Serpentes

As serpentes são nossas velhas conhecidas dos mitos de criação…

Diz-nos o Gênesis que a serpente era a mais astuta de todos os animais do Éden. Javé havia alertado ao primeiro homem e a primeira mulher, Adão e Eva, que jamais comessem do fruto proibido da árvore que estava no meio do jardim, pois que tal ato causaria a morte. Mas a astuta serpente disse a Eva: “Se o comer, certamente não morrerás. Porém, Javé sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Javé, sabendo do bem e do mal”.

Então Eva percebeu que o fruto daquela tal árvore era agradável aos olhos e desejável para o entendimento. Comeu o seu fruto, a depois ofereceu a iguaria também ao primeiro homem. E diz-nos o Gênesis que “então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus”. Eis uma excelente estratégia de Javé e da serpente…

Agora vejam esse trecho de um mito do povo Bassari da África Ocidental [1]: Unumbotte fez um ser humano e seu nome era Homem. Em seguida criou um antílope e o chamou Antílope. Também fez uma serpente chamada Serpente. E disse a eles: “A terra ainda não foi trabalhada. Vocês precisam amaciar a terra onde estão sentados”; e tendo lhes entregado sementes de todos os tipos, prosseguiu: “Plantem todas essas sementes”. Tendo obedecido às ordens de Unumbotte, perceberam que haviam criado um jardim sobre a terra, cheio de frutos os mais variados. Havia um tipo de fruto, entretanto, para o qual Unumbotte alertou que não comessem.

Um dia, porém, Serpente disse: “Nós também devemos comer esses frutos. Porque passar fome?”. Antílope então disse: “Mas não sabemos nada sobre esse fruto”. Então Homem e sua Mulher tomaram o fruto e o comeram. Unumbotte prontamente desceu do céu e perguntou: “Quem comeu o fruto?”. Homem e Mulher foram sinceros: “Fomos nós”. Unumbotte indagou-os: “Quem disse que vocês podiam comer desse fruto?”. Homem e Mulher foram um pouco mais maliciosos: “Foi Serpente quem disse”.

Pobres serpentes que levam a culpa pela suposta corrupção do homem e da mulher, a despeito de conhecimento prévio de Javé e Unumbotte acerca do que viria a ocorrer… Nem era preciso ser onisciente para saber: ofereça a possibilidade de conhecimento oculto, proibido, aos seres ávidos por conhecer, e eles arriscarão tudo por eles, tal qual Prometeu arriscou despertar a ira dos deuses (e de fato a despertou) para entregar aos homens os segredos do seu fogo. Seriam as serpentes e os titãs, seres tão astutos e conhecedores, o “grande mal” personificado, ou antes, meros atores a colaborar com o ainda mais astuto plano divino?

Diversos autores discutem sobre diversas religiões do Oriente Próximo, muitas das quais representavam a Deusa Mãe por uma serpente, e outras por uma simbologia de comunhão realizada pelo ato de comer uma fruta de uma árvore que crescesse perto do altar dedicado à Deusa. Estas deusas também representavam o conhecimento, a criatividade, a sexualidade, a reprodução, os novos ciclos naturais, e o destino [2].

De fato, não foi à toa que Eva levou a culpa do tal Pecado Original, juntamente com a serpente. Há aqui que se considerar que diversas sociedades matriarcais ancestrais foram sendo suprimidas pelo patriarcado. Por muito tempo após o advento da agricultura, as mulheres passaram a organizar a colheita, tornando-se, talvez, mais importantes para a sobrevivência da tribo do que os próprios homens, os caçadores. Tal sucesso, no entanto, fez com que o ser humano prosperasse e se espalhasse pelo mundo. Nalgum dia alguma tribo tornou-se próspera o suficiente para que despertasse uma antiga ideia brutal dos caçadores: “Porque arriscar caçar no campo selvagem, se podemos saquear os grãos e a colheita dessas tribos de ovelhas?”.

Então surgiram os lobos a assustar as ovelhas. Alguns dos lobos se ofereceram para proteger as ovelhas dos outros lobos, em troca de comida. Surgiu o primeiro exército. Os homens voltaram a dominar pela força, e a sabedoria das mulheres no lido com as colheitas e a natureza não era mais tão primordial. Com o tempo os mitos alcançaram tal história. Seguem alguns exemplos sugestivos…

Na mitologia babilônica: A morte da serpente-dragão Tiamat pelo deus Marduk, que divide seu corpo em dois, é considerada um grande exemplo de como ocorreu a mudança de poder do matriarcado ao patriarcado. Na mitologia grega: Na juventude, Apolo matou a serpente Píton, que vivia em Delfos e tomava conta do oráculo de Têmis, e tomou o oráculo para si. Depois foi punido, pois Píton era a filha de Gaia, a Mãe Terra. Ah sim, Apolo também tomou o cuidado de dividir o corpo da serpente em dois.

Finalmente, retornando a Bíblia: Diversos autores modernos analisam a história da criação do Gênesis como uma narrativa alegórica sobre a divindade Javé suplantando a Deusa Mãe, representada pela árvore da vida, e a religião hebraica suplantando este culto. Isto é demonstrado na passagem sobre a origem do pecado em que o conhecimento proibido relaciona-se a sexualidade e a reprodução, especialmente o conhecimento de que os homens participam da reprodução [3].

Eis que achamos à culpada por nosso conhecimento da sexualidade e dos mistérios naturais: a serpente-dragão, a Deus Mãe. Mas, se no Ocidente tais mitos carregaram as serpentes com características supostamente negativas, no Oriente foi algo diferente… Abaixo da Árvore da Iluminação, está o Buda sentado em posição de meditação. Quando uma grande tempestade se aproximou, uma enorme serpente levantou-se acima da caverna subterrânea e envolveu o Buda em sete espirais por sete dias, para não interromper o estado de meditação. Para os orientais, o conhecimento da natureza, não somente científico, mas sobretudo espiritual, pode levar a paz de espírito duradoura e, quem sabe, a grande iluminação interior.

Sim, há grande sofrimento no mundo, e os místicos orientais não negam isso, mas o reafirmam: nada pode ser mais prazeroso do que enfrentar esse sofrimento, e prosseguir no caminho de retorno ao Éden. A diferença é que o Éden não foi nem será – o Éden está aqui neste momento, dentro de nós, e fora de nós, espalhado sobre a terra, e os homens não o veem. Buda o viu, e esta visão o fez caminhar por milhares de quilômetros da Ásia, trazendo a “boa nova” para os desavisados, iluminando o caminho daqueles que combatiam incessantemente a natureza, sem perceber que estavam conectados a ela. Era preciso saber encarar o sofrimento face e face, e se renovar, se reinventar, à todo momento, para que os traumas e as cicatrizes fossem parte de nossa antiga história, de nossa antiga pele, e não mais do momento atual. Deste momento.

A serpente que abraça a terra e os galhos das árvores sagradas sabe: ela já provou do fruto proibido, e amargou, quem sabe, um conhecimento indesejado, o conhecimento do sofrimento e do mal; Porém, foi assim também que obteve o conhecimento da felicidade e do bem, e percebeu que o caminho para a luz da felicidade era infinito, enquanto que o sofrimento se acumulava apenas em sua pele, em sua casca. A serpente aprendeu a trocar de pele, e deixar seus antigos traumas para trás. Todo este veneno antigo não era mais necessário: fez do próprio veneno um antídoto para a vida. Serpenteia sempre renovada, pelos mesmos sulcos de terra criados por suas irmãs. A serpente sabe.

Até quando os seres de pouca visão permanecerão crendo que todo impulso natural é pecado, que a natureza deve ser subjugada, e que o sofrimento deste mundo de nada nos serve que não para esperarmos com ainda mais afinco, com as ancas ainda mais fincadas no solo do dogma, pelo suposto retorno ao antigo estado de ignorância do Éden, quando nada sabíamos e nada conhecíamos, nem éramos conscientes de nós mesmos, mas caminhávamos junto ao Pai Bondoso?

Pois saibam que este foi o grande esquema, a grande lição arquitetada por Javé e Unumbotte, com a ajuda de todas as serpentes do mundo, e com o aval da Deusa Mãe: tirar seus filhos de casa, para que sobrevivam e evoluam por si mesmos, e paguem suas próprias contas.

Está na hora de tornar-se adulto.

Então Ele percebeu, “na verdade Eu Sou essa criação, pois Eu a expeli de mim mesmo”; Dessa forma, Ele se tornou essa criação, e aquele que sabe disso torna-se, na criação, um criador (Upanishads)

***
[1] Todas as citações do povo Bassari foram retiradas de O poder do mito, a célebre entrevista de Joseph Campbell para Bill Moyers.
[2] Ver, por exemplo, este artigo de Ana Maria Mendes Moreira: A mulher, o divino e a criação.
[3] Acho proveitoso citar aqui uma das respostas de Chico Xavier no célebre Pinga-Fogo da TV Tupi (1971): “Nós temos um problema em matéria de sexualidade na humanidade, que precisamos considerar com bastante respeito recíproco: se as potências do homem na visão, na audição, na tatilidade das mãos, foram dadas ao homem para a educação e o rendimento no bem, seria então o sexo, em suas várias manifestações, sentenciado às trevas? A criatura humana não é só chamada à fecundidade física, mas também à fecundidade espiritual, transmitindo aos nossos filhos os valores do espírito de que sejamos portadores.”

#Gênesis #Mitologia #Bíblia #sexo #Judaismo #Paganismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/serpentes

A Bruxa (explicação do filme)

Por Storm Faerywolf.

(Atenção: grandes spoilers).

OK, bruxas e bruxos… É hora de falar sobre cultura pop e como somos retratados na mídia. Não… este não é um daqueles discursos raivosos sobre como somos erroneamente difamados na TV e nos filmes… é sobre o que eles acertaram. Se você ainda não viu o novo filme A Bruxa (em inglês, The Witch), pare de ler isso agora e largue o que está fazendo e vá vê-lo. Sim, é bom. Não, não é exatamente um filme de terror. (Bem, mais ou menos.) OK… você foi avisado…

Esta é definitivamente um “filme de bruxa para refletir”. O ritmo é lento, a tensão aumenta, com base em relatos históricos de bruxaria na época em que foi criada (por volta de 1630, Nova Inglaterra). Na verdade, o subtítulo do filme é “Um Conto Popular da Nova Inglaterra (em inglês, A New England Folktale)”, o que deve nos dar uma pista.

Ele começa com uma família puritana sendo banida de sua aldeia (pelo que não sabemos) e, posteriormente, caminhando para ganhar a vida no deserto.

Sabemos que a vida será difícil para eles, pois não terão a proteção ou apoio de ninguém além de si mesmos, mas a vida parece estar bem. Isto é, até que a filha mais velha, Thomasin, está brincando de esconde-esconde ou “cadê o bebê?” com o bebê Samuel e ele desaparece misteriosamente.

Não há tempo para o bebê ter sido levado, mas vemos o farfalhar da grama que leva à beira da floresta e somos brindados com a visão de uma figura vestida de vermelho atravessando a floresta densa como o som de um choro bebê enche o crepúsculo. Vemos então uma visão horrível: uma figura feminina nua esmagando os restos do bebê em um grande almofariz e pilão, e depois se lambuzando com a pomada resultante. Estamos testemunhando uma verdade? Ou uma fantasia do que a mente puritana poderia conjurar para explicar o inexplicável? A família está perturbada com razão, mas cabeças mais claras prevalecem sob a orientação do pai, William, e a explicação operacional é que o bebê Samuel foi levado por um lobo e então ele e o menino mais velho, Caleb, saem para procurar, apenas para não encontre nada.

A mãe, Katherine, está arrasada com a perda e não consegue dormir, causando grande preocupação à família. No jantar, uma noite, ela quase acusa Thomasin de roubar uma taça de prata que pertencia ao avô de Thomasin. Thomasin diz que ela não tocou, mas Katherine não acredita nela.

Depois de perceber que sua colheita está sendo dizimada por uma praga (fungo ergot)? (O fungo ergot também é conhecido como cravagem, uma doença de certas gramíneas, causada por fungos, de que resulta o apodrecimento da espiga antes da maturação; também conhecido como: centeio-espigado, corneta, cornicho, dente de cão, esporão, ferragem, fungão, morrão). William e Caleb saem para a floresta para caçar comida. Caleb pergunta ao pai se o bebê Samuel havia ido para o céu, já que ainda não foi batizado e William revela que foi ele quem roubou a taça, vendendo-a no mercado para seus suprimentos de caça. Eles veem uma lebre e ao tentar atirar, o mosquete sai pela culatra, derrubando William no chão.

Quando eles voltam para casa, Caleb mente para sua mãe para proteger seu pai, dizendo que eles saíram para caçar maçãs. Naquela noite, Caleb e Thomasin ouvem seus pais falando sobre sua intenção de mandar Thomasin embora para aprender habilidades de dona de casa, uma prática comum na época. Na manhã seguinte, Caleb e Thomasin saem sozinhos para a floresta para caçar comida. Eles encontram a mesma lebre que ele tinha visto antes. O cachorro deles corre atrás dele e o cavalo entra em pânico, jogando Thomasin no chão e deixando-a inconsciente. Caleb procura pela floresta e finalmente encontra seu cachorro estripado. Caleb tropeça na casa da bruxa, que surge como uma mulher jovem e bonita, atraindo-o para um beijo antes de agarrá-lo duramente com mãos velhas e mirradas.

Thomasin acorda e volta para a fazenda, mas não há sinal de Caleb. Katherine fica cada vez mais desconfiada dela e a acusa de ter algo a ver com o desaparecimento de Caleb e novamente a acusa de roubar a taça de prata. William confessa que roubou a taça e Thomasin sai para verificar as cabras, onde encontra Caleb nu, fraco e balbuciando na chuva.

Os jovens gêmeos acusam Thomasin de ser uma bruxa, principalmente porque ela já os havia provocado dizendo isso, e isso faz com que as suspeitas da família sobre ela cresçam. Quando a família tenta orar por Caleb, os gêmeos afirmam que não conseguem se lembrar de suas orações e novamente a suspeita recai sobre a pobre Thomasin. O feitiço sobre Caleb parece ser quebrado depois que ele tossiu uma maçã inteira. Ele então proclama poeticamente seu amor por Cristo antes de morrer na frente de todos eles.

Depois de ser acusado de bruxaria, Thomasin acusa os jovens gêmeos do mesmo, citando seu estranho relacionamento com o bode da família, Black Phillip, a quem eles alegaram falar com eles em um sussurro. Em um acesso de raiva, William tranca Thomasin e os gêmeos no celeiro com Black Phillip durante a noite enquanto ele enterra seu filho.

Durante a noite a bruxa entra no celeiro e começa a beber o sangue das cabras, assustando Thomasin e os gêmeos. Na casa, Katherine tem uma visão de Caleb e do bebê Samuel, o último de quem ela amamenta. Fora de sua visão vemos que ela está realmente na companhia de um corvo que está bicando seu peito fazendo-a sangrar.

Na manhã seguinte, William sai para ver o celeiro parcialmente destruído. Os gêmeos se foram e ele é atacado por Black Phillip, matando-o. Thomasin tenta correr para ajudar seu pai, mas é impedida por sua mãe, que a acusa de ser uma bruxa. Katherine tenta estrangular Thomasin, mas Thomasin pega uma faca próxima e mata sua mãe em legítima defesa. Agora sozinha, ela entra em casa e – exausta – adormece até o anoitecer. Ao acordar, ela segue Black Phillip até o celeiro e fala com ele: “Eu o conjuro a falar comigo”. Ao que ele responde em um sussurro sibilante: “Você gostaria de viver deliciosamente?” Ele então pede que ela escreva seu nome em seu livro (ela sendo analfabeta não pode, mas ele guiará sua mão) e assumindo a forma de um homem a instrui a remover sua roupa.

Na forma de um bode, ele a conduz pela floresta, onde ela chega a uma fogueira onde um coven de bruxas está celebrando seu sabá.

Elas começam a levitar (o visual aqui é uma reminiscência da pintura de Luis Ricardo Falero de 1878, Witches Going to Their Sabbath (“As Bruxas Vão ao Seu Sabá”, também conhecida como o “Sabá das Bruxas”) e Thomasin segue o exemplo, elevando-se acima da terra enquanto ela ri à luz do fogo.

Este filme é um deleite visual e psicológico. Com base em crenças populares reais, vemos como uma família desce à loucura. Nunca temos certeza se os horrores que estamos testemunhando são reais ou imaginários. Uma pista está no milho estragado que agora sabemos que foi uma causa provável dos infames julgamentos de bruxaria de Salém. O envenenamento por ergot (cravagem) produz efeitos semelhantes aos causados ​​pelo LSD e explicaria os ataques e alucinações sofridos por quem foi exposto. Quando vemos a bruxa andando pela floresta com o bebê Samuel, ou a vemos beijando o jovem Caleb, ou bebendo o sangue das cabras no celeiro, podemos não estar vendo uma verdade factual, mas um fantasma provocado pela histeria alimentada pelo ergot (cravagem) da família. Essa é uma das razões pelas quais eu amo esse filme. Somos solicitados a realmente pensar sobre o que estamos vendo, pois nada é simplesmente entregue a nós. Nós, como a família de que testemunhamos, descemos igualmente a um tipo de loucura em que não podemos distinguir o que é real do que é imaginário, uma marca de bruxaria folclórica em que uma verdade poética é mantida no mesmo nível que uma verdade factual.

Ao longo do filme vemos como realmente a única pessoa inocente (além do bebê Samuel) é Thomasin, apesar dela ser acusada de todos os erros e má sorte que a família sofre. É o pai quem rouba a taça, não ela… seu irmão Caleb mente para a mãe sobre procurar maçãs. Katherine desvia sua raiva para ela e os gêmeos constantemente Thomasin se envolve em algumas provocações com os gêmeos sobre ela ser uma bruxa, mas só depois de ser provocada por eles. Ela existe mais como uma figura tentadora, pois seu irmão Caleb começa a se distrair com sua feminilidade emergente, e ela se torna o bode expiatório perfeito para os problemas da família. No final, ela finalmente fala com Black Phillip e faz um pacto, mas somente depois que o resto de sua família se volta contra ela e se vai. Agora, sozinha, ela o segue até a floresta, onde encontra seu verdadeiro poder, literalmente elevando-se acima de tudo enquanto se transforma na mesma coisa que eles temiam. Não é uma experiência de medo para ela, no entanto, mas de empoderamento, e como ela literalmente ascende acima de tudo isso a manteria para baixo.

Esse filme deu muito certo. Primeiro, não se trata de uma prática neo-pagã da Arte, é sobre a fantasia puritana dela e isso atinge o alvo de frente. É sobre o medo e como esse medo se manifestou em uma cultura específica (orientada pela Bíblia). Mas também é uma história de empoderamento, como vemos com as provações e tribulações pelas quais passa a pobre Thomasin. Embora ela tenha sofrido muito, no final ela é recompensada com a capacidade de “viver deliciosamente” e encontra seu poder no sabá das bruxas. Esta é uma história sobre iniciação; as provações e desafios pelos quais todos devemos passar no caminho para encontrar nosso próprio poder. E, eventualmente, elevando-se acima de tudo o que buscaria nos manter para baixo e “mundanos”. O verdadeiro poder deve ser arrancado das garras do nosso próprio medo. Devemos olhar para o abismo profundo antes de podermos voar para o céu cheio de estrelas. A Bruxa é um excelente retrato dessa jornada arquetípica de empoderamento, habilmente disfarçada de filme de terror. Todos nós deveríamos ter a sorte de ser convidados para o sabá das bruxas. Eu sei que vou falar com o próximo bode preto que encontrar.

***

Fonte: Review: “The Witch”

©2022 Satyr’s Inc.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

 

Postagem original feita no https://mortesubita.net/psico/a-bruxa-explicacao-do-filme/

A Bruxaria na Velha Itália

E quando um padre causar-te mal com suas bênçãos,
deves imputar a ele males duas vezes piores.
-Mito da Vinda de Aradia

Charles G. Leland no século XIX apresentou para o mundo em seu livro Aradia: Evangelho das Bruxas, a obra que cem anos mais tarde inspiraria Gardner junto com os escritos de Crowley a tecer a Wicca ou Bruxaria Moderna. Mas a crença das Bruxas da Itália, nem de longe se limitaria a ele. Outro historiador e escritor, Raven Grimassi, dedicou sua vida a explorar os mistérios da Bruxaria da Velha Europa.

Altamente influenciado pela Wicca, Grimassi manteve em seus livros um paradigma cerimonial básico para a estrutura da Bruxaria, isto é, celebrações de lua cheia, oito festivais ligados a roda do ano (as treguendas), e adoração a Diana e estranhamente Dianus. Dianus não é outro senão Lúcifer, que utilizando seu outro nome, tornava seu material mais viável e menos diabólico. Afinal, as bruxas do século XXI fazem de tudo para se afastar da imagem de adoradores do Diabo. Talvez mais ligadas ao cristianismo do que eram as bruxas de antigamente, a palavra diabo sequer é mencionada em livros de bruxaria. Ou totalmente repugnada.

É interessante que a palavra diabo vem de diabolus, em latim, “o adversário”. Assim como a palavra Bruxaria e Witchcraft, a Stregheria era um culto marginal. Era encontrado mais nas beiras da comunidade, com mulheres que jogavam cartas ou faziam poções. E um aborto ou outro de vez em quando.

E uma das coisas que mantinha a fé na Stregheria era a Sagrada Strega – Aradia.

Aradia, a Filha de Lúcifer

E deves ser a primeira das bruxas conhecidas;
E deves ser a primeira de todas no mundo;
E deves ensinar a arte do envenenamento,
-Aradia, Evangelho das Bruxas

Na Itália, a Inquisição foi fundada para reprimir a seita dos cátaros e começou a funcionar em 1224 quando o Papa Honório III incumbiu vários bispos para proceder contra os hereges; como tribunal, oficialmente começou a funcionar, como nos demais países, no ano de 1232 pela bula do Papa Gregório IX. Ela era responsável por julgar indivíduos acusados de um vasto leque de crimes relacionados com a heresia, incluindo a feitiçaria, a imoralidade, blasfêmia, e bem como para a censura da literatura impressa.

A Igreja não imaginava que no meio de toda sua diversão – o roubo de terras, estupros, saques, abuso de poder dos papas e tudo que só o Catolicismo faz por você – iria nascer uma contra cultura, uma mulher que mudaria os rumos daquela terra. No norte da Itália na região de Toscana, no dia 11 de agosto de 1313 iria nascer uma das figuras mais peculiares da Bruxaria: Aradia.

Foi dito que Aradia ouvia vozes desde pequena. E em um certo dia, ela escutou Diana a chamando e então começou a aprender com Ela a arte da Stregheria. E nem de longe era essa bruxaria regada a borboletas e unicórnios que vemos atualmente. Diana ensinava a ela evocar tempestades, envenenar pessoas, amaldiçoar padres. Padres eram os alvos mais claros de toda bruxaria italiana. Em um dos seus vários mitos, um padre após ter insultado uma imagem de Diana, é acordado várias vezes com assombrações e então decepado.

Lúcifer, o pai de Aradia e filho/irmão de Diana tem um mito interessante. Ele foi criado pela própria Diana logo no inicio, que em seguida se apaixonou pela sua criação. Tão grande era a beleza de Lúcifer que fez Diana fazer o primeiro de todos os feitiços de amor: e então prende-lo a si para gerar toda a criação.

No trabalho de Raven Grimassi, o nome Lúcifer foi substituído por Dianus, “Divino”. Dianus Lucifero, o nome correto do Deus da Luz e do Esplendor da Itália, que mais adiante se tornou o temido Lúcifer, rei do inferno.  É interessante que no livro do Leland, Lúcifer e Diana são tidos tanto como reis do céu como do inferno. Charles Godfrey Leland (18241903) escritor de diversas obras sobre folclore e ocultismo, entre as mais conhecidas Aradia, or The Gospel of the Italian Witches, Etruscan and Roman Remains e Legends of Florence, obras que falam sobre Stregheria, a Bruxaria Italiana. O evangelho das bruxas, foi lançado em 1899 através de umas cartas que ele recebeu de uma bruxa chamada Madalena, que jogava tarot e ocasionalmente, passava uma parte dos mistérios para ele.

Aradia então passou a ensinar as pessoas a cultuar Lúcifer e Diana. A própria figura de Aradia é muito discutida entre historiadores e poucos realmente acreditam que ela viveu. Ela supostamente foi capturada pela inquisição e então, após seduzir os guardas e escapar desapareceu pela velha Itália. Sua magia, que na época passou para seus treze discípulos, foi então espalhada em vários outros grupos e sobreviveu a fogueiras, torturas e missas nauseantes.

O Elo Perdido do Catolicismo e a Stregheria

 

Se há algo que as bruxas italianas entendem, é de missas e santos. É dito que quem é do sangue, nasce vendo e usando o poder em cada oportunidade. A missa é a base da magia cerimonial cristã – é o encontro entre o céu e a terra, a purificação e a iluminação. É aonde as bruxas buscam para amaldiçoar nomes, enfiando-os na agua benta.

Os movimentos da streghe são sempre delicados. O terço nas mãos é usado antes de qualquer ritual, que muito diferente da cerimônia atualmente praticada em grupos modernos, se baseia tradicionalmente em se sentar na cozinha, com algumas velas acesas e um terço na mão. E então evocando enquanto conta o terço, o streghe começa a dar vida a Chama – o elo espiritual entre as bruxas da Velha Europa.

A Chama é um conceito espiritual erroneamente tido como um fogo no meio da cerimônia, por grupos que tentam modernizar a stregheria. A Chama, é a palavra Fé, é o espírito da própria bruxaria, que é pedido enquanto o praticante reza “Diana , bella Diana , pensa a me in questo momento”, é acreditado dentro da Stregheria que a Chama, é algo que deve ser alimentado, através da pratica de adoração aos antigos. Segundo contam as lendas, no dia que não houver mais um streghe para para alimentar a Chama, nem o Sol, nem a Lua irão brilhar mais.

As Bruxas da Velha Itália mantém uma vela acesa ao San Michele Arcangelo, que assim como San Pietro e Santa Luzia, tem papel fundamental. Ele não é visto como um arcanjo guerreiro pronto para combater Satã. Pelo contrario, ele é visto como um antigo espírito de guerra, que foi usurpado pelo catolicismo e ganhou a forma de anjo; o mesmo ocorreu com San Pietro que é um espírito que prende, amarra ou libera as pessoas e situações.

Por nascer em uma terra fortemente católica, a bruxaria italiana mantém essas raízes. Tanto católicas, como etruscas. Os etruscos são povos que viveram na região da Península Itálica. O período exato em que houve a ocupação não se sabe, mas acreditam que ela ocorreu por volta dos anos de 1200 a 700 a.C. A região cuja qual eles habitavam equivale o que é hoje a Toscana, com partes no Lácio e Umbria, na Itália.

A Bruxaria se espalhou pelo mundo e aqui no Brasil também tem fortes representantes. Obviamente, cada grupo de bruxaria incorpora sua visão, suas praticas e acaba alterando um pouco o conteúdo recebido. É importante que a tradição se mantenha viva, mesmo que não nos tornemos fanáticos pela mesma, mas mantendo um respeito pela sua beleza e sua manifestação.

A Stregueria é uma das manifestações da Bruxaria, carregando consigo a riqueza de um povo apaixonado, fervoroso e forte. Que Aradia abençoe a cada um de nós.

 

 

por King

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-bruxaria-na-velha-italia/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/paganismo/a-bruxaria-na-velha-italia/

A Interpretação do Conhecimento (Nah Hamadi)

(faltam 13 linhas)
… eles passaram a acreditar por meio de sinais e maravilhas e fabricações. A semelhança que veio a ser através deles o seguiu, mas através de reprovações e humilhações antes de receberem a apreensão de uma visão que fugiram sem ter ouvido que o Cristo tinha sido crucificado. Mas nossa geração está fugindo, pois ainda nem sequer acredita que o Cristo está vivo. Para que nossa fé seja santa (e) pura, não confiando em si mesma ativamente, mas mantendo-se plantada nEle, não diga: “De onde vem a paciência para medir a fé?”, pois cada um é persuadido pelas coisas em que acredita. Se ele os desacredita, então ele não seria capaz de ser persuadido. Mas é uma grande coisa para um homem que tem fé, já que ele não está na incredulidade, que é o mundo.

Agora o mundo é o lugar da infidelidade e o lugar da morte. E a morte existe como … (faltam 14 linhas)… semelhança e eles não acreditarão. Uma coisa santa é a fé para ver a semelhança. O oposto é a infiel à semelhança. As coisas que ele lhes concederá os apoiará. Era impossível para eles alcançarem a imperecibilidade […] tornar-se-ão […] soltos […] aqueles que foram enviados […]. Pois aquele que está angustiado não acreditará. Ele é incapaz de trazer uma grande igreja, já que ela é reunida a partir de uma pequena reunião.

Ele se tornou uma emanação do vestígio. Pois também dizem sobre a semelhança que ele é apreendido por meio de seu rastro. A estrutura é apreendida por meio da semelhança, mas Deus apreende por meio de seus membros. Ele os conhecia antes de serem gerados, e eles o conhecerão. E aquele que gerou cada um desde o primeiro, residirá neles. Ele governará sobre eles. Pois é necessário para cada um … (faltam 25 linhas)… o Salvador se retirou, pois é apropriado. De fato, não ignorante, mas carnal, é a palavra que o tomou como marido. E é ele que existe como imagem, já que aquele (masc.) também existe, assim como aquele (fem.) que nos fez nascer. E ela fez com que ele soubesse que ela é o Ventre. Esta é uma maravilha dela que ela nos faz transcender a paciência. Mas esta é a maravilha: ele ama aquele que foi o primeiro a permitir uma virgem […]. É próprio […] dela […] até a morte […] desejo de praticar […]. (faltam 23 linhas)Portanto, ela se rendeu a ele em seu caminho. Ele foi o primeiro a fixar nosso olhar nesta virgem que está fixada na cruz que está naqueles lugares. E vemos que é sua água que a autoridade suprema concedeu àquele em quem há um sinal. Esta é a água da imortalidade que as grandes potências lhe concederão enquanto ele estiver abaixo, à semelhança de seu jovem filho. Ela não parou por causa dele. Ela […] o […] ele se tornou […] na palavra […] que aparece ao […]. Ele não […]. (13 linhas faltando)… em […] através de […] veio desses lugares. Alguns caíram no caminho. Outros caíram nas rochas. E ainda outros ele semeou nos espinhos. E ainda outros ele deu de beber […] e a sombra. Eis […] ele […] E esta é a realidade eterna antes que as almas saiam daqueles que estão sendo mortos.

Mas ele estava sendo perseguido naquele lugar pelo rastro produzido pelo Salvador. E ele foi crucificado e morreu – não sua própria morte, pois ele não merecia de modo algum morrer por causa da igreja dos mortais. E ele foi pregado para que eles pudessem mantê-lo na Igreja. Ele lhe respondeu com humilhações, pois desta forma havia suportado o sofrimento que havia sofrido. Pois Jesus é para nós uma semelhança, por causa de … (faltam 14 linhas)… esta […] toda a estrutura e […] a grande amargura do mundo […] nós com os […] ladrões […] os escravos […] até Jericó […] eles receberam […]. Pois […] até aqueles que vão esperar enquanto todo o defeito os prende até a realidade final que é sua porção, já que ele nos derrubou, tendo nos amarrado em redes de carne. Como o corpo é uma morada temporária que os governantes e as autoridades têm como morada, o homem dentro dele, após ter sido aprisionado na fabricação, caiu em sofrimento. E depois de tê-lo obrigado a servi-los, eles o constrangeram a servir as energias. Dividiram a Igreja de modo a herdar … (faltando 9 linhas)… poder para […] e […] e […] ter tocado […] antes de […] é a beleza que […] vai querer […] e estar com [… […] lutar uns com os outros […] como outros […] virgens […] para destruir […] feridas […] mas ela […] gosta de […] a […] desde que eles tinham golpeado […] imperecíveis. Esta […] que ele permanece […] virgem. A […] sua beleza […] sua fidelidade […] e portanto […] ela. Ele apressou […] ele não atendeu […] eles desprezam […]. Pois quando a Mãe tinha [… (5 linhas faltando)… a Mãe […] seu inimigo […] o ensinamento […] da força […] da natureza […] eis que uma donzela […] é incapaz […] primeiro […] o oposto […]. Mas como ele […] não foi capaz […] ele se tornou […] matou-o […] vivo […] ele a considerou […] melhor do que a vida […] pois ele sabe que se […] o mundo o criou […] para criá-lo […] a partir de […] sobre as regiões […] aqueles que eles governam […]. Mas […] ele o emitiu […] ele habita nele […] o Pai de Todos […] seja mais para ela […] ele. Ele […] ele … (faltam 8 linhas)… como […] em […] ele as tem […] elas […] cada uma será digna […] levá-lo e […] o professor deve se esconder como se ele fosse um deus que abraçaria suas obras e as destruiria. Pois ele também falou com a Igreja e se fez seu mestre da imortalidade, e destruiu o professor arrogante, ensinando-a a morrer.

E esse professor fez uma escola viva, pois esse professor tem outra escola: enquanto nos ensina sobre os escritos mortos, ele, por outro lado, estava nos fazendo sair do excesso do mundo; através deles nos ensinavam sobre nossa morte.

Agora este é o seu ensinamento: não chame um pai sobre a terra. Seu Pai, que está no céu, é um só. Vós sois a luz do mundo. Eles são meus irmãos e meus companheiros que fazem a vontade do Pai. Para que serve se você ganha o mundo e perde a sua alma? Pois quando estávamos no escuro, costumávamos chamar muitos de “pai”, já que ignorávamos o verdadeiro Pai. E esta é a grande concepção de todos os pecados … (faltam 8 linhas)… prazer. Somos como […] ele a […] alma […] homens que […] o lugar de morada.

O que é agora a fé estabelecida pelo mestre que o libertou da grande ignorância e da escuridão do olho ignorante? Ele o lembrou das coisas boas de seu Pai e da raça. Pois ele lhe disse: “Agora o mundo não é teu, que não estimes a forma que está nele como vantajosa; antes (como) desvantajosa e (como) um castigo”. Receba agora o ensinamento daquele que foi censurado – uma vantagem e um lucro para a alma – e receba sua forma. É a forma que existe na presença do Pai, a palavra e a altura, que o faz conhecer antes de ter sido desviado enquanto estava em (a) carne da condenação.

Da mesma forma eu me tornei muito pequeno, para que através da minha humildade eu pudesse levá-lo até a grande altura, de onde você tinha caído. Você foi levado a este poço. Se agora você acredita em mim, sou eu que o levarei para cima, através desta forma que você vê. Serei eu quem te levará sobre meus ombros. Entra pela costela de onde vieste e esconde-te das feras. O fardo que você carrega agora não é seu. Sempre que você (fêmea) for … (faltam 14 linhas)… de sua glória […] desde a primeira. De ser contado com a fêmea, o sono trouxe o trabalho de parto e o sábado, que é o mundo. Pois de ser contado com o Pai, o sono trouxe o sábado e o êxodo do mundo dos animais. Pois o mundo é das bestas e é uma besta. Portanto, aquele que está perdido foi contado para o astuto, e aquele que é das bestas que surgiram. Eles colocaram sobre ele uma roupa de condenação, pois a fêmea não tinha outra roupa para vestir sua semente, exceto aquela que ela trouxe no sábado. Pois nenhuma besta existe no Éon. Pois o Pai não guarda o sábado, mas (ao contrário) aciona o Filho, e através do Filho ele continuou a se munir dos Éons. O Pai tem elementos racionais vivos dos quais ele veste meus membros como vestes. O homem … (faltam 11 linhas)… este é o nome. O […] ele se emitiu a si mesmo e ele emitiu o reprovado. Aquele que foi reprovado mudou (seu) nome e, junto com aquele que seria como a reprovação, ele apareceu como carne. E o humilhado não tem equipamento. Ele não tem necessidade da glória que não é sua; ele tem sua própria glória com o nome, que é o Filho. Agora ele veio para que pudéssemos nos tornar gloriosos através do humilhado que habita nos lugares da humilhação. E através dele que foi censurado, recebemos o perdão dos pecados. E por aquele que foi censurado e por aquele que foi redimido, recebemos a graça.

Mas quem redimiu aquele que foi repreendido? É a emanação do nome. Pois assim como a carne tem necessidade de um nome, também a carne é um Éon que a Sabedoria emitiu. Ela recebeu a majestade que está descendo, para que o Éon possa entrar naquele que foi censurado, para que possamos escapar da desgraça da carcaça e ser regenerado na carne e no sangue de … (faltam 8 linhas)… destino. Ele […] e os Éons […] aceitaram o Filho embora ele fosse um mistério completo […] cada um de seus membros […] graça. Quando ele gritou, ele foi separado da Igreja como porções da escuridão da Mãe, enquanto seus pés lhe deram traços, e estes queimaram o caminho da ascensão ao Pai.

Mas qual é o caminho e a maneira (em) como ela (fêmea) se tornou sua cabeça? Bem, ela (fême.) fez a morada para trazer a luz àqueles que habitam dentro dele, para que pudessem ver a Igreja ascendente. Pois a Cabeça se levantou do poço; estava dobrada sobre a cruz e olhou para baixo para Tártaros, para que os de baixo pudessem olhar para cima. Assim, por exemplo, quando alguém olha para alguém, então o rosto daquele que olhou para baixo olha para cima; assim também uma vez que a Cabeça olhou da altura para seus membros, nossos membros foram para cima, onde estava a Cabeça. E ela, a cruz, estava sendo pregada para os membros, e apenas para que eles pudessem … (7 linhas faltando)… têm […] porque eram como […] escravos. A consumação é assim: Aquele que ela indicou será completado por aquele que indicou. E as sementes que restarem durarão até que o Todo seja separado e tome forma.

E assim o decreto será cumprido, pois assim como a mulher que for honrada até a morte tem a vantagem do tempo, assim também ela dará à luz. E esta descendência receberá o corpo designado para ela, e se tornará perfeita. Ele tem uma natureza generosa, uma vez que o Filho de Deus habita nele. E sempre que ele adquire o Todo, o que quer que ele possua < será dissolvido> no fogo porque desprezava e ultrajava muito o Pai.

Além disso, quando o grande Filho foi enviado após seus pequenos irmãos, ele espalhou o Édito do Pai e o proclamou, opondo-se ao Todo. E ele removeu o velho vínculo da dívida, o da condenação. E este é o édito que foi: Aqueles que se fizeram escravos se tornaram condenados em Adão. Eles foram trazidos da morte, receberam perdão por seus pecados e foram redimidos por … (faltam 9 linhas)… já que somos dignos […] e […] mas eu digo […] e estes […]. Pois […] é digno de […] a Deus. E o Pai […] o Cristo se afastou de tudo isso, pois ama seus membros com todo o seu coração. Aquele que é invejoso põe seus membros uns contra os outros. Se não tiver ciúmes, não será afastado de (os) outros membros e do bem que ele vê.

Ao ter um irmão que nos considera como ele também é, glorifica-se aquele que nos dá graça. Além disso, é conveniente para cada um de nós desfrutar do dom que recebeu de Deus, e que não tenhamos ciúmes, pois sabemos que aquele que tem ciúmes é um obstáculo em seu (próprio) caminho, pois destrói somente a si mesmo com o dom e desconhece a Deus. Ele deve se alegrar e se alegrar e participar da graça e da generosidade. Será que alguém tem um dom profético? Compartilhe-o sem hesitar. Não se aproxime de seu irmão com inveja nem … (faltam 8 linhas)… escolhidos como […] vazios enquanto escapam […] caídos de seu […] ignoram que […] desta forma eles […] os têm […] em […] para que possam refletir forçosamente sobre as coisas que você quer que eles pensem quando pensam em você. Agora seu irmão também tem sua graça: Não se menospreze, mas alegre-se e agradeça espiritualmente, e reze por isso, para que você possa compartilhar a graça que habita dentro dele. Portanto, não o considere estrangeiro para você, mas (como) aquele que é seu, a quem cada um de seus <-colegas> membros recebeu. Ao amar o Chefe que os possui, você também possui aquele de quem é que essas efusões de dons existem entre seus irmãos.

Mas será que alguém está fazendo progressos na Palavra? Não se deixe impedir por isso; não diga: ”Por que ele fala enquanto eu não falo”, pois o que ele diz é (também) seu, e o que discerne a Palavra e o que fala é o mesmo poder. A Palavra … (faltam 13 linhas)… apenas um olho ou uma mão, embora sejam um só corpo. Aqueles que pertencem a todos nós, servem à Cabeça juntos. E cada um dos membros a considera como um membro. Todos eles não podem tornar-se inteiramente um pé ou inteiramente um olho ou inteiramente uma mão, pois estes membros não viverão sozinhos; ao contrário, estão mortos. Sabemos que eles estão sendo mortos. Então, por que você ama os membros que ainda estão mortos, ao invés daqueles que vivem? Como você sabe que alguém ignora os irmãos? Pois você é ignorante quando os odeia e tem ciúmes deles, pois não receberá a graça que habita dentro deles, não estando disposto a reconciliá-los com a generosidade da Cabeça. Você deve agradecer por nossos membros e pedir que também a você seja concedida a graça que lhes foi dada. Pois a Palavra é rica, generosa e bondosa. Aqui ele dá presentes a seus homens sem ciúmes, de acordo com … (faltam 11 linhas)… apareceram em cada um dos membros […] ele mesmo […] já que eles não brigam entre si por causa de suas diferenças. Ao contrário, trabalhando uns com os outros, eles trabalharão uns com os outros, e se um deles sofrer, eles sofrerão com ele, e quando cada um deles for salvo, eles serão salvos juntos.

Além disso, se eles esperarem pelo êxodo da harmonia (terrena), eles virão para o Éon. Se estiverem aptos a participar da (verdadeira) harmonia, quanto mais aqueles que derivam da unidade única? Eles devem ser reconciliados uns com os outros. Não acuse sua cabeça porque ela não o nomeou como um olho, mas sim como um dedo. E não tenha ciúmes daquilo que foi colocado na classe de um olho, de uma mão ou de um pé, mas esteja grato por não existir fora do Corpo. Pelo contrário, você tem a mesma cabeça por conta da qual o olho existe, assim como a mão e o pé e o resto das partes. Por que você despreza aquele que é nomeado como […] desejava […] caluniou […] não abraça […] corpo não misturado […] escolhido […] dissolve […] da descendência de Éon […] por mais que nos arrancou de <os> Éons que existem naquele lugar. Alguns existem na Igreja visível – aqueles que existem na Igreja dos homens – e unanimemente proclamam uns aos outros o Pleroma de seu éon. E alguns existem para a morte na Igreja em cujo nome eles vão – ela para quem eles são a morte – enquanto outros são para a vida. Portanto, eles são amantes da vida em abundância. E cada um dos demais resiste por sua própria raiz. Ele dá frutos que são como ele, já que as raízes têm uma conexão entre si e seus frutos são indivisíveis, o melhor de cada um. Eles os possuem, existindo para eles e uns para os outros. Assim, sejamos como as raízes, pois somos iguais […] que Éon […] aqueles que não são nossos […] acima do […] o agarram […] desde […] sua alma. Ele vai […] nós lhe demos […] a ele. Se você o purificar, ele permanecerá em mim. Se a encerrares, ela pertence ao Diabo. Mesmo se você matar suas forças que estão ativas, ela estará com você. Pois se a alma está morta, ainda assim ela foi decretada (por) os governantes e autoridades.

O que, agora, você pensa como espírito? Ou por que eles perseguem homens desse tipo até a morte? Eles não estão satisfeitos em estar com a alma e procurá-la? Pois cada lugar é excluído deles pelos homens de Deus enquanto eles existirem em carne e osso. E quando não podem vê-los, já que eles (os homens de Deus) vivem pelo espírito, destroem o que aparece, como se assim pudessem encontrá-los. Mas qual é o lucro para eles? Eles são insensatamente loucos! Eles rasgam o que os rodeia! Escavam a terra! […] ele […] esconde […] existe […] purifica […] porém […] depois que Deus […] nos agarra […] mas nós caminhamos […]. Pois se os pecados são muitos, tanto mais agora é o ciúme da Igreja do Salvador. Pois cada um era capaz de ambas (tipos) de transgressão, a de um adepto, e a de uma pessoa comum. É ainda uma única capacidade que eles possuem. E quanto a nós, somos adeptos da Palavra. Se pecamos contra ela, pecamos mais do que os gentios. Mas se superarmos cada pecado, receberemos a coroa da vitória, mesmo quando nossa Cabeça foi glorificada pelo Pai.

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Fonte:

http://gnosis.org/naghamm/intpr.html.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

 

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Postagem original feita no https://mortesubita.net/jesus-freaks/a-interpretacao-do-conhecimento-nah-hamadi/

Arquitetura

A Arquitetura, ligada à arte da construção, nasce simultaneamente como uma necessidade material e uma necessidade espiritual. Como necessidade material, foi imperioso, num determinado momento da história, pôr-se a coberto e abrigado das intempéries meteorológicas e de toda classe de perigos e condições adversas. E como necessidade espiritual, porque toda edificação, quaisquer fossem os materiais e os modelos arquitetônicos utilizados, tinha e tem uma significação unida ao culto religioso e sagrado. Um exemplo deste é o próprio Templo ou Santuário, do qual já falamos, ainda que também estava, e está presente aonde ainda se conserva uma cultura tradicional, na própria moradia, na qual destaca o lar ou fogo central análogo ao Altar. Em ambos os casos a arte da construção se baseia na contemplação de um gesto divino primordial: a Criação do Mundo. O Cosmo físico, criação do divino Arquiteto, proporcionava ao arquiteto humano o modelo de sua própria morada. Céu e Terra constituem a parte superior e inferior do edifício. Neste sentido, sendo a realidade concreta do Cosmo uma manifestação dos mundos invisíveis, a construção da casa familiar e cultual deve cumprir uma função similar, ou seja, servir de recipiente e suporte às energias criadoras do Universo, plasmando-as na configuração de seu traçado e em cada uma de suas partes e elementos. E já vimos que essas energias se expressam simbolicamente por meio de módulos numéricos e geométricos, estreita e harmonicamente vinculados entre si. Catedrais e mosteiros, por exemplo, são verdadeiros compêndios da vida universal, onde estão representados na pedra os diversos reinos da natureza, do mundo intermediário, e do mundo espiritual ou angélico, em suma, o “Livro do Universo”. Por isso os Mestres arquitetos e os operários a suas ordens, divididos em diversos graus, tivessem um conhecimento perfeito da Metafísica, a ontologia, a cosmologia e as ciências naturais. As próprias ferramentas e elementos utilizados para a edificação são simbólicos, além de práticos, e entre eles merecem ser destacados o compasso, o esquadro, o nível, o prumo, a régua, a colher de pedreiro, o martelo e o cinzel.

#Arquitetura #hermetismo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/arquitetura

Dungeons & Dragons e o Pânico Satânico

Valerie Etternhoffer

“Stranger Things” está de volta, e sua nova temporada está trocando os shoppings-centers e os fru-frus por algo muito mais sombrio daquela época: o Pânico Satânico. Enquanto a quarta temporada do programa não entre nos detalhes sangrentos da vida real do que foi o pânico moral que varreu a América do Norte na década de 1980, o espectro do Pânico Satânico encontra seu caminho no programa de uma maneira surpreendente: através do clássico jogo de mesa Dungeons & Dragons.

A quarta temporada da série abre com nossos heróis agora no ensino médio. Após parte de seu grupo de amigos que salvou o mundo se mudar para o Ensino Médio, os párias de longa data Mike (Finn Wolfhard) e Dustin (Gaten Matarazzo) tentam encontrar um sentimento de pertencimento na Hawkins High School. Em vez disso, eles encontram um grupo de Dungeons & Dragons chamado The Hellfire Club, liderado pelo punk adolescente melodramático e possível supersênior Eddie Munson (Joseph Quinn).

Eddie, que luta contra o status quo, vive da emoção de assustar pessoas normais e claramente aprecia a má reputação que D&D deu ao seu grupo. Em um ponto do episódio de estreia do programa, ele lê um artigo (aparentemente falso) da Newsweek sobre o jogo, que cita psicólogos dizendo que o jogo “promove adoração satânica, sacrifício ritual, sodomia, suicídio e assassinato”. Mas havia realmente um pânico satânico contra algo tão inócuo quanto Dungeons & Dragons?

O que foi o Pânico Satânico?

Em suma, sim. O Pânico Satânico foi um pânico moral praticamente infundado que varreu os Estados Unidos, Canadá e outros países a partir da década de 1980. Embora o fenômeno envolvendo alegações sem base nenhuma de rituais satânicos secretos e cabalas de bruxas nunca tenha desaparecido completamente, ele ganhou atenção nacional por volta de 1983, depois que uma pré-escola em Manhattan Beach, Califórnia, tornou-se um foco de acusações sobre abuso infantil ritualizado. A história completa do caso da pré-escola McMartin é complicada, envolvendo falsas memórias e técnicas policiais profundamente mal informadas. Mas, como a jornalista e pesquisadora Sarah Marshall observa em uma entrevista ao Vox, o surgimento de pânicos morais infundados geralmente começa com “um caso faísca caindo em um pavio muito seco e pronto para explodir”.

Nesse caso, diz Marshall, os Estados Unidos estavam apenas começando a considerar a ideia de que o abuso sexual infantil existia e era comum, e ao mesmo tempo estava se tornando vulnerável à influência evangélica do governo Reagan. Da mesma forma, na mesma época, um desejo coletivo de entender a violência e a depressão dos jovens levaria Dungeons & Dragons a conversar com o Pânico Satânico. Antes dos videogames violentos, esse divertido jogo de imaginação era o bode expiatório analógico preferido para todos os tipos de mau comportamento.

D&D se torna o novo bode expiatório

O primeiro caso de pânico relacionado a Dungeon & Dragons veio em 1979, quando um adolescente talentoso e jogador de D&D chamado James Dallas Egbert III desapareceu. De acordo com a BBC, Egbert se escondeu nos túneis sob sua universidade durante um episódio depressivo. Ele foi encontrado mais tarde, mas tirou a própria vida em 1980. Dois anos depois, um colegial chamado Irving Lee Pulling também cometeu suicídio. Sua mãe supostamente tentou processar o diretor da escola e os editores de Dungeons & Dragons, insistindo que a jogabilidade resultou em uma maldição da vida real sendo colocada em seu filho. Ela também criou uma organização chamada Bothered About Dungeons and Dragons que fez campanha contra o jogo.

Parte da linguagem dessa organização parece ser o que inspirou a leitura maravilhosamente dramática de Eddie Munson de um discurso contra Dungeons & Dragons no episódio de estréia desta temporada de “Stranger Things”. Conforme citado pela BBC, Pulling acusou o jogo de empregar o seguinte:

“Demonologia, feitiçaria, vodu, assassinato, estupro, blasfêmia, suicídio, assassinato, insanidade, perversão sexual, homossexualidade, prostituição, rituais do tipo satânico, jogos de azar, barbárie, canibalismo, sadismo, profanação, invocação de demônios, necromancia, adivinhação e outros ensinamentos. ”

Qualquer um que tenha chegado a três metros de um conjunto de dados de 20 lados dirá que essa descaracterização de Dungeons & Dragons é risível. Na verdade, as percepções da cultura pop do jogo parecem ter dado uma guinada total desde essa época: hoje em dia, os jogadores de D&D são mais frequentemente retratados como geeks adoráveis ​​que amam histórias sobre dragões e trolls do que como uma fonte de qualquer influência sinistra.

A morte do Pânico

Embora D&D pareça ter recuperado sua credibilidade cultural depois de ser associado ao Pânico Satânico, seu papel na histeria cultural não diminuiu rapidamente. Em 1984, Ronald G. Adcox e Darren Lee Molitor, dois jogadores de D&D, estrangularam um adolescente no Missouri. Embora os pesquisadores não tenham estabelecido nenhuma ligação entre o jogo e uma propensão à violência ou ao suicídio, D&D acabou sendo sussurrado entre pais ansiosos por anos como uma espécie de atividade de porta de entrada para más ações. O redator do New York Times, Clyde Haberman, resume bem essas conclusões simplificadas, dizendo: “Muito do apontar de dedos parecia enraizado em uma falácia clássica da lógica: o Sr. Adcox e o Sr. Molitor jogaram D&D. O Sr. Adcox e o Sr. Molitor tornaram-se assassinos. Pessoas que jogam D&D se tornam assassinos.”

Claro, como todas as falácias lógicas, isso simplesmente não é verdade. Assim como algumas pessoas que jogam D&D machucam as pessoas, também fazem algumas pessoas que jogam Monopólio. Embora as histórias verdadeiras no centro desse fenômeno sejam trágicas, a maioria não parece ter uma única causa raiz. Se o fizessem, provavelmente não seria um jogo de RPG de mesa.

Embora o jogo não seja tão controverso quanto antes, D&D também não parece mais ser tão popular. Mas talvez “Stranger Things” resolva isso. A série tremendamente popular e de grande orçamento da Netflix tem uma longa história de tornar os artefatos dos anos 80 legais novamente, de músicas com sintetizadores a vestidos com estampas de blocos, fitas cassete e walkie-talkies. Talvez, apenas talvez, o Hellfire Club possa trazer o fogo de volta para Dungeons & Dragons – desta vez, sem o medo do inferno.

Fonte: https://www.slashfilm.com/748552/horror-roles-that-changed-actors-forever/

Postagem original feita no https://mortesubita.net/popmagic/dungeons-dragons-e-o-panico-satanico/

A Primazia da Shakti

Por Dr. David Frawley

Libertação: O Objetivo da Vida:

O objetivo final da vida humana é a libertação ou moksha, a realização do Eu Puro ou Brahman além de todo tempo, espaço e carma. Só nisso está a paz e a liberdade completas e duradouras. Isto fica claro em muitos grandes ensinamentos espirituais desde os Vedas.

Esta realidade suprema de pura unidade não é difícil de descrever e a busca por ela é algo que conhecemos em nossos corações, onde buscamos a unidade com todos. A questão importante e difícil que se coloca, no entanto, é como chegar lá? Esse Eu puro está tão distante de nossa experiência de vida comum que requer uma mudança radical de todo o nosso modo de vida para chegarmos até mesmo a ele.

Brahman é nirguna (desprovido de qualidades), nishkriya (além da ação) e nishkama (além do desejo). É extremamente difícil de acessar mesmo para aqueles com as mentes mais afiadas e os estilos de vida mais puros. Brahman, além disso, está além de todos os caminhos, todos os esforços e todos os esforços. Ele está fora do tempo, do espaço e da causalidade e não pode ser produzido por nada. Aquele que o procura deve ele mesmo desaparecer antes de encontrá-lo. No entanto, mesmo tendo esse pensamento sobre sua ultimidade não o leva lá ou mesmo a assegurar que se esteja indo na direção certa.

Somente se nossas mentes puderem estar totalmente concentradas dentro do coração é que poderemos conhecer Aquele Ser Supremo. Aqueles cujas mentes são claras e focalizadas internamente podem certamente entrar nesse Brahman sem forma. Mas se existe algum desejo não satisfeito, não podemos alcançá-lo, ou se o tocamos, não podemos permanecer nele. O problema é que estamos cheios de desejos, mesmo que nossas mentes sejam fortes. O desejo é a essência de tudo o que fazemos e a própria força por trás de nossas vidas.

Não vivemos em Brahman ou no imanifesto além do tempo e do espaço, mas no reino manifesto da experiência de vida, repleto de suas energias, atrações, repulsões e apegos. Em nossas mentes e emoções comuns, somos produtos do tempo e do espaço. Somos apanhados no lugar, pessoa, forma e carma como o próprio alicerce de nossa realidade pessoal e social.

Não podemos ir além deste reino manifesto, a menos que primeiro reconheçamos o poder por trás dele. Não está ao nosso alcance ir além do reino em que existimos e do qual somos um produto. Somente o poder que nos criou pode fazer isso por nós. Portanto, a verdadeira questão, qual é o poder por trás do universo, por trás de nossos corpos e mentes e como podemos trabalhar com ele para alcançar o Último?

Shakti, a Deusa como o Poder de Brahman:

O verdadeiro poder por trás deste universo manifesto é Shakti ou a energia da Deusa, que é a força de expressão e manifestação de Brahman. Shakti ou o poder da criação controla tudo o que ocorre dentro de seu campo. O brâmane sem forma além da criação não tem nenhuma preocupação com este reino ou com qualquer coisa que façamos dentro dele. Ele não pode nos ajudar nem nos atrapalhar de forma alguma. Do seu ponto de vista, nunca houve nascimento ou morte, individual ou cosmos, escravidão ou libertação. Mesmo nossa busca de libertação não tem nenhum significado para ela.

Nossas vidas dependem inteiramente de Shakti, o que nos confere vitalidade, sentimento e consciência, através dos quais operamos em todos os níveis e podemos pôr em movimento tanto nossas ações externas quanto nossa sadana interior ou prática espiritual. Shakti controla toda a manifestação, assim como a eletricidade permite que todos os aparelhos funcionem. Ela governa sobre os processos de nascimento e morte e o carma do desdobramento. Ela fornece às nossas almas os corpos e mentes e os mundos nos quais experimentar a vida. Tudo o que comemos, respiramos, percebemos, sentimos ou conhecemos consiste em alguma porção de sua energia e um aspecto de Seus processos dinâmicos que nos cercam de todos os lados. Tudo o que buscamos adquirir para o sustento, felicidade, conhecimento ou crescimento faz parte dela e vem dela.

No entanto, Shakti também controla o caminho além da manifestação, o retorno ao Brahman. Mesmo para buscar o Brahman, para buscar o que está além de Shakti, devemos trabalhar com Shakti. Shakti nos proporciona o poder da meditação e a visão discriminadora através da qual podemos transcender o tempo e o espaço. Isto significa que o melhor meio para a realização espiritual e para alcançar todos os outros objetivos da vida é adorar Shakti, para trabalhar com e para a Deusa. Não existe outra maneira tão eficaz, se é que existe qualquer outra maneira. Se o Brahman é o objetivo, a Shakti é tanto o caminho quanto o poder de atravessá-lo. Podemos despertar e seguir sua corrente até Brahman, ou permanecer adormecidos e ser apanhados em suas correntes externas que se movem em diferentes direções.

Portanto, a questão não é Brahman, que está além de tudo, mas Shakti que se manifesta em todos os lugares. Shakti está ao nosso redor, piscando em tudo, quer reconheçamos Sua peça ou não. A questão é como ganhar a graça dessa Shakti – Como nos aliarmos às Shaktis certos para facilitar nosso desenvolvimento como uma alma.

Devemos reconhecer a primazia de Shakti, ou poucos, se algum de nós puder vir a Brahman, ou mesmo ganhar com sucesso os objetivos comuns da vida. Mesmo grandes Vedantistas adoraram primeiro Shakti, como no caso dos grandes ensinamentos do texto a Tripura Rahasya, ou tiveram que reconhecer Shakti eventualmente, como no caso de Tota Puri, o guru de Ramakrishna.

Tudo é controlado por Shakti. Shakti está intimamente ligada a todos os aspectos da vida dos quais dependemos, que nos atraem e mantêm a vida em andamento e desenvolvimento. Pense bem sobre isso. O nascimento, a reprodução e a sexualidade são tudo através de Shakti. Alimentação e nutrição são outro passatempo de Shakti. A respiração, a vida (Prana), a emoção e o sentimento são todos devidos a Shakti. Os grandes elementos da Terra, Água, Fogo, Ar e Éter são todas as formas de Shakti, que é sua energia subjacente. Os principais gunas de Sattva, Rajas e Tamas são as forças raízes de Shakti. Ou sucessos, ganhos, metas e realizações em qualquer esforço só são possíveis por causa de Shakti ou do poder de realizá-los com os quais temos sido capazes de descobrir como trabalhar.

Energia, ciência e tecnologia são meios de trabalhar com Shakti em um nível externo e transformaram nosso mundo. A mídia de massa é um jogo da Shakti no campo da comunicação, que derrubou barreiras de comunicação em todos os lugares. A própria Terra, com sua rica diversidade de vida, é Shakti em forma manifesta como a terra em que vivemos. As estrelas são os flashes da Shakti cósmica através da imensidão sem limites do espaço. Mesmo as partículas subatômicas estão vivas com poderosas forças sutis da Shakti, que formam o oceano ou matriz a partir da qual elas dançam para dentro e para fora.

Todas as coisas às quais estamos apegados ou envolvidos são formas da Shakti ou estão enraizadas na Shakti. O que amamos, buscamos ou desejamos é algum aspecto da Shakti que confere às formas cor, beleza, encanto e deleite. Não é o objeto, pessoa, lugar ou experiência em si que é a verdadeira fonte de nosso fascínio por elas, mas a energia, rasa ou essência, a Shakti trabalhando através dela. Estamos sob o fascínio da Shakti de uma forma ou de outra, quer reconheçamos ou não essa Shakti subjacente.

Não podemos ir além de nada, a menos que primeiro honremos a Shakti por trás dela, o que significa tocar sua energia central na consciência. Não se pode renunciar a nada pelo qual se sinta realmente atraído, por mais que se tente. Mas você pode reconhecer a Shakti por trás dela e, seguindo-a, ir além das limitações da forma, como a abelha que pode reunir o pólen e não se lembra da forma. A Shakti dentro de qualquer objeto ou experiência individual é, em última análise, a mesma Shakti dentro de todos.

Não podemos sair do reino da Shakti a menos que reconheçamos e honremos a Shakti, que está tanto neste reino como além dele – a menos que ela decida. Se ela não estiver disposta, nossos esforços serão em vão. Se ela estiver disposta, então seremos guiados ao longo do caminho e ela mesma nos conduzirá adiante. Podemos então simplesmente seguir seu fluxo e não precisamos calcular ou empurrar nosso caminho para frente, levados para frente por seu fluxo. No entanto, para que isso ocorra, devemos primeiro aprender a olhar para dentro de nós mesmos e descobrir o movimento mais profundo da Shakti. Isso descobriremos como nossa própria busca mais interior da verdade e da divindade.

Shakti como o Caminho e o Objetivo:

Shakti é o caminho para Deus ou Brahman. Mesmo que você só queira praticar Yoga, você deve despertar e honrar a Kundalini Shakti para levá-lo adiante. Se você é devoto a Deus ou à Deusa em qualquer forma, você deve ter aquela Shakti de devoção para levá-lo adiante. Para que qualquer yantra, puja ou mantra trabalhe, sua Shakti deve ser invocada primeiro a fim de lhe dar poder.

Mesmo que você seja totalmente dedicado à Autorrealização ou Jnana, isso só é possível através da graça de Shakti e seu poder de conhecimento, sua Buddhi Shakti através do qual a maior discriminação funciona. Sem que Shakti apoie seus esforços para a Autorrealização ou declarações de Autorrealização que você possa fazer, não terá energia, força ou convicção.

Nessa Shakti primordial não há dualidade entre o manifesto e o não-manifesto. É a mesma Shakti em suas modalidades ativa e inativa. Que Shakti detém o Brahman sem forma no mundo da forma, não limitando-o, mas como parte de seu transbordamento que é sua dança. Portanto, se um devoto adora Shakti para casa e felicidade ou para a maior libertação, é o mesmo movimento da Shakti em diferentes níveis e de diferentes maneiras.

Mesmo que você queira mudar o mundo através da ação política, você deve primeiro ganhar a Shakti ou o poder para fazê-lo. Se você quer ser um grande artista, você precisa da capacidade correspondente de Shakti, do poder e da habilidade na arte. Tudo tem sua chave Shakti, que contém não apenas a energia, mas o código de sua manifestação como o DNA, tanto sua motivação como a energia para realizá-la.

Portanto, durante as práticas espirituais que você escolher ou o que quer que você procure na vida que lhe trará paz e felicidade, não esqueça a primazia da Shakti e você nunca perderá seu caminho. O verdadeiro Shakti reunirá todas as Shaktis exteriores e o conduzirá ao seu objetivo interior.

Há duas formas principais de trabalhar com Shakti. A primeira é reconhecer as diferentes Shaktis no universo, externa e internamente, suas qualidades, energias e movimentos e como trabalhar com eles. Isto é como um médico aprendendo os poderes de cura em diferentes níveis, incluindo tanto os de diagnóstico como os de tratamento.

A segunda e mais simples maneira é simplesmente adorar Shakti diretamente, vendo a Shakti suprema em todas as coisas. Se alguém honrar a Shakti por trás de todas as Shaktis, então ganhará seu apoio, assim como aprenderá a entender suas formas específicas. No entanto, estes dois aspectos do trabalho com Shakti estão relacionados, ao aprender a descobrir a Shakti única em cada coisa, também se toca na Shakti suprema que está em toda parte.

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Fonte:

FRAWLEY, David. The Primacy of Shakti. Vedanet, 2017. Disponível em: <https://www.vedanet.com/the-primacy-of-shakti/>. Acesso em 11 de março de 2022.

COPYRIGHT (2017) American Institute of Vedic Studies.

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/yoga-fire/a-primazia-da-shakti/

A Pedra de Sangue

Shirlei Massapust

Segundo o geólogo Walter Schumann, heliotrópio é uma calcedônia opaca verde escura pontilhada de machas vermelhas: “Foram-lhe atribuídos, durante a Idade Média, poderes mágicos, porque as pequeninas manchas vermelhas eram consideradas gotas de sangue de Cristo”.[1]

Uma edição do Les Admirables Secrets D’Albert Le Grand (1703), livro mais conhecido como Grande Alberto, diz-nos que os padres se serviam do heliotrópio, importado de jazidas “na Etiópia, em Chipre e nas Índias”, para adivinhar e interpretar os oráculos e as respostas dos ídolos.[2] A homonímia da planta e da pedra conduziu à ideia do uso conjunto como ingrediente de fórmulas milagrosas:

Os caldeus chamam a primeira erva Ireos, os Gregos Mutichiol e os Latinos Eliotropium. Esta interpretação vem de Hélios, que significa o Sol, e de Tropos, que quer dizer “mudança”, porque esta erva vira-se para o Sol. Tem ela uma virtude admirável, se a colhermos no mês de agosto, quando o Sol está no signo do Leão, porque ninguém poderá falar mal, nem prejudicar com más palavras quem a trouxer consigo, envolvida numa folha de loureiro com um dente de lobo, pelo contrário, não se dirá dele senão bem. Além disso, quem a puser sob a cabeça, durante a noite, verá e conhecerá aqueles que poderiam vir roubá-lo. Mais ainda, se se puser esta erva, da maneira que acima se disse, numa igreja onde estejam mulheres, aquelas que tiverem violado a fidelidade prometida aos seus maridos não conseguirão sair se não a tirarem da igreja.[3]

A versão do personagem Rabino Hebognazar no manuscrito da Chave de Salomão (1890), compilado por Stanislas de Guaïta e François Ribadeau Dumas, ensina a produzir um anel astronômico com aro forjado numa liga de ferro e ouro e adorno superior contendo “um retalho de folha de Heliotropium europaeum, outro de Aconitum napellus, um pedacinho de pele de leão, outro de pele de lobo, um pouco de pluma de cisne e de abutre e, acima de tudo, um rubi lapidado”.[4]

O Grande Alberto atribui aos “antigos filósofos” a afirmação de que a pedra possui grandes virtudes quando associada com a planta homônima. A tradição sugere que a união do heliotrópio mineral com o vegetal produz “outra virtude muito maravilhosa sobre os olhos dos homens, que é a de suspender sua capacidade, vivacidade e penetração, e de cegá-los de forma a não poderem ver a quem os levam”.[5] Ou seja, a gema untada adquire a propriedade prodigiosa “de confundir os olhos das pessoas a ponto de tornar o usuário invisível”.[6]

Tal ideia deriva da mitologia grega, onde os artefatos de invisibilidade são propriedade dos deuses e titãs. Platão narra uma história fantástica sobre Giges, rei do Hindustão (c. 687-651 a.C.), que usou um anel de invisibilidade encontrado junto ao corpo de um gigante para assassinar o monarca anterior, Candaules, e desposar a viúva deste:

Era ele um pastor que servia em casa do que era então soberano da Lídia. Devido a uma grande tempestade e tremor de terra, rasgou-se o solo e abriu-se uma fenda no local onde ele apascentava o rebanho. Admirado ao ver tal coisa, desceu por lá e contemplou, entre outras maravilhas que para aí fantasiam, um cavalo de bronze, oco, com umas aberturas, espreitando através das quais viu lá dentro um cadáver, aparentemente maior do que um homem, e que não tinha mais nada senão um anel de ouro na mão. Arrancou-lhe e saiu. Ora, como os pastores se tivessem reunido, da maneira habitual, a fim de comunicarem ao rei, todos os meses, o que se dizia respeito aos rebanhos, Giges foi lá também, com o seu anel. Estando ele, pois, sentado no meio dos outros, deu por acaso uma volta ao engaste do anel para dentro, em direção à parte interna da mão, e, ao fazer isso, tornou-se invisível para os que estavam ao lado, os quais falavam dele como se se tivesse ido embora. Admirado, passou de novo a mão pelo anel e virou para fora o engaste. Assim que o fez, tornou-se visível. Tendo observado estes fatos, experimentou, a ver se o anel tinha aquele poder, e verificou que, se voltasse o engaste para dentro, se tornava invisível; se o voltasse para fora, ficava visível. Assim senhor de si, logo fez com que fosse um dos delegados que iam junto do rei. Uma vez lá chegado, seduziu a mulher do soberano, e com o auxílio dela, atacou-o e matou-o, e assim se assenhoreou do poder.[7]

O homem invisível pode agir livremente, conforme sua vontade, pois está protegido das reprimendas e comentários maldosos do vulgo. Henri Cornélio Agrippa (1486-1535) atribuiu a Alberto Magno e Willian de Paris o registro de crenças medievais, segundo as quais o Heliotropium europæum confere glória constante e boa reputação a quem o carrega. Francis Barret interpreta a afirmativa de que “quem a usar terá uma boa reputação, boa saúde e viverá muito tempo[8]”, concluindo que o porte da planta e/ou da pedra “faz do usuário uma pessoa segura, respeitável e famosa, e contribui para uma vida longa”.[9]

O mago envolto em brumas

O anel de heliotrópio não deveria funcionar exatamente como o hipotético anel de Giges. Aparentemente, ele deveria envolver seu possuidor em névoa… Na versão do Magus (1801), Francis Barret omitiu um efeito citado por Cornélio Agrippa (1486-1535), segundo o qual o heliotrópio “tem admirável virtude sobre os raios do sol, pois diz-se que os converte em sangue. Quer dizer, faz o sol aparecer como em um eclipse, se lhe unta com uma erva que leva o mesmo nome e o coloca em vaso cheio d’água”.[10]

Presumo que a pedra deveria ser fervida com suco de heliotrópio até que a água em ebulição produzisse uma nuvem de vapor suficientemente densa para filtrar os raios solares. Apesar de incompleta, a descrição mais extensa deste rito aparece no Grande Alberto:

Para fazer com que o Sol pareça cor de sangue deve-se usar a pedra que se chama Heliotrópio, que tem a cor verde e que se parece com a Esmeralda e é toda pintalgada como que de gotas de sangue. Todos os necromantes lhe chamam comumente a pedra preciosa de Babilônia; esta pedra, esfregada no suco de uma erva do mesmo nome, faz ver o Sol vermelho como sangue, da mesma maneira que num eclipse. A razão disto é que fazendo ferver água em grandes borbotões em forma de nuvens, ela espessa o ar que impede o Sol de ser visto como de costume. Contudo, isto não pode fazer-se sem dizer algumas palavras com certos caracteres de magia.[11]

Se as palavras e caracteres de magia forem padronizados com aquela outra tradição da Chave de Salomão, onde se utiliza a erva, as palavras consistem na invocação voltada para o ocidente “no dia e hora de marte” dos anjos “Michael, Cherub, Gargatel, Turiel, Tubiel, Bael, os Silfos Camael, Phaleg, Samael, Och, Anael”.[12] Estes caracteres de magia são gravados no halo do anel:

O que se publicou em todos os manuais de magia editados desde o fim do séc. XIX até meados do séc. XX, que tive a oportunidade de consultar, foram apenas cópias, muitas vezes incompletas, dos textos supracitados.

Por exemplo, Gérard Encausse (1865-1916) reproduz “um tratado muito curioso sobre pedras extraído de um livro sob os nomes de Evax e de Aaron”, igual aos tratados de Agripa e Kircher, adicionando-lhe a classificação das pedras “conforme as relações planetárias”.[13] A “pedra heliotrópio” foi relacionada com o Sol.[14]

Embora N.A. Molina conhecesse e recomendasse uma versão integral do Grande Alberto publicada “por um ocultista muito conhecido na Espanha e na América sob o nome de Mago Bruno[15]”, ele preferiu copiar a cópia imperfeita de Gérard Encausse com todos os seus rearranjos e omissões, conforme a tradução para português pré-existente, em seu Antigo Livro de São Cipriano.[16]

Anel de pedra heliotrópio em aro de prata forjado pelo meu finado amigo Afrânio, fazedor de joias e artigos de umbanda. Foi untado com extrato de heliotrópio.

O anel do vampiro

Waldo Vieira, fundador do Instituto Internacional de Projeciologia, autor de obras psicografadas junto com Chico Xavier, foi também um dos maiores colecionadores de gibis do Brasil. Em 1978 ele selecionou e forneceu a maioria das “histórias antológicas” publicadas pelo editor Otacílio D’Assunção Barros no número especial sobre vampiros da revista Spektro. É claro que o nível de informação nas entrelinhas subiu à estratosfera!

Um dos romances gráficos cuidadosamente seletos entre dez mil exemplares foi publicado pela primeira vez no Brasil em julho de 1954, no n º 44 de O Terror Negro. No enredo um personagem acerta uma lança no coração de um vampiro possuidor de um “anel com um morcego”.[17] Ataíde Brás incrementou o motivo num novo roteiro onde o vampiro Paolo coloca “um anel, com um morcego como enfeite” no dedo de sua amada e, imediatamente, “os caninos dela começam a crescer”.[18]

Parece que esta variante do mito surgiu de um equivoco. Todos os filmes da Hammer em que Christopher Lee interpretou Drácula terminaram com a morte do conde. O corpo, as roupas e até mesmo o castelo do nobre vampiro dissolviam-se, restando apenas um anel.  Ninguém sabia por que a joia escapava intacta nem qual era o seu significado. Todos os fãs queriam ter aquilo. Os mais crédulos desejavam que o suposto amuleto existisse e tivesse poderes mágicos.

Poucos conheciam a explicação de Christopher Lee sobre o valor emocional do apetrecho: O anel com aro de prata e pedra vermelha gravada com as iniciais B•L era mera réplica de outra joia enterrada no dedo do finado ator Bela Lugosi, que também interpretou Drácula, sendo usada pelo sucessor em sua memória.[19]

Enquanto durou a polêmica, Robert Amberlain afirmou ter encontrado manuais de feiticeiros alemães descrevendo a confecção de um anel especial:

Um Vampiro gravado na pedra heliotrópio transforma-a numa pedra de sangue. Ela dará a quem a transportar, segundo os ritos convenientes, o poder de comandar os demônios íncubos e súcubos. Ela assisti-lo-á nas suas conjurações e nas suas evocações.[20]

Juro pela alma de Nicolae Paduraru que não existe um manual de feitiçaria contendo semelhante rito ou que, se existe, é um livro particular que nunca foi editado, certamente escrito entre 1958 e 1978 por um feiticeiro fã de vampiros cinematográficos que achou que a descrição do mago envolto em brumas, no Grande Alberto, parecida com a do Conde Drácula virando névoa.

O jornalista fantástico Jean-Paul Bourre também procurou o tal livro e ouviu o seguinte quando entrevistou Vladimir S, membro da seita veneziana Ordem Verde:

Casanova foi encarcerado em Veneza, nas celas do palácio ducal. E sabem os motivos? Foi preso pela Santíssima Inquisição a seguir a uma denúncia em que foi acusado de magia negra. Manuzzi, espião dos inquisidores de Veneza, mandou apreender em sua casa os livros e manuscritos ocultos, entre os quais se contavam os seguintes: Clavículas de Salomão, as obras de Agrippa e o Livro de Abramelin o Mágico. Quais eram então as atividades ocultas do jovem veneziano? Ele afirmava, na sua correspondência, que não praticava a Cabala, mas a arte do Kab-Eli, isto é, a arte da “pedra do sol”. Esta pedra é nossa conhecida. É o heliotrópio (…), os nossos adeptos chamam-lhe “pedra de sangue”, uma vez que permite evocar os defuntos e originar o aparecimento dos vampiros. Outrora tinha também uma função medicinal ligada ao sangue: Ajudava a neutralizar as hemorragias.[21]

Essa estória vingou e se desenvolveu. De acordo com Robert Amberlain e Jean-Paul Bourre, usando isto se podia distinguir “os espectros, os manes e os Vampiros” quando o Sol aparecia vermelho por traz dos vapores. O anel mágico destinado às operações de vampirismo devia ter a pedra montada sobre prata (metal lunar, noturno), enquanto o anel de proteção seria forjado em ouro vermelho (símbolo solar, diurno).

Pela razão de que é verde (cor do astral ou do ‘mundo’ imediato dos mortos) e verde escura (os mortos maléficos), raiada de traços vermelhos (o sangue), esta pedra liga-se aos mistérios da morte, do vampirismo e do sangue. (…) Outrora era tida como capaz de parar as perdas de sangue, as hemorragias, e como proteção contra os venenos e mordeduras dos Vampiros.[22]

Robert Amberlain reconhece que quando se penetra no domínio da magia, penetra-se igualmente no da superstição. Então, “no caso de se tratar de uma seita votada ao vampirismo” os nobres afligidos pela seita poderiam ser enterrados com o anel contendo a “pedra do sangue” na crença de que ele protegeria o túmulo, os despojos e o “duplo” durante as saídas e materializações. “Imaginavam que o uso do anel maléfico lhes evitaria uma acidental e desastrosa exposição aos raios do Sol”.[23]

Jean-Paul Bourre incluiu a proteção contra “o aparecimento de caçadores de vampiros, a estaca aguçada e o fogo que podia destruir em poucos segundos o corpo do não morto”.[24] Como isso? O amuleto protege o vampiro causando a morte de quem quer que pise “dentro do perímetro mágico”. A sorte do homem que penetra na zona sagrada se assemelha a dum inseto caído numa teia de aranha. “Uma pequena e subtil vibração basta para que toda essa teia seja sacudida”. A aranha desperta e abocanha o intruso. “Sua lei é inexorável”.[25]

Fada do Heliotrópio, ilustração de Cicely Mary Barker (1895-1973), parte duma coleção de 168 fadas com plantas botanicamente corretas, no livro Flower Fairies of the Garden (1944).

Sangue de dragão

Existem lendas sobre uma pedra impossível cuja descrição parece remeter ao jaspe sanguíneo, chamado “sangue de dragão”, que só um exímio caçador de dragões consegue obter. O frade Rogério Bacon (1214-1292) escreveu o seguinte:

 

Sábios etíopes vieram à Itália, à Espanha, à França, à Grã Bretanha e essas terras cristãs onde existem bons dragões voadores. E, por uma arte oculta, que possuem, excitam os dragões a saírem das suas cavernas. E tem selas e freios já prontos, e montam esses dragões e fazem-nos voar a toda a velocidade pelos ares a fim de amolecerem a rigidez da sua carne (…) e quando desse modo amaciam esses dragões, tem a arte de preparar a sua carne (…) que utilizam contra os acidentes da velhice, para prolongarem a sua vida e subutilizarem a sua inteligência de maneira inconcebível. Porque nenhuma doutrina humana pode fornecer tanta sabedoria como o consumo da sua carne.[26]

Esse é o tipo de estória mirabolante na qual ninguém acredita, mas que todos gostam de ouvir. A temática faz boa parelha com uma instrução obscura do talvez contemporâneo livro do Grande Alberto:

Para vencer os inimigos deve usar-se a pedra Draconite, que se tira da cabeça do dragão; é boa e maravilhosa contra o veneno e a peçonha, e quem a usar no braço esquerdo sairá sempre vitorioso dos seus adversários.[27]

Estas são estórias para divertir crianças, embasadas na interpretação literal da lenda cristã onde São Jorge ou o arcanjo Miguel mata um dragão.

Em 1222, o National Council of Oxford decidiu organizar um grande festival em honra ao santo, no qual o dragão foi apresentado, à guisa de satânico adversário da verdadeira fé, para ser dominado e vencido pelo herói do dia. Por todos esses motivos foram inúmeras as histórias ligando São Jorge ao dragão, naqueles tempos. A mais popular entre todas foi, talvez, a que contou Jacques de Voragine, arcebispo de Gênova (de 1236-1898), em sua Lenda Dourada (…) Segundo essa lenda, houve uma vez, na Líbia, uma cidade chamada Selene. Todos os campos em seu redor tinham sido devastados por um monstro terrível, que somente era impedido de atacar e devastar a cidade pela oferta diária de dois gordos carneiros. Mas chegou um tempo em que não havia mais nem um só carneiro para apaziguar a fome do monstro, que imediatamente começou a aumentar sua devastação em torno da cidade. Por isso, diariamente, eram sorteadas duas crianças até a idade de quinze anos e as indicadas pela sorte eram oferecidas em sacrifício ao monstro. Um dia a sorte apontou a própria filha do rei, Cleodolinda. Imediatamente o soberano ofereceu tudo o que possuía ao cidadão que se apresentasse para substituir a infeliz. Porém todos recusaram e Cleodolinda foi abandonada, só, fora das muralhas de Selene, a fim de seguir o seu triste destino. Um tribuno do exército romano, Jorge da Capadócia, surgiu cavalgando um cavalo branco e, ao saber da triste história da jovem princesa, decidiu, imediatamente, sair ao encontro do dragão, em nome de Jesus Cristo, a fim de matar a fera ou morrer nessa empresa.

 

O monstro se atirou contra o cavalheiro e tremenda luta se seguiu, até que Jorge, com ousadia e perícia sem par, varou o dragão com sua espada. Porém a fera não morreu imediatamente e Jorge disse a Cleodolinda que passasse seu próprio cinto em redor do pescoço do monstro, a fim de o conduzir em triunfo até a cidade. Ela assim fez e o monstro seguiu-a submisso. À chegada do estranho grupo, o povo, cheio de terror, tratou de fugir. Porém, Jorge a todos serenou e, depois de os ter reunido na praça principal, degolou o dragão. Foram necessários quatro juntas de bois para arrastar para fora da cidade a imensa carcaça.

 

O rei, a rainha, Cleodolinda e vinte mil cidadãos abraçaram o cristianismo. O rei ofereceu a Jorge a mão de sua filha em casamento. Porém o santo herói, cortesmente, declinou essa proposta e, após recomendar ao rei que honrasse a religião e amasse aos pobres, beijou-o nas duas faces e continuou viagem.[28]

Quanta imaginação para dizer que nem uma princesa virgem, nem um reino inteiro valem a quebra de um voto de castidade de um santo católico!

Pedrarias genéricas

A cultura da desinformação aconselha os brasileiros a nacionalizar toda e qualquer coisa pela substituição do antigo pelo novo, do raro pelo disponível, da economia pela ostentação. Em meados do século XX um famoso autor brasileiro – que eu me absterei de identificar pelo nome – aconselhou seu público alvo, os mandingueiros, a empapar seus objetos de uso pessoal com Helianthus annuus, óleo de girassol, ao invés de extrato perfumado de Heliotropium europaeum, de fragrância agradável e duradoura, que custava seis reais o frasco.

Na virada do milênio um quilo de pedra heliotrópio custava cinco centavos de dólar no atacado, no Rio de Janeiro. Mesmo assim faltava no estoque das lojas revendedoras onde pseudo-especialistas nos ofereciam o conteúdo da caixa etiquetada “bloodstone” que poderia conter jaspe sanguíneo, hematita e até mesmo pedra imã.

Eu tive de insistir e pagar adiantado pela lapidação de um heliotrópio, pois o especialista em produção de artigos para terapeutas alternativos relutou a crer que uma mulher pudesse preferir uma pedra barata a um rubi-zoisita. Algo parecido ocorreu algumas vezes no passado. Hebognazar intercambia heliotrópio e rubi em sua Chave de Salomão. Por que trocar um pelo outro? Naquela época o herói da mineralogia George Frederick Kunz (1856-1932) ainda não havia nascido nem catalogado um batalhão de pedras mágicas de baixo custo para a alegria do povo e felicidade geral da nação.

Sem ninguém para explicar aos soberbos que gosto não se discute pareceria um desperdício gastar um aro de ouro ou prata para equipar uma pedra adquirida ao custo de poucas moedas numa barraquinha de camelô. Uns e outros pensariam ser mais adequado portar uma gema digna de ser comercializada numa joalheria que fornece certificado de origem. O problema é que a troca prejudica a lógica ritualística pondo a perder a relação de homonímia entre erva e pedra, onde o semelhante reage com o semelhante.

Notas:

[1] SCHUMANN, Walter. Gemas do Mundo. Trad. Rui Ribeiro Franco e Mario Del Rey. Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, p 128.

[2] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[3] HUSSON, Bernard (org). Obra citada, p 149-150.

[4] CLAVÍCVLAS DE SALOMON: Libro de Conjuros y Fórmulas Mágicas. Trad. Jorge Guerra. Barcelona, Editorial Humanitas, 1992, p 93 do fac simile.

[5] AGRIPPA, Cornélio. La Filosofia Oculta: Tratado de magia y ocultismo. Trad. Hector V. Morel. Buenos Aires, Kier, 1998, p 42.

[6] BARRET, Francis. Magus: Tratado completo de alquimia e filosofia oculta. Trad. Júlia Bárány. São Paulo, Mercuryo, 1994, p 60.

[7] PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1996, p 56-57.

[8] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[9] BARRET, Francis. Obra citada, p 60-61.

[10] AGRIPPA, Cornélio. Obra citada, p 42.

[11] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trad. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 163.

[12] CLAVICULAS DE SALOMON (1641). Barcelona, Humanitas, 1997, p 93 do fac simile.

[13] PAPUS. Tratado Elementar de Magia Prática. Trad. E. P. São Paulo, Pensamento, 1978, p 232-233.

[14] PAPUS. Obra citada, p 235.

[15] MOLINA, N. A. Nostradamus – A Magia Branca e a Magia Negra. Rio de Janeiro, Espiritualista, p 63 e 76.

[16] MOLINA, N. A. Antigo Livro de São Cipriano: O gigante e verdadeiro capa de aço. Rio de Janeiro, Espiritualista, p 131-135.

[17] A VILA DO VAMPIRO. Em: SPEKTRO: Especial dos vampiros. Rio de Janeiro, Vecchi, março de 1978, nº 5, p 82.

[18] BRAZ, Ataíde (roteiro) e KUSSUMOTO, Roberto (desenho).  A Noite da Vingança. Em: SPEKTRO: Especial dos vampiros. Rio de Janeiro, Vecchi, março de 1978, nº 5, p 68.

[19] AS VÁRIAS FACES DE CHRISTOPHER LEE. Brasil, Dark Side, 1996, DVD.

[20] AMBERLAIN, Robert. O Vampirismo. Trad. Ana Silva e Brito. Lisboa, Livraria Bertrand, 1978, p 213.

[21] BOURRE, Jean-Paul. O Culto do Vampiro. Trad. Cristina Neves. Portugal, Europa-América, p 137.

[22] AMBERLAIN, Robert. Obra citada, p 213.

[23] AMBERLAIN, Robert. Obra citada, p 214.

[24] BOURRE, Jean-Paul. Os Vampiros. Trad. Margarida Horta. Portugal, Europa-América, 1986, p 133.

[25] BOURRE, Jean-Paul. Idem, p 133-134.

[26] BACON, Rogério. Opus Majus: Vol. II. Oxford, J. H. Bridges, 1873, p 211. Em: HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 75.

[27] HUSSON, Bernard (org). O Grande e o Pequeno Alberto. Trd. Raquel Silva. Lisboa, Edições 70, 1970, p 167.

[28] SÃO JORGE: HISTÓRIA, TRADIÇÃO E LENDA. Em: EU SEI TUDO, nº 11. Abril de 1954, p 16-18.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/a-pedra-de-sangue/

A visão oculta ou condicionada das espaçonaves

trecho de Uri Geller – Um fenomeno da Parapsicologia

Às seis horas da tarde do dia 2 de dezembro , Uri e eu ( Andrija Puharich ) chegamos ao setor militar do aeroporto de Lod , a caminho da apresentação de Uri no Deserto do Sinai. Uri já me informara que somente o pessoal já verificado pelo Exército de Israel tinha permissão para ir à zona de guerra no Sinai . Mandou que eu me sentasse a um canto do aeroporto e ficasse  calado, enquanto ele tentava conseguir que eu embarcasse. Falou primeiro com o militar que distribuia as passagens aéreas , mas o homem recusou-se a conceder-me uma passagem , pois eu não tinha os documentos necessários. Uri foi então falar com o sargento Aaron , que também se recusou a entregar-me uma passagem , por falta dos documentos necessários . Meia hora depois, Uri provocava o maior tumulto no aeroporto , insistindo  que se eu, seu amigo , não pudesse ir para o Sinai , haveria graves repercussões internacionais. No fundo , eu sabia que, se tivesse mesmo de ir , algum milagre terminaria acontecendo e permitiriam a minha viagem . Por volta das sete horas da noite , com o avião já pronto para partir , Uri inesperadamente obteve a permissão para  que eu embarcasse . Até hoje não sabemos como e nem por que a permissão foi concedida. Ambos tínhamos nos rostos sorrisos largos de satisfação quando o Viscount decolou , levando-nos para alguma base aérea desconhecida no meio do Deserto do Sinai. Trinta e cinco minutos depois de partirmos de Tel Aviv , o piloto recebeu pelo rádio a comunicação de que eu já fora verificado e não apresentava riscos à segurança militar.

Aterrisamos no meio do deserto frio e varrido pelo vento , numa pista sem qualquer prédio. Vários caminhões , foram ao encontro do avião quando este parou e um oficial apressou-se em dar as boas-vindas a Uri. O oficial prontamente informou que alguns comandos egipcios  haviam-se infiltrado na região e que ali estavam em estado de alerta de batalha . Em seguida , ele transmitiu as senhas para a noite . Estavamos em plena zona de guerra.

Depois de uma viagem com muitos solavancos e um frio enregelante , chegamos a um acampamento militar , indo comer numa barraca-refeitório . Enquanto comíamos , fomos cercados por oficiais e soldados , todos demonstando uma inabalável admiração por Uri. Ali, na frente de combate , não mais existia a reserva típica da vida civil normal de Israel . Todos estavam alertas , presas de excitação nervosa . Não existia nenhuma distancia discernivel entre oficiais e os soldados rasos . O grande motivo de excitação não era o fato de os comandos egipcios estarem à espreita na escuridão e sim a apresentação de Uri , marcada para as onze horas daquela noite . Como americano , fiquei fascinado por aquele espirito jovial.

Uri desviou um pouco a atenção geral para o espetaculo , pedindo primeiro e depois exigindo que lhe cedesse um jipe . Insisitiu em que deveria embrenhar-se imediatamente no deserto  . . .  e sózinho. Os oficiais fizeram todo o possivel para dissuadir Uri de internar-se no deserto de jipe durante a noite . Insistiram em que era por demais perigoso , mas se Uri precisava mesmo ir , tinha que ser acompanhado por uma escolta de guardas fortemente armados. Finalmente chegou-se a um acordo de meio-termo. Uri e eu teríamos o jipe , com um motorista e um soldado fortemente armados . Se o motorista ou o soldado sentissem qualquer perigo, teríamos que nos conformar com as ordens deles. Uri aceitou e saímos para anoite fria do deserto , à espera do jipe . O motorista disse que ele e o guarda teriam que dar uma parada em uma barraca , a fim de pegarem um rifle e uma metralhadora.

Paramos diante da barraca e o motorista permaneceu no jipe com Uri e comigo , enquanto o outro soldado se afastava para buscar as armas . Quando ele voltou , notei que estava com a cabeça descoberta . Achei aquilo muito estranho. Se havia tanto perigo assim, por que ele não estava usando um capacete de aço?

Exatamente as nove horas da noite passamos pelas sentinelas à entrada do acampamento. Todos nós, à exceção de Avram , o jovem soldado , afivelamos os nossos capacetes e o jipe partiu pelo deserto afora. Eu não tinha a menor idéia do ponto do Sinai em que estavamos nem da direção dos pontos cardeais. Minha desorientação era tamanha que era como se eu estivesse na Lua.
Às 9:02 , Uri inclinou-se na minha direção , no escuro , e sussurou :

—    Estou recebendo uma mensagem . . . Trinta K . . .  O que será que isso significa ? Trinta K . . .  Ah. agora entendo !  Trinta
kilometros . Devemos seguir por trinta kilometros para sermos encontrados pela luz vermelha.

Ficamos olhando para o velocimetro . Cada vez que chegavamos a uma bifurcação ou cruzamento da estrada, Uri insistia em que eu tomasse a decisão sobre se deveriamos virar à esquerda ou à direita. As minhas decisões foram exclusivamente ao acaso..

Uri tornou a sussurrar , pouco depois :

—    Nosso mestre disse que vai aparecer-nos sob a forma de uma luz vermelha, parecida com um OVNI.

Agora eu finalmente sabia por que Uri quisera que eu o acompanhasse ao Deserto do Sinai . Àquela altura eu já localizara as constelações e as estrelas no céu , o que proporcionou a indicação dos pontos cardeais da bússola.

A nossa excitação foi aumentando à medida que o velocimetro se aproximava da marca dos trinta quilometros percorridos . No momento em que ele passou de 29 para 30 , localizei uma luz vermelha no céu , a noroeste , a cerca de 18 graus acima do horizonte . Sem dizer uma palavra , apontei-a para Uri . Ele a rejeitou , dizendo :

—    É apenas a luz de uma antena de rádio.

Mas logo ele ordenou ao motorista que parasse , virando-o antes , para que os faróis  ficassem na direção da luz vermelha. Nós dois saltamos do jipe e o motorista e o soldado nos seguiram , para vigiar-nos. Nem Uri , nm eu dissemos uma só palavra . Fomos olhar a luz vermelha de um ponto a trinta metros da estrada.

        Uri não parava de murmurar!

—    Não pode ser a nossa luz vermelha !

Tirei uma moeda americana do bolso e, segurando-a na ponta dos dedos , estendi-a para a frente , calculando então que a luz devia ter dez vezes o diametro da mais brilhante estrela do céu , suando assim a técnica bastante conhecida dos observadores das estrelas. A luz vermelha estava imóvel no céu , acima do pico de uma montanha . Mais tarde identifiquei-a como o Monte Ugrat El Ayadi , de 1.791 metros de altura . Como a noite estava bastante clara , logo pudemos perceber , sem a menor sombra de dúvida , que não havia nenhuma antena de rádio por baixo da luz , abandonando assim essa possibilidade. A qualidade da luz é que me estava deixando intrigado . Era da cor de um vinho clarete . Não cintilava , nem faiscava como as estrelas Pareceu-me que se podia olhar dentro dela e através dela, como seolhasse para um olho humano.

Uri e eu chegamos então à conclusão de que estavamos sofrendo uma alucinação. Pedi a Uri que fosse falar com o motorista e com o outro soldado, apontasse-lhe a luz e indagasse  se estavam vendo a mesma coisa que nós . Uri dirigiu-se a eles e falou-lhes em hebraico , já que nenhum dos dois sabia falar inglês. Voltou poucos minutos depois e relatou-me a sequencia do episódio.

Aproximando-se dos dois homens e, apontando-lhes a luz vermelha , perguntara o que estavam vendo . Eles disseram que estavam vendo os contrornos de uma monyanha . Uri disse:

—    Não é à montanha que me estou referindo e sim ao que está acima dela.

—    Estrelas , apenas estrelas.

—    Mas não existe uma antena de rádio naquela montanha?

—    Ao que saibamos , não.

—    Pois eu era capaz de jurar que vi uma luz vermelha em cima daquela montanha.

Uri dissera essas palavras olhando diretamente para a luz vermelha . Eles tornaram a fitar a monyanha , afirmando em seguida:

—    Não há nenhuma torre, nem luz vermelha alguma.

Depois desse relato , Uri comentou para mim:

—    Eles não vêem o que nós vemos.

—    Então eu e voce devemos estar imaginando a luz vermelha, pois queremos ver realizados os nossos desejos

Um pouco desanimado , Uri disse:

—    Há um dia que estou sendo compelido a traze-lo para o Sinai . Consigo fazê-lo e agora nem mesmo sabemos o que estamos
vendo .

Ficamos parados na quietude da noite fria , mirando o que agora parecia um olho humano no céu juncado de estrelas. Como poderiamos ter certeza daquela experiencia ?
Uri rompeu o silencio:

—    Depressa, afaste-se cinco passos para a esquerda!

Cobri essa distancia e olhei ao redor. Nada . Meu pé tocou então em algo macio . Abaixei-me para pegar. Era um gorro de faxineiro militar . Mostrei-o a Uri.

—    Mas é isso !   —   exclamou ele.    — Esse é o sinal!

—    O que está querendo dizer com isso?   —   repliquei , aborrecido.   —   É apenas um gorro de soldado que deve ter voador da
cabeça de alguém que passava de jipe por aqui.

—    Não , não ! É um sinal! Leve-o!

Relutantemente , dobrei o gorro e enfiei-o no bolso . Eu não podia entender por que Uri estava dando  uma importancia tão grande àquele trapo. Ficamos parados ali por mais dez minutos , olhando para a luz vermelha no céu, que agora parecia estar assumindo a forma de um disco arredondado . A luminosidade vermelha parecia atrair meu olhar para dentro dela e através . Mas eu absolutamente não sabia o que estava vendo , nem tampouco se estava realmente vendo alguma coisa . Comecei a sentir frio e Uri e eu voltamos para o jipe.

Uri tentou mais uma vez arrancar uma resposta dos dois soldados sobre a luz vermelha , mas eles simplesmente não a viam . Lamentei que as câmaras fotográficas fossem proibidas naquela zona de guerra . Uma unica chapa , com longa exposição , teria resolvido todas as nossas duvidas . Subimos no jipe . Com o vento soprando , estava agora mais frio ainda . Tirei o meu capacete de aço e distraidamente coloquei na cabeça o gorro de soldado que encontrara no meio do deserto. Achava-me sentado na frente , ao lado de Avram , que estava agora dirigindo. A luz vermelha ainda estav no céu , `a nossa esquerda , e inclinei-me na direção do motorista para vê-la melhor . Uri e eu pudemos perceber que a luz vermelha estava se deslocando no céu, seguindo-nos. Mas os dois soldados, embora olhando na mesma direção que nós , nada consegfuiram ver. Subitamente  Avram acendeu a luz interna para examinar mapas e olhou atentamente para o gorro que eu estava usando:

—    Onde pegou meu gorro?    —    perguntou ele, finalmente , aturdido.

Começou então a falar em hebraico , excitado , informando que , ao entrar na barraca para pegar as armas , deixara o gorro em cima de seu catre . Agora eu o estava usando . Podia-se facilmente comprovar que era o dele , ois escrevera seu nome na pala. Ele queria saber qual o truque que eu usara para apanhar o gorro , já que , em nenhum momento , eu me afastara das suas vistas . Uri tentou explicar , em hebraico , que na verdade encontraramos o gorro no lugar do deserto em que haviamos parado . nenhum dos dois quis aceitar tal explicação

Enquanto os três discutiam em hebraico sobre o “truque”, concentrei-me em meus pensamentos . Eu já tivera provas de que Uri podia fazer um objeto desaparecer  e depois reaparecer . Assim , era possivel que o gorro de Avran tivesse desaparecido do acampamento em decorrencia da mesma força, aparecendo depois a nossos pés no deserto. Mas Uri já me dissera que não “desejara” tal ocorrencia . Ele apenas sentia uma mensagem para “procurar alguma coisa” . Uri estivera obsecado com a idéia de levar-e para o deserto.

Por que Uri e eu tínhamos visto a luz vermelha e os soldados não ?  Estariam nossas mentes sendo controladas ? Aquela luz vermelha teria alguma coisa a ver com a voz que ouviramos ? E o que seria aquela voz? Se havia mentes sendo controladas , seriam as nossas ou as dos soldados? E a voz seria um fragmento da mente de Uri? Um espirito? Um deus? Teria a voz alguma relação com os Noves , que haviam entrado em contato comigo tantos anos atrás? A luz verelha que seguia  o nosso jipe parecia ser agora totalmente diferente da luz que eu vira no céu em Ossining , no Estado de Nova York , em 1963 , e no Brasil , em 1968.

Minha mente recordou o que eu lera a respeito do profeta Maomé e de sua experiencia com uma “estrela” , naqueles mesmos desertos . Antes que Deus lhe aparecesse , Maomé tinha o habito de retirar-se durante um mês , todos os anos , para meditar no Monte Hira . Ali ele “vira” uma estrela descer em sua direção . Sobre essa experiencia , o Alcorão diz o seguinte:

Quando a estrela desceu , seu irmão não ficou assustado . Ela estava no horizonte mais alto e depois desceu e ficou suspensa.

Mas depois dessa primeira visita da estrela , o Profeta teve que esperar três anos antes que ela voltasse. A estrela de Maomé teria alguma relação com a que eu estava vendo agora? Será que eu tornaria a vê-la Ao entrarmos de volta no acampamento , a luz vermelha simplesmente sumiu.

No dia 3 de janeiro de 1972, Uri tinha uma apresentação marcada num teatro em Yerucha , que fica a sudeste de Beersheba,. Saímos de tel Aviv às 6:55 da tarde e seguimos para o sul , pela estrada de Rehovot . Ao passarmos pela plava na estrada que apontava para o Centro de Pesquisas Nucleares Sorek , nós três , Uri , Ila e eu , vimos uma gigantesca estrela vermelha a oeste. Na verdade , se não soubessemos sobre as espaçonaves , terímaos pensando que se tratava apenas de uma estrela.

Uri parou o carro no acostamento . Saímos do carro , pisando na lama , para olhar.  A estrela vermelha desaparecera . A cerca de mil metros de distância , numa elevação de vinte graus , estava outra luz vermelha, com cerca de noventa metros de comprimento . Outra luz vermelha a seguia , a cerca de cem metros para a direita . Olhei para o meu relógio; a cerca de cem metros para a direita . Olhei para o meu relógio ; eram 7:15 da noite. Uri fitou atentamente a luz vermelha e disse abruptamente:

—    Vamos sair daqui!

Ele saiu , seguindo em alta velocidade. Víamos agora dezenas de luzes e naves no céu . mas Uri não queria parar para observa-las, continuando a seguir em frente a toda velocidade. tentarei descrever da melhor forma possivel o que testemunhamos naquela noite . Às 7:23 apareceu à nossa frente  uma estrela brilhante , que estava apenas a duzentos metros acima da estrada , mantendo-se sempre cerca de quatrocentos metros à nossa frente. Essa estrela cintilava em sequencia de cores vermelho , azul amarelo , verde , etc . Essa “cintilação” durou até 7:26.

Às 7:40 . quando nos aproximávamos de Kiryat Gat , duas luzes amarelas surgiram a oeste . Essas logo se apagaram e
apareceram tres chamas alaranjadas , exatamente como as sete que eu vira na noite anterior . Estavam a menos de um quilometro de distancia e iluminaram todo campo. Os pilares de fumaça ergueram-se dessas chamas cor de laranja , que não atingiram o solo , mas ficaram pairando no ar . Eu não pude deixar de pensar no Pilar de Fogo , que guiara os israelenses no Sinai , durante o Êxodo .

Às 7:41 a lua cheia ergueu-se por cima das colinas a leste . Ao sul da lua cheia , pudemos distinguir nitidamente quatro luzes vermelhas , em formato de disco , deslocando-se lentamente para sudeste . Uma delas logo se apagou e as outras três continuaram por mais essas quatros luzes vermelhas , surgiu uma espetacular espaçonave . Era gigantesca , tendo pelo menos mil metros de comprimento . Era circular e adernava um pouco , de forma que podíamos ver o seu lado. De uma extremidade a outra havia ali o que a principio nos pareceu serem vigias , mas que depois verificamos serem luzes que apenas se assemelhavam a vigias. Aqueles clarões iluminavam toda extensão da nave com cores que abrangiam todo o espectro da luz . A espaçonave passou a menos de um quilometro , a leste seguindo para o norte , tão brilhantes  as suas luzes que iluminavam todo o campo lá embaixo.

Havia outros carros na estrada , seguindo na mesma direção que nós e em sentido contrário. Nós três logo compreendemos que nenhum dos outros motoristas estava vendo as mesmas coisas que nós. Eu sabia , de experiencia anteriores , que aquela exibição era “para os nossos olhos apenas”. O que eu não podia compreender era por que os outros não podiam ver o mesmo que nós , quando as chamas e a espaçonave iluminavam tão feericamente todo o campo . De vez em quando , também a estrada à nossa frente ficava iluminada . Enquanto a gigantesca espaçonave deslizava silenciosamente para o norte, surgiu diretamente à nossa frente , a cerca de duzentos metros  de distancia , uma brilhante bola amarela incandescente . Veio em nossa direção , se fazer barulho algum , explodindo então ao lado do carro. À  direita da estrada , dois clarões amarelos estavam acompanhando o nosso progresso pela estrada . Eles também despreendiam fumaça. Por trás , surgiram duas chamas. Então outra bola incandescente veio do leste da estrada e explodiu acima de nós . Tudo isso acontecia no mais absoluto silêncio e não havia no ar nenhum cheiro de substancia queimada . A exibiçãoera realmente pavorosa , pois cada chama parecia mover-se de acordo com os movimentos do
nosso carro.

E de repente , nos dois lados da estrada , chamas amarelas lampejaram por uns poucos segundos , como olhos gigantescos a nos piscarem. Nos 35 minutos seguintes estivemos cercados , por cima , à direita e à esquerda , por essas chamas a despreenderem fumaça   —   chamas amarelas, douradas , vermelhas , de todos os tons possiveis. Eu não conseguia olhar para todas aquelas luzes ao mesmo tempo.

Às 8:25 apareceram duas chamas vermelhas à nossa direita , na direção noroeste . Seguiram-nos como dois olhos vermelhos , a respeitosa distancia , sempre escondendo o horizonte  Ao se deslocarem , iluminavam os campos e os bosques lá embaixo , com uma claridade intensa.  Foi ainda mais surpreendente porque nos seguiam até a cidade de Beersheba , pairando acima dos telhados  iluminando-os com um clarão vermelho . Foi uma experiencia incrivel , ter aquele par de olhos a seguir-nos até Dimona.

Em Dimona , pegamos um soldado que estava pedindo carona e ia para Yerucham . Assim que o pegamos , as luzes sumiram e não foram mais vistas naquela noite . Estavamos tão excitados com o que víramos que Uri mal conseguia concentrar-se em sua apresentação . mas acabou por se exibir muit bem , como sempre , demonstrando telepatia, consertando relógios e entortando metais. A viagem de volta a Tel Aviv durou de meia-noite às duas e meia da madrugada Não vimos uma unica luz . Não tínhamos a menor  dúvida de que víramos pelo menos uma gigantesca espaçonave naquela noite . Víramos  também dezenas de chamas coloridas, que nos haviam seguido com uma fidelidade animal . Os sete pilares de fumaça que eu vira  na noite anterior eram apenas precursores do espetaculo que nos fora proporcionado naquela noite . Permanecia , porém , o mistério  do motivo pelo qual ninguém mais o via o que presenciávamos tão nitidamente . Eu nem mesmo tentei filmar , sabendo perfeitamente que minha câmara ficaria emperrada . Verificamos nos jornais no dia seguinte. Não havia qualquer noticia a respeito de estranhas luzes no céu
, como as que víramos . Se o que víramos fora uma alucinação , então fora uma linda viagem espacial para nós três!

A noite seguinte foi 4 de janeiro. Uri tinha outra apresentação marcada nas proximidades de Beersheba , numa cidadezinha chamada Ofakim  . Saímos de Tel Aviv pela mesma estrada que seguíramos na noite anterior . No carro  estavam Uri, Íris , Ila e eu . Ao passarmos pelo Centro de Pesquisas Nucleares Sorek , vimos a primeira luz vermelha no céu , deslocando-se lentamente para oeste , numa rota senoidal . Não quero cansar o leitor , por isso digo-lhe apenas que todos nós vimos a repetição do espetaculo da noite anterior .  Vimos a gigantesca espaçonaves com as suas luzes multicoloridas , as chamas , as explosões , sendo sempre seguidos por aqueles olhos na nite. E novamente ninguém mais , além de nós , pareceu estar vendo aquele fantástico espetáculo .

Chegamos a Ofakim , onde Uri iria apresentar-se num teatro moderno e muito bonito . Para variar , fazia uma noite quente , das mais agradaveis Resolvi permanecer do lado de fora do teatro , ficando de olho no céu para novas exibições de luzes. Pelo sistema de alto-falantes do teatro , fui informado do momento exato em que Uri começou sua apresentação . Quando Uri pôs-se a falar , eu e Ila vims uma luz vermelha e uma espaçonave aproximarem-se de Ofakim , vndo do leste . Baixaram de altitude ao chegarem à cidade e foram pousar um pouco mais além , fora do alcance de nossa visão , escondidas por alguns prédios , a cerca de um quilometro de distancia . Fiquei olhando para a ärea em que a luz vermelha e a espaçonave haviam ficado invisiveis , durante todo o tempo em que Uri se exibiu. Quando Uri acabou sua apresentação , a luz vermelha e a espaçonave   ergueram-se de seu esconderijo  e seguiram para leste.

Na quarta feira, 5 de janeiro , Ila saiu para a varanda do quarto 1101 do Hotel Sharon logo depois do pôr do sol , em torno de 5:20 da tarde . Subitamente ela chamou , em pânico . Fui ao seu encontro. Vinda do sul , voando baixo sobre a Rodovia Tel Aviv – Haifa , lá estava uma gigantesca espaçonave . Tinha uma luz branca na frente e outra atrás . Entre essas duas luzes havia um casco escuro, talvez com cem metros de comprimento . Estava a uns 600 metros a leste de nós , deslocando-se a cerca de 500 quilometros horários. Era uma visão magnifica ver aquela nave sobrevoar Israel desafiadoramente , vista provavelmente só por nós.

Naquela mesma noite , Uri tinha outra exibição ao sul de Beersheba . Quando passávamos ao sul de Rishon Le Zion , às 8:40 , Uri parou o carro para mostrar uma espaçonave a Iris , Ila e a mim. Foi a performance  mais espetacular que já presenciei até hoje . A espaçonave  estava bem alta no céu e muito distante  de nós . Estava um pouco acima do cinturão do Caçador , na Constelação de Orion . Não podiamos calcular a que distancia se achava , pois parecia estar no espaço exterior, no campo estrelado . Qualquer que fosse a distancia, pudemos ver que era um gigantesco disco a girar , com uma luz vermelha em cada extremidade . E o mais espetacular é que estava efetuando manobras complicadas. Primeiro moveu-se de lado, em circulos , depois para trás , descrevendo imagens complexas , circulos , rodopios . Então começou a oscilar , em movimentos laterais . Parecia estar escrevendo coisas no céu , mas nenhum de nós conseguiu ler nada.

Pensei em filmar a cena , mas Uri dissuadiu-me   —   aquilo era sagrado, disse ele. A observação daquela espaçonave produziu um efeito tranquilizante em todos nós. Pessoalmente , fez com que eu me senti-se muito pequeno e sózinho no universo. A exibição durou quatro minutos pelo relógio , mas para mim pareceu uma eternidade.

Nas proximidades de Ashqelon , perdemos o caminho numa estrada secundária, às 9:35 . E lá nos apareceu uma pequena
espaçonave , em forma  de disco , com uma luz vermelha e outra verde. Tudo se fundiu numa unica luz vermelha , que assumiu uma posição acima e à frente do nosso carro. Seguiamos essa luz e ela nos induziu por um labirinto de estradas secundárias. Ao chegarmos novamente à estrada principal , a luz desapareceu.

A apresentação de Uri foi um sucesso estrondoso. Ao voltarmos para Tel Aviv , não vimos luzes nem espaçonaves no céu .

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-visao-oculta-ou-condicionada-das-espaconaves/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/ufologia/a-visao-oculta-ou-condicionada-das-espaconaves/

A História da Ordem dos Cavaleiros Templários

Por Spartakus FreeMann.

A História da Ordem
Organização do Templo
A vida no Templo
Lista dos Grão-Mestres
Símbolos e História oculta
Dante e os Templários
Godfrey de Bouillon e a Ordem do Priorado de Sião
Relação com as comunidades muçulmanas e gnósticas

História

 Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão.

Em 1097, a primeira cruzada liderada por Godfrey de Bouillon, Robert de Flandres e Bohémon de Tarento é lançada pelo Papa Urbano II.

Em 1099, Jerusalém foi tomada. Godfrey, não se sentindo digno de usar uma coroa na cidade onde Cristo foi crucificado, tomou o título de “Protetor do Santo Sepulcro”.

Em 1100, a morte de Godfrey de Bouillon, Baudoin de Boulogne, seu irmão, foi coroado Rei de Jerusalém.

Em 1118, Baudoin II foi coroado Rei de Jerusalém. Nesse mesmo ano, nove cavaleiros franceses, liderados por Hugues de Payens, chegaram a Jerusalém, onde se apresentaram a Baldwin II. Eles foram recebidos no recinto do Templo do Rei Salomão. Os cânones do Santo Sepulcro foram movidos para a ocasião. Antes do Patriarca de Jerusalém (Garimond) eles fizeram os três votos de pobreza, castidade e obediência e seguiram a regra de Santo Agostinho. A origem de Hugues de Payens levantou muitas controvérsias entre os historiadores. Nada se sabe sobre isso, exceto que ele provavelmente veio da região de Champagne. O personagem deve ser de alguma importância, pois seu nome aparece em duas cartas de Hugh de Troyes. O vilarejo cujo nome ele leva está localizado a cerca de dez quilômetros de Troyes.

“… O rei, os cavaleiros e o senhor patriarca, cheios de compaixão por esses homens nobres que haviam desistido de tudo por Cristo, apoiaram-nos com seus próprios recursos e posteriormente lhes conferiram… alguns benefícios e algumas propriedades. Como eles ainda não tinham uma igreja própria, nem uma residência fixa, o rei senhor lhes concedeu uma pequena moradia por um tempo em uma parte de seu palácio, perto do templo do Senhor… eles foram posteriormente chamados de Cavaleiros do Templo Irmãos”.

 Jacques de Vitry

 Em 27 de dezembro de 1118, dia de São João Evangelista, estes nove cavaleiros (Hugues de Payns, Geoffroy de Saint-Omer, André de Monbard (tio de São Bernardo), Payen de Montdidier, Archambaud de Saint Aignan (ou de Saint Amant), Geoffroy Bisol, Hugues Rigaud, Rossal e Gondemare) reuniram-se no local do Templo de Salomão onde revelaram a fundação da Ordem dos Cavaleiros Pobres de Cristo e do Templo de Salomão (pauperes commilitones Christi Templique Salomonici).

“Há um templo em Jerusalém onde eles vivem em comum; se ele está longe de igualar na arquitetura o antigo e famoso templo de Salomão, ao menos não é inferior a ele em glória. Na verdade, toda a magnificência da primeira consistia na riqueza dos materiais corruptíveis de ouro e prata e na montagem de pedras e madeiras de todos os tipos que entraram em sua construção; A segunda, ao contrário, deve toda sua beleza, seus ornamentos mais ricos e agradáveis, à piedade, a religião de seus habitantes e sua vida perfeitamente regulamentada; uma encantava os olhos por suas pinturas; mas a outra exige respeito pelo espetáculo variado das virtudes que ali são praticadas e dos atos de santidade que ali são realizados.”

(São Bernardo de Claraval, “Para os Cavaleiros do Templo”)

A Ordem dos Templários havia acabado de nascer. Sua missão era proteger as rotas dos peregrinos para a Terra Santa.

De 1118 a 1127, durante 9 anos, os Templários se organizaram, mas estranhamente, eles que queriam proteger os peregrinos, não tomaram parte em nenhuma batalha. Sua única ocupação era renovar os estábulos subterrâneos do Templo. Em 1220, Baldwin II deu todo o Palácio do Templo aos Templários. Durante o mesmo período, a Ordem recrutou escudeiros e sargentos de armas.

Em 1126, o Conde Hugues de Champagne aderiu à Ordem, uma importante contribuição, pois era um grande amigo de Bernardo de Claraval, cuja autoridade era imensa nos círculos eclesiásticos.

Em 1227, Baldwin II enviou Hugues de Payens e alguns de seus companheiros para a Europa. O Papa Honório II os recebeu. Foram feitos contatos com Bernardo de Claraval, que organizou o Conselho que deveria dar existência legal à Ordem.

Em 14 de janeiro de 1128, o Conselho de Troyes, reunido na Catedral de Troyes, sob o impulso de Bernardo de Claraval, dotou oficialmente a nova congregação com as “Regras da Ordem”. Na verdade, isto só aprovou uma regra pré-existente. Esta regra, escrita em latim, contém 72 artigos e subordina o Templo à autoridade do Patriarca de Jerusalém.

Por volta de 1130, Bernardo de Claraval escreve “De Laude Novae Militiae”, uma obra na qual ele contrasta a cavalaria secular e o cavalheirismo celestial dos Templários.

“Diz-se que um novo tipo de milícia nasceu na terra, na mesma terra que o sol nascente veio visitar do céu, para que onde ele espalhou os príncipes das trevas com seu poderoso braço, a espada desta corajosa milícia extermine logo seus satélites, ou seja, os filhos da infidelidade. Ela redimirá novamente o povo de Deus e fará o chifre da salvação crescer aos nossos olhos na casa de Davi, seu filho (Lucas I, passim). Sim, é um novo tipo de milícia, desconhecido dos séculos passados, destinada a lutar sem descanso contra a carne e o sangue, e contra os espíritos da maldade espalhados no ar. Não é tão raro ver homens lutando contra um inimigo corporal apenas com a força do corpo que eu me surpreenda; por outro lado, travar guerra contra o vício e o diabo apenas com a força da alma também não é tão extraordinário a ponto de ser louvável; o mundo está cheio de monges que lutam essas batalhas; Mas o que eu acho tão admirável quanto é obviamente raro é ver ambas as coisas combinadas, o mesmo homem pendurando corajosamente sua espada dupla a seu lado e cingindo nobremente seus flancos com seu arnês duplo ao mesmo tempo. O soldado que veste sua alma com a couraça da fé e seu corpo com uma couraça de ferro ao mesmo tempo não pode deixar de ser destemido e em perfeita segurança; pois sob sua dupla armadura ele não teme nem o homem nem o diabo. Longe de temer a morte, ele a deseja. Pois o que ele pode temer, seja ele vivo ou morto, já que só Jesus Cristo é sua vida e a morte é seu ganho? Ele vive sua vida com confiança e de todo o coração por Cristo, mas o que ele preferiria é estar livre dos laços do corpo e estar com Cristo; isso é o que lhe parece melhor. Ide, pois, para a batalha em segurança, e acusai os inimigos da cruz de Jesus Cristo com coragem e destemor, pois sabeis que nem a morte nem a vida podem separar-vos do amor de Deus, que se fundamenta nas indulgências que Ele toma em Jesus Cristo, e recordai estas palavras do Apóstolo, em meio a perigos: “Se vivemos ou morremos, pertencemos ao Senhor” (Romanos XIV. 8). Que glória para aqueles que retornam vitoriosos da batalha, mas que felicidade para aqueles que encontram o martírio! Alegrai-vos, generosos atletas, se sobreviverdes à vossa vitória no Senhor, mas deixai que vossa alegria e alegria sejam dobradas se a morte vos une a Ele: sem dúvida vossa vida é útil e vossa vitória gloriosa; mas é com boa razão que se prefere a morte santa a eles; pois se é verdade que aqueles que morrem no Senhor são abençoados, quanto mais felizes ainda são aqueles que morrem pelo Senhor?

São Bernardo de Claraval, “Aos Templários Louvores de sua Nova Milícia”

Em 29 de março de 1139, Inocêncio II emitiu a bula papal “Omne Datum Optimum”, a fonte de todos os privilégios da Ordem. O objetivo disto era fornecer ao Templo capelães para o serviço religioso e assim libertá-lo da jurisdição episcopal. A Ordem foi submetida diretamente à autoridade do Papa, deixando assim o Mestre e seu capítulo quase total liberdade. Além disso, os Templários tiveram o privilégio de coletar o dízimo.

“Nós os exortamos a combater os inimigos da cruz com ardor e, como sinal de nossa recompensa, permitimos que guardem para si todos os saques que tiraram dos sarracenos sem que ninguém tenha o direito de reivindicar uma parte deles. E declaramos que sua casa, com todos os seus bens adquiridos pela generosidade dos príncipes, permanece sob a proteção e a tutela da Santa Sé.”

Em 1146, o Papa Eugênio III lhes deu a túnica branca com a cruz vermelha no ombro com quatro ramos iguais.

A partir daquele momento, a Ordem cresceu constantemente e logo teve comandantes em toda a Europa, bem como na Palestina. A Ordem fretou sua própria frota sediada em La Rochelle. De lá, navios com destino ao Levante partiram e navios da Inglaterra e da Bretanha chegaram a este porto.

Durante os séculos XII e XIII, a história do Templo se entrelaçou com a história das Cruzadas.

Esquieu de Floyrian, sob pressão de Guillaume de Nogaret, confessou em 1305 ao Rei da França as práticas obscenas dos ritos de entrada da ordem, e Filipe, o Belo aproveitou esta informação para encomendar uma investigação, e assim em 13 de outubro de 1307 os sargentos de Felipe, o Belo apreenderam quase todos os Templários da França. Quase todos os outros estados europeus seguiram o exemplo. De acordo com os documentos da investigação papal, que contêm até 127 itens, os Templários foram acusados principalmente de simonia (tráfico criminal de coisas sagradas), heresia, idolatria, magia e sodomia. Além disso, eles foram acusados de forçar seus neófitos a negar Cristo, cuspir no crucifixo e dar beijos obscenos. Os sacerdotes, enquanto celebravam a missa, foram omitidos voluntariamente para consagrar os anfitriões; foi dito que eles não acreditavam na eficácia dos sacramentos.

Finalmente, foi dito que os Templários se dedicaram à adoração de um ídolo conhecido como “Bafomet” (uma cabeça humana, que discutiremos mais tarde) ou de um gato; foi dito que eles usaram cordas encantadas em suas camisas noite e dia. A acusação representou todos estes crimes como sendo ordenados por uma Regra secreta.

O Conselho de Viena de 1311-1312 examinou o caso dos Templários, mas a maioria dos cardeais concluiu que não havia provas da culpa da Ordem e que seus representantes deveriam ser ouvidos novamente. Sob pressão de Felipe, o Belo, o Papa oficializou a supressão da Ordem em 22 de março de 1312 com a bula papal “Vox in excelso”.

“Considerando, portanto, as infâmias, suspeitas e insinuações ruidosas e outras coisas acima mencionadas que surgiram contra a ordem, e também a recepção secreta e clandestina dos irmãos desta ordem; que muitos destes irmãos se afastaram dos costumes, vida e hábitos gerais dos outros fiéis de Cristo, e isto especialmente quando receberam outros [homens] entre os irmãos de sua ordem; [que] durante esta recepção fizeram com que aqueles que receberam fizessem profissão e jurassem não revelar a ninguém a forma de sua recepção e não deixar esta ordem, por causa da qual surgiram presunções contra eles;

 Considerando ainda o grave escândalo que essas coisas causaram contra a ordem, que parecia não poder ser apaziguada enquanto essa ordem permanecesse, e também o perigo para a fé e as almas; que tantas coisas horríveis foram cometidas por muitos irmãos dessa ordem […] que caíram no pecado de uma apostasia atroz contra o próprio Senhor Jesus Cristo, no crime de uma idolatria detestável, no execrável ultraje dos sodomitas […] ;

 Considerando também que a Igreja Romana às vezes reprimiu outras ordens ilustres de obras muito menos do que as acima mencionadas, sem sequer uma reprovação apegada aos irmãos: Não sem amargura e tristeza de coração, não em virtude de uma sentença judicial, mas por meio de disposição ou decreto apostólico, a referida ordem do Templo e sua constituição, hábito e nome por decreto irrevogável e válido perpetuamente, e o submetemos à proibição perpétua com a aprovação do santo conselho, proibindo formalmente qualquer pessoa de se permitir no futuro entrar na referida ordem, de receber ou vestir seu hábito, ou de agir como Templário. Quem transgredi-lo incorrerá ipso facto na sentença de excomunhão.

Além disso, reservamos as pessoas e bens desta ordem à ordem e disposição de nossa sede apostólica, que, pela graça do favor divino, pretendemos dispor para a honra de Deus, a exaltação da fé cristã e a prosperidade da Terra Santa antes do fim do presente Concílio.”

A bula papal “Ad providam” de 2 de maio decretou que a propriedade do Templo passaria para as mãos dos Hospitalários.

O Papa Clemente V apoiou o Rei da França e assim, em 1314, Jacques de Molay (22o Grande Mestre), Geoffroy de Charnay (Colecionador da Normandia) e 37 cavaleiros da Ordem foram queimados vivos em Paris, na Ilha dos Judeus. Godfrey de Paris foi uma testemunha ocular desta execução. Em sua Crônica Métrica (1312-1316), ele escreveu as palavras do Mestre da Ordem: “Eu vejo aqui meu julgamento, onde morrer me convém livremente; Deus sabe quem está errado, quem pecou. Deus sabe quem está errado, quem pecou. A infelicidade logo recairá sobre aqueles que erroneamente nos condenaram: Deus vingará nossa morte”. Esta é uma versão muito distante da versão de Rois Maudits de Druon (Reis Malditos de Druon) das diatribes de Molay.

Na Alemanha, os Templários foram absolvidos e se juntaram a outras ordens. Na Espanha, os Templários se refugiaram na Ordem de Calatrava e foi criada uma nova ordem, a de Montesa. Em Portugal, os Templários foram absolvidos e fundaram a Ordem de Cristo (da qual Vasco da Gama e Henrique o Navegador eram membros). Vale a pena notar que os navios de Colombo carregavam a Cruz Templária e que ele mesmo era casado com a filha de um antigo Grão Mestre desta ordem.

Organização do Templo

Os territórios onde são realizadas as atividades do Templo estão divididos em Províncias. Em 1294, havia 22 deles (5 na França, 4 na Espanha, 3 na Itália, 2 na Alemanha, 1 na Inglaterra, 1 na Hungria, 6 no Leste).

Os Templários formaram um exército permanente de vários milhares de homens, liderado por 500 cavaleiros e 1000 sargentos. Todos eles obedeciam ao Mestre e sua equipe.

Baldwin II cedendo o Templo de Salomão a Hugues de Payns e Gaudefroy de Saint-Homer, de William of Tyre, século XIII.

Hierarquia :

O pessoal do Templo é composto por:

  • O Mestre da Ordem: comparado a um Abade ou, melhor dizendo, a um soberano. Ele não pode tomar nenhuma decisão sem o acordo do Capítulo.
  • O Seneschal da Ordem: ele tem o selo da Ordem.
  • O Marechal: líder militar e responsável pela disciplina.
  • O Comandante da Terra e do Reino de Jerusalém: Tesoureiro do Templo e chefe da Marinha.
  • O Comandante de Trípoli e de Antioquia.
  • O Drapier: encarregados dos suprimentos da Ordem.
  • O Turcopolier.
  • O Submarechal.
  • O Gonfanonier.
  • O Comandante de Jerusalém: guardião dos peregrinos, da Santa Cruz e Embaixador da Ordem.

O Mestre do Templo, que mais tarde foi chamado Grande Mestre, tinha a autoridade de um líder supremo, mas só podia tomar uma decisão após consulta ao Capítulo. Ele não podia dar ou emprestar os bens da ordem e não podia começar ou terminar uma guerra. Na verdade, o Grande Mestre era como um presidente controlado pelo capítulo. Ele tinha que cumprir com as decisões do capítulo. “Todos os Irmãos devem obedecer ao Mestre e o Mestre deve obedecer a seu Convento”. (Estatutos Hierárquicos).

Com a morte do Mestre, as funções são assumidas pelo Marechal que reúne todos os dignitários da Ordem. Eles nomeiam o Grande Comandante que atuará até a eleição do novo Mestre. O Grande Comandante forma um pequeno conselho que fixa o dia da eleição. Naquele dia, ele convoca um capítulo restrito que escolhe três irmãos, um dos quais é nomeado Comandante da Eleição. O Capítulo escolhe um deputado. O Comandante da Eleição e seu deputado se retiram para a capela onde rezam até o nascer do sol. Pela manhã, o Comandante da Eleição e seu deputado nomeiam mais dois Irmãos. Depois elegem mais dois Irmãos e assim por diante até que haja 12 (em memória dos Apóstolos) e depois um décimo terceiro que deve ser capelão da Ordem. Entre este Capítulo devem existir 8 Cavaleiros e 4 Sargentos. Os treze eleitores se aposentam e quando parece haver acordo sobre dois nomes, o Comandante coloca à votação e aquele que recebe a maioria é designado como o novo Mestre da Ordem do Templo.

Os demais membros do Templo foram distribuídos da seguinte forma: Cavaleiros, Escudeiros, Sargentos, Capelães e Irmãos Artesãos.

Além disso, havia três categorias de pessoas que serviram a Ordem por um período fixo de tempo: Cavaleiros Clientes, Escudeiros Clientes e Turcopoles.

A vida no Templo

O enxoval dos cavaleiros consistia de duas camisas, dois pares de sapatos, dois calções, um gibão, uma peliça, uma capa, dois casacos, uma túnica e um amplo cinto de couro. Além dessas roupas, há duas toalhas: uma para a mesa e a segunda para a lavagem.

O traje militar consistia de uma cota de malha, um par de calções de ferro, um chapéu de ferro, um elmo, sapatos e um brasão. O armamento consistia de uma espada, uma lança e um escudo.

Além de suas ocupações civis e do serviço militar, sua existência era a dos monges. Quando soa o sino das matinas, os Templários vão à capela onde devem dizer 13 Pais-nossos para Nossa Senhora e 13 para o santo do dia. Após as matinas, eles devem ir para os estábulos. À prima, os cavaleiros vão novamente à missa. Os Templários não podem comer sem ouvir ou recitar 60 Pais-nossos. Antes das refeições, são recitados a Bênção e um Pai-nosso. Graças na capela após o refeitório, depois as vésperas, as horas da nona e completa.

Cada uma das horas é acompanhada por 13 ou 18 Pais-nossos. Além disso, há toda a gama de obrigações nas festas católicas. Ao cair da noite, os irmãos fazem um lanche e depois vão para a capela.

Lista dos Grão-Mestres

Observe que a lista aqui apresentada é indicativa e é apenas uma das muitas listas emitidas por historiadores. De fato, parece que os historiadores não concordam com o número e os nomes dos Grão-Mestres da Ordem do Templo…

  1. Hugues de Payens
  1. Robert le Bourgignon
  1. Evrard des Barres
  1. Bernard de Tramelay
  1. Bertrand de Blanquefort
  1. Filippe de Napelouse
  1. Odon de Saint-Amand
  1. Arnaud de Toroge
  1. Terrie (ou Thierry ou Therence)
  1. Gerard de Riddeford
  1. Robert de Sablé
  1. Gilbert Horal
  1. Filippe de Plessiez
  1. Guillaume de Chartres
  1. Pierre de Montaigu
  1. Armand de Périgord
  1. Guillaume de Tonnac
  1. Renaud de Vichiers
  1. Thomas Beraut
  1. Guillaume de Beaujeu
  1. O monge Gaudin
  1. Jacques de Molay

Símbolos e História oculta

Aqui estão algumas hipóteses e elementos de ocultismo relacionados com o Templo. Os templários sempre animaram a imaginação de muitos pesquisadores profissionais e não profissionais. Assim, há aqueles que defendem a ideia do esoterismo templário e tentam ligar todos os eventos mundiais à intervenção direta ou indireta dos Templários. O objetivo desta seção não é defender ou rejeitar esta ou aquela hipótese.

1 – O Selo da Ordem: representa dois cavaleiros cavalgando juntos em um cavalo. Este selo pode então simbolizar a pobreza da Ordem, mas também em um nível mais profundo, pode simbolizar:

  • A natureza dupla da Ordem, exotérica e esotérica, bélica e monástica
  • A natureza dual do homem, divina e humana
  • A tripartição do ser em spiritus (mente), animus (alma) e corpus (corpo)

Descriptio Terrae Sanctae, 1283. De Jerusalém, por Michel Join-Lambert. Elek Books, 1958.

2 – O Bafomet: antes de tudo, é importante saber que o termo “Bafomet” nunca foi usado pelos acusadores ou pelos próprios Templários. Na verdade, apenas a forma adjetival “bafomética” ou “bafomético” é encontrada. Assim, um irmão occitano da Ordem em Montpezat, Gaucerant, confessou ter adorado uma “imagem bafomética” que, em langue d’oc, poderia ser uma distorção do nome do profeta islâmico Maomé. Segundo os ocultistas, o Bafomet é um ídolo de origem islâmica, enquanto o Islã proíbe qualquer representação humana, ou uma simbolização dos dois São João na forma de Jano, um símbolo de batismo e iniciação?

Aqui, antes de tudo, estão os termos precisos de um artigo da primeira investigação (articulo super quibus inquiretur contra ordinem Templi): “Que os cavaleiros nas várias províncias tinham ídolos, ou seja, cabeças, algumas com três rostos e outras apenas uma; outras tinham um crânio humano. Estes ídolos ou este ídolo foram adorados… Os cavaleiros disseram que esta cabeça podia salvá-los, enriquecê-los, que fazia florescer as árvores, que fazia brotar as colheitas; os cavaleiros cingiram ou tocaram com cordas uma certa cabeça destes ídolos e depois se cingiram com esta corda, seja sobre a camisa ou sobre a pele.”

O historiador dinamarquês Munter, assim como outros, levantou a hipótese de que as chamadas cabeças adoradas pelos Templários eram simples cabeças relicárias, como ainda são encontradas em muitos museus e tesouros da igreja.

3 – A Beaucéant: preto e branco ou vermelho e dourado, poderia simbolizar as Trevas e a Luz. Veja o livro de Gérard de Sède para outras implicações desta bandeira.

4 – Números Simbólicos:

O número três aparece frequentemente na vida da Ordem (esmola três vezes por semana, aceitando três assaltos antes de retaliar…)

O número nove de fato, a Ordem foi fundada por nove cavaleiros em 27 de dezembro de 1118 (2+7=9, 12=9+3…), a Regra Latina tem 72 artigos (7+2=9), há nove anos entre 1118 e 1127 e os anos 18 e 27 são múltiplos de nove, a Ordem tinha nove províncias, a Beaucéant era às vezes um composta de 81 quadrados pretos e brancos (quadrados de 9, 8+1=9).

Dante e os Templários

Em 1318, Dante terminou sua Divina Comédia, na qual alude várias vezes aos Templários. No Paraíso (Canto XXX), Beatrice é cercada e protegida por “um conjunto de capas brancas” (nome pelo qual os Templários eram conhecidos). Também nos círculos do Paraíso, Dante escolhe São Bernardo como seu guia (Canto XXXII) por causa de seu papel na fundação da Ordem do Templo. São Bernardo em sua De laude novae militiae estabelece, como vimos, a missão e o ideal do cavalheirismo cristão, a ‘milícia de Deus’, termo muitas vezes encontrado nos escritos dos Fiéis do Amor, dos quais Dante era um membro proeminente.

No Purgatório (Canto XXVII), Dante lembra-se de testemunhar a execução de Jacques de Molay e Geoffroy de Charnay na fogueira em 18 de março de 1314 em Paris: “Estiquei-me para frente com as mãos fechadas e me deitei, olhando para o fogo e imaginando vividamente os corpos humanos que eu já tinha visto queimados”.

Finalmente, Dante compara o Papa Clemente V ao Anticristo, e lhe atribui um lugar em seu Inferno (Canto XIX): ‘Um pastor sem lei virá do oeste […] Ele será um novo Jasão, do qual os Macabeus falam, e quanto a este flexível foi seu rei, a este será o rei que governa a França’. Ele compara ainda o rei da França, Felipe, o Belo, a Pilatos em seu Purgatório (Canto XX): “Vejo o novo Pilatos tão cruel que não o satisfaz, mas sem decreto ele empurra seus véus gananciosos para dentro do Templo”.

Dante e os Fiéis do Amor, aos quais Dante pertencia, aspergiram suas obras com vários símbolos esotéricos a fim de lembrar sua filiação ao espírito cavalheiresco da Ordem do Templo. Assim, Dante frequentemente usa o número 9 como um número sagrado, simbolizando a trindade: espírito, alma, corpo, cada um com 3 aspectos e 3 princípios. Este número, também muito simbólico para os Templários, lembra os 9 fundadores tradicionais da Ordem, assim como as 9 províncias do Templo Ocidental; através do significado dos “Céus” dado por Dante em sua Divina Comédia – os 9 “Céus” são os graus da hierarquia iniciática que conduzem à “Terra Santa”.

Godfrey de Bouillon e a Ordem do Priorado de Sião

Em 1099, diz-se que ele fundou a Ordem do Priorado de Sião na Abadia de Notre-Dame du Mont de Sion (Nossa Senhora do Monte Sião), que é a origem da fundação da Ordem do Templo. De acordo com algumas fontes, o Priorado de Sião era a estrutura esotérica enquanto o Templo era a estrutura exotérica visível. Diz-se que o Priorado sobreviveu de várias formas até os dias de hoje. Na realidade, e para grande desgosto dos fãs do Código Da Vinci e outros disparates místicos e misteriosos, o Priorado de Sião foi mencionado pela primeira vez em 1956, a invenção do mistificador francês Pierre Plantard. Em uma série de documentos forjados depositados na Biblioteca Nacional em meados dos anos 60 e intitulados “Arquivos Secretos de Henri Lobineau”, Plantard apresenta o Priorado como uma irmandade datada de 1099, ligada à Ordem do Templo e cuja missão teria sido preservar o segredo de uma descendência oculta dos merovíngios para a restauração de uma monarquia merovíngia na França.

Relação com as comunidades muçulmanas e gnósticas

 1- Os Assassinos: uma seita xiita fundada no século XI por Hassan Ibn Sabbah, os Assassinos são cavaleiros baseados principalmente na Síria e na Pérsia que obedecem cegamente a seu líder, o “Velho da Montanha”.

Existe um certo paralelismo entre a ordem Assassina e a ordem Templária:

  • cavaleiros – refiks
  • escudeiros – fedavi
  • sargentos – lassiks
  • priores – daîkebir
  • grande mestre – xeque el djebel

Embora religiosamente opostas, houve um certo grau de colaboração entre as duas ordens. Além disso, os Templários mantiveram relações diplomáticas e até militares com os Assassinos da Síria. Também vale a pena notar que havia uma certa comunidade de espírito na linha das ordens de cavalheirismo.

2- Ordem dos Irmãos do Oriente: fundada na segunda metade do século XI por Michael Psellos, esta ordem está impregnada de doutrinas herméticas neopitagóricas.

3- Ordem dos Santos (ou Kaddosh): esta ordem era de inspiração Essênia, Gnóstica e Joanina. Diz-se que um certo Arnaud de Toulouse foi para a Palestina no início do século IX para estudar e penetrar nos mistérios desta sociedade. Ele atingiu o início das três graus e obteve permissão para fundar uma emanação da Ordem na Europa. A primeiro alojamento, ou loja, foi fundado em 804 em Toulouse por Arnaud sob o nome de Amus. A ordem teria incluído figuras como Gerber de Aurillac (futuro Papa Silvestre II), Raymond de Saint-Gilles (Conde de Toulouse), Godefroi de Bouillon e os nove cavaleiros fundadores da Ordem dos Templários. No Museu de Viena, uma medalha de Dante de Pisanello está em exposição. No verso da medalha, que representa Dante, pode-se ler a seguinte estranha sequência de letras: “F.S.K.I.P.F.T.”. Segundo René Guénon, estas letras significam “Fidei Sanctae Kadosh Imperialis Principatus Frater Templarius”.

Se você quiser saber mais sobre o esoterismo templário, não hesite em consultar nosso livro, coautoria de Spartakus FreeMann e Soror D.S., Le Bafomet, Figure de l’ésotérisme templier & de la franc maçonnerie, retraçando a lenta elaboração do mito do Bafomet, recém-publicado pela Alliance Magique.

Ordem do Templo, Spartakus FreeMann, agosto de 2008.

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Fonte:

Ordre du Temple : histoire, Spartakus FreeMann, août 2008. 

https://www.esoblogs.net/211/l-ordre-du-temple-histoire-1/

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Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/sociedades-secretas-conspiracoes/a-historia-da-ordem-dos-cavaleiros-templarios/