Teologia Matemática: A Religião do Futuro

Tanto a Religião quanto o Governo podem ser compreendidos como partes integrantes de um complexo conjunto de Tecnologias desenvolvidas para assegurar ou manter o Controle Social efetivo sobre os indivíduos, por estabelecerem sistemas de regras ou normas para a convivência em sociedade. Este foi justamente o argumento elaborado por dois dos maiores pensadores da Renascença, Galileu Galilei e Nicolau Maquiavel, para oporem-se à interferência e à ingerência das doutrinas defendidas pela Igreja Católica em seus respectivos campos de atuação intelectual, a Ciência e a Política. Naquela época a Igreja Católica exercia uma autoridade incontestável sobre todos os aspectos da vida cotidiana; a Bíblia era tida como um Livro Sagrado que continha verdades reveladas diretamente por Deus, cabendo aos sacerdotes dessa instituição o exclusivo privilégio de interpretá-lo, ainda que sob os auspícios e direcionamento do Papa; regente vitalício de inúmeras congregações cristãs que é escolhido em assembléia dentre e pelos membros de um colegiado de cardeais.

As doutrinas Aristotélicas haviam sido incorporadas à visão de mundo cristã alguns séculos antes em decorrência da obra de São Tomás de Aquino, substituindo o Platonismo vigente até então, sendo consideradas como Dogmas absolutamente inquestionáveis principalmente nos campos da Física e da Ética. Consequentemente, qualquer tentativa deliberada de  confrontá-las era punível com a sentença de morte nas fogueiras da Inquisição; o que constituía um obstáculo intransponível para que os avanços sociais e culturais necessários pudessem transcorrer livremente, condenando todas as pessoas que viveram durante aquela época (conhecida como Idade Média) a experimentarem um dos períodos históricos de maior estagnação e recrudescimento de suas condições e qualidade de vida, higiene e costumes. Ainda que estivesse certo sobre muitas coisas, Aristóteles(4) não era perfeito; suas conclusões e até mesmo observações sobre fenômenos físicos chegavam a ser ridiculamente constrangedoras! Por exemplo, ele acreditava por convicção (e subseqüentemente também as autoridades eclesiásticas que sucederam a Tomás de Aquino, por força da tradição) que objetos de diferentes pesos caiam a velocidades diferentes, ou ainda que a realidade fosse dividida em “dois mundos”; o sub-lunar (o nosso imperfeito e transitório) e o sobrenatural (um paraíso perfeito e imutável), acimae além da Lua. Galileu foi o homem que ousou combater essas crenças com a força dos fatos. Para atingir esse objetivo ele realizou experimentos na torre inclinada de Pisa, sua cidade natal, derrubando ao mesmo tempo objetos de diferentes pesos, submetendo-os ao campo gravitacional terrestre, provando experimentalmente que caiam ao chão na mesma velocidade; desse modo refutando magistralmente o pensamento Aristotélico e, por tabela (ainda que não intencionalmente), a autoridade da Igreja Católica sobre assuntos terrenos.

Ele foi também o primeiro a apontar um telescópio para os céus, encontrando evidências objetivas de uma gama de fenômenos inexplicáveis segundo os paradigmas vigentes até então, ao observar fases em Vênus, manchas solares, montanhas na Lua, satélites em Júpiter, cometas, meteoritos.

Em um curto espaço de duas semanas, o cosmos se descortinou perante os olhos atentos daquele ser humano, que encontrou então dentro de si o estímulo para desconsiderar quaisquer preocupações  com a sua autopreservação; a ponto de se sentir compelido a tentar mudar a posição do Papa em relação à validade das doutrinas de Aristóteles. Seu argumento: que a Ciência experimental, então conhecida como “Filosofia Natural”, deveria ser o único método acatado para nos direcionar às verdades sobre o mundo e que o propósito da Bíblia fosse reconhecido como o de, apenas, ensinar um dos caminhos como alcançar, neste mundo, o acesso ao “próximo”; a salvação. Em suas próprias palavras:

“Não seria talvez senão mais sábio e útil parecer não acrescentar à Escritura outros artigos sem necessidade, além dos concernentes à salvação e ao fundamento da Fé, contra cuja firmeza não há perigo algum de que possa surgir jamais doutrina válida e eficaz?”

Por essa ousadia, quase foi condenado a perecer nas chamas da Inquisição, como inclusive chegou a ocorrer com seu genial conterrâneo, o monge Giordano Bruno que, diferentemente de Galileu, se recusou a abjurar sua doutrina da Infinitude dos Mundos quando teve oportunidade. Ele havia concluído que o Sol é uma estrela como qualquer outra e, pelo mesmo raciocínio, que haveria incontáveis planetas habitáveis além deste, o que colocava a Igreja em uma situação problemática; afinal, como as autoridades eclesiásticas poderiam garantir que cada um desses planetas teria sido também, ou seria ainda, visitado por Jesus?

Na base do argumento de Galileu estava a tese de que a Igreja, a teologia, as crenças religiosas, formavam uma espécie de Tecnologia para o Controle Social fundamentada em componentes metafísicos ou abstratos e que, portanto,a Ciência e seu método, concebidos como a Tecnologia para a descoberta de padrões de recorrência das Leis matemáticas e universais da Natureza, deveriam possuir completa autonomia para realizar o objetivo a que se propunham. Novamente, em suas próprias palavras:

“A filosofia encontra-se escrita neste grande livro que encontra- nossos continuamente se abre perante os nossos olhos (isto é, o Universo), que não se pode compreender antes de entender a conhecer língua e conhecer os caracteres com que está escrito. Ele está escrito em língua matemática, os caracteres são triângulos, circunferências, e outras figuras sem cujos meios é impossível entender humanamente as palavras; sem eles nós vagamos perdidos dentro de um obscuro labirinto.”

Considerando a importância desse pensador nas Revoluções cientificas, políticas, sociais e culturais, que se seguiram desde então, analisarei neste contexto a Tecnologia de Controle Social supracitada, a Religião, me focando mais precisamente no modo como a evolução de nosso conhecimento científico altera suas estruturas e instituições; e vou sugerir um novo modelo para a Religião do Futuro…

A RELIGIÃO DO FUTURO

A Religião do futuro deverá ser universal, no seguinte sentido, independentemente de como e onde, por quem ou se, uma pessoa tenha sido educada, o conteúdo desse sistema de crenças deverá ser significativo; podendo ser assimilado naturalmente por ela sem que seja necessário recorrer à intimidação para convencê-la.

Também deverá ser plenamente compatível com o método científico, o que implica que deva ser indistinguível de uma boa “obra de ficção científica”; coerente com os paradigmas atuais da comunidade científica internacional (ainda que os extrapole circunstancialmente), para evitar um confronto direto entre sistemas de crenças válidas em diferentes campos de discurso (o factual e o metafísico). E deverá ser de livre interpretação, além de moral e eticamente neutra, para não interferir no modo como as pessoas decidem, coletivamente, levar as suas vidas em uma sociedade onde se dissemina um laicismo cada vez mais radical. Como afirmava o célebre Albert Einstein, de forma memorável e sem qualquer cerimônia ou traço de proselitismo:

“O espírito científico, fortemente armado com seu método, não existe sem a religiosidade cósmica. Ela se distingue da crença das multidões ingênuas queconsideram Deus um Ser de quem Deus castigo, esperam benignidade e do qual temem o castigo, com uma espécie de sentimento exaltado da mesma natureza que os laços do filho com o pai, um ser com quem também estabelecem relações pessoais, por respeitosas que sejam. Mas o sábio, bem convencido, convencido, da lei de causalidade de qualquer acontecimento, decifra o futuro e o passado submetidos às mesmas regras de necessidade e determinismo. A moral não lhe suscita problemas com com os deuses, mas simplesmente com os homens. Sua religiosidade consiste em espantar-se, em extasiar-se diante da em espantar- siar- extasiar Natureza, harmonia das Leis da Natureza, revelando uma inteligência tão superior que todos os pensamentos humanos e todo seu engenho não podem desvendar, diante dela, a não ser seu nada irrisório. dela, Este sentimento desenvolve a regra dominante de sua vida, de sua coragem, na medida em que supera a servidão dos desejos egoístas. Indubitavelmente, este sentimento se compara àquele que animou os espíritos criadores religiosos em todos os tempos.”

Deverá, além disso, ser também ser uma fonte inesgotável de discernimento, ainda que possua certo fator alienante, constituindo um refúgio da rotina altamente estressante da atualidade, dando origem a uma sensação de temporalidade e causalidade transcendentais quando  nos dedicamos a sua prática; e o único sistema de crenças que se qualifica, dentre todos os disponíveis, adequando-se firmemente a cada um desses critérios e requisitos fundamentais, em uma análise pormenorizada de nosso passado recente, é a Matemática! Em primeiro lugar faz-se necessário ressaltar que a Matemática não constitui uma disciplina científica; é, portanto, um sistema de crenças.

Sim, muitas pessoas erroneamente atribuem a ela o título de “Ciência dos Números”, mas isso é um equívoco compreensível. Segundo o critério de demarcação de Karl Popper, que é embasado na noção de falseabilidade, só podemos distinguir as teorias científicas daquelas que não possuem qualquer poder de previsão se as submetermos a testes de validação embasados em sua refutabilidade. Ou seja, algum conceito ou conjunto de idéias só leva legitimamente a designação de “Ciência” se tivermos como formular experiências, em lugares ou circunstâncias controladas, que as puderem refutar; tudo o mais não passa de pressuposições metafísicas a princípio desqualificáveis. Não vemos, no entanto, matemáticos seguindo procedimentos análogos.

Uma teoria matemática é demonstrada (assim permanecendo indefinidamente) tão somente pelo raciocínio; e, embora o método científico dependa largamente de teorias matemáticas para organizar, refletir e tentar explicar a estrutura intrínseca aos dados colhidos em experimentos, ainda assim ela não deve serconsiderada uma Ciência. Logo, ainda que estes conjuntos de Axiomas, possam ser tomados como as Escrituras Sagradas de uma Religião, está garantida sua total compatibilidade com a metodologia aplicada pelos cientistas.

A Matemática é também universal, não há uma Matemática para cada cultura ou agrupamento étnico em nosso planeta, muito pelo contrário, grupos culturais e étnicos possuem rigorosamente o mesmo pensamento matemático, ainda que estivessem isolados uns dos outros por milênios; como a população nativa do Continente Americano e os europeus, o quê é comprovado pela descoberta de geoglifos na Amazônia indistinguíveis dos polígonos descritos pelos gregos antigos e arquivados em pergaminhos de ensino matemático. O que mais pode haver, então, tão próximo a um ideal de VERDADE ABSOLUTA, do que a Matemática?

Existem até mesmo casos em que pessoas tiveram, simultaneamente, os mesmos insights em relação a um problema sem que tivessem jamais se encontrado, como constatam os relatos sobe a criação do Cálculo, infinitesimal e integral, por Leibniz e Newton ou as descobertas de Abel e Galois, causando várias confusões.

Mas a Matemática é inventada ou desvendada, existindo antes de vir à cabeça de alguém, independentemente de seus pensamentos, de acordo com os princípios do Platonismo-Pitagórico(13)?

[[Pitágoras de Samos (supostamente entre 570 e 497  A.C., mas não há evidências de sua exitência): filósofo grego radicado na Itália. Era dedicado a estudos matemáticos, além de reconhecidamente ter sido um reformador religioso e fundador de uma comunidade iniciática onde era tido como profeta; a Escola Pitagórica, que santificava toda a vida. Eles também se interessavam por questões filosóficas e tinham profundo interesse intelectual sobre diversos temas, dentre estes se destacavam a Aritmética e a Geometria. Pitágoras criou um sistema global de doutrinas, cuja finalidade era descobrir a harmonia que preside à constituição do Universo e traçar, de acordo com ela, as regras da vida individual e do governo das cidades. Foi quem cunhou as palavras “Filósofo” e “Matemática”, acreditava na metempsicose, ou seja, a transmigração da alma de um corpo para o outro após a morte, e descobriu que se dividirmos uma corda esticada em variados tamanhos vamos obter vibrações proporcionais que vão formar a harmonia das notas musicais. Se essas notas forem divididas em determinadas frações e a combinadas com as notas simples, obtemos sonsmelódicos, já frações diferentes produzem sons que não podem ser considerados prazerosos. Sua cosmologia, estreitamente vinculada à esta religião astral, foi o ponto de partida das várias doutrinas que os gregos formulariam, pressupondo o universo harmonicamente constituído por astros que desenvolvem trajetórias imutáveis, presos à esferas concêntricas. A geometrização do cosmo estava aliada, no pitagorismo, às concepções musicais também desenvolvidas pela escola: essa “harmonia matemática das esferas”, permanentemente soante e que pode ser concebida como uma melodia. Acreditavam também que este som geralmente não é percebido pelas pessoas porque o escutamos desde que nascemos e nossos ouvidos, além de acostumados, não são próprios para percebê-lo; ou seja, seria a própria tessitura do que consideramos o “silêncio”.

Partindo dessas idéias, o pitagorismo pressupunha uma identidade fundamental, de natureza divina, entre todos os seres. Essa similaridade profunda entre os vários entes existentes era sentida pelo homem sob a forma de um “acordo com a Natureza”, que era qualificada como uma “harmonia”, garantida pela presença do divino em tudo. Natural que dentro de tal concepção o mal seja entendido sempre como desarmonia. A grande novidade introduzida certamente pelo próprio Pitágoras foi a transformação do processo de libertação da alma em um esforço puramente humano, porque basicamente intelectual. A purificação ou salvação resultaria do trabalho intelectual, que se esforça para descobrir a estrutura numérica das coisas e tornar, assim, a alma semelhante ao cosmo; entendido como unidade harmônica, sustentada pela ordem e pela proporção, e que se manifesta como beleza. A escola praticava rituais de purificação através do estudo da Matemática e da Astronomia. Eles propuseram também a relação da Matemática com assuntos abstratos como a Justiça, desenvolvendo assim um misticismo em torno dos números que foi adotado posteriormente por Platão como base de sua doutrina das formas. Consideravam  que os números constituíam a essência de todas as coisas, que o Universo era governado pelas mesmas estruturas matemáticas que governam os números e que estes simbolizavam a harmonia; essa harmonia ou ordem que percebiam analisando a Natureza. Assim, para eles o cosmos é organizado através de uma ordem matemática e a prova disso são os movimentos perfeitos das estrelas, as mudanças de estações e a alternância entre o dia e a noite. Assim como o dia e a noite, existem diversos opostos, que são conciliados pela diversidade entre si.

Este princípio matemático, de que a essência da harmonia é regida pelos números, é irrefutável mas, no entanto, não pode ser demonstrado, o que gerou grandes controvérsias no mundo antigo.

Apesar desses impasses – e talvez por causa deles – o pensamento pitagórico evoluiu e se expandiu, influenciando praticamente todos os aspectos o desenvolvimento da cultura grega e permanecendo conosco até hoje como aprópria base do método científico. Em seus estudos concluíram também que a Terra é redonda e que gira em torno de seu eixo.]]

Isso ninguém pode responder; o fato é que parece haver um ordenamento matemático em todas as coisas, e se Deus é um matemático, ou a Matemática é a própria essência da realidade em que estamos inseridos, isso ainda é uma questão em aberto… Aponto apenas um pronunciamento de Kepler cuja opinião, admiravelmente bem colocada, compartilho sem restrições:

“A Geometria existia antes da criação. É tão eterna como o Geometria Deus pensamento de Deus. A Geometria deu a Deus um modelo para a Geometria Deus! criação. A Geometria é o próprio Deus!”

Que a Matemática é moral e eticamente neutra é fácil perceber, não há qualquer menção à conduta humana, a crimes ou castigos em teorias matemáticas. Mas ela é, inegavelmente, uma fonte de discernimento; é na Matemática que surgiram noções como igualdade, proporção e harmonia, das quais se serve o Direito para garantir que a Justiça seja o resultado do estabelecimento de uma ordem social. Já imaginou uma sociedade onde o princípio da igualdade não vale (escravidão), onde a sentença não é proporcional ao crime (totalitarismo) ou onde o objetivo não é a paz e o bem comum (anomia)? Todos esses direitos existem por conta da Matemática!

Mas para se ter uma idéia verdadeira de como a Matemática corresponde a uma fonte de enobrecimento espiritual, um refúgio sagrado, devemos ter uma vivência em primeira mão dessa benção, devemos experimentar a sensação de ser um matemático; e para isso não basta aprender a Matemática, buscar conhecimento já formalizado, pois é isso que faz um simples estudante! Não, devemos aguçar a nossa intuição, ousando nos dedicar a encontrar a resposta para relevantes problemas matemáticos em aberto; deixando que a busca por essa solução nos encaminhe, motive e direcione a nossa pesquisa de novos conceitos e técnicas, só então perceberá a Matemática e a realidade com os olhos de um matemático. E assim compreenderá o Nada como a Origem de Tudo, o Espaço como a Fronteira Final, o Infinito como a Incógnita Suprema, a Harmonia como a Simetria da Forma e o Acaso, como a Aleatoriedade do Caos…

Todos esses termos mencionados anteriormente são conceitos abstratosaos quais os seres humanos, independentemente de seus costumes, credo ou nível educacional, tendem a atribuir significados místicos, transcendentais ou sobrenaturais; situando-os, portanto, no campo de discurso teológico. No entanto, é trivial perceber como cada um desses conceitos pertence legitimamente à Matemática, tendo sido incubados através de um longo processo intuitivo envolvendo matemáticos de diferentes tradições, que nada tinham a ver uns com os outros além da adoção de métodos investigativos similares, tendo sido posteriormente interpretados  por místicos como importantes componentes ontológicos integrantes de seu pensamento teológico. O último ponto que evidencia a similaridade da Matemática com os sistemas tradicionais de crenças religiosas, está, curiosamente, no fato de que a Matemática possui o poder de tornar efetivas as promessas dos sacerdotes das demais Religiões. Onde as Religiões prometem milagres e culpam-nos pela falta de Fé quando estes não ocorrem conforme programado, diariamente a Matemática nos oferece milagres (ou pelo menos aquilo que teria certamente sido considerado como tal pelos nossos antepassados) por meio da Tecnologia, que pode ser considerada como um aspecto concreto de abstrações matemáticas, um testemunho de sua aplicabilidade.

A mesma Tecnologia que cura enfermos, alimenta multidões, aproxima as pessoas, melhora a nossa qualidade de vida, aumenta a inteligência de nossas crianças, veste, abriga, diverte e nos permite ascender aos céus nas asas de nossa imaginação; não há limites para o que é tecnologicamente viável para a humanidade, se houvesse uma quantidade suficiente de matemáticos competentes em nosso meio, uma massa crítica de mentes pesquisando, idolatrando, a Matemática. E é exatamente isso que resultará de sua adoração, de sua adoção como a RELIGIÃO DO FUTURO!

A DESCOBERTA DA MATEMÁTICA COMO ALGO SAGRADO

Vou publicar aqui, sem a devida autorização, mas pleiteando a compreensão do autor por essa falta de cortesia, um texto do ex-professor de Matemática da USP Piotr Koszmider, que trata sobre  esse tema, e então compartilharei a minha perspectiva pessoal sobre esta que pode ser considerada a “Rainha das Ciências”: Matemática – uma missão de construções mentais “Sendo náufragos dos mares de culturas, abandonados  numa ilha da modernidade, somos destinados a formar a nossa espiritualidade com nossas próprias mãos. Os idiomas da Matemática contêm a substância da Arte, Religião e Ciência e ao mesmo tempo do esporte na forma de jogos mentais lúdicos.

“Seja L uma reta infinitamente comprida”, “Seja M um espaço onde alguns pontos diferentes são identificados”, “Seja f uma deformação infinitamente lisa” nos introduzem no mundo onde realiza-se um drama parecido com aquele das fugas de Bach ou telas de Kandinsky: uma metáfora do mundo esboçada através de meios simples, desafiando a humanidade, desafiando-nos para um confronto espiritual – construção matemática. “Os pontos do contínuo espacial não podem ser arranjados numa seqüência”, “todos inteiros positivos podem ser fatorados em números primos”, “existem curvas contínuas, não lisas em nenhum ponto” ressoam como “você vai nascer contra a sua vontade, você vai morrer contra a sua vontade e você vai ser responsável contra a sua vontade” e definem nosso mundo onde a liberdade é dada a nós, porém não estamos aqui para nos divertir, mas estamos aqui para desempenhar a nossa missão.

A missão, como fazer o bem ou descobrir a verdade,  aqui é demonstrar teoremas, definir os conceitos, participar na abertura do livro dos segredos divinos que trata dos tais marcos miliários como infinidade, espaço, ordem, caos, números, forma, mudança. Como Arte ou Religião, na forma do teatro de rua ou procissão da páscoa, Matemática também é um jogo ou esporte (até profissional) na forma de quebra cabeças e adivinhação. Ironicamente, os mais mágicos lados da Matemática podem ser vistos na relação dela com as Ciências e Tecnologia. Para chegar ao computador, avião ou tomógrafo foram necessários séculos de pensamento matemático. É mágico que precisamos imaginar algo infinito e abstrato para conquistar o mundo finito e concreto.”

Agora voltando a falar a meu respeito; desde pequeno a Matemática exerceu uma enorme fascinação sobre mim. Os números, sua seqüência interminável, as dízimas periódicas com seus adoráveis padrões repetitivos, formas geométricas com a divina proporção ou razão áurea que introduzem em nosso espírito um ideal de beleza, pureza e uniformidade, operações como a simplificação e a montagem de sistemas de equações com sua dinâmica própria que por vezes remetia a passes de mágica; tudo isso marcou muito a minhainfância causando uma impressão avassaladora que perdura até os dias de hoje.

Relativamente a esta divisão, temos o seguinte princípio: para que um todo dividido em duas partes desiguais pareça belo do ponto de vista da forma, deve apresentar a parte menor e a maior a mesma relação que entre esta e o todo. A escola pitagórica estudou e observou muitas relações e modelos numéricos que apareciam na natureza, beleza, estética, harmonia musical e outros, sendo esta a mais importante Se quiséssemos dividir um segmento AB em duas partes, teríamos uma infinidade de maneiras de fazê-lo. Existe uma, no entanto, que parece ser mais agradável à vista, como se traduzisse uma operação harmoniosa para os nossos sentidos. Corresponde ao número irracional Ф = ( 1 + sqrt 5 ) / 2.

Havia algo de inefável por trás daqueles gráficos, que pareciam adquirir vida própria, como se simbolizassem uma presença que emanasse a partir deles.. Mas outras coisas ocupavam a minha mente. Sempre fui muito ligado à metafísica e ao misticismo, não especificamente a qualquer Religião pré- estabelecida, porém buscando entender os mistérios do sobrenatural, conhecer as mitologias e as lendas dos diversos povos; as suas histórias, tradições e
superstições. Com a expansão da consciência, que resulta desse tipo de estudo, percebe-se que a criação que foi dada pela sua família, em sua escola, e reforçada pelas interações que você manteve durante a maior parte da sua vida, não lhe preparou completamente para um convívio harmonioso com pessoas que tenham nascido em outras localidades e que foram educadas de modo distinto.

Talvez o mesmo ocorra independentemente de onde nascemos e que seja assim em toda parte; nenhum sentimento de amor pela humanidade em geral está sendo incutido na mente das crianças, e por essa razão milhões de pessoas acabam sendo condenadas a mortes estúpidas e horrendas em áreas de conflito religioso, na defesa dos interesses particulares de líderes políticos dos variados grupos extremistas que mais se beneficiam disso. Um dia entendi que essas distinções étnicas e culturais realmente não possuem qualquer relevância em um contexto mais abrangente.

Existe algo na Matemática, ou melhor, na universalidade do conhecimento matemático que transborda além de qualquer fronteira física ou comportamental, relativizando esses traços superficiais que compõem nossaidentidade coletiva primária, e nos despertam para um vínculo global que é compartilhado por todo ser humano. Não, vou além, por qualquer inteligência, seja ela orgânica, sintética, alienígena ou imaterial.. a Matemática é a mesma para todos!

Na faculdade tive contato com pesquisadores que realmente vivem constantemente imersos em Matemática; e, por ter entrado relativamente tarde nesse curso, eu já tinha acumulado suficiente experiência de vida, inclusive sobre assuntos metafísicos e espirituais, para notar como a atitude daquelas pessoas perante a Matemática, e a pratica de pesquisas nessa área, é indistinguível da atitude de sacerdotes e místicos de tradições religiosas, tanto ocidentais quanto orientais, perante seus objetos de culto e adoração.

Matemáticos se preocupam com coisas que a maioria de nós nem se dá conta de que existam, com coisas que estão além da nossa percepção, mas aquilo que resulta de seu trabalho tem enormes conseqüências práticas palpáveis para todos nós, independentemente de crermos em suas palavras ou não…  A partir daí, me convenci de que a Matemática será inexoravelmente a única atividade tida como sagrada em algum ponto do futuro, e há anos venho trabalhando incessantemente na formulação de um movimento religioso de vanguarda, inovador em todos os aspectos, mas fundamentado nesta que considero a tradição espiritual mais antiga da humanidade. A única que realmente merece o título de verdadeira!

Queria dar uma real dimensão da importância da aquisição de conhecimento matemático para as pessoas e vocês sabem como isso funciona; a menos que seja considerado sagrado, a população em geral não tem o devido apreço ou respeito em relação a um conjunto de conhecimentos abstrato ou teórico. É muito comum, até como uma ferramenta didática, explorar a relação existente entre a Matemática e algum outro campo do conhecimento. Mas a maioria das pessoas geralmente escolhe a relação entre Matemática e as artes: os paralelos entre a composição musical e a estrutura de uma teoria matemática, ou entre a relação de espaços e formas em um estilo de pintura e os gráficos de funções complexas. Dificilmente fazem uma associação direta entre Matemática e os sistemas de crenças espirituais que foram sendo desenvolvidos pelas sociedades ao longo das eras.

Apesar disso, existem muitos pontos de intersecção entre a história das religiões e a Matemática, o que parece sustentar a viabilidade de um estudosistemático que classifico como Teologia Matemática. O mais fascinante dentre
eles talvez seja a origem da Teoria dos Conjuntos, relacionada à transição do conceito de “infinito potencial” ao de “infinito real”. Nos trabalhos de Bernard Bolzano e Georg Cantor, os pais da Teoria dos Conjuntos, encontramos inúmeras referências teológicas, cuja análise ainda desempenha um papel importante na compreensão dessa teoria. As perguntas essenciais a serem consideradas enquanto interpretamos teologicamente os conceitos matemáticos e a interação existente entre eles são:

“O que é a Matemática?”, “Quem sou eu?” e “Como minha vida pode ser transformada por esse complexo conhecimento sem fim?”. O autor pressupõe que o conhecimento matemático é por natureza teológico e que todo o apanhado de literatura Matemática deve ser lido e interpretado dentro deste enfoque.

Mais em http://www.wix.com/templodavida/online

Dr. Clandestino

Postagem original feita no https://mortesubita.net/mindfuckmatica/teologia-matematica-a-religiao-do-futuro/

Aos 14 Xamãs

O som… distante; de um avião. Passa sorrateiro e longe, pontos vermelhos e azuis, num céu completo. Este participa de mim, do que sou, do que fora naquele instante.

Na memória diálogos acirrados em discussões sobre métodos e formas, tantas formas. Enquadrando os laços.

Meu corpo cansado enquanto levito em perspectivas antes debatidas de forma rápida durante o dia. Falei que o desejo é passível de ser desmerecido e portanto substituído pelo simples ato. Do ato de ser somente tal ato.

“(…)se o ser ao se apoderar do ato, pensa, e ao pensar o ato discorre.” Quem vem primeiro? – Ainda dividimos deliberadamente sem culpa.

O que dividimos é a nós… esse “ser”, e dividi-lo nada mais é do que apoderar-se de si, mas quando pensamos, que nos apoderamos, separamos o ato que é daquilo que se avalia ao pensarmos; colocando nas mãos a nós mesmos por medo de simplesmente ser.

O medo neste contexto é de fato algo fora, que vem de dentro, mas acontece fora. Ao aceitarmos que o ato só vale se pensado. Mas tal ato não pensa sobre si sozinho, por que fracioná-lo em dois instantes distintos, despedaçando a unidade em três?

Ser, portanto é o único momento real; mas pensamos. Somos a irrealidade do que fomos outrora, ao nos vetarmos. Considerar portanto que o ato pensa é dar cabo que o pensar é um ato, tão factual quanto. E se ser é real, pois necessariamente atua, ser também é pensar. Delegando portanto assim ao ser plena consciência sobre si. No entanto pensamos e duvidamos do que somos, ao pensarmos novamente para assim agir duas vezes.

Vezes somos acometidos por esta percepção, de que simplesmente fomos. O corpo fala tanto quanto o que se fala pela alma e o espírito pulsa. Claro que quando avaliamos exercemos em nós e para nós cognitivamente o ato de pensar, separando do ato em si e fomentando possibilidades. Mas isso não deveria nos ensinar a como ser, para que noutro instante simplesmente sejamos… um?

Vemos sempre uma razão para não ser e isso se demonstra de várias formas enjaulados pelos gostos, pelas cores, pelos humores. O ser humano não é livre, tendo em vista seu ciclo no meio dos testes e das formas certas. Ele se enquadra ao pensar sobre si, toda vez que vem a ser. Pois julga aquilo que já é, aonde deveria supostamente já saber ser. Simplesmente ser.

Mas essa função simples ocorre indiscriminadamente, trazendo às vistas uma sensação de segurança e conforto, já que ninguém é dono de si, pensar então sobre si é mais seguro.

Quando vejo alguém “bom” naturalmente já vejo tantas ações boas, mas estranhamente ao ligá-las ao possível gerador destas ações me sinto atingido pela suspeita: este de fato é capaz de ter tais tinos? E assim dividimos não só a nós, o tempo todo. Por isso o outro facilmente invade cantos em que não chega a tocar de fato, já que não somos simplesmente, averiguamos para ser. Dois momentos que se replicam, já que quando confirmamos que somos bons, agimos bondosamente pela segunda vez… mas não agimos, pois reproduzimos o ato de antes vetado e ironicamente perdemos de ser genuínos. Já que o resultado é um rosto pálido sem vida e sem cor.

Assim sorrimos falsificadamente dia e noite, e quando de fatos sorrimos somente, nos sentimos estranhos por termos sido um; uno.

Basta refletir no sorriso que brota nesses instantes de unidade, no rosto do outro. Como se fosse um só sorriso, que não deseja ser sorriso. Simplesmente é o sorrir.

E se pensarmos no ator, muitos destes se destacam ao conseguir a sincronia de agir e olhar, iludindo-nos, parecendo a nós um único estar. Alguém uno… e choramos tanto quanto ele chora, pois somos quebrados e achamos que não sabemos de fato quem é esse que somos. Assim o ser é o ator, único inteiro, unificado em seu ato… sendo ele o ser, nós somos a divisão, que pensa e age, criando um humor que agora é de todos, impressionados por chorarem juntos e sorrirem eufóricos batendo palmas para aquele que ao deixar de atuar, também se perde, agradecendo emocionado à salva de palmas dos que se encontram na cavea.

Apagaram-se as luzes.

E nesses dias, nesses poucos dias atrás eu me dividi. Dividi-me por um sofrimento, uma consternação diante de uma noticia dura da realidade. Sofri comedidamente ao saber que 14 Xamãs foram brutalmente assassinados no Peru, pelo menos 07 de certeza foram, já que foram os únicos corpos que encontraram até agora. Foram assassinados por um grupo Sectário Protestante, e ao que tudo indica até o prefeito do lugar está envolvido. Isso alterou consideravelmente meu humor e segui 14 dias fazendo algumas orações e elevando meu pensamento. Já que é indiscutível a perda que todos nós acabamos tendo, seja de conhecimento humano, de ervas medicinais, do conhecimento acerca de si mesmo que tais homens abarcavam, além claro da perda do povo deles, de um líder, da suas histórias pessoais, da identidade deles, pois um Xamã é tudo isso, é a força política, espiritual e moral de uma tribo, é o que transmite normalmente as histórias deles mesmos à posteridade, aos netos e bisnetos, ao próximo Xamã. Curiosamente o argumento usado para justificar tais mortes por facão, tiro, pancadas ou pedradas foi o demônio. Alegaram que eles estavam possuídos pelo demônio, como numa clara guerra santa, demonstrando que ainda somos alvo do terror do antigo mundo onde homens eram queimados em fogueiras e muitos batiam palmas extasiados. Estes queimados não se dividiam, eram dor somente.

Sendo assim termino minhas reflexões acerca do ser. Não pretendo impor tal pensamento e sim discorrer a respeito dele, já que não existe melhor meio do que a troca de saberes. O que tratei aqui não está terminado, mas demonstra um pouco do que se passa em minha mente nesses últimos tempos. Seja portanto livre para criticar, mas principalmente para desenvolver comigo até onde pudermos.

E que por fim esse texto, esses momentos que dediquei a escrevê-lo, a pensar em tudo o que pensei, seja em homenagem a tais homens inteiros, destes que não se vê nem ao menos um arranhão.

#pensamento #Zen

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/aos-14-xam%C3%A3s

Desdobramentos Divinatórios

Este pequeno artigo corresponde-se à resposta que tive em um Tátil trabalho divinatório feito pelos membros do “Temple Legion Gmicalza”, IOT (Seatle, 15 de janeiro de 1995), e as experiências que me permitiu começar a entender as implicações da resposta nos termos da questão.

 

A RESPOSTA É “SLIME” – “GOSMA”

 

Ao participar do ritual Tátil de Divinação eu perguntei: “Qual a chave para escrever Pseudonomicon II?”.

Depois de colocar minha mão sobre a caixa, eu tive uma imediata sensação de “gosma” e tomei isso como minha resposta.

 

Isso eu fiquei um tanto perplexo e divertido. Gosma é algo que pode-se imaginar pingando dos tentáculos de Cthullu. Além disso, Kenneth Grant (um grande influente do Pseudonomicon I) é conhecido em certos bairros da cena LHP do Reino Unido como “O Senhor da Gosma” – “The Slime Lord”. No entanto, eu estava inicialmente confuso a respeito de como “gosma” poderia se relacionar com escrever um livro.

 

Gosma é uma substancia peculiar – sendo um fluido úmido e viscoso secretado por organismos como as lesmas, peixes ou fungos. Também é geralmente considerada como desagradável e nociva. Isso imediatamente atingiu outro acorde comigo – que encontramos muitos aspectos da natureza desagradáveis. Cada vez mais estou começando a entender os Mitos de Lovecraft como uma expressão da nossa relação com os processos naturais.

 

Gosma é uma substancia que possui propriedades interessantes – camadas ou cobertura de outras coisas e muda-los sutilmente, mantendo suas próprias propriedades inerentes certas formas de gosma parecem se comportar como elásticos e parecem ter diferentes graus de memoria termoplásticas.

 

Pensamentos de que gosma tende a invocar os medos e preconceitos sobre os processos biológicos – menstruação é um excelente exemplo. Algumas semanas atrás, a “desordem” foi convincente e trouxe para a minha casa como nós atravessávamos uma floresta enlameada na chuva e vi uma casa que tinha sido literalmente “recuperada” pela floresta. Medo dos processos naturas é um forte subtexto dentro da escrita de Lovecraft em particular, e da psicologia ocidental em geral. Mais uma vez isso também me lembra o trabalho de Kenneth Grant.

 

Foi nesta floresta que eu tive uma conversa com um amigo que é ao mesmo tempo ecologista e um tântrico budista. Discutimos o Pseudonomicon e meu desejo de expandi-lo, e meu amigo novamente chamou a minha atenção para Cthullu como uma articulação da interação do homem com a natureza. Eu me tornei cada vez mais insatisfeito com a maioria das abordagens “magicas” do mito de Cthullu, pois me pareceu enraizada na tradição magica intelectualizada ocidental captada (que segue as tendências filosóficas ocidentais) Marchando através da floresta, tornozelos na lama e tudo molhado, tive um “insight” que aqui eu estava muito mais perto dos Grandes Antigos do que  se eu estivesse em um quarto para realizar o ritual. Este foi um pensamento eu tive antes, mas esta experiência reforçou e ampliou minhas perspectivas sobre ela.

 

Como resultado destes “redemoinhos” de pensamentos e experiências, eu comecei a planejar o Pseudonomicon II como um texto muito mais amplo do que analisar o Mito de Cthullu como paradigma magico.

 

Oráculos não lineares:

 

O acima lida com as minhas ideias atuais sobre as Respostas Divinatórias no momento (provavelmente há mais por vir). Agora vou discutir questões mais reais relativas a esse tipo de abordagem para a adivinhação.

 

Geralmente as técnicas divinatórias podem ser divididas em duas abordagens simbólicas (ou seja, tarô e runas) e de forma livre (vidência). O trabalho divinatório Tátil cai nessa ultima categoria, como um exemplo de técnica divinatória onde as respostas surgem do reclamante imediatamente da percepção decorrente, sem qualquer quadro estruturado de referencia para a interpretação.

 

O que eu acho interessante sobre este ultimo tipo de abordagem para a adivinhação é que interpretações das “respostas” surgem organicamente ou seja, gradualmente, a partir de um campo totalmente experimental, o consulente aborda a questão a partir de diferentes ângulos e perspectivas. Isso também me faz lembrar o uso de Guemátria na interpretação das respostas confusas. Guemátria envolve não só a associação de conceitos linguísticos e simbólicos (Cabala), mas também pode se exigir meditação sobre as cartas do tarô, etc. Kenneth Grant é provavelmente o expoente mais conhecido do uso da Guemátria para formar cadeias de associação entre ideias dispares. O ponto principal sobre estas interpretações é que eles levam tempo para se desdobrar e formular – a questão do divinatório e oracular torna-se um fodo para as novas experiências que parecem um “loop” de volta para o problema original.

 

A GNOSE iluminatória:

 

As experiências do tipo divinatórias podem dar origem a poderosas experiências iluminatórias. Um bom exemplo disso pode ser encontrado em “Masks of The Illuminati”, um romance de Robert Anton Wilson, onde o protagonista é impelido para uma Gnose Iluminatória como resultado da tentativa de desvendar a forma mágica do clássico I.N.R.I.

 

Outro conceito relacionado é o do “Zen Koans”. Zen Koans são eficazes na medida em que estudantes esgotam as tendências para tentar fazer sentido logico de uma proposição não logica até que a “resposta” surge espontaneamente ou organicamente. A marca de tais entendimentos é que eles são acompanhados por uma resposta fisiológica. Ou seja, a “compreensão” súbita de um problema é emocional, ao invés de meramente intelectual.o entendimento é portanto inserido no “psicocosmo” da pessoa – um verdadeiro processo de gnose pelo qual as crenças e percepções anteriormente realizadas podem ser significativamente alteradas.  Tal experiência pode derrubar o individuo a um estado alterado que pode durar vários dias, durante os quais os elementos de tempo de seu “psicocosmo” pode entrar em colapso – uma fratura da realidade de consenso, se quiser, onde eventos e experiências que parecem relacionados com o “core” do processo (o gatilho divinatório oracular) assumem uma importância elevada.

Por Phil Hine – Trad. Carolina Rezende

Postagem original feita no https://mortesubita.net/lovecraft/desdobramentos-divinatorios/

Ama Ushumgal Anna

No inicio a escuridão reinava, o Caos era tudo.

Tiamat, Mãe do Caos, junto com Absu, Pai das Profundidades, governavam a eterna escuridão e o perfeito silêncio.

Tiamat e Absu juntos formavam o caótico primordial oceano.

A água doce de Absu se misturava com a água salgada de Tiamat quando juntos sonhavam seus escuros sonhos.

Mas foram de dois antigos sonhos que energias que eram impuras e que não estavam em harmonia com o Caos começaram a tomar forma na escuridão.

As energias impuras cresceram fortes.

Sem a Mãe do Caos ou o Pai do Abismo, despertando-os de seu profundo e escuro sono.

E a partir das energias impuras que tomaram forma na escuridão, os deuses rebeldes e imundos começaram a surgir.

A partir das energias não-caóticas que tinham tomado forma, os deuses bastardos e indignos de falsa luz começaram a se manifestar.

Entre estes novos deuses, existia um com o nome de Enki, o mais forte.

Enki se tornou governante dos deuses bastardos.

Enki tornou-se o rei dos deuses indignos.

E o silêncio perfeito já não era mais perfeito, pois a noite eterna foi interrompida pelo múrmuro dos deuses bastardos.

Absu, Pai da profundidade, acordou de seu sono e se enfureceu.

Tiamat, Mãe do Caos, acordou de seu sono e estava cheia de ódio.

Desgosto! Eles olhavam com desprezo para os novos deuses.

Com os olhos de ódio eles observaram os deuses bastardos que procriaram.

A Mãe Tiamat estava abatida.

Isso encheu o Pai Absu com desejo de vingança.

Nem mesmo Egura, a água negra do abismo poderia silenciar o riso alegre dos deuses bastardos.

Nem mesmo as brumas das profundezas pôde esconder a presença dos novos deuses.

O comportamento dos deuses indignos tornou-se abominável para o Pai das profundidades.

Absu explodia cheio de ódio para as ações indevidas dos novos deuses.

Em sua ira, Absu virou-se para o Dragão do Caos, Tiamat, e disse:

“Os atos dos deuses bastardos são repugnantes para mim, pois já não consigo encontrar qualquer descanso, nem dormir na escuridão.
Eu vou destruir, vou aniquilar, vou arruinar seus atos, de modo que a pureza do Caos possa ser reintegrada, para que mais uma vez possamos sonhar o mais escuro dos sonhos.”

Quando Tiamat ouviu estas palavras, ela se encheu de alegria e gritou para o seu marido:

“Destrua aqueles seres criados a partir de meus sonhos, pois suas ações são repugnantes para mim.
Extermine esses deuses rebeldes, meu esposo, e tu outra vez, em meu abraço, sonharás os sonhos escuros de poder.”

Quando Absu ouviu isso, seu rosto irradiava o mal que ele tinha em mente para os deuses bastardos, deuses que eram sua própria prole nojenta.

Quando os novos deuses viram a Aura de ódio que cercava seu pai, Absu, todos ficaram cheios de medo.

Os deuses bastardos fugiram para Enki, que era seu rei, e explicou-lhe:

“O Abismo está pronto para a guerra, e a toda-poderosa Dragão do Caos está recitando maldições de vingança.”

Enki ao ouvir isso se encheu de medo, mas aquele que foi o mais covarde e sub-reptício de todos os deuses bastardos, disse aos seus servos:

“Vamos envenenar as águas das profundezas, e se a força do Abismo encontra-se na escuridão, vamos então trazer a nossa luz para a escuridão, de modo que possamos cegar o nosso pai, Absu.
Vamos através de nossos esforços coletivos destrui-lo, pois Absu é orgulhoso e não espera covardia.
Vamos emboscá-lo e, com a nossa magia, derrubar Absu nas águas da morte, para que ele possa eternamente sonhar os sonhos de morte.”

Absu, o Pai das profundidades, levantou-se do abismo e preparou-se para a batalha, mas os deuses covardes cegaram-no com a falsa luz e envenenaram sua água.

Eles atacaram Absu e, com a sua magia, eles o colocaram no sono da morte.

Os deuses bastardos revoltantes estavam cheios de alegria, e em puro êxtase, eles copulavam, a fim de criarem uma nova vida.

Desta forma os deuses da luz comemoraram sua vitória enganosa, e o rei dos deuses bastardos, o Enki covarde, disse aos seus servos:

“Vamos construir um templo e profanar o nosso pai morto, de nome Absu.
Vamos neste templo criar mais vidas que irão neutralizar o Caos.”

Quando os outros deuses ouviram isso, eles estavam cheios da repugnante alegria.

E na terra onde eles haviam derrotado Absu com seu covarde ataque, eles construíram um templo.

Para profanar o Caos, o Templo foi batizado como Absu.

Dentro do templo Absu, Enki copulava com sua imunda prostituta, Damkina.

Dentro do templo Absu, Marduk foi gerado.

Dentro do templo imundo foi gerado Marduk, filho de Enki, filho de Damkina.

Do ventre da prostituta Damkina, Marduk nasceu, e todos os deuses da luz concediam presentes a Marduk.

Todos os deuses bastardos da luz deram de seus próprios poderes a Marduk.

Marduk tornou-se o mais poderoso de todos os deuses bastardos, tão covarde e inteligente quanto seu pai enganoso, Enki.

A poderosa Tiamat, Mãe do Caos, Mãe Tiamat, o Dragão do Caos, cheia de raiva e repleta de ódio, surgiu a partir da escuridão, e seus gritos foram ouvidos assombrando nas profundezas, ouvidos na escuridão.

Os gritos de Tiamat foram ouvidos em Nar Mattaru, e seus gritos eram como uma tempestade, chicoteando todas as almas, exceto seus inimigos jurados, que permaneciam em Da-Ra-Es Ku-Kuga Bar Sheg.

Fora das cavernas escuras de Da-Ra-Es Ku-Kuga Bar Sheg, o Espírito da Vingança aproximou-se de Tiamat.

O espirito da vingança disse a Tiamat:

“Teu esposo foi morto pelos deuses bastardos covardes, Absu foi morto pelos deuses bastardos abomináveis.
Das suas formas enganosas mataram nosso pai, e profanaram a escuridão do Caos com a sua imundice.
Vamos vingar o nosso amado Absu, ó Mãe do Caos! Vamos vingar sua morte, ó toda-poderosa dragão!”

Quando Tiamat ouviu este discurso, ela se agradou, e ela gritou na escuridão:

“O tempo da vingança está à mão! Os ventos de ódio devem atacar e o fogo da destruição queimará toda a vida!
O Espírito de Vingança me despertou do sono da tristeza, e agora iremos vingar a morte de Absu!”

Com sua magia, Tiamat convocou seres da sua escuridão à vida.

Demônios malignos e os deuses do Caos ela invocava, e todos eles se reuniram sob o trono do dragão.

Na raiva, conspiraram sem interrupção, aguardando a batalha.

Na raiva e ira, eles realizaram um conselho para planejar a próxima guerra.

A Mãe Tiamat, cheia de ódio, recitou as conjurações antigas e com a sua magia ela suscitou Hubur, sua Alta Sacerdotisa. Hubur, a Criadora de Demônios. Hubur, A Colérica Sombra de Tiamat.

Tiamat falou para Hubur:

“Crie uma legião de vingança, crie demônios de desordem, crie deuses da destruição, porque eu, Tiamat, a mais antiga e poderosa dos deuses do Caos, exijo o sangue dos novos deuses como sacrifício!
Crie exércitos de guerreiros do Caos, exércitos que deverão vingar a morte de Absu.
Crie vingadores do Caos, minha fiel Hubur, e vingue o sofrimento do dragão!”

Hubur curvou-se perante o trono do dragão, e com sua magia negra, chamou por diante dragões monstruosos com presas afiadas e impiedosas.

Em vez de sangue encheu suas veias com veneno, dragões gigantes de ira foram revestidos de poder e medo.

Ela deixou-lhes carregados com aura de terror e fez deles deuses, para que aqueles que tivessem intenção de prejudicá-los fossem destruídos.

Hubur aliou-se a Hydra; o dragão feroz; Lahamu; o grande leão, ao cão raivoso e ao homem escorpião.

Grandes demônios da tempestade, o homem peixe e os dragões, todos portando armas sem piedade e sem medo de batalha.

Onze Coléricos Deuses caóticos que dessa forma ela deu à luz.

E quando tudo estava preparado, Hubur ajoelhou-se diante do grande dragão, Tiamat. Tiamat, a personificação do Caos primordial, gritou para Hubur com uma voz odiosa:

“Hubur, minha própria sombra e sacerdotisa fiel, estou satisfeita com o que tu criaste, mas quem irá liderar o Onze para a suprema vitória, e trazer-me as almas arrancadas dos deuses bastardos como um sacrifício?”

Quando Hubur ouviu a pergunta do Dragão do Caos, ela chamou à luz o seu cônjuge com sua magia negra, ela chamou por diante o grande príncipe do Caos, o Senhor da Guerra, Kingu.

Em frente ao trono de Tiamat exaltou Kingu. E, em nome de Tiamat, Hubur escolheu Kingu para liderar o exército.

Ela escolheu Kingu para liderar esta congregação sinistra, para levantar as armas, e estar no comando da batalha próxima. Hubur deixou Kingu tomar o seu lugar no conselho escuro.

E diante do trono de Tiamat, Hubur disse a seu esposo, o poderoso Kingu:

“Eu tenho que recitar uma fórmula de poder para ti. Eu te fiz grande entre os deuses, eu enchi tua mão com o poder e domínio sobre todos os deuses, tu agora estás mais poderoso do que nunca, ó meu esposo.
Deixe aqueles deuses bastardos imundos serem esmagados debaixo dos teus pés!”

Hubur deu ao poderoso Kingu as Tábuas do Destino, e amarrou-as no seu peito. Então, Tiamat gritou:

“Kingu agora está pronto para a guerra! Kingu que irá vingar a morte de Absu!”

As legiões do Caos estavam armadas para a batalha contra os deuses rebeldes; a própria semente indesejada e detestável de Tiamat.

Os deuses rebeldes imundos, mais uma vez tornaram-se cheios de horror, e o deus deles, Enki, estava tremendo de raiva e medo.

Enki foi silenciado pelo medo e chorou sangue em seu trono, pois sabia que ninguém poderia sobreviver a ira da poderosa Tiamat.

O covarde Enki, o deus enganador, reuniu seus servos e disse-lhes sobre os feitiços que a poderosa dragão tinha destinado a eles.

Enki disse-lhes sobre os onze, criados pela vontade de Tiamat e a magia de Hubur.

Ele disse-lhes sobre as Legiões da Vingança, que sob a liderança de Kingu agora estavam preparadas para a guerra.

E quando todos os deuses de falsa luz ouviram isso, eles choraram sangue.

Eles sabiam que nenhum deles se atreveria a responder às legiões de sua ira, que, sob a liderança de Kingu, iriam vingar Absu.

Os deuses covardes foram silenciados e a sombra de Uggu caiu sobre eles.

Mas Anshar, que era o mais velho entre os deuses bastardos, surgiu com uma solução. Anshar chamou Enki e sugeriu:

“Aquele cuja força é enorme deve ser defensor de seu pai.
O único que deve lutar contra o Caos é Marduk, o herói”

Quando Enki ouviu isso, ele chamou seu filho, Marduk, e disse-lhe:

“Ó Marduk, meu filho fiel, ouça agora o teu pai, pois a sombra da morte caiu sobre todos nós, a Mãe Tiamat, o dragão do mal, declarou uma guerra contra nós que têm vindo sucessivamente a partir de teus sonhos, ela reuniu as legiões do Caos e colérica escuridão, que agora estão prontos para derramar o nosso sangue.
Tu és a nossa única esperança, Marduk, pois nenhum outro em meio de nós se atreve a lutar contra os guerreiros de Tiamat, que estão liderados por Kingu.
Eu, Enki, quero tu, Marduk, que é o mais fortes de todos os deuses, para nos defender contra a ira do Dragão. Eu quero tu, meu filho, para derrotar Tiamat.”

Marduk, que estava cheio de ódio contra as forças do Caos, jurou diante do trono de seu pai que faria guerra contra a Mãe Tiamat e usaria a força que todos os deuses tinham lhe concedido.

Quando os deuses ouviram isso, eles encheram-se de alegria, mas Marduk, que era o mais astuto entre os deuses bastardos, reuniu todos eles, e colocou por diante as suas exigências antes da batalha que estava próxima, batalha contra as forças do Caos.

Para o seu pai e os outros deuses, ele proclamou:

“Se eu, Marduk, filho de Enki, devo travar uma guerra contra Tiamat, preciso das bênçãos e poderes de todos os deuses.
Eu, Marduk, serei exaltado acima de tudo. Pois governar o trono mais alto é o meu pedido, pois, se vós não me exaltardes como o mais alto deus, minha força não será suficiente para derrotar o Caos, e a morte certamente levará todos nós.”

Os deuses, cheios de medo da guerra que se aproximava.

Concordaram com as demandas de Marduk.

Eles construíram poderosos templos em honra a Marduk, e elogiaram o seu nome.

Eles declararam Marduk como o rei dos deuses, e deu-lhe o topo, o trono e o domínio.

Os deuses bastardos armaram Marduk com armas poderosas.

Eles armaram Marduk com arco e flecha.

O Marduk foi armado com machado e espada.

O Marduk foi armado com relâmpagos e fogo.

Com seus poderes recém-adquiridos, o covarde Marduk criou uma rede de luz ilusória para capturar seus inimigos dentro.

Marduk convocou os quatro ventos cósmicos, e ele criou o redemoinho e o furacão, para protegê-lo contra a ira do Caos.

Ele enviou estes ventos para o Dragão, para confundir seus sentidos.

Marduk, agora que estava pronto para a batalha, chamou uma tempestade de vento forte. Em seguida, cercou-se com um redemoinho que o protegeria sobrevoando os exércitos das trevas.

Marduk voou até o trono do Dragão.

Para as profundezas do Caos, Marduk percorreu, diante do trono do Caos, diante da Mãe Tiamat, mais uma vez ele desceu em direção à profundidade.

Cara a cara com o Dragão, Marduk declarou guerra. Sem se ajoelhar, o Marduk imundo se atreveu a ficar na frente do trono de Tiamat.

Ummu Ushumgal Sumun Tiamat, Mãe do Caos, cheia de ira, cheia de ódio, olhou para o Marduk rebelde.

Com os olhos da morte, e com o frio olhar de ódio, ela olhou para o filho indigno de Enki.

Tiamat recitou as canções de morte, ela gritou por diante uma conjuração.

Tiamat atacou Marduk com sua antiga fórmula, e com sua magia negra ela o esfaqueou.

Como filho dos deuses, o Marduk astuto, estava cheio de medo.

Dos olhos de Marduk, o sangue jorrou.

Da boca de Marduk, a água vermelha da vida fluiu.

Dos ouvidos de Marduk, o sangue divino correu.

Marduk gritou de dor e lentamente começou a se afogar em seu próprio sangue.

Sessenta demônios dilaceraram o corpo de Marduk.

Sete demônios beberam seu sangue.

O grande Dragão, a Imperatriz do Caos, sentada em seu trono, riu da miséria e do sofrimento de Marduk.

As legiões do Caos, lideradas por Kingu, rodeavam Marduk. Os Filhos e Filhas do Ódio cercavam Marduk.

Marduk, cheio de medo, viu a sombra da morte fechando-se sobre ele.

Desesperado e oprimido pelo mal que o cercava, ele convocou seus ventos cósmicos.

Marduk convocou seus ventos de tempestade e lançou-os sobre os demônios.

Ele jogou sua rede de luz sobre Tiamat.

O Dragão do Caos, cheio de ódio, gritou as maldições antigas.

Marduk agora combatia com todos os seus poderes, e desencadeava os quatro ventos contra o rosto de Tiamat.

Quando Tiamat abriu a boca para gritar de raiva, Marduk deixou os ventos cósmicos correrem para dentro dela, para que ela não pudesse fechar suas mandíbulas ensanguentadas.

A Mãe Tiamat, a maior de todos eles, gritou para Marduk:

“Como tu podes esperar matar algo que nunca viveu?
Como tu podes derrotar aquilo que nunca nasceu?
Eu, Tiamat, era tudo quando tudo era nada! Eu governei antes da morte existir.
Eu sou o vazio e a escuridão eterna.
Eu sou o Caos, a destruidora de toda a ordem e a mãe de todos e do nada!
Como tu pudeste, Marduk, tu que és apenas uma prole de um dos meus sonhos natimortos, sempre esperar por uma ordem eterna?
Antes do Cosmos, era Caos, e quando o Cosmos cair, o Caos será tudo novamente!
Então aproveite a tua curta vitória, deus bastardo, porque eu, Tiamat, que fui a primeira a ver as Tábuas do Destino, sei como esta guerra vai acabar.
Aproveite a tua curta vitória, Marduk, pois quando a luz dos novos deuses for extinta, Eu novamente governarei!”

Marduk, que estava cheio de medo quando ouviu o discurso de desprezo de Tiamat, deixou os ventos cósmicos preencherem seu abdômen rasgando ela em pedaços por dentro.

Mas a poderosa Dragão do Caos, Tiamat, não gritou de dor. Em vez disso, ela respondeu com uma risada desdenhosa.

Marduk, o rei dos novos deuses, disparou suas flechas de luz e rasgou os intestinos do Dragão.

As flechas de Marduk dilaceraram os intestinos do Dragão e dividiram seu interior.

Rindo, a poderosa Tiamat caiu.

Rindo, a Mãe do Caos caiu no sono dos mortos-vivos.

Quando as tropas de Kingu testemunharam a queda do dragão, eles se dispersaram, mas a alta sacerdotisa do Caos, Hubur, a bruxa demoníaca que testemunhou a batalha, transformou-se em um vulto escuro.

Antes que o sangue derramado de Tiamat pudesse cair no chão, antes que o sangue do Dragão do Caos pudesse ser profanado pelo Marduk imundo, Hubur recolheu o sangue do poderoso dragão, Tiamat, e levou-o para lugares desconhecidos dos deuses de falsa luz.

A fiel Hubur, a Mãe da Magia Negra, a bruxa malvada Hubur, trouxe o sangue para os divinos e mais escuros lugares e derramou o sangue do dragão para o vazio infinito à fora.

A partir do sangue do dragão surgiu o Império do Caos Colérico.

A partir do antigo sangue do Caos, os vingadores da Escuridão surgiram, eles que deverão vingar a queda do Trono do Dragão.

O sangue da mãe Dragão fluiu e se espalhou, para que o Caos viesse cercar o que fosse evoluir do Cosmos.

Na escuridão do Caos Colérico estavam os demônios aguardando famintos.

O covarde Marduk ignorou as ações de Hubur. O novo Império da Fúria (Império de deuses indignos) estava junto ao corpo “morto” do Dragão e eles reuniram suas armas.

Pois já que tinham “matado” Tiamat, agora deveriam derrotar Kingu.

Kingu, o último que restava da antiga raça.

Kingu, o vingador do Dragão, queimava com ódio, e estava pronto para a guerra!

Mas antes que o senhor da guerra Kingu pudesse lutar contra o indigno Marduk, mas antes que ele pudesse afundar Marduk nas águas da morte, ele foi preso pelos exércitos dos deuses bastardos.

Kingu foi dominado pelas legiões dos deuses covardes, que agora se atreveram a aparecer.

Pois quando o Dragão foi ‘morto’ e Os Onze que foram criados pela magia de Hubur tinham se disperso em direção à essência do sangue do Caos Externo, os deuses bastardos estavam cheios de falsa coragem.

Eles algemaram o poderoso Kingu com correntes flamejantes, e Marduk roubou as Tábuas do Destino de Kingu, e incorporou-as ao seu próprio peito.

E então o demoníaco Senhor do Caos riu para Marduk e disse:

“Ó cão covarde, sua covardia deve ter te salvado agora, mas eu, Guerreiro do Caos, contemplei as Tábuas do Destino e eu vi como a guerra entre o Caos e o Cosmos irá acabar.
Eu olhei dentro das tábuas negras e vi tua própria criação se voltando contra ti.
Eu vi aqueles que servem a Ira da espada cega abrirem os portões para os Deuses famintos que esperam o dia da vingança.
Eu, Kingu, vi como aqueles que, guiados pelo meu sangue, irão vingar o Caos Primordial, que tu profanaste.
O Dragão se levantará, e eu, Kingu, receberei minha vingança!
Então, aproveite tua curta vitória, pois a vitória do Caos será eterna!
Minha vingança está dentro da herança do meu sangue, e o ódio em meu sangue é sem fim.
Então, aproveite tua vitória Marduk, porque quando o Dia da Ira amanhecer, teu sangue será derramado em minha honra, por aqueles que o meu sangue dentro circula!”

Quando Marduk ouviu isso, ele disse aos seus guerreiros para aprisionar Kingu.

Na caverna mais escura de Uggu, ele deixou seus exércitos acorrentarem Kingu.

Toda a congregação dos novos deuses se reuniu em torno de Marduk, e o saudaram.

Então, Marduk, o bastardo indigno, partiu a cabeça do Dragão com sua espada.

Então Marduk cortou suas veias, e quando o seu pai viu isso, ele se encheu de alegria e felicidade.

Marduk, olhando para o corpo do Dragão, decidiu criar o universo com o corpo da Mãe Dragão.

Ele cortou seu corpo ao meio, e com uma metade ele criou o céu.

Com a outra metade, ele criou a terra.

Marduk colocou guardiões para impedir “aqueles que ficam do lado de fora” de invadir sua criação, pois ele sentiu o ódio daqueles que haviam ascendido da essência do sangue do Dragão.

Ele criou barreiras para proteger sua criação dos Deuses Coléricos do Caos. Ele criou portões fechados para evitar os Oceanos do Caos de inundar o universo.

Ele criou estações para que os deuses se correspondessem com as estrelas das constelações.

Marduk criou anos e dias, e deu domínio sobre todos os planetas aos deuses. O filho de Enki criou o sol para clarear o dia, e a lua para clarear a noite.

Todos os deuses saudaram Marduk, e deram a ele o título de Senhor Criador.

Marduk que gostava de ser aclamado decidiu criar o Homem, para que eles também o saudassem e o adorassem. Marduk disse ao seu pai Enki:

“Com sangue eu unirei e atarei um esqueleto.
Eu criarei o Homem, cuja finalidade será adorar-nos para sempre e servi-nos como escravos.”

Quando Enki ouviu isso ele estava orgulhoso de seu filho, e chamou todos os deuses, para que Marduk pudesse confessar seus planos para a criação do Homem.

Quando os deuses ouviram o plano de Marduk, eles deram a sua aprovação ao deus criador.

O astuto Marduk estava satisfeito, e perguntou aos deuses:

“Quem dentre vós estais, então, pronto para ser sacrificado a fim de criar o Homem como nosso fiel escravo?
Quem dentre vós estais pronto para ter o teu sangue derramado, a fim de criarmos nossos escravos de sangue e barro?
Para a fim de criar o Homem, eu preciso do sangue de um deus, para fazer o homem emergir do barro, a vida de um deus deve ser sacrificada.
Quem dentre vós estais preparado para morrer a fim de cumprir os desejos exaltados pela assembleia divina?”

Os deuses covardes ouviram as palavras do demiurgo (Marduk) e estavam cheios de medo, pois nenhum deles estavam preparados para sacrificar sua própria vida, a fim de cumprir os desejos de Marduk.

Mas os deuses Igigi, que estavam entre os mais inteligentes dos deuses, pensaram em uma solução, eles disseram a Marduk:

“Vamos sacrificar o único que declarou guerra contra nós, vamos matar quem nos ridicularizou.
Vamos derramar o sangue de quem professou a nossa morte.
O Guerreiro do Caos, quem nós temos aprisionado, pode morrer para que possamos receber nossos fiéis servos.
Nós podemos matar Kingu, para que o Homem, nosso fiel escravo, possa ser criado!”

Quando Marduk ouviu isso, ele se animou e ordenou para que Kingu fosse levado perante a assembleia dos deuses.

Os deuses rebeldes imundos trouxeram Kingu da caverna de Uggu.

Orgulhoso, o poderoso Kingu ficou diante os deuses indignos.

O covarde Marduk, disse a Kingu:

“Tu, quem professastes nossa morte, é agora tu quem deverás morrer.
Talvez a força e os poderes do Caos não sejam tão grandes como eu havia previsto.
O poderoso Kingu talvez esteja cego, que não pôde ver a sua terrível morte nas Tábuas do Destino.”

Quando Kingu ouviu isso, ele riu com sua risada desdenhosa novamente e disse:

“Eu, Kingu, vi minha própria morte nas Tábuas do Destino, mas também vi minha própria ressurreição.
Pois o que mais é a morte para nós que somos do Caos do que um pequeno descanso?
Nós somos os primeiros, e devemos ser os últimos.
Nós, que nunca vivemos, não podemos morrer!
Derrame meu sangue, ó covarde Marduk, pois todo o sangue que corre em minhas veias, um dia derrotará a ti, pois o meu ódio é eterno, assim como meu desejo por vingança!
Aproveite, ó deus bastardo e imundo, pois a punição para os teus crimes é horrível e eterna!”

Quando os deuses que estavam presentes ouviram aquilo, eles ficaram cheios de raiva, e com suas espadas eles cortaram o corpo do poderoso Kingu em pedaços.

O covarde Marduk cortou as veias de Kingu, e misturou o sangue de Kingu com a argila para modelar o corpo humano.

Então Marduk soprou sua própria respiração fétida dentro do corpo humano, de modo que seria preenchido com força vital e começassem a viver.

O Homem foi criado e todos os deuses saudaram Marduk.

Os deuses indignos concederam a Marduk seus cinquenta títulos, e o exaltaram para governar como rei de todos os deuses cósmicos, onde o Caos havia governado supremo, o Cosmos agora reinava.

No entanto de fora das barreiras do Cosmos, os deuses do Caos Colérico, que emergiram a partir da essência do sangue do Dragão do Caos, estão olhando para a criação de falsa luz e esperando o dia da vingança.

Eles aguardam a ordem dos Onze do Caos, para invadir o império do demiurgo, para espalhar as chamas na Luz Externa, e para sempre extinguir a centelha da vida dos deuses criadores.

Mas os famintos, que aguardam a guerra do lado de fora, não são os únicos agentes do Caos Colérico.

Também está escrito que a criação de Marduk, impulsionada pelo sangue de Kingu, deve abrir os portões internos para o Outro Lado.

Porque fora dito que o homem, criado pelo sangue do Diabo deve-se voltar contra o seu próprio criador, o impotente Marduk cometera um erro fatal quando criou os humanos com o sangue de Kingu; o Guerreiro do Caos Colérico.

Através do sangue de Kingu, o Homem carrega nas profundezas de sua alma a Chama Negra do Caos.

Dentro das profundezas de sua alma, o Homem carrega a semente do ódio anticósmico.

Pois o sangue-espírito do Homem é da essência do vingador, e o ódio da humanidade é o ódio de Kingu.

Entre os eleitos, que são guiados pelo Espírito do Sangue Caótico, há aqueles que são abençoados com os poderes dos antigos Deuses do Caos.

Estes eleitos, que servem a ira dos deuses „mortos‟ são os únicos que deverão abrir as portas trancadas por dentro e deixar entrar aqueles que esperam do lado de fora da barreira cósmica.

A criação de Marduk/Demiurgo nada mais é, que uma ilha afundando, cercada por um oceano de Caos eterno.

O oceano do Caos que é o sangue do Dragão ‘morto’.

Do lado de fora dos muros da criação os Onze Vingadores do Caos, aguardam.

Os Onze e suas legiões esperam para os portões serem abertos, para que eles possam restabelecer o Caos que uma vez governou.

Quando os Deuses da Vingança, os Coléricos Guerreiros do Caos, já tiverem dilacerado os deuses bastardos, quando a Ira do Dragão do Caos tiver destruído os deuses rebeldes e sua criação imunda, Ama-Ushumgal-SumunTiamat deverá despertar do sono da morte.

A Escuridão primordial e o silêncio descerão e dissolverão o Cosmos.

O triunfo do Caos sobre o Cosmos irá durar para toda a eternidade, e mais uma vez as forças do Caos deverão reinar supremas.

Silim-Madu Ama-Ushumgal-Hubur!

Silim-Madu Sumun Mummu Tiamat!

Fonte: Liber Azerate: O Livro do Caos Colérico.

© 2002 – MLO Frater Nemidial Copyright.

© 2002 MLO – Anti-Cosmic Productions Todos os Direitos Reservados.

Tradução e Adaptação: Zeis Araújo (Inmost Nigredo) Revisão: Gabriela Paiva 2014.

Texto enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/satanismo/ama-ushumgal-anna/

Individualização e Verdadeira Vontade

Tradução:Mago implacavel

Revisão: (não) Maga patalógica

Na seção anterior deste ensaio, foi visto como a mente inibe a expressão plena da Vontade. O “fator infinito e desconhecido” é a “Vontade subconsciente”, e, portanto, se podemos eliminar os complexos de pensamento que impedem que essa Vontade se manifeste, conheceremos nossa Vontade. Este processo pelo qual conhecemos e fazemos a nossa Vontade é chamado em alguns lugares “A Grande Obra”. Crowley explica a Grande Obra de conhecer a verdadeira Vontade, de forma concisa quando escreve,

“Não devemos nos considerar como seres básicos, sem cuja esfera é Luz ou” Deus “. Nossas mentes e corpos são véus da Luz interior. O não iniciado é uma “Estrela Negra”, e a Grande Obra para ele é fazer seus véus transparentes “purificando” eles. Esta “purificação” é realmente “simplificação”; não é que o véu esteja sujo, mas que a complexidade de suas dobras torna opaco. O Grande Trabalho consiste, portanto, principalmente na solução de complexos. Tudo em si é perfeito, mas quando as coisas estão confusas, elas se tornam “malvadas”.¹

Este processo da Grande Obra que “consiste principalmente na solução de complexos” também é coincidente com uma frase Crowley freqüentemente usada: Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião. Ele afirma essa identidade o mais claramente possível quando escreve: “A Grande Obra é a realização do Conhecimento e Conversação do SAG.”

O processo pelo qual conhecemos e fazemos nossa Vontade é a solução de complexos que inibem o fluxo livre e natural da Vontade. A Grande Obra é simplesmente uma remoção das inibições do eu consciente para permitir que o Eu verdadeiro, que contenha elementos conscientes e subconscientes, reine livremente para fazer o ele Quer. A teoria é que, se só pudermos “limpar as portas da percepção” (como William Blake diz), teremos permissão para manifestar efetivamente a nossa Vontade pura. Crowley escreve: “Nosso próprio Ser silencioso, indefeso e sem palavras, escondido dentro de nós, surgirá, se tivermos arte para soltá-lo para a Luz, avançar rapidamente com seu grito de Batalha, a Palavra de nossas Verdadeiras Vontades. Esta é a Tarefa do Adepto, para ter o Conhecimento e a Conversação de Seu Santo Anjo Guardião, para tomar consciência de sua natureza e seu propósito, cumprindo-os “.³ Aqui Crowley não só faz o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda análogo a tornando-se consciente e cumprindo a natureza e o propósito de alguém, mas ele admite que tudo o que precisamos é de “ofício para soltar” esse “Eu Mágico” e então, naturalmente, a “Palavra de nossas Verdades Vontades” será “brotar luxuriante pra frente”.

As várias formas de Horus encontradas no Liber AL vel Legis (Ra-Hoor-Khuit, Hoor-paar-kraat, Heru-pa-kraath, Heru-ra-ha, etc.) 4 representam uma expressão simbólica do “Silencioso” ou “True Self” e, portanto, também um símbolo do Sagrado Anjo da Guarda. Horus é, portanto, uma expressão arquetípica do Eu a que todos aspiram a se unir ou se identificar com “A Grande Obra”. Isto é falado em Liber AL quando Hórus, o falante do terceiro capítulo, diz: “Fazei a Mim a vossa reverência! vinde vós a mim através da tribulação do ordálio que é êxtase. “.5 Crowley explica:

Vimos que Ra-Hoor-Khuit é, em um sentido, o Eu Silencioso em um homem, um Nome de seu Khabs, não tão impessoal como Hadit, mas a primeira e menos falsa formulação do Ego. Devemos venerar este eu em nós, então, não para suprimir e subordiná-lo. Nem nós devemos evadir, mas para chegar a ele. Isso é feito “através da tribulação da provação”. Esta tribulação é a experiência no processo chamado Psicanálise, agora que a ciência oficial adotou – na medida em que a inteligência inferior permite – os métodos do magus. Mas a “provação” é “êxtase”; a solução de cada complexo por “tribulação” … é o espasmo da alegria, que é o acompanhamento fisiológico e psicológico de qualquer alívio da tensão e congestionamento “.

Crowley identifica Horus como uma expressão simbólica do Eu cuja Vontade não deve ser suprimida, subordinada ou evadida. O mais surpreendente das declarações de Crowley é que ele afirma que a “tribulação da provação” da Grande Obra é coincidente com a Psicanálise, uma conexão direta novamente entre a psicologia e Thelema. Com isso, podemos ver que o processo da psicanálise é análogo ao “Grande Trabalho” e ao “Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda”: é uma realização do verdadeiro Eu.

Carl Jung considerou esse mesmo processo de “individuação”. Ele define a individuação como:

“Tornando-se um “in-divíduo”, e na medida em que a “individualidade” abrange a nossa singularidade, última e incomparável unicidade, também implica tornar-se a si próprio. Podemos, portanto, traduzir a individuação como “chegando à individualidade” ou “auto-realização …” Os egotistas são chamados de “egoísta”, mas isso, naturalmente, não tem nada a ver com o conceito de “eu”, como estou usando aqui … Individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que satisfaça as qualidades individuais dadas; em outras palavras, é um processo pelo qual um homem se torna o ser definitivo e único, ele é de fato. Ao fazê-lo, ele não se torna “egoísta” no sentido ordinário da palavra, mas está cumprindo apenas a peculiaridade de sua natureza, e isso … é muito diferente do egoísmo ou do individualismo.

Jung aqui afirma que a individuação é uma “auto-realização”, mas garante a qualificação dessa afirmação dizendo que isso não significa um fortalecimento do ego essencial. Este eu que se realiza está além da noção egocêntrica normal de “eu”. Em vez disso, este eu contém tanto o consciente (onde o ego reside) quanto os fatores inconscientes. Jung explica que “o consciente e o inconsciente não são necessariamente opostos um ao outro, mas complementam outro para formar uma totalidade, que é o eu” .8 Este é o Eu que vem a “através da tribulação da provação”. Horus é um símbolo desse Eu em Liber AL vel Legis, e em outros lugares o Sagrado Anjo da Guarda é mencionado como esse símbolo. Crowley escreve: “O anjo é o verdadeiro eu de seu eu subconsciente, a vida escondida de sua vida física” e “seu anjo é a unidade que expressa a soma dos elementos desse eu” 9, um paralelo quase exato de A definição de Jung do “eu”.10

Conforme afirmado anteriormente por Crowley, este processo de individuação ou “A Grande Obra … consiste principalmente na solução de complexos”, e é simplesmente tornar-se consciente e satisfazer a própria natureza. Através desta grande obra de individuação, alguém se identifica com este eu. Em Thelema, faz-se tal sob a figura de Hórus.11 Um vem a saber que “ele [ou ela] é Harpocrates, o Menino Hórus … isto é, ele está em Unidade com sua própria Natureza Secreta”. 12

Pode-se até mesmo afirmar que a Grande Obra é um processo natural da psique humana. Carl Jung diz: “a força motriz [do inconsciente], na medida em que é possível para nós entendê-lo, parece ser, na essência, apenas um impulso para a auto-realização” .13 Nesse sentido, todos os humanos estão participando de o drama da “Grande Obra”, cada um esforçando-se, conscientemente ou inconscientemente, para essa união de naturezas subconscientes e conscientes no Eu, para que eles possam realizar suas Forças de forma mais completa.

1 Crowley, Aleister. The Law is for All, I:8.

2 Crowley, Aleister. Liber Aleph, “De Gradibus ad Magnum Opus.”

3 Crowley, Aleister. The Law is for All, I:7.

4 É interessante notar que Crowley diz em seu comentário do Liber Al, “O Louco tamém é o Grande Louco,Bacchus Diphues, Harpocrates, the Eu Anão, o SAG, enfim,” essencialmente equiparando todos os símbolos. Depois, ele escreve em seu comentário do Liber Al II:8, “Harpocrates é… a Alma Anã, o Self Secreto de cada homem, a serpente com a cabeça de Leão.” Se isso for verdade, e de acordo com o Liber Al i:8 “Hoor-paar-kraat” (um nome para Harpócrates) é dado como a fonte do Liber AL vel Legis como o próprio livro proclama, então Liber AL foi de fato a manifestação do inconsciente de Crowley. O fato é que o inconsciente contém “tanto o conhecimento quanto o poder” maior que a mente consciente e, portanto, é bem possível que o Liver Al vel legis seja uma manifestação do mesmo.

5 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, III:62.

6 Crowley, Aleister. The Law is for All, III:62.

7 Jung, Carl. “The Function of the Unconscious” from The Collected Works of C.G. Jung vol.7, par.266-267.

8 Jung, Carl. “The Function of the Unconscious” from The Collected Works of C.G. Jung vol.7, par.274.

9 Crowley, Aleister. “Liber Samekh,” Ponto II, Seção G.

10 Por estas considerações será visto que o SAG é mais acertadamente não um ente externo como algum grupos thelemicos dizem. Isto é dito provavelemente devido a uma declaração feita por Crowley no Magick Without Tears, um tratado feito pra iniciantes totais. Temos que entender que o subconsciente pode e aparece um autonomo para a mente consciente. Portanto, alguém pode dizer que o Anjo está “fora” do individuo pois parece que ele funciona autonomamente considerando o ponto de vita do ego, mas em ultima instancia , chega-se a ver que o Anjo é, de fato, o somatório de ambas as naturezas subconscientes e conscientes que compõem o Eu.

11 Numa nota de rodapé do capitulo 90 do Confessions of Aleister Crowley, Symonds escreve sobre uma declaração que Crowley fez para um discípulo Frank Bennett: “Quero explicar-lhe plenamente, e em poucas palavras, o que significa iniciação, e o que se entende quando conversamos sobre o Eu Real e o que o Eu Real é. “E então, Crowley disse a ele que era tudo uma questão de conseguir que a mente subconsciente funcionasse; e quando essa mente subconsciente tem permissão a dominação total da mente, sem interferência da mente consciente, então a iluminação poderia começar; Para a mente subconsciente era nosso Santo Anjo da Guarda. Crowley ilustrou o ponto assim: tudo é experimentado na mente subconsciente, e ele (o subconsciente) está constantemente exortando sua vontade na consciência, e quando os desejos internos são restritos ou suprimidos, o mal de todos os tipos é o resultado “. Embora isso seja diretamente ade acrodo com nossas conclusões, incluí-lo apenas em uma nota de rodapé porque é uma conta de terceiros.

12 Crowley, Aleister. Liber Aleph, “De Gramine Sanctissimo Arabico.”

13 Jung, Carl. “The Function of the Unconscious” from The Collected Works of C.G. Jung vol.7, par.291.

Link texto original: https://iao131.com/2013/03/02/psychology-of-liber-al-pt-5-individuation-and-the-true-will/

#Thelema

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/individualiza%C3%A7%C3%A3o-e-verdadeira-vontade

Àjé – As Aves das Noites Mais Escuras das Almas

Por Nicholaj de Mattos Frisvold.

O termo iorubá àjé carrega associações de movimento e comércio – podemos entendê-lo como um mercado da noite se desdobrando em raios prateados. Este mercado noturno é concebido como um encontro de pássaros de bico comprido e predadores.

O conceito de àjé no Novo Mundo e no Ocidente Moderno foi equiparado a ‘bruxa’ – e isso é verdade, na medida em que entendemos o que é uma bruxa – nas premissas africanas. Àjé é considerado um poder que algumas pessoas possuem por herança, iniciação ou nascimento. É considerado um excesso de àse (poder natural) – e, portanto, deve ser mantido sob controle e em equilíbrio para evitar danos ao portador do àjé e à própria comunidade. Àjé é a profundidade emocional primordial da feminilidade. Não é uma força geradora – pelo contrário. A Doce Òsún é os poderes geradores e da fertilidade. Àjé e sua mãe Ìyàmí Òsòròngà é a esterilidade e a alteridade, a feminilidade anterior ao primeiro sangue e o lamento sobre o último sangue. Isso significa que os poderes do àjé se jogam no campo da possibilidade. Àjé é como os rizomas de um fungo ou um lótus rastejando quilômetros abaixo do solo, manifestando-se em picos de poder aqui e ali – mas sua verdadeira essência é uma rede fosforescente de possibilidades subterrâneas que podem ou não se manifestar.

Ifá nos diz que foi na vibração divina conhecida como Odú Òsá Méjí que o poder conhecido como àjé veio à terra. Este odú também fala sobre como dois Òrìsà masculinos, Obàtálá e Ògún e uma mulher, Òdù vieram à terra para esculpi-la e moldá-la. Olodumare deu a Obàtálá o poder da escultura e da arte e a Ògún o poder da metalurgia. A Òdù ele deu o poder de dar a vida – ele deu a maternidade e disse que ela era a sustentadora do mundo. Ela sustentaria o mundo com uma cabaça particular. Dentro desta cabaça havia um pássaro. Ela declarou que usaria este magnífico àse para lutar contra aqueles que a desrespeitavam e para defender aqueles que a adoravam. Este pássaro era àjé – e Òdú segurando este pássaro torna-se Ìyàmí Òsòròngà, que podemos entender como “Minha Mãe Misteriosa; Dono dos Pássaros da Noite”.

E é por isso que Obàtálá declara o seguinte neste Òdú que anuncia que as aves do outro mundo descerão sobre a terra:

“Obarisa disse que as pessoas devem sempre respeitar as
Mulheres grandemente
Pois se elas sempre respeitarem muito as mulheres, o mundo
Estará na ordem certa
Preste homenagem; Respeite as mulheres
De fato, foi a mulher que trouxe
Nos à existência
Antes de sermos reconhecidos como seres humanos.”

Naturalmente, a dádiva da maternidade vem com o intenso campo de variáveis ​​emocionais animadas que ocorrem durante a menstruação, gestação e menopausa. Estas são as marés altas para os segredos da maternidade se enfurecerem e delirarem em seu estado bruto. Assim, àjé são ‘pássaros’ que habitam, infestam e se alimentam de nossas emoções e maculam ou curam nossa alma. Nisto reside a advertência em numerosos versos e provérbios de Ifá aconselhando-nos – e especialmente aos homens – a prostrar-se sobre Odú – ou útero e mulher e prestar-lhe respeito, fazer ipese; o sacrifício que acalma o ventre.

Diz-se que Ìyàmí está “sentada sobre Òdù”, que ela está coroando os poderes femininos ou que Òdú é uma Ìyàmí. Ela também é conhecida como Ìyàmí eleye “A Dona dos pássaros” e Ìyà Àgbà “A mulher idosa é respeitável” e Ìyàmí Òsòròngà que significa “Minha mãe a Poderosa Feiticeira ou Bruxa”. Isso levanta algumas questões controversas, uma vez que a feitiçaria está associada a atos anti-sociais, bem como um poder natural acessível para mulheres e membros de sociedades como egbé eleye e egbé ìmùlè, onde os segredos da manipulação de poderes sobrenaturais são preservados. A bruxaria anti-social é triste por derivar do àjé burúkú, mas também existe outro tipo de “bruxa” conhecido como àjé rere. A diferença é de caráter. A palavra burúkú se refere a tudo que é ruim, quebrado e corrompido. Por exemplo, o termo Orí burúkú significa uma pessoa incapaz de fazer escolhas que são boas para ela e que são consideradas incômodas e destrutivas para si e para a sociedade.

Rere, por outro lado, também usado de forma intercambiável com Ìwá pélé refere-se a um estado de contentamento e felicidade, onde o caráter é bom e a pessoa é uma adição boa e benevolente à sociedade e a si mesmo. O historiador nigeriano Lawal comenta a esse respeito que as mulheres menos fortes fisicamente foram abençoadas com uma forma especial de astúcia, ogbón ayé, que também carrega a conotação de engano ou astúcia. Ainda assim, a importância do caráter e da manutenção de uma consciência calma e boa é sempre enfatizada. Ainda hoje temos provérbios entre os iorubás que se referem à influência do àjé ser como ‘pássaros nidificando no cabelo de uma pessoa’. Isso é mais revelador porque o cabelo carrega o significado simbólico de ser algo indomável e selvagem, o que emaranha e deve ser direcionado se se deseja um crescimento positivo. Por isso o Ori (consciência/cabeça física) é muitas vezes adornado embelezando o próprio cabelo e modelando-o com cuidado para decorar o Ori/cabeça como forma de apaziguar e acalmar a cabeça.

Há outro elemento que precisa ser comentado. Esse é o elemento ancestral. Ìyámí é considerado o progenitor ancestral do sexo feminino como Osó é o progenitor do sexo masculino. Isso talvez signifique que enquanto Ìyámí representa a feminilidade suprema e transcendente, Osó representa a masculinidade suprema e transcendente. Diz-se que Osó toma seu àse do reino de Èsù colocando esta divindade no reino da transformação e mudança. Talvez se possa entender que Àjé e Osó é o mesmo poder essencial, mas levado em duas direções diferentes pelo ritmo natural da criação e aí se torna algo completamente diferente – como masculinidade bruta e original e feminilidade bruta e original. Também se vê isso na reflexão que isso tem nos cultos, Osó está profundamente relacionado ao culto de Orìsà Oko, o orìsà da Fazenda e é dito servir como juiz e intermediário em casos de acusações de feitiçaria. Ele é considerado uma força calma e tranquila, justo e sábio com um profundo conhecimento sobre feitiçaria e feitiçaria. Talvez em Osó se encontre o masculino idealizado espelhado nos caminhos de Orìsà Oko? Pode-se ver isso pelos pássaros sagrados para Ìyámi e Osó também. As aves de Ìyámí são predadoras, enquanto no caso de Osó é sagrado o abutre, uma ave que não reza sobre nada além de carne que já está morta. Não é um predador, mas um purificador. Esta pode ser uma explicação para a respectiva relação ancestral relacionada a essas duas potências espirituais e suas semelhanças e diferenças. Também se harmoniza com a visão iorubá do cosmos nas palavras de Lawal: “como uma interação dinâmica de opostos como céu e terra, dia e noite, masculino e feminino, físico e metafísico, corpo e alma, interior e exterior, quente e frio, duro e macio, esquerda e direita, vida e morte, sucesso e fracasso e assim por diante.”

Há uma crença no Novo Mundo de que existe alguma forma de inimizade entre o àjé e Ifá – mas Òrúnmìlà em sua capacidade como o grande pacificador entendeu a necessidade desses poderes e como essa abundância de ase pode beneficiar a humanidade. Este mistério é guardado na sociedade de Ogboni, onde a dinâmica tradicional de poder entre a mão esquerda e a mão direita é compreendida e usada. Não só isso, mas o peso e a qualidade das cores também são preservados aqui, pois toda manifestação e seu potencial vem nas cores do vermelho, preto e branco – que são graus de misericórdia, frieza e fogo. Em última análise, estamos falando do mistério da tensão emocional e cósmica e como apaziguá-la.

On pode perguntar, no entanto, por que é importante entender esses poderes, por que eles são tão essenciais para o trabalho de Ifá, por que essas forças disruptivas estão presentes no mundo. A explicação para este mistério é maravilhosa e maravilhosa – e um raio de sua magnificência encontra-se no Òdù Òsá Méjì onde podemos ler:

Ogbon kan nbe ní Kun omo ASA Ìmóràn kan nbe kìkùn omo àwòdì Okan nínúù re Okan ninúù mi Okòòkàn níkùn ara wa Sefa divertido Orúnmilá Ifá nlo bá Àjé Mulè Moreré ganhou ni nítorìi Kinni Ò ní Nitori Ki nkan oun lègún gègèègè ni

Tradução:

“O falcão tem uma sabedoria
O falcão possui um conhecimento
Um em minha mente
Um em sua mente
Um em cada uma de nossas mentes
Estas foram as declarações de Ifá para Òrúnmìlà
quando ia entrar em um pacto com as bruxas em Mòrèrè
Elas perguntaram a ele por que ele estava fazendo isso
Ele disse que era para que a sua vida fosse perfeitamente organizada”

***

Fonte: Àjé – The Birds of the Souls Darker Nights, by Nicholaj de Mattos Frisvold.

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cultos-afros/aje-as-aves-das-noites-mais-escuras-das-almas/

Cada Pessoa é uma Estrela com uma Vontade

Psicologia do Liber Al pt 2 – Cada pessoa é uma estrela com uma Vontade

“A coisa realmente valiosa no desfile da vida humana não me parece o Estado, mas o indivíduo senciente e criativo, a personalidade; ela por si só cria o nobre e o sublime, enquanto o rebanho, como tal, permanece abobado em pensamento e abobado em emoções“.

-Albert Einstein, Mein Weltbild (1931)

Após as proclamações de Nuit e Hadit, vem uma das declarações mais importantes para Thelema, na terceira linha do Liber AL:

“Todo homem e toda mulher é uma estrela”.¹

Isto significa que “somos todos livres, todos independentes, todos brilhando gloriosamente, cada um sendo um mundo radiante”² e, além disso, “o indivíduo é a Autarquia”³. No mesmo sentido que o sol, como estrela, é centro do sistema solar no macrocosmo físico, todo homem e toda mulher são entendidos como uma espécie de estrela microcósmica e centro de seu próprio sistema. “Uma estrela é uma identidade individual; ela irradia energia, ela vai, é um ponto de vista. Seu objetivo é tornar-se inteira ao estabelecer relações com outras estrelas. Cada uma dessas relações é um Evento: é um ato de Amor sob a Vontade”4 – cada indivíduo é “um agregado de tais experiências, mudando constantemente com cada novo evento, que o afeta de forma consciente ou inconsciente”5.

Certamente, do ponto de vista psicológico, pode-se entender facilmente que somos todos o centro de nosso próprio universo6 e também “agregados de experiência” como mostram nossas próprias memórias. Além disso, as estrelas são auto-luminosas, implicando que poder e força derivam de nós mesmos e não de uma fonte externa (explicado com mais profundidade a frente), e também que as estrelas estão constantemente em movimento interagindo com as forças gravitacionais das infinitas outras estrelas e outros sistemas.

Thelema postula que Hadit é “a chama que queima em todos os corações do homem e no núcleo de todas as estrelas”7. Crowley escreve: “Ele é o seu eu divino mais íntimo; é você, e não outro, que está perdido no êxtase constante dos abraços da Beleza Infinita”8. Na verdade, Nuit nos diz:” Sejais Hadit, meu centro secreto, meu coração e minha língua!”9, nos mostrando que estamos intimamente interligados com a divindade, refletindo o sentimento oriental básico do vínculo da alma com Deus e o sentimento observado no Ocidente em místicos como Meister Eckhart e Miguel de Molinos:

“Tu sabes, que a tua alma é o Centro, a Habitação e o Reino de Deus”10.

Em uma palavra, dizendo que “todo homem e tda mulher é uma estrela”, afirmamos tanto a soberania do indivíduo quanto sua divindade. Assim como as estrelas físicas têm cada uma seu curso único num período do espaço, cada indivíduo é entendido como tendo sua própria Vontade única. De fato, “Thelema” significa “Vontade” (em inglês, Will) e esse é o fundamento de toda a filosofia de Thelema. É dito:

“Faze o que quiseres há de ser o todo da Lei”¹¹.

“Não há lei além de Faze o que quiseres”.¹²

Essas duas afirmações estabelecem claramente que tudo em Thelema gira em torno do dito de “fazer o que você quer”. Como Crowley observou frequentemente, isso não significa, “faça o que você gosta”, mas é um comando para executar “verdadeiro” ou “pura” vontade “e nada mais. Liber AL proclama: “Não tens direito senão fazer a tua vontade”. Faça isso, e nenhum outro deve dizer não. “13

Agora, podemos ver o ponto de vista geral da existência formulado em Thelema: cada indivíduo é considerado como uma “estrela” cujo único direito ou dever é realizar sua vontade. No núcleo desta estrela está Hadit e envolta desta estrela estão o espaço infinito e as possibilidades de Nuit. Nós estabelecemos que cada indivíduo está no centro de seu próprio universo, um “centro secreto, coração e língua” 14 do divino, cada um executando sua vontade única imerso em Nuit, o espaço infinito.

Uma vez que a Vontade é considerada absolutamente primordial em Thelema, devemos entender como um Thelemita supõe “vontade-ar” as coisas. Liber AL afirma algo distinto como “vontade pura” e explica suas condições:

“Para a vontade pura, sem um objetivo, liberado da luxúria do resultado, é perfeitamente perfeito”. 15

Portanto, para que a vontade seja considerada “pura” e “toda forma perfeita” pelas condições estabelecidas no Liber AL, deve ser

1) “desembaraçada de propósito” e

2) “livrado da luxúria do resultado”

A primeira consideração, “desembaraçada de propósito”, tem dois significados a serem considerados. O primeiro é o mais óbvio, que é que essa vontade é dificultada ou enfraquecida por um “propósito” e está destinada a seguir seu caminho irrestrita dessa noção chamada de “propósito”. A mente e a razão geralmente são um obstáculo para a expressão plena da vontade de uma pessoa e essa idéia é tratada mais detalhadamente em uma seção posterior. A próxima consideração é simplesmente que isso significa “com propósito sem compensação” ou “com energia incansável”.

Em segundo lugar, ser “liberado da luxúria do resultado” significa não ser afetado ou desapegado aos resultados das ações de alguém. Esta doutrina é um princípio central para o sistema oriental de karma yoga, onde geralmente é chamado de “não-apego aos frutos da ação”. Também pode ser dito que é conhecido pelo Ocidente sob o aforismo de “A arte pela arte”. O Bhagavad Gita descreve sucintamente essa doutrina de ser “liberto da luxúria do resultado ” quando diz,

“Aqueles cuja consciência é unificada abandonam todo o apego aos resultados da ação e alcançam a paz suprema. Mas aqueles cujos desejos estão fragmentados, que estão egoisticamente ligados aos resultados de seu trabalho, estão vinculados em tudo o que fazem. Aqueles que renunciam ao apego em todos os seus atos vivem conteúdo na “cidade dos nove portões”, o corpo, como seu mestre “. 16

Essencialmente, esta linha do Liber AL vel Legis significa que para realizar nossa “vontade pura” que “é perfeita em todas as formas,” devemos fazer a nossa vontade com energia incansável, sem consideração ao propósito, e sem preocupação com os resultados. Crowley escreveu: “Você deve (1) descobrir o que é a Tua Vontade. (2) Faça sua Vontade com a) foco, (b) desapegado, e em (c) paz. E aí, e somente aí, você está em harmonia com o Movimento das Coisas, sua vontade é parte de, e, portanto, igual à vontade de Deus. E uma vez que a vontade é apenas o aspecto dinâmico do eu, e como dois eus diferentes não podem possuir vontades idênticas; então, se a tua vontade será a vontade de Deus, Tu será Isso “17

Em Liber AL vel Legis, Nuit declara: “Invoca-me sob minhas estrelas! O amor é a lei, o amor sob vontade “. 18 Crowley explica que isso significa “enquanto a vontade é a lei, a natureza dessa vontade é amor “. Mas esse Amor é como se fosse um subproduto dessa Vontade; não contradiz ou substitui essa Vontade; e se a aparente contradição surgir em qualquer crise, é a vontade que nos guiará corretamente. “Portanto, o método ou o modus operandi de Thelema é “amor sob vontade “, o que significa a assimilação da experiência de acordo com sua vontade.19

Deve ser reconhecido que “Love” no contexto de Thelema e Liber AL vel Legis é entendido de uma maneira muito universal. Não é o que a maioria consideraria a emoção do amor ou do coração. Crowley escreve: “Eis que, enquanto no Livro da Lei, é muito amor, não há nenhuma ocorrência da palavra de Sentimentalidade. Ódio é quase como o amor! “20 para o ódio mesmo é uma experiência digna de nossa assimilação e integração. Em vez disso, refere-se essencialmente a todos os atos, qualquer “Mudança em conformidade com a vontade”, pois todas as ações são legais e necessárias. Crowley explica: “Todo evento é uma união de uma mônada com uma das experiências possíveis”, 21 e ainda que “Cada ação ou movimento é um ato de amor, unindo uma parte com uma outra parte de” Nuit “; cada um desses atos deve ser “sob vontade”, escolhido de modo a cumprir e não frustrar a verdadeira natureza do ser em questão “.22 Portanto, enquanto o” amor “pode se referir especificamente a atos de” união “(no sentido de que o sexo é união no plano físico, e samadhi 23 é união no plano mental) todas as experiências são entendidas como atos de “amor” no sentido mais universal de que “todo evento é uma união de uma mônada com uma das experiências possíveis , “Incluindo atos do que pode ser percebido como atos de “divisão”.

Agora podemos entender que “não há lei além do faça o que tu queres”, 24 e “amor sob vontade” é essencialmente a assimilação da experiência de acordo com a natureza do indivíduo. A concepção reflete as proposições de Carl Roger, que são as afirmações subjacentes ao seu sistema de “terapia centrada no cliente”. Ele escreve como sua sexta proposição,

“O organismo tem uma tendência e esforço básica -para atualizar, manter e melhorar o organismo experiente

” .25

Esses atos de “atualizar, manter e melhorar o organismo experiente” são o que nos termos de Thelema são atos de “amor”. A única condição que é importante do ponto de vista de Liber AL vel Legis é que atos de “Amor” deve ser feito “sob vontade”, ou de acordo com a natureza da circunstância singular e do indivíduo (ou o “organismo” se quisermos usar a terminologia de Rogeriano). Um ato de “amor sob vontade” que funcionou corretamente é o que Carl Rogers chamaria de “ajuste psicológico” em oposição ao “desajuste psicológico”. Rogers escreve como suas proposições quatorze e quinze:

“O ajuste psicológico existe quando o conceito do self é tal que todas as experiências sensoriais e viscerais do organismo são ou podem ser assimiladas em um nível simbólico em uma relação consistente com o conceito de si mesmo.”

Existe inadaptação psicológica quando o organismo nega a consciência de experiências sensoriais e viscerais significativas, que, consequentemente, não são simbolizadas e organizadas na gestalt da autoestrutura. Quando essa situação existe,então temos uma tensão psicológica básica ou potencial “. 26

O “ajuste psicológico” consiste em uma “assimilação” funcional de experiências equivalentes ao método “amor sob vontade” de Thelema, enquanto que o “desajuste psicológico” consiste na “assimilação” inadequada da experiência, que cria “tensão psicológica”. Essencialmente, nós podemos ver que Thelema coincide com, e de certa forma antecipada, as “proposições” de Rogerianos que formam a base de sua “terapia centrada no cliente”.

“Todo amor é expansão, toda auto-estima é contração. O amor é, portanto, a única lei da vida. Aquele que ama vive, aquele que é egoísta está morrendo. Portanto, amor por amor, porque é lei da vida, assim como você respira para viver. “-Sami Vivekananda

1 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:3.

2 Crowley, Aleister. “Liber DCCCXXXVII: The Law of Liberty” from Equinox III(1).

3 Crowley, Aleister. Magick Without Tears, ch.48.

4 Crowley, Aleister. “The Antecedents of Thelema” from The Revival of Magick.

5 Crowley, Aleister. Introduction to Liber AL vel Legis, part II.

6 This also attests to the universal import of mandala-like art pieces across cultures, for they are all expressions of that central point of consciousness and the apparent unfolding and expression of the psyche & universe around it. This was a subject of study for Carl Jung.

7 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, II:6.

8 Crowley, Aleister. “The Law of Liberty.”

9 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:6.

10 de Molinos, Miguel. Spiritual Guide of Miguel de Molinos (1685), ch.1, verse 1.

11 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:40.

12 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, III:60.

13 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:42-43.

14 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:6.

15 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:44.

16 Bhagavad Gita (trad. By E. Easwaran), chapter 5, verse 12-13.

17 Crowley, Aleister. “Liber II: Message of the Master Therion” from Equinox III(1).

18 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:57.

19 Isso casa com o que o místico Cristãos Meister Eckhart escreveu, “O lugar onde o amor tem sua o seu ser apenas na vontade; A pessoa que tem mais vontade, também tem mais amor. Mas ninguém sabe de mais ninguém, se alguém tem mais disso; que está escondido na alma, enquanto Deus estiver escondido no fundamento da alma. Este amor está inteiramente na vontade; Quem tem mais vontade, também tem mais amor.” -Meister Eckhart, Counsels on Discernment (Counsel 10).

20 Crowley, Aleister. “The Message of the Master Therion” from Equinox III(1).

21 Crowley, Aleister. Introduction to Liber AL vel Legis, part II.

22 Crowley, Aleister. Introduction to Liber AL vel Legis, part III.

23 “Samadhi” é o termo Hindu usado nas práticas de yoga para atingir o fenômeno psicológico de desaparecer (ou ‘união’ or ‘cessação’) a separação de sujeito e objeto prática comum em várias culturas e com outros nomes. Esse assunto é muito profundo e extenso para ser discutido nesse artigo.

24 Crowley, Aleister. Liber AL vel Legis, I:22.

25 Rogers, Carl. Client-Centred Therapy, ch.11.

26 Rogers, Carl. Client-Centred Therapy, ch.11.

Link texto original: https://iao131.com/2013/02/25/psychology-of-liber-al-pt-2-each-person-as-a-star-with-a-will/

Tradução:Mago implacavel

Revisão: (não) Maga patalógica

Postagem original feita no https://www.projetomayhem.com.br/cada-pessoa-%C3%A9-uma-estrela-com-uma-vontade

Gremlins

A existência dos Gremlins se tornou mundialmente famosa nos anos 1980 graças a dois filmes de terror com tom de comédia produzidos por Steven Spielberg. O filme conta a história de um rapaz que adquiriu uma estranha criatura chamada ‘Mogwai’, um ser meigo de aparência inofensiva e claramente inteligente.  ‘Mogwai’ quer dizer “demônio” em cantones e esse era um prenuncio que não deveria ter sido ignorado. Junto do mascote ele recebeu as três regras para o cuidado do Mogwai que eram: 1 – Não alimentar depois da meia noite, 2 – Não molhar e 3 –  Não expor a luz do sol. A explicação das regras eram igualmente simples: A luz do sol era capaz de matar o Mogwai. A água fazia com que ele se reproduzisse indiscriminadamente. Já a alimentação após a meia noite transformava completamente a criatura que de aparência de mamífero dócil se tornava um reptiliano de agressivo, caótico e malicioso. O filme popularizou os gremlins, mas também foi responsável por uma certa perversão da descrição original desta criatura.  Sim, os gremlins já faziam bagunça por ai antes dos anos 80, e como vamos mostrar a seguir quanto maior nossa expansão tecnológica, mais eles se podem se divertir.

O nome “gremlim” tem origem em uma palavra do inglês antigo “grëmian”, que significa “incomodar” ou “maltratar” e também está relacionado com a raiz “grim” que tem a conotação de “macabro” e “sinistro.”  A primeira aparição impressa do termo “Gremlim” consta em um poema Journal Aeroplane, publicado em 10 de Abril de 1929. Um artigo de 1942 escrito por Hubert Griffith oficial da força aérea real para o Royal Air Force Journal descreve pela primeira vez a atuação destas criaturas com diversas histórias interessantes. Segundo eles os gremlins estão a solta por vários anos aparecendo durante os primeiros testes com os primeiros aeroplanos. Contudo, ele não apresenta qualquer evidência a favor desta hipótese.

A Origem da Lenda dos Gremlins

A origem desta criatura está no folclore inglês sempre descrito como uma criatura travessa e sempre (isso é importante) habitando proximidades de objetos mecânicos, em especial aeronaves. Os primeiros relatos remontam descrições feitas por mecânicos e pilotos ingleses alegando que algum tipo de criatura era a responsável pela sabotagem dos aviões da Royal Air Force (RAF, a Força Aérea Britânica) por todo Oriente Médio, Malta e índia. “. Neste período inicial os casos com os gremlims assombravam apenas o submundo dos pilotos militares. Antes de entrarem em missão era comum compartilharem algumas histórias que eram transmitidas pelo boca a boca. Cantavam algumas cantigas antes de irem voar como a que se segue:

Este é um poema pubicado pela RAF (Royal Air Force) Journal, a primeira referência escrita da lenda:

 

Existiam ainda uma série de “ditos populares” repetidos pelos oficiais da aeronáutica entre eles: “Onde passa um rato passam três gremlins”, referindo-se ao fato deles aparentemente chegarem em pontos inacessíveis das máquinas. “Culpe o Gremlim”, como uma piada interna para quem não assume as próprias faltas.  “Faça um gremlim aparecer. Confie sua vida a uma máquina.”,  usada na tentativa de assustar os novatos. E o mais popular “Quanto mais alto mais gremlins”. Este último mostrou-se assombrosamente verdadeiro, pois conforme o as máquinas foram ganhando altitude as pilhas de relatórios e casos contados entre os recrutas aumentaram na mesma proporção.

Já durante a segunda guerra mundial a idéia de responsabilizar qualquer pane mecânica aos gremlins tornou-se popular entre todos os pilotos do reino unido, em especial as unidade de reconhecimento fotográfico, em especial os esquadrões Benson, Wic e Eval. Para este último os gremlins foram responsáveis por acidentes que de outra forma seriam inexplicáveis e que muitas vezes aconteciam em pleno vôo. Como era óbvio, logo se responsabilizou os nazistas por terem criado tais criaturas, mas investigações revelaram que ambos os lados sofriam de similares problemas técnicos inesperados que só podiam ser causados por criaturas ativas e diminutas durante as operações. Com o tempo os gremlins ganharam a reputação de serem trapaceiros que não tomavam partido no conflito e atacavam em qualquer oportunidade por simples travessura. Talvez ele tenham sido uma experiência nazista que fugiu do controle. Talvez tenham outra origem e interesses próprios. Talvez simplesmente não precisem de uma razão para destruir.

Os Gremlins ganham o grande público

Foi o escritor Roald Dahl que tirou as histórias dos gremlins da subcultura aeronáutica e os levou para a cultura popular. Dahl era familiar com o mito não apenas por ter servido a força aérea inglesa no Oriente Médio, mas também por  ter tido uma experiência de primeira mão perdendo seu avião no deserto da Líbia. Em janeiro de 1942 foi transferido para Washington, D.C. para trabalhar como  comissário de bordo. Foi nesta época que escreveu o livro infantil ‘The Gremlins’ onde descrevia estas criaturas. Os gremlins machos chamada de “Widgets” e as fêmeas de “Fifinellas”. O manuscrito inicial foi enviado a  Bernstein, chefe do Serviço de Informação Britânico, que imediatamente teve a ideia de enviar o roteiro aos estúdios de Walt Disney, que em 1942 ofereceu a Dahl um contrato para uma animação.

Por pedido do autor um ano depois foi publicada também uma versão impressa e revisada da história em um livro ilustrado pela Random House. Foram impressas 50 mil cópias para o mercado norte-americano e Dahl incomendou pessoalmente 50 cópias para usar como material promocional para o filme que seria lançado. A verdade é que o livro foi mais bem sucedido que o próprio filme da Disney. A obra tornou-se um sucesso internacional e Dahl ganhou bastante notoriedade e sua história recebeu diversas reimpressões.

Por outro lado a animação que inicialmente seria um longa metragem foi reduzida a um curta e eventualmente foi cancelado em 1943 por problemas de copyright com a Aeronáutica Britânica. Na mesma época, aproveitando o vácuo deixado pela Disney, a  Merrie Melodies lançou um desenho onde o Pernalonga enfrenta alguns gremlins em espaço aéreo. Um ano depois é lançado ainda outra animação da  Merrie Melodies onde alguns gremlins russos sabotavam um avião pilotado por Adolf Hitler.

O tom humorístico foi deixado de lado nos anos 1960 quando o terror de um Gremlim aparecendo na janela da frente de uma aeronave foi revivido por um episódio de Além da Imaginação chamado “Nightmare at 20,000 Feet” (No Brasil: “Vôo Noturno”). No roteiro uma criatura sabota um vôo comercial, em certa cena o personagem principal (William Shatner) olha pela janela do avião e fica de cara a cara com o gremlim. Este episódio ganhou uma imensa popularidade entre os norte-americanos e é constantemente homenageado e parodiado em outras séries, filmes e desenhos animados até hoje. O episódio foi regravado em 1983 na versão colorida da série.

Cena de Nightmare at 20,000 Feet

Tudo isso colaborou para dar um ar popular as histórias dos Gremlins, mas enquanto o público se divertia nos cinemas os relatos sérios a respeito dos gremlins continuavam aparecendo entre os mecânicos e pilotos de empresas privadas e da força aérea. Devido a popularidade dos desenhos e produções televisivas a respeito do assunto, tais relatos começaram a ganhar fama de ridículos, embora diversos oficiais jurassem que realmente viram criaturas mexendo em seus equipamentos.

A criatura tornou-se até mesmo o mascote oficial da WASPS (Women Airforce Service Pilots) durante a Segunda Guerra Mundial. Os relatórios dos pilotos se acumularam nas décadas seguintes. O caso testemunhado por John Hazen registrado no livro “Funk and Wagnalls Standard Dictionary of Folklore, Mythology and Legend.” publicado pela Funk and Wagnalls em 1972 é emblemático e representa bem a toda uma legião de ocorrências similares. Neste relato Hazen, enquanto pilotava disse que por mais de uma vez durante os voos escutou uma voz rouca e irritadiça provocando-o com palavras que na maior parte do tempo eram ininteligíveis. Em dado momento escutou um forte barulho vindo da parte traseira da aeronave e foi obrigado a pousar.A visão cética atribui estes relatos ao stress de combate e vertigem causada pela altitude que causariam perigosas alucinações durante o vôo.  Entretanto, já em terra firme, Hazen relata ter encontrado a confirmação de sua suspeita de que estava sendo infernizado por um Gremlim. Os  “cabos de parte do equipamento estavam partidos com óbvias marcas de dentição animal” e em uma parte claramente inacessíveis da aeronave.

Dossiê de Criptozoologia de Herman Flegenheimer Jr.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/criptozoologia/gremlins/

A Menstruação na História e a Jornada Espiritual da Mulher

Para entender completamente o estupro de Eva, é preciso estar familiarizado com as lendas da demônia Lilith e a Queda do Homem. Resumidamente, de acordo com os escritos rabínicos hebraicos, Lilith foi a primeira esposa de Adão, criada por Deus como gêmeos unidos.

Lilith exigia igualdade com Adão, principalmente durante a relação sexual, pois não queria ficar todo o tempo por baixo, mas também queria ficar por cima na relação sexual. Quando Adão se recusou a suas exigências, Lilith rapidamente o deixou fugindo para o Mar Vermelho, onde, de acordo com outras lendas, ela copulou com Satanás (ou Samael) gerando os Djinns demoníacos ou cem bebês por dia. Deus enviou três anjos para buscá-la, mas Lilith se recusou a retornar.

Assim, Deus deu a Adão a dócil Eva. Mas quando Lilith viu Adão com Eva, ela se lembrou do Santo Belo e correu de volta para tomar seu lugar, só que era tarde demais, Deus a havia trancado pelos querubins.

Na lenda da Queda do Homem vê-se Eva sendo tentada pela serpente. De acordo com a crença cristã, a serpente era Satanás disfarçado; outro nome para Satanás é Samael, o amante demoníaco de Lilith. Os cabalistas levaram essa tradição adiante dizendo que o sangue menstrual era uma maldição sobre as mulheres descendentes da união sexual de Eva com Lilith sob o disfarce de Samael.

Quando Lilith viu Samael em sua forma serpentina seduzindo Eva, ela ficou com inveja e entrou no ato ela mesma. O sangue menstrual de Eva tornou-se a verdadeira “sujeira e a semente impura” de Samael. Isso segue a tradição rabínica de que Lilith em forma de serpente foi capaz de seduzir Eva por causa da luxúria e fraqueza inerentes das mulheres. Por sua vez, Eva seduziu Adão durante a menstruação. Uma vez que Adão se contaminou através deste ato proibido, Lilith tornou-se forte “em suas cascas” e foi capaz de vir até ele contra sua vontade para roubar sua semente para gerar muitos demônios, espíritos e Lilin (íncubos e súcubos).

A importância do mito cabalístico acima é que ele mostra que os cabalistas não apenas aceitaram a proibição hebraica de que os homens não deveriam ter relações sexuais com uma mulher durante a menstruação, mas também não durante o período de purificação que durava sete dias depois, conforme escrito no Antigo Testamento (Lev. 18:19) e o Midrash, mas eles apresentaram uma razão para a proibição.

Eles foram além da Bíblia, que apenas declara a proibição de Deus, que simplesmente afirma que o homem não deve deixar o sangue menstrual tocá-lo sem explicação. Não havia explicação necessária para a maioria dos judeus, uma vez que Deus havia declarado.

Os cabalistas não apenas apresentaram uma explicação para a proibição, mas também descreveram o poder oculto que se pensava estar no sangue menstrual da menstruação.

Reconhece-se que para muitos leitores modernos a proibição acima parece absurda e tola. Mas deixe que este autor lhe assegure que foi apenas alguns anos atrás, se não atualmente, que as mães cristãs estavam aconselhando seus filhos e filhas a não terem relações sexuais durante a menstruação da esposa, a proibição estava profundamente enraizada. Além disso, tal conhecimento não deve ser rejeitado abertamente como sem sentido, mas estudado por seu significado oculto mais profundo.

Os cabalistas acreditavam que o sangue menstrual de Eva era a semente de Samael em sua forma serpentina indica uma forte ligação entre o sangue menstrual e a energia Kundalini, que é sempre caracterizada como serpentina. A crença é levada adiante: a autoridade que Eva exerceu sobre Adão indica a crença no poder de seu sangue e mostra sua imensa potência (das mulheres), assim as mulheres podem obrigar os homens a agir contra sua vontade. Portanto, pode-se dizer, esta habilidade ou presente persuasivo foi dado por Lilith através de Samael a Eva. Não é de admirar que os antigos rabinos chamassem esse dom de maldição. A maldição ou presente para toda a humanidade também foi o nascimento de Caim, o Caim da gnose.

Como seria de esperar, os rabinos considerariam isso uma maldição. Sua atitude certamente foi levada para a religião cristã e continuou por séculos. Foi apenas nos últimos anos que as mulheres fizeram algum progresso dentro da Igreja Cristã, principalmente nas denominações protestantes. Claro, esse era o objetivo principal do cristianismo, destruir a religião da Deusa. Muitos acreditam que esse objetivo foi parcialmente interrompido por Lilith, o aspecto do amor sexual da Grande Mãe que exerce tanto poder.

Tal poder é de natureza mágica e sexual. Sempre esteve presente na alquimia como o termo “menstruum”, mênstruo, que significa sangue menstrual. Seu uso na alquimia está associado aos seus significados ocultos, tanto de vida quanto de morte. As virtudes ocultas do sangue menstrual têm conjuntos de associações completamente diferentes no ocultismo ocidental do sangue dentro do corpo.

O sangue menstrual, enquanto no corpo, nutria e fortalecia, mas uma vez que fluía, acreditava-se quase universalmente que esterilizava, destruía e matava. De acordo com alguns, essas características naturalmente o tornaram o sangue de Lilith. Ao longo da história, o sangue menstrual foi descrito como tendo propriedades mágicas, tornando-o útil para muitos usos que variam de fins mortais a úteis. Dois autores notáveis ​​foram o romano Plínio, o Velho e Agripa.

Plínio, o Velho, dedicou dois capítulos de sua História Natural descrevendo os terríveis poderes do sangue menstrual. Agripa mencionou muitos em seu tratamento de feitiçarias. Os comentários de Agripa são curiosos, pois ele dá vários exemplos de como o sangue menstrual é prejudicial à agricultura: azeda o vinho novo e, se tocar a videira, estraga; por seu contato, torna estéreis todas as plantas e árvores; e queima ervas e faz cair frutos das árvores.

Ele continua dando outros exemplos dos efeitos nocivos do sangue menstrual, mas, em contraste, os camponeses medievais pensavam que ele poderia nutrir e fertilizar. Alguns acreditavam que uma mulher durante a menstruação poderia proteger os campos caminhando por eles ou expondo seus órgãos genitais. Outras mulheres levavam sementes para os campos em trapos manchados de sangue menstrual, uma continuação do costume de fertilidade de Elêusis.

É de se perguntar quem está certo, Plínio, o Velho, e Agripa ou a camponesa? A partir de uma breve observação, tender-se-ia a responder que são as mulheres. Tanto Plínio, o Velho, quanto Agripa eram homens de letras, embora sem dúvida ambos tivessem observado a natureza e Agripa, embora praticasse o ocultismo, tinha conexões com a Igreja Católica Romana e suas visões antinaturais.

No entanto, as camponesas viveram a experiência natural; elas sabiam o que era plantar e semear. Muito provavelmente elas plantaram sementes encharcadas de sangue menstrual muitas vezes pensando que produziam melhor e sabendo que não causavam efeitos nocivos. As mulheres que mais gostavam viam os animais fêmeas menstruarem e sabiam que isso não causava nenhum mal. Para elas, a menstruação era um processo feminino natural, como tinha sido para as mulheres pagãs antigas observando os mistérios de Elêusis, talvez alguma dessa crença ainda vivesse.

Alguns chamam o sangue menstrual de sangue de Lilith porque acreditavam que tinha poder tanto de vida quanto de morte, vida dentro do corpo para nutrir o feto e morte quando flui; portanto, Lilith é a mestra do parto. Este sangue também está ligado à Lua, pois o ciclo menstrual corresponde intimamente ao ciclo lunar, portanto, associado à Lilith, Hécate, Kali e outras deusas lunares da destruição.

O estupro de Eva e a história de Lilith coincidem ao descrever a derrogação das mulheres entre o clero judaico-cristão do passado. Ambas foram degradadas por Deus e seu clero totalmente masculino seguiu seu exemplo. Mas ambos se restabeleceram tornando-se uma força feminina a ser considerada: Lilith indo para o Mar Vermelho, levando seu amante demoníaco Samael, gerando demônios e participando do estupro de Eva; e Eva quando ela tentou Adão a ter relações sexuais com ela durante sua menstruação.

Toda essa atividade interrompeu o plano de Deus para seu ‘homem perfeito’ e ‘mulher obediente’, e deu às mulheres igualdade com os homens. Por Adão se contaminar, as mulheres ganharam a oportunidade de fazer os homens fazerem coisas contra sua vontade. Nesse sentido, Lilith e Eva são comparáveis ​​à deusa do mar persa Tiamat, que deveria ser uma divindade obediente depois que seu marido Apsu foi morto. Mas, ao contrário da caótica Tiamat, nem Lilith nem Eva foram mortas e continuam devastando o caos no mundo ao lutar pela justiça.

Muitas mulheres possuem o aspecto Lilith da personalidade feminina, Samael nos homens. Este é um aspecto da personalidade que representa a faca da bruxa (o athame), dando-lhe a determinação e força para partir ou deixar de seguir o caminho protegido e tradicional da feminilidade, um caminho geralmente masculino e movido pelo poder.

O caminho não tradicional leva sua viajante feminina a um caminho muito diferente daquele percorrido pela mulher comum, que muitas vezes no início leva ao isolamento. No sentimento de completa solidão e, às vezes, vergonha, a pessoa pergunta: “O que eu fiz?” Mas tal isolamento e vergonha, quando aceitos como desafios, podem gerar fortaleza.

Depois de se curar das feridas infligidas pela sociedade comum, a mulher decide se vai aceitar repetidamente essas feridas ou revidar. Se seu aspecto Lilith se desenvolver completamente, ela revida decidindo as melhores maneiras de enfrentar inúmeras situações. Ela usa sua faca para destruir situações prejudiciais e se defender. O desempenho de suas tarefas pode ser lento e árduo, mas ela busca a autoigualdade e a justiça. Ela busca a individualidade como Lilith fez ao invadir o portão do céu.

A.G.H.

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Fonte:https://www.themystica.com/

Texto adaptado, revisado e enviado por Ícaro Aron Soares.

Postagem original feita no https://mortesubita.net/cabala/a-menstruacao-na-historia-e-a-jornada-espiritual-da-mulher/

Austin Osman Spare

1886 – 1956

Austin Osman Spare foi um dos artistas gráficos mais completos de seu tempo. Foi também um ocultista altamente capacitado que praticava uma forma de magia característica dos iniciados do Caminho da Mão Esquerda (este termo tem sido mal-interpretado pela maioria dos escritores ocultistas; no livro “Aleister Crowley and the Hidden God”, Kenneth Grant aborda o tema em questão adequadamente, explicando com maestria inquestionável que o termo significa especìficamente “o Caminho utilizado por aqueles que se valem das energias sexuais para adquirir controle dos mundos invisíveis”). Spare foi reconhecido como um Mestre deste Caminho por aqueles em condição de avaliar tais práticas e iniciou o núcleo de um movimento conhecido como Zos Kia Cultus.

Não se deve pensar que basta ser iniciado de alguma fraternidade esotérica para se conseguir acesso à corrente mágica deste Cultus, nem que isto foi fácil mesmo à época de Spare. Para se beneficiar desta poderosa prática de magia, será necessário colocar-se em sintonia com o Espírito do Culto.

A vida pessoal de Spare, por mais interessante que seja, não acrescenta muito à sua obra; apesar disto, forneceremos aqui alguns detalhes biográficos apenas para situà-la no tempo. Austin Osman Spare manteve um interesse perpétuo sobre a teoria e a prática da bruxaria, que começou em sua infância em virtude de seu relacionamento pessoal com sua babá, uma velha mulher do interior da Inglaterra chamada Paterson e que dizia ser descendente direta de uma linhagem das famosas feiticeiras de Salem. Se analisarmos a obra de Spare, reconheceremos nìtidamente a influência direta de uma corrente mágica vital que, certamente, só é transmitida por via oral e que indiscutìvelmente só poderia ter sido ensinada por um iniciado de alguma antiga tradição oculta.

Etimologicamente, feitiçaria ou bruxaria significa “aprisionar espíritos dentro de um círculo”. Não é a mesma coisa que praticar “magia”, que é a “arte de fazer ‘encantamentos’ ou ‘fascínios’”. Os métodos de Spare parecem pertencer mais à bruxaria que à magia, embora certamente envolvam ambas as técnicas.

Para Spare, do mesmo modo que para Aleister Crowley, a sexualidade é o centro da bruxaria e da magia, e é a chave para ambos os sistemas. Entretanto, se para Spare a bruxaria é um meio de realização do prazer, de transformação da velhice em juventude, de feiura em beleza, da natureza em arte, para Crowley ela é um meio de adquirir e irradiar poder, transformando a fraqueza em força e a ignorância em conhecimento. Ambos tiveram seus preceptores: Crowley foi fortemente influenciado por MacGregor Mathers, Grão-Mestre da antiga Ordem Hermética da Aurora Dourada, uma pessoa de energia marcial, enquanto Spare foi grandemente influenciado por uma feiticeira, Paterson, a bruxa arquetípica, velha e feia, que podia transmutar-se numa criatura de extraordinário poder de sedução a seu bel-prazer.

Crowley e Spare foram atraídos cada qual por diferentes gurus que influenciaram tanto seu caráter quanto sua obra. Isto explica porque Spare ficou tão pouco tempo na ‘Fraternidade da Estrela de Prata’ (Brotherhood of the Silver Star, ou AA – Argenteum Astrum, fundada por Aleister Crowley a partir dos ensinamentos da Golden Dawn, Aurora Dourada, e para a qual Spare entrou em 10 de julho de 1910 com o motto de Yihoveaum, que significa “Eu Sou AUM”, ‘eu sou a eternidade’): a disciplina que era exigida por Crowley para os membros de sua fraternidade não combinava com a concepção de liberdade de Spare, que consistia na expressão artística irrestrita do “sonho inerente” que é, de certa forma, idêntico à Verdadeira Vontade (Thelema) formulada por Crowley. Para Spare, entretanto, a transformação deste “sonho inerente” em algo real exigia um tipo de liberdade diferente daquela idealizada por Crowley. O resultado foi que Crowley, dois anos antes de sua morte em 1947, perguntado sobre o que achava de Spare, respondeu que este se havia tornado um ‘irmão negro’ (mago negro, um termo usado em ocultismo para representar alguém que deliberadamente se afasta da corrente evolutiva, passando a considerar como objetivo primordial o culto à sua personalidade) pelo cultivo do ‘auto-amor’ através do prazer. Se Crowley tinha ou não razão acaba não prejudicando o fato de que a contribuição de Spare para o moderno ocultismo foi tão grande quanto sua arte. Em duas ocasiões anteriores, em 1921 e em 1923, Crowley escrevera que seu discípulo “aprendeu muito do ‘Livro da Lei’ (que forma a base do Culto de Thelema de Crowley, psicografado pelo mesmo no Cairo em 1904 a partir da comunicação astral com uma entidade chamada Aiwass); o resto é um mistura de The Book of Lies (escrito por Crowley em 1913) com William Blake, Nietzsche e o Tao Teh King” e que “seu Livro parece-me ainda melhor e mais profundo do que quando o li pela primeira vez.” Estas declarações de Crowley sobre Spare são muito interessantes porque mostram que o primeiro considerava o segundo como seu aluno de ocultismo, além de o ter em alta consideração por ter o mesmo baseado suas teorias na mesma tradição oculta que Crowley ensinava, embora de uma forma um tanto diversa.

Seis ou sete anos antes da publicação de The Focus of Life, Spare publicou em edição do autor seu livro The Book of Pleasure (Self-Love), The Psychology of Ecstasy. Ambos eram e ainda são muito difíceis de se conseguir. Além disto, eles são igualmente difíceis de se entender, a não ser que se tenha a chave do sistema oculto proposto por eles.

Enquanto identificado com sua bruxaria, Spare usava o nome iniciático (motto) de Zos vel Thanatos, ou simplesmente Zos. Este indica a natureza de sua preocupação maior, sua obsessão primária: o corpo e a morte. ‘Zos’ era definido por ele como “o corpo considerado como um todo” e nisto ele incluía corpo, mente e alma; o corpo era o alambique de sua bruxaria. Seu outro símbolo chave, ‘Kia’, representa o “Eu Atmosférico”, o Eu Cósmico ou Eu Superior, que utiliza ‘Zos’ como seu campo de manifestação.

O culto de Zos e Kia envolve a interação polarizada da energia sexual em suas correntes positiva e negativa, simbolizada antropomòrficamente pela mão e pelo olho. Estes são os intrumentos mágicos utilizados pelo feiticeiro para invocar as energias primais latentes em seu inconsciente. A mão e o olho, Zos e Kia, ‘Toque-Total’ e ‘Visão-Total’, são os instrumentos mágicos do Id, o desejo primal ou obsessão inata que Zos está sempre buscando para corporificá-la em carne. O sistema de Spare assemelha-se a algumas técnicas dos iógues hindus e a certas práticas da escola Ch’an (Zen) do Budismo chinês (o budismo puro praticado durante a dinastia T’ang), embora existam diferenças importantes. O objetivo da meditação é abolir as transformações do princípio pensante (v. a definição de Yoga de Patanjali – Sutras de Yoga, 1, 2), de modo que a mente individual atinja o estado não-conceitual e se dissolva na Consciência indiferenciada. No Culto de Zos Kia, o corpo (Zos) se torna sensível a todos os impulsos da onda cósmica, de modo a “ser todo sensação” para realizar todas as coisas simultâneamente em carne ‘agora’. Esta pode ter sido a explicação mágica da doutrina do Cristo carnalizado (“…este é o meu Corpo; tomai e comei dele todos…”) que os últimos Gnósticos, por não a compreenderem adequadamente, denunciaram como uma perversão da Gnose genuína.

Nem sempre Spare definiu claramente os termos por ele criados; entretanto, ele sabia exatamente o que quis dizer com eles. Infelizmente, a gramática não era o seu forte e muito do que parece obscuro em seus escritos se deve a esta dificuldade. O Culto de Zos Kia parece postular uma interpretação literal (isto é, física) da identidade entre Samsara e Nirvana (samsara = existência fenomenal ou objetiva; sua contraparte é nirvana, que é a subjetivação da existência e, portanto, sua negação fenomenal ou objetiva). Por outro lado, os termos ‘corpo’, ou ‘carne’, podem denotar o ‘corpo adamantino’ (ou dharma-kaya, uma expressão budista que é sinônimo de “Nada”; o neti-neti dos budistas, ou o ‘nem isto, nem aquilo’ no sistema de Spare) e sua realização como o universo inteiro, neste exato momento e sensorialmente. O símbolo histórico supremo deste conceito é a imagem de Yab-Yum do Budismo Tântrico. Ela representa o nada (Kia) ensaiando sua união abençoada com o corpo (Zos). No Culto de Zos Kia, isto é realizável através da carne, enquanto no Budismo Ch’an (Zen) esta união é mental. Assim, tanto no Zen quanto no Zos o objetivo é o mesmo, embora os meios variem.

O sistema de Spare também sugere uma nova obeah, uma ciência de atavismos ressurgentes, uma magia primal baseada na obsessão e no êxtase. O subconsciente, impregnado por um símbolo do desejo, é energizado pelos êxtases reverberantes na suposição de que a profundeza primal, o Vazio, responda a antigas nostalgias revivendo suas ‘crenças’ obsessivas originais. O “Alfabeto do Desejo” (onde cada letra representa um princípio sexual, um impulso dinâmico) foi desenvolvido por Spare para sonorizar gràficamente estes atavismos e, quando o florescimento do símbolo acontece, a explosão de êxtase é a realização de Zos.

Em seu livro “Anotações sobre Letras Sagradas” Spare diz que: “as letras sagradas preservam a crença do Ego, de modo que a crença retorne contìnuamente ao subconsciente até romper a resistência. Seu significado escapa à razão, embora seja compreendido pela emoção. Cada letra, em seu aspecto pictórico, se relaciona a um princípio Sexual… Vinte e duas letras que correspondem a uma causa primeira. Cada uma delas análoga a uma idéia de desejo, formando uma cosmogonia simbólica.”

Estas vinte e duas letras, embora não sejam dadas consecutivamente nem inteiramente em quaisquer dos escritos de Spare, sem dúvida se equiparam de alguma forma com as vinte e duas cartas do Tarot, ou Livro de Thoth de Aleister Crowley e aos vinte e dois caminhos da Árvore Cabalística da Vida; elas são, de fato, as chaves primitivas da magia. Também existe uma possível afinidade com as onze posições lunares de poder refletidas, ou dobradas, nas noites claras ou escuras do ciclo lunar. O conhecimento secreto destas vinte e duas zonas de poder celestial e sua relação com o ciclo mensal da mulher formam uma parte vital da antiga Tradição Draconiana sobre a qual o Culto de Zos Kia se baseia.

 

[…] um livro reunindo as obras (conhecidas e desconhecidas) de Austin Osman spare. E não estamos falando apenas dos textos mas dos desenhos e pinturas – todas em alta […]

Postagem original feita no https://mortesubita.net/biografias/austin-osman-spare/