás dos bastidores, ou como um jogo secreto sob a mesa”.

(SCHOPENHAUER – ANIMAL MAGNETISM AND MAGIC)

PARA SABER MAIS, LEIA:

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação [Contraponto Editora] por Chrystian Revelles Gatti, do Lectorium Rosicrucianum.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação [Contraponto Editora] MANTOVANI, Harley Juliano. Heráclito e Schopenhauer. [Universidade Federal de Goiás] REDYSON, Deyve. Schopenhauer e o pensamento oriental. [Universidade Federal da Paraíba] SILVA, Luan Corrêa da. Schopenhauer e a magia. [Universidade Federal de Santa Catarina] videoaulas:

CURSO LIVRE DE HUMANIDADES. Arthur Schopenhauer – Crítico de kant, por Cacciola [https://www.youtube.com/watch?v=rdf0pRgsJuo] JOAO LUIZ MUZINATTI. Schopenhauer: só a arte nos livra da dor [https://www.youtube.com/watch?

v=WhGW6ULBZDQ]

SE LIGA NESSA HISTÓRIA. Schopenhauer | O Mundo Como Vontade e Representação [https://www.youtube.com/watch?v=65KrAfNUeWA] THE SCHOOL OF LIFE. PHILOSOPHY – Schopenhauer [https://www.youtube.com/watch?v=q0zmfNx7OM4]

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-gnose-de-schopenhauer

Godai: os Cinco Elementos do Budismo

Aoi Kuwan

Também chamados de “os Cinco Elementos Japoneses” para diferenciar dos “Cinco Elementos Chineses” (Gogyou), o Godai – literalmente, os Cinco Grandes, é formado pelos cinco elementos: Terra, Água, Fogo, Vento e Vazio e, ao contrário dos elementos chineses que são movimentos de energia, o Godai de aproxima mais do conceito que nós ocidentais temos por elementos, uma vez que traduz a concepção pelo qual os budistas das sendas Shingon e Tendai, e também os Yamabushis, os praticantes do Shugendou (leia-se Shugendô), tinham da constituição do universo.

Particularmente o Budismo Esotérico japonês (leia-se, as sendas Shingon e Tendai), e também o Shugendou, que absorveu boa parte de suas lições, irá adicionar um sexto elemento, a Mente, mas deixarei para falar sobre isso em outra oportunidade.

Terra – Em japonês, Chi. Aos estudantes de língua japonesa, não confundir com tsuchi. São kanjis diferentes. Representa a energia sólida, a matéria.

Fogo – Em japonês, Ka. Representa a energia em movimento. Está associado aos impulsos e desejos.

Vento – Em japonês, Fuu. Representa a energia em expansão, o que está em crescimento. Associa-se à mente e ao conhecimento, à capacidade de expansão mental.

Água – Em japonês, Sui. Representa a energia que flui, o que não tem forma. Está associada à capacidade de se adaptar às mudanças.

Vazio – Em japonês, Kuu. Sua tradução mais comum é “Vazio”, mas sendo também o kanji “sora”, também significa “Céu”. Representa tudo o que envolve a experiência. Está associado ao espírito, ao impulso inicial, à energia necessária à criação de todas as outras coisas relacionadas aos outros elementos.

O Godai é representado nas pagodas (em sânscrito, stupa), sendo a mais conhecida o gorintou, ou a pagoda de cinco anéis. O gorintou é uma estrutura de pedra que contém cinco anéis de formas diferentes, cada um simbolizando um dos cinco elementos budistas.

Para a escola Shingon, o gorintou representa Dainichi Nyorai, o supremo buda, essência dos infinitos níveis da mente inconsciente.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/asia-oculta/godai-os-cinco-elementos-do-budismo/

O Triângulo Draconiano

Por Adriano Camargo Monteiro

O triângulo é a primeira forma geométrica completa, uma forma geométrica primitiva cujo simbolismo sintetiza o mundo superior, o plano da Criação, pois envolve três forças primárias que são a origem de Tudo em seu ciclo infinito de criação, preservação e destruição no tempo contínuo (passado, presente e futuro). Isso pode ser ilustrado por diversos símbolos, de diversas culturas e religiões ao redor do mundo. Como exemplos, podemos citar a Trimurti ou Trindade hindu (muito anterior ao cristianismo) composta pelos deuses Brahma (Criação), Vishnu (Preservação) e Shiva (Destruição). Outros exemplos são o Tridente de Shiva; o Tridente de Netuno; o Caduceu de Mercúrio com duas serpentes e um bastão; as três Nornas, deusas escandinavas do Destino (Moiras gregas, Parcas romanas), etc.

Na Clavicula Salomonis, conhecida também como Goetia, um grimório tradicionalmente atribuído a Salomão, mas possivelmente escrito na Idade Média, o triângulo simboliza a manifestação da vida e é usado na prática de evocação em que certas entidades deveriam aparecer. Esse Triângulo da Arte, não só na Goetia, mas também em diversas outras evocações, simboliza a Visão, a Força e a Ação (Visio, Vires, Actio).

Os três pontos representam também o triângulo filosófico, ou seja, o Enxofre, o Mercúrio e o Sal, os três principais elementos alquímicos. O Enxofre é o fogo luminoso, o verdadeiro Ser espiritual autoconsciente, o Eu Superior individual, o Fogo de Prometeus, o Fogo do Dragão e a Tocha de Baphomet (a união dos aspectos mercurianos/luminosos e tifonianos/sombrios), sendo esse Enxofre/Fogo a chispa imortal que vivifica cada ser. O Mercúrio é a alma ou veículo astromental que expressa emoções e pensamentos, que manifesta a inteligência e a imaginação no indivíduo encarnado; é o mediador entre o espírito e o corpo físico. O Sal simboliza o próprio corpo material denso com suas sensações e sentidos físicos, animado pelo Enxofre (o fogo vivificante, o espírito); é o receptáculo das influências espirituais (Enxofre) e das inquietudes da alma (Mercúrio).

Na Cabala Hermética e Tifoniana, os três pontos representam o triângulo superior da Árvore da Vida e da Morte, formado pelas três Sephiroth/Qliphoth, ou esferas (pontos), chamadas Kether/Thaumiel, Chokmah/Ghogiel e Binah/Satariel. Sinteticamente, pode-se dizer que Kether (Coroa) é a força neutra potencial, a centelha original e primordial da vida e do universo, e seu lado sombrio, Thaumiel, expressa as “Forças Combatentes” que “combatem” Kether e abrem um buraco para outro universo, o Universo B, em que o indivíduo expande a consciência para os planos transplutonianos (além dos limites do universo conhecido). Chokmah (Sabedoria) é a força positiva, masculina, ativa, em ação, e seu aspecto sinistro, Ghogiel, é o “Estorvador” que impede a continuidade do velho mundo, que destrói o antigo estado de coisas para dar lugar ao novo, à evolução para além do comum e corrente. Binah (Compreensão) é a força negativa, feminina, passiva, gestadora, da Criação, e seu lado obscuro, Satariel, é o “Ocultador” que oculta a luz nas profundezas, a luz de que faz o indivíduo ver (derkein = drakon), ou seja que possibilita a aquisição do conhecimento secreto. Porém, Satariel vela o acesso àqueles que não possuem as chaves, ou seja, que não estão preparados o suficiente.

Na música, os três pontos representam a tríade ou tricorde, as três notas do acorde considerado perfeito. Esse acorde primordial e básico, de três notas, é formado por intervalos de terças (tríades), por exemplo: tônica (nota dó, primeira), mais a terça (nota mi, terceira da nota dó), mais a quinta (nota sol, terceira da nota mi). Metafisicamente, o acorde perfeito, formado pela tríade, simboliza a Criação incipiente, prestes a desdobrar-se infinitamente no universo, como os muitos acordes e escalas musicais existentes para expressar os muitos aspectos do espírito humano.

No corpo humano, representado pelo Caduceu de Mercúrio, temos o ternário bioenergético, os etéricos condutos nervosos da coluna espinhal, chamados de Idá, Pingalá e Sushumná. Idá é a “serpente”, negativa; Pingalá, a “serpente”, positiva; e Sushumná é o bastão neutro com o globo Aour (Luz). Assim, temos nos três pontos a representação de três forças primárias e fundamentais, a positiva, a negativa e a neutra, que são essenciais para gerar ou criar qualquer coisa no universo manifestado. Aliás, esse princípio pode ser visto na própria Física e na estrutura básica do átomo composto por prótons, elétrons e nêutrons. Ainda no corpo humano, temos as três funções respiratórias (inspiração, retenção e expiração), e na genética e na fisiologia temos as forças manifestadas no pai, na mãe e no filho(a). O período de gestação da vida humana no útero da mulher (o triângulo invertido) é de 9 meses, ou 3×3 (um triângulo duplo entrelaçado formando o hexagrama).

Como analogia, o triângulo, formado pelos três pontos, é também o símbolo alquímico do Fogo e do Enxofre (o triângulo sobre uma cruz equilátera). Sua forma alude ao fogo e sua chama ascendente que termina em ponta triangular. A própria manifestação física do fogo essencialmente requer a combinação de três elementos: combustível (material de combustão), comburente (oxigênio) e calor (princípio de ignição), formando assim o triângulo do fogo, ou, maçonicamente, o delta luminoso do espírito e o plano espiritual do universo.

Símbolo do Enxofre

Mas, acima de tudo, o triângulo, para a Via Draconiana, é invertido, representando o feminino primordial, o útero do qual provém o universo. O triângulo invertido é um dos principais símbolos estilizados do Sagrado Feminino e de tudo o que isso envolve, sendo, consequentemente, um dos símbolos da Via Esquerda. Representa as deusas sinistras (ou seja, esquerdas, um pleonasmo para o próprio feminino), e seus aspectos tríplices, tais como Hécate, por exemplo. Algumas outras deusas arquetípicas correspondentes são: Hel, Hikhet, Nephtis, Crone, Lilith, Kali, Po, Mama Pacha, Tlaltecuhtli e o dragão fêmeo Tiamat. É importante compreender que a palavra “sinistra” significa “esquerda”, e que seu significado original grego, desde os tempos dos gnósticos, indica sempre o gênero feminino (a Iniciatrix), sem qualquer conotação maligna, tendenciosa, dogmática ou pejorativa.

O triângulo invertido, na alquimia, representa o elemento Água, o princípio ou elemento feminino; a taça; o caldeirão; o poço escuro; o útero; a caverna para os reinos subterrâneos, metafisicamente o Sitra Ahra, o “outro lado”, reino essencialmente feminino e primordial onde jaz a sabedoria (Sophia) oculta.

O triângulo invertido também representa os três chacras secretos (Golata, Lalata e Lalana) na parte de trás da cabeça e que são despertados graças ao poder (shakti) da deusa Kali e de Kundalini, a draco-serpentina Mãe Primordial.

Aqueles que sabem ler nas entrelinhas, sabem também como proceder em questões práticas…

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Adriano C. Monteiro é escritor de Filosofia Oculta, articulista em diversas mídias e autor da Tetralogia Draconiana.

#LHP

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-tri%C3%A2ngulo-draconiano

A Nova Aurora do Alquimista

Cambridge, 1936 : lord Rutherford, o maior físico experimental de seu tempo, que descobriu e realizou a transmutação dos elementos, dá os últimos retoques ao manuscrito que publicará no ano seguinte, nas edições da Universidade de Cambridge. É o cômputo geral de todas as suas descobertas. Dá o título: The Newer Alchemy (A Mais Recente Alquimia).

Marrakech, 1949 : na praça Djema el Fna, um velho árabe, usando turbante verde dos hadj, está atarefado perto do forno que aquece uma bola de vidro hermeticamente fechada. A seu lado, o professor Holmyard (Oxford) segue a experiência com atenção e respeito; por fim, diz:

— Mestre, agradeço por me deixar ver o que podia ser visto por um profano sobre a muito santa alquimia.

Paris, 1967: o editor Jean-Jacques Pauvert reimprime o Livre Muet de l’Alchimie (Mutus Liber). Na primeira página lê-se: “Primeira impressão integral da edição original de La Rochelle, 1677. Introdução e comentários por Eugène Cànseliet, F. C. H., discípulo de Fulcanelli”. Ontem, hoje, em todos os países, os homens não deixaram de estudar a alquimia. Mas que alquimia, e para quê?

Há quem veja na alquimia uma idéia ultrapassada, uma espécie de pré-química ingênua do tempo em que os conhecimentos eram raros e confusos. Essa foi a atitude do nacionalismo clássico no século 19. Pré-química ingênua? Seria mais ou menos tão exato como dizer que a Paixão de Cristo foi a primeira forma ingênua do Grand Guignol. Não. A alquimia é outra coisa. Uma grande coisa. Sem entrar em detalhes, ten-taremos esclarecer seu sentido, que é também seu objetivo.

Todos nós acreditamos saber o que é a matéria. Por toda parte ela nos envolve. Impõe-se a nós. Mas, que é matéria? O drama é que no mais das vezes os filósofos ignoram tudo sobre a ciência, e por muito tempo não viram na matéria senão uma coisa morta, sem propriedades suscetíveis de interessá-los. Enquanto isso, a ciência progredia a passos de gigante e depois do começo do século começou a descobrir os segredos — pelo menos alguns deles — da matéria. Teria sido necessário criar uma nova filosofia, mas isso não foi feito. Um homem — Lenine — teria podido realizar essa tarefa capital, se tivesse vivido mais tempo e não tivesse outras coisas para fazer.

Em Materialismo e Empiriocriticismo escreveu que a matéria era inesgotável e que nem uma eternidade de pesquisas científicas chegaria a revelar todos os segredos. As pesquisas atuais confirmam essa asserção. Fred Hoyle, em Frontières de 1’Astronomie, disse que a matéria é o domínio mais fascinante, mais milagroso, mais extraordinário sobre o qual o pensamento humano pode se exercitar. E que nossa medíocre vida terrestre é bem pouca coisa ao lado do que se passa na matéria universal, tanto no seio das es-trelas, nas regiões longínquas do cosmo, como no grande vazio que separa as estrelas das estrelas, as galáxias das galáxias e talvez as metagaláxias ou universos de outros universos.

Sim, teria chegado o tempo de conceber uma nova filosofia, materialismo verdadeiro ao lado do qual o materialismo ingênuo do século 19 seria apenas caricatura. Porque nós vemos — como escrevia o grande sábio e grande alquimista Isaac Newton — que até agora nada fizemos senão “apanhar algumas pedras na praia”. Para além, encontra-se um imenso oceano de saber.

Ora, esse oceano foi explorado e alguns homens traçaram o mapa dos continentes desconhecidos da ciência que aí se encontram. É esse saber, ao lado do qual nossa ciência é bem pouca coisa, que se chama alquimia.

De onde provêm esses conhecimentos? Não se sabe, e o adágio afirma: — “Aqueles que sabem não falam, aqueles que falam não sabem”. Darei simplesmente minha opinião nacionalista: a alquimia é o resíduo da ciência e da tecnologia pertencentes á uma civilização desaparecida. Não creio absoluta-mente em outras hipóteses: revelação divina, extraterrestre, que trouxe aos homens o fogo, o arco, o martelo, a alquimia etc.

Penso que a civilização desaparecida desencadeou forças fantásticas que perturbaram os continentes, derreteram os gelos e destruíram aquele mundo altamente evoluído. Traços de cultura teriam, contudo, subsistido por muito tempo, explicando certa permanência de conhecimentos até nossa própria civilização. Assim Newton certamente teve contato com os últimos mantenedores dos grandes segredos.

Newton foi o último mágico.

Este aspecto pouco conhecido de sua vida foi especialmente estudado pelo célebre economista e filósofo inglês John Maynard Kaynes, que escreveu:

“Newton não foi o primeiro nacionalista. Foi o último mágico, o último sobrevivente da época da Suméria e da Babilônia, o último grande espírito que olhou o mundo visível e invisível com os mesmos olhos que começaram a reunir nossa herança intelectual há pouco menos de 10 mil anos. Por que chamei-o mágico? Porque ele via o universo inteiro como um enigma, como um segredo que pode ser compreendido, aplicando o pensamento puro a certas provas. Ele pensava que os indícios que podem conduzir à solução do enigma estavam parcialmente no céu e na constituição dos elementos (por essa razão, ele é erroneamente tomado por experimentador cientifico), mas também em certos documentos e certas tradições que percorreram os tempos, sem interrupção, como uma corrente que nunca foi partida desde as primeiras revelações enigmáticas feitas na Babilônia”.

Depois de Newton, houve uma espécie de brecha no conhecimento. A orientação da pesquisa científica mudou e, em particular a partir dessa época, a idéia de que o conhecimento implica em perigo, como acreditavam fundamentalmente os alquimistas, foi completamente negligenciado.

Hoje retorna-se a essa atitude. Inúmeros sábios acreditam que a difusão de certos conhecimentos pode pôr em perigo toda a humanidade. Assim, no Science Journal, revista científica das mais influentes de nossa época, de dezembro de 1967, o editorialista Gordon Rattray Taylor cita uma carta do dr. E. Orowan :

“A grande maioria da população da Terra considera a ciência e a tecnologia como perigo mortal crescente para sua vida. Sentem-se impotentes, à mercê de uma minoria, como se, numa mesa de operações, estivessem entre as mãos, não de pessoas que curam, mas de irresponsáveis levados pela curiosidade ou o que é ainda pior — pelo desejo de prestígio e promoção … Seria bom os sábios entenderem que estão em vias de dançar sobre um depósito de pólvora”. E Gordon Rattray Taylor acrescenta : “A desculpa habitual dos sábios, segundo a qual ninguém é obrigado a aplicar as descobertas científicas senão o desejar, não é mais válida . . . Os sábios chocam-se a responsabilidades inquietantes, que deverão enfrentar cada vez mais”.

Vê-se, pois, reaparecerem no mundo científico contemporâneo as velhas idéias dos alquimistas: ciência e moral são associadas e o segredo é às vezes uma necessidade.

Mas, em seu tempo, como poderiam os alquimistas saber que a ciência podia conduzir à ruína? Não se sabe; contudo, a idéia desse perigo parece ter sempre sido de seu conhecimento. A alquimia é, em todo caso, muito antiga; já existia na China, 4 500 anos antes de Cristo. Célebre texto, muito mais recente deve datar mais ou menos do século 12 —, A Mesa de Esmeralda, retoma os grandes princípios dessa “ciência” merece ser citado por extenso:

“Ë verdade, sem mentira, certo e muito verdadeiro: o que está embaixo é como o que está em cima, e o que está em cima é comoque está embaixo, para realizar os milagres de uma só coisa.E assim como todas as coisas provieram e provêm do Um, assim todas as coisas nasceram da coisa única, por adaptação. O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento a carregou em seu ventre, a Terra é a nutriz. O Thelema (telesma, perfeição) de todo o mundo está aí.Seu poder não tem limites sobre a Terra. Tu separarás a terra do fogo, o sutil do espesso, cuidadosamente, com grande habilidade. Ele sobe da terra para o céu, e torna a descer para a terra e reúne a força das coisas superiores e inferiores. Terás assim toda a glória do mundo, eis por que toda a obscuridade se afastará de ti : é a força forte de toda força, pois ela vencerá toda coisa sutil e penetrará toda coisa sólida. Assim o mundo foi criado.Eis a origem de admiráveis adaptações aqui indicadas. Foi assim que fui chamado Hermes Trismegista, possuindo as três partes da filosofia universal. O que eu disse da operação do Sol está completo”.

Este texto é importante, mesmo se à primeira vista parece obscuro, porque expõe a teoria da unidade cósmica, ao mesmo tempo que a “receita” da obra filosofal. O autor parece saber que as estrelas tiram sua energia da transmutação dos elementos. O que chama “operação do Sol” é a própria base da construção da bomba 3 F (fissãofusão-fissão), que ameaça destruir a humanidade hoje. Ora, se podemos realmente fabricar tais bombas por meios relativa-mente simples, é preferível que a “receita” permaneça secreta. Os alquimistas são desconfiados. Nossos sábios, enfim, encontram-se com eles nesse ponto.

Mas pode-se dizer que os alquimistas escreviam muito. É verdade: há milhares, centenas de milhares de livros de alquimia. É assim que se preservam os segredos? Na minha opinião, os livros de alquimia não contêm qualquer segredo diretamente transmissível. Formam apenas a “biblioteca do alquimista”, e aí uma iniciação seria inutilmente procurada. Quer dizer, esses livros não são úteis e compreensíveis senão àqueles que já conhecem a alquimia. Um exemplo esclarece a idéia. Quem quer que se ocupe atualmente de energia atomica aplicada possui em sua biblioteca o livro fundamental de John R. Lamarsh , Introduction to Nuclear Reactor Theory (Addison-Wesley Publishing Company Inc.). Mas o livro básico não pode ser compreendido senão por aqueles que já conhecem a matemática; foi feito para leitores especializados. Em nenhum lugar se apresenta como tratado, retomando os princípios básicos. Somente os atomistas podem tirar proveito. Assim também, somente os alquimistas podem compreender e utilizar os livros de alquimia.

É a pedra filosofal a alegoria da radioatividade?

Mas então como pode alguém tornar-se alquimista?

Como se chega a esse conhecimento? Como aí chegaram os alquimistas se não há livros de iniciação?

Aqui só posso emitir minha opinião pessoal. Não sou um iniciado, não faço parte de qualquer sociedade secreta, mas estudei a alquimia durante perto de 40 anos. Fiz alguns contatos, procedi a algumas experiências. No total, que sei?

Como já disse, minha convicção profunda é de que, antes de nós, em nosso planeta existia uma civilização muito adiantada, que desapareceu. Os mapas de Piri Reis são alguns dos últimos vestígios, a alquimia é um outro. Não temos senão indícios e algum pouco mais para nos guiar.

Essa civilização havia se elevado a nível muito alto e devia certamente possuir conhecimentos, sobre a estrutura da matéria, mais adiantados que os nossos. Essa é a opinião de Frederick Soddy, Prêmio Nobel, grande físico atómico, que descobriu os isótopos e lhes deu o nome. Em seu livro O Rádio, Interpretação e Ensinamento da Radioatividade, escreveu:

“É interessante refletir, por exemplo, sobre a notável lenda da pedra filosofal, uma das crenças mais antigas e universais; por mais longe que acompanhemos seus traços no passado, nunca encontraremos a verdadeira fonte. Atribui-se à pedra filosofal o poder não só de efetuar a transmutação dos me-tais, mas também de agir como elixir da vida. Ora, qualquer que seja a origem dessa associação de idéias aparentemente despida de qualquer sentido, ela se mostra, na realidade, como expressão muito correta e apenas alegórica de nossa atual maneira de ver. Não é necessário grande esforço de imaginação para se chegar a ver na energia a própria vida do universo físico: e hoje sabemos que é graças à transmutação que surgiram as primeiras fontes da vida física do universo.Não é, então, simples coincidência, esta antiga aproximação do poder de transmutação e o elixir da vida? Prefiro crer que seria antes um eco vindo de uma das inúmeras idades quando, nos tempos pré-históricos, antes de nós, os homens seguiram a mesma estrada por onde hoje caminhamos. Mas esse passado é provavelmente tão longínquo que os átomos seus contemporâneos tiveram tempo de desintegrar-se totalmente”.

Antigamente a ciência levou a imenso desastre E o grande sábio (com quem mais de uma vez falei sobre alquimia) prossegue: “Deixemos ainda um instante nossa imaginação vagar livremente por essas regiões ideais. Suponhamos que seja verdadeira essa hipótese que a nós se apresente por si própria, e que podemos confiar no tênue fundamento constituído pelas tradições e superstições transmitidas até nós através dos tempos pré-históricos. Não poderíamos neles ver justificativa para a crença de que homens de alguma raça extinta e esquecida alcançaram não só os conhecimentos recentemente por nós adquiridos, mas ainda capacidades que ainda não possuímos?”

Por meu lado, compartilho a opinião de Soddy, de que uma civilização muito evoluída existiu antes dos tempos históricos. Mas, que pode ter acontecido para que esse mundo desaparecesse sem nos deixar a totalidade de sua herança? Creio que em certo momento essa ciência levou a um imenso desastre. Deve ter havido um conflito, no qual foram utilizadas armas muito mais poderosas que nossas melhores bombas atômicas: armas cujo efeito fizeram deslizar os continentes, rasgando-os na face da Terra, deslocando os pólos magnéticos, modificando as cinturas de radiação que protegem do vento solar, suprimindo a camada de ozone que antepara os raios ultra-violeta, enfim, perturbando o campo gravitacional da Terra.

Todos os estudos atuais parecem com efeito mostrar que, em dado momento, produziram-se importantes modificações ou perturbações das leis naturais que conhecemos. É mesmo provável que até o fim do século 20 possamos datar a grande catástrofe com a margem de alguns ,mil anos. Provavelmente será colocada a uns 100 mil anos.

Por mais grave que tenha sido a catástrofe, por mais graves que fossem seus efeitos em todos os sentidos, alguns homens devem ter sobrevivido, que possuíam fragmentos do saber antigo: conhecimentos positivos, a idéia de que a ciência era perigosa, lendas também. O “pecado original” da religião cristã seria assim explicado.

Depois passaram dezenas de milhares de anos, as geleiras invadiram uma parte do mundo, depois, por sua vez, recuaram. As civilizações que conhecemos começaram a formar-se. Há 10 mil anos ainda existiam guardas do segredo, quer dizer, detentores da tradição. A alquimia na fonte, e desde então, não cessou de fazer sonhar os homens. São inúmeros os que tentaram reencontrar o grande segredo, que quiseram “fabricar o ouro”.

Mas a lenda apagou o famoso segredo. Muitas fábulas identificaram a alquimia com a fabricação do ouro, quando parece que os verdadeiros iniciados não faziam muito caso desse metal. Para eles, o ferro era muito mais importante. Entre os sábios que estudaram a questão, o historiador francês de origem romena, Mircea Eliade, foi um dos raros a notá-lo. Em seu livro Forgerons et A lchimistes chamou a atenção para a importância do ferro nas operações de alquimia. Contudo não sabia, na época em que escreveu, o que logo iria ser demonstrado pela astrofísica e pela química destes últimos anos: que o ferro é uma espécie de eixo à volta do qual gira o mundo.

O ferro, sabemos agora, é com efeito o único elemento do qual não se pode tirar qualquer energia: nem por fissão, nem por fusão. Em termos técnicos está no zero da ausência de massa. O que quer dizer que se pode obter energia dos elementos mais leves que ele, adicionando-os por fusão: assim funciona o Sol… ou a bomba de hidrogênio. E pode-se obter energia de ele-mentos mais pesados que o ferro, decompondo-o por fissão: é o caso da pilha de urânio ou da bomba A. Mas do próprio ferro, que é zero, nada se pode tirar. Ele está na origem da alavanca do universo. Um alquimista alemão escreveu: “Eisen trãgt das Geheiminis des Magnetismus und das Geheiminis des Blutes”. Quer dizer: “O ferro é portador do mistério do magnetismo e do mistério do sangue”.

O ferro é portador de um terceiro mistério, o da alquimia, e não é sem motivo que se fala da pirita de ferro na elaboração da pedra filosofal. Pode-se compreender o interesse que os alquimistas demonstravam pelo ferro, pelo cálculo cabalístico que há em Les Noces Chimiques (1616) : A = 1, L= 12, C=3, H = 8, I=9, M= 13, I = 9, A = 1, total = 56. Ora, 56 é precisamente o peso atômico do principal isótopo de ferro. Poderíamos objetar que o autor de Noces Chimiques devia provavelmente ignorar os pesos atômicos. Nem por isso deixa de ser uma coincidência bastante curiosa, que, se em lugar de indicar que a alquimia = o ferro, o autor tivesse desejado indicar que a alquimia = o ouro, ser-lhe-ia fácil encontrar no arsenal das metáforas de seu tempo uma imagem para fazê-lo compreender.

Mais curioso ainda é notar que o ferro é indiscutivelmente um elemento capital do universo. Qualquer livro de ciência elementar ensina que assim é: o ferro contém magnetismo, é um elemento essencial da hemoglobina, quer dizer, da vida, e constitui material básico do cosmo. É encontrado por toda parte. La Table d’Emeraude diz muito justamente: “O que está no alto é como o que está em-baixo”. Quer dizer, o universo não foi construído ao acaso, feito aos pedaços. É altamente organizado e obedece a leis que podem ser encontradas tanto no exame de uma gota de orvalho, de um grão de areia, como no corpo humano. Essa é a grande lição da alquimia. E isso os homens já sabiam há 10 mil anos, antes dos zigurates e das pirâmides.

Em todas as civilizações encontramos homens que conservaram vestígios do segredo. Mas, à medida que o tempo passou, o segredo diluiu-se, misturado de misticismo, associado a diversas religiões. Alguns sub-produtos foram, contudo, entregues aos homens: a porcelana, a pólvora, os ácidos, os gases. A eletricidade era conhecida no século 2 antes de Cristo, pelos alquimistas de Bagdá. Os da China produziram o alumínio no século 2 por método absolutamente desconhecido. E Newton pôde escrever em carta datada de 1676: “Existem outros segredos além da transmutação dos metais, e os grandes mestres são os únicos a compreendê-los”.

O grande público, como os príncipes, não se interessou senão por uma possibilidade: a dissociação da matéria em elementos muito pequenos que chamaremos partículas elementares, depois sua reconstituição para a fabricação do ouro. Essa operação de dissociação tem, na tradição, o nome de “preparação das trevas”. Foi ao estudá-la que, na China, descobriram a pólvora para canhão. Os livros asseguram, naturalmente, que a invenção deve-se a certo monge chamado Berthold Schwartz. Mas é um gracejo: schwartz quer dizer preto em alemão, e é certamente o símbolo da “preparação das trevas”. Preto também (ou azul-preto) é ainda a cor do gás eletrônico, estrutura quase imaterial que é a própria base dos metais e confere suas propriedades. Podemos observá-lo dissolvendo um metal no amoníaco líquido, a muito baixa temperatura. Vê-se a cor azul-preto que é comum a todos os metais, e qualquer um pode assistir hoje à “preparação das trevas”.

Em alquimia a fase seguinte consiste em juntar alguns grãos de ourio para se obter certa quantidade desse metal . A operação é chamada “sementeira”. Quanto ao catalisador que serviu para dissociar a matéria em subelementos, sabemos que os alquimistas chamam-no pedra filosofal. Pode ser obtido pela pirita de ferro, e já emiti a hipótese de que se tratava do elemento 310, de número atômico 136. A teoria dos números mágicos mostra que esse elemento deve ser estável.

Mas, à medida que se espalhava o boato de que era possível fabricar ouro à vontade, os príncipes deram caça aos alquimistas. Logo começaram a ser torturados e mortos. Barbárie das épocas recuadas, diriam. Não estou certo. O mundo vibra de novo pelo ouro. A libra foi desvalorizada, o dólar vascila, por toda parte as Bolsas vêem importantes negociações em torno do precioso metal. Se aparecesse um homem asseverando poder fabricar ouro, posso apostar que em breve encontrariam seu corpo em alguma floresta ou no fundo de um lago. Os interesses em jogo são por demais importantes.

Então, qual pode ser o destino do alquimista? Sob os governos atuais, como sob os faraós ou os imperadores da China, o alquimista é, foi, permanecerá, um homem só. Quer isto dizer que existem hoje (ou existiram) sociedades secretas de alquimia? Para responder à pergunta, precisamos lembrar em algumas palavras a história dos rosa+cruzes.Quando se fala nos rosa+cruzes, é preciso, para começar, citar suas origens. Com efeito, há dois séculos que se delira a esse respeito. Por meu lado, referir-me-ei ao livro de Arthur Edward Waite, The Brother-hood of the Rosy Cross, edição de 1966 (University Books, New York).

Waite, que morreu em 1940, publicou seu livro pela primeira vez em 1924. Cético feroz, atacou com bastante violência aqueles que se diziam representantes dos rosa-cruzes em sua época. Mas sua obra foi e continua apreciada pelos especialistas, graças à seriedade da informação e à fidelidade das referências. Cito-o por minha vez com a maior exatidão. Segundo Waite, nos séculos 16 e 17 houve um surgimento de avisos, panfletos e livros anunciando que detentores dos segredos dos alquimistas estavam prontos a admitir novos membros e a compartilhar de seus conhecimentos. Esses homens davam-se o nome de rosa+cruzes. Pretendiam vir de Damasco, de Fez e de “certa cidade oculta” (Waite, p. 37). Nada prova que esses indivíduos pertencessem a uma sociedade secreta, mas Waite salientou certos fatos perturbadores, mostrando que não eram simples escroques.

Esses desconhecidos demonstravam gran-de interesse por certas estrelas, principalmente pelas novas das constelações da Serpente e do Cisne (pp. 17, 42, 149). Na época, ninguém havia manifestado a idéia sacrílega (os astros eram tidos como eternos) de que as estrelas pudessem explodir. Certamente a nova da Serpente foi observada em 1604, e a do Cisne, em 1602, mas foi a ciência de hoje que, ao analisar tais explosões, descobriu as fontes de rádio no céu e os quásars. Ora, os rosa+cruzes sustentaram formalmente que essas estrelas novas eram uma das chaves da alquimia. Isto autoriza a pensar que possuíam conhecimentos mais avançados que os dos sábios oficiais de seu tempo.

Os rosa+cruzes pretendiam possuir dois instrumentos excepcionais (p. 261). O “cosmoloterentes” que permitia .destruir qualquer fortaleza com um só golpe, e a “astroniquita”, com a qual podiam ver as estrelas através das nuvens. Esses “instrumentos” são hoje nossos conhecidos. O primeiro é o explosivo nuclear; o segundo, um aparelho que utiliza a luz polarizada, como a pedra mágica dos vikings. Como os rosa+cruzes possuíam esses conhecimentos?

Os rosa+cruzes haviam construído uma miniatura da Terra, reproduzindo com exatidão todos os movimentos do nosso globo (p. 135). Isto não era inteiramente novo: fragmento de mecanismo .semelhante foi encontrado em uma ânfora do século 2, ao largo da ilha Anticitara, e o professor Dereck J. Solla Price, que o reconstituiu, escreveu no Scientific American que a perfeição da invenção era espantosa e abalava as nossas idéias sobre as tecnologias do passado. Mas tanto no século 2 como nos séculos 17 e 18, de onde provinha o conhecimento dos rosa+cruzes sobre os movimentos da Terra?

A 28 de maio de 1776, os rosa+cruzes fizeram uma demonstração de transmutação da água por efeito de radiação. Para isso utilizaram água que cristalizou a temperatura ordinária, formando cristais semelhantes a flores, que emitiam luz insustentável. Como esse alótropo do gelo pôde ser obtido?

No final somos levados a pensar que o saber dos rosa+cruzes vinha do passado. . . uma vez que não podia vir do futuro. Que saber era esse? Seus possuidores sempre afirmaram que o essencial de tais conheci-mentos residia na alquimia, uma alquimia tomada, bem entendido, no sentido lato, da qual a transmutação dos metais não era senão um aspecto:

Nos séculos 16 e 17 parece ter havido o renascimento desse antigo saber. As lendas sobre os rosa-cruzes dizem que possuíram até lâmpadas de luz fria que ficavam acesas sem interrupção, e registros mecânicos da música e da voz humana. Estes últimos pontos são, contudo, contestados, notadamente por Waite. Segundo um manifesto de 1623, Instruction à la France sur la Vérité de l’Histoire des Frères de la Rose-Croix (Instrução à França Sobre a Verdade da História dos Irmãos da Rosa-Cruz), esse ressurgimento visava ao recrutamento: queriam aumentar o número de iniciados. Depois veio de novo o silêncio, com uma exceção: sempre segundo Waite, no século 18 entraram em contato com Leibniz, que teve que passar por um exame e foi nomeado secretário de um grupo de estudos ocultos, em Nuremberg. Fontenelle conta o fato em Eloges des Académiciens.

Enfim, é preciso atribuir aos rosa+cruzes o impulso que permitiu criar duas companhias muito importantes: a Sociedade Real de Ciências, da Inglaterra. . . e a franco-maçonaria. Mas afastamo-nos do assunto.Ainda mais importante — pelo menos para a história da alquimia — parece ter sido a publicação em 1677 do Livre Muet de l’Alchimie, espécie de estenograma ou tábua de logaritmos para uso daqueles que realizaram a grande obra da alquimia. A obra estava assinada Altus, pseudônimo que não foi desvendado. E. Canseliet, no prefácio que acaba de dar à reedição do livro, aproxima o autor a Joseph Duchene, que desde 1609 compreendeu que havia azoto no nitrato pois, afirmava,
“Há um espírito no sal de pedra que é da natureza do ar e que, contudo, não pode manter a chama, sendo-lhe antes contrária”.

O misterioso Altus, representando Duchêne ou outros sábios desconhecidos, foi, de qualquer maneira, violentamente atacado pelos racionalistas da época. O Journal des Savants, da segunda-feira, 26 de agosto de 1677, menciona nestes termos a publicação do Mutus Liber:”O autor da obra é um desses homens que cavam a quimera para precipitar-se na indigência. Teimando na descoberta da pedra filosofal, possuem ciência bastante para se arruinar, e não bastante, como é preciso, para ver os limites do espírito humano que jamais atingirá a transmutação dos metais”. Contudo, para os alquimistas modernos o Mutus Liber continua precioso. Como todos os outros livros que tratam da grande obra, este não é um conjunto de receitas. É apenas um conjunto de sinais destinados àqueles que já sabem. Esses sinais foram, aliás, espalhados por toda parte pelos alquimistas, principalmente nas catedrais. Hoje continuam a escrever secretamente, um pouco por toda parte. Eis por que, nos anos 20, Pierre Dujols, o famoso livreiro especializa-do em ciências ocultas, podia afirmar: “Os reis reinam, mas não governam, segundo célebre aforismo. E parece, às vezes, que há ainda nos bastidores alguma eminência cinzenta que puxa os cordéis. As famosas águas-furtadas do templo talvez não este-jam destruídas como se supõe. E poderia ser escrito um livro surpreendente sobre a filigrana das notas de dinheiro e das siglas das moedas”. Quer dizer, nossa sociedade, como a do passado e como a natureza toda, é uma vasta mensagem que pode ser decifrada.

O Mutus Liber é uma arte dessa mensagem, uma espécie de memorando para os inicia-dos de ontem e de amanhã. O aviso ao leitor, que o precede, afirma claramente: “E também o mais belo livro jamais impresso sobre o assunto, pelo que dizem os sábios, contendo coisas que nunca foram ditas por ninguém. E preciso ser verdadeiro filho da arte para conhecê-lo. Aí está, caro leitor, aquilo que acreditei dever dizer-lhe”.

O livro não é inteligível por completo senão para os filhos da arte, assim como os dia-gr amas de circuitos de um aparelho de televisão só são compreensíveis às pessoas familiarizadas com eletrônica. Quer dizer que ninguém jamais escreverá um livro sobre alquimia ao alcance do comum dos mortais? No prefácio do Mutus Liber, Canseliet responde desta forma:

“Pediram-me muitas vezes e continuam pedindo para escrever um livro elementar que exponha simples e claramente em que consiste a alquimia.Não desejaria ser descortês, mas parece que muitos dos que nos fazem o pedido não leram os livros de Fulcanelli, Deux Logis Alchimiques, Les Douze Clés de la Philosophie e, recentemente, o nosso Alchimie, que ainda pode ser interrogado sobre a natureza, os meios e o fim da antiga ciência de Hermes. E preciso compenetrar-se plenamente, e não esquecermos jamais que a alquimia é, antes de tudo, a disciplina esotérica por excelência, que exige, por base, um estado de alma e de consciência onde o desapego seja igual ao constante desejo de amar e de conhecer. Amoroso da ciência! É a expressão familiar muitas vezes utilizada pelos mais antigos autores e que designa da mesma forma o filósofo, o alquimista e especialmente o artista”.
Canseliet esclarece aqui esta profunda e terrível verdade: a manipulação da matéria pela alquimia, resíduo de uma civilização mais adiantada que a nossa, distingue-se de nossas ciências e técnicas, da mesma maneira que a arte se distingue da decoração mecânica feita por meio de moldes. Há a mesma diferença entre a alquimia e nossa ciência atual, que entre a Gioconda e um papel pintado. . . E por isso que não se deve esperar ver um dia a alquimia industrializada. Não seria possível. Não seria útil.

Historicamente vê-se que os alquimistas entregam ao público, de vez em quando, algumas parcelas de seu saber, ajudando o progresso científico e técnico. A próxima parcela, que nos será assim atirada como alimento, penso que será a manipulação da matéria: não mais a simples transmutação (agora conhecemos o segredo), mas a receita de substâncias novas que não constam de nenhuma tábua periódica dos elementos.

Partindo do ferro, sabemos que Fulcanelli havia obtido metaelementos que não cor-respondiam a nada conhecido pelos químicos. Nossos sábios agora fabricam alguns desses metaelementos: o positrônio, os átomos muônicos etc. São, infelizmente, corpos instáveis, de vida muito curta. Alguns gramas de metaelemento estável fariam progredir nossa ciência de um século. No dia apropriado, tenho certeza, um alquimista nos fará essa revelação.

Enquanto esperamos, não poderíamos pelo menos fabricar ouro? Já dissemos o quanto seria perigoso, impossível mesmo, através das vias da alquimia promovidas à categoria de técnica industrial. Uma operação de alquimia, por definição, não é reproduzível. É uma obra de arte e um pintor não pode pintar duas vezes o mesmo quadro.

Mas àqueles que conservam a paixão pelo ouro, posso assinar a técnica descoberta já há 30 anos, por André Helbronner e eu próprio ( Jacques Bergier ). Podemos seguramente fabricar ouro, partindo do boro e do tungstênio.

A reação é escrita: 5 B 11 + 74 W 186 = 79 Au 197.

Estou persuadido de que, com a técnica moderna do plasma, esse método poderia ser industrializado e o ouro seria produzido por aproximadamente 60% de seu preço de custo ordinário. Seriam necessários, evidentemente, meios consideráveis para montar uma indústria, mas um governo poderia tomar essa iniciativa. Os Estados Unidos, talvez, se seu problema de reservas metálicas se agravasse. . .

Mas tudo isso não passa de alquimia, e a lição que ela nos dá hoje ainda é de outra natureza. Há mais e melhor a fazer do que ouro. Neste mundo cruel, onde a morte ronda a todos, resta ao homem encontrar as fontes da vida. A atitude da alquimia é sempre um exemplo. Ela pode ser um guia, tornar-se uma esperança.

Dia virá, talvez, em que os homens chegarão à plena consciência da alquimia, quer dizer, não apenas a uma ciência, mas a uma ética. Sempre que se pretendeu separar esses dois fatores do progresso humano, a humanidade caminhou com um pé só. Lindos pulos, às vezes, mas também escorregões!

Sim, um dia, talvez. . . A humanidade fará sem dúvida a grande mutação predita por Stapledon ou Teilhard de Chardin. Então a alquimia progredirá a descoberto. Terá conseguido sua última vitória.

 

Extraido de um texto de Jacques Bergier – 1974


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[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alquimia/a-nova-aurora-do-alquimista/ […]

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