Amor, Ódio e o Agente Modelador

Paulo Jacobina

O Eu é o atributo da Consciência que possui a capacidade integralizadora. É o responsável por dissolver os limites ilusoriamente criados pela atuação do Agente Modelador, fazendo com que tudo seja reunido novamente no Absoluto.

No ponto mais afastado do Seio do Absoluto, o Eu é conhecido como o Eu Inferior, enquanto, ao estar no Seio do Absoluto, ele é conhecido como o Eu Superior.

A distinção básica entre o Eu Inferior e o Eu Superior se encontra no estágio de Consciência no qual o Eu está. Quanto mais próximo do Eu Inferior, mais o Eu ilusoriamente acredita ser individualizado, de forma a ser distinto de tudo o que existe e do que não existe. Ao passo que, quanto mais próximo do Eu Superior, mais o Eu sabe não ser individualizado, tendo em vista que verdadeiramente só existe o Absoluto e todos os limites percebidos são criações ilusórias do Agente Modelador.

Esta ilusão criada pelo Agente Modelador faz com o que o Eu ilusoriamente se identifique com os corpos de que faz uso, no que se chama de Ego. Em estágios mais brutos, o Eu se identifica com corpos mais brutos, enquanto, em estágios mais sutis, com corpos mais sutis. Apenas quando o Eu se confunde com o Eu Superior é que ele tem a consciência de que todos os corpos são ilusórios e ele é Aquele que É.

A capacidade integralizadora do Eu decorre da atuação de um de seus atributos, o Amor. Por intermédio da atuação do Amor, a ilusão da separatividade é desfeita.

AMOR

O Amor é o atributo do Eu capaz de dissolver a ilusão da separatividade e, consequentemente, reunir o que aparenta estar separado.

Assim como o Eu utiliza corpos específicos para cada mundo existencial, o atributo do Eu conhecido como Amor também possui aspectos para cada região na qual atua. E, assim como o Eu se encontra simultaneamente em diversos mundos existenciais, os aspectos do Amor também podem ocorrer simultaneamente, da mesma forma que existem gradações dentro de cada aspecto.

Em estados mais brutos, o Amor assume o aspecto conhecido por Amor Eros, isto é, a forma de amor com a qual o Eu deseja ter o que não tem e, quando o passa a ter, deixa de desejar, perdendo o interesse. Essa forma de Amor, embora muito associado ao desejo sexual, não se limita a este, tendo em vista que, na verdade, ele se correlaciona aos níveis mais brutos e à ideia de se ter as coisas, inclusive de ter o outro.

Em que pese o aparente estado primitivo, é a aplicação do Amor Eros a responsável tanto pela canalização das energias desses corpos em direção a corpos mais sutis, no que alguns conhecem como o ativar da Kundalini; quanto pela reprodução nos corpos brutos, seja no acasalamento entre o que se chama de macho e fêmea, ou na união de partículas mais elementares, a exemplo de um átomo que busca outro para se unir.

Outro aspecto do Amor é o Amor Philos, também chamado por alguns como Amor Fraterno. Enquanto o Amor Eros visa a atração do que ilusoriamente está bem afastado, o Amor Philos atua no que está mais próximo e mais identificado pelo Eu.

Essa identificação tem como base o estado de Consciência no qual o Eu se encontra e, consequentemente, a sua abrangência é baseada neste estado. Assim, nos mais brutos, o Eu se identifica com poucas coisas, ao passo que, nos mais sutis, por já ter dissolvido mais a ilusão da separatividade, o Eu já se identifica com uma quantidade maior.

O Amor Philos atua naquilo que foi reunido pelo Amor Eros, dissolvendo a ilusão da separatividade e aproximando, ainda mais, o que ilusoriamente é distinto.

Em seu aspecto mais sutil, o Amor assume a forma de Amor Ágape, cuja união é feita pela essência das coisas e, por isso, tem a capacidade de dissolver toda a ilusão da separatividade e revelar que todos são um único ser.

Por se tratar de uma união pela essência, pela identificação do Absoluto que há em tudo o que existe e o que não existe, muitos o chamam de Amor Incondicional. Ao dissolver a ilusão da separatividade, parece àqueles que ainda estão na ilusão que aquele Eu a tudo suporta, quando, na verdade, não há o que suportar, uma vez que o véu da ilusão foi dissolvido e aquele Eu apenas tem contato com o que realmente existe.

Todos os aspectos e as gradações de cada aspecto do Amor ocorrem simultaneamente, atuando no Grande Plano Mental, transmutando as formas-pensamentos ali impressas e dissolvendo a ilusão dos limites.

AGENTE MODELADOR

Ao passo que, por atuação de seus atributos e subatributos, o Eu tem a capacidade integralizadora, o Agente Modelador atua contrariamente, criando a ilusão da separatividade. Os dois têm o mesmo módulo e a mesma direção, mas possuem sentidos, polos, opostos.

O Agente Modelador é o responsável por criar todas as formas-pensamento e, por isso, pode-se dizer que o transitório é criado pela atuação do Agente Modelador. Por isso que em seu estado mais sutil alguns o chamam por Demiurgo, o artesão que modela o Fluido Universal dando forma ao que existe e ao que não existe; e, em estado mais bruto, o chamam de Elementais. Assim como ocorre com o Absoluto, e tudo o mais, o Agente Modelador não possui um nome próprio e, por isso, pode ser chamado por qualquer nome sem deixar de ser o Agente Modelador.

Possui sentido oposto ao do Eu porque, enquanto este parece sutilizar-se, o Agente Modelador parece brutalizar-se, perdendo, ao passo que se afasta do seio do Absoluto, a sua coesão inicial em função da atuação de um de seus atributos, o Ódio.

ÓDIO

Assim como o Amor é um atributo do Eu, o Ódio é um atributo do Agente Modelador. E tal como acontece entre o Eu e o Agente Modelador, o Amor e o Ódio possuem sentidos, polos, opostos: enquanto o Amor une, o Ódio desune.

Tal qual ocorre com o Amor, o Ódio também possui aspectos de acordo com o estado no qual se manifesta, mas sempre contendo sua essência, que é a de criar a ilusão da separatividade.

Em estados mais sutis, o Ódio assume o aspecto de Ódio Obliterador, que é aquele responsável pelo que se chama equivocadamente de destruição. Tal equívoco se dá, pois, apesar de ocorrer uma aparente destruição, na verdade o que ocorre é a transformação, uma vez que desta “destruição” se origina algo novo.

O Ódio Obliterador está associado diretamente à essência do seu objeto. É em função da atuação do Ódio Obliterador, por exemplo, que uma semente deixa de existir e uma árvore é criada, que um alimento é destruído e se transforma em parte integrante do corpo que o comeu, que uma criatura “mate” a outra.

Em um estado um pouco mais bruto, o Ódio assume o aspecto de Ódio Projeção, o responsável por fazer com que o Eu sinta aversão a tudo com o qual se identifica.

A atuação do Ódio neste estado é a responsável por fazer tanto com que uma célula se divida[1], projetando aquilo que o Eu ali se identifica; como também é o responsável pela aversão sentida por uma criatura com relação a outra em qualquer nível, seja na esfera espiritual, mental e física. Nesta última, a título ilustrativo, o ódio é o responsável pela aversão de natureza sensorial, a exemplo do não gostar de determinados alimentos, cores, temperaturas, odores, texturas etc, bem como também é o que faz com que polaridades iguais em um imã se repilam.

Em seu estado mais bruto, o Ódio assume o aspecto de Ódio Repulsa, no qual é o responsável pelo afastamento de tudo que não é identificado com o Eu. Pela atuação do Ódio Repulsa o Eu busca se afastar ou repelir aquilo com o qual não se identifica, estabelecendo o que se chama de limite.

Assim como acontece com o Amor, todos os aspectos e gradações do Ódio também ocorrem simultaneamente, atuando no Grande Plano Mental, transmutando as formas-pensamentos ali impressas e criando a ilusão dos limites.

[1] Nota-se que o processo de fecundação e parto de um ser vivo só é possível em virtude da atuação tanto do Amor, em seus diversos aspectos, quanto do Ódio, também em seus aspectos. É o Amor que leva o macho e a fêmea a copularem e o espermatozoide e o óvulo a se unirem; é o Ódio que faz o Zigoto se subdividir criando as diversas células do organismo; ao passo que é o Amor que mantém o organismo unido; enquanto no momento do parto é o Ódio que expulsa o feto do útero materno; e é o Amor que faz com que a mãe o traga para perto de si para cuidar daquele organismo.

~ Paulo Jacobina mantêm o canal Pedra de Afiar, voltado a filosofia e espiritualidade de uma forma prática e universalista.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/espiritualismo/amor-odio-e-o-agente-modelador/

A Goetia do Dr. Rudd

O livro “Goetia do Dr. Rudd” é um dos livros do financiamento Tomos Goéticos da Editora Via Sestra, participe


A Goetia é o grimório mais famoso depois da Chave de Salomão. Este volume contém uma transcrição de um manuscrito inédito do Lemegeton que inclui quatro grimórios completos:

  1. Ars Paulina
  2. Ars Almadel
  3. Theurgia-Goetia
  4. Lemegeton Clavicula Salomonis
  5. Liber Malorum Spiritum seu Goetia

Este manuscrito era propriedade do Dr. Thomas Rudd, um mago erudito praticante do início do século XVII. Existem muitas edições da Goetia, das quais a mais definitiva é a de Joseph Peterson, mas aqui estamos interessados ​​em como a Goetia foi realmente usada por magos praticantes nos séculos XVI e XVII, antes que o conhecimento da magia prática desaparecesse na obscuridade.

Muitas técnicas práticas usadas no passado foram esquecidas. Os autores as restauram usando o manuscrito do Dr. Rudd. Por exemplo, evocar os 72 demônios listados aqui sem a capacidade de restringi-los seria realmente temerário. Era bem conhecido em tempos passados ​​que invocatio e ligatio, ou restrição, eram uma parte chave da evocação, mas nas edições modernas da Goetia esta técnica chave é expressa em apenas uma palavra ‘Shemhamphorash’, e seu uso não é explicado.

Este volume explica como os 72 anjos do Shemhamphorash são usados ​​para amarrar os espíritos e o procedimento correto para invocá-los com segurança usando selos duplos que incorporam o necessário anjo Shem controlador, cujo nome também está gravado no Peitoral e no Vaso de Bronze.

RESENHAS DE A GOETIA DO DR. RUDD:

Uma ‘Obra Obrigatória’ para Estudantes e Praticantes

Resenha de Thabion (Orange, CA EUA), 25 de fevereiro de 2008:

Este livro é uma “obra obrigatória” para qualquer pessoa que esteja seriamente interessada na Magia Cerimonial Salomônica, seja do ponto de vista acadêmico ou prático. Está no mesmo nível do Lemegeton de Joseph Peterson — que complementa e amplifica com uma riqueza de materiais autênticos do século XVII inéditos do famoso mago Thomas Rudd (ver o Tratado sobre Magia dos Anjos, McLean 1982). Rudd não era um seguidor escravo de textos antigos. Ele até tentou uma síntese do sistema enoquiano do século 16 do Dr. John Dee e da Goetia. No interesse da pureza, Joseph Peterson recusou qualquer uso importante da versão pessoal particular de Rudd da Goetia (e os livros restantes do Lemegeton: B.L. Harley MS. 6483) por causa das adições e modificações criativas de Rudd – com exceção da próprio importante amostra das invocações e sigilos de Shemehamphorash que Rudd usara para controlar com segurança seus espíritos goéticos.

Como Skinner e Rankine apontam, Rudd também incluiu material do Heptameron anterior, atribuído a Pedro de Abano, em sua versão da Goetia. Parece também que Rudd pode não ter usado um triângulo em suas operações goéticas, embora ele fosse consciencioso o suficiente para não excluir nenhuma das inúmeras instruções para seu uso nos textos que estava empregando. Neste caso, os autores-editores encontram significado na ausência de uma representação gráfica do triângulo na versão de Rudd da Goetia. (É possível que Rudd simplesmente tivesse sua própria versão do triângulo que ele não desejava registrar, ou que estivesse faltando um fólio do Manuscrito.) Os autores-editores também sugerem que Rudd usou o Vaso de Bronze como um dispositivo de conjuração primário. Eles prudentemente se abstêm de conjeturar como poderia ter sido empregado (veja a página 185, não 181), mas citam as notas de Rudd seguindo as conjurações padrão: “Você pode comandar esses espíritos no Vaso de Bronze como você faz no Triângulo. Dizendo isso você faz imediatamente aparecer diante deste Círculo, neste Vaso de Bronze em uma forma bela e graciosa & etc. como é mostrado (sic) antes nas conjurações.”

Somos deixados à nossa própria engenhosidade sobre como exatamente isso seria feito, mas, com base na experiência passada, sugiro que um amortecedor e um bom grau de polimento de bronze possam ser essenciais…

Como uma nota lateral, Skinner e Rankine apontam que o desenho do século XVII de Peter Smart do que eu supunha ser a parte de trás de um suporte de espelho era na verdade um desenho do Vaso de Bronze. Eu acho que eles estão certos sobre isso, mas eu estava em boa companhia com Adam McLean neste caso, então não me sinto muito chateado com meu erro…

Com esta pequena reclamação, gostaria de mencionar algumas outras contribuições muito importantes neste volume. Os autores-editores fizeram o melhor trabalho até agora em desvendar a complexidade rosnante das atribuições planetárias e astrológicas goéticas que atormentaram estudiosos e magos sérios por séculos. Obviamente, temos espíritos marcianos (condes), embora não tenhamos lamens de ferro ou aço para eles. (Embora não esteja claramente declarado neste livro, devemos assumir que o ferro não é usado porque tradicionalmente repele e controla os demônios – especialmente na tradição árabe do Anel de Salomão, que os autores mencionam).

Rudd aparentemente não usa o tradicional Selo Goético Secreto de Salomão para fechar seu Vaso de Bronze. Este dispositivo é familiar a todos os estudantes da arte e está representado no desenho de Peter Smart mencionado acima. Mostra o Vaso de Bronze em corte transversal, tampado com uma camada de ferro (Marte) e selado com uma camada de chumbo (Saturno). O ferro controla os espíritos e Saturno é o limite planetário/sefirótico externo do universo cabalístico que os espíritos goéticos habitavam antes da Queda (rebaixados até Yesod, se você tomar nossa interpretação – rebaixados até as Klippoth se você seguir Steve Savedow).

Rudd prefere usar outro desenho que encontramos em Trithemius e Agripa. Os autores-editores fornecem uma riqueza de tabelas extrapoladas, apêndices e notas de rodapé copiosas. Este é um trabalho muito valioso e, com minhas pequenas objeções, sou compelido a admirar e apreciar sua erudição. Como eu disse no início desta revisão. Este livro é “obrigatório” se você leva a sério o estudo e/ou a prática na escola da Magia Salomônica.

Carroll “Poke” Runyon, editor do The Seventh Ray.

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Um Livro que Todos os Magos Precisam Ler e Possuir

Resenha por Mark Stavish, do Instituto para Estudos Herméticos de Wyoming, Pensilvânia, 14 de novembro de 2007:

Ao publicar “A Goetia do Dr. Rudd”, Skinner e Rankine forneceram à comunidade de magos operativos uma porta de entrada para as práticas mágicas medievais e renascentistas tradicionais que até agora só haviam sido parcialmente abertas. Embora muitos livros tenham sido escritos sobre a Goetia, é aqui, neste livro, que temos uma visão do funcionamento real de um mago que era uma conexão direta com o círculo de Dee, e parte da transmissão contínua dessas ideias em forma OPERATIVA para o período pós-renascentista. A primeira seção do livro é uma introdução geral ao mundo da magia e uma base importante para entender as diferenças significativas entre as práticas modernas e tradicionais. Há também uma discussão sobre ‘por que outro livro sobre goetia’ e os detalhes significativos que diferenciam este dos outros – ser parte de um diário operatório da obra, bem como a inclusão de materiais não vistos anteriormente com goetia, como o Heptameron, sugerindo uma ligação direta entre os dois. Embora de interesse para o mago de poltrona e ocultista acadêmico, são os magos práticos que mais se beneficiarão deste trabalho, bem como os dois volumes anteriores da série – Magia Angélica: Prática das Tabelas Enochianas do Dr. Dee e Chaves para o Portal da Magia: Convocando os Arcanjos Salomõnicos e os Princípes Demônios, também um manuscrito raro de Rudd. Não posso falar o suficiente desses trabalhos e estou em dívida com os editores por disponibilizá-los e estou ansioso para futuras adições à série.

Um Histórico Brilhante e Instantâneo do Lemegeton em Ação!

Resenha de M. Stone “Frater Iustitia Omnibus” de San Antonio, Texas, 14 de outubro de 2007:

A primeira pergunta que vem à mente quando se vê mais uma “Goetia” no mercado, obviamente, é: “Por que devo considerar esta edição?” Nesse caso, a resposta é um pouco complexa demais para ser resumida em um único slogan.

A primeira coisa que quero deixar claro é que não é apenas a Goetia, como o título sugere, mas todo o Lemegeton! Além disso, é baseado na versão manuscrita inédita compilada pelo Dr. Thomas Rudd. (Harley MS 6483)

Enquanto o Lemegeton de Joseph Peterson é claramente a versão definitiva, Skinner e Rankine usam este livro como uma mesa de operação para descobrir como este material foi usado por magos reais dos séculos XVI e XVII. O processo, de acordo com os autores, é de dualismo, onde o mago controla entidades básicas pelo uso de suas contrapartes divinas correspondentes. Esse é um conceito que é mencionado, mas nunca desenvolvido no próprio Lemegeton. Este volume entra em muitos detalhes sobre o uso dos 72 nomes do Shemhamphorash para prender e controlar os 72 “demônios” da Goetia. Este conceito não é apenas explicado, são ilustrados nestas páginas, os verdadeiros selos de dupla face como empregados pelo Dr. Rudd e presumivelmente seus contemporâneos.

Outros detalhes que não foram publicados anteriormente, como o uso adequado do Vaso de Bronze e do Peitoral, serão suficientes para tirar até os teóricos goéticos de poltrona da cerca, para fazer essa compra.

Os magos enoquianos podem estar interessados ​​em ver a versão do Dr. Rudd da Tabula Sancta cum Tabulis Enochi (A Mesa Santa com as Tábuas Enochianas) de Dee.

Este trabalho maciço de 448 páginas (no original em inglês) tem muitas notas de rodapé, e o estudante de Magia Salomônica apreciará o amplo material posterior.

O conteúdo no original em inglês está dividido da seguinte forma:

  • Matéria de Capa – 14 páginas, incluindo a introdução.
  • História e Origens – 43 páginas.
  • Métodos de Evocação – 24 páginas explorando restrições, nomes, anjos adversários, invocações, equipamentos e cerimônias.
  • Os Manuscritos – tratamento de 241 páginas do Lemegeton completo do Dr. Rudd, que ele mesmo chamou de Goetia por razões que me escapam. Deve-se entender que, na verdade, a Goetia é apenas um dos livros do Lemegeton completo.

Os Apêndices estão divididos da seguinte forma:

Apêndice 1 – Theugia-Goetia em Sloane 3824.

Apêndice 2 – Tabelas de Demônios do Lemegeton (24 páginas de tabelas!) Este é um trabalho dos sonhos de estudo comparativo sobre as entidades goéticas e sua classificação. Também estão incluídas as grafias hebraicas dos nomes, grafias alternativas, e se algum lugar for montado, outras qualidades, anjo governante, número de legiões, planeta (com base no metal associado à classificação do espírito) aparência evocada e poderes atribuídos.

Apêndice 3 – Síntese de Thomas Rudd de Goetia e Enochiano.

Apêndice 4 – Rudd descreve 61 demônios.

Anexo 5 – Fontes para o material no Lemegeton.

Apêndice 6 – Selos da Goetia de Sibley.

Apêndice 7 – Anjos Shem ha-Mephorash

Apêndice 8 – Horas Planetárias Eclesiásticas

Apêndice 9 – Esta é uma peça estranha, mas realmente fala com a mentalidade do século 16 da Goetia e auto justificação. É uma explicação dos nomes usados ​​na Goetia, com alguma outra Cabala aleatória lançada. Mas se você precisar dizer, a oração consagradora de Vênus, bem, aí está.

Anexo 10 – Estudo de algumas das palavras utilizadas na evocação. Esta seção é uma lista grega e hebraica de derivações de palavras usadas em evocações goéticas.

Apêndice 11 – Narrativa do Dr. Rudd, Sir John Heydon e um espírito “Como um homem pode ter a sociedade contínua de um gênio guardião”

Apêndice 12 – Formas variantes de círculos ao estilo do Heptameron.

Anexo 13 – Observações de metais e tempos de restrição.

Anexo 14 – Diagramas de equipamentos. Eu estava esperando por mais aqui, mas serve ao seu propósito.

Apêndice 15 – A forma do comando de espíritos dada no livro A Descoberta da Bruxaria, de Reginald Scot.

Se você deseja ter um currículo completo de estudo salomônico, sugiro que compre este volume junto com o Lemegeton de Joseph Peterson. A edição de Peterson é um trabalho comparativo erudito, enquanto o presente trabalho é um instantâneo da Magia Salomônica sendo colocada em prática. Esses dois volumes não apenas se complementam, mas são igualmente vitais para construir uma imagem precisa do escopo e do impacto deste ciclo de magia.

Sr. Skinner e eu discutimos a teoria do funcionamento goético no passado. Deve-se notar que os autores não apenas relatam o modelo dualista do funcionamento goético, eles defendem a teoria por trás dele. Eu mesmo tenho uma visão diferente, vendo o Lemegeton como um “Livro dos Mortos” para os vivos, movendo o Alto Xamanismo para a Europa do século XVI (para não mencionar as Américas do século XXI). Considere quantos desses seres começam como um espírito-animal, apenas assumindo uma formosa forma humana após uma batalha de vontades com o exorcista da Arte. Mesmo assim, eu mal conseguia largar esse volume. Há muitas pérolas nestas páginas para qualquer estudante de Magia Salomônica.

Em uma nota final, o autor afasta um pouco o véu sobre por que não há espíritos goéticos associados a Marte e levanta a questão de haver um único demônio atribuído a Saturno. Eu havia feito um comentário semelhante em minha revisão da reformulação do Goetia por Runyon há algum tempo.

***

Espero que as resenhas precedentes tenham dado uma boa ideia do que está contido no livro – recomendo-o sem reservas aos interessados na área, tanto como um texto histórico interessante quanto principalmente como um sistema de evocação completo e prático. Termino com a citação de Rudd que adorna o início do livro As Chaves para o Portal da Magia: Convocando os Arcanjos Salomônicos e os Príncipes Demônios, de Stephen Skinner & David Rankine:

“Aquele que é um verdadeiro mago, é gerado como um mago desde o ventre de sua mãe; e aquele que foi gerado de outra forma, deve compensar esse defeito da Natureza pela Educação”.

E este livro, A Goetia do Dr. Rudd, certamente faz parte dessa educação.

Resenhas originais em inglês.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.


O livro “Goetia do Dr. Rudd” é um dos livros do financiamento Tomos Goéticos da Editora Via Sestra, participe

Postagem original feita no https://mortesubita.net/demonologia/a-goetia-do-dr-rudd/

Taliesin

“Bom Elffin, cesse o seu lamento!

Falar em vão não faz bem a ninguém.

Não faz mal ter esperanças,

Nem nenhum homem vê o que lhe suporta,

A prece de Cynllo não é um tesouro vazio,

Nem Deus quebra suas promessas.

Nenhuma pescaria na rede de Gwyddno

Foi tão boa quanto a de hoje.

Bom Elffin, seque suas bochechas!

Tal tristeza não lhe faz bem,

Apesar de se sentir traído,

Tristeza em excesso não traz bem algum,

Muito menos duvidar dos milagres de Deus.

Apesar de ser pequeno, sou habilidoso.

Do mar e da montanha,

Das profundezas do rio,

Deus dá seus dons aos abençoados.

Elffin do espírito generoso,

Seu propósito é covarde,

Não deves ficar tão triste.

Bons agouros são melhores que maus.

Apesar de ser fraco e pequeno,

Nas ondas do mar revolto,

Serei melhor para você

Que trezentas cargas de salmão.

Elffin de nobre generosidade,

Não entristeça ante seu pescado.

Apesar de ser fraco no fundo da cesta,

Há maravilhas na minha língua.

Equanto eu estiver cuidando de você,

Nenhuma grande necessidade há de ter.

Lembre-se do nome da Trindade

E nada te vencerá.”

“Flutuando como um barco nas águas,

Fui jogado numa bolsa escura,

E num mar infinito, fiquei à deriva.

Logo quando estava sufocando, tive um bom agouro,

E o mestre dos céus me libertou.”

#Poemas

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/taliesin

A Disciplina no Estudo da Magia – Frater Magog

Bate-Papo Mayhem 180 – gravado dia 31/05/2021 (segunda) Com Frater Magog – A Disciplina no Estudo da Magia

Os bate-Papos são gravados ao vivo todas as 3as, 5as e sábados com a participação dos membros do Projeto Mayhem, que assistem ao vivo e fazem perguntas aos entrevistados. Além disto, temos grupos fechados no Facebook e Telegram para debater os assuntos tratados aqui.

Faça parte do Projeto Mayhem aqui:

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#Batepapo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/a-disciplina-no-estudo-da-magia-frater-magog

Alan Moore

Pesquisa de Jose Carlos Neves

Confira abaixo um resumo dos principais fatos na vida e bibliografia do escritor e mago inglês Alan Moore. Trata-se de excertos do livro Alan Moore: Portrait of an Extraordinary Gentleman, um livro-tributo dedicado aos 50 anos do artista. São páginas recheadas de ensaios, ilustrações, artigos, fotografias, entrevistas, e opiniões sobre o mago-escritor de Northampton. Escritores, desenhistas e pessoas relacionadas aos quadrinhos comentam sua relação com Moore.

Alguns nomes presentes no livro: Michael Moorcock, Ian Sinclair, Darren Shan, Brad Meltzer, John Coulthart, Neil Gaiman, Dave Gibbons, Bryan Talbot, David Lloyd, J. H. Williams III, Kevin O’Neill, Will Eisner, Howard Cruse, James Kochalka, Adam Hughes, Peter Kuper, Jose Villarubia, Jimmy Palmiotti, Rick Veitch, Michael T. Gilbert, Steve Parkhouse, Nabiel Kanan, Bill Koeb, Rich Koslowski, Trina Robbins, Michael Avon Oeming, Sean Phillips, Jeff Smith, Sergio Toppi, Giorgio Cavazzano, Claudio Villa, Daniel Acuna, Willy Linthout, Jean-Marc Lofficier, Eduardo Risso, Dave Sim, Ben Templesmith e outros tantos.

O lançamento da editora Abiogenesis Press, do artista britanico Gary Spencer Millidge, tem caráter beneficente. Toda sua renda está destinada para o Fundos de Combate ao Mal de Alzheimer. Para mais informações, acesse www.millidge.com

Linha da Vida de Alan Moore

– Alan nasceu com pouca visão na vista esquerda e surdo do ouvido direito. Mesmo assim, ele evitou usar óculos até quinze anos. Já adulto, abandonou os óculos chegando a cogitar a possibilidade de usar um monóculo, acabando por achar essa alternativa muito kistch.

– A primeira casa do jovem escritor não tinha banheiro nem gás em sua rua.

– Em 1961, aos 7 anos, Moore descobriu os quadrinhos americanos da DC Comics.

– Moore atribui sua formação moral graças as histórias do Super-Homem.

– Padecendo de uma gripe comum, o jovem Alan Moore pediu para a mãe lhe comprar uma BlackHawk. Ao invés de trazer a HQ pedida, sua mãe o presenteou com a edição número 3 de Fantastic Four (Quarteto Fantástico). Essa revista foi o primeiro contato do escritor com os trabalhos de Jack Kirby, de quem se tornou fã imediato.

– Moore matava aulas no colegial para andar de motocicleta no pátio de um hospital para doentes mentais.

– Em 1968, Moore se tornou fã dos personagens da Charlton Comics, que mais tarde seriam os arquétipos dos personagens da maxi-saga Watchmen.

– Em 1969, ele começou a colaborar com vários fanzines, sempre como desenhista

– Aos 17, em 1970, Moore foi expulso da escola por uso de LSD. O diretor escreveu uma carta para todas as outras escolas e universidades da região, para que ele jamais fosse aceito em outro estabelecimento de ensino.

– Sem poder estudar, Alan trabalhou em um matadouro e limpou latrinas em um hotel de Northampton.

– Nessa época, ele deixou o cabelo crescer, ajudou a publicar o fanzine Embryo e conquistou sua futura esposa Phyllis lendo poesias em um cemitério. Em 1974, aos vinte anos, Moore e Phyllis se casaram.

– Em 1977, nasceu Leah, a primeira filha de Moore. Nessa época, Moore percebeu que tinha que fazer alguma coisa que gostasse logo ou então passaria a vida frustrado. O escritor começou a colaborar com jornais e revistas locais, escrevendo e desenhando tiras de humor. A mais conhecida delas foi Maxwell, the Magic Cat, uma espécie de Garfield inglês. Anos depois, Moore declarou que odiava escrever as historias de Maxwell e que se sentia envergonhado de receber dinheiro por elas. Mesmo assim, ele passou 7 anos escrevendo estas tiras. Detalhe: Moore assinava as tiras com o pseudônimo de Jill de Ray (uma alusão ao francês acusado de ter assassinado dezenas de crianças).

– A experiência com Maxwell mostrou que ele não servia como desenhista. Moore passou a dedicar “apenas” a escrever.

– Moore comecou a trabalhar com a Marvel UK (divisão anglo-saxônica da Casa das Idéias) em 1981. Aos 27 anos, Moore escrevia pequenas tramas nas revistas Star Wars e Dr. Who. Na mesma época, ele fez alguns trabalhos para a 2000AD e teve sua segunda filha: Amber.

– Em 1982, Alan recebeu sua primeira grande chance ao escrever para a recém-criada revista Warrior. Para quem não sabe, a Warrior publicava 4 a 6 histórias por edição, cada história com 6 a 8 páginas. Moore escreveu 3 sagas para a Warrior simultaneamente: The Bojeffrie’s Saga (uma família de monstros muito engraçada), Marvelman (Miracleman) e V de Vingança.

– Naquele mesmo ano, Moore começou a escrever as histórias do Capitão Bretanha. Já no primeiro capítulo, ele se livrou dos conceitos criados pelo escritor anterior e no capitulo seguinte matou o próprio protagonista da série, recriando-o totalmente reformulado na edição de número 3.

– Enquanto a fama de Moore crescia nos quadrinhos, ele encontrava tempo para se envolver em outros projetos. Ele formou uma banda chamada The Sinister Ducks, gravando um single em 1983.

– Na 2000 AD, Moore escreveu D.R. & Quinch, uma hilária saga de dois alienígenas delinqüentes. E ainda escreveu A Balada de Halo Jones e Skizz.

– Todos esses trabalhos renderam a Moore o prêmio Eagle Award de melhor escritor de 1982 e 1983. Foi quando os Estados Unidos começou a se interessar pelos trabalhos do autor.

– Em novembro de 1983, Lein Wein, criador do Monstro do Pântano, ligou para a casa de Alan perguntando se ele queria trabalhar para a DC e escrever as historias do monstro. Alan achou que era um trote e desligou na cara do escritor. É claro que depois ele viu que não era mentira e aceitou trabalhar com o personagem.

– Sob ao comando de Alan Moore, Swamp Thing passou das 17.000 cópias/mês para mais de 100.000 cópias!!!

– No período em que escreveu o Monstro do Pântano, Moore fez outros trabalhos pouco divulgados na DC, como “Tales of the Green Lantern Corps”, “Vigilante”(uma historia sobre abuso sexual de crianças) e uma historia do Batman onde ele enfrenta o Cara de Barro (publicada no Brasil na extinta SuperAmigos). Moore ainda escreveu 2 histórias memoráveis com o Homem de Aço (ambas relançadas no Brasil pela Opera Graphica). Uma delas, “For the Man who has Everything” é possivelmente uma das melhores histórias do Super-Homem.

– O próximo trabalho de Moore seria A Piada Mortal. A história foi escrita em 1985, mas devido a atrasos do desenhista Brian Bolland, a revista só foi terminada e publicada em 1988.

WATCHMEN

Ainda em 1986, a DC concordou em deixa-lo produzir sua própria série. Com o artista britânico Dave Gibbons, Moore sugeriu o projeto de uma série chamada WATCHMEN. A história, como Weaveworld de Clive Barker, é uma epopéia sobre um mundo fictício – embora o mundo que Moore inventou seja de várias maneiras igual ao mundo real de hoje.

Começando em uma Nova Iorque durante os anos 80, Watchmen descreve uma América como poderia ter sido se realmente tivesse testemunhado o surgimento de fato dos “super-heróis” – isto é, seres que possuem habilidades super-normais ou que se apresentam como vigilantes idealistas. Assim como a América nunca teria sofrido uma divergencia política progressiva dos Anos sessenta, imagina Moore, também nunca teria perdido a Guerra de Vietnã, e teria achado um modo para manter Richard Nixon como Presidente. Já no início de Watchmen, dificilmente as coisas são sublimes: alguém decidiu eliminar ou desacreditar os poucos super-heróis remanescentes enquanto que, em uma série de eventos aparentemente não relacionados, os Estados Unidos e a União soviética desenham um crescente conflito nuclear por causa de uma disputa na Ásia.

No centro da consciência desta história, de olho na (e tentando desafiar a) maneira de como o mundo está desmoronando, está um incomum herói criado por Moore: um mascarado, horrendo e transtornado vigilante direitista conhecido como Rorschach. Rorschach fala para o psiquiatra sobre a noite em que ele cruzou a linha da brutalidade:

“Me senti limpo. Senti o sombrio planeta girando sob os meus pés e descobri o que faz os gatos gritarem como bebês durante a noite. Olhado para o céu através da espessa fumaça de gordura humana, e Deus não estava lá. A escuridão fria e sufocante, continua para sempre, e nós estamos sós. Vamos viver nossas vidas na falta de qualquer coisa melhor para fazer. Deixemos a razão para depois.

Nascemos para o esquecimento; agüentando crianças destinadas para o inferno, nós mesmos; caminhando para o esquecimento. Não há nada mais. A existência é fortuita. Nenhum padrão seguro imaginado por nós depois de encarar isto por muito mais tempo. Nenhum significado seguro além do que nós escolhemos impor. Este mundo sem direção não é moldado por vagas forças metafísicas. Não é Deus que mata as crianças. Não é o destino que as abate ou que as dá de alimento para os cachorros. Somos nós. Somente nós… Estava renascido então, livre para rabiscar meu próprio desígnio neste mundo moralmente vazio..”

O assustador Rorschach

“Aquela foi uma história terrivelmente depressiva para se escrever,” disse Moore, “em parte porque Rorschach em nada se parece comigo: Eu não compartilho a sua política, e nem compartilho a sua filosofia. Ele é um homem aterrorizado e, em minha visão, ele acaba se rendendo ao horror do mundo.

Mas eu penso que o fundo do poço dos medos e ansiedades de muitas pessoas pode ser igual ao do Rorschach. As coisas que uma vez usamos para nos abrigarmos da escuridão – como Deus, a rainha, o país, e a família – foram se distanciando de nós. Em muitos casos, temos esmagados a nós mesmos, e agora nos deixamos tremendo na chuva, olhando para o mundo e vendo um obstáculo preto que não tem nenhum significado moral, afinal”.

Até que alcance seu devastador mas reafirmado fim, é evidente que, acima de tudo o mais, Watchmen é uma história de como as pessoas encaram a perplexidade do mundo de hoje: como alguns se movem furiosamente e de maneira fatal contra ele e de como outros, heroicamente, reúnem forças até mesmo em face ao Armageddon.

“Enquanto estava trabalhando em Watchmen,” conta Moore, “eu tive que me perguntar, O que é que mais me assusta? E percebi que a verdade é que quando o mundo acabar, não haverá nenhum aviso de quatro minutos, não haverá nenhum conflito nuclear de baixa escala. A verdade é que os mísseis poderiam estar no ar em cinco minutos. E se houver um Armageddon nuclear, não iremos retirar o pó de nós mesmos e nem reinventar os valores humanos. Não poderia haver nenhum valor humano após uma guerra nuclear porque não haveria nenhum humano.

Nosso passado seria erradicado. Nosso futuro seria erradicado. Nosso presente seria erradicado. E eu me achei pensando, Quando as crianças foram para escola esta manhã, eu gritei com elas ou lhes falei que eu as amo?”.

Os roteiros de Moore para essa saga viraram uma lenda pela riqueza de detalhes. O primeiro capítulo, por exemplo, tinha mais de 100 páginas e foi entregue ao desenhista Dave Gibbons sem parágrafos.

Com Watchmen, Moore virou uma celebridade do mundo dos quadrinhos, mas não estava feliz com isso. Certo dia, em uma convenção sobre HQ´s em San Diego, ele foi cercado por dezenas de fãs que o imprensaram contra uma escadaria na tentativa de agarrá-lo e conseguir um autógrafo. Moore decidiu que jamais participaria de convenções novamente.

A Casa do Trovão, em Twilight of the Superheroes

O próximo projeto de Moore na DC seria Twilight of the Superheroes, mas por razões desconhecidas, esse projeto não foi adiante. Anos depois, muitas das idéias de Moore para essa série seriam reaproveitadas na aclamada saga “Kingdon Come”(Reino do Amanhã) de Mark Waid e Alex Ross. A dupla nega qualquer reciclagem dos conceitos de Twilight.

Moore, que já não trabalhava para a Marvel desde a época de Capitão Bretanha, tambem passou a não trabalhar mais para a DC, pois discordava sobre os royalties de Watchmen e principalmente com o fato da DC adotar o código “for mature readers” (própria para leitores maduros/adultos) nas suas revistas.

A última colaboração de Moore para a DC foi o final de V de Vingança, que havia ficado incompleta apos a falência da Warrior. A série foi reeditada nos EUA e se tornou outro best-seller.

 

Miracleman

Na mesma época, ele voltou a escrever Miracleman (agora para a editora Eclipse). Além de tudo o que já havia sido escrito para a Warrior, Moore criou novas historias, entre elas a maravilhosa saga Olympus. Depois disso, ele passou os direitos autorais do personagem para Neil Gaiman (que mais tarde resultou naquele pega ´pra capar entre Gaiman e a cria do inferno, Todd McFarlane. O embate jurídico dura até os dias de hoje).

Moore recusou varios trabalhos nessa época, inclusive o roteiro de Robocop 2 (que assumiu a criança foi Frank DKR Miller). Seus próximos trabalhos foram o livro “Brought to Light”, com ilustrações de Bill Sienkieckz e a graphic novel “A Small Killing”.

Em 1989, Moore decidiu colaborar com a recém-criada revista “Taboo” de Stephen Bissete (parceiro de Moore em Swamp Thing). Para a Taboo, ele escreveu a espetacular “From Hell” – fruto de mais de 8 anos de pesquisa, e “Lost Girls”.

Ainda naquele ano, Moore passou a viver um triângulo amoroso com sua esposa e sua namorada Deborah Delano. Irritado com a intolerância do governo de Margareth Tatcher com os homosexuais, Moore colaborou com entidades GLS, publicando a história “Mirror of Love”, pela editora Mad Love, propriedade do próprio autor e de sua esposa.

Big Numbers

O próximo projeto era a serie Big Numbers, projetada para 12 capítulos e mais de 500 páginas. Somente 3 edições foram lançadas, 2 com desenhos de Sienckwiecz e uma com os traços de Al Columbia. Ninguém sabe ao certo porque o projeto nao foi adiante, mas especula-se que a complexidade do texto de Moore foi demais para os desenhistas que nao conseguiram dar conta do recado.

Nessa época teve início o inferno astral de Alan Moore: a Mad Love faliu e seu casamento terminou. A Taboo também chegou ao fim, deixando sagas como From Hell para serem completadas anos depois.

Em 1993, Moore tomou uma decisão que desapontou muitos de seus fãs. Aceitou trabalhar para a Image Comics escrevendo títulos como Spawn, Supreme, Glory, Youngblood, Wild C.a.t.s. Moore desabafou que aquilo não era um retrocesso ou que ele estava vendendo sua alma para os demônios Rob Liefeld e Jim Lee, e sim um desejo de escrever histórias mais simples, para garotos de 14 anos e não para adultos de 30. Ainda pela Image, ele participou do projeto 1963. Este ultimo projeto acabou gerando uma briga entre ele e Stephen Bissette. Até hoje eles não se falam.

Moore passou a morar com uma nova companheira: Melinda Gebbie. No dia em que completou 40 anos, Moore decidiu se tornar um mago. Ainda em 1993, ele praticou performances teatrais como “Snakes and Ladders” e “BirthCaul”. Mais tarde essas performances foram adaptadas para HQ´s por Eddie Campbell, seu companheiro de trabalho em From Hell.

Algumas conclusões de Moore em relação à magia foram adaptadas para histórias como Supreme, Glory e mais tarde Promethea. Em Supreme, Moore explorou o conceito do IDEASPACE, um mundo de arquétipos, semelhante ao Mundo das Idéias de Platão. Supreme vai investigar uma estranha cidade no alto do Tibet, encontrando uma paisagem desnorteante, formada por um grande número de paisagens diferentes fundidas numa só. Há partes dela que parecem como um bairro decadente durante a Depressão de 1930, onde ele conhece uma gangue de crianças e um herói fantasiado.

O Grande Criador

Supreme continua a vagar pela estranha paisagem até encontrar uma trincheira de um campo de batalha, onde há uma infinidade de soldados de várias etnias: Um irlandês, um judeu, um negro, tudo muito parecido com o Sgt. Fury e toda uma enorme linha de heróis patrióticos.

Isto continua até Supreme conhecer o criador supremo deste mundo, que se mostra ser Jack Kirby. Isto é muito difícil de explicar porque leva uma história inteira para ser contada, mas é basicamente uma gigantesca cabeça flutuante, que se altera sob uma fotomontagem da cabeça de Kirby em transmutação; ela sempre é apresentada no estilo dos desenhos de Jack Kirby. Esta entidade gigantesca explica a Supreme que ele foi um artista de carne e osso e sangue, mas agora ele está completamente no reino das idéias, que é muito melhor porque a carne e os ossos e o sangue tem suas limitações, já que ele podia fazer somente quatro ou cinco páginas em um dia de trabalho; mas agora ele existe puramente no mundo das idéias. As idéias só podem fluir sem interrupções. Ele fala sobre todo um conceito de um espaço onde idéias são reais, que é o tipo de lugar onde, de algum modo, todos os criadores de quadrinhos trabalham durante toda a sua vida, talvez Jack Kirby mais do que a maioria. É como se uma idéia se tornasse livre do corpo físico, e este artista pode então explorar os mundos infinitos da imaginação e das idéias.

Em 1996, Moore escreveu seu primeiro romance, intitulado A Voz do Fogo. Foram 5 anos para escrever este livro, um tratado de 5 mil anos da sua cidade natal, Northampton. O primeiro capítulo é narrado em primeira pessoa (de forma muito singular) por um personagem que vive numa Northampton paleolítica, quando a cidade tinha duas a três cabanas de barro e uma ponte. O segundo é narrado em primeira pessoa por um personagem totalmente desligado do primeiro que vive em Northampton durante a Idade de Bronze, em uma comunidade que começou a crescer, se desenvolvendo através das eras. Lentamente, nós movemos através dos séculos, até o décimo primeiro capítulo, que é narrado pelo próprio autor na Northampton do presente.

Trabalhando para a editora Wildstorm (que acabou sendo posteriormente vendida para a DC) Moore criou uma nova linha de HQ´s, a America’s Best Coomics (ou ABC), onde surgiram as aclamadas séries: Top Ten, Tom Strong, League of Extraordinary Gentlemen, Promethea e Tomorrow Stories.

Aos 50 anos, Moore anunciou que pretende se aposentar dos quadrinhos. Será?

Liga dos Cavalheiros Extraordinários

Se você assistiu LXG, a dica de leitura é um antídoto para a pataquada que você viu na telona. Leia a edição especial A Liga Extraordinária da Devir. Apesar do preço salgado (R$ 45,00), você pode encontrar esse lançamento na FNAC por R$ 36,00. Preço justificado pela luxuosa edição de 192 páginas repleta de material inédito, incluindo o tão aguardado conto “Allan e o Véu Rasgado”, no melhor estilo das obras de H.P. Lovecraft.A Liga de Moore não tem nada a ver com aquela versão X-Men Vitorianos. As Aventuras da Liga dos Cavalheiros Extraordinários é o fanfict definitivo: Imagine uma força-tarefa formada por personagens da literatura inglesa, mas com uma pitadinha do tempero de Alan Moore: Então o Capitão Nemo é uma figura intrigante, um fanático cheio de equipamentos misteriosos. Hyde é de uma complexidade assustadora. Mina Murray não é uma vampira anabolizada e o decadente Alan Quatermain passa longe da interpretação impecável de Sir Connery. Só para você ter uma idéia, o Quatermain da HQ é viciado em ópio! Leia o mais rápido possível e fique aguardando ansiosamente o volume dois, ainda “inédito” aqui no Brasil.

Entrevista com Alan Moore

Apresento-vos uma entrevista com o escriba, realizada por Alan David Doane. A tradução é de David Soares (Portugal)

Eu soube que este “Quiz de 5 perguntas” seria um esforço maior que os anteriores, excedendo certamente esse número de questões, quando o homem que eu considero ser o melhor escritor de banda desenhada de sempre deteu-se, pensativamente, durante oito minutos para responder à minha primeira interrogação (envisionando e esclarecendo, em conjunto, as seguintes). Olhando a isso, abandonei a fórmula inicial; que outra escolha tinha? Durante a década de 80, Alan Moore recriou a banda desenhada por imprevisto, como irão ler adiante, e, desde a sua estréia, uma engenhosidade e paixão superlativas constantes são as características reconhecidas no seu trabalho. Conversar com Alan Moore, mais que uma honra, foi uma aventura e é meu dever agradecer ao autor a sua disponibilidade, mas, também, a Chris Staros, da Top Shelf Productions, por apadrinhar este encontro. Esta editora publica muitos dos melhores trabalhos de Moore, como o seu romance “Voice of the Fire”.

Alan David Doane – O que te inspirou a escrever um romance com a profundeza de “Voice of the Fire”?

Alan Moore – Sempre vivi em Northampton, como os meus pais, talvez tenha sido isso. Somos todos descendentes uns dos outros nesta única grande família que são os seus cidadãos. “Nascidos de fresco com sangue em segunda-mão”, como gostamos de dizer por cá. Esta cidade fascina-me e saber que a sua história, tão singularmente rica, é completamente ignorada sempre se me apresentou contra-sensual. A maioria dos ingleses é capaz de identificar Northampton apenas como uma mancha indistinta a meio da M-1, entre Birmingham e Londres, mas quando comecei a investigar as suas origens na altura em que me lembrei de escrever este livro encontrei matéria convincente o bastante para concluir que Northampton é, mesmo, o centro do universo. No mínimo, eu fiquei convencido.

Penso que a sua é uma história esplêndida que remonta desde a Idade da Pedra quando caçadores de mamutes, e os próprios mamutes obviamente, ainda caminhavam sobre estas ruas, atravessando a Idade do Bronze e as migrações dos povos Celtas, prosseguindo pela Idade do Ferro e as invasões romanas e, ainda, parece-me ser uma cidade que assumiu sempre uma importãncia central, de um modo mais complexo que a sua simples localização geográfica. Lembro-me, se me encontro sem erro, que os avós de George Washington, e de Benjamin Franklin, habitavam duas pequenas aldeotas vizinhas durante os anos da Guerra Civil Inglesa. Os pais de Washington moravam aqui, os pais de Franklin moravam em Ekton e ambos os casais abandonaram Northampton após a guerra civil que terminou nesta cidade (provavelmente, o local mais desconfortável para comprar uma casa durante o séc. XVII) e emigraram para a América. De acordo com aquilo que sei, a própria bandeira norte-americana é baseada no seu, agora esquecido, brasão de família, tradicional de Northampton.

O tipo que descobriu o ADN, Francis Crick, viveu aqui e foi aluno na mesma escola que eu frequentei com apenas algumas décadas de intervalo entre os seus anos lectivos e os meus e ia semanalmente à catequese na igreja que ainda se encontra no fim da minha rua. Muitos episódios da história inglesa também circulam Northampton, como a Guerra das Rosas que também conheceu o seu fim neste lugar, simetricamente à nossa Guerra Civil, como já te contei, e a Conspiração da Pólvora que foi urdida nesta cidade e pretendia rebentar a sede do parlamento, em Londres, em 1605. Pensamos, inclusive, que o empreendimento foi um fracasso e é por essa razão que o tornámos numa festa anual, mas os conspiradores não se saíram, realmente, mal.

Também foi nesta cidade que a rainha Mary, da Escócia, foi decapitada e é avaliando esse conjunto de acontecimentos que te digo que existe muita história aqui, nem sempre agradável, admito, mas está presente uma força nuclear para a vida humana e que influenciou de certeza a evolução do modo de vida inglês, e, em última análise, possivelmente outros modos de vida em outros lugares.

A génese do livro nasceu dessa fé que me diz que, sim, Northampton é, na verdade, o centro do universo. Acredito nisso, assim como acredito que é esta é uma cidade despida de características especiais. Posso dizer-te que qualquer pessoa, habitante de qualquer lugar sobre o globo, pode desenterrar uma mão-cheia de maravilhas da terra do seu próprio quintal, se tiver feito uma pesquisa paciente sobre esse local e se for engenhosa o bastante para as encontrar. Demasiadas vezes caminhamos pelas nossas ruas, a pé ou de automóvel, e não compreendemos que sob as fachadas descaracterizadas se pode esconder o antigo cárcere de algum poeta ou um sítio reservado ao homicídio, o sepulcro oculto de alguma rainha lendária e é o somatório destas pequenas histórias que enriquecem um lugar: de repente, não te encontras simplesmente a passear numa cidade comum, aborrecida e homogénea, mas numa aventura em avenidas prodigiosas recheadas de histórias fantásticas. Na minha opinião, viver é uma experiência muito mais recompensadora se conhecermos intimamente a parte do mundo que nos foi destinada como casa e esta é a melhor resposta que te posso dar sobre a tua pergunta.

ADD – Bom, na verdade já respondeste às primeiras quatro perguntas.

AM – A sério? (Risos) Estou em forma.

ADD – (Risos) Sendo assim, vamos à última. Imagino que durante a criação das histórias deste livro, à medida que ias desenvolvendo a tua pesquisa e estruturando a narrativa, foste apanhado de surpresa por algumas coisas acidentais que não estavam previstas quando iniciaste o empreendimento.

AM – Fui surpreendido por uma grande quantidade de coisas. Repara que uma das minhas premissas iniciais era a de não querer escrever um trabalho histórico, por que não queria abdicar da liberdade que um trabalho de ficção me oferece, como, por exemplo, entrar na personalidade das pessoas sobre quem eu pretendo escrever e o sentido dessas vidas, pois acredito que dessa forma o resultado final é mais verdadeiro, mais humano. Contudo, mesmo conjurando todas estas vozes fictícias do passado queria que o seu discurso se baseasse em fatos reais e circunstâncias possíveis e comecei com esse objetivo em mente para, em seguida, compreender que determinados temas, determinadas imagens, estavam a emergir da minha narrativa.

Aparentemente, a maioria dos episódios ocorrem em Novembro, no dia do meu aniversário,e, paralelamente a isso, outros elementos estavam a manifestar-se repetidamente em diferentes histórias e indicavam-me uma espécie de padrão: pessoas com membros amputados; matilhas de cães pretos espectrais; cabeças decepadas e outros ícones de natureza igualmente inquietante.

O desafio de “Voice of the Fire”, se eu queria realizar esse livro de acordo com a minha ideia original, era ter um narrador diferente para cada uma das doze histórias, alguém que pertencesse a esse espaço-tempo e que relatasse na primeira pessoa. Para o último capítulo, que tem lugar nos dias de hoje, o único narrador possível só poderia ser mesmo eu próprio. Contar essa história com a minha voz, debruçando-me sobre os meus assuntos particulares sem inventar pormenores sobre o que estaria a acontecer durante essa altura e, coincidentemente, quando finalmente comecei a fazê-lo, descobri que já me encontrava em Novembro, mais uma vez… Iniciei a escrita desse capítulo com a esperança que a própria cidade me sugerisse um final que amarrasse todas as pontas e todas as hipóteses que fui deixando por rematar ao longo dos capítulos anteriores sem saber se isso iria acontecer ou se, pelo contrário, os últimos cinco anos da minha vida tinham sido um logro e que não deveria ter começado o livro, em primeiro lugar.

Sempre acreditei que existem momentos na vida de um escritor em que ele, ou ela, é confrontado com a noção de que as fronteiras entre a ficção e a vida real são, muitas vezes, inexistentes e isso é frequente em trabalhos nos quais optamos por um registro auto-referencial. Esses dois universos inclinam-se para um maior cruzamento à medida que te aproximas de casa o que pode ser desconfortável, no mínimo. Por isso não foi surpreendente, mas ainda assim bizarro, quando sucessivas ocorrências se conjugaram para satisfazer as necessidades do meu texto. Coisas sobre e com cabeças cortadas e enormes cães pretos que me mostraram que enquanto ações mirabolantes têm lugar na ficção, outros movimentos igualmente mirabolantes, e perigosos, acontecem na vida real; experiências que são simétricas. Por mais que as esperes, são sempre perturbantes.

ADD – Esse capítulo final, acredita, foi uma das coisas mais perturbantes que já li.

AM – Pois. Obrigado.

ADD – Existe uma frase nesse capítulo… Tu sabes qual: “O Homem escreve.”, “O Homem escreve.”…

AM – Sim.

ADD – Essa tua frase que aparece repetidas vezes e que parece tão absurda consegue reunir toda a informação do livro e fazer sentido no final, quando todas as centenas de páginas e todas as centenas de anos que assimilaste acabam por nos conduzir à tua casa, ao teu quarto, não é verdade?

AM – É quase isso. Não és conduzido ao meu quarto, felizmente para ti, mas à minha mente. Até esse ponto exato, ainda poderias pensar que “Voice of the Fire” é composto por uma série arbitrária de histórias suavemente associadas em órbita da minha cidade e nesse capítulo quis fundir tudo isso: as histórias, a minha vida, a minha mente e as vidas e as mentes dos leitores. Aparentemente, para surpresa de todos, o livro acaba mesmo por ser sobre mim. Pode ser sobre mim, sentado a escrever o próprio livro. Ou ser sobre o processo criativo de se escrever outro livro. Ou sobre outro assunto qualquer. É isso. E fico contente que tenhas reagido bem à frasezinha, por que ela arrepiou-me um bocadinho quando a escrevi. Lembro-me que pensei: “-Isto está a ficar sinistro, por isso devo estar a criar algo interessante”.

ADD – A frase não é sinistra, em si, mas consegue impressionar-te dessa forma.

AM – Obrigado.

ADD – É perturbante, como já te disse. Aliás, já li o teu “From Hell” e senti em algumas passagens dessa história que ultrapassaste a barreira entre autor e leitor. Uma barreira que não tinha sido ultrapassada em nada que já tivesse lido.

AM – Isso é maravilhoso…

ADD – Não tenho a certeza de qual dos livros foi editado em primeiro lugar, mas o efeito que “Voice of the Fire” me provocou pareceu-me uma ampliação do que senti em segmentos de “From Hell”, naqueles momentos em que tu, como acabaste de explicar, penetras, e nós contigo, na mente da personagem, que neste caso és tu. Não tinha pensado nisso, mas o leitor acaba por se transformar em Alan Moore.

AM – Pois… é possível. Penso, inclusive, que um ingrediente que pode ajudar a cozinhar esse efeito é o facto de que no último capítulo de “Voice of the Fire” não possuo um conhecimento “in loco” do meu consciente não-autónomo, ou seja: o meu “eu” pensante. Falando nisso, nunca utilizo a palavra “eu”, entendes? Acaba por funcionar como uma narração na primeira pessoa do singular, mas sem uma pessoa. Não sei se era a isto que fazias referência, mas eu também não compreendo muito bem o que me leva a escolher uma determinada forma de fazer as coisas. Na altura, pareceu-me que funcionava.

Pareceu-me que deixava o leitor respirar, sem estar constantemente a ser confrontado com a noção de que é um… deixa-me pensar… um ego de outra ordem que fala com ele. Fico satisfeito pela tua reacção a esta experiência.”Voice of the Fire” e “From Hell” nasceram mais ou menos na mesma altura, talvez com um ano de diferença, e isso acaba por estabelecer uma comunicação entre os dois, por que têm algumas afinidades, como, por exemplo, o facto de partilharem um momento da minha vida em que decidi tornar-me um ocultista e estudar a fundo matérias que estão imersas num mundo à parte às quais, vulgarmente, chamamos magia. No “From Hell” isso está explícito nos diálogos de William Gull quando ele nos descreve as suas crenças e que os deuses existem realmente, em majestade e monstruosidade, na nossa mente. Escrevi isso quase por acidente e compreendi depois que tinha escrito algo mais profundo, algo significante que, eventualmente, acabou por introduzir o meu interesse pela magia.

Certamente, esta inclinação coloriu com outros tons o final de “From Hell”, e a conclusão de “Voice of the Fire”. Este título reservou-me outra surpresa: comecei o livro contando a história de um xamã que procura um código de palavras, uma ladainha, um conjunto mnemónico para aglutinar o seu povo e na última história, eu sou esse xamã, inconscientemente, milénios depois, realizando a mesma rotina. Não a mesma, claro, pois os meus métodos não envolveram nenhum sacrifício humano. Podes dormir sossegado.

ADD – A mensagem de “From Hell, bom, pelo menos a que eu retirei da minha leitura e que, infelizmente, não é expressa pela sua adaptação cinematográfica…

AM – Tens de compreender que estás em vantagem sobre mim nesse tópico, por que não vi o filme.

ADD – Tudo bem. Penso que na melhor das hipóteses representar todas as preocupações do teu trabalho, já por si bastante extenso, num filme de duas horas é uma tarefa impossível de concretizar. Mas falava-te do que retirei do livro, a tal mensagem que é a de que a arte tem o poder de transformar o artista, até divinizá-lo, e no decurso da minha leitura percebi que ambos os livros, “From Hell” e “Voice of the Fire”, partilham essa preocupação. Não sei se foi intencional, mas a verdade é que quando se chega ao fim desses livros essa mensagem é, de facto, sugerida.

AM – A magia tem o poder de mudar a relação que tens com o mundo que te rodeia e isso aconteceu comigo. Comecei a olhar as coisas de outra forma, com um sentido, felizmente, mais útil, até, e considerando tudo isso, o que dizes sobre os dois livros pode ser verdade. Através deles, apresento uma visão alternativa da nossa história e das nossas experiências, mesmo que em “From Hell” a minha intenção principal fosse contar uma história sobre um crime, um homicídio. Nessa altura, nem pensei nos crimes de Jack, o estripador. Era, apenas, o uso de um crime como uma experiência avassaladora que me norteava. Felizmente, um homicídio, no contexto de uma vida, é uma experiência bastante improvável. Repara que o número de pessoas que acabam por morrer dessa forma é, ainda assim, muito reduzido.

Essa raridade sugeriu-me a idéia de falar sobre o homicídio de uma forma particular. Porquê abordar apenas a identidade do autor, que parece ser o motor constante de tantos romances policiais? Essa é uma alusão quase tão redutora como um vulgar jogo de salão. Como o CLUEDO, por exemplo, onde só precisas de descobrir quem foi o assassino, a arma que usou e em que local a vítima foi abatida. Com “From Hell” quis esclarecer, também, as variáveis sociais e culturais que permitiram a práctica desse crime, muito mais que, somente, especular sobre a identidade do homicida. Queria ver como um crime poderia agir sobre a sociedade e estudar todas as hipóteses de desenvolvimento que poderiam florescer posteriores a essa ação.

Prosseguindo nessa óptica, se estás a falar sobre um crime, essa experiência avassaladora que pode acontecer na nossa vida, tomas consciência que és capaz, inclusive, de ir mais longe e ter alguma coisa a dizer sobre a grandiosidade da própria condição humana. Podes dirigir este ponto de vista para “Voice of the Fire”, claro, mas desviado suavemente, já que a intenção desse livro não é provar-te que Northampton é o núcleo do universo, mesmo tendo fé absoluta na verdade dessa afirmação, como já te disse, mas mostrar-te que qualquer local, onde quer que te encontres, é muito mais rico, muito mais exótico e prodigioso do que parece à primeira olhadela, entendes? No primeiro livro, procurei mostrar um ponto de vista crítico sobre a condição humana e a cultura, neste caso a cultura e a sociedade inglesas, usando um crime como casa de partida, mas com “Voice of the Fire”, as minhas ambições estavam à solta, a pensar em outras paisagens e para onde a nossa evolução nos conduz. Penso que o que estabelece a comunicação entre os dois livros é mesmo o meu interesse pela magia, que influencia o meu modo de olhar as coisas e de as contar.

ADD – Gostaria  que falasses do modo como vê a tua carreira na banda desenhada e a forma como as obras que tu escreveste, como “From Hell”, mas também “Watchmen” e “The League of Extraordinary Gentlemen”, mudaram o comportamento da indústria da publicação de comics.

AM – Posso dizer-te que a minha ambição foi sempre ganhar a vida como cartunista e nem pretendia ser famoso. O problema foi quando descobri que nunca seria um artista bom e rápido o suficiente para aguentar uma carreira nessa atividade.

Lembrei-me, então, da hipótese de me concentrar na escrita, por que senti que poderia fazer um trabalho melhor como escritor e que desenhando os storyboards para as histórias a minha ligação com o desenho continuaria. Investi com essas premissas e compreendi logo no início que seria incapaz de escrever uma história de encomenda. Se uma idéia sugerida não fosse aquilo que eu tinha em mente, invertia-a para a transformar em algo que me desse prazer escrever ou que fosse, no mínimo, um desafio. Penso que o método que desenvolvi me salvou de muitos compromissos e sempre me providenciou com a motivação necessária para realizar um bom trabalho.

Comecei a ser requisitado aos poucos, para ali e para acolá, em resultado dele e apliquei-o, concisamente, quando a DC me engajou para escrever o “Swamp Thing”. Na minha lógica, o leitor nunca se irá interessar em ler uma história escrita por mim, se eu próprio não estiver interessado em escrevê-la. Isso pressente-se, não te parece? Penso que os leitores são muito bons em descobrir se o autor gostou realmente de fazer o seu trabalho.

Tive de tornar o material mais arrojado, mais destemido, para o forçar a ser interessante. Pensei que fosse arranjar uma porção de problemas por causa disso, mas não. Os leitores compreenderam as minhas escolhas e eu, encorajado por eles, inovei mais ainda, sempre com o apoio da Karen Berger, claro, a minha editora da DC na altura, e, também, por outras pessoas que apreciaram muito a subida das vendas do título, sempre maiores a cada mês. Todo esse conjunto de situações fez nascer uma relação de confiança mútua na qual os editores perceberam que se eu tivesse controlo sobre as minhas decisões criativas nunca lhes iria apresentar um trabalho inteiramente despropositado e foi essa credibilidade que me permitiu ir sempre mais longe, por vezes a locais perturbadores ou tétricos, mas sempre interessantes. De que forma é que isso influenciou a indústria? Não te posso oferecer uma explicação clara. Depende da minha disposição, se queres
mesmo saber. Se eu me sentir deprimido penso que a minha influência foi terrível e que os autores que cresceram a ler o “Swamp Thing” ou “Watchmen” só foram capazes de imitar a violência desses trabalhos, e a sua pose intelectualista, sem a suportarem com a ingenuidade e a aventura que também lá se encontram. Sinto que ignoraram completamente a minha vontade de romper os limites da própria fórmula de contar histórias em BD e contentaram-se em produzir uma série de livros tristes e penosos. Como te disse, esta visão desconsolada da realidade depende muito da minha má-disposição e hoje tiveste azar.

A sério que gostava mesmo de acreditar que, em vez de tudo isto que contei, consegui realmente mostrar com o meu trabalho que a banda desenhada permite inúmeras possibilidades aos seus autores e que estão para nascer livros fabulosos com contornos que somos incapazes de imaginar neste momento. Que podes fazer tudo com algo tão simples como palavras e imagens se as abordares sensivelmente e se fores inteligente, diligente e virtuoso no teu esforço. Talvez esteja a ser brusco, lamento, mas queres afirmar que existe uma influência minha na indústria? Então, por favor, coloca-a aqui em vez de encorajares a minha percepção de que a minha herança será invariavelmente composta por psicopatia e sarcasmo.

ADD – Sou capaz de regressar mais longe que os anos oitenta, quando o teu “Watchmen” e o “The Dark Knight Returns”, do Frank Miller, foram publicados. Na minha opinião, o que poderá ter iniciado a redefinição das personagens, dos super-heróis, poderá muito bem ter sido aquela história que escreveste no “Swamp Thing” na qual representaste os membros da Liga da Justiça, o Batman, o Super-Homem e os outros, como se fossem novos deuses, curiosos em relação à humanidade. É um segmento de quantas páginas? Duas? Contudo, penso que a mudança começou nesse momento.

AM – Quem sabe se a razão está do teu lado… Lembro-me que foi a primeira vez que escrevi sobre super-heróis, no mínimo, os americanos. O Swamp Thing não conta, por que, na altura, era refugo. Para mim, escrever essa história foi voltar a divertir-me com os brinquedos da minha infância, o Flash, o Super-Homem e sentá-los todos no seu grande gabinete cósmico e devolver-lhes o carisma que eles costumavam ter para mim e que, infelizmente, se tinha transformado num sentimento mais próximo de casa. Fi-lo usando pequenos ardis, como nunca os chamar pelo nome verdadeiro e ocultá-los na penumbra. Podes ver uma insígnia pelo canto do olho ou uma silhueta, mas isso é tudo. Sobretudo, quis fazer poesia com estas personagens.

Dizer que uma personagem consegue ver o que acontece no outro lado do globo ou que é capaz de aquecer a antracite o suficiente para a transformar em diamante, como fiz para o Super-Homem, ou que se move a uma velocidade tão intensa que a sua vida se assemelha a uma visita numa galeria de estátuas, como escrevi para o Flash. Falei em poesia e isto, de fato, não é um exemplo de boa poesia, mas constitui um novo olhar sobre estas personagens que temos inclinação a desdenhar, ou a esquecer, por que se tornaram, com o passar dos anos, demasiado familiares e a aproximação que nos liga às coisas e aos assuntos tende, por vezes, a criar essa desilusão. Só pintei uma maquilagem nova sobre o encanto que já existia. O Frank Miller fez a mesma coisa nas páginas do “Daredevil”, não? Quando introduziu outras personagens da Marvel nessa cronologia.

ADD – Tens razão, mas repara que ele não se desviou dos padrões instituídos e nunca nos fez olhar uma personagem conhecida de um modo singular. A mesma acusação é válida para a maioria dos criadores posteriores. É mesmo como dizes: se tivessem considerado a face mais experimental dos vossos trabalhos em vez de se concentrarem no sensacionalismo as coisas poderiam, certamente, ter conhecido outra evolução.

AM – Não duvides e essa face mais arriscada é o que existe de atraente no trabalho do Frank, essa sua mestria narrativa e a inovação constante que ele introduziu no género através das histórias do Demolidor e do Batman, muito mais que o desalento e a testosterona. Seria tão bom se a sua influência penetrasse mais fundo que a camada superficial feita de sexo e violência.

Não vamos dizer, todavia, que tudo o que apareceu depois de “Watchmen” e “The Dark Knight Returns” se encaixa nessa pobre categoria e posso dizer-te que na periferia do mainstream encontras grandes trabalhos que não são clones de nenhum destes títulos, mas ainda assim penso que a nossa herança é maldita e uma péssima desculpa para oportunidades perdidas, o que não desvirtua a qualidade do trabalho do Frank e do meu, obviamente.

ADD – Esta conversa sobre herança vem mesmo a propósito. O teu amigo Neil Gaiman já tornou público o que ele diz ser “a conclusão, ou o fim eminente, de um episódio interminável com um editor desonesto, desleal até ao limite do imaginável”, aludindo ao desfecho do processo que levantou contra Todd McFarlane pela posse dos direitos que envolvem parte do franchise do personagem Miracleman, que tu próprio resgataste e ressuscitaste nos anos oitenta. Passados todos estes anos, o que é que tu gostaria de ver feito com essas histórias que escreveste e qual é a tua opinião sobre o processo-crime?

AM – Estou muito contente pelo Neil, como podes imaginar. Ainda bem que acabou, por que deve ter sido um pesadelo moroso. É sempre ridículo que alguém que não seja o criador venha exigir direitos sobre um trabalho e custa-me a entender essa falta de ética, ou melhor, compreendo-a, mas não posso pronunciar-me sobre ela sem dizer um ou dois palavrões. É algo embaraçoso, seboso até, que acaba por nos sujar a todos e que não oferece uma boa imagem da indústria da banda desenhada, por culpa dela própria, também, já que, infelizmente, casos semelhantes a este são frequentes. Penso que o Neil, chegando impoluto à outra margem desse lodaçal para onde irrefletidamente o quiseram arrastar, comportou-se como um verdadeiro super-herói.

Seria divertido ver reimpressões do Miracleman, para que os leitores não estivessem a pagar preços proibitivos por edições raras guardadas religiosamente desde a sua publicação original. Algum do material apresentado nessas histórias era realmente fantástico, como o escrito pelo Neil, por exemplo, e era bom que ele, em algum momento, tivesse oportunidade para lhe dar continuidade. Ele já me propôs há uns tempos uma parceria com vista à realização de uma conta em que todos os royalties derivados das vendas das reimpressões fossem guardados para serem distribuídos com justiça aos autores que trabalharam na série, como nós ou como o Mark Buckingham.

Parte desse dinheiro podia ir, também, para o Comic Book Legal Defense Fund e se houvesse a infelicidade de um ou outro filme aparecer o dinheiro, os meus royalties pelo menos, poderiam ir diretamente para esse fundo ou ficar no estúdio para serem partilhados pelos criadores envolvidos no projeto, por que eu não quero receber um único centavo de mais um filme adaptado de um dos meus livros, nem desejo ver o meu nome associado a um empreendimento desse género. O ideal era que não se fizessem mais filmes inspirados em livros do Alan Moore. Em vez disso, era mais agradável ver bons trabalhos serem reimpressos por um bom editor, sob uma boa política editorial.
Isso seria uma excelente premissa para o futuro e não digo isto motivado pela ganância de ganhar mais uns tostões com o meu material antigo, mas com a intenção de garantir que criadores como eu e como o Neil não tenham de atravessar campos minados no percurso das suas carreiras, por que, na verdade, temos assuntos muito mais importantes com que nos preocupar.

1953 –

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/alan-moore/

Cartas na manga do diabo

Morbitvs Vividvs

Baixa magia pode se beneficiar em muito de psicologia aplicada. A seguir está um verdadeiro arsenal de cartas na manga do diabo que pode ser usados cotidianamente para atingir resultados mágicos. Não tente decorar a lista, escolha um e tente usar de verdade em alguém. Esta é a melhor forma de atingir a maestria em baixa magia.  É incrível para mim a quantidade de pessoas que aparentemente sabem tudo sobre psicologia aplicada exceto como aplicá-la.  

Invariavelmente as pessoas irão lhe rotular. Certifique-se portanto em você mesmo definir qual será o rótulo. Seu comportamento influencia a forma como as pessoas tratam você. Haja como um amigo íntimo e as pessoas se abrirão. Haja como um amante e as pessoas o amarão. Haja como um servo e logo estará servindo café. Shakespeare disse que o mundo é um palco e ele estava certo. O que ele não disse é que você pode escolher o papel que vai interpretar. 

   

Macaco vê, macaco faz. Agir em grupo é outra forma típica de comportamento humano. Supomos que a maioria das outras pessoas está sempre mais bem informada que a minoria e desta forma sentimos uma compulsão de agir em conjunto sempre que o grupo em que estamos age. Além disso a maior parte das pessoas tem horror em ser considerada diferente. Coloque um ateu em uma roda de oração e ele provavelmente fechará os olhos e abaixará a cabeça, mesmo que seja só para não se sentir constrangido. Notícias sobre suicídio aumentam a taxa de suicídio, pesquisas eleitorais podem mudar o rumo de uma eleição e programas de auditório usam risadas gravadas para fazer a audiência rir. Além disso a  prova social é como uma bola de neve. Quantos mais pessoas fazem algo, mais pessoas repetem o padrão. Suas ideias não devem portanto parecer exclusivamente suas, mas um consenso geral que naturalmente precisa ser replicado.  

As pessoas lembram mais claramente do começo e do fim de algo (por exemplo, sequência numérica, lista de compras etc.). O meio, no entanto, é onde as coisas tendem a ser esquecidas. Se você for para uma entrevista de emprego por exemplo certifique-se de  ser o primeiro ou o último entrevistado. Se você estiver indo para um encontro romântico escolha o começo ou o fim do dia. E no dia do encontro deixe a melhor parte e cause a maior impressão no começo e no fim. 

    Por falar em encontros, procure para eles atividades que envolvam alguma adrenalina. Isso ajudará a estimular a excitação no cérebro e fará com que a outra pessoa acredite que realmente está aproveitando seu tempo com você. Eles atribuirão à causa o pico emocional a você. 

    Controle o tamanho de suas pupilas. Olhe para algum detalhe no olho da pessoa para fazer sua pupila crescer e lhe dar um olhar sedutor. Olhe como se mirasse algum ponto atrás da cabeça da pessoa deixando entrar bastante luz para construir um olhar ameaçador. 

    Use espelhamento para ganhar mais rapidamente a confiança de alguém. Ao iniciar uma conversa imite sutilmente sua linguagem corporal. O espelhamento sutil faz com que elas pensem que você estão em sintonia. 

    Avance aos poucos. Por orgulho ou preguiça mental temos é a de continuar fazendo o que já fazemos. Para usar isso ao seu favor faça as pessoas se comprometerem aos poucos com o seu lado. Pense no exemplo de Mefistofeles, ele inicialmente não foca na alma, mas na assinatura do contrato. Se possível procure no passado dela alguma situação semelhante em que ela agiu como você quer agora e comece por aí. Faça com que seu alvo se comprometa primeiro com coisas pequenas e então aos poucos expanda as implicações do seu comprometimento, mas sempre de maneira suave e de preferência imperceptível. Existe uma razão para as pessoas convidarem umas às outras para jantar mesmo quando a sobremesa será servida na cama. 

    Quando precisar se estabelecer como figura de controle, chegue mais cedo. Pode parecer chato, mas se você ajudar o anfitrião a se preparar você pode receber cada recém chegado com frases como: “Nós decidimos”, “Nós estávamos falando…” e você pode fazer a agenda da noite. 

    Quando quiser descobrir o verdadeiro líder de um grupo, chegue tarde. Pergunte a algumas pessoas o que você perdeu.  Eles dirão não somente com suas palavras mas também com sua maneira e linguagem corporal. Isso também mostrará seus sentimentos sobre os tópicos. 

    Falar mais baixo faz as pessoas prestarem mais atenção. As pessoas acham muito difícil ficar neutras quando alguém sussurra para elas e age como ovelha desgarrada. Este modo de interação automaticamente os coloca em posição de conspiração. 

    Quando precisar convencer uma plateia marque reunião para depois do almoço em uma sala quente com leve iluminação fluorescente se você falar clara e levemente pessoas absorverão suas sugestões como se os tivessem hipnotizados. Se quiser intensificar isso pratique o modo de falar do Drácula de filme de Bela Lugosi, mas sem o sotaque. 

    Se você acha que alguém não gosta de você, peça um pequeno favor, como emprestar a caneta. Mesmo que eles estejam inclinados a dizer não, pedir emprestado uma caneta é um favor tão pequeno que é incrivelmente difícil para alguém recusar. Depois de aceitar seu pequeno pedido ele chegará à conclusão incosnciente de que vocês estão bem. Isso costuma ser chamado de Efeito Benjamin Franklin, pois ele o usava sempre que preciso. 

    Se você tem um amigo que se recusa a se abrir com você, pergunte o que ele está sentindo. Se ele não responder ou parecer que está escondendo algo basta manter o contato visual e permanecer em silêncio por alguns segundos. isto criará uma tensão que o deixará desconfortável. Ele continuará falando para quebrar a tensão, mesmo que isso signifique fornecer as informações que estava escondendo. 

    Mulheres que sorriem são mais atraentes. Homens que parecem sérios são mais atraentes. 

    Para descobrir se uma pessoa gosta de você, escolha uma palavra e toda vez que ela usar essa palavra ou frases com palavras sinônimas, acene e sorria. Se a pessoa tiver sentimentos por você ela começara a usar a palavra o tempo todo. 

    Quer que as pessoas levem suas palavras a sério? Quando você lhes contar algo, diga que seu pai lhe ensinou isso. As pessoas tendem a acreditar nos conselhos dos pais por natureza. 

    Quer que as pessoas concordem com você? Basta mexer a cabeça concordando e mantenha o contato visual enquanto estiver falando. A ação de assentir faz com que a pessoa comece a acreditar que o que você está dizendo é realmente verdade e, portanto, provavelmente também começará a concordar com você. Além disso, seguindo padrões de comportamento social, as pessoas tendem a concordar com o que outras pessoas já concordam. 

    Quer afastar multidões? Em lugares lotados, olhe bem na sua frente, na direção em que você está indo. Você ficará impressionado vendo a multidão literalmente ceder lugar a você. Esse truque é muito fácil de explicar: em lugares lotados, tendemos a olhar nos olhos de outras pessoas para saber em que direção alguém está indo. Tomamos o caminho oposto para não batermos nela. 

    Se sentir que alguém está olhando para você, apenas boceje. Bocejo é altamente contagioso e a pessoa se entregará. Olhar para o relógio costuma ter o mesmo efeito. 

    Use seu corpo para dar ordens enquanto distrai com sua fala. Você pode fazer alguém carregar algo para você entregando algo para ela enquanto diz algo vago que a distraia. A maioria das pessoas nem percebe que você está entregando alguma coisa e a aceita. 

    Que parecer um bom ouvinte? Repita o que a pessoa acabou de dizer com outras palavras. O exagero desta prática pode resultar em estranhamento. 

    Encontre pontos de afinidade. Agora, vocês dois fazem parte de um “grupo”. É da natureza humana procurar indivíduos com ideias semelhantes e aos os vermos como nós automaticamente confiamos mais neles. Isso cria uma mentalidade nós-contra-eles. 

       Não crie inimigos à toa. Elogie em público e critique em particular. 

      Diferencie seu discurso. Elogie o charme dos feios inteligentes e a sagacidade dos burros e belos. 

    O cheiro mais afrodisíaco que existe é o do seu próprio suor. Este é um assunto  quase tabu principalmente entre mulheres. Lembre-se que a cultura francesa do perfume surgiu na época em que os banhos não eram tão comuns. As melhores notas são aquelas que melhor combinam com seu cheiro natural. 

    Use a predisposição do sim. Consiga vários sins fáceis antes de chegar no que você quer: “Está frio né? Essa chuva veio do nada não é mesmo? Parece que não vai acabar tão cedo, concorda? Quer comprar um guarda-chuva?” 

    Chame às pessoas pelo nome. Não há palavra mais doce em nenhum idioma que o próprio nome. Quanto mais difícil lembrar maior será o impacto. 

    Um inimigo em comum é uma das forma mais rápidas de unir as pessoas. 

    Nunca cumprimente alguém com as mãos frias. Se você sabe que vai apertar a mão de alguém, verifique se ela está quente. Mãos quentes mostram que você está confortável com a situação enquanto o aperto de mão frio desencadeia o efeito oposto. 

    Para deixar alguém feliz deixe a pessoas falar de si mesmas. As regiões cerebrais associadas a motivação e recompensa são ativadas quando compartilhamos informações publicamente. Esse é um conselho clássico e funciona mesmo quando a outra pessoa está ciente desse efeito. 

    Seja generoso. Ao menos que a pessoa seja um psicopata, sentimos uma obrigação orgânica de agradecer as boas ações. É por isso que naturalmente sorrimos de volta quando alguém sorri para nós. Para usar isso ao seu favor tudo o que você precisa fazer é cuidar para que as pessoas sintam sempre que estão em dívida com você. Como Don Corleone não permita que elas retribuam imediatamente. Bons pagadores em especial devem sempre ser mantidos em dívida. 

Morbitvs Vividvs é autor de Lex Satanicus: O Manual do Satanista e outros livros sobre satanismo.

Muito bom, é isso aí!👿

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/cartas-na-manga-do-diabo/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/baixa-magia/cartas-na-manga-do-diabo/

O tempo em nossas mãos

» Parte 2 da série “Reflexões sobre o tempo” ver parte 1

“Existe este gigantesco híper-momento onde tudo ocorre, apenas nossa mente está ordenando tudo em passado, presente e futuro.” – Alan Moore.

Agostinho de Hipona talvez tenha sido o primeiro homem a se aprofundar na reflexão filosófica sobre o tempo. O grande pensador do cristianismo abriu caminho para sua análise com um comentário bastante peculiar:

“Que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. [1]”

Então, logo após, colocou em xeque a própria noção da divisão do tempo em passado, presente e futuro:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo claro e brevemente? […] e de que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro – se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, como poderíamos afirmar que ele existe, se a causa da sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? [2]”

Para tentar resolver tal paradoxo, Agostinho foi se aprofundando cada vez mais no problema do tempo, até que seu caminho puramente lógico lhe levou a uma intrigante conclusão, talvez uma das conclusões mais importantes da história da filosofia – e que até hoje não foi superada por nenhum pensador que lhe precedeu:

“O que agora transparece é que, não há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: Os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente dos presentes, presente dos futuros. Existem pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras. Se me é lícito empregar tais expressões, vejo então três tempos e confesso que são três. [3]”

Mas a solução de Agostinho não era propriamente uma solução, ela apenas deslocava o problema do tempo para nossa percepção subjetiva do mesmo. Isso significava, é claro, que o tempo não poderia realmente ser medido de forma objetiva, e tampouco era uma medida absoluta. Agostinho havia precedido Einstein em muitos séculos, o ex-boêmio havia se embriagado, desta vez, não de vinho, mas do conhecimento do Cosmos… Ele já sabia que o tempo não poderia ser o mero movimento dos corpos:

“Ninguém me diga, portanto, que o tempo é o movimento dos corpos celestes. Quando, com a oração de Josué, o Sol parou, a fim de ele concluir vitoriosamente o combate, o Sol estava parado, mas o tempo caminhava. [4]”

Podemos ser céticos com relação ao fato do Sol ter realmente parado, mas a essência lógica do pensamento agostiniano estava tão correta na época quanto nos dias atuais…

Atualmente, o tempo é um tema especialmente quente na física. A procura por uma teoria unificada (das quatro grandes forças da natureza) força os físicos a reexaminar diversas suposições básicas, e poucas coisas são mais básicas que o tempo. Alguns físicos argumentam que não existe algo como o tempo. Outros acham que o tempo deveria ser promovido em vez de rebaixado. Entre essas duas posições há a fascinante ideia de que o tempo existe, mas não é fundamental. Um mundo estático dá, de certa forma, origem ao tempo que percebemos. Essas ideias vêm sendo debatidas desde a época dos filósofos pré-socráticos, mas só agora os físicos as estão levando mais a sério como genuínas possibilidades para teorias científicas consistentes… De acordo com uma delas, o tempo pode resultar da maneira como o universo está dividido; ou seja, o que percebemos como tempo reflete a relação entre as partes.

O que normalmente chamamos de tempo é tão somente uma maneira de descrever o ritmo de um movimento ou mudança, tal como a velocidade em que pulsa o coração, ou ainda a velocidade de giro de um planeta. O curioso é que tais processos podem ser relacionados diretamente um ao outro, sem fazer referência ao tempo em si. Por exemplo, tanto podemos afirmar que a luz viaja a 300 mil km/s, que o coração dá 75 batimentos por minuto ou que a Terra faz uma rotação por dia quanto, igualmente, poderíamos dizer que enquanto o coração humano dá 108 mil batidas, a Terra gira em torno de seu eixo uma vez; ou que, por exemplo, a luz viaja a 240 mil km por batimento cardíaco.

Assim, alguns físicos dizem que o tempo é uma moeda comum, tornando o mundo mais fácil de descrever, mas não tendo existência independente. Medir os processos em termos de tempo poderia ser como usar o dinheiro em vez da troca direta de bens e serviços, em nossas relações comerciais. Por exemplo, se uma xícara da café custa US$ 2, um par de tênis custa US$ 100, e um carro usado sai por US$ 2 mil, poderíamos simplesmente esquecer do dólar e concluir de uma forma mais simples, talvez, que um par de tênis vale 50 xícaras de café, enquanto que um carro usado sairia por mil xícaras. Nós usamos moedas para facilitar a vida, pois ninguém vai querer comprar um carro com mil xícaras de café. No entanto, cédulas monetárias nada mais são do que folhas de papel com curiosas gravuras impressas, é a nossa crença em seu valor que as fazem valer isto ou aquilo. Não seria o tempo, portanto, apenas o resultado de nossa crença de que existe um tempo?

O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty argumenta que o próprio tempo não flui realmente e seu fluxo aparente é produto de nossa atitude de “colocar secretamente dentro de um rio uma testemunha de seu curso”. Ou seja, a tendência de acreditar que o tempo flui é resultado de esquecer de colocarmos a nós mesmos – e nossas conexões com o mundo – no quadro geral. Merleau-Ponty estava falando de nossa experiência subjetiva de tempo e, até recentemente, ninguém imaginou que o tempo objetivo pode, ele mesmo, ser explicado como resultado dessas conexões. O tempo pode existir apenas ao quebrar o mundo em subsistemas e olhando para o que os une. Nesse cenário, o tempo físico surge pelo mérito de pensarmos sobre nós mesmos como separados de todo o resto [5].

Se optarmos por nos arriscar a realmente encarar o problema do tempo face a face, precisamos retornar a origem de tudo o que há, ao Big Bang, pois que Einstein também nos provou que tempo e espaço são ambos constituintes, fios tecedores do tecido do espaço-tempo. Não é possível falar de um sem falar do outro, e não é possível falar de ambos sem falar do todo, de todo o Cosmos.

O grande Espinosa, em sua genial análise do primeiro capítulo de sua “Ética”, já havia chegado a conclusão de que “uma substância não pode criar a si mesma”. Como a história cósmica é uma sucessão de transformações e danças de matéria e energia, pela lógica somos obrigados a concluir que tudo o que há é fruto de uma única substância.

Talvez o Cosmos seja como a roda da carroça do velho Lao Tsé, sempre a percorrer os velhos sulcos… Talvez o eixo seja a essência, através da qual a substância se irradia para o aro, que parece-nos girar… Supomos que ele realmente gira, principalmente porque vivemos neste aro, porque estamos todos conectados – somos poeira de estrelas, fagulhas divinas das fornalhas solares, enfim, somos também parte da mesma substância…

Enquanto o aro gira, sustentado pelo eixo, parece-nos que os eventos realmente se sucedem. Mas, e se o aro for o espaço-tempo, sendo constantemente sustentado e mantido pela irradiação que parte do eixo, temos que o tempo, assim como o espaço, nada mais é do que fruto da dança cósmica que a substância de Espinosa têm nos agraciado observar desde o início das eras.

Se for este o caso, não devemos nos angustiar com a profundidade do infinito, tampouco com a ansiedade do futuro ou a saudade dolorida do passado. Se tudo o que há é a substância, tudo o que há é também este momento, o momento em que temos o tempo nas mãos e a vontade, a sagrada vontade, para o esculpir a nosso bel-prazer. Talvez o paradoxo de Agostinho nem precise ser resolvido, não enquanto ainda temos coisas mais urgentes para resolver. Se o passado já não existe, e o futuro não chegou, agarremos ao presente com toda nossa alma, e façamos dele um hino em homenagem à substância, um hino para toda eternidade.

» Na continuação, o final dos tempos…

***
[1] Confissões, livro XI (14).
[2] Confissões, livro XI (14).
[3] Confissões, livro XI (20).
[4] Confissões, livro XI (23).
[5] As referências científicas dos 4 últimos parágrafos foram retiradas do excelente artigo “O tempo é uma ilusão?”, do filósofo da ciência Craig Callender, para a Scientific American (edição especial #41, “A longa história do universo”).

#Espinosa #Filosofia #Tao #Tempo

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/o-tempo-em-nossas-m%C3%A3os

Bonecos Vampiros Gigantes

Shirlei Massapust

Muito se discute se BJD de tamanho 1/1 é algo para além de um mero boneco. A Fonte (1917) de Marcel Duchamp é um urinol, todavia se expõe como obra de arte. BJD de tamanho 1/1 é boneco, mas raramente é tratado como tal. Aparece mais como representação artística daquilo que de fato é.[1] Estes sobrebonecos são sofregamente achados em galerias de arte ou leilões onde as vezes se paga até para dar lances perdidos. Seus produtores são bonequeiros conhecidos. A Geração Y viveu para ver Marmite Sue, Bleuacide (Taissia Abdoullina) e Marina Bychkova deixando o comércio de colecionáveis para mergulhar nas brumas do mundo invisível da alta sociedade.

O tamanho máximo para um BJD que o homem médio asiático planeja ter em casa varia de 55 a 75 cm, muito raramente obtendo também algum de 80 ou 90cm. A maioria dos colecionadores não chega a consumir figuras humanas em escala 1/1 por não terem onde guardá-las e porque nem tudo convém levar para casa. É mais cômodo adquirir periódicos, livros de arte e outros materiais impressos, donde vem o costume entre os escultores-bonequeiros de trabalhar em dupla com fotógrafos.

No século XIX já existia isto que nos países de língua inglesa é chamado de “ball jointed doll” (BJD), nos de língua francesa de “sujet de la jointure à boules”, nos de língua alemã de “das kugelgelenk”, etc. Porém eram brinquedos infantis, bonecos ocos articulados com juntas esferoides e esqueleto de elástico. Quem primeiro os julgou impróprios para menores de oito anos e teve a ideia de produzir BJD em escala 1/1, para apreciação do público adulto, foi o alemão Hans Bellmer (1902-1975).[2]

A junta universal – que gira para todos os lados – surgiu na época transitória da substituição do astrolábio geocêntrico pelos globos terrestres. Graças a ela a caneta tinteiro deu lugar à esferográfica e a mobilidade dos bonecos foi ampliada ao ponto da imitação fidedigna dos movimentos humanos. Por este motivo Hans Bellmer imaginou que o manejo do BJD pode estimular o engendramento de novas aplicações da junta universal na elaboração de teorias científicas, criação de máquinas e artesanato.

Isto nos permite identificar precisamente a função da boneca, que é o “estimulador poético”. Não importa se mais ou menos realista ou confusa — flutuando, como costuma fazer, entre os papeis de animado ou inanimado — nós sempre estaremos olhando para uma coisa móvel, passiva e incompleta que pode ser personificada. Em última análise, no quadro geral cujo princípio do objeto articulado parece atender à demanda, nós devemos estar tratando do fator mecânico por trás da mobilidade: A junta universal. [3]

Hans Bellmer definia os jogos de interpretação como uma categoria de poesia experimental. Por isso chamava a projeção do humano em relação ao boneco de “das Du”, na segunda pessoa singular, repudiando termos usados em psicologia (ego e id são Ich ou self e Es em idioma alemão). Ficção não se mistura com realidade; logo, a réplica guarda sua própria natureza enquanto objeto de abstração e espelhamento.

1) Antiga fotografia anônima duma boneca de Hans Bellmer em exibição temporária no Art Institute of Chicago.[4]

 2) Antiga fotografia de La Poupée (1935) de Hans Bellmer.[5]

 

O gênero de bonecos Iki-ningyō (生人形) retrata fielmente a imagem humana e, não raro, critica a realidade em que vivemos. Sua tipologia assimilou o hiper-realismo difundido nos EUA e na Europa desde 1969, porém uma forma primária já existia no Japão desde o século XIX permeando a confecção de bonecos de todos os tamanhos.

O Museu Nacional do Japão possui uma ala inteira destinada à exposição permanente 球体関節人形展・Dolls of Innocence, onde são exibidos vários bonecos com juntas esféricas em escala 1/1 ou maiores. A peça mais antiga é La Poupée (1935), criada por Hans Bellmer; um corpo feminino com dois sexos, quatro pernas e nenhum busto, notoriamente uma mulher em mitose. Essa é a boneca autorreplicante que se desdobra em dois corpos inteiros na introdução de três minutos e vinte e nove segundos que fez do filme Innocence (イノセンス, 2004) o produto da franquia Ghost in the Shell (攻殻機動隊) mais ovacionado pela crítica filosófica.

Depois desta amostragem da arte de Hans Bellmer, as bonecas mais antigas da referida exposição são peças datadas de 1986 produzidas pelo chinês Ryo Yoshida (吉田 良) e pelo japonês Jin Yamamoto (山本仁), os quais trabalharam com temas mórbidos, eróticos e infantis. Outros vieram depois, inclusive a japonesa Koitsukihime (恋月姫) que esculpiu quatro bonecas adquiridas pela curadoria do museu. Uma delas é uma graciosa menina deitada num caixão, produzida em 2003.

1) Criança no caixão, esculpida por Koitsukihime e fotografada por Mario Ambrosius na exposição 球体関節人形展・Dolls of Innocence do Museu Nacional do Japão.[6]

2) Vampiro da série Kamitsukitai (咬みつきたい) esculpido por Katan Amano e fotografado por Ryo Yoshida.[7]

 

Esta última pode ser uma vampira pois Koitsukihime[8] exibiu sua especialidade, em parceria com o fotógrafo Hiroshi Nonami (野波浩), na coleção de cartões postais Misericordia (恋月姫展 ミゼリコルディア; 2008), editada pelo Studio Parabolica. Nela vemos dezoito fotografias de treze bonecas esculpidas entre 1980 e 2006. Isso foi anunciado como matéria de capa do número especial sobre vampiros de revista de artes Yaso 夜想 ヴァンパイア (2007), também impressa pelo Studio Parabolica.

Posteriormente a escultora-bonequeira Mari Shimizu (清水真理) também publicou o livreto Ashes to Ashes, Dust to Dust (2014) contendo cinco fotos duma série de bonecas com temática vampírica, todas esculpidas por ela, junto a um conto bilingue (inglês/nihongo) escrito por Mari Ishigami (石神茉莉). Foi um projeto tão bem sucedido que, no ano seguinte, Mari Shimizu fez mais seis BJDs e uma escultura na série Kyūketsuki gensō (吸血鬼幻想), “Fantasia de Vampiro”, divulgada pelo Twitter.[9]

BJD vampiros em tamanho 1/1:

1) Escultura Harukanaru nemuri 「遥かなる眠り」 (sono distante), esculpida por Koitsukihime e fotografada por Hiroshi Nonami, reproduzida na capa da revista Yaso 夜想 ヴァンパイア (2007).

2) Capa do livreto bilingue Ashes to Ashes, Dust to Dust (2014) com fotografias de esculturas de Mari Shimizu e texto de Mari Ishigami.

 

Jovens vampiras estão na ponta dum iceberg que se avoluma numa profusão de outras coisas impressionantes que os apreciadores de horror e arte obscura podem encontrar no Japão do século XXI. A própria Koitsukihime esculpiu gêmeas siamesas. Entre as bonecas que se destacam há mulheres-violino, mulheres de ventre aberto e outros temas macabros esculpidos pelo bonequeiro Miura Etsuko (三浦悦子).[10] A bonequeira Tari Nakagawa (中川多理)[11] frequentemente esculpe cadáveres putrefatos. Uma cabeça enfaixada aparece na capa do livro Emmurée (アンミュレ, 1993) onde o fotografo Masaaki Toyoura (豊浦正明) expõe a arte de Yuriko Yamayoshi (山吉由利子).

Escultura Inside Vampire, da série Kyūketsuki gensō (吸血鬼幻想; 2005). Arte de Mari Shimizu. Fotos de Yukio Yoshinari.

O escultor-bonequeiro Katan Amano (天野可淡; 1953-1990) produziu alguns croquis aquarelados de arte conceitual e pelo menos quatro bonecos – três vampiros masculinos e uma vítima feminina – destinados à montagem de cenas vampirescas na série Kamitsukitai (咬みつきたい), “Eu Quero Morder”, fotografada por seu parceiro e biógrafo Ryo Yoshida (吉田 良).[12] A inspiração foram os filmes clássicos do cinema ocidental, com Bela Lugosi e Christopher Lee. Os bonecos estão vestidos como o Conde Drácula, com smoking e capa de ópera, e posando à semelhança dos atores. Também dormem no caixão e, num croqui, o vampiro voa como homem-morcego.

Outras esculturas de humanoides com asas de morcego, que nos lembram vampiros, podem ser representações de animais comuns que se tornaram bakemono, como os tsukumogami transformados aos noventa e nove anos. A mulher-morcego com relógio no ventre (腹時計蝙蝠婦人), de Kai Akemi, é metáfora da vida noturna.

1) Mulher-Morcego (腹時計蝙蝠婦人). Arte e foto © 1995, Kai Akemi. 2) Fotografia de Ryo Yoshida duma escultura de Katan Amano (天野可淡, 1953-1990), no livro Katan Doll (1989).

Quando alguém tão celebre quanto Katan Amano sai da vida para entrar para a História tendo deixado cópias fieis do mitologema e da iconografia padronizada pelos filmes ocidentais, ao esculpir vampiros articulados, é porque falta um toque original, regional, no projeto… Seu bebê morcego é muito melhor que seus Dráculas.

Notas:

[1] Exceto casos excepcionais como o da coleção trinity doll da Dollmere, composta de bonecas de 1,05 m de altura, reproduzidas em série e vendidas junto com outros bonecos de tamanho pequeno, da mesma marca.

[2] Hans Bellmer (1902-1975) foi um fotógrafo, escultor, escritor e pintor associado ao movimento surrealista.

[3] BELLMER, Hans. The Doll. Trad. Malcolm Green. London, Atlas Press, 2005, p 60.

[4] BUNYAN, Marcus. Exhibition: ‘shatter rupture break’ at the Art Institute of Chicago: Exhibition dates: 15th February – 3rd May 2015. Publicado em Art Blart, 19/03/2015. URL: <https://artblart.com/2015/03/19/exhibition-shatter-rupture-break-at-the-art-institute-of-chicago/>.

[5] EQUIPE EDITORIAL. Hans Bellmer e suas bonecas perturbadoras: Seu polêmico trabalho destacava temas do subconsciente, sonhos, sexualidade e morte. Em: Arte Ref, 02/05//2022. URL: <https://arteref.com/escultura/hans-bellmer/>.

[6] AMBROSIUS, Mario. 球体関節人形展・Dolls of Innocence. Tokyo, Nippon Television Network Corporation, 2004, p 46.

[7] YOSHIDA, Ryo. Katan’s Vampire. 「吸血鬼人形に込められた思い」 Em: YASO 夜想 ヴァンパイア. Japão, Studio Parabolica, 2007, p 53.

[8] Para obter bonecas em tamanho 1/1 de Koitsukihime o colecionador de arte deve preencher um cadastro em nihongo no portal Chateau de Lune <http://koitsukihime.jp>, verificar a disponibilidade do artesanato na área reservada, pagar o preço combinado e viajar ao Japão para buscar sua escultura em terracota de boneca gigante.

[9] 清水真理 作品集発売中。@shimizumari. Publicado no Twitter em 09/06/2016 5:34 AM. URL: <https://twitter.com/shimizumari/status/740824451298758656>.

[10] MIURI ETSUKO. Site oficial: <http://www.miuraetsuko.com/>.

[11] KOSTNICE: Tari Nakagawa Doll Site. <https://www.kostnice.net/>.

[12] YOSHIDA, Ryo. Katan’s Vampire. 「吸血鬼人形に込められた思い」 Em: YASO 夜想 ヴァンパイア. Japão, Studio Parabolica, 2007, p 47-53.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/vampirismo-e-licantropia/bonecos-vampiros-gigantes/

A Escola de Mistério Órfica

Tamosauskas

Orfismo, na falta de um nome melhor, é a forma como chamamos hoje a escola de mistérios grega baseada nos poemas e rituais de Orfeu. Esta escola teve grande influência nos filósofos pré-socráticos e, através de Sócrates e Platão, toda a civilização ocidental. Parece-nos bastante razoável que um bom ponto de partida seja conhecer um pouco de Orfeu, seu alegado fundador. Esta entretanto não é tarefa trivial uma vez que, como disse Marcelo del Debbio na Enciclopédia de Mitologia, Orfeu é um dos personagens mais obscuros e carregado de simbolismo de todos os mitos helenísticos.

O narrativa mitológica

Orfeu é filho de Oiagros, deus fluvial da Traccia e da musa Calíope e desde seu nascimento esteve sobre às graças do deus Hélio (Apolo), que segundo alguns mitos é seu verdadeiro pai. Ele costumava se levantar todas manhã para saudar o Sol no cume do monte Pangeu e proclamava que Hélio era o maior de todos os deuses.

O deus solar também o tinha em grande conta, deu a ele sua famosa lira e ordenou que às musas lhe ensinasse todos os segredos da música. Tocava a lira com tal perfeição que acalmava os homens e os animais e fazia com que mesmo as árvores e as rochas dançassem. Essa relação nata com a música é apenas um dos pontos em comum com os pitagóricos como veremos mais para frente.

Orfeu é mais conhecido por participar da expedição dos Argonautas na qual trabalhou como auxiliar de manobras do navio e mais particularmente por aplacar às contendas dos tripulantes com sua música e por obliterar com sua lira o canto das sereias que poderiam naufragar o navio.

Apaixonou-se mais tarde por Eurídice, com quem se casou. Seu amor era tanto que quando ela morreu picada por uma cobra Orfeu desceu ao mundo de Hades para trazê-la de volta. Tocando sua lira convenceu o barqueiro Caronte a transportá-lo e fez Cérbero dormir. Durante todo o caminho sua música encantou os monstros que apareciam ao mesmo tempo que trazia conforto aos condenados, fazendo por fim o próprio Hades se emocionar ao ponto de chorar lágrimas de ferro. O deus do submundo concordou em libertar Eurídice com a condição de que ele não olhasse para ela até que estivesse outra vez sob a à luz do Sol. Orfeu não aguentou e quase na saída do Hades olhou para trás e perdeu a alma de sua esposa para sempre, pois Hades em não deixou que retornasse.

Afrodite infringiu uma paixão avassaladora nas mulheres de Trácia sacerdotisas de Baco, mas Orfeu às desprezou por não haver superado sua perda e ainda amar Eurídice. A paixão destas mulheres cresceu de forma violenta até que por fim esquartejaram Orfeu na divisão. Outra versão de sua morte diz que Zeus o fulminou com um raio por divulgar os segredos divinos aos seres humanas.

Seus encantamentos, sua ida e retorno ao mundos dos mortos, sua relação com o Sol e seu esquartejamento dão ao mito de Orfeu uma inegável semelhança ao mito de Osiris. Como veremos a seguir estes pontos em comum dificilmente foram acidentais.

A versão histórica

Existe uma versão menos fantástica de seu nascimento. No dicionário bibliográfico incluso na monumental edição de Donald Tyson dos Três Livros de Filosofia Oculta de Agrippa, o autor diz que Orfeu foi o primeiro poeta grego, filho de Egro, identificado como rei da Trácia (e não o deus da chuva). Egro e sua cidade, eram adoradores de Hélio.

Sobre sua morte também existem versões menos fantasiosas que de certa forma concilia as duas narrativas mitológicas. Segundo Aristófanes em sua peça “As Rãs” e Ovídio em “As Metamorfoses” o que ocorreu foi o culto a Dionísio invadiu a Trácia, mas Orfeu de família nobre e muito popular recusou-se a prestar homenagem ao novo deus. Muito pelo contrário ele introduziu nas práticas e doutrinas de Dionísio os mistérios do deus Sol. Essa história nos fornece uma explicação mais razoável tanto da ira de Zeus como do esquartejamento por parte das sacerdotisas ortodoxas do culto a Baco-Dionísio.

Bertrand Russell em seu consagrado “História da Filosofia Ocidental” defende Orfeu surgiu em Creta e nâo na Trácia, reforça a hipótese de Orfeu como um reformador do culto de Dionísio e diz ainda que tanto sua adoração solar como seus conhecimentos sagrados têm origem egípcia: “certo que às doutrinas órficas contêm muitos elementos que parecem ter se originado no Egito, e que foi sobretudo por meio de Creta que o Egito influenciou a Grécia.” Em a Doutrina Secreta Blavatsky afirma que Orfeu significa “enegrecido”, ou seja, de pela escura nos dando mais um indício da origem egípcia de sua família.

O legado

Além de aparecer como personagem na Teogonia de Hesíodo, a Orfeu é creditada a autoria de inúmeros poemas religiosos da Grécia antiga usandos particularmente nas escolas de mistério e rituais de purificação. De toda essa literatura apenas duas chegaram aos dias de hoje: a Argonáutica Orphica e os Hinos Órficos.

Os Hinos Órficos são os mais antigos, e às cópias mais antigas datam do século II d.c. Trata-se de um conjunto de 87 poemas

Já o Argonautica Orphica, datado no século VI d.c nos trás Orfeu contando em primeira pessoa suas experiências na história de Jasão e dos Argonautas. Esse poema se diferencia do Argonautica mais antigo por sua ênfase no papel de Orfeu e sua narrativa mais mitológica e menos realista. Um detalhe interessante desta obra é que Orfeu diz estar vindo do Egito antes de se juntar aos demais heróis.

A Orfeu é mencionado ainda um poema do século IV chamado Lithica no qual o protagonista Teodamas descreve o uso mágico de 30 pedras diferentes enquanto Orfeu prepara um sacrifício para Apolo.

Os poemas mais antigos do período arcaico grego só sobreviveram em fragmentos de pergaminhos e citações de outros autores. Dentre estes se destaca o papiro Derveni encontrado em Derveni no ano de 1962 contêm uma série de comentários filosóficos sobre poemas órficos sobre o nascimento e o conflitos entre os deuses. Depois de comentar este poema o autor relata algumas práticas mágicas de como expulsar daemones inoportunos e apaziguar a ira das Fúrias por meio de sacrifícios. como O papiro é considerado como pertencente a escola do filósofo pré socrático Anaxágoras (500 a.c). O primeiro trecho citado diz “Feche as portas, tu, iniciante”, em uma clara referência às escolas de mistério.

O testemunho de Platão

Mas se pouco sabemos sobre Orfeu, um pouco mais sabemos sobre o movimento filosófico-religioso que leva seu nome.

Na República de Platão (364 a-e) lemos sobre uma classe de sacerdotes pedintes que ofereciam rituais de purificação em troca de esmolas. Diz o pai da filosofia grega que citando o livros de Orfeu e Museu esses adivinhos convenciam os ricos que os deuses podem ser influenciados pelos homens e que assim por meio de sacrifícios e encantamentos ele podiam tanto reparas às faltas humanas diantes dos deuses como causar danos aos inimigos.

Em “As Leis” Platão fala da Orphikos bios, o estilo de vida órfico aproximando-o a duas práticas bem conhecidas dos pitagóricos, a saber, o uso de animais de farinha nos sacrifícios e o vegetarianismo:

“O costume do sacrifício humano , aliás, sobrevive mesmo hoje entre muitos povos, enquanto relativamente a outros comenta-se sobre a existência do costume contrário, segundo o qual se proibia até mesmo que se devorasse um boi, suas oferendas aos deuses consistindo não de animais mas sim de bolos de farinha e cereais temperados com mel, outros sacrifício seriam sangrentos, abstendo-se esses povos da carne como se fosse impiedoso comê-la ou como se o sangue maculasse os altares dos deuses; em substituição a isto, os homens que, com o nós, existiam então viviam o que é chamado de “estilo de vida órfica” , sustentando-se totalmente de alimento de seres inanimados e abstendo-se totalmente de alimento oriundo de seres animados”

A Doutrina Órfica

Segundo Bertrand Russel, o orfismo se diferenciava bastante da religião popular entre os gregos antigos. Sendo uma escola de mistérios seus ensinamentos estavam disponíveis apenas aos seus iniciados.

Essas informações são encontradas nas Teogonias Órficas que só são hoje conhecidas por meio de comentários e referências feitas por autores clássicos.

A Teogonia de Hesíodo, mais popular dizia que os seres humanos foram criados por Prometeus a partir da lama que também lhes deu o domínio sobre o fogo. O orfismo por sua vez ensinava um dualismo entre o corpo veio das cinzas dos Titãs e às almas de um relâmpago de Zeus, e portanto divinas.

A religião popular cria em um pós vida no Hades onde às injustiças e transgressões seriam punidas no Tártaro e às boas ações recompensadas nos campos Elísios. O orfismo ensinava que isso era verdade mas transitório e que após receber sua justa recompensa às almas eram obrigadas a voltar em outros corpos vivendo assim um penoso ciclo de encarnações sucessivas pela transmigração de almas.

Para escapar deste ciclo interminável de reencarnações os adeptos do orfismo prescreviam uma vida ascética que em conjunto dos rituais secretos e instruções garantiriam não apenas a liberdade do espírito mas uma comunhão com os deuses no pós vida. Entre estas instruções estava a recomendação de uma vez chegando ao Hades o adepto deveria pedir para beber da água do poço de Mnemósine (Mémoria) e se afastar das águas do rio Letes (Esquecimento).

Influência

O orfismo, muito provavelmente herdeiro da escolas de mistérios egípcias, foi um conjunto de doutrinas que influenciou profundamente todo o mundo ocidental tanto esotérica como esotericamente. Tanto as escolas de mistério gregas e helenísticas como os filósofos clássicos e pré-socráticos beberam desta fonte. Muitas de suas crenças se espalharam pelo mundo helenístico e chegaram até os dias de hoje por meio dos rituais e doutrinas do cristianismo romano. Por outro lado, boa parte de seus ensinamentos se perdeu com o tempo, sendo portanto valiosos os estudos e considerações das fontes historicamente mais próximas.

[…] Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/a-escola-de-misterio-orfica/ […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/alta-magia/a-escola-de-misterio-orfica/

A Definição Indecifrável do Metal Extremo: O Black Metal

“Um vórtice sinistro oculto ao homem vulgar, e inevitavelmente próximo ao iniciado.” – assim define Magnaninus Sapientis a sua REX INFERNUS, que repudia absolutamente o “rótulo” Black Metal.

Muitos gêneros musicais apresentam uma sutil ligação com o ocultismo. Desde os compositores eruditos, como Paganini, passando pela era moderna, com Raul Seixas e Zé Ramalho (os exemplos a citar são muitos, bastam esses por enquanto). Mas nenhum apresenta uma ligação tão acentuada como o Rock (Led Zepellin, Black Sabbath, Marilyn Manson), a citar sua variação mais extrema: o metal.

Este artigo se propõe a analisar o subgênero do metal mais contraditório e apreciado por boa parte dos apreciadores/as: o Black Metal.

Percorrendo rapidamente uma parte de sua complexa e um tanto confusa origem (entre as décadas de 70 a 80), excetuando-se sua ligação com o lançamento do álbum BLACK METAL do VENOM, naquela época a insatisfação dos apreciadores/as do metal extremo com a produção musical levou a muitos questionamentos quanto a sua identidade. O rock em sua essência tem como objetivo evocar a rebeldia, o abalo em estruturas morais e sociais, o protesto em geral. E sua profundidade está no metal. Para isso, o metal extremo vale-se da arte sinistra e beliciosa para expressar-se, e quase todas as produções musicais trabalham sob este parâmentro. Se for preciso, corromper símbolos comumente aceitos.

É exatamente neste “gancho” – corromper símbolos comumente aceitos – que entra o ocultismo.

Os questionamentos quanto à identidade do metal extremo levaram algumas bandas a comporem músicas mais obscuras e agressivas, e a adoção de novos ideais, passando bem longe dos da que a cena “underground” da época praticava.

E o que é o ocultismo, senão a volta do ser para o seu lado obscuro, aquela área do subconsciente onde reside forças ainda não despertas, por medo ou bloqueio impostos pela criação? Tudo se dá em meio a questionamentos, que, que geram novas atitudes. O ato de contestar valores comumente aceitos passam pelos sistemas mais dominadores existentes. E um é bem conhecido: a religião.

Interessante mencionar o “Divino Marquês” Sade, que tratou em sua obra de exaltar os instintos mais naturais do homem: a libido e a violência, numa época de grande domínio da religião. Também é necessário mencionar Helena Petrovna Blavatsky, uma pioneira na divulgação do ocultismo pelo mundo com a Teosofia, que dispôs conhecimentos até então inacessíveis às pessoas, chocando a base religiosa monoteísta.

As primeiras manifestações do que viria a ser conhecido como Black Metal se deram com os trabalhos musicais de Venom, Mercyfull Fate e Bathory, que tomaram como base o grande inimigo das religiões monoteístas: Satan. O que poderia ser mais chocante do que exaltar as características deste arquétipo/entidade em detrimento de um sistema dominador baseado nas limitações? Em detrimento de uma doutrina que repreende a elevação do ser humano por seu próprio esforço, “em nome de Deus”?

O Black Metal é, em sua essência, satânico. Não necessariamente ligado à Filosofia proposta pela Church of Satan, fundada por Anton Szandor LaVey, mas especificamente por duas características:

1) A “metáfora” do Lobo;
2) Oposição aos estilos com influências judaico/cristãos

No que diz respeito à “metáfora do lobo”, é sua contraposição diante da “mentalidade de rebanho”. A violência e crueza de sua sonoridade é um “convite” para uma mudança radical de comportamento – de “servo” para “senhor”. “Senhor” de seus problemas, paixões, convicções e opiniões, de inserir-se na realidade compreendida pelo “Self”, e não por ditames ordenados por outros (os guiados como rebanho).

Sua oposição aos estilos com noções cristãs (hippies, por exemplo) se deve ao fato destes evocarem conceitos de igualitarismo, justiça, bondade e maldade. O Black Metal, por outro lado, já evoca o individualismo – desafia a pessoa a provar o quão convicto é de tudo o que acredita para si mesma; é o desnudar-se de suas “máscaras” (auto enganação); submeter os inimigos e exterminar as “almas de espírito pobre e assistencialista”. E de cuidar de seus interesses, acima do interesse coletivo – claro, não desrespeitando as leis e constituição de seu País.

Boa parte destas características estão presentes na Filosofia do Satanismo Moderno, mas o Black Metal, por possuir um ímpeto infinito de expressão, não se limitaria a uma base específica, pois assim não seria “música”, mas sim “hinor de louvor”. Por isso, possui em sua abordagem o paganismo (seja nórdico, sul-americano, grego, etc.), a crítica (oposição ao sistema religioso, moral e social), menção de fatos históricos, filosóficos, e até mesmo elementos ritualísticos e de ambiente (ambient black metal e atmospheric black metal).

Em outras palavras, o Black Metal, quando coerentemente apreciado, leva ao “despertar” de uma condição de subserviência, se valendo do metal mais cru e pesado. Então, se ele possui essa característica, parece um tanto incoerente dizer que possua uma “Filosofia de Vida”. Se aponta de forma direta todas as formas de auto-ilusão, de moral estúpida, então cada um que toma contato com este, despertando o gosto e apreço, produz uma ação independentemente em cada pessoa. Então, não há uma ideologia em comum, mas sim o individualismo.

Conclui-se então que o Black Metal possui uma definição indecifrável pelo individualismo. Satânico, opositor, saudosista dos cultos antigos pagãos, guerreiro, abre um leque de sensações e horror, amado por uns e detestado por outros. Mas sempre de forma crua e profunda.

Longa vida ao Black Metal – Sangue, Honra e Orgulho!

Elaine Z

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